IV ENCONTRO ESTADUAL DE HISTÓRIA - ANPUH-BA HISTÓRIA: SUJEITOS, SABERES E PRÁTICAS. 29 de Julho a 1° de Agosto de 2008. Vitória da Conquista - BA. EMERGENTES E FAMILIOCRÁTICOS 1: O CORONELISMO E ALGUMAS PECULIARIDADES DE UM CASO DE POLÍTICA LOCAL Jedean Gomes Leite Mestrando em História pela Universidade Estadual de Feira d e Santana (UEFS) E-mail: [email protected] Palavras-chave: Poder. Família. Política. Mandonismo. Nos estudos sobre mandonismo 2, algumas idéias são bastante comuns de serem notadas, fazendo menção ao uso da violência física no intuito da manutenção ou da conquista do poder político. A presença constante dos “cabras 3” ou jagunços, o chamado voto de cabresto e até mesmo conflitos armados envolvendo dois ou mais mandões são fatos comuns quando se pensa na realidade política do Brasil nas primeiras décadas da república. Outras características referem -se à própria estrutura que es tava montada por trás daqueles homens conhecidos como coronéis. O ranço familiocrático, muito comum nos esforços dinásticos desses chefes locais, por exemplo, quase sempre figura, quando não é elemento principal, nos estudos sobre a política da época. É verdade que esses homens, através dos recursos econômicos de que dispunham, mantinham outros ao seu redor em número de dezenas, ou até centenas, “armados até os dentes”, com seus bacamartes, como no sul do Brasil, ou entupindo os velhos “papo amarelos” como foi comum no sertão da Bahia, ostentando suas forças, no intuito de intimidar adversários ou de angariar respeito perante a população em geral. É verdade que estes senhores ameaçaram, até invadiram e tomaram cidades inteiras através da força, às vezes até sem fazer uso efetivo dela. É verdade ainda que grupos inteiros articulavam -se em torno de 1 Este termo, embora não conste e m alguns dicionários da língua portuguesa, como os dicionários Aurélio e Houaiss, é empregado em alguns estudos sobre o mandonismo ou coronelismo , para designar a influencia da estrutura familiar na organização das oligarquias brasileiras. 2 Aqui entendido de forma genérica como a existência de estrutura oligárquica e personalizada de poder. O mandonismo é aqui a denominação utilizada para as práticas do chefe local, do mandão, ou mesmo do coronel no período anterior à Proclamação da República e posterior à década de 1930. O Coronelismo é, por sua vez, o termo utilizado pra se referir ao sistema prático desencadeado com a “política dos governadores” de Campos Sales, no início do período republicano e desarticulado com o “Estado Novo” e a prisão dos grandes c oronéis, principalmente na Bahia, em meados da década de 1930, no qual o mandonismo dos chefes locais era o ponto de partida para a compreensão do sistema. Um dos motivos para isso é chamar a atenção para o elo que o elemento central, o poder estadual, man tinha, com o poder federal e os poderes locais nesse recorte de tempo. 3 A utilização do vocábulo “cabras” aqui é proposital e tem um “porque”, não se trata apenas de dar características regionais ao texto, ao substituir um vocábulo um tanto mais comum co mo jagunço por exemplo. Etimologicamente jagunço é quem manipula o zaguncho, uma arma de fogo com extremidade pontiaguda, este é antes de tudo um mercenário. Os “cabras”, entretanto possuíam um vínculo maior com o coronel, não eram profissionais, geralment e eram trabalhadores do coronel em suas fazendas ou nos garimpos como no caso da Chapada Diamantina, mas eles estavam sempre a dispostos utilizar seus papo-amarelos tão logo fosse necessário. Alguns deles freqüentavam até mesmo a própria residência do coro nel, eram homens de sua confiança uma família que, por sua vez, normalmente dispunha de vantajosa condição financeira e tradição política em sua região. Entretanto, artifícios não tão comuns e mais c omplexos que simplesmente munir homens com rifles ou espingardas foram utilizados como mecanismos de dominação, ou estrutura de composição de grupos políticos, que não abdicavam de um braço armado, porém priorizavam ações que desgastassem o mínimo possível as imagens daqueles que estavam por trás das “manobras” políticas