A FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES: REFLEXÕES SOBRE AS REPRESENTAÇÕES DOS ACADÊMICOS SOBRE O CURSO DE PEDAGOGIA SILVA, Nathália Delgado Bueno da - UNIFIL [email protected] Eixo Temático: Formação de Professores e Profissionalização Docente Agência Financiadora: não contou com financiamento Resumo O presente estudo teve como objetivo principal investigar a representação dos acadêmicos do Curso de Pedagogia sobre sua própria formação, buscando identificar se os mesmos conhecem as competências que são esperadas, as diretrizes, a estrutura e o funcionamento de seu próprio curso, bem como, suas expectativas frente à formação. Justifica-se a intenção do trabalho, pois consideramos que os cursos responsáveis pela formação de professores, devem se organizar de modo a propiciar aos acadêmicos uma reflexão contínua, tanto sobre os conteúdos como as metodologias desenvolvidas na sala de aula. Essa reflexão entre teoria e prática vivenciadas no processo de aprendizagem dos futuros professores os auxiliam posteriormente no exercício da profissão, já que os mesmos se convertem em referencia para sua atuação. Como metodologia optou-se pela Pesquisa bibliográfica e trabalho de campo, já que o instrumento de coleta de dados foi realizado por meio de questionário, aplicado nos alunos do Curso de Pedagogia de uma faculdade particular do município da cidade de Londrina. Os resultados da pesquisa apontam que os acadêmicos de um modo geral, conhecem as especificidades do próprio curso, sobretudo no que diz respeito a área de atuação docente formal e não formal, no entanto, ressaltaram que a grade curricular não possibilita um diálogo entre as diferentes áreas do conhecimento, desenvolvidas nas disciplinas. Outro dado importante da pesquisa aponta para a sobreposição das disciplinas ditas teóricas em relação às práticas, o que distancia o aluno de uma reflexão entre o conhecer e o fazer. Apesar dessas questões, todos os pesquisados reconhecem que a formação inicial é de extrema importância para uma melhor atuação na sala de aula. Palavras-chave: Formação Inicial. Diretrizes Curriculares. Pedagogo. Introdução Ao analisarmos as Diretrizes Curriculares para o curso de Pedagogia instituídas pelo Conselho Nacional de Educação por meio da Resolução nº 1 de 15 de maio de 2006, 4538 percebemos que além das competências esperadas para o ensino são propostas outras competências para o profissional pedagogo. Estas incluem a atuação ética, a participação na gestão das instituições, o trabalho em espaços escolares e não escolares, a realização de pesquisas e a utilização eficiente de “instrumentos próprios para construção de conhecimentos pedagógicos e científicos” (BRASIL, 2006). Deste modo, esse documento impõem uma mudança para os cursos de formação de professores no Brasil, haja vista que essa mudança não deve ficar restrita aos projetos pedagógicos desses cursos, ao contrário, ela deve acontecer no interior das instituições, nas salas de aula, por meio das ações e intenções dos docentes universitários, pois, como afirma Bireaud (apud AMARAL 2004, p. 141) o “estudante, uma vez professor, reproduzirá as práticas pedagógicas que aprendeu na Universidade, com seus formadores”. Contudo, Cortesão (2002, p. 40 apud CUNHA, 2005, p. 74) nos remete ao fato de que “os docentes universitários ensinam geralmente como foram ensinados, garantindo, pela sua prática, uma transmissão mais ou menos eficiente de saberes e uma socialização idêntica aquela de que eles próprios foram objeto”. Tal afirmativa nos levou a questionar sobre como estaria ocorrendo a formação do pedagogo nos cursos pautados pelas Diretrizes instituídas no ano de 2006. Neste sentido como problema da pesquisa questionamos: qual a representação dos acadêmicos sobre a formação que estão recebendo no curso de Pedagogia? Estariam construindo as competências esperadas para a profissionalização docente? Partindo destes questionamentos realizamos uma pesquisa exploratória em uma faculdade particular do município de Londrina, cujo objetivo foi investigar como os acadêmicos do Curso de Pedagogia têm compreendido sua própria formação, buscando identificar se os mesmos conhecem as competências que são