IV ENCONTRO ESTADUAL DE HISTÓRIA - ANPUH-BA
HISTÓRIA: SUJEITOS, SABERES E PRÁTICAS.
29 de Julho a 1° de Agosto de 2008.
Vitória da Conquista - BA.
EMERGENTES E FAMILIOCRÁTICOS 1: O CORONELISMO E ALGUMAS
PECULIARIDADES DE UM CASO DE POLÍTICA LOCAL
Jedean Gomes Leite
Mestrando em História pela Universidade Estadual de Feira d e Santana (UEFS)
E-mail: [email protected]
Palavras-chave: Poder. Família. Política. Mandonismo.
Nos estudos sobre mandonismo 2, algumas idéias são bastante comuns de serem
notadas, fazendo menção ao uso da violência física no intuito da manutenção ou da conquista
do poder político. A presença constante dos “cabras 3” ou jagunços, o chamado voto de
cabresto e até mesmo conflitos armados envolvendo dois ou mais mandões são fatos comuns
quando se pensa na realidade política do Brasil nas primeiras décadas da república. Outras
características referem -se à própria estrutura que es tava montada por trás daqueles homens
conhecidos como coronéis. O ranço familiocrático, muito comum nos esforços dinásticos
desses chefes locais, por exemplo, quase sempre figura, quando não é elemento principal, nos
estudos sobre a política da época.
É verdade que esses homens, através dos recursos econômicos de que dispunham,
mantinham outros ao seu redor em número de dezenas, ou até centenas, “armados até os
dentes”, com seus bacamartes, como no sul do Brasil, ou entupindo os velhos “papo amarelos” como foi comum no sertão da Bahia, ostentando suas forças, no intuito de intimidar
adversários ou de angariar respeito perante a população em geral. É verdade que estes
senhores ameaçaram, até invadiram e tomaram cidades inteiras através da força, às vezes até
sem fazer uso efetivo dela. É verdade ainda que grupos inteiros articulavam -se em torno de
1
Este termo, embora não conste e m alguns dicionários da língua portuguesa, como os dicionários Aurélio e
Houaiss, é empregado em alguns estudos sobre o mandonismo ou coronelismo , para designar a influencia da
estrutura familiar na organização das oligarquias brasileiras.
2
Aqui entendido de forma genérica como a existência de estrutura oligárquica e personalizada de poder. O
mandonismo é aqui a denominação utilizada para as práticas do chefe local, do mandão, ou mesmo do coronel
no período anterior à Proclamação da República e posterior à década de 1930. O Coronelismo é, por sua vez, o
termo utilizado pra se referir ao sistema prático desencadeado com a “política dos governadores” de Campos
Sales, no início do período republicano e desarticulado com o “Estado Novo” e a prisão dos grandes c oronéis,
principalmente na Bahia, em meados da década de 1930, no qual o mandonismo dos chefes locais era o ponto de
partida para a compreensão do sistema. Um dos motivos para isso é chamar a atenção para o elo que o elemento
central, o poder estadual, man tinha, com o poder federal e os poderes locais nesse recorte de tempo.
3
A utilização do vocábulo “cabras” aqui é proposital e tem um “porque”, não se trata apenas de dar
características regionais ao texto, ao substituir um vocábulo um tanto mais comum co mo jagunço por exemplo.
Etimologicamente jagunço é quem manipula o zaguncho, uma arma de fogo com extremidade pontiaguda, este é
antes de tudo um mercenário. Os “cabras”, entretanto possuíam um vínculo maior com o coronel, não eram
profissionais, geralment e eram trabalhadores do coronel em suas fazendas ou nos garimpos como no caso da
Chapada Diamantina, mas eles estavam sempre a dispostos utilizar seus papo-amarelos tão logo fosse
necessário. Alguns deles freqüentavam até mesmo a própria residência do coro nel, eram homens de sua
confiança
uma família que, por sua vez, normalmente dispunha de vantajosa condição financeira e
tradição política em sua região.
Entretanto, artifícios não tão comuns e mais c omplexos que simplesmente munir
homens com rifles ou espingardas foram utilizados como mecanismos de dominação, ou
estrutura de composição de grupos políticos, que não abdicavam de um braço armado, porém
priorizavam ações que desgastassem o mínimo possível as imagens daqueles que estavam por
trás das “manobras” políticas em dado lugar. Ao mesmo tempo, grupos emergiam econômica,
política e socialmente, sem o legado familiar e sem sobrenomes que os representassem.
