www.brasileconomico.com.br mobile.brasileconomico.com.br SEXTA-FEIRA, 2, E FIM DE SEMANA, 3 E 4 DE JULHO, 2010 | ANO 2 | Nº 215 | DIRETOR RICARDO GALUPPO | DIRETOR ADJUNTO COSTÁBILE NICOLETTA R$ 3,00 Aviação Outlook Ele fez mais de 70 filmes. Sem lei de Companhias estrangeiras querem incentivo, sem patrocínio, sem nada ocupar mais espaço no céu brasileiro Redescoberto pelo novo cinema nacional, o ator e produtor David Cardoso só queria ser Tony Ramos. Qatar Airways, Aegean Airlines e Copa são algumas das que ampliam a disputa por passageiros. ➥ P20 E 32 Genética vira aliada da economia para enfrentar envelhecimento Análise do DNA poderá prever longevidade da população, com benefícios para Previdência, saúde e indústria do consumo Estudo publicado hoje por cientistas da Universidade de Boston decifra o primeiro código genético de um grupo de pessoas com mais de 100 anos de vida. O ba- rateamento do uso da genética abre caminho para que indivíduos possam descobrir a própria longevidade e se preparar para uma vida mais saudável. No Bra- sil, os mercados de serviços financeiros e consumo começam a se adaptar ao envelhecimento da população, que acrescenta desafios às políticas públicas. ➥ P4 Tabelas para aposentadoria privada passarão por atualização demográfica a cada cinco anos. Márcio Mercante/O Dia As cariocas Ana Caroline (à esq.) e Alice: dobradinha pelo hexa Brasil enfrenta a Holanda com dúvida no meio-campo Três jogadores brigam por uma vaga no time de Dunga que entra em campo hoje, às 11h, em partida válida pelas quartas de final da Copa. Caso Felipe Melo seja vetado para a posição, o técnico brasileiro pode optar por Josué ou Gilberto. ➥ P46 INDICADORES Bancos agilizam atendimento para construtoras menores Instituições financeiras identificam maior demanda e treinam equipes para dinamizar a concessão de financiamento à produção de unidades habitacionais feitas por essas empresas. Aumento da renda da população e estabilidade econômica dão maior confiança para que construtoras de menor porte tomem mais crédito. ➥ P36 ▼ ▼ ▲ ▲ ▼ ■ ▲ ▼ ▼ ▼ ▼ TAXAS DE CÂMBIO Dólar Ptax (R$/US$) Dólar comercial (R$/US$) Euro (R$/€) Euro (US$/€) Peso argentino (R$/$) JUROS Selic (a.a.) BOLSAS Bovespa Dow Jones Nasdaq S&P 500 FTSE 100 Hang Seng 1º.7.2010 COMPRA VENDA 1,8006 1,7998 1,7960 1,7940 2,2491 2,2480 1,2491 1,2490 0,4581 0,4576 META EFETIVA 10,16% 10,25% VAR. % ÍNDICES 0,49 61.236,20 -0,42 9.732,53 2.101,36 -0,37 1.027,37 -0,32 -2,26 4.805,75 feriado Candidatos avaliam o alcance dos debates Cisco ousa e vai além dos roteadores de internet Só o tucano José Serra foi ontem ao evento na Confederação Nacional da Agricultura. Estrategistas discutem até que ponto os embates verbais são necessários para atrair votos, principalmente no caso de Dilma Rousseff. ➥ P12 A maior empresa de equipamentos para redes do mundo vem colocando em prática a estratégia de entrada em novos mercados e garante que será líder nos setores em que decidir atuar, todos voltados para a web. ➥ P22 2 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010 NESTA EDIÇÃO Namas Bhojani/Bloomberg Em alta Fusões e aquisições no alvo da Intralinks Fabricante de sistemas para troca de dados confidenciais entre empresas abriu na semana passada, em São Paulo, seu primeiro escritório na América Latina. ➥ P26 Divulgação A conquista da clientela pelo estômago Estratégia de abrir restaurantes junto às lojas de varejo é adotada por redes de supermercados como a mineira Verdemar, matogrossensse Modelo, e paulista Coop. ➥ P29 Sabesp investirá R$ 16,9 bi em 30 anos Cisco diversifica para ficar mais forte em internet A líder global no fornecimento de equipamentos para redes de internet passa por uma grande transformação com a abertura de novas frentes de negócios que abrangem desde computadores tablets e equipamentos de comunicação até o smartgrid, modelo que permite às distribuidoras de energia usar a internet para o tráfego de dados. “Ganhamos participação em quase todas as áreas que entramos, compramos três empresas grandes e lançamos 400 produtos em um ano”, afirma John Chambers, presidente que comanda essa mudança. Em 2009, a Cisco faturou US$ 36 bilhões. ➥ P22 Estaleiros levantam âncoras em direção ao Nordeste Mais aviões decolam rumo ao Brasil Henrique Manreza Companhias aéreas como Qatar Airways, Emirates, a grega Aegean Airlines, e Copa Airlines, estreiam rotas e ampliam número de voos com destino a aeroportos brasileiros. ➥ P32 Dilma e Marina ausentam-se de debate Apenas José Serra, candidato do PSDB, atendeu ao convite da CNA. As candidatas do PT e do PV ausentaram-se por diferentes motivos estratégicos. ➥ P12 Código Florestal afeta política climática Ambientalistas e consultores alertam que a aprovação das novas regras elevará o potencial de desmatamento no país, especialmente nas pequenas propriedades. ➥ P16 Dados do Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval) revelam que existem atualmente projetos contratados no valor de R$ 7,6 bilhões, dos quais R$ 6,1 bilhões distribuídos entre Bahia, Pernambuco e Alagoas. Está prevista a implantação de 17 estaleiros no país nos próximos anos, dos quais nove na região Nordeste. Antes da inauguração do Atlântico Sul, no ano passado, no complexo de Suape, em Pernambuco, o Nordeste não contava com nenhum empreendimento do tipo. Até então, a indústria naval, com perfil petrolífera, se concentrava no estado do Rio de Janeiro. ➥ P14 Rede de supermercados de Minas arma estratégia para enfrentar o avanço do Pão de Açúcar, Carrefour e Walmart, que inclui a abertura de lojas de conveniência. Até o fim do ano, será inaugurada a primeira unidade que terá a bandeira Aki% e seguirá os moldes do Extra Fácil, do grupo Pão de Açúcar. Também está prevista a inauguração, este ano, da segunda unidade de atacarejo Suprir Aki, em Barbacena, e mais um supermercado Bahamas, em São João Del Rei. As três lojas e a construção de um novo centro de distribuição consumirão, como informa o presidente Jovino Reis, receberão investimentos de R$ 40 milhões no ano. ➥ P28 Francesa Legrand prefere o Brasil Evandro Monteiro Fechamento de fábricas no Peru, na Costa Rica e no Chile faz parte da estratégia de concentrar operações no país, afirma André Vidal, presidente no Brasil. ➥ P30 American Airlines terá 68 frequências Companhia americana comemora 20 anos no país como a estrangeira com o segundo maior número de frequências, atrás apenas da TAP, que tem 70. ➥ P33 Vestuário vira moda entre investidores Varejistas como Lojas Renner e Marisa despertam o apetite dos aplicadores em ações, motivados pelo maior volume de vendas às classes de menor renda. ➥ P38 Evandro Monteiro O jeito mineiro do Bahamas enfrentar os grandes grupos Acordo entre a estatal estadual, prefeitura paulistana e governo paulista garante a expansão da rede. Meta é atingir 98,7% do abastecimento de água na capital até 2018. ➥ P31 O celular avisa que o rio vai transbordar Ação da Vale é a mais recomendada Professor Jo Ueyama, da USP, adapta sensor de enchentes desenvolvido por seu colega Daniel Hughes que permite alertar as pessoas sobre riscos de enchentes. ➥ P18 Enquanto os papéis da mineradora lideram as recomendações de analistas, os da Petrobras perdem espaço para ações como as do Itaú Unibanco e da OGX. ➥ P42 Laguna e Mais preparam plano de voo Faltará mão de obra na Copa de 2014 Anac autoriza a criação da Laguna Linhas Aéreas, de São José dos Campos (SP), para operar linhas domésticas, e da Mais Linhas Aéreas, com sede e Salvador (BA). ➥ P20 Ministério do Trabalho e Emprego avalia, com base em dados do IBGE e Ipea, que haverá carência de 300 mil profissionais para atuar em atividades ligadas ao evento. ➥ P46 Adalberto Roque/Reuters A FRASE “Este é o lugar a que pertenço. Aqui me sinto bem” Elián González, agora com 16 anos, que há uma década transformou-se no pivô de uma batalha jurídica entre Cuba e Estados Unidos, ao ser resgatado por americanos quando o barco em que era levado para os EUA pela mãe naufragou. Devolvido ao pai cubano, hoje ele é aluno de uma escola militar. Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 3 EDITORIAL Andre Penner NILTON PELEGRINO, DIRETOR DE EMPRÉSTIMOS E FINANCIAMENTOS DO BRADESCO Os bons fluidos de uma vida longa e saudável A população brasileira, como a de muitos países em desenvolvimento, está envelhecendo, assim como ocorreu com os habitantes de nações europeias e dos Estados Unidos. Isso é sabido e já foi muito discutido. O tema, porém, continua na pauta. Reportágem que será publicada hoje pela revista científica americana Science traz um estudo sobre uma série de padrões genéticos, chamados SNPs em inglês, que estão associados a indivíduos que vivem mais de 100 anos, como explicado a partir da página 4. Espera-se poder prever, no futuro, se as pessoas que carregam algum desses padrões em seu DNA terão realmente vida mais longa. Isso, é claro, desde que mantenham um certo bom senso, como ter uma alimentação saudável e não, por exemplo, se aventurar em esportes radicais e perigosos. Afinal, mesmo a natureza tem limites. Um cidadão saudável, que se preveniu, pode ser uma caixa de tesouro para o comércio, turismo e serviços Uma população que vive mais acarreta implicações diversas, que ultrapassam em muito a medicina. Previdência social fornecida pelos governos é sempre a principal lembrança nesses casos. Mas há outros fatores que podem ser promissores para a economia. Um cidadão saudável, que se preveniu e planejou sua aposentadoria, pode ser uma caixa de tesouro para o comércio, o turismo e os serviços. Há também implicações éticas, que surgiram já com outras revelações feitas a partir do sequenciamento do código genético humano. Empresas de seguros ou planos de saúde podem usar essa informação de modo não saudável para seus clientes, por exemplo. Ao mesmo tempo, o conhecimento sobre o que protege e aumenta a vida de algumas pessoas pode ser utilizado para que se desenvolvam medicamentos específicos ou terapias gênicas para aumentar a expectativa de vida daqueles que não tiveram tanta sorte genética. ■ No primeiro semestre, o Bradesco fechou 64 contratos de financiamento com construtoras de menor porte, 137% a mais que um ano antes. “Fizemos em seis meses o que levamos o ano passado todo para fazer”, diz Nilton Pelegrino, diretor de empréstimos e financiamentos. ➥ P36 Diretor de Redação Ricardo Galuppo Diretor Adjunto Costábile Nicoletta [email protected] BRASIL ECONÔMICO é uma publicação da Empresa Jornalística Econômico S.A. Presidente do Conselho de Administração Maria Alexandra Mascarenhas Vasconcellos Diretor-Presidente José Mascarenhas Diretor-Vice-Presidente Ronaldo Carneiro Diretores Executivos Alexandre Freeland e Ricardo Galuppo Redação, Administração e Publicidade Avenida das Nações Unidas, 11.633 - 8º andar, CEP 04578-901, Brooklin, São Paulo (SP), Tel. (11) 3320-2000. Fax (11) 3320-2158 Editores Executivos Arnaldo Comin, Fred Melo Paiva, Gabriel de Sales, Jiane Carvalho, Thaís Costa Produção Editorial Clara Ywata Editores Fabiana Parajara e Rita Karam (Empresas), Carla Jimenez (Brasil), Cristina Ramalho (Outlook e FS), Laura Knapp (Destaque), Marcel Salim (On-line), Márcia Pinheiro (Finanças) Subeditores Claudia Bozzo (Brasil), Estela Silva, Isabelle Moreira Lima (Empresas), Luciano Feltrin (Finanças), Maeli Prado (Projetos Especiais), Phydia de Athayde (Outlook e FS) Repórteres Amanda Vidigal, Ana Paula Machado, Ana Paula Ribeiro, Bárbara Ladeia, Carlos Eduardo Valim, Carolina Alves, Carolina Pereira, Cintia Esteves, Claudia Bredarioli, Conrado Mazzoni, Daniela Paiva, Denise Barra, Domingos Zaparolli, Dubes Sônego, Elaine Cotta, Fabiana Monte, Fábio Suzuki, Felipe Peroni, Françoise Terzian, Gabriel Penna, João Paulo Freitas, Juliana Elias, Karen Busic, Luiz Henrique Ligabue, Luiz Silveira, Lurdete Ertel, Marcelo Cabral, Maria Luiza Filgueiras, Mariana Celle, Mariana Segala, Marina Gomara, Martha S. J. França, Michele Loureiro, Micheli Rueda, Natália Flach, Natália Mazzoni, Nivaldo Souza, Paulo Justus, Pedro Venceslau, Priscila Machado, Regiane de Oliveira, Ruy Barata Neto, Thais Folego, Vanessa Correia Brasília Simone Cavalcanti, Sílvio Ribas Rio de Janeiro Daniel Haidar, Ricardo Rego Monteiro Arte Pena Placeres (Diretor), Betto Vaz (Editor), Cassiano de O. Araujo, Evandro Moura, Letícia Alves, Maicon Silva, Paulo Argento, Renata Rodrigues, Renato B. Gaspar, Tania Aquino, (Paginadores) Infografia Alex Silva (Chefe), Monica Sobral, Rubens Neto Fotografia Antonio Milena (Editor), Marcela Beltrão (Subeditora), Henrique Manreza, Murillo Constantino (Fotógrafos), Angélica Bueno, Thais Moreira (Pesquisa) Webdesigner Rodrigo Alves Tratamento de imagem Henrique Peixoto, Luiz Carlos Costa Secretaria/Produção Shizuka Matsuno Jornalista Responsável Ricardo Galuppo Departamento Comercial Heitor Pontes (Diretor Executivo), Solange Santos (Assistente Executiva) Publicidade Comercial Gian Marco La Barbera (Diretor), Juliana Farias, Renato Frioli, Valquiria Resende, Wilson Haddad (Gerentes Executivos), Márcia Abreu (Gerente), Alisson Castro, Bárbara de Sá, Celeste Viveiros, Edson Ramão, Vinícius Rabello (Executivos de Negócios), Andreia Luiz (Assistente) Publicidade Legal Marco Panza (Diretor Comercial), Ana Alves, Carlos Flores, Celso Nedeher (Executivos de Negócios), Andreia Luiz (Assistente) Departamento de Marketing Evanise Santos (Diretora), Samara Ramos (Coordenadora) Operações Cristiane Perin (Diretora) Departamento de Mercado Leitor Flávio Cordeiro (Diretor), Nancy Socegan Geraldi (Assistente Diretoria), Carlos Madio (Gerente Negócios), Rodrigo Louro (Gerente MktD e Internet), Giselle Leme (Coordenadora MktD e Internet), Silvana Chiaradia (Coordenadora Tmkt ativo), Alexandre Rodri- gues (Gerente de Processos), Denes Miranda (Coordenador de Planejamento) Central de atendimento e venda de assinaturas 4007 1127 (capitais) 0800 600 1127 (demais localidades). De segunda a sexta-feira, das 7h às 20h. [email protected] TABELA DE PREÇOS Assinatura Nacional Trimestral R$ 147,50 Semestral R$ 288,00 Anual R$ 548,00 Condições especiais para pacotes e projetos corporativos (circulação de segunda a sexta, exceto nos feriados nacionais) Impressão: Editora O Dia S.A. (RJ) Oceano Ind. Gráfica e Editora Ltda. (SP/MG/PR/RJ) FCâmara Gráfica e Editora Ltda. (DF/GO) RBS - Zero Hora Editora Jornalística S.A. (RS/SC) 4 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010 DESTAQUE DEMOGRAFIA Genética abre as portas para o Pesquisa do DNA promete gerar profundas mudanças na gestão de governos e empresas Martha San Juan França [email protected] Um estudo publicado na revista Science hoje promete acrescentar mais polêmica à discussão sobre os benefícios que os avanços da genética trazem para o conhecimento da saúde. Suas implicações econômicas também não podem ser descartadas. A pesquisa da Escola de Saúde Pública da Universidade de Boston, liderado pela cientista Paola Sebastiani, mostra uma série de padrões genéticos (SNPs, na sigla em inglês) associados a indivíduos que vivem mais de 100 anos. Levanta-se a possibilidade de que, no futuro, será possível prever se os portadores desse padrão genético terão uma vida longa, desde que façam escolhas saudáveis e os fatores ambientais permitam. Suas implicações vão muito além da medicina. A expectativa sobre o envelhecimento da população influencia o consumo, a transferência de capital e propriedades, impostos, pensões, o mercado de trabalho, a composição e a organização da família. Sem falar em planos de saúde e previdência. “ O envelhecimento é um processo normal, inevitável, e não uma doença. Portanto, não deve ser tratado apenas com soluções médicas Wilson Jacob, coordenador do núcleo de geriatria do Hospital Sírio Libanês Uso das informações O temor imediato, muito discutido nos Estados Unidos e em países da Europa, é de que as informações contidas nos genes poderiam ser utilizadas pelas empresas de seguros ou de planos de saúde, que passariam a cobrar mais tanto das pessoas que têm propensão a doenças graves como daquelas que têm a probabilidade de viver mais. Isso porque, com o desenvolvimento acelerado das técnicas de leitura dos genes, espera-se que seja possível saber por antecipação se uma pessoa terá mesmo uma vida longa. Hoje, nos Estados Unidos e na Europa, empresas privadas já se dispõem a analisar porções do genoma (conjunto do DNA) de seus clientes por um preço que pode chegar a US$ 400. O resultado é um relatório que lista a presença (ou ausência) de traços relacionados a males como vários tipos de câncer, doenças cardíacas, diabete, mal de Alzheimer e até calvície. Mais saudáveis Os pesquisadores de Boston fazem parte do projeto multidisciplinar Long Life Family Study, financiado pelo National Institutes of Health (NIH), ou Institutos Nacionais de Saúde, dos Estados Unidos. Há anos eles estudam as características físicas e comportamentais dos idosos. Liderados por Thomas Perls, que também assina o artigo na revista Science, observaram que as pessoas que vivem acima da expectativa média de vida, às vezes mais de 100 anos, mantêm sua independência funcional e são mais saudáveis do que o normal até a morte. Ele espera que o conhecimento molecular das alterações que estão protegendo o organismo desses idosos e de suas famílias poderá ser aplicado para definir intervenções estratégicas, como novos remédios e terapias gêni- cas destinados a aumentar a expectativa e a qualidade de vida do restante da população. Alguns genes podem propiciar vida mais longa e também mais saudável Políticas sociais Também é necessário investir na implementação de políticas públicas para propiciar condições de vida saudável e de qualidade para a população de idosos. “O envelhecimento é um processo normal, inevitável e não uma doença”, afirma o geriatra Wilson Jacob, do Hospital Sírio Libanês. “Portanto, não deve ser tratado apenas com soluções médicas, mas também com intervenções sociais e econômicas.” Os especialistas defendem que as políticas de envelhecimento ativo devem levar em conta renda, trabalho e proteção social. “Idosos de baixa renda têm uma probabilidade 30% maior de apresentar problemas funcionais se comparados aos que possuem renda alta e podem dispor de cuidados maiores”, diz Jacob. ■ MUITO ALÉM DA MEDICINA ● Pesquisa da Universidade de Boston mostra semelhança de padrões genéticos em pessoas que vivem mais de 100 anos. ● Programa no site http://www.bumc.bu.edu/centena rian/) ajuda a interpretar predisposição à longevidade. ● Implicações vão além da medicina e influenciam vários aspectos como economia, comportamento e consumo. Infografia: Alex Silva VARIAÇÃO GENÉTICA E AS PISTAS DA SAÚDE E DAS DOENÇAS Cerca de 99% do genoma das pessoas é idêntico, mas existem 10 milhões de pontos que variam entre os indivíduos e são objeto de pesquisas Objetivo é entender como se pode envelhecer com bom desempenho cognitivo DNA SNP SNPS Análise Abreviação em inglês de “polimorfismo de nucleotídeo único”. Quer dizer uma troca de letras em posições determinadas da cadeia de DNA que diferem de pessoa para pessoa. Cada um de nós pode ter até 1 milhão de SNPs diferentes SNPS COMUNS São estudados para saber, por análise estatística, quais estão associados a diferentes doenças ou, no caso, a pessoas de vida longa. Mas podem ser acionados por vários fatores SNPS RARAS São mutações únicas ou pouco frequentes associadas a doenças específicas A possibilidade de aumentar a expectativa média de vida ou de prever e planejar o que se pode fazer nos muitos anos à frente da aposentadoria também é tema de pesquisa dos cientistas brasileiros. A geneticista Mayana Zatz espera iniciar um projeto batizado de 80+, com algumas semelhanças com o da Universidade de Boston. “Nosso estudo poderá comprovar se os genes da longevidade são tão relevantes quanto os que aumentam os riscos de doenças”, afirma. Mas ela ressalva que testes que demonstram predisposição genética Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 5 LEIA MAIS Os idosos representam 23% da população brasileira e respondem por 17% das compras no país. Poucas empresas, porém, aproveitam seu potencial de consumo. O aumento da expectativa de vida exigirá que se acelere a reforma da Previdência e que sejam investidos mais recursos na ampliação dos serviços de saúde do país. Com criação de tabela brasileira, seguradoras vão passar a formular planos de previdência privada com expectativa de vida real dos habitantes do país, e não dos EUA. envelhecimento planejado Antonio Milena TRÊS PERGUNTAS A... Divulgação ...PAOLA SEBASTIANI Cientista especializada em bioinformática “Conseguimos prever se uma pessoa pode viver 100 anos” Coordenadora da pesquisa sobre genética e longevidade, Paola Sebastiani, da Universidade de Boston, espera que seu trabalho motive o estudo de centenários em outras partes do mundo. O estudo da revista faz parte de um projeto maior. A senhora poderia explicar o objetivo? de cérebro saudável no Brasil não são determinísticos. “A incidência de doenças depende de muitos fatores, como os hábitos e o estilo de vida”, enfatiza. A pesquisa do Centro do Genoma Humano da Universidade de São Paulo (USP) — dirigido por Mayana —, em conjunto com o Hospital Albert Einstein, correlaciona a análise do genoma com informações de imagens obtidas por ressonância magnética funcional para avaliar o bom funcionamento do cérebro na terceira idade. Cérebro ativo Esta questão também é objeto de outra pesquisa, já em andamento na Faculdade de Medicina da USP. “Estamos avaliando quem tem mais de 80 anos com Pesquisas sobre a saúde dos centenários vão na contramão do que se fazia no passado, diz especialista o cérebro trabalhando bem”, disse o geriatra Wilson Jacob, que também é coordenador do Núcleo de Geriatria do Hospital Sírio Libanês. Nesse estudo, os pesquisadores analisam, com autorização dos familiares, os cérebros de pessoas consideradas idosas, geralmente com mais de 80 anos, depois da morte. “Buscamos entender do ponto de vista da genética e de outros fatores, como essas pessoas tiveram uma longa vida com bom desempenho cognitivo”, explica Jacob. Jacob avalia que pesquisas como essa vão na contramão do que se fazia no passado. “Mais do que em qualquer outra época da história da humanidade, todos temos grande probabilidade de viver muito”, explica. “Por isso, a perspectiva agora é, em vez de esperar o momento de ficar doente para se cuidar, trabalhar em função de conservar a saúde.” O geriatra compara a situação atual com uma maratona. “Estamos todos participando da corrida, nos esforçando para chegar ao fim. Para isso, fazemos as coisas mais indicadas, como treinar, comer adequadamente, usar os sapatos mais confortáveis. A proposta não é saber quem vai ser o campeão, mas quem consegue chegar ao fim se divertindo e gostando do que está fazendo.” Com a saúde acontece o mesmo, de acordo com o médico. ■ M.F. Em 1995 começamos a acompanhar quase 2 mil centenários e mais de 100 supercentenários (pessoas que viveram mais de 110 anos). Meu colega Thomas Perls mostrou que irmãos de centenários têm mais probabilidade de viver até idades mais avançadas, comparados com a média da população. Esse traço familiar sugere que a longevidade tem componentes genéticos. Nós escaneamos o genoma de mais de mil centenários e um número similar de controle e identificamos marcadores que apontam para genes novos e outros já conhecidos envolvidos na longevidade. Geramos um modelo de probabilidade. Com esse modelo, prevemos com 77% de certeza se uma pessoa pode viver até 100 anos ou mais. Os resultados podem ser aplicados para povos de outras origens, como no caso do Brasil? No estudo tivemos que nos restringir a caucasianos da Europa. Mas planejamos aplicar as descobertas para outras etnias e esperamos que nosso trabalho motive o estudo de centenários em outras partes do mundo, como já está havendo no Japão e em outros países da Europa. Como esse estudo pode complementar os testes de DNA que preveem a probabilidade de doenças? Notamos que centenários tendem a ter aproximadamente o mesmo número de doenças associadas às variantes genéticas da população de controle. A previsão de doenças baseado em dados genéticos é um problema complexo e estamos muito longe da solução. 6 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010 DESTAQUE DEMOGRAFIA Murillo Constantino Indivíduos de mais idade hoje representam um contingente de consumidores que não deve ser desprezado Potencial do “novo idoso” é pouco aproveitado no consumo Especialista lembra que pessoas mais velhas que se prepararam para viver muito tendem a gastar mais Martha San Juan França [email protected] Foi-se o tempo em que o idoso era associado ao vovô esquecido na cadeira de balanço ao lado da senhora enrugada e de cabelos brancos fazendo crochê. Hoje, a existência de idosos saudáveis e produtivos já é uma realidade e deve influenciar o mercado e até melhorar o consumo. Para a especialista em gerontologia Beltrina Corte, da Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP), as oportunidades de inclusão são imensas. Uma pesquisa recente da GfK Brasil mostrou que os idosos já representam 17% do poder de compra no país. Além disso, 88% dos brasileiros acima de 60 anos possuem renda própria, segundo a empresa de pesquisa. Outro levantamento, feito pelo IBGE, aponta, segundo a GfK, que em 2020 as pessoas com idade acima de 50 anos repre- sentarão 18 milhões de consumidores no País, com renda total de R$ 25 bilhões. Hoje, essa faixa etária corresponde a 43% da classe de renda mais alta (acima de dez salários mínimos). No total da população, são 23% e costumam ir mais vezes às compras. Viajar, comprar, passear “Os idosos que vivem apenas com a aposentadoria têm de fato o dinheiro contado”, afirma Beltrina. “Mas existe um contingente grande que se preparou para a velhice e está disposto a gastar consigo mesmo ou com seus familiares. São pessoas desejosas de viajar, comprar, passear, estudar.” É o caso da dona-de-casa Anita Zumbano Fochesato, de 60 anos, que costuma viajar todo ano com a mãe, de 91 anos. “Nós estamos planejando ir ao Nordeste em um cruzeiro de navio”, conta. “Eu acho muito Pesquisa da GfK mostra que os idosos representam 17% do poder de compra no país, mas mercado ainda não aproveita seu potencial comercial saudável se mexer e conhecer novos lugares.” Anita e a mãe também adoram fazer compras e estão sempre atentas para o que ocorre á sua volta, lendo e vendo televisão. Depois de trabalhar a vida toda, primeiro em uma companhia de aviação, depois numa loja e finalmente em um restaurante, ela quer aproveitar a vida. “Não estamos na fase de economizar”, afirma. “Como não temos compromissos, estamos na época de gastar.” Produtos dirigidos Para Beltrina Corte, histórias como essa mostram que o mercado precisa acordar e ver o potencial de consumo dos mais idosos. Os “novos velhos” trabalham, suam na academia, conversam com os filhos e netos por Skype e vão a festas. Mas são poucos os produtos especialmente dirigidos a essas pessoas que ainda têm muito a viver. “Infelizmente, o mercado ainda não considera o design, a cor, o comportamento dessa população”, argumenta a gerontóloga. Ela lembra que há enormes possibilidade na arquitetura, lazer, comércio, moda e beleza, além do turismo. Ao comentar a pesquisa, Paulo Carramenha, diretor presidente da GfK Brasil, chamou a atenção para o fato de que a maior expectativa de vida da população é uma das cinco tendências mundiais que influenciam o consumo. Na Alemanha, por exemplo, a empresa constatou que muitas pessoas com idade entre 50 e 69 anos fazem compras on line. No Brasil, segundo Carramenha, essa tendência está começando e deverá pautar vários setores. Mas é preciso levar em conta as especificidades desse público, tanto no aspecto das necessidades físicas como na transformação de interesses. ■ Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 7 Plano de saúde pode custar 6 vezes mais para pessoas acima de 60 anos Empresas terão de reinventar seu modelo de fazer negócios para reduzir custos Regiane de Oliveira [email protected] No modelo atual de cobrança, os planos de saúde chegam a custar até seis vezes mais para uma pessoa acima de 60 anos. “Se uma pessoa na primeira faixa [de 0 a 18 anos] adquirir um plano de R$ 100, possivelmente vai chegar à última faixa pagando R$ 600”, afirma Arlindo de Almeida, presidente da Associação Brasileira de Medicina de Grupo (Abramge). “Esta é uma equação complicada, pois é a época da vida em que a pessoa costuma ter menos recursos”, diz. Além do mais, a grande maioria dos planos de saúde passou a focar a venda de seus produtos nos planos corporativos, uma vez que os preços de individuais são regulados pelo governo. Dos mais de 190 milhões de habitantes do país, cerca de 43 milhões utilizam serviços do setor de saúde privado (planos de saúde, seguradoras, cooperativas, autogestão). E, segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), as pessoas com mais de 60 anos representaram 11% do total de usuários de planos de saúde em 2009. A participação de beneficiários idosos na carteira dos planos de saúde aumentou 4,6% desde 2000, segundo dados da ANS. O setor de saúde suplementar está atento à mudança no perfil demográfico e às possibilidades comerciais que ele pode gerar. Mas, para isso, as empresas terão de mudar seu perfil de negócio. “As operadoras do setor de saúde têm de fazer o mapeamento de sua população para identificar o nicho de pessoas que têm doenças crônicas e fazer o gerenciamento”, diz Almeida. As empresas terão de mudar de um atendimento assistencial para um trabalho preventivo, com foco na qualidade de vida. “Em São Paulo, por exemplo, há um plano de saúde focado para idosos”, afirma. Trata-se da Prevent Sênior, empresa fundada em 1997, do grupo Sametrade, que atende 115 mil vidas. De acordo com o Caderno de Informações da Saúde Suplementar de março, um estudo mostra que as despesas assistenciais para o grupo de pessoas acima de 85 anos são três vezes maiores que o gasto per capita do grupo de 65 a 74 anos, e duas vezes maior que do grupo de 75 a 84 anos. Almeida afirma que medidas da ANS, como o novo rol de procedimentos, começam a levar em conta o envelhecimento da população e a necessidade de redução de custos. “As empresas agora têm de cobrir cirurgias endoscópicas, por exemplo, que permitem recuperação em tempo menor”, afirma. Novas tecnologias, segundo Almeida, também ajudam a Crescimento da participação de usuários por faixa etária nos planos de saúde, em milhões 70 anos ou mais 20 a 59 anos 0,8 60 anos ou mais 80 anos ou mais 0,7 0,6 0,6 0,5 0,5 1,8 3,8 1,9 3,9 2,0 4,1 2,1 4,4 0,7 2,3 2,2 4,6 4,8 26,7 25,4 0,4 0,4 0,4 1,5 3,3 1,5 3,4 1,6 3,4 17,7 18,2 18,4 18,9 9,3 10,3 10,6 9,3 9,9 11,3 9,6 9,7 10,9 9,7 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 1,7 3,6 prolongar a vida, porém não são acessíveis a todos. “O país ainda precisa investir em questões básicas como saneamento, vacinação, controle de epidemias e boa qualidade de atendimento do SUS [Sistema Único de Saúde]”, diz. Algumas inovações da ciência, se depender de Almeida, não devem ser aplicadas. O mapeamento genético, por exemplo. “Imagine pensar em um plano de saúde que cobre a pessoa pelo tempo de vida previsto em sua análise genética. É absurdo”, afirma. ■ Este anúncio tem caráter meramente informativo. Novo modelo NÚMERO DE BENEFICIÁRIOS 0 a 19 anos Grupo representou 11% do total de usuários de planos de saúde em 2009 21,2 A LLX Sudeste obteve êxito na contratação de Financiamento de Longo Prazo junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES, para a implantação do Superporto Sudeste, terminal portuário de uso privativo misto, localizado no município de Itaguaí, Estado do Rio de Janeiro R$ 1.212.761.231,00 23,8 22,5 20,1 O Bradesco BBI atuou como Assessor Financeiro exclusivo da LLX nesta operação Junho/2010 Fonte: Caderno de Informações da Saúde Suplementar - Março de 2010 SIB/ANS/MS - 12/2009 8 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010 DESTAQUE DEMOGRAFIA Antonio Milena Novos padrões para plano privado Seguradoras têm, agora, dados brasileiros para calcular melhor seus riscos Thais Folego [email protected] Nova demografia exigirá reformas na Previdência e em outras políticas públicas do país Previdência e sistema de saúde precisam ser revistos Brasil desperdiça bônus demográfico e investe pouco em serviços essenciais [email protected] “O Brasil vai envelhecer antes de ficar rico.” A frase, repetida diversas vezes pelo economista e ex-ministro da Fazenda Delfim Netto, retrata qual será a realidade do país daqui a algumas décadas. Hoje, o Brasil ainda vive o chamado bônus demográfico, que é quando a população economicamente ativa é maior que a de aposentados. Mas ele acabará, no máximo, em 2055, segundo estimativas da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Um estudo recente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é menos otimista. Para o banco, que diz que o país já desperdiçou 30 anos de bônus, o fim da vantagem será em 2025. “O Brasil nunca aproveitou esse bônus para tornar a Previdência superavitária”, explica Jorge Arbache, que realizou o estudo para o BNDES. Só neste ano, a Previdência acumula déficit de R$ 20 bilhões . De acordo com a CNI, o país gasta hoje 11,5% do Produto Interno Bruto (PIB) com Previdência, enquanto em países como Bélgica e Espanha, o gasto é de 12,5% - mas, nesses países, 22% da população tem mais de 60 anos, enquanto no Brasil a proporção é de 9%. Hoje, o Brasil tem 4 milhões de pessoas com mais de 80 anos. Em 2040, serão 20 milhões Mas o problema está no envelhecimento da população? “Ele não deve ser visto como negativo”, responde o diretor da área de Estudos de Políticas Sociais do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Jorge Abrahão. Para ele, o envelhecimento trará grandes desafios, mas também muitas oportunidades. “Hoje, o Brasil tem 4 milhões de pessoas com mais de 80 anos. Em 2040, devem ser 20 milhões”, lembra. José Eustáquio Diniz Alves, pesquisador do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), em recente palestra afirmou que “a esperança de vida é uma das maiores conquistas da nossa história.” Ele lembrou que no Brasil, em 2009, expectativa de vida era próxima de 77 anos para mulheres e 70 para homens. E a tendência é que aumente nos próximos anos. Dados do IBGE apontam que, enquanto em 2008 as crianças de 0 a 14 anos correspondiam a 26,47% da população, o contingente com 65 anos ou mais representava 6,53%. Em 2050, o primeiro grupo representará 13,15%, ao passo que os idosos chegarão a 22,71%. Essa nova realidade, claro, vai exigir reformas e mudanças das políticas públicas do país — e não apenas na Previdência. “Teremos de repensar o nosso modelo de saúde pública, o mercado de trabalho vai mudar e as empresas terão de pensar em novos serviços para atender as necessidades dessa população mais idosa”, diz Abrahão. O aumento da expectativa de vida do brasileiro fez com que o mercado de previdência privada e de seguros de vida tivesse que se adaptar, já que trabalha com o risco de morte e de vida das pessoas. Até o ano passado, por exemplo, eram usados dados sobre a longevidade dos americanos para os cálculos dos planos privados de aposentadoria e apólices de vida. Neste ano, porém, foi lançada uma tábua atuarial (tabelas com as probabilidades de sobrevivência e morte de uma população) com os dados dos brasileiros. Lá fora, porém, já há algumas iniciativas para incluir também outros fatores nesse cálculo. Por exemplo, hábitos não saudáveis, como fumar e ser sedentário, que diminuem a expectativa de vida das pessoas. “Mas isso é algo que ainda está no começo”, comenta Celina da Costa e Silva, superintendente de Serviços Técnicos da Brasilprev. No caso da previdência, uma pessoa que fuma e tem probabilidade de morrer mais cedo pode ter uma renda a receber maior no momento da concessão do benefício, já que os recursos acumulados devem ser concedidos por menos tempo. Dados mais realistas Discussão política As consequências do aumento da longevidade do brasileiro não são novidade e nem ignoradas. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) já se debruça para analisar o envelhecimento da população e seus impactos não apenas nos custos da Previdência pública, mas também na saúde e no mercado de trabalho. A análise detalhada, que será divulgada até o final do ano, traça perspectivas para o país até 2022. O tema — especialmente o déficit previdenciário — está também na pauta dos candidatos à presidência. José Serra (PSDB) propõe a adoção de um novo sistema para os contribuintes do futuro — ou as crianças que ainda não entraram no mercado de trabalho. Dilma Rousseff (PT) diz que as mudanças são necessárias, mas que terão de ser feitas paulatinamente. ■ Antes da criação da tábua brasileira, chamada de Experiência do Mercado Segurador Brasileiro (BR-EMS), usava-se a americana AT2000, uma tabela fixa, que não capturava o aumento constante da expectativa de vida. Já a brasileira será atualizada a cada cinco anos, incorporando as mudanças na longevidade. “Isso coloca o Brasil em linha com as principais economias no critério de concessão de benefícios, pois atualiza a expectativa de vida”, comenta João Batista Mendes Ângelo, superintendente de Produtos da Brasilprev. Isso torna o negócio mais justo, diz, tanto para a seguradora quanto para o cliente, pois é possível calcular a renda com dados mais realistas e evitar prejuízos para um ou outro lado. ■ Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 9 10 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010 OPINIÃO Roberto Freire Júlio Gomes de Almeida Presidente do PPS Professor de economia da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda A gestão chafariz Boom de investimentos Alguém já chamou a gestão financeira do atual governo de “gestão chafariz”. Basicamente é um tema típico da teoria do ciclo político econômico: gestores “poupam” nos dois primeiros anos. Para gastar nos dois últimos anos. Seguindo essa lógica, prefeitos adoram construir chafarizes nas praças públicas e gostam mais ainda quando podem inaugurá-los nos últimos meses de mandato. Não faz mal se o chafariz foi ideia do último prefeito ou de outros. O importante é colocar a placa. É inaugurar. Também serve reinaugurar. Nenhuma coincidência o fato do atual Plano Plurianual ter alterado toda sua lógica do núcleo central de investimentos do ensino fundamental para as obras do PAC, justamente no limite destes dois anos. Muito menos é coincidência reinaugurar ou tomar no braço obras de terceiros e se apropriar delas nas propagandas do PAC. A “gestão chafariz” olha apenas para o gasto e para o uso eleitoral dos recursos públicos. O grande problema é que, neste exato momento, o gasto público se aproxima do descontrole fiscal. Os números estão aí na mídia nos últimos dias e são incontestáveis, apesar do tom de “normalidade”emprestado, por exemplo, pelo secretário do Tesouro Nacional, Arno Augostin. Segundo este, o maior déficit fiscal do governo central desde 1999 é “neutro” e “cumpriremos sem qualquer problema a meta de superávit primário de 3,3% do PIB”. Para o referido secretário, o mais importante é o fato de que os investimentos do governo continuam a crescer, incluindo o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Pouco importa que 30% dessas obras tenham sido contestadas pelo TCU, ou que o cronograma das mesmas esteja atrasado em quase 90% delas. Além de confundir financiamento com investimento! De todos os lados vêm indicações de que já podemos comemorar a volta das inversões. Não se trata de um processo qualquer, mas sim do retorno ao “boom” que se desenvolvia na economia brasileira anteriormente à crise do último trimestre de 2008. Ontem saíram dados que dão sustentação a essa conclusão. Do lado da produção industrial, que em maio último seguiu crescendo a taxas elevadas na comparação com o mesmo mês de 2009 (14,8%), a produção de bens de capital teve aumento muitas vezes superior à evolução do setor de bens de consumo. Nesse último caso, a variação foi de 7,5%, e no primeiro, de 38,5%. Ou seja, se a indústria como um todo mantém uma favorável trajetória de crescimento nesse ano, é muito mais intenso o crescimento do setor que produz bens de capital. São esses bens que estão agregando capacidade de produzir mais bens e serviços à economia, o que colabora para o equilíbrio entre oferta e demanda agregada. O uso político do gasto público não nos levará ao crescimento, mas, sim à maior pressão inflacionária e, mais à frente, a uma grave crise fiscal Pequenas questões como o fato do pagamento dos juros, nos últimos 12 meses corridos, terem chegado à cerca de R$ 180 bilhões, algo por volta de 5,4% do PIB anual, ou da dívida pública já estar chegando em 42% do mesmo PIB não são relevantes para o secretário do Tesouro. Relevante é que se gaste no PAC, porque o programa,segundo os gestores do governo, resolverá nossas questões de infraestrutura. Provavelmente não é apenas o presidente que não gosta de ler os jornais. O uso político do gasto público, mesmo que fosse corretamente realizado em infraestrutura, é o uso feito agora. Esgotaram-se dois mandatos em outras questões “mais relevantes”. Não, o país não tem como crescer de forma “chinesa” pela simples razão de que vivemos o que se convencionou chamar de “custo Brasil” e que reflete todos os investimentos que não foram feitos nos últimos anos. O uso político do gasto público não nos levará ao crescimento, mas sim à maior pressão inflacionária já agora e, mais à frente, a uma grave crise fiscal, que irá cair no colo do próximo presidente, seja lá quem for. Brasileiros e brasileiras sabem, porque já conviveram com isso no passado, o que significa a soma de inflação ascendente e crise fiscal. Para encerrar: anotem que a expansão do gasto é tão violenta que é maior que a expansão recorde da arrecadação tributária. Tirem suas conclusões... ■ A exigência é a progressão da taxa de investimento para 22% do PIB, e daí para 25%, em um processo que não pode tardar mais que um mandato Já os dados de importação de bens de capital, referentes a junho, mostram quadro semelhante. No primeiro semestre deste ano, as compras no exterior desses bens foram 26,2% maiores do que nos primeiros seis meses do ano passado, mas no mês final do semestre o aumento sobre junho do ano passado chegou a 51,4%. Isso denota uma grande aceleração do investimento na economia. Mas, em se tratando de investimentos, há ainda muito caminho pela frente para que alcancemos um quadro ideal. No Brasil, a taxa de investimentos em relação ao PIB chegou a um nível como 20% no terceiro trimestre de 2008, com a crise caiu para 18,2% e 15,8% nos trimestres seguintes e mesmo com a grande retomada que se seguiu ainda está distante (18,2% do PIB no primeiro trimestre deste ano) do índice inicial. Este talvez seja novamente alcançado em fins de 2010, mas, atingido este ponto, estaremos apenas reiniciando o jogo. Para ir além de neutralizar os possíveis problemas inflacionários que acompanham os processos de crescimento mais intensos e permitir que o país ingresse de fato em uma trajetória de maior sustentação de seu desenvolvimento, a exigência é a rápida progressão da taxa de investimento para 22% do PIB, e daí para 25% do PIB, em um processo que, como um todo, não pode tardar mais do que um mandato de governo. Aperfeiçoar e ser mais ousado nas políticas industrial e de infraestrutura seriam passos importantes. É preciso também remover antigos entraves e introduzir incentivos que muitos países adotam, incluindo os países desenvolvidos. No Brasil, o investimento ainda é taxado, sobretudo através do ICMS, o que não faz o menor sentido. Um poderoso incentivo fiscal seria a depreciação acelerada dos investimentos fixos, um instrumento que a Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP) introduziu em 2008, mas que ficou restrito a pouquíssimos setores, no caso, bens de capital e indústria automobilística e de auto peças. ■ CARTAS O VICE DE SERRA Após um parto difícil, nasceu a chapa que pode derrotar Dilma. Apesar do nome desconhecido, Indio é a ruptura que pode abrir novos caminhos não só para a eleição de Serra, mas também para a política do País. Com Aécio, Rodrigo Maia e ACM Neto, Índio pode ajudar a tirar a cabeça do eleitor do passado, tão a gosto de Lula e Dilma, que viveram a ditadura, as derrotas eleitorais e os arcaicos movimentos socialistas, e colocar em pauta uma agenda para o futuro, para os jovens e para o que realmente interessa — a qualidade de vida dos brasileiros. Gilberto Dib São Paulo (SP) RODRIGO SANTORO NA REVISTA FORA DE SÉRIE Não poderia haver um nome melhor para a revista, especialmente para a de Junho, que li de cabo a rabo ao recebê-la aqui na empresa onde trabalho. Já era fã do BRASIL ECONÔMICO e da revista, mas a responsável pela minha admiração extra dessa vez foi a matéria de Daniela Paiva, sobre Rodrigo Santoro e seu novo filme. Me senti em cena. Perfeita. Assim como grande parte da edição. Parabéns, Daniela, e a todo a equipe da revista Fora de Série. Lidiana Rodrigues Braziolli Belo Horizonte (MG) AVALIAÇÃO DO IPEA SOBRE TRANSPORTES — REPORTAGEM DO SUPLEMENTO TRANSPORTE E LOGÍSTICA, DE 29 DE JUNHO Em resposta à matéria “Para Ipea, retomada de gastos com transporte deveria ser mais rápida”, a Infraero esclarece que vai investir R$ 6,48 bilhões em 23 de seus 67 aeroportos entre 2011 e 2014. Desse total, R$ 4,472 bilhões são investimentos considerados essenciais para atender à demanda do setor aéreo projetada até 2014, conforme estudos do Ministério da Defesa. É importante destacar que os empreendimentos planejados estão dentro do cronograma previsto pela Infraero, com destaque para o Aeroporto Internacional do Galeão. As obras de revitalização do Terminal 1 e de finalização do Terminal 2, orçadas em R$ 566,6 milhões, estão em andamento. No Aeroporto Internacional de Guarulhos, as obras de construção do sistema de pistas e pátios foram retomadas em maio deste ano, por meio de convênio com o Exército Brasileiro. Quanto à afirmação de que as obras podem ser feitas “de forma afobada e sem seguir regras de licitação”, a Infraero destaca que segue as determinações da Lei de Licitações e Contratos. Sobre a afirmação de que “o próprio governo federal já ventilou a ideia de criar estruturas provisórias para os aeroportos durante o mundial”, a Infraero esclarece que os módulos operacionais serão adotados em 12 aeroportos, sendo quatro deles relacionados à Copa (Guarulhos, Cuiabá, Campinas e Brasília), para dar suporte ao atendimento da demanda de passageiros nesses terminais enquanto as obras definitivas são executadas. Léa Cavallero Superintendente de Marketing e Comunicação Social da Infraero Brasília (DF) Cartas para Redação - Av. das Nações Unidas, 11.633 – 8º andar – CEP 04578-901 – Brooklin – São Paulo (SP). [email protected] As mensagens devem conter nome completo, endereço e telefone e assinatura. Em razão de espaço ou clareza, BRASIL ECONÔMICO reserva-se o direito de editar as cartas recebidas. Mais cartas em www.brasileconomico.com.br. ERRATA A avaliação da empresa Marcopolo, publicada na seção Investimentos da edição da última segunda, foi feita pela corretora Brascan, e não pela Ativa. Com relação à reportagem “A arquitetura brasileira não é tão criativa quanto já foi” (edição de 18 de junho, pág. 28), o Comitê de Candidatura do Rio de Janeiro para os Jogos Olímpicos 2016 contratou o escritório BCMF, que recrutou o arquiteto Carlos Teixeira para desenvolver o conceito do projeto paisagístico a cargo do escritório. O arquiteto também não abriu uma incorporadora em Minas Gerais. Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 11 Divulgação Esponja de cor Desde que a caneta ao lado foi inventada, reproduzir cores não é mais um problema. Batizado de Color Picker Pen, o objeto foi inventado pelo designer coreano Jinsun Park, e escaneia a cor de qualquer superfície onde sua ponta é encostada, como a maçã na foto ao lado. O seu minúsculo cartucho de tinta, com as três cores básicas (vermelho, azul e verde), é reprogramado e automaticamente a caneta adquire a cor do objeto tocado. A novidade ainda não está sendo produzida para venda. Saul Loeb/AFP OBAMA EM ALTA NA AMÉRICA LATINA O presidente americano, Barack Obama, defendeu ontem, em encontro com o reverendo Al Sharpton (a quem cumprimenta na foto acima, em Washington), um acordo entre republicanos e democratas para a aprovação de uma reforma nas leis de imigração dos EUA, promessa de campanha aos seus eleitores hispânicos que ainda não foi cumprida. A imagem de Obama entre os latino-americanos está em alta, de acordo com a pesquisa Latinobarômetro, divulgada ontem: 74% dos entrevistados na região possuem uma imagem positiva do líder, o maior percentual desde que o levantamento começou a ser feito, em 1997. ENTREVISTA RUBENS GUREVICH CEO da Your Life do Brasil A ginga de Dunga e Maradona na liderança Para consultor, técnicos brasileiro e argentino possuem maneiras opostas de liderar Maeli Prado são totalmente diferentes como líderes, mas esses dois tipos de posicionamento podem ser válidos na hora de gerenciar uma equipe em uma empresa. [email protected] Rubens Gurevich, CEO da Your Life, consultoria especializada em gerenciamento de carreiras pela internet, se dedicou a analisar os estilos de liderança dos técnicos das seleções de futebol brasileira e argentina, Dunga e Maradona. A conclusão: os dois Há semelhanças entre Dunga e Maradona como líderes? Quando analisamos os perfis de quem é líder, temos algumas competências essenciais. Tanto o Dunga quanto o Maradona possuem um foco muito grande em seus objetivos, são muito competitivos e assertivos. Como Divulgação “O Maradona tem alto poder de comunicação e persuasão, é sociável, traz para si todo o foco” consequência, ambos também são prepotentes e arrogantes. E quais as diferenças entre os dois como líderes? Essas diferenças se refletem até na forma como os dois times jogam. O Maradona tem um alto poder de comunicação e persuassão, é muito sociável, traz para si todo o foco, todo brilho. Ele valoriza jogadores com esse perfil, que brilhem sozinhos, como o Messi. Já o Dunga é o inverso: ele tem um baixo grau de comunicação pessoal e um elevado grau de investigação e lógica. O Dunga é razão, o Maradona é emoção. Qual o melhor estilo? Há empresas que precisam de líderes Maradona, que vendam ideias, que sejam grandes comunicadores. Por outro lado há ambientes que podem se beneficiar muito mais de um estilo Dunga de chefiar, que apela para a razão, que exige mais disciplina dos subordinados. ■ 12 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010 BRASIL Alcance de debates ainda é incógnita José Serra (PSDB) aposta nos confrontos diretos para reagir nas pesquisas. Já Dilma Rousseff (PT) evita os duelos Pedro Venceslau [email protected] Motivos diferentes levaram Marina Silva (PV) e Dilma Rousseff (PT) a não irem ELEIÇÕES ao debate da CNA (Confederação Nacional da Agricultura), ontem, em Brasília. Para a candidata verde, que conta com 1 minuto e 6 segundos no horário eleitoral gratuito, o confronto direto não só interessa como é considerado vital. “O PV tem uma estrutura material inferior e menos tempo de TV que os adversários. Além disso, a Marina tem o carisma que os outros não têm”, diz o Alfredo Sirkis, ex–coordenador geral da campanha. A ausência nesse caso foi um recuo tático. A ex–ministra do Meio Ambiente enfrentaria um ambiente desfavorável, uma vez que o evento seria comandado por uma estrela do DEM, Katia Abreu, a plateia poderia ser hostil e o único adversário na arena seria José Serra (PSDB). “A Marina não foi porque a CNA não fez como a CNI, que enviou um documento prévio. Soubemos de fonte segura que os outros candidatos receberam. Isso é tratamento preferencial. Nós estamos acostumados com a agressividade desse setor e temos resposta para tudo. Vamos em todos os outros debates”, promete Marco Mroz, da coordenação da campanha. Já os estrategistas de Dilma decidiram que ela participará apenas dos debates considerados inevitáveis, todos na TV aberta: Gazeta/Estadão, Record, Band e Globo. A ideia é evitar que confrontos para pequenas audiências acabem em saia justa 2010 “ Na crônica política das eleições presidenciais brasileiras, nenhum debate foi decisivo no resultado final desde 1989 Antonio Lavareda cientista político e repercutam negativamente na opinião pública. “Hoje está na moda fazer debate pela internet. Recebemos mais de 20 convites, mas vamos selecionar os debates com mais visibilidade. Só para quem está na curva descendente vale a pena participar de todos. Antes não era bom para o Serra, mas agora é”, afirma Fernando Pimentel, um dos estrategistas do PT. Antes de ser ultrapassado nas pesquisas, José Serra também relutava em debater publicamente. A mudança de estratégia ficou clara na sabatina da CNI, em maio, que aconteceu depois da divulgação da pesquisa na qual o tucano e a petista apareceram empatados pela primeira vez. “Nós vamos bater na tecla que as recusas de Dilma são pretextos. Ela está fugindo do debate”, diz o tucano José Henrique Lobo, do staff de José Serra. Ausência sentida O cientista político Antonio Lavareda lembra que o primeiro debate na TV que mudou a história de uma eleição aconteceu em 1960, entre o republicano Richard Nixon e o democrata John Kennedy. Pioneiro nos EUA, o encontro foi decisivo na eleição mais disputada que já se viu naquele país. Kennedy, que entrou bronzeado e bem disposto em cena, saiu-se bem melhor que um abatido Nixon. Acabou vencendo a eleição por uma margem ínfima de votos. No caso do Brasil, o presidente Lula não foi ao debate da rede Globo na véspera do primeiro turno da eleição em 2006. “Foi um erro estratégico. Na época eu calculei que ele pode ter perdido quatro pontos. A emissora deu muito destaque ao lugar vazio. Isso colaborou para que houvesse segundo turno.” Em 1998 foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso quem não compareceu. Mesmo assim, acabou vencendo no primeiro turno. “Nesse caso a vantagem era maior. Na crônica das eleições, nenhum debate foi decisivo no resultado final desde 1989 (Collo X Lula), conclui. “É o primeiro que dá o tom e consolida os estilos. Em 2006, o Brasil descobriu que o Alckmin era um candidato agressivo no primeiro debate”, opina Fernando Mitre, da Bandeirantes. ■ Levy Fidelix, do PRTB, Sete dos doze candidatos à Presidência podem por lei participar dos debates na TV. Estão habilitados os que representam partidos que elegeram deputados federais na última eleição e que ainda contam com representantes na Câmara. Candidato pelo PRTB, o jornalista Levy Fidelix, aquele do Aerotrem, entrou com uma ação direta de Inconstitucionalidade no STF exigindo participar de todos os AGENDE-SE 5/8 14/9 É quando a rede Bandeirantes realiza o primeiro debate das eleições presidenciais. A TV Gazeta e o Grupo Estado realizam juntos um debate entre os presidenciáveis. Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 13 Munshi Ahmed/Bloomberg Superávit de US$ 7,9 bilhões no semestre A balança comercial fechou o primeiro semestre do ano com um superávit de US$ 7,887 bilhões. O saldo é 43,28% inferior aos US$ 13,907 bilhões registrados em igual período de 2009. Em junho o superávit foi de US$ 2,278 bilhões, resultado 50,5% inferior ao saldo verificado em junho do ano passado. Apesar dos menores saldos, o volume de corrente de comércio do Brasil com o exterior, no primeiro semestre do ano, de US$ 170,491 bilhões, é recorde histórico. MBA Controles Internos Some conhecimento e multiplique seu sucesso! Telefone: (11) 2184-2020 www.fipecafi.org Sérgio Lima/Folhapress Tucano vê estratégia equivocada de rivais Único dos três presidenciáveis a ir ao encontro da CNA, Serra defende opção pelo debate Sílvio Ribas [email protected] Em seu primeiro compromisso público depois da confirmação do deputado Índio da Costa (DEMRJ) como vice em sua chapa, o candidato do PSDB à Presidência, José Serra, criticou ontem a ausência de suas concorrentes em debates. Ele disse não fazer coro à estratégia de evitar a exposição e a verdade. O presidenciável foi o único presente dos três convidados para o encontro da Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA), na sede em Brasília. A candidata Dilma Rousseff (PT) alegou impedimentos de agenda para comparecer e Marina Silva (PV) desistiu alegando não ter tido conhecimento prévio das perguntas. Cobrado por extrapolar do tempo para a resposta de 12 perguntas formuladas por especialistas e dirigentes ruralistas, Serra brincou: “quero bônus. Os outros candidatos não vieram”. A presidente da CNA, senadora Katia Abreu (DEM-TO), também lamentou as ausências, por achar que “o silêncio confunde o eleitor”. O candidato do PSDB, José Serra, durante o debate de ontem na CNA: cadeiras vazias dos outrospresidenciáveis Candidato do PSDB faz promessas a empresários do agronegócio e condena a política econômica do governo e suas ligações com o MST Mesmo sem o contraponto, o presidenciável aproveitou para apontar contradições da candidata petista. Ao criticar invasões “movidas por objetivos ideológicos e não para fins de reforma agrária” do Movimento Sem-Terra (MST), “financiado por dinheiro público”, Serra associou a entidade ao governo. “Não adianta esconder o boné (do MST) no discurso e usá-lo noutra”, disse, ironizando a declaração da petista de que não usaria o símbolo da entidade, apesar de ter sido fotografada com ele. O candidato tucano também procurou se colocar na posição de nacionalista ao mesmo tempo que ironizava o perfil de esquerda do governo. “Vou estatizar o Estado”, disse, voltando a denunciar o aparelhamento da máquina pública. Descontraído, prometeu atender reivindicações dos empresários do agronegócio e apresentou outras propostas. O tucano garantiu que, se eleito, irá efetivar ao longo de seu mandato o seguro rural e a garantia de preços agrícolas, além de criar o defensivo agrícola genérico, estimular a criação de transgênicos nacionais e de combater a insegurança jurídica gerada por invasões de terra e pela legislação florestal. ■ A queda de Serra nas pesquisas o decepcionou? após um jejum de 25 anos sem eleições presidenciais. Mas isso não quer dizer ausência completa e falta de discernimento. Apesar de termos o nome mais preparado para a Presidência, tanto nós quanto eles sonhamos em ganhar no primeiro turno. Mas será uma dura batalha. TRÊS PERGUNTAS A... Marcela Beltrão entra na Justiça para ir aos debates debates na TV. “Nosso partido elegeu um parlamentar em 2006, o Fernando Collor. Se ele mudou de partido depois não importa. Não existem candidatos de segunda categoria”, diz. Para evitar congestionamento na bancada e tornar o evento mais atraente ao público, as emissoras negociam compensações aos chamados nanicos. “A ideia é reduzir o número de candidatos e dar contrapartidas em entrevista. Vamos fazer o que for possível dentro da lei, mas a legislação ainda é muito frágil”, informa Alexandre Raposo, presidente da Record. “Sigo a lei radicalmente. Fizemos diversas reuniões com os representantes dos candidatos desde o ano passado. Nós mandamos as regras e os comitês concordaram. Esse ano teremos uma funcionalidade maior”, diz Fernando Mitre, diretor de jornalismo da Band. P.V. 26/9 28/9 Nessa data a rede Record realiza o segundo debate entre os candidatos no primeiro turno. Como de praxe, a rede Globo realiza o último e decisivo debate do primeio turno. ...ROBERTO FREIRE Presidente do PPS e integrante do staff da campanha de José Serra “O eleitor ainda está mais ligado na Copa do que nas urnas” O presidente do PPS, Roberto Freire, não acredita em reviravolta na corrida presidencial em razão da ultrapassagem de Dilma Rousseff (PT) na liderança do tucano nas pesquisas. Para ele, a corrida só começou e vai esquentar em agosto, na TV. Sabemos desde o início que esta seria uma campanha difícil, mas nenhum fato até agora tirou a perspectiva de vitória da oposição. Continuo animado e acho que o público só vai se envolver mesmo com o clima eleitoral em agosto, durante a propaganda na TV. Os dados de pesquisa só mobilizam agora políticos e jornalistas. Ainda assim, lamento que outras candidaturas estejam fugindo dos encontros organizados por entidades, para debater idéias e posições. É um erro achar que essas sabatinas não ajudam a imagem dos candidatos. O público vai se voltar para propostas com visão de futuro O eleitor está desinteressado em discutir temas políticos? No geral, o eleitor não está tão envolvido com a política quanto foi no momento histórico de 1989, O empenho de Lula em favor de Dilma desequilibra o jogo? Descontado desvios institucionais desse comportamento, não acredito no fator decisivo de Lula. Nós já derrotamos candidatos apoiados pelo presidente em outras eleições e em votações no Congresso. Acreditamos na imposição da sabedoria popular em outubro. É um equívoco achar que o eleitor se contenta com melhoras pontuais, mesmo na economia. Temos prova disso na própria eleição de Lula em 2002, quando o povo afirmou querer mais do que estabilidade. Hoje também se quer mais. S.R. 14 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010 BRASIL Henrique Manreza NOVA REALIDADE PESQUISA Crescimento da América Latina é de deixar nações do Norte com inveja, diz NYT Custo de construção em São Paulo sobe 2,05% em junho, puxado por altas salariais Enquanto os Estados Unidos e Europa se lamentam em cima de gigantescos déficits e ameaças a uma retomada frágil, a América Latina reserva surpresas, diz reportagem da edição de ontem do The New York Times. Segundo o jornal americano, de um passado de resgate de países ricos, a AL experimenta crescimento que deixa com inveja as nações do Norte. E o Brasil lidera a retomada, crescendo 9% no 1º trimestre. O Custo Unitário Básico da construção civil do estado de São Paulo subiu 2,05% em junho. Esse é o índice oficial que reflete a variação dos custos do setor para utilização nos reajustes dos contratos da construção civil paulista, calculado pelo Sinduscon-SP e pela FGV. A exemplo do que ocorreu em maio, a alta em junho foi puxada pelos aumentos salariais. No mês, o custo da mão de obra subiu 3,42%. Materiais subiram 0,42%. Indústria naval migra para Nordeste Anúncio de ontem da instalação do estaleiro Promar em Pernambuco consolida investimentos na região Ag. Petrobras Juliana Elias [email protected] As idas e vindas do estaleiro Promar – que anunciou sua instalação em Pernambuco ontem, após ter a licença rejeitada no Ceará – confirma uma tendência: é no Nordeste que estão as melhores oportunidades para a nova geração da indústria naval, acostumada historicamente ao Rio de Janeiro. Ao menos é o que mostram os dados. Após um ostracismo de duas décadas, os investimentos no setor voltaram com força, e é para o Nordeste que vão 80% deles. Segundo levantamento do Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval), os projetos somam hoje R$ 7,6 bilhões, dos quais R$ 6,1 bilhões se dividirão entre Bahia, Pernambuco e Alagoas. Serão pelo menos 17 novos estaleiros nos próximos anos, sendo nove deles, inclusive o Promar, no Nordeste. É um avanço e tanto para uma região que, até o ano passado, quando foi inaugurado o estaleiro Atlântico Sul, em Suape (PE), nunca tinha tido nenhum empreendimento voltado para a indústria naval ou petroleira. E só o Atlântico Sul, com suas 160 mil toneladas de capacidade anuais de processamento de aço, já alcança sozinho mais da metade de toda a capacidade do Rio, que com a dezena de estaleiros instalada ali desde a década de 1950 pode processar hoje até 298 mil toneladas. O Atlântico Sul, ao lado do Eisa Alagoas – também com capacidade para 160 mil toneladas e só à espera das últimas licenças para começar a ser construído na praia de Coruripe – está entre os maiores do mundo. Juntos, só não deixarão o polo fluminense para trás porque este também tem um plano grande de ampliações: há entre R$ 1 bilhão e R$ 2 bilhões em investimentos aguardados, o que inclui a retomada pela Petrobras do hoje desativado Ishibrás e a possível migração do estaleiro da EBX para o Porto de Açu, após ter a licença negada em Santa Catarina. “O Rio continua sendo o principal polo do Brasil”, aponta o presidente do Sinaval, Ariovaldo Rocha, “mas Pernambuco e Rio de Grande do Sul surgem como novos centros. O preço dos terre- Entrega do primeiro navio fabricado pelo Atlântico Sul, em maio, estaleiro que inaugurou a indústria naval no Nordeste Dos 49 navios encomendados pela Transpetro para os próximos anos, 30 serão feitos no Nordeste e outros 16 virão do Rio. Sobre os outros três ainda não há definição nos, bem mais atraente que Rio ou São Paulo, e o apoio dos governos locais são elementos que pesam.” E de fato, a competitividade do Nordeste está nos baixos custos — já que o grosso da demanda continuará no Sudeste, onde se concentram as principais atividades de extração de petróleo e gás. Além do desconto de 75% no Imposto de Renda que o governo federal oferece às empresas que vão para lá, há ainda uma disputa aquecida de isenções municipais e estaduais. Em Pernambuco, por exemplo, estas taxas ficam cerca de 50% menores para os empreendimentos navais. “O mercado está no Sudeste. Então para atrair investimentos para o Nordeste ou tem que ter incentivo, ou a empresa não vem”, diz Silvio Leimeg, diretor do Suape Global, projeto do governo pernambucano de transformar o estado em um polo naval mundial. “De qualquer forma, se as empresas estão vindo não é só porque o ‘governo quer’. São empresas privadas, elas vão onde é vantajoso para elas”, conclui. ■ ESTALEIROS NO BRASIL Nordeste centraliza 80% dos investimentos em andamento ONDE ESTÃO HOJE EM MIL TONELADAS/ANO PARA ONDE VÃO INVESTIMENTOS PREVISTOS, EM R$ BILHÕES 600 550 7,694 8000 7000 500 6,142 6000 400 300 5000 298 4000 3000 175 200 2000 77 100 0 SUDESTE SUL 1,076 1000 NORDESTE TOTAL 0 0,476 SUDESTE SUL NORDESTE TOTAL Fonte: Sinaval Promar entregará primeiro navio em 2012 Previsto inicialmente para o Ceará, o estaleiro Promar, que já tem uma encomenda de 8 gaseiros para a Transpetro antes de existir, foi transferido para Suape, em Pernambuco. O anúncio foi feito ontem pela empresa, que, em pouco mais de dez dias, teve que encontrar uma nova localização depois de ter a licença negada para se instalar em Fortaleza. O Promar, que começa a ser construído agora, fica pronto em 12 meses, estando apto a entregar os primeiros navios no final de 2012. Os gaseiros possuem capacidade para transportar o gás em estado líquido, tecnologia por enquanto inédita no Brasil. J.E. Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 15 SAIU O IDEB 2009: 4,6*. NOSSAS CRIANÇAS ESTÃO APRENDENDO MAIS. Ideb 2005 Ideb 2007 Fonte: Inep Ideb 2009 * Referente aos anos iniciais do ensino fundamental. A meta de 2009 era 4,2. A QUALIDADE DA EDUCAÇÃO PÚBLICA BRASILEIRA AGORA SEGUE PADRÕES INTERNACIONAIS DE AVALIAÇÃO. O NOVO IDEB MOSTRA QUE ESTAMOS NO CAMINHO CERTO E QUE NOSSAS CRIANÇAS ESTÃO APRENDENDO MAIS. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) mede a qualidade da educação básica do país. Ele é formado pela combinação de dados de aprovação e pelas notas da Prova Brasil. Pela primeira vez no Brasil, foram fixadas metas de qualidade escola por escola, monitoradas a cada dois anos, segundo critérios internacionais de avaliação. As metas nacionais do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) foram integralmente cumpridas. A qualidade melhorou em todas as etapas da educação básica e nossas crianças estão aprendendo mais. Tudo isso é fruto da política de educação do governo federal, do trabalho de secretários municipais e estaduais de educação, professores, diretores, trabalhadores em educação e da mobilização da sociedade. Nossa meta, até 2022, é atingir o índice 6,0, correspondente ao índice dos países desenvolvidos. E, com o empenho de todos, vamos chegar lá. Conheça o Ideb da sua escola, do seu município e do seu estado. E saiba das ações do governo federal que mudaram o retrato da educação pública brasileira, acessando www.mec.gov.br. Ministério da Educação 16 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010 BRASIL Waldemir Barreto/Agência Senado TRANSPORTE ELEIÇÃO Leilão para o trem bala deve acontecer até o fim de novembro, diz ANTT STF suspende inelegibilidade do senador Heráclito Fortes, apesar do Ficha Limpa O leilão para a construção do trem de alta velocidade que vai ligar as cidades do Rio e Campinas, passando por São Paulo, deve acontecer até o fim de novembro, disse Bernardo Figueiredo, diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Terrestres. As obras do trem devem ser iniciadas até o final de 2011 e poderão ser concluídas até 2016. A estatal brasileira ETAV terá capital de R$ 3,4 bilhões e será sócia no empreendimento. O STF suspendeu ontem a primeira inelegibilidade resultante da Lei da Ficha Limpa. O ministro Gilmar Mendes determinou que a Justiça Eleitoral não pode negar registro de candidatura do senador Heráclito Fortes (DEM-PI), com base nas restrições da Lei da Ficha Limpa. O parlamentar pretende se reeleger ao Senado. Com a decisão de hoje, ficam suspensos os efeitos da condenação imposta ao senador pela Justiça do Piauí. Código Florestal afeta compromisso climático do Brasil REDUÇÃO DO DESMATAMENTO É CHAVE Maior parte dos compromissos brasileiros para redução emissões de CO2 está ligada ao uso da terra PARTICIPAÇÃO NO TOTAL DE EMISSÕES DE CO2 EM 2020* Redução do desmatamento corresponde a 69% das diminuições de emissão de CO2 assumidas pelo país em Copenhague Paulo Justus José Cruz/ABr [email protected] A aprovação do novo Código Florestal, que tramita na Câmara, pode interferir diretamente na política climática brasileira. Do jeito que está proposta, a nova legislação eleva o potencial de desmatamento, notadamente nas pequenas propriedades, e afeta diretamente parte das políticas para reduzir as emissões de gás carbônico (CO 2 ) prometidas pelo Brasil durante a COP15, de acordo com ambientalistas e consultores consultados pelo BRASIL ECONÔMICO. No ano passado, o país se comprometeu a cortar 976 milhões de toneladas de CO2 até 2020 na conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre mudanças climáticas realizada em Copenhague. As medidas de uso da terra, que envolvem a proteção florestal, respondem por 69% desse total. São basicamente duas metas: a redução de 80% do desmatamento na Amazônia e de 40% do corte da vegetação do Cerrado. O desmatamento é hoje o principal foco de emissões de CO2 do Brasil. De acordo com estimativa entregue pelo governo brasileiro à ONU, o uso da terra responderia por 40,1% do total emitido pelo país até 2020 (veja gráfico). “O processo que representa a grande maioria de derrubada de mata é a queimada, porque torna o desmatamento mais barato”, diz o coordenador da campanha de Código Florestal do Greenpeace, Rafael Cruz. Só na Amazônia legal, o novo código teria o potencial de permitir o desmatamento de 85 milhões de hectares, de acordo com cálculo do Greenpeace elaborado em conjunto com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Ama- Aldo Rebelo Deputado federal (PCdoB-SP) “Vou corrigir o texto para que fique mais claro o meu objetivo de impedir o desmatamento e por outro lado auxiliar a consolidação das áreas da pequena agricultura, que está dispensada de recompor as áreas de reserva legal” zônia (Ipam). A estimativa leva em conta a liberação da obrigatoriedade da reserva legal para as pequenas propriedades, de até quatro módulos legais. “Na Amazônia, o tamanho médio dessas propriedades é de 400 hectares”, diz Rafael Cruz. A análise crítica da consultoria legislativa da Câmara apontou outros riscos de elevação de desmatamento, presentes no novo código. O relatório chama atenção para a possibilidade de se reduzir a área de preservação permanente na margem dos rios em até 50% mediante lei estadual. O documento também critica a regularização de ocupações ocorridas até 22 de julho de 2008. “Não parece haver fundamentação jurídica consistente para a fixação dessa data. Por que não a data de edição do primeiro regulamento da Lei de Crimes Ambientais, o Decreto 3.179, de 21 de setembro de 1999?”, diz o texto. AÇÕES PROPOSTAS Redução no desmatamento do bioma Amazônia em 80% Recuperação de pastos Mudanças Redução no desmatamento do bioma Cerrado em 40% Plantio direto Em resposta às críticas, o deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB-SP), relator do projeto substitutivo do Código Florestal, disse que pretende deixar mais clara a proposta do código em relação às pequenas propriedades. “Como alguns sugeriram que talvez o relatório abrisse a possibilidade de desmatamento, eu vou corrigir o texto para que fique mais claro o meu objetivo de impedir o desmatamento e por outro lado auxiliar a consolidação das áreas da pequena agricultura, que está dispensada de recompor as áreas de reserva legal que possui mas não está desobrigada de preservar as áreas de reserva legal já existentes”, disse à rádio Câmara. As alterações do projeto devem ser apresentadas na próxima segunda-feira na comissão especial da Câmara que analisa o projeto. ■ USO DA TERRA 40,1% TOTAL EMITIDO* TOTAL EMITIDO* 1,084 627 bilhão de toneladas milhões de toneladas PROPOSTA DE REDUÇÃO PROPOSTA DE REDUÇÃO P 669 1133 milhões de toneladas milhões de toneladas m AÇÕES PROPOSTAS ILP - Integração Lavoura Pecuária Fixação biológica de nitrogênio Fonte: Fonte: Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone) *Estimativa MEIO AMBIENTE Nova legislação deveria ter forma de recompensar O projeto do novo Código Florestal favorece a regularização de pequenas propriedades rurais, mas não estabelece incentivos para a manutenção da floresta em pé. “Faltou visão estratégica ao não incluir a questão das mudanças climáticas no código”, diz Rodrigo Lima, coordenador da área de mudanças climáticas do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone). Segundo ele, é preciso aproveitar o momento de discussão do delicado tema das florestas no país, para tratar também das políticas climáticas. “A saída está em criar incentivos para se cumprir o código com o pagamento por serviços ambientais”, diz Fernanda Carvalho, coordenadora de políticas de clima da The Nature Conservancy. Em São Paulo, a Política de Mudanças Climáticas, aprovada em 24 de junho, é um exemplo desses incentivos. O decreto Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 17 Henrique Manreza CONSUMO INVESTIMENTO Crescimento de 10,6% em junho, na carga de energia do SIN, mostra expansão Desembolsos do BNDES cresceram 72% em maio, em relação ao ano anterior A carga de energia no Sistema Interligado Nacional (SIN) cresceu 10,6% em junho de 2010 em relação a igual mês de 2009, para 54,96 mil MW médios, informou o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Na comparação entre o primeiro semestre de 2010 e igual intervalo de 2009, o operador registrou alta de 10,5%. No acumulado de 12 meses, o aumento verificado foi de 6,5%, refletindo a continuidade da expansão. Os desembolsos do BNDES somaram R$ 10,4 bilhões em maio, valor 72% superior aos R$ 6 bilhões liberados em maio de 2009, segundo a instituição. No acumulado de janeiro a maio de 2010, os desembolsos totalizaram R$ 46 bilhões, com alta de 41% na comparação com igual período de 2009. Os dados, segundo o banco, mostram que “os bons resultados devem-se, em grande parte, ao êxito do BNDES PSI”. Infografia: Rubineto Incentivos podem compensar nova lei Interesses comerciais e créditos de carbono a partir de florestas podem estimular preservação AGROPECUÁRIA ENERGIA 23,2% 33,3% OUTROS 3,4% TOTAL EMITIDO* TTOTAL EMITIDO* 901 92 milhões de toneladas milhões de toneladas m PROPOSTA DE REDUÇÃO PPROPOSTA DE REDUÇÃO 166 8 milhões de toneladas milhões de toneladas m AÇÕES PROPOSTAS Eficiência energética Incremento do uso de biocombustíveis Expansão da oferta de energia por hidrelétricas Fontes alternativas (PCH, Bioeletricidade, eólica) AÇÕES PROPOSTAS Siderurgia – substituir carvão de desmate por plantado O Código Florestal não é o único meio de se combater o desmatamento, um dos principais pilares da nossa política climática. Outras formas de incentivo podem surgir, seja por meio de leis estaduais para a remuneração das áreas verdes (veja abaixo) ou por interesses comerciais. Há ainda a possibilidade da inclusão das florestas no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), o que traria a possibilidade de gerarem crédito de carbono. Para Rodrigo Lima, coordenador da área de mudanças climáticas do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), os compromissos assumidos pelo Brasil na redução do desmatamento são justamente um sinal de que mais políticas devem surgir para conservar as florestas. “Quando se fala em mudança climática a ideia é que você não desmate, porque desmatar emite gás carbônico e a pressão de fora é que não se tenha desmatamento”, afirma. Além disso, outras regulamentações já existentes no Brasil também limitam o alcance do desmatamento. “Imagine o etanol. Não é porque o código vai flexibilizar a reserva legal na Amazônia que vai se poder desmatar para plantar cana. Já existe uma determinação no país que impede o plantio de cana no bioma amazônico”, lembra Lima. Inclusão de políticas climáticas no Código Florestal aproximaria legislação brasileira das exigências internacionais A coordenadora de políticas climáticas da The Nature Conservancy, Fernanda Carvalho, a proposta do novo código deveria incluir também a política climática. “O projeto olhou sob o aspecto do produtor, mas esqueceu que temos 131 milhões de hectares de floresta degradada que podem ser usada em expansão agrícola”, afirma. A inclusão dessas medidas de mitigação também adequaria a legislação às exigências internacionais, diz Lima. “Falta estratégia ao não incluir a questão das mudanças climáticas no texto. As certificações internacionais apresentam hoje várias exigências que vão além da lei”,afirma. Segundo Rodrigo Lima, no entanto, incorporar as preocupações climáticas no código não significaria esquecer os problemas econômicos e sociais que hoje estão ligados ao desmatamento. “Pensar em anistia até um certo ano é uma coisa bastante plausível. A Amazônia, por exemplo, é uma área extremamente particular porque tem 22 milhões de pessoas com uma pobreza enorme, que gera desmatamento de pequenas propriedades. É preciso pensar em políticas sociais que deem alternativas a essas pessoas”, diz. Essas discussões, no entanto, seriam mais bem avaliadas fora do ano eleitoral, na opinião do diretor de Relações Institucionais da SOS Mata Atlântica. “A cada quatro anos a discussão do Código Florestal vem à tona por causa do ano eleitoral”, diz. ■ P.J. OS PONTOS MAIS POLÊMICOS DO NOVO CÓDIGO produtores pela manutenção da floresta prevê o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), que remunera produtores rurais que protejam recursos naturais em suas propriedades. Inicialmente esse pagamento será para nascentes. Cada proprietário receberá entre R$ 75 e R$ 300 por nascente a cada ano, valor que varia de acordo com as condições ambientais. No futuro, esse pagamento deve ser estendido para florestas e áreas de preservação ambiental. P.J. REFORMA R$ 300 É o valor máximo que o governo de São Paulo paga anualmente por nascente preservada pelos produtores rurais. Os valores partem de R$ 75. A remuneração pela conservação ambiental foi aprovada em 24 de junho e integra política estadual de Mudanças Climáticas. 1 2 3 Regularização de áreas desmatadas Pequenas propriedades Áreas de preservação permanente O novo Código Florestal, que tramita na Câmara, propõe a regularização de ocupações ocorridas até 22 de julho de 2008. Segundo análise crítica da consultoria legislativa da Câmara, esse período deveria ser menos recente, remetendo à edição do primeiro regulamento da Lei de Crimes Ambientais, de 1999. As pequenas propriedades, com até quatro módulos fiscais, ficariam liberadas de manter a reserva legal. O deputado Aldo Rebelo, relator do projeto, deve alterar o texto para deixar claro que a liberalização é relativa à obrigação de recuperar as áreas degradadas e não à manutenção da reserva já existente. A proposta reduz o cálculo das áreas de preservação permanente de mata ciliar. Em vez de serem calculadas pelo maior leito do rio, passam a ser estabelecidas de acordo com o leito menor, dentro da propriedade. Além disso, o projeto prevê a possibilidade de redução de 50% dessa área, mediante lei estadual. 