LÍNGUA, PRÁTICA E CINEMA – UMA RELAÇÃO POSSÍVEL NA
SALA DE AULA
Andrea Consoelo Cunha da Silva 1- UFOPA
Gilma da Silva Pereira Rocha 2- UFOPA
Grupo de trabalho: Educação, Complexidade e Transdisciplinaridade
Agência financiadora: não contou com financiamento
Resumo
O presente artigo surgiu a partir das inquietações vivenciadas nas práticas em sala de aula
como professora de língua de portuguesa e diante disso a pesquisa busca apresentar respostas
para que haja um ensino-aprendizagem que contribua no cotidiano do educando. O trabalho
objetiva investigar as acepções dos professores de língua portuguesa do ensino médio do
município de Oriximiná, no Pará, sobre o uso de filmes como recurso metodológico na
abordagem de temas transversais em sala de aula. O mesmo é resultado da pesquisa realizada
para a conclusão do Mestrado em Ciências da Educação da Universidade de Los Pueblos de
Europa Málaga- Espanã. A metodologia se deu através de pesquisa exploratória em que a
investigação se desenvolveu em duas escolas públicas estaduais de ensino médio do
município e teve como participantes quatro professores, sendo dois de cada escola. A
pesquisa se insere em uma abordagem de natureza qualitativa com a utilização do método de
análise de conteúdo para a construção das categorias de análise. A coleta de dados foi
realizada com base em entrevista com perguntas disparadoras por meio de encontros entre
pesquisadora e participantes. Assim, a partir da análise dos resultados detectou-se que a
acepção e a prática do uso do filme como um recurso metodológico pelos professores se
configura como uma ação mecânica, ocorrida de maneira esporádica em sua práxis e como
um meio de exaurir a monotonia existente no ambiente da sala de aula o que evidencia que o
filme é usado apenas no campo da fruição sem que ocorra a estrapolação de suas
potencialidades educativas.
Palavras-chave:Concepções de Professores. Cinema. Filmes. Educação. Escola.
Introdução
Apresentar ao aluno o filme dentro do conjunto de suas potencialidades didáticopedagógicas requer, antes de tudo, mostrar o olhar que emerge da relação professor e
1
Mestranda em Educação – Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA),Especialista em Metodologia da
Língua Portuguesa, bolsista do PPGE.
2
Mestranda em Educação- Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), Especialista em Educação
Especial, Licenciada Plena em Letras, professora de Língua Portuguesa- Secretaria Estadual de Educação do
Estado do Pará, coordenadora da Divisão de Educação Especial- SEMED- Santarém-Pará.
ISSN 2176-1396
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aluno,anuncia e denuncia um sentimento de reciprocidade que se reporta às salas de aula, aos
corredores, aos pátios, aos espaços escolares e reflete nas relações do ensinar-aprender e do
aprender- aprendendo. Nesse sentido, a cinematografia contemporânea apresenta-se à
docência como um artefato repleto de potencialidades educativas que vislumbra diversas
possibilidades de aprendizados fundamentais na relação ensinar e aprender.
Essas potencialidades surgidas a partir da cinematografia, segundo Fantin (2007),
podem ser entendidas sobre a dimensão estética, cognitiva e psicológica, interligadas ao
caráter instrumental e temático do cinema, permitindo a este uma conotação comunicativa
como expressão de pensamentos e sentimentos e como objeto de conhecimento.
Cada vez mais o modo de ensino formal presente nas metodologias dos professores se
afasta do arsenal tecnológico que atrai os alunos, e o filme assim como esses outros elementos
constituem parte do ambiente simbólico das novas gerações, possui atrativos imagéticos que
seduz, pois reconstrói a realidade por meio da linguagem cinematográfica e permite a
inserção, mesmo que no campo da imaginação de quem o assiste (FANTIN, 2007).