Este conciso artigo, originado a partir dos primeiros resultados da pesquisa
desenvolvida durante o mestrado, quando o foco era algumas questões de confrontos políticos
na pequena Morro do Chapéu 4, precisamente nas três primeiras décadas do século XX, tenta
mostrar outro lado da política dos coronéi s no alto sertão baiano. Primeiro analisar os
elementos das relações de parentela que visava m principalmente à perpetuação de dada
família no poder e que é ali deixada à margem, nos desdobramentos das relações clientelistas.
Depois, observar as atitudes di ferentes das investidas armadas ou do controle coercitivo
durante os períodos de sufrágio ou de grandes confrontos políticos. Entretanto não é pretensão
desse texto, abordar todos os elementos dos dois eixos propostos. O que se tentará mais a
frente é contribuir para a noção de que a política dos coronéis foi além de agrupamentos
fechados em torno de um sobrenome e suas práticas foram mais astutas e diversas que a
coerção e uso da força.
Desde as ultimas décadas do século XIX naquela pacata cidade , percebe-se um grupo
político articulado em torno de um nome bastante conhecido naquela região, os Dourado . De
outro lado, outro grupo integrado por indivíduos que emerg iram política e economicamente
por meio do tino comercial , inicialmente como atravessadores e depois como proprietários de
garimpos e chefes de negociações diretas com companhias européias como a firma parisiense
Levy de minérios, com quem o cel. Francisco Dias Coelho 5 parece ter estabelecido uma
estreita relação. De acordo com o Sr. Marcio Brito 6, já em 1914, “ Dias Coelho já era uma
pessoa ilustre. Tinha sido convidado pela firma francesa de minérios Levy de Paris para ir à
França, mas se recusou porque sabia que os negros lá não eram tratados muito bem”. Pouco
tempo depois, ele é presenteado pela mesma firma com uma imagem de Nossa Senhora da
4
Município distante 384 km a noroeste da capital do estado, na zona oriental da Chapada Diamantina, e elevada
a condição de vila em 1909.
5
Líder político, descendente de ex -escravos e comerciante, que durante a década de 1910, galgou a centralidade
do poder local.
6
Márcio Brito, funcionário da Biblioteca municipal e do Centro Cultural Judith Arlego em Morro do Chapéu.
Soledade “medindo dois metros, que até hoje está na capela situada ao lado de onde foi sua
residência, hoje ‘Parque da Soledade ’”. Muito provavelmente, outros coronéis, também
mantinham algum tipo de vínculo c om a mesma firma.
Ambos os grupos tinham preocupações de manter tropas, nem sempre, entretanto,
colocando em ação seu “braço armado”. Antes, no entanto, de tentar entender estes fatos um
tanto peculiares, faz-se necessário um olhar panorâmico, sem pretensões de aprofundamento,
sobre o contexto político nessa localidade, para se entender como esses dois grupos
funcionavam.
A partir do início da década de 1920, Morro do Chapéu passou a viver um dos mais
conturbados, talvez o mais sério, momento político de su a história. Deusdedith Dias Coelho
não demonstrou a mesma habilidade política de seu pai o cel. Francisco Dias Coelho, falecido
em 1919. Este havia colocado, em meados da década de 1910 , todas as grandes lideranças
políticas em torno de si . O jovem médico, no entanto, não parece ter logrado sucesso à frente
da política local. Diante da situação, dois outros nomes emerg iram como possíveis sucessores
do antigo coronel : Antonio de Souza Benta e Teotônio Marques Dourado Filho.
Curiosamente, embora tivessem surgido para a política através de caminhos distintos, um
através do “laço” familiar e outro através da emersão econômica, ambos chegaram a
possibilidade de liderança local a partir do cel. Dias Coelho e do período de calmaria política
por ele conquistado em m eados da década de 1910, quando colocou em torno de si todas as
principais lideranças políticas locais. Souza Benta e Dourado Filho posicionaram-se em
condições diametralmente opostas em suas articulações em busca de ocupar uma posição de
poder.
Essa querela política instaurada após a morte de Dias Coelho, tudo indica, foi, em
resumo, uma tentativa dos Dourado de retornar ao executivo municipal após 23 anos, período
em que estiveram à margem dos grandes postos políticos, em função da forte articulação de
um grupo que revezava seus membros na intendência local. Desde Herculano da Silva
Dourado, tio de Dourado Filho , nenhum outro membro da família teve a oportunidade de
liderar politicamente a região. Em consulta as atas da câmara municipal do período, os nomes
que teriam passado pela intendência municipal foram: Pedro Celestino Barbosa 1 900-1903,
Antonio de Souza Benta 1904 -1907, Deocleciano Barreto de Araújo 1908 -1911, Francisco
Nery Batista 1909 -1910 e Francisco Dias Coelho 1911-1919.
