UNIVERSIDADE ESTADUAL DO OESTE DO PARANÁ – UNIOESTE CENTRO DE EDUCAÇÃO, COMUNICAÇÃO E ARTES - CECA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU EM EDUCAÇÃO NÍVEL DE MESTRADO/PPGE ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: SOCIEDADE, ESTADO E EDUCAÇÃO Educação da Pessoa com Deficiência no Estado do Paraná nas décadas de 1970 e 1980: coexistência de atendimento em escolas públicas regulares e em especiais privadas/filantrópicas VERA LUCIA RUIZ RODRIGUES DA SILVA CASCAVEL – PR 2013 UNIVERSIDADE ESTADUAL DO OESTE DO PARANÁ – UNIOESTE CENTRO DE EDUCAÇÃO, COMUNICAÇÃO E ARTES - CECA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU EM EDUCAÇÃO NÍVEL DE MESTRADO/PPGE ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: SOCIEDADE, ESTADO E EDUCAÇÃO CAMPUS DE CASCAVEL - PARANÁ Educação da Pessoa com Deficiência no Estado do Paraná nas décadas de 1970 e 1980: coexistência de atendimento em escolas públicas regulares e em especiais privadas/filantrópicas VERA LUCIA RUIZ RODRIGUES DA SILVA Dissertação apresentada à Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE – objetivando a obtenção do título de Mestre em Educação, junto ao Programa de PósGraduação Stricto Sensu em Educação nível de Mestrado - área de concentração Sociedade, Estado e Educação. Linha de Pesquisa: História da Educação Orientador: Prof. Dr. Paulino José Orso CASCAVEL – PR 2013 UNIVERSIDADE ESTADUAL DOESTE DO PARANÁ PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO Educação da Pessoa com Deficiência no Estado do Paraná nas décadas de 1970 e 1980: coexistência de atendimento em escolas públicas e em especiais Autor: Vera Lucia Ruiz Rodrigues da Silva Orientador: Paulino José Orso Este exemplar corresponde a dissertação de Mestrado apresentada por Vera Lucia Ruiz Rodrigues da Silva Programa de Pós-graduação em Educação, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE, para a banca de avaliação, objetivando a obtenção do título de Mestre em Educação. Data: ____________________________________________ Prof. Dr. Paulino José Orso – UNIOESTE Orientador COMISSÃO JULGADORA _____________________________________________ Prof. Dr. José Geraldo Silveira Bueno Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC Membro Efetivo (convidado) _____________________________________________ Prof. Dr. André Paulo Castanha Membro Efetivo – UNIOESTE __________________________________________ Prof. Dr. João Carlos da Silva Membro Suplente – UNIOESTE Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP) Biblioteca Central do Campus de Cascavel – Unioeste Ficha catalográfica elaborada por Jeanine da Silva Barros CRB-9/1362 S584e Silva, Vera Lucia Ruiz Rodrigues da Educação da pessoa com deficiência no Estado do Paraná nas décadas de 1970 e 1980: coexistência de atendimento em escolas públicas e em especiais / Vera Lucia Ruiz Rodrigues da Silva.— Cascavel, PR: UNIOESTE, 2013. Orientador: Prof. Dr. Paulino José Orso Dissertação (Mestrado) – Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Bibliografia. 1. Educação especial – Estado do Paraná – 1970-1980. I. Universidade Estadual do Oeste do Paraná. II. Título. CDD 21.ed. 371.9 Primeiramente, dedico esse trabalho as pessoas fundamentais em minha existência. A minha amada mãe, mulher guerreira, que a vida lhe obrigou a criar seus três filhos sozinha, e que me ensinou a enfrentar às adversidades inerentes ao mundo que estamos inseridos. A meus filhos, que sempre me apoiaram e são as preciosidades de minha vida. A meu maravilhoso marido, companheiro e amigo, que acreditou em minha potencialidade. Companheiro de pesquisa e estudos, que impulsiona, acompanha e contribui com a minha formação profissional e as realizações pessoais. A meu pai, Hilton Mario Ruiz (in memoria), por sua dedicação e conquista de seus objetivos, superando as dificuldades financeiras que enfrentou em seu cotidiano. Não poderia deixar de dedicar, também, este trabalho, aos meus companheiros de militância da Associação Cascavelense das Pessoas com Deficiência Visual (ACADEVI) e do Fórum Municipal em Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência, que são os grandes responsáveis pela minha formação política, no que tange à relação teoria e prática, pois sem eles ficaria apenas no campo teórico. AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus pela família que possuo, pela serenidade, paz, saúde que me proporciona, pois certamente, ele não é responsável pelas atrocidades que o homem fez/faz em seu nome. Ao meu orientador, professor Dr. Paulino José Orso por suas orientações de grande valia para que esta pesquisa se tornasse um trabalho científico que pode contribuir nas reflexões e ações dos que a ela terão acesso. Ao professor Dr. José Geraldo Silveira Bueno que gentilmente aceitou fazer parte da Banca, o que para mim é muito importante, pois seu conhecimento na área da Educação Especial trouxe contribuições significativas para o referido trabalho. Ao professor Dr. André Paulo Castanha, da banca, que contribuiu de modo significativo com seus conhecimentos em História da Educação. Ao professor Dr. João Carlos da Silva que contribuiu com esta pesquisa com seus conhecimentos em História da Educação. As professoras Marli Rosa Müller e Lucia Terezinha Zanato Tureck que gentilmente por meio de diálogos contribuíram com informações sobre a educação especial no Estado do Paraná referente ao período estudado. A professora Drª Gilberta de Martino Jannuzzi que prontamente me disponibilizou referência bibliográfica utilizada em sua tese de Doutorado e em sua obra publicada. Ao pesquisador Ricardo Góes por ter disponibilizado cópia das Diretrizes Básicas para Ação do centro Nacional de Educação Especial. Aos companheiros de militância que quando solicitados não mediram esforços para verificarem e me repassarem referências. Aos funcionários do CEE, a Srª Daniele Mialik Wagnitz e o Sr. João que sempre foram prestativos e atenderam minhas solicitações de documentos. Aos setores governamentais da SEED, Arquivo Público, Biblioteca do Tribunal de Contas, Biblioteca de Educação da UFPR, Biblioteca da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba e da PUC/PR, Biblioteca da Unioeste, Núcleo Regional de Educação de Cascavel, AMOP, Colégio Estadual Wilson Jofre, Secretaria Municipal de Educação de Cascavel, que sempre foram atenciosos e prestativos nas solicitações de documentações. A equipe do Programa Institucional de Ações Relativas as Pessoas com Necessidades Especiais – PEE – que produziram as adaptações das referências utilizadas e pelo pronto atendimento as minhas solicitações de materiais digitalizados, trabalho imprescindível para concretização desta pesquisa. (...) Aprenda, homem no asilo! Aprenda, homem na prisão! Aprenda, mulher na cozinha! Aprenda, ancião! Você tem que assumir o comando! Frequente a escola, você que não tem casa! Adquira conhecimento, você que sente frio! Você que tem fome, agarre o livro: é uma arma. Você tem que assumir o comando (...) Bertolt Brecht (2000, p.114) RESUMO Esta dissertação trata acerca da Educação da Pessoa com Deficiência no Estado do Paraná durante as décadas de 1970 e 1980, visando compreender a coexistência de atendimento em escolas públicas regulares e em escolas especiais privado/filantrópicas. Procura, ainda, analisar os fatores que influenciaram a constituição da política implantada neste Estado, demonstrando que as questões presentes na educação especial foram estabelecidas em conformidade com a forma de organização social que concebia como “deficiente” aquele que não correspondia ao padrão de homem pensado para o setor produtivo. Esta concepção formulou-se por diversos fatores construídos historicamente, tais como: os conhecimentos e ações na área médica, que corroboraram para a formulação da abordagem clínica do processo de atendimento educacional; os preceitos teológicos, que contribuíram para a perpetuação de uma perspectiva de atendimento filantrópico; e, por fim, a expressão desses fatores nas normas estabelecidas pelo gestor. No primeiro capítulo são abordados aspectos históricos relacionados à influência médicopedagógica, à trajetória dos atendimentos institucionalizados e à oficialização da coexistência da oferta de matrículas em escolas públicas regulares e em especiais (públicas e privadas). No segundo capítulo busca-se explicitar como tais fatores foram incorporados na política do CENESP (Centro Nacional de Educação Especial), considerando que o governo civil-militar fortaleceu as abordagens clínicas e os princípios religiosos por meio do culto dos valores tradicionais e, como a politica se alinhou à tendência internacional, tendo em contrapartida os movimentos sociais das pessoas com deficiência. No terceiro capítulo analisa-se a política de atendimento adotada pelo Estado do Paraná articulando a educação especial com a tendência ocorrida em âmbito nacional, bem como os encaminhamentos do CEE (Conselho Estadual de Educação) na indicação de regulamentos à SEED (Secretaria de Estado da Educação) para oficialização de diretrizes e procedimentos que se configuraram na coexistência de formas de atendimentos em escolas públicas regulares e especiais. Os estudos realizados permitiram concluir que, no Estado do Paraná, a política da Educação Especial implantada estava alinhada com as diretrizes do CENESP, que fortaleceu a continuidade da coexistência do atendimento tanto no setor público (federal, estadual e municipal) quanto no privado. Mesmo com esta perspectiva de ampliação, foi uma política paliativa, pois se manteve consubstanciada, sobretudo, por valores religiosos e pela abordagem biológica. PALAVRAS-CHAVE: Integração. Escola Especial; Escola pública; Educação Especial; ABSTRACT This dissertation is about the education of person with disability in the state of Paraná during the decades of 1970 and 1980, aiming to understand the coexistence of the attendance in regular public schools and in private/philanthropic especial schools. We still seek to analyze the factors that influenced the Political Constitution implemented in this State, showing that the present issues in the special education were established according to the social organization that conceived as “disabled” who that did not corresponded to the pattern of man, thought to the productive sector. This conception was formed because of several historical factors constructed, as: The knowledge and actions in the medical area, that corroborated to the clinical approach formulation of the educational attending process; the theological precepts, that contributed for the perpetuation of a perspective of philanthropic attending; and, finally, the expression of these factors in the designed rules by the manager. In the first chapter we discuss historical aspects related to the medical and pedagogical influence, the trajectory of the institutionalized attending and to the recognition of the coexistence of the offering of enrollment in regular public schools (public and private). In the second chapter we seek to explain how these factors were incorporated in the CENESP (National Center for Special Education) political, considering that the civil-military government got stronger the clinical approaches and the religious principles through the cult of traditional values and, how the politic aligned to the international trend, there is on the other hand the social movements of people with disability. In the third chapter we analyze the political of attending adopted by the State of Paraná articulating the special education with the trend occurred nationwide, as well as the routing of CEE (State Board of Education) in the indication of rules to the SEED (Secretary of State of Education) to formalization of guidelines and procedures that defined in the coexistence of attending ways in special and regular public schools. The realized results allowed us to conclude that, in the State of Paraná, the implemented political of special education was aligned with the guidelines of CENESP, that fortified the continuation of the coexistence of the attending as in the public sector (federal, state and municipal) as in the private. Even with this perspective of extending, it was a palliative political, because it maintained substantiated, mainly, by religious values and by biological approach. KEYWORDS: Special School; Public School; Special Education; Integration. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 01 – Atestado Médico para ingresso na Escola Normal Carola Moreira Cascavel/PR 42 Figura 02 – A roda dos expostos 46 Gráfico 1 - Demonstrativo de matrículas realizadas em escola regular – Classe Especial – de 1979 a 1987 156 Gráfico 2 - Demonstrativo da evolução de matrículas em instituições especializadas de 1979-1987 157 Gráfico 3 - Demonstrativo de escolas de educação especial nas esferas públicas (Federal, Estadual, Municipal) e particulares (no Paraná de 1983 – 1987 159 Gráfico 4 - Demonstrativo de escolas de 1º e 2º graus, nas esferas públicas (Federal, Estadual, Municipal) e particulares no Paraná de 1983 – 1987 160 LISTA DE QUADROS Quadro I – Algumas Instituições privadas mercantil e assistencialista Quadro II – Modalidade de atendimento no ensino regular e em instituições especializadas, referente aos anos de 1981 e 1987, no Brasil 90 130 Quadro III – Demonstra o crescimento populacional no Brasil de 1940 a 1970 143 Quadro IV – Demonstra o quantitativo de matriculas em classes especiais de instituição de ensino regular de 1979 – 1987 155 Quadro V – Demonstra o quantitativo de matriculas em instituições especializadas de 1979 – 1987 156 LISTA DE ABREVIATURAS AACD – Associação de Assistência à Criança Defeituosa ABBR – Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação AIPD – Ano Internacional das Pessoas Deficientes AMOP – Associação de Municípios do Oeste do Paraná APAEs – Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais APCB – Associação de Paralisia Cerebral do Brasil APM – Arquivos Paranaenses de Medicina BDTD – Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações BIRD – Banco Internacional para a Reconstrução e Desenvolvimento CBEE – Congresso Brasileiro de Educação Especial CE – Classe Especial CEE – Conselho Estadual de Educação CETEPAR – Centro de Seleção, Treinamento e Aperfeiçoamento de Pessoal CENESP – Centro Nacional de Educação Especial CONADE – Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência CORDE – Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência CT – Condutas Típicas DA – Deficiência auditiva DAE – Departamento de Assistência ao Educando. DAp – Distúrbios de Aprendizagem DEAP – Departamento de Arquivo Público do Paraná DEEIN – Departamento de Educação Especial e Inclusão Educacional DF – Deficiência física DM – Deficiência Mental DPI – Disabled Peoples International. DV – Deficiência Visual EPF – Esfera Pública Federal EPEst – Esfera Pública Estadual EPMun – Esfera Pública EPart – Esfera Particular FASPAR – Fundação de Ação Social do Paraná FAO – Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação FEBEC – Federação Brasileira de Entidades de Cegos FENEIS – Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos FMI – Fundo Monetário Internacional FUNDEPAR – Fundação Educacional do Paraná GAP – Grupo de Assessoria e Planejamento IASP – Instituto de Ação Social do Paraná IBC – Instituto Benjamin Constant IIMC – Imperial Instituto dos Meninos Cegos INES – Instituto Nacional de Educação de Surdos INSM – Instituto Nacional dos Surdos-Mudos IBAD – Instituto Brasileiro de Ação Democrática IPC – Instituto Paranaense de Cegos IPES – Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais ISM – Instituto dos Surdos-Mudos LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação MA - Múltiplo Atendimento MEC – Ministério da Educação MECA – Movimento Estadual contra o Analfabetismo MORHAN – Movimento Nacional de Reintegração do Hanseniano NARC – National Association for Retarded Children NID – Núcleo de Integração de Deficientes OEA – Organização dos Estados Americanos OIT – Organização Internacional do Trabalho OMS – Organização Mundial da Saúde ONU – Organização das Nações Unidas ONEDEF – Organização Nacional de Entidades de Pessoa com Deficiência Física PEE – Programa Institucional de Ações Relativas às Pessoas com Necessidades Especiais PEES – Programa de Educação Especial Supletiva PER – Programa de Escolaridade Regular PND – Plano Nacional de Educação PR – Paraná PSECD – Plano Setorial de Educação, Cultura e Desporto RJ – Rio de Janeiro RMP – Revista Médica do Paraná SEED – Secretaria de Estado da Educação SEEC – Secretaria de Estado da Educação e Cultura SENAC – Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial SBO – Sociedade Brasileira de Ostomizados SP – São Paulo SR – Sala de Recursos UEM – Universidade Estadual de Maringá UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância UNIOESTE – Universidade Estadual do Oeste do Paraná USAID – United States Agency for International Development SUMÁRIO INTRODUÇÃO 16 1 ASPECTOS HISTÓRICOS DO ATENDIMENTO EDUCACIONAL “DEFICIENTE”.................................................................................................... 26 1.1 Aspectos históricos da influência médico-pedagógica na educação do “deficiente”............................................................................................................ 28 1.2 O atendimento institucional dos “deficientes”................................................. 43 1.3 A oficialização do atendimento educacional do “deficiente” na rede pública e na privada..................................................................................... 60 2 AS DÉCADAS DE 1970 E 1980 E A POLÍTICA DE EDUCAÇÃO PARA O “DEFICIENTE”.................................................................................................... 80 2.1 Aspectos sociopolíticos das décadas de 1970 e 1980 e as suas correlações com o “deficiente”............................................................................. 80 2.2 Os movimentos oficiais e da sociedade civil em prol da educação do “deficiente”............................................................................................................ 100 2.3 As Diretrizes Básicas para ação do CENESP........................................ 115 3 A POLÍTICA DE EDUCAÇÃO ESPECIAL DO ESTADO DO PARANÁ NAS DÉCADAS DE 1970 E 1980................................................................................ 132 3.1 A educação especial no Estado do Paraná................................................... 133 3.2 Legislações sobre a Educação Especial no Estado do Paraná nas décadas de 1970 e 1980.................................................................................................... 160 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................. 174 5 REFERÊNCIAS................................................................................................. 182 6 ANEXOS........................................................................................................... 198 16 1 INTRODUÇÃO A pessoa com deficiência tem sido abordada de diferentes formas, tanto no que diz respeito ao provimento de sua existência, quanto na forma e ao local de sua educação. No campo educacional as ações implantadas tiveram sua origem tanto nas instituições privado/filantrópicas como nas públicas. Os movimentos sociais voltados à educação desse segmento foram importantes nesse processo. Dentre as questões relevantes nos movimentos sociais destacam-se as campanhas nacionais de educação dos cegos, dos surdos e dos “deficientes” mentais, iniciadas na década de 1950. O crescente movimento deste segmento – intensificado em meados da década de 1980 – a partir de 1990 ocasionou, sob a justificativa de se possibilitar a inclusão social, a ampliação do conflito entre quem defende a oferta educacional por meio de escolas especiais e a fração da sociedade que faz a defesa desse atendimento no ensino regular/público. Essa mobilização a fim de que o governo oficializasse a educação especial estava articulada aos embates ocorridos em torno da defesa da educação pública, laica e gratuita. Esse fomento pela escola pública, não confessional, contribuiu para a elaboração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação - LDB nº. 4.024/61. Com esta legislação, o Estado Brasileiro oficializou o direito de atendimento educacional às pessoas com deficiência, tanto no setor público, quanto no privado. Esse processo de reinvindicações foi importante para que, em 1973, se concretizasse a política de integração. Por meio dessa mobilização observa-se que, independentemente de quais sejam as diretrizes educacionais, ou seja, inclusiva ou de integração, desde as origens de seus atendimentos as escolas especiais e as públicas da rede regular expressavam o propósito de assegurar a educação a esse alunado. Porém, nessa relação, existem interesses antagônicos inerentes às relações sociais estabelecidas em cada época que, determinadas pelas condições materiais, produziram um modelo de atendimento para todos os setores da sociedade, tais como saúde, educação, segurança, trabalho entre outros. Nesse sentido, também condicionou o padrão de “normalidade” quanto ao comportamento, atitude, postura e aspectos relacionados ao corpo e à mente. Observa-se que, em toda sociedade, que 17 tem como parâmetro a produção para o mercado, todos aqueles que não atendem essa exigência são, de alguma forma, segregados em termos de acesso aos bens materiais, culturais, educacionais e outros. Isto leva à necessidade de estabelecer atendimentos específicos aos que são mantidos alienados, acarretando consequências para sua educação. Para superar as limitações presentes na educação não só deste segmento, mas também de outros que eram desprovidos do poder aquisitivo e da educação, instituiu-se a proposta de inclusão que, em relação à pessoa com deficiência, defende a adaptação do espaço físico e pedagógico a fim de possibilitar o avanço na escolarização no ensino regular e o ingresso no mercado de trabalho. Essas ações vão ao encontro da superação da proposta de integração da década de 1970, que muitos estudiosos da área a consideram como segregativa, uma vez que, na prática, o aluno tinha que se adaptar ao ambiente. Independentemente dessa questão, a política de integração foi um marco legal no Brasil em relação à educação da pessoa com deficiência. Nota-se que a política de integração já trazia, na esfera do discurso e nas diretrizes da educação especial, a necessidade de adaptação de material didático, do espaço físico, da articulação das políticas educacionais, da assistência social e da saúde, visando o ingresso no mercado de trabalho. Observa-se, portanto, que há elementos que estavam presentes na política da proposta de integração (1970-1980) e que continuaram na política da inclusão (1990). A criação do CENESP – Centro Nacional de Educação Especial – estava vinculada ao projeto Prioritário nº. 35 – Educação Especial do Plano Setorial de Educação e Cultura (1972-1974), cujo objetivo era o de assegurar direito igualitário à educação para todos, conforme as necessidades e capacidades de cada um. Nesse documento do CENESP também expressava que o Governo Federal promoveria a ampliação da educação dos “excepcionais”, incentivando e auxiliando os Estados com recursos técnicos e financeiros, quando isso se fazia necessário. Porém, em virtude da condição de desenvolvimento socioeconômico de cada Estado, as políticas voltadas ao atendimento das pessoas com deficiência podem ter sido estruturadas de modo distinto em cada um deles. No Estado do Paraná as ações educacionais realizadas para este alunado antecedem a própria política do CENESP. No ano de 1963, a Secretaria de Estado 17 tem como parâmetro a produção para o mercado, todos aqueles que não atendem essa exigência são, de alguma forma, segregados em termos de acesso aos bens materiais, culturais, educacionais e outros. Isto leva à necessidade de estabelecer atendimentos específicos aos que são mantidos alienados, acarretando consequências para sua educação. Para superar as limitações presentes na educação não só deste segmento, mas também de outros que eram desprovidos do poder aquisitivo e da educação, instituiu-se a proposta de inclusão que, em relação à pessoa com deficiência, defende a adaptação do espaço físico e pedagógico a fim de possibilitar o avanço na escolarização no ensino regular e o ingresso no mercado de trabalho. Essas ações vão ao encontro da superação da proposta de integração da década de 1970, que muitos estudiosos da área a consideram como segregativa, uma vez que, na prática, o aluno tinha que se adaptar ao ambiente. Independentemente dessa questão, a política de integração foi um marco legal no Brasil em relação à educação da pessoa com deficiência. Nota-se que a política de integração já trazia, na esfera do discurso e nas diretrizes da educação especial, a necessidade de adaptação de material didático, do espaço físico, da articulação das políticas educacionais, da assistência social e da saúde, visando o ingresso no mercado de trabalho. Observa-se, portanto, que há elementos que estavam presentes na política da proposta de integração (1970-1980) e que continuaram na política da inclusão (1990). A criação do CENESP – Centro Nacional de Educação Especial – estava vinculada ao projeto Prioritário nº. 35 – Educação Especial do Plano Setorial de Educação e Cultura (1972-1974), cujo objetivo era o de assegurar direito igualitário à educação para todos, conforme as necessidades e capacidades de cada um. Nesse documento do CENESP também expressava que o Governo Federal promoveria a ampliação da educação dos “excepcionais”, incentivando e auxiliando os Estados com recursos técnicos e financeiros, quando isso se fazia necessário. Porém, em virtude da condição de desenvolvimento socioeconômico de cada Estado, as políticas voltadas ao atendimento das pessoas com deficiência podem ter sido estruturadas de modo distinto em cada um deles. No Estado do Paraná as ações educacionais realizadas para este alunado antecedem a própria política do CENESP. No ano de 1963, a Secretaria de Estado 18 da Educação (SEED) criou por meio do Decreto n° 10.527 de 9 de janeiro de 1963 os Serviços de Educação de Excepcionais decreto no qual aprovou-se a reestrutura desta Secretaria. Após oito anos, com a promulgação do Decreto nº. 1.083, de 19 de novembro de 1971 os Serviços de Educação de Excepcionais foram reestruturados, passando para o status de Departamento de Educação Especial da SEED. Neste contexto, pergunta-se: que fatores influenciaram a coexistência nos setores público e privado do atendimento educacional das pessoas com deficiência no Estado do Paraná durante as décadas de 1970 e 1980? No intuito de compreender esses elementos, estabelecemos como objetivo geral: compreender como ocorreu o processo de implantação e como se configurou a coexistência do atendimento nos setores público e privado/filantrópico das pessoas com deficiência no Estado do Paraná durante as décadas de 1970 e 1980. Para tanto, pretende-se: a) Compreender a influência da concepção médico-pedagógica no atendimento educacional às pessoas com deficiência; b) Investigar a articulação dos atendimentos institucionalizados das pessoas com deficiência ao contexto socioeconômico; c) Analisar a política que foi estabelecida pelo CENESP – Centro Nacional de Educação Especial – e a sua influência sobre o Estado do Paraná durante as décadas de 1970 e 1980; d) Demonstrar como foi estruturado e organizado o atendimento às diferentes áreas de deficiência no Estado do Paraná durante o período referido. Com base na exposição do problema e dos objetivos desta pesquisa, tem-se como hipótese que a coexistência de atendimento educacional das escolas especiais e das escolas públicas do ensino regular no Estado do Paraná estava alinhada à política do CENESP, revelando a forma pela qual o Estado, na qualidade de interventor, respondeu às reivindicações dos movimentos envolvidos com a educação especial. A educação especial tem sido foco de pesquisa tanto em relação aos aspectos sócio-históricos, como em relação aos aspectos político-econômicos. Alguns pesquisadores têm se sobressaído em âmbito nacional, sendo que suas publicações tornaram-se leituras relevantes para a compreensão desta área de 19 conhecimento. Dentre tais pesquisadores cita-se: Pessoti (1984), Silva (1987), Bianchetti (1998), Kassar (1999), Caiado (2003), Bueno (2008). Há outros que apresentam estudos pertinentes em relação ao segmento das pessoas com deficiência, e que são leituras indispensáveis e, por isso, farão parte da revisão da literatura desta pesquisa, dentre os quais: Iacono (2003), Tureck (2003), Carvalho (2008), Carvalho (2009) e Borba (2010). Para realizar esta pesquisa, fez-se um levantamento in locus nos acervos das bibliotecas do município de Cascavel, da Unioeste – Universidade Estadual do oeste do Paraná –, da UEM – Universidade Estadual de Maringá –, e da Biblioteca Pública do Paraná. Nos referidos acervos, verificou-se a existência de trabalhos que tratam de termos gerais acerca da educação especial, ou de uma determinada área de deficiência. No arquivo central da biblioteca da Unioeste foram encontrados os cadernos intitulados “Projeto Especial Multinacional de Educação Brasil-ParaguaiUruguai”, publicados em 1977 pelo CENESP, vinculado ao Ministério da Educação, que tratam acerca das diferentes áreas da deficiência. Os cadernos foram organizados pela (OEA) – Organização dos Estados Americanos, em virtude de ser Projeto Especial Multinacional de Educação. Na AMOP – Associação dos Municípios do Oeste do Paraná – também foram encontrados documentos relacionados à execução do Projeto Especial Multinacional, no Estado do Paraná. Foram feitas pesquisas no site “Estante Virtual”, onde foram localizados alguns livros que abordam as questões relacionadas a esta pesquisa ocorridas no período de 1970 a 1980, dentre os quais se destaca o caderno intitulado “Participação da Comunidade na Integração do Deficiente Mental” (1985), de autoria de Maria de Lourdes B. Canziani1, publicado pelo MEC/OEA. Maria de Lourdes B. Canziani foi quem coordenou a implantação do serviço de educação especial na secretaria de Estado da Educação do Paraná. A autora aponta dados importantes para esta pesquisa, como a relação de documentos, as deliberações, as leis que direcionaram o processo de implantação e de atendimento no Paraná. Além disso, também utilizamos o site da “Biblioteca Digital Brasileira (BDTD)”, onde se realizou 1 Juntamente com Tereza Costa Amaral, Tania Maria Silva de Almeida, lsmaelita Maria Alves de Lima, Niusarete Margarida de Lima e Izabel Maria Madeira de Loureiro Maior foi uma das coordenadoras da CORDE – Subcoordenadoria para Integração das Pessoas com Deficiência – desde a sua constituição. (JANNUZZI, 2004, p. 164). 20 levantamento da produção científica sobre o tema. As palavras-chaves utilizadas na busca estão relacionadas no Anexo I. Na revisão bibliográfica de teses e dissertações, dentre os 38 trabalhos com temas afins a esta pesquisa, cita-se: Machado (1984), Jannuzzi (1985), Carlo (1997), Prieto (2000), Abreu (2002), Santos (2006), Góes (2009), Tezzari (2009) e Cabral (2010). São trabalhos de conteúdo histórico acerca da educação da pessoa com deficiência, análise da política do CENESP, estudos sobre o atendimento educacional na esfera pública e privada para a pessoa com deficiência. Esses autores também trataram acerca dos serviços ofertados pela educação, as classes especiais e as salas de recursos. Porém, nenhuma destas pesquisas aborda a educação especial no Estado do Paraná, com exceção da dissertação de Jackson Johann (2011) intitulada “Programas de Educação Profissional na APAE de Toledo – Paraná”. Com estas mesmas finalidades foram feitas pesquisas na Revista Brasileira de Educação Especial, Sciello e Educere & Educare, onde foram encontrados assuntos relacionados às temáticas afins, mas que abordam questões gerais acerca de aspectos históricos, as classes especiais, as políticas de educação especial, a concepção e as terminologias sobre pessoa com deficiência. No Caderno Cedes, encontrou-se um exemplar dedicado às reflexões sobre a Educação Especial e sua relação com a LDB 4024/61. Além disso, também foram realizadas consultas na Secretaria de Estado da Cultura – Museu Paranaense em fevereiro de 2011, e no DEAP – Departamento de Arquivo Público do Paraná – em março de 2011. Ambos solicitaram que entrássemos em contato com o DEEIN – Departamento de Educação Especial e Inclusão Educacional –, vinculado à Secretaria de Estado de Educação. No site do Arquivo Público, encontrou-se uma lista cronológica de legislações, tais como, leis, decretos e regulamentos referentes aos 155 anos de história do Estado do Paraná, período este compreendido entre os anos 1855 a 2002. Neste site, além da relação cronológica de leis e de decretos, encontram-se fontes nas quais pesquisadores podem ter acesso a esses documentos. Nele, existem vários documentos relacionados à criação e reestruturação da Secretaria de Educação do Paraná, como, por exemplo, o Decreto nº. 205, de 4 de abril de 1975, que aprovou o regulamento e a estrutura da Secretaria de Educação e Cultura (Diário Oficial do 21 Estado do Paraná de 9 de abril de 1975. Microfilme: 220), o qual foi substituído pelo Governador do Estado do Paraná, o Sr. Álvaro Dias, por meio do Decreto n°.1.102, de 7 de agosto de 1987, que aprovou o regulamento da Secretaria da Educação. (Diário Oficial do Estado do Paraná de 10 de agosto de 1987. Microfilme: 381). A análise das legislações acerca da Secretaria de Educação durante o período de 1970 a 1980 é útil para verificar o modo como, historicamente, se configurou a Educação Especial no Paraná a fim de compreender sua atual estrutura. A única legislação disponível no site do Conselho Estadual de Educação é a Deliberação nº. 031, de 5 de dezembro de 1986, que regulamentou a obrigatoriedade do arquivamento de determinada documentação nas unidades escolares e quais documentos podem vir a ser incinerados a partir de determinado tempo de existência. Todavia, ressalta-se que os documentos impressos disponíveis na Biblioteca do Conselho são fontes fundamentais. É uma biblioteca organizada e bem cuidada. Alguns documentos estão digitalizados e catalogados. Dentre eles destaca-se a Revista Critéria, que é uma coletânea das indicações, recomendações e deliberações sistematizadas pelo Conselho. Deste modo, foi possível localizar um número significativo de legislações, como a Deliberação nº. 020/86, indicada pelo Conselho e homologada pela SEED, que estabeleceu as “Normas da Educação Especial no Sistema de Ensino” (PARANÁ, 1994, p. 2). Essa Deliberação foi substituída pela Deliberação nº. 2, de 02 de junho de 2003, aprovada pelo CEE – Conselho Estadual de Educação – que em seu art. 1° “fixa normas para a Educação Especial, modalidade da Educação Básica, para o Sistema de Ensino do Estado do Paraná, para alunos com necessidades educacionais especiais, aqui denominada Educação Especial”. No DEEIN – Departamento de Educação Especial e Inclusão Educacional –, o único documento encontrado foi “Fundamentos teóricos e metodológicos para educação especial” (Paraná, 1994), cuja elaboração foi coordenada pela professora Marli Rosa Müller. Este documento traz teor que aborda o período desta pesquisa, sendo muito significativo, pois, pela primeira vez, o governo de Estado produziu um material de subsídio teórico destinado aos profissionais da educação especial. Tal documento consiste numa coletânea de textos que aborda de modo sintético a questão histórica e as áreas das deficiências, altas habilidades e as condutas 22 típicas. Faz uma exposição da constituição da Educação Especial no Paraná, articulando-a ao contexto nacional e internacional. Está dividido em partes, sendo que a parte 1, “Fundamentos da Educação Especial”, aborda a legislação, os princípios da EE, a estrutura e o funcionamento desta no Estado do Paraná, bem como acerca de questões históricas. A parte 2 é dedicada à “Natureza e extensão da excepcionalidade” e aborda a avaliação diagnóstica, a concepção de pessoa com deficiência na política da EE e a caracterização da deficiência. A parte 3 expressa a proposta de currículo para as diferentes áreas da deficiência e para as condutas típicas e altas habilidades. Os Fundamentos teóricos e metodológicos para educação especial possibilitam identificar os profissionais que atuavam na área da EE, mapear as legislações que direcionavam o trabalho educacional nesta área e identificar a concepção de pessoa com deficiência que embasava o trabalho pedagógico. Nesta pesquisa bibliográfica também foram consultados documentos de outros setores do Governo do Estado do Paraná. O Tribunal de Contas disponibilizou um relatório que contém informações acerca da Educação Especial. O site do Dia a dia, da Secretaria de Estado da Educação do Paraná, também disponibiliza documentos que abordam, de modo sintético, a História da EE no estado. Outra questão a ser considerada neste trabalho diz respeito à nomenclatura a ser utilizada para se referenciar às pessoas com deficiência. As explicações, compreensões e atitudes que foram estabelecidas no decorrer da história, dentre outras, geraram as seguintes terminologias: “monstruosa”, “aleijada”, “retardada”, “ceguinha”, “idiota”, “débil mental”, “mentecapta”. Essas denominações expressavam a percepção social em relação às pessoas com deficiência, com destaque para as mais perceptíveis socialmente. Essas diferenciadas formas de compreensão da pessoa com deficiência, fundamentadas em abordagens místicas, biológicas e psicológicas, produziram como resultados o extermínio, o abandono, a institucionalização, a integração, a inclusão, (CARVALHO; ROCHA; SILVA, 2006, p.17). O termo “deficiente” surgiu no Congresso de Genebra em 1939 em decorrência da busca pela padronização mundial da terminologia, utilizada em substituição ao termo “anormal”. (WÜRTH, 1974, p. 90). 23 Segundo Bueno (1993, p. 49) a terminologia de cego acompanha a história da humanidade, pois essa limitação sensorial influenciava nas relações dele com o meio. Este autor acrescenta que a ausência de acesso à língua escrita só passou a ser significativa no momento em que “as necessidades criadas pela própria ação do homem exigiu o seu domínio pelos membros da sociedade” (BUENO, 1993, p. 49). O autor cita ainda que isto também ocorreu com a deficiência mental, sendo que esta somente foi caracterizada mediante a exigência de uma determinada forma de organização social que passou a exigir maior produtividade intelectual e que estivesse condizente com a definição de padronização de comportamento social. Outra terminologia que esse autor cita diz respeito ao “excepcional”: Na verdade, sob o manto da excepcionalidade são incluídos indivíduos com características as mais variadas cujo ponto fundamental é o desvio da norma, não a norma abstrata, que determina a essência a-histórica da espécie humana, mas a norma construída pelos homens nas suas relações sociais. Na medida em que se parte do princípio de que ‘a sociedade moderna atingiu tal desenvolvimento que propicia a integração dos anormais’, já que ela se constitui, independente das diferentes formas de organização, no paradigma da ‘sociedade democrática’. (BUENO, 1993, p. 49). No Brasil, o termo excepcional foi introduzido nos documentos oficiais pela política de Educação Especial do CENESP/1974. Porém, em relação à mudança no processo de compreensão e atendimento, nada ocorreu. Essa terminologia acabou por incorporar à concepção normas e valores que predominavam sobre as pessoas com deficiência. O limite físico e/ou sensorial caracterizava a falta, o atraso para o desenvolvimento de habilidades humanas consideradas importantes para a sociedade naquele momento (JANNUZZI, 1985, p. 3). Segundo Sassaki (2003), após 1981, as nomenclaturas começaram a sofrer mudanças e passou-se a utilizar expressões tais como “deficiente” e “pessoa deficiente”. Lentamente, introduziu-se a nomenclatura “portadora de deficiência”. A partir de meados de 1990, paulatinamente, os documentos oficiais e a sociedade civil começaram a usar o termo “pessoa com deficiência”. Este termo foi anteriormente utilizado em importantes documentos, como na Declaração de Sundberg, fruto da Conferência Mundial de Ações e Estratégias para a Educação, Prevenção e Integração, realizada em Málaga, na Espanha (RODRIGUES, 2010, p. 55). O termo “pessoa com deficiência” resultou da reivindicação do movimento 24 desse segmento social, pois concebe que, em primeiro lugar, está a pessoa e, em segundo, uma de suas características, o defeito. Para melhor compreender esta terminologia “defeito”, é necessário observar o que defende Vigotski: A análise de caráter biológico e social do defeito leva VIGOTSKI a estabelecer um conceito extremamente importante para organizar e dirigir de maneira mais acertada o trabalho com esse tipo de aluno. Nos referimos ao conceito de defeito primário e secundário, o qual, postula que o defeito primário é o que resulta do caráter biológico, a perda da visão, da audição, a lesão na criança retardada mental, etc.; e o de uma educação adequada desde os primeiros momentos. Por isso em sua obra VIGOTSKI assinala que está claro que a cegueira e a surdez por si mesmo são fatos biológicos, e em nenhuma medida são fatos sociais, por isso o educador tem que preocupar-se não tanto com esses fatos por si mesmos como com suas consequências sociais. No plano do desenvolvimento intelectual e da compensação dialética da relação entre desenvolvimento e o ensino, as concepções de VIGOTSKI como já se tem assinalado constituem uma concepção fundamental e que proporciona à pedagogia e à defectologia uma base teórica que lhes permite orientar o processo de ensino e à educação, em um sentido construtivo e progressista. (VIGOTSKI, 1997, p. iii)2. Neste sentido, será utilizada nesta dissertação a terminologia “pessoa com deficiência” (mental, física, auditiva, visual). Ao utilizar terminologias como “deficiente”, “deficiente mental/auditivo/visual/físico”, “excepcional” e outros termos identificados entre aspas, estarei citando o termo do qual fez uso dado autor e/ou o termo predominantemente utilizado em dado período histórico. Este trabalho foi estruturado em três capítulos. No primeiro, aborda-se os antecedentes históricos que estão imbricados nos atendimentos ofertados pelo Governo do Estado do Paraná nas décadas de 1970 e 1980. Neste sentido, elencam-se três categorias presentes na educação da pessoa com deficiência: o atendimento pelo setor privado/filantrópico assistencialista, o qual é o cerne das escolas especiais; atendimento educacional às pessoas com deficiência pelas escolas públicas do ensino regular, o qual foi oficializado pelo Estado Brasileiro por meio da Lei de Diretrizes e Bases da Educação nº. 4.024/61; e a influência médicopedagógica por meio da concepção biológica presente na educação da pessoa com deficiência. 2 As referências citadas de Vigotski (1997) são da tradução do grupo de estudos Educação da Pessoa com Deficiência em Vigotski, da obra de VIGOTSKI, L. S. Fundamentos de Defectologia. Tomo V. Obras completas. Havana: Editorial Pueblo y Educación, 1997. 25 No segundo capítulo, por meio das iniciativas do governo federal para a definição de políticas públicas voltadas às pessoas com deficiência, analisa-se o processo de implementação da Educação Especial durante o período de 1970 a 1980, considerando, dentre as normas implementadas, o Decreto nº. 1044/69 e as Diretrizes para Educação Especial, promulgadas pelo CENESP, articulando seu processo de implantação com as influências sociopolíticas do período, abordando os movimentos sociais em prol da educação especial que se intensificou a partir da década de 1970 e a reforma do ensino médio, ocorrida por meio da “Lei de Diretrizes e Bases do Ensino de 1.º e 2.º Graus, de 1971” (CUNHA, 1985, p. 253), os quais expressam a correlação de interesses antagônicos que influenciaram os rumos da educação especial. No terceiro capítulo apresenta-se uma análise das políticas da educação especial estabelecidas pelo Governo do Estado do Paraná de 1970 a 1980, considerando as ações que antecedem esse período, ocorridas na década de 1960. Primeiramente, abordam-se questões sócio-políticas que influenciaram o processo de implantação da educação especial paranaense. Em seguida, faz-se análise das legislações que nortearam os atendimentos educacionais da pessoa com deficiência neste Estado, de modo a identificar as diretrizes e os serviços estabelecidos para os atendimentos nas áreas das deficiências visual, física, auditiva e mental. 26 CAPÍTULO I - Aspectos históricos do atendimento educacional do “deficiente” Neste capítulo, serão abordados aspectos históricos com o objetivo de compreender o atendimento institucional do “deficiente” no Estado do Paraná, durante o período de 1970 a 1989. Durante as décadas de 1970 e 1980, o atendimento educacional formal “do deficiente” foi realizado por meio de diversas modalidades, tais como: serviços especializados, classes especiais, escolas especiais e institutos1. Na rede regular de ensino, alguns atendimentos foram ofertados, como serviços especializados e classes especiais. Nesse período já ocorria a coexistência de atendimentos destinados aos “deficientes” pelos setores privado/filantrópico e pelo sistema público de educação, o que pressupõe uma análise dos condicionantes históricos que levaram a essas práticas. Essa oferta se consubstanciou por uma determinada forma e por um determinado conteúdo. A forma diz respeito ao caráter da instituição em que o serviço era ofertado, no setor público ou privado, sendo esta condição estabelecida por meio de políticas de Estado. Como conteúdo, compreende-se as finalidades expressas na política de atendimento educacional, bem como a concepção “do deficiente” que estava associada às ações e propostas pedagógicas das diferentes instituições. Neste sentido, o atendimento “do deficiente” foi e é produzido na relação homem-sociedade-homem. Neste contexto, novas necessidades básicas se estabelecem de acordo com as condições materiais existentes. O modo pelo qual os homens produzem seus meios de vida depende, antes de tudo, da própria constituição dos meios de vida já encontrados e que eles têm de reproduzir. Esse modo de produção não deve ser considerado meramente sob o aspecto de ser a reprodução da existência física dos indivíduos. Ele é, muito mais, uma 1 O Dicionário HOUAISS da Língua Portuguesa (2004, p. 1627) define a palavra instituto como “aquilo que está estabelecido como regulamento, regra ou regime. Regra de vida de uma ordem religiosa estabelecida no momento de sua fundação”. Neste sentido, pode-se constituir uma escola denominando-a de Instituto e, em decorrência, ela irá se estruturar de acordo com seu regimento interno. Um instituto também pode ser definido como um estabelecimento de moradia que proporciona educação a seus internos ou outras atividades previstas no regimento. Por outro lado, a palavra escola, em se tratando de espaço físico, é definida pelo dicionário HOUAISS da Língua Portuguesa (2004, p. 1206) enquanto “estabelecimento público ou privado onde se ministra ensino coletivo”. Esta palavra, conjugada a um adjetivo ou substantivo, pode ter suas ações redefinidas como escola especial ou escola residência. 27 forma determinada de sua atividade, uma forma determinada de exteriorizar sua vida, um determinado modo de vida desses indivíduos. Tal como os indivíduos exteriorizam sua vida, assim são eles. O que eles são coincide, pois, com sua produção, tanto com o que produzem como também com o modo como produzem. O que os indivíduos são, portanto, depende das condições materiais de sua produção. (MARX e ENGELS, 2007, p. 87). A organização estrutural de uma dada sociedade vai estabelecer a forma de atendimento do “deficiente”, estando, portanto, alinhada com as condições materiais que o homem produz. Com base neste condicionante, tratar-se-á da educação voltada ao “deficiente”, que foi se desenvolvendo e se constituindo durante as décadas de 1970 e de 1980. Este capítulo está organizado em três tópicos, os quais contemplam as categorias de instituições privado/filantrópico-gratuita, o sistema público de ensino e a concepção “do deficiente”. Como a questão a ser tratada é a educação formal, para essa análise tomar-se-á como ponto de partida a influência médico-pedagógica no atendimento educacional. No segundo tópico, objetiva-se compreender como se estabeleceu o atendimento educacional “do deficiente” nas décadas de 1970 e 1980 até culminar no modelo presente. Para tanto, tomar-se-á alguns antecedentes históricos que são fatores essenciais para tal análise, pois, observa-se que estes atendimentos possuíam expressões da filosofia teocêntrica e das ciências naturais. No terceiro tópico, serão abordados alguns elementos que possibilitam expressar como se originou o atendimento “do deficiente” na escola pública brasileira, bem como a sua manutenção e expansão em escolas especiais. Para tanto, tomar-se-ão alguns elementos históricos da produção da escola pública e a lei de Diretrizes e Bases da Educação, Lei nº. 4.024/61, objetivando explicitar os embates entre os interesses da fração social que defendia a escola pública e a que defendia uma educação mais conservadora e elitista. 28 1.1 Aspectos históricos da influência médico-pedagógica na educação “do deficiente” A abordagem médico-pedagógica foi fruto do desenvolvimento da medicina que ocorreu devido a estudos iniciados por alguns médicos para compreender problemas de saúde que, no período medieval, acometiam os homens. Isto significa que a abordagem clínica presente na educação do “deficiente” nas décadas de 1970/1980 originou-se de forma embrionária, numa sociedade regida por princípios teocêntricos. Assim, a verdade absoluta era pautada pelas ações da igreja Católica Apostólica Romana. Foi por volta do século XV que os médicos e alquimistas Paracelso (14931541) e Cardano (1501-1576), começaram a se dedicar à compreensão de problemas relacionados às questões de saúde, como a manifestação de comportamentos “atípicos” e de “anomalias” no homem, pois buscavam superar as explicações sobrenaturais existentes naquela época. Eles realizaram estudos para explicar as causas de demência2 e amência. Desse modo, definiram que a doença mental era causada por questões orgânicas. Entretanto, por serem homens de seu tempo, século XVI, permaneceram as explicações supersticiosas entrelaçadas às explicações baseadas na ciência, as quais estavam pautadas no inatismo, fato que determinava que pouco poderia ser feito por aqueles que padeciam desse tipo de doença (PESSOTTI, 1984, p. 14-15). Outro médico a dedicar-se à questão da superação da perspectiva mística em relação ao “deficiente” foi Fitz-Herbert que, pela primeira vez, em 1534, definiu a “natureza patológica da deficiência e da loucura”, que passou a ser usada como regulamento por meio da primeira Lei publicada na Inglaterra. Essa nova conceituação tendeu a superar as superstições originadas das explicações místicas. Assim, a “loucura” e a “idiotia” passaram a ser compreendidas como “enfermidade ou produto de infortúnios naturais” (PESSOTTI, 1984, p. 17). A conceituação de “bobo” ou “idiota” foi pautada na ausência ou perda da razão. Para essa verificação, a metodologia era estruturada com base na 2 Conforme o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2004, p. 186; 934) demência consiste na “perda de origem orgânica, frequentemente progressiva, sobretudo da memória, mas que também compromete o pensamento, julgamento e/ou a capacidade de adaptação a situações sociais” e, amência, consiste na “ausência de razão; loucura, demência”. 29 observação do desempenho das atividades que a pessoa desenvolvia em sua vida diária, considerando como padrão o comportamento social vigente. Essa metodologia levou progressos na compreensão entre a idiotia e loucura rumo à superação das explicações místicas, apresentadas, inclusive, por médicos que se dedicavam aos estudos acerca da “amnésia” e da “demência” (PESSOTTI, 1984, p.15). Em relação ao surdo, destaca-se que, anteriormente ao médico Pereire3, o médico francês Dr. Laurent Joubert (1529-1582) dedicou um capítulo de seu livro, intitulado Erros Populares Relativos à Medicina e ao Regime de Saúde à questão da educação para esse tipo de deficiente. Como pressuposto para afirmar que o surdo poderia desenvolver a fala no processo de educação, Joubert se fundamentou no princípio de Aristóteles segundo o qual o homem é um ser social capaz do ato de comunicar-se (SILVA, 1987, p. 288). Os surdos também eram objeto de pesquisas realizadas por médicos frente à compreensão da surdez como “anomalia”. Entretanto, as pessoas dementes e amentes, dentre estas os “deficientes mentais evidentes”, eram consideradas dignas de tratamento e complacência. Neste contexto, não havia classificação de “deficientes”, visto que estes eram compreendidos como portadores de doença. Até por volta do século XVII, a atuação médica centrava-se no foco de atendimento voltado para o isolamento e a segregação daqueles que eram considerados doentes, “inválidos” e ou perigosos para a sociedade. Isso era realizado por meio de internamentos em hospitais e em asilos. Aos mais favorecidos, o atendimento dispensado era o domiciliar. A segregação fazia parte da cultura e da ação médica em casos de doenças transmissíveis e desconhecidas, objetivando controlar e evitar a disseminação das mesmas, pois os recursos da medicina eram mais tácitos que científicos e também precários. Este procedimento também era utilizado para os casos de pessoas com comportamentos “atípicos”, a fim de manter certo controle social frente aos padrões culturais do período. 