Essa subjetividade presente nos filmes é algo impregnado na arte cinematográfica, faz
parte do universo do cinema, uma vez que é dotado de uma capacidade ímpar de reproduzir
realidades sociais e promover uma transposição, em que o espectador penetra nas narrativas e
se projeta como personagem das histórias. Diante dessas potencialidades que o filme mostra,
o professor deve lançar olhares investigativos sobre esse recurso para inferir conceitos em
relação ao seu uso em espaços escolares como um apoio no trabalho pedagógico.
A partir desse aspecto este artigo objetiva investigar as acepções de professores de
língua portuguesa do ensino médio quanto ao uso do filme como um recurso metodológico na
abordagem dos temas transversais. A investigação qualitativa se desenvolveu no contexto de
duas escolas estaduais de ensino médio: Padre José Nicolino de Souza e Dr. Almir Gabriel e
teve como participantes quatro professores, sendo dois de cada escola. O instrumento
utilizado compõe-se de um roteiro de entrevistas com perguntas disparadoras. Essas
entrevistas foram gravadas, transcritas e analisadas de acordo com o método de análise de
conteúdo embasada na teoria de Bardin (1997).
Os estudos que constituíram a base teórica e metodológica foram as obras de, Flick
(2002), Severino (2007), Bardin (1997), fundamentais na definição dos conceitos de pesquisa
qualitativa, descrição das concepções e método de analise de conteúdo. Já os referenciais que
fundamentaram o uso do cinema como artefato metodológico são os estudos de Rosália
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Duarte (2002) e Fantin (2006). Para essas autoras o cinema se caracteriza como uma
tecnologia formadora dentro de parâmetros que apontam o envolvimento do cinema na escola.
Fantin apresenta resultados de pesquisas realizadas em escolas que contribuíram
significativamente para o estudo sobre cinema e educação. Também subsidiaram a pesquisa
Setton (2004), Belloni;Subtil (2002) e Franco (2004).
As entrevistas semiestruturadas foram compostas de quatro questões disparadoras,
através das quais buscou-se saber qual o entendimento sobre recursos audiovisuais; sobre a
utilização ou não do filme em abordagens de temas transversais em sala de aula; sobre o
espaço na escola para a utilização de recursos audiovisuais e sobre a relação pessoal dos
professores com o cinema.
Belloni;Subtil (2002) aponta em seus estudos os impactos da introdução dos meios de
comunicação, dos elementos midiáticos com a inclusão do cinema, nas relações sociais, no
modo de pensar dos jovens e como isso afeta positivamente a relação deste com a
aprendizagem. Diante disso, há necessidade de uma reflexão do professor em face de sua
relação com o ensinar, sobre seu posicionamento diante do visível desinteresse do aluno pelo
ensino enfadonho que ainda se projeta nos espaços escolares pautado em metodologias
fundamentadas em alfarrábios que pouco instigam a reflexão crítica e tampouco interliga
conteúdo com a realidade.
Os filmes devem ser inseridos no ambiente escolar, além de outras atividades lúdicas
pela possibilidade de ocasionar a integração de conteúdos para a análise crítica do
funcionamento dos sistemas sociais e para uma relação mais profunda dos que o assistem com
a realidade a qual pertencem.
Educar pelo cinema ou utilizar o cinema no processo escolar é convocar o professor a
ensinar a ver o diferente, é instigar o ato de educar por uma nova perspectiva, a do olhar Ferro
(1993) fomenta por meio de seus estudos analíticos que o uso do filme no espaço escolar vai
além do que se vê nas telas, ou seja, destaca o que o autor chama de não-visível nas imagens,
através de inferências que fogem do senso comum e dão espaço às representações sociais que
cada indivíduo possui seu caráter instrutivo, viabilizado por uma construção de significações
estabelecidas pelo professor objetivando um instrumento educativo.
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Fundamentação Teórica
Conforme Duarte (2002), cinema e escola vêm se relacionando há muitas décadas,
sem, contudo, se reconhecerem como parceiros na formação educacional. Ver filmes é uma
prática social tão importante do ponto de vista da formação cultural e educacional das pessoas
quanto a leitura das obras literárias, filosóficas, sociológicas e tantas mais. As relações de
aprendizagem que envolvem o cinema e a escola, indicam aproximação entre os campos da
educação e da arte cinematográfica e encontram interseção no escopo da natureza de suas
atividades, uma vez que a história cultural ocupa lugar central em ambas as constituições.