Segundo essas atas, o Sr. Francisco Nery Batista assum iu a intendência já em 1909 de
forma interina, provavelmente por causa das más condições de saúde d o cel. Deocleciano
Barreto de Araújo. O mesmo acontece u com Dias Coelho em 1911, sendo eleito naquele
mesmo ano para exercer o cago definitivamente , quando “depois de tudo bem discutido e
examinado e concluída a votação, o Presidente [do conselho municipal] proclamou eleito
Intendente Coronel Francisco Dias Coelho ”7.
Ainda nos tempos de interino, o cel. Dias Coelho governou como titular do cargo,
promovendo modificaç ões em Morro do Chapéu, tanto em suas obras como gestor, como na
própria conjuntura política local . Ao assumir os destinos políticos do município, o cel. Dias
Coelho, comerciante de diamantes e carbonato 8 - de maneira hábil consegue aglutinar em
torno de si as facções políticas predominantes na época e remanescentes do Império: os
liberais que estiveram sob a égide de José Florêncio de Miranda Bagano - cunhado e homem
de confiança do cel. Quintino da Rocha Cezar, figur a de importância no cená rio político de
Morro do Chapéu, todavia, carente e merecedora de estudo mais apurado . No outro extremo
os conservadores, personificados na pessoa do cel. Porfírio Pereira de Souza - homem forte no
Arraial de Ventura e desafeto político do velho cel. Quintino.
No cruzamento de informações de entrevistas, documentos da época e edições do
“Correio do Sertão”, deduziu-se que em linha direta de sucessão política, os “Dourado” em
primeiro momento liderados por Herculano da Silva Dourado, um dos patriarcas da família e
ex-intendente de Morro do Chapéu – 1894/1897, e depois sob o comando do cel. Teotônio
Marques Dourado Filho, seguiram a orientação política de Porfírio Pereira. Já os antigos
liberais e descendentes, após o período de mando do Major Pedro Celestino Barbosa,
padrinho político 9 do então jovem Dias Coelho, trilh aram o caminho polític o de José
Florêncio Bagano e de Pedro Celestino, até 1919, conduzidos pelo cel. Dias Coelho.
Também durante todo o período posterior à gestão de Herculano Dourado, e embora
nas atas constem nomes como Antonio da Silva Dourado Junior e do próprio Teotônio
Marques Dourado Filho entre os membros do conselho municipal, nenhum membro dessa
família, a exemplo do que aconteceu com a intendência,
7
ocupou sua presidência.
Acta especial para verificação de poderes dos diplomados na Eleição Municipal que tem lugar no dia 12 de
Novembro do corrente anno de mil novecentos e onze. (Transcrito utilizando -se a grafia da época)
8
Diamante preto, de extrema dureza, sem o mesmo valor da pedra original, porém de muita importância
comercial na época pelo uso exclusivamente industrial; também conhecido como Carbonado ou lavrita.
9
Faz-se necessário chamar a atenção para o termo utilizado aqui “padrinho político”, como forma de reparar
inúmeros equívocos que vem sendo cometidos no ato de denominar o Major Pedro Celestino Barbosa como
legítimo padrinho de batismo do Cel. Dias Coelho, uma vez que nas pesquisas realizadas, ficou constatado o
seguinte: Aos vinte e cinco dias de dezembro de 1864 nesta matriz de Nossa Senhora da Graça do Morro do
Chapéu, batizei solenemente e pus os santos óleo s a Francisco, pardo, nascido a 03 do referido mês e ano filho
legitimo de Quintino Dias Coelho e Maria da Conceição Dias Coelho. Foram padrinhos Quintino de Souza
Lobo e sua mulher Delfina de Souza Lobo. Vigário José Inácio Vasconcelos. Referencias: Livro de assentamento
de batismo da Freguesia de Nossa Senhora da Graça Morro do Chapéu de 1860 a 1865. Pg. 159/2 o parágrafo.
Arquivo da Paróquia. Portanto, o uso do termo “padrinho político” tem o sentido apenas de que Pedro Celestino
foi, na verdade, a pessoa que inicia o Cel. Dias Coelho no cenário político morrense.
