UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRASÍLIA PRÓ-REITORIA DE GRADUAÇÃO TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO RELAÇÕES INTERNACIONAIS A ATUAÇÃO DA FIOCRUZ NA COOPERAÇÃO TÉCNICA ENTRE BRASIL E ÁFRICA NO GOVERNO LULA: DE 2003 A 2007 Autora: Natália Cristina Ribeiro Silva Orientadora: Tereza Cristina Nascimento França Brasília - DF 2009 NATÁLIA CRISTINA RIBEIRO SILVA A atuação da Fiocruz na cooperação técnica entre Brasil e África no governo Lula: de 2003 a 2007 Monografia apresentada ao Curso de Relações Internacionais da Universidade Católica de Brasília como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Relações Internacionais. Orientadora: Prof. Dra. Tereza Cristina Nascimento França Brasília 2009 TERMO DE APROVAÇÃO A atuação da Fiocruz na cooperação técnica entre Brasil e África no governo Lula: de 2003 a 2007 NATÁLIA CRISTINA RIBEIRO SILVA Monografia defendida e aprovada como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Relações Internacionais, em ____ de junho de 2009, pela banca examinadora constituída por: ______________________________________ Orientadora: Prof. Dra. Tereza Cristina Nascimento França ______________________________________ ______________________________________ Brasília-DF, ____ de ____________ de 2009. Brasília UCB Dedico este trabalho aos meus pais, Fred e Marlene. Sem o amor, a compreensão e confiança deles eu nada seria. Esta etapa final é fruto unicamente do esforço de uma vida toda de batalha para que meus sonhos se concretizassem. AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus e à Virgem Maria por guiarem e iluminarem meu caminho nessa jornada. Agradeço também aos meus pais e aos meus irmãos Frederico, Amanda e Taís pelo suporte, pela compreensão e por nunca duvidarem do caminho que decidi percorrer. Também teço agradecimentos ao meu namorado e companheiro, Wesley, que me apoiou em todas as decisões e me confortou quando precisei. É imprescindível, nessa hora, agradecer aos mestres que compartilharam, ao longo desses 5 anos e meio, todo o conhecimento que um dia eles receberam, em particular, à minha orientadora Tereza Cristina e ao professor Rodrigo Campos – os quais não mediram esforços para auxiliar na construção deste trabalho. Nenhum país é tão rico que não necessite receber e nenhum país é tão pobre que nada tenha a oferecer Autor desconhecido RESUMO SILVA, Natália Cristina R. A atuação da Fiocruz na cooperação técnica entre Brasil e África no governo Lula: de 2003 a 2007. Junho de 2009. Monografia apresentada ao curso de Relações Internacionais. Universidade Católica de Brasília, Brasília, 2009. Este estudo tem por objetivo analisar as relações entre Brasil e África, no governo Lula com vista a identificar as principais evoluções para o continente. A hipótese a ser testada é a de que a cooperação técnica internacional em saúde exercida pela Fiocruz integrou suas ações à política externa do Governo Lula, sendo possível afirmar que houve um forte alinhamento de visões entre o Ministério da Saúde e o Ministério das Relações Exteriores. PALAVRAS-CHAVE: Política Externa Brasileira, Cooperação Internacional em Saúde, Luiz Inácio Lula da Silva, inserção internacional, relações Brasil-África. ABSTRACT SILVA, Natália Cristina R. A atuação da Fiocruz na cooperação técnica entre Brasil e África no governo Lula: de 2003 a 2007. Junho de 2009. Monografia apresentada ao curso de Relações Internacionais. Universidade Católica de Brasília, Brasília, 2009. This study aims at analysing the relationship between Brazil and Africa in president Lula’s administration and identifying the development of Brazilian Foreign Policy for the continent. The hypothesis proposes that Fiocruz actions on International Health Cooperation have been integrated with foreign policy of Lula’s government. There is also evidence that there is a sharing of views between the Brazilian Health Ministry and the Brazilian Foreign Office. KEYWORDS: Brazilian Foreign Policy, International Health Cooperation, Luiz Inácio Lula da Silva, international insertion, relationship between Brazil and Africa. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 ORGANOGRAMA DO MINISTÉRIO DA SAÚDE 2 LISTA DE TABELAS Tabela 1 COBERTURA UNIVERSAL DE MEDICAMENTOS ARVs PARA 31 PAÍSES COOPERANTES COM O BRASIL Tabela 2 NÚMERO DE PESSOAS EM TRATAMENTO E QUE 32 NECESSITAM DE TRATAMENTO POR REGIÃO Tabela 3 MEDIDA 7.1: CONTRIBUI PARA O DESENVOLVIMENTO DE ESTRUTURAS E DOS SISTEMAS DE SAÚDE DOS PAÍSES DA AMÉRICA DO SUL E CENTRAL, DA CPLP E OUTROS PAÍSES AFRICANOS 52 SIGLÁRIO Fiocruz – Fundação Oswaldo Cruz MS – Ministério da Saúde ISF – Instituto Soroterápico Federal ISRJ – Instituto Soroterápico do Rio de Janeiro IPEM – Instituto de Patologia Experimental de Manguinhos IOC – Instituto Oswaldo Cruz AI – Ato Institucional CPLP – Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa PALOP – Países Africanos de Língua Portuguesa ACI/ Fiocruz - Assessoria de Cooperação Internacional PVD – Países em via de desenvolvimento CTI – Cooperação Técnica Internacional PEB – Política Externa Brasileira PEI – Política Exterior Independente ABC – Agência Brasileira de Cooperação MRE – Ministério das Relações Exteriores GATT - Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio OMC – Organização Mundial do Comércio CTPD – Cooperação Técnica entre Países em Desenvolvimento SEPLAN - Secretaria de Planejamento da Presidência da República CTRB – Cooperação Técnica Recebida Bilateral CTRM – Cooperação Técnica Recebida Multilateral CGPD – Coordenação Geral de Cooperação Técnica entre Desenvolvimento DST – Doenças Sexualmente Transmissíveis HIV e AIDS/ SIDA – Vírus e Síndrome da Imunodeficiência Adquirida C&T – Ciência e Tecnologia EEUU/ EUA – Estados Unidos da América URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas ONU – Organização das Nações Unidas Países em ENSP – Escola Nacional de Saúde Pública IBAS – Cúpula Índia, Brasil e África do Sul AISA - Assessoria Internacional do Ministério da Saúde MEC – Ministério da Educação CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior MCT – Ministério da Ciência e Tecnologia FINEP - Financiadora de Estudos e Projetos CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico ONGs – Organizações Não-Governamentais CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil PETROBRAS - Petróleo Brasileiro S/A PECS – Plano Estratégico de Cooperação em Saúde da CPLP ANVISA – Agência Nacional de Vigilância em Saúde. SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO 01 1.1 PROBLEMA E SUA IMPORTÂNCIA 02 1.2 HIPÓTESE 04 1.3 OBJETIVOS 04 1.3.1 Objetivo Geral 04 1.3.2 Objetivos Específicos 04 1.4 METODOLOGIA 2. REFERENCIAL TEÓRICO 05 06 2.1 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 06 2.2 MARCO TEÓRICO 09 3. DESENVOLVIMENTO 3.1 HISTÓRICO DA COOPERAÇÃO TÉCNICA 16 16 3.1.1 Histórico da Cooperação Técnica no mundo 17 3.1.2 Histórico da Cooperação Técnica Brasileira 20 3.1.3 A Cooperação Técnica Brasileira em Saúde 24 3.1.4 A Cooperação Técnica do Brasil com os PALOP 28 3.2 A FIOCRUZ E SUA RELEVÂNCIA NA POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA NO GOVERNO LULA 3.2.1 Histórico da Política Externa Brasileira para a África 3.2.2 A atuação da Fiocruz no governo Lula 34 34 49 4. CONCLUSÃO 58 5. BIBLIOGRAFIA 61 5.1 LIVROS 61 5.2 REVISTA 64 5.3 DOCUMENTOS ON-LINE 64 6. APÊNDICE 67 7. ANEXOS 69 1 INTRODUÇÃO O presente estudo tem por objetivo fazer uma análise da relevância da Fundação Oswaldo Cruz para a elaboração da política externa brasileira para a África, no que cerne principalmente a cooperação técnica em saúde. Como ponto de partida, este trabalho apresentará uma retrospectiva histórica das ações brasileiras em cooperação técnica na área de saúde que demonstrem a evolução da atuação brasileira nesse setor. Dessa forma, a cooperação técnica internacional é objeto de uma análise que parte de uma visão mais ampla a mais estrita. O primeiro capítulo apresenta os antecedentes da prática cooperativa mediante a abordagem da cooperação técnica no mundo e, em momento posterior, o histórico da cooperação técnica brasileira. Ao largo do capítulo, propõe-se a apresentação da cooperação técnica brasileira em saúde e a cooperação técnica do Brasil com os países da África lusófona. Destarte, busca-se evidenciar que ao longo do período de consolidação da prática cooperativa pelo Brasil, foi-se também fortalecendo a prática da diplomacia da saúde e, a partir das ações bem sucedidas desta, o País passou a atuar também com a África e ganhar especial destaque dentre os países de língua oficial portuguesa. No último busca-se evidenciar as diretrizes da política externa brasileira desde o período Vargas até o governo Lula com o intuito de identificar traços de continuidade e de rupturas na formação desta e na identidade internacional do País. Enquanto se desenvolveram as descrições da política externa dentre os governos, foi analisada a política externa para a região africana. No momento seguinte, foi analisada a opção do governo Lula pela a África, destacando o estreitamento do Ministério da Saúde, com os interesses do Ministério das Relações Exteriores. E, por fim, foi analisada a relevância da Fiocruz neste processo haja vista sua prática cooperativa corroborar com os interesses de política externa deste governo. 1 1.1 PROBLEMA E SUA IMPORTÂNCIA A Fundação Oswaldo Cruz é uma instituição federal (fundação pública) vinculada ao Ministério da Saúde (Figura 1). Foi criada em 25 de maio de 1900, com o nome de Instituto Soroterápico Federal (ISF). O ISF, por sua vez, começou a partir das ações do cientista, médico, bacteriologista, epidemiologista e sanitarista Oswaldo Cruz, responsável pelas primeiras campanhas para combate dos problemas da saúde pública brasileira. Figura 1: Organograma do Ministério da Saúde Fonte: BRASIL, 2007. Para compreender o impacto das ações dessa instituição faz-se necessária a compreensão das origens da formação do Instituto. Dessa forma, o contexto da formação do ISF se dá pela chegada ao Brasil da peste bubônica (pandemia existente na Europa e Ásia) que gerou alarde em São Paulo e no Rio de Janeiro, a partir de 1899. 2 Em 1990, iniciou-se o combate à proliferação da doença através da produção de soros. Neste mesmo período, Oswaldo Cruz assumiu a direção técnica do Instituto Soroterápico do Rio de Janeiro (ISRJ) – nome dado ao instituto que, no mesmo período, passou a se vincular diretamente ao governo (ISF). Sob ações dessa nova direção houve inúmeras reformas e campanhas de saneamento no Distrito Federal, a partir de 1903. Dessa forma, Oswaldo Cruz foi nomeado como Diretor Geral de Saúde Pública pelo Presidente da República, e implementou o Código Sanitário que tornaria obrigatória a vacinação de toda a população. Mesmo com a insatisfação e protesto da população contra a imposição da vacinação (Revolta da Vacina). Houve um salto qualitativo do processo de conscientização e das ações do Instituto Manguinhos em Saúde Pública (outra denominação ao ISF), que levaram, em período posterior ao rebatizado (em 1907 como IPEM e em 1908 como IOC) – devido o destaque das ações do mesmo sobre a supervisão de Oswaldo Cruz. Outros fatores que deram muita relevância à atuação da entidade brasileira, dentre elas: expedições na Amazônia e proximidades da Ferrovia Madeira-Mamoré; a erradicação da malária no estado do Pará1; e, ao longo de sua história, outros colaboradores contribuíram para o desenvolvimento científico da IOC. Já em período bastante posterior (1970), com a instauração da ditadura brasileira, houve problemas entre a IOC e o governo federal, cujo episódio ficou conhecido como Massacre de Manguinhos. Contudo, os governantes da época vinculam o instituto à Fundação de Recursos Humanos para a Saúde ao Ministério da Saúde. E, em 1974, a instituição passa a denominar-se Fiocruz, após dois anos do centenário de nascimento de Oswaldo Cruz. Consoante requesta, o histórico de pioneirismo da Fiocruz no Brasil possibilitou a percepção, por muitos, desta como uma instituição de referência na área de ciência e tecnologia em saúde – assegurando, desde sua fundação, que “a saúde é um direito de todos e dever do Estado” (CF/1988 – art. 196), conforme sua conexão com o Ministério da Saúde – gerando relevância e repercussão no âmbito externo. Assim, com a viabilidade de ações no cenário internacional o MS, através da coordenação da Assessoria de Assuntos Internacionais de Saúde, consegue 1 Entradas e bandeiras na Amazônia. Agência Fiocruz de Notícias. Disponível em: <http://www.fiocruz.br/ccs/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=228&sid=5>. Acesso em: 27 set. 2008. 3 conciliar as Políticas de Saúde Pública com a Política Externa Brasileira. Dessa forma, a ACI/Fiocruz, junto ao MS, levou a um aumento considerável da cooperação técnica brasileira nas áreas em que detém maior domínio e/ou tecnologia. Não obstante, essa cooperação tem favorecido o Brasil nas relações com países africanos, especialmente os que possuem a língua portuguesa como idioma oficial. Embora se tenha conhecimento da atuação brasileira nas questões de saúde pública na África, pouco se sabe dos motivos que levaram a Fiocruz a obter grande destaque nos assuntos internacionais do Ministério da Saúde. Também há poucas informações referentes ao papel da Fiocruz que evidenciaram a cooperação internacional do Brasil em saúde pública como instrumento de política externa no governo Lula. Para compreender melhor essas questões, faz-se necessário observar a evolução histórica da cooperação técnica na área de saúde, compreender o histórico da política externa brasileira para a África e questionar até que ponto as ações de cooperação técnica em saúde da Fiocruz, de 2003 a 2008, estão alinhadas com a política externa do Governo Lula. 1.2 HIPÓTESE As ações de cooperação técnica internacional da Fiocruz estão alinhadas com a atual política externa do Governo Lula, evidenciando um forte alinhamento de visões entre o Ministério da Saúde e o Ministério das Relações Exteriores. 1.3 OBJETIVOS 1.3.1Objetivo Geral Analisar o papel da Fiocruz diante do Ministério da Saúde no alinhamento da política externa brasileira com a cooperação internacional em saúde. 1.3.2 Objetivos Específicos 4 • Elaborar uma retrospectiva histórica das principais ações brasileiras em cooperação técnica na área de saúde, e identificar as principais características da evolução da atuação brasileira nesse setor; e • Examinar os antecedentes históricos e respectivas atuações da Fiocruz e sua relevância no contexto da Política Externa Brasileira, no período do governo Lula, para a África. 1.4 METODOLOGIA A análise do presente estudo será baseada nos Relatórios da Agência Brasileira de Cooperação junto ao Ministério das Relações Exteriores (MRE) – os quais consistem em: O que é a Agência Brasileira de Cooperação e Cooperação Técnica Brasileira em Saúde – focalizados na Cooperação Técnica Internacional (CTI), mediante as pesquisas em fontes primárias. Como fontes secundárias serão analisados conteúdos específicos voltados para assuntos internacionais: artigos, livros, dissertações e publicações em sítios da internet, todos relacionados à temática abordada. O estudo em sua primeira etapa apresentará um breve resumo histórico das ações brasileiras em cooperação técnica na área de saúde que demonstrem a evolução da atuação brasileira nesse setor; dessa forma, será pautado na pesquisa de fontes secundárias. Ainda na primeira parte é constituída por fontes primárias e secundárias e se ampara em métodos qualitativos. Desse modo, constitui-se um levantamento de dados sobre a PEB e Atos Internacionais, os quais se encontram disponíveis no sítio do MRE e fazem parte de uma tabela que segmenta as informações. Tais informações validam a análise da evolução dos atos internacionais de cooperação com os países lusófonos bem como buscou verificar a hipótese proposta nesse estudo. E, por fim, a segunda parte busca examinar a Fiocruz que, com seus avanços, levaram a instituição a se destacar no cenário internacional. Além disso, pretende-se demonstrar a relevância que a mesma alcançou na PEB para a África. Para isso, as obras de Cervo e Bueno (2002), Paulo Vizentini (2004) e o próprio sítio da Fiocruz servirão como ponto de partida. Além disso, houve a realização de entrevista com pessoa-chave do Ministério da Saúde para ratificar os propósitos apresentados. 5 Consoante requesta, os dados e informações obtidos favoreceram na observação da cooperação técnica internacional como mecanismo fundamental da política externa e, diante dessa reflexão, destacam-se as ações da Fiocruz na CTI na área de saúde para África – algumas obras que favorecem essas observações: Marcovitch (1994) Relatório ABC/MRE (2006) e Silveira (2002). A metodologia segue as classificações de Cervo e Bervian (2002, p. 25, 31, 37, 39) e constitui-se do método racional: “Apesar de os assuntos a que o método racional se aplica não serem fenômenos suscetíveis de comprovação experimental, o método racional também é científico.” A técnicas utilizadas, são as de: 1) indução, pois “Formas de raciocínio ou de argumentação, e como tais, são formas de reflexão e não simples pensamento”; 2) de inferência “Pela inferência somos levados a tirar conclusões a partir de premissas conhecidas. É uma operação mental que leva a concluir algo a partir de certos dados antecedentes. É uma extensão de conhecimento.”; 3) e de análise e síntese racionais “Operam não mais sobre seres e fatos, mas sobre idéias e verdade mais ou menos gerais”. A organização das informações obtidas neste documento terá como objetivo demonstrar a Fiocruz como pilar da CTI brasileira e a relevância desta prática para a PEB no continente africano. Nesse sentido serão analisadas variáveis que poderá influenciar na prática cooperativa (e pressupostos referenciados na revisão bibliográfica abaixo) e sua forte presença na região. 2. REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Na revisão bibliográfica são analisados estudos cujos temas versam sobre a cooperação internacional e a política externa da Brasil que estejam vinculadas entre si, bem como outros estudos/matérias referentes à cooperação técnica brasileira na área de saúde. Dessa forma, Diniz (2003) aborda a relevância das instituições na construção da dinâmica das relações internacionais, apresentando de forma bem ampla a questão das instituições internacionais nas áreas de segurança, comércio e integração. Também faz menções bastante relevantes sobre as abordagens realista e neoliberal da atuação brasileira em âmbito externo. A parte principal que testa o 6 objetivo deste estudo é a demonstração de que a política externa é definida pelo confronto das metodologias/abordagens, além de ratificar que a autonomia nacional deve prevalecer no processo de inserção do Brasil na política internacional. Pois, De qualquer modo, qualquer que sejam as conclusões, o fato é que elas dificilmente deixarão de impactar sobre a política externa do Brasil. A plena participação de acadêmicos brasileiros nesse debate é extremamente relevante para ajudar a definir os rumos da atuação internacional do Brasil e a maneira como nosso país deverá se inserir na política internacional de nossos dias.2 Para Keohane (1984), as ações individuais conflituosas dos Estados ou de organizações obtidas através do processo de negociação (devido às divergências individuais) é que estabelece o processo de negociação/decisão dos mesmos em criar uma situação de convergência. Ou seja, os interesses comuns, fortalecidos por ajustes de políticas entre os países envolvidos, levam à harmonia no cenário internacional. Contudo, se o conflito persistir, há a discórdia entre as partes, levando à não-cooperação (ou a impossibilidade do estabelecimento de um regime) internacional. Nessa linha de pesquisa, os scholars norte-americanos Joseph Nye e Robert Keohane (1989), na obra Power and Interdependence, atrelam às relações internacionais os Estados e as instituições internacionais em um contexto de poderes de barganha. Mesmo com poderes assimétricos esses atores estabelecem entre si processos políticos de interdependência complexa. Nessa estrutura existe, pois, a possibilidade dos mesmos alcançar – no campo da economia política mundial – os resultados desejados em temáticas específicas. Para compreensão dos pressupostos e da essência da cooperação internacional – além do próprio embate teórico referente aos regimes e poder – a obra de Nye e Keohane é primordial para perceber que tal prática assegura aos países menores a possibilidade lutar para galgar maiores avanços e mais influência no cenário internacional, limitando, pois, os interesses das grandes potências – demonstrando o considerável peso dos regimes e das instituições internacionais na relação de poder e interdependência. 