Charles Chaplin confrontos e intersecções com seu Tempo Charles Chaplin CONFRONTOS E INTERSECÇÕES COM SEU TEMPO Everton Luís Sanches ©2012 Everton Luís Sanches Direitos desta edição adquiridos pela Paco Editorial. Nenhuma parte desta obra pode ser apropriada e estocada em sistema de banco de dados ou processo similar, em qualquer forma ou meio, seja eletrônico, de fotocópia, gravação, etc., sem a permissão da editora e/ou autor. Sa551 Sanches, Everton Luís Charles Chaplin: Confrontos e Intersecções com seu Tempo/Everton Luís Sanches. Jundiaí, Paco Editorial: 2012. 160 p. Inclui bibliografia. ISBN: 978-85-8148-154-8 1. Charles Chaplin 2. Charlie 3. Teatro 4. Cinema. I. Sanches, Everton Luís CDD: 808.4 Índices para catálogo sistemático: Ensaios. Crônicas. Memórias. Críticas Cinema-comunicação – Cinematografia IMPRESSO NO BRASIL PRINTED IN BRAZIL Foi feito Depósito Legal Rua 23 de Maio, 550 Vianelo - Jundiaí-SP - 13207-070 11 4521-6315 | 2449-0740 [email protected] 808.4 384.8 Agradeço a todos aqueles que, de alguma forma, contribuíram para a conclusão deste projeto, dando-me carinho e/ou valiosas observações acadêmicas, especialmente ao meu orientador Pedro Geraldo Tosi. Agradeço também aos professores da Universidade Federal de Uberlândia – Alcides Freire Ramos e Rosângela Patriota –, ao professor da Universidade Estadual de Campinas – José Ricardo B. Gonçalves – e às professoras que compuseram a banca de qualificação – Dulce Guimarães Pamplona e Marisa Saenz Leme. À amiga, mestre em psicologia pela Universidade de São Paulo, Rosa Virgínia Pantoni, pelas suas importantes críticas; e aos colegas Maria Cecília de Oliveira Adão, Orlando André Faustino, Cristiane Demarchi, Luciene Capelari, Fernanda Lourdes Carvalho de Paula e Silva e Humberto Perinelli Neto, que sempre me felicitaram com dicas e sugestões. Aos que foram e/ou são integrantes do grupo de teatro “Cine em cena”, do qual sou coordenador, que muito me aliviaram com a sua eterna perseverança e o desprendido respeito ao meu trabalho. Gostaria de agradecer, ainda, aos amigos Fernando, Goiano e Píer Paolo T. Vanzo, que estiveram ao meu lado em Uberlândia, durante a minha abreviada passagem pela UFU. Aos amigos Ricardo e Vilma Batista de Melo Silva, Luiz Antônio dos Santos, Paulo Sérgio Barcelos Júnior, Aline Rocha Barcelos, Roberta Pantoni e família, Maria Aparecida de Oliveira, Társia Caires Saad, Elaine Giolo, Marilise Leite Tasso, Karina F. Moraes, Cristiane Faustino Ribeiro, Ana Maria Pandini de Figueiredo e minha esposa Gisele Pereira Barbosa Sanches, que ofereceram um porto seguro nos momentos mais confusos por que passei. Aos meus pais, Alcidino Sanches e Gilda Ruth Sanches, pela dignidade e decência de conduta que sempre incentivaram e à minha irmã Elizabete Sanches Rocha, pelas divergências que tanto nos enriqueceram. Naturalmente, não poderia deixar de fora dessa lista os meus sobrinhos/afilhados Laura Sanches Rocha e Miguel Sanches Rocha. Ao pessoal da Gramophone videolocadora, que sempre me recebeu atenciosamente, aquele abraço fraterno. Aos escritores e companheiros de utopia Waldemar DiGrégori e José Reis Chaves, obrigado pela ajuda e conforto de suas palavras, que revigoraram minhas crenças de um mundo um pouco melhor – e para todos nós. Finalmente, agradeço a Deus. Espero não ter esquecido ninguém, mas por via das dúvidas, deixo desde já o meu pedido de desculpas a quem, eventualmente, deixei injustamente fora desta lista, pois foram inúmeras as contribuições que recebi. Sumário Apresentação.............................................................................................9 Prefácio...................................................................................................11 Introdução 1. De quem estamos falando?..................................................................13 2. Como acompanhar Charles Spencer Chaplin?.....................................19 3. Como descobrir a sua mensagem?.......................................................26 Capítulo 1 – A Inglaterra e o mundo antes de Chaplin 1. Para falar de Charles Spencer Chaplin..................................................35 2. Seus personagens.................................................................................43 3. As três temporalidades.........................................................................52 Capítulo 2 – História de uma personalidade 1. A infância: controvérsias sociais...........................................................68 