Provavelmente, isso aconteceu por dois motivos um tanto óbvio s. Primeiro, o posicionamento
político conservad or típico de seu partido, em relação ao partido republicano, outro porque em
caso de problemas de saúde do intendente, a exemplo do que ocorreu em 1909, o presidente
do conselho assumiria o posto de intendente municipal , algo que pareceu ser evitado pelos
intendentes nas primeiras duas décadas do século XX .
Contudo, o fato que denota melhor a falsa aliança entre os Dourado e o grupo naque le
momento liderado por Dias Coelho é a fracassada tentativa de emancipação do Ventura , de
forte influência dos conservadores, com o foi dito, personificados na pessoa do cel. Porfírio
Pereira de Souza. Assim , percebe-se o papel importante deste arraial med iante a conjuntura
política e econômica. Embora pequeno, o Ventura era umas das principais fontes de riqueza
para o município, especialmente para o próprio Dias Coelho. Ali se concentr aram as
principais fontes de extração do Carbona to10. Ali, também, os principais focos de oposição a
sua gestão se fizeram presentes. A situação ainda se agravou pelo motivo do então Cel. Dias
Coelho não ter honrado o compromisso de emancipar o Ventura em 1914.
Assim, a separação do arraial em relação ao município de Morro do Chapéu teria
diretamente várias implicações. No viés econômico, tanto o município quanto o próprio
coronel seriam prejudicados . O município perderia definitivamente toda a riqueza que o
carbonato, ali abundante, garantia. Dias Coelho, por sua vez, embora ma ntivesse a
propriedade das terras mesmo com a separação, teria dificuldades em extrair livremente o
minério e negociá -lo livre e diretamente com a França, pois o Cel. Dias Coelho “era
capitalista, grande fazendeiro, alto comprador de carbonatos de diamante s para a firma Levy,
de Paris”. (CUNEGUNDES,1999 , p. 32)
Como não bastasse, a emancipação significaria também entregar, “de mão beijada”, o
principal distrito a líderes políticos que eram verdadeiros desafetos políticos seus. Assim, o
Ventura jamais conqui stou sua autonomia . Em entrevista com o Sr. Carlos Navarro este
afirmou que:
Dias Coelho, então, convo cou uma reunião, e promete, no V entura, trazer a
independência. Quando pois, a comissão do Ventura veio aqui a Morro do
Chapéu tratar [...] dos acertos políticos, o Coronel Dias Coelho já tinha
mudado de idéia e resolveu não receber a comissão. Era Guilherme Dutra,
sobrinho do primeiro juiz de Direito de Morro do Chapéu; Joaquim
10
Diamante preto, de extrema dureza, sem o mesmo valor da pedra original, porém de muita importância
comercial pelo uso exclusivamente industrial; também conhecido como carbonado ou lavrita.
Modesto, que era primo de...; e o outro e um outro que no momento não
estou me lembrando 11.
Em verdade, a parti r daí, e mesmo depois, com a liderança de Souza Benta , grande
parte dos investimentos no Ventura foram cerceados, muito provavelmente no intuito de
“minar” as condições de autonomia do lugar. É o que sugere ainda o Sr. Navarro:
...daí começou a perseguição política... começaram a tirar escolas do
Ventura, tiraram também Correio. Entendeu? Abandonaram mesmo o lugar.
Bem, aí, com a seca de 32, né, e com a baixa [do preço] do carbonado,
aquele pessoal que tinha mais dinheiro , os ricos, sobreviveu e foi embora
para Salvador e outros lugares. E o Ventura entrou em decadência 12.
Esse foi um dos mais fortes argumentos utilizado s por Dourado Filho, na querela com
Benta e Dias Coelho . A partir de então passou a investir e m angariar alianças naquela
localidade, usufruindo deste incidente político.
Teozinho, o cel. Teozinho, que era Teotônio, com o Herculano Dourado em
América Dourada, tinham brigado com o Dias Coelho e vão então no
Ventura acertar com o meu pai e Louro Barão, pra f azer frente há Dias
Coelho aqui no município, fazer política. Aí começou a luta 13.