em dado lugar. Ao mesmo tempo, grupos emergiam econômica, política e socialmente, sem o legado familiar e sem sobrenomes que os representassem. Este conciso artigo, originado a partir dos primeiros resultados da pesquisa desenvolvida durante o mestrado, quando o foco era algumas questões de confrontos políticos na pequena Morro do Chapéu 4, precisamente nas três primeiras décadas do século XX, tenta mostrar outro lado da política dos coronéi s no alto sertão baiano. Primeiro analisar os elementos das relações de parentela que visava m principalmente à perpetuação de dada família no poder e que é ali deixada à margem, nos desdobramentos das relações clientelistas. Depois, observar as atitudes di ferentes das investidas armadas ou do controle coercitivo durante os períodos de sufrágio ou de grandes confrontos políticos. Entretanto não é pretensão desse texto, abordar todos os elementos dos dois eixos propostos. O que se tentará mais a frente é contribuir para a noção de que a política dos coronéis foi além de agrupamentos fechados em torno de um sobrenome e suas práticas foram mais astutas e diversas que a coerção e uso da força. Desde as ultimas décadas do século XIX naquela pacata cidade , percebe-se um grupo político articulado em torno de um nome bastante conhecido naquela região, os Dourado . De outro lado, outro grupo integrado por indivíduos que emerg iram política e economicamente por meio do tino comercial , inicialmente como atravessadores e depois como proprietários de garimpos e chefes de negociações diretas com companhias européias como a firma parisiense Levy de minérios, com quem o cel. Francisco Dias Coelho 5 parece ter estabelecido uma estreita relação. De acordo com o Sr. Marcio Brito 6, já em 1914, “ Dias Coelho já era uma pessoa ilustre. Tinha sido convidado pela firma francesa de minérios Levy de Paris para ir à França, mas se recusou porque sabia que os negros lá não eram tratados muito bem”. Pouco tempo depois, ele é presenteado pela mesma firma com uma imagem de Nossa Senhora da 4 Município distante 384 km a noroeste da capital do estado, na zona oriental da Chapada Diamantina, e elevada a condição de vila em 1909. 5 Líder político, descendente de ex -escravos e comerciante, que durante a década de 1910, galgou a centralidade do poder local. 6 Márcio Brito, funcionário da Biblioteca municipal e do Centro Cultural Judith Arlego em Morro do Chapéu. Soledade “medindo dois metros, que até hoje está na capela situada ao lado de onde foi sua residência, hoje ‘Parque da Soledade ’”. Muito provavelmente, outros coronéis, também mantinham algum tipo de vínculo c om a mesma firma. Ambos os grupos tinham preocupações de manter tropas, nem sempre, entretanto, colocando em ação seu “braço armado”. Antes, no entanto, de tentar entender estes fatos um tanto peculiares, faz-se necessário um olhar panorâmico, sem pretensões de aprofundamento, sobre o contexto político nessa localidade, para se entender como esses dois grupos funcionavam. A partir do início da década de 1920, Morro do Chapéu passou a viver um dos mais conturbados, talvez o mais sério, momento político de su a história. Deusdedith Dias Coelho não demonstrou a mesma habilidade política de seu pai o cel. Francisco Dias Coelho, falecido em 1919. Este havia colocado, em meados da década de 1910 , todas as grandes lideranças políticas em torno de si . O jovem médico, no entanto, não parece ter logrado sucesso à frente da política local. Diante da situação, dois outros nomes emerg iram como possíveis sucessores do antigo coronel : Antonio de Souza Benta e Teotônio Marques Dourado Filho. Curiosamente, embora tivessem surgido para a política através de caminhos distintos, um através do “laço” familiar e outro através da emersão econômica, ambos chegaram a possibilidade de liderança local a partir do cel. Dias Coelho e do período de calmaria política por ele conquistado em m eados da década de 1910, quando colocou em torno de si todas as principais lideranças políticas locais. Souza Benta e Dourado Filho posicionaram-se em condições diametralmente opostas em suas articulações