esperadas, as diretrizes, a estrutura e o funcionamento de seu próprio curso, bem como, suas expectativas frente a formação. Justificamos a intenção do trabalho, pois assim como, Godoy (1992) ressaltamos que são necessários estudos que possibilitem um conhecimento mais profundo da visão que docentes e/ou discentes tem da sala de aula, considerando a possibilidade de aproveitamento dos resultados apresentados em projetos de melhoria do ensino e capacitação docente. Para o desenvolvimento de tal estudo, optamos pela pesquisa bibliográfica e de campo, onde optamos pelo questionário, como instrumento para a coleta de dados. Participaram da pesquisa, um total de 39 alunos matriculados nos dois últimos anos do curso de Pedagogia. 4539 Desta maneira, o este artigo divide-se em duas seções. Na primeira, buscamos contextualizar a formação de professores, por meio de levantamentos bibliográficos, apresentando um breve histórico do curso de Pedagogia no Brasil, chegando ao proposto pela Resolução CNE/CP n. 1, de 15 de maio de 2006 que instituiu as novas Diretrizes Curriculares para o curso de Pedagogia. Na segunda seção apresentamos os procedimentos metodológicos adotados e os resultados obtidos nos questionários, quantificados e analisados de modo qualitativo com base na literatura pesquisada. Breve histórico do curso de Pedagogia Frente ao contexto social da contemporaneidade, conforme Santos Neto (2002), os profissionais da educação e sua formação aparecem cada vez mais nos discursos das mais variadas lideranças - políticos, sindicalistas, empresários, dentre outros - com o mesmo objetivo: o de repensar a educação e adequá-la possibilitando condições e recursos necessários para atender uma nova demanda e uma nova totalidade social, diferente das propostas iniciais para o curso de Pedagogia. Ao traçar um histórico do curso de Pedagogia no Brasil, Brito (2006, p. 01) pontua que “nas primeiras propostas para este curso a ele se atribuiu o estudo da forma de ensinar”. O primeiro curso de Pedagogia foi regulamentado pelo Decreto-lei 1190/39, que criou a Faculdade Nacional de Filosofia, Ciências e Letras, definindo o curso de Pedagogia como lugar de formação de “técnicos em educação”. Este era destinado a professores, experientes em sala de aula, mas que precisavam assumir funções de “administração, planejamento de currículos, orientação a professores, inspeção de escolas, avaliação do desempenho dos alunos e dos docentes, de pesquisa e desenvolvimento tecnológico da educação”. (BRITO, 2006, p. 01) O curso apresentava a durabilidade de três anos, conforme o modelo 3+1 que alinhava as licenciaturas desta época e possibilitava o título de bacharel em pedagogia. Posteriormente, o profissional poderia realizar o curso de Didática que durava mais um ano e possibilitava o titulo de licenciado. O então curso de Pedagogia dissociava o campo da ciência Pedagogia, do conteúdo da Didática, abordando-os em cursos distintos e tratando-os separadamente. A dicotomia entre bacharelado e licenciatura levava a entender que no bacharelado se formava o técnico em educação e, na licenciatura em Pedagogia, o professor que iria 4540 lecionar as matérias pedagógicas do Curso Normal de nível secundário, quer no primeiro ciclo, o ginasial - normal rural -, ou no segundo. (BRITO, 2006, p. 01) Ao analisar o processo passado pelo curso de Pedagogia, de seu início ao final da década de 1990, Silva (1999, p.23) divide sua história em três períodos: 1- “Período das Regulamentações” de 1939 a 1972; 2- “Período das indicações” de 1973 a 1977, por ser um período de reestruturação do curso, projetando a sua identidade; 3- “Período das Propostas” de 1978 a 1999, no qual as discussões em torno da identidade do curso foram ampliadas. Segundo Imbernón (2006, p.95), nas reformas ocorridas no final da década de 80, “mudança” foi a palavra de ordem, contudo, esta foi pouco incorporada na prática, apesar de ter-se tornado lugar comum nas declarações públicas. As mudanças não podem ser transferidas para a realidade da formação e da prática educacional, pois para tal transposição é necessário antes, uma mudança de mentalidades, como afirma o autor: uma verdadeira mudança não pode ser proposta seriamente