PERSPECTIVAS DO JORNALISMO
Quem lê tanta notícia?
O jovem universitário e o jornal impresso
RESUMO
O artigo apresenta um estudo sobre uma possível relação de um elenco de valores e problemas, apresentados
por jovens universitários, com os temas veiculados pelo
jornal impresso. Destaca a tematização em torno de
campos de problematização moral, enfatizando que o
jornal impresso articula diversos temas em torno de seu
público leitor, configurando uma situação circular em
que o jornal procura atender ao anseio de um determinado público, ao mesmo tempo em que o leitor busca
determinado jornal por sua linha editorial. A opinião
do jovem universitário é constituída a partir de um
processo individual de reelaboração e de um repertório formado por fontes de diferentes procedências, de
posições e contraposições.
PALAVRAS-CHAVE
jornal impresso
mídia
modos de endereçamento
ABSTRACT
This article presents a study about a possible relation of
a list of values and problems showed by the newspaper
and presented by graduated young. It highlights the fields
of moral problem themes, emphasizing that the printed
newspaper articulates various themes around its readers,
setting up a circular situation in which the newspaper
tries to reach the needs of a specific public and, at the same
time, the reader search specific newspaper by its editorial
line. The opinion of the young university is made from
an individual process of redesigning and from a repertoire
made from different sources, from positions and differences.
KEY WORDS
newspaper
media
mode of address
Maria Apparecida Campos Mamede-Neves
Professora do Departamento de Educação da PUC - Rio/RJ/BR
[email protected]
Stella Maria Peixoto de Azevedo Pedrosa
Coordenadora Central de Educação a Distância da PUC - Rio/RJ/BR
[email protected]
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Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 40 • dezembro de 2009 • quadrimestral
O sol nas bancas de revista
me enche de alegria e preguiça.
Quem lê tanta notícia?
Eu vou...
(Alegria, Alegria - Caetano Veloso).
Nossos estudos iniciaram quando indagamos a 1.202
jovens universitários, recém ingressos nos três Centros
que compõem a estrutura acadêmica da PUC - Rio:
CCS (Centro de Ciências Sociais), CTC (Centro Técnico
Científico) e CTCH (Centro de Teologia e Ciências
Humanas), quais seriam os principais valores e
problemas da juventude nos tempos atuais (MamedeNeves; Wilmer; Pedrosa, 2003).
Na ocasião, foi levantado um elenco de valores
e problemas que se colocavam como sendo um em
contraponto ao outro, articulados entre si em diversas
modalidades. Os jovens viam a urdidura dos valores
morais intensamente articulada à vivência dos
problemas, guardando assim correspondência entre
eles (Mamede-Neves; Vidal; Wilmer, 2003). Dois anos
depois, a pesquisa foi replicada dentro do mesmo
universo estudantil. Confrontados os resultados com
os da pesquisa anterior, observou-se que guardavam
uma constância que garantia a consistência estatística
dos dados coletados. No ano seguinte, ainda dentro
do mesmo campo empírico, foi indagado aos jovens
universitários sobre os fatores que consideravam
mais decisivos nessa construção moral. De forma
significativa, ao lado da família e de seus grupos de
convivência, foi apontada a importância da mídia.
Consideramos, então, que esta era uma situação que
merecia ser pesquisada. Assim, o grupo investigativo¹
tomou, como tema da próxima pesquisa, uma nova
questão central: que tipos de articulação poderia haver
entre a mídia e o posicionamento dos jovens em relação
ao campo da problematização moral, espaços sociais de
reflexão e ação, de produção e reprodução da cultura
moral, nos quais se origina um saber normativo e guias
que norteiam o comportamento; espaços que pautam
a experiência de cada um e de todos (Puig, 1995;
1998). A perspectiva de Puig, assumida pela equipe
de pesquisadores, procura a clarificação de valores
no desenvolvimento de uma personalidade moral,
construída pelo acúmulo de experiências que se faz até
que seja alcançado um espaço homogêneo de vivências
e controvérsias, de idéias, códigos e valores, a par do
de atitudes e práticas que pautam e problematizam a
vida sócio-moral.
Com relação aos meios de comunicação de
massa e às redes comunicativas, Puig afirma que
“além de oferecer vários problemas impossíveis de
serem experienciados diretamente, ou problemas
Quem lê tanta notícia? O jovem universitário e o jornal impresso • 68 - 76
desconhecidos, o que veiculam se relaciona com tudo
o que ocorre nos meios habituais de vida dos sujeitos”
(1998, p.160). Ainda que Puig não tenha se detido em
um estudo teórico mais aprofundado deste conceito,
sua proposta se mostrou frutífera em termos de base
conceitual, pois o autor imbricou valores e problemas,
mutuamente constituintes e constituídos, avançando
no estudo da construção do juízo moral de um sujeito.
O jornal foi apontado pelos jovens universitários
em todas as suas formas: escrito (impresso e on-line),
falado (rádio) e televisado. Porém, o jornal impresso
permanece em uma privilegiada posição dentre outras
tecnologias. Graças a sua assincronia, não existe
hora determinada para lê-lo e a sua estrutura física
permite que seja transportado e lido em diferentes
lugares. Na divulgação do fato, enquanto o rádio e a
TV são quase instantâneos, o jornal impresso dispõe,
por sua dinâmica, de um tempo para ser mais crítico.