Se no cenário baiano daqueles idos pôde-se afirmar que se era “seabrista ou anti seabrista” (TEIXEIRA, 1988), em Morro do Chapéu ou se era Coques ou se era Memés, como
um reflexo da rixa política estadual nessa localidade da Chapada Diamantina. Sendo os
Coques a denominação dada aos partidários do cel. Dias Coelho e do cel. Souza Benta,
segundo depoimentos de pessoas da época, em alusão a coqui, o pássaro preto, em função da
cor de muitos dos coronéis do grupo que a partir do advento do chamado Pacto de Lenções,
passou a ter a simpatia dos opositores de J. J. Seabra ; e Memés a denominação dada aos
partidários do cel. Dourado Filho, porque os Dourado eram de pele branca, muitos com olhos
e cabelos claros, numa alusão ao carneiros de alva lã. Estes, por sua vez, conquistaram
gradativamente o apoio do governo do estado, tendo inclusive, alguns membros da família,
ligados diretamente a ele.
11
Filho de João Navarro, aliado político dos Dourado, que na época teve um papel de importância na política de
Morro do Chapéu, e vivia no arraial de Ventura, em entrevista realizada 08 de jane iro de 2002, em sua
residência.
12
Ibidem
13
Ibidem
Compreendido o panorama da época, resta a gora passar a observar algumas
características um tanto particulares des se evento político no sertão baiano. O primeiro ponto
a se considerar é a relação entre a política e a família, ou seja, a estrutura de parentela, ou
mesmo de parentesco, uma vez que em muitos casos esse vínculo transcendia o laço
sanguíneo, o qual, nos estudos sobre mandonismo , é praticamente uma regra no que tange as
práticas coronelistas.
Em geral, o coronel era o chefe de uma família que aglutinava em torno de si fortes
lideranças políticas. As agremiações políticas se formavam então a partir de “indivíduos
reunidos entre si por laços de parentesco carnal, espiritual (compadrio), ou de Aliança (uniões
matrimoniais)” (QUEIROZ, 1985, p.164 ). Neste sentido, os laços de parentesco não se
limitavam a formas de aglutinação política, era m também uma forma de não ver fragmentada
toda a riqueza da família. Em resumo a familiocracia era sem dúvida uma forma de se manter
um nome, nesse caso o Dourado, no poder, manifestando-se através de ações políticas e
econômicas.
De forma bastante feliz , afirmou Eul-Soo Pang que a maioria dos coronéis brasileiros
enquadrava-se na categoria de oligarquia familiocrática . Segundo ele “a participação numa
oligarquia [...] incluía a família em si, pessoas da mesma linhagem, parentes por afinidade,
afilhados de batismo ou de casamento ” (PANG, 1979, P. 40).
A figura do cel. Dourado Filho surge como aquele que aspirou aquela condição através
de uma gama de capitais constituídos historicamente, principalmente através da herança de
família. Seu tio, Herculano Dourado, ainda presente no contexto político nos primeiros anos
do século XX, havia sido o último Dourado intendente no município, seu pai Teotônio
Marques Dourado mantinha forte sua liderança política na região de América Dourada e de
Caraíbas – hoje Irecê –, reduto da família Dourado até os dias atuais.
Não há, portanto, como negar a influência da família no processo de manutenção do
poder. Não é essa a pretensão aqui. Cabe inclusive, uma pequena pontuação teórica sobre as
famílias e a tendência que t êm a perpetuar seu ser social. A própria sociologia sugere que:
As famílias são corpos ( corporate bodies) animados por uma espécie de
conatus, no sentido de Spinoza, isto é, uma tendência a perpetuar seu ser
social, com todos seus poderes e privilégios que é a base das estratégias de
reprodução, estratégias de fecundidade, estratégias matrimoniais, estratégias
de herança. (BOURDIEU, 1996:35 -36)
Entretanto, foi esta a qualidade que dif erenciou o cel. Souza Benta do seu rival. Nos
estudos acerca das relações e da imagem política produzidas em Morro do Chapéu, tudo leva
a crer que o legado do cel. Dias Coelho, após sua morte, recai u sobre o cel. Souza Benta. Este,
tal como seu antecessor e mui tos outros de seu grupo, alé m da origem negra, não dispôs de
herança familiar que lhe garantisse uma condição de mando na política local. Em outras
palavras, pode -se dizer que a sua herança familiar não era constituída de capitais econômico,
social ou cultural, tão pouco simbólico, suficiente para garantir seu acesso e permanência em
determinada posição no campo político local . Definitivamente não foi a família que lhe
garantiu status, nem lhe lançou na vida política. Grande parte do prestígio e de suas
qualidades foram “tomadas” por empréstimo de seu antigo e já falecido amigo, de que m era
homem da maior confiança.
