T94 - A09
RESGATE DA FAUNA NO APROVEITAMENTO HIDRELÉTRICO
(AHE) ITAPEBI, RIO JEQUITINHONHA/BA
Carleci Souza da Silva
Marco Antônio de Freitas
PLAMA – PLANEJAMENTO E MEIO AMBIENTE LTDA
RESUMO
A operação de resgate da fauna silvestre da área de inundação do AHE Itapebi
iniciou-se em 05 de novembro de 2002, simultaneamente aos trabalhos de
limpeza e desinfecção da bacia hidráulica, continuando durante o enchimento
do lago, até 31 de janeiro de 2003. Nesta operação foram capturados 3.150
animais sendo 215 invertebrados, com destaque para os aracnídeos; 2.935
vertebrados: 210 anfíbios, 2.656 répteis, 19 aves e 50 mamíferos. O maior
índice de animais resgatados foi de répteis, 84,32% e as espécies Phyllopezus
pollicaris, (1.058) Tropidurus torquatus (859) Philodryas olfersii (155) e
Bothrops leucurus (204) as mais resgatadas.
ABSTRACT
The operation of rescue of the wild fauna of the area of flooding of the AHE
Itapebi initiated in 05 of November of 2002, simultaneously to the works of
cleanness and disinfection of the hydraulical basin, continuing during the
wadding of the lake, up to 31 of January of 2003. In this operation 215
invertebrates had been captured 3.150 animals being, with prominence for the
arachnids; 2.935 vertebrates: 210 amphibians, 2.656 reptiles, 19 birds and 50
mammals. The biggest index of rescued animals was of reptiles, 84.32% and
the species Phyllopezus pollicaris, (1.058) Tropidurus torquatus (859)
Philodryas olfersii (155) and Bothrops leucurus (204) the most rescued.
1 - INTRODUÇÃO
A primeira atividade de resgate na América do Sul ocorreu na segunda metade
da década de 60 no Suriname, realizada no reservatório da UHE Brokopondo e
denominada de operação Gwanba e durou 18 meses. No Brasil a realização
das atividades de resgate de fauna no processo de formação de reservatórios é
uma prática relativamente recente, as primeiras preocupações relacionadas ao
afogamento de animais silvestres em face do alagamento de vastas áreas
começaram a surgir em 1974 quando, durante o enchimento do reservatório da
UHE Promissão, de propriedade da Companhia Energética de São Paulo CESP, apareceram problemas com animais que ficaram ilhados pelas águas,
sendo salvos numa operação de emergência pela Fundação Parque Zoológico
de São Paulo e pela Polícia Florestal (BELLUOMINI, 1974; BELLUOMINI,
CAMBRANELLI e AUTUORI, 1976/77; WALSH e GENON, 1967 apud CHESF
1994).
Na mesma época, problemas semelhantes ocorreram no enchimento do
reservatório da UHE Ilha Solteira, quando a CESP, tentando resolvê-los,
solicitou a cooperação da Fundação Parque Zoológico de São Paulo, que por
sua vez, contatou o Instituto Butantã para lidar com os ofídios (AUTUORI, s.d.).
Trabalhando em conjunto estas instituições capturaram um número elevado de
animais ilhados, destacando-se os ofídios, com 8.000 exemplares. Desde
então, ficou evidente a necessidade de um planejamento prévio para
operações deste tipo, que foi feito, a partir desta data, para as Usinas de
Marimbondo, Salto Osório, Capivara, Água Vermelha, Salto Santiago, Foz de
Areia, Itaipu, Tucuruí, Balbina, Itaparica e Samuel, dentre outras
(BELLUOMINI; CAMBRANELLI 1976/77; CETESB, 1975; HOGE et al.1974;
MACHADO, 1975; MELLO, 1975 apud CHESF 1994).
Na Bahia, o primeiro resgate foi realizado em Pedra do Cavalo em 1984/85
(DESENVALE) seguida de Itaparica e Xingó (CHESF) e recentemente Santa
Helena (EMBASA), que tem como objetivo o abastecimento de água da grande
Salvador.
2 - OBJETIVOS
Apresentar os resultados da operação de resgate e relocação da fauna,
executada na fase de enchimento do lago da bacia do AHE - Itapebi.