3 Conforme Tezzari (2009), Pereire foi médico francês, apresentado “como matemático português e também como pedagogo espanhol. Seu nome era Jacob Rodrigues Pereira (ou Pereire) e nasceu em 2 de abril de 1715, de pais portugueses. Residiu na fronteira da Espanha devido a perseguições político-religiosas por ser judeu converso. Em Paris, ficou muito conhecido por criar uma metodologia revolucionária para ensinar a linguagem a surdos-mudos (denominação da época) e foi instrutor dos surdos-mudos de 1734 a 1780 (ano em que morreu). Teve uma irmã surda, nascida vários anos depois dele, que parece ter sido o ponto de partida de seu trabalho (TEZZARI, 2009, p. 85). 30 Os estudos continuaram nessa área, pois, posteriormente a Paracelso e Cardano, outros médicos dedicaram-se em compreender os problemas de amência e demência que afetavam os homens numa perspectiva científica. Dentre esses encontram-se, conforme Pessotti (1984, p. 103): “Pinel (1745-1826), Belhomme, Fodéré (1764-1835), Esquirol (1772-1840)”, entre outros. No âmbito da ciência, as perspectivas de conceituação foram se alterando. Assim, por meio da contribuição de médicos, anatomistas e juristas, o conceito de deficiente mental foi, gradativamente, se modificando na tentativa de superar a concepção mística com vista para uma perspectiva científica acerca da deficiência. Médicos como Paracelso e Cardano desenvolveram seus estudos numa perspectiva naturalista da deficiência. Já Willis, foi considerado um naturalista organicista. Somente com Torti é que os “fatores ambientais” começam a ser levados em consideração e possíveis causadores de deficiência. Neste contexto, o processo de superação da compreensão mística e da afirmação científica foi se estabelecendo, pois os estudos realizados pelos médicos buscavam explicações pautadas nas ciências naturais, indo, pois, de encontro às explicações místicas disseminadas pela religião. (PESSOTTI, 1984, p. 20-21). A deficiência, na qualidade de questão médica, à época, séc. XVII, era determinante e fortemente estabelecida. Segundo Pessotti A deficiência é um problema médico, portanto passível de tratamento; cabe ao médico alterar os hábitos (mores) pelo exercício de uma medicina moral. O exercício dessa medicina é a correção ou instalação de noções e de repertórios comportamentais; daí, designar ele de ‘ortopedia mental’ ou ‘ortofrenia’ tal medicina moral, verdadeiro método de modificação de comportamento, na conotação atual desses termos, em nenhum momento visa produzir, neutralizar ou eliminar atividades com estruturas neurais ou cerebrais: consiste em arranjar condições emocionais e ambientais ótimas para a ocorrência de comportamentos desejáveis e para a cessação de atividades não queridas. Efetivamente, era difícil para um médico de vinte e poucos anos, em 1800, admitir que a deficiência – fosse ela idiotia (‘idiotismo’), imbecilidade, amência ou oligofrenia – pudesse ser confiada aos pedagogos de seu tempo, seja pelo completo desinteresse das doutrinas pedagógicas pelo assunto, seja porque não havia qualquer tradição didática para a educação especial, seja ainda porque, tradicionalmente desde Paracelso e Cardano, amência e demência eram processos de patologia cerebral e, portanto, assunto privativo do médico. (PESSOTTI, 1984, p. 41-42). 31 A compreensão do “deficiente” se dava no sentido de “adestrar” a pessoa ao comportamento desejável socialmente, sendo esta uma atividade atribuída aos médicos por ser considerada uma disfunção biológica, sem a possibilidade de se educar o “deficiente” visando o desenvolvimento das potencialidades que o permitisse exercer atividades laborais mais complexas. O médico Jean Marc Gaspard Itard (1774-1838), mesmo com uma compreensão médica de “doença” acerca da deficiência, fez uma trajetória diferente. Dedicou parte de sua vida como “médico-chefe” do “Instituto de Surdo-Mudo”, desenvolveu o método da leitura labial e o ensino da linguagem oral, tendo também cuidado da educação de Vitor de Aveyron4. Devido a isso, Itard é considerado um dos pioneiros na educação de surdos, o primeiro pedagogo da oligofrenia e teórico da educação especial de deficientes mentais (PESSOTTI, 1984, p. 30). Itard, que trabalhava com um foco educacional, naquele momento representou a ruptura da postura determinista em relação ao deficiente mental e ao surdo, pois partia da possibilidade de se promover a educação por meio do desenvolvimento das sensações para apreensão de conhecimento, objetivando a mudança de comportamento. Itard acreditava que eram as sensações que originavam as ideias. Discípulo e seguidor das ideias de Itard, Edouard Séguin (1812-1880) deu continuidade aos estudos relacionados ao deficiente mental, buscando avançar em questões que compreendia serem limitadoras na pesquisa de seu mestre. Afirmava que a constituição da inteligência e do raciocínio ocorria por meio da “correlação e combinação” das sensações. Foi com essa compreensão que ele organizou o trabalho de atendimento médico-pedagógico no Hospital de Bicêtre, em Paris. Além disso, caracterizou a deficiência mental e participou da votação da lei que criou as classes especiais nas escolas primárias, sendo considerado o criador dos fundamentos dos métodos da Educação Especial e fundador da primeira escola integral para crianças atrasadas, também em Paris. Denominou o seu método de 4 Victor de Aveyron foi um menino encontrado e capturado na Floresta de La Caune, localizada ao sul da França, em 1797, com hábitos selvagens. “[U] infeliz se encontrava [U] muito abaixo de qualquer dos nossos animais domésticos; seus olhos sem fixidez, sem expressão, errando vagamente de um objeto a outro, [U] o tato que não distinguia um objeto em relevo de um corpo em pintura; o órgão do ouvido insensível aos mais intensos ruídos, como à música mais envolvente; a voz reduzida a um estado de completa mudez e não deixando escapar mais que um som gutural e uniforme; o olfato tão pouco refinado que ele recebia com a mesma indiferença o odor dos perfumes e a exalação fétida das imundícies de que estava repleto seu leito; enfim, o órgão do tato restrito às funções mecânicas de preensão dos corpos” (PESSOTTI, 1984, p. 38). 32 Médico-pedagógico para o atendimento educacional às crianças com “idiotia”. Nesse processo, considerou as anomalias fisiológicas e psicológicas da criança, mas, ao mesmo tempo, desenvolveu uma proposta educativa que partia daquilo que já era do conhecimento de cada criança (TEZZARI, 2009, p. 98; 217). Apesar de o termo “médico-pedagógico” ter sido criado por Séguin para definir seu método de ensino ao “deficiente mental”, no decorrer da história esse termo se constituiu na expressão do atendimento educacional dos “deficientes físico”, visual, auditivo e mental, baseados na compreensão e na padronização do funcionamento orgânico do homem. Maria Montessori (1870-1952), primeira médica italiana, foi outro expoente que se dedicou à educação do “deficiente mental”, sendo que o seu método de ensinar foi aplicado de forma universal para todas as crianças. Sofreu grande influência do trabalho de Edouard Séguin, tendo se baseado, a princípio, nos materiais didáticos produzidos por ele para confeccionar o seu próprio material e método de ensino. Para pensar em seu trabalho como médica-educadora fez uso dos três tempos definidos por Séguin, a saber: fixação por repetição de conteúdo significativo, reconhecimento da resposta correta e o referenciar-se a algum objeto, fato, texto, música, que não está presente na atividade. Nesse sentido, pode-se considerar que os médicos foram revolucionários na produção científica, por superarem as compreensões baseadas na metafísica, por meio de teorias que se constituíram em compreensões baseadas no biológico. Porém, num segundo momento, tornaram-se conservadores, pois, “os deficientes” passaram da hegemonia do dogmatismo e fatalismo da cultura teológica e mística para ficarem entranhados no determinismo expresso pela medicina. O “deficiente” deixou de ser estigmatizado pela concepção mística para ser visto como inútil, incapaz e doente. Nesse sentido, defendia-se que, na condição de doente e incapaz, o indivíduo deveria ser cuidado, uma vez que era compreendido como um ser inválido para zelar por sua própria vida, por sua higiene pessoal, para tomar decisões e por ser inábil para ter no seio da sociedade o desenvolvimento cognitivo igual aos demais. Precisava também ser tratado, visto que a deficiência era compreendida com uma doença, logo, poderia ser controlada ou curada. Pessotti (1984, p. 42) expressa que “mediante tal concepção frente os considerados ‘deficientes”, foi um avanço passar para o crivo dos médicos, que 33 realizavam avaliações focadas no funcionamento orgânico do indivíduo. Essa avaliação tinha como pressuposto o funcionamento do corpo humano padronizado. Partia-se da ideia de que todos deveriam andar, ver, ouvir, raciocinar e possuir comportamento satisfatório para a cultura do momento. Com estes pressupostos, os médicos superaram as explicações místicas, porém fizeram prognósticos reducionistas, sobretudo quanto a possibilidade “do deficiente” ser educado. Esse avanço da medicina estava vinculado ao movimento filosófico-social que foi produzido em decorrência do desenvolvimento socioeconômico e científico que levou a burguesia e os filósofos a contraporem-se ao dogmatismo da filosofia teológica ou da teologia. Destacam-se dois grandes movimentos que contrapuseram o dogmatismo da Igreja: o Renascimento5 (séculos XIV-XVI) e o Iluminismo6 (século XVIII). Conforme Mello e Costa (1993, p. 41; 83), ambos os movimentos – apesar dos contextos e características distintas, bem como do distanciamento de mais de um século entre um e outro – são considerados parte integrante da transformação da “passagem da idade média” para a moderna Pessotti (1984, p. 45), ao discorrer acerca do trabalho do médico Itard, menciona intelectuais como Comênius (1592-1670), Locke (1632-1704), Rosseau (1712-1778) e Condillac (1715-1780) – estes ligados aos movimentos renascentista e iluminista –, que o influenciaram em suas pesquisas, estas voltadas para o processo educacional de Victor de Averon. Esses intelectuais explicitaram em suas obras suas compreensões acerca da educação de homens que estavam vivenciando a transformação de uma sociedade organizada e estruturada com base no trabalho servil para uma sociedade centrada na relação de trabalho assalariado, 5 O Renascimento voltou-se de forma mais contundente na contraposição do dogmatismo da Igreja por meio da expressão artística, da retomada dos estudos dos clássicos, da valorização do homem. “No Renascimento as ciências não tiveram um desenvolvimento tão fértil quanto as artes e as letras (...). De maneira geral, a Reforma e a Contra-Reforma impuseram o fim do Renascimento. No entanto, o racionalismo e o espírito crítico não foram completamente sufocados; iriam reaparecer de forma muito mais contundente no empirismo inglês do século XVII e no movimento iluminista francês do século XVIII. Neste século a burguesia já estaria amadurecida para criar e impor uma cultura própria à sociedade europeia”. (MELLO;COSTA, 1993, p. 41). 6 Durante o movimento do Iluminismo a burguesia já se constituía como classe social, defendendo seus interesses, estes pautados na razão, na ciência, na liberdade, no individualismo. “O ponto mais alto da revolução intelectual, o ápice de seu desenvolvimento, ocorreu durante o século XVIII, na França. Chamado de Iluminismo ou Ilustração, constituiu uma fermentação de ideias que terminou por exercer profunda influência no pensamento e nas ações da humanidade. Os iluministas foram os grandes críticos do absolutismo francês, das velhas instituições econômico-sociais francesas e da Igreja”. (MELLO; COSTA, 1993 p. 83). 34 em que o princípio vigente era o da liberdade para vender sua força de trabalho em troca de salário. A nova sociedade, que teve seu marco histórico-político com a Revolução Francesa, em 1789, revolucionou a forma como o homem era concebido nas relações de trabalho, representando, assim, a vitória da burguesia sobre a aristocracia, e a vitória do liberalismo sobre o absolutismo (MELLO; COSTA, p. 1993, p. 136). Entretanto, a Revolução Industrial7 ocorreu na França somente a partir de 1830, embora tenha se iniciado na Inglaterra já por volta de 1767, tendo sido marcado pela substituição “da energia física pela energia mecânica” e pela produção manufatureira (MELLO; COSTA, p. 1993, p. 153). Nesse processo de substituição, os artesões perderam a capacidade de manutenção dos meios de produção e, posteriormente, com o advento da indústria organizada perderam também a capacidade de compreender os passos pelos quais a matéria-prima passa até chegar ao produto final. A própria manufatura tornou-se insuficiente, então; o vapor e a maquinaria revolucionaram a produção industrial [...]. O crescente emprego de máquinas e a divisão do trabalho, despojando o trabalho do operário de seu caráter autônomo, tiraram-lhe todo atrativo. O produtor passa a um simples apêndice da máquina e só se requer dele a operação mais simples, mais monótona; mais fácil de apreender. (MARX e ENGELS, 2001, p. 9). O trabalho fragmentado e limitador do desenvolvimento das potencialidades humanas também foi apropriado pela educação. Segundo Marx, A divisão social do trabalho faz com que a atividade intelectual e material, o prazer e o trabalho caibam em partilha a indivíduos diferentes, e tem, entre outras consequências nefastas para o trabalhador, a oposição entre riqueza e pobreza, depois entre saber e trabalho: Este antagonismo entre a riqueza que não trabalha e a 7 A Revolução Industrial se caracterizou por uma série de invenções que revolucionaram a forma de produção como: a máquina de fiar/1767, a máquina a vapor/1769, o bastidor hidráulico/1769, a máquina de fiar híbrida/1779, o tear mecânico/1785. Ela “irradiou-se da Inglaterra para a França e para a Bélgica; na etapa seguinte, expandiu-se para outros países europeus (Alemanha, Itália e Rússia), assim como para os Estados Unidos e o Japão. França - A grande Revolução de 1789 destruiu os remanescentes da velha ordem feudal e criou condições para o desenvolvimento do capitalismo moderno. A venda das propriedades confiscadas ao clero e à nobreza, a distribuição de terra aos camponeses e a formação de um mercado interno abriram caminho para a industrialização. Mas, a rigor, a revolução industrial francesa só começou a partir de 1830, no governo de Luís Felipe, o ‘rei burguês’, atingindo o apogeu no Segundo Império, com Napoleão III, que subiu ao trono em 1851. (MELLO; COSTA, 1993, p.153-155). 35 pobreza que trabalha para viver faz surgir por sua vez uma contradição ao nível da ciência: o saber e o trabalho separam-se, opondo-se o primeiro ao trabalho como capital ou como artigo de luxo do rico. (MARX; ENGELS, 1978, p. 11). Assim, as possibilidades de acesso ao conhecimento do indivíduo estavam diretamente articuladas a sua condição material de vida, ao mesmo tempo em que essa forma de organização socioeconômica colocava a necessidade de novo modelo de comportamento e de habilidades intelectuais. Nesse contexto, a educação, justificada pela doutrina liberal, foi tomada como base central para educar o homem para uma nova sociedade. Desse modo, a escola da burguesia revolucionária, voltada para a ampliação da produção, foi pensada para todos, devendo ser ela universal, laica, obrigatória e gratuita, objetivando a formação dos cidadãos. Havia, portanto, a intencionalidade de constituir, em cada cidadão, um comportamento que correspondesse às necessidades daquele momento. Um destes era o comportamentos de higiene e cuidados de si, balizados em orientações médicas, que eram apregoadas em “manuais de boa conduta” e alicerçadas no racionalismo do Iluminismo (LAROCA; MARQUES, 2010, p. 648). A necessidade de criar hábitos de higiene na população, segundo Foucault (1979), ocorreu mediante o advento da industrialização e da urbanização do século XVIII, quando problemas ocasionados por ambientes insalubres, ausência de esgotos, cemitérios com corpos expostos ao céu aberto, isolados do restante da cidade apenas por um muro, intensificaram-se nos aglomerados e centros urbanos produzindo, consequentemente, epidemias. Esses problemas urbanos cresceram com o êxodo rural, em que o número elevado de aglomerações de pessoas, desprovidas de uma política de saneamento, acarretou a ampliação do número de óbitos devido à proliferação de doenças e de acidentes de trabalho nas indústrias, obrigando, assim, maior desenvolvimento da medicina para combater as doenças e evitar as mortalidades entre os pobres, que formavam a mão de obra para as indústrias. Apesar disso, um dos principais objetivos para desenvolver políticas de higiene e saneamento era assegurar o bem-estar dos ricos, evitando a proliferação de doenças. Embora tais mudanças nas ações da medicina tenham sido desenvolvidas pela França e pela Alemanha, foi na Inglaterra que, em função da 36 Revolução Industrial, surgiu uma proposta mais eficaz de atuação da medicina (FOUCAULT, 1979, p. 79-88). Com o movimento de controle de doenças, os médicos, consequentemente, assumiram cargos administrativos e começaram a definir procedimentos padronizados, ou seja, normalizações a serem aplicados em sua formação e em sua atuação profissional. Essa concepção de normalização se disseminou para o campo social, tendo adentrado, sobretudo, na organização militar e na formação de professores pela escola normal. Com base na necessidade de promover a higiene mental e corporal para uma sociedade moderna, os médicos prescreveram procedimentos que causaram interferências na existência da população e no seu comportamento, tanto no seio familiar, quanto no ambiente de trabalho. Essa condição se expandiu, acarretando uma avalanche de orientações que alcançaram aspectos relacionados à sexualidade, à alimentação, ao uso de bebida, ao vestuário, à organização dos edifícios e de mobiliários. Esse processo tornou-se tão poderoso que se criou, primeiramente na Alemanha, a função de polícia médica, que atuou mais efetivamente nos séculos XVIII e XIX (FOUCAULT, 1979, p. 83). Adiante, se abordará como no Brasil essa influência configurou o cargo de inspeção escolar, que foi atribuída ao médico escolar. O modo como os conhecimentos da medicina foram incorporados no atendimento educacional contribuiu para a compreensão de como a abordagem clínica influenciou o processo de educação dessas pessoas no século XX. Associando tal perspectiva ao movimento higienista, Bianchetti (1995, p. 17) menciona duas ramificações dessa herança: uma que defendia a purificação da raça, materializada no movimento do nazismo na Alemanha e no movimento arianismo, na Bósnia – estando, possivelmente, a eugenia8 vinculada às questões de interesse econômico. A segunda ramificação está nos trabalhos de Itard e Séguin, este último considerado o criador da teoria psicogenética. O Brasil também vivenciou os embates entre a razão e a religião como fonte das explicações dos fatos da realidade. Segundo Almeida e El-Hani (2007, p. 6) o estudioso Domingues Guedes Cabral, que em 1875 desenvolveu pesquisas para sua tese de doutorado, intitulada Funções do Cérebro e submetida na Faculdade de 8 Eugenia significa “geração boa e conhecimentos scientificos que concorrem para melhoramento physico e mental das gerações futuras e a necessidade de restringir a propagação de indivíduos doentes, monstruosos, degenerados e de deficientes mentais” (LAROCA; MARQUES, 2010, p. 649). 37 Medicina na Bahia, tendo sido recusada, frente à polêmica que ocasionou junto à Igreja Católica e seus partidários. Seu trabalho persistia em comprovar que todas as ações do homem eram oriundas do funcionamento do cérebro e das atividades que o homem realizava no social. Um dos debates mais calorosos da segunda metade do século XIX dizia respeito ao surgimento das raças humanas. Trata-se do famoso debate entre monogenismo e poligenismo. As duas possibilidades levavam à mesma conclusão "científica": a superioridade da ‘raça’ branca. Guedes Cabral pode ser entendido como um dos pensadores brasileiros então dedicados a este assunto [...]. O projeto de Cabral era arrancar o homem das mãos dos ‘metafísicos’ e devolvê-lo à sociedade pronto para dar sua contribuição, não mais precisando de noções acerca da existência de uma alma imaterial para explicar a superioridade de algumas raças [...]. (ALMEIDA; ELHANI, 2007, p. 11). Essa citação apresenta duas questões: o avanço da ciência médica, contrapondo-se aos princípios metafísicos arrolados pela Igreja para responder as manifestações humanas, e o caminho que os médicos tomaram para, concomitantemente, clarear tais manifestações, de modo a esclarecer as diferenças entre os mais favorecidos financeiramente e os menos abastados. Na busca por explicar a superioridade de alguns homens, foi pesquisado o tamanho do crânio e, a partir dessa característica, se definia maior ou menor capacidade de inteligência. Segundo Cabral, o tamanho médio do cérebro de ‘idiotas’, tanto em homens como em mulheres, é inferior ao de pessoas ‘normais’. [...] Ora, o volume do crâneo nas diversas raças, dando-nos a medida do desenvolvimento do cérebro, dá-nos também a medida da capacidade intelectual de cada uma delas. [...] (ALMEIDA; EL-HANI, 2007, p. 117). Os estudos pautados na medida do cérebro para definir “normalidade”, “idiotia”, “superioridade entre raças” formaram a base das explicações do movimento eugenista. Considerando que Cabral não foi o único a dedicar-se a tais temáticas, a questão da eugenia manteve-se nos debates e nas pesquisas desenvolvidas no Brasil durante aquele período (séc. XIX). Outro movimento que foi assimilado por médicos brasileiros e acabou por se articular com o eugenismo foi a manutenção da higiene e saúde pública devido às 38 epidemias. Mais tarde, tal movimento deu origem à inspeção médica escolar (JANNUZZI, 2004, p. 34). Bueno (1993, p. 88) e Jannuzzi (1985, p. 25) consideram que a preocupação com a deficiência mental estava diretamente ligada à questão da higiene da população, à eugenia e à “regeneração física e psíquica”, o que corroborou, em 1911, para a criação do serviço de saúde pública e da inspeção médico-escolar na cidade de São Paulo. Esse movimento contribuiu para a ampliação da segregação do deficiente no ensino regular, pois foi responsável por criar as classes especiais e formar os especialistas para esse atendimento. Em 1917 foi criado o serviço médicoescolar, que definiu padrões de avaliação entre normalidade e “anormais”. Nesse sentido, com base nos atendimentos pedagógicos que se iniciaram em 1917, formularam-se as bases de seleção e caracterização de “normais” e “anormais”, separando-os em anormais intelectuais, anormais morais e anormais pedagógicos. Um dos meios utilizados para fazer as avaliações eram os testes de inteligência por meio dos quais comparavam-se alunos com a mesma idade. Além disso, também se observava a atenção e a memória. Contudo, não havia uma definição do que se entendia por inteligência para efetuar a classificação dos alunos. De acordo com Jannuzzi (2004), acreditava-se que o parâmetro para a definição de inteligência estava atrelado ao rendimento escolar. A autora destaca também que qualquer comportamento “atípico” manifestado pelos alunos, como “astênicos, indiferentes, apáticos, instáveis, irrequietos, impulsivos e ciclotímicos”, lhes custaria o rótulo de “portadores de defeito pedagógico”. Nesses casos, a responsabilidade de identificar e classificar os alunos “anormais” era do médico escolar (JANNUZZI, 2004, p. 30-40). Com os conhecimentos desenvolvidos pela medicina, somados ao intuito de organizar a educação dos deficientes, os profissionais articularam a medicina e a psicologia de modo a elaborar modelos de avaliação para definir o padrão de normalização visando a formação de salas de aulas com turmas homogêneas. Neste contexto, Helena Antipoff criticou fortemente a utilização de testes psicológicos, pois acreditava que por meio deles não se era possível aferir a capacidade “inata”. Ainda assim, contrariamente, fez uso de testes como critério para classificar os alunos e agrupá-los, constituindo, assim, salas de discentes que não apresentavam divergências significativas de comportamento e de aprendizagem. Com a aplicação 39 dessa medida, os alunos foram classificados como “retardados mentais”, “retardados sensório-motor” e como sendo dotados de “inteligência tardia” (BUENO, 1993, p. 92; JANNUZZI, 1985, p. 86). Como demonstra a citação a seguir, estas questões eram discutidas em eventos científicos da área da saúde e educação: Tanto é assim que a quarta conclusão do 1º Congresso Nacional de Saúde Escolar definia que a deficiência mental que constitui sério empecilho à redução do número de repetentes, exige corretivo enérgico e de caráter médico-pedagógico. A homogeneização das classes por meio de testes, ou pela intervenção do professor e do médico, com ajuda da psicologia aplicada, das mensurações corporais e da avaliação dos alimentos dos alunos, ou, ainda, pelo seu exame pré-escolar, com a organização de um modelo de ficha para a correção, no início do ano letivo, para o grande mal, parece ser o remédio, bem como o reajustamento ao fim de um ou dois meses. A formação de classes especiais com número reduzido de ‘alunos-problema, é aconselhável’. (BUENO, 1993, p. 93-94). Nesse sentido, apesar da importância do diagnóstico médico para o esclarecimento das possibilidades físicas e sensoriais do aluno, torna-se imprescindível lembrar que o diagnóstico é um ato médico e, diante dessa condição, a atividade pedagógica passou a ser desenvolvida com base na prescrição médica e visando o atendimento de medidas a serem adotadas para atender a criança com algum tipo de necessidade especial ou deficiência. Observa-se que, ainda hoje, esta condição é bastante evidente na área da educação especial. A ação pedagógica focada em diagnóstico restritivo e não funcional, como será exposta adiante, revela que pode disseminar comportamentos e atitudes de preconceitos, de discriminações, bem como limitar o desenvolvimento social e cognitivo da criança com deficiência, a ponto de segregá-la. 1.1.1 A abordagem médico-pedagógica no Estado do Paraná No Estado do Paraná, a influência da abordagem médico-pedagógica no atendimento a esse público não foi diferente em relação ao restante do país, pois constituiu-se num movimento cosmopolita, iniciado nos países mais desenvolvidos e trazido ao Brasil por pessoas que lá foram estudar, ou por profissionais que vieram trabalhar no Brasil, como, por exemplo, Helena Antipoff, precursora de uma 40 modalidade de escola especial. No ensino regular, essa influência ocorreu, também, por meio do movimento higienista promovido pelos médicos. No Estado do Paraná, durante as três primeiras décadas do século XX, médicos, engenheiros, professores e demais profissionais preocupados com a instrução pública e envoltos no processo de modernização do país, alavancado pela industrialização, pelo movimento em prol da alfabetização e pela escolarização da população, iniciaram um trabalho baseado na biologia, psicologia, antropologia e higiene. Esse movimento tinha por objetivo conquistar espaço no ambiente escolar, pois acreditava-se que a modernização, tendo como princípio norteador os conhecimentos da biologia, dependeria também da mudança de comportamento e de hábitos de higiene. Uma das ações desenvolvidas sob este viés foi a elaboração de um curso de formação para professores na escola normal com disciplinas que permitiram trabalhar esta temática (PYKOSZ E OLIVEIRA, 2009, p. 136). A Organização Sanitária Escolar do Paraná, dentre as suas atribuições, teve de disseminar na escola a proposta higienista, que deveria atingir toda a sociedade, pois acreditava-se que, por meio da educação das crianças, o caminho seria mais adequado para ampliar aos seus pais e familiares os ensinamentos de higiene e de prevenção. Nesse sentido, destaca-se o que foi dito pelo Dr. J. P. Fontenelle do Departamento Nacional de Saúde Pública, em entrevista à revista O Ensino. Fontenelle afirmou que a correção dos defeitos corporais – entendidos como sendo anormalidades da visão e da audição, as adenóides, a hipertrofia das amídalas, a cárie dentária etc. – era adequada e propícia para a criança ter uma vida escolar mais satisfatória (PYKOSZ E OLIVEIRA, 2009, p. 137). A inspeção médico-escolar foi sancionada no Estado do Paraná por meio da Lei nº. 2.065/1921. Pykosz (2009, p. 144) lembra que a prestação deste serviço existia, porém, não havia a obrigatoriedade de ser exercido por um médico. Pykosz salienta que, no Brasil, a função de inspeção médico-escolar foi criada pelo Ministro do Império em 1889, seguindo a lógica europeia da polícia médica. A ideia de padronização tornou-se importante, tendo aspecto de política pública, tanto que o Governo do Estado do Paraná investiu em equipamentos que permitiram aos médicos e professores realizarem “exames antropológicos”. Fazia-se a medida da altura, do peso e do diâmetro do crânio. Com os resultados desse 41 exame, acreditava-se que seria possível constituir salas mais homogêneas. (PYKOSZ E OLIVEIRA, 2009, p. 144). Conforme Laroca e Marques, Como higiene da raça, a eugenia tomava para si discutir os flagelos nacionais, com destaque para: a tuberculose, consanguinidade, alcoolismo e doenças sexualmente transmissíveis. A civilidade e o autorregulamento, de acordo com os médicos paranaenses, dar-seiam por meio de várias estratégias, dentre elas desenvolver o campo fértil do espaço escolar, uma vez que a criança era considerada massa modelável, capaz de reproduzir, no ambiente familiar, as prescrições higienizadoras. Há que se considerar: a realidade sanitária das crianças, das famílias, das escolas e das professoras ganhava novos contornos no século XX (LAROCA; MARQUES, 2010, p. 642). Outros membros da sociedade civil também atuaram na produção de disciplinas sobre higiene nas escolas e na disseminação de ideias higienistas na sociedade paranaense. Alguns médicos que aderiram a essa proposta, objetivando a modernização do Estado do Paraná, produziram entre os anos 1920 e 1930 artigos para publicação nos Archivos Paranaenses de Medicina (APM) e na Revista Médica do Paraná (RMP). Laroca e Marques (2010, p. 649) afirmam que um dos primeiros médicos a publicar artigos de cunho eugenista foi Fontenelle, em 1923. O investimento na educação das crianças que frequentavam o ensino primário foi uma das estratégias utilizadas por médicos para o estabelecimento de “hábitos eugênicos e higiênicos”, que ocorrem nos primeiros 30 anos do século XX (LAROCA; MARQUES, 2010, p. 650). Portanto, defendiam a articulação entre saúde e educação, objetivando a prevenção, a formação de condutas, o controle e o “adestramento” de comportamentos com vista ao modelo europeu de sociedade moderna. Neste contexto, certamente os “deficientes” não faziam parte do grupo que consideravam “adequados” para frequentar as escolas do ensino regular, para o trabalho e para atuar em outros espaços sociais. Essa compreensão, fundada na concepção biológica que padronizava um ideal de homem, repercute, mesmo com maior ou menor intensidade, até hoje (2013) nas práticas escolares e em outras instituições. Na década de 1950, para o ingresso9 na escola normal, era exigida a apresentação de atestado médico que comprovasse não possuir nenhum tipo de 9 O documento não deixa claro se é para o ingresso de docente ou de discente. 42 “anormalidade” ou “deficiência”, tal como podemos observar na Figura 1, um documento de 1959, emitido pelo Posto de Higiene de Cascavel: Figura 1: Atestado Médico para ingresso na escola normal Carola Moreira, de Cascavel, PR. Fonte: Documento referente a Escola Normal Carola Moreira, disponível no arquivo morto do Colégio Estadual Wilson Joffre – Cascavel -PR Observa-se que as possibilidades de desenvolvimento cognitivo e acadêmico, bem como as ações pedagógicas, estavam diretamente vinculadas aos diagnósticos médicos, sendo que o profissional da medicina determinava se uma pessoa estava apta para atuar como educador ou discente num estabelecimento escolar. No documento apresentado, o conteúdo expressa que a pessoa está apta para ingressar no curso normal. Entretanto, essa forma de avaliar as condições da pessoa para o desenvolvimento de atividades laborais e ou acadêmicas é mantida até hoje (ainda que tenha sofrido algumas alterações) de acordo com a eugenia 43 social com a realização dos exames admissionais tanto no serviço público como no setor privado. Na sequência abordar-se-á o processo histórico do atendimento do “deficiente”, de modo a possibilitar o entendimento das diversas instituições educacionais e sua articulação com essa abordagem médico-pedagógica. 1.2 O atendimento institucional dos “deficientes” O atendimento educacional do “deficiente” de origem pobre e ou abandonado teve sua origem em serviços prestados pela Igreja e por profissionais da saúde que tinham preocupações de cuidar e isolar essas pessoas dos espaços sociais. Silva (1987) assinala que os primeiros hospitais bem sucedidos de cunho filantrópico foram criados no século V d.C., e denominavam-se de xenodóchium10 que eram destinados a cuidar dos pobres, doentes, com males de todos os tipos e também de “deficientes”. Essa foi uma iniciativa de cristãos que seguiam a doutrina da Igreja Católica Apostólica Romana, a qual definiu que os sacerdotes deveriam dar assistência aos pobres e doentes. Segundo Pessotti (1984, p. 5), os primeiros acolhimentos de “deficientes mentais” ocorreram em conventos e igrejas, sendo que os acolhidos, em troca, prestavam serviços a essas instituições. Ele registra que a primeira instituição de abrigo foi fundada no século XIII, na Bélgica, e consistia numa colônia agrícola, idealizada com base nos pressupostos da filosofia cristã que predominava no sistema feudal como fundamento de organização socioeconômica da época. Neste sentido, segundo Pessotti (1984) O caráter de cristão confere à pessoa valores éticos que impõem aos demais certa conduta caritativa, tolerante e magnânima, ou mesmo cautelosa ou reparadora, em nome da doutrina cristã do amor ao próximo e da teologia cristã, do pecado e da predestinação (p. 6). A citação remete à reflexão de que a doutrina cristã estava pautada no amor a Deus, que se revela nas ações necessárias para atingir o reino celestial. Neste aspecto, os ensinamentos difundidos pelo cristianismo estabeleceram ao homem 10 O autor Silva caracteriza o termo xenodóchium como “um grande e bem organizado abrigo para peregrinos e estrangeiros doentes ou com problemas, que recebia também doentes e miseráveis da própria localidade e seus arredores [...]”. (SILVA, 1987, p. 164). 44 que ele deveria realizar a caridade para com o próximo, permitindo, assim, redimirse de seus pecados e negar qualquer pensamento considerado pecaminoso. Nesse sentido, a concepção cristã sobre os “deficientes” acarretou variações na ação prática, pois eram seres compreendidos e atendidos ora por caridade, ora por serem entendidos como pecadores e, por isso, dotados de deficiência, ou até por serem possuidores de demônios, e ora por interesse econômico do clero e dos reis. Os interesses econômicos como cita Pessotti (1984), por vezes, acarretavam a forma de tratamento diferenciada, como se pode verificar na citação que segue: É do século seguinte, de 1325, a primeira legislação sobre os cuidados a tomar com a sobrevivência e, sobretudo, com os bens dos deficientes mentais11. No De praerogativa regis baixado por Eduardo II da Inglaterra encontra-se, no dizer de Dickerson (1981), um ‘guia para proteger os direitos e as propriedades dos 'idiotas' e para os cuidados quotidianos de que necessitam’. O rei devia ‘zelar primeiramente, para que os idiotas fossem plenamente satisfeitos em todas as suas necessidades, pois ele se apropriava da parte de seus bens [...]’ correspondentes às despesas com aqueles cuidados. (PESSOTTI, 1984, p. 5). A citação mencionada possibilita apontar que já havia distinção de tratamento e cuidados entre deficiente rico e o pobre, pois, o que estava em jogo não era o bem-estar ou a educação da pessoa, mas sim quem iria administrar seus bens materiais. Essa condição de privilégio no atendimento do deficiente, mesmo após dois séculos (XVI-XVII), também ocorria frente a outros tipos de deficiência. Bueno (1993) ratifica essa compreensão quando expressa: [...] Mas, nesse caso, serviria também para os surdos, já que apenas um pequeno número, proveniente das elites, usufruiu de atendimento específico. Mas como esses últimos receberam algum atendimento formal, passaram a ser considerados como privilegiados em relação aos demais. A par daqueles milhares de cegos infortunados, pertencentes ao povo miúdo, que viviam à própria sorte ou internados em asilos, alguns poucos, nesse mesmo período, conseguiram se destacar, não porque tivessem recebido atendimento especializado, mas porque a limitação imposta por sua deficiência não impedia nem o contato social, nem a aprendizagem de conhecimentos, com exceção da escrita, porque ambos poderiam se basear exclusivamente na linguagem oral. É claro que pertenciam às elites, mas não podem ser considerados como dependentes ou desassistidos. (BUENO, 1993, p. 61). 11 Embora não haja definição de deficiência mental no séc. XIII, Pessotti utiliza esta terminologia para o período mencionado em seu livro Deficiência mental: da superstição à ciência (1984). 45 A citação demonstra que a história dos “deficientes” era inerente ao modo pelo qual o homem foi se constituindo em suas relações e como foram produzindo a própria existência. Esta afirmativa está pautada em Marx e Engels (2007, p. 87), segundo os quais “[...] Ao produzir seus meios de vida, os homens produzem, indiretamente, sua própria vida material”. Logo, esta condição é uma premissa para todos os indivíduos, inclusive os deficientes. Outro aspecto subjacente a esse grupo social – e que não fugiu a regra das relações sociais do período, mas que proporcionaram certa influência no modo de atendimento educacional – foram as ações das instituições filantrópicas que, inicialmente, se deram por meio de atendimento na saúde e por religiosos. Uma das explicações para a existência do “deficiente” era a de que sua presença na vida terrena destinava-se a possibilitar ao outro fazer caridade para redimir-se dos pecados e alcançar o reino celestial. Foi a necessidade de realizar caridade ao outro, ao moribundo, doente, “débil”, “deficiente”, “retardado”, que fomentou a fundação dessas Casas de Misericórdia, cumprindo, assim, uma função social baseada na crença religiosa (BIANCHETTI, 1995, p. 11). Portanto, para compreender a influência do desenvolvimento do atendimento educacional no Brasil, toma-se como referencial a difusão dos serviços das Santas Casas de Misericórdia. Jannuzzi (2004, p. 8) considera que as primeiras instituições de caráter filantrópico/particular, geralmente de caráter religioso, que ofertavam atendimento às crianças abandonadas, loucos e doentes, tiveram influência europeia, oriunda de Lisboa/Portugal, onde a primeira Santa Casa de Misericórdia foi criada por iniciativa da Rainha Leonor de Lencastre. A possível abertura das Santas Casas no Brasil é datada a partir do ano de 1543. Há registro de que, em 1750, havia a Irmandade de Santa Ana, em Vila Rica, que em seu estatuto previa uma casa de exposto e asilo para cuidar dos desvalidos e acolher crianças órfãs e abandonadas (JANNUZZI, 2004, p. 8). A seguir está relacionada, de forma cronológica, a criação12 das Santas Casas no Brasil: Em Santos (1543), Salvador (1549), Rio de Janeiro (1552), Espírito Santo (provavelmente 1554), São Paulo (provavelmente 1599), Olinda e Ilhéus (1560), Porto Seguro (também em fins do século 12 Em relação a Santa Casa de Misericórdia de Olinda, a data de criação é 1539 que é citada pelo autor Valério Hoemer Júnior na obra “Santa Casa”, publicada em 2002, p.26 . 46 XVI), Sergipe e Paraíba (1604), Itamaracá (1611), Belém (1619), Iguaçu (1629) e Maranhão (data incerta, primeiras referências do Padre Vieira em 1653) (MESGRAVIS, 1976, p. 38. apud JANNUZZI, 2004, p. 8). A proliferação dessas instituições ocorreu para o atendimento hospitalar à população, permitindo-se diante deste quadro que o setor privado/filantrópico assumisse tal responsabilidade. No início dos atendimentos, as atividades desenvolvidas pelas Santas Casas não eram homogêneas. Por exemplo, a Santa Casa de Misericórdia de São Paulo iniciou suas atividades apenas como uma distribuidora de esmola. Essa condição se alterou quando se instituiu nela, em 1717, o serviço hospitalar; somente então passou a abrigar crianças abandonadas com até sete anos. Esse acolhimento se intensificou no século XIX. Outro meio que possibilitou também o acolhimento foram a roda de expostos13, que consistia num artefato de madeira com uma portinhola interna e giratória, fixado em um determinado local do hospital ou da instituição de caridade e no qual se depositava a criança indesejada, seja qual fosse sua condição. Esse artefato era construído de modo a impossibilitar que, aquele que viesse a colocava a criança em seu interior, não fosse visto por quem a recebia a fim de preservar a identidade do depositante. Dessa forma, criaram-se condições para evitar que a criança fosse deixada na rua ou abandonada em qualquer lugar. Figura 2 - A roda dos expostos Fonte: Disponível em: <http://intrometendo.com/roda-dos-expostos>. Acesso em 6 de abr. de 2012. 13 Também conhecida como Roda da Misericórdia, foi criada na Itália durante a Idade Média, a partir do trabalho de uma Irmandade de Caridade e da preocupação com o grande número de bebês encontrados mortos. Tal Irmandade organizou em um hospital em Roma um sistema de proteção à criança exposta ou abandonada. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Roda_dos_expostos>. Acesso em: 6 de abr. de 2012. 47 No Brasil, a primeira roda dos expostos foi construída em Salvador, em 1726. A segunda roda dos expostos foi construída no Rio de Janeiro, em 1738. As outras, em Recife, em 1789, e em São Paulo, em 1825. Segundo Jannuzzi (2004), mesmo que não constem registros de abandonos de “deficientes" nas rodas de expostos, pode-se considerar que este artefato criou maior possibilidade de acolhimento a crianças com alguma “anomalia”. Conforme a autora, “Pode-se supor que muitas dessas crianças traziam defeitos físicos ou mentais, porquanto as crônicas da época revelavam que eram abandonadas em lugares assediados por bichos que muitas vezes as mutilavam ou matavam”. (JANNUZZI, 2004, p. 9). Jannuzzi (2004, p. 10) salienta ainda que as crianças acolhidas, inclusive as com algum tipo de deficiência menos aparente, a partir dos sete anos de idade eram encaminhadas para estudar em seminários. Já as crianças mais comprometidas, em que a deficiência era mais evidente e/ou que possuíam comportamentos atípicos, estas eram levadas aos asilos que atendiam os doentes e “alienados” adultos, administrados pelas casas de Misericórdia. Mesmo havendo o acolhimento dos deficientes, o tratamento era diferenciado, de modo que, ainda no período de 1893, os doentes mentais eram considerados caso de polícia e acabavam presos em delegacias de polícia, o que justificava a pouca existência de asilos ou hospícios para acolhê-los (JANNUZZI, 2004). Historicamente, o atendimento público de saúde sempre foi deficitário, sendo que, até hoje é uma das políticas públicas mais citadas durante as campanhas eleitorais em todas as esferas de governo, mas não atendida de forma satisfatória. Se a saúde física e orgânica da população era tratada com desleixo e descaso, a saúde mental, por sua vez, recebia atenção ainda menor das autoridades públicas, sendo, muitas vezes, degradante, fato que transformava os hospícios e asilos em verdadeiros depósitos humanos, causando outros problemas além do mau atendimento. Nessa época não se tinha clara a distinção entre doença mental e deficiência mental e/ou com paralisia cerebral. O tratamento dos doentes mentais e dos que apresentavam comportamentos “atípicos” era insignificante, tanto que o primeiro hospício foi fundado na capital de São Paulo somente em 1893. Em condições precárias, o hospício era caracterizado pela falta de espaço, devido à superlotação, associada à falta de higiene. No interior, esse tipo de doente continuava a ser mantido em delegacias (JANNUZZI, 48 2004). Torna-se necessário ressaltar que apenas os “deficientes” mentais mais graves eram encaminhados aos asilos, pois os demais não se diferenciavam de modo significativo da população, uma vez que a realidade social não exigia nível de atuação que o torna-se “anormal” frente os demais membros da sociedade. Em relação às dificuldades encontradas no início do século XX, e que revelava a precariedade do serviço na área de saúde mental, Januzzi (2004) menciona que Em 1904, os médicos Juliano Moreira e Fernando Figueira fundaram o Pavilhão Bourneville no Rio de Janeiro, anexo ao Hospício da Praia Vermelha, que nasceu em razão das denúncias da comissão encarregada de investigar as condições de assistência a alienados no Hospício Nacional de Alienados e na Colônia da Ilha do Governador. A comissão [...] que relataram não poder ‘contemplar impassíveis o espetáculo angustioso das crianças passeando no Instituto da Praia da Saudade, [...] entre degenerados de toda espécie, quiçá de impulsivos, dados à pratica de atos os mais repulsivos’. Dirigindo-se ao ministro da Justiça, a comissão, depois de ponderar que ali observara com tanta surpresa crianças e adultos, alguns em completo estado de nudez, na mais revoltante promiscuidade, solicitava a construção do Pavilhão Bourneville para tratamento e educação dos pequenos infelizes, cujo estado mental poderia melhorar, se em outro local recebessem cuidados especiais (JANUZZI, 2004, p. 37-38). Pelo expresso na citação, nota-se que o abandono atingia a todos os que estavam internados nas instituições de tratamento, pois eram privados dos cuidados e do convívio das pessoas não internadas. Essa postura de segregar os considerados desajustados, “loucos”, “doentes”, pode ser também explicada pela prática oriunda da religião, que compreendia que somente os “puros e perfeitos” de corpo e alma tinham o direito ao reino dos céus. Na Província do Paraná a primeira Casa de Misericórdia14 foi fundada, em 1835, localizada em Paranaguá. Em Curitiba, apesar de a iniciativa ter sido tomada 14 Segundo Valério Henner Junior (2002, p. 26-27) os modelos das Santas Casas de Misericórdia foram reproduzidos no Brasil a partir do século XVI. Conforme o autor, “A partir do século XVI, então, nasceram as Santas Casas de Olinda, em 1539; de Santos, em 1543; Salvador, em 1549; Rio de Janeiro, em 1567; Vitória, em 1551; São Paulo, 1599: no século XVII, foram criadas as Santas Casas de João Pessoa, em 1602; Belém, 1619; São Luiz do Maranhão, 1657; no século XVII, apenas a de Campos dos Goitacazes, em 1792; e no século XIX, Resende. 1835; Paranaguá, 1835 também, e Curitiba em 1852, precisamente, no dia 9 de junho; Manaus, em 1853; Recife, em 1858 e Jaú, em 1893. No século XX mais 21 Santas Casas foram fundadas somente no Paraná”. O site Aliança Saúde aponta para as datas de criação das Santas Casas de Misericórdia em Paranaguá o ano de 1845 e a de Curitiba em 1856. 49 em 1843, somente se efetivou em 1852, tendo como finalidade auxiliar a Casa de Paranaguá devido à epidemia de “Cólera Morbo”15. No Brasil, as primeiras ações que criaram instituições específicas para o atendimento educacional aos cegos e surdos ocorreram no século XIX. Porém, isso não significou que houve a superação de compreensão do “deficiente” nos aportes confessionais e biológicos. Segundo Silva (1987, p. 285), o primeiro serviço prestado nesta área, e considerado o mais significativo, foi a criação dos institutos16 de cegos e de surdos, instituídos pelo Imperador Dom Pedro II no século XIX, pois, anteriormente, como já citado, o atendimento era realizado em hospitais e asilos. Segundo Bueno (1993, p. 85), ambos os institutos17 de cegos e de surdos do Rio de Janeiro foram criados por interesses particulares de representantes próximos ao poder político e com base nos Institutos de Paris/França. Nesse sentido, destacase a importância de José Álvares de Azevedo, cego que foi estudar em Paris no Instituto dos Jovens Cegos, fundado no século XVIII por Valentin Haüy e que, após retornar ao Brasil, em 1851, percebe o abandono da educação das pessoas cegas e, devido a esta constatação, publica a tradução do livro História do Instituto dos Meninos Cegos de Paris18, de J. Dondet. Essa tradução de Azevedo19 desencadeou discussões políticas que culminaram com o encaminhamento do projeto, feito por Couto Ferraz, para a 15 Ver no site Aliança Saúde. Hospital Santa Casa. Disponível em: <http://www.pucpr.br/saude/alianca/sta_casa/historico.html>. Acesso em: 14 de fev. de 2012. 16 Tanto o IBC quanto o INES, a partir de 1973, passaram a ser subordinados ao CENESP, pois, até esse momento estavam sob a tutela do poder central em relação às questões administrativa e financeira. 17 Maiores detalhes sobre os institutos podem ser pesquisados em Silva (1987, p. 285-287). 18 Tal Instituto foi criado com o objetivo de possibilitar aos cegos uma perspectiva de vida distinta daquela alicerçada na mendicância. A história do Instituto dos Meninos Cegos de Paris, obra datada de 1784, revelou abandono, condições precárias de funcionamento, controle sobre os internados. Revela ainda que dependiam de contribuições da sociedade filantrópica. Posteriormente, passou a ser de responsabilidade do Estado, porém a precariedade do atendimento continuou. Até 1815 foi um anexo do Hospício Quinze Vingts. A educação estava dividida em intelectual, moral e profissional em que cada diretor que ingressava a reorganizava como a instituição deveria se estruturar, conforme sua compreensão. O ensino da música era enfatizado devido às apresentações realizadas em público, instrumento de sensibilização para angariar verbas para a manutenção da Instituição. As oficinas também eram atividades constantes, seja enquanto um passa tempo, seja para adquirirem habilidades profissionais para terem uma profissão quando saíssem do estabelecimento. Estavam no programa o ensino da leitura, da gramática, da escrita, matemática, história, ciências naturais e princípios morais. Apesar de todas as dificuldades, essa Instituição foi modelo para outros países como Rússia, Áustria, Dinamarca, Suíça, Estados Unidos e Brasil. (GUADET, 1851). 19 Azevedo, em seu agradecimento ao seu pai, Manoel Alvares de Azevedo, por ter lhe enviado para estudar no Instituto dos Meninos Cegos, de Paris, registrou a importância da educação para o cego tornar-se um sujeito útil na sociedade. Em suas palavras: “[...] com efeito, eu era, por minha posição, 50 criação do Instituto, o qual foi criado pelo Imperador, por meio do Decreto nº. 1.428, de 12 de setembro de 185420, com o nome de Imperial Instituto dos Meninos Cegos (IIMC). Sua nomenclatura foi alterada em novembro de 1889, sendo denominada de Instituto dos Meninos Cegos. Em seguida, no mês de janeiro de 1890, passou a ser chamado de Instituto Nacional dos Cegos. Desde 1891, é denominado de Instituto Benjamin Constant (JANNUZZI, 2004, p. 11-12 e BUENO, 1993, p. 85-86). Os institutos, além de trabalharem com conteúdos similares ao do ensino regular do período, contemplando o ensino primário e alguns ramos do secundário, o ensino de educação moral e religiosa, o de música, os ofícios fabris, também faziam trabalhos manuais, como a confecção de vassouras, além de “separar pequenas peças, montar caixas, preencher envelopes" (JANNUZZI, 2004, p. 177-178). Observa-se que o trabalho pedagógico predominante na época tratava o sujeito com deficiência como uma pessoa com limitada capacidade cognitiva, sendo apenas capaz de reproduzir trabalhos repetitivos e de pouca exigência intelectual. Em algumas instituições assistencialistas, ainda hoje essa compreensão persiste. A ênfase no trabalho manual com o objetivo de desenvolver habilidades técnicas de execução, segundo Vigotski21, é prejudicial ao desenvolvimento do “deficiente”, que lhes conduz para um processo de alienação das questões sócioeconômicas da sociedade. destinado a viver desgraçadamente em uma ignorância profunda, sem algum conhecimento dos deveres impostos a todos neste mundo, [...]”. (AZEVEDO apud GUADET, 1851, s/p). 20 A leitura deste documento permite observar a semelhança de estrutura pedagógica entre o Instituto dos Meninos Cegos de Paris e este, ao considerar o ensino da escrita, leitura, mora/ religião, ofícios fabris, matemática, música, os repetidores, o método de ensino utilizado. (BRASIL, 1854, s/p). 