Ao assumir publicamente a intenção de dar continuidade aos trabalhos de Dias
Coelho, e ao ser denominado sucessor legítimo do antigo coronel pelos seus partidários e por
parte da imprensa local, as características mais notórias são transladados para Souza Benta,
combinando elementos simbólicos que se configuraram a partir do ausente , em algo tão
presente quanto sua própria pessoa. Associado a isto, o capital simbólico próprio e já
possuído, que se sintetizou a partir de sua ascensão econômica e de seus laços sociais e
culturais oriundos de sua int ensa vida política desde os fins do século XIX . É certo que Souza
Benta foi quem primeiro emergiu para ocupar o posto outrora de s eu amigo.
Entretanto, parece existir ai um elemento contraditório. Baseando-se mais uma vez nas
atas da câmara municipal do município, pode -se notar que Souza Banta passou pela
presidência do Conselho Municipal e ocupou a intendência municipal, num momento em que
Dias Coelho não passava de um mero tabelião, embora antes, em 1899 já tivesse tentado a
intendência, obtendo o fracasso após uma massacrante derrota frente ao cel. Pedro Celestino
Barbosa, pois quando se procedeu com a apuração de todas as urnas foi divulgado o resultado
final da eleição, tendo “ o Major Pedro Celestino Barboza, 495 votos ” enquanto “o tententecoronel Francisco Dias Coelho ” obteve apenas a ínfima quantia de “76 votos”.14*
No mesmo ano encontram -se referencias freqüentes em uma ou outra ata, que quase
sempre, depois de lida, aprovada e assinada pela junta apuradora, eram “transcripta no livro
do tabellião Tenente Coronel Francisco Dias Coelho ”, posição na qual permaneceria por mais
14
Acta especial da Junta Municipal apuradora desta Villa do Morro do Chapéo para se proceder apuração das
Eleições dos membros do Conselho Municipal do Intendente da Junta Administrador Districtal e dos Juizes
de Paz.
*Em todas os fragmentos retirados do Correio do Sertão, de atas da câmara municipal ou de quaisquer
documentos da época em questão, foi mantida a grafia original.
algum tempo. No ano de 1904, ele recebe o cargo de tesoureiro e contador municipal,
justamente pelo cel. Souza Benta, quando:
O segundo Secretário Capitão Luiz Cassiano de Araújo Costa procedeu a
leitura do expediente, passou a ler um officio do Intendente Municipal
Tenente Coronel Antônio de Souza Benta, em o qual communicava que em
data de dez do mez transacto havia dispensado do cargo de Thesoureiro e
Contador o Capitão José Tibúrcio Guimarães por ter sido este eleito Juiz da
Paz deste Districto, e que havia nomeado para exercer as funcções do
alludido cargo o Coronel Francisco Dias Coelho, solicitando a aprovação do
Conselho 15.
Assim, num primeiro momento, parece -se incorrer um equívoco ao se afirmar que o
legado de Dias Coelho foi primordial para a ascensão política de Souza Benta na Morro do
Chapéu da década de 1920. Porém, isso começa a fazer sentido ao se perceber que a passagem
de Dias Coelho a frente da política local diferenciou -se das demais, a ponto de receber o
tratamento de “estrela de primeira grandeza da política morrense” 16. Outra coisa que re força
esta idéia e que não deve ser esquecid a é o fato de em sua gestão, Dias Coelho conseguir
praticamente anular as investidas da oposição e colocá-la em torno de si. Mesmo as força s
políticas do ventura, pouco pu deram fazer nos momentos fundamentais, sendo aliadas do cel.
Dourado Filho, que não tinha muita simpatia pela situação, apenas calaram-se diante da
vontade do então intendente.
Depois de tudo descutido devidamente o Conselho verificou que pelas
informações tomadas a respeito da alludida reunião tornou-se ela de um
caráter político e não de patriotismo daqueles habitantes por uma pequena
facção política que illudio a boa fé dos habitantes d'aquelle Districto. Pelo
que o Conselho resolveu declarar francamente que presentemente o Arraial
do Ventura não se acha nas condições de ser elevado a categoria de Vila,
visto não preencher as formalidades preescritas no Art. 8° da Lei 478 de 30
de setembro de 1902 ...17
Até aí tudo normal, se entre os membros do conselho não constasse o nome de
Teotônio Marques Dourado Filho. Assim, tudo leva a crer que, embora a ascensão política de
Souza Benta tenha sido anterior a de Dias Coelho, este , quando à frente do município, obteve
tal concentração de alianças e grau de relações com praticamente todos os políticos, que se
colocou distante de ser apenas mais um intendente na localidade.