2 DINIZ, Eugênio. Realismo, institucionalismo liberal e a inserção internacional do Brasil: uma agenda de pesquisa empírica. In: ESTEVES, Paulo Luiz. (Org.) Instituições internacionais: comércio, segurança e integração. Belo Horizonte: PUC Minas, 2003. 7 Como mecanismo de integração regional, colaboração técnica e de operações internacionais, a cooperação internacional na obra do organizador Marcovitch (1994) pode ser observada como mecanismo auxiliar da política externa. Assim, seu intuito é elucidar o sistema internacional contemporâneo, a competitividade e a cooperação inerentes a este, bem como analisar a gestão da cooperação internacional. Logo, há a comprovação de que mesmo com o individualismo a interdependência das partes acaba por induzir/direcionar a cooperação. Também aborda que devido à alta tecnologia e competitividade os países priorizem programas, escolhidos pelo critério de qualidade, para serem implementados em seus países, ou seja, escolhem iniciativas cooperativas a serem adotadas em âmbito interno que lhes permitirá maiores benefícios - alianças estratégicas que favoreçam novas relações devido à(s) nação (nações) multiplicadora(s) ser/serem portadora(s)s de excelência nos âmbitos tecnológicos e temáticos. Dentre os trabalhos mais relevantes da compilação, destaca-se o de Guido Soares, o qual trabalha com a visão de Cooperação Técnica Internacional e faz um levantamento da terminologia mais adequada para tal conceito, sugerindo que as terminologias de ajuda e de assistência não são mais empregadas, sendo, pois, substituídas por cooperação e transferência de tecnologia – porém, essas denominações mais antigas prevaleceram por parte dos países industrializados. Elucida que Na verdade, não se trata de mera questão vocabular, mas de uma mudança de enfoque no que respeita aos movimentos internacionais de recursos: não se trata de atitude ligada a humanitarismos de ajudar os Estados carentes, e muito menos de fornecer uma moldura normativa às ações dos países industrializados que pretenderiam legitimar suas ações unilaterais de intervenção sutil nos [Países em via de Desenvolvimento] PVD: trata-se, antes, da afirmação de um direito ao desenvolvimento por parte desses Estados, conjugado com um dever de cooperação por parte dos países industrializados, dentro dos princípios já anunciados da Carta da Organização das Nações Unidas (SOARES, 1994, p. 170) As contribuições de Vizentini (2004) e de Cervo & Bueno (2002) evidenciam ao longo das ações de política externa como surgiu e como o governo incrementou sua presença na África. Em especial, Vizentini trata do período do regime militar, no qual houve oscilações entre maior e menor grau de aproximação com países 8 daquele continente. Também faz fundamental menção à aproximação luso-brasileira em prol de países africanos, o que mais tarde fundamentaria, de forma natural, a cooperação internacional africano-luso-brasileira – em principal ênfase aos países culturalmente próximos e/ou falantes do idioma Português. Dessa forma, a margem para uma relação mais consolidada com os países africanos é lograda haja vista a preocupação da PEB com a expansão de novos parceiros comerciais (via alternativa aos EUA e Alemanha), através da PEI, da busca da mundialização e da multilateralização, e do pragmatismo da PEB do regime militar, o que futuramente acarretaria na contribuição expressiva de cooperação nas áreas em que o país mais atuasse fortemente. Conforme a ABC (2006) e Silveira (2002), a Cooperação Técnica Internacional (CTI) é um pilar da PEB no continente africano. Essa cooperação Horizontal (ou Sul-Sul) tem como objetivo a transferência de conhecimento e experiências sem ter motivações comerciais. Segundo Silveira, há a priorização pela relação com os paises latinos bem como com aqueles que possuem um patrimônio cultural em comum. Dessa forma, Portugal – através principalmente da CPLP – triangula nas relações entre Brasil e África lusófona. 2.2 MARCO TEÓRICO Embora haja um forte confronto entre os paradigmas realista e liberal nas relações internacionais sobre a percepção da relevância das ações cooperativas, outras vertentes emanam desse embate. Dentre elas, a teoria institucionalista adquire grande força no ambiente intelectual. Segundo Arthur Stein, as “relações internacionais requerem cooperação e conflito, mais cooperação que os realistas admitem e mais conflito que os liberais reconhecem”.3 Assim, essas duas teorias limitam a percepção do sistema internacional como um todo, pois rotulam as ações dos atores - estes racionais que, distintas entre si, devem agir num contexto de incerteza em que as escolhas impõem limites às suas ações. O fato é que conflito e cooperação coexistem no cenário internacional e que a teoria Institucionalista neoliberal permitiu uma nova ótica sobre a relevância da 3 STEIN, Arthur. Why Estates Cooperate: Circunstance and Choice in International Relations. 1990. London: Ithaca, p.12. 9 cooperação internacional. Esta se deu porque na década de 70, período pósmoderno, houve um estudo mais sistematizado da centralidade dessa prática cooperativa nas relações internacionais. Assim, o institucionalismo neoliberal, principalmente através de Nye e Keohane, permitiu um novo modelo cujos conceitos de transnacionalismo e de interdependência complexa pudessem adquirir mais força e permitiu, também, um afastamento da visão exclusivista estado-centrada além de enfatizar o papel das instituições nessa articulação internacional. Ou seja, o realismo e o institucionalismo coexistem nesse novo modelo, divergindo em alguns aspectos, mas permitindo um diálogo entre si. É mister salientar que, De forma consciente com o realismo, a teoria institucionalista assume que os estados são os principais atores na política mundial e que eles se comportam com base em suas concepções acerca de seus próprios interesses. As capacidades relativas – a ‘distribuição de poder’ para os realistas – permanecem relevantes, e os estados devem confiar neles mesmos para assegurar para si os ganhos oriundos da cooperação. A teoria institucionalista, entretanto, também enfatiza o papel das instituições internacionais em modificar as concepções de auto-interesse. (KEOHANE, 1993, p.271) Para David Baldwin (1993), o debate entre neo-realistas e neoliberais é muito relevante para compreender as questões substantivas de conflito entre as posições, percepções sobre o cenário global e aspectos da contemporaneidade. Para tanto, destaca seis pontos de divergência entre as correntes em questão4: 1. Natureza e conseqüência da anarquia internacional: os neo-realistas acreditam, mais que os neoliberais, que a segurança física constitui a maior motivação para as ações do Estado; 2. Cooperação Internacional: os neo-realistas consideram difícil de alcançar a cooperação internacional, em virtude da constante luta pelo poder e a preocupação de cada Estado com seus próprios interesses; os neoliberais se mostram mais otimistas quanto à possibilidade de se alcançar esse tipo de cooperação; 4 BALDWIN, David. Os seis pontos de divergência entre as correntes neo-realistas e neoliberais também podem ser encontrados. In: GUIMARÃES, Lytton L. Relações Internacionais como campo de estudos: discurso, raízes e desenvolvimento, Estado da Arte. Brasília: UnB, 2001. (Caderno do Rel, 17). p. 45-46. 10 3. Ganhos resultantes da cooperação internacional: os neo-realistas acreditam que a cooperação internacional só resultaria em ganhos relativos, ao passo que os neoliberais acreditam em ganhos absolutos; 4. Problemas centrais: os neo-realistas tendem a considerar a segurança nacional como problema central, enquanto que os neoliberais se preocupam mais com a compreensão de questões de economia política internacional, de modo que as duas tendências têm perspectivas bastante diferentes quanto à cooperação; 5. Capacidade, intenções e percepção: os neo-realistas concentram-se em capacidades demonstradas (capabilities), enquanto que os neoliberais se voltam mais para as intenções e percepções; 6. O papel das instituições: os neoliberais acreditam que as instituições são capazes de contribuir para minimizar o problema da anarquia, enquanto que os neorealistas duvidam dessa capacidade das instituições. Para a escola racional a relação de poder entre atores sociais como um jogo de barganha implica na observação do processo de negociação (recursos de barganha dos atores e as estratégias que adotam) conforme a estrutura do jogo no qual estão envolvidos. Para Dowding, Dunleavy, King e Margetts (sem data)5, essa abordagem permite identificar cinco tipo de recursos: a) o conjunto de informações dos atores; b) sua autoridade legítima; c) incentivos condicionais que os atores são capazes de criar na estrutura dos demais atores (ocorrem quando um ator ameaça/ apóia a um outro com a finalidade de provocar mudanças de comportamento); d) incentivos incondicionais que os atores são capazes de criar na estrutura dos demais atores (ocorrem quando um ator consegue mudar a estrutura de decisões de outros, fazendo mudanças no ambiente); 5 DOWDING, Keith; DUNLEAVY, Patrick; KING, Desmond; MARGETTS, Helen. Rational Choice and Community Power Structures. MIMEO. In: LEVY, Evelyn. Ganhar e ganhar: estratégias de negociação bem-sucedidas entre municípios, estados e União. São Paulo, Pólis; Programa Gestão Pública e Cidadania/EAESP/FGV, 2001, p. 18. 11 e) reputação (é um dos elementos centrais no desenvolvimento de uma estratégia de barganha na qual o conhecimento é assimetricamente distribuído e os jogadores não têm informação perfeita). Já a vertente neo-institucionalista, vê nas instituições a base da ação coletiva e possibilita uma relação de troca, ou seja, o processo de negociação não está condicionado apenas na barganha e sim na segurança de comportamentos cooperativos que viabilizarão uma melhoria global da situação dos indivíduos e/ou grupos inseridos neste contexto. As instituições, dessa forma, permitem a estabilidade de certas transações políticas, econômicas e sociais e reduzem os gastos deste mesmo processo. Além disso, permite compreender as condições que promovem ou inibem as ações cooperativas. Dessa forma, a cooperação internacional, mesmo possuindo vários sentidos, pode ser definida como uma “extensa rede de colaboração entre os mais diversos atores sociais”6, os quais conciliam cooperação e solidariedade com desconfiança e interesses individuais. Para Nye, as instituições auxiliam como ponto de equilíbrio, pois aliviam a falta de confiança e o medo entre os Estados e garantem que os compromissos assumidos sejam cumpridos. Estas instituições ajudam a “criar um ambiente para o desenvolvimento de uma paz estável” 7. Na percepção de Stephen Krasner, as organizações, a interdependência e a democracia ainda eram capazes de promover uma maior cooperação que aquela prevista pelos neo-realistas, os quais preconizavam que os Estados cooperativos estavam enfatizando seus interesses próprios e possuía maior preocupação com a maximização de seu poder relativo e com sua autonomia. Isso demonstra a lógica de instabilidade internacional e dos anseios de defenderem/ protegerem os bens globais utilizando, pois, os acordos cooperativos cujos ganhos/ resultados são os consensos, transformações, acordos governamentais, regimes internacionais (e até solidariedade/ ajuda externa), etc. e maior sensação de estabilidade na perspectiva global. Participando cada vez mais desses arranjos de colaboração, os Estados modelam a política internacional de forma bastante diferenciada pois a premissa da 6 7 BECKER, Howard. Uma Teoria da Ação Coletiva. Rio de Janeiro: Zahar. 1977. p. 28. NYE, Joseph. Understanding International Conflicts. Nova York: Haper Collins. 1993. p. 39. 12 centralidade do Estado soberano se torna menos aceitável e passa a dar lugar à disposição da troca da própria autonomia por uma ordem internacional regida por sistemas de regras e recursos para a solução destes. É nesse cenário que está inserido o conceito de governance (ou governança) pois, segundo Keohane8 o liberalismo regulatório consistem em to promote the rule of law in international relations, as well as organizations and practices that moderate the security dilemma among states. This would help to modify international anarchy and reduce incentives for states to engage in behaviour that privileges their short-term interests of the society of states. Outrossim, a governança – segundo Rosenau – pode ser compreendida como um sistema de ordenação que depende de sentidos intersubjetivos, mas também de constituições e estatutos formalmente instituídos. Sumariamente, consiste em um sistema que requer atividades apoiadas em objetivos comuns que independam de autoridade formal, poder de polícia e imposição. A governança, nesse prisma, é comparada ao(s) governos(s) – sendo este uma autoridade formal que impõe suas políticas, as quais podem ser eficazes ou não. Assim, descreve9: A governança é um sistema de ordenação que só funciona se for aceito pela maioria (ou pelo menos pelos atores mais poderosos do seu universo), enquanto os governos podem funcionar mesmo em face de ampla posição à sua política. Nesse sentido, a governança é sempre eficaz, quando se trata das funções necessárias para a persistência sistêmica, ou então não é concebida para existir efetivamente (com efeito, não se fala em uma governança ineficaz, mas sim de anarquia ou caos). Por outro lado, os governos podem ser bastante ineficazes sem que deixem de ser considerados como existentes – diz-se simplesmente que são “fracos”. Portanto, pode-se falar em governança sem governo – sem mecanismos regulatórios em uma esfera de atividade que funcione efetivamente mesmo que não tenha endosso de uma autoridade formal. Nesses moldes, os regimes internacionais consistem no sentido mais estrito dessa ordem internacional haja vista tratar de temas/ agendas mais específicas. Logo, a definição de regime internacional é compreendida como 8 KEOHANE, Robert. International liberalism reconsidered. In: DUNN, John (Ed.) The Economic Limits to Modern Politics. Cambridge: Cambridge University Press, 1990. p. 175. 9 ROSENAU, James. Governança, ordem e transformação na política mundial. In: ROSENAU, James N.; CZEMPIEL, Ernest-Otto (Ed.). Governança sem governo: Ordem e transformação na política mundial. 2000. Brasília: Ed. UnB. Cap. 1. p.16. 13 Princípios implícitos ou explícitos, normas, regras, procedimentos nos processos de decisão e diretrizes acordadas entre os estados como o intuito de regular determinada conduta futura, para as quais convergem as expectativas dos atores a respeito de um tema específico no plano internacional10. Outra questão pertinente a este estudo refere-se à diferenciação entre o sentido amplo e restrito da ordem internacional. Destarte, o estudioso da teoria dos regimes Young11, destaca: Uma ordem internacional é um conjunto de entendimentos mantidos dentro de um contexto amplo para reger as atividades de todos (ou quase todos) os membros da sociedade internacional em largo espectro de temas específicos De outro lado, os regimes internacionais, em contraste, são entendimentos mais especializados relativos a atividades bem definidas, a recursos ou áreas geográficas que com freqüência envolvem só um subconjunto determinado dos membros da sociedade internacional. Assim, falamos em regimes internacionais da pesca da baleia, da conservação de ursos polares, do uso do espectro eletromagnético, das atividades humanas na Antártica. A partir desses conceitos, Stoker12 desenvolve cinco proposições sobre governance: 1. A governança implica na participação de um conjunto de instituições e atores que não pertencem à mesma esfera de governo; 2. Em situação de governança, as fronteiras e as responsabilidades são menos claras no domínio da ação social e econômica; 10 KRASNER, Stephen (Ed.). International Regimes. London: Cornell University Press, 1993. p.1. YOUNG, Oran R. International Cooperation: Building Regimes for Natural Resources and the Environment. Ithaca, Nova York: Cornell Univ. Press, 1989. p. 13. 12 STOKER, Gerry. Cinq propositions pour une théorie de la gouvernance, Revue Internationale des Sciences Sociales, La Gouvernance, Ramonville Saint-Agne. p. 155, Mars 1998. 11 14 3. A governança traduz uma interdependência entre os poderes das instituições associadas à ação coletiva; 4. A governança implica na participação de redes de atores autônomos; 5. A governança parte do princípio de que é possível agir sem se remeter ao poder ou autoridade do Estado. Este tem por papel utilizar técnicas e instrumentos novos para orientar e guiar a ação coletiva. Dessa forma, observa-se que a cooperação é necessária para sanar alguns problemas oriundos do cenário anárquico internacional, pois, em alguns temas específicos existe a inerência trans-nacional de convergência das expectativas e, possivelmente, da conduta internacional dos países. Diante disso, há a afirmação de uma forma de poder mais eqüitativa entre os países devido à cooperação coletiva e ao aperfeiçoamento das normas internacionais e às variáveis otimistas que diminuem os interesses egoístas das partes. A cooperação técnica internacional, nessa perspectiva, é definida pela ABC como “um instrumento auxiliar de promoção do desenvolvimento nacional e um importante mecanismo de estreitamento das relações entre países. Para contribuir para o processo de desenvolvimento sócio-econômico, a CTI enseja a transferência de conhecimentos entre um organismo internacional e um país, ou entre países, em bases não comerciais, com vistas a alcançar-se objetivos previamente definidos e acordados entre as partes (consubstanciados em um Documento de Projeto), em um tema específico”13. Para Wendt, não só os acordos cooperativos, mas principalmente os regimes e instituições internacionais elaboram transformações mais profundas: “transformações de identidade e interesse através do processo são transformações de estrutura”. 