Em virtude do aprofundamento das informações
e da continuidade do debate que proporciona, o
jornal impresso mantém sua importância no cenário
midiático.
Diante da pertinência de dispensar atenção à mídia
como elemento de influência na adoção dos valores e
enunciação de problemas do jovem, tomou-se como
linha de ação investigar o jornal impresso, um dos
mais antigos meios de comunicação, não só porque
sua importância permanece, senão também pela
perenidade que garante seu potencial como fonte de
pesquisa. O reconhecimento dado a sua idoneidade é
ressaltado quando um jornal é citado como referência
de algum fato ou informação. A expressão corrente
“deu no jornal”, título de uma obra de Caldas (2002),
ratifica que esta mídia está sendo distinguida como
uma fonte abalizada e confiável.
O jornal aborda, em suas temáticas, alguns campos
de problematização moral e, como um fenômeno
comunicacional enfatiza alguns pontos, enquanto
ignora outros; por outro lado, ao mesmo tempo,
articula diversos deles em torno de seu público leitor,
constituindo um dos elementos no forjamento dos
valores e dos problemas da juventude. Quando o
jovem internaliza determinado tema a partir do jornal
impresso, na verdade de qualquer outra mídia, existe
um juízo de valor, em função de sua inserção na
sociedade, isto é, segundo o que tange a sua situação
pessoal e o seu grau de interesse (Pedrosa; MamedeNeves, 2004).
Por isso, na pesquisa realizada, um dos objetivos
era verificar a possível relação entre os valores e os
problemas apontados pelos jovens e as manchetes
dominantes na mídia, no momento em que eles
emitiram suas opiniões. Em verdade, abriram-se
dois caminhos metodológicos: a análise dos assuntos
predominantes na mídia no momento da pesquisa
de campo, procurando-se verificar se as matérias
publicadas nas diferentes seções do jornal tinham
alguma relação com as temáticas levantadas pelos
jovens e a verificação da opinião dos jovens em relação
à possível influência, sobre suas próprias posições
quanto ao que estava sendo discutido na mídia.
Para tal, foram analisadas todas as edições diárias
de O Globo, apontado em todos os momentos da
pesquisa como o diário de maior circulação entre os
universitários. Tomando como referência as respostas
a um questionário em que os jovens universitários
delinearam os valores sociais e os problemas da
juventude, foi pesquisado se as matérias publicadas
nas diferentes seções do jornal, durante os três
meses que antecederam à aplicação do questionário,
tinham alguma relação com as temáticas levantadas
nas respostas. Esse estudo indicou a necessidade
de se buscar uma alternativa original para o
desenvolvimento de uma metodologia de pesquisa que
atendesse a essa demanda, ou seja, que fosse adequada
à análise de mídia escrita em relação aos campos de
problematização moral.
O jornal aborda, em suas
temáticas, alguns campos de
problematização moral e, como
um fenômeno comunicacional
enfatiza alguns pontos, enquanto
ignora outros; por outro lado,
ao mesmo tempo, articula
diversos deles em torno de seu
público leitor, constituindo um
dos elementos no forjamento
dos valores e dos problemas da
juventude
No que se refere à seleção das reportagens de
cada edição, foram levantadas algumas questões.
A primeira delas referiu-se ao critério de seleção de
matérias, se haveria a tendência a ser compatível, em
termos absolutos, com resultado da pesquisa anterior.
Concluiu-se que não, pelo fato de que o levantamento
foi realizado em cima de um conjunto de matérias
publicadas em determinado período, todas foram
selecionadas em termos qualitativos a partir das
temáticas levantadas pelos jovens, o que inviabiliza
uma seleção tendenciosa em termos² quantitativos.
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Após a localização das edições diárias impressas
do jornal O Globo, dos três meses que antecederam
à pesquisa exploratória, foram fotocopiadas, em
sua íntegra, as matérias que tratavam de temas
relacionados àqueles levantados pela pesquisa e a
primeira página (capa) de todos os exemplares daquele
período. Reunido o material para análise, foi utilizado
um roteiro para seu estudo. Nele foram considerados
pontos fundamentais no campo da comunicação
o que, além de contribuir para a estruturação da
metodologia necessária, foi de especial relevância para
a identificação de questões que surgiram nas etapas
posteriores da pesquisa.
Como ponto de partida foi tomado o estudo da
diagramação, pois
Seja em jornalismo ou em publicidade [...] o design
gráfico se insere pelo fato de que a apresentação visual
tem papel essencial (e cada vez mais preponderante)
em qualquer meio impresso que tenha como função
primordial a comunicação (Villas-Boas, 1998, p. 40).