O cinema, como produto e produtor de cultura, tem participação e importância na
construção das relações sociais, econômicas e experiências culturais do indivíduo. A
aproximação entre educação e cinema, quanto ao seu caráter cultural, apresenta-se como uma
possibilidade para compreender o cinema enquanto veículo pedagógico, principalmente
considerando-o como um recurso propiciador da educação formal. O enfoque dado ao filme
como recurso didático tem suscitado diferentes estudos nas áreas das ciências humanas e
sociais.
Os trabalhos de Duarte (2002) apresentam um breve painel da história do cinema no
Brasil, as nuances pedagógicas que envolvem essa arte bem como a linguagem, fruto da
articulação de códigos e elementos distintos que a compõe, contribuíram com inúmeras
formas de produção de significado. O cinema e a escola vêm se relacionando um com o outro
há algum tempo, embora ainda não haja entre os dois o reconhecimento da parceria na
formação de indivíduos, e defende que a escola do mesmo jeito que busca estratégias para
desenvolver o gosto pela literatura, precisa criar estratégias que estimulem o gosto pelo
cinema. Mostra também em seus trabalhos o espectador como sujeito das histórias contadas
pelo filme uma vez que, mesmo inconsciente, se coloca na trama e passa a adotar a identidade
cultural do personagem do filme.
Outro percurso teórico embasado são os textos de Fantin (2006) que constituíram um
instrumento que discute a relação de indivíduos com o cinema no ambiente escolar, entendida
como possibilidade de experiência de significação, considerando a importância da mediação
escolar. Essa autora mostra o cinema no contexto da mídia-educação a partir das diversas
dimensões – estéticas, cognitivas, sociais e psicológicas interligadas à categoria de
instrumento que o cinema assume.
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A obra de Setton (2004) ratifica as acepções de Fantin acerca do cinema como recurso
que contempla a ideia de que a educação, na atualidade, precisa buscar outros parceiros em
sua ação pedagógica e apresenta o cinema através de uma linguagem capaz de produzir
conhecimento.
Além desses autores, as acepções teóricas de Belloni;Subtil (2002) embasaram a
pesquisa, já que apresenta diferentes dimensões de uso dos audiovisuais na escola diante do
ensino contemporâneo e como atualmente a concepção de ensinar e aprender está interligada
ao papel do professor como fomentador das inovações tecnológicas. Em seu texto, os dados
permitem vários enfoques que vão desde a gênese histórica da inclusão dos audiovisuais na
escola até a reflexão da parceria da tecnologia e da educação com discussões que apresentam
possibilidades e limites.
Franco (2004) nos traz várias informações que elucidam os primeiros passos da
parceria entre cinema e educação que começou ainda na década de 20 no Brasil. Perpassou
por vários momentos, dentre eles, a criação do I.N.C.E – Instituto Nacional de Cinema e
Educação - que contou com a participação de pessoas influentes da época, as quais
contribuíram com as primeiras ideias e iniciativas que viam no cinema um instrumento capaz
de promover conhecimento e que se adequasse as novas propostas de modernização da
educação da época.
Dentro de seu conjunto de representatividade, Rivouttela (2005) ressalta a capacidade
do cinema de reconstituir no momento de sua produção a realidade cultural da história, e
aponta três dimensões que compõem sua importância educativa: a validade alfabética ou
instrumental (compreensão dos aspectos gramaticais que compõem a linguagem da imagem
cinematográfica); cultural (confere ao cinema valores estéticos e críticos que fazem dele a
expressão da cultura própria da atualidade); e cognitiva (como instrumento de análise dentro
de seus aspectos históricos, políticos e sociais).
Ainda, segundo Rivoutella (2005, p.75), considera o cinema como um cruzamento de
práticas culturais diversas e reafirma a importância desse elemento na escola porque segundo
ele é um “instrumento de difusão do patrimônio cultural da humanidade e porque é
documento de estudo da história”.
