Ficha cartográfica: S62 Simpósio sobre Família: Políticas de Atendimento (1: 2009 maio 6-7: Tubarão, SC) Anais[do] Simpósio sobre Família: Políticas de Atendimento/ Realização UNISUL Curso de Serviço Social. – Tubarão: Unisul, 2009. 133 p.; 21 cm 1. Família. I. Título. II. Universidade do Sul de Santa Catarina. CDD (21 ed.) 301.42 Elaborada pela Biblioteca Universitária da UNISUL Apresentação A centralidade que a família ocupa no processo de organização da vida em sociedade tem se constituído em foco de estudo nas ciências sociais e vem sendo amplamente discutida por inúmeras áreas de conhecimento. Os processos histórico, cultural, social econômico e político que demarcam sua significação e influenciam, em maior ou menor grau, em suas diferentes formas e configurações evidenciam uma complexa rede de interveniências que devem ser devidamente apreendidas para que se consolidem práticas profissionais que gerem uma contribuição efetiva para a sociedade. No atual cenário brasileiro o reconhecimento da família como agente central ao processo de desenvolvimento humano-societário tem sido traduzido no avanço das políticas de direitos. Estas, por sua vez, só são consolidadas por meio da ação consistente de profissionais de diferentes áreas, os quais viabilizam as estratégias por meio das quais os direitos podem ser acessados. Neste sentido, a realização do 1º Simpósio sobre Família – SIMFAM, representou uma iniciativa de atualização desta temática organizada pelo curso de Serviço Social da Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL, objetivando refletir sobre a configuração da família, as diferentes políticas de atendimento e as estratégias diferenciadas de atendimento interdisciplinar. Registramos agradecimentos a todas as pessoas que se envolveram diretamente na organização desse evento e aos participantes pela priorização e estudo de temática de expressiva relevância para os trabalhadores das áreas das ciências sociais e humanas. As contribuições dadas por profissionais e acadêmicas apontaram diferentes questões a serem consideradas pelos que se voltam ao atendimento desse segmento. As sínteses e artigos apresentados neste documento evidenciam estas contribuições. Tubarão, julho de 2009. Elivete Cecília de Andrade Coordenadora do Curso de Serviço Social SUMÁRIO A INSERÇÃO DA FAMÍLIA NO TRATAMENTO PENAL: UM LUGAR DE AMBIGUIDADES Ana Caroline Montezano Gonsales Jardim ............................................................................ 05 FAMÍLIA CUIDADORA: A (RE) ORGANIZAÇÃO FAMILIAR FRENTE AO ADOECIMENTO Iara Mara Moreira Martins, Luciana Basile, Marinez Garlet e Maria Isabel Barros Bellini ... 17 FAMÍLIA E PACTOS SOCIAIS – DOS CONTRATUALISTAS AO WELFARE MIX Izabella Régis da Silva, Priscila Larratea Goyeneche e Telviana Domingues da Silva ........... 29 FAMÍLIAS NO CONTEXTO ATUAL: UMA REFLEXÃO CRÍTICA Mara de Oliveira .................................................................................................................. 47 FORMAÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL E A PRÁTICA COM FAMÍLIAS Maria Isabel Barros Bellini, Renata Bonalume e Emanuelle Volker ...................................... 61 NOTAS ACERCA DAS REDES DE POLÍTICAS SOCIAIS Mariana Pfeifer ..................................................................................................................... 75 AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE: FORMAÇÃO DE COMPETÊNCIAS PSICOSSOCIAIS PARA O TRABALHO COM FAMÍLIAS Marília Pinto Ferreira Murata, Daniel Canavese e Andréa Máximo Espínola......................... 88 FAMÍLIAS KAINGANG NUM ESPAÇO URBANO Marinez Garlet, Maria Isabel Barros Bellini ........................................................................ 104 MINHA VIDA, MINHA HISTÓRIA Roseli Pacheco e Djanete Sales da Silva.............................................................................. 115 PROCESSOS INTERATIVOS JUNTO A ADOLESCENTES EM SITUAÇÃO DE EVASÃO ESCOLAR: UM OLHAR INVESTIGATIVO INTERDISCIPLINAR SOBRE A DINÂMICA SÓCIO-FAMILIAR Susan Loren Gomes Machado e Ivana Marcomim............................................................... 122 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família A INSERÇÃO DA FAMÍLIA NO TRATAMENTO PENAL: UM LUGAR DE AMBIGUIDADES Ana Caroline Montezano Gonsales Jardim RESUMO Este artigo tem por objetivo problematizar a relação existente entre família e prisão, relacionando os dispositivos de controle para a manutenção da sociedade disciplinar aos mecanismos de tratamento penal instituídos no interior do sistema penitenciário. Deste modo, pensar como a família assume diferentes representações, sendo ao mesmo tempo um apoio aos presos, em decorrência do ambiente de privações, e também, responsabilizada pelas dinâmicas prisionais que agregam valores às práticas punitivas. PALAVRAS-CHAVE: Família, Prisão, Tratamento Penal. INTRODUÇÃO As formas de controle na sociedade disciplinar se dão em diferentes contextos e âmbitos da vida em sociedade. No que tange à resolução de conflitos, sobretudo sua relação com o cometimento de crimes, o nascimento das prisões no século XIX configura-se não só enquanto parte do ordenamento jurídico, mas, sobretudo, na regulação a que se propõe para toda sociedade. A construção de instituições basilares para o disciplinamento dos indivíduos, transfere à família um papel central na manutenção dos paradigmas sociais que a precedem e a constroem. A inserção da família nas dinâmicas prisionais reveste-se de mecanismos disciplinadores e contraditórios, os quais serão apresentados no decorrer do texto, com vistas a contribuir no debate que centraliza a família no tratamento penal1. Primeiramente serão pontuadas as categorias prisão e família, de modo a compreender sua inter-relação; segundo, desenvolver uma reflexão de como se deu a inserção da família no sistema penitenciário brasileiro, com aportes legais e institucionais a partir do advento da LEP (Lei de Execução Penal), e por último, uma síntese de aspectos que envolvem a família nas dinâmicas prisionais e as ambiguidades correspondentes. 1 PRISÃO E FAMÍLIA: DA SOCIEDADE DISCIPLINAR AO SISTEMA PENITENCIÁRIO 5 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família Até o século XVIII, as formas de resolução dos conflitos sociais, ocorriam por conta de penas corporais, de modo que não existia punição sem a existência de uma lei explícita e um comportamento que violasse tal lei. As punições tinham como foco reparar o mal cometido, impedindo que novos males acontecessem, fundamentada pelos critérios de utilidade social. Penalidades que variavam de acordo com a infração cometida, desde a exclusão, vergonha, humilhação e trabalho forçado, instrumentos penais repressores que culminavam ao suplício2. As punições estabelecidas a partir do século XIX passam a fazer parte do conjunto de organizações do Estado, onde os nascimentos dos estabelecimentos prisionais e da pena de prisão configuram-se como um lócus de operacionalização e aplicação dos castigos instituídos legalmente. A nova modalidade punitiva não está centrada tanto no que fizeram os indivíduos, se tais atos estão ou não em conformidade com a legislação penal, mas, sobretudo, no que os indivíduos estão na iminência de fazer, criando-se um campo de saber-poder3 no social, chamado periculosidade. No discurso criminológico, a periculosidade configurou-se como uma prática divisória (CHANTRAINE, 2006), cuja finalidade é distinguir os cidadãos de bem dos homens criminosos. A aplicação da pena para os que cometem delitos serve também de absolvição para os homens honestos, a separação maniqueísta permite o distanciamento em relação às situações conflitivas produzidas por uma sociedade excludente. Assim, ao sistema de penalidades, passa-se a atribuir uma relação de controle para toda sociedade. A identificação do “criminoso” em indivíduos isolados e facilmente reconhecíveis produz uma sensação de alívio. O “criminoso” é o outro. Quem não é processado ou condenado vive uma conseqüente sensação de inocência. A imposição da pena a um apontado responsável pela prática de um crime funciona como a “absolvição” de todos os não selecionados pelo sistema penal, que, assim, podem comodamente se auto-intitular “cidadãos de bem”, diferentes e contrapostos ao “criminoso”, ao “delinqüente”, ao “mau”. (KARAN, 2004, p. 89) Ao mesmo tempo em que se edificam as prisões, a sociedade também se encontra vigiada e encarcerada e é neste contexto que o disciplinamento social4 ganha espaço, como forma de prevenção geral e controle do que os indivíduos podem vir a fazer. O conjunto de instituições que regem a sociedade disciplinar, para além do enclausuramento, através dos estabelecimentos prisionais, ampliou-se no campo social, transformando as situações conflitivas em objeto de investigação e vigilância, como aparelhos e técnicas para gestão das massas humanas (RAUTER, 2003). 6 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família A história recente estampa uma sociedade disciplinadora e punitiva na qual a vigilância, o controle e as medidas preventivas se superpõem às penas estabelecidas, em culpas assumidas ou mascaradas, na rejeição ou complacência consigo mesmo, na admiração inveja pelo outro, na sujeição e/ou dominação de si pelo outro. Uma visão confusa que mistura e alterna papéis nas micro e macroinstâncias de poder (in) visível que estabelecem portas de acesso ao mundo social ou de exclusão dele. Vive-se sob um estado de suspeição e de prevenção, a fim de tornar (in) visível aquilo que assusta, que incomoda, para a introjeção das separações, da impotência e da pequenez do homem. (CÂMARA, 2001, p. 42) Para a manutenção do disciplinamento social e vigilância, é imprescindível a formação de instituições5 capazes de assegurar a ordem vigente, de modo que os procedimentos de controle e observação, presentes na prisão, transformam-se também, em mecanismos policialescos para manutenção da sociedade como um todo. Neste contexto, a instituição família torna-se uma peça fundamental para a estruturação da sociedade disciplinar. Ao mesmo tempo em que a família pode ser considerada como o termo que designa a relação entre indivíduos, pode ser pensada como a instituição que rege esses laços. Enquanto instituição, está submersa em universos de significações totalizantes, normas que determinam comportamentos em favor de subjetividades capitalistas6. A conexão que se estabelece entre família e mecanismos policialescos (DONZELOT, 1986), rege-se por linhas normativas do social, a fim de determinar e construir um sentimento de família, ditando comportamentos e condutas no que tange à organização e estruturação familiar. Não obstante, representa a própria noção de sociedade que se constrói na intersecção histórica e social de paradigmas que estão em constante mutação. A relação construída entre prisão e família, para além da estrutura social, atinge também o ordenamento jurídico, sobretudo, nos estabelecimentos penitenciários, cujo foco atenta, também, ao controle social. No interior dos ambientes prisionais, a dimensão valorativa7 caracteriza-se como uma prática recorrente, sendo a criação de estereótipos um meio de se atingir a subserviência entre a população carcerária. Os elementos classificatórios referem-se à legalização de particularidades dos apenados, como formas de controle e adaptação às regras prisionais (WOLF, 2005). Entre tais dinâmicas, a família é capturada pelo sistema de penalidades como um dispositivo8 de ajuste dos seus parentes que estão presos. Quando um apenado é considerado como o “bom bandido”, servil e obediente às normas prisionais, sua família também passa a ser valorada de forma positiva, projetando-se uma futura “recuperação” à família. Schmitd (1984) pontua a existência do apoio familiar e a 7 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família vinculação dos presos aos familiares em liberdade como um fator favorável para o retorno à sociedade. Em situações inversas, quando o parente preso é visto como o “mau bandido”, que não submete seu corpo ao poder instituído no estabelecimento prisional, a família também passa a ser vista como ameaça à ordem vigente e identificada pelo possível abastecimento da chamada “economia delinquente”, desestabilizando o poder repressivo. Nesta linha de pensamento, COELHO (2005) aponta a família como um tópico recorrente nas conversas da cadeia, sobretudo em dias de visitas, por serem as situações de abastecimento desta economia. “Mulheres costumam entrar nas cadeias com celulares escondidos na vagina e homossexuais passam com o aparelho introduzido no ânus” (COSTA, 2001, p.30) Embora os acontecimentos citados sejam diferenciados, a lógica que se produz ao pensar a família no ambiente prisional se repete, pois passa a ser concebida sob o olhar de vigilância, e reduzida às relações de poder que ocorrem no interior da prisão. 2 INSERÇÃO DA FAMÍLIA NO SISTEMA PENITENCIÁRIO BRASILEIRO: PREVISÕES LEGAIS E PUNIÇÕES INSTITUÍDAS Por volta de 1942, registram-se as primeiras estatísticas acerca da população presa no Brasil, publicadas pelo serviço de Estatística Demográfica, Moral e Política do Ministério da Justiça (Coelho, 2006), cujos resultados já apontavam sinais de saturação no sistema prisional brasileiro. Em 1956, o Ministério da Justiça organizou comissões especiais para conhecer a realidade dos estabelecimentos e propor medidas de urgência, bem como ampliar a capacidade de lotação das casas prisionais e delegacias onde presos temporários aguardavam julgamento, como forma de conter os problemas decorrentes da privação de liberdade (Coelho 2006). Em consequência, instauram-se medidas repressivas e totalizantes, não proporcionando um real enfrentamento das condições degradantes encontradas no cárcere, como a falta de condições mínimas para o cumprimento da pena. Após este período, a cultura repressiva acumulada na sociedade brasileira, culmina com a Lei de Segurança Nacional advinda do golpe militar de 1964 (Wolf 2005), que desloca também para a esfera de justiça criminal, seu caráter repressor. Passa a compor-se, desde então, um novo perfil do inimigo público, o qual não era mais o cidadão que questionava e enfrentava a ordem estabelecida, mas o traficante, 8 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família o ladrão, o assaltante. Os espaços definidos para esta criminalidade passaram a ser inicialmente a favela, o gueto e posteriormente a prisão: representavam a um tempo, espaços de confinamento, de rejeição e exclusão. (WOLF, 2005, p. 9) O confinamento de presos políticos decorrente do período de ditadura militar no Brasil é apontado como um dos fatores que favoreceu a organização política no espaço prisional entre os presos comuns, e as formas de pressão e resistência para a melhoria nas condições de atendimento (Pereira, 1991). Assim, o sistema penitenciário foi tencionado a pensar em novos procedimentos administrativos e disciplinares, os quais passaram a projetarse no cumprimento da pena privativa de liberdade um caráter ressocializador, no intuito de preparar os presos para o retorno à liberdade. Promulgaram-se, então, portarias oficiais pelo ministério da justiça, a fim de legitimar a noção de direitos no espaço prisional. Uma das primeiras portarias proporcionou a regulação das visitas, e formas de contato com o mundo externo (Pereira 1991), objetivando a participação da família no decorrer da execução penal. Desde então, os presos passaram a receber visitas, e em casos extremos, realizar visitas a parentes que estivessem doentes ou em estágio terminal, bem como o comparecimento à cerimônias fúnebres de seus familiares mais próximos. Assim, foi criada a visita periódica ao lar, hoje denominada de saída temporária. Tais possibilidades caracterizavam-se por seu critério assistencial, haja vista a necessidade de se ter bom comportamento para obter tais vantagens em relação aos demais presos. Ainda que pautadas por um critério humanizador, as medidas deixavam lacunas quanto a sua aplicabilidade, pois eram concedidas aos presos cujo comportamento fosse considerado satisfatório pela instituição9. O contato com os familiares pautava-se pelo ideal propagado de família, restringindo-o a partir de um modelo moralizante, normalmente correspondente à família nuclear, ou seja, restringindo-se aos familiares consangüíneos e do mesmo núcleo. No cenário social correspondente a este período, registra-se a construção em torno da família e higienização da pobreza no Brasil (RAGO, 1997), de modo que a instituição do imaginário social10 acerca da família pudesse dar conta das novas configurações do capitalismo urbano-industrial, sendo a família um meio de contenção do desvio, regulando, também, as relações entre os sujeitos. Constitui-se na sociedade, e paralelamente dentro das prisões, um complexo tutelar (DONZELOT, 1986) por parte do Estado, com o intuito de eliminar toda e qualquer diferença, sendo as instituições assistenciais e policiais as responsáveis pela propagação de uma 9 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família identidade moralizada e tutelada. No entanto, a adaptação a este formato não se deu de forma homogênea, em vista dos diversos arranjos familiares na realidade brasileira, e a predominância da família extensa entre os grupos populares (FONSECA, 2006). Como parte do complexo tutelar, as intervenções feitas pelos especialistas e profissionais dentro da prisão, visavam à normatização do convívio social. Agregava valores aos atendimentos feitos, pois desconsideravam a realidade familiar da população prisional, que se diferenciava da família nuclear instituída, correspondendo a famílias extensas. Com o advento da LEP (Lei de execução penal promulgada em 1983), são preconizadas as normas fundamentais que regerão os direitos e obrigações dos apenados no decorrer da execução da pena privativa de liberdade. Constitui-se como um marco no sistema prisional, pois tem por finalidade atuar como instrumento de preparação para o retorno à liberdade. No artigo 1º, a lei deixa claro os fundamentos que baseiam sua orientação: o cumprimento dos mandamentos existentes na sentença judicial e a instrumentalização de condições que propiciem a possível reintegração social do apenado e seu retorno ao convívio social. Assim, as visitas passam a ser concebidas como um meio de aproximação entre sujeitos presos e seus familiares. Sua previsão enquanto direito, rege-se pelo artigo 41, inciso X “visita do cônjuge, da companheira, de parentes e amigos em dias determinados”; também são estipuladas no inciso XV, outras forma para a manutenção de contato com o mundo externo: “contato com o mundo exterior por meio de correspondência escrita, da leitura e de outros meios de informação que não comprometam a moral e os bons costumes”. No entanto, o parágrafo único do artigo, adverte as situações de cancelamento do direito à visita e comunicação com o mundo externo: “tais incisos poderão ser suspensos ou restringidos mediante ato motivado do diretor do estabelecimento”. Mesmo previsto pela LEP, o direito a receber visitas sofre alterações de acordo com cada estabelecimento prisional, sendo, na sua maioria, realizadas duas vezes na semana, em dias estipulados. Os critérios para a realização de visitas correspondem a regimentos instituídos em cada unidade prisional, normalmente obedecendo a critérios como o nível de parentesco e ordenamentos correspondentes às dinâmicas que se instituem no interior dos estabelecimentos que, não obstante, ainda se pautam por critérios valorativos. Ainda que introduza a noção de direitos, a LEP não rompe com a lógica da concessão de benefícios, legalizando particularidades (WOLF, 2005), assim como o direito a 10 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família visitas pode ser cancelado por razão motivada das chefias das unidades prisionais, outros também o são, justificados por razões como “mau” comportamento. Ao mesmo tempo em que a LEP institui garantia de direitos à população carcerária, transfere a efetivação destes direitos às condutas dentro da prisão, e brechas para que o prolongamento da lei possa ser suprido pelo controle disciplinar. Referente à realização de visitas, a lei não estipula o grau de parentesco para tanto, sendo essa tarefa atribuída a cada estabelecimento e a concepção que os operadores da lei entendem por família, correndo-se o risco de se aferir aos presos e familiares o enquadramento a referenciais externos de família, de modo que os mecanismos de controle ultrapassam as punições legalmente instituídas. A LEP envolve a transfiguração de uma norma disciplinar para uma norma juridicamente organizada da sociedade disciplinar em seus mecanismos de controle, à previsão legal de punições não legalizadas. Correspondendo à formalização da conduta dos corpos-dóceis (FOUCAULT 2005), o discurso do poder se produz a partir de comportamentos e condutas, mascarando todo aparato repressivo e a própria prisão. Exemplifica-se tal relação pela criação de bodes expiatórios11 quando sujeitos presos são punidos, através de procedimentos administrativos disciplinares, desde o isolamento até a transferência, que na gíria da cadeia defini-se por “preso viajado” (VARELLA, 2005). Como castigo normalmente se estabelece que fique longe de sua família, onde a responsabilidade pelas situações conflitivas recaem tanto para o preso quanto para os familiares. Aos familiares atribui-se a culpabilização por abastecerem o ambiente prisional com drogas e outros utensílios proibidos. 3 AMBIGUIDADES QUE ENVOLVEM A FAMÍLIA NO INTERIOR DAS PRISÕES: ALGUMAS REFLEXÕES No que tange à participação da família dentro dos estabelecimentos prisionais, atribuise um papel de responsabilização à mesma, devido às situações precárias encontradas nos presídios brasileiros12, ficando muitas vezes a cargo da família o próprio tratamento penal negligenciado pelo Estado, onde são os parentes em liberdade que se encarregam de suprir necessidades sociais, jurídicas e até mesmo em relação à saúde dos presos, o que, pela LEP, deveria ser contemplado pelo sistema penitenciário. 11 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família Não ser, ou ser abandonado pela família no decorrer da execução penal representa distinção na intensidade de sofrimentos emocionais; a distinção no grau de ruptura com grupos e perspectivas de futuro no ambiente extramuros; representa, ainda, a própria ampliação (ou não) das privações materiais que serão suportadas na vida intracarcerária. (CHIES, 2006, p. 113) Nessa lógica, pode-se pensar que não ser contemplado pelos critérios para o recebimento de visitas em um ambiente hostil, torna-se mais um meio de punição e isolamento dos demais. Os que recebem visitas atingem um patamar diferenciado entre a população carcerária, pois à presença do familiar, somam-se possibilidades de maior status no interior das prisões, por serem os familiares que proporcionam ao preso o tratamento diferenciado “As visitas carregam sacolas de plásticos abarrotadas, potinhos de plásticos com pastei, maionese, macarronada, calabresa frita e frango assado (...) Trazem tudo que o preso gosta” (VARELLA, 2005, p. 52). Os dias de visitas caracterizam-se por longas filas, sobretudo nos presídios masculinos, onde há predominância de mulheres, esposas e mães e crianças para visitação ao parente preso. Evidencia-se, assim, a construção social em relação ao papel da mulher, enquanto cuidadora, o que pode ser pensando a partir de um conjunto de atribuições e imagens que se projetam às mulheres, principalmente na figura da mãe enquanto sacrifício (RAGO, 1997). Tal reflexão, não anula essas mulheres de suas relações familiares e desejos de manter vínculos com os parentes presos, mas permite refletir o imaginário em torno das visitas e visitantes. Já nas penitenciárias femininas, a realidade é bem diferente, pois outro elemento valorativo é expresso no cumprimento da pena. As mulheres, além de terem rompido com as normas jurídicas, rompem com o ideal materno e de “boa” esposa, aspectos que se caracterizam como múltiplas penalizações às apenadas: um dos aspectos visíveis nas prisões se dá pelo abandono familiar e afetivo, o que as tornam mais vulneráveis na prisão Praticamente em todos os presídios masculinos do Brasil são aceitas as visitas conjugais, ou como são chamadas, visitas íntimas; já o mesmo não acontece nas prisões femininas (WOLF, 2005). Quanto à origem das visitas íntimas, data-se seu início a partir da década de 80, nos presídios masculinos como mecanismo para diminuir os índices de violência nas prisões e manutenção da ordem no interior dos estabelecimentos. São nebulosas as origens das visitas íntimas. Contam que começaram no início dos anos 80, insidiosamente, com alguns presos que improvisavam barracas nos pátios dos pavilhões nos dias de visita. Na época, as autoridades fizeram vista grossa, convencidas de aqueles momentos de privacidade acalmavam a violência da semana. Quando surgiram as primeiras queixas de 12 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família menores engravidadas nesses encontros furtivos, ficou evidente que a situação escaparia do controle, incapazes de acabar com a situação, decidiram então, oficializar as visitas íntimas. (VARELLA, 2005, p. 60). As visitas íntimas foram adotadas nos presídios masculinos, sob o discurso de que amenizam as situações violentas em seu interior, porém, nos presídios femininos, a aceitação não se deu da mesma forma, de modo que são poucos os estabelecimentos que instituíram a visita como um direito às mulheres presas. Em que pese a natureza jurídica da mesma, existem diferentes concepções, pois ao mesmo tempo em que é vista como um direito, também passa a ser vista como benefício, por não ser prevista pela LEP. Um procedimento adotado nos dias de visitas são as revistas íntimas, onde os familiares tem de se submeter à inspeção realizada, a fim de se evitar a entrada de utensílios proibidos e drogas ao interior dos estabelecimentos, sob argumentação de que são os familiares os responsáveis pelo abastecimento da “economia delinquente”. As revistas são realizadas com a pessoa despida e as mulheres, acima de 12 anos devem agachar-se, após, deitadas são submetidas a exame vaginal (WOLF, 2005). Esta situação faz com que muitos presos dispensam a presença de seus familiares, evitando assim submeter-lhes a uma situação vexatória. Seus familiares são submetidos a toda sorte de constrangimentos. Mães, esposas e crianças, devem aguardar fora dos presídios, durante horas, de pé, em fila sob sol ou chuva, para que possam participar dos procedimentos de revista, suplício contemporâneo, criado pela tecnoburocracia prisional. (ROLIM, 1999, p. 17) Da mesma forma que ocorre a revista íntima, são realizados outros procedimentos a fim de inspecionar os familiares, com vistas a garantir a “segurança” nos dias de visitas. Tais procedimentos variam de acordo com cada estabelecimento e seus regimentos internos. Situações que podem configurar-se como constrangedoras, principalmente às pessoas vindas de outras cidades, que muitas vezes, ao chegar à unidade prisional, são informadas das regras adotadas “Muito desses familiares deslocam-se de municípios longínquos, enfrentando imensas dificuldades financeiras”. Quando chegam, são informados que não poderão entrar no estabelecimento prisional porque o sapato que calçam (não raramente o único que possuem) está “fora das regras de segurança” (ROLIM, 1999, pg. 17). Outra situação recorrente nas prisões e envolvendo a família no tratamento penal, ocorre através dos laudos e avaliações para concessão de progressões de regime13 que instrumentalizam as decisões judiciais para o acesso aos benefícios jurídicos. Um dos critérios avaliados na construção dos laudos são as relações familiares, compreendendo as histórias de 13 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família vida e formas de interação entre presos e suas referências externas. As relações de poder são apresentadas através de códigos de valores que atravessam as experiências relatadas, pois o discurso de família desestruturada se faz presente como um mecanismo de punição. A seguir trechos de dois laudos distintos. Consideram os peritos que o examinado tem boa estrutura familiar, residência fixa, adequada vida laborativa, bom comportamento carcerário, que o crime foi único em sua vida e que, portanto, merece obter o livramento condicional. Fonte: Laudo 1º DPR (WOLF, 2005, p. 192). Traz uma história familiar de pessoas que não conseguiram exercer limites contentivos, haja vista que outros dois de seus irmãos têm carreiras criminosas e cumprem pena, hoje em dia. Como sempre esteve vinculado a esta família, não apresenta crítica sobre suas atitudes delinquenciais. Fonte: Laudo 1º DPR (WOLF, 2005, p. 192). Entre as justificativas que sustentam os pareceres, a presença ou não da família e a forma como se estrutura, assim como o apoio familiar durante a execução da pena, tornam-se aspectos relevantes para que o laudo seja favorável. Não são levadas em consideração as situações das famílias, tão pouco os trajetos de desencontros produzidos na prisão. Retornam as “velhas” questões valorativas e juízo de valor na atuação profissional, que de forma maniqueísta segregam as pessoas entre boas e más. Atribui-se responsabilidades tanto à família, quanto ao apenado pelas dificuldades enfrentadas fora e dentro da prisão, desconsiderando-se a dimensão coletiva deste processo. CONSIDERAÇÕES FINAIS Ainda que pese todas as considerações e sobrecargas aos familiares e apenados, a manutenção de vínculos e laços sociais é inerente ao convívio humano e, no contexto prisional, reveste-se de grande importância por ser um elo com a sociedade e suas referências do mundo externo, de sua vida anterior a prisão e sua própria história. Contudo, o controle que se busca na prisão atinge a todos que estão inseridos nas dinâmicas construídas em seu interior, sendo a família capturada pelo complexo de penalidades como um dispositivo de controle em relação aos parentes presos. A discussão que se centra na família como um apoio importante para se pensar no tratamento penal, e um possível retorno dos apenados à liberdade através da referência familiar, esconde uma lógica distinta. Pois o grande paradoxo apresentado por este fenômeno, a inserção da família no tratamento penal, configura-se pela possibilidade de que ao adentrar e 14 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família participar deste tratamento, a própria família pode estar sendo penalizada e vivenciando o seu próprio tratamento penal. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAREMBLITT, Gregório. Compêndio de Análise Institucional e outras Correntes: Teoria e Prática. 3ºed. Rio de Janeiro: Rosa dos tempos. CÂMARA, Heleuza Figueira. Além dos muros e das grades (Discursos prisionais) São Paulo: Educ FAPESP, 2001. CHANTRAINE, Gilles. A prisão pós-disciplinar. In: Revista Brasileira de Ciências Criminais. Nº 62, setembro-outubro 2006. CHIES, Luiz Antônio Bogo. A capitalização do tempo social na prisão: a remição no contexto de lutas de temporalização na pena privativa de liberdade. Tese de doutorado em Sociologia. Porto Alegre: UFRGS, 2006. COELHO, Edmundo Campos. Oficina do Diabo e outros escritos prisionais. Rio de Janeiro: Record, 2005. DONZELOT, Jacques. A polícia das Famílias. 2ºed. Rio de Janeiro: Graal Editora, 1986. FERNÁNDEZ, A. M. De lo imaginário social a lo imaginário grupal. In: Tiempo histórico y campo grupal: Massas, grupos, e instituciones. Buenos Aires: Nueva Visión, 1993. FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. 33ºed. Petrópolis: Vozes, 2007. _____. A Ordem do discurso. 12º ed. São Paulo: Loyola, 2005. FONSECA, Cláudia, Caminhos da Adoção. 3ºed. São Paulo: Cortez, 2006. GUATARRI, Felix; ROLNIK, Suely. 7ºed. Micropolítica: Cartografias do desejo. Petrópolis: Vozes. GUINDANI, Miriam Krenzinger. Tratamento Penal: a dialética do instituído e do instituinte. In: Serviço Social e Sociedade, nº 67, temas jurídicos, ano 2001. KARAM, Maria Lúcia. Curso Livre de Abolicionismo Penal. Rio de Janeiro: Revan, 2005 PEREIRA, Tânia Maria Dahmer. Um estudo dos valores do Assistente Social no Sistema Penitenciário do Rio de Janeiro. In: Revista da escola do Serviço Penitenciário. Ano III, nº 09, outubro-dezembro 1991. 15 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família PEREIRA, Wilian Cézar Castilho. Nas trilhas do trabalho Comunitário Social: teoria, método e prática. 2ºed. Belo Horizonte: Vozes, 2001. NOTAS DE FIM 1 O Tratamento penal configura-se como o conjunto de serviços e atendimentos destinados aos sujeitos que estão cumprindo pena privativa de liberdade, tendo como marco legal a Lei de Execuções Penais de 1984 (LEP). A instituição do tratamento penal preconizado pela LEP tem por finalidade atuar como instrumento de preparação para o retorno à liberdade e, nesse sentido, o tratamento penal prevê a inserção da família enquanto apoio aos parentes que estão presos. 2 O suplício pode ser considerado uma pena corporal dolorosa, mais ou menos atroz. Uma arte quantitativa do sofrimento, pois correlaciona o tipo de ferimento físico, a qualidade, a intensidade, o tempo dos sofrimentos com a gravidade do crime, a pessoa do criminoso, o nível social de suas vítimas. Deve ser marcante pela cicatriz que deixa no corpo, ou a própria morte. (FOUCAULT, 2007, p. 14) 3 Rauter (2003) problematiza a relação saber-poder de forma intrínseca, como estratégias para a manutenção do poder, através da difusão de condutas normatizadas. 4 O disciplinamento social é uma modalidade de aplicação do poder que aparece no início do século XIX e expande-se ao social de forma a vigiar e controlar condutas e comportamentos. A disciplina não nasceu neste século, existia dentro de instituições e neste período torna-se uma fórmula de dominação para toda sociedade, através da conduta dos corpos-dóceis. (FOUCAULT, 2005) 5 Instituições aqui pensadas como lógicas. São árvores de composições lógicas que, segundo a forma e o grau de formalização que adotem, podem ser leis, podem ser normas e, quando não estão enunciadas de maneira manifesta, podem ser hábitos ou regularidades de comportamentos. (BAREMBLIT, 2002, p. 15) Nesta perspectiva, pode se considerar tanto a prisão como a família. 6 Subjetividade capitalistica entendida a partir da transmissão de significações e sistemas de conexão direta entre as grandes máquinas de controle social e micro instâncias cotidianas que definem a maneira de perceber o mundo. (ROLNIK; GUATARRI, 2005, p. 260) 7 Vários estudos que abordam as relações no interior das prisões, revelam essa dimensão valorativa “bom preso x mau preso”. Entre estes ver: HASSEN (1999) O Trabalho e os dias; COELHO (2005) Oficina do Diabo e outros escritos prisionais; PEREIRA (1991) Um estudo dos valores dos Assistentes Sociais no sistema penitenciário. 8 O termo dispositivo no vocabulário conceitual de Foucault designa técnicas, estratégias e formas de assujeitamento utilizadas pelo poder. Eles são por definição, de natureza heterogênea: trata-se tanto de discursos quanto de práticas. (REVEL, 2005, p. 39) 9 Paralelo a adoção de medidas ditas ressocializadoras no sistema penitenciário, registra-se a ampliação do Serviço Social neste campo, cuja finalidade era avaliar quais sujeitos presos eram merecedores dos benefícios. (Pereira, 1991); (Guindani 2001). 10 Imaginário Social são sentidos organizadores (mitos) que sustentam a instituição de normas, valores e linguagem, pelos quais uma sociedade pode ser visualizada como uma totalidade. A partir desta perspectiva, normas, valores e linguagem não são só ferramentas para fazer frente as coisas, mas também os instrumentos para fazer indivíduos. (FERNÁNDES, 1993) 11 A formação de bodes expiatórios ocorre quando o grupo, ou no caso da prisão o grande grupo, deposita em alguém seu insucesso, fracasso, aquilo que não serve mais. Esta pessoa passa a carregar sozinha a culpa do grupo, e posteriormente, quando o grupo consegue eliminá-lo, cria uma ilusão de que, com sua ausência, irá caminhar novamente e com bastante sucesso (PEREIRA 2002). 12 Muitos são os documentos que comprovam as situações de precarização do sistema penitenciário brasileiro. Ver: Relatório Azul, 2006. Garantias e violações dos direitos humanos no RS. Porto Alegre: CORAG, 2006. 13 A lei de execução penal prevê três tipos de regime para o cumprimento da pena: regime fechado, semi-aberto e aberto. A progressão de regime pode ser acessada após o cumprimento de 1/6 ou 1/3 da pena, variando de acordo com o delito e através de pareceres técnicos que sejam favoráveis. 16 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família FAMÍLIA CUIDADORA: A (RE) ORGANIZAÇÃO FAMILIAR FRENTE AO ADOECIMENTO Iara Mara Moreira Martins1 Luciana Basile2 Marinez Garlete3 Maria Isabel Barros Bellini4 RESUMO: Os avanços da Medicina no controle e prevenção de doenças crônicas, do saneamento básico e a mudança dos hábitos culturais e de higiene são hoje fatores que resultaram no prolongamento da expectativa de vida humana e, consequentemente, na elevação do índice das doenças crônicas. A família tem papel central nos processos de promoção de saúde, pois necessita reelaborar sua organização no enfrentamento da doença crônica. Desenvolver estudos e pesquisas no sentido de conhecer as estratégias que a família cuidadora no enfrentamento de uma doença que demanda cuidados prolongados e entender que esse importante segmento social – a família - como alguém a ser cuidado, utiliza para fortalecer. O objetivo geral desta pesquisa é identificar as formas de organização familiar frente ao diagnóstico de um processo crônico de adoecimento e o modo como a enfrentam com vistas a contribuir na visibilidade a essa temática junto aos serviços de saúde e de subsidiar as ações dos trabalhadores de saúde. A pesquisa será realizada com 15 familiares de pacientes crônicos internados pelo período superior a um ano no Hospital São Lucas da PUCRS. INTRODUÇÃO As organizações institucionais de prevenção e controle em Saúde Pública vêm, em nível mundial e local, ampliar o foco estratégico para ações de promoção do acesso a recursos que garantam a saúde a todos, contemplando fatores econômicos, sociais e culturais. O controle das doenças foi contemplado diferentemente na História; outrossim, podemos afirmar que em recente passado não era do conhecimento da sociedade os cuidados 1 Graduanda do Curso de Serviço Social, bolsista de Iniciação Científica - Grupo de Estudos e Pesquisa em Família, Serviço Social e Saúde/GFASS do NEST/Núcleo de Estudos e Pesquisa em Saúde e Trabalho, PUCRS. 2 Assistente Social, Mestranda em Serviço Social PUCRS. 3 Especialista em Educação Inclusiva, Assistente Social, Mestranda do Grupo de Estudos e Pesquisa em Família, Serviço Social e Saúde/GFASS do NEST/Núcleo de Estudos e Pesquisa em Saúde e Trabalho/PPGSS/ PUCRS. 4 PUCRS.(Assistente Social, Doutora em SS, docente da FSS/PUCRS, Coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisa em Família, Serviço Social e Saúde do NEST/Núcleo de Estudos e Pesquisa em Saúde e Trabalho/PPGSS/PUCRS. Coordenadora de Pesquisa da Escola Saúde Pública da Secretaria Estadual da Saúde/RS/Brasil. 