Além de esboçar previamente a disposição
dos elementos que compõem cada página, como
fotografias, títulos, textos, ilustrações, anúncios,
etc. (Silva, 1985; Erbolato, 1981), ou seja, delinear a
apresentação estética do conteúdo, a diagramação
de um jornal tem como propósito as circunstâncias,
objetivos e motivações da publicação. Os elementos
básicos da diagramação podem ser subdivididos em:
corpo de texto e agrupamento de frases e períodos;
codificação icônica do texto imagético (fotografias e
ilustrações); espaços preenchidos e vazios da página;
linhas de composição tipográficas que formam os
boxes e destaques de matérias e anúncios (Silva, 1985;
Collaro, 1987).
Na composição visual, diversos fatores são
considerados, tais como, distribuição do texto,
ilustrações, títulos e elementos gráficos. Fotos e
ilustrações, componentes importantes para atrair o
leitor ao conteúdo do jornal, e “aliadas a posicionamento
correto na página, são passos importantes para o
sucesso gráfico de um tablóide” (Collaro, 1987, p.
85). Em geral, devem conter a essência da mensagem,
traduzindo o conteúdo do texto e registrando um
instante da ação, permitindo que ele seja “visto” ao
invés de “lido”, auxiliando a “decifração mais fácil
para os leitores de diferentes níveis culturais” (Sodré,
1985, p. 52).
Textos escritos e iconográficos complementamse, o que faz com que, usualmente, apareçam juntos.
Contudo, há momentos em que existe uma estrita
separação entre os dois. Ao mesmo tempo em que a
fonte visual se transmite sem a mediação verbal, o
que torna a sua compreensão mais instantânea, ela se
esgota muito rápido, requerendo um complemento
de outras linguagens (Leite, 1998). Ou seja, o leitor
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primeiramente compreende a fotografia para depois
se deter em sua explicação e no seu prosseguimento.
Ao mesmo tempo, como ressalta Moles, nos meios
da imprensa: “a legenda comenta a imagem que,
sozinha não é totalmente entendida. A imagem ou
figura comenta o texto e, em alguns casos, a imagem
até comenta a sua própria legenda” (Moles apud
Santaella; Winfrield, 2001, p. 55).
A fotografia tem diversos significados; cabe ao
leitor a escolha daqueles aos quais se detém em certo
momento (Barthes, 1984). Quando há, lado a lado, um
texto e uma imagem, não se tratam de duas mensagens
diferentes, mas de uma nova interpretação que se dá
a partir dessa disposição (Bardin apud Santaella e
Winfrield, 2001). Diversos aspectos que se destacaram
na análise dos jornais foram abordados pelos jovens
por ocasião dos grupos focais, uma das técnicas de
investigação qualitativa incluída na pesquisa.
Estes encontros foram gravados em vídeo e
transcritos posteriormente. Assim, as colocações
surgidas nos grupos, bem como as respostas aos
questionários e os dados colhidos nos exemplares de
jornais foram analisados em conjunto. Particularmente
em relação ao jornal, foram levados em conta: estrutura
visual (layout), temática (modos de endereçamento),
estrutura narrativa (intencionalidade) e impacto
pessoal. Esses itens, balizadores da investigação, foram
separados apenas didaticamente para organização dos
registros da investigação.
A partir dos depoimentos, constatou-se que a
maioria desses jovens lê o jornal a partir das manchetes,
elementos que, juntamente com as fotos, mais atraem a
atenção desse leitor. Grande número deles lê somente
as chamadas dos jornais, sobretudo, as da primeira
página. Embora o jornal impresso seja de transporte
muito fácil, os tempos e os locais da leitura são
flexibilizados e, por isso, nem sempre é garantia de
que o jovem o tem em mãos.
Para alguns, a leitura restringe-se ao exposto nas
bancas ou ao exemplar de assinante de sua família
ou de algum vizinho, sem possibilidade de ler aquilo
que mais lhes interessa. Ou seja, a leitura limita-se às
manchetes, à primeira página do jornal. Entretanto,
também não é raro que, a partir da chamada e da leitura
do fragmento localizado na capa do jornal, o leitor
decida se a matéria que se encontra no interior será lida
ou não, se deve ou não comprar o jornal, etc. Assim
sendo, ler as manchetes da capa do jornal, mesmo
que apressadamente, a caminho da universidade ou
do trabalho, é uma forma de inteirar-se, ainda que
superficialmente, sobre principais acontecimentos do
momento e “dá ao receptor a segurança de ter o que
dizer, de poder interagir, de pertencer a um sistema
comum de consumo” (Barros Filho, 1996, p.28).
As matérias publicadas na capa, na primeira página,
servem como iscas para que as pessoas comprem o
jornal e, muitas vezes, algumas manchetes são escritas
Quem lê tanta notícia? O jovem universitário e o jornal impresso • 68 - 76
de modo dúbio. As chamadas de primeira página,
como forma de atrair o leitor, trazem as notícias
ordenadas de acordo com o valor jornalístico atribuído
a cada uma delas e expõem parte de seu conteúdo
interno com o objetivo de leitura da reportagem na
íntegra. São a vitrine do jornal. Por isso, em diferentes
veículos, uma mesma notícia pode ou não ter uma
chamada na primeira página e, além disso, pode ter
diferentes proporções (Ferreira Júnior, 2003).