14 O autor acredita que ao invés da natureza egoísta – que leva à interação conflitual ou cooperativa (ou comunitária) – dos Estados, há um comportamento precedido por normas, princípios, etc. que surgem e se legitimam como regimes, os quais fazem com que o comportamento coletivo dos Estados seja modificado. 13 BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Agencia Brasileira de Cooperação. O Brasil e a Cooperação Técnica Internacional. Disponível em: <http://www.abc.gov.br/ct/historico_ct.asp>. 14 WENDT, Alexander. Anarchy is what states make of it: the social construction of power politics. In: DER DERIAN, James. International Theory: critical investigations. New York: New York University Press, 1995. p.131. 15 Even if egoistic reasons were its starting point, the process of cooperating tends to redifine those reasons by reconstituting identities and interests in terms of new intersubjective understandings and commitments […]. Their identities and security interests are continuously in process, and if collective identities become “embedded”, they will as resistant to change as egoistic ones15. Wendt (2003) define o Estado mundial como o processo no qual os Estados transferem sua soberania a um nível global e cujo reconhecimento dos indivíduos não mais será mediado nos limites estatais – o que garante ao Estado mundial o reconhecimento pelos indivíduos e pelos grupos que constituem suas partes. Embora nossa sociedade não se encontre nesse patamar, é interessante observar que nesse estágio evolutivo o “novo Estado” se torna cada vez mais apto a participar como um agente em seu próprio desenvolvimento – e é esse caminho que se tem tentado percorrer. Nessa perspectiva, as instituições passam a influenciar nas ações dos Estados mesmo no ambiente anárquico. O impacto dessa mudança se reflete na viabilização de novos projetos, os quais possuíram novos atores e beneficiários do processo de cooperação (representações governamentais bem como não-estatais) – dentre eles: ONGs, grupos étnicos – que formularão novos temas para a agenda internacional: acordos e regimes para meio-ambiente, combate ao terrorismo, etc. E, é interessante a participação dos Estados nesse novo sistema, pois os regimes maximizam as possibilidades de bons resultados em negociações, estabelecendo, muitas vezes, uma relação de ganhos múltiplos. 3. DESENVOLVIMENTO 3.1 HISTÓRICO DA COOPERAÇÃO TÉCNICA Neste capítulo optou-se pela apresentação da cooperação técnica partindo de uma abordagem mais ampla, tratando, pois do histórico desta no mundo e, posteriormente, destacando a atuação brasileira no cenário internacional. Assim, adotou-se uma subdivisão do descritivo histórico conforme a evolução da CTI na perspectiva global (sendo este o primeiro tópico) e a participação brasileira, a qual 16 versa sobre: o Histórico da Cooperação Técnica Brasileira, A Cooperação Técnica Brasileira em Saúde e A Cooperação Técnica do Brasil com os PALOP. 3.1.1 Histórico da Cooperação Técnica no mundo O início da cooperação técnica internacional ocorreu no final da Segunda Guerra Mundial como mecanismo auxiliar de desenvolvimento no processo de configuração do pós-guerra. Assim, na conferência de Bretton Woods (1944), junto à criação do Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI), houve a preocupação dos EUA – novo líder mundial – em promover um plano de reconstrução para a Europa. O Plano Marshall, nesse contexto, ofereceu aproximadamente US$ 20 bilhões para a recuperação econômica da Europa. A condição imposta pelos EUA para o recebimento de tais recursos foi de que as nações européias elaborassem um plano comum de recuperação pós-conflito. O relevante desse Plano foi a mobilização das Nações Unidas nesse processo de reconstrução e a percepção da ajuda externa como uma forma de auxiliar na promoção do desenvolvimento em outras regiões do mundo – tornando-se a “ajuda” ou “cooperação” um dos pilares da cooperação internacional. O Sistema das Nações Unidas foi um espaço criado para o favorecimento da paz e estabelecimento do desenvolvimento socioeconômico e, no incentivo às condutas de cooperação passou a estabelecer um novo direito, denominado “Direito do Desenvolvimento”16 que consiste num conjunto de regras de cooperação entre países desenvolvidos para países de menor desenvolvimento com o intuito de diminuir a dependência dos últimos. O intuito é garantir a autodeterminação dos povos, direito ao desenvolvimento e direito à paz17. Não obstante às ações das Nações Unidas para reconstruir países afetados pelo conflito, buscou-se também auxiliar aos países menos industrializados através 15 WENDT, Alexander. Anarchy is what states make of it: the social construction of power politics. International Organization, v. 46, n. 2, p. 391-455, Spring 1992. 16 SOARES, G. A cooperação técnica internacional. In: MARCOVITCH, J. (Org.). Cooperação internacional: estratégia e gestão. São Paulo: USP, 1994. p. 165. 17 ESPIEL, H. Introdução (les Droits a Vocation Communautaire). In: BEDJAOUI, M. (Org.) Droit Internacional Bilan et perspectives. Paris: Unesco, 1991. p.1. 17 da Foreign Assistance e de outras iniciativas: científicas, técnicas e tecnológicas que determinaram um novo caráter da cooperação internacional. Na segunda metade do século XX houve um aumento significativo de cooperação técnica através da Ajuda Oficial para o Desenvolvimento (AOD)18 além de uma preocupação da comunidade internacional devido a possíveis falhas da cooperação técnica, gerando pois ações do Programa das Nações Unidas (PNUD) para minimiza-los haja vista a cooperação técnica consistir em recurso escasso e necessitar de um planejamento e boa alocação/administração. Também, ao longo do tempo, percebeu-se que a expressão “assistência técnica” deveria ser substituída por “cooperação técnica” haja vista a nova percepção desse tipo de relação não mais como uma transferência de técnicas e conhecimentos entre atores que possuem grande disparidade de desenvolvimento mas sim como uma relação de trocas, mesmo que desiguais, entre as partes acordantes. Outro fator relevante para uma nova roupagem da CTI foi o anseio dos países em desenvolvimento por um comércio mais justo (dentre outros tipos de relações), a partir da década de 60. O fato é que o GATT e a OMC (ou GATT-94) ainda não tratavam das questões comerciais que pudessem favorecer aos países que precisavam de um tratamento especial devido sua propulsão inicial ao desenvolvimento, assim o Sistema Geral de Preferências (SGP) e o Sistema Geral de Preferências Comerciais (SGPC) foram os meios alternativos criados para que as relações destes com os países mais ricos tivessem características mais adequadas/ justas – assim como também se evidenciou com a implementação da cláusula de nação mais favorecida. O Institucionalismo Neoliberal, segundo Nye, ganhou força pois o novo prisma internacional explicitou a cooperação coletiva bem como a relevância das instituições que passaram a influenciar nas ações dos Estados, mesmo no ambiente anárquico. Isso se evidencia, principalmente, através da atuação das Nações 18 AOD corresponde a uma contribuição para transferência de recursos técnicos e financeiros para o desenvolvimento socioeconômico de países em desenvolvimento, tal contribuição é baseada em um percentual do Produto Interno Bruto dos países membros da OEDC – Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico. Para uma melhor compreensão de como a AOD se tornou relevante para a o desenvolvimento internacional e os impactos desta (programas e projetos apoiados) para a área de saúde do Brasil, principalmente entre 1997 a 2007, vide: CAMPOS, Rodrigo P.; ALMEIDA,Célia; FONSECA, Luiz Eduardo. A Assistência Oficial para o Desenvolvimento ao setor de saúde do Brasil de 1997 a 2007. MIMEO. 18 Unidas, a qual possibilitou o aperfeiçoamento das normas internacionais diminuindo os interesses egoístas das partes. Mesmo ciente dos egoísmos, essa corrente teórica preconiza que é possível uma cooperação política que extrapole a convergência casual dos objetivos/ interesses dos Estados pois, com a atuação de outros atores não-estatais, estabelecem determinados regimes e/ou condutas no cenário internacional que inviabilizam a atuação restrita aos interesses e identidades dos estados nacionais. Dessa forma, no final da década de 70 surge a Cooperação Técnica entre Países em Desenvolvimento como demonstração de eixo alternativo às forças vigentes da época, na luta por mais equilíbrio/ harmonia no âmbito internacional. Outro aspecto pertinente diz respeito à Conferência das Nações Unidas, em Buenos Aires, na Argentina, a qual possibilitou implementação do Plan de Acción para Promover y Realizar la Cooperación Técnica entre los Países en Desarrollo (que também foi conhecido como PABA – Plan de Acción de Buenos Aires). Dessa forma, com o intuito de realçar as prioridades desses países, demonstrou no Plano que o contexto em que os países desenvolvidos desejavam inserir os países em desenvolvimento contradizia suas reais necessidades. Contudo, os países em desenvolvimento não desejavam o fim do apoio destes (contribuição da AOD), conforme se observou no 8º parágrafo introdutório do PABA: La CTPD no es un fin en sí misma, ni tampoco un sustituto de la cooperación técnica con los países desarrollados. El aumento de la cooperación técnica proveniente de los países desarrollados es necesario para la transferencia de tecnologías apropiadas, así como para la transferencia de tecnologías avanzadas y otras formas de pericia en las que esos países tienen clara ventaja. Se requieren nuevas contribuciones de los países desarrollados para acrecentar la capacidad técnica de los países en desarrollo mediante el apoyo a las instituciones pertinentes de dichos países. La CTPD puede servir para aumentar la capacidad de las instituciones de los países en desarrollo de adaptarse y de absorber insumos adecuados procedentes de los países desarrollados. Portanto, o intuito da CTDP era amparar a CTI como uma transferência compartilhada de técnicas e conhecimentos, treinamento de pessoal, material bibliográfico, equipamentos, estudos e pesquisas entre as partes acordantes. Isso implicou no compartilhamento de experiências e desenvolvimento, levando a CTI a 19 ser conhecida como “Cooperação Horizontal”, e não mais como “Cooperação Vertical” ou “unidirecional”, embora esta última também continuou a existir19. Nesse processo de reorientação da CTI, a CTPD foi o norte de outras modificações na prática cooperativa. Ou seja, novas dimensões da cooperação técnica passaram a ser evidenciadas através do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (UNDP) e de outras ações práticas da cooperação técnica. Accordingly, UNDP redefined its role in technical cooperation to stress results achieved, rather than inputs required from the industrialized nations. Seen from this perspective, the purpose of technical cooperation is to promote increasing autonomy with regard to the managerial, technical, administrative, and research capabilities required to formulate and implement development plans in the light of options available.20 Ainda nesse contexto de luta por maior eqüidade no cenário internacional, houve a formação do G-77, em 1964, na Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) e a formação da Unidade Especial para Cooperação Sul-Sul, no final dos anos 70, ambos com intuito de ampliar os benefícios da CTI, ampliando a cooperação para o âmbito comercial-econômico entre os países em desenvolvimento. Assim, pode-se afirmar que a cooperação SulSul distinguiu-se da CTPD por abranger mais ações que esta última, assim a Cooperação Sul-Sul trata de uma extensa gama de possibilidades de atuação entre os países do Sul. Não obstante, a CTPD passou por um processo de enfraquecimento devido às sucessivas crises do petróleo, mas já no início do século XXI ela retomou as forças para atuar de outra forma mais alternativa, implicando pois, na tentativa de neutralizar os impactos da globalização econômica. 3.1.2 Histórico da Cooperação Técnica Brasileira 19 Para melhor compreensão da CTI do Brasil, sugere-se a leitura de: CERVO, Amado. Socializando o desenvolvimento: uma história da cooperação técnica internacional do Brasil. Disponível em: <http://ftp.unb.br/pub/UNB/ipr/rel/rbpi/1994/115.pdf> . Acesso em 11 jun. 2009. 20 ENCYCLOPEDIA OF THE NATIONS. Technical Cooperation Programs: the evolution of UNDP. Disponível em: <http://www.nationsencyclopedia.com/United-Nations/Technical-CooperationPrograms-Evolution-of-UNDP.html>. Acesso em: 10 jan. 2009. 20 A CTI se inicia no Brasil na década de 50 através da criação da Comissão Nacional de Assistência Técnica (CNAT), cuja prioridade era receber ajuda externa/ transferência de tecnologia de países desenvolvidos. A Secretaria de Planejamento, o Ministério das Relações Exteriores e os Ministérios setoriais eram os representantes deste organismo que era responsável captação de recursos (participação em programas) que viabilizassem o desenvolvimento nacional através da assistência técnica – tal prática voltou-se principalmente para as Nações Unidas e A Organização dos Estados Americanos (OEA). Em 1967, o governo brasileiro instituiu a SUBIN – Subsecretaria de Cooperação Econômica Técnica Internacional – que dispunha sobre a prospecção, avaliação e acompanhamento dos projetos de CTI. Já em 1969, o sistema brasileiro de cooperação internacional sofreu algumas mudanças que deram à Secretaria de Planejamento da Presidência da República (SEPLAN) e ao MRE os poderes de gerir a CTI. Dessa forma, o corpo da SUBIN foi integrado à SEPLAN, tornando-se parte da relação SEPLAN/MRE. A partir dessa nova centralização, o País passou a receber mais atenção dos países industrializados e dos organismos internacionais doadores bem como se passou a pleitear por mais projetos de CT. Além dessa grande demanda também o aumento de atividades das áreas da SEPLAN e do MRE21 que lidavam com a negociação externa, com o planejamento, coordenação e acompanhamento se viram na necessidade de passar por nova reestruturação. Assim, após a árdua tentativa de integrar o aumento da demanda brasileira por CTI com o expressivo volume de recursos externos e com algumas divergências entre as instâncias governamentais, fez-se nova reformulação do sistema de CT do Brasil. Em 1984, houve a fusão das coordenações governamentais que cuidavam da área, levando, pois à criação da ABC – Agência Brasileira de Cooperação. Esta, por sua vez, foi vinculada exclusivamente ao MRE e teve novo foco de atuação: unificação das ações técnicas (gestão dos projetos) e políticas (diplomáticas). Essa nova Agência especializada em CTI também passou por várias reformulações ao longo do tempo. Dentre elas, a forte vinculação a países industrializados e organizações internacionais (como Japão, Canadá, Alemanha e o 21 A Divisão de Cooperação Técnica do Itamaraty (DCOPT) tinha por competência encarregar-se dos aspectos políticos que facilitassem à cooperação técnica. 21 PNUD22); ações vinculadas às orientações da PEB; a partir de 1992, suas atividades foram conexas às diretrizes do Departamento de Cooperação Científica, Técnica e Tecnológica do MRE; em 1996, houve a integração da ABC à Secretaria-Geral do MRE, o que lhe proporcionou maiores possibilidades de atuação; e, em 2004, integrou-se à Subsecretaria-Geral de Cooperação e Comunidades Brasileiras no Exterior (do MRE), que lhe rendeu as mesmas atribuições anteriores: atuar como doador e/ou receptor da CTPD em diversas áreas do conhecimento23. Dessa forma, alguns dispositivos legais versaram sobre a CT brasileira, tais como: o Acordo Básico de Assistência Técnica entre o Governo dos Estados Unidos do Brasil e a Organização das Nações Unidas24, mediante o Decreto nº 59.308 de 23 de setembro de 1966 que tratou da CTI prestada pelos organismos internacionais; a lei 10.683, de 28 de maio de 2003 que versava sobre a estrutura da Presidência da República e dos Ministérios – demonstrando a competência da Coordenação da CTI para o MRE; e o decreto n° 5.151, de 22 de julho de 2004, que tratava da celebração dos atos complementares de CT recebida de organizações internacionais e a gestão dos projetos que fossem observados pelas entidades da Administração Pública Brasileira, direta ou indiretamente. A atuação brasileira em CTPD foi iniciada no período em que os países pleiteavam uma nova orientação da CTI. Antes, a ajuda era apenas recebida de forma bilateral (CTRB) ou multilateral (CTRM) e somente após a reestruturação da ABC é que o know-how brasileiro passou a ser difundido a outros países, embora permanecesse recebendo CTI de países desenvolvidos (como ainda o faz). Assim, a coordenação que lida com a Cooperação Horizontal25 da Agência passou a promover o País internacionalmente e a assegurar suas ações em regiões em que o Estado Brasileiro possuiu interesse. Segundo Machado (2004, p. 147): 22 Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD – cooperação que visava o fortalecimento da ABC para que esta obtivesse meios concretos de dirigir a CTI do país. Assim, forneceria capacitação profissional, informatização dos sistemas, técnicas gerenciais para possibilitar tão prontamente a autonomia da Agência. 23 O QUE é a Agência Brasileira Cooperação. Via ABC, Brasília, p. 1-8, jul. 2005. Disponível em: <http://www.abc.gov.br/intranet/Sistemas_ABC/siteabc/documentos/via-ABC.pdf>. Acesso em: 11 dez. 2008. 24 BRASIL. Agência Brasileira de Cooperação. Cooperação Técnica Internacional: projetos de destaque. Disponível em: <http://www.abc.gov.br/ct/projetos_destaque.asp>. Acesso em: 28 jul. 2008. 22 A CTPD praticada pelo Brasil tem conseguido atingir seus objetivos políticos de angariar e fortalecer os laços de amizade com os chamados países em desenvolvimento e proporcionar condições propícias para o ingresso e crescimento de interesses econômicos tais como exportação de manufaturados e a contratação de serviços de engenharia. As diretrizes que permeiam a CGPD/ ABC26 consistem em: priorizar programas de cooperação técnica que favoreçam a intensificação das relações do Brasil com seus parceiros em desenvolvimento, principalmente com os países de interesse prioritário para a política exterior brasileira; apoiar projetos vinculados, sobretudo a programas e prioridades nacionais de desenvolvimento dos países recipientários; canalizar os esforços de CGPD para projetos de maior repercussão e âmbito de influência, com efeito multiplicador mais intenso; privilegiar projetos com maior alcance de resultados; apoiar, sempre que possível, projetos com contrapartida nacional e/ou com participação efetiva de instituições parceiras; estabelecer parcerias preferencialmente com instituições genuinamente nacionais. As diretrizes acima são fundamentais para a compreensão da relevância das ações das instituições/ organizações nacionais que atuam em CTI bem como estabelecem claramente a formulação das prioridades da CGPD (e das conseqüentes ações desta) que hoje consistem em: a) compromissos assumidos em viagens do Presidente da República e do Chanceler; b) países da América do Sul; c) Haiti; d) países da África, em especial os Palops, e Timor-Leste; e) demais países da América Latina e Caribe; f) apoio à CPLP; e 25 É conhecida como Coordenação Geral de Cooperação Técnica entre Países em Desenvolvimento – CGPD – e tem por finalidade gerenciar a cooperação prestada pelo Brasil aos países em desenvolvimento. 