IV SEMINÁRIO DE A N A I S PESQUISA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE LONDRINA 27 A 29 DE OUTUBRO DE 2010 Organização Silvia Cristina Martins de Souza Sylvia Ewel Lenz José Miguel Arias Neto Márcia Elisa Teté Ramos Diagramação e Arte Gilberto da Silva Guizelin Anais do IV Seminário de Pesquisa do Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Estadual de Londrina, 27 a 29 de outubro de 2010 Publicação On-Line: Associação Nacional de História – Seção Paraná Londrina, Paraná – Brasil Reitora Nádi na Aparecida Moreno Vice-Reitora Berenice Quinzani Jordão Pró-Reitor de Pesquisa de Pós-Graduação Mário Sérgio Mantovani Pró-Reitora de Extensão Cristiane Cordeiro de Nascimento Diretora do Centro de Letras e Ciências Humanas Miriam Donat Vice-Diretor do Centro de Letras e Ciências Humanas Ariovaldo de Oliveira Santos Chefe do Departamento de História Edméia Aparecida Ribeiro Vice-Chefe do Departamento de História Rogério Ivano Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em História Social Silvia Cristina Martins de Souza Vice-Coordenador do Programa de Pós-Graduação em História Social José Miguel Arias Neto Comissão Organizadora do IV Seminário de Pesquisa do PPGHS/UEL Maria de Fátima da Cunha Sylvia Ewel Lenz Zueleide Casagrande de Paula Gilberto da Silva Guizelin Apresentação ............................................................................... 10 LINHA I: TERRITÓRIOS DO POLÍTICO José Oiticica: Itinerário de um Militante Anarquista. 1912 – 1919 Aden Assunção Lamounier .................................................... 13 A Participação e a Organização Política das Mulheres: Um Estudo Bibliográfico Alexandra Pingret ................................................................ 26 As Relações entre Brasil e Estados Unidos nas Páginas da Revista „Em Guarda‟ (1941 - 1945) Aline Vanessa Locastre ......................................................... 38 A Tradição Helinistica Transformada no Império Romano do Século II D.C.: A “Anábase de Alexandre Magno” de Arriano de Nicomédia André Luiz Leme ................................................................. 51 Santos Dias, A Construção da Memória Carlos Alberto Nogueira Diniz ............................................... 61 Conflito Político nas Forças Armadas: A Associação de ExCombatentes do Brasil Carlos Henrique Lopes Pimentel ............................................. 74 A Escrita e o Sentido da História na Muqaddimah de Ibn Khaldun (1332 – 1406) Elaine Cristina Senko .......................................................... 85 S U M Á R I O As Instruções Científicas Portuguesas de Viagem e a Formação do ViajanteNaturalista Setecentista Frederico Tavares de Melo ..................................................................................... 99 O Prisma Atlântico Como Ponto de Partida: A Reorientação da Produção Historiográfica Brasileira Acerca do Tráfico Transatlântico de Escravos e da Política Externa Imperial Gilberto da Silva Guizelin ................................................................................. 112 Levantamento e Análise das Fontes Historiográficas do Processo de Re-Ocupação Ambiental do Centro Oeste Paulista – Assis; Caminhos da História e Novas Abordagens da Histriográfia Gustavo Siqueira Campos Cheliga ..................................................................... 124 Nacionalismo e a Proposta de (Re)Construção da Nação Brasileira Desenvolvida Pela Ação Integralista Brasileira na Década de 1930 Jaqueline Tondato Sentinelo .............................................................................. 134 Imagens e Mensagens Libertárias do Primeiro de Maio: No Jornal A Voz do Trabalhador (1909 - 1915) João Carlos Marques ......................................................................................... 147 Natureza e Agricultura em Itu no Século XIX: O Significado da Fazenda Modelo Karina Barbosa Souza Quiroga ......................................................................... 156 A Sistematização da Ocupação Portuguesa Sobre as Minas do Cuiabá e as Resistências da Sociedade Colonial (1721 – 1728) Luís Henrique Menezes Fernandes ..................................................................... 168 Algumas Considerações Sobre a Modernidade: A Ordem Jurídica Portuguesa e a Linguagem das Defesas de Crimes de Lesa-Majestade em Finais do Antigo Regime Marcelo Dias Lyra Júnior ................................................................................... 180 Os conflitos Platinos e a Formação do Estado Brasileiro (1808 - 1828) Mayra Cristina Laurenzano ............................................................................. 194 Uma Análise do Universo Fascista Presente no Jornal Integralista A Offensiva (1934 – 1935) Murilo Antonio Paschoaleto ............................................................................... 206 Miguel Reale, Escrita de Si e a Problemática da Retomada Integralista Odilon Caldeira Neto ........................................................................................ 216 Identidades e Memória de Imigrantes Japoneses e Descendentes em Londrina: 1930 – 1970 Priscila Martins Fernandes ............................................................................... 227 Usos do Passado: Imperialismo e Arqueologia na Inglaterra Vitoriana Renata Cerqueira Barbosa ................................................................................ 238 A Produção Historiográfica no Brasil nos Anos de 1960 e 1970 Robson Carlos Souza ........................................................................................ 248 Reagan e o Império Hollywoodiano: A Década de 1980 e a Integração Vertical e Horizontal da Industria Cinematográfica Estadunidense Rodrigo Candido da Silva ................................................................................. 259 A Águia Voa: A Política Externa dos Estados Unidos e o Desenvolvimento de suas Doutrinas Militares e de Relações Internacionais no Pós-Segunda Guerra Mundial (1945 - 2009) Sandro Heleno Morais Zarpelão ........................................................................ 272 As Conjunturas da Construção de Brasília Sara César Brito .............................................................................................. 291 É Proibido Transgredir: A Relação do PCB com os Artistas e Intelctuais Comunistas (1945 – 1953) Tiago João José Alves ......................................................................................... 300 LINHA II: CULTURA, REPRESENTAÇÕES E RELIGIOSIDADES Cemitérios Militares Brasileiros: O Embate Entre o Religioso e o Patriótico Adriane Piovezan .............................................................................................. 309 Sedução e Rapto Consensual: Análise Histórica A Partir de Autos Criminais (1940 – 1970) Clodoaldo Oliveira Silva .................................................................................... 318 Entre Valores e Práticas: A Infância e Adolescência Pobres Assistidas na Cidade de Toledo/PR (1970 – 2000) Cristiano Néri .................................................................................................. 325 Fome, Frio e Forca: Imaginário e Representação em Oliver Twist de Charles Dickens Diogo Heber Albino de Almeida .......................................................................... 337 Oliveira Vianna: Investigação Científica e Síntese dos Problemas Sociais no Brasil Felippe Estevam Jaques ...................................................................................... 349 O Romantismo Inglês Como Fenômeno Histórico na Transição Entre os Séculos XVIII e XIX na Poesia de William Blake Flávia Maris Gil Duarte .................................................................................... 361 Joaquim Inojosa e o Jornal Meio-Dia (1939 – 1942) João Arthur Ciciliato Franzolin .......................................................................... 373 A Historicidade do Personagem Diogo da Rocha Figueira, o “Bandido” Dioguinho a Partir da Análise de Produções Narrativas José Osvaldo Henrique Corrêa ............................................................................. 387 A Busca pela Conscientização Política das Mulheres por Meio das Imagens da Imprensa Comunista Brasileira (1945/1957) Juliana Dela Torres ............................................................................................ 399 Letras dos Poetas Esquecidos: A Boemia Literária na Belle Époque Paulistana Karen Cristina Leandro .................................................................................... 409 Discurso e Poder em Foucault: Embates Discursivos entre a Santa Sé e Leonardo Boff Leonir Nardi ................................................................................................... 420 O Debate Acerca do Nacionalismo Musical no Brasil: Mário de Andrade e o Grupo Música Viva (1920 – 1950) Lucas Dias Martinez Ambrogi .......................................................................... 433 História das Ideias em A Árvore Mágica de Peter Sloterdijk Maria Siqueira Santos .................................................................................... 443 Pensamento Jurídico Sobre as Greves no Brasil na Década de 1950 Patrícia Graziela Gonçalves .............................................................................. 454 O Tempo na Espanha do Século XVII: Diego Velázquez e os Retratos de Felipe IV da Espanha Susana Aparecida da Silva .............................................................................. 466 “Estômago”, O Filme Como Prato Principal para a História Uliana Kuczynski .......................................................................................... 476 Sobre o Tempo: Uma Perspectiva a Partir da História Social Vinícius Emanuel Rodrigues ............................................................................ 489 LINHA III: HISTÓRIA E ENSINO A Imagem Como Pesquisa No Ambiente Escolar, Um Estudo do Brasil Oitocentista Pelas Obras de José Ferraz de Almeida Arnaldo Martin Szlachta Júnior ........................................................................ 513 Representantes de Professores das Seres Iniciais do Ensino Fundamental Sobre a Escola de Tempo Integral na Cidade de Apucarana – PR Carlos Rogério Chaves ....................................................................................... 525 Formar Para o Trabalho e Formar Para a Vida O Senai – PR (1940 – 1960) Desirê Luciane Dominschek ............................................................................... 536 Considerações Iniciais de Pesquisa: Estudo de Caso do Modelo de Escola em Tempo Integral no Município de Apucarana – PR, 2001 – 2009 Diego Favaro Soares ......................................................................................... 543 Ensino e História: O Uso das Fontes Históricas Como Ferramentas na Produção de Conhecimento Histórico Érica da Silva Xavier ........................................................................................ 553 A Representação Sobre os professores Paranaenses a Partir do Movimento Grevista de 1988 Fabiane Luzia Menezes ..................................................................................... 563 O Ensino e Aprendizagem de História Através da Mediação de Filmes em Sala de Aula Fernando Rossi ................................................................................................ 576 Educação Profissional: História E Ensino de História Francinne Calegari de Souza ............................................................................ 585 Pós-Abolição: Narrativas de Concluintes dos Cursos de Licenciatura em História do Norte do Paraná Gláucia Ruivo Murinelli ................................................................................... 597 Os Cristãos-Novos no Ensino de História: Escrita e Representações nos Livros Didáticos (1980 – 2007) Helena Ragusa .................................................................................................. 607 Rastros do Efêmero no Cotidiano da Sala de Aula: Pensando As Diversas Leituras do Livro Didático de História Jéferson Rodrigo da Silva .................................................................................. 621 Construção do Conhecimento Histórico Escolar Através da Música Julho Zamariam .............................................................................................. 633 Gênero, Sexualidade e Ensino de História: A Construção de um Diálogo Luana Pagano Peres Molina ............................................................................. 642 Os Jogos de Interpretação de Personagem. Suas Narrativas e Perspectivas no Ensino de História Ricardo Jéferson da Silva Francisco ................................................................... 653 10 É com prazer que fazemos chegar aos leitores os Anais do IV Seminário de Pesquisa do Programa de Pós Graduação em História Social realizado entre os dias 27 e 29 de outubro de 2010, no Centro de Letras e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Este seminário teve por objetivo principal promover, consolidar e fortalecer o Programa de Mestrado em História Social da UEL, através da disseminação e troca de reflexões em pesquisas acerca das recentes tendências historiográficas, teóricas e metodológicas no campo em constante construção da História Social. Tomando por base as três linhas de pesquisas do Mestrado em História Social da UEL, a saber, Territórios do Político; Cultura, Representações e Religiosidades; e História e Ensino, constaram da programação do evento mesas redondas compostas por professores convidados, por professores da casa e por alunos egressos do programa, além de simpósios temáticos. As mesas redondas privilegiaram os seguintes temas: Tendências historiográficas; Projetos de pesquisa desenvolvidos no PPGHS/UEL; Dissertações defendidas no PPGHS/UEL; Abordagens de pesquisas desenvolvidas em Programas de Pós Graduação vizinhos. Nesta quarta versão do Seminário, o estreitamento das relações com outros Programas de Pós Graduação foi, aliás, um dos objetivos centrais a serem contemplados. E, podemos, satisfatoriamente, dizer que alcançamos este objetivo, pois a participação de pós graduandos vindos de instituições tais como a Universidade Federal Fluminense, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a Universidade Federal do Paraná, a Universidade Estadual de Maringá, a Universidade Estadual do Oeste do Paraná, a Universidade Estadual do Centro-Oeste e a Universidade Estadual de São Paulo (Assis), contribuiu para trocas de experiências de pesquisas, para o intercâmbio de informações e para o afinamento de interesses e perspectivas de análises. A P R E S E N T A Ç Ã O 11 Por fim, gostaríamos de deixar registrado que este evento não teria sido realizado sem a participação efetiva dos membros da Comissão Organizadora e da Comissão Científica; dos professores do programa, que contribuíram de diferentes formas para sua realização; do apoio institucional da Universidade Estadual de Londrina; do apoio financeiro e material concedidos pela Fundação Araucária e pela Caixa Econômica Federal respectivamente; bem como do apoio organizacional e veiculador do Instituto de Tecnologia Desenvolvimento Econômico Social (ITEDES) e da Associação Nacional de História (ANPUH) Seção Paraná. Londrina – PR, Janeiro de 2011. Silvia Cristina Martins de Souza Coordenadora do PPGHS/UEL Chefe da Comissão Organizadora do IV Seminário de Pesquisa do PPGHS/UEL LINHA I: TERRITÓRIOS DO POLÍTICO 13 JOSÉ OITICICA: ITINERÁRIO DE UM MILITANTE ANARQUISTA. 1912-1919 Aden Assunção Lamounier Mestrando do Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Estadual de Londrina [email protected] RESUMO: O presente artigo tem como principal objetivo analisar de forma sucinta o perfil da ―trajetória anarquista‖ de José Oiticica. A opção pelo recorte temporal - de 1912 a 1919 deve-se ao fato de, em 1912, Oiticica ter declarado, no semanário anticlerical A Lanterna, ser anarquista. 1919 é o ano em que o personagem retornou à Capital Federal após deportação para o Estado de Alagoas, acusado de ser um dos mentores da greve de 1918, ocorrida no Rio de Janeiro, tida como insurrecional por parte da historiografia brasileira. O estudo será desenvolvido a partir das premissas da análise biográfica, buscando, não apenas contar uma ―história miúda‖, mas, sobretudo, permitir uma compreensão ampla e plural da participação de Oiticica no movimento operário carioca do início do séc. XX. Para tanto, a abordagem biográfica terá José Oiticica como ―fio condutor‖ e, como ―pano de fundo‖, o movimento operário carioca do início do séc. XX até 1919. Desta forma, pretendo compreender algumas de suas relações e escolhas, no campo do público e do privado, as quais seriam pouco perceptíveis se o estudo fosse guiado pelas premissas de análises macro-estruturais. Assim sendo, deixo-me guiar pelas multifacetadas escolhas do indivíduo, procurando observar suas experiências, relações sociais, interpretações de mundo, as quais têm grande responsabilidade na composição do curso de sua vida. PALAVRAS-CHAVE: José Oiticica, Anarquismo, Movimento Operário Brasileiro. Em maio de 1919, o jornal diário A Rua, trazia a informação do retorno do anarquista José Oiticica à cidade do Rio de Janeiro. Está no Rio de Janeiro o Dr. José Oiticica, veio no ‗Itatinga‘. Um agente da Polícia Marítima, vigiou-o em disfarce [...]. Foi como se tivesse rebentado uma bomba explosiva na lancha da Polícia Marítima, quando hoje, ao fundear no porto o paquete Itatinga, da Costeira, sentado no convés, conversando com seu filho. Retido por algum tempo, foi autorizado seu desembarque, pelo Dr. Aurelino Leal.1 José Oiticica voltava então, junto com sua família, à Capital Federal, após ter sido preso e deportado para o Estado de Alagoas acusado de ser um dos responsáveis por promover a greve geral do Rio de Janeiro, em novembro de 1918. Segundo boa parte dos estudiosos, José Rodrigues Leite e Oiticica foi um intelectual e anarquista doutrinário brasileiro que participou ativamente das lutas operárias ocorridas no país na Primeira República, seguindo sua ideologia, realizou palestras e cursos de caráter doutrinário e educativo, escreveu artigos para jornais, elaborou peças de teatros e participou da organização da insurreição anarquista do Rio de Janeiro. Defendeu o anarquismo até sua morte, mesmo depois que este ideal perdeu espaço dentro do movimento operário para uma corrente de viés comunista. 1 RODRIGUES, Edgar. Os Libertários. Rio de Janeiro: VRJ, 1993, p.37 14 Conforme título deste artigo, analisarei Oiticica enfocando a sua militância, à vida deste ―perigoso subversivo‖, visando perceber os caminhos e possibilidades com os quais este homem teve contato durante sua trajetória. Assim procuro evitar uma biografia teleológica; a narração de história de vida em que as atitudes e decisões do biografado são coerentes, certas e lineares. O texto se desenvolverá, quase sempre, seguindo uma ordem cronológica, buscando assim, mostrar não uma idéia de predestinação, mas sim, como afirma Benito Bisso Shmidt, a variedade de caminhos que ele (Oiticica) encontrou e a importância das escolhas feitas.2 Descendente de família alagoana, José Oiticica nasceu em Oliveira, Minas Gerais, em 22 de julho de 1882, quarto filho de um total de sete do casal Francisco de Paula Leite e Oiticica e D. Ana A. Leite e Oiticica. Seu pai era advogado e, posteriormente, entre 1891 e 1893, foi deputado federal de Alagoas; também foi senador pelo mesmo estado no período de 1894 a 1900. Podemos presumir, a partir das atividades exercidas pelo pai, que Oiticica não passou por dificuldades financeiras em sua infância, pelo contrário, veio de uma família abastada e, desde cedo, também teve contat com o mundo da política. Sendo assim, vindo de uma família rica, Oiticica iniciou o seu aprendizado escolar logo cedo, aos 6 anos de idade, enviado para estudar em um internato do Colégio São Luis Gonzaga, em Petrópolis. Posteriormente, já no Seminário Arquidiocesano São José, foi expulso, segundo Alexandre Samis, por se rebelar contra os castigos corporais aplicados pelo padre-mestre. Foi então matriculado no Colégio Paula Freitas, concluindo os cursos preparatórios para o ensino superior aos 15 anos de idade.3 A formação educacional de Oiticica nos mostra traços das características de sua vida familiar, pois logo cedo foi enviado para estudar em colégios religiosos tradicionais e possivelmente, por influência deles, ingressou no ensino superior no curso de Direito. Iniciou sua graduação na Faculdade de Ciências Jurídicas do Recife concluindo-a na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro. Matriculou-se ainda, na Faculdade de Medicina, mas não concluiu o curso. Aqui é importante notarmos que José Oiticica poderia, como vários jovens ―herdeiros da oligarquia‖ da época, ter dado continuidade à carreira política do pai, uma tendência naquela época. Mas, mesmo se formando em Direito, decidiu-se pelo Magistério, trabalhando como professor até ser aposentado. A possibilidade de um vasto conhecimento científico proporcionado pelos centros educacionais por onde ele passou, possivelmente, ajudaram-no a adquirir um importante manancial que seria empregado em sua formação ideológica, também demonstrada na sua ―louvável‖ capacidade de escrita. No decorrer de toda a vida discente de Oiticica, na qual teve contado com disciplinas humanistas como Sociologia e Filosofia vão se delineando as suas concepções ideológicas sobre 2 SCHMIDT, Benito Bisso. O patriarca e o Tribuno: Caminhos, encruzilhadas e ponte de dois líderes socialistas- Francisco Xavier da Costa (187?-1934) e Carlos Cavaco (1878-1961), Tese de Doutorado em História. UNICAMP,2002, p.22 3 SAMIS, Alexandre. Presenças Indômitas: José Oiticica e Domingos Passos. In: FERREIRA, Jorge e REIS, Daniel Arão. As Formações das Tradições 1889-1945.Rio de Janeiro, Civilização brasileira,2007, 92 15 a sociedade, inicialmente, com uma coloração patriótica, em defesa do povo brasileiro, ―já muito presente em alguns de seus escritos‖4. Na profissão do Magistério, talvez motivado por um saudosismo da época em que era aluno, José Oiticica, procurou a direção do Colégio Paula Freitas para assumir aulas de História que estavam vagas. E foi neste Colégio que ele iniciou sua carreira de docente. Por ser um colégio particular, podemos pensar que pode ter sido favorecido, na obtenção deste cargo, o fator de lá ter estudado e se formado com méritos, ou também ter utilizado de influência familiar. Em 1905 casou-se com sua prima Francisca Bulhões com quem teve seis filhos, um homem e cinco mulheres, e fundou em 1906, junto com sua esposa, e com a ajuda financeira de seus pais, o Colégio Latino-Americano no qual buscou aplicar suas perspectivas filosóficas, que, segundo Samis, ainda trazia traços da ideologia republicana5 Preocupado com a questão social nacional, Oiticica acreditava que os problemas advinham dos sistemas normativos das instituições educacionais, que acabavam por limitar a capacidade competitiva e a capacitação técnica do povo brasileiro, os quais seriam o caminho para emancipação da nação. Oiticica também flertava com os ideais liberais republicanos. Acreditava, no entanto, que a emancipação do homem poderia vir de sua instrução escolar, impedindo assim que as classes sociais mais baixas vivessem sempre subordinadas aos interesses das classes mandantes. As disciplinas escolares deveriam aguçar a criatividade dos homens para que assim pudessem realizar suas tarefas na sociedade industrial e atividades comerciais de forma a viabilizar a sua ascensão neste meio. Esta concepção da função educacional aplicada ao Colégio Latino-Americano6, a qual não buscava satisfazer somente as aspirações da burguesia, pode ter resultado em um baixo interesse por parte das famílias que poderiam pagar mensalidades. Aliado ao desinteresse da população em geral, quanto à necessidade de ensino escolar7, o fornecimento de vagas gratuitas na instituição para crianças carentes pode ter constituído um dos motivos que determinou seu fechamento após dois anos de dificuldades financeiras. Após a sua malograda experiência como dono de colégio, Oiticica seguiu para Laguna, Santa Catarina. Não consegui encontrar fontes que esclarecessem o porquê dele ter se mudado para o Sul do país, algumas hipóteses aqui podem ser levantadas como, um convite de trabalho ou por ter parentes que lá residiam. Morando em Laguna, atuou durante dois anos como diretor do Colégio Municipal daquela cidade. 4 SAMIS, Alexandre. Presenças Indômitas: José Oiticica e Domingos Passos. In: FERREIRA, Jorge e REIS, Daniel Arão. As Formações das Tradições 1889-1945.Rio de Janeiro, Civilização brasileira,2007, p.93 5 SAMIS, Alexandre. Presenças Indômitas: José Oiticica e Domingos Passos. In: FERREIRA, Jorge e REIS, Daniel Arão. As Formações das Tradições 1889-1945.Rio de Janeiro, Civilização brasileira,2007, p.93. 6 OITICICA, José. Estatutos do Colégio Latino Americano. Rio de Janeiro, Thipographia da Gazeta de Notícias, 1905. 7 Ver, RAMOS, Graciliano. Infância. São Paulo, Livraria Martins, 6° Ed. 1967. P.107 16 Em 1909, voltou ao Rio de Janeiro e tentou, por diversas vezes ser aprovado em concursos para empregos do Estado ―embora, conseguindo sempre ótimos resultados‖8 não obteve nenhum destes cargos. Possivelmente, fundamentado em suas frustrações pessoais em relação a esse Estado Oligárquico, que não empregava pelo mérito e sim pelo clientelismo, nos anos seguintes, segundo Samis, Oiticica ampliará suas críticas ao Estado, deixando de lado suas idéias patrióticas iniciais. Ele usará de ―sua cultura geral alicerçada na atuação como professor de história‖9 para aumentar suas observações sobre a sociedade para além do território nacional. O contato com o anarquismo aconteceu em uma conversa com seu primo Ildefonso Falcão, sobre a política nacional quando Oiticica, expondo suas idéias, ouve de seu primo que eram teorias anarquistas10. Devido ao fato de Oiticica ter relutado contra esta idéia, pois, pensava que anarquismo era uma espécie de seita que pretendesse reformar o mundo mediante a sua destruição, Ildefonso, para provar sua afirmação, lhe apresentou alguns jornais anarquistas de outros países para que Oiticica pudesse entender melhor o que defendia esta ideologia11. Segundo Edgar Rodrigues, após este contato, as idéias anarquistas passaram a compor as produções, artigos, poemas, textos teatrais, de Oiticica. Em tudo, podia-se notar suas ―novas teorias‖ que traziam agora uma ―carga anárquica‖. Quanto mais se envolvia com o anarquismo mais tentava propagá-lo ―subordinando todos os assuntos abordados aos princípios e métodos anarquistas‖12. Sheldon Leslie Maran escreve que ―[...], daí por diante, dedicou à causa suas habilidades de orador público, polemista, poeta, teatrólogo e filólogo‖13. Até mesmo em suas aulas de Português ministradas no Colégio Pedro II, José Oiticica, buscava ensinar a doutrina anarquista usando biografias de personagens da idade antiga ou analisando a estrutura dramática de comédias enquanto gênero, tentando sempre transformar as análises feitas em suas aulas em momentos de propaganda da ação libertária. 8 RODRIGUES, Edgar. Os Libertários. Rio de Janeiro, VRJ, 1993,p.33. SAMIS, Alexandre. Presenças Indômitas: José Oiticica e Domingos Passos. In: FERREIRA, Jorge e REIS, Daniel Arão. As Formações das Tradições 1889-1945.Rio de Janeiro, Civilização brasileira,2007, p.94. 10 Segundo George Woodcock em seu livro História das Idéias e Movimentos Anarquistas, ―o anarquismo é uma doutrina uma critica à sociedade vigente; uma visão da sociedade ideal do futuro e os meios de passar de uma para outra‖ (WOODCOCK,2002,p.07). Sendo assim, o anarquista ―[...] procura romper com tudo, voltar às raízes e basear qualquer tipo de organização que se torne necessária – para usar uma das frases favoritas dos anarquistas – na ‗questão da produção‘. A dissolução da autoridade e do Estado, a descentralização da responsabilidade, a substituição dos governos e de outras organizações monolíticas semelhantes por um federalismo que permitirá que a soberania retorne às unidades essenciais básicas da sociedade.‖(WOODCOCK,2002,p.29) 11 SAMIS, Alexandre. Presenças Indômitas: José Oiticica e Domingos Passos. In: FERREIRA, Jorge e REIS, Daniel Arão. As Formações das Tradições 1889-1945.Rio de Janeiro, Civilização brasileira,2007. P.98 12 RODRIGUES, Edgar. Os Libertários. Rio de Janeiro, VRJ, 1993. P.33 13 MARAM, Sheldon Leslie. Anarquistas, imigrantes e o movimento operário brasileiro: 1890-1920. Trad: José Eduardo Ribeiro Moretzsohn, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1979,p.87 9 17 Após iniciar seus estudos sobre as teorias anarquistas José Oiticica se declara militante da causa em 1912 em artigo publicado no semanário anticlerical A Lanterna14, o qual foi intitulado de Francisco Ferrer e a Humanidade nova15 Sobre esta primeira publicação de afirmação anárquica de Oiticica, José Romero escreveu, em 1957, Em 1912 tivemos a satisfação de ler o primeiro artigo de Oiticica de afirmação anárquica. [...].Nele ressaltava a obra do mártir de Montjuich e previa o triunfo do racionalismo libertário. Esse trabalho foi publicado no número especial de A Lanterna, de S. Paulo, do dia 13-10-1912, em recordação do 3° aniversário do fuzilamento de Francisco Ferrer.16 Este artigo de Romero foi publicado pelo mensário anarquista Ação Direta, o qual Oiticica havia sido diretor fundador. De caráter homenagético, por ocasião da morte de José Oiticica, em 30 de junho daquele ano, recordava algumas passagens do ―grande companheiro José Oiticica‖ no meio anarquista nacional. Importante notarmos que o primeiro artigo de Oiticica publicado em uma revista de cunho militante operário é voltado à questão da educação. Portanto, ele demonstra a sua preocupação em instruir o trabalhador para que assim pudesse lutar por seus direitos e, também, contra o ―maléfico sistema capitalista‖. Idéia esta, que era comum às ideologias que respaldavam a ascensão proletária em detrimento da sociedade capitalista. Deixando ―o professor falar mais alto‖ Oiticica afirmava que a educação era um dos caminhos determinantes para que as idéias libertárias triunfassem, mas que esta instrução não deveria seguir os moldes do sistema educacional estatal, representante da classe burguesa, e sim, deveria seguir os preceitos da Escola Moderna, fundada por Francisco Ferrer.17 Possivelmente, foi nesta época que José Oiticica começou a se corresponder com Edgard Leuenroth, este, era o então Diretor de A Lanterna. Leuenroth aderiu ao movimento anarquista em 1904, depois de conhecer o poeta Ricardo Gonçalves. Assim como Oiticica, ele também é considerado um dos grandes militantes da causa anarquista no Brasil, atuou com mais frequência na capital paulista, mas isso não quer dizer que sua militância se restringiu a São Paulo. Segundo Silvia Regina Ferraz Petersen, existem vários indícios de que o movimento operário, literalmente, cruzava fronteiras estaduais18. Os congressos, os movimentos de solidariedade, as denúncias quanto à exploração existentes em cada estado tornavam-se 14 Sobre o semanário A Lanterna ver: DULLES, John W. Foster. Anarquistas e Comunistas no Brasil:1900-1933. Trad. César Parreiras, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1977,p.25 15 Sobre Francisco Ferrer e a Escola Moderna ver: SAFÓN, Ramón. O racionalismo combatente de Francisco Ferrer Y Guardia. Imaginário. São Paulo. 2003 16 ROMERO, José, “José Oiticica: recordando alguma coisa de sua trajetória no movimento libertário”, Ação Direta. Ano 11, n°120, ago-set. 1957 17 . Segundo Ramón Safón,―[...]. A escola moderna é mista e aberta a todos os meios (conquanto paga, o preço da pensão varia em função da renda dos pais); ela é laica e bane todo ensino religioso. Enfim, é também racional e científica‖. SAFÓN, Ramón. O racionalismo combatente de Francisco Ferrer Y Guardia. Imaginário. São Paulo. 2003.p.53 18 PETERSEN, Silvia Regina Ferraz, Cruzando Fronteiras: As Pesquisas Regionais e a História Operária Brasileira. Porto Alegre, Anos 90, N.3, junho 1995 p. 135 18 reivindicações comuns quando estes militantes se encontravam em eventos promovidos em prol da causa operária. A circulação de jornais pelos estados e, também, dos militantes motivados por perseguições ou não, foram, igualmente, fatores que possibilitaram o cruzamento de idéias entre os personagens da história operária nacional. Juntamente com Leuenroth, José Oiticica ajuda a sustentar, no Brasil, pequenos grupos anarquistas pós-Grande Guerra 19. Em 1912, Oiticica aderiu à Liga Anticlerical20 do Rio de Janeiro da qual participaria, provavelmente, até o ano de 1937. Neste mesmo período, o movimento anarquista e anticlerical intensificou sua propaganda. Segundo Rodrigues, ―O ano de 1912 nasce com o despontar de novos baluartes da propaganda operária, veículos de divulgação de suas idéias e de doutrinas ácratas‖21. O movimento, agora revigorado e com grande disseminação das teorias anarquistas, tinha como veículo divulgador de idéias um mensário anticlerical. Esclareço, ainda, que A Lanterna não era o único jornal que combatia o capital, mas ele tinha importância inquestionável na luta operária, o que pode ter levado Oiticica a aproximar da Liga, antes mesmo de manter contato mais estreito com o movimento operário. A partir de então, Oiticica passou a se relacionar com militantes que participavam da luta operária e, possivelmente, isto foi o que o levou a procurar conhecer a Federação Operária do Rio de Janeiro22 em 1913 - o seu primeiro contato mais direto com a causa operária.Podemos notar então, que história de militância de José Oiticica no movimento operário brasileiro nasceu junto com o seu revigoramento. Atuando de várias formas, como mencionado anteriormente, Oiticica procurou, defender seus ideais e informar seus conhecimentos aos operários relacionando-os com a questão social. Buscou ensiná-los por meio de palestras e conferências, sobre o idioma, ciências, higiene, entre vários outros estudos. Procurou aprimorar a ―cultura do trabalhador‖ para que assim pudesse melhor se organizar e lutar contra os malefícios causados pela sociedade capitalista. Esta concepção iluminista do ―poder‖ a partir do ―saber‖, segundo Francisco Foot Hardman23, teve grande influência nas correntes ideológicas do movimento operário. Além da idéia de que a emancipação do operário viria, também, a partir da ―educação‖, a instrução da classe trabalhadora era necessária para a compreensão das ideologias discutidas em congressos, palestras e jornais. Sendo assim, os sucessos das propagandas militantes operárias dependiam da extinção do analfabetismo. Isabel Bilhão, ao abordar o tema afirma que, 19 MARAM, Sheldon Leslie. Anarquistas, imigrantes e o movimento operário brasileiro: 1890-1920. Trad: José Eduardo Ribeiro Moretzsohn, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1979,p.86. 20 Sobre Anticlericalismo ver: VALLADARES, Eduardo. Anarquismo e Anticlericalismo. São Paulo, Imaginário, 2000, p.10 21 RODRIGUES, Edgar. Socialismo e Sindicalismo no Brasil: 1675-1913. Rio de Janeiro, Laemmert, 1969, p.308 22 Sobre a forma de organização operária em Federações ver: Documentos do Movimento Operário: resoluções do Primeiro Congresso Operário Brasileiro, In: Estudos Sociais, n° 16, marc.1963, p. 387398. 23 HARDMAN, Francisco Foot. Nem Pátria, Nem Patrão: Memória Operária, Cultura e Literatura no Brasil. 