Os objetivos para o desenvolvimento das atividades de resgate foram:
•
desenvolver ações que conduziram ao aproveitamento científico da
fauna silvestre afetada pelo empreendimento, e desta forma subsidiar a
construção de banco de dados, que viabilizaram estudos sobre a fauna da
Mata Atlântica,
•
e mais especificamente, da fauna da área de influência do AHE - Itapebi;
•
gerar dados qualitativos e quantitativos sobre a fauna;
•
interagir com a comunidade acadêmica de Universidades, zoológicos e
grupos ambientalistas, no sentido de construir inventários da fauna da
área;
•
criar um banco de dados sobre fauna da área afetada, bem como das
adjacências do empreendimento;
•
instaurar pesquisas que possam subsidiar a tessitura de material teóricocientífico, alimentando uma lacuna no que se refere ao material
bibliográfico sobre pesquisas na área de monitoramento e resgate de
fauna em áreas impactadas pela construção da barragem.
3 - LOCALIZAÇÃO
A área destinada para o reservatório está localizada na divisa dos Estados de
Minas Gerais e Bahia, no rio Jequitinhonha, entre as coordenadas geográficas
15º57’03”S e 39º37’40”W e 15º59’57’’S e 39º57’11’’W, e após o enchimento na
cota final o lago se estenderá por, aproximadamente, 42 Km do Baixo Curso da
Bacia Hidrográfica do Rio Jequitinhonha.
A formação do lago afetará áreas dos municípios de Itapebi, Itarantim,
Itagimirim no Estado da Bahia e Salto da Divisa no Estado de Minas Gerais,
num total aproximado de 5.600 ha. Dentre os municípios afetados, Itapebi teve
a maior área alagada e Salto da Divisa foi o único em que houve interferência
na zona urbana, sendo necessário o reassentamento de aproximadamente 80
famílias.
4 - MATERIAIS E MÉTODOS
Neste item estão descritos detalhadamente os materiais e métodos, utilizados
na operação de resgate da fauna durante a fase de enchimento do lago da
AHE de Itapebi. Vale ressaltar que os procedimentos realizados seguem o rigor
metodológico destacado nas metodologias empregadas, e que as observações
de campo, aliadas aos dados coletados promovem uma melhor discussão dos
resultados.
4.1 - ATIVIDADES PREPARATÓRIAS
Esta fase consiste no somatório de atividades anteriores as obras e ao
enchimento do reservatório, visando o monitoramento da fauna ocorrente na
região. Neste momento, as seguintes etapas foram cumpridas:
•
autorização dos órgãos competentes;
•
convênios com entidades de pesquisa;
•
implantação de Infra-estrutura física, equipamentos e material de campo;
•
arregimentação e treinamento da equipe;
•
informação para as comunidades envolvidas;
•
monitoramento da fauna no período de um ano antes do enchimento do
lago.
4.2 - OPERAÇÃO DE RESGATE E SOLTURA
A implantação do programa de resgate da fauna teve início no dia 11 de
dezembro de 2002 com o resgate dos animais que estavam à deriva, nadando,
isolados em copas de árvores e em cima de ilhas temporárias, assim como
ninhos que estavam ameaçados.
Nesta operação foram utilizadas duas equipes de trabalho, uma para cada
extremo da bacia hidráulica, cobrindo assim, todos os dias, a extensão
completa do lago. As equipes eram formadas por um técnico especializado e
dois ajudantes de campo treinados, todos munidos de equipamentos de
resgate e de proteção individual.
Além das equipes que percorriam o lago também foram montadas equipes de
terra, principalmente na orla de Salto da Divisa devido à concentração de
moradores, para capturar animais que na tentativa de fuga invadisse
residências ou assustassem transeuntes.
As horas de atividades dedicadas a campo somaram um total de seiscentas e
doze horas (612h), incluindo as horas dedicadas nos preparativos de cada
saída de resgate como: compra de mantimentos, combustíveis etc.
De acordo com os condicionantes do projeto de resgate de fauna durante o
enchimento do reservatório do AHE de Itapebi, os animais superiores foram
biometrificados e marcados através de métodos específicos a cada grupo:
corte de escamas ventrais para os ofídios e anfisbenídeos, corte de falanges
para os lacertílios e anfíbios, anilhas fornecida pelo CEMAVE/IBAMA e
tatuagem para os mamíferos para futura recaptura e monitoramento e
conseqüente verificação do impacto causado pelo empreendimento.