26 Mais informação sobre a Coordenação Geral de Cooperação Técnica entre Países em Desenvolvimento (CGPD) da Agencia Brasileira de Cooperação estão disponíveis em: <http://www.abc.gov.br/abc/abc_ctpd.asp>. Acesso em: 08 jan. 2009. 23 g) incremento das iniciativas de cooperação triangular com países desenvolvidos (através de suas respectivas agências) e organismos internacionais27. Para a ABC (2008), a CTI facilita no processo de mudanças estruturais, constituindo, pois em um instrumento de desenvolvimento dos países recipientários devido à possibilidade de galgar saltos qualitativos mediante a transferência de conhecimentos, troca de tecnologias, capacitação dos recursos humanos e o fortalecimento das instituições envolvidas nos projetos. Outrossim, o Estado Brasileiro tem buscado ampliar sua atuação em CTPD e, dessa forma, a ABC faz um demonstrativo das ações nacionais nessa área. Para tanto, apresenta uma relação de países (divididos entre os continentes) e seus respectivos acordos de CTPD com o Brasil – vide Lista 1 em anexo (A). Conforme a Lista 1, existem 23 países africanos em CTI com o Brasil, 22 países entre América Latina e Caribe e 09 países entre a Ásia e Leste Europeu. Embora haja inúmeros acordos que corroborem para a afirmação brasileira na CTI entre países em desenvolvimento, também há de se mencionar ainda é pequena a atuação brasileira pois existem outras regiões/ países que podem ser beneficiados pela prática cooperativa. Não obstante, analisando mais cautelosamente os atos internacionais pode-se observar que alguns deles foram apenas celebrados sem que houvesse ajustes de complementaridade ou mesmo prosseguimento nos acordos, contudo isso será mais bem abordado no segundo capítulo deste trabalho. 3.1.3 A Cooperação Técnica Brasileira em Saúde Com a perspectiva de que a CTI possibilita resultados concretos ao desenvolvimento bem como a visão de que o Brasil possui capacidade de transferir e trocar técnicas e tecnologias com outros países, a cooperação técnica brasileira tem levado a cabo essa conjectura e tem se destacado em suas ações, dentre as quais, a área de saúde. 27 BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Agencia Brasileira de Cooperação. CGPD – Coordenação Geral de Cooperação Técnica entre Países em Desenvolvimento. Disponível em: <http://www.abc.gov.br/ab/abc_ctpd.asp>. Acesso em: 08 jan. 2009. 24 O Ministério da Saúde e o Ministério das Relações Exteriores estabeleceram uma parceria que preconizou a cooperação técnica em saúde entre os países em via de desenvolvimento. Mas somente através do processo de modernização do sistema de saúde brasileiro – após a CTI recebida de países desenvolvidos e de organismos internacionais – é que o país se sentiu apto a multiplicar os conhecimentos e técnicas adquiridas. Além disso, passou a liderar entre os países do Sul essa prática e, para tanto, necessitou ampliar suas ações mediante o significativo aumento de países que almejaram se tornar beneficiários – implicando, pois no Protocolo de Intenções entre o MS e o MRE. Através deste, as instâncias do MS se tornaram aptas a atuar em acordos internacionais como partes responsáveis pela implementação de programas/ projetos em saúde. Assim, a parceria entre o MS e o MRE foi formalizada na área de CTI, tornando o MS parte relevante do processo de atuação do país nas parcerias Sul-Sul. É pertinente ressaltar que essa parceria também favoreceu a elevação do status do MS haja vista sua proeminência em assuntos estrangeiros – pois pôde atuar como ator conexo aos interesses do País na área internacional e não apenas como ator relevante no ambiente interno, o que lhe conferiu destaque e similitude ao MRE no que cerne à colaboração aos interesses brasileiros no exterior. Ao passo que essa relação evoluía, outra parceria se mostrou exitosa – ABC/Organismos Nacionais, conforme demonstra a própria ABC28: Por meio da Agência Brasileira de Cooperação – ABC e em parceria com renomadas instituições brasileiras (Embrapa, Senai, Fundação Oswaldo Cruz, Ministérios da União, dentre outras), o Itamaraty tem se empenhado em incrementar cada vez mais a cooperação técnica brasileira com os países da América Latina e do Caribe, por considerar a região como estratégica para a política externa do país. Nesse sentido, o Ministério das Relações Exteriores tem retomado diversas iniciativas de intercâmbio com esses países e iniciado outras tantas. Os três vetores que norteiam essa política são a solidariedade internacional, a presença maior e construtiva do país no cenário regional e a troca de experiências com outros países em desenvolvimento. 28 COOPERAÇÃO Bilateral com América Latina e Caribe. Via ABC, Brasília, p.1, jun. 2006. Disponível em: <http://www.abc.gov.br/intranet/Sistemas_ABC/siteabc/documentos/via-junho.pdf>. Acesso em: 13 jan. 2009. 25 Na medida em que se observou o incremento das parcerias em CTI, a ABC passou a segmentar suas ações em coordenadorias, dentre as quais a Coordenação-Geral de Cooperação Prestada nas Áreas de Saúde, Desenvolvimento Social, Educação e Formação Profissional (CGDS) é responsável por: assessorar o Diretor nos assuntos relativos à Cooperação Técnica nas áreas de atuação da CGDS; elaborar e propor, para aprovação do Diretor, os planos e programas nas suas áreas de atuação; orientar instituições nacionais e organismos especializados que atuem nas áreas de saúde, desenvolvimento social, educação ou formação profissional sobre procedimentos relacionados à elaboração, aprovação, tramitação e execução de projetos de cooperação técnica a serem desenvolvidos em terceiros países; atuar em estreita articulação com as demais Coordenações-Gerais da ABC, bem como com as áreas competentes da SERE para discussão sobre as prioridades do Governo brasileiro a serem refletidas nos programas e projetos de cooperação da CGDS; coordenar a realização de missões de identificação de programas e projetos nas áreas em que a compete; participar de reuniões de Comissões Mistas e de negociações com agências bilaterais estrangeiras e com organismos multilaterais, bem como auxiliar na participação da ABC em foros multilaterais que tratam de seus assuntos; organizar reuniões com as instituições executoras para planejar, monitorar e avaliar projetos de cooperação técnica; negociar com as instituições nacionais sua participação na implementação dos projetos da CGDS, bem como orientá-las sobre os procedimentos relacionados à elaboração, tramitação, aprovação e execução desses projetos de cooperação para o desenvolvimento; e detectar a necessidade de programas de treinamento dos técnicos de sua área e tomar as providências para implementá-los. Dentro da margem de ação da CGDS, o Ministro Celso Amorim, destaca para a região da América Latina e Caribe29: Estamos procurando atender às crescentes demandas por cooperação, dando prioridade aos setores nos quais podemos oferecer uma contribuição expressiva. Entre as áreas de atuação mais intensa da ABC, destaco as de agricultura, educação (programas de alfabetização), formação de quadros técnicos, biocombustíveis (etanol e biodiesel), saúde (combate ao HIV/AIDS), 29 COOPERAÇÃO... 2006, p.16. 26 apoio eleitoral (urnas eletrônicas), cooperação desportiva (futebol), entre outras. Conforme a citação acima, de fato a cooperação prestada em saúde pública no âmbito Sul-Sul, é um dos grandes destaques do Brasil e, assim, a ABC também evidencia a relevância do combate de doenças, como a AIDS, pois demonstra que vem obtendo grande êxito em diversos países da África e América Latina, alcançando repercussão e reconhecimento internacional devido à sua originalidade e eficiência comprovada. O referido Programa já financiou mais de 10 projetos-piloto nos dois continentes, visando à capacitação de recursos humanos em manejo clínico e na logística de distribuição de medicamentos, além de assistência técnica e doação de medicamentos anti-retrovirais produzidos no Brasil. Dentre os dezesseis países beneficiários do Programa HIV/AIDS encontram-se: Bolívia, Cabo Verde, Colômbia, Cuba, El Salvador, Equador, Burquina Faso, Guiné-Bissau, Moçambique, República Dominicana, São Tomé e Príncipe e TimorLeste30. Embora o Brasil se destaque no combate ao HIV/AIDS, outros significativos avanços foram logrados no combate e/ou controle de doenças e desenvolvimento de programas em saúde cuja excelência brasileira é comprovada: combate á malária; fortalecimento da alimentação e nutrição através do controle da desnutrição, anemias, hipovitaminose e outras formas de carência nutricional; redução da mortalidade infantil mediante o cumprimento dos objetivos do milênio, sendo pois, o fortalecimento dos bancos de leite humanos (BHL) e o programa de conscientização da relevância do aleitamento materno fundamentais nesse processo; manejo de resíduos sólidos e contaminantes e controle da qualidade da água como parte do projeto de vigilância ambiental em saúde; fortes estratégias de vigilância epidemiológica; transferência de tecnologias em fármacos e imunobiológicos; dentre outros. Considerando a relevância de uma análise mais concreta da atuação brasileira em CTI o quadro 1 – vide anexo B – aponta alguns acordos assinados na área de saúde, referente a países africanos que têm como idioma oficial o português (CPLP). Assim, destacam-se algumas áreas em que o Brasil possui forte atuação: ciência e tecnologia – C&T – (02 acordos), combate à malária (01 acordo), combate 30 COOPERAÇÃO... 2006, p. 3. 27 ao HIV/AIDS (3 acordos), formação e capacitação em saúde pública (03), alimentação e nutrição (01). Considerando os avanços brasileiros na área de saúde ao longo da história brasileira, é mister salientar que as técnicas e tecnologias deste país auxiliam sobremaneira na saúde pública africana. Prova disso é a adaptação de programas nacionais, como o Sistema único de Saúde (SUS), à realidade dessa região. 3.1.4 A Cooperação Técnica do Brasil com os PALOP Neste item, optou-se pela abordagem dos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa) como parte integrante da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa) para uma abordagem mais precisa dos fatos. Portanto, quando houver referencias à CPLP entenda-se que os países africanos são o principal foco do estudo presente. A CPLP foi fundada em julho de 1996 e possui como base três pilares: difundir a língua portuguesa, o diálogo político-diplomático e a cooperação. A comunidade é composta por Angola, Brasil, Cabo Verde, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. A ratificação da Declaração Constitutiva e dos Estados da CPLP ocorreu, em sua maioria, em 1997, exceto o Timor Leste que aderiu em 2002. Em discurso proferido na visita oficial do Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal a Cabo Verde, em 1983, Jaime Gama argüiu que o processo mais adequado para tornar consistente e descentralizar o diálogo tricontinental dos sete países de língua portuguesa espalhados por África, Europa e América seria realizar cimeiras rotativas bienais de Chefes de Estado ou Governo, promover encontros anuais de Ministros dos Negócios Estrangeiros, efetivar consultas políticas freqüentes entre diretores políticos e encontros regulares de representantes na ONU ou em outras organizações internacionais, bem como avançar com a constituição de um grupo de língua portuguesa no seio da União Parlamentar.31 31 GAMA, Jaime. Política Externa Portuguesa, 1983-1985. Lisboa: Ministério dos Negócios Estrangeiros, 1985. p. 50-51. 28 Contudo, a priori essa declaração não mobilizou os países de língua oficial portuguesa e, somente em 1990 foi observada a necessidade de colocar tal discurso em prática. Dessa forma, o Embaixador Brasileiro em Lisboa, José Aparecido de Oliveira, reuniu esforços para que houvesse um encontro entre os sete Ministros de Negócios Estrangeiros e das Relações Exteriores. Em 1994, os ministros novamente se reuniram. Em Brasília, decidiram recomendar aos seus respectivos Governos a realização de uma Cimeira de Chefes de Estado e de Governo com o intuito de estabelecer o pilar (ou ato constitutivo) da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa bem como se decidiu implementar ações concretas para uma execução rápida deste: montar um Grupo de Conservação Permanente, sediado em Lisboa, o qual seria composto pelo DiretorGeral de Política Externa de Portugal e pelos Embaixadores acreditados pelos Países em Lisboa. Após reiterarem a relevância da criação da CPLP, em 1995 os Ministros novamente se reúnem e deliberam pela marcação da Cimeira em 1996, que resultará na criação da Comunidade: A reunião deste grupo de Estados – situados em 4 Continentes e englobando 230 milhões de pessoas – consolidou uma realidade já existente, resultante da tradicional cooperação Portugal-Brasil e dos novos laços de fraternidade e cooperação que, a partir de meados da década de 1970, se foram criando entre estes dois países e as novas nações de língua oficial portuguesa. A institucionalização da CPLP traduziu, assim, um propósito comum: projectar e consolidar, no plano externo, os especiais laços de amizade entre os países de língua portuguesa, dando a essas nações maior capacidade para defender seus valores e interesses, calcados sobretudo na defesa da democracia, na promoção do desenvolvimento e na criação de um ambiente internacional mais equilibrado e pacífico32. Dessa forma, a base material da CPLP dispõe no artigo 5º, que a CPLP é regida pelos seguintes princípios: a) Igualdade soberana dos Estados membros; b) Não ingerência nos assuntos internos de cada Estado; c) Respeito pela sua identidade nacional; d) Reciprocidade de tratamento; e) Primado da Paz, da 32 COMUNIDADE DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA. O histórico da formação da CPLP: parte II. Disponível em: <http://www.cplp.org/Como_surgiu_(2).aspx?ID=241>. Acesso em: 14 fev. 2009 29 Democracia, do Estado de Direito, dos Direitos Humanos e da Justiça Social; f) Respeito pela sua integridade territorial; g) Promoção do Desenvolvimento; h) Promoção da cooperação mutuamente vantajosa. Além disso, no inciso 2, determina que a CPLP estimulará a cooperação entre os seus membros com o objetivo de promover as práticas democráticas, a boa governança e o respeito pelos Direitos Humanos. Com base nas informações do Estatuto, mais especificamente nos incisos g) e h), que deve haver a “promoção do desenvolvimento” e a “promoção da cooperação mutuamente vantajosa” nas relações da CPLP, deve-se, portanto, observar que esses pilares tratam de uma aproximação que extrapola a perspectiva de uma simples expansão comercial (pois é notório que o incremento comercial na região africana é limitado, exceção feita às relações com a Angola, em decorrência do petróleo) e “permitem auferir e substancializar a percepção de um real aproveitamento de tendências à globalização da economia mundial, através de uma dinamização de ações verticais e horizontais entre espaços regionais, não necessariamente excludentes”33 No âmbito da CPLP, o Brasil se destaca na área CTI por executar projetos que coadunam com os interesses do Estado bem como atende também às demandas dos países receptores. Essa inter-relação possibilitou que os países da Comunidade recebessem CT brasileira na área de: saúde, agricultura, educação, ciência e tecnologia, defesa, agricultura, administração pública, comunicações, justiça, segurança pública, cultura, desporto e comunicação social. Um dos principais destaques de projetos brasileiros em CTI, para a CPLP (em especial os PALOP), se dá na área de saúde através da atuação do Ministério da Saúde com o Programa de Apoio às ações de prevenção, educação e gestão das DST/HIV/SIDA. Os países em cooperação delimitaram as áreas prioritárias para atuação, dentre elas: prevenção (incluindo comunicação, informação e educação – ou seja, fornecimento de informações e ampla divulgação com intuito de esclarecimento das DST), assistência, tratamento, gestão de programas, vigilância epidemiológica, legislação, articulação entre Governo e a sociedade civil e direitos 33 MOURÃO, Fernando Augusto. Avaliação crítica da CPLP: o projeto, seus mecanismos e viabilidade política. In: CARDIM, Carlos Henrique; CRUZ, João Batista (Org.). CPLP: oportunidades e perspectivas. Brasília: IPRI, 2002. p. 51. 30 humanos. Durante o período de execução desses projetos (sendo que alguns permanecem ativos), foram englobados novos planos para suprir carências básicas para a execução dos primeiros. Ou seja, fornecimento de máquinas para diagnóstico, computadores, impressoras, e atividades como treinamento de pessoal, capacitação em manejo clínico do HIV/AIDS, estímulo à participação de eventos (co)relacionados à(s) temática(s) dos projetos. Inúmeros Programas de Cooperação Internacional (PCI) foram colocados prática desde 1999. O Ministério da Saúde destaca que o Plano Nacional de DST (PN-DTS/AIDS) foi adaptado para atender às necessidades dos países africanos e, para tanto, foi segmentado em duas etapas: na Fase I é compreendido pela CTI com Moçambique e Burkina Fasso e na Fase II é compreendido por 3 países com os quais presta cooperação (Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde). Também demonstra, conforme os quadros abaixo, até o ano de 2003 a atuação brasileira com alguns dos PALOP na cobertura de Medicamentos Anti-retrovirais (ARVs)34: Tabela 1 - Cobertura Universal de Medicamentos ARVs para países cooperantes com o Brasil. PAÍSES DA ÁFRICA Cabo Verde Estimativa do Nº de pessoas vivendo com HIV/Aids* 2003 Estimativa do Nº de pessoas PVHA vivendo com identificadas pelos HIV/Aids que PNLS para início precisam de imediato de TARV tratamento ARV** Pessoas em TARV (PCI) (PNLS) Não informado Não informado Não informado Guiné-Bissau 34.000 6800 5100 0 0 Moçambique 1.300.000 325.000 260.000 3000 100 1.800 450 360 0 São Tomé * Fonte: Report on the Global AIDS Epidemic - UNAIDS, 2004 (4º Global Report) * Este cálculo foi feito com base em 20% da estimativa das pessoas que vivem com HIV/Aids nos respectivos países. A OMS utiliza como padrão o percentual variante entre 20 e 30% . * Este cálculo foi feito com base em 5 a 7% da estimativa das pessoas que vivem com HIV/aids nos respectivos países. 34 BRASIL. Ministério da Saúde. Cobertura universal de medicamentos ARVs para países cooperantes com o Brasil. Disponível em: <http://www.aids.gov.br/main.asp?Team=%7BF170F8D0%2DA499%2D4656%2D80EC%2D52E1889 99181%7D#.>. Acesso em: 14 fev. 2009. 