Carreira, Família e a Dialógica Do Assujeitamento: O Discurso Vigente De Uma Revista Popular De Negócios Autoria: Andrea Poleto Oltramari, Bibiana de Paula Friderichs, Gabriela Remor Resumo Há uma série de pesquisas acadêmicas sobre assuntos relacionados à gestão em mídias populares de negócios que possibilitam uma visão do discurso gerencial popularmente disseminado na atualidade. O objetivo deste artigo é de compreender como tal modelo gerencial se revela na revista Você S/A, sob a luz das categorias carreira e família. A principal oferta feita ao leitor manifesta-se através de uma série de receituários no que concerne a solução dos dilemas relativos às categorias de análise, cuja decisão de prioridade, de um lado, fica a cargo do empregado, e do outro, já está predeterminada pela condição de seu assujeitamento. 1 1 Introdução Há uma série de pesquisas acadêmicas sobre assuntos relacionados à gestão em mídias populares de negócios, especialmente em revistas, e que vem possibilitando uma visão do discurso gerencial popularmente disseminado na atualidade. Segundo Wood Jr. e Paula (2002) essas publicações objetivam serializar e modelar trabalhadores de acordo com as necessidades do mercado. Para isso, mais do que informações objetivas sobre o contexto social do mundo dos negócios, fornecem aos leitores instruções sobre como ser ou como atuar, caso algum deles deseje tornar-se rapidamente um “empresário responsável por si mesmo” (GAULEJAC, 2007). Num mundo pautado pela velocidade, pela fluidez e pela efemeridade das relações, sejam elas profissionais ou pessoais Bauman (2001) refere que não há tempo a perder com o lento processo de construção e de reconhecimento tanto por parte da empresa quanto do sujeito. É preciso, portanto, forjar a subjetividade para que seja uma resposta imediata à determinada demanda, exibindo as qualificações e o perfil esperado por ela (BAUMAN, 2001). Por isso, sob o ponto de vista do profissional, nos dias que correm agravados pela redução dos postos de trabalho e pela crescente automação dos processos de produção, “dicas, compradas na banca mais próxima”, de como entrar e se manter no mercado de trabalho, parecem ser um apelo irresistível, a garantia de um presente promissor. Mas sob outra perspectiva, a epistêmica, a do pesquisador, estes mesmos conteúdos podem ter diferentes significados, e evidenciar as características de uma gestão gerencialista (GAULEJAC, 2007), que busca, também por meio do discurso midiático, consolidar-se como modelo predominante de comportamento. Esse é um dos aportes teóricos que sustenta o presente artigo. Seu esforço é de compreender como tal modelo gerencial se revela na revista Você S/A (de 2009 a 2012), sob a luz das categorias carreira e família. É importante ressaltar que outras pesquisas já foram realizadas considerando diferentes temas, tais como: carreira e sucesso (SANTOS, GRISCI, TEIXEIRA, MACHADO e GOMES, 2012); representações do corpo (ECCEL, GRISCI e TONON, 2010); sofrimento psíquico no trabalho (FLACH, GRISCI, SILVA e MANFREDINI, 2009) e sobre o tempo e espaço do trabalho (FREZZA, GRISCI e KESSLER, 2009). Optou-se pela análise da temática carreira e família, porque tais estudos têm sido recorrentes na academia e vêm apresentando os dilemas pessoais relativos à tentativa de equilíbrio entre carreira e família. Não obstante, mesmo que a existência de dilemas não se mostre inédita na academia, em revistas populares de negócios esse olhar se mostra ainda escasso e vem sendo publicado em proporções abundantes. Agrava-se o fato de que a tiragem da revista em análise em março de 2013 foi de 175.576 mil exemplares, 103.865 mil assinaturas, 29.127 mil vendas avulsas, totalizando uma média de 513.518 mil leitores (VOCÊ SA, 2013). Tendo em vista a grande circulação da revista e seu modo prescritivo de apresentar como deve ser a condução da carreira e aos dilemas relativos à vida familiar realizou-se uma análise de conteúdo, com base em Bardin (1979), que envolveu 48 edições da referida publicaçãoi. Após a análise, de modo geral, foi possível identificar que o caráter prescritivo do conteúdo apresentado por Você S/A se confirma, tal qual indiciava a revisão teórica realizada a priori. Mas, para, além disso, e particularmente, também se observou que a principal oferta feita ao leitor manifesta-se através de a uma série de receituários no que concerne a solução dos dilemas relativos às categorias de análise, cuja decisão de prioridade, de um lado, fica a cargo do empregado, e do outro, já está predeterminada pela condição de assujeitamento do mesmo em relação ao comportamento gerencialista. Não se constatou abertura para reflexões ou questionamentos. As críticas encontradas não transcendiam uma perspectiva dicotômica, 2 tal como mensagens que se traduziam em “fatores de fracasso ou sucesso, indicadores positivos ou negativos” (GAULEJAC, 2007). Também foi possível observar, que a abordagem adotada pela revista no que diz respeito ao binômio já destacado, propõe a supervalorização da aparência e do bom-humor, em detrimento da revelação das dificuldades e dos sofrimentos que são genuínos ao processo de tomada de decisão pelo qual passa o profissional na construção de sua carreira. Por meio de mensagens simplificadas e, portanto, esvaziadas da complexidade de seu contexto, as reportagens e seções apresentam um modelo ideal de decisão; modelo este reconhecido pelas organizações e que, consequentemente, deve ser seguido pelo trabalhador. Estas considerações apresentam inúmeros desdobramentos, revelando o enredamento do cenário objetivado o presente artigo foi organizado da seguinte forma: inicialmente aborda discussões acerca da gestão e da subjetividade; na sequência contempla aspectos teóricos sobre a gestão gerencialista (GAULEJAC, 2007), que remete ao projeto de cada indivíduo tornar-se gestor de sua própria vida, fixar-se objetivos, tornar seu tempo rentável, e gerenciar a família também nessa perspectiva. Ainda, nesta etapa, surge a reflexão sobre os dilemas contemporâneos, especialmente no que se refere à construção da carreira e seus reflexos nas relações familiares. Posteriormente são esclarecidos os aspectos da realização da pesquisa no que se refere a informações sobre a revista em questão e os procedimentos de investigação. Em seguida são apresentados os resultados encontrados na pesquisa, através de uma análise crítica e, por fim, as considerações finais. 