Assim, pode-se inferir que o cruzamento dessas práticas socioculturais promovidas
pelo cinema engendra diferentes reflexões que vão muito além do encontro com o outro, com
as narrativas fílmicas, com as culturas nas diversas representações, mas um encontro com o eu
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e com imaginários múltiplos. È como uma viagem imaginária feita ali mesmo, no momento
da projeção do filme, suscita uma espécie de identificação do telespectador com a história
contada pela película cinematográfica. Nesse contexto, Fabris (2008,p.34)) assegura em seu
estudo que
assistir a um filme , seja para penetrar-se com ele, seja para analisá-lo, pressupõe
aprendizagens específicas. São histórias que nos interpelam de um modo
avassalador porque não dispensam o prazer, o sonho e a imaginação. Elas mexem
com nosso inconsciente, embaralham as fronteiras do que entendemos por realidade
e ficção. Quando dizemos que o cinema cria um mundo ficcional, precisamos
entendê-lo como uma forma da realidade apresentar-se.
Essa introspecção que provoca a história que o filme conta, é um convite que instiga o
indivíduo a rever sua percepção do mundo, reavaliar valores e atitudes que se desenvolvem,
muitas vezes provocados pelos comportamentos rígidos, intolerantes, autoritários e
materialistas reproduzidos em parte pela escola, que embora, em seu discurso proclame a
formação de seus alunos em sua totalidade, ainda não encontrou equilíbrio para isso.
O filme como suporte pedagógico no trabalho em sala de aula
Olhar para o cinema diante de suas possibilidades didático-pedagógicas é uma
constante desde as primeiras décadas do século XX, quando o uso do cinema pelas
instituições escolares passou a compor uma nova promessa para tornar o ensino mais
interessante revestido de maior eficácia, principalmente para as massas trabalhadoras da
época (DUARTE, 2008).
Hoje, passados mais de cem anos de existência do cinema, observa-se como essa
relação se intensificou, numa proporção tamanha que Fabris (2008) reconhece ser difícil
medir o quanto essa nova forma de contar histórias alterou significativamente a maneira das
pessoas se relacionarem com o conhecimento.
Dados da pesquisa demonstram que grande parte dos participantes consideram o uso
dos filmes em sala de aula como um meio facilitador para a aprendizagem dos conteúdos que
compõe o currículo, e ao fazer alusão às imagens dos filmes já vistos pelos alunos, logo estes
farão associação com o tema em questão.
O cinema, segundo os professores, é percebido como apenas um complemento no
processo de ensino aprendizagem, uma espécie de reforço daquilo que os livros didáticos
ilustram,não tem função de refutar os manuais didáticos, nem tão pouco assume neste
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contexto o papel de recurso carregado de conhecimento e que pode assumir uma postura
formadora e problematizadora.
A partir da análise de conteúdo, verificou-se que a princípio o filme serve apenas para
complementar um conteúdo e não contrapor ou criar novas discussões,questionamentos,desse
modo, é apresentado em estado de subordinação uma vez que não contesta o que está sendo
exposto e sim serve como suporte, apoio a outros recursos utilizados no processo educativo,
sem considerar e explorar suas dimensões históricas, epistemológicas e educacionais.
O que se observa é um olhar para a exibição dos filmes com caráter meramente
“instrumental”, em que a apresentação da película cinematográfica atende apenas ao ensino de
conteúdos curriculares, sem considerar os aspectos estéticos, culturais, sociais e históricos que
compõe esse artefato (DUARTE, 2008).
Nessa perspectiva, o papel do professor é instituir com o aluno, relações essenciais
entre os conceitos acadêmico-científicos adquiridos na escola e as significações do cotidiano.
Porém, se o cinema ou qualquer outro dispositivo audiovisual for utilizado tão somente como
um instrumento, este não passará de mais um recurso didático-pedagógico que reduz,
portanto, as possibilidades de seu uso.