sem que se possua um novo conceito e uma nova mentalidade, uma nova forma de ver as ocupações sociais e a profissionalidade docente, sem definir uma nova política educativa e sem levar em conta as necessidades pessoais e coletivas do professores. Isto supõe romper certas inércias e ideologias institucionais que perduraram, ainda que parcialmente, durante muitos anos. (IMBERNÓN, 2006, p.95) Na década de 90 também foi aprovada a Lei nº 9394/96 (LDB) que institui as Diretrizes e Bases da Educação Nacional trazendo à tona as discussões em torno da formação docente. Em seu artigo 61, disposto no capítulo VI, destinado aos “profissionais da Educação”, dispõe sobre os fundamentos da formação destes (profissionais da educação), com vistas a atender os diferentes níveis e modalidades de ensino: Art. 61º. A formação de profissionais da educação, de modo a atender aos objetivos dos diferentes níveis e modalidades de ensino e às características de cada fase do desenvolvimento do educando, terá como fundamentos: I - a associação entre teorias e práticas, inclusive mediante a capacitação em serviço; II - aproveitamento da formação e experiências anteriores em instituições de ensino e outras atividades. (BRASIL, 1996) A partir deste artigo, que de forma geral explicita os fundamentos da formação de professores, são apresentados em mais seis artigos posteriores aspectos também desta 4541 formação, como a obrigatoriedade do curso superior para atuação de professores na educação básica e para atuação na área de gestão educacional e, entre outros, apontamentos explicitando o que estes cursos devem apresentar. Deste modo, como aponta Brito (2006), o curso de graduação em Pedagogia foi se constituindo, nos anos 1990, “como o principal lócus da formação docente dos educadores para atuar na Educação Básica”. Neste sentido, a autora enfatiza que: grande parte dos cursos de Pedagogia, hoje, tem como objetivo central a formação de profissionais capazes de exercer a docência na Educação Infantil, nos anos iniciais do Ensino Fundamental, nas disciplinas pedagógicas para a formação de professores, no planejamento e na gestão e avaliação de estabelecimentos de ensino, de sistemas educativos escolares e de programas não escolares. Os movimentos sociais também têm insistido em demonstrar a existência de uma demanda ainda pouco atendida, no sentido de que o pedagogo seja também formado para garantir a educação dos segmentos historicamente excluídos dos direitos sociais, culturais, econômicos, políticos. (BRITO, 2006, p. 04) Conforme a autora é nesta realidade que nascem as novas Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Pedagogia. Soares e Bettega (2008) por sua vez, explanam outros fatores que podem ter contribuído para o surgimento das Diretrizes. Elas lembram que estas vêm sendo elaboradas desde que o Ministério da Educação – MEC, nomeou uma comissão de especialistas para a elaboração de diretrizes para os cursos superiores no Brasil no ano de 1999, como explicam: “Através da portaria 808 em 8 de junho de 1999 foi designado um Grupo de Trabalho (GT) para elaboração das diretrizes curriculares para todas as licenciaturas”. Conforme Libâneo e Pimenta (2002), destes debates surgiu o Documento Norteador para Elaboração de DCNs para os Cursos de Formação dos Professores. A primeira versão das Diretrizes é homologada pelo Parecer nº 05/2005 do Conselho Nacional de Educação. Segundo Kuenzer e Rodrigues (2006, p. 52) este documento expressa a compreensão de que a Pedagogia: trata do campo teórico-investigativo da educação, do ensino e do trabalho pedagógico que se realiza na práxis social, sem elucidar o significado que dá a estas categorias ou mesmo como se relacionam, se aproximam ou se diferenciam. A leitura do texto, contudo, mostra que, ao eleger a ação docente como categoria estruturante da formação, compreendida na acepção ampliada já analisada, o parecer define os objetos, os conhecimentos, o perfil do pedagogo e os núcleos curriculares com base na prática. 