2. A descoberta do trabalho artístico como meio de sobrevivência............75 3. O cinema: veículo de expressão subjetiva?...........................................82 Capítulo 3 – O cinema de Charles Spencer Chaplin 1. Charlie e o cinema...............................................................................90 2. Trajetória e infâmia..............................................................................95 3. Uma chance para os vagabundos.........................................................101 Capítulo 4 – O cinema no período entre Guerras 1. Tensões psicossociais do pós-Primeira Guerra Mundial e decorrentes da crise de 1929....................................................................................107 2. O cinema, a autoria e a padronização da produção cultural...............116 3. Charles Chaplin silencia quanto à guerra e Carlitos cala-se contra Hollywood..................................................................................123 Considerações finais..............................................................................143 Referências...........................................................................................147 Apresentação Na ocasião em que Everton L. Sanches me fez o convite para redigir a apresentação do seu segundo livro, resultado de seu primeiro trabalho de pesquisa em nível de pós-graduação, entre os seus argumentos ele lembrou-me: “Cecília, você acompanhou de perto o processo que me levou a tornar-me historiador e as linhas que aqui estão foram escritas usando o seu computador”. Tal argumentação trouxe-me a memória de mais este episódio de nossas vidas. Na ocasião a que ele referiu-se, eu havia me mudado de cidade e deixado meu computador na casa dele: em parte porque os antigos computadores de mesa eram grandes e pesados demais para serem carregados em uma mudança e também porque ele poderia dar-lhe uso na minha ausência. E este é só um dos tantos eventos de nossa amizade e de nosso coleguismo, tão cotidiano e natural quanto eles. O meu primeiro contato com Everton L. Sanches ocorreu ainda na adolescência, bem antes de fazermos menção ao aprofundamento de nossos estudos. Foi durante o primeiro ano do Ensino Médio – Primeiro Colegial, como era chamado –, em 1992, ao entrar em um grupo de teatro da escola que fora criado e dirigido por ele. Foi assim que o conheci: ator e precoce diretor de teatro, tendo consigo aquela inquietação própria dos que são sensíveis às dores do mundo. Amiúde, o encontrei novamente durante a graduação em História e acabamos por nos tornar grandes amigos e compartilharmos, posteriormente, os esforços de pesquisa durante a pós-graduação em nível de Mestrado e Doutorado. Não bastasse isso, bons ventos nos levaram recentemente a tomar parte do mesmo ambiente de trabalho. Nesse ínterim, o ambiente acadêmico e estudantil nos ofertou várias oportunidades de aprimoramento em conjunto: viajamos para participar de congressos científicos e de eventos culturais, integramos o coral da faculdade, elaboramos os nossos projetos de pesquisa. Ponto fundamental e determinante nesta trajetória foi nossa participação, ao longo dos três últimos anos da graduação, no grupo PET (Programa Especial de Treinamento – PET/Capes, hoje chamado de Programa de Ensino Tutorial). Trabalhar em um grupo formado por doze estudantes e orientado por uma tutora, a Profa. Dra. Aparecida da Glória Aissar, nos permitiu dar forma acadêmica a algumas das preocupações que tínhamos desde a época do grupo de teatro. Esta experiência foi determinante porque permitiu que rompêssemos a barreira entre fazer cotidiano e produção aca9 Everton Luís Sanches dêmica. Aprendemos e passamos a praticar, desde aqueles tempos, a ideia de que é possível ser sensível às necessidades, contradições e realizações humanas e, ao mesmo tempo, produzir conhecimento científico capaz de apontar caminhos para compreendê-las e valorizá-las. Uma preocupação basilar de que nos ocupamos durante os estudos no grupo PET e que reaparece de maneira mais madura nesta obra é a valorização das diversas relações entre as mais diferentes áreas de estudo. Tal preocupação foi observada para reunir informações e fazer sua análise da maneira mais completa possível, relacionando o objeto de estudo Charles Chaplin e o contexto histórico que o cercou, mostrando não apenas a representação social do artista e seus maiores feitos, mas também a problemática pessoal e humana que o