Os espécimes da fauna que não foram possíveis de serem resgatados com
vida ou aqueles que não resistiram aos socorros médicos veterinários foram
devidamente fixados em formol a 10% e conservados em álcool a 70% e
encaminhado a Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC, instituição
conveniada para receber as espécies que não foram resgatadas com vida.
4.2.1 - Invertebrados
Grupo de cuidadoso manejo, pela presença de espécies peçonhentas, como
centopéias, aranhas, escorpiões, estes foram capturados com auxílio de
pinças, puçás ou mesmo com as mãos, protegidas com luvas, sendo
transportados em recipientes com roscas de segurança. Insetos alados como
abelhas e vespas, devido ao perigo eminente de ataque em massa às equipes
de resgate, foram cuidadosamente afugentados quando necessário, forçandoos a mudarem de local.
4.2.2 - Vertebrados
•
Anfíbios
Este grupo, por ser de fácil manejo, foi capturado manualmente, com puçás ou
redes. Foram capturados indivíduos encontrados durante as atividades de
trabalho que geralmente se encontravam sobre as árvores em processo de
alagamento.
•
Répteis
Estes animais têm um manuseio mais difícil, sobretudo os peçonhentos, por
isso requerem alguns equipamentos como laços, armadilhas, ganchos de
ofídios, caixas modelo Butantã (para transporte dos mesmos). A prioridade de
captura nesse grupo era primordial, mesmo porque a espécie de jararaca
“Bothrops leucurus” se mostrava muito freqüente e com grandes possibilidades
de acidentes, para evitar esse risco, toda inspeção em “ilhas” de árvores e ilhas
de terras, era feita primeiramente a captura de jararacas, somente depois
dessa captura é que se capturava outros animais.
•
Aves
Este grupo possui enorme facilidade de deslocamento pela capacidade de vôo
ou por fuga terrestre rápida do ambiente em degradação, procurando
ambientes mais tranqüilos. Durante o enchimento do lago as árvores que
apresentaram ninhos com ovos e filhotes foram monitoradas e a depender do
enchimento e alagamento do ninho em questão, os filhotes ou ovos eram
removidos e foram encaminhados para o centro de triagem, onde foram
examinados e alimentados até a sua independência.
Ninhos vazios foram destruídos para evitar a ocupação por outras aves ou
outros animais.
•
Mamíferos
Os mamíferos são extremamente sensíveis à degradação do ambiente,
portanto se deslocam para ambientes mais estáveis, carregando sua prole.
Porém, os que se demonstraram perdidos foram capturados com o auxílio de
redes, laços e armadilhas do modelo “live traps” e “tomahawk”, distribuídas
pelas áreas a serem desmatadas com o objetivo de salvar e identificar o maior
número possível de espécies, visando ampliar o conhecimento da mastofauna
da região.
Os animais resgatados foram marcados, fotografados e liberados em cinco
áreas de soltura de acordo com o grau de preservação próximo ao local de
captura, ou mesmo com o tipo de habitat das espécies envolvidas,
principalmente porque a grande maioria das espécies é de áreas abertas e
degradadas, como pastagens e capoeiras.
Cinco áreas de solturas escolhidas foram:
•
Área de soltura – A: Fazenda Palmeiras, na Serra do Humaitá, área com
mata de encosta em estágio primário (430170E e 8236828N);
•
Área de soltura – B: Fazenda Palmeiras, pastagens próximas ao Centro
de Manejo e Monitoramento de fauna da PLAMA. (433335E e 8236784N);
•
Área de soltura – C: denominada de matinha do canteiro de obras, área
de mata com estágio avançado de regeneração bordeada de capoeiras e
pastagens, onde eram soltos animais não peçonhentos e animais de
áreas degradadas. (437038E e 7233518N);
•
Área de soltura – D: rio do Padre, distante cerca de 2,5 quilômetros da
cidade de Salto da Divisa, área constituída de um rio homônimo, com
algumas capoeiras e pastagens, onde eram soltos animais não
peçonhentos e de áreas abertas e degradadas, (401785E e 8233038N);
•
Área de soltura – E: serra de Salto da Divisa, área com matas em
estágios inicial e médio de regeneração além de pastagens, que devido
ao isolamento da área pela (Serra) constituiu um bom ponto de solturas,
inclusive para animais peçonhentos. (398351E e 8230802N).