Nos jovens que foram objeto da pesquisa, foi
verificado que é o interesse subjetivo deles que move
seu modo de ler o jornal. A leitura não é feita de forma
seqüencial, mas sim com uma ordenação hipertextual,
lendo os conteúdos de maneira interativa e escolhendo
as partes consideradas mais interessantes a serem
lidas. Além de não precisar ser uma leitura contínua,
eles percebem que não existe uma necessidade ou
uma obrigatoriedade de ler o impresso por inteiro. Em
geral, com diferentes elementos levados em conta, a
leitura concentra-se nos cadernos que mais os atraem
nessa leitura: determinadas seções, certas editorias ou
assuntos.
O exemplo abaixo3 é bastante representativo desta
situação:
– Vocês citaram o jornal. Vocês lêem o jornal todo
dia?
– Sim, todos os dias.
– Na verdade eu leio a primeira parte e depois eu vou para
o caderno dos esportes.
– Eu olho o que quero e depois eu leio o que me interessa.
– Eu olho o primeiro caderno e vejo o que me interessa nas
outras páginas.
– Alguém aqui começa pelo outro lado?
(risos)
– Eu começo pelas colunas do segundo caderno, depois
eu volto.
Também quando o acesso ao jornal é na própria
residência, a força da primeira página é evidenciada.
Vejamos estes exemplos:
– Todo dia chega o jornal lá em casa. Eu pego dou uma
olhada e vejo o que me interessa.
– Por onde começam a dar “essa olhada”?
– Eu começo pela primeira página.
– Primeira página, também.
– Eu começo pelo esporte, depois cultura, depois se eu
tiver tempo vou para as outras partes.
– Em geral, começo pelo segundo caderno.
A análise das editorias indicou a predominância
de temas voltados a problemas – não a valores –
relacionados aos que os jovens haviam apontado,
como a política aviltada, a violência, os problemas
da cidadania, o emprego (falta de) e a dificuldade
financeira. Interessante destacar que a pesquisa da
ANDI – Agência de Notícias dos Direitos da Infância
– ao mapear os temas mais tratados em publicações
direcionadas para os jovens, apontou como os mais
citados: artes, educação, agenda, cultura, protagonismo
juvenil, direitos, comportamento, formação profissional,
esportes, moda, beleza e lazer. De modo geral, são estes
os temas que ganham espaço no Segundo Caderno e
em cadernos especiais tais como Jornal da Família, Boa
Chance, Megazine, Rio Show, etc.
A significação da imagem mereceu especial atenção.
Ao perguntarmos aos jovens universitários sobre o que
mais sobressai no momento em que se deparam com o
jornal, a maioria relata que a fotografia, independente
do que nela esteja apresentado, faz com que eles se
detenham mais demoradamente, reforçando que
“imagens cumprem o papel das manchetes de jornal,
apontando ou sublinhando a questão estudada” (Leite,
1998, p. 38).
– No jornal impresso, quando vocês olham o jornal,
o que atrai vocês?
– O título, o tamanho da matéria, a foto...
– A imagem, a foto (responde a maioria)
– Se for de violência também?
– Ai então você olha, a primeira coisa que vai sair é uma
foto enorme assim no jornal da pessoa morta.
Outro aspecto, mais específico, refere-se ao texto
com “foto de artista”. Este seria o principal ponto dos
temas que apareceram nas tipologias estética, sucesso
e prestígio. Os artistas servem como referencial de
sucesso, apresentando modelos de padrão estético,
guias de valor para os jovens. Política/economia,
desigualdade social e dificuldade financeira
destacaram-se pelo número de fotos e boxes (quadros
anexos à matéria com notas explicativas ou breves
depoimentos), indicando um tipo de apresentação
com forte tendência em tratar esses temas de forma
alarmante. Como aponta Lage (1993, p.18):
Muitos leitores continuam sensíveis às manchetes
fortes, aos fios pesados, à arrumação das
páginas em camadas horizontais. O pressuposto
de que tais elementos não têm função é meia
verdade: racionalmente seriam desnecessários;
emocionalmente, não são [...] A supressão de
componentes emocionais no projeto gráfico
supõe um domínio da razão, uma “frieza” que é
superficial [...] O equilíbrio de formas é, por um
lado, arbitrariamente apoiado na numerologia
pitagórica [...] por outro, nega espaço à expressão de
admiração e espanto, que continua sendo decisivo
para o consumo de informações jornalísticas.
Não se pode afirmar se a maior constância ou o
maior destaque de determinadas temáticas se dá em
função do público leitor ou da linha editorial. Ao que
parece, trata-se de uma situação circular em que o
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jornal procura atender ao anseio de um determinado
público, ao mesmo tempo em que o leitor busca
determinado jornal por sua linha editorial (Pedrosa;
Mamede-Neves, 2004). Possivelmente, essa forma de
apresentação tem por objetivo atrair o olhar, seduzir
e, conseqüentemente vender. Ao que parece, existe
uma relação, entre o modo como essas temáticas são
apresentadas e o modo como aparecem nas falas dos
jovens.
– Quando vocês vêem o jornal o que atrai mais? O
título, a foto, ou o tamanho da matéria?