acompanhou. Foi descrita aqui a luta de uma pessoa pela própria sobrevivência consoante as lutas da humanidade no mesmo período. Ao longo da pesquisa para a construção da dissertação, que agora se apresenta a nós na forma deste livro, Everton manteve-se ligado ao teatro, não apenas como um ator e diretor de um grupo de estudos de cinema e teatro, mas também ao registrar as principais tendências do teatro cômico inglês e sua relação com o trabalho de Charles Chaplin. Partindo da análise da obra de Charles Chaplin e identificando seus ideais humanistas, abriu espaço para relacionar tais ideais às expectativas do período entre guerras e ao pensamento humanitário que ganhava forma, trabalho este realizado posteriormente, em seu doutorado. Desse esforço resulta a obra que você tem em mãos. No entanto, este não foi o único resultado deste estudo. Nele foram lapidados as preocupações, o conhecimento e as qualidades do seu autor, resultando em um ser humano ainda mais disposto a contribuir para a melhoria da humanidade. Ao longo deste período, nos tornamos cônscios de que somos educadores e continuamos a pensar e discutir as questões humanas no cotidiano de nosso trabalho quase que diariamente, atuando de acordo com nossas forças na direção do trabalho coletivo, da interdisciplinaridade e da aplicabilidade do conhecimento acadêmico. Sendo assim, o livro que aqui se apresenta é mais que um recorte histórico, com temática e temporalidade bem definidas. Trata-se de uma contribuição para a reflexão sobre nossos tempos e nossas práticas. Maria Cecília de Oliveira Adão Possui graduação, mestrado e doutorado pela Universidade Estadual Paulista – Unesp, campus de Franca. Pertence ao GEDES – Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional, no qual desenvolve pesquisas ligadas às relações de gênero, família militar e Forças Armadas. 10 Prefácio O que permeava a obra de Charles Chaplin, ou em outras palavras, o ambiente que permite relacionar: obra de arte e suas peculiaridades, autor e sua trajetória de vida, teatro e cinema, empresas e cultura de massa da sociedade industrial e, não menos importante, o panorama das tendências que formaram as experiências e a visão de mundo de Chaplin na cultura social da Inglaterra e dos Estados Unidos, no tempo em que a genialidade de um homem contribuiu decisivamente para a consolidação da criação fílmica e da indústria cinematográfica como algo indispensável à vida a partir do século XX é a contribuição que os estudos de Everton L. Sanches trazem para o leitor interessado em análise histórica. É possível afirmar tratar-se de um empreendimento intelectual inédito. Os assuntos aqui apresentados se valem de uma exaustiva metodologia de trabalho e incluem a abordagem de diversos condicionantes que se articularam de modo a permitirem o aparecimento de um indivíduo romântico, sensível, humanista e idealista. Apesar de esse indivíduo ter percorrido um caminho carregado de experiências visceralmente agruentas, soube olhar com humor compassivo a tragédia do homem contemporâneo. Talvez seja esse o primeiro e único trabalho disponível que tenha enfrentado a difícil tarefa de dizer até que ponto o tempo condicionou a trajetória desse homem notável, e até que ponto ele interferiu na compreensão que temos desse tempo. Embora o percurso expositivo não seja algo muito fácil em situações como a aqui apresentada, Everton L. Sanches foi capaz de reunir domínio do assunto e a clareza expositiva necessária para entretecer os vários níveis de análise envolvidos. Não se trata de mais uma biografia, é antes o produto de horas e horas de seleção e análise documental a partir do legado artístico do sujeito histórico abordado. Trata-se, portanto, de uma contribuição que pode entreter historiadores experientes, servir de lastro para o interesse de jovens historiadores, bem como esclarecer o público leitor que busca se aprofundar em temas que comumente são apresentados de forma ligeira e superficial no mundo pós-moderno. Ao ter tido a honra e o prazer de orientar a dissertação de mestrado, que serviu de base para esta publicação, posso afirmar: o conhecimento aqui traduzido deixou-me com uma pitada de curiosidade em saber mais sobre qual é o tipo específico de humanismo que Chaplin carregava como uma espécie de missão e que apareceu em sua obra. Ainda mais como esses 11 Everton Luís Sanches valores foram tencionados frente aos problemas enfrentados na sua infância pobre e frente àqueles outros que