Após passarem pelo centro de triagem, os animais não destinados às
instituições científicas, eram preparados para a relocação nessas áreas
selecionadas, obedecendo ao critério estabelecido para soltura, ou seja, soltar
os animais em ambientes semelhantes ao local em que foram resgatados.
5 - RESULTADOS E DISCUSSÃO
Na etapa de enchimento do lago da bacia do AHE - Itapebi/PBA05, iniciada no
dia 11 de dezembro de 2002 estendendo-se até 31 de janeiro de 2003, foram
resgatados 2.842 espécimes, entre invertebrados e vertebrados.
5.1 - INVERTEBRADOS TERRESTRES
Esforços em operações de resgate de fauna em hidrelétricas vem sendo
realizada por todo o país, apesar das severas críticas quanto a sua eficácia,
entretanto o que se pode observar em estudos publicados, por exemplo, para
AHE Serra da Mesa (SANTOS; SILVA Jr, 1999), Aproveitamento Múltiplo de
Manso – APM Manso (ALHO et al, 2000) e UHE Eng. Sérgio Motta (CESP,
1999) é que o maior esforço de resgate, em geral, é aplicado ao salvamento da
Megafauna (PLATNICK, 1992 apud CONSTANTINO; SCHILEMMERMEYER,
2000 – Referência 4).
Os vertebrados correspondem a algo em torno de 4% das espécies animais
conhecidas do nosso planeta, enquanto os invertebrados constituem mais de
96%. Só para o filo Arthropoda, são aproximadamente 1.000.000 de espécies
descritas, sendo algumas delas abundantes em número de indivíduos, formas
e habitats. (FUNASA, 2003 – Referência 6).
A abundância de formas, tamanhos e quantidade de indivíduos por espécie é o
maior complicador na inclusão destes animais em operações de resgate,
portanto acabam ficando relegados a segundo plano apesar da consciência
sobre a importância dos invertebrados em processo necessários, como a
polinização, decomposição e ciclagem de nutrientes, e como fonte de proteína
na alimentação de um grande número de outros animais e mesmo o homem.
Nesta operação foram capturados 215 invertebrados representando 6,83% do
total de animais resgatados. Dentre os invertebrados, teve destaque os
aracnídeos com 185 indivíduos distribuídos em quatro espécies e dois gêneros,
representando 86% do total de invertebrados, sendo: 81 indivíduos de
escorpião-amarelo (“Tityus serrulatus”), 69 indivíduos de aranha caranguejeira
(“Lasiodora kluguei”), 16 indivíduos de aranha armadeira (“Phoneutria
bahiensis”), seis escorpião-listado (“Tityus aff costtatus”), 10 caranguejeira
(“Achantoschurria” sp) e três tarântula (“Lycosa” sp). O restante, 14%, foi
distribuído entre insetos, quilópoda e moluscos.
Vale ressaltar que dentre todos os grupos de invertebrados os pertencentes a
classe Aracnídea foram os mais fácies de resgatar nesta operação, pois são
maiores e encontravam-se ilhados nos galhos de árvores parcialmente
submersas, ou saiam das tocas a medida que a água ia subindo.
5.2 - VERTEBRADOS
Devido ao grau de degradação da área, os estudos de monitoramento
realizados um ano antes da operação de resgate e o resgate na limpeza e
desinfecção da bacia indicavam que os animais com maior índice de captura
seriam os répteis. Esta estimativa foi confirmada, sendo este grupo o que
apresentou maior índice de animais resgatados, 84,32%.
As classes que obtiveram menor índice foram aves (dezenove), seguida dos
mamíferos com (cinqüenta indivíduos), provavelmente pela facilidade de
deslocamento e à sensibilidade à degradação que esses dois grupos
apresentam.
A classe que apresentou maior destaque foi Reptilia (Ver Tabela 1).
TABELA 1 - Classes de Vertebrados Resgatados na AHE – Itapebi e sua
destinação
Enviados para a
UESC
Relocados da área
inundada
Total
Mamíferos
Répteis
Aves
Anfíbios
invertebrados
Total
-
160
-
16
-
176
50
2.496
19
194
215
2.974
50
2.656
19
210
215
3.150
5.2.1 - Anfíbios
Dos animais resgatados apenas 210 eram representantes dos anfíbios, ou
seja, 6,7%. Este grupo foi representado por quatro famílias: “Hylidae”,
“Leptodactylidae”, “Bufonidae” e “Mycrohylidae”.