31 E, abaixo, um quadro referente ao número estimado de pessoas em tratamento e que necessitam de tratamento com ARVs na África: Tabela 2 – Número de pessoas em tratamento e que necessitam de tratamento por região em 2003. Região Nº de pessoas em tratamento ARV Nº de pessoas que necessitam de tratamento ARV Cobertura ÁFRICA 150.00 3.840.000 4% Fonte: BRASIL, 2009. A exemplo da cooperação bilateral, entre Brasil e Angola, é fundamental salientar que as atividades ainda são recentes, sendo que muitos dos projetos foram acordados apenas em 2007, se tornando quase impraticável a determinação dos principais resultados obtidos após a cooperação. Contudo, um projeto que já demonstra resultados mais concretos refere-se ao de “Capacitação do Sistema de Saúde de Angola” que, mesmo iniciado em 2007, implementou o Curso de Mestrado em Saúde Publica em Angola através da ENSP/ABC o qual principiará a implantação da futura Escola Nacional de Saúde Pública de Angola, assim o objetivo deste é de reestruturar o setor de saúde angolano mediante a elevada formação acadêmica, ou seja, os primeiros docentes da Escola de saúde serão os próprios alunos egressos do curso, o qual se iniciou em 2007. Outro caso de projeto em andamento se deu entre Brasil e Moçambique através do projeto “Estamos Juntos”, o qual foi iniciado em 2005 e tem por atividades principais: • • • • Proporcionar a troca de experiência entre professores e gestores do “Programa Geração Biz” de Moçambique e do “Programa Saúde e Prevenção nas Escolas” do Brasil; Promover a construção compartilhada de modelos de intervenção para prevenção nas escolas em contextos específicos; Discutir conteúdos referentes à prevenção e assistência ao HIV/AIDS entre adolescentes e jovens; Produzir novos conhecimentos abrindo canais de comunicação, interação e intercâmbio entre os dois países. 32 Já no âmbito multilateral, a CTI brasileira está articulando uma Rede Técnica de Articulação em HIV/AIDS entre os membros da comunidade de países de língua portuguesa. Os objetivos desejados consistem em: • • • Promoção ao acesso universal à prevenção, diagnóstico, assistência e tratamento das DST, HIV e AIDS; Combater o estigma e a descriminação as pessoas que vivem com HIV; Fortalecer a participação da sociedade civil na elaboração e implementação de políticas públicas, de forma a estimular a formação de redes de organizações não-governamentais e de pessoas vivendo com HIV. Não somente na área de saúde que a CTI está avançada. Na área de agricultura e segurança alimentar, ciência e tecnologia, educação, capacitação de recursos humanos, meio ambiente e energias renováveis, também existem resultados significativos. África e os Brasil unidos pelos aspectos históricos da colonização e pelo patrimônio que carregam em comum, a língua portuguesa, viram a possibilidade de estreitar seus laços através da cooperação internacional. Contudo, esse campo é pouco conhecido e, conseqüentemente, pouco explorado. Na esfera educacional, por exemplo, falta: incentivos à pesquisa científica, ativismo das universidades para melhor compreensão da dinâmica entre Brasil-África, bibliografias pertinentes às relações entre ambos, programas de intercâmbio, cooperação entre os centros de pesquisa, desconhecimento dos estudantes brasileiros sobre a história da África como componente curricular, dentre outras carências. Para Olukoshi35 – além de professor é secretário-executivo do Conselho para Desenvolvimento da Pesquisa em Ciências Sociais da África (Codesria), Nigéria – o período atual de cooperação em que está inserido o Brasil e a África representa o momento ideal para desenvolver e avançar a cooperação científica em todos os níveis e campos. Para que sejam mantidas, essas relações necessitam do 35 OLUKOSHI, Adebayo. Possibilidades e limites de uma cooperação ampla entre África e o Brasil. In: MOTTA, Pedro P. C.; SARAIVA, José Flávio S. (Org.). Fórum Brasil-África: Política, Cooperação e Comércio – Brasília: Instituto Brasileiro de Relações Internacionais (IBRI), 2004, p. 292. 33 investimento de vontade política e da busca consciente de políticas destinadas a superar as barreiras que entravam a cooperação. Ademais, as relações têm de assentar-se na igualdade das partes cooperantes, sejam governos, universidades ou centros de pesquisa. 3.2 A FIOCRUZ E SUA RELEVÂNCIA NA POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA NO GOVERNO LULA A Política Externa Brasileira (PEB) demonstrou algumas ações que aproximaram o País da África desde o reconhecimento do Império. Esses antecedentes são cruciais para a compreensão do fortalecimento das relações, contudo o presente estudo abordará o período mais contemporâneo, no qual CTI entre Brasil-África é mais fortemente caracterizado, dessa forma a abordagem englobará o período Vargas até o governo Lula. Para aludir a relevância da Fiocruz nesse contexto, optou-se por aborda-la após a caracterização da PEB, colocando-a em um sub-tema deste capítulo. 3.2.1 Histórico da Política Externa Brasileira para a África É pertinente mencionar que as relações afro-brasileiras já datavam do período colonial através de relações comerciais, contudo este vínculo fora rompido após a proibição da metrópole, a qual determinava que apenas Portugal poderia estabelecer as rotas comerciais de sua colônia. O autor Amado Cervo, define que existem quatro modelos de estudo das relações internacionais do Brasil, seguindo, pois, uma periodização histórica, conforme abaixo. No último item se refere ao período no qual estão inseridas a Política Externa Independente (PEI) e as demais políticas externas que corroboram para o estudo das relações com a África: a) De 1808 e 1822/28 até 1844: “concessões sem barganha”, que, como a própria caracterização indica, não corresponde a um exercício de afirmação dos interesses próprios do Brasil emergente; 34 b) De 1844 a 1889: “leitura complexa do interesse nacional”, período durante o qual se constitui o Estado nacional, relativamente autônomo e forte, mas que atua apenas “pelo alto”, representando a fração organizada da sociedade brasileira; c) De 1889 a 1930: época dos “grandes alinhamentos”, na qual a aliança com os Estados Unidos, a defesa dos interesses do café e o pan-americanismo imprimem sua marca política externa; e d) De 1930 até hoje: “nacional-desenvolvimentismo”, período extremamente rico em experimentos políticos e econômicos, mas no qual o “nacionalismo-desenvolvimentista” convive ou se alterna com o “liberalismo associado”, no qual se ensaia um projeto nacional próprio, mas ao cabo do qual se constata que o Brasil renunciou a uma “política de poder.”36 Assim, a PEB referente à África, neste estudo, é determinada dentro de um processo mais contemporâneo das relações internacionais, na qual os livros de História da Política Externa Brasileira (HPEB) abordam mais comumente . Destarte, a Política Externa Independente é o marco do processo de abertura brasileira à África, que teve como precursores os presidentes Getúlio Vargas (segundo mandato, de 1951 a 1954) e Juscelino Kubitschek (1956 a 1961), e dado prosseguimento nos governos de Jânio Quadros (1961) e João Goulart (1961 a 1964). No contexto de pós-II Guerra e de fortalecimento das bases da Guerra Fria, o Brasil visava ao não-alinhamento à bipolaridade rígida entre URSS e EEUU. Àquela época, os EEUU davam atenção especial à Europa (logrando resultados ao Plano Marshall), ao Oriente Médio, à Ásia e, posteriormente, à África com o intuito de barrar os avanços soviéticos nessas regiões. Segundo Saraiva, a África se tornou palco dos interesses das grandes potências, o que dificultou sua inserção internacional e processo de desenvolvimento: Na África, uma outra leva de independências modificaria as relações de força em algumas partes. O colonialismo resistente de Portugal cedeu, com a Revolução dos Cravos de 1974 e a erupção nacionalista dos movimentos de independência, à emergência de 36 CERVO, Amado. As relações internacionais do Brasil. Palestra pronunciada no Instituto Rio Branco em 07 de maio de 1992; nota feita pelo próprio autor. In: ALMEIDA, Paulo Roberto de. Relações Internacionais e Política Externa Brasileira. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2004. p. 89 90. 35 novos Estados. Angola e Moçambique deixaram a condição colonial em 1975 para enfrentar lutas internas quase sempre envoltas em forte presença internacional. Angola esteve no centro de nova tensão entre norte-americanos e soviéticos, envolvendo cubanos e sul-africanos, pelo controle estratégico da África austral, bem como das rotas de petróleo e minerais do Atlântico Sul. As independências de Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe encerrariam o longo colonialismo português na África. O “chifre” da África viveria, por sua vez, momentos dramáticos, em razão do envolvimento das superpotências, na década de 1970. O apartheid sul-africano colheria fortes reações internas e da comunidade internacional. A Nigéria ascenderia como um Estado essencial ao equilíbrio da África negra e à estratégia de poder dos países da aliança afro-árabe do petróleo. A Organização da Unidade Africana (OUA) seria palco de querelas diplomáticas entre Estados agrupados em torno de interesses divergentes e com perspectivas conflitantes acerca da inserção internacional do continente37. Assim, com o novo foco de coalizões do contexto internacional a América Latina ficou relegada a segundo plano nas diretrizes básicas da PE norte-americana – fator que determinou sua hegemonia político-economico-cultural na região – já que se acreditava que não haveria ameaça aos “valores ocidentais” aos países da região que eram aliados aos EEUU. Porém, diante dos desequilíbrios da balança de pagamentos (questões internas) e a diminuição dos investimentos estrangeiros o Brasil, através do seu projeto nacional-desenvolvimentista, estabeleceu as exportações como um dos fatores essenciais à continuidade do processo de desenvolvimento no Brasil, estabelecendo uma aproximação com a Europa Oriental, com países vizinhos, africanos e nações asiáticas e a retomada das relações com a China e União Soviética – o que contrariava os interesses norte-americanos. A PEI, dessa forma, era uma política externa decorrente do período desenvolvimentista da PEB, a qual primava pela defesa dos interesses brasileiros através da universalização de suas relações. Sugeriu, pois: a ampliação das relações comerciais e diplomáticas com todas as nações do mundo que manifestassem interesse num intercâmbio pacífico; a luta contra a opressão e o subdesenvolvimento; e foi favorável ao estabelecimento de princípios como: autodeterminação e não intervenção (em assuntos de nações estrangeiras). 37 SARAIVA, José Flavio S. Détente, diversidade, intranqüilidade e ilusões igualitárias (1969 – 1979). In: SARAIVA, José Flavio S. (Org.). Relações Internacionais, dois séculos de história: entre a ordem bipolar e o policentrismo (de 1947 a nossos dias). Brasília: IBRI, 2001. p. 81-82. 36 A diplomacia brasileira demonstrou grandes iniciativas na formação de coalizões no comércio internacional38, sendo que um dos principais avanços, consoante requesta, foi a projeção do país através da PEI cuja universalização (e multilateralização) de suas relações possibilitou a Cooperação Sul-Sul (e Norte-Sul), a ampliação de parceiros comerciais (Ásia e África), integração e defesa dos interesses dos países latinos, etc. Essas iniciativas e motivações geraram ao Brasil uma maior representatividade no cenário internacional e sua participação em coalizões que promovessem os direitos/ interesses dos países em via de desenvolvimento (como o G-3 – composto pelo Brasil, Índia e África do Sul – e o G-20) no comércio, na segurança internacional, no movimento global, dentre outros. Esta postura brasileira no cenário internacional ratifica a idéia de Souto Maior – expressa por Altemani - de que: a ordem internacional contemporânea coloca para grandes países periféricos um duplo desafio, superar os obstáculos impostos por esse sistema e, ao mesmo tempo, promover uma ordem assimétrica. A situação do Brasil, demasiado grande em território, população e PIB para aceitar passivamente uma ordem mundial injusta e antidemocrática, mas não forte o bastante para nela influir direta e significativamente, tem como alternativa se articular com países que estejam nas mesmas condições no sistema, desenvolvendo um “bilateralismo forte” com países como China, Índia e Rússia, assim como criando com esses países frentes de atuação conjuntas em organismos multilaterais, bem como nas próprias estruturas multilaterais39. 38 O primeiro Chanceler do 2º governo Vargas, João Neves de Fontoura, argüiu em 1952, na Assembléia Geral da ONU que o contexto internacional estabelecia um novo mundo dividido “entre um pequeno número de comunidades prósperas e um vasto proletariado internacional”, e menciona estar: “convencido, contudo, de que nossos maiores problemas são os econômicos, e que precisamos aqui é de uma política dinâmica, capaz de satisfazer as necessidades que surgem em muitos países como resultado de seu crescimento”. E afirma, mais adiante que uma postura referente a tal contexto que: “Passos imediatos têm que ser dados para se traçar um amplo programa de ação que beneficie os países subdesenvolvidos e aqueles que ainda não chegaram nem a um nível econômico que assegure a mera subsistência”. Tal trecho pode ser encontrado em: A palavra do Brasil na Liga das Nações. Discurso do Ministro João Neves da Fontoura na VII Seção Ordinária da A.G. (14 out. 1952), p.55-56. 39 SOUTO MAIOR apud ALTEMANI, Henrique; LESSA, Antonio Carlos (Org.). Relações internacionais do Brasil: temas e agendas. São Paulo: Saraiva, 2006. v. 2, p. 161. 37 Assim, o Brasil e EEUU não partilharam mais de semelhantes concepções sobre parcerias internacionais, após a II Guerra Mundial. Pois é errôneo afirmar que, para ambos os países, assim como para os países latino-americanos, a cooperação deveria ter o intuito de tanto assegurar o desenvolvimento como de beneficiar a segurança e a defesa coletivas. A percepção da condição de dependência levou os países em desenvolvimento a lutarem por sua projeção (povos do Sul) no cenário internacional, rechaçando o comércio e desenvolvimento desigual (na Unctad) e refutando as mazelas da ordem econômica internacional (Grupo dos 77, a exemplo dessa nova força política e dinâmica): Na tentativa de influenciar o sistema internacional para alterar as gritantes assimetrias entre os Estados, as elites dos países recémdescolonizados aproximaram-se da América Latina e da Ásia para inventar uma frente comum dos países em desenvolvimento. As 120 nações presentes na Unctad de 1964 olharam-se umas às outras para reconhecer afinidades, potencialidades, carências e diferenças. Os resultados desse encontro projetaram sobre a década posterior o sonho do igualitarismo, em especial junto aos foros multilaterais da agenda internacional.40 A intenção das estratégias independentistas da PEI era de galgar projeção internacional (liderança no hemisfério sul) e, posteriormente, pleitear tratamento privilegiado por parte dos EUA. Isso implicaria adotar postura neutralista, estabelecendo uma ruptura com a tradicional opção ocidental do Brasil. Por ser fundada no nacional-desenvolvimentismo, suas características eram muito avançadas em comparação com a política interna da época, o que levou ao receio de algumas correntes (conservadoras) da opinião pública do avanço das reformas estruturais na sociedade a serem empreendidas em curto prazo – o que levou à deposição de João Goulart pelos golpistas de 1964. Com a crise na administração da PEI, o ideário desenvolvimentista foi refutado no início do governo militar, principalmente no governo de Castelo Branco. Houve, portanto, um retrocesso diplomático pois o País preconizou o desenvolvimento “associado dependente”. Tal realinhamento aos EUA quebrou a visão autonomista e ativista da Política Externa Independente, englobando as perspectivas da interdependência, fronteiras ideológicas, bilateralismo e segurança 38 coletiva. Para o governo de Castelo Branco, adensar as relações com a África significaria possibilitar a extensão do comunismo ao Brasil, logo levou à marginalização e ao rompimento de relações, assim como também fizera com Cuba (embora em período anterior tenha defendido uma posição conciliadora/pacífica e neutralizadora de não-intervenção no país devido à adoção do socialismo). Os contatos com o continente africano, desse modo, foram muito mais retóricos que práticos, pois além da marginalização sofreram também entraves devido interesses brasileiros em salvaguardar laços de amizade com Portugal após o período de descolonização na África. Pois mesmo com o discurso do Ministro Araújo Castro de “Desarmamento, Descolonização e Desenvolvimento” (os 3 Ds), proferido no Debate Geral da XVIII Assembléia Geral das Nações Unidas em 1963, que auxiliaria no processo de formação das jovens nações africanas houve um recuo com relação às formulações iniciais da PEI. Assim, a mensagem presidencial de João Goulart enviada ao Congresso Nacional, no mesmo ano, correspondeu a duas versões da percepção da relação afro-brasileira: A primeira exprimia o anticolonialismo da seguinte maneira: “Nós reconhecemos e deve-se ainda reconhecer o direito à independência de todos os povos coloniais e a obrigação dos poderes administrativos coloniais de acelerar os preparativos para sua autodeterminação e independência, inclusive a de Angola e dos outros territórios portugueses de ultramar, e da África do Sudoeste. A segunda versão omitia a parte concernente às colônias portuguesas, por solicitação do ministro brasileiro das Relações Exteriores na época, Hermes Lima, que desejava evitar “a ofensiva aos portugueses” e temia a reação do lobby lusófono brasileiro41. Contudo, a diplomacia de Costa e Silva (1967–1969) reformulou a PEB para suprir a sociedade e o Estado de condições e meios adequados a impulsionar a multilateralização e, na medida do possível, o desenvolvimento autônomo do país. Para tanto, confrontou os interesses dos EUA e de certos setores do capital internacional, adotando a “Diplomacia da Prosperidade”, a qual identificaria e removeria os obstáculos da PE que pudessem se opor ao projeto nacional, significando, pois, a íntima conexão entre nacionalização da segurança e desenvolvimento, gerou confronto aos interesses dos EUA e fortaleceu o movimento 40 SARAIVA, 2001. p. 82-83. 39 terceiro-mundista – lutando para que se diminuíssem as distâncias entre o Norte e o Sul, a dependência tecnológica, as zonas de influência, etc. Dessa forma, adota o pragmatismo de meios e fins na PEB que resultariam na acentuação da divisão Norte/ Sul (não mais Leste/ Oeste) e na luta dos seus interesses junto aos Terceiro-mundistas, o que também colabora com o fim da perspectiva de segurança coletiva (nacionalização da segurança), com a bipolaridade, com a interdependência e o ocidentalismo. Não obstante, estabelece uma intrínseca relação entre segurança e desenvolvimento, além de trabalhar o aumento da integração regional (excluindo os EEUU) e o aumento da cooperação internacional na perspectiva terceiro-mundista para galgar a independência industrial e tecnológica - especialmente quando se buscava encontrar energias alternativas ao petróleo, cuja redução na produção e elevação dos preços resultaram em crise mundial - que possibilitou o incremento dos fluxos financeiros e determinou as bases do comércio internacional, concordando com a posição de Lafer: A diplomacia brasileira vem exercitando o potencial de geração de poder, inerente ao papel de soft-power no plano internacional, com o objetivo de assegurar espaço para a defesa dos interesses nacionais. O exercício deste papel gerador de soft-power é, assim, um componente da nossa identidade internacional voltado para o tema da estratificação internacional, que vem sendo construído no correr do século XX, com as oportunidades criadas pela ampliação do multilateralismo na vida mundial.42 Já no governo Médici (1969-1974) houve a implementação da Diplomacia do Interesse Nacional em detrimento da Diplomacia Coletiva da Prosperidade pois, passou a se preocupar mais com uma atuação mais inteligente no cenário externo, ou seja, percebeu que através do pragmatismo tiraria maiores proveitos no congelamento do poder mundial e passou a atuar dentro do imperialismo e não mais contra ele, além de priorizar a independência e, colocar em segundo plano a interdependência referente às duas superpotências (no período de atenuação da Guerra Fria). 