17 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família que reduzissem os índices de mortalidade da população, e o enfrentamento das doenças foi durante muito tempo feito por feiticeiros, religiosos. O cuidado com a higiene tem incremento no século XVIII. Hoje o conhecimento tecnológico trouxe múltiplos avanços para a humanidade: maiores recursos na Medicina no controle e prevenção de doenças transmissíveis, nãotransmissíveis e incapacitantes (todas inclusas na categoria de doenças crônicas - OMS, p.15); saneamento básico; hábitos culturais e de higiene, resultando no prolongamento da expectativa de vida humana e, consequentemente, a elevação no índice das doenças crônicas. Conforme a OMS (2003, p.30), “o termo ‘condições crônicas’ engloba todos os problemas de saúde que persistem no tempo e requerem algum grau de gerenciamento do sistema de saúde”, e como tal é significativa a prioridade em desenvolver estudos e pesquisas no sentido de elaboração de estratégias eficazes no tratamento e prevenção das doenças crônicas. A educação aplicada à saúde traduz-se em uma atitude saudável que deverá ser constante em toda situação. Mesmo em presença da doença, o indivíduo construirá sua saúde organizando-se e estabelecendo uma relação de respeito consigo mesmo, com o outro e com o ambiente em que vive. (MIRANDA, 2005, p.25). No que se refere à família, nosso sujeito nesse estudo, no Brasil, a partir da Constituição Federal de 1988 e das Políticas Públicas da Saúde decorrentes (SUS, LOAS, SUAS), preconiza-se a Família como sujeito central na efetivação de direitos. É precisamente pelo alto grau de cuidado que necessita o portador de doença crônica que vislumbramos na sua família cuidadora também alguém a ser cuidado, e a forma como esta se organiza, frente ao adoecimento do seu familiar, nosso objeto a ser pesquisado. Nesse sentido, o surgimento de uma doença faz com que o ser humano vivencie alterações para além da esfera biológica. Várias mudanças ocorrem na vida de uma pessoa, levando-a a se deparar com limitações, frustrações e perdas. As mudanças que ocorrem com o surgimento de uma doença, dependendo do tipo de patologia, da maneira que se manifesta e seu prognóstico, além do significado que cada indivíduo atribui. Sendo a família a rede primária a qual o indivíduo pertence, esta também será afetada diante de seu adoecimento. No caso doenças crônicas, consideradas incuráveis e permanentes, há a necessidade dar novos significados à vida, adaptando-se às limitações e novas condições impostas. A família também necessita se reorganizar, uma vez que terá que cuidar do doente, demandando de cada familiar alterar seu dia-a-dia no acompanhamento da rotina do familiar adoecido. 18 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família Diante desses aspectos, se impõe a elaboração de um projeto de pesquisa com o objetivo de identificar as estratégias criadas pelos familiares de doentes crônicos durante o enfrentamento da doença. Na revisão bibliográfica feita para a construção do presente estudo, detectou-se uma escassa literatura no que se refere à reorganização familiar perante uma situação de doença crônica. Até o tempo presente, os serviços de saúde vêm tratando o doente crônico como agente passivo no tratamento. Cabe às proposições de novos programas a garantia de protagonismo deste (QUEM??) e, neste sentido, a família é ponto-chave para a adesão, pois conforme a OMS (2003, p.9-10), perde-se “a oportunidade de tirar proveito do que esse paciente pode fazer para promover sua própria saúde”. Sendo assim, “o tratamento para as condições crônicas deve ser reorientado em torno do paciente e da família”. Quando falamos em família consideramos a que vai além dos laços de sangue, compondo-se hoje de pessoas que se agrupam por questões de afinidade e solidariedade na luta cotidiana pela sobrevivência. Sendo assim, a família é atravessada constantemente por inúmeras expressões de desigualdade social e tem de articular-se para realizar o enfrentamento de processos sociais que a fragiliza. (MIOTO, 1997, p.114). A importância deste estudo se dá na medida em que aprimorar o conhecimento e socializar os achados, de forma a contribuir com a construção de práticas profissionais que corroborem para conhecer como a família se organiza frente ao adoecimento de um membro, é compor com um modelo de pensar a política de saúde através dos processos de saúde, onde o desafio é referido por Campos: [...] romper com um modelo de atenção à saúde, que, na verdade, privilegia a doença. Um modelo que idealiza o profissional, ‘coisifica’ o paciente e impessoaliza o relacionamento entre eles”. E que a nosso ver não inclui o cuidado à família. Ao acompanhar o portador de doença crônica hospitalizado, o familiar depara-se com um ambiente estranho, frio, onde “lidar com o sofrimento implica, muitas vezes, reviver momentos pessoais de sofrimento. Implica se identificar com a pessoa que sofre e sofrer junto com ela. Ou seja, conviver com o sofrimento gera sofrimento. (2005, p.34). A FAMÍLIA No passado pré-histórico, o homem vivia em comunidade, partilhando tarefas, a caça, o cuidado dos filhos e de todos do grupo. Era um tempo em que não havia a divisão social pela propriedade privada, e que a sobrevivência de cada um dependia da coesão do grupo e vice-versa. A participação de todos equilibrava a carga de responsabilização perante todas as ações e revezes do cotidiano. Hoje, vemos o processo inverso, onde a 19 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família responsabilidade é cobrada individualmente, e dentro de um modelo onde o sujeito não tem mais necessariamente a referência da comunidade enquanto apoiador/cuidador. Logo, na maioria das vezes, a família terá que se organizar sozinha para dar conta desse papel de cuidadora das necessidades dos seus. Pouco sabemos acerca da origem da família, e seu surgimento encontra-se cercado de suposições científicas. Algumas comparam ao comportamento dos animais, como para Katlhleen Gough (1980, p.52-53) que refere “os humanos são os parentes próximos dos macacos antropóides” e que compartilhamos, enquanto primatas, “características sem as quais a família não teria podido estabelecer-se”. Conforme as espécies de primatas vão evoluindo até ao ser humano, a relação entre eles vai modificando, passando de um grupo que se organizava em defesa de outras tribos com a infância e o sofrimento da privacidade. (ARIÈS, 1977). Os primatas formam bandos ou grupos, onde cuidados são expressos como, por exemplo, catar parasitas no outro, alisar o pêlo, (ibdem, p.54). Ao macho cabe o papel de defesa, e à fêmea o cuidado prolongado das crias. Gough sustenta que duas transformações corporais ocasionaram a evolução dos seres humanos: [...] que dizem respeito ao nascimento e cuidado dos filhos. Estas transformações foram a forma do crânio e a largura da pélvis. O caminhar ereto deu origem a uma pélvis mais estreita que sustenta melhor as vísceras abdominais. Por outro lado, o desenvolvimento da linguagem acarretou o crescimento desproporcionado do cérebro em relação ao corpo. Para compensar estes inconvenientes, os humanos nascem num estádio mais inferior de desenvolvimento que os símios. Durante bastante tempo permanecem completamente indefesos e requerem um cuidado mais longo e absoluto. Isto motivou, por seu lado, que as mulheres primitivas se concentrassem mais completamente no cuidado dos filhos e menos na defesa, totalmente ao contrário do que sucedia entre os símios. (GOUGH, 1980, p.62) Assim, a família responderia às necessidades de cuidados prolongados dos seres humanos, tanto de seus filhos quanto de cada um de seus membros. A família é nuclear no surgimento da sociedade, “para todas as sociedades anteriores ao aparecimento do estado e a fonte de toda a criatividade” (ibdem, p.82). Para o convívio no grupo familiar, foi preciso controlar os impulsos individualistas, a agressividade, e, como os símios, desenvolver o amor, o afeto pelo outro, traduzido no cuidado. Este processo evolutivo originou a civilização humana. A família é, assim, a primeira instituição que conhecemos e estabelecemos contato, uma “associação de pessoas que escolhe conviver por razões afetivas e assume um compromisso de cuidado mútuo”. (SZYMANSKI, 2002, p. 09). É nela que iniciamos o convívio com outras pessoas, aprendendo a ceder e a buscar o espaço de socialização entre os 20 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família membros pertencentes, e que nos prepara para a vida extra-familiar, de atuação social, política e ética, [...] espaço privilegiado de socialização, de divisão, de responsabilidade, de proteção de seus membros, com garantia de sobrevivência... lugar inicial para o exercício da cidadania, da igualdade, do respeito e dos direitos humanos... (SILVA, 2002. p. 17, apud SZYMANSKI, 2002, p.09) O reconhecimento e a importância da família aparecem no artigo 226, da Constituição Federal do Brasil, quando ressalta que “a família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado”, também preconizado no artigo 16, da Declaração dos Direitos Humanos, o qual trata a família como núcleo natural e fundamental da sociedade, e com o direito à proteção da sociedade e do Estado (CONSTITUIÇÃO FEDERAL 1988, 2006, p.109). O ADOECIMENTO E A FAMÍLIA Em termos econômicos, o impacto da doença crônica na família (OMS, 2003, p.22) inclui desde “despesas relacionadas aos serviços médicos, redução da atividade laboral e perda do emprego”, até “incapacidade em consequência da doença, redução do tempo e da qualidade de vida”. Além do paciente e da família, também a sociedade como um todo, os serviços de saúde (público e privado), os setores da economia e o próprio governo sofrem perdas consideráveis. Assim, ao analisarmos o cuidado familiar de uma doença crônica, devemos nos reportar, em um movimento dialético, à sociedade como um todo, pois: A incapacidade de lidar com as repercussões econômicas das condições crônicas, por meio de uma revisão das políticas e serviços de saúde, põe em risco a prosperidade econômica de todas as nações. (OMS, p.24). No Serviço Social, o trabalho realizado com famílias está presente desde o surgimento da profissão. Uma das primeiras obras que serviu de referência para assistentes sociais norte-americanos e brasileiros por muitos anos foi o livro Diagnóstico Social escrito pela norte-americana Mary Richmond. Este caracterizava, nas primeiras décadas do século XX, o papel desses profissionais na abordagem com famílias nos Estados Unidos. Atualmente, esta obra não é mais utilizada em função das significativas mudanças ocorridas nos processos familiares. Deste modo, o Serviço Social enquanto profissão interventiva vem reconhecendo as fortes pressões que os processos de exclusão sociocultural geram sobre as 21 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família famílias brasileiras, favorecendo que elas venham se reconfigurando, se ressignificando em suas formas de composição e em seu papel enquanto família. É preciso evidenciar que ocorreu um aumento significativo de famílias monoparentais em especial, lideradas por mulheres. Também é percebido o aumento de famílias recompostas a partir dos divórcios e separações e, hoje, isto já não é mais visto com preconceito pela sociedade, como nos séculos anteriores. Entendendo a família como o primeiro ambiente onde aprendemos a ser e conviver, podemos considerá-la: [...] como um grupo autônomo de pessoas, não necessariamente de sexos opostos vinculados através da luta pela sobrevivência, afetividade, solidariedade e convivência estreita. Desse modo, pessoas com grau de parentesco ou não, compõem um sistema familiar aberto e interdependente. (MPAS/SAS, 1997, p.8) Independentemente de fatores econômico-sociais, se vulnerabiliza perante situações comuns a todo ser humano, como a ocorrência da doença crônica, caracterizando uma expressão social que descortina a necessidade de cuidados não só para o doente crônico, mas para toda sua família. Se existe um membro doente, também sua família enfrenta um processo de enfraquecimento, passando a expor suas dificuldades de atender o doente, sua necessidade de cuidados para si e para o grupo, de garantir que os direitos sociais concernentes à situação de doença crônica vivenciada na família, bem como dos demais direitos (econômicos, políticos e civis) ao qual a família, não tendo acesso, desorganiza-se a ponto de poder agravar ainda mais as possibilidades de superação frente ao adoecimento. Uma das indagações envolve o próprio modelo de desinstitucionalização dos pacientes crônicos, defendida pela atual política de saúde, que, mesmo positivo, se não bem acompanhado, pode sobrecarregar a família. Considerando o contexto societário que perpassa a família, as grandes mudanças sociais e econômicas, cabe perguntar se as famílias atualmente estão preparadas para exercer o papel de cuidadora, e também para atendimento aos cuidados específicos a determinada doença, bem como se existem políticas públicas de saúde que a capacitem para dar suporte ao seu familiar adoecido? mais, considera-se que os profissionais de saúde estão capacitados para o atendimento ao paciente crônico, mas e a família recebe uma orientação de apoio e acompanhamento? A doença crônica acomete indistintamente todas as classes sociais, e a necessidade de cuidados prolongados pode colocar a família em risco social, o que demanda da sociedade e do Estado a reconfiguração de suas estratégias de saúde no atendimento a essas famílias. Lidar com uma doença que demanda cuidados prolongados requer a participação da 22 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família sociedade, que, na figura do Estado, tem como dever garantir “acompanhamento e controle de doenças crônicas” (MARSIGLIA, p.169) e ainda cuidados extensivos ao grupo familiar. Se a intenção é diminuir o tempo de internação hospitalar, cabe conhecermos a dinâmica familiar antes de incentivar o tratamento domiciliar, pois se a família não estiver preparada para receber seu ente enfermo, ou mesmo se os componentes não percebem a importância da sua participação no tratamento, o controle ou até a melhora da enfermidade poderá ficar comprometida. É neste quadro cotidiano de uma realidade difícil que algumas famílias muitas vezes, não se encontrando preparadas para acompanhar seu familiar, rejeitam ou omitem-se perante seu familiar adoecido, e os profissionais de saúde deparam-se com estas situações todos os dias. Ocorrem, também, famílias que não podem acompanhar o doente em todos os momentos do tratamento, pois como trabalhadores nem sempre o empregador aceita liberá-los para o acompanhamento hospitalar. Nestes casos, normalmente um membro fica encarregado do acompanhamento, o que gera uma sobrecarga emocional para este sujeito. [...] Independentemente de alterações e mudanças substantivas na composição e nos arranjos familiares, a família é um forte agente de proteção social de seus membros: idoso, doente crônico, dependentes, crianças, jovens, desempregados. Não podemos, porém, exaurir esse potencial protetivo sem lhe ofertar um forte apoio. Há aqui uma mão dupla a ser garantida. Esse raciocínio se aplica às demais políticas na relação com a família. Por exemplo, às políticas de saúde: a família é sujeito coletivo que opera na saúde de seus membros, mas não basta alçá-la à parceria. É preciso produzir saúde para e com a família. (CARVALHO, p.274). De acordo com o manual do SUAS (2005, p.9), a família é “o espaço insubstituível de proteção e socialização primárias, independentemente dos formatos, modelos e feições que ele tem assumido com as transformações econômicas, sociais e culturais contemporâneas”. Objetivar a percepção das formas como as famílias se agrupam e se organizam torna-se essencial para estabelecer ações de promoção à saúde frente ao adoecimento prolongado, sendo este, portanto, o foco prioritário da políticas públicas, tanto no âmbito da educação, enquanto prevenção, e de atendimento e controle, como apoio às doenças transmissíveis, não transmissíveis e incapacitantes de natureza crônica. A doença crônica é compreendida por sua longa duração, por não ter cura (DUNCAN, 2004) e seu aparecimento pode derivar de fatores externos ou internos, dependendo do modo de vida do indivíduo ou de possíveis tendências do organismo. Assim, as doenças crônicas podem ter caráter hereditário (hemofilia, câncer de cólon de intestino) ou serem causadas por um estilo de vida prejudicial ao indivíduo em relação à alimentação, ao 23 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família fumo, ao álcool, entre outros (câncer de laringe, cirrose, AIDS). Além disso, geralmente o tratamento necessita ser feito até o fim da vida, o que pode contribuir para uma má adesão. Além de ter um sentido para o doente, a doença tem um significado para a família, que precisa de uma reorganização para lidar com uma nova situação. Desta forma, a doença é vivida de maneira coletiva pela família, pois quando um membro adoece, toda a sua rede de relações se altera. A morte, na sociedade contemporânea ocidental, pode ser considerada um tema complexo a ser evitado ou negado, já que lembra a finitude e a impotência do ser humano. No entanto, a existência de uma doença crônica faz com que a morte esteja presente, sem previsão exata para acontecer. Sarti (1996, p.63) observa que as famílias pobres organizam-se como rede de obrigações, onde, devido às dificuldades econômicas, eles associam-se com aqueles com quem podem contar; já as famílias de camadas médias se organizam mais em núcleo, por apresentarem uma estrutura socioeconômica estabelecida. Durante o período de hospitalização, muitas vezes a pessoa acometida de uma doença crônica vivencia uma série de experiências emocionais, como ansiedade e medo. Além disso, outras sensações como desamparo e fragilidade também se encontram presentes. Tais situações fazem com que a família assuma um papel decisivo no auxílio à adaptação do indivíduo. Conforme DEBASTIANI; BELLINI (2007, p.78). [...] pretende-se apontar a importância da família enquanto grupo, coletividade, enquanto espaço de cuidado, de promoção do sujeito, de apoio, de escuta, de sentimento. Não como lócus de extrema felicidade, como a instituição que absorve todos os desafetos, que não se indigna, que não se move pela pulsão, uma vez que se entende a necessidade da existência dessa pulsão agressiva, enquanto impulsionadora, questionadora e alavancadora de transformações do instituído. Para as famílias de doentes crônicos, o cuidado toma um significado ainda mais amplo, pois um de seus membros necessitará também cuidado especial no que se refere a sua saúde, para que assim não somente o doente, mas toda a família tenha uma qualidade de vida melhor após o diagnóstico. A família necessitará de uma nova organização em suas relações para que consiga cuidar do doente e de si, para que todos os seus membros sintam-se pertencentes e cuidados durante essa nova realidade familiar. O cuidado mútuo no seio familiar após o diagnóstico torna-se necessário para promover a adesão do paciente, a participação dos demais membros no tratamento e a qualidade de vida de todos seus membros. Centralizar a atenção e o cuidado no paciente e suas famílias fortalece os vínculos na medida em que todos sentem-se cuidados. 24 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família A preocupação em construir conhecimento sobre o familiar cuidador está na mesma direção da preocupação com o trabalhador cuidador, pois estes dedicam “sua vida no cuidado do outro (pacientes, acompanhantes, família...), possuem, também, a necessidade de receber cuidados e atenção especiais” (SUBUTZKI; CANETE, 2004, p.30). O CUIDADO FRENTE AO ADOECIMENTO O cuidado significa a atenção, a dedicação e a responsabilidade com o outro. Praticar o cuidado é perceber o outro como pessoa, sujeito, como um ser que tem necessidades e limitações. Para constituir-se como pessoa, é preciso despender e receber cuidados, é acima de tudo encontrar seu significado no mundo e incluir-se como pertencente a ele e a todos os demais seres. Ao dar e receber cuidados, elaboram-se escolhas, formas de viver e organizar-se em grupo, sendo a família a nossa rede primária. É a partir dela que desenvolvemos nossa percepção acerca do modo como iremos nos mover dentro da sociedade. O cuidado está, então, no patamar da construção do ser humano, através dos gestos, da fala, do comportamento e da atenção consigo próprio, com os membros do núcleo básico e a partir deste, de todos os demais setores das diversas organizações sociais. Cuidamos como forma de defesa frente aos perigos, as situações de sofrimento físico, moral e psicológico, como forma de educar frente às diversidades e de evolução, oferecendo e buscando um “suporte social”. O cuidado pressupõe uma relação de transversalidade, onde todos realizam o papel de cuidadores e de cuidados. O adoecimento, conforme Campos (2005, p.38), demanda que “o ato terapêutico será o olhar. Descobrir aquele que vive (e que sofre) atrás da sua doença“. Se o paciente crônico necessita, além dos cuidados médicos específicos de sua doença, um olhar afetuoso e apoio para enfrentar a rotina de medicamentos, exames e/ou cirurgias. Ele precisa ser ouvido em suas fragilidades, escutado na angústia frente à incerteza do prognóstico e do amanhã; de maneira idêntica a família apresenta as mesmas necessidades, posto que é ela que realiza esse amparo ao familiar adoecido. Precisa adquirir uma carga adicional de suporte para enfrentar o adoecimento do seu familiar; ao mesmo tempo que tem de amparar o paciente, tem de tomar decisões práticas para organizar o curso agora alterado da rotina da família e a sua própria como indivíduo. 25 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família A pesquisa será realizada com quinze (15) familiares de pacientes do Hospital São Lucas da PUCRS (HSL), internados por um período mínimo de 1 ano para tratamento de doença crônica. Após avaliação do Comitê Científico da Faculdade de Serviço Social da PUCRS e da direção do HSL, a pesquisa foi encaminhada para o Comitê de Ética em Pesquisa do HSL. As entrevistas terão abordagem qualitativa, onde realizaremos levantamento das formas de organização da família para o enfrentamento frente ao adoecimento. CONSIDERAÇÕES FINAIS A família tanto quanto o doente crônico, precisa de apoio e proteção, precisa compartilhar também suas fragilidades, tanto de ordem prática quanto emocional, só assim poderá desempenhar seu papel de maneira adequada. Vemos na família a tradução de todas as transformações pelas quais o mundo atual vem passando; para fortalecer-nos e enfrentarmos as profundas mudanças da nossa contemporaneidade, de culturas globalizadas e confrontos de costumes. Somos arremessados para a incerteza das relações regidas pela lógica do mercado, que coloca preço e quantifica as necessidades a serem atendidas, não respondem ao sentido da existência humana. Na gênese desta, está um ser que um dia, para constituir-se em humano, teve de preocupar-se com o outro. Por isso, acreditamos que cuidar está intimamente relacionado com o desejo de ser cuidado. Como dependo do outro para sobreviver, observo nele necessidades (que tenho ou terei) a serem atendidas. Essa capacidade empática de ver-me no outro é que sustenta a relação do cuidado e que está na base do processo evolutivo humano. Num contexto de grande desigualdade social que precariza as relações sociais dos sujeitos, dificultando o acesso às condições básicas de qualidade de vida, consequentemente as possibilidades de as famílias constituírem-se de maneira a oferecer atenção a si própria, é da sociedade que ela buscará cada vez mais os recursos de que necessita. Na malha do tecido social, muitas vezes doença crônica só agudiza ou deixa à mostra um desamparo social já existente, e a intenção fundamental é perceber através da 26 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família organização familiar, as possibilidades para as ações socioinstitucionais perante o fato social – doença crônica e familiares cuidadores. É através da família que se consegue maior adesão do paciente ao tratamento. Tendo o ambiente familiar uma rotina de autocuidado como algo natural, no surgimento de uma enfermidade, ela proporcionará o apoio familiar necessário, pois é a principal aliada na constituição de um processo de tratamento de saúde. Nessa perspectiva, um sujeito em processo de adoecimento deixa de ser um problema individual ou da família, mas da sua comunidade, da empresa para a qual ele trabalha e da nação onde vive. Sendo assim, o bem-estar social de um sujeito influi e até mesmo determina os processos sociais. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ACOSTA, Ana Rojas. 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São trazidos os contratos propostos por Hobbes, Locke e Rousseau, e posteriormente o chamado Welfare State e o Welfare Mix. Visa esclarecer no que constituía tais contratos, e em que contexto foram propostos. No caso particular do Welfare State, descreve brevemente, sua emergência, consolidação e crise, tanto no continente europeu como no contexto brasileiro, bem como entende o Estado de Bem-Estar através das tipologias criadas por R. Titmus e G. Esping-Andersen. Objetiva ainda, trazer definições e distinções entre proteção social, Welfare State e política social, tendo sempre como foco o papel da família no âmbito da proteção social e, mais especificamente, a contribuição feminina na garantia desta proteção. Finalmente, identifica-se o Welfare State como uma evolução do Estado protetor clássico concebido pelos contratualistas, onde as noções de proteção da propriedade e da vida (como atributos do Estado) sofrem uma ampliação. Identifica-se, ainda, o Brasil como um país com forte apelo familista. As famílias estão sendo cada vez mais requisitadas e se mostram sobrecarregadas, sua capacidade de proteção dá sinais de esgotamento. Neste contexto as mulheres acabam carregando os maiores fardos e recebendo as menores recompensas. PALAVRAS-CHAVE: Pacto-Social; Contratualistas; Welfare-State; Welfare-Mix; Família. 1 INTRODUÇÃO O presente trabalho traz algumas definições a cerca dos mais conhecidos pactos sociais. São expostas as principais idéias de Hobbes, Locke, e Rousseau e em seguida adentraremos o Estado de Bem-Estar Social – Welfare State, sempre buscando um ou mais pontos que aproximem tais contratos. A fim de ilustrar o que foi [e é] o Welfare State, é feito um pequeno resgate histórico sobre sua constituição e consolidação na Europa e no Brasil. E ainda se apresentarão as principais tipologias criadas para defini-lo e classificá-lo. É trabalhada ainda a chamada Crise do Welfare State e o surgimento do Welfare Mix. Neste contexto, serão analisados os papéis da família e da mulher como fontes de proteção social. 1 Assistentes Sociais e Acadêmicas do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Universidade Federal de Santa Catarina. 29 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família 2 OS CONTRATUALISTAS A palavra contratualismo vem de contrato social, os autores que descreveram estes contratos também são chamados de jusnaturalistas. Para eles o estado de natureza é considerado um momento não político e se constitui no ponto de partida da análise da origem e do fundamento do Estado ou sociedade civil. Através de acordos, contratos [voluntários], os indivíduos realizam a passagem do estado de natureza para o estado civil, visando à defesa de alguns interesses, como a preservação da vida, da propriedade, da liberdade etc. Uma primeira diferença que podemos observar entre os contratos jusnaturalistas e aqueles firmados no século XX é o fato de nestes últimos a sociedade civil já estar constituída, quando nos contratos anteriores a intenção é descrever justamente a passagem de um estado para outro. Por sociedade civil, vale observar as palavras de Bobbio (1987), quando diz que: Ao longo da história vimos diversos significados para expressão “sociedade civil”, porém o significado predominante foi o de “sociedade política ou Estado” em diferenciação à sociedade doméstica, natural, religiosa, selvagem, etc. No debate atual a contraposição permaneceu. “A idéia de que a sociedade civil é o anteato (ou a contrafação) do Estado entrou de tal maneira na prática cotidiana que é preciso fazer um grande esforço para se convencer de que, durante séculos, a mesma expressão foi usada para designar aquele conjunto de instituições e de normas que hoje constituem exatamente o que se chama de Estado, e que ninguém poderia mais chamar de sociedade civil sem correr o risco de um completo mal entendido (p.49). Poderíamos seguir trazendo aqui as idéias de Karl Marx e ainda a noção de Estado Ampliado de Antonio Gramsci para compreender melhor esta questão, mas este não é o objeto deste trabalho. Sigamos então com os contratualistas. Thomas Hobbes (1588 – 1679): Sua obra teve lugar na convulsionada Inglaterra do século XVII, em meio aos enfrentamentos políticos, econômicos e religiosos que levaram o país a uma guerra civil. Estes enfrentamentos culminaram na execução do monarca Carlos I pelo exército parlamentarista de Cromwell (apoiado pela burguesia manufatureira e os setores agrários ligados à expansão comercial), e o estabelecimento da República na Inglaterra sob um regime militar que garantia as atividades econômicas da burguesia. Foi neste contexto que em 1651, Thomas Hobbes, refugiado na França, escreveu sua celebre obra Leviatã. O Livro foi uma ode ao absolutismo, já que Hobbes como expectador da guerra, acreditava que somente pela mão firme de um soberano, representante de Deus na terra, a paz seria possível. Hobbes elaborou uma teoria política “pura” baseada nos conceitos de ordem e poder. A especificidade do político era a ordem, em contraposição ao estado de natureza. 30 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família Para Hobbes o homem é movido por suas paixões e desejos, age por instinto, irracionalmente. Os homens são desconfiados por natureza, o que faz com que no estado de natureza o homem viva em permanente guerra de todos contra todos. Ele deve matar, antes que seja morto. Assim, no estado de natureza, o homem se caracteriza por sua natureza antisocial, seu instinto de auto-conservação e sua irracionalidade. Hobbes define algumas leis naturais: i) “procurar a paz e segui-la por todos os meios que pudermos defendermo-nos a nós mesmos” (Hobbes, 1974, p.82 apud Vieira, 1997, p. 24); ii) abdicar de sua liberdade, desde que os outros homens também o façam para garantir a paz. A questão que se coloca é , para garantir que as leis sejam cumpridas, é necessária outra lei, emanada por uma autoridade ou poder constituído que tenha poder coercitivo capaz de fazê-la cumprir. É com este objetivo que os indivíduos abdicariam de seus direitos naturais em favor de um soberano. O contrato Hobbesiano diz que os sujeitos renunciariam a seus direitos em favor de um monarca, de poder indivisível, absoluto e irrevogável. O caráter irrevogável do pacto se sustenta no fato de o contrato ter sido firmado entre os súditos e não entre súditos e soberano. Com isto, um súdito que queira romper o pacto o teria que fazer com todos os demais, ou seja, deveria haver um novo pacto, feito entre todos os súditos para que o anterior pudesse ser revogado. O homem, uma vez que pactua, não pode arrepender-se e deve adotar o pacto em sua totalidade. Restam apenas duas liberdades ao homem, a liberdade de defender a sua própria vida e a aquela garantida pelo “silêncio da lei”. Nas palavras de Hobbes: A liberdade de um súdito consiste, portanto, apenas naquelas coisas sobre as quais, ao regular suas ações, o soberano tenha se omitido: tais como a liberdade de comprar, vender e realizar contratos entre si; a de escolher seu próprio domicílio, sua própria dieta e modo de vida; a de criar seus filhos como julgar apropriado;e assim por diante (Hobbes, 1974, p.135 apud Vieira, 1997, p. 29). Alguns autores tratam Hobbes como “fundador” do liberalismo, justamente por ele colocar a atividade econômica no “silêncio da lei”. No pacto de Hobbes, as leis preveem as formas, mas não os conteúdos dos contratos. Assim “o valor de todas as coisas contratadas é medido pelo apetite dos contratantes, portanto o valor justo é aquele que eles acham conveniente oferecer” (Krischke, 1993, p.71). Porém, aqui, diferentemente do que se vê em Locke, o Estado é dono de todas as terras e decide sobre a propriedade de todos, já que as terras são distribuídas pelo soberano. 31 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família Os homens, ao pactuarem, transferem para o soberano seu direito natural e o fazem em função de sua segurança, sendo a ordem imposta pelo Estado sempre uma ordem justa, pois garantiria o fim da anarquia. John Locke (1632-1704): Na Inglaterra do século XVII, logo após a restauração da monarquia com Carlos II (Dinastia Stuart), reativaram-se os enfrentamentos entre o rei e o parlamento que se expressavam nas lutas entre os Tories – católicos, nobres proprietários de terra, favoráveis ao monarca, e os Whigs – burguesia ascendente e protestante, favoráveis ao parlamento e partidários do liberalismo. O sucessor de Carlos II, Jaime II, católico e absolutista, continuou as lutas religiosas entre católicos e protestantes – conservadores e liberais. Os abusos da monarquia levaram a união entre os Tories e os Whigs, que apoiados por Guilherme de Orange (chefe de Estado da Holanda e genro de Jaime II), organizaram uma conspiração contra Jaime II que levou finalmente a sua deposição. A coroa do Parlamento foi assumida por Guilherme de Orange em 1688, quando se estabeleceu uma monarquia constitucional limitada por um regime do tipo parlamentar. Era a vitória do liberalismo sobre o absolutismo. John Locke era partidário dos liberais e opositor dos Stuart, tendo se refugiado na Holanda e retornado apenas após a Revolução Gloriosa. Locke representou através de sua teoria política o interesse dos Whigs – burgueses protestantes e parlamentaristas - e tentou dar uma justificativa teórica para a Revolução de 1688. Ele tenta justificar o direito de insurreição frente ao governante, haja vista que, segundo sua teoria, “quando o executivo ou o legislativo violam a lei estabelecida e atentam contra a propriedade [direito natural], o governo deixa de cumprir o fim a qual fora destinado, tornando-se ilegal e degenerando em tirania” (Weffort, 2001, p. 87). Com isto, sua teoria acabava servindo de justificativa ideológica para a expulsão de Jaime II e para Revolução de 1688. Sua obra política, mais do que nada, representou os interesses da burguesia proprietária que necessitava garantias para suas propriedades e liberdade para produzir e comercializar. Diferentemente da doutrina aristotélica, Locke acreditava que o indívidou precede a sociedade e, portanto, não vê o indivíduo como irracional, e sim em um estado pré-político e pré-social. Para Locke, o estado de natureza se baseava na razão e não era um estado de todos contra todos como dizia Hobbes. Era um estado de ajuda mútua e de boa vontade. No estado de natureza, os homens viviam com total liberadade e igualdade. Segundo ele, o homem 32 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família possui direitos inatos que já existiam no estado de natureza e, portanto, anteriores à sociedade. Os direitos são: a propriedade, a vida e a liberdade. Para Locke, a capacidade de trabalho contida nas mãos de cada homem são sua primeira propriedade. A terra, por sua vez, era algo dado por Deus e com isto comum a todos os homens. Assim, toda matéria bruta que o homem pudesse transformar, utilizando sua capacidade de trabalho, se tornaria sua propriedade. O homem, segundo ele, necessita manter sua própria riqueza e para isto firma um pacto com os demais homens. Para Locke “O motivo que leva os homens a entrarem em sociedade é a preservação da propriedade” (Locke, 1979, 121 apud Vieira, 1997, p. 36). Locke vê o pacto como um contrato entre negociantes. Para ele, o primeiro pacto - o pacto fundamental, o primeiro deles - é o do homem com a mulher, e o pacto posterior é o que se dá entre os homens, para garantia da propriedade, da vida e da liberdade. Para Locke, “O livre consentimento dos indivíduos para o estabelecimento da sociedade, o livre consentimento da comunidade para a formação do governo, a proteção dos direitos de propriedade pelo governo, o controle do executivo pelo legislativo e o controle do governo pela sociedade, são (...), os principais fundamentos do estado civil” (Weffort, 2001, p. 87). O que se pode concluir é que para John Locke, o Estado surge de um contrato entre os homens com o fim de preservar seus direitos naturais irrevogáveis, em particular a propriedade. E, diferentemente de Hobbes, o estado de natureza para Locke se baseava na razão, em um estado de assistência mútua e de boa vontade e não era uma guerra de todos contra todos, como preconizava Hobbes. Isto quer dizer que Locke não vê o indivíduo como um ser irracional, e sim o vê em um estado racional - pré-político Diante do governante absolutista hobbesiano, Locke apresentou um governante que devia prestar conta a seus súditos e cuja principal função era a preservação dos direitos individuais, em especial a propriedade privada. Locke modificou a idéia de “ordem” hobbesiana. Para ele a ordem estava baseada na existência de instituições que a sustentavam a partir de um centro político. Para Locke a sociedade era capaz de gerar uma vontade comum baseada na defesa dos direitos naturais, e o poder se identificava na coação. Jean-Jacques Rousseau (1712 – 1778): No século XVII, na França com a instauração da monarquia absolutista foi destruída a atividade econômica do tipo feudal, e a nobreza se viu debilitada em seu poder econômico, subsistindo como uma classe parasitária ligada à 33 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família corte. Em consequência da crise política, social e econômica que se iniciou durante o reinado de Luis XIV, o crescimento industrial tendeu a ser mais lento que na Inglaterra. O desenvolvimento do capitalismo no campo francês se viu obstaculizado pela existência dos camponeses individuais – pequenos proprietários – sustentados por um regime de propriedade de terra que impedia a exploração agrária em grande escala, a qual foi um dos condicionantes da revolução industrial inglesa. Paralelamente, se formava um burguesia urbana proprietária de capital, que enfrentaria o poder político da aristocracia amparada pela monarquia. Na área de produção do conhecimento, a França do século XVIII recebeu essencialmente a influência de duas correntes de pensamento: o racionalismo e o empirismo. O movimento Iluminista por sua vez deu base ideológica às mudanças promovidas pela burguesia. Um dos pressupostos científicos fundamentais era a existência de leis naturais de aplicabilidade universal, e a razão aparecia como o meio que possibilitava a adequação das sociedades humanas às leis naturais. A crença na existência destas leis implicava a suposição de uma ordem imanente ao universo e a aplicação desta idéia às ciências sociais trouxe como consequência a busca de leis sociais e culturais. Rousseau “é ator singular neste cenário filosófico e político, tendo assumido características especiais, pois se, por um lado, combate o antigo regime, é crítico em relação à nova ideologia emergente naquele momento” (Vieira, 1997, p. 44). Em sua obra há uma leve tendência a defender os direitos das classes subalternas, todavia a teoria de Rousseau representava os interesses da burguesia, oposta ao poder político da aristocracia, por meio da defesa da democracia burguesa. Sua obra estava orientada fundamentalmente para a relação entre a