2 Gestão, Subjetividade e Mídia Popular de Negócios O culto à empresa, que teve seu ápice nos anos 1980, provocou várias transformações na sociedade através da difusão massiva dos discursos e práticas de gestão, que contribuíram para a formação de uma sociedade managerial, como caracteriza Chanlat (2000). Nesta sociedade, o sistema de descrição, explicação e interpretação do mundo passou a ser feito a partir de categorias da gestão, com o uso frequente da linguagem administrativa, como: produtividade e performance. Desta forma, observou-se uma racionalização de todas as esferas da vida social e pessoal e que se apresentam especialmente em revistas de negócios. Espaços como casas, escolas, universidades, hospitais passaram a ser administrados como empresas, assumindo papel competitivo no mercado de negócios. A ascensão da perspectiva administrativa na sociedade foi fortalecida pelos processos de globalização, privatizações, fusões e aquisições, alianças estratégicas, joint ventures e reengenharia de processos, que transformaram os locais de trabalho em ambientes de livre mercado, estimulando a competitividade e transformando-se em lugar propício ao crescimento individual. O efeito a curto prazo do empreendedorismo foi a melhoria da competitividade econômica nos mercados internacionais dos países que o adotaram. Além disso, o operário deixa de ser aquele que produz bens materiais para investir na produção de bens intangíveis tais como sentimentos de confiança, segurança e conforto em relação a seus consumidores, mobilizando características que lhes são inerentes, como inteligência, criatividade, tomada de decisão e capacidade de relacionamento. Assim, com o intuito de manter-se ‘na mira’ das grandes corporações, os indivíduos buscam nas revistas de negócios os meios de tornarem-se atraentes ao mercado de trabalho. E essas revistas, por sua vez, através das reportagens, entrevistas e publicidade, indicam modos de ser, vestir e agir, tentando garantir que os trabalhadores se comportem da forma esperada pelas empresas. A mídia, tal como existe hoje em dia, tem um papel de destaque na produção de subjetividades, visto que estas são essencialmente fabricadas e modeladas no registro do social. Ou ainda, segundo Tiburi (2011) a mídia tem o papel de (de) subjetivar o indivíduo, 3 referindo-se a retirar possibilidades autênticas de relacionamentos, liberdade, outrora conquista pelos sujeitos. O que é produzido pela subjetividade capitalística, o que nos chega através da mídia, da família, enfim, de todos os equipamentos que nos rodeiam, não são apenas ideias; não são a transmissão de significações através de enunciados significantes; nem são os modelos de identidade (...). São, mais essencialmente, sistemas de conexão direta, entre, de um lado, as grandes máquinas produtoras de controle social e, de outro, as instâncias psíquicas, a maneira de perceber o mundo (GUATARRI e ROLNIK, 2005, p.67). As formas de construção da subjetividade variam. Pelbart (2000) define a subjetividade como algo que não é abstrato, trata-se da vida, mais precisamente, das formas de vida, das maneiras de sentir, amar, perceber, imaginar, sonhar, fazer, mas também de habitar, de vestir-se, de se embelezar, de fruir, etc. Em sistemas tradicionais, a subjetividade é fabricada por máquinas mais territorializadas, na escala de uma etnia, de uma corporação profissional, de uma casta. Já no sistema capitalístico, a produção é industrial e se dá em escala internacional (GUATTARI e ROLNIK, 2005). A cultura de massa tem como objetivo internalizar ou interiorizar as políticas, os valores, os modos de ser, modos de trabalhar, que interessam aos donos das corporações. Os detentores de poder, a grande máquina capitalística, produz uma subjetividade inconsciente. Acredita-se que aquele que não dedicar muitas horas de trabalho não será reconhecido; que aquele que não abrir mão de sua vida pessoal em prol da empresa, não será recompensado. Dessa forma, aos poucos, a subjetividade dos indivíduos é desenvolvida, ou forjada, com base no sistema de submissão dissimulado, de assujeitamento, e, então, os empregados se tornam cada vez mais seres de fácil manipulação. Segundo Bauman (2005), a modernização, a tecnologia e a globalização produziram um efeito colateral da construção da ordem e do progresso econômico: a produção do “refugo humano”. Refugo humano, ou seres humanos refugados, constituem-se de indivíduos excessivos e redundantes ao planeta, ou seja, aqueles que não pertencem, que não se adéquam à nova ordem mundial, aqueles seres que estão sobrando, que não serão aproveitados pelas empresas, pelo Estado, ou pelos próprios indivíduos. A produção de “refugo humano”, ou, mais propriamente de seres humanos refugados (os “excessivos” e “redundantes”, ou seja, os que não puderam ou não quiseram ser reconhecidos ou obter permissão para ficar), é um produto inevitável da modernização, e um acompanhante inseparável da modernidade. É um inescapável efeito colateral da construção da ordem (...) e do progresso econômico (que não pode ocorrer sem degradar e desvalorizar os modos anteriormente efetivos de “ganhar a vida” e que, portanto, não consegue senão privar seus praticantes meios de subsistência) (BAUMAN, 2005, p. 12). Há sempre uma incerteza em relação ao futuro, as pessoas estão se tornado cada vez mais dispensáveis dentro das organizações. Bauman (2001, p. 185), afirma que, no mundo do desemprego estrutural, ninguém pode sentir-se verdadeiramente seguro. Não há muitas habilidades e experiências que, uma vez adquiridas, garantam que o emprego será oferecido, e que, uma vez oferecido, será durável. Segundo Lazzarato e Negri (2001), o trabalho do operário é um trabalho que implica sempre mais, em diversos níveis, capacidade de escolher 4 entre diversas alternativas e, portanto, a responsabilidade de certas decisões, dentre elas as que dizem respeito à família. Hoje em dia, é a alma do operário que deve descer à oficina. É a sua personalidade e sua subjetividade, que deve ser organizada e comandada. A qualidade e a quantidade do trabalho são organizadas em torno de sua imaterialidade. A energia e tempo que antes era despendido com a família é transformada em capital (GAULEJAC, 2007). Para o indivíduo não resta mais nem