– Depende, quando a foto é forte atrai mais. Uma vez
tinha uma foto na 1ª página no jornal o Globo de um
motorista de ônibus, sentado, todo molhado de álcool, em
estado de choque, depois que eu vi aquela foto do cara todo
desesperado, aí eu olhei a manchete do lado e aí dizia que
tinham colocado álcool nele e iam queimá-lo quando a
polícia chegou. Neste sentido a foto chama mais atenção,
mas geralmente é a manchete.
Percebe-se que a foto chama a atenção quando
o evento abordado é o que pode ser chamado de
“chocante”; neste caso a imagem “diz mais” que as
palavras. Em se tratando de um jornal, as fotografias
apresentam-se como texto, como um “flash” de
informação, às vezes, muito mais intricado e revelador
que o próprio texto. Por isso, as fotos de violência e
as de estética estão entre aquelas que atraem mais.
Porém, quando não concretiza aquilo que o indivíduo
está lendo, a foto não chama tanta atenção e nesses
casos o texto é mais atrativo.
– A imagem para vocês, a foto, tem influência? Ela
chama atenção?
– Eu normalmente vou pelo texto, pela chamada mesmo.
Isso ocorre porque o valor informativo da fotografia
varia de acordo com o assunto em pauta. O impacto
e a mensagem trazidos por determinada imagem
decorrem da natureza da informação. Traçando um
paralelo com Aumont, quando afirma “um mapa
rodoviário, um cartão postal ilustrado, uma carta de
baralho, um cartão de banco são imagens cujo valor
informativo não é o mesmo” (1993, p. 80), também o
valor informativo das fotos jornalísticas são variáveis.
Em geral, fotos relacionadas a temas como estética,
turismo e violência possuem não apenas um apelo
visual mais intenso do que as relacionadas à economia
ou política, por exemplo, como também maior
possibilidade de constituírem uma narrativa.
Também relevante foi o estudo do modo de
endereçamento, freqüentemente aplicado nos estudos
do cinema (Ellsworth, 2001), mas que pode ser
transposto para qualquer outro meio de comunicação.
Basicamente, este conceito levanta questões que,
transpostas ao jornal e a seu leitor, assim podem ser
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apresentadas: supostamente, quem é o leitor deste
jornal? Quem este jornal pensa que é seu leitor? Ou
ainda, quem o jornal quer que sejam seus leitores?
Portanto, são considerados o posicionamento, real ou
expresso, do leitor e, também, o do jornal, supondose que este tenha ou pretenda ter um posicionamento
próprio, esclarecendo a discussão acerca de que os
jornais hoje não assumem uma posição própria, ao
contrário do que ocorria anteriormente.
Estas questões apontam para a intencionalidade
da mídia, quer no alcance de seu leitor, quer em uma
possível influência sobre ele. Esta intencionalidade
dirige-se não apenas a um leitor, mas a diversos deles,
ou seja, para um grupo que não pode ser caracterizado
pela homogeneidade. Então, um mesmo jornal, uma
mesma notícia ou mesmo tema apresentam um
alcance diferenciado em relação a cada leitor. Isso
tanto significa que, se por um lado não existe uma
neutralidade no que o jornal veicula, por outro, seu
enfoque não pode ser caracterizado como direcionador,
pois são múltiplas as respostas a uma mesma matéria,
por exemplo.
– E se vocês tivessem que responder aquele
questionário da época, quais os valores e problemas
da juventude atual? A resposta de vocês estaria
influenciada pelo o que diz o jornal, a mídia escrita?
– Eu acho que não. Estaria marcado pela minha vivência,
pela minha opinião[...] pelo que eu acho, que eu vejo, pelas
pessoas com que eu convivo e, também, pelo que eu sinto
de diferente.
– Eu acho que a mídia é um meio que nos informa, então
assim, querendo ou não a gente pode até dizer que o nosso
senso crítico, o nosso ponto de vista tem relação com as
nossas experiências. Mas que no final eles influenciam
sim. Por exemplo, eu gosto de uma revista[...] Pelo fato de
eu gostar, ela vai me influenciar. Eu até posso achar que
não está dizendo a verdade, mas no final sempre vai ter
uma coisa que eu vou achar[...] Que tem algo que eu ainda
não havia pensado.
Torna-se, então, fundamental que se discuta
a mediação e que se considere que, além da
intencionalidade expressa, outras podem se dar
inconscientemente. O ato comunicativo, fundamental
permite ressignificações do texto, reelaborações de
sentido, não necessariamente conclusivas, se é que
podem ser conclusivas, gerando um dinâmico campo
de discussão. Esta mediação se dá pelo modo direto
do jornal e, indiretamente, através da comunicação
entre leitor/leitor e leitor/não-leitor. Aqueles que não
lêem jornal ficam sabendo das notícias pelo boca-boca,
no papo da esquina, na conversa de bar, isto é, em
diferentes locais nos quais, informalmente, circula a
notícia.
– Circula, mas aí [...] não que no jornal saia a verdade,
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mas a gente parte do princípio que o jornal está dizendo
a verdade. É aquela velha história: quem conta um conto
aumenta um ponto. Ela pode circular, mas ela talvez não
circule de forma tão verdadeira quanto ela é.