3° Ed, São Paulo, UNESP, 2002. P.78 19 [...] a defesa da instrução para os operários, tema que, como seu correlato incentivo à leitura, comparecia reiteradamente na imprensa operária da época, sendo considerada pelas lideranças como condição primordial à difusão dos ‗nobres ideais‘ e ao ‗alevantamento moral‘ do operariado.24 Oiticica, acrescentou estas concepções ao que já pensava ser ―a função do ensino‖ logo, em 1913, já se pode encontrar seu nome ligado à conferências e palestras operárias. Neste mesmo ano, ele participou de uma festa promovida pelo Grupo Dramático Anticlerical, no salão do Centro Galego do Rio de Janeiro25. Este era um grupo teatral que buscava propagar os ideais da emancipação humana, era comum a época a existência grupos teatrais voltados à causa social. Possivelmente, esta parceria com o grupo teatral possibilitou a Oiticica conhecer Orlando Corrêa Lopes, este, era um dos principais conferencistas das festas organizadas pelo Grupo26. Na definição de João Batista Marçal, Orlando foi, ―engenheiro, jornalista, escritor e revolucionário. Militante e teórico anarquista. Natural de Itaqui, Rio Grande do Sul. ‗Gaúcho inteligente e culto de temperamento vibrátil e impetuoso‘.‖27 Aqui, percebemos novamente o cruzamento de fronteiras, já tratado antes, dentro do movimento operário e que rendeu vários frutos no âmbito da luta operária. Em 1914, esta dupla fundou a revista anarquista A Vida que circularia de novembro de 1914 até o ano seguinte. Juntamente com estes militantes, participaram da composição da revista, Francisco Viotti, então estudante de Medicina, Fábio Luz, médico e higienista, que se tornou anarquista já no inicio do séc. XX após a leitura da obra de Kropotkin28. Todos estes, eram frequentadores assíduos do Centro de Estudos Sociais, fundado no Rio de Janeiro em 12 de abril de 1913, onde se revelavam as grandes disputas ideológicas que coexistiam dentro do movimento operário brasileiro. Sendo assim, representantes destas correntes buscavam angariar mais adeptos para terem uma maior representatividade dentro dos sindicatos. Toda esta disputa ocorria nas agitadas reuniões noturnas de sexta-feira, em que se realizavam palestras e conferências que acabavam por se tornar grandes debates entre as diferentes correntes ideológicas. A participação de Oiticica no movimento operário e suas contribuições ao anarquismo nacional, surgiram na medida em que ele conheceu e manteve relações com alguns militantes da causa. O movimento, além de ser um canal de luta para Oiticica, acabou tornando-se também um local produtivo para a sua ―vida anarquista‖, passando a conhecer novos militantes, desenvolveu as produções hoje conhecidas. 24 BILHÃO, Isabel. Identidade e Trabalho: Uma História do Operariado Porto Alegrense (1898-1920). Londrina, EDUEL, 2008. p. 74 25 Local onde se realizou vários eventos anarquistas e sindicalistas. O primeiro congresso operário de 1906 e algumas palestra do segundo congresso operário de 1913 foram realizadas neste centro. Várias festas e festivais libertários foram também ali realizadas. 26 REVERBEL, Carlos, APUD, MARÇAL, João Batista. Os Anarquistas no Rio Grande do Sul: anotações biográficas, textos e fotos de velhos militantes da classe operária gaúcha. Porto Alegre, EU/Porto Alegre,1995, p.102 27 MARÇAL, João Batista. Os Anarquistas no Rio Grande do Sul: anotações biográficas, textos e fotos de velhos militantes da classe operária gaúcha. Porto Alegre, EU/Porto Alegre,1995, p.102 28 Teórico anarquista russo 20 Ainda em 1914, Oiticica começou a lecionar na Escola Dramática do Rio de Janeiro.29 De 1909 até 1914, não encontrei fontes que revelassem algum vínculo empregatício, possivelmente, ele tenha ministrado aulas particulares, trabalhado na rede privada de ensino ou também recorrido aos recursos financeiros cedidos por sua família. O ano de 1915 os ecos da Grande Guerra na Europa que se iniciara em agosto de 1914 também repercutiram no Brasil onde o proletariado já sofria com a carestia e desemprego antes mesmo da deflagração bélica. A continuação do conflito aumentou a demanda por matéria-prima e gêneros alimentícios que agravou a a carestia tornou a sua sobrevivência ainda pior. Movido por esta, entre outras questões, o proletariado se movimentou contra conflito e o aumento exagerado do custo de vida. A guerra tornou-se um novo inimigo dos militantes que buscavam demonstrar que a guerra era resultado da corrida capitalista que os países europeus promoviam. E que nesta corrida, quem ―pagava o saldo‖ era o operariado e as classes menos favorecidas da sociedade. José Oiticica, na divulgação do anarquismo contra a Guerra realizou uma conferência em prol da Revista A Vida, no dia 4 de abril de 1915, na qual discutiu as atitudes que os anarquistas deveriam tomar na luta contra a guerra européia. Esta conferência teve como título: Anarquismo e a guerra européia.30 Ainda em 1915, animados com o Congresso Internacional da Paz, organizado pelos grupos militantes esquerdistas no Rio de Janeiro, Oiticica e seus companheiros também buscaram organizar um congresso especifico de idéias anarquistas, denominado Congresso Anarquista Sul-Americano. O Texto abaixo foi redigido pela comissão organizadora do evento, da qual possivelmente Oiticica fazia parte, e pode demonstrar a justificativa pelos anarquistas para a realização do Congresso naquela conjuntura. Conquanto atravessemos de infrene reação, em que as tendências autoritárias estão no apogeu de sua grandeza, é, sem dúvida alguma, até certo ponto muito importante a reunião do elemento revolucionário da América do Sul, afim de resolver qualquer ação com o momentoso transe. A revolução a que aspiram, pela qual trabalham os anarquistas e da qual estão seguríssimos, não trará, como se pensa, apenas transformação de individualidades, isto é, derrubada de uns e consequentemente subida de outros.[...]. E o congresso, reunindo-se justamente no momento em que estão em jogo as diversas correntes idealistas e sociais, muito poderá fazer para o advento da nova era.31 Neste Congresso, José Oiticica tomou parte ativa nos debates sobre táticas, meio de propaganda e ética da doutrina. Mais tarde, certos pontos tratados por ele neste evento viriam a fazer parte de sua obra A doutrina anarquista ao alcance de todos lançado em 1945.32 29 OMENA, Maria Aparecida Munhoz de, Anarquia no sonetos de José Oiticica?. Disponível em: http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/diaadia/diadia/arquivos/File/conteudo/artigos_teses/LinguaPortuguesa /artigos/artigo_anarquia.pdf em: 19 jul. de 2010 30 A Vida, Ano 1, n°5, mar 1915 31 “Congresso Anarquista Sul-Americano”. Na Barricada, Ano 1, n°19, out. 1915 32 RODRIGUES, Edgar. Os Libertários. Rio de Janeiro, VRJ, 1993.p.37 21 Após fazer parte e frequentar as manifestações e reivindicações de caráter reformista, participando, organizando e contribuindo para a efetuação de debates, palestras, conferências, congressos e jornais, ainda no mesmo ano da realização destes Congressos José Oiticica se filiaria a um sindicato. Possivelmente, almejava, com esta filiação, conseguir uma maior representatividade nos congressos promovidos pela Confederação Operária Brasileira (COB)33. Em 1916 se arriscou novamente nos concursos estaduais, desta vez a vaga pretendida era da cátedra de professor de Português do Colégio Pedro II. Como já foi dito, nos concursos anteriores José Oiticica havia sido preterido mesmo alcançando as maiores notas. Nestes, não seria diferente. Além do fato de defender uma tese em que demonstrava os erros contidos nos livros de alguns dos examinadores ainda trazia consigo suas tendências anarquistas. Após cinco tentativas, Oiticica, possivelmente usando de privilégios adquiridos por contatos com os intelectuais da capital federal, convidou para assistir as provas Carlos Maximiliano, ―a quem estavam, naquela época, afetas as questões do ensino‖34. Sobre a defesa de Oiticica na banca examinadora, relata Rodrigues, ―foi uma batalha memorável entre o saber e a mediocridade‖. Esta perspectiva, certamente reflete a forte admiração pelo personagem. Seguindo, comenta que após sua apresentação, alcançando o mesmo nível dos concursos anteriores, seus examinadores se sentiram tentados a reprová-lo, além de se sentirem desrespeitados, eram contra à sua postura política, anarquista e anticlerical. O diretor do colégio, Carlos Laet, um dos mais criticados entre os examinadores35, teve papel fundamental na aprovação do candidato. Após argumentar a favor da capacidade intelectual de Oiticica, afirmou que ele não poderia ser reprovado devido a suas divergências entre seus pontos vista de com os da banca examinadora. Além disso, o anarquismo e o ateísmo do candidato não poderiam influenciar de forma alguma o resultado, pois não tinham nenhuma relação com a avaliação proposta pela banca. Finalmente, Oiticica foi aprovado por unanimidade e nomeado para o cargo que exerceu durante 35 anos, até 1952 quando, aos 70 anos, foi compulsoriamente aposentado. O ano de 1917 marca o início do período em que o movimento sindical entrou em sua maior atividade na Primeira República, devido ao contexto da época, no qual o mundo sofria, e em especial as classes menos favorecidas, com os déficits econômicos e sociais decorrentes da Guerra. A expectativa do sucesso da Revolução Soviética trazia um grande manancial para ser discutido e debatido nos meios operários, incentivando assim, os trabalhadores às greves. Segundo Tiago Bernardo de Oliveira, este É o momento em que a tensão capital/trabalho atinge seu clímax durante a Primeira República. A repressão armada por si só não conseguiu contê-la. A 33 Sobre a COB ver: Edilene Toledo, em: Anaquismo e sindicalismo revolucionário: Trabalhadores e militantes em São Paulo na primeira republica. São Paulo, Fund. Perseu Abramo,2004 34 Teófilo de Andrade. Oiticica e os Aglossói. O Jornal (RJ), 2-3 nov. 1957 35 SAMIS, Alexandre. Presenças Indômitas: José Oiticica e Domingos Passos. In: FERREIRA, Jorge e REIS, Daniel Arão. As Formações das Tradições 1889-1945.Rio de Janeiro, Civilização brasileira,2007 22 classe dominante e o Estado, a duras penas, tiveram que reconhecer a força dos operários grevistas e viam-se obrigados a negociar36. Fatos comuns e isolados incentivavam os operários à greve geral. No Rio de Janeiro, desde o início de 1917, os militantes da FORJ, organizaram um Comitê Central de Agitação e Propaganda contra a Carestia e o Aumento dos Impostos. Nele visaram politizar a questão do custo de vida, realizando vários comícios em que buscavam revelar e informar aos trabalhadores quem eram os culpados pela exorbitante exploração. Em um destes comícios, Oiticica tratou do tema afirmando que, A carestia é resultante, em última instância, da própria estrutura social brasileira, ou seja, da exploração capitalista e da dominação burguesa. Enquanto os açambarcadores estocam gêneros de primeira necessidade nos armazéns, enquanto os burgueses em geral vivem com luxo e conforto e o Estado _ representante da burguesia_ permanece indiferente, a classe trabalhadora e a população pobre em geral vivem na penúria.37 É neste contexto que ocorreu a greve de 1918, denominada por parte da historiografia, como a Insurreição Anarquista de 191838, a qual José Oiticica foi um dos principais mentores do ataque frustrado ao palácio do governo no Rio de Janeiro, então capital federal. . Esta fracassada tentativa de deflagração de uma greve geral na cidade seguida do intento de derrubar o Governo custou-lhe a prisão e a deportação com toda a família para Alagoas em 10 de dezembro. No entanto, na primeira metade de 1919, Oiticica já tinha retornado ao Rio de Janeiro. Em escritos posteriores, Oiticica atribuiu um alto significado a este movimento, afirmando que foi um movimento ímpar e um dos mais importantes e repercursores marcos na história do movimento operário.39 Finalizando, Oiticica defendeu o anarquismo até a morte, mesmo depois do ideal perder espaço no movimento operário para a corrente comunista. Ele também é reconhecido pela sua erudição além de dominar vários idfomas (latim e grego clássicos, francês, inglês, alemão, espanhol, italiano, russo e esperanto). Foi considerado por intelectuais como Cândido Jucá Filho, um dos maiores linguistas, fonetistas e filólogos do Brasil s segundo Samis, ―apaixonado pelas 36 OLIVEIRA, Tiago Bernardon de. Mobilização Operária na República Excludente: Um estudo comprativa da relação entre o Estado e o Movimento Operário nos casos de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul nas duas primeiras décadas do século XX. Dissertação de Mestrado, UFRGS, 2003, p.150 37 NEVES, Roberto das (org) Ação Direta. Rio de Janeiro, Germinal,1972,p 138 38 Sobre a Greve de 1918 no Rio de Janeiro ver: DULLES, John W. Foster. Anarquistas e Comunistas no Brasil:1900-1933. Trad. César Parreiras, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1977, p.66-71, e também, ADDOR, Carlos Augusto. A insurreição anarquista no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Achiamé,2° Ed. 2002,p.101-131. 39 OITICICA, José, “Ação Anárquica: recordações”, Ação Direta. Ano 1, n°15, jul. 1946, p.03 23 letras e movido pela sua ideologia, alcançou renome internacional e foi mesmo, para alguns governos, um perigoso subversivo‖.40 40 SAMIS, Alexandre. Presenças Indômitas: José Oiticica e Domingos Passos. In: FERREIRA, Jorge e REIS, Daniel Arão. As Formações das Tradições 1889-1945.Rio de Janeiro, Civilização brasileira,2007, p.92. 24 BIBLIOGRAFIA ANDRADE, Teófilo de. Oiticica e os Aglossói. O Jornal (RJ), 2-3 nov. 1957 ADDOR, Carlos Augusto. A insurreição anarquista no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Achiamé,2° Ed. 2002 A Vida, Ano 1, n°5, mar 1915 BILHÃO, Isabel. Identidade e Trabalho: Uma História do Operariado Porto Alegrense (18981920). Londrina: EDUEL, 2008 Documentos do Movimento Operário: resoluções do Primeiro Congresso Operário Brasileiro, In: Estudos Sociais, n° 16, marc.1963 DULLES, John W. Foster. Anarquistas e Comunistas no Brasil:1900-1933. Trad. César Parreiras, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977. HARDMAN, Francisco Foot. Nem Pátria, Nem Patrão: Memória Operária, Cultura e Literatura no Brasil. 3° Ed, São Paulo: UNESP, 2002. LEVI, Giovanni. Usos da Biografia. IN: FERREIRA, Marieta de Moraes e AMADO, Janaína (org). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas, 1996, p. 168 MARAM, Sheldon Leslie. Anarquistas, imigrantes e o movimento operário brasileiro: 18901920. Trad: José Eduardo Ribeiro Moretzsohn, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1979. MARÇAL, João Batista. Os Anarquistas no Rio Grande do Sul: anotações biográficas, textos e fotos de velhos militantes da classe operária gaúcha. Porto Alegre: EU/Porto Alegre,1995. “Congresso Anarquista Sul-Americano”. Na Barricada, Ano 1, n°19, out. 1915 OMENA, Maria Aparecida Munhoz de, Anarquia no sonetos de José Oiticica?. Disponível em: http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/diaadia/diadia/arquivos/File/conteudo/artigos_teses/LinguaP ortuguesa/artigos/artigo_anarquia.pdf em: 19 jul. de 2010 NEVES, Roberto das (org) Ação Direta. Rio de Janeiro: Germinal,1972 OITICICA, José. Estatutos do Colégio Latino Americano. Rio de Janeiro, Thipographia da Gazeta de Notícias, 1905. OITICICA, José, “Ação Anárquica: recordações”, Ação Direta. Ano 1, n°15, jul. 1946 OLIVEIRA, Tiago Bernardon de. Mobilização Operária na República Excludente: Um estudo comprativa da relação entre o Estado e o Movimento Operário nos casos de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul nas duas primeiras décadas do século XX. Dissertação de Mestrado, UFRGS, 2003. PETERSEN, Silvia Regina Ferraz, Cruzando Fronteiras: As Pesquisas Regionais e a História Operária Brasileira. Porto Alegre: Anos 90, N.3, junho 1995. RAMOS, Graciliano. Infância. São Paulo: Livraria Martins, 6° Ed. 1967. RICCI, Magda. Como se faz um vulto na história do Brasil. . In: GUAZELLI, César Augusto Barcelos et all. Questões de Teoria e Metodologia da História. Porto Alegre: Ed UFRS, 2000. RODRIGUES, Edgar. Socialismo e Sindicalismo no Brasil: 1675-1913. Rio de Janeiro: Laemmert, 1969 25 ___________. Os Libertários. Rio de Janeiro: VRJ, 1993 ROMERO, José, “José Oiticica: recordando alguma coisa de sua trajetória no movimento libertário”, Ação Direta. Ano 11, n°120, ago-set. 1957 SAFÓN, Ramón. O racionalismo combatente de Francisco Ferrer Y Guardia. São Paulo: Imaginário. 2003. SAMIS, Alexandre. Presenças Indômitas: José Oiticica e Domingos Passos. In: FERREIRA, Jorge e REIS, Daniel Arão. As Formações das Tradições 1889-1945.Rio de Janeiro: Civilização brasileira,2007. SCHMIDT, Benito Bisso. A biografia histórica: o “retorno” do gênero e a noção de contexto. . In: GUAZELLI, César Augusto Barcelos et all. Questões de Teoria e Metodologia da História. Porto Alegre: Ed UFRS, 2000, p.123 ________. O patriarca e o Tribuno: Caminhos, encruzilhadas e ponte de dois líderes socialistas- Francisco Xavier da Costa (187?-1934) e Carlos Cavaco (1878-1961), Tese de Doutorado em História. UNICAMP,2002. ________. Entrevista com Sabina Loriga: A história biográfica. Métis. História & Cultura, Caxias do Sul, p. 11-23, jun. 2003 TOLEDO, Edilene. Anaquismo e sindicalismo revolucionário: Trabalhadores e militantes em São Paulo na primeira republica. São Paulo: Fund. Perseu Abramo,2004 VALLADARES, Eduardo. Anarquismo e Anticlericalismo. São Paulo: Imaginário, 2000 WOODCOCK, George. História das Idéias e Movimentos Anarquistas. Porto Alegre: L&PM, 2002. XAVIER, Regina Célia Lima. O desafio do trabalho biográfico. In: GUAZELLI, César Augusto Barcelos et all. Questões de Teoria e Metodologia da História. Porto Alegre: Ed UFRS, 2000. 26 A PARTICIPAÇÃO E A ORGANIZAÇÃO POLÍTICA DAS MULHERES: UM ESTUDO BIBLIOGRÁFICO Alexandra Pingret Mestranda do Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Estadual de Londrina [email protected] RESUMO: Esse texto resulta do estudo bibliográfico que visa compreender a participação e a organização política das mulheres brasileiras, do final do século XIX ao início do século XXI, a partir de três livros: A mulher brasileira e suas lutas sociais e políticas: 1850-1937, de June Edith Hahner, 1981; A resistência da mulher à ditadura militar no Brasil de Ana Maria Colling, 1997 e Uma história do feminismo no Brasil, de Céli Regina Jardim Pinto, 2003. Os estudos dessas três obras foram acompanhados de algumas reflexões acerca das várias formas encontradas por elas para reivindicar seus direitos sociais, jurídicos e políticos, bem como as classes sociais envolvidas nas manifestações feministas de cada período. PALAVRAS-CHAVES: mulheres; participação política; feminismo. Esse estudo bibliográfico foi feito a partir de três obras que contribuem significativamente para a historiografia, no campo dos estudos de gênero1: A mulher brasileira e suas lutas sociais e políticas: 1850-1937, de June Edith Hahner, 1981; A resistência da mulher à ditadura militar no Brasil de Ana Maria Colling, 1997 e Uma história do feminismo no Brasil, de Céli Regina Jardim Pinto, 2003, com uma reimpressão em 2007. A produção acadêmica em relação aos estudos das mulheres se expandiu consideravelmente na década de 1980, essa produção ainda era pautada pelas biografias. O livro de Hahner, fora dessa tendência, propõe uma discussão para além das biografias, referindo-se às atividades exercidas pelas mulheres e suas formas de organização, a partir das experiências vividas, percepções e problemas em comum; e, o mais importante, pela perspectiva feminina. Na década de 1990, no Brasil, as preocupações se voltaram para os estudos das relações de gênero, e Colling tratou, nessa perspectiva, de um assunto recente – a ditadura cívico-militar2. O livro de Pinto buscou dar relevo às tendências que melhor sintetizam o feminismo do final do século XIX à virada do milênio, priorizando o século XX. 1 que incorporam a partir da década de 1990, no Brasil, as discussões acerca da História das Mulheres e do Feminismo, numa perspectiva relacional, representando o aspecto social das relações entre os sexos. 2 Visto que segmentos civis apoiaram e colaboraram com o golpe ocupando inclusive funções importantes e até estratégicas nesse período da ditadura. P. 23. 27 A contribuição dessas autoras aos estudos de gênero pode ser observada em artigos3 e livros4 nos quais constam citações sobre os seus estudos tornados referência contemporânea a partir de suas temáticas, abordagens e fontes. Nesse sentido é indispensável conhecê-las para desenvolver o estudo nesse campo. Nessa introdução serão apresentadas as autoras, suas fontes, temáticas e problemas de pesquisa. Bem como se pretende delinear o percurso da análise realizada. June Edith Hahner é historiadora, doutora pela Universidade Estadual de Nova York, em Albany. Pesquisadora estadunidense e brasilianista pesquisou um rico e inexplorado conjunto de documentos sobre as mulheres do século XIX, acervo da Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro. E, a partir desse material, desenvolveu sua pesquisa sobre as lutas sociais e políticas das mulheres no Brasil do século XIX que resultou no livro A mulher brasileira e suas lutas sociais e políticas: 1850-1937, Além da Biblioteca Nacional, ela também pesquisou no Arquivo Nacional, especialmente no arquivo da Federação Brasileira do Progresso Feminino e no Arquivo do Estado de São Paulo, dentre outros. Esse estudo se realizou ao longo de uma década e suas preocupações eram: quais inquietações levaram as mulheres a participar da política e a organizarem-se? E ainda, as atividades políticas de algumas mulheres influenciam os papéis, socialmente construídos, de todas as mulheres? Ana Maria Colling é historiadora, doutora em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUC-RS; o trabalho aqui apresentado é o resultado da pesquisa de mestrado ―Choram Marias e Clarices – uma questão de gênero no regime cívico-militar brasileiro‖, concluída em 1994 e cuja orientadora foi Celi Regina Jardim Pinto, que será mencionada adiante. Colling tratou da ―construção do sujeito ‗mulher subversiva‘ durante o regime militar brasileiro‖, buscando compreender a construção do discurso da repressão sobre a mulher militante. As fontes utilizadas foram: os documentos do DOPS (Departamento Estadual de Ordem Política e Social) encontrados no Arquivo Público Estadual – RS e nove entrevistas com pessoas que foram presas pela polícia da repressão, seis mulheres e três homens. O recorte temporal estabelecido foi de 1964 a 1979, quando se promulgou a Lei de Anistia. Dentre os vários problemas de pesquisa, a autora destaca algumas questões: como a repressão constrói o sujeito ―mulher subversiva‖, por meio de seus discursos? O discurso da repressão em relação à ―mulher subversiva‖ é dirigido somente para ela ou atinge as demais camadas sociais? E, a questão de gênero5, perpassa a repressão? 3 Como, por exemplo, os estudos realizados no doutorado em Sociologia, na Universidade de São Paulo – USP - por Yumi SANTOS , bem como os estudos de Cynthia Andersen SARTI; cujas referências encontram-se na bibliografia. 4 Como, por exemplo, o livro de Ivana Guilherme Simili, da Universidade Estadual de Maringá – UEM; cuja referência encontra-se na bibliografia. 5 Colling destaca que para tratar de mulheres, as relações de gênero são as que explicam com mais clareza, tendo em vista o aspecto relacional entre mulheres e homens. P.15. 28 Celi Regina Jardim Pinto é historiadora e doutora em Ciência Política, pela universidade de Essex, na Inglaterra. Atualmente é professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Seu livro faz parte da coleção História do Povo Brasileiro, da Editora Fundação Perseu Abramo. A temática abordada é o feminismo brasileiro expresso por tendências. A pesquisa foi bibliográfica, contendo algumas imagens (fotografias), cujos créditos são do Acervo Iconographia do Centro Sérgio Buarque de Holanda, e do livro Mulher Brasileira: anos 20, de Rosanita Monteiro de Campos (São Paulo, Copyjet Indústria gráfica, 1988), entre outros. Sua principal preocupação foi estudar o feminismo brasileiro com suas particularidades e apontar os momentos fundamentais ou tendências, desse feminismo, num espaço de tempo que vai do final do século XIX ao final do século XX. Os estudos dessas três obras serão acompanhados de algumas reflexões acerca das classes sociais envolvidas na participação e organização das mulheres, dando ênfase às várias formas que elas encontraram, em cada período, para manifestar as suas reivindicações. Busca-se escrever de maneira cronológica, primeiramente sobre a obra de Hahner, que fez um estudo mais detalhado sobre a participação e organização das mulheres do século XIX e início do século XX, na seqüência estuda-se o livro de Pinto relacionando-o com os estudos presentes nas obras de Hahner e Colling. Conforme Hahner, em meados do século XIX, no Brasil, como em outras partes do mundo, as mulheres ainda estavam ausentes da política e dos espaços públicos, pois esses espaços eram historicamente atribuídos aos homens. Havia algumas diferenças dependendo das classes sociais, como as mulheres das classes inferiores relegadas a trabalhos físicos exaustivos e permanecendo mais tempo fora de casa enquanto grande parte da elite era confinada à esfera privada. Entre elas, havia exceções como algumas viúvas do campo que dirigiam fazendas e, nas cidades, mulheres que administravam grandes estabelecimentos com muitos serviçais e escravos. Contudo, a autoridade do marido e do pai permanecia suprema sobre todas as mulheres.6 Contudo, em outros países as mulheres já estavam se organizando politicamente buscando a emancipação, e, aos poucos algumas mulheres brasileiras das classes média e alta, insatisfeitas com as suas condições e papéis, iniciaram as primeiras atividades políticas. O advento da República também foi determinante para fortalecer o desejo de algumas mulheres por direitos políticos, bem como a Assembléia Constituinte de 1890. Hahner expõe seus estudos acerca de um primeiro feminismo7 brasileiro, liderado por mulheres da classe média, na sua maioria professoras, que faziam algumas manifestações por meio da elaboração de jornais artesanais, buscando despertar outras mulheres para o seu 6 HAHNER, J. E. A mulher brasileira e suas lutas sociais e políticas: 1850-1937. São Paulo: Brasiliense, 1981: 28. 7 Para essa autora, o feminismo abrange todos os aspectos da emancipação das mulheres e inclui qualquer luta projetada para elevar seu status social, político e econômico. P. 25. 29 potencial e aumentar o nível de suas aspirações. Essas mulheres também organizaram associações filantrópicas e algumas abolicionistas8. E ainda, peças de teatro foram produzidas para dar maior visibilidade a suas reivindicações, como, por exemplo, na campanha do sufrágio feminino a peça ―O voto feminino‖. De forma sutil e, ao mesmo tempo ousada, essas mulheres deram seus primeiros passos para fora do lar. A autora cita, no decorrer do livro, vários dos jornais produzidos por mulheres da época. Nesses jornais observa-se uma ampliação gradativa das reivindicações feitas pelas mulheres aos homens e aos poderes instituídos. Entre elas, a ampliação da educação para as mulheres, com conteúdos iguais aos dos homens e ensino superior; respeito; liberdade física e moral; emancipação feminina (jurídica e econômica); profissão; participação nos concursos para cargos públicos e principalmente a igualdade política. E ainda, uma das evoluções observadas, comparando dois jornais, é a autoria dos textos escritos por mulheres: no ―O jornal das mulheres‖ (Rio de Janeiro, 1852), eram aceitos textos em anonimato, para não expor as mulheres que quisessem se pronunciar. Em contraste, no ―Bello Sexo‖ (Rio de Janeiro, 1862) as mulheres já escreviam textos assinando sua autoria. Os homens, diante de tantas reivindicações se sentiam cada vez mais desconfortáveis pois a igualdade política foi uma afronta, uma vez que pois a mulher deveria ser um anjo confortador, companheira amorosa de seu homem e a deusa do lar, mas nunca a sua adversária ou rival na luta cotidiana da vida9, e ainda, não apenas a idéia incômoda de mulheres eleitoras, mas também o espectro de mulheres políticas10. Uma das formas encontradas pelos homens para ridicularizar as ações dessas mulheres com idéias inconvenientes era dramatizá-las. Assim também produziram uma peça teatral ―As doutoras‖ que mostrava a vida de uma advogada bem sucedida que se candidatou a deputada federal para legislar a causa da emancipação feminina. Por fim ela cabou sucumbindo ao casamento e à maternidade e em princípio, satisfeita, desistiu de sua carreira. A partir dessa escrita da história, que considera de forma relacional, tanto o universo feminino como o masculino em cada contexto, Hahner estabelece as relações de gênero, antecipando essa discussão no Brasil. Dessa mesma maneira, Colling vai proceder no desenvolvimento de seu livro sobre a Ditadura cívico-militar no Brasil, pensando que não se pode falar das mulheres sem falar das relações entre homens e mulheres.11 8 HAHNER, J. E. A mulher brasileira e suas lutas sociais e políticas: 1850-1937. São Paulo: Brasiliense, 1981: 45-46 9 Idem, ibidem: 85. 10 Idem, Ibidem: 78. 11 COLLING, Ana Maria. A resistência da mulher à ditadura militar no Brasil. Rio de Janeiro: Record: Rosas dos Tempos, 1997: 116. 30 Na seqüência, Hahner apresenta o jornal ―O Sexo Feminino‖ (Campanha, MG: 18731876), cuja editora foi Francisca Senhorinha da Motta Diniz, que alcançou uma tiragem de oitocentos exemplares, numa população de 1.458 mulheres alfabetizadas, esse jornal sobreviveu por quase três anos sem diluir sua mensagem ou comprometer seu padrão, num Brasil repleto de jornais efêmeros, que não resistiam a um ou dois números12. Na agitação republicana do final da década de 1880, Francisca Diniz reedita seu jornal13 em 1889, com o título ―O Quinze de novembro do sexo Feminino”. O público alvo desse jornal eram as mulheres, pois, segundo Francisca Diniz, elas precisavam se emancipar, não deixando subjugar-se como um cordeiro humilde, e, precisam abrir os olhos para as injustiças, o domínio e a postergação de direitos (...) com a instrução conseguiremos tudo, e quebraremos ainda as rédeas que desde séculos de remoto obscurantismo nos rodeiam.14 Outro jornal também citado por Hahner é ―A Família‖ (Rio de Janeiro, 188915) que tem um perfil um pouco diferente, mas com o mesmo ímpeto. Sua editora, Josephina de Azevedo, era favorável às leis do divórcio, pois, em sua concepção as mulheres deveriam se libertar do capricho imposto pela autoridade paterna que escolhia o marido. Josephina de Azevedo acreditava no progresso da nação por meio da educação das mulheres, pois elas não eram escravas dos homens e poderiam emancipar-se por meio da profissão e da política para uma vida de liberdade e igualdade. Josephina de Oliveira também publicou, em 1897, um livro de biografias16 das mulheres eminentes e um livro17 no qual foram incluídos muitos de seus artigos para jornais, discursos e peças teatrais, dentre elas ―O voto feminino‖, já citado. Naquele momento algumas mulheres já não queriam só respeito dentro da família ou direito à educação universitária, mas sim o desenvolvimento pleno de todas as suas faculdades, dentro e fora do lar. (...) em pé de igualdade com os homens em todas as esferas, a ocupar todos os cargos, desempenhar todas as funções (...) [tanto] no governo da família, como na direção do Estado.18 Durante a Assembléia Constituinte, de 1891, Josephina de Azevedo, junto com outras feministas, travou debates com os homens, buscando seu apoio ao sufrágio feminino. Porém, na concepção desses homens, a mulher já era a rainha do lar e seu papel era exclusivamente a maternidade e os cuidados com o marido. Certamente foi um avanço, essas mulheres terem conseguido, pelo menos, fazer com que alguns homens colocassem em pauta o sufrágio feminino, 12 HAHNER, J. E. Op. Cit.: 61 Essa reedição, segundo Pinto, foi no Rio de Janeiro. P. 31 14 HAHNER, J. E. Op. Cit.:: 54. 15 A publicação do jornal ―A Família‖, segundo Pinto, foi entre 1888 e 1897, na cidade de São Paulo. 16 AZEVEDO, Josefina Alvarez de. Galleria illustre:Mulheres célebres. Rio de Janeiro, Typ. A Vapor, 1897. 17 AZEVEDO, Josefina Alvarez de. A mulher moderna. Trabalhos de propaganda. Rio de Janeiro. Tpy. Montenegro, 1891. 18 HAHNER, J. E. Op. Cit.: 81. 13 31 durante a Assembléia, juntamente com outros temas políticos. Todavia, os comentários dos deputados foram dos mais variados, demonstrando o que a maioria dos homens, daquela época, pensava sobre as mulheres. Tais comentários variavam entre considerar as mulheres com cérebros infantis, inferioridade mental e racionalmente incapazes para superarem os conflitos da política. Pior, a natureza da mulher já era determinada pelo seu sexo, por isso, seu destino, desde o nascimento, era ser mãe e esposa, em tempo integral.19 Assim, após muitas discussões, o sufrágio feminino não foi aprovado naquela Constituição. Adentrando o século XX observa-se, segundo Hahner, um feminismo mais moderado, feito por mulheres da elite, que, ao contrário das primeiras e mais ardorosas feministas, (...) não eram obrigadas a sustentarem-se e as suas famílias, o que sem dúvida influenciava seus pontos de vista sobre seu lugar e atividades de direito20. Suas questões eram diferentes das mulheres de classe média, e, portanto ofereciam menos perigos, do que as advindas de correntes do anarquismo e do socialismo, que já mostravam seus primeiros alardes, e eram mais temíveis. Na seqüência, Hahner cita as fundadoras do Movimento Sufragista Brasileiro: Bertha Lutz, que ocupava uma alta colocação no Museu Nacional do Rio de Janeiro, e mais algumas mulheres, que também já eram graduadas, algumas no Brasil e outras no exterior e que ocupavam cargos públicos. Essas profissionais, vinculadas à elite, defenderam mudanças menos drásticas nos papéis e atitudes da mulher e, por isso, foram menos criticadas e ridicularizadas. Devido à sua posição social e de líder do Movimento Sufragista, Bertha Lutz ampliou-o para outros estados, aliando-se inclusive a organizações internacionais, como a Aliança Internacional pelo Sufrágio da Mulher, em 1922. Nesse contexto, também os jornais contribuíam, junto com alguns eventos, para a causa do sufrágio feminino. Todavia, eram jornais bem mais sofisticados, como o ―O Nosso Jornal‖, muito parecido com as elegantes revistas da época e em suas páginas encontravam-se pontos de vistas acerca de como as mulheres poderiam conciliar suas obrigações sociais com seus papéis de mães e esposas, e que o voto da mulher era um avanço para o progresso, expressado o orgulho do movimento feminista brasileiro em buscar seus objetivos sem violência, de forma pacífica. Várias associações de mulheres surgiram nesse período, como a Legião da Mulher Brasileira (Rio de janeiro, 1919) e a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher (1920), liderado por Bertha Lutz e Maria Lacerda de Moura21, professora e autora mineira. Essas associações transformaram-se posteriormente na Federação Brasileira pelo Progresso Feminino 19 HAHNER, J. E. Op. Cit.: 84-85. Idem, Ibidem: 81. 21 Pinto situa Maria Lacerda de Moura como uma ativista anarquista e feminista radical, que na década de 1920 colocou-se frontalmente contra as sufragistas, contrapondo a luta pelo voto pela proposta anarquista. Informações encontradas, segundo a autora, na biografia de Maria Lacerda de Moura, escrita por Mirian Moreira Leite. P. 37. 