21 Esse apontamento é relevante considerando que os primeiros institutos foram fundados no séc. XIX e adentraram no séc. XX. Dessa forma, os estudos de Vigotski foram desenvolvidos concomitantemente a existência desses institutos, mesmo na Rússia, que apontou outra perspectiva teórica quanto ao desenvolvimento cognitivo do deficiente. Os textos “Problemas de educação de crianças cegas, surdas-mudas e retardadas – SPON NPK, Publicações. Moscou, 1924” e “Os princípios de educação social de crianças surdas-mudas – Arquivo pessoal, manuscrito 26 pp” fazem parte do Tomo V – Fundamentos de Defectologia, sendo que o autor foi um dos primeiros defensores da associação da psicologia cognitiva experimental com a neurologia e a fisiologia, ao insistir que as funções psicológicas são produtos da atividade cerebral. Utilizou como base teórica o materialismo dialético, que considera que “todo fenômeno tem uma história, que se modifica quantitativa e qualitativamente e essa mudança pode explicar a evolução dos processos psicológicos elementares em processos complexos” e do materialismo histórico que considera que “as mudanças na sociedade produzem mudanças no ser humano”. Vigotski desenvolveu a teoria de que a “sociedade afeta diretamente a evolução dos processos psicológicos superiores do homem”. Para Vigotski, os processos mentais devem ser entendidos historicamente. Disponível em: <http://www.infoescola.com/biografias/vigotski/>. Acesso em 2 de Nov. de 2012. 51 É necessário reorganizar radicalmente também o trabalho nas escolas para cegos. Até o momento o trabalho se fundamenta nos princípios da invalidez e da filantropia. Geralmente ao cego se ensina com meios auxiliares que conduzem a mendicidade. Na aprendizagem da música do trançado de objetos de adorno, etc. Na aprendizagem laboral não se leva em conta o que deve constituir a base futura de sua vida. Geralmente o trabalho nas escolas dos cegos se apresenta às crianças de uma forma preparada artificialmente. Separam-se dele todos os elementos de ordem social organizativa que se dá aos videntes. Os cegos ficam como executores. Eis aqui o porquê esta educação ‘laboral’ prepara a inválidos. Esta educação, ademais de não acostumar a organizar o trabalho e o saber encontrar seu lugar na vida, sem lugar a dúvidas, atrofia esta habilidade. Entretanto, precisamente os momentos social e organizativo do trabalho tem uma grande importância pedagógica para o cego. Trabalhar não significa de nenhuma maneira saber fazer escovas ou tecer cestos senão algo incomensuravelmente maior. (VIGOTSKI, 1997, p. 64). Para Vigotski (1997), o desenvolvimento das potencialidades humanas está atrelado a três regularidades. A primeira diz respeito à transposição de um comportamento regulado pelo biológico/fisiológico para o social. A segunda regularidade consiste na influência do mundo circundante sobre o desenvolvimento da pessoa em todas as esferas (social, cognitiva, afetiva, educacional, de trabalho, cultural). A terceira se refere às atividades que o homem realiza no decorrer de sua vida. Isto significa que, se uma pessoa for confinada em um espaço segregado e limitador, sua potencialidade corresponderá às restritas experiências, acarretando, assim, um prejuízo em sua constituição como homem de seu tempo. O Instituto Benjamin Constant (IBC) e o Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES)22 –– foram fundamentados no modelo europeu de institutos, mais especificamente no Instituto Nacional de Surdos de Paris. Ambos – Imperial Instituto dos Meninos Cegos (IIMC) e INES – eram institutos do Império. Contudo, esse modelo de internato não atingiu o objetivo proposto no projeto. Assim, conforme Jannuzzi (2004), constituiu-se num espaço segregado da sociedade, tornando-se, para uma parcela significativa dos que lá foram estudar a sua residência, visto que lá permaneciam até a morte – alguns vieram, inclusive, a tornar-se professores do Instituto. Na França esse modelo de internato acabou se tornando asilo e, posteriormente, em “oficinas de trabalho”. Entretanto, no Brasil, os internatos 22 O INES foi criado em 1856, e era denominado de ISM – Instituto dos Surdos-Mudos. Pouco tempo após sua fundação, foi denominado de Instituto Nacional dos Surdos-Mudos (INSM) –. Somente em 1957 é que tornou-se Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). 52 transformaram-se em asilos destinados àqueles que eram considerados inválidos, pelo fato de que seus internos eram oriundos de uma sociedade baseada na monocultura para exportação, com a predominância da mão de obra baseada no trabalho escravo (JANNUZZI, 1985, p. 26; BUENO, 1993, p. 86). Nesse sentido, os deficientes eram considerados inválidos para o trabalho produtivo e, sendo descartados como mão de obra, seu destino era o abandono em asilo. Bueno (1993) salienta ainda que o sistema capitalista agravou tal situação, pois, as exigências sociais e de trabalho tornaram-se mais complexas, por estarem pautadas na homogeneização e racionalização. Em relação à educação do “deficiente mental”, esta sofreu grande influência das pesquisas e estudos de doenças mentais e nervosas infantis desenvolvidas pelo médico Desiré Magloire Bourneville. Ele defendia que os hospitais deveriam ser laicos, com fundos para financiar os serviços que atendessem as crianças “anormais”. Além disso, lutava pela criação de classes especiais nas escolas de Paris, tendo sido grande a sua influência também no Brasil (JANNUZZI, 2004). Nesse sentido, os atendimentos especializados aos “deficientes” também começaram a existir na rede regular de ensino. Porém, segundo Jannuzzi (2004), não há documentos ou relatos da época que especifiquem como esses atendimentos educacionais eram estruturados, quem eram os professores, que materiais didáticos eram utilizados e que metodologia embasava o processo de ensino-aprendizagem. Contudo, a autora observa que a educação dessas pessoas estava articulada, primeiramente, aos serviços de higiene e saúde. Com base em várias fontes23, Januzzi afirma: Há referência na rede regular de outro atendimento também no Rio de Janeiro, em 1898, no Ginásio Estadual Orsina da Fonseca, para deficientes físicos e visuais. Nessa ocasião, tanto o centro urbano quanto a província em geral haviam progredido com a cultura do café, e o ensino fundamental tivera certo impulso (HOLANDA, 1976, p. 345). Em Manaus, no ano de 1892, há registro de atendimento para deficientes auditivos e mentais na Unidade Educacional Euclides da Cunha, no ensino regular estadual, e, em 1909, também 23 Uma das fontes utilizadas foi o documento “Educação Especial: Cadastro Geral dos Estabelecimentos do Ensino Especial”, publicado pelo MEC/CENESP em 1975. Este documento traz o levantamento de estabelecimentos federais, estaduais, municipais e particulares que prestavam o atendimento educacional para os “deficientes”, restringindo-se a informar o nome e natureza do estabelecimento, ano de fundação, unidade federativa, dependência administrativa e categoria de excepcionalidade. Constam neste documento instituições escolares que atuavam desde o final do século XIX até 1974. 53 no ensino estadual regular, há registro em Encruzilhada do Sul, na Escola Borges de Medeiros e em Montenegro no Grupo Escolar Delfina Dias Ferraz, ambas no Rio Grande do Sul, a primeira para atendimento de deficientes da comunicação e mentais e a segunda para problemas de comunicação, auditivo e mental (MEC/SG/CENESP/SEEC, 1975a). Outro motivo pelo qual tais informações – baseadas nos documentos MEC/SG/CENESP/SEEC 1975a e 1975b – podem ter procedência é o fato de ocorrer, desde 1890, com a criação dos grupos escolares, a separação de alunos por nível de adiantamento, surgindo então as diversas séries do curso fundamental (RIBEIRO, 2000, p. 85). Isto provavelmente poderia facilitar a criação de classes para as crianças consideradas como tendo dificuldade de aprendizagem. (JANNUZZI, 2004, p. 1819). Esses atendimentos da rede regular de ensino ocorridos na república estavam muito aquém do ideal de atendimento à população considerada normal, sendo ainda mais inadequada ao atendimento da população especial. Consequentemente, abriu-se o espaço de atuação para o setor privado e filantrópico. Assim, as Instituições para o “deficiente” mental, auditivo, visual e físico foram sendo criadas numa perspectiva caritativa e assistencialista. Os dados estatísticos demonstram que, de 1874 a 1929, foram criadas 16 instituições para deficientes mentais e 20 para outras áreas de deficiência (visual e/ou auditiva, e/ou múltipla). Observa-se, que havia predominância de instituições voltadas para o atendimento da deficiência mental (JANNUZZI, 2004, p. 28). Apesar dessas iniciativas, a referida educação, assim como a educação da maioria da população, era precária, pois não era questão prioritária para o Império, nem para a República, haja vista que a estrutura do trabalho escravo e assalariado – centrado na ruralização do final do século XIX e início do XX voltado para a agro exportação – não apresentava necessidade de escolarização da população trabalhadora. No caso dos “deficientes”, por serem considerados improdutivos e incapazes, eram também vistos como desnecessários e incapazes de corroborar com a promoção do desenvolvimento socioeconômico do país (JANNUZZI, 2004, p. 20-21). As mudanças socioeconômicas ocorridas ao final do século XIX e início do XX, no que tange à passagem do modelo agrário-comercial para o urbano-industrial, somadas à transição de uma sociedade fechada para uma aberta, levaram profissionais liberais, educadores e trabalhadores a acreditar na educação formal como elemento que impulsionaria a economia e modernização do Brasil. Neste contexto, surgem os movimentos políticos e sociais em prol da escolarização da 54 população, objetivando a formação desse novo homem, desencadeando os movimentos “Entusiasmo pela Educação” e “Otimismo Pedagógico” (NAGLE, 2001). A educação era compreendida como instrumento por meio do qual o Brasil iria alcançar o desenvolvimento social e econômico de países considerados desenvolvidos. Segundo Nagle, [...] de um lado, existe a crença de que, pela multiplicação das instituições escolares, da disseminação da educação escolar, será possível incorporar grandes camadas da população na senda do progresso nacional, e colocar o Brasil no caminho das grandes nações do mundo; de outro lado, existe a crença de que determinadas formulações doutrinárias sobre a escolarização indicam o caminho para a verdadeira formação do novo homem brasileiro (escolanovismo). (NAGLE, 2001, p. 134). O movimento da escola nova teve início na década de 20. Entretanto, seu marco histórico ocorreu com a publicação do Manifesto dos Pioneiros, em 1932. A escola nova fez a defesa de educação para todos. Contudo, no item “Plano de reconstrução educacional”, ao abordar “Problema dos Melhores”, afirma que “tanto mais perfeitas serão as sociedades quanto mais pesquisada e selecionada for a sua elite, quanto maior for a riqueza e a variedade de homens” (MANIFESTO DOS PIONEIROS, 1932, s/p). Observa-se que a Seleção a que se refere a citação estava atrelada à oportunidade e à meritocracia: [...] tanto mais perfeitas serão as sociedades quanto mais pesquisada e selecionada for a sua elite, quanto maior for a riqueza e a variedade de homens, de valor cultural substantivo, necessários para enfrentar a variedade dos problemas que põe a complexidade das sociedades modernas. Essa seleção que se deve processar não ‘por diferenciação econômica’, mas ‘pela diferenciação de todas as capacidades’, favorecida pela educação, mediante a ação biológica e funcional, não pode, não diremos completar-se, mas nem sequer realizar-se senão pela obra universitária que, elevando ao máximo o desenvolvimento dos indivíduos dentro de suas aptidões naturais e selecionando os mais capazes, lhes dá bastante força para exercer influência efetiva na sociedade e afetar, dessa forma, a consciência social (MANIFESTO DOS PIONEIROS, 1932, s/p). Ao expressar que “todo o indivíduo tem o direito a ser educado até onde o permitam as suas aptidões naturais” o manifesto pressupõe o enfoque biológico e natural no desenvolvimento educacional da criança. Apesar de centrar a educação 55 na experiência de vida do aluno, “enfatizava o estudo das características individuais, a proposição de ensino adequado e especializado e a adoção de técnicas de diagnóstico do nível de inteligência” (CABRAL, 2010, p. 37), dando, assim, abertura para a constituição do atendimento segregado aos “deficientes” em classes especiais. Essa mobilização ocorrida na década de 1930, em prol da educação, impulsionou também o movimento em defesa da educação dos “deficientes”. A sociedade civil, por meio de associações, criou instituições filantrópicas para esse atendimento, enquanto o governo realizava algumas ações, como a criação de escolas junto ao ensino regular e em hospitais. Contudo, mesmo com a ampliação de escolas públicas, o atendimento educacional dos “deficientes” se deu, principalmente, no setor privado/filantrópico (JANNUZZI, 2004, p. 84). Bueno (1993, p. 89) salienta que, nas décadas de 30 e 40, o número maior de instituições privado/filantrópicas abertas foi da área de deficiência mental e visual. Com este processo de ampliação, a partir de 1945, ocorreu também no setor privado a criação de centros de reabilitação, de clínicas e institutos psicopedagógicos (JANNUZZI, 2004, p. 68). É preciso mencionar que as guerras sempre foram motivações para ações de reabilitação profissional dos militares. Nesse sentido, a partir da segunda guerra mundial, houve um aumento de instituições voltadas a essa prática. Como exemplo dessas instituições privado/filantrópicas, destacam-se duas redes de escolas especiais: a Sociedade Pestalozzi, cuja primeira unidade foi fundada em 1926, no Rio Grande do Sul, mas tomou força com sua criação, em 193424, em Belo Horizonte; e as Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAEs), criadas em 1954. Ambas as instituições eram as grandes responsáveis pelo desenvolvimento da educação e da saúde para o atendimento do “deficiente”. Primeiramente, as APAEs foram criadas nos Estados Unidos, no ano de 1950, e implantadas no Brasil por intermédio do casal americano Beatrice e George Bemis, membros da National Association for Retarded Children (NARC). Nesse mesmo ano, o movimento de cegos institui o “Conselho Brasileiro para o Bem-estar dos Cegos” (JANNUZZI, 2004). 24 Bueno (1993, p. 89) registra o ano de 1932 como data de abertura da Instituição Pestalozzi, em Belo Horizonte, MG. 56 No Estado do Paraná, o Instituto Paranaense de Cegos foi fundado em Curitiba no ano de 193925. Segundo Bueno (1993) a parcela majoritária dessas instituições é de organizações religiosas, com “caráter filantrópico-assistencial, contribuindo para que a deficiência permanecesse no âmbito da caridade e impedindo, assim, que as suas necessidades se incorporassem no rol dos direitos de cidadania” (BUENO, 1993, p. 89-90). O Instituto Paranaense de Cegos, conforme seu Estatuto26 aprovado em 1º de setembro de 1946 – ocasião em que a Diretoria era composta pelo Dr. Jorge karam, presidente; Dr. Alfredo Ferrante, 1º secretário; Major Sebastião Izidoro Pereira, 1º tesoureiro; Dr. Emílio Sounis, membro do conselho fiscal; Dra. Maria Sounis, membro do conselho fiscal; Dr. Salvador de Maio, advogado –, descreve no artigo 2º dentre as suas finalidades: a) Proporcionar aos cegos os meios de subsistência, habitação e vestuário, quando os mesmos não o possam fazer com os recursos dos seus próprios trabalhos. b) Proporcionar aos cegos o conforto moral, a instrução que os habilite ao trabalho a alfabetização, etc., de modo que possam viver com os seus próprios recursos e sem precisar recorrer à caridade pública ( ESTATUTO PARANAENSE DE CEGOS-IPC, 1946, p. 2). O Instituto configurou-se como internato, porém, a educação que estava prevista era apenas a de alfabetização e de atividades para o trabalho. Conforme o artigo 1º, Capítulo V – Dos associados – e no Capítulo VII – Do Patrimônio – é possível constatar que o envolvimento do Estado do Paraná se deu pela doação da sede própria, salientando-se que, em caso de extinção do referido estabelecimento, todo o patrimônio retornaria para o Estado. Conforme o documento, sua manutenção era provida pela sociedade civil e/ou empresas, sendo os mesmos considerados contribuintes associados e beneméritos. No ano de 1940 foi criada a escola especial no referido instituto. 25 Bueno (1993, p. 90), registra a abertura do Instituto Paranaense de Cegos como ocorrida no ano de 1944, data esta que está em conformidade com a apontada pelo MEC/1975. Entretanto, documentos do Instituto disponíveis em seu site oficial indicam o ano de 1939 como a data de sua criação. Disponível em: <http://institutoparanaensedecegos-ipc.blogspot.com/>. Acesso em: 3 de mar. de 2012. 26 O Estatuto, reformulado e aprovado em 17 de outubro de 1991, ampliou as finalidades do Instituto, bem como definiu que, em caso de sua extinção, seu patrimônio seria doado a outra instituição filantrópica sem fins lucrativos. Este documento registra que foi reconhecido como de utilidade pública pelos Governos Federal, Estadual e Municipal (INSTITUTO PARANAENSE DE CEGOS, 1991, s/p). 57 O Instituto Londrinense de Surdos (ILES) foi criado no ano de 1959, nas instalações do grupo escolar Benjamin Constant, com a duplicidade de direção de Rosalina Lopes Franciscão. Foi transferido para edificação própria em 1969. Observa-se que, neste caso, houve uma fusão entre o setor público, privado e religioso, pois, apesar de ter sido instalado num grupo escolar, sua fundação estava ligada a pessoas da sociedade civil e, somente mais tarde, no ano de 1970, é que o Governo do Estado do Paraná o reconheceu como Instituto por meio do Decreto nº. 20.592, de 15 de julho de 1970. A partir de dezembro de 1973, o ILES começou a contar com a assistência religiosa e técnico-pedagógica da Congregação Pequena Missão para Surdos. Sua autorização de funcionamento se deu por meio da publicação da Resolução nº. 1.901 de 19 de julho de 1982 e o ato de reconhecimento do Estabelecimento foi feito por meio da Resolução nº. 530 de 10 de fevereiro de 198727 (INSTITUTO LONDRINENSE DE EDUCAÇÃO DE SURDOS, 2010, p. 12). Tanto o Governo Estadual quanto o Federal estavam desenvolvendo ações relacionadas à educação especial. O Governo Federal criou as campanhas em prol do atendimento educacional dessas pessoas. A campanha voltada para a educação de surdos promovida pelo INES, por sua vez, contribuiu para a abertura de instituições privado/filantrópicas para atender a esse público. Já a campanha de cegos, incentivou a ampliação dos serviços municipais, estaduais e comunitários. As campanhas na área da deficiência mental foram promovidas pelas APAEs e pela Pestalozzi, em conjunto com o MEC, e tiveram como objetivo criar consultórios “especializados, classes especiais, assistência domiciliar, oficinas e granjas, internatos e semi-internatos, estimulando a constituição de associações e fundações educacionais” (BUENO, 1993, p. 97-98). A mobilização em prol da educação do “deficiente”, de certa forma, estava no bojo do desenvolvimento socioeconômico da sociedade brasileira, pois, ao fazer a defesa de educação para todos, também se pode incluir o “deficiente”. 27 No ano de 1990, por meio da Resolução nº. 3646/90 foram fixadas “normas para a reestruturação da Escola, que passou a denominar-se Escola Estadual do Instituto Londrinense de Surdos” (INSTITUTO LONDRINENSE DE EDUCAÇÃO DE SURDOS, 2010, p. 12). 58 Segundo Mazzotta (2001, p. 30), as ações oficiais e particulares se iniciam de forma isolada para, posteriormente, serem ampliadas com o intuito de garantir o atendimento da demanda existente. O autor aponta que 1º) de 1854 a 1956 – iniciativas oficiais e particulares isoladas e 2º) de 1957 a 1993 – iniciativas oficiais de âmbito nacional. É somente a partir do final da década de 1950, com a instituição de três Campanhas Nacionais de Educação - dos surdos (1957), dos cegos (1958) e das pessoas com deficiência mental (1960) - que se verificará um maior esforço do Estado Brasileiro na busca de configurar os primeiros passos na tentativa de articular políticas de alcance nacional voltadas para o atendimento das necessidades das pessoas com deficiência. (MAZZOTTA, 2001, p. 30). O atendimento educacional do “deficiente” se deu de modo lento e gradativo, sendo prestado inicialmente por institutos como IBC e INES, mas de modo fragmentado, não havendo uma unidade nacional de princípios, diretrizes e políticas que estruturassem tais ações educacionais. Como se verificará no capítulo II, com as campanhas nacionais em prol da educação e os movimentos internacionais, foram constituídas as condições para iniciar debates e trocas de experiência sobre a temática, de modo a contribuir e reivindicar do Estado à definição de diretrizes e políticas de âmbito nacional na área da educação especial no Brasil. Em decorrência dos movimentos em prol da educação do “deficiente”, integrados no movimento em defesa da educação para todos, fica assegurada a educação para “excepcionais” por meio dos artigos nº. 88 e nº. 89, da lei de Diretrizes e Bases da Educação, nº. 4.024/61, que será abordada no tópico III deste capítulo. A literatura demonstra que os movimentos que lutavam pelo desenvolvimento dos serviços a esse segmento social tiveram crescente avanço em termos de instituições privado/filantrópicas, principalmente as APAEs e Pestalozzi. Em contrapartida, o atendimento no setor público foi mais moroso (BUENO, 1993, p. 89). Segundo Januzzi (2004, p. 86), em 1969 havia 821 instituições para o atendimento do “deficiente” mental. Para outras deficiências, somavam-se 313 instituições. Alguns condicionantes estão vinculados à necessidade que levou a esse crescimento. Um deles pode ter sido a predominância do método de ensino, que estava centrado numa abordagem médica e psicológica e que definia a organização em salas homogêneas; logo, as crianças que fugiam a esse padrão 59 estavam fadadas a receber outra forma de atendimento, como classes especiais, escolas especiais e serviços especializados. Em decorrência do desenvolvimento econômico, se constituiu um ambiente propício para os profissionais que atuavam na área da educação especial cobrar do Estado a definição de políticas educacionais para o “deficiente”, que tomaram como justificativa a tendência da formação para o trabalho, afirmando que os “deficientes” deveriam ser educados para se tornarem úteis socialmente, voltando sua educação para as questões práticas e utilitaristas. Outro argumento era o de que, enquanto a criança estava na escola sendo treinada para uma atividade profissional, sua mãe disponibilizaria de tempo para ingressar no mercado de trabalho. (JANNUZZI, 2004, p.179-180). Entretanto, observa-se neste raciocínio uma contradição, visto que, ao mesmo tempo em que se faz a defesa de educar o “deficiente” para o trabalho, temse uma perspectiva de educação centrada no indivíduo, nas técnicas e em potencialidades naturais, que são expressão da proposta pedagógica tecnicista e naturalista. O tecnicismo buscou formar o homem no aperfeiçoamento das técnicas, visando o aumento da produtividade e do capital. Como apontam os estudos de Rosa (2009, p. 231) e de Orso e Carvalho (2006, p.177), o trabalho do “deficiente”, como parte da força produtiva, para os capitalistas não é interessante. Em 1971, período da vertente tecnicista, constituiu-se um grupo tarefa para estudar a situação em que se encontrava a educação especial. Por meio do Projeto Prioritário nº. 35, o Plano Setorial de Educação e Cultura 1972/1974 definiu que a educação especial era uma das prioridades da educação brasileira (BUENO, 1993, p. 97-98). Estas duas ações levaram à criação do Centro Nacional de Educação Especial (CENESP), vinculado ao Ministério da Educação, que objetivava pensar as políticas para a educação especial em âmbito nacional (ROSA; ANDRÉ, 2006, p. 111). A intenção desta política era estabelecer um atendimento educacional ao “deficiente”, com base em sua integração ao ambiente escolar. A política de educação especial expressa pelo CENESP será abordada no capítulo 2, tópico 3 deste trabalho. Como foi explicitado até o momento, o atendimento educacional do “deficiente”, até por volta de 1975, deu-se basicamente por meio da institucionalização (institutos) e das escolas especiais, de caráter privado e 60 filantrópico. Alguns institutos e escolas são decorrentes de preocupações médicas e de instituições que cuidavam da saúde, levando ao estabelecimento da compreensão do desenvolvimento cognitivo do “deficiente” em uma perspectiva predominantemente biológica, sendo que, no âmbito social, a prevalência é de cunho caritativo. Para compreender a coexistência do atendimento do “deficiente” no ensino público e nas escolas especiais, torna-se necessário analisar como se realizou, por meio de normas legais, a oficialização da oferta da educação especial pelo Estado. Para tanto, o próximo tópico abordará a questão desta educação frente à primeira LDB, 4.024/1961. 1.3 A oficialização do atendimento educacional do “deficiente” na rede pública e na privada Até o momento, foi possível compreender algumas questões relacionadas ao atendimento educacional do “deficiente”. Elas estão presentes na cultura e foram sendo construídas e transmitidas de geração em geração. Sua origem ocorreu por meio da influência religiosa e da ciência médica, sendo que esta teve maior expansão com o desenvolvimento da industrialização e com a crescente liberdade para estudos das ciências naturais. Esses fenômenos levaram à criação de atendimento em setores privados e em setores públicos. Assim, pergunta-se: quais as consequências nesta duplicidade de serviços frente às concepções pautadas na religião e na biologia, para a educação do “deficiente”, a partir do momento em que o Estado oficializou essa educação na legislação brasileira? Ao procurar compreender outras questões relacionadas ao atendimento educacional do “deficiente”, neste tópico abordar-se-á um terceiro fenômeno, a escola pública estatal. Para tanto, analisar-se-á questões da educação especial contidas na LDB nº. 4.024/61. Para esta análise, é preciso delinear alguns elementos. A escola pública está localizada em determinada sociedade, em um espaço-tempo. Em função disso, está organizada, estruturada e pensada conforme o desenvolvimento socioeconômico, político, cultural, tecnológico e histórico do período a que pertence. Logo, sua análise precisa contemplar questões singulares que dizem respeito à necessidade 61 de existência da escola. Nesse sentido, qual é o papel da escola na sociedade? Para quem foi pensada e organizada? Saviani (2008) compreende que a escola é uma instituição mediadora na formação do homem de seu tempo. A educação é entendida como o ato de produzir, direta e intencionalmente, em cada indivíduo singular, a humanidade que é produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens. Em outros termos, isso significa que a educação é entendida como mediação no seio da prática social global. (SAVIANI, 2008, p. 422). Nessa concepção, a escola deveria transmitir o conhecimento produzido historicamente, de modo a desenvolver nos homens suas potencialidades sem restrições. Porém, como ela é uma instituição organizada e estruturada de acordo com a sociedade a que pertence, torna-se, portanto, um espaço de reprodução e formação de indivíduos para tal sociedade. E, como a sociedade possui classes com interesses antagônicos, torna-se um espaço dual na transmissão de conhecimentos, uma vez que corresponde a interesses antagônicos de classe, estruturando-se em uma educação voltada para a classe trabalhadora, e outra para a elite. A escola pública está articulada a uma determinada estrutura de Estado. Entretanto, é necessário esclarecer o conceito de Estado e de escola pública organizada pela sociedade burguesa. O Estado foi constituído para manter a ordem, sob regras que asseguram o direito individual e a propriedade privada (MARX; ENGELS, 1978, p. 43). Um Estado que, a partir da divisão internacional do trabalho, rege toda sociedade com base no capital, em que tudo se transforma em mercadoria. Neste sentido, a ciência e a educação também são compreendidas como mercadorias. As ideias e a ciência são sempre ditadas pela determinação de classe. São, ou reprimidas, ou então passam para o serviço da classe dominante que as molda para seu uso, a fim de as monopolizar e explorar, tornando-se para as massas um meio de opressão, de mistificação e de justificação das classes dominantes. (MARX; ENGELS, 1978, p. 24-25). Isto significa que a ciência produzida no sistema capitalista é fragmentada, uma vez que cabe ao trabalhador apenas o fazer operacional, enquanto que a produção da ciência fica a cargo de outro espaço, as instituições de ensino. Esta 62 fragmentação tira do ‘trabalhador o poder criador, tornando-o alienado; em outras palavras, separa a arte da técnica (MARX; ENGELS, 1978, p.19). A ciência torna-se um instrumento de captação de capital objetivado em mercadoria, seja da apropriação do conhecimento, seja de bens materiais. Logo, quem tem maiores possibilidades de acesso é quem pode pagar. A educação, assim como a ciência, é constituída de modo segregado no processo produtivo, mas, ao mesmo tempo, é justificada pelos princípios liberais que fundamentam a estrutura e a relação capitaltrabalho, sendo, portanto, organizada em uma perspectiva utilitarista para o desenvolvimento socioeconômico. Nesse aspecto, para a classe trabalhadora, a educação é posta como instrumento de ascensão social, como veículo para minimizar o abismo existente entre os ricos e os pobres, como “remédio” para resolver as desigualdades e conflitos sociais. Assim, o Estado28 aparece como mediador nos interesses antagônicos de classe, fomentando políticas que são produtos desses conflitos. Quando Marx afirma que as ações são paliativas, pode-se entender que as legislações estabelecidas são instrumentos amenizadores dos conflitos, respondendo tanto os interesses burgueses, quanto os de uma parcela da classe trabalhadora. Essa ação acaba por cooptar os trabalhadores, enfraquecendo suas mobilizações e nada mudando em relação a sua condição de dominado, pois, para os burgueses numa sociedade pautada nos princípios de liberdade, igualdade, individualismo, democracia, propriedade, cabe ao Estado promover intervenção29 que não corrompa tais princípios. 28 Para aprofundar a compreensão de como o Estado intervinha nas questões sociais, educacionais e econômicas na sociedade capitalista, sugiro a leitura do artigo intitulado “Neoliberalismo Equívocos e Consequências”, do pesquisador e professor Dr. Paulino José Orso. In: LOMBARDI, José Claudinei; SANFELICE, José Luís (Orgs.). Liberalismo e educação em debate. (Coleção educação contemporânea). Campinas, SP: Autores Associados, Histedbr, 2007. p.163-184. Conforme Orso, “Para os liberais, no estado de natureza o homem encontra as melhores condições para desenvolver suas potencialidades como ser livre e produtivo. Portanto, consideram que a única intervenção legítima é a que visa preservar a segurança do indivíduo no exercício de sua liberdade natural” (ORSO, 2007, p. 166). 29 Por volta do fim da década 1920 e início de 1930, os liberais começaram a perceber o Estado como um instituto necessário para a perpetuação do capitalismo. A partir das políticas keynesianas, os trabalhadores foram atraídos pelo capital. Ao invés de "excluí-los", ele os "inclui". Contudo, o Estado de bem-estar social, o New Deal, a social democracia e o intervencionismo não significaram a destruição do Estado, da propriedade e do capital. Ao contrário, apesar de garantirem uma sobrevida aos trabalhadores, foram adotadas, justamente para camuflar os antagonismos de classe e salvar o capitalismo. À medida que os trabalhadores conquistaram ou que a burguesia cedeu alguns direitos, ficaram presos a eles. Se com Keynes os vetores político-econômicos invertem-se, as lutas dos trabalhadores também são reorientadas. As reivindicações e as lutas deixaram de ser pelo fim da 63 O individualismo refere-se à capacidade e potencialidade presente em cada indivíduo que possui aptidões e talentos naturais. Assim, o fato de uns serem ricos, outros pobres, uns terem sucesso na vida e outros fracassarem, é devido ao próprio mérito, sem relação com as questões socioeconômicas e históricas em que estão inseridos (CUNHA, 1975, p. 29). O princípio da liberdade diz respeito à livre escolha do indivíduo, à liberdade econômica, à liberdade intelectual, à liberdade cultural, à liberdade de crença. Assim, “[...] quanto menos poder o Estado possuir, menor será sua esfera de ação e maior será a liberdade que o indivíduo poderá desfrutar.” (CUNHA, 1975, p. 30). Já a propriedade é concebida como direito natural que precisa ser assegurada, independente do Estado. Assim, constituíram-se os direitos fundamentais para assegurar a cada indivíduo o direito de ser proprietário. Todos podem ser proprietários, seja por meio do trabalho, ou de talento. O princípio da igualdade refere-se tão somente à “igualdade de oportunidade”, considera que todos possuem oportunidade, porém, como uns são pobres, outros ricos, uns possuem mais talento que outros. Assim, a propriedade, a fortuna são entendidas como merecimento pelo talento. O direito à igualdade civil é assegurado pela letra da Lei: “iguais direitos à vida, à liberdade, à propriedade, à proteção das leis” (CUNHA, 1975, p. 31). A contradição presente na doutrina liberal, em que seus teóricos admitem que a desigualdade entre os homens seja inerente à lei da natureza, é resolvida pelo princípio da democracia, em que a maioria elege seus representantes, para fazerem a defesa do bem comum na estrutura do Estado: Os princípios do individualismo, da propriedade, da liberdade e da igualdade exigem a democracia, outro importante princípio da doutrina liberal. Consiste no igual direito de todos de participarem do governo através de representantes de sua própria escolha. Cada indivíduo, agindo livremente, é capaz de buscar seus interesses próprios e, em consequência, os de toda a sociedade. (CUNHA, 1975, p. 33). Com base nesses princípios a função do Estado é proporcionar condições materiais da perpetuação do capital. Nesse sentido, ele não passa de um exploração, pelo fim da dominação, pela transformação profunda da sociedade e pelo fim do modo de produção capitalista. (ORSO, 2007, p. 168;178). 64 instrumento para dominação da classe trabalhadora. Em outras palavras, não é por meio do Estado que a classe trabalhadora irá conquistar sua emancipação. Orso (2007) aponta que, Portanto, trata-se de destruir o Estado e não de reformá-lo. Mas, em vez de os trabalhadores reivindicarem seu fim, eles passaram a ‘defendê-lo’ e ‘reivindicar sua intervenção e sua presença’. Mas o Estado não é um espaço de disputas? Perguntamos: alguém já viu o Estado colocar-se na defesa dos trabalhadores sem a finalidade de cooptá-los, de camuflar os antagonismos de classe para perpetuar a dominação? Alguém já viu o Estado se opor à extração da mais-valia e à dominação de classe? Alguém já viu o Estado proteger e se colocar a favor dos trabalhadores durante uma greve? E o contrário, quem é que não viu e não continua vendo que o Estado sempre defende o capital e os proprietários? (ORSO, 2007, p. 168; 179). O Estado, portanto, constitui-se, sobretudo, como gerenciador dos interesses do capital. Nessa perspectiva, a escola aparece como um importante instrumento, tanto para a construção, quanto para a manutenção do sistema capitalista. Ela surge pela necessidade de preparar o homem para uma nova forma de organização social, com costumes urbanos e para uma formação para o trabalho assalariado. A doutrina liberal, ao fazer a defesa da escola laica, universal, pública e gratuita, o faz na perspectiva naturalista, com base nos dons e nas qualidades, tidas como inatas. Dessa forma, a ascensão ou o fracasso dependem apenas do indivíduo. A educação escolar pública, laica e gratuita foi uma bandeira de liberais que defendiam a necessidade de educar o homem para a modernidade, porém, uma educação voltada para a necessidade prática e utilitarista, destinada a responder às exigências básicas do setor produtivo. Mas foi também defesa da classe trabalhadora, objetivando a apropriação de conhecimentos necessários para adequar-se ao desenvolvimento científico e tecnológico. Quanto à definição de escola pública, com base na exposição da temática por Lombardi (2005, p. 02), em que, apesar dos inúmeros significados de “público” existentes no decorrer da história, hoje se pode considerar que seu significado está relacionado ao acesso a todas as pessoas, independentes de raça, credo, etnia, condição econômica e de características físicas, sensoriais ou cognitivas. Logo, a palavra “pública”, na expressão “escola pública”, está relacionada a políticas de Estado formuladas para atender os interesses comuns e coletivos da população de uma mesma sociedade. A escola pública é caracterizada pela manutenção do 65 Estado, que deve assegurar a infraestrutura, material didático, técnicos e docentes. O Estado também é responsável pela organização pedagógica, a qual contempla as diretrizes educacionais, metodologia, avaliação, carga horária anual necessária, ou seja, pela elaboração, sistematização e organização dos sistemas de ensino. Sua execução pode ser distribuída entre os governos municipal, estadual, federal e do Distrito Federal; contudo, a diretriz reguladora do sistema, necessariamente, é de responsabilidade do Governo Federal. Com a criação do Ministério da Educação e Saúde, na década de 1930, de modo incipiente se começou a considerar a educação pública estatal como um problema nacional, que o Estado precisava assumir (LOMBARDI, 2005, p.11). Contudo, essa constituição de um único Ministério para Educação e outro para a Saúde, demonstrou a falta de política específica de âmbito nacional, tanto para a educação, quanto para a saúde. Estava em pauta a mudança de cultura e comportamento de bases rurais para novos padrões culturais, mais condizentes com uma sociedade moderna. Nessa conjuntura está o enfrentamento de endemias, em que os médicos, como já assinalado no tópico II deste capítulo, tomaram a educação como instrumento imprescindível para transmissão e perpetuação de hábitos de higiene mental e corporal, formação de boa conduta e de prevenção de doenças. Essa exigência ocorreu devido ao processo de industrialização. Precisava-se preparar mão de obra para atuar nas fábricas. Em outras palavras, a sociedade brasileira estava em processo de mudança do sistema econômico agrário-comercial para o urbano-industrial, constituindo, assim, novas necessidades sociais, educacionais e culturais. Essa mudança no setor produtivo leva a sociedade brasileira a reorganizar as relações sociais. De uma sociedade fechada, inicia-se um processo de conversão para uma sociedade mais aberta (NAGLE, 2001, p. 131133). No Brasil, essas mudanças na esfera econômica, política, cultural, social e educacional ocorreram de forma heterogênea, haja vista que o país possui um espaço geográfico extenso (NAGLE, 2001, p. 133). Desse modo, os grandes centros possuem maior acesso às tecnologias, ao conhecimento, às políticas de modernização do país. Nas cidades polos, o processo de industrialização e de urbanização era mais avançado e facilitado pelo intenso intercâmbio com as 66 questões internacionais, como a internacionalização das relações de capital e trabalho e as teorias que buscavam configurar a formação do homem para a sociedade burguesa. Nesse movimento nas décadas de 1920 e 1930 havia a cobrança de ampliação da educação e a melhoria da qualidade do ensino, em que se arrolava a crença de que a educação era o caminho para a construção do novo homem, expressa pelo entusiasmo pedagógico e pelo otimismo pedagógico, respectivamente (NAGLE, 2001, p. 134). A proposta de formação desse novo homem brasileiro, contrapondo-se à tradicional sociedade agrário-comercial, com forte influência religiosa, leva alguns intelectuais a elaborar em 1932 o Manifesto dos Pioneiros buscando explicitar ao Estado a importância que a Educação possuía no processo para alavancar o país na modernidade. Assim, a configuração de escola pública no Brasil como sistema nacional de ensino, começou a ter maior atenção por parte do Estado Brasileiro a partir do Manifesto dos Pioneiros, tendo como redator Fernando de Azevedo, Anísio Teixeira, Lourenço Filho entre outros. Este documento expressa o descontentamento dos educadores quanto à postura do Estado em relação à educação. Salienta-se a importância de o Governo pensar um sistema nacional de ensino sob o argumento de que o desenvolvimento econômico só pode ocorrer com o desenvolvimento educacional da população, como também que a responsabilidade de promover o ensino formal é do Estado. Pela primeira vez no Brasil, inicia-se um embate entre os escolanovistas e a Igreja Católica quanto à detenção da hegemonia na promoção educacional do povo brasileiro. Questões postas pelo Manifesto que nos auxiliam na analise das formulações ideológicas, políticas e pedagógicas no interior da escola, constam no item “finalidade da educação”, que faz a defesa da ruptura do acesso à escola por meio do requisito econômico, passando à defesa do acesso por meio do requisito biológico. Entretanto, convém destacar que os signatários do Manifesto deixaram expresso que o Estado não possuía infraestrutura para prover o ensino público a toda população, sendo necessária a atuação das instituições privadas. Como no Brasil, o movimento escolanovista no Estado do Paraná investiu na formação de professores da escola normal, objetivando a expansão do ensino, o 67 controle social, o investimento na educação para as adequações culturais e sociais. Estava atrelado ao projeto Maior nº. 1 da Unesco, para ampliação e melhoria do ensino primário da América Latina, previsto para ocorrer nos períodos de “1957/58 a 1967/68” (MIGUEL; VIEIRA, 2005, p. 7). Essas autoras explicitam que o Estado paranaense e os educadores escolanovistas buscavam [...] responder não só às demandas da população que passaram a ver na escola a instituição necessária para obter participação no mercado de trabalho e ter acesso a melhores formas de vida social, mas também às preocupações do Governo quanto à necessidade de organizar a sociedade e mantê-la ordenada. Os princípios norteadores da Escola Nova, no Paraná, se vinculavam com a organização social do trabalho, que fazia parte da organização da sociedade urbana-industrial e era elemento de construção da nacionalidade. (MIGUEL; VIEIRA, 2005, p.7). Neste sentido, a educação do Estado do Paraná articula-se com o projeto societário brasileiro. O movimento de reordenamento das diretrizes educacionais deste Estado, segundo Miguel e Vieira (2005, p. 5) estava dividido em dois momentos. O primeiro, de 1930 a 1938, congregou esforços na reorganização da Escola Normal, incluindo em seu currículo conteúdos de administração e organização escolar, higiene e de puericultura, além de acrescentar como fundamentos nessa formação a psicologia, a sociologia e a biologia. A outra fase diz respeito ao período compreendido entre 1938 e 1946, que enfatizou o ensino em laboratório. O professor Erasmo Piloto (1910-1992), influenciado também por Pestalozzi, Montessori e Decroly, desenvolveu uma proposta pedagógica para a escola normal, fundada nos princípios da escola nova para a formação de professores, objetivando a valorização da pesquisa centrada na prática e nas experiências, tendo o aluno como centro do processo educacional. A intenção era a de atingir a família dos alunos e também os professores. Essa política tem como principal objetivo adaptar o homem ao processo de industrialização e, no Estado do Paraná, buscou controlar o êxodo rural para as cidades e desenvolver a nacionalidade do paranaense e dos imigrantes (MIGUEL; VIEIRA, 2005, p. 5). É relevante abrir um parêntese e mencionar um pouco quem foi Erasmo Piloto, em face de sua importância na atuação e disseminação do ideário escolanovista no Estado do Paraná. Ingressou na Escola Normal em Curitiba no ano de 1927. Contudo, esta capital não condizia com as necessidades socioeconômicas 68 do momento. Durante sua formação de professor, teve acesso à teoria da escola nova. Com 17 anos, terminou o normal. Foi professor em Paranaguá e Ponta Grossa. Em 1934, assumiu a cadeira da disciplina “Psicologia, Biológica Aplicada à Educação e História da Educação Normal”. Em 1943, fundou o Instituto Pestalozzi, a primeira escola paranaense pensada nos moldes da escola nova. O governador Manuel Ribas doou um terreno para funcionamento do Instituto Pestalozzi e, concomitantemente, criou a primeira escola de “surdo-mudo”, que funcionou junto ao Instituto. Em 1944 ajuda o professor Raul Rodrigues Gomes a fundar o Grupo Editorial Renascimento do Paraná (GERPA), publicando no ano seguinte, Emiliano. Em 1946 ajuda Dalton Trevisan a fundar a revista Joaquim. [...] Alguns anos mais tarde reuniu sob sua orientação um grupo de professores e criou a ‘Associação Paranaense de Estudos Pedagógicos’ que realizou pesquisas educacionais em diversas áreas. Inúmeros e valiosos trabalhos foram produzidos nessa época. A maioria deles pode ser encontrada em várias monografias e em diversos números da ‘Revista de Pedagogia’, publicados por aquela Associação.30 Esse movimento escolanovista, face à defesa da laicidade na educação, provocou reação por parte da Igreja Católica. Antes da publicação do Manifesto dos Pioneiros, a Igreja Católica procurou se fortalecer na esfera educacional por meio de ações como a produção de livros didáticos para as escolas públicas, abertura da Revista da Ordem, em 1921, principal veículo de defesa da doutrina católica, criação da Associação dos Professores Católicos31 (APCS), em 1928, criação da Confederação Católica Brasileira de Educação, em 1933 (SAVIANI, 2008, p. 179180). A Igreja Católica conseguiu assegurar, na constituição de 1934, os princípios da doutrina cristã, fortalecendo de modo jurídico a parceria entre Estado e Igreja. Nessa Constituição de 1934, a democratização da educação para o ensino primário também foi assegurada por meio do estabelecimento da obrigatoriedade 30 Instituto de Educação do Paraná Professor Erasmo Pilotto. Disponível em: <http://www.ieppepoficial.kit.net/erasmopilotto.htm>. Acesso em: 9 de abr. de 2012. 31 A igreja católica vinha se contrapondo contra a laicidade da educação desde 1889, quando foi suspenso o ensino religioso nas escolas publicas. Considerando a educação uma área estratégica, os católicos esmeraram-se em organizar esse campo criando a partir de 1928, nas diversas unidades da federação, Associações de Professores Católicos (APCs) que vieram a ser aglutinadas na Confederação Católica Brasileira de Educação. Com essa força organizativa, os católicos constituíram-se no principal núcleo de ideias pedagógicas a resistir ao avanço das ideias novas, disputando, palmo a palmo com os renovadores, herdeiros das ideias liberais laicas, a hegemonia do campo educacional no Brasil a partir dos anos de 1930 (SAVIANI, 2008, p.181). 69 escolar. Posteriormente, as constituições de 1937 e 1946 mantiveram esse direito (WEREBE, 1970, p. 34). A correlação de forças entre frações sociais com interesses antagônicos é um fenômeno presente na história do Brasil; porém, concomitante a esses interesses, existe a necessidade econômica que, em última instância, acarreta mudanças na organização social, cultural e política. Nesse sentido, todas as frações sociais, tanto as mais conservadoras, como as progressistas, foram se reorganizando, ora em maior tensão, ora em menor, a fim de assegurar da melhor forma seus interesses frente às políticas de Estado, levando, assim, gradativamente, ao aumento do pleito pela escolarização. Nesse aspecto, houve um aumento na demanda de investimento em infraestrutura para que o país pudesse acompanhar as políticas econômicas internacionais e, ao mesmo tempo, responder às novas necessidades do país, necessidades estas que foram se colocando na medida em que o homem foi saindo da área rural para a urbana, sendo esta condição um problema eminente que exigiu do Governo maior investimento em políticas públicas, por exemplo, na educação dos “deficientes”. A ausência de infraestrutura consolidada no país se agravou com a postura cultural conservadora e arcaica do brasileiro que, somada à pouca informação e educação da população, contribuiu para a proliferação de doenças e da mortalidade infantil. Tem-se na década de 1940, aumento de nascidos, bem como alto índice de mortalidade, acarretando a diminuição da expectativa de vida do brasileiro. Isso resultou no desequilíbrio entre os brasileiros em idade de trabalhar e os que estavam fora da faixa etária de trabalho. Conforme Werebe (1970, p.15), “O censo de 1950 revelou que pouco mais da metade da população estava nos grupos etários até 19 anos, 43,2% nos grupos de 20 a 59 anos e o restante, quase 5%, nos de 59 a 80 ou mais”. Isso representava menor arrecadação de impostos pelo Estado, criando um déficit entre a demanda de investimento financeiro em infraestrutura e de políticas sociais e a verba arrecadada por esse Estado. Outro aspecto que contribuiu com a necessidade do Estado melhorar as condições de saneamento, o fornecimento de energia, a construção de ruas, o atendimento à saúde e a oferta educacional foi o crescente êxodo rural para as cidades em busca de trabalho. Esses elementos estavam vinculados principalmente ao desenvolvimento do capitalismo no Brasil, o que acarretou a expansão demográfica, a urbanização, o surgimento de novos municípios, o índice de mortalidade dentre outros; fatores estes 70 que exigiram do Estado investimento em saneamento, em estradas, na ampliação de produção de alimentos, na preparação de mão de obra para as indústrias, exigindo também investimento na educação. Werebe (1970, p. 34-36) afirma que, nas décadas de 1940 e 1950, não havia escolas primárias suficientes para atender a demanda, mesmo havendo o conhecimento de que algumas famílias mantinham seus filhos trabalhando para aumentar a renda familiar, ao invés de irem para a escola estudar. Muitas famílias mantinham seus filhos no trabalho, pois não tinham condições financeiras de comprar material escolar e uniforme a fim de que pudessem frequentar a escola. Essa precariedade na educação certamente se estendeu à população de “deficientes”. Os professores qualificados, por sua vez, eram insuficientes para as escolas públicas já existentes. Os movimentos em prol da escola pública eram legítimos e necessários para o desenvolvimento socioeconômico do país, mas a educação por si só não resolvia os problemas sociais de um sistema econômico pautado em uma relação extremamente desigual na distribuição de renda entre capital-trabalho, como apregoavam os defensores da escola nova. A preocupação com a formação de professores estava presente no Estado do Paraná, por meio de precursores da escola nova. O professor Erasmo Piloto, que no ano de 1949, ao assumir o cargo de Secretário da Educação e Cultura do Estado do Paraná, fomentou a implantação de Escolas Normais Regionais com o objetivo de ampliar o número de professores qualificados, pois, defendia que todos tinham direito à educação. Seu trabalho está registrado na obra Educação é Direito de Todos32. Historicamente a proposta educacional brasileira foi marcada pela estratificação, retratando as relações socioeconômicas conservadoras da elite dominante33. Foi a LDB nº. 4.024/61 que estabeleceu as normativas, criando, 32 Instituto de Educação do Paraná Professor Erasmo Pilotto. Disponível em: <http://www.ieppepoficial.kit.net/erasmopilotto.htm>. Acesso em: 09 de abr. de 2012. Evidencia-se que a defesa de uma educação para todos, propalado pela Declaração Mundial sobre Educação para Todos, aprovada pela Conferência em Jomtien, Tailândia, realizadas entre os dias 5 e 9 de março de 1990, é um ideário que em outros moldes, foi temática de educadores, haja vista essa obra de Erasmo Pilotto. Mesmo anterior a esse, cita-se Comenius (1592-1670) que, em sua obra Didática Magna, afirmava “Nós ousamos prometer uma Didática Magna, isto é, um método universal de ensinar tudo a todos”. (COMENIUS, 2001, s/p). 33 Para compreensão da dependência do Brasil em seu processo de industrialização e a subordinação da elite brasileira, bem como da maneira como essas relações estão entrelaçadas à constituição da escola pública, ver: XAVIER, Maria Elizabete Sampaio Prado. Capitalismo e Escola 71 consequentemente, maiores possibilidades do direito de acesso à educação pública, laica e gratuita. Nessa conquista, os escolanovistas foram os maiores defensores da escola pública. Considerando o objeto desta investigação, reporta-se-á aos artigos que trataram da temática sobre os “excepcionais”, primeiramente, dos projetos que antecederam a LDB, sendo eles os artigos do “Projeto de lei sobre as Diretrizes e Bases da Educação Nacional”, elaborado em 1948 por uma comissão de especialistas e por iniciativa do então Ministro da Educação, Dr. Clemente Mariani. Em seguida, serão explicitados os artigos sobre a temática presente no Substitutivo ao projeto de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, apresentado à Câmara dos Deputados pelo Deputado Carlos Lacerda no dia 15 de janeiro de 1959. Na sequencia ver-se-á o texto aprovado desta LDB, que se reportam aos “excepcionais”. No artigo nº. 61 do Projeto de Lei, Clemente Mariani utilizou a terminologia “retardado, portador de deficiência, deficientes, anormais”. Neste projeto, a intenção de ajustamento desses alunos ao ambiente escolar estava explícita. Outro aspecto a se considerar é o de que o projeto deixou em aberto a questão do atendimento, não se referenciando “preferencialmente” em estabelecimentos do ensino regular. Apesar de considerar o mesmo espaço educacional do ensino primário, a educação estava direcionada às classes especiais para os considerados “ajustáveis”. Salienta que aos não “ajustáveis” a educação deveria ser em estabelecimentos especializados, de preferência nos já existentes. Os que eram considerados “irrecuperáveis”, o destino era o internato, num estabelecimento específico para receber atendimento assistencial. O projeto assegurava a possibilidade de Convênio com as instituições privadas que ofertam o atendimento a essa demanda. Art. 61 — Cada Estado promoverá a criação, nas escolas primárias de grande matrícula, de classes de recuperação para alunos pseudoretardados ou portadores de deficiências de qualquer natureza, que prejudiquem o seu aproveitamento escolar. § 1.