– Você [refere-se a um dos colegas] está falando que a
mídia é boa, a mídia é má, Eu não tenho uma opinião
formada sobre isso. Eu acho que a partir do momento
que você coloca alguma coisa na mídia, como tem muita
gente vendo, cada um vê de um jeito, com sua própria
interpretação, o que está sendo mostrado . Então ela vai
ser má para algumas pessoas, ótima para outras, então
tudo vai ser uma coisa muito relativa, não tem como você
pegar um enfoque, se ela e má, se ela não é, ela vai sempre
ser má e boa ao mesmo tempo, vai ter sempre meio que um
paradoxo, uma coisa meio estranha. Mas às vezes também
eu acho que [nome do jornal] não é tão bom assim.
– Tem dois lados. Acho que da mesma maneira que você
está fazendo bem, você está fazendo mal [...] Eu acho que
da maneira que eles querem, eles manipulam, hoje em
dia, a televisão. A [nome da rede] mesmo manipula um
pensamento da pessoa, o gosto.
Indagados sobre qual seria a função do jornal, foi
destacada a função informativa por vários dos jovens
em respostas como as da seguinte seqüência:
– Informar.
– Em geral o objetivo é informar os acontecimentos que
afetam de alguma forma na sociedade.
– E aí você pega esta informação misturada com seus
valores e forma uma crítica.
Portanto, a informação não é soberana, a informação
é vista como um elemento para a crítica, com base nos
valores de cada um. Embora, inicialmente, os jovens
dissessem que a função do jornal seria informar,
depois, avançaram para a idéia de que seria relatar
o fato, destacando que não se informa somente o
fato, mas que se contextualiza o fato, que se evoca o
entorno. Consideravam o momento histórico local,
como reflexo no ponto de vista da informação, dos
efeitos sociais, das causas e das conseqüências e que,
sem essas considerações, muitas vezes se pende mais
de um lado ou de outro.
Um dos jovens exemplificou com o seguinte
comentário:
– A história não é gerada por pessoas, que ficam
arquitetando as coisas... Ah não! A inquisição não
aconteceu porque todos os padres eram maus e estavam
matando [...]. Eles acreditavam naquilo, eles pensavam
que realmente aquelas pessoas eram hereges. Você passa
que “aquilo” é uma verdade, sem saber o que realmente
se passou.
Portanto, mais do que um direcionamento, para este
segmento consultado, o jornal deve buscar ampliar
as possibilidades de leitura do mundo, de modo a
obter um alcance que permita estabelecer um diálogo
a partir de diferentes enfoques, pois são múltiplos
os olhares sobre a realidade. Assim sendo, dentro
da categoria “estrutura narrativa”, foram tomados
como indicadores prévios da “intencionalidade”,
os encontrados na pesquisa anterior. Entretanto,
dificuldades pontuais em relacionar algumas matérias
aos indicadores levaram a equipe à necessidade de
redefini-los, algumas vezes reunindo-os e outras,
desmembrando-os.
Os indicadores de intencionalidade que nortearam
a análise foram: alertar, alardear, denunciar, discutir
(polêmica), informar, conscientizar, ironizar, orientar,
propagandear (política), promover, questionar. A
escolha pela definição de indicadores para o controle
da suposta “intencionalidade” do jornal foi tomada
buscando-se obter a possível “visão invertida” sobre
a mídia – ou seja, o objetivo não foi a visão dos
“receptores” das mensagens, mas a “dos bastidores”
– do local onde são abrigados os produtores das
notícias. O distanciamento oferecido por este campo
analítico permitiu perceber a variação do peso que os
temas recebem, de acordo com a entonação atribuída,
ou seja, de acordo com a intencionalidade com que são
divulgados.
A coletânea de todas as matérias selecionadas
foi classificada, de forma concisa e sistemática,
considerando-se os indicadores temáticos mais
significativos na pesquisa base: cidadania, estética,
liberdade, relações afetivas, drogas, família, melhoria de
vida, sexo/gênero, desigualdade social, fome, publicidade,
“vida moderna”, dificuldade financeira, justiça/injustiça/
impunidade, propaganda política, violência, desemprego/
emprego, lazer.
Os
questionários
respondidos
mostraram
considerações qualitativas que podem ser feitas a
partir de tais indicadores, pois, afinal, são os mesmos
jovens que reclamam em seus depoimentos escritos
da ditadura da moda, da ditadura da estética, da
dificuldade de conseguirem o primeiro emprego, da
falta de tempo para a prática de esportes, ou seja, eles
criticam o que é considerado, à primeira vista, como
sendo um valor.
Todos os jornais têm uma editoria geral, que trata
de assuntos mais corriqueiros, coisas triviais, de “todo
dia” e que se renovam como o próprio jornal. Para
conhecer quais os temas que estavam sendo veiculados
com maior ênfase no jornal naquela época da pesquisa
foi aberto o indicador “Editoria”, dentro da categoria
“Temática”. Considerava-se que conhecer quais são as
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Maria Apparecida Campos Mamede-Neves e Stella Maria Peixoto de Azevedo Pedrosa • 68 - 76
mais familiares aos jovens, as que eles acompanham ou
lêem com mais freqüência ou, ainda, as que despertam
maior interesse abria uma via para estudos sobre as
possíveis influências das editorias sobre os campos de
problematização moral.