20 32 (FBPF), e teve ramificações em vários estados como as Ligas Paulista e Mineira pelo Progresso Feminino. A FBPF preparou congressos e conferências, além de diversas táticas para influenciar líderes políticos e a opinião pública a favor de sua causa: publicidade, entrevistas, telegramas aos políticos, mensagens apoiando feitos estaduais que se mostravam favoráveis ao voto feminino e a elaboração de um manifesto. Em 1928, intitulado como ―Declaração dos Direitos da Mulher‖, foi enviado ao Senado com assinaturas de várias mulheres da elite22 em que as mulheres defendiam o voto feminino como base fundamental dos direitos humanos de igualdade e liberdade. No contexto do regime provisório de Getúlio Vargas, a partir de 1930, junto com o seu empenho em criar um novo código eleitoral, as sufragistas redobraram suas táticas com o apoio político dos funcionários públicos e da publicidade. As líderes do movimento se encontraram com Getúlio, que se mostrou favorável ao voto das mulheres. Então, em 1932, o novo Código Eleitoral incluiu os direitos políticos, facultativos, às mulheres. Esse resultado legitimou toda a organização das mulheres de classe média e da elite, entretanto, a conquista do voto beneficiou um pequeno segmento da população feminina nacional, e as questões familiares e de trabalho ainda estavam postas para toda uma parcela de mulheres das classes inferiores. Cabe aqui ressaltar que são muitas as aproximações encontradas entre a obra de Hahner e o primeiro capítulo da obra de Pinto, no qual são analisadas23 as movimentações feministas, como prefere chamar Pinto, datadas a partir do final do século XIX a 1932 (quando algumas mulheres brasileiras votaram pela primeira vez). Pinto justifica seu recorte temporal, que não incorpora o período pós 1932 até 1965, pois o considera como um refluxo do movimento feminista. Sua única menção a respeito desse período é ―no final da década de 1940 e o início da de 1950, mulheres de diferentes classes sociais e ideologias lutavam contra a carestia‖ Nessa luta encontravam-se mulheres influenciadas pelo Partido Comunista e mulheres da elite, lutando pela mesma causa, realizando a Passeata da Panela Vazia.24 Pinto conceitua feminismo como a luta pela transformação da condição da mulher na sociedade25, e o classifica em duas fases as manifestações feministas do período: a ―bem comportada‖, que é a mesma que Hahner chama de ―mais moderada‖, abrangendo as manifestações do início do século XX, na maioria das vezes ligadas ao nome de Bertha Lutz e ao sufrágio feminino; e a fase ―mal comportada‖, que é a ―menos moderada‖, em Hahner, se referindo 22 Sobre os eventos desse período Pinto cita um abaixo-assinado levado ao Senado pela FBPF, em 1927, com 2.000 assinaturas de mulheres de todo o Brasil; pode ser o mesmo evento, com duas formas diferentes de informações. P. 25 23 De uma maneira bem mais simplificada, por não ser esse o recorte temporal de Pinto. 24 PINTO, Céli Regina Jardim. Uma história do feminismo no Brasil. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2003: 44 25 Idem, ibidem: 11. 33 principalmente à imprensa feminista26 ou feminismo difuso, do final do século XIX. E, nessa esteira, Pinto acrescenta o Feminismo Anarquista. O feminismo anarquista estava ligado ao operariado do período, em sua maioria, imigrantes, que trouxeram consigo os ideários anarquistas e comunistas, influenciando ativamente na organização do movimento operário brasileiro. As inquietações feministas giravam em torno do excesso de trabalho, essas mulheres ressaltavam a importância de diminuir a jornada para poderem cuidar de seus afazeres domésticos e encontrar tempo para os estudos, pois sem instrução não poderiam se organizar. Elas faziam manifestações anarquistas como o e publicavam em jornais 27 ―Terra Livre‖ e o ―A Plebe‖ . E, segundo Pinto, essas manifestações feministas estavam acontecendo simultaneamente à campanha do sufrágio feminino. Na seqüência, Pinto ressalta dois grupos de feministas que se organizam durante o período cívico-militar, dentro das classes média e alta. O primeiro se organizava em residências, em reuniões pequenas de mulheres, nas quais eram discutidas as suas particularidades, como: sexualidade e literatura feminina, todavia, essas mulheres se sentiam culpadas por não fazerem discussões ―mais políticas‖ sobre como enfrentar a ditadura. O outro grupo, de exiladas vindas principalmente na Europa ampliaram seus conhecimentos acerca das organizações feministas e das suas formas de lutas, e, conforme podiam, mandavam cartas e materiais para o Brasil, informando o que estavam descobrindo de novo naquela cultura, no que dizia respeito ao feminismo. Naquele cenário, a ONU (Organização das Nações Unidas), definiu que o ano de 1975, seria o Ano Internacional da Mulher e o primeiro ano da década da mulher. A partir daí, esse tema começou a ser visto com outros olhos pelo presidente general Geisel, que recém assumia o governo. O Centro de Informação da ONU organizou um evento no Rio de Janeiro, e, nesse evento foi fundado o Centro de Desenvolvimento da Mulher Brasileira. Todavia, o Centro de Desenvolvimento da Mulher brasileira estava refém de uma dupla censura, primeiro do regime cívico-militar e, segundo, dos grupos de esquerda que primavam pela discussão da luta de classes. Abrigando diversas tendências feministas28, o Centro administrou a oposição à ditadura e as lutas feministas com as de classe, por apenas cinco anos. Nesse mesmo período, aconteceram também os encontros nacionais das feministas brasileiras acadêmicas, entre 1975 a 1985, durante as reuniões anuais da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), eram as possíveis brechas encontradas naquele período histórico marcado por perseguições, torturas, mortes e desaparecimentos; onde o regime militar 26 Pinto cita um jornal do Rio Grande do Sul ―Pela Mulher‖, fundado na cidade de Bagé, em 1898, por Andradina de Oliveira. O jornal teve uma duração de nove anos e transformou-se depois em uma revista ilustrada, já então publicada em Porto Alegre. Andradina publicou sete livros abordando a temática feminina. P. 32. 27 No texto não constam referencias às datas de publicação desses jornais. 28 PINTO, Céli Regina Jardim. Op. Cit.: 59 34 estava destinado a conservar a ordem, entendendo como desordem qualquer manifestação de opinião contrária à sua.29 As questões feministas, nesse período eram discutidas em vários espaços sociais, inclusive em alguns sindicatos, que promoveram eventos, como por exemplo, o I Congresso da Mulher Metalúrgica de São Bernardo e Diadema, em São Paulo, no ano de 197830. Pode-se então postular que o feminismo naquele período tinha várias frentes: das classes inferiores às elitizadas, ou seja, as mulheres operárias e as mulheres universitárias; todas buscando reconhecimento enquanto sujeitos políticos. Antes de adentrarmos no período da redemocratização, ao final do século XX, estudado por Pinto, opta-se por incluir as contribuições de Colling, que propõe, no primeiro capítulo do seu livro uma fotografia do Brasil em quatro poses, selecionando quatro discursos que, segundo ela, dão sentido ao Brasil da época (1964-1979): o discurso oficial da ditadura militar, cujos objetivos eram controlar os ―comunistas‖, conter a inflação e executar as reformas políticas e econômicas, para o possível retorno do governo civil. Os discursos das organizações de esquerda, que eram múltiplos, coexistindo mais de quarenta siglas que divergiam basicamente no tripé estratégia, tática e programa, sendo a estratégia a diferença mais discutida, uns optavam pela transição pacífica e outros pela luta armada. O discurso do tetraedro imaginário31 no qual se destacam as atividades culturais - teatro, cinema e música - que para aquela juventude eram instrumento de transformação política, refletindo uma aspiração internacional de contracultura. E o discurso feminista que trata de uma ruptura radical, segundo Colling, do cotidiano de homens e mulheres da década de 1960. Naquele momento também fervilhava um caldo de transformações sociais e políticas nacionais e internacionais como, por exemplo: a invenção da pílula anticoncepcional; as revisões comportamentais das mais variadas, desde o vestuário à concepção de casamento, os jornais feministas que começaram a ser editados, como o ―Brasil Mulher‖, ―Nós Mulheres‖ e ―Mulherio‖32; as campanhas contra a violência doméstica ―Quem ama não mata‖, que virou até seriado na TV e a criação do Movimento Feminista pela Anistia. Tudo isso acontecendo juntamente com a influência dos feminismos europeus e americanos. Nesse sentido, as discussões ampliaram-se para temas como a sexualidade, contracepção e aborto, e outros foram retomadas, como a dupla jornada de trabalho e as discriminações que as mulheres continuavam sofrendo de ordem econômica, social e política. 29 COLLING, Ana Maria. A resistência da mulher à ditadura militar no Brasil. Rio de Janeiro: Record: Rosas dos Tempos, 1997: 22 30 PINTO, Céli Regina Jardim. Op. Cit.: 66 31 Poliedro de quatro faces, a autora se refere aos movimentos de 1968: as Barricadas de Paris, a Primavera de Praga, os Panteras Negras americanos e a cultura brasileira. 32 No texto não constam referencias às datas de publicação desses jornais. 35 Pinto e Colling afirmam que o feminismo brasileiro encontrou no contexto da ditadura cívico-militar, um momento histórico propício para se desenvolver33 em torno de problemas específicos de sua condição, tentando derrubar as barreiras da discriminação e administrando o duplo desafio de lutar contra o inimigo externo que eram os militares e ainda enfrentar os militantes das organizações de esquerda, que as julgavam inoportunas, inconvenientes e divisionistas. Colling entrevistou seis mulheres militantes de organizações de esquerda (cinco universitárias e uma operária) e três homens, todos presos pela ditadura cívico-militar, consultou também alguns documentos do DOPS; buscando compreender como foi esse duplo desafio no dia-a-dia dessas mulheres e principalmente como a repressão construiu o discurso ―mulher subversiva‖. A autora destaca as dificuldades encontradas por eles, homens do seu tempo, na forma de tratar essas mulheres, companheiras de militância: muitas vezes o problema de relacionamento e como fazer era maior que a própria revolução34, o constrangimento que sentiam derivavam de suas concepções socialmente construídas, nas quais as mulheres não eram constituídas como sujeitos políticos. E, a partir das concepções sociais do lugar da mulher na família e na sociedade, a repressão construiu um discurso para tratar essas mulheres militantes, considerando-as como mulheres subversivas com comportamentos desviantes de ―prostituta‖ e ―comunista‖, vulgarmente chamadas de ―puta-comunista‖, e que por isso não mereciam respeito, o que justificava a tortura psicológica e física pela repressão. Afinal, os militares estavam cumprindo a sua função: eliminar qualquer manifestação de oposição, buscando desconstruir a pretensão da mulher em se considerar um sujeito político autônomo, nesse espaço determinado pelo e para o masculino, ao longo das relações culturais e históricas. Feitas estas considerações acerca do último livro deste estudo bibliográfico, parte-se para o período de abertura, ―lenta, gradual e segura‖, do regime cívico-militar nas discussões feitas por Pinto, que põe em relevo o movimento feminista, marcado fortemente por dois acontecimentos: a anistia aos presos políticos, que trouxe experiências e conteúdos diferenciados para as discussões feministas no Brasil e a reforma partidária, que dividiu o MDB e algumas feministas em dois partidos: PT e PMDB. No início da década de 1980, foram formados os primeiros Conselhos da Condição da Mulher e Delegacias da Mulher. Naquele período também surgiram grupos temáticos de feministas independentes, que começam a tratar da saúde e da violência contra a mulher, e ainda muitas mulheres foram eleitas para os parlamentos. Também o feminismo acadêmico ampliou-se, 33 Nesse sentido, Pinto expõe seu pensamento de que o novo feminismo nasce da resistência à ditadura. P. 41 34 COLLING, Ana Maria. Op. Cit.: 106. 36 por meio da formação dos primeiros Núcleos de Pesquisa em Estudos da Mulher, nas universidades brasileiras. Destacam-se assim, três espaços onde estavam organizadas as mulheres desde o início da década de 1980 ao final da década de 1990: o político institucional (principalmente o parlamentar, partidário e sindical), o movimento feminista independente e o feminismo acadêmico. Entretanto, esses espaços dialogavam muito pouco, principalmente a partir da formação e proliferação das Organizações Não-Governamentais – ONGs, que desenvolvem vários papéis algumas são mobilizadoras, outras prestam assessoria especializada, outras ainda são prestadoras de serviço. Atuam tanto junto da sociedade quanto junto ao Estado, algumas delas com assento em conselhos, outras sendo interlocutoras de ministros e parlamentares.35 Nesse sentido os formatos da atuação política das mulheres no final do século XX são múltiplos e exigem estudos específicos para compreendê-los em suas particularidades. Estudar as formas de participação e organização das mulheres na História do Brasil é uma tarefa de grande proporção, no que se refere às possibilidades de fontes, abordagens e períodos. E, concluindo, essas três autoras, através de suas pesquisas, possibilitaram uma maior compreensão sobre a participação e a organização política das mulheres brasileiras, do final do século XIX ao final do século XX. 35 PINTO, Céli Regina Jardim. Uma história do feminismo no Brasil. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2003: 106. 37 BIBLIOGRAFIA: COLLING, Ana Maria. A resistência da mulher à ditadura militar no Brasil. Rio de Janeiro: Record: Rosas dos Tempos, 1997. HAHNER, J. E. A mulher brasileira e suas lutas sociais e políticas: 1850-1937. São Paulo: Brasiliense, 1981. PINTO, Céli Regina Jardim. Uma história do feminismo no Brasil. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2003. (Coleção História do Povo Brasileiro). SANTOS, Yumi. A implementação dos órgãos Governamentais de gênero no Brasil e o papel do movimento feminista: o caso do Conselho Estadual da Condição Feminina de São Paulo. Campinas: Cadernos Pagu (27), julho-dezembro de 2006: pp.401-426. SARTI, Cynthia Andersen. O feminismo brasileiro desde os anos 1970: revisitando uma trajetória. Florianópolis, Estudos Feministas, 12(2): 264, maio-agosto/2004 SIMILI, Ivana Guilherme. Mulher e Política: a trajetória da primeira dama Darcy Vargas (19301945). São Paulo: Editora UNESP, 2008. 38 AS RELAÇÕES ENTRE BRASIL E ESTADOS UNIDOS NAS PÁGINAS DA REVISTA „EM GUARDA‟ (1941-1945) Aline Vanessa Locastre Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Historia Social da Universidade Estadual de Londrina [email protected] RESUMO: A disseminação do paradigma estadunidense na década de 1940 nas Américas deu-se na tentativa de reter a aproximação entre governantes latino-americanos com representantes do nazi-fascismo. Para tal objetivo, os Estados Unidos lançaram mais do que estratégias de cunho econômico, trouxeram intelectuais e artistas que auxiliaram na tarefa de fomentar a sedução pelo modo de vida americano (American Way of Life) e organização política. A revista ‗Em Guarda‘ foi uma dessas produções midiáticas e em suas páginas vemos refletidos aspectos da política de aproximação entre as Américas lançada por membros do governo Roosevelt e de alguns membros dos setores privados. A sua veiculação no Brasil acompanhou a participação dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial e ao longo de seus quatro anos de edição contribuiu para a disseminação da Política da Boa Vizinhança nas Américas. Com a análise do conteúdo impresso da revista faz-se possível analisar nuances das relações entre Brasil e Estados Unidos nos anos 1940 e assim, realizar estudos que contribuem para o alargamento do campo da História Política. PALAVRAS-CHAVE: História Política; Segunda Guerra Mundial; Política da Boa Vizinhança. Mediante uma publicação mensal destinada às Américas, denominada ―Em Guarda‖, os Estados Unidos1 lançaram um discurso nas décadas de 1930 e 1940 que procuraria se tornar uma verdade inquestionável acerca de seu poderio bélico e cultural. Essas mensagens disseminadas pelo governo estadunidense podem ser entendidas como parte de um jogo de poder e foi uma das responsáveis pela popularidade e sucesso das intenções inicialmente pretendidas pelos coordenadores da revista. Assim, mesmo possuindo como fonte documental primária um objeto cultural (a revista ―Em Guarda‖) o foco da pesquisa visa, fundamentalmente, as relações de poder expressadas pelo conteúdo textual e imagético da revista. Essas relações de poder são estudadas através do campo da História Política renovada. Essa ‗Nova História Política‘ resgata os sujeitos ‗marginalizados‘ pela História Política tradicional. O que caracterizará um trabalho historiográfico dentro da modalidade de Política, segundo os preceitos da Nova História é o enfoque que se dará no poder. Porém, não é simplesmente o poder do Estado para com a sociedade, ou dos setores mais abastados para os mais desprovidos. Para o historiador José D‘Assunção Barros, far-se-á História Política considerando uma gama muito mais abrangente de atores envolvidos nela. 1 Em estudos de Relações Internacionais é comum utilizar-se a expressão de país (os ―Estados Unidos‖, o ―Brasil‖, a ―Inglaterra‖) como se fossem um grupo homogêneo ou que representassem a totalidade de sua população. Obviamente, tais expressões não significam que toda a população de uma nação apóia as ações de sua diplomacia, comandada por Estados Nacionais burocratizadas e nem sempre transparentes, quanto às ações e intenções governamentais. De maneira análoga, as relações comerciais privadas também podem ser expressas pela nacionalidade, sem que isso signifique necessariamente unidade de ação de classes e grupos sociais. 39 É o poder com suas apropriações e as relações por ele geradas, com os seus mecanismos de imposição e transmissão, com sua perpetuação através da Ideologia, com a sua organização através das redes de atores sociais e com as Revoluções ou as resistências individuais no âmbito dos micro-poderes, e com tudo o mais que o Poder se refere, o que constituiu mais propriamente o território do historiador político.2 Partindo desse pressuposto, que o objeto central da Nova História Política será o Poder, deve-se levar em consideração que a origem desse poder não emana somente do Estado e/ou de suas Instituições. O grande diferencial da Nova História Política é que a origem do poder pode ser encontrada em lugares onde os historiadores até pouco tempo atrás desconsideravam como pertinente às suas pesquisas. As relações de poder contidas nas micro-unidades políticas como ideologias, movimentos sociais e políticos, revoluções, assim como as relações interpessoais, como os micro-poderes, relações de poder dentro das famílias, relacionamentos entre grupos, juntamente com as representações políticas, simbologias, mitos políticos, teatro de poder, ou o discurso, alargam as fronteiras da História Política abrangendo assim os aspectos culturais, sociais e econômicos de grupos humanos3. As inúmeras incoerências em um documento, como omissões ou silêncios não podem ser vistos como empecilhos para a compreensão da história. Ao contrário, cabe ao historiador analisar os porquês que originam determinadas omissões ou exaltações. A documentação escrita, assim como os documentos orais, traz parcialidade tanto em sua construção como em sua apreensão, dessa maneira não devem ser considerados portadores de uma verdade inalterada apenas por fazerem-se impressos ou emanarem de um sujeito que se torna objeto integrante da pesquisa (neste caso objeto da História Oral). A documentação escrita ou oral traz em si omissões, lacunas, intenções ao serem escritos ou ditos, gerando múltiplos entendimentos por parte de seus leitores. São essas lacunas nos documentos que nos possibilita encontrar os jogos de poderes existentes em determinado contexto histórico. As possibilidades de trabalhar com a documentação escrita hoje se ampliaram. Mesmo estando vivendo uma época em que os documentos para um historiador não precisam ser, em geral, documentos escritos, a documentação escrita também aumenta. Isso ocorre porque os documentos escritos de hoje não são apenas documentos oficiais, ligados diretamente à organização política de um Estado: Hoje qualquer texto pode ser constituído pelo historiador como fonte: o diário de uma jovem desconhecida uma obra de alta literatura ou da literatura de cordel, as atas de uma reunião de um clube, as noticias de jornal, as propagandas de uma revista, as letras de música, ou ate mesmo uma simples receita de bolo. Não há mais limites para os tipos de textos que podem servir como materiais para o historiador4 2 BARROS, José D‘Assunção. História Política, Discurso e Imaginário: Aspectos de uma interface. S/ECULUM, Revista de História. João Pessoa, jan/jun. 2005, p. 128 3 Idem. 4 Ibidem, p.130. 40 Um dado importante a ser considerado é o público a que se destina o texto. Quem produz o texto, produz para um público. E esse público também contribui para o produto final de uma escrita. Portanto: O receptor, mesmo que o autor ou produtor do texto não esteja plenamente consciente disto, ajuda também a escrever o texto. Quem escreve um texto acaba antecipando certas expectativas de quem irá recebê-lo, seja para contemplá-las ou para afrontá-las. Neste sentido, o receptor do texto não deixa de se inscrever na rede de poderes que ajudam a produzir e formatar o texto através do produtor aparente do discurso5 Ainda segundo Barros, três aspectos são relevantes na análise textual: o lugar de produção; o conteúdo (intenção, mensagem) e o lugar de recepção. Cabendo ao historiador lidar com esses três vértices que estão interligados e refletem as relações de poder que existem neles. Há de levarmos em consideração a intertextualidade que contém um texto. Toda escrita refere-se a um ―gênero‖ que lhe atribui normas literárias, quer o autor esteja de acordo ou não. Também nessa direção, existirão outros textos que contribuirão para construir determinada escrita. Dessa maneira, com o conhecimento ou não do autor, haverá outros textos que farão parte do seu discurso. Para Marc Bloch, mesmo que alguém possua uma maneira ‗nova‘ de fazer algo, essa pessoa está inserida em um contexto que moldou seu pensamento.6 Com o mesmo olhar crítico em que analisamos um texto devemos estender essa criticidade às imagens produzidas por uma época, sejam elas pinturas, gravuras ou fotografias. Como expõe Peter Burke7, o estudo da iconografia passa hoje por uma valorização nos meios acadêmicos, que até então não tivera uma grande relevância. Essas imagens, herdeiras de um tempo, trazem consigo um tipo de narrativa, que submetida a um interrogatório nato de um historiador, proporciona indícios do passado, assim como os documentos escritos. Uma pintura, que hoje vemos exposta em museus, ou mesmo uma tela guardada por séculos em porões anônimos, expressa muito mais do pensar de uma época do que acreditamos de início. Porém, uma preocupação de Burke é o significado ―evidente‖ que essa mesma obra revela aos seus observadores e que mascara sua real expressão do passado. Para nós pesquisadores, cabe saber fazer as perguntas certas ao nosso objeto. Aquilo que parece óbvio deve ser rejeitado, abrindo espaço para o que está sutil, ou mesmo que não aparece na imagem. As roupas, o cenário, as feições dos personagens, a sombra e a luz, tudo isso faz parte de um arranjo do pintor para salientar tal objetivo que tem em sua pintura. Devemos procurar perguntar o porquê desses enfoques, dessas feições ou mesmo desse cenário. Por que os 5 BARROS, Op. Cit, p.133. BLOCH, Marc. Apologia da História ou O Ofício de Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. 7 BURKE, Peter. Testemunha Ocular – História e Imagem. Bauru, SP: EDUSC. 2004. 6 41 personagens de nosso objeto de pesquisa preferem ser vistos robustos, austeros ou sorrindo em seu auto-retrato, por exemplo? Com os mesmos critérios, entretanto, com maior criticidade ainda, devemos olhar para as fotografias. Elas, tidas como objetos históricos podem trazer aos menos instruídos, uma sensação de portar uma veracidade, apenas por ser uma reprodução mecânica da realidade. Vemos na atualidade que cada vez mais essa aura de veracidade agoniza-se, em partes pela disseminação de avançados Softwares que possibilitam a até leigos no assunto, a edição e modificação instantânea de fotografias8. Porém, a poucos anos atrás, o que a fotografia mostrava era tido como prova incontestável daquilo que ―realmente‖ aconteceu. O fotógrafo ao menos era questionado sobre a sua escolha ao focalizar um determinado ângulo de um episódio. Aos olhos de um observador, uma simples briga, se fotografada em seu ápice, adquiria um sentido um tanto quanto brutal. Mais uma vez as entrelinhas contidas nas imagens devem se levadas em consideração quando estas são elevadas a objeto de estudo. O fotógrafo, assim como o fotografado precisam ser identificados. Na ausência dessas informações, os por quês dessas lacunas podem significar muito para averiguar os sentidos ―ocultos‖ das imagens e fornecer assim, resultados relevantes para o desenrolar da pesquisa. O fotógrafo Boris Kossoy9 narra que hoje nos meios acadêmicos não há como considerar uma produção fotográfica que não esteja alicerçada no tripé: assunto, fotógrafo e tecnologia. Também nos mostra essa conexão entre as ―intenções‖ do fotógrafo no momento de captação da imagem. Não existiria assim fotografia que não fosse oriunda do espaço ao qual foi produzida e de um contexto econômico, político, social ou estético específico. 10 Ele vai mais longe ao que tange o papel do fotógrafo no resultado final de uma imagem fotográfica. Este exerceria um papel de ―filtro cultural‖ no momento da escolha do objeto, da leitura que faz sobre ele e do modo em que reproduz o trabalho final. Indo além, para Kossoy: ―Toda a fotografia é um testemunho segundo um filtro cultural ao mesmo tempo em que é uma criação a partir de um visível fotográfico. Toda a fotografia representa o testemunho de uma criação. Por outro lado, ela representará sempre a criação de um testemunho‖11 Cabe aos historiadores no momento de interação com nosso objeto de pesquisa, saber fazer as perguntas certas ao documento, seja ele escrito, oral ou imagético: ‗De onde vens?‘, ‗Com quem falas?‘, ‗Do que falas?‘, ‗Sobre o que silencias?‘, ‗Que poderes exerce?‘, ‗E que 8 Essa constatação também é levantada pelo pesquisador Eder Chiodetto, em sua dissertação de mestrado, Fotojornalismo: realidades construídas e ficções documentais, apresentada ao programa de pósgraduação em Ciências da Comunicação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e defendida em 10/04/2008. 9 KOSSOY, Boris. Fotografia e História, 2.ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001. 10 Idem. 11 Ibidem, p. 50. 42 poderes te atravessam?‘. Essas perguntas refletirão os jogos de poder que os permeia, por mais serenos que pareçam ser.12 A partir desses pressupostos, nosso trato com as fontes, em um primeiro momento, visou o levantamento dos artigos que constam na revista. Para tanto, o processo de análise compreendeu primeiramente a elaboração de uma ficha documental, na qual constaram o ano e número da revista, titulo do artigo que estava dentro dos nossos interesses de pesquisa (ou seja, que diziam respeito ao Brasil), número de páginas do artigo, palavras-chaves e breve resumo do conteúdo do artigo. Esse levantamento preliminar teve como objetivo detectar os temas mais freqüentes em cada ano de edição da revista e possibilitou, nesse primeiro contato com a revista, construir um levantamento sobre quais tipos de assuntos a revista tratou no primeiro ano de sua edição e de que forma, de um modo mais amplo, ela os abordou. A pesquisadora Ângela de Castro Gomes, em sua obra História e Historiadores13 analisa uma revista chamada Cultura Política. Tal periódico, veiculado também no período da Segunda Guerra Mundial, é, ao contrário da ‗Em Guarda‘ editado no Brasil pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) - ligado ao governo Vargas. Nele, Gomes detecta que existe um interesse em criar a ‗ressurreição‘ do passado brasileiro, através de artigos - escritos por importantes pesquisadores - que abordam em geral temas relacionados ao período republicano brasileiro. Tal constatação foi resultado da forma como Gomes trabalhou a revista Cultura Política que, foi dividida pela pesquisadora em categorias temáticas e através desse método ela pode com mais clareza detectar que, estatisticamente, os artigos de cunho histórico se sobressaíam aos outros tipos de artigos que abordavam outras áreas do conhecimento. A motivação em observar a incidência de categorias temáticas – pensando em Gomes – no corpo da revista ―Em Guarda‖, deu-se, principalmente, ao nos depararmos com uma constatação do historiador Gerson Moura14, que o conteúdo da propaganda de guerra estadunidense esteve diretamente relacionado com as fases que as forças Aliadas enfrentaram na Segunda Guerra Mundial. Assim, as construções discursivas expostas na revista Em Guarda ao longo dos quatro anos de veiculação na América Latina como propaganda de Guerra fizeram sentido aos nossos olhos, pois refletiram as incertezas, acima de tudo, que a campanha empreendida pelas forças Aliadas contra o totalitarismo fascista gerou. Pudemos perceber, dessa maneira, que a revista ―Em Guarda‖ pode nos auxiliar, e muito, nos estudos relativos ao período da Segunda Guerra Mundial, no que tange ao programa de Boa Vizinhança estadunidense para as Américas. Mostraremos a seguir algumas das características da revista e o mapeamento preliminar dos principais temas que estão contidos no primeiro ano de sua veiculação no Brasil, 1942. 12 BARROS, Op. Cit, p. 134 -135. GOMES, Ângela de Castro. História e historiadores. 2 ed., Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1999. 14 MOURA, Gerson. Tio Sam chega ao Brasil. São Paulo, Brasiliense, 1984 13 43 A princípio a revista levaria o nome de ―Em Marcha‖, onde mostraria a grande ofensiva empreendida pelos Estados Unidos contra o ―terror‖ nazista e totalitário. Essa empreitada proposta contida no título da revista evocaria, de uma forma explícita, os países latino-americanos para a grande ofensiva contra o ‗mal‘ iminente trazido pelos nazistas e que estava penetrando nos países europeus e poderiam chegar às Américas. Mas o nome parecia agressivo demais, pois o principal objetivo estadunidense parecia não ser o de transmitir uma imagem negativa aos seus futuros aliados. Ao contrário. A nação portadora da democracia, das liberdades humanas e da fé cristã pretendia conquistar o apoio latino americano mostrando-se como a ‗garantidora da paz‘ e não agressiva militarmente. Aos latino-americanos era necessário mostrar que todos os esforços travados pelos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial eram pela paz e bem universal, pela vitória do mundo livre, democrático e cristão e ―jamais‖ por interesses econômicos ou políticos. Foi a partir desse pensamento que Cordell Hull, um dos responsáveis pelas relações diplomáticas estadunidenses, vetou esse nome e sugeriu outro: ―Em Guarda‖. Este já tem um sentido contrário a de uma ofensiva militar. Dado de uma forma mais sutil expõe aos latinoamericanos o cuidado estadunidense para com seus vizinhos. Num período de forte conflito bélico a ―revista veicula uma imagem dos Estados Unidos como fortaleza segura da democracia continental. Fortaleza à qual os países do continente poderiam pedir toda sorte de auxílio, sempre que necessário.‖15 A revista Em Guarda foi Impressa em Nova York em 1941 e veiculada no Brasil entre 1942 a 1945, período em que os Estados Unidos entram em guerra e o Brasil rompe suas relações com o Eixo, até o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Chegaram a serem publicadas cerca de 500.000 exemplares por mês na América Latina, batendo público recorde em 1943, onde foram vendidas mais de 630.000 exemplares só no Brasil, atingindo uma média de 5 leitores por revista.16 Enviada para o Brasil direto de Nova York, a revista ―Em Guarda‖ contém assuntos de interesse para a Política da Boa Vizinhança do governo estadunidense Franklin Delano Roosevelt. Nos quatro anos de edição, os artigos, de um modo abrangente, expõem temas relacionados a saúde, educação, saneamento além de notícias e fotos do front de guerra. Também encontramos noticias sobre os motivos que levaram os Estados Unidos a pegarem em armas; tecnologias bélicas; grandes personalidades americanas, principalmente estadunidenses; ‗pilares‘ da sociedade estadunidense (democracia, progresso, religião); descaracterização dos inimigos do Eixo; mobilização da sociedade estadunidense para a vitória na Guerra e também artigos acerca dos vários países latino-americanos. Possui capas coloridas com fotos e em seu interior, ao contrário, a maior parte das imagens e dos textos são em preto e branco, com raras exceções coloridas. Em cada fascículo 15 TOTA, Antonio Pedro. O Imperialismo sedutor: a americanização do Brasil na Segunda Guerra. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. p.56 16 MOURA, Gerson. Op. Cit, p.35 44 podemos encontrar uma média de 15 artigos, fazendo com que se somem em quatro anos de veiculação da Revista um montante de 720 artigos mais ou menos. Os artigos da revista possuem uma linguagem própria de revista comercial, entretanto, como seus temas versam, praticamente, a assuntos específicos militares podemos supor que o público alvo para tal periódico abrangesse setores da população letrada com grande incidência de militares e elites políticas. Com o lema, ―Para a Defesa das Américas‖, os editores da revista ―Em Guarda‖ estamparam, logo em sua capa, a proposta do seu periódico. E assim ela permaneceu, por quatro anos, levando essa intenção de união americana frente à luta contra os ―inimigos‖ do Eixo e principalmente, tendo como norteador de toda a empreitada bélica, os Estados Unidos da América. A análise da revista Em Guarda, para produção desse artigo, compreendeu os exemplares que fazem parte do primeiro ano de sua veiculação no Brasil, 1942, e através do seu mapeamento textual e imagético, observamos a recorrência de determinados tipos de reportagens. Sem recorrer a uma linguagem culta, os editores da revista, ao longo dos números publicados, foram trazendo a visão estadunidense sobre guerra, valores morais e busca pela paz. Em um dos seus primeiros números, os Estados Unidos justificam sua recorrência às armas, pois, até aquele momento permaneciam ―neutros‖ na guerra. A justificativa pautava-se na luta pela democracia nas Américas, pois a cada minuto o continente ficava mais vulnerável diante do avanço das tropas nazi-fascistas pela Europa: A guerra acaba de ser imposta ao Hemisfério Ocidental. O traiçoeiro ataque japonês no Pacífico, e as declarações de guerra de Hitler e Mussolini, põem risco o solo dos Estados Unidos. Em verdade, põem em perigo todas Américas, desde o estreito de Bering até o estreito de Magalhães. Quanto a isso, não há a menor dúvida. Os bombardeios que estrondosamente levantaram vôo da terra do Sol Nascente para projetarem-se ao romper do dia sobre o território americano de Hawai, lançavam um ataque sobre poderosa guarda avançada de nossas liberdades. No Pacífico, Hawai e suas fortificações estão ―Em Guarda‖ para defender a liberdade e independência das Republicas Americanas. No Atlântico, há-se também ser o nosso poder que manterá afastadas das hordas Nazista e Fascistas, as vias de acesso ao nosso continente.17 Diante da grande ameaça ao continente americano, os Estados Unidos, após a ofensiva japonesa à Pearl Harbor, em 1941, segundo a revista, foram obrigados a pegar em armas e colocarem-se em ―Em Guarda‖ pela defesa da democracia. Colocar-se ―Em Guarda‖ adquire um 17 REVISTA EM GUARDA. Office of the Coordinator of the Inter American Affairs. Nova York, Ano 1, nº 4 , p. 5. 