em busca de ocupar uma posição de poder. Essa querela política instaurada após a morte de Dias Coelho, tudo indica, foi, em resumo, uma tentativa dos Dourado de retornar ao executivo municipal após 23 anos, período em que estiveram à margem dos grandes postos políticos, em função da forte articulação de um grupo que revezava seus membros na intendência local. Desde Herculano da Silva Dourado, tio de Dourado Filho , nenhum outro membro da família teve a oportunidade de liderar politicamente a região. Em consulta as atas da câmara municipal do período, os nomes que teriam passado pela intendência municipal foram: Pedro Celestino Barbosa 1 900-1903, Antonio de Souza Benta 1904 -1907, Deocleciano Barreto de Araújo 1908 -1911, Francisco Nery Batista 1909 -1910 e Francisco Dias Coelho 1911-1919. Segundo essas atas, o Sr. Francisco Nery Batista assum iu a intendência já em 1909 de forma interina, provavelmente por causa das más condições de saúde d o cel. Deocleciano Barreto de Araújo. O mesmo acontece u com Dias Coelho em 1911, sendo eleito naquele mesmo ano para exercer o cago definitivamente , quando “depois de tudo bem discutido e examinado e concluída a votação, o Presidente [do conselho municipal] proclamou eleito Intendente Coronel Francisco Dias Coelho ”7. Ainda nos tempos de interino, o cel. Dias Coelho governou como titular do cargo, promovendo modificaç ões em Morro do Chapéu, tanto em suas obras como gestor, como na própria conjuntura política local . Ao assumir os destinos políticos do município, o cel. Dias Coelho, comerciante de diamantes e carbonato 8 - de maneira hábil consegue aglutinar em torno de si as facções políticas predominantes na época e remanescentes do Império: os liberais que estiveram sob a égide de José Florêncio de Miranda Bagano - cunhado e homem de confiança do cel. Quintino da Rocha Cezar, figur a de importância no cená rio político de Morro do Chapéu, todavia, carente e merecedora de estudo mais apurado . No outro extremo os conservadores, personificados na pessoa do cel. Porfírio Pereira de Souza - homem forte no Arraial de Ventura e desafeto político do velho cel. Quintino. No cruzamento de informações de entrevistas, documentos da época e edições do “Correio do Sertão”, deduziu-se que em linha direta de sucessão política, os “Dourado” em primeiro momento liderados por Herculano da Silva Dourado, um dos patriarcas da família e ex-intendente de Morro do Chapéu – 1894/1897, e depois sob o comando do cel. Teotônio Marques Dourado Filho, seguiram a orientação política de Porfírio Pereira. Já os antigos liberais e descendentes, após o período de mando do Major Pedro Celestino Barbosa, padrinho político 9 do então jovem Dias Coelho, trilh aram o caminho polític o de José Florêncio Bagano e de Pedro Celestino, até 1919, conduzidos pelo cel. Dias Coelho. Também durante todo o período posterior à gestão de Herculano Dourado, e embora nas atas constem nomes como Antonio da Silva Dourado Junior e do próprio Teotônio Marques Dourado Filho entre os membros do conselho municipal, nenhum membro dessa família, a exemplo do que aconteceu com a intendência, 7 ocupou sua presidência. Acta especial para verificação de poderes dos diplomados na Eleição Municipal que tem lugar no dia 12 de Novembro do corrente anno de mil novecentos e onze. (Transcrito utilizando -se a grafia da época) 8 Diamante preto, de extrema dureza, sem o mesmo valor da pedra original, porém de muita importância comercial na época pelo uso exclusivamente industrial; também conhecido como Carbonado ou lavrita. 