Mediar esse olhar para além da imagem é algo que desafia também o professor, pois
demanda aspectos ligados à afinidade que ele possui com a arte cinematográfica no contexto
pessoal, que se revela ou não no hábito de apreciar bons filmes em seu cotidiano,fora do
ambiente escolar, assim como a concepção formada por ele a respeito da aproximação entre o
cinema e a educação.
Outro resultado obtido é que alguns professores concebem o uso do filme como meio
de exaurir a monotonia existente no ambiente da sala de aula, promovida principalmente pelas
metodologias que exigem dos alunos o uso da leitura para a necessária compreensão das
temáticas.
Identificou-se ainda na coleta de dados com os educadores,que o filme é um recurso
utilizado por eles com o objetivo de diversificar o ambiente da sala de aula, uma mistura de
“lazer com aprender”, dissipando momentaneamente a monotonia que os jovens veem na
leitura de livros, nas discussões das temáticas referentes à aquisição do conhecimento
científico. Constitui uma forma de compensação em que o aluno é premiado pelas horas
dedicadas aos processos que fundamentam a aquisição dos conceitos científicos de
desenvolvimento das capacidades cognitivas e operativas.
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Há uma tentativa por parte dos professores de transformara sala de aula em um lugar
mais próximo daquele que promove prazer ao aluno, com elementos que detenham a atenção
e que os mantenham envolvidos e situados naquele ambiente. Essa percepção do filme
reafirma as várias dimensões que o cinema pontua e que fazem parte do universo de
peculiaridades dessa arte, que além de promover em primeira instância o lazer, faz eclodir um
turbilhão de sentimentos imediatos que conseguem envolver e seduzir (SILVA, 2007).
Ademais, essa percepção condiz com a tentativa do professor ressignificar o ambiente
de aprendizagem considerando uma profunda alteração nos modos de ensinar,em que práticas
cotidianas também na escola se transformam. Há uma necessidade ditada pelas novas
configurações sociais de remodelar a sala de aula, as quais exigem do professor, enquanto
mediador do conhecimento, uma adaptação e uma adequação às novas possibilidades de
ensino dispostas não só pelo cinema como também por outros recursos midiáticos,
tecnológicos (TIC), iconográficos entre outros.
A relevância do trabalho pedagógico com a utilização do filme na sala de aula
caracteriza-se por não sustentar somente o diálogo textual, mas por este se apresentar
revestido de outros elementos. Todos os elementos que dão vida ao cinema,corroboram para o
enriquecimento da mensagem, por isso é importante que o professor se aproprie dos filmes no
processo pedagógico e os apresente aos alunos não apenas como uma forma de prazer, mas
como instrumento de educação. A completa compreensão de um filme colabora para o
desenvolvimento das relações sociais (CITELLI, 2000).
Napolitano (2011), em seu livro Como usar o cinema na sala de aula, aponta as várias
potencialidades pedagógicas do uso do filme, mas ressalva, porém, que este não deve adquirir
um caráter motivador e ilustrativo que irá operar sobre os alunos desinteressados
incentivando-o a desenvolver o gosto pela leitura. Esse comportamento paira dentro de um
conjunto de aspectos complexos que não estão ancoradas dentro das impotências do professor
e da escola, e, salvaguarda que o uso do filme não deve constituir a fórmula mágica que irá
resolver o que ele chama de crise do ensino.
Outra percepção que se tem diante dos relatos dos professores é que a rapidez
instaurada nas narrativas fílmicas projetadas é um elemento que marca o imediatismo que faz
parte da concepção de informação do aluno, pois a tendência ao acesso imediato de
informações é uma característica da juventude deste século e que resulta no diálogo entre
indivíduo e instrumento tecnológico potenciador de informação.