41 ABREU, Fernando M. de. La politique africaine du Brésil. In: VIZENTINI, Paulo F. Relações Exteriores do Brasil (1945-1964): o nacionalismo e a política externa independente. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004. p. 220. (Tradução do autor) 42 LAFER, Celso. A identidade internacional do Brasil e a política externa brasileira: passado, presente e futuro. São Paulo: Perspectiva, 2004, p.26. 40 A autoconfiança do governo Médici incentivou a luta para diminuir as distâncias entre Norte e Sul e fez com que o País rejeitasse a postura terceiromundista e adotasse uma postura emergente (postura de “Brasil Potência”), na qual se acreditava que estando o Brasil forte economicamente também o seria internacionalmente e que a paz internacional seria alcançada através do desenvolvimento econômico da comunidade internacional (segurança econômica coletiva). Nessa fase observa-se o incremento do multilateralismo e aproximações com a África (especialmente com a região subsaariana) e Oriente Médio. A partir de 1971 houve uma intensa aproximação com os Estados africanos, com as visitas do presidente a Senegal, Costado Marfim, Gana, Togo, Daomé, Nigéria, Camarões, Zaire e Gabão. Essa ativa política de aproximação também causou controvérsias em relação à posição brasileira com Portugal. Contudo, Gibson Barbosa, após assumir a chefia do Itamaraty, explica que: A posição do Brasil na comunidade internacional era única (...) dada as nossas relações especiais, ao mesmo tempo com as duas parte adversas, Portugal e África, o que nos impunha uma responsabilidade histórica: a de tentar um dificílimo esforço de mediação – que nem sequer era solicitado por Portugal, tenazmente entrincheirado no que considerava seus direito soberanos sobre os territórios – que conduzisse a uma pacífica, ordenada e mutuamente consentida do problema, que já se convertera em sangrenta atividade bélica. Foi essa última via, a tentativa de mediação, a que aconselhei o Presidente Médici, que a aprovou e concedeu autonomia para executa-la, em um esforço diplomático que durou cerca de quatro anos, através de imensas dificuldades e suportando, em silêncio, incompreensão, não apenas externamente, mas também por parte da opinião pública nacional, que se encontrava apaixonadamente dividida a respeito, a tal ponto que se chegara a uma simplificação ideológica do que deveria ser a nossa linha de conduta: a esquerda, com todos os seus diversos matizes políticos, favorável à ruptura com Portugal, ou antes, com a ditadura de direita portuguesa, se preciso fosse, para que nos alinhássemos com os movimentos libertários das colônias portuguesas; a direita, cuja leitura desses mesmos movimentos era de que não significavam senão uma tentativa a mais de conquista do poder pelo movimento comunista internacional, em um momento crítico, como aquele da Guerra Fria entre as duas superpotências. Acrescente-se a essa motivação dos partidários do alinhamento do Brasil com Portugal o argumento emocional de que devíamos ser solidários com a “mãe pátria” no momento em que se encontrava isolada e, mesmo acuada, no cenário internacional. Isso para não mencionar o 41 poderoso lobby português no Brasil, alimentado por altos interesses empresariais e financeiros43. Na liderança de Geisel (1974-1979) houve a multilateralização e mundialização da PEB e a implementação do projeto desenvolvimentista . Neste, a diplomacia promoveu uma alteração significativa dos relacionamentos brasileiros com o Terceiro Mundo pois propôs o Acordo Geral de Preferências no âmbito do GATT e “apostou” na eficiência dos órgãos multilaterais. Ocorreu também uma quase ruptura nas relações comerciais com os EUA devido ao contínuo conflito de interesses entre os dois países. Assim, a Europa Ocidental foi uma saída habilmente explorada, na qual foi mais fácil ampliar as convergências e também as parcerias. Essa diversificação de parcerias internacionais levou ao aumento de comércio com a Europa Ocidental e aumento da desconfiança por parte dos EEUU, ampliação comercial com o Japão, acordos bilaterais econômicos com a América Latina, comércio com o Oriente Próximo (parceria com a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, relações de comércio e de cooperação), a Ásia (relações comerciais e diálogo político) e com a África (estabelecimento de cooperação Sul-Sul, caracterizando o universalismo da PEB). No período áureo do terceiro-mundismo, o Brasil participava, igualmente, dos diálogos norte-sul, das discussões de entendimento Leste-Oeste e da Cooperação Sul-Sul. A África era vista pelo Brasil como um mercado potencial para os seus interesses econômicos em âmbito bilateral e, para ratificar seus interesses neste, teve por objetivo: projetar a imagem de um país tropical e industrial, que um dia fora colônia, e o de convencer aos Estados africanos que as relações históricas do Brasil com Portugal não inibiriam o desenvolvimento de relações com os países africanos.44 Nessa ocasião, Portugal passa a consentir o processo de descolonização na África e, para ratificar tal posicionamento, em discurso proferido pelo PrimeiroMinistro português, Mário Soares, ao presidente Ernesto Geisel (em visita ao Brasil) aborda a conclusão do processo de colonização português, alegando que: 43 BARBOSA, Mário Gibson. Na diplomacia, o traço todo da vida. Rio de Janeiro: Record, p. 255256. 44 SARAIVA, José Flávio S. O lugar da África: a dimensão atlântica da política externa brasileira de 1964 a nossos dias. Brasília: Editora da UnB, 1996. p.135. 42 A independência das nossas antigas colônias permitiu pôr fim não só a uma situação que dividia a Nação Portuguesa, como desfez os obstáculos que, pelo agravamento do contencioso colonial, tendiam cada vez mais a deteriorar as relações com os povos amigos – e o Brasil foi, de certo, um dos países que mais sentiu essa deprimente situação45. Nos governos de Figueiredo e Sarney (1980-1988) foi marcado por crises e contradições. Nesse período verificou-se a impossibilidade/ incapacidade de ampliar conquistas ou de indicar um possível curso de reforma da conjuntura interna e externa. O final do governo militar, com Figueiredo, e o início do período de transição com Sarney, em 1985, ainda foram marcados pela orientação da política externa (PEB) acoplada ao desenvolvimento nacional (independência e universalismo; ampliação quantitativa e qualitativa da cooperação; defesa da indústria nacional; etc) mas sofreu abalo devido à diminuição de seu poder de influir sobre o mesmo (políticas econômicas muitas vezes equivocadas que geraram instabilidade e baixo crescimento; falta de coordenação no seio das negociações da dívida externa – houve apenas a articulação da área econômica; dificuldades no comércio internacional causada pelos países desenvolvidos). O Brasil tornou-se passivo e incapaz de reagir adequadamente ao cenário internacional e incapaz de estabelecer alternativas criadoras. Todas as questões referentes ao endividamento externo do País: efeito de “rolagem”, taxas de juros abusivas, negociações e legitimidade da dívida não devolveram a confiança da comunidade financeira internacional para retomarem os investimentos e maturarem desenvolvimento nacional – mesmo gerando excedentes de comércio compatíveis com as obrigações contraídas. O fato é que a recessão e a moratória (declarada no governo Sarney) assustaram os investidores, mesmo após a renegociação da dívida com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Mas como contraponto, na PEB houve o aumento da retórica reivindicatória terceiro-mundista fazendo frente às sociedades pós-industriais e clamando por superação das dependências, desenvolvimento das sociedades atrasadas, cooperação, diálogo Norte-Sul, etc. Isso proporcionou a ampliação da pauta, de mercados e das exportações brasileiras – com destaque, a industria de informática 45 BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Resenha de Política Exterior do Brasil. n.11, p.27, out.-dez. 1976. 43 que além de grande crescimento fez pressão aos EUA, demonstrando resistência em prol do interesse nacional – além de estabelecer relações mais vulneráveis com os EUA (avanços e retrocessos), intensificação das relações com a Europa e Japão, forte cooperação com países do Sul (China, Iraque, Argentina – principalmente) além de uma maior integração/ coesão com a América Latina e Caribe. A expansão do comércio com a África, o Oriente Próximo e a América Latina foi a mais importante mudança ocorrida nas relações econômicas externas do Brasil no final da década de 1960 e início da de 1970. As exportações brasileiras para o Terceiro Mundo cresceram de cerca de 12% em 1967 para 25% no final da década de 1970 e início da de 1980. Em 1981, o Brasil chegou a vender 51,7% dos seus produtos manufaturados (em torno de 6 bilhões de dólares) para o Terceiro Mundo46. Já em relação à parceria com a África negra, ocorreu a consolidação dos vínculos devido o aumento das relações políticas-comerciais-econômicas47 e a forte cooperação, pois para o Brasil essa região foi uma alternativa ao protecionismo e barreiras dos países ricos e, para a África, o Brasil serviu como alternativa à dependência das ex-metrópoles – além de ratificar a luta do Terceiro-mundo. O País buscava ampliar suas possibilidades de ação, o que fomentou as relações comerciais entre Brasil-África, além de esforços para afirmar uma nova configuração das relações internacionais pautada na ordem Sul-Sul. A aproximação com as nações africanas não deveria ficar, porém, no plano das iniciativas mais ou menos simbólicas, por importantes que fosse no contexto da época. Houve um esforço palpável de dar alcance prático a tal acercamento, com a abertura de Embaixadas e agências bancárias, o fomento do comércio e os esforços de cooperação técnica. Nesse sentido, a nova desenvoltura política do governo brasileiro complementava as possibilidades criadas pelo desenvolvimento econômico do país, que podia oferecer aos 46 SARAIVA,1996. p. 141. 47 A prioridade da década de 80 foi a comercialização com a África negra, estreitando relações com a Nigéria, Congo, Gabão, Angola e Zaire. O Gabão trocava petróleo por produtos industrializados e a Angola comprava produtos manufaturados, sendo que na década de 1980 tornou-se parceira na exploração e exportação de petróleo para o Brasil. O Zaire combinava as duas tendências, pois equilibrava exportações com importações. SARAIVA, 1996, p.148. 44 africanos oportunidades de complementação econômica certamente inexistente na época da “política externa independente”.48 A partir de 1989, há o triunfo do capitalismo sobre o socialismo soviético, o que gera impulso à globalização, à ideologia neoliberal, à supremacia do mercado e à superioridade militar dos norte-americanos. A diplomacia passou a se preocupar com novos temas, tais como: liberalismo econômico, ecologia, direitos humanos, comércio exterior, segurança nacional, etc. No governo Collor, a proposta foi de promover a imagem brasileira no exterior, ampliar a cooperação internacional, diminuir a atenção ao universalismo e ampliar o regionalismo. Buscou-se também a abertura liberal da economia brasileira (aumento das importações), privatização das estatais de forma gradual, modernização do parque industrial brasileiro, ênfase nas relações interamericanas e a diminuição da busca pela África. Os sonhos cooperativos afro-brasileiros cedem lugar a um “pessimismo” nas relações com o continente africano, pois a gestão de Collor: empreendeu uma movimentação internacional para o Brasil em torno da modernidade liberal cuja referencia eram os tigre asiáticos. Daí o vigor do discurso “neoliberal”, de extrema ressonância em parte das elites do país, que partia da premissa que havia uma ordem internacional estabelecida, com regras econômicas e políticas precisas na direção da acumulação flexível do capital e na total interdependência dos mercados. A modernidade obtusa, e nunca definida, deveria ser alcançada a qualquer custo, mesmo com o custo da desidentificação da Nação. No centro das redefinições propostas pelo presidente que tomou assento presidencial em março de 1990 estava o reforço dos laços com o Primeiro Mundo. Argumentando que as disputas entre o Brasil e os Estados Unidos eram um “capítulo encerrado” do relacionamento entre os dois países, o segundo presidente civil depois do período militar prometeu recolocar o país nos trilhos do desenvolvimento e da modernidade capitalista por meio do relacionamento preferencial com as economias ocidentais avançadas. O discurso expressa a doce ilusão do liberalismo associado do governo Dutra e o desconhecimento da complexidade de um período de transição nas relações internacionais. Para o 48 CORRÊA, Luis Felipe S. A política externa de José Sarney. In: ALBUQUERQUE, José Augusto G. (Org.). Sessenta anos de política externa brasileira (1930 – 1990): crescimento, modernização e política externa. São Paulo: Cultura, 1996, v. 1, p. 345. 45 mundo moderno que se desejava para o Brasil, a África tinha lugar diminuto.49 No governo de Itamar Franco (1992-1994), não houve notoriedade em questões referentes à África, reforçando o distanciamento com a política africana, ao passo que no governo Cardoso (1995-2002) o Brasil retoma tais relações e participa ativamente nos foros políticos, econômicos e comerciais internacionais, com o MRE tendo cada vez mais relevância na condução – elaboração e controle – da PEB. Houve a tentativa constante de adequar a lógica de mercado e as necessidades sociais internas no seu governo. Contudo houve menor atenção à cooperação internacional em relação, principalmente, aos anos 70 e 80, porém maior em relação ao ocorrido no governo Collor. Segundo Saraiva o esmorecimento das relações com a África levou à criação de “quatro linhas de ação política” para manter ativa a comunicação com os países daquela região: a primeira consiste em relações com a África do Sul (devido sua força econômica); a segunda, foi a opção pela África Austral, em especial, por Angola devido às afinidades diplomáticas; o processo de desnuclearização do Atlântico reforçado pela Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZPCAS); e, por último, a criação da CPLP como forma de animar a política africana dos anos 1990 – embora ela já havia sido preconizada por José Sarney, conforme apresentado no primeiro capítulo. A CPLP representou mais otimismo nas relações além do Atlântico. Em 1993, Fernando Henrique Cardoso (FHC), chanceler brasileiro no período em questão declarou que: A Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa não é movida por sentimentalismos. Sua criação corresponde a uma tendência da atual conjuntura internacional, com o fim da bipolaridade, que abriu espaço para novas iniciativas de aproximação entre países com afinidades, ora derivados de interesses econômicos, ora fundamentados em valores políticos ou culturais50. 49 SARAIVA, José Flávio S. O Brasil e a ordem internacional. Humanidades, v. 9, n. 2, p. 137-141, 1994. 50 Informação obtida em entrevista do presidente Fernando Henrique Cardoso, ao Jornal do Brasil, em virtude das relações Afro-luso-brasileiras em 25 de abril de 1993. 46 Contudo, em 1995, quando FHC já era presidente da República, em visita a Portugal, as ações políticas para ampliar a cooperação no âmbito da CPLP se aparentavam bastante limitadas, principalmente no que concerne à cooperação econômica. Não foram muito abordados a cooperação e vínculos que estreitassem a política dos países, “apesar da iminência da Reunião dos Ministros das Relações Exteriores e dos Negócios Estrangeiros que se iniciou em 19 de julho do mesmo ano [1994]. Os temas da visita foram, sobretudo, bilaterais”51. No entanto, a política externa do período Lula (iniciada em 2003) se demonstra como força contrária ao esmorecimento das relações com a África. Em seu governo houve uma forte retomada do interesse político pela região, além de demonstrar uma movimentação mais abrangente no tema Sul-Sul: No plano do comércio internacional o tema Sul-Sul vem levando à iniciativa de uma nova rodada de negociações de preferências comerciais entre países em desenvolvimento no âmbito da Unctad. No plano político, em função do estilo diplomático do governo Lula, é possível detectar, no tema Sul-Sul, uma ilusória aspiração de enrijecer o quadro internacional com uma nova polarização ideológica.52 No governo deste, há uma afinidade de sua política externa com a PEB dos presidentes Jânio Quadros e João Goulart, ou seja, o caráter universalista das relações internacionais também se faz presente. É essencial mencionar que mesmo com abordagens históricas/contextos diferentes há a percepção de que as relações com países em desenvolvimento são relevantes, determinando uma abordagem não-discriminatória frente os países periféricos. Mediante essa nova perspectiva, o presidente Lula ratificou que a diplomacia referente ao seu governo não seria mais seletiva e sim inclusivista, – referindo-se aos privilégios que possuíam os países da África Meridional bem como os da CPLP – passando, pois, a demonstrar vontade política em reforçar os laços através de viagens ao Continente Africano53, da inauguração de embaixadas e a 51 BARROSO, Manuel Durão. FHC em Portugal – redescobrir Portugal. Folha de São Paulo, São Paulo, 16 jul. 1995. Caderno 1, p. 3. 52 LAFER, 2004. p. 145. Foram realizadas sete viagens pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva à região africana, no período de 2003 a 2007. 53 47 ampliação das representações diplomáticas. Não obstante, afirma que: “nas sete viagens que fiz à África, em meu governo, estabeleci uma agenda de trabalho e de cooperação centrada na busca do desenvolvimento solidário e na promoção do bem-estar dos nossos povos”.54 As relações econômicas Brasil-África se caracterizam por três questões centrais: a venda ao Brasil de grande volume de petróleo argelino e nigeriano; trocas, com algum nível de diversificação, com a África do Sul; ineficiente exploração da possibilidade de expansão das relações comerciais – em virtude do desconhecimento das oportunidades e capacidades mútuas e a ausência de mecanismos estimulantes (ou mecanismos facilitadores, tais como: transportes, seguros, facilitação bancária, etc). Mesmo com as dificuldades nestas relações, é perceptível que ambas as economias são similares no que tange ao estágio de desenvolvimento, uma vez que as histórias econômicas convergem no sentido de que após a Primeira Guerra Mundial construíram parques industriais e no pósSegunda Guerra participaram do processo de substituição de importações. A atuação brasileira na região tem sido pautada não somente pelos aspectos econômicos mas também pela herança cultural e proximidade com os povos africanos: O elemento mais importante na história das relações entre a África e o Brasil, que ordinariamente, deveria ser um fator objetivo para o florescimento das relações, talvez seja o fato demográfico de que o Brasil, com uma população de cerca de 70 milhões de pessoas classificadas como negras, abriga a maior concentração de africanos e descendentes de africanos fora da África. Os escravos africanos trazidos para o Brasil trouxeram consigo fortes elementos culturais que se tornaram componentes integrais da identidade nacional do país e deixaram marca permanente nos aspectos musicais, artísticos, lingüísticos, culinários, religiosos e espirituais do Brasil e em boa parte da América Latina também. Em sentido inverso, após a abolição do tráfico negreiro, um número significativo de negros brasileiros decidiu voltar para a África, especialmente para a região que abrange o sul da Nigéria, Benin e Gana, de onde muitos deles e seus antepassados haviam sido arrancados. Do Brasil, levaram consigo influências musicais, lingüísticas, culinárias, arquitetônicas, traços claramente visíveis em alguns dos maiores centros urbanos dessa região.55 54 SILVA, Luiz Inácio Lula. Discurso do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, por ocasião do Colóquio “Democracia e Desenvolvimento na África”, em Burkina Faso, 15 jun 2007. Disponível em: <http://www.imprensa.planalto.gov.br>. Acesso em: 20 mar. 2009. 