9 Faz-se necessário chamar a atenção para o termo utilizado aqui “padrinho político”, como forma de reparar inúmeros equívocos que vem sendo cometidos no ato de denominar o Major Pedro Celestino Barbosa como legítimo padrinho de batismo do Cel. Dias Coelho, uma vez que nas pesquisas realizadas, ficou constatado o seguinte: Aos vinte e cinco dias de dezembro de 1864 nesta matriz de Nossa Senhora da Graça do Morro do Chapéu, batizei solenemente e pus os santos óleo s a Francisco, pardo, nascido a 03 do referido mês e ano filho legitimo de Quintino Dias Coelho e Maria da Conceição Dias Coelho. Foram padrinhos Quintino de Souza Lobo e sua mulher Delfina de Souza Lobo. Vigário José Inácio Vasconcelos. Referencias: Livro de assentamento de batismo da Freguesia de Nossa Senhora da Graça Morro do Chapéu de 1860 a 1865. Pg. 159/2 o parágrafo. Arquivo da Paróquia. Portanto, o uso do termo “padrinho político” tem o sentido apenas de que Pedro Celestino foi, na verdade, a pessoa que inicia o Cel. Dias Coelho no cenário político morrense. Provavelmente, isso aconteceu por dois motivos um tanto óbvio s. Primeiro, o posicionamento político conservad or típico de seu partido, em relação ao partido republicano, outro porque em caso de problemas de saúde do intendente, a exemplo do que ocorreu em 1909, o presidente do conselho assumiria o posto de intendente municipal , algo que pareceu ser evitado pelos intendentes nas primeiras duas décadas do século XX . Contudo, o fato que denota melhor a falsa aliança entre os Dourado e o grupo naque le momento liderado por Dias Coelho é a fracassada tentativa de emancipação do Ventura , de forte influência dos conservadores, com o foi dito, personificados na pessoa do cel. Porfírio Pereira de Souza. Assim , percebe-se o papel importante deste arraial med iante a conjuntura política e econômica. Embora pequeno, o Ventura era umas das principais fontes de riqueza para o município, especialmente para o próprio Dias Coelho. Ali se concentr aram as principais fontes de extração do Carbona to10. Ali, também, os principais focos de oposição a sua gestão se fizeram presentes. A situação ainda se agravou pelo motivo do então Cel. Dias Coelho não ter honrado o compromisso de emancipar o Ventura em 1914. Assim, a separação do arraial em relação ao município de Morro do Chapéu teria diretamente várias implicações. No viés econômico, tanto o município quanto o próprio coronel seriam prejudicados . O município perderia definitivamente toda a riqueza que o carbonato, ali abundante, garantia. Dias Coelho, por sua vez, embora ma ntivesse a propriedade das terras mesmo com a separação, teria dificuldades em extrair livremente o minério e negociá -lo livre e diretamente com a França, pois o Cel. Dias Coelho “era capitalista, grande fazendeiro, alto comprador de carbonatos de diamante s para a firma Levy, de Paris”. (CUNEGUNDES,1999 , p. 32) Como não bastasse, a emancipação significaria também entregar, “de mão beijada”, o principal distrito a líderes políticos que eram verdadeiros desafetos políticos seus. Assim, o Ventura jamais conqui stou sua autonomia . Em entrevista com o Sr. Carlos Navarro este afirmou que: Dias Coelho, então, convo cou uma reunião, e promete, no V entura, trazer a independência. Quando pois, a comissão do Ventura veio aqui a Morro do Chapéu tratar [...] dos acertos políticos, o Coronel Dias Coelho já tinha mudado de idéia e resolveu não receber a comissão. Era Guilherme Dutra, sobrinho do primeiro juiz de Direito de Morro do Chapéu; Joaquim 10 Diamante preto, de extrema dureza, sem o mesmo valor da pedra original, porém de muita importância comercial pelo uso exclusivamente industrial; também conhecido como carbonado ou lavrita. Modesto, que era primo de...; e o outro e um outro que no momento não estou me lembrando 11. Em verdade, a parti r daí, e mesmo depois, com a liderança de Souza Benta , grande parte dos investimentos no Ventura foram cerceados, muito provavelmente no intuito de “minar” as condições de autonomia do lugar. É o que sugere ainda o Sr. Navarro: ...daí começou a perseguição política... começaram a tirar escolas do Ventura, tiraram também Correio. Entendeu? Abandonaram mesmo o lugar. Bem, aí, com a seca de 32, né, e com a baixa [do preço] do carbonado, aquele pessoal que tinha mais dinheiro , os ricos, sobreviveu e foi embora para Salvador e outros lugares. E o Ventura entrou em decadência 12. Esse foi um dos mais fortes argumentos utilizado s por Dourado Filho, na querela com Benta e Dias Coelho . A partir de então passou a investir e m angariar alianças naquela localidade, usufruindo deste incidente político. Teozinho, o cel. Teozinho, que