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Hodiernamente, esse imediatismo que impera nas relações dos indivíduos nas diversas
instâncias sociais, se projeta também nas relações com o ensino, pois os processos regulares
de aquisição do conhecimento requerem leitura e interação com inúmeros textos para que se
construa um entendimento sólido e não fragmentado dos conceitos científicos, isto posto, o
filme, na concretude de sua projeção, traduz esses textos, essas palavras em imagens,
tornando-se mais atrativo aos alunos (CARDOSO, 2011). Não se trata de uma substituição do
livro ou do professor, mas um compartilhamento de aprendizagens colaborativas permeadas
por um recurso que faz parte dos hábitos modernos do cotidiano de uma sociedade imersa
numa cultura da imagem, pois, como ressalva Faria (2004,p.3) “não se pode esquecer que os
mais poderosos e autênticos “recursos” da aprendizagem continuam sendo o professor e o
aluno que, conjunta e dialeticamente, poderão descobrir novos caminhos para a aquisição do
saber”.
A mudança de paradigma requer pensar o professor não como centro do
conhecimento, o detentor absoluto do mesmo, mas do educador como mediador desse
processo, co-responsável por essa construção que perpassa pela interação com esses recursos
em conjunto com os conteúdos do currículo nos ambientes de aprendizagens organizados por
ele na escola.
Percebe-se, portanto, que as escolas pesquisadas demonstram uma certa insegurança
quanto ao uso dos filmes em suas práticas docentes, e a mesma se estende a outras tecnologias
educativas também. Fazer os alunos extrapolarem o limite da leitura, da escrita e se aventurar
pela instigante leitura das imagens em movimento, suscitando interpretações, identificações,
comparações com a vida e com o mundo, configura como um dos maiores desafios que o
professor deva enfrentar no contexto atual.
A relação dos filme com os temas transversais – Análise de dados
Os paradigmas que moldam a sociedade contemporânea estão revestidos por
comportamentos complexos nos quais percebe-se uma constante ausência de valores éticos e
morais que norteiam a boa conduta humana e que refletem na família e principalmente na
escola.
A ausência desses valores causa o que Silva (2007,p.23) chama de "analfabetismo
ético", que permeia principalmente as relações sociais dos jovens que estão imersos em uma
busca incessante do ter, e pouco se preocupam com o ser, o que gera sentimentos de
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intolerância, violência, segregação, desrespeito e que ameaçam o convívio saudável e
fundamental com o meio.
Nessa perspectiva, os PCNs sinalizam princípios que são norteadores da educação
escolar como: a dignidade da pessoa, igualdade de direitos, a participação e a coresponsabilidade pela vida social, dentro de um conjunto de temas transversais que estão
ancorados nas dimensões da ética, meio ambiente, saúde, orientação sexual, pluralidade
cultural e que articulados com os conteúdos curriculares ampliam a responsabilidade do
professor na formação integral do aluno a qual perpassa pelos problemas sociais e atuais da
contemporaneidade.
A escolha dos conteúdos pelos professores deve pautar-se em questões que
possibilitem a compreensão e a crítica à realidade como meios de refletir e transformar sua
própria vida, pois são as opções didáticas, os métodos, os recursos eleitos para implementar
essas atividades, a organização do tempo e espaço que favorecem o fomento da autonomia, do
aprendizado da cooperação, do convívio e da participação social.
No que tange a prática dos temas transversais em sala, um professor demonstrou que
faz uso do filme para abordagem de temas relativos à pluralidade cultural com o objetivo de
provocar reflexões críticas e questionamentos acerca de comportamentos que não condizem
com posicionamentos de caráter humanista, que se pretende formar na escola.
A imagem estabelece através da dimensão visual o contato com práticas socioculturais
diversas, o que possibilita, segundo Fantin (2007), um encontro dentro dos mais diversos
aspectos: do espectador consigo mesmo, com os personagens da narrativa, com as várias
culturas e com os múltiplos imaginários, e a partir de então consegue projetar-se na trama e
refletir acerca de si e do outro.
O caráter interdisciplinar do filme ficou evidente no depoimento do professor quando
permite seu uso: ora para fazer alusão ao Egito como berço de uma arte ímpar e a toda a
história que compunha esse contexto; ora para apresentar ao aluno uma cultura com costumes
e manifestações diferentes da que ele possui; ora para mostrar como dentro desse contexto as
relações sociais se apresentam permeadas por valores peculiares àquele determinado grupo e
que podem ser analisados a partir do ponto de vista político, estético e ético.