18 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010 INOVAÇÃO & TECNOLOGIA SEGUNDA-FEIRA TERÇA-FEIRA EDUCAÇÃO EMPREENDEDORISMO Rio Tietê pode ganhar detector de enchentes Equipamento prevê inundação e alerta população próxima por mensagem em celular Carolina Pereira [email protected] Se você mora nos arredores de um rio como o Tietê, na cidade de São Paulo, imagine poder receber uma mensagem de texto em seu celular toda vez que houver risco de enchente por conta do aumento do nível da água. Com certeza, a medida evitaria diversas perdas materiais ocasionadas pelas inundações, além de preservar a vida daqueles que viriam a correr risco se permanecessem em suas casas durante a enchente. O cenário pode parecer futurístico, mas é isso que propõe o projeto do professor Jo Ueyama, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (ICMC-USP). O equipamento desenvolvido pelo seu colega de doutorado na Universidade de Lancaster, o inglês Daniel Hughes, foi adaptado e trazido ao Brasil por Ueyama, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a fim de viabilizar a implementação de um sensor de enchentes em rios do país. O aparelho consiste em um sensor submerso que mede a pressão da água e, assim, moni- Além de alertar quanto ao nível do rio, equipamento também mede o grau de poluição da água. Sistema é alimentado por energia vinda de painéis solares tora as variações no leito do rio. O equipamento ainda conta com um sistema GPRS (General Packet Radio Service), que permite o envio e recepção de dados para uma central por meio da rede de telefonia celular. Dessa forma, quando alertada sobre risco de enchente, um software instalado na central enviaria mensagens para os celulares cadastrados dos moradores. O sistema é alimentado por energia vinda de paineis solares. O aparelho serve, também, para medir o grau de poluição do rio por meio da medição da condutividade elétrica do rio. Quanto mais limpa, menos eletricidade a água consegue conduzir. Além disso, um sensor antifurtos também foi instalado. Quando identifica um movimento estranho, o aparelho envia um alerta para a central. Na prática Colocar essa tecnologia em prática, no entanto, ainda depende de avaliação do Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee) do Estado de São Paulo, que afirma que vai iniciar, ainda nesse semestre, testes para saber qual é a viabilidade do projeto. De acordo com Ueyama, ainda são necessários investi- mentos de R$ 540 mil para que o projeto seja viabilizado e, parte do investimento, cerca de R$ 350 mil, seria direcionada para replicação do conhecimento por meio de bolsas de estudo. De acordo com o professor, é preciso fazer com que outras pessoas aprendam esses equipamentos pois, segundo ele, essa tecnologia ainda não é muito difundida e todos os equipamentos são importados. Mesmo assim, o sistema é considerado barato pelo fato de um protótipo poder ser construído por cerca de R$ 200. Segundo a proposta de Ueyama, o equipamento seria instalado primeiramente entre as pontes das Bandeiras e da Casa Verde, em São Paulo. Segundo Ueyama, o local foi escolhido por ser próximo da confluência entre os rios Tietê e Tamanduateí e pelo fato de o local já ter sido cenário de várias inundações. Outra região que está na mira do pesquisador é o Vale do Paraíba, em São Paulo, onde está situada a cidade de São Luiz do Paraitinga, na qual aproximadamente 9 mil pessoas tiveram de deixar suas casas em janeiro deste ano, após o Rio Paraitinga alagar cerca de metade da cidade depois de fortes chuvas. ■ SÃO PAULO Morador usa teto de Kombi como barco durante enchente Cresce índice de chuva na terra da garoa No que depender do aumento dos índices de precipitação na cidade de São Paulo, o equipamento criado pelo professor Jo Ueyama vai mesmo ser necessário para tentar evitar tragédias recorrentes, principalmente durante o verão, período em que mais chove na cidade. Segundo dados do Instituto Astronômico e Geofísico da Universidade de São Paulo, em milímetros, esse número aumentou 42,7% entre dezembro de 2000 e o mesmo Fotos: Sérgio Neves/AE mês de 2008, de 179,6 para 256,3, por conta de fatores como o aquecimento global. Embora não haja números de 2009, as enchentes que ocorreram na cidade no ano passado não indicam que a situação tenha melhorado. Em dezembro, por exemplo, fortes chuvas provocaram o transbordamento do Rio Tietê inundando casas de 4 mil moradores no Jardim Romano, Zona Leste de São Paulo (veja fotos). Hélvio Romero/AE Moradores enfrentam rua alagada no Jardim Romano, no ano passado Em dezembro de 2009, 4 mil tiveram as casas alagadas em enchente provocada pelo Tietê Professor Ueyama: o protótipo do sensor de enchentes custa cerca de R$ 200 Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 19 QUARTA-FEIRA QUINTA-FEIRA GESTÃO SUSTENTABILIDADE Evandro Monteiro CLAUDIO GASPARI Diretor-presidente da Veotex Por que as tecnologias não são adotadas? Já faz algum tempo que o Brasil está inserido definitivamente no cenário científico mundial. Existem hoje no país centros de pesquisa e empresas brasileiras desenvolvendo tecnologia de ponta nas mais diversas aplicações. Na área de segurança, o Brasil já dispõe do que existe de mais avançado mundialmente em termos de prevenção de desastres naturais, seja no que se refere a sensoriamento sísmico, meteorologia ou até mesmo na utilização de imagens para o controle de barragens de grande, médio e pequeno porte, além do monitoramento dos leitos dos rios, represas, açudes, várzeas e até mesmo de encostas e morros. Falando especificamente sobre a utilização da imagem como ferramenta de prevenção, detecção e reação às enchentes, podemos dizer que já existem sistemas 100% nacionais à disposição do poder público que certamente ajudariam a diminuir muito os prejuízos e, principalmente, as mortes causadas no Brasil por esse tipo de fenômeno. Esses sistemas são simples e baratos, compostos basicamente por Sistemas que boias que, fazendo o papel de sensores, conseutilizam imagem guem medir com precipara detecção são as variações de prode enchentes são fundidade e vazão de rios, barragens e represimples e baratos sas. Esses sensores trae já foram usados balham em conjunto para monitorar com sistemas de câmeras de alta definição capiscinões de pazes de fazer imagens São Paulo em tanto durante o dia regime de testes quanto à noite e que são transmitidas via internet utilizando-se banda larga e nos sistemas mais modernos, sinal de celular por redes GPRS, EDGE e 3G. Os dados obtidos pelos sensores, aliados às imagens recebidas, darão um panorama preciso e imediato do nível de perigo enfrentado e, por meio do próprio equipamento, diversas ações remotas, preventivas e reativas podem ser tomadas como a abertura ou o fechamento de comportas, o acionamento de sirenes de emergência para alertar a população que vive em áreas de risco, além da disponibilização das imagens e dados também pela internet para o comando dos órgãos especializados nesse tipo de ocorrência, como os Bombeiros e a Defesa Civil. Se esses recursos, além de serem baratos, já estão à disposição do poder público há alguns anos, por que ainda não foram implantados em larga escala no Brasil? Bem, a meu ver não existe uma única explicação para isso, mas sim um conjunto de fatores negativos que somados acabam por dificultar esse processo, começando pela falta de profissionais qualificados nos quadros para auxiliar o governo na busca e implementação dessas novas tecnologias seja na esfera federal, estadual e, principalmente municipal, culminando com uma legislação antiquada e excessivamente lenta no que diz respeito à contratação pública de serviços, que muitas vezes acaba por desmotivar o governo a buscar novidades tecnológicas baseando-se apenas em soluções já conhecidas e balizadas em concorrências anteriores, porém de pouco ou nenhum efeito prático. Isso observei na cidade de São Paulo, onde, em 2008, participei da implementação de um sistema de monitoramento dos piscinões em regime de teste. E, apesar dos resultados considerados excelentes pela administração municipal, até hoje, dois anos e duas enchentes depois, a licitação para a contratação ainda não foi realizada. ■ 20 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010 ENCONTRO DE CONTAS LURDETE ERTEL Divulgação Ninhada regional Nos últimos dias, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) deu sinal verde para a criação de mais duas companhias aéreas regionais no Brasil. Em São José dos Campos (SP), está sendo preparada a decolagem da Laguna Linhas Aéreas. Nascida nos hangares da Laguna Táxi Aéreo, a nova empresa recebeu autorização de funcionamento jurídico como operadora de linhas regulares nacionais. A companhia paulistana tem plano de voo ambicioso: pretende operar com 48 aeronaves (Fokker 100 e 50) em 96 destinos de 14 estados. Mais uma Já na Bahia, foi autorizada a criação jurídica da Mais Linhas Aéreas. A nova empresa terá sede em Salvador. Dois em um Mais um empurrão para a decolagem do projeto do primeiro carro voador com fins comerciais do mundo. O Terrafugia Transition (foto), um veículo com asa ou um avião com rodas desenvolvido por um grupo de graduados do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), passou por um obstáculo essencial no processo de regulamentação técnica nos Estados Unidos. A Federal Aviation Administration (FAA) aprovou a certificação do invento na categoria de aeronaves leves esportivas. Com isso, os empreendedores ficam mais perto de colocar o primeiro modelo híbrido em plena produção ainda no próximo ano. No ar, o equipamento poderá chegar a uma velocidade de 185 km/h no ar e 128 km/h na estrada. No céu, terá uma autonomia de voo de 700 quilômetros. A transformação de um modo de uso em outro poderá ser feito em 30 segundos, segundo seus criadores. A novidade deve chegar ao mercado por algo como US$ 200 mil. Miguel Medina/AFP Duelo de pás O grupo alemão Fuhrländer, fabricante de aerogeradores completos (torres, pás e geradores), se prepara para fincar pé no Ceará. A empresa planeja instalar uma unidade de produção em Pecém até o próximo ano. Na primeira etapa, o projeto receberá investimento de R$ 20 milhões. A Fuhrländer segue os passos da concorrente Wobben Wind Power, que já implantou fábrica no Ceará. E que já estuda também um parque eólico no estado. Betoneira Já o grupo cimenteiro espanhol PG&A escolheu Suape (PE) para construir sua primeira fábrica no Brasil. Com plantas na Espanha, República Dominicana e Chile, a empresa está investindo R$ 80 milhões na unidade brasileira, que deve estar pronta até o final de 2011. Diamante sangrento O Ministério Público do Tribunal Especial de Serra Leoa está preparando uma convocação oficial para que a modelo Naomi Campbell testemunhe no julgamento do ex-presidente da Libéria, Charles Taylor, por crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Naomi pode ser a única a ter provas cabais de que Taylor traficava diamantes. A modelo teria recebido de presente do ex-presidente uma pedra bruta. A top nega a história, mas a acusação tem testemunhas importantes. Como a atriz Mia Farrow, que afirma que Naomi disse ter recebido o presente de Taylor depois de um jantar onde também estava presente Nelson Mandela, ex-presidente sul-africano. Com o dinheiro dos diamantes, Taylor armou a Frente Revolucionária Unida de Serra Leoa, que ficou conhecida pela mutilação sangrenta de civis desarmados. E contribuiu para a guerra civil na Serra Leoa, na qual foram ceifadas cerca de 250 mil vidas. “A gente já sabe o que vai acontecer. Se o Brasil ganhar, é obrigação; se perder, não vou querer estar na pele do Dunga. Mas isso ele sabe melhor do que ninguém!” Romário, prestando solidariedade ao controverso técnico brasileiro no Twitter. Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 21 Divulgação O sonho da Cinderela As sandálias Stuart Weitzman’s deixariam de queixo caído até a Cinderela. Decorado com mais de 2.200 diamantes, num total de 30 quilates, o par custa US$ 2 milhões e foi feito à mão por um ourives e um joalheiro. As joias têm garantia de mil anos e foram desenhadas pelo estilista britânico Christopher Michael Shellis, que passou três anos trabalhando no projeto. MARCADO ● No dia 13 de julho, a Associação de Marketing Promocional reunirá em São Paulo os principais executivos brasileiros do segmento, para a sexta edição do Ebemp, que vai debater temas como temas a sustentabilidade e o fortalecimento desse setor. [email protected] Stephen Lovekin/Getty Briga de titãs Parece que o negócio da vez no turismo do Brasil são aquários. Depois de Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, é a vez do Ceará fazer zarpar o projeto de um gigantesco oceanário. O governo cearense deve anunciar até a próxima semana o vencedor da licitação para a construção da primeira fase do Acquario, que ocupará área na beira do mar, em Fortaleza. O empreendimento deve custar cerca de US$ 120 milhões e ficar pronto no final de 2012. É mais um projeto candidato a ser o maior do gênero na América Latina. Fone no ouvido Líder no setor de contact center e uma das maiores empregadoras do Brasil, a Contax esta transformando o Nordeste – e em especial Pernambuco – em um dos maiores pólos de contact center do Brasil. A companhia toca as obras da quarta unidade no Estado, que receberam ontem a visita do governador Eduardo Campos. Quando a nova filial estiver pronta, em 2011, a Contax terá cerca de 23 mil funcionários em Pernambuco. Que, com isso, ficará à frente de São Paulo e Rio. Na floresta A empresária Chieko Aoki cortou a fita de mais um hotel de sua rede Blue Tree no Brasil. O empreendimento foi instalado em Manaus, capital do Amazonas, no rastro da migração de novas empresas para o polo industrial da região. Com 163 apartamentos, o Blue Tree Premium Manaus custou R$ 25 milhões. Revival do hit, agora nos cabides A rede americana de lojas de departamentos Macy’s confirmou para agosto a largada das vendas da esperada linha de roupas criada por Madonna e a filha Lourdes, de 13 anos. Como já deixa concluir o nome, a coleção Material Girl será inspirada na moda dos anos 80, época do sucesso de canção homônima da rainha do pop. Segundo detalhou a Macy’s, a linha será voltada ao público adolescente e terá “preços acessíveis” – entre US$ 12 e US$ 40. Além de roupas, Material Girl vai batizar calçados, bolsas, joias e futuramente até perfumes. Madonna já fez uma incursão no mundo da moda no passado, ao emprestar seu nome para coleções da rede europeia H&M. Material Girl é a grande aposta da Macy’s para a volta às aulas nos Estados Unidos. E, principalmente, para fazer frente a concorrentes como Kohl’s, que colocou em suas araras roupas da cantora Britney Spears, e a gigante Walmart, que vende confecções desenhadas por astros como Miley Cyrus ou Jonas Brothers. A rede pretende vender as peças em todas as suas 200 lojas espalhadas nos Estados Unidos. Romeo Gacad/AFP Infância em 100 minutos Um filme sobre a infância do presidente Barack Obama estreou essa semana em Jacarta, na Indonésia. O longa Obama Menteng Anak, baseado no livro do co-diretor Damien Dematra Obama, o filho de Menteng, conta a história da infância do presidente americano, durante os quatro anos em que viveu em Jacarta. A intenção dos produtores é mostrar em 100 minutos uma faceta de Obama até agora pouco conhecida pelos americanos. O filme foi rodado em cerca de duas semanas na cidade de Bandung, oeste de Java. Quem dá vida ao jovem Obama na telona é o americano Hasan Faruq Ali, de 12 anos. A produtora Multivision Plus Pictures prevê o lançamento mundial do filme para novembro. GIRO RÁPIDO Divulgação Águas do mar Apesar das enchentes que atingiram municípios de Alagoana nos últimos dias, a Secretaria de Estado do Turismo afirma que a chegada de turistas deve continuar normalmente em Maceió, já que as cidades litorâneas não foram afetadas pelas chuvas. Alagoas receberá voos regulares e charters de todo o Brasil e do exterior durante a temporada de julho. Novo visual A Drogaria Iguatemi reabre suas portas, dia 4, no Shopping Iguatemi, em São Paulo, com um novo conceito de butique de bem-estar. Com investimento de aproximadamente R$ 1 milhão, a loja passou por uma reestruturação completa, que possibilitou a chegada de 20 novas marcas, entre elas as francesas L’Occitane, esmaltes Orly e a inglesa Eyeko. A nova identidade visual é da agência Bloom Consulting. Top 1 Mais de 35 mil universitários e recém-formados do Brasil apontaram Roberto Justus, CEO do Grupo Newcomm, como o líder mais admirado da 9ª edição da pesquisa Empresa dos Sonhos dos Jovens, do Grupo DMRH. O Google também ficou no topo do ranking das 10 empresas escolhidas. Divulgação Com Karen Busic [email protected] 22 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010 EMPRESAS Gigante das redes, Cisco se atira a novos negócios Computadores e filmadoras estão entre as novas atividades às quais a maior empresa de internet do mundo passou a se dedicar em busca de liderar segmentos novos Carlos Eduardo Valim*, de Las Vegas [email protected] John Chambers, presidente da Cisco Systems, maior fornecedora de equipamentos para redes de internet, afirma que há um ano as pessoas diziam que ele estava cometendo um grande erro ao entrar em uma série de novos segmentos em plena crise econômica. Para os críticos, ele perderia mercado ao desafiar diversos competidores fortes, em vez de se concentrar em seus negócios principais. “Agora ganhamos participação em quase todas as áreas, compramos três empresas grandes e lançamos 400 produtos no último ano”, diz a uma plateia de 12,5 mil pessoas, que se reuniu esta semana em Las Vegas, nos Estados Unidos, apenas para conhecer as novidades da empresa. O executivo está coordenando a transformação da Cisco, levando a companhia, que faturou US$ 36 bilhões em 2009, à diversidade de atuação. Essas novas frentes vão dos computadores do tipo tablets a teleconferências, passando por equipamentos de comunicações até a migração das redes elétricas para o modelo conhecido como smartgrid, que modificará completamente a gestão das distribuidoras de energia ao usar a internet para trafegar dados. A Cisco tornou-se uma gigante da tecnologia durante o boom da internet, na virada do milênio, graças às vendas de equipamentos que fazem o tráfego de informações entre computadores. Seus roteadores e switchers ajudaram a definir o funcionamento da rede global usada hoje. “Nós inventamos a internet”, diz Chambers. Mas a empresa continua sendo a menos conhecida dentre as 30 companhias que compõem o índice Dow Jones Industrial, um seleto grupo que exclui nomes como General Motors e Citigroup. E o grande desafio nessa estratégia de abertura de tantas novas frentes é evitar que a imagem da Cisco se torne ainda mais desconhecida entre os possíveis clientes. A aproximação com o consumidor final Qualquer oportunidade de novo negócio precisa ter o potencial de trazer para a empresa pelo menos US$ 1 bilhão em receita em um período entre cinco e sete anos começou com a compra da Linksys, fabricante de equipamentos residenciais para acesso wi-fi, e da Pure Digital, responsável pelas filmadoras de bolso Flip, que virou febre nos Estados Unidos. Mas não deve passar disso. “É muito improvável que tenhamos um smartphone”, diz Chambers. Sobre o Cius, tablet que acaba de ser lançado, a empresa afirma que ele é focado no mercado corporativo. Chambers defende que o fator unificador de todos os novos negócios é a internet (leia reportagem ao lado). Descentralização Na última década, a Cisco já havia passado a novos negócios com sucesso, com equipamentos que fazem trafegar telefonia e dados pela internet. “As pessoas diziam que não sabíamos nem soletrar telefonia”, afirma o executivo. Mas muitas destas empresas diminuíram de tamanho ou passaram por fusões e aquisições e a Cisco ganhou outro grande negócio. A mudança agora promete ser maior. A empresa mantém a estrutura tradicional, mas muitos INOVAÇÃO US$ 5,2 bi de investimentos em pesquisa e desenvolvimento, o que representa de 12% a 13% do faturamento, taxa acima do mercado. RESULTADO US$ 9,8 bi foi a receita registrada no trimestre fiscal que terminou em janeiro. A alta foi de 8% em relação ao trimestre anterior. Foi a primeira expansão desde outubro de 2008. CRESCIMENTO 140 empresas foram compradas pela Cisco até hoje. O número coloca a companhia entre uma das maiores consolidadoras do segmento de tecnologia. executivos deixaram de se reportar aos superiores hierárquicos. Eles passaram a fazer parte de um dos cerca de 60 grupos voltados a desenvolvimento de novos negócios. Há um comitê operacional que fica acima dessa estrutura para oportunidades de maior potencial. “Em 16 anos, na Cisco, esta é a maior mudança que vi”, afirma Marthin De Beer, vice-presidente de tecnologias emergentes. Esse plano lembra a cultura de desenvolvimento de novos produtos do Google, outra grande empresa de tecnologia que aposta na diversificação dos negócios. A Cisco se difere do modelo da gigante de buscas pelo pragmatismo. “Não entramos em nenhum mercado em que não tenhamos potencial de possuir pelo menos 40% de participação”, diz Chambers. “Porque se tiver apenas 20%, você pode ser obrigado a deixar o negócio”. De Beer acrescenta que qualquer oportunidade também precisa ter o potencial de trazer para a empresa pelo menos US$ 1 bilhão em receita em um período entre cinco e sete anos. ■ Viajou a convite da Cisco Systems RECEITA DE SUCESSO ● A empresa criou 60 grupos voltados ao desenvolvimento de novos negócios. ● Cada nova área de atuação deve ter potencial para arrematar 40% de participação de mercado. ● Entre as 30 empresas que compõem o seleto índice Dow Jones Industrial, a Cisco é a menos conhecida. Mas ela busca mais reconhecimento ao se aproximar do consumidor final. ● Entre as frentes mais conhecidas do público estão a de equipamentos para redes wi-fi residenciais, e a da Pure Digital, fabricante das filmadoras de bolso Flip, que viraram febre nos Estados Unidos. John Chambers, presidente da Cisco Systems: empresa lançou 400 produtos no último ano Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 23 Ryan Anson/Bloomberg Microsoft desiste de vender celulares Quarenta e oito dias depois de anunciar o lançamento do Kin, celular voltado ao público jovem, a Microsoft resolveu desistir do negócio. Segundo reportagem do jornal The New York Times, o telefone, que tinha acesso restrito à internet, deixa de ser vendido por ter apresentado vendas abaixo do esperado. A companhia diz que irá realocar os funcionários envolvidos na produção do Kin para a área voltada ao Windows Phone 7, sistema operacional de celulares que será lançado. Divulgação O fantasma da defasagem Segundo executivos, mudanças da companhia foram motivadas pela transformação do setor de tecnologia Qualquer nova frente de negócio da Cisco tem relação direta com a internet. Elas incentivam o uso da web o que acaba resultando em mais receita para a área principal da empresa, os equipamentos de infraestrutura para redes. O modelo criado por John Chambers, presidente da companhia, difere daquele aplicado pela maioria dos concorrentes, que geralmente se concentram em um único segmento. De acordo com os executivos que trabalham com Chambers, a estratégia tem como base as constantes transformações do setor de tecnologia da informação. “Temos essa paranoia sobre transições de mercado”, diz Marthin De Beer, vice-presidente de tecnologias emergentes. Mas foi essa paranoia que ajudou a empresa a passar por todas as mudanças que aconteceram na internet desde o início dos anos 90. Neste período muitos concorrentes também encontraram formas de mudar e se manter em atuação. Quem ficou defasado, acabou saindo do mercado. O problema é que toda nova oportunidade também representa um risco. Quando assumiu o posto atual, De Beer perguntou a Chambers se teria o direito de falhar. Segundo De Beer, o receio nasceu da quantidade de frentes que lideraria. “Ele me respondeu que sim, desde que não fosse um erro comum e que a falha fosse pelos motivos certos”, diz. O próprio Chambers reconhece que falhou em seus quase 20 anos de Cisco. Mas, segundo ele, todos os erros ocorreram por ter ido mais rápido do que deveria ou por não ter criado um modelo que pudesse ser replicado para chegar a novos mercados. Autocobrança Chambers, que esteve à frente de todo esse processo de expansão da Cisco, também é conhecido entre subordinados por cobrar resultados concretos. A cobrança é aplicada a ele mesmo. Outro vice-presidente sênior da Cisco, Carlos Dominguez, que conhece Chambers há 19 anos, sabe disso. Dominguez conta que uma vez, no caminho para uma reunião, quis deixar com Chambers uma folha com 15 pontos que o executivo-chefe deveria lembrar de abordar durante o evento. Chambers protestou, perguntando se Dominguez não confiava nele. E mais: apostou US$ 20 de que não deixaria qualquer item de fora da pauta. A reunião ocorreu, Chambers acabou divagando sobre mais temas e terminou a conversa com 14 dos 15 tópicos mencionados, esquecendo um. Quando entrava no elevador, ao final do evento, Chambers segurou a porta e apresentou o último item da pauta para os interlocutores. Logo que o elevador fechou, Dominguez ouviu a frase: “Me dê os US$ 20”. ■ C.E.V. “ Temos essa paranoia sobre transições de mercado Marthin De Beer, vice-presidente de tecnologias emergentes 24 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010 INFORME PUBLICITÁRIO Curso desenvolvido pela instituição prepara para a conquista do mercado externo de forma planejada A Mariana Flores, Brasília ! " # $%& ' ()* + , - . / $ 0 1. 0&&23 4.5 610247 - , $ ' & ) - - $% ' 2 / -&& / & & $ %- / ) 1 '# ) 5 %& - / #! # $% . / & #!$ 8%- # - 9:: : : : : : ; / # # < # '# ) 5 %& % 4, $ * # 5 . & B 1, 4// O B ) 5 !# 4 B61=7$PB /# &B&-/ BB& $% Sua empresa investe em cursos de negócios, mas os resultados só aparecem a longo prazo? O Sebrae Mais é mais dinâmico. Se a sua empresa tem de 2 anos de 9 funcionários Estas soluções são para você: Estratégias Empresariais B &$D %# 4,$ 8D $PB 1# & M $L & < $ %. ' 2 / # .# , $D , - / E , Você será capaz de fazer uma análise completa do seu ambiente empresarial, identificando pontos fortes e fracos, redefinindo missões e metas corporativas. Também irá elaborar e implementar um plano de ação estratégica. Empretec Um seminário desenvolvido pela ONU que lhe motiva a promover mudanças no seu comportamento, aperfeiçoando suas habilidades de negociação e gestão, proporcionando maior segurança nas decisões e aumentando a chance de sucesso da sua empresa. Internacionalização Prepare sua empresa para conquistar o mercado global, tornando seu produto ou serviço mais competitivo dentro e fora do País. Encontros Empresariais Aprenda com a experiência de empresários do seu ou de outros setores. Compartilhe soluções já testadas e amplie sua rede de parceiros e de contatos. Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 25 C Mariana Flores, Brasília E E # =, # % 3 ? / $ 1 & #! #- %/=# & - $C Mais prático: O que você aprende, aplica imediatamente na empresa. Mais flexível: Você fica mais tempo na empresa que em sala de aula. Mais personalizado: Acompanhamento de um consultor em todas as etapas. Ligue agora e veja a disponibilidade no seu estado 0800 570 0800 É mais que consultoria. É mais que curso. É Sebrae Mais. Gestão da Inovação Descubra que inovação não é só tecnologia. E, sim, uma nova forma de pensar e gerir o negócio: fazendo diferente. 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B - , ! #!$ D && E - - & # - $ 4 - & A A $ ) 5 - # # / : F: : : # : : ; .# B & & - #$D F: : : : : & : & : .# $ D# ) 1 5 %& & - #!$ D . & - B, B # B : : , G: G: H#: : F: I: D B , , . $% .# & / JH, $ %K5 .# 5 ' 2 / 05 L )E >? @04A0 > 2& @2& 4? > %& 5 5 $ % E B- $ ?K%#E )5MN%5C 26 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010 EMPRESAS Andrew Harrer/Bloomberg EXPANSÃO TECNOLOGIA Dell levará seus computadores para as redes locais de varejo do Nordeste Novo modelo do Kindle oferece vantagens para competir com iPad Para dar continuidade à estratégia de fortalecimento no mercado varejista brasileiro, a Dell anunciou sua entrada no comércio da Região Nordeste. Até então, seus equipamentos podiam ser encontrados apenas em grandes redes, como Extra e Carrefour. Com a expansão, aproximadamente 100 pontos de venda serão incluídos, somando mais de mil lojas que venderão os produtos da fabricante de computadores. A Amazon anunciou o lançamento de um modelo do leitor eletrônico Kindle com preço reduzido, na tentativa de combater a ameaça do tablet iPad, da Apple. O novo Kindle DX será comercializado a US$ 379, ante US$ 489 da versão anterior e contará com conexão de terceira geração (3G) sem fio ilimitada. O iPad, da Apple, lançado em abril, vendeu mais de 2 milhões de unidades, pressionando os concorrentes. Evandro Monteiro Gregory Kenepp, diretor mundial de marketing da Intralinks, afirma que a empresa tem 300 clientes brasileiros Fusões e aquisições em alta atraem Intralinks para o Brasil Fabricante de sistemas para troca de dados confidenciais entre empresas vai lançar ações em bolsa nos EUA Carolina Pereira [email protected] O índice de fusões e aquisições no mundo cresceu 39% no primeiro trimestre deste ano se comparado ao mesmo período do ano passado, segundo levantamento feito pela americana Intralinks, especializada em sistemas para troca de informações confidenciais entre companhias. No Brasil, segundo dados da PricewaterHouseCoopers, o índice foi ainda maior, de 43%, entre janeiro e maio, quando foram fechadas 303 transações envolvendo compra e venda de empresas brasileiras. O crescimento mostra por que a Intralinks abriu na semana passado o primeiro escritório na América Latina, em São Paulo, e por que também está interessada em abrir capital. A entrada em bolsa deve ocorrer nos Estados Unidos, país de origem da empresa, mas ainda não tem data para ocorrer. Segundo Gregory Kenepp, diretor mundial de marketing, a estruturação da abertura de capital está sendo montada desde setembro do ano passado. Por estar em período de silêncio, a empresa não revela o faturamento em 2009. Segundo ranking Inc.5000, da revista americana Inc., que lista as empresas privadas de crescimento mais rápido dos Estados Unidos, em 2008 a receita foi de US$ 143,9 milhões. De 2005 a 2008, pelo ranking, Intralinks cresceu 162%. De acordo com Kenepp, antes mesmo de montar o escritório no Brasil, a empresa tinha cerca de 300 clientes no país, entre eles alguns dos principais bancos nacionais. Mas o executivo não revela quais empresas estão usando seus programas. “ Com o escritório no Brasil, a meta é crescer 100% ao ano a partir de 2011. As principais áreas de atuação serão finanças e energia Gregory Kenepp No mundo, a carteira de clientes conta com nomes como Procter & Gamble, Pfizer e Bank of America. Com a presença física no país, a meta é crescer 100% ao ano a partir de 2011, especialmente nas áreas de finanças e energia. “É importante contratar profissionais locais que tenham contato com potenciais clientes”, diz. No mundo Kenepp diz que, atualmente, 40% da receita da Intralinks vem de fora dos Estados Unidos. A empresa tem escritórios em 20 países e 10% do faturamento total da empresa sai da América Latina, o que representa cerca de US$ 15 milhões considerando-se a receita de 2008. O Brasil representa mais da metade desse valor . A empresa afirma que um milhão de profissionais no mundo utilizam seus sistemas da Intralinks, que são baseados na internet. Ao todo, diz Kenepp, 55 mil transações de compra e venda foram efetuadas por meio da plataforma da companhia até hoje. ■ MERCADO ● Segundo a Intralinks, índice de fusões e aquisições cresceu 39% no primeiro trimestre em relação ao mesmo período de 2009. ● Cerca de 40% da receita da companhia vem de fora dos EUA. A América Latina é responsável por 10% do faturamento total. ● Os sistemas da empresa são usados por um milhão de pessoas no mundo, em clientes como Procter & Gamble e Pfizer. Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 27 Severino Silva/O Dia CREDIÁRIO INTERNET Baú da Felicidade tem novo diretor de varejo para promover crescimento Rocinha tem WI-FI gratuita do governo do Rio de Janeiro O novo diretor de varejo do Grupo Silvio Santos, José Roberto Prioste, assume o cargo com o desafio de dar continuidade ao plano de expansão da rede de lojas do Baú da Felicidade Crediário. Apoiado por seus 25 anos de experiência no mercado de eletroeletrônico, Prioste anuncia a abertura de 11 novos pontos de venda no interior paulista. Entre as cidades escolhidas estão Mogi Mirim, São José do Rio Preto, Americana. Desde ontem mais de 100 mil moradores da Rocinha, na zona sul do Rio, têm acesso gratuito à internet sem fio. A Secretaria de Ciência e Tecnologia também disponibilizou em seu portal cursos profissionalizantes e serviços para a comunidade. A PUC-Rio patrocinou a rede e outras três comunidades no Rio já dispõem de acesso à internet sem fio gratuita e em todas há unidades da Polícia Pacificadora. Crise mundial abre oportunidade para Microcamp voltar à Europa Estratégia de internacionalização está presente na rede de ensino, que, além do Velho Continente, inclui os Estados Unidos Divulgação Cintia Esteves [email protected] Eloy Tuffi, presidente da empresa de ensino de informática e idiomas Microcamp, manteve 15 unidades em Portugal durante 20 anos. Porém, em 2005, o empresário fechou todas e vendeu seus imóveis. Não aguentou concorrer com os incentivos que as escolas portuguesas recebiam do governo para manter jovens estudando de graça. Por ser uma empresa estrangeira, a Microcamp não tinha direito a receber os benefícios. Passados cinco anos, com a Europa em crise, os estudantes perderam as bolsas e Tuffi vê, enfim, uma chance de retornar. Foram investidos R$ 300 mil em pesquisas para saber se os jovens portugueses estão dispostos a pagar pelo ensino de informática. “Dependendo do resultado da pesquisa podemos iniciar a operação em agosto do ano que vem”, diz Tuffi. O retorno a Portugal pode facilitar a volta da Microcamp à Espanha, onde chegou a ter três escolas, todas fechadas pelo mesmo motivo das unidades portuguesas. Enquanto não bate o martelo sobre Lisboa e Madri, Tuffi concentra seus esforços de internacionalização com o ensino de inglês na Flórida, Estados Unidos. A Microcamp abrirá sua segunda unidade de idiomas, voltada, principalmente, para cubanos, mexicanos e brasileiros. No Brasil, foram abertas este ano sete escolas próprias e outras cinco serão inauguradas até o final do ano. A expectativa é alcançar faturamento de R$ 220 milhões, 10% mais que no ano passado. Informática popular O curso de tecnologia da informação (TI) é a principal aposta da Microcamp. “Como promovemos o treinamento de TI para os professores que já trabalham na nossa rede, ensinando outros temas, conseguimos diminuir o valor da mensalidade.” Na Microcamp o investimento é de R$ 150 mensais, enquanto o mercado cobra uma média de R$ 500”, diz Tuffi. É também com este curso que o empresá- “ Os cursos básicos de informática estão desaparecendo. Precisamos ensinar novas ferramentas. Como treinamos professores de TI que já trabalham na nossa rede, conseguimos diminuir o valor das mensalidades Eloy Tuffi, presidente da Microcamp rio espera reconquistar os estudantes portugueses. A concorrência não o assusta. Ele tem assistido às compras do Grupo Multi, dono da Wizard, que este ano arrematou a Microlins e a SOS Educação Profissional. “Já fui procurado pelo Banco Pátria e pelo Deutsche Bank, mas nos dois casos eles queriam que eu saísse do negócio. Estou muito jovem para parar de trabalhar”, diz o empresário de 59 anos. Do mercado de capitais, ele também quer distância. “O Brasil não entende de investimento. As pessoas nem compraram casa, como vão apostar em um mercado tão incerto como o de ações?”, pergunta-se. Falando apenas português e sem entender de computadores, o empresário mostra que anda mesmo na contramão dos negócios, pois sua rede no país é formada por 160 escolas de inglês e informática. ■ Tuffi: pacotes populares para cursos de tecnologia da informação EXPANSÃO RECEITA CONCORRÊNCIA 160 unidades compõem a rede R$ 200 mi foi quanto a companhia faturou 730 escolas formam a rede da rival da Microcamp, sendo 105 franqueadas e 55 próprias. Este ano a empresa já abriu sete escolas e até o final do ano a previsão é inaugurar mais cinco. no ano passado. Este ano, a rede espera crescer 10%. Segundo o presidente da Microcamp, não está nos planos a abertura de capital nem fusões com outras empresas. Microlins, do grupo Multi. A SOS Educação Profissional, do mesmo grupo, possui 150 franquias. A companhia também é dona da Wizard, de ensino de idiomas. 28 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010 EMPRESAS Douglas Engle/Bloomberg ARQUITETURA VAREJO Abertas inscrições para o prêmio mundial de construção sustentável da Holcim Carrefour adota comando de voz em Centro de Distribuição no Rio de Janeiro Foram abertas as inscrições do 3º ciclo do Holcim Awards, concurso mundial de arquitetura criado pela Holcim Foundation for Sustainable Construction com o objetivo de reconhecer projetos baseados no conceito de construção sustentável que reúnam inovação, eficiência e visão de futuro para este segmento. O Holcim Awards ocorre em nível regional e global, sendo a primeira etapa em cada continente. A tecnologia do voice picking (de separação de pedidos por comando de voz), que foi implementada pela ID Logistics no Centro de Distribuição do Carrefour em Osasco (SP), em 2005, foi estendida às operações da rede de hipermercados no Rio de Janeiro. O sistema usa um software de gerenciamento de estoques que pode ser acionado pelos funcionários do local apenas pela voz. Conveniência ajuda o Bahamas a bloquear os rivais Rede mineira abre loja com bandeira Aki %, em modelo similar ao ExtraFácil, do Pão de Açúcar, e Dia%, do Carrefour Cintia Esteves [email protected] Nos planos de expansão das redes de supermercados mineiras vale tudo para conter o avanço dos líderes Pão de Açúcar, Carrefour e Walmart. Disputar cada terreno de Minas Gerais onde seja viável erguer um ponto de venda e apostar em diferentes formatos de loja, assim como fazem as gigantes do varejo, está entre as estratégias do Supermercado Bahamas e da DMA, proprietária das marcas Epa, Mart Plus e Via Brasil. O projeto de implementação de lojas de conveniência do Bahamas está pronto e até o final do ano a primeira unidade será inaugurada em local ainda a ser definido. A bandeira Aki % seguirá os moldes do Extra Fácil, marca do grupo Pão de Açúcar de 61 lojas de 200 metros quadrados que nasceu para competir com os pequenos mercados de bairro. O Dia%, do Carrefour, possui 360 lojas distribuídas em todo país. “Teremos unidades de até 600 metros quadrados com 2 mil itens”, diz Jovino Reis, presidente do Bahamas. Uma loja tradicional da rede dispõe de mais de 10 mil itens. Neste semestre, a companhia também abrirá a segunda unidade com a marca de atacarejo, que atende pessoas físicas e jurídicas, Suprir Aki, em Barbacena, e um supermercado Bahamas em São João Del Rei. Com as três lojas e a construção de um novo centro de distribuição, a empresa terá investido R$ 40 milhões até o final do ano. As inaugurações devem contribuir para o faturamento de R$ 800 milhões que Reis espera alcançar este ano, uma alta de 15% em relação a 2009. Com administração familiar, o Bahamas passa por um processo de profissionalização. Reis tem buscado executivos do mercado e o balanço da com- “ Teremos unidades de até 600 metros quadrados com mix de 2 mil itens. Queremos valorizar a empresa e chegar a R$ 1 bilhão em faturamento Jovino Reis, presidente do Bahamas panhia é auditado há dois anos. Apesar de não manifestar a intenção de vender suas lojas, o empresário sabe que o movimento de consolidação do varejo é inevitável. “Queremos valorizar a empresa e chegar a uma receita de R$ 1 bilhão para depois pensarmos em uma possibilidade de associação ou venda”, afirma. Assim como Reis, do Bahamas, Nunes também não descarta uma associação. “É uma possibilidade, mas não temos nenhuma negociação em andamento”, afirma. A companhia tem optado pelo crescimento orgânico. Sua última aquisição foi em 2000, quando comprou a rede de supermercados Mineirão. Ampliação contínua Como crescente aumento do consumo, as varejistas mineiras aceleram o ritmo de expansão. O Bahamas e o grupo DMA acompanham este momento com a compra de terrenos para a posterior construção de lojas. Este ano, a Associação Mineira de Supermercados (Amis) prevê crescimento de faturamento no setor de 5% ante 2009, ano que registrou R$ 13 bilhões de receita. Minas Gerais conta com 3,2 mil supermercadistas e 6,7 mil lojas. ■ A bandeira Extra Fácil, do grupo Pão de Açúcar, possui 61 lojas, todas localizadas no estado de São Paulo Jovino Reis, presidente do Bahamas, empresa familiar que passa por processo de profissionalização Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 29 Alessandro Costa/O Dia ESTIMATIVA NEGÓCIOS Crise na Europa reduz previsão de investimentos globais em tecnologia Rio de Janeiro terá polo para desenvolvimento de tecnologias digitais As expectativas de gastos mundiais em tecnologia este ano devem ser menores por conta da crise financeira na Europa e enfraquecimento do euro ante o dólar, afirmou ontem a empresa de pesquisa Gartner. O instituto espera que o investimento em tecnologia da informação este ano no mundo fique em US$ 3,35 trilhões, alta de 3,9% sobre o ano passado, contra uma previsão anterior de 5,3% de crescimento. O Sindicato das Empresas de Informática do Estado do Rio de Janeiro (Seprorj) anunciou ontem a criação do Centro Experimental de Conteúdos Interativos Digitais (Cecid), um polo para o desenvolvimento de negócios e tecnologias digitais. A informação é da Agência Brasil. Ainda este ano, o centro terá estúdio de gravação, laboratórios de edição de vídeo, equipamentos de transmissão e espaço para testes de soluções. Paulo Alvadia/O Dia Evandro Monteiro Restaurante dentro do supermercado aumenta o fluxo de clientes Restaurantes usados como iscas pelos supermercados Refeições prontas para viagem ou vendida a quilo para consumo imediato atraem clientela Com os benefícios do mercado de alimentação fora do lar, os supermercados aumentaram as apostas no segmento. Manter um restaurante no interior da lojas nem sempre é tão rentável, mas o serviço atrai um grande fluxo de pessoas para as compras. O supermercado Modelo, de Mato Grosso, serve comida à vontade por R$ 9,90. Das 14 lojas da rede, nove possuem restaurante. “Não é em toda loja que este serviço é rentável, porém o restaurante atrai um fluxo de pessoas considerável”, afirma o encarregado do setor Robson Oliveira. O trabalho do Modelo chamou a atenção de Valdomiro Bardini, gerente geral de operações da Coop, que implementou restaurantes de comida por quilo em três lojas da rede paulista. “Eles ainda representam muito pouco na receita, mas percebemos crescimento de cerca de 5% nas vendas a cada mês”, diz Bardini. “Trata-se de uma tendência no setor de supermercados e vamos construir restaurantes nas próximas lojas que forem reformadas”, diz. Divulgação Alexandre Poni Diretor comercial do Verdemar “No restaurante do próximo supermercado, vamos ampliar a oferta de alimentos que ficam prontos com um simples aquecimento no microondas para que o cliente prefira comer em casa” A previsão de crescimento é baseada não só na expectativa de venda dos estabelecimentos, mas em toda a cadeia produtiva, que envolve desde fabricantes de produtos para o preparo dos alimentos a fornecedores de equipamentos. A próxima unidade do supermercado Verdemar, de Minas Gerais, por exemplo, terá um andar com mais de 600 metros quadrados dedicado a um restaurante. “Investimos R$ 10 milhões nesta loja, que junto com o restaurante ocupa uma área de 2,5 mil metros quadrados”, diz Alexandre Poni, diretor comercial do Verdemar. Ao mesmo tempo que o empresário aposta na tendência da praticidade, ele teve um problema com ela, de estacionamento. “Como o cliente passa mais tempo no interior da loja para se alimentar, o estacionamento fica cheio por muito tempo”, diz Poni. “Vamos ampliar a quantidade de alimentos que ficam prontos com um simples aquecimento no microondas para que o cliente prefira levar para casa”, afirma. A expectativa da consultoria ECD, especializada neste mercado de alimentação fora do lar, é que este mercado cresça 15% este ano. O levantamento refe- re-se à venda de bebidas e alimentos - preparados por restaurantes, lanchonetes, padarias entre outros tipos de operadores -, sejam eles consumidos no próprio estabelecimento ou em casa pelo consumidor. ■ C.E. NOVA LOJA R$ 10 mi é quanto a rede Verdemar está investimento em sua próxima loja que terá um andar, de 600 metros quadrados, dedicado a um restaurante. VALOR FIXO R$ 9,90 é o preço que cada pessoa paga para comer à vontade nos restaurantes do supermercado Modelo, que possui 14 lojas no Mato Grosso. CRESCIMENTO GRADUAL 5% é quanto crescem, a cada mês, as vendas dos restaurantes da Coop. Das 30 unidades da rede, apenas três delas servem refeição por quilo aos clientes. 30 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010 EMPRESAS Henrique Manreza LOGÍSTICA 1 LOGÍSTICA 2 LLX inicia a construção do Porto Sudeste no RJ com investimento de R$ 1,8 bilhão Eike Batista diz que investirá R$ 34,8 bilhões no estado do Rio de Janeiro O porto será construído em Itaguaí, no litoral do Rio de Janeiro. Com prazo de conclusão previsto para o final de 2011, as obras civis estão a cargo do consórcio ARG-Civilport e incluem pátio de estocagem de minério de ferro, túnel de ligação entre o pátio de estocagem e o píer e estrutura offshore. A companhia também anunciou a contratação dos principais equipamentos que serão usados na operação do porto. A declaração de Batista foi feita ontem no Porto do Sudeste, em Itaguaí. O porto terá capacidade de movimentação de 50 milhões de toneladas de minério de ferro por ano, em sua etapa inicial de operação, podendo movimentar posteriormente até 100 milhões de toneladas de minério de ferro por ano. Outro projeto da LLX em andamento é o Superporto do Açu, em construção em São João da Barra, orçado em R$ 2,4 bilhões. Brasil é centro de produção da Legrand para a América Latina Companhia francesa amplia leque de produtos fabricados no país e planeja novas aquisições Henrique Manreza Natália Flach [email protected] O Brasil foi escolhido pelo grupo francês Legrand para ser o centro de produção e exportação para a América Latina. Segundo o presidente no Brasil, André Vidal, o fechamento das fábricas no Peru e na Costa Rica, há cinco anos, e a do Chile, no fim do ano passado, faz parte da estratégia da companhia de ampliar a atuação das unidades brasileiras. “O Brasil vai produzir itens residenciais, industriais, de multiuso e também voltados para terceiros, como shopping centers e hotéis”, afirma o executivo. “As fábricas no México e na Colômbia continuarão em operação, enquanto os outros países passarão a ter apenas representantes comerciais.” O grupo espera obter neste ano um faturamento de R$ 450 milhões, um consolidado das cifras das seis empresas que integram a holding brasileira: Bticino, Cemar, HDL, Lorenzetti Materiais Elétricos, Ortronics e Pial. De acordo com Vidal, o país registra um índice de investimento de cerca de 7% do faturamento, enquanto a média mundial é de 5%. “O grupo tem interesse em duplicar o seu faturamento, em médio prazo, porque o mercado apresenta muitas oportunidades. Pretendemos fazer isso de forma orgânica e por meio de aquisições.” Ao todo, a Legrand já adquiriu cerca de cem empresas, em todo o mundo. “Todas as aquisições seguiram a nossa vocação de dar infraestrutura para as instalações elétricas e de cabeamento. Nunca entramos no segmento de cabos ou de geração de energia”, afirma. “Continuamos de olho em companhias brasileiras neste mesmo segmento, afinal o mercado é grande e ainda tem espaço para consolidação.” O Brasil está hoje no quarto lugar do ranking de faturamento, ficando atrás apenas da matriz francesa, da Itália e dos Estados Unidos. “O país sempre foi um fabricante e distribuidor de peso no grupo”, diz Vidal, acrescentando que a fi- lial brasileira tem crescido cerca de 15% por ano. O presidente da Legrand no Brasil, André Vidal: de olho nas empresas brasileiras Novos produtos A Cemar Legrand, que é uma das maiores fabricantes de centros e quadros de distribuição e de comando do Brasil, está entrando em um novo segmento destinado aos setores terciário e industrial. “Eram mercados conhecidos, mas não atuávamos neles”, conta Rogério Franceschini, diretor comercial da Cemar Legrand. “Era o que faltava introduzir na fábrica de Caxias do Sul (RS)”, afirma Vidal, sem revelar quanto foi investido na nova linha de produção. Mas ele compara essa ampliação com a que foi feita, em março, quando foram introduzidos novos produtos residenciais no portfólio da companhia. “Nessa linha de produção, investimos cerca de R$ 15 milhões”, afirma. De acordo com Vidal, no longo prazo, esta divisão deve abocanhar 10% do mercado de sistemas de proteção e distribuição de energia elétrica para terciários e indústrias. “Queremos estar entre o quarto e quinto colocado no ranking deste setor”, diz o executivo. “Desde que a Cemar foi comprada pela Legrand, em 2006, ela dobrou o seu faturamento, agregando linhas de produção de disjuntores e canaletas do grupo e também de forma orgânica.” Para se ter uma ideia, na unidade de Caxias do Sul, havia 400 funcionários há quatro anos. Hoje, são mais de 600, de acordo com Franceschini. ■ HISTÓRIA Há 36 anos no país, companhia tem perfil de compradora O grupo Legrand desembarcou no Brasil em 1974. Mas o seu primeiro passo só foi dado três anos depois com a aquisição da Pial. Em 1989, o grupo francês ampliou a sua participação no mercado brasileiro com a compra da marca BTicino. Em 1995, foi a vez da Luminex; em 1997 da Ortronics, e em 1999 a Lorenzetti Materiais Elétricos. Em 2006, o Legrand voltou a investir e arrematou a Cemar, e, há dois anos, anunciou a compra da HDL. As atividades industriais se concentram em Campo Largo, no Paraná; Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul; e em duas unidades de produção da HDL, que ficam em Manaus (AM) e em Itu (SP). Em Campo Largo, o grupo possui o Centro de Desenvolvimento para América Latina, que opera em sincronia com a plataforma de desenvolvimento na França, em Limoges. Hoje o centro já conta com 50 profissionais dedicados exclusivamente ao desenvolvimento de novos produtos. Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 31 Divulgação SIDERURGIA CARNE ArcelorMittal rebate acusação de cartel emitida pela União Europeia JBS faz acordo para adquirir confinamento McElhaney, nos EUA, por US$ 24 milhões Em nota sobre a decisão da UE de multar 17 siderúrgicas em € 518,5 milhões por formação de cartel, a ArcelorMittal divulgou nota afirmando que a multa de € 315 milhõe recebida por ela se baseia em “práticas anticoncorrenciais de mais de 25 anos atrás” e que recorerá da decisão após analisá-la em detalhes. Segundo a siderúrgica, ela operar um “forte programa de fiscalização” para garantir “altos padrões éticos e legais”. O acordo foi firmado por meio da subsidiária integral JBS Five Rivers Cattle Feeding. A transação contempla 100% dos ativos, incluindo confinamentos e fábrica de ração no Arizona. Segundo o comunicado da empresa, o confinamento McElhaney tem capacidade para mais de 130 mil bois simultaneamente e está estrategicamente localizado na região da unidade de produção da JBS em Tolleson, também no estado do Arizona. Henrique Manreza Em 2018, cobertura de abastecimento de água deve chegar a 98,7% Sabesp irá investir R$ 16,9 bilhões em São Paulo e universalizar atuação Meta da companhia é atingir 98,7% do abastecimento de água do município até 2018 Priscila Machado [email protected] Antes mesmo do Supremo Tribunal Federal (STF) dar um desfecho às discussões acerca da titularidade dos serviços de saneamento - se de responsabilidade municipal ou do governo do estado - , a Sabesp, a Prefeitura de São Paulo e o Governo do Estado de São Paulo assinaram um contrato para garantir o fornecimento de água e a expansão da rede. Só na capital paulista serão investidos R$ 16,9 bilhões nos próximos 30 anos. A cidade corresponde a 56% do faturamento da companhia. O projeto de longo prazo conta com metas intermediárias, entre elas a universalização da distribuição de água, coleta e tratamento de esgoto em São Paulo até 2018. Segundo Gesner Oliveira, presidente da Sabesp, Edson Lopes Jr. Gesner Oliveira, da Sabesp, cita assinatura de contrato com governo e prefeitura como marco de segurança jurídica. a assinatura de um contrato formal “é um marco em termos de segurança jurídica”. O principal objetivo do plano de investimentos é a expansão do atendimento. Para isso, a companhia investirá R$ 7,2 bilhões. De acordo com as metas estabelecidas, em 2018, a cobertura de abastecimento de água deve chegar a 98,7%, o índice de cobertura com coleta de esgoto estará em 96,7%, e o tratamento do esgoto coletado chegará a 93%. Outros R$ 3,6 bilhões estão previstos para promover a redução de perdas e fazer a reparação de córregos e mananciais. Até o final da primeira etapa do projeto, em 2013, a Sabesp já terá investido no município R$ 8,6 bilhões os quais cerca de 80% já teriam sido levantados, segundo Mário Arruda Sampaio, superintendente de Captação e Relações com Investidores da Sabesp. “Em um horizonte, além de 2013 pretendemos alavancar 50% do valor do plano e o restante obter com geração própria de caixa”, diz . O contrato entre a prefeitura e a Sabesp é o primeiro da cidade de São Paulo com uma empresa de saneamento. Com o atendi- mento formalizado no principal município da área de abrangência da companhia, a Sabesp ainda continuará prestando serviços de distribuição, coleta e tratamento de esgoto sem contrato em cerca de dez cidades do litoral paulista, entre elas Santos, onde negocia um contrato. Oliveira também confirmou que há um projeto de coleta e tratamento de esgoto em Guarulhos, onde a empresa não opera, mas não soube informar quanto precisa ser investido. A Sabesp atende São Paulo e mais 38 municípios, somando mais de 20 milhões de pessoas, 48% dos habitantes do estado. ■ APORTE ATUAÇÃO ABRANGÊNCIA R$ 16,9 bi É o valor do investimento da 20 milhões 98,7% É o número de pessoas atendidas É o índice de abastecimento de Sabesp no município de São Paulo nos próximos 30 anos. O recurso será revertido na expansão e garantia do atendimento. pela companhia em São Paulo e mais 38 municípios, o que representa 48% dos habitantes do estado de São Paulo. Contrato água que São Paulo terá até 2018; a cobertura com coleta de esgoto estará em 96,7%; e o tratamento do esgoto chegará a 93%. 32 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010 EMPRESAS Chris Ratcliffe/Bloomberg AUTOMOBILÍSTICA 1 AUTOMOBILÍSTICA 2 Vendas de veículos no Brasil sobem 4,65% e atingem 262,8 mil unidades em junho Fiat mantém a liderança de vendas no país e Volks ocupa o segundo lugar, diz Fenabrave A variação foi registrada na comparação com maio. Considerando o mesmo mês do ano passado, há queda de 12,44%, disse a Fenabrave, que representa as concessionárias. No acumulado do primeiro semestre, as vendas avançaram 8,98% sobre igual período de 2009, para 1,58 milhão de unidades. A projeção para vendas de automóveis neste ano foi reduzida, enquanto a de comerciais leves, caminhões e motos melhorou. A Fiat foi a líder de automóveis e comerciais leves, com vendas de 60.167 unidades em junho e 341.443 unidades no primeiro semestre. Em seguida aparece a Volkswagen, com 51.965 unidades vendidas em junho e um total de 313.443 unidades em seis meses. A GM teve vendas de 49.039 unidades em junho, e de 302.183 unidades na primeira metade do ano. A Ford vendeu 24.441 em junho e 154.053 no primeiro semestre. Companhias aéreas aumentam Qatar Airways, Aegean Airlines e Copa estão entre as estrangeiras que buscam ocupar mais espaço no céu brasileiro Ana Paula Machado Alastair Miller/Bloomberg [email protected] Não é somente em grandes obras de infraestrutura que o mercado brasileiro é visto como o novo eldorado. Na aviação internacional, o crescimento do país e consequentemente o maior número de viagens tem atraído grande número de companhias aéreas. A Qatar Airways, do Oriente Médio, a grega Aegean Airlines e a Copa Airlines, do Panamá, estão entre as que buscam ampliar negócios com o crescimento brasileiro. Dados da Empresa Brasileira de Infraestrutra Aeroportuária (Infraero) apontam que no primeiro bimestre foram transportados 2,69 milhões de passageiros nos voos internacionais. Em 2009, apesar da crise econômica internacional, 13,13 milhões de pessoas realizaram viagens internacionais, um volume pouco inferior aos 13,28 milhões de 2008, ano em que o Brasil viveu um dos melhores momentos da aviação comercial. Novata no mercado brasileiro, a Qatar estreou suas operações na América do Sul este mês com uma rota que liga o Oriente Médio, São Paulo e Buenos Aires. O diretor da empresa para a América Latina, Antonio Bandeiras, disse que o Brasil oferece oportunidades reais de crescimento, pois é um mercado com grande potencial de expansão devido ao bom momento econômico pelo qual passa. “Prova disso é que nos dois meses que iniciamos as vendas para o vôo Doha/São Paulo tivemos uma procura extraordinária. A taxa de ocupação para essa rota está muito boa”, disse Bandeiras que é português e está há cinco meses no Brasil. A nova rota completa um programa de cinco meses de expansão da companhia que, até agora, possibilitou iniciar voos para Bangalore, Copenhague, Ancara, Tóquio e Barcelona. Akbar Al Baker, presidente da Qatar Airways, disse que o Akbar Al Baker Presidente mundial da Qatar “A América do Sul é a última peça que faltava para nosso projeto de expansão. No início do ano, com a visita de uma delegação brasileira no Qatar, conseguimos fechar o acordo para as rotas” Felipe Setti Antonio Bandeiras Diretor para a América Latina “A rota para São Paulo teve uma procura grande. A taxa de ocupação está acima das expectativas, pois, tivemos somente dois meses de vendas e vamos oferecer um serviço cinco-estrelas ” voo para o Brasil completa o plano de expansão da empresa que hoje tem operações para 92 destinos. “A América do Sul é a última peça que faltava para nosso projeto. E no início do ano com a visita de uma delegação brasileira ao nosso país conseguimos fechar esse acordo que culminou na abertura de novo voo”, disse o executivo que comanda a companhia, a primeira considerada cinco estrelas do Oriente Médio a voar para o Brasil. Mercado atrativo A Qatar Airways é a segunda empresa aérea do Oriente Médio que opera no país. A Emirates iniciou a rota para o Bra- sil há cerca de três anos. “A alta dos preços dos combustíveis e a baixa demanda dos países de origem fazem com que as companhias estrangeiras olhem o Brasil como possibilidade de manter a rentabilidade e a demanda aquecida”, disse o consultor em aviação e professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas), Hugo Tadeu Braga. Outra novata no Brasil é a grega Aegean Airlines que vai operar no país por meio do acordo de compartilhamento de voo com a TAM. A companhia é a mais nova integrante da Star Aliance, a maior parceria entre empresas aéreas. ■ PARA O MUNDO VIA COPA ● A Copa Airlines, do Panamá, também vai aumentar a frequência para o Brasil. Neste mês, inicia o terceiro voo entre São Paulo e a Cidade do Panamá. ● O voo tem conexão imediata entre o Brasil e países da América Central, do Norte, do Sul e do Caribe. ● Empresa vai operar com um Boeing 737, com capacidade para 12 passageiros na classe executiva e 112 na econômica. Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 33 Mark Elias/Bloomberg AUTOMOBILÍSTICA 3 AUTOMOBILÍSTICA 4 Mercedes-Benz convoca novo recall do Sprinter por problema no cinto desegurança Toyota prepara recall de 270 mil veículos por defeito em motor em todo o mundo A Mercedes-Benz convoca proprietários do modelo Sprinter, produzidos de setembro de 2009 a abril de 2010, a comparecerem às concessionárias devido a problemas na fixação dos cintos de segurança dianteiros. Em 15 de junho, a montadora havia anunciado outra convocação dos proprietários da Sprinter devido a possibilidade de um desgaste no terminal do cabo de freio. A Toyota Motor afirmou ontem que os veículos com defeito pertencem a sua marca de luxo Lexus, além do modelo Crown. “No pior dos casos, nos modelos em questão, o motor poderá parar subitamente devido ao mal funcionamento de uma válvula”, explicou o porta-voz da Toyota, Hideto Yukawa. Os veículos pertencem às séries Lexus GS350, GS450h, GS460, IS350, LS460, LS600h e LS600hL e ao modelo Toyota Crown. disputa por passageiros do Brasil Charles Pertwee/Bloomberg MAIS DESTINOS Expansão A Aegean Airlines é a maior companhia aérea grega. Em 2009, transportou 6,6 milhões de passageiros, total 10% maior que no ano anterior. INFRAESTRUTURA Frota maior A Aegean opera uma frota de 30 aviões, oferecendo 54 rotas domésticas e internacionais servidas por mais de 150 voos diários. PARCERIA Milhagens O acordo com a TAM vai permitir que passageiros das duas companhias possam acumular milhas nos programas das duas empresas. Avião da Qatar Airlines em Dubai: companhia passa a voar para dois destinos da América do Sul, São Paulo e Buenos Aires, neste mês American Airlines se fortalece no país Companhia terá 11 novas frequências entre o Brasil e os Estados Unidos Outra companhia que está de olho no país é a American Airlines. A empresa completa 20 anos no Brasil, é a segunda estrangeira a operar no mercado local - perdendo apenas para a portuguesa TAP que tem 70 frequências – e inicia em novembro mais 11 voos entre o país e os Estados Unidos e estreia no mercado de Brasília. Com os novos voos a American terá 68 frequências no país, número que deve ser elevado a 70 na alta temporada, quando contará com voos extras O diretor de vendas e marketing da empresa para o Brasil, Dilson Verçosa Junior, disse que com as novas rotas o Brasil passa a ser o terceiro destino internacional com mais de seis cidades atendidas, perdendo apenas para o México e Canadá. Nas rotas para o Brasil, a American Airlines voa com uma taxa de ocupação acima de 80% com uma tarifa superior à praticada no ano passado. “O Brasil é muito importante A American vai aumentar o número de voos entre Brasil e Estados Unidos na alta temporada. Com isso, a companhia passará a operar 70 frequências semanais entre os dois países para a empresa, pois hoje tem uma participação maior no mundo em função de seu crescimento econômico e das possibilidades de negócios que aqui existem. Não podíamos deixar de aproveitar esse momento”, disse o executivo. “Aqui era o único país que não operávamos na capital federal. Agora, poderemos aumentar nossa presença no Brasil. Há dois anos estávamos somente em duas cidades brasileiras, Rio de Janeiro e São Paulo. Hoje, já voamos para Belo Horizonte, Salvador e Recife”, afirmou. Segundo Verçosa, o volume de passageiros transportados aumentará em 20% no próximo ano. “Brasília é um destino com forte demanda de negócios e cada vez mais as pessoas querem voar sem escalas, por isso, exercemos a nossa posição dentro do acordo bilateral, entre Brasil e Estados Unidos”, afirmou Verçosa Junior. Pelo acordo, segundo ele, ainda há frequências que podem ser exercidas para Porto Alegre, Curitiba, Belém e Fortaleza. Verçosa ressaltou que a empresa ainda estuda outro destino. ■ 34 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010 BASTIDORES CULTURAIS CESAR GIOBBI Mais de 300 eventos musicais por ano. Quem consegue? Paulo Zuben consegue. Ele comanda o projeto Guri na Grande São Paulo, a Tom Jobim Emesp e o Festival de Inverno de Campos do Jordão MEIO MÚSICO, MEIO ADMINISTRADOR Paulo Zuben é diretor executivo da O.S. Santa Marcelina Cultura, da Tom Jobim Emesp e do Festival de Inverno de Campos do Jordão. Foi levado a estes cargos pelas irmãs marcelinas, para quem já trabalhava como coordenador da faculdade de música. É formado em composição musical com mestrados e doutorados na PUC e USP e em Paris. E formado pela Fundação Getulio Vargas em administração de empresas. A atuação da Santa Marcelina Cultura, em apenas dois anos, mudou a gestão e a eficiência em todas as frentes em que atua: projeto Guri na grande São Paulo, Tom Jobim Emesp, Festival de Campos do Jordão, Auditório Cláudio Santoro. O Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão, em sua 41ª edição, começa amanhã, com uma semana a mais de duração, o dobro do número de concertos (a programação está em reportagem do Outlook, nas páginas 16 e 17) e possivelmente um terço a mais de custo sobre a edição de 2009. Este ano o festival contempla 179 bolsistas, não só brasileiros, mas de várias nacionalidades do continente, que têm aulas com 60 professores, brasileiros e estrangeiros, que também se apresentam em concertos no Auditório Cláudio Santoro, em três igrejas e na praça de Capivari. Quem é que cuida de tudo isso? Uma equipe de cerca de 60 pessoas, comandadas pelo diretor executivo do Festival, Paulo Zuben. Que, por sinal, é também o diretor executivo da Tom Jobim Escola de Música do Estado de São Paulo, Emesp, que organiza o festival. E ainda diretor executivo da O.S. Santa Marcelina Cultura, que controla a Tom Jobim, o Festival, e a partir deste ano, também gere o Auditório Cláudio Santoro. Deu para entender? Eu sei, foi complicado para mim também. A história do envolvimento das freiras marcelinas com o Festival começa no fim do de 2008, quando o então secretário de Estado da Cultura, João Sayad as convidou para assumirem a tarefa, que sempre foi da Secretaria. E lhe entregou também a administração da Tom Jobim, que estava a cargo de uma cooperativa de músicos. A sugestão foi do próprio governador Serra, que estava muito satisfeito com a competência demonstrada pelas freiras no comando da O.S. Santa Marcelina Saúde, que gere alguns hospitais do Estado e outros do município. As marcelinas já trabalham no âmbito da saúde há 50 anos. Além do que, no ano anterior, já tinham sido chamadas para assumirem o projeto Guri, de inclusão pela música, na grande São Paulo. E as marcelinas também trabalham com música, já que têm faculdade de música. Zuben já estava com elas. Era coordenador do curso de música da Faculdade Santa Marcelina, e conhece todas estas etapas. Foi muito trabalho nas três frentes: tiveram de fazer novo projeto para o Guri, reformular a Tom Jobim e duplicaram o festival. Em dois anos, realmente não é pouco. Zuben conta que a OS preferiu cuidar do Guri só na grande São Paulo, porque o trabalho é específico. Aqui na periferia, o índice de vulnerabilidae juvenil vai ao grau 5, um desafio. Escolheram trabalhar nos 17 Ceus, devido à estrutura, e mais três polos. “ Investir no social, na formação musical local em Campos do Jordão é fazer a música do festival durar o ano inteiro. Em mais de 40 anos, nunca houve um bolsista que fosse de Campos Paulo Zuben Aí, cuidam de 8 mil alunos, e cada um vem com um responsável (pai, avô ou irmão), que está sempre a par do que acontece. Os professores trabalham acompanhados de um assistente social. Nada é simples. O curso é de seis anos, dois básicos, e quatro para o instrumento escolhido. Os instrumentos ficam na escola. Agora, o secretário Andrea Matarazzo quer levantar fundos, através de eventos benemerentes e leis de incentivos, para comprar instrumentos que serão emprestados a essas crianças e jovens para que treinem em casa. Algum risco para os instrumentos? Zuben não acredita nisso. É um voto de confiança. Na verdade, o Guri ficou mais amplo do foi concebido. Hoje, atende as famílias, já que faz terapia comunitária, dá aulas de cidadania, explica como acessar todos os equipamentos públicos de saúde, educação e cultura. Como avaliar o que tudo isso faz por uma criança? Ainda não é possível medir. Mas a Santa Marcelina, com a Fapesp e universidades estão tentando criar índices para medir esse impacto. O orçamento do Guri para 2010 é de R$ 15 milhões. Serão R$ 25 milhões em 2011, mas haverá mais pólos, e atenderá mais 6 mil alunos. 95% desta verba é do governo. O resto vem da iniciativa privada, através da Lei Rouanet ou do Funcad. A Tom Jobim Emesp é outra boa história. Capengava na mão da cooperativa de músicos, como universidade livre de música, sem nunca ter sido uma universidade. Mesmo hoje não é. É um curso técnico profissionalizante, mas não vale como fundamental. Os estudantes têm de cursar uma escola normal, mais a Emesp. E são dez anos de curso, em quatro ciclos. Há parcerias com universidades, que dão créditos por vários de seus cursos. A escola tem um orçamento de R$ 18 milhões, incluído o Festival de Campos, onde não gasta, porém, mais de R$ 1 milhão, já que o Bradesco segue sendo o patrocinador máster do evento, dando R$ 4,4 milhões, e a Cielo deu mais R$ 500 mil. A edição de 2009 custou R$ 5 milhões no total. Hoje os 400 professores da Emesp são contratados pela CLT em processos seletivos. O governo bancou o passivo trabalhista dos anteriores. Assim, a escola pode ter 1.800 alunos que estudam de graça, sendo que 239 deles ainda recebem bolsa de R$ 435 por mês. E mantém a Orquestra Jovem, a Banda Jovem, o Coral Jovem e a Orquestra Tom Jobim. E mais a Camerata Aberta, formada por pro- Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 35 Divulgação AGENDA Um restaurante no Teatro Municipal O Teatro Municipal, em reformas, vai ganhar, finalmente, seu muito sonhado restaurante. O projeto é antigo, mas vira realidade agora, na gestão de Beatriz Franco do Amaral. Será instalado no salão que fica à direita do hall de entrada, separado por uma parede de vitrais. É um espaço lindo, com pinturas no teto. Para contrastar com o estilo clássico do prédio, os irmãos Humberto e Fernando Campana concordaram em desenhar os móveis, balcão, mesas e cadeiras, muito contemporâneos. O projeto só vai sair do papel graças ao patrocínio da Votorantim Metais. ● Abertura da mostra francesa Epidemik, na Estação Ciência, no dia 2. ● Espetáculo de dança americano Porta Sem Parede, no espaço O Lugar, no dia 3. ● Abertura da exposição fotográfica O Haiti Está Vivo Ainda Lá, no Museu Afro Brasil, no dia 4. [email protected] Murillo Constantino BREVES Os oito álbuns de Lennon, relançados pelos seus 70 anos AFP Os oito álbuns solo clássicos de John Lennon foram remasterizados digitalmente, alguns em versões remix, e chegam às lojas no dia 9 de outubro, quando o ex-beatle faria 70 anos. O projeto chama-se John Lennon Gimme Some Truth, e é supervisionado por Yoko Ono. Estão lá desde Imagine (1971) a Double Fantasy (1980). Para saber mais, entre em johnlennon.com. Gota D’Água, na internet Paulo Zuben, numa das salas de aula da Tom Jobim Emesp fessores da escola, e o núcleo de música antiga, que pesquisa instrumentos e partituras de época. O sonho de Zuben é ter um prédio próprio para a Tom Jobim, já que o belo edifício antigo, no Largo General Osório, de quase 6 mil m², é alugado por R$ 400 mil anuais. Pode ser até aquele mesmo, se for desapropriado para fins de uso público. Outro sonho é integrar o Guri com a Tom Jobim. A criança fica no guri até os 9 anos. E os melhores talentos seguem estudanto na Emesp. Sedungo Zuben, nunca foi pensada uma pirâmide que vai do Guri à universidade. No Festival de Campos, dos cerca de 80 concertos em quatro semanas, a metade será gratuita. Os que são pagos, financiarão o aluguel da Sala São Paulo para os dez concertos previstos para a capital, e muitas ações sociais de educação musical com 50 professores da rede pública e 250 alunos da população local. Segundo Zuben, é um jeito de a musica do festival ficar em Campos o ano todo. E conta que, em mais de 40 anos, nunca houve um bolsista que vivesse na cidade. O Festival também tem, desde o ano passado, convênios com o Conservatório de Paris e com a Julliard School de Nova York, que mandam professores. Ao todo, são mais de mil músicos, brasileiros e estrangeiros, que sobem a serra para se apresentar e dar aulas. A logística para instalar todas essas pessoas é imensa. As pianistas Maria João Pires e Cristina Ortiz, por exemplo, além de darem concertos, ficarão duas semanas ensinando. Maria João vai com filhos. Portanto, alugaram uma casa para ela. Por sinal, organização e logística estão entre as maiores preocupações de Zuben, que somando as apresentações das orquestras do Guri, dos corpos musicais da Tom Jobim e mais o Festival, comanda mais de 300 eventos musicais por ano. Quase um por dia. O que é um portento, levando em conta que nada ali é feito para dar lucro. Como é possível realizar tudo isso? Zuben diz que as irmãs marcelinas são muito capazes como administradoras. Ele não assina cheque nenhum. Tudo passa por elas. Sobretudo pela irmã Rosane Ghedin, diretora presidente da Santa Marcelina Cultura, que Zuben e mais todo mundo na Secretaria de Cultura cobrem de elogios. Mas mesmo sem assinar cheques, Zuben tem pago de outra forma: sua taxa de diabetes ficou descontrolada. Foi a primeira coisa que me disse, ao falar da aproximação do festival,e começar a contar tudo o que andava comandando. ■ “ O espetáculo musical Gota D’Água, de Chico Buarque e Paulo Pontes, baseado em Medéia, que estreou na metade dos anos 70 com Bibi Ferreira no papel principal, será remontado neste fim de semana, no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, para que possa ser gravado pela empresa Cennarium, especializada em registro de peças teatrais para a internet. A direção desta montagem de 2007 é de João Fonseca, e ganhou vários prêmios, inclusive o Shell. Nunca foi pensada uma pirâmide de ensino musical que fosse do Guri à universidade Divulgação Um concurso de dramaturgia pelo Twitter A SP Escola de Teatro lança um concurso que começa hoje pelo Twitter. Para concorrer, é só mandar um enredo de 140 caracteres e escrever #mdrama no final. Ivam Cabral, diretor da escola, garante que com um texto curto assim um encenador pode montar um espetáculo de até meia hora. Os 100 melhores serão publicados e encenados. 36 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010 FINANÇAS Construtoras menores elevam busca por crédito Instituições financeiras identificam maior demanda e treinam equipes para concessão de financiamento a essas empresas Ana Paula Ribeiro [email protected] A expectativa de que o crédito imobiliário continuará em alta nos próximos anos faz com que os grandes bancos elevem os esforços para expandir as operações. O foco agora são as construtoras de pequeno e médio portes. Banco do Brasil (BB) e Santander criaram áreas específicas para atender a essas empresas, após verificarem o aumento da demanda por crédito para a construção de unidades habitacionais. No BB, o treinamento começou no mês passado, com a instrução às superintendências regionais que irão acompanhar o atendimento a essas empresas, que será feito por meio das agências de varejo e terá início neste semestre. “Esse aquecimento está presente em todo o Brasil, principalmente no Sul, Sudeste, Bahia e Ceará”, afirma o gerente-executivo da Diretoria de Empréstimos e Financiamento, José Henrique da Silva. O objetivo da instituição é que, nos próximos 12 meses, o valor de venda das unidades financiadas fique entre R$ 4 bilhões e R$ 5 bilhões no segmento de grandes construtoras e de R$ 1 bilhão nas menores. “Nunca tivemos tantas condições para o lançamento de empreendimentos. A elevação de renda e juros mais baixos favorecem as operações”, lembra. De acordo com os bancos, as condições de financiamento são as mesmas, independentemente do porte da empresa. Em geral, é feito o financiamento de 80% do valor do empreendimento, com os desembolsos liberados com de acordo com o andamento da obra. Embora as condições de financiamento sejam as mesmas, a área criada pelo Santander para o atendimento a essas empresas contempla facilidades na contratação do crédito. A superintendente-executiva de Ne- Aumento de renda da população e estabilidade econômica dão maior confiança para construtoras de menor porte apostarem em novos projetos gócios Imobiliários, Alda Rosselli, explica que a operação é feita via internet. Por meio da plataforma desenvolvida, é possível que os interessados enviem os documentos (incluindo as plantas dos projetos), a proposta e façam o acompanhamento do contrato. A ideia é dar maior agilidade à concessão e aos desembolsos. “Esse segmento está crescendo muito. Queremos atrair as empresas que tradicionalmente pegam poucos empréstimos”, explica. Para dar maior foco a essas empresas, o banco contratou 15 gerentes que desde junho coordenam o atendimento. A expectativa é de que elas aumentem a participação no total de crédito imobiliário a pessoas jurídicas no banco, que hoje varia entre 5% e 10%. A projeção é que a fatia supere 10%. Maior participação No Bradesco, o atendimento a esse segmento de construtoras ocorre dentro dos Cenims (Centros de Negócios Imobiliários), mesma área que atende às grandes. No entanto, o banco também percebeu que há uma maior demanda por parte das construtoras de menores. De acordo com o diretor de Empréstimos e Financiamentos da instituição, Nilton Pelegrino, o número de contratos fechados com essas empresas no primeiro semestre apresentou um crescimento de 137% em relação a igual período do ano passado, chegando a 64. “Já praticamente fizemos no primeiro semestre o que levamos o ano passado todo para fazer”, diz. Em valores, a expansão do volume contratado foi de 240%. O maior apetite das construtoras começa a alterar o perfil da participação no crédito total. No primeiro semestre do ano passado, elas respondiam por 12% dos financiamentos imobiliários a pessoas jurídicas no Bradesco. Agora, a participação chega a 17%. ■ Recursos fartos Dinheiro do FGTS e da poupança garantem que empresas executem mais projetos Se no início do ano passado o setor da construção civil colocou o pé no freio diante das incertezas do cenário econômico, agora as empresas aceleram para atender à crescente demanda por unidades habitacionais. “Estamos em uma fase muito favorável tanto para as pessoas físicas quanto para as jurídicas”, afirma o diretor executivo do Secovi-SP (Sindicado das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis), Celso Luiz Petrucci. Com a expectativa de crescimento, as empresas se sentem confortáveis para lançar os projetos e os bancos, para financiá-los, sem discriminação de tamanho. Petrucci lembra que a Caixa Econômica Federal fechou no primeiro ano do programa federal Minha Casa, Minha Vida contratos com 655 empresas. “Isso mostra que o atendimento é bem diversificado no mercado.” Petrucci lembra ainda que no geral não existem casos que mostrem que há dificuldade em obter recursos pelas empresas do setor. Cenário diferente daquele registrado após o agra- Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 37 Andrew Harrer/Bloomberg Empréstimos do Banco Mundial são recordes O Banco Mundial informou que assinou acordos para conceder uma cifra recorde em financiamentos no ano fiscal de 2010, encerrado anteontem, para ajudar países em desenvolvimento a lidarem com uma recuperação global “frágil e desigual”, segundo o presidente da instituição, Robert Zoellick. Os empréstimos, subvenções, investimentos em ações e garantias da instituição cresceram para US$ 72,2 bilhões no ano fiscal até ontem, bem acima do recorde anterior, de US$ 58,8 bilhões. AGENDA DO DIA ● Às 7h, a Fipe divulga o IPC de junho. ● Às 9h30, saem a variação da folha de pagamentos e a taxa de desemprego de junho nos Estados Unidos. ● Às 11h30, saem as encomendas à indústria nos EUA de maio. André Penner Pelegrino, do Bradesco: contratações mais do que dobraram ante o ano passado CRÉDITO IMOBILIÁRIO EM ALTA* Estímulo do governo e maior renda contribuem para expansão, em R$ bilhões 108 102,4 98 88 78 68 59,7 58 DEZ/08 / MAI/10 M / Expansão nos 12 meses encerrados em maio foi de 51,1% F t B Fonte: Banco C Central t l *Recursos direcionados para setor habitacional ■ MAIS CASAS As unidades financiadas de janeiro a abril chegaram a 114,1 mil ■ CRESCIMENTO O total representa uma expansão em 12 meses de 46 % ■ POUPANÇA Principal fonte de recursos do setor tem depósitos totais de R$ 262 bi aquecem disputa para ganhar mercado mento da crise financeira externa, em setembro de 2008. Os recursos para o setor proveem da poupança e do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço). No caso das cadernetas, os financiamentos com essa fonte devem passar do patamar de pouco mais de R$ 30 bilhões no ano passado para R$ 50 bilhões em 2010. Já no fundo, R$ 24 bilhões devem ser utilizados no crédito imobiliário, ante cerca de R$ 15 bilhões em 2009. Outro fator que contribui para que os recursos sejam destinados a todos os portes de construtoras é que não há grandes discrepâncias no nível de Empresas menores conseguem entregar as obras em prazo similar ao das grandes construtoras eficiência. Ou seja, uma empresa menor consegue entregar a obra em prazo similar ao de uma grande construtora. “O ciclo de produção não muda muito. Às vezes, as menores têm até resultados melhores”, acredita o diretor de economia do Sinduscon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo), Eduardo Zaidan. Na avaliação do Sinduscon, o crédito também não é um entrave ao crescimento do setor. Zaidan lembra que cada vez mais os bancos querem diversificar seus riscos, o que faz com que as construtoras de todos os portes tenham espaço. “Alguns têm a estratégia de pulverizar um pouco menos, mas não há discriminação”, diz. Embora não revele qual a fatia que cabe às pequenas e médias construtoras, a Caixa Econômica Federal, que responde por mais de 70% do financiamento imobiliário no país, afirma que elas possuem uma participação importante, em especial nas operações destinadas a menor renda, como o PAR (Programa de Arrendamento Residencial) e os empreendimentos do Minha Casa, Minha Vida que são destinados ao público com renda de até três salários mínimos. ■ MAIOR VALOR FINANCIADO ✽ Facilidade no crédito ajuda crescimento O valor médio dos financiamentos em 2010 está em R$ 125,6 mil, crescimento de 11,7% em relação à média de 2009, segundo a Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança). O número de unidades financiadas entre janeiro e abril chegou a 114,1 mil, 46% maior do que em igual período de 2009. 38 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010 FINANÇAS Remote/Michael Leckel/Reuters BONIFICAÇÃO MERCADOS BC autoriza aumento de capital do Bradesco em R$ 2 bilhões Dados econômicos fracos levam índice europeu à mínima em cinco semanas O banco Bradesco informou ontem que o Banco Central (BC) aprovou seu processo de aumento de capital social, no valor de R$ 2 bilhões, elevando-o de R$ 26,5 bilhões para R$ 28,5 bilhões. De acordo com a instituição financeira, será efetuada a bonificação de 10% em ações (uma ação nova, da mesma espécie, para cada 10 ações possuídas) aos acionistas que estiverem inscritos nos registros do Bradesco em 13 de julho de 2010. As principais ações europeias fecharam em queda pela terceira sessão consecutiva e atingiram a mínima em cinco semanas ontem, diante da intensificação de preocupações com a recuperação econômica global. O índice FTSEurofirst 300, que mede o desempenho dos mais importantes papéis do continente, recuou 2,48%, para 968 pontos. O setor financeiro figurou entre os de pior performance. Aumento de renda beneficia ações O ano de 2010 será de elevados investimentos em expansão da área de vendas, com as empresas tirando Vanessa Correia [email protected] O aumento do poder de compra das classes de menor renda é um dos principais atrativos para investidores que apostam em ações de varejistas com foco em vestuário, tais como Lojas Renner e Marisa. A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) entre 2008 e 2009, mostrou que as famílias que ganham até dois salários mínimos gastaram, em média, R$ 40,43 com vestuário. Na pesquisa anterior, realizada entre 2002 e 2003, esse mesmo segmento da população gastou, em média, R$ 34,31 (valores já deflacionados pelo INPC até janeiro de 2009), ou seja, crescimento real de 18%. E, ao que tudo indica, esse cenário não deve ser alterado no médio e longo prazos. “O apetite dos consumidores por itens de vestuário continuará positivo e isso reflete as expectativas de aumento dos gastos da população de menor renda com roupas, que não são itens de primeira necessidade. Com isso, os papéis das companhias que atuam nesse segmento tendem a se beneficiar”, afirma Juliana Campos, analista da Ativa Corretora. “ O apetite dos consumidores por itens de vestuário continuará positivo Juliana Campos, analista da Ativa Corretora As ações ordinárias (ON) da Marisa subiram 88,99% no primeiro semestre de 2010, enquanto os papéis ON da Lojas Renner apresentaram avanço de 22,81% no mesmo período de comparação. “Além das condições macroeconômicas se mostrarem favoráveis, ambas as varejistas começarão a colher os resultados das lojas abertas e que ainda não maturaram”, diz. Além disso, 2010 será um ano de elevados investimentos em expansão da área de vendas, segundo a analista, com as empresas tirando o máximo proveito do momento de demanda doméstica aquecida combinada com ampla oferta de crédito por parte dos bancos, além da disponibilidade de recursos em caixa. Riscos O quarto trimestre de 2009 foi um dos períodos mais positivos para o setor varejista, dada sua forte recuperação após a crise financeira mundial. “Seria natural vermos uma desaceleração do crescimento, principalmente se comparado ao último trimestre do ano passado”, ressalta a analista da Ativa. A elevação da taxa de juros também pode levar a uma desaceleração do consumo. “Lojas Renner e Marisa trabalham bastante com parcelamento máxi- Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 39 Jim Bourg/Reuters IPO PÓS-CRISE Após cisão, Redentor deve abrir capital na bolsa de valores Tesouro dos EUA conclui venda de 1,1 bilhão de ações do Citigroup A Equatorial Energia informou seus acionistas de que a Redentor, empresa resultante do processo de cisão parcial da Equatorial, deve abrir capital na bolsa de valores. A Redentor entrou com pedido de registro de companhia aberta na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) nesta semana. A empresa detém 13,03% de participação no capital social da Light. O Tesouro dos Estados Unidos, cujo secretário é Timothy Geithner, vendeu uma segunda tranche de ações ordinárias do Citigroup, levando os lucros do governo com as vendas dos papéis do banco a mais de US$ 2 bilhões e reduzindo a participação que possui na instituição a cerca de 18%. A venda de 1,1 bilhão de ações ordinárias leva o total de ações vendidas pelo Tesouro a 2,6 bilhões, cerca de um terço do total detido pelo governo. Marcela Beltrão Negociação da Lojas Americanas Consumo em alta já se reflete nos papéis da Marisa, que ganharam quase 90% no ano Cobertura Para Ativa, ações da Renner têm potencial de alta de 28,8% A Ativa Corretora reiniciou a cobertura das ações da Lojas Renner e iniciou o acompanhamento dos papéis da Marisa, com preços justos de R$ 62,93 e R$ 19,88, respectivamente, para junho de 2011. Com base na cotação de fechamento de 22 de junho, o potencial de valorização (upside) é de 28,8% para Lojas Renner, enquanto os papéis da Marisa não oferecem potencial de ganhos, segundo a Ativa Corretora. “Considerando o potencial de crescimento para o varejo de vestuário no Brasil no longo prazo e o upside oferecido, recomendamos compra para Lojas Renner. Já Marisa tem recomendação de venda, pois acreditamos que o papel já esteja corretamente precificado”, ressalta Juliana Campos, analista da corretora. de vestuário maior proveito da demanda aquecida mo de oito vezes, no qual incide juros. Com a elevação das taxas, isso tende a impactar negativamente o ticket médio das compras, já que os consumidores migrarão para o pagamento para o parcelamento sem juros (à vista ou em cinco vezes). No entanto, será um impacto marginal”, completa. O último fator de risco citado pela analista é o possível maior endividamento da população brasileira. “O aumento do endividamento está concentrado em modalidades mais arriscadas. como o cheque especial e o cartão de crédito, e que são bastante utilizadas pelo público consumidor dessas redes. ■ LOJAS RENNER 8,85% foi quanto subiram as ações ordinárias da Lojas Renner em junho, encerrando o mês cotadas a R$ 47,35. MARISA 13,26% foi quanto ganharam as ações ordinárias da Marisa no mês passado, encerrando cotadas a R$ 20,50. O início das negociações entre Lojas Americanas e Casa & Vídeo Rio de Janeiro não deve impactar a negociação dos papéis, segundo Juliana Campos, analista da Ativa Corretora. “As conversas estão em um estágio muito preliminar e não devem ser responsáveis por uma possível oscilação dos papéis no curto prazo”, afirma. A Casa & Vídeo opera nos estados do Rio de Janeiro (RJ), Espírito Santo (ES) e Minas Gerais (MG. A companhia opera com aproximadamente 70 lojas e seu foco de atuação é similar ao mercado em que o Ponto Frio, recém-adquirido pelo Pão de Açúcar atua. Ou seja, produtos duráveis, como aparelhos eletrônicos, informática, livros, entre outras. Segundo um analista que acompanha o papel, o interesse da Lojas Americanas nos ativos da Casa & Vídeo pode estar ligado ao acesso a pontos de venda estratégicos, como aconteceu na aquisição da BWU no passado. Além disso, a possível aquisição da Casa & Vídeo, estaria ligada à consolidação do setor. “Já vimos a consolidação de várias varejistas, tais como Ricardo Electro e Insinuante, Casas Bahia e Pão de Açúcar. Acredito que a Lojas Americanas não quer ficar de fora desse movimento”, completa Juliana, da Ativa Corretora. Mesmo sem ter uma expectativa de conclusão da operação, a analista diz que a Lojas Americanas tem planos de crescer rápida e organicamente, nos próximos quatro anos, o que é um atrativo para o papel. No primeiro semestre deste ano, as ações ordinárias da empresa acumulam desvalorização de 21,11%, enquanto os papéis preferenciais apresentam recuo de 16,66%. “Além de a companhia apresentar resultados consistentes nos útimos meses, mesmo durante a crise financeira mundial, os papéis apresentam ótima oportunidade de investimento, já que acumulam forte queda no ano”, ressalta a analista da Ativa Corretora. V.C. DECLARAÇÃO DE PROPÓSITO DENOMINAÇÃO: ASK Brasil Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A. As pessoas físicas e jurídicas controladoras abaixo identificadas, por intermédio do presente instrumento, declaram sua intenção de constituir uma instituição com as características abaixo especificadas: Denominação social: ASK BRASIL Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A. Local da sede: Rua Oscar Freire, 379, conjunto 82 – Cerqueira César – São Paulo – SP – 01426-001 Capital inicial: R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais) Composição societária: - controladores: i) o capital da ASK BRASIL Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A. será 100% (cem por cento) detido pela ASK – Advisory Service Kapital do Brasil Assessoria e Gestão Ltda., inscrita no CNPJ/MF sob o nº 10.670.410/0001-01; ii) as quotas da ASK – Advisory Service Kapital do Brasil Assessoria e Gestão Ltda. são detidas conforme a tabela abaixo: Nome CNPJ/CPF Percentual Lauro Broncher Brand 094.144.518-62 25% Partners I Participações Ltda. 10.774.037/0001-20 25% Ask S.A. 10.257.063/0001-81 50% iii) as quotas da Partners I Participações Ltda. são detidas conforme a tabela abaixo: Nome CNPJ/CPF Percentual Misa Empreendimentos e Participações Ltda. 05.437.977/0001-94 50% Pedro Tavares Martins 839.443.707-91 50% iv) as quotas da Misa Empreendimentos e Participações Ltda. são 99% (noventa e nove por cento) detidas por Valério Marega Jr, inscrito no CPF/MF sob o nº 863.437.346-00 v) as ações da sociedade portuguesa Ask S.A. são detidas conforme a tabela abaixo: Nome No. Contribuinte Fiscal - Portugal Percentual Dullin Investors LTD. 662555 27,88% 500140022 11,00% ISQ - Instituto de Soldadura e Qualidade 1 Nuno Fernandes Thomaz 190703423 10,70% Nuno Miranda 208066268 9,97% 176722319 7,74% Jaime D’Almeida 2 vi) a Dullin Investors LTD, sociedade com sede nas ilhas virgens britânicas, é controlada pelo Sr. Francisco Pedro Vicente Roseta Fino, cidadão português, residente e domiciliado a Rua do Sacramento a Lapa, 46-A, Lisboa, Portugal, portador do CPF: 231.719.198-77. - outros acionistas/quotistas detentores de participação qualificada: Não há. As pessoas físicas administradoras abaixo identificadas, por intermédio do presente instrumento, declaram sua intenção de exercer cargos de administração na ASK BRASIL Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A. e que preenchem as condições estabelecidas no art. 2º da Resolução 3.041, de 28 de novembro de 2002. - nomes, documentos de identidade, CPF e cargos dos administradores: Nome RG CPF/MF Cargo Valério Marega Jr MG-6529955 863.437.346-00 Presidente Pedro Tavares Martins 054832027 DIC/RJ 839.443.707-97 Diretor ESCLARECEM que, nos termos da regulamentação em vigor, eventuais objeções à presente declaração devem ser comunicadas diretamente ao Banco Central do Brasil, no endereço abaixo, no prazo de trinta dias contados da data da publicação desta, por meio formal em que os autores estejam devidamente identificados, acompanhado da documentação comprobatória, observado que os declarantes podem, na forma da legislação em vigor, ter direito a vistas do processo respectivo. 1 ISQ - Instituto de Soldadura e Qualidade é um instituto português, constituído em 1965 onde oferece serviços nas áreas de inspeção, formação e consultoria técnica apoiados em atividades de investigação e desenvolvimento e laboratórios acreditados. O ISQ esta presente em 12 países incluindo o Brasil e é hoje a maior organização portuguesa de inspeções técnicas e ensaios, não sendo possível informar seu controle societário. 2 Jaime D’Almeida é cidadão português, não estando inscrito, portanto, no CPF do Ministério da Fazenda Brasileiro. BANCO CENTRAL DO BRASIL Departamento de Organização do Sistema Financeiro – DEORF Gerência Técnica de São Paulo Avenida Paulista, 1.804 01310-922 – São Paulo – SP Processo nº 1001475771 São Paulo, 6 de abril de 2010 40 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010 FINANÇAS Murillo Constantino IMÓVEIS LIQUIDEZ Senado dos EUA aprova extensão de crédito a compradores de residências Diretor do FGC avalia que medida do BC é forma de otimizar sistema O Senado dos Estados Unidos aprovou na noite de quarta-feira a extensão do prazo para que os compradores da primeira residência peçam crédito fiscal, mas adiou a discussão sobre a ampliação de seis meses dos benefícios para desempregados. A extensão do prazo para pedido do crédito fiscal vai ajudar apenas aqueles que entraram em contratos vinculantes antes de 30 de abril. O diretor executivo do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), Antonio Carlos Bueno, avalia que a medida do Banco Central de prorrogar a ajuda concedida durante a crise aos bancos de pequeno porte pode ser entendida como uma forma de “otimizar” o sistema. Ele rechaça qualquer possibilidade de a medida ter sido adotada por falta de liquidez entre as pequenas instituições financeiras. Murillo Constantino Maria Fernanda Teixeira: para entrar no mercado de credenciamento, First Data está em negociação para formar joint venture Dois negócios marcam o dia D da abertura do mercado de cartões Cielo irá credenciar lojas para Amex e Fidelity anuncia que vai entrar no mercado de credenciamento Thais Folego [email protected] Ontem, dia 1º, foi o tão esperado dia D do mercado de cartões, com o fim do contrato de exclusividade entre a bandeira Visa e a Cielo (ex-Visanet). Este é considerado o marco da abertura desse mercado. Concretizado o fato, as expectativas começam a se tornar realidade. O Bradesco anunciou ontem que fechou parceria com a Cielo para o credenciamento de estabelecimentos comerciais para aceitação de cartões American Express (Amex), operação adquirida pelo banco em 2006. Com o fim da exclusividade com a Visa, a Cielo passa agora a credenciar e a processar transações também para a Mastercard, largando com três bandeiras. E segundo a empresa, mais virão. Com a parceria, os portadores dos cartões Amex passam a contar com a rede de 1,7 milhão de estabelecimentos credenciados da Cielo, um salto e tanto em relação à rede própria da bandeira, atualmente com 400 mil pontos. A escolha pela Cielo é natural, já que o Bradesco divide o bloco de controle da empresa credenciadora com o Banco do Brasil. A Redecard não tinha exclusividade com nenhuma bandeira, e poderia ter sido contratada pelo Bradesco para credenciar estabelecimentos para a Amex desde que o banco adquiriu a bandeira. A Redecard, porém, é controlada pelo concorrente: Itaú. Segundo Marcelo Noronha, diretor-geral da Bradesco Cartões, num primeiro momento o banco decidiu manter a rede do Amex, pois usava- Divulgação Marcelo Noronha Diretor-geral da Bradesco Cartões “Clientes passarão a ter conjunto maior de estabelecimentos para usar o cartão, enquanto lojista terá opção de fazer melhores acordos” a para outros fins, como para oferecer o serviço de correspondente bancário. “Quando começou-se a sinalizar a abertura do mercado, avaliamos qual seria o melhor posicionamento. Hoje, a parceria com a Cielo atende o objetivo de aumentar a aceitação. No futuro, podemos avaliar outras alternativas”, diz Noronha. O Amex é um cartão segmentado, mais voltado para a alta renda. E este continuará sendo o foco da bandeira, afirma o diretor. Sua rede própria cobria mais as áreas metropolitanas do país, mas com pouco alcance em outras regiões. Com a maior cobertura, a expectativa é que a receita do cartão cresça. Concorrência Também ontem, a Cielo ganhou mais um concorrente, a First Data, umas das maiores credenciadoras nos Estados Unidos, que chegou no Brasil em 2002 com o posicionamento de ser fornecedora de tecnologia para empresas que quisessem entrar neste segmento. Agora, ela anuncia que também atuará como credenciadora. Maria Fernanda Teixeira, presidente da operação brasileira da First Data, conta que entrará nesse mercado com uma joint venture. “Estamos em negociação com uma empresa”, diz, sem dar detalhes. Segundo ela, por conta da licença das bandeiras internacionais necessária para atuar como credenciadora, ela diz que o sócio pode ou não ser uma instituição financeira. “No caso de não ser, faremos uma parceria com uma instituição que tenha a licença”, diz. ■ Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 41 Divulgação POLÍTICA MONETÁRIA CÂMBIO Suécia eleva juro a 0,50% após mantê-lo estável durante quase um ano Dólar cai por fluxo, mas exterior breca queda maior O banco central da Suécia elevou sua principal taxa de juro para 0,5%, retirando-a do nível recorde de baixa de 0,25%, conforme era previsto. O aumento foi o primeiro feito em quase um ano, refletindo os sinais de contínua recuperação da economia da crise financeira global. “A economia sueca desenvolve-se com força, após uma intensa desaceleração”, disse o Riksbank em nota. O dólar fechou a primeira sessão de julho em baixa frente ao real, atento a ingressos de recursos e à oscilação da moeda no exterior. A má performance das principais bolsas de valores, no entanto, limitou um recuo mais acentuada. A divisa caiu 0,44%, para R$ 1,796 na venda. Operadores notaram ingressos de recursos mais acentuados no final da manhã, o que ajudou a sustentar as cotações no vermelho. Fundos terão maior controle de liquidez Alterações do Código da Anbima incluem procedimento adicional e critérios para compra de CCBs Maria Luíza Filgueiras [email protected] Período agitado para os gestores de fundos de investimento. Além de começarem a adequar as carteiras às novas recomendações do Código de Melhores Práticas da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), válido a partir deste mês, precisam implementar a política de suitability (adequação ao perfil do cliente) de derivativos de balcão, agora que registraram o modelo de adequação que vão utilizar. As principais alterações no código incluem a obrigatorieda- de de processos de gerenciamento de risco de liquidez e critérios de avaliação para títulos de dívida privada, como as Cédulas de Crédito Bancário (CCBs). Segundo José Alexandre Freitas, diretor da Oliveira Trust, essas medidas estão relacionadas à concentração de carteiras em ativos de baixa liquidez e ao fechamento de fundos para resgate, por não poderem transformar de imediato papéis em dinheiro. “Está em linha com o que foi solicitado pela Comissão de Valores Mobiliários, considerando que fundos, especialmente FIDCs, têm carteira muito concentrada em créditos como CCBs e CPRs (Cédula do Produtor Rural), e que a avaliação do administrador e do custodiante devem fazer uma precificação de ativos que consi- Gestores começam a adaptar carteiras ao novo código da Anbima e a implementar ‘suitability’ para derivativos dere os riscos de crédito e liquidez do devedor”, explica. Na prática, a solução é criar provisões, subtraindo um valor contábil do ativo por eventual perda pela falta de liquidez, diz ele. Maria Carlota Senger, da asset do BNP Paribas, destaca que o controle de liquidez contempla também a carência para resgate do fundo. Na casa, há monitoramento de percentual dos ativos que podem ser transformado em caixa em prazos diferenciados, como um ou sete dias, e a relação disso com o perfil dos cotistas e o histórico de resgates. “Não se trata apenas de manter em carteira um percentual mínimo de ativos com liquidez imediata, mas de trabalhar conforme os cotistas. Em fundos de varejo menos concentrados entre investidores, o percentual de liquidez imediata pode ser menor”, diz. Além disso, as instituições tiveram até 30 de junho para registrar na Anbima suas políticas para adequação de produtos com derivativos ao perfil dos investidores. “O foco é ter um cuidado maior na venda do produto e em como ela é feita”, diz Fábio Jacob, da área de derivativos do BNP. No banco, os investidores foram divididos em três perfis e também os produtos, conforme risco, descontinuidade e alavancagem. Segundo Carlos Acquisti, da Infinity Asset Management, os fundos que aplicam em derivativos não são focados apenas no investidor arrojado. “A operação a termo na Bovespa é de risco médio, mas o mercado futuro de juro ou câmbio é de risco alto”. ■ Todo o clima do Festival de Campos do Jordão na sua casa O maior evento de música clássica da América Latina vai esquentar o seu inverno. A TV Cultura e a Rádio Cultura FM trazem para você o Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão, que chega à sua 41ª edição em julho. Próximas atrações: 03/07 às 21h – Abertura com Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Regência: Carlos Kalmar / Flauta: Emmanuel Pahud - AO VIVO 06/07 às 23h – Cultura em Campos Especial Confira a programação em www.tvcultura.com.br 42 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010 INVESTIMENTOS Mariana Segala [email protected] Vale lidera recomendações e Petrobras cede espaço para papéis de OGX e Itaú no fato de os papéis estarem sendo negociados com apenas um pequeno prêmio ante outros bancos privados, como o Bradesco. As duas ações mais populares negociadas na BM&FBovespa — das empresas Vale e Petrobras — figuram novamente entre as principais apostas das corretoras de valores para julho. No entanto, enquanto os papéis preferenciais classe A da mineradora (VALE5) lideraram as recomendações, os preferenciais da petrolífera (PETR4) perdem espaço para os de outras companhias. Caso das ações preferenciais do Itaú Unibanco (ITUB4) e das ordinárias da OGX Petróleo e Gás (OGXP3). A corretora Link, por exemplo, trocou os papéis da Petrobras pelos da empresa de Eike Batista. “OGX ainda está sustentando os 100% de sucesso da campanha de exploração de 2009”, destacam Carlos Firetti e Dalton Gardimam, da Bradesco Corretora. “Reforçamos nossa visão de que 2010 deve ser o ano em que o caso de investimento da OGX se materializará.” A corretora XP Investimentos, que desde o começo do ano reforça a presença dos papéis da empresa nas recomendações, admite, porém, que tais ações podem sofrer com a volatilidade dos mercados no curto prazo. “Mas queremos estar no setor de petróleo e hoje o nossa opção é pela OGX”, diz a analista da XP, Laura Bartelle. No caso das ações do Itaú Unibanco, as apostas partem das expectativas para o crédito. “Acreditamos que os investidores devem começar a precificar o cenário bancário favorável, incluindo crescimento de 20% do crédito em 2010, com custos declinantes enquanto a qualidade dos ativos é crescente, além da alta da Selic”, afirmam os analistas do BTG Pactual Carlos Sequeira e Antonio Junqueira. A escolha do Itaú como principal recomendação entre os grandes bancos está Opções defensivas Diante da turbulência durante o mês de junho, corretoras — como a do HSBC — optaram por reduzir a exposição a setores cíclicos, priorizando empresas centradas no cenário doméstico. “Elevamos a participação de setores um pouco mais defensivos e voltados para o mercado interno, por acreditarmos na manutenção da volatilidade dos mercados internacionais no curto prazo”, ressaltam Carlos Nunes e Débora Agonilha, do HSBC Global Research. Razão pela qual papéis como os preferenciais da Lojas Americanas (LAME4) e os ordinários da Tractebel (TBLE3) entraram nas recomendações. Por trás da sugestão da Tractebel está o fato de a empresa ser a que tem maior exposição ao segmento industrial, em que a elevação dos preços deve trazer benefícios. Já em Lojas Americanas, o raciocínio envolve o crescimento rápido da empresa, além do programa de abertura de novas lojas em 2010. Também no segmento de varejo, os papéis preferenciais classe A do Pão de Açúcar (PCAR5) ganharam indicações. “Acreditamos que a ação irá desfrutar de um fluxo favorável de notícias assim que novas informações sobre a compra da Casas Bahia e sinergias se tornarem disponíveis, possivelmente nas próximas semanas”, diz Cida Souza, da Itaú Securities. Apesar das perspectivas positivas para o consumo no país, os papéis do Pão de Açúcar ficaram atrasados e ainda oferecem potencial de alta de 20% no ano. ■ AS PREFERIDAS DO MERCADO PARA JULHO Petrobras perde espaço para outras ações EMPRESA Vale (VALE5) OGX (OGXP3) Itaú Unibanco (ITUB4) Gerdau (GGBR4) Petrobras (PETR4) Lojas Americanas (LAME4) Tractebel (TBLE3) Ambev (AMBV4) BM&FBovespa (BVMF3) Bradesco (BBDC4) CCR (CCRO3) Marfrig (MRFG3) Pão de Açúcar (PCAR5) PDG Realty (PDGR3) Randon (RAPT4) SETOR RENT. EM JUNHO (%) Mineração Petróleo Financeiro Siderurgia Petróleo Varejo Energia Alimentos e Bebidas Financeiro Financeiro Transporte Alimentos e Bebidas Varejo Construção Bens de capital -11,59 3,15 -6,31 -5,64 -9,26 5,48 2,66 3,72 -4,37 -6,96 0,62 -1,17 7,68 -0,46 8,99 RENT. ANO % -9,42 -2,22 -14,57 -18,66 -25,70 -15,44 -1,00 4,14 -3,34 -14,22 -5,74 -11,50 -2,33 -10,97 0,73 Nº DE RECOMENDAÇÕES 8 7 7 6 5 5 4 3 3 3 3 3 3 3 3 Entre as 15 ações mais recomendadas pelas corretoras para julho, as da Vale continuam na liderança, mas os papéis da OGX e do Itaú começam a ocupar o lugar antes detido pelos da Petrobras Fontes: BB, Souza Barros, Link, Omar Camargo, Planner, Citi, XP, Itaú, Ágora, HSBC, TOV, BTG Pactual, Bradesco, Economatica e Brasil Econômico São Martinho Minerva Resultado do 4º trimestre da safra 2009/2010 agrada SLW Bofa lança recomendação “abaixo da média” para ações O resultado do quarto trimestre da safra 2009/2010 divulgado pelo Grupo São Martinho, um dos maiores do país em produção açúcar e etanol, foi bem recebido pelos analistas da corretora SLW. A companhia encerrou a safra com moagem de 12,9 milhões de toneladas de cana, crescimento de 7,7% em relação à safra anterior. A produção de açúcar alcançou 702 mil toneladas, 26,5% mais do que no ano passado, e a de etanol bateu os 593 mil metros cúbicos, com uma redução de 12%. “Diante dos números apresentados e das boas perspectivas para companhia, consideramos que suas ações são um bom investimento para o médio e longo prazo. No curto prazo, suas ações, que acumulam forte queda no ano, podem se recuperar”, afirma o analista Erick Scott em relatório enviado aos clientes. No quarto trimestre desta safra, o Grupo São Martinho vendeu 225 mil toneladas de açúcar, volume 69% superior ao do mesmo período da safra anterior. Já as vendas do álcool hidratado registraram forte queda, de 53%, passando para 72,3 mil metros cúbicos. O volume vendido de álcool anidro permaneceu o mesmo. “Os preços do açúcar foram bem superiores aos preços praticados no quarto trimestre da safra anterior”, destaca Scott. O aumento chegou a 32,8%. A combinação de preços e volumes de vendas levou a receita da empresa a crescer 33%, atingindo R$ 355 milhões. Em relatório assinado por Fernando Ferreira e Alessandro Arlant, da equipe de pesquisa do Bank of America Merrill Lynch, os analistas anunciam retomada da cobertura das ações ordinárias (BEEF3) do frigorífico Minerva com uma recomendação “abaixo da média (underperform)” e estipulando um preço-alvo de R$ 6,50 para os papéis. A cifra representa um potencial de desvalorização de cerca de 5%, considerando o fechamento de ontem na BM&FBovespa. “Ainda que gostemos dos fundamentos de longo prazo para o crescimento da companhia, ao passo que vemos positivamente o setor de carnes no Brasil, nosso viés negativo para as ações do Minerva se justifica: pela baixa diversificação geográfica da empresa perante suas pares; pelo desempenho das ações nos últimos três meses, ante a performance de suas pares; pela transparência insuficiente de dados financeiros primordiais; e pela liquidez reduzida dos papéis em bolsa”. Para a equipe da instituição financeira americana, apesar de continuar entregando números operacionais fortes, o Minerva peca porque seus resultados financeiros ainda são difíceis de se prever. “Esta é uma preocupação em nossa visão dada a elevada volatilidade nos lucros da companhia”, afirmam os analistas. O Bofa Merrill Lynch projeta uma geração operacional de caixa (Ebitda) do Minerva de R$ 238 milhões em 2010. CESP BOVESPA Dividendos Educação A Companhia Energética de São Paulo (Cesp) informou que pagará, no dia 8, juros sobre capital próprio (JCP) referentes aos resultados do primeiro trimestre, em um total de R$ 25 milhões. Farão jus aos proventos os investidores que detinham papéis da empresa no dia 11 de maio. Os montantes serão de R$ 1,82 por ação preferencial classe A, R$ 0,03 por ação preferencial classe B e R$ 0,03 por ação ordinária. Os JCP serão creditados na conta corrente dos acionistas da companhia. No próximo episódio do Educação Financeira, iniciativa da bolsa em parceria com a TV Cultura para popularizar conceitos de finanças e tipos de investimentos, os telespectadores poderão conhecer as vantagens e desvantagens de uma compra via consórcio ou financiamento. Com a presença do consultor Valter Police Jr., o programa será exibido na TV Cultura, sábado, às 10h15. Especialistas explicarão os cuidados necessários para evitar transtornos futuros com uma grande dívida. Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 43 BOLSA JUROS Giro financeiro Contrato futuro R$ 7,27 bi 10,60% foi o volume financeiro registrado ontem no segmento de ações da BM&FBovespa. O Ibovespa, principal índice acionário, encerrou o pregão com variação positiva de 0,49%, aos 61.236 pontos. foi a taxa de fechamento do contrato futuro de DI com vencimento em setembro de 2010, o mais negociado ontem. O volume financeiro atingiu R$ 38,4 bilhões, com 391.005 contratos negociados. IBOVESPA RENDA FIXA Ação Código Mínima ALL AMER LAT UNT N2 AMBEV PN B2W VAREJO ON BMF BOVESPA ON BRADESCO PN BRADESPAR PN BRASIL ON BRASIL TELEC PN BRASKEM PNA BRF FOODS ON CCR RODOVIAS ON CEMIG PN CESP PNB CIELO ON COPEL PNB COSAN ON CPFL ENERGIA ON CYRELA REALTY ON DURATEX ON ECODIESEL ON ELETROBRAS ON ELETROBRAS PNB ELETROPAULO PNB EMBRAER ON FIBRIA ON GAFISA ON GERDAU PN GERDAU MET PN GOL PN ITAUSA PN ITAUUNIBANCO PN JBS ON KLABIN S/A PN LIGHT S/A ON LLX LOG ON LOJAS AMERIC PN LOJAS RENNER ON MMX MINER ON MRV ON NATURA ON NET PN OGX PETROLEO ON P.ACUCAR-CBD PNA PDG REALT ON PETROBRAS ON PETROBRAS PN REDECARD ON ROSSI RESID ON SABESP ON SID NACIONAL ON SOUZA CRUZ ON TAM S/A PN TELEMAR ON TELEMAR PN TELEMAR N L PNA TELESP PN TIM PART S/A ON TIM PART S/A PN TRAN PAULIST PN ULTRAPAR PN USIMINAS ON USIMINAS PNA VALE ON VALE PNA VIVO PN IBOVESPA ALLL11 AMBV4 BTOW3 BVMF3 BBDC4 BRAP4 BBAS3 BRTO4 BRKM5 BRFS3 CCRO3 CMIG4 CESP6 CIEL3 CPLE6 CSAN3 CPFE3 CYRE3 DTEX3 ECOD3 ELET3 ELET6 ELPL6 EMBR3 FIBR3 GFSA3 GGBR4 GOAU4 GOLL4 ITSA4 ITUB4 JBSS3 KLBN4 LIGT3 LLXL3 LAME4 LREN3 MMXM3 MRVE3 NATU3 NETC4 OGXP3 PCAR5 PDGR3 PETR3 PETR4 RDCD3 RSID3 SBSP3 CSNA3 CRUZ3 TAMM4 TNLP3 TNLP4 TMAR5 TLPP4 TCSL3 TCSL4 TRPL4 UGPA4 USIM3 USIM5 VALE3 VALE5 VIVO4 IBOV 14,11 175,60 28,59 11,04 28,06 32,12 25,32 11,65 12,25 23,22 37,01 25,63 24,10 14,90 36,04 22,35 38,80 19,04 16,12 0,82 23,13 27,67 35,50 9,05 25,64 10,53 23,11 28,76 20,80 10,75 32,51 7,55 4,89 20,36 7,12 12,53 47,16 10,14 12,44 39,11 16,76 16,50 61,42 14,82 30,02 26,31 24,86 12,84 35,30 25,90 67,22 24,23 37,16 26,59 47,61 35,80 7,11 4,71 45,60 84,50 46,79 47,10 42,84 37,40 46,43 60055 Cotação (R$) Máxima Fechamento 14,68 180,81 30,54 11,84 29,37 33,10 26,71 12,04 13,15 24,00 37,44 26,40 24,79 15,52 36,98 23,71 39,71 19,90 17,11 0,85 23,90 28,67 36,24 9,40 26,95 10,90 23,84 29,76 21,69 11,28 33,99 7,96 5,04 21,15 7,52 13,11 49,35 10,70 13,05 40,19 17,70 17,45 63,50 15,48 31,33 27,21 25,90 13,39 37,65 26,94 69,39 25,33 38,35 27,41 49,62 37,00 7,40 4,95 46,91 87,03 49,00 49,33 44,01 38,44 48,10 61381 14,25 178,99 28,90 11,35 29,37 32,42 26,16 11,87 12,97 23,55 37,25 26,19 24,30 15,01 36,05 22,80 39,40 19,40 16,65 0,83 23,25 27,71 36,11 9,40 26,95 10,80 23,62 29,60 21,40 11,28 33,99 7,90 5,01 20,60 7,30 12,86 47,35 10,40 12,92 39,65 17,70 17,45 63,50 15,48 30,19 26,45 24,97 13,33 36,40 26,70 68,97 24,60 38,00 26,89 48,50 36,12 7,36 4,91 45,72 86,01 49,00 49,33 43,84 38,18 48,00 61236 Variação (%) No dia No ano 0,35 -0,51 -3,92 -2,16 4,48 -1,13 6,13 -2,22 3,51 -0,63 -0,35 0,11 -1,22 -1,25 -3,09 0,97 -0,03 -0,56 1,52 -1,19 -2,56 -1,74 0,42 1,29 1,16 0,00 0,13 1,34 0,09 5,32 4,62 3,40 0,20 -2,00 -0,82 -1,68 -3,37 -1,14 1,65 -0,87 4,12 4,37 0,83 1,57 -2,61 -1,53 -2,08 2,46 -2,93 1,52 1,43 -1,60 0,80 -0,41 -1,02 0,06 0,82 1,24 -1,68 -0,44 3,38 2,54 0,44 0,71 3,45 0,49 -12,52 3,61 -39,38 -5,43 -10,38 -14,77 -8,59 -29,13 -7,88 4,06 -6,06 -4,27 1,70 1,45 -1,81 -10,94 15,79 -19,00 2,79 -23,85 -9,12 -7,02 17,71 0,06 -31,06 -22,73 -18,55 -14,80 -15,29 -2,64 -10,62 -14,96 -4,47 -13,95 -27,79 -16,86 22,81 3,79 -6,80 11,90 -26,25 2,05 -1,52 -9,57 -26,56 -26,84 -10,67 -11,54 6,40 -1,50 23,37 -32,25 -7,25 -19,79 -22,04 -10,41 2,94 -1,31 -6,25 8,92 -1,93 0,15 -10,81 -8,78 -8,05 -10,72 Fundo Data BB RENDA FIXA LP 50 MIL FICFI BB RENDA FIXA LP ESTILO FICFI CAIXA FIC EXEC RF LONGO PRAZO CAIXA FIC IDEAL RF LONGO PRAZO BB RENDA FIXA 25 MIL FICFI BRADESCO FIC DE FI RF MERCURIO BB RENDA FIXA 200 FIC FI BB RENDA FIXA 50 FIC FI ITAU PREMIO RENDA FIXA FICFI BB RENDA FIXA LP 100 FICFI 30/JUN 30/JUN 30/JUN 30/JUN 1/JUL 1/JUL 1/JUL 1/JUL 1/JUL 30/JUN Rent. (%) 12 meses No ano 8,40 8,40 7,72 7,18 7,18 6,69 6,02 5,46 5,15 5,01 IBOVESPA IBRX-100 (Em pontos) 61.400 Fundo Data BB REFERENCIADO DI ESTILO FICFI ITAU PERS MAXIME REF DI FICFI CAIXA FIC DI LONGO PRAZO BB REFERENCIADO DI 10 MIL FICFI NOSSA CAIXA REFERENCIADO DI BB REFERENCIADO DI 200 FIC FI HSBC FIC REF DI LP POUPMAIS ITAU PREMIO REF DI FICFI BRADESCO FIC DE FI REF DI HIPER SANTANDER FIC FI CLAS REF DI 1/JUL 1/JUL 30/JUN 1/JUL 30/JUN 1/JUL 1/JUL 1/JUL 1/JUL 1/JUL Rent. (%) 12 meses No ano 8,10 8,05 6,60 6,47 6,11 5,88 5,16 4,79 4,45 4,12 Fundo Data BB ACOES VALE DO RIO DOCE FI CAIXA FMP FGTS VALE I BRADESCO FIC DE FIA BRADESCO BA FIC DE FIA BRADESCO FIC DE FIA IV BRADESCO FIC DE FIA MAXI SANTANDER FIC FI ONIX ACOES ITAU ACOES FI ALFA FIC DE FI EM ACOES BB ACOES PETROBRAS FIA 30/JUN 30/JUN 30/JUN 30/JUN 30/JUN 30/JUN 30/JUN 30/JUN 30/JUN 30/JUN Rent. (%) 12 meses No ano 26,49 26,28 13,45 13,18 12,40 12,07 10,81 9,48 2,32 (19,94) 1,00 1,00 2,00 2,50 2,47 3,00 4,00 4,00 4,50 5,00 ND 80.000 100 5.000 100 200 30 1.000 100 100 (11,41) (11,92) (12,17) (12,28) (12,31) (12,30) (14,22) (16,37) (17,62) (25,46) Taxa Aplic. mín. adm. (%) (R$) 2,00 1,90 4,00 4,00 ND 4,00 2,50 4,00 8,50 2,00 200 100 1.000 200 MULTIMERCADOS Fundo Data REAL CAP PROT VGOGH 3 FI MULTIM ITAU PERS K2 MULTIM FICFI BB MULTIM TRADE LP ESTILO FICFI CAPITAL PERF FIX IB MULT FIC ITAU PERS MULTIE MULT FICFI INVEST PERSON VG MOD FIC FI MULT ITAU PERS MULT AGRESSIVO FICFI ITAU PERS MULT MODERADO FICFI ITAU PERS MULT ARROJADO FICFI SANTANDER FIC FI ESTRAT MULTIM 30/JUN 30/JUN 30/JUN 30/JUN 30/JUN 30/JUN 30/JUN 30/JUN 30/JUN 30/JUN Rent. (%) 12 meses No ano 13,82 8,68 8,64 8,52 8,26 7,49 6,95 6,83 6,83 2,55 SMALL CAP - SMLL 4,68 3,51 3,89 4,19 3,66 1,88 (3,13) 0,55 (0,67) 1,99 Taxa Aplic. mín. adm. (%) (R$) 2,50 1,50 1,50 1,50 1,25 3,00 2,00 2,00 2,00 2,00 10.000 50.000 20.000 5.000 25.000 5.000 5.000 5.000 50.000 MIDLARGE CAP - MLCX 850 19.135 1.131 844 60.800 19.030 1.124 838 60.500 18.925 1.117 832 Máxima 61.381,03 Mínima 60.055,71 Fechamento 61.236,20 60.200 1.110 18.820 Fonte: BM&FBovespa 3,96 3,90 3,26 3,18 3,01 2,89 2,63 2,35 2,12 1,99 Taxa Aplic. mín. adm. (%) (R$) AÇÕES 1.138 11h 50.000 30.000 5.000 5.000 5.000 200 50 300 100 DI 19.240 10h 1,00 1,00 1,10 1,50 2,00 2,50 3,00 3,50 4,00 4,00 *Taxa de performance. Ranking por número de cotistas. Fonte: Anbima. Elaboração: Brasil Econômico *Em pontos. Fonte: Economatica 61.100 4,05 4,05 3,77 3,52 3,52 3,21 2,96 2,73 2,45 2,47 Taxa Aplic. mín. adm. (%) (R$) 12h 13h 14h 15h 16h 17h 10h 17h 826 10h 17h 10h 17h 44 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010 MUNDO Produção nos EUA desacelera e mercado reage Bolsa cai também por causa de índice sobre compra de imóveis que interrompeu ciclo de três meses de alta no setor As preocupações quanto à fragilidade da recuperação da economia dos Estados Unidos foram reforçadas ontem por dados negativos no setor manufatureiro e de venda de imóveis. Depois da divulgação pela Associação Nacional dos Corretores de Imóveis (NAR, na sigla em inglês) de uma queda de 30% nos compromissos de compra de imóveis, em comparação com o mês anterior, chegaram os dados sobre a produção industrial. A alta da atividade na indústria de manufaturas desacelerou em junho, segundo os dados da associação ISM. O indicador, também conhecido como “índice dos gerentes de compra”, se situou nos 56,2%, contra 59,7% em maio. O indicador - que compila os informes dos diretores de compras que incluem de novos pedidos a estoques de mercadoria - ficou muito abaixo das expectativas do mercado, que esperava AS MÁS NOTÍCIAS ● O índice ISM sobre produção caiu para 56,2 no mês passado, em relação aos 59,7 de maio. ● Os compromissos de compra de imóveis caíram mais que o esperado em maio, 30%, em comparação com o mês anterior. ● Os empregadores anunciaram planos de cortar 39,3 mil trabalhadores de suas folhas de pagamento em junho, leve alta. 59%. O nível acima de 50% assinala uma expansão do setor. No setor imobiliário, o forte retrocesso de 30% os compromissos de venda de imóveis interrompeu um ciclo de três meses de alta (6,0% em abril, 7,1% em março e 8,3% em fevereiro), informou a NAR. O índice registra assim uma queda de 15,9% na base anual, para registrar seu pior nível em mais de um ano. Economistas esperavam uma queda deste índice, mas de apenas 10,5%. A NAR notou que a forte queda deveu-se em boa parte ao vencimento de um crédito de imposto imobiliário em 30 de abril. A aproximação dessa data incitou as famílias a aproveitar as vantagens durante este mês. “Os consumidores são racionais e se precipitaram para se beneficiar do crédito tributário antes da data limite de abril. O A desaceleração no índice sobre produção industrial, associada à queda na venda de imóveis, provocou queda da bolsa forte retrocesso de maio é o resultado natural disso, e se esperam resultados semelhantes em junho”, disse o economista chefe da NAR, Lawrence Yun. O economista destacou que o crédito de imposto imobiliário estabilizou os preços, que ameaçavam cair. “Sem o crédito, as negociações de preço entre compradores e vendedores serão mais agressivas”. Mas tudo indica também que os estímulos continuarão, já que o Congresso americano votou na quarta-feira à noite um dispositivo para estender o prazo do crédito. Os senadores aprovaram o projeto de lei que já tinha obtido o consentimento dos representantes na semana. O texto ainda será promulgado pelo presidente Barack Obama. No front do mercado de trabalho, relatório divulgado ontem pela ADP mostra o pior resultado em 4 meses, com a contratação de 13 mil trabalhadores, abaixo do esperado pelo mercado (60 mil). ■ Agências Derick E. Hingle/Bloomberg NUVENS DO ALEX SOBRE NAVIOS DE PESCA DE CAMARÃO EM PORT FOURCHON, NA LOUISIANA O furacão Alex enfraqueceu para uma tempestade tropical ontem, ao se deslocar para dentro do continente na região nordeste do México, causando fortes chuvas que inundaram cidades. Mas ainda atrapalha as tarefas de limpeza do petróleo que se espalha pela superfície do Golfo do México e ameaça jogar mais água contaminada na costa sul dos EUA. Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 45 Noor Khamis /Reuters Países africanos criam mercado comum Cinco países da África Oriental (Quênia, Uganda, Ruanda, Tanzânia e Burundi) dividem oficialmente desde ontem o primeiro mercado comum no continente africano, embora o projeto deva tornar-se realidade apenas dentro de alguns anos. O objetivo é criar, seguindo o exemplo da União Europeia (UE), um mercado único de 126 milhões de habitantes que representa um Produto Nacional Bruto combinado de 70 bilhões de dólares. É o maior esforço de integração econômica da história da África. AGENDA DO DIA ● Conselho do Fundo Monetário Internacional reúne-se para discutir pacote de ajuda de US$ 20 bilhões à Romênia. ● Secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton visita a Ucrânia. ● Um ano do resgate de Ingrid Betancourt, sequestrada na Colômbia. Jim R. Bounds/Bloomberg Próxima meta de Obama é reforma da Lei de Imigração Sem estabelecer prazos, presidente desafiou republicanos a mostrar “valentia política” O presidente americano, Barack Obama, declarou ontem estar “pronto para avançar” na reforma migratória integral e desafiou a oposição republicana a demonstrar “valentia política” para aprová-la no Congresso. “Estou pronto para avançar. A maioria democrata está pronta para avançar e creio que a maioria dos americanos está pronta para avançar”, disse Obama na sede da American University, em Washington. Mas a reforma, que já fracassou em 2006 e 2007 no Congresso, “não pode passar sem os votos republicanos... uma realidade política e matemática”, acrescentou o presidente para cerca de 300 líderes políticos, sociais e religiosos. Diante de um tema “que se presta à demagogia”, disse o presidente, “a questão é saber se teremos a valentia de aprovar uma lei no Congresso”. Obama não estabeleceu, no entanto, nenhum calendário nem novas iniciativas para desbloquear as negociações com republicanos. Líderes democratas no Senado apresentaram há dois meses um esboço da reforma integral que, contudo, ainda não foi introduzida como projeto de lei. Obama também não confirmou se seu governo tentará em breve impugnar diante da Justiça a lei SB 1070 aprovada no Arizona (sudoeste), que obriga a polícia estatal a pedir papéis a pessoas sob suspeitas “razoáveis” de serem ilegais. ■ AFP “O governo Obama deve garantir, primeiro, a segurança na fronteira sul se quiser realizar reforma migratória integral”, responderam os líderes republicanos 46 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010 MUNDIAL 2010 Mão de obra é desafio para Copa de 2014 PRA BOTAR OS HOLANDESES NA RODA! Estimativas apontam a necessidade de 3,4 milhões de profissionais capacitados em diversas áreas Fábio Suzuki [email protected] O Brasil sediará a próxima Copa do Mundo daqui a quatro anos mas já está atrasado em relação às iniciativas de capacitação de profissionais que estarão envolvidos no evento. De acordo com estimativas da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-Nacional), o Mundial de futebol no país demandará cerca de 3,4 milhões de pessoas aptas a desempenhar atividades relacionadas à competição. E segundo avaliação do Ministério do Trabalho com base nos dados do IBGE e IPEA, faltarão 300 mil profissionais para atender toda a demanda. Entre as áreas apontadas pela instituição não-governamental que mais necessitam melhoras na capacidade dos profissionais estão estão administração com foco em gestão no esporte, turismo de negócios, direito internacional e fisioterapia esportiva. “É preciso haver uma mobilização nacional e iniciativa das associações ligadas ao governo para que o Brasil esteja habilitado a abrigar um evento como a Copa do Mundo”, diz Leyla Nascimento, presidente da ABRH-Nacional. Segundo ela, outra questão que necessita de atenção no país é em relação aos idiomas falados pelas pessoas que estarão envol- Com base nos dados do IBGE e Ipea, Ministério do Trabalho avalia que deverão faltar 300 mil profissionais aptos a atuar em atividades relacionadas ao Mundial no Brasil Na véspera do jogo contra a Holanda, o Brasil fez um treino no campo da Nelson Mandela Metropolitan University, em Porto Elizabeth. A novidade foi Felipe Melo, que ficou de fora da partida contra o Chile por contusão. O volante participou de toda a atividade de ontem e pode aparecer entre os titulares no confronto contra os holandeses, hoje, às 11h. Caso seja vetado pelo departamento médico, Dunga deve optar pela entrada de Josué ou mesmo improvisar o lateral Gilberto pelo meio-campo. Após alguns minutos, o técnico brasileiro fechou a atividade para imprensa e torcedores para treinar penalidades. vidas na competição. “Devido ao grande número de turistas que o país receberá em 2014, estima-se que 200 mil profissionais tenham de dominar mais de uma língua nas grandes cidades”, aponta a presidente da instituição. Fábio M.Salles/AE Seleção brasileira jogará de azul contra a Holanda Assim como ocorreu em 1974 e 1994, o Brasil entra em campo hoje contra a seleção holandesa com seu segundo uniforme: camisa e meias azuis e calção branco. Já a Holanda utilizará seu traje tradicional, com camisas e meias laranjas e short preto. A escolha ocorreu ontem em encontro realizado pela Fifa com representantes das duas seleções. O Brasil soma uma vitória (1994) e uma derrota (1974) nas vezes em que vestiu azul contra a Holanda, e uma vitória (1998) com a camisa amarela. Em nove jogos de Copa do Mundo com o uniforme azul, são sete vitórias, um empate e uma derrota. Contra o relógio Apesar do próximo Mundial ocorrer só daqui a quatro anos, as iniciativas voltadas para a capacitação dos profissionais para o evento já deveriam ter começado. “Há tempo hábil para realizar os trabalhos até 2014 sim, mas precisa ser articulado o mais rápido possível”, avalia Leyla. ■ CINCO PERGUNTAS A... Arquivo/AE O ex-volante Emerson disputou a Copa de 1998 e tornou-se capitão da seleção. Hoje comentarista de TV, ele fala sobre os desafios do Brasil na fase final do Mundial: Bergkamp, Kluivert e dois pontas abertos de grande velocidade. Foi o melhor jogo da Copa, uma final antecipada. O jogo de hoje será igual? Em 1998, você entrou no fim contra a Holanda e até bateu pênalti. Como foi aquele jogo? ...EMERSON Ex-capitão da seleção brasileira, comentarista da Band “Esta Holanda não tem tanta qualidade como a de 1998” Estava 1 a 0, entrei no lugar do Leonardo pra ajudar a marcação, mas levamos o gol no final. Na prorrogação, havia o gol de ouro, e os dois times tiveram receio de sair. Nos pênaltis, bati o terceiro e nós vencemos. Foi um jogo muito difícil, porque a Holanda tinha um grande time, com atacantes como Acho que vai ser diferente. Esta Holanda não tem tanta qualidade como aquela. Os jogadores são todos titulares em grandes clubes, mas não me impressionam tanto. Hoje eles tem o Robben, que faz a diferença, e o Sneijder, mas são apenas dois. O Van Persie ainda não jogou, não sei se está meio perdido. O meio de campo é lento, não cria muito, fica mais tocando, esperando a jogada. Não é um time objetivo como os de 94 e 98, fortes em todos os setores. E o Brasil, é melhor hoje? É uma equipe muito equilibrada, sem fraquezas. Temos a melhor defesa do mundo, é o nosso ponto forte. E também temos grandes jogadores na frente, que a gente espera que estejam no dia deles. Um pecado foi perder o Ramires, que atuou muito bem contra o Chile, tem arranque, velocidade. Sem ele, o Brasil perde um pouco dessa dinâmica no meio-campo. Quem você escalaria no meio? Sou a favor de colocar o jogador de origem na posição. Por isso, iria com o Josué ao lado do Gilberto Silva. E manteria o Daniel Alves, apesar de ele jogar o ano todo como lateral-direito. Quais os seus palpites para os demais confrontos? Aposto muito na Alemanha. Ela chegou desacredita, com muitas lesões, e provou que é sempre favorita. A Argentina tem o melhor ataque da Copa, se dá ao luxo de ter o Milito no banco, mas a defesa é muito frágil. A Espanha passa pelo Paraguai. Aposto também no Uruguai, que é a grande surpresa deste Mundial. Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 47 Marcelo Regua/O Dia RUMO AO HEXA Brasil e Holanda em terreno acidentado O mau estado do gramado da arena Nelson Mandela Bay, em Porto Elizabeth, preocupou ontem o técnico Dunga. O treino de reconhecimento do local foi suspenso. Na véspera do confronto com a Holanda, pelas quartas de final, a comissão técnica fez uma inspeção de 15 minutos no campo. Segundo a Fifa, as chuvas na região têm atrapalhado a recuperação do gramado após as partidas. 522 é o total de chutes a gol das oito seleções classificadas às quartas de final da Copa. Em primeiro lugar, está a Argentina, com 75 (só Messi, maior chutador do torneio, tentou 23 vezes). Em seguida, vêm Brasil e Espanha, com 74, e Gana, com 71. Marcelo Regua/O Dia FIQUE DE OLHO BRASIL É O FAVORITO NAS APOSTAS EM LAS VEGAS Ex-goleiro Gilmar ganha ação judicial contra a Nike Veja abaixo a relação do quanto as casas americanas estão pagando para cada dólar apostado para quem acertar a seleção campeã e o jogador que fará o primeiro gol na final SELEÇÃO GANHOS, EM US$ JOGADOR Brasil 1,5 Messi Argentina 1,7 Espanha Alemanha Holanda Luís Fabiano Arquivo/AE Por uso indevido de imagem do ex-goleiro da seleção Brasil Gylmar dos Santos Neves, a fabricante de materiais esportivos Nike terá de indenizar o ex-jogador. A ação judiciária deve-se à utilização de fotos de Gylmar em painéis publicitários para divulgar o lançamento de uma coleção roupas com a temática dos “campeões mundiais”, realizada para a Copa de 2006. A 22ª Vara Cível da Comarca da Capital do Estado de São Paulo reconheceu que o direito de imagem do ex-jogador foi violado, de forma indevida e condenável. Contatada, a Nike não se pronunciou sobre o caso. GANHOS, EM US$ 4 5 2,8 Higuaín 3,5 4,2 Uruguai 8 Paraguai 8 Gana 20 7 Kaká 10 Fernando Torres 10 David Villa 11 Fonte: Brasil Econômico “Nenhum de nós tem medo do Brasil” Wesley Sneijder, meia da Holanda esbanjando confiança para o jogo de hoje contra a seleção brasileira. Mick Jagger, líder dos Rolling Stones, ex-torcedor de Inglaterra e Estados Unidos. Marcelo Regua/O Dia Dunga, em resposta ao holandês Johan Cruyff, que afirmou que “nunca pagaria um ingresso” para assistir à equipe do técnico brasileiro. “Vamos ver como o Brasil joga. Aí decido se continuo torcendo por eles” QUARTAS-DE-FINAL PRÓXIMOS JOGOS HOJE Ao lado da mineração, o turismo é a atividade econômica mais importante na África do Sul e seu sistema de informações aos visitantes é de fazer inveja a muitos países desenvolvidos. Ainda assim, a South African Tourism, empresa responsável pela área no país, aprimorou seu serviço de disponibilização de informações para atender os mais de 300 mil visitantes que Brasil x Holanda 11:00 - Porto Elizabeth Uruguai x 15:30 - Joanesburgo Gana AMANHÃ Turistas obtêm informações em redes sociais na Copa “Ele não paga porque deve ter ingresso de graça da Fifa” ● Unanimidade debaixo das traves da seleção brasileira, o goleiro Júlio César será peça fundamental no jogo de hoje contra a Holanda com suas defesas tanto no tempo normal como também em uma possível disputa por pênaltis. Escolhido o 3º melhor goleiro do mundo em 2009, atrás do espanhol Casillas e do italiano Buffon, o arqueiro brasileiro está em excelente fase e tem tudo para assumir o primeiro posto este ano. Aos 30 anos, Júlio César defende atualmente a Internazionale, da Itália, atual campeã da Liga do Campeões da Europa. visitarão a África do Sul durante a Copa do Mundo com a inclusão de redes sociais. Denominado Nuvem 2, o serviço foi criado pela salesforce.com e os turistas poderão obter, em tempo real, notícias sobre os melhores serviços, acomodações, passeios e atrações ligadas ao evento esportivo acessando os endereços eletrônicos de redes como Twitter e Google. Argentina x Alemanha 11:00 - Cidade do Cabo Paraguai x Espanha 15:30 - Joanesburgo BOLA NA REDE RECORDE MUNDIAL 1998 GOLS Até 1/7/10 Editada por Fábio Suzuki e Gabriel Penna [email protected] [email protected] 48 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010 BRASIL ECONÔMICO é uma publicação da Empresa Jornalística Econômico S.A, com sede à Avenida das Nações Unidas, 11.633, 8º andar - CEP 04578-901 - Brooklin - São Paulo (SP) - Fone (11) 3320-2000 Central de atendimento e venda de assinaturas: 4007 1127 (capitais), 0800 6001127 (demais localidades) [email protected] É proibida a reprodução total ou parcial sem prévia autorização da Empresa Jornalística Econômico S.A. ÚLTIMA HORA BNDES concede empréstimo de R$ 766 milhões ao Metrô de SP Ricardo Galuppo [email protected] Diretor de Redação Henrique Manreza O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) concedeu empréstimo ao governo de São Paulo no valor de R$ 766 milhões, destinado aos projetos da Companhia de Metropolitano de São Paulo. “O financiamento é um dos maiores aprovados pelo banco para o setor de transporte público urbano. O projeto prevê expandir a Linha 5 em 11,5 quilômetros, ligando a Estação Largo Treze de Maio da Linha 5 (lilás) à Estação Chácara Klabin da Linha 2, nos bairros de Santo Amaro e Vila Mariana, respectivamente”, informou o BNDES em nota. O financiamento corresponde a 13% de um pacote de investimentos no metrô que soma R$ 6 bilhões com recursos do Banco Mundial (Bird) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), além de contrapartida do estado de São Paulo. Excluído o contrato assinado ontem, as operações de financiamentos do BNDES ao Metrô-SP somam aproximadamente R$ 3 bilhões. O banco também aprovou crédito de R$ 60 milhões ao estado de São Paulo pela linha BNDES Estados, cujos recursos serão aplicados na execução de projetos do Plano Plurianual (PPA). ■ Agência Estado A escolha de Indio foi a opção pela política Pedro Gama/Rio CVB Rio terá US$ 1 bi do Banco Mundial O Banco Mundial aprovou , ontem, um crédito de US$ 1,045 bilhão para a cidade do Rio de Janeiro, informou a instituição em comunicado distribuído por e-mail. Trata-se do maior empréstimo já concedido pelo Banco Mundial diretamente para uma cidade em todo o mundo, disse o banco. O empréstimo será liberado em duas parcelas e servirá para “consolidação fiscal e para crescimento e eficiência”, segundo o texto da instituição. ■ Bloomberg News Fábio Motta Petrobras conclui troca de ações até setembro Os planos da Petrobras de concluir, até setembro, a troca de ações pelo direito de explorar reservas do pré-sal não serão prejudicados pelas eleições deste ano, afirmou o ministro de Minas e Energia, Márcio Zimmermann. “O Brasil não pode parar por causa das eleições”, disse Zimmermann, ontem, em entrevista em seu gabinete em Brasília. “Isso não é brincadeira.” A estatal decidiu no dia 22 de junho adiar para setembro a oferta de ações, depois de anunciar que a operação aconteceria até julho. A medida foi tomada para aguardar a avaliação das reservas de até 5 bilhões de barris de petróleo que o governo vai transferir para a empresa em troca de ações. O adiamento gerou preocupações de investidores de que a empresa não conseguiria fazer a emissão das novas ações este ano por causa das eleições presidenciais em outubro. A Petrobras planeja assinar o acordo para explorar as reservas da União até o fim de agosto e transferir as ações para o governo até o fim de setembro. “É uma correria grande, mas é possível,” disse Zimmermann. “Investimentos em infraestrutura são de longo prazo. Então você precisa respeitar o planejamento para não gerar gargalos.” O ministro descartou a possibilidade da capitalização ser adiada por causa de flutuações do mercado internacional. A cessão onerosa e a oferta de ações são parte do plano para financiar os investimentos de US$ 224 bilhões programados pela Petrobras até 2014. ■ Bloomberg News Aconteça o que acontecer na partida de hoje entre Brasil e Holanda, o certo é que a Copa do Mundo se aproxima do final e dentro de pouco tempo começa para valer a disputa pelo posto de presidente da República. Em vantagem nas pesquisas, depois de ultrapassar o candidato do PSDB, José Serra, Dilma Rousseff (PT) começa a ser apontada pelos aliados como a nova governante do Brasil. Na noite de terçafeira passada, um ex-assessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva comentava que a leitura atenta dos números revelados na última rodada do Vox Populi indica que Dilma está perto não da vitória. O que se discute agora é se a vitória será no primeiro turno. Se realmente acontecer da criatura (Dilma) vencer logo de cara, ela terá conseguido um feito de que nem seu criador (Lula) foi capaz. Ou seja, não é fácil. Portanto, é conveniente que seus aliados — caso queiram a vitória — não se descuidem de Serra. Os marqueteiros de Serra quase prejudicaram a aliança no Rio por insistir numa forma de expor o número 45 nas peças de campanha A confusão em torno da escolha do vice do tucano — incluindo-se, aí, a indicação atabalhoada de Álvaro Dias (PSDB-PR) e a surpreendente sagração de Indio da Costa (DEM-RJ) — se deu sob o manto protetor da Copa do Mundo. O eleitor comum não percebeu nesse lance o traço de hesitação que os adversários sempre atribuíram aos tucanos. Dito isso, a escolha de Índio da Costa reforça a estratégia de Serra de vencer a batalha no Sudeste, tentar empatar o jogo no Sul e no Centro-Oeste e, no caso do Norte e do Nordeste, se contentar em tirar de Dilma a maior quantidade possível de votos. Indio da Costa, por menos conhecido que seja, aumenta a penetração de Serra junto ao imprevisível eleitorado fluminense (tarefa até aqui entregue ao candidato a governador, Fernando Gabeira). Isso não é pouco. Dias atrás, os marqueteiros de Serra quase comprometeram a aliança tucana no Rio porque insistiam em encontrar uma forma de expor o 45 (número de Serra) nas peças da campanha estadual — e para isso teriam que substituir nomes na chapa. A opção pelo marketing não deu certo. Agora, a opção foi pela política. ■ www.brasileconomico.com.br DESTAQUE MAIS LIDAS ONTEM OdontoPrev incorpora operação da Bradesco Dental ● Tim pode ser novo alvo da Telefónica, dizem analistas A maior operadora de planos odontológicos da América Latina iniciou a incorporação de todas as atividades de gestão e processamento dos atendimentos da Bradesco Dental. A associação entre as duas empresas foi anunciada em outubro de 2009. Em troca, o banco recebeu o equivalente a 43,5% do capital total da OdontoPrev. ● Portugal tenta último lance pela Vivo em Bruxelas ● Banco Central autoriza Bradesco a elevar o capital ● JBS fecha acordo para adquirir confinamento McElhaney ● Serra critica MST e ausência de candidatos em debate Acompanhe em tempo real www.brasileconomico.com.br Leia versão completa em www.brasileconomico.com.br ENQUETE O adiamento da oferta de ações da Petrobras para setembro deve afetar o desempenho do Ibovespa? Sim 69% Não 31% Fonte: BrasilEconomico.com.br Vote em www.brasileconomico.com.br Outlook BRASIL ECONÔMICO 2/JULHO/2010 39 “Fiz mais de 70 filmes. Sem lei de incentivo, sem patrocínio, sem nada” David Cardoso, ator e produtor FOTO ANTONIO MILENA SUPLEMENTO DE FIM DE SEMANA 2 | Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 PROGRAME-SE O melhor da semana Dez sugestões imperdíveis em cultura, gastronomia, esporte, moda e viagens FOTO DIVULGAÇÃO FOTO ROGÉRIO BERBEKI FOTO DIVULGAÇÃO FOTO RODRIGO ROSENTHAL FOTO DIVULGAÇÃO TEXTO E EDIÇÃO D E N I S E B A R R A TRÊS EXPOSIÇÕES NO MAM-RIO FESTIVAL DE ETNIAS DO PARANÁ O MÉDICO E O MONSTRO Ela é uma das vozes mais seguras da nova safra de cantoras brasileiras. Depois de agradar plateias em Nova York e Tóquio, Vanessa Falabella faz temporada em São Paulo, cantando soul, MPB, jazz e bossa nova. Hoje, ela divide o palco do elegante The Blue Bar com Adriana Mezzadri. Às segundas-feiras de julho, convida o músico Orlando Bonzi ao aconchegante Madeleine. Hoje, no Blue Bar, em SP. Segunda, no Madeleine. Nada como uma desilusão amorosa para amadurecer. O trabalho do cantor Otto cresceu junto com ele. O disco Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos mostra que o pernambucano está numa fase boa, com uma sonoridade que mistura batidas eletrônicas a ritmos populares nordestinos, como maracatu, coco e ciranda. Ele apresenta o novo trabalho em show hoje. Às 21h, na choperia do Sesc Pompeia, em SP. As pinturas figurativas da carioca (que mora em Berlim) Cristina Canale estão em “Arredores e Rastros”, vinte telas de 1995 a 2010. Outra mostra é “Homenagem a Esther Emilio Carlos”. Depois da morte recente da crítica de arte, a família doou sua coleção ao MAM, com 25 telas de Guignard, Tunga e Antonio Dias. “Se a pintura morreu, o MAM é céu” tem obras de Daniel Senise, Luiz Zerbini e Adriana Varejão. Até 15/8, no MAM-Rio A cultura de países como Ucrânia, Espanha, Grécia, Itália, Holanda, Alemanha, Bolívia, Polônia, Japão, Portugal e Índia se apresenta diariamente no teatro Guaíra, em Curitiba, durante o 49º Festival Folclórico e de Etnias do Paraná. Grupos folclóricos mostram danças, cantos e trajes típicos. No palco, mais de 1.500 pessoas. Na plateia, mais de 30 mil. Até 13/7, no Teatro Guaíra, em Curitiba. Na Londres de 1885, o doutor Henry Jekyll busca a solução para a loucura de seu pai. Ele pressupõe que todas as pessoas têm dupla personalidade e tenta criar uma fórmula para isolar o lado negro do ser humano. Com esse enredo, o musical da Broadway Jekyll & Hyde — O Médico e o Monstro fez sucesso em mais de 17 países. No Brasil, o elenco reúne 28 atores e uma orquestra com 17 músicos. Estreia 8/7, às 21h, no Teatro Bradesco, em SP. FOTO DIVULGAÇÃO FOTO DIVULGAÇÃO FOTO MAURO HOLANDA FOTO DIVULGAÇÃO A METAMORFOSE DE OTTO FOTO MARIO LEITE O JAZZ DE VANESSA FALABELLA NOVO BRIE RESTO NA RUA MELO ALVES POLENTA DE CABRITO NO DUE CUOCHI PARA FUGIR DO FRIO, MARAÚ ENCONTRO DE MOTOS NASCIDAS ATÉ 1979 ESMALTES DE VERÃO REINALDO LOURENÇO O novíssimo Brie Resto é um restaurante com jeito de bistrô. A comida é bem elaborada, mas o cardápio e o preço são enxutos. A chef Eliane Carvalho deixou o ambiente (do ex Babette) mais casual. Os pratos seguem a linha francesa e saem no tempo de quem tem pressa. Peça o risotto de carne de sol, por R$ 39. Finalize com o crème brûlée, feito à maneira clássica, com o creme frio e a superfície quente. R. Melo Alves, 216, SP. O Due Cuochi Cucina criou pratos quentinhos, servidos só até o fim do inverno. Como entrada, peça a inusitada polenta com ragu de cabrito (que agradaria em cheio Zeca Pagodinho), por R$ 21. Duas novas opções de massas e de carne estão no cardápio. O brasato ao vinho tinto com polenta sai por R$ 58 e a costela de boi assada na lenha ao vinho chianti com purê de batata por R$ 62. Due Cuochi, Shopping Cidade Jardim e Itaim, SP. Em julho, os preços de hospedagem no Nordeste caem, mas a temperatura continua alta. A Península de Maraú fica no sudeste da Bahia, na Baía de Camamu, uma das mais bonitas e a 3ª maior do país. São 40 km de praias, piscinas em recifes de corais, ilhas e cachoeiras. A Pousada Taipú de Fora fica em frente ao mar. Quatro noites custam a partir de R$ 550 por pessoa até 15/12. Pousada Taipu de Fora, BA www.taipudefora.com.br Os aficcionados por motocicletas antigas podem começar a lustrar suas relíquias. O 7º Encontro Moto e Cia Classic vai tirar da garagem mais de mil motos para 12 mil pessoas admirarem. Para participar, é só levar sua motoca clássica, mas é preciso que ela tenha sido fabricada até 1979. A entrada é grátis e não é preciso se inscrever. Domingo, a partir de 8h, no Pateo do Collegio, SP. Eles chamaram a atenção nas unhas das modelos no desfile de Reinaldo Lourenço, na SPFW. Agora os esmaltes criados pelo estilista para a primavera-verão 2011 chegam ao mercado para as meras mortais. A coleção da Risqué tem cores berrantes como tomate e rosa pink fosco, e outras mais discretas, como amarelo quase cor da pele, cinza- claro e azul-bebê. Nas lojas. Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 | 3 Cardápio 2.7.10 Hoje é dia de jogo do Brasil e por isso, sem demora, vá direto às páginas 24 e 25, porque sabemos que nada mais importa nesse mundo. Greve na USP? Chama o Dunga que ele já chega atirando. Vice do Serra? Põe o Kléberson, que está no banco e não está sendo aproveitado. Nas páginas dedicadas à Copa, Gabriel Penna esmiúça o histórico confronto contra a Holanda (entrevista Bebeto, que embalou o filho Matheus depois de marcar contra os holandeses naquele inesquecível 3 a 2 de 1994) e o craque Chico Mattoso versa sobre “as maravilhas curativas do vício em bolão”. Para depois da aguardada peleja, quando a vitória nos retirar de vez a razão, ou a derrota nos devolver à realidade, essa segunda divisão da existência, o leitor estará livre para percorrer o restante deste caderno. Na pág. 6, nossa reportagem vai aos bastidores de uma microcervejaria. A partir da pág. 26, o figuraça David Cardoso ri de si próprio, dos sabores e dessabores de uma vida aventurosa. Uma leitura providencial. Fred Melo Paiva 4 | Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 IDEIAS FORTES ADRIANA VICHI Lilia Moritz Schwarcz Raça sempre foi boa para pensar Tomar um forfait do João Gilberto (mais um) e não assisti-lo tocar no Carnegie Hall é motivo de decepção, mas nada que implique em cortar os pulsos. Afinal, programa é o que não falta em Nova York. Que seria bom ver o muso da Bossa Nova desafinar afinado diante do público americano, pedir silêncio, atrasar, brigar contra os acessos de tosse... isso não se discute. Mas, em sendo João Gilberto, o cancelamento repentino de um show não chega a constituir surpresa. A reação diante da placa que anunciava “canceled” e do aviso que alegava “problemas de voo”, se não foi de alívio, lembrou um certo grau de normalidade. Excentricidades à parte, João Gilberto é João Gilberto no Brasil ou nos Estados Unidos. A saída foi abrir o jornal e, mesmo em época de férias no Hemisfério Norte e de poucas ofertas, escolher dentre um cardápio farto. Se a emenda não foi melhor que o soneto, o resultado não decepcionou. Dentre as múltiplas possibilidades, optei por uma peça escrita e dirigida por David Mamet chamada Race. Mamet é uma espécie de darling do mundo da cultura anglo-saxã; dramaturgo e roteirista, tem também incursões no cinema e na literatura. Race não tem nada a ver com “corrida”, o que seria a tradução mais corriqueira nesses tempos de jogging e maratona. Na verdade, Race refere-se à outra acepção do termo — tema que após tantos anos (uma vez que as ações afirmativas datam dos anos 1960 nos EUA) continua forte na agenda daquele país, e que, cada vez mais, invade a plataforma política e social de nações que, como o Brasil, até bem pouco tempo pareciam dormir o sono dos justos. “Raça sempre gera problemas”, diz um dos personagens em tom de zombaria, mas indicando por onde caminha o argumento. A peça é curta — uma hora e meia, com intervalo — e dividiu a crítica. Para alguns, é superficial demais; para outros, mantém o público sob tensão e suspense. Já na minha opinião, Mamet põe o dedo na ferida e escancara uma questão que tem sido, no mais das vezes, bastante camuflada. E não por acaso quem chega ao Ethel Barrymore Theater logo se depara com uma plateia híbrida, composta como sempre por brancos, mas também por muitos negros, o que já sinaliza a temperatura local. A história gira em torno de uma só situação: um homem branco é acusado de estuprar uma moça negra. Se a paisagem não é original, o “nervo” da peça com certeza é. Tudo se passa num escritório de advocacia, onde apenas quatro atores resolvem o enredo: o réu (branco); dois advogados de defesa, sócios da mesma firma (um branco e outro negro) e uma estagiária (negra). O empate racial não é mera coincidência (deu dois a dois), assim como a desproporção de gêneros (são três homens para uma mulher) também não parece acidental. Os diálogos são fortes e marcados pela ambivalência. Não se trata de saber quem é culpado e quem é inocente; na verdade, todos lá já carregam suas conclusões prévias. Ou seja, o tema racial parece ser um pressuposto partilhado. Entretanto, visto por diferentes ângulos, transforma-se em jogo de regras complexas e sem vencedor fácil. Não é o caso de resumir a peça, que continua em cartaz na Broadway, mas de destacar como todo o desenvolvimento responde à mesma pergunta inicial: tudo o que circunda a questão da raça acarreta sempre problemas. Mais ainda, quando se cruzam marcadores sociais como raça e gênero, as coisas ficam ainda mais complicadas. Não por acaso, em qualquer parte do mundo, esse tipo de impasse é marcado pela ambiguidade, e de todos os lados: de quem é preconceituoso e de quem sofre com o preconceito. Além do mais, parece pairar na peça uma espécie de mal entendido; os embates terminam em constrangedores silêncios, como se esse tipo de situação fosse tão escandalosa que é melhor não dizer nada, ao menos diretamente. E Mamet, como dramaturgo, é, por sinal, um mestre do silêncio. Por isso mesmo, o réu escolhe um escritório que conta com negros na sua direção; a assistente sabe, de antemão, que o acusado que precisa defender é culpado (e nem que não fosse... seria), assim como o defensor branco acredita que seu cliente é, por suposto, inocente. Até porque seu lucro depende disso: da comprovação da ausência de culpa e da conivência diante da certeza que é feita menos por fatos e mais pelo acúmulo de provas reais ou plantadas. Por outro lado, paira no ar uma certa insinuação, igualmente velada, entre os sexos. O advogado branco deixa entender que a assistente negra mentiu para conseguir o emprego, assim como a estagiária parece acusá-lo de tê-la contratado por conta de suas belas pernas e de sua cor negra; sinônimo de facilitação sexual. Não tenho por que desempatar essa partida, até porque Mamet faz questão de não facilitar: os diálogos permanecem incompletos, as alegações irresolvidas, as acusações não recebem veredicto final. E aí reside a força da peça. Em vez de sinalizar uma saída moral, punir o culpado ou redimir o inocente, ela incomoda pois mantém um grande mal estar. O racismo não é um fenômeno “do outro”, que acusamos e assim nos inocentamos. Essa é mesmo uma rede tensa e fadada ao diálogo de surdos. Saí da peça pensando no Brasil e em como o texto ilumina nossa própria situação. Num país que tem primado por desconhecer a questão, e que na semana passada retirou o termo raça do “Estatuto da Igualdade (ops) Racial”, a peça teria o papel de uma bomba de efeito prolongado. Lilia Moritz Schwarcz é professora titular do Departamento de Antropologia da USP. É autora de O Sol do Brasil (Companhia das Letras, Prêmio Jabuti 2009), entre outros. O racismo não é um fenômeno ‘do outro’, que acusamos e assim nos inocentamos. Essa é mesmo uma rede tensa e fadada ao diálogo de surdos. Saí da peça pensando no Brasil e em como o texto ilumina nossa própria situação. Num país que tem primado por desconhecer a questão, e que na semana passada retirou o termo raça do ‘Estatuto da Igualdade (ops) Racial’, ele teria o papel de uma bomba de efeito prolongado Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 | 5 CRÔNICA ILUSTRAÇÃO GONÇALO VIANA ARQ. PESSOAL Humberto Werneck Os pés-frios da Pátria Não há limites para a insânia, costumava dizer meu amigo Geraldo Mayrink, grande jornalista e pessoa melhor ainda, desolado ante o espetáculo da humanidade sobre a Terra. Planejava começar assim um artigo que não chegou a escrever. Uma pena. Eu próprio teria fornecido ao Geraldo umas ilustrações da insânia sem limites, e sem que precisasse recorrer à experiência alheia: rir de si mesmo é uma virtude, e reconheço que motivos não me faltam. Nestes dias de Copa do Mundo, por exemplo, me cubro de vergonha retroativa ao ver regurgitar a lembrança de um episódio do qual participei muitíssimas Copas atrás, a de 1974, na Alemanha. Paninho de fundo para você que chegou depois: vivíamos no pior negrume da ditadura militar, e a troca do Garrastazu pelo não menos general Geisel, meses antes, em nada refrescara o clima. Por sorte, eu andava longe, morando em Paris — e lá me vi um dia convocado para importante reunião na Casa do Brasil, na Cidade Universitária. Tratava-se, avisaram, de discutir grave questão ligada aos rumos políticos de nosso país. O sujeito de “avisaram” era um casal de militantes formado não por brasileiros, como seria razoável esperar, mas por uma loura alemã, aliás bonitinha, e por um italiano com ar de Antonio Gramsci, cuja condição de intelectual das massas era sublinhada por um pesado par de óculos e uma cabeleira alvoroçada e suja de quem cuida apenas da parte interna da cabeça. Se bem me lembro, aqueles dois eram ali os únicos não brasileiros — o que não impediu que a reunião se desenrolasse em francês, ou algo que se pretendia passar como tal. Quase quatro décadas mais tarde, ainda estou em condições de afirmar que nunca antes, quem sabe depois, e em lugar algum, a língua francesa foi tão maltratada quanto naquele auditório da Maison du Brésil. Alguns de nossos compatriotas iam pouco além do bonjour , petit pois e mayonnaise — e nem por isso tiveram o bom senso de se ater a seu cardápio linguístico. Fosse outro o tema em discussão e provavelmente teríamos visto desfiar-se um colar com as pérolas clássicas do brasileiro em Paris, em que batata da perna é pomme de terre de jambe e pão pão queijo queijo, pain pain frommage frommage. Isso se não chegássemos ao desastre igualmente clássico de confundir o substantivo baiser (beijo) com o verbo que, escrito da mesma forma, significa, mas em linguagem menos fina, ter relações sexuais. Antes fosse esse o tema. Mas não. Poderíamos nós, militantes de esquerda, torcer pela seleção canarinha, representante, em última análise, da sangrenta ditadura militar brasileira? Não seria um desvio pequeno-burguês nos juntarmos à patuleia que, do Oiapoque ao Chuí, iria sacudir bandeirinhas verde-amarelas, alienadamente, sem saber que seu fervor futebolístico era manipulado e posto a serviço da causa dos inimigos do povo? Nesse crucial debate, comandado pelo casal teuto-italiano, estivemos emaranhados por duas, três horas — durante as quais não me lembro de ter visto abrir-se um único sorriso. Eu mesmo me mantive circunspecto, certo de que também nos gramados alemães estavam em jogo os destinos da Pátria. Sim, não tínhamos dúvida: um breve porém significativo capítulo (parágrafo, vá lá) da nossa história se escrevia ali no auditório da Maison du Brésil, ao preço do massacre da língua francesa. E pensar, hoje, que lá fora era verão em Paris... O papo ia e voltava. Nesse passo, desconfiei, nunca chegaremos ao Milênio Socialista. Dali a pouco a seleção dos generais ia entrar em campo, e, de olho no relógio, baixou em nós uma urgência de, como se dizia, “tirar uma posição”, a qual resultou ser esta joia da tolerância democrática: que cada qual consultasse a sua consciência. Não há mesmo, diria o Geraldo Mayrink, limites para a insânia. O que fizemos? Inimigos do Brasil de botas, torcemos todos, ainda que da boca para dentro, pelo Brasil de chuteiras. E deu no que deu. Humberto Werneck é jornalista e escritor. É autor, entre outros, de O Espalhador de Passarinhos & Outras Crônicas (Dubolsinho), O Pai dos Burros (Arquipélago Editorial) e O Santo Sujo (Cosac Naify). O papo ia e voltava. Nesse passo, desconfiei, nunca chegaremos ao Milênio Socialista. Dali a pouco a seleção dos generais ia entrar em campo, e, de olho no relógio, baixou em nós uma urgência de, como se dizia, ‘tirar uma posição’, a qual resultou ser esta joia da tolerância democrática: que cada qual consultasse a sua consciência. O que fizemos? Inimigos do Brasil de botas, torcemos todos, ainda que da boca para dentro, pelo Brasil de chuteiras 6 | Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 BASTIDORES 1 3 4 Frequentador convicto das cervejadas universitárias, Bazzo ficou abismado ao descobrir mais de 50 rótulos disponíveis em um supermercadinho de uma cidadela inglesa 2 5 6 Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 | 7 1. O cervejeiro Fábio Júnior pilota a sala de brassagem 2. Drenando o fermento de um dos tanques. Ele vai ser usado para dar vida a uma nova leva 3. Alexandre Bazzo, engenheiro de alimentos e cervejeiro, tira uma prova do tanque de Weizenbier 4. Chá de cevada, o mosto cervejeiro, já filtrado na terceira tina momentos antes de seguir para a fermentação 5. O cervejeiro Júnior coloca o malte para ferver, o primeiro passo da cerveja 6. Tanques de maturação dos lados, sala de brassagem ao fundo. Os heróis da resistência vestem verde e amarelo 7. Vintage Biertruppe, maturada por 100 dias em barricas de carvalho Guerreiro mesmo é o pessoal da Bamberg No interior de SP, uma premiada microcervejaria tenta provar que nossa ‘cerveja estupidamente gelada’ é apenas uma estupidez TEXTO L U I Z H E N R I Q U E L I G A B U E FOTOS E V A N D R O M O N T E I R O arquetólogos em tempos de Copa do Mundo inventaram que a turma da seleção brasileira é composta de grandes guerreiros, e que de garra se fazem os brahmeiros. Até o Dunga foi convocado para bater a mão no peito e chamar os combatentes. Balela! Na seleção do bravo volante, recheada de atletas de cristo, sexo não pode, cerveja muito menos, e o picolé... é liberado — que gelada! Guerrilheiros de verdade (com uniforme verde e amarelo, por sinal) estão concertados em Votorantim, no interior de São Paulo. Liderados por Alexandre Bazzo, acordam cedo, colocam a mão na massa às 5h30, e só vão largar o batente muitas horas depois, tudo para coexistir no mercado de cervejas. Eles, os combatentes da microcervejaria Bamberg, remam contra a maré para provar que cerveja é muito mais do que se acha que ela é aqui no Brasil. Por hora, esqueça a estupidez do estupidamente gelada e vamos aos novos nomes na praça. A Rauchbier, uma cerveja escura, feita com malte defumado, cremosa e de sabor complexo, é a grande campeã da Bamberg. Faturou, em 2009, a medalha de prata no European Beer Stars, em diputa com 7 outros mil concorrentes de 35 países. E não é só: em 2010, outra prata, no Australian International Beer Awards. Outras duas cervejas da safra de Bazzo, a Moüchen (avermelhada, com forte sabor de malte) e a Schwarzbier (preta, aroma de café e chocolate), trouxeram da Austrália dois bronzes. Cada cerveja em sua categoria, todas elas de estilo alemão. É, os nomes são bem mais complexos do que as Brahmas da Antarctica do saudoso ex-presidente corintiano Vicente Matheus. Hoje tudo a mesma coisa, a AmBev é a quarta maior cervejaria do mundo. Só ano passado, produziu 76.277.600, ufa!, hectolitros. Já a Bamberg, bateu perto da casa dos 100 mil litros. Detalhe: 1 hectolitro equivale a 100 litros. David e Golias. A cervejaria de Votorantin abriu as portas há cinco anos, mas nasceu de fato um pouco antes, quando Alexandre Bazzo, ainda estudante de engenhariaalimentar,foipassarumatemporada na Inglaterra. Frequentador das cervejadas universitárias,Bozzoficouabismadoaodescobriremumsupermercado de bairro, de uma cidadezinha de 100 mil habitantes, mais de 50 rótulos disponíveis. Provou um a um. Gostou. VoltouparaoBrasileaproveitouaquedapelosprocessosbiológicos para estudar o assunto mais a fundo. Foi para a Alemanha, fez cursos e bebeu muita cerveja. Visitou microcervejeiros no Brasil e chamou os irmãos para entrarem na sociedade. Virou cervejeiro. E não ouse chamá-lo de mestre cervejeiro. Mestre é aquele formado na Alemanha depois de um curso de cinco anos, Bazzo diz ser um engenheiro de alimentos. Mas de fato comanda toda a operação da cervejaria. Define as receitas depois de estudar o estilo que quer fazer, visita o país de origem, bebe e pega o “gosto original”. Importa a maioria de seus insumos — boa parte do malte, por exemplo, vem da cidade alemã de Bamberg, que tem uma das maiores concertações de microcervejarias do planeta; o lúpulo, da Baviera; e o fermento cervejeiro, da região específica M Os nomes são bem mais complexos do que as Brahmas da Antarctica do saudoso Vicente Matheus, e a produção, infinitamente menor para o estilo em questão. Mas o grande diferencial é que Alexandre é o famoso CDF e adepto do axioma alemão de pureza: água, malte, lúpulo, fermento cervejeiro e paciência. Só isso entra na sua cerveja. Ele comanda a sala de brassagem, com suas três tinas de 2 mil litros, para a confecção do “chá de cevada”, o mosto cervejeiro. Ali a complexidade está nas proporções dos ingredientes e nas rampas de temperatura, que vão determinar as características finais da cerveja. Quando ele não está, quem assume o comando é ninguém menos que Fábio Júnior. Do alto dos seus 21 anos e de cabelos iluminados, o jovem paranaense está na fábrica praticamente desde que ela abriu, e é o braço direito de Alexandre. O Fábio Júnior da cerveja começa o processo da brassagem por volta das 5h30 e Alexandre fecha o processo de fabricação lá pelas 18h. Da brassagem as cervejas seguem para os tanques de fermentação e maturação. A fermentação dura de 7 a 15 dias (dependendo do estilo a ser produzido), e a maturação, de 3 semanas (no caso da pilsen) até 3 meses (para a bock). O gás carbônico da cerveja é natural e resultado do intenso e longo processo de fermentação e maturação. Mas, para que não acusem Alexandre de radical da pureza, ele abre exceções para produções sazonais e comemorativas. De uma delas saiu a Nº 1 Vintage Biertruppe, a primeira cerveja brasileira maturada em barril de carvalho. Lá passou 100 dias, é escura, tem 9% de teor alcoólico, e notas frutadas e condimentadas. Mas não foi compreendida pelo fiscal do Ministério da Agricultura, que achou que aquilo não era cerveja e por isso não autorizou a venda. Prejuízo do Alexandre e sorte dos amigos, para quem ela é servida. A edição do 5º aniversário já está maturando no carvalho, e lá fica por mais 4 meses. É uma Weizenbock feita com a técnica inglesa do dry hopping (adiciona-se lúpulo na maturação), que passará depois por uma segunda fermentação na garrafa. A cerveja vai sair forte, com um leve quê de champanhe. E a guerrilha contra a cerveja convencional continua, com ou sem Copa. Entre os dias 24 e 25 de julho, Alexandre está organizando o 1º Campeonato Paulista de Cerveja Caseira (aquelas feitas numa boca de fogão). Mas nem por isso a competição será a festa da maria louca de presídio. Lá só ganha passe livre cervejas feitas dentro do Estado e segundo o estilo inglês Extra Special Bitter. O júri de connoisseurs já está formado, e mais de 40 amostras já estão inscritas. Para o público, o churrascão de costela está garantido, assim como a degustação da produção de outras microcervejarias. Tudo parte da estratégia para provar que cerveja é muito menos estúpida do que parece ser. TEXTO P H Y D I A D E A T H A Y D E FOTOS M A R C E L A B E L T R Ã O 8 | Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 PROVOCAÇÃO A fogueira de Land Rovers vai salvar o planeta? FOTO JB NETO/AE Frente de Libertação da Terra assumiu autoria de atentado que destruiu concessionária da marca em São Paulo há duas semanas Ação lembrou Frente de Libertação dos Anões de Jardim, que nos anos 90 se notabilizou por subtrair estátuas dos gramados da burguesia francesa para libertá-las ‘do ridículo e da servidão’ TEXTO C H I C O M A T T O S O o último dia 18 de junho, São Paulo amanheceu com uma notícia absolutamente banal e desimportante: uma concessionária da Land Rover na Marginal Pinheiros sofreu um ataque noturno e teve alguns veículos de luxo incendiados. No início suspeitou-se da ação de vândalos, de golpistas de seguradora, talvez até de uma facção radical de seguidores de São João, especializada em fogueiras juninas experimentais. Alguns dias depois, porém, a conversa ficou mais séria. Uma organização ambientalista intitulada Frente de Libertação da Terra assumiu a autoria do atentado. “Está mais do que na hora dos pilares de nossa civilização virem abaixo”, proclama a carta divulgada pelo grupo, que diz “atacar a economia de um sistema N que destrói o meio ambiente e explora os animais”. Não é do meu interesse avaliar as implicações políticas de um ato como esse. Eu não domino o assunto. Minha avó diz que o planeta já foi mais frio, e eu acredito nela. Tendo a simpatizar com a causa ambiental, talvez porque, num nível mais básico, seu discurso fale diretamente ao meu catastrofismo congênito. É o mundo acabando, pô. Se você não for a favor de dar um jeito nisso, vai ser a favor do quê? Não sei que tipo de ideia rondava a cabeça dos incendiários do dia 18. Só alguém muito convicto das próprias intenções pode achar que colocar fogo em SUVs terá algum efeito real sobre a degradação do planeta, ou sobre os tais “pilares da civilização” — no máximo, fará com que as concessionárias não guardem mais seus veículos no pátio. Há uma certa gratuidade no gesto dos Se existe algo de relevante nesse atentado, é seu despropósito, sua quase comovente falta de noção. A arte é bela porque é inútil. A piromania automotiva também ativistas, e nesse sentido ele me lembrou as ações da Frente de Libertação dos Anões de Jardim, que nos anos 90 se notabilizou por subtrair estátuas dos gramados da burguesia francesa para libertá-las “do ridículo e da servidão”. O leitor mais atento observará que salvar o planeta é muito mais importante que resgatar gnomos de gesso. Eu concordo. Ainda assim, quando penso no fogaréu da Marginal, a última coisa que me vem à cabeça é a nobreza de suas intenções. Se existe algo de rele- vante nesse atentado, é exatamente sua ineficácia, seu despropósito, sua quase comovente falta de noção. Fernando Pessoa dizia que a arte é bela porque é inútil. Tendo a achar que a piromania automotiva também é. Se eu fosse um ambientalista, já teria desistido de São Paulo faz tempo. Talvez levasse umas fotos da cidade na carteira, só para servir como ameaça: “Olha aí o que pode te acontecer, se continuar fazendo besteira”. Mas parece que os sabotadores do dia 18 quiseram dar uma forcinha para nossa combalida auto-estima e nos incluíram na rota do ativismo ecológico mundial — e agora estamos aí, junto das madeireiras amazônicas, dos baleeiros japoneses, dos icebergs em degelo. Talvez seja o caso de comemorar. Vou perguntar para a minha avó. O escritor Chico Mattoso é autor de Longe de Ramiro (Editora 34). Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 | 9 OLHA O PASSARINHO Grandes twittadas da semana Pérolas, achados e picaretagens. O melhor da filosofia em até 140 caracteres FOTO RODRIGO LIMA/AE “ Alguém ligado a José Serra precisa lhe dar um toque sobre essa coisa de só pensar no vice em plena Copa do Mundo. O Brasil quer mais! @tuttyvasques “ Caim e Abel . O candidato a presidente da República não pode escolher um vice para resolver briga de irmãos. @deputadocaiado “ Desencana, Japão. O Mundial de caraoquê chega logo. @sorryperiferia FOTO DIVULGAÇÃO “ Poupando energias: como não posso definir a vida, preocupo-me apenas em vive-la @paulocoelho Maradona de ombreiras parece “La OBombonera... @marcobianchimtv “ “ “ “ Sem essa de pátria em chuteiras; a pátria do meu uísque segue adelante!Vai, Paraguay!!! @xicosa O nosso treinador, nunca foi um jogador de muita técnica, esse também é motivo, pra gente entender a maneira do time jogar. @RomarioOnze Seleção Paraguaia já tá tentando vender uma “réplica” da taça pros japoneses no vestiário @HugoGloss O Kaká deve estar no mesmo quarto que Felipe Melo. Passarinho que dorme com morcego amanhece de ponta-cabeça. @Alessandro_M FOTO ROBERTO SCHMIDT/AFP “ Amigos, a derrota é um grande momento de verdade. Só diante da vergonha é que entendemos nossa miséria. @Arnaldo_Jabor 10 | Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 ZOOM J.R.Duran A cidade em sua hora mágica J.R.DURAN /FILE INC. Em cinematografia existe um momento durante o dia em que a luz é mágica. É o curto espaço de tempo, no fim da tarde, em que o sol desaparece atrás do horizonte e ainda — por alguns instantes — continua iluminando, mesmo que seja sem deixar sombra nenhuma. É conhecido como magic hour (1), um momento entre o dia e a noite que não pertence a nenhum dos dois e que se esvanece rapidamente. É um eufemismo, porque no ponteiro do relógio a duração deste fenômeno não passa de trinta minutos. Mas, se bem feito, parece ocupar muito mais tempo. É assim que funciona a magia. As cidades também têm sua magic hour. Mas ela se situa, cronologicamente, um pouco mais tarde. Precisamente no momento em que as pes- Andar por uma cidade, conhecida ou não, neste horário, permite descobrir o que ela tem para oferecer de verdade. Sem os artifícios dos seus habitantes sentados nos cafés, sem as lojas de portas e braços abertos na esperança de um cliente, sem o sol refletindo em seus telhados ou nos óculos escuros das mulheres bonitas soas chegam em casa, no fim do dia, e se sentam ao redor da mesa para jantar. Isso deve ser entre as nove e as dez da noite, quando a cidade ainda está contaminada pela energia diária que não desapareceu. Um ponto de inflexão diferente da hora do rush matinal, ou da hora do almoço. Ou mesmo do momento da saída do trabalho. É neste instante em que a cidade parece ficar desprovida de seus habitantes, trancados entre quatro paredes, antes que o agito noturno comece tudo de novo. Andar por uma cidade, conhecida ou não, neste horário, permite descobrir o que ela tem para oferecer de verdade. Sem os artifícios dos seus habitantes sentados nos cafés, sem as lojas de portas e braços abertos na esperança de um cliente, sem o sol refletindo em seus telhados ou nos óculos escuros das mulheres bonitas. Andar por uma cidade a esta hora — com o passo de quem não tem pressa de chegar a lugar nenhum — é quase como contemplar, sem maquiagem, a pessoa amada. (1) Vittorio Storaro é o diretor de fotografia favorito de Bernardo Bertolucci. Ele conta que durante as filmagens de 1900 (1976) Bertolucci ficava ensaiando as cenas com os atores durante o dia inteiro e só rodavam alguns minutos no fim do dia. O falecido diretor de fotografia Nestor Almendros fez o diretor Terrence Malick chegar aos píncaros da magic hour em Dias de Paraíso (Days of Heaven, de 1978). Um poema visual, dizem os críticos. J.R.Duran é fotógrafo, autor, entre outros, de Cadernos Etíopes (Cosac Naify). No Twitter: @jotaerreduran. Eleitos Leve | Light, translúcido, o pendente todo em acrílico é da coleção La Lampe, com curadoria dos designers André Bastos e Guilherme Leite Ribeiro, do estúdio Nada Se Leva. R$ 3.452 e, bem, você leva 12 | Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 ELEITOS Por mares nunca dantes Rara parceria no Brasil entre escritor e artista plástico, chega à praia Cachalote, impressionante graphic novel de 300 páginas TEXTO R O N A L D O B R E S S A N E graphic novel brasileira vive seu melhor momento. Provas do crime são álbuns autorais como os recentes de Allan Sieber ( É Tudo Mais ou Menos Verdade), Marcelo Quintanilha (Sábado dos Meus Amores ), André Kitagawa (Chapa Quente), Rafael Grampá (Mesmo Delivery), Paulo Lyra (Menina Infinito) e os diversificados trabalhos dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, entre uma longa lista de etc. Mais próxima da literatura que do cartum ou da tira, modalidades em que a arte sequencial já demostrou vários craques, o romance gráfico teve pontos culminantes com Luiz Gê (Fragmentos Completos ) e Lourenço Mutarelli (O Dobro de Cinco) — e agora atinge um ousado patamar com Cachalote (Companhia das Letras). A obra guarda ineditismo em vários aspectos, além do cetáceo tamanho. É a primeira graphic novel assinada pelo artista paulistano Rafael Coutinho, o “filho de Deus” (também conhecido como A Laerte Coutinho, que atravessa fase gloriosa no blog Manual do Minotauro). Seu parceiro é o escritor gaúcho Daniel Galera (do romance Até o Dia em que o Cão Morreu, base do filme Cão Sem Dono, de Beto Brant). Além disso, Cachalote vadeia em águas profundas: em vez de uma única história linear, o livro cruza cinco histórias curtas mais prefácio e epílogo misteriosos, em três arcos narrativos. Editadas concisamente, sem começo nem fim, as histórias retratam pontos de inflexão nas vidas de pessoas que parecem bem esquisitas — mas estão bem aí, à vista de todos, preto no branco. Xu, genial e genioso ator chinês perdido em São Paulo, é acusado da morte de seu melhor amigo. Hermes, escultor que vive insulado em uma floresta, aceita participar em um filme de um insistente diretor, escancarando sua própria vida. Vitório, atendente de uma loja de ferragens, fanático por bondage, se apaixona por Princesa, garota linda com pulsões masoquistas. O playboy Rique é expulso da casa do tio por pegar a namo- O cartunista Rafael Coutinho faz um autorretrato a nanquim rada dele e vai encalhar a solidão vazia na Europa. Túlio e Vita, triste casal recém-separado, une-se pela filha, as pílulas dela e o bloqueio criativo dele. Há ainda uma mulher grávida que topa com uma baleia numa piscina. O atrito dessas histórias encrencadas produz impactos emocionais — para insistir na metáfora aquática — de tirar o fôlego. E aos diálogos existencialistas de Galera, pontuados com humor esparso e espessa melancolia, somam-se as sequências magistrais de Coutinho — um virtuose do incompleto, aproximando violentamente figura de fundo, num ritmo que imprime intimismo e ação ágil em doses venenosas. Parece fácil definir o livro usando arpões verbais como “obra-prima pop”, mas é preciso reconhecer uma quando aparece. Como quando se avista uma baleia no horizonte. A seguir, a conversa com o roteirista Daniel Galera — que, durante os dois anos que passou escrevendo o roteiro em Garopaba (SC), costumava nadar com baleias-francas. ‘Ao longo do processo de criação, os personagens deixaram de ter dono. No resultado final, é impossível rastrear quem criou o quê’ O escritor Daniel Galera em sua primeira incursão no mundo HQ Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 | 13 IMAGENS DIVULGAÇÃO Nas duas páginas acima, Xu, o genial e genioso ator chinês perdido em São Paulo Quais histórias você criou? Os personagens que partiram de argumentos iniciais meus foram o Hermes, e Túlio e a Vita, e o Vitório e a Princesa. O Rique, o Xu e a Nana (a senhora grávida sem nome) foram trazidos pelo Rafa. Mas ao longo do processo de criação, os personagens deixaram de ter dono. O destino, o conflito e a personalidade de cada um foram construídos em conjunto, e no resultado final é impossível rastrear quem criou o quê. Há dois eixos temáticos claros: artistas em crise (o ator chinês detido, o escultor isolado, o escritor travado) e relacionamentos empacados (pais separados que não conseguem deixar de se ver, moleques sadomasôs que não conseguem trepar, playboy sem amigos). O “encalhe” está associado a outra tragicomédia moderna, Esperando Godot, de Beckett, cuja citação tem papel fundamental na trama. Em que medida essa aflição enquadrada se relaciona a narrativas como Até o Dia em que o Cão Morreu e Mãos de Cavalo? O protagonista do Até o Dia em que o Cão Morreu é uma figura paralisada pela apatia, encalhado em um certo sentido, e que encontra algum tipo de conexão com os outros apenas em instantes fugazes, o que tem um pouco a ver com o universo ficcional da HQ. Além disso, ele é um personagem que não muda de nenhuma forma ao longo do livro, um tanto como o Rique, por exemplo. O que dá corpo à história é a tentativa de um ser humano de entender o que se passa para talvez mudar num momento posterior, que não chega a ser contado. Acho interessante, às vezes, narrar dessa forma, sem expor uma possível transformação que fica somente insinuada. Já Mãos de Cavalo é um romance sobre os limites das nossas escolhas na formação da identidade, tema que também permeia Cachalote . Hermes só começa a se abrir para as outras pessoas quando um acontecimento surreal e inexplicável o arranca do cotidiano endurecido e disciplinado, por exemplo. Os personagens da Cachalote não querem tanto transformar suas vidas mas compreender melhor quem são, e se conciliar com isso. Chegaram a pensar em apresentar a HQ como simplesmente um livro de contos? As histórias têm mais força da maneira que são apresentadas no livro, entremeadas. Se fosse escrevê-las em prosa, provavelmente usaria uma estrutura semelhante à da HQ, em alternância e sem encontros entre as tramas. A intenção era fazer com que todas as histórias convergissem para um único clímax, mesmo sendo narrativas paralelas. No processo criativo, vocês não formaram a clássica dupla roteirista/desenhista: compuseram Cachalote de modo mais orgânico. Como descreveria essa dinâmica? A melhor maneira de descrever a criação de Cachalote é imaginar uma conversa constante entre duas pessoas que se apaixonaram pelos mesmos personagens e histórias. Sugeri muita coisa nos desenhos e o Rafa participou bastante do texto — até redigiu rascunhos de cenas que desenvolvi em seguida. Mas falar sobre os personagens era o essencial. As histórias carregam esse nosso esforço de compreendermos os personagens, e suspeito que isso acabará se refletindo também na experiência dos leitores. Em quais artistas você se inspirou? Pensei nos contos do Tchekhov, nos filmes do David Lynch e de certos diretores asiáticos, e em HQs de autores como Bastien Vivès, Christophe Blain, Charles Burns... Mas não sei se nada disso está evidente. Nos deixamos inspirar por muita coisa, mas acho que a nossa própria sensibilidade foi mais determinante. Qual seu próximo projeto? Comecei a escrever um novo romance. Barba Ensopada de Sangue. Qual a coisa mais adorável e a mais irritante em Rafa Coutinho? A mais adorável é o bigode, que infelizmente ele usou somente por poucos dias. A mais irritante é o hábito de ignorar meu roteiro e inventar cenas inexistentes, mas é uma irritação que dura pouco, porque em geral não demoro a reconhecer que está melhor que antes. ‘Os personagens não querem tanto transformar suas vidas, mas compreender melhor quem são, e se conciliar com isso’ 14 | Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 ELEITOS FOTO TIAGO QUEIROZ/AE Magnetismo para a boa música A cara de nerd é só um disfarce para este adepto de experimentações sonoras O produtor musical Kassin, um dos mais férteis e plurais em atividade, está — além de outros mil lugares — por trás da trilha do espetáculo Ímã, do Grupo Corpo, que retorna a São Paulo TEXTO P H Y D I A D E A T H A Y D E Outlook. Ao fundo, alguém tocava um coisa boa com coisa boa. Antes de se despedir Aproveite que o espetácu- da reportagem, orgãozinho, insistentemente. “Ah, é o lo Ímã , do Grupo Corpo, Donatinho (filho de João Donato) . EsKassin manda volta a São Paulo para tamos fazendo o próximo disco da Vaprestar atenção em Kas- um recado bem nessa da Mata”, diz ele, diretamente do sin, o artista e produtor humorado: ‘Por lugar onde mais gosta de estar: o estúmusical que está por trás da trilha so- mais que digam isso, dio. “É o meu grande prazer.” nora do trabalho, composta por ele e eu nunca produzi Ao lado de Mario Caldato, Kassin seus parceiros no grupo +2, Domenico Cê, do Caetano. produziu o premiado álbum Sim Lancelotti e Moreno Veloso. Nem Marisa Monte’. (2007), de Vanessa da Mata, eleito um dos melhores daquele ano, e dela tamMas, antes de seguirmos, não vá Pior para eles bém o Multishow Ao Vivo (2009). dançar e perder o Grupo Corpo. A comEste ano, já trabalhou com Marcelo panhia de dança comemora 35 anos de Jeneci e Thais Gulin e, depois de Vanescarreira este ano e reapresentará Íma (de 2009) e o espetáculo Lecuona . A sa, vai dedicar-se a fazer trilhas. Como dobradinha fica em cartaz de 11 a 15 de é de se esperar de um produtor talentoagosto, no Teatro Alfa, na capital pauso, Kassin está em muitos lugares ao lista. Falta mais de um mês, mas commesmo tempo. Nos créditos de álbuns pre logo o ingresso, porque FOTO CAROLINE BITTENCOURT eles acabam muito rápido. Quando os bailarinos do Corpo começarem a pulsar no palco, atraírem-se e repelirem-se ao sabor de uma música meio bossa, meio moderna, um tanto indescritível, saiba que eles interpretam com músculos os impulsos neurais da mente criativa de Kassin e seus amigos. Essa trilha foi um dos últimos trabalhos do grupo +2, que está inativo no momento, mas só porque os seus integrantes estão bastante hiperativos. Alexandre Kassin, este carioca de 36 anos, por pouco não despreza o jogo do Brasil contra o Chile. “Se eu estivesse sozinho, não assistiria”, confessou, justificando a fama de certinho e trabalhador, numa conversa por telefone com o Acima, o Kassin artista no primeiro show com a nova banda, em Porto Alegre, no fim do ano passado É de artistas como Adriana Calcanhotto, Jorge Mautner, Los Hermanos, Thalma de Freitas e, além de Vanessa da Mata, Mallu Magalhães. Não só como produtor, mas frequentemente como arranjador e instrumentista também (ele toca quase tudo). O próprio explica as mudanças ocorridas na sua profissão. “Nos anos 70, o trabalho do produtor era mais segmentado, ele era pouco arranjador. Hoje, como tem menos pessoas trabalhando num disco, e eu acabo tendo muitas funções: gravo, toco, arranjo, organizo o processo.” Kassin começou a trabalhar com música nos anos 90, o que, em termos de tecnologia, é uma eternidade e meia para trás. “Peguei o fim da gravação em fita, até a digitalização total. Lembro que custava US$ 200 para gravar 15 minutos. Era caro, ficava muito mais difícil brincar. Não se podia experimentar, coisa que eu amo”, diz, para então tentar definir o que faz um bom produtor. “É aquele que consegue chegar onde o artista quer, onde ele está melhor. O trabalho tem que ter coerência do começo ao fim para aquele artista. Se, no final, o que eu tiver feito não for algo que o artista vá representar, não vale. Um disco não ganha vida por si só, mas pelo que o artista é.” Da teoria à prática, diga-se, Kassin conhece bem o palco. Antes do +2, integrou a banda Acabou La Tequila. E é guitarrista da Orquestra Imperial. Tem feito shows apenas como Kassin, com Domenico, Donatinho e Alberto Continentino. “Minha música não é para multidões, é de difícil compreensão”, diz, tranquilo quanto a isso. Antes de se despedir, dá um recado bem humorado: “Por mais que digam isso, eu nunca produzi Cê , do Caetano. Nem Marisa Monte”. Pior para eles. Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 | 15 Rock regressivo A paulistana Andreia Dias posa de bad girl mas de fato coleciona dramas perfeitos para o rótulo de rockstar. Com Vol. 2, ela apresenta uma bela amostra de maturidade no gênero Até que sobrou algum neurônio Acredite se quiser: memórias de Ozzy Osbourne encheram 400 páginas! TEXTO D A N I E L A P A I V A uando contei a Andreia Dias que ela dividiria esta página do Outlook com Ozzy Osbourne, a cantora soltou um “nossa, que honra! Eu amo ele”. Esse gosto pelo rock é visível nas cinco tatuagens sempre expostas, no figurino de roupas pretas e caveira. Faz sentido até por um histórico de rebeldia na vida. Mas o rock de Andreia em Vol. 2 tem um quê de diferente. E, ufa, não é a pose de bad girl. Em termos de bad girl brasileira, é claro que Pitty vem logo à mente. Uma não tem nada a ver com a outra, apesar do visual semelhante estimular a conexão. Andreia não procura evocar a auto-afirmação teen ou coisa parecida. Faz o contrário disso e, óbvio, também está longe dos discursos adocicados das mais novas candidatas ao posto de musa da MPB. Digamos que suas temáticas estejam mais para Dolores Duran do que Elis Regina. Em Vol. 2, o segundo projeto de uma trilogia iniciada em 2008 com Vol. 1 e que deve terminar com Vol. 3 no ano que vem, ela fala de mulheres chapadas, loucamente apaixonadas, com a libido à solta. Que caem na sarjeta, acordam feias, sentem-se um lixo. Mulheres de verdade. Mulheres — e não meninas. Não é FOTO GABRIEL WICKBOLD Q zzy Osbourne é um desses casos científicos do rock a ser estudado após a morte. O ex-líder do Black Sabbath, ícone do heavy metal com mais de 100 milhões de discos vendidos, completa 62 anos em dezembro. Como Keith Richards e Eric Clapton, outros dois inacreditáveis sobreviventes das doideiras, tomou todas as drogas, bebeu mais um bocadão. E continuou rondando por aí em esporádicas reuniões do Sabbath, em carreira solo, promovendo festivais (Ozzfest), fazendo da sua vida um divertidíssimo reality show (The Osbournes — 2002 a 2005), reprisado até hoje. Em 2009, Ozzy escreveu quase 400 páginas sobre o que escapou dos blackouts em Eu Sou Ozzy, lançado pela Benvirá (Editora Saraiva). O livro nada mais é do que outra prova da impressionante capacidade do cantor de usar uma ferramenta de ouro (ele mesmo) e transformá-la em produto. E vendável. A biografia do homem que arrancou a cabeça de um O só só isso. Ela incorpora referências como o samba, a jovem guarda, o brega e os timbres eletrônicos como se fossem naturais ao rock, amarrando tudo num tom rasgado e visceral. Andreia nasceu no Grajaú, periferia de São Paulo. Ainda que pareça uma novidade, canta desde a adolescência e lançou seis discos — dois com a Banda Glória (de samba), dois com a Dona Zica (de vanguarda), e os dois solo. Nesses 37 anos de vida, não faltou dra- Ela fala de mulheres chapadas, loucamente apaixonadas, com a libido à solta. Que caem na sarjeta, acordam feias, sentem-se um lixo. Mulheres de verdade ma para a sua inspiração. Filha de evangélicos, fugiu de casa aos 17 porque “apanhava todos os dias”, conta. “Murro na cara, irmão mais velho ajudando a bater.” Seguiu em frente, morou em Ubatuba e no Rio de Janeiro, e sofreu as dores da orfandade musical. “Passei fome, me envolvi com drogas, más companhias”, continua. Também perdeu o bonde do Farofa Carioca (na época com Seu Jorge), grupo que ajudou a formar, mas não estava lá quando aconteceu nos palcos cariocas. Hoje, depois de elogios e de uma pasagem pela Europa, faz troça com esse negócio de diva — diz que está mais para “a nova dívida” da música contemporânea do que para uma diva da MPB. Também não quer rótulos, busca diversidade nos próximos projetos — um de samba, um infantil, uma miniopereta com Arrigo Barnabé, que participou de Vol. 2. Talvez viajar, estudar filosofia. Quanto ao Vol. 3 ,ela adianta que, bem, terá apenas uma música sobre amor. É que ela está calminha, casada e feliz. Aproveitemos, então, os momentos inspirados de turbulência. Pitty? Não, Andreia morcego com os dentes (segundo o livro, é tudo verdade) alcançou o topo da lista dos livros mais vendidos do New York Times. A trajetória de Ozzy não vai além do roteiro desse velho amigo, o típico rockstar doidão à caça de sexo, drogas, e com espasmos de brilhantismo (Paranoid , a música, surgiu em... 20 minutos!). Nos últimos anos, talvez até por uma iminente extinção de grandes mitos, artistas menos gloriosos como Slash (Guns N’ Roses), Nikki Sixx (Mötley Crüe) e Anthony Kiedis (Red Hot Chilli Peppers) resolveram revelar suas histórias escabrosas — que nem são tão reveladoras assim. Para os apreciadores do rock’n’ roll, essas biografias reforçam estereótipos que hoje parecem até fora de moda, meio coisa de dinossauro. Mas que, vamos combinar?, têm feito uma falta danada em um metiê infestado por figuras tatuadíssimas e mascaradíssimas. Beber em palco? Absurdo! Jogar televisão pela janela do hotel? Imagina! Não. Longa vida ao Ozzy! D.P. FOTO DIVULGAÇÃO A esposa de Ozzy, Sharon Osbourne, jura que o processo de escrita do cantor foi totalmente old school — ou seja, à caneta 16 | Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 ELEITOS FOTO DIVULGAÇÃO O clássico sobretudo com Tradição de inverno, o 41º Festival Internacional de Campos do Jordão abre amanhã de cara nova: está maior e mais aberto ao diálogo. Até com os sons do Oriente TEXTO C R I S T I N A R A M A L H O FOTO DIVULGAÇÃO Gilles Apap, uma das maiores atrações: vai de Mozart ao folk. Toca de 19 a 22 de julho ntão aquele sobretudo preto volta a brilhar no inverno, tão clássico quanto a lareira, o fondue, a taça de vinho e com um pouco de sorte, um amor para dividir o chocolate. A nossa cenografia do inverno, ao menos a paulista, se completa com o tradicionalíssimo Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão. Começa amanhã a sua 41ª edição, embalando com elegância e cultura a cidade dos chalezinhos. Está de cara nova, um quê de janela aberta, a começar pelo seu tema, tão simpatico quanto abrangente: Diálogos. É, o festival resolveu papear com diversas vertentes, das mais clássicas às mais contemporâneas. Fosse moda, seria como um vestido de alta-costura bordado com uns desenhos contemporâneos, nos pés um sapato turquesa e aí o figurino ganha outro sentido. Estão na programação de mais de 80 concertos desde Gilles Apap, o violinista que toca Mozart e mistura folk e pitadas da Ásia ao grande pianista polonês Zbigniew Raubo, intérprete de Chopin e Rachmaninoff. De nomes tradicionais brasileiros como a genial pianista Cristina Ortiz aos jo- E Gilles Apap, nascido na Argélia, é surfista, mora numa cabana na Califórnia, não tem e-mail e nem usa celular. Pesquisa músicas folclóricas e as sonoridades da Irlanda, Índia e dos ciganos do Leste europeu. Sobe no palco de jeans e camiseta, um Jack Johnson dos eruditos vens talentos como o violinista Luís Otávio Santos. “Acho que podemos dividir a programação deste ano em três grandes categorias: a primeira, de nomes internacionais consagrados, e aí entram o Apap, o Arditti, o Albrecht Meyer, Marc Coppey, Maria João. A segunda, dos grandes nomes brasileiros, os veteranos como Nelson Freire, Antonio Meneses, Cristina Ortiz; e a terceira, com os talentos mais jovens como Fábio Zanon, Nicolau Figueiredo, Luís Otávio Santos e Alessandro Santoro, e o grupo Anima”, diz Silvio Ferraz, diretor de programação do Festival. O Festival ganhou em leveza, mas com consistência. “Isso sempre muda com apoio político, com diversos fatores, mas o Festival melhorou muito, particularmente nos últimos dois anos”, diz Fábio Zanon, um dos destaques que você não deve perder. (veja box). Entre as atrações, a mais fulgurante é mesmo Gilles Apap, que se apresenta do dia 19 ao 22. É o toque despenteado do festival: Apap, nascido na Argélia, é surfista, mora numa cabana na California, não tem e-mail nem usa celular. Venceu o concurso de jovens solistas do Menuhin Violin Competition e o falecido Yehud Menuhin se derramou em elogios ao pupilo. “É o violinista do século 21”, anunciou. Apap pesquisa músicas folclóricas, e as sonoridades da Irlanda, Índia, e dos ciganos do Leste europeu. Sobe no palco de jeans e camiseta, um Jack Johnson dos eruditos. E até quem não vai a concerto sem gravata elogia seu som. Gosta de música contemporânea? Não perca o Quarteto Arditti, inglês, um dos melhores grupos de cordas do mundo. São memoráveis suas performances de John Cage. Já tocaram até Stockhausen dentro de um helicóptero, numa apresentação aérea em Amsterdã, em 1995. Se apresentam segunda,7, e terça, 8. Da turma mais tradicional, não perca Albrecht Mayer, considerado o maior oboísta FOTO BRUNO SCHULTZE A dupla Luís Otávio Santos no violino (no alto) e Alessando Santoro no cravo: imperdível Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 | 17 uns cachecóis coloridos FOTO PHILIPPE GONTIER UM BANQUINHO, UM VIOLÃO, UMA SERENATA Da Inglaterra, o Quarteto Arditti é um dos melhores do mundo em música contemporânea da atualidade. É o principal oboé da Orquestra Filarmônica de Berlim, fez gravações famosas de Mozart e Handel. Toca nos dias 15 e 16. E tem aqueles acima do bem e do mal, como o violoncelista Antonio Meneses, um currículo inacreditável de prêmios e elogios, mas que neste ano ainda vem com o adendo de pela primeira vez se apresentar ao lado da pianista portuguesa (que mora no Brasil) Maria João Pires, outra na listinha das cerejas. Ela já ganhou, por exemplo, o Prêmio do Conselho Internacional de Música da Unesco (2002). Nos dias 8 e 9. Entre os mais jovens, se estiver na dúvida, vá de barroco. A dupla de brasileiros Luís Otávio Santos, no violino, e Alessandro Santoro, no cravo, vão tocar na Igreja Nossa Senhora da Saúde. Curiosidade: Alessandro é filho do maestro e compositor Claudio Santoro, que dá nome ao auditório em Campos.As igrejas, aliás, valem como ótima dica. Elas têm acústica perfeita e o cenário já prontinho para curtir aquela elevação dos sentidos. “O Anima, um grupo super interessante, que faz um crossover com Renascimnento e música folclórica, toca na São Benedito, igreja linda, de madeira escura, tudo se harmoniza, cenário e música”, fala Silvio Ferraz. A igreja da Saúde é uma caixa branca, clima de paz. A de Santa Terezinha, bem medieval, de pilastras altas. E se falta fé, pense nesse argumento: os concertos na igreja são de graça. Enfim, opção não falta. E música boa é como roupa de caimento perfeito: vai bem em qualquer estilo. 41º FESTIVAL INTERNACIONAL DE INVERNO DE CAMPOS DO JORDÃO DE 3 DE JULHO A 1º DE AGOSTO DE 2010 WWW.FESTIVALCAMPOSDOJORDAO.ORG.BR LEIA MAIS SOBRE O FESTIVAL NA COLUNA ‘BASTIDORES CULTURAIS’, DE CESAR GIOBBI O alemão Albrecht Mayer, da Filarmônica de Berlim, é o melhor oboísta da atualidade. Gravou versões famosas de Mozart e Handel. Os ingleses do Arditti, quarteto de cordas, já tocaram Stockhausen dentro de um helicóptero Abra qualquer site ou publicação de música erudita e no quesito violão você vai ver o nome do brasileiro Fábio Zanon, um dos grandes do momento. Quem escuta a rádio Cultura FM já conhece bem o seu nome: de 2006 a 2008 ele escreveu e apresentou o programa O Violão Brasileiro, uma série considerada marco no estudo do instrumento no país. Fábio, 44, casado´com uma jornalista brasileira e pai de dois filhos, vive na ponte São Paulo/Londres, e roda pela Europa e Estados Unidos em concertos importantes, como solista ou acompanhando grandes orquestras. Tocou, entre outros, no Carnegie Hall de Nova Iorque, na Philharmonie de São Petersburgo e nos maiores teatros do Brasil. Ele viveu na Inglaterra de 1990 a 2002, e hoje é professor convidado da Royal Academy of London. Seu repertório, que inclui muito Villa-Lobos (é dele o livro Folha explica; Villa-Lobos), passeia também com charme pelos compositores espanhóis, como FOTO HELOÍSA BORTZ Mario Castelnuovo-Tedesco, de quem ele apresenta uma peça inédita em concertos brasileiros: uma serenata. Fábio vai toca-la no domingo, 4, com a Orquestra Jovem do Estado, sob a regência de João Mauricio Galindo. Depois, na segunda quinzena do mês ele faz duas apresentações solo, nos dias 29 e 31, com uma suíte de músicas de dança, pura leveza. Ele está feliz com o momento da música erudita brasileira: “Dois grandes fatores contribuíram muito para a nossa evolução: o efeito Osesp, que mostrou que é possível ter uma orquestra de categroia internacional e impulsionou o crescimento de outras grandes orquestras brasileiras. E o efeito dos projetos sociais, como o Guri e tantos outros, que provaram como a O brasileiro Fábio Zanon, um dos grandes violonistas música ajuda na inclusão social”. da atualidade, faz duas apresentações em Campos 18 | Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 ELEITOS Peixe fora d’água IMAGENS DIVULGAÇÃO Ponyo — Uma Amizade Que Veio do Mar, do mesmo criador de A Viagem de Chihiro, trata com delicadeza e surrealismo questões como liberdade e amor incondicional eis meses depois de Avatar atrair multidões ao cinema, o que ficou na memória do espectador? O espetáculo visual em 3D em cenas como a chuva de águas-vivas (ou qualquer criatura Na’vi que o valha). Já a historinha de amor entre homem e ser de pele azulada... Melhor esquecer tamanha baba romântica, não é não? Talvez você se lembre de Avatar logo nas primeiras cenas de Ponyo — Uma Amizade Que Veio do Mar. Neste filme do mestre da animação Hayao Miyazaki, lançado no Japão em 2008 e que finalmente deverá entrar em cartaz no dia 16 de julho, há uma cena parecida com águas-vivas que desfilam graciosas pelo fundo do mar. Tecnologia versus desenhos feitos à mão. Claro que Avatar e Ponyo merecem ser observados por ângulos diferentes. S O carro moderninho de Lisa, mãe do menino Susuke Um representa Hollywood em termos de impacto visual e narrativa. Já o outro prefere a animação como pintura, a referência à estética dos mangás — foram necessários mais de 170 mil desenhos, muitos deles elaborados pelo próprio Miyazaki. Ponyo foi produzido no Studio Ghibli, de Miyazaki, no Japão. Contou com o aval da Disney para distribuição e dublagem com vozes estelares — Tina Fey, Matt Damon, Liam Neeson, Cate Blanchett. Chega aqui pela Playarte, e não pela Disney. Talvez um dos motivos seja o fato de não ter sido um sucesso nos Estados Unidos — estreou em nono lugar, aquém das expectativas de produções Disney. Azar o dos norte-americanos, pois o roteiro, escrito e dirigido por Miyazaki, de A Viagem de Chihiro (Oscar de animação em 2003) e Meu Vizinho Totoro (1988), mostra como é possível criar algo interessante a partir de histórias simples. Assumidamente inspirado em A Pequena Sereia, de Hans Christian Andersen, Ponyo narra encontro entre o garoto Susuke e um peixinho-dourado mágico. De uma amizade improvável nasce o desejo do peixinho de virar gente. A relação O peixe-dourado que tem olhos, boca, cabelo vermelho e nadadeiras quer virar um pingo — de gente De uma amizade improvável nasce o desejo do peixinho de virar gente. A relação entre os dois é poética e ingênua, mas passeia por temas como a aceitação Acima, Susuke e Ponyo, transformada em garotinha. Mais acima, Lisa é dublada por Tina Fey entre os dois é poética e ingênua, mas passeia por temas sérios como a aceitação quanto às peculiaridades do outro, o ciúme, o companheirismo. Pode-se dizer até que o filme faz uma analogia com a morte no momento em que os dois enfrentam o juízo final — a transformação completa de Ponyo em ser humano. Hábil na construção de personagens, Miyazaki apresenta uma surpreendente coadjuvante: a mãe de Susuke, Lisa. Ela oferece contraponto como uma mãe jovem e moderna, e vê a ligação sem preconceitos — o que seria um lugar-comum para um roteiro como esse. Esta não é exatamente uma animação para adultos, mas nos leva a pensar no quanto se perde esse olhar ingênuo ao longo da vida. Só uma recomendação: veja no cinema, porque é lindo — inesquecível, do começo ao fim. D A N I E L A P A I V A Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 | 19 A profundidade de Shrek é o 3D Filme que encerra a saga do ogro mais querido dos cinemas faz da crise de seu personagem, saudoso da velha ogrice, um item apenas secundário IMAGENS DIVULGAÇÃO ue Shrek é lindão e fofíssimo em toda a sua ogrice esverdeada, bem, nós já vimos em Shrek (2001), Shrek 2 (2004) e Shrek Terceiro (2007). Agora, prepare-se. Não é mais do mesmo dizer que ele continua tudo isso — e se estica em alguns centímetros em termos de belezura no anunciado desfecho da saga. Shrek para Sempre, cuja estreia nos cinemas está marcada para o próximo dia 9, encerra a oscarizada quadrilogia com um 3D fino, repleto de imagens encantadoras. Já quanto ao roteiro... Faltou um pouco de elegância — e ousadia. Claro que a animação da Dreamworks assegura a diversão de uma garotada cada vez mais acostumada em usar os óculos para o 3D nas sessões de cinema. Como haveria de ser, o roteiro é favorável ao arremesso de tranqueiras na cara do espectador. Uma bruxa leva porrada e, vlapt!, você desvia. Digamos que um pedaço de bolo espirrado por um murro de Shrek sujaria a roupa de um desavisado se estivéssemos falando de interatividade ao extremo (medo desse futuro, hein?). São recursos que, de certa maneira, atrapalham o resultado mais interessante do 3D no filme (este é o primeiro e único episódio filmado para a tecnologia). O visual ganhou um plus com a técnica. Assim, Shrek, Fiona e o novo vilão Rumplestiltskin, emprestado da literatura dos Irmãos Grimm, adquirem cores e contornos vivíssimos. Os cenários têm profundidade e textura, e constróem uma fantasia de livro de conto de fadas em formato pop-up. Enfim, aqui o 3D conquista um motivo de existência maior do que o de transformar o espectador em alvo de cacarecos. Já quanto à profundidade nos dramas de Shrek, pode-se dizer que o cinema de animação recente apresentou roteiros mais densos. O episódio final é dirigido por Mike Mitchell, estreante na série, e que tem no currículo filmes inexpressivos como Sobrevivendo ao Natal e Gigolô por Acidente. A história é a seguinte: Shrek encontra-se em crise com a escassez da própria ogrice. Ele virou uma espécie de celebridade local que não assusta ninguém, e sente saudade Q Acima, Shrek no colo da amada Fiona em momento happy end. Abaixo, carregado pelo novo vilão, Rumpelstilskin da juventude, do passado animalesco. E a vidinha caseira vai bem demais. O casamento com Fiona está em pleno happy ending , com três filhotes e uma casa cheirosa e limpinha (para um ogro, claro). Shrek é pintado como o retrato do homem acomodado que resolve se incomodar, por assim dizer. Aí vem Rumplestilskin, que lhe oferece um dia de ferocidade, e está armada a confusão com Fiona em apuros, um Burro pentelho como fiel escudeiro. E no meio tem um certo Cookie metido a engraçadinho... Bem, a mesma história de sempre. Em comparação aos dilemas de O Fantástico Sr. Raposo, outro desenho animado que lida com a meia-idade, Shrek não passa de um ogro bobinho. Quem acaba por roubar a cena é, mais uma vez, o Gato de Botas, que surge rechonchudíssimo — mais para Garfield do que para o atlético bichano de outros tempos. Ele protagoniza uma das raras cenas comoventes deste filme, que tem algo de sombrio e pode trazer à memória a Alice no País das Maravilhas de Tim Burton — o vilão Rumplestiltskin, à frente de um esquadrão de bruxas e viciado em perucas, lembra muito a Rainha Vermelha. A sensação é que Shrek não soube envelhecer. Apesar disso, ainda fica bonito na fita. D . P . Cinema em casa SIMPLESMENTE COMPLICADO Mulheres trocadas por gatinhas, uni-vos. Meryl Streep veio para executar esta divertida vingança. Ela é Jane Adler, ex-mulher de Jake (Alec Baldwin), que a traiu com uma mulher mais nova. Numa noitada, a certinha Jane experimenta o outro lado da moeda com o ex — o da amante. A confusão fica completa com o envolvimento de Jane e Adam (Steve Martin). Este filme simpático é dirigido e escrito por Nancy Meyers (Do Que as Mulheres Gostam). É de se esperar uma trinca afiada — Baldwin está em boa fase, Martin abandonou os excessos, e Meryl Streep... é Meryl Streep. A surpresa é o ótimo John Krasinski (da série The Office). Diversão fácil — e das boas. D.P. NOVA YORK, EU TE AMO O filme segue a mesma ideia bacana de seu inspirador, Paris, Eu te Amo (2006): contar pequenas histórias de amor, ou quase, tendo cidades apaixonantes como cenário. Na versão parisiense, cada caso acontece de uma vez e com uma fotografia própria. Nesta, os episódios têm um visual mais parecido e chegam a se misturar uns com os outros (o que confunde, mas não atrapalha). A opção de convidar não nova-iorquinos para a direção, como o chinês Wen Jiang ou o indiano e Bollywoodiano Shekhar Kapur, apenas traz para os bastidores o caldeirão de gente que é bem a cara da cidade. Depois de acompanhar desfechos inesperados, ácidos, engraçados e mais encontros que desencontros, você vai se sentir meio apaixonado por Nova York. Se já não for, claro. PHYDIA DE ATHAYDE O LOBISOMEM Este é um remake do filme de 1941 que atrai pelo somatório de currículos dos protagonistas — os oscarizados Benicio Del Toro e Anthony Hopkins. Sob a direção de Joe Johnston, de Jumanji e Querida, Encolhi as Crianças?, efeitos especiais não provocam nem calafrios. Dá vontade de rir dos quilos de linguiça arrancados de suas vítimas pelo bichão. Com um pouco de boa vontade — e uma certa atração pelas olheiras sexys envelhecidas de Del Toro —, chega-se ao final. Lobisomem que não quer ser lobisomem, versus lobisomem que quer ser Hannibal Lecter. Um embate que lembra o de O Advogado do Diabo, mas sem Al Pacino... Não deixa cicatrizes. D.P. 20 | Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 ELEITOS Vai encarar? Homens de cintura alta e shorts curtíssimos. A moda na temporada de desfiles masculinos de Milão e Paris propõe ainda bolsa a tiracolo e semitransparências. Um homem sem perder a ternura TEXTO N A T Á L I A M A Z Z O N I intura marcada, bolsa a tiracolo e bermuda de alfaiataria. E não estamos falando de moda para as mulheres. Os desfiles das maiores grifes masculinas,que aconteceram nas últimas semanas na temporada Primavera Verão 2011/12 em Milão e Paris, anunciaram um novo homem, que deixou para trás o visual apenas calça e camisa, e agora se arrisca — ao menos ali — nos acessórios e nos cortes mais elaborados e justos. Pelas passarelas europeias, o que se viu é um homem livre, talvez até demais. Shorts curtíssimos, bolsas grandes, semitransparências, cintos mais altos e modelagens extravagantes. A grife Givenchy trouxe referências vitorianas para as passarelas. Detalhes em renda e tecidos monocromáticos deram o ar de pureza. Tudo para mostrar que a moda masculina está cada vez mais delicada, sem se prender tanto na velha forma. Para o estilista João Pimenta, isso já vem sendo visto lá fora faz um tempo, e não aconteceu por aqui ainda porque “esse mercado é comercial demais”. Famoso por brincar com as modelagens, João Pimenta estreou no São Paulo Fashion Week deste ano com uma coleção que usou elementos femininos para criar roupas inspiradas no Brasil Império. Tudo para eles. E é nisso que ele acredita. “O mercado pensa que o homem tem o corpo quadrado, não explora as formas. É preciso mudar isso.” João diz que a principal razão do mercado de moda brasileiro estar ainda bem mais formal que o europeu é o medo das grifes de arriscar no homem moderno. “ Os estilistas não ousam, fazem roupas sem pensar que hoje existe um homem que quer consumir de uma maneira mais conceitual”. FOTO PATRICK KOVARIK C FOTO FRANCOIS GUILLOT Sandália, bolsa e short: o homem Louis Vuitton vai assim Delicadeza vitoriana nas roupas da Givenchy ‘Essas peças são usadas por tribos’, diz Ricardo Almeida. ‘Um homem que coloca um short de alfaiataria supercurto fica complicado, a mulher acaba duvidando da sexualidade dele’ A ausência do terno e gravata foi outro ponto notado nos desfiles. O conjunto completo foi substituído por camisas de tom mais informal e paletós. A marca Louis Vuitton, por exemplo, exibiu camisas com os primeiros botões abertos e as mangas dobradas. Na alfaiataria das italianas Versace, D&G, Giorgio Armani e Gucci, o que se viu foram jaquetas e blazers de cortes mais estreitos, com cara mais casual. Fato é que no próprio dia a dia os ternos já são cada vez menos vistos no guarda-roupa masculino. Ou pelo menos dos homens que trabalham em ambientes informais. Será que vão sumir do figurino cotidiano? O estilista Ricardo Almeida, dono da marca mais famosa entre celebridades e executivos poderosos, diz que não acredita que o terno saia de moda. “Aconteceu mesmo uma pequena saída das gravatas, mas mesmo assim, o homem de terno sempre vai trazer credibilidade, elegância, e isso não muda”. Sobre o uso de roupas mais conceituais pelo homem brasileiro, Ricardo é bem objetivo. “Essas peças são usadas por determinadas tribos. Um homem que coloca um short de alfaiataria supercurto fica complicado, a mulher acaba duvidando da sexualidade dele”. Bom, agora é esperar para ver se a moda pega. FOTO PATRICK KOVARIK Alfaiataria despojada foi uma das propostas da Louis Vuitton FOTO PATRICK KOVARIK Cintura alta inspirada nos astros dos anos 40, da Viktor & Rolf Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 | 21 FOTOS DIVULGAÇÃO Na neve, ninguém bate o Chile A temporada chilena de inverno acaba de começar. Na região do Vale Central, o vilarejo de Termas de Chillán é abrigo perfeito para viajantes iniciados e surfistas do gelo TEXTO G I U L I A N O C E D R O N I O aconchegante interior de uma taverna aquecida pelo sol do inverno sul-americano uase abraçados, eu e meu irmão dormíamos lado a lado na velha Toyota Bandeirante na tentativa de amenizar o frio. Era o inverno de 1993 e, vindos da Argentina, o cansaço nos fez encostar no não-acostamento de uma estrada de terra, depois da fronteira. Adormecemos no Chile sem ainda ver o Chile, pois tudo era breu. Talvez por isso, ao abrir os olhos na manhã seguinte, experimentei algo próximo de uma epifania. Bem à nossa frente, emoldurados pelo para-brisa do jipe, os impressionantes paredões de granito do Parque Nacional Torres del Paine — uma visão e tanto... Era minha primeira vez no Chile e eu me sentia bem, muito bem. De lá pra cá voltei ao país diversas vezes para trabalhar, surfar, esquiar, namorar, ou simplesmente conhecer um canto novo em busca de mais uma visão daquelas. O Chile reúne características preciosas para o viajante exigente. Pra começar, é completamente seguro e as estradas e trens são excelentes. Seus pescados e frutos do mar só encontram páreo no País Basco. A comida é tão forte e saborosa como em qual- Q O povo ostenta uma educação inglesa, porém com muito mais simpatia. As mulheres são lindas e menos histéricas que las chicas argentinas. O futebol é... Bem, não dá para ganhar em tudo quer canto da América Latina, mas o vi- para arrancar qualquer restinho de esnho está entre os melhores do mundo. O tresse que ainda possa existir em sua povo ostenta uma educação inglesa, po- carcaça. Some a isso uma taça de Carmerém com muito mais simpatia. As mulhe- nére, a famosa uva local, degustada ali res são lindas e imensamente menos his- mesmo, sob a vista do vulcão, e você será téricas que las chicas argentinas. O futebol uma nova pessoa. é... Bem, não dá para ganhar em tudo. “A estrutura da a estação não se abalou, A convite de um amigo que comprara mas claro que tivemos de vasculhar toda a um pequeno pedaço de paraíso chileno, lá montanha depois dos tremores em busca fui eu novamente, dessa vez para uma de possíveis fendas”, conta Gonzalo Naparte pouco visitada por turistas estran- varrete, um amigo chileno que vive no eixo geiros — a região do Vale Central. Ali estão Santiago-Chillán. Ele explica que o epias melhores terras do país, o que explica centro do terremoto — de 8.8 graus na estantas vinícolas pontuando a rota do tu- cala Richter, que atingiu o país em fevereirista acidental e sem pressa. ro deste ano — foi no mar e, portanto, a Chillán é berço de Bernardo O’Higgins, cordilheira pouco sofreu. O abalo fez 486 o fundador da República, uma cidade in- vítimas, um número considerado baixo teressante a cerca de 400 quilômetros da diante de seu potencial destrutivo. capital Santiago. Mais 80 quilômetros e O tremor só fez baixar os preços e deixar chega-se a Termas de Chillán. Se você já o Chile ainda mais forte. A cicatriz existe, teve o prazer de olhar para o lado e ver a está lá, mas riscou o país de forma discreta, Cordilheira dos Andes logo ali, ao seu al- como um rosto bonito que tem mais uma cance, sabe que se trata de uma experiên- história para contar. Sorte de quem se discia que rejuvenesce qualquer um. puser a ouvir. O vilarejo de Termas abriga viajantes iniciados, esquiadores comprometidos e W W W . N E V A D O S D E C H I L L A N . C O M surfistas da neve. Todos em busca dos pi- W W W . C H I L E A N S K I . C O M cos mais altos do vulcão Chillán. Ali foi instalada uma pista de esqui com jeitão suíço, tamanha a excelência e tecnologia. O teleférico corta hotéis charmosos como o Nevados de Chillán, e te leva a 28 pistas diferentes, uma delas a mais longa da América do Sul, com 2.500 metros. Depois de um dia intenso de atividade esportiva, uma piscina com água quente natural, repleta de “poderes curativos”, o acolhe sem medir esforços A estação tem 28 pistas para atender atletas de todos os níveis 22 | Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 ECONOMIA DE PALAVRAS Paulo Lima Soraggi São João vende voto Paulo Lima Soraggi é escritor, músico e graduado em letras. ‘Tio, quem vender mais voto vai ser a rainha da pipoca!’ Muitos brasileirinhos aprendem assim o significado de uma eleição. Bem cedinho em seus espíritos, entendem que o voto é algo que se compra e vende, como o álbum de figurinhas da Copa do Mundo. O sujeito pode ser o Rei da Seriguela ou o Senador da República. Não há problema se ele comprou a votação. Festa junina já era. Não toca Luiz Gonzaga. Só Bruno $ Marrone ILUSTRAÇÃO MAX E junho expirou com sua lufada de festas juninas. Nos tempos coloniais, “joaninas”, por causa das homenagens a São João, primo do Homem. Os folguedos que enfeitam nosso frio trazem a fogueira para os deuses das tradições célticas, os louvores à fertilidade das terras europeias, os santos do Vaticano, as danças da França e os acordeões de Portugal. Coube ao Brasil alinhavar o charme. O milho é o melhor ator dos sabores. O “mio” que debulha minhas lembranças nas labaredas da adolescência. A pamonha guardava seu miolo de queijo para o suspiro do finalzinho da delícia. Os bolinhos quentavam a mão da gente. Para fritar as ideias, melhor a cana. Minhas primeiras beiçadinhas na cachaça. Então minha coragem vinha. Era nas festas que as gatinhas da escola se transformavam em chiquinhas. E as músicas do Dominó não tinham vez. Quando minha mãe me ensinou que essas festas serviam para as moças arrumarem namorados, passei a dançar quadrilha. Eu teria um “par”, troço que a mim profetizava beijos e suas consequências profundas. Mas as meninas que dançavam comigo só beijavam os caras bons de vôlei. Elas jamais pelejariam para namorar um OVNI como eu, o pária que colocava Jesus & Mary Chain no som do colégio. O correio nunca foi elegante. Acordo do quentão da memória e penso no povo do Nordeste, que finca sua identidade nas festas de junho. São muitas as cidades que beliscam gastos de milhares de turistas. Os balões da economia regional ficam ainda mais multicores. Mas o aguaceiro passou e afogou muitas fogueiras na tristeza da perda de tantos lares e oportunidades. As imagens da TV emergiram hiroshimas borradas de lama. Todos os brasileiros ficaram de mal-estar. São João, o senhor tem a obrigação de resgatar a vida de quem te festeja com a maior sinceridade do Brasil. Junho passou e deixou as escolas em festa. O filho da gansa da Oscar Freire e a filha da lavadeira de Quixeramobim comeram canjica com os coleguinhas. Os alunos enforcaram as aulas em nome dos ensaios da quadrilha. Eles adoram. A quadrilha, ora, pois. Em muitas escolas públicas, sejam de qualquer esfera governamental, procedimentos estranhos levam crianças a arrecadar dinheiro para as festas juninas ou para a melhoria do estabelecimento de ensino. São as escolas “carentes”, adjetivo que me torra o saco na Lulândia das aposentadorias do Judiciário. Semana passada, no boteco onde esqueço a hérnia de disco, duas mulatinhas lindas se aproximaram de mim. Os olhos claros, meio puxadinhos, denunciaram que eram irmãs em seus cabelos de coques gêmeos. Calçavam chinelinhas gastas, mas os prendedores de cabelo tinham o rosa das infâncias femininas. “Moço, me compra um voto?”, disse a menina maior, olhando para o chão. Não entendi muito bem o que ela queria. Puxei papo. Perguntei o nome delas. Amanda. Alana. Nomes fofos em rima toante. Quis saber se gostavam da escola. “O que significa esse desenho na sua camisa?”. A conversa não rendeu. Elas só queriam saber do “voto”. Amanda me mostrou um papelzinho quadriculado. Cada xis marcado significava que ela tinha vendido um “voto” por 10 centavos. A menina explicou que a quantia ajudaria a escola na organização de uma festa junina. Assim teria ensinado a professora. Alana, que com seus dedos me contou seus 8 anos, revelou a raiz de sua marcação cerrada ao pedir dinheiro às 9 horas da noite. “Tio, quem vender mais voto vai ser a rainha da pipoca!”. Muitos brasileirinhos aprendem assim o significado de uma eleição. Bem cedinho em seus espíritos, entendem que o voto é algo que se compra e vende, como o álbum de figurinhas da Copa do Mundo. O sujeito pode ser o Rei da Seriguela ou o Senador da República. Não há problema se ele comprou a votação. Torço para que Amanda e Alana aprendam o real valor de uma eleição, pois, num futuro não muito distante, um candidato a vereador oferecerá a elas um saco de cimento em troca do voto de toda a família. Festa Junina já era. Não toca Luiz Gonzaga. Só Bruno $ Marrone. Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 | 23 PEQUENOS ABSURDOS Luís Colombini Boa reunião, companheiro Ex-embaixador e ex-professor da Universidade de Harvard, o renomado economista americano John Kenneth Galbraith dizia, trinta anos atrás, que “reuniões são indispensáveis quando não se quer fazer nada”. Pois o tempo passou, o mundo mudou — e taí uma coisa que continuou igualzinha. Seja ao vivo ou em conference calls, a maioria das reuniões ainda se parece com as assembleias do meu tempo de faculdade, nas quais se marcava reunião para, depois de muita discussão, marcar outra reunião. “Não sou nenhum estudioso do assunto, mas tenho a impressão de que nunca se agendou tanta reunião neste país”, diz um diretor de operadora de telefonia. “Na segunda-feira, dia do jogo do Brasil com o Chile, foram três de manhã. Depois do almoço, duas. E ainda teve um gaiato que queria fazer outra depois do jogo. O que o cidadão tem na cabeça?” E o que se resolveu nessas cinco reuniões? “Basicamente nada. As decisões ficaram para depois”, conta o executivo. Por que ocorre esse tipo de coisa? “Decidir compromete”, diz o diretor de uma rede de supermercados. “Se algo der errado, a culpa é de quem tomou a decisão. E ninguém quer se arriscar a perder emprego bom.” Há quem vá mais longe. “É tanta reunião que as pessoas estão desenvolvendo um mecanismo de defesa no qual elas parecem prestar atenção, enquanto, na verdade, estão com a cabeça em outro lugar. Filigrana jurídica, revisão de contrato, plano estratégico, reforma de site, proposição de marketing, curva de venda, a moda agora é envolver o máximo de gente em assuntos que a maioria dos presentes nem faz ideia do que está falando. Então, elas abrem a boca o mínimo possível, apenas para validar sua participação, torcendo para que o chefe sorria e ache tudo ótimo”, considera o executivo de uma grande empresa de varejo. Se esse é o seu caso, então vai gostar do que vem abaixo. Na semana passada, circularam pela internet duas tabelas gozando reuniões que não decidem nada. A primeira parte é brincadeira pura. A segunda pode ser útil. Eis a brincadeira, criada para espantar o tédio das reuniões: antes de começar, imprima o quadro abaixo. É um bingo. Sempre que ouvir uma palavra contida em alguma das casas, marque-a, discretamente, com um X. Há quem tenha preenchido tudo em menos de cinco minutos. Sinergia Follow-up Sistema Otimização Resultados Estratégia Recursos Integrar Foco Paradigma Agregar Benefício Pró-ativo Efetivamente Projeto Mercado Parceiros Business A nível de Implementação A segunda tabela, chamada “Como falar muito sem dizer nada”, foi inventada para impressionar nas reuniões que requerem participação ativa. Ela permite a composição de centenas de sentenças. Basta combinar, em sequência, uma frase da primeira coluna com uma da segunda, da terceira e da quarta (seguindo a mesma linha ou pulando de uma linha para outra). O importante é respeitar a regra de uma frase por coluna. Se fizer isso, o resultado sempre será uma sentença com sentido mas sem conteúdo. Ou seja, perfeita para a ocasião. Boa reunião, companheiro. Coluna 1 Coluna 2 Coluna 3 Coluna 4 Caros colegas, a execução deste projeto nos obriga à análise das nossas opções de desenvolvimento futuro Por outro lado, a complexidade dos estudos efetuados cumpre um papel essencial na formulação das nossas metas financeiras e administrativas Não podemos esquecer que a atual estrutura de organização auxilia a preparação e a estruturação das atitudes e das atribuições da diretoria Do mesmo modo, o novo modelo estrutural aqui preconizado contribui para a correta determinação das novas proposições A prática mostra que o desenvolvimento de formas distintas de atuação assume importantes posições na definição das opções básicas para o sucesso do programa Nunca é demais insistir que a constante divulgação das informações facilita a definição do nosso sistema de formação de quadros A experiência prova que a consolidação das estruturas prejudica a percepção da importância das condições apropriadas para os negócios É fundamental ressaltar que a análise dos diversos resultados oferece uma boa oportunidade de verificação dos índices pretendidos O incentivo ao avanço tecnológico, assim como o início do programa de formação de atitudes, acarreta um processo de reformulação das formas de ação Assim mesmo, a expansão de nossa atividade exige precisão e definição dos conceitos de participação geral É tanta reunião que as pessoas estão desenvolvendo um mecanismo de defesa no qual elas parecem prestar atenção, enquanto, na verdade, estão com a cabeça em outro lugar. Filigrana jurídica, revisão de contrato, plano estratégico, reforma de site, proposição de marketing, curva de venda, a moda agora é envolver o máximo de gente em assuntos que a maioria dos presentes nem faz ideia do que está falando 24 | Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 ESPORTES OPINIÃO Phydia de Athayde Batalha de ‘quase’ iguais No banco, só Dunga salva Conhecidos pelo futebol técnico e ofensivo, Brasil e Holanda se enfrentam hoje mais preocupados com a defesa. Neste quarto jogo em Mundiais, eles prometem um duelo equilibradíssimo, como sempre Chegou a hora. E vamos logo a ela — antes que uma eventual vitória da Holanda possa aniquilar um momento tão importante. É hora de falar que o Dunga é legal! Não digo que ele seja um cara culto, nem que saiba ser tão famoso, nem muito menos que tenha sequer a mais escassa consciência do papel social e político de um treinador da seleção brasileira. Não é por aí. Bem ao contrário, aliás. Dunga não quer lá muita consciência de nada. Quer apenas, como pareceu implorar à imprensa, “trabalhar em paz”. E nisso, na função de trabalhador do lado do campo, de responsável por escalar o time titular e fazer substituições de acordo com o andamento jogo, Dunga está se saindo bem. Para quem, como eu, subia pelas paredes de raiva do Parreira em 94, quando ele esperava até os 51 do segundo tempo para mexer, ele é um ás. Muda lá pelos 30 minutos. Ainda falta o pulso (ou a necessidade?) de fazer uma substituição no intervalo, e faltou tirar o Kaká antes do vermelho, mas Dunga não está mal. Gosto quando ele coloca o Nilmar, que (na minha ilusão de corintiana em busca de alguém familiar na seleção) ainda vai fazer um gol capaz de apagar aquele último, justo contra o Timão, no Pacaembu. Eu, que não sou evangélica, rezo tanto quanto o Jorginho para o técnico não precisar muito mais dos reservas Mas Nilmar é um papo menos estratégico. Dunga mandou bem ao escolher Ramires para entrar jogando, em vez de Josué, na partida contra o Chile. Fez o certo, o corajoso. E Ramires fez muito bem ao time. Dunga percebeu e, agora, assim como nós, está lamentando a suspensão do jogador (por ter levado o segundo cartão amarelo). Dunga decerto também lamenta a contusão de Elano, mas esta pode continuar fazendo bem ao time à medida que Daniel Alves cresce e fica com a vaga. Nessas já três semanas de Copa do Mundo, o time de Dunga mudou. Com os jogos, foi melhorando onde era mais necessário melhorar (Kaká e Luís Fabiano). Manteve-se no mais alto nível onde este já existia (Lúcio e Juan, a zaga mais sensacional das últimas décadas). E está, meio aos trancos (os dos adversários, que além de Elano tiraram nosso lento e bravinho Felipe Melo de combate), tendo de acertar o meio-campo. Até agora, Dunga tem se saído bem. Se, contra a Holanda, ele ousar com Gilberto e mantiver Daniel Alves, vou continuar gostando dele como técnico. Mas, é claro, tudo depende do jogo de hoje. E dos próximos. E eu, que não sou evangélica, rezo tanto quanto o Jorginho para Dunga não precisar muito mais dos reservas. Se é bom técnico, é péssimo escalador de banco. Deve ser uma visão do inferno precisar de um Ganso, um Ronaldinho, e olhar para um Kléberson daqueles. TEXTO G A B R I E L P E N N A e uniformes reluzentes, este selecionado nacional ostenta a tradição de um futebol técnico e ofensivo, com jogadores habilidosos e inteligentes. Na década de 1970, seu estilo imponente em campo impressionou o mundo. Hoje, porém, o grupo trabalha com uma filosofia diferente, mais pragmática, que prioriza o resultado em detrimento do espetáculo. Tem dado certo, pelo menos até aqui. Claro que o time conta também com a melhora física e técnica de seu maior astro, que acaba de se recuperar de uma séria contusão. Quem acha que estou falando do brasileiro Kaká está correto. Também não se engana quem pensou no atacante Arjen Robben, da Holanda. As semelhanças entre as duas seleções, que se enfrentam hoje pelas quartas de finais da Copa do Mundo da África do Sul, não são poucas e nem recentes. E justificam, em grande parte, o equilibírio histórico entre elas. Brasil e Holanda se enfrentaram três vezes em Mundiais, com um empate e uma vitória para cada. Nos jogos, uma profusão de oportunidades de ambos os lados, e a decisão em detalhes, ou nos pênaltis. “Os dois times sempre tiveram um poder ofensivo muito grande, e hoje é a mesma coisa”, analisa o tetracampeão Bebeto, que comenta a Copa D deste ano pela rede de TV árabe Al Jazeera. O ex-craque enfrentou os holandeses nas quartas, em 1994, e na semi, em 1998, mas se lembra com apreço especial da campanha do tetra. “Fiz um gol, dei o passe para o Romário e meu filho tinha acabado de nascer. O que mais eu podia esperar?”, recorda Bebeto. Para ele, porém, é a defesa brasileira que pode fazer a diferença desta vez. “Temos um time equilibrado e nossa zaga é a melhor da Copa”, completa. Assim como o Brasil, a nova Holanda não quer saber de arriscar demais. O contra-ataque talvez seja a arma mais feroz de ambas as equipes. “Podemos jogar bem, mas sem abrir a porta atrás”, garantiu o ex-jogador e auxiliar técnico da Laranja, Frank de Boer. Atualmente os holandeses jogam mais fechados e, quando roubam a bola, saem em velocidade com seis, sete jogadores. O melhor deles, o veloz Robben, avança pela direita e, com frequência, recebe a bola, corta pra dentro e chuta com sua canhota afiada. É deste lado, em que atua o duvidoso Michel Bastos, que a seleção pode provar do próprio veneno, a não ser que Felipe Melo, Josué ou Kléberson dêem uma boa ajuda. “O Brasil tem que evitar duas coisas: a fluência do Robben e a segunda bola do meia Sneijder. Quando ele pega a sobra, é fatal”, alerta o jornalista de sete Mundiais Silvio Lancellotti, comentarista da ESPN Brasil. Não se os craques Lúcio e Juan estiverem perto para impedir. ‘Os dois times sempre tiveram um poder ofensivo muito grande, mas hoje nossa defesa é a melhor da Copa’, avalia o Bebeto, tetracampeão mundial, carrasco de holandês e comentarista de TV FOTO ANTÔNIO GAUDÉRIO/FOLHAPRESS Ao lado de Mazinho, Bebeto comemora o segundo gol nos 3 a 2 sobre a Holanda, em 1994, e homenageia o filho Matheus, então recém-nascido Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 | 25 FOTO GERO BRELOER/AP PHOTO MUNDO DA COPA FOTO DA SEMANA Até o goleiro alemão Manuel Neuer viu que a bola chutada por Frank Lampard entrou em seu gol. O lance foi quase um replay às avessas do que ocorreu há 44 anos. Em 1966, os ingleses foram campeões sobre os alemães com um gol que não atravessou a linha. Desta vez a Jabulani bateu a 33 centímentros da marca, mas o árbitro Jorge Larrionda só foi ver no intervalo da partida, graças a uma das 32 camêras que captaram o lance. A Fifa se desculpou com os ingleses e lamentou que o erro tivesse ficado tão evidente. É, essas câmeras são fogo. WINNING ELEVEN Goleiro Richard Kingson (GAN) 1 2 6 3 4 Volante Ramires (BRA) 8 Volante Bastian Schweinsteiger (ALE) 7 Atacante Carlos Tévez (ARG) Zagueiro Juan (BRA) Zagueiro Lúcio (BRA) 5 Meia Thomas Müeller (ALE) 10 Atacante Lionel Messi (ARG) 11 9 Atacante Luis Suárez (URU) Atacante Miroslav Klose (ALE) Técnico: Dunga (BRA) Pé torto O zagueirão mexicano Osorio, abalado pelo gol ilegal, foi passar o pé por cima da bola e acabou entregando de lambuja para o argentino Higuaín fazer o segundo. Que lástima! Mão furada É verdade que o chute de Müeller foi forte e à queima-roupa. Mas o inglês David James literalmente desviou da Jabulani no terceiro gol alemão. Goleiro que tem medo de bolada não vai longe. Juiz ladrão O que resta ao uruguaio Jorge Larrionda (que não viu a bola inglesa dentro gol) e ao italiano Roberto Rosseti (que validou gol ilegal da Argentina) é culpar a Fifa pelos dois maiores micos da Copa. Troféu Bobueno “Neste jogo, quem perder pode ser campeão”, filosofou Neto, da Band, deixando claro que, assim como seu comentário, a partida entre Brasil e Portugal não significava nada. FRASE DA SEMANA “ O bolão é meu pastor E nada me faltará. Tudo fará sentido. Viverei na iminência de grandes descobertas, de reviravoltas monumentais. Não haverá tempo ruim. Não haverá tédio ou desgosto. Cada segundo guardará a promessa de algum tipo de transcendência, de uma vida recheada de aventuras prodigiosas. Eu não sei onde estive com a cabeça, por que insólitas paragens andei divagando, para não perceber o potencial mágico do bolão. O hábito da aposta, eu sei, é mais velho que andar pra frente, mas só agora atentei para as suas maravilhas curativas, suas múltiplas e infinitas aplicações. Os ingleses já sacaram isso faz tempo. Na ausência de grandes alegrias esportivas, os inventores do futebol se contentaram em transformar a vida em loteria. E quem poderá dizer que eles estão errados? Com bolão, Honduras x Suíça pode gerar emoções dignas de Brasil x Argentina OS TRAPALHÕES Depois de uma primeira fase pra lá de modorrenta, as oitavas de final trouxeram, enfim, emoções e bom futebol. O nível aumentou e complicou a escolha. Nesta lista, já há fortes candidatos à seleção dos melhores da Copa, concorda? Lateral-direito Philipp Lahm (ALE) Chico Mattoso O Brasil tem uma arrogância positiva, que nós também deveríamos ter Bert van Marwijk, técnico holandês, invejando a capacidade brasileira de trocar as chuteiras pelo salto alto. Fiquemos com o exemplo da Copa do Mundo. Ninguém assiste a Suíça e Honduras por amor ao esporte, mas, se o sujeito tiver tascado um golzinho hondurenho no bolão, a partida gerará palpitações dignas de um Brasil e Argentina. É claro que ainda somos amadores, e nos limitamos a apostar no resultado das partidas. Lesões, gols contra, bolas na trave, chutes para a lateral — tudo, no universo do palpiteiro, pode ser objeto de especulação, ganhando significação repentina, alçando-se ao posto de experiência fundamental. A propagação do bolão mudaria nosso jeito de ver as coisas. Mesmo os erros de arbitragem, essa praga insuportável cuja pior conseqüência é gerar horas de debate sobre assuntos absolutamente pueris e enfadonhos, ganhariam outra dimensão. Esqueçam a tecnologia, o chip na bola, a International Board. Esqueçam também os comentaristas esportivos, as análises táticas, os editores metidos a Armando Nogueira melecando nossos ouvidos de poesia pré-escolar. Ao abraçar o palpite, a Copa do Mundo limparia seus excessos, reduzindo-se a seus valores primordiais. É claro que as implicações do bolão vão muito além da questão futebolística. Desconfio que nem mesmo os problemas existenciais mais profundos resistiriam à fabulosa simplificação promovida pela cultura do jogo. Até a morte, pensando bem, poderá perder um pouco de sua cara feia — a não ser, é claro, que ela resolva contrariar as previsões e chegar antes da hora. Mas a maravilha desse universo é que não há aposta que não faça alguém feliz. ChicoMattosoéautorde LongedeRamiro (Editora 34) e colunista da seção Provocação, no Outlook. 26 | Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 VIDA Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 | 27 “Clark Gable, Gregory Peck, Cary Grant. Queria ser esses caras” David Cardoso TEXTO C R I S T I N A R A M A L H O FOTOS A N T O N I O M I L E N A Homem que é homem não come suflê, já dizia o Veríssimo. Homem que é homem, se estiver acima dos 40 anos, com certeza já viu — e invejou — o David Cardoso em cena. Ele é que era homem naqueles filmes todos com as mais saborosas, mais curvilíneas, mais rebolantes mulheres do cinema nacional. Pense só: Vera Fischer. Matilde Mastrangi. Nicole Puzzi. Zaira Bueno. Helena Ramos. Hummm... Todas só para o David, que em 1977, num único filme, reuniu quase duas dezenas delas dentro de um ônibus, batizou de 19 Mulheres e Um Homem (é, o homem não divide) e estabeleceu um recorde sem precendentes. Não é o que você está pensando. Ele bateu todas as cifras de bilheteria: US$ 2 milhões, filas de dar voltas no quarteirão, num tempo em que não se usava lei de incentivo e isso era número paraTitanic. Fosse hoje, David Cardoso seria alvo de uma raivosa ação da imprensa feminista. Há poucos anos foi mesmo alvo de processo graças a um pecado que homem não resiste a cometer: contar que transou com a moça. Ela, já casada e crente que perdeu a memória, não achou graça no caso. O ator, produtor e diretor David Cardoso, 76 filmes, oito novelas, seis peças de teatro, viu-se, então, em posição que poucos homens teriam coragem de encarar: posou nu para uma revista, a G Magazine. Precisava pagar a dívida. Falou demais. “Eu sempre disse tudo, arrumei muitos problemas, minha vida é um livro aberto”, diz David, 67, ho- nesto, numa hilariante entrevista ao Outlook, feita em São Paulo, no apartamento da sua ex-mulher, Evelise, mãe de três dos seus quatro filhos. David, nascido em Maracaju (MS) mora hoje no Pantanal. É homem de fazenda, de andar armado (“Nunca atirei, mas não fico sem meu 38”), fazer churrasco. Só toma uísque. Ele andou sumido, e no último ano ressurgiu, homem de fibra: foi convidado para atuar em quatro filmes de novos cineastas, dirigiu um curta contando sua infância, e está no esperado Cabeça a Prêmio, de Marco Ricca, vencedor como melhor filme no Brazilian Film Festival de Los Angeles, com estreia nacional no dia 20 de agosto. Também em agosto, no dia 17, David será homenageado no Espaço Unibanco, e ali vai exibir um filme que dirigiu em 1988, Estou com AIDS. A renda vai para a ONG Pelavida. É a faceta generosa de David, também preocupado com ecologia e a vida dos animais. (Não se engane. Homem como o David pega caçador de jacaré na raça: quando tinha avião, ele levava fiscais do Ibama para capturar os bandidos, e hoje ainda denuncia os absurdos que vê contra a natureza.) Sim, David teve três aviões, que ele pilotava, um olho na pista, outro na mulher ao lado. Foi agente do Maguila nos ringues. Sempre fez halterofilismo. Ganhou títulos como o Rei da Pornochanchada, que batiza sua autobiografia. Ele queria ser Clark Gable. Só tem ídolos homens. Mulheres são legais, mas às vezes trazem encrencas. 28 | Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 VIDA V Você acaba de dirigir Maria Fumaça, um curta sobre a sua infância. Por que resolveu falar dessa época? Queria fazer algo para as crianças. Todo menino lá pelos 8, 10 anos, se pergunta o que vou ser quando crescer, ah, quero ser jornalista, ou quero ser cineasta, eu fiz isso para mostrar que não se pode desistir do sonho. Estou exibindo em escolas, e outro dia eu dei uma palestra numa classe, um menino levantou a mão e disse que queria ser motorista de caminhão que nem o tio dele. A turma vaiou. Eu falei: “Não vaiem não, eu tenho um primo que é motorista de caminhão e ganha mais do que eu, ele ganha R$ 15 mil por mês, porque investiu no sonho dele”. É mentira, mas é para todo mundo acreditar que o sonho é possível. Como você foi parar no cinema? Eu vim para São Paulo com 9 anos, aqui fiz o primário, morava com uma tia minha, depois voltei para fazer o ginásio lá no Mato Grosso. Mas quando estava em São Paulo essa minha tia dizia assim: “Você não precisa tirar 100” (na época não tinha nota dez, era 100), “se tirar 70, eu te levo ao cinema”. Nós morávamos ali na (avenida) São João, tinha 11 cinemas perto. Uma vez ela me levou ao Cine Metro para ver Mogambo, com o Clark Gable, aquilo era demais. Foi fazer compras e me deixou lá. Quando voltou, eu estava chorando, emocionado. Tinha visto o filme mais lindo do mundo. No dia seguinte, eu estava de férias, e quis ir de novo, mas ela ia passar o dia fora, não podia me buscar. Então fez para mim um sanduichão de mortadela com manteiga Aviação, peguei aquele lanche enorme, dividi em quatro e fiquei o dia inteiro no cinema. E no outro dia também. Vi Mogambo 26 vezes. O Clark Gable é um dos meus grandes ídolos, tinha uma presença, homem de hoje não é assim. Olha, conheci o Robert de Niro em Nova York e depois nas filmagens de A Missão (1986). Ele é o máximo, sou fã, mas não posso compará-lo com o Clark Gable, o Tyrone Power. Veja o Dustin Hoffman, é um puta dum ator, mas é um anãozinho, não é o Gregory Peck, o Cary Grant. Eu queria ser igual a esses caras. Não pensava no cinema brasileiro, e fui tentar Hollywood. Você foi mesmo para Hollywood? Eu era modelo, desfilava o (estilista) Minelli pelo Brasil, a gente viajava. O Clodovil e o Dener faziam as roupas femininas, e o Minelli fazia moda masculina. De modelos éramos eu e o Francisco di Franco, amigo meu que apresentei e virou galã, e o Caçador, que mora em Cuiabá. Os desfiles eram um acontecimento. Tinha a Leny Eversong cantando, o Cauby. Assim consegui ir para os Estados Unidos. Mas Hollywood não deu, né... E você surgiu mesmo com o Mazzaropi, não foi? Eu estava morando de novo no Mato Grosso, fazendo o exército, quando ganhei um concurso dançando rock’n’roll. O prêmio era uma passagem para São Paulo. Peguei o avião e fiquei aqui de vez, morando de novo com minha tia. Aí arrumei um emprego na Folha de S.Paulo, fazendo pesquisa, e um dia falei da minha loucura de fazer cinema para um amigo meu do trabalho, o Fernando. Ele me disse que o pai dele tinha um amigo, o Mazzaropi, e escreveu um bilhete me apresentando. Na PAM filmes, o Mazzaropi me recebeu com aquele jeito dele (imita Mazzaropi, revirando os olhos, carregando no sotaque): “Você é bonitão, Carrdouso. Parece o Alão Delão (Alain Delon). Que que cê sabe fazer?” E eu, caipira: “Qualquer coisa, seu Mazzaropi, sou Continuísta, ele chega junto dà câmera Mitchel em Meu Japão Brasileiro (1964) de Maracaju, vim para trabalhar”. Aí ele me indicou para a produção e eu consegui um emprego de continuísta, ficava anotando tudo. Tem uma história que o Mazzaropi se apaixonou por você. Ele nunca avançou, mas me cantava. Uma vez falou assim: “Óia, vou começar um filme agora, O Lamparina (1964), vai lá em casa e ocê vira galã da noite para o dia”. Mas fiquei de técnico, não fui. Acabei fazendo uma ponta em cena, que mal dava para ver. Um dia, na filmagem, ele estava passando e falei “good morning”, e ele: “O que ocê disse?” E eu: “Bom dia em inglês”. Bom, dali uns quatro dias um caminhão dele estava atravancando a rua, o motorista sumiu, e eu tirei o caminhão para ele. Mais tarde, ele me chama: “Hummm, Carrrdouso, tô com uma ideia, eu preciso de um homem que fala inglês e dirige caminhão”. Imagina, ele só me viu falando good morning, era tudo o que eu sabia. Mas o melhor foi o dia que ele me convidou para um almoço que seria uma festa, cheguei lá e era só eu. Ele botou um bolero e começou a dançar comigo, eu não sabia o que fazer. Encostou a cabeça no meu peito e falou: “Carrdouso, vamo viajá Mazzaropi me convidou para uma festa, cheguei lá e era só eu. Ele botou um bolero e começou a dançar comigo, eu não sabia o que fazer. Botou a cabeça no meu peito e falou: ‘Carrrdouso, ocê quer viajar comigo?’ Para onde? ‘Ah, volta ao mundo, Estados Unidos, Beirute, Curitiba’ Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 | 29 pelo mundo?”. E eu: Para onde, Mazza? E ele: “Ah, viagem pelo mundo, Estados Unidos, Beirute, Curitiba...” (risos) O que me salvou é que na hora chegou gente da equipe de filmagem. Conta a verdade: no fim, como você virou galã? Ainda trabalhei muito de continuísta. Eu cuidava de tudo, um trabalho chato, dificílimo, você termina a sequência hoje, fica com tudo na cabeça para a filmagem do dia seguinte: altura de câmera, distância do foco, todos os detalhes. O diretor do Mazzaropi me apresentou para o Walter Hugo Khouri, que ia começar Noite Vazia (1964). Fiz uma ponta no filme. Mas seguia fazendo de tudo em cinema — de continuísta a diretor de produção, produtor executivo, só não maquiei, mas o resto fiz de tudo. Ia de um universo a outro: do Mazzaropi para o Khouri, depois Mazzaropi de novo, Khouri, já como ator, em Corpo Ardente (1967). De galã estreei em Férias no Sul, com a Elizabeth Hartmann, mas o filme não aconteceu. Estourei mesmo em A Moreninha (1970), direção do Glauco Laurelli, e estreia da Sonia Braga no cinema. Gozado é que na TV quem fez meu papel foi o Mario Cardoso, galã, meio parecido comigo, a mesma idade, as pessoas confundiam, nós dois fazíamos fotonovelas naquelas revistas tipo Sétimo Céu. O que eu queria mesmo era ter a minha produtora, ser o Darryl Zanuck (grande produtor de cinema, criou a 20th Century Fox). Mas fui fazendo cinema, novelas como O Grande Segredo, na TV Excelsior, com direção do (Walter) Avancini e o Silvio de Abreu (autor da atual Passione) como ator. Só depois fundei a Dacar, produtora com as iniciais do meu nome, em 1973. Meu primeiro filme foi Caçada Sangrenta. Mas você já tinha essa ideia de mulher pelada na tela, sabia o que queria ou isso só veio depois? No começo eu não tinha coragem de dirigir, não sabia nada, e cometi de cara um erro: fui filmar no meu estado. Santo de casa não faz milagre. Chamei o Ozualdo Candeias para dirigir, grande diretor, intelectual, hermético. Eu já tinha sido ator dele em A Herança (1970), baseado no Hamlet , a Ofélia era negra, super elogiado. Falei: você vai dirigir, mas eu preciso de mulher pelada. Eu sacava que isso ia dar grana. Hoje tudo aquilo seria super inocente, não tinha nada de sexo explícito. Era a época da censura braba, não podia aparecer mulher de frente, muito menos homem. O Candeias fez, tinha a Marlene França, eu fui ator e produtor, mas o filme não aconteceu. Fiquei num beco sem saída, porque a grana não voltou. Aí pensei: vou fazer um filme que tenha sexo, mas com história, começo, meio e fim, com outro diretor, do jeito que eu quero. E inventei o Jean Garret. O Raul Cortez e o Paulo Autran foram Inventou como? me ver no palco. Era um português, Jean Gomes e Fiquei com vergonha Silva, fotógrafo de fotonovela da e comentei com revista Melodias . Mudou o nome para a Fernanda Jean Garret. Falei: dirige aí, que no Montenegro que primeiro filme te dou 5% da sofria por saber que bilheteria, no segundo 10%, e assim eu nunca seria igual por diante. Ele nunca havia dirigido, mas tinha um tino, sabia enquadrar, a eles. A Fernanda eu vi que daria certo, e não deu outra. me disse: ‘David, Peguei emprestada a casa do senador você é jacu, nunca Pedro Piva e fiz A Ilha do Desejo . será como eles, Em 30dias eu tirei o dinheiro. Aí veio mas pense que eles o Possuídas pelo Pecado (1976) , também nunca serão e o meu maior sucesso, 19 Mulheres como você’. Relaxei e Um Homem (1977) — minha estreia como diretor. Aí deslanchou, fiz um filme atrás do outro, comprei avião, fazenda no Pantanal, um vidão. 30 | Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 VIDA Matilde Mastrangi fez oito filmes comigo. Uma vez, fomos para Portugal, não tinha lugar em hotel nenhum e tivemos de dormir na mesma cama. Mas ela tinha namorado, eu estava com uma moça, não fizemos nada, sempre fomos grandes amigos. A Vera Fischer, linda, a mulher mais linda do cinema, eu que lancei. Essa eu namorei. E lancei Zaira Bueno, Nicole Puzzi. Mas esse negócio de mil mulheres foi um jornalista da Playboy que fez uma entrevistona comigo e deu esse título na capa. Uns dez anos depois ele estava em outra revista, quis fazer outra matéria e dar o mesmo título. Falei: “Bota umas 30 a mais aí, senão vão achar que nunca mais comi ninguém” (risos). Mas, sério, achavam que eu transava as atrizes, e isso não é verdade. Sua autobiografia tem orelha de Rubens Ewald Filho, textos de Pelé e Anselmo Duarte Você que bolava as histórias e dava esses nomes para os filmes? Dava os nomes, tinha as ideias, mas nunca soube escrever. Meu roteirista, genial, era o Ody Fraga. Depois que ele morreu, quebrei. O Ody era um intelectual que nem o Candeias, mas sabia escrever linguagem popular, não tinha preconceito. Tinha filho para sustentar e por isso topava qualquer coisa. Ele mostrava o roteiro, eu dizia corta isso, faz assim, ele fazia. 19 Mulheres e Um Homem eu bolei quando viajei de ônibus leito para Campo Grande. Tinha 19 lugares, fiquei imaginando eu ali de motorista levando as mulheres para o Paraguai. Em 90 dias de bilheteria fiz US$ 400 mil. Fiz US$ 2 milhões com esse filme. O Renato Aragão se gabava de fazer, na época, US$ 2,5 milhões com um filme. Mas eu ganhava, porque o meu era censura 18 anos e não tinha a Globo para vender minha imagem. As atrizes dos seus filmes eram a Matilde Mastrangi, a Vera Fischer, a Helena Ramos. Você saiu mesmo com mil mulheres? Nada, eu trabalhava demais, era diretor, produtor, ator, cuidava de tudo. Olha, a 1 Então você é um romântico? Acho que não. Nunca dormi com uma mulher, fazia o que tinha de fazer e cada um ia para o seu quarto. Sempre tive dois quartos, dois banheiros, acho que por isso as mulheres todas sumiram de mim. Sou ruim de cama, todo mundo diz que dá duas, três, eu só consigo dar uma, demora um tempo para outra. E tenho ejaculação precoce, mal a mulher chega, já fico louco e vai rápido. Uma vez aconteceu uma loucura: eu tinha de gravar O Homem Proibido no Rio. Saí do Pantanal com a minha namorada, o avião engasgou um pouco, parei na pista para esperar e ela quis transar ali, transamos. Cheguei em Congonhas, comprei uma revista Amiga em que eu tinha saído na capa, e uma fila de meninas estava esperando por mim para fazer testes para os meus filmes. Uma delas eu já estava a fim, ela acabou ficando para almoçar no meu escritório. Pedimos comida, e eu sempre tive cama no escritório, morava ali. Transamos. No fim do dia peguei outro avião para o Rio, gravei, e fiquei com outra menina. Quer dizer, sem combinar, transei três mulheres em três estados diferentes no mesmo dia! (risos) Você foi galã na Globo, foi galã na Bandeirantes, mas fez pouca TV. Fui o galã de O Homem Proibido (1982), junto com o Edson Celulari, a Lidia Brondi, a Elizabeth Savalla. Na Band eu tinha feito Cara a Cara (1979), do Vicente Sesso. Eu estava em Nova York, e ele me ligou: “Vem pra cá que escrevi 2 uma novela para você, é o papel principal”. Falei que não, e se não gostasse? Ele me disse: “Todo mundo da Globo veio para a Band, sua mãe vai ser a Fernanda Montenegro, se você não gostar damos a passagem de volta para Nova York”. Fui e adorei. A Fernanda era maravilhosa, eu morria de vergonha de atuar com ela. Na época, fiz uma peça de teatro, Os Homens, e o Paulo Autran e o Raul Cortez foram me ver no palco. Falei com a Fernanda que eu sofria porque nunca seria igual a eles, e ela disse assim: “David, você é jacu, nunca será como eles, mas pense que eles também nunca serão como você”. Aí eu relaxei. Mas demorei mesmo para fazer televisão. Recusei muito no começo, porque o Mazzaropi me falava assim: “Carrdouso, ocê já viu Marrrlão Brando fazer TV? Já viu o Gregory Peck?” Ele falava os nomes errados, mas queria dizer que o dinheiro, o estrelato, estava no cinema. Achei isso por muito tempo. Você voltou para uma novela da Globo há pouco tempo. (Da Cor do Pecado, em 2004) Fui do núcleo da família Sardinha, com aquela atriz sensacional (Rosi Campos), o Sidney Magal, o Pedro Neschling, o Cauã Reymond, uma gente muito legal. Os caçadores de jacaré não dão tiro que é para a polícia não ouvir. Metem a marreta no bicho, fazem muita crueldade. Já ajudei a pegar muitos bandidos desses. Eu ia no meu avião com o fiscal do Ibama. Meus amigos me falavam: ‘Para com isso, David, você vai ser morto’. Mas eu não consigo O que aconteceu que você parou com o cinema, não produziu mais, só voltou agora, em participações especiais como ator? Eu paguei o preço por falar demais. Falo o que eu acho, você está vendo — pergunta e eu respondo. Reclamei da sacanagem que fizeram comigo em Pantanal. Arrumei tudo para fazer a novela: arrumei fazenda, avião, apoio, e me passaram para trás. Reclamei da bandidagem do cinema, do Luís Carlos Barreto que rouba um monte, dos cineastas cariocas que têm cobertura na Vieira Souto. A Embrafilme sempre roubou, sempre teve corrupção, mas de uma coisa, uma só, tenho saudade do regime militar: a censura cortava, mas você exibia o seu filme, tinha uma lei de proteção. A cada oito filmes estrangeiros, os cinemas eram obrigados a passar um nacional. Hoje diminuíram os cinemas, no interior não tem mais, ficou caro. E eu também fui um produtor muito honesto. Pagava todo mundo, trabalhava só oito horas 4 6 3 5 7 Cenas de um sedutor: 1. Com Vera Fischer, em Sinal Vermelho, As Fêmeas (1971); 2. Com a princesa Ira de Furstenberg em Desejo Selvagem (1979); 3. A mulher Evelise e o filho James, com o Rei Roberto Carlos. Foi David quem produziu A 300 km por Hora (1971); 4. Com Alain Delon, como quem era sempre comparado; 5. Valsando com Sonia Braga em A Moreninha (1970); 6. O corpão de halterofilista em O Dia do Gato (1988), com Marisa Sommer; 7. No auge, com os amigos Pelé e Carlos Alberto Torres Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 | 31 por dia. Não tinha patrocínio, lei de incentivo, nada. Fiz mais de 70 filmes, e só tive ajuda em três — do José Ermírio de Moraes e do comandante Rolim. Seus filmes não tinham sexo explícito? Como ator eu não faria, não tenho coragem. Produzi alguns, com pseudônimo, mas os meus filmes tinham história, começo, meio e fim. Se eu tivesse feito mais explícitos, teria mais dinheiro. Perdi o bonde. Mas você posou nu numa boa para a G Magazine, seu filho também, sua filha posou nua na Sexy... Normal, fiz para pagar uma dívida de um processo porque falei demais. O Davizinho posou, a Tallyta, numa boa, é um trabalho honesto. Não aguento hipocrisia. Tem aquelas mulheres que falam: “Ah, posei mas foi na Índia”. Minha filha, o cara que abre a revista quer ver a perereca, na Índia, no Tatuapé, é a mesma coisa. Vamos a um tema mais ecológico, mas sem perereca. Você sempre se preocupou com o meio ambiente, né? Sempre. Quando criança, eu matava rolinha, preá, mas depois fui tomando consciência. Ninguém me ensinou, fui vendo as coisas. Sabe como os bandidos matam jacaré? Não dão tiro, que é para a polícia não ouvir. Então vão com uma lanterna, olham os bichos com os olhos arregalados, e Tum!, metem a marreta nele. Fazem muita crueldade. Já ajudei a pegar muitos bandidos desses, eu ia no meu avião com o fiscal do Ibama. Meus amigos me falavam: “Para com isso, David”, o John Herbert dizia: “Você é uma bosta de um ator pornô, não tem nada de se meter nisso, vai ser morto”. Mas eu não consigo. Peguei vários caras, denunciei matanças de peixes, de todos os bichos, não posso ver ninguém maltratando animais. Como está a sua vida hoje? Tranquila. Estou casado com a Rô, professora, tenho um filho pequeno, o Oswaldo, de 9 anos. Só falo inglês com ele, não sei falar direito, mas já dá para ele ir sabendo alguma coisa. Fico fazendo churrascos, sou simples. Se eu pedir lagosta e não tiver, peço bife. Não tem? Como mortadela, não ligo. Vivo de aluguéis, tenho minha fazenda, mas não posso mais ter avião, as coisas mudaram. Não perdi dinheiro, mas não ganhei mais. Seu maior momento no cinema? Em Sedução (1974), do Fauzi Mansur, com a Sandra Bréa e o Ney Latorraca. Eu era o ator principal. E a sua volta agora? Nos últimos 18 meses fiz cinco filmes. La Guerra de Los Niños, sou um general na injusta guerra do Paraguai; Corpo Presente passou na TV Cultura agora; Deus Grego; e o Cabeça a Prêmio, ótimo, conheci a sobrinha da Sonia Braga (Alice), muito legal. MAKING OF Fazendo agora um balanço da vida: você conseguiu realizar os seus sonhos? Eu queria ser o Tony Ramos, que só teve uma mulher, a vida correta, ótimo ator. Não foi atrás de bandido, não pilotou avião... bom, vai que ele tem inveja de mim, né? Acho que dá para dizer que nunca ri tanto numa entrevista. David Cardoso imita todo mundo, e sua performance de Mazzaropi é impagável. “Quando fiz (o seriado da TV Globo) Carga Pesada, o (Antônio) Fagundes se dobrou de rir no chão com minhas caras de Mazzaropi”, ele me dizia, enquanto eu tentava me recompor. Conversamos por três horas no apartamento da sua ex-mulher, Evelise, em Higienópolis, São Paulo. Até hoje eles são grandes amigos. Ela foi à sala dar um oi, assim como sua filha, Tallyta, e o filho, David Jr.. Me surpreendi com o quanto ele me pareceu autêntico. Fala de tudo, muito rápido, até absurdos, fica amigo logo, tem a grande (e rara) capacidade de rir de si mesmo. Difícil foi tirar a gravação: eu só escutava gargalhadas. Minhas e dele. FOTOS DIVULGAÇÃO FIM DE PAPO Onde os fracos não têm vez David Cardoso, nesta cena acima, abre o filme Cabeça a Prêmio, de Marco Ricca, baseado no livro homônimo de Marçal Aquino e que estreia em agosto. Faz um radialista cheio de moral, conservador, mas que na real é um pedófilo. Não tem vez na história: é assassinado (veja no detalhe ao lado) pelo personagem de Eduardo Moscovis. “O David, gostem do estilo ou não, é um grande representante do nosso cinema. Conseguiu resistir, fez um monte de filmes, é a nossa história, um ator muito interessante. Está espetacular no filme. No livro do Marçal, o personagem é maior, no filme precisei reduzir, mas adoraria trabalhar com o David de novo”, fala Marco Ricca. O filme traz gerações de atores importantes, como Fulvio Stefanini (“Adorei reencontrá-lo”, diz David) e a jovem e internacional Alice Braga. “A tia dela, a Sônia, estreou no cinema ao meu lado, no meu primeiro papel de galã que estourou, em A Moreninha (1970).”