era Teotônio, com o Herculano Dourado em América Dourada, tinham brigado com o Dias Coelho e vão então no Ventura acertar com o meu pai e Louro Barão, pra f azer frente há Dias Coelho aqui no município, fazer política. Aí começou a luta 13. Se no cenário baiano daqueles idos pôde-se afirmar que se era “seabrista ou anti seabrista” (TEIXEIRA, 1988), em Morro do Chapéu ou se era Coques ou se era Memés, como um reflexo da rixa política estadual nessa localidade da Chapada Diamantina. Sendo os Coques a denominação dada aos partidários do cel. Dias Coelho e do cel. Souza Benta, segundo depoimentos de pessoas da época, em alusão a coqui, o pássaro preto, em função da cor de muitos dos coronéis do grupo que a partir do advento do chamado Pacto de Lenções, passou a ter a simpatia dos opositores de J. J. Seabra ; e Memés a denominação dada aos partidários do cel. Dourado Filho, porque os Dourado eram de pele branca, muitos com olhos e cabelos claros, numa alusão ao carneiros de alva lã. Estes, por sua vez, conquistaram gradativamente o apoio do governo do estado, tendo inclusive, alguns membros da família, ligados diretamente a ele. 11 Filho de João Navarro, aliado político dos Dourado, que na época teve um papel de importância na política de Morro do Chapéu, e vivia no arraial de Ventura, em entrevista realizada 08 de jane iro de 2002, em sua residência. 12 Ibidem 13 Ibidem Compreendido o panorama da época, resta a gora passar a observar algumas características um tanto particulares des se evento político no sertão baiano. O primeiro ponto a se considerar é a relação entre a política e a família, ou seja, a estrutura de parentela, ou mesmo de parentesco, uma vez que em muitos casos esse vínculo transcendia o laço sanguíneo, o qual, nos estudos sobre mandonismo , é praticamente uma regra no que tange as práticas coronelistas. Em geral, o coronel era o chefe de uma família que aglutinava em torno de si fortes lideranças políticas. As agremiações políticas se formavam então a partir de “indivíduos reunidos entre si por laços de parentesco carnal, espiritual (compadrio), ou de Aliança (uniões matrimoniais)” (QUEIROZ, 1985, p.164 ). Neste sentido, os laços de parentesco não se limitavam a formas de aglutinação política, era m também uma forma de não ver fragmentada toda a riqueza da família. Em resumo a familiocracia era sem dúvida uma forma de se manter um nome, nesse caso o Dourado, no poder, manifestando-se através de ações políticas e econômicas. De forma bastante feliz , afirmou Eul-Soo Pang que a maioria dos coronéis brasileiros enquadrava-se na categoria de oligarquia familiocrática . Segundo ele “a participação numa oligarquia [...] incluía a família em si, pessoas da mesma linhagem, parentes por afinidade, afilhados de batismo ou de casamento ” (PANG, 1979, P. 40). A figura do cel. Dourado Filho surge como aquele que aspirou aquela condição através de uma gama de capitais constituídos historicamente, principalmente através da herança de família. Seu tio, Herculano Dourado, ainda presente no contexto político nos primeiros anos do século XX, havia sido o último Dourado intendente no município, seu pai Teotônio Marques Dourado mantinha forte sua liderança política na região de América Dourada e de Caraíbas – hoje Irecê –, reduto da família Dourado até os dias atuais. Não há, portanto, como negar a influência da família no processo de manutenção do poder. Não é essa a pretensão aqui. Cabe inclusive, uma pequena pontuação teórica sobre as famílias e a tendência que t êm a perpetuar seu ser social. A própria sociologia sugere que: As famílias são corpos ( corporate bodies) animados por uma espécie de conatus, no sentido de Spinoza, isto é, uma tendência a perpetuar seu ser social, com todos seus poderes e privilégios que é a base das estratégias de reprodução, estratégias de fecundidade, estratégias matrimoniais, estratégias de herança. (BOURDIEU, 1996:35 -36) Entretanto, foi esta a qualidade que dif erenciou o cel. Souza Benta do seu rival. Nos estudos acerca das relações e da imagem política produzidas em Morro do Chapéu, tudo leva a crer que o legado