15
Acta de 17/02/1904, terceiro dia da primeira sessão do Conselho Municipal da Villa do Morro do Chapéo.
Correio do Sertão em matéria publicada q uando do falecimento do Cel. Dias Coelho em 1919.
17
Acta da secção extraordinária do dia dez de Agosto de 1914
16
Ao contrário, a primeira gestão de Souza Benta pode ser apenas considerada com o
normal, sem grandes diferenças para os demais intendentes. A partir de 1920, no entanto, ele
passa a “incorporar” o sucessor do cel. Dias Coelho e isto, sem dúvida, foi um elemento
fundamental na configuração de sua imagem pessoal e política no município. Neste sentido,
Dias Coelho foi a sua “família” e lhe conferiu atributos inexistentes até então.
Por fim, algo também marcante nestas querelas, foi que em grande parte das vezes
quando Morro do Chapéu esteve à beira de um caos político, quando tudo indicava e sugeria
uma atitude enérgica, violenta, pondo em ação seus “cabras”, por parte de um ou outro
coronel, as atitudes destes surpreendiam praticamente a todos. Se o cel. Manoel Quirino era o
grande braço armado de Horácio de Matos durante a décad a de 1920 e se este próprio
configurava um dos braços armados de Dias Coelho, ao lado do cel. Souza Benta , ambos
jamais entraram em ação efetivamente em Morro do Chapéu. A gestão de Dias Coelho foi
marcada por atuar de forma aparentemente pacífica, sem deno tar, em momento algum ,
expressões de uso da força de que na verdade dispunha , e que estavam concentradas
principalmente nas brenhas do Martin Afonso 18. Até o momento, nenhuma documentação foi
encontrada indicando o contrário.
Contudo, o momento mais curioso ocorreu após as eleições de 1923, que segundo o
Correio do Sertão de 18 de novembro daquele ano, foram vencidas pel o cap. José Martins de
Araújo, para o cargo de intendente, enquanto, mais uma vez, o Conselho Municipal, quase na
sua totalidade, ficou composto por partidários do cel. Souza Benta.
O cel. Dourado Filho , descontente, entrou com uma petição junto ao senado baiano e
requereu a anulação do pleito eleitoral . Obteve sucesso com a decisão quase unânime do
Senado da Bahia em 27 de maio de 1924 , quando seu anseio foi acatado. Malgrado todas as
alegações vindas à baila no tocante à ilegalidade de tal recurso, o que se viu foi à ascensão do
grupo político liderado pelo cel. Dourado Filho, que em 25 de junho de 1924, sob a égide do
emissário do governo , o tenente João Bernardino de Macedo, teve empossado todo um
Conselho Municipal, além do professor Faustiniano Lopes R ibeiro como novo Intendente .
Sabe-se que em meio a essa situação embaraçosa os “cabras” de Souza Benta estavam
de prontidão nas brenhas do Martim Afonso, e que esse contava ainda com a forte ajuda do
temido Manoel Quirino. Com o cenário de guerra armado, ele então mandou um recado um
18
Propriedade de Souza Benta, localizada no município de Morro do Chapéu, de onde o velho Coronel
retirava diamantes para comercializar, e onde f uncionava uma espécie de quartel general seu e de seus
“cabras”.
tanto intimidador ao Dourado, dando -lhe três dias para abandonar Morro do Chapéu 19. Esse
episódio é ratificado em entrevista com o Sr. Arnaud Rocha em abril de 2002, quando esse
afirma citando o cel. Souza Benta – “Desculpe, Morro do Chapéu não lhe quer mais ”, fato
confirmado por Dona Julina Dourado Lima, prima de Teotônio.
Dourado Filho empenhou-se em buscar, junto às forças legais da capital e através de
seus vínculos junto ao governo, os meios necessários para garan tir a posse dos Conselheiros e
Intendente. E foi sob a intercessão de seu primo e comandante da Força Pública do Estado da
Bahia, o cel. Terêncio Dourado – que conseguiu junto ao governador Góes Calmon a vinda de
forte aparato policial que garantiu a posse de Faust ianiano Lopes Ribeiro e dos conselheiros
municipais. Sentindo que nada mais poderia fazer sem que se prejudicasse, e aconselhado
pelo cel. Horácio de Matos que tentou mediar a situação junto ao governo do estado, o cel.