48 Além dos fatores acima que os aproximam, a África também é vista como parceira estratégica do País por buscar algo em comum, o desenvolvimento sustentável e mais eqüitativo. No governo Lula, segundo Campos (2009), houve o aggiornamento nas relações africanas, transformando as bases desse processo de integração no leitmovit da PEB – o que abre precedentes para a cooperação, a qual tem por meta galgar benefícios nítidos para ambos os povos. 3.2.2 A atuação da Fiocruz no governo Lula A cooperação é a chave da política externa brasileira para a África. O desenvolvimento não depende apenas do intercâmbio econômico, sócio-cultural e político, mas sim da vontade de gerar ou catalisar relações que possam corroborar para alcançar qualidade e bem-estar social. Assim, a cooperação tem por objetivo favorecer no estabelecimento de uma ordem científica/ técnica mais bem equilibrada e eqüitativa. A construção de sinergias, a exemplo dessa cooperação Sul-Sul, permite a exploração e o domínio de novas áreas de conhecimento, levando ao desenvolvimento científico e à ampliação do conhecimento dos países receptores da prática cooperativa. No âmbito da saúde, em especial os países da CPLP/ PALOP, o Brasil tem atuado no combate e controle de doenças, o que tem garantido mais bem-estar à população recipientária. Desse modo, o Brasil combate à malária em Guiné Bissau, estipula parcerias para o tratamento da AIDS, além de fornecer medicamentos com preços mais baixos a diversos países africanos. É pertinente mencionar que na política externa do governo Lula há a preocupação em ampliar a projeção brasileira na área de cooperação internacional e uma das áreas em que se tem conseguido efetivar grande destaque é a da saúde. Também este governo tem priorizado suas relações com a América Latina, a África e a CPLP. No discurso de posse56 do Ministro Dr. José Gomes Temporão (MS) – o qual foi funcionário da Fiocruz em período anterior, – em 19 de março de 2007, 55 OLUKOSHI, 2004. p. 274. TEMPORÃO, José Gomes. Discurso em virtude da posse do Ministério da Saúde e de Implementação das Metas do PAC-Saúde, em Brasília. Disponível em: <http://www4.ensp.fiocruz.br/eventos_novo/dados/arq5068.pdf>. Acesso em: 08 abr.2009. 56 49 evidencia em 22 princípios as propostas de sua gestão e, dentre elas, faz alusão aos anseios da PEB: 14. Fortalecer a presença do Brasil no cenário internacional (atendendo ao desafio lançado pelo presidente Lula durante o congresso da Abrasco) estreitando as relações com o Ministério das Relações Exteriores, amplificando nossa presença nos órgãos setoriais e em programas de saúde das Nações Unidas - como a OMS, a OPS, a UNITAIDS, o FIAM e tantos outros - assim como cooperando com o desenvolvimento dos sistemas de saúde dos países da América do Sul – em especial com o Mercosul - e com os países de língua portuguesa da África e a CPLP. A relevância da Fundação Oswaldo Cruz se dá tanto no âmbito interno quanto no externo. Sua notoriedade na saúde pública brasileira data desde aproximadamente 1904, quando houve a obrigatoriedade da vacinação na capital, Rio de Janeiro (levando à Revolta da Vacina) e do processo de saneamento básico da nação. Contudo, o objetivo deste trabalho é evidenciar seu ressalto no período contemporâneo com vistas a identificar seu elo com a PEB atual. Dessa forma, é mister salientar que a Fiocruz tem caráter proeminente na CTI em saúde pois ela atua diretamente no âmbito em que os países receptores de CT necessitam, ou seja, ela detém conhecimento científico e tecnológico para atuar nas áreas de saúde em que os países do Sul geralmente são carentes ou naquelas em que estão se aprimorando (desenvolvendo) em uma determinada matéria. Tal instituição já coopera com os países africanos a cerca de 10 anos e, mediante essa relação, desenvolveu maiores vínculos com a CPLP, fator este, que coaduna com os interesses brasileiros de política externa – pois conforme mencionado no primeiro capítulo, ratificam os interesses da CGPD, especialmente os itens “d” e “f”. Deste modo, a Fiocruz acaba por facilitar na execução das prioridades da PEB, fortalecendo as relações com a América do Sul bem como a África e CPLP. A cooperação em saúde é cerne da PE pois, conforme as diretrizes do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC Saúde), o Programa Mais Saúde Direito de todos (2008-2011) busca aprofundar e atualizar os objetivos da criação do SUS, agregando novos desafios e propondo um conjunto de medidas e ações 50 concretas para que os objetivos de universalidade, eqüidade e integralidade possam se tornar viáveis. A saúde constitui uma das áreas com maior potencialidade para contribuir com as estratégias da política externa brasileira voltada à cooperação, tanto sob o prisma da geopolítica internacional e da necessidade de fortalecimento de blocos regionais, em função de seu padrão de inserção internacional, quanto sob o prisma estratégico para o Governo, de fortalecimento dos laços de solidariedade com nações em desenvolvimento. Segundo o mesmo documento do MS, as medidas abraçadas pelo PAC Saúde consistem em: 7.1. Contribuir para o desenvolvimento de estruturas e dos sistemas de saúde dos países da América do Sul e Central, da CPLP e outros países africanos; 7.2. Apoiar a formação em larga escala de técnicos da área da saúde em países da CPLP, através da específica experiência do Brasil com o Projeto de Profissionalização dos Trabalhadores da Área de Enfermagem – PROFAE; 7.3. Inserir o programa de saúde para a fronteira (SIS-Fronteira) na perspectiva de fortalecimento da integração da América do Sul; 7.4. Apoiar a constituição da Rede Pan-Amazônica de CTI.57 Com o intuito de contribuir para o desenvolvimento de estruturas dos sistemas de saúde dos países da América do Sul e Central, da CPLP e outros países africanos (item 7.1), o MS detalhou no Programa do PAC as metas fiscais e financeiras referentes ao período entre 2008 e 2011, que segue abaixo: Tabela 3 – Medida 7.1: Contribuir para o desenvolvimento de estruturas e dos sistemas de saúde dos países da América do Sul e Central, da CPLP e outros países africanos: 57 As medidas para cooperação em saúde fazem parte do Eixo Sete do Programa Mais Saúde Direito de todos (2008-2011) estão disponíveis em:: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/pacsaude/pdf/mais_saude_direito_todos_2ed_p9.pdf>. Acesso em: 14 abr. 2009. 51 Fonte: BRASIL, 2008. Em resultado dessa atuação da Fiocruz como parte da CTI brasileira, houve a concretização de uma série de iniciativas para a África, dentre elas: Mestrado de Saúde Pública em Angola, em execução; Mestrado de Laboratórios de Saúde Pública em Moçambique, execução em março de 2008; Inauguração da Fiocruz África, em Maputo, março de 2008 (projeto concluído); Rede (ainda informal) de Institutos de Saúde Pública da CPLP, Lisboa, novembro de 2006; Apoios concretos aos ISP de Moçambique e Guiné Bissau (projeto concluído com a IANPHI – Associação Internacional de Institutos Nacionais de Saúde Pública); Rede de Escolas Técnicas de Saúde da CPLP; Estudo de viabilidade de fábrica de medicamentos em Moçambique; Visitas e planos com Ministro da Saúde de São Tomé e Príncipe e Cabo Verde; Inclusão da CI como eixo do PAC; Oferta de cursos descentralizados de qualificação na área de auxiliar de enfermagem; etc. Em entrevista concedida à Agência Fiocruz de Notícias (AFN)58, o presidente da Fiocruz, Paulo Buss, que é membro do Conselho Executivo da IANPHI – destaca que: O intenso intercâmbio que temos estabelecido com as experiências de outros institutos traz significativa contribuição para o aperfeiçoamento das atividades da Fiocruz. Nós temos ajudado muito à Ianphi no apoio aos institutos de países menos desenvolvidos que o Brasil, particularmente aos de língua portuguesa da África e outros da América Latina. Dois exemplos: a 58 MARQUES, Fernanda; VALVERDE, Ricardo; OLIVEIRA, Wagner. Encontro reúne institutos regionais de saúde da AL. AFN. Disponível em: <http://www.fiocruz.br/ccs/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?from%5Finfo%5Findex=61&infoid=1328&sid=3 >. Acesso em: 07 fev. 2009. 52 constituição da rede de institutos nacionais de saúde da CPLP e, após esta reunião de institutos da AL [América Latina] aqui no Rio, com a criação da rede latino-americana. Nossa experiência com planejamento e gestão de C&T e serviços de referência é a melhor contribuição que temos dado ao conjunto de institutos. No caso da Argentina, por exemplo, estamos oferecendo um mestrado em laboratórios de saúde pública em Buenos Aires. E mais a frente destaca que a Fiocruz ampliou seu apoio à produção de vacinas e medicamentos no continente africano: Como disse, com o apoio a Angola, Moçambique, Guiné Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe nas áreas de desenvolvimento institucional e de recursos humanos de institutos de saúde pública, escolas de saúde pública e escolas politécnicas de saúde. O apoio da Capes, CNPq e ABC tem sido fundamental, compondo-se uma parceria para levar adiante a política externa brasileira que tem na saúde na CPLP e América do Sul suas principais áreas de atuação. Em março vamos instalar o Escritório da Fiocruz na África, credenciado junto à União Africana e com sede física em Maputo, em Moçambique. O presidente Lula e os ministros José Temporão e Celso Amorim têm acompanhado todo o processo, o que se constitui em enorme fator de impulso a estas iniciativas.59 Por ser foco da PEB, nos últimos anos, o comércio do Brasil com a África quadruplicou, aumentaram os projetos, a cooperação e o investimento. Logo, não apenas na área de saúde mas também em outras áreas que se detém tecnologia pôde-se perceber interesse pelo continente Africano, dentre elas destaca-se a Embrapa, a qual acabou por levar seu escritório regional (para Gana) com a finalidade de intensificar a cooperação científica e tecnológica agrícola tropical. O relacionamento com a África é parte do processo de renovação da política externa brasileira. Buscou-se, dentro do mesmo, aliar a pujante solidariedade aos benefícios de uma relação densa nos campos político e econômico. Essa interação entre interesses e vantagens caracteriza a cooperação Sul-Sul, confirmando que os 59 A Fiocruz, instalou em 10 de outubro de 2008 um escritório em Maputo, capital de Moçambique. Neste local, o número de infectados pelo HIV/AIDS é alarmante e o número de crianças órfãs, devido tal doença, chegar a mais de 670 mil. Com o apoio tecnológico da Fiocruz para o fornecimento de vacinas, o Brasil está financiando a construção de uma fábrica de anti-retrovirais (cuja primeira fase decorre até o final do 1º semestre de 2009) na qual estão investidos R$ 13,6 milhões em equipamentos e adequação de espaço físico do laboratório, além da aquisição de medicamentos e insumos na primeira fase de produção – sendo que logo após a esta fase se iniciará o processo de transferência de tecnologia, o que possibilitará o suporte do desenvolvimento da nova fábrica bem como esta se tornará em um ambiente propício à capacitação de profissionais na esfera as saúde. 53 novos fatos da política internacional podem dilatar anseios comuns e levar a atuações cooperativas com intuito de galgar resultados benéficos às partes, assim é demonstrado através da parceria ocorrida na Cúpula África/América do Sul ou IBAS, que nos une à Índia e à África do Sul. Não só o escritório Fiocruz- África é relevante para demonstrar o impacto desta instituição para região e para a PEB. Também se pode observar que existem outros instrumentos que a tornam condescendente com a CTI brasileira em saúde, são eles: suas parcerias, sua forma de atuação e seu foco em instituições estruturantes. Para compreender melhor esses três aspectos, julga-se necessário aborda-los separadamente: a) Parcerias: a Fiocruz possui uma forte atuação nacional – o que lhe confere facilidade ao estabelecer parcerias para atuar internacionalmente – e, por conseqüência disto adquiriu, ao longo de seu desenvolvimento, aliados na execução de seus projetos, dentre os principais parceiros destacam-se: MS/AISA e Secretarias Nacionais do MS, o MRE – incluindo a ABC, o MEC – CAPES e outras estruturas, MCT – FINEP, CNPq (incluindo Pró-África), Universidades Federais – incluindo a UNIRIO e UFBA, Institutos Tecnológicos (como o Instituto Butantã), ONGs – incluindo CNBB e Pastoral da Criança, e os parceiros empresariais públicos e privados (com destaque para PETROBRÁS); b) Áreas prioritárias para a África: visa atuar em conformidade com os interesses em saúde do Brasil e os interesses locais. Dessa forma, seu enfoque se mantém nas seguintes segmentações: saúde pública (ênfase no desenvolvimento de sistemas de saúde, na sua mais ampla acepção, atuando desde a organização de sistemas e serviços, até nas áreas de política, meio ambiente e na alocação de insumos em saúde), ciências clínicas (especialmente relacionadas à atenção básica e as áreas de saúde da mulher e da criança e de doenças infecciosas e parasitárias), ciências biológicas e biomédicas (incluindo disciplinas como microbiologia, parasitologia, biotecnologia dentre outras), e o desenvolvimento tecnológico para produção de insumos farmacêuticos e imunobiológicos; c) Foco em instituições estruturantes: isso implica dizer que os legados brasileiros em saúde para a África são as instituições que 54 “estruturarão” a área de saúde dos países receptores da cooperação com a Fiocruz/MS, estas instituições consistem em: escolas de saúde pública, escolas técnicas de saúde, institutos de saúde pública, escolas de graduação em saúde (incluindo medicina e enfermagem), institutos de produção de insumos (imunobiológicos e medicamentos), dentre outros. Destarte, a Fiocruz recebeu maior relevância na CT e também passou a atuar junto às instâncias pertinentes na coordenação geral e orientação de visitas ao Brasil e aos paises africanos, na constituição de redes, no Intercâmbio técnicocientífico e de pesquisa, no apoio à formação de recursos humanos (além de atuar no próprio processo de capacitação), na assessoria e no apoio técnico ao desenvolvimento de sistemas, serviços, organizações e programas de saúde, e nas doações e vendas de seus produtos em laboratórios públicos do país, etc. Não obstante, pôde também atuar junto ao MRE criando um forte vínculo e assumindo novas responsabilidades perante este. Assim sendo, em 2007 representou o Brasil na Rodada Mundial de Saúde - RMS/CPLP, elaborou a proposta de coordenação das atividades de cooperação em saúde para Brasil-África, apresentou resultados positivos no balanço do Programa Mais Saúde60 (em cooperação internacional referente ao ano de 2008), e tem participação no Plano Estratégico de Cooperação em Saúde da CPLP – PECS. O Plano Estratégico acima mencionado foi ratificado na I Reunião de Ministros da Saúde da CPLP, em 2008, e tinha por intuito orientar a cooperação em saúde através de um ordenamento que conduzisse a boas práticas no âmbito da CPLP. Assim, os Ministros da Saúde decidiram, dentre outros aspectos: Constituir um Grupo Técnico para a elaboração do PECS/CPLP, composto por peritos da área da saúde – a serem designados pelos Ministérios da Saúde dos Estados Membros da CPLP, no prazo de trinta dias a partir da data de aprovação desta Resolução –, sob a coordenação do Secretariado Executivo da CPLP e com o apoio técnico da Fundação Oswaldo Cruz e do Instituto de Higiene e Medicina Tropical.61 60 Pode-se obter mais informações sobre o Relatório de Acompanhamento e Gestão do Programa Mais Saúde (2008) e observar as ações da Fiocruz nas esferas interna e externa através do próprio endereço eletrônico da instituição, disponível em: <http://www.fiocruz.br/diplan/media/nd/apresentacao_fiocruz_dez.pdf>. Acesso em: 10 abr. 2009. 61 COMUNIDADE DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA. Resolução sobre a Elaboração do Plano Estratégico de Cooperação em Saúde da CPLP. Disponível em: 55 O PECS além de coadunar com os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) e com as Funções Essenciais de Saúde Pública (FESP) também tinha por meta: minimizar a fragmentação das atividades de CT em saúde nos países da CPLP e fortalecer os sistemas de saúde por meio de ações de cooperação orientadas pelas prioridades nacionais e pelas competências existentes em cada país. O Plano se baseou na análise de três nortes centrais: a situação da saúde na África, as áreas que necessitavam de intervenção (e suas respectivas estratégias), e a gestão do PECS (coordenação, monitoramento e avaliação). Conforme o segundo eixo do PECS (áreas de intervenção), é pertinente ressaltar que a Fiocruz detém know how satisfatório para atuar em conformidade com as aspirações africanas, logo o Brasil tem condições de atuar cooperativamente nos segmentos que potencialmente necessitam de cooperação, dentre eles: desenvolvimento tecnológico e inovação em saúde, saúde da mulher e da criança, apoio à constituição e fortalecimento de organizações estruturantes do sistema de saúde, políticas de saúde, formação de recursos humanos em nível superior e médio, etc. Já sobre a terceira linha, com a elaboração de um Grupo Executivo para monitorar e avaliar o andamento do PECS o Instituto Manguinhos também se destaca por ser convidada a fazer parte do Observatório CPLP da saúde. Considerando as informações acima bem como a entrevista realizada com Luciano Queiroz, da AISA/MS (vide apêndice A), é perceptível que a Fiocruz tem um conceito forte nas questões atreladas à saúde, pois quando perguntado do peso da instituição nos grupos de trabalho internacionais vinculados à saúde, a resposta obtida foi: Ela é reconhecida pela excelência na área de pesquisa e ensino, então cada vez mais aumenta a demanda de projetos de cooperação com a Fiocruz. Os principais projetos com a África são tratados pela Fiocruz, como a questão dos retrovirais em Moçambique e os mestrados em Angola e Moçambique. A FIOÁFRICA demonstra sua relevância para a região, além do próprio Plano Estratégico de Cooperação em Saúde – que acaba por evidenciar tais características. <http://www.cplp.org/Admin/Public/DWSDownload.aspx?File=%2FFiles%2FFiler%2Fcplp%2Fredes% 2Fsaude%2FReuniaoPraia%2FPlanoEstrat%EF%BF%BDgico.pdf>. Acesso em: 10 abr. 2009. 