sociedade e o indivíduo. Seu objetivo é a instauração de uma organização solidária onde cada membro depende da sociedade em seu conjunto, abrindo mão das dependências pessoais. O conceito fundamental desta proposta é a vontade geral que regula a conduta dos cidadãos e é a fonte das leis. A vontade geral segundo ele “não é geral por ser de todos mas por ser a mesma”, ou seja, Há, às vezes, diferença entre a vontade de todos e a vontade geral: esta só atende ao interesse comum, enquanto a outra olha o interesse privado, e não é senão uma soma das vontades particulares. Porém, tirando estas mesmas vontades, que se destroem entre si, resta como soma dessas diferenças a vontade geral”. (Rousseau, 1980, p.32). A vontade geral é, portanto, a soma das diferenças das vontades particulares e não o conjunto das próprias vontades privadas. Percebe-se que a existência de interesses particulares conflituosos entre si é a essência da vontade geral no corpo 34 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família político, o que confere à política uma condição de arte construtora do interesse comum (Andriolli, 2003, p. 2). Para Rousseau, o homem nasce bom, hábil e saudável, mas a sociedade, que se opõe às leis naturais, o vai corrompendo através da socialização que recebe. É inevitável não ser corrompido porque o homem é degenerado desde que nasce por sua própria família. O estado de natureza é visto como um momento de ampla felicidade humana, onde os seres humanos não tinham a necessidade de se relacionarem e não havia desigualdade. Para ele o homem colabora com o outro por solidariedade, e não por conveniência nem por temor. Rousseau diz que o estado de natureza é de bondade absoluta. O homem neste estado é livre, capaz de fazer o que quiser. Assim se opõe ao conceito hobbesiano de estado de natureza, já que para ele, as qualidades que Hobbes atribui a este, como o egoísmo e a guerra, não são mais do que produtos sociais. Para Rousseau, o homem tímido e solitário do estado natural, carece de vínculos morais, de linguagem e de propriedade. A propriedade para ele é um produto social e os direitos naturais de Locke são para Rousseau, direitos dos cidadãos. O homem passa a pactuar quando descobre acidentalmente a propriedade privada. Rousseau diz que “O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno lembrou de dizer isto é meu e encontrou pessoas suficientemente ingênuas para acreditá-lo” (Rousseau, Segundo Discurso, V. 164 apud Vieira, 1997, p.57). Aí começa o processo degenerativo do homem. A desigualdade que era inexistente no estado natural passa a existir, haja vista que é um produto social, e uma vez que o homem entra na sociedade civil, não pode voltar ao seu estado inicial porque já está corrompido. O ideal agora é guiar-se pela vontade geral. Para Locke, o Estado surgia de um contrato entre os cidadãos com o fim de preservar seus direitos naturais invioláveis, em particular a propriedade. Já, para Rousseau, o homem pactua quando descobre acidentalmente a propriedade privada. Com o contrato o homem deixa de poder fazer o que quer. Segundo Rousseau, o pacto social surgiu para controlar os conflitos que se derivavam das desigualdades sociais. Para ele, através do contrato social se consegue a unidade do corpo social e se submetem os interesses particulares a vontade geral. Este contrato cria os laços de solidariedade que une cada um a todos e a ninguém em particular. A vontade geral nasce do conjunto, como um juízo coletivo, e assegura ao indivíduo sua liberdade, pois o submete tão somente ao conjunto. A única obediência legitima é às leis que surgem da vontade geral e a soberania pertence ao povo como corpo social. Para 35 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família Rousseau, o governante deve reger-se pela vontade geral, posto que esta representa o povo. Se o faz, cumpre bem suas funções. É importante discernir alguns termos utilizados por Rousseau para um melhor entendimento de sua teoria, assim: República e corpo político são sinônimos. Quando o povo está reunido, em assembléia, este constitui o soberano, mas, após as deliberações, o corpo político assume a forma de Estado, fazendo com que o povo cumpra o que ele mesmo estabeleceu. Soberano e Estado assumem a forma de poder quando se comparam com seus semelhantes, outros Estados. O corpo político é constituído de cidadãos e súditos: cidadãos enquanto participantes da atividade soberana (ativos); súditos enquanto submetidos às leis do Estado (passivos) (Andriolli, 2003, p. 2). A vontade geral reside no povo, e se manifesta através da lei votada diretamente por ele em assembléia. O cidadão é soberano enquanto participante da vontade geral e quando está submetido a ela, é súdito, haja vista que ao obedecer à lei a qual ele contribuiu na criação, obedece à vontade geral que é também sua própria vontade – seu desejo natural de justiça. A liberdade natural é superada com a liberdade civil, que consiste em obedecer somente à lei, em acatar a vontade geral e nunca às vontades particulares. A vontade geral é a vontade coletiva do corpo político que se orienta ao interesse comum. Ela se distingue pela qualidade, por seu caráter ético, ou seja, pelo interesse comum que propõe, e não pelo número de votos. Contudo, no Contrato Social, o autor introduz como método empírico para reconhecer o critério da maioria. A vontade geral se declara na prática através da vontade da multidão, naqueles lugares em que todos os cidadãos participam por meio dos votos (assembleias). Assim, Rousseau trata de superar a antítese tradicional entre o indivíduo e o Estado, entre a liberdade e a autoridade e fundamenta a teoria moderna da soberania popular. Finalmente, na teoria democrática de Rousseau, é rebatida a idéia de estado de natureza de Hobbes e se abandona o individualismo de Locke, enunciando o conceito de vontade geral, ou seja, Rousseau substituiu o individualismo que dominava na teoria de Locke pelo conceito de uma comunidade solidaria baseada na vontade geral. O “contrato social” surgiu, segundo Rousseau, para controlar os conflitos que se derivavam das desigualdades sociais na sociedade civil e não, como sustentava Hobbes, para proteger os indivíduos do estado de natureza. Consequentemente, a sociedade não era o resultado de um contrato baseado em interesses individuais, como afirmava Locke, e sim constituia um vínculo real entre os cidadãos, os homens não se enfrentavam na condição de indivíduos isolados e sim como cidadãos ou súditos de uma comunidade organizada. Os direitos dos indivíduos como a liberdade, a igualdade e a propriedade atribuídos por Locke ao direito natural, para Rousseau, se constituem em direitos de cidadania. 36 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família 3 3.1 WELFARE STATE: UM NOVO CONTRATO A proteção social nos marcos do Welfare State Nota-se, muitas vezes, uma razoável confusão entre os conceitos de Welfare State, política social e proteção social, fazendo com que sejam erroneamente usados como sinônimos. Com isto, parece conveniente trazer algumas definições correntes acerca desta temática. O trabalho de Di Giovani (1998) nos dá uma clara definição de proteção social. Para o autor, cada sociedade desenvolveu métodos e estratégias distintas para proteger seus membros ao longo da história, tornando este processo recorrente e universal. Desta forma são denominados “sistemas de proteção social as formas – às vezes mais, às vezes menos institucionalizadas – que as sociedades constituem para proteger parte ou o conjunto de seus membros” (Di Giovani, 1998, p. 10). Para compreender o Estado de Bem-Estar Social (Welfare State), vamos partir da tradição Anglo-Saxã, onde Asa Briggs define o Welfare State como um tipo de Estado no qual se usa o poder organizado para intervir/modificar a acumulação desenfreada em três direções: i) renda mínima: quantia que é dada a todos, independente de qualquer coisa; ii) reduzir o arco de insegurança: a insegurança seria menor com um bom sistema de saúde, com seguro desemprego, asilos etc.; iii) serviços sociais: universalização dos serviços sociais em várias áreas (saúde, educação, cultura, transporte etc.). Já para Wilenski a essência do Welfare State é um padrão mínimo, garantido pelo Estado, de renda, alimentação, saúde, alojamento e instrução, assegurado a qualquer cidadão como um direito político (pautado na equidade) e não como favor de caráter paternalista ou clientelista (Draibe, 1988). Segundo Draibe (1988), podem ser identificados elementos comuns as duas definições (Briggs e Wilenski), são eles: referência à ação estatal, determinada relação Estado/mercado visando modificar a acumulação desenfreada, e noção de substituição de renda nos casos de velhice, maternidade, desemprego etc. Já, política social, para Barros (1995, p.121), quer dizer o “conjunto de esforços que o Estado realiza para prover de bens e serviços à população que não tem capacidade para acender a eles no mercado” (tradução livre). Esping-Andersen (2000) coloca que pode haver política social sem Estado de BemEstar, mas não o contrário. Com isto, na definição do autor, um Estado de Bem-Estar é mais 37 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família do que um conjunto de políticas sociais, se trata de um pacto social, uma construção histórica única, baseada na redefinição de todo o papel do Estado na sociedade. 3.2 Tipologias e Regimes de Bem-Estar Nos últimos anos, diversos autores utilizaram formas e critérios distintos para suas análises, surgindo assim inúmeras interpretações analíticas. Utilizaremos aqui as definições elaboradas por Richard Titmus, a variação desta descrita por Ugo Ascoli e finalmente a descrição de Gosta Esping-Andersen. A proposta de R. Titmus previa três modelos de Welfare State, são eles: a) Welfare State Residual, quando o Estado intervém como última solução/alternativa, ou seja, através de políticas seletivas, atuando na falência dos canais naturais de satisfação de necessidades (família e mercado); b) Welfare State Meritocrático-Particularista, onde cada um deve ser capaz de atender suas próprias necessidades através de ganhos individuais via mercado. As políticas têm caráter contributivo e servem apenas para cobrir certas falhas do mercado; c) Welfare State Institucional Redistributivo, voltado para a produção e distribuição de bens e serviços extra-mercado, os quais são garantidos a todos os cidadãos, estando assim, cobertos e protegidos de forma universal. Cabe também apresentar a variação definida por Ugo Ascoli, que, estudando o caso italiano, avalia o estudo de Titmus e procura adaptá-lo ao sistema político de seu país, baseado em práticas clientelistas e corporativistas. Ascoli basicamente trata de diferenciar o modelo Meritocrático-Particularista anterior, que ficará assim: O Welfare State, meritocráticoparticularista será dividido em B1 e B2, sendo B1: Particularista-Corporativa (relações de poder - grupos profissionais são favorecidos neste caso) e B2: Particularista-Clientelar (os partidos tendem a favorecer determinados grupos através de benefícios). Atualmente qualquer trabalho que queira se aproximar de uma definição e estudo dos distintos Estados de Bem-Estar deve considerar a exposição de Gosta Esping-Andersen. Em 1990, Gosta apresentou em sua obra The three worlds of welfare capitalism, uma tipologia dos diversos regimes de política social que ao fim e ao cabo não se diferencia muito no essencial da que já havia sido proposto por Titmus. A primeira formulação da teoria de Esping-Andersen contempla também a existência de três modelos ou regimes de bem-estar, denominados: liberal, conservador-corporativo e social-democrata. 38 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família Para Esping-Andersen, um regime de bem-estar corresponde à forma conjunta e interdependente na qual se produz e distribui o bem-estar por parte do Estado, do mercado e da família. Abaixo os regimes descritos por ele: a) Liberal ou Residual: Casos onde os riscos sociais não têm possibilidade de serem resolvidos pelas instâncias usuais (esforço individual, a família, as redes comunitárias solidárias e o mercado). A ação do Estado é limitada, temporária e pontual e se dá através de mecanismos extremamente seletivos. Os custos são financiados basicamente pela contribuição individual e seguros privados. São seus exemplos típicos os Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia; b) Meritocrático ou Conservador: A proteção deve ser responsabilidade de cada um pelo seu mérito. A intervenção estatal é parcial, mais no sentido de organizar a proteção e não de financiá-la ou subsidiá-la, os benefícios dependem quase inteiramente de contribuições e consequentemente, de trabalho e emprego2. Incluem-se aqui, como casos típicos, Áustria, Bélgica, Espanha, França, Alemanha, Japão e Itália; c) Social-democrata: As políticas sociais, nesses casos, têm um cunho universalista e abrangente, incluindo áreas distintas, tanto na esfera econômica como social, tais como educação, saúde, habitação, trabalho, previdência etc. Os serviços e benefícios são compreendidos e garantidos como direitos sociais. Não restam dúvidas de que o autor se refere aqui a um número limitadíssimo de países escandinavos, tais como: Dinamarca, Finlândia, Noruega, Suécia, Países Baixos e em certa medida, Grã-Bretanha. A tipologia apresentada inicialmente por Esping-Andersen era restrita e não permitia a aplicabilidade dos modelos a outros países, e mesmo não previa a existência de outros modelos a margem dos descritos. Outra relevante crítica, proveniente principalmente de grupos feministas, se refere à desconsideração da família e da mulher nos modelos apresentados. Porém, em 2000, em sua obra Social Foudations of Postindustrial Economies, o autor dedicará um capítulo específico a economia familiar e a interação da família com o Estado e o mercado na tríade da proteção social, bem como falará da heterogeneidade de desenvolvimento de cada Estado. Partindo da tipologia de Titmus, Draibe (1988) define o padrão brasileiro de Welfare State como sendo do tipo meritocrático-particularista. É o princípio do mérito, entendido basicamente como a posição ocupacional e de renda adquirida em nível da estrutura produtiva, que constitui a base sobre a qual se ergue o sistema brasileiro de política social. No caso da previdência social, esse é o princípio vigente desde a fase de “introdução”. Na fase de “consolidação”, quando se definem outros benefícios e o sistema de fundos sociais, também a relação renda-contribuição-benefícios segue dominante e, nesse sentido, as políticas sociais, 39 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família na sua maioria, reproduzem o sistema de desigualdades predominante na sociedade. São escassos seus aspectos redistributivos e igualitários, teoricamente presentes tão-somente no âmbito da educação básica e no da saúde, não existindo mínimos sociais extensivos a todos os cidadãos. Na verdade, a intervenção social do Estado está fundada na capacidade contributiva do trabalhador, ratificando aquilo que podemos chamar de distribuição primária de renda. 4 WELFARE-MIX: O PACTO SE ROMPE Os processos de reforma da economia e do Estado (privatizações, desregulamentações e descentralização), sobretudo a partir do início da década de 1990, implicaram uma redefinição das relações com a sociedade, com o sistema econômico e a gestão do governo. Tratava-se, a priori, de passar da concepção de oferta estatal de serviços sociais a uma oferta mais centrada na demanda, o que implicaria uma transferência de funções, responsabilidades e recursos financeiros. Para Pereira (2004), este padrão passou a vigorar a partir da década de 1970, e tratou de substituir o modelo keynesiano/beveridgiano de bem-estar. Por outro lado, visava quebrar a centralidade do Estado, prevendo a participação do mercado e dos setores não-governamentais e não-mercantis da sociedade, na garantia da proteção social. A partir do ponto de vista mais tradicional da análise econômica do setor público, o exercício consistiria em privatizar os setores produtivos do Estado onde o mercado poderia garantir uma rentabilidade dos serviços e transferir para a sociedade civil os gastos considerados “improdutivos”, como os que se realizam nos serviços sociais. Buscava-se também transitar de uma concepção estatal-monopólica da prestação de serviços sociais, a definição de um Welfare Mix com funções específicas designadas ao setor público, ao privado, ao governamental e ao setor informal. O Estado deixa de ser o ator principal para fazer parte de um esquema plural na condição de co-responsável. Desta forma, O Estado compareceria com o seu recurso de poder, o mercado com o dinheiro e o terceiro setor com a solidariedade, criando-se, desse modo, uma coalizão de forças capazes de enfrentar com maior eficácia e abrangência dois principais problemas que afligem a ordem capitalista contemporânea: os crescentes níveis de desemprego estrutural (...) e a ameaça que isto representa para a coalisão social (Pereira, 2004, p. 136) Este processo estabeleceu mudanças profundas nas funções estatais relacionadas com o bem-estar da população, aumentando cada vez mais a retirada estatal das responsabilidades sociais, que foi “abrindo o jogo”, da sua maneira, ao acionar e fortalecer as instituições da sociedade civil em diversos âmbitos. Uma instituição em particular se viu sobrecarregada – a 40 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família família, tendo que cada vez mais dar conta da proteção de seus membros, sem receber o devido respaldo governamental. 4.1 A Família e a Mulher no Welfare-Mix. Nos marcos do Welfare-Mix, a família foi a instituição mais solicitada e responsabilizada, fortalecendo o caráter familista das políticas sociais, no caso brasileiro. De acordo com Martin (1995), Esta questão da partilha de responsabilidades entre família e Estado está também no centro das reflexões dos especialistas, tanto no que respeita aos encargos com a dependência dos idosos como à inserção sócio-profissional dos jovens ou à luta contra a precariedade e a pobreza, e relaciona-se com o aparecimento de um novo modelo denominado welfare-mix, que preconiza exatamente uma combinação dos recursos e dos meios mobilizáveis junto do Estado, dos parentes, mas também junto do mercado ou ainda das iniciativas privadas, associativas, beneficentes e não lucrativas (p. 55). O pacto de bem-estar do pós-guerra, contava com outro modelo familiar, bem mais concreto, com papéis claramente definidos entre seus membros. Esperava-se uma família heterossexual onde a mulher se ocupava dos afazeres domésticos e dos cuidados com o marido, os filhos e os idosos. O homem provia financeiramente a casa. A fecundidade era relativamente alta, os mercados de trabalho protegidos e mais estáveis. Este esquema dava às famílias condições para garantirem sua proteção via mercado e cuidados domésticos.O que vemos é que desde a constituição do Welfare State a família foi considerada como instância de proteção imprescindível para manutenção do sistema. A questão que se coloca é que, para a família dar conta de proteger seus membros, ela precisa de recursos, e estes recursos advém principalmente do trabalho. Seja do trabalho considerado produtivo, ou do trabalho não-pago feminino. O fato é que nos dias atuais a capacidade de proteção das famílias vêm sendo reduzida, na medida em que estas não conseguem mais garantir sua proteção via mercado. Com isto, salta aos olhos uma grande contradição, pois, se por um lado, vemos tendências familistas3, por outro vemos a impossibilidade das famílias de assumirem estas novas responsabilidades que lhes são impostas. Temos então o rompimento do pacto social de bem-estar, pois: [...] o equilíbrio Família-Estado atingiu um ponto crítico de tensão, dado que, por um lado, os factores econômicos e demográficos impõem a redução dos encargos que recaem sobre as finanças públicas e, por outro, as famílias se defrontam muitas vezes com a incapacidade de contribuírem com mais para assegurar o sustento e os encargos relativos às pessoas dependentes (crianças, idosos e adultos), sem contar com o facto de que, as mais das vezes, consideram inaceitável terem de suportar o aumento desses encargos (Martin, 1995, p. 57). 41 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família Com um Estado mínino, a família ganha ainda mais importância como fonte de suporte material e afetiva para seus membros. No Brasil, o Estado de Bem-Estar sempre esteve apoiado em um modelo ideal de família que desconsidera os novos arranjos familiares da população. O mais grave é que este modelo ideal segue sendo o orientador das políticas sociais. Ainda é perceptível um forte apego ideológico, tanto do ponto de vista moral como religioso naqueles que formulam e executam as políticas. E, sobreposto a isto, temos a ausência de uma concepção una sobre a família contemporânea e ainda a impossibilidade de se prever os impactos que as políticas terão sobre as famílias e seus membros. O que fica claro é que a transferência das responsabilidades sociais, do Estado para as famílias, implica o extraordinário aumento do trabalho familiar, e faz com que haja um apelo à mecanismos de integração social tradicionais, tais como as redes de solidariedade, o parentesco, as solidariedades inter-geracionais e familiares. Este aumento do trabalho incide, sobretudo, sobre as mulheres através do trabalho não-pago, ou seja, do trabalho doméstico feminino, e ainda do trabalho produtivo feminino, com sua inserção no mercado laboral como forma de contribuir para proteção familiar. Este aumento do trabalho incide, principalmente, sobre as mulheres através do trabalho não-pago, ou seja, do trabalho doméstico feminino, e ainda do trabalho produtivo feminino, com sua inserção no mercado laboral como forma de contribuir para proteção familiar. Diversos autores (Goldani, 2002; Martin, 1995; Parella, 2001; Campos & Mioto, 2003) concordam que as atuais transformações no mundo do trabalho alteram a capacidade de os homens atuarem como provedores, cabendo às mulheres parte substancial do elevado custo social. Cabe a elas o desafio de cuidar e prover seus lares. Embora as famílias tidas como nucleares ainda representem o arranjo familiar predominante em nosso país, um número crescente de casais, sem se casarem, gera um forte número de nascimentos fora do casamento. Em nossa sociedade é comum o exemplo de casais divorciados nos quais somente um cônjuge se dedica ao cuidado dos filhos. Em outros casos, as mães solteiras por abandono do homem, ou não, e criam seus filhos sozinhas. Esta é uma das formas mais comuns – pais ausentes e mães presentes, portanto, ao pensarmos em políticas públicas devemos considerar este dado, conforme destaca Gizlene Neder, “As políticas sociais para a área de famílias devem levar em conta o apoio a ser dado às mulheres nas famílias dos setores populares, enquanto arrimo econômico; devem, no entanto, atentar 42 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família também para sua valorização enquanto suporte político e psicológico, o qual lhes é culturalmente atribuído dentro do núcleo familiar (NEDER, 2000, p.45)”. Embora as mulheres venham contribuindo para a proteção familiar, também como provedoras - via mercado, sua maior participação ainda se dá através de cuidados domésticos. Dados do IBGE 4, trazidos por Goldani (2002, p. 35) revelam que em 1997, do total da força de trabalho ocupada no trabalho remunerado (produtivo) apenas 37% eram mulheres. Estes dados colocam as mulheres em uma situação chamada por Esping-Andersen (2000) de prémercantilização, haja vista que o conceito de mercantilização só tem valor para aqueles indivíduos inseridos em uma relação assalariada, e que, portanto, tem seu bem-estar diretamente dependente do mercado. As mulheres, por outro lado, têm seu bem-estar dependente da família, não sendo possível mercantilizá-las, antes de desfamilizá-las. EspingAndersen diz que: Para muitas feministas, a questão é que a maioria dos estados de bem-estar, no pior dos casos, reproduzem o confinamento das mulheres em seu status prémercantilizado, ou, no melhor dos casos, fazem demasiado pouco para aliviar a carga dual de emprego e das responsabilidades familiares. O conceito de desmercantilização resulta inoperante paras as mulheres a menos que os estados de bem-estar, para começar, lhes ajudem primeiro a mercantilizar-se” (EspingAndersen, 2000, p. 64 – tradução livre). Esta situação leva, segundo Campos & Mioto ( 2003), as mulheres e os filhos a um acesso subordinado aos direitos sociais, já que seus direitos passam a ser derivados dos direitos do outro, o macho provedor, inserido em uma relação salarial formal. Este quadro fortalece a dependência econômica e psicológica da mulher em relação ao marido, já que quando o casamento se torna instável ou acaba, o acesso à mulher aos direitos sociais é também afetado. Este quadro remete à necessidade de políticas de conciliação da vida familiar e do trabalho remunerado, através de medidas de sustentação familiar que permitam a inserção estável das mulheres no mercado de trabalho. É necessário ainda que o trabalho doméstico seja reconhecido não só pelo seu valor social, mas também pelo “seu valor monetário para os orçamentos familiares e para o Produto Interno Bruto do país” (Goldani, 2002, p. 37). Finalmente, nos marcos do Welfare Mix, identificamos o Brasil como um país com forte apelo familista. As famílias estão sendo cada vez mais chamadas e se mostram sobrecarregadas, sua capacidade de proteção dá sinais de esgotamento. Neste contexto as mulheres acabam carregando os maiores fardos e recebendo as menores recompensas. 43 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS As análises de Pierre Rosanvallon são as que nos dão maior clareza sobre a principal ligação entre os pactos. Assim, identifica-se o Welfare State como uma evolução do Estado protetor clássico concebido pelos contratualistas, onde as noções de proteção da propriedade e da vida (como atributos do Estado) sofrem uma ampliação, vinculada aos direitos civis e sociais. Outro ponto em comum que pode ser destacado é a coesão social que sempre foi buscada ao firmarem-se tais pactos, seja para preservação da vida, da ordem, da propriedade, da manutenção da mão de obra etc. Os pactos de outrora eram firmados entre os indivíduos e serviam para garantir antes de tudo os seus interesses. Hoje o que vemos são pactos firmados unilateralmente, onde a maior parte da população assume apenas o papel de súditos, que de acordo com Rousseau, é o sujeito passivo que obedece à lei. A grande diferença do súdito de Rousseau com o atual súdito, é que o primeiro obedecia a uma lei a qual ajudou a construir e, portanto, obedece a si mesmo. Atualmente, embora vivamos em uma democracia representativa é bom clarear que a maioria dos cidadãos esta à margem das decisões, e os pactos visam, principalmente, à manutenção do capital. Ao que parece apenas a propriedade privada continua sendo protegida, conforme proposto por Locke. A questão que se coloca é: Quem são os proprietários? Neste caso, as análises de Rousseau a respeito da propriedade privada são ainda atuais. Ao fim e a cabo o que se constata no atual pacto é uma sobrecarga das famílias, que são cada vez mais responsabilizadas pela proteção de seus entes. Por outro lado, não se vê, por parte do Estado, políticas eficientes e eficazes de suporte para estas famílias. E finalmente, no seio das famílias, as mulheres surgem como principal indivíduo protetor, garantindo os cuidados domésticos e ainda contribuindo financeiramente para o sustento de seus lares, sem que sejam minimamente reconhecidas e recompensadas por isto, e ainda sem ter um mínimo respaldo para o desempenho destas múltiplas tarefas. NOTAS 1 No caso do modelo Meritocrático, vale retomarmos o conceito de cidadania regulada onde são cidadãos todos aqueles membros da comunidade que se encontram localizados em qualquer uma das ocupações reconhecidas e definidas por lei, ou seja, a cidadania se entende via regulamentação de novas profissões e/ou ocupações. 2 Sônia Parella (2001) ao analisar a conexão entre a política familiar e a estrutura social espanhola, expande a análise de Esping-Andersen e diz que não é suficiente apontar o princípio da subsidiariedade ou destacar o importante papel da família para explicar as peculiariedades de países como a Espanha. Para a autora, existe um grupo de países – no qual podemos enquadrar o Brasil – onde a unidade familiar é a principal “seguridade 44 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família social” para os membros da família, especialmente para os filhos (as) sem trabalho que “optam” por permanecer em casa. Este modelo que ela denomina “modelo católico” ou “modelo mediterrâneo” se distingue do modelo conservador de Esping-Andersen, por um importante viés: a regulação e organização da cobertura dos riscos recaem muito mais na família do que no mercado. O que vemos são regimes de bem-estar fortemente familistas, ou seja, baseados em redes de solidariedade familiar e parentesco, nas quais o papel dos familiares, especialmente das mulheres, é fundamental para garantir o bem-estar familiar. Na interpretação de Campos & Mioto (2003, p. 170) “O “familismo” (...) deve ser entendido como uma alternativa em que a política pública considera – na verdade exige – que as unidades familiares assumam a responsabilidade principal pelo bem-estar social”. 3 Pesquisa de Padrão de Vida (PPV) realizada pelo IBGE entre 1996-1997 nas regiões Sudeste e Nordeste, as quais representam cerca de 2/3 da população total brasileira. REFERÊNCIAS ANDRIOLI, Antônio Inácio. A democracia direta em Rousseau. Revista Espaço Acadêmico. Ano 2. No. 22. Mar. 2003. BARROS, Nydia A. El analise de las políticas sociales desde uma perspectiva familiar. In. Serviço Social e Sociedade, n. 49, ano XVI, Nov. 1995. BOBBIO, Norberto. Estado, Governo, Sociedade; Para uma teoria geral da política. Tradução Marco Aurélio Nogueira, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987, p.44 – 52 CAMPOS, Marta; MIOTO, Regina Célia T. Política de assistência social e a posição da família na política social brasileira. 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NEDER, G. Ajustando o foco das lentes: um novo olhar sobre a organização das famílias no Brasil. In: KALOUSTIAN, S. M. (org). Família brasileira a base de tudo. 4. ed. São Paulo: Cortez, Brasília: UNICEF, 2000. p. 26-46. 45 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família PARELLA, Sônia. Las políticas familiares. In. Adelantado, J. Câmbios en el Estado del Bienestar: Políticas Sociales y desigualdades en España. Barcelona: Icaria, 2001. PEREIRA, Potyara A. P. A política social no contexto da seguridade social e do Welfare State: a particularidade da assistência social. Revista Social & Sociedade, São Paulo, Ano 19, n. 56, p. 60-76, mar. 1998. VIEIRA, Luiz Vicente. A democracia em Rousseau. A recusa dos pressupostos liberais. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1997. p. 20-89. WEFFORT, Francisco. Os Clássicos da Política. Vol. 1. São Paulo: Ática, 2001, p. 50-241. 46 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família FAMÍLIAS¹ NO CONTEXTO ATUAL: UMA REFLEXÃO CRÍTICA² Mara de Oliveira I CONSIDERAÇÕES GERAIS Há ainda na sociedade uma representação simbólica acerca das famílias que difere da realidade. A essa representação parece estarem associados dois elementos. Um definidor dos membros daqueles núcleos que seriam basicamente composto de pai, mãe e filhos, associado ao modelo de família intitulada nuclear³, organizada por laços consanguíneos ou de aliança. Esse modelo imaginário gera, na sociedade, diferentes formas de discriminação e exclusão determinando a todos aqueles sujeitos que se encontram fora desse padrão preconceitos, estigmas, marginalização. Diante disso, qualquer núcleo não enquadrado nesse modelo tende a ser considerado “desestruturado”, “desorganizado”, “incompleto” e, assim, fora daquilo que a sociedade aceita como desejável. O outro elemento vincula-se à função das famílias entendida “como o lócus potencialmente produtor de pessoas saudáveis, emocionalmente estáveis, felizes e equilibradas” (SZYMANSKI, 1995, p. 24) portanto, demarcadora de um modelo desejado. Essa segunda concepção impõe às famílias uma função social que, quando não cumprida, causa males psíquicos e emocionais em seu núcleo, gerando inseguranças, desequilíbrios, desvios de conduta etc., como se as mesmas fossem totalmente autônomas em relação às diferentes formas de ser, agir e pensar. Isto significa colocar, no espaço particular da família, a incondicional responsabilidade sobre aquilo que é construído no domínio do público, da sociedade, como se a vida dos sujeitos fosse constituída e resolvida em caminhos apenas singulares, enraizados em interesses privados e não em prol de interesses socialmente constituídos. Ora, sabe-se que as representações simbólicas são fenômenos produzidos no espaço da sociedade e têm caráter referencial e construtivista. Em apropriação a Jovchelovitch (2000), são sempre representações de um objeto: ocupam lugar de alguma coisa; representam. Ou seja, constroem e re-constroem a realidade de forma autônoma e criativa. Possuem caráter produtor de imagem e significante “que expressa, em última instância, o trabalho do psiquismo humano sobre o mundo” (JOVCHELOVITCH, 2000, p. 41). Por isso, “representam, por excelência, o espaço do sujeito social, lutando para dar sentido, interpretar e construir o mundo em que ele se encontra” (JOVCHELOVITCH, 2000, p. 41). 47 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família É claro que com isso não se está negando as particularidades da vida em família, seus códigos de comunicação, regras, ritos, jogos, formas de emocionar-se (SZYMANSKI, 1995). Há um universo singular de significados próprios de cada família, com suas histórias, credos, medos, afetos e desafetos. Cuidados mútuos, compromissos, vínculos. No entanto, há um processo social de classificação de famílias e suas relações, e é sobre este aspecto que se quer aqui tratar. O imaginário e o vivido parecem manter uma grande distância. O imaginário se pauta, conforme o exposto no início deste texto, naquilo que a sociedade continua “impondo” como desejo: família solidária, harmônica, constituída de pais e filhos unidos que dividem o mesmo espaço físico e relações cotidianas de vínculos afetivos ótimos. O real vivenciado, se forem considerados os indicadores sociais, se organiza em um número significativo de separações, divórcios, recasamentos, definidores de novas relações familiares e de parentesco, onde um filho pode ter vínculos afetivos, morais, materiais e sere cuidado por pais que residem e dividem relações amorosas com outros parceiros e “parentes”, fazendo com que os filhos tenham “duas famílias”, redefinido os papéis, funções sociais e afetivas e, portanto, cuidados mútuos. Há pesquisas demonstrando que a relação de parentesco no Brasil tem sido elemento importante, por vezes imprescindível, nos cuidados com as crianças. É comum os avós tornarem-se os cuidadores cotidianos dos netos, enquanto os pais encontram-se no trabalho, seja por questão econômica, seja por premissa de confiabilidade. Em algumas situações, esse vínculo cotidiano se estabelece apenas por aspecto moral e de credo, agregado ao valor social de que é “melhor” para a criança ser cuidada por avós (substituidores dos pais) do que pela escola de educação infantil, vizinha, ou por uma empregada doméstica; em outras situações, os avós tornam-se os “fiscais” dos cuidados do neto. Ou seja, há um responsável, não parente, com o encargo de executar tarefas diárias de cuidados com a criança (lavar, cozinhar, limpar...), mas com os avós controlando, monitorando tal atividade. Além disso, o real vivenciado é constituído, também, em grande medida, por brigas pela guarda dos filhos, perda de autoridade parental e, nesse sentido específico, a procura dos pais, avós e outros guardiões por aparato jurídico que lhes permitam passar a responsabilidade de cuidadores das crianças e adolescentes a outrem. Com certeza, tem-se uma transformação na vida familiar. Como se compreende a mesma como uma instituição sociocultural historicamente constituída por elementos políticos 48 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família e econômicos que são continuamente renovados e reconstruídos conforme as necessidades da sociedade, esta transformação precisa ser associada às mudanças estruturais da sociedade, atualmente em relação aos fenômenos interligados da globalização, novas tecnologias e modelo de acumulação flexível. Ou seja, as grandes mudanças estruturais interferem de maneira irreversível nas instituições sociais, entre elas as famílias. Neste sentido, acredita-se que há sérios obstáculos para resgatar qualquer padrão histórico ou idealizado de família. II ALGUMAS CONCEPÇÕES DE FAMÍLIA, EMBASADORAS DAS REPRESENTAÇÕES SIMBÓLICAS Apesar das divergências conceituais e analíticas, há, até o presente momento, consenso de que a família é a esfera essencial “para a garantia da sobrevivência, de desenvolvimento e da proteção integral dos filhos e demais membros, independentemente do arranjo familiar ou da forma como vêm se estruturando” (KALOUSTIAN, 1994, p. 12). No entanto, a proteção integral demandada às famílias – cuidados mútuos – apesar de ser consensual, carrega para sua operacionalização diferenças e divergências que somente podem ser compreendidas mediante análises de abordagens teóricas sobre a temática. Apresentam-se três importantes abordagens teóricas da família: a funcionalista, a feminista, e a histórico-estrutural, caracterizando, de forma breve, origens, concepções, contribuições e algumas objeções para a análise da família na contemporaneidade. Salienta-se que a maioria dos estudos sobre família até o final da década de 90 concentra-se na análise das estruturas familiares e no desenvolvimento histórico da família nuclear e, apenas mais recentemente, sobre os novos arranjos familiares face às mudanças capitalistas. 