º — Os alunos que não puderem ser reajustados nessas classes deverão ser encaminhados para instituições especializadas, aproveitando-se de preferência as já existentes, mantidas nas entidades particulares e com as quais serão firmados convênios de cooperação. no Brasil: a constituição do liberalismo em Ideologia educacional e as reformas do ensino (19311961). Campinas, SP: Papirus, 1990. 72 § 2.° — Convénios idênticos deverão ser firmados com instituições que se dediquem à educação de deficientes de físico ou anormais de conduta. § 3.° — Para anormais profundos, escolarmente irrecuperáveis, cada Estado deverá manter uma instituição assistencial, para recolhimento definitivo (BARROS, 1960, p. 499). Assim, nesse Projeto de Lei, a coexistência do atendimento por instituições públicas e privadas, seja de cunho filantrópico ou não, estava em aberto para um determinado tipo de grau de deficiência. Para outros, o encaminhamento era para as instituições especializadas. Além disto, o atendimento educacional primário não estava posto como obrigatoriedade, como pode se observar no artigo 18, que tratava da dispensa “da obrigação escolar”, no item d: a) as crianças que obtiverem o certificado de conclusão do curso primário; b) as que houverem, durante cinco anos, freqüentado regularmente a escola primária; c) as que estiverem recebendo educação eficiente no lar, comprovada anualmente em exames perante as autoridades competentes; d) as que, por doença ou anomalia grave, não devam frequentar a escola, salvo se existir classe ou estabelecimento que lhes seja adequado ( Barros, 1960, p. 483). Ao mesmo tempo em que esse projeto instituiu a obrigatoriedade do ensino primário, por falta de escolas que atendessem a demanda fez concessão a determinadas situações, dentre elas a desobrigação educacional dos “anormais”, nos quais se incluíam os “excepcionais”. O Substitutivo ao projeto de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, apresentado à Câmara dos Deputados pelo Deputado Carlos Lacerda no dia 15 de janeiro de 1959, o Título XVII tratou da educação de excepcionais e manteve o atendimento especializado como recurso educacional. Observa-se, porém, que o art. 97 expressa uma perspectiva que vai ao encontro da proposta de inclusão ao considerar que a educação dos “excepcionais” deveria fazer parte do sistema geral de ensino. Art. 97 — A educação de excepcionais, embora especializada, deve enquadrar-se no sistema geral de educação, observadas quanto possível as mesmas diretrizes e programas análogos, a fim de integrá-los na comunidade como elementos úteis. Art. 98 — Toda iniciativa privada relativa à educação de excepcionais, que fôr pelos Conselhos Regionais considerada 73 eficiente, receberá, por parte do Estado, tratamento especial de financiamento através de bolsas de estudo e empréstimos para investimentos em prédios, instalações e instrumental. Essa ajuda poderá chegar à suplementação de verba e à manutenção total, respeitada a autonomia pedagógica e administrativa do estabelecimento (BARROS, 1960, p. 521). Neste caso, o termo “excepcional” foi utilizado, mantendo a compreensão de uma educação apartada do ensino comum. Ficou também assegurado bolsas de estudos destinadas a esse segmento social, uma vez que a bolsa de estudos em outros artigos estava destinada aos mais capazes. Ambos os projetos trazem em sua essência a concepção de “excepcional” constituída no século passado, em que exprime uma compreensão que limita seu desenvolvimento cognitivo de modo a não poder estar inserido no ensino regular. Porém, agregado a essa compreensão, exprime também os valores que foram sendo metamorfoseados frente às novas relações sociais. Outro fator a considerar diz respeito à terminologia utilizada por esses documentos. Jannuzzi (1985, p. 3-4), ao discutir o uso da nomenclatura, definiu utilizar os termos “deficiente mental”, “excepcional”, “retardado”, “retardado mental”, “atrasado intelectualmente” e “atrasado mental” como termos similares, pois as substituições terminológicas acabavam adquirindo pejorações na sociedade, pois a elas foram incorporadas as normas e valores que a sociedade naquele momento histórico atribuiu a essas crianças. Há que ressaltar que, esses valores, apesar de possuírem impressões de seu período, possuem também impressões anteriores, uma vez que os valores e princípios morais são produzidos historicamente. Segundo Bueno (1993, p. 14; 32; 36) ao fazer o mesmo debate em relação às terminologias, apesar de concordar com Jannuzzi, acrescenta que a substituição de tais termos por “excepcional”, tem uma estreita ligação com a sociedade industrial e com a democratização da escola, onde as classes subalternas começaram a exigir maior acesso à educação. Para ele, o termo “excepcionalidade” incluiu diversas crianças com outras características, como distúrbio de linguagem, superdotados, desajustados emocionais e sociais, para justificar a educação que estava voltada para os mais talentosos e não talentosos, desconsiderando os fatores sociais, culturais e econômicos inerentes ao desenvolvimento do homem. 74 Neste sentido, a questão da oferta educacional aos “excepcionais” estava atrelada ao debate da democratização da educação. Logo, a análise destes artigos não pode ser realizada sem considerar outras questões presentes nestes projetos. De acordo com Orso (2003, p. 283) o debate34 entre o projeto apresentado pelo Ministro Clemente Mariani, que expressava os interesses de uma educação pública, laica e gratuita, e o apresentado pelo Deputado Carlos Lacerda, representou um disputa política, partidária e ideológica. Nesta disputa estava em jogo a consolidação de um país pautado nos princípios republicanos e por princípios que representavam o retrocesso. Depreende-se, portanto, que para além da defesa da Escola Pública, a Comissão estava preocupada em defender os princípios da Constituição de 1946 e os ideais republicanos, liberais e democráticos nos quais ela estava fundada. Em função disso, quase todos os envolvidos criticavam o caráter anti-republicano, antiliberal e antidemocrático do projeto, o que nos leva a crer que a luta em defesa da Escola Pública se constituía num meio para a defesa e afirmação desses princípios, que nem sempre ficaram explícitos. (ORSO, 2003, p. 280). Os defensores do substitutivo defendiam a liberdade de ensino, que era compreendida como a não intervenção do Estado na expansão da rede privada na educação. Para tanto, nesse substitutivo colocava a família com “direito inalienável e imprescritível” na definição de qual educação deveria possuir seu filho (ORSO, 2003, p. 271; 302). Ressalta-se que o discurso da Igreja Católica no tocante à defesa da liberdade de ensino da família, como direito de definir a instituição em que seu filho irá estudar, ocorre apenas em momentos históricos nos quais necessita do apoio do “poder temporal” que está à frente da estrutura socioeconômica da sociedade. É, portanto, uma estratégia da Igreja para atingir seu fim último. Com o advento de uma nova ordem social, passou a fazer concessões que antes não permitia. Precisamente a propósito do liberalismo, aliás, o famoso polemista católico Louis Veuillot definiu, melhor do que ninguém, esse ‘espírito tático’ da Igreja: ‘Quando os liberais estão no poder — dizia — nós lhes pedimos a liberdade, porque é o seu princípio’; quando nós estamos no poder, recusamos-lha, porque é o nosso princípio. [...] 34 Para aprofundamento dos debates que antecederam a aprovação da LDB nº. 4.024/61, recomendo ler a tese do professor Dr. Paulino José Orso, intitulada Liberalismo, Neoliberalismo e Educação. 75 poderíamos lembrar inúmeros exemplos alienígenas, a começar pelos do Papa Pio IX, que combatia a liberdade de ensino dos protestantes na Itália, ao mesmo tempo em que a defendia para os católicos na França. (BARROS, 1960, p. 340). Assim, a justificativa da Igreja Católica, ao contrapor-se ao monopólio35 da Educação pelo Estado, encontra-se no “enunciado de Pio IX, DiviniIllius Magistri, de 31 de dezembro de 1929, em que se procurava provar, em última análise, que o direito da família em relação aos filhos é anterior ao Estado, e que o direito da Igreja é anterior e superior ao da família” (BARROS, 1960, p. 12). Com essa afirmativa, justificava a preponderância da família na escolha da educação que o filho teria. Porém, de modo implícito, o que estava em questão era a autonomia da Igreja Católica nas definições e expansão educacional no Brasil, ou seja, a prevalência era a manutenção de uma educação elitizada, conservadora e confessional. Orso (2003, p. 320) sinaliza que nesse debate, os defensores da escola pública, por compreenderem que a luta era pela defesa dos princípios liberais, democráticos e republicano, foram os que compartilharam do enfrentamento ao grupo conservador e antidemocrático. Naqueles estavam os “sindicalistas, jornalistas, escritores, membros da sociedade civil vinculados ao campo democrático e liberal.” (ORSO, 2003, p. 320). O autor afirma que a LDB aprovada acabou por não responder os anseios nem de um ou nem de outro. Em suas palavras [...] [...] em razão da relação de forças envolvidas, o projeto aprovado não configurou nem uma posição radical que favorecesse ao centralismo nem a descentralização. Também não apresentou nenhuma posição extrema em favor dos defensores da escola pública nem dos interesses das escolas privadas e confessionais. (ORSO, 2003, p. 325). Neste sentido, ao utilizar argumentos dos defensores da escola pública, mesmo sendo feito antes da aprovação da LDB, as suas críticas constituíram subsídio teórico para compreensão dessa legislação. Realizado tais considerações, a LDB apresenta dois artigos que tratam da educação dos “deficientes”, a saber: 35 Barros esclarece qual monopólio a Igreja Católica condena. “Note-se bem que não se condena todo e qualquer monopólio, mas somente o monopólio do Estado, já que o monopólio da Igreja seria por ela recebido com os braços abertos. Já que este não é possível, em virtude das circunstâncias do mundo moderno, a Igreja condena aquele, ao mesmo tempo em que exige a cooperação financeira do Estado para garantir a sua ‘liberdade de ensino’." (BARROS, 1960, p. 320). 76 Art. 88. A educação de excepcionais deve, no que fôr possível, enquadrar-se no sistema geral de educação, a fim de integrá-los na comunidade. Art. 89. Toda iniciativa privada considerada eficiente pelos conselhos estaduais de educação, e relativa à educação de excepcionais, receberá dos poderes públicos tratamento especial mediante bôlsas de estudo, empréstimos e subvenções. (LEI DE DIRETRIZES E BASES, 1961, p.15). Sendo a primeira legislação que menciona a questão da oferta educacional do “deficiente”, pode-se afirmar que se tratou de um avanço significativo. Mas é preciso realizar uma análise pautada nos princípios que norteiam essa norma. Jannuzzi (1997, p. 189) afirma que essa conquista na legislação vem no bojo das discussões e embates da democratização da educação por meio da escola pública, a qual não rompe com as estruturas segregativas. O artigo nº. 89 traz a defesa da franquia dessa oferta educacional às instituições privadas. Contudo, está ausente na redação da referida LDB a natureza da instituição privada. Mazzotta (1989, p. 6) em sua análise, considera que o art. 88 possibilita a matrícula em sistemas gerais de ensino, podendo ser ofertado ensino regular ou serviços especializados. Neste caso, os alunos com deficiência ficavam “à margem” da educação da mesma forma que os demais alunos. O autor salienta também a indefinição dos rumos do subsídio financeiro previsto no art. 89. Certamente é possível afirmar que como instrumento de luta para reivindicação do direito de estudar em escolas públicas, os artigos supramencionados foram fundamentais, possibilitando a superação do atendimento assistencialista aos “deficientes”. O serviço ofertado pelas instituições privadas assistencialistas antecede o atendimento do Estado em escolas públicas. As iniciativas de atendimento ao “deficiente” ocorreram em instituições privadas de caráter filantrópico, assistencialista e religioso. As instituições que faziam o atendimento de deficientes físicos, primeiramente, estavam direcionadas ao atendimento de crianças com sequelas de poliomielite. Com o avanço das campanhas de vacinação, passaram a se especializar em atendimentos às “crianças com distúrbios neuromotores, como a Associação de Assistência à Criança Defeituosa – AACD, em São Paulo, fundada em 1950, e a Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação – ABBR, no Rio de Janeiro, em 1954” (MEC/CENESP, 1975, p. 68; 143 apud BUENO, 1993, p. 95). 77 Bueno (1993) menciona outras instituições nas áreas de deficiência auditiva e visual que antecedem a LDB nº. 4.024/61, como as APAEs e as Associações Pestalozzi. Na área da deficiência auditiva surgiram novas entidades, como a Escola Epheta (Curitiba, 1950), o Instituto Domingos Sávio (Recife, 1952), a Escola Santa Cecília (Rio de Janeiro, 1957), o Instituto Educacional São Paulo (São Paulo, 1958), o Instituto Nossa Senhora de Lourdes (Rio de Janeiro, 1959), o Instituto Dona Conceição (São Paulo, 1960). Na área da deficiência visual foram criados a Escola Luiz Braille (Pelotas, 1952), o Instituto de Educação e Assistência aos Cegos do Nordeste (Campina Grande/PB, 1963), a Escola de Cegos do Maranhão (São Luís, 1964) e a Associação dos Cegos do Piauí (Teresina, 1967). (BUENO, 1993, p. 95). Também surgiram instituições privadas, de natureza mercadológica, centradas no atendimento ao “deficiente”, mas estas eram destinadas às classes sociais mais favorecidas, tais como: clínicas, centros de reabilitações e escolas especializadas. Assim, identificam-se três tipos distintos de instituições que ofertavam serviços de cunho educacional ao “deficiente”. O setor público, o qual já possuía alunos com deficiência matriculados – seja em classes especiais ou em salas regulares. Isso geralmente ocorria quando a deficiência não era aparente ou se mostrava pouco comprometedora em termos de adaptações metodológicas. Havia, também, as instituições privadas de caráter mercadológico e as assistencialistas/filantrópicas. Estas últimas surgiram em decorrência da omissão do Estado em ofertar atendimento a essas pessoas. Esse tipo de serviço estava vinculado aos ideários confessionais, que propalam a atividade da caridade para com o próximo. Instituições privadas, filantrópicas assistenciais e particulares, como já citado no tópico I deste capítulo, fortaleceram o movimento conservador que favorecia as escolas privadas, conforme consta na LDB nº. 4.024/61. Mas, foi por meio dos artigos nº. 88 e nº. 89 dessa Lei que o Estado Brasileiro oficializou, de modo incipiente, um sistema nacional de educação que atendesse a esse segmento social. Ao mesmo tempo em que a legislação, em seu artigo nº. 2, assegura o direito do “deficiente” à educação, ela restringe tal direito ao determinar que a responsabilidade de escolher o gênero de educação a ser ofertado é da família, haja vista a forte tendência na escolha do caráter de educação que os familiares dispensavam a seus filhos, uma vez que a cultura da sociedade brasileira estava 78 pautada em princípios religiosos e pressupostos biológicos. Esta afirmativa pode ser constatada no artigo nº. 30, que dispensa a obrigatoriedade da educação escolar, a saber: Art. 3036. Não poderá exercer função pública, nem ocupar emprego em sociedade de economia mista ou empresa concessionária de serviço público o pai de família ou responsável por criança em idade escolar sem fazer prova de matrícula desta, em estabelecimento de ensino, ou de que lhe está sendo ministrada educação no lar. Parágrafo único. Constituem casos de isenção, além de outros previstos em lei: a) comprovado estado de pobreza do pai ou responsável; b) insuficiência de escolas; c) matrícula encerrada; d) doença ou anomalia grave da criança. (BARROS, 1960, p. 307). Ressalta-se que, em um país em desenvolvimento, foi por meio da Lei nº. 4024/61 que seus gestores e legisladores assumiram a responsabilidade de dispensar as crianças de irem para a escola devido à falta de condições financeiras, ou simplesmente por não existirem escolas em número suficiente para suprir a demanda, ou ainda por tais crianças possuírem algum tipo de “anomalia”. Num país em desenvolvimento, a crescente demanda por escolas, a necessidade de formação técnica para indústria, de formação de professores e de constituição de comportamentos condizentes com uma sociedade moderna, faz da educação um negócio próspero e vantajoso. O Estado contribuiu com essa condição ao dar apoio técnico e financeiro às instituições privadas que atuavam na educação. Neste aspecto, ficou, portanto, seguro na letra da lei o direito a bolsas de estudos aos alunos, podendo a família escolher onde seus filhos iriam estudar, em escolas públicas oficiais ou em escolas privadas. Art. 94. A União proporcionará recursos a educandos que demonstrem necessidade e aptidão para estudos, sob duas modalidades: a) bolsas gratuitas para custeio total ou parcial dos estudos; 36 No caso do Substitutivo ao projeto de Diretrizes e Bases da Educação Nacional apresentado à Câmara dos Deputados pelo Deputado Carlos Lacerda a 15 de janeiro de 1959, atrelou-se o direito a concurso público a obrigatoriedade da matrícula no ensino primário como expresso no artigo 17: “Parágrafo único - Nenhum pai de família ou responsável por criança com idade escolar poderá exercer função pública ou em sociedade de economia mista ou em empresa concessionária de serviço público, sem certificado de matrícula dessa criança ou de isenção regulamentada pelo Conselho Nacional de Educação.” Ficou evidente que tal exigência não incluiu os “deficientes”, uma vez que o documento não considerou como obrigatoriedade a escolarização destes alunos. 79 b) financiamento para reembolso dentro de prazo variável, nunca superior a onze anos. § 1º Os recursos a serem concedidos, sob a forma de bolsa de estudos, poderão ser aplicados em estabelecimentos de ensino reconhecido, escolhido pelo candidato ou seu representante legal. (DECRETO Nº 57.980, DE 11 DE MARÇO DE 1966)37. O principal intuito de prever essas bolsas38 de estudo na LDB foi, justamente, o de criar possibilidades de repasse de verbas às escolas privadas. De acordo com Fernandes (1960, p. 284), as bolsas beneficiaram principalmente a camada mais favorecida da população, além de assegurar ao setor privado uma renda, pois para esses não importa quem pagava a conta, desde que estivessem arrecadando capital. “A orientação que prevaleceu, afirmam os signatários do manifesto, foi uma orientação suicida, de franco favoritismo da escola particular em todos os níveis de ensino.” (CANTONI, 1960, p. 196). As bolsas de estudos eram direcionadas principalmente aos alunos que apresentavam melhores desempenhos escolares. Deste modo, o artigo nº. 89 assegura às instituições privadas bolsas de estudos aos que prestarem serviços educacionais especializados. Assim, as escolas especiais teriam possibilidade de receber apoio financeiro por meio de bolsas de estudos, pois o desempenho escolar do “deficiente” estava comprometido por falta de material didático adequado e, principalmente, pela concepção do “deficiente” que regia a ação docente, estruturada pela concepção biológica articulada a princípios religiosos, como foi exposto nos tópicos I e II. Ressalta-se, portanto, que o conteúdo da LDB evidenciou a concepção de homem pautada na normalidade, bem como favoreceu a coexistência da educação especial no ensino regular e nas escolas especializadas. No próximo capítulo será analisada a educação especial no contexto das décadas de 1970 e 1980, bem como os movimentos sociais relacionados a essa temática, os quais acarretaram a criação do CENESP. 37 Regulamenta o Artigo 94 da Lei 4.024, de 20 de Dezembro de 1961 (lei que Fixa as Diretrizes e Bases da Educação Nacional Na Parte Referente a Bolsas de Estudo do Ensino Medio). 38 Para ampliação do conhecimento quanto à forma de distribuições das bolsas de estudos no Brasil e em países como a França, Rússia e Estados Unidos, consultar a obra de Werebe (1970, p. 40-43), intitulada “Grandezas e misérias do Ensino no Brasil”. 80 CAPÍTULO II – AS DÉCADAS DE 1970 E 1980 E A POLÍTICA DE EDUCAÇÃO PARA O “DEFICIENTE” Este capítulo objetiva analisar as diretrizes da educação especial no que tange à sua elaboração e implantação. Para tanto, primeiramente far-se-á uma exposição temática, articulada ao contexto em que essa política se apresenta como meta nacional a ser desenvolvida pelos Estados. Em seguida, realizar-se-ão estudos relacionados às ações oficiais, assim como acerca de ações promovidas pela sociedade civil em prol desta educação, buscando compreender em que medida ambas estavam relacionadas aos movimentos internacionais que visaram o acesso desse segmento a diversos espaços sociais. A partir disso serão analisados os princípios e as tendências que estavam presentes nas diretrizes da educação especial nas áreas das deficiências visual, auditiva, mental e física. 2.1 Aspectos sociopolíticos das décadas de 1970 e 1980 e suas correlações com o “deficiente” As ações de âmbito nacional para a educação do “deficiente” passaram a ser pauta de discussões mais amplas pelo Estado quando tiveram a legislação como instrumento de reivindicações. A aprovação dessas normas legais foi decorrente de preocupações evidenciadas em anos anteriores por profissionais, familiares e pessoas que dependiam de serviços adequados para prosseguirem em seus estudos e/ou para ter acesso a ambientes como: lojas, restaurantes, correios, fóruns, mercados e espaços públicos e privados. A definição de políticas para o “deficiente” iniciou-se num período em que vigorava o governo civil-militar no país. O sistema de ensino não correspondia à formação educacional que as indústrias e empresas almejavam. Neste sentido, esse foi um período que apresentou peculiaridades que refletiram na estrutura da oferta dessa educação. Analisar a educação escolar nas décadas de 1970 e 1980 exige a compreensão das questões sociopolíticas que provocaram o golpe militar de 1964 e também o processo de abertura política que se iniciou por volta de 1973, culminando, em 1985, nas eleições presidenciais, pois esse processo constituiu-se num dos condicionantes ao estabelecimento de políticas sociais. Esse intervalo de tempo configurou-se em duas acepções de organização e estruturação societária. Desde 1946 até o golpe militar, pode-se considerar que o 81 Brasil vivenciou uma “democracia populista1” (GERMANO, 1994, p. 17). Para Saviani (2002, p. 23; 85), esse período pode ser designado como “democracia restrita2”; já o período compreendido de 1964 a 1985 foi denominado pelo autor de “democracia excludente3”. Neste último período, a partir de 1973 o governo civilmilitar iniciou um processo de abertura política em que, por volta de 1982, fomentou políticas compensatórias, visando amenizar a situação de pobreza da população, que somava em torno de 64% de brasileiros que, consequentemente, estavam em situação de dependência de políticas sociais. Ao mesmo tempo, o governo se utilizou destas políticas para promover apoio financeiro às empresas privadas, inclusive no setor educacional. (GERMANO, 1994, p. 92-94). Para Martins (1999, p. 43), desde o período varguista, o governo não conseguiu equilibrar os interesses da sociedade civil, das camadas populares e da elite. Isto ocasionou uma instabilidade na gestão. Frações da sociedade civil defendiam o populismo e a nacionalidade. Outras defendiam maior articulação com o capital internacional, logo, maior intervenção de países dominantes nas definições da política e da economia do Brasil. A LDB nº. 4.024/61, como se observa no capítulo anterior, foi produto de uma correlação de forças entre uma fração da sociedade conservadora e de outra progressista. Mas, além disto, ela foi produto das necessidades socioeconômicas advindas do processo de modernização pautada no modelo de industrialização com participação dos movimentos4 em prol da defesa da escola pública e da privada. 1 Como se pode verificar no Brasil o populismo foi revolucionário em 1930; bonapartista em 1937; nacionalista e anti-imperialista de 1950 a 1954; desenvolvimentista no final dos Anos 50; moralista em 1961; nacionalista e sindicalista até a sua queda em 1964. (CUNHA; GÓES, 2002, p. 10). 2 Segundo Saviani, pode-se compreender que democracia restrita corresponde ao “regime que mantém abertas as franquias democráticas cujos canais de participação, entretanto, só são alcançados por uma determinada e restrita parcela da sociedade, parcela essa constituída pelas chamadas elites, seja do ponto de vista socioeconômico, seja do ponto de vista cultural.” (SAVIANI, 2002, p. 8). 3 A denominação de democracia excludente refere-se ao “regime civil-militar, pois, em nome da democracia, realizaram operações de exclusão intencionais e programadas em todas as esferas da sociedade.” (SAVIANI, 2002, p. 85). 4 Cunha e Góes salientam que na defesa da escola privada ficaram principalmente uma parcela de “católicos sob a liderança da AEC (Associação de Educação Católica), que deflagrou a Campanha de Defesa da Liberdade de Ensino em oposição à Campanha de Defesa da Escola Pública. A AEC mobilizou os colégios católicos, os Círculos Operários, a opinião pública conservadora e pressionou o Congresso Nacional. Esta militância católica começou a ‘rachar’ na JEC (Juventude Estudantil Católica) e JUC (Juventude Universitária Católica) face à posição do movimento estudantil em favor da escola pública. A Campanha de Defesa da Escola Pública retomou o pensamento liberal norteamericano e europeu do final do século XIX (ao qual se somaram os marxistas), mobilizou a opinião pública progressista, o movimento estudantil, e obteve o apoio operário (I e II Convenções Operárias 82 Assim, essa LDB acabou atendendo parcialmente as proposições dos projetos de Mariani e de Lacerda (CUNHA; GÓES, 2002, p. 14). Por analogia, pode-se afirmar que a educação teria uma expansão mesmo sem a aprovação da LDB, pois o processo de industrialização exigia mão de obra mais qualificada. Conforme Saviani (2002) A organização escolar não é obra da legislação. Ambas interagem no seio da sociedade que produz uma e outra. O exame do contexto nos permite inferir, por exemplo, que a expansão quantitativa do ensino brasileiro, após 1964, com todas as consequências daí advindas, teria ocorrido com ou sem a reforma da legislação. (SAVIANI, 2002, p. 15). As Diretrizes e Bases da Educação, portanto, são expressões da realidade concreta, pois, os anos de 1960 estavam pautados no modelo de industrialização de substituição de importações, o que exigia maior escolaridade da população e novas posturas culturais, questões que estimularam os debates em torno da educação pública, laica e gratuita. O cenário deste período foi constituído por vários fenômenos que estavam vinculados entre si, que foram marcados por mobilizações da classe trabalhadora promovidas pelos sindicatos, que, no entanto, estavam suscetíveis à ação de um Estado interventor; pelos trabalhadores do campo que começaram a se organizar por meio das ligas camponesas e dos sindicatos rurais; pela fração da elite conservadora, que cobrava reformas que possibilitassem o vínculo com o capital internacional, sobretudo do imperialismo norte-americano, contrapondo-se à abertura do mercado interno; pelos latifundiários que faziam pressão para manter a sua condição de produção, pois não aceitavam as reestruturações socioeconômicas. Além disto, havia disputa político-econômica entre as potências mundiais, expressa pela Guerra Fria (1945-1989), que acarretava a contínua ação do imperialismo norte-americano contra o “fantasma” do comunismo (CUNHA; GÓES, 2002, p. 8-9). A questão política se explicitou nos embates entre as frações dos latifundiários e a dos movimentos sociais, cada qual defendendo seus interesses. Esse enfrentamento incentivava a reforma agrária na tentativa de reduzir o poderio deste setor. Por outro lado, havia a disputa entre os dois segmentos sociais, sendo em Defesa da Escola Pública, Sindicato dos Metalúrgicos, São Paulo, 1961).” (CUNHA; GÓES, 2002, p. 13). 83 que um defendia a expansão do mercado interno e o outro a ampliação por meio de políticas imperialistas5. A democracia populista representava à classe trabalhadora a possibilidade de abertura política, a ampliação de direitos trabalhistas, a reforma agrária e o aumento de escolaridade da população menos favorecida. Isso era colocado em evidência por meio dos movimentos em prol da reforma agrária, dos programas populares de alfabetização de massa como a campanha “de pé no chão também se aprende a ler”6. A crise econômica desencadeou aumento da inflação, redução de investimentos externos e da taxa de lucros, pois, como já referenciado, o processo de industrialização, baseado na substituição de importações de maquinarias, equipamentos e insumos visando à reestruturação da produção industrial que havia se esgotado, provocou a necessidade de remodelar a economia, que já não correspondia às necessidades de expansão do capital Interno e Internacional7 (GERMANO, 1994, p. 40). Como já mencionado, o enfrentamento do ideário comunista era eminente por conta da guerra fria, que levava os Estados Unidos a financiar programas e projetos, de modo que possibilitasse intervir nas definições de políticas sociais, econômicas e administrativas dos países financiados. A disputa no campo político estava entre o grupo que defendia o desenvolvimento sociopolítico e econômico, mais populista, e outro conservador, que desejava manter-se na situação. Foi neste contexto que Jânio Quadros assumiu o governo do país em 31 de janeiro de 1961, ali permanecendo até 25 de agosto do mesmo ano, data em que renunciou por não suportar as pressões sociais, tanto da fração progressista, quanto da conservadora. Pascoal Ranieiri Mazzilli governou a nação por um período de transição que foi de 25 de agosto a 7 de setembro de 1961, período a partir do qual João Goulart assumiu a presidência, ficando no 5 Esta disputa desencadeou duas vertentes do nacional-desenvolvimentismo, uma voltada para uma democracia populista e outra à política imperialista norte-americana. Sobre esta análise pode-se obter maiores detalhes na videoconferência “Democratização, nacional-desenvolvimentismo e a educação brasileira (1945-1964)”, proferida por José Luis Sanfelice, Desiré Luciane Dominschek, Daniela Moura Rocha de Souza, Wilson, da Silva Santos, Denise Camargo Gomide e Edalma Ferreira Paes em 24 de maio de 2012. Disponível em: <http://www.fe.unicamp.br/videoconferencia/fe/2012_1Sem_ED314.html>. Acesso em 4 de dez. de 2011. 6 Esse movimento de alfabetização de adultos estava articulado a um contexto maior, como se pode verificar no artigo intitulado “A Campanha de Pé no Chão também se Aprende a Ler: uma extraordinária experiência pedagógica e política”, publicado pelo pesquisador Eduardo A. G. Cavalcanti, 2012. 7 Grifo meu. 84 governo até 31 de março de 1964. Durante o seu governo, procurou fazer concessões aos progressistas e aos conservadores com o intuito de reestabelecer o equilíbrio político e econômico, o que gerou a insatisfação de ambos. Nesse sentido, a sociedade da década de 1960, período em que ocorreu o golpe militar, estava constituída por diversas frações sociais com interesses antagônicos, o que levou uma das frações da elite, conjuntamente com os militares de postura conservadora, a tomar o poder do país. Como exemplo de uma postura política mais progressista, tem-se o discurso de João Goulart, proferido em 13 de março de 1964 em um comício realizado em meio à insatisfação de uma parcela da população. Nas palavras de João Goulart: Trabalhadores do campo, [...] poderão então, ser concretizada, embora em partes, a mais sentida e justa reivindicação, aquela que dará um pedaço de terra farta para ele trabalhar, um pedaço de terra para ele cultivar. Aí então o trabalhador e sua família sofrida irão trabalhar para ele, porque até aqui ele trabalha para o dono da terra que ele aluga ou para o dono da terra que ele entrega sua produção. Com alto testemunho da nação e com a solidariedade do povo, reunido na praça, que só ao povo pertence, o governo que também é o povo, e que também só ao povo pertence, reafirma seus propósitos inabaláveis, de lutar com todas as suas forças pela reforma da sociedade brasileira, não apenas pela reforma agrária, mas pela reforma tributária, [...], pelo voto do analfabeto, elegibilidade de todos os brasileiros, pela pureza da vida democrática, pela emancipação econômica, pela justiça social e ao lado do povo pelo progresso do Brasil8. Este discurso causou desconforto político em parte da sociedade civil constituída por uma parcela da classe hegemônica, constituída pelos capitalistas ligados ao capitalismo internacional e seus intelectuais orgânicos e os militares, fazendo com que eles apressassem o golpe. Assim, em 31 de março de 1964, Goulart foi deposto. Nesse dia o governo militar assumiu o poder. O discurso do presidente Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco sinalizou a direção dada ao país: “O meu governo será o das leis, o das tradições e princípios morais e políticos que refletem a alma brasileira.”9 Com base nas duas falas, é possível 8 Esta transcrição literal foi extraída do discurso disponível no vídeo intitulado “Comício da Central do Brasil”, em 1964. Disponível em: <www.youtube.com/watch?v=2PQSe_6WURY>. Acesso em: 25 de jun. de 2011. 9 Essa transcrição corresponde ao discurso do Presidente Castelo Branco, disponível em: <www.youtube.com/watch?v=0GrvZoiIqpE>. Acesso em: 25 de jun. de 2011. Transcrição minha. 85 compreender o posicionamento de cada Presidente. No discurso de João Goulart é evidente que suas ações governamentais estariam voltadas, em parte, para uma política populista e nacionalista. Já no fragmento do discurso de Castelo Branco é perceptível o desejo de uma política tradicionalista, com maior abertura ao capital estrangeiro e estancamento da participação popular na política. Havia o interesse da manutenção do poder pela elite e por militares, pois ambos não aceitavam a participação popular na política e compartilhavam a prerrogativa de desenvolvimento econômico vinculado ao capital internacional. Essa união da fração da elite com a fração dos militares levou ao golpe, o que justificou ser denominado de golpe civilmilitar (DREIFUSS, 1981, p. 361). Conforme Dreifuss (1981, p. 72-82; 417), o golpe foi realizado por um conjunto de intelectuais orgânicos ligados ao Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), ao Instituto Brasileiro de Ação Democráticas (IBAD), empresários nacionais e incorporações multinacionais, militares, agentes estatais. A este se somaram agentes norte-americanos com o qual o IPES mantinha contato, objetivando apoio logístico para o golpe (DREIFFUS, 1981, p. 362). Nesse sentido, o apoio dos Estados por meio de partidos políticos e governadores foi estratégico e fundamental para o sucesso do “golpe”, como afirma Dreifus: Além disso, o complexo IPES/IBAD procurou o apoio de figuras nacionais de partidos políticos e dos governadores dos Estadoschave de São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e Guanabara. Os governadores foram úteis ao colocarem a força policial de seus Estados à disposição do movimento civil-militar contra João Goulart (DREIFUSS, 1981, p. 362). Ou seja, o golpe foi resultado de ações de diversos segmentos da sociedade civil e militar da elite nacional e de corporações multinacionais que buscavam influenciar a política e a economia brasileira. Neste contexto, Castelo Branco foi escolhido para assumir a presidência em função de ter um posicionamento mais moderado em relação às manifestações em prol da democracia ( FICO, 2004, p. 32). Segundo Fico (2001, p. 39), Castelo Branco contrapunha-se às ações punitivas físicas, tanto da extrema esquerda, quanto da direita. Defendia que não havia necessidade de ações repressivas, como as ocorridas durante o processo revolucionário. Acreditava que poderia legislar e manter a ordem por meio das leis. O autor ainda afirma que a postura de Castelo Branco frente aos militares não teve sucesso, pois a linha dura foi quem deu direção 86 às definições do governo. Isto se confirmou nos rumos que o país tomou nos anos subsequentes, nos quais os militares se mantiveram como governantes do Estado brasileiro. Estes explicitaram como compreendiam e a forma pela qual deveriam manter a ordem, as tradições, a moral. Em suas ações, explicitaram também sua compreensão acerca do que era moral e amoral, do que era ético e não ético, do que consideravam ser princípios e normas legais, bem como do que era ilegal. O fato é que, de 1964 a 1985, a população brasileira esteve subjugada a um governo militar ditatorial. O ápice da repressão ocorreu com o Governo Médici, em 1968, com a publicação do AI-5. Segundo Fico (2004, p. 37) apesar do caráter punitivo da linha dura não ter se manifestado durante o Governo Médici, foi a partir do AI-5 que as ações repressivas passaram a atuar de acordo com o ethos da comunidade de segurança e de informações no âmbito da censura de diversões públicas, ou com ela entraram em conflito em relação à propaganda política. Este autor destaca que “se a censura de diversões públicas teve de incorporar à sua tradicional temática de defesa da moral e dos bons costumes os ingredientes políticos impostos pela vitória da linha dura, outras instâncias, como a propaganda política, passaram por uma dinâmica de confronto.” (FICO, 2004, p. 38). Assim, o ethos militar prevaleceu como definição dos princípios morais, éticos, de obediência, disciplina, hierarquia, ordem e normas na forma de organização da sociedade brasileira. Mas era preciso convencer parcelas da população que a melhor opção de governo para o Brasil era a intervenção militar no poder executivo. Contudo, essa intervenção se estendeu aos poderes judiciário e legislativo. Para tanto, necessitava-se fomentar a mudança de comportamento da população. Os recursos de mídia cumpriram parcialmente essa função, fazendo a disseminação do ethos militar para que este fosse incorporado pelos brasileiros, adquirindo status de costume, hábito e orientação educacional. A educação escolar, neste sentido, teve objetivos para além de sua principal função. Adquiriu o atributo de disseminar uma estrutura organizacional hierarquizada e burocrática, tendo a organização militar como modelo. O sistema burocrático e hierarquizado foi um dos instrumentos para o controle social10, utilizado de modo extremado pelos militares e 10 Com a saída do governo civil-militar, a imprensa consegue divulgar os mecanismos de controle social utilizados por esse governo. Cunha e Góis (2002) afirmam que, “No dia seguinte ao da posse do primeiro Presidente da República civil depois de 20 anos de generais-presidentes, a imprensa 87 que ainda está presente nas instituições. Concomitante a isso, entraram em vigor as novas exigências para a formação profissional. Mas o sistema educacional vigente não correspondia a tais atributos, impostos a ele. A LDB nº. 4.024/61 nasceu tardia, não correspondendo nem às exigências do mercado nacional e nem do internacional, pois, segundo Barbara Freitag (1984, p. 59), na data de sua promulgação, já estavam presentes as “tendências da internacionalização do mercado interno”, o que, provavelmente, traria mudanças no setor sociopolítico e educacional. Mas, foi essa LDB que balizou a reestruturação e organização do sistema de ensino, da ação pedagógica do professor, dos currículos, ou seja, orientou as atividades a serem desenvolvidas no sistema educacional. Para, além disto, Freitag assinala o aspecto reprodutor da desigualdade entre as classes sociais, que estava delineado por aquela legislação. O elemento democrático da LDB fixado no Art. 2 proclama a educação como direito e dever de todos. Isto, materializado na realidade social, significaria que todos não só podem, mas têm a obrigação de estudar. Mas como estudar se faltam escolas, professores, material, sendo impossível para muitos cumprir sua obrigação e reivindicar seu direito pela sua situação de classe? A lei não considera certos fatos. Ela omite uma realidade social em que a desigualdade está profundamente arraigada. (FREITAG, 1984, p. 66). Freitag, ao afirmar que essa Lei “omite uma desigualdade social”, está explicitando que um filho de boia fria tem a mesma oportunidade educacional que um filho de família abastada, pois a escola tem como princípio a igualdade de oportunidades. Neste sentido, a nova legislação que substituiu a LDB nº. 4.024/61 do ensino de 1º e 2º graus e do ensino superior foi elaborada de modo a atender a demanda de mercado, dos interesses da elite e manter a poucos o acesso à trouxe um balanço sintético da ditadura: 17 atos institucionais, 130 atos complementares (todos contra a Constituição, mesmo a da Junta Militar), 11 decretos secretos e 2.260 decretos-leis. Para não atrapalhar essa fúria legiferante do regime militar, o Congresso Nacional, mesmo mutilado por sucessivas cassações de mandatos de parlamentares, foi posto em recesso forçado por três vezes. Foram banidos do território nacional, por razões políticas, 80 brasileiros. Cerca de 400 pessoas foram mortas ou se encontram desaparecidas, devido à onda repressiva mais forte de nossa história: Uma dezena de milhar de brasileiros deixaram seu país em virtude de ameaças e perseguições de caráter político-ideológico. A repressão foi a primeira medida tomada pelo governo imposto pelo golpe de 1964. Repressão a tudo e a todos considerados suspeitos de práticas ou mesmo ideias subversivas. A mera acusação de que uma pessoa, um programa educativo ou um livro tivesse inspiração ‘comunista’ era suficiente para demissão, suspensão ou apreensão. Assim, reitores foram demitidos, programas educacionais e sistemas educativos foram atingidos.” (CUNHA e GÓES, 2002, p. 18). 88 universidade, porém, ao mesmo tempo procurou atender à reivindicação de escolarização de parcela da população. (FREITAG, 1984, p. 66; 93). A reforma de 1º e 2º graus pela LDB – Lei nº. 5292/7111, foi a expressão de fenômenos como: interesses de direcionamento das políticas educacionais brasileiras por parte dos Estados Unidos; da formação profissional e da formação da cultura militar na população. Então, em um contexto burocrático, controlador e ditatorial, em 1971, a reforma do ensino de 1° e 2º graus foi promulgada, sem os embates e controvérsias como ocorreu com a sua antecessora. Essa necessidade de adequação da educação aos interesses internacionais vinha sendo veiculada há tempos, porém, intensificou-se a partir do Governo de Castelo Branco por meio dos acordos firmados entre o Ministério da Educação (MEC) e a United States Agency for International Development (USAID)12, desde o nível primário ao superior, na formação de professores e produção e distribuição de livros didáticos. Seguem alguns dos acordos firmados entre o MEC e a USAID, realizados por meio da Aliança para o Progresso13: 26 de junho de 1964: Acordo MEC-USAID para Aperfeiçoamento do Ensino Primário; 31 de março de 1965: Acordo MEC-Contap (Conselho da Cooperação Técnica da Aliança para o Progresso) USAID para melhoria do ensino médio; [...]30 de dezembro de 1966: Acordo MEC-INEP-Contap-USAID, sob a forma de termo aditivo dos acordos para aperfeiçoamento do ensino primário; nesse acordo aparece, pela primeira vez, entre os objetivos, o de ‘elaborar planos específicos para melhor entrosamento da educação primária com a secundária e a superior’; 30 de dezembro de 1966: Acordo MECSudene-Contap-USAID, para criação do Centro de Treinamento Educacional de Pernambuco; 6 de janeiro de 1967: Acordo MECSNEL (Sindicato Nacional dos Editores de Livros)-USAID, de cooperação para publicações técnicas, científicas e educacionais.[...]; 17 de janeiro de 1968: Acordo MEC-USAID para dar continuidade e 11 A denominação desta LDB está em conformidade com a publicação oficial “LEI Nº. 5.692 - DE 11 DE AGOSTO DE 1971 - DOU DE 12/8/71 - Lei de Diretrizes de Bases. Fixa as Diretrizes e Bases para o ensino de 1° e 2º graus, e dá outras providências.” Disponível em: <http://www010.dataprev.gov.br/sislex/paginas/42/1971/5692.htm>. Acesso em 25 de ago. de 2011. 12 A USAID (1958) era uma agência bilateral, que foi criada como instrumento de mediação para a regulamentação da expansão produtiva dos países desenvolvidos e do auxílio técnico financeiro no desenvolvimento econômico, social, cultural e educacional dos países subdesenvolvidos. (NOGUEIRA, 1999, p. 20). 13 A Aliança para o Progresso foi um acordo firmado em 1961, pelo presidente, Kennedy e os países latinos, menos Cuba, em que ficou indicado as diretrizes “da política para o desenvolvimento econômico, num novo programa de ajuda para a América Latina. O pacto estava ancorado na crença de que a liberdade e o progresso seriam a chave para revolucionar os países ‘em desenvolvimento.’” (NOGUEIRA, 1999, p. 74). 89 complementar o primeiro acordo para desenvolvimento do ensino médio. (CUNHA; GÓES, 2002, p. 16). O governo civil-militar sacramentou a dependência da política educacional do Brasil ao imperialismo norte-americano quando assinou os acordos entre o MEC e a USAID, promovendo a desnacionalização educacional do Brasil de modo singular na história brasileira (CUNHA; GÓES, 2002, p. 15). Imbricados a estes acordos, estavam os interesses privatistas em relação à educação, concretizando-se em ações que possibilitassem a transferência de verbas públicas para o setor privado que foram crescendo gradativamente por meio de políticas públicas. Nessa abertura de movimentação financeira de verbas públicas para o setor privado, estava assegurada a possibilidade da transferência às escolas que atendessem alunos “excepcionais”. A influência norte-americana teve continuidade na política dos anos 70. Nessa década, iniciou-se a substituição dos organismos bilaterais pelos multilaterais, sob a coordenação do Banco Mundial que envolvia suas Instituições Afiliadas, representadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e de forma mais secundarizada, pela ONU e suas Agências Especializadas. Os empréstimos ocorridos através do Banco Internacional para a Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) voltados à educação estavam, a princípio, atrelados às prioridades definidas pela USAID e pelo regime militar, que tinham como focos o ensino médio, superior, de profissionalização “compulsória” e, de modo secularizado, a educação inicial (NOGUEIRA, 1999, p. 20). Nesta perspectiva, a educação para os “excepcionais” não era prioridade para o Estado brasileiro, porém, frente aos movimentos em prol de sua educação, passou a ser foco de atenção pela OEA – Organização dos Estados Americanos que, em conjunto com o MEC, fomentou os cursos de formação para professores em 1975. Diversas ações foram realizadas, sendo que uma delas ocorreu na região Oeste do Paraná, onde foi desenvolvido, em 1975, o Projeto Especial Multinacional de Educação Brasil–Paraguai–Uruguai. Nesse contexto as instituições privadas, tanto de caráter mercantil como filantrópico assistencialista, continuaram a se expandir, uma vez que o Estado não proporcionava condições de aprendizagem e nem edificações adequadas para o atendimento das pessoas com deficiência. 90 De 1970 a 1974 foram criadas 69 instituições especializadas públicas, enquanto surgiram 213 particulares, isto para a deficiência mental, sendo que para os deficientes de visão, audição e múltiplos, surgiram 15 públicas e 49 particulares. (JANNUZZI, 1985, p. 155). O Quadro I demonstra algumas das instituições criadas durante os períodos de 1950 e de 1970. Quadro I: Instituições privadas mercantis e assistencialistas. Instituição Escola Luiz Braille Público atendido Deficiência visual Escola Mundo Infantil Crianças com problemas de comportamento Instituto de Educação Deficiência visual e Assistência aos Cegos do Nordeste Escola de Cegos do Deficiência visual Maranhão Associação dos Deficiência visual Cegos do Piauí Centro Ocupacional Crianças com Avanhandava problemas de comportamento Instituto Cearense de Deficiência auditiva Educação de Surdos Escola Jaty Deficientes neuromotores graves Escola Santa Mana Deficiência auditiva Piratinis Instituto Educacional para distúrbios neuropsicomotores pouco acentuados Escola da Carminha Deficientes Mentais Caráter Filantrópico/ assistencialista Mercantil Estado/Cidade/Ano Pelotas/RS, fundada em 1952. São Paulo/SP, fundada em 1956. Filantrópico/ assistencialista Campina Grande/PB, fundada em 1963. Filantrópico/ assistencialista Filantrópico/ assistencialista Mercantil São Luis / MA, fundada em 1964. Teresina/PI, fundada em 1967. São Paulo/SP, fundada em 1968. Filantrópico/ assistencialista Mercantil (Fortaleza/CE, fundada em 1968. São Paulo/SP, fundada em 1969. Filantrópico/ assistencialista Salvador/BA, fundada em 1970. São Paulo/SP, fundada em 1971. Mercantil São Paulo/SP, fundada em 1973. Fonte: Escolas privadas mercantis (Brasil, MEC/CENESP, 1975b, p. 141, 142 e 143 apud BUENO, 1993, p. 95). Escolas destinadas à deficiência auditiva (Brasil, MEC/CENESP, 1975, p. 19; 26; 33; 67; 68; 143; 152 e 164 apud BUENO, 1993, p. 95). Instituições de/para pessoas com deficiência visual – Deficiência visual (Brasil, MEC/CENESP, 1975b, p. 15; 19; 22 e 187 apud BUENO, 1993, p. 95). 91 Neste sentido, uma parcela significativa de alunos acabava sendo atendida pelas instituições privadas de caráter mercantil, destinadas a atender às camadas mais favorecidas economicamente. Expandiram-se também as instituições de cunho filantrópico e assistencialista, abertas a todas as crianças com deficiência, independentemente da classe social a que pertenciam. Segundo Carvalho (2009, p. 12), a maioria das pessoas com deficiência se encontra na população mais pobre14. Assim, a ampliação da rede de instituições filantrópicas/assistencialistas pode ser decorrência, também, das condições de vida da parcela majoritária da população, pois o período de 1970 a 1983 apresentou aumento de concentração de renda, ampliando, assim, a distância de renda per capita entre os mais ricos e os mais pobres e, consequentemente, também o aumento da massa populacional dependente de politicas sociais. Isto significou que na escassez de políticas públicas, criou-se a oportunidade de ampliação das instituições privadas/filantrópicas. Os 21 anos de governo civil-militar se caracterizaram por uma política econômica altamente excludente, sendo que a economia do país se configurou pelo modelo monopolista da organização econômica, que tende a apropriar-se cada vez mais do capital. Nesse contexto, a educação precisou se adequar a tal proposição (GERMANO, 1994, p. 88-89). Os profissionais que atuavam na educação especial do setor privado/filantrópico brasileiro buscaram mecanismos para a definição de políticas nesta área que favorecessem a expansão das escolas especiais no território brasileiro. Como afirma Bueno (1993, p. 95-96), a expansão das instituições privadas no atendimento às pessoas com deficiência, ocorrida entre os anos de 1960 e 1970, permitiu-lhes a apropriação de conhecimentos específicos para atender às necessidades educacionais deste segmento social, o que as levou a exercer influência significativa frente às políticas e qualificação na área da educação especial. Instituições como as Federações Nacionais das Sociedades Pestalozzi e as APAEs, por sua abrangência nacional, assumiram papel fundamental no 14 Carvalho (2009, p. 12), com base em documentos internacionais, como a Declaração de Sundberg (1981, p. 2), Carta para o Terceiro Milênio (1999, p. 1) e Declaração de Quito (2003, p. 2), que, por sua vez, reportam-se aos dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), alerta que a maioria das pessoas com deficiência vive em situação de pobreza e que essa situação se agrava em países como o Brasil, que possui investimentos insuficientes para prover uma política social adequada para atender às necessidades básicas dos que se encontram sem condições de prover sua existência. 