Outro aspecto observado foi o da proximidade
entre o local e o global. O interesse pelo local foi maior.
Isso pode ter se dado pela necessidade de conhecer
o que ocorre em determinados pontos da cidade,
principalmente pela questão da violência, para que se
possa tomar outros caminhos ou decisões.
– Uma vez que você está lendo uma coisa, você pode ou
vai tomar aquilo como verdade para você. Você vai agir de
acordo com o que você leu. Por exemplo: se alguém chega
e fala que está tendo um tiroteio na Nossa Senhora de
Copacabana. É óbvio que você vai se proteger e vai passar
pela praia para se proteger.
A aparente finalidade da informação seria a de
orientar ou reorientar a experiência socialmente
vivida pelo receptor. Porém inexiste tal poder. Se os
meios de comunicação em geral não “moldam” os
jovens, não se pode negar que a sua influência atinge
valores individuais. Porém, esta influência não é
determinante, significa apenas um dos elementos de
um conjunto que constitui um processo dinâmico da
rede de mediações existente no cerne das sociedades.
Portanto, apenas reforça ou nega, acrescenta ou reduz
o significado de determinadas questões já inseridas no
contexto sociocultural.
A análise da informação, em função das intenções
do comunicador e não apenas em termos estéticos, foi
realizada no sentido de que “essa intencionalidade
condiciona [...] as relações entre o produtor da obra
e o consumidor, gerando uma mensagem bastante
específica”(Sodré, 1985, p.19).
Quando
apontaram,
como
apresentado
anteriormente qual era a função do jornal, a mais
citada foi:
– Informar.
– Em geral o objetivo é informar os acontecimentos que
afetam de alguma forma na sociedade.
– E aí você pega esta informação misturada com seus
valores e forma uma crítica.
Um deles complementou:
– Eu acho que a cada dia mais tem um papel que não é
só o de informar que a notícia é essa, é o de mostrar o
que significa. Não adianta nada falar aconteceu isso, se
as pessoas não têm nem idéia do que se trata. Acho que a
cada dia mais o jornal tem o papel de mostrar o contexto.
Para o estudo do impacto pessoal das matérias
jornalísticas, não era possível se ter a posição de todos
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Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 40 • dezembro de 2009 • quadrimestral
os jovens. Assim sendo, optou-se por formar um
grupo de juízes, composto por alunos de graduação,
alunos de pós-graduação e alguns voluntários jovens.
Cada notícia foi analisada individualmente por
mais de um dos elementos do grupo, de diferentes
“tipos”, mantendo-se uma heterogeneidade que
garantisse o balanceamento das posições e diminuísse
a subjetividade da análise.
Observamos que o impacto gerado pelos meios de
comunicação é apreendido de diferentes modos o que
reporta a Eco (2001), quando este autor contrapõe os
“apocalípticos” e os “integrados”. Também verificamos
que o impacto diminui com a repetição das notícias;
o que seria a função narcotizante apontada por Merton
e Lazarsfeld (2002) como efeito da mídia nas atitudes
e nas perspectivas, conseqüência de uma constante
exposição a determinadas informações. O jovem,
apesar de conhecer uma série de problemas cotidianos
e discutir possíveis linhas de ação para resolvê-los,
sente-se afastado de da possibilidade de contribuir
para uma ação social. Assim, pouco a pouco, aquelas
notícias inicialmente impactantes perdem sua força e
diluem-se entre outras.
Em todos os grupos focais, o impacto pessoal
esteve presente em combinação com os modos de
endereçamento. Três passagens, em diferentes grupos,
ilustram nossa afirmação.
Grupo 1:
– Será que a gente é passiva diante da mídia? Só
recebendo?
– Isso depende da classe social da pessoa.
– O pessoal de renda menor é manipulado sim, e o pessoal
mais de classe alta tem capacidade de criticar o que está
vendo, o que está recebendo.
– Mas isso é questão de educação, eu acho.
– Mas isso entra em questão de renda que quem tem mais,
tem melhores condições de oferecer.
Grupo 2:
– Estamos querendo saber se vocês acham que a
mídia desempenha um papel significativo nessa
tomada de valores e problemas.
– Eu acho que desempenha sim, principalmente nas
camadas mais populares, mais baixas. Não que as camadas
médias e as camadas altas não sofram influência, porque
aí depende muito do tipo de educação que cada um teve e a
partir do momento que você já tem uma base de educação
e hoje em dia já é sabido que a camada baixa, a camada
pobre pelo menos tem um aparelho de TV na sua casa,
pode morar onde for, mas a TV está sempre presente e eles
só tem acesso a essa TV que é a TV aberta. Eu acho que
é o que mais os influencia porque é a influência da vida
que eles tem. O único acesso que eles tem desse mundo
exterior, é através da televisão.