2.1 Abordagem funcionalista4 Para o funcionalismo, a família é uma unidade social consensual e cooperativa, baseada em laços de solidariedade, sendo fundamental para assegurar o consenso e a ordem social5. Da mesma forma que a solidariedade social, a solidariedade familiar pode ser mecânica e/ou orgânica. A solidariedade mecânica resulta dos valores e interesses comuns compartilhados pelos membros da família e/ou da sociedade e que formam a “consciência 49 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família coletiva”. A solidariedade orgânica decorre da divisão social do trabalho que, no seio da família, divide as tarefas domésticas por gênero, tornando seus membros interdependentes. Assim, a coesão familiar é resultado da solidariedade e do bom desempenho das respectivas funções pelos seus membros. Os problemas familiares, quando ocorrem, são fruto da “anomia”, decorrente do desgaste dos padrões de moralidade predominantes nas relações familiares e também sociais bem como da própria ausência de valores morais e normas de comportamento social claramente definidos, capazes de orientar a conduta de seus membros, configurando as crises de valores morais. Para esta corrente de pensamento, a família, além de uma unidade social consensual, também é uma instituição social fundamental para manter a coesão social porque desempenha importantes tarefas especializadas que ajudam a assegurar o consenso e a ordem social: a reprodução biológica e econômica da espécie humana, e também a socialização primária das crianças, a qual envolve a aprendizagem durante a infância das normas culturais da sociedade, por meio dos processos de transmissão, assimilação e experimentação dos valores e padrões de comportamento dominantes na sociedade. Esta abordagem acrescenta ainda o importante papel da família na assistência emocional aos seus membros adultos, assegurando a estabilidade da personalidade (PARSONS, BALES, 1967). Na família nuclear, ao homem cabe o papel de provedor, e à mulher as funções afetivas e de socialização primária das crianças, havendo, portanto, separação entre tarefas, responsabilidades e espaços masculino e feminino. Destarte, as relações interpessoais familiares devem ser baseadas “[...] na hierarquia e subordinação, poder e obediência [...]” (MATURANA,1993, apud SZYMANSKI, 1995, p. 24) à figura masculina. As premissas gerais da abordagem funcionalista ainda compõem o modelo hegemônico na sociedade – pensado e desejado – estruturador de interpretações sobre famílias: “Apresentado não só como o jeito ‘certo’ de viver em família, mas também como um valor” (SZYMANSKI, 1995, p. 25). Esta abordagem tem sido transmitida e captada generalizadamente como a real, a verdadeira, a plena, a única. Quem não a segue é discriminado, excluído, marginalizado. A família que não se adequa ao modelo é denominada “desestruturada”, “incompleta”, “não-família”. Na perspectiva aqui adotada, esta abordagem constitui a linha de frente de um conceito que se acredita ser restrito e que deve receber vários questionamentos em virtude da crescente inserção das mulheres no mercado de trabalho, diminuindo consequentemente o papel 50 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família provedor dos homens, mas também porque os processos de socialização das crianças envolvem, além da família, outras instituições sociais, como a mídia e as escolas. A principal crítica a esta abordagem decorre, entretanto, da negligência da dimensão conflitiva da família. Sem dúvida, a família é espaço de convivência, de cuidados mútuos que envolve consenso, mas também conflitos, desavenças e insatisfação pessoal como atestam, por exemplo, as taxas sempre crescentes de divórcio. Em apropriação a Giddens (2005), é inegável que as relações familiares podem ser ternas e gratificantes, como podem ser tensas e conflituosas, levando as pessoas ao desespero ou a profundas sensações de culpa e ansiedade. O lar tornou-se o lugar mais perigoso da sociedade moderna porque um quarto dos homicídios ocorre dentro da família. Em termos estatísticos, uma pessoa de qualquer idade ou sexo está mais sujeita à violência ou abuso físico dentro de casa do que à noite nas ruas. Por que a violência doméstica é tão comum nos dias atuais? Para os funcionalistas, ela é resultado do desgaste dos padrões de moralidade predominantes na sociedade. Em concordância com Giddens (2005), a vida em família envolve emoções intensas com intimidade pessoal, na qual incidentes sem importância e pequenos mal entendidos podem antecipar grandes confrontos e hostilidades. Além disso, grande parte da violência doméstica, por ser confinada, não é somente tolerada, mas justificada e aprovada pela sociedade, como por exemplo, bater nas crianças, com o argumento do senso-comum de que “uma palmada de vez em quando não faz mal a ninguém”, ou aceitar a violência entre casais, porque “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Assim como uma grande parcela da população entende que bater nos filhos é educá-los, também uma proporção substancial de casais acredita que algumas circunstâncias legitimam a violência de um dos cônjuges contra o outro. Em suma, nesta visão, a violência familiar confinada é socialmente sancionada. Diante ao apontado até aqui se pode perguntar: por que a sociedade não só tolera, mas justifica, aprova e, consequentemente, autoriza não só a violência doméstica, mas também os pequenos delitos e as pequenas fraudes e irregularidades fiscais? É possível reduzir a incidência da violência doméstica e modificar a realidade social sem uma nova maneira de pensar, de agir e de sentir, sem um reforma moral e cultural, sem uma revolução simbólica, sem uma ideologia alternativa, sem um movimento de luta contra-hegemônico? Qual é a relação existente entre violência doméstica e direitos humanos? Como é possível 51 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família reduzir a violência doméstica se a maioria da população entende que o movimento em defesa dos Direitos Humanos serve apenas para proteger bandido? Compreende-se que o indivíduo, grupo ou sociedade que não consegue sequer defender e muito menos compreender e assegurar os Direitos Humanos é, consciente ou inconscientemente, violento. 2.2 Abordagens feministas6 A abordagem feminista da família “nasce” nos anos 60 do século XX, enquanto resultado da produção teórica de mulheres intelectuais engajadas no movimento feminista de luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres7. Não se trata de uma abordagem homogênea. Há as feministas liberais e as radicais. As liberais centraram suas preocupações na luta das mulheres pela conquista das mesmas liberdades que os homens. Neste sentido, defendem a igualdade de direitos entre homens e mulheres. As radicais compreendem que a dominação masculina é um dos ingredientes da dominação econômica, política e cultural de classe. Por isso, a libertação das mulheres da opressão masculina na sociedade capitalista envolve um processo mais abrangente de luta pela emancipação econômica, política e social de classe. De maneira geral, o feminismo questionou a abordagem funcionalista de que a família é uma unidade consensual e cooperativa, baseada em laços de solidariedade e cuidados mútuos. As análises feministas mostram a presença de relações de poder desigual8 dentro da família, concebendo-a como um campo de luta e de reprodução da dominação masculina (de gênero) e por extensão de dominação de classe. Mostraram ainda “as lacunas e mesmo falsificações e generalizações abusivas de um saber que identifica a masculinidade com o universal e exclui e subordina as mulheres seja como objecto seja como sujeito (NOGUEIRA; SAAVEDRA, 2006, p. 7). As feministas exploraram várias temáticas, mas três (GIDDENS, 2005) são particularmente importantes em relação à contribuição do entendimento das famílias na contemporaneidade: a divisão doméstica do trabalho, para algumas, existiu antes da industrialização, estando ligada ao patriarcado, mas se tornou mais aguda com a distinção entre esfera doméstica e esfera do trabalho, com a disseminação do modelo do homem provedor na maioria das sociedades industrializadas; as relações desiguais de poder, dando grande atenção ao fenômeno da violência doméstica, a face abusiva e violenta da família, 52 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família envolvendo o espancamento da mulher, o estupro conjugal, o incesto e o abuso sexual de crianças; as atividades assistenciais dentro da família que demandam uma grande carga de trabalho emocional por parte das mulheres por serem atividades assentadas no amor e na emoção. Concluindo, em clara contraposição ao funcionalismo, o feminismo aborda a família como uma instituição permeada de relações sociais conflituosas e encarregada de assegurar a reprodução das relações de dominação econômica, política e social de gênero e, para as feministas radicais, também de classe. Para as feministas, a violência doméstica é resultado do poder masculino patriarcal. A principal objeção que se faz a esta abordagem decorre do fato de a família também ser um espaço de relações de conivência e de cumplicidade entre os seus ocupantes e não somente de batalha. Por isso, sem negar que as mulheres e as crianças são os alvos principais da violência doméstica, as mulheres não podem ser tratadas, por princípio, como “vítimas inocentes” da dominação masculina. É sempre necessário considerar a dinâmica das microrelações de poder e as diferentes e sutis estratégias de dominação e de resistência dos agentes envolvidos. Além disso, deve-se levar em consideração, no contexto contemporâneo, a forte tendência de indefinição ou de indeterminação dos papéis sociais e sexuais dentro da família, como se pode observar no número sempre crescente de mulheres provedoras. 2.3 Abordagem histórico-estrutural A sociologia histórico-estrutural surge no final da primeira metade do século XIX com Marx e Engels9. Este último abordou a família como uma instituição social, cuja origem data do advento da propriedade privada e que desempenha as funções de assegurar a reprodução biológica da espécie; a reprodução econômica dos seus membros; e a legitimidade do direito à propriedade privada, por meio da herança. Na primeira metade do século XX, a família é concebida pelo italiano Antonio Gramsci como aparelho privado de hegemonia e, logo a seguir, na segunda metade do século XX, como aparelho ideológico de Estado pelo francês Louis Althusser. Os aparelhos privados de hegemonia servem para constituir os indivíduos porque os mesmos não têm condições de se auto-formarem. Enquanto aparelho privado de hegemonia, a família desempenha o papel de assegurar a transmissão e assimilação da ideologia dominante – os valores, as opiniões, as idéias, as atitudes, os sentimentos, as práticas individuais e 53 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família coletivas dominantes –, como também a reprodução da força de trabalho, sendo fundamental para assegurar a hegemonia da classe economicamente dominante10. A família enquanto aparelho ideológico do Estado é responsável, juntamente com outros aparelhos ideológicos, de assegurar a reprodução das relações de produção capitalistas, baseadas na exploração e na dominação do trabalho pelo capital11. Nas duas perspectivas, a família é uma instituição social reprodutora das estruturas de dominação econômica e política de classe, por meio, sobretudo, do seu papel ideológico na manutenção da hegemonia da classe dominante. Mais recentemente abordagens sociológicas e demográficas da família têm enfatizado a dimensão conflitiva das relações familiares, uma vez que os interesses individuais colidem cada vez mais com os interesses familiares em particular e os interesses coletivos em geral. Mas chama-se atenção que enfatizar a dimensão conflitiva da família não significa negligenciar sua dimensão consensual. A família, por exemplo, ainda assume a responsabilidade pela socialização primária das crianças, embora em menor intensidade e compartilhando voluntária ou involuntariamente com outras instituições esta função, das quais se destacam a mídia, cujos processos de socialização primária tendem a ser involuntários e a escola que dispõe de maior aceitação e aprovação social, envolvendo processos de socialização voluntária. III UMA ABORDAGEM PARA COMPREENDER A FAMÍLIA Para compreender a família na contemporaneidade, indicamos a apropriação da noção de “campo social” do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1998). Um campo social é um espaço de relações de poder entre os seus ocupantes, com leis próprias de funcionamento e que não está isolado de outros campos sociais dos quais sofre e/ou exerce pressão. Nesta perspectiva, apreender a família como campo social significa atentar para a dinâmica interna das relações de dominação e de subordinação que ora pode estar com algum ou alguns de seus membros e ora com outro ou outros, e também para suas regras internas de funcionamento. Significa ainda considerar como os demais campos sociais, tais como os campos econômicos, políticos e culturais interferem nos processos de decisões individuais e familiares. No campo econômico, por exemplo, o desemprego estrutural tende a afetar as relações sociais, a subjetividade e a identidade das pessoas. Da mesma forma, implica verificar as pressões que a família exerce sobre os outros campos sociais. O 54 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família agravamento dos problemas sociais enfrentados pelas famílias de baixa renda tende a aumentar as demandas e pressões de assistência social, habitacional, sanitária e educacional sobre o campo político. Em suma, a aplicação da noção de campo social exige que a dinâmica interna das relações familiares, as regras específicas de funcionamento da família, os condicionamentos estruturais e os elementos conjunturais do contexto histórico imediato sejam levados em consideração na análise da família. A abordagem histórico-estrutural insiste em que os fenômenos sociais devem ser analisados no seu movimento histórico-dialético e a partir de condições estruturais determinadas. É sobre as novas condições estruturais do desenvolvimento do capitalismo contemporâneo e seus impactos no âmbito dos valores e relações sociais que será tratado a seguir, tentando articular com as mudanças ocorridas na família. 3.1 Condições estruturais do capitalismo contemporâneo: o que afeta a família? No campo econômico-social, três fenômenos interligados caracterizam o desenvolvimento do capitalismo na contemporaneidade: a globalização, as novas tecnologias e o modelo de acumulação flexível do capital. Mas qual é o impacto destes fenômenos estruturais na família? Com certeza não é a desestruturação da mesma, mas a configuração de novos modelos e perspectivas de viver em família, mais flexíveis e instáveis, e provavelmente mais adaptáveis às novas condições e exigências econômicas, tecnológicas, culturais e sociais do capitalismo, como se pode observar no aumento dos namoros e relacionamentos virtuais, na diversificação dos valores, no surgimento de novos arranjos familiares, estilos de vida, modos de comportamento e relações sociais. Nas sociedades capitalistas, desde os anos 70 do século XX, a transição do modelo fordista-taylorista de produção para o modelo de acumulação flexível de capital, acompanhada pela introdução de novas tecnologias de comunicação, sem as quais a globalização financeira não seria possível, implicou na configuração de uma nova fase de compressão do tempo-espaço, expressa na aceleração do tempo de produção, circulação e consumo e no fim das barreiras espaciais para o fluxo do capital. A consequência geral desses fenômenos foi acentuar a volatilidade e efemeridade dos bens, serviços, valores, relações sociais, maneiras de pensar, sentir e agir. Portanto, se está 55 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família diante desta tendência estrutural: não só os bens e serviços tornam-se cada vez mais passageiros e descartáveis, mas também os valores, as formas de pensar e agir, as relações sociais. No campo econômico, a aceleração do tempo acentuou a instantaneidade das mercadorias e serviços, incluindo a mercadoria força de trabalho, sujeita a rápidos processos de desqualificação-requalificação, gerando uma sociedade do descarte, cujo significado se estende aos valores, estilos de vida e relações sociais. A sociedade do descarte é marcada pela insegurança e incerteza econômica, como se pode observar no mercado de trabalho, onde todos têm de enfrentar o desafio do tempo frente à permanente ameaça de desemprego e também na proliferação de todas as espécies de seguros (de vida, de casa, de carro, de saúde) contra a insegurança econômica e incerteza futura. No comportamento social, a aceleração do tempo tem implicado na troca e diversificação das relações sociais e de valores, na mudança de lugares, de maneiras de agir e de pensar, no surgimento de novos estilos de vida e de novos relacionamentos. Também os indivíduos, suas relações e valores sociais, ao lado das técnicas, processos de trabalho, mercadorias e serviços se tornam rapidamente obsoletos e descartáveis, contribuindo para a configuração de uma sociedade fragmentada. No domínio psicológico, a aceleração do tempo tem provocado profundas mudanças na psicologia humana, aumentando a manifestação dos fenômenos psíquicos característicos da “corrida contra o tempo”, tais como a depressão, o estresse, a ansiedade, a esquizofrenia, a insegurança em si mesmo e nos outros, a perda de sentido de continuidade, gerando uma sociedade caracterizada consequentemente pela instabilidade emocional e social. Em suma, o pano de fundo da sociedade capitalista contemporânea é a insegurança econômica, a incerteza futura e a instabilidade emocional. Estas são as consequências mais gerais das transformações estruturais do capitalismo na fase atual e que configuram o contexto histórico-estrutural dos novos arranjos familiares. 3.2 Algumas reflexões e posicionamento No Brasil, a chefia feminina é um fenômeno que cresce significativamente e que merece uma discussão mais aprofundada. Na perspectiva do feminismo de cunho liberal, a situação de provedoras econômicas dos domicílios é sinônimo de poder e autonomia feminina nas relações familiares, mudando as relações de gênero e o formato das famílias. Na visão de 56 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família estudiosos de perspectiva marxista, a chefia feminina se caracteriza muito mais como um quadro de sobrecarga de trabalho, aumentando as desigualdades de gênero na esfera doméstica. O sistema patriarcal está declinando, mas a igualdade ainda não chegou. As mulheres ganharam espaço ao se constituírem em chefes de família, partilhando com os homens o provimento financeiro da família, mas está divisão ainda não chegou ao trabalho doméstico, por que as mulheres dedicam mais que o dobro de horas ao serviço doméstico, se comparado com os homens (FIGUEIRA, 2006). As mudanças recentes nos padrões familiares e de casamento também apontam, para um aumento significativo das expectativas individuais nos relacionamentos entre casais e entre pais e filhos. As pessoas desejam relacionamentos mais ativos e satisfatórios, ou seja, de maior intimidade e compromisso com a relação, bem como de maior colaboração e comunicação emocional entre os seus participantes e nas interações entre pais e filhos (GIDDENS, 2005). Ou seja, a crescente autonomia de cada um dos membros da família “tem colocado em pauta os projetos de vida individuais nem sempre compatíveis com os projetos familiares” (MIOTO, 2002, p. 121). Apesar de o casamento não ser mais necessário para uma vida sexual plena, bem como para a geração de filhos não significa que não seja mais desejado. Hoje a busca de amor, afeto, prazer sexual, companheirismo são elementos essenciais à maioria dos casamentos. Por isso, a insatisfação não é com o casamento em si, como atesta o crescimento da indústria de aconselhamento matrimonial, dos juizados de família, dos grupos de ajuda marital, das taxas de divórcio e de recasamentos, indicando uma elevada determinação de fazer do casamento um relacionamento satisfatório e recompensador (GIDDENS, 2005). Num contexto de crescente insegurança, incerteza e cheio de riscos os relacionamentos afetivos exigem muito empenho e esforço para darem certo, uma vez que os indivíduos se defrontam com uma multiplicidade de escolhas que podem servir tanto para selar e aperfeiçoar as uniões com os outros como também para dissolvê-las. Em síntese, a “família não acabou” ao contrário do que afirmam alguns. Ela tem abarcado uma diversificação de arranjos, a flexibilização dos papéis de gênero, e o aumento das expectativas individuais. Na contemporaneidade pode-se afirmar que a família se configura sob variadas formas de agrupamento social – pequenos ou expandidos – constituídos por vínculos afetivos, “projetos de vida em comum”, sobrevivência, ou proteção. Por isso, a denominação família 57 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família abarca a associação de pessoas que “escolhem” conviver por razões afetivas, morais, circunstanciais, de sobrevivência e/ou por sentimento de obrigação, assumindo um compromisso (consciente ou não) de cuidados mútuos. Os cuidados mútuos congregam acolhida, apoio, atendimentos; trocas objetivas e intersubjetivas de afetos, serviços e problemas; solidariedade; transmissão de valores, conceitos, formando presente e futuro. O mundo familiar “[...] mostra-se numa vibrante variedade de formas de organização, com crenças, valores e práticas desenvolvidas na busca de soluções para as vicissitudes que a vida vai trazendo” (SZYMANSKI, 1995, p. 27). Essa compreensão mais ampliada da família coloca como desafios imediatos: (a) alterar o modo de pensar, “sentir” e de representar a família e sua organização, reconhecendo as variedades de arranjos familiares; (b) aceitar as diversidades, acolhendo, no exercício do trabalho cotidiano, essas novas configurações; (c) buscar alternativas de ação que não se limitem às condições materiais de vida; (c) constituir redes de serviços, programas e projetos (especializados) na orientação e acompanhamento aos diferentes grupos familiares. Desta forma, estaríamos contribuindo para que a família pudesse cumprir suas funções de proteção e desenvolvimento de seus membros. Não esquecendo que a proteção social não se restringe às famílias, mas é responsabilidade social pública do Estado e da sociedade em geral. NOTAS DE FINAL DE TEXTO 1 A história nos indica a dimensão cultural, política, ideológica constituidora da família, no entanto, é preciso ter claro que sendo a família uma esfera social “não é uma totalidade homogênea, mas um universo de relações diferenciadas, e as mudanças atingem de modo diverso cada uma dessas relações e cada uma das partes da relação” (SARTI, 1995, p. 39). Por isso vários autores preferem referir famílias, no plural. 2 Este artigo foi primeiramente apresentado na 15º Semana de Teológica de Caxias do Sul como o título Família e cuidados mútuos, sugerido à palestra: para aproximadamente 600 pessoas 3 O modelo clássico de família nuclear agrega basicamente mãe, pai, filhos vivendo sob o mesmo “lar”. Responsável pela produção de indivíduos saudáveis, emocionalmente estáveis, felizes e equilibrados ou não (SZYMANSKI, 1995). 4 A perspectiva funcionalista surgiu no final do século XIX, quando o padrão da família nuclear, tal como conhecemos hoje, predominava nos meios urbano-industriais. É a corrente que mais desenvolveu estudos sobre a família, enfatizando as funções que desempenha na sociedade. 5 Émile Durkheim é o principal representante da corrente funcionalista. Esta definição de família está implícita na sua concepção de sociedade, enquanto sistema social, no qual suas partes constituintes contribuem para a harmonia e o bom funcionamento de todo o sistema. 58 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família 6 “Nos anos 1970 e 1980, as perspectivas feministas dominaram a maioria dos debates e das pesquisas sobre família. Se previamente a sociologia da família concentrava-se nas estruturas familiares, no desenvolvimento histórico da família nucelar e da família ampliada e na importância dos laços de parentesco, o feminismo conseguiu direcionar as atenções dentro da família para o exame das experiências das mulheres na esfera doméstica” (GIDDENS, 2005, p. 153). 7 Obviamente que a defesa e a luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres é muito anterior ao movimento feminista dos anos 60 do século XX. Na história moderna esta questão está presente na teoria contratualista do Estado, no socialismo utópico, no liberalismo democrático e também nos críticos do liberalismo. 8 Não se pode esquecer que até o final do século XIX e meados do século XX havia uma concepção generalizada da inferioridade da mulher. Fundamento disto pode ser representado pelo fato de a mulher, por exemplo, no Brasil ter direito ao voto apenas a partir de 1932. O primeiro país a garantir o sufrágio feminino foi a Nova Zelândia, em 1893. A exclusão da participação da mulher na condução da sociedade esteve fundamentada em concepções, ainda presentes na sociedade, de que a mulher, por questões “genéticas” é, opostamente em relação ao homem, dependente, passiva, ilógica, somente sentimento, o que lhe dá menor concentração, auto-confiança, capacidade de tomar decisões, liderança. Isto, com certeza, apóiam e referendam a “necessária” desigualdade. 9 Foi Friedrich Engels, na obra “A origem da família, do Estado e da propriedade privada” [1884], que mostra a conexão histórica entre o surgimento da família, da propriedade privada e do Estado. Para ele a formação da família e da sociedade andam juntas, por que a sociedade organiza a relação entre os sexos para sua própria vida e sobrevivência, e principalmente visando suas necessidades econômica. 10 Para Gramsci é a ideologia que mantém a coesão e o consenso entre classes sociais diferentes e com interesses antagônicos. Por isso, é o cimento da sociedade. 11 Na obra Aparelhos ideológicos de Estado, Louis Althusser, em nota de rodapé, esclarece que a família desempenha outras funções além da ideológica por que intervém na reprodução da força de trabalho e, dependendo do modo de produção, ela atua como unidade de produção e/ou como unidade de consumo. REFERÊNCIAS ALTHUSSER, Louis. Aparelhos Ideológicos de Estado. 8 ed. Rio de Janeiro: Graal, 1985. BECK, Ulrich. La Sociedad del Riesgo Global: amor, violencia, guerra. Tradução de Jesús Alborés Rey. Madrid: Siglo, 2006. BERQUÓ, Elza. Arranjos familiares no Brasil: uma visão demográfica. In: SCHVAREZ, Lilia Moritz (Org.). 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São Paulo: EDUC; Cortez, 1995. 60 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família FORMAÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL E A PRÁTICA COM FAMÍLIAS Maria Isabel Barros Bellini1 Renata Bonalume2 Emanuelle Volker 3 RESUMO: O presente artigo problematiza o tema formação profissional do assistente social e o trabalho com famílias a partir da pesquisa de iniciação científica realizada no PPGSS/PUCRS em 2007/2008 com o objetivo de elaborar um mapeamento dos processos de trabalho dos assistentes sociais e estagiários de Serviço Social em Estágio Curricular Obrigatório com as famílias nos campos de prática, a fim de subsidiar o Curso de Graduação em Serviço Social da PUCRS. Para isso será apresentada uma breve contextualização do processo histórico de como vem se constituindo as famílias - novos arranjos sociais – e, por conseguinte, o resultado da coleta de dados e sua análise. INTRODUÇÃO Este artigo se propõe a tecer reflexões que se referem à formação e aos processos de trabalho do assistente social que tem como público-alvo de suas intervenções as famílias diante das diferentes áreas de atuação profissional. Tem-se como objetivo demonstrar como se caracteriza os diferentes tipos de abordagem com famílias, assim como a forma que a graduação vem subsidiando o discente em Serviço Social para uma intervenção qualificada nesta área. Logo, serão discutidas como se constituem as famílias no contexto contemporâneo, bem como vem se desenvolvendo o trabalho do assistente social e de estagiários com as novas configurações familiares Tais reflexões são embasadas em uma pesquisa qualitativa que teve como sujeitos assistentes sociais que trabalham em instituições credenciadas como campo de estágio curricular e realizam supervisão de campo para alunos da Faculdade de Serviço Social da 1 Assistente Social, ,Doutora em SS, Docente da FSS/PUCRS, Coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisa em Família, Serviço Social e Saúde do NEST/Núcleo de Estudos e Pesquisa em Saúde e Trabalho/PPGSS/PUCRS. Coordenadora de Pesquisa da Escola Saúde Pública da Secretaria Estadual da Saúde/RS/Brasil.e-mail: [email protected]. 2 Acadêmica de Serviço Social. Bolsista de Iniciação Científica vinculada ao Núcleo de Estudos e Pesquisa em Saúde e Trabalho. 3 Assistente Social da Prefeitura Municipal de Canoas/RS, Mestranda no Programa de Pós-graduação em Serviço Social, bolsista parcial do CAPES, e-mail: [email protected]. 61 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família PUCRS. Esses profissionais trabalham com famílias em diferentes espaços sócioocupacionais, como na área da Assistência Social, Saúde, Judiciário e Empresas estatais. 1.1. Serviço Social e Família: uma relação que atravessa séculos O Serviço Social surge no Brasil na década de 1930, a partir de iniciativas particulares de setores da burguesia, tendo como parceria protetora a Igreja Católica, e sua principal referência era o Serviço Social Europeu. O processo revolucionário, experenciado na década de 20, exigia do governo a recomposição do quadro político-social e econômico, concluindo que os métodos repressores, até então exercidos pela polícia, não tinham mais êxito, sendo que era necessário outras formas de contenção e domesticação do operariado, pois este se organizava cada vez mais na luta pela vida, pelo trabalho e, finalmente, pela sua sobrevivência. Nesta época, como em tantas outras, o Estado e a Igreja unem-se como poderes organizados e fortes, fortalecendo a classe dominante a qual então passa a organizar-se através de estratégias disciplinadoras e desmobilizadoras, penalizando cada vez mais a classe trabalhadora. Em 1932, é criado em São Paulo o CEAS - Centro de Estudos e Ação Social de SPvinculado aos setores mais abastados da burguesia. Este se configura como um papel importante na qualificação da prática social – seu 1º curso de preparo para o exercício da ação social foi dirigido somente para moças e organizado por um profissional vindo da Bélgica especialmente para isso (assistente social belga Adéle de Loneux) e foi denominado de Curso Intensivo de Formação Social para Moças. Esse curso foi considerado o primeiro passo do Serviço Social no Brasil. O Serviço Social, nesta época e por muito tempo, carregou na sua estrutura a síntese das funções econômicas e ideológicas. Com a reprodução das relações sociais, diante da produção capitalista, tinha intrínseca uma identidade útil para a burguesia. Nestas décadas iniciais, executava práticas assistenciais desenvolvidas, e os benefícios - empréstimos, assistência médica, social e auxílios materiais - reproduziam a nebulosidade política. A política exercida era rigorosa e controlista quanto ao movimento dos trabalhadores e suas manifestações coletivas; o objetivo era abafar tais movimentos e controlar o nível de tensão da sociedade, e o Serviço Social, neste sentido, constituía-se útil ao governo e à burguesia até as décadas 1950 e 1960, com o movimento de reconceituação. Não obstante, entendemos que 62 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família na contemporaneidade, trabalhamos para um processo de ruptura com práticas conservadoras, como as mencionadas acima. Isto é, ao não trabalharmos para os interesses da burguesia, contribuímos para que a práxis conservadora perca hegemonia, consolidando o nosso Projeto Profissional (VASCONCELOS, 2003, p.95). No final da década de 1930, retomando o contexto histórico do Serviço Social, verificamos que ele inicia sua caminhada em direção à profissionalização, com interesse marcadamente utilitarista da burguesia. A identidade da Prática social consistia em funções ideológicas de controle social e desta forma contribuía para o fluxo expansionista do capital. As práticas dos assistentes sociais fortaleciam o sentimento de que o Estado nutria um paternal interesse pelo cidadão: O fetiche da prática, fortemente impregnado na estrutura da sociedade se apossou dos assistentes sociais, insuflando-lhes um sentido de urgência e uma prontidão para a ação que roubavam qualquer possibilidade de reflexão e de crítica (MARTINELLI, 2003, p.114). Na década de 1960, inicia o desenvolvimento de uma perspectiva crítica ao Serviço Social tradicional e são realizadas tentativas de vinculação da ação profissional aos processos e lutas por mudanças. Mudanças que fervilhavam na profunda agitação política no Brasil e na América Latina. Há aí um período de gestação da consciência nacional-popular, com o engajamento de setores sociais na luta por reformas estruturais de base. Esses processos de conscientização atingem camponeses, estudantes, operários, intelectuais. Em toda trajetória do Serviço Social, independente de como a profissão se colocava no cenário político, o Serviço Social sempre atuou junto às famílias; seja com abordagens individualizadas, no atendimento a grupos, na atuação em comunidades. Na sua história, enquanto profissão, foi assumida pelos assistentes sociais a responsabilidade de intervir junto a esse grupo tão importante na construção das identidades do ser humano. Entendendo a família como espaço onde se dão as primeiras relações humanas, o assistente social obtém, através de sua intervenção neste segmento da sociedade, a compreensão da “base” das relações sociais, já que os primeiros vínculos são estreitados e/ou estabelecidos no círculo familiar para grande parte das pessoas. A família revela por meio de sua historicidade, suas transformações e configurações atuais; ela tem sido objeto do voyerismo dos assistentes sociais, compondo um tema de significativa importância na formação do acadêmico de Serviço Social. Isto impõe que se estabeleçam formas de conhecimento e visibilidade que permitam a compreensão das práticas dirigidas às famílias pelos assistentes sociais e acadêmicos nos campos de estágio curricular 63 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família obrigatório, pois aí estão as contribuições e influências nas práticas desses futuros profissionais (BELLINI, 1992). A pesquisa de que trata esse artigo propõem dar visibilidade às práticas desenvolvidas por estes profissionais e estagiários do Serviço Social no atendimento às famílias. A mesma foi realizada durante maio de 2007 a dezembro de 2008, tendo como amostra 08 (oito) assistentes sociais e 06 (seis) estagiários de estágio obrigatório em Serviço Social. Como instrumento para a operacionalização deste estudo qualitativo, foi utilizado formulário de entrevista semi-estruturada com profissionais e estagiários e questionário enviado aos assistentes sociais. Este Projeto de Pesquisa foi encaminhado para a Comissão Cientifica da Faculdade de Serviço Social e após para o Comitê de Ética em Pesquisa/PUCRS. Os procedimentos referentes a este estudo foram realizados pelo bolsista de Iniciação Científica com o auxílio da mestranda em Serviço Social e da Coordenadora desta pesquisa. 