45 sentido mais de defesa do que de ataque. O Secretário de Estado Cordell Hull acertara em cheio quando garantiu que ―Em Marcha‖ daria uma conotação muito agressiva por parte dos Estados Unidos. Segundo a matéria acima citada, a ofensiva deu-se somente porque as nações americanas correram o perigo de serem atacadas. Neste sentido, vemos uma grande gama de artigos que apresentavam seu poderio bélico. Tudo que existia de moderno em aviação, armamentos, materiais para comunicação, submarinos, tanques blindados foram detalhadamente expostos ao leitor, possibilitando uma sensação de segurança nos Estados Unidos mostrando a todos que seria melhor ficar a favor do que contra esse país. Em Julho de 1940, fabricaram-se apenas 561 aviões militares. Em setembro deste ano, 1941 a Marinha incorporou à esquadra mais unidades durante o curto período da presente expansão, do que nos quatorze anos decorridos entre 1922 e 1937. Tanques de todos os tipos estão a sair aos milhares, mensalmente, das linhas de montagem. A produção de material bélico em geral, triplicou nos primeiros nove meses deste ano, e em matéria de munições o aumento foi de dez vezes mais. E a marinha mercante aproxima-se rapidamente da sua média estimada de um navio por dia.18 Em uma comunicação feita ao congresso, em 6 de janeiro de 1942, o presidente Franklin Roosevelt relembrou a ‗façanha‘ dos antigos estadunidenses que outrora defenderam os princípios cristãos levando sua mensagem além do oceano, em uma nova terra. No período da guerra em se encontravam, o homem, como ‗a imagem e semelhança de Deus‘, estava sendo agredido pelas potências do ‗Eixo‘, pois a escravidão (situação imposta pelo nazi-fascismo aos europeus e asiáticos dominados) era contrária à liberdade dada por Deus. Todos que lutamos deste lado queremos ser fiéis a essa divina herança. Lutamos, como outrora fizeram nossos pais, para manter a doutrina pela qual todos os homens são iguais perante Deus. Aqueles que lutam do outro lado, se esforçam para destruir essa profunda crença, e para criar um mundo à sua própria imagem – um mundo de tirania, crueldade e escravidão19. Enquanto o modelo estadunidense era disseminado como semelhante ao paraíso divino, tendo sua base no homem livre e feliz, o mundo vivido pelos países do Eixo recebia a face da tirania e crueldade. Esse mundo nada tinha de semelhante a um mundo divino. Percebemos, portanto, a dualidade criada pela propaganda estadunidense: de um lado o bem, do outro o mal. Somente uma nação fundada nas leis divinas poderia receber essa grande missão que era, para 18 REVISTA EM GUARDA. Nova York: Office of the Coordinator of the Inter American Affairs. Ano 1, nº 4, p. 9. 19 REVISTA EM GUARDA, Nova York: Office of the Coordinator of the Inter American Affairs. Ano 1, nº 5, p.2. 46 Roosevelt, lutar pela ―segurança, pelo progresso, pela paz não apenas para nós, mas para todas as gerações‖20. Para forjar um clima de união e entusiasmo pela grande ‗missão‘ iniciada pelo seu país, a revista mostrou a população estadunidense envolvida de corpo e alma com a guerra. Como muitos homens foram lutar nos campos de batalha, as indústrias ficaram sem sua mão-de-obra. Para solucionar tais problemas, as mulheres foram convocadas a substituírem seus ―maridos‖ nas fábricas e assim ajudarem o país em um momento delicado. Todos pareciam muito dispostos e felizes por colaborarem com a nação. Pelo menos é o que fica claro nas imagens trazidas para ilustrar o artigo: ‗A mulher na defesa‘. Todas sempre sorridentes substituem os homens nas tarefas não destinadas, culturalmente, a elas. Não parecia haver problemas em mulheres realizarem serviços pesados e socialmente masculinos. Em um estado democrático e livre buscava-se, em primeiro lugar, o bem da nação. Abaixo um trecho e as suas ilustrações acerca dessa ideia da mulher na defesa Figura 121 Figura 222 Não é esta a primeira vez que indústria americana apela para o trabalho feminino. A conscrição militar chamou ao exército milhares de sorteados que trabalhavam em fábricas. A mulher teve de substituí-los e desta vez em número realmente extraordinário. (...)A mulher tem demonstrado em vários encargos, que é capaz de produzir melhor trabalho do que o homem que ela substitui. Em trabalhos que não requerem a variedade, mas nos quais a paciência e a precisão são indispensáveis, a mulher adapta-se melhor.23 Essa mobilização da população em meio à guerra serviria como exemplo aos outros países (principalmente aos latino-americanos) do grande empenho que se deveria ter pelo bom 20 Idem. REVISTA EM GUARDA, Nova York: Office of the Coordinator of the Inter American Affairs. Ano 1, nº 4, p. 16. 22 Idem, p. 17. 23 REVISTA EM GUARDA, Op. Cit. ano 1, nº 4, p. 16 e 17. 21 47 crescimento de seu país. Se eles não reagissem, o ‗mundo escravizado‘ poderia bater-lhes à porta e tudo o que construíram até então, poderia desmoronar de uma só vez. Porque, no momento em que as forças armadas dos Estados Unidos, por toda parte, entraram em ação, todas as diferenças de opinião do povo norte-americano, diferenças legítimas que só existem entre um povo democrático, foram imediatamente postas à margem. Aqueles que estavam sendo chamados ‗isolacionistas‘ reuniram-se aos que eram classificados como ‗intervencionistas‘. Chefas trabalhistas, da Federação Americana do Trabalho e do Congresso de Organizações Industriais, declararam-se solidários com os representantes da Indústria, para garantirem ao Governo a mais completa colaboração. E dos próprios chefes trabalhistas manifestou-se a voluntária determinação de absteremse de qualquer greve durante o período da Guerra24 Esse ‗trabalho em equipe‘ tornava-se um ponto chave para os posteriores discursos do presidente brasileiro Getúlio Vargas. Ao atrelar sua aliança com os Estados Unidos e se dispor a fornecer pontos estratégicos para bases militares na costa nordestina e enviar um contingente de mais de 25 mil homens que compuseram a FEB (Força Expedicionária Brasileira), Getúlio também convocou as classes trabalhadoras a contribuírem através de seus trabalhos com o país em guerra. Era uma guerra de ―todos‖ (a pretensão de Getúlio) contra as forças nazistas.25 Realizada uma observação mais aprofundada da revista, considerando as temáticas mais recorrentes no seu primeiro ano de distribuição no Brasil, pudemos perceber que a exposição do arsenal bélico estadunidense tomava inúmeras páginas da revista. Para o historiador Gerson Moura essa exacerbada demonstração de força bélica suavizava aos latinoamericanos as incertezas do destino das próximas ofensivas. ―Antes do desembarque angloamericano ao norte da África (novembro de 1942), quando a situação militar no hemisfério era incerta, a ênfase recaía na demonstração do poderio militar dos Estados Unidos.‖26. Em seu primeiro ano, a revista ―Em Guarda‖ trouxe na maioria de suas reportagens escritas o objetivo claro de demonstração de seu poder militar e bélico. Para tal constatação foram verificadas oito revistas, das doze que compõem a edição do ano de 1942. De acordo com cada reportagem escrita, montamos uma tabela que incluíram as palavras-chave de cada reportagem. Assim, em um momento posterior, pudemos agrupá-las em temas de maior recorrência. São eles: Novidades bélicas (armas e veículos de Guerra) Recrutamento, treinamento dos soldados estadunidenses. Altos oficiais e grandes personalidades políticas dos Estados Unidos Mobilização do povo estadunidense, com ênfase na figura feminina. Altos oficiais e grandes personalidades políticas latino-americanos. Matérias – primas para a fabricação do arsenal de guerra. 24 Idem, p. 5 FONSECA, Pedro Cesar Dutra. Vargas: o capitalismo em construção, 1906-1954. São Paulo: Brasiliense, 1989, p.312-313. 26 MOURA, Gerson. Op. Cit, p. 33. 25 48 Descaracterização dos inimigos e de sua sociedade. Programas para o desenvolvimento das Américas. O bom tratamento clínico das tropas estadunidenses. Ao contrário de periódicos da mesma época, como O Cruzeiro27 e Seleções da Readers Digest28, que traziam reportagens destinadas ao interesse cotidiano das pessoas, que iam de receitas de bolo, dicas de beleza a jardinagem, ‗Em Guarda‘ foca-se, exclusivamente, a assuntos de interesse militar e estratégico, em praticamente todos os seus exemplares. Dentre os temas de maior incidência, como destacamos a pouco, foi possível fazer uma classificação ainda mais abrangente. Dessa forma, os temas: mobilização bélica, descaracterização do inimigo e população dos Estados Unidos em prol do ideário bélico podem ser entendidos como o foco em torno da qual emanará a maior parte das reportagens. O índice percentual dessas temáticas pode ser expresso no gráfico abaixo: Gráfico 129 Principais reportagens publicadas pela revista "Em Guarda" no ano de 1942. 52 29 13 4 2 Valore s aproximados (%) Mobilização Bélica: veículos e armas de guerra; novidades bélicas; união das grandes personalidades políticas e militares. Vizinhos americanos em prol da guerra: notícias que versam sobre as alianças para a guerra. Povo estadunidense em prol da guerra: mobilização no cotidiano da população. Descaracterização do "inimigo" (países que compunham o Eixo) Outras reportagens De acordo com os dados acima citados, percebemos que mais da metade dos artigos contidos na revista dizem respeito ao poderio bélico e envolvimento com o conflito por parte dos Estados Unidos. Tudo o que há de mais novo no tocante à tecnologia de guerra são mostrados pela revista. Metralhadoras, mísseis de curta e longa distância, tanques de guerra, imensos submarinos, aviões bombardeiros, afloram a imaginação dos apaixonados por esse tipo de tecnologia e tem o poder de produzir, àqueles que não são tão enamorados pela guerra, ao menos, uma sensação de segurança. 27 Sobre a revista o Cruzeiro ver: O Cruzeiro – revolução na fotorreportagem, de Nadja Peregrino. Sobre a revista Seleções da Readers Digest ver: Ao Sul do Rio Grande. De Mary Anne Junqueira. 29 Gráfico produzido pela autora, de acordo com dados da Revista Em Guarda, ano 1. 28 49 Outro elevado número de artigos, praticamente um terço do total, refere-se aos vizinhos americanos, que estão se mobilizando pouco a pouco na luta contra o Eixo. A cada nova aliança firmada, uma reportagem enaltecendo o determinado país é realizada. Assim, quando Getúlio Vargas firma seu propósito de luta ao lado das forças Aliadas, quatro páginas da revista são dedicadas ao Brasil, exaltando aos olhos da América as suas belezas naturais, seu determinado governo que não poupava esforços pela luta democrática e seu povo maravilhoso, que parece estar muito a par do propósito real da Guerra. Uma guerra, nesse caso particular a Segunda Guerra Mundial, em que a luta fazia-se em prol da defesa da democracia no mundo, não ―poderia‖ ser feita apenas pela cúpula política e militar, mas sim pelo engajamento de toda a sociedade. Resultante desse pensamento, um terceiro tipo de reportagens faz-se notório na Revista, tanto em quantidade e reportagens como no destaque que estes adquirem no periódico. Estas reportagens são as que dão enfoque na mobilização da população estadunidense na guerra. O cidadão comum, os homens, mulheres e crianças, em seu cotidiano familiar, profissional, ou simplesmente pelo ―sim‖ à causa militar, podem ser o fator determinante do sucesso estadunidense no front. Por último, vimos que a descaracterização do inimigo assume um valor secundário na publicação. São raras as reportagens escritas que falam dele e do ―perigo‖ que ele pode causar ao mundo democrático. Quando aparecem, coincidentemente após uma reportagem que fala do ‗poderoso‘ arsenal bélico Aliado, as palavras utilizadas são ásperas e diretas e as imagens chocantes. Porém, as poucas reportagens dessa temática refletem o ideário ―Em Guarda‖, pois trazer a maioria das folhas impressas com notícias do ―inimigo‖ é um espaço a menos para exaltar o potencial bélico Aliado. Também pudemos compreender que neste ano o inimigo estava ganhando no front de guerra. Talvez quisessem evitar falar demais de algo que, até aquele momento, levava a vitória. Sabe-se que o inimigo existe! Porém, o importante a se fazer é estar sempre ―alerta‖ contra ele. Tendo em mente as afirmações de Gerson Moura sobre o conteúdo da propaganda de guerra estadunidense estar diretamente vinculada às fases que este passa no conflito, procuramos verificar em que sentido nossa revista refletiu essa estratégia aparentemente inocente, mas que adquire propósitos bem delimitados política e economicamente. Temos então uma constatação de que de início, os editores da ―Em Guarda‖ preocuparam-se em expor o poder de guerra estadunidense. Os governantes dos países americanos juntamente com as elites civis e militares precisavam de segurança ao aderir à luta com os Estados Unidos, principalmente. A escolha não era fácil, já que poderiam receber represálias alemãs. O melhor a se fazer era unir-se aos Estados Unidos e colocar nele o seu destino. 50 BIBLIOGRAFIA BARROS, José D‘Assunção. História Política, Discurso e Imaginário: Aspectos de uma interface. S/ECULUM, Revista de História. João Pessoa, jan/jun. 2005 BLOCH, Marc. Apologia da História ou O Ofício de Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. BURKE, Peter. Testemunha Ocular – História e Imagem. Bauru, SP: EDUSC. 2004. CHIODETTO, Eder. Fotojornalismo: realidades construídas e ficções documentais. (dissertação de mestrado). Apresentada ao programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e defendida em 10/04/2008. FONSECA, Pedro Cesar Dutra. Vargas: o capitalismo em construção, 1906-1954. São Paulo: Brasiliense, 1989 GOMES, Ângela de Castro. História e historiadores. 2 ed., Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1999. JUNQUEIRA, Mary Anne. Ao sul do Rio Grande. Imaginando a América Latina em Seleções: oeste, wilderness e fronteira (1942-1970). Bragança Paulista, SP: EDUSF, 2000. MOURA, Gerson. Tio Sam chega ao Brasil. São Paulo, Brasiliense, 1984 PEREGRINO, Nadja. O Cruzeiro: a revolução da fotorreportagem. Rio de Janeiro: Dazibao, 1991. REVISTA EM GUARDA. Office of the Coordinator of the Inter American Affairs. Nova York, Ano 1 TOTA, Antonio Pedro. O Imperialismo sedutor: a americanização do Brasil na Segunda Guerra. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. KOSSOY, Boris. Fotografia e História, 2.ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001. 51 A TRADIÇÃO HELENÍSTICA TRANSFORMADA NO IMPÉRIO ROMANO DO SÉCULO II D.C.: A “ANÁBASE DE ALEXANDRE MAGNO” DE ARRIANO DE NICOMÉDIA105 André Luiz Leme Mestrando da Universidade Federal do Paraná [email protected] RESUMO: Dentre os diversos escritos do grego Arriano de Nicomédia (90 d.C. – após 145/6), destaca-se a obra Anábase de Alexandre Magno. Composta na primeira metade do século II d.C., ela narra a trajetória empreendida pela expedição militar de Alexandre, o Grande (356-323 a.C), rumo à conquista do reino persa. No presente estudo, nosso olhar investigativo contempla os prováveis motivos que levaram Arriano, em determinado momento de sua vida, a resgatar exatamente a memória do personagem histórico Alexandre. Para isso, nossa análise orienta uma reflexão sobre o modo como Arriano construiu a imagem do rei macedônio, buscando entrever o sentido geral dado pelo autor ao comportamento dele. Dessa forma, avaliamos a possível inteligibilidade e potencial teórico de seu discurso frente aos contemporâneos receptores da obra. PALAVRAS-CHAVE: Arriano de Nicomédia; Império Romano; Alexandre, o Grande. Dentre os diversos escritos do grego Arriano de Nicomédia (cerca de 90 – após 145/6 d.C.), aquele que mais despertou interesse, desde os tempos antigos, foi sua obra Anábase de Alexandre Magno. Nesta, o grego de Nicomédia relatou a trajetória empreendida pela expedição militar de Alexandre, o Grande (356-323 a.C), rumo à conquista do reino persa. Sem dúvidas, possui imenso valor para os estudiosos do rei macedônio, pois é rica em detalhes, especialmente militares, da sua campanha. No entanto, nosso objetivo no presente artigo é outro: investigar os possíveis motivos que levaram Arriano de Nicomédia, em seu tempo, a resgatar a memória desse personagem através de uma composição narrativa. Dessa forma, analisamos uma fonte histórica sob o prisma do seu próprio tempo de composição, ou seja, seu teor de inteligibilidade na época. Arriano de Nicomédia nasceu na província romana da Bítinia-Ponto, membro de uma importante família da aristocracia local. Cidadão romano, seguiu o cursus honorum senatorial, tornando-se cônsul no ano de 129 d.C. e chegando à notável posição, em 131/32 d.C., de legatus Augusti pro praetore na província da Capadócia, região leste do Império. Foi nesse momento que, ao repelir tentativas de invasão bárbara, se destacou como um grande estrategista militar. Concomitante à carreira na política, sua produção intelectual (concentrada na primeira metade do século II d.C) contemplou escritos de cunho historiográfico (Bithyniaca, Partthica, To meta Alexandron), filosófico (Diatribai, Encheiridion) e militar (Periplous Euxeinou Pontou, Techne taktike, Ektaxis kata Alanon). Mas e no que se refere à Anábase de Alexandre Magno, ela pode ser considerada que tipo de narrativa que versa sobre passado? 105 Trabalho desenvolvido com recursos provenientes da bolsa de estudos REUNI/UFPR, concedida através do programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná. Atividade junto ao Núcleo de Estudos Mediterrânicos (NEMED/UFPR). 52 De fato, no presente estudo, partimos do seguinte pressuposto: o interesse de Arriano na obra e o objetivo que almejava com ela estariam intimamente relacionados ao modo por ele escolhido para contá-la – ou seja, as características do discurso adotadas pelo autor em sua composição. Uma análise do prefácio da obra é nosso primeiro passo nessa discussão, pois se trata do momento no qual o autor coloca, de modo mais direto, seus objetivos mais básicos com aquele seu escrito. Nesse momento de seu escrito, Arriano comenta que considera e transcreve como verdadeiras as informações que encontra tanto na obra de Ptolomeu quanto na de Aristóbulo – ambos companheiros de Alexandre em sua expedição. Trata-se, nesse primeiro momento, de claramente ressaltar o caráter de suposta verdade inerente ao seu escrito. Ao mesmo tempo, percebemos a posição metodológica do autor que permite, primeiramente, esse alcance da verdade: a seleção por determinadas fontes e uma análise comparativa entre elas106. A racionalidade e busca pela verdade talvez sejam as principais características que nos permitem afirmar que Arriano pretendeu construir um discurso histórico em sua obra, tendo em vista que o modelo historiográfico surgido com Heródoto e Tucídides pressupunha ao historiador o dever de dizer a verdade sobre o que relatava. Ou seja, a proposta em torno da escrita da verdade era um elemento constituinte do discurso histórico107. Portanto, o relato de Arriano, enquanto declaradamente verdade, se aproximaria de um discurso histórico sobre o passado. Mas, exatamente, quais seriam as conseqüências disso? O que o discurso histórico possuía que o diferenciava, qualitativamente em sua função, de outros possíveis relatos sobre o passado? Segundo o historiador Arnaldo Momigliano, os historiadores gregos quase sempre acreditavam que os acontecimentos passados tinham certa relevância para o futuro, e sua lembrança constituiria uma espécie de lição aos contemporâneos de tal escrito108. Dessa forma, o ímpeto de construção da Anábase de Alexandre Magno converge então para o seguinte sentido: Arriano, em sua obra, desejaria fundamentalmente lembrar e ressaltar o caráter exemplar de um grande personagem e a realização, por parte deste, de um empreendimento notável. Tudo isso seria digno de lembrança, tornando-se uma espécie de exemplo para a época do próprio Arriano. Podemos pensar que a escrita da história, ao assumir uma função instrutiva, tornava-se praticamente um instrumento de reflexão: ela revelava, com base na tradição, quais seriam os bons e maus exemplos a serem seguidos. Em outras palavras, ela legitimava ações, comportamentos e personagens, especialmente no âmbito da vida política. De certo modo, as escolhas de determinados exemplos (seja para enaltecer ou criticar) realizadas pelos autores antigos atendiam à seus interesses e idéias sobre a política e o próprio poder na época em que viveram e escreveram. Justamente por isso, podemos pensar que Arriano, ao compor a Anábase 106 ARRIANO. Anábasis de Alejandro Magno: libros I-III. Tradução de Antonio Guzmán Guerra. Madrid: Editorial Gredos, 1982, p. 117. 107 CADIOU, François; COULOMB, Clarisse; LEMONDE, Anne; SANTAMARIA, Yves. Como se faz a história: historiografia, método e pesquisa. Tradução de Giselle Unti. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007, p.19. 108 MOMIGLIANO, Arnaldo. As raízes clássicas da historiografia moderna. Tradução de Maria Beatriz Borba Florenzano. Bauru/SP: EDUSC, 2004, p. 38. 53 de Alexandre Magno, estaria apontando concepções teóricas acerca da política e do poder que seriam convenientes para sua época, de acordo com seu entendimento. De fato, trabalhos que pressupunham discussões teóricas acerca do poder, do bom e do mau governante, ganharam intensidade desde inícios do século II d.C. Tal panorama nos é descrito pela historiadora María José Hidalgo de la Vega: El tema de la naturaleza del poder, de su legitimidad, conectada con la oposición al tirano, junto con el de la acción política era objeto de debate en las escuelas de filosofía y de retórica, dando origen a tratados y libros al respecto. Estos tratados se configuraron a partir de la propia perspectiva de la legítima oposición al tirano, que todo filósofo debe tener, incluso hacia el legítimo soberano, cuando éste adquiere las actitudes y prácticas odiosas del tirano. De esta forma se va modelando la ideología del ―buen príncipe‖, que será presentado como modelo de gobernante ideal y con el que contrastarán sus juicios sobre los emperadores y sus comportamientos con respecto a los temas ya indicados. Esta teoría estaba destinada a tener más éxito que la sucesión dinástica, fenómeno que no es ajeno a la propia renovación del sector senatorial, cuyos nuevos representantes eran más propensos a asumir la ideología del optimus princeps109. No mundo político romano, após um século onde prevaleceu a instituição principado como mecanismo concentrador do poder, persistiam discussões relacionadas à questão de quem, sozinho, mereceria deter tamanha responsabilidade no governo. A questão problema é que muitos princepes, ao longo do século I d.C., foram acusados de adotar um caráter despótico e tirânico no poder. Tal reclamação provinha, fundamentalmente, do grupo de maior projeção social na época: os senadores. Estes exigiam frente ao princeps um respeito à tradição política que a instituição Senado representava – no momento, abalada por constantes acusações e assassinatos. O que presenciamos intensamente na época foram conflitos de ordem política, disputas que se acirravam no momento decisivo da escolha de um novo Imperador para os romanos. É justamente nesse sentido que talvez possamos abordar, teoricamente, o trabalho de Arriano: o que ele definiria como elemento legitimador àqueles que desejassem assumir tamanha posição no poder? A seguir, apresentamos uma análise de três momentos específicos da obra de Arriano, os quais podem auxiliar nossa compreensão da questão proposta. O primeiro desses momentos é um diálogo entre Alexandre e Parmênio, o qual ocorrera não muito depois da batalha de Granico, mais exatamente no momento em que o rei macedônio se encontrava capturando cidades da Ásia Menor que estavam sob domínio Persa. Partindo de Eféso, Alexandre e seu exército marcharam em direção à cidade de Mileto. O persa encarregado da cidade, Hegesístrato, havia prometido anteriormente, através de uma carta, entregar a cidade ao rei macedônio. No entanto, diante da pretensa notícia de que o exército persa se aproximava para ajudá-lo, Hegísistrato criara coragem e decidira resistir à dominação dos macedônios. No entanto, Nicanor, comandante da frota grega de 160 barcos, adiantara-se aos persas (com seus 400 barcos), chegando com três dias de 109 HIDALGO DE LA VEGA, María José. El intelectual, la realeza y el poder político. Salamanca: Ediciones Universidad de Salamanca, 1995, p. 55. 54 antecedência à eles na cidade de Mileto – apoderando-se de uma ilha (um porto) que se situava na frente dessa cidade, posição estratégica fundamental para a defesa ou ataque da mesma. Nesse momento, Arriano apontou para a seguinte intervenção de Parmênio: En la actualidad, Parmenión aconsejaba a Alejandro presentar batalla, pues confiaba en la victoria naval de los griegos, pero además porque estaba persuadido por un augurio divino; había aparecido, en efecto, un águila posada en la orilla detrás de la proa de las naves de Alejandro. La interpretación que de ello daba Parmenión era la siguiente: en caso de vencer, toda la expedición obtendría un gran provecho, y en caso de ser vencidos, la derrota no llegaría a ser importante, pues ahora eran los persas los que tenían mayor poderío por mar. Dijo, incluso, que él mismo estaba deseando embarcar y participar de cualquier peligro110. Nesse instante, Parmênio se colocou na posição de conselheiro do rei macedônio, dizendo-lhe para iniciar a batalha imediatamente, pois acreditava na vitória. Sua crença no sucesso da empreitada estava baseada também pelo acontecimento de um augúrio, o qual, segundo sua interpretação, acreditava ser muito positivo: caso ocorresse a vitória, ela seria de grande proveito; caso ocorresse a derrota, ela não seria tão determinante – pois, naquele momento, seriam mesmo os persas quem detinham o maior poderio. Para reforçar sua posição, o próprio Parmênio se prontificou para lutar, desejoso de enfrentar quaisquer perigos – uma fala e atitude típicas de Alexandre na obra de Arriano. A resposta do rei macedônio não poderia ser menos enfática, como Arriano assinalou nas seguintes palavras: Alejandro, sin embargo, dijo que Parmenión se equivocaba en sus cálculos y en la interpretación nada razonable que daba del augurio. No tenía sentido enfrentar en combate naval unas pocas naves con otras muy superiores en número, y una flota inexperta como la suya, con la de los chipriotas y fenicios que eran gente ya muy entrenada, y que él no estaba dispuesto a sacrificar ante los persas y en medio tan inseguro la experiencia y valentía de sus macedonios. De otra parte, en caso de ser vencidos en el combate naval, el daño causado a su antigua reputación en las cosas relativas a la guerra sería grande; además de que los griegos estaban dispuestos a sublevarse tan pronto tuvieran noticias de una derrota de Alejandro por mar. Por esta serie de razones manifestó que no le parecía momento oportuno de presentar combate por mar, y que la interpretación que él daba del augurio era bien distinta: efectivamente, el águila había aparecido de su lado, pero posada en tierra, lo que, según él, parecía indicar más bien que él derrotaría a la flota persa desde tierra111. Para Alexandre, Parmênio se equivocava naquilo que estava afirmando, seja no que se referia aos seus cálculos de uma possível vitória ou por parte de sua interpretação (dita ―nada razoável‖) que fazia do augúrio. O rei macedônio rechaçou a possibilidade de realizar o ataque 110 ARRIANO. Anábasis de Alejandro Magno: libros I-III. Tradução de Antonio Guzmán Guerra. Madrid: Editorial Gredos, 1982, p. 167. 111 ARRIANO. Anábasis de Alejandro Magno: libros I-III. Tradução de Antonio Guzmán Guerra. Madrid: Editorial Gredos, 1982, pp. 167-168. 55 tendo por base diversos argumentos, entre os quais a inferioridade numérica da frota, a inexperiência da mesma (quando comparada com a inimiga) e também as péssimas conseqüências de seu possível ato falho: este viria a sacrificar a experiência e valentia de seu exército, além de que causaria sua própria desmoralização frente aos assuntos da guerra – possivelmente também resultando numa sedição por parte dos gregos. Da mesma forma, incorreta, estava a interpretação de Parmênio em relação ao augúrio: a frota persa seria sim vencida, mas a partir de uma batalha terrestre, e não realizada no mar. De fato, Alexandre apresentou um conjunto de idéias que desqualificavam prontamente a sugestão de ataque vinda de Parmênio. Seus argumentos racionais, advindos de sua atenta observação da situação, demonstram uma estratégia cautelosa e supostamente mais correta para aquele momento. Tudo isso aconteceu porque Alexandre levou em consideração as ―circunstâncias da ação‖ (inferioridade numérica e inexperiência) e as ―causas da ação‖ (derrota e desmoralização), considerando a seguinte melhor atitude: não agir. Na construção narrativa de Arriano, aparentemente o simples ato de querer dar um conselho para Alexandre teria sido uma ação prepotente de Parmênio, sendo inconseqüente a ação que propôs. Em outras palavras, foi uma clara lição de moral, a qual teria vindo de um verdadeiro ―professor‖ no assunto – tendo em vista que o rei macedônio esbanjou conhecimento tático nesse momento. Também fica subentendido nessa ocasião que a disposição própria de Alexandre para enfrentar o perigo não encontrava espaço em determinadas situações onde a possibilidade de êxito demonstrava-se, tecnicamente, pequena. Ou seja, enfrentar o perigo não é uma atitude inconseqüente, mas que encontrava impulso na possibilidade de ação e sucesso. Agindo de modo prudente, Alexandre também zelava por seus soldados, cuja valentia causava, inclusive, admiração no rei macedônio. Nosso próximo momento de análise é um discurso, proferido por Calístenes, historiador da campanha de Alexandre, em oposição à prática da proskýnesis112 – adotada pelo rei macedônio durante sua campanha na Ásia. Enquanto que o sofista Anaxarco, um acompanhante da expedição, defendia veementemente essa prática, legitimando a divinização de Alexandre ainda em vida, Calístenes, defendendo o ponto de vista dos macedônios, realizou o seguinte discurso: Anaxarco, de ningún honor que atribuible sea a un hombre declaro yo indigno a Alejandro; pero son muchos los medios de distinguir qué honores son propios del hombre y cuáles han reservado los hombres a los dioses. A los dioses se les erigen templos e imágenes, se les reservan bosques sagrados, a ellos se les sacrifica, y en su honor se celebran libaciones y se componen himnos; a los hombres, en cambio, corresponden los elogios. Mas en modo alguno esta costumbre de la proskýnesis es cosa insignificante. Los hombres, al saludarse se dan un beso de amistad; pero si la proskýnesis se reserva a la divinidad como máximo honor es porque se trata de algo que está por encima de nosotros y no nos es lícito ni siquiera tocarlo; también en su honor se organizan los coros y se entonan 112 Trata-se de um costume persa, segundo o qual todas as pessoas, na presença do rei,deveriam se prostar à sua frente. Por sua vez, gregos e macedônios se posicionavam contra tal prática, tendo em vista que apenas à divindade era digno de se prostar. 56 peanes. Nada hay de extraño en ello, cuando ni siquiera los dioses todos reciben idénticos honores. Es más, por Zeus, hasta los héroes reciben honores distintos del de los dioses. No parece, pues, adecuado confundir todo esto y ensalzar a los hombres a una dignidad excesiva, exagerando sus honores, para aminorar (en la medida en que los hombres pueden influir en esto) la honra de los dioses hasta niveles inadecuados, queriéndolos igualar a los hombres113 . A questão posta em debate e criticada por Calístenes foi referente à prática da proskýnesis, antigo costume persa de reverencia ao rei. Partindo da contraposição divindade/humano, Calístenes entendia que certas honras poderiam ser prestadas apenas aos deuses, enquanto que outras seriam mais apropriadas aos homens. No seu pensamento, a proskýnesis era um tipo de honra máxima, a qual deveria ser prestada apenas aos Deuses. Desse modo, aos homens não caberia tal reverência – pois se trata de uma honra acima de qualquer humano. Por fim, Calístenes continuou ressaltando que não é adequado confundir ou exagerar nas honras, conferindo aos homens um tipo de dignidade excessiva que não lhes seria apropriado – fato que, se consumado, colocaria homens e deuses no mesmo patamar. Após enfatizar seu ponto de vista contrário ao de Anaxarco, Calístenes continuou desenvolvendo seu discurso, momento no qual apresentou uma idéia muito interessante sobre a natureza do poder de Alexandre: Alejandro no consentiría, desde luego, que ningún particular accediera a los honores reales por elección o votación injusta; por ello parece que con mayor razón sientan aversión los dioses contra cualquier hombre que buscara para sí acceder a los honores divinos, o que consintiera que otros le otorgaran y reconocieran dichos honores. Alejandro es, y así se le considera además con toda razón, el mejor de los hombres, el más regio rey, y el general más valeroso de todos los generales. Y era a ti, antes que a ningún otro, Anaxarco, a quien correspondía ser el promotor de estas reflexiones y censor de las contrarias, ya que asistes a Alejandro como sabio consejero y asesor. Inoportuno es que tú hayas encabezado una tal propuesta, en vez de recordar que no asistes ni aconsejas a un Cambises o un Jerjes, sino al hijo de Filipo, descendiente de Heracles y de Eaco, cuyos antepasados vinieron de Argos a Macedonia, donde reinan ininterrumpidamente desde entonces, no por la fuerza, sino de acuerdo con leyes justas114. Ainda enfatizando a incoerência da prática da proskýnesis e o risco de aversão por parte dos deuses para quem buscasse esse tipo de honraria divina, Calístenes definiu o que realmente tornava Alexandre digno de sua posição no poder: ele seria o melhor dos homens, o mais régio rei e o general mais valoroso de todos os generais. Essa tríade conceitual que Arriano estabeleceu como inerente ao rei macedônio vem exatamente no sentido de justificar sua legitimação no 113 ARRIANO. Anábasis de Alejandro Magno: libros IV-VIII. Tradução de Antonio Guzmán Guerra. Madrid: Editorial Gredos, 1982, pp. 33-34. 114 ARRIANO. Anábasis de Alejandro Magno: libros IV-VIII. Tradução de Antonio Guzmán Guerra. Madrid: Editorial Gredos, 1982, pp. 34-35. 57 poder. Tais características, por sua vez, estariam de acordo com os princípios de leis que seriam justas, distinguindo essencialmente o governo de Alexandre daquele de outros reis persas – os quais, através da força, buscavam o seu consentimento no poder. O discurso proferido por Calístenes teve continuidade, mas encerramos sua análise nesse exato momento, pois sua importância para o presente estudo reside exatamente no trecho anterior, em que percebemos novamente a ênfase que Arriano conferiu à singularidade de Alexandre como governante. De fato, o grego de Nicomédia encontrou o ponto certo em sua narrativa para desenvolver um pensamento acerca da natureza do próprio poder, principalmente no que se referia aos seus elementos de legitimação. Encontramos, dentro da argumentação de Calístenes, um Alexandre que não deveria apoiar ou fortalecer sua legitimidade no governo tendo por base uma prática que o simplesmente colocasse no mesmo patamar dos deuses – não seria necessário. Claro, a descendência antiga para com a esfera divina tornava-se importante, mas o que seria realmente importante demonstrar era o conjunto de suas qualidades enquanto homem – suas aptidões, seu preparo, sua capacidade e dons. Seriam tais características que o tornariam, conseqüentemente, o melhor dos homens, dos reis e dos generais – ou seja, o governante por excelência. Nosso próximo e último momento de análise – uma conversa entre o rei Dario e o eunuco de sua mulher – praticamente realça tudo aquilo que presenciamos anteriormente. O relato desse diálogo ocorreu de modo inesperado: Arriano estava falando sobre o casamento de Alexandre com Roxana, filha do nobre bactrio Oxiartes, quando interrompeu a linearidade de sua narrativa para comentar um fato acontecido anteriormente na expedição de Alexandre. Seguimos nas palavras dos Arriano: A propósito, se cuenta un relato, según el cual, poco después de la batalla que tuvo lugar entre Alejandro y Darío en Isso, el eunuco de la mujer de Darío había conseguido escaparse y pasarse al campamento de Dario. Al verse éste le preguntó, en primer lugar, si seguían vivas sus hijas, su mujer y su madre. Se enteró por él de que seguían vivas y que se las seguía llamando y tratando según su propio rango de familia real, al igual que cuando vivían en la corte de Darío; tras lo cual preguntó si su mujer le guardaba fidelidad. A la respuesta afirmativa del eunuco, volvió a preguntarle Darío si no había tenido que ceder por fuerza ante la intransigencia de los deseos de Alejandro. Bajo juramento dijo el eunuco: ―Soberano mío, tu mujer está tal cual tú mismo la dejaste, y Alejandro es el mejor hombre y de mayor templanza del mundo‖115. Baseando-se na tradição, Arriano deu inicio à narrativa de um diálogo, rememorando um fato acontecido logo depois da batalha de Isso. Na ocasião, o eunuco da mulher de Dario tinha fugido do acampamento de Alexandre em direção ao encontro do rei persa. Este, vendo o eunuco, demonstrara preocupação, perguntando-lhe acerca do tratamento recebido por sua mãe, mulher e 115 ARRIANO. Anábasis de Alejandro Magno: libros IV-VIII. Tradução de Antonio Guzmán Guerra. Madrid: Editorial Gredos, 1982, p. 52. 