92 processo de formulação da política de educação especial no Brasil, havendo destaque das Sociedades Pestalozzi de Minas Gerais e São Paulo e as APAEs do Rio de Janeiro e de São Paulo, bem como das empresas prestadoras de serviços de alto nível. Bueno afirma também que, nesse movimento, as classes especiais da rede pública foram se expandindo. A expansão da educação “deficiente” continuou ocorrendo mesmo durante o governo civil-militar. Pode-se considerar que as políticas para a educação especial estavam imbricadas com os interesses privatistas e os interesses de ações de benevolência para com o outro. Existem, nesta afirmação, duas questões a serem consideradas, e que foram analisadas no capítulo anterior. As instituições filantrópicas e assistencialistas são produto tanto do setor privado, que as originou, como da ação caritativa difundida por princípios religiosos de uma fração da igreja. Uma fração15 da igreja continuou ao lado dos que defenderam a manutenção da tradição nas questões econômicas, sociais, culturais e educacionais. Na época, o Bispo Luciano Cabral Duarte, membro do Conselho Federal de Educação, foi o relator do documento que definiu as diretrizes da disciplina “Educação Moral e Cívica16”, contemplando todos os níveis de ensino, tendo a religião definida como a base da formulação dos princípios morais a serem transmitidos por essa disciplina. Convém lembrar que, tanto Anísio Teixeira, quanto Demerval e Trigueiro conseguiram, como membros do Conselho Federal de Educação (CFE) até 1968, resistir à implantação dessa disciplina no currículo. Entretanto, em 1969, Anisío Teixeira não foi reconduzido ao mandato e Trigueiro se aposentou do serviço público, perdendo o cargo no CFE. A disciplina de Educação Moral e Cívica foi implantada no currículo escolar pelo ministro Jarbas Passarinho em 1973, tendo 15 Parcelas de membros da Igreja Católica contrapuseram-se ao governo civil-militar na década de 1970. Um dos movimentos foi a “Teologia da Libertação”. Leonardo Boff em seu artigo “Quarenta anos da Teologia da Libertação” expressa: “celebra neste ano de 2011 40 anos de existência. Em 1971 Gustavo Gutiérrez publicava no Peru seu livro fundador ‘Teologia da Libertação. Perspectivas’. Eu publicava também em 1971 em forma de artigos, numa revista de religiosas – Grande Sinal – para escapar da repressão militar o meu Jesus Cristo Libertador, depois lançado em livro” (BOFF, 2011, p/s). 16 O Decreto-Lei nº. 869/69, que dispõe sobre a disciplina moral e cívica, data do ano de 1969 e foi mantido na LDB nº. 5692/71, por meio do artigo nº. 7, que trata: será obrigatória a inclusão de Educação Moral e Cívica, Educação Física, Educação Artística e Programa de Saúde nos currículos plenos dos estabelecimentos de 1º e 2º graus, observado quanto à primeira o disposto no Decreto-lei nº. 869, de 12 de setembro de 1969. Parágrafo único. O ensino religioso, de matrículas facultativas constituirá disciplina dos horários normais dos estabelecimentos oficiais de 1º e 2º graus’. Ver também artigo de Filgueiras (s/d.), que apresenta uma análise do processo de implantação desta disciplina, evidenciando os embates em torno da temática. 93 como lema “Deus, pátria e família”, valores assegurados pelas finalidades atribuídas a essa disciplina: a) a defesa do princípio democrático, através da preservação do espírito religioso, da dignidade da pessoa humana e do amor à liberdade com responsabilidade, sob a inspiração de Deus; b) a preservação, o fortalecimento e a projeção dos valores espirituais e éticos da nacionalidade; c) o fortalecimento da unidade nacional e do sentimento de solidariedade humana; d) o culto à Pátria, aos seus símbolos, tradições, instituições, e aos grandes vultos de sua história; e) o aprimoramento do caráter, com apoio na moral, na dedicação à família e à comunidade; f) a compreensão dos direitos e deveres dos brasileiros e o conhecimento da organização sociopolítico-econômica do País; g) o preparo do cidadão para o exercício das atividades cívicas, com fundamento na moral, no patriotismo e na ação construtiva visando ao bem comum; h) o culto da obediência à lei, da fidelidade ao trabalho e da integração na comunidade. (CUNHA; GÓES, 2002, p. 75). As finalidades desta disciplina possibilitaram compreender a permanência da articulação de uma fração da Igreja Católica aos interesses da fração da classe dominante com princípios tradicionais e conservadores. Além disto, encontram-se mais fortalecidos que anteriormente ao golpe, pois o retorno desta disciplina ao currículo escolar oficializou na rede de ensino a oposição a tudo o que é considerado subversivo ao governo e à religião. Isto posto, pode-se compreender os encaminhamentos dados nesse período em torno da educação especial, pois as pessoas pertencentes a esse tipo de atendimento não estavam enquadradas como ameaça ao sistema, eram caracterizadas muito mais como segmento que precisava da benevolência e da caridade. Não necessitavam ser combatidas, mas, certamente, seriam doutrinadas ao ethos religioso-militar, pautado no lema “Deus, pátria e família” por meio dos espaços sociais que frequentariam, dentre estes, as escolas filantrópicas e assistencialistas. Neste período, algumas reivindicações foram sendo consideradas e introduzidas no marco legal brasileiro sobre a educação especial. A Constituição Federal de 1967 contemplou a educação especial por duas emendas. A primeira foi a Emenda Constitucional nº. 117, de 17 de outubro de 1969, que acrescentou no Título IV – Da Família, da Educação e da Cultura, em seu artigo 175, o atendimento educacional aos “excepcionais”, com a seguinte redação: “§ 4º Lei especial disporá 17 Essa Emenda Constitucional é considerada por estudiosos como uma nova Constituição Federal Brasileira, pois é reformulada na íntegra (JANNUZZI, 1989, p. 19). 94 sobre a assistência à maternidade, à infância e à adolescência e sobre a educação de excepcionais.”18 É relevante fazer menção de que o apoio ao setor privado foi mantido por meio da possibilidade de concessão de bolsas de estudos, apoio técnico e financeiro aos Estados e Municípios para desenvolverem seus sistemas de ensino. Nesse sentido, a letra da lei ficou ambígua, possibilitando aos Estados e Municípios realizarem apoio técnico e financeiro às instituições privadas/filantrópicas, respaldados nos artigos 176 e 177, conforme citados a seguir: Art. 176. A educação, inspirada no princípio da unidade nacional e nos ideais de liberdade e solidariedade humana, é direito de todos e dever do Estado, e será dada no lar e na escola; § 2º Respeitadas as disposições legais, o ensino é livre à iniciativa particular, a qual merecerá o amparo técnico e financeiro dos Podêres Públicos, inclusive mediante bolsas de estudos. Art. 177. Os Estados e o Distrito Federal organizarão os seus sistemas de ensino, e a União, os dos Territórios, assim como o sistema federal, que terá caráter supletivo e se estenderá a todo o País, nos estritos limites das deficiências locais. § 1º A União prestará assistência técnica e financeira aos Estados e ao Distrito Federal para desenvolvimento dos seus sistemas de ensino; § 2º Cada sistema de ensino terá, obrigatoriamente, serviços de assistência educacional, que assegurem aos alunos necessitados condições de eficiência escolar. (BRASIL, 1967, p. 52). A segunda emenda foi homologada oito anos depois, em um contexto de abertura política e após a definição das diretrizes da educação especial pelo CENESP. O teor da Emenda Constitucional 12, de 17 de outubro de 1978, apresentou questões um pouco mais específicas em relação à pessoa com deficiência. Artigo único – É assegurado aos deficientes a melhoria de sua condição social e econômica especialmente mediante: I - educação especial e gratuita; II - assistência, reabilitação e reinserção na vida econômica e social do país; III- proibição de discriminação, inclusive quanto à admissão ao trabalho ou ao serviço público e a salários; IV - possibilidade de acesso a edifícios e logradouros públicos19. 18 Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Emenda Constitucional nº 1, de 17 de outubro de 1969. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/emendas/emc_anterior1988/emc01-69.htm>. Acesso em 27 de mai. de 2012. 19 BRASIL. Emenda Constitucional 12, de 17 de outubro de 1978. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/emendas/emc_anterior1988/emc12-78.htm>. Acesso em 20 de junh. de 2011. 95 Araújo (1997, s/p.) considera que essa emenda constitucional foi um avanço significativo para a proteção dos direitos das pessoas com deficiência, pois, pela primeira vez, são retratadas de modo mais específico algumas questões de proteção dos direitos a este segmento social. A exemplo disso, as pessoas usuárias de cadeiras de rodas utilizaram essa Norma Maior para impetrar ação judicial, objetivando garantir o direito de acesso ao Metrô de São Paulo. Por outro lado, essa legislação não contempla todas as especificidades relacionadas ao direito de tais pessoas. Mazzotta (1989, p. 8), ao analisar as legislações expressas acima, salienta que estas não definem quem é o público a ser atendido com a política de educação especial, ora se portanto aos “deficientes”, ora utilizando a terminologia “excepcional”. O autor afirma ainda que, possivelmente, o legislador fez uma relação direta entre “deficiente” e educação especial. São questões que, em sua análise, Mazzotta considera fundamentais para elaboração de políticas nesta área do conhecimento. Cabe assinalar que a política de 1973 do CENESP, que antecedeu a Ementa nº. 12, realizou as definições das deficiências física, visual, auditiva, mental, de altas habilidades e das condutas típicas. Existem duas questões a serem consideradas no que tange à Constituição de 1967. A primeira é se as Constituições Brasileiras devem especificar conceitos ou assegurar, em linhas gerais, os direitos civis, políticos, coletivos e sociais a todas as pessoas, dentre estas reafirmando esses direitos às pessoas com deficiência. Segundo Araújo (1997, s.p.), a análise das Constituições20 deve ser realizada sob duas categorias; a da eficácia e de sua aplicabilidade. A categoria da aplicabilidade é subdividida em dois tipos: as normas de aplicabilidade irregulamentáveis e as regulamentáveis. Esta última foi denominada de norma integradora, podendo ser completável ou restritiva. No caso das Constituições Brasileira de 1967 e de 1988, são caracterizadas como integração, da espécie completável, pois as questões de aplicabilidade direta e os casos necessitam de normas complementares, o que vem justificar a promulgação das Leis de Diretrizes e Bases da Educação, diretrizes de educação especial e demais normas que regulamentam as normas complementares, como decretos, portarias, deliberações. Para análise da segunda questão, é preciso considerar que, neste período, as mobilizações oposicionistas ao governo civil-militar foram minimizadas por meio dos 20 Para aprofundar-se na análise da Constituição e os direitos das pessoas com deficiência, consultar Araújo (1997). 96 Atos Institucionais – AI 1 e AI 2 – e demais atos complementares. Estes foram incorporados na Constituinte, concretizando a atuação do poder executivo em detrimento dos poderes legislativos e judiciários (GERMANO, 1994, p. 62-63). O princípio que regeu essa Constituição foi a valorização do setor privado e a segurança nacional. Nesta Carta, o governo assegurou, por meio de emendas constitucionais, a garantia de investimentos para prover a infraestrutura para o aumento da produção do setor privado; legalizou também a exploração de recursos minerais por multinacionais; determinou que crianças a partir dos 12 anos pudessem trabalhar, acarretando maior exploração do trabalho infantil e, consequentemente, a ampliação da evasão escolar e o achatamento do salário mínimo. Proibiu a manifestação de greves e a segurança nacional passou a ser sinônimo de combate aos inimigos internos, denominados de subversivos (GERMANO, 1994, p. 65). O ápice do autoritarismo sobre a população brasileira, pautado no princípio da segurança nacional, foi justificado em face das mobilizações sociais contra a ditadura (movimento estudantil, greves de operários, católicos oposicionistas ao regime). A resposta a essas mobilizações que ocorreram entre 1967 e 1968 foi a decretação do AI 5, em 1968, que tornou o poder executivo autônomo em suas decisões em todas as esferas. Os ‘escrúpulos de consciência’ foram ‘mandados às favas’, conforme a frase famosa do coronel Jarbas Passarinho, futuro ministro da Educação do Governo do general Médici. Com o AI-5, o Estado de Segurança Nacional assumia a sua forma mais acabada. O Estado estava circunscrito ao Poder Executivo que incorporava o poder de legislar — em todas as matérias — e de impedir o funcionamento do Judiciário. [...] abrindo o caminho para a instauração do terror do Estado: prisões arbitrárias, torturas e assassinatos de presos políticos faziam parte da cena brasileira da época. Ao lado disso, foi instituída a censura à imprensa, à educação e à cultura. Pelo AI-5, como diria o general Médici, o Presidente da República ‘pode tudo’. (GERMANO, 1994, p. 66). Para uma parcela dos militares, essa ação foi a expressão da concepção de democracia, segundo seus apoiadores e o imperialismo norte-americano. Representou o desmonte do poder legislativo. O Presidente da República tinha o poder de fechar o Congresso Nacional e demais casas legislativas, ficando estas subjugadas aos interesses dos militares (GERMANO, 1994, p. 66). Ficou claro, portanto, que, ao assegurar nessa Carta Magna, por meio das Ementas nº. 1/69 e 97 nº. 12/78, questões referentes ao direito do “deficiente”, que este segmento não era considerado inimigo de Estado, tal como um grande número de cidadãos eram vistos. Poderia se considerar que a pessoa com deficiência não era considerada inimigo de Estado pelo fato de ser concebida como incapaz de tomar decisões, de pensar, de compreender a realidade na qual estava inserida. Conforme análise realizada no primeiro capítulo, as primeiras iniciativas voltadas às pessoas com deficiência foram de ordem particular, utilizando de contatos e influências junto ao governo. Lopes (2005) contribuiu com esta compreensão ao expressar que: [...] estudiosos apontam que o poder público parece ter começado a se importar com a questão a partir de necessidades e interesses de alguns indivíduos, que usaram dos meios de influência disponíveis, para obter um suporte que lhes possibilitasse melhorar as condições de vida de pessoas, de suas relações, portadoras de deficiência. (LOPES, 2005, s.p.). Para além da pressão das escolas especiais junto ao MEC, por meio de seus representantes que possuíam influência no Ministério da Educação (JANNUZZI, 1989, p. 20), foi preciso compreender os movimentos nacionais e internacionais em relação aos direitos deste segmento social, que também influenciaram significativamente a ampliação da política de educação especial no Brasil, assunto que será abordado no tópico III deste capítulo. Outra norma anterior à LDB nº. 5692/71 que se reportou também à educação do “deficiente”, foi o Decreto nº. 1044/69, que “dispõe sobre tratamento excepcional para os alunos portadores das afecções [...]” (BRASIL, 1969, s.p.). Parece que este busca avançar em relação ao artigo 30 da LDB nº. 4.024/61, que abre exceção, quanto à obrigatoriedade de os pais matricularem seus filhos acometidos por doença ou anomalia grave em escola. Ao tomar como suporte as discussões do primeiro capítulo, pode-se afirmar que as pessoas com deficiência eram consideradas inúteis e incapazes socialmente. Para um sistema que não estava estruturado de modo a contemplar todas as crianças consideradas úteis socialmente, não fazia sentido abrir mão de uma vaga na escola para os considerados não úteis. Esse decreto definiu as condições de merecimento das crianças que deveriam ter tratamento excepcional em termos de atendimento educacional. O artigo 2º do Decreto nº. 1044/69, expressa: “atribuir a esses estudantes, como 98 compensação da ausência às aulas, exercício domiciliares com acompanhamento da escola, sempre que compatíveis com o seu estado de saúde e as possibilidades do estabelecimento”. Por não especificar que tipo de deficiência, de doença e nem definir o que é deficiência e o que é doença, acaba por contribuir com a confusão histórica entre deficiência e doença. Por meio de cursos de formação, os profissionais foram compreendendo que essas pessoas possuíam uma deficiência e não uma doença. Além disso, o atendimento estava atrelado às condições materiais da escola em provê-lo. A LDB nº. 5692/71 que fixou as Diretrizes e Bases para o ensino de 1° e 2º graus, vai mantê-lo em vigor por meio do artigo nº. 67, referenciando esse atendimento como regime especial, lógica que vai ao encontro do disposto do artigo nº. 9 desta Lei, de acordo com o qual [...] os alunos que apresentem deficiências físicas ou mentais, os que se encontrem em atraso considerável quanto à idade regular de matrícula e os superdotados deverão receber tratamento especial, de acordo com as normas fixadas pelos competentes Conselhos de Educação. (BRASIL, 1971, s/p.). Ao realizar um paralelo com o previsto na LDB nº. 4.024/61, verifica-se que foi retirada das Diretrizes e Bases da Educação a recomendação de matrícula preferencialmente na rede regular de ensino, deixando a cargo da regulamentação os Conselhos Estaduais. Jannuzzi (1989, p. 20) comentou a forma como ficou a LDB, afirmando que se mantém a possibilidade de atendimento em escolas especiais e em sistema regular de ensino. A questão da possibilidade de financiamento em escolas privadas também foi mantida por meio de apoio técnicofinanceiro e por meio de bolsas de ensino. Segundo Germano (1994, p. 93), o Estado, ao priorizar o desenvolvimento econômico foi, gradativamente, se desresponsabilizando do financiamento da educação pública, centralizando os recursos financeiros ao setor privado, contemplando as escolas particulares, sendo que essa privatização ocorreu tanto na educação quanto na saúde. O autor afirma que Na educação, é a iniciativa privada que domina a pré-escola, avança no 2° grau e se torna majoritária no nível superior. Uma pequena fração da população tem acesso aos mais elevados graus de escolarização, enquanto substanciais parcelas do povo sequer têm acesso à escola. (GERMANO, 1994, p. 93). 99 Ao compararmos a citação de Germano com as prioridades da USAID e do governo civil-militar, pode-se confirmar a questão de elitização da educação. Na área da educação especial, essa lógica de valorização do capital não fugiu à regra. Ela contribuiu para a manutenção e ampliação do atendimento às pessoas com deficiência em escolas especiais privado/filantrópica, preterindo a educação pública. Estando as políticas socioeconômicas e educacionais voltadas para a questão econômica, as reformas educacionais (universitária e a de 1º e 2º graus) foram formuladas com a finalidade de aumento da produtividade a fim de se atender a meta de uma sociedade moderna, pautada no progresso e no desenvolvimento econômico. Essa perspectiva educacional influenciou os elaboradores do projeto n°. 35, do Plano Setorial de Educação, referente ao triênio de 72 a 74, que deu origem ao CENESP. Nesse aspecto, torna-se necessária a colaboração do setor de recursos humanos da USAID/BRASIL. Nesse sentido, a década de 1970 foi produto de uma herança histórica, de uma elite conservadora, tradicional em termos de definição de política de dependência aos países centrais. No campo educacional os professores possuíam influência das tendências tradicional e escolanovista. Contudo, devido à teoria do capital humano, a vertente que predominou na esfera fabril foi o tecnicismo que valorizava a burocracia, as técnicas, o saber fazer (SAVIANI, 2008, p. 383). Essa tendência tecnicista buscou embasamento teórico na psicologia behaviorista e no positivismo. Conforme Saviani (2008), O magistério passou, então, a ser submetido a um pesado e sufocante ritual, com resultados visivelmente negativos. Na verdade, a pedagogia tecnicista, ao ensaiar transpor para a escola a forma de funcionamento do sistema fabril, perdeu de vista a especificidade da educação, ignorando que a articulação entre escola e processo produtivo se dá de modo indireto e por meio de complexas mediações. Além do mais, na prática educativa a orientação tecnicista cruzou com as condições tradicionais predominantes nas escolas bem como com a influência da pedagogia nova, que exerceu poderoso atrativo sobre os educadores. Nessas condições, a pedagogia tecnicista acabou por contribuir para aumentar o caos no campo educativo, gerando tal nível de descontinuidade, de heterogeneidade e de fragmentação [...]. (SAVIANI, 2008 p. 383). 100 As escolas especiais não fugiram a essa tendência tecnicista. Ao embasaremse nesta ideologia de desenvolvimento de habilidades voltadas ao setor produtivo, acabaram organizando seu trabalho pedagógico voltado à profissionalização, geralmente centrado no treino para atividades mecânicas, “deixando, assim, em segundo plano a formação educacional pautada nos conteúdos produzidos historicamente pelo homem.” (JANNUZZI, 1989, p. 20. Grifo meu). Contudo, não se pode desconsiderar que, historicamente, a educação do “deficiente” tem sido voltada para trabalhos manuais, como se verificou no capítulo I. Segundo Kassar (1998, p. 17) essa diretriz ficou evidente com o Parecer do CFE nº. 848/72, ao expressar a perspectiva tecnicista na educação especial, bem como ao enfatizar as técnicas e o atendimento especializado às pessoas com deficiência. São, portanto, duas concepções que se fundem: a que enfatiza o desenvolvimento das potencialidades individuais e naturais, e valoriza as técnicas na educação, possibilitando a adequação da classe trabalhadora ao processo produtivo (KASSAR, 1998, p. 17). As escolas especiais de cunho filantrópico e assistencialista constituíram-se numa força política considerável frente às definições de diretrizes na educação especial, estando presente nos discursos oficiais e, por vezes, confundindo-se com o serviço público, por ser uma prestação de serviço gratuito (KASSAR, 1998, p. 16). Depois de abordar a educação especial no contexto das décadas de 1970 e 1980, no tópico a seguir serão analisadas as ações oficiais e as da sociedade civil desenvolvidas em prol da educação das pessoas com deficiência, buscando compreender sua articulação com os debates e definições internacionais sobre essa temática, objetivando esclarecer as influências que levaram o Estado brasileiro a promulgar políticas na área da educação especial. 2.2 Os movimentos oficiais e da sociedade civil em prol da educação do “deficiente” Na revisão da literatura, observa-se que uma das questões que impulsionou o atendimento às pessoas com deficiência, objetivando sua reabilitação, foram as 101 sequelas causadas pelas guerras. Desde o período escravista, apesar de raros, temse registros de ações de reabilitação aos mutilados e doentes em decorrência das guerras (SILVA, 1987, p. 110; 113, 145; 182; 251). Devido à necessidade de atendimento aos soldados atingidos, foram surgindo os hospitais e asilos cujo fim era o de prestar-lhes o atendimento. A título de exemplo, já no século XX, em função da primeira guerra mundial, os Estados Unidos definiram uma política de auxílio financeiro aos que ficaram cegos. Entretanto, essas ações se intensificaram com a Segunda Guerra Mundial, sendo que, devido às mutilações ocorridas pelos confrontos e as decorrentes dos crimes de guerra, a Organização das Nações Unidas21 (ONU) elaborou a Declaração Universal dos Direitos Humanos22, publicada em 10 de dezembro de 1948. Nesse documento, os participantes da Assembleia Geral das Nações Unidas procuraram assegurar os direitos fundamentados nos princípios de liberdade política, civil, econômica, de expressão, de educação, de trabalho, de propriedade inviolável, de asilo político, de não tortura, de ampla defesa, de ir e vir, de optar por uma crença ou religião, com o objetivo de proporcionar para todas as pessoas condições digna para viver em sociedade de modo fraterno. 21 Foi criada em 25 de abril de 1945, representada inicialmente por 51 países, objetivando zelar pela paz mundial e o restabelecimento socioeconômico. Porém, não foi o único órgão a ser criado com a finalidade de estabelecer metas e estratégias políticas para o desenvolvimento socioeconômico dos países. “O Banco Mundial – Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento – BIRD foi fundado em 1945, com o objetivo de realizar empréstimos financeiros aos países com taxas comerciais. A Associação Internacional de Desenvolvimento – AID foi fundada em 1959, para realizar empréstimos de longo prazo para governos de países mais pobres. O Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID foi fundado em 1959 e tem linhas de financiamento para os países da América e Caribe. A Comissão Econômica para a América Latina e Caribe – CEPAL,foi estabelecida pela Resolução 106 (VI) do Conselho Econômico e Social da ONU e começou a funcionar em 25 de fevereiro de 1948. Em 1984 passou a chamar-se Comissão Econômica para a América Latina e Caribe. Tem como objetivo contribuir para o desenvolvimento econômico da América Latina e Caribe e reforçar as relações econômicas dos países entre si e com as demais nações do mundo.” (SIMIONATTO; NOGUEIRA, s/d, p. 4). Esses organismos internacionais consolidaram a dependência no estabelecimento de políticas sociais dos países em desenvolvimento. Muniz e Arruda (2007, p. 265) apresentam dados de empréstimos do BID ao Brasil, demostrando que a prioridade de investimento de 1960 a 1980 foi, principalmente, infraestrutura, comércio e agricultura. À educação foram destinados apenas 1,6% e 2,00%, respectivamente, nas décadas de 70 e 80. Ressalta-se que a relação entre o Brasil e os organismos multilaterais nem sempre foi linear, havendo contraposições. 22 A Declaração Universal dos Direitos Humanos está fundamentada no Direito Natural, que valoriza a individualidade, porém essa Declaração possibilitou o reconhecimento de segmentos sociais (ASSIS; PUSSOLI, 1992, p. 62 apud ANDRÉ, 2006, p. 37). Para melhor compreender as origens do direito universal e sua relação com as normas e legislações, como na Constituição Federal de 1988 e nas referentes à pessoa com deficiência, sugiro consultar a pesquisa de Maria Filomena Cardoso André (2006). 102 A reabilitação passou, então, a constituir-se como pauta de discussões em política de saúde. Era preciso restabelecer na vida social e no trabalho a possibilidade de integração das pessoas com sequelas, pois havia a necessidade de reorganizar a ordem social e econômica dos países fragilizados pela guerra. A reconstituição do processo de industrialização estava vinculada à estratégia de estabelecimento de política de integração socioeconômicas da população, constituindo, assim, mecanismos que possibilitassem a todos contribuírem para que ocorresse esse reordenamento mundial. A prioridade, além das políticas na área da saúde, era a formação educacional, visando o ingresso no mercado de trabalho e, consequentemente, à desoneração do Estado em relação à manutenção dos soldados mutilados e/ou de pessoas mutiladas pelos crimes de guerra. Assim, mediante a reabilitação, em vez de receberem subsídios econômicos e assistência à saúde, entre outros necessários, essas pessoas contribuiriam para o desenvolvimento social e econômico do país. Esses dois fatores – a necessidade de promover a integração social e econômica da população para promoção do restabelecimento econômico dos países devastados pela guerra e o fantasma do comunismo, constituído pela guerra fria –, no período pós-guerra, levaram ao desenvolvimento das políticas keynesianas, propaladas durante o nacional-desenvolvimentismo. Tais condições, de certa forma, estabeleceram algumas políticas sociais na área da saúde, da educação e da previdência social. Entre os serviços associados às referidas políticas estão os de reabilitação das pessoas com deficiência. Mesmo com o estabelecimento de algumas políticas sociais, havia precariedade de estrutura física e de recursos humanos, de materiais didáticos no setor educacional, da política de saúde, que não atendia às demandas devido a sua desestruturação, ampliando o crescente abismo entre os possuidores de bens materiais e os miseráveis. Nesse contexto, os movimentos sociais que buscavam assegurar melhores condições de vida por meio da consolidação dos direitos fundamentais, políticos e civis também vão se constituindo, contrapondo-se a tais perversidades. Assim, outros documentos foram sendo elaborados, com o intuito de promover uma vida digna para todas as pessoas, enfatizando os princípios já 103 expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, a saber, igualdade, liberdade e fraternidade, porém, definidos por categorias e destinados às crianças e pessoas com deficiência. Dentre tais documentos Jannuzzi (2004) cita: -Conselho Mundial das Organizações Relacionadas ao Incapacitado. -Fundação da National Association for Retard. -Declaração dos Direitos da Criança – ONU/1959. -Declaração dos Direitos das Pessoas Mentalmente Retardadas -Assembleia Geral das Nações Unidas/1971 ( JANNUZZI, 2004, p. 138). A Declaração dos Direitos das Crianças salienta as questões peculiares relacionadas ao pleno desenvolvimento físico, cognitivo e moral da criança. Entre elas, encontram-se o direito à educação, à saúde, à proteção da maternidade, à responsabilidade dos pais e do Estado. Em relação à pessoa com deficiência, em seu princípio 5º, a Declaração dos Direitos das Crianças cita: “à criança incapacitada física, mental ou socialmente serão proporcionados o tratamento, a educação e os cuidados especiais exigidos pela sua condição peculiar” (ONU, 1959, s/p). A definição destes princípios visava tornar a criança um membro útil para a sociedade a que pertence. Esse cenário era encontrado em todo o período nacional-desenvolvimentista, que acabou por desembocar em governos conservadores e autoritários, levando-os a novos crimes de guerra, como torturas, assassinatos e deportações, porém com nova roupagem, de forma mais velada à maioria da população. Nesse sentido, o discurso da integração social e econômica permaneceu. Em plena ditadura do governo militar, promoveu-se o Seminário LatinoAmericano sobre Planejamento e Organização de Serviços para Deficientes Mentais, em 1971, na cidade de São Paulo, mais precisamente na Faculdade Paulista de Medicina, o qual estava vinculado à “Campanha Nacional de Educação e Reabilitação de Deficientes Mentais e a Internacional League of Societies for the Mentally Handicapped” (JANNUZZI, 2004, p. 138-139). Jannuzzi afirma que, dentre as recomendações debatidas no seminário, foi proposta a criação de um órgão voltado para a definição de políticas e diretrizes para os “excepcionais”. 104 Nesse sentido, Jannuzzi (2004) cita que tais ações teriam o apoio técnicofinanceiro de organismos internacionais vinculados à ONU, tais como: Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), Organização Mundial da Saúde (OMS), Organização Internacional do Trabalho (OIT). (JANNUZZI, 2004, p. 139). Por meio do apoio técnico-financeiro, esses organismos objetivavam disseminar as diretrizes e as recomendações estabelecidas pelas Declarações promulgadas pela ONU. No ano de 1971, a ONU promulgou mais uma declaração, a Declaração dos Direitos das Pessoas Mentalmente Retardada, dessa vez direcionada à pessoa com deficiência mental, que teve como base a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Declaração dos Direitos das Crianças. Com o intuito de estender os princípios regidos por essas Declarações às demais pessoas com deficiência, ratificando seu direito de participação em todos os espaços sociais, da reabilitação, da formação profissional, da educação e de outras especificidades decorrentes pelo defeito físico, a ONU promulgou em 9 de dezembro de 1975 a Declaração dos Direitos das Pessoas Deficientes. Em 1981, a ONU estabeleceu o Ano Internacional da Pessoa Deficiente (AIPD). Isso demonstrou que havia um movimento tímido, mas crescente, das pessoas com deficiência em busca de garantia de seus direitos. Tais pessoas desejavam ter maior participação social como sujeitos, tendo acesso à educação formal e a todos os ambientes sociais. Nessa mesma lógica, pode-se mencionar que a ONU, por meio do documento Programa de Ação Mundial para as pessoas com Deficiência e da Resolução nº. 37/52, de 3 de dezembro de 1982, constituiu diretrizes de ações para fomentar a integração do “deficiente” em todos os espaços sociais, bem como ratificou a relação proporcional de casos de deficiências com pobreza, guerras, acidente de trabalho, falta de conhecimento sobre a temática, acarretando a necessidade de escolarização, prevenção, reabilitação, adaptações físicas para acesso aos 105 ambientes e a superação dos estigmas e discriminações com o intuito de possibilitar uma vida mais independente a essas pessoas (ONU, 1982, p. 13-15). É importante registrar que, nos dois últimos documentos citados, ao se falar sobre necessidade de adaptações, reconheceu-se que as deficiências auditiva, visual, física e “mental” possuíam particularidades decorrentes do defeito orgânico. O que faltava, então, era proporcionar as condições adequadas para que as pessoas com as referidas deficiências pudessem ter maior independência e autonomia. O documento da ONU de 1982, no item 56, reconheceu que a maioria dos serviços de reabilitação era desenvolvida pelo setor privado, porém, com a política de integração, a perspectiva era de que o setor público também tomasse como meta o atendimento de reabilitação e de educação para a população com deficiência. Em síntese, esse documento retrata a situação segregativa em que a maioria das pessoas com deficiência se encontrava em diversos países. Contudo, demonstra também que o processo de integração se apresentava de modo bem heterogêneo entre os países e regiões, o que estava vinculado à situação econômica de cada local. Esse documento também explicitou as diretrizes e recomendações quanto à definição de política educacional, de saúde, de assistência social, de desenvolvimento de tecnologias, de apoio técnico-financeiro, de trabalho, de participação efetiva nas definições das políticas e das demais atividades a serem estabelecidas para o pleno acesso aos meios socioeconômicos. Nessa mesma década, outros documentos foram promulgados pela ONU e por organismos não governamentais, tais como: Declaração de Sundberg – Conferência Mundial sobre Ações e Estratégias para Educação, Prevenção e Integração, realizada em Torremolinos, Málaga, Reino da Espanha em 7 de novembro de 1981; Convenção 159 sobre Reabilitação profissional e Emprego de Pessoas Deficientes, realizada durante a Conferência Geral da Organização Internacional do Trabalho, ocorrida em Genebra em 1º de junho de 1983; Declaração de Cave Hill durante o Programa Regional de Capacitação de Líderes, constituída pelos líderes da Organização Mundial de Pessoas com Deficiência – 106 Disabled Peoples International (DPI) –, ocorrido na Universidade das Índias Ocidentais, na cidade de Cave Hill, Barbados, em 1983. Tais documentos contribuíram para o desenvolvimento de legislações na área de políticas de educação especial em diversos países, como França, Estados Unidos, Portugal, Escandinávia, Canadá e Itália, sendo que cada qual implantou a política de integração em conformidade com sua compreensão. Os Estados Unidos, por exemplo, gradativamente, promoveram por meio da Lei n°. 94.192 de 1975 o ingresso dos alunos com deficiência em espaços menos restritivos, incentivando serviços ofertados na comunidade e a não institucionalização dessas pessoas. Já em países da Europa, as escolas especiais foram transformadas em centros de apoio pedagógico, objetivando a integração no ensino regular. A Itália, por sua vez, extinguiu as classes especiais (CABRAL, 2010, p. 22). Assim, a proposta de integração foi implementada de forma heterogênea. Por haver heterogeneidade significativa dos encaminhamentos da proposta integracionista da educação especial, a forma dessa organização foi classificada em três categorias. A primeira delas, considerada trajetória única (one track approach), priorizava o ingresso dos alunos no ensino regular, porém, com serviços de apoio paralelos. Essa perspectiva foi adotada em Chipre, Espanha, Grécia, Islândia, Itália, Noruega, Portugal e Suécia. Já a Dinamarca, França, Irlanda, Luxemburgo, Áustria, Finlândia, Reino Unido, Latvia, Liechtenstein, República Checa, Estónia, Lituânia, Polônia, Eslováquia e a Eslovénia optaram por um modelo múltiplo (multi track approach), contemplando a oferta da educação especial e do ensino regular com um número variado de serviços de apoio. A terceira perspectiva foi adotada nos países que possuíam dois sistemas educacionais separados por legislações distintas, um para educação especial e outro para o ensino regular. Esse modelo deu-se, por exemplo, na Suíça e na Bélgica (CABRAL, 2010, p. 23). Apesar dessa diversidade de compreensão da proposta de integração, tornase possível identificar que todas as perspectivas estão pautadas nas diretrizes e regulamentos promulgados pela ONU, UNESCO, OIT, DPI. Além disso, todas partilham de certa estrutura comum, organizando a educação por meio de diagnóstico da deficiência; definição de serviço a ser ofertado; educação especial como parte do sistema educacional; a formação de profissionais; 107 interdisciplinaridade entre estes; disseminação de informações sobre a pessoa com deficiência; participação dos pais e alunos nas decisões dos rumos educacionais a serem estabelecidos (SANTOS, 1995, p. 25-27). Outro aspecto considerado foi a questão curricular, que estabeleceu: [...] a) necessidade de constante avaliação e revisão das práticas correntes de integração; b) a necessidade de uma postura flexível frente à conclusão de que possíveis mudanças e re-planejamentos sejam necessários; c) a aceitação do fato de que integração implica em constantes modificações de programas e de atitudes; e d) a necessidade de se adotar uma filosofia curricular que busque a nãoexclusão (dos que ainda não foram excluídos) e a reintegração (dos que já foram). (SANTOS, 1995, p. 27). Essas recomendações e diretrizes fomentadas por movimentos internacionais influenciaram os movimentos em prol dos direitos das pessoas com deficiência no Brasil. Desde a década de 1950, com as campanhas em defesa da educação para pessoa com deficiência, o Estado, de certo modo, deu apoio a esse segmento, oficializando as campanhas por decreto, o que contribuiu para assegurar, por meio de normas legais, a matrícula na rede regular de ensino, conforme assegurava a Lei nº. 4.024/61. Nos Anais do 1º Congresso Brasileiro de Educação de Deficientes Visuais, da Campanha Nacional de Educação dos Cegos, promovida pelo MEC no período de 9 a 13 de novembro de 1964, no Anfiteatro da Associação Paulista de Medicina da cidade de São Paulo, foi possível verificar como a educação do cego estava sendo analisada. De acordo com os Anais, as discussões diziam respeito às seguintes questões: importância de orientar a família quanto ao desenvolvimento de seu filho cego; prejuízo causado pela superproteção; formação e atribuições do professor especializado no ensino regular; a frequência destes alunos no ensino regular; serviço especializado na escola da rede de ensino; uso do sorobã; curso de especialização em ensino de cegos, ofertado desde 1945; orientação pedagógica montessoriana; prevenção da deficiência; orientação e mobilidade, considerando a importância do estímulo desde os primeiros anos de idade; e necessidade de haver 108 um trabalho conjunto no processo de reabilitação e educação destes alunos entre escola regular, oftalmologistas, psicólogos, terapeutas ocupacionais, professores especializados, assistentes sociais, cada qual com suas atribuições. Todas as falas direcionavam para a promoção da integração social das pessoas com deficiência, de forma a possibilitar o desenvolvimento de cidadãos úteis para a sociedade. Esse documento demonstra que a discussão quanto à integração do “deficiente” estava acompanhando as tendências estabelecidas na Europa e nos Estados Unidos. A perspectiva de desenvolvimento presente na maioria das falas estava embasada no processo de adaptação social23. Segundo Leontiev (1978, p. 161; 169), o homem possui aptidões para apropriar-se de habilidades. Seu processo de desenvolvimento não é de adaptação ao meio, pois está fundamentado na hereditariedade de seus caracteres biológicos, uma relação linear de desenvolvimento humano. Neste sentido, o desenvolvimento do homem se dá por meio de apropriações de conhecimentos e de habilidades, numa relação dinâmica de transformação de mecanismos existentes em novos (LEONTIEV, 1978, p. 179-180), como a aquisição de linguagem, música, pintura, tipo de reconhecimento conceitual de sons, objetos entre outros. Outro aspecto identificado foi o debate relacionado à oferta de serviços educacionais às pessoas com deficiência visual. Tal oferta, que se daria conforme as necessidades individuais e consistiria em serviços, tais como: atendimento domiciliar, professor itinerante, professor especializado, classes especiais, Institutos, escolas especiais, professores particulares, classes regulares de escolas públicas. Apresenta-se, também, a precariedade dessa educação, estando mais desenvolvida em centros urbanos, como São Paulo, capital. Nesse sentido, observa-se que a política do CENESP foi decorrente de atividades que vinham sendo realizadas de forma isolada pelos estados em conjunto com as entidades de/para pessoas com deficiência. Essa bandeira da integração social e educacional adentra aos anos de 1980, caracterizando-se como um período de luta e reivindicações da classe trabalhadora, 23 Esse tema é complexo. Para aprofundamento na discussão, sugiro a leitura do livro O Desenvolvimento do Psiquismo, de Leontiev (1978). 109 criação de sindicatos e mobilizações populares (BRASIL, 2010, p. 14). Rosa e Borba (2006, p. 182) afirmam que isso ocorreu devido a quatro fatores: 1º) pela necessidade de as pessoas com deficiência lutarem por seus direitos, objetivando superarem os preconceitos, estereótipos, estigmas e discriminações constituídos pelas concepções místicas e biológicas sobre a pessoa com deficiência; 2º) por associar-se aos movimentos sociais contra a ditadura na busca de abertura democrática; 3º) em decorrência do movimento internacional das pessoas com deficiência, o qual influenciou as reivindicações do segmento no Brasil e; 4º) pelo fato de o segmento das pessoas com deficiência não apresentar ameaça ao governo civil-militar. No Brasil, a definição do Ano Internacional dos Direitos das Pessoas Deficientes originou-se de ações isoladas, ocorridas desde 1979, e culminou em um encontro nacional, com participação de pessoas com e sem deficiência. A partir desse encontro, formulou-se um documento que foi encaminhado ao Presidente da República. Tal documento acarretou a criação, por meio de decreto, da Comissão Nacional do Ano Internacional das Pessoas Deficientes, (SILVA, 1986, p. 336-337 e ROSA; BORBA, 2006, p. 192). A Comissão Nacional do AIPD foi oficializada pelos Decretos n°. 84.919 e n°. 85.123, de 15 de julho e 10 de setembro de 1980, respectivamente, com vínculo ao Ministério da Educação e Cultura. Tal comissão era constituída por: [...] representantes do Poder Executivo, de entidades não governamentais de reabilitação e educação de pessoas com deficiência, bem como pelas interessadas na prevenção de acidentes de trabalho, trânsito e domésticos. Não havia na Comissão Nacional do AIPD nenhuma vaga para entidades formadas por pessoas com deficiência, o que foi motivo de grande insatisfação por parte do movimento (BRASIL, 2010, p. 44). Essa controvérsia levou à manifestação das pessoas com deficiência junto ao Presidente da República, que recompôs a Comissão e as subcomissões estaduais, assegurando a participação destes. Porém, o fato não resolveu a situação, pois apenas as pessoas sem deficiência eram comunicadas das reuniões da Comissão, o que as levou a fazer sua própria agenda do AIPD. 110 No Estado de São Paulo, o Movimento de Defesa das Pessoas Portadoras de Deficiência (MDPD) criou durante encontro realizado em Ourinhos, em 1980, a própria comissão para programar as atividades do AIPD. Essa Comissão foi composta por: Sandra Maria Sá Brito Maciel, da Associação de Deficientes Visuais e Amigos; Nice Loureiro, do Instituto Anne Sullivan; Dorina de Gouvêa Nowill e Aristides Antônio Santos, da Fundação para o Livro do Cego; Luiz Celso Marcondes de Moura, do Núcleo de Integração de Deficientes (NID); Luiz Augusto Machado, da União Nacional de Deficientes Físicos; Robinson José de Carvalho, da Associação dos Deficientes Físicos de Ourinhos, representando as entidades do interior de São Paulo; Cândido Pinto de Melo e José Evaldo de Mello Doin, ambos do MDPD; e Romeu Kazumi Sassaki. (BRASIL, 2010, p. 45). O 1º Encontro Nacional de Entidades de Pessoas Deficientes, que criou a Comissão da AIPD, ocorrido em Brasília entre os dias 22 e 25 de outubro de 1980, teve como principal objetivo estabelecer diretrizes para a organização da Coalisão, critérios de ingresso de Entidades na organização e definição de pauta comum de reivindicações. Esse evento estava pautado no lema “participação plena” do Ano Internacional dos Direitos das Pessoas Deficientes. Como observado acima, esse encontro explicitou o conflito entre algumas organizações, envolvendo as das pessoas com deficiência e das pessoas sem deficiência. O Núcleo de Integração de Deficientes (NID) defendia a participação do setor privado/filantrópico administrado por pessoas não deficientes e criticava a criação das federações regidas por pessoas com deficiência. Uma parcela das pessoas com deficiência buscava a superação da tutela e do paternalismo presente nas entidades assistencialistas (BRASIL, 2010, p. 41). Porém, anteriormente à realização da AIPD, já havia mobilizações sociais em decorrência da necessidade posta, que identificavam interesses comuns e distintos a serem propostos ao governo para estabelecimento de políticas públicas que atendessem as carências do setor privado. Na busca por constituir um grupo representativo que se fizesse ouvir, definiuse primeiramente como metodologia de luta a criação da Coalizão Pró-Federação Nacional de Entidades de Pessoas Deficientes, em 1979. Essa Coalisão fomentou alguns encontros nacionais. Contudo, devido a uma gama de demandas particularizadas de cada área de deficiência, estabeleceu-se, em 1982, a sua cisão, criando-se, assim, federações por tipo de deficiência (BRASIL, 2010, p. 15; 37). 111 No mesmo período, ocorreram outros encontros de âmbito nacional que merecem destaque e foram estabelecidas algumas ações e definições. De 26 a 30 de outubro de 1981, na cidade de Recife/PE, ocorreu o 2º Encontro Nacional de Entidades de Pessoas Deficientes, realizado simultaneamente ao I Congresso Brasileiro das Pessoas Deficientes, que teve como tema “a realidade da pessoa com deficiência no Brasil hoje”, onde foram discutidas as seguintes temáticas: “[...] trabalho, educação, prevenção de deficiências, acessibilidade, legislação e organização do movimento das pessoas deficientes. Os eventos contaram com a visibilidade proporcionada pelo AIPD” (BRASIL, 2010, p. 47). No ano seguinte, ocorreu também o II Encontro Nacional das Pessoas Deficientes, na cidade de Contagem/MG, de 23 a 26 de março de 1982. Ainda em 1982, na cidade de São Bernardo do Campo/SP, com participação de várias associações de pessoas deficientes, foi instituído o dia 21 de setembro como dia nacional de luta pelos direitos civis e políticos do segmento (ROSA; BORBA, 2006, p. 194). No período de 13 a 17 de julho de 1983, ocorreu o 3º Encontro Nacional de Entidades de Pessoas Deficientes, realizado em São Bernardo do Campo/SP, que estabeleceu a constituição das federações por área de deficiência. Para discussões entre as federações e entidades sobre temas comuns, foi definida a criação do Conselho Nacional das Entidades de Pessoas Deficientes, o qual teve como temática a Organização Nacional das Pessoas Deficientes (BRASIL, 2010, p. 47). Assim, foi a partir de 1984 que as federações nacionais e estaduais foram sendo criadas, proporcionando um processo de interiorização para os municípios por meio da abertura de entidades de pessoas deficientes (ROSA; BORBA, 2006, p. 195 e BRASIL, 2010, p. 56). Esses movimentos das pessoas deficientes seguiram a tendência internacional em relação à constituição de federações por tipo de deficiência, bem como dos temas abordados, como a questão do acesso à educação e ao trabalho; a formulação de legislações específicas e a inserção em outras, como na Constituição Federal; a defesa de direitos civis e políticos; as políticas de prevenção; e a realização de estatística e de diagnóstico sobre a situação do “deficiente”, o que possibilitou formular a política de integração. Outro aspecto a destacar foi a questão 112 da formação de profissionais para atuarem em serviços como a reabilitação e os atendimentos especializados (ROSA; BORBA, 2006, p. 196). Assim, as legislações e serviços criados pelo governo tiveram influência tanto de organismos internacionais como do movimento em prol da integração do “deficiente” arrolado pelas pessoas com ou sem deficiência. Algumas ações foram importantes tais como a criação por meio do Decreto Federal nº. 93.481/1986 da Coordenadoria Nacional da Pessoa Portadora de Deficiência (CORDE), a promulgação da Constituição Federal de 1988 e a publicação da Lei Federal nº. 7.853/1989. A Constituição Federal de 1988 foi amplamente discutida com a sociedade civil. Em face desse processo, foi reconhecida como constituição cidadã. Em relação aos direitos das pessoas com deficiência, realizaram-se ciclos de debates pelos estados brasileiros, proporcionando a elaboração de propostas que foram encaminhadas para apreciação nas plenárias de discussão da constituinte. Algumas foram aceitas e outras refutadas. Esses encontros ocorreram com apoio técnicofinanceiro do MEC. No documento Emendas Populares, - Assembleia Constituinte -, organizado pela Comissão de Sistematização, verificaram-se algumas emendas que entidades de e para pessoas com deficiência encaminharam como pauta de reivindicações – entre estas, a Emenda Popular nº. 77/1987, que trata de um salário mínimo para as pessoas com deficiência que não possuíam condições de se manter. Essa emenda foi subscrita por 48.877 eleitores e apresentada pelas seguintes entidades: Associação Canoense de Deficientes Físicos (Canoas/RS), Escola Especial de Canoas (RS), Liga Feminina de Combate ao Câncer. Uma das reivindicações objetivava assegurar que questões relacionadas às pessoas com deficiência fossem redigidas e organizadas com caráter de transversalidade na Constituição, o que foi contemplado, sobrepondo-se à proposta original, em que havia um capítulo para tutelas especiais, destinadas às pessoas com deficiência (BRASIL, 2010, p. 64). 113 Na estrutura da Constituição Federal foi distribuído temas afins em vários capítulos, condição que foi ao encontro do projeto de integração social, como pode ser observado no artigo “7º, inciso XXXI; artigo 24, inciso XIV; artigo 37, inciso VIII; artigo 203, incisos IV e V; artigo 227, parágrafo 1º, inciso II; e artigo 244, parágrafo 2º” (ROSA; BORBA, 2006, p. 197), que abordaram aspectos da reabilitação, saúde, educação, previdência, aposentadoria, proteção para integração social, adaptação arquitetônica. Observa-se que a possibilidade de oferta pelo setor público e privado é mantida na Carta Maior, o que retifica a não superação do atendimento assistencialista/filantrópico para esse segmento social, bem como o continuísmo do apoio técnico-financeiro, oriundo de verbas públicas para o setor privado. A perspectiva de atendimento tutelado, a qual buscou-se superar com a transversalidade, ficou fragilizada quando o Estado manteve a possibilidade de atendimento especializado por organismos não governamentais. Vieira (2001, p. 9-10) possibilitou analisar na Constituição de 1988 essa fragilidade na definição de política para a pessoa com deficiência quando afirmou que o período compreendido entre os anos de 1964 a 1988 se caracterizou por “política social como política de controle”. Nesse aspecto, convém destacar que as concessões nessa legislação, contemplando as reivindicações populares, estavam vinculadas à necessidade de o governo obter legitimidade na gestão, o que na prática acarretou políticas sociais fragmentadas, setoriais e emergenciais. Mas, ao mesmo tempo e de outra forma, criou perspectivas de consolidar tais políticas, uma vez que abrangeu substancialmente as demandas populares24. Nesse sentido, podese afirmar que a Constituição de 1988 foi um marco legal de lutas e conquistas dos direitos sociais. Montaño (2005, p. 34-36) salienta que essa Carta, nos anos posteriores, tornou-se instrumento legal para os enfrentamentos da classe trabalhadora e dos movimentos sociais para que tais direitos fossem concretizados. Portanto, a legislação é fruto da correlação de forças entre as classes sociais, proporcionando um dinamismo que acarreta constantes complementariedades ou alterações na produção de novas normas legais. Em se tratando da Constituição, 24 As demandas populares foram contempladas na Constituição Federal de 1988 por meio dos direitos civis, políticos e sociais. Para aprofundar essa análise, consultar Evaldo Vieira (2001) em seu artigo “Política e as Bases do Direito Educacional”. 