1.2. Os novos arranjos familiares e as demandas para o Serviço Social Conforme Mioto (1997), apesar das diferentes constituições familiares no Brasil, ainda predominam as famílias nucleares, embora seja em menor número que nos séculos passados. Isso se deve ao aumento significativo de famílias monoparentais, em especial liderada por mulheres. Também é percebido o aumento de famílias recompostas a partir dos divórcios e separações, e, hoje, isto já não é mais mal visto pela sociedade como nos séculos anteriores. Essas características são espelhos das mudanças do mundo as quais também são identificadas no Estado Brasileiro, desde seus conceitos, dogmas, acesso e tecnologia e a informação. Estes reflexos, da mesma forma que possibilitam diferentes constituições familiares, também contribuem para o empobrecimento deste segmento. Neste contexto, é possível refletir sobre o entendimento de que mudanças sofridas pelas famílias brasileiras dizem respeito a sua própria organização interna e/ou falta de articulação com a vida familiar. Conforme os dados coletados nesta pesquisa e, especificamente, referente a uma questão que indagava sobre a concepção de família para esses profissionais, foi verificado que, há um avanço na compreensão do conceito de família: “...hoje não há mais família nuclear, ela é diversificada...somente mães e filhos, avós como responsáveis por seus netos, famílias com homossexuais...”, como afirma um assistente social. Os estudantes também compreendem a família desta forma, demonstrando que “...hoje em dia não temos um 64 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família conceito único, a configuração das famílias mudou bastante (liderança da mulheres). Mas tem papel central na vida das pessoas...”, conforme a resposta do estagiário. Segundo Szymanski, 2002, p. 10, as transformações que ocorrem na composição familiar “exigem que se leve em conta seu reflexo na sociedade mais ampla, nas formas de se viver em família e nas relações interpessoais”. O trabalho do assistente social junto à família visa também à compreensão de todos os membros familiares, compreendendo cada membro como sujeito e entendendo as relações entre esses sujeitos, a fim de que se crie um caráter desvelador da realidade daquele grupo familiar frente à interação existente entre eles. Para isso, torna-se relevante a (re) elaboração dos limites e entraves institucionais por parte do assistente social, de forma a realizar seu processo interventivo de acordo com o projeto Ético-político da profissão. Uma das falas apontadas pelo assistente social revela estes limites institucionais presentes no cotidiano do profissional, que acarretam na “...falta de suporte e apoio institucional em questões de recursos materiais e humanos, para que o trabalho com as famílias seja realizado com mais efetividade, agilidade e eficácia...”, traduzindo a realidade de atuação deste profissional com a família. O estagiário, por sua vez, também identifica estes entraves abordando o “...poder institucional, relações de poder, subordinação do Serviço Social na instituição, e sobrecarga de trabalho no profissional.” Compreendendo as configurações, movimentos e paradigmas do dia-a-dia no campo de atuação. Decorrentes destas colocações de âmbito institucional no trabalho com famílias, temse o compromisso com o projeto Ético-político frente aos desafios do dia-a-dia concretizando, expresso nas entrevistas como “...valores, princípios, finalidades, exercitando a vivência da cidadania, da democracia e da participação política dos agentes sociais. Representa a responsabilidade do profissional bem realizar um trabalho ético, consciente, que valoriza a capacidade dos sujeitos nos seu processo de desenvolvimento.”, pelo profissional de Serviço Social. Destaca-se o processo de autonomia no desenvolvimento de trabalho com famílias, mencionado por um estagiário, por “...trabalhar na perspectiva da autonomia da família, para não criar dependência. E a noção de que a família está inserida em uma dinâmica... e sem preconceitos, e todas as questões.” As técnicas para este atendimento familiar do assistente social servem para oferecer respostas profissionais às demandas decorrentes dos processos sociais. Para isto, tem-se como técnicas as visitas domiciliares, a observação das redes sociais e seus recursos; as entrevistas, fontes de informação; os estudos sociais, planejamento e orientação das 65 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família intervenções; e os conhecimentos profissionais, para desmitificar a realidade, para, de fato, intervir (JESUS, ROSA, PRAZERES, 2004), é possível citar ainda, os encaminhamentos quando é necessário a intervenção de outras áreas; as reuniões, para estudos e discussões. Observou-se que, no trabalho com famílias, são utilizadas as abordagens individuais e de grupo (familiar), as entrevistas individuais e de grupo (familiar), as visitas domiciliares, os encaminhamentos para as redes, os acompanhamentos, as orientações, os acolhimentos, o estudo socioeconômico, a história de vida, a escuta sensível e a árvore genealógica. As relações familiares, muitas vezes, estão fragilizadas por inúmeras situações estabelecidas no processo social e no contexto em que os sujeitos estão inseridos. Por isto a importância de se estabelecer uma ação que envolva todos esses sujeitos familiares, para trabalhar, a partir da demanda apresentada pela família, a reflexão, os sentimentos e os vínculos, proporcionando uma possível mudança e/ou transformação nas relações familiares. Em todos os campos pesquisados, a família foi mencionada, afirmando a importância da intervenção e abordagem profissional na rede primária do usuário, e como esta demanda está presente no campo profissional. As questões com o arranjo familiar envolviam tanto o relacionamento entre os membros, quanto questões de violência, conflitos, acordos, cuidados especiais, abandono, negligência e questões de despesas. As demandas explícitas e implícitas mencionadas tiveram a menção sobre a família, pois como diz a própria fala de um assistente social “todo o atendimento a demanda vem mais explicita, como a falta de afeto e carinho”, demonstrando que através do desvendamento da realidade é possível identificar mais demandas, especialmente a respeito das relações entre os sujeitos, normalmente envolvendo o núcleo familiar. Com isto aparecem questões como preconceito, aceitação, relações desgastadas que perpassam o convívio cotidiano da família e acabam se tornando expressões da questão social. O cotidiano acaba por expressar as conseqüências e vivências de toda uma estrutural forma e organização da sociedade, que segue a lógica do individualismo, competitividade e divisão de classes. A família, por sua vez, representa e reproduz todos estes paradigmas e expressões da sociedade. Porém, mesmo diante destas novas configurações, a família continua sendo essa união entre os membros, independentemente de ser por laços consangüíneos ou afetivos, que constituem uma relação de afeto, companheirismo e trocas para manterem a sobrevivência. Conforme Roudinesco (2003), além dos avanços científicos, os costumes também contribuíram para as mudanças na família. Quando olhamos para as famílias de hoje – 66 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família rompidas, desconstruídas e recompostas muitas vezes, pouco vimos da antiga família patriarcal, imutável, regida por um pai autoritário. As demandas emergentes das famílias atendidas nos campos pesquisados identificam vulnerabilidades e fragilidades decorrentes das dificuldades financeiras, oriundas de todo o modo de organização do mundo do trabalho e sua precarização, resultando em falta de moradia, falta da própria renda e carência de recursos. É importante destacar que isto não ocorre somente com usuários desempregados, mas inclusive com usuários com acesso ao trabalho, emprego e renda. Isso demonstra que a garantia de um trabalho não sustenta a estabilidade social dos sujeitos, e que a vulnerabilidade perpassa estas categorias também. No momento em que uma família apresenta qualquer tipo de dificuldade – dificuldades manifestas mediante problemas variados, sejam eles de ordem relacional, de ordem mental, ou ainda da ordem das relações da família com outros, ou com outras esferas da sociedade -, ela está expressando de alguma forma suas dificuldades em lidar com as contradições a que é exposta na sociedade hoje em dia. (MIOTO, 2004, p. 16). Outros destaque dado nas falas dos entrevistados diz respeito à dependência química de membros das famílias e a violência presente nas relações familiares. A violência foi bastante abordada nas entrevistas realizadas, havendo uma maior incidência na violência dentro da família (predominância de mulheres, crianças, adolescentes e idosos vítimas de violência), e extra familiar. Violência, aqui, caracterizada como: A violência social, ocorrente em todos os planos (econômico, político, psicológico) da existência, quando considerada por suas formas externas de manifestação, apresenta dois tipos básicos: a violência direta, que é o uso imediato de força física e a violência indireta (latente), que inclui os diversos modos de pressão (econômicos, políticos, psicológicos) ou então a ameaça do emprego da força (SODRÉ, 2002, p.17-18) 1.3. O Trabalho com famílias e a formação profissional em Serviço Social A partir desse conhecimento é possível, propor a construção de práticas integradoras que permitam criar novos horizontes de ação e compreensão das famílias, privilegiando a formação do acadêmico e primando pelo seu potencial para a construção do conhecimento. A requisição do trabalho do assistente social se configura no atendimento eminente de famílias, sujeitos e grupos sociais vulnerabilizados e com dificuldade de garantir, consolidar ou acessar seus direitos, de modo que esses possam responder minimamente seus anseios e necessidades. (KOWALSKI, 2007, p.40) 67 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família Este trabalho do assistente social visa a uma transformação social (KOWALSKI, 2007), que se dará no momento da estimulação da conscientização e autonomia do sujeito, dando enfoque às necessidades dos usuários, ou seja, o sujeito se percebe como parte dos processos sociais, tendo as suas necessidades reconhecidas como direitos. Desta forma, a lógica da dominação, que propõe a existência dos que “pensam (mandantes, possuidores do saber)” e dos que executam, se desconfigura do plano profissional do Serviço Social, por ser uma forma de extrema manipulação dos sujeitos (FALEIROS, 1997, p.62). Proporciona-se, então, a lógica de libertação que se trata de questionar e de criticar o seu próprio cotidiano na perspectiva da liberdade pelo fato de o sujeito entender e compreender todo o processo social, incluindo-se nele (Idem, p.69). A partir desta compreensão, se faz necessário que o profissional assuma outra postura diante da demanda. A partir de então, os processos de trabalho, como categoria central em Serviço Social, considera-se ser “todo fazer profissional que abrange metodologias, utilização de arsenal técnico da profissão, estabelecimento de diretrizes de ação, e comunicação e de prestação de serviços aos usuários” (GENTILLI, 1998, p. 25). Os processos de trabalho tornam-se um movimento de reflexão mais amplo diante do trabalho do assistente social, oportunizando este espaço de identificação do objeto, uso de meios de trabalho para utilizar na intervenção ao objeto e o trabalho propriamente dito, resultando em um produto final. Estes elementos possibilitam, portanto, a constituição de uma estrutura que vai além do trabalho, concretizando os processos de trabalho (CFESS; ABEPSS; CEAD, UnB, 1999, p.156). Conforme as novas publicações a respeito deste tema, verifica-se que: [...] não existe um processo de trabalho do Serviço Social, visto que o trabalho é atividade de um sujeito vivo, enquanto realização de capacidades, faculdades e possibilidades do sujeito trabalhador. Existe, sim, um trabalho do assistente social e processos de trabalho nos quais se envolve na condição de trabalhador especializado. (IAMAMOTO, 2008, p. 429) A formação profissional de assistente social engloba a perspectiva de inclusão social, tendo como parâmetros a Lei de Regulamentação da profissão, o Código de Ética do Assistente Social e as Diretrizes Curriculares. Todos estes marcos de regulamentação, contemplam a consolidação de uma igualdade social. Neste âmbito, percebe-se o significado social da profissão, que tem o compromisso com a classe trabalhadora, desvinculando-se a identidade atribuída, como se demonstrou anteriormente. 68 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família O Serviço Social traz na sua formação, um estímulo para que se “aposte nas lutas sociais, na capacidade dos agentes históricos de construírem novos padrões de sociabilidade para a vida social” (IAMAMOTO, 2006, p.195). Esta aposta é trabalhada na perspectiva inclusiva pelo próprio usuário, tendo como princípio o código de ética profissional, que reconhece a liberdade “como valor ético central e das demandas políticas a ela inerentes” (CRESS, 2005, p.20), podendo-se destacar a relevância da liberdade do movimento da sociedade, compreendendo as transformações do mundo atual, sem julgamentos de determinadas concepções. Inserindo a família neste sentido, pode-se notar que as transformações familiares contemporâneas não devem ser condenadas ou julgadas, apenas compreendidas, em virtude do movimento da própria sociedade. Como mostra Iamamoto, “a aproximação dos assistentes sociais às condições de vida das classes subalternas e de suas formas de luta e de organização” (IAMAMOTO, 2006, p.197) conduzirá o profissional, ou mesmo o profissional em formação a olhar a vida cotidiana do usuário em todo o seu processo, desvinculando-se da visão superficial. Portanto, a liberdade é estabelecida como um ponto crucial na profissão, pois, se o profissional estabelece uma relação de autoritarismo, ou de prática da discriminação não é possível “captar as formas de explicitação social, cultural e política de seus interesses e necessidades, criadas no enfrentamento coletivo e individual de situações de vida, de experiências vivenciadas” (IAMAMOTO, 2006, p.197). As transformações societárias são temas durante todo processo de formação profissional. O movimento da realidade exige, portanto, um profissional sempre atualizado com as novas formas de expressões da questão social e relações sociais, relações essas oriundas da própria questão social. Como diz Iamamoto (2006, p.145): Um perfil profissional propositivo requer um profissional de novo tipo, comprometido com sua atualização permanente, capaz de sintonizar-se com o ritmo das mudanças que presidem o cenário social contemporâneo em que “tudo que é sólido, desmancha no ar”. Profissional que também seja um pesquisador, que invista em sua formação intelectual e cultural no acompanhamento históricoconjuntural dos processos sociais para deles extrair potenciais propostas de trabalho. Considerando a complexidade do mundo atual, as mudanças nos currículos de formação, a importância da experiência de estágio na formação do acadêmico, as características do aluno que tem ingressado na universidade, as mudanças nas relações familiares e suas demandas, essa pesquisa se concretiza como instrumento para que se possa conhecer e examinar os processos de trabalho dos assistentes sociais e do aluno em formação, principalmente quando dirigidas à família. 69 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família O processo de revisão curricular tem acarretado mudanças profundas na formação acadêmica dos discentes em Serviço Social, o que ficou evidenciado em uma das questões que indagava sobre disciplinas de família no currículo destes, o que os instrumentaliza para uma intervenção mais qualificada junto às famílias atendidas nos lócus de estágio. As disciplinas referentes ao trabalho com família foram consideradas pelos estagiários “Como uma referência, principalmente essa da Política para acionar a rede para os usuários.”, a até por “Entender a família como papel central, como lidar, intervir, concepções. E na disciplina de grupos: a técnica de como intervir.” A utilização de documentação como instrumento para reflexão acerca do processo de trabalho é uma forte fonte de produção e análise do cotidiano. Estes instrumentos, como diários de campo, relatórios descritivos processuais e condensados, análises, projetos e até mesmo estudos sociais são utilizados durante a formação profissional, esquecendo-se, muitas vezes, que pode ser utilizado durante todo o exercício profissional. [...] a documentação tem um caráter dinâmico e flexível quando se consideram suas finalidade – enquanto base para a investigação e para o direcionamento do exercício profissional. Longe de se constituir em mera burocracia no cotidiano profissional, a documentação está em constante movimento e a sua utilização está vinculada aos objetivos do profissional (de conhecer ou intervir), às exigências do trabalho profissional (atendimento direto em situações singulares, planejamento e gestão, assessoria aos movimentos sociais e organizações populares, ensino e formação profissional), ao arcabouço teórico e ético-político do profissional. (LIMA; MIOTO; DAL PRÁ, 2007, p. 4) Quanto à questão de supervisão de estágio, os alunos mencionaram a importância tanto da supervisão pedagógica, quanto da supervisão de campo, evidenciando que ambas subsidiam muito na questão de atrelar a teoria junto à prática profissional do estágio. Mas, mesmo diante desta constatação, entre os pesquisados, há também de se ressaltar que 50% dos alunos mencionaram que a supervisão de campo não foi devidamente contemplada, devido aos empecilhos presentes na realidade de trabalho, como demonstra a fala de que era “complicado por causa do tempo, as dúvidas eram tiradas durante o trabalho”. A outra fala demonstra o próprio processo de prática cotidiana, como referenciado anteriormente, pois a relação entre aluno e supervisor assistente social tornou-se meramente “ tarefeira, ou seja, somente de distribuição de tarefas”, segundo o estagiário, mostrando que a relação de troca de experiências, bem como subsídio de prática não foi estabelecida. Este é um dado relevante, visto que: O processo de supervisão de estágio, ao se vincular à formação profissional em Serviço Social, não pode ser reduzido à mera preparação de tarefas, ação atrelada à 70 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família burguesia, aos ditames mecânicos, rotineiros e essencialmente técnicos. Da mesma forma a formação profissional aqui requerida não se reduz à ofertas de disciplinas que propiciem uma titulação ao assistente social para responder a uma condição para sua inserção no mercado de trabalho. A construção de uma profissão não pode ser confundida com a preparação para o emprego, uma vez que o trabalho do assistente social não se limita à realização de um leque de tarefas – as mais diversas – ao cumprimento de atividades preestabelecidas. Supõe um sólido suporte teóricometodológico e técnico-político para propor, executar e para negociar projetos, para defender o seu campo de trabalho, suas qualificações e funções profissionais” (LEWGOY, 2007, p.29) A supervisão pedagógica, por sua vez, foi mencionada por todos os alunos como sendo fundamental, demonstrando as discussões, relatórios-descritivos processuais e condensados, diários, orientações, bibliografia e projeto de intervenção como elementos e instrumentos de suma importância para o processo de formação profissional. Com estes era possível trabalhar com a prática vivenciada pelos alunos, “Principalmente pelos alertas do trabalho”, como demonstra a fala de um deles. Além destes dados, teve-se a sugestão de um aluno referenciando que a forma de organização da supervisão pedagógica “poderia ter outro formato, e não somente de grupo”, evidenciando a visão do aluno, que percebe a necessidade de outra metodologia para um trabalho de supervisão da prática de estágio. As faces contemporâneas, do sistema neoliberal, transformam a vida em sociedade, e, consequentemente, modifica-se a formação profissional para uma lógica neoliberal. Nota-se que esta contrapõe o Código de Ética do assistente social, o que também torna mais um embate na formação deste. Como já mencionamos “é nesta tensão entre produção da desigualdade e produção da rebeldia e da resistência, que trabalham os assistentes sociais” (IAMAMOTO, 1998, p.28), voltados para um compromisso com a classe trabalhadora, e tendo como princípio a equidade social, negando a reprodução neoliberal, que é o grande reprodutor da desigualdade. CONSIDERAÇÕES FINAIS A família sempre esteve interligada com o trabalho do Serviço Social, desde o surgimento da profissão. Atualmente continua se apresentando com relevante importância para os processos de trabalho do assistente social, como demonstrado na pesquisa realizada, porém novas configurações, decorrentes do resultado das próprias mudanças que vem ocorrendo em toda a sociedade. As demandas específicas para o Serviço Social, por sua vez, configuram o movimento atual da sociedade expressa pelas conseqüências da lógica 71 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família neoliberal. E para isto, é preciso que o profissional de Serviço Social acompanhe estas novas formas, efetuando uma constante reflexão sobre os seus processos de trabalho, pois com isto, acaba por se apropriar qualificadamente para atender estas demandas, bem como melhor se aproxima da realidade para desenvolver sua intervenção a partir da mesma. A realidade se defronta com questões de rotina, limites e entraves que condicionam o desenvolvimento de um trabalho com todos os seus procedimentos, se tornando muitas vezes um trabalho imediato, como diz Baptista (2001). Portanto, além das transformações da família, também há transformações no mundo do trabalho do assistente social que trazem tanto mudanças na formação profissional, na teoria, diretrizes e formas de organização, quanto questões que estão presentes dentro do campo de trabalho. Mas a referência de que houve avanço na concepção de família, conforme a pesquisa realizada entre os assistentes sociais e estagiários de Serviço Social concretiza que a família atual segue as mudanças decorrentes de toda a sociedade, e, consequentemente da visão do assistente social. Isto condiciona um aprimoramento na prática profissional, por perceber esta dinâmica de transformações presentes nos usuários. A própria identificação de limites, possibilidades e os processos de trabalho com família representam um momento de enriquecimento para o desenvolvimento do trabalho, por proporcionar reflexão a partir da realidade que se apresenta. Com isto, é possível desenvolver planejamentos que oportunizem em significativos produtos do trabalho realizado concretizando as práticas, intencionalidades e objetivos presentes na profissão. A própria percepção e identificação do objeto de intervenção é uma maneira de exercer o trabalho de forma ampliada, com os devidos passos para o completo processo de trabalho da mesma. Por isto, mesmo com a identificação de limites presentes no cotidiano profissional, conclui-se a relevância do profissional assistente social no trabalho com famílias, veiculando o objetivo da profissão com a garantia dos direitos, e a perspectiva de compreensão desta família contemporânea para o desenvolvimento de todos os seus membros. REFERÊNCIAS ARIÉS, Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Zahar, 1981. 72 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família BAPTISTA, Myrian Veras. A Ação Profissional no Cotidiano. In: MARTINELLI, Maria Lúcia. (Orgs) O uno e o múltiplo nas relações entre as áreas do saber. São Paulo: Cortez, 2001. pg 111-121. BELLINI, Maria Isabel Barros. O serviço social e abordagem com famílias: algumas especificidades. Porto Alegre. PUCRS, 1992. Dissertação de Mestrado, Faculdade de Serviço Social, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande d Sul, 1992. BELLINI, Maria Isabel Barros. Arqueologia da violência familiar. Alegre.PUCRS,2002.Tese de Doutorado, Faculdade de Serviço Social, PUCRS,2002. Porto BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Curitiba: Juruá, 2006. CFESS; ABEPSS; CEAD; social. Brasília: CFESS, 1999. UnB. Capacitação em serviço social e política CRESS. Coletânea de Leis: Revista ampliada. Porto Alegre: 2005. FALEIROS, Vicente de Paula. 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Rio de Janeiro: Em Pauta, n° 10, 1997, p. 131-181. 74 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família NOTAS ACERCA DAS REDES DE POLÍTICAS SOCIAIS Mariana Pfeifer1 RESUMO: O atendimento das diferentes demandas sociais de famílias e comunidades é um grande desafio na sociedade atual, no sentido da garantia de direitos como fundamento para a consolidação da cidadania. Para o atendimento das necessidades inerentes à família, em sua amplitude e diversidade de demandas, como relativas aos cuidados com a saúde, educação, habitação, trabalho e renda, assim como necessidades específicas de crianças, portadores de deficiências, idosos entre outros segmentos, se torna de fundamental importância a articulação da rede de políticas públicas como perspectiva de trabalho social. Neste sentido, o presente artigo busca resgatar as concepções de rede de políticas sociais assim como os aspectos necessários para o trabalho e a intervenção em rede como estratégia para qualificar o atendimento integral das demandas das famílias e de seus membros. Para tanto, contextualizase o movimento sócio-político e histórico de construção da cidadania no Brasil e o cenário atual marcado, por um lado, pela retirada do Estado na provisão de serviços sociais e, por outro, pela ascensão das entidades do denominado terceiro setor e pela revalorização da família como espaços provedores do bem-estar do cidadão. Do mesmo modo, resgatam-se conceituações de rede de políticas sociais da vertente sistêmica, da linha de intervenção em saúde mental e da perspectiva vinculada ao campo do Serviço Social. E ainda, apresentam-se indicadores para a intervenção e a articulação da rede de políticas sociais, como a perspectiva de ação integrada entre entidades e atores sociais; a concepção de complementaridade como diretriz para o atendimento dos benefícios, serviços, programas e projetos; e o indispensável planejamento compartilhado como fundamento para ação da rede de políticas sociais. PALAVRAS-CHAVE: rede de políticas sociais, atendimento integral e intervenção em rede. INTRODUÇÃO O contexto atual se apresenta como um grande desafio para profissionais de diferentes áreas envolvidos com o trabalho social, especialmente, para aqueles cujo compromisso político vincula-se à garantia e à afirmação dos direitos sociais enquanto elemento indispensável para a materialização da cidadania. Marcado pelo espectro neoliberal, o espaço da provisão de bem-estar social, na sociedade contemporânea, se caracteriza pela minimização das responsabilidades estatais, ao passo em que são valorizados o mercado e a sociedade – empresas privadas, entidades do denominado terceiro setor, comunidades e famílias – numa lógica que acentua a mercantilização e o voluntarismo da política social. 1 Assistente social e Mestre em Serviço Social pela Universidade Federal de Santa Catarina. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Paraná. Professora Assistente da Universidade Federal do Paraná – Setor Litoral. Email: [email protected]. 75 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família Ao mesmo tempo, as transformações societárias ocorridas nas últimas décadas do século XX e neste início do século XXI acarretaram novos estilos de vida, novas formas de convivência social, assim como determinaram a emergência de novas necessidades sociais, na cidade e no campo, consubstanciadas em complexas e cada vez mais amplas manifestações da questão social. Diversos fatores contribuíram para o aumento e para a diversificação das demandas sociais que se apresentam no contexto atual, entre eles, como nos mostra Mioto (2002, p.53), o novo perfil demográfico balizado “pelo aumento da população idosa e pela fragilização da vida familiar (aumento do número de divórcios, aumento de famílias monoparentais e unipessoais) e da vida comunitária (aumento da mobilidade da população, concentração em centros urbanos). Este quadro ainda se agrava com o desenrolar da atual crise capitalista, alavancada pela fragilidade e ganância desmedidas do sistema financeiro internacional, cujos rebatimentos para as camadas da classe trabalhadora se concretizam na ampliação dos níveis de desemprego, no aumento da taxa de juros, possibilidades de retorno do processo inflacionário, utilização dos recursos públicos para socorro aos grandes agentes privados e financeiros, perda de direitos sociais e queda do bem-estar. Tal contexto indica a pluralidade de modos de vida de famílias e indivíduos, ao que se incluem as diferentes condições econômicas, culturais, comunitárias, sociais, políticas e familiares as quais marcam a diversidade, amplitude e complexidade de demandas por bemestar presentes no cotidiano do trabalho social e das instituições prestadoras de serviços sociais. Desde modo, a intervenção mediada e organizada através de Redes de Políticas Sociais representa uma alternativa para qualificar o trabalho social na busca pelo atendimento integral das demandas das famílias e de seus membros, em sua amplitude e diversidade, como relativas aos cuidados com a saúde, educação, habitação, alimentação, trabalho e renda, assim como necessidades específicas de crianças, portadores de deficiências, idosos, entre outros segmentos. Destarte, o presente artigo busca contextualizar o movimento sócio-político e histórico de construção da cidadania no Brasil e o cenário atual, marcado, por um lado, pela retirada do Estado na provisão de serviços sociais e, por outro, pela ascensão das entidades do denominado terceiro setor e pela revalorização da família como espaços provedores do bemestar do cidadão. Do mesmo modo, apresentar-se-á, neste artigo, as conceituações de Rede de Políticas Sociais na vertente sistêmica, na linha de intervenção em saúde mental e na perspectiva vinculada ao campo do Serviço Social. E ainda, alguns indicadores para a 76 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família intervenção e a articulação da Rede de Políticas Sociais, como a perspectiva de ação integrada entre entidades e atores sociais; a concepção de complementaridade como diretriz para o atendimento dos benefícios, serviços, programas e projetos; e, o indispensável planejamento compartilhado como fundamento para ação da Rede de Políticas Sociais. O CONTEXTO ATUAL DA PROVISÃO DO BEM-ESTAR SOCIAL Historicamente, é possível evidenciar diferentes formas de articulação para a prática assistencial, a qual se encontrou mais comumente associada à noção de caridade e de ajuda aos pobres, em especial, pela ação da Igreja que preconizava a concessão de ajuda material e espiritual como um dos pilares da fé. A necessidade de racionalizar a assistência crescera ao passo que o desenvolvimento industrial revelava a ascendente pauperização e a precariedade nas condições de vida das famílias de trabalhadores. Diversos fatores contribuíram para a construção da ação assistencial como prática institucionalizada pelo Estado, entre eles a luta política dos movimentos de trabalhares, a necessidade de controle sobre a questão social por parte da burguesia, assim como o imperativo econômico de reprodução da força de trabalho. Edificadas em um contexto de embates e de contradições, as políticas sociais públicas emergem como resposta às demandas por acesso aos bens e serviços que garantam o atendimento às necessidade humanas e sociais de amplas camadas da população. Sob a égide do Estado, a política social se institui enquanto um direito do cidadão compreendendo um conjunto de serviços e benefícios sociais, cujo marco, no Brasil, se funda com a promulgação da Constituição Federal de 1988, a chamada “Constituição Cidadã”. Com alicerce na concepção de seguridade e de proteção social, afirma-se um conjunto de políticas nas áreas da saúde, previdência social, assistência social, educação, habitação, trabalho e renda, entre outros, com caráter mais universalizante e democrático para assegurar direitos de bem-estar social à população. Todavia, à contracorrente da perspectiva de seguridade social que inclui a noção de “direito do cidadão e dever do Estado”, são introduzidas diversas medidas no escopo do ajuste neoliberal que se efetivou como alternativa à crise econômica desencadeada nas décadas finais do século XX. Deste movimento, a partir de orientações para a redefinição do papel do Estado, generalizou-se uma onda reformadora centrada na diminuição do Estado, que teve amparo na construção de uma “cultura política da crise” do Estado (MOTA, 2000, p.72) e por uma “cultura antiestado” (SIMIONATTO, 2003, p.281) que desqualificaram a esfera pública, 77 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família a política e a democracia, ao mesmo tempo em que sedimentaram um consentimento que valoriza o marcado. No Brasil, a incorporação da agenda neoliberal iniciou na década de 1990. Com base na idéia de “Estado Social-Liberal” (BRESSER PEREIRA, 1997), a reforma atinge diretamente as políticas sociais públicas, consagrando o repasse dos serviços considerados “não-exclusivos” para as organizações públicas não-estatais e privadas, onde se encontram, fortemente, as áreas da educação, saúde, cultura e pesquisa científica. As medidas reformistas submetem as políticas sociais à focalização nos setores mais carentes; descentralização da gestão para as esferas estaduais e locais, abrindo para as organizações não-governamentais e para o setor privado; e privatização, com transferência da produção de bens e serviços para o mercado. Este ambiente chama a sociedade civil à participação voluntarista e solidária, onde os espaços provedores do bem-estar do cidadão vem se efetivar, em grande medida, por fora do Estado e, ao mesmo tempo, incentivados por ele. Este processo ocorre mediante a proliferação de diferentes arranjos de instituições não-estatais e não-lucrativas prestadoras de serviços sociais, como organizações não-governamentais (ONGs), fundações, institutos, associações, organizações da sociedade civil de interesse público (OSCIPs), entre outros; assim como pela valorização ideológica dos bens e serviços que respondem às necessidades humanas e sociais que são prestados de forma mercantilizada por empresas com fins lucrativos, a que são alvo, principalmente, saúde, educação e previdência social. E ainda, neste contexto, a revalorização da solidariedade familiar e o apelo moral às suas funções de cuidado são postos como possibilidades de substituição do sistema de bemestar pela via dos direitos sociais. Segundo Mioto (2002, p.56), muitas necessidades de saúde, de assistência, de educação, entre outras, quando satisfeitas no nível informal, isto é, familiar e comunitário, não se transformam em demandas para o sistema formal, possibilitando a diminuição da dependência dos canais institucionais. Todavia, “a fragmentação das redes familiares, aliada ao empobrecimento acelerado, sinaliza a impossibilidade do retorno a um estado onde a família seja o centro do bem-estar” (MIOTO, 2002, p.53), deste modo, indivíduos e famílias passam a depender cada vez mais das redes formais de atendimento social. Portanto, o contexto atual indica que a provisão do bem-estar social de famílias e indivíduos passa por diferentes âmbitos organizativos e institucionais, formais e informais, estatais e não-estatais, lucrativos e não-lucrativos e, deste modo, se torna imperativa a 78 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família compreensão das conceituações de Rede de Políticas Sociais e alguns indicadores para a intervenção em Rede no trabalho social. CONCEITUAÇÕES DE REDE DE POLÍTICAS SOCIAIS Podem ser encontradas na literatura diversas nomenclaturas e diferentes formas de compreensão e de conceituação acerca das Redes de Políticas Sociais. Neste artigo, resgatarse-á as concepções em três vertentes. Do pondo de vista estruturalista, as Redes de Políticas Sociais são pensadas, tomandose por eixo de análise a relação entre os diversos atores que se articulam formando Redes de políticas (policy networks), isto é, “tomam as redes de políticas públicas, assumindo que os processos nos subsistemas políticos não são controlados apenas por atores de dentro do estado, mas são caracterizados pela interação entre atores públicos e privados” (ADAM; KRIESKI Apud FERRARI, 2007, p.79). Esta perspectiva de análise, com foco nas relações entre os atores, estabelece tipologias de estruturas de Redes e padrões de interações entre os atores, os quais combinam variáveis como distribuição do poder, tipos de interação, tipos de laços, atributos dos atores, interesses comuns, dependência de recursos, entre outros. Igualmente no âmbito da literatura da administração pública, é possível encontrar a definição de Redes vinculada à articulação entre diferentes atores, onde o atendimento a padrões de eficácia e eficiência das políticas públicas está sujeita a participação de múltiplos atores, pelo estabelecimento de uma agenda de trabalho conjunta que inclui desde a identificação de problemas até a implementação de programas. Tal compreensão parte do pressuposto de que as “políticas públicas são o resultado de uma complexa interação entre agências estatais e não-estatais. Rejeita-se com isso a abordagem que parte do Estado como único ator relevante neste processo” (SANTOS, 2005, p.62). De fato, a vertente estruturalista assim como as correntes teóricas vinculadas a ideologia dominante, comungam da avaliação da incapacidade do Estado em dar respostas às demandas crescentes por serviços sociais, gerando incertezas e instabilidade no processo de governança. Nesta linha, os atores não-estatais são chamados à participação no sentido de inserirem-se na prestação de serviços sociais para o atendimento às demandas advindas de famílias e comunidades. Já na abordagem da intervenção em saúde mental, o trabalho em Rede se constitui como uma técnica para atender sujeitos portadores de sofrimento psíquico, envolvendo Redes 79 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família Primárias e Redes Secundárias. Segundo Mioto (2002), Redes Primárias comportam o conjunto de indivíduos que estabelecem relações a partir de laços de afetividade, sendo definidas a partir de uma pessoa e formadas pelo seu núcleo familiar, sua parentela, seus amigos e vizinhos. Cada pessoa buscaria, então, em sua Rede Primária um suporte de ajuda mútua, de troca de bens e de serviços. Já as Redes Secundárias agregam pessoas em trono da mesma função dentro de um marco institucionalizado, como grupos de apoio, associações, grupo de voluntários, entre outros. E, ainda, ademais das Redes Primária e Secundária, é relevante destacar a existência da Rede Formal de serviços sociais, de assistência e de cuidado, formada pelas instituições públicas, privadas e do terceiro setor. Deste modo, diz Mioto (2002, p.55) que “a intervenção em nível de rede passou a ser entendida como o trabalho que envolve um grupo de pessoas (membros da família, vizinhos, amigos e outras pessoas ou grupos institucionais) capazes de prestar apoio real e duradouro a um indivíduo ou a uma família”, concretizando um processo de rompimento entre o espaço privado e o público e de coletivização dos problemas relacionado à saúde mental. Na perspectiva vinculada ao campo do Serviço Social, a leitura da Rede de Políticas Sociais passa pela compreensão da questão social e a indispensável mediação das políticas sociais para o acesso e a garantia de direitos sociais como resposta às suas expressões. A questão social é o objeto do trabalho profissional do Serviço Social. Nas diversas instituições em que se inserem, os Assistentes Sociais implementam e prestam diferentes serviços sócio-assistenciais, intervindo diretamente nas manifestações da questão social vividas cotidianamente pelos indivíduos, seja no trabalho, na família ou na comunidade. Deste modo, ao analisar a questão social é indispensável à leitura segundo a qual pobreza, miséria e seus desdobramentos não se constituem em um fenômeno unilateral e personalista, ou seja, estas situações sociais – outrora chamadas de “problemas” – não são entendidas como expressões singulares e individuais e de responsabilidade dos sujeitos e/ou famílias. Todavia, compreende-se a dimensão coletiva e estrutural da questão social, visto que diferentes situações de pobreza, miséria, exclusão e subalternidade vividas por milhares de pessoas e famílias têm uma gênese comum, isto é, são produzidas e reproduzidas historicamente a partir das condições econômicas, políticas e sociais postas pelo sistema capitalista. Esta raiz advém do modo de desenvolvimento desigual onde “a produção social é cada vez mais coletiva, o trabalho torna-se mais amplamente social, enquanto a apropriação dos seus frutos mantém-se privada, monopolizada por uma parte da sociedade” (IAMAMOTO, 2003, p.27). Portanto, as expressões da questão social referem-se ao conjunto diversificado de formas em que a 80 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família exclusão e a desigualdade se manifestam, sejam em situações de falta de acesso ou de condições dignas de moradia, de alimentação, de educação, de saúde, de trabalho, situações de violência, entre outros, todas experienciadas na vida cotidiana dos indivíduos, famílias e comunidades. Logo, são expressões das desigualdades econômicas, políticas, culturais e sociais construídas no bojo da estrutura capitalista e que se aprofundam e/ou se transformam ao longo da história, edificando novas manifestações à questão social: novas demandas sociais, novas carências, novas dificuldades, novas situações de exclusão e de privação relacionadas à pobreza, discriminação, não-acessibilidade e subalternidade. Neste sentido, seguindo a matriz teórico-metodológica e ético-política do Serviço Social, as políticas sociais apresentam-se vinculadas à noção de cidadania dada pela “garantia dos direitos civis, sociais e políticos das classes trabalhadoras” (CFESS, 1994, p.3). Nesta perspectiva, o trabalho social pela articulação da Rede de Políticas Sociais direciona-se para a construção de possibilidades de ampliação e consolidação da cidadania; de “aprofundamento da democracia, enquanto socialização da participação política e da riqueza socialmente produzida” (CFESS, 1994, p.3); a, ainda, pela defesa da “universalidade de acesso aos bens e serviços relativos aos programas e políticas sociais, bem como sua gestão democrática” (CFESS, 1994, p.3). Destarte, a articulação entre Estado e sociedade favorece a responsabilidade jurídico-legal e política dos órgãos públicos pela concretização dos direitos sociais e o exercício do controle social pela sociedade mediante a atuação em conselhos, conferências, fóruns de políticas, entre outros. O acesso e a garantia de direitos sociais como resposta às expressões da questão social, implica a possibilidade de articulação das políticas sociais em Rede, em três sentidos: 1) Rede por Política Social, isto é, a articulação das políticas, programas, projetos, serviços, benefícios e instituições governamentais e não-governamentais com atuação em áreas específicas da política social, como rede de assistência social, rede de educação, rede de saúde, etc., cujas definições, objetivos e estratégias de ações são concebidas e planejadas, em concordância com os princípios, diretrizes e atribuições, estabelecidos pelas legislações pertinentes à política social em questão (LOAS, LDB, SUS, etc.) (OLIVEIRA, 2004, p.2); 2) Rede Inter-Políticas Sociais, a qual se dá mediante a ação integrada entre as Redes por Política Social, consubstanciando o diálogo e a conexão entre as políticas, programas, projetos, serviços, benefícios e instituições nas diversas áreas da política social, com vistas ao atendendo das várias particularidades da vida social de cada indivíduo, família e/ou 81 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família comunidade. A idéia de Rede Inter-Políticas Sociais, em última instância, abrange o conjunto do sistema de atendimento social de municípios, estados e da federação; e, 3) Redes de Atenção por Grupos Sociais, que se constituem pela agregação dos serviços e benefícios das diferentes políticas sociais para o atendimento às demandas de grupos específicos, formando Redes de Atenção à pessoa idosa, à criança e ao adolescente, à