58 filhas – tendo em vista que elas se encontravam sob a tutela de Alexandre. Dario também perguntou acerca da fidelidade de sua mulher, temeroso de que Alexandre tivesse agido de modo intransigente para com ela. Realçando a verdade de suas palavras, o eunuco garantiu o bem estar da mulher de Dario, afirmando que Alexandre era o melhor homem, aquele de maior temperança no mundo. O rei persa, por sua vez, demonstrou admiração por tal comportamento de Alexandre, como apresentado por Arriano no seguimento da narrativa: Ante tales palabras, Darío alzó sus manos al cielo, así rogando: ―Soberano Zeus, con potestad para arbitrar los asuntos de los reyes entre los hombres, presérvame ante todo el poder sobre medos y persas, ya que tú mismo me lo diste. Pero, si no he de ser yo el rey de Asia por más tiempo, no entregues a ningún otro mortal que a Alejandro mi poder‖. Hasta tal punto las acciones virtuosas merecen el reconocimiento incluso de los propios enemigos116. Ao evocar a divindade máxima, Darío rogou por sua permanência no poder, consentindo no fato de tê-lo recebido da própria divindade; no entanto, caso outro homem tivesse de ser escolhido para assumir o poder sobre a Ásia, que fosse este homem Alexandre. Neste momento, Arriano intervém na narrativa para ressaltar como foi correto o modo de agir por parte de Alexandre em toda a ocasião, uma atitude virtuosa que realmente mereceria reconhecimento até mesmo por parte de seu inimigo, Dario. O exemplum que Arriano demonstra aos leitores através desse diálogo vem no sentido de fortalecer a imagem de Alexandre como um homem diferenciado, que não agia de modo intransigente – ou seja, que era consciente acerca do que fazia. Alexandre foi novamente qualificado, diretamente através das palavras do eunuco, como o melhor dos homens, aquele que apresentava a maior temperança. De fato, são atribuições que projetavam na imagem de Alexandre o rol de virtudes necessárias que o governante deveria possuir. Inclusive, suas reflexões e ações corretas poderiam mesmo ser consideradas ―conseqüências‖ diretas e indicativas de todas essas qualidades que o rei macedônio possuía enquanto homem. Portanto, demonstra-se aqui a seguinte relação: Alexandre, por ser o melhor homem, seria o mais legítimo detentor do poder. Tal reconhecimento deveria ser universal, tendo em vista que o próprio rei dos persas, Dario, compartilhava e aceitava essa prerrogativa ao poder. Portanto, a partir de nossa análise da fonte, consideramos que Arriano encontrou e construiu no personagem histórico Alexandre um modelo teórico de governante visando, através de uma narrativa historiográfica, projetá-lo como exemplo àqueles envolvidos no âmbito político em seu tempo. O rei macedônio, na justificativa de Arriano, era um homem diferenciado por sua formação: tornava-se apto para lidar com circunstâncias atenuantes, possuindo um pensamento estratégico e racional que, em suas conseqüências, garantiam o bem estar de todos e o sucesso 116 ARRIANO. Anábasis de Alejandro Magno: libros IV-VIII. Tradução de Antonio Guzmán Guerra. Madrid: Editorial Gredos, 1982, pp. 52-53. 59 de seus planos. Em outras palavras, Alexandre recebeu uma educação que o tornou, dentre os homens, aquele mais bem preparado, o melhor, para exercer uma liderança. Tal prerrogativa teórica ganha uma inteligibilidade especial quando voltamos a refletir sobre as discussões em torno da questão sucessória no Império Romano do século II d.C. Para os membros do grupo senatorial, entre os quais se incluía o próprio Arriano, não seria qualquer um que poderia tornar-se princeps. Também não bastava, simplesmente, que determinado personagem fosse aclamado pelas legiões117: necessitaria ser alguém com uma educação tradicional para exercer tamanha função no poder. Nada mais justo e correto, nesse sentido, do que um membro do grupo senatorial sempre assumir tal posição. De fato, a educação retórica118 que recebiam, bem como a prática e cumprimento seqüencial de cargos políticos do cursus honorum119, acabava legitimando um processo de ascensão na vida pública. Uma vez que um deles estivesse no poder, buscaria sempre a manutenção dos privilégios inerentes ao grupo social que pertencia. Compreendemos, portanto, que foi um contexto de reivindicação que gestou um reforço na teoria de legitimidade no poder por parte dos senadores, o grupo mais tradicional e historicamente presente no poder. Nesse sentido, a Anábase de Alexandre Magno foi um instrumento disseminador, entre os grupos social elevados120, de forte potencial teórico para tal idéia: uma meritocracia argumentada em termos de uma tradição educacional e formação do homem político. 117 Segundo o historiador Renan Frighetto, ―ao fim e ao cabo o poder imperial estava associado ao efetivo controle do mando militar através de um dos mais importantes e significativos símbolos da auctoritas do princeps, a aclamatio imperii, aclamação das forças legionárias sem a qual nenhum pretendente ao poder supremo, que traduzimos por império, poderia manter-se‖. FRIGHETTO, Renan. Imperium et orbis: conceitos e definições com base nas fontes tardo-antigas ocidentais (séculos IV-VII). In: Andréa Doré; Luís Filipe Silvério Lima; Luiz Geraldo Silva. (Org.). Facetas do Império na História: Conceitos e métodos. 1ª ed. São Paulo: Editora Hucitec, 2008, v. 1, p.159. Os historiadores Engel e Palanque destacaram três formas de ascensão ao principado que foram claramente rejeitadas pela opinião senatorial: ―Não se quer um imperador ‗imposto pelos soldados‘ e escolhido fora de Roma. Recusa-se o imperador surgidos das obscuras tramas de uma imperatriz que houvesse subjugado o esposo. Desconfia-se dos ambiciosos que tenham ou possam ter segundas intenções de abusar da monarquia‖. In: ENGEL, J. M.; PALANQUE, J. R. O Império Romano. São Paulo: Atlas, 1978, p.71. 118 A compreendemos no mesmo sentido que estabeleceu Antônio Lopez Eire: uma disciplina escolar (surgida na Grécia Clássica, mas com plenos efeitos na Roma Antiga) cujo propósito era em torno de uma educação moral e ética, visando sempre, através da assimilação da paidéia, o aperfeiçoamento do homem em sua vertente política de atuação na sociedade. Cf: LÓPEZ EIRE, Antonio. La influencia de la Retórica sobre la Historiografia desde el Helenismo a la Antigüedad Tardia. Talia Dixit, Salamanca, nº3, 2008. 119 Lembramos aqui do chamado cursus honorum, o qual compreendia uma alternância de cargos políticos e militares, de crescente poder, que os membros do senado deveriam cursar visando alçar postos de cada vez maior importância. Trata-se, nesse sentido, de comprovar uma experiência e testar habilidades. 120 Segundo Stadter, ―A book like the Anabasis was addressed to the elite of the Roman empire – those administrators, senators, officers, and intellectuals who could appreciate the restrained classicism of his style, the careful reconstruction of military operations, the interest in Alexander‘s moral development. […] the intended audience […] is much more knowledgeable and refined‖. In: STADTER, P. A. Arrian of Nicomedia. Chapel Hill, 1980, p.168. 60 BIBLIOGRAFIA ARRIANO. Anábasis de Alejandro Magno: libros I-III. Tradução de Antonio Guzmán Guerra. Madrid: Editorial Gredos, 1982. ARRIANO. Anábasis de Alejandro Magno: libros IV-VIII. Tradução de Antonio Guzmán Guerra. Madrid: Editorial Gredos, 1982. CADIOU, François; COULOMB, Clarisse; LEMONDE, Anne; SANTAMARIA, Yves. Como se faz a história: historiografia, método e pesquisa. Tradução de Giselle Unti. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007. ENGEL, J. M.; PALANQUE, J. R. O Império Romano. São Paulo: Atlas, 1978. FRIGHETTO, Renan. Imperium et orbis: conceitos e definições com base nas fontes tardo-antigas ocidentais (séculos IV-VII). In: Andréa Doré; Luís Filipe Silvério Lima; Luiz Geraldo Silva. (Org.). Facetas do Império na História: Conceitos e métodos. 1ª ed. São Paulo: Editora Hucitec, 2008, v. 1. HIDALGO DE LA VEGA, María José. El intelectual, la realeza y el poder político. Salamanca: Ediciones Universidad de Salamanca, 1995. LÓPEZ EIRE, Antonio. La influencia de la Retórica sobre la Historiografia desde el Helenismo a la Antigüedad Tardia. Talia Dixit, Salamanca, nº3, 2008. MOMIGLIANO, Arnaldo. As raízes clássicas da historiografia moderna. Tradução de Maria Beatriz Borba Florenzano. Bauru/SP: EDUSC, 2004. STADTER, P. A. Arrian of Nicomedia. Chapel Hill, 1980, p.168. 61 SANTO DIAS, A CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA Carlos Alberto Nogueira Diniz Mestrando Unesp-Assis [email protected] RESUMO: Pretendo nessa pesquisa analisar a construção da memória de Santo Dias da Silva, para essa análise utilizarei múltiplas fontes, algumas produzidas durante sua vida e outras depois de sua morte. As fontes são escritas, orais, visuais, ou seja, fruto de uma memória familiar e também de uma memória coletiva construída a partir de sua morte, formam assim o acervo ―Santo Dias no Cedem. Para analisar a construção da memória de Santo Dias é necessário ter duas perspectivas diferentes: a primeira caracteriza-se pelo operário militante e desconhecido; a segunda a figura do que seria um ―mártir operário‖ morto pela repressão da ditadura. PALAVRA-CHAVE: Santo Dias, memória, operário. Analisar a construção da memória de Santos Dias significa dialogar também com parte da memória do movimento sindical e social brasileiro e sua importância no processo de redemocratização do Brasil. A manutenção e agregações de elementos sobre esse personagem também refletem anseios políticos, enfim, propostas de novas lutas dentro dos dinamismos e inquietações presentes na sociedade. Propor uma abordagem sobre a memória do operário Santo Dias da Silva é também trazer para atualidade questões que nortearam sua luta e também inquietam aqueles que se encontram nas ―fileiras‖ da luta contra a desigualdade, a exclusão e a exploração ainda tão presentes na sociedade brasileira atual. Pode-se através dos fragmentos de registros de sua vida simples, encontrar peculiaridades e sutilezas do seu cotidiano que mesmo pequenas revelam aspectos brutais e desumanos que encontraram eco em grande parte da vida dos trabalhadores brasileiros. Santo Dias também encontrou e em sua vida em meio a situações políticas e sociais adversas, um objetivo para sua existência, claro que não se trata nem de um intelectual e muito menos de uma figura ilustre, mas sua vivência e memória se situam num período no onde os trabalhadores e os pobres procuravam a partir de suas próprias bases construírem alternativas de vida, de democracia e participação, mesmo em espaços restritos apenas ao ―chão da fabrica ou a paróquia do bairro‖. A perspectiva da historia política e a biografia de Santo Dias, bem como o contexto no qual está inserido, serão parte da abordagem. Nesta pesquisa, em pois são aspectos que expressem a relação dialética entre individuo e sociedade. Reconstituir vidas é retornar ao passado que ainda não findou, pois há que articular o fio da vida do presente com o passado para então surgir o que é memória. A biografia assim como a memória se confluem no tempo presente como uma interpretação, como uma construção intelectual consciente enquanto um sistema complexo de 62 existência. Em suma, biografar implica em reinterpretar o passado no que ele tem de complexidade e de efeito do real 1 ―O passado não está pronto. Ele ainda está por fazer e articula-se no presente, ou melhor na presença, onde elaboramos a mentira e a transformamos em discurso... ― Santo Dias da Silva nasceu em Terra Roxa na fazenda Paraíso, localizada no interior de São Paulo, em 22 de fevereiro de 1942, contava sete irmãos sendo ele o filho mais velho. Seus pais eram Jesus Dias da Silva e Laura Vieira, ambos lavradores e trabalhavam como meeiros na produção de café e grãos.2 Santo dias estudou até o 4ª ano primário, sabendo, pois ler e escrever, algo raro entre os trabalhadores rurais do inicio da década de 1960. Desde jovem teve que ajudar seus pais no sustento da família, sendo um trabalhador preparado desempenhava funções de mecânico na fazenda. Embora tivesse uma situação de trabalho melhor que a da maioria dos trabalhadores da fazenda Paraíso, a condição de vida de Santo dias e de sua família era de constante dificuldade e penúria. Dona Laura mãe de Santo dizia: As roupas das crianças a gente fazia de saco de farinha alvejado e depois tingia. Não tinha dinheiro pra comprar tecido. E as roupas tinham de durar: a gente cerzia até não poder mais.Uma vez, o Santo rasgou a única camisa que tinha, que já estava muito puída. Peguei a toalha de mesa, que era de saco também, para fazer outra camisa, pois não tinha com o que comprar um pedaço de pano...3 Em 1961, Santo dias depois de se envolver na luta por direitos trabalhistas e melhores condições de trabalho na fazenda em que trabalhava, foi expulso das terras junto com toda sua família. Na Cidade de Viradouro, Santo Dias e seus familiares tiveram que trabalhar como ―bóiasfrias‖ para sobreviver e pagar aluguel na cidade. Inconformado com sua situação profissional e financeira parte para São Paulo em 1962 para tentar uma vida melhor, tendo morado com conhecidos de sua família por certo tempo. Em uma entrevista a Paulo Nosella o operário Santo Dias relata a opção de partir para São Paulo em busca de trabalho: Aí entrei em contato com alguns colegas, que estavam já aqui em São Paulo. Achei melhor vir tentar alguma coisa aqui em São Paulo. Foi quando eu me transferi para cá. Mudei para cá em 1962. Foi umas das épocas em que tinha mais facilidade de empregos dado o todo 1 PENA, Felipe. Teoria da Biografia Sem fim. Rio de Janeiro, Mauad, 2004, p.23. DIAS, Luciana; AZEVEDO, Jô & BENEDICTO, Nair. Santo Dias: quando o passado se transforma em história. São Paulo, Cortez, 2004, p.18. 3 Idem, p.27 2 63 desenvolvimento automobilístico que estava crescendo e pegavam mãode-obra, assim, de qualquer jeito... 4 Consegue emprego em uma empresa metalúrgica de Santo Amaro chamada Metal Leve. Santo tinha uma namorada que se chamava Ana e trabalhava como empregada em Viradouro e seus patrões não aprovavam o namoro, justamente pelo envolvimento de Santo Dias com as reivindicações trabalhistas de fazendas da região, mas Ana decidiu continuar o relacionamento.Em uma carta Santo desculpa-se em não poder visitar Ana no carnaval: ... Ana espero que seja feliz ai em Viradouro, mesmo eu não podendo ir ai no carnaval, queira me desculpar porque foi tratado tudo certo para passarmos o carnaval juntos, mas infelizmente não posso, tenho que trabalhar no domingo... 5 O casamento de Santo Dias e Ana estava programado para acontecer em 1963, mas com a doença de seu pai e as despesas com o tratamento e de sua família somente aconteceu no dia 6 de Fevereiro de 1965, com celebração e festa simples. Logo após o casamento indicados por um colega de trabalho como pessoas confiáveis ao proprietário do imóvel, Santo e Ana conseguiram alugar uma casa na região de Santo Amaro localizada na zona sul de São Paulo. O primeiro filho do casal nasceu em 1965 e recebeu o nome de Santo semelhante ao pai, o segundo filho do casal nasceu em 1967 e recebeu o nome de Luciana, filha que anos após a morte de Santo Dias escreveu um livro dedicado à memória de seu pai. Nos anos 1970 muitos movimentos sociais surgem como resultado de um processo de exclusão social atingindo grande parte da população, principalmente a falta de espaços para a denuncia e participação em questões essenciais para o povo. A Igreja é o principal agente na denuncia tanto na violação dos direitos humanos, pelas mortes e desaparecimentos de lideranças comunitárias quanto às questões sociais como a terra, a moradia, os alimentos, o preconceito racial e de gênero, alem dos problemas que envolviam os operários na construção de uma nova forma de organização sindical. Nunca será exagerado salientar a importância da Igreja Católica ao garantir, nos anos mais difíceis do período autoritário, um espaço de interação e organização, uma rede de comunicações e a defesa dos direitos humanos...(KECK, 1991,p.61) Nos finais de semana, Santo Dias e sua esposa além de freqüentar a Igreja começaram a participar das comunidades eclesiais de base, conhecidas como CEBS, experiências de organização popular dentro da Igreja Católica que naquele momento crescia, sobretudo nas periferias de São Paulo. 4 NOSELLA, Paolo. Por que mataram Santo Dias. São Paulo: Editora Cortez, 1980, p.34. Correspondências de Santo Dias. Coleção Santo Dias. Centro de Estudos, Documentação e Memória ( CEDEM) da Universidade Estadual de São Paulo ( UNESP) 5 64 Entre os principais movimentos destacam-se as CEBs6, a CPT( Comissão Pastoral da Terra), o MCV( Movimento Custo Vida)7, os diversos sindicatos, destacando-se o dos metalúrgicos, as Pastorais Operárias em São Paulo essenciais para os movimentos de greve do final dos anos 1970. O sindicalismo brasileiro durante grande parte do regime militar, salvo curto espaço de abertura com mobilizações em Minas Gerais e São Paulo que antecederam o AI-5 em 1968, o movimento sindical permaneceu sujeito as intervenções e ao controle do regime. Sua estrutura era de caráter paternalista e quase sempre de acordo com interesses da classe patronal. O papel da oposição sindical no qual Santo Dias participou sindical foi romper com essa estrutura de poder e organizar os trabalhadores a partir do ―chão fabrica‖. As organizações de bairro, as CEBS e a Pastoral Operária foram essenciais nessa luta. ...Os ativistas sindicais e dos movimentos sociais que participavam das CEBs também colaboraram na organização do apoio da Igreja na greve dos metalúrgicos em 1978-80. A sobreposição de papéis entre os membros dessas organizações era freqüente; os vínculos com a Igreja constituíam um componente essencial das redes dos movimentos sociais que se desenvolveram nos anos 1970. ...(KECK, 1991,p.61) O ―novo sindicalismo‖ que foi uma ruptura com o ―sindicalismo pelego‖ trazendo a cena novas lideranças sindicais, entre elas o próprio Santo Dias, isso reflete justamente o contexto histórico no qual a sociedade civil e principalmente os pobres começaram a se organizar. Essa organização partindo principalmente de setores progressistas da Igreja Católica começava a dar ―voz‖ aqueles que nunca puderam de fato participar das decisões e exigir seus direitos. O Brasil do final dos anos 1970, é um país de industrialização tardia que após o grande crescimento econômico do inicio da década de 1970, demonstrou suas fragilidades depois da crise do petróleo de 1973, ou seja, o ―milagre econômico estava chegando ao fim‖.8 O crescimento econômico que o regime militar exaltava, beneficiou principalmente as camadas médias da população, destacando-se o consumo de bens duráveis, como eletrodomésticos e automóveis. A maioria da classe trabalhadora foi excluída desse processo de desenvolvimento e eram carentes de necessidades básicas como alimentação, saneamento e moradia. Santo Dias além de participar da CEBS, da Pastoral Operária, do Movimento Custo de Vida, da Oposição Sindical Metalúrgica durante sua vida profissional buscou sempre a qualificação, fazendo cursos de desenho industrial e mecânica, mas trabalhou dez anos na 6 Comunidades Eclesiais de Base. O Movimento Custo de Vida surge ( porém não com esse nome) a partir de clubes de mães na zona de M`Boi Mirim, na região sul de São Paulo...MOISES, 1982, P.76 8 A crise do petróleo e o arrefecimento econômico mundial vinham levantar o ―véu de euforia‖ que o milagre produzira ...MENDONÇA, Sonia R. & Fontes, Virginia Maria. História do Brasil Recente 1964-1980.São Paulo, Editora Ática, 1998. 7 65 indústria Metal Leve sempre como operador de empilhadeira, saindo assim da empresa pela impossibilidade de mudar de cargo. Trabalhou ainda nas empresas Bristan, Burdy e MWM até 1976. Em 1977 volta a trabalhar na Metal Leve como inspetor de qualidade e é demitido por participar como candidato a vicepresidente do Sindicato dos Metalúrgicos da cidade de São Paulo na chapa da oposição. Em entrevista a Paulo Nossella , Santo revelou que a demissão da Metal Leve foi o pior momento de sua vida. ... Agora, em termos de coisa pior mesmo foi quando a estava se organizando para participar do processo das eleições dos metalúrgicos em 1978. Eu fui mandado embora da fábrica em que eu trabalhava ( Metal Leve). Fui mandado embora 3 dias após a abertura do edital de convocações para inscrição das chapas...9 A morte Santo Dias não foi um episódio casual ou circunstancial. O seu envolvimento com as causas sociais e trabalhistas, sua constante participação no processo sindical, marcadamente oposicionista, liderando grupos cat´licosna resistência à repressão nas comunidades, articulando uma oposição critica dentro das fábricas e no movimento sindical, Santo Dias foi se tornando uma figura emblemática nas relações com os agentes da repressão, da política e com os empresários. Santo Dias fora alvo da policia por representar uma liderança sindical mobilizadora, atuante nas comunidades eclesiais de base e como membro participante da Pastoral junto a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil na Região Sul da cidade de São Paulo. Santo Dias da Silva, funcionário da empresa Filtros Mann, líder sindical e comunitário foi morto pela durante um piquete pela policia no dia 30 de Outubro de 1979 em frente à empresa Sylvania, tornou-se um mártir para os trabalhadores, movimentos sociais e comunidades ligados a Igreja Católica em São Paulo no final dos anos 1970. ...Uma bala disparada a menos de um metro e quarenta centímetros, a queima-roupa, por um miliciano da rota 220, matou ontem à tarde ás 14:20 o metalúrgico Santo Dias da Silva, de 38 anos. Empregado da Filtros Mann e representante dos operários na Pastoral Regional Sul da Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil...10 A celebração de sua memória enquanto líder sindical e comunitário acontece até os dias atuais e em linguagens diversas, todas elas exaltando a luta e o compromisso de Santo Dias com os direitos humanos e as causas populares. Entre as manifestações que celebram sua memória estão à denominação de capelas, ruas, praças e escolas com seu nome, a realização de festivais de musica e poesia em sua homenagem, 9 NOSELLA, Paolo. Por que mataram Santo Dias. São Paulo: Editora Cortez, 1980, p.53. Folha de São Paulo, 31 de Outubro de 1979. Coleção Santo Dias. Centro de Estudos, Documentação e Memória ( CEDEM) da Universidade Estadual de São Paulo ( UNESP) 10 66 audiovisuais, criação de instituições e de um acervo dedicado documentos sobre Santo Dias na Unesp. É preciso ultrapassar essas barreiras e práticas da vida imediata na qual Santo Dias estava inserido em sua experiência política e determinar a dimensão histórica de suas ações e pensamentos. Somente assim é possível constituir um discurso da memória política de um militante. A memória pode servir para diversas finalidades entre elas, para legitimar ações políticas do presente, a busca de identidades, inventar e destruir tradições. A história que na mitologia greco-romana é representada por Clio uma das nove musas filhas da deusa Mnemosine ( Memória), busca em suas diversas tendências e propostas participar dessa inquietante batalha pela memória. Mnemosine - A memória personificada, filha de Urano (o Céu) e de Gaia (a Terra), é uma das seis Titanides. Durante nove noites seguidas Zeus a possuiu na Pieria e dessa união nasceram as nove Musas. As nove filhas de Mnemosine (a Memória) e Zeus. Além de inspirar os poetas e os literatos em geral, os músicos e os dançarinos e mais tarde os astrônomos e os filósofos, elas também cantavam e dançavam nas festas dos Deuses olímpicos, conduzidas pelo próprio Apolo. Na época romana elas ganharam atribuições específicas: Calíope era a musa da poesia épica, Clio da História, Euterpe da música das flautas, Erato da poesia lírica, Terpsícore da dança, Melpomene da tragédia, Talia da comédia, Polímnia dos hinos sagrados e Urânia da astronomia.11 .No livro “A História” de François Dosse, o autor faz uma contextualização da memória através do tempo, dessa forma é possível identificar os diferentes enfoques, usos e perspectivas em relação a memória e trabalhar as diferentes questões que a envolvem como as ―tradições inventadas‖ no texto de Eric Hobsbawm,e as experiências com relação a memória e suas subjetividades com Jeanne Marie Gagnebin. Constituindo assim em um instrumento de reflexão quanto minha proposta de analise da construção da memória de Santo Dias. François Dosse retrata de inicio a busca de uma identidade pela corte francesa, ou seja, algo que realmente fosse digno de ostentar enquanto origem de um povo e o legado de uma monarquia. O importante também e perceber a busca pelo direito de ser o interlocutor dessa história a ser escrita e quanto isso será decisivo na relação entre as instituições e seus pares. ... Aquele que um dia Luís VII qualificou de Pai da Pátria, que foi conselheiro de dois reis e regente da França, é exatamente o abade de Saint-Denis, Sunger, eleito em 1122. Ele está na origem de uma grande mutação na vida monacal, por sua reforma de 1127, marcada pelo selo da austeridade, mas cujo sucesso contribui para a fama e influência de SaintDennis a tal ponto que Suger é cada vez mais chamado como conselheiro, para a corte real... 12 11 Kury, Mário da Gama. (1990). Dicionário de Mitologia Grega e Romana. Jorge Zahar Editor Ltda. Rio de Janeiro, RJ. pp. 405 12 DOSSE, François. ―Uma história social da memória‖, In: A História. Bauru; Edusc, 2004, p.262. 67 O direito de manter, de ―resgatar‖ e de ―construir‖ a história dos reis da França, também envolvem instituições e possibilidades de poder, já que o grupo, no caso, a abadia de Saint-Denis fosse responsável pela manutenção da memória do reino, garantia também a proximidade com os reis e conseqüentemente com o poder. Mas segundo Dosse, a disputa não era somente pelo direito de escrever a história da França, mas qual origem e legado em detrimento de outro seria escolhido, levando sempre em conta as pretensões políticas, sociais e ideológicas de seus contemporâneos. O mito nacional é atravessado por uma tensão entre os proprietários de origem troiana e aqueles de origem gaulesa da França...13 A disputa pela origem do povo francês passava pela herança troiana (que supostamente traria ao povo francês uma origem nobre, gaulesa e também versões que envolviam os dois e mais grupos étnicos nas supostas concepções de origem do povo francês. A história francesa também segundo Dosse ocupou-se de relatar o legado dos grandes monarcas, exaltando a glória de uns e o fracasso de outros.14 A história funcionava como uma espécie de tribunal onde os monarcas deixavam seu legado e isso constituiu a memória da monarquia francesa durante séculos.Nessa busca pela origem, questões como raça, etnia, religião e cultura, todos esses aspectos contribuíram para a busca de uma identidade nacional, principalmente a partir da Revolução Francesa e a formação do Estado Nação francês, nesse momento historiadores da França como Guizot foram responsáveis em construir uma ―memória nacional‖, algo que possibilitasse o sentimento de pertença a todos os franceses. ... François Guizot é o artífice da implantação dessa memória nacional, enquanto ministro de Instrução pública, entre 1832 1837. Por isso, Guizot pode conjugar sua dupla identidade de historiador e de agente político...15 A busca por uma história nacional significava também construir um sentido único para história. É no século XIX que sentimentos e as aspirações nacionalistas começam a encontrar eco em toda Europa e em outros continentes.No Brasil é fundado em 1838 o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, órgão responsável pela manutenção e pela difusão da memória e da história nacional.Hinos e bandeiras aparecem como se existissem desde os ―tempos imemoriais‖, trazem consigo todo um aspecto ritual que obedecem os mais rígidos protocolos de conduta que todo cidadão deve respeitar e ter enquanto símbolo da tradição e da pátria. ... Aliás, a maioria das ocasiões em que as pessoas tomam consciência da cidadania como tal permanecem associadas a símbolos e práticas semi-rituais (por exemplo, as eleições), que em sua 13 Idem, p.265. DOSSE, François. ―Uma história social da memória‖, In: A História. Bauru; Edusc, 2004, p.271. 15 Idem, p.275. 14 68 maior parte são historicamente originais e livremente inventadas: bandeiras, imagens, cerimônias e músicas...16 Eric Hobsbawm aborda nesse trabalho a invenção das tradições, ou seja, práticas de natureza ritual ou simbólica que são legitimadas pela sua suposta longevidade e simbolismo.Essas tradições foram na verdade inventadas em um passado recente apropriando-se de legados como; costumes, cultura e identidade nacional. Por ―tradição inventada‖ entende-se um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente aceitas; tais práticas , de natureza ritual ou simbólica , visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente; uma continuidade em relação ao passado. Aliás, sempre que possível, tenta-se estabelecer continuidade com um passado histórico apropriado...17 Costumes considerados como advindos de longa data segundo o autor podem muita vezes ter origem em tradições inventadas, buscando sua legitimação em um ―passado glorioso‖, herança cultural de povos ancestrais, mito fundador ou principalmente na religião. Segundo o autor a invenção das tradições também esteve presente nos movimentos revolucionários e progressistas, basta lembrar que o ―próprio termo revolução‖ segundo a autora Hannad Arendt18 sai da astronomia para o vocabulário político e porque não se lembrar da influência da organização partidária quase profissional marxista-leninista nos partidos comunistas do mundo todo a partir da revolução de Outubro de 1917. Os costumes modificam-se com o tempo, mesmo em sociedades tradicionais, mas segundo o autor os novos costumes necessitam de uma justificativa, ou seja, algo que qualifique esse novo costume enquanto tradição, embora a tradição deva ter o aspecto invariável, por isso é no passado em que essa nova prática encontra eco e passa assim a fazer parte das tradições do grupo. A tradição neste deve ser nitidamente diferenciada do ―costume‖ nas sociedades ditas ―tradicionais‖. O objetivo e a característica das ―tradições‖, inclusive das inventadas, é a invariabilidade. O passado real ou forjado a que elas se referem impõe práticas fixas ( normalmente formalizadas), tais como a repetição. O ―costume‖, nas sociedades tradicionais, tem a dupla função de motor e volante...19 Outro fenômeno político que se fortalecem principalmente no século XIX é o nacionalismo, uma identidade comum que faz com todos os que pertençam a essa ―comunidade imaginada‖ defendam os valores, a cultura e os interesses de sua nação. 16 HOBSBAWM, Eric. ―Introdução‖ IN: HOBSBAWM, Eric. RANGER, Terence. A Invenção das Tradições. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1984, p.20. 17 Idem p. 9. 18 ARENDT, Hannah. Da Revolução. Trad. de Fernando Didimo. São Paulo: Ática-UNB, 1990. 19 HOBSBAWM, Eric. ―Introdução‖ IN: HOBSBAWM, Eric. RANGER, Terence. A Invenção das Tradições. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1984, p.10. 69 Depois de abordar a questão da história nacional Dosse em seu trabalho problematiza a questão da memória, tanto com Bergson, Halbwachs , Michel Pollak sobre a relação entre história e memória. Assim sendo relaciono a abordagem de Dosse com análise da construção da memória de Santo Dias da Silva. As fontes são escritas, orais, visuais, ou seja fruto de uma memória familiar e também de uma memória coletiva construída a partir de sua morte. Mas para estudar a construção da memória de Santo Dias, é necessário utilizar um conceito de memória, para isso utilizarei três autores , Maurice Halbwachs que desenvolveu um conceito de memória no qual a memória pessoal se define pela memória coletiva, Michael Pollak fala da luta entre as memórias oficiais e as memórias subterrâneas e Walter Benjamim e seu conceito de rememoração da história dos vencidosPara analisar a construção da memória de Santo Dias é necessário ter duas perspectivas diferentes: a primeira caracteriza-se pelo operário militante e desconhecido; a segunda a figura do que seria um ―mártir operário‖ morto pela repressão da ditadura.Antes de sua morte a memória de Santo Dias é representada pelos registros familiares e por alguns documentos referentes a sua morte e a lembrança produzida através de homenagens.A memória de Santo Dias foi construída a partir das relações sociais e políticas que ele estabeleceu durante sua vida, mas o seu uso seja como inspiração ou homenagem esta carregada também de apropriações e porque não de idealizações da figura do operário. A memória de Santo Dias passa a não somente pertencer a seus a familiares e amigos, mas a todos aqueles buscam em sua lembrança motivações e representações políticas que estejam ligadas as causas sociais dos pobres trabalhadores do campo e das periferias das grandes cidades. Poucas situações são tão eficazes quanto o martírio para unir pessoas, basta lembrar os jovens suicidas no Oriente Médio. Tal sentimento de persuasão é o que garante, de certa forma, a coesão no grupo, esta unidade coletiva, concebida pelo pensador como o espaço de conflitos e influências entre uns e outros (HALBWACHS, 2004: pp.51-2).A memória individual, construída a partir das referências e lembranças próprias do grupo, refere- se, portanto, a ―um ponto de vista sobre a memória coletiva‖. Olhar este, que deve sempre ser analisado considerando-se o lugar ocupado pelo sujeito no interior do grupo e das relações mantidas com outros meios (HALBWACHS, 2004: p.55). Para Halbwachs a memória se diferencia da história oficial e é ao mesmo tempo influenciada pela mesma e pela memória coletiva, a memória do Santo Dias operário ou do mártir, essas duas visões são parte da memória e são influenciadas pela historiografia e pela memória coletiva. A memória individual não está isolada. Freqüentemente, toma como referência pontos externos ao sujeito. O suporte em que se apóia a memória individual encontra-se relacionado às percepções produzidas pela memória coletiva e pela memória histórica (HALBWACHS, 2004: pp. 57-9). 