4542 Em síntese, as autoras entendem que o mencionado Parecer concebe a valorização da prática em detrimento à teoria, a epistemologia da prática. Pois, as “referências dominantes são aos modos de fazer: aplicar, planejar, implementar, avaliar, realizar, com o que se reforça a dimensão instrumental que determina as relações com o conhecimento”. Para elas, o parecer desconsidera o “desenvolvimento das competências complexas do trabalho intelectual”, especialmente o “exercício da crítica, da participação política ou ao desenvolvimento de conhecimentos científico-tecnológicos para enfrentar os desafios de uma sociedade cada vez mais excludente”. A formação de um profissional com autonomia intelectual e ética prescinde do “domínio de conhecimentos científicos, tecnológicos, e sócio-históricos”. (KUENZER; RODRIGUES, 2006, p. 53) Todavia, Soares e Bettega (2008, p. 2893) em suas pesquisas, indicaram que “o principal agravante do Parecer nº 05/2005 é a indicação da formação do Pedagogo em cursos de pós-graduação, sendo a graduação em Pedagogia destinada à formação de professores, o que, segundo elas “está em contradição com o artigo 64 da LDB n°. 9394/96 que abre possibilidade para a formação do pedagogo também em pós-graduação, e não exclusivamente”. Contudo, “as manifestações da comunidade acadêmica provocaram alterações que resultaram no Parecer CNE/CP n° 03/2006 e no texto final das Diretrizes Curriculares para o Curso de Pedagogia”. Portanto, em 15 de maio de 2006, o Conselho Nacional de Educação, por meio da Resolução nº 1, instituiu as Diretrizes Curriculares para o curso de Pedagogia. Para Libâneo (2006, p. 844) a Resolução regulamenta do curso de pedagogia “exclusivamente para formar professores para a docência”, conceituando o temo no parágrafo 1º do artigo 2º: “Compreende-se docência como ação educativa e processo pedagógico metódico e intencional, construído [sic] em relações sociais, étnico-raciais e produtivas, as quais influenciam conceitos e objetivos da pedagogia”. Ferreira (2006, p. 1345), por sua vez, pontua que este artigo da Resolução CNE/CP n.1/2006 expressa o argumento exposto no Parecer CNE/CP n. 5/2005, a respeito da formação inicial: “A formação oferecida abrangerá, integradamente à docência, a participação da gestão e avaliação dos sistemas e das instituições de ensino em geral, a elaboração, a execução, o acompanhamento de programas e as atividades educativas”. O que para ela indica: 4543 De forma explícita, a ampla possibilidade de formação e atuação do profissional da educação, assim como a necessidade de uma sólida formação em gestão da educação, compromissada com os princípios constitucionais, sem o que não teria razão de ser. Não se trata de uma formação restrita, tampouco reduz a sua atuação. Bem ao contrário, trata-se, como reza o parecer supracitado, de “observar com especial atenção aos princípios constitucionais e legais: a diversidade sociocultural e regional do país; a organização federativa do Estado brasileiro; a pluralidade de idéias e de concepções pedagógicas, a competência dos estabelecimentos de ensino e dos docentes para a gestão democrática”. (FERREIRA, 2006, p. 1345) Segundo Ferreira (2006, p. 1355), as diretrizes de 2006, concebem a formação do pedagogo tendo a gestão como o “gérmen da formação”, entendendo que esses princípios (da gestão democrática) possibilitam a “formação de cidadãos justos, porque cônscios, participativos, responsáveis e solidários”. A autora entende com Anísio Teixeira que: Há no ensino, na função de ensinar, em gérmen, sempre ação administrativa. Seja a lição, seja a classe, envolve tomada de decisões, envolve administração, ou seja, plano, organização, execução, obediente a meios e técnicas. De modo geral o professor administra a lição ou a classe, ensina, ou seja, transmite, comunica o conhecimento, função antes artística do que técnica, e orienta ou aconselha o aluno, função antes moral, envolvendo sabedoria, intuição, empatia humana. (TEIXEIRA, 1968, p. 17 apud FERREIRA, 2006, p. 1348) A Resolução CNE/CP n.1/2006 em seu quinto artigo expressa dezesseis competências para o Pedagogo. Estas compreendem além das competências esperadas para o ensino (o cuidado e a educação que contribua para o desenvolvimento de crianças de zero a cinco anos, bem como, de crianças no ensino fundamental) a necessidade de atuar com Ética, necessária à construção de uma sociedade democrática; a