114 soma-se que ela, em determinados casos, definiu que tal direito seria regulamentado por legislação complementar. Nessa lógica, foi homologada a Lei nº. 7853, de 24 de outubro de 1989, que trata da integração social do “deficiente” e a Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (CORDE). Em seu artigo 1º, o documento expressa que “ficam estabelecidas normas gerais que asseguram o pleno exercício dos direitos individuais e sociais das pessoas portadoras de deficiências, e sua efetiva integração social, nos termos desta Lei.” (BRASIL, 1989, s/p). Posteriormente, tal lei foi regulamentada por meio do Decreto Federal nº. 3.298, de 20 de dezembro 1999. Esse Decreto sofreu alterações com a homologação do Decreto Federal nº. 5296, de 2 de dezembro de 2004, o qual regulamentou também a Lei nº. 10.048, de 8 de novembro de 2000, que tratou acerca do atendimento prioritário a pessoas com deficiência, gestantes e idosos, e a Lei nº. 10.098, de 19 de dezembro de 2000, que definiu normas e critérios para promoção da acessibilidade das pessoas com deficiência e de pessoas com mobilidade reduzida. Observa-se que as diretrizes produzidas na década de 1970, pautadas na integração social, foram, ao longo dos anos, contribuindo para o estabelecimento dos subsídios teóricos e legais que culminaram na promulgação da Lei nº. 7853/89. Esta Lei, por sua vez, torna-se base legal, juntamente com a Constituição Federal de 1988, tanto para o governo, quanto para os movimentos sociais das e para as pessoas com deficiência, transformando-se, assim, em instrumento para definição de novas resoluções, leis, decretos e portarias constituídas desde a década 1990 até os dias atuais (2012). Entretanto, torna-se necessário ratificar que o estabelecimento de direitos em normas legais não se traduz de modo direto no acesso a tais direitos, ou seja, eles não se concretizam automaticamente (ANDRÉ, 2006, p. 38; 45). É necessário, portanto, que as mobilizações e lutas ocorram de forma constante, visto que a lógica da produção de exclusão aos bens materiais e culturais é inerente ao sistema que se reproduz da exploração do homem sobre o homem. Na monografia intitulada Fórum Municipal em Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência: uma reflexão sobre a concepção do direito presente nas suas lutas (2006, p. 8), ao analisar a atuação do Fórum constituído na cidade de Cascavel/PR, 115 em 1995, a pesquisadora Maria Filomena Cardoso André destaca que as lutas realizadas pelas entidades de/para pessoas com deficiência estavam alicerçadas pelas normas e legislações que faziam referência a esse segmento social. Outro aspecto que a pesquisadora salienta é o fato de que as conquistas de direitos expressos nas legislações são produto de luta dos segmentos das pessoas com deficiência e de profissionais que atuam na área, apesar das divergências de concepções de pessoa com deficiência entre os envolvidos nesse processo. Para tratar do tópico seguinte, que irá abordar a política do CENESP, é preciso realizar dois esclarecimentos, para os quais Santos (1995, p. 21) chama atenção. O primeiro diz respeito ao público a que se destina a proposta de integração, objetivando assegurar as especificidades educacionais, de trabalho, de reabilitação e de assistência social que cada aluno necessita, pois pessoas com a mesma deficiência podem possuir necessidades distintas, devido a seu percurso educacional e sua condição econômica. O segundo esclarecimento relaciona-se aos objetivos, metodologias, espaço físico, os quais estão articulados à categoria que se refere à integração, podendo ser educacional, de trabalho de reabilitação para atividades de vida diária e outros. Apesar de haver possibilidades distintas para promoção da integração, para que ela ocorra de fato essas áreas de atuação deveriam se articular entre si. 2.3 As Diretrizes Básicas para Ação do Centro Nacional de Educação Especial (CENESP) Como se pode constatar, a constituição do CENESP25 ocorreu devido à demanda que vinha se fortalecendo no âmbito de ações a serem realizadas pelo poder executivo. Tal demanda era explicitada desde a década de 50 pelas entidades de/para pessoas com deficiência, bem como pela tendência internacional de políticas para esse segmento social. Nesse sentido, o presente tópico abordará as 25 No Governo Sarney (1985-1990), no ano de 1986, o CENESP foi “transformado em Secretaria de Educação Especial (SESPE), através do decreto n. 93.613 de 21 de novembro de 1986” (JANNUZZI, 2004, p. 145). 116 Diretrizes26 Básicas para Ação do CENESP, estabelecidas no Projeto Prioritário nº. 35, Educação Especial, do Plano Setorial de Educação e Cultura (1972-1974). O Plano Setorial de Educação era parte integrante de ações para a concretização do Plano de Desenvolvimento Nacional Econômico e Social/1971 (PND), que estabeleceu como diretrizes gerais: duplicar a renda per capita em relação ao ano de 1969; colocar o Brasil entre os países desenvolvidos e aumentar o PIB entre 8% a 10%. Para atingir tais metas, estabeleceu-se a necessidade de qualificar recursos humanos. Esse aspecto colocou a educação como fator prioritário para o desenvolvimento econômico e social. Assim, os investimentos para expansão educacional deveriam ocorrer desde o combate ao analfabetismo até o ingresso em instituições de ensino superior. Neste sentido, era preciso investir nos problemas diagnosticados em todas as etapas do ensino, tendo como estimativa que 33% da população acima dos 15 anos eram analfabetos; o ensino de 2º grau ainda tinha cunho elitista; apenas 10% do ensino de 1º grau eram ofertados por instituições privadas; havia evasão e repetência escolar; mais de 40% dos professores do ensino de 1º grau eram leigos; era baixa a remuneração aos professores; havia insuficiência da rede escolar, sendo que esta absorvia 20% da demanda, entre outros problemas. O Plano Setorial de Educação indicou ainda a necessidade de planejar, definir orçamento, realizar controle e avaliação, descentralizar e reformular o setor administrativo, tornando a estrutura educacional mais produtiva e dinâmica frente às mudanças do setor produtivo (PAMPLONA, 1973, p. 11-15). Essa estratégia educacional objetivava então: sentido não elitizante da educação; educação como fator de mobilidade social; educação de amplitude nacional, inclusive como determinante de integração; reforma institucional, visando a rentabilidade; formação da cidadania dentro e para o regime democrático e uma sociedade aberta; 26 A publicação deste documento ocorreu em fevereiro de 1974. Portanto, a criação do CENESP que foi em 1973, antecedeu a publicação do Plano Setorial de Educação que possui o Projeto Prioritário nº. 35, o qual sugere a criação de órgão específico para gerenciar a Educação Especial de âmbito nacional e define algumas diretrizes para ação do CENESP. 117 estabilidade dentro do sistema, de forma a eliminar antagonismos tendo a segurança como objetivo. (PAMPLONA, 1973, p. 16). Assim, o Plano Setorial de Educação foi elaborado a partir de princípios doutrinários, pautados no direito natural e individual, em que cada homem possui potencialidades que devem ser desenvolvidas e o Estado deve proporcionar a efetivação desse desenvolvimento, como também: [...] preservar os valores permanentes que dignificam a pessoa humana; ser encarada como instrumento de democratização, pela universalidade do ensino e das oportunidades; deve significar o esforço para se transmitirem, não apenas conhecimentos e técnicas, mas lealdade para com os valores e ideais que sustentam e animam a Nação; investimento em favor do desenvolvimento econômico e social. (PAMPLONA, 1973, p. 18). A fim de atingir as metas definidas no Plano Setorial de Educação, a princípio foram elaborados 33 projetos prioritários a serem efetivados no triênio de 1972 a 1974. Outros 3 projetos foram incorporados a esse Plano pela diretriz ministerial 73/74 (PAMPLONA, 1973, p. 22). Entre os inclusos, estava o Projeto Prioritário nº. 35 – Educação Especial. No quadro do Plano Setorial de Projetos no Setor do Ensino de 1º Grau, foi previsto um orçamento no valor de Cr$ 8.262.500,00, destinados “a expansão e melhoria do ensino para excepcionais”, sendo o órgão executor o CENESP (PAMPLONA, 1973, p. 24). A respeito da educação especial no quadro dos Projetos do Setor de Ensino de 2º Grau, existe uma nota para consultar o quadro referente ao 1º grau. Nesse contexto, em 1972, por meio do Parecer n°. 842, o Conselho Federal de Educação definiu o conceito de integração para os excepcionais, no qual o setor de excepcionais deve ser considerado como parte integrante do ensino regular, pois eles possuíam também o direito da obrigatoriedade de ensino dos 7 aos 14 anos, devendo ser respeitadas as suas especificidades. Nesse sentido, o professor deveria assegurar orientação e material adequados para sua aprendizagem (BRASIL, 1979a, p. 11). 118 Naquela ocasião, encontrava-se a frente do governo o Presidente da República Emílio Garrastazu Médici, tendo como Ministro da Educação e Cultura o Senador Jarbas Gonçalves Passarinho; na função de Secretário-Geral do MEC o Coronel Confúcio Pamplona e como Diretora-Geral do CENESP a professora Sarah Couto Cesarque (BRASIL, 1974, s/p). Torna-se necessário destacar que o foco deste trabalho é o atendimento dispensado às pessoas com deficiência em escolas públicas regulares e especiais. Inicialmente, é importante considerar a terminologia “excepcional” utilizada na época da publicação do Projeto Prioritário no. 35, a qual abrange indivíduos com outras características, a saber, [...] ‘os mentalmente deficientes, todas as pessoas fisicamente prejudicadas, as emocionalmente desajustadas, bem como as superdotadas, enfim, todos os que requerem consideração especial no lar, na escola e na sociedade’. Helena Antipoff in Boletim nº 39 da Sociedade Pestalozzi do Brasil – Rio de Janeiro – 1966. (BRASIL, 1974, p. 8). A definição de “excepcional” contida nas Diretrizes Básicas para Ação do CENESP englobava pessoas com outras características. Entretanto, o foco de discussão e análise deste trabalho trata apenas das pessoas com deficiência. De acordo com Bueno, no ano de 1971, o Secretário-Geral do MEC, por meio da Portaria nº. 86, de 17 de junho de 1971, instituiu o Grupo Tarefa27 para pensar a questão da educação especial. Nesse estudo, foi sugerida como proposição a criação de um órgão específico para tratar da educação especial. O pesquisador acrescenta que essa modalidade educacional passou a ser considerada uma das prioridades educacionais do Brasil quando o Plano Setorial da Educação (19721974) incorporou o Projeto Prioritário nº. 35 – Educação Especial, elaborado pelo Grupo Tarefa (BUENO, 1993, p. 97). O CENESP foi criado pelo Decreto nº. 72.425, de 3 de julho de 1973, sendo que em seu artigo 1º destaca que a finalidade de sua criação foi “promover em todo o território nacional, a expansão e melhoria do atendimento aos excepcionais” 27 No documento do MEC consta que a data de criação é 23 de maio de 1972. 119 (BRASIL, 1973, p. 1). Esse objetivo principal buscava proporcionar à nação brasileira uma unidade de ação e estratégias de promoção educacional para atender um segmento que, até aquela data, vinha sendo contemplado por serviços isolados, como já foi mencionado em tópicos anteriores deste trabalho. Devido a essa condição, era preciso definir uma política nacional que estabelecesse o tipo de atendimento que deveria ser ofertado, para que público, com que finalidade e que meta deveria ser atingida. Assim, esse documento definiu o público da Educação Especial e suas finalidades, como pode ser observado em seu artigo 2º. Art. 2º. O CENESP atuará de forma a proporcionar oportunidades de educação, propondo e implementando estratégias decorrentes dos princípios doutrinários e políticos, que orientam a Educação Especial no período pré-escolar, nos ensinos de 1º e 2º graus, superior e supletivo, para os deficientes da visão, audição, mentais, físicos, educandos com problemas de conduta para os que possuam deficiências múltiplas e os superdotados, visando sua participação progressiva na comunidade. (BRASIL, 1973, p. 1). O Decreto de criação do CENESP, em seu artigo 2º, expressou a forma de atuação deste centro, no sentido de atender as necessidades educacionais das pessoas com deficiência. Na apresentação do documento, foram expostos os motivos, assinalando a tendência internacional de assegurar o princípio básico da democracia, o direito à educação a todas as pessoas, bem como de proporcionar as condições adequadas para o desenvolvimento integral de cada um conforme sua capacidade. Entretanto, no teor deste documento (BRASIL, 1974, p. 4), está expresso que, devido à falta de estrutura da época para atender a todos em sua formação acadêmica, era preciso investir apenas nos considerados mais talentosos, ou seja, “nos mais capazes de mobilizar a ciência e a técnica em favor do progresso social". Porém, essa mesma exigência social colocou a necessidade de proporcionar educação às pessoas com deficiência, com o intuito de torná-las “tanto quanto possível participantes de atividades produtivas”. Assim, se atenderia aos objetivos que o Governo Federal incluiu no Plano Setorial de Educação, Projeto Prioritário nº. 35 – Educação Especial. 120 Os problemas elencados nas Diretrizes Básicas para Ação do CENESP demonstraram a situação educacional dos denominados na época como “excepcionais”. Tais problemas precisavam ser sanados para atingir “os objetivos da ação educativa” (BRASIL, 1974, p. 11), tornando-se necessário, para tanto: a) definir estratégias para articulação entre as esferas federal, estadual, municipal e iniciativas privadas; b) promover a articulação entre a educação e as áreas da saúde, trabalho, justiça e assistência social; c) estabelecer critérios de emprego da verba destinada à Educação Especial; d) elaborar recursos estatísticos devido aos dados imprecisos de demandas, a fim de conhecer a realidade quanto ao número de alunos com deficiência matriculados na rede pública e particular, aos tipos de deficiência, ao número de professores especializados e sua formação; ao número de instituições e serviços de atendimento ofertados para esse segmento social; ao valor quantitativo empregado na Educação Especial; e) identificar, no âmbito da extensão territorial brasileira e suas especificidades de desenvolvimento socioeconômico, a heterogeneidade de atendimento, considerando que havia estados que não possuíam oferta deste serviço, enquanto outros ofertavam alguns serviços; f) quantificar a falta de profissionais especializados e de recursos técnicofinanceiros e administrativos, estabelecendo diretrizes e estratégias de ação para o desenvolvimento da educação especial; g) apoiar a iniciativa privada que possuía o maior número de atendimento, reivindicando apoio técnico-financeiro para melhoramento de tais serviços. Mediante a superação das limitações técnico-financeiras e administrativas, se acreditava que atingiria os objetivos da ação educativa, que eram iguais entre as pessoas com deficiência e as sem deficiência, pois ambas estavam pautadas “no desenvolvimento das potencialidades de cada um, como elemento de auto realização, qualificação para o trabalho e preparo para o exercício consciente da cidadania.” (BRASIL, 1974, p. 11). Uma das justificativas para oficialização da educação especial encontrava-se no aporte custo-benefício, na dependência financeira que os “deficientes” 121 proporcionavam ao Estado. Assim, considerava-se que, apesar de o custo na promoção educacional ser elevado para esse segmento, a perspectiva de torná-las mais independentes e produtivas, contribuindo para o desenvolvimento econômico, era uma perspectiva interessante para o Estado (BRASIL, 1974, p. 12). Essas diretrizes estavam delineadas pela integração e pela racionalização. A integração foi composta por três aspectos: a) a questão de o “excepcional” se conhecer e conhecer a sociedade em que estava inserido; b) articulação das áreas de educação, saúde, trabalho, justiça, assistência social para o atendimento do excepcional; c) participação conjunta da esfera federal, estadual, municipal, setor privado e comunidade. A racionalização, por sua vez, se delineou relativamente a: a) elaboração de planejamento, considerando a realidade da educação nacional a partir de dados adquiridos por meio de diagnóstico desta; b) planejamento que deveria ser pensado, considerando diversas variáveis presentes no processo de implantação da educação especial, como os recursos financeiros, as limitações e os objetivos para a definição de metas possíveis de serem executadas com o menor custo operacional possível; c) estruturação dos serviços, de modo a evitar a duplicidade de atendimentos similares; d) proporcionar o intercâmbio de experiências, visando a um contínuo aperfeiçoamento de profissionais especializados; e) realizar constante avaliação de modo a possibilitar reencaminhamentos e revisão do planejamento (BRASIL, 1974, p. 17). Com o estabelecimento das diretrizes, criaram-se perspectivas de expansão do atendimento educacional a esse segmento, em que, segundo previsão constante nesse documento, havia uma demanda a ser beneficiada com tal política, como pode se observar abaixo: Considerando-se haver cerca de 12% de excepcionais na população escolar e sendo a população global brasileira dos 7 aos 14 anos de 122 19,39 milhões, verifica-se que somente nessa faixa etária é provável que existam 2,66 milhões de educandos demandando educação especial. Está sendo prestado o atendimento especializado apenas a 50.274 alunos. Por outro lado, o número elevado de excepcionais já se encontra frequentando escolas comuns, não estando estes alunos identificados e, por conseguinte, não recebendo tratamento especial. (BRASIL, 1974, p. 18). Observa-se por meio desta citação que uma parcela dos alunos com necessidades especiais estava matriculada em escolas comuns, mas sem qualquer “tratamento especial” que atendesse a suas necessidades educacionais especiais. Ressalta-se que, apesar de o documento trazer esses dados, a Proposta Curricular para Deficientes Auditivos (1979d ), outro documento do CENESP, publicado em 1979, demonstra que os dados estatísticos referentes ao número de excepcionais no país ainda eram precários. Logo, os dados apresentados em 1974 provavelmente eram imprecisos, porém não equivocados em relação à demanda oprimida, pois se considerar a porcentagem da OMS, de 10%, a estimativa seria de 1.939 milhões de crianças “excepcionais” necessitando de educação escolar. Esse documento permite observar que havia a necessidade de promover a educação para essas pessoas, podendo ser em “classes comuns, com tratamento especial; ou em classes especiais de escolas comuns; ou em instituições especializadas” (BRASIL, 1979d, p.10) . O importante era, na medida do possível, integrá-las no sistema regular de ensino ou no supletivo, assegurando as condições especiais adequadas para efetivação de sua educação. Nesse processo, a avaliação tinha a atribuição de definir quais alunos deveriam ser encaminhados às instituições especializadas e os que deveriam ingressar na escola comum (BRASIL, 1974, p. 19). Os atendimentos definidos por essa diretriz deveriam ocorrer em escolas comuns com tratamento especial; em classes especiais; em salas de recurso; nas escolas residenciais e ter o professor itinerante, sendo que os serviços de atendimento foram organizados da seguinte forma: a) a classe comum estava destinada à integração de alunos “excepcionais”, sendo que, para isso, havia o critério de avaliação diagnóstica, a 123 disponibilidade de orientação aos professores e das condições necessárias para seu atendimento; b) os alunos encaminhados às classes especiais eram aqueles que não podiam, pelas características da deficiência, frequentar salas regulares. Nesse caso, havia como recomendação a realização, na medida do possível, de atividades coletivas junto aos demais alunos da escola; c) as salas de recurso eram destinadas ao apoio pedagógico para alunos com deficiência; d) as escolas especiais estavam destinadas aos alunos com determinado tipo e grau de deficiência, bem como para aqueles em cuja localidade de moradia não havia acesso à escola comum; e) a escola residência estava destinada aos casos em que não existia outra forma de assistir o excepcional em suas necessidades especiais; f) o serviço itinerante era destinado àquele que estava temporária ou permanentemente impedido de frequentar um sistema educacional, seja a escola comum, seja a especial; g) as oficinas-empresa funcionavam em contraturno, sendo que durante um período do dia os alunos frequentavam a escola e, no outro, a oficinaempresa; h) as oficinas pedagógicas deveriam proporcionar ao aluno autossuficiência e competência social por meio da educação geral e formação ocupacional, com o objetivo de desenvolver habilidades, aptidões e preparar para o trabalho. Para tanto, o processo avaliativo considerava: [...] as potencialidades e periodicamente reavaliado com vistas à revisão de diagnósticos que serviram de base a sua caracterização como deficiente e ao ajustamento constante de tratamento especial que deva receber. - acompanhamento e a avaliação do desempenho dos deficientes constituirão processo continuo e trabalho cooperativo, abrangendo de forma global aspectos relativos a capacidade intelectual, interesses, atitudes, competência social, aproveitamento escolar etc.; esse acompanhamento ultrapassará, sempre que possível, o período escolar. (BRASIL, 1974, p. 21). Segundo essas diretrizes, para efetivação destas ações, o Projeto Prioritário nº. 35 foi dividido em duas etapas. A primeira, de 1973 a 1976, ficou estruturada com 124 três prioridades e tratava acerca da questão da formação de professores especialistas e especializados em educação especial, bem como da necessidade de estudos e pesquisas para o avanço do atendimento educacional desses alunos. A segunda referia-se ao levantamento diagnóstico para o planejamento e para a avaliação; a modalidade de atendimento; a definição de currículos, de métodos e materiais de ensino. Para tanto, foram elaborados projetos piloto, como o Centro de Experimentação e Demonstração, constituído por salas comuns e especiais que funcionariam como modelo de atendimento. As ações pedagógicas adequadas ao atendimento aos alunos “excepcionais”, tanto nas salas comuns como nas classes especiais realizadas no centro modelo, deveriam ser disseminadas a outras escolas. Os laboratórios referentes aos currículos deveriam proporcionar estudos de planejamento, de metodologia, de materiais de ensino, de orientações, de divulgação de experiências, sendo que parte do currículo deveria estar voltado para a formação ocupacional e para o trabalho. Além disso, havia também os centros de medidas e de avaliação para estudos de padronização de medidas avaliativas do desempenho dos alunos, que deveriam funcionar articulados aos demais projetos pilotos. A terceira ação tratava do intercâmbio entre programas com a finalidade de promover: [...] identificação, diagnóstico, triagem e encaminhamento de excepcionais; instalações, equipamentos e materiais de compensação (prótese) para a educação especial; formação ocupacional e profissional dos deficientes e assistência quando na força-de-trabalho; assistência ao educando excepcional; prevenção de deficiências. (BRASIL, 1974, p. 28-29). Com a previsão da primeira etapa a ser concluída, atingindo seus objetivos, o projeto deveria prosseguir com a segunda etapa, iniciada em 1977, na qual a ênfase era a expansão do atendimento educacional e a elaboração de currículos, além da continuidade dos trabalhos realizados na primeira etapa. Assim, de acordo com Bueno (1993, p. 107-108), no período de 1977 a 1979, deu-se ênfase à expansão da educação especial, à “capacitação de recursos humanos, à reformulação de currículos e à assistência técnica e financeira aos sistemas estaduais e às instituições privadas de educação especial”. 125 A elaboração de propostas curriculares deu-se pela necessidade de suprir a carência de material pedagógico que abordasse a questão educacional dos alunos cegos, com visão subnormal, com surdez, com deficiência mental, de modo a constituir aporte teórico de orientação aos professores das unidades federadas. Tais propostas foram elaboradas entre 1975 e 1977 por meio de convênio do CENESP com a Universidade Federal do Rio de Janeiro – com foco nas áreas visual e mental – e com a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – com foco na área auditiva (BUENO, 1993, p. 111). As publicações ocorreram em 1979. Com as leituras das Propostas Curriculares destinadas às áreas das deficiências, foi possível expandir a compreensão de como a educação desses alunos estava sendo encaminhada em âmbito de recomendação pelo CENESP. Tais propostas a priori demonstram que cada área da deficiência possui especificidades distintas. Além disso, torna-se evidente que a integração em salas regulares seguiu etapas de acordo com as características individuais de cada aluno, bem como da deficiência que possuía. Logo, o processo de integração de um aluno cego se diferenciava de um com deficiência mental ou com surdez. Nesse sentido, as Propostas Curriculares publicadas por área sistematizaram questões metodológicas, procedimentos de atendimento, de avaliação e de conteúdo. Cabe mencionar que, segundo Bueno (1993), essas propostas curriculares eram distintas do currículo de salas comuns, estando muito mais apropriadas às classes especiais. Na verdade, apesar de constar que as propostas se dirigiam a formas segregadas e integradas, a sua própria estruturação impediu que pudessem ser utilizadas em salas comuns, isto é, não se configuraram como adaptações curriculares, mas como propostas especiais, adaptadas a cada tipo de excepcionalidade. (BUENO, 1993, p. 111-112). Nesse sentido, a proposta de integração propalada pelo CENESP priorizava o ingresso dos alunos em salas regulares, mas sua estrutura organizacional, que estava recomendada nas Propostas Curriculares, acabava por proporcionar a segregação, pois, ao definir conteúdos específicos, se distanciava da estrutura curricular do ensino regular. Por exemplo, na área da deficiência visual, o currículo foi organizado em 4 volumes, sendo que: 126 a) b) c) d) Volume I – era destinado aos conteúdos da primeira série; Volume II – era destinado aos conteúdos de 2ª, 3ª e 4ª série; Volume III – abrangeu de 5ª a 8ª série; Volume IV – contém conhecimentos que se estruturaram como um manual aos professores. De acordo com a Proposta Curricular para Deficientes Visuais – Manual do Professor (BRASIL, 1979b, p.11) –, a criança poderia ser matriculada na escola comum ou na classe especial, sendo que a recomendação era para que o aluno cego ou com visão subnormal fosse matriculado na escola comum. Nesse processo, a classe especial tinha atribuição de preparar o aluno para ser inserido no ensino regular. Isso deveria ocorrer durante a pré-escola e a primeira série, período em que seria alfabetizado por meio do braile. Para as demais séries, deveria estar em sala regular, tendo asseguradas as condições adequadas para estudar. Pode-se considerar que, para o período de estudo desta pesquisa, a proposta curricular, em termos de atendimento, buscava avançar numa perspectiva de rompimento com os estigmas, os estereótipos, os preconceitos e a discriminação em relação a esse público, defendendo que o “desenvolvimento das potencialidades” era o principal objetivo educacional para todos os alunos. Nesse sentido, o documento reafirma que, do ponto de vista intelectual, não há diferença entre um aluno vidente e um com deficiência visual. “Assim, não há nenhuma limitação quanto à capacidade de raciocínio, compreensão de conceitos abstratos, percepção de fatos essenciais e estabelecimentos de relações importantes.” (BRASIL, 1979b, p. 9). Dessa forma, esse documento estabeleceu a distinção conceitual de deficiência visual sob a perspectiva médica e a pedagógica. Sob o ponto de vista educacional, de acordo com a conceituação que vem sendo adotada pelo CENESP, os portadores de cegueira são alunos que apresentam perda total ou resíduo mínimo de visão, necessitando de método Braille como meio de leitura e escrita e/ou outros métodos, recursos didáticos e equipamentos especiais para sua educação. São portadores de visão subnormal os alunos que possuem resíduos visuais em grau que lhes permita ler textos impressos a tinta, desde que se empreguem recursos didáticos e equipamentos especiais para sua educação, excluindo as deficiências facilmente corrigidas pelo uso adequado de lentes. (BRASIL, 1979b, p. 9). 127 Convém salientar que questões assinaladas nesse documento ainda hoje (2012) são focos de discussão e necessidade de superação28. Naquele momento, já estava sendo apresentada a necessidade de disseminar informações para superar posturas estereotipadas que prejudicassem o desenvolvimento cognitivo e social dos alunos com deficiência. Assim, abordava-se a necessidade de informar a família e de orientar os professores quanto à importância da estimulação desde a tenra idade, da não superproteção, buscando não desencadear sentimento de inferioridade, rejeição. Uma das questões levantadas se refere ao fato do atraso cognitivo frente à escassez de estímulo, o que poderia ser recuperado com o direcionamento de uma educação que lhe proporcionasse o tratamento especial necessário para seu desenvolvimento. Recomendava-se, também, que era prejudicial o “excesso de piedade”. (BRASIL, 1979b, p. 9). Logo, ao mesmo tempo em que apresentava uma perspectiva de avanço, contraditoriamente, preservava princípios religiosos, bem como dava ênfase em aspectos biológicos que influenciariam no desenvolvimento social e cognitivo. Certamente, havia muito a avançar no que tange à concepção de pessoa com deficiência, à estrutura organizacional de educação e à compreensão dos objetivos e das metas da educação especial. Outras temáticas, como a formação de professores, o conflito de alunos com deficiência em sala regular, necessidade de campanhas de prevenção, esclarecimento de causas de cegueira, avaliação de acordo com o desempenho – sem ações de superproteção –, são aspectos que estão presentes na Proposta Curricular. Como princípio da educação da pessoa com deficiência visual, definiu-se a igualdade de oportunidade, respeitando a individualidade de cada um, para que o aluno pudesse desenvolver habilidades para ser funcional no ambiente em que está inserido. A Proposta Curricular para Deficientes Mentais Educáveis se diferenciou substancialmente da área da deficiência visual e auditiva, pois não previu quando o aluno deveria ingressar no ensino regular. No próprio título, subentende-se que 28 Os aspectos de superação da discriminação, preconceitos e aspectos de abordagem à pessoa com deficiência ainda requerem disseminação de conhecimento e informações para superar entraves ocasionados por concepção pautada numa vertente religiosa e biológica. Para além da discussão realizada no capítulo I deste trabalho, sugiro a leitura do livro Pessoa com Deficiência: aspectos teóricos e práticos. Programa Institucional de Ações Relativas às Pessoas com Necessidades Especiais (PEE) (Org.). Cascavel/PR: Edunioeste, 2006. 128 alguns são educáveis e outros não, apesar de o documento explicitar que essa postura conceitual, de quem é educável e de quem não o é, era algo polêmico. Mesmo assim, essa proposta curricular foi elaborada para os que eram considerados “deficientes mentais leves e educáveis”. A recomendação era a de que o encaminhamento poderia ser em classes e escolas especiais, mas principalmente nestas últimas (BRASIL, 1979c, p. 8; 46). No tocante à área da deficiência auditiva, o documento considerou que o aluno “deficiente auditivo” poderia estudar em salas comuns, classes especiais e instituições especializadas. Mas, ao considerar as condições precárias para uma educação adequada ao desenvolvimento cognitivo desse aluno, tais como recursos didáticos, formação de professores qualificados, apoio pedagógico, triagem, avaliação e estimulação precoce, recomendava que, naquele momento, a melhor opção fosse as classes especiais. Essa condição foi justificada por meio dos seguintes argumentos: A população escolar referida não poderia participar integralmente de classe regular, pois, para isso, seria necessário um trabalho desde os primeiros meses de vida, a fim de que sua comunicação oral se desenvolvesse, possibilitando esta inserção. Estes poderão e deverão ser encaminhadas para classes regulares. Embora a escola especial leve a vantagem de poder reunir em uma mesma instituição uma equipe multidisciplinar que se dedique ao estudo do problema da deficiência auditiva, esta não nos parece a melhor solução. Ao lado desta superioridade, aparecem desvantagens que nos levaram à sua não adoção. Em primeiro lugar, a escola especial apresenta o problema da segregação de indivíduos com o mesmo tipo de distúrbio, propiciando condições para a formação de subcomunidades isolacionistas. (BRASIL, 1979d, p. 31). Este documento esclareceu que escolas especiais eram viáveis em grandes centros, onde o número de atendidos comportaria tal estrutura. Como os “deficientes auditivos” geralmente estavam, em termos geográficos, dispersos, o atendimento em classes especiais proporcionaria um acesso escolar a um número maior desses alunos. Além disso, as classes especiais, por estarem localizadas em escolas regulares, constituíam a possibilidade de integração dos seus alunos com os demais ambientes sociais (BRASIL, 1979d, p. 32). Nesse sentido, expressa-se que a 129 educação dos excepcionais possui os mesmos fins que a educação geral, os quais estão pautados pela Lei Federal nº. 5.692/71. A diferença de atendimento não pressupõe uma filosofia diversa. Ela encarna o princípio democrático de que cada indivíduo deve receber atendimento educacional adequado às suas possibilidades, [...]. Define-se, então, como metas prioritárias da reabilitação do excepcional a sua auto-realização como indivíduo e a sua inserção no meio social como ser produtivo e atuante. Desta forma, toda instituição que se dedicar à educação deste tipo de clientela deve nortear suas atividades para a consecução desses objetivos básicos. (BRASIL, 1979d, p. 9). As Propostas Curriculares foram elaboradas de acordo com as necessidades específicas de cada área da deficiência, objetivando o desenvolvimento das potencialidades dos alunos e ampliação ao acesso educacional dos excepcionais, pressupondo sua integração nos diversos espaços sociais como indivíduo útil e produtivo para a sociedade. Entretanto, mesmo com esta perspectiva dada pela formação educacional, a alienação ao mercado de trabalho permaneceu, pois, para o sistema capitalista o “deficiente” continuou sendo visto como indivíduo não produtivo. Nesse processo educacional estava enfatizada questões ligadas ao sistema biológico, fator que prejudicou a apropriação do conhecimento sistematizado. Nesse aspecto, Bueno possibilita compreender o processo de integração de todas as áreas da deficiência quando afirma que a educação dos alunos centrou-se na reabilitação do [...] (treinamento de fala para surdos, mobilidade para cegos, etc.), nada mais ‘natural’ do que incorporar no âmbito da educação os ‘serviços de educação precoce’. Raciocínio análogo poderia ser estabelecido com os centros de ação preventiva, pois a organização de serviços para crianças de ‘alto risco’ e de aconselhamento genético deveria ser da alçada dos serviços de saúde, não atingindo somente a população deficiente [...]. (BUENO, 1993, p. 115). A ênfase na área da saúde concretizada pela metodologia de diagnóstico, avaliação e encaminhamentos explicita, concomitantemente, a afirmação e a 130 negação do acesso ao ensino regular pelos “excepcionais”, prevalecendo nessa correlação de intencionalidades a manutenção da segregação destes alunos. Bueno expõem as limitações da Educação Especial desse período que se fazem presente no teor dos documentos mencionados e que influenciaram a forma pela qual esta modalidade de educação se estruturou no Brasil e norteou o fazer pedagógico do professor. Cita-se a tendência da privatização, do assistencialismo no atendimento dos alunos, a ênfase nas características biológicas do “excepcional” e a dicotomia entre a intencionalidade presente na política e seu planejamento frente à realidade educacional brasileira (BUENO, 1993, p. 18). Antes de adentrar no terceiro capítulo, acerca da Educação Especial no Estado do Paraná durante esse período, far-se-á uma observação pautada no estudo29 de Bueno (1993, p. 118), que demonstrou o aumento de alunos atendidos em escolas especiais em relação ao número de alunos atendidos em escolas comuns, apesar de o número de salas comuns que atendiam alunos com deficiência ser superior ao número de escolas especiais. Mas, como bem registra Bueno, o número de alunos em salas comuns era inferior ao número de alunos atendidos em escolas especiais e classes especiais (p. 118-119). O quadro a seguir apresenta os dados por modalidade de atendimento no ensino regular e em instituições especializadas, referente aos anos de 1981 e 1987, no Brasil. Quadro II – Modalidade de atendimento no ensino regular e em instituições especializadas, referente aos anos de 1981 e 1987, no Brasil. Ano Classe comum Classe Especial Escola Especial TOTAL 1981 (a) 181 1448 494 2123 1987 (b) 508 3598 907 5013 Fonte: Bueno, 1993, p. 118. Para melhor compreensão dos dados apresentados acima, em relação ao número de alunos atendidos por modalidade, Bueno fez a seguinte análise: 29 Para aprofundamento sobre a Política de Educação Especial propalada pelo CENSP e sua relação com a execução do atendimento educacional aos “excepcionais” no período, sugiro ler o livro Educação Especial Brasileira: Integração/ segregação do aluno diferente, de Bueno (1993). 131 Estes índices poderiam nos levar à falsa conclusão de que o crescimento de processos integrados de educação especial superou o de classes e escolas especiais. Não se pode esquecer que, enquanto o aumento de uma classe comum significa a inserção de um, ou no máximo, dois deficientes, a criação de uma classe especial, significa, em média, a absorção de dez deficientes e o surgimento de uma escola especial significa a de um número variável de classes especiais. Assim, podemos estimar que, se o aumento de classes comuns, de 1981 a 1987, possibilitou a integração no ensino regular de pouco mais de 300 (na média de 1 por classe) ou, no máximo, de 600 (na média de 2 por classe) excepcionais, a criação de mais de 2150 classes especiais em 1987, em relação à 1981, significou a absorção de mais de 20000 crianças excepcionais por sistema segregados de ensino. (BUENO, 1993, p. 118-119). O autor considera ainda que, em relação à demanda, o atendimento ficou estagnado, mantendo a população mais necessitada aquém do processo educativo e, consequentemente, aquém de constituir autonomia socioeconômica, pois ficou dependente de um trabalho assistencialista de baixa qualidade (BUENO, 1993, p. 123). Mesmo não sendo objeto desse estudo, convém mencionar que enquanto a integração ampliou a constituição de classes especiais, a inclusão tendeu a eliminálas, oportunizando maiores possibilidades de matriculas das pessoas com deficiência no ensino regular. No capítulo seguinte será abordada a questão da Educação Especial no Estado do Paraná, objetivando compreender como o atendimento das pessoas com deficiência se constituiu frente à política do CENESP, de modo a descortinar os princípios que regeram esses atendimentos nas décadas de 1970 e 1980 no referido Estado. 132 CAPÍTULO III – A POLÍTICA DE EDUCAÇÃO ESPECIAL DO ESTADO DO PARANÁ NAS DÉCADAS DE 1970 E 1980 Com o intuito de assegurar a implantação da Educação Especial e sua articulação com a política do CENESP, o Estado do Paraná, ao longo das décadas de 1970 e 1980, regulamentou algumas legislações que normatizaram os serviços de atendimento implantados. Essas ações foram realizadas pelo Estado conjuntamente a iniciativa privada. A gestão da Educação Especial no Estado do Paraná, no período pesquisado, foi realizada por dois diretores. A Sra. Maria de Lourdes Canziani foi a primeira diretora e permaneceu no cargo de 1965 a 1983, sendo que em 1986 foi convidada para trabalhar no CENESP. O segundo diretor foi o Sr. Flávio Arns, que esteve à frente do Departamento de Educação Especial de 1983 a 1990 (BRASIL, 2010, p. 216; 340; 343-344), durante o governo de José Richa, eleito na primeira eleição direta, em 1982, no período de abertura política. Segundo Canziani (1985, p. 57), de 1963 a 1983 foram desenvolvidas atividades para estruturar o atendimento educacional da pessoa com deficiência, de forma a acompanhar os princípios e tendências nacionais e valorizar os procedimentos e técnicas de ensino, bem como da profissionalização dos alunos com deficiência. Os atendimentos do Estado do Paraná, como já mencionado, estavam articulados a macro questões no que diz respeito à educação da pessoa com deficiência, sendo regidos pelos princípios da normalização, integração e individualização, os quais se originaram dos princípios de Educação Especial dos países escandinavos na década de 1950 (PARANÁ, 1994, p. 5). Entre os serviços estruturados para atender essa demanda, criaram-se as classes especiais, as salas de recursos, o serviço itinerante e as instituições especializadas. No primeiro tópico, são abordadas questões relacionadas ao contexto sóciopolítico do Estado do Paraná, com ênfase ao período compreendido entre 1963, ano de criação do Serviço para Excepcionais, e 1989, período que teve por objetivo averiguar o desenvolvimento da educação da pessoa com deficiência no Paraná, buscando identificar se existiram aspectos que se diferenciaram das determinações 133 políticas da educação, promulgadas pelo governo civil-militar por meio do MEC/CENESP. No segundo tópico, o foco estará voltado para as legislações e ações realizadas pelo Estado que estavam relacionadas ao desenvolvimento da Educação Especial, com vistas a identificar em que medida elas contemplaram o setor privado/filantrópico e o público, bem como, verificar se as políticas de Educação Especial previstas nessas legislações estavam em conformidade com as diretrizes formuladas pelo CENESP, buscando explicitar os atendimentos para cada área da deficiência que se pautaram na proposta de integração no Estado do Paraná. 3.1 A Educação Especial no Estado do Paraná A área da Educação Especial no Estado do Paraná, antes da década de 1970, já estava ocorrendo em espaços como: o Centro Educacional Guaíra (1954), onde se constituiu a primeira Clínica Psicológica (1956) e a primeira classe especial (1958), destinada ao atendimento de alunos com deficiência mental. Essas três instituições foram fundadas em Curitiba pela professora Pórcia Guimarães Alves (1917-2005). Em 1959, foi fundado o Instituto Londrinense de Surdos. Em 1961, foi criada a Escola Mercedes Stresser para atender os internos do Hospital Nossa Senhora da Luz1, onde havia pessoas com deficiência mental e com transtornos mentais, pois não se tinha muito claro a distinção entre uma e outra. Em 1962, a APAE de Curitiba também iniciou o atendimento. Observa-se que se passou um período de quase 15 anos entre a constituição do Instituto Paranaense de Cegos (1939), que tinha uma escola especial para cegos em 1940, e a criação do Centro Educacional Guaíra (1954). Nesse período, como não havia esclarecimento suficiente quanto à distinção de deficiente mental e doente mental, os deficientes eram tratados como doentes mentais, provavelmente ampliando dados estatísticos e, consequentemente, a demanda de atendimento aos doentes mentais. Em função dessa condição, o atendimento aos doentes mentais passou a ser prioridade em política pública do Estado, como se pode observar na mensagem do Governador 1 Esse Hospital foi criado no ano de 1903 pela Santa Casa de Misericórdia a fim de atender os pacientes com transtornos mentais. 134 Ney Braga2, em 1961: “No que se refere às doenças mentais, a situação pode ser avaliada ao vermos que, para uma necessidade mínima de cerca de 6.000 leitos, a disponibilidade atual é de apenas 1.230.” (PARANÁ, ano, p. 24-25). Para suprir essa demanda, foram realizados investimentos, objetivando a descentralização do atendimento, que era realizado na capital do Estado, tendo como perspectiva a criação de “dispensários para doentes mentais em Maringá, Londrina, Cornélio Procópio, Irati e Apucarana, visando atendê-los em suas localidades e evitando os seus deslocamentos para Curitiba” (PARANÁ, 1961, p. 37-38). Visando o atendimento dos doentes da região Norte do Estado, o Departamento de Higiene Mental e Assistência aos Psicopatas firmou dois convênios com entidades particulares de Londrina, enquanto se planeja a construção do Hospital Colônia daquela cidade, cuja capacidade será de 1.000 leitos. Em 1961 foram criados e postos em funcionamento os ambulatórios Higiene Mental de Maringá e Guarapuava. Através do Ambulatório do Serviço acional de Doenças Mentais, que funciona anexo ao D.H.M.A.P., foram atendidos em 1961 cerca de 4.000 doentes. O Hospital Colônia Adauto Botelho, do D.H.M.A.P., recebeu em 1961, 1.600 doentes, sendo que permanecem lá 880 pacientes em tratamento, com um trânsito total de 1.720 doentes em 1961. Estão em fase final as obras de ampliação deste hospital, que incluem dois pavilhões para indigentes, nova cozinha, necrotério, clausura, capela e pavilhão para doentes mentais menores. Ainda em 1961 o Hospital passou a contar com uma ambulância para o transporte dos doentes e um ônibus para o transporte dos médicos e do pessoal. Prosseguiram as obras de construção do Manicômio Judiciário, que deverá estar concluído em 1963. (PARANÁ, 1962, p. 71-72). Frente a essa situação, foi necessário iniciar um trabalho que pudesse atender de modo distinto e separadamente os doentes mentais. Tal condição foi iniciada tanto pela APAE, fundada em 1962, quanto pelo trabalho desenvolvido pela Sra. Canziani na Escola Mercedes Stresser (1961), após cursar especialização em Educação Especial no Rio de Janeiro e em Madrid. Posteriormente, a diretora da Escola Mercedes Stresser, Pórcia Guimarães Alves, abriu o Instituto Decroly (1962), que tinha por finalidade atender alunos 2 Os espaços políticos que Ney Braga ocupou possibilitaram-lhe exercer uma força política por um período considerável, tanto no aparelho de Estado, quanto em partidos políticos. “Ney Braga foi Prefeito de Curitiba, Deputado Federal, Governador do Estado por duas gestões (1961- 1965 e 19791982), Presidente Nacional do PDC (Partido Democrata Cristão), Senador e Ministro em dois governos militares, de Castelo Branco e de Geisel.” (OLIVEIRA, 2004, p. 232). 135 egressos daquela instituição3. Assim, por convite, a Sra. Canziani aceitou a direção do Instituto, reformulando o público a ser atendido, que passou a ser as pessoas com deficiência mental. Anteriormente a isto, o Secretário de Estado da Saúde do Paraná, Justino Alves, que possuía uma filha com deficiência mental, havia solicitado a Sra. Canziani que assumisse um programa de atendimento às pessoas com deficiência. Entretanto, foi na gestão de seu sucessor, por súplica, que ela ingressou na Secretaria de Educação para projetar, estruturar e executar o Serviço para Excepcionais, criado em 1963. Naquela ocasião, tanto o Governador como a Secretaria de Educação estavam sofrendo pressões das APAE do Paraná para oficializarem esse serviço em todo o Estado. Cabe ressaltar que o Sr. Justino Alves Pereira foi um dos fundadores das APAE no Estado do Paraná e contribuiu com a criação da Fundação Ecumênica de Proteção dos Excepcionais4 (1966). A necessidade de investimento na educação da pessoa com deficiência não se diferenciava de outras demandas do Estado. Até por volta dos anos 60, a necessidade de formação educacional da população paranaense estava voltada para questões agrárias, que exigiam muito mais uma formação elementar do que de média complexidade. Segundo Ney Braga, no ano de 1961, 45% das crianças em idade escolar não tinha acesso à instrução básica (PARANÁ, 1961, p. 34). Nessa situação, encontravam-se mais de um milhão de jovens e adultos paranaenses. Essas questões estavam atreladas à forma como o Estado foi se estruturando em seu setor produtivo, pois as demandas educacionais estavam articuladas às necessidades socioeconômicas do Paraná. O Estado tornou-se relevante no cenário Nacional a partir da expansão cafeeira, iniciada na década de 1930, e se tornou o principal produtor de café em meados de 1940, respondendo por 58% da produção agrícola estadual. Os 42% restantes estavam distribuídos na extração e beneficiamento de madeiras, erva-mate e outras diversidades agrícolas de subsistências. Entretanto, torna-se necessário ressaltar que o centro da economia 3 Tais informações estão disponíveis no site da Secretaria Estadual de Educação, em que se faz um breve relato sobre a contribuição da professora Pórcia Guimarães Alves para a educação especial no Estado do Paraná. Disponível em: <http://www.ctaguaira.seed.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=48>. Acesso em: 11 de jul. de 2012. 4 Essa instituição de caráter privado/assistencialista/filantrópico foi constituída para dar apoio e criar escolas especiais para pessoas com deficiência mental. Disponível em: <http://www.fepe.org.br/numeros.html>. Acesso em: 12 de jul. de 2012. 136 nacional era regulado pela produção de São Paulo. Assim, os estados considerados periféricos, como o Paraná, possuíam suas produções reguladas pelas variações produtivas, tanto agrícolas quanto industriais, de São Paulo. Nota-se, portanto, que nesse período a produção do Paraná foi mais de venda de matéria-prima do que de industrialização da produção (TRINTIN, 2006, p. 10-12). A política de diversidade na produção agrícola buscou alavancar a economia paranaense, substituindo a produção de café, devido a conjunturas de âmbito nacional e internacional, pela soja, trigo, milho e cana. Essa diversificação tomou força na década de 1970, juntamente com a expansão do setor industrial (TRINTIN, 2006, p. 13; MAGALHÃES FILHO, 2006, p. 172). Para dar propulsão ao desenvolvimento socioeconômico e educacional do Paraná, os gestores da década de 1960 buscaram constituir infraestrutura que alavancasse esse desenvolvimento. Assim, foram feitos investimentos em ferrovia, estradas, portos, energia, telecomunicação, a fim de proporcionar maior independência nas operações comerciais e industriais paranaenses, como em investimento em políticas sociais de saneamento, de educação e de saúde. Essas condições foram facilitadas pela estreita relação do Governador Ney Aminthas de Barros Braga5 com o Presidente Castelo Branco. Anteriormente, uma parcela significativa de parlamentares, comerciantes e industriais colocava-se contra as reformas do Presidente João Goulart (MAGALHÃES FILHO, 2006, p. 176). Nesse contexto, uma parcela significativa da sociedade civil e de legisladores era muito mais simpatizante do governo civil-militar do que da perspectiva progressista defendida por João Goulart. Os paranaenses valorizavam o desenvolvimento dos investidores paranaenses, porém a perspectiva nacional era abrir portas para os investidores internacionais – projeto esse que, na década de 1970, foi consagrado pelas políticas de incentivo ao capital estrangeiro (GUIMARÂES, 2006, p. 173-176). Ao assumir o governo, Ney Braga afirmou a necessidade de racionalizar e planejar as ações governamentais em todos os setores, tais como saneamento, 5 Para maior esclarecimento quanto às articulações políticas do senhor Ney Braga como expressão política no Estado do Paraná, sugere-se a leitura de A construção do Paraná moderno. Nessa obra, é possível compreender sua postura e suas estratégias políticas de governador, mediante as próprias intenções políticas e os antagonismos das frações políticas que disputavam a gestão do Brasil (OLIVEIRA, 2004, p. 300-304; 309-323). 137 comunicação, educação, saúde, energia, rodovias, transportes, assistência social e o setor administrativo, a fim de melhor utilizar os recursos financeiros do Estado, criando melhores condições para execução das necessidades de cada setor (PARANÁ, 1961). Assim, segundo essa gestão, conhecer as demandas, planejar e racionalizar eram ações vistas como imprescindíveis para cumprimento do propósito de desenvolvimento. Na gestão de Ney Braga, um dos investimentos realizados que se articulou com a Educação Especial, mais precisamente com a educação de surdos, foi a preocupação com os menores abandonados. Para o Governador, uma das mais importantes ações de seu governo foi a criação do Instituto de Assistência ao Menor (IAM), ao qual se vinculou o Centro de Reabilitação da Audição e da Fala Alcindo Fanaya Júnior, passando a ser um órgão da Secretaria Estadual de Educação, em 1997, e recebendo status de estabelecimento de ensino, passando a ser denominado Escola Estadual do Centro de Reabilitação da Audição e da Fala Alcindo Fanaya Júnior – Ensino de 1º Grau. Foi fundado em 1.953, pela Resolução 1142/53, com o nome de Instituto de Recuperação de Surdos e Mudos do Paraná. A partir de março de 1.962, passou a ser subordinado ao I.A.M., e sua denominação mudou para Centro de Reabilitação da Audição e da Fala Alcindo Fanaya Júnior. Com a reforma administrativa ocorrida em junho de 1.987, pela Lei Nº 8485, o Centro passou a ser assistido pela Fundação de Ação Social do Paraná (FASPAR). Esta por sua vez, pelo Decreto Nº 959, de junho de 1995, passou a denominar-se Instituto de Ação Social do Paraná (IASP). Em 24 de julho de 1.997, pela Resolução 2554/97, houve mudança da mantenedora do Centro, passando do IASP para a Secretaria de Estado da Educação (SEED). Com essa mudança, passou a ser denominada Escola Estadual do Centro de Reabilitação da Audição e da Fala Alcindo Fanaya Júnior – Ensino de 1º Grau6. Essa ação demonstrou que questões relacionadas às pessoas com deficiência estavam sendo postas no contexto paranaense, exigindo ações do poder público no sentido de prover, inicialmente assistencialismo e, posteriormente, o atendimento educacional dessa população. 