Esse desdobramento que o cinema permite de enveredar por diversos caminhos
possíveis, evoca uma postura interdisciplinar principalmente do professor que deve mediar a
interação com o filme conforme seus objetivos. Pois, o filme sob o olhar técnico, só alcançará
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objetivos técnicos quando permitir a extrapolação de suas potencialidades para reflexão
acerca de si e do outro, através da utilização do mesmo pelo professor.
Preparar o aluno para aprender a ver, e não somente ver, mas interpretar, compreender,
analisar uma imagem e, mais, saber que a mensagem instituída por ela, faz parte dos novos
moldes de ensino que a escola está inserida hoje, pois os jovens não são mais os mesmos de
décadas atrás e as mídias-educação se configuram como elementos essenciais nos sistemas de
socialização dessas gerações.
A reflexão acerca da prática educacional é uma constante na escola. Os docentes veem
urgência em aprender a utilizar todo esse aparato tecnológico e midiático como ferramentas
pedagógicas que o aluno está envolvido,pois a concepção de educação já não é a de captar
informações, mas de aprender a aprender, e aprender por meio de saberes significativos
capazes não só de alimentar o intelecto, mas também de refletir as condições humanas de lidar
com esses saberes. Visto que a aprendizagem não se centra na acumulação de conhecimentos,
porém no estabelecimento de relações essenciais, já que o desenvolvimento do intelecto é
concebido como formação integral e integrado da personalidade humana.
Outro aspecto detectado na análise, mostra que utilizam o cinema em sala de aula não
apenas para oportunizar ao aluno a reflexão dos temas transversais como a ética, meio
ambiente e pluralidade, através de discussões em sala de aula, como também possibilitar a
produção fílmica de obras literárias, baseadas em leituras que fazem parte do currículo de
língua portuguesa do 3º ano do ensino médio,e que se apresentam por meio de roteiros e
filmagens elaborados pelos próprios alunos a partir de um projeto proposto pelos educadores
da escola Pe. José Nicolino de Sousa, intitulado Vozes, quanto ao uso do filme na sala de aula.
Nota-se que essa prática do uso pedagógico do cinema em sala de aula envereda para o
entendimento e a execução técnica através da elaboração do roteiro e da organização das
filmagens de pequenos curtas metragens baseados em textos literários necessários a
aprendizagem formal da literatura por meio de uma metodologia que faz do aluno o próprio
construtor do saber, pois passa a fazer uso de processos cognitivos que requerem habilidades
criativas para a consecução dessa tarefa.Desta forma permite o olhar do aluno não apenas
como espectador, mas como produtor do filme, mesmo que este se apresente dentro de um
conjunto modesto de limitações próprias do fazer escolar.
Fantin (2003) assevera que a concepção de conhecer algo fazendo, produzindo,
criando supõe aprendizagens pautadas no fazer para aprender, no aprender cooperando, e no
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educar para a linguagem. Essa com status de centralidade, pois segundo a autora a linguagem
é o que articula e promove a reunião didática das mídias e das novas tecnologias.
A adequação do filme à proposta de ensino do docente é algo que requer uma
dedicação maior para a elaboração e organização do planejamento, desta forma, demanda
mais tempo e requer uma apreciação inicial para verificação da relativa adequação do filme ao
tema proposto ou objetivos propostos. È necessário também desenvolver estratégias de uso
desse recurso, e mais, é fundamental demonstrar aos alunos a finalidade do uso e qual o
objetivo que se tem com aquele recurso em sala de aula.
Nem sempre a tarefa de encontrar os filmes apropriados é fácil para aquela abordagem
transversal ou qualquer outra, principalmente em uma região com poucas opções de
ambientes de locação e pouca valorização dessa arte. Outro fato é a ausência de uma
filmoteca ou mesmo um acervo modesto de filmes clássicos educativos nos ambientes
escolares, e essa ausência se estende à escola Dr. Almir Gabriel onde foi desenvolvida a
pesquisa, que apesar de dispor de um ambiente que, a priori, seria a sala de utilização de
recursos audiovisuais, esta se tornou depósito de objetos inutilizados.