pessoa portadora de deficiência, entre outros. Não obstante as diferentes conceituações e desenhos para a compreensão das Redes de Políticas Sociais, ao profissional da área social prescinde uma leitura ampla das situações sociais de indivíduos, famílias e comunidades e a identificação concreta das demandas particulares e coletivas, de modo a garantir que a construção de estratégias e a articulação da(s) Rede(s) de Políticas Sociais levem ao atendimento integral das necessidades humanas e sociais na perspectiva da consolidação da cidadania. Para tanto, alguns indicadores para a intervenção em Rede de Políticas Sociais serão abordados nas páginas que se seguem. INDICADORES PARA A INTERVENÇÃO EM REDE DE POLÍTICAS SOCIAIS O trabalho em Redes não se configura como algo novo. Segundo Mioto (2002, p.52), “embora não seja explicitamente discutida no âmbito da profissão, a intervenção com redes sempre fez parte dos processos de trabalho dos assistentes sociais”. Entretanto, no âmbito do trabalho social e do atendimento às demandas presentes no cotidiano das famílias, diversos intelectuais do campo das políticas públicas e sociais vêm apontando a potencialidade desta abordagem, tendo em vista, por um lado, a complexa interação presente na realidade atual entre atores estatais e não-estatais e, por outro, a “indispensável articulação entre as políticas sociais públicas como uma das formas de acessar e garantir direitos sociais” (OLIVEIRA, 2004, p.1). Neste sentido, alguns indicadores podem ser apontados para contribuir com a melhoria e a busca de estratégias voltadas à intervenção e à articulação da Rede de Políticas Sociais. O primeiro ponto a ser abordado, refere-se à perspectiva de Ação Integrada entre entidades e atores sociais. Na atualidade, a diversidade, amplitude e complexidade de demandas sociais de famílias e indivíduos, requerem modificações nas formas tradicionais de leitura da realidade e de intervenção social, fundadas na visão segmentada da realidade e do ser humano que levou 82 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família a ciência, as profissões e as instituições a dividir e decompor as dimensões da vida social, humana e ambiental em especialidades e departamentos. Nesta linha, as organizações sociais igualmente estabeleceram-se pela divisão – muitas vezes estanque – entre áreas de atuação, decompondo sobremaneira as necessidades humanas assim como as formas de resposta às demandas. Entretanto, sem desconsiderar a relevância da compreensão e da atuação sobre as particularidades de cada situação social e humana, na atualidade, emergem com grande evidência as perspectivas interdisciplinares e integradas de investigação e intervenção – tanto no campo das ciências sociais e humanas quanto nas exatas, tecnológicas, ambientais e da saúde – que, dada a complexidade da realidade atual, em diferentes correntes, propõem um enfoque de unidade na diversidade, do particular ao geral ou, ainda, do local ao global. Deste modo, a perspectiva de Ação Integrada entre entidades e atores sociais, pressupõe compreender que o atual contexto da provisão do bem-estar social é cenário de distintas instituições que desempenham a função de provisão, quais sejam: 1) Estado; 2) organizações do terceiro setor; 3) empresas privadas; 4) rede comunitária, e; 5) família. Ao mesmo tempo, implica compreender que tais espaços, especialmente os institucionalizados, organizam suas atividades-fins em torno da especialização e setorialização em áreas de atuação, o que, por vezes, acaba por abarcar as especificidades das necessidades de indivíduos, famílias e comunidades de modo desarticulado e desintegrado do ponto de vista da totalidade, da diversidade, da amplitude e da complexidade da vida humana e social. Logo, a concepção de Ação Integrada entre a(s) Rede(s) de Políticas Sociais vincula-se a um movimento preliminar de compreensão da singularidade-totalidade das necessidades humanas, condições e modos de vida, onde, diante da especialização institucional, se torna imperativo a correspondente construção de processos de trabalho que possibilitem a interação entre os atores e as entidades sociais no sentido da integralidade e complementaridade das intervenções. Neste debate, Oliveira (2004, p.8) contribui quando fala que é relevante a integração tanto da proposição quanto da operacionalização das ações, que podem ser conjugadas em três níveis: 1) “Interinstitucional: articulação interna entre os serviços, programas e projetos oferecidos pela mesma entidade/organização”; 2) “Inter-rede: articulação entre as várias entidades/organizações, os vários benefícios, serviços, programas e projetos vinculados a uma determinada [área de] política social” e; 83 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família 3) “Inter-redes: articulação entre as várias políticas sociais [e áreas de políticas sociais], através das várias entidades/organizações prestadoras de benefícios, programas e projetos”. Exige, então, o compartilhamento e a integração dos processos operacionais e do planejamento de modo duradouro e sistemático, inclusive como forma de otimizar a utilização e a distribuição dos recursos públicos. A literatura do campo da administração pública aborda a questão da Governança no trato das Redes de Políticas Sociais, cujo conceito compreende “a capacidade de ação estatal na formulação e implementação de políticas públicas” (SANTOS, 2005, p.61). A rigor, para a qualidade das políticas, a abordagem da Governança promulga o estabelecimento de relações de cooperação coesas entre os diferentes atores – inclusive no que se refere a fatores como o intercâmbio de recursos e convergência de interesses – onde a concepção de integração das ações privilegia a idéia de “interdependência” entre os atores e instituições (FLEURY; OUVERNEY, 2007). A definição de Börzel (Apud FERRARI, 2007, p.82) explicita claramente esta noção, qual seja: as redes de políticas públicas consistem em um conjunto relativamente estável de relações de natureza interdependente e não-hierárquica entre diversos atores, os quais compartilham interesses comuns em relação a uma política e que trocam recursos entre si para atingir tais interesses, reconhecendo que a cooperação é o melhor meio para alcançá-los. Pensada pelo viés da interdependência, a concepção de Redes de Políticas Sociais pode contribuir para o fortalecimento da lógica que desresponsabiliza o Estado pelo provimento de serviços sociais ou, ainda, que semeia a dependência em relação às entidades não-governamentais e ao setor privado para o atendimento competente ao cidadão. Portanto, na dinâmica do trabalho em Rede, cabe a análise e o favorecimento das articulações que fortaleçam o espaço público. A segunda questão refere-se à concepção de Complementaridade para a intervenção em Rede de Políticas Sociais. Conforme apontado anteriormente, a pluralidade de modos de vida, assim como as determinações político-econômicas e socioculturais da sociedade capitalista atual que acarretam em novas manifestações da questão social, marcam a diversidade, amplitude e complexidade de demandas por bem- estar. O trabalho em Rede de Políticas Socais deve ser capaz de articular os diferentes espaços de provisão do bem-estar social tanto para a Ação Integrada, isto é, em conjunto ou em parceria, quanto para a Complementaridade das ações dos benefícios, serviços, programas, projetos e instituições, interligando e delimitando os espaços de atuação na perspectiva do atendimento integral e 84 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família integrado das demandas particulares e coletivas de indivíduos, famílias e comunidades usuárias das políticas sociais. Tal diretriz funda-se num conceito ampliado de seguridade social, entendido pela idéia de de acesso, de segurança e de proteção social às necessidade humanas e às condições dignas de vida dos cidadãos. Nas palavras de Oliveira (2004, p.3) os distintos usuários das entidades e organizações prestadoras de ações socioassistenciais – demandatários das políticas sociais públicas – apresentam uma contraditória combinação de fatores que determinam suas condições e modo de vida, expressos no cotidiano da vida social. Desta forma, as ações desenvolvidas pelas políticas sociais públicas, através das entidades e setores, necessitam reconhecer o universo dessas condições e modo de vida e, conjunta e articuladamente, desenvolver processos de trabalho que abarquem a efetivação das condições indispensáveis à dignidade humana. Isso somente é possível se houver complementaridade – intencionada e concretizada – nas intervenções de cada política social e, desta, com as demais políticas sociais, através dos serviços prestados, o que demanda planejamento e ações em parceria. Mioto (2002, p.53) lembra que não são todas as demandas que podem ser atendidas dentro de um ambiente institucionalizado, em especial, as situações sociais que necessitam, além do apoio material, de um contexto afetivo e de um cuidado de longo prazo, como em estados de sofrimento, violência, abandono, alcoolismo, doença mental, doenças crônicas e graves, entre outros. Segundo a autora, “a institucionalização, pela experiência histórica, mostrou-se como uma alternativa indesejável e mesmo equivocada” para responder a estas demandas. Deste modo, torna-se de fundamental importância a leitura e a identificação das demandas concretas, assim como o conhecimento das Redes Primárias, Redes Secundárias, Rede por Política Social, Rede Inter-Políticas Sociais, Redes de Atenção por Grupos Sociais, as quais podem ser importantes recursos para o cuidado com os indivíduos, dentro da perspectiva da ação compartilhada, complementar e integral. Por fim, o terceiro indicador para a intervenção em Rede de Políticas Sociais se refere ao indispensável Planejamento Compartilhado, o que significa considerar o trabalho em Rede desde o momento da formulação das políticas. Este indicador refere-se a aspectos da gestão organizacional e da capacidade de coordenação interorganizacional para o estabelecimento de políticas norteadoras, de metas compartilhadas e de processos de trabalho conjunto, conjugando estratégias para a agregação entre as ações das diferentes políticas, programas, projetos, serviços, benefícios e instituições, compreendendo que “a dimensão política do planejamento decorre do fato de que ele é um processo contínuo de tomadas de decisões, inscritas nas relações de poder, o que caracteriza ou envolve uma função política” (BAPTISTA, 2000, p.17). 85 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família Para Santos (2005, p.62), “a formulação via rede não se baseia em comando e ordem, mas em negociação e intercâmbio”. Portanto, é relevante a implementação de processos de construção coletiva e de diálogo permanente, articulando a(s) Rede(s) e os diferentes atores para a leitura da realidade social e a proposição de planos onde sejam definidos coletivamente os objetivos, as prioridades, as ações, a identificação e a destinação dos recursos disponíveis, bem como os procedimentos para o acompanhamento e a avaliação. O Planejamento Compartilhado pode contribuir para a definição do campo de atuação das entidades e atores envolvidos, no sentido em que a Ação Integrada e a Complementaridade se efetivem em diferentes contextos de atuação institucional, voltados a objetivos de prevenção, proteção, promoção, ações emergenciais, redistributivas, de apoio ao desenvolvimento local, etc. Articulado deste modo, o trabalho em Rede(s) pode colaborar para a superação das ações fragmentadas e sobrepostas, assim como evitar “projetos sociais desconexos e descontínuos, que não se potencializam mutuamente” (KAUCHAKJE, 2007, p.91). Este processo, em última instância, pode afugentar a compartimentalização dos direitos sociais. Para finalizar, com Oliveira (2004, p.9) reitera-se a importância da “horizontalidade nas relações interinstitucionais e inter-redes”, bem como a busca pela “uniformidade de procedimentos operacionais (dentro das entidades, entre as entidades, nas políticas sociais e entre as políticas sociais)” como quesitos para a qualificação do trabalho em Rede. CONSIDERAÇÕES FINAIS A concepção de Redes de Políticas Sociais é uma abordagem de trabalho social de grande potencial para a consolidação da cidadania e para o atendimento das demandas de indivíduos, famílias e comunidades. A responsabilidade compartilhada na formulação, implementação e avaliação é um grande impulsionador para a gestão qualificada e integral das políticas sociais. Todavia, como afirma Santos (2005, p.65), “se por um lado a execução [em Rede] das políticas tem a capacidade de, potencialmente, ganhar em eficiência, por outro lado, tem o efeito de introduzir novos elementos a desafiar a legitimação democrática da autoridade pública”. Deste modo, o trabalho em Rede(s) de Políticas Sociais precisa reforçar uma articulação politizada entre atores e instituições, de modo que a atuação em Rede fortaleça o espaço público enquanto garantidor do bem-estar como direito de cidadania. 86 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família REFERÊNCIAS BAPTISTA, Myrian Veras. Planejamento Social: intencionalidade e instrumentação. São Paulo: Veras Editora, 2000. BRESSER PEREIRA, Luiz Carlos. A Reforma do Estado dos anos 90: Lógica e Mecanismos de Controle. Cadernos MARE da Reforma do Estado. Vol.1. Brasília: Ministério da Administração Federal e Reforma do Estado, 1997. CFESS. Resolução CFESS nº 273/93 de 13 de março de 1993. 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Foram desenvolvidos sete encontros quinzenais, com duração de quatro horas cada. Os temas trabalhados nos encontros abrangiam: Processo Saúde Doença; Panoramas de Saúde; Indicadores de Saúde; Políticas de Saúde; Qualidade de Vida e Saúde; Fatores Psicossociais Envolvidos na Saúde e na Qualidade de Vida; Desenvolvimento (fatores biopsicossociais) e Qualidade de Vida; Meio Ambiente e Saúde; Qualidade de Vida e Abordagens na Comunidade. Foram levantadas as concepções destes agentes sobre as temáticas abordadas e a partir de seus conhecimentos se trabalhou os assuntos através da construção conjunta dos conhecimentos, com base nos princípios da Educação Popular, com vistas a incentivar a participação, desenvolver a autonomia e a compreensão da responsabilidade individual e coletiva no processo de aprendizagem. Através destes encontros foi possível promover espaço para reflexão no sentido da ressignificação do papel do agente comunitário de saúde, dos aspectos envolvidos na saúde e na qualidade de vida e entendimento dos determinantes sociais de saúde, possibilitando a busca de alternativas para uma atuação mais reflexiva, necessária para a quebra de paradigma (modelo biomédico), que predomina nas questões referentes à Saúde, favorecendo a interação destes agentes com as famílias e a atuação multiprofissional, para a adequação das ações segundo as necessidades identificadas e no sentido da defesa da melhoria dos determinantes sociais de saúde. PALAVRAS-CHAVE: Agentes Comunitários de Saúde (ACS); Estratégia de Saúde da Família; Formação Profissional; Família. CONCEPÇÃO AMPLIADA DE SAÚDE E O TRABALHO COM FAMÍLIAS 1 Professora Assistente da Universidade Federal do Paraná, de Desenvolvimento Biopsicossocial; Mestre em Comunicação (UNESP), Doutoranda em Educação Especial (UFSCar). 2 Professor Assistente da Universidade Federal do Paraná, de Saúde Coletiva; Mestre em Saúde Coletiva. 3 Professora Assistente da Universidade Federal do Paraná, de Planejamento Urbano; Mestre em Planejamento Urbano. 88 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família Ao discutirmos o assunto do trabalho relacionado à saúde voltado para as famílias, ponto central da atuação dos Agentes Comunitários de Saúde, precisamos levar em conta o que se pensa em relação à saúde e à família, em suas interfaces com a sociedade e a cultura. Neste sentido REY, 2004 relata que cada sociedade, em cada momento de desenvolvimento social, gera representações e práticas em relação à saúde e à doença, conseqüentemente desenvolve novos desafios à saúde, que se manifestam em todos os níveis da existência humana (desde o biológico até os sociais e subjetivos), de forma interrelacionados e expressam a ordem simbólica que está relacionada aos discursos e práticas dominantes subjacentes. Os sistemas de crenças e representações socialmente produzidas padronizam definições de saúde e doença a partir de critérios externos aos sujeitos e grupos envolvidos, gerando limitações, preconceitos e espaços de identidade social que danificam mais as pessoas do que o próprio estado de doença. Este mesmo autor afirma que muitos problemas sociais são apresentados como doenças e afastados da análise e crítica social. Os sistemas tendem a ocultar a leitura social dos processos saúde doença, contribuindo para sua institucionalização jurídica ou médica. A patologização do social tem função de ocultamento da ordem social e envolve dinâmica que informa sobre a organização da sociedade em que se apresenta. NEDER (2005) acrescenta que, a prática social e política, de caráter público ou privado, que considere as diferenças étnico-culturais que constituem os substratos históricos, podem apontar caminhos mais eficientes na formulação de políticas públicas que visem a construção de estratégias de controle social numa ordem democrática. Neste sentido, deve se pensar em processo saúde e doença dentro de uma concepção ampliada de saúde e que leve em consideração todos os aspectos envolvidos no processo, incluindo aspectos ambientais, sociais, psicológicos, políticos, culturais. Essa concepção ampliada de saúde, que incorpora uma visão integral do ser humano é preconizada pelo SUS, e garantida em suas diretrizes e princípios, é uma meta da Estratégia de Saúde da Família, no que tange aos atendimentos aos usuários. O Programa de Saúde da Família (PSF), estratégia do Ministério da Saúde (MS) para estimular a reorganização do modelo assistencial na atenção básica, constitui-se hoje no principal programa de saúde do País, englobando a rede de serviços básicos do Sistema Único de Saúde (SUS), visando o trabalho na lógica da Promoção da Saúde, no sentido de garantir a integralidade da assistência ao usuário, em sua integração com a família e a comunidade. 89 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família Segundo CHIESA & FRACOLLI (2004), o PSF tem as seguintes finalidades: integrar ações de promoção e prevenção da saúde, racionalizar recursos destinados a atenção secundária e terciária, solucionar problemas de urgências e emergências, promover a integração do SUS com universidades e definir políticas de recursos humanos para atender os serviços de saúde. O Ministério da Saúde (BRASIL, 2001) afirma que o PSF “prioriza as ações de prevenção, promoção e recuperação da saúde das pessoas, de forma integral e contínua. O atendimento é prestado na unidade básica de saúde ou no domicílio, pelos profissionais (médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem e agentes comunitários de saúde) que compõem as equipes de Saúde da Família. Assim, esses profissionais e a população acompanhada criam vínculos de co-responsabilidade, o que facilita a identificação e o atendimento aos problemas de saúde da comunidade”. RIBEIRO (2004) acrescenta que a assistência em saúde da família deve-se considerar as vicissitudes da interface entre o processo saúde doença e o ser e viver família em sua cotidianeidade, requerendo para tanto, enfoque multidimensional. Vários estudos se referem a família como lugar de proteção social e contexto em que a doença ocorre e é resolvida. A família, juntamente com sociedade e Estado são destacadas como responsáveis pelo bem-estar e proteção integral dos indivíduos. Outros estudos acrescentam que a família também pode ser local de conflitos e disputas. Com base nestes fatos e com o direcionamento das políticas de atendimento do PSF, a família passa a ser considerada como foco principal para a implantação do atendimento integral do ser humano e implementação de procedimentos diferenciados por equipe multiprofissional. Neste sentido, é necessário refletir e discutir as visões de família incorporadas nas representações dos profissionais que trabalham nesta estratégia, e que irão influenciar a forma de condução das intervenções. CARVALHO (2003) afirma que o imaginário coletivo está repleto de expectativas em relação à família. Dentre elas, destaca a expectativa de que a família produza cuidados e proteção, aprendizado dos afetos, construção de identidades e vínculos relacionais de pertencimento, capazes de promover melhor qualidade de vida a seus membros e efetiva inclusão social na sociedade em que vivem. No entanto, essa família vive num dado contexto que pode fortalecer ou enfraquecer suas possibilidades e potencialidades. Portanto, é necessário evitar a naturalização da família, compreendendo-a como grupo social e desta 90 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família forma, os movimentos de organização-reorganização mantém estreita relação com o contexto sociocultural. ROMANELLI (2003) afirma que é na convivência doméstica que a família se constitui como grupo, tanto na prática como na representação de seus integrantes, organizado para assegurar a manutenção de todos. Considerando que a família está inserida num contexto, no qual influencia e é influenciada e que tem peculiaridades que se instalam conforme os membros que as compõem, e que essas peculiaridades não se constituem somente pela soma das individualidades, mas pela interação destas, não poderemos deixar de considerar que cada família poderá eleger diferentes formas de se organizar e de se posicionar frente ao adoecimento de seus membros. Para os profissionais que trabalham junto às famílias é essencial entender esse processo de organização a fim de que não estabeleçam sua própria visão de família como hegemônica, nem façam julgamento moral quanto às constituições familiares e formas de encarar e cuidar da saúde. GABARDO; JUNGES; SELLI (2009) destacam que sempre houve distintas formas de organização familiar, mas persiste no imaginário individual e coletivo a imagem da família nuclear composta por mãe, pai e filhos. Estes autores observaram que a prática dos profissionais do PSF consiste no atendimento diário de famílias, ao se defrontar com as organizações e dinâmicas das famílias brasileiras, constaram grande diversidade de arranjos e configurações: famílias de casal homossexual com filhos, famílias extensas e famílias reconstruídas morando no mesmo terreno, idosos vivendo em união com parceiros mais jovens, mulheres com filhos morando em prostíbulos. Estes autores relatam ainda que são muitas as razões pelas quais as famílias vêm assumindo diferentes conformações. Entre as quais se destacam: a modificação da organização do trabalho, progressiva urbanização e industrialização do País e mudanças de concepções quanto a atividade doméstica e condição feminina. Estes fatores resultaram em mudanças culturais e conseqüências como rompimento entre a unidade entre casa e trabalho, concentração da moradia e consumo em um só local, característica privada do trabalho doméstico, mudanças de papéis familiares e transformação da condição da mulher (trabalho da mulher fora de casa, autonomia financeira, rompimento da subordinação econômica da esposa ao marido, contribuição no orçamento familiar, divisão de tarefas domésticas, possibilidade do controle da reprodução). 91 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família ROMANELLI (2003) acrescenta que a crescente participação feminina na força de trabalho, em conseqüência das dificuldades econômicas enfrentadas pelas famílias, ocasionou mudanças na dinâmica familiar e na vida doméstica. Este fato conferiu-lhes nova posição na estrutura familiar, alterando os vínculos, relações afetivas, relacionamentos e divisão de trabalho. Além disso, a inclusão feminina no domínio público das atividades profissionais revestiu-se de significado simbólico, concedendo um novo lugar às representações sobre as mulheres e mudanças expressivas nas relações de autoridade e poder no interior da família. Essas mudanças não ocorreram isoladamente e influenciaram novos costumes e comportamentos, desencadeando mudanças culturais. Em decorrência, encontramos uma diversidade de arranjos e configurações familiares, que exigem dos profissionais que compõem as equipes de Saúde da Família, trabalho relacionado aos valores morais e preconceitos, a fim de que se torne possível compreender e atuar frente aos riscos e situações em que estas famílias vivem, permitindo a realização de práticas mais satisfatórias em saúde. A forma como estes profissionais encaram estes arranjos familiares pode interferir na assistência à saúde, tanto no que diz respeito à maneira como irão atuar frente as família atendidas, como na sua relação com os usuários. Segundo RESTA & MOTTA (2005) as famílias possuem muitas fragilidades e suscetibilidades levando-as a apresentarem diferentes necessidades de saúde; suas diversas vulnerabilidades e riscos caracterizam-nas, concomitantemente, como singulares e plurais. A inserção da família no cuidado à saúde proporcionado pelo Programa de Saúde da Família (PSF) é uma oportunidade de se buscar alternativas que aproximem os profissionais de saúde do núcleo familiar e para a visualização da família como parte do processo de reorientação do modelo de saúde, buscando construir ações de saúde a partir de seu contexto e necessidades. Em decorrência das mudanças exigidas pela Estratégia de Saúde da Família tornou-se necessário repensar as ações em saúde, incluindo a família como sujeito de seu cuidado. Porém, muitas vezes se esbarra na formação dos profissionais que trabalham na área, que freqüentemente, enfatiza o modelo biomédico de atendimento em saúde, sendo compartimentada, enfatizando o biologicismo e tomando o indivíduo como objeto de suas práticas e saberes. No modelo biomédico o foco está no indivíduo e cura da doença. É um modelo cartesiano que se baseia na divisão entre corpo e mente, com valorização do biológico em detrimento da sua dimensão psíquica e interpessoal. O corpo humano é visto como uma 92 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família máquina. A doença é considerada o mau funcionamento dos mecanismos biológicos, que são divididos em partes e tratados por especialistas. Neste modelo, a Educação em Saúde se dá por meio da educação culpabilizadora, em que, segundo BESEN et al. (2007) o educar em saúde se dá como práticas de higiene para mudar comportamentos e evitar o adoecimento. A higiene e a saúde são responsabilidade do indivíduo, com base em aspectos biológicos e negação da determinação social no processo saúde doença. Na intervenção clínica o foco está no comportamento do indivíduo, sendo o profissional investido e detentor dos conhecimentos e autoridade, impondo comportamentos que os indivíduos devem seguir. De acordo com BRASIL (2003), neste tipo de modelo de trabalho na saúde, as atividades predominantes são curativas e reabilitadoras, não há espaço para a integralidade da atenção. REY (2004) acrescenta que a saúde humana tem sido institucionalizada dentro do modelo biomédico, utilizando-se de uma perspectiva naturalista e organicista, que tem seu foco na doença, definindo saúde como ausência de doença. Os aspectos sociais e subjetivos da saúde humana foram ignorados ou colocados em posição secundária em relação à etiologia e o desenvolvimento da doença. Com isso, ignora-se a dimensão social na definição dos processos humanos. Fenômenos sociais são classificados como doença e não como produção associada a um tipo de organização social, sendo naturalizados e levados para práticas clínicas. A naturalização coloca no indivíduo e em sua natureza, processos que tem gênese social. Este modelo ainda está bastante presente na formação dos profissionais que atuam na área da saúde, e se encontra arraigado nas concepções da população em geral. Fato este que dificulta a consolidação de atendimentos que priorizem a concepção ampliada de saúde. BESEN et al. (2007), em seu estudo constaram que os profissionais de saúde não demonstram estar preparados para o trabalho na lógica da Promoção da Saúde requerida pela Estratégia de Saúde da Família e a maioria de seus discursos é permeada por uma educação voltada para as doenças e para a tentativa de mudança de comportamento dos indivíduos, com relação vertical e impositiva. Neste sentido, BUCHABQUI; CAPP; PETUCO (2006) afirmam que as práticas moralistas e preconceituosas no campo da saúde ainda são comuns. A doença é vista como responsabilidade do sujeito e isto justifica intervenções moralistas. As atitudes do sujeito, que são consideradas responsáveis por seu estado de saúde são julgadas a partir de um critério 93 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família higienista, não apenas do ponto de vista biológico, mas também moral o que implica em diferenciação nos atendimentos das pessoas. Não se trata de tratar de maneira igual todas as pessoas, visto que são efetivamente diferentes, mas que todas as pessoas merecem igual consideração e respeito, e que não cabe ao profissional de saúde julgar moralmente as razões e o modo de vida dos sujeitos que buscam atendimento. PUSCHEL; IDE; CHAVES (2005) acrescentam ainda que, é fundamental ampliar a competência clínica e psicossocial do profissional de modo a: Fazer um julgamento clínico e psicossocial considerando o contexto; Estabelecer parceria nas condutas (pessoa doente/família/equipe de saúde); Proporcionar a tomada de decisão; Estabelecer o sentido da evolução, considerando a ampliação do foco de viver, o delineamento das descompensações e a melhor resposta possível; Considerar a melhor resposta possível no que se relaciona ao autocuidado, à superação de visões deturpadas, à ampliação dos focos interativos e à ressignificação de laços e vínculos. Neste sentido, quando pensamos em concepção ampliada de saúde, concordamos com COELHO & ALMEIDA FILHO (2002) que os aspectos biopsicossociais, incluindo-se o contexto socioeconômico, político, histórico e cultural, encontram-se presentes em todos os níveis conceituais da saúde, com suas especificidades, e não se superam linearmente, mas interagem de forma complexa. A concepção ampliada de saúde, presente nas diretrizes do SUS, juntamente com as alterações sofridas pelas famílias na sociedade contemporânea, acrescida da adoção da família como foco do atendimento da estratégia de Saúde da Família, possibilitam uma mudança na concepção de Saúde vigente, passando a se ter possibilidade de integração, aos atendimentos, dos aspectos psicossociais. Em conseqüência, são necessárias mudanças na configuração das concepções dos profissionais que atuam na equipe de saúde da família, com concomitante alteração das estratégias de intervenção, como forma de garantir o atendimento integral aos usuários. Para tanto, se torna necessário que os profissionais compartilhem dessa visão e estejam em constante processo de formação. E um dos principais aspectos do processo de formação é a relacionada às competências psicossociais. NUNES (2002) enfatiza a importância da compreensão do processo saúde-doença em todas as suas dimensões (biológica, social, política, econômica e cultural) como fator importante para o planejamento adequado das ações de saúde com base na realidade em que se encontram as famílias. 94 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família Este autor acrescenta ainda que o papel dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS’s) é diferente dos demais membros da equipe. Eles moram no mesmo bairro em que trabalham, convivem e conhecem sua realidade e suas práticas de saúde, identificando-se com a cultura, linguagem e costumes de sua comunidade. BUCHABQUI; CAPP; PETUCO (2006) acrescenta que o entendimento das amplitudes e limites das atribuições do ACS depende de um olhar dialético, que inclua, além dos estatutos e diretrizes, as demandas, possibilidades e limites construídos efetiva e afetivamente no cotidiano de seu trabalho e as relações político-institucionais com gestores e controle social. Devido à sua ligação com a comunidade, e ao seu atuar como articulador das redes de apoio ao PSF, os ACS’s trazem novas possibilidades ao fazer em saúde, em especial à saúde pública e coletiva, podendo inserir-se nas redes de relações comunitárias e articular lideranças, tendo possibilidade de ampliar o leque de alianças em defesa dos processos que promovem a vida e a construção da cidadania. A ação dos ACS’s tem como peculiaridade a possibilidade de inclusão do afeto nas relações, que promove proximidade e empatia, que por sua vez facilita a construção de vínculos e sentidos simbólicos, possibilitando a educação e o fazer em saúde, ampliando o conceito de saúde e o rol de ações sanitárias. Estes fatos enfatizam a importância de espaços de formação destes Agentes Comunitários de Saúde para a atuação frente as famílias, de forma a contemplar o desenvolvimento voltado para a ampliação das competências psicossociais e em relação aos determinantes sociais de saúde, como forma de fomentar ações que tenham possibilidade de estimular a participação ativa dos usuários em relação à sua própria saúde e em direção da valorização da participação social e cidadã. GABARDO; JUNGES; SELLI (2009) concluíram que os profissionais sofrem inquietações diante da demanda de responsabilidades que fogem à sua capacidade de intervenção e diante da contradição de exigências que envolvem demandas administrativas de resultados quantificáveis preconizados pelo programa e as necessidades demandadas pelas famílias, levando-os a considerar que seja importante a interdisciplinaridade. Ressaltam ainda que, estes profissionais não se sentem capacitados para dar conta dos problemas enfrentados diante da complexidade da demanda atendida no PSF, necessitando de desenvolver outras habilidades. Neste sentido a formação do profissional da saúde deve capacitá-los para o modelo de assistência à saúde, com ênfase não somente no atendimento das necessidades físicas 95 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família (doença) dos pacientes, mas em todas as dimensões que envolvem o indivíduo e o processo saúde/doença. Em consonância, DUARTE; SILVA; CARDOSO (2007) consideram importante que os agentes sejam capacitados sobre os diferentes aspectos do processo saúde-doença. Além do saber biomédico, se deve ressaltar saberes que favoreçam o processo de interação desses agentes com as famílias e a identificação de suas necessidades. Com base nestes pressupostos e com a preocupação de estimular trabalho comunitário participativo e reflexivo em conformidade com a concepção ampliada de saúde e em atendimento aos princípios do SUS, se estabeleceu parceria entre a Universidade Federal do Paraná e a Secretaria de Saúde do Município de Matinhos –PR, tendo por objetivo proporcionar espaço de formação dos Agentes Comunitários de Saúde para o trabalho com famílias, com base na concepção ampliada de saúde e visão integral do ser humano, a fim de que possam exercer efetivamente suas atribuições. Para tanto foi realizado um curso de extensão voltado para este público com o propósito de subsidiar o processo formativo/reflexivo das ACS’s da Estratégia de Saúde da família do referido município. UM TRABALHO DE CONSTRUÇÃO DE CONHECIMENTOS O presente trabalho consiste num relato de experiência baseado em observações, relatórios de atividades, diários de campo e análise de material produzido durante os encontros. No decorrer de sua execução procurou-se compreender as práticas e experiências das Agentes Comunitárias de Saúde em seu cotidiano, buscando entender os determinantes de saúde envolvidos, modos como conduzem e organizam as práticas, suas necessidades e as da comunidade, a fim de subsidiar o trabalho a ser desenvolvido e contribuir para melhor desenvolvimento das habilidades e potencialidades dos ACS’s. Foram realizados sete encontros quinzenais, com aproximadamente 20 ACS’s, em sua maioria, mulheres, sendo que cada encontro teve a duração de quatro horas, nas dependências da Universidade Federal do Paraná- UFPR – Setor Litoral. Os temas trabalhados nos encontros abrangiam: Processo Saúde Doença; Panoramas de Saúde; Indicadores de Saúde; Políticas de Saúde; Qualidade de Vida (QV) e 96 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família Saúde; Fatores Psicossociais Envolvidos na Saúde e na QV; Desenvolvimento e QV; Meio Ambiente e Saúde; QV e Abordagens na Comunidade. Foram realizadas atividades que envolviam relatos de experiências das ACS’s, jogos, vídeos, teatro, situações problemas simuladas, discussões coletivas, atividades criativas de cunho artístico (desenhos, colagens, etc). Nos encontros foram levantadas as concepções destes agentes sobre as temáticas abordadas. Seus conhecimentos e a percepção da necessidade de aprendizagem do grupo nortearam os trabalhados e a abordagem dos assuntos. Os dados coletados ao longo das intervenções junto às ACS’s serviram de base para a proposição de atividades e estratégias, que eram constantemente repensadas para ampliar e trazer novos aspectos que permeavam as temáticas a fim de desenvolver as competências psicossociais para o trabalho com as famílias. No decorrer destas atividades ACS’s colocavam suas dúvidas, relatavam casos e experiências e eram instigadas a participarem e levantarem soluções em conjunto para situações referidas ou pensarem aspectos e correlações com seu cotidiano, a fim de facilitar o entendimento em relação às próprias situações, ao seu trabalho e às famílias por elas atendidas. Procurou-se desenvolver cooperação, envolvimento, criticidade e compreensão ampla do processo saúde-doença. O desenvolvimento dos encontros teve como pressuposto a construção conjunta dos conhecimentos, com base nos princípios da Educação Popular tendo como base a prática educativa problematizadora da realidade, com vistas a incentivar a participação, desenvolver a autonomia e a compreensão da responsabilidade individual e coletiva no processo de aprendizagem. FREIRE (1987) considera que, na educação problematizadora, o educando participa e é responsável pela construção de seu saber, possibilitando que este desenvolva sua compreensão do mundo através do compartilhamento e reflexão de idéias. O processo de aprendizagem ocorre no diálogo entre as subjetividades e a construção do conhecimento se torna possível através do compartilhamento do conhecimento, que neste processo se torna significativo para os envolvidos. A escolha da adoção deste tipo de educação se deu pela possibilidade de questionar ou tentar mudar os modelos biomédicos, característicos de grande parte das ações e práticas em saúde, sendo necessário estimular a participação e a compreensão da responsabilidade individual e coletiva, com vistas a desenvolver a autonomia nos processos de aprendizagem e de decisão com relação à saúde. 