participação na gestão das instituições; o trabalho em espaços escolares e não-escolares, a realização de pesquisas e utilização eficiente de “instrumentos próprios para construção de conhecimentos pedagógicos e científicos” (BRASIL, 2006). Tendo em vista os objetivos deste estudo, ou seja, de identificar a percepção de alunos do curso de Pedagogia acerca de sua própria formação, verificando se os mesmos conhecem as competências esperadas para sua formação, estas serão apresentadas a seguir. A representação dos acadêmicos sobre a formação docente Com vistas a identificar os conhecimentos que os alunos do curso de Pedagogia, têm a respeito de sua própria formação, elaboramos um questionário composto por 32 perguntas, 4544 sendo 19 perguntas abertas e 13 fechadas que cobriram aspectos como: dados de identificação, expectativas sobre o Curso de Pedagogia, conhecimento sobre as especificidades do referido curso, grade curricular, pontos positivos e negativos, interdisciplinaridade ente os conteúdos trabalhados, relação ente teoria e prática e formação dos professores formadores do curso em questão. Na primeira seção do questionário buscou-se verificar os aspectos pessoais com vistas a traçar um perfil do aluno do curso de Pedagogia. Na segunda seção, “Sobre o curso de Pedagogia”, o objetivo foi verificar as razões que levaram o aluno a optar por este curso de graduação, bem como, seus conhecimentos sobre o curso que está freqüentando. Na terceira seção, “Sobre a formação dos professores de seu curso” buscou-se identificar como os alunos percebem os conteúdos e metodologias específicas trabalhadas no curso, para desenvolver as competências necessárias ao ensino generalista, bem como, as possíveis influências dos professores advindos de outras áreas e formação, diferentes da Pedagogia. A opção por realizar a coleta de dados por meio de questionários teve como respaldo Marconi e Lakatos (1991) que indicam os mesmos para atingir um maior número de pessoas simultaneamente, obter respostas mais rápidas e precisas, devido a maior liberdade para emitir as respostas, em razão do anonimato, ou seja, das respostas não serem identificadas. Tendo em vista que uma das competências esperadas para o pedagogo, segundo o inciso 14 do quinto artigo da Resolução CNE/CP n.1/2006, é a realização de pesquisas que proporcionem conhecimentos acerca da realidade social. Assim, um dado que chamou a atenção sobre essa questão, diz respeito aos trinta e nove questionários aplicados, pois treze não retornaram; o que demonstra uma ausência de interesse dos próprios alunos já no final do curso em participarem da pesquisa. Outro fato que foi observado refere-se aos dados de identificação e perfil dos alunos. Dentre os pesquisados, identificou-se a presença de um único homem no curso, o que nos remete às discussões de gênero na profissionalização docente, contudo, não as exploraremos por não ser o foco deste artigo. No universo pesquisado, há ainda três alunos graduados em outra área do conhecimento, contudo, nenhuma delas na área de licenciatura. Dos trinta e nove pesquisados, dezessete atuam como professoras de Educação Infantil, trabalhando na área há mais de dois anos. Destas, oito são alunas do terceiro ano do curso. Os demais pesquisados atuam em áreas diversas, fora do campo educacional. 4545 Quanto as expectativas dos alunos de Pedagogia frente a sua área de formação, verificamos que os mesmos se referem a melhor atuação em sala de aula. Como indica a resposta de uma pesquisada: “busca de um aprofundamento maior para atuação em sala de aula”. Os demais indicaram respostas no mesmo sentido, como, “busca de um maior aprofundamento após conclusão do magistério”; satisfação pessoal e como indicou uma aluna: “apenas para realizar um curso superior. Ao serem perguntados sobre sua satisfação frente ao seu processo de formação em sua instituição de ensino, os participantes indicaram a alternativa: “Apesar de minhas expectativas iniciais não terem sido superadas, o curso tem me mostrado novas perspectivas em relação a essa área de formação”. Tal resposta indica que os alunos chegam ao curso com uma expectativa e, apesar desta não ser superada, é possível a ampliação da visão frente à