70 Para Michael Pollak é necessário trazer a tona memórias que estavam encobertas e com isso estabelecer uma luta entre as memórias oficiais e as memórias subterrâneas do silêncio. Não se trata de historicizar memórias que já deixaram de existir, e sim, trazer à superfície memórias ―que prosseguem seu trabalho de subversão no silêncio e de maneira quase imperceptível‖ e que ―afloram em momentos de crise em sobressaltos bruscos e exacerbados‖ (POLLAK, 1989: p. 3-15). A história oral, por exemplo, pode através mesmo nos momentos de silêncio e lacunas encontrar-se memórias que pelos diversos motivos estão escondidos nas falas e nos discursos. Resgatar estas memórias e perceber a forma em que foram construídas pode ajudar o historiador a romper com os discursos comuns e que muitas vezes relegam a segundo plano práticas políticas e de autonomia de trabalhadores como Santo Dias que como outros grupos são marginalizados pela história oficial ou vistos como meros autômatos. Mais do que isso, o que a emergência destas memórias vêm ocasionando, conforme aponta Pollak, é a disputa entre memórias ou a luta entre a memória oficial e as memórias subterrâneas. Este embate que se trava pela incorporação destas memórias marginalizadas, silenciadas, é um embate pela afirmação, sobretudo, de uma identidade que, por pertencer a uma minoria, encontra-se marginalizada (POLLAK, 1989: pp. 3-15). A memória de Santo Dias durante estas quase três décadas de sua morte esta sempre ligada a luta dos movimentos sociais e sindicais dos trabalhadores, a prática de sua rememoração então consiste também em uma pratica política de rememoração de seu legado. ...A história é objeto de uma construção cujo lugar não é homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de agoras...20 Walter Benjamim precisou uma profunda influência do presente na construção do conhecimento histórico, o ato de reconstrução e de rememoração daquilo que estava perdido ou daqueles que foram derrotados consiste também em uma ação política no presente, a partir dessa ruptura consegue-se promover novas reflexões da realidade presente. A autora Jeanne Marie Gagnebin trabalha a questão da memória a partir da experiência, utiliza-se justamente a perspectiva de rememoração de Walter Benjamim e a própria experiência do autor em relação ao trauma diante do contexto da ocupação nazista e no caso de Benjamim seu suicídio diante da ameaça nazista. Esse narrador sucateiro ( o historiador também é um Lumpensammler) não tem por alvo recolher os grandes feitos. Deve muito mais apanhar tudo 20 BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas In: Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1994, p.229. 71 aqilo que é deixado de lado como algo que não tem significação, algo que parece não ter nem importância nem sentido, algo com que a história oficial não saiba o que fazer...21 Muitos dos que contribuíram com os documentos e a manutenção da memória de Santos Dias da Silva também partilharam da experiência de luta, de repressão, de privações no qual motivou sua vida e posteriormente a construção de sua memória. 21 GAGNEBIN, Jeanne Marie.‖ Memória, História e Testemunho‖, In: Stella & NAXARA, Márcia ( org) Memória e resentimento. Indagações sobre uma questão sensível. Campinas : ED Unicamp, 2004 p. 90. 72 BIBLIOGRAFIA ALMEIDA, Paulo Roberto. Círculos operários católicos: práticas de assistência e de controle no Brasil. (dissertação de mestrado) São Paulo: PUC, 1992. ALVES, Márcio Moreira. A Igreja e a política no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1979. ANTUNES, Ricardo. A rebeldia do trabalho: o confronto operário no ABC paulista. 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São Paulo: Editora Cortez, 1980. 74 CONFRONTO POLÍTICO NAS FORÇAS ARMADAS: A ASSOCIAÇÃO DE EX-COMBATENTES DO BRASIL Carlos Henrique Lopes Pimentel Mestrado do Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Estadual de Londrina [email protected] RESUMO: Este estudo analisa a esquerda militar no Brasil, especificamente o caso dos veteranos da Força Expedicionária Brasileira (FEB), discutindo a disputa pelo controle das associações dos veteranos (1945-1950). Mesmo sendo minoria entre os ex-combatentes, os veteranos de esquerda desempenharam papel político importante nos primeiros anos de funcionamento das associações. O confronto analisado mostra a clara divisão e disputa ideológica entre veteranos de esquerda e de direita, e como às práticas à esquerda eram fortemente combatidas no seio da instituição militar. Ao fim do período estudado, constatou-se a vitória da ala conservadora nas associações, orientação que perdura até os dias de hoje. Antecipando praticas e conflitos no interior das Forças Armadas entre essas distintas concepções políticas nas décadas seguintes, até culminar na deflagração do golpe de 1964. PALAVRAS-CHAVE: Historia Social; Esquerda Militar; FEB. O objetivo deste texto é realizar um estudo sobre os Ex-Combatentes brasileiros da Segunda Guerra Mundial e a consequente organização destes veteranos em Associações. O foco a ser desenvolvido é a disputa político-ideológica pelo controle dessas associações de veteranos. Ampliando os estudos no campo da História Político-Militar, que se encontra em crescimento nos últimos anos, em decorrência de maior facilidade no acesso as fontes e o aumento significativo de pesquisadores civis que de debruçam sobre a área. Contudo analisar vestígios de pensamentos à esquerda no seio das Forças Armadas brasileiras, ainda é pouco comum em nossa historiografia, e ao analisar o conflito existente entre direita/esquerda na AECB (Associação de Ex-Combatentes do Brasil), pretendo ampliar um campo ainda em aberto na História do Brasil, e de grande importância se levarmos em conta o papel de destaque (mesmo que na maioria das vezes de forma conservadora e truculenta)de nossas Armas no contexto histórico do país. A participação dos militares na política é fato comum na história brasileira, principalmente na Republica, ficando difícil, estudar e compreender a história de nosso país sem estudar os militares. Sendo essa participação inegável, é importante ressaltar que não existe uma divisão entre militares profissionais e militares políticos, já que a profissão militar é em si só política. As Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica), além de deterem os meios de coerção legal, estão inseridos (fazem parte) do aparelho burocrático do Estado, ficando assim, indissociável ao meio político. Se analisarmos como ação política das Forças Armadas, não apenas os golpes e intervenções diretas, mas levarmos em consideração toda e qualquer pressão e participação, por meio da instituição militar como um todo, ou em parte, no domínio da esfera pública (política), vêse que todas as Forças Armadas do mundo intervêm de alguma forma na política, atuando de 75 maneira direta ou indireta nas decisões e rumos políticos de uma Nação. Tendo como ponto de partida, portanto, que a ação política dos militares não se limita a intervenções repressivas, mas possui vários modos de participação na esfera pública e privada da sociedade, deve-se agora tentar compreender esta participação (política) na historia brasileira em especial no período republicano, onde assistimos as Forças Armadas atuando não só como protetora da ordem ou aparelho de coerção da sociedade, mas sim como forte agente político1. Assim, a concentração ou a perspectiva teórica a ser usada será a de Partidos Militares, na qual diferentes grupos dentro e fora da organização militar disputam a hegemonia política e emitem propostas para toda a sociedade. Sobre a intervenção militar nas questões políticas, temos a definição de Alain Rouquié, sobre o que seria o partido militar: Essa metáfora não tem outro objetivo, em um primeiro momento, senão o de assinalar firmemente a perspectiva escolhida: as Forças Armadas podem ser forças políticas que desempenham, por outros meios, as mesmas funções elementares que os partidos, e, sobretudo que conhecem em seu seio, tanto quanto os partidos, mas segundo outra lógica de deliberação, de tomadas de decisão, e até mesmo de união e articulações sociais2. A noção de partido militar permite analisar as divisões ideológicas e a ações, existentes no interior da instituição militar, diferente do que ocorre na visão instrumental-organizacional. Assim, pretendo utilizar o conceito que melhor se adapta à pesquisa. Portanto, no caso da esquerda nas Forças Armadas, esse conceito é o mais adequado para analise política e suas disputas no interior da instituição. É sabido de todos que o Brasil participou da Segunda Guerra Mundial, mas o que poucos sabem, é o que aconteceu com esses homens depois que regressaram ao país. A Força Expedicionária Brasileira (FEB) era formada por aproximadamente 25 mil brasileiros, que se transformaram em cidadãos-soldados para combater as forças do Eixo na Campanha da Itália, entre 1944 e 1945, constituindo a única força de combatente oriunda da América Latina no continente europeu. Encerrado o conflito, foram desmobilizados, e a maioria dos expedicionários (composta de civis recrutados), buscou retornar às relações sociais e profissionais que tinham antes de participarem da guerra, convertidos agora em ex-combatentes. A chegada dos pracinhas à Capital Federal (Rio de Janeiro) causou, de início, comoção popular, festas de boas-vindas e desfiles os esperavam, e a empolgação tomou conta de todos, pois foram recebidos como heróis; o mesmo acontecera nas outras cidades, além do que, havia o pagamento dos soldos devidos, o que dava aos pracinhas uma sensação de reconhecimento e bem estar (cobertos de glorias e recompensados financeiramente). Mas, esses combatentes logo caíram em esquecimento e o grande entusiasmo do regresso diminuiu muito, e os, agora 1 FERRAZ, Francisco César Alves. À Sombra dos Carvalhos: a Escola Superior de Guerra e brasileira (1948-1955). Londrina: Editora da UEL, 1997. 2 ROUQUÉ, Alain (org.). Os Partidos Militares no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 1992.pag.12. a política 76 veteranos de guerra, buscaram retornar as suas vidas e rotinas. O desejo dos veteranos da FEB eram menores, de inicio, voltar a seus trabalhos ou, no caso de estarem desempregados antes da partida, conseguir um emprego e retomarem suas vidas. Mas, esses ex-combatentes, não eram mais homens comuns, eram diferentes, pois passaram meses vivendo em outro meio social, presenciando os horrores de uma guerra, já não eram mais os mesmos, isso ficou evidente, no surgimento de dificuldades na readaptação e nos conflitos em seus empregos, famílias e na sociedade. Os problemas começaram, quando se deu início a desmobilização (oficial) da FEB. Mesmo compartilhando com a maquina de guerra dos Estados Unidos da América os planejamentos e a execução de todas as etapas de combate, as autoridades militares brasileiras, não prepararam nenhuma ação (política) de reintegração social de seus combatentes, diferente do que acontecia em outros países como nos EUA, por exemplo, onde políticas de reintegração social dos ex-combatentes de guerra foram adotadas (até pelo fato desses países já vivenciarem outras experiências do gênero), enquanto nas nações aliadas, essa questão já era estudada desde o inicio da guerra, no Brasil quase nada foi feito de concreto, a não ser alguns estudos e planejamentos para os procedimentos de desmobilização e licenciamento das tropas expedicionárias3. Se não bastasse a falta de planejamento na reintegração dos veteranos, havia ainda, uma nítida má vontade com a FEB por parte de algumas autoridades do governo, que temiam alguma ação por parte das tropas, que gozavam de prestigio popular, após seu regresso. Dentro do Exército, os oficiais que preferiram permanecer no Brasil (por diversos motivos) temiam ser preteridos nas promoções pelos oficiais e praças da FEB. A recepção dos militares febianos regulares nos quartéis foi fria e até mesmo hostil; a cúpula da hierarquia militar brasileira contribuiu para as dificuldades dos militares da FEB, destacando-os para bases e guarnições distantes, muitos ex-combatentes reclamavam que no dia-a-dia dos quartéis, eram hostilizados pelos seus pares que não foram combater na Europa. Contudo, embora considerassem injusto o tratamento que recebiam nos quartéis, os militares da FEB possuíam ainda sim, com uma carreira segura, pensão integral na reforma e direitos médicos garantidos. Já os expedicionários civis, ao contrario, sem a proteção do Exército, tiveram de lidar com problemas mais críticos; deveriam reintegrar-se à vida cotidiana em uma sociedade que não conhecia os horrores da guerra e que não estava preparada para recebê-los. Já nas primeiras semanas após o retorno, quase todos os ex-combatentes sentiram, em maior ou menor grau, dificuldades no convívio social com a população não combatente. Isso ocorreu em todos os países e guerras que utilizaram massas de cidadãos-soldados em combate. 3 FERRAZ, Francisco César Alves: A guerra que não acabou: A reintegração social dos veteranos da Força expedicionária Brasileira, 1945-2000. São Paulo. Tese- Doutorado em História Social Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas/Universidade de São Paulo, 2003. 77 As trajetórias dos veteranos brasileiros, que foram civis recrutados, foram variadas, os que possuíam alguma formação escolar ou habilitações profissionais encontraram menores dificuldades, assim como os que antes da partida tinham algum cargo publico. Mas o grosso do contingente expedicionário deparou-se com o medo do desemprego (os patrões eram obrigados, por lei, a readmitir seus empregados que foram para a guerra, mas em seguida, sob alegação de desajustamento e neurose demitiam esses funcionários). As dificuldades de conseguir emprego cresciam pelo fato de a maioria dos expedicionários terem sido recrutados justamente na idade de aprender uma profissão, sem capacitação para trabalhar (profissões definidas), muitos veteranos tiveram que enfrentar um mercado de trabalho desigual, pois estavam em desvantagem em relação aos demais trabalhadores. Além de que, muitos ex-combatentes, feridos em combates ou portadores de doenças contraídas na guerra, tiveram que lidar com a má vontade burocrática para receberem auxilio e provar sua incapacidade física para o trabalho. Histórias de veteranos reduzidos à mendicância ou dependentes de favores da família eram comuns, e foram relatados nas memórias dos ex-combatentes e por alguns jornalistas4. Assim que retornaram ao Brasil, as reclamações aumentaram muito, devido a essas tantas dificuldades de adaptação e econômicas, a idéia de criar associações de ex-combatentes, cogitada ainda em solo italiano, foi resgatada. Os brasileiros foram influenciados por outras tropas aliadas, que por já terem vivido essas dificuldades de readaptação, oriunda de outros conflitos, haviam constituído associações de ex-combatentes, países como a França, Inglaterra e Estados Unidos. A luta dessas associações de veteranos buscou adquirir direitos, benefícios e amparo aos milhões de associados, o que transformou as associações em uma grande força social e política; no mundo todo, as associações de ex-combatentes possuíam as mesmas funções, tendo em suas principais reivindicações, a pressão por empregos e pensões, reintegração social e maior participação política. Assim, em 1º de Outubro de 1945, foi fundada no Rio de Janeiro a primeira Associação de Ex-Combatentes do Brasil (AECB), a seguir, outras foram sendo criadas, de maneira espontânea, em varias cidades do país. Com o nascimento das associações, o veterano podia rever seus companheiros de campanha, receber orientações de seus direitos, poderiam ajudar-se uns aos outros e principalmente constituir um espaço de vivência social e política (ponto de encontro e de eventos sociais de seus afiliados e familiares). A associação se constitui na voz (interlocutora) legítima dos ex-combatentes brasileiros junto das autoridades. Fora desse espaço social, não haveria possibilidade de pressão, pois os veteranos encontravam-se espalhados pelo território nacional, principalmente pelo interior, portanto, agrupar-se foi a melhor saída que os ex-combatentes encontraram para reivindicar por sua situação e direitos; além do que, as associações também 4 FERRAZ, Francisco César Alves: A guerra que não acabou: A reintegração social dos veteranos da Força expedicionária Brasileira, 1945-2000. São Paulo. Tese- Doutorado em História Social Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas/Universidade de São Paulo, 2003. 78 lutariam para preservar a memória da FEB (organizando comemorações, desfiles, cerimônias cívicas, publicação de livros e jornais, a fim de, divulgar a memória dos veteranos). Essas associações de inicio agregaram ex-combatentes de diferentes localidades e com diferentes ideologias políticas. Segundo seu primeiro estatuto, elaborado e aprovado em novembro de 1946 na 1ª Convenção Nacional da AECB, o intuito da associação girava em torno de promover a integração social entre os companheiros de combate na Itália, representando e defendendo os interesses coletivos da FEB perante os governantes, além de cuidar das questões relativas à memória dos ex-combatentes; oferecendo na medida do possível, ajuda jurídica e social; ficando proibida nas associações qualquer ação política atrelada a algum partido político. Ficou também decidido nessa Convenção, que as associações se organizariam de maneira colegiada, tendo seus representantes eleitos em chapas, que seriam apresentadas e votadas em assembléias gerais, para períodos estabelecidos em seu estatuto. As várias sedes da AECB em todo o Brasil eram orientadas por um Conselho Nacional, órgão centralizador, composto por delegados escolhidos por votação, realizadas nas Convenções Nacionais (ocorridas de dois em dois anos), onde todas as seções poderiam votar; nas Convenções Nacionais também, eram discutidas as principais pautas, que se aprovadas, constituiriam as práticas de todas as seções do país. Segundo seu primeiro estatuto, elaborado e aprovado em novembro de 1946 na 1ª Convenção Nacional da AECB, o intuito das associações girava em torno de promover a integração social entre os companheiros de combate na Itália, representando e defendendo os interesses coletivos da FEB perante os governantes, além de cuidar das questões relativas à memória dos ex-combatentes; oferecendo na medida do possível, ajuda jurídica e social; ficando proibida nas associações qualquer ação política atrelada a algum partido político. Ficou também decidido nessa Convenção, que as associações se organizariam de maneira colegiada, tendo seus representantes eleitos em chapas, que seriam apresentadas e votadas em assembléias gerais, para períodos estabelecidos em seu estatuto. As várias sedes da AECB em todo o Brasil eram orientadas por um Conselho Nacional, órgão centralizador, composto por delegados escolhidos por votação, realizadas nas Convenções Nacionais (ocorridas de dois em dois anos), onde todas as seções poderiam votar; nas Convenções Nacionais também, eram discutidas as principais pautas, que se aprovadas, constituiriam as práticas de todas as seções do país.A adesão dos ex-combatentes da FEB, às associações ocorreu nos primeiros anos de funcionamento dessas, somando mais da metade dos associados. Não se tem um dado preciso, sobre a quantidade de pracinhas que se filiaram nas varias seções da AECB em todo Brasil, mas o numero de adesões em algumas seções foi expressivo (Rio de Janeiro, Curitiba, São Paulo, Belo Horizonte e São João Del Rei). Outro dado interessante é o fato de que, no início a maioria dos filiados as seções, possuíam instrução primaria e ocupavam empregos medianos e subalternos. Nota-se também a ausência de oficiais superiores da FEB entre os primeiros associados, sendo a maioria dos associados civis que lutaram na guerra como soldados. 79 As atuações dos associados em seu início foram variadas, constituindo-se desde membros assíduos que organizavam eventos e buscavam aumentar os quadros associativos, até os que ―apareciam‖ raramente para obter consultas sobre seus direitos ou até mesmo ajuda material (inclusive, muitas vezes as associações foram vitimas de pessoas que se passavam por expedicionários, a fim de conseguir alguma vantagem). Segundo o relatório do Conselho Nacional da AECB, os ex-combatentes estavam assim divididos: ... em três grupos. O primeiro é constituído por aqueles que, voltando da Itália, permaneceram nas forças armadas ou, ao serem desmobilizados, tinham emprego publico do qual se afastaram por conseqüência da guerra. O segundo, daqueles que carregam em si as cicatrizes da guerra, a neurose, a tuberculose, etc, que precisam ser amparados. O ultimo grupo – o maior – está constituído de ex-combatentes que, deixando a farda e gastando suas economias se viram de um momento para o outro sem emprego ou inadaptados as novas funções civis. Do ponto de vista da Associação, o primeiro grupo, não sentindo o problema dos veteranos de guerra no após guerra, pouco veio se interessando pela sua sorte ou pela sorte da Associação. O segundo grupo nada pode fazer pela Associação, de vez que necessita de seu amparo. O ultimo, na verdade o único que vive as situações das Seções, freqüenta suas reuniões e participa do movimento dos veteranos em defesa de suas reivindicações, pois que sente verdadeiramente o problema do abandono do desemprego e do ostracismo a que foram relegados5. Importante característica dos anos iniciais das associações foi a participação ativa de expedicionários de esquerda (ligados ou não ao PCB). A seção de São Paulo se constitui em um claro exemplo desse envolvimento, fundada no final de novembro de 1946 (assim que constituída, a seção já se filiou à AECB) por Gervásio Gomes de Azevedo (ex-sargento), Raimundo Paschoal Barbosa (soldado), Abrahão Abait (soldado), Dionísio de Vechi e Antonio Sá Rodrigues, sendo os três primeiros, ligados ao Partido Comunista brasileiro (Gervásio foi, inclusive, deputado constituinte em 1946 pelo PCB). Não ficando essa participação de membros de esquerda restrita apenas na seção de São Paulo, nas demais seções pelo país houve expressivo envolvimento de militantes ou simpatizantes do PCB, acostumados com as organizações sindicais e colocando em prática a política de células pregada pelo partido, esses membros ocuparam posições importantes nas diretorias das seções e posteriormente no Conselho Nacional6. As associações sofriam com o descaso das autoridades (tantos as locais como as nacionais), na maioria das vezes as petições (Memoriais) endereçadas aos parlamentares e demais autoridades não eram levadas a serio; como já dito anteriormente, as associações, em sua grande parte, sobreviviam de seus próprios esforços. Em detrimento dessa situação, surge no seio da AECB uma disputa entre duas práticas de ação pública. De um lado os que compreendiam que a luta pelos benefícios e direitos dos expedicionários era política, que só 5 Relatório do Conselho Nacional das Associações de Ex-Combatentes do Brasil, apresentado ao plenário da 2ª Convenção Nacional. São Paulo, 16 de novembro de 1948, em Ex-Combatente. Rio de Janeiro, Ano 3, Nº 25, Nov.1948, p.3. 6 SILVEIRA, Joaquim Xavier da. A FEB por um soldado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989. 80 obteriam êxito através de uma mobilização constante, sendo dever dos ex-combatentes opinar e agir no que tange aos assuntos do Brasil. Do outro lado, existiam os que não aceitavam essa prática , se colocando terminantemente contrários a qualquer ação de cunho político , considerando que a AECB não era o espaço apropriado para essas questões partidárias. O embate entre essas duas concepções foi inevitável, principalmente no período em que os expedicionários ―comunistas‖ freqüentavam assiduamente e dirigiam a direção da AECB, entre 1946-1949. Esses associados de esquerda, (principalmente na seção da Capital Federal), adotaram práticas de contestação, defendendo a concepção de exigirem seus direitos, não dependendo de favores das autoridades. Apesar dos estatutos da AECB proibirem atividades de cunho político-partidário de seus associados, o fato é que a política sempre esteve presente nas associações, abertamente ou não. Para Francisco Ferraz, trazia a tona às duas concepções políticas que se enfrentavam no interior da AECB: Desta maneira, havia pelo menos duas propostas diferentes para as práticas públicas da associação. De um lado, uma tendência de esquerda, que era mais contestadora e que propunha ir além das reivindicações dos problemas específicos dos ex-combatentes, associando os problemas nacionais aos dos expedicionários. Seu relacionamento com as autoridades era tenso, não apenas por cobrar intransigentemente seus direitos e não esperar por favores de governantes e de seus prepostos, mas, principalmente, porque tais práticas eram largamente associadas, na cultura política brasileira da época, com o comunismo. Foi justamente neste período entre o final da década de 40 e primeira metade da década de 50, que as polarizações da guerra fria se tornaram mais intensas no Brasil. Reivindicações de expansão dos direitos políticos, civis e sociais, ou manifestações de cunho nacionalista, que tivessem o mínimo indício de apoio de grupos de esquerda, eram logo taxadas de comunistas, subversivas, e seus defensores acusados de ―inocentes úteis‖ (na melhor hipótese) ou de estarem a ―soldo de Moscou‖ (na pior). Do outro lado, havia o outro grupo de membros da associação, que era maioria no quadro dos associados, onde às questões políticas eram deixadas de lado, e o que se discutia e lutava era em torno das problemáticas dos veteranos, colocando-se por um viés mais conservador, portanto anticomunista7. Esse envolvimento dos comunistas foi recebido com extrema preocupação por setores à direita (com ideais mais conservadores) das associações e ate fora delas (hierarquia das Forças Armadas). Essa politização das questões sociais dos veteranos acarretou uma crise interna nas associações, causando uma divisão política que, no futuro, definiria o papel político das associações e seus posicionamentos. Os setores anticomunistas usaram essa politização, para atacar e acusarem os veteranos de esquerda dentro das associações e também através da imprensa, alegando que as associações não eram lugares de política e que essa tentativa, por 7 FERRAZ, Francisco César Alves. A guerra que não acabou: a reintegração social dos veteranos da Força expedicionária Brasileira, 1945-2000. São Paulo. Tese- Doutorado em História Social Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas/Universidade de São Paulo, 2003. pag. 303. 81 parte dos comunistas, de usar a associação para fins partidários, provocava a desagregação dos companheiros, além de utilizarem o prestigio da FEB para causas políticas. E discursos como o do comandante da FEB, o General Mascarenhas de Moraes, explicitavam o evidente confronto ideológico no interior da Associação: A Imprudência de alguns delegados da causa expedicionária, que, com propósitos velados , pretendem , há muito, desviar as associações dos excombatentes de sua finalidade eminentemente cívica e essencialmente restrita à sobrevivência de nossas glórias, à assistência aos nossos camaradas a as suas famílias, à veneração e respeito aos que morreram ou foram mutilados. Já temos perdido terreno no conceito da opinião pública e de nossas autoridades, por pretenderem aqueles delegados se imiscuir em assuntos que não interessam aos ideais precisos e definidos das associações dos ex-combatentes. Somos brasileiros que (...) muito e muito fizeram pela honra e soberania do Brasil, pela liberdade e direitos do homem e das nações. Nem por isso, no entanto, podemos explorar o título de ex-combatentes para conduzirmos os problemas magnos da Nação, entrechocando-nos com os partidos políticos e intervindo nas querelas internacionais. (...) Servir-se dos ex-combatentes e de suas glorias para disputar idéias e opiniões que não solucionam os seus males físicos e morais é crime contra a dignidade expedicionária8. Em contrapartida, partindo ainda mais para a vertente contestadora, os comunistas decidiram levar tanto as problemáticas dos ex-combatentes quanto às do Brasil para fora das associações alegando, que não bastava introduzir na Associação as discussões sobre os problemas do país. Era preciso fazer também o caminho inverso, ou seja, levar à população os problemas que afligem os ex-combatentes. A concretização dessa postura ocorreu com o ―Desfile do Silêncio‖ (ou Passeata do Silêncio), organizada pela Associação do Rio de Janeiro, em julho de 1947, possuindo como objetivo maior entregar aos Vereadores e aos Deputados documentos com as reivindicações dos expedicionários. O evento foi apoiado por estudantes e por parte da imprensa, tendo no discurso do então presidente comunista da seção do Distrito Federal, Sampaio de Lacerda, seu ápice (em seu pronunciamento destacou-se a luta dos expedicionários na Europa, ressaltou, porém, que agora esses ―guerreiros‖ cobravam seus direitos, não necessitando de favores nem de privilégios, mas sim lutavam por justiça). A passeata despertou certa atenção (como relatam os jornais da época) e alguns deputados e vereadores discursaram, prometendo melhorias na situação dos ex-combatentes. O fato é que, após a manifestação, existiu certo progresso nesse sentido: alguns ex-combatentes obtiveram vagas no serviço público; houve, também, melhorias nos atendimentos hospitalares e maior interesse por parte das autoridades. Porém, meses depois, os ex-combatentes voltaram ao esquecimento de outrora, uma vez que não foi registrado um evento semelhante. Essas manifestações não contavam com o apreço da maioria dos associados, preocupados com o proveito político que os companheiros esquerdistas 8 Mensagem do Marechal Mascarenhas de Moraes aos Expedicionários Brasileiros. Rio de Janeiro, 11 Abril. 1949. Arquivo do Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial (doravante AMNMSGM). Rio de Janeiro. Segundo informação constante no documento, esta mensagem foi publicada em vários jornais do país. 82 poderiam extrair com essas manobras. Este posicionamento amparou-se nas acusações de que as passeatas seriam demagogas, por exporem os expedicionários necessitados e com feridas de batalhas (mutilados) pelas ruas da cidade, em benefício de um partido político, no caso o PCB. Ainda em 1947, as pressões políticas em torno da AECB aumentaram, e como conseqüência o presidente do Conselho Nacional, Oswaldo Aranha, renunciou alegando sua incompatibilidade com as idéias e práticas ocorridas na Associação, referindo-se às ações dos associados comunistas. Novas eleições foram necessárias por conta do licenciamento do presidente da associação fluminense e pelo fato do vice, Salomão Malina, estar incapacitado de assumir sua função, por encontrar-se preso. Em outubro de 1947, uma chapa única apoiada por comunistas e não-comunistas lança Humberto Castelo Branco como presidente e Sampaio de Lacerda como primeiro secretário. Com apenas uma legenda concorrendo, tudo levava a crer que a eleição se desenrolaria apenas para cumprir os ritos eleitorais estabelecidos pelos regimentos internos da Associação. Porém, de última hora, o major e deputado recém cassado do Partido Comunista, Henrique Oest e o civil e militante comunista Jacob Gorender organizaram uma chapa para concorrente, agravando ainda mais a situação. A chapa de Castelo vence por uma margem mínima de votos, 13 votos, e presidindo a AECB-DF por quatro meses9·. A situação de conflito dentro das associações era irreversível, tanto na seção da Capital Federal (a mais importante) quanto no Conselho Nacional. Em 1948, novas eleições são realizadas, tendo como vencedor, o grupo anticomunista liderada pelo coronel Delmiro Pereira de Andrade, em detrimento da chapa comunista liderada por Henrique Oest. O golpe final contra os comunistas na AECB foi dado no final de 1948 e 1949, nas eleições para a seção do Distrito Federal e na destituição do então presidente do Conselho Nacional da AECB, Sampaio de Lacerda, comunista, que é destituído por conta, de seu apoio a um congresso, que teria sido organizado pelos comunistas. A partir desse período as lideranças hierárquicas das Forças Armadas participaram ativamente do processo de caça aos comunistas, culminando no progressivo afastamento dos veteranos o das associações. Para Jacob Gorender, soldado da FEB e ativo participante da ala comunista nas lutas da AECB, as ordens de intervenção nas associações partiram do próprio Ministério da Guerra: ‖Foi uma ação mais ou menos concertada. Eles (os oficiais superiores anticomunistas) tomaram conta das diretorias. Desde então, as associações de veteranos se tornaram apêndices das Forças Armadas‖ 10. Os comunistas, nunca foram unanimidade na AECB, mesmo sendo assíduos membros em seu início, muitos ex-combatentes não se identificavam com as práticas e ações desse grupo; a maioria dos associados sempre manteve posturas mais conservadoras, na maioria das vezes, alinhavam-se à direita nas questões políticas. O fato de os ―comunistas‖ levarem para dentro das associações problemas da nação e vice e versa, nunca agradou os associados, pelo contrario, quanto mais se acirrava a disputa pelo controle da Associação, mais os expedicionários, alheios a 9 DULLES, John Foster. Castelo Branco: a caminho da presidência. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978. 10 Entrevista, Jacob Gorender, 1999. 83 essas questões, se afastavam; muitos ex-combatentes apenas freqüentavam aquele espaço, a fim de, buscar auxilio para suas dificuldades, fossem elas físicas, psicológicas, financeiras ou até mesmo para desfrutar do convívio social que as associações proporcionavam. A militância comunista pouco ocultada, de alguns setores, contribuiu muito para a antipatia, dos demais companheiros; embora tenha havido ex-combatentes comunistas que evitaram misturar as lutas de seu partido com as dos veteranos11. Vencidos nas eleições do conselho, perseguidos pelas novas lideranças, que eram atrelados a hierarquia militar (pois com o embate político, cada vez mais oficiais da ativa começaram a se infiltrar nas associações, para controlar e afastar os comunistas) e colocados na ilegalidade, os veteranos comunistas se afastaram das associações (muitos desses veteranos eram vigiados pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social).Os comunistas se afastaram das atividades dirigentes das associações, uns voluntariamente, mas a maioria forçada pelas perseguições; A partir de então, alguns continuaram freqüentando as seções, outros se desligaram, o fato é que, após 1950 não se registrou mais nenhum conflito entre esquerda e direita nas associações, alinhando-se essa cada vez mais com a hierarquia das Forças Armadas, ou seja, a um viés conservador. Nesse trabalho procurou-se mostrar os veteranos de guerra da FEB, ao retornar para as atividades civis e militares, procurou reunir-se em associações de excombatentes. Tais associações, como mostrado nesse trabalho, tinham funções sociais, assistenciais e também políticas. Em relação a essas ultimas, os confrontos aqui analisados mostraram a clara divisão entre veteranos comunistas e não-comunistas, e como ideologias à esquerda eram fortemente combatidas no seio da instituição militar. Ao fim do período estudado, constatou-se a vitória da ala conservadora das associações, responsável pela hegemonia de expressões políticas conservadoras, que perdura até os dias de hoje, antecipando praticas e conflitos entre essas concepções nas décadas seguintes, com destaque para os embates no Clube Militar, até culminar na deflagração do golpe de 1964. Deixando evidente as conseqüências da bipolaridade ideológica, conseqüência da Guerra Fria (que no Brasil foi pra lá de quente). 11 Entrevista Boris Schnaiderman, 2001. 