Latusa Digital Ano 9 – N. 48 – Março de 2012. A bela Junie1: uma conversa sobre o amor Ângela Batista2 Chistophé Honoré, diretor do filme A bela Junie, inspira-se no romance A Princesa de Clèves, publicado anonimamente por Madame de Lafayette, em 1778. Seu filme nos conduz a uma conversa sobre o amor. Deparamos com uma leitura singular do amor no filme, que muito se aproxima, a meu ver, da psicanálise, quanto à questão do parceiro do amor, sobre quem é esse parceiro, e o amor na juventude, com ênfase nas paixões repentinas e devastadoras. Vamos falar sobre o ilimitado do amor e de seus limites, dos modos de amar feminino e masculino. Lacan muito bem disse que, no campo da arte, o inconsciente precede o artista, antecipando um saber que tem afinidades com o inconsciente. Percebemos, assim, afinidades entre o cinema e o inconsciente em relação àquilo que desconhecemos, mas que atualiza, em nossas vidas, nossa maneira de viver e de amar. Inicialmente, vejamos alguns fragmentos do romance A princesa de Clèves, em que o filme se inspirou. A senhorita de Chartres tem 16 anos quando sua mãe a leva à corte pela primeira vez. Sua mãe, a Sra. de Chartres, protege sua honra. Os homens são infiéis, não sustentam seus compromissos e enganam as mulheres. A adolescente se casa com o Príncipe de Clèves sem conhecer o amor. É simplesmente amada, não ama, quer ser amada, marca do estilo feminino de amar. O Sr. de Nemours vê, pela primeira vez, a Sra. de Clèves, em um baile promovido por Henri II, no Louvre. Ele se surpreende com a sua beleza e se apaixona por ela. Essa paixão é tão violenta que ele rompe com todas as mulheres com as quais se relacionava até então. Porém, ele esconde a sua paixão. A Sra. de Clèves também percebe que está apaixonada por ele, mas o ponto a se destacar é que, quando podem declarar-se apaixonados, ela lhe avisa que aquele encontro seria o último. Ele fica espantado! E lhe diz: “Você me distinguiu do resto dos homens, em outros termos, eu sou para você ao menos um.” Ela responde: “É o obstáculo. Se eu o distingui, isso pode acontecer a outras mulheres, e se isso acontecer, serei infeliz.” Ele tenta convencê-la de sua paixão. Ela retruca, dizendo que a paixão não dura, e se recusa a conhecer a infelicidade dos ciúmes. Entre as suas razões para renunciar, é esta a principal: por vaidade ou por gosto, todas as mulheres desejam ligar-se 1 2 Titulo original do filme: La belle personne. Psicanalista, membro da AMP/EBP. A bela Junie: uma conversa sobre o amor - Ângela Batista Latusa Digital Ano 9 – N. 48 – Março de 2012. ao Sr. de Nemours. Outras mulheres o amarão e ele por isso a deixará.Os homens são inconstantes, e o único homem fiel a mim é o Sr. de Clèves, porque sua paixão subsiste pelo simples fato de ela faltar em mim. Ao renunciar ao amor, ela se recusa a ser uma que será deixada por uma outra. Prefere exilar-se onde será uma única absoluta e, para seu amante, sempre única. O filme se baseia nesse romance, na recusa e no desencontro amoroso. Junie ilustra bem, em seu recente luto pela perda da mãe, que a castração do lado mulher incide sobre o medo de perder o amor do Outro. Junie é radical, ela também, como seu professor, se defende do saber da finitude do amor. “Não existe Amor eterno”. “Então não quero amar”. Trata-se de encontros, nos quais os parceiros não se apresentam com sua falta, o que torna impensável a relação amorosa — é necessária uma falta, que chamamos de castração simbólica, para o amor acontecer. É nesse sentido que Junie nos fala sobre a histérica e a mulher. Na posição histérica, uma mulher quer ser toda recusando ser A mulher dividida pela barra do não toda. Percebemos, nitidamente, no filme, o que quer Junie — quer ser não somente uma mulher, mas, sobretudo, a não mais de uma — quer ser a única. Em outros termos, não há garantia. Quando uma mulher se apaixona, está certa de que a sua tranquilidade (segundo o romance que inspirou o filme) será perturbada pelo ciúme