do cel. Dias Coelho, após sua morte, recai u sobre o cel. Souza Benta. Este, tal como seu antecessor e mui tos outros de seu grupo, alé m da origem negra, não dispôs de herança familiar que lhe garantisse uma condição de mando na política local. Em outras palavras, pode -se dizer que a sua herança familiar não era constituída de capitais econômico, social ou cultural, tão pouco simbólico, suficiente para garantir seu acesso e permanência em determinada posição no campo político local . Definitivamente não foi a família que lhe garantiu status, nem lhe lançou na vida política. Grande parte do prestígio e de suas qualidades foram “tomadas” por empréstimo de seu antigo e já falecido amigo, de que m era homem da maior confiança. Ao assumir publicamente a intenção de dar continuidade aos trabalhos de Dias Coelho, e ao ser denominado sucessor legítimo do antigo coronel pelos seus partidários e por parte da imprensa local, as características mais notórias são transladados para Souza Benta, combinando elementos simbólicos que se configuraram a partir do ausente , em algo tão presente quanto sua própria pessoa. Associado a isto, o capital simbólico próprio e já possuído, que se sintetizou a partir de sua ascensão econômica e de seus laços sociais e culturais oriundos de sua int ensa vida política desde os fins do século XIX . É certo que Souza Benta foi quem primeiro emergiu para ocupar o posto outrora de s eu amigo. Entretanto, parece existir ai um elemento contraditório. Baseando-se mais uma vez nas atas da câmara municipal do município, pode -se notar que Souza Banta passou pela presidência do Conselho Municipal e ocupou a intendência municipal, num momento em que Dias Coelho não passava de um mero tabelião, embora antes, em 1899 já tivesse tentado a intendência, obtendo o fracasso após uma massacrante derrota frente ao cel. Pedro Celestino Barbosa, pois quando se procedeu com a apuração de todas as urnas foi divulgado o resultado final da eleição, tendo “ o Major Pedro Celestino Barboza, 495 votos ” enquanto “o tententecoronel Francisco Dias Coelho ” obteve apenas a ínfima quantia de “76 votos”.14* No mesmo ano encontram -se referencias freqüentes em uma ou outra ata, que quase sempre, depois de lida, aprovada e assinada pela junta apuradora, eram “transcripta no livro do tabellião Tenente Coronel Francisco Dias Coelho ”, posição na qual permaneceria por mais 14 Acta especial da Junta Municipal apuradora desta Villa do Morro do Chapéo para se proceder apuração das Eleições dos membros do Conselho Municipal do Intendente da Junta Administrador Districtal e dos Juizes de Paz. *Em todas os fragmentos retirados do Correio do Sertão, de atas da câmara municipal ou de quaisquer documentos da época em questão, foi mantida a grafia original. algum tempo. No ano de 1904, ele recebe o cargo de tesoureiro e contador municipal, justamente pelo cel. Souza Benta, quando: O segundo Secretário Capitão Luiz Cassiano de Araújo Costa procedeu a leitura do expediente, passou a ler um officio do Intendente Municipal Tenente Coronel Antônio de Souza Benta, em o qual communicava que em data de dez do mez transacto havia dispensado do cargo de Thesoureiro e Contador o Capitão José Tibúrcio Guimarães por ter sido este eleito Juiz da Paz deste Districto, e que havia nomeado para exercer as funcções do alludido cargo o Coronel Francisco Dias Coelho, solicitando a aprovação do Conselho 15. Assim, num primeiro momento, parece -se incorrer um equívoco ao se afirmar que o legado de Dias Coelho foi primordial para a ascensão política de Souza Benta na Morro do Chapéu da década de 1920. Porém, isso começa a fazer sentido ao se perceber que a passagem de Dias Coelho a frente da política local diferenciou -se das demais, a ponto de receber o tratamento de “estrela de primeira grandeza da política morrense” 16. Outra coisa que re força esta idéia e que não deve ser esquecid a é o fato de em sua gestão, Dias Coelho conseguir praticamente anular as investidas da oposição e colocá-la em torno de si. Mesmo as força s políticas do ventura, pouco pu deram fazer nos momentos fundamentais, sendo