Quem lê tanta notícia? O jovem universitário e o jornal impresso • 68 - 76
Grupo 3:
– Às vezes. Eu não vou dizer que eu estou fora desse
sistema, porque eu acho que é muito difícil sair desses
sistemas. Você acaba sim, você fala que não, você é contra,
mas quando você vê, você já tá tendo uma atitude ou uma
gíria que está dentro da novela, da televisão e tal. Eu acho
que hoje em dia é muito difícil você sair porque é muito
grande isso, você acaba sendo obrigada a viver nesse
sistema, entre aspas, claro que não, mas eu acho que de
uma cera maneira, esses programas de fofoca, acho que só
existem porque tem gente para assistir. – Novela só existe
porque tem gente para assistir. Então acho que isso tudo
tem porque as pessoas gostam de assistir, porque, de uma
certa maneira manipulam as pessoas e as pessoas acabam
gostando.
– Ela falou uma coisa ali que o baixo nível da nossa
programação estaria internamente ligado ao baixo
nível intelectual.
– Falta opção, falta de condições também, porque a TV a
cabo tem “n” opções.
Mas não são todos que tem “acesso a [...]” É uma exclusão
também. É meio que uma exclusão social também. Quem
não pode ter uma TV a cabo, não pode pagar, é obrigado
a ver.
A influência do jornal é marcante em temas sobre
os quais o jovem tem menor domínio, para a resposta
de novas questões. À medida que o tema faz parte da
vida do jovem, que as questões relacionadas não lhe
são estranhas, a influência é reduzida.
Embora as novas mídias tenham
forte presença do cotidiano dos
jovens, nossa pesquisa ratifica a
permanência do jornal impresso
como fonte de informação
para o jovem
Existe uma circulação de mensagens porque cada
pessoa retransmite suas leituras a muitas outras,
sobretudo àquelas com que compartilha um repertório
comum. Portanto, é natural que entre os jovens circulem
informações proveniente das mais diferentes fontes,
para o que contribuem “os meios de comunicação
ao darem forma àquilo que está disperso e latente,
oferecem às pessoas um mínimo denominador comum
de temas sobre os quais conversar” (Barros Filho, 1996,
p. 28).
Apesar do advento do telejornal e mais recentemente
do jornal on-line, o jornal impresso mantém uma
posição consolidada sobressaindo-se por sua
expressão de análise, pois graças ao “tempo” entre
o fato e a notícia, pode apresentar opiniões diversas
contribuindo ainda mais para a polêmica. Os temas
que transitam nos meios de comunicação são os que
transitam na sociedade. O tema pode ser apresentado
sob diferentes abordagens, atendendo ao enfoque
predominante do grupo.
Do telejornal, da leitura de notícias em sites da
internet ou do jornal impresso podem surgir a pauta
de um debate ou de uma reflexão conjunta sobre as
notícias veiculadas. Efetivamente, os temas levantados
aparecem no jornal impresso, embora não apenas nele.
O jovem universitário apropria-se das informações
que lhe concernem e reelabora as notícias através
do seu ponto de vista. A partir deste delineamento,
configuramos a opinião como produto de um processo
individual de reelaboração de informações de
diferentes procedências, de posições e contraposições.
A compreensão é alcançada por jovens que mesmo
quando pensam juntos e sob as mesmas circunstâncias
sociais, posicionam-se com base em um repertório
próprio.
Embora as novas mídias tenham forte presença
do cotidiano dos jovens, nossa pesquisa ratifica
a permanência do jornal impresso como fonte de
informação para o jovem. A partir da análise das
discussões dos grupos, verificamos que a mídia
participa no processo de construção de valores, não
como fator determinante, mas como dinamizadora
para a reelaboração e confirmação dos valores dos
jovens.
Muitas reflexões ainda poderão ser feitas a partir da
análise dos grupos focais, pois, como um hipertexto, a
cada estudo se abrem novos caminhos investigativos.
Esperamos que as considerações, aqui sucintamente
apresentadas, possam contribuir para outros estudos
na área, já que não pretendemos esgotar o tema e nosso
objetivo maior é construir novos espaços de discussão.
Afinal, quem lê tanta notícia? FAMECOS
NOTAS
1 O grupo de pesquisa que se constitui é o Jovens em
rede, certificado pelo CNPq, locado no Departamento de Educação da PUC - Rio, com a coordenação
da Profª. Dra. Maria Apparecida C. Mamede-Neves
e, na época da pesquisa, tendo como consultor o
pesquisador Dr. Fernando Vidal, do Max Planck
Institut Für Wissenschaftsgeschichte, de Berlim, na
Alemanha.
2 Neste artigo, a metodologia adotada está sendo apresentada de modo sucinto, entrelaçada ao texto, priorizando os aspectos mais relevantes para a presente
discussão. Para uma descrição mais detalhada ver
Mamede-Neves, Pedrosa e outros (2003) e MamedeNeves; Pedrosa ; Figueiredo (2007).
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Maria Apparecida Campos Mamede-Neves e Stella Maria Peixoto de Azevedo Pedrosa • 68 - 76
3 Todas as colocações dos jovens foram fruto das discussões em grupos focais realizados, pela equipe de
pesquisa, com estudantes dos três Centros Acadêmicos da PUC - Rio.
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