Isso reforça o fato de que os recursos áudio visuais como os filmes, ainda não
alcançaram o devido espaço e autonomia como conhecimento formador-problematizador nos
ambientes escolares e ficam, assim, atrelados a outros recursos pedagógicos como meros
complementos ilustrativos dos conteúdos ensinados.
Duarte (2002) assevera que a situação de descrença do potencial pedagógico do
cinema pelos meios educacionais, parte da concepção de quem não reconhece o cinema como
arte e de produção de qualidade variável, pois se projeta a ideia de que o cinema está atrelado
ao campo apenas do entretenimento, isso se comparado as artes consideradas exímias, e que
na maioria das vezes é utilizado pelos docentes como um recurso que detém uma função
meramente ilustrativa, lúdica e sedutora no âmbito da sala de aula.
Não basta propor o encontro do aluno com o filme puro e simplesmente, mas tornar
esse encontro significativo. Para Bergala (2002), a escola deve propiciar o encontro dos
jovens espectadores com filmes de qualidade, aqueles que detêm o reconhecimento artístico e
cultural e que estejam inseridos entre aqueles que possuem roteiros bem elaborados e que
contemplam todos os padrões técnicos de filmagem, e que preencham os critérios de uma
clássica obra prima.
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Diante disso, o professor precisa pautar sua prática em propostas voltadas para uma
educação de valores na escola, de sentimentos de humanidade, de reflexão de si e do outro e
apoiar-se em ações fundamentadas na transversalidade e interdisciplinaridade com o apoio
dos recursos tecnológicos existentes e dispostos sem deixar de considerar a importância do
conhecimento científico integralizado a um projeto pedagógico fundido em parâmetros éticos,
de convívio social e interpessoal, de respeito à diversidade cultural e ao meio ambiente, os
quais fazem parte da formação integral do aluno.
Considerações Finais
A pesquisa produziu uma análise acerca do olhar de professores do ensino médio
sobre a utilização dos filmes na abordagem dos temas transversais no ambiente escolar. A
perspectiva, diante desse estudo, aponta para a construção de um cenário sobre a concepção
do uso do cinema como artefato tecnológico com potencialidades educativas. O ambiente
escolhido para esse trabalho foram as escolas estaduais: Padre José Nicolino de Souza e Dr.
Almir Gabriel, ambas no município de Oriximiná.
Os professores, todos com formação em letras, alguns utilizam em sua prática
pedagógica o filme e o concebem como um recurso tecnológico de comunicação que em suas
práticas educativas é usado como uma forma lúdica de ilustrar passagens da história, ou de
elucidar questões relacionadas ao conteúdo do currículo da disciplina língua portugueses ou
literatura. Outra percepção que se teve diante dos relatos dos professores é do filme como
meio de exaurir a monotonia existente no ambiente da sala de aula, o que favorece o uso
apenas no campo da fruição e não extrapola as suas potencialidades educativas.
A contribuição deste estudo aponta para a construção de um novo horizonte diante do
cinema e o seu produto- o filme - pois mostra ser possível a tecnologia aliada à imagem e
tantos outros elementos significativos que compõe essa contribuição para a reflexão de
valores em sala de aula.
Assim, esse trabalho representa apenas uma reflexão inicial, e que mais estudos acerca
da utilização de filmes como recurso metodológico possam vislumbrar outros conceitos no
ambiente educativo e que a aprendizagem possa ser mediada com a ajuda desse recurso. As
sugestões estão dispostas, mas há que se considerar que ainda há muito que se discutir a
respeito do cinema e a educação. Contudo, esperamos que essa pesquisa traga contribuições
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significativas para professores, alunos e comunidade escolar que acreditam que mudanças de
paradigmas podem acrescentar aspectos qualitativos para o ensino.
REFERÊNCIAS
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língua, prática e cinema – uma relação possível na sala de aula