56 Assim sendo, continua demonstrando o grande valor de Manguinhos para a saúde no mundo, comparando-o com outros órgãos do MS que também possuem projeção internacional: Os projetos mais relevantes são executados pela Fiocruz: tais como os bancos de leite, os mestrados, a fábrica de retrovirais – que é uma inovação, – o programa de combate à malária e o programa de prevenção e controle de doenças transmissíveis, todos eles são bastante demandados, principalmente na África e em especial pelos PALOP. A ANVISA também tem se destacado como agência reguladora, mas esta e os demais órgãos ou programas são bem específicos e não possuem o mesmo impacto que a Fiocruz no cenário internacional. Dessa forma, é crível salientar que a Fiocruz assessora os países de expressão portuguesa e, dessa forma, acaba por abocar os propósitos da PEB para a região em questão, pois além de deter arcabouço técnico e científico para atuar, também tem projeção política internacional para satisfazer os interesses da Diplomacia da Saúde, característicos do governo Lula. Contudo, como última observação, deve-se abordar que o peso da Fiocruz não foi delimitado pela análise qualitativa dos processos e sim de forma quantitativa, isso implica em uma avaliação mais superficial dos resultados galgados pelo MS pois, consoante a observação de Queiroz62, os projetos são apenas mensurados quando executados, não recorrendo em uma análise densa da execução dos mesmos. 62 Para maiores informações, vide apêndice A.. 57 4. CONCLUSÃO A hipótese proposta neste trabalho foi a de estudar a pertinência da cooperação técnica internacional da Fiocruz para a política externa brasileira na África, no governo Lula. Para tanto, buscou-se evidenciar que o espectro/ a visão do Ministério da Saúde e do Ministério das Relações Exteriores estão fortemente alinhados, através de uma abordagem histórica e de interesses nacionais. Para ratificar tal hipótese, buscou-se apresentar um panorama geral da cooperação internacional e sua influência no contexto brasileiro. Assim, o pósSegunda Guerra Mundial possibilitou o desenvolvimento da ajuda internacional aos países em reconstrução e favoreceu na percepção da necessidade de um sistema mais harmônico e equilibrado para os países menos desenvolvidos. O Brasil passou a atuar mais fortemente no cenário internacional e, dessa forma, a apoiar o movimento de independências na África – o que lhe rendeu divergências com a exmetropole portuguesa, e dessa forma, passou a adotar uma postura ambígua em relação ao processo de descolonização – e a preconizar (além de adotar para si) a Cooperação Técnica entre Países em Desenvolvimento como demonstração de eixo alternativo às forças vigentes da época. Com essa nova orientação da CTI, a atuação brasileira sofreu modificações pois além de receber ajuda internacional, o MRE junto à ABC passaram a difundir o know-how brasileiro a outros países e terem seus interesses atendidos no que tange à penetração econômica em outros países. A Cooperação Horizontal brasileira passou a promover o País internacionalmente e a assegurar suas ações em regiões em que o Estado Brasileiro possuiu interesse, como a África. Com a crescente demanda por projetos em cooperação internacional, ocorreu a segmentação das áreas de atuação e, na área de saúde, o MRE estabeleceu parceria com o Ministério da Saúde para que pudesse atuar como parte responsável pela implementação de programas/ projetos em saúde. Esse estreitamento das relações entre tais entidades governamentais tornou o MS em um ator primordial para o processo de atuação do país na cooperação Sul-Sul e, por conseqüência, em ator conexo aos interesses do País na área internacional em saúde. 58 No âmbito da CPLP, o Brasil se destacou na área CTI por executar projetos que coadunam com os interesses do Estado (em ampliar relações com estes países) bem como atende também às demandas dos países receptores. Essa inter-relação possibilitou que os países da Comunidade recebessem CT brasileira na área de saúde (dentre outras áreas), o que facilitou no desenvolvimento da agenda internacional do Brasil com base nos países em via de desenvolvimento. A Fiocruz, nesse contexto, auxiliou na exploração e o domínio de novas áreas de conhecimento, levando o desenvolvimento científico e a ampliação do conhecimento aos países receptores da prática cooperativa. Também é mister salientar que a política externa do período Lula demonstra uma retomada do interesse político pela África, o qual havia esmorecido na década de 1990, demonstrando que existiu – do governo Vargas a este último – certa linearidade no que cerne à política externa através da perspectiva universalista das relações internacionais presentes tanto no período da Política Externa Independente quanto na política externa do governo Lula, devido o fortalecimento das relações Sul-Sul. Com a pujança da Cooperação Horizontal neste último governo (período Lula), a Fiocruz fez jus de sua potencialidade na esfera internacional e colaborou no processo de fortalecimento da CTI em saúde por deter técnica,ciência e tecnologia suficientes para atuar demonstrando a excelência brasileira neste âmbito. Além disso, sua atuação é respaldada nos interesses em saúde da Diplomacia brasileira – pois representou o Brasil na Rodada Mundial de Saúde (RMS/CPLP), elaborou a proposta de coordenação das atividades de cooperação em saúde para BrasilÁfrica, tem participação no Plano Estratégico de Cooperação em Saúde da CPLP – PECS. e nos interesses locais (países recipentários). Diante das informações acima expostas, pode-se dizer, em conclusão, que a hipótese proposta neste trabalho foi comprovada, pois as ações de cooperação técnica internacional da Fiocruz apresentaram indícios de alinhamento com a atual política externa do Governo Lula, cunhando um forte estreitamento de visões entre o Ministério da Saúde e o Ministério das Relações Exteriores, pois tanto a solidariedade internacional quanto a busca por maior autonomia no cenário internacional tem se concretizado (projeção internacional política e econômica do país e divulgação do conhecimento brasileiro). 59 É imprescindível salientar que a observação dos acordos e projetos de cooperação internacional brasileira foi relevante para a finalização desse estudo. Contudo, deve-se ressaltar que ainda não existem informações disponíveis que demonstrem qualitativamente os impactos e a relevância destes para as localidades africanas receptoras dos atos cooperativos. Mediante o exposto, sugere-se, portanto, que a ABC/MRE controle de forma mais efetiva estes dados. Através desse apuramento outros órgãos (como o MS) também tenderão a organizar as informações mais pertinentes sobre os projetos e avaliar de forma mais concreta os benefícios da prática cooperativa. E, dessa forma, análises mais substanciais serão realizadas. 60 5. BIBLIOGRAFIA 5.1 LIVROS: ABREU, Fernando Marroni de. La politique africaine du Brésil. In: VIZENTINI, Paulo F. Relações Exteriores do Brasil (1945-1964): o nacionalismo e a política externa independente. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004. p. 220. ALTEMANI, Henrique; LESSA, Antonio Carlos (Org.). Relações internacionais do Brasil: temas e agendas. São Paulo: Saraiva, 2006. v. 2, p. 161. BALDWIN, David (Ed.). Neorealism and Neoliberalism: The contemporary debate. New York: Columbia University Press, 1993. p. 65-66. BARBOSA, Mário Gibson. Na diplomacia, o traço todo da vida. Rio de Janeiro: Record, 1993. p. 255-256. BECKER, Howard. 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Ou seja, estão em conformidade com a Política Externa Brasileira? A AISA é assessorada por diplomata e isso delimita nossas diretrizes, o que conseqüentemente permite atender às demandas da política externa brasileira além fazer com que o MS atue completamente em conformidade com o MRE. Grande parte das atividades dessa Assessoria é proveniente do Itamaraty e da ABC, o que é um reflexo da PEB porque esta se voltou para a África a partir do governo Lula. Os países de língua portuguesa são os maiores receptores de CTI, o que também é prioridade do Itamaraty. Nos grupos de trabalho, qual o peso da Fiocruz nas questões internacionais relacionadas à saúde? Ela é reconhecida pela excelência na área de pesquisa e ensino, então cada vez mais aumenta a demanda de projetos de cooperação com a Fiocruz. Os principais projetos com a África são tratados pela Fiocruz, como a questão dos retrovirais em Moçambique e os mestrados em Angola e Moçambique. A FIOÁFRICA demonstra sua relevância para a região, além do próprio Plano Estratégico de Cooperação em Saúde – que acaba por evidenciar tais características. Qual é o peso da Fiocruz na cooperação brasileira em saúde no mundo? Quais são os outros órgãos do Ministério da Saúde que têm um peso significativo? Os projetos mais relevantes são executados pela Fiocruz: tais como os bancos de leite, os mestrados, a fábrica de retrovirais – que é uma inovação, – o programa de combate à malária e o programa de prevenção e controle de doenças transmissíveis, todos eles são bastante demandados, principalmente na África e em especial pelos PALOP. A ANVISA também tem se destacado como agência 67 reguladora, mas esta e os demais órgãos ou programas são bem específicos e não possuem o mesmo impacto que a Fiocruz no cenário internacional. Há informações sobre as atuações desses órgãos que nos permita avaliar esse peso? O que há são números de projetos que cada área executa, mas a avaliação do êxito deles ainda não é possível pois muitos deles ainda não foram finalizados. Atualmente, não se pode avaliar mais que numero de projetos e demanda. Como 99% dos projetos são financiados pela ABC, pode ser que mais adiante haja o estabelecimento de ferramentas de avaliação dos programas/projetos executados. A avaliação da ABC é feita através de reuniões com as equipes técnicas participantes, mas o MS ainda não possui uma forma de avaliar. 68 7. ANEXOS Anexo A – Lista 1: Países que o Brasil atua em cooperação internacional ÁFRICA ÁFRICA DO SUL Acordo de Cooperação Técnica. (Em negociação). ANGOLA Acordo de Cooperação Econômica, Científica e Técnica. Luanda, 11/06/80. Ajuste Complementar ao Acordo de Cooperação Econômica, Científica e Técnica. Brasília, 12/04/83. 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Cairo, 31/01/73 Acordo de Cooperação Técnica e Científica entre o Brasil e o Egito. Cairo, 31/01/73 Ajuste Complementar ao Acordo de Cooperação Técnica e Científica entre a República Federativa do Brasil e a República Árabe do Egito sobre Cooperação em Pesquisa Aplicada à Agricultura e áreas afins. Cairo, 1991. GABÃO Acordo Básico de Cooperação Técnica e Científica. 07/11/1974. Acordo de Cooperação Técnica e Científica entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da República Gabonesa. Brasília, 14/10/75. GANA GUINÉ BISSAU MALI Acordo Básico de Cooperação Técnica e Científica. Acra, 07/11/74. Acordo Básico de Cooperação Técnica e Científica. Brasília, 18/05/78. Acordo de Cooperação Cultural, Científica e Técnica. Brasília, 07/10/81. MARROCOS Acordo de Cooperação Científica, Técnica e Tecnológica entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo do Reino do Marrocos. Fez, 10/04/84. Ajuste Complementar ao Acordo de Cooperação Científica, Técnica e Tecnológica entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo do Reino do Marrocos (SENAI-OFPPT). Brasília, 20/06/94. MOÇAMBIQUE Acordo para Implementação do Projeto "Implantação de um Centro de Formação Profissional para Escritórios e Administração" em Moçambique. Maputo, 10/04/80. Acordo Geral de Cooperação. Brasília, 15/09/81. Acordo de Cooperação Científica, Técnica e Tecnológica. Maputo, 01/06/89. 69 NAMÍBIA Acordo Básico de Cooperação Técnica. Brasília, 07/03/95. NIGÉRIA Acordo de Cooperação Econômica, Científica e Técnica. Brasília, 10/01/79. QUÊNIA Acordo de Cooperação Técnica. Nairobi, 02/02/73. SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE SENEGAL TOGO ZAIRE ZIMBABUE Acordo Geral de Cooperação entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da República Democrática de São Tomé e Príncipe. Brasília, 26/06/84. Acordo Básico de Cooperação Brasil-Senegal Cooperação Técnica. Dacar, 21/11/72 Programa de Ação para 1976. Brasília, 24/03/76. Acordo Básico de Cooperação Técnica e Científica entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da República Togolesa. Lomé, 03/01/72. Acordo de Cooperação Técnica e Científica. Brasília, 28/02/73. Acordo de Cooperação Técnica. (Em negociação). AMÉRICA LATINA E CARIBE ARGENTINA BOLÍVIA COSTA RICA CHILE COLÔMBIA CUBA COSTA RICA EL SALVADOR EQUADOR GUATEMALA Acordo de Cooperação Técnica , 09/04/96. Acordo Básico de Cooperação Técnica, Científica e Tecnológica, 16/12/96. Acordo de Cooperação Técnica entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da República da Costa Rica, de 22 de setembro de 1997, aprovado pelo Congresso Nacional em 10 de junho de 1999. (Decreto Legislativo nº 37). Acordo Básico de Cooperação Científica, Técnica e Tecnológica, 26/07/90. Acordo Básico de Cooperação Técnica, 13/12/72. Acordo de Cooperação Científica , Técnica e Tecnológica, 18/03/87. Acordo de Cooperação Técnica, 22/09/97. Acordo de Cooperação Técnica, Científica e Tecnológica. Brasília, 20/05/86 Ajuste Complementar ao Acordo Básico de Cooperação Técnica, Científica e Tecnológica entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da República de El Salvador para implementação do projeto "Apoio ao Programa de Doenças Sexualmente Transmissíveis e AIDS", assinado em 02/02/99, com duração de 2 anos. Ajuste Complementar ao Acordo Básico de Cooperação Técnica, Científica e Tecnológica entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da República de El Salvador para implementação do projeto "Estruturação de Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais na Universidade de El Salvador", assinado em 12/05/99, com duração de 3 anos. Acordo Básico de Cooperação Técnica, 09/02/82. Acordo de Cooperação Técnica, de 09 de fevereiro de 1972, publicado no Diário Oficial, de 20 de março de 1972. Acordo Básico de Cooperação Científica e Técnica entre o Brasil e a Guatemala, de 16 de junho de 1976. Promulgado pelo Decreto nº 77, de 11 de outubro de 1976, em 01 de fevereiro de 1979. 70 GUIANA HONDURAS JAMAICA MÉXICO NICARÁGUA PANAMÁ PARAGUAI PERU REPÚBLICA DOMINICANA Acordo Básico de Cooperação Técnica, 29/01/82. Acordo Básico de Cooperação Científica e Técnica. Brasília, 11/06/76. Acordo de Cooperação Técnica. Brasília, 28/08/97. Acordo Básico de Cooperação Técnica e Científica, de 24 de julho de 1974. Promulgado pelo Decreto nº 75.888, de 20 de junho de 1975, em 24 de junho de 1975. Ajuste Complementar sobre Cooperação Técnica entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo dos Estados Unidos Mexicanos, de 27 de abril de 1999. Ajuste Complementar ao Acordo Básico de Cooperação Técnica e Científica entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo dos Estados Unidos Mexicanos em Matéria de Censos e Pesquisas Estatísticas, de 27 de abril de 1999. Acordo Básico de Cooperação Técnica, Manágua, 01/04/87. Acordo Básico de Cooperação Científica e Técnica.Cidade do Panamá, 09/04/81. Acordo Básico de Cooperação Técnica. Assunção, 27/10/87 . Acordo Básico de Cooperação Técnica e Científica. Brasília, 08/10/75 Ajuste Complementar ao Acordo Básico de Cooperação Científica e Tecnológica entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da República do Peru na área de Agricultura, assinado em 22/07/99, com duração de 2 anos, prorrogável por igual período. Acordo de Cooperação Técnica, Científica e Tecnológica. São Domingos, 08/02/85 Ajuste Complementar ao Acordo Básico de Cooperação Técnica, Científica e Tecnológica entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da República Dominicana para implementação do projeto "Educação Urbana para o Centro Histórico-Comercial da cidade de Santiago de luz Caballeros", assinado em 07/04/99, com duração de 1 ano. Ajuste Complementar ao Acordo Básico de Cooperação Técnica, Científica e Tecnológica entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da República Dominicana para implementação do projeto "Recuperação de Habitações em Bairros Populares de Santiago", assinado em 07/04/99, com duração de 1 ano. SURINAME Acordo Básico de Cooperação Científica e Técnica. Brasília, 22/06/76. URUGUAI Acordo Básico de Cooperação Científica e Técnica. Rivera, 12/06/75. VENEZUELA Convênio Básico de Cooperação Técnica, Sta. Helena do Uairén, 20/02/73. ÁSIA E LESTE EUROPEU ARÁBIA SAUDITA CHINA Acordo Básico de Cooperação Científica e Técnica, 13/08/81. Ajuste Complementar ao Acordo de Cooperação Científica e Tecnológica e ao Acordo de Cooperação Econômica e Tecnológica entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da República Popular da China na área de Intercâmbio de Especialistas de Cooperação Técnica. 13/12/95. ABC/EEEE. Ajuste Complementar ao Acordo de Cooperação Científica e Tecnológica entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da República Popular da China na área de Metrologia e Qualidade Industrial. INMETRO/CSBTS. 71 IRAQUE Acordo de Cooperação Econômica e Técnica, 11/05/77 ISRAEL Acordo Básico de Cooperação Técnica, 12/03/62. KUWAIT Acordo de Cooperação, 25/03/75. LÍBANO Acordo de Cooperação Técnica (em negociação). PALESTINA Acordo de Cooperação Técnica (em negociação). RÚSSIA TAILÂNDIA Acordo de Cooperação Científica, Técnica e Tecnológica (em negociação). Acordo de Cooperação Técnica e Científica, 12/09/84. 72 ANEXO B – Acordos internacionais assinados pelo Brasil em saúde no âmbito da CPLP Angola AJUSTE COMPLEMENTAR PARA IMPLEMENTAÇÃO DO PROJETO "APOIO AO PROGRAMA DE PREVENÇÃO E CONTROLE DA MALÁRIA" 18/10/2007 AJUSTE COMPLEMENTAR PARA IMPLEMENTAÇÃO NA ÁREA DE "FORMAÇÃO DE DOCENTES EM SAÚDE PÚBLICA EM ANGOLA” 09/07/2007 AJUSTE COMPLEMENTAR PARA IMPLEMENTAÇÃO DO PROJETO "CAPACITAÇÃO DO SISTEMA DE SAÚDE DA REPÚBLICA DE ANGOLA" 09/07/2007 Cabo Verde AJUSTE COMPLEMENTAR AO ACORDO BÁSICO DE COOPERAÇÃO TÉCNICA E CIENTÍFICA PARA IMPLEMENTAÇÃO DO "PROGRAMA DE COOPERAÇÃO INTERNACIONAL EM HIV/AIDS - FASE II" 14/01/2005 Guiné Bissau AJUSTE COMPLEMENTAR AO ACORDO BÁSICO DE COOPERAÇÃO TÉCNICA E CIENTÍFICA PARA IMPLEMENTAÇÃO DO "PROGRAMA DE COOPERAÇÃO INTERNACIONAL EM HIV/AIDS - FASE II" 15/01/2005 Moçambique PROTOCOLO DE INTENÇÕES SOBRE COOPERAÇÃO TÉCNICA NA ÁREA DA SAÚDE. 20/06/2001 AJUSTE COMPLEMENTAR AO ACORDO GERAL DE COOPERAÇÃO PARA IMPLEMENTAÇÃO DO PROJETO PCI-NTWANANO NO ÂMBITO DO PROGRAMA DE COOPERÇÃO INTERNACIONAL DO MINISTÉRIO DA SAÚDE DO BRASIL. 05/11/2003 PROTOCOLO DE INTENÇÕES SOBRE COOPERAÇÃO CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA NA ÁREA DA SAÚDE. 05/11/2003 AJUSTE COMPLEMENTAR PARA A IMPLEMENTAÇÃO DO PROJETO "ESTUDO DE VIABILIDADE TÉCNICO ECONÔMICO PARA INSTALAÇÃO DE FÁBRICA DE MEDICAMENTOS EM MOÇAMBIQUE PARA PRODUÇÃO DE MEDICAMENTOS ANTI-RETROVIRAIS 15/07/2005 73 E OUTROS" AJUSTE COMPLEMENTAR AO ACORDO GERAL DE COOPERAÇÃO PARA IMPLEMENTAÇÃO DO PROJETO "FORTALECIMENTO DAS AÇÕES DE ALIMENTAÇÃO E NUTRIÇÃO" 06/07/2007 São Tomé e Príncipe PROTOCOLO DE INTENÇÕES SOBRE COOPERAÇÃO TÉCNICA NA ÁREA DE SAÚDE 02/11/2003 AJUSTE COMPLEMENTAR PARA A IMPLEMENTAÇÃO DO PROJETO AÇÕES DE PREVENÇÃO E CONTROLE DO VÍRUS DA DEFICIÊNCIA IMUNOLÓGICA HUMANA E SÍNDROME DA IMUNODEFICIÊNCIA ADQUIRIDA (HIV/AIDS) EM SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE. 18/08/2005 74