Souza Benta teve de assistir todas a s ações praticadas pelo Tenente Macedo, caboclo de
‘“sangue forte” e de atitudes francas e decididas ” (CUNEGUNDES, 1989) . Muito
provavelmente Benta dispunha de aparato suficiente para correr com os homens de Macedo ,
principalmente contando com o reforço de Manoel Quirino, no entanto, não o fez, como
expressou o Correio do Sertão, justificando que Benta agiu para o bem da paz e da
tranqüilidade de Morro do Chapéu.
Podem os rotulados, nomeados e intitulados pelo Senado illegalmente
tomarem posse daquillo que não lhes pertencem quando bem quizerem e
entenderem, porquanto illegalmente, illicitamente, por obra e graça da
politicalha reles, surgiram do mais feio conluio e indecente conciliabulo, E...
para frente o regime da illegalidade. 20
Posteriormente, Souza B enta ainda lutaria por meios legais e retornaria ao poder. Mas
o fato de hesitar, quando do uso d a força bruta, não necessariamente quer dizer abdicar da
violência. Na verdade , isso está configurado num cenário igualmente arbitrário, porém repleto
de sutilezas e de nuances que denotam muito provavelmente a preocupação com a imagem.
Este foi sem dúvida um dos grandes artifícios do cel. Dias Coelho e sem dúvida algo que o
Benta pôs em prática.
Esta preocupação deveu -se, provavelmente, em função dos efeitos co laterais do uso da
força, principalmente com relação ao seu reflexo no seio da sociedade. Também não foram
aleatórios ou casuais os esforços do Correio do Sertão em tentar explicar a decisão de Souza
19
Isabel Figueredo, afirmava, baseada em suas memórias, que no episódio da saída de thiozinho, o Benta
teria lha dado um prazo de três dias para abandonar de vez Morro do Chapéu.
20
Correio do Sertão, 22 de junho de 1924, nº 363. p. 01
Benta, afirmando que “podem os rotulados, nomeados e int itulados pelo Senado illegalmente
tomarem posse daquillo que não lhes [pertenciam] ” acusando que poderiam seguir em frente
com o “regime da ilegalidade ”.21
Finalmente, o mandonismo, mais especificamente na pessoa dos coronéis, não dist am
muito dos outro s fenômenos políticos de outras épocas e locais. A História , mostra em muitos
de seus capítulos , que o poderio armado funciona também como um símbolo como tantos
outros em meio ao aparato político , afinal, ninguém “imagine, entretanto, que entre o coronel
e o simples eleitor impere a brutalidade, com o bacamarte engatilhado contra o rebelde
potencial”, pois o chefe político é, “acima de tudo, um compadre ” (FAORO, 2004, p. 634) ,
preocupado em se manter no poder, mas imerso na clamaria e na tranqüilidade, de form a
estável e sossegada, enquanto possível.
Referências
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1995.
CUNEGUNDES, Jubilino. Morro do Chapéu : um pouco de sua história, sua vida político administrativo, suas belezas e sua gente Salvador: Empresa Gráfica da Bahia -EGBA, 1989.
DA SILVA, Célia Nonata da Silva. Territórios de mando : banditismo em Minas Gerais,
Século XVIII. Belo Horizonte: Crisálida, 2007.
FAORO, Raimundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. 2
volumes. 16 ed. São Paulo: Globo, 2004
GUIMARÃES, Tolentino Oliveira. Reminiscências e Inspirações . Morro do Chapéu: Gráfica
Veloz, 2001.
LAFER, Celso. O significado de República. Estudos Históricos. Vol. 2, n. 4 1989.
MURITIBA, Itamar Reis, et al. O coronelismo na Chapada Diamantina e Piemonte (1880 1930). Jacobina: UNEB, 1997.
NEVES, Erivaldo Fagundes. Uma comunidade sertaneja: da sesm aria ao minifúndio . Feira
de Santana: UEFS, 1998.
PANG, Eul-Soo, Coronelismo e Oligarquias. (1889 -1934). A Bahia na Primeira República
Brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979.
21
ibidem
QUEIROZ, Maria Izaura Pereira de. O mandonismo local na vida política brasileira e outros
ensaios. São Paulo: Alfa -Omega, 1976.
SILVA, Paulo Santos. Âncoras de tradição : Luta política, intelectuais e construção do
discurso histórico na Bahia (1930 -1949). Salvador: EDUFBA, 2000.
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Jedean Gomes Leite