aliadas do cel. Dourado Filho, que não tinha muita simpatia pela situação, apenas calaram-se diante da vontade do então intendente. Depois de tudo descutido devidamente o Conselho verificou que pelas informações tomadas a respeito da alludida reunião tornou-se ela de um caráter político e não de patriotismo daqueles habitantes por uma pequena facção política que illudio a boa fé dos habitantes d'aquelle Districto. Pelo que o Conselho resolveu declarar francamente que presentemente o Arraial do Ventura não se acha nas condições de ser elevado a categoria de Vila, visto não preencher as formalidades preescritas no Art. 8° da Lei 478 de 30 de setembro de 1902 ...17 Até aí tudo normal, se entre os membros do conselho não constasse o nome de Teotônio Marques Dourado Filho. Assim, tudo leva a crer que, embora a ascensão política de Souza Benta tenha sido anterior a de Dias Coelho, este , quando à frente do município, obteve tal concentração de alianças e grau de relações com praticamente todos os políticos, que se colocou distante de ser apenas mais um intendente na localidade. 15 Acta de 17/02/1904, terceiro dia da primeira sessão do Conselho Municipal da Villa do Morro do Chapéo. Correio do Sertão em matéria publicada q uando do falecimento do Cel. Dias Coelho em 1919. 17 Acta da secção extraordinária do dia dez de Agosto de 1914 16 Ao contrário, a primeira gestão de Souza Benta pode ser apenas considerada com o normal, sem grandes diferenças para os demais intendentes. A partir de 1920, no entanto, ele passa a “incorporar” o sucessor do cel. Dias Coelho e isto, sem dúvida, foi um elemento fundamental na configuração de sua imagem pessoal e política no município. Neste sentido, Dias Coelho foi a sua “família” e lhe conferiu atributos inexistentes até então. Por fim, algo também marcante nestas querelas, foi que em grande parte das vezes quando Morro do Chapéu esteve à beira de um caos político, quando tudo indicava e sugeria uma atitude enérgica, violenta, pondo em ação seus “cabras”, por parte de um ou outro coronel, as atitudes destes surpreendiam praticamente a todos. Se o cel. Manoel Quirino era o grande braço armado de Horácio de Matos durante a décad a de 1920 e se este próprio configurava um dos braços armados de Dias Coelho, ao lado do cel. Souza Benta , ambos jamais entraram em ação efetivamente em Morro do Chapéu. A gestão de Dias Coelho foi marcada por atuar de forma aparentemente pacífica, sem deno tar, em momento algum , expressões de uso da força de que na verdade dispunha , e que estavam concentradas principalmente nas brenhas do Martin Afonso 18. Até o momento, nenhuma documentação foi encontrada indicando o contrário. Contudo, o momento mais curioso ocorreu após as eleições de 1923, que segundo o Correio do Sertão de 18 de novembro daquele ano, foram vencidas pel o cap. José Martins de Araújo, para o cargo de intendente, enquanto, mais uma vez, o Conselho Municipal, quase na sua totalidade, ficou composto por partidários do cel. Souza Benta. O cel. Dourado Filho , descontente, entrou com uma petição junto ao senado baiano e requereu a anulação do pleito eleitoral . Obteve sucesso com a decisão quase unânime do Senado da Bahia em 27 de maio de 1924 , quando seu anseio foi acatado. Malgrado todas as alegações vindas à baila no tocante à ilegalidade de tal recurso, o que se viu foi à ascensão do grupo político liderado pelo cel. Dourado Filho, que em 25 de junho de 1924, sob a égide do emissário do governo , o tenente João Bernardino de Macedo, teve empossado todo um Conselho Municipal, além do professor Faustiniano Lopes R ibeiro como novo Intendente . Sabe-se que em meio a essa situação embaraçosa os “cabras” de Souza Benta estavam de prontidão nas brenhas do Martim Afonso, e que esse contava ainda com a forte ajuda do temido Manoel Quirino. Com o cenário de guerra armado, ele então mandou um recado um 18 Propriedade de Souza Benta, localizada no município de Morro do Chapéu, de onde o velho Coronel retirava diamantes para comercializar, e onde f uncionava uma espécie de quartel general seu e de seus “cabras”. tanto