97 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família A seguir, são expostas reflexões surgidas ao longo do trabalho do curso de extensão realizado junto aos ACS’s. Espera-se que possam contribuir para fomentar discussões acerca da saúde, segundo um modelo que inclua os aspectos psicossociais a partir de uma visão ampliada de saúde, e também acerca das possibilidades inserção e formação dos ACS’s na comunidade e de trabalho junto às famílias colaborando para que os profissionais possam utilizar e repensar as práticas em saúde. Quanto ao tema Família, percebeu-se que as ACS’s vivenciam, em seu cotidiano diferentes configurações de arranjos familiares. Nota-se ainda que, independentemente destes, as concepções indicam as famílias como responsáveis pelo cuidado de seus membros e associam a família “boa” como aquela que apresenta: bom relacionamento entre seus membros, apoio nas situações difíceis, que cuidam de seus membros, sem brigas, ou problemas como: alcoolismo, tabagismo, drogas. Ocorre a associação das condições financeiras a uma piora das condições de saúde. Demonstraram dificuldades em associar os fatores psicossociais aos problemas relatados. Estas concepções estão vinculadas a visão de família ideal, correspondente ao modelo biomédico de saúde, em que os indivíduos são responsabilizados pela sua própria saúde. Mas ao mesmo tempo, aparecem indicações de percepção da importância da autonomia e participação ativa dos membros da família para com os cuidados de sua própria saúde. Nesse sentido, é importante proporcionar espaços de reflexão que priorizem a família como centro das atividades realizadas, levando em consideração os fatores psicossociais envolvidos no processo saúde doença, a fim de que estes profissionais possam perceber as possibilidades de seu trabalho junto às famílias e como agentes de transformação no sentido da melhoria dos determinantes sociais de saúde. Ao levantarmos as representações dos Agentes Comunitários de Saúde com relação à “Saúde”, foram percebidos aspectos que perpassavam noções como: higiene, boa alimentação, boas condições de moradia, condições financeiras, bem estar psicológico, bom relacionamento familiar, trabalho. Apareceram como principais problemas de saúde encontrados na comunidade: drogas, alcoolismo, gestação adolescente, diabetes e hipertensão. Quando se analisam os aspectos levantados observa-se a ênfase em fatores relacionados ao bem estar físico e aspectos biológicos da saúde. Ocorre a percepção do trabalho, condições financeiras, bem estar psicológico e o relacionamento familiar como tendo influência sobre a saúde dos indivíduos. Esses elementos percebidos constituem-se em alguns dos fatores necessários à percepção do desenvolvimento integral do indivíduo no 98 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família âmbito social, emocional e biológico, no entanto, nas concepções analisadas não se verificam questões políticas e sociais e não ocorre a inter-relação entre estes fatores, condição necessária para a visão integral do ser humano e para a concepção ampliada de saúde. Estas análises indicam a presença de aspectos que podem ser relacionados ao modelo biomédico de atenção à saúde nas concepções e atuações destes profissionais, demonstrando a necessidade de se proporcionar constantemente espaços que propiciem a reflexão sobre as práticas e que facilitem a consideração de aspectos psicossociais envolvidos nas situações enfrentadas no dia-a-dia. RESTA & MOTTA (2005) afirmam que a evolução das políticas públicas de saúde, bem como as reflexões dos profissionais inseridos no SUS lançam vários desafios, seja na abordagem direta aos usuários, seja no compromisso destes trabalhadores no processo evolutivo. O modelo assistencial de saúde que se tenta abandonar influenciou e determinou alguns marcos na história das políticas de saúde que se encontra muito presente no cotidiano dos trabalhadores da saúde. Este modelo, denominado biomédico, possui características que sensibilizam e instigam os profissionais a romper com os paradigmas que inviabilizam a visualização da saúde enquanto coletivo, influenciada por diferenças culturais, sociais e econômicas. Estas agentes citaram como fazendo parte de seu trabalho: visitas periódicas às famílias, contato com a população, levar problemas da população para as unidades básicas de saúde, verificar ambiente com relação aos fatores que podem interferir na saúde (higiene, condições da moradia, saneamento básico), orientação para prevenção de doença, promoção e prevenção em saúde. Destacam o fato de receberem treinamento para as orientações que devem transmitir nos domicílios. Citam também, que na maioria das vezes, a família elege um membro como referência para as “conversas” com a ACS, o que pode dificultar o trabalho com a família de maneira integral. Não houve referências quanto à identificação de parceiros e recursos da comunidade, nem com relação a reuniões ou mobilização comunitária. Apesar da percepção de que o trabalho, moradia e saneamento básico podem influenciar na saúde dos indivíduos, não foram mencionadas ações para modificação destes determinantes. As principais dificuldades encontradas foram: trabalho em área de risco ou de difícil acesso falta de infra-estrutura geral na comunidade, falta de apoio/ material/ reconhecimento, dificuldade de continuidade do trabalho por problemas relacionados ao repasse de informações e falta de profissionais no PSF. Estes problemas dificultam a 99 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família concretização dos princípios e diretrizes do SUS e da estratégia de Saúde da Família, que necessita de um bom intercâmbio das informações obtidas e entre os profissionais, que devem constituir uma equipe multiprofissional. Demonstram a necessidade de incorporação de outros profissionais à equipe e a importância da realização de atividades e projetos que visem o preparo da equipe para ampliar o atendimento às famílias e desenvolvimento de habilidades que visem melhorar o relacionamento entre os profissionais e a família. SOUZA & CARVALHO (2003) observaram que as estratégias de trabalho do PSF, em geral, têm esbarrado nas falhas do sistema de referência e contra-referência, comprometendo a continuidade da atenção. Apesar dos empecilhos, o programa busca desenvolver ações no âmbito da atenção básica, através da prevenção e da intervenção nos fatores de riscos, visando melhorar as condições de vida e de saúde. Os participantes relatam ainda, dificuldades relacionadas aos limites e possibilidades de intervenção, falta de capacitação para trabalhar com determinadas situações, geralmente de cunho emocional ou social (brigas, violências, separações, drogas, condições precárias de moradia, fome, desemprego) levando a se sentirem impotentes, acreditando que são problemas que fogem de sua área de atuação. Os problemas de cunho social são percebidos como graves, fogem do referencial médico biológico, não tendo soluções imediatas que estão acostumados a considerar. Com base neste referencial as questões são abordadas isoladamente e as práticas envolvem repasse de conhecimentos, com poucas chances de promover as transformações necessárias às comunidades. As ACS’s sabem da importância de seu trabalho e gostariam de melhorar a qualidade de vida dos usuários, mas não sabem como trabalhar com as famílias, ou como ampliar as ações educativas para transformar os determinantes sociais da saúde, nem como mobilizar a comunidade para a conquista de condições mais favoráveis. Essa impotência baseia-se na concepção de educação que objetiva ensinar ou falar para as pessoas e não com elas, o que é característico do modelo (biomédico) de atenção até pouco tempo hegemônico. Esse modelo não considera que as pessoas envolvidas possam saber ou encontrar soluções para a sua própria vida e/ou saúde e quando as questões fogem ao controle não se consegue visualizar outros caminhos. Nesse sentido, o trabalho que envolve as pessoas, considera suas experiências e provoca tomada de decisão, facilita participação ativa e responsabilização dos membros da equipe e/ou comunidade pelo aprendizado, pela mudança e pela construção coletiva de 100 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família estratégias de enfrentamento e solução de problemas. A escuta da comunidade é o primeiro passo no sentido da ampliação dos diálogos e proporciona condições para melhor identificar caminhos a serem percorridos. A compreensão dos aspectos psicossociais que interferem no processo saúde-doença possibilita ampliação do entendimento dos determinantes sociais da saúde e da situação para além dos aspectos higienicistas e biologizantes e a conseqüente mudança de estratégias de intervenção. CONSIDERAÇÕES FINAIS Quanto ao trabalho dos Agentes Comunitários de Saúde foram identificadas dificuldades relacionadas ao fluxo das informações no Sistema de Saúde, e em relação aos atendimentos e práticas educativas, que em vários momentos, contemplavam o modelo biomédico de atenção à saúde. Demonstravam conhecer alguns aspectos psicossociais de forma isolada, sem estabelecer relações entre eles. Essas percepções levaram ao enfoque na formação e ampliação dos conhecimentos relacionados a concepção ampliada de saúde. A utilização da prática problematizadora constituiu-se como espaço de construção compartilhada de conhecimentos, possibilitando aos participantes aprendizados significativo e referenciado no cotidiano. Os trabalhos possibilitaram o início do processo de reflexão em relação a atuação dos Agentes Comunitários de Saúde e os problemas por eles enfrentados, possibilitando a ressignificação do seu papel. Foi o primeiro olhar para a ampliação de conhecimentos relacionados aos diferentes aspectos envolvidos na saúde e na qualidade de vida, além do entendimento dos determinantes sociais de saúde. Estes conhecimentos possibilitam a reflexão sobre a prática, em busca da práxis, necessária para a quebra de paradigma (modelo biomédico). Além disso, favoreceu a visualização e a busca de alternativas para a melhoria da interação dos agentes com as famílias, para a atuação multiprofissional e adequação das ações segundo as necessidades identificadas, mostrando potencial para a construção da autonomia e cidadania. O espaço de reflexão sobre a formação e atuação em saúde é importante para o rompimento com práticas individualizadas, com a segmentação própria da saúde, além de 101 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família possibilitar reflexão crítica sobre o SUS. A ampliação do olhar e práticas para a interdisciplinaridade é necessária para a construção da saúde coletiva. O desenvolvimento de competências psicossociais não constitui tarefa fácil tendo em vista que a formação dos profissionais e a sociedade como um todo, prioriza as bases do modelo clínico, dificultando a identificação e intervenção das situações de abordagem ampliada da saúde. Portanto, o trabalho desenvolvido necessita ter continuidade, devendo enfocar a atuação junto às famílias, como espaço de construção da autonomia e democracia, e orientada para a melhoria dos determinantes sociais de saúde. A educação permanente dos Agentes Comunitários de Saúde deve visar o desenvolvimento de suas capacidades e estímulo para a realização de um trabalho crítico e reflexivo, podendo tornar-se um importante veículo de empoderamento da população no sentido da melhoria das condições de vida e saúde. A oportunização de espaços de reflexão e o investimento em cursos de especialização e/ou formação, que tenham como base a concepção ampliada de saúde, juntamente com o favorecimento da autonomia e comprometimento profissionais da equipe de Saúde da Família dentro de princípios de integralidade nos atendimentos, possibilita desenvolver habilidades que subsidiem o trabalho junto às famílias, tornando possível o trabalho no sentido de contribuir no processo de capacitação das famílias da comunidade para que haja maior participação no controle do processo saúde-doença e conseqüentemente a melhoria da qualidade de vida e saúde. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BESEN, C.B. et al. A estratégia saúde da família como objeto de educação em saúde. Saude Soc., São Paulo, v. 16, n. 1, Apr. 2007. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. O que é o PACS/PSF? Brasília, DF, 2001. Disponível em http://dtr2001.saude.gov.br/psf//programa/index.htm. BRASIL. Ministério da Saúde. 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Estud. Psicol. (Natal), Natal, v. 8, n. 3, Dec. 2003. 103 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família FAMÍLIAS KAINGANG NUM ESPAÇO URBANO Faculdade de Serviço Social/ Programa de Pos-Graduaçao em Serviço Social/PUCRS Marinez Garlet1 Maria Isabel Barros Bellini2 RESUMO: O artigo é resultado da experiência profissional realizada junto aos povos indígenas no RS desde o tempo de graduanda, durante mais de 18 anos, e que também motivou o ingresso no Programa de Pós-Graduação em Serviço Social /PUCRS com a pesquisa intitulada Entre cestos e colares. A presença dos indígenas em situação de urbanidade provoca reflexões especificamente em relação ao “choque cultural”, justamente por ser um grupo culturalmente diferenciado, com leis e organização específicas. Assim que a garantia de direitos torna-se um desafio para os gestores públicos, desafio esse reforçado quando envolve crianças indígenas na relação com a sociedade do entorno. Sabe-se que o êxodo rural, decorrente de diversos fatores, também atingiu comunidades indígenas, alterando o modo de viver das famílias que saem de suas terras demarcadas, localizadas no interior dos Estados brasileiros, migrando para as periferias das cidades. Este é um fenômeno que chama a atenção dos setores públicos que precisam criar políticas públicas específicas para este segmento diferenciado. INTRODUÇÃO O espaço urbano, por sua organização, evidencia o agravamento das situações de vulnerabilidade social vividas por estas comunidades e impõe a urgente implantação e implementação de programas e políticas que garantam direitos como: acesso a terra, ao alimento, à educação, à convivência familiar, ao respeito a sua cultura. No Rio Grande do Sul, esta realidade apresenta-se de forma dramática em diversos municípios. Na organização social Kaingang, a família procura manter um elo de proteção e segurança coletiva. As relações de parentesco são extremamente coesas e fortes. As razões que levam as crianças aos semáforos e às portas dos comerciantes são vistas e entendidas de diferentes formas pelos órgãos públicos e sociedade local. 1 Especialista em Educação Inclusiva, Assistente Social, Mestranda do Grupo de Estudos e Pesquisa em Família, Serviço Social e Saúde/GFASS do NEST/Núcleo de Estudos e Pesquisa em Saúde e Trabalho/PPGSS/ PUCRS. 2 Profª. Drª. PUCRS.(Assistente Social, Doutora em SS, docente da FSS/PUCRS, Coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisa em Família, Serviço Social e Saúde do NEST/Núcleo de Estudos e Pesquisa em Saúde e Trabalho/PPGSS/PUCRS. Coordenadora de Pesquisa da Escola Saúde Pública da Secretaria Estadual da Saúde/RS/Brasil 104 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família De um lado, a comunidade indígena com sua especificidade cultural e seus direitos garantidos na Constituição Federal/CF 1988; de outro a sociedade dita organizada, regida e normatizada por suas leis, valores, preconceitos. Há ambiguidades e diferenças culturais em ambas as relações. Este tema é impactante, gerando dúvidas e polêmicas. Os Kaingang na cidade vivem em duas culturas, entrelaçam-se com o “mundo do trabalho”, com o comércio, com a dificuldade emergente da subsistência e compartilham com a sociedade não-indígena com noções, leis e valores diferenciados. Este artigo trata da experiência profissional de mais de 18 anos junto a comunidades indígenas, e em especial junto às famílias Kaingang do Rio Grande do Sul e que resultou em projeto de pesquisa que está sendo executado junto ao Programa de Pós-Graduação em Serviço Social/PPGSS/PUCRS. Motivados pela nossa experiência profissional e a fim de aprofundar conhecimentos sobre a realidade da cultura Kaingang, e o que significa o trabalho para os Kaingang, elaboramos um projeto de pesquisa em nível de mestrado1. OS KAINGANG E A CULTURA NA CIDADE As migrações, os êxodos rurais não atingiram somente indivíduos integrados à sociedade nacional, que foram forçados a morar nas cidades, atingiu também grupos étnicos minoritários. Os Kaingang1 formam uma das nações indígenas de maior contingente em nosso país. Calcula-se que a população atual reúna aproximadamente 25 mil pessoas nos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Os deslocamentos geográficos, comuns a alguns povos indígenas e a localização em espaços urbanos rompem com tudo o que sempre se soube sobre esses sujeitos. Comunidades indígenas que sobreviviam nas matas, que usavam lanças, e pescavam com as mãos, deixaram, de certa forma, de existir, pelo menos nos espaços das cidades. Há algumas décadas, os indígenas vivem em casas não tradicionais a sua cultura, assistem à televisão, compram no supermercado e mercearias nas proximidades das aldeias. A realidade de vida mudou, mudou para eles também. E apontam para uma realidade, agora vivida num outro contexto social, na convivência permanente com os não indígenas. Inúmeras foram e são as mudanças sociais e culturais sofridas pelo povo Kaingang, entretanto é visível a permanência de princípios, principalmente no que tange às regras de 105 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família descendência, residência, produção econômica, autoridade política, educação e laços familiares. Historicamente, vivem em pequenos grupos que se movimentam facilmente de uma aldeia para outra, e, mesmo os grupos que moram na cidade, não perdem o contato com a aldeia de origem, na área rural, interior do Estado. Viajam seguidamente para visitar os parentes, levando roupas e utensílios adquiridos no entorno das cidades. Este vínculo mantido com os parentes do interior é também fundamental para buscar matéria-prima para o artesanato, uma vez que no espaço da cidade há escassez de cipós, sementes, taquaras. Desta forma, as famílias que moram na cidade, não esquecem suas raízes culturais e cultivam a união e trocas mútuas entre as famílias do interior. No mundo contemporâneo ocorrem mudanças na estrutura social, econômica e familiar dos indivíduos o que acaba alterando a convivência entre os membros da família. Assim como Szymanski, entendemos que num mundo em transformação como o nosso, também a composição familiar fica subordinada a modificar-se e é importante olhar para o agrupamento humano como “um núcleo”, onde as pessoas se unem, primordialmente por razões afetivas, com um projeto de vida comum: As trocas afetivas na família imprimem marcas que as pessoas carregam a vida toda, definindo direções no modo de ser com os outros afetivamente e no modo de agir com as pessoas. Esse ser com os outros, aprendido com as pessoas significativas, prolonga-se por muitos anos e freqüentemente projeta-se nas famílias que se formam posteriormente (2002. p. 12). Na organização familiar dos Kaingang é possível observar que o vínculo entre os membros do grupo é um constante cuidado com o outro o que reforça e fortalece o núcleo familiar. A saída das terras onde nasceram tem motivos diversos: a busca de estudo em escolas e universidades, busca de recursos para cuidar da saúde, dificuldade de se manterem no meio rural e a tentativa de ampliar a possibilidade de venda do artesanato. Esse movimento para um novo espaço não lhe suprime sua identidade, pois neste contexto, não deixaram de ser o que são. A visibilidade de grupos indígenas em espaços urbanos, com suas capacidades de articulação das políticas garantidas em lei, junto aos poderes públicos municipais, estaduais e federais, reforça-os como grupos étnicos. Mesmo morando nas periferias das cidades, os indivíduos não abrem mão de sua identidade étnica, continuam sendo Kaingang, Terena, Bakairi. Nas relações de convivência com culturas diferentes das suas, ocorre uma ressignificação de alguns de seus traços 106 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família culturais, mantidos há décadas. O processo de urbanização está ligado à aceleração de fatores políticos que fazem parte da história do capitalismo mundial. As formas de organização social, política econômica em que vivem nas áreas urbanas e que estabelecem para si é a forma como eles se compreendem no espaço coletivo. No processo de (re)territorialização no mundo dos brancos, uma alternativa econômica encontrada pelos Kaingang mantém-se na produção do artesanato. (TOMMASINO, 1998, p. 68). Um exemplo é a problematização de famílias indígenas do povo Kaingang lotadas no município de São Leopoldo, onde moram há aproximadamente onze anos, um grupo de 28 famílias da Etnia Kaingang, sendo os integrantes, em sua maioria, provenientes do assentamento indígena do município de Nonoai/RS. Se nas suas comunidades de origem a terra não oferecia o necessário para a subsistência alimentar e econômica, consequentemente, nas cidades isto se agrava em dimensões de maior complexidade. A venda do artesanato possibilita a compra de produtos básicos, como sal, sabão, óleo, açúcar, farinha, roupas, remédios, utensílios domésticos. Os Kaingang que moram nas cidades continuam se reproduzindo enquanto grupo etnicamente diferenciado e, mantêm os laços familiares numa relação de totalidade. Neste novo espaço, procuram adaptar-se às normas e regras de sobrevivência estabelecidas pela sociedade no entorno de suas aldeias. Expropriados de seus territórios tradicionais, os Kaingang foram obrigados a adotar novos padrões impostos pela sociedade dominante. A única alternativa para sobreviver era adaptarem-se às novas condições materiais de vida. Tornaram-se agricultores de subsistência, assalariados e passaram a vender seu artesanato nos distritos e nas cidades. (Tommasino, 1998, p. 68). Nas cidades, o trabalho manual na produção do artesanato é a única fonte econômica direta onde o material produzido pelas famílias não é feito em larga escala no sentido da produção e estoque de produtos. Confeccionam algumas peças em cipó e taquara (cestos, colares, balaios) e saem para a comercialização imediata pelas ruas e calçadas em diferentes municípios próximos. O recurso advindo da venda está longe de suprir as necessidades do cotidiano, pois há sempre mais consumo do que estoque de mercadorias. No contexto urbano, a coleta de matéria-prima para o artesanato (sementes, taquaras, cipós) está cada vez mais difícil, pois estes recursos naturais esgotaram-se com o avanço das cidades. Mesmo assim, o trabalho com o artesanato vem se desenvolvendo no sentido de encontrar atividades de subsistência econômica e, mesmo com a escassez de matéria-prima, 107 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família dão continuidade às suas práticas tradicionais a partir do artesanato. Comercializam seus produtos com o único objetivo de geração de renda, como meio de subsistência familiar. Ainda são vistos pela sociedade envolvente1 como preguiçosos justamente por não acumularem bens e por não terem o ritmo de trabalho que a sociedade ocidental mantém e exige. Se antes da invasão européia viviam de forma livre, com a expansão do capital, foram modificando, inclusive, o seu ritmo de trabalho, seus horários, seus costumes. Assim como ocorre com outros segmentos minoritários, o avanço do sistema capitalista também afeta a organização interna das comunidades indígenas. Uma das consequências do sistema capitalista é que os grupos pertencentes aos segmentos minoritários são impedidos de entrar no mercado de trabalho, sendo este o último dos mercados a ser organizado sob o novo sistema industrial (Polanyi, 2000, p. 99). Porém, em relação à presença de indígenas em centros urbanos, tem-se provocado uma espécie de “tensão social” dos segmentos públicos, onde os impactos da diversidade cultural têm provocado a implantação de ações interventivas mais qualificadas, para procedimentos técnicos rumo à consolidação de ações mais qualificadas e eficazes. ORGANIZAÇÃO DAS FAMÍLIAS KAINGANG Na periferia da cidade de São Leopoldo/RS, cerca de 135 Kaingang moram num pequeno espaço cedido pela Prefeitura Municipal. A área (2,04 hectares) é pequena demais para tantas famílias Kaingang que se mantêm num coletivo entremeio a poucas árvores frutíferas, criação de galinhas, cães e gatos. A infraestrutura está longe de ser adequada. Na aldeia não há saneamento, algumas casas são de lona plástica, outras de restos de madeira acompanhadas de largas frestas. Apenas algumas torneiras instaladas nos cantos dos pátios, disponibilizam água potável a todos que ali se abastecem. O direito diferenciado previsto na Constituição Federal garante que a alfabetização ocorra nas escolas indígenas instaladas dentro das áreas onde estejam as famílias indígenas. Desta forma, no interior da aldeia em São Leopoldo, há uma escola onde dois professores indígenas revezam o ensino bilíngue para cerca de 38 crianças da aldeia, que estudam até a 4ª série do Ensino Fundamental. Na contemporaneidade, tanto na cidade, como no interior do Estado, isto é, nas áreas demarcadas pela Fundação Nacional do Índio/FUNAI, as crianças Kaingang estudam de diferentes formas. Uma situação é: dentro de suas aldeias, nas escolas indígenas com professores Kaingang, a outra situação é fora das aldeias, nas escolas públicas 108 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família (municipais ou estaduais) localizadas no entorno de onde moram. A diferença é que, dentro das aldeias, as crianças são alfabetizadas nas duas línguas, Kaingang e português, simultaneamente. Já as crianças que estudam fora das aldeias, isto é, nas escolas municipais ou estaduais são alfabetizadas apenas em português, como as crianças não-indígenas. A subsistência da comunidade provém unicamente do artesanato feito pelas famílias, onde trabalham todos juntos, homens, mulheres, crianças. A maioria das casas possui um local apropriado para o fogo de chão onde é preparado o emi, (bolo assado nas cinzas) alimento tradicional do povo Kaingang. Mesmo morando na cidade, as famílias se organizam de forma que os diferencie da sociedade envolvente. O grupo mantém um kujã, (liderança espiritual) que aconselha sobre uso de chás e ervas medicinais, mantendo as curas espirituais. As crianças recebem nome Kaingang e nome em português. A organização social e política dos Kaingang são marcadas e evidenciadas em suas rotinas diárias através de um sistema de dualidade por eles denominadas de Kamé e Kairu, que são identificadas pela antropologia como duas metades, ou marcas: Explica-se assim a existência do dualismo entre as metades Kamé e Kairu (...). Essas metades são exogâmicas, (...). Cada metade possui pintura distintiva, os Kamé têm riscos e os Kairu, círculos. (TOMMASINO, 2004. p. 152). Durante anos, no percurso da atuação profissional junto aos Kaingang, observamos e participamos de momentos marcantes que definem o modo de ser do grupo em relação a este aspecto do dualismo cultural. A comunidade mantém ativo um grupo de dança, e é seguidamente convidada pela sociedade envolvente para fazer apresentações culturais (canto e dança) em diferentes segmentos da sociedade não indígena: escolas públicas, privadas, universidades, câmara municipal entre outros eventos em vários municípios do Vale do Rio dos Sinos. Assim, os fóg1 os convidam para diversas apresentações artístico-culturais. Quando o grupo de dança começa a se preparar para alguma apresentação, os Kaingang pintam o corpo com pinturas diferenciadas (riscos e círculos) evidenciando as “marcas” culturais. Os pertencentes aos Kamé, pintam o corpo com riscos compridos, já os Kairu, com marcas redondas. O sistema de metades - Kamé e Kairu - na cultura Kaingang, representa uma articulação da organização social do grupo e define inclusive os casamentos. Em vários momentos de convivência na aldeia, referem que um Kaingang Kamé somente poderá casarse com um Kaingang Kairu. E vice-versa. É o sistema de metades, ou marcas, que define as regras de casamento, sempre entre as metades opostas. As crianças que nascem, pertencem à metade do pai. Se o pai é Kamé, as crianças seguirão este sistema e assim vão definindo e 109 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família reproduzindo a organização social da comunidade. Entre eles, sabem identificar, pela lado paterno, quem é quem, seguindo as marcas culturais pertencentes ao grupo Kaingang. Outro aspecto importante é em relação à língua falada na aldeia. Os integrantes da comunidade falam o Kaingang, o que valoriza a língua materna do povo e reforça as tradições culturais da comunidade. Todos os integrantes da aldeia falam a língua indígena, inclusive as crianças que, aos 7, 8 anos sentem dificuldade de dialogar na língua portuguesa com os fóg que diariamente chegam à comunidade. As conversas entre eles são sempre na língua materna. O que se pode assegurar é que a população inserida neste espaço urbano é bilíngue, pois são falantes do Kaingang e do português. Os cuidados com as crianças, seu aprendizado, suas rotinas, são orientados através da cultura Kaingang. As crianças aprendem português somente no diálogo direto com os fóg, com “os brancos” e através da televisão e rádio que assistem e ouvem na aldeia. Neste contexto, dentro da cidade, há a luta pela manutenção da cultura e a luta pela subsistência. Uma alternativa econômica que desenvolveram foi a comercialização do artesanato que favorece a aquisição da alimentação e bens de consumo próprios. A sociedade, porém, questiona a comunidade que permite a comercialização dos produtos realizada pelas crianças, que se deslocam para as sinaleiras e ruas da cidade. PEREIRA, 1998, descreve da seguinte forma a atividade de aprendizagem na relação com o artesanato indígena: Com aproximadamente 7 - 8 anos aprendem a trançar pequenos cestos. A mãe, avó ou a tia monta a base do cesto e a menina começa a trançar as fitas de taquara previamente preparadas (raspadas e tingidas) formando desenhos que se definem pela composição das cores. Com 10 – 12 anos são capazes de tecer sozinhas cestos de tamanhos variados (p.105) Na organização social Kaingang, a família procura manter um elo de proteção e segurança coletiva. As relações de parentesco são extremamente coesas e fortes. As crianças aprendem desde pequenas a preparar taquaras, desfiar cipós, tecer e montar peças que serão comercializadas no contato com os fóg1. Para os Kaingang, é através da participação e envolvimento da criança nas atividades domésticas e de trabalho na aldeia que ela aprende a se fortalecer como um indivíduo forte, com autonomia e, ao ser um adulto, um indivíduo capacitado para sustentar e propor recursos para sua própria família. A Constituição Federal de 1988 garante aos povos indígenas a manutenção de suas particularidades em relação à sua organização social. Assim, os costumes, língua, ritos, mitos, 110 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família crenças, valores são especificidades culturais mantidas e valorizadas pelas diferentes etnias brasileiras. O cuidado com o problema da “exploração” do trabalho infantil é de amplitude internacional onde a Organização Internacional do Trabalho/OIT estabelece parâmetros de proteção: “Todo país-membro elaborará e desenvolverá programas de ação para eliminar, com prioridade, as piores formas de trabalho infantil”. O Fundo das Nações Unidas para a Infância - UNICEF tem como prioridade em relação políticas públicas à diversidade étnico-racial existentes no Brasil, garantir que cada criança e cada adolescente, sejam elas negras, indígenas ou brancas, tenham seus direitos garantidos, protegidos e respeitados, igualmente, em todas as políticas públicas. Já o Estatuto da Criança e do Adolescente/ECA atribui à família, à sociedade em geral, e ao poder público o dever de assegurar a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação (...) à cultura, à dignidade. (ECA, Art. 4º). Porém, além de outras questões, deve-se observar que, na grande maioria, os povos indígenas no Brasil não possuem a categoria “adolescente” em suas culturas. Para eles, existem acriança e o adulto. Como, então, garantir aos indígenas os direitos preconizados pelo ECA? O Estatuto da Criança e Adolescente tem o mérito de ser um importante documento de defesa e promoção dos direitos das crianças e dos adolescentes, porém não está adequado à diversidade cultural dos povos indígenas brasileiros. O Conselho Nacional dos Direitos da Criança/CONANDA, através da resolução Nº. 91 de 23 de junho de 2003, regulamentou a aplicação do ECA para populações indígenas. De acordo com a resolução do CONANDA, aplicam-se à família, à comunidade, à sociedade e especialmente à criança indígena as disposições constantes no ECA, observadas as peculiaridades socioculturais das comunidade indígenas. A Constituição Federal de 1988, capítulo VII, reforça que: Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. (CF/1988, Cap. VII) No art. 32º,1, da Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança, está expresso que: Os Estados-partes reconhecem o direito da criança de estar protegida contra a exploração econômica e contra o desempenho de qualquer trabalho que possa ser perigoso ou interferir em sua educação, ou que seja nocivo para a sua saúde e para o seu desenvolvimento físico, mental, espiritual, moral e social (2002, p.36-37) 111 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família O trabalho desenvolvido pelas crianças, ou seja, a venda dos produtos artesanais nas sinaleiras é visto e entendido de formas diferentes. Culturalmente, esta conduta é vista como natural, cotidiana, como um fortalecimento e aprendizado de vida. Por outro lado, a sociedade envolvente identifica este ato como exploração do trabalho infantil e que a rua oferece riscos às crianças. A comunidade Kaingang sabe, porém, que a cidade oferece riscos, mas continua a manter-se na sua cultura e organização social. Como então, implementar políticas sociais às comunidades indígenas tendo em vista “a Lei do Branco” como os Kaingang se referem? Entendemos que exista sobreposição de leis. De um lado, os Kaingang e sua cultura, de outro, Leis do branco. CONSIDERAÇÕES FINAIS As práticas que temos exercido, como assistente social, têm sua motivação na busca de compreensão e produção de conhecimentos sobre as diferentes linguagens existentes entre as duas culturas: indígena e não-indígena, entre o índio e o não-índio, entre o Kaingang e a sociedade que o envolve, ou seja, a sociedade envolvente. Aqui existem tensões e questões de extrema relevância a serem pesquisadas. É possível a inclusão de diferentes agentes em culturas tão diferentes? Faz-se necessário o aprofundamento das especificidades da presença indígena no contexto urbano. Compreender suas relações internas, seus limites e possibilidades é a preocupação central do projeto de pesquisa em andamento junto ao PPGSS-PUCRS, com vistas a dar visibilidade a estas aproximações e diferenças subsidiando estratégias públicas que se partem na garantia de direitos e respeito à diversidade. Em vários anos de leituras e cursos sobre História, Antropologia, Educação, Saúde e Direito indígena, chega-se à constatação de que é necessário aprofundar conhecimentos sobre o modo de vida dos Kaingang que se encontram nas cidades e motivar a contribuição deste tema no âmbito do Serviço Social brasileiro. Urge investigar as noções e os significados culturais que se entrelaçam com a rotina da produção e da comercialização do artesanato e sua sustentabilidade enquanto grupo diferenciado, no espaço urbano. No processo histórico de construção do arcabouço dos direitos humanos que temos atualmente, entendemos que os direitos que traduzem mais propriamente a condição dos 112 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família povos indígenas é o direito a diferenciação, e em consequência à especificidade cultural mantida pelos grupos em centenas de anos. Aspectos culturais, fortalecimento da língua indígena, organização interna são medidas necessárias para a manutenção das fronteiras étnicas, presentes hoje em diversos estados do Brasil. A sobrevivência econômica e política dos indígenas na sua relação com a sociedade nacional depende deles próprios e da garantia de políticas públicas diferenciadas, convertendo a cidade, ou o espaço urbano, em espaço e território de luta na garantia dos seus direitos diferenciados. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: CARDOSO, Ruth (org). DURHSAM, Eunice R. et al. A Aventura antropológica. Teoria e Pesquisa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986. 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Crianças Indígenas: ensaios antropológicos. São Paulo, Global, 2002 (Coleção Antropologia e Educação) SZYMANSKI, Heloisa. Viver em Família como experiência de cuidado mútuo: desafios de um mundo em mudança. In. Serviço Social & Sociedade. Nº. 71 – Ano XXII – Setembro 2002. TOMMASINO, Kimiye, MOTA, Lucio Tadeu e NOELLI, Francisco Silva. Novas Contribuições aos estudos interdisciplinares dos Kaingang – Londrina, Eduel, 2004. Sites pesquisados: http://www.senado.gov.br/sf/legislacao/const/ http://unicef.org.br/ 114 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família “MINHA VIDA, MINHA HISTÓRIA” Roseli Pacheco Djanete Sales da Silva RESUMO: Este Projeto de Pesquisa tem a intenção de contribuir para desconstruir a visão da velhice dentro do núcleo familiar, dentro da sociedade, quebrando o estereótipo do idoso como ser dependente e improdutivo. Busca favorecer a compreensão de que o idoso é um ser humano que tem sonhos e um grande conhecimento adquirido ao longo dos seus anos de vida e que, acima de todas as coisas, são pessoas que querem ser felizes, amadas e valorizadas pela família e pela sociedade. O objetivo do Projeto de Pesquisa é resgatar e reviver as histórias de vida do idoso institucionalizado, coletando através de entrevista pessoal e voluntária, as histórias de sua vida e de sua vivência dentro do núcleo familiar, antes da sua institucionalização. Nesse processo, buscar-se-á construir um documento síntese em forma de livro contendo o relato das histórias de vida dos idosos em forma de narrativa, numa linguagem simples, clara e compreensiva para, deste modo, levar aos leitores uma melhor compreensão e ampliar horizontes e conceitos sobre o idoso institucionalizado. A velhice é um processo pessoal, natural, indiscutível e inevitável para qualquer ser humano na evolução da vida. Nessa fase, ocorrem mudanças biológicas, fisiológicas, econômicas e políticas que compõem o cotidiano das pessoas. Neste Projeto “Minha Vida, Minha História” entende-se que o idoso é um ser humano que tem muito a ensinar dentro da família, pois possui uma bagagem de vida e de conhecimento acumulada ao longo da sua trajetória. A valorização do idoso institucionalizado enquanto um sujeito que possui sonhos, esperanças, alegrias, experiências, sabedoria e um vasto conhecimento, pode contribuir para desconstruir a visão estereotipada de que o idoso institucionalizado é carente e debilitado, ou que é um problema para sua família e para a sociedade. Sabemos que envelhecer no Brasil não é tarefa fácil, haja vista a precarização do atendimento às demandas da terceira idade e a cultura popular que valoriza a juventude e a beleza. Na atual realidade, deixamos de valorizar os idosos, de ouvir suas histórias e seus ensinamentos, de aprender com seus gestos simples a verdadeira essência da vida que é viver cada fase da vida com dignidade e paz. O Projeto “MinhaVida, Minha História”, além dos objetivos propostos, irá demonstrar que viver é sublime, e que cada história narrada tem um protagonista que venceu as dificuldades, as desilusões, superou desafios e merece ser tratado com respeito e dignidade pela família e pela sociedade. Este projeto está em fase de reconhecimento pelas instituições asilares existentes no município de Paranaguá, no litoral do Paraná. PALAVRAS-CHAVE: envelhecimento, valorização, história de vida, família, reflexão INTRODUÇÃO Durante o século XX, o estudo da velhice se expandiu por causa do aumento do número de idosos em todo o mundo. Os avanços na ciência aumentaram as expectativas de 115 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família vida, pois muitas pessoas continuam ativas na terceira idade. Mesmo assim, ainda existem preconceitos em relação à velhice. Acredita-se, por exemplo, que todos os idosos são ranzinzas, pessimistas, queixosos e pouco comunicativos. No Brasil, ainda não existe um programa sistemático de ações, que possa beneficiar essa população. Também não se atentou para o fato de que, no ano 2020, todos os nascidos de 1940 a 1949, estarão completando 80 anos de idade, e, por esse motivo se fazem necessárias políticas sociais que atendam às demandas da população idosa. No nosso país, o idoso é visto como improdutivo, incapaz e dependente. Enquanto o idoso estiver saudável e capaz de colaborar com algumas tarefas caseiras ou contribuir com o orçamento doméstico, ele ainda estará participando da vida familiar e social, mas quando se torna dependente de cuidados especiais, as famílias encontram a solução na institucionalização, devido à dificuldade em lidar com as diferenças existentes. Neste contexto, o idoso é estigmatizado e excluído do convívio familiar ao qual pertence. Este artigo busca resgatar algumas concepções acerca do idoso institucionalizado, assim como relatar a experiência que vem sendo desenvolvida através de uma pesquisa que relata as histórias de vida dos idosos, buscando desmitificar e valorizar o idoso em nosso meio social. É necessário construir uma nova visão do idoso, colocá-lo como principal protagonista dentro da vida familiar, pois possuem muitos ensinamentos para as outras gerações. A FAMÍLIA E A VALORIZAÇÃO DO IDOSO Os idosos de sociedades históricas e tradicionais eram valorizados por servirem como mantenedores e transmissores dos valores e dos conhecimentos adquiridos ao longo da vida. No mundo moderno, as mudanças dentro do núcleo familiar estão relacionadas com a perda do sentido tradição. Hoje, vivenciamos uma sociedade que não valoriza os idosos, que marginaliza a velhice e não respeita o envelhecer com dignidade. A sociedade se transformou, e a família acompanhou esse ritmo frenético de mudança social. Assim, valores foram deixados de lado e substituídos pela individualidade que adquire cada vez maior importância social (KALOUSTIAN, 2005). Essa individualidade sintetiza o sentido das mudanças atuais e que irão interferir nas relações familiares, principalmente nos idosos que necessitam de compreensão para enfrentarem as alterações do próprio organismo que está envelhecendo. 