entre a mulher e uma mulher. A única e uma outra. Desde sempre, o amor é, para a psicanálise, uma subversão: primeiro, o amor de transferência, que inaugura uma nova relação do sujeito com o saber; depois, o amor é signo de mudança de discurso; por último, o amor como suplência em que amor e sintoma são solidários. É interessante investigar no filme o laço entre o amor e o sintoma, não como disfunção, mas como possibilidade de amarração. Lacan, em seu Seminário, livro 8: a transferência,3 refere-se ao Banquete, de Platão, para abordar a questão do amor. O que lhe interessa é a relação de Sócrates com Alcebíades, para tocar em um ponto que diz respeito ao objeto agalmático, que detém o desejo daquele que está na posição de quem ama. Quem ama não tem, tem a sua falta. Freud, segundo suas contribuições à psicologia do amor, nos orienta quanto à maneira como os neuróticos se comportam em relação ao amor. Em seu texto de 1914, “Introdução ao narcisismo”,4 ele apresenta o paradoxo com o qual nos identificamos: adoecemos quando amamos e quando não amamos também. 3 Lacan, Jacques. O Seminário, livro 8: a transferência (1960-1961). Rio de Janeiro: Zahar, 1991. Freud, S. Sobre o narcisismo: uma introdução (1914). Rio de Janeiro: Imago, 1973, p.85-89. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v.XIV). 4 A bela Junie: uma conversa sobre o amor - Ângela Batista Latusa Digital Ano 9 – N. 48 – Março de 2012. Então, poderá a psicanálise contribuir para um amor possível? De acordo com a perspectiva freudiana, é possível, para o psicanalista, verificar como a escolha de objeto amoroso é feita a partir de alguns tipos predeterminados, à medida que essa eleição é determinada pelo Édipo e pela pulsão, pelo desejo e pelo gozo. Isso quer dizer que a sexualidade humana não se inscreve no campo de saber e é sempre entre um sexo e outro que uma impossibilidade se afirma, o que Lacan chamou de “não há relação sexual”, não há complementaridade entre os sexos. No filme de Honoré, a parceria complementar falha, e fica evidente, no personagem de Nemours, que sua preocupação com a própria imagem o faz tomar a si mesmo como modelo e objeto de amor. Amor narcísico que não se reporta ao Outro. Essa é a maneira de amar masculina, que é percebida pela personagem Junie. Isso ocorre também com o casal Otto-Junie, em que a não reciprocidade amorosa se faz evidente. Lacan nos brindou com um aforismo para abordar o desencontro entre os sexos: segundo ele, uma mulher é para um homem um sintoma, e um homem é para uma mulher algo pior que um sintoma, um estrago. A não complementaridade indica diferentes maneiras de amar. O objeto de amor para um homem toma a forma fetichista em sua condição de objeto a. O homem reveste a mulher com o falo para velar o horror da castração e para poder desejá-la. Para a mulher, de forma erotomaníaca, o amor demanda o ser. Portanto, o gozo feminino se situa mais do lado do amor, o que podemos verificar com a valorização do amor em relação ao desejo, preponderante nas mulheres — como bem demonstra Junie, que quer ser amada como a única, sempre. Por saber dessa impossibilidade, desiste. O amor feminino, na posição erotomaníaca, nos fala também da falta do significante que possa definir a mulher. A foraclusão desse significante tem consequências, pois indica uma dominância de S de A barrado, que conduz a um ilimitado de gozo, que pode aproximar as mulheres da loucura. Amor e devastação seria o tema dessa articulação. O termo Werwerfung aparece, no Seminário, livro 5: as formações do inconsciente, articulado ao falo, assinalando que o desejo do Outro aparece como foracluído e que uma profunda rejeição da vertente não falicizada do desejo feminino se mostra presente, fazendo com que o amor ganhe uma extraordinária consistência. A erotomania deve ser pensada, nessa direção da neurose, como uma tentativa de regular o gozo não regulado pelo falo, para que o sujeito feminino possa ficar menos devastado na relação com seu parceiro sexual. Nesse sentido é que o amor e as palavras de amor fazem uma amarração à foraclusão do significante mulher, de modo que seu corpo possa ser-lhe menos estranho. Lacan marca a diferença entre amor, gozo e desejo, dizendo que o amor se situa entre o gozo e o desejo e que só o amor pode condescender ao gozo. A bela Junie: uma conversa sobre o amor - Ângela Batista Latusa Digital Ano 9 – N. 48 – Março de 2012. Pergunta-se: qual o tratamento dado pelos personagens ao amor, no filme em questão? O amor parece impossível no filme, o tema do desencontro atravessa as cenas entre os casais. Sabemos que é desse impossível, que se presentifica a cada encontro, que pode surgir uma parceria que chamamos de parceria sintomática. Otto, ao amar Junie, se feminiza, e, ao não encontrar resposta para o seu amor, vive uma devastação que o leva a se jogar fora (cena do suicídio). Junie não pode fazer o sintoma necessário à parceria possível que a castração permite. Só se ama pela via de uma falta. A psicanálise fala que o amor é o que pode fazer suplência à não relação sexual. Reconhece que há uma contingência do encontro que pode propiciar laços que permitiriam uma solução para o amor mais digno. O novo amor, pois sabemos que, orientados para o Real, poderão vir a desconsistir o Outro, assim como consentir aos limites do não todo que o gozo fálico impõe, podendo libertar-se das amarras identificatórias e permitir um acesso à verdade do sujeito. A sua falta fundamenta aquilo que o determina. Nesse sentido, a psicanálise aposta no amor desde a sua origem, na transferência como laço inaugural, e no amor que tem sempre uma pedra no seu caminho. O filme parece ter uma visão em que a face cômica do amor não comparece, pois não se tem humor para desconstruir o grande Outro, de quem são esperadas respostas definitivas ou a postura equilibrada de amor recíproco. Os personagens são crentes no amor idealizado, na paixão medida sem mediação da falta simbólica, que pode fazer do impossível do amor encontro parcial. Drummond, ao iniciar seu livro de poemas Corpo, confessa que o problema não é inventar, é ser inventado hora após hora e nunca ficar pronta a edição convincente. Não seria essa uma forma de amar sem garantias, o endereço para o bem-dizer do amor? O filme como ficção nos adverte de que, em sua matéria, o artista sempre precede o sem sentido que habita nossas vidas, e com ele aprendemos. O amor demanda o ser, demanda que as mulheres reivindiquem, sem cessar, o que, no filme, se percebe a partir da solução de desistência, por conta de um desejo de infinitização do gozo. Junie é o exemplo da mulher que não negocia o amor, não quer identificar-se como objeto causa de desejo para um homem, ela decide partir para não ser castrada pelo amor. Pois o amor é solidário à castração. O que Lacan pôde transmitir é que a falta trazida pelo real dos sexos, tanto do lado homem como do lado mulher, não é simétrica nem equivalente. Para a psicanálise, onde há sintoma, há amor. Essa falta indica que sempre haverá um trabalho a ser feito, para aquilo que a mulher como objeto não pode dar a um homem, e que um homem também não poderá completar, em relação à demanda de amor feminina, e que nem mesmo a criança consegue A bela Junie: uma conversa sobre o amor - Ângela Batista Latusa Digital Ano 9 – N. 48 – Março de 2012. preencher quanto à falta da mãe. Há um impossível que não pode ser recuperado, mas é o que permite o vazio necessário para o estatuto do objeto causa de desejo. Há algo estranho em nós mesmos. Saramago, escritor português, disse, antes de morrer: há algo em nós sem nome e esse sem nome somos nós. Esse sem nome é o desejo que insiste e que permite tornar nossa infelicidade neurótica uma miséria cotidiana, com a qual é preciso saber-fazer algo. Afinal, com o muro do amor, devemos ser poetas, pois “qualquer pouquinho de amor é um descanso na loucura”. A bela Junie: uma conversa sobre o amor - Ângela Batista