6 Esses dados estão disponíveis no <http://www.ctaalcindofanaya.seed.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=12>. Acesso em: 29 de set. de 2012. site: 138 O Serviço para Excepcionais, denominado de Secção de Educação de Excepcionais, foi criado por meio do Decreto nº. 10.527, de 11 de janeiro de 1963, que reestruturou a Secretaria de Estado dos Negócios da Educação e Cultura, constando no Departamento de Educação, letra “g” do artigo 5º (PARANÁ, 1963 - A, p. 6). Esse serviço incluso na reestruturação da Secretaria de Educação visou atender princípios estabelecidos pelo governo, dentre os quais a racionalização de recursos físico, humano e financeiro, a ampliação do acesso à educação e a igualdade de oportunidade. Todas essas ações, além das particularidades do Estado em formar mão de obra em profissões elementares e técnicas voltadas para a demanda de mercado de trabalho, objetivaram também atender a necessidade de adequar a educação à LDB nº. 4.024/61. Portanto, o Plano Estadual de Educação foi elaborado para atender uma demanda estadual e a tendência nacional de educação (BRAGA, 1962, p. XVI; 51). A legalidade dessa proposição ocorreu por meio da Lei n°. 4.978, de 5 de dezembro de 1964, que estabeleceu o Sistema Estadual de Ensino. Alguns aspectos seguiram a Diretriz Nacional que influenciou a organização da Educação Especial no Paraná. Essa Lei assegurou, em seu artigo 5º, parágrafo único, o direito de a família escolher o gênero de educação que seu filho deve ter. Em seu artigo 6º, inciso I, o Estado assumiu a obrigatoriedade de ofertar o ensino em todos os graus, na forma da lei em vigor. No que diz respeito às instituições particulares, a lei assegurou que: VI — pela concessão de bolsas de estudos e financiamentos a educandos de escolas oficiais e particulares, que demonstrarem necessidade e aptidão, inclusive sob a forma de alimentação, material escolar, vestuário, transporte, assistência médica e dentária; VII — pela concessão de auxílio e subvenções a estabelecimentos de ensino mantidos pelos municípios ou particulares que admitam alunos gratuitos, ou financiamentos a essas escolas para a compra, construção ou reforma de prédios escolares e respectivas instalações e equipamentos. (PARANÁ, 1965a, p. 5). Esses são aspectos que influenciaram o atendimento educacional das pessoas com deficiência, como se pode observar na análise da LDB nº. 4.024/61, no primeiro capítulo. Essas Diretrizes Estaduais asseguraram, no artigo 111, que o Conselho Estadual de Educação deveria regulamentar a oferta educacional dos 139 “excepcionais” em normas específicas7. Outro aspecto relevante, que está presente na LDB nº. 4.024/61 e que foi previsto nas Diretrizes Estaduais, em seu artigo 198, diz respeito a bolsas de estudo para excepcionais. Toda iniciativa privada, considerada eficiente pelo Conselho Estadual de Educação, relativa à educação dos excepcionais, receberá dos poderes públicos estadual e municipais tratamento especial, mediante concessão de bolsas de estudo, empréstimos, auxílios e subvenções. (PARANÁ, 1965a, p. 32). Esse artigo expressa que, no Estado do Paraná, havia a abertura e apoio para o setor privado atuar na educação especial. Segundo Canzini, tanto o setor público como a iniciativa privada já vinham atuando nessa área e trabalhando de modo conjunto (1985, p. 60). Entretanto, a autora afirma que, até o ano de 1963, as ações educacionais para esse segmento ocorreram de forma esparsa e isolada, sem uma ação governamental que definisse metas, diretrizes, normas. Os atendimentos eram mantidos pelos fundadores dos serviços, com auxílios da comunidade e por eventuais contribuições oficiais (1985, p. 61). A articulação entre setor público e privado foi uma tendência nacional que ocorria em outras unidades da federação, como São Paulo, Minas Gerais e Manaus, e culminou na política do CENESP. Uma das prioridades da política do Serviço para Excepcionais era a capacitação de profissionais para “formar uma equipe inter e multidisciplinar que possibilitasse organizar, instalar ou ampliar serviços e programas de atendimento.” (CANZIANI, 1985, p. 59). No ano de 1964, foram nomeados 26 professores especialistas na área com o objetivo de ampliar tal atendimento, bem como de subsidiar os atendimentos realizados pelas instituições (PARANÁ, 1965, p. 88). Os investimentos em recursos humanos era algo constante. Assim, de 1966 a 1982, foi realizado, regularmente, o Curso de Especialização para Professores de Ensino Especial, com duração de 760 horas/aula, curso este que especializava professores para o atendimento de crianças e adolescentes nas áreas de deficiência mental, deficiência da audição e da fala e deficiência da visão. Além deste, outros cursos de aperfeiçoamento e atualização de equipes multidisciplinares e de professores da rede de ensino regular constituíam atividades constantes do Departamento de Educação 7 Esses regulamentos serão analisados no tópico seguinte. 140 Especial, incluindo os cursos de Especialização de Supervisores, os quais, indicados pelos Núcleos Regionais de Ensino e inspetorias, seriam os responsáveis pela interiorização mais dinâmica da Educação Especial. (CANZIANI, 1985, p. 59). A preocupação com a qualificação de profissionais é algo que ocorre em todo o período caracterizado pela integração na Educação Especial. Mas outras questões eram evidenciadas pela necessidade de atingir os objetivos educacionais propostos para os alunos dessa modalidade. Para tanto, era preciso conhecer os recursos disponíveis na comunidade, de forma a aperfeiçoar o atendimento, para que o acesso à educação atingisse a demanda dos alunos “excepcionais” (CANZIANI, 1985, p. 59). Os recursos referenciados por Canziani (1985, p. 60) dizem respeito a entidades como APAE, “Clubes de Serviços, outras associações, Prefeituras, Universidades [...], Clubes e Centros recreativos, associações religiosas, clínicas”. Para o funcionamento desses serviços, as entidades recebiam recursos humanos, técnicos e financeiros de órgãos oficiais do Departamento de Educação Especial e da FUNDEPAR8. O governo federal disponibilizava as verbas por meio do CENESP e do Departamento de Assistência ao Educando (DAE), vinculado ao MEC, [...] através de bolsas de estudo; INPS-LBA e outros eventuais de origem oficial e particular. Por sua vez, estas Entidades Mantenedoras eram orientadas quanto a necessidade de levantarem seus próprios recursos financeiros, o que permitia a contrapartida condizente com sua nomenclatura de ‘Entidades Mantenedoras’, pois, se ocorresse o contrário, a rede de Educação Especial seria oficial e não ‘oficial/particular’. (CANZIANI, 1985, p. 60). Mesmo com o incentivo estatal para que as entidades particulares buscassem recursos próprios, os investimentos do Estado atendiam tanto o setor privado quanto 8 A FUNDEPAR foi criada pelo Governador Ney Braga, em 1962, para gerenciar os recursos financeiros na educação conforme demandas apontadas pela Secretaria Estadual de Educação (PARANÁ, 1962, p. 57). No ano de 1992, o Governador Roberto Requião alterou sua nomenclatura para Instituto de Desenvolvimento Educacional do Paraná, por meio do Decreto nº. 1776, de 19 de novembro de 1992, o qual, em seu artigo 1º, define que o “Instituto de Desenvolvimento Educacional do Paraná – FUNDEPAR, criado pela Lei nº. 4.599, de 03 de julho de 1962, modificado pela Lei nº. 7.253, de 27 de novembro de 1979 e transformado pela Lei nº. 9.663, de 16 de julho de 1991, é entidade autárquica estadual, dotada de personalidade jurídica de direito público, com patrimônio e receita Próprios, autonomia administrativa, técnica e financeira, vinculada à Secretaria de Estado da Educação, nos termos dos artigos 92 e 112, da Lei nº. 8.485, de 03 de junho de 1987” (PARANÁ, 1992, p. 1). 141 o público. As ações dos Governadores referentes aos períodos de 1963 a 1970 exemplificam essa afirmativa: a) Previsão da construção e ampliação da Escola de Recuperação para Menores Surdos (PARANÁ, 1963, p. 16). Porém, a construção da sede própria foi prevista novamente em 1966, com a compra do terreno no valor de 75 milhões de cruzeiros, situado na Avenida Manoel Ribas (PARANÁ, 1967, p. 122); b) No ano de 1966, o Governador destinou 3,5 bilhões de cruzeiros para o amparo ao menor. Tal verba foi distribuída para várias entidades particulares e para a manutenção das unidades assistenciais jurisdicionadas do Instituto do Menor – entre elas, estava o Instituto de Recuperação de Surdos-Mudos. Também foi utilizada verba para entregar aparelho ortopédico a 278 menores com defeitos físicos. No mesmo ano, subvencionou-se o Instituto Paranaense de Cegos (PARANÁ, 1967, p. 117; 121); c) No ano de 1969, o governo estadual destinou à rede escolar para excepcionais um total de 300.000,00 cruzeiros (PARANÁ, 1970, p. 124). Apesar de a continuidade de articulação entre o setor público e privado perdurar no período aqui estudado, houve mudanças socioeconômicas na década de 1970 que fizeram com que fosse redirecionado o setor educacional e refletisse na Secretaria Estadual de Educação e Cultura. Tal secretaria passou por reestruturações que reorganizaram o serviço voltado para a Educação Especial, o que pode ser exemplificado pelo fato de que, por meio do Decreto nº. 1083, de 25 de novembro de 1971, o Serviço para Excepcionais adquiriu o status de Departamento de Educação Especial, constante no artigo 3º, inciso VIII, letra b, item 6 (PARANÁ, 1971, p. 3). Outro exemplo de reestruturação é o Decreto nº. 205, de 4 de abril de 1975, que trata do regulamento da Secretaria de Estado da Educação e da Cultura. Neste, o Departamento de Educação Especial tem sua permanência garantida pelo artigo 9º, inciso V. Além disso, o documento estabeleceu, em seu artigo 3, como “o objetivo central da Secretaria a execução da política governamental nos setores da educação e da cultura”, prevendo em seu inciso XXIII “o desenvolvimento da educação adequada às necessidades dos excepcionais e atípicos” (PARANÁ, 1975, p. 1-2). 142 Quanto ao Departamento de Educação Especial, esse Decreto estabeleceu, no artigo 50, atribuições e responsabilidades ao Chefe do DEE, a saber: a. promover o ensino especializado aos superdotados, infradotados, deficientes visuais, surdos-mudos, deficientes da fala, deficientes motores e deficientes auditivos; b. realizar avaliação e a triagem dos elementos excepcionais; c. promover o ensino aos excepcionais, utilizando metodologia própria; d. promover aos excepcionais a orientação para o trabalho; e. realizar investigação no terreno da psicologia, ortofrenia e antropometria aplicadas à educação do excepcional; f. manter intercâmbio com entidades similares a fim de acompanhar a evolução dos métodos e técnicas relativo ao ensino do excepcional; g. promover convênios com entidades federais, estaduais, municipais ou particulares para o desenvolvimento de suas atividades, através do Secretário da Pasta. (PARANÁ, 1975, p. 12). Com essa legislação, alinhava-se a política educacional do Estado do Paraná à política nacional. As competências atribuídas ao Chefe do Departamento de Educação Especial eram previstas nas Diretrizes Básicas para Ação do CENESP, que buscavam assegurar princípios e diretrizes presentes em normas como a Lei nº 5692/71 e o Plano Setorial de Educação 72-74, que objetivam por meio de convênios a ampliação do acesso educacional, igualdade de oportunidade, formação educacional para o trabalho e incentivo à iniciativa privada. Outras exigências educacionais que estavam sendo postas frente às mudanças no setor produtivo eram o aumento demográfico nas cidades e a utilização de tecnologias mais sofisticadas, entre outros. Nesse sentido, o Estado do Paraná, na década de 1970, estava com sua produção agrícola e industrial diversificada e havia adotado o uso de tecnologias mais avançadas. Nesse sentido, a partir de 1970, a inserção de tecnologia possibilitou a produção em alta escala, visando o mercado exportador. Considerando-se apenas a produção de grãos, esta mais que dobrou entre os anos de 1970 e 1985 e elevou-se substancialmente entre os anos de 1985 e 1998. Este incremento se deu, em um primeiro momento, pela expansão das culturas de soja e do trigo, que se transformaram nos mais importantes produtos agrícolas do Estado até meados da década de 80; e, em um segundo momento, pela expansão da soja e do milho, que se transformaram nas vedetes das 143 transformações do setor nos anos 90. Enquanto isso, a área colhida ao longo desses 25 anos aumentou menos da metade, o que torna essas mudanças extremamente relevantes, pois em grande parte elas ocorreram incorporando novas tecnologias de modo a compensar as restrições impostas ao setor, principalmente em termos de área, visto que já no início dos anos 80 a fronteira agrícola do Paraná estava praticamente ocupada. (TRINTIN, 2006, p. 172). Juntamente com a modernização na agricultura, veio também o manejo da pecuária com tecnologias mais avançadas. As mudanças no setor agropecuário transformaram a relação capital-trabalho, visto que “as formas mais atrasadas de relações de trabalho, predominantes na fase da economia cafeeira, cederam lugar a relações mais modernas, tipicamente capitalistas [...].” (TRINTIN, 2006, p. 172). Frente a esse desenvolvimento no setor agrícola, pecuário e industrial com uso de tecnologias voltadas para o lucro e o comércio, a escolarização da população tornou-se mais necessária, a fim de dar respostas às demandas do mercado de trabalho e da modernização. Como assinala Gonçalves (1997, p. 153), o Estado do Paraná não possuía infraestrutura suficiente para atender a demanda populacional, que aumentou significativamente no período compreendido entre 1940 e 1970. De uma população 1.236.276, em 1940, passou-se para 6.997.682 habitantes em 1970, conforme demonstra o Quadro III. Quadro III – Demonstra o crescimento populacional no Paraná de 1940 a 1970 Ano População total População urbana % População rural % 1940 1.236.276 302.272 24,45 934.004 75,55 1950 2.115.247 528.288 25 1.585.259 75 1960 4.296.375 1.327.982 30,9 2.968.393 69,1 1970 6.997.682 2.546.899 36,4 4.450.784 63,6 Fonte: Gonçalves, 1997, p. 153. Assim, a década de 1970, além da continuidade de investimentos em infraestrutura, saúde e educação, caracterizou-se pela intensificação de investimento de capital estrangeiro e multinacional para o projeto de integração do desenvolvimento do Estado no cenário socioeconômico nacional (GONÇALVES, 1997, p. 156-157). 144 Além de recursos externos — que envolviam empréstimos e financiamentos federais e estrangeiros — havia também a cooperação técnica externa, como o acordo assinado entre ‘o Governo do Estado e a Organização dos Estados Americanos’ visando à elaboração de uma política de desenvolvimento urbano para o Estado, e de um plano de desenvolvimento para a Região Noroeste. (GONÇALVES, 1997, p. 158). Nesse plano de desenvolvimento, em função de sua área de fronteira, foi celebrado Convênio para a Região Oeste do Paraná. Por meio desse convênio implantou-se na área da educação o Projeto Especial Multinacional de Educação Brasil – Paraguai – Uruguai (OEA – Educação Especial/1975), o qual foi subdividido nas seguintes áreas: “dificuldade da comunicação”, “deficiência mental”, “cego e deficiente da visão”, “deficiente físico não sensorial” e “superdotado”. O objetivo foi o de promover o diagnóstico, o planejamento e a qualificação dos professores para ampliação do atendimento dos alunos que necessitam de serviço na área. No ano de 1976, por solicitação do Ministério da Educação e Cultura do Paraguai e por meio do Departamento de Educação Especial, o Estado promoveu a participação em programas destinados aos alunos “excepcionais”, como também realizou especialização no referido país. Conjuntamente com o Paraguai, também promoveu o Congresso Nacional de Educação Especial do Paraguai. Na cidade de Foz do Iguaçu, contribuiu ainda com a organização do Seminário sobre Planejamento da Integração no Atendimento ao Excepcional, com a participação de renomados estudiosos. Tal seminário tinha como objetivo o planejamento da Educação Especial para o MEC e para as unidades federativas do Brasil (PARANÁ, 1977, p. 7). A ênfase educacional estava pautada na reforma dos 1º e 2º graus, definida pela Lei nº. 5692/1971, como também pelo Plano Setorial de Educação e Cultura de 1972-1974. Com vistas a atender tais proposições, o Governo do Estado do Paraná constituiu o Grupo de Assessoria e Planejamento (GAP), que elaborou um planejamento para implantação da reforma no Estado. O GAP considerou as diretrizes do Plano Setorial de Educação, a saber, a) expansão da rede escolar, de modo a atender um mínimo de 80% da população de 7 a 14 anos; b) extensão da escolarização na zona rural, tendo em vista o ensino fundamental; c) extensão gradativa da 145 escolarização na zona urbana, visando o ensino fundamental; d) implantação do ensino de 1° grau, pelo menos, nas capitais dos Estados e Distrito Federal. Além do Triênio, até o final da década: a) atendimento integral da população na faixa etária de 7 a 14 anos; b) implantação do ensino de 1° grau em todo o Território Nacional. (PARANÁ, 1971, p. 259 apud GONÇALVES, 1997, p. 163). Em 1973, foi lançado o Plano Estadual de Educação do Paraná, com o apoio técnico-financeiro do MEC. No documento, registrou-se o apoio financeiro oriundo do acordo MEC/USAID para a expansão educacional paranaense (GONÇALVES, 1997, p. 164). Conforme Gonçalves (1997, p. 165), “O número de alunos matriculados nas escolas paranaenses cresceu de 1.617.537, em 1974, para 1.855.853, em 1978”. Gonçalves destaca que, naquele período, o governo paranaense investiu 39,1 milhões de cruzeiros em bolsas de estudos, comprando vagas em escolas privadas referentes a 1º e 2º graus e supletivo. As adequações realizadas pelo Plano Estadual de Educação, referentes ao período de 1973-1976, estavam em conformidade com as ações e diretrizes nacionais, objetivando o desenvolvimento, a racionalização e o planejamento, princípios esses presentes nas mensagens dos governadores (GONÇALVES, 1997, 165-168), conforme expresso na fala do Governador do Estado do Paraná, o senhor Jayme Canet Junior, manifestou a necessidade de continuar o processo de reforma do ensino de 1º e 2º graus – “reformular o ensino agrícola, incrementar a assistência ao aluno, apoiar o ensino especial para excepcionais. Expandir o ensino supletivo.” (PARANÁ, 1977, p. 16). Nesse aspecto, o referido governador destacou a necessidade de expandir o número de profissionais e promover aperfeiçoamento dos que já atuavam na área da Educação Especial, uma vez que a cada ano o número de alunos a serem atendidos cresceu em torno de 32,7%. Isto pode se observar pelo aumento de alunos atendidos: no ano de 1975, somaram um total de 3.402 alunos matriculados; já no ano de 1976, o número de alunos matriculados foi de 4.513. Portanto, uma das ações governamentais, no período de 1970 a 1989, foi o investimento na expansão do número de profissionais especializados, como também a capacitação por meio da 146 realização de cursos e seminários para os professores que atuavam na área da Educação Especial9. Observa-se, pelos relatórios nas Mensagens dos Governadores, que a SEEC promoveu cursos de formação/qualificação de recursos humanos para professores da Educação Básica, tanto para as escolas do ensino regular, quanto para as que atuam na Educação Especial, como nas escolas e classes especiais de instituições públicas e particulares10. Essa foi apenas uma das ações para a concretização da oferta da Educação Especial no Estado do Paraná. Paralelamente, havia a criação de escolas especiais, classes especiais, salas de recursos e outros serviços paralelos à formação educacional, como a formação em cursos profissionalizantes, atendendo a reforma da Lei nº. 5692/71 (PARANÁ, 1977, p. XVI). No ano de 1976, foi realizado o projeto para abertura de classes especiais para o atendimento de alunos com deficiência mental nos municípios de “Assis Chateaubriand, Cascavel, Palotina Céu Azul, Mal. Cândido Rondon, Toledo, Foz do Iguaçu, Ponta Grossa, Londrina, Maringá, Apucarana, Arapongas, Jacarezinho e Guarapuava.” (PARANÁ, 1977, p. 7). Para criar novos programas que atendessem as necessidades paranaenses em relação à educação especial, era preciso conhecer as demandas regionais do Estado. Assim, com essa perspectiva, o governo de 1979 promoveu a triagem e avaliação pedagógica de 3.511 casos, abrangendo tanto a capital como o interior. Para execução desse trabalho, os municípios solicitaram os serviços ao Departamento de Educação Especial – DEE. Das avaliações realizadas, foram diagnosticados 3.424 alunos com deficiência mental. A triagem e a avaliação ocorreram nas cidades de Pato Branco, Paulo Frontin, Mandaguari, Paranavaí, Paranaguá, Umuarama, Marechal Cândido Rondon, Jataizinho, Maringá, São José dos Pinhais, Guaraniaçu, Céu Azul, Toledo, Guaíra, Foz do Iguaçu, Ourizona, Ivaiporã, Arapongas, Cianorte e Campo Mourão. Na área da deficiência auditiva, foram constatados 86 casos, sendo que o diagnóstico ocorreu nas cidades de Maringá, Jataizinho, Irati, Medianeira e Assis 9 Como pode ser observado no Anexo 2. O Anexo 3 demonstra que as atividades voltadas para formação/qualificação na Educação Especial estavam voltadas para demandas da capital e do interior. 10 147 Chateaubriand. Na área da deficiência visual, as avaliações foram realizadas nas cidades de Londrina e Maringá, sendo diagnosticados 61 casos. Segundo o relatório do Governador, os casos diagnosticados foram encaminhados para atendimento conforme prescrito na avaliação pedagógica. Esse atendimento poderia ser feito “nas escolas especiais, classes especiais, escolas comuns, clínicas, habilitação profissional e outros, conforme as necessidades específicas constatadas na avaliação.” (PARANÁ, 1979, p. 14). As atividades expressas no relatório relacionadas à qualificação profissional dos “excepcionais” contemplaram a reestruturação do Centro de Habilitação Profissional Mercedes Stresser. A Secretaria de Estado da Educação e Cultura – SEEC também articulou a integração de alunos com deficiência em cursos profissionalizantes junto a parcerias com o CENESP, SENAC e outras empresas para atender as áreas das deficiências. Na área da deficiência visual, consta a realização de cursos de: telefonista, datilografia, artesanato e macramé. Na área da deficiência auditiva, foram os de cabeleireiro, manicure, desenho básico, cartazismo e datilografia (PARANÁ, 1979, p.14-15). Já na área da deficiência mental, havia alunos em cursos de datilografia, desenho básico, ajudante de costura e marceneiro auxiliar. Na área da deficiência física não sensorial, os alunos participaram de cursos como iniciação em serviços de escritórios, secretário auxiliar, caixa de supermercado, datilografia, auxiliar de contabilidade, eletricista e eletrônico (PARANÁ, 1979, p. 15)11. Observa-se que o fomento dessa atividade foi ao encontro das proposições do CENESP, estabelecidas em suas Diretrizes para Ação, no que tange à utilidade prática da formação do aluno, e também dos planos de ação do MEC e do Estado do Paraná, que atrelavam a formação educacional à qualificação de mão de obra para atividades elementares e técnicas. Como se pode observar, essa foi uma política que teve continuidade. Outras ações foram realizadas pelo DEE para atingir a proposição de concretizar o atendimento educacional às pessoas com deficiência. Por meio das mensagens dos governadores, foi possível verificar que o DEE buscava articulação com o setor de ensino regular. Em 1978, foi desenvolvido o projeto Novas Metodologias, sendo que o seu propósito era o de realizar triagem e 11 O Anexo 4 demonstra alguns cursos promovidos pelo DEE, em 1978. 148 avaliação dos alunos matriculados nas primeiras séries do ensino de 1º grau, por meio da análise de fichas de referências nessas séries. Foram avaliados 4284 alunos, sendo que esse relatório não apresentou resultados da avaliação realizada e nem os encaminhamentos (PARANÁ, 1979, p. 16). Os relatórios apresentam outras secretarias que também buscaram promover atividades que integrassem as pessoas com deficiência. Por exemplo: alunos da Escola de Recuperação de Surdos-Mudos e alunos de escolas especiais participaram dos cursos de pintura, desenho, entalhe, xilogravura, cerâmica, tapeçaria e fantoches promovido pelo Centro Juvenil de Artes Plásticas (PARANÁ, 1978, p. 12). Quanto ao financiamento da Educação Especial, pode-se expressar que o Governo do Paraná previu em seu orçamento verba a ser empregada nos setores público e privado. Em 1979, o setor público já constituía um know-how que lhe possibilitava definir políticas de Educação Especial, de modo autônomo, sem a presença do setor privado. Entretanto, suas políticas mantiveram, inclusive por princípio filosófico, a articulação com o setor privado. O próprio relatório apresentou o aumento de investimento12 em escolas especiais quando se compara o ano de 1978 ao de 1977. A SEEC, para o desenvolvimento de ações na área da Educação Especial, realizou diversos convênios13. Nesse sentido, o MEC, por meio do CENESP, disponibilizou recursos para bolsas de estudos a alunos com deficiência a fim de ampliar o atendimento educacional a esse segmento social (PARANÁ, 1979, p. 33). Porém, não ficou claro se essas bolsas eram para alunos matriculados em escolas públicas e particulares, pois, ao mencionar tais recursos, o relatório abrange a rede regular de ensino (PARANÁ, 1980, p. 50). Apesar de as mensagens governamentais não terem sido consultadas14 ano a ano, devido à dificuldade de acesso a elas e o fato de não apresentarem de modo padronizado as informações, foi possível realizar algumas observações. Essa estatística não apresentou dados de alunos com deficiência matriculados na rede 12 Ver Anexo 5. Ver Anexo 6. 14 Foram consultadas as mensagens disponíveis no site referentes aos anos de 1970, de 1977 a 1979, de 1980 a 1983 e de 1985 a 1989. Os resultados de informações e estatística constam dos anexos 2 a 8, em seus diversos quadros, compilados a partir das mensagens dos governadores. 13 149 regular de ensino até 1978. Ao cruzar esses dados com as informações expressas acima, é possível cogitar que o valor investido ocorreu principalmente nas escolas especiais, sejam elas públicas ou privadas. Há que se considerar também que, certamente, existiam as pessoas que necessitavam de uma educação particularizada, a qual poderia ocorrer nas classes especiais, mas não foi isso o que ocorreu com a implantação da política educacional do período, decorrência de ter seu balizamento pela política do CENESP, que, por sua vez, estava pautada nos princípios e orientações das normatizações – como o Parecer nº. 842/72, que conceituou integração educacional, e a Lei nº. 5692/71, que buscava uma integração socioeconômica e educacional dos “excepcionais” a partir de um princípio processual e gradativo (BRASIL, 1979, p. 11). Ao realizar a leitura das Propostas Curriculares para Deficientes Visuais, as para Deficientes Auditivos e as para Deficientes Mentais, que foram publicadas em 1979, é possível compreender como esse processo gradativo estava sendo compreendido em cada área da deficiência. Nessa proposta, o papel das escolas especiais e das classes especiais constitui-se como uma modalidade fundamental para absorver o aluno “excepcional” até estar “pronto” para ingresso no ensino regular. Além disso, o conjunto das orientações das Propostas Curriculares, de Leis e Pareceres, articulado a interpretações variadas dos encaminhamentos, da definição do público a ser atendido, de conceitos como tratamento especial, contribuíram para a concretização de um processo educativo segregativo. Segundo Edler Carvalho (1997, p. 68), muitos profissionais interpretaram a expressão “tratamento especial” como atendimento pedagógico terapêutico. Por sua vez, as classes especiais, tornaram-se espaços educacionais repletos de crianças que não possuíam deficiência, mas sim distúrbios de aprendizagem15. Nesse contexto, a classe especial surgiu para separar o bom escolar dos considerados “anormais”. Pode-se observar que, das 799 crianças atendidas em classes especiais, nem todas seriam crianças com deficiência. 15 Rosita Edler Carvalho, em seu livro A nova LDB e a Educação Especial (1997), faz uma análise dos aspectos e Leis na efetivação da política de Educação Especial. Nas páginas 66 e 67, a autora explicita o problema em relação às classes especiais e o uso desvirtuado dessas. 150 Se for considerado que nem todas as crianças atendidas nas classes especiais eram crianças com deficiência, pode-se observar que havia uma tendência de realizar seu atendimento em escolas especiais e programas especiais, pois, em 1978, a quantidade de crianças “excepcionais” atendidas nessas modalidades foi de 4.15716. Outro aspecto que contribuiu para essa afirmativa está expresso nos investimentos realizados pelo setor público na área, assegurando subsídios financeiros, bolsas de estudos, convênios de apoio técnico e cursos de formação e qualificação ao setor privado. Esses fatores revelaram a influência do setor privado na política do CENESP, demonstrando também a disparidade entre o atendimento pelo setor público e a demanda existente, conforme demonstra a citação a seguir: O percurso histórico da educação especial respondeu a uma série de interesses que podem ser assim sintetizados: crescente privatização quer seja do ponto de vista do número de atendimentos oferecidos, quer pela influência que essas instituições têm exercido; legitimação da escola regular no que tange a imputação do fracasso escolar às características pessoais da criança ou ao seu meio próximo, contribuindo para a manutenção de política educacional que dificulta o acesso ao conhecimento pelos membros das classes subalternas; incorporação de concepções sobre conhecimento científico que sempre tendem universais e transcendentes à própria construção sócio-histórica e que trazem, no âmbito da educação especial, consequências nefastas, na medida em que analisam as possibilidades dos deficientes ou excepcionais somente pela via de suas dificuldades específicas; por fim, a educação especial que nasce sob a bandeira da ampliação de oportunidades educacionais aos que fogem da normalidade, na medida em que não desvela os determinantes socioeconômicos e culturais que subjazem às dificuldades de integração do aluno diferente, na escola e na sociedade, serve de instrumento para a legitimação de sua segregação. (BUENO, 1993, p. 89-90). Nesse sentido, promover a expansão da Educação Especial, sem considerar as condições materiais de existência dos educandos em uma relação macro do mundo circundante, é reproduzir a segregação. Para, além disso, é colocar a culpabilidade do fracasso escolar no próprio indivíduo, face as suas características particularizadas. 16 Ver Anexo 7. 151 A tendência de expandir os serviços a municípios do interior, descentralizando o atendimento da capital, como expresso neste capítulo, era uma preocupação do Governo de Estado que abrangia outros setores, como educação, infraestrutura, saúde pública e assistência social. Tal medida estava atrelada ao aumento demográfico das cidades. A intenção era constituir perspectivas favoráveis nas cidades do interior, para que a migração não se centrasse na capital, o que aumentaria os problemas com saneamento, saúde pública, educação e outros, ocasionados por uma explosão demográfica centrada em apenas uma localidade. A população urbana do Paraná era 25% do total em 1950, subiu para 36% em 1970 e representará 43% em 1980. Para evitar uma perigosa ampliação das pressões de novos contingentes populacionais sobre a infra-estrutura, cuidou-se de preparar as cidades de porte médio para reter boa parte dos migrantes, assegurando, também, que a Capital não ficasse sem sua capacidade de investir fortalecida. As cidades pequenas mereceram, também, a atenção do governo, uma vez que estavam sujeitas a um processo de esvaziamento por falta dos mais elementares equipamentos urbanos. (PARANÁ, 1979, p. XX). Provavelmente, um dos fatores que estava contribuindo para esse fenômeno era a industrialização, que proporcionava demanda de mercado de trabalho. Há que se considerar que os anos da década de 1980 foram expressão da crise econômica nacional e internacional, oriunda da crise do petróleo, o aumento das taxas de juros, a repressão do setor industrial e “principalmente pelos encaminhamentos econômicos do regime militar, que deixou como saldo inflação incontrolável, enorme dívida externa, desemprego em massa e concentração de renda, fatores estes que alargaram a distância entre pobres e ricos no Brasil.” (HOTZ, 2008, p. 84). Como estratégia para conter a inflação e promover o desenvolvimento do Paraná, o Governo de Estado expressou que as alternativas no setor econômico estavam centradas no investimento em alta produtividade agrícola, com vistas a aumentar a produção de alimentos e matéria-prima; investimento em transporte e armazenamento de grãos; novas tecnologias em substituição de derivados do petróleo; investimento em energia hidroelétrica (PARANÁ, 1980, p. IX-X). Trintin (2006, p. 171-172) considera que, em meados de 1980, o Estado do Paraná deixou de ser caracterizado como economia agroindustrial. Essa afirmativa está alicerçada 152 no fato de que o setor industrial constituiu-se como majoritário na relação de renda e emprego no território paranaense. Para esse período, a educação brasileira foi planejada por meio do Plano Setorial de Educação, vigente no período de 1979 a 1985, frente a essas mudanças socioeconômicas desencadeadas pelo fim do nacional-desenvolvimentismo, iniciado na década de 1930. Hotz (2008, p. 85) elenca alguns fatores que contribuíram para que a educação brasileira viesse a se configurar de tal modo durante a década de 1980, sendo eles: o aumento da pobreza pelo acúmulo de capital na distribuição desigual da renda, intensificado pelo golpe militar de 1964, e a reorganização política com o fim do governo civil-militar, criando a possibilidade de maior participação da população na esfera política, aspecto esse que não ocorreu. Nesse processo de reorganização política, a educação cumpriu um papel fundamental como política social que postulou a possibilidade de melhoria das condições de vida à população por meio da escolarização. Os estudos de Hotz (2008, p. 94), em relação aos documentos III Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), vigente durante os anos de 1980 a 1985; III Plano Setorial de Educação, Cultura e Desporto (PSECD), vinculado ao MEC e vigente durante os anos de 1980 a 1985 e Diretrizes Setoriais da Secretaria de Estado da Educação, vigente durante os anos de 1980 a 1983, possibilitam compreender que direção os governos estavam projetando para a educação como política social: Constituinte das políticas sociais, a educação desempenhou função ideológica estratégica para o governo do período, que a apontava como necessária para proporcionar a igualdade de oportunidades através da formação, da assistência ao aluno carente, da compra de vagas em estabelecimentos particulares de ensino (bolsas de estudo), e da distribuição de material didático e merenda escolar. Não obstante, a tentativa do Estado em resolver os problemas sociais promovendo renda ao trabalhador brasileiro, ou mesmo proporcionando igualdade de oportunidades através da concessão de bolsas, materiais didáticos e merenda, não rompe com a reprodução e a exploração capitalista, e mais do que isso, as endossa e as reforça. (HOTZ, 2008, p. 94). A educação, nesse sentido, foi tomada como solução para minimizar a pobreza do país e propalar seu desenvolvimento econômico por meio da formação 153 profissional para mão de obra qualificada. Observa-se que, apesar de mudanças conjunturais na década de 80, mantiveram-se as diretrizes contidas no Plano Nacional de Desenvolvimento e no Plano Setorial de Educação da década de 1970. Nessa lógica, os rumos da Educação Especial continuaram atrelados à política de integração do excepcional no ensino regular, com os encaminhamentos de criação de escolas especiais, de classes especiais e demais atendimentos necessários, ofertando-se apoio técnico-financeiro a escolas especiais, bolsas de estudos, cursos de qualificação para professores e cursos profissionalizantes aos “excepcionais”. Nesse sentido, o Estado do Paraná, com o objetivo de encaminhar o aluno “excepcional” para o atendimento adequado, manteve como uma das atividades do DEE o trabalho de triagem e avaliação de alunos que demonstravam necessitar de atendimento especializado. É preciso expressar que os relatórios não explicitavam os resultados da avaliação e nem os encaminhamentos adotados17. Quanto ao amparo técnico, a SEED continuou com a política de apoio às escolas particulares para o ensino de 1º grau e, na Educação Especial, por meio de convênio na cedência de professores para regência de classe, com duração de dois anos. Na Educação Especial, o cálculo era de 1 professor a cada 8 alunos. No triênio, foram cedidos 405 profissionais para atuar na Educação Especial e no ensino de 1º grau (PARANÁ, 1982, p. 156). O ensino especial é uma responsabilidade social da comunidade, pois o problema de integração do excepcional extrapola a atividade especializada da escola. Por esse motivo, e também para propiciar condições à descentralização da ação governamental no setor, a Secretaria da Educação realizou seminários nas áreas de influência de 11 núcleos regionais de educação – abrangendo 206 municípios – com o objetivo de despertar a consciência das comunidades para os problemas da educação especial. Participaram prefeituras, clubes de serviço, escolas especializadas e de ensino regular, pais e lideranças das comunidades. Como resultado prático imediato dessas reuniões, aumentou o número de municípios com programas específicos de educação e assistência às pessoas portadoras de deficiência (PARANÁ, 1986a, p. 60). A maioria das escolas especiais era particular. Para sua manutenção, recebiam apoio financeiro dos governos estadual e municipal, por meio de cedência 17 O Anexo 8 demonstra um balanço desse trabalho. 154 de professores, funcionários, e material de consumo18. A intencionalidade de subsidiar a Educação Especial das escolas privadas, segundo Richa (PARANÁ, 1986, p. 59), era a de assegurar as mesmas condições de ensino que os demais alunos do ensino regular possuíam (PARANÁ, 1986a, p. 60). Nesse sentido, em 1985, o Governo designou orçamento próprio para o DEE. Em 1987, a estimativa do número de pessoas com deficiência no Paraná, considerando que a proporção de 10% (OMS) da população possui algum tipo de deficiência, era de 850.000 pessoas. Destas, 50% encontravam-se na faixa etária de 0 a 19 anos (PARANÁ, 1987, p. 38). Segundo o governo da época, “os excepcionais” se dividiam em três categorias: os que tinham condições de estarem inseridos no ensino regular e que não precisavam de atendimento especializado (em torno de 30% a 40%); os alunos que deveriam estar matriculados no ensino regular, mas que precisavam de um atendimento em programas de Educação Especial; e os considerados “portadores de deficiência” (uma estimativa de 20% a 30%), cujo atendimento deveria ocorrer em instituições especializadas (PARANÁ, 1987, p. 38). Pode-se afirmar, portanto, que essa classificação homogeneizou as necessidades e condições educacionais dos “portadores de deficiência”, representando o pouco conhecimento dos envolvidos na elaboração do relatório apresentado na Assembleia Legislativa de 1987, ou ainda expressando a tendência em homogeneizar as necessidades educacionais das pessoas com deficiência. Espera-se que, por meio da análise da legislação estadual, essa impressão de homogeneização possa ser descortinada. Apesar das limitações teóricas, as Propostas Curriculares de 1979 já apresentavam distinção quanto às necessidades educacionais dos “deficientes”. Além disso, essa postura homogeneizadora demonstrou que havia necessidade de disseminar conhecimentos sobre a temática. É preciso registrar também que, no ano de 1987, os alunos com múltipla deficiência estavam sendo atendidos em escolas especiais para “deficientes mentais”, cujo agrupamento era organizado de modo adequado às características similares desses alunos. 18 Nos Anexos 5 e 6, é possível verificar alguns investimentos realizados pelo Governo na Educação Especial. 155 Frente às mudanças de contexto socioeconômico, a partir da abertura política em 1985, os relatórios começaram a expressar a importância da participação política da população, por meio dos Conselhos Municipais, o que convergia com o encontro do movimento em prol da ampliação de direitos sociais, pautados no estado democrático. As reivindicações dos movimentos das pessoas com deficiência e de entidades representativas desse segmento criaram no Governo do Estado do Paraná a necessidade de apresentar relatório com o número de alunos com deficiência matriculados no ensino regular. Esses dados não eram apresentados de forma adequada nos relatórios anteriores, pois, quando se reportavam às escolas especiais, classes especiais e salas de recursos, esses dados não eram padronizados e nem sempre mencionados. Assim, é possível apresentar uma estimativa do avanço no atendimento, por modalidade, no Estado do Paraná. As datas expostas abaixo são aquelas registradas nos relatórios apresentados na Assembleia Legislativa. As informações constantes nesses relatórios sobre a Educação Especial foram obtidas no Departamento de Educação Especial, no CELEPAR e na FUNDEPAR. Quadro IV – Demonstra o quantitativo de matriculas em classes especiais de instituição de ensino regular de 1979 - 1987 Ano Público % Público Privado % Privado 1979 632 94,94 32 5,06 1980 1096 95,80 46 4,20 1981 2235 85,32 328 14,68 1982 1955 83,48 323 16,52 1983 2277 93,98 137 6,02 1984 2151 91,96 173 8,04 1985 2540 92,91 180 7,09 1986 2980 89,40 316 10,60 1987 4041 93,24 273 6,76 Fonte: SEED/FUNDEPAR, 1985; PARANÁ, 1986a, p. 215-216; PARANÁ, 1988, p. 213; PARANÁ, 1989, p. 183184. Quadro elaborado pela autora. 156 Gráfico 1 - Demonstrativo de matrículas realizadas em escola regular – Classe Especial – de 1979 a 1987. Com base no Quadro IV e no Gráfico 1, ao analisar a evolução do número de matrículas em instituições regulares de ensino dos setores público e privado, observa-se que o percentual de matrículas nas escolas públicas variou entre 83 e 95%, enquanto nas escolas privadas o índice percentual foi de no máximo 17%. Tomando-se como exemplo o ano de 1987, a proporção de matrículas entre o setor público e privado foi 15 para 1. O Quadro V e o Gráfico 2 apresentam o número de matrículas realizadas nas instituições especializadas no período que compreende os anos de 1979 a 1987: Quadro V – Demonstra o quantitativo de matriculas em instituições especializadas de 1979 - 1987 Ano 1979 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 Público 418 427 807 530 510 416 580 851 971 % Público 11,16 10,29 13,09 10,25 8,82 6,85 8,70 11,54 12,75 Privado 3745 4149 6164 5166 5779 6071 6664 7372 7614 % Privado 88,83 89,70 86,90 89,74 91,17 93,14 91,29 88,45 87,24 Fonte: SEED/FUNDEPAR, 1985; PARANÁ, 1986a, p. 215-216; PARANÁ, 1988, p. 213; PARANÁ, 1989, p. 183184. Quadro elaborado pela autora. 157 Gráfico 2 - Demonstrativo da evolução de matrículas em instituições especializadas de 1979-1987. O número de matrículas era muito inferior ao das escolas especializadas privadas, sendo que, em 1987, o setor público alcançou seu maior índice que foi de 12,75%. Inversamente às matrículas das classes especiais, as realizadas em escolas especializadas apresentavam predominância das instituições privadas, sendo que o percentual alcançado entre os anos de 1979 a 1987 giravam em torno de 88 a 91%. Neste período a proporção de matrículas foi de aproximadamente 8 para o setor privado e de apenas 1 para o público. No mesmo ano, o número de alunos matriculados em instituições especializadas em relação aos matriculados em escolas regulares era em torno de 2 para 1. Convém ressaltar que os relatórios que apresentam tais questões o fazem sem identificação das áreas atendidas por tipo de deficiência ou outro tratamento especial, ou seja, o número de matrículas em instituições especializadas e nas classes especiais de escolas regulares não permite esclarecer quantos alunos com deficiência foram atendidos em cada modalidade. Entretanto, os dados possibilitam constatar a tendência de maior crescimento do atendimento das instituições especializadas privadas em relação ao atendimento no setor público. Também é importante destacar que, observa-se significativa discrepância ao cruzar os dados acerca do número de instituições especializadas/ano e de classes especiais/ano, compiladas das mensagens dos governadores, com os dados 158 disponíveis no documento intitulado Fundamentos Teórico-Metodológicos para a Educação Especial (PARANÁ, 1994, p. 13-14). Porém, o documento Fundamentos Teórico-Metodológicos para a Educação Especial (PARANÁ, 1994, p. 14), apresenta dados referentes aos programas de Educação Especial que não constam nos documentos disponibilizados pela FUNDEPAR até 1989, sendo que a planilha apresentada compreende o que a SEED tratava como programas de Educação Especial, a saber: Centro de Atendimento Especializado (CAE); Classe Especial (CE); Programa de Educação Especial Supletiva (PEES); Programa de Escolaridade Regular (PER) e Sala de Recursos (SR). Além disso, há também as áreas de atendimento: Deficiência Auditiva (DA); Deficiência Física (DF); Deficiência Mental (DM); Deficiência Visual (DV); Múltiplo Atendimento (MA); Distúrbios de Aprendizagem ( DAp.) e Condutas Típicas (CT). Em relação aos programas de Educação Especial, nas áreas das deficiências, têm-se as classes especiais, datadas a partir de 1977 (15 unidades), principalmente para a área de DM. Já os CAE passam a ocorrer a partir de 1987 para as áreas de DA (37 unidades) e DV (66 unidades), sendo que na DF isso só veio a ocorrer em 1991 (com 1 unidade)19. Outra análise relevante é o comparativo entre a evolução de estabelecimentos de educação especial e as de 1º e 2º graus do ensino regular. Com base no Gráfico 3, observa-se que houve um índice de crescimento de em torno de 50% de 1983 a 1987, em todas as esferas educacionais. Entretanto, observa-se que o número de instituições privadas é significativamente maior que as públicas. 19 Demais dados estão disponíveis no Anexo 9. 159 Gráfico 3 - Demonstrativo de escolas de educação especial nas esferas públicas (Federal, Estadual, Municipal) e particulares (Part) no Paraná de 1983 – 1987 Convenções: EPF=Esfera Pública Federal; EPEst=Esfera Pública Estadual; EPMun=Esfera Pública Municipal e EPart = Esfera Particular (Privada). Fonte: SEED/FUNDEPAR, 1985; PARANÁ, 1986a, p. 215-216; PARANÁ, 1988, p. 213; PARANÁ, 1989, p. 183184. Ao comparar os dados do gráfico 3 com o gráfico 4, nota-se que a evolução de estabelecimentos de ensino regular é oposta em relação à educação especial. Constata-se, que enquanto na educação especial da rede regular na esfera estadual houve aumento de 2 para 4 unidades e na esfera municipal o aumento foi de 8 para 13 escolas. Já no setor privado, as escolas especiais aumentaram de 85 em 1983 para 125 unidades em 1987. Considerando a capacidade de investimento do Estado do Paraná, o crescimento de unidades públicas entre 1983 e 1987 foi irrisório, aumentando apenas de 2 para 4 unidades. Neste aspecto, cabe aqui ressaltar, parafraseando a colocação do prof. Bueno (proferida na Mesa Redonda intitulada Perspectivas para a Educação Especial no Brasil: Politica e Práticas, realizada em 17 de novembro durante a V CBEE, promovida pela UFSCAR em 2012), que as escolas especializadas só sobrevivem devido à “omissão” do Estado e, consequentemente, do financiamento público. 160 Gráfico 4 - Demonstrativo de escolas de 1º e 2º graus, nas esferas públicas (Federal, Estadual, Municipal) e particulares (Part) no Paraná de 1983 – 1987 Convenções: EPF=Esfera Pública Federal; EPEst=Esfera Pública Estadual; EPMun=Esfera Pública Municipal e EPart = Esfera Particular (Privada). Fonte: SEED/FUNDEPAR, 1985; PARANÁ, 1986a, p. 215-216; PARANÁ, 1988, p. 213; PARANÁ, 1989, p. 183184. Com base nos dados dos gráficos 3 e 4, verifica-se que o ensino de 1º e 2º graus, e tendo como referencia o ano de 1987, a proporção foi de 19 para 1. Já na educação especial os dados demonstram que a proporção de instituições privado/públicas era de 8 para 1. O próximo tópico irá abordar como no Estado do Paraná a Educação Especial foi organizada e estruturada por meio das normas legais, as quais orientaram e subsidiaram a ampliação dessa política para o interior do Estado, descentralizando os atendimentos e perspectivas de acesso dos “excepcionais” para a escola regular pública e para a escola especial. 3.2 Legislações sobre a Educação Especial no Estado do Paraná nas décadas de 1970 e 1980 Neste tópico, buscar-se-á compreender os encaminhamentos realizados por meio da legislação sobre a Educação Especial no Estado do Paraná no período desse estudo, verificando o alinhamento da legislação no âmbito nacional e 161 estadual, observando as semelhanças e/ou as diferenças entre as áreas das deficiências. Buscar-se-á também interpretar a legislação considerando o período temporal em que foi sistematizada e publicada. Segundo Castanha (2011, p. 324) a legislação representa a “síntese das múltiplas determinações” de forças presentes na sociedade, “colocando em contradição a cultura erudita e a popular, a modernidade e a tradição”. Afirma ainda que, fica expressa nas leis “os valores morais, religiosos, cívicos e sociais”. Nela, estão presentes “identidades étnico-culturais, sociais e profissionais”. O autor afirma que Aparecem também preconceitos, discriminações e exclusões. As leis instituem direitos e deveres dos cidadãos, mecanismos de controle e inspeção, criam estruturas de poder, estimulam a concorrência entre indivíduos e instituições, fortalecem o Estado ou a iniciativa privada, implantam sistemas de financiamento etc (CASTANHA, 2011, p. 324). Neste sentido, ao fazer análise do contexto em que as legislações foram escritas, nos permite compreendê-las num padrão estabelecido pelos princípios e valores societários do período, evitando assim, interpretá-las com pré-conceitos e fazer anacronismos (CASTANHA, 2011, p. 325). A educação especial também está inclusa nesta lógica, portanto, é preciso fazer as análises e críticas dentro de perspectivas conceituais do período em que as legislações pertinentes a ela foram sistematizadas e aprovadas. Caso contrário, poderia incorrer no equívoco de dimensioná-las a partir de uma perspectiva que levaria a inferir à legislação conceitos, características de um período histórico ulterior as mesmas. Para tanto, a principal fonte de pesquisa a respeito da legislação sobre educação especial no Estado do Paraná foi o Conselho Estadual de Educação, em consulta in locus e por meio da organização cronológica de documentos que estavam publicados em diversos volumes de Critéria. Essa publicação teve origem juntamente com a criação do CEE, em 1964, que tinha como objetivo publicitar os seus “atos oficiais” (HOFF, 2008, p. 284; 286). A utilização de Critéria para análise da legislação da educação especial no Paraná ocorreu em virtude do CEE ser responsável, desde a LDB nº. 4.024/61, pela normatização das questões referente à autorização, reconhecimento e inspeção de estabelecimentos escolares não 162 pertencentes à união. Essa atribuição permaneceu na LDB nº. 5692/71 que a sucedeu. A respeito disso destaca-se o artigo 9º, que define: [...] alunos que apresentem deficiências físicas ou mentais, os que se encontrem em atraso considerável quanto à idade regular de matrícula e os superdotados deverão receber tratamento especial, de acordo com as normas fixadas pelos competentes Conselhos de Educação. (BRASIL, 1971, p. 3). Mediante a responsabilidade do CEE em normatizar questões do sistema educacional dos Estados brasileiros conforme a LDB, a biblioteca do CEE/PR foi fundamental fonte de pesquisa sobre normas do sistema educacional e da educação especial paranaense no período estudado. Um dos aspectos que contribuiu para o acesso aos documentos foi a organização das fontes nessa biblioteca, a abertura e o apoio dos funcionários desse estabelecimento para realização das pesquisas. Assim, pelas pesquisas realizadas, foi possível observar tanto em âmbito nacional, como estadual a intencionalidade expressa nas legislações em ampliar o acesso educacional aos alunos “excepcionais”. Um dos recursos utilizados foi prever o estabelecimento de auxílio financeiro e bolsas de estudos, sendo essa questão uma das atribuições que o Conselho deliberava. Com o intuito de normatizar a concessão de bolsas, em 1973, o Estado do Paraná fixou a Deliberação nº. 012/73, segundo a qual as escolas “especiais” deveriam apresentar ao CEE/PR um comprovante de “eficiência de ensino”, juntamente com o requerimento para formalizar o recebimento de bolsas de estudos. O comprovante era emitido pelo Departamento de Educação Especial. Para receber a chancela de escola eficiente, ela precisava encaminhar um relatório seguindo as normas da Resolução nº. 13/68, de 10 de maio de 1968, referente ao Processo nº. 822/67. (PARANA, 1973, p. 41-42; PARANÁ, 1973a, p. 42-43). A Resolução nº. 13/68, que fixou “Normas para criação, autorização de funcionamento e reconhecimento de escolas destinadas à educação de crianças excepcionais” (PARANÁ, 1968, p 115), tornou-se ultrapassada para a realidade de 1973, não correspondeu às exigências da LDB nº. 5692/71 e a Portaria nº. 54-BSB do MEC, de 22 de janeiro de 1973, publicada no Diário Oficial n°. 