escolha profissional que fez. Analisando tais respostas, fica claro que os pesquisados procuram o curso pensando na docência, mas no decorrer do mesmo, percebem outras possibilidades, um olhar para além das salas de aulas. Todavia, no que se refere à sala de aula e o exercício do professor, pode-se supor que o curso, devido a própria estrutura decorrente das diretrizes de 2006, não esteja atendendo a contento tais expectativas. Ao perguntar para os alunos sobre seu curso e se este condiz com as referidas diretrizes, ou seja, se o mesmo está adequado ao que é esperado, verificou-se que uma grande maioria indicou que o currículo de seu curso é condizente com as atuais diretrizes para a formação do Pedagogo. Somente cinco alunos responderam que não conhecem esse documento. O fato de encontrar alunos já no final do curso, que desconhecem as diretrizes para a sua própria formação nos levou a pensar não apenas na formação proposta, mas também no aluno, já que este parece não ter interesse em conhecer sobre o que é esperado para sua própria profissão. Vejamos a representação daqueles que afirmaram não conhecer o referido documento: “apesar de não ser coerente com as atuais diretrizes para a formação do Pedagogo, meu curso tem um bom currículo”. Buscou-se investigar, ainda, se os alunos do curso conseguem perceber a interdisciplinaridade dos conteúdos em suas aulas, pois, segundo Santo (2002, p. 119) apoiada em Fazenda, “[...] a interdisciplinaridade é mais uma postura do educador diante do universo do saber”, postura que deve “conduzir o educador a saber que sua disciplina é somente um pretexto para ligar a sala de aula ao Universo”. 4546 Pode-se constatar que tal postura pode não ter sido, ainda, adotada pelos professores formadores de tal curso, já que, um total de vinte participantes indicaram que a interdisciplinaridade não se faz presente nas disciplinas. As demais ressaltaram que percebem uma frágil relação entre os conteúdos apresentados pelos professores nas diferentes áreas do conhecimento. Considerando as respostas, levantou-se as seguintes indagações: Será que a interdisciplinaridade ocorre e não é percebida? Ela poderia não ser percebida? Ou ela realmente não ocorre? Quanto aos pontos positivos e negativos do curso de formação, obtive-se as mais variadas respostas, contudo, os pesquisados relacionaram suas respostas ao que entendem ser esperado para a formação em Pedagogia. Dez alunas indicaram, que respostas no sentido de que o curso forma professores aptos. Quatro indicaram que ele “permite atuar em áreas escolares e não escolares”. Como citado acima, houve diferentes interpretações, ora remetendo ao curso que fazem nesta instituição, ora remetendo a formação geral. Outro apontamento mais mencionado como aspecto positivo, disse respeito aos professores do curso, indicado por cinco alunos, como ‘competentes’. Três alunos indicaram como aspecto positivo, a grade curricular, mencionando as disciplinas de metodologias, o embasamento teórico proporcionado e as aulas de Libras. Os pesquisados pautaram suas respostas na própria estrutura do curso. Dentre os aspectos negativos, os pesquisados indicaram as mais variadas respostas, contudo, destacamos a que nos chamou mais atenção: “O curso oferece muito disciplina para pouca prática” e a presença de “disciplinas cursadas em modalidade à distância”. A “valorização excessiva do senso comum por parte dos próprios alunos em sala de aula”, também apareceu na falas dos participantes, como ponto negativo das aulas. Segundo Imbernón (2006 P.63), pensar na formação de pedagogos nos remete a “repensar tanto os conteúdos desta formação quanto metodologias com que estes serão transmitidos por seus professores, já que o modelo aplicado pelos formadores dos professores atua também como uma espécie de currículo oculto [...]”, pois, “os modelos com os quais o futuro professor aprende perpetua-se com o exercício de sua profissão docente” convertendose em atuação. Por esta razão, buscamos investigar como os alunos do curso de Pedagogia vêm os professores com formação em área diversa. Ao perguntar aos participantes, quantos de seus professores tem a formação inicial em Pedagogia. Constatou-se que a maioria dos