intimidador ao Dourado, dando -lhe três dias para abandonar Morro do Chapéu 19. Esse episódio é ratificado em entrevista com o Sr. Arnaud Rocha em abril de 2002, quando esse afirma citando o cel. Souza Benta – “Desculpe, Morro do Chapéu não lhe quer mais ”, fato confirmado por Dona Julina Dourado Lima, prima de Teotônio. Dourado Filho empenhou-se em buscar, junto às forças legais da capital e através de seus vínculos junto ao governo, os meios necessários para garan tir a posse dos Conselheiros e Intendente. E foi sob a intercessão de seu primo e comandante da Força Pública do Estado da Bahia, o cel. Terêncio Dourado – que conseguiu junto ao governador Góes Calmon a vinda de forte aparato policial que garantiu a posse de Faust ianiano Lopes Ribeiro e dos conselheiros municipais. Sentindo que nada mais poderia fazer sem que se prejudicasse, e aconselhado pelo cel. Horácio de Matos que tentou mediar a situação junto ao governo do estado, o cel. Souza Benta teve de assistir todas a s ações praticadas pelo Tenente Macedo, caboclo de ‘“sangue forte” e de atitudes francas e decididas ” (CUNEGUNDES, 1989) . Muito provavelmente Benta dispunha de aparato suficiente para correr com os homens de Macedo , principalmente contando com o reforço de Manoel Quirino, no entanto, não o fez, como expressou o Correio do Sertão, justificando que Benta agiu para o bem da paz e da tranqüilidade de Morro do Chapéu. Podem os rotulados, nomeados e intitulados pelo Senado illegalmente tomarem posse daquillo que não lhes pertencem quando bem quizerem e entenderem, porquanto illegalmente, illicitamente, por obra e graça da politicalha reles, surgiram do mais feio conluio e indecente conciliabulo, E... para frente o regime da illegalidade. 20 Posteriormente, Souza B enta ainda lutaria por meios legais e retornaria ao poder. Mas o fato de hesitar, quando do uso d a força bruta, não necessariamente quer dizer abdicar da violência. Na verdade , isso está configurado num cenário igualmente arbitrário, porém repleto de sutilezas e de nuances que denotam muito provavelmente a preocupação com a imagem. Este foi sem dúvida um dos grandes artifícios do cel. Dias Coelho e sem dúvida algo que o Benta pôs em prática. Esta preocupação deveu -se, provavelmente, em função dos efeitos co laterais do uso da força, principalmente com relação ao seu reflexo no seio da sociedade. Também não foram aleatórios ou casuais os esforços do Correio do Sertão em tentar explicar a decisão de Souza 19 Isabel Figueredo, afirmava, baseada em suas memórias, que no episódio da saída de thiozinho, o Benta teria lha dado um prazo de três dias para abandonar de vez Morro do Chapéu. 20 Correio do Sertão, 22 de junho de 1924, nº 363. p. 01 Benta, afirmando que “podem os rotulados, nomeados e int itulados pelo Senado illegalmente tomarem posse daquillo que não lhes [pertenciam] ” acusando que poderiam seguir em frente com o “regime da ilegalidade ”.21 Finalmente, o mandonismo, mais especificamente na pessoa dos coronéis, não dist am muito dos outro s fenômenos políticos de outras épocas e locais. A História , mostra em muitos de seus capítulos , que o poderio armado funciona também como um símbolo como tantos outros em meio ao aparato político , afinal, ninguém “imagine, entretanto, que entre o coronel e o simples eleitor impere a brutalidade, com o bacamarte engatilhado contra o rebelde potencial”, pois o chefe político é, “acima de tudo, um compadre ” (FAORO, 2004, p. 634) , preocupado em se manter no poder, mas imerso na clamaria e na tranqüilidade, de form a estável e sossegada, enquanto possível. Referências BOURDIEU Pierre. Razões Práticas: sobre a teoria da ação . 7. ed. São Paulo: Papirus , 1996. BRUNO, Deusa da Cunha. Brasil República : o jogo do poder oligárquico. Niteroi -RJ: EDUF, 1995. CUNEGUNDES, Jubilino. Morro do Chapéu : um pouco de sua história, sua vida político administrativo, suas belezas e sua gente Salvador: Empresa Gráfica da Bahia -EGBA, 1989. DA SILVA, Célia Nonata da Silva. Territórios de mando : banditismo em Minas Gerais, Século XVIII. 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