A espécie com maior número de indivíduos resgatados foi a rã-das-pedras
(“Thoropa miliaris”) (Figura 1) com 60 indivíduos.
FIGURA 1- Exemplar de rã-das-pedras (“Thoropa miliaris”).
A perereca-de-bromélia “Scinax” sp foi a segunda espécie de anfíbio mais
resgatada com 33 indivíduos, seguida das pererecas raspa-cuia “Scinax
fuscovaria” com 27 indivíduos e “Hyla creptans” com 24 indivíduos.
5.2.2 - Répteis
Dentre os animais resgatados o grupo dos répteis foi o que obteve o maior
índice de espécimes e espécies resgatadas, sendo um total de 2.656 animais
distribuídos em 37 espécies e 4 gêneros.
Os animais mais resgatados em geral foram de ambientes degradados e
possuem populações grandes. Na ordem Lacertilia, foram resgatadas um total
de 17 espécies, destacando-se às famílias Geckonidae e Tropiduridae a
primeira com o maior número de espécimes de vertebrados resgatados, com
um total de 1.103. As duas formas mais abundantes desta ordem foram
“Phyllopezus pollicaris” e “Tropidurus torquatus” (Figura 2), que representam,
respectivamente 49,20% e 39,95% do número total de lagartos resgatados.
“Phyllopezus pollicaris” sozinho contabilizou 1.058 indivíduos resgatados. Foi o
vertebrado mais resgatado nesta operação.
FIGURA 2 - Exemplares de “Phyllopezus pollicaris” e de “Tropidurus torquatus”,
acondicionados em caixa aguardando soltura.
O maior número dos indivíduos capturados estava ilhado nas rochas dentro do
rio Jequitinhonha, em frente a Salto da Divisa, justificando o elevado número
capturado durante o enchimento pelo seu hábito de se esconder sob pedras.
“Tropidurus torquatus” a segunda espécie de vertebrado mais resgatada,
contabilizou um total de 859 indivíduos. Esta espécie ocorre na Argentina,
Brasil, Uruguai e Paraguai. No Brasil, ocorre em todas as regiões, exceto na
região Amazônica e tem registros de grandes números resgatados em
barragens. Em Manso, por exemplo, 20% do total de lagartos registrados eram
desta espécie (STRUSSMANN, 2000 – Referência 10).
A ordem Ophidia foi a melhor representada em diversidade entre todos os
animais resgatados no lago, com 21 espécies. Tiveram destaque, dentro desta
ordem, as famílias Viperidae com 206 indivíduos resgatados, sendo 204
“Bothrops leucurus” (malha-de-sapo, Figura 3) e duas B. Jararaca (Jararaca);
“Colubridae” com 229, destacando-se “Philodryas olfersii” com 155, “Oxyrhopus
trigeminus” com 16 e “Pseudoboa nigra” com 15 espécimes.
FIGURA 3 - Exemplares de “Bothrops leucurus” resgatados e acondicionados
em caixa para serem relocados nas áreas de soltura.
A cobra-verde “Philodryas olfersii” foi a segunda espécie de serpente mais
resgatada com 155 indivíduos. Essa mesma é considerada semipeçonhenta
(FREITAS, 1999 – Referência 5).
A ordem “Amphisbaenidae” foi representada pela espécie “Amphisbaenia alba”
e pelos gêneros “Amphisbaenia” sp e “Leposternum” sp.
5.2.3 - Aves
No caso específico de reservatório durante a construção de barragens, as
aves, assim como os demais componentes da fauna também são afetadas.
Entretanto, dada à característica do grupo, ou seja, sua alta agilidade, a
avifauna não necessita de medidas especiais durante a fase de enchimento do
reservatório (VASCONCELLOS, 2000). À medida que ocorre o enchimento do
reservatório, várias espécies se deslocam na busca de habitats similares que
não estejam alagados, provocando o Efeito Estendido de Represa (EER) o que
Willis (1988 apud VASCOLCELLIS, 2000 – Referência 11), verificou em
Balbina, o mesmo autor afirma, que de acordo com as espécies, pode
acontecer separação de casais, além, é claro, de um aumento na densidade de
todas as populações.