corajosamente tratou, quando se tornou uma referência para todos os espectadores que tiveram a oportunidade de vê-lo nas telas do cinema em uma época de crises e de guerras. Esse cenário, apesar de pertencer à vida de nossos avós e pais, faz parte do que somos como pessoas humanas de nosso tempo. Tenho certeza de que Everton L. Sanches nos brindará com mais conhecimentos sobre o tema em novas publicações. Esta é uma leitura indispensável para uma melhor compreensão do papel desempenhado por Chaplin no desenvolvimento e nos retrocessos da consciência humanitária possível nos dias de hoje. Pedro Geraldo Tosi Doutor em História Econômica pelo Instituto de Economia da Unicamp. Membro do Departamento de Educação, Ciências Sociais e Políticas Públicas da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais – Unesp, campus de Franca. Membro do Programa de Pós-Graduação em História e Cultura Social – Unesp, campus de Franca. 12 Introdução 1. De quem estamos falando? Iniciar a escrita de um trabalho científico é sempre um desafio, pois requer esclarecimentos sem frivolidades, ao mesmo tempo em que exige clareza e bom humor para que o texto não se torne demasiado informativo e denso para ser compreendido o mais rápido e facilmente possível pelo leitor. Em se tratando de Charles Spencer Chaplin, o estudo envolve um amontoado de conhecimentos de diferentes áreas de pesquisa da história e da teoria do teatro e cinema, compondo uma espécie de labirinto que pode facilmente fazer perder-se qualquer um que queira trilhar minuciosamente todo esse percurso. Charles Spencer Chaplin, ou simplesmente Charles Chaplin, como é mais conhecido, foi um ator do teatro cômico inglês, quando criança, que levou tal experiência para o cinema hollywoodiano, executando-a também como diretor e roteirista; tocava violino de forma singela e compôs parte das músicas de seus filmes sonoros; dançou na trupe de clog dancers (sapateadores de tamancos) e chegou a ministrar aulas particulares em Londres, nos tempos mais difíceis. Ele foi comentado em centenas de obras por todo o mundo; sua história e seu legado foram apreciados por poetas, estudiosos de teatro e cinema, críticos e profissionais da chamada sétima arte; por estudiosos da teoria da comunicação e historiadores. Seu nome foi aclamado por tantos que seria dispendioso tentar citá-los. Trechos de seu discurso no filme O grande ditador já foram usados para ilustrar desde debates sobre direitos humanos até selos para postagem. Seu talento já foi comparado com o de Mollière, Shakespeare, Cervantes, Dickens, Dostoiévisqui, Goethe, Miguel Ângelo e Beethoven, entre outros grandes nomes da história da arte1. Portanto, cabe certo cuidado ao tratar com tal celebridade. Entretanto, temos que nos lembrar de que por trás do título há sempre o homem. Chaplin também foi o Charlie, irmão quatro anos mais novo de Sydney, filho de Charles Chaplin (este morreu pelo alcoolismo2, a 29 de abril de 1. Cony, Chaplin: ensaio – antologia de Carlos Heitor Cony, p. 217-219. 2. Conforme Chaplin (1961) descreveu em sua autobiografia, seu pai não conseguia mais ingerir alimentos sólidos. Consta que Chaplin (pai) bebia o tempo todo. O seu café da manhã, segundo Chaplin (1961) contou em sua autobiografia, era ovo cru em uma taça de vinho do porto. 13 Everton Luís Sanches 19003) e de Hannah Hill Chaplin (ela ficou perturbada mentalmente devido à má alimentação por que passou durante a infância de Charlie); artista do music hall londrino; um protestante que gostava de comer pão passado na gordura da carne que sobrava na panela e que lia o semanário humorístico aos domingos em sua casa, na miserável Rua Kennington Road; um garoto que, aos doze anos, apreciava o comportamento dos mais bem-sucedidos comediantes de Londres e que se alimentava com os ovos roubados pelo avô, do hospital no qual estava internado; um jovem que não via no teatro nada além de um “meio de vida”, como são as profissões de vendedor, advogado, político ou criador de porcos, opções que lhe causavam até maior predileção.4 Uma pessoa que tomava a sua mãe como exemplo de docilidade, dignidade e bom-senso. Nascido no final do reinado da rainha Vitória5, tempo em que a Inglaterra deixava de ser a oficina do mundo, como fora chamada durante a Revolução Industrial, acompanhou as mudanças na conjuntura e estabeleceu-se, ainda jovem, nos Estados Unidos da América, que se tornava o grande centro da economia mundial. Trocou o teatro de variedades6, ofício