27, de 7 de fevereiro de 1973, 163 que baixou instruções destinadas a regular a concessão de bolsas de estudo para excepcionais. A Portaria nº. 54-BSB do MEC, em seu art. 3.°, Item 3, Letra F, afirma que essas escolas deveriam apresentar comprovante de eficiência ao CEE, sendo que o prazo limite de requerer bolsas de estudos era no mês de maio do referido ano. Assim, o CEE obrigou-se a aprovar uma deliberação provisória, com validade apenas para o ano de 1973. Dessa forma, a Indicação nº. 2/1973 de 10 de maio de 1973 realizou a homologação pelo órgão competente, da Deliberação nº. 12/73, também de 10 de maio de 1973, que “fixou normas provisórias para a comprovação de eficiência do ensino pelas Escolas de Excepcionais”, pautado na Resolução nº. 13/68 (PARANA, 1973, p. 41-42; PARANÁ, 1973a, p. 42-43). No ano de 1973, o CEE/PR emitiu vários pareceres favoráveis ao reconhecimento de eficiência no atendimento prestado ao ensino dos “excepcionais”. Relaciona-se a seguir algumas das escolas que requereram tal reconhecimento e que tiveram parecer favorável do CEE, sendo elas: Nossa Escola para Crianças Excepcionais de Irati (Parecer nº. 88); Escola Especializada Primavera de Curitiba (Parecer nº. 89); Escola Mercedes Stresser de Curitiba (Parecer nº 90); Escola Especial Lions Clube de Arapongas (Parecer nº. 91); Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de Guarapuava (Parecer nº. 92); Associação de Pais e Amigos de Maringá (Parecer nº. 93); Escola de Excepcionais Dom Jayme Coelho de Mandaguari (Parecer nº. 94); Escola Professora Maria de Lourdes Canziani de Ponta Grossa (Parecer nº. 95); Escola Maria Montessori de Sertanópolis (Parecer nº. 96); Escola Tia Nilza de Curitiba (Parecer nº. 97); Escola para Surdos Epheta de Curitiba (Parecer nº. 98); Escola de Integração e Recuperação da Criança Excepcional de Campo Largo (Parecer nº. 99); Escola para Crianças Excepcionais João XXIII de Ibiporã (Parecer nº. 100); Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de Astorga (Parecer nº. 101); Escola Professor Carlos Neufert de Jacarezinho (Parecer nº. 102), sendo que todos foram emitidos em 7 de junho de 1973; Nossa Escolinha de Educação da Criança Excepcional da cidade Primeiro de Maio (Parecer nº. 120); Escola Municipal Maria Mendes Valente de Bela Vista do Paraíso (Parecer nº. 121) sendo emitidos em 9 de agosto de 1973 (PARANÁ, 1973b, s/p). Esse procedimento e a relação de escolas especiais que 164 receberam o parecer de atestado de eficiência no ensino para excepcionais podem ser observados também no Parecer nº. 56/74 e Parecer nº. 061/74. Em ambos os Pareceres permaneceu a Deliberação nº. 12/73 como parâmetro de critérios para a emissão do atestado de eficiência (PARANÁ, 1974, p. 427-428; PARANÁ, 1974a, 437-438). É necessário lembrar, como já sinalizado no tópico 2.3, que o Plano Setorial de Educação de 1972/1974 destinou em seu orçamento o valor de Cr$ 8.262.500,00 para ampliação e melhoria da educação dos “excepcionais”, sendo o órgão gerenciador desta verba o CENESP. Foi somente em 1974 que o Secretario de Educação e Cultura, por meio do Processo n°. 424/74, devido ao expediente do Departamento de Educação Especial, encaminhou a solicitação de alteração da Resolução nº. 13/68-CEEPR, que estabelecia “normas de criação autorização, funcionamento e de reconhecimento de escolas destinadas à educação de crianças excepcionais” (PARANÁ, 1975, p. 74). Esta motivação, segundo o referido documento, ocorreu frente às mudanças na ciência, em tecnologias e na educação no período entre 1968 a 1975, sendo destacada no setor educacional a reforma do ensino de 1º e 2º graus pela LDB nº. 5692/71, bem como os avanços na compreensão da educação dos “excepcionais”. Devido às mudanças que havia ocorrido no setor educacional, a substituição da referida resolução por outra norma que atendesse as exigências estruturais da LDB nº. 5692/71 se fez necessária (PARANÁ, 1975, p. 74-75). Cabe salientar que houve mudanças, mas também permanências de diretrizes como a expansão e melhoria da educação básica e o auxílio técnico-financeiro às instituições privadas. Mediante essas condições, o CEE/PR estabeleceu a Deliberação nº. 24/75, de 8 de julho de 1975, que fixou as “normas para criação, autorização de funcionamento, reconhecimento e de reorganização de escolas destinadas à educação de crianças excepcionais e sua fiscalização oficial.” (PARANÁ, 1975, p. 74-75). Outras regulamentações foram realizadas frente às definições na esfera educacional e em função das demandas a serem atendidas no Estado. Para atender essas condições, o Conselho emitiu o Parecer nº. 6/75, de 10 de julho de 1975 e a Deliberação nº. 25/75, de 11 de julho de 1975, referentes ao Processo nº. 422/1974, que tratava acerca das classes especiais (PARANÁ, 1975a, p.76 .PARANÁ, 1975b, p. 78). 165 No ano de 1975 o CEE fixou normas provisórias, por meio do Parecer 133/1975, de 8 de julho de 1975, referente ao Processo 425/74, estabelecendo a definição de diretrizes curriculares para educação do “deficiente mental”. O caráter provisório foi justificado pelo fato de que, naquele momento, o CENESP tinha feito um convênio com a Universidade Estadual do Rio de Janeiro/Faculdade de Educação, para elaboração de proposta curricular para deficientes mentais e visuais (PARANÁ, 1975c, p. 245), já abordada no capítulo 2, tópico 3. As Deliberações nº. 024/75 e nº. 025/75 expressaram a preocupação do CEE/PR em atender as demandas da educação especial, mas ainda eram insuficientes e não respondiam a todas as questões que precisavam ser normatizadas. Essa situação provavelmente ocorreu em decorrência da recémpolítica implantada pelo governo federal, com a criação do CENESP. As diretrizes pedagógicas foram sistematizadas pela Indicação 1/78, sendo que, nesse documento, o CEE/PR explicitou a compreensão de educação especial nos moldes da política de integração, enfatizando que as instituições especializadas e programas especiais devem objetivar suas ações para a integração social do “excepcional” (PARANÁ, 1978b, p. 30). Nela, também foi incorporado para a realização das discussões e indicações do CEE/PR o conceito de excepcionalidade e as recomendações previstas nas Diretrizes de Ação para o CENESP. O documento refere-se ainda à questão de avaliação e triagem e destaca que os alunos, somente mediante o processo de avaliação, poderiam ser encaminhados para a educação especial, e que uma vez incluso, permaneceria no atendimento especial durante o tempo que fosse necessário. Também destacou a manutenção da abertura do apoio técnico-financeiro às instituições escolares que atendiam alunos “excepcionais” e tratou acerca da especificação das instituições e programas especiais; da classificação de excepcionalidade (DV, DA, deficiência física não sensorial), alunos com problemas de conduta, deficiência múltipla, superdotados, distúrbios de aprendizagem); currículo; acerca da identificação de aluno especial, o qual após avaliação multidisciplinar (médica, pedagógica, psicossocial) poderia ser encaminhado para diversos tipos de atendimento, tais como: estimulação precoce; escola especial; oficina pedagógica ou centro ocupacional ou de habilitação profissional; oficina protegida; clínica; classe comum; classe comum com consultor; 166 sala de recursos (de atendimento específico e outra de atendimento múltiplo); classe especial; ensino itinerante; centro de dia; residências lares (PARANÁ, 1978b, p. 3041). A fim de adequar as demandas do setor da educação às recomendações do CENESP, o CEE encaminhou para homologação junto a SEEC/DEE a Deliberação nº. 8/78, de 7 de abril de 1978 (PARANA, 1978a, p. 18-29), atendendo a Indicação nº. 1/78, de 7 de abril de 1978, que tratava de Normas para a Educação Especial no Sistema Estadual de Ensino, estando organizada por temas em capítulos e seções, assegurando maior detalhamento sobre a temática. Esta Deliberação está organizada da seguinte forma: Capítulo 1 – Das Disposições Preliminares. Capítulo 2 – Das Instituições Especializadas, que está constituído pelas seções: autorização de funcionamento, Comissão de verificação, corpo docente, competência do departamento de educação especial, transferência ou ampliação da sede escolar. Capítulo 3 – Das Residências. Capítulo 4 das classes especiais. Capítulo 5 – Das Disposições Gerais e Finais. A Deliberação nº. 8/78 apesar de sua relevância para a organização da Educação Especial no Estado do Paraná, até 7 de março de 1979, não havia sido homologada pela autoridade competente. O Parecer n°. 083/79, de 7 de março de 1979, do Processo n°. 19/79, analisou sugestões do DEE sobre a referida deliberação, em relação aos artigos, 5, 7, 12 § único, 13, 14, 20, 23, 27, 28. Após a análise, o CEE/PR considerou que deveria manter o texto original da Deliberação nº. 78/1979, sendo encaminhada para a SEEC para apreciação e homologação (PARANÁ, 1979a, p. 189-194). A justificativa do Conselho para não acatar as sugestões do DEE era a de que não alteraria essencialmente os aspectos centrais no fomento da educação dos alunos “excepcionais”, sendo assim, os princípios da integração, normalização e individualização permaneceriam. Em 1983 o CEE/PR ratificou a Indicação 1/1978 por meio da Indicação nº. 1/1983, de 7 de março de 1983, que recomendou à SEEC/DEE a homologação da 167 Deliberação 4/1983, de 9 de março de 1983 pela necessidade de fixar normas à educação especial. (PARANÁ, 1983a, p.10; PARANÁ, 1983b, p. 16). Neste sentido, compreende-se que, até aquele momento, ou seja, março de 1983, não havia sido oficializada uma regulamentação da educação especial no Estado. Entretanto, Canziani (1985, p. 88-90), afirma que a Deliberação nº. 8/1978 foi utilizada como normativa para educação especial, juntamente com outras normas (resoluções, portarias, decretos), deliberações e indicações do CEE, dentre as quais estão as mencionadas neste tópico. Observa-se que em torno de 50% das normas relacionadas por essa autora foram destinadas aos cursos de formação de professores de ensino especializado para “excepcionais”. As demais estavam relacionadas a: regulamentação da educação especial (2), amparo técnico-financeiro (6), classes especiais (2), regimento de escolas especiais (1), criação, autorização e regulamentação de escolas especiais (4) e outros assuntos correlatos à temática (30), destes (22) são relacionados a cursos de capacitação. Uma das ações governamentais foi a de investir na formação de professores, neste caso, na área da educação especial. É preciso mencionar que as diretrizes, em termos de concepção educacional, norteava a formação dos que atuariam junto aos alunos “excepcionais”. Com a leitura da Deliberação n°. 26/79, de 14 de setembro de 1979 (PARANA, 1979c, p. 30-38), referente ao Processo n°. 284/7920, que “estabeleceu Diretrizes para o Curso de Formação de Professor de Educação Especial nas áreas de Deficiência Mental, Deficiência da Áudio comunicação e Deficiência da Visão”, por meio dos Estudos Adicionais foi possível observar a centralidade no aspecto biológico que o curso assegurava nos conteúdos ministrados, o que vai ao encontro da afirmativa de Bueno, como já foi mencionado no capítulo 2, tópico 3 deste trabalho, segundo o qual a educação nas áreas da deficiência visual, auditiva, mental centrou-se muito mais em aspectos da saúde do que da educação. Neste sentido, observa-se que os conteúdos ministrados estavam centrados na morfologia, na anatomia, na neurologia, demonstrando, portanto, a 20 Processo nº. 284/79, que “aprecia sugestões de currículos para a formação de Professor de Educação Especial mediante Estudos Adicionais”, foi reencaminhado ao DEE em 6 de junho de 1979, após apreciação do CEE/PR, que emitiu o Parecer nº. 148/1979 solicitando que o DEE elaborasse um projeto nos moldes das recomendações explicitadas neste Parecer para atender as normas vigentes sobre formação de professores por Cursos Adicionais. (PARANÁ, 1979b, p. 296-300) 168 influência da abordagem clínica no fazer pedagógico do professor, abordada no capítulo 1 deste trabalho. Para melhor esclarecimento, cita-se a seguir as disciplinas da grade curricular do curso de Estudos Adicionais; Introdução a Educação Especial. Desenvolvimento Biopsicosocial do Deficiente. Fundamentos da Orientação Vocacional. Morfofisiologia do Sistema Nervoso. Noções de Neuropsiquiatria Infantil. Mecanismos da Fala e da Audição e Noções da Foniatria, abrangendo: Física Acústica. Morfofisiologia dos Órgãos da Audição e da Fala. Estágio. Além, da centralidade numa perspectiva clínica no fazer pedagógico do professor, o que incorreu na ênfase das limitações físicas e sensoriais, secundarizando o desenvolvimento das potencialidades do aluno “deficiente”, havia também o pressuposto de que esse aluno deveria se ajustar ao ambiente em que está inserido, como se as relações humanas ocorressem por via única e linear. Essa observação foi abordada nos capítulos anteriores e pode ser dimensionada pela grade curricular dos Estudos Adicionais. Cita-se a ementa da disciplina biopsicossocial: Abordagem do crescimento físico e da evolução mental, emocional e social do deficiente, na modalidade considerada. Desvios da normalidade e suas repercussões no ajustamento do indivíduo na família, na escola e na comunidade (PARANÁ, 1979c, p. 35). Neste sentido, apesar da política da educação especial defender a necessidade de se fazer adaptações físicas e prover recursos didáticos, como exposto no capítulo dois, a centralidade estava no aluno. Ele precisava adaptar-se ao ambiente. Logo, se não tivesse um desenvolvimento acadêmico satisfatório, ficaria retido nas séries iniciais, e era visto como o único responsável pelo seu baixo desempenho escolar. Esse encaminhamento estava estreitamente pautado em pressupostos norteados pelos aspectos biológicos do aluno “excepcional” que contribuiu para que o professor limitasse a potencialidade de seu aluno, colocando o 169 foco de sua atuação na “limitação” vista na aparência física e/ou sensorial e/ou motora e/ou “mental”. Neste sentido, parafraseando a colocação da professora Rosana Glat (UERJ) realizada na Mesa Redonda: Filantropia, Politica e Instituições Especializadas em Educação Especial no Brasil, realizada em 16 de novembro durante o V Congresso Brasileiro de Educação Especial/2012, promovido pela UFSCAR – São Carlos - SP, os alunos matriculados em escolas especiais e classes especiais ficavam “ad aeternum”, ou seja, ”para todo o sempre” nessa condição, pois nunca estavam prontos para ingressar no ensino regular, fato este que ocorre em escolas especiais até os dias atuais (2012). Essas ações pedagógicas estavam pautadas na concepção de normalização, e também regia o fazer pedagógico do ensino regular. Devido a esta condição, as avaliações e triagens eram realizadas, objetivando a homogeneização das salas de aula. Os pressupostos que permearam o processo de integração educacional dos “excepcionais” foram mantidos na Deliberação nº. 20/1986, de 21 de outubro de 1986, referente ao Processo nº. 497/86, que tratava de normas para a Educação Especial no Sistema de Ensino. A sua elaboração foi norteada pela Indicação nº. 1/1986, que foi incorporada na referida Deliberação e que revogou as disposições da Deliberação nº. 4/1983 e demais normas em contrário. A Deliberação nº. 20/1986 ficou organizada por capítulos, tal como exposto abaixo: Capítulo 1 – Da Educação Especial. Capítulo 2 – Da Organização e Funcionamento. Capítulo 3 – Do Ingresso, Encaminhamento e Transferência. Capítulo 4 - Dos Recursos Humanos. Capítulo 5 - Das Modalidades de Atendimento nas Escolas Comuns do Sistema de Ensino. Capítulo 6 - Das Modalidades de Atendimento em Instituições Especializadas do Sistema de Ensino. Capítulo 7 – Das Disposições Transitórias e Finais. Esta normativa manteve a finalidade de constituir condições favoráveis para o desenvolvimento das potencialidades dos alunos “excepcionais” para sua plena integração social, autorrealização e independência. Assim, ficou redefinido o conceito de “portadores de excepcionalidade”, a saber: 170 [...] Consideram-se pessoas portadoras de excepcionalidade os indivíduos que apresentam deficiência mental, deficiência auditiva, deficiência visual, deficiência física não-sensorial, distúrbios emocionais severos, distúrbios de aprendizagem, múltipla deficiência, e superdotação. (PARANÁ, 1986b, p. 2). Na Deliberação nº. 20/1986 a conceituação de “excepcionalidade” ficou mais objetiva, sendo que essa norma apresentou maior esclarecimento quanto aos conteúdos contidos nos capítulos, possibilitando encaminhamentos mais ajustados à proposta de integração educacional. Ela clareou os conceitos e detalhou a organização da Educação Especial, que estavam sendo elaboradas e sistematizadas no decorrer de sua implantação pelo Governo Federal e Estadual desde a década de 1970, com a criação do CENESP. Em seu artigo 2º, ao tratar dos conceitos científicos e pedagógicos se reportam a Indicação 1/1983, incorporada pela Deliberação 4/1983, que, por sua vez, ao tratar deste item em seu artigo 2º, se reporta a Indicação 1/1978. Observa-se que alguns temas das deliberações anteriores foram mantidos pelas posteriores e serviram de base para ampliar ou melhorar questões relacionadas ao atendimento, à organização às ações pedagógicas. Nesse sentido, a Deliberação nº. 20/1986 manteve, portanto, a estrutura de modalidades de atendimento em instituições escolares comuns e nas instituições especializadas. Em se tratando da iniciativa privada no desenvolvimento de programas para o atendimento dos “excepcionais”, sem fins lucrativos, ela assegurou, no artigo 8º, parágrafo único, “os programas mantidos pela iniciativa privada idônea e sem fins lucrativos deverão receber, mediante convênio com o Estado, inteiras condições para o seu funcionamento” (PARANÁ, 1986b, p 04). As instituições especializadas foram caracterizadas, no artigo 48º, como [...] unidades destinadas a prestar atendimento educativo e/ou terapêutico a excepcionais, através de currículos próprios, programas e atividades adaptados aos diversos tipos de excepcionalidades. (PARANÁ, 1986b, p. 14). 171 Essas estavam compostas por Instituições Escolares de Educação Especial, as Residenciais e as Clínico-Terapêuticas. Os Programas para o atendimento especializado desses alunos estavam estabelecidos, no artigo 5º como: a) educação precoce; b) treinamento básico; c) educação pré-escolar e escolar; d) iniciação para o trabalho; e) qualificação profissional; f) trabalho protegido; g) atendimentos complementares como: terapia ocupacional, fisioterapia, musicoterapia, fonoaudiologia, atendimento pedagógico, atendimento psicológico, atendimento social, acompanhamento médico específico e outros, quando indicados. (PARANÁ, 1986b, p. 3). Além dos atendimentos especializados, essa norma, no artigo 6º, estabeleceu que a Educação Especial também se caracterizava pela prestação dos serviços na prevenção de distúrbios do desenvolvimento do indivíduo; pela identificação precoce de excepcionalidade real ou potencial e pela avaliação diagnóstica adequada para definir a extensão e a natureza da excepcionalidade. Já os atendimentos em escolas regulares poderiam ocorrer em salas comuns, classes especiais, salas de recursos e centros de atendimentos especializados. Este último foi estabelecido a partir da Deliberação nº. 20/1986, sendo que a sua implantação foi iniciada nas escolas estaduais em 1987. Como afirma Tureck (2003) a implantação desses Centros no interior do Estado contribuiu para minimizar a ampliação do atendimento assistencialista/filantrópico realizado pelas escolas especiais. [...] abriram-se Centros de Atendimento Especializado por todo o interior do estado, derrubando a hegemonia da capital, avançando também em relação à superação do modelo assistencialistafilantrópico, pois, ao oferecer-se tais serviços na rede pública, diminuiu a criação de entidades privadas. (TURECK, 2003, p. 56). Ao observar o número de Centros de Atendimento Especializado por área de deficiência (ver Anexo 10) ficou evidenciado que os encaminhamentos educacionais eram distintos para cada área. A educação dos alunos com deficiência visual predominou no ensino regular, uma vez que a única escola especial localizava-se na 172 Capital, mas também os CAEDEVs, localizados em escolas estaduais, propiciaram a expansão do atendimento no ensino comum. Já a educação de “deficientes auditivos” intercalou-se entre escolas especiais e os CAEDas. Os alunos com “deficiência mental” foram atendidos em classes especiais, mas principalmente encaminhados às escolas especiais. Em relação aos alunos com deficiência física, são poucas as referências de atendimento, pois somente em 1991 é que foi criado o primeiro CAEFs no Estado do Paraná. Então, onde os alunos com deficiência física, como os com paralisia cerebral, estavam sendo atendidos no que tange a sua formação acadêmica? Nos ANAIS do IX Congresso da Federação Nacional das APAEs, intitulado “Novas perspectivas para o excepcional no Brasil de hoje”, realizada na cidade de Florianópolis, SC, no ano de 1979, o Sr. Cel. José Cândido de Maés Borba, Presidente da Federação Nacional das APAEs e Conselheiro da Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor afirmou que as APAEs foram constituídas para atenderem as crianças “excepcionais”, porém, em localidades que não ofertassem atendimento a outros tipos de deficiência, esta poderia realizá-lo. (ANAIS do IX Congresso da Federação Nacional das APAEs,1979, p. 165). Nesse mesmo documento é possível captar este entendimento. Logo, essa ação, provavelmente, foi estendida a outras deficiências onde não havia atendimento especializado, tais como as áreas da deficiência visual e auditiva, condutas típicas. Por outro lado, havia a opção dos atendimentos ocorrerem nas escolas públicas estatais em classes especiais, além dos Centros de Atendimentos Especializados. Os alunos “deficientes visuais” apenas eram atendidos no contraturno dos CAEDs. As outras áreas possuíram classes especiais. A primeira classe especial para “deficiente auditivo” no Paraná ocorreu em 1981, sendo que, até o ano de 1989 foram abertas mais 23 classes. Para o atendimento de alunos com “deficiência física”, a primeira classe foi criada apenas no ano de 1994. Já para a deficiência mental as 15 primeiras classes foram instituídas em 1977 e, até o ano de 1989, somaram-se 560. As pesquisadoras Torezan e Caiado (1995) auxiliam a compreensão de que as classes especiais poderiam ter se constituído num espaço de atendimento àqueles alunos que, realmente, possuem um grau de comprometimento físico ou cognitivo de tal modo que necessitariam estar numa classe especial de escola 173 pública. Porém, ao invés de cumprir com esta prerrogativa, transformou-se num espaço segregado para crianças que fugiam ao padrão de “normalidade”. Aliás, esta foi a conotação atribuída às classes especiais desde sua criação. O que ocorreu foi tão somente a manutenção desta condição. Segundo Torezan e Caiado (1995), [...] muitas crianças são identificadas como deficientes e encaminhadas às classes especiais por razões as mais diversas, como, por exemplo, por problemas de comportamento e não por efetivamente requererem recursos educacionais diferenciados. Ao discutir sobre esses critérios de encaminhamento, Caiado (1993) aponta para uma prática segregadora legitimada dentro da escola pública, através da qual milhares de crianças são arbitrariamente identificadas e rotuladas como ‘burras’, ‘fracas’, ‘loucas’ ou ‘deficientes’. Ferreira (1992) também discute sobre essa questão e argumenta que as classes especiais ‘parecem se constituir mais em um estágio para segregar e excluir da escola alunos que estavam nas classes normais do que em um procedimento para trazer indivíduos deficientes para a escola.’ (TOREZAN; CAIADO, 1995, p. 30). Mediante o exposto, seja para a implantação de classes especiais, de escolas especiais (públicas ou privadas) do atendimento em salas do ensino regular de escolas públicas, torna-se possível compreender que as legislações e normatizações elaboradas a partir das indicações do CEE do Paraná estavam alinhadas com a proposta de integração da educação especial estabelecida pelo CENESP. 174 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Por meio desta pesquisa, buscou-se compreender como ocorreu o processo de implantação e como se configurou a coexistência do atendimento educacional das pessoas com deficiência nos setores público e privado/filantrópico no Estado do Paraná, durante as décadas 1970 e 1980. Diante disso, neste estudo, procurou-se verificar quais os elementos estavam presentes na política de atendimento às pessoas com deficiência, frente às diretrizes estabelecidas pelo CENESP, no Estado do Paraná, de 1970 a 1989. Com base nesta questão, os estudos realizados permitiram entender que a coexistência dos atendimentos foi consolidada por meio de uma política de Estado, neste caso, a política estabelecida pelo CENESP. Esta pesquisa possibilitou compreender que a coexistência de atendimento educacional da pessoa com deficiência nas escolas públicas do ensino regular e nas especiais do Estado do Paraná foi decorrente de fatores socioeconômicos e históricos. Nesse percurso, houve frações da sociedade que trabalharam em prol do estabelecimento de escolas especiais e, outras que buscaram o atendimento educacional em escolas públicas no ensino regular. Essas ações desencadearam reivindicações em prol do atendimento das pessoas com deficiência em escolas públicas, tendo sido parcialmente atendidas. Já as escolas privadas e/ou filantrópicas tiveram assegurado na legislação o apoio técnico e financeiro para ampliação e manutenção das escolas especiais. Essas questões relacionadas ao atendimento sempre estiveram vinculadas a concepção social de deficiência. A partir da ideia de que toda atividade humana é decorrente das necessidades postas em seu percurso e, ao mesmo tempo, é fruto desta existência, nota-se que a concepção de pessoa com deficiência foi se modificando conforme o modo pelo qual o homem foi se organizando para prover as condições materiais necessárias à manutenção de sua vida. Nessa perspectiva, pode-se considerar que a abordagem clínica foi predominante no atendimento educacional do “deficiente” durante o período o qual esta pesquisa se propôs a estudar. A partir desta constatação, o primeiro ponto abordado buscou compreender a influência da concepção médico-pedagógica no 175 atendimento educacional às pessoas com deficiência, na qual foram elencadas três questões que estão expressas na abordagem clínica presente no século XX. A primeira questão dispõe que a abordagem médico-pedagógica se originou do avanço da medicina ao buscar explicações racionais pautadas na ciência, em contraposição às explicações místicas a respeito de problemas que acometiam aos homens. Assim, a abordagem clínica teve suas raízes no avanço da medicina que, por sua vez, tinha como objeto de estudo as manifestações orgânicas. Para toda manifestação no homem buscava-se explicações oriundas do sistema orgânico, o que levou à realização de deduções de que os fatores biológicos e fisiológicos determinavam as possibilidades de aprendizagem dos indivíduos. Por um lado, pode-se considerar que o avanço da medicina foi revolucionário ao superar as explicações pautadas na metafísica, mas, por outro lado, considera-se que tal avanço também foi conservador ao fixar a potencialidade de desenvolvimento cognitivo do indivíduo em suas condições orgânicas. A segunda questão demonstra que, atrelado às questões biológicas, estava o movimento de higienização ocorrido frente ao desenvolvimento de uma sociedade urbanizada, em que problemas de endemias foram críticos, desencadeando a necessidade de promover a sua contenção, sobretudo para evitar o alastramento de contaminações na classe dirigente. Assim, alguns médicos assumiram cargos administrativos e educacionais com vistas a assegurar a higiene corporal e mental. Para tanto, definiram uma padronização de homem e de comportamento. A terceira questão dispõe acerca do movimento eugenista, que fomentava a supremacia de uma raça sobre a outra, ou seja, que determinados indivíduos eram mais capazes que outros, neste caso, buscava-se também um padrão de homem. Faz-se necessário considerar que os estudos realizados na área da medicina trouxeram importantes contribuições na compreensão do que era deficiência e do que era doença. Além disso, possibilitaram melhores esclarecimentos às questões das deficiências, os quais contribuíram para o avanço na escolarização de crianças com essa caracterização. Contraditoriamente, ao estabelecer um padrão de “normalidade” entre os homens, estudos na área da medicina também foram propulsores das limitações no desenvolvimento cognitivo e social dessas pessoas; teoria esta que começou a ser superada com a abordagem histórico-cultural. Outro fator que desencadeou reflexos na forma de atendimento dos “deficientes” foi as formas de atendimentos institucionalizados. Devido a essa 176 condição os primeiros atendimentos ocorreram em asilos, hospícios, hospitais, conventos e seminários, ou seja, em locais oriundos de atividades filantrópicas/assistencialistas e na área da saúde. Essas ações ocorriam frente à compreensão de que essas pessoas eram possuidoras de demônios, predestinadas à caridade do cristão, pecadoras e acometidas por doenças, respectivamente. No Brasil, a assistência caritativa foi incorporada juntamente com abertura das Santas Casas de Misericórdia, modelos existentes no século XVI, que foram criadas para atender os moribundos, doentes, abandonados, desvalidos. Na Província do Paraná, em 1835, foi fundada a primeira Casa de Misericórdia, localizada em Paranaguá. Em Curitiba, apesar de a iniciativa ter sido tomada em 1843, somente se efetivou em 1852. Têm-se, então, com a influência portuguesa, por meio da colonização, a prerrogativa de ações cristãs, decorrentes da teologia da Igreja Católica Apostólica Romana que repercutiu na cultura brasileira e, por conseguinte, em ações e posturas do povo. Somente no século XIX, com o avanço da medicina e com maior exigência de habilidades intelectuais no fazer laboral, passou-se a fazer a distinção entre “normais” e “anormais”. Neste contexto, as pessoas com deficiência passaram a serem denominados de “excepcionais”. Também no século XIX, com base em modelos europeus de Institutos, foi criada a primeira ação educativa para pessoas com deficiência no Brasil, que se estabeleceu por meio dos Institutos dos Meninos Cegos, atual IBC, e do Instituto dos Surdos-Mudos, atual INES. Os institutos tornaram-se mais um espaço de asilo do que um ambiente que assegurasse uma educação capaz de formar homens autônomos e independentes. Passaram por reformulações e estão em funcionamento até hoje (2013). No Estado do Paraná, continuam em funcionamento o Instituto Paranaense de Cegos (IPC) e o Instituto Londrinense de Surdos (ILES). Em relação à educação dos “deficientes mentais” no Brasil, ela somente ocorreu a partir do século XX, em meados da década de 20, com o início dos atendimentos dessa categoria, por meio da Associação Pestalozzi. Décadas depois, em 1954, fundou-se a primeira APAE, que originou uma das maiores redes de escolas especializadas do país. Assim, as instituições privadas de caráter filantrópicos/assistencialistas se proliferam. Naquele período, não havia política pública de âmbito nacional que normatizasse o atendimento educacional desses alunos, o que levou cegos, surdos, 177 a APAE, juntamente com o MEC, a promover na década de 1950 campanhas para sensibilizar a sociedade brasileira acerca da necessidade de investimento e de definição de política educacional para estes. O Estado brasileiro formalizou as modalidades (público ou privado) de atendimento ao “deficiente” com a LDB nº. 4.024/1961. Nessa legislação, ficou definido que o ensino para este segmento deveria ser, preferencialmente, no ensino regular, mas também deveria ser mantida a abertura às instituições privado/filantrópicas, com apoio técnico-financeiro do Estado. Nesse sentido, essa LDB consagrou o modelo que já vinha sendo realizado no país. Alunos como alguns cegos estudavam nas escolas regulares, enquanto que as pessoas com deficiência mental estavam nas escolas especiais. Ações de mobilização em prol da educação especial realizadas no Brasil nos anos de 1970 e 1980, mantiveram a tendência do desenvolvimento da educação especial no país, estando alinhadas com as tendências internacionais, promulgadas por organismos como ONU, UNESCO, OIT, DPI. Neste contexto, a educação especial ocorrida nas décadas de 1970/1980 foi fruto de uma estrutura constituída historicamente, sendo que, na sua forma organizacional, havia as classes especiais, as escolas especializadas e os institutos. Os conhecimentos acumulados por profissionais que atuaram nessas modalidades de atendimento educacional, somado aos movimentos sociais em torno da educação do deficiente, contribuíram para a criação do CENESP. Nesse período, a LDB de 1961 foi substituída pela Lei nº 5692/71. Cabe evidenciar que o discurso de expansão da educação básica permeava também a educação especial, porém, com um diferencial crucial, pois, enquanto a expansão da educação básica do ensino regular era fomentada por meio do ensino público e por escolas privadas, na educação especial a expansão ocorria, principalmente, pelo crescimento das instituições privado/filantrópicas com apoio técnico-financeiro do Estado. Tanto a Lei 4024/61 como a Lei 5692/71 previam a possibilidade de apoio técnico-financeiro para qualquer instituição privada. O fato é que, para os alunos considerados normais, as bolsas estavam vinculadas às escolas particulares que, a princípio, possuíam uma educação com maior qualidade. Por outro lado, para os considerados “excepcionais”, as bolsas de estudos estavam direcionadas às escolas 178 especializadas que, devido à concepção de pessoa com deficiência, era exacerbado o cuidado e a proteção. Nesse período, governado por militares – e, portanto, pautado em valores tradicionais –, ficou fortalecido na educação a influência religiosa e o caráter meritocrático; perspectivas estas expressas tanto nas Diretrizes para Ação do CENESP, quanto nas Propostas Curriculares, elaboradas por ele em parceria com Universidades, bem como expressas em discursos de profissionais da área e nas falas dos gestores. Neste sentido, a contradição da perspectiva de integração estava posta no próprio texto, pois, ao mesmo tempo em que defendia o ingresso dos alunos no ensino regular, o limitava frente os princípios e metodologias empregadas para esse processo. A organização escolar, seja do ensino regular, seja da educação especial, era fundada no tecnicismo, no aperfeiçoamento da eficácia e na eficiência do trabalhador em prol do capital. Havia, portanto, nesta lógica uma incompatibilidade entre a ação produtiva da pessoa com deficiência e a exigência de produtividade inerente ao mercado. Neste sentido, a política de integração proporcionou às pessoas com deficiência um acesso precário e restrito à educação e, por conseguinte, aos demais espaços sociais, explicitando o seu caráter segregativo. Tal afirmativa pode ser verificada no Projeto Prioritário nº. 35, por meio do qual originou o CENESP, que era parte integrante do Plano Setorial da Educação e Cultura (1972-1974). Nesse documento, ficou clara a subordinação da educação em relação ao desenvolvimento econômico. Essa condição também foi reproduzida no documento das Diretrizes Básicas para Ação do CENESP, quando salienta a importância do “desenvolvimento das potencialidades de cada um, como elemento de auto realização, qualificação para o trabalho e preparo para o exercício consciente da cidadania.” (BRASIL, 1974, p. 11). A educação estava, portanto, pautada nos princípios liberais da igualdade de oportunidade, individualismo, liberdade, desconsiderando as condições socioeconômicas de cada aluno. Essa perspectiva se traduziu na educação especial com os princípios da integração e racionalização, normalização e individualização, que, ao mesmo tempo em que buscavam superar estigmas, estereótipos, preconceitos constituídos historicamente por meio de ações de superproteção, abandono, invalidade social, ações caritativas, também as reproduzia através da metodologia empregada no processo de escolarização destes alunos. 179 É preciso salientar que as deficiências DV, DA, DM foram abordadas de distintas formas, considerando suas especificidades educacionais, levando, assim, a processos de integração diferentes entre elas. Deste modo, o atendimento às pessoas com deficiência nas décadas de 1970/1980 ocorreu em salas comuns, com apoio pedagógico, com professor itinerante, classes especiais, salas de recursos e em escolas especializadas, e, principalmente, de cunho filantrópico/assistencialista. Entretanto, Independente do lócus onde essa educação era promovida, seus princípios norteadores eram os mesmos, pois estavam pautados numa perspectiva de integração educacional e social gradativa, conforme as possibilidades dos alunos com deficiência, tendo em vista as necessidades educacionais específicas de cada limitação física e/ou sensorial. Ao considerar esse procedimento gradativo de inserção no ensino regular, que a potencialidade dos alunos com deficiência é “igual” aos demais alunos e que cada deficiência traz necessidades educacionais distintas, é possível identificar certa similaridade com a proposta de inclusão responsável apresentada a partir dos anos de 1990. Torna-se importante salientar que, por um lado, a abertura política possibilitou avanços na legislação da educação especial, constituindo uma normatização específica sobre a integração da pessoa com deficiência, que passou a ser utilizada como instrumento de reivindicações na década de noventa, até os dias atuais (2013). Por outro, acarretou frustrações para frações das pessoas com deficiência, para familiares e para profissionais devido ao fato da mesma não ter se concretizado numa política que possibilitou o avanço educacional deste segmento. Como essa abordagem se deu em âmbito nacional, repercutiu no Estado do Paraná, que se orientou nas diretrizes do CENESP. Apesar de alguns atendimentos terem ocorrido anteriormente à criação desse Centro, a oferta ocorreu por meio de escolas especiais (públicas ou privadas), atendimento especializado, classes especiais, salas do ensino regular e outros. Logo, houve a permanência da coexistência de atendimento pelas escolas especiais e pelas públicas, o que, aliás, ocorre até o momento. Ao considerar as políticas de apoio-técnico financeiro às instituições privadas, pode-se fazer um comparativo do avanço entre o setor público/privado, sendo que a relação entre o ensino regular e o especial é inversamente proporcional, 180 caracterizando-se com a expansão do ensino regular no setor público e a especial nas escolas filantrópico/assistencialistas. Contudo, o fato da criança com deficiência estar integrado a um espaço público, como as escolas municipais, estaduais ou federais não foi sinônimo de integração, no sentido de ter assegurado o seu desenvolvimento acadêmico que os possibilitasse a apropriação dos conteúdos presentes no currículo da educação básica, pois os alunos considerados “excepcionais” e com baixo rendimento escolar, geralmente eram encaminhados às classes especiais, onde ficavam “ad eterno” sendo preparados para o ingresso no ensino regular. No setor público, as classes especiais foram as que mais se expandiram. Mesmo com o estabelecimento dessas possibilidades de atendimento, segundo Canziani (1985, p. 41), no ano de 1985, o sistema oficial de ensino para educação especial ainda era incipiente. Além disso, ela afirma que muitas das escolas especiais ainda não tinham estabelecido vínculo com o sistema oficial de ensino, propalando a educação voltada para “o cuidar”, e não para a formação acadêmica dos “deficientes”. Essa manutenção de modelo educacional se manteve, pois, como afirma Canziani (1985), A grande força da Educação Especial situa-se na iniciativa privada, a maioria sem vínculo sistêmico às estruturas oficiais e muitas ainda envolvidas com a preocupação paternalista e, conseqüentemente, mesclada com o sentimentalismo, confundindo "educação" com "proteção". (CANZIANI, 1985, p. 41). Nestes termos, os “deficientes” que estavam matriculados em escolas especiais tinham a educação secundarizada, sendo priorizado o cuidar e a proteção. Esta compreensão também estava presente no ensino regular. Jane Peruzo Iacono (2003, p. 101) contribuiu com tal afirmativa, quando analisou o documento Fundamentos Teórico-Metodológicos para a Educação Especial de 1994. Acerca de tal documento, Iacono afirma que ele possuía uma concepção de atendimento caritativo-assistencialista, somado a compreensão mística e biológica da deficiência. A autora afirma que tais abordagens embasaram historicamente o fazer pedagógico para as pessoas com deficiência e que, ainda no ano 1994, estavam expressos no documento, que, naquela ocasião, foi o mais 181 completo produzido pela SEED para orientar a ação do professor junto a esses alunos. Outra questão a ser exposta, de igual relevância as já abordadas, diz respeito ao procedimento do CEE para emissão de parecer quanto a eficiência de ensino das escolas especializadas. Esse parecer era um documento necessário para que pudessem cadastrar-se para o recebimento de bolsas de estudos. Com base nas Atas do CEE foi possível verificar que as avaliações realizadas pelo CEE parecem manter-se no âmbito da formalidade, pois, o parecer de eficiência do ensino das escolas especializadas era realizado com base em relatório apresentadas pelas interessadas, aprovadas em lotes numa única reunião do Conselho, não tendo documentos ou evidência de registro em ata de terem realizado visita técnica para averiguação do expresso nos relatórios. Neste sentido, o parecer de eficiência de ensino poderia não corresponder a tal eficiência, o que vai ao encontro das afirmativas das professoras Canziani e Peruzo, como também dos pressupostos que nortearam a abordagem de integração na educação das pessoas com deficiência nas décadas de 1970 e 1980. Finalmente, pode-se concluir que o desenvolvimento da proposta de educação especial implantada pelo Estado do Paraná, estava alinhada à política do CENESP, a qual considerou em suas recomendações a possibilidade do aluno com “deficiência” estudar no ensino regular com apoio do atendimento especializado, porém, a metodologia empregada contribuiu principalmente para a ampliação e manutenção das escolas e classes especiais; fato este que demonstrou como o Estado, como interventor, respondeu as reivindicações dos movimentos sociais, ao mesmo tempo que assegurou o interesse do capital. Independente do lócus de atendimento, as barreiras proporcionadas por princípios religiosos e de conceitos pautados no aspecto biológico contribuíram para o processo segregativo sofrido por eles. Além disso, esse estudo possibilitou compreender quais os princípios, conceitos científicos, filosóficos e pedagógicos que estavam na proposta de integração e que também se fazem presentes, ainda que com novas reformulações, na proposta de inclusão, como por exemplo: formação de professores na área da educação especial, adaptação do ambiente físico, prover recursos didáticos, fazer parte do sistema geral de ensino, ter atendimento especializado e escolas especiais. 182 5. REFERÊNCIAS ABREU, Daniela de Moraes Garcia de. O Privado e o Especial: análise de um recorte do atendimento educacional de alunos com necessidades educativas especiais na rede privada do Rio Grande do Sul. 2002. 165 f. Dissertação (Mestrado). Faculdade de Educação. Universidade Federal do Rio Grande do sul Porto Alegre, 2002. ALMEIDA, Ronnie Jorge Tavares de; EL-HANI, Charbel Niño. A medicina como “philosophia social”: Domingos Guedes Cabral e a tese inaugural “funções do cérebro” (1875). 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Data da pesquisa Palavra-chave Nº. de artigos Nº. de artigos afins encontrados ao tema da pesquisa 01.08.2011 Integração do deficiente 02 01.08.2011 História do Paraná 04 01 01.08.2011 Educação do deficiente 04 02 mental 01.08.2011 História da Educação 59 03 do deficiente 01.08.2011 Educação Especial no 16 04 Brasil 01.08.2011 Educação do deficiente 16 no Paraná 01.08.2011 Educação Especial no Paraná 01.08.2011 Educação do Excepcional no Paraná 01.08.2011 História da Educação Especial no Paraná 01.08.2011 História do Deficiente no Paraná 01.08.2011 Integração do Deficiente no Paraná 02.08.2011 Educação Especial 230 9 03.08.2011 Educação Especial 245 10 04.08.2011 Educação Especial 210 10 Total 785 38 FONTE: Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações. Disponível em: http://bdtd.ibict.br/, acesso em 2011. Anexo 2 – Alguns Cursos e Seminários Promovidos para Formação/Qualificação de Professores formados/qualificados na área da Educação Especial Década de 1970 Ano Cursos e Seminários 139 qualificados em cursos pelo Centro Nacional de Educação Especial (CETEPAR). 1976 1977 1979 Participou da organização do Seminário sobre Planejamento da Integração no Atendimento ao Excepcional, realizado na cidade de Foz do Iguaçu. Nesta participaram estudiosos de renome nacional sobre a temática. Esse seminário tinha como objetivo o planejamento da educação especial para o MEC e para as unidades federativas. Fonte Paraná, 1977, p.7 Paraná, 1977, p. 7 -8 1.109 participantes de cursos Paraná, 1979, p. XVI Especialização de Professores para Atendimento aos Cegos e Deficientes da Visão, com a duração de 220 horas. Paraná, 1978, p. 10 Especialização de Professores para o Ensino Especial, com 760 participantes. Paraná, 1978, p. 10 Seminário intitulado Treinamento sobre Estimulação Precoce, realizado na cidade de Londrina. Paraná, 1978, p. 10 Dois Seminários intitulados Treinamento sobre Habilitação Profissional do Deficiente Mental, realizado, em Curitiba, sendo o público alvo os profissionais da 21ª. MicroRegião do Estado do Paraná. Paraná, 1978, p. 10 2 cursos de treinamento na área da educação especial para 221 professores. Paraná, 1982, p.139 Anexo 3 – Demonstra a realização de alguns Cursos e Seminários Promovidos para Formação/Qualificação de Professores formados/qualificados na área da Educação Especial Década de 1980. Ano Cursos e Seminários 02 cursos de treinamento na área de educação especial para 161 professores. 1980 Fonte Paraná, 1982, p.139 Implementação de 15 cursos de estudos adicionais ‘para o Ensino Pós-Escolar e Educação Especial em 04 municípios, que tem a previsão de beneficiar no ano de Paraná, 1981, p. 78 1981 cerca de 500 egressos de 2° grau. 1981 1 curso de treinamento na área da educação especial para 80 professores. 1982 2 cursos de treinamento na área de Educação Especial atendendo 98 professores Paraná, 1982, p.139 Paraná, 1983, p. 147 Anexo 4 – Demonstra a relação de Cursos promovidos pelo DEE por área de Deficiência no ano de 1978 Área da Deficiência Visual Curso Quantidade de aluno atendido Período Telefonista Datilografia Artesanato e Macramé 5 32 06/11 a 30/11 08/11 a 19/12 10/11 a 20/01/79 CENESP/DEE/SENAC DEE/APADEVI/PIPMO DEE/IPC/PIPMO Cabeleireiro e Manicure 9 18/09 a 30/12 Desenho Básico Cartazismo 4 4 08/09 a 20/09 25/09 a 06/10 DEE/CENESP/ Escola Linda de Cabeleireiros CENESP/DEE/SENAC DEE/CENESP/SENAC 1 11 14 29/08 a 08/10 08/09 a 20/09 23/10 a 24/11 23/10 a 24/11 DEE/CENESP/SENAC DEE/CENESP/SENAC DEE/CENESP/PIPMO DEE/CENESP/PIPMO 3 01/08 a 29/09 DEE/CENESP/SENAC 1 12/09 a 21/10 15/08 a 06/09 DEE/CENESP/SENAC DEE/CENESP/ SENAC 29/08 a 08/12 04/09 a 17/10 DEE/CENESP/SENAC Convênio DEE/CENESP/ 01/08 a 30/09 DEE/CENESP/INSTITUTO TÉCNICO CURITIBANO 01/10 a 31/12 DEE/CENESP/INSTITUTO TÉCNICO CURITIBANO Auditiva Mental Área de Deficientes Físicos não Sensoriais Convênio Datilografia Desenho Básico Ajudante de Costura Marceneiro Auxiliar Iniciação em Serviços de Escritórios Secretário Auxiliar Caixa de Supermercado Datilografia Auxiliar de Contabilidade Eletricista 1 1 2 1 1 Eletrônica 1 Fonte: Paraná, 1979, p. 14-16. Anexo 5 – Demonstra alguns investimentos da Educação Especial na Década de 1970 Ano Valor CR$ Cr$ 3.000.000,00 Cr$ 1.000.000,00 1976 Descrição A SEEC dispensou esse valor para 60 a instituições que ofertavam o serviço de escolas de classes especiais. FUNDEPAR auxilia com esse recurso financeiro 15 instituições que ofertam Fonte Paraná, 1977, p. 8 Paraná, 1977, p. 14 educação para “excepcionais” Previsão de custeio para a construção da Escola para “Surdos-Mudos” Cr$. 7.459.873,18 denominada de Centro de Reabilitação de Audição e da Fala Paraná, 1977, p. 45 Cr$ 2.237.340,00 Previsão dos equipamentos necessários . Cr$ 2.000.000,00 Atendimento à 19 escolas especiais Paraná, 1978, p. 19 Atendimento à 65 instituições particulares que ofertam programas de Cr$ 5.100.000,00 atendimento para “excepcionais” em forma de subvenção social. Além de apoio Paraná, 1978, p. 9 técnico-administrativo e pedagógico. 1977 Cr$ 1.980.000,00 A SEEC destinou esse valor em bolsas de estudos com verba oriunda de convênio com o MEC. Foram 1.371 bolsas de estudos que beneficiaram alunos Paraná, 1978, p. 10 da educação especial que estavam matriculados em 40 instituições, sendo 9 em Curitiba e 31 de municípios do interior do Estado Cr$ 1.772,00 As atividades profissionalizantes da Escola de Recuperação de “Surdosmudos” gerou uma receita nesse valor, a qual é contabilizada na receita do I.A.M. Paraná, 1978, p. 62 Cr$ 2.800.000,00 1978 1979 Sem especificação Atendimento a 21 escolas especiais. Paraná, 1979, p.32 Conclusão da construção da sede do Centro de Reabilitação de Audição e da Fala, ficando com capacidade para atender 140 menores, na idade de 3 a 9 anos de idade. Paraná, 1979, p. XVIII Com o apoio financeiro do DAE/MEC a SEEC disponibilizou 2.453 bolsas de estudos à alunos de ensino especial. Paraná, 1980, p. 50 Anexo 6 - Demonstra alguns investimentos da Educação Especial na década de 1980 Ano Valor CR$ Descrição Fonte Sem especificação 149 convênios assinados com escolas da rede particular, o que beneficiou Paraná, 1981, p. 95 16.866 alunos do Pré-Escolar, 1.° e 2.° Graus e do Ensino Especial. SEED empregou esse valor em 82 instituições escolares estaduais de 78 Cr$ 10.300.000,00 municípios, no atendimento a 149 classes especiais, abrangendo cerca de Paraná, 1981, p. 99 5000 educandos. 1980 Cr$ 6.000.000,00 Cr$ 15.500.000,00 SEED efetivou pagamento de professores de classes especiais beneficiando 22 escolas estaduais. Paraná, 1981, p. 99 Por meio de apoio financeiro do MEC a SEED distribuiu 5.544 bolsas de estudo, beneficiando 2.782 alunos do Ensino Especial, 2.068 alunos do 1.° Paraná, 1981, p. 102 Grau. e 704 alunos do 2.° Grau, das redes de ensino estadual e particular. Cr$ 19.800.000,00 1981 A SEED/ DEE disponibilizou subvenções para 86 instituições privadas, distribuídas em 62 municípios. A FUNDEPAR disponibilizou esse valor para pagamento de professores Cr$ 20.000.000,00 especializados, como auxílio financeiro, para 86 escolas particulares especializadas no atendimento a alunos “excepcionais” Sem especificação De acordo com a política de atendimento a educandos de 1º graus e de educação especial a SEED disponibilizou, por meio de convênio, a cedência Paraná, 1982, p. 150 e 160 Paraná, 1982, p. 150 e 160 Paraná, 1982, p. 156 de 103 professores para regência de classe, a escolas da rede privada.. CrS 20.000.000,00 1983 Cr$ 35.000.000,00 Valor empregado pela SEED/DEE nas subvenções de 89 entidades de 63 municípios que atuam na educação especial. Valor empregado pela FUNDEPAR em 37 escolas especiais, como auxílio financeiro para pagamento de professores especializados. 1984 “Gratificação especial de 50% sobre os vencimentos a 576 professores e especialistas de educação de escolas ou turmas de educação especial.” Paraná, 1983, p. 157 Paraná, 1983, p. 157 165 Paraná, 1985, p. 64 e Anexo 7 - Demonstra o número de atendimento de alunos “excepcionais” em 1978 Serviços Quantidade de alunos “excepcionais” atendidos 4.157 Escolas e Programas Especiais Classes Especiais 799 411 Salas de Recurso Em Ensino Itinerante Total Fonte: Paraná, 1979, p. 16. Deficientes Visuais 43 Deficientes Físicos não Sensoriais 35 No Serviço de Educação de Deficiente da Audição 34 5.479 Anexo 8 - Demonstra alguns dados quanto a triagem e avaliação na década 1980 Ano 1981 1982 1 Número de alunos Município 3.4911 26 5.837 Fonte Paraná, 1982, p. 149-157 Paraná, 1983, p.157 De acordo com o relatório apresentado no ano de 1982, no decorrer do triênio de 1979 a 1981, 12.980 alunos passaram pela triagem e avaliação na rede estadual de ensino, para serem encaminhados, quando necessário, para o atendimento especializado. (PARANÁ, 1982, 149). Anexo 9 Fonte: Paraná, Secretaria de Estado da Educação - Departamento de Educação Especial. Fundamentos teórico-metodológicos para a Educação Especial. Curitiba/PR, 1994.p.13. Anexo 10 Fonte: Paraná, Secretaria de Estado da Educação - Departamento de Educação Especial. Fundamentos teórico-metodológicos para a Educação Especial. Curitiba/PR, 1994.p.14.