84 FONTES ORAIS Jacob Gorender. São Paulo, 30 Novembro, 1999. Neltair Pithan e Silva. São Paulo, 31 Março, 2000; 7 Abril, 2000. Raimundo Paschoal Barbosa. São Paulo 7 Junho, 2001 Salomão Malina. São Paulo, 29 Janeiro, 2002. FONTES IMPRESSAS Coleção do jornal Ex-Combatente (1947-1953 – incompleta). BIBLIOGRAFIA CUNHA, Paulo Ribeiro da. Um olhar a esquerda: a utopia tenentista na construção do pensamento marxista de Nelson Werneck Sodré. Rio de Janeiro: Revan/FAPESP, 2002. DULLES, John Foster. Castelo Branco: a caminho da presidência. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978. FERRAZ, Francisco César Alves. A guerra que não acabou: a reintegração social dos veteranos da Força expedicionária Brasileira, 1945-2000. São Paulo. Tese- Doutorado em História SociaL Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas/Universidade de São Paulo, 2003. FERRAZ, Francisco César Alves. À Sombra dos Carvalhos: a Escola Superior de Guerra e a política brasileira (1948-1955). Londrina: Editora da UEL, 1997. PEIXOTO: Considerações Teóricas Sobre os Partidos Militares: in: ROUQUÉ, Alain (org.). Os Partidos Militares no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 1992. ROUQUÉ, Alain (org.). Os Partidos Militares no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 1992. SILVEIRA, Joaquim Xavier da. A FEB por um soldado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989. MORAES, João Quartim de. A esquerda militar no Brasil. São Paulo: Expressão Popular/ São Paulo: Siciliano, 1994 (vol.2) e 2005 (2ed. vol. 1). 85 A ESCRITA E O SENTIDO DA HISTÓRIA NA MUQADDIMAH DE IBN KHALDUN (1332-1406)1 Elaine Cristina Senko Mestranda da Universidade Federal do Paraná [email protected] RESUMO: A metodologia da História promovida por Ibn Khaldun (1332-1406) deve ser estudada de maneira atenta e profunda, dada sua complexidade na sua obra Muqaddimah. Assim, vemos surgir uma metodologia que emprega um modelo de pesquisa racional e objetivo, o qual requer obrigatoriamente ao historiador um amplo conhecimento sobre o mundo social e natural a que pertence. Fica patente também que Khaldun tem consciência da tradição historiográfica islâmica, mas atua dentro dela sugerindo e apontando novas perspectivas de análise, dentre as quais vemos apontar em seu subtexto importantes resquícios, transformados, do fazer histórico grego da antiguidade. De fato, o resgate dessa tradição historiográfica clássica na época de Khaldun e naquele espaço do Norte da África aponta a ocorrência de uma manutenção em torno de certos aspectos, da herança grega através dos governos árabes (via Oriente – Ocidente). Dentre os aspectos dessa manutenção, ressaltamos a inteligibilidade do discurso histórico: exemplos e lições que o passado dispõe àqueles do futuro – principalmente visando os homens relacionados ao poder, cujas ações poderiam ser legitimadas pela pena ―aconselhadora‖ do historiador. PALAVRAS-CHAVE: Ibn Khaldun; Muqaddimah; historiador islâmico. INTRODUÇÃO Quando o historiador se propõe a estudar períodos na história marcados por grandes conflitos, sua tarefa demonstra-se complexa desde o início, a começar pela seleção das fontes. Devemos levar em consideração a existência de discursos diferentes de ambos os lados do embate, sem que possamos deduzir a priori, seja qual for o critério utilizado, qual seria aquele mais próximo de uma verdade histórica. É nesse sentido que o trabalho do historiador demonstrase de grande dificuldade, exigindo um olhar constantemente crítico sobre os documentos em estudo e o contexto do qual eles fazem parte. As incompreensões e opiniões negativas contemporâneas sobre o Islã nos provocam a pesquisar sobre a cultura e civilização árabe e muçulmana. O estudo do Oriente se faz necessário para esclarecer equívocos que os europeus e norte-americanos já declararam por tanto tempo, tal como o erro de colocar em um mesmo patamar muçulmanos e terroristas (especialmente após os ataques de onze de setembro de 2001 nos Estados Unidos). Estamos cientes do porquê dessas construções e entendemos que o historiador deve ir além do modelo taxativo e incoerente, passando a compreender a história de modo mais reflexivo e crítico. Por um longo período a escrita da história sobre o Oriente foi marcada pelo uso de construções teóricas tendenciosas, as quais visavam geralmente depreciar a imagem dos povos 1 Trabalho desenvolvido com recursos provenientes da bolsa de estudos REUNI/UFPR, concedida através do programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná. Atividade junto ao Núcleo de Estudos Mediterrânicos (NEMED/UFPR). 86 Orientais frente aos Ocidentais. Tal prática teve seu auge criativo no século XIX, quando as potências européias necessitaram não apenas de força militar para realizar suas expansões pelo Oriente, mas também de uma forte ideologia que legitimasse seus métodos de conquista e submissão. Diversos autores no século XX, entre eles Edward Said, Albert Hourani e Roberto Marin Guzmán criticaram abertamente esse modo de compreender o Oriente, sugerindo novas concepções teóricas para seu estudo. Estes autores buscaram, principalmente, desvencilhar-se da maioria dos preconceitos surgidos tão laboriosamente no passado, mas que ainda se encontram extremamente fortes. Parte fundamental nesse esforço, a obra Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente2, de Edward Said, buscou desmascarar o recorrente discurso ocidental sobre o Oriente. Nela, Said alerta para a estigmatização realizada pelos europeus acerca dos muçulmanos. Além disso, ressalta a importância também da compreensão e estudo daquilo que o ―outro‖ sente e relata como seu ponto de vista. A Idade Média foi um período histórico marcado por vários conflitos entre cristãos e muçulmanos. Na base da questão estava a alteridade religiosa, fator ideológico. As Cruzadas representam talvez o mais dramático embate entre esses dois grupos, e isso fica claro tanto nas Cruzadas do Oriente (do século XI até o XIII) quanto no movimento de Reconquista cristã na Península Ibérica (do século VIII até o XV). Mas ainda que existissem tais períodos mais sérios de combate devemos lembrar que não houve uma guerra incessante. Na maior parte do tempo houve paz, e cristãos e muçulmanos relacionavam-se no cotidiano. O nosso tema de estudo pertence à esse contexto histórico do Mediterrâneo, no qual uma sociedade híbrida foi formada pelos constantes intercâmbios culturais entre cristãos, muçulmanos e também judeus. Cabe aqui salientar que essa sociedade foi mais bem exemplificada dentro da Península Ibérica, a qual consistia, conforme afirma Fátima Regina Fernandes, de ―territórios sob dominação muçulmana que sofrem influência dos reinos cristãos e da cultura judaica, mas também promovem essas influências, o que faz da Península Ibérica uma encruzilhada cultural‖3. Entretanto, muito do que conhecemos hoje sobre esse período adveio essencialmente da vertente histórica cristã e ocidental, parcial, portanto. Conhecer melhor, de uma forma mais abrangente e profunda esse momento histórico incorre dar oportunidade também às vozes silenciadas, ao muçulmano, por exemplo, e à inserção dele na sociedade de seu tempo. Nossa proposta de trabalho concerne ao estudo de um destacado erudito muçulmano, oriundo de Túnis, o historiador4 ‘Abd al-Rahman Ibn Khaldun 2 SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. Tradução: Tomás Rosa Bueno. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. 3 FERNANDES, Fátima Regina. ―Cruzadas na Idade Média‖. In: História das guerras. Organizador: Demétrio Magnoli. São Paulo, Contexto, 2006, p.105-106. 4 Entendemos Ibn Khaldun como historiador tal como os autores Albert Hourani em sua obra Uma história dos povos árabes. Tradução de Marcos Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 2006; e Roberto 87 (1332-1406). Nossa problemática pauta-se na busca pelos motivos que levaram esse homem, enquanto historiador, a ter uma relação muito próxima ao poder islâmico do século XIV. Nosso objeto de análise compreende os aspectos constituintes da formação erudita de Ibn Khaldun, a partir da qual entrevemos seu método historiográfico, buscando assim entender como esse personagem conseguiu se projetar na sociedade de seu tempo, especialmente em relação aos sultões, que faziam questão de tê-lo próximo. As fontes utilizadas são as obras Autobiografia e Muqaddimah5, ambas de autoria do próprio Ibn Khaldun. Nestes escritos, apesar de presenciar as ações de resistência militar dos muçulmanos no Norte de África e Al-Andaluz (região sul da Península Ibérica sob dominação islâmica), o autor demonstra-se mais interessado em apontar suas observações a respeito da sociedade, da filosofia e da política de seu tempo pautado em seu método historiográfico. No entanto, não podemos pensar que a visão de Khaldun sobre o período em que viveu é menos parcial do que a de qualquer outro muçulmano ou cristão. Devemos, acima de tudo, compreendê-la na sua especificidade, imersa na subjetividade do autor, atentando para o que ele conta e como o faz. Por esses motivos, devemos conhecer bem o personagem a ser estudado. O próprio Ibn Khaldun revela aspectos de sua vida em sua obra autobiográfica6. A Autobiografia foi escrita por Ibn Khaldun desde 1374, passando pela morte do autor até sua finalização por três outros historiadores islâmicos: Makrizi (1364-1442), Ibn Chohba (c. século XIV) e Ibn Arabchah (c. século XIV). Nesse sentido, ao enfocar o estudo de um personagem muçulmano, pretendemos trazer novas perspectivas para a compreensão acerca da história da Idade Média, sobretudo do mundo árabe e do mundo islâmico. Mas é importante salientar que não se trata simplesmente de trocar uma visão parcial por outra: a intenção de nosso estudo é superar essas visões parciais e alcançar uma compreensão da interação entre o Ocidente e Oriente no ambiente cultural. Ibn Khaldun nasceu na cidade de Túnis, em 1332. Sua família tinha origem em Hadramut, numa tribo árabe do Iêmen, a qual passou para Al-Andaluz no século VIII, colocando-se ao lado do poder Omíada. No entanto, a família Khaldun teve de sair do território andaluz e se transferir para o Norte de África em 1248, por conta do avanço da Reconquista cristã em Sevilha. A família Khaldun, já estabelecida em território magrebino, associou-se aos governantes locais e manteve o antigo privilégio de estar próxima ao poder. Ibn Khaldun iniciou sua carreira política em 1352, como escrivão do parafo real (função que cabia àquele que registrava dados sobre a administração real), sob a dinastia dos Hafsidas. Mas logo passou a ser secretário do sultão Abu Inan na cidade de Fez, sob a dinastia rival dos Hafsidas, os Marínidas. Ao longo de sua carreira também exerceu cargos de suma importância ligados ao direito islâmico sob outros sultanatos magrebinos, como os de hajib (juiz), chefe de chancelaria e ―diplomata‖. Além disso, Ibn Khaldun Marin Guzmán em sua obra Estado de la cuestión sobre la Mahdiyya – Estudio de las fuentes del movimiento Mahdista en el Sudán. Editor Roberto Marín Guzmán. 1ª edição. Costa Rica, 2009. 5 KHALDUN, Ibn. Muqaddimah – Os Prolegômenos (tomo I, II e III). Tradução integral e direta do árabe por José Khoury e Angelina Bierrenbach Khoury. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia, 1958-1960. 6 KHALDUN, Ibn. Autobiografia. In: Muqaddimah – Os prolegômenos (tomo I). Tradução integral e direta do árabe por José Khoury e Angelina Bierrenbach Khoury. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia, 1958. 88 (que era descendente de uma família de importantes guerreiros, os quais teriam lutado na resistência em Al-Andaluz frente à ação de Reconquista cristã) participou também de ações militares ferrenhas cobrando impostos de tribos berberes norte-africanas. O auge da carreira política de Khaldun foi quando ele se estabeleceu no Cairo, a partir de 1383. Foi nesse local que o muçulmano angariou, sob a influência do sultão egípcio Malik AlDaher, o posto de professor de jurisprudência malikita na Mesquita de Al-Azhar, tornando-se Grande Cádi do Cairo, ou seja, o responsável pelas leis de acordo com as diversas escolas de jurisprudência islâmica. Foi quando estava nessa posição de grande poder que Khaldun teve uma atitude obstinada contra a corrupção – prática cometida pelos próprios funcionários da justiça local. A carreira erudita de Ibn Khaldun, paralela aos cargos por ele assumidos em diversos sultanatos magrebinos, foi também de grande destaque para a esfera política. Em sua época, a política do Norte da África era dominada ainda pelos conflitos entre a dinastia dos Hafsidas e a dinastia dos Marínidas. Na perspectiva externa, a política magrebina estava pressionada pelos turcos seldjúcidas oriundos da Ásia Menor, pelo avanço intensivo dos mongóis e pelos interesses hegemônicos permanentes dos mamelucos do Egito. No entanto, o homem político Ibn Khaldun, imerso nessa realidade, soube negociar em prol de seus interesses, visando sempre sua manutenção próxima ao poder – um aspecto essencial para que ele pudesse se dedicar exclusivamente aos seus estudos tendo por base o patrocínio de um sultão. Com base nos vários acontecimentos que permeiam a vida de Ibn Khaldun, podemos levantar a idéia de que os homens relacionados à política, em sua época, necessitavam de uma corte de saber como forma de sustentáculo do próprio poder. Um dos exemplos do reconhecimento de Ibn Khaldun por parte dos homens de poder de sua época é quando este realizou uma importante missão diplomática em 1363, na qual era necessária a ratificação de um tratado de paz entre o sultão Muhammad V, sultão de Granada, e Pedro, o Cruel (rei de Castela e Leão). Essa posição respeitável de Ibn Khaldun na esfera islâmica e cristã demonstra a grande importância do poder diretamente relacionado ao homem de saber. A formação erudita de Ibn Khaldun teria sido primordial para que ele exercesse as suas ações no âmbito político. Essa formação foi, acima de tudo, ampla, na qual se destaca sua compreensão da História. O que contribui para que Khaldun seja entendido como figura singular no âmbito político, bem como sua escolha para ser patrocinado pelos sultões, é sua formação intelectual distinta, ou seja, moldada por meio de renomados mestres andaluzes, que ministravam suas aulas em madrasas (escolas) norte-africanas. Segundo Roberto Marin Guzmán, a formação intelectual de 89 Khaldun e sua ação através de seus cargos demonstram, inclusive, as experiências que podem facilitar a conhecer melhor os assuntos internos do Império Muçulmano7. É importante ressaltar que o século XIV, no qual Ibn Khaldun está inserido, é um período de crise compartilhado no complexo Mediterrânico. O território norte-africano, por exemplo, perpassou nesse século diversas crises políticas, econômicas e demográficas, sobre as quais Ibn Khaldun se pôs a refletir e buscar as suas causas. Nesse ínterim também se verifica uma crise no mundo religioso islâmico: a umma (comunidade islâmica) sente um abalo político e espiritual, ou seja, estava ocorrendo a corrupção dentro dos sultanatos. Porém, o historiador Ibn Khaldun entende que a umma foi transferida de um aspecto político para o simbólico, ou seja, a mudança ocorreu no sentido de que a umma agora era uma comunidade cultural. Portanto, nosso estudo se vale da hipótese de que Ibn Khaldun, um letrado do século XIV, foi representante de uma erudição específica e singular, a qual contribuiu na formulação de uma concepção de História que acabou tornando-se sustentáculo teórico para importantes decisões políticas no Norte de África, na Península Ibérica e no Oriente. Assim realizamos uma análise das obras de Ibn Khaldun – da sua Autobiografia conjuntamente aos seus pensamentos históricos na Muqaddimah – buscando a compreensão de como a História passou a ser uma ferramenta de legitimação das decisões do poder islâmico frente às mudanças políticas e espirituais do século XIV. A ÉPOCA DE KHALDUN: UM OLHAR SOBRE GRANADA E NORTE DA ÁFRICA DO SÉCULO XIV Os poderes que envolveram Ibn Khaldun em seu tempo são os Nazaríes em Granada (1232-1492), os Marínidas do Marrocos (1269-1420) , o Sultanato de Tlemcem - reino central (formado por antigas tribos berberes), Hafsidas de Túnis (1228-1574) e os Mamelucos no Egito (1250-1517), este em contato com os mongóis do governo de Tamerlão. A presença de Ibn Khaldun nessas cortes era considerada como um importante aporte à validade e legitimidade da política empreendida pelo sultanato, tendo em vista as formulações, concepções e recomendações ao poder que Khaldun estabelecera como indicações em sua obra Muqaddimah. De fato, o historiador muçulmano, ao manter-se próximo ao poder, via em sua realidade uma constante que não podemos menosprezar: a corrupção e o vício, enquanto fatores principais, que ocasionavam o enfraquecimento e conseqüente queda de certos poderes nos sultanatos. Trata-se, em suma, de um pensamento que demarca uma contraposição ao modelo do califado, considerado por Khaldun como o mais apropriado: seria guiado pelo homem mais capacitado religiosamente (valoração da moral) e versado na política (expressão de dignidade para liderar os povos). De todo modo, Khaldun estava consciente de que faltava em seu tempo um modelo 7 MARÍN GUZMÁN, Roberto. Estado de la cuestión sobre la Mahdiyya – Estudio de las fuentes del movimiento Mahdista en el Sudán. Editor Roberto Marín Guzmán. 1ª edição. Costa Rica, 2009, p.28. 90 apropriado de poder que garantisse estabilidade e segurança para o desenvolvimento das atividades humanas. Khaldun, portanto, transitava entre esses diferentes poderes em sua época, certamente tendo a consciência de que nenhum deles teria uma longa duração. O governo de Granada teve sua manutenção dependente dos governos norte-africanos, principalmente no período de Muhammad V (1354-59 e 1362-91), mas além disso este sultão dependia da ação eficaz de seu vizir Ibn Al-Khatib. O governo dos Marínidas alcançou seu apogeu em conquistas sob o sultanato de Al-Hasan (1331-1348) e sua política de expansão foi plena de conquistas, pois seus sucessores continuaram a política de ataque ora aos Hafsidas, ora ao sultanato de Tlemcen. O sultanato de Tlemcen, coagido por estar no Magreb Central, teve nas mãos austeras de Abu Hammu (1359-1389) sua defesa e seu destino (a vontade de se apoderar do reino de Bujaya), o qual paulatinamente foi sendo degradado por marínidas, hafsidas e tribos nômades com certo poder (muitas vezes sendo agregadas pelos sultanatos de maior expressão). Os Hafsidas, governo sob o qual Khaldun nasceu e passou a sua adolescência, foi instaurada por Abu Zakariyya (1228-1249). Desde então, a dinastia hafsida de Túnis começou a receber os andaluzes emigrados de Al-Andaluz e forjou todo um aparato político-militar similar ao que era exercido na Península Ibérica. Os mamelucos, por sua vez, representaram o símbolo de resistência do islamismo no Norte de África. O reinado de Baybars assegurou e legitimou, por fim, sua existência e força, principalmente na luta contra os cruzados. Já o sultão Malik Al-Daher Barquq (1382-1399, com interrupções) de origem circasiana colocou sob seu governo Khaldun como o Grande Cádi Malikita e foi o último governo estável antes da intensiva ameaça otomana que desestruturou a política mameluca. Compreender esse momento histórico é fundamental para tornar ainda mais inteligível o período Medieval, pois o espaço geográfico a que denominamos Ocidente esteve sempre atento e mantendo contato com os sultanatos aqui descritos. De fato, o Norte de África é considerado território pertencente ao ―mundo muçulmano‖ dentro das divisões instituídas por uma erudição hoje revista e debatida, pois desejamos ampliar nossas visões acerca do contato entre regiões. O Norte de África e seu próprio continente, a África, manteve com os europeus relações econômicas, políticas e culturais por muito tempo e, portanto, esse intenso contato de integração deve ser valorizado como parte importante da História Medieval. Ao trabalho do historiador, é adequado e necessário um olhar atento à época na qual o autor, nesse caso Ibn Khaldun, escreveu sua obra – hoje um fonte histórica. Podemos, dessa forma, entrever em sua proposta historiográfica elementos que denotem suas idéias e preocupações sobre o mundo em que vivia. 91 A IMPORTÂNCIA DA PENA DO HISTORIADOR A Muqaddimah é dividida por diversos assuntos de erudição, mas nos interessa aqui é percorrer a obra tendo em mente o método de História de Ibn Khaldun, portanto nos utilizamos do Prefácio, Introdução e Primeiro Livro. Através dessa escolha, mantemos como perspectiva a idéia de que o teor metodológico apresentado por Khaldun se mantém ao longo de toda Muqaddimah, como ele próprio ressalta: ―De modo que se pode considerá-la como compêndio único da História, tendo em vista o número e o valor das informações que lhe abarrotam as páginas, e as doutrinas, antes ocultas ou desconhecidas, e agora expostas ao entendimento de todos‖8. Porém, antes de iniciarmos nossa análise, devemos refletir sobre a seguinte questão: qual era a inteligibilidade da obra de Khaldun em seu contexto, tendo em vista a formulação de uma proposta historiográfica? De fato, a Muqaddimah representa para os seus leitores, eruditos e homens de poder muçulmanos, um resgate da história, de como a história faz com que os homens se tornem mais lúcidos e como ela pode indicar modos de bem governar, de ser mais justo e mais sábio9. Seria próximo ao conceito de ―humanitas‖ utilizado pelos historiadores clássicos. Ou seja, um homem se desenvolve e se torna melhor através do conhecimento de si, de sua história. Da recepção da obra temos conhecimento do testemunho do vizir e historiador de Granada, Ibn AlKhatib, do recebimento de cópias da obra pelos sultões de Túnis, Abu‘l Abbas, de Fez, Abu Faris, do Cairo, Malik Al-Zahir Barquq. Portanto, a proposta da Muqaddimah por Khaldun é tornar legível ao seu leitor que o conhecimento histórico abriga em si a observância da sociedade, a problematização do caráter humano e a divulgação das ciências. O caminho para desvendar isso é através da análise do documento, que nos traz perspectivas variadas divididas em três grandes blocos: a história, o poder e a erudição. Segundo o historiador Khaldun, ele teve um planejamento cuidadoso ao abordar essa obra: Encarei e discuti com grande cuidado as questões condizentes com a matéria deste livro de maneira a por meu trabalho ao alcance tanto dos eruditos como dos homens do mundo. Na sua confecção e na distribuição das matérias, adotei um plano original, elaborei um método novo de escrever a História, escolhendo um caminho que certamente surpreenderá o leitor, e seguindo uma marcha e um sistema inteiramente próprios. Ao tratar do que se relaciona com a formação da sociedade e o estabelecimento da civilização, estendi-me, com razão, a descrever tudo o que a sociedade humana oferece como circunstâncias características. Apontei as causas dos acontecimentos e mostrei por que caminhos os fundadores 8 KHALDUN, Ibn. Muqaddimah – Os Prolegômenos (tomo I). op. cit., p.15. ―Porque as obras dos historiadores que viveram e trabalharam na Idade Média são construções eruditas, de que é perigoso ignorar as ambições e os limites. Antes de utilizar as obras históricas medievais, é prudente perguntar quem eram os historiadores na Idade Média, em que se assemelhavam aos historiadores de hoje, em que eram diferentes‖. In: GUENÉE, Bernard. Verbete História. Dicionário Temático do Ocidente Medieval. Organizadores: Jacques Le Goff e Jean-Claude Schmitt. Bauru, SP: Edusc, 2006, p.523. 9 92 do império entraram. O leitor, não se achando mais na obrigação de crer cegamente nas narrativas tradicionais, poderá agora conhecer melhor a História do passado e ficará habilitado a prever os acontecimentos que poderão surgir no futuro10. Para que possamos compreender como aquela sociedade detinha interesse pelo homem de saber, em especial o historiador, devemos antes identificar qual seria a perspectiva em relação ao personagem historiador naquele momento. Em suma, escrever a história nessa época tardomedieval fazia parte das sociedades muçulmanas letradas, e Ibn Khaldun foi o representante de um tempo de cultura miscigenada no qual Al-Andaluz seria o emblema representativo dessa esfera de sabedoria e poder transferida para o Norte de África. Desse modo vejamos o que Khaldun nos informa acerca da História: A História é um dos ramos dos conhecimentos humanos que se transmitem de geração a geração. Tesouro de ensinamentos, ela atrai estudantes e estudiosos dos países mais longínquos que acodem pressurosos para ouvirem-lhe as lições. Objeto de estudo e de meditação dos sábios, a História é ouvida com avidez pelo vulgo que nela acha deleite e passatempo granjeando a História ao mesmo tempo a estima dos reis e dos grandes, o apreço dos homens de estudos e a atenção dos ignorantes11. O olhar de Ibn Khaldun na parte inicial de sua obra Muqaddimah legitima a importância do historiador em seu tempo, pois relata seu próprio contato com documentos que preservam fatos ocorridos e a busca pela crítica nos interstícios dos acontecimentos ditos ―oficiais‖ da época. Assim aos historiadores é indicada a função de se aprofundar nos resíduos do que está no passado: Nesses tempos remotos, os cronistas destinavam seus escritos ao uso da família reinante. Os jovens príncipes empenhavam-se em conhecer a história de seus antepassados e seus feitos, para lhes trilharem os passos e se guiarem pelo seu exemplo; mas, sobretudo, sentiam a necessidade de saber como e onde escolher os personagens que deviam tomar os grandes encargos e de confiar a alta administração e outros empregos aos descendentes de antigos protegidos da casa real e seus servidores. (...) Os historiadores viam-se, pois, na necessidade de entrarem nestes detalhes pormenorizados12. Para se compreender como Ibn Khaldun fazia parte de uma tradição de estudos na Península Ibérica, no caso especifico de Al-Andaluz, podemos aceitar a observação de Albert Hourani, quando este apresenta a idéia de que, já durante a fragmentação política da unidade do Califado, as diversas cortes desenvolveram ―tradições de escrita da história local‖13. A elite intelectual, assim, desenvolvia aptidões para que os homens de poder se utilizassem de suas produções escritas. Isso nos aproxima da realidade proposta pela 10 KHALDUN, Ibn. Muqaddimah – Os Prolegômenos (tomo I). op. cit., p.12. KHALDUN, Ibn. Muqaddimah – Os prolegômenos (tomo I). op.cit., pp.3-4. 12 KHALDUN, Ibn. Muqaddimah – Os prolegômenos (tomo I). op.cit, p.76 13 HOURANI, Albert. Uma História dos povos árabes. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 269. 11 93 Autobiografia de Ibn Khaldun, quando o historiador medieval cumpre simultaneamente os cargos ligados ao saber e de armas nas cortes por onde passou ao mesmo tempo em que se dedicava à escrita da história. Além disso, Khaldun era membro destacado de uma aristocracia islâmica que conseguiu interferir em importantes decisões políticas de diversos sultões e deixou por escrito em suas obras como alçar esse modelo de sábio islâmico medieval. Ibn Khaldun conseguiu isso através do mérito, de oferecer ―bons conselhos‖, de ser conhecido também por seus pares intelectuais e da defesa da sua própria honra, resultando no seu reconhecimento como historiador, ou seja, como um instrumento de legitimação do poder islâmico na época em que vivia. UMA PROPOSTA DIFERENCIADA DE ESCRITA SOBRE O PASSADO A obra Muqaddimah possui um quadro de estudos que abrange temas religiosos, da lingüística, do uso da oratória, sobre o sufismo ou misticismo islâmico, acerca do desenvolvimento dos povos por meio da compreensão do termo ’asabiyya – ou espírito de grupo -, acerca da fundação das cidades medievais em contraponto com a vida no campo, e enfim sobre a política, em que temos os ―conselhos‖ de Ibn Khaldun ao governante (inseridos numa discussão historiográfica). A importância da obra Muqaddimah se deve ao inovador pensamento histórico de Ibn Khaldun em seu tempo, o qual se apresenta com influências das técnicas da tradição islâmica (a isnad), da jurisprudência e de uma metodologia grega clássica. O entendimento da História para Ibn Khaldun tinha como meta: o exame e a verificação dos fatos, a investigação cuidadosa das causas e o conhecimento profundo da maneira como os acontecimentos se sucederam e como começaram. O historiador assim deveria também se inter-relacionar com a camada militar e política para verificar o desenvolvimento social e econômico das regiões. Dessa forma, temos a perspectiva de que Ibn Khaldun estava envolvido em duas esferas: a teórica, quando analisa a sociedade de seu tempo e coloca diante de nós um método da História (influenciado por possíveis leituras de Herodóto, Tucídides, Políbio e Luciano de Samosata), e a prática, quando ele atua através dos cargos da burocracia política islâmica. Nossa hipótese que afirma essa possível leitura dos clássicos realizada por Khaldun é pautada na análise do subtexto da proposta historiográfica presente na Muqaddimah, tendo em vista que identificamos elementos e conceitos da historiografia clássica. De fato, fica latente na obra a importância atribuída pelo autor no que se refere à busca pela verdade na construção da narrativa14, do testemunho (elemento imprescindível tanto nos clássicos15 quanto na metodologia 14 De fato, ―a regra na qual repousava o modelo historiográfico estabelecido com Heródoto e Tucídides, era atribuir ao historiador o dever de dizer a verdade sobre os acontecimentos que julgava digno relatar. A veracidade do discurso era considerada, portanto, como um elemento constituinte da história‖ In: CADIOU, François; COULOMB, Clarisse; LEMONDE, Anne; SANTAMARIA, Yves. Como se faz a história: historiografia, método e pesquisa. Tradução de Giselle Unti. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007, p.19. 94 da isnad que corrobora para a fundamentação da jurisprudência islâmica), da referência às ciências de Galeno, à filosofia aristotélica e aos membros da falsafa. O resgate de uma tradição historiográfica clássica na época de Khaldun e naquele espaço do Norte da África aponta a ocorrência da manutenção de uma historiografia de herança grega através dos governos árabes (conexão das escolas de Bagdá à Toledo). Nossa análise ganha dimensão ao demonstrar que, enquanto em parte do mundo medieval escreveu-se por muito tempo história em mosteiros, nosso autor produzia uma obra independente das instituições e que indiretamente acabou por afetar o poder de sua época. Porém no século XIV já encontramos no Ocidente a figura do cronista real, advindo das escolas no perímetro urbano e que possuiam o objetivo de servir seu soberano. Dessa forma, Khaldun pode ser comparado com os cronistas régios, mas tinha uma liberdade de expressão maior que aqueles ao produzir a Muqaddimah. Para o nosso estudo, portanto, foi necessário uma reflexão sobre o conceito da tradição renovada16. Podemos identificar uma transformação do fazer histórico clássico até o entendimento islâmico. Mas o que de fato podemos perceber na obra khalduniana é que o movimento da História era de longa duração, contendo em si conflitos/transformações dos fatos político-sociais e que em alguns pontos do tempo histórico ocorria uma certa proximidade com outros períodos (idéia da concepção cíclica de tempo). Khaldun tinha um conhecimento do itinerário da História pelos seguintes povos e que para ele formava uma série cronológica: primeiro, os persas de primeira estirpe, os assírios, os nabateus, os tubba, os israelitas e os coptas; em segundo, vieram os persas de segunda estirpe, os romanos, os gregos, os árabes e os francos; nesse ínterim apareceu o Islamismo, então a maioria dos árabes eram agora muçulmanos; em terceiro (o tempo de Khaldun - século XIV), o poder dos árabes muçulmanos passou para povos estrangeiros como os otomanos, os andaluzes perderam seu espírito de grupo desfalecendo na Península Ibérica, os berberes com seu espírito de grupo reforçado tentavam persistir no Magreb e os francos se mantiveram no Norte. PERSPECTIVAS DA HISTORIOGRAFIA KHALDUNIANA A importância do senso crítico para Khaldun é de extrema valia, pois o historiador não poderia apenas narrar fatos que obtém de outros: ―cabe ao saber, limpar e polir as tabuinhas que levarão gravada a verdade‖17. Não há como não entrever no pensamento de Khaldun a grande desconfiança, tão cultivada pelos historiadores gregos, em relação as informações indiretas que 15 Segundo Ciro Flamarion Cardoso, ―os historiadores gregos se voltavam primordialmente para a história a eles contemporânea ou quase contemporânea, e bem menos para o passado mais remoto. Isto porque sentiam fortemente a necessidade de pôr à prova os dados que usavam‖ In: CARDOSO, Ciro Flamarion. Um historiador fala de teoria e metodologia : Ensaios. Bauru : EDUSC , 2005, p. 120. 16 Sobre o conceito de tradição renovada na análise histórica, cf: FRIGHETTO, Renan. De la barbarica gens hacia la christiana ciuilitas: la concepción de regnum según el pensamiento político de Isidoro de Sevilla (siglo VII). In: Anuário del Centro de Estudios Históricos “Prof. Carlos S. A. Segreti”. Córdoba, año 7, nº 7, pp.203-220, 2007. 17 KHALDUN, Ibn. Muqaddimah – Os Prolegômenos (tomo I). op. cit., p.5. 95 obtém para escrever seu relato. A crítica e a razão seriam os principais aportes na averiguação dos fatos, uma prática imprescíndivel na busca pela verdade. Percebemos que a orientação principal de Khaldun diz respeito à uma espécie de conduta metodológica que o historiador deve prosseguir para alcançar o objetivo de uma obra histórica. Dentre os objetivos, destacamos o princípio assinalado por Khaldun como ―lições de conduta‖. Ora, o paralelo com a historiografia grega torna-se inevitável: os acontecimentos do passado compõem exemplos que podem orientar as ações do homem frente aos problemas do presente e do futuro18. No entanto, para assumir essa função tão digna, a narrativa histórica deve, necessariamente, preservar seu teor de veracidade. É examente nesse sentido que Khaldun atua em suas críticas, apontando incoerências em torno da prática do historiador que dificultam o alcance da verdade. Destarte, a proposta historiográfica de Khaldun estabelece uma ponte entre o passado mais longínquo, grego e o seu presente, resultado da assimilação de muitas culturas sob a fé islâmica além da Península Arábica (persa, berbere, indiana, egipcía e andaluza). A realidade do século XIV – instável politicamente, mas agraciada com um passado cultural tão rico e esplendido – também oferecia meios para obras literárias como As Mil e uma noites19 serem reunidas e resgatadas pelo governo mameluco, numa clara alusão nostálgica frente à um tempo que presenciava o declínio do poder islâmico. A composição da Muqaddimah também compartilharia do mesmo sentimento, mas vem exatamente contrapor essa tendência ficcional em relação ao trato das informações, distinguindo realidade e mito no entendimento do passado. Assim, a História convivia ao lado da narrativa ficcional, a literatura – esta que foi criticada por Khaldun se confundida como usufruto da historiografia, mas que possuía um crescente respaldo também como orientação moral, tendo em vista sua produção envolver personagens relacionados ao poder tal como Harun Al-Raschid, cuja presença constante é percebida tanto em As Mil e uma noites como na Muqaddimah. Nesse âmbito é importante este estudo acerca do imaginário medieval islâmico relacionado à primeira obra referida, de forma a colocar em contraste a literatura com a história naquele período. O historiador Khaldun demonstrava seu esforço em se aproximar de sua herança andaluza, ao mesmo tempo em que ele era ciente dos movimentos políticos de seu interresse em território norte-africano. Podemos incutir que Khaldun deve ser tomado como um partícipe da história ibérica e africana, mas não podemos esquecer que ele é antes de tudo tido como pensador e que suas idéias, principalmente acerca da História, são postas em um sentido universal. Dessa forma, 18 Segundo Arnaldo Momigliano, ―o historiador grego quase sempre acredita que os acontecimentos passados têm uma relevância para o futuro. Na verdade, eles não seriam importantes se não ensinassem alguma coisa para aqueles que lêem a seu respeito. A história relatada tem sempre que prover um exemplo, constituir uma lição, servir de referência para os desenvolvimentos futuros dos negócios humanos‖. In: MOMIGLIANO, Arnaldo. As raízes clássicas da historiografia moderna. Tradução de Maria Beatriz Borba Florenzano. Bauru/SP: EDUSC, 2004, p. 38. 