alunos, independente da turma, não sabem dizer 4547 com exatidão a área de formação de seus professores. Perguntou-se, ainda, sobre as aulas ministradas por estes professores, já que uma das competências esperadas, talvez a mais marcada pelas diretrizes, é o exercício docente, sendo necessária uma eficiente atuação em sala de aula. Além disso, conforme o inciso sexto do 5º artigo da Resolução CNE/CP n.1/2006, o Pedagogo deverá “ensinar Língua Portuguesa, Matemática, Ciências, História, Geografia, Artes, Educação Física, de forma interdisciplinar e adequada às diferentes fases do desenvolvimento humano”, razão pela qual, torna-se essencial a compreensão tanto da interdisciplinaridade quanto dos conhecimentos e metodologias trabalhados pelos professores com formação específica. As respostas indicaram que não há um consenso entre os alunos, conforme veremos a seguir: “a prática dos professores é boa, pois buscam contemplar seus objetivos”; “a prática é excelente com exceção de dois professores que não conseguem transmitir seus conhecimentos de forma clara”. Respostas como: “muito boa”, “muito teórica e pouco prática”, “se baseiam em leituras de textos”, apareceram nas representações dos alunos. De modo geral, verificou-se que os pesquisados indicaram que há diferenças entre a prática docente de um professor com formação em Pedagogia de outro, com formação em outra área, conforme segue: “há diferença, de modo geral, os pedagogos conseguem conduzir melhor as aulas, além de relacionarem com mais facilidade teoria e prática”. Não há a intenção, neste trabalho de estabelecer comparações entre as diversas áreas de formação, apenas identificar como os alunos do curso de Pedagogia percebem seu próprio curso, as práticas docentes ali empregadas, seu currículo, com vistas a traçar um perfil destes alunos, pois como alerta Santo (2002, p.35), “o educador precisa estar atento a dimensão cada vez mais fundamental de seu trabalho, numa sociedade que amplia velozmente seu potencial de criação e destruição”. Considerações Finais Os resultados da pesquisa apontam que a maioria dos alunos que procuram o curso de Pedagogia, vê neste a possibilidade de aprofundar seus conhecimentos acerca da prática em sala de aula, contudo, apesar de perceberem outras possibilidades de atuação profissional, não sentem que esta formação atende as suas expectativas frente a tais conhecimentos. Os mesmos demonstraram não conhecer a área de formação de seus professores e ressaltaram que a interdisciplinaridade não se faz presente na ação dos mesmos. Outro resultado obtido, diz 4548 respeito à falta de articulação entre teoria e prática nos discursos proferidos pelos professores formadores. Como ponto negativo, os participantes enfatizaram uma sobreposição das disciplinas teóricas em detrimento das práticas. Como ponto positivo, os participantes valorizaram a competência dos professores, sobretudo no que diz respeito à sua área de atuação, no entanto, chamaram a atenção para uma diferenciação entre os professores formadores que possuem o Curso de Pedagogia, já que esses aproximam a teoria com o cotidiano da sala de aula, daqueles que são de outras áreas, por não relacionarem o discurso teoria com a prática. Por fim, em decorrência da pesquisa, pode ser concluído que pensar na formação de professores na contemporaneidade é acima de tudo, ponderar o que o aluno presente nesta graduação busca e vê a respeito de seu curso, já que nos permitem ampliar as visões acerca da formação profissional do Pedagogo, possibilitando a promoção de projetos efetivos que além de contemplar as políticas, contemple ainda as expectativas do futuro profissional, motivando-o para o exercício da profissão. REFERÊNCIAS AMARAL, Ana Lucia. As Eternas Encruzilhadas: de como selecionar caminhos para a formação do professor de ensino superior. In: MARTINS, Pura Lucia Oliveira; JUNQUEIRA, Sergio R. A. (orgs). Conhecimento Local e conhecimento Universal: pesquisa, didática e ação docente. V. 4, Curitiba: Champagnat, 2004. BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CP n. 1, de 15 de maio de 2006. Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Pedagogia. 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