tempo, nem força, nem disponibilidade para outra coisa, para encontrar “o sentido das palavras, o sentido de seu desejo, inventar uma existência para si mesmo” (GAULEJAC, 2007, p. 176). A gestão de si mesmo, no sentido de apresentar a prova sua rentabilidade é o imperativo da contemporaneidade. E os dilemas que envolvem as decisões relativas aos caminhos a serem trilhados são complexos e delicados. Conforme Pelbart (2000, p.34): Não se trata mais de adaptar-se ou obedecer a normas, mas de consumir serviços ofertados, que vão desde a dieta até a vida sexual e esportiva. O sujeito não mais se submete a regras, mas ele as investe, como se faz um investimento financeiro: ele quer fazer render, seu corpo, seu sexo, sua comida, ele investe nas mais diversas informações para se rentabilizar, para se fazer render , para fazer render o seu tempo. É nesse sentido que os leitores das revistas populares de negócios consomem notícias e fazem uso delas para resolver seus dilemas. 3 Gestão Gerencialista, Carreira e Família Para Bauman (2007a) diante de um dilema “não há, então, uma boa escolha. Mas é exatamente isso que você é pressionado a fazer pelo ambiente em que tenta compor sua vida. Qualquer escolha que você faça, está arranjando confusão” (BAUMAN, 2007a, p. 142). A escolha, portanto, em uma situação de dilema, não é um exercício de liberdade. As pessoas não foram consultadas para que, antes da escolha, pudessem colocar em pauta as possibilidades dos caminhos a serem seguidos. A constante é que “a responsabilidade em resolver dilemas gerados por circunstâncias voláteis e constantemente instáveis é jogada sobre os ombros dos indivíduos – dos quais se espera que sejam ‘free-chosers’ e suportem plenamente as consequências de suas escolhas” (BAUMAN, 2007b, p. 10). Associados aos dilemas estão as formas de controle instituídos pelas organizações, atreladas ao poder gerencialista (GAULEJAC, 2007). O poder gerencialista é, segundo o autor, um sistema de organização manifesta que se constitui em uma ideologia traduzida nas atividades humanas por indicadores claros de desempenho. O poder gerencialista constrói uma representação do capital humano como um recurso a serviço da empresa. Tal apropriação do indivíduo pela empresa produz subjetividades (GUATARRI e ROLNIK, 2005), que dizem respeito à glorificação da autonomia no trabalho, traduzidas por empreendedorismo ou agentes de sua própria vida; à obsessão por metas e à rentabilização de si e do corpo, a voracidade, como desejo impetuoso e insaciável (BLEICHMAR, 2008), dentre outros. Nesse sentido, o poder gerencialista atua fortemente em relação às categorias carreiras e família. Ao normatizar comportamentos dos trabalhadores e incentivar a obsessão por metas, ele também atua sobre a intimidade privada da vida familiar, já que facilmente o trabalhador terá de adentrar além do horário contratual de trabalho para executá-lo. Essa “visão” conforta o sentimento de que o sucesso da empresa depende antes de tudo do 5 comprometimento de todos (GAULEJAC, 2007, p.85), inclusive de todos os membros da família. Gaulejac (2007) ao citar Frédéric Engels (1884) apresenta a evolução sobre os modos de produção e os estilos de autoridade na esfera familiar. O sistema feudal era fundado sobre a dominação dos senhores sobre os servos, e esse por sua vez, na mesma lógica, teria tendência de se comportar como um senhor em relação a sua mulher e seus filhos. No sistema capitalista industrial havia a dominação das grandes empresas sobre os proprietários, e esses por sua vez se comportavam como patrões no seio de sua família. Com o desenvolvimento do capitalismo financeiro, entretanto, as principais características do poder gerencialista se encontram no núcleo familiar. Assim, os dois membros do casal vão colocar junto seus capitais econômicos, cognitivos, relacionais e culturais a fim de, os investir duravelmente na empresa familiar. Não somente o homem, nem a mulher se consagram em relação a suas carreiras, mas tal relação conjugal deve ser igualitária em relação ao sucesso de suas vidas profissionais. Não obstante, o que se tem percebido é um gerenciamento das formas de conduzir tais decisões, tal como se apresenta em revistas populares de negócios. Gaulejac (2007) refere que a lógica do poder gerencialista transborda seu campo e coloniza toda a sociedade. Hoje tudo é gerenciado – as cidades, as administrações, as instituições, mas igualmente a família, as relações amorosas. Para o autor é uma cultura do alto desempenho e que institui um clima de competição generalizada e põem o mundo sob pressão. Isso acarreta de certa maneira o esgotamento profissional, o estresse e o sofrimento no trabalho. Não é comum, entretanto, tais discussões virem à tona em revistas de negócios, especialmente porque, em geral, elas trazem uma noção de sucesso que se sobrepõem ao bem estar familiar. Ituassu e Tonelli (2012, p.210) corroboram com a noção de sucesso divulgada nas revistas de negócios e dizem que ela está “relacionada, predominantemente aos aspectos materiais, como renda e riqueza, além de elementos como reconhecimento, prestígio, status”. O desejo tanto do trabalhador quanto o de sua família por sucesso na carreira acarretam em escolhas, tais como Oltramari (2010) apresenta. Em relato de familiares verifica que os mesmos preferem ficar mais tempo longe do executivo, mas terem mais possibilidades financeiras e manterem o status que a profissão permite. Tais escolhas se associam a vida líquida, a que Bauman (2007a) refere. Pensar a relação entre carreira e família implica associá-la a sociedade líquidomoderna, apontada por Bauman (2009). A vida líquida é uma vida de consumo e, portanto, de descarte, de esquecimento, de substituição rápida e de laços frouxamente atados (BAUMAN, 2004). A sociedade do descarte, que Bauman (2007a) e Harvey (2004) identificam, significa mais que descartar; significa desvalorizar e/ou desconstruir estilos de vida, costumes, valores, relacionamentos, inclusive os familiares, especialmente se eles não permitirem a rentabilização daqueles membros que estão construindo a carreira. A vida líquida, contida na sociedade líquido-moderna é uma vida precária, vivida em condições de incerteza constante (BAUMAN, 2009, pp. 7-8). Gaulejac (2007) aponta que “a própria família está impregnada pelo modelo gerencial. Ela é encarregada de fabricar indivíduos produtivos. A cada período de seu desenvolvimento, o indivíduo deve estabelecer uma contabilidade existencial para demonstrar sua empregabilidade”. Tal empregabilidade deve ser de todos os componentes da família, na qual os filhos são frutos produtivos que futuramente devem ser empregáveis na sociedade, com o amparo do investimento dos pais bem sucedidos, feitos para com eles na infância, pois “se o filho não tem sucesso, é o balanço patrimonial da empresa familiar que se torna negativo. Eles são condenados ao sucesso para evitar a falência” (GAULEJAC, 2007, p.183). Desse modo, as exigências da sociedade líquido-moderna, apontada por Bauman (2007a; 2007b) deixa as relações familiares mais frágeis, suscetíveis a riscos, estresse, e ausência. 