116 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família Nas sociedades tradicionais, ao contrário das sociedades modernas, onde a dimensão da individualidade é valorizada, os papéis familiares não são conflitivos, porque estão predeterminados. A partir do momento em que existe espaço social para o desenvolvimento desta dimensão individual, os papéis familiares se tornam conflitivos na sua forma tradicional, embora a vida familiar continue tendo o mesmo valor social que sempre teve. O problema da nossa época é, então, o de compatibilizar a individualidade e a reciprocidade familiares. As pessoas querem aprender, ao mesmo tempo, a serem sós e a “serem juntas”. Para isso, têm que enfrentar a questão de que, ao se abrir espaço para a individualidade, necessariamente se insinua uma ou outra concepção das relações familiares (CARVALHO, 2003, p.43). É importante, compreender o idoso de uma maneira ampla de ser, respeitando suas maneiras de viver dentro da família e da sociedade. Dessa forma, com o envelhecimento da população, se faz necessária uma nova reflexão no campo das políticas de assistência e cuidado ao idoso e seus familiares, garantindo-lhes direitos mais amplos e mais assistência no que se refere ao idoso. O artigo 229 da CF 88 dispõe que “os filhos maiores têm o dever de ajudar a amparar os pais na velhice, carência e enfermidade” (BRASIL, 1988), repetindo a norma já consagrada nos artigos 396 e seguintes do Código Civil. Em complementação, o artigo 230 da Constituição Federal determina: “A família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida” (BRASIL, 1988). Assim, o idoso é amparado pelo dispositivo constitucional, portanto, a família tem a obrigação de amparar o idoso. Mas, infelizmente não é isso que acontece no nosso país. A velhice ainda é encarada com preconceito e muita discriminação. Os idosos, na sua maioria, são considerados um peso para suas famílias, não levando em consideração a sua bagagem de experiência de vida, sensibilidade e vivência social. O COTIDIANO DOS IDOSOS INSTITUCIONALIZADOS As causas da institucionalização dos idosos entrevistados ocorreram por diversos fatores: a solidão da viuvez, o desafeto da família, a falta de condições de o idoso se manter sozinho, a precariedade de recursos econômicos da família. São alguns dos fatores que levam o idoso para a institucionalização. A permanência na instituição acontece muitas vezes por falta de alternativas, principalmente pela falta de suporte familiar e social aos idosos que passam a não ter nenhuma alternativa, a não ser a instituição asilar. 117 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família E essa falta de alternativa de vida, faz com que o idoso aceite dentro da instituição, normas, regulamentos, horários passivamente, pois estão fora do convívio familiar, e terão que se adaptarem a uma nova realidade de vida. O idoso dentro da instituição terá que lidar com as diferenças que irão existir. Refazer sua vida, se adaptar a um novo ambiente, a um novo grupo social que, até então, era desconhecido. Irá encontrar pessoas adaptadas e com uma atividade positiva quanto outras que não aceitam a ida para a instituição. As famílias que internam seus idosos na instituição visitam-nos em média três vezes por semana. Com o tempo, as visitas vão diminuindo e há casos em que chegam a ser uma a duas vezes por ano. Na prática, a família de muitos idosos não é sempre aquela que tem laços de consanguinidade, pois os idosos desenvolvem verdadeiros laços familiares dentro dos asilos, devido à rejeição da própria família. O idoso, além da dificuldade que tem para acostumar-se à nova realidade, muitas vezes irá conviver com problemas de saúde que o fará dependente de maiores cuidados, tanto na parte física como na parte emocional (BULLA, 1999). O sofrimento e as desilusões nem sempre são suficientes para apagar o sorriso e a vontade de viver, pois, sem muitos compromissos com a vida, o idoso segue sua vida, sem pressa, sem desespero e sempre esperando a visita da família. Em cada idoso, existe um mundo o qual desconhecemos, por isso, temos que aprender a olhar o idoso com gratidão, consideração e, acima de tudo, respeito. O sentimento de abandono é um dos pontos que mais contribui para a depressão e os problemas de saúde dos idosos. Por isso, são importantes as visitas periódicas dos familiares, saindo com eles sempre que for possível e mantendo o vínculo familiar. Não podemos ignorar as suas histórias de vida, que um dia também serão nossas. UM ESTUDO SOBRE OS IDOSOS INSTITUCIONALIZADOS NO LITORAL DO PARANÁ O Projeto que vem sendo desenvolvido, intitulado “Minha Vida, Minha História”, tem como objetivo mostrar que o idoso não é apenas mais um institucionalizado, mas um ser humano que tem muito a ensinar com a sua experiência de vida através do tempo. 118 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família Assim, o projeto buscará contribuir para uma nova visão do idoso institucionalizado, que é visto somente como carente, muitas vezes problemático para a sociedade e para a vida familiar (Neri, 2000). No processo do Projeto, relataremos as histórias de vida dos idosos de forma narrativa. Objetivamos, desta maneira, compreender melhor o universo do idoso institucionalizado, ampliando nossos conceitos sobre o envelhecimento. Reviver as histórias de vida dos idosos institucionalizados é valorizar suas experiências, seus conhecimentos, suas contribuições ao longo dos anos. O Projeto “Minha Vida, Minha História”, além dos objetivos propostos, irá demonstrar que viver é sublime e que cada história narrada tem um protagonista que venceu as dificuldades, as desilusões, superou desafios e merece ser tratado com respeito e dignidade pela família e sociedade. Assim, este projeto está em fase de conclusão na instituição asilar existente no município de Paranaguá, no litoral do Paraná. De início, realizou-se um levantamento dos idosos que fazem parte da instituição. Após, procedeu-se às visitas para travar uma amizade afetuosa com os internos. Escolhemos cinco idosos, cada um com um tipo de perfil. Conforme o perfil do idoso, elaborou-se um questionário com as perguntas para a entrevista individual. Através da entrevista voluntária, com um roteiro específico e com a autorização dos entrevistados, foi gravada a entrevista para posterior reprodução das suas “Histórias de Vida”. Como parte de um Projeto de Pesquisa, que propõe uma reflexão sobre a valorização do idoso e o processo de envelhecimento, o projeto teve sua realização numa única instituição asilar. Essa Instituição que atende com o nome de Sociedade de Assistência aos Necessitados “Abrigo dos Velhos”, fundada em 14 de março de 1940, localizada no centro da histórica cidade de Paranaguá-Paraná e que atende idosos de todo o litoral e que sobrevive principalmente de doações. Atualmente moram na instituição 23 homens com uma média de idade entre 60-80 anos, e 15 mulheres com uma média de idade entre 55-80 anos. E dentre eles, 09 são cadeirantes, e 02 são acamados. O estado civil predominante é de solteiros e viúvos. Nas entrevistas a maioria afirmou ser católico e que regularmente fazem suas orações individualmente. Constatou-se que quase todos apresentam baixa escolaridade, e que alguns são analfabetos. Essa constatação revela a pouca importância dada à época para educação escolar. 119 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família Numa das diversas histórias surgidas das visitas ao Abrigo, soubemos que uma das primeiras funcionárias do abrigo, depois de anos trabalhando na instituição, acabou sendo asilada da instituição A estrutura física do abrigo é ampla. Existe um enorme quintal com árvores frutíferas e algumas hortaliças plantadas pelos próprios internos. Todos os quartos são coletivos e divididos entre masculino e feminino, compostos por uma cama, mesinha de cabeceira e armário para pertences pessoais. Alguns quartos possuem televisão. Mas o que chama a atenção dos internos é a varanda que compõe o abrigo, pois, eles passam horas sentados, observando a movimentação. O pátio do abrigo é composto de bancos para o lazer dos internos, que muitas vezes sentam para tomar sol, ler ou simplesmente esperar pela visita de algum parente que raramente acontece. Assim sendo, o tema do projeto “Minha Vida, Minha História” aparece de forma reflexiva dentro das entrevistas coletadas com os idosos do abrigo, que relatam suas histórias e vivências dentro do contexto familiar, asilar e as suas dificuldades em compreender o abandono e a falta de respeito com a velhice. CONSIDERAÇÕES FINAIS A nossa sociedade tem necessidade de encontrar novas perspectivas que proporcionem ao idoso e à sociedade uma nova visão do envelhecimento. Priorizando a política de atendimento à criança, ao idoso e à família, unindo e integrando seus membros para que possam viver com dignidade. A sociedade precisa pensar em novas alternativas no que se refere à institucionalização do idoso. E, neste contexto, garantindo o direito ao idoso de ser mantido em seu ambiente familiar e social. O envelhecimento é tido por grande parte da sociedade como uma fase improdutiva, com limitações físicas, sem alternativas de vida. Na realidade os idosos apenas querem respeito, amor e consideração. Precisam ser admirados por suas Histórias de Vida e de luta para vencer os desafios da vida e das instituições. Os idosos necessitam de nossos braços acolhedores, do nosso carinho, da nossa amizade sincera e principalmente do respeito para com as suas vivências. 120 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família Dessa forma, as nossas reflexões têm como objetivo final, abrir caminhos para a conscientização e responsabilidade com os nossos idosos. REFERÊNCIAS BRASIL. Constituição Federal de 1988. Brasília: Brasil, 1988. ______. Estatuto do Idoso. Lei nº 57 Brasília: Brasil, 2003 BULLA, Leonia Capaverde. A vida cotidiana do idoso institucionalizado. Relatório de pesquisa. Porto Alegre: NEDEPS/PUCRS,1999. CARVALHO, Maria do Carmo Brant (org.). A família contemporânea em debate. 6ed. São Paulo: Cortez, 2003. KALOUSTIAN, Silvio Manoug. Família: a base de tudo. 7ed. São Paulo: Cortez, 2005. NERI, Anita Liberalesso.FREIRE, Sueli Aparecida. E por falar em boa velhice. 1ed. Campinas: Papirus, 2000. 121 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família PROCESSOS INTERATIVOS JUNTO A ADOLESCENTES EM SITUAÇÃO DE EVASÃO ESCOLAR: UM OLHAR INVESTIGATIVO INTERDISCIPLINAR SOBRE A DINÂMICA SÓCIO-FAMILIAR Susan Loren Gomes Machado1 Ivana Marcomim2 RESUMO: O presente artigo tem por objetivo refletir sobre a experiência da prática de estágio curricular em Serviço Social realizada junto ao Ministério Público do Estado de Santa Catarina através da Promotoria da Infância e Juventude, atuante junto à comarca do município de Tubarão, haja vista a incidência de uma demanda expressiva de indicadores de atendimento, vinculados ao programa Aviso por Infrequência Escolar (APOIA). Configura-se como uma reflexão acerca da ação interdisciplinar e interinstitucional voltada à atenção especializada e continuada ao fortalecimento e efetivação dos direitos de crianças/adolescentes e famílias que se encontram em situação de risco, vulnerabilidade ou exclusão social. Trata-se, portanto, de um estudo de caso, fundamentado, inicialmente na descrição de indicadores, na descrição geral do processo interventivo através do uso de observação participante, entrevista semi-estruturada, análise documental e na análise síntese de aspectos já refletidos considerando-se a base teórica-metológica, ético-política e técnicooperativa utilizada. PALAVRAS – CHAVE: Adolescência, Evasão Escolar, Família, Interdisciplinaridade. INTRODUÇÃO Como estratégia para a diminuição dos índices de evasão e infrequencia escolar no Estado de Santa Catarina, a partir do ano de 2001, através da parceria realizada entre o Ministério Público do estado, Centro de Apoio Operacional da Infância e Juventude – CIJ, Secretaria Estadual de Educação, e demais instituições, realizou-se a aplicação do Programa de Combate à Evasão Escolar (APÓIA) que tem por objetivo garantir a permanência de crianças e adolescentes de 7 a 18 anos na escola, para que concluam o ensino fundamental, bem como promover o regresso à escola de crianças e adolescentes que a abandonaram, sem concluir o ensino fundamental. 1 Acadêmica do 7º semestre do curso de Serviço Social da Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL. Prof. Msc. do curso de Serviço Social da Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL – orientadora de estágio. 2 122 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família Tal iniciativa se mostrou essencial dado os indicadores locais, pois, segundo o Conselho Tutelar do município de Tubarão, no ano de 2008 foram atendidas 177 ocorrências de crianças e adolescente com situações relacionadas à evasão e infrequência escolar no município. No ano de 2008, chegaram até o Ministério Público 25 novos casos e, de acordo com os procedimentos do programa, é a maior instância onde as situações podem chegar, uma vez que, neste patamar de atendimento, a tendência é que se tenham esgotados muitos outros atendimentos ou, que estes tenham sido negligenciados a tal ponto que tornaram as realidades familiares ainda mais complexas, com características de negligência e fragilização dos núcleos de convívio. Por outro lado, apresentam-se estruturas educacionais deficitárias, sem formação específica para apreender a complexa dinâmica que envolve os contextos familiares e que se traduzem na relação com a escola, o que, portanto, também limita sua condição de atenção a estes grupos familiares. Neste âmbito, ao situar uma condição individualizada de evasão escolar, apresentam-se inúmeras expressões da questão social que, em primeira instância ligam-se aos universos das relações e contextos familiares, mas que, em outra dimensão, trazem à tona a própria natureza e característica do sistema vigente (excludente e contraditório), manifestado em modelos de educação e escola adotadas e reproduzidas no cotidiano do ensino. Compreender, através de diagnósticos adequados as demandas próprias destes diferentes agentes (adolescentes, famílias, escola), para formar prognósticos capazes de redimensionar tais relações é uma exigência às intervenções que se voltem à efetivação das políticas de direitos em seus diferentes âmbitos (educação, assistência social, saúde, cultura, etc), o que só é possível por meio de uma ação interdisciplinar que seja capaz de estabelecer os diferentes elementos circunscritos nessa complexa rede de relações familiares e interinstitucionais. CAUSAS DA INFREQUÊNCIA OU EVASÃO ESCOLAR A evasão escolar configura-se por uma situação de ausência ou afastamento do adolescente do universo escolar. Esta ausência, não pode ser entendida de modo simplista, pois pode envolver inúmeros aspectos, os quais podem estar situados na rede de relações família, sujeito, escola, ou , em especial, em algum deles que desencadeie todo o processo de 123 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família inadaptação à participação e ao cumprimento de uma rotina educacional formatada nos atuais moldes da educação brasileira. Poderíamos levar em consideração muitos fatores que refletem na situação dos sujeitos envolvidos nas questões atendidas pelo Programa APÓIA no município de Tubarão, porém os mais relevantes, levantados a partir de observação participante, análise documental e estudo de casos, sem dúvida são: as situações familiares de negligência e abandono de vínculos; questões que envolvem exigências diferenciadas no âmbito da educação e formação para o desenvolvimento dos adolescentes; e as lacunas existentes no que diz respeito à interdisciplinaridade de ações relacionadas à rede de garantia de direitos, que deve assegurar a oferta de serviços em âmbito preventivo e de atenção especializada a diferentes demandas expressas por este universo. A demanda atendida pelo programa é de famílias que vivem em extrema vulnerabilidade social, sendo que a grande maioria tem filhos adolescentes que estão em processo de desenvolvimento. De acordo com pesquisa documental realizada no Ministério Público no Município, verificou-se que as causas que levam à infrequência e/ou evasão escolar podem ser: questões pessoais dos adolescentes ou questões familiares. 44% Questões pessoais Questões familiares 56% Gráfico 1: Distribuição por questões que envolvem a evasão ou infrequência escolar dos adolescentes encaminhados ao MP através do Programa APÓIA, no município de Tubarão, no ano de 2008. Fonte: Pesquisa documental realizada pela autora. Conforme o gráfico 1 constata-se que as situações que envolvem a infrequência e evasão escolar são 56% por questões familiares; e 44% por questões pessoais dos adolescentes. 124 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família Quanto ao que representam as questões familiares, estas podem ser traduzidas em diferentes aspectos que são apresentados na sequência deste estudo, mas que evidenciam questões inibidoras de ordem pessoal, familiar, econômica e educacional. Quando relacionadas a questões familiares, os relatos registram falta de incentivo da família para que adolescente permaneça na escola, exigência para que este trabalhe e contribua com a dinâmica de sobrevivência familiar; indiferença no processo de convívio, deixando as decisões de vida a cargo exclusivo do adolescente. Por outro lado, as questões pessoais traduzem-se por dificuldades de adaptação ao meio escolar. Nesse âmbito, os relatos dos adolescentes expressam o despreparo do atual sistema educacional em considerar as diferenças entre os sujeitos como elemento potencializador, buscando ainda a padronização de condutas, perfis e comportamentos. É uma tendência contrária ao que se acredita ser mais adequada a uma pedagogia de autonomia (FREIRE, 1996), o que se mostra ainda mais necessário ao se tratar desta fase evolutiva: adolescência. ADOLESCÊNCIA, UMA FASE CONFLITANTE O período da adolescência é uma fase um tanto quanto conturbada, onde o indivíduo deixa de ser criança e ao mesmo tempo ainda não é adulto, buscando, de alguma forma, sua própria identidade. As transformações físicas surgem de forma parecida para os indivíduos, porém, as questões psicológicas e sociais estão relacionadas à realidade, à cultura e ao ambiente familiar de cada um. E é nessa fase que o adolescente defende com veemência suas idéias e afronta os pais que, sendo desafiados no “pátrio poder”, nem sempre conseguem construir relações mais harmônicas, integradas e de respeito mútuo. Nessa idade, os valores, padrões e leis, morais adquiriram apreciável independência com relação à autoridade dos pais, tornam-se egocêntricos e operam em parte dentro do ego. Não obstante, na adolescência inicia o autocontrole ameaça entrar em colapso e em, em casos extremos, ocorre à delinqüência. Ações desse tipo, cujo grau de intensidade varia, geralmente estão relacionadas com a busca do objeto de amor, também oferecem uma fuga da solidão, do isolamento e das depressões que acompanham as mudanças catíticas. (BLOS, 1985, p. 78). Na busca de encontrar sua “verdadeira identidade”, os adolescentes podem integrar novos grupos sociais que também podem ser denominados como tribos, tais como: 125 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família “emo”, “gótico”, “punk”, etc. Este processo de “mutação” é bastante evidenciado com relação aos adolescentes atendidos pelo programa. Nessa fase, os jovens utilizam determinados métodos para expressarem suas aflições e anseios, porém a questão é como será vista pela sociedade, auto-intitulada “normal”, a adesão desse adolescente ao determinado pelo grupo de sua escolha. E a falta de compreensão transformada em preconceito, pode causar certa rebeldia nesse indivíduo, podendo acarretar outros fatores, como a exclusão do indivíduo das instituições sociais, e este, como resposta, poderá até mesmo acessar, futuramente e em certos casos, o mundo da marginalidade. Das situações atendidas no Ministério Público no Município de Tubarão, das quais 44% foram relacionadas a questões pessoais dos adolescentes, temos a seguinte distribuição: Más companhias (drogas) 9% Psicológicas 9% Considera-se grande para a turma 9% Não quer mais ir pra aula 19% Estava trabalhando 27% Não gosta da atual escola 27% Gráfico2: Distribuição por questões pessoais que envolvem a evasão ou desistência dos adolescentes encaminhados ao MP, através do Programa APÓIA, no município de Tubarão, no ano de 2008. Fonte: Pesquisa documental realizada pela autora. De acordo com o gráfico 2, no que diz respeito às situações de infrequência ou evasão relacionadas a problemas pessoais, 27% são por não se adaptarem à escola atual; o mesmo percentual são por motivos de trabalho; 19% simplesmente não querem frequentar mais a escola; 9% considera-se “grande para a turma”, o que representa o grupo de adolescentes repetentes que possui idade acima da média de sua turma; o mesmo percentual são por situações psicológicas; ainda com o mesmo percentual estão as situações de más companhias e até mesmo acesso às drogas. Os registros de fala obtidos evidenciam características de isolamento social no meio escolar; falta de interesse e identificação pelo tipo de educação, processo de ensino adotados e reprodução no meio escolar de condutas 126 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família preconceituosas com tendência a não aceitação aos sujeitos que apresentem características pessoais ou comportamentais diferenciadas, como é o caso dos indivíduos que formam uma identidade como “Emos”, “Góticos”, “Punks”, dentre outros. Mas a maioria das aflições apresentadas pelos alunos está, sem dúvida, ligada aos ambientes onde convivem com a família e a escola. Nesse processo, a maior parte dos adolescentes se vêem desafiados a ir para um universo educacional com o qual não se identificam, pois não valoriza ou reconhece sua identidade diferenciada. Ainda sentem a exigência muitas vezes “intransferível”, em função das características sócio-familiares de ter que priorizar a sobrevivência, ou seja o trabalho, mesmo que ilegal e informal. Assim, pode-se evidenciar a importância estratégica que assumem estes dois agentes no processo de atenção ao adolescente: a família e a escola. A primeira, na maior parte das vezes, é um universo próprio de demandas individuais a serem consideradas pela rede de garantia de direitos. A segunda expressa novas exigências de atualização ao sistema educacional adotado, para que seja capaz de responder às demandas diferenciadas de seus educandos, considerando uma pedagogia mais libertadora e potencializadora. FAMÍLIA, UMA INSTITUIÇÃO RELEVANTE A família é considerada a instituição de maior relevância para o desenvolvimento do ser humano, porém é necessário compreender o que este grupo apresenta para corresponder as suas atribuições. Desnaturalizar o conceito de família que domina o nosso imaginário social pressupõe entendê-la intrinsecamente associada ao contexto social no qual está inserida. Em outras palavras, é preciso definir de que família se está falando, em que época, em que sociedade e em que segmento social. Tais pressupostos inequivocamente definem que a família é uma estrutura social, isto é, uma construção humana que se consolida, se modifica, se transforma sob influência recíproca com o meio social. Nestas bases, pode-se afirmar que a família é um fato cultural, historicamente construído. Inúmeros são os autores das mais diversas áreas do conhecimento que têm contribuído para que se coloque em questão a idéia de família como se fosse um grupo natural calcado na essência da consangüinidade e da filiação. (RIBEIRO, 1999, p. 07). O perfil das famílias relacionadas ao programa é de bastante vulnerabilidade, e é perceptível a deficiência da rede socioassistencial na prestação de maiores informações sobre os direitos e deveres familiares previstos nas políticas de garantia de direitos. 127 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família Percebe-se também, em geral, que muitas dessas famílias acabam perdendo a crença na educação e partem de uma cultura que não vê a necessidade da frequência à escola, até mesmo por não acreditar em uma mudança de vida. A descrença e a necessidade de crer numa solução para os problemas enfrentados são sentimentos verificados em muitas famílias, cujas experiências de exclusão política e social traduzem os problemas advindos de idéias disseminadas sobre a ineficácia da educação, e do fracasso da função familiar como transmissora do valor da escola. Percebe-se que as famílias de pouca renda e baixa instrução geralmente têm fracassado no empreendimento de transmitir para seus filhos, de modo convincente, expectativas de desenvolvimento intelectual, social e econômico. Não sabendo com clareza o que aspirar e não visualizando para si chances concretas, muitas crianças e adolescentes logo perdem o interesse pelos estudos e acabam abandonando a escola. (RIO GRANDE DO SUL). Dos casos apresentados na pesquisa, em que 56% das causas pela infrequência apontavam questões familiares, temos a seguinte distribuição: Falta de autoridade dos pais 43% Negligência Briga entre poder dos pais separados 22% Gravidez na adolescência 14% 7% 7% 7% União estável Financeiro Gráfico 6: Distribuição por questões familiares que envolvem a evasão ou desistência dos adolescentes encaminhados ao MP, através do Programa APÓIA no município de Tubarão no ano de 2008. Fonte: Pesquisa documental realizada pela autora. Quanto ao afastamento relacionado às situações familiares, 43% atribui à falta de “autoridade” dos pais; 22% por negligência da família; 14% por briga entre poder dos pais separados; 7% por gravidez na adolescência; 7% por “união estável” entre os jovens; e com o mesmo percentual estão relacionadas as questões financeiras. Nota-se que a idéia de “autoridade”, utilizada na linguagem própria dos adolescentes, indica certa necessidade de definição de perfil, identidade no contexto da relação familiar. Pôde-se perceber que os adolescentes requerem uma postura dos pais no contexto de suas relações que seja contrária a negligencia ou ao abandono percebido, mas 128 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família muitas vezes velado pelo descaso ou pela rotina desprovida de convívio efetivo. Nesse contexto, os adolescentes expressam sua necessidade de figuras familiares definidas, com processos relacionais definidos, ou que sejam construídos com interesse e presença, mas que sejam construídos. A “autonomia” gerada no contexto dessas relações, onde o adolescente torna-se livre para fazer suas escolhas, inclusive de frequentar ou não a escola, denotam expressivas deficiências de convívio que não deveriam ser negligenciadas e que, sem dúvida, produzirão diferenciados efeitos sobre a vida desses adolescentes. DO OUTRO LADO A ESCOLA A escola também é uma instituição muito importante para o ser humano, principalmente para o aprendizado em todos os sentidos da vida. A educação como garantia fundamental, deve ser disponibilizada para todos os indivíduos, como agente relevante para a formação do cidadão. Mas a escola não pode ser percebida em seu sentido reducionista, pois ela traduz um sistema educacional, um conceito de educação, a expressão de processos ensino-aprendizagens que situam a formação dos educandos de diferentes formas. Entende-se no dizer de Freire que (1996, p. 4): Como os demais saberes, este demanda do educador um exercício permanente. É a convivência amorosa com seus alunos e na postura curiosa e aberta que assume e, ao mesmo tempo, provoca-os a se assumirem enquanto sujeitos sócios-históricos-culturais do ato de conhecer, é que ele pode falar do respeito à dignidade e autonomia do educando. Pressupõe romper com concepções e práticas que negam a compreensão da educação como uma situação gnoseológica. A competência técnico-científica e o rigor de que o professor não deve abrir mão no desenvolvimento do seu trabalho, não são incompatíveis com a amorosidade necessária às relações educativas. Essa postura ajuda a construir o ambiente favorável à produção do conhecimento onde o medo do professor e o mito que se cria em torno da sua pessoa vão sendo desvelados. É preciso aprender a ser coerente. De nada adianta o discurso competente se a ação pedagógica é impermeável a mudanças. Neste sentido, faz-se necessária uma maior atenção por parte dos profissionais da educação no que diz respeito à atenção com as situações apresentadas pelas crianças, adolescentes e suas famílias. Naturalmente, isso revela a evidente necessidade de inserção de profissionais de serviço social no meio escolar, dada sua especificidade para o trato das relações sociais contidas no meio educacional. Os discursos apresentados pelos profissionais da educação pautam-se no fato de que certas situações podem ser administradas através do diálogo, mas quando este se esgota 129 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família há uma tendência à “desistência” ou falta de perspectiva para continuar a buscar alternativas capazes de apreender e atender certas necessidades desse segmento. Em entrevista com alguns educadores acerca do processo de atendimento aos adolescentes, alguns relatos expressam as dificuldades e limitações próprias do sistema de formação profissional para lidar com situações complexas e ainda revelam as limitações estruturais da rede de atendimento. Alguns exemplos deste contexto evidenciam-se nas seguintes falas: “Este aluno é um caso perdido” (E1) ou “Ele é assim porque vem de uma família completamente desestruturada” (E2). Tais relatos evidenciam a necessidade de ação interdisciplinar no âmbito da atenção escolar aos adolescentes que se encontram em situação de evasão. Tal cenário traz exigências e habilidades para compreender as situações de cada indivíduo e por esse motivo vê-se a necessidade da interdisciplinaridade. Com relação à primeira afirmação acima, não acreditamos que existam casos perdidos e, se por acaso, vier a existir, a falha não é exclusivamente do aluno, ou da família, mas sim de uma complexa rede de interações originadas em um sistema que manifesta expressões da questão social desafiadoras e que, ao mesmo tempo, evidenciam a necessidade de integralidade e intersetorialidade entre as políticas de direitos. Na maioria das instituições visitadas, percebemos que os profissionais que se mostram contrários às idéias dos adolescentes, utilizam uma forma um tanto abstrata para se expressarem. Quando questionamos sobre a posição da instituição quanto ao comportamento de um aluno que adere a algum subgrupo como forma de identidade, alguns educadores afirmam que não podem julgar a cultura e os valores do aluno, mas sempre os elogiam quando eles estão “descaracterizados”. Com essa afirmação, observamos que existe certo preconceito, no que diz respeito à liberdade de expressão do indivíduo, à opção de formação de sua identidade e que há dificuldades para lidar com este processo no contexto educativo. O que evidentemente é sentido do mesmo modo pelo educando, pela família e pela própria escola. Como lidar com as diferenças? Quanto à segunda afirmação, é uma questão bastante relevante já que a utilização do termo “família desestruturada” pode ser compreendido de várias formas. Pode-se problematizar esta afirmativa uma vez que é necessário compreender: o que é uma família estruturada? 130 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família A questão expressa grande complexidade, mas independe de conceitos estabelecidos; cada instituição familiar possui sua cultura e talvez o que seja certo para aquela família não seja para outras. Ao buscar ordenar a nossa conduta até para manter o controle sobre a mesma, tendemos a petrificar a realidade, tornamo-nos resistentes às mudanças, forçamos a manutenção de ordem até mesmo quando ela já não responde à realidade. Essa percepção sobre real, no que refere-se à família, pode ser exemplificada por um vasto campo de produção do saber sobre o tema, que até recentemente defendia maciçamente a idéia de que a instituição familiar estava desagregando-se. A idéia de que a família desestruturou-se e adoeceu, norteou a nossa intervenção por um longo período. Na verdade, a instituição família passava, e ainda passa, por um processo de profundas transformações, porque não está dissociada das transformações por que passa a sociedade como um todo. É necessário compreender ainda que o processo de mudança cultural é lento, que cada cultura tem um ritmo de absorção da mudanças. Assim como cada família e cada indivíduo tem seu ritmo próprio de elaboração. Entender esse processo de mudança leva-nos a compreender a diversidade, a pluralidade de formas de vida em família, rompe a idéia e a ação sob o enfoque da linearidade, da homogeneidade que tem nos levado a enquadrar as famílias em uma “camisa de força”, como se fosse possível a existência de uma única forma “certa” de estruturar e ordenar a vida familiar. (RIBEIRO, 1999, pg.8) Neste contexto, a educação bem como os demais direitos fundamentais das crianças e adolescentes são de responsabilidade de agentes interligados de forma complementar. E é neste sentido que existe a preocupação da mediação de um trabalho interdisciplinar, criado por todos os agentes que participam da vida da criança e do adolescente, conforme afirma o artigo 227 da Constituição Federal de 1988: É dever da família, da sociedade e do estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e a convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, crueldade e opressão. As instituições de ensino devem ao menos agir de forma neutra e acolhedora, já que não conseguem compreender as necessidades por trás das formas expressas pelo aluno. As situações sociais vivenciadas pelas crianças e adolescentes são percebidas pela escola como problemas sociais de difícil resolução. Neste sentido, o caminho imediato é a exclusão e o afastamento do ambiente escolar. Por outro lado, a família transfere a responsabilidade à escola e neste processo o educando não se vê identificado entre este agentes, o que, muitas vezes, acaba por fomentar a evasão como medida mais fácil e aceitável de evitar conflitos ou deficiências. Eis um grande desafio a ser pensado em âmbito interdisciplinar e a ser assegurado através de estratégias diferenciadas de potencialização destes sujeitos. Este é o enfoque dado ao projeto acadêmico que se fundamenta em uma metodologia participativa de 131 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família grupo, onde os adolescentes em situação de evasão trabalham com identificação de suas potencialidades e habilidades, com o fortalecimento e valorização de suas identidades e com o planejamento integrado de estratégias para dar vazão e uso a estas. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os agentes da sociedade devem investigar a fundo as causas que levam à infrequência e/ou evasão escolar e que violam o direito à educação previstos no ECA e na Constituição Federal. Embora seja uma tarefa um tanto quanto ampla, ainda pode ser trabalhada de forma preventiva através da intervenção interdisciplinar de profissionais qualificados para tal atuação. Muitas vezes o próprio ambiente escolar é julgador e dessa forma não poderia intervir nos problemas apresentados pelas crianças e adolescentes, já que é fato que entre as causas da exclusão estão a pobreza, o desemprego, a violência doméstica, a situação de famílias com drogaditos e alcoolistas, entre outras. Não saber lidar com estas situações facilita a concretização de processos de exclusão da escola com mais rapidez. Salientamos que as situações que caracterizam o cotidiano dos alunos com reflexos no ambiente escolar estão articuladas a aspectos econômicos, sociais, educacionais e culturais que precisam ser trabalhados por profissionais qualificados para tal competência. Porém ainda não se vê essa realidade e, assim, temos que nos preocupar não somente com a infrequência das crianças e adolescentes na escola, mas sim, com o que este cidadão privado de seu direito a um processo de formação e aprendizado se tornará, bem como com os contextos familiares a serem trabalhados. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BLOSS, Peter. Adolescência – uma interpretação psicanalítica, São Paulo, SP: Janeiro, 1985 BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de outubro de 1988, 25. Ed. Brasília: Senado Federal, 2005. (Série Textos Básicos n..37). FREIRE, P. Pedagogia da autonomia. EGA: 1996. 132 1º SIMFAM - Simpósio sobre Família RIBEIRO, Maria Salete. 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