Em trabalhos similares como o realizado em Santa Helena que obteve o índice
de 2,3% (PLAMA, 2001 – Referência 7), Pedra do Cavalo com 2%
(PORTUGAL; ESTEVES; BOAVENTURA, 1987 – Referência 8) Serra da Mesa
0,3% (SANTOS; SILVA Jr, 1999 – Referência 9) e Eng. Sérgio Motta com 1%
(CESP, 1999 – Referência 2), o grupo das aves apresentou um índice de
resgate baixo, este fato esta relacionado à capacidade e à facilidade de
deslocamento através do vôo. Foi resgatado um total de sete espécies,
distribuídos em seis famílias, destacando-se: “Cracidae”, com a espécie Aracuã
(“Ortalis guttata”) com nove indivíduos e a família Tinamidae sendo esta
representada pela codorna (“Nothura boraquira”, Figura 4) e a nambu
Crypturellus sp com três e um indivíduos respectivamente.
FIGURA 4 – Exemplar de codorna (Nothura boraquira).
5.2.4 - Mamíferos
Dentre os mamíferos, resgatou-se 50 (cinqüenta) indivíduos, distribuídos em 7
(sete) famílias, 9 (nove) espécies e um gênero. A forma de locomoção dos
mamíferos torna as espécies mais ou menos suscetíveis a problemas de
isolamento em ilhas durante o enchimento do reservatório.
Animais de hábito semi-aquáticos (capivaras, lontras) ou voadores (morcegos)
deslocaram-se com facilidade até a margem mais próxima sem dificuldades.
Os animais cursoriais, de hábito terrestre, evadiram-se andando. Por outro
lado, aqueles de vida arborículas ou semi-arborícolas refugiaram-se em
árvores e lianas durante o enchimento, buscando a copa enquanto o nível da
água subia como foi o caso do mico de Kuli (“Callithrix kuhli”, Figura 5)
FIGURA 5 -Espécime de mico-de-kuli (Callithrix kuhli).
Foram resgatados oito indivíduos de mico de Kuli (“Callithrix kuhli”) e três de
preguiça-de-três dedos (“Bradypus variegatus”) próximos às áreas mais
preservadas como a fazenda Palmeiras, fazenda Guaribas e Mata da
Corredeira onde a vegetação nas proximidades do reservatório encontra-se em
bom estado de conservação. As preguiças foram relocadas para a área de
reserva da fazenda palmeiras e os micos reintegrados a seus bandos que se
encontravam na margem, respondendo aos apelos dos ameaçados.
Os deslocamentos constantes das equipes, pela região, possibilitaram resgatar
animais que estavam fora da área de alagamento, mas que corriam riscos
eminentes de morte, principalmente por atropelo acidental ou proposital,
destacando-se uma preguiça-de-três-dedos “Bradypus variegatus” e um jacaréde-papo-amarelo “Caiman latirostris”, ambos resgatados quando atravessavam
rodovias da região.
6 - CONSIDERAÇÕES FINAIS
O resgate da fauna da AHE Itapebi cumpriu seus propósitos que era realizar
ações pertinentes à preservação e conservação da fauna silvestre, evitando a
mortalidade indiscriminada de exemplares de invertebrados e vertebrados, tais
como artrópodes, mamíferos, aves, répteis e anfíbios que não tiveram a
capacidade de se deslocar por meios próprios, além de proporcionar às
instituições de pesquisa, o aproveitamento de material biológico.
O resgate na fase de enchimento do reservatório foi considerado satisfatório,
sendo possível o salvamento de 3.150 indivíduos, distribuídos em 92 espécies
e 66 gêneros numa área com alto grau de antropismo e com menos de 1% de
mata. As expectativas quanto o número de indivíduos e de espécies
resgatadas foram atendidas.
Dentre os vertebrados resgatados, predominaram os animais que ocorrem em
áreas abertas e antropizadas a exemplo de B. leucurus, espécie a qual
esperava-se ter alta incidência de captura devido à freqüência de capturas
durante o monitoramento. Constatou-se também uma alta freqüência das
espécies “Phyllopezus pollicaris” e “Tropidurus torquatus” a qual não se
esperava encontrar com essa freqüência. Do total de animais resgatados, os
répteis obtiveram o maior índice e as aves o menor.
7 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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RESGATE DA FAUNA NO APROVEITAMENTO HIDRELÉTRICO