19 A utilização para nosso estudo foi a edição de: JAROUCHE, Mamede Mustafa. Livro das mil e uma noites, vol. I: ramo sírio/Anônimo. Tradução do árabe por Mamede Mustafa Jarouche. 3 ed. São Paulo: Globo, 2006. 96 seus estudos passam à remontar aos antigos como uma herança da cultura árabe, pois o caráter reflexivo e crítico era necessário naquela construção narrativa desenvolvida pelo autor. Por conta do contraste, seja no seu momento de contexto politico (com as perdas do mundo islâmico) ou por motivações eruditas (o desejo da diferenciação do que é fictício e o que é a história), Khaldun nos responde com historiográfica. uma proposta transformada (consciente do passado) da metodologia 97 FONTES HERODOTO. Historia : libros I - II . Tradução Carlos Schrader. Madrid: Gredos, 1977. KHALDUN, Ibn. Muqaddimah – Os prolegômenos (tomo I, II, III). Tradução integral e direta do árabe por José Khoury e Angelina Bierrenbach Khoury. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia, 1958-1960. ______________. Autobiografia. In: Muqaddimah – Os prolegômenos (tomo I). Tradução integral e direta do árabe por José Khoury e Angelina Bierrenbach Khoury. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia, 1958. JAROUCHE, Mamede Mustafa. Livro das mil e uma noites, vol. I: ramo sírio/Anônimo. Tradução do árabe por Mamede Mustafa Jarouche. 3 ed. São Paulo: Globo, 2006. LUCIANO DE SAMOSATA. Obras III. Traducão Juan Zaragoza Botella. Madrid: Gredos, 1990. POLÍBIO. Historias: livros V-XV. Traducción y notas de Manuel Balasch Recort. Madrid : Gredos, 1981. TUCIDIDES. Historia de la guerra del Peloponeso: libros I – II. Tradução Juan José Torres Esbarranch. Madrid: Gredos, 1990. BIBLIOGRAFIA CADIOU, François; COULOMB, Clarisse; LEMONDE, Anne; SANTAMARIA, Yves. Como se faz a história: historiografia, método e pesquisa. Tradução de Giselle Unti. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007. CARDOSO, Ciro Flamarion. Um historiador fala de teoria e metodologia : Ensaios. Bauru : EDUSC , 2005. FERNANDES, Fátima Regina. Cruzadas na Idade Média. In: História das guerras. Organizador: Demétrio Magnoli. São Paulo, Contexto, 2006, p.105-106. FRIGHETTO, Renan. 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UM EXAME DAS INSTRUÇÕES CIENTÍFICAS PORTUGUESAS DE VIAGEM DO SÉCULO XVIII Frederico Tavares de Mello Abdalla Mestrando em História pela Universidade Federal do Paraná [email protected] RESUMO: De acordo com um movimento geral de corrida científica das principais potências européias, as Viagens-Filosóficas foram empreendimentos patrocinados pelo Estado português na segunda metade do século XVIII com o intuito de alavancar as investigações científicas nos domínios coloniais. Nesse quadro, a História Natural tornou-se campo privilegiado do saber, uma vez que a empreitada teve como objetivo principal a coleta de espécimes naturais para o enriquecimento de um Museu de História Natural em Lisboa. Antes de serem despachados para as colônias, os viajantes-naturalistas deveriam ser submetidos a uma etapa preparatória de viagem, em que seriam instruídos para uma melhor observação da natureza a fim de obterem maior aproveitamento das expedições. Para isso, foram redigidos manuais de instruções que, constituídos enquanto gênero literário, estavam filiados a uma tradição de manuais de viagem desde o século XVII. Contudo, é possível perceber o incremento que sofreram conforme as exigências teóricas próprias que a ciência vinha desenvolvendo. Nas instruções estão contidas todas as orientações imprescindíveis para a operacionalidade do viajante e o seu olhar para a natureza. A tarefa, por ora proposta, consiste em examinar formas e objetos nas instruções científicas portuguesas de viagem do século XVIII, atentando para suas estruturas, seções e tratamentos temáticos, no sentido de evidenciar o estado de arte desse gênero em sua tradição literária. PALAVRAS-CHAVE: viagem-filosófica; instruções de viagem; viajante-naturalista AS VIAGENS-FILOSÓFICAS No século XVIII, o interesse generalizado das principais potências européias pelas ciências da natureza traduz o projeto enciclopédico do iluminismo de realizar um extenso inventário do mundo natural. França, Inglaterra e, a seguir, a Espanha empreenderam expedições em escala global para coletar espécimes da natureza nos mais remotos cantos do planeta. O objetivo era enriquecer os Museus de História Natural e fomentar o desenvolvimento da ciência, próprio motor do progresso humano. De acordo com esse movimento geral de corrida científica, as ViagensFilosóficas foram empreendimentos patrocinados pelo Estado português na segunda metade do século XVIII com o intuito de alavancar as investigações científicas nos domínios coloniais. 1 Com o reformismo pombalino das instituições de ensino, a Universidade de Coimbra tornar-se-ia um pólo de fomento ao saber e à ciência moderna logo depois de concluída sua reforma em 1772. Nesse contexto, o italiano Domenico Vandelli foi nomeado lente dos cursos de História Natural e Química daquela instituição, além de lhe ser atribuída a responsabilidade pela direção do Jardim da Ajuda em Lisboa e pela criação de um Museu de História Natural e um Jardim Botânico em 1 Sobre as expedições portuguesas, ver SIMON, W. J. Scientific expeditions in the portuguese overseas territories (1783-1808). Lisboa: Instituto de Investigação Tropical, 1983. 100 Coimbra. O Museu era o gabinete em que o inventário do mundo era alojado e onde se cumpria a etapa posterior à viagem, que era a da classificação dos espécimes e o seu estudo minucioso. O Jardim Botânico era o espaço onde eram cultivados todos os gêneros de plantas, inclusive aqueles considerados úteis à Medicina e às Artes. Também ali eram realizadas aulas práticas e demonstrações aos alunos da Universidade para que fossem formados pela observação. De maneira geral, havia uma etapa preliminar dessas expedições, na qual os naturalistas eram instruídos para uma melhor observação da natureza e maior aproveitamento das viagens. Trata-se de uma preparação muito preciosa destinada à aquisição de um arsenal de conhecimentos práticos úteis à viagem. Era preciso estar muito bem informado sobre o lugar que seria explorado e possuir uma série de conhecimentos tais como história natural, química, metalurgia, mecânica, geografia, navegação, medicina, língua, desenho e música. Esperava-se, também, que os viajantes possuíssem algumas qualidades como boa resistência física, conhecimentos culturais acerca do local a ser viajado, técnicas de manusear instrumentos de localização, hábitos regrados de alimentação e disciplina de caráter.2 Para atender a essa etapa preparatória é que foram produzidos manuais contendo instruções sobre como recolher, preparar, remeter e conservar os diversos produtos naturais, além de orientações para os caminhos da observação, ao indicar os objetos que deveriam ser observados e descritos durante a viagem. Essas instruções procuram sistematizar um olhar para a natureza e excluir ―o fator subjetivo que tornava pessoal o relato de viagem deixando-o vulnerável a interpretações diversas.‖3 O intuito era construir um método aplicável a quaisquer tipos de viagem e para quaisquer viajantes, a partir de uma pedagogia do olhar que ultrapassasse sua dimensão subjetiva.4 Nesse sentido, os manuais de instrução são importante fontes não só para avaliarmos a múltipla formação do viajantenaturalista, mas também as propriedades operativas que lhes eram figuradas a partir da metodologia científica. Tendo delineado o quadro contextual das viagens-filosóficas, faz-se necessário então apresentar os manuais portugueses produzidos naquela época a fim de detalhar alguns aspectos que lhes são particulares. Em seguida, a tarefa proposta nesse trabalho consistirá em examinar formas e objetos nas instruções científicas portuguesas de viagem do século XVIII, atentando para suas estruturas, seções e tratamentos temáticos, no sentido de compará-los e evidenciar o estado de arte desse gênero em sua tradição literária. Não encerrado em si mesmo, esse exame é entendido como um exercício prévio para a sondagem de elementos que possam indicar possibilidades de leitura desses textos a fim de pensar a formação textual do viajante-naturalista e o seu modus operandi no interior da literatura científica. 2 COLLINI, S. & VANNONI, A. I testi di istruzioni scientifiche per i viaggiatori aspetti di um genere das seicento al novecento. In: BOSSI, Maurizio e GREPPI, Cláudio (orgs.). Viaggi e scienza; Le istruzioni scientifiche per i viaggiatori nei secoli XVII-XIX. Firenze: Leo S. Olschki, 2005. p.xxvi-xxviii. 3 PATACA, E. M.; PINHEIRO, R. Instruções de viagem para a investigação científica do território brasileiro. Revista da SBHC, RJ, v. 03, n. 01, p. 58-79, 2005. p. 62. 4 COLLINI, S. & VANNONI, A. Op. cit. p. xvi-xviii. 101 AS INSTRUÇÕES DE VIAGEM As instruções científicas de viagens do século XVIII estão inscritas em uma tradição que remonta aos manuais de instrução dirigidos aos viajantes diletantes do século XVII e apresenta uma série de elementos de continuidade temática e estrutural com essas, ainda que de forma indireta.5 Dois tipos de instruções de viagem são identificados no século XVIII: o primeiro é de cunho mais geral, bastante abrangente e sintético; já segundo é mais especializado e, por sua vez, contém instruções específicas sobre transporte e conservação de espécimes naturais.6 Essas instruções tornaram-se, ao longo do século, cada vez mais objetivas, ainda que com resquícios do mundo místico pré-iluminista. Assim, é possível perceber o incremento que passaram a sofrer conforme a especialização de certas disciplinas e as exigências teóricas próprias que as ciência da natureza vinham desenvolvendo em seu interior, culminando por seguinte em manuais extremamente específicos nos mais diversos campos das ciências naturais no século XIX. Contudo, o projeto enciclopédico global de inventariar o mundo natural e um amplo conhecimento geral acerca de todos os saberes deu o principal tom às instruções científicas do século das luzes. Um modelo de instruções que aparece na metade do século e é bastante importante por ter se tornado uma referência paras próximas gerações de manuais, inclusive em Portugal, foi o de Eric Anders Nordeblad intitulado Instructio Peregrinatoris (1759). Nordeblad foi aluno do sueco Lineu e alguns pesquisadores atribuem a autoria de suas instruções ao seu próprio mestre. Cabe lembrar que Lineu foi o responsável pelo modelo paradigmático de taxonomia vigente nos séculos XVIII e parte do XIX e por estudos de aclimatação universais. Em Portugal, o principal autor de instruções científicas de viagem foi mesmo Vandelli. Seu manual, escrito em 1779 para a formação dos alunos de Coimbra, foi intitulado Viagens Filosóficas ou Dissertação sobre as importantes regras que o Filosofo Naturalista nas peregrinações deve principalmente observar. A obra do mestre é composta por dez seções temáticas que orientam os procedimentos de observação e o conteúdo da natureza que deve ser observado pelo viajante-naturalista. Em 1781 é redigido um opúsculo pelos naturalistas da Academia de Ciências de Lisboa que acabou sendo também divulgado para os funcionários régios e os demais delegados da Coroa espalhados pelas colônias intitulado Breves Instruções aos correspondentes da Academia das Ciências de Lisboa sobre as remessas dos produtos e notícias pertencentes à História da Natureza para formar um museu nacional. Não se sabe exatamente a sua autoria, mas supõe-se ser dos ex-alunos de Vandelli, àquela altura trabalhando como naturalistas no gabinete de história natural da Ajuda. Trata-se de um material técnico bem sintético, composto por quatro seções que instruem a melhor forma de conservar os 5 COLLINI, S. & VANNONI, A. Op. cit. p.xxiii. PEREIRA, M. R. De M. & DA CRUZ, A. L. Da R. B. O viajante instruído: os manuais portugueses do Iluminismo sobre métodos de recolher, preparar, remete, e conservar os productos nacionais. In: Doré, Andréa e Santos, Antonio Cesar de Almeida (org.), Temas setecentistas. Governos e populações no Império Português, Curitiba, UFPR/CSHLA - Fundação Araucária, 2009. p. 243. 6 102 espécimes naturais para que não sejam corrompidos quando remetidos para o Museu Real. Em 1781, também foi redigido um manuscrito, não publicado, intitulado Méthodo de Recolher, Preparar, Remeter, e Conservar os Productos Naturais. Segundo o plano que tem concebido, e publicado alguns Naturalistas, para o uso dos Curiosos que visitam os sertões, e costas do Mar. Esse material é assinado por ―Naturalistas‖, embora alguns autores atribuam sua autoria a Alexandre Rodrigues Ferreira, já que a grafia do documento é a mesma do naturalista. Esse manual é dividido em quatro partes e é estritamente técnico no sentido de orientar o público mais amplo para que os espécimes da natureza sejam recolhidos da melhor forma possível e não fossem corrompidos antes de chegarem ao Gabinete de História Natural. Já em 1783, escrito por um doutor coimbrão formado em Leis, ocorreu a edição do Compêndio de Observações que formão o plano da Viagem Política, e Filosófica que se deve fazer dentro da Pátria. José Antonio de Sá divide sua obra em três partes e cada uma delas contém inúmeros capítulos que vão desde o elogio da viagem, passando pelos objetos a serem observados até os modos de preparar e remeter os espécimes para o Museu. Por fim, há ainda outro manual intitulado Methodo de fazer observaçoens e exames necessarios para o augmento da Historia Natural, com os meios de preparar, conservar, e dispor nos Museos os diversos productos da Natureza de Agostinho José Martins Vidigal. Trata-se de uma compilação encomendada por Vandelli para organizar em um único manual os principais conteúdos das principais memórias instrutivas acerca da observação da natureza e da coleta dos espécimes dos três reinos naturais. São diversos os autores mencionados por Vidigal que serviram de referência para a composição de sua compilação, como Duhamel, M. Marvye, M. Reamur, David Hultman, Eric Anders Nordeblad, John Coackley Lettsom, D. Casimiro Gomes Ortega e o próprio Vandelli. Essas menções indicam uma amostra da produção internacional sobre instruções de viagem que estava sendo lida em Portugal naquele momento.7 Esse manuscrito é composto de duas partes que, por sua vez, subdividem-se em diversos capítulos. Um aspecto importante no exame desses manuais portugueses é o da organização de sua estrutura textual. Em Vandelli, temos dez capítulos subdivididos em determinado número de parágrafos e seus temas correspondem mais ou menos à ordem da Instructio Peregrinatoris de Geographica, Physica e Terrae. Na seção Do Conhecimento Fisico, e Moral dos Povos, o autor apresenta instruções gerais para a observação da geografia local como montanhas, campos, praias, rios e para a medição da latitude e longitude. Acrescenta nessa mesma seção instruções para notar aspectos sociais da população local como sua agricultura, comércio, exército, arquitetura, instituições, religião, costumes e hábitos. Essa aproximação entre natureza e sociedade que permeia o campo de uma geografia ainda não bem compartimentada é típica do pensamento fisiocrata em que, para uma análise do progresso social, era preciso aproximar as leis da natureza das atividades econômicas humanas. Em seguida, nas seções Do Ar e De que deve observar principalmente o Naturalista nos Lugares Beira Mar, o mestre passa às instruções 7 PEREIRA, M. R. De M. & DA CRUZ, A. L. Da R. B. Op. Cit. P. 246. 103 de cunho físico, como o exame do ar, ventos, fenômenos elétricos e apresenta um parágrafo acerca da saúde dos habitantes alertando que ―as doenças mais raras principalmente as Idemicas, e os Medicamentos domesticos que os naturais do Paiz tem descuberto serem os mais especificos para estas, ou aquellas doenças, constituem hum dos objectos mais importantes da Medicina.‖8 Em Vandelli, essa abertura ao outro e aos seus saberes particulares é imprescindível para a construção do conhecimento próprio das viagens-filosóficas e é também um aspecto comum às instruções de Sá. Na segunda parte de seu compêndio, por exemplo, no primeiro capítulo, Das qualidades do Viajante, o autor indica que o viajante deve ser ―capaz de se insinuar na vontade dos Póvos, e das Gentes, de que há de indagar, e conhecer infinitas cousas‖.9 Em parte anexa, intitulada Advertencias, há uma seção denominada Conversaçaõ na qual o viajante é instruído a informar-se com os habitantes locais sobre quaisquer coisas que desejasse saber, embora fosse preciso muito discernimento por parte do inquiridor, já que as ―pessoas iliteradas naõ poderáõ referir as cousas com a mesma critica, que as Doutas‖.10 Embora tratada por diferentes capítulos temáticos, no primeiro caso através da medicina, e no segundo pelo viés da oralidade, a comunicação com os habitantes locais supõe ser ferramenta crucial para uma melhor eficácia do aproveitamento da viagem. Nas instruções prévias de viagem francesas, o aprendizado da língua local aparece como recurso essencial para a realização do trabalho do viajante, sem o qual é impossível travar qualquer tipo de contato tampouco atribuir aos lugares e objetos naturais a sua exata denominação.11 No entanto, as instruções portuguesas, com exceção de um breve parágrafo em Vidigal, não fazem qualquer menção à aprendizagem da língua estrangeira e isso deve ser explicado pelo fato dos portugueses restringirem suas viagens de exploração às suas próprias colônias ou a domínios já estabelecidos, ao contrário dos franceses que empreenderam viagens rumo a terras desconhecidas. Contudo, vejo nesse aspecto um traço de formação importante para a construção do viajante-naturalista. Retornando à dissertação de Vandelli, as próximas seções do manual seguem a ordem clássica de Lineu, a saber, os reinos naturais da Mineralogia, Botânica e Zoologia, da mesma forma que também aparecem nas Instructio Peregrinatoris como Lithologica, Botanica e Zoologica. Em seguida, finaliza com uma seção específica sobre preparação de animais intitulada Preparaçaõ de Animais. Procurando compará-los, a semelhança entre os dois manuais é visível, o que se explica pela fato da obra de Nordeblad ser uma referência para diversos manuais, não somente em Portugal como em outros países, e também pelo fato de Vandelli ser discípulo e correspondente de Lineu. Nas Instructio Peregrinatoris a indicação dos objetos a serem observados é feita basicamente pela citação e não chegam nem a formar parágrafos com frases 8 VANDELLI, D. Viagens Filosoficas ou Dissertaçaõ sobre as importantes regras que o Filosofo Naturalista nas peregrinações deve principalmente observar, 1779. Academia das Ciências de Lisboa, série vermelha 405. 9 SÁ, J. A. De. Compêndio de Observações que formam o plano da Viagem Política e Filosófica que se deve fazer dentro da Pátria. Lisboa: Officina de Francisco Borges de Sousa, 1783. p. 46. 10 SÁ, J. A. De. Op. cit. p. 203. 11 COLLINI, S.; VANNONI, A. Op. cit. p.xxvii. 104 mais ou menos fluídas tal como em Vandelli. Há ali um capítulo específico, denominado Oeconomica, em que o autor indica o uso a partir do qual os três reinos da natureza devem ser estudados, tendo em vista sua aplicação para o homem. Essa concepção utilitária da natureza já aparece generalizada no próprio tratamento que Vandelli e os outros manuais portugueses dão à natureza, confirmando a noção de economia da natureza de Lineu, a essa altura, como já imbuída no próprio discurso da ciência natural na segunda metade do XVIII e nas instruções científicas de viagem. Já procurando incluir a compilação de Vidigal no entrelaçamento com os manuais de Nordeblad e Vandelli, alguns aspectos devem ser notados. Verifica-se de imediato que naquele material há sete capítulos que inicialmente seguem a mesma ordem de temas de Vandelli, como, por exemplo, no primeiro capítulo, Das observaçoens Fisico-Geograficas, em que apresenta instruções gerais para a indicação de latitude/longitude e para a observação dos montes, rios, campos, lagoas, além de situação das fronteiras naturais entre regiões como portos, fozes e barras. O segundo capítulo, Das observaçoens Fisicas, concentra instruções para os fenômenos do ar como temperatura, direção dos ventos, furacões e redemoinhos. Além disso, inclui orientações para avaliar as condições das águas em regiões costeiras como nas barras, golfos, portos e enseadas; nos mares é preciso observar as enchentes, fluxos, rios que neles deságuam e nos rios considerar sua força, fontes e materiais depositados. Pode-se então perceber a semelhança dos objetos indicados tanto por Vidigal como por Vandelli e resumir que o segundo capítulo do manual de Vidigal pode ser entendido como uma síntese dos conteúdos referentes aos capítulos Do Ar e De que deve observar principalmente o Naturalista nos Lugares Beira Mar do manual do mestre italiano. Um aspecto interessante de Vidigal é que ele apresenta em capítulo específico denominado Da Applicação dos productos dos trez Reynos ao uso da Vida as possibilidades de aproveitamento econômico que a natureza oferece ao homem, da mesma forma que Nordeblad faz no capítulo Oeconomica. Embora nessa parte Vidigal tenha apresentado um conteúdo muito mais reduzido do que Nordeblad e as divisões entre os reinos animal, vegetal e mineral não sejam colocadas em itens específicos, a ordem dos objetos listados segue basicamente a mesma disposição. Outro ponto interessante na compilação de Vidigal é inclusão de dois capítulos intitulados Da Observação das Linguas, Religião, Costumes e Obras da Antiguidade e Do Comercio, Manufaturas, Artes e Agricultura, em que orienta o viajante a atentar para aspectos sócio-culturais das populações locais como religião, cerimônias, templos, edifícios, monumentos, vida doméstica e história, além de dados da economia da natureza como as formas de cultivar a lavoura, instrumentos da terra, matérias utilizadas na pintura, vestimenta, etc. Embora tratados em capítulos exclusivos, o conteúdo desses tópicos não difere muito da seção Do Conhecimento Fisico, e Moral dos Povos do manual de Vandelli, embora seja mais abrangente por incluir instruções para observação dos livros sagrados, traduções da bíblia, além do ―exame dos povos 105 que usão ainda hoje da circuncizão.‖12 Também merece atenção o fato do manual de Vidigal contemplar um capítulo denominado Do Sustento e Doença dos Povos, tema de considerável importância para o avanço da medicina como já havia feito menção Vandelli. Nenhum outro manual havia incluso uma seção específica para isso, o que indica uma tendência a ampliação da abrangência de conhecimentos que o viajante-naturalista deveria possuir. Se nos séculos anteriores as tarefas de naturalista eram exercidas majoritariamente por médicos, no século XVIII vai-se formando uma categoria profissional de viajante-naturalista com estatuto próprio. Contudo, por não terem formação médica, as instruções visavam compensar as habilidades desse novo naturalista também abrangendo conhecimentos gerais de medicina. Voltando a Vidigal, ali estão contidas orientações para a observação do ar e das águas, geralmente associadas às causas de doenças. Para isso seria preciso observar os costumes dos povos e a maneira como fazem dos seus poços e rios, além da forma como tratam suas doenças ou procuram evitá-las. Outra causa associada é a comida. Assim, é preciso verificar os hábitos alimentares, pois eles podem indicar a influência da dieta no perfil físico e das doenças que estão sujeitos. Voltando um pouco ao manual de Vandelli, outro aspecto que lhe dá autenticidade está na seção denominada Da necessidade dos Diarios e Methodo de os fazer. Em quatro parágrafos o autor enfatiza a importância de se escrever diários, pois ―naõ basta que o Naturalista conheça os productos da Natureza, tambem he necessario que elle assine os diversos lugares do seu nascimento, os caminhos e jornadas que fez nas suas peregrinações.‖13 Essa tarefa técnica da viagem ganha destaque nas instruções de Vandelli, já que trata-se do primeiro capítulo de seu manual, ao contrário do compêndio de Sá, em que os itens referente aos diários só aparecem em capítulo anexo denominado Advertencias. Sá sugere que o ato de escrever seja imediato ao ato de observar, pois o viajante não deve se fiar apenas na memória; também propõe uma forma de organizar o diário conforme as diversas subdivisões de cada matéria e de acordo com os dias do mês. Um ponto exclusivo no compêndio é o Da Descripçaõ, em que o autor adverte para que a escrita do diário seja objetiva, breve e sem superfluidade de palavras nem redundâncias que possam obscurecer o objeto a ser descrito. Essa valorização da escrita não é encontrada em nenhum outro manual português, inclusive no de Vidigal, podendo ter sido uma inovação sua já que, por ser formado em Leis, conhecia bem os meandros da língua, da escrita e da interpretação, o que lhe causaria maiores preocupações acerca disso. Por outro lado, também pode ter sido apenas inspirado em algum outro autor ou manual estrangeiro, embora não haja evidências nesse momento a confirmar. Da mesma forma que aparece no manual de Vandelli, em Sá a concepção utilitária da natureza assume a forma de um tratado político-filosófico dedicado ao príncipe regente D. João e destinado aos naturalistas, amadores e curiosos, a fim de convocar todos a contribuírem para o 12 VIDIGAL, Agostinho José Martins. Methodo de fazer observaçoens e exames necessarios para o augmento da Historia Natural, com os meios de preparar, conservar, e dispor nos Museos os diversos productos da Natureza. Biblioteca Nacional de Lisboa, cód. 8520. 13 VANDELLI, D. Op. cit. 106 aumento da História Natural e, conseqüentemente, para o enriquecimento da Nação. Seu manual possui uma organização um tanto distinta das outras obras. O compêndio se divide em três partes: a primeira é denominada Da utilidade da viagem: necessidade, que tem Portugal de ser viajado: e da Economia, a segunda Das obrigaçoens do Viajante na Viagem Politica e Filosofica e a terceira De preparar, e remetter os productos naturaes para o Museo Nacional. Na primeira parte, Sá trata de fazer uma apologia da viagem, demonstrando os seus benefícios e apontando as riquezas da nação e a importância de um país ser viajado para o seu enriquecimento e desenvolvimento. Influenciado pelas idéias de economia da natureza de Lineu, a peculiaridade do manual de Sá reside na extensa e fundamentada apologia que faz da viagem, marcando então uma exclusividade de sua obra. No capítulo Da Economia, e origem das Artes define a economia como a ciência que aplica os produtos naturais para o uso da vida e traça um panorama desde Moisés, passando pelos egípcios, gregos e fenícios até alguns povos da América e África, de como esses povos se utilizaram dos recursos naturais para comer, vestir, proteger-se das intempéries, construírem ferramentas e diversas outras invenções. Nesses termos, afirma Sá que ―o nosso paiz, que abunda tanto em riquezas notaveis, deve Viajar-se, e trabalhar-se a fim de constituir os nossos interesses Economicos, e de formar as ventagens de hum pomposo Comercio.‖14 Seu manual também apresenta uma particularidade na segunda parte, que é a de incluir em item específico alguns dados referentes à qualidade dos viajantes. Este deve ser um sujeito saudável, de sentidos agudos, vista perspicaz, cheiro sensível e robusto; quanto aos ―dotes da alma‖, deve ser ágil, perspicaz, dócil, justo e prudente; deve ser um sujeito conhecedor das leis do direito natural, público, etc.; por fim, deve ser instruído na geografia, aritmética, geometria, trigonometria plana, história natural, física e química. Essa pormenorização específica das qualidades que o viajante deve ter também é exclusiva de suas instruções, já que o manual de Vandelli, mais voltada para a atividade prática de campo, a compilação de Vidigal e o manual da Academia, mais técnico, não abordam esse tema. No contexto geral europeu, a indicação das qualidades do viajante aparece em The Naturalist's and Traveller's Companion (1772), de John Coakley Lettson, junto às instruções para o levantamento exaustivo de dados sociais, o que indica ser uma forte influência para Sá, já que essa é também a proposta desenvolvida no compêndio. Atentando agora para o texto da Academia de Ciências de Lisboa, esse manual, por sua vez, assume mais a forma de um panfleto técnico e orienta-se para a prática de recolhimento e remessa de produtos para o Museu em Lisboa sem que sejam deteriorados durante o transporte. Apresenta quatro seções que seguem a classificação lineana de reino animal, vegetal e mineral e mais uma intitulada Das noticias pertencentes á Historia Natural, que ―dizem relação immediata aos productos da natureza, que remettem para o Museo; ou tem por objecto as coisas mais notaveis e curiosas do terreno, em que se achão os ditos productos, e os costumes dos povos que 14 SÁ, J. A. De. Op. cit. p. 34. 107 o habitão.‖15 No geral, essas instruções foram tiradas do manual de Vandelli, embora a disposição das seções esteja trocada, pois antecipa os métodos de preparar e remeter em três seções (animal, vegetal e mineral) e coloca as instruções para observação por último. Há nessa última seção uma sugestão de organização dos objetos observados pelos naturalistas: ―para procederem sem confusão, podem ajuntar debaixo de differentes titulos as suas observações; separando v.g. as que pertencem á terra, as que pertencem ao ar, e as que pertencem á agoa.‖16 Essa divisão em terra, ar e água remonta às primeiras instruções propriamente científicas do final do século XVII de Robert Boyle17 e John Woodward18 em que os lugares naturais estão constituídos por ar, terra e costas (ou praias) no primeiro caso, e ar, água e terra no segundo. Também é a divisão utilizada por Vandelli (Ar, Beira Mar e Físico), embora acrescente o conhecimento moral dos povos junto ao ―conhecimento físico‖. Assim, as Breves Instrucções obedecem ao mesmo texto de Vandelli, embora de forma muito mais simplificada, e alguns trechos são praticamente transcrições.19 Na última parte do opúsculo, a ordenação das observações obedece à mesma ordem da dissertação de Vandelli. Os itens que seguem são a medição da latitude/longitude e a situação do céu e do clima, os montes, a natureza dos terrenos, os homens e a estrutura interna da terra; depois o ar, sua qualidade, meteoros e epidemias que propagam; em seguida, a água, rios, a profundidade dos mares e suas costas. Em suma, trata-se de três seções extraídas da dissertação do mestre italiano (Do Conhecimento Fisico, e Moral dos Povos, Do Ar e Do que se deve observar principalmente o Naturalista nos Lugares Beira Mar) e condensadas em quatro largos parágrafos. Outro aspecto nas Breves Instrucçõens está em aglutinar em uma categoria, denominada moral dos povos, uma série de orientações do que se deve observar no país em que se está viajando que nada mais é do que uma parte estendida das indicações de Vandelli na seção Do Conhecimento Fisico, e Moral dos Povo, constando de dados da religião (divindades, cultos, seitas, funerais, sacrifícios), política (leis, justiça, contratos, guerras), economia (habitação, trajes, alimentação), artes (agricultura, caça, pesca, manufatura, animais domésticos) e tradições (origem, conservação, monumentos). 15 Breves instrucções aos correspondentes da Academia das Sciencias de Lisboa sobre as remessas dos produtos e notícias pertencentes a historia da natureza para formar um Museo Nacional. Lisboa : Tipografia da Academia, 1781. 16 Breve instrucçõens... Op. cit. 17 BOYLE, R. General heads for the natural history of a country, great or small: drawn out for the use of travellers and navigators. London: printed for John Taylor and S. Holford, 1692. 18 WOODWARD, J. Brief Instructions for making observations in all parts of the world, as also for collecting, preserving and sending over Natural Things, being an attempt to settle an universal correspondence for the advancement of knowledge both Natural and Civil. London: Richard Wilkin, 1696. 19 O entrelaçamento desse texto com o de Vandelli e o manual do Naturalistas, Methodo de Recolher, Preparar e Remeter, e Conservar os Productos Naturais. Segundo o plano que tem concebido, e publicado alguns Naturalistas para o uso dos Curiosos que visitam os sertões, e costas do Mar, está em PEREIRA, M. R. De M. & DA CRUZ, A. L. Da R. B. O viajante instruído: os manuais portugueses do Iluminismo sobre métodos de recolher, preparar, remete, e conservar os productos nacionais. In: Doré, Andréa e Santos, Antonio Cesar de Almeida (org.), Temas setecentistas. Governos e populações no Império Português, Curitiba, UFPR/CSHLA - Fundação Araucária, 2009.p.241-251. 108 Acerca do manual dos Naturalistas, a proposta estritamente prática das Breves Instrucções se repete. Trata-se de fornecer métodos para a prática de recolhimento, preparo, remessa e conservação dos espécimes naturais. Logo em seu início são expostos alguns pressupostos que justificam a redação das instruções e um dos objetivos centrais é o de ―ensinar aos Curiozos os meios de concorrerem para o Gabinete Nacional.‖20 Isto confirma a preocupação dos naturalistas com a divulgação de instruções que pudessem orientar o público leigo interessado em participar do processo de catalogação da Natureza e enriquecimento do Museu de História Natural. De fato a mobilização de outros agentes envolvidos no processo de conhecimento da natureza dos domínios coloniais caracterizou um esforço das principais instituições ligadas diretamente aos cientistas interessadas em articular uma rede de informações.21 O manual dos Naturalistas é composto por quatro partes que se subdividem em alguns capítulos e apresenta em cada um deles uma seção dedicada aos instrumentos necessários para que a técnica de tratamento dos objetos seja bem-sucedida. Um aspecto interessante desse manual é que ele procura se estruturar textualmente de forma sistemática com base na taxonomia lineana. As partes contém capítulos que, por sua vez, se subdividem em tópicos referentes às classes pertencentes aos Reinos animal, vegetal e mineral. Por exemplo, a primeira parte do manual é intitulada Methodo de Recolher os Animais, Plantas e Minerais e está subdivida em quatro capítulos denominados Reino Animal, Reino Vegetal, Reino Mineral e Instrumentos de Recolher; dentro do primeiro capítulo estão organizados tópicos que seguem a ordem ―quadrúpedes‖, ―aves‖, ―anfíbios‖, ―peixes‖, ―insetos‖ e ―vermes‖. Esse tipo de classificação serviu de base para a estruturação textual do manual, embora não seja perfeita. Na segunda parte, Modo de preparar as substancias dos três Reynos, a divisão em classes muitas vezes se perde para instruções de caráter generalizante, como por exemplo, no caso dos reinos vegetal e mineral. Ao invés desses capítulos estarem subdivididos em ―árvores‖, ―arbustos‖, ―ervas‖, ―gramas‖, ―fetos‖ e ―algas, fungos e musgos‖ ou em ―pedras‖, ―minas‖, ―sais‖, ―bitumes‖ e ―fosseis‖, essas classes são muitas vezes confundidos no mesmo parágrafo ou então não especificadas, sendo, no primeiro caso, utilizada a expressão genérica de ―plantas‖ e, no segundo, a instrução geral de que seja feita o polimento de uma amostra e a outra seja mantