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SEXTA-FEIRA, 2, E FIM DE SEMANA, 3 E 4 DE JULHO, 2010 | ANO 2 | Nº 215 | DIRETOR RICARDO GALUPPO | DIRETOR ADJUNTO COSTÁBILE NICOLETTA
R$ 3,00
Aviação
Outlook
Ele fez mais de 70 filmes. Sem lei de Companhias estrangeiras querem
incentivo, sem patrocínio, sem nada ocupar mais espaço no céu brasileiro
Redescoberto pelo novo cinema nacional, o ator e
produtor David Cardoso só queria ser Tony Ramos.
Qatar Airways, Aegean Airlines e Copa são algumas
das que ampliam a disputa por passageiros. ➥ P20 E 32
Genética vira aliada da economia
para enfrentar envelhecimento
Análise do DNA poderá prever longevidade da população, com benefícios para Previdência, saúde e indústria do consumo
Estudo publicado hoje por cientistas da
Universidade de Boston decifra o primeiro código genético de um grupo de pessoas com mais de 100 anos de vida. O ba-
rateamento do uso da genética abre caminho para que indivíduos possam descobrir a própria longevidade e se preparar para uma vida mais saudável. No Bra-
sil, os mercados de serviços financeiros e
consumo começam a se adaptar ao envelhecimento da população, que acrescenta
desafios às políticas públicas. ➥ P4
Tabelas para aposentadoria
privada passarão por atualização
demográfica a cada cinco anos.
Márcio Mercante/O Dia
As cariocas Ana
Caroline (à esq.) e Alice:
dobradinha pelo hexa
Brasil enfrenta a Holanda
com dúvida no meio-campo
Três jogadores brigam por uma vaga no time de Dunga que entra em campo hoje,
às 11h, em partida válida pelas quartas de final da Copa. Caso Felipe Melo seja
vetado para a posição, o técnico brasileiro pode optar por Josué ou Gilberto. ➥ P46
INDICADORES
Bancos agilizam
atendimento para
construtoras menores
Instituições financeiras identificam maior
demanda e treinam equipes para dinamizar
a concessão de financiamento à produção de
unidades habitacionais feitas por essas empresas.
Aumento da renda da população e estabilidade
econômica dão maior confiança para que construtoras
de menor porte tomem mais crédito. ➥ P36
▼
▼
▲
▲
▼
■
▲
▼
▼
▼
▼
TAXAS DE CÂMBIO
Dólar Ptax (R$/US$)
Dólar comercial (R$/US$)
Euro (R$/€)
Euro (US$/€)
Peso argentino (R$/$)
JUROS
Selic (a.a.)
BOLSAS
Bovespa
Dow Jones
Nasdaq
S&P 500
FTSE 100
Hang Seng
1º.7.2010
COMPRA VENDA
1,8006
1,7998
1,7960
1,7940
2,2491
2,2480
1,2491
1,2490
0,4581
0,4576
META EFETIVA
10,16%
10,25%
VAR. % ÍNDICES
0,49 61.236,20
-0,42 9.732,53
2.101,36
-0,37
1.027,37
-0,32
-2,26 4.805,75
feriado
Candidatos
avaliam
o alcance
dos debates
Cisco ousa e
vai além dos
roteadores
de internet
Só o tucano José Serra
foi ontem ao evento na
Confederação Nacional da
Agricultura. Estrategistas
discutem até que ponto
os embates verbais são
necessários para atrair
votos, principalmente no
caso de Dilma Rousseff. ➥ P12
A maior empresa de
equipamentos para redes
do mundo vem colocando
em prática a estratégia
de entrada em novos
mercados e garante que
será líder nos setores em
que decidir atuar, todos
voltados para a web. ➥ P22
2 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010
NESTA EDIÇÃO
Namas Bhojani/Bloomberg
Em alta
Fusões e aquisições no alvo da Intralinks
Fabricante de sistemas para troca de dados confidenciais
entre empresas abriu na semana passada, em São Paulo,
seu primeiro escritório na América Latina. ➥ P26
Divulgação
A conquista da clientela pelo estômago
Estratégia de abrir restaurantes junto às lojas de varejo
é adotada por redes de supermercados como a mineira
Verdemar, matogrossensse Modelo, e paulista Coop. ➥ P29
Sabesp investirá R$ 16,9 bi em 30 anos
Cisco diversifica para ficar
mais forte em internet
A líder global no fornecimento de
equipamentos para redes de internet
passa por uma grande transformação com
a abertura de novas frentes de negócios
que abrangem desde computadores
tablets e equipamentos de comunicação
até o smartgrid, modelo que permite às
distribuidoras de energia usar a internet
para o tráfego de dados. “Ganhamos
participação em quase todas as áreas
que entramos, compramos três empresas
grandes e lançamos 400 produtos em um
ano”, afirma John Chambers, presidente
que comanda essa mudança. Em 2009,
a Cisco faturou US$ 36 bilhões. ➥ P22
Estaleiros levantam âncoras
em direção ao Nordeste
Mais aviões decolam rumo ao Brasil
Henrique Manreza
Companhias aéreas como Qatar Airways, Emirates, a grega
Aegean Airlines, e Copa Airlines, estreiam rotas e ampliam
número de voos com destino a aeroportos brasileiros. ➥ P32
Dilma e Marina ausentam-se de debate
Apenas José Serra, candidato do PSDB, atendeu ao convite
da CNA. As candidatas do PT e do PV ausentaram-se
por diferentes motivos estratégicos. ➥ P12
Código Florestal afeta política climática
Ambientalistas e consultores alertam que a aprovação
das novas regras elevará o potencial de desmatamento
no país, especialmente nas pequenas propriedades. ➥ P16
Dados do Sindicato Nacional da Indústria
da Construção e Reparação Naval e
Offshore (Sinaval) revelam que existem
atualmente projetos contratados no valor
de R$ 7,6 bilhões, dos quais R$ 6,1 bilhões
distribuídos entre Bahia, Pernambuco
e Alagoas. Está prevista a implantação
de 17 estaleiros no país nos próximos
anos, dos quais nove na região Nordeste.
Antes da inauguração do Atlântico Sul,
no ano passado, no complexo de Suape,
em Pernambuco, o Nordeste não contava
com nenhum empreendimento do tipo.
Até então, a indústria naval, com
perfil petrolífera, se concentrava
no estado do Rio de Janeiro. ➥ P14
Rede de supermercados de Minas arma
estratégia para enfrentar o avanço do
Pão de Açúcar, Carrefour e Walmart, que
inclui a abertura de lojas de conveniência.
Até o fim do ano, será inaugurada a
primeira unidade que terá a bandeira Aki%
e seguirá os moldes do Extra Fácil, do grupo
Pão de Açúcar. Também está prevista a
inauguração, este ano, da segunda unidade
de atacarejo Suprir Aki, em Barbacena,
e mais um supermercado Bahamas, em
São João Del Rei. As três lojas e a construção
de um novo centro de distribuição
consumirão, como informa o presidente
Jovino Reis, receberão investimentos
de R$ 40 milhões no ano. ➥ P28
Francesa Legrand prefere o Brasil
Evandro Monteiro
Fechamento de fábricas no Peru, na Costa Rica e
no Chile faz parte da estratégia de concentrar operações
no país, afirma André Vidal, presidente no Brasil. ➥ P30
American Airlines terá 68 frequências
Companhia americana comemora 20 anos no país
como a estrangeira com o segundo maior número de
frequências, atrás apenas da TAP, que tem 70. ➥ P33
Vestuário vira moda entre investidores
Varejistas como Lojas Renner e Marisa despertam o
apetite dos aplicadores em ações, motivados pelo maior
volume de vendas às classes de menor renda. ➥ P38
Evandro Monteiro
O jeito mineiro do Bahamas
enfrentar os grandes grupos
Acordo entre a estatal estadual, prefeitura paulistana e
governo paulista garante a expansão da rede. Meta é atingir
98,7% do abastecimento de água na capital até 2018. ➥ P31
O celular avisa que o rio vai transbordar
Ação da Vale é a mais recomendada
Professor Jo Ueyama, da USP, adapta sensor de enchentes
desenvolvido por seu colega Daniel Hughes que permite
alertar as pessoas sobre riscos de enchentes. ➥ P18
Enquanto os papéis da mineradora lideram as recomendações
de analistas, os da Petrobras perdem espaço para ações
como as do Itaú Unibanco e da OGX. ➥ P42
Laguna e Mais preparam plano de voo
Faltará mão de obra na Copa de 2014
Anac autoriza a criação da Laguna Linhas Aéreas, de
São José dos Campos (SP), para operar linhas domésticas,
e da Mais Linhas Aéreas, com sede e Salvador (BA). ➥ P20
Ministério do Trabalho e Emprego avalia, com base em dados
do IBGE e Ipea, que haverá carência de 300 mil profissionais
para atuar em atividades ligadas ao evento. ➥ P46
Adalberto Roque/Reuters
A FRASE
“Este é o lugar a que pertenço.
Aqui me sinto bem”
Elián González, agora com 16 anos, que há uma década transformou-se no
pivô de uma batalha jurídica entre Cuba e Estados Unidos, ao ser resgatado
por americanos quando o barco em que era levado para os EUA pela mãe
naufragou. Devolvido ao pai cubano, hoje ele é aluno de uma escola militar.
Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 3
EDITORIAL
Andre Penner
NILTON PELEGRINO, DIRETOR DE EMPRÉSTIMOS E FINANCIAMENTOS DO BRADESCO
Os bons fluidos
de uma vida
longa e saudável
A população brasileira, como a de muitos países em desenvolvimento, está
envelhecendo, assim como ocorreu
com os habitantes de nações europeias e
dos Estados Unidos. Isso é sabido e já foi
muito discutido.
O tema, porém, continua na pauta.
Reportágem que será publicada hoje
pela revista científica americana Science traz um estudo sobre uma série de
padrões genéticos, chamados SNPs em
inglês, que estão associados a indivíduos que vivem mais de 100 anos, como
explicado a partir da página 4.
Espera-se poder prever, no futuro, se
as pessoas que carregam algum desses
padrões em seu DNA terão realmente
vida mais longa. Isso, é claro, desde que
mantenham um certo bom senso, como
ter uma alimentação saudável e não, por
exemplo, se aventurar em esportes radicais e perigosos. Afinal, mesmo a natureza tem limites.
Um cidadão saudável, que
se preveniu, pode ser uma
caixa de tesouro para o
comércio, turismo e serviços
Uma população que vive mais acarreta implicações diversas, que ultrapassam em muito a medicina. Previdência social fornecida pelos governos
é sempre a principal lembrança nesses
casos. Mas há outros fatores que podem
ser promissores para a economia. Um
cidadão saudável, que se preveniu e
planejou sua aposentadoria, pode ser
uma caixa de tesouro para o comércio,
o turismo e os serviços.
Há também implicações éticas, que
surgiram já com outras revelações feitas
a partir do sequenciamento do código
genético humano. Empresas de seguros
ou planos de saúde podem usar essa informação de modo não saudável para
seus clientes, por exemplo.
Ao mesmo tempo, o conhecimento
sobre o que protege e aumenta a vida de
algumas pessoas pode ser utilizado para
que se desenvolvam medicamentos específicos ou terapias gênicas para aumentar a expectativa de vida daqueles
que não tiveram tanta sorte genética. ■
No primeiro semestre, o Bradesco fechou 64 contratos de financiamento com construtoras
de menor porte, 137% a mais que um ano antes. “Fizemos em seis meses o que levamos o ano
passado todo para fazer”, diz Nilton Pelegrino, diretor de empréstimos e financiamentos. ➥ P36
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4 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010
DESTAQUE DEMOGRAFIA
Genética abre as portas para o
Pesquisa do DNA promete gerar profundas mudanças na gestão de governos e empresas
Martha San Juan França
[email protected]
Um estudo publicado na revista
Science hoje promete acrescentar mais polêmica à discussão sobre os benefícios que os
avanços da genética trazem
para o conhecimento da saúde.
Suas implicações econômicas
também não podem ser descartadas. A pesquisa da Escola de
Saúde Pública da Universidade
de Boston, liderado pela cientista Paola Sebastiani, mostra
uma série de padrões genéticos
(SNPs, na sigla em inglês) associados a indivíduos que vivem
mais de 100 anos.
Levanta-se a possibilidade
de que, no futuro, será possível
prever se os portadores desse
padrão genético terão uma
vida longa, desde que façam
escolhas saudáveis e os fatores
ambientais permitam. Suas
implicações vão muito além da
medicina. A expectativa sobre
o envelhecimento da população influencia o consumo, a
transferência de capital e propriedades, impostos, pensões,
o mercado de trabalho, a composição e a organização da família. Sem falar em planos de
saúde e previdência.
“
O envelhecimento
é um processo
normal, inevitável,
e não uma doença.
Portanto, não
deve ser tratado
apenas com
soluções médicas
Wilson Jacob,
coordenador do núcleo de
geriatria do Hospital Sírio Libanês
Uso das informações
O temor imediato, muito discutido nos Estados Unidos e em
países da Europa, é de que as informações contidas nos genes
poderiam ser utilizadas pelas
empresas de seguros ou de planos de saúde, que passariam a
cobrar mais tanto das pessoas
que têm propensão a doenças
graves como daquelas que têm a
probabilidade de viver mais.
Isso porque, com o desenvolvimento acelerado das técnicas
de leitura dos genes, espera-se
que seja possível saber por antecipação se uma pessoa terá
mesmo uma vida longa. Hoje,
nos Estados Unidos e na Europa,
empresas privadas já se dispõem a analisar porções do genoma (conjunto do DNA) de
seus clientes por um preço que
pode chegar a US$ 400.
O resultado é um relatório
que lista a presença (ou ausência) de traços relacionados a
males como vários tipos de câncer, doenças cardíacas, diabete,
mal de Alzheimer e até calvície.
Mais saudáveis
Os pesquisadores de Boston fazem parte do projeto multidisciplinar Long Life Family Study,
financiado pelo National Institutes of Health (NIH), ou Institutos Nacionais de Saúde, dos
Estados Unidos. Há anos eles estudam as características físicas e
comportamentais dos idosos.
Liderados por Thomas Perls, que
também assina o artigo na revista Science, observaram que as
pessoas que vivem acima da expectativa média de vida, às vezes mais de 100 anos, mantêm
sua independência funcional e
são mais saudáveis do que o normal até a morte.
Ele espera que o conhecimento molecular das alterações que
estão protegendo o organismo
desses idosos e de suas famílias
poderá ser aplicado para definir
intervenções estratégicas, como
novos remédios e terapias gêni-
cas destinados a aumentar a expectativa e a qualidade de vida
do restante da população.
Alguns genes podem
propiciar vida mais longa
e também mais saudável
Políticas sociais
Também é necessário investir na
implementação de políticas públicas para propiciar condições
de vida saudável e de qualidade
para a população de idosos. “O
envelhecimento é um processo
normal, inevitável e não uma
doença”, afirma o geriatra Wilson Jacob, do Hospital Sírio Libanês. “Portanto, não deve ser tratado apenas com soluções médicas, mas também com intervenções sociais e econômicas.”
Os especialistas defendem que
as políticas de envelhecimento
ativo devem levar em conta renda, trabalho e proteção social.
“Idosos de baixa renda têm uma
probabilidade 30% maior de
apresentar problemas funcionais
se comparados aos que possuem
renda alta e podem dispor de cuidados maiores”, diz Jacob. ■
MUITO ALÉM DA MEDICINA
● Pesquisa da Universidade de
Boston mostra semelhança de
padrões genéticos em pessoas
que vivem mais de 100 anos.
● Programa no site
http://www.bumc.bu.edu/centena
rian/) ajuda a interpretar
predisposição à longevidade.
● Implicações vão além da
medicina e influenciam vários
aspectos como economia,
comportamento e consumo.
Infografia: Alex Silva
VARIAÇÃO GENÉTICA E AS PISTAS DA SAÚDE E DAS DOENÇAS
Cerca de 99% do genoma das pessoas é idêntico, mas existem 10 milhões de pontos que variam entre os indivíduos e são objeto de pesquisas
Objetivo é entender como se
pode envelhecer com bom
desempenho cognitivo
DNA
SNP
SNPS
Análise
Abreviação em inglês de “polimorfismo de nucleotídeo único”. Quer dizer uma troca
de letras em posições determinadas da cadeia de DNA que diferem de pessoa para
pessoa. Cada um de nós pode ter até 1 milhão de SNPs diferentes
SNPS COMUNS
São estudados para saber, por análise estatística, quais estão associados
a diferentes doenças ou, no caso, a pessoas de vida longa. Mas podem ser
acionados por vários fatores
SNPS RARAS
São mutações únicas ou pouco frequentes associadas a doenças específicas
A possibilidade de aumentar a
expectativa média de vida ou de
prever e planejar o que se pode
fazer nos muitos anos à frente
da aposentadoria também é
tema de pesquisa dos cientistas
brasileiros. A geneticista Mayana Zatz espera iniciar um projeto batizado de 80+, com algumas semelhanças com o da Universidade de Boston.
“Nosso estudo poderá comprovar se os genes da longevidade são tão relevantes quanto
os que aumentam os riscos de
doenças”, afirma. Mas ela ressalva que testes que demonstram predisposição genética
Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 5
LEIA MAIS
Os idosos representam
23% da população
brasileira e respondem por 17%
das compras no país. Poucas
empresas, porém, aproveitam
seu potencial de consumo.
O aumento da expectativa
de vida exigirá que se
acelere a reforma da Previdência
e que sejam investidos mais
recursos na ampliação dos
serviços de saúde do país.
Com criação de tabela
brasileira, seguradoras
vão passar a formular planos
de previdência privada com
expectativa de vida real dos
habitantes do país, e não dos EUA.
envelhecimento planejado
Antonio Milena
TRÊS PERGUNTAS A...
Divulgação
...PAOLA
SEBASTIANI
Cientista
especializada em
bioinformática
“Conseguimos prever
se uma pessoa
pode viver 100 anos”
Coordenadora da pesquisa sobre
genética e longevidade, Paola
Sebastiani, da Universidade de
Boston, espera que seu trabalho
motive o estudo de centenários
em outras partes do mundo.
O estudo da revista faz
parte de um projeto maior.
A senhora poderia
explicar o objetivo?
de cérebro saudável no Brasil
não são determinísticos. “A incidência de doenças depende de
muitos fatores, como os hábitos
e o estilo de vida”, enfatiza.
A pesquisa do Centro do Genoma Humano da Universidade
de São Paulo (USP) — dirigido
por Mayana —, em conjunto
com o Hospital Albert Einstein,
correlaciona a análise do genoma com informações de imagens obtidas por ressonância
magnética funcional para avaliar o bom funcionamento do
cérebro na terceira idade.
Cérebro ativo
Esta questão também é objeto
de outra pesquisa, já em andamento na Faculdade de Medicina da USP. “Estamos avaliando
quem tem mais de 80 anos com
Pesquisas sobre
a saúde dos
centenários vão na
contramão do que
se fazia no passado,
diz especialista
o cérebro trabalhando bem”,
disse o geriatra Wilson Jacob,
que também é coordenador do
Núcleo de Geriatria do Hospital
Sírio Libanês.
Nesse estudo, os pesquisadores analisam, com autorização dos familiares, os cérebros
de pessoas consideradas idosas, geralmente com mais de
80 anos, depois da morte.
“Buscamos entender do ponto
de vista da genética e de outros fatores, como essas pessoas tiveram uma longa vida
com bom desempenho cognitivo”, explica Jacob.
Jacob avalia que pesquisas
como essa vão na contramão do
que se fazia no passado. “Mais
do que em qualquer outra época da história da humanidade,
todos temos grande probabilidade de viver muito”, explica.
“Por isso, a perspectiva agora
é, em vez de esperar o momento de ficar doente para se cuidar, trabalhar em função de
conservar a saúde.”
O geriatra compara a situação atual com uma maratona.
“Estamos todos participando
da corrida, nos esforçando para
chegar ao fim. Para isso, fazemos as coisas mais indicadas,
como treinar, comer adequadamente, usar os sapatos mais
confortáveis. A proposta não é
saber quem vai ser o campeão,
mas quem consegue chegar ao
fim se divertindo e gostando do
que está fazendo.” Com a saúde
acontece o mesmo, de acordo
com o médico. ■ M.F.
Em 1995 começamos a acompanhar
quase 2 mil centenários e mais
de 100 supercentenários
(pessoas que viveram mais
de 110 anos). Meu colega
Thomas Perls mostrou que
irmãos de centenários têm mais
probabilidade de viver até idades
mais avançadas, comparados com
a média da população. Esse traço
familiar sugere que a longevidade
tem componentes genéticos.
Nós escaneamos o genoma de
mais de mil centenários e um
número similar de controle e
identificamos marcadores que
apontam para genes novos e
outros já conhecidos envolvidos
na longevidade. Geramos um
modelo de probabilidade. Com
esse modelo, prevemos com 77%
de certeza se uma pessoa pode
viver até 100 anos ou mais.
Os resultados podem
ser aplicados para povos
de outras origens, como
no caso do Brasil?
No estudo tivemos que nos
restringir a caucasianos da
Europa. Mas planejamos aplicar
as descobertas para outras etnias
e esperamos que nosso trabalho
motive o estudo de centenários
em outras partes do mundo,
como já está havendo no Japão
e em outros países da Europa.
Como esse estudo pode
complementar os testes
de DNA que preveem
a probabilidade de doenças?
Notamos que centenários tendem
a ter aproximadamente o mesmo
número de doenças associadas às
variantes genéticas da população
de controle. A previsão de doenças
baseado em dados genéticos
é um problema complexo e
estamos muito longe da solução.
6 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010
DESTAQUE DEMOGRAFIA
Murillo Constantino
Indivíduos de mais idade
hoje representam um
contingente de consumidores
que não deve ser desprezado
Potencial do “novo idoso” é
pouco aproveitado no consumo
Especialista lembra que pessoas mais velhas que se prepararam para viver muito tendem a gastar mais
Martha San Juan França
[email protected]
Foi-se o tempo em que o idoso
era associado ao vovô esquecido na cadeira de balanço ao
lado da senhora enrugada e de
cabelos brancos fazendo crochê. Hoje, a existência de idosos saudáveis e produtivos já é
uma realidade e deve influenciar o mercado e até melhorar o
consumo. Para a especialista
em gerontologia Beltrina Corte,
da Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP), as oportunidades de inclusão são imensas.
Uma pesquisa recente da GfK
Brasil mostrou que os idosos já
representam 17% do poder de
compra no país. Além disso,
88% dos brasileiros acima de 60
anos possuem renda própria,
segundo a empresa de pesquisa.
Outro levantamento, feito pelo
IBGE, aponta, segundo a GfK,
que em 2020 as pessoas com
idade acima de 50 anos repre-
sentarão 18 milhões de consumidores no País, com renda total de R$ 25 bilhões.
Hoje, essa faixa etária corresponde a 43% da classe de renda
mais alta (acima de dez salários
mínimos). No total da população, são 23% e costumam ir mais
vezes às compras.
Viajar, comprar, passear
“Os idosos que vivem apenas
com a aposentadoria têm de
fato o dinheiro contado”, afirma Beltrina. “Mas existe um
contingente grande que se preparou para a velhice e está disposto a gastar consigo mesmo
ou com seus familiares. São
pessoas desejosas de viajar,
comprar, passear, estudar.”
É o caso da dona-de-casa
Anita Zumbano Fochesato, de
60 anos, que costuma viajar
todo ano com a mãe, de 91 anos.
“Nós estamos planejando ir ao
Nordeste em um cruzeiro de navio”, conta. “Eu acho muito
Pesquisa da GfK
mostra que os idosos
representam 17%
do poder de compra
no país, mas
mercado ainda
não aproveita seu
potencial comercial
saudável se mexer e conhecer
novos lugares.” Anita e a mãe
também adoram fazer compras e
estão sempre atentas para o que
ocorre á sua volta, lendo e vendo
televisão. Depois de trabalhar a
vida toda, primeiro em uma
companhia de aviação, depois
numa loja e finalmente em um
restaurante, ela quer aproveitar
a vida. “Não estamos na fase de
economizar”, afirma. “Como
não temos compromissos, estamos na época de gastar.”
Produtos dirigidos
Para Beltrina Corte, histórias
como essa mostram que o
mercado precisa acordar e ver
o potencial de consumo dos
mais idosos. Os “novos velhos” trabalham, suam na
academia, conversam com os
filhos e netos por Skype e vão
a festas. Mas são poucos os
produtos especialmente dirigidos a essas pessoas que ainda têm muito a viver.
“Infelizmente, o mercado
ainda não considera o design, a
cor, o comportamento dessa população”, argumenta a gerontóloga. Ela lembra que há enormes
possibilidade na arquitetura, lazer, comércio, moda e beleza,
além do turismo.
Ao comentar a pesquisa,
Paulo Carramenha, diretor presidente da GfK Brasil, chamou a
atenção para o fato de que a
maior expectativa de vida da
população é uma das cinco tendências mundiais que influenciam o consumo. Na Alemanha, por exemplo, a empresa
constatou que muitas pessoas
com idade entre 50 e 69 anos
fazem compras on line.
No Brasil, segundo Carramenha, essa tendência está começando e deverá pautar vários setores. Mas é preciso levar em
conta as especificidades desse
público, tanto no aspecto das
necessidades físicas como na
transformação de interesses. ■
Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 7
Plano de saúde pode custar 6 vezes
mais para pessoas acima de 60 anos
Empresas terão de
reinventar seu modelo
de fazer negócios para
reduzir custos
Regiane de Oliveira
[email protected]
No modelo atual de cobrança,
os planos de saúde chegam a
custar até seis vezes mais para
uma pessoa acima de 60 anos.
“Se uma pessoa na primeira
faixa [de 0 a 18 anos] adquirir
um plano de R$ 100, possivelmente vai chegar à última faixa
pagando R$ 600”, afirma Arlindo de Almeida, presidente
da Associação Brasileira de Medicina de Grupo (Abramge).
“Esta é uma equação complicada, pois é a época da vida em
que a pessoa costuma ter menos recursos”, diz. Além do
mais, a grande maioria dos planos de saúde passou a focar a
venda de seus produtos nos
planos corporativos, uma vez
que os preços de individuais
são regulados pelo governo.
Dos mais de 190 milhões de
habitantes do país, cerca de 43
milhões utilizam serviços do
setor de saúde privado (planos
de saúde, seguradoras, cooperativas, autogestão). E, segundo dados da Agência Nacional
de Saúde Suplementar (ANS),
as pessoas com mais de 60
anos representaram 11% do total de usuários de planos de
saúde em 2009. A participação
de beneficiários idosos na carteira dos planos de saúde aumentou 4,6% desde 2000, segundo dados da ANS.
O setor de saúde suplementar
está atento à mudança no perfil
demográfico e às possibilidades
comerciais que ele pode gerar.
Mas, para isso, as empresas terão
de mudar seu perfil de negócio.
“As operadoras do setor de saúde
têm de fazer o mapeamento de
sua população para identificar o
nicho de pessoas que têm doenças crônicas e fazer o gerenciamento”, diz Almeida. As empresas terão de mudar de um
atendimento assistencial para
um trabalho preventivo, com
foco na qualidade de vida. “Em
São Paulo, por exemplo, há um
plano de saúde focado para idosos”, afirma. Trata-se da Prevent Sênior, empresa fundada
em 1997, do grupo Sametrade,
que atende 115 mil vidas.
De acordo com o Caderno de
Informações da Saúde Suplementar de março, um estudo
mostra que as despesas assistenciais para o grupo de pessoas acima de 85 anos são três
vezes maiores que o gasto per
capita do grupo de 65 a 74
anos, e duas vezes maior que
do grupo de 75 a 84 anos.
Almeida afirma que medidas
da ANS, como o novo rol de procedimentos, começam a levar
em conta o envelhecimento da
população e a necessidade de
redução de custos. “As empresas
agora têm de cobrir cirurgias
endoscópicas, por exemplo, que
permitem recuperação em tempo menor”, afirma.
Novas tecnologias, segundo
Almeida, também ajudam a
Crescimento da participação de usuários por faixa etária nos
planos de saúde, em milhões
70 anos ou mais
20 a 59 anos
0,8
60 anos ou mais
80 anos ou mais
0,7
0,6
0,6
0,5
0,5
1,8
3,8
1,9
3,9
2,0
4,1
2,1
4,4
0,7
2,3
2,2
4,6
4,8
26,7
25,4
0,4
0,4
0,4
1,5
3,3
1,5
3,4
1,6
3,4
17,7
18,2
18,4
18,9
9,3
10,3
10,6
9,3
9,9
11,3
9,6
9,7
10,9
9,7
2000
2001
2002
2003
2004
2005
2006
2007
2008
2009
1,7
3,6
prolongar a vida, porém não
são acessíveis a todos. “O país
ainda precisa investir em questões básicas como saneamento,
vacinação, controle de epidemias e boa qualidade de atendimento do SUS [Sistema Único de Saúde]”, diz.
Algumas inovações da ciência,
se depender de Almeida, não devem ser aplicadas. O mapeamento genético, por exemplo. “Imagine pensar em um plano de saúde que cobre a pessoa pelo tempo
de vida previsto em sua análise
genética. É absurdo”, afirma. ■
Este anúncio tem caráter meramente informativo.
Novo modelo
NÚMERO DE BENEFICIÁRIOS
0 a 19 anos
Grupo representou
11% do total de
usuários de planos
de saúde em 2009
21,2
A LLX Sudeste obteve êxito na contratação de
Financiamento de Longo Prazo junto ao Banco Nacional
de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES, para a
implantação do Superporto Sudeste, terminal portuário
de uso privativo misto, localizado no município de
Itaguaí, Estado do Rio de Janeiro
R$ 1.212.761.231,00
23,8
22,5
20,1
O Bradesco BBI atuou como
Assessor Financeiro exclusivo da
LLX nesta operação
Junho/2010
Fonte: Caderno de Informações da Saúde Suplementar - Março de 2010
SIB/ANS/MS - 12/2009
8 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010
DESTAQUE DEMOGRAFIA
Antonio Milena
Novos
padrões
para plano
privado
Seguradoras têm, agora,
dados brasileiros para
calcular melhor seus riscos
Thais Folego
[email protected]
Nova demografia exigirá
reformas na Previdência
e em outras políticas
públicas do país
Previdência e sistema de
saúde precisam ser revistos
Brasil desperdiça bônus demográfico e investe pouco em serviços essenciais
[email protected]
“O Brasil vai envelhecer antes de
ficar rico.” A frase, repetida diversas vezes pelo economista e
ex-ministro da Fazenda Delfim
Netto, retrata qual será a realidade do país daqui a algumas décadas. Hoje, o Brasil ainda vive o
chamado bônus demográfico,
que é quando a população economicamente ativa é maior que a
de aposentados. Mas ele acabará,
no máximo, em 2055, segundo
estimativas da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Um estudo recente do Banco
Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES) é
menos otimista. Para o banco, que
diz que o país já desperdiçou 30
anos de bônus, o fim da vantagem
será em 2025. “O Brasil nunca
aproveitou esse bônus para tornar
a Previdência superavitária”, explica Jorge Arbache, que realizou
o estudo para o BNDES. Só neste
ano, a Previdência acumula déficit de R$ 20 bilhões . De acordo
com a CNI, o país gasta hoje 11,5%
do Produto Interno Bruto (PIB)
com Previdência, enquanto em
países como Bélgica e Espanha, o
gasto é de 12,5% - mas, nesses
países, 22% da população tem
mais de 60 anos, enquanto no
Brasil a proporção é de 9%.
Hoje, o Brasil
tem 4 milhões
de pessoas com
mais de 80 anos.
Em 2040, serão
20 milhões
Mas o problema está no envelhecimento da população?
“Ele não deve ser visto como
negativo”, responde o diretor
da área de Estudos de Políticas
Sociais do Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea),
Jorge Abrahão. Para ele, o envelhecimento trará grandes desafios, mas também muitas oportunidades. “Hoje, o Brasil tem
4 milhões de pessoas com mais
de 80 anos. Em 2040, devem
ser 20 milhões”, lembra.
José Eustáquio Diniz Alves,
pesquisador do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas
(IBGE), em recente palestra afirmou que “a esperança de vida é
uma das maiores conquistas da
nossa história.” Ele lembrou que
no Brasil, em 2009, expectativa
de vida era próxima de 77 anos
para mulheres e 70 para homens. E a tendência é que aumente nos próximos anos.
Dados do IBGE apontam que,
enquanto em 2008 as crianças
de 0 a 14 anos correspondiam a
26,47% da população, o contingente com 65 anos ou mais representava 6,53%. Em 2050, o
primeiro grupo representará
13,15%, ao passo que os idosos
chegarão a 22,71%.
Essa nova realidade, claro,
vai exigir reformas e mudanças
das políticas públicas do país —
e não apenas na Previdência.
“Teremos de repensar o nosso
modelo de saúde pública, o
mercado de trabalho vai mudar
e as empresas terão de pensar
em novos serviços para atender
as necessidades dessa população mais idosa”, diz Abrahão.
O aumento da expectativa
de vida do brasileiro fez
com que o mercado de previdência privada e de seguros de vida tivesse que se
adaptar, já que trabalha
com o risco de morte e de
vida das pessoas. Até o ano
passado, por exemplo, eram
usados dados sobre a longevidade dos americanos
para os cálculos dos planos
privados de aposentadoria
e apólices de vida. Neste
ano, porém, foi lançada uma
tábua atuarial (tabelas com
as probabilidades de sobrevivência e morte de uma
população) com os dados
dos brasileiros.
Lá fora, porém, já há algumas iniciativas para incluir também outros fatores
nesse cálculo. Por exemplo,
hábitos não saudáveis, como
fumar e ser sedentário, que
diminuem a expectativa de
vida das pessoas. “Mas isso
é algo que ainda está no começo”, comenta Celina da
Costa e Silva, superintendente de Serviços Técnicos
da Brasilprev.
No caso da previdência,
uma pessoa que fuma e tem
probabilidade de morrer
mais cedo pode ter uma renda a receber maior no momento da concessão do benefício, já que os recursos
acumulados devem ser concedidos por menos tempo.
Dados mais realistas
Discussão política
As consequências do aumento
da longevidade do brasileiro
não são novidade e nem ignoradas. O Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea) já se
debruça para analisar o envelhecimento da população e seus
impactos não apenas nos custos
da Previdência pública, mas
também na saúde e no mercado
de trabalho. A análise detalhada, que será divulgada até o final do ano, traça perspectivas
para o país até 2022.
O tema — especialmente o
déficit previdenciário — está
também na pauta dos candidatos
à presidência. José Serra (PSDB)
propõe a adoção de um novo
sistema para os contribuintes do
futuro — ou as crianças que ainda não entraram no mercado de
trabalho. Dilma Rousseff (PT)
diz que as mudanças são necessárias, mas que terão de ser feitas paulatinamente. ■
Antes da criação da tábua
brasileira, chamada de Experiência do Mercado Segurador Brasileiro (BR-EMS),
usava-se a americana AT2000, uma tabela fixa, que
não capturava o aumento
constante da expectativa
de vida. Já a brasileira será
atualizada a cada cinco anos,
incorporando as mudanças
na longevidade.
“Isso coloca o Brasil em
linha com as principais economias no critério de concessão de benefícios, pois
atualiza a expectativa de
vida”, comenta João Batista
Mendes Ângelo, superintendente de Produtos da Brasilprev. Isso torna o negócio
mais justo, diz, tanto para a
seguradora quanto para o
cliente, pois é possível calcular a renda com dados mais
realistas e evitar prejuízos
para um ou outro lado. ■
Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 9
10 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010
OPINIÃO
Roberto Freire
Júlio Gomes de Almeida
Presidente do PPS
Professor de economia da Unicamp
e ex-secretário de Política Econômica
do Ministério da Fazenda
A gestão chafariz
Boom de investimentos
Alguém já chamou a gestão financeira do atual governo de “gestão chafariz”. Basicamente é um tema típico
da teoria do ciclo político econômico: gestores “poupam” nos dois primeiros anos. Para gastar nos dois últimos anos. Seguindo essa lógica, prefeitos adoram
construir chafarizes nas praças públicas e gostam mais
ainda quando podem inaugurá-los nos últimos meses
de mandato. Não faz mal se o chafariz foi ideia do último prefeito ou de outros. O importante é colocar a placa. É inaugurar. Também serve reinaugurar. Nenhuma
coincidência o fato do atual Plano Plurianual ter alterado toda sua lógica do núcleo central de investimentos do ensino fundamental para as obras do PAC, justamente no limite destes dois anos. Muito menos é coincidência reinaugurar ou tomar no braço obras de terceiros e se apropriar delas nas propagandas do PAC.
A “gestão chafariz” olha apenas para o gasto e para o
uso eleitoral dos recursos públicos. O grande problema
é que, neste exato momento, o gasto público se aproxima do descontrole fiscal. Os números estão aí na mídia
nos últimos dias e são incontestáveis, apesar do tom de
“normalidade”emprestado, por exemplo, pelo secretário do Tesouro Nacional, Arno Augostin. Segundo este,
o maior déficit fiscal do governo central desde 1999 é
“neutro” e “cumpriremos sem qualquer problema a
meta de superávit primário de 3,3% do PIB”.
Para o referido secretário, o mais importante é o fato
de que os investimentos do governo continuam a crescer, incluindo o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Pouco importa que 30% dessas obras tenham sido contestadas pelo TCU, ou que o cronograma
das mesmas esteja atrasado em quase 90% delas. Além
de confundir financiamento com investimento!
De todos os lados vêm indicações de que já podemos
comemorar a volta das inversões. Não se trata de um
processo qualquer, mas sim do retorno ao “boom” que
se desenvolvia na economia brasileira anteriormente à
crise do último trimestre de 2008. Ontem saíram dados que dão sustentação a essa conclusão. Do lado da
produção industrial, que em maio último seguiu crescendo a taxas elevadas na comparação com o mesmo
mês de 2009 (14,8%), a produção de bens de capital
teve aumento muitas vezes superior à evolução do setor de bens de consumo. Nesse último caso, a variação
foi de 7,5%, e no primeiro, de 38,5%.
Ou seja, se a indústria como um todo mantém
uma favorável trajetória de crescimento nesse ano, é
muito mais intenso o crescimento do setor que produz bens de capital. São esses bens que estão agregando capacidade de produzir mais bens e serviços à
economia, o que colabora para o equilíbrio entre
oferta e demanda agregada.
O uso político do gasto público não
nos levará ao crescimento, mas, sim
à maior pressão inflacionária e, mais
à frente, a uma grave crise fiscal
Pequenas questões como o fato do pagamento dos
juros, nos últimos 12 meses corridos, terem chegado à
cerca de R$ 180 bilhões, algo por volta de 5,4% do PIB
anual, ou da dívida pública já estar chegando em 42%
do mesmo PIB não são relevantes para o secretário do
Tesouro. Relevante é que se gaste no PAC, porque o
programa,segundo os gestores do governo, resolverá
nossas questões de infraestrutura. Provavelmente não
é apenas o presidente que não gosta de ler os jornais.
O uso político do gasto público, mesmo que fosse
corretamente realizado em infraestrutura, é o uso feito
agora. Esgotaram-se dois mandatos em outras questões “mais relevantes”. Não, o país não tem como crescer de forma “chinesa” pela simples razão de que vivemos o que se convencionou chamar de “custo Brasil” e
que reflete todos os investimentos que não foram feitos
nos últimos anos. O uso político do gasto público não
nos levará ao crescimento, mas sim à maior pressão inflacionária já agora e, mais à frente, a uma grave crise
fiscal, que irá cair no colo do próximo presidente, seja
lá quem for. Brasileiros e brasileiras sabem, porque já
conviveram com isso no passado, o que significa a
soma de inflação ascendente e crise fiscal. Para encerrar: anotem que a expansão do gasto é tão violenta que
é maior que a expansão recorde da arrecadação tributária. Tirem suas conclusões... ■
A exigência é a progressão da taxa de
investimento para 22% do PIB, e daí
para 25%, em um processo que não
pode tardar mais que um mandato
Já os dados de importação de bens de capital, referentes a junho, mostram quadro semelhante. No primeiro semestre deste ano, as compras no exterior
desses bens foram 26,2% maiores do que nos primeiros seis meses do ano passado, mas no mês final do
semestre o aumento sobre junho do ano passado chegou a 51,4%. Isso denota uma grande aceleração do
investimento na economia.
Mas, em se tratando de investimentos, há ainda
muito caminho pela frente para que alcancemos um
quadro ideal. No Brasil, a taxa de investimentos em relação ao PIB chegou a um nível como 20% no terceiro
trimestre de 2008, com a crise caiu para 18,2% e 15,8%
nos trimestres seguintes e mesmo com a grande retomada que se seguiu ainda está distante (18,2% do PIB
no primeiro trimestre deste ano) do índice inicial.
Este talvez seja novamente alcançado em fins de
2010, mas, atingido este ponto, estaremos apenas
reiniciando o jogo.
Para ir além de neutralizar os possíveis problemas
inflacionários que acompanham os processos de crescimento mais intensos e permitir que o país ingresse de
fato em uma trajetória de maior sustentação de seu
desenvolvimento, a exigência é a rápida progressão da
taxa de investimento para 22% do PIB, e daí para 25%
do PIB, em um processo que, como um todo, não pode
tardar mais do que um mandato de governo. Aperfeiçoar e ser mais ousado nas políticas industrial e de infraestrutura seriam passos importantes.
É preciso também remover antigos entraves e introduzir incentivos que muitos países adotam, incluindo os países desenvolvidos. No Brasil, o investimento ainda é taxado, sobretudo através do ICMS, o
que não faz o menor sentido.
Um poderoso incentivo fiscal seria a depreciação
acelerada dos investimentos fixos, um instrumento
que a Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP) introduziu em 2008, mas que ficou restrito a pouquíssimos setores, no caso, bens de capital e indústria automobilística e de auto peças. ■
CARTAS
O VICE DE SERRA
Após um parto difícil, nasceu a chapa que pode
derrotar Dilma. Apesar do nome desconhecido,
Indio é a ruptura que pode abrir novos caminhos
não só para a eleição de Serra, mas também
para a política do País. Com Aécio, Rodrigo Maia
e ACM Neto, Índio pode ajudar a tirar a cabeça
do eleitor do passado, tão a gosto de Lula
e Dilma, que viveram a ditadura, as derrotas
eleitorais e os arcaicos movimentos socialistas,
e colocar em pauta uma agenda para o futuro,
para os jovens e para o que realmente
interessa — a qualidade de vida dos brasileiros.
Gilberto Dib
São Paulo (SP)
RODRIGO SANTORO NA REVISTA
FORA DE SÉRIE
Não poderia haver um nome melhor para a revista,
especialmente para a de Junho, que li de cabo a
rabo ao recebê-la aqui na empresa onde trabalho.
Já era fã do BRASIL ECONÔMICO e da revista, mas
a responsável pela minha admiração extra dessa
vez foi a matéria de Daniela Paiva, sobre Rodrigo
Santoro e seu novo filme. Me senti em cena. Perfeita.
Assim como grande parte da edição. Parabéns,
Daniela, e a todo a equipe da revista Fora de Série.
Lidiana Rodrigues Braziolli
Belo Horizonte (MG)
AVALIAÇÃO DO IPEA SOBRE TRANSPORTES —
REPORTAGEM DO SUPLEMENTO
TRANSPORTE E LOGÍSTICA, DE 29 DE JUNHO
Em resposta à matéria “Para Ipea, retomada de
gastos com transporte deveria ser mais rápida”, a
Infraero esclarece que vai investir R$ 6,48 bilhões
em 23 de seus 67 aeroportos entre 2011 e 2014.
Desse total, R$ 4,472 bilhões são investimentos
considerados essenciais para atender à demanda
do setor aéreo projetada até 2014, conforme
estudos do Ministério da Defesa. É importante
destacar que os empreendimentos planejados
estão dentro do cronograma previsto pela Infraero,
com destaque para o Aeroporto Internacional do
Galeão. As obras de revitalização do Terminal 1
e de finalização do Terminal 2, orçadas em
R$ 566,6 milhões, estão em andamento.
No Aeroporto Internacional de Guarulhos, as
obras de construção do sistema de pistas e pátios
foram retomadas em maio deste ano, por meio
de convênio com o Exército Brasileiro. Quanto
à afirmação de que as obras podem ser feitas
“de forma afobada e sem seguir regras de licitação”,
a Infraero destaca que segue as determinações da
Lei de Licitações e Contratos. Sobre a afirmação de
que “o próprio governo federal já ventilou a ideia
de criar estruturas provisórias para os aeroportos
durante o mundial”, a Infraero esclarece que
os módulos operacionais serão adotados em
12 aeroportos, sendo quatro deles relacionados
à Copa (Guarulhos, Cuiabá, Campinas e Brasília),
para dar suporte ao atendimento da demanda
de passageiros nesses terminais enquanto
as obras definitivas são executadas.
Léa Cavallero
Superintendente de Marketing e
Comunicação Social da Infraero
Brasília (DF)
Cartas para Redação - Av. das Nações Unidas, 11.633 –
8º andar – CEP 04578-901 – Brooklin – São Paulo (SP).
[email protected]
As mensagens devem conter nome completo, endereço e telefone e assinatura. Em razão de espaço ou
clareza, BRASIL ECONÔMICO reserva-se o direito de editar as cartas recebidas.
Mais cartas em www.brasileconomico.com.br.
ERRATA
A avaliação da empresa Marcopolo, publicada na
seção Investimentos da edição da última segunda,
foi feita pela corretora Brascan, e não pela Ativa.
Com relação à reportagem “A arquitetura brasileira
não é tão criativa quanto já foi” (edição de 18 de junho,
pág. 28), o Comitê de Candidatura do Rio de Janeiro
para os Jogos Olímpicos 2016 contratou o escritório
BCMF, que recrutou o arquiteto Carlos Teixeira
para desenvolver o conceito do projeto paisagístico
a cargo do escritório. O arquiteto também
não abriu uma incorporadora em Minas Gerais.
Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 11
Divulgação
Esponja de cor
Desde que a caneta ao lado foi inventada, reproduzir cores não é mais
um problema. Batizado de Color Picker Pen, o objeto foi inventado pelo
designer coreano Jinsun Park, e escaneia a cor de qualquer superfície
onde sua ponta é encostada, como a maçã na foto ao lado. O seu
minúsculo cartucho de tinta, com as três cores básicas (vermelho, azul
e verde), é reprogramado e automaticamente a caneta adquire a cor
do objeto tocado. A novidade ainda não está sendo produzida para venda.
Saul Loeb/AFP
OBAMA EM ALTA NA AMÉRICA LATINA
O presidente americano, Barack Obama, defendeu ontem, em encontro com o reverendo Al Sharpton (a quem cumprimenta
na foto acima, em Washington), um acordo entre republicanos e democratas para a aprovação de uma reforma nas leis de imigração
dos EUA, promessa de campanha aos seus eleitores hispânicos que ainda não foi cumprida. A imagem de Obama entre os
latino-americanos está em alta, de acordo com a pesquisa Latinobarômetro, divulgada ontem: 74% dos entrevistados na região
possuem uma imagem positiva do líder, o maior percentual desde que o levantamento começou a ser feito, em 1997.
ENTREVISTA RUBENS GUREVICH CEO da Your Life do Brasil
A ginga de Dunga e Maradona na liderança
Para consultor, técnicos
brasileiro e argentino possuem
maneiras opostas de liderar
Maeli Prado
são totalmente diferentes como
líderes, mas esses dois tipos de
posicionamento podem ser válidos na hora de gerenciar uma
equipe em uma empresa.
[email protected]
Rubens Gurevich, CEO da Your
Life, consultoria especializada
em gerenciamento de carreiras
pela internet, se dedicou a analisar os estilos de liderança dos
técnicos das seleções de futebol
brasileira e argentina, Dunga e
Maradona. A conclusão: os dois
Há semelhanças entre Dunga
e Maradona como líderes?
Quando analisamos os perfis de
quem é líder, temos algumas
competências essenciais. Tanto
o Dunga quanto o Maradona
possuem um foco muito grande
em seus objetivos, são muito
competitivos e assertivos. Como
Divulgação
“O Maradona
tem alto
poder de
comunicação
e persuasão,
é sociável,
traz para si
todo o foco”
consequência, ambos também
são prepotentes e arrogantes.
E quais as diferenças entre
os dois como líderes?
Essas diferenças se refletem até
na forma como os dois times jogam. O Maradona tem um alto
poder de comunicação e persuassão, é muito sociável, traz
para si todo o foco, todo brilho.
Ele valoriza jogadores com esse
perfil, que brilhem sozinhos,
como o Messi. Já o Dunga é o inverso: ele tem um baixo grau de
comunicação pessoal e um elevado grau de investigação e lógica. O Dunga é razão, o Maradona é emoção.
Qual o melhor estilo?
Há empresas que precisam de
líderes Maradona, que vendam
ideias, que sejam grandes comunicadores. Por outro lado há
ambientes que podem se beneficiar muito mais de um estilo
Dunga de chefiar, que apela
para a razão, que exige mais disciplina dos subordinados. ■
12 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010
BRASIL
Alcance
de debates
ainda é
incógnita
José Serra (PSDB) aposta nos confrontos
diretos para reagir nas pesquisas.
Já Dilma Rousseff (PT) evita os duelos
Pedro Venceslau
[email protected]
Motivos diferentes levaram Marina Silva (PV) e
Dilma Rousseff
(PT) a não irem
ELEIÇÕES ao debate da CNA
(Confederação
Nacional da Agricultura), ontem, em Brasília.
Para a candidata verde, que
conta com 1 minuto e 6 segundos no horário eleitoral gratuito,
o confronto direto não só interessa como é considerado vital.
“O PV tem uma estrutura material inferior e menos tempo de
TV que os adversários. Além
disso, a Marina tem o carisma
que os outros não têm”, diz o
Alfredo Sirkis, ex–coordenador
geral da campanha.
A ausência nesse caso foi um
recuo tático. A ex–ministra do
Meio Ambiente enfrentaria um
ambiente desfavorável, uma vez
que o evento seria comandado
por uma estrela do DEM, Katia
Abreu, a plateia poderia ser
hostil e o único adversário na
arena seria José Serra (PSDB).
“A Marina não foi porque a CNA
não fez como a CNI, que enviou
um documento prévio. Soubemos de fonte segura que os outros candidatos receberam. Isso
é tratamento preferencial. Nós
estamos acostumados com a
agressividade desse setor e temos resposta para tudo. Vamos
em todos os outros debates”,
promete Marco Mroz, da coordenação da campanha.
Já os estrategistas de Dilma
decidiram que ela participará
apenas dos debates considerados inevitáveis, todos na TV
aberta: Gazeta/Estadão, Record,
Band e Globo. A ideia é evitar
que confrontos para pequenas
audiências acabem em saia justa
2010
“
Na crônica
política das eleições
presidenciais
brasileiras, nenhum
debate foi decisivo
no resultado
final desde 1989
Antonio Lavareda
cientista político
e repercutam negativamente na
opinião pública. “Hoje está na
moda fazer debate pela internet.
Recebemos mais de 20 convites,
mas vamos selecionar os debates com mais visibilidade. Só
para quem está na curva descendente vale a pena participar
de todos. Antes não era bom
para o Serra, mas agora é”, afirma Fernando Pimentel, um dos
estrategistas do PT.
Antes de ser ultrapassado nas
pesquisas, José Serra também
relutava em debater publicamente. A mudança de estratégia
ficou clara na sabatina da CNI,
em maio, que aconteceu depois
da divulgação da pesquisa na
qual o tucano e a petista apareceram empatados pela primeira
vez. “Nós vamos bater na tecla
que as recusas de Dilma são pretextos. Ela está fugindo do debate”, diz o tucano José Henrique Lobo, do staff de José Serra.
Ausência sentida
O cientista político Antonio Lavareda lembra que o primeiro
debate na TV que mudou a história de uma eleição aconteceu
em 1960, entre o republicano Richard Nixon e o democrata John
Kennedy. Pioneiro nos EUA, o
encontro foi decisivo na eleição
mais disputada que já se viu naquele país. Kennedy, que entrou
bronzeado e bem disposto em
cena, saiu-se bem melhor que
um abatido Nixon. Acabou vencendo a eleição por uma margem ínfima de votos.
No caso do Brasil, o presidente Lula não foi ao debate da
rede Globo na véspera do primeiro turno da eleição em 2006.
“Foi um erro estratégico. Na
época eu calculei que ele pode
ter perdido quatro pontos. A
emissora deu muito destaque
ao lugar vazio. Isso colaborou
para que houvesse segundo
turno.” Em 1998 foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso quem não compareceu.
Mesmo assim, acabou vencendo no primeiro turno. “Nesse
caso a vantagem era maior. Na
crônica das eleições, nenhum
debate foi decisivo no resultado final desde 1989 (Collo X
Lula), conclui. “É o primeiro que
dá o tom e consolida os estilos.
Em 2006, o Brasil descobriu
que o Alckmin era um candidato agressivo no primeiro debate”, opina Fernando Mitre,
da Bandeirantes. ■
Levy Fidelix, do PRTB,
Sete dos doze candidatos
à Presidência podem por lei
participar dos debates na TV.
Estão habilitados os que
representam partidos que
elegeram deputados federais na
última eleição e que ainda contam
com representantes na Câmara.
Candidato pelo PRTB, o jornalista
Levy Fidelix, aquele do Aerotrem,
entrou com uma ação direta
de Inconstitucionalidade no STF
exigindo participar de todos os
AGENDE-SE
5/8
14/9
É quando a rede Bandeirantes
realiza o primeiro debate
das eleições presidenciais.
A TV Gazeta e o Grupo Estado
realizam juntos um debate
entre os presidenciáveis.
Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 13
Munshi Ahmed/Bloomberg
Superávit de US$ 7,9 bilhões no semestre
A balança comercial fechou o primeiro semestre do ano com
um superávit de US$ 7,887 bilhões. O saldo é 43,28% inferior aos
US$ 13,907 bilhões registrados em igual período de 2009. Em junho
o superávit foi de US$ 2,278 bilhões, resultado 50,5% inferior ao
saldo verificado em junho do ano passado. Apesar dos menores saldos,
o volume de corrente de comércio do Brasil com o exterior, no primeiro
semestre do ano, de US$ 170,491 bilhões, é recorde histórico.
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Sérgio Lima/Folhapress
Tucano vê estratégia
equivocada de rivais
Único dos três presidenciáveis
a ir ao encontro da CNA,
Serra defende opção pelo debate
Sílvio Ribas
[email protected]
Em seu primeiro compromisso
público depois da confirmação do
deputado Índio da Costa (DEMRJ) como vice em sua chapa, o
candidato do PSDB à Presidência, José Serra, criticou ontem a
ausência de suas concorrentes
em debates. Ele disse não fazer
coro à estratégia de evitar a exposição e a verdade. O presidenciável foi o único presente
dos três convidados para o encontro da Confederação da
Agricultura e Pecuária (CNA),
na sede em Brasília.
A candidata Dilma Rousseff
(PT) alegou impedimentos de
agenda para comparecer e Marina Silva (PV) desistiu alegando não ter tido conhecimento
prévio das perguntas. Cobrado
por extrapolar do tempo para a
resposta de 12 perguntas formuladas por especialistas e dirigentes ruralistas, Serra brincou: “quero bônus. Os outros
candidatos não vieram”.
A presidente da CNA, senadora Katia Abreu (DEM-TO),
também lamentou as ausências,
por achar que “o silêncio confunde o eleitor”.
O candidato do PSDB, José Serra, durante o debate de
ontem na CNA: cadeiras vazias dos outrospresidenciáveis
Candidato do
PSDB faz promessas
a empresários
do agronegócio e
condena a política
econômica do
governo e suas
ligações com o MST
Mesmo sem o contraponto,
o presidenciável aproveitou
para apontar contradições da
candidata petista. Ao criticar
invasões “movidas por objetivos ideológicos e não para fins
de reforma agrária” do Movimento Sem-Terra (MST), “financiado por dinheiro público”, Serra associou a entidade
ao governo. “Não adianta esconder o boné (do MST) no discurso e usá-lo noutra”, disse,
ironizando a declaração da petista de que não usaria o símbolo da entidade, apesar de ter
sido fotografada com ele.
O candidato tucano também
procurou se colocar na posição
de nacionalista ao mesmo tempo que ironizava o perfil de esquerda do governo. “Vou estatizar o Estado”, disse, voltando
a denunciar o aparelhamento
da máquina pública.
Descontraído, prometeu atender reivindicações dos empresários do agronegócio e apresentou outras propostas. O tucano garantiu que, se eleito, irá
efetivar ao longo de seu mandato o seguro rural e a garantia
de preços agrícolas, além de
criar o defensivo agrícola genérico, estimular a criação de
transgênicos nacionais e de
combater a insegurança jurídica gerada por invasões de terra
e pela legislação florestal. ■
A queda de Serra nas
pesquisas o decepcionou?
após um jejum de 25 anos sem
eleições presidenciais. Mas isso
não quer dizer ausência completa
e falta de discernimento.
Apesar de termos o nome mais
preparado para a Presidência,
tanto nós quanto eles sonhamos
em ganhar no primeiro turno.
Mas será uma dura batalha.
TRÊS PERGUNTAS A...
Marcela Beltrão
entra na Justiça para ir aos debates
debates na TV. “Nosso partido
elegeu um parlamentar em 2006,
o Fernando Collor. Se ele mudou
de partido depois não importa.
Não existem candidatos de
segunda categoria”, diz.
Para evitar congestionamento
na bancada e tornar o evento mais
atraente ao público, as emissoras
negociam compensações aos
chamados nanicos. “A ideia é
reduzir o número de candidatos
e dar contrapartidas em entrevista.
Vamos fazer o que for possível
dentro da lei, mas a legislação
ainda é muito frágil”, informa
Alexandre Raposo, presidente
da Record. “Sigo a lei radicalmente.
Fizemos diversas reuniões
com os representantes dos
candidatos desde o ano passado.
Nós mandamos as regras e os
comitês concordaram. Esse ano
teremos uma funcionalidade
maior”, diz Fernando Mitre, diretor
de jornalismo da Band. P.V.
26/9
28/9
Nessa data a rede Record
realiza o segundo debate entre os
candidatos no primeiro turno.
Como de praxe, a rede Globo
realiza o último e decisivo
debate do primeio turno.
...ROBERTO FREIRE
Presidente do PPS e integrante
do staff da campanha de José Serra
“O eleitor ainda está
mais ligado na Copa
do que nas urnas”
O presidente do PPS, Roberto
Freire, não acredita em reviravolta
na corrida presidencial em razão
da ultrapassagem de Dilma
Rousseff (PT) na liderança do
tucano nas pesquisas. Para ele,
a corrida só começou e vai
esquentar em agosto, na TV.
Sabemos desde o início que esta
seria uma campanha difícil, mas
nenhum fato até agora tirou
a perspectiva de vitória da
oposição. Continuo animado
e acho que o público só vai
se envolver mesmo com o clima
eleitoral em agosto, durante
a propaganda na TV. Os dados
de pesquisa só mobilizam agora
políticos e jornalistas. Ainda
assim, lamento que outras
candidaturas estejam fugindo
dos encontros organizados por
entidades, para debater idéias
e posições. É um erro achar
que essas sabatinas não ajudam
a imagem dos candidatos.
O público vai se voltar para
propostas com visão de futuro
O eleitor está desinteressado
em discutir temas políticos?
No geral, o eleitor não está tão
envolvido com a política quanto
foi no momento histórico de 1989,
O empenho de Lula em favor
de Dilma desequilibra o jogo?
Descontado desvios institucionais
desse comportamento, não
acredito no fator decisivo de Lula.
Nós já derrotamos candidatos
apoiados pelo presidente em
outras eleições e em votações
no Congresso. Acreditamos na
imposição da sabedoria popular
em outubro. É um equívoco achar
que o eleitor se contenta com
melhoras pontuais, mesmo na
economia. Temos prova disso na
própria eleição de Lula em 2002,
quando o povo afirmou querer
mais do que estabilidade. Hoje
também se quer mais. S.R.
14 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010
BRASIL
Henrique Manreza
NOVA REALIDADE
PESQUISA
Crescimento da América Latina é de deixar
nações do Norte com inveja, diz NYT
Custo de construção em São Paulo sobe
2,05% em junho, puxado por altas salariais
Enquanto os Estados Unidos e Europa se lamentam em cima de
gigantescos déficits e ameaças a uma retomada frágil, a América Latina
reserva surpresas, diz reportagem da edição de ontem do The New York
Times. Segundo o jornal americano, de um passado de resgate de países
ricos, a AL experimenta crescimento que deixa com inveja as nações
do Norte. E o Brasil lidera a retomada, crescendo 9% no 1º trimestre.
O Custo Unitário Básico da construção civil do estado de São Paulo subiu
2,05% em junho. Esse é o índice oficial que reflete a variação dos custos
do setor para utilização nos reajustes dos contratos da construção civil
paulista, calculado pelo Sinduscon-SP e pela FGV. A exemplo do que
ocorreu em maio, a alta em junho foi puxada pelos aumentos salariais.
No mês, o custo da mão de obra subiu 3,42%. Materiais subiram 0,42%.
Indústria naval migra para Nordeste
Anúncio de ontem da instalação do estaleiro Promar em Pernambuco consolida investimentos na região
Ag. Petrobras
Juliana Elias
[email protected]
As idas e vindas do estaleiro
Promar – que anunciou sua instalação em Pernambuco ontem,
após ter a licença rejeitada no
Ceará – confirma uma tendência: é no Nordeste que estão as
melhores oportunidades para a
nova geração da indústria naval, acostumada historicamente ao Rio de Janeiro.
Ao menos é o que mostram os
dados. Após um ostracismo de
duas décadas, os investimentos
no setor voltaram com força, e é
para o Nordeste que vão 80% deles. Segundo levantamento do
Sindicato Nacional da Indústria
da Construção e Reparação Naval
e Offshore (Sinaval), os projetos
somam hoje R$ 7,6 bilhões, dos
quais R$ 6,1 bilhões se dividirão
entre Bahia, Pernambuco e Alagoas. Serão pelo menos 17 novos
estaleiros nos próximos anos,
sendo nove deles, inclusive o
Promar, no Nordeste.
É um avanço e tanto para uma
região que, até o ano passado,
quando foi inaugurado o estaleiro Atlântico Sul, em Suape (PE),
nunca tinha tido nenhum empreendimento voltado para a indústria naval ou petroleira. E só
o Atlântico Sul, com suas 160
mil toneladas de capacidade
anuais de processamento de aço,
já alcança sozinho mais da metade de toda a capacidade do
Rio, que com a dezena de estaleiros instalada ali desde a década de 1950 pode processar hoje
até 298 mil toneladas.
O Atlântico Sul, ao lado do Eisa Alagoas – também com capacidade para 160 mil toneladas e
só à espera das últimas licenças
para começar a ser construído na
praia de Coruripe – está entre os
maiores do mundo. Juntos, só
não deixarão o polo fluminense
para trás porque este também
tem um plano grande de ampliações: há entre R$ 1 bilhão e R$ 2
bilhões em investimentos aguardados, o que inclui a retomada
pela Petrobras do hoje desativado Ishibrás e a possível migração
do estaleiro da EBX para o Porto
de Açu, após ter a licença negada
em Santa Catarina.
“O Rio continua sendo o principal polo do Brasil”, aponta o
presidente do Sinaval, Ariovaldo
Rocha, “mas Pernambuco e Rio
de Grande do Sul surgem como
novos centros. O preço dos terre-
Entrega do primeiro navio
fabricado pelo Atlântico Sul,
em maio, estaleiro que inaugurou
a indústria naval no Nordeste
Dos 49 navios
encomendados
pela Transpetro
para os próximos
anos, 30 serão
feitos no Nordeste
e outros 16 virão
do Rio. Sobre os
outros três ainda
não há definição
nos, bem mais atraente que Rio ou
São Paulo, e o apoio dos governos
locais são elementos que pesam.”
E de fato, a competitividade
do Nordeste está nos baixos custos — já que o grosso da demanda
continuará no Sudeste, onde se
concentram as principais atividades de extração de petróleo e
gás. Além do desconto de 75% no
Imposto de Renda que o governo
federal oferece às empresas que
vão para lá, há ainda uma disputa
aquecida de isenções municipais
e estaduais. Em Pernambuco, por
exemplo, estas taxas ficam cerca
de 50% menores para os empreendimentos navais.
“O mercado está no Sudeste.
Então para atrair investimentos
para o Nordeste ou tem que ter
incentivo, ou a empresa não
vem”, diz Silvio Leimeg, diretor do Suape Global, projeto do
governo pernambucano de
transformar o estado em um
polo naval mundial. “De qualquer forma, se as empresas estão vindo não é só porque o ‘governo quer’. São empresas privadas, elas vão onde é vantajoso para elas”, conclui. ■
ESTALEIROS NO BRASIL
Nordeste centraliza 80%
dos investimentos em andamento
ONDE ESTÃO HOJE
EM MIL TONELADAS/ANO
PARA ONDE VÃO
INVESTIMENTOS PREVISTOS, EM R$ BILHÕES
600
550
7,694
8000
7000
500
6,142
6000
400
300
5000
298
4000
3000
175
200
2000
77
100
0
SUDESTE
SUL
1,076
1000
NORDESTE
TOTAL
0
0,476
SUDESTE
SUL
NORDESTE
TOTAL
Fonte: Sinaval
Promar entregará primeiro navio em 2012
Previsto inicialmente para
o Ceará, o estaleiro Promar,
que já tem uma encomenda
de 8 gaseiros para a Transpetro
antes de existir, foi transferido
para Suape, em Pernambuco.
O anúncio foi feito ontem pela
empresa, que, em pouco mais de
dez dias, teve que encontrar uma
nova localização depois de ter a
licença negada para se instalar
em Fortaleza. O Promar, que
começa a ser construído agora,
fica pronto em 12 meses, estando
apto a entregar os primeiros
navios no final de 2012.
Os gaseiros possuem capacidade
para transportar o gás em
estado líquido, tecnologia por
enquanto inédita no Brasil. J.E.
Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 15
SAIU O IDEB 2009: 4,6*.
NOSSAS CRIANÇAS
ESTÃO APRENDENDO MAIS.
Ideb 2005
Ideb 2007
Fonte: Inep
Ideb 2009
* Referente aos anos iniciais do ensino fundamental.
A meta de 2009 era 4,2.
A QUALIDADE DA EDUCAÇÃO PÚBLICA BRASILEIRA AGORA SEGUE PADRÕES
INTERNACIONAIS DE AVALIAÇÃO. O NOVO IDEB MOSTRA QUE ESTAMOS NO CAMINHO
CERTO E QUE NOSSAS CRIANÇAS ESTÃO APRENDENDO MAIS.
O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) mede a qualidade da educação básica do país. Ele é
formado pela combinação de dados de aprovação e pelas notas da Prova Brasil. Pela primeira vez no Brasil, foram
fixadas metas de qualidade escola por escola, monitoradas a cada dois anos, segundo critérios internacionais de
avaliação. As metas nacionais do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) foram integralmente cumpridas.
A qualidade melhorou em todas as etapas da educação básica e nossas crianças estão aprendendo mais. Tudo
isso é fruto da política de educação do governo federal, do trabalho de secretários municipais e estaduais de
educação, professores, diretores, trabalhadores em educação e da mobilização da sociedade. Nossa meta, até
2022, é atingir o índice 6,0, correspondente ao índice dos países desenvolvidos. E, com o empenho de todos,
vamos chegar lá.
Conheça o Ideb da sua escola, do seu município e do seu estado.
E saiba das ações do governo federal que mudaram o retrato
da educação pública brasileira, acessando www.mec.gov.br.
Ministério
da Educação
16 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010
BRASIL
Waldemir Barreto/Agência Senado
TRANSPORTE
ELEIÇÃO
Leilão para o trem bala deve acontecer
até o fim de novembro, diz ANTT
STF suspende inelegibilidade do senador
Heráclito Fortes, apesar do Ficha Limpa
O leilão para a construção do trem de alta velocidade que vai ligar as
cidades do Rio e Campinas, passando por São Paulo, deve acontecer até
o fim de novembro, disse Bernardo Figueiredo, diretor-geral da Agência
Nacional de Transportes Terrestres. As obras do trem devem ser iniciadas
até o final de 2011 e poderão ser concluídas até 2016. A estatal brasileira
ETAV terá capital de R$ 3,4 bilhões e será sócia no empreendimento.
O STF suspendeu ontem a primeira inelegibilidade resultante da Lei da
Ficha Limpa. O ministro Gilmar Mendes determinou que a Justiça Eleitoral
não pode negar registro de candidatura do senador Heráclito Fortes
(DEM-PI), com base nas restrições da Lei da Ficha Limpa. O parlamentar
pretende se reeleger ao Senado. Com a decisão de hoje, ficam suspensos
os efeitos da condenação imposta ao senador pela Justiça do Piauí.
Código Florestal
afeta compromisso
climático do Brasil
REDUÇÃO DO DESMATAMENTO É CHAVE
Maior parte dos compromissos brasileiros para redução
emissões de CO2 está ligada ao uso da terra
PARTICIPAÇÃO NO TOTAL DE EMISSÕES DE CO2 EM 2020*
Redução do desmatamento corresponde a 69% das diminuições
de emissão de CO2 assumidas pelo país em Copenhague
Paulo Justus
José Cruz/ABr
[email protected]
A aprovação do novo Código
Florestal, que tramita na Câmara, pode interferir diretamente na política climática
brasileira. Do jeito que está
proposta, a nova legislação
eleva o potencial de desmatamento, notadamente nas pequenas propriedades, e afeta
diretamente parte das políticas
para reduzir as emissões de gás
carbônico (CO 2 ) prometidas
pelo Brasil durante a COP15, de
acordo com ambientalistas e
consultores consultados pelo
BRASIL ECONÔMICO.
No ano passado, o país se
comprometeu a cortar 976 milhões de toneladas de CO2 até
2020 na conferência da Organização das Nações Unidas
(ONU) sobre mudanças climáticas realizada em Copenhague. As medidas de uso da terra, que envolvem a proteção
florestal, respondem por 69%
desse total. São basicamente
duas metas: a redução de 80%
do desmatamento na Amazônia e de 40% do corte da vegetação do Cerrado. O desmatamento é hoje o principal foco
de emissões de CO2 do Brasil.
De acordo com estimativa entregue pelo governo brasileiro
à ONU, o uso da terra responderia por 40,1% do total emitido pelo país até 2020 (veja gráfico). “O processo que representa a grande maioria de derrubada de mata é a queimada,
porque torna o desmatamento
mais barato”, diz o coordenador da campanha de Código
Florestal do Greenpeace, Rafael Cruz.
Só na Amazônia legal, o
novo código teria o potencial
de permitir o desmatamento
de 85 milhões de hectares, de
acordo com cálculo do
Greenpeace elaborado em
conjunto com o Instituto de
Pesquisa Ambiental da Ama-
Aldo Rebelo
Deputado federal
(PCdoB-SP)
“Vou corrigir o texto para
que fique mais claro o
meu objetivo de impedir
o desmatamento e por outro
lado auxiliar a consolidação
das áreas da pequena
agricultura, que está
dispensada de recompor
as áreas de reserva legal”
zônia (Ipam). A estimativa leva
em conta a liberação da obrigatoriedade da reserva legal
para as pequenas propriedades, de até quatro módulos legais. “Na Amazônia, o tamanho médio dessas propriedades é de 400 hectares”, diz Rafael Cruz.
A análise crítica da consultoria legislativa da Câmara
apontou outros riscos de elevação de desmatamento, presentes no novo código. O relatório chama atenção para a
possibilidade de se reduzir a
área de preservação permanente na margem dos rios em
até 50% mediante lei estadual.
O documento também critica a
regularização de ocupações
ocorridas até 22 de julho de
2008. “Não parece haver fundamentação jurídica consistente para a fixação dessa data.
Por que não a data de edição do
primeiro regulamento da Lei
de Crimes Ambientais, o Decreto 3.179, de 21 de setembro
de 1999?”, diz o texto.
AÇÕES PROPOSTAS
Redução no desmatamento do bioma
Amazônia em 80%
Recuperação de pastos
Mudanças
Redução no desmatamento do bioma
Cerrado em 40%
Plantio direto
Em resposta às críticas, o deputado federal Aldo Rebelo
(PCdoB-SP), relator do projeto
substitutivo do Código Florestal,
disse que pretende deixar mais
clara a proposta do código em
relação às pequenas propriedades. “Como alguns sugeriram
que talvez o relatório abrisse a
possibilidade de desmatamento,
eu vou corrigir o texto para que
fique mais claro o meu objetivo
de impedir o desmatamento e
por outro lado auxiliar a consolidação das áreas da pequena
agricultura, que está dispensada
de recompor as áreas de reserva
legal que possui mas não está
desobrigada de preservar as
áreas de reserva legal já existentes”, disse à rádio Câmara. As
alterações do projeto devem ser
apresentadas na próxima segunda-feira na comissão especial da
Câmara que analisa o projeto. ■
USO DA TERRA
40,1%
TOTAL EMITIDO*
TOTAL EMITIDO*
1,084
627
bilhão de toneladas
milhões de toneladas
PROPOSTA DE REDUÇÃO
PROPOSTA
DE REDUÇÃO
P
669
1133
milhões de toneladas
milhões de toneladas
m
AÇÕES PROPOSTAS
ILP - Integração Lavoura Pecuária
Fixação biológica de nitrogênio
Fonte: Fonte: Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone)
*Estimativa
MEIO AMBIENTE
Nova legislação deveria ter forma de recompensar
O projeto do novo Código
Florestal favorece a regularização
de pequenas propriedades rurais,
mas não estabelece incentivos
para a manutenção da floresta
em pé. “Faltou visão estratégica
ao não incluir a questão das
mudanças climáticas no código”,
diz Rodrigo Lima, coordenador da
área de mudanças climáticas do
Instituto de Estudos do Comércio
e Negociações Internacionais
(Icone). Segundo ele, é preciso
aproveitar o momento de
discussão do delicado tema
das florestas no país, para tratar
também das políticas climáticas.
“A saída está em criar incentivos
para se cumprir o código com
o pagamento por serviços
ambientais”, diz Fernanda
Carvalho, coordenadora
de políticas de clima da
The Nature Conservancy.
Em São Paulo, a Política de
Mudanças Climáticas, aprovada
em 24 de junho, é um exemplo
desses incentivos. O decreto
Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 17
Henrique Manreza
CONSUMO
INVESTIMENTO
Crescimento de 10,6% em junho, na carga
de energia do SIN, mostra expansão
Desembolsos do BNDES cresceram 72%
em maio, em relação ao ano anterior
A carga de energia no Sistema Interligado Nacional (SIN) cresceu 10,6%
em junho de 2010 em relação a igual mês de 2009, para 54,96 mil MW
médios, informou o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
Na comparação entre o primeiro semestre de 2010 e igual intervalo
de 2009, o operador registrou alta de 10,5%. No acumulado de 12 meses,
o aumento verificado foi de 6,5%, refletindo a continuidade da expansão.
Os desembolsos do BNDES somaram R$ 10,4 bilhões em maio, valor
72% superior aos R$ 6 bilhões liberados em maio de 2009, segundo
a instituição. No acumulado de janeiro a maio de 2010, os desembolsos
totalizaram R$ 46 bilhões, com alta de 41% na comparação com igual
período de 2009. Os dados, segundo o banco, mostram que “os bons
resultados devem-se, em grande parte, ao êxito do BNDES PSI”.
Infografia: Rubineto
Incentivos podem
compensar nova lei
Interesses comerciais e créditos
de carbono a partir de florestas
podem estimular preservação
AGROPECUÁRIA
ENERGIA
23,2%
33,3%
OUTROS
3,4%
TOTAL EMITIDO*
TTOTAL EMITIDO*
901
92
milhões de toneladas
milhões de toneladas
m
PROPOSTA DE REDUÇÃO
PPROPOSTA DE REDUÇÃO
166
8
milhões de toneladas
milhões de toneladas
m
AÇÕES PROPOSTAS
Eficiência energética
Incremento do uso de biocombustíveis
Expansão da oferta de energia por hidrelétricas
Fontes alternativas (PCH, Bioeletricidade, eólica)
AÇÕES PROPOSTAS
Siderurgia – substituir carvão de
desmate por plantado
O Código Florestal não é o único meio de se combater o desmatamento, um dos principais
pilares da nossa política climática. Outras formas de incentivo podem surgir, seja por meio
de leis estaduais para a remuneração das áreas verdes (veja
abaixo) ou por interesses comerciais. Há ainda a possibilidade da inclusão das florestas
no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), o que traria a possibilidade de gerarem
crédito de carbono.
Para Rodrigo Lima, coordenador da área de mudanças climáticas do Instituto de Estudos
do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), os compromissos assumidos pelo Brasil na redução do desmatamento são justamente um sinal de
que mais políticas devem surgir
para conservar as florestas.
“Quando se fala em mudança
climática a ideia é que você não
desmate, porque desmatar
emite gás carbônico e a pressão
de fora é que não se tenha desmatamento”, afirma.
Além disso, outras regulamentações já existentes no
Brasil também limitam o alcance do desmatamento.
“Imagine o etanol. Não é porque o código vai flexibilizar a
reserva legal na Amazônia que
vai se poder desmatar para
plantar cana. Já existe uma determinação no país que impede
o plantio de cana no bioma
amazônico”, lembra Lima.
Inclusão de políticas
climáticas no Código
Florestal aproximaria
legislação brasileira
das exigências
internacionais
A coordenadora de políticas
climáticas da The Nature Conservancy, Fernanda Carvalho, a
proposta do novo código deveria incluir também a política
climática. “O projeto olhou sob
o aspecto do produtor, mas esqueceu que temos 131 milhões
de hectares de floresta degradada que podem ser usada em expansão agrícola”, afirma.
A inclusão dessas medidas de
mitigação também adequaria a
legislação às exigências internacionais, diz Lima. “Falta estratégia ao não incluir a questão
das mudanças climáticas no
texto. As certificações internacionais apresentam hoje várias exigências que vão além da
lei”,afirma.
Segundo Rodrigo Lima, no
entanto, incorporar as preocupações climáticas no código
não significaria esquecer os
problemas econômicos e sociais que hoje estão ligados ao
desmatamento. “Pensar em
anistia até um certo ano é uma
coisa bastante plausível. A
Amazônia, por exemplo, é uma
área extremamente particular
porque tem 22 milhões de pessoas com uma pobreza enorme, que gera desmatamento de
pequenas propriedades. É preciso pensar em políticas sociais
que deem alternativas a essas
pessoas”, diz.
Essas discussões, no entanto,
seriam mais bem avaliadas fora
do ano eleitoral, na opinião do diretor de Relações Institucionais
da SOS Mata Atlântica. “A cada
quatro anos a discussão do Código Florestal vem à tona por causa
do ano eleitoral”, diz. ■ P.J.
OS PONTOS MAIS POLÊMICOS DO NOVO CÓDIGO
produtores pela manutenção da floresta
prevê o Pagamento por Serviços
Ambientais (PSA), que remunera
produtores rurais que protejam
recursos naturais em suas
propriedades. Inicialmente esse
pagamento será para nascentes.
Cada proprietário receberá entre
R$ 75 e R$ 300 por nascente
a cada ano, valor que varia
de acordo com as condições
ambientais. No futuro, esse
pagamento deve ser estendido
para florestas e áreas de
preservação ambiental. P.J.
REFORMA
R$
300
É o valor máximo que
o governo de São Paulo paga
anualmente por nascente
preservada pelos produtores
rurais. Os valores partem de
R$ 75. A remuneração pela
conservação ambiental foi
aprovada em 24 de junho
e integra política estadual
de Mudanças Climáticas.
1
2
3
Regularização de
áreas desmatadas
Pequenas
propriedades
Áreas de preservação
permanente
O novo Código Florestal, que
tramita na Câmara, propõe
a regularização de ocupações
ocorridas até 22 de julho de
2008. Segundo análise crítica da
consultoria legislativa da Câmara,
esse período deveria ser menos
recente, remetendo à edição
do primeiro regulamento da Lei
de Crimes Ambientais, de 1999.
As pequenas propriedades,
com até quatro módulos fiscais,
ficariam liberadas de manter
a reserva legal. O deputado Aldo
Rebelo, relator do projeto, deve
alterar o texto para deixar claro
que a liberalização é relativa
à obrigação de recuperar as áreas
degradadas e não à manutenção
da reserva já existente.
A proposta reduz o cálculo das
áreas de preservação permanente
de mata ciliar. Em vez de serem
calculadas pelo maior leito do rio,
passam a ser estabelecidas
de acordo com o leito menor,
dentro da propriedade.
Além disso, o projeto prevê a
possibilidade de redução de 50%
dessa área, mediante lei estadual.
18 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010
INOVAÇÃO & TECNOLOGIA
SEGUNDA-FEIRA
TERÇA-FEIRA
EDUCAÇÃO
EMPREENDEDORISMO
Rio Tietê pode ganhar
detector de enchentes
Equipamento prevê inundação e alerta população próxima por mensagem em celular
Carolina Pereira
[email protected]
Se você mora nos arredores de
um rio como o Tietê, na cidade
de São Paulo, imagine poder receber uma mensagem de texto
em seu celular toda vez que
houver risco de enchente por
conta do aumento do nível da
água. Com certeza, a medida
evitaria diversas perdas materiais ocasionadas pelas inundações, além de preservar a vida
daqueles que viriam a correr
risco se permanecessem em
suas casas durante a enchente.
O cenário pode parecer futurístico, mas é isso que propõe
o projeto do professor Jo Ueyama, do Instituto de Ciências
Matemáticas e de Computação
da Universidade de São Paulo
(ICMC-USP). O equipamento
desenvolvido pelo seu colega
de doutorado na Universidade
de Lancaster, o inglês Daniel
Hughes, foi adaptado e trazido
ao Brasil por Ueyama, com
apoio da Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de São Paulo
(Fapesp), a fim de viabilizar a
implementação de um sensor
de enchentes em rios do país.
O aparelho consiste em um
sensor submerso que mede a
pressão da água e, assim, moni-
Além de alertar
quanto ao nível
do rio, equipamento
também mede o grau
de poluição da água.
Sistema é alimentado
por energia vinda
de painéis solares
tora as variações no leito do rio.
O equipamento ainda conta com
um sistema GPRS (General
Packet Radio Service), que permite o envio e recepção de dados
para uma central por meio da
rede de telefonia celular. Dessa
forma, quando alertada sobre
risco de enchente, um software
instalado na central enviaria
mensagens para os celulares cadastrados dos moradores. O sistema é alimentado por energia
vinda de paineis solares.
O aparelho serve, também,
para medir o grau de poluição
do rio por meio da medição da
condutividade elétrica do rio.
Quanto mais limpa, menos eletricidade a água consegue conduzir. Além disso, um sensor
antifurtos também foi instalado. Quando identifica um movimento estranho, o aparelho
envia um alerta para a central.
Na prática
Colocar essa tecnologia em prática, no entanto, ainda depende
de avaliação do Departamento
de Águas e Energia Elétrica
(Daee) do Estado de São Paulo,
que afirma que vai iniciar, ainda
nesse semestre, testes para saber qual é a viabilidade do projeto. De acordo com Ueyama,
ainda são necessários investi-
mentos de R$ 540 mil para que
o projeto seja viabilizado e,
parte do investimento, cerca de
R$ 350 mil, seria direcionada
para replicação do conhecimento por meio de bolsas de estudo.
De acordo com o professor, é
preciso fazer com que outras
pessoas aprendam esses equipamentos pois, segundo ele,
essa tecnologia ainda não é
muito difundida e todos os
equipamentos são importados.
Mesmo assim, o sistema é considerado barato pelo fato de um
protótipo poder ser construído
por cerca de R$ 200.
Segundo a proposta de Ueyama, o equipamento seria instalado primeiramente entre as
pontes das Bandeiras e da Casa
Verde, em São Paulo. Segundo
Ueyama, o local foi escolhido
por ser próximo da confluência
entre os rios Tietê e Tamanduateí
e pelo fato de o local já ter sido
cenário de várias inundações.
Outra região que está na mira
do pesquisador é o Vale do Paraíba, em São Paulo, onde está
situada a cidade de São Luiz do
Paraitinga, na qual aproximadamente 9 mil pessoas tiveram
de deixar suas casas em janeiro
deste ano, após o Rio Paraitinga
alagar cerca de metade da cidade depois de fortes chuvas. ■
SÃO PAULO
Morador usa teto de
Kombi como barco
durante enchente
Cresce índice de chuva na terra da garoa
No que depender do aumento dos
índices de precipitação na cidade
de São Paulo, o equipamento
criado pelo professor Jo Ueyama
vai mesmo ser necessário
para tentar evitar tragédias
recorrentes, principalmente
durante o verão, período em que
mais chove na cidade. Segundo
dados do Instituto Astronômico
e Geofísico da Universidade
de São Paulo, em milímetros, esse
número aumentou 42,7% entre
dezembro de 2000 e o mesmo
Fotos: Sérgio Neves/AE
mês de 2008, de 179,6 para
256,3, por conta de fatores como
o aquecimento global. Embora
não haja números de 2009,
as enchentes que ocorreram
na cidade no ano passado não
indicam que a situação tenha
melhorado. Em dezembro,
por exemplo, fortes chuvas
provocaram o transbordamento
do Rio Tietê inundando
casas de 4 mil moradores no
Jardim Romano, Zona Leste
de São Paulo (veja fotos).
Hélvio Romero/AE
Moradores enfrentam
rua alagada no Jardim
Romano, no ano passado
Em dezembro de 2009,
4 mil tiveram as casas
alagadas em enchente
provocada pelo Tietê
Professor Ueyama: o protótipo
do sensor de enchentes
custa cerca de R$ 200
Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 19
QUARTA-FEIRA
QUINTA-FEIRA
GESTÃO
SUSTENTABILIDADE
Evandro Monteiro
CLAUDIO GASPARI
Diretor-presidente da Veotex
Por que as tecnologias
não são adotadas?
Já faz algum tempo que o Brasil está inserido definitivamente no cenário científico mundial. Existem hoje no
país centros de pesquisa e empresas brasileiras desenvolvendo tecnologia de ponta nas mais diversas aplicações.
Na área de segurança, o Brasil já dispõe do que existe de mais avançado mundialmente em termos de prevenção de desastres naturais, seja no que se refere a
sensoriamento sísmico, meteorologia ou até mesmo na
utilização de imagens para o controle de barragens de
grande, médio e pequeno porte, além do monitoramento dos leitos dos rios, represas, açudes, várzeas e
até mesmo de encostas e morros.
Falando especificamente sobre a utilização da imagem
como ferramenta de prevenção, detecção e reação às enchentes, podemos dizer que já existem sistemas 100% nacionais à disposição do poder público que certamente ajudariam a diminuir muito os prejuízos e, principalmente,
as mortes causadas no Brasil por esse tipo de fenômeno.
Esses sistemas são simples e baratos, compostos basicamente por
Sistemas que
boias que, fazendo o papel de sensores, conseutilizam imagem
guem medir com precipara detecção
são as variações de prode enchentes são
fundidade e vazão de
rios, barragens e represimples e baratos
sas. Esses sensores trae já foram usados
balham em conjunto
para monitorar
com sistemas de câmeras de alta definição capiscinões de
pazes de fazer imagens
São Paulo em
tanto durante o dia
regime de testes
quanto à noite e que são
transmitidas via internet utilizando-se banda
larga e nos sistemas mais
modernos, sinal de celular por redes GPRS, EDGE e 3G.
Os dados obtidos pelos sensores, aliados às imagens
recebidas, darão um panorama preciso e imediato do nível de perigo enfrentado e, por meio do próprio equipamento, diversas ações remotas, preventivas e reativas
podem ser tomadas como a abertura ou o fechamento de
comportas, o acionamento de sirenes de emergência
para alertar a população que vive em áreas de risco, além
da disponibilização das imagens e dados também pela
internet para o comando dos órgãos especializados nesse
tipo de ocorrência, como os Bombeiros e a Defesa Civil.
Se esses recursos, além de serem baratos, já estão à
disposição do poder público há alguns anos, por que
ainda não foram implantados em larga escala no Brasil?
Bem, a meu ver não existe uma única explicação para
isso, mas sim um conjunto de fatores negativos que somados acabam por dificultar esse processo, começando
pela falta de profissionais qualificados nos quadros para
auxiliar o governo na busca e implementação dessas
novas tecnologias seja na esfera federal, estadual e,
principalmente municipal, culminando com uma legislação antiquada e excessivamente lenta no que diz
respeito à contratação pública de serviços, que muitas
vezes acaba por desmotivar o governo a buscar novidades tecnológicas baseando-se apenas em soluções já
conhecidas e balizadas em concorrências anteriores,
porém de pouco ou nenhum efeito prático.
Isso observei na cidade de São Paulo, onde, em
2008, participei da implementação de um sistema de
monitoramento dos piscinões em regime de teste. E,
apesar dos resultados considerados excelentes pela
administração municipal, até hoje, dois anos e duas
enchentes depois, a licitação para a contratação ainda
não foi realizada. ■
20 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010
ENCONTRO DE CONTAS
LURDETE ERTEL
Divulgação
Ninhada
regional
Nos últimos dias, a
Agência Nacional de
Aviação Civil (Anac) deu
sinal verde para a criação
de mais duas companhias
aéreas regionais no Brasil.
Em São José dos
Campos (SP), está sendo
preparada a decolagem
da Laguna Linhas Aéreas.
Nascida nos hangares
da Laguna Táxi Aéreo,
a nova empresa recebeu
autorização de
funcionamento jurídico
como operadora de linhas
regulares nacionais.
A companhia
paulistana tem plano
de voo ambicioso:
pretende operar com
48 aeronaves (Fokker
100 e 50) em 96
destinos de 14 estados.
Mais uma
Já na Bahia, foi
autorizada a criação
jurídica da Mais Linhas
Aéreas. A nova empresa
terá sede em Salvador.
Dois em um
Mais um empurrão para a decolagem do
projeto do primeiro carro voador com fins
comerciais do mundo. O Terrafugia
Transition (foto), um veículo com asa ou um
avião com rodas desenvolvido por um grupo
de graduados do Instituto de Tecnologia de
Massachusetts (MIT), passou por um
obstáculo essencial no processo de
regulamentação técnica nos Estados Unidos.
A Federal Aviation Administration (FAA)
aprovou a certificação do invento na
categoria de aeronaves leves esportivas.
Com isso, os empreendedores ficam mais
perto de colocar o primeiro modelo híbrido
em plena produção ainda no próximo ano.
No ar, o equipamento poderá chegar
a uma velocidade de 185 km/h no ar
e 128 km/h na estrada. No céu, terá uma
autonomia de voo de 700 quilômetros.
A transformação de um modo de
uso em outro poderá ser feito em
30 segundos, segundo seus criadores.
A novidade deve chegar ao mercado
por algo como US$ 200 mil.
Miguel Medina/AFP
Duelo de pás
O grupo alemão Fuhrländer,
fabricante de aerogeradores
completos (torres, pás
e geradores), se prepara
para fincar pé no Ceará.
A empresa planeja instalar
uma unidade de produção em
Pecém até o próximo ano.
Na primeira etapa, o projeto
receberá investimento
de R$ 20 milhões.
A Fuhrländer segue os passos da
concorrente Wobben Wind Power,
que já implantou fábrica no
Ceará. E que já estuda também
um parque eólico no estado.
Betoneira
Já o grupo cimenteiro
espanhol PG&A escolheu
Suape (PE) para construir sua
primeira fábrica no Brasil.
Com plantas na Espanha,
República Dominicana e Chile,
a empresa está investindo
R$ 80 milhões na unidade
brasileira, que deve estar
pronta até o final de 2011.
Diamante sangrento
O Ministério Público do Tribunal
Especial de Serra Leoa está preparando
uma convocação oficial para que
a modelo Naomi Campbell testemunhe
no julgamento do ex-presidente da
Libéria, Charles Taylor, por crimes de
guerra e crimes contra a humanidade.
Naomi pode ser a única a ter provas
cabais de que Taylor traficava diamantes.
A modelo teria recebido de presente
do ex-presidente uma pedra bruta.
A top nega a história, mas a acusação
tem testemunhas importantes.
Como a atriz Mia Farrow, que afirma
que Naomi disse ter recebido o presente
de Taylor depois de um jantar onde
também estava presente Nelson
Mandela, ex-presidente sul-africano.
Com o dinheiro dos diamantes, Taylor
armou a Frente Revolucionária
Unida de Serra Leoa, que ficou
conhecida pela mutilação
sangrenta de civis desarmados.
E contribuiu para a guerra civil
na Serra Leoa, na qual foram
ceifadas cerca de 250 mil vidas.
“A gente
já sabe
o que vai
acontecer.
Se o Brasil
ganhar,
é obrigação;
se perder,
não vou
querer estar
na pele
do Dunga.
Mas isso ele
sabe melhor
do que
ninguém!”
Romário, prestando
solidariedade ao
controverso técnico
brasileiro no Twitter.
Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 21
Divulgação
O sonho da Cinderela
As sandálias Stuart Weitzman’s deixariam de queixo
caído até a Cinderela. Decorado com mais de 2.200 diamantes,
num total de 30 quilates, o par custa US$ 2 milhões e foi feito
à mão por um ourives e um joalheiro.
As joias têm garantia de mil anos e foram desenhadas
pelo estilista britânico Christopher Michael Shellis,
que passou três anos trabalhando no projeto.
MARCADO
● No dia 13 de julho, a Associação
de Marketing Promocional reunirá
em São Paulo os principais
executivos brasileiros do
segmento, para a sexta edição
do Ebemp, que vai debater temas
como temas a sustentabilidade
e o fortalecimento desse setor.
[email protected]
Stephen Lovekin/Getty
Briga de titãs
Parece que o negócio da vez no
turismo do Brasil são aquários.
Depois de Rio Grande do Sul
e Rio de Janeiro, é a vez do
Ceará fazer zarpar o projeto
de um gigantesco oceanário.
O governo cearense deve
anunciar até a próxima semana
o vencedor da licitação para
a construção da primeira fase
do Acquario, que ocupará área
na beira do mar, em Fortaleza.
O empreendimento deve custar
cerca de US$ 120 milhões
e ficar pronto no final de 2012.
É mais um projeto candidato
a ser o maior do gênero na
América Latina.
Fone no ouvido
Líder no setor de contact
center e uma das maiores
empregadoras do Brasil, a
Contax esta transformando
o Nordeste – e em especial
Pernambuco – em um dos maiores
pólos de contact center do Brasil.
A companhia toca as obras
da quarta unidade no Estado,
que receberam ontem a visita
do governador Eduardo Campos.
Quando a nova filial estiver
pronta, em 2011, a Contax terá
cerca de 23 mil funcionários
em Pernambuco. Que, com isso,
ficará à frente de São Paulo e Rio.
Na floresta
A empresária Chieko Aoki
cortou a fita de mais um hotel
de sua rede Blue Tree no Brasil.
O empreendimento foi
instalado em Manaus, capital
do Amazonas, no rastro da
migração de novas empresas
para o polo industrial da região.
Com 163 apartamentos,
o Blue Tree Premium Manaus
custou R$ 25 milhões.
Revival do
hit, agora
nos cabides
A rede americana de lojas
de departamentos Macy’s
confirmou para agosto
a largada das vendas da
esperada linha de roupas
criada por Madonna e a
filha Lourdes, de 13 anos.
Como já deixa concluir
o nome, a coleção
Material Girl será inspirada
na moda dos anos 80,
época do sucesso
de canção homônima
da rainha do pop.
Segundo detalhou
a Macy’s, a linha será
voltada ao público
adolescente e terá
“preços acessíveis” –
entre US$ 12 e US$ 40.
Além de roupas,
Material Girl vai batizar
calçados, bolsas, joias e
futuramente até perfumes.
Madonna já fez uma
incursão no mundo
da moda no passado,
ao emprestar seu nome
para coleções da rede
europeia H&M.
Material Girl é a grande
aposta da Macy’s para a
volta às aulas nos Estados
Unidos. E, principalmente,
para fazer frente a
concorrentes como Kohl’s,
que colocou em suas araras
roupas da cantora Britney
Spears, e a gigante
Walmart, que vende
confecções desenhadas
por astros como Miley
Cyrus ou Jonas Brothers.
A rede pretende vender
as peças em todas as
suas 200 lojas espalhadas
nos Estados Unidos.
Romeo Gacad/AFP
Infância em 100 minutos
Um filme sobre a infância do
presidente Barack Obama estreou essa
semana em Jacarta, na Indonésia.
O longa Obama Menteng Anak, baseado
no livro do co-diretor Damien Dematra
Obama, o filho de Menteng, conta
a história da infância do presidente
americano, durante os quatro
anos em que viveu em Jacarta.
A intenção dos produtores
é mostrar em 100 minutos uma
faceta de Obama até agora pouco
conhecida pelos americanos.
O filme foi rodado em cerca
de duas semanas na cidade
de Bandung, oeste de Java.
Quem dá vida ao jovem Obama na
telona é o americano Hasan Faruq Ali,
de 12 anos. A produtora Multivision
Plus Pictures prevê o lançamento
mundial do filme para novembro.
GIRO RÁPIDO
Divulgação
Águas do mar
Apesar das enchentes que
atingiram municípios de
Alagoana nos últimos dias,
a Secretaria de Estado do
Turismo afirma que a chegada
de turistas deve continuar
normalmente em Maceió, já
que as cidades litorâneas não
foram afetadas pelas chuvas.
Alagoas receberá voos
regulares e charters de
todo o Brasil e do exterior
durante a temporada de julho.
Novo visual
A Drogaria Iguatemi reabre
suas portas, dia 4, no
Shopping Iguatemi, em São
Paulo, com um novo conceito
de butique de bem-estar.
Com investimento de
aproximadamente R$ 1 milhão,
a loja passou por uma
reestruturação completa, que
possibilitou a chegada de 20
novas marcas, entre elas as
francesas L’Occitane, esmaltes
Orly e a inglesa Eyeko.
A nova identidade visual é
da agência Bloom Consulting.
Top 1
Mais de 35 mil universitários
e recém-formados do Brasil
apontaram Roberto Justus,
CEO do Grupo Newcomm,
como o líder mais admirado da
9ª edição da pesquisa Empresa
dos Sonhos dos Jovens, do
Grupo DMRH. O Google também
ficou no topo do ranking
das 10 empresas escolhidas.
Divulgação
Com Karen Busic
[email protected]
22 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010
EMPRESAS
Gigante das redes, Cisco
se atira a novos negócios
Computadores e filmadoras estão entre as novas atividades às quais a maior empresa
de internet do mundo passou a se dedicar em busca de liderar segmentos novos
Carlos Eduardo Valim*, de Las Vegas
[email protected]
John Chambers, presidente da
Cisco Systems, maior fornecedora de equipamentos para redes de internet, afirma que há
um ano as pessoas diziam que
ele estava cometendo um grande
erro ao entrar em uma série de
novos segmentos em plena crise
econômica. Para os críticos, ele
perderia mercado ao desafiar diversos competidores fortes, em
vez de se concentrar em seus
negócios principais. “Agora ganhamos participação em quase
todas as áreas, compramos três
empresas grandes e lançamos
400 produtos no último ano”,
diz a uma plateia de 12,5 mil
pessoas, que se reuniu esta semana em Las Vegas, nos Estados
Unidos, apenas para conhecer as
novidades da empresa.
O executivo está coordenando a transformação da Cisco, levando a companhia, que faturou
US$ 36 bilhões em 2009, à diversidade de atuação. Essas novas frentes vão dos computadores do tipo tablets a teleconferências, passando por equipamentos de comunicações até a
migração das redes elétricas
para o modelo conhecido como
smartgrid, que modificará completamente a gestão das distribuidoras de energia ao usar a internet para trafegar dados.
A Cisco tornou-se uma gigante da tecnologia durante o
boom da internet, na virada do
milênio, graças às vendas de
equipamentos que fazem o tráfego de informações entre computadores. Seus roteadores e
switchers ajudaram a definir o
funcionamento da rede global
usada hoje. “Nós inventamos a
internet”, diz Chambers. Mas a
empresa continua sendo a menos conhecida dentre as 30
companhias que compõem o
índice Dow Jones Industrial, um
seleto grupo que exclui nomes
como General Motors e Citigroup. E o grande desafio nessa
estratégia de abertura de tantas
novas frentes é evitar que a
imagem da Cisco se torne ainda
mais desconhecida entre os
possíveis clientes. A aproximação com o consumidor final
Qualquer
oportunidade
de novo negócio
precisa ter o
potencial de trazer
para a empresa
pelo menos
US$ 1 bilhão em
receita em um
período entre
cinco e sete anos
começou com a compra da
Linksys, fabricante de equipamentos residenciais para acesso
wi-fi, e da Pure Digital, responsável pelas filmadoras de bolso
Flip, que virou febre nos Estados
Unidos. Mas não deve passar
disso. “É muito improvável que
tenhamos um smartphone”, diz
Chambers. Sobre o Cius, tablet
que acaba de ser lançado, a empresa afirma que ele é focado no
mercado corporativo. Chambers defende que o fator unificador de todos os novos negócios é a internet (leia reportagem ao lado).
Descentralização
Na última década, a Cisco já havia passado a novos negócios
com sucesso, com equipamentos que fazem trafegar telefonia
e dados pela internet. “As pessoas diziam que não sabíamos
nem soletrar telefonia”, afirma
o executivo. Mas muitas destas
empresas diminuíram de tamanho ou passaram por fusões e
aquisições e a Cisco ganhou outro grande negócio.
A mudança agora promete ser
maior. A empresa mantém a estrutura tradicional, mas muitos
INOVAÇÃO
US$
5,2 bi
de investimentos em
pesquisa e desenvolvimento,
o que representa de 12%
a 13% do faturamento,
taxa acima do mercado.
RESULTADO
US$
9,8 bi
foi a receita registrada no
trimestre fiscal que terminou
em janeiro. A alta foi de 8%
em relação ao trimestre anterior.
Foi a primeira expansão
desde outubro de 2008.
CRESCIMENTO
140
empresas foram compradas
pela Cisco até hoje. O número
coloca a companhia entre uma
das maiores consolidadoras
do segmento de tecnologia.
executivos deixaram de se reportar aos superiores hierárquicos. Eles passaram a fazer parte
de um dos cerca de 60 grupos
voltados a desenvolvimento de
novos negócios. Há um comitê
operacional que fica acima dessa
estrutura para oportunidades de
maior potencial. “Em 16 anos,
na Cisco, esta é a maior mudança que vi”, afirma Marthin De
Beer, vice-presidente de tecnologias emergentes.
Esse plano lembra a cultura
de desenvolvimento de novos
produtos do Google, outra grande empresa de tecnologia que
aposta na diversificação dos negócios. A Cisco se difere do modelo da gigante de buscas pelo
pragmatismo. “Não entramos
em nenhum mercado em que
não tenhamos potencial de possuir pelo menos 40% de participação”, diz Chambers. “Porque
se tiver apenas 20%, você pode
ser obrigado a deixar o negócio”.
De Beer acrescenta que qualquer
oportunidade também precisa
ter o potencial de trazer para a
empresa pelo menos US$ 1 bilhão
em receita em um período entre
cinco e sete anos. ■ Viajou a convite da Cisco Systems
RECEITA DE SUCESSO
● A empresa criou 60 grupos
voltados ao desenvolvimento
de novos negócios.
● Cada nova área de
atuação deve ter potencial
para arrematar 40%
de participação de mercado.
● Entre as 30 empresas
que compõem o seleto
índice Dow Jones Industrial,
a Cisco é a menos conhecida.
Mas ela busca mais
reconhecimento ao se
aproximar do consumidor final.
● Entre as frentes mais
conhecidas do público
estão a de equipamentos
para redes wi-fi residenciais,
e a da Pure Digital,
fabricante das filmadoras
de bolso Flip, que viraram
febre nos Estados Unidos.
John Chambers, presidente
da Cisco Systems:
empresa lançou 400
produtos no último ano
Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 23
Ryan Anson/Bloomberg
Microsoft desiste de vender celulares
Quarenta e oito dias depois de anunciar o lançamento do Kin, celular
voltado ao público jovem, a Microsoft resolveu desistir do negócio.
Segundo reportagem do jornal The New York Times, o telefone, que
tinha acesso restrito à internet, deixa de ser vendido por ter apresentado
vendas abaixo do esperado. A companhia diz que irá realocar os
funcionários envolvidos na produção do Kin para a área voltada ao
Windows Phone 7, sistema operacional de celulares que será lançado.
Divulgação
O fantasma
da defasagem
Segundo executivos,
mudanças da companhia foram
motivadas pela transformação
do setor de tecnologia
Qualquer nova frente de negócio
da Cisco tem relação direta com a
internet. Elas incentivam o uso
da web o que acaba resultando
em mais receita para a área principal da empresa, os equipamentos de infraestrutura para
redes. O modelo criado por John
Chambers, presidente da companhia, difere daquele aplicado
pela maioria dos concorrentes,
que geralmente se concentram
em um único segmento. De acordo com os executivos que trabalham com Chambers, a estratégia tem como base as constantes
transformações do setor de tecnologia da informação. “Temos
essa paranoia sobre transições de
mercado”, diz Marthin De Beer,
vice-presidente de tecnologias
emergentes. Mas foi essa paranoia que ajudou a empresa a passar por todas as mudanças que
aconteceram na internet desde
o início dos anos 90. Neste período muitos concorrentes também encontraram formas de
mudar e se manter em atuação.
Quem ficou defasado, acabou
saindo do mercado.
O problema é que toda nova
oportunidade também representa um risco. Quando assumiu o posto atual, De Beer perguntou a Chambers se teria o
direito de falhar. Segundo De
Beer, o receio nasceu da quantidade de frentes que lideraria.
“Ele me respondeu que sim,
desde que não fosse um erro comum e que a falha fosse pelos
motivos certos”, diz.
O próprio Chambers reconhece que falhou em seus quase
20 anos de Cisco. Mas, segundo
ele, todos os erros ocorreram por
ter ido mais rápido do que deveria ou por não ter criado um modelo que pudesse ser replicado
para chegar a novos mercados.
Autocobrança
Chambers, que esteve à frente de
todo esse processo de expansão
da Cisco, também é conhecido
entre subordinados por cobrar
resultados concretos. A cobrança
é aplicada a ele mesmo. Outro
vice-presidente sênior da Cisco,
Carlos Dominguez, que conhece
Chambers há 19 anos, sabe disso.
Dominguez conta que uma vez,
no caminho para uma reunião,
quis deixar com Chambers uma
folha com 15 pontos que o executivo-chefe deveria lembrar de
abordar durante o evento. Chambers protestou, perguntando se
Dominguez não confiava nele. E
mais: apostou US$ 20 de que não
deixaria qualquer item de fora da
pauta. A reunião ocorreu, Chambers acabou divagando sobre
mais temas e terminou a conversa com 14 dos 15 tópicos mencionados, esquecendo um. Quando
entrava no elevador, ao final do
evento, Chambers segurou a porta e apresentou o último item da
pauta para os interlocutores.
Logo que o elevador fechou, Dominguez ouviu a frase: “Me dê os
US$ 20”. ■ C.E.V.
“
Temos essa
paranoia sobre
transições
de mercado
Marthin De Beer,
vice-presidente de
tecnologias emergentes
24 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010
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26 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010
EMPRESAS
Andrew Harrer/Bloomberg
EXPANSÃO
TECNOLOGIA
Dell levará seus computadores para
as redes locais de varejo do Nordeste
Novo modelo do Kindle oferece
vantagens para competir com iPad
Para dar continuidade à estratégia de fortalecimento no mercado
varejista brasileiro, a Dell anunciou sua entrada no comércio da Região
Nordeste. Até então, seus equipamentos podiam ser encontrados
apenas em grandes redes, como Extra e Carrefour. Com a expansão,
aproximadamente 100 pontos de venda serão incluídos, somando mais
de mil lojas que venderão os produtos da fabricante de computadores.
A Amazon anunciou o lançamento de um modelo do leitor eletrônico
Kindle com preço reduzido, na tentativa de combater a ameaça do
tablet iPad, da Apple. O novo Kindle DX será comercializado a US$ 379,
ante US$ 489 da versão anterior e contará com conexão de terceira
geração (3G) sem fio ilimitada. O iPad, da Apple, lançado em abril,
vendeu mais de 2 milhões de unidades, pressionando os concorrentes.
Evandro Monteiro
Gregory Kenepp,
diretor mundial
de marketing da
Intralinks, afirma
que a empresa
tem 300 clientes
brasileiros
Fusões e aquisições em alta
atraem Intralinks para o Brasil
Fabricante de sistemas para troca de dados confidenciais entre empresas vai lançar ações em bolsa nos EUA
Carolina Pereira
[email protected]
O índice de fusões e aquisições
no mundo cresceu 39% no primeiro trimestre deste ano se
comparado ao mesmo período
do ano passado, segundo levantamento feito pela americana Intralinks, especializada em sistemas para troca de informações
confidenciais entre companhias.
No Brasil, segundo dados da PricewaterHouseCoopers, o índice
foi ainda maior, de 43%, entre
janeiro e maio, quando foram fechadas 303 transações envolvendo compra e venda de empresas brasileiras. O crescimento
mostra por que a Intralinks abriu
na semana passado o primeiro
escritório na América Latina, em
São Paulo, e por que também
está interessada em abrir capital.
A entrada em bolsa deve ocorrer nos Estados Unidos, país de
origem da empresa, mas ainda
não tem data para ocorrer. Segundo Gregory Kenepp, diretor
mundial de marketing, a estruturação da abertura de capital
está sendo montada desde setembro do ano passado. Por estar em período de silêncio, a
empresa não revela o faturamento em 2009.
Segundo ranking Inc.5000,
da revista americana Inc., que
lista as empresas privadas de
crescimento mais rápido dos
Estados Unidos, em 2008 a receita foi de US$ 143,9 milhões.
De 2005 a 2008, pelo ranking,
Intralinks cresceu 162%.
De acordo com Kenepp, antes mesmo de montar o escritório no Brasil, a empresa tinha
cerca de 300 clientes no país,
entre eles alguns dos principais
bancos nacionais. Mas o executivo não revela quais empresas
estão usando seus programas.
“
Com o escritório
no Brasil, a meta
é crescer 100% ao
ano a partir de 2011.
As principais áreas
de atuação serão
finanças e energia
Gregory Kenepp
No mundo, a carteira de clientes conta com nomes como
Procter & Gamble, Pfizer e
Bank of America. Com a presença física no país, a meta é
crescer 100% ao ano a partir de
2011, especialmente nas áreas
de finanças e energia. “É importante contratar profissionais
locais que tenham contato com
potenciais clientes”, diz.
No mundo
Kenepp diz que, atualmente,
40% da receita da Intralinks
vem de fora dos Estados Unidos. A empresa tem escritórios
em 20 países e 10% do faturamento total da empresa sai da
América Latina, o que representa cerca de US$ 15 milhões
considerando-se a receita de
2008. O Brasil representa mais
da metade desse valor .
A empresa afirma que um
milhão de profissionais no
mundo utilizam seus sistemas
da Intralinks, que são baseados
na internet. Ao todo, diz Kenepp, 55 mil transações de
compra e venda foram efetuadas
por meio da plataforma da companhia até hoje. ■
MERCADO
● Segundo a Intralinks, índice de
fusões e aquisições cresceu 39%
no primeiro trimestre em relação
ao mesmo período de 2009.
● Cerca de 40% da receita da
companhia vem de fora dos EUA.
A América Latina é responsável
por 10% do faturamento total.
● Os sistemas da empresa
são usados por um milhão de
pessoas no mundo, em clientes
como Procter & Gamble e Pfizer.
Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 27
Severino Silva/O Dia
CREDIÁRIO
INTERNET
Baú da Felicidade tem novo diretor
de varejo para promover crescimento
Rocinha tem WI-FI gratuita do
governo do Rio de Janeiro
O novo diretor de varejo do Grupo Silvio Santos, José Roberto Prioste,
assume o cargo com o desafio de dar continuidade ao plano de expansão
da rede de lojas do Baú da Felicidade Crediário. Apoiado por seus
25 anos de experiência no mercado de eletroeletrônico, Prioste anuncia
a abertura de 11 novos pontos de venda no interior paulista. Entre as
cidades escolhidas estão Mogi Mirim, São José do Rio Preto, Americana.
Desde ontem mais de 100 mil moradores da Rocinha, na zona sul
do Rio, têm acesso gratuito à internet sem fio. A Secretaria de Ciência
e Tecnologia também disponibilizou em seu portal cursos
profissionalizantes e serviços para a comunidade. A PUC-Rio patrocinou
a rede e outras três comunidades no Rio já dispõem de acesso
à internet sem fio gratuita e em todas há unidades da Polícia Pacificadora.
Crise mundial abre oportunidade
para Microcamp voltar à Europa
Estratégia de internacionalização está presente na rede de ensino, que, além do Velho Continente, inclui os Estados Unidos
Divulgação
Cintia Esteves
[email protected]
Eloy Tuffi, presidente da empresa de ensino de informática e
idiomas Microcamp, manteve 15
unidades em Portugal durante
20 anos. Porém, em 2005, o empresário fechou todas e vendeu
seus imóveis. Não aguentou
concorrer com os incentivos
que as escolas portuguesas recebiam do governo para manter
jovens estudando de graça. Por
ser uma empresa estrangeira, a
Microcamp não tinha direito a
receber os benefícios.
Passados cinco anos, com a
Europa em crise, os estudantes
perderam as bolsas e Tuffi vê,
enfim, uma chance de retornar.
Foram investidos R$ 300 mil em
pesquisas para saber se os jovens portugueses estão dispostos a pagar pelo ensino de informática. “Dependendo do resultado da pesquisa podemos iniciar a operação em agosto do
ano que vem”, diz Tuffi.
O retorno a Portugal pode
facilitar a volta da Microcamp à
Espanha, onde chegou a ter três
escolas, todas fechadas pelo
mesmo motivo das unidades
portuguesas. Enquanto não
bate o martelo sobre Lisboa e
Madri, Tuffi concentra seus esforços de internacionalização
com o ensino de inglês na Flórida, Estados Unidos. A Microcamp abrirá sua segunda unidade de idiomas, voltada, principalmente, para cubanos, mexicanos e brasileiros. No Brasil,
foram abertas este ano sete escolas próprias e outras cinco serão inauguradas até o final do
ano. A expectativa é alcançar
faturamento de R$ 220 milhões,
10% mais que no ano passado.
Informática popular
O curso de tecnologia da informação (TI) é a principal aposta
da Microcamp. “Como promovemos o treinamento de TI para
os professores que já trabalham
na nossa rede, ensinando outros temas, conseguimos diminuir o valor da mensalidade.”
Na Microcamp o investimento é
de R$ 150 mensais, enquanto o
mercado cobra uma média de
R$ 500”, diz Tuffi. É também
com este curso que o empresá-
“
Os cursos básicos
de informática estão
desaparecendo.
Precisamos ensinar
novas ferramentas.
Como treinamos
professores de TI que
já trabalham na nossa
rede, conseguimos
diminuir o valor
das mensalidades
Eloy Tuffi,
presidente da Microcamp
rio espera reconquistar os estudantes portugueses.
A concorrência não o assusta.
Ele tem assistido às compras do
Grupo Multi, dono da Wizard,
que este ano arrematou a Microlins e a SOS Educação Profissional. “Já fui procurado pelo
Banco Pátria e pelo Deutsche
Bank, mas nos dois casos eles
queriam que eu saísse do negócio. Estou muito jovem para
parar de trabalhar”, diz o empresário de 59 anos.
Do mercado de capitais, ele
também quer distância. “O Brasil
não entende de investimento. As
pessoas nem compraram casa,
como vão apostar em um mercado tão incerto como o de ações?”,
pergunta-se. Falando apenas
português e sem entender de
computadores, o empresário
mostra que anda mesmo na contramão dos negócios, pois sua
rede no país é formada por 160 escolas de inglês e informática. ■
Tuffi: pacotes populares
para cursos de tecnologia
da informação
EXPANSÃO
RECEITA
CONCORRÊNCIA
160
unidades compõem a rede
R$
200 mi
foi quanto a companhia faturou
730
escolas formam a rede da rival
da Microcamp, sendo 105
franqueadas e 55 próprias.
Este ano a empresa já abriu sete
escolas e até o final do ano a
previsão é inaugurar mais cinco.
no ano passado. Este ano, a rede
espera crescer 10%. Segundo o
presidente da Microcamp, não está
nos planos a abertura de capital
nem fusões com outras empresas.
Microlins, do grupo Multi. A SOS
Educação Profissional, do mesmo
grupo, possui 150 franquias.
A companhia também é dona
da Wizard, de ensino de idiomas.
28 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010
EMPRESAS
Douglas Engle/Bloomberg
ARQUITETURA
VAREJO
Abertas inscrições para o prêmio mundial
de construção sustentável da Holcim
Carrefour adota comando de voz em
Centro de Distribuição no Rio de Janeiro
Foram abertas as inscrições do 3º ciclo do Holcim Awards, concurso
mundial de arquitetura criado pela Holcim Foundation for Sustainable
Construction com o objetivo de reconhecer projetos baseados no
conceito de construção sustentável que reúnam inovação, eficiência
e visão de futuro para este segmento. O Holcim Awards ocorre em
nível regional e global, sendo a primeira etapa em cada continente.
A tecnologia do voice picking (de separação de pedidos por comando
de voz), que foi implementada pela ID Logistics no Centro de Distribuição
do Carrefour em Osasco (SP), em 2005, foi estendida às operações da
rede de hipermercados no Rio de Janeiro. O sistema usa um software
de gerenciamento de estoques que pode ser acionado pelos funcionários
do local apenas pela voz.
Conveniência
ajuda o Bahamas a
bloquear os rivais
Rede mineira abre loja com bandeira Aki %, em modelo
similar ao ExtraFácil, do Pão de Açúcar, e Dia%, do Carrefour
Cintia Esteves
[email protected]
Nos planos de expansão das redes de supermercados mineiras
vale tudo para conter o avanço
dos líderes Pão de Açúcar, Carrefour e Walmart. Disputar
cada terreno de Minas Gerais
onde seja viável erguer um
ponto de venda e apostar em
diferentes formatos de loja, assim como fazem as gigantes do
varejo, está entre as estratégias
do Supermercado Bahamas e da
DMA, proprietária das marcas
Epa, Mart Plus e Via Brasil.
O projeto de implementação
de lojas de conveniência do Bahamas está pronto e até o final
do ano a primeira unidade será
inaugurada em local ainda a ser
definido. A bandeira Aki % seguirá os moldes do Extra Fácil,
marca do grupo Pão de Açúcar
de 61 lojas de 200 metros quadrados que nasceu para competir com os pequenos mercados
de bairro. O Dia%, do Carrefour,
possui 360 lojas distribuídas em
todo país. “Teremos unidades de
até 600 metros quadrados com 2
mil itens”, diz Jovino Reis, presidente do Bahamas. Uma loja
tradicional da rede dispõe de
mais de 10 mil itens.
Neste semestre, a companhia
também abrirá a segunda unidade com a marca de atacarejo,
que atende pessoas físicas e jurídicas, Suprir Aki, em Barbacena, e um supermercado Bahamas em São João Del Rei. Com
as três lojas e a construção de
um novo centro de distribuição,
a empresa terá investido R$ 40
milhões até o final do ano. As
inaugurações devem contribuir
para o faturamento de R$ 800
milhões que Reis espera alcançar este ano, uma alta de 15%
em relação a 2009.
Com administração familiar, o Bahamas passa por um
processo de profissionalização.
Reis tem buscado executivos do
mercado e o balanço da com-
“
Teremos unidades
de até 600 metros
quadrados com
mix de 2 mil itens.
Queremos valorizar
a empresa e chegar
a R$ 1 bilhão
em faturamento
Jovino Reis,
presidente do Bahamas
panhia é auditado há dois anos.
Apesar de não manifestar a intenção de vender suas lojas, o
empresário sabe que o movimento de consolidação do varejo é inevitável. “Queremos
valorizar a empresa e chegar a
uma receita de R$ 1 bilhão para
depois pensarmos em uma
possibilidade de associação ou
venda”, afirma.
Assim como Reis, do Bahamas, Nunes também não descarta uma associação. “É uma possibilidade, mas não temos nenhuma negociação em andamento”,
afirma. A companhia tem optado
pelo crescimento orgânico. Sua
última aquisição foi em 2000,
quando comprou a rede de supermercados Mineirão.
Ampliação contínua
Como crescente aumento do consumo, as varejistas mineiras aceleram o ritmo de expansão. O Bahamas e o grupo DMA acompanham este momento com a compra de terrenos para a posterior
construção de lojas. Este ano, a
Associação Mineira de Supermercados (Amis) prevê crescimento
de faturamento no setor de 5%
ante 2009, ano que registrou R$
13 bilhões de receita. Minas Gerais
conta com 3,2 mil supermercadistas e 6,7 mil lojas. ■
A bandeira Extra Fácil, do grupo Pão de Açúcar,
possui 61 lojas, todas localizadas no estado de São Paulo
Jovino Reis, presidente do Bahamas,
empresa familiar que passa
por processo de profissionalização
Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 29
Alessandro Costa/O Dia
ESTIMATIVA
NEGÓCIOS
Crise na Europa reduz previsão de
investimentos globais em tecnologia
Rio de Janeiro terá polo para
desenvolvimento de tecnologias digitais
As expectativas de gastos mundiais em tecnologia este ano devem
ser menores por conta da crise financeira na Europa e enfraquecimento
do euro ante o dólar, afirmou ontem a empresa de pesquisa Gartner.
O instituto espera que o investimento em tecnologia da informação
este ano no mundo fique em US$ 3,35 trilhões, alta de 3,9% sobre
o ano passado, contra uma previsão anterior de 5,3% de crescimento.
O Sindicato das Empresas de Informática do Estado do Rio de Janeiro
(Seprorj) anunciou ontem a criação do Centro Experimental de Conteúdos
Interativos Digitais (Cecid), um polo para o desenvolvimento de negócios
e tecnologias digitais. A informação é da Agência Brasil. Ainda este ano,
o centro terá estúdio de gravação, laboratórios de edição de vídeo,
equipamentos de transmissão e espaço para testes de soluções.
Paulo Alvadia/O Dia
Evandro Monteiro
Restaurante
dentro do
supermercado
aumenta o fluxo
de clientes
Restaurantes usados como
iscas pelos supermercados
Refeições prontas para viagem
ou vendida a quilo para consumo
imediato atraem clientela
Com os benefícios do mercado
de alimentação fora do lar, os supermercados aumentaram as
apostas no segmento. Manter um
restaurante no interior da lojas
nem sempre é tão rentável, mas o
serviço atrai um grande fluxo de
pessoas para as compras. O supermercado Modelo, de Mato
Grosso, serve comida à vontade
por R$ 9,90. Das 14 lojas da rede,
nove possuem restaurante. “Não
é em toda loja que este serviço é
rentável, porém o restaurante
atrai um fluxo de pessoas considerável”, afirma o encarregado
do setor Robson Oliveira.
O trabalho do Modelo chamou a atenção de Valdomiro
Bardini, gerente geral de operações da Coop, que implementou
restaurantes de comida por quilo em três lojas da rede paulista.
“Eles ainda representam muito
pouco na receita, mas percebemos crescimento de cerca de
5% nas vendas a cada mês”, diz
Bardini. “Trata-se de uma tendência no setor de supermercados e vamos construir restaurantes nas próximas lojas que
forem reformadas”, diz.
Divulgação
Alexandre Poni
Diretor comercial
do Verdemar
“No restaurante do próximo
supermercado, vamos
ampliar a oferta de alimentos
que ficam prontos com um
simples aquecimento no
microondas para que o cliente
prefira comer em casa”
A previsão de crescimento é
baseada não só na expectativa de
venda dos estabelecimentos,
mas em toda a cadeia produtiva,
que envolve desde fabricantes de
produtos para o preparo dos alimentos a fornecedores de equipamentos. A próxima unidade
do supermercado Verdemar, de
Minas Gerais, por exemplo, terá
um andar com mais de 600 metros quadrados dedicado a um
restaurante. “Investimos R$ 10
milhões nesta loja, que junto
com o restaurante ocupa uma
área de 2,5 mil metros quadrados”, diz Alexandre Poni, diretor
comercial do Verdemar.
Ao mesmo tempo que o empresário aposta na tendência da
praticidade, ele teve um problema com ela, de estacionamento.
“Como o cliente passa mais tempo no interior da loja para se alimentar, o estacionamento fica
cheio por muito tempo”, diz Poni. “Vamos ampliar a quantidade
de alimentos que ficam prontos
com um simples aquecimento no
microondas para que o cliente
prefira levar para casa”, afirma.
A expectativa da consultoria
ECD, especializada neste mercado de alimentação fora do lar,
é que este mercado cresça 15%
este ano. O levantamento refe-
re-se à venda de bebidas e alimentos - preparados por restaurantes, lanchonetes, padarias
entre outros tipos de operadores
-, sejam eles consumidos no
próprio estabelecimento ou em
casa pelo consumidor. ■ C.E.
NOVA LOJA
R$
10 mi
é quanto a rede Verdemar
está investimento em sua
próxima loja que terá um andar,
de 600 metros quadrados,
dedicado a um restaurante.
VALOR FIXO
R$
9,90
é o preço que cada pessoa
paga para comer à vontade nos
restaurantes do supermercado
Modelo, que possui 14 lojas
no Mato Grosso.
CRESCIMENTO GRADUAL
5%
é quanto crescem, a cada mês,
as vendas dos restaurantes
da Coop. Das 30 unidades da
rede, apenas três delas servem
refeição por quilo aos clientes.
30 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010
EMPRESAS
Henrique Manreza
LOGÍSTICA 1
LOGÍSTICA 2
LLX inicia a construção do Porto Sudeste
no RJ com investimento de R$ 1,8 bilhão
Eike Batista diz que investirá R$ 34,8
bilhões no estado do Rio de Janeiro
O porto será construído em Itaguaí, no litoral do Rio de Janeiro. Com
prazo de conclusão previsto para o final de 2011, as obras civis estão
a cargo do consórcio ARG-Civilport e incluem pátio de estocagem
de minério de ferro, túnel de ligação entre o pátio de estocagem e o píer
e estrutura offshore. A companhia também anunciou a contratação
dos principais equipamentos que serão usados na operação do porto.
A declaração de Batista foi feita ontem no Porto do Sudeste, em Itaguaí.
O porto terá capacidade de movimentação de 50 milhões de toneladas
de minério de ferro por ano, em sua etapa inicial de operação, podendo
movimentar posteriormente até 100 milhões de toneladas de minério
de ferro por ano. Outro projeto da LLX em andamento é o Superporto
do Açu, em construção em São João da Barra, orçado em R$ 2,4 bilhões.
Brasil é centro de produção da
Legrand para a América Latina
Companhia francesa amplia leque de produtos fabricados no país e planeja novas aquisições
Henrique Manreza
Natália Flach
[email protected]
O Brasil foi escolhido pelo grupo
francês Legrand para ser o centro de produção e exportação
para a América Latina. Segundo
o presidente no Brasil, André Vidal, o fechamento das fábricas
no Peru e na Costa Rica, há cinco
anos, e a do Chile, no fim do ano
passado, faz parte da estratégia
da companhia de ampliar a
atuação das unidades brasileiras.
“O Brasil vai produzir itens
residenciais, industriais, de
multiuso e também voltados
para terceiros, como shopping
centers e hotéis”, afirma o executivo. “As fábricas no México e
na Colômbia continuarão em
operação, enquanto os outros
países passarão a ter apenas representantes comerciais.”
O grupo espera obter neste
ano um faturamento de R$ 450
milhões, um consolidado das
cifras das seis empresas que integram a holding brasileira: Bticino, Cemar, HDL, Lorenzetti
Materiais Elétricos, Ortronics e
Pial. De acordo com Vidal, o país
registra um índice de investimento de cerca de 7% do faturamento, enquanto a média
mundial é de 5%. “O grupo tem
interesse em duplicar o seu faturamento, em médio prazo,
porque o mercado apresenta
muitas oportunidades. Pretendemos fazer isso de forma orgânica e por meio de aquisições.”
Ao todo, a Legrand já adquiriu cerca de cem empresas, em
todo o mundo. “Todas as aquisições seguiram a nossa vocação de dar infraestrutura para
as instalações elétricas e de
cabeamento. Nunca entramos
no segmento de cabos ou de
geração de energia”, afirma.
“Continuamos de olho em
companhias brasileiras neste
mesmo segmento, afinal o
mercado é grande e ainda tem
espaço para consolidação.”
O Brasil está hoje no quarto
lugar do ranking de faturamento, ficando atrás apenas da
matriz francesa, da Itália e dos
Estados Unidos. “O país sempre foi um fabricante e distribuidor de peso no grupo”, diz
Vidal, acrescentando que a fi-
lial brasileira tem crescido cerca de 15% por ano.
O presidente da Legrand
no Brasil, André Vidal:
de olho nas empresas
brasileiras
Novos produtos
A Cemar Legrand, que é uma das
maiores fabricantes de centros e
quadros de distribuição e de comando do Brasil, está entrando
em um novo segmento destinado
aos setores terciário e industrial.
“Eram mercados conhecidos,
mas não atuávamos neles”, conta Rogério Franceschini, diretor
comercial da Cemar Legrand.
“Era o que faltava introduzir
na fábrica de Caxias do Sul
(RS)”, afirma Vidal, sem revelar
quanto foi investido na nova linha de produção. Mas ele compara essa ampliação com a que
foi feita, em março, quando foram introduzidos novos produtos residenciais no portfólio da
companhia. “Nessa linha de
produção, investimos cerca de
R$ 15 milhões”, afirma.
De acordo com Vidal, no longo prazo, esta divisão deve abocanhar 10% do mercado de sistemas de proteção e distribuição
de energia elétrica para terciários e indústrias. “Queremos
estar entre o quarto e quinto colocado no ranking deste setor”,
diz o executivo.
“Desde que a Cemar foi
comprada pela Legrand, em
2006, ela dobrou o seu faturamento, agregando linhas de
produção de disjuntores e canaletas do grupo e também de
forma orgânica.”
Para se ter uma ideia, na unidade de Caxias do Sul, havia
400 funcionários há quatro
anos. Hoje, são mais de 600, de
acordo com Franceschini. ■
HISTÓRIA
Há 36 anos no país, companhia tem perfil de compradora
O grupo Legrand desembarcou
no Brasil em 1974. Mas o seu
primeiro passo só foi dado
três anos depois com a
aquisição da Pial. Em 1989,
o grupo francês ampliou
a sua participação no
mercado brasileiro com a
compra da marca BTicino.
Em 1995, foi a vez da Luminex;
em 1997 da Ortronics, e em 1999
a Lorenzetti Materiais Elétricos.
Em 2006, o Legrand voltou a
investir e arrematou a Cemar,
e, há dois anos, anunciou a
compra da HDL.
As atividades industriais se
concentram em Campo Largo,
no Paraná; Caxias do Sul,
no Rio Grande do Sul; e em duas
unidades de produção da HDL,
que ficam em Manaus (AM) e em
Itu (SP). Em Campo Largo,
o grupo possui o Centro
de Desenvolvimento para
América Latina, que opera
em sincronia com a plataforma
de desenvolvimento na França,
em Limoges. Hoje o centro
já conta com 50 profissionais
dedicados exclusivamente
ao desenvolvimento de
novos produtos.
Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 31
Divulgação
SIDERURGIA
CARNE
ArcelorMittal rebate acusação de cartel
emitida pela União Europeia
JBS faz acordo para adquirir confinamento
McElhaney, nos EUA, por US$ 24 milhões
Em nota sobre a decisão da UE de multar 17 siderúrgicas em € 518,5
milhões por formação de cartel, a ArcelorMittal divulgou nota afirmando
que a multa de € 315 milhõe recebida por ela se baseia em “práticas
anticoncorrenciais de mais de 25 anos atrás” e que recorerá da decisão
após analisá-la em detalhes. Segundo a siderúrgica, ela operar um “forte
programa de fiscalização” para garantir “altos padrões éticos e legais”.
O acordo foi firmado por meio da subsidiária integral JBS Five Rivers
Cattle Feeding. A transação contempla 100% dos ativos, incluindo
confinamentos e fábrica de ração no Arizona. Segundo o comunicado da
empresa, o confinamento McElhaney tem capacidade para mais de 130 mil
bois simultaneamente e está estrategicamente localizado na região da
unidade de produção da JBS em Tolleson, também no estado do Arizona.
Henrique Manreza
Em 2018, cobertura de
abastecimento de água
deve chegar a 98,7%
Sabesp irá investir R$ 16,9 bilhões
em São Paulo e universalizar atuação
Meta da companhia é atingir
98,7% do abastecimento
de água do município até 2018
Priscila Machado
[email protected]
Antes mesmo do Supremo Tribunal Federal (STF) dar um desfecho às discussões acerca da titularidade dos serviços de saneamento - se de responsabilidade municipal ou do governo
do estado - , a Sabesp, a Prefeitura de São Paulo e o Governo do
Estado de São Paulo assinaram
um contrato para garantir o fornecimento de água e a expansão
da rede. Só na capital paulista
serão investidos R$ 16,9 bilhões
nos próximos 30 anos. A cidade
corresponde a 56% do faturamento da companhia.
O projeto de longo prazo
conta com metas intermediárias, entre elas a universalização
da distribuição de água, coleta e
tratamento de esgoto em São
Paulo até 2018. Segundo Gesner
Oliveira, presidente da Sabesp,
Edson Lopes Jr.
Gesner Oliveira,
da Sabesp,
cita assinatura
de contrato
com governo
e prefeitura
como marco
de segurança
jurídica.
a assinatura de um contrato formal “é um marco em termos de
segurança jurídica”.
O principal objetivo do plano de investimentos é a expansão do atendimento. Para isso,
a companhia investirá R$ 7,2
bilhões. De acordo com as metas estabelecidas, em 2018, a
cobertura de abastecimento de
água deve chegar a 98,7%, o
índice de cobertura com coleta
de esgoto estará em 96,7%, e o
tratamento do esgoto coletado
chegará a 93%. Outros R$ 3,6
bilhões estão previstos para
promover a redução de perdas
e fazer a reparação de córregos
e mananciais.
Até o final da primeira etapa
do projeto, em 2013, a Sabesp
já terá investido no município
R$ 8,6 bilhões os quais cerca
de 80% já teriam sido levantados, segundo Mário Arruda
Sampaio, superintendente de
Captação e Relações com Investidores da Sabesp. “Em um horizonte, além de 2013 pretendemos alavancar 50% do valor do
plano e o restante obter com geração própria de caixa”, diz .
O contrato entre a prefeitura e a
Sabesp é o primeiro da cidade de
São Paulo com uma empresa de
saneamento. Com o atendi-
mento formalizado no principal
município da área de abrangência da companhia, a Sabesp ainda continuará prestando serviços de distribuição, coleta e tratamento de esgoto sem contrato
em cerca de dez cidades do litoral paulista, entre elas Santos,
onde negocia um contrato.
Oliveira também confirmou
que há um projeto de coleta e
tratamento de esgoto em Guarulhos, onde a empresa não
opera, mas não soube informar
quanto precisa ser investido.
A Sabesp atende São Paulo e
mais 38 municípios, somando
mais de 20 milhões de pessoas,
48% dos habitantes do estado. ■
APORTE
ATUAÇÃO
ABRANGÊNCIA
R$
16,9 bi
É o valor do investimento da
20
milhões
98,7%
É o número de pessoas atendidas
É o índice de abastecimento de
Sabesp no município de São Paulo
nos próximos 30 anos. O recurso
será revertido na expansão
e garantia do atendimento.
pela companhia em São Paulo
e mais 38 municípios, o que
representa 48% dos habitantes
do estado de São Paulo.
Contrato
água que São Paulo terá até 2018;
a cobertura com coleta de esgoto
estará em 96,7%; e o tratamento
do esgoto chegará a 93%.
32 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010
EMPRESAS
Chris Ratcliffe/Bloomberg
AUTOMOBILÍSTICA 1
AUTOMOBILÍSTICA 2
Vendas de veículos no Brasil sobem 4,65%
e atingem 262,8 mil unidades em junho
Fiat mantém a liderança de vendas no país
e Volks ocupa o segundo lugar, diz Fenabrave
A variação foi registrada na comparação com maio. Considerando o
mesmo mês do ano passado, há queda de 12,44%, disse a Fenabrave,
que representa as concessionárias. No acumulado do primeiro semestre,
as vendas avançaram 8,98% sobre igual período de 2009, para 1,58
milhão de unidades. A projeção para vendas de automóveis neste ano foi
reduzida, enquanto a de comerciais leves, caminhões e motos melhorou.
A Fiat foi a líder de automóveis e comerciais leves, com vendas de 60.167
unidades em junho e 341.443 unidades no primeiro semestre. Em seguida
aparece a Volkswagen, com 51.965 unidades vendidas em junho e um
total de 313.443 unidades em seis meses. A GM teve vendas de 49.039
unidades em junho, e de 302.183 unidades na primeira metade do ano.
A Ford vendeu 24.441 em junho e 154.053 no primeiro semestre.
Companhias aéreas aumentam
Qatar Airways, Aegean Airlines e Copa
estão entre as estrangeiras que buscam
ocupar mais espaço no céu brasileiro
Ana Paula Machado
Alastair Miller/Bloomberg
[email protected]
Não é somente em grandes
obras de infraestrutura que o
mercado brasileiro é visto como
o novo eldorado. Na aviação internacional, o crescimento do
país e consequentemente o
maior número de viagens tem
atraído grande número de
companhias aéreas. A Qatar
Airways, do Oriente Médio, a
grega Aegean Airlines e a
Copa Airlines, do Panamá,
estão entre as que buscam
ampliar negócios com o crescimento brasileiro.
Dados da Empresa Brasileira de Infraestrutra Aeroportuária (Infraero) apontam que
no primeiro bimestre foram
transportados 2,69 milhões de
passageiros nos voos internacionais. Em 2009, apesar da
crise econômica internacional, 13,13 milhões de pessoas
realizaram viagens internacionais, um volume pouco inferior aos 13,28 milhões de
2008, ano em que o Brasil viveu um dos melhores momentos da aviação comercial.
Novata no mercado brasileiro, a Qatar estreou suas
operações na América do Sul
este mês com uma rota que
liga o Oriente Médio, São Paulo e Buenos Aires. O diretor da
empresa para a América Latina, Antonio Bandeiras, disse
que o Brasil oferece oportunidades reais de crescimento,
pois é um mercado com grande potencial de expansão devido ao bom momento econômico pelo qual passa.
“Prova disso é que nos dois
meses que iniciamos as vendas para o vôo Doha/São Paulo tivemos uma procura extraordinária. A taxa de ocupação para essa rota está muito
boa”, disse Bandeiras que é
português e está há cinco meses no Brasil. A nova rota
completa um programa de
cinco meses de expansão da
companhia que, até agora,
possibilitou iniciar voos para
Bangalore, Copenhague, Ancara, Tóquio e Barcelona.
Akbar Al Baker, presidente
da Qatar Airways, disse que o
Akbar Al Baker
Presidente
mundial da Qatar
“A América do Sul é a última
peça que faltava para nosso
projeto de expansão. No
início do ano, com a visita
de uma delegação brasileira
no Qatar, conseguimos fechar
o acordo para as rotas”
Felipe Setti
Antonio Bandeiras
Diretor para a
América Latina
“A rota para São Paulo teve
uma procura grande. A taxa
de ocupação está acima das
expectativas, pois, tivemos
somente dois meses de
vendas e vamos oferecer
um serviço cinco-estrelas ”
voo para o Brasil completa o
plano de expansão da empresa
que hoje tem operações para 92
destinos. “A América do Sul é a
última peça que faltava para
nosso projeto. E no início do
ano com a visita de uma delegação brasileira ao nosso país
conseguimos fechar esse acordo que culminou na abertura
de novo voo”, disse o executivo que comanda a companhia,
a primeira considerada cinco
estrelas do Oriente Médio a
voar para o Brasil.
Mercado atrativo
A Qatar Airways é a segunda
empresa aérea do Oriente Médio que opera no país. A Emirates iniciou a rota para o Bra-
sil há cerca de três anos.
“A alta dos preços dos combustíveis e a baixa demanda
dos países de origem fazem
com que as companhias estrangeiras olhem o Brasil como
possibilidade de manter a rentabilidade e a demanda aquecida”, disse o consultor em
aviação e professor da Pontifícia Universidade Católica de
Minas Gerais (PUC-Minas),
Hugo Tadeu Braga.
Outra novata no Brasil é a
grega Aegean Airlines que vai
operar no país por meio do
acordo de compartilhamento
de voo com a TAM. A companhia é a mais nova integrante
da Star Aliance, a maior parceria entre empresas aéreas. ■
PARA O MUNDO VIA COPA
● A Copa Airlines, do
Panamá, também vai aumentar
a frequência para o Brasil.
Neste mês, inicia o terceiro
voo entre São Paulo
e a Cidade do Panamá.
● O voo tem conexão
imediata entre o Brasil e
países da América Central,
do Norte, do Sul e do Caribe.
● Empresa vai operar
com um Boeing 737,
com capacidade para
12 passageiros na classe
executiva e 112 na econômica.
Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 33
Mark Elias/Bloomberg
AUTOMOBILÍSTICA 3
AUTOMOBILÍSTICA 4
Mercedes-Benz convoca novo recall do
Sprinter por problema no cinto desegurança
Toyota prepara recall de 270 mil veículos
por defeito em motor em todo o mundo
A Mercedes-Benz convoca proprietários do modelo Sprinter,
produzidos de setembro de 2009 a abril de 2010, a comparecerem
às concessionárias devido a problemas na fixação dos cintos
de segurança dianteiros. Em 15 de junho, a montadora havia
anunciado outra convocação dos proprietários da Sprinter devido
a possibilidade de um desgaste no terminal do cabo de freio.
A Toyota Motor afirmou ontem que os veículos com defeito pertencem
a sua marca de luxo Lexus, além do modelo Crown. “No pior dos casos,
nos modelos em questão, o motor poderá parar subitamente devido
ao mal funcionamento de uma válvula”, explicou o porta-voz da Toyota,
Hideto Yukawa. Os veículos pertencem às séries Lexus GS350, GS450h,
GS460, IS350, LS460, LS600h e LS600hL e ao modelo Toyota Crown.
disputa por passageiros do Brasil
Charles Pertwee/Bloomberg
MAIS DESTINOS
Expansão
A Aegean Airlines é a maior
companhia aérea grega. Em
2009, transportou 6,6 milhões
de passageiros, total 10%
maior que no ano anterior.
INFRAESTRUTURA
Frota
maior
A Aegean opera uma frota
de 30 aviões, oferecendo
54 rotas domésticas e
internacionais servidas por
mais de 150 voos diários.
PARCERIA
Milhagens
O acordo com a TAM vai
permitir que passageiros
das duas companhias possam
acumular milhas nos programas
das duas empresas.
Avião da Qatar Airlines em
Dubai: companhia passa
a voar para dois destinos da
América do Sul, São Paulo
e Buenos Aires, neste mês
American Airlines se fortalece no país
Companhia terá 11 novas
frequências entre o Brasil
e os Estados Unidos
Outra companhia que está de
olho no país é a American Airlines. A empresa completa 20 anos
no Brasil, é a segunda estrangeira
a operar no mercado local - perdendo apenas para a portuguesa
TAP que tem 70 frequências – e
inicia em novembro mais 11 voos
entre o país e os Estados Unidos e
estreia no mercado de Brasília.
Com os novos voos a American terá 68 frequências no país,
número que deve ser elevado a
70 na alta temporada, quando
contará com voos extras
O diretor de vendas e marketing da empresa para o Brasil,
Dilson Verçosa Junior, disse que
com as novas rotas o Brasil passa
a ser o terceiro destino internacional com mais de seis cidades
atendidas, perdendo apenas para
o México e Canadá. Nas rotas para
o Brasil, a American Airlines voa
com uma taxa de ocupação acima
de 80% com uma tarifa superior
à praticada no ano passado.
“O Brasil é muito importante
A American vai
aumentar o número
de voos entre Brasil
e Estados Unidos
na alta temporada.
Com isso, a companhia
passará a operar 70
frequências semanais
entre os dois países
para a empresa, pois hoje tem uma
participação maior no mundo em
função de seu crescimento econômico e das possibilidades de
negócios que aqui existem. Não
podíamos deixar de aproveitar esse momento”, disse o executivo.
“Aqui era o único país que não
operávamos na capital federal.
Agora, poderemos aumentar
nossa presença no Brasil. Há dois
anos estávamos somente em
duas cidades brasileiras, Rio de
Janeiro e São Paulo. Hoje, já voamos para Belo Horizonte, Salvador e Recife”, afirmou.
Segundo Verçosa, o volume de
passageiros transportados aumentará em 20% no próximo
ano. “Brasília é um destino com
forte demanda de negócios e cada
vez mais as pessoas querem voar
sem escalas, por isso, exercemos
a nossa posição dentro do acordo
bilateral, entre Brasil e Estados
Unidos”, afirmou Verçosa Junior.
Pelo acordo, segundo ele, ainda
há frequências que podem ser
exercidas para Porto Alegre, Curitiba, Belém e Fortaleza. Verçosa
ressaltou que a empresa ainda estuda outro destino. ■
34 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010
BASTIDORES CULTURAIS
CESAR GIOBBI
Mais de 300 eventos
musicais por ano.
Quem consegue?
Paulo Zuben consegue. Ele comanda o projeto Guri na Grande São Paulo,
a Tom Jobim Emesp e o Festival de Inverno de Campos do Jordão
MEIO MÚSICO,
MEIO ADMINISTRADOR
Paulo Zuben é diretor executivo
da O.S. Santa Marcelina Cultura,
da Tom Jobim Emesp e do
Festival de Inverno de Campos
do Jordão. Foi levado a estes
cargos pelas irmãs marcelinas,
para quem já trabalhava como
coordenador da faculdade
de música. É formado em
composição musical com
mestrados e doutorados na
PUC e USP e em Paris. E formado
pela Fundação Getulio Vargas
em administração de empresas.
A atuação da Santa Marcelina
Cultura, em apenas dois anos,
mudou a gestão e a eficiência
em todas as frentes em que
atua: projeto Guri na grande
São Paulo, Tom Jobim Emesp,
Festival de Campos do Jordão,
Auditório Cláudio Santoro.
O Festival Internacional de Inverno de
Campos do Jordão, em sua 41ª edição, começa amanhã, com uma semana a mais de
duração, o dobro do número de concertos (a
programação está em reportagem do
Outlook, nas páginas 16 e 17) e possivelmente um terço a mais de custo sobre a edição de 2009. Este ano o festival contempla
179 bolsistas, não só brasileiros, mas de várias nacionalidades do continente, que têm
aulas com 60 professores, brasileiros e estrangeiros, que também se apresentam em
concertos no Auditório Cláudio Santoro, em
três igrejas e na praça de Capivari.
Quem é que cuida de tudo isso? Uma
equipe de cerca de 60 pessoas, comandadas
pelo diretor executivo do Festival, Paulo Zuben. Que, por sinal, é também o diretor
executivo da Tom Jobim Escola de Música do
Estado de São Paulo, Emesp, que organiza o
festival. E ainda diretor executivo da O.S.
Santa Marcelina Cultura, que controla a
Tom Jobim, o Festival, e a partir deste ano,
também gere o Auditório Cláudio Santoro.
Deu para entender? Eu sei, foi complicado
para mim também.
A história do envolvimento das freiras
marcelinas com o Festival começa no fim do
de 2008, quando o então secretário de Estado da Cultura, João Sayad as convidou para
assumirem a tarefa, que sempre foi da Secretaria. E lhe entregou também a administração da Tom Jobim, que estava a cargo de
uma cooperativa de músicos. A sugestão foi
do próprio governador Serra, que estava
muito satisfeito com a competência demonstrada pelas freiras no comando da O.S.
Santa Marcelina Saúde, que gere alguns
hospitais do Estado e outros do município.
As marcelinas já trabalham no âmbito da
saúde há 50 anos.
Além do que, no ano anterior, já tinham
sido chamadas para assumirem o projeto
Guri, de inclusão pela música, na grande
São Paulo. E as marcelinas também trabalham com música, já que têm faculdade de
música. Zuben já estava com elas. Era coordenador do curso de música da Faculdade
Santa Marcelina, e conhece todas estas etapas. Foi muito trabalho nas três frentes: tiveram de fazer novo projeto para o Guri, reformular a Tom Jobim e duplicaram o festival. Em dois anos, realmente não é pouco.
Zuben conta que a OS preferiu cuidar do
Guri só na grande São Paulo, porque o trabalho é específico. Aqui na periferia, o índice de vulnerabilidae juvenil vai ao grau 5,
um desafio. Escolheram trabalhar nos 17
Ceus, devido à estrutura, e mais três polos.
“
Investir no social, na
formação musical local
em Campos do Jordão
é fazer a música do festival
durar o ano inteiro.
Em mais de 40 anos,
nunca houve um bolsista
que fosse de Campos
Paulo Zuben
Aí, cuidam de 8 mil alunos, e cada um vem
com um responsável (pai, avô ou irmão),
que está sempre a par do que acontece. Os
professores trabalham acompanhados de
um assistente social. Nada é simples. O curso é de seis anos, dois básicos, e quatro para
o instrumento escolhido. Os instrumentos
ficam na escola. Agora, o secretário Andrea
Matarazzo quer levantar fundos, através de
eventos benemerentes e leis de incentivos,
para comprar instrumentos que serão emprestados a essas crianças e jovens para que
treinem em casa. Algum risco para os instrumentos? Zuben não acredita nisso. É um
voto de confiança.
Na verdade, o Guri ficou mais amplo do foi
concebido. Hoje, atende as famílias, já que
faz terapia comunitária, dá aulas de cidadania, explica como acessar todos os equipamentos públicos de saúde, educação e cultura. Como avaliar o que tudo isso faz por uma
criança? Ainda não é possível medir. Mas a
Santa Marcelina, com a Fapesp e universidades estão tentando criar índices para medir
esse impacto. O orçamento do Guri para 2010
é de R$ 15 milhões. Serão R$ 25 milhões em
2011, mas haverá mais pólos, e atenderá mais
6 mil alunos. 95% desta verba é do governo.
O resto vem da iniciativa privada, através da
Lei Rouanet ou do Funcad.
A Tom Jobim Emesp é outra boa história.
Capengava na mão da cooperativa de músicos, como universidade livre de música, sem
nunca ter sido uma universidade. Mesmo
hoje não é. É um curso técnico profissionalizante, mas não vale como fundamental. Os
estudantes têm de cursar uma escola normal, mais a Emesp. E são dez anos de curso,
em quatro ciclos. Há parcerias com universidades, que dão créditos por vários de seus
cursos. A escola tem um orçamento de R$ 18
milhões, incluído o Festival de Campos,
onde não gasta, porém, mais de R$ 1 milhão,
já que o Bradesco segue sendo o patrocinador máster do evento, dando R$ 4,4 milhões,
e a Cielo deu mais R$ 500 mil. A edição de
2009 custou R$ 5 milhões no total.
Hoje os 400 professores da Emesp são
contratados pela CLT em processos seletivos.
O governo bancou o passivo trabalhista dos
anteriores. Assim, a escola pode ter 1.800
alunos que estudam de graça, sendo que 239
deles ainda recebem bolsa de R$ 435 por mês.
E mantém a Orquestra Jovem, a Banda Jovem, o Coral Jovem e a Orquestra Tom Jobim.
E mais a Camerata Aberta, formada por pro-
Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 35
Divulgação
AGENDA
Um restaurante no Teatro Municipal
O Teatro Municipal, em reformas, vai ganhar, finalmente, seu muito sonhado
restaurante. O projeto é antigo, mas vira realidade agora, na gestão de Beatriz Franco
do Amaral. Será instalado no salão que fica à direita do hall de entrada, separado por
uma parede de vitrais. É um espaço lindo, com pinturas no teto. Para contrastar com
o estilo clássico do prédio, os irmãos Humberto e Fernando Campana concordaram
em desenhar os móveis, balcão, mesas e cadeiras, muito contemporâneos.
O projeto só vai sair do papel graças ao patrocínio da Votorantim Metais.
● Abertura da mostra francesa
Epidemik, na Estação Ciência, no dia 2.
● Espetáculo de dança americano
Porta Sem Parede, no espaço
O Lugar, no dia 3.
● Abertura da exposição fotográfica
O Haiti Está Vivo Ainda Lá,
no Museu Afro Brasil, no dia 4.
[email protected]
Murillo Constantino
BREVES
Os oito álbuns de Lennon,
relançados pelos seus 70 anos
AFP
Os oito álbuns solo clássicos de John Lennon
foram remasterizados digitalmente, alguns
em versões remix, e chegam às lojas no dia 9
de outubro, quando o ex-beatle faria 70 anos.
O projeto chama-se John Lennon Gimme
Some Truth, e é supervisionado por
Yoko Ono. Estão lá desde Imagine (1971)
a Double Fantasy (1980). Para saber
mais, entre em johnlennon.com.
Gota D’Água, na internet
Paulo Zuben, numa das salas
de aula da Tom Jobim Emesp
fessores da escola, e o núcleo de música antiga, que pesquisa instrumentos e partituras
de época. O sonho de Zuben é ter um prédio
próprio para a Tom Jobim, já que o belo edifício antigo, no Largo General Osório, de quase 6 mil m², é alugado por R$ 400 mil anuais.
Pode ser até aquele mesmo, se for desapropriado para fins de uso público. Outro sonho
é integrar o Guri com a Tom Jobim. A criança
fica no guri até os 9 anos. E os melhores talentos seguem estudanto na Emesp. Sedungo
Zuben, nunca foi pensada uma pirâmide que
vai do Guri à universidade.
No Festival de Campos, dos cerca de 80
concertos em quatro semanas, a metade será
gratuita. Os que são pagos, financiarão o
aluguel da Sala São Paulo para os dez concertos previstos para a capital, e muitas ações
sociais de educação musical com 50 professores da rede pública e 250 alunos da população local. Segundo Zuben, é um jeito de a
musica do festival ficar em Campos o ano
todo. E conta que, em mais de 40 anos, nunca houve um bolsista que vivesse na cidade.
O Festival também tem, desde o ano passado, convênios com o Conservatório de Paris e com a Julliard School de Nova York, que
mandam professores. Ao todo, são mais de
mil músicos, brasileiros e estrangeiros, que
sobem a serra para se apresentar e dar aulas.
A logística para instalar todas essas pessoas
é imensa. As pianistas Maria João Pires e
Cristina Ortiz, por exemplo, além de darem
concertos, ficarão duas semanas ensinando.
Maria João vai com filhos. Portanto, alugaram uma casa para ela.
Por sinal, organização e logística estão entre as maiores preocupações de Zuben, que
somando as apresentações das orquestras do
Guri, dos corpos musicais da Tom Jobim e
mais o Festival, comanda mais de 300 eventos
musicais por ano. Quase um por dia. O que é
um portento, levando em conta que nada ali é
feito para dar lucro. Como é possível realizar
tudo isso? Zuben diz que as irmãs marcelinas
são muito capazes como administradoras. Ele
não assina cheque nenhum. Tudo passa por
elas. Sobretudo pela irmã Rosane Ghedin, diretora presidente da Santa Marcelina Cultura,
que Zuben e mais todo mundo na Secretaria
de Cultura cobrem de elogios. Mas mesmo
sem assinar cheques, Zuben tem pago de outra forma: sua taxa de diabetes ficou descontrolada. Foi a primeira coisa que me disse, ao
falar da aproximação do festival,e começar
a contar tudo o que andava comandando. ■
“
O espetáculo musical Gota D’Água, de
Chico Buarque e Paulo Pontes, baseado em
Medéia, que estreou na metade dos anos
70 com Bibi Ferreira no papel principal, será
remontado neste fim de semana, no Teatro
João Caetano, no Rio de Janeiro, para que
possa ser gravado pela empresa Cennarium,
especializada em registro de peças
teatrais para a internet. A direção desta
montagem de 2007 é de João Fonseca,
e ganhou vários prêmios, inclusive o Shell.
Nunca foi pensada
uma pirâmide
de ensino musical
que fosse do
Guri à universidade
Divulgação
Um concurso de
dramaturgia pelo Twitter
A SP Escola de Teatro lança um concurso
que começa hoje pelo Twitter. Para concorrer,
é só mandar um enredo de 140 caracteres
e escrever #mdrama no final. Ivam Cabral,
diretor da escola, garante que com um texto
curto assim um encenador pode montar
um espetáculo de até meia hora. Os 100
melhores serão publicados e encenados.
36 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010
FINANÇAS
Construtoras
menores elevam
busca por crédito
Instituições financeiras identificam maior demanda e treinam
equipes para concessão de financiamento a essas empresas
Ana Paula Ribeiro
[email protected]
A expectativa de que o crédito
imobiliário continuará em alta
nos próximos anos faz com que
os grandes bancos elevem os
esforços para expandir as operações. O foco agora são as
construtoras de pequeno e médio portes. Banco do Brasil (BB)
e Santander criaram áreas específicas para atender a essas
empresas, após verificarem o
aumento da demanda por crédito para a construção de unidades habitacionais.
No BB, o treinamento começou no mês passado, com a instrução às superintendências regionais que irão acompanhar o
atendimento a essas empresas,
que será feito por meio das
agências de varejo e terá início
neste semestre. “Esse aquecimento está presente em todo o
Brasil, principalmente no Sul,
Sudeste, Bahia e Ceará”, afirma
o gerente-executivo da Diretoria de Empréstimos e Financiamento, José Henrique da Silva.
O objetivo da instituição é
que, nos próximos 12 meses, o
valor de venda das unidades financiadas fique entre R$ 4 bilhões e R$ 5 bilhões no segmento de grandes construtoras e de
R$ 1 bilhão nas menores. “Nunca tivemos tantas condições
para o lançamento de empreendimentos. A elevação de renda e
juros mais baixos favorecem as
operações”, lembra.
De acordo com os bancos, as
condições de financiamento
são as mesmas, independentemente do porte da empresa.
Em geral, é feito o financiamento de 80% do valor do empreendimento, com os desembolsos liberados com de acordo
com o andamento da obra.
Embora as condições de financiamento sejam as mesmas,
a área criada pelo Santander
para o atendimento a essas empresas contempla facilidades na
contratação do crédito. A superintendente-executiva de Ne-
Aumento de renda
da população
e estabilidade
econômica dão
maior confiança
para construtoras
de menor porte
apostarem em
novos projetos
gócios Imobiliários, Alda Rosselli, explica que a operação é
feita via internet. Por meio da
plataforma desenvolvida, é
possível que os interessados enviem os documentos (incluindo
as plantas dos projetos), a proposta e façam o acompanhamento do contrato. A ideia é dar
maior agilidade à concessão e
aos desembolsos. “Esse segmento está crescendo muito.
Queremos atrair as empresas
que tradicionalmente pegam
poucos empréstimos”, explica.
Para dar maior foco a essas
empresas, o banco contratou 15
gerentes que desde junho coordenam o atendimento. A expectativa é de que elas aumentem a participação no total de
crédito imobiliário a pessoas
jurídicas no banco, que hoje
varia entre 5% e 10%. A projeção é que a fatia supere 10%.
Maior participação
No Bradesco, o atendimento a
esse segmento de construtoras
ocorre dentro dos Cenims (Centros de Negócios Imobiliários),
mesma área que atende às grandes. No entanto, o banco também percebeu que há uma
maior demanda por parte das
construtoras de menores.
De acordo com o diretor de
Empréstimos e Financiamentos
da instituição, Nilton Pelegrino,
o número de contratos fechados
com essas empresas no primeiro
semestre apresentou um crescimento de 137% em relação a
igual período do ano passado,
chegando a 64. “Já praticamente fizemos no primeiro semestre
o que levamos o ano passado
todo para fazer”, diz. Em valores, a expansão do volume contratado foi de 240%.
O maior apetite das construtoras começa a alterar o
perfil da participação no crédito total. No primeiro semestre
do ano passado, elas respondiam por 12% dos financiamentos imobiliários a pessoas
jurídicas no Bradesco. Agora, a
participação chega a 17%. ■
Recursos fartos
Dinheiro do FGTS e da poupança
garantem que empresas
executem mais projetos
Se no início do ano passado o
setor da construção civil colocou o pé no freio diante das incertezas do cenário econômico,
agora as empresas aceleram
para atender à crescente demanda por unidades habitacionais. “Estamos em uma fase
muito favorável tanto para as
pessoas físicas quanto para as
jurídicas”, afirma o diretor executivo do Secovi-SP (Sindicado
das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de
Imóveis), Celso Luiz Petrucci.
Com a expectativa de crescimento, as empresas se sentem confortáveis para lançar
os projetos e os bancos, para
financiá-los, sem discriminação de tamanho. Petrucci lembra que a Caixa Econômica Federal fechou no primeiro ano
do programa federal Minha
Casa, Minha Vida contratos
com 655 empresas. “Isso mostra que o atendimento é bem
diversificado no mercado.”
Petrucci lembra ainda que no
geral não existem casos que
mostrem que há dificuldade em
obter recursos pelas empresas
do setor. Cenário diferente daquele registrado após o agra-
Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 37
Andrew Harrer/Bloomberg
Empréstimos do Banco Mundial são recordes
O Banco Mundial informou que assinou acordos para conceder uma cifra
recorde em financiamentos no ano fiscal de 2010, encerrado anteontem,
para ajudar países em desenvolvimento a lidarem com uma recuperação
global “frágil e desigual”, segundo o presidente da instituição,
Robert Zoellick. Os empréstimos, subvenções, investimentos em ações
e garantias da instituição cresceram para US$ 72,2 bilhões no ano
fiscal até ontem, bem acima do recorde anterior, de US$ 58,8 bilhões.
AGENDA DO DIA
● Às 7h, a Fipe divulga
o IPC de junho.
● Às 9h30, saem a variação
da folha de pagamentos
e a taxa de desemprego de
junho nos Estados Unidos.
● Às 11h30, saem as encomendas
à indústria nos EUA de maio.
André Penner
Pelegrino, do Bradesco:
contratações mais do que
dobraram ante o ano passado
CRÉDITO IMOBILIÁRIO
EM ALTA*
Estímulo do governo
e maior renda contribuem
para expansão, em R$ bilhões
108
102,4
98
88
78
68
59,7
58
DEZ/08
/
MAI/10
M
/
Expansão nos 12 meses
encerrados em maio foi de
51,1%
F t B
Fonte:
Banco C
Central
t l
*Recursos direcionados para setor habitacional
■ MAIS CASAS
As unidades financiadas de
janeiro a abril chegaram a
114,1
mil
■ CRESCIMENTO
O total representa uma
expansão em 12 meses de
46
%
■ POUPANÇA
Principal fonte de recursos do
setor tem depósitos totais de
R$
262
bi
aquecem disputa para ganhar mercado
mento da crise financeira externa, em setembro de 2008.
Os recursos para o setor proveem da poupança e do FGTS
(Fundo de Garantia do Tempo de
Serviço). No caso das cadernetas,
os financiamentos com essa fonte
devem passar do patamar de
pouco mais de R$ 30 bilhões no
ano passado para R$ 50 bilhões
em 2010. Já no fundo, R$ 24 bilhões devem ser utilizados no
crédito imobiliário, ante cerca de
R$ 15 bilhões em 2009.
Outro fator que contribui
para que os recursos sejam destinados a todos os portes de
construtoras é que não há grandes discrepâncias no nível de
Empresas menores
conseguem entregar
as obras em prazo
similar ao das
grandes construtoras
eficiência. Ou seja, uma empresa menor consegue entregar a
obra em prazo similar ao de uma
grande construtora. “O ciclo de
produção não muda muito. Às
vezes, as menores têm até resultados melhores”, acredita o diretor de economia do Sinduscon-SP (Sindicato da Indústria
da Construção Civil do Estado
de São Paulo), Eduardo Zaidan.
Na avaliação do Sinduscon, o
crédito também não é um entrave ao crescimento do setor.
Zaidan lembra que cada vez
mais os bancos querem diversificar seus riscos, o que faz com
que as construtoras de todos os
portes tenham espaço. “Alguns
têm a estratégia de pulverizar
um pouco menos, mas não há
discriminação”, diz.
Embora não revele qual a fatia que cabe às pequenas e médias construtoras, a Caixa Econômica Federal, que responde
por mais de 70% do financiamento imobiliário no país,
afirma que elas possuem uma
participação importante, em
especial nas operações destinadas a menor renda, como o
PAR (Programa de Arrendamento Residencial) e os empreendimentos do Minha Casa,
Minha Vida que são destinados
ao público com renda de até
três salários mínimos. ■
MAIOR VALOR FINANCIADO
✽
Facilidade no crédito
ajuda crescimento
O valor médio dos financiamentos
em 2010 está em R$ 125,6 mil,
crescimento de 11,7% em relação
à média de 2009, segundo a
Abecip (Associação Brasileira das
Entidades de Crédito Imobiliário e
Poupança). O número de unidades
financiadas entre janeiro e abril
chegou a 114,1 mil, 46% maior
do que em igual período de 2009.
38 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010
FINANÇAS
Remote/Michael Leckel/Reuters
BONIFICAÇÃO
MERCADOS
BC autoriza aumento de capital
do Bradesco em R$ 2 bilhões
Dados econômicos fracos levam índice
europeu à mínima em cinco semanas
O banco Bradesco informou ontem que o Banco Central (BC) aprovou seu
processo de aumento de capital social, no valor de R$ 2 bilhões, elevando-o
de R$ 26,5 bilhões para R$ 28,5 bilhões. De acordo com a instituição
financeira, será efetuada a bonificação de 10% em ações (uma ação nova,
da mesma espécie, para cada 10 ações possuídas) aos acionistas que
estiverem inscritos nos registros do Bradesco em 13 de julho de 2010.
As principais ações europeias fecharam em queda pela terceira sessão
consecutiva e atingiram a mínima em cinco semanas ontem, diante da
intensificação de preocupações com a recuperação econômica global.
O índice FTSEurofirst 300, que mede o desempenho dos mais
importantes papéis do continente, recuou 2,48%, para 968 pontos.
O setor financeiro figurou entre os de pior performance.
Aumento de renda beneficia ações
O ano de 2010 será de elevados investimentos em expansão da área de vendas, com as empresas tirando
Vanessa Correia
[email protected]
O aumento do poder de compra
das classes de menor renda é
um dos principais atrativos
para investidores que apostam
em ações de varejistas com
foco em vestuário, tais como
Lojas Renner e Marisa.
A Pesquisa de Orçamentos
Familiares (POF), realizada pelo
Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE) entre 2008 e
2009, mostrou que as famílias
que ganham até dois salários
mínimos gastaram, em média,
R$ 40,43 com vestuário. Na
pesquisa anterior, realizada entre 2002 e 2003, esse mesmo
segmento da população gastou,
em média, R$ 34,31 (valores já
deflacionados pelo INPC até janeiro de 2009), ou seja, crescimento real de 18%.
E, ao que tudo indica, esse
cenário não deve ser alterado
no médio e longo prazos. “O
apetite dos consumidores por
itens de vestuário continuará
positivo e isso reflete as expectativas de aumento dos gastos
da população de menor renda
com roupas, que não são itens
de primeira necessidade. Com
isso, os papéis das companhias
que atuam nesse segmento
tendem a se beneficiar”, afirma Juliana Campos, analista da
Ativa Corretora.
“
O apetite dos
consumidores por
itens de vestuário
continuará positivo
Juliana Campos,
analista da Ativa Corretora
As ações ordinárias (ON) da
Marisa subiram 88,99% no primeiro semestre de 2010, enquanto os papéis ON da Lojas
Renner apresentaram avanço de
22,81% no mesmo período de
comparação. “Além das condições macroeconômicas se mostrarem favoráveis, ambas as varejistas começarão a colher os
resultados das lojas abertas e
que ainda não maturaram”, diz.
Além disso, 2010 será um
ano de elevados investimentos
em expansão da área de vendas, segundo a analista, com as
empresas tirando o máximo
proveito do momento de demanda doméstica aquecida
combinada com ampla oferta
de crédito por parte dos bancos, além da disponibilidade de
recursos em caixa.
Riscos
O quarto trimestre de 2009 foi
um dos períodos mais positivos
para o setor varejista, dada sua
forte recuperação após a crise
financeira mundial. “Seria natural vermos uma desaceleração do crescimento, principalmente se comparado ao último
trimestre do ano passado”, ressalta a analista da Ativa.
A elevação da taxa de juros
também pode levar a uma desaceleração do consumo. “Lojas
Renner e Marisa trabalham bastante com parcelamento máxi-
Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 39
Jim Bourg/Reuters
IPO
PÓS-CRISE
Após cisão, Redentor deve
abrir capital na bolsa de valores
Tesouro dos EUA conclui venda
de 1,1 bilhão de ações do Citigroup
A Equatorial Energia informou seus acionistas de que a Redentor,
empresa resultante do processo de cisão parcial da Equatorial,
deve abrir capital na bolsa de valores. A Redentor entrou
com pedido de registro de companhia aberta na Comissão
de Valores Mobiliários (CVM) nesta semana. A empresa detém
13,03% de participação no capital social da Light.
O Tesouro dos Estados Unidos, cujo secretário é Timothy Geithner, vendeu
uma segunda tranche de ações ordinárias do Citigroup, levando os lucros
do governo com as vendas dos papéis do banco a mais de US$ 2 bilhões
e reduzindo a participação que possui na instituição a cerca de 18%.
A venda de 1,1 bilhão de ações ordinárias leva o total de ações vendidas
pelo Tesouro a 2,6 bilhões, cerca de um terço do total detido pelo governo.
Marcela Beltrão
Negociação da Lojas Americanas
Consumo em alta já se
reflete nos papéis da
Marisa, que ganharam
quase 90% no ano
Cobertura
Para Ativa, ações
da Renner têm potencial
de alta de 28,8%
A Ativa Corretora reiniciou
a cobertura das ações da
Lojas Renner e iniciou
o acompanhamento dos
papéis da Marisa, com
preços justos de R$ 62,93
e R$ 19,88, respectivamente,
para junho de 2011.
Com base na cotação de
fechamento de 22 de junho,
o potencial de valorização
(upside) é de 28,8% para
Lojas Renner, enquanto
os papéis da Marisa não
oferecem potencial de ganhos,
segundo a Ativa Corretora.
“Considerando o potencial de
crescimento para o varejo de
vestuário no Brasil no longo
prazo e o upside oferecido,
recomendamos compra
para Lojas Renner.
Já Marisa tem recomendação
de venda, pois acreditamos
que o papel já esteja
corretamente precificado”,
ressalta Juliana Campos,
analista da corretora.
de vestuário
maior proveito da demanda aquecida
mo de oito vezes, no qual incide
juros. Com a elevação das taxas,
isso tende a impactar negativamente o ticket médio das compras, já que os consumidores
migrarão para o pagamento
para o parcelamento sem juros
(à vista ou em cinco vezes). No
entanto, será um impacto marginal”, completa.
O último fator de risco citado
pela analista é o possível maior
endividamento da população
brasileira. “O aumento do endividamento está concentrado em
modalidades mais arriscadas.
como o cheque especial e o cartão de crédito, e que são bastante utilizadas pelo público consumidor dessas redes. ■
LOJAS RENNER
8,85%
foi quanto subiram as ações
ordinárias da Lojas Renner
em junho, encerrando
o mês cotadas a R$ 47,35.
MARISA
13,26%
foi quanto ganharam as
ações ordinárias da Marisa
no mês passado, encerrando
cotadas a R$ 20,50.
O início das negociações entre
Lojas Americanas e Casa & Vídeo
Rio de Janeiro não deve impactar
a negociação dos papéis,
segundo Juliana Campos,
analista da Ativa Corretora.
“As conversas estão em um
estágio muito preliminar e não
devem ser responsáveis por
uma possível oscilação dos
papéis no curto prazo”, afirma.
A Casa & Vídeo opera nos estados
do Rio de Janeiro (RJ), Espírito
Santo (ES) e Minas Gerais (MG.
A companhia opera com
aproximadamente 70 lojas
e seu foco de atuação é
similar ao mercado em que o
Ponto Frio, recém-adquirido
pelo Pão de Açúcar atua.
Ou seja, produtos duráveis,
como aparelhos eletrônicos,
informática, livros, entre outras.
Segundo um analista que
acompanha o papel, o interesse
da Lojas Americanas nos ativos
da Casa & Vídeo pode estar
ligado ao acesso a pontos
de venda estratégicos,
como aconteceu na aquisição
da BWU no passado. Além
disso, a possível aquisição da
Casa & Vídeo, estaria ligada
à consolidação do setor.
“Já vimos a consolidação de
várias varejistas, tais como
Ricardo Electro e Insinuante,
Casas Bahia e Pão de Açúcar.
Acredito que a Lojas Americanas
não quer ficar de fora desse
movimento”, completa
Juliana, da Ativa Corretora.
Mesmo sem ter uma expectativa
de conclusão da operação,
a analista diz que a Lojas
Americanas tem planos de
crescer rápida e organicamente,
nos próximos quatro anos,
o que é um atrativo para o
papel. No primeiro semestre
deste ano, as ações ordinárias
da empresa acumulam
desvalorização de 21,11%,
enquanto os papéis preferenciais
apresentam recuo de 16,66%.
“Além de a companhia apresentar
resultados consistentes nos
útimos meses, mesmo durante
a crise financeira mundial,
os papéis apresentam ótima
oportunidade de investimento,
já que acumulam forte queda
no ano”, ressalta a analista
da Ativa Corretora. V.C.
DECLARAÇÃO DE PROPÓSITO
DENOMINAÇÃO: ASK Brasil Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A.
As pessoas físicas e jurídicas controladoras abaixo identificadas, por intermédio do presente instrumento, declaram sua intenção de constituir uma instituição com as características abaixo especificadas:
Denominação social: ASK BRASIL Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A.
Local da sede: Rua Oscar Freire, 379, conjunto 82 – Cerqueira César – São Paulo – SP – 01426-001
Capital inicial: R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais)
Composição societária:
- controladores:
i) o capital da ASK BRASIL Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A. será 100% (cem por
cento) detido pela ASK – Advisory Service Kapital do Brasil Assessoria e Gestão Ltda., inscrita no
CNPJ/MF sob o nº 10.670.410/0001-01;
ii) as quotas da ASK – Advisory Service Kapital do Brasil Assessoria e Gestão Ltda. são detidas conforme a tabela abaixo:
Nome
CNPJ/CPF
Percentual
Lauro Broncher Brand
094.144.518-62
25%
Partners I Participações Ltda.
10.774.037/0001-20
25%
Ask S.A.
10.257.063/0001-81
50%
iii) as quotas da Partners I Participações Ltda. são detidas conforme a tabela abaixo:
Nome
CNPJ/CPF
Percentual
Misa Empreendimentos e Participações Ltda.
05.437.977/0001-94
50%
Pedro Tavares Martins
839.443.707-91
50%
iv) as quotas da Misa Empreendimentos e Participações Ltda. são 99% (noventa e nove por cento)
detidas por Valério Marega Jr, inscrito no CPF/MF sob o nº 863.437.346-00
v) as ações da sociedade portuguesa Ask S.A. são detidas conforme a tabela abaixo:
Nome
No. Contribuinte Fiscal - Portugal
Percentual
Dullin Investors LTD.
662555
27,88%
500140022
11,00%
ISQ - Instituto de Soldadura e Qualidade 1
Nuno Fernandes Thomaz
190703423
10,70%
Nuno Miranda
208066268
9,97%
176722319
7,74%
Jaime D’Almeida 2
vi) a Dullin Investors LTD, sociedade com sede nas ilhas virgens britânicas, é controlada pelo Sr. Francisco Pedro Vicente Roseta Fino, cidadão português, residente e domiciliado a Rua do Sacramento
a Lapa, 46-A, Lisboa, Portugal, portador do CPF: 231.719.198-77.
- outros acionistas/quotistas detentores de participação qualificada:
Não há.
As pessoas físicas administradoras abaixo identificadas, por intermédio do presente instrumento, declaram sua intenção de exercer cargos de administração na ASK BRASIL Distribuidora de Títulos e
Valores Mobiliários S.A. e que preenchem as condições estabelecidas no art. 2º da Resolução 3.041,
de 28 de novembro de 2002.
- nomes, documentos de identidade, CPF e cargos dos administradores:
Nome
RG
CPF/MF
Cargo
Valério Marega Jr
MG-6529955
863.437.346-00
Presidente
Pedro Tavares Martins
054832027 DIC/RJ
839.443.707-97
Diretor
ESCLARECEM que, nos termos da regulamentação em vigor, eventuais objeções à presente declaração devem ser comunicadas diretamente ao Banco Central do Brasil, no endereço abaixo, no prazo de
trinta dias contados da data da publicação desta, por meio formal em que os autores estejam devidamente identificados, acompanhado da documentação comprobatória, observado que os declarantes
podem, na forma da legislação em vigor, ter direito a vistas do processo respectivo.
1
ISQ - Instituto de Soldadura e Qualidade é um instituto português, constituído em 1965
onde oferece serviços nas áreas de inspeção, formação e consultoria técnica apoiados
em atividades de investigação e desenvolvimento e laboratórios acreditados. O ISQ esta
presente em 12 países incluindo o Brasil e é hoje a maior organização portuguesa de
inspeções técnicas e ensaios, não sendo possível informar seu controle societário.
2
Jaime D’Almeida é cidadão português, não estando inscrito, portanto, no CPF do Ministério da Fazenda Brasileiro.
BANCO CENTRAL DO BRASIL
Departamento de Organização do Sistema Financeiro – DEORF
Gerência Técnica de São Paulo
Avenida Paulista, 1.804
01310-922 – São Paulo – SP
Processo nº 1001475771
São Paulo, 6 de abril de 2010
40 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010
FINANÇAS
Murillo Constantino
IMÓVEIS
LIQUIDEZ
Senado dos EUA aprova extensão
de crédito a compradores de residências
Diretor do FGC avalia que medida
do BC é forma de otimizar sistema
O Senado dos Estados Unidos aprovou na noite de quarta-feira
a extensão do prazo para que os compradores da primeira residência
peçam crédito fiscal, mas adiou a discussão sobre a ampliação
de seis meses dos benefícios para desempregados. A extensão
do prazo para pedido do crédito fiscal vai ajudar apenas aqueles
que entraram em contratos vinculantes antes de 30 de abril.
O diretor executivo do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), Antonio
Carlos Bueno, avalia que a medida do Banco Central de prorrogar
a ajuda concedida durante a crise aos bancos de pequeno porte
pode ser entendida como uma forma de “otimizar” o sistema.
Ele rechaça qualquer possibilidade de a medida ter sido adotada
por falta de liquidez entre as pequenas instituições financeiras.
Murillo Constantino
Maria Fernanda Teixeira: para entrar no
mercado de credenciamento, First Data está
em negociação para formar joint venture
Dois negócios marcam o dia D
da abertura do mercado de cartões
Cielo irá credenciar lojas para Amex e Fidelity anuncia que vai entrar no mercado de credenciamento
Thais Folego
[email protected]
Ontem, dia 1º, foi o tão esperado
dia D do mercado de cartões,
com o fim do contrato de exclusividade entre a bandeira Visa e
a Cielo (ex-Visanet). Este é considerado o marco da abertura
desse mercado. Concretizado o
fato, as expectativas começam a
se tornar realidade.
O Bradesco anunciou ontem
que fechou parceria com a Cielo
para o credenciamento de estabelecimentos comerciais para
aceitação de cartões American
Express (Amex), operação adquirida pelo banco em 2006.
Com o fim da exclusividade com
a Visa, a Cielo passa agora a credenciar e a processar transações
também para a Mastercard, largando com três bandeiras. E segundo a empresa, mais virão.
Com a parceria, os portadores dos cartões Amex passam a
contar com a rede de 1,7 milhão de estabelecimentos credenciados da Cielo, um salto e
tanto em relação à rede própria
da bandeira, atualmente com
400 mil pontos.
A escolha pela Cielo é natural, já que o Bradesco divide o
bloco de controle da empresa
credenciadora com o Banco do
Brasil. A Redecard não tinha exclusividade com nenhuma bandeira, e poderia ter sido contratada pelo Bradesco para credenciar estabelecimentos para a
Amex desde que o banco adquiriu a bandeira. A Redecard, porém, é controlada pelo concorrente: Itaú. Segundo Marcelo
Noronha, diretor-geral da Bradesco Cartões, num primeiro
momento o banco decidiu manter a rede do Amex, pois usava-
Divulgação
Marcelo Noronha
Diretor-geral da
Bradesco Cartões
“Clientes passarão a
ter conjunto maior de
estabelecimentos para
usar o cartão, enquanto
lojista terá opção de
fazer melhores acordos”
a para outros fins, como para
oferecer o serviço de correspondente bancário. “Quando
começou-se a sinalizar a abertura do mercado, avaliamos
qual seria o melhor posicionamento. Hoje, a parceria com a
Cielo atende o objetivo de aumentar a aceitação. No futuro,
podemos avaliar outras alternativas”, diz Noronha.
O Amex é um cartão segmentado, mais voltado para a
alta renda. E este continuará
sendo o foco da bandeira, afirma o diretor. Sua rede própria
cobria mais as áreas metropolitanas do país, mas com pouco
alcance em outras regiões. Com
a maior cobertura, a expectativa
é que a receita do cartão cresça.
Concorrência
Também ontem, a Cielo ganhou mais um concorrente, a
First Data, umas das maiores
credenciadoras nos Estados
Unidos, que chegou no Brasil
em 2002 com o posicionamento de ser fornecedora de tecnologia para empresas que
quisessem entrar neste segmento. Agora, ela anuncia que
também atuará como credenciadora. Maria Fernanda Teixeira, presidente da operação
brasileira da First Data, conta
que entrará nesse mercado
com uma joint venture.
“Estamos em negociação
com uma empresa”, diz, sem
dar detalhes. Segundo ela, por
conta da licença das bandeiras
internacionais necessária para
atuar como credenciadora, ela
diz que o sócio pode ou não ser
uma instituição financeira. “No
caso de não ser, faremos uma
parceria com uma instituição
que tenha a licença”, diz. ■
Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 41
Divulgação
POLÍTICA MONETÁRIA
CÂMBIO
Suécia eleva juro a 0,50% após
mantê-lo estável durante quase um ano
Dólar cai por fluxo, mas
exterior breca queda maior
O banco central da Suécia elevou sua principal taxa de juro para
0,5%, retirando-a do nível recorde de baixa de 0,25%, conforme
era previsto. O aumento foi o primeiro feito em quase um ano,
refletindo os sinais de contínua recuperação da economia da crise
financeira global. “A economia sueca desenvolve-se com força,
após uma intensa desaceleração”, disse o Riksbank em nota.
O dólar fechou a primeira sessão de julho em baixa frente ao real,
atento a ingressos de recursos e à oscilação da moeda no exterior.
A má performance das principais bolsas de valores, no entanto,
limitou um recuo mais acentuada. A divisa caiu 0,44%, para R$ 1,796
na venda. Operadores notaram ingressos de recursos mais acentuados
no final da manhã, o que ajudou a sustentar as cotações no vermelho.
Fundos terão maior controle de liquidez
Alterações do Código da Anbima
incluem procedimento adicional
e critérios para compra de CCBs
Maria Luíza Filgueiras
[email protected]
Período agitado para os gestores
de fundos de investimento. Além
de começarem a adequar as carteiras às novas recomendações
do Código de Melhores Práticas
da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro
e de Capitais (Anbima), válido a
partir deste mês, precisam implementar a política de suitability (adequação ao perfil do
cliente) de derivativos de balcão,
agora que registraram o modelo
de adequação que vão utilizar.
As principais alterações no
código incluem a obrigatorieda-
de de processos de gerenciamento de risco de liquidez e critérios de avaliação para títulos de
dívida privada, como as Cédulas
de Crédito Bancário (CCBs). Segundo José Alexandre Freitas,
diretor da Oliveira Trust, essas
medidas estão relacionadas à
concentração de carteiras em
ativos de baixa liquidez e ao fechamento de fundos para resgate, por não poderem transformar
de imediato papéis em dinheiro.
“Está em linha com o que foi
solicitado pela Comissão de Valores Mobiliários, considerando que
fundos, especialmente FIDCs,
têm carteira muito concentrada
em créditos como CCBs e CPRs
(Cédula do Produtor Rural), e que
a avaliação do administrador e do
custodiante devem fazer uma
precificação de ativos que consi-
Gestores começam
a adaptar carteiras
ao novo código
da Anbima
e a implementar
‘suitability’
para derivativos
dere os riscos de crédito e liquidez do devedor”, explica. Na prática, a solução é criar provisões,
subtraindo um valor contábil do
ativo por eventual perda pela falta de liquidez, diz ele.
Maria Carlota Senger, da asset
do BNP Paribas, destaca que o
controle de liquidez contempla
também a carência para resgate
do fundo. Na casa, há monitoramento de percentual dos ativos
que podem ser transformado em
caixa em prazos diferenciados,
como um ou sete dias, e a relação
disso com o perfil dos cotistas e o
histórico de resgates. “Não se trata apenas de manter em carteira
um percentual mínimo de ativos
com liquidez imediata, mas de
trabalhar conforme os cotistas.
Em fundos de varejo menos concentrados entre investidores, o
percentual de liquidez imediata
pode ser menor”, diz.
Além disso, as instituições tiveram até 30 de junho para registrar na Anbima suas políticas para
adequação de produtos com derivativos ao perfil dos investidores.
“O foco é ter um cuidado maior
na venda do produto e em como
ela é feita”, diz Fábio Jacob, da
área de derivativos do BNP. No
banco, os investidores foram divididos em três perfis e também
os produtos, conforme risco, descontinuidade e alavancagem.
Segundo Carlos Acquisti, da
Infinity Asset Management, os
fundos que aplicam em derivativos não são focados apenas no investidor arrojado. “A operação a
termo na Bovespa é de risco médio, mas o mercado futuro de juro
ou câmbio é de risco alto”. ■
Todo o clima do Festival de Campos do Jordão na sua casa
O maior evento de música clássica da América Latina vai esquentar o seu inverno.
A TV Cultura e a Rádio Cultura FM trazem para você o Festival Internacional
de Inverno de Campos do Jordão, que chega à sua 41ª edição em julho.
Próximas atrações:
03/07 às 21h – Abertura com Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo.
Regência: Carlos Kalmar / Flauta: Emmanuel Pahud - AO VIVO
06/07 às 23h – Cultura em Campos Especial
Confira a programação em www.tvcultura.com.br
42 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010
INVESTIMENTOS
Mariana Segala
[email protected]
Vale lidera recomendações e Petrobras
cede espaço para papéis de OGX e Itaú
no fato de os papéis estarem sendo negociados com apenas um pequeno prêmio ante
outros bancos privados, como o Bradesco.
As duas ações mais populares negociadas na
BM&FBovespa — das empresas Vale e Petrobras — figuram novamente entre as principais apostas das corretoras de valores para
julho. No entanto, enquanto os papéis preferenciais classe A da mineradora (VALE5) lideraram as recomendações, os preferenciais
da petrolífera (PETR4) perdem espaço para
os de outras companhias. Caso das ações
preferenciais do Itaú Unibanco (ITUB4) e das
ordinárias da OGX Petróleo e Gás (OGXP3).
A corretora Link, por exemplo, trocou os
papéis da Petrobras pelos da empresa de Eike
Batista. “OGX ainda está sustentando os
100% de sucesso da campanha de exploração de 2009”, destacam Carlos Firetti e Dalton Gardimam, da Bradesco Corretora. “Reforçamos nossa visão de que 2010 deve ser o
ano em que o caso de investimento da OGX
se materializará.” A corretora XP Investimentos, que desde o começo do ano reforça
a presença dos papéis da empresa nas recomendações, admite, porém, que tais ações
podem sofrer com a volatilidade dos mercados no curto prazo. “Mas queremos estar no
setor de petróleo e hoje o nossa opção é pela
OGX”, diz a analista da XP, Laura Bartelle.
No caso das ações do Itaú Unibanco, as
apostas partem das expectativas para o crédito. “Acreditamos que os investidores devem começar a precificar o cenário bancário
favorável, incluindo crescimento de 20% do
crédito em 2010, com custos declinantes enquanto a qualidade dos ativos é crescente,
além da alta da Selic”, afirmam os analistas
do BTG Pactual Carlos Sequeira e Antonio
Junqueira. A escolha do Itaú como principal
recomendação entre os grandes bancos está
Opções defensivas
Diante da turbulência durante o mês de junho, corretoras — como a do HSBC — optaram por reduzir a exposição a setores cíclicos, priorizando empresas centradas no cenário doméstico. “Elevamos a participação
de setores um pouco mais defensivos e voltados para o mercado interno, por acreditarmos na manutenção da volatilidade dos
mercados internacionais no curto prazo”,
ressaltam Carlos Nunes e Débora Agonilha,
do HSBC Global Research. Razão pela qual
papéis como os preferenciais da Lojas Americanas (LAME4) e os ordinários da Tractebel
(TBLE3) entraram nas recomendações. Por
trás da sugestão da Tractebel está o fato de a
empresa ser a que tem maior exposição ao
segmento industrial, em que a elevação dos
preços deve trazer benefícios. Já em Lojas
Americanas, o raciocínio envolve o crescimento rápido da empresa, além do programa
de abertura de novas lojas em 2010.
Também no segmento de varejo, os papéis
preferenciais classe A do Pão de Açúcar
(PCAR5) ganharam indicações. “Acreditamos que a ação irá desfrutar de um fluxo favorável de notícias assim que novas informações sobre a compra da Casas Bahia e sinergias se tornarem disponíveis, possivelmente
nas próximas semanas”, diz Cida Souza, da
Itaú Securities. Apesar das perspectivas positivas para o consumo no país, os papéis do
Pão de Açúcar ficaram atrasados e ainda oferecem potencial de alta de 20% no ano. ■
AS PREFERIDAS DO MERCADO PARA JULHO
Petrobras perde espaço para outras ações
EMPRESA
Vale (VALE5)
OGX (OGXP3)
Itaú Unibanco (ITUB4)
Gerdau (GGBR4)
Petrobras (PETR4)
Lojas Americanas (LAME4)
Tractebel (TBLE3)
Ambev (AMBV4)
BM&FBovespa (BVMF3)
Bradesco (BBDC4)
CCR (CCRO3)
Marfrig (MRFG3)
Pão de Açúcar (PCAR5)
PDG Realty (PDGR3)
Randon (RAPT4)
SETOR
RENT. EM JUNHO (%)
Mineração
Petróleo
Financeiro
Siderurgia
Petróleo
Varejo
Energia
Alimentos e Bebidas
Financeiro
Financeiro
Transporte
Alimentos e Bebidas
Varejo
Construção
Bens de capital
-11,59
3,15
-6,31
-5,64
-9,26
5,48
2,66
3,72
-4,37
-6,96
0,62
-1,17
7,68
-0,46
8,99
RENT. ANO %
-9,42
-2,22
-14,57
-18,66
-25,70
-15,44
-1,00
4,14
-3,34
-14,22
-5,74
-11,50
-2,33
-10,97
0,73
Nº DE RECOMENDAÇÕES
8
7
7
6
5
5
4
3
3
3
3
3
3
3
3
Entre as 15 ações mais recomendadas pelas corretoras para julho, as da Vale continuam na liderança, mas os papéis
da OGX e do Itaú começam a ocupar o lugar antes detido pelos da Petrobras
Fontes: BB, Souza Barros, Link, Omar Camargo, Planner, Citi, XP, Itaú, Ágora, HSBC, TOV, BTG Pactual, Bradesco, Economatica e Brasil Econômico
São Martinho
Minerva
Resultado do 4º trimestre da
safra 2009/2010 agrada SLW
Bofa lança recomendação
“abaixo da média” para ações
O resultado do quarto trimestre
da safra 2009/2010 divulgado
pelo Grupo São Martinho, um
dos maiores do país em produção
açúcar e etanol, foi bem recebido
pelos analistas da corretora SLW.
A companhia encerrou a safra
com moagem de 12,9 milhões
de toneladas de cana,
crescimento de 7,7% em relação
à safra anterior. A produção de
açúcar alcançou 702 mil
toneladas, 26,5% mais do que no
ano passado, e a de etanol bateu
os 593 mil metros cúbicos, com
uma redução de 12%. “Diante dos
números apresentados e das boas
perspectivas para companhia,
consideramos que suas ações
são um bom investimento para
o médio e longo prazo. No curto
prazo, suas ações, que acumulam
forte queda no ano, podem se
recuperar”, afirma o analista
Erick Scott em relatório enviado
aos clientes. No quarto trimestre
desta safra, o Grupo São Martinho
vendeu 225 mil toneladas de
açúcar, volume 69% superior
ao do mesmo período da safra
anterior. Já as vendas do álcool
hidratado registraram forte
queda, de 53%, passando
para 72,3 mil metros cúbicos.
O volume vendido de álcool anidro
permaneceu o mesmo. “Os preços
do açúcar foram bem superiores
aos preços praticados no quarto
trimestre da safra anterior”,
destaca Scott. O aumento chegou
a 32,8%. A combinação de preços
e volumes de vendas levou a
receita da empresa a crescer
33%, atingindo R$ 355 milhões.
Em relatório assinado por
Fernando Ferreira e Alessandro
Arlant, da equipe de pesquisa do
Bank of America Merrill Lynch,
os analistas anunciam retomada
da cobertura das ações ordinárias
(BEEF3) do frigorífico Minerva
com uma recomendação “abaixo
da média (underperform)” e
estipulando um preço-alvo de
R$ 6,50 para os papéis. A cifra
representa um potencial de
desvalorização de cerca de 5%,
considerando o fechamento
de ontem na BM&FBovespa.
“Ainda que gostemos dos
fundamentos de longo prazo para
o crescimento da companhia, ao
passo que vemos positivamente
o setor de carnes no Brasil, nosso
viés negativo para as ações do
Minerva se justifica: pela baixa
diversificação geográfica da
empresa perante suas pares;
pelo desempenho das ações
nos últimos três meses, ante
a performance de suas pares;
pela transparência insuficiente
de dados financeiros primordiais;
e pela liquidez reduzida dos papéis
em bolsa”. Para a equipe da
instituição financeira americana,
apesar de continuar entregando
números operacionais fortes,
o Minerva peca porque seus
resultados financeiros ainda são
difíceis de se prever. “Esta é uma
preocupação em nossa visão dada
a elevada volatilidade nos lucros
da companhia”, afirmam os
analistas. O Bofa Merrill Lynch
projeta uma geração operacional
de caixa (Ebitda) do Minerva
de R$ 238 milhões em 2010.
CESP
BOVESPA
Dividendos Educação
A Companhia Energética de
São Paulo (Cesp) informou que
pagará, no dia 8, juros sobre
capital próprio (JCP) referentes
aos resultados do primeiro
trimestre, em um total de R$ 25
milhões. Farão jus aos proventos
os investidores que detinham
papéis da empresa no dia 11 de
maio. Os montantes serão de
R$ 1,82 por ação preferencial
classe A, R$ 0,03 por ação
preferencial classe B e R$ 0,03
por ação ordinária. Os JCP serão
creditados na conta corrente
dos acionistas da companhia.
No próximo episódio do Educação
Financeira, iniciativa da bolsa
em parceria com a TV Cultura
para popularizar conceitos de
finanças e tipos de investimentos,
os telespectadores poderão
conhecer as vantagens e
desvantagens de uma compra
via consórcio ou financiamento.
Com a presença do consultor
Valter Police Jr., o programa será
exibido na TV Cultura, sábado,
às 10h15. Especialistas explicarão
os cuidados necessários
para evitar transtornos futuros
com uma grande dívida.
Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 43
BOLSA
JUROS
Giro financeiro
Contrato futuro
R$ 7,27 bi
10,60%
foi o volume financeiro registrado ontem no segmento de ações
da BM&FBovespa. O Ibovespa, principal índice acionário, encerrou
o pregão com variação positiva de 0,49%, aos 61.236 pontos.
foi a taxa de fechamento do contrato futuro de DI com vencimento
em setembro de 2010, o mais negociado ontem. O volume financeiro
atingiu R$ 38,4 bilhões, com 391.005 contratos negociados.
IBOVESPA
RENDA FIXA
Ação
Código
Mínima
ALL AMER LAT UNT N2
AMBEV PN
B2W VAREJO ON
BMF BOVESPA ON
BRADESCO PN
BRADESPAR PN
BRASIL ON
BRASIL TELEC PN
BRASKEM PNA
BRF FOODS ON
CCR RODOVIAS ON
CEMIG PN
CESP PNB
CIELO ON
COPEL PNB
COSAN ON
CPFL ENERGIA ON
CYRELA REALTY ON
DURATEX ON
ECODIESEL ON
ELETROBRAS ON
ELETROBRAS PNB
ELETROPAULO PNB
EMBRAER ON
FIBRIA ON
GAFISA ON
GERDAU PN
GERDAU MET PN
GOL PN
ITAUSA PN
ITAUUNIBANCO PN
JBS ON
KLABIN S/A PN
LIGHT S/A ON
LLX LOG ON
LOJAS AMERIC PN
LOJAS RENNER ON
MMX MINER ON
MRV ON
NATURA ON
NET PN
OGX PETROLEO ON
P.ACUCAR-CBD PNA
PDG REALT ON
PETROBRAS ON
PETROBRAS PN
REDECARD ON
ROSSI RESID ON
SABESP ON
SID NACIONAL ON
SOUZA CRUZ ON
TAM S/A PN
TELEMAR ON
TELEMAR PN
TELEMAR N L PNA
TELESP PN
TIM PART S/A ON
TIM PART S/A PN
TRAN PAULIST PN
ULTRAPAR PN
USIMINAS ON
USIMINAS PNA
VALE ON
VALE PNA
VIVO PN
IBOVESPA
ALLL11
AMBV4
BTOW3
BVMF3
BBDC4
BRAP4
BBAS3
BRTO4
BRKM5
BRFS3
CCRO3
CMIG4
CESP6
CIEL3
CPLE6
CSAN3
CPFE3
CYRE3
DTEX3
ECOD3
ELET3
ELET6
ELPL6
EMBR3
FIBR3
GFSA3
GGBR4
GOAU4
GOLL4
ITSA4
ITUB4
JBSS3
KLBN4
LIGT3
LLXL3
LAME4
LREN3
MMXM3
MRVE3
NATU3
NETC4
OGXP3
PCAR5
PDGR3
PETR3
PETR4
RDCD3
RSID3
SBSP3
CSNA3
CRUZ3
TAMM4
TNLP3
TNLP4
TMAR5
TLPP4
TCSL3
TCSL4
TRPL4
UGPA4
USIM3
USIM5
VALE3
VALE5
VIVO4
IBOV
14,11
175,60
28,59
11,04
28,06
32,12
25,32
11,65
12,25
23,22
37,01
25,63
24,10
14,90
36,04
22,35
38,80
19,04
16,12
0,82
23,13
27,67
35,50
9,05
25,64
10,53
23,11
28,76
20,80
10,75
32,51
7,55
4,89
20,36
7,12
12,53
47,16
10,14
12,44
39,11
16,76
16,50
61,42
14,82
30,02
26,31
24,86
12,84
35,30
25,90
67,22
24,23
37,16
26,59
47,61
35,80
7,11
4,71
45,60
84,50
46,79
47,10
42,84
37,40
46,43
60055
Cotação (R$)
Máxima
Fechamento
14,68
180,81
30,54
11,84
29,37
33,10
26,71
12,04
13,15
24,00
37,44
26,40
24,79
15,52
36,98
23,71
39,71
19,90
17,11
0,85
23,90
28,67
36,24
9,40
26,95
10,90
23,84
29,76
21,69
11,28
33,99
7,96
5,04
21,15
7,52
13,11
49,35
10,70
13,05
40,19
17,70
17,45
63,50
15,48
31,33
27,21
25,90
13,39
37,65
26,94
69,39
25,33
38,35
27,41
49,62
37,00
7,40
4,95
46,91
87,03
49,00
49,33
44,01
38,44
48,10
61381
14,25
178,99
28,90
11,35
29,37
32,42
26,16
11,87
12,97
23,55
37,25
26,19
24,30
15,01
36,05
22,80
39,40
19,40
16,65
0,83
23,25
27,71
36,11
9,40
26,95
10,80
23,62
29,60
21,40
11,28
33,99
7,90
5,01
20,60
7,30
12,86
47,35
10,40
12,92
39,65
17,70
17,45
63,50
15,48
30,19
26,45
24,97
13,33
36,40
26,70
68,97
24,60
38,00
26,89
48,50
36,12
7,36
4,91
45,72
86,01
49,00
49,33
43,84
38,18
48,00
61236
Variação (%)
No dia
No ano
0,35
-0,51
-3,92
-2,16
4,48
-1,13
6,13
-2,22
3,51
-0,63
-0,35
0,11
-1,22
-1,25
-3,09
0,97
-0,03
-0,56
1,52
-1,19
-2,56
-1,74
0,42
1,29
1,16
0,00
0,13
1,34
0,09
5,32
4,62
3,40
0,20
-2,00
-0,82
-1,68
-3,37
-1,14
1,65
-0,87
4,12
4,37
0,83
1,57
-2,61
-1,53
-2,08
2,46
-2,93
1,52
1,43
-1,60
0,80
-0,41
-1,02
0,06
0,82
1,24
-1,68
-0,44
3,38
2,54
0,44
0,71
3,45
0,49
-12,52
3,61
-39,38
-5,43
-10,38
-14,77
-8,59
-29,13
-7,88
4,06
-6,06
-4,27
1,70
1,45
-1,81
-10,94
15,79
-19,00
2,79
-23,85
-9,12
-7,02
17,71
0,06
-31,06
-22,73
-18,55
-14,80
-15,29
-2,64
-10,62
-14,96
-4,47
-13,95
-27,79
-16,86
22,81
3,79
-6,80
11,90
-26,25
2,05
-1,52
-9,57
-26,56
-26,84
-10,67
-11,54
6,40
-1,50
23,37
-32,25
-7,25
-19,79
-22,04
-10,41
2,94
-1,31
-6,25
8,92
-1,93
0,15
-10,81
-8,78
-8,05
-10,72
Fundo
Data
BB RENDA FIXA LP 50 MIL FICFI
BB RENDA FIXA LP ESTILO FICFI
CAIXA FIC EXEC RF LONGO PRAZO
CAIXA FIC IDEAL RF LONGO PRAZO
BB RENDA FIXA 25 MIL FICFI
BRADESCO FIC DE FI RF MERCURIO
BB RENDA FIXA 200 FIC FI
BB RENDA FIXA 50 FIC FI
ITAU PREMIO RENDA FIXA FICFI
BB RENDA FIXA LP 100 FICFI
30/JUN
30/JUN
30/JUN
30/JUN
1/JUL
1/JUL
1/JUL
1/JUL
1/JUL
30/JUN
Rent. (%)
12 meses No ano
8,40
8,40
7,72
7,18
7,18
6,69
6,02
5,46
5,15
5,01
IBOVESPA
IBRX-100
(Em pontos)
61.400
Fundo
Data
BB REFERENCIADO DI ESTILO FICFI
ITAU PERS MAXIME REF DI FICFI
CAIXA FIC DI LONGO PRAZO
BB REFERENCIADO DI 10 MIL FICFI
NOSSA CAIXA REFERENCIADO DI
BB REFERENCIADO DI 200 FIC FI
HSBC FIC REF DI LP POUPMAIS
ITAU PREMIO REF DI FICFI
BRADESCO FIC DE FI REF DI HIPER
SANTANDER FIC FI CLAS REF DI
1/JUL
1/JUL
30/JUN
1/JUL
30/JUN
1/JUL
1/JUL
1/JUL
1/JUL
1/JUL
Rent. (%)
12 meses No ano
8,10
8,05
6,60
6,47
6,11
5,88
5,16
4,79
4,45
4,12
Fundo
Data
BB ACOES VALE DO RIO DOCE FI
CAIXA FMP FGTS VALE I
BRADESCO FIC DE FIA
BRADESCO BA FIC DE FIA
BRADESCO FIC DE FIA IV
BRADESCO FIC DE FIA MAXI
SANTANDER FIC FI ONIX ACOES
ITAU ACOES FI
ALFA FIC DE FI EM ACOES
BB ACOES PETROBRAS FIA
30/JUN
30/JUN
30/JUN
30/JUN
30/JUN
30/JUN
30/JUN
30/JUN
30/JUN
30/JUN
Rent. (%)
12 meses No ano
26,49
26,28
13,45
13,18
12,40
12,07
10,81
9,48
2,32
(19,94)
1,00
1,00
2,00
2,50
2,47
3,00
4,00
4,00
4,50
5,00
ND
80.000
100
5.000
100
200
30
1.000
100
100
(11,41)
(11,92)
(12,17)
(12,28)
(12,31)
(12,30)
(14,22)
(16,37)
(17,62)
(25,46)
Taxa
Aplic. mín.
adm. (%) (R$)
2,00
1,90
4,00
4,00
ND
4,00
2,50
4,00
8,50
2,00
200
100
1.000
200
MULTIMERCADOS
Fundo
Data
REAL CAP PROT VGOGH 3 FI MULTIM
ITAU PERS K2 MULTIM FICFI
BB MULTIM TRADE LP ESTILO FICFI
CAPITAL PERF FIX IB MULT FIC
ITAU PERS MULTIE MULT FICFI
INVEST PERSON VG MOD FIC FI MULT
ITAU PERS MULT AGRESSIVO FICFI
ITAU PERS MULT MODERADO FICFI
ITAU PERS MULT ARROJADO FICFI
SANTANDER FIC FI ESTRAT MULTIM
30/JUN
30/JUN
30/JUN
30/JUN
30/JUN
30/JUN
30/JUN
30/JUN
30/JUN
30/JUN
Rent. (%)
12 meses No ano
13,82
8,68
8,64
8,52
8,26
7,49
6,95
6,83
6,83
2,55
SMALL CAP - SMLL
4,68
3,51
3,89
4,19
3,66
1,88
(3,13)
0,55
(0,67)
1,99
Taxa
Aplic. mín.
adm. (%) (R$)
2,50
1,50
1,50
1,50
1,25
3,00
2,00
2,00
2,00
2,00
10.000
50.000
20.000
5.000
25.000
5.000
5.000
5.000
50.000
MIDLARGE CAP - MLCX
850
19.135
1.131
844
60.800
19.030
1.124
838
60.500
18.925
1.117
832
Máxima
61.381,03
Mínima
60.055,71
Fechamento 61.236,20
60.200
1.110
18.820
Fonte: BM&FBovespa
3,96
3,90
3,26
3,18
3,01
2,89
2,63
2,35
2,12
1,99
Taxa
Aplic. mín.
adm. (%) (R$)
AÇÕES
1.138
11h
50.000
30.000
5.000
5.000
5.000
200
50
300
100
DI
19.240
10h
1,00
1,00
1,10
1,50
2,00
2,50
3,00
3,50
4,00
4,00
*Taxa de performance. Ranking por número de cotistas.
Fonte: Anbima. Elaboração: Brasil Econômico
*Em pontos. Fonte: Economatica
61.100
4,05
4,05
3,77
3,52
3,52
3,21
2,96
2,73
2,45
2,47
Taxa
Aplic. mín.
adm. (%) (R$)
12h
13h
14h
15h
16h
17h
10h
17h
826
10h
17h
10h
17h
44 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010
MUNDO
Produção nos
EUA desacelera
e mercado reage
Bolsa cai também por causa de índice sobre compra de
imóveis que interrompeu ciclo de três meses de alta no setor
As preocupações quanto à fragilidade da recuperação da economia
dos Estados Unidos foram reforçadas ontem por dados negativos
no setor manufatureiro e de venda
de imóveis. Depois da divulgação
pela Associação Nacional dos Corretores de Imóveis (NAR, na sigla
em inglês) de uma queda de 30%
nos compromissos de compra de
imóveis, em comparação com o
mês anterior, chegaram os dados
sobre a produção industrial.
A alta da atividade na indústria
de manufaturas desacelerou em
junho, segundo os dados da associação ISM. O indicador, também
conhecido como “índice dos gerentes de compra”, se situou nos
56,2%, contra 59,7% em maio.
O indicador - que compila os
informes dos diretores de compras que incluem de novos pedidos a estoques de mercadoria - ficou muito abaixo das expectativas do mercado, que esperava
AS MÁS NOTÍCIAS
● O índice ISM sobre produção
caiu para 56,2 no mês passado,
em relação aos 59,7 de maio.
● Os compromissos de compra
de imóveis caíram mais que
o esperado em maio, 30%, em
comparação com o mês anterior.
● Os empregadores anunciaram
planos de cortar 39,3 mil
trabalhadores de suas folhas de
pagamento em junho, leve alta.
59%. O nível acima de 50% assinala uma expansão do setor.
No setor imobiliário, o forte
retrocesso de 30% os compromissos de venda de imóveis interrompeu um ciclo de três
meses de alta (6,0% em abril,
7,1% em março e 8,3% em fevereiro), informou a NAR. O
índice registra assim uma queda de 15,9% na base anual,
para registrar seu pior nível em
mais de um ano. Economistas
esperavam uma queda deste
índice, mas de apenas 10,5%.
A NAR notou que a forte queda deveu-se em boa parte ao
vencimento de um crédito de
imposto imobiliário em 30 de
abril. A aproximação dessa data
incitou as famílias a aproveitar as
vantagens durante este mês.
“Os consumidores são racionais e se precipitaram para se
beneficiar do crédito tributário
antes da data limite de abril. O
A desaceleração no índice sobre
produção industrial, associada
à queda na venda de imóveis,
provocou queda da bolsa
forte retrocesso de maio é o resultado natural disso, e se esperam resultados semelhantes em
junho”, disse o economista chefe da NAR, Lawrence Yun.
O economista destacou que
o crédito de imposto imobiliário estabilizou os preços, que
ameaçavam cair. “Sem o crédito, as negociações de preço entre compradores e vendedores
serão mais agressivas”.
Mas tudo indica também que
os estímulos continuarão, já que
o Congresso americano votou na
quarta-feira à noite um dispositivo para estender o prazo do
crédito. Os senadores aprovaram
o projeto de lei que já tinha obtido o consentimento dos representantes na semana. O texto
ainda será promulgado pelo presidente Barack Obama.
No front do mercado de trabalho, relatório divulgado ontem pela ADP mostra o pior resultado em 4 meses, com a contratação de 13 mil trabalhadores, abaixo do esperado pelo
mercado (60 mil). ■ Agências
Derick E. Hingle/Bloomberg
NUVENS DO ALEX SOBRE NAVIOS DE PESCA DE CAMARÃO EM PORT FOURCHON, NA LOUISIANA
O furacão Alex
enfraqueceu para
uma tempestade
tropical ontem, ao
se deslocar para dentro
do continente na região
nordeste do México,
causando fortes chuvas
que inundaram cidades.
Mas ainda atrapalha
as tarefas de limpeza do
petróleo que se espalha
pela superfície do Golfo
do México e ameaça jogar
mais água contaminada
na costa sul dos EUA.
Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 45
Noor Khamis /Reuters
Países africanos criam mercado comum
Cinco países da África Oriental (Quênia, Uganda, Ruanda, Tanzânia e
Burundi) dividem oficialmente desde ontem o primeiro mercado comum
no continente africano, embora o projeto deva tornar-se realidade apenas
dentro de alguns anos. O objetivo é criar, seguindo o exemplo da União
Europeia (UE), um mercado único de 126 milhões de habitantes que
representa um Produto Nacional Bruto combinado de 70 bilhões de
dólares. É o maior esforço de integração econômica da história da África.
AGENDA DO DIA
● Conselho do Fundo Monetário
Internacional reúne-se para
discutir pacote de ajuda de
US$ 20 bilhões à Romênia.
● Secretária de Estado dos EUA,
Hillary Clinton visita a Ucrânia.
● Um ano do resgate de Ingrid
Betancourt, sequestrada na Colômbia.
Jim R. Bounds/Bloomberg
Próxima meta de Obama é
reforma da Lei de Imigração
Sem estabelecer prazos,
presidente desafiou republicanos
a mostrar “valentia política”
O presidente americano, Barack
Obama, declarou ontem estar
“pronto para avançar” na reforma migratória integral e desafiou a oposição republicana a
demonstrar “valentia política”
para aprová-la no Congresso.
“Estou pronto para avançar.
A maioria democrata está pronta
para avançar e creio que a maioria dos americanos está pronta
para avançar”, disse Obama na
sede da American University,
em Washington.
Mas a reforma, que já fracassou em 2006 e 2007 no Congresso, “não pode passar sem os
votos republicanos... uma realidade política e matemática”,
acrescentou o presidente para
cerca de 300 líderes políticos,
sociais e religiosos.
Diante de um tema “que se
presta à demagogia”, disse o
presidente, “a questão é saber se
teremos a valentia de aprovar
uma lei no Congresso”. Obama
não estabeleceu, no entanto, nenhum calendário nem novas iniciativas para desbloquear as negociações com republicanos.
Líderes democratas no Senado apresentaram há dois meses
um esboço da reforma integral
que, contudo, ainda não foi introduzida como projeto de lei.
Obama também não confirmou se seu governo tentará em
breve impugnar diante da Justiça a lei SB 1070 aprovada no
Arizona (sudoeste), que obriga a
polícia estatal a pedir papéis a
pessoas sob suspeitas “razoáveis” de serem ilegais. ■ AFP
“O governo
Obama deve
garantir, primeiro,
a segurança
na fronteira sul
se quiser realizar
reforma migratória
integral”,
responderam
os líderes
republicanos
46 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010
MUNDIAL 2010
Mão de obra
é desafio para
Copa de 2014
PRA BOTAR OS HOLANDESES NA RODA!
Estimativas apontam a necessidade de 3,4 milhões
de profissionais capacitados em diversas áreas
Fábio Suzuki
[email protected]
O Brasil sediará a próxima Copa do
Mundo daqui a quatro anos mas já
está atrasado em relação às iniciativas de capacitação de profissionais que estarão envolvidos no
evento. De acordo com estimativas da Associação Brasileira de
Recursos Humanos (ABRH-Nacional), o Mundial de futebol no
país demandará cerca de 3,4 milhões de pessoas aptas a desempenhar atividades relacionadas à
competição. E segundo avaliação
do Ministério do Trabalho com
base nos dados do IBGE e IPEA,
faltarão 300 mil profissionais
para atender toda a demanda.
Entre as áreas apontadas pela
instituição não-governamental
que mais necessitam melhoras
na capacidade dos profissionais
estão estão administração com
foco em gestão no esporte, turismo de negócios, direito internacional e fisioterapia esportiva. “É
preciso haver uma mobilização
nacional e iniciativa das associações ligadas ao governo para que
o Brasil esteja habilitado a abrigar um evento como a Copa do
Mundo”, diz Leyla Nascimento,
presidente da ABRH-Nacional.
Segundo ela, outra questão
que necessita de atenção no país
é em relação aos idiomas falados
pelas pessoas que estarão envol-
Com base nos dados
do IBGE e Ipea,
Ministério do
Trabalho avalia que
deverão faltar 300 mil
profissionais aptos
a atuar em atividades
relacionadas ao
Mundial no Brasil
Na véspera do jogo contra a Holanda, o Brasil fez um treino no campo da Nelson Mandela
Metropolitan University, em Porto Elizabeth. A novidade foi Felipe Melo, que ficou de
fora da partida contra o Chile por contusão. O volante participou de toda a atividade de
ontem e pode aparecer entre os titulares no confronto contra os holandeses, hoje, às 11h.
Caso seja vetado pelo departamento médico, Dunga deve optar pela entrada de Josué ou
mesmo improvisar o lateral Gilberto pelo meio-campo. Após alguns minutos, o técnico
brasileiro fechou a atividade para imprensa e torcedores para treinar penalidades.
vidas na competição. “Devido ao
grande número de turistas que o
país receberá em 2014, estima-se
que 200 mil profissionais tenham
de dominar mais de uma língua
nas grandes cidades”, aponta a
presidente da instituição.
Fábio M.Salles/AE
Seleção brasileira jogará
de azul contra a Holanda
Assim como ocorreu em 1974 e 1994, o
Brasil entra em campo hoje contra a seleção
holandesa com seu segundo uniforme: camisa
e meias azuis e calção branco. Já a Holanda
utilizará seu traje tradicional, com camisas
e meias laranjas e short preto. A escolha
ocorreu ontem em encontro realizado pela
Fifa com representantes das duas seleções.
O Brasil soma uma vitória (1994) e uma
derrota (1974) nas vezes em que vestiu azul
contra a Holanda, e uma vitória (1998)
com a camisa amarela. Em nove jogos de
Copa do Mundo com o uniforme azul, são
sete vitórias, um empate e uma derrota.
Contra o relógio
Apesar do próximo Mundial
ocorrer só daqui a quatro anos, as
iniciativas voltadas para a capacitação dos profissionais para o
evento já deveriam ter começado. “Há tempo hábil para realizar
os trabalhos até 2014 sim, mas
precisa ser articulado o mais rápido possível”, avalia Leyla. ■
CINCO PERGUNTAS A...
Arquivo/AE
O ex-volante Emerson disputou a
Copa de 1998 e tornou-se capitão
da seleção. Hoje comentarista de
TV, ele fala sobre os desafios do
Brasil na fase final do Mundial:
Bergkamp, Kluivert e dois pontas
abertos de grande velocidade.
Foi o melhor jogo da Copa,
uma final antecipada.
O jogo de hoje será igual?
Em 1998, você entrou no fim
contra a Holanda e até bateu
pênalti. Como foi aquele jogo?
...EMERSON
Ex-capitão da seleção brasileira,
comentarista da Band
“Esta Holanda não
tem tanta qualidade
como a de 1998”
Estava 1 a 0, entrei no lugar do
Leonardo pra ajudar a marcação,
mas levamos o gol no final. Na
prorrogação, havia o gol de ouro,
e os dois times tiveram receio de
sair. Nos pênaltis, bati o terceiro e
nós vencemos. Foi um jogo muito
difícil, porque a Holanda tinha um
grande time, com atacantes como
Acho que vai ser diferente. Esta
Holanda não tem tanta qualidade
como aquela. Os jogadores são
todos titulares em grandes clubes,
mas não me impressionam tanto.
Hoje eles tem o Robben, que faz
a diferença, e o Sneijder, mas são
apenas dois. O Van Persie ainda
não jogou, não sei se está meio
perdido. O meio de campo é lento,
não cria muito, fica mais tocando,
esperando a jogada. Não é um
time objetivo como os de 94 e 98,
fortes em todos os setores.
E o Brasil, é melhor hoje?
É uma equipe muito equilibrada,
sem fraquezas. Temos a melhor
defesa do mundo, é o nosso ponto
forte. E também temos grandes
jogadores na frente, que a gente
espera que estejam no dia deles.
Um pecado foi perder o Ramires,
que atuou muito bem contra o
Chile, tem arranque, velocidade.
Sem ele, o Brasil perde um pouco
dessa dinâmica no meio-campo.
Quem você escalaria no meio?
Sou a favor de colocar o jogador
de origem na posição. Por isso,
iria com o Josué ao lado do
Gilberto Silva. E manteria
o Daniel Alves, apesar de ele jogar
o ano todo como lateral-direito.
Quais os seus palpites para
os demais confrontos?
Aposto muito na Alemanha. Ela
chegou desacredita, com muitas
lesões, e provou que é sempre
favorita. A Argentina tem o
melhor ataque da Copa, se dá ao
luxo de ter o Milito no banco, mas
a defesa é muito frágil. A Espanha
passa pelo Paraguai. Aposto
também no Uruguai, que é a
grande surpresa deste Mundial.
Sexta-feira, 2 de julho, 2010 Brasil Econômico 47
Marcelo Regua/O Dia
RUMO AO HEXA
Brasil e Holanda em terreno acidentado
O mau estado do gramado da arena Nelson Mandela Bay, em
Porto Elizabeth, preocupou ontem o técnico Dunga. O treino de
reconhecimento do local foi suspenso. Na véspera do confronto
com a Holanda, pelas quartas de final, a comissão técnica fez uma
inspeção de 15 minutos no campo. Segundo a Fifa, as chuvas na
região têm atrapalhado a recuperação do gramado após as partidas.
522
é o total de chutes a gol das oito seleções classificadas às
quartas de final da Copa. Em primeiro lugar, está a Argentina,
com 75 (só Messi, maior chutador do torneio, tentou 23 vezes).
Em seguida, vêm Brasil e Espanha, com 74, e Gana, com 71.
Marcelo Regua/O Dia
FIQUE DE OLHO
BRASIL É O FAVORITO NAS APOSTAS EM LAS VEGAS
Ex-goleiro Gilmar ganha ação judicial contra a Nike
Veja abaixo a relação do quanto as casas americanas estão pagando
para cada dólar apostado para quem acertar a seleção campeã e o
jogador que fará o primeiro gol na final
SELEÇÃO
GANHOS, EM US$
JOGADOR
Brasil
1,5
Messi
Argentina
1,7
Espanha
Alemanha
Holanda
Luís Fabiano
Arquivo/AE
Por uso indevido de imagem
do ex-goleiro da seleção Brasil
Gylmar dos Santos Neves,
a fabricante de materiais
esportivos Nike terá de
indenizar o ex-jogador.
A ação judiciária deve-se
à utilização de fotos de
Gylmar em painéis publicitários
para divulgar o lançamento
de uma coleção roupas
com a temática dos “campeões
mundiais”, realizada para
a Copa de 2006. A 22ª Vara
Cível da Comarca da Capital do
Estado de São Paulo reconheceu
que o direito de imagem do
ex-jogador foi violado, de
forma indevida e condenável.
Contatada, a Nike não se
pronunciou sobre o caso.
GANHOS, EM US$
4
5
2,8
Higuaín
3,5
4,2
Uruguai
8
Paraguai
8
Gana
20
7
Kaká
10
Fernando Torres
10
David Villa
11
Fonte: Brasil Econômico
“Nenhum de nós tem medo do Brasil”
Wesley Sneijder, meia da Holanda esbanjando
confiança para o jogo de hoje contra a seleção brasileira.
Mick Jagger, líder dos Rolling Stones,
ex-torcedor de Inglaterra e Estados Unidos.
Marcelo Regua/O Dia
Dunga, em resposta ao holandês Johan Cruyff,
que afirmou que “nunca pagaria um ingresso”
para assistir à equipe do técnico brasileiro.
“Vamos ver como o Brasil
joga. Aí decido se continuo
torcendo por eles”
QUARTAS-DE-FINAL
PRÓXIMOS JOGOS
HOJE
Ao lado da mineração, o turismo
é a atividade econômica mais
importante na África do Sul
e seu sistema de informações
aos visitantes é de fazer inveja
a muitos países desenvolvidos.
Ainda assim, a South African
Tourism, empresa responsável
pela área no país, aprimorou seu
serviço de disponibilização de
informações para atender os
mais de 300 mil visitantes que
Brasil
x
Holanda
11:00 - Porto Elizabeth
Uruguai
x
15:30 - Joanesburgo
Gana
AMANHÃ
Turistas obtêm informações em redes sociais na Copa
“Ele não paga porque deve
ter ingresso de graça da Fifa”
● Unanimidade debaixo das
traves da seleção brasileira, o
goleiro Júlio César será peça
fundamental no jogo de hoje
contra a Holanda com suas
defesas tanto no tempo
normal como também em
uma possível disputa por
pênaltis. Escolhido o
3º melhor goleiro do mundo
em 2009, atrás do espanhol
Casillas e do italiano Buffon,
o arqueiro brasileiro está
em excelente fase e tem
tudo para assumir o primeiro
posto este ano. Aos 30
anos, Júlio César defende
atualmente a Internazionale,
da Itália, atual campeã da
Liga do Campeões da Europa.
visitarão a África do Sul durante
a Copa do Mundo com a inclusão
de redes sociais. Denominado
Nuvem 2, o serviço foi criado
pela salesforce.com e os turistas
poderão obter, em tempo real,
notícias sobre os melhores
serviços, acomodações,
passeios e atrações ligadas
ao evento esportivo acessando
os endereços eletrônicos de
redes como Twitter e Google.
Argentina
x
Alemanha
11:00 - Cidade do Cabo
Paraguai
x
Espanha
15:30 - Joanesburgo
BOLA NA REDE
RECORDE
MUNDIAL 1998
GOLS
Até 1/7/10
Editada por
Fábio Suzuki e Gabriel Penna
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[email protected]
48 Brasil Econômico Sexta-feira, 2 de julho, 2010
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ÚLTIMA HORA
BNDES concede empréstimo de
R$ 766 milhões ao Metrô de SP
Ricardo Galuppo
[email protected]
Diretor de Redação
Henrique Manreza
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) concedeu empréstimo ao governo de São
Paulo no valor de R$ 766 milhões, destinado aos projetos
da Companhia de Metropolitano de São Paulo. “O financiamento é um dos maiores aprovados pelo banco para o
setor de transporte público urbano. O projeto prevê expandir a Linha 5 em 11,5 quilômetros, ligando a Estação
Largo Treze de Maio da Linha 5 (lilás) à Estação Chácara
Klabin da Linha 2, nos bairros de Santo Amaro e Vila Mariana, respectivamente”, informou o BNDES em nota.
O financiamento corresponde a 13% de um pacote de
investimentos no metrô que soma R$ 6 bilhões com recursos do Banco Mundial (Bird) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), além de contrapartida
do estado de São Paulo. Excluído o contrato assinado
ontem, as operações de financiamentos do BNDES ao
Metrô-SP somam aproximadamente R$ 3 bilhões. O
banco também aprovou crédito de R$ 60 milhões ao estado de São Paulo pela linha BNDES Estados, cujos recursos serão aplicados na execução de projetos do Plano
Plurianual (PPA). ■ Agência Estado
A escolha de Indio foi
a opção pela política
Pedro Gama/Rio CVB
Rio terá US$ 1 bi do Banco Mundial
O Banco Mundial aprovou , ontem, um crédito de US$ 1,045 bilhão para a cidade
do Rio de Janeiro, informou a instituição em comunicado distribuído por e-mail.
Trata-se do maior empréstimo já concedido pelo Banco Mundial diretamente para
uma cidade em todo o mundo, disse o banco. O empréstimo será liberado em duas
parcelas e servirá para “consolidação fiscal e para crescimento e eficiência”, segundo o texto da instituição. ■ Bloomberg News
Fábio Motta
Petrobras conclui troca
de ações até setembro
Os planos da Petrobras de concluir, até setembro, a troca
de ações pelo direito de explorar reservas do pré-sal não
serão prejudicados pelas eleições deste ano, afirmou o
ministro de Minas e Energia, Márcio Zimmermann. “O
Brasil não pode parar por causa das eleições”, disse
Zimmermann, ontem, em entrevista em seu gabinete
em Brasília. “Isso não é brincadeira.”
A estatal decidiu no dia 22 de junho adiar para setembro a oferta de ações, depois de anunciar que a operação aconteceria até julho. A medida foi tomada para
aguardar a avaliação das reservas de até 5 bilhões de
barris de petróleo que o governo vai transferir para a
empresa em troca de ações. O adiamento gerou preocupações de investidores de que a empresa não conseguiria fazer a emissão das novas ações este ano por causa das eleições presidenciais em outubro.
A Petrobras planeja assinar o acordo para explorar as
reservas da União até o fim de agosto e transferir as
ações para o governo até o fim de setembro.
“É uma correria grande, mas é possível,” disse
Zimmermann. “Investimentos em infraestrutura são de
longo prazo. Então você precisa respeitar o planejamento para não gerar gargalos.” O ministro descartou a possibilidade da capitalização ser adiada por causa de flutuações do mercado internacional.
A cessão onerosa e a oferta de ações são parte do plano
para financiar os investimentos de US$ 224 bilhões programados pela Petrobras até 2014. ■ Bloomberg News
Aconteça o que acontecer na partida de hoje entre
Brasil e Holanda, o certo é que a Copa do Mundo se
aproxima do final e dentro de pouco tempo começa
para valer a disputa pelo posto de presidente da República. Em vantagem nas pesquisas, depois de ultrapassar o candidato do PSDB, José Serra, Dilma
Rousseff (PT) começa a ser apontada pelos aliados
como a nova governante do Brasil. Na noite de terçafeira passada, um ex-assessor do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva comentava que a leitura atenta
dos números revelados na última rodada do Vox Populi indica que Dilma está perto não da vitória. O
que se discute agora é se a vitória será no primeiro
turno. Se realmente acontecer da criatura (Dilma)
vencer logo de cara, ela terá conseguido um feito de
que nem seu criador (Lula) foi capaz. Ou seja, não é
fácil. Portanto, é conveniente que seus aliados —
caso queiram a vitória — não se descuidem de Serra.
Os marqueteiros de Serra quase
prejudicaram a aliança no Rio por
insistir numa forma de expor o
número 45 nas peças de campanha
A confusão em torno da escolha do vice do tucano — incluindo-se, aí, a indicação atabalhoada de
Álvaro Dias (PSDB-PR) e a surpreendente sagração
de Indio da Costa (DEM-RJ) — se deu sob o manto
protetor da Copa do Mundo. O eleitor comum não
percebeu nesse lance o traço de hesitação que os adversários sempre atribuíram aos tucanos. Dito isso, a
escolha de Índio da Costa reforça a estratégia de Serra de vencer a batalha no Sudeste, tentar empatar o
jogo no Sul e no Centro-Oeste e, no caso do Norte e
do Nordeste, se contentar em tirar de Dilma a maior
quantidade possível de votos. Indio da Costa, por
menos conhecido que seja, aumenta a penetração de
Serra junto ao imprevisível eleitorado fluminense
(tarefa até aqui entregue ao candidato a governador,
Fernando Gabeira). Isso não é pouco. Dias atrás, os
marqueteiros de Serra quase comprometeram a
aliança tucana no Rio porque insistiam em encontrar
uma forma de expor o 45 (número de Serra) nas peças da campanha estadual — e para isso teriam que
substituir nomes na chapa. A opção pelo marketing
não deu certo. Agora, a opção foi pela política. ■
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DESTAQUE
MAIS LIDAS ONTEM
OdontoPrev incorpora operação da Bradesco Dental
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Tim pode ser novo alvo da Telefónica, dizem analistas
A maior operadora de planos odontológicos da América
Latina iniciou a incorporação de todas as atividades de
gestão e processamento dos atendimentos da Bradesco
Dental. A associação entre as duas empresas foi anunciada
em outubro de 2009. Em troca, o banco recebeu o
equivalente a 43,5% do capital total da OdontoPrev.
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Portugal tenta último lance pela Vivo em Bruxelas
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Banco Central autoriza Bradesco a elevar o capital
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JBS fecha acordo para adquirir confinamento McElhaney
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Serra critica MST e ausência de candidatos em debate
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ENQUETE
O adiamento
da oferta
de ações
da Petrobras
para setembro
deve afetar
o desempenho
do Ibovespa?
Sim
69%
Não
31%
Fonte: BrasilEconomico.com.br
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Outlook
BRASIL ECONÔMICO
2/JULHO/2010
39
“Fiz mais de 70 filmes.
Sem lei de incentivo,
sem patrocínio, sem nada”
David Cardoso,
ator e produtor
FOTO ANTONIO MILENA
SUPLEMENTO DE FIM DE SEMANA
2 | Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010
PROGRAME-SE
O melhor da semana
Dez sugestões imperdíveis em cultura, gastronomia,
esporte, moda e viagens
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FOTO ROGÉRIO BERBEKI
FOTO DIVULGAÇÃO
FOTO RODRIGO ROSENTHAL
FOTO DIVULGAÇÃO
TEXTO E EDIÇÃO D E N I S E B A R R A
TRÊS EXPOSIÇÕES
NO MAM-RIO
FESTIVAL DE ETNIAS
DO PARANÁ
O MÉDICO
E O MONSTRO
Ela é uma das vozes mais
seguras da nova safra de
cantoras brasileiras.
Depois de agradar plateias
em Nova York e Tóquio,
Vanessa Falabella faz
temporada em São Paulo,
cantando soul, MPB, jazz e
bossa nova. Hoje, ela
divide o palco do elegante
The Blue Bar com Adriana
Mezzadri. Às segundas-feiras de julho, convida o
músico Orlando Bonzi ao
aconchegante Madeleine.
Hoje, no Blue Bar, em SP.
Segunda, no Madeleine.
Nada como uma desilusão
amorosa para amadurecer.
O trabalho do cantor Otto
cresceu junto com ele. O
disco Certa Manhã Acordei
de Sonhos Intranquilos
mostra que o pernambucano
está numa fase boa, com
uma sonoridade que
mistura batidas eletrônicas
a ritmos populares
nordestinos, como
maracatu, coco e ciranda.
Ele apresenta o novo
trabalho em show hoje.
Às 21h, na choperia do
Sesc Pompeia, em SP.
As pinturas figurativas da
carioca (que mora em
Berlim) Cristina Canale
estão em “Arredores e
Rastros”, vinte telas de
1995 a 2010. Outra mostra
é “Homenagem a Esther
Emilio Carlos”. Depois da
morte recente da crítica de
arte, a família doou sua
coleção ao MAM, com 25
telas de Guignard, Tunga e
Antonio Dias. “Se a pintura
morreu, o MAM é céu” tem
obras de Daniel Senise, Luiz
Zerbini e Adriana Varejão.
Até 15/8, no MAM-Rio
A cultura de países como
Ucrânia, Espanha, Grécia,
Itália, Holanda, Alemanha,
Bolívia, Polônia, Japão,
Portugal e Índia se
apresenta diariamente no
teatro Guaíra, em Curitiba,
durante o 49º Festival
Folclórico e de Etnias
do Paraná. Grupos
folclóricos mostram danças,
cantos e trajes típicos.
No palco, mais de 1.500
pessoas. Na plateia, mais
de 30 mil.
Até 13/7, no Teatro Guaíra,
em Curitiba.
Na Londres de 1885, o
doutor Henry Jekyll busca
a solução para a loucura de
seu pai. Ele pressupõe que
todas as pessoas têm dupla
personalidade e tenta criar
uma fórmula para isolar o
lado negro do ser humano.
Com esse enredo, o musical
da Broadway Jekyll & Hyde
— O Médico e o Monstro fez
sucesso em mais de 17
países. No Brasil, o elenco
reúne 28 atores e uma
orquestra com 17 músicos.
Estreia 8/7, às 21h, no
Teatro Bradesco, em SP.
FOTO DIVULGAÇÃO
FOTO DIVULGAÇÃO
FOTO MAURO HOLANDA
FOTO DIVULGAÇÃO
A METAMORFOSE
DE OTTO
FOTO MARIO LEITE
O JAZZ DE VANESSA
FALABELLA
NOVO BRIE RESTO
NA RUA MELO ALVES
POLENTA DE CABRITO
NO DUE CUOCHI
PARA FUGIR
DO FRIO, MARAÚ
ENCONTRO DE MOTOS
NASCIDAS ATÉ 1979
ESMALTES DE VERÃO
REINALDO LOURENÇO
O novíssimo Brie Resto é um
restaurante com jeito de
bistrô. A comida é bem
elaborada, mas o cardápio e
o preço são enxutos. A chef
Eliane Carvalho deixou o
ambiente (do ex Babette)
mais casual. Os pratos seguem
a linha francesa e saem no
tempo de quem tem pressa.
Peça o risotto de carne de sol,
por R$ 39. Finalize com o
crème brûlée, feito à maneira
clássica, com o creme frio e a
superfície quente.
R. Melo Alves, 216, SP.
O Due Cuochi Cucina criou
pratos quentinhos, servidos
só até o fim do inverno.
Como entrada, peça a
inusitada polenta com ragu
de cabrito (que agradaria em
cheio Zeca Pagodinho), por
R$ 21. Duas novas opções de
massas e de carne estão no
cardápio. O brasato ao vinho
tinto com polenta sai por R$
58 e a costela de boi assada
na lenha ao vinho chianti com
purê de batata por R$ 62.
Due Cuochi, Shopping
Cidade Jardim e Itaim, SP.
Em julho, os preços de
hospedagem no Nordeste
caem, mas a temperatura
continua alta. A Península
de Maraú fica no sudeste da
Bahia, na Baía de Camamu,
uma das mais bonitas e a 3ª
maior do país. São 40 km de
praias, piscinas em recifes de
corais, ilhas e cachoeiras. A
Pousada Taipú de Fora fica em
frente ao mar. Quatro noites
custam a partir de R$ 550 por
pessoa até 15/12.
Pousada Taipu de Fora, BA
www.taipudefora.com.br
Os aficcionados por
motocicletas antigas
podem começar a lustrar
suas relíquias. O 7º
Encontro Moto e Cia Classic
vai tirar da garagem mais
de mil motos para 12 mil
pessoas admirarem. Para
participar, é só levar sua
motoca clássica, mas é
preciso que ela tenha sido
fabricada até 1979. A
entrada é grátis e não é
preciso se inscrever.
Domingo, a partir de 8h,
no Pateo do Collegio, SP.
Eles chamaram a atenção
nas unhas das modelos no
desfile de Reinaldo
Lourenço, na SPFW. Agora
os esmaltes criados pelo
estilista para a primavera-verão 2011 chegam ao
mercado para as meras
mortais. A coleção da
Risqué tem cores berrantes
como tomate e rosa pink
fosco, e outras mais
discretas, como amarelo
quase cor da pele,
cinza- claro e azul-bebê.
Nas lojas.
Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 | 3
Cardápio
2.7.10
Hoje é dia de jogo do Brasil e por isso, sem
demora, vá direto às páginas 24 e 25, porque
sabemos que nada mais importa nesse mundo.
Greve na USP? Chama o Dunga que ele já chega
atirando. Vice do Serra? Põe o Kléberson,
que está no banco e não está sendo aproveitado.
Nas páginas dedicadas à Copa, Gabriel Penna
esmiúça o histórico confronto contra a Holanda
(entrevista Bebeto, que embalou o filho Matheus
depois de marcar contra os holandeses naquele
inesquecível 3 a 2 de 1994) e o craque Chico
Mattoso versa sobre “as maravilhas curativas
do vício em bolão”. Para depois da aguardada
peleja, quando a vitória nos retirar de vez
a razão, ou a derrota nos devolver à realidade,
essa segunda divisão da existência, o leitor estará
livre para percorrer o restante deste caderno.
Na pág. 6, nossa reportagem vai aos bastidores
de uma microcervejaria. A partir da pág. 26,
o figuraça David Cardoso ri de si próprio,
dos sabores e dessabores de uma vida aventurosa.
Uma leitura providencial. Fred Melo Paiva
4 | Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010
IDEIAS FORTES
ADRIANA VICHI
Lilia Moritz Schwarcz
Raça sempre foi boa
para pensar
Tomar um forfait do João Gilberto (mais um) e não assisti-lo tocar no Carnegie Hall é
motivo de decepção, mas nada que implique em cortar os pulsos. Afinal, programa é o
que não falta em Nova York.
Que seria bom ver o muso da Bossa Nova desafinar afinado diante do público americano, pedir silêncio, atrasar, brigar contra os acessos de tosse... isso não se discute. Mas,
em sendo João Gilberto, o cancelamento repentino de um show não chega a constituir
surpresa. A reação diante da placa que anunciava “canceled” e do aviso que alegava
“problemas de voo”, se não foi de alívio, lembrou um certo grau de normalidade. Excentricidades à parte, João Gilberto é João Gilberto no Brasil ou nos Estados Unidos.
A saída foi abrir o jornal e, mesmo em época de férias no Hemisfério Norte e de
poucas ofertas, escolher dentre um cardápio farto. Se a emenda não foi melhor que o
soneto, o resultado não decepcionou. Dentre as múltiplas possibilidades, optei por
uma peça escrita e dirigida por David Mamet chamada Race. Mamet é uma espécie de
darling do mundo da cultura anglo-saxã; dramaturgo e roteirista, tem também incursões no cinema e na literatura.
Race não tem nada a ver com “corrida”, o que seria a tradução mais corriqueira
nesses tempos de jogging e maratona. Na verdade, Race refere-se à outra acepção do
termo — tema que após tantos anos (uma vez que as ações afirmativas datam dos
anos 1960 nos EUA) continua forte na agenda daquele país, e que, cada vez mais, invade a plataforma política e social de nações que, como o Brasil, até bem pouco tempo pareciam dormir o sono dos justos.
“Raça sempre gera problemas”, diz um dos personagens em tom de zombaria,
mas indicando por onde caminha o argumento. A peça é curta — uma hora e meia,
com intervalo — e dividiu a crítica. Para alguns, é superficial demais; para outros,
mantém o público sob tensão e suspense. Já na minha opinião, Mamet põe o dedo na
ferida e escancara uma questão que tem sido, no mais das vezes, bastante camuflada.
E não por acaso quem chega ao Ethel Barrymore Theater logo se depara com uma
plateia híbrida, composta como sempre por brancos, mas também por muitos negros, o que já sinaliza a temperatura local.
A história gira em torno de uma só situação: um homem branco é acusado de estuprar uma moça negra. Se a paisagem não é original, o “nervo” da peça com certeza é.
Tudo se passa num escritório de advocacia, onde apenas quatro atores resolvem o
enredo: o réu (branco); dois advogados de defesa, sócios da mesma firma (um branco
e outro negro) e uma estagiária (negra). O empate racial não é mera coincidência (deu
dois a dois), assim como a desproporção de gêneros (são três homens para uma mulher) também não parece acidental.
Os diálogos são fortes e marcados pela ambivalência. Não se trata de saber quem é
culpado e quem é inocente; na verdade, todos lá já carregam suas conclusões prévias. Ou
seja, o tema racial parece ser um pressuposto partilhado. Entretanto, visto por diferentes ângulos, transforma-se em jogo de regras complexas e sem vencedor fácil.
Não é o caso de resumir a peça, que continua em cartaz na Broadway, mas de destacar
como todo o desenvolvimento responde à mesma pergunta inicial: tudo o que circunda
a questão da raça acarreta sempre problemas. Mais ainda, quando se cruzam marcadores sociais como raça e gênero, as coisas ficam ainda mais complicadas. Não por acaso,
em qualquer parte do mundo, esse tipo de impasse é marcado pela ambiguidade, e de todos os lados: de quem é preconceituoso e de quem sofre com o preconceito.
Além do mais, parece pairar na peça uma espécie de mal entendido; os embates terminam em constrangedores silêncios, como se esse tipo de situação fosse tão escandalosa
que é melhor não dizer nada, ao menos diretamente. E Mamet, como dramaturgo, é, por
sinal, um mestre do silêncio. Por isso mesmo, o réu escolhe um escritório que conta com
negros na sua direção; a assistente sabe, de antemão, que o acusado que precisa defender
é culpado (e nem que não fosse... seria), assim como o defensor branco acredita que seu
cliente é, por suposto, inocente. Até porque seu lucro depende disso: da comprovação da
ausência de culpa e da conivência diante da certeza que é feita menos por fatos e mais pelo
acúmulo de provas reais ou plantadas.
Por outro lado, paira no ar uma certa insinuação, igualmente velada, entre os sexos. O
advogado branco deixa entender que a assistente negra mentiu para conseguir o emprego, assim como a estagiária parece acusá-lo de tê-la contratado por conta de suas belas
pernas e de sua cor negra; sinônimo de facilitação sexual.
Não tenho por que desempatar essa partida, até porque Mamet faz questão de não facilitar: os diálogos permanecem incompletos, as alegações irresolvidas, as acusações
não recebem veredicto final. E aí reside a força da peça. Em vez de sinalizar uma saída
moral, punir o culpado ou redimir o inocente, ela incomoda pois mantém um grande
mal estar. O racismo não é um fenômeno “do outro”, que acusamos e assim nos inocentamos. Essa é mesmo uma rede tensa e fadada ao diálogo de surdos.
Saí da peça pensando no Brasil e em como o texto ilumina nossa própria situação.
Num país que tem primado por desconhecer a questão, e que na semana passada retirou
o termo raça do “Estatuto da Igualdade (ops) Racial”, a peça teria o papel de uma bomba
de efeito prolongado.
Lilia Moritz Schwarcz é professora titular do Departamento de
Antropologia da USP. É autora de O Sol do Brasil
(Companhia das Letras, Prêmio Jabuti 2009), entre outros.
O racismo não
é um fenômeno
‘do outro’,
que acusamos
e assim nos
inocentamos.
Essa é mesmo
uma rede tensa
e fadada ao diálogo
de surdos. Saí
da peça pensando
no Brasil e em como
o texto ilumina
nossa própria
situação. Num país
que tem primado
por desconhecer
a questão, e que
na semana passada
retirou o termo raça
do ‘Estatuto
da Igualdade (ops)
Racial’, ele teria
o papel de
uma bomba de
efeito prolongado
Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 | 5
CRÔNICA
ILUSTRAÇÃO GONÇALO VIANA
ARQ. PESSOAL
Humberto Werneck
Os pés-frios
da Pátria
Não há limites para a insânia, costumava dizer meu amigo Geraldo
Mayrink, grande jornalista e pessoa melhor ainda, desolado ante o
espetáculo da humanidade sobre a Terra. Planejava começar assim
um artigo que não chegou a escrever. Uma pena. Eu próprio teria fornecido ao Geraldo umas ilustrações da insânia sem limites, e sem que
precisasse recorrer à experiência alheia: rir de si mesmo é uma virtude, e reconheço que motivos não me faltam.
Nestes dias de Copa do Mundo, por exemplo, me cubro de vergonha
retroativa ao ver regurgitar a lembrança de um episódio do qual participei muitíssimas Copas atrás, a de 1974, na Alemanha. Paninho de
fundo para você que chegou depois: vivíamos no pior negrume da ditadura militar, e a troca do Garrastazu pelo não menos general Geisel,
meses antes, em nada refrescara o clima. Por sorte, eu andava longe,
morando em Paris — e lá me vi um dia convocado para importante reunião na Casa do Brasil, na Cidade Universitária. Tratava-se, avisaram,
de discutir grave questão ligada aos rumos políticos de nosso país.
O sujeito de “avisaram” era um casal de militantes formado não
por brasileiros, como seria razoável esperar, mas por uma loura alemã, aliás bonitinha, e por um italiano com ar de Antonio Gramsci,
cuja condição de intelectual das massas era sublinhada por um pesado par de óculos e uma cabeleira alvoroçada e suja de quem cuida
apenas da parte interna da cabeça. Se bem me lembro, aqueles dois
eram ali os únicos não brasileiros — o que não impediu que a reunião
se desenrolasse em francês, ou algo que se pretendia passar como tal.
Quase quatro décadas mais tarde, ainda estou em condições de afirmar que nunca antes, quem sabe depois, e em lugar algum, a língua
francesa foi tão maltratada quanto naquele auditório da Maison du
Brésil. Alguns de nossos compatriotas iam pouco além do bonjour ,
petit pois e mayonnaise — e nem por isso tiveram o bom senso de se
ater a seu cardápio linguístico. Fosse outro o tema em discussão e
provavelmente teríamos visto desfiar-se um colar com as pérolas
clássicas do brasileiro em Paris, em que batata da perna é pomme de
terre de jambe e pão pão queijo queijo, pain pain frommage frommage. Isso se não chegássemos ao desastre igualmente clássico de confundir o substantivo baiser (beijo) com o verbo que, escrito da mesma
forma, significa, mas em linguagem menos fina, ter relações sexuais.
Antes fosse esse o tema. Mas não. Poderíamos nós, militantes de
esquerda, torcer pela seleção canarinha, representante, em última
análise, da sangrenta ditadura militar brasileira? Não seria um desvio
pequeno-burguês nos juntarmos à patuleia que, do Oiapoque ao
Chuí, iria sacudir bandeirinhas verde-amarelas, alienadamente, sem
saber que seu fervor futebolístico era manipulado e posto a serviço da
causa dos inimigos do povo? Nesse crucial debate, comandado pelo
casal teuto-italiano, estivemos emaranhados por duas, três horas —
durante as quais não me lembro de ter visto abrir-se um único sorriso. Eu mesmo me mantive circunspecto, certo de que também nos
gramados alemães estavam em jogo os destinos da Pátria. Sim, não tínhamos dúvida: um breve porém significativo capítulo (parágrafo,
vá lá) da nossa história se escrevia ali no auditório da Maison du Brésil, ao preço do massacre da língua francesa. E pensar, hoje, que lá
fora era verão em Paris...
O papo ia e voltava. Nesse passo, desconfiei, nunca chegaremos ao
Milênio Socialista. Dali a pouco a seleção dos generais ia entrar em
campo, e, de olho no relógio, baixou em nós uma urgência de, como
se dizia, “tirar uma posição”, a qual resultou ser esta joia da tolerância democrática: que cada qual consultasse a sua consciência. Não há
mesmo, diria o Geraldo Mayrink, limites para a insânia.
O que fizemos? Inimigos do Brasil de botas, torcemos todos, ainda
que da boca para dentro, pelo Brasil de chuteiras.
E deu no que deu.
Humberto Werneck é jornalista e escritor. É autor,
entre outros, de O Espalhador de Passarinhos & Outras Crônicas (Dubolsinho),
O Pai dos Burros (Arquipélago Editorial) e O Santo Sujo (Cosac Naify).
O papo ia e voltava.
Nesse passo,
desconfiei, nunca
chegaremos ao
Milênio Socialista.
Dali a pouco a
seleção dos generais
ia entrar em campo,
e, de olho no relógio,
baixou em nós uma
urgência de, como
se dizia, ‘tirar uma
posição’, a qual
resultou ser esta
joia da tolerância
democrática:
que cada qual
consultasse a sua
consciência. O que
fizemos? Inimigos
do Brasil de botas,
torcemos todos,
ainda que da boca
para dentro, pelo
Brasil de chuteiras
6 | Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010
BASTIDORES
1
3
4
Frequentador convicto das cervejadas
universitárias, Bazzo ficou abismado ao descobrir
mais de 50 rótulos disponíveis em um
supermercadinho de uma cidadela inglesa
2
5
6
Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 | 7
1. O cervejeiro Fábio Júnior
pilota a sala de brassagem
2. Drenando o fermento de um
dos tanques. Ele vai ser usado
para dar vida a uma nova leva
3. Alexandre Bazzo,
engenheiro de alimentos
e cervejeiro, tira uma prova
do tanque de Weizenbier
4. Chá de cevada, o mosto
cervejeiro, já filtrado na
terceira tina momentos antes
de seguir para a fermentação
5. O cervejeiro Júnior coloca
o malte para ferver, o primeiro
passo da cerveja
6. Tanques de maturação
dos lados, sala de brassagem
ao fundo. Os heróis da
resistência vestem verde
e amarelo
7. Vintage Biertruppe,
maturada por 100 dias
em barricas de carvalho
Guerreiro mesmo
é o pessoal da Bamberg
No interior de SP, uma premiada microcervejaria tenta provar
que nossa ‘cerveja estupidamente gelada’ é apenas uma estupidez
TEXTO L U I Z H E N R I Q U E L I G A B U E FOTOS E V A N D R O M O N T E I R O
arquetólogos em tempos de Copa do Mundo inventaram que a turma da seleção
brasileira é composta de grandes guerreiros, e que de garra se fazem os brahmeiros.
Até o Dunga foi convocado para bater a
mão no peito e chamar os combatentes.
Balela! Na seleção do bravo volante, recheada de atletas de
cristo, sexo não pode, cerveja muito menos, e o picolé... é
liberado — que gelada! Guerrilheiros de verdade (com uniforme verde e amarelo, por sinal) estão concertados em
Votorantim, no interior de São Paulo. Liderados por Alexandre Bazzo, acordam cedo, colocam a mão na massa às
5h30, e só vão largar o batente muitas horas depois, tudo
para coexistir no mercado de cervejas. Eles, os combatentes da microcervejaria Bamberg, remam contra a maré
para provar que cerveja é muito mais do que se acha que ela
é aqui no Brasil. Por hora, esqueça a estupidez do estupidamente gelada e vamos aos novos nomes na praça.
A Rauchbier, uma cerveja escura, feita com malte defumado, cremosa e de sabor complexo, é a grande campeã da
Bamberg. Faturou, em 2009, a medalha de
prata no European Beer Stars, em diputa com
7
outros mil concorrentes de 35 países. E não é
só: em 2010, outra prata, no Australian International Beer Awards. Outras duas cervejas da
safra de Bazzo, a Moüchen (avermelhada, com
forte sabor de malte) e a Schwarzbier (preta,
aroma de café e chocolate), trouxeram da Austrália dois bronzes. Cada cerveja em sua categoria, todas elas de estilo alemão.
É, os nomes são bem mais complexos do
que as Brahmas da Antarctica do saudoso
ex-presidente corintiano Vicente Matheus.
Hoje tudo a mesma coisa, a AmBev é a quarta
maior cervejaria do mundo. Só ano passado,
produziu 76.277.600, ufa!, hectolitros. Já a
Bamberg, bateu perto da casa dos 100 mil litros. Detalhe: 1 hectolitro equivale a 100 litros. David e Golias.
A cervejaria de Votorantin abriu as portas há
cinco anos, mas nasceu de fato um pouco antes,
quando Alexandre Bazzo, ainda estudante de
engenhariaalimentar,foipassarumatemporada na Inglaterra. Frequentador das cervejadas universitárias,Bozzoficouabismadoaodescobriremumsupermercado de bairro, de uma cidadezinha de 100 mil habitantes,
mais de 50 rótulos disponíveis. Provou um a um. Gostou.
VoltouparaoBrasileaproveitouaquedapelosprocessosbiológicos para estudar o assunto mais a fundo. Foi para a Alemanha, fez cursos e bebeu muita cerveja. Visitou microcervejeiros no Brasil e chamou os irmãos para entrarem na sociedade. Virou cervejeiro.
E não ouse chamá-lo de mestre cervejeiro. Mestre é
aquele formado na Alemanha depois de um curso de cinco
anos, Bazzo diz ser um engenheiro de alimentos. Mas de
fato comanda toda a operação da cervejaria. Define as receitas depois de estudar o estilo que quer fazer, visita o país
de origem, bebe e pega o “gosto original”. Importa a maioria de seus insumos — boa parte do malte, por exemplo,
vem da cidade alemã de Bamberg, que tem uma das maiores concertações de microcervejarias do planeta; o lúpulo,
da Baviera; e o fermento cervejeiro, da região específica
M
Os nomes são bem mais complexos
do que as Brahmas da Antarctica
do saudoso Vicente Matheus,
e a produção, infinitamente menor
para o estilo em questão. Mas o grande diferencial é que
Alexandre é o famoso CDF e adepto do axioma alemão de
pureza: água, malte, lúpulo, fermento cervejeiro e paciência. Só isso entra na sua cerveja.
Ele comanda a sala de brassagem, com suas três tinas de
2 mil litros, para a confecção do “chá de cevada”, o mosto
cervejeiro. Ali a complexidade está nas proporções dos ingredientes e nas rampas de temperatura, que vão determinar as características finais da cerveja. Quando ele não
está, quem assume o comando é ninguém menos que Fábio Júnior. Do alto dos seus 21 anos e de cabelos iluminados, o jovem paranaense está na fábrica praticamente
desde que ela abriu, e é o braço direito de Alexandre. O Fábio Júnior da cerveja começa o processo da
brassagem por volta das 5h30 e Alexandre
fecha o processo de fabricação lá pelas 18h.
Da brassagem as cervejas seguem para os
tanques de fermentação e maturação. A fermentação dura de 7 a 15 dias (dependendo
do estilo a ser produzido), e a maturação, de
3 semanas (no caso da pilsen) até 3 meses
(para a bock). O gás carbônico da cerveja é
natural e resultado do intenso e longo processo de fermentação e maturação.
Mas, para que não acusem Alexandre
de radical da pureza, ele abre exceções
para produções sazonais e comemorativas. De uma delas saiu a Nº 1 Vintage Biertruppe, a primeira cerveja brasileira maturada em barril de carvalho. Lá passou
100 dias, é escura, tem 9% de teor alcoólico, e notas frutadas e condimentadas.
Mas não foi compreendida pelo fiscal do
Ministério da Agricultura, que achou que
aquilo não era cerveja e por isso não autorizou a venda. Prejuízo do Alexandre e
sorte dos amigos, para quem ela é servida. A edição do
5º aniversário já está maturando no carvalho, e lá fica
por mais 4 meses. É uma Weizenbock feita com a técnica inglesa do dry hopping (adiciona-se lúpulo na
maturação), que passará depois por uma segunda fermentação na garrafa. A cerveja vai sair forte, com um
leve quê de champanhe.
E a guerrilha contra a cerveja convencional continua,
com ou sem Copa. Entre os dias 24 e 25 de julho, Alexandre
está organizando o 1º Campeonato Paulista de Cerveja Caseira (aquelas feitas numa boca de fogão). Mas nem por
isso a competição será a festa da maria louca de presídio.
Lá só ganha passe livre cervejas feitas dentro do Estado e
segundo o estilo inglês Extra Special Bitter. O júri de connoisseurs já está formado, e mais de 40 amostras já estão
inscritas. Para o público, o churrascão de costela está garantido, assim como a degustação da produção de outras
microcervejarias. Tudo parte da estratégia para provar
que cerveja é muito menos estúpida do que parece ser.
TEXTO P H Y D I A D E A T H A Y D E FOTOS M A R C E L A B E L T R Ã O
8 | Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010
PROVOCAÇÃO
A fogueira de Land Rovers
vai salvar o planeta?
FOTO JB NETO/AE
Frente de Libertação da Terra assumiu
autoria de atentado que destruiu
concessionária da marca em São Paulo
há duas semanas
Ação lembrou Frente de Libertação dos Anões de Jardim, que nos anos 90
se notabilizou por subtrair estátuas dos gramados da burguesia francesa
para libertá-las ‘do ridículo e da servidão’
TEXTO C H I C O M A T T O S O
o último dia 18 de junho, São Paulo amanheceu com uma notícia absolutamente banal e desimportante:
uma concessionária da
Land Rover na Marginal Pinheiros
sofreu um ataque noturno e teve alguns veículos de luxo incendiados.
No início suspeitou-se da ação de
vândalos, de golpistas de seguradora,
talvez até de uma facção radical de
seguidores de São João, especializada
em fogueiras juninas experimentais.
Alguns dias depois, porém, a conversa ficou mais séria. Uma organização ambientalista intitulada Frente de Libertação da Terra assumiu a
autoria do atentado. “Está mais do
que na hora dos pilares de nossa civilização virem abaixo”, proclama a
carta divulgada pelo grupo, que diz
“atacar a economia de um sistema
N
que destrói o meio ambiente e explora os animais”.
Não é do meu interesse avaliar as
implicações políticas de um ato como
esse. Eu não domino o assunto. Minha
avó diz que o planeta já foi mais frio, e
eu acredito nela. Tendo a simpatizar
com a causa ambiental, talvez porque,
num nível mais básico, seu discurso
fale diretamente ao meu catastrofismo congênito. É o mundo acabando,
pô. Se você não for a favor de dar um
jeito nisso, vai ser a favor do quê?
Não sei que tipo de ideia rondava a
cabeça dos incendiários do dia 18. Só
alguém muito convicto das próprias
intenções pode achar que colocar fogo
em SUVs terá algum efeito real sobre a
degradação do planeta, ou sobre os tais
“pilares da civilização” — no máximo,
fará com que as concessionárias não
guardem mais seus veículos no pátio.
Há uma certa gratuidade no gesto dos
Se existe algo de relevante
nesse atentado, é seu
despropósito, sua quase
comovente falta
de noção. A arte é bela
porque é inútil. A piromania
automotiva também
ativistas, e nesse sentido ele me lembrou as ações da Frente de Libertação
dos Anões de Jardim, que nos anos 90
se notabilizou por subtrair estátuas dos
gramados da burguesia francesa para
libertá-las “do ridículo e da servidão”.
O leitor mais atento observará que
salvar o planeta é muito mais importante que resgatar gnomos de gesso. Eu
concordo. Ainda assim, quando penso
no fogaréu da Marginal, a última coisa
que me vem à cabeça é a nobreza de
suas intenções. Se existe algo de rele-
vante nesse atentado, é exatamente
sua ineficácia, seu despropósito, sua
quase comovente falta de noção. Fernando Pessoa dizia que a arte é bela
porque é inútil. Tendo a achar que a piromania automotiva também é.
Se eu fosse um ambientalista, já teria
desistido de São Paulo faz tempo. Talvez
levasse umas fotos da cidade na carteira,
só para servir como ameaça: “Olha aí o
que pode te acontecer, se continuar fazendo besteira”. Mas parece que os sabotadores do dia 18 quiseram dar uma
forcinha para nossa combalida auto-estima e nos incluíram na rota do ativismo
ecológico mundial — e agora estamos aí,
junto das madeireiras amazônicas, dos
baleeiros japoneses, dos icebergs em degelo. Talvez seja o caso de comemorar.
Vou perguntar para a minha avó.
O escritor Chico Mattoso é autor
de Longe de Ramiro (Editora 34).
Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 | 9
OLHA O PASSARINHO
Grandes twittadas
da semana
Pérolas, achados e picaretagens. O melhor da filosofia em até 140 caracteres
FOTO RODRIGO LIMA/AE
“
Alguém ligado a José Serra precisa lhe dar um toque sobre essa coisa de só
pensar no vice em plena Copa do Mundo. O Brasil quer mais! @tuttyvasques
“
Caim e Abel . O candidato a presidente da República não pode escolher um vice para resolver
briga de irmãos. @deputadocaiado
“
Desencana, Japão. O Mundial de caraoquê chega logo. @sorryperiferia
FOTO DIVULGAÇÃO
“
Poupando energias: como não posso definir a vida,
preocupo-me apenas em vive-la @paulocoelho
Maradona de ombreiras parece
“La OBombonera...
@marcobianchimtv
“
“
“
“
Sem essa de pátria em chuteiras; a pátria do meu uísque segue
adelante!Vai, Paraguay!!! @xicosa
O nosso treinador, nunca foi um jogador de muita técnica, esse também
é motivo, pra gente entender a maneira do time jogar. @RomarioOnze
Seleção Paraguaia já tá tentando vender uma “réplica” da taça pros japoneses
no vestiário @HugoGloss
O Kaká deve estar no mesmo quarto que Felipe Melo. Passarinho que dorme
com morcego amanhece de ponta-cabeça. @Alessandro_M
FOTO ROBERTO SCHMIDT/AFP
“
Amigos, a derrota é um
grande momento de verdade.
Só diante da vergonha
é que entendemos nossa
miséria. @Arnaldo_Jabor
10 | Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010
ZOOM
J.R.Duran
A cidade em sua
hora mágica
J.R.DURAN /FILE INC.
Em cinematografia existe um
momento durante o dia em que a luz
é mágica. É o curto espaço de tempo, no fim da tarde, em que o sol
desaparece atrás do horizonte e
ainda — por alguns instantes —
continua iluminando, mesmo que
seja sem deixar sombra nenhuma. É
conhecido como magic hour (1),
um momento entre o dia e a noite
que não pertence a nenhum dos
dois e que se esvanece rapidamente. É um eufemismo, porque no
ponteiro do relógio a duração deste
fenômeno não passa de trinta minutos. Mas, se bem feito, parece
ocupar muito mais tempo. É assim
que funciona a magia.
As cidades também têm sua magic
hour. Mas ela se situa, cronologicamente, um pouco mais tarde. Precisamente no momento em que as pes-
Andar por uma cidade,
conhecida ou não,
neste horário, permite
descobrir o que
ela tem para oferecer
de verdade.
Sem os artifícios
dos seus habitantes
sentados nos cafés,
sem as lojas de portas
e braços abertos
na esperança
de um cliente,
sem o sol refletindo
em seus telhados
ou nos óculos escuros
das mulheres bonitas
soas chegam em casa, no fim do dia, e
se sentam ao redor da mesa para jantar. Isso deve ser entre as nove e as
dez da noite, quando a cidade ainda
está contaminada pela energia diária
que não desapareceu. Um ponto de
inflexão diferente da hora do rush
matinal, ou da hora do almoço. Ou
mesmo do momento da saída do trabalho. É neste instante em que a cidade parece ficar desprovida de seus
habitantes, trancados entre quatro
paredes, antes que o agito noturno
comece tudo de novo.
Andar por uma cidade, conhecida
ou não, neste horário, permite descobrir o que ela tem para oferecer de
verdade. Sem os artifícios dos seus
habitantes sentados nos cafés, sem
as lojas de portas e braços abertos na
esperança de um cliente, sem o sol
refletindo em seus telhados ou nos
óculos escuros das mulheres bonitas.
Andar por uma cidade a esta hora
— com o passo de quem não tem
pressa de chegar a lugar nenhum — é
quase como contemplar, sem maquiagem, a pessoa amada.
(1) Vittorio Storaro é o diretor de fotografia favorito de Bernardo Bertolucci. Ele conta que durante as filmagens de 1900 (1976) Bertolucci ficava ensaiando as cenas com os atores durante o dia
inteiro e só rodavam alguns minutos no fim do
dia. O falecido diretor de fotografia Nestor Almendros fez o diretor Terrence Malick chegar
aos píncaros da magic hour em Dias de Paraíso
(Days of Heaven, de 1978). Um poema visual, dizem os críticos.
J.R.Duran é fotógrafo, autor, entre
outros, de Cadernos Etíopes (Cosac Naify).
No Twitter: @jotaerreduran.
Eleitos
Leve | Light, translúcido, o pendente todo em
acrílico é da coleção La Lampe, com curadoria dos
designers André Bastos e Guilherme Leite Ribeiro,
do estúdio Nada Se Leva. R$ 3.452 e, bem, você leva
12 | Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010
ELEITOS
Por mares
nunca dantes
Rara parceria no Brasil entre escritor
e artista plástico, chega à praia
Cachalote, impressionante graphic
novel de 300 páginas
TEXTO R O N A L D O B R E S S A N E
graphic novel brasileira
vive seu melhor momento. Provas do crime são
álbuns autorais como os
recentes de Allan Sieber
( É Tudo Mais ou Menos
Verdade), Marcelo Quintanilha (Sábado
dos Meus Amores ), André Kitagawa
(Chapa Quente), Rafael Grampá (Mesmo
Delivery), Paulo Lyra (Menina Infinito)
e os diversificados trabalhos dos gêmeos
Fábio Moon e Gabriel Bá, entre uma longa lista de etc. Mais próxima da literatura que do cartum ou da tira, modalidades
em que a arte sequencial já demostrou
vários craques, o romance gráfico teve
pontos culminantes com Luiz Gê (Fragmentos Completos ) e Lourenço Mutarelli (O Dobro de Cinco) — e agora atinge
um ousado patamar com Cachalote
(Companhia das Letras).
A obra guarda ineditismo em vários
aspectos, além do cetáceo tamanho. É a
primeira graphic novel assinada pelo artista paulistano Rafael Coutinho, o “filho de Deus” (também conhecido como
A
Laerte Coutinho, que atravessa fase gloriosa no blog Manual do Minotauro). Seu
parceiro é o escritor gaúcho Daniel Galera (do romance Até o Dia em que o Cão
Morreu, base do filme Cão Sem Dono, de
Beto Brant). Além disso, Cachalote vadeia em águas profundas: em vez de uma
única história linear, o livro cruza cinco
histórias curtas mais prefácio e epílogo
misteriosos, em três arcos narrativos.
Editadas concisamente, sem começo
nem fim, as histórias retratam pontos de
inflexão nas vidas de pessoas que parecem bem esquisitas — mas estão bem aí,
à vista de todos, preto no branco.
Xu, genial e genioso ator chinês perdido em São Paulo, é acusado da morte
de seu melhor amigo. Hermes, escultor
que vive insulado em uma floresta, aceita participar em um filme de um insistente diretor, escancarando sua própria
vida. Vitório, atendente de uma loja de
ferragens, fanático por bondage, se
apaixona por Princesa, garota linda com
pulsões masoquistas. O playboy Rique é
expulso da casa do tio por pegar a namo-
O cartunista Rafael Coutinho faz um autorretrato a nanquim
rada dele e vai encalhar a solidão vazia
na Europa. Túlio e Vita, triste casal recém-separado, une-se pela filha, as pílulas dela e o bloqueio criativo dele. Há
ainda uma mulher grávida que topa com
uma baleia numa piscina.
O atrito dessas histórias encrencadas
produz impactos emocionais — para insistir na metáfora aquática — de tirar o
fôlego. E aos diálogos existencialistas de
Galera, pontuados com humor esparso e
espessa melancolia, somam-se as sequências magistrais de Coutinho — um
virtuose do incompleto, aproximando
violentamente figura de fundo, num
ritmo que imprime intimismo e ação ágil
em doses venenosas. Parece fácil definir
o livro usando arpões verbais como
“obra-prima pop”, mas é preciso reconhecer uma quando aparece. Como
quando se avista uma baleia no horizonte. A seguir, a conversa com o roteirista
Daniel Galera — que, durante os dois
anos que passou escrevendo o roteiro em
Garopaba (SC), costumava nadar com
baleias-francas.
‘Ao longo do
processo de criação,
os personagens
deixaram de ter
dono. No resultado
final, é impossível
rastrear quem
criou o quê’
O escritor Daniel Galera em sua primeira incursão no mundo HQ
Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 | 13
IMAGENS DIVULGAÇÃO
Nas duas páginas acima, Xu, o genial e genioso ator chinês perdido em São Paulo
Quais histórias você criou?
Os personagens que partiram de
argumentos iniciais meus foram o
Hermes, e Túlio e a Vita, e o Vitório e a
Princesa. O Rique, o Xu e a Nana (a
senhora grávida sem nome) foram
trazidos pelo Rafa. Mas ao longo do
processo de criação, os personagens
deixaram de ter dono. O destino, o
conflito e a personalidade de cada um
foram construídos em conjunto, e no
resultado final é impossível rastrear
quem criou o quê.
Há dois eixos temáticos claros:
artistas em crise (o ator chinês
detido, o escultor isolado, o escritor
travado) e relacionamentos
empacados (pais separados que não
conseguem deixar de se ver,
moleques sadomasôs que não
conseguem trepar, playboy sem
amigos). O “encalhe” está associado
a outra tragicomédia moderna,
Esperando Godot, de Beckett, cuja
citação tem papel fundamental na
trama. Em que medida essa aflição
enquadrada se relaciona a narrativas
como Até o Dia em que o Cão
Morreu e Mãos de Cavalo?
O protagonista do Até o Dia em que o
Cão Morreu é uma figura paralisada
pela apatia, encalhado em um certo
sentido, e que encontra algum tipo de
conexão com os outros apenas em
instantes fugazes, o que tem um
pouco a ver com o universo ficcional
da HQ. Além disso, ele é um
personagem que não muda de
nenhuma forma ao longo do livro, um
tanto como o Rique, por exemplo. O
que dá corpo à história é a tentativa
de um ser humano de entender o que
se passa para talvez mudar num
momento posterior, que não chega a
ser contado. Acho interessante, às
vezes, narrar dessa forma, sem expor
uma possível transformação que fica
somente insinuada. Já Mãos de Cavalo
é um romance sobre os limites das
nossas escolhas na formação da
identidade, tema que também
permeia Cachalote . Hermes só
começa a se abrir para as outras
pessoas quando um acontecimento
surreal e inexplicável o arranca do
cotidiano endurecido e disciplinado,
por exemplo. Os personagens da
Cachalote não querem tanto
transformar suas vidas mas
compreender melhor quem são, e se
conciliar com isso.
Chegaram a pensar em apresentar
a HQ como simplesmente um livro
de contos?
As histórias têm mais força da maneira
que são apresentadas no livro,
entremeadas. Se fosse escrevê-las em
prosa, provavelmente usaria uma
estrutura semelhante à da HQ, em
alternância e sem encontros entre as
tramas. A intenção era fazer com que
todas as histórias convergissem para
um único clímax, mesmo sendo
narrativas paralelas.
No processo criativo, vocês não
formaram a clássica dupla
roteirista/desenhista: compuseram
Cachalote de modo mais orgânico.
Como descreveria essa dinâmica?
A melhor maneira de descrever a
criação de Cachalote é imaginar uma
conversa constante entre duas
pessoas que se apaixonaram pelos
mesmos personagens e histórias.
Sugeri muita coisa nos desenhos e o
Rafa participou bastante do texto —
até redigiu rascunhos de cenas que
desenvolvi em seguida. Mas falar
sobre os personagens era o essencial.
As histórias carregam esse nosso
esforço de compreendermos os
personagens, e suspeito que isso
acabará se refletindo também na
experiência dos leitores.
Em quais artistas você se inspirou?
Pensei nos contos do Tchekhov, nos
filmes do David Lynch e de certos
diretores asiáticos, e em HQs de
autores como Bastien Vivès,
Christophe Blain, Charles Burns... Mas
não sei se nada disso está evidente. Nos
deixamos inspirar por muita coisa, mas
acho que a nossa própria sensibilidade
foi mais determinante.
Qual seu próximo projeto?
Comecei a escrever um novo romance.
Barba Ensopada de Sangue.
Qual a coisa mais adorável e a mais
irritante em Rafa Coutinho?
A mais adorável é o bigode, que
infelizmente ele usou somente por
poucos dias. A mais irritante é o
hábito de ignorar meu roteiro e
inventar cenas inexistentes, mas é
uma irritação que dura pouco, porque
em geral não demoro a reconhecer que
está melhor que antes.
‘Os personagens
não querem tanto
transformar suas
vidas, mas
compreender
melhor quem
são, e se conciliar
com isso’
14 | Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010
ELEITOS
FOTO TIAGO QUEIROZ/AE
Magnetismo
para a boa
música
A cara de nerd é só um
disfarce para este adepto
de experimentações sonoras
O produtor
musical Kassin,
um dos mais
férteis e plurais
em atividade,
está — além
de outros mil
lugares — por
trás da trilha
do espetáculo
Ímã, do
Grupo Corpo,
que retorna
a São Paulo
TEXTO P H Y D I A D E A T H A Y D E
Outlook. Ao fundo, alguém tocava um
coisa boa com coisa boa. Antes de se despedir
Aproveite que o espetácu- da reportagem,
orgãozinho, insistentemente. “Ah, é o
lo Ímã , do Grupo Corpo,
Donatinho (filho de João Donato) . EsKassin manda
volta a São Paulo para
tamos fazendo o próximo disco da Vaprestar atenção em Kas- um recado bem
nessa da Mata”, diz ele, diretamente do
sin, o artista e produtor humorado: ‘Por
lugar onde mais gosta de estar: o estúmusical que está por trás da trilha so- mais que digam isso,
dio. “É o meu grande prazer.”
nora do trabalho, composta por ele e eu nunca produzi
Ao lado de Mario Caldato, Kassin
seus parceiros no grupo +2, Domenico Cê, do Caetano.
produziu o premiado álbum Sim
Lancelotti e Moreno Veloso.
Nem Marisa Monte’. (2007), de Vanessa da Mata, eleito um
dos melhores daquele ano, e dela tamMas, antes de seguirmos, não vá Pior para eles
bém o Multishow Ao Vivo (2009).
dançar e perder o Grupo Corpo. A comEste ano, já trabalhou com Marcelo
panhia de dança comemora 35 anos de
Jeneci e Thais Gulin e, depois de Vanescarreira este ano e reapresentará Íma
(de 2009) e o espetáculo Lecuona . A
sa, vai dedicar-se a fazer trilhas. Como
dobradinha fica em cartaz de 11 a 15 de
é de se esperar de um produtor talentoagosto, no Teatro Alfa, na capital pauso, Kassin está em muitos lugares ao
lista. Falta mais de um mês, mas commesmo tempo. Nos créditos de álbuns
pre logo o ingresso, porque
FOTO CAROLINE BITTENCOURT
eles acabam muito rápido.
Quando os bailarinos do
Corpo começarem a pulsar
no palco, atraírem-se e repelirem-se ao sabor de uma
música meio bossa, meio
moderna, um tanto indescritível, saiba que eles interpretam com músculos os
impulsos neurais da mente
criativa de Kassin e seus
amigos. Essa trilha foi um
dos últimos trabalhos do
grupo +2, que está inativo
no momento, mas só porque
os seus integrantes estão
bastante hiperativos.
Alexandre Kassin, este
carioca de 36 anos, por pouco não despreza o jogo do
Brasil contra o Chile. “Se eu
estivesse sozinho, não assistiria”, confessou, justificando a fama de certinho e
trabalhador, numa conversa por telefone com o Acima, o Kassin artista no primeiro show com a nova banda, em Porto Alegre, no fim do ano passado
É
de artistas como Adriana Calcanhotto,
Jorge Mautner, Los Hermanos, Thalma
de Freitas e, além de Vanessa da Mata,
Mallu Magalhães. Não só como produtor, mas frequentemente como arranjador e instrumentista também (ele
toca quase tudo). O próprio explica as
mudanças ocorridas na sua profissão.
“Nos anos 70, o trabalho do produtor
era mais segmentado, ele era pouco arranjador. Hoje, como tem menos pessoas trabalhando num disco, e eu acabo
tendo muitas funções: gravo, toco, arranjo, organizo o processo.”
Kassin começou a trabalhar com
música nos anos 90, o que, em termos
de tecnologia, é uma eternidade e meia
para trás. “Peguei o fim da gravação em
fita, até a digitalização total. Lembro
que custava US$ 200 para gravar 15 minutos. Era caro, ficava muito mais difícil brincar. Não se podia experimentar,
coisa que eu amo”, diz, para então tentar definir o que faz um bom produtor.
“É aquele que consegue chegar onde o
artista quer, onde ele está melhor. O
trabalho tem que ter coerência do começo ao fim para aquele artista. Se, no
final, o que eu tiver feito não for algo
que o artista vá representar, não vale.
Um disco não ganha vida por si só, mas
pelo que o artista é.”
Da teoria à prática, diga-se, Kassin
conhece bem o palco. Antes do +2, integrou a banda Acabou La Tequila. E é
guitarrista da Orquestra Imperial. Tem
feito shows apenas como Kassin, com
Domenico, Donatinho e Alberto Continentino. “Minha música não é para
multidões, é de difícil compreensão”,
diz, tranquilo quanto a isso.
Antes de se despedir, dá um recado
bem humorado: “Por mais que digam
isso, eu nunca produzi Cê , do Caetano.
Nem Marisa Monte”. Pior para eles.
Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 | 15
Rock regressivo
A paulistana Andreia Dias posa de bad girl
mas de fato coleciona dramas perfeitos para
o rótulo de rockstar. Com Vol. 2, ela apresenta
uma bela amostra de maturidade no gênero
Até que sobrou
algum neurônio
Acredite se quiser: memórias de Ozzy
Osbourne encheram 400 páginas!
TEXTO D A N I E L A P A I V A
uando contei a Andreia
Dias que ela dividiria esta
página do Outlook com
Ozzy Osbourne, a cantora
soltou um “nossa, que honra! Eu amo ele”. Esse gosto
pelo rock é visível nas cinco tatuagens
sempre expostas, no figurino de roupas
pretas e caveira. Faz sentido até por um
histórico de rebeldia na vida. Mas o rock
de Andreia em Vol. 2 tem um quê de diferente. E, ufa, não é a pose de bad girl.
Em termos de bad girl brasileira, é claro
que Pitty vem logo à mente. Uma não tem
nada a ver com a outra, apesar do visual
semelhante estimular a conexão. Andreia
não procura evocar a auto-afirmação teen
ou coisa parecida. Faz o contrário disso e,
óbvio, também está longe dos discursos
adocicados das mais novas candidatas ao
posto de musa da MPB.
Digamos que suas temáticas estejam
mais para Dolores Duran do que Elis Regina. Em Vol. 2, o segundo projeto de uma
trilogia iniciada em 2008 com Vol. 1 e que
deve terminar com Vol. 3 no ano que vem,
ela fala de mulheres chapadas, loucamente apaixonadas, com a libido à solta. Que
caem na sarjeta,
acordam feias,
sentem-se
um lixo. Mulheres de
verdade.
Mulheres
— e não
meninas.
Não é
FOTO GABRIEL WICKBOLD
Q
zzy Osbourne é
um desses casos
científicos do
rock a ser estudado após a morte. O ex-líder do
Black Sabbath, ícone do heavy
metal com mais de 100 milhões
de discos vendidos, completa
62 anos em dezembro. Como
Keith Richards e Eric Clapton,
outros dois inacreditáveis sobreviventes das doideiras, tomou todas as drogas, bebeu
mais um bocadão. E continuou
rondando por aí em esporádicas reuniões do Sabbath, em
carreira solo, promovendo festivais (Ozzfest), fazendo da sua
vida um divertidíssimo reality
show (The Osbournes — 2002 a
2005), reprisado até hoje.
Em 2009, Ozzy escreveu
quase 400 páginas sobre o que
escapou dos blackouts em Eu
Sou Ozzy, lançado pela Benvirá
(Editora Saraiva). O livro nada
mais é do que outra prova da
impressionante capacidade do
cantor de usar uma ferramenta
de ouro (ele mesmo) e transformá-la em produto. E vendável. A biografia do homem
que arrancou a cabeça de um
O
só só isso. Ela incorpora referências como
o samba, a jovem guarda, o brega e os timbres eletrônicos como se fossem naturais
ao rock, amarrando tudo num tom rasgado e visceral.
Andreia nasceu no Grajaú, periferia de
São Paulo. Ainda que pareça uma novidade, canta desde a adolescência e lançou
seis discos — dois com a Banda Glória (de
samba), dois com a Dona Zica (de vanguarda), e os dois solo.
Nesses 37 anos de vida, não faltou dra-
Ela fala de mulheres chapadas,
loucamente apaixonadas,
com a libido à solta. Que caem
na sarjeta, acordam feias,
sentem-se um lixo. Mulheres
de verdade
ma para a sua inspiração. Filha de evangélicos, fugiu de casa aos 17 porque “apanhava todos os dias”, conta. “Murro na
cara, irmão mais velho ajudando a bater.” Seguiu em frente, morou em
Ubatuba e no Rio de Janeiro, e sofreu
as dores da orfandade musical.
“Passei fome, me envolvi com drogas, más companhias”, continua.
Também perdeu o bonde do Farofa
Carioca (na época com Seu Jorge),
grupo que ajudou a formar, mas não
estava lá quando aconteceu nos
palcos cariocas.
Hoje, depois de elogios e de uma
pasagem pela Europa, faz troça com
esse negócio de diva — diz que está
mais para “a nova dívida” da música contemporânea do que para uma
diva da MPB. Também não quer rótulos, busca diversidade nos próximos projetos — um de samba, um
infantil, uma miniopereta com Arrigo Barnabé, que participou de Vol. 2.
Talvez viajar, estudar filosofia.
Quanto ao Vol. 3 ,ela adianta que,
bem, terá apenas uma música sobre
amor. É que ela está calminha, casada e
feliz. Aproveitemos, então, os momentos inspirados de turbulência.
Pitty? Não, Andreia
morcego com os dentes (segundo o livro, é tudo verdade)
alcançou o topo da lista dos livros mais vendidos do New
York Times.
A trajetória de Ozzy não vai
além do roteiro desse velho
amigo, o típico rockstar doidão
à caça de sexo, drogas, e com
espasmos de brilhantismo (Paranoid , a música, surgiu em...
20 minutos!). Nos últimos
anos, talvez até por uma iminente extinção de grandes mitos, artistas menos gloriosos
como Slash (Guns N’ Roses),
Nikki Sixx (Mötley Crüe) e
Anthony Kiedis (Red Hot Chilli
Peppers) resolveram revelar
suas histórias escabrosas — que
nem são tão reveladoras assim.
Para os apreciadores do
rock’n’ roll, essas biografias
reforçam estereótipos que hoje
parecem até fora de moda,
meio coisa de dinossauro. Mas
que, vamos combinar?, têm
feito uma falta danada em um
metiê infestado por figuras tatuadíssimas e mascaradíssimas. Beber em palco? Absurdo! Jogar televisão pela janela
do hotel? Imagina!
Não. Longa vida ao Ozzy! D.P.
FOTO DIVULGAÇÃO
A esposa de Ozzy, Sharon Osbourne, jura que o processo de
escrita do cantor foi totalmente old school — ou seja, à caneta
16 | Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010
ELEITOS
FOTO DIVULGAÇÃO
O clássico sobretudo com
Tradição de inverno, o 41º Festival
Internacional de Campos do Jordão
abre amanhã de cara nova: está
maior e mais aberto ao diálogo.
Até com os sons do Oriente
TEXTO C R I S T I N A R A M A L H O
FOTO DIVULGAÇÃO
Gilles Apap, uma das maiores atrações: vai de Mozart ao folk. Toca de 19 a 22 de julho
ntão aquele sobretudo preto
volta a brilhar no inverno, tão
clássico quanto a lareira, o
fondue, a taça de vinho e com
um pouco de sorte, um amor
para dividir o chocolate. A
nossa cenografia do inverno, ao menos a
paulista, se completa com o tradicionalíssimo Festival Internacional de Inverno de
Campos do Jordão. Começa amanhã a sua
41ª edição, embalando com elegância e cultura a cidade dos chalezinhos. Está de cara
nova, um quê de janela aberta, a começar
pelo seu tema, tão simpatico quanto abrangente: Diálogos.
É, o festival resolveu papear com diversas vertentes, das mais clássicas às mais
contemporâneas. Fosse moda, seria como
um vestido de alta-costura bordado com
uns desenhos contemporâneos, nos pés um
sapato turquesa e aí o figurino ganha outro
sentido. Estão na programação de mais de
80 concertos desde Gilles Apap, o violinista
que toca Mozart e mistura folk e pitadas da
Ásia ao grande pianista polonês Zbigniew
Raubo, intérprete de Chopin e Rachmaninoff. De nomes tradicionais brasileiros
como a genial pianista Cristina Ortiz aos jo-
E
Gilles Apap,
nascido na Argélia,
é surfista, mora
numa cabana
na Califórnia,
não tem e-mail
e nem usa celular.
Pesquisa músicas
folclóricas
e as sonoridades
da Irlanda, Índia
e dos ciganos
do Leste europeu.
Sobe no palco
de jeans e camiseta,
um Jack Johnson
dos eruditos
vens talentos como o violinista Luís Otávio
Santos. “Acho que podemos dividir a programação deste ano em três grandes categorias: a primeira, de nomes internacionais
consagrados, e aí entram o Apap, o Arditti, o
Albrecht Meyer, Marc Coppey, Maria João.
A segunda, dos grandes nomes brasileiros,
os veteranos como Nelson Freire, Antonio
Meneses, Cristina Ortiz; e a terceira, com os
talentos mais jovens como Fábio Zanon, Nicolau Figueiredo, Luís Otávio Santos e Alessandro Santoro, e o grupo Anima”, diz Silvio
Ferraz, diretor de programação do Festival.
O Festival ganhou em leveza, mas com
consistência. “Isso sempre muda com apoio
político, com diversos fatores, mas o Festival melhorou muito, particularmente nos
últimos dois anos”, diz Fábio Zanon, um dos
destaques que você não deve perder. (veja
box). Entre as atrações, a mais fulgurante é
mesmo Gilles Apap, que se apresenta do dia
19 ao 22. É o toque despenteado do festival:
Apap, nascido na Argélia, é surfista, mora
numa cabana na California, não tem e-mail
nem usa celular. Venceu o concurso de jovens solistas do Menuhin Violin Competition e o falecido Yehud Menuhin se derramou em elogios ao pupilo. “É o violinista do
século 21”, anunciou. Apap pesquisa músicas folclóricas, e as sonoridades da Irlanda,
Índia, e dos ciganos do Leste europeu. Sobe
no palco de jeans e camiseta, um Jack
Johnson dos eruditos. E até quem não vai a
concerto sem gravata elogia seu som.
Gosta de música contemporânea? Não
perca o Quarteto Arditti, inglês, um dos
melhores grupos de cordas do mundo. São
memoráveis suas performances de John
Cage. Já tocaram até Stockhausen dentro de
um helicóptero, numa apresentação aérea
em Amsterdã, em 1995. Se apresentam segunda,7, e terça, 8.
Da turma mais tradicional, não perca Albrecht Mayer, considerado o maior oboísta
FOTO BRUNO SCHULTZE
A dupla Luís Otávio Santos no violino (no alto)
e Alessando Santoro no cravo: imperdível
Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 | 17
uns cachecóis coloridos
FOTO PHILIPPE GONTIER
UM BANQUINHO, UM VIOLÃO,
UMA SERENATA
Da Inglaterra, o Quarteto Arditti é um dos melhores do mundo em música contemporânea
da atualidade. É o principal oboé da Orquestra Filarmônica de Berlim, fez gravações famosas de Mozart e Handel. Toca nos dias 15 e
16. E tem aqueles acima do bem e do mal,
como o violoncelista Antonio Meneses, um
currículo inacreditável de prêmios e elogios, mas que neste ano ainda vem com o
adendo de pela primeira vez se apresentar
ao lado da pianista portuguesa (que mora no
Brasil) Maria João Pires, outra na listinha das
cerejas. Ela já ganhou, por exemplo, o Prêmio do Conselho Internacional de Música da
Unesco (2002). Nos dias 8 e 9.
Entre os mais jovens, se estiver na dúvida, vá de barroco. A dupla de brasileiros
Luís Otávio Santos, no violino, e Alessandro Santoro, no cravo, vão tocar na Igreja
Nossa Senhora da Saúde. Curiosidade:
Alessandro é filho do maestro e compositor Claudio Santoro, que dá nome ao auditório em Campos.As igrejas, aliás, valem
como ótima dica. Elas têm acústica perfeita e o cenário já prontinho para curtir
aquela elevação dos sentidos.
“O Anima, um grupo super interessante,
que faz um crossover com Renascimnento e
música folclórica, toca na São Benedito,
igreja linda, de madeira escura, tudo se harmoniza, cenário e música”, fala Silvio Ferraz. A igreja da Saúde é uma caixa branca,
clima de paz. A de Santa Terezinha, bem
medieval, de pilastras altas. E se falta fé,
pense nesse argumento: os concertos na
igreja são de graça. Enfim, opção não falta.
E música boa é como roupa de caimento
perfeito: vai bem em qualquer estilo.
41º FESTIVAL INTERNACIONAL DE INVERNO DE CAMPOS DO JORDÃO DE 3 DE JULHO A 1º DE AGOSTO DE 2010
WWW.FESTIVALCAMPOSDOJORDAO.ORG.BR
LEIA MAIS SOBRE O FESTIVAL NA COLUNA
‘BASTIDORES CULTURAIS’, DE CESAR GIOBBI
O alemão
Albrecht Mayer,
da Filarmônica
de Berlim, é o melhor
oboísta da atualidade.
Gravou versões
famosas de Mozart
e Handel.
Os ingleses do
Arditti, quarteto
de cordas, já tocaram
Stockhausen dentro
de um helicóptero
Abra qualquer site ou publicação de música erudita e no quesito violão você
vai ver o nome do brasileiro Fábio Zanon, um dos grandes do momento.
Quem escuta a rádio Cultura FM já conhece bem o seu nome: de 2006 a
2008 ele escreveu e apresentou o programa O Violão Brasileiro, uma série
considerada marco no estudo do instrumento no país. Fábio, 44,
casado´com uma jornalista brasileira e pai de dois filhos, vive na ponte
São Paulo/Londres, e roda pela Europa e Estados Unidos em concertos
importantes, como solista ou acompanhando grandes orquestras.
Tocou, entre outros, no Carnegie Hall de Nova Iorque, na Philharmonie
de São Petersburgo e nos maiores teatros do Brasil.
Ele viveu na Inglaterra de 1990 a 2002, e hoje é professor convidado da
Royal Academy of London. Seu repertório, que inclui muito Villa-Lobos (é
dele o livro Folha explica; Villa-Lobos), passeia também com charme pelos
compositores espanhóis, como
FOTO HELOÍSA BORTZ
Mario Castelnuovo-Tedesco, de
quem ele apresenta uma peça
inédita em concertos brasileiros:
uma serenata. Fábio vai toca-la
no domingo, 4, com a Orquestra
Jovem do Estado, sob a regência
de João Mauricio Galindo. Depois,
na segunda quinzena do mês ele
faz duas apresentações solo, nos
dias 29 e 31, com uma suíte de
músicas de dança, pura leveza.
Ele está feliz com o momento da
música erudita brasileira: “Dois
grandes fatores contribuíram
muito para a nossa evolução: o
efeito Osesp, que mostrou que é
possível ter uma orquestra de
categroia internacional e
impulsionou o crescimento de
outras grandes orquestras
brasileiras. E o efeito dos projetos
sociais, como o Guri e tantos
outros, que provaram como a
O brasileiro Fábio Zanon, um dos grandes violonistas
música ajuda na inclusão social”.
da atualidade, faz duas apresentações em Campos
18 | Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010
ELEITOS
Peixe fora d’água
IMAGENS DIVULGAÇÃO
Ponyo — Uma Amizade Que Veio do Mar,
do mesmo criador de A Viagem de Chihiro,
trata com delicadeza e surrealismo
questões como liberdade e amor incondicional
eis meses depois de Avatar
atrair multidões ao cinema, o
que ficou na memória do espectador? O espetáculo visual em 3D em cenas como a
chuva de águas-vivas (ou
qualquer criatura Na’vi que o valha). Já a
historinha de amor entre homem e ser de
pele azulada... Melhor esquecer tamanha
baba romântica, não é não?
Talvez você se lembre de Avatar logo
nas primeiras cenas de Ponyo — Uma
Amizade Que Veio do Mar. Neste filme do
mestre da animação Hayao Miyazaki, lançado no Japão em 2008 e que finalmente
deverá entrar em cartaz no dia 16 de julho,
há uma cena parecida com águas-vivas
que desfilam graciosas pelo fundo do mar.
Tecnologia versus desenhos feitos à
mão. Claro que Avatar e Ponyo merecem
ser observados por ângulos diferentes.
S
O carro moderninho de Lisa,
mãe do menino Susuke
Um representa Hollywood em termos de
impacto visual e narrativa. Já o outro prefere a animação como pintura, a referência à estética dos mangás — foram necessários mais de 170 mil desenhos, muitos
deles elaborados pelo próprio Miyazaki.
Ponyo foi produzido no Studio Ghibli,
de Miyazaki, no Japão. Contou com o aval
da Disney para distribuição e dublagem
com vozes estelares — Tina Fey, Matt Damon, Liam Neeson, Cate Blanchett. Chega
aqui pela Playarte, e não pela Disney. Talvez um dos motivos seja o fato de não ter
sido um sucesso nos Estados Unidos — estreou em nono lugar, aquém das expectativas de produções Disney.
Azar o dos norte-americanos, pois o
roteiro, escrito e dirigido por Miyazaki, de
A Viagem de Chihiro (Oscar de animação
em 2003) e Meu Vizinho Totoro (1988),
mostra como é possível criar algo interessante a partir de histórias simples.
Assumidamente inspirado em A Pequena Sereia, de Hans Christian Andersen, Ponyo narra encontro entre o garoto
Susuke e um peixinho-dourado mágico.
De uma amizade improvável nasce o desejo do peixinho de virar gente. A relação
O peixe-dourado que tem olhos, boca, cabelo vermelho e nadadeiras quer virar um pingo — de gente
De uma amizade
improvável nasce
o desejo do peixinho
de virar gente.
A relação entre
os dois é poética
e ingênua, mas
passeia por temas
como a aceitação
Acima, Susuke e Ponyo, transformada em garotinha.
Mais acima, Lisa é dublada por Tina Fey
entre os dois é poética e ingênua, mas passeia por temas sérios como a aceitação
quanto às peculiaridades do outro, o ciúme, o companheirismo. Pode-se dizer até
que o filme faz uma analogia com a morte
no momento em que os dois enfrentam o
juízo final — a transformação completa de
Ponyo em ser humano.
Hábil na construção de personagens,
Miyazaki apresenta uma surpreendente
coadjuvante: a mãe de Susuke, Lisa. Ela
oferece contraponto como uma mãe jovem e moderna, e vê a ligação sem preconceitos — o que seria um lugar-comum
para um roteiro como esse.
Esta não é exatamente uma animação
para adultos, mas nos leva a pensar no
quanto se perde esse olhar ingênuo ao longo da vida. Só uma recomendação: veja no
cinema, porque é lindo — inesquecível, do
começo ao fim. D A N I E L A P A I V A
Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 | 19
A profundidade
de Shrek é o 3D
Filme que encerra a saga do ogro mais querido
dos cinemas faz da crise de seu personagem,
saudoso da velha ogrice, um item apenas secundário
IMAGENS DIVULGAÇÃO
ue Shrek é lindão e fofíssimo em
toda a sua ogrice esverdeada, bem,
nós já vimos em Shrek (2001), Shrek
2 (2004) e Shrek Terceiro (2007).
Agora, prepare-se. Não é mais do
mesmo dizer que ele continua tudo
isso — e se estica em alguns centímetros em termos de belezura no anunciado desfecho da saga.
Shrek para Sempre, cuja estreia nos cinemas está
marcada para o próximo dia 9, encerra a oscarizada quadrilogia com um 3D fino, repleto de imagens encantadoras. Já quanto ao roteiro... Faltou
um pouco de elegância — e ousadia.
Claro que a animação da Dreamworks assegura
a diversão de uma garotada cada vez mais acostumada em usar os óculos para o 3D nas sessões de
cinema. Como haveria de ser, o roteiro é favorável
ao arremesso de tranqueiras na cara do espectador. Uma bruxa leva porrada e, vlapt!, você desvia. Digamos que um pedaço de bolo espirrado por
um murro de Shrek sujaria a roupa de um desavisado se estivéssemos falando de interatividade ao
extremo (medo desse futuro, hein?).
São recursos que, de certa maneira, atrapalham
o resultado mais interessante do 3D no filme (este
é o primeiro e único episódio filmado para a tecnologia). O visual ganhou um plus com a técnica.
Assim, Shrek, Fiona e o novo vilão Rumplestiltskin, emprestado da literatura dos Irmãos
Grimm, adquirem cores e contornos vivíssimos.
Os cenários têm profundidade e textura, e constróem uma fantasia de livro de conto de fadas em
formato pop-up. Enfim, aqui o 3D conquista um
motivo de existência maior do que o de transformar o espectador em alvo de cacarecos.
Já quanto à profundidade nos dramas de Shrek,
pode-se dizer que o cinema de animação recente
apresentou roteiros mais densos. O episódio final
é dirigido por Mike Mitchell, estreante na série, e
que tem no currículo filmes inexpressivos como
Sobrevivendo ao Natal e Gigolô por Acidente.
A história é a seguinte: Shrek encontra-se
em crise com a escassez da própria ogrice.
Ele virou uma espécie de celebridade local
que não assusta ninguém, e sente saudade
Q
Acima, Shrek no colo da amada Fiona em momento happy end.
Abaixo, carregado pelo novo vilão, Rumpelstilskin
da juventude, do passado animalesco.
E a vidinha caseira vai bem demais. O casamento com Fiona está em pleno happy ending ,
com três filhotes e uma casa cheirosa e limpinha
(para um ogro, claro). Shrek é pintado como o retrato do homem acomodado que resolve se incomodar, por assim dizer. Aí vem Rumplestilskin,
que lhe oferece um dia de ferocidade, e está armada a confusão com Fiona em apuros, um Burro
pentelho como fiel escudeiro. E no meio tem um
certo Cookie metido a engraçadinho... Bem, a
mesma história de sempre. Em comparação aos
dilemas de O Fantástico Sr. Raposo, outro desenho animado que lida com a meia-idade, Shrek
não passa de um ogro bobinho.
Quem acaba por roubar a cena é, mais uma
vez, o Gato de Botas, que surge rechonchudíssimo — mais para Garfield do que para o atlético
bichano de outros tempos. Ele protagoniza uma
das raras cenas comoventes deste filme, que tem
algo de sombrio e pode trazer à memória a Alice
no País das Maravilhas de Tim Burton — o vilão
Rumplestiltskin, à frente de um esquadrão de
bruxas e viciado em perucas, lembra muito a
Rainha Vermelha. A sensação é que Shrek
não soube envelhecer. Apesar disso, ainda
fica bonito na fita. D . P .
Cinema em casa
SIMPLESMENTE
COMPLICADO
Mulheres trocadas por
gatinhas, uni-vos. Meryl
Streep veio para executar
esta divertida vingança.
Ela é Jane Adler, ex-mulher de Jake (Alec
Baldwin), que a traiu com
uma mulher mais nova.
Numa noitada, a certinha
Jane experimenta o outro
lado da moeda com o ex
— o da amante. A confusão
fica completa com o envolvimento de Jane e
Adam (Steve Martin). Este filme simpático é
dirigido e escrito por Nancy Meyers (Do Que as
Mulheres Gostam). É de se esperar uma trinca
afiada — Baldwin está em boa fase, Martin
abandonou os excessos, e Meryl Streep... é Meryl
Streep. A surpresa é o ótimo John Krasinski (da
série The Office). Diversão fácil — e das boas. D.P.
NOVA YORK, EU TE AMO
O filme segue a mesma
ideia bacana de seu
inspirador, Paris, Eu te
Amo (2006): contar
pequenas histórias
de amor, ou quase, tendo
cidades apaixonantes
como cenário. Na versão
parisiense, cada caso
acontece de uma vez
e com uma fotografia
própria. Nesta, os
episódios têm um visual mais parecido e chegam a
se misturar uns com os outros (o que confunde,
mas não atrapalha). A opção de convidar não nova-iorquinos para a direção, como o chinês Wen
Jiang ou o indiano e Bollywoodiano Shekhar Kapur,
apenas traz para os bastidores o caldeirão de
gente que é bem a cara da cidade. Depois de
acompanhar desfechos inesperados, ácidos,
engraçados e mais encontros que desencontros,
você vai se sentir meio apaixonado por Nova York.
Se já não for, claro. PHYDIA DE ATHAYDE
O LOBISOMEM
Este é um remake do
filme de 1941 que atrai
pelo somatório de
currículos
dos protagonistas — os
oscarizados Benicio Del
Toro e Anthony Hopkins.
Sob a direção de Joe
Johnston, de Jumanji
e Querida, Encolhi as
Crianças?, efeitos
especiais não provocam
nem calafrios. Dá vontade de rir dos quilos de
linguiça arrancados de suas vítimas pelo bichão.
Com um pouco de boa vontade — e uma certa
atração pelas olheiras sexys envelhecidas de Del
Toro —, chega-se ao final. Lobisomem que não quer
ser lobisomem, versus lobisomem que quer ser
Hannibal Lecter. Um embate que lembra o de
O Advogado do Diabo, mas sem Al Pacino... Não
deixa cicatrizes. D.P.
20 | Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010
ELEITOS
Vai encarar?
Homens de cintura alta e shorts curtíssimos. A moda na temporada
de desfiles masculinos de Milão e Paris propõe ainda bolsa a tiracolo
e semitransparências. Um homem sem perder a ternura
TEXTO N A T Á L I A M A Z Z O N I
intura marcada, bolsa a tiracolo e
bermuda de alfaiataria. E não estamos falando de moda para as
mulheres. Os desfiles das maiores
grifes masculinas,que aconteceram nas últimas semanas na temporada Primavera Verão 2011/12 em Milão e Paris, anunciaram um novo homem, que deixou
para trás o visual apenas calça e camisa, e agora
se arrisca — ao menos ali — nos acessórios e nos
cortes mais elaborados e justos.
Pelas passarelas europeias, o que se viu é
um homem livre, talvez até demais. Shorts
curtíssimos, bolsas grandes, semitransparências, cintos mais altos e modelagens extravagantes. A grife Givenchy trouxe referências vitorianas para as passarelas. Detalhes em renda e tecidos monocromáticos
deram o ar de pureza. Tudo para mostrar que
a moda masculina está cada vez mais delicada, sem se prender tanto na velha forma.
Para o estilista João Pimenta, isso já vem
sendo visto lá fora faz um tempo, e não aconteceu por aqui ainda porque “esse mercado é
comercial demais”.
Famoso por brincar com as modelagens,
João Pimenta estreou no São Paulo Fashion
Week deste ano com uma coleção que usou
elementos femininos para criar roupas inspiradas no Brasil Império. Tudo para eles. E é
nisso que ele acredita. “O mercado pensa que
o homem tem o corpo quadrado, não explora
as formas. É preciso mudar isso.”
João diz que a principal razão do mercado
de moda brasileiro estar ainda bem mais formal que o europeu é o medo das grifes de arriscar no homem moderno. “ Os estilistas não
ousam, fazem roupas sem pensar que hoje
existe um homem que quer consumir de uma
maneira mais conceitual”.
FOTO PATRICK KOVARIK
C
FOTO FRANCOIS GUILLOT
Sandália, bolsa e short:
o homem Louis Vuitton vai assim
Delicadeza vitoriana nas roupas
da Givenchy
‘Essas peças são usadas
por tribos’, diz Ricardo Almeida.
‘Um homem que coloca um
short de alfaiataria supercurto
fica complicado, a mulher acaba
duvidando da sexualidade dele’
A ausência do terno e gravata foi outro
ponto notado nos desfiles. O conjunto completo foi substituído por camisas de tom mais
informal e paletós. A marca Louis Vuitton,
por exemplo, exibiu camisas com os primeiros botões abertos e as mangas dobradas. Na
alfaiataria das italianas Versace, D&G, Giorgio Armani e Gucci, o que se viu foram jaquetas e blazers de cortes mais estreitos, com
cara mais casual.
Fato é que no próprio dia a dia os ternos já
são cada vez menos vistos no guarda-roupa
masculino. Ou pelo menos dos homens que
trabalham em ambientes informais. Será que
vão sumir do figurino cotidiano?
O estilista Ricardo Almeida, dono da
marca mais famosa entre celebridades e
executivos poderosos, diz que não acredita
que o terno saia de moda. “Aconteceu mesmo uma pequena saída das gravatas, mas
mesmo assim, o homem de terno sempre
vai trazer credibilidade, elegância, e isso
não muda”.
Sobre o uso de roupas mais conceituais
pelo homem brasileiro, Ricardo é bem objetivo. “Essas peças são usadas por determinadas tribos. Um homem que coloca um
short de alfaiataria supercurto fica complicado, a mulher acaba duvidando da sexualidade dele”. Bom, agora é esperar para ver
se a moda pega.
FOTO PATRICK KOVARIK
Alfaiataria despojada foi uma
das propostas da Louis Vuitton
FOTO PATRICK KOVARIK
Cintura alta inspirada nos astros
dos anos 40, da Viktor & Rolf
Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 | 21
FOTOS DIVULGAÇÃO
Na neve,
ninguém
bate
o Chile
A temporada chilena de inverno
acaba de começar. Na região
do Vale Central, o vilarejo de Termas
de Chillán é abrigo perfeito para
viajantes iniciados e surfistas do gelo
TEXTO G I U L I A N O C E D R O N I
O aconchegante interior de uma taverna aquecida pelo sol do inverno sul-americano
uase abraçados, eu e meu irmão dormíamos lado a lado
na velha Toyota Bandeirante na tentativa de amenizar
o frio. Era o inverno de 1993
e, vindos da Argentina, o
cansaço nos fez encostar no não-acostamento de uma estrada de terra, depois da
fronteira. Adormecemos no Chile sem
ainda ver o Chile, pois tudo era breu. Talvez por isso, ao abrir os olhos na manhã
seguinte, experimentei algo próximo de
uma epifania. Bem à nossa frente, emoldurados pelo para-brisa do jipe, os impressionantes paredões de granito do Parque Nacional Torres del Paine — uma visão
e tanto... Era minha primeira vez no Chile
e eu me sentia bem, muito bem.
De lá pra cá voltei ao país diversas vezes
para trabalhar, surfar, esquiar, namorar,
ou simplesmente conhecer um canto novo
em busca de mais uma visão daquelas. O
Chile reúne características preciosas para
o viajante exigente. Pra começar, é completamente seguro e as estradas e trens são
excelentes. Seus pescados e frutos do mar
só encontram páreo no País Basco. A comida é tão forte e saborosa como em qual-
Q
O povo ostenta
uma educação
inglesa, porém
com muito mais
simpatia.
As mulheres são
lindas e menos
histéricas que las
chicas argentinas.
O futebol é...
Bem, não dá para
ganhar em tudo
quer canto da América Latina, mas o vi- para arrancar qualquer restinho de esnho está entre os melhores do mundo. O tresse que ainda possa existir em sua
povo ostenta uma educação inglesa, po- carcaça. Some a isso uma taça de Carmerém com muito mais simpatia. As mulhe- nére, a famosa uva local, degustada ali
res são lindas e imensamente menos his- mesmo, sob a vista do vulcão, e você será
téricas que las chicas argentinas. O futebol uma nova pessoa.
é... Bem, não dá para ganhar em tudo.
“A estrutura da a estação não se abalou,
A convite de um amigo que comprara mas claro que tivemos de vasculhar toda a
um pequeno pedaço de paraíso chileno, lá montanha depois dos tremores em busca
fui eu novamente, dessa vez para uma de possíveis fendas”, conta Gonzalo Naparte pouco visitada por turistas estran- varrete, um amigo chileno que vive no eixo
geiros — a região do Vale Central. Ali estão Santiago-Chillán. Ele explica que o epias melhores terras do país, o que explica centro do terremoto — de 8.8 graus na estantas vinícolas pontuando a rota do tu- cala Richter, que atingiu o país em fevereirista acidental e sem pressa.
ro deste ano — foi no mar e, portanto, a
Chillán é berço de Bernardo O’Higgins, cordilheira pouco sofreu. O abalo fez 486
o fundador da República, uma cidade in- vítimas, um número considerado baixo
teressante a cerca de 400 quilômetros da diante de seu potencial destrutivo.
capital Santiago. Mais 80 quilômetros e
O tremor só fez baixar os preços e deixar
chega-se a Termas de Chillán. Se você já o Chile ainda mais forte. A cicatriz existe,
teve o prazer de olhar para o lado e ver a está lá, mas riscou o país de forma discreta,
Cordilheira dos Andes logo ali, ao seu al- como um rosto bonito que tem mais uma
cance, sabe que se trata de uma experiên- história para contar. Sorte de quem se discia que rejuvenesce qualquer um.
puser a ouvir.
O vilarejo de Termas abriga viajantes
iniciados, esquiadores comprometidos e W W W . N E V A D O S D E C H I L L A N . C O M
surfistas da neve. Todos em busca dos pi- W W W . C H I L E A N S K I . C O M
cos mais altos do vulcão
Chillán. Ali foi instalada
uma pista de esqui com
jeitão suíço, tamanha a excelência e tecnologia. O
teleférico corta hotéis
charmosos como o Nevados de Chillán, e te leva a
28 pistas diferentes, uma
delas a mais longa da América do Sul, com 2.500 metros. Depois de um dia intenso de atividade esportiva, uma piscina com água
quente natural, repleta de
“poderes curativos”, o
acolhe sem medir esforços A estação tem 28 pistas para atender atletas de todos os níveis
22 | Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010
ECONOMIA DE PALAVRAS
Paulo Lima Soraggi
São João
vende voto
Paulo Lima Soraggi é escritor, músico e graduado em letras.
‘Tio, quem vender
mais voto vai ser
a rainha da pipoca!’
Muitos
brasileirinhos
aprendem assim
o significado
de uma eleição.
Bem cedinho
em seus espíritos,
entendem que
o voto é algo que
se compra e vende,
como o álbum de
figurinhas da Copa
do Mundo. O sujeito
pode ser o Rei
da Seriguela
ou o Senador
da República.
Não há problema
se ele comprou
a votação. Festa
junina já era. Não
toca Luiz Gonzaga.
Só Bruno $ Marrone
ILUSTRAÇÃO MAX
E junho expirou com sua lufada de festas juninas. Nos tempos coloniais, “joaninas”, por causa das homenagens a São João, primo do Homem. Os folguedos que enfeitam nosso frio trazem a fogueira para os
deuses das tradições célticas, os louvores à fertilidade das terras europeias, os santos do Vaticano, as danças da França e os acordeões de Portugal. Coube ao Brasil alinhavar o charme.
O milho é o melhor ator dos sabores. O “mio” que debulha minhas
lembranças nas labaredas da adolescência. A pamonha guardava seu
miolo de queijo para o suspiro do finalzinho da delícia. Os bolinhos quentavam a mão da gente. Para fritar as ideias, melhor a cana. Minhas primeiras beiçadinhas na cachaça.
Então minha coragem vinha. Era nas festas que as gatinhas da escola se
transformavam em chiquinhas. E as músicas do Dominó não tinham vez.
Quando minha mãe me ensinou que essas festas serviam para as moças
arrumarem namorados, passei a dançar quadrilha. Eu teria um “par”,
troço que a mim profetizava beijos e suas consequências profundas. Mas
as meninas que dançavam comigo só beijavam os caras bons de vôlei.
Elas jamais pelejariam para namorar um OVNI como eu, o pária que colocava Jesus & Mary Chain no som do colégio. O correio nunca foi elegante.
Acordo do quentão da memória e penso no povo do Nordeste, que
finca sua identidade nas festas de junho. São muitas as cidades que beliscam gastos de milhares de turistas. Os balões da economia regional
ficam ainda mais multicores. Mas o aguaceiro passou e afogou muitas
fogueiras na tristeza da perda de tantos lares e oportunidades. As imagens da TV emergiram hiroshimas borradas de lama. Todos os brasileiros ficaram de mal-estar.
São João, o senhor tem a obrigação de resgatar a vida de quem te festeja com a maior sinceridade do Brasil.
Junho passou e deixou as escolas em festa. O filho da gansa da Oscar
Freire e a filha da lavadeira de Quixeramobim comeram canjica com os
coleguinhas. Os alunos enforcaram as aulas em nome dos ensaios da quadrilha. Eles adoram. A quadrilha, ora, pois.
Em muitas escolas públicas, sejam de qualquer esfera governamental,
procedimentos estranhos levam crianças a arrecadar dinheiro para as
festas juninas ou para a melhoria do estabelecimento de ensino. São as
escolas “carentes”, adjetivo que me torra o saco na Lulândia das aposentadorias do Judiciário.
Semana passada, no boteco onde esqueço a hérnia de disco, duas mulatinhas lindas se aproximaram de mim. Os olhos claros, meio puxadinhos, denunciaram que eram irmãs em seus cabelos de coques gêmeos.
Calçavam chinelinhas gastas, mas os prendedores de cabelo tinham o
rosa das infâncias femininas.
“Moço, me compra um voto?”, disse a menina maior, olhando para o
chão. Não entendi muito bem o que ela queria. Puxei papo. Perguntei o
nome delas. Amanda. Alana. Nomes fofos em rima toante. Quis saber se
gostavam da escola. “O que significa esse desenho na sua camisa?”. A
conversa não rendeu. Elas só queriam saber do “voto”.
Amanda me mostrou um papelzinho quadriculado. Cada xis marcado
significava que ela tinha vendido um “voto” por 10 centavos. A menina
explicou que a quantia ajudaria a escola na organização de uma festa junina. Assim teria ensinado a professora.
Alana, que com seus dedos me contou seus 8 anos, revelou a raiz de sua
marcação cerrada ao pedir dinheiro às 9 horas da noite. “Tio, quem vender mais voto vai ser a rainha da pipoca!”.
Muitos brasileirinhos aprendem assim o significado de uma eleição.
Bem cedinho em seus espíritos, entendem que o voto é algo que se compra e vende, como o álbum de figurinhas da Copa do Mundo. O sujeito
pode ser o Rei da Seriguela ou o Senador da República. Não há problema
se ele comprou a votação.
Torço para que Amanda e Alana aprendam o real valor de uma eleição,
pois, num futuro não muito distante, um candidato a vereador oferecerá
a elas um saco de cimento em troca do voto de toda a família.
Festa Junina já era. Não toca Luiz Gonzaga. Só Bruno $ Marrone.
Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 | 23
PEQUENOS ABSURDOS
Luís Colombini
Boa reunião,
companheiro
Ex-embaixador e ex-professor da Universidade de Harvard, o renomado economista
americano John Kenneth Galbraith dizia, trinta anos atrás, que “reuniões são indispensáveis quando não se quer fazer nada”. Pois o tempo passou, o mundo mudou — e taí uma coisa que continuou igualzinha. Seja ao vivo ou em conference calls, a maioria das reuniões
ainda se parece com as assembleias do meu tempo de faculdade, nas quais se marcava reunião para, depois de muita discussão, marcar outra reunião.
“Não sou nenhum estudioso do assunto, mas tenho a impressão de que nunca se agendou tanta reunião neste país”, diz um diretor de operadora de telefonia. “Na segunda-feira, dia do jogo do Brasil com o Chile, foram três de manhã. Depois do almoço, duas. E
ainda teve um gaiato que queria fazer outra depois do jogo. O que o cidadão tem na cabeça?” E o que se resolveu nessas cinco reuniões? “Basicamente nada. As decisões ficaram
para depois”, conta o executivo.
Por que ocorre esse tipo de coisa? “Decidir compromete”, diz o diretor de uma rede de
supermercados. “Se algo der errado, a culpa é de quem tomou a decisão. E ninguém quer se
arriscar a perder emprego bom.” Há quem vá mais longe. “É tanta reunião que as pessoas
estão desenvolvendo um mecanismo de defesa no qual elas parecem prestar atenção, enquanto, na verdade, estão com a cabeça em outro lugar. Filigrana jurídica, revisão de contrato, plano estratégico, reforma de site, proposição de marketing, curva de venda, a moda
agora é envolver o máximo de gente em assuntos que a maioria dos presentes nem faz ideia
do que está falando. Então, elas abrem a boca o mínimo possível, apenas para validar sua
participação, torcendo para que o chefe sorria e ache tudo ótimo”, considera o executivo de
uma grande empresa de varejo.
Se esse é o seu caso, então vai gostar do que vem abaixo. Na semana passada, circularam pela internet duas tabelas gozando reuniões que não decidem nada. A primeira parte é brincadeira pura. A segunda pode ser útil.
Eis a brincadeira, criada para espantar o tédio das reuniões: antes de começar, imprima o quadro abaixo. É um bingo. Sempre que ouvir uma palavra contida em alguma
das casas, marque-a, discretamente, com um X. Há quem tenha preenchido tudo em
menos de cinco minutos.
Sinergia
Follow-up
Sistema
Otimização
Resultados
Estratégia
Recursos
Integrar
Foco
Paradigma
Agregar
Benefício
Pró-ativo
Efetivamente
Projeto
Mercado
Parceiros
Business
A nível de
Implementação
A segunda tabela, chamada “Como falar muito sem dizer nada”, foi inventada para impressionar nas reuniões que requerem participação ativa. Ela permite a composição de
centenas de sentenças. Basta combinar, em sequência, uma frase da primeira coluna com
uma da segunda, da terceira e da quarta (seguindo a mesma linha ou pulando de uma linha
para outra). O importante é respeitar a regra de uma frase por coluna. Se fizer isso, o resultado sempre será uma sentença com sentido mas sem conteúdo. Ou seja, perfeita para a
ocasião. Boa reunião, companheiro.
Coluna 1
Coluna 2
Coluna 3
Coluna 4
Caros colegas,
a execução deste projeto
nos obriga
à análise
das nossas opções de
desenvolvimento futuro
Por outro lado,
a complexidade dos estudos
efetuados
cumpre um papel
essencial na formulação
das nossas metas financeiras
e administrativas
Não podemos esquecer que
a atual estrutura de organização
auxilia a preparação
e a estruturação
das atitudes e das
atribuições da diretoria
Do mesmo modo,
o novo modelo estrutural
aqui preconizado
contribui para a correta
determinação
das novas proposições
A prática mostra que
o desenvolvimento de
formas distintas de atuação
assume importantes posições
na definição
das opções básicas para
o sucesso do programa
Nunca é demais insistir que
a constante divulgação
das informações
facilita a definição
do nosso sistema de
formação de quadros
A experiência prova que
a consolidação das estruturas
prejudica a percepção da
importância
das condições apropriadas
para os negócios
É fundamental ressaltar que
a análise dos diversos resultados
oferece uma boa oportunidade
de verificação
dos índices pretendidos
O incentivo ao avanço
tecnológico, assim como
o início do programa de
formação de atitudes,
acarreta um processo
de reformulação
das formas de ação
Assim mesmo,
a expansão de nossa atividade
exige precisão e definição
dos conceitos de participação geral
É tanta reunião
que as pessoas estão
desenvolvendo
um mecanismo
de defesa no qual
elas parecem prestar
atenção, enquanto,
na verdade, estão
com a cabeça
em outro lugar.
Filigrana jurídica,
revisão de contrato,
plano estratégico,
reforma de site,
proposição de
marketing, curva
de venda, a moda
agora é envolver
o máximo de gente
em assuntos
que a maioria
dos presentes
nem faz ideia
do que está falando
24 | Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010
ESPORTES
OPINIÃO
Phydia de Athayde
Batalha de ‘quase’ iguais
No banco, só
Dunga salva
Conhecidos pelo futebol técnico e ofensivo, Brasil e Holanda se
enfrentam hoje mais preocupados com a defesa. Neste quarto jogo
em Mundiais, eles prometem um duelo equilibradíssimo, como sempre
Chegou a hora. E vamos logo a ela — antes
que uma eventual vitória da Holanda possa aniquilar um momento tão importante.
É hora de falar que o Dunga é legal! Não
digo que ele seja um cara culto, nem que
saiba ser tão famoso, nem muito menos
que tenha sequer a mais escassa consciência do papel social e político de um
treinador da seleção brasileira. Não é por
aí. Bem ao contrário, aliás. Dunga não
quer lá muita consciência de nada. Quer
apenas, como pareceu implorar à imprensa, “trabalhar em paz”.
E nisso, na função de trabalhador do
lado do campo, de responsável por escalar
o time titular e fazer substituições de
acordo com o andamento jogo, Dunga está
se saindo bem. Para quem, como eu, subia
pelas paredes de raiva do Parreira em 94,
quando ele esperava até os 51 do segundo
tempo para mexer, ele é um ás. Muda lá
pelos 30 minutos. Ainda falta o pulso (ou a
necessidade?) de fazer uma substituição
no intervalo, e faltou tirar o Kaká antes do
vermelho, mas Dunga não está mal.
Gosto quando ele coloca o Nilmar, que
(na minha ilusão de corintiana em busca
de alguém familiar na seleção) ainda vai
fazer um gol capaz de apagar aquele último, justo contra o Timão, no Pacaembu.
Eu, que não sou evangélica,
rezo tanto quanto o Jorginho
para o técnico não precisar
muito mais dos reservas
Mas Nilmar é um papo menos estratégico. Dunga mandou bem ao escolher Ramires para entrar jogando, em vez de Josué,
na partida contra o Chile. Fez o certo, o
corajoso. E Ramires fez muito bem ao time. Dunga percebeu e, agora, assim como
nós, está lamentando a suspensão do jogador (por ter levado o segundo cartão amarelo). Dunga decerto também lamenta a
contusão de Elano, mas esta pode continuar fazendo bem ao time à medida que
Daniel Alves cresce e fica com a vaga.
Nessas já três semanas de Copa do Mundo, o time de Dunga mudou. Com os jogos,
foi melhorando onde era mais necessário
melhorar (Kaká e Luís Fabiano). Manteve-se no mais alto nível onde este já existia
(Lúcio e Juan, a zaga mais sensacional das
últimas décadas). E está, meio aos trancos
(os dos adversários, que além de Elano tiraram nosso lento e bravinho Felipe Melo de
combate), tendo de acertar o meio-campo.
Até agora, Dunga tem se saído bem. Se,
contra a Holanda, ele ousar com Gilberto e
mantiver Daniel Alves, vou continuar gostando dele como técnico.
Mas, é claro, tudo depende do jogo de
hoje. E dos próximos. E eu, que não sou
evangélica, rezo tanto quanto o Jorginho
para Dunga não precisar muito mais dos reservas. Se é bom técnico, é péssimo escalador de banco. Deve ser uma visão do inferno precisar de um Ganso, um Ronaldinho, e
olhar para um Kléberson daqueles.
TEXTO G A B R I E L P E N N A
e uniformes reluzentes,
este selecionado nacional
ostenta a tradição de um
futebol técnico e ofensivo,
com jogadores habilidosos e inteligentes. Na década de 1970, seu estilo imponente em
campo impressionou o mundo. Hoje,
porém, o grupo trabalha com uma filosofia diferente, mais pragmática, que
prioriza o resultado em detrimento do
espetáculo. Tem dado certo, pelo menos
até aqui. Claro que o time conta também
com a melhora física e técnica de seu
maior astro, que acaba de se recuperar
de uma séria contusão.
Quem acha que estou falando do brasileiro Kaká está correto. Também não
se engana quem pensou no atacante Arjen Robben, da Holanda. As semelhanças entre as duas seleções, que se enfrentam hoje pelas quartas de finais da
Copa do Mundo da África do Sul, não são
poucas e nem recentes. E justificam, em
grande parte, o equilibírio histórico entre elas. Brasil e Holanda se enfrentaram
três vezes em Mundiais, com um empate e uma vitória para cada. Nos jogos,
uma profusão de oportunidades de ambos os lados, e a decisão em detalhes, ou
nos pênaltis. “Os dois times sempre tiveram um poder ofensivo muito grande,
e hoje é a mesma coisa”, analisa o tetracampeão Bebeto, que comenta a Copa
D
deste ano pela rede de TV árabe Al Jazeera.
O ex-craque enfrentou os holandeses nas
quartas, em 1994, e na semi, em 1998, mas
se lembra com apreço especial da campanha do tetra. “Fiz um gol, dei o passe para o
Romário e meu filho tinha acabado de nascer. O que mais eu podia esperar?”, recorda Bebeto. Para ele, porém, é a defesa brasileira que pode fazer a diferença desta vez.
“Temos um time equilibrado e nossa zaga é
a melhor da Copa”, completa.
Assim como o Brasil, a nova Holanda não
quer saber de arriscar demais. O contra-ataque talvez seja a arma mais feroz de
ambas as equipes. “Podemos jogar bem,
mas sem abrir a porta atrás”, garantiu o ex-jogador e auxiliar técnico da Laranja,
Frank de Boer. Atualmente os holandeses
jogam mais fechados e, quando roubam a
bola, saem em velocidade com seis, sete jogadores. O melhor deles, o veloz Robben,
avança pela direita e, com frequência, recebe a bola, corta pra dentro e chuta com
sua canhota afiada. É deste lado, em que
atua o duvidoso Michel Bastos, que a seleção pode provar do próprio veneno, a não
ser que Felipe Melo, Josué ou Kléberson
dêem uma boa ajuda. “O Brasil tem que
evitar duas coisas: a fluência do Robben e a
segunda bola do meia Sneijder. Quando ele
pega a sobra, é fatal”, alerta o jornalista de
sete Mundiais Silvio Lancellotti, comentarista da ESPN Brasil. Não se os craques Lúcio e Juan estiverem perto para impedir.
‘Os dois times
sempre tiveram
um poder ofensivo
muito grande, mas
hoje nossa defesa
é a melhor da Copa’,
avalia o Bebeto,
tetracampeão
mundial, carrasco
de holandês e
comentarista de TV
FOTO ANTÔNIO GAUDÉRIO/FOLHAPRESS
Ao lado de Mazinho, Bebeto comemora o segundo gol nos 3 a 2 sobre a Holanda, em 1994, e homenageia o filho Matheus, então recém-nascido
Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 | 25
FOTO GERO BRELOER/AP PHOTO
MUNDO DA COPA
FOTO DA SEMANA
Até o goleiro alemão
Manuel Neuer viu que
a bola chutada por
Frank Lampard
entrou em seu gol.
O lance foi quase um
replay às avessas
do que ocorreu há
44 anos. Em 1966,
os ingleses foram
campeões sobre os
alemães com um gol
que não atravessou
a linha. Desta vez
a Jabulani bateu a
33 centímentros da
marca, mas o árbitro
Jorge Larrionda só
foi ver no intervalo
da partida, graças a
uma das 32 camêras
que captaram o lance.
A Fifa se desculpou
com os ingleses e
lamentou que o erro
tivesse ficado tão
evidente. É, essas
câmeras são fogo.
WINNING ELEVEN
Goleiro
Richard Kingson (GAN)
1
2
6
3
4
Volante
Ramires (BRA)
8
Volante
Bastian Schweinsteiger
(ALE)
7
Atacante
Carlos Tévez (ARG)
Zagueiro
Juan (BRA)
Zagueiro
Lúcio (BRA)
5
Meia
Thomas Müeller (ALE)
10
Atacante
Lionel Messi (ARG)
11
9
Atacante
Luis Suárez (URU)
Atacante
Miroslav Klose (ALE)
Técnico: Dunga (BRA)
Pé torto O zagueirão mexicano
Osorio, abalado pelo gol ilegal,
foi passar o pé por cima da bola
e acabou entregando de lambuja para o argentino Higuaín
fazer o segundo. Que lástima!
Mão furada É verdade que o
chute de Müeller foi forte e à
queima-roupa. Mas o inglês
David James literalmente desviou da Jabulani no terceiro gol
alemão. Goleiro que tem medo
de bolada não vai longe.
Juiz ladrão O que resta ao uruguaio Jorge Larrionda (que não
viu a bola inglesa dentro gol) e
ao italiano Roberto Rosseti
(que validou gol ilegal da Argentina) é culpar a Fifa pelos
dois maiores micos da Copa.
Troféu Bobueno “Neste jogo,
quem perder pode ser campeão”, filosofou Neto, da
Band, deixando claro que,
assim como seu comentário,
a partida entre Brasil e Portugal não significava nada.
FRASE DA SEMANA
“
O bolão
é meu pastor
E nada me faltará. Tudo fará sentido.
Viverei na iminência de grandes descobertas, de reviravoltas monumentais. Não haverá tempo ruim. Não haverá tédio ou desgosto. Cada segundo
guardará a promessa de algum tipo de
transcendência, de uma vida recheada
de aventuras prodigiosas. Eu não sei
onde estive com a cabeça, por que insólitas paragens andei divagando, para
não perceber o potencial mágico do
bolão. O hábito da aposta, eu sei, é mais
velho que andar pra frente, mas só
agora atentei para as suas maravilhas
curativas, suas múltiplas e infinitas
aplicações. Os ingleses já sacaram isso
faz tempo. Na ausência de grandes alegrias esportivas, os inventores do futebol se contentaram em transformar a
vida em loteria. E quem poderá dizer
que eles estão errados?
Com bolão, Honduras x
Suíça pode gerar emoções
dignas de Brasil x Argentina
OS TRAPALHÕES
Depois de uma primeira fase pra lá de modorrenta, as oitavas de final trouxeram, enfim, emoções e bom futebol. O nível aumentou e complicou a escolha.
Nesta lista, já há fortes candidatos à seleção dos melhores da Copa, concorda?
Lateral-direito
Philipp Lahm (ALE)
Chico Mattoso
O Brasil tem uma arrogância positiva, que nós também deveríamos
ter Bert van Marwijk, técnico holandês, invejando a capacidade brasileira de trocar as chuteiras pelo salto alto.
Fiquemos com o exemplo da Copa
do Mundo. Ninguém assiste a Suíça e
Honduras por amor ao esporte, mas, se
o sujeito tiver tascado um golzinho
hondurenho no bolão, a partida gerará
palpitações dignas de um Brasil e Argentina. É claro que ainda somos amadores, e nos limitamos a apostar no resultado das partidas. Lesões, gols contra, bolas na trave, chutes para a lateral
— tudo, no universo do palpiteiro,
pode ser objeto de especulação, ganhando significação repentina, alçando-se ao posto de experiência fundamental. A propagação do bolão mudaria nosso jeito de ver as coisas. Mesmo
os erros de arbitragem, essa praga insuportável cuja pior conseqüência é
gerar horas de debate sobre assuntos
absolutamente pueris e enfadonhos,
ganhariam outra dimensão. Esqueçam
a tecnologia, o chip na bola, a International Board. Esqueçam também os
comentaristas esportivos, as análises
táticas, os editores metidos a Armando
Nogueira melecando nossos ouvidos
de poesia pré-escolar. Ao abraçar o
palpite, a Copa do Mundo limparia seus
excessos, reduzindo-se a seus valores
primordiais.
É claro que as implicações do bolão
vão muito além da questão futebolística. Desconfio que nem mesmo os problemas existenciais mais profundos resistiriam à fabulosa simplificação promovida pela cultura do jogo. Até a morte, pensando bem, poderá perder um
pouco de sua cara feia — a não ser, é claro, que ela resolva contrariar as previsões e chegar antes da hora. Mas a maravilha desse universo é que não há
aposta que não faça alguém feliz.
ChicoMattosoéautorde LongedeRamiro (Editora 34)
e colunista da seção Provocação, no Outlook.
26 | Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010
VIDA
Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 | 27
“Clark Gable, Gregory
Peck, Cary Grant.
Queria ser esses caras”
David Cardoso
TEXTO C R I S T I N A R A M A L H O
FOTOS A N T O N I O M I L E N A
Homem que é homem não come suflê, já
dizia o Veríssimo. Homem que é homem, se
estiver acima dos 40 anos, com certeza já
viu — e invejou — o David Cardoso em
cena. Ele é que era homem naqueles filmes
todos com as mais saborosas, mais curvilíneas, mais rebolantes mulheres do cinema
nacional. Pense só: Vera Fischer. Matilde
Mastrangi. Nicole Puzzi. Zaira Bueno. Helena Ramos. Hummm... Todas só para o
David, que em 1977, num único filme, reuniu quase duas dezenas delas dentro de um
ônibus, batizou de 19 Mulheres e Um Homem (é, o homem não divide) e estabeleceu um recorde sem precendentes. Não é o
que você está pensando. Ele bateu todas as
cifras de bilheteria: US$ 2 milhões, filas de
dar voltas no quarteirão, num tempo em
que não se usava lei de incentivo e isso era
número paraTitanic.
Fosse hoje, David Cardoso seria alvo de
uma raivosa ação da imprensa feminista.
Há poucos anos foi mesmo alvo de processo
graças a um pecado que homem não resiste
a cometer: contar que transou com a moça.
Ela, já casada e crente que perdeu a memória, não achou graça no caso. O ator, produtor e diretor David Cardoso, 76 filmes,
oito novelas, seis peças de teatro, viu-se,
então, em posição que poucos homens teriam coragem de encarar: posou nu para
uma revista, a G Magazine. Precisava pagar
a dívida. Falou demais. “Eu sempre disse
tudo, arrumei muitos problemas, minha
vida é um livro aberto”, diz David, 67, ho-
nesto, numa hilariante entrevista ao
Outlook, feita em São Paulo, no apartamento da sua ex-mulher, Evelise, mãe de
três dos seus quatro filhos. David, nascido
em Maracaju (MS) mora hoje no Pantanal.
É homem de fazenda, de andar armado
(“Nunca atirei, mas não fico sem meu 38”),
fazer churrasco. Só toma uísque.
Ele andou sumido, e no último ano ressurgiu, homem de fibra: foi convidado para
atuar em quatro filmes de novos cineastas,
dirigiu um curta contando sua infância, e
está no esperado Cabeça a Prêmio, de Marco Ricca, vencedor como melhor filme no
Brazilian Film Festival de Los Angeles, com
estreia nacional no dia 20 de agosto. Também em agosto, no dia 17, David será homenageado no Espaço Unibanco, e ali vai
exibir um filme que dirigiu em 1988, Estou
com AIDS. A renda vai para a ONG Pelavida. É a faceta generosa de David, também
preocupado com ecologia e a vida dos animais. (Não se engane. Homem como o David pega caçador de jacaré na raça: quando
tinha avião, ele levava fiscais do Ibama para
capturar os bandidos, e hoje ainda denuncia os absurdos que vê contra a natureza.)
Sim, David teve três aviões, que ele pilotava, um olho na pista, outro na mulher ao
lado. Foi agente do Maguila nos ringues.
Sempre fez halterofilismo. Ganhou títulos
como o Rei da Pornochanchada, que batiza
sua autobiografia. Ele queria ser Clark Gable. Só tem ídolos homens. Mulheres são
legais, mas às vezes trazem encrencas.
28 | Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010
VIDA
V
Você acaba de dirigir Maria Fumaça,
um curta sobre a sua infância. Por
que resolveu falar dessa época?
Queria fazer algo para as crianças. Todo
menino lá pelos 8, 10 anos, se pergunta
o que vou ser quando crescer, ah, quero
ser jornalista, ou quero ser cineasta, eu
fiz isso para mostrar que não se pode
desistir do sonho. Estou exibindo em
escolas, e outro dia eu dei uma palestra
numa classe, um menino levantou a
mão e disse que queria ser motorista de
caminhão que nem o tio dele. A turma
vaiou. Eu falei: “Não vaiem não, eu
tenho um primo que é motorista de
caminhão e ganha mais do que eu, ele
ganha R$ 15 mil por mês, porque
investiu no sonho dele”. É mentira, mas
é para todo mundo acreditar que o
sonho é possível.
Como você foi parar no cinema?
Eu vim para São Paulo com 9 anos, aqui
fiz o primário, morava com uma tia
minha, depois voltei para fazer o
ginásio lá no Mato Grosso. Mas quando
estava em São Paulo essa minha tia dizia
assim: “Você não precisa tirar 100” (na
época não tinha nota dez, era 100), “se
tirar 70, eu te levo ao cinema”. Nós
morávamos ali na (avenida) São João,
tinha 11 cinemas perto. Uma vez ela me
levou ao Cine Metro para ver Mogambo,
com o Clark Gable, aquilo era demais.
Foi fazer compras e me deixou lá.
Quando voltou, eu estava chorando,
emocionado. Tinha visto o filme mais
lindo do mundo. No dia seguinte, eu
estava de férias, e quis ir de novo, mas
ela ia passar o dia fora, não podia me
buscar. Então fez para mim um
sanduichão de mortadela com
manteiga Aviação, peguei aquele
lanche enorme, dividi em quatro e
fiquei o dia inteiro no cinema. E no
outro dia também. Vi Mogambo 26
vezes. O Clark Gable é um dos meus
grandes ídolos, tinha uma presença,
homem de hoje não é assim. Olha,
conheci o Robert de Niro em Nova
York e depois nas filmagens de A
Missão (1986). Ele é o máximo, sou fã,
mas não posso compará-lo com o
Clark Gable, o Tyrone Power. Veja o
Dustin Hoffman, é um puta dum ator,
mas é um anãozinho, não é o Gregory
Peck, o Cary Grant. Eu queria ser igual
a esses caras. Não pensava no cinema
brasileiro, e fui tentar Hollywood.
Você foi mesmo para Hollywood?
Eu era modelo, desfilava o (estilista)
Minelli pelo Brasil, a gente viajava. O
Clodovil e o Dener faziam as roupas
femininas, e o Minelli fazia moda
masculina. De modelos éramos eu e o
Francisco di Franco, amigo meu que
apresentei e virou galã, e o Caçador,
que mora em Cuiabá. Os desfiles eram
um acontecimento. Tinha a Leny
Eversong cantando, o Cauby. Assim
consegui ir para os Estados Unidos.
Mas Hollywood não deu, né...
E você surgiu mesmo com o
Mazzaropi, não foi?
Eu estava morando de novo no Mato
Grosso, fazendo o exército, quando
ganhei um concurso dançando
rock’n’roll. O prêmio era uma
passagem para São Paulo. Peguei o
avião e fiquei aqui de vez, morando de
novo com minha tia. Aí arrumei um
emprego na Folha de S.Paulo, fazendo
pesquisa, e um dia falei da minha
loucura de fazer cinema para um
amigo meu do trabalho, o Fernando.
Ele me disse que o pai dele tinha um
amigo, o Mazzaropi, e escreveu um
bilhete me apresentando. Na PAM
filmes, o Mazzaropi me recebeu com
aquele jeito dele (imita Mazzaropi,
revirando os olhos, carregando no
sotaque): “Você é bonitão, Carrdouso.
Parece o Alão Delão (Alain Delon). Que
que cê sabe fazer?” E eu, caipira:
“Qualquer coisa, seu Mazzaropi, sou
Continuísta, ele chega junto dà câmera Mitchel em Meu Japão Brasileiro (1964)
de Maracaju, vim para trabalhar”. Aí ele
me indicou para a produção e eu
consegui um emprego de continuísta,
ficava anotando tudo.
Tem uma história que o Mazzaropi se
apaixonou por você.
Ele nunca avançou, mas me cantava.
Uma vez falou assim: “Óia, vou
começar um filme agora, O Lamparina
(1964), vai lá em casa e ocê vira galã da
noite para o dia”. Mas fiquei de técnico,
não fui. Acabei fazendo uma ponta em
cena, que mal dava para ver. Um dia,
na filmagem, ele estava passando e falei
“good morning”, e ele: “O que ocê
disse?” E eu: “Bom dia em inglês”.
Bom, dali uns quatro dias um caminhão
dele estava atravancando a rua, o
motorista sumiu, e eu tirei o caminhão
para ele. Mais tarde, ele me chama:
“Hummm, Carrrdouso, tô com uma
ideia, eu preciso de um homem que fala
inglês e dirige caminhão”. Imagina, ele
só me viu falando good morning, era
tudo o que eu sabia. Mas o melhor foi o
dia que ele me convidou para um
almoço que seria uma festa, cheguei lá e
era só eu. Ele botou um bolero e
começou a dançar comigo, eu não sabia
o que fazer. Encostou a cabeça no meu
peito e falou: “Carrdouso, vamo viajá
Mazzaropi me
convidou para
uma festa, cheguei
lá e era só eu. Ele
botou um bolero
e começou a dançar
comigo, eu não
sabia o que fazer.
Botou a cabeça no
meu peito e falou:
‘Carrrdouso, ocê
quer viajar comigo?’
Para onde? ‘Ah,
volta ao mundo,
Estados Unidos,
Beirute, Curitiba’
Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 | 29
pelo mundo?”. E eu: Para onde, Mazza?
E ele: “Ah, viagem pelo mundo, Estados
Unidos, Beirute, Curitiba...” (risos) O
que me salvou é que na hora chegou
gente da equipe de filmagem.
Conta a verdade: no fim, como você
virou galã?
Ainda trabalhei muito de continuísta.
Eu cuidava de tudo, um trabalho chato,
dificílimo, você termina a sequência
hoje, fica com tudo na cabeça para a
filmagem do dia seguinte: altura de
câmera, distância do foco, todos os
detalhes. O diretor do Mazzaropi me
apresentou para o Walter Hugo Khouri,
que ia começar Noite Vazia (1964). Fiz
uma ponta no filme. Mas seguia fazendo
de tudo em cinema — de continuísta a
diretor de produção, produtor
executivo, só não maquiei, mas o resto
fiz de tudo. Ia de um universo a outro:
do Mazzaropi para o Khouri, depois
Mazzaropi de novo, Khouri, já como
ator, em Corpo Ardente (1967). De galã
estreei em Férias no Sul, com a
Elizabeth Hartmann, mas o filme não
aconteceu. Estourei mesmo em A
Moreninha (1970), direção do Glauco
Laurelli, e estreia da Sonia Braga no
cinema. Gozado é que na TV quem fez
meu papel foi o Mario Cardoso, galã,
meio parecido comigo, a mesma idade,
as pessoas confundiam, nós dois
fazíamos fotonovelas naquelas revistas
tipo Sétimo Céu. O que eu queria
mesmo era ter a minha produtora, ser o
Darryl Zanuck (grande produtor de
cinema, criou a 20th Century Fox). Mas
fui fazendo cinema, novelas como O
Grande Segredo, na TV Excelsior, com
direção do (Walter) Avancini e o Silvio
de Abreu (autor da atual Passione)
como ator. Só depois fundei a Dacar,
produtora com as iniciais do meu nome,
em 1973. Meu primeiro filme foi Caçada
Sangrenta.
Mas você já tinha essa ideia de
mulher pelada na tela, sabia o que
queria ou isso só veio depois?
No começo eu não tinha coragem de
dirigir, não sabia nada, e cometi de
cara um erro: fui filmar no meu
estado. Santo de casa não faz milagre.
Chamei o Ozualdo Candeias para
dirigir, grande diretor, intelectual,
hermético. Eu já tinha sido ator dele
em A Herança (1970), baseado no
Hamlet , a Ofélia era negra, super
elogiado. Falei: você vai dirigir, mas
eu preciso de mulher pelada. Eu
sacava que isso ia dar grana. Hoje
tudo aquilo seria super inocente, não
tinha nada de sexo explícito. Era a
época da censura braba, não podia
aparecer mulher de frente, muito
menos homem. O Candeias fez, tinha
a Marlene França, eu fui ator e
produtor, mas o filme não aconteceu.
Fiquei num beco sem saída, porque a
grana não voltou. Aí pensei: vou fazer
um filme que tenha sexo, mas com
história, começo, meio e fim, com
outro diretor, do jeito que eu quero. E
inventei o Jean Garret.
O Raul Cortez e o
Paulo Autran foram
Inventou como?
me ver no palco.
Era um português, Jean Gomes e
Fiquei com vergonha Silva, fotógrafo de fotonovela da
e comentei com
revista Melodias . Mudou o nome para
a Fernanda
Jean Garret. Falei: dirige aí, que no
Montenegro que
primeiro filme te dou 5% da
sofria por saber que bilheteria, no segundo 10%, e assim
eu nunca seria igual por diante. Ele nunca havia dirigido,
mas tinha um tino, sabia enquadrar,
a eles. A Fernanda
eu vi que daria certo, e não deu outra.
me disse: ‘David,
Peguei emprestada a casa do senador
você é jacu, nunca
Pedro Piva e fiz A Ilha do Desejo .
será como eles,
Em 30dias eu tirei o dinheiro. Aí veio
mas pense que eles
o Possuídas pelo Pecado (1976) ,
também nunca serão e o meu maior sucesso, 19 Mulheres
como você’. Relaxei e Um Homem (1977) — minha estreia
como diretor. Aí deslanchou,
fiz um filme atrás do outro, comprei
avião, fazenda no Pantanal, um vidão.
30 | Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010
VIDA
Matilde Mastrangi fez oito filmes
comigo. Uma vez, fomos para Portugal,
não tinha lugar em hotel nenhum e
tivemos de dormir na mesma cama.
Mas ela tinha namorado, eu estava com
uma moça, não fizemos nada, sempre
fomos grandes amigos. A Vera Fischer,
linda, a mulher mais linda do cinema,
eu que lancei. Essa eu namorei. E lancei
Zaira Bueno, Nicole Puzzi. Mas esse
negócio de mil mulheres foi um
jornalista da Playboy que fez uma
entrevistona comigo e deu esse título na
capa. Uns dez anos depois ele estava em
outra revista, quis fazer outra matéria e
dar o mesmo título. Falei: “Bota umas
30 a mais aí, senão vão achar que nunca
mais comi ninguém” (risos). Mas, sério,
achavam que eu transava as atrizes, e
isso não é verdade.
Sua autobiografia tem orelha de Rubens Ewald Filho,
textos de Pelé e Anselmo Duarte
Você que bolava as histórias e dava
esses nomes para os filmes?
Dava os nomes, tinha as ideias, mas
nunca soube escrever. Meu roteirista,
genial, era o Ody Fraga. Depois que ele
morreu, quebrei. O Ody era um
intelectual que nem o Candeias, mas
sabia escrever linguagem popular, não
tinha preconceito. Tinha filho para
sustentar e por isso topava qualquer
coisa. Ele mostrava o roteiro, eu dizia
corta isso, faz assim, ele fazia. 19
Mulheres e Um Homem eu bolei quando
viajei de ônibus leito para Campo
Grande. Tinha 19 lugares, fiquei
imaginando eu ali de motorista levando
as mulheres para o Paraguai. Em 90 dias
de bilheteria fiz US$ 400 mil. Fiz US$ 2
milhões com esse filme. O Renato
Aragão se gabava de fazer, na época,
US$ 2,5 milhões com um filme. Mas eu
ganhava, porque o meu era censura 18
anos e não tinha a Globo para vender
minha imagem.
As atrizes dos seus filmes eram a
Matilde Mastrangi, a Vera Fischer,
a Helena Ramos. Você saiu mesmo
com mil mulheres?
Nada, eu trabalhava demais, era diretor,
produtor, ator, cuidava de tudo. Olha, a
1
Então você é um romântico?
Acho que não. Nunca dormi com uma
mulher, fazia o que tinha de fazer e
cada um ia para o seu quarto. Sempre
tive dois quartos, dois banheiros, acho
que por isso as mulheres todas sumiram
de mim. Sou ruim de cama, todo
mundo diz que dá duas, três, eu só
consigo dar uma, demora um tempo
para outra. E tenho ejaculação precoce,
mal a mulher chega, já fico louco e vai
rápido. Uma vez aconteceu uma
loucura: eu tinha de gravar O Homem
Proibido no Rio. Saí do Pantanal com a
minha namorada, o avião engasgou um
pouco, parei na pista para esperar e ela
quis transar ali, transamos. Cheguei em
Congonhas, comprei uma revista Amiga
em que eu tinha saído na capa, e uma
fila de meninas estava esperando por
mim para fazer testes para os meus
filmes. Uma delas eu já estava a fim, ela
acabou ficando para almoçar no meu
escritório. Pedimos comida, e eu
sempre tive cama no escritório, morava
ali. Transamos. No fim do dia peguei
outro avião para o Rio, gravei, e fiquei
com outra menina. Quer dizer, sem
combinar, transei três mulheres em três
estados diferentes no mesmo dia! (risos)
Você foi galã na Globo, foi galã na
Bandeirantes, mas fez pouca TV.
Fui o galã de O Homem Proibido (1982),
junto com o Edson Celulari, a Lidia
Brondi, a Elizabeth Savalla. Na Band eu
tinha feito Cara a Cara (1979), do
Vicente Sesso. Eu estava em Nova York,
e ele me ligou: “Vem pra cá que escrevi
2
uma novela para você, é o papel
principal”. Falei que não, e se não
gostasse? Ele me disse: “Todo mundo da
Globo veio para a Band, sua mãe vai ser
a Fernanda Montenegro, se você não
gostar damos a passagem de volta para
Nova York”. Fui e adorei. A Fernanda
era maravilhosa, eu morria de vergonha
de atuar com ela. Na época, fiz uma
peça de teatro, Os Homens, e o Paulo
Autran e o Raul Cortez foram me ver no
palco. Falei com a Fernanda que eu
sofria porque nunca seria igual a eles, e
ela disse assim: “David, você é jacu,
nunca será como eles, mas pense que
eles também nunca serão como você”.
Aí eu relaxei. Mas demorei mesmo para
fazer televisão. Recusei muito no
começo, porque o Mazzaropi me falava
assim: “Carrdouso, ocê já viu Marrrlão
Brando fazer TV? Já viu o Gregory
Peck?” Ele falava os nomes errados,
mas queria dizer que o dinheiro, o
estrelato, estava no cinema. Achei isso
por muito tempo.
Você voltou para uma novela da
Globo há pouco tempo. (Da Cor do
Pecado, em 2004)
Fui do núcleo da família Sardinha, com
aquela atriz sensacional (Rosi Campos),
o Sidney Magal, o Pedro Neschling, o
Cauã Reymond, uma gente muito legal.
Os caçadores de
jacaré não dão tiro
que é para a polícia
não ouvir. Metem
a marreta no bicho,
fazem muita
crueldade.
Já ajudei a pegar
muitos bandidos
desses. Eu ia no meu
avião com o fiscal
do Ibama. Meus
amigos me falavam:
‘Para com isso,
David, você vai
ser morto’. Mas eu
não consigo
O que aconteceu que você parou com
o cinema, não produziu mais, só
voltou agora, em participações
especiais como ator?
Eu paguei o preço por falar demais. Falo
o que eu acho, você está vendo —
pergunta e eu respondo. Reclamei da
sacanagem que fizeram comigo em
Pantanal. Arrumei tudo para fazer a
novela: arrumei fazenda, avião, apoio, e
me passaram para trás. Reclamei da
bandidagem do cinema, do Luís Carlos
Barreto que rouba um monte, dos
cineastas cariocas que têm cobertura na
Vieira Souto. A Embrafilme sempre
roubou, sempre teve corrupção, mas de
uma coisa, uma só, tenho saudade do
regime militar: a censura cortava, mas
você exibia o seu filme, tinha uma lei de
proteção. A cada oito filmes
estrangeiros, os cinemas eram
obrigados a passar um nacional. Hoje
diminuíram os cinemas, no interior não
tem mais, ficou caro. E eu também fui
um produtor muito honesto. Pagava
todo mundo, trabalhava só oito horas
4
6
3
5
7
Cenas de um sedutor: 1. Com Vera Fischer, em Sinal Vermelho, As Fêmeas (1971); 2. Com a princesa Ira de Furstenberg em Desejo Selvagem (1979); 3. A mulher Evelise e o filho James, com o Rei Roberto
Carlos. Foi David quem produziu A 300 km por Hora (1971); 4. Com Alain Delon, como quem era sempre comparado; 5. Valsando com Sonia Braga em A Moreninha (1970); 6. O corpão de halterofilista em O Dia
do Gato (1988), com Marisa Sommer; 7. No auge, com os amigos Pelé e Carlos Alberto Torres
Outlook | Sexta-feira, 2.7.2010 | 31
por dia. Não tinha patrocínio, lei de
incentivo, nada. Fiz mais de 70 filmes, e
só tive ajuda em três — do José Ermírio
de Moraes e do comandante Rolim.
Seus filmes não tinham sexo
explícito?
Como ator eu não faria, não tenho
coragem. Produzi alguns, com
pseudônimo, mas os meus filmes
tinham história, começo, meio e fim. Se
eu tivesse feito mais explícitos, teria
mais dinheiro. Perdi o bonde.
Mas você posou nu numa boa para a
G Magazine, seu filho também, sua
filha posou nua na Sexy...
Normal, fiz para pagar uma dívida de
um processo porque falei demais. O
Davizinho posou, a Tallyta, numa boa, é
um trabalho honesto. Não aguento
hipocrisia. Tem aquelas mulheres que
falam: “Ah, posei mas foi na Índia”.
Minha filha, o cara que abre a revista
quer ver a perereca, na Índia, no
Tatuapé, é a mesma coisa.
Vamos a um tema mais ecológico,
mas sem perereca. Você sempre se
preocupou com o meio ambiente, né?
Sempre. Quando criança, eu matava
rolinha, preá, mas depois fui tomando
consciência. Ninguém me ensinou, fui
vendo as coisas. Sabe como os bandidos
matam jacaré? Não dão tiro, que é para
a polícia não ouvir. Então vão com uma
lanterna, olham os bichos com os olhos
arregalados, e Tum!, metem a marreta
nele. Fazem muita crueldade. Já ajudei a
pegar muitos bandidos desses, eu ia no
meu avião com o fiscal do Ibama. Meus
amigos me falavam: “Para com isso,
David”, o John Herbert dizia: “Você é
uma bosta de um ator pornô, não tem
nada de se meter nisso, vai ser morto”.
Mas eu não consigo. Peguei vários
caras, denunciei matanças de peixes, de
todos os bichos, não posso ver ninguém
maltratando animais.
Como está a sua vida hoje?
Tranquila. Estou casado com a Rô,
professora, tenho um filho pequeno, o
Oswaldo, de 9 anos. Só falo inglês com
ele, não sei falar direito, mas já dá para
ele ir sabendo alguma coisa. Fico
fazendo churrascos, sou simples. Se eu
pedir lagosta e não tiver, peço bife. Não
tem? Como mortadela, não ligo. Vivo de
aluguéis, tenho minha fazenda, mas não
posso mais ter avião, as coisas
mudaram. Não perdi dinheiro, mas não
ganhei mais.
Seu maior momento no cinema?
Em Sedução (1974), do Fauzi Mansur,
com a Sandra Bréa e o Ney Latorraca.
Eu era o ator principal.
E a sua volta agora?
Nos últimos 18 meses fiz cinco filmes.
La Guerra de Los Niños, sou um general
na injusta guerra do Paraguai; Corpo
Presente passou na TV Cultura agora;
Deus Grego; e o Cabeça a Prêmio,
ótimo, conheci a sobrinha da Sonia
Braga (Alice), muito legal.
MAKING OF
Fazendo agora um balanço da vida: você
conseguiu realizar os seus sonhos?
Eu queria ser o Tony Ramos, que só teve
uma mulher, a vida correta, ótimo ator.
Não foi atrás de bandido, não pilotou
avião... bom, vai que ele tem inveja
de mim, né?
Acho que dá para dizer que nunca ri tanto numa entrevista. David Cardoso imita todo mundo, e sua performance
de Mazzaropi é impagável. “Quando fiz (o seriado da TV Globo) Carga Pesada, o (Antônio) Fagundes se dobrou
de rir no chão com minhas caras de Mazzaropi”, ele me dizia, enquanto eu tentava me recompor. Conversamos
por três horas no apartamento da sua ex-mulher, Evelise, em Higienópolis, São Paulo. Até hoje eles são grandes
amigos. Ela foi à sala dar um oi, assim como sua filha, Tallyta, e o filho, David Jr.. Me surpreendi com o quanto
ele me pareceu autêntico. Fala de tudo, muito rápido, até absurdos, fica amigo logo, tem a grande (e rara)
capacidade de rir de si mesmo. Difícil foi tirar a gravação: eu só escutava gargalhadas. Minhas e dele.
FOTOS DIVULGAÇÃO
FIM DE PAPO
Onde os fracos não têm vez
David Cardoso, nesta cena acima, abre o filme Cabeça a Prêmio, de Marco Ricca, baseado no livro
homônimo de Marçal Aquino e que estreia em agosto. Faz um radialista cheio de moral,
conservador, mas que na real é um pedófilo. Não tem vez na história: é assassinado (veja no
detalhe ao lado) pelo personagem de Eduardo Moscovis. “O David, gostem do estilo ou não, é um
grande representante do nosso cinema. Conseguiu resistir, fez um monte de filmes, é a nossa
história, um ator muito interessante. Está espetacular no filme. No livro do Marçal, o personagem
é maior, no filme precisei reduzir, mas adoraria trabalhar com o David de novo”, fala Marco Ricca.
O filme traz gerações de atores importantes, como Fulvio Stefanini (“Adorei reencontrá-lo”, diz
David) e a jovem e internacional Alice Braga. “A tia dela, a Sônia, estreou no cinema ao meu lado,
no meu primeiro papel de galã que estourou, em A Moreninha (1970).”
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