6 . 4 Informações Sobre a Revista Você S/A. A escolha da revista Você S/A para a realização deste trabalho se deve a combinação de algumas características relativa à referida publicação que foram mapeadas durante um estudo realizado em 2002 por Wood Jr. e Paula, voltado especialmente para sua linha editorial. De acordo com os pesquisadores a revista possui um conteúdo atraente tanto a jovens aspirantes ao mercado de trabalho como aos veteranos que procuram complementar seu saber-fazer a fim de continuar competindo por uma vaga no mundo corporativo. Mas mais do que isso, o estudo revelou que sua grande aceitação pelo público leitor está relacionada ao caráter de autoajuda adotado pela publicação, que informa como estar no mercado a partir de prescrições de comportamentos. Outro aspecto relevante no que diz respeito a revista também apontado por Wood Jr. e Paula (2002) refere-se ao fato de que esta é uma publicação que bem representa os periódicos populares de gestão no Brasil, cuja linha editorial está voltada para o indivíduo, abordando estratégias e oportunidades de crescimento profissional, ao invés de negócios em geral. O enfoque na administração da carreira, trajetória e qualificação é indicado desde o título da revista. Você S/A foi lançada em 1998, como extensão da revista Exame, que aborda o “mundo dos negócios”. Seus editores perceberam que havia um acréscimo na venda da primeira quando esta apresentava matérias sobre as questões de carreira. Desta forma, decidiram criar um periódico específico para abordar o assunto. Foi assim que nasceu a Você S/A., “considerada como instrumento de auto-ajuda em um contexto em que as pessoas buscam padrões de comportamento”, conforme um dos editores, em entrevista a Wood Jr. e Paula (2002). No processo de definição e desenvolvimento das pautas, ideias são colhidas em toda parte: revistas estrangeiras, livros, matérias de jornais, televisão ou em contato com consultores e pesquisadores (WOOD JR. e PAULA, 2002). Esses auxiliam também na elaboração e redação de temas mais específicos, contribuindo no que se refere ao aspecto técnico, da mesma forma que possibilitam o incremento as vendas, principalmente quando são profissionais renomados, por seu status de especialista ou na condição de “grandes gurus”. De modo geral, a linguagem da Você S/A. é informal, de caráter instrumental, com reportagens sintetizadas e de fácil assimilação. As matérias apresentam a “nova realidade empresarial” como imutável e desafiadora, demandando dos profissionais, a quem se dirige, a capacidade de adaptação e a necessidade de tornarem-se donos de seu próprio destino, como entidades autônomas. Para tanto, apresenta, em tom prescritivo, modelos de profissionais bem sucedidos e apresenta em suas páginas palavras de ordem, chavões, clichês e slogans. Auxiliando a propagação das mensagens, o projeto gráfico privilegia a emissão de informações de maneira bastante acessível, através de tópicos numerados, boxes explicativos, testes, além de figuras e fotos quase sempre caricatas, com intenção de bem humoradas. De acordo com Friderichs (2010), trata-se de um tipo de estrutura narrativa que, se por um lado favorece a organização do relato dedicado ao leitor, uma vez que representa o real recortandoo e nominando-o, por outro também o reduz a fragmentos, reduzindo o discurso a uma única palavra, um estereótipo (o título do box, o número que expressa a ordem de importância do passo tomado), negando a complexidade do conjunto de informações que compõe a reportagem ou seção, e sobretudo, dificultando o estabelecimento da relação de contiguidade que pode existir entre elas. O público da revista, de acordo com uma pesquisa realizada pelo jornal Meio & Mensagem (informações extraídas do site da revista, sessão “quem somos”), é composto por 7 meio milhão de profissionais, jovens executivos que possuem em média 35 anos, em igual proporção entre homens e mulheres. Muitos deles são bilíngües, interessados por tecnologia e pertencentes às classes A e B. 5 Procedimentos de Investigação A sustentação da cultura gerencialista tem como um de seus pilares a mídia de negócios. Isso, porque é por meio do discurso, da linguagem, que este modelo de gestão busca uma mudança de comportamento do sujeito, assujeitando-o a padrões que atendem a expectativa do mercado. O homem só se realiza na linguagem, é através dela que constrói sua subjetividade, e essa linguagem é revestida de um carácter público. Conforme Friderichs (2010) na contemporaneidade esse carácter é particularizado, pela dinâmica de comunicação midiatizada. Como espaço privilegiado do discurso, por meio dela (da mídia), das formas e dos conteúdos que disponibiliza, o homem pode construir novos sentidos sobre a realidade, romper com poderes dominantes, ou realizar a manutenção de velhos paradigmas, reproduzir comportamentos pré-estabelecidos, ceder a pressão dos estereótipos. Baseado nestes pressupostos que o presente estudo analisou os conteúdos apresentados pela revista Você S/A especialmente com relação à temática “família e carreira”, procurando compreender de que forma a lógica do “gestor de si”, ou seja, daquele que é responsável por suas escolhas, sucessos e fracassos, se manifestas a partir dessas temáticas. O corpus de análise contou com 48 edições da referida publicação, veiculadas no período de janeiro de 2009 a dezembro de 2012. Justifica-se a análise de quatro anos porque em determinado momento da pesquisa o assunto tanto não era mais abordado especialmente em 2009, quanto os autores conseguiram material suficiente para estabelecer as categorias de análise. Procedeu-se a leitura de todas as reportagens selecionadas que continham o tema carreira e família. Esta pesquisa caracterizou-se como qualitativa de caráter exploratório e baseou-se no referencial de Bardin (1979) para análise de conteúdo. A análise qualitativa corresponde a um procedimento mais intuitivo, mas também mais maleável e mais adaptável, a índices não previstos, ou à evolução das hipóteses (...) apresenta certas características particulares. É válida, sobretudo, na elaboração das deduções específicas sobre um acontecimento ou uma variável de inferência precisa, e não em inferências gerais. Pode funcionar sobre corpus reduzidos e estabelecer categorias mais descriminantes, visto não estar ligada, enquanto análise quantitativa, a categorias que dêem lugar a frequências suficientemente elevadas, para que os cálculos se tornem possíveis. Levanta problemas ao nível da pertinência dos índices retidos, visto que seleciona estes índices sem tratar exaustivamente todo o conteúdo, existindo o perigo de elementos importantes serem deixados de lado, ou de elementos não significativos serem tidos em conta (BARDIN, 1979, p.115). Portanto, a análise de conteúdo contou com dois momentos: pré-análise do material e análise propriamente dita. A pré-análise contou com a escolha e organização das reportagens a serem analisadas. Em seguida, procedeu-se uma leitura cautelosa às categorias escolhidas (carreira e família), bem como um aprofundamento da análise a partir de autores com objetivo de desconstruir o discurso vigente contido nas chamadas e nos textos das reportagens. 8 6 Análises A partir das categorias carreira e família obteve-se 48 edições da revista Você S/A relativa a quatro anos de publicação. Buscou-se verificar percentualmente como estavam distribuídas as reportagens relacionadas aos temas referidos, desde a primeira edição em 2009 até a última edição em 2012. Nos períodos de janeiro de 2009 a dezembro de 2010, verifica-se o número sutil de reportagens relacionadas aos temas em questão. De modo geral, não se percebe como prática comum da revista abordar tais assuntos. A proposta muda em 2011, com a criação de uma coluna chamada “Agora - Decisão Difícil”. Seu surgimento é responsável por colocar a questão em perspectiva, corroborando com a hipótese de uma forte intenção, por parte dessa revista, em promover o equilíbrio entre a vida pessoal e a vida profissional, além da intenção de controle sobre as decisões do trabalhador e o seu assujeitamento. Tal tendência pode ser observada já nos títulos das reportagens que passaram a compor a seção: “Pró-labore ou CLT?” (2012), “Gestor da casa” (2012), “Intenção clara: falar em entrevista de emprego sobre ter o segundo filho em breve” (2012), “A um oceano do marido” (2012) e “Adeus à ponte aérea” (2011). Ao final do período recortado 33 reportagens ou colunas abordavam as categorias: carreira e família. Entretanto, mais do que referendá-las apontavam para a emergência de subcategoriasii que se apresentavam como dilemas: expatriação versus família, casamento versus carreira, maternidade versus carreira, tempo de dedicação para a família versus trabalho, e, por fim, a escolha entre tornar-se empresário versus ser empregado de determinada empresa. Tais temas abrolharam justamente da relação dialógica que atravessa as categorias a priori e, portanto, apareceram especialmente ligados à questão dos dilemas, ou seja, das situações de conflito ou que, por alguma razão, tornaram-se embaraçosas. Na maioria dos casos os textos propunham um processo de desenvolvimento profissional gerenciado pelo próprio sujeito, podendo ser direcionado de modo que melhor lhe convier, tal como Hall (1996) afirmava em seus estudos sobre a carreira proteana. Também expressavam a necessidade de um constante investimento pessoal, e até mesmo de renúncias e adaptações no âmbito da vida particular da pessoa, demandando do trabalhador uma rede de relacionamentos profissionais. Nesse sentido, ganhou destaque, a abordagem escolhida pela revista no momento de receitar a solução. Aparentemente nenhuma das alternativas encontradas (ou indicadas pelo texto) para os dilemas instalados é satisfatória, no entanto, muitas delas não são apresentadas como comportamentos de sacrifício, mas de investimento, uma vez que o resultado final é o sucesso do profissional e a resolução do conflito, ou a compreensão da família. A exposição desses conteúdos assume, assim, ares de uma estrutura mitológica: apresenta um problema fundador, supostamente de origem e seus desdobramentos, apoiando-se na fatalidade de uma realidade já concebida e, portanto, imutável. Em outras palavras, diante das histórias relatadas nas reportagens, o periódico parece indicar ao leitor a inevitabilidade de determinados conflitos relativos à profissão, especialmente àqueles que desejam a consolidação de uma carreira; e, não oferecendo outras opções, sugere a adoção de um equilíbrio terminal que imobiliza os valores, a vida, o destino, ou seja, só resta ao sujeito endossar a receita. E é sob esta perspectiva que se observa o cenário socioeconômico que propiciou a emergência desses dilemas, configurando-se como um período de intensa ansiedade e insegurança, afetando os trabalhadores de tal forma que eles se constituem como um forte mercado consumidor de publicações no estilo da revista analisada, cuja característica principal é buscar e suprir as incertezas e, ao mesmo tempo, oferecer uma espécie de autoajuda. Não raro as reportagens contêm fórmulas mágicas, regras a serem seguidas e comportamentos modelares que possibilitam a ascensão social. Trata-se de uma narrativa 9 acessada sob a tutela do sucesso, do heroísmo e da meritocracia, que muitas vezes apresenta um pacote de imposições escamoteadas pelos “finais felizes” e que persuadem o leitor pela via da cumplicidade. Um exemplo de particular destaque, neste caso, é título da revista. O pronome, solitário no topo da página, é quase imperativo: “Você”. A partir dele, a voz editorial assume um tom intimidador e intimista, pois não se trata de um convite para olhar o outro, para entender como esse outro se comporta, ou quais valores que ele defende, mas para falar de você – leitor –, este sujeito que folheia a revista. Ela está aqui para dizer o que “Você” deve ser, ou ainda como “Você” deve se comportar diante dos conflitos: não para evitá-los, uma vez que são aparentemente inatos a condição do profissional, mas para resolvê-los da forma mais adequada possível. Há reportagens que apresentam a solução para as dúvidas relativas à carreira e que são ilustradas pelas chamadas “Faça a Escolha Certa” (2011), de modo que ao ler a reportagem o sujeito otimiza e rentabiliza seu tempo, mesmo que de forma superficial. A reportagem “Que caminho Seguir” (2012), também mostra esse objetivo, sendo apresentada sob a forma de três passos sequenciais para a “decisão certa”. Em relação aos dilemas da expatriação versus família, por exemplo, observou-se que os mesmos recaem sobre as dúvidas relativas ao acompanhamento ou não do marido/esposa, e do medo das consequências das mesmas. Qualquer escolha redundava em má escolha, e por fim, foi possível perceber nas reportagens analisadas, que não são apresentadas histórias mal sucedidas. Outro dado relevante observado nas reportagens, é que as decisões relativas a assumir a expatriação ou não variam de 24 horas a três dias. Os textos a seguir ilustram tal dilema: “tivemos da meia noite até a manhã do dia seguinte para decidir.” (2012); “Quando recebi o convite, conversamos por três dias” (2011). O imperativo da velocidade é que rege as decisões e elas, assim como suas consequências, são delegadas única e exclusivamente para as famílias. Portanto, o controle exercido pelas empresas sobre as atitudes e valores dos sujeitos extrapola a vida profissional e invade a vida privada, as relações afetivas, e o dilema casamento versus carreira. Deste modo o trabalho que ocupou toda a vida recai sobre as relações familiares. Dois textos de diferentes reportagens evidenciam tais repercussões: “o preço que pagou por essa rotina enlouquecedora foi o fim de seu primeiro casamento” (2011); “Afastei-me do meu marido e acabamos nos separando” (2011) e “O Trabalho me custou um Casamento” (2011). Nesse sentido, algumas outras observações são possíveis, especialmente no que tange a relação estabelecida entre o amor (algo imensurável e variável de uma pessoa para outra) e o vocabulário gerencial: “o preço que pagou”. A associação remete as reflexões propostas por Bauman (2004) quando aponta para a impensável contaminação do mundo da vida pelo mundo do capital: “A promessa de apreender a arte de amar é a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a experiência afetiva à semelhança de outras mercadorias” (BAUMAN, 2004, p. 25). Além disso, em geral, as reportagens se referem a uma tipologia tradicional de casal, homem e mulher, e de família, nuclear ou biológica, composta por pai, mãe e filhos. Chama atenção, numa análise mais acurada, a ausência de dilemas relativos a famílias monoparentais, que são constituídas quando uma pessoa, que pode ser homem ou mulher, encontra-se sem cônjuge ou companheiro, e vive com uma ou várias crianças, (LEITE, 2003); ou ainda as famílias homossexuais que são compostas por duas pessoas do mesmo sexo, e filhos adotivos, ou de apenas um cônjuge com outro parceiro. Outra reportagem, cujo título era “gestor da casa”, chamava atenção para o dilema vivenciado pelo marido ao ter de abrir mão de sua carreira para acompanhar a esposa expatriada. A brincadeira jocosa “você vai ser dono de casa?” e “vai ficar só na moleza, enquanto a mulher trabalha?” divulga os preconceitos em relação ao trabalho feminino e não 10 abre possibilidades para pensar além dessa perspectiva dicotômica. Tal reportagem ilustra o que Holzmann (2006) classifica como trabalho produtivo e reprodutivo. A divisão sexual do trabalho faz referência ao sexo, de modo que as atividades reprodutivas, como o trabalho doméstico, frequentemente, aparecem associadas às mulheres, e o trabalho produtivo, remunerado e valorizado socialmente, é relacionado aos homens. Já na análise do conteúdo das matérias relativas aos dilemas da maternidade versus carreira em geral, também é possível observar de que forma o modelo de gestão gerencialista pontua o discurso dirigido ao público profissional feminino. Um dos elementos que revela tal posicionamento é a idade das mulheres apresentadas pelos textos, personagens que tem entre os 35 e os 40 anos. No entanto, além desse elemento condicionante, a idade, tal modelo gerencial também pode ser evidenciado, por exemplo, numa reportagem de 2012 em que a personagem explica “a empresa aceitou minha condição [de querer engravidar] e me contratou, mas pediu que deixasse tudo planejado durante meu afastamento” (2012). Neste caso, o poder gerencialista se manifesta em dicas prescritivas de como a mulher deve organizar a sua vida maternal. A mesma reportagem ainda mencionava certo receio da entrevistada em perder seu lugar na empresa, associando a gravidez à perda do emprego. Trata-se de um dos medos frequentemente enfrentados e retratados por Sennett (2006). Para o autor é um temor oriundo do processo de contração e expansão das empresas globalizadas: “a organização incha e se contrai, empregados são atraídos ou descartados à medida que a empresa transita de uma tarefa a outra” (SENNETT, 2006, p.50). Na coluna intitulada Decisão Difícil, a reportagem “Intenção Clara” (2012), que se refere a declaração em entrevistas de seleção sobre a intenção de revelar sobre o plano de ter o segundo filho, apresentava o mesmo receio em ser ou não contratada “sabia que poderia perder a vaga ao contar o meu plano de engravidar naquele mesmo ano, mas não podia deixar de falar isso para a pessoa que estava me oferecendo uma oportunidade e que, de certa forma, estava confiando em mim. Não seria correto”. Outro aspecto revelado pelos textos e reportagens da publicação investigada, é em relação ao dilema: tempo de dedicação para a família versus trabalho, ou melhor, compromissos pessoais ou profissionais e suas respectivas prioridades. De acordo com o discurso gerencialista a preocupação em atender a corporação deve ser sempre maior do que a preocupação em atender as demandas da família: “acho que os problemas da empresa precisam ser respondidos sem demora”, diz uma entrevistada ao explicar o cancelamento de compromissos familiares diante da dificuldade de recusar os “convites da chefia” (2012). Mesmo que isso resulte em sofrimento para a família: “acabei esquecendo que, no meio de um desses dias, seria o meu noivado”, ou para o sujeito: “eu perdi encontros com a família e amigos e fiquei com problemas de saúde” (2012), este é o comportamento que o levará na direção do êxito. Observa-se tal posicionamento uma vez que ao final da narrativa, como numa fábula, o protagonista sempre representa aquele que dá o bom exemplo, um modelo a ser seguido. Sob esta perspectiva ao sujeito trabalhador não lhe é reservada a possibilidade de distinguir entre o que seria o espaço privado e o de trabalho, bem como sua opção por aderir ao projeto da organização. Os valores e premissas da mesma são transmitidos como sendo as únicas verdades que devem ser seguidas e adotadas. Além da adesão aos seus projetos, a organização deseja manter também sob seu controle as formas e os tempos de lazer. Em inúmeras reportagens a sociabilização/interação com os pares está em primeiro lugar, o que permite a empresa manter, através do controle dos espaços frequentados, o controle dos indivíduos, os quais na maioria das vezes não o percebem, pois acreditam que são benefícios oferecidos pelas empresas. Pelbart (2000, p. 26) apóia essa constatação dizendo que “vivemos todos aprisionados, prisioneiros a céu aberto. Isso se deve a várias razões, certamente à maneira como o 11 capitalismo atual invadiu as esferas mais privadas e íntimas da vida humana, desde a fé até o corpo biológico. Não há mais exterior para o capital". As distâncias outrora existentes entre esfera pública e privada hoje são reduzidas a limites tênues, o que muitas vezes torna confuso o tempo que se destina a cada uma delas. A reportagem “Profissionais Supercomprometidos” traz em seu texto a fala de um gerente de vendas “fui ao Rio de Janeiro trabalhar em um projeto e fiquei cinco dias sem sair de dentro da companhia. Acabei esquecendo que, no meio de um desses dias, seria o meu noivado. Assim, a subjetividade em produção, movida pela grande máquina capitalística, vai sendo moldada com a crença de que aquele que não dedicar muitas horas ao trabalho não será reconhecido; que aquele que não abrir mão de sua vida pessoal em prol da empresa, não será recompensado. Dessa forma, aos poucos, a subjetividade dos indivíduos é produzida, ou forjada, com base no sistema de submissão dissimulado e, então, os trabalhadores tornam-se, cada vez mais, seres de fácil manipulação (GUATTARI e ROLNIK, 2005). A fala que vinha após o título Sacrifício mencionava “eu e minha equipe chegamos a ficar 30 horas trabalhando direto, sem dormir”. Tal título e falas estavam inseridos em uma reportagem maior intitulada “Fique Atento” (2011). As reportagens em geral reforçam uma vida familiar aparentemente “resolvida”. Na grande maioria dos casos as famílias aparecem explicitando as decisões e naturalmente adaptadas ao novo contexto. As reportagens mostram elogiosamente famílias que aceitam e estejam empenhadas para o sucesso da sua carreira proporcionada pelas empresas. Em geral, são famílias e carreiras bem sucedidas, apesar dos dilemas enfrentados. Auxiliando a propagação das mensagens, o projeto gráfico emite informações caricaturais, de casais sorridentes. Mais uma vez, os conteúdos explicitados pela referida publicação revelam a ambiguidade da condição desse novo profissional: embora ele tenha o poder de decidir entre a família e o trabalho, entre o trabalho e o lazer - ou até mesmo conceituar por conta própria aquilo que ele chama de lazer -, seu poder está submetido, ou permanece sob a vigília, daquilo que é prescrito pela reportagem, pela empresa e, em última análise, pelo mercado, como a decisão correta a ser tomada. Trata-se então de uma condição de assujeitamento, tal qual o nome da revista já indicia: “Você”. Desse modo, apesar de o leitor ocupar um lugar de protagonismo, pois a revista é produzida em seu nome, ele não passa de um ventríloquo da ideologia gerencialista (GAULEJAC, 2007). Aliás, muitos títulos de reportagens ilustram o que Gaulejac (2007) menciona sobre a sociedade se deixar contaminar por esta posição ideológica. Para o autor “nascida na esfera do privado, a ideologia gerencialista tende a se espalhar nos setores públicos e no mundo não comercial. Hoje, tudo se gere - as cidades, as administrações, as instituições, mas também a família, as relações amorosas, a sexualidade, até os sentimentos e as emoções”. Ilustra-se tal citação com as seguintes chamadas: “Gestor da Casa” (2012); “Casal de Engenheiros [chamada que ilustrava a importância da carreira para o marido e a esposa, e as formas que o casal utilizava para gerir o equilíbrio da vida conjugal]” (2011) e textos “(...) com o casamento ou nascimento do filho, o colaborador tem de saber se planejar. Assim, a correria dos preparativos não pode interferir no desempenho” (2011). Uma leitura atenta da revista permite verificar-se que a separação dos tempos destinados a cada esfera da vida aparece de forma contraditória. Por um lado, é salientado que profissionais com alto nível de dedicação devem manter longas jornadas de trabalho e despender grande parte do seu tempo com contatos (networking) a fim de manter sua empregabilidade. Por outro lado, também é caracterizado como sendo bom profissional aquele que sabe destinar tempo para sua família, para cuidar da sua saúde, fazer exercícios e para manter bons relacionamentos extra-empresariais. 12 Os dilemas relativos às escolhas da carreira apresentados pela Você S/A também dizem respeito às decisões e prescrições entre o Auto-emprego, ou seja, entre a possibilidade de tornar-se empresário e Ser empregado de uma empresa. Neste caso, o posicionamento editorial parece pontual: a escolha pela autonomia, só pode ser justificativa por aqueles que desejam evitar o trabalho intenso, “em busca de uma rotina mais flexível” (2012), como diz uma personagem ao revelar que seu objetivo é “romper com o estresse do emprego anterior”. Embora tenha sido encontrada somente uma reportagem, dentre as 48 edições pesquisadas, sobre a busca por rupturas tanto com o mundo empresarial, quanto com a hipersolicitação pelo trabalho, a mesma se constituiu em destaque, na capa da revista. Sob o título “Cada vez mais profissionais estão abandonando o emprego tradicional. Saiba como fazer esse movimento se você também busca mais realização” (2012), traz uma série de prescrições em relação ao modo de agir para dar conta dessa nova realidade de trabalho. No entanto, mesmo que os personagens