aprendido com os pais, pelo cinema – recém-inventado – que naquele momento pareceu-lhe mais rentável e vantajoso, além de levar o jovem ambicioso a um país cheio de boas oportunidades. A esta altura do comentário já posso convencionar uma das referências deste livro: considerei que, para analisar a trajetória de Charlie coerentemente, mesmo priorizando alguns aspectos específicos e limitando-me a um período, é imprescindível abalizar as tendências que predominaram na política e na obra de arte – visto que é tamanha a abrangência de sua obra e de suas ações. Todavia, isso foi posto contemplando uma diretriz conjunta e indelével: a pessoalidade de suas aspirações e a intimidade com que tratou os temas pertinentes à angústia do homem moderno que, ao cabo e no limite, foram as suas próprias agruras. Perseguindo essa meta e ponderando sobre: a) as relações de Charles Chaplin com o contexto sociocultural e econômico; b) a reelaboração que ele fez de práticas teatrais, entre o drama e o cômico, nos seus filmes; e c) 3. A cronologia completa de Charles Spencer Chaplin figura em diversos sites e livros, além de sua autobiografia. As datas que cito foram confrontadas em diversas fontes, a fim de confirmar as informações obtidas. 4. Chaplin, História da minha vida, p. 120-121. 5. O seu reinado durou de 1837 a 1901. Chaplin nasceu em 16 de abril de 1889. 6. Podemos dizer, ainda que de forma imprecisa, que o teatro de variedades era o teatro popular inglês, muito embora a expressão popular só possa ser tomada neste caso significando estritamente “voltado para o grande público, para o povo, para as camadas populares”. 14 Charles Chaplin: confrontos e intersecções com seu tempo as suas críticas às principais tendências políticas do período entre guerras, tornou-se claro que um estudo pautado apenas em uma frente, ou seja, delineado por uma faixa estreita de estudo que não sintetizasse o principal de todo esse emaranhado de fatos, ideias e sentimentos – como já propôs Lucien Febvre – seria inócuo e incipiente. Logo, fiquei exposto ao desafio de fazer a ligação ou o diálogo entre várias áreas do conhecimento científico e artístico, propiciando um estudo interdisciplinar que abarcasse o que é característico em Charles Spencer Chaplin e o amontoado de transformações por que passava o mundo moderno no período entre guerras e que circunscreveram uma atmosfera mental7. Como resposta, tive inicialmente que concluir – mediante as leituras em que me debrucei – que não existe uma separação possível entre Charles Chaplin, ou mesmo Charlie, e o contexto. Ambos são faces de uma mesma conjuntura. Podemos considerar, desse modo, que de um lado Charles Chaplin e o período entre guerras constituem um conjunto indivisível do ponto de vista da história, mesmo para análise mais pontual de Chaplin. A psicologia e a sociologia contribuíram com o estudo, permitindo ponderar, por outro lado, que esse conjunto é composto de elementos psicológicos, sociológicos e culturais específicos e apreensíveis, que carregam em si o gérmen da forma completa. Concluiu-se, por essas vias, que a parte está no todo assim como o todo está na parte e que os grupos sociais, assim como cada pessoa, têm relação direta com a conjuntura política, econômica e social de seu tempo. Delineou-se, logo, uma tríade que sistematiza a análise: a pessoa (Charles Spencer Chaplin), seus grupos sociais (a família e sua origem econômica, o teatro de variedades cômico inglês e o cinema hollywoodiano) e a conjuntura do período entre guerras (economia, política, ideias e estados / tendências psicossociais predominantes). Metodologicamente, tanto a Psicologia Individual, criada por Alfred Adler, quanto a Psicologia Social de Erich Fromm admitem essa correspondência. A visão psicológica de cultura como uma determinante do comportamento neurótico, dada por Karen Horney, bem como a prerrogativa sobre a existência do inconsciente coletivo de Carl Gustav Jung. A determinação desses autores acerca de aspectos específicos do homem moderno e a análise de Wilhelm Reich quanto ao fascismo, o liberalismo e o socialismo, mantendo uma correspondência desses com os diferentes níveis da estrutura do caráter. Todos eles corroboraram tal pensamento. 7. Com a expressão atmosfera mental refiro-me à assertiva de Lucien Febvre sobre a história, que considera a inexistência de manifestações humanas que não se orientem de acordo com a contextura de um período, concordando ou debatendo com a mesma. 15