da reportagem tivessem saído do mundo corporativo, a rede de contatos, ou o networking, segue sendo citada como um modo de se estabelecer empregável, lógica contida “pelo gestor de si” (GAULEJAC, 2007). Na verdade, esse interesse trata de uma forma de manutenção das redes de relacionamento para a preservação do vínculo em caso de possíveis necessidades. Essa abordagem também revela um movimento cada vez mais comum relacionado ao estresse provocado pelo trabalho: a troca de emprego. Tal fato é indiciado, por exemplo, pelo depoimento de outros trabalhadores: “na empresa que estou agora, às 18 horas o arcondicionado e as luzes são desligados para que todos se lembrem de que o expediente se encerrou” (2012); “ eu perdia encontros com família e amigos e fiquei com problemas de saúde. O restabelecimento de uma rotina equilibrada só veio após a decisão de mudar de emprego” (2012). Adotando essas falas, os textos parecem, então, balizar uma relação entre a mudança de emprego e a possibilidade (irreal) de trabalhar menos que no emprego anterior. Entretanto, alguns estudos têm apontado que gestores levam cada vez mais trabalho para casa, seja checando e-mails, resolvendo problemas mentalmente, realizando treinamentos online (OLTRAMARI, GRISCI e WEBER, 2011). Tais achados convergem com os dados da pesquisa de Tanure, Carvalho Neto e Andrade (2007). Os autores constataram que as novas tecnologias, tais como computadores portáteis, telefones celulares, correio eletrônico, entre outras inovações, não resultaram na redução da jornada de trabalho, mas, sobretudo, no aumento da ocupação do tempo de não-trabalho. As tecnologias invadiram os espaços da vida privada: o lar, o lazer e a intimidade da família. Não há limites entre os espaços pessoal, do trabalho e o social (TANURE, CARVALHO NETO e ANDRADE, 2007; 2006), o que explicaria a complexidade dos conflitos mapeados pela presente pesquisa, que se reproduzem nas páginas da revista “Você S/A”. Conclusões A presente pesquisa analisou como uma revista de negócios representa os dilemas da carreira e família por meio do que veicula em suas reportagens. As representações encontradas foram analisadas em um grupo que se intitulou “carreira e família”, revelando a relação dialógica entre as duas categorias e desdobrando-se em sub-categorias. As representações do investimento do sujeito e da família na carreira reforçam o conceito do poder gerencialista que refere a sua condução (carreira) na lógica de uma rentabilidade sem precedentes. A desorganização da vida familiar, de seus ritmos biológicos, horários irregulares, e da liberdade traduzindo-se em desregulamentação são representações embutidas nas reportagens e que prescrevem um modo de ser e agir, deixando claro que a vida pessoal e familiar deve subordinar-se ao trabalho. Não há, portanto, reserva da intimidade da vida privada e familiar. 13 Trata-se de uma mídia que objetiva serializar e modelar trabalhadores de acordo com as necessidades do mercado e, portanto, disseminar valores como competitividade, falta de solidariedade, imprevisibilidade da vida e carreira, desapego as coisas e pessoas. Ao analisar os diversos tipos de reportagens da revista Você S/A verifica-se uma clareza quanto ao produto oferecido aos seus leitores e o resultado que é esperado obter dos mesmos. Por meio de mensagens claras, bastante objetivas e dicotômicas as reportagens apresentam o modelo ideal de trabalhador considerado pelas organizações. No entanto, embora aparentemente simples, as mensagens distribuídas pela publicação também são desprovidas de complexidade, e desse modo produzem o efeito de natureza no artifício da cultura. Em outras palavras isso significa dizer que, tais conteúdos, ao serem reproduzidos em lugares e sob estruturas diferentes, acabam por consolidar estereótipos que serão assumidos pelo leitor como obviedades inquestionáveis, incorporados ao seu próprio discurso e que conduzirão sua caminhada rumo ao comportamento imaginado, que neste caso corresponde à manutenção da ideologia gerencialista. Há uma noção predominante de que o modelo ideal consiste naquele que resolve mais facilmente os dilemas relativos à carreira e a família. Fato é que a revista traz representações de que problemas familiares não devem ser levados para as empresas. A revista, portanto, legitima a discussão de que família não é um problema nem da empresa, nem da esfera pública, mas sim unicamente do sujeito. Reportagens que apresentam soluções “prontas” para problemas pontuais, que estimulam a competitividade, a obediência e a disciplina estão prescrevendo empregados [homogêneos] e não, formando indivíduos. Aos leitores não cabe refletir sobre o conteúdo apresentado, mas apenas segui-lo para obter “sucesso”. Referências A um oceano do marido. (2011,maio). Você S/A, 24. BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1979. BAUMAN, Zygmunt. A arte da vida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Ed. 2009. BAUMAN, Zygmunt. Vida Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Ed. 2007a. BAUMAN, Zygmunt. Tempos Líquidos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Ed. 2007b. BAUMAN, Zygmunt. Vidas Desperdiçadas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Ed. 2005. BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Ed. 2004. BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2001. BLEICHMAR, Silvia. La construcción del sujeto ético. 1 ed. Buenos Aires: Paidós, 2011. Cada vez mais profissionais estão abandonando o emprego tradicional. Saiba como fazer esse movimento se você também busca mais realização (2012, junho). Você S/A, 33-37. Casal de Engenheiros (2011, outubro). Você S/A, 84. 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Disponível em: http://www.publiabril.com.br/marcas/vocesa/revista/informacoes-gerais i Outros elementos emergiram nas reportagens durante a pesquisa, tais como: prescrições de como gerenciar sua própria carreira; planejamento financeiro familiar ou individual; a voracidade dos jovens para fazer carreira; e, corpo e beleza como fatores de sucesso profissional. Esses elementos, no entanto, não ganharam destaque nas reflexões propostas a seguir, uma vez que extrapolariam o objetivo deste artigo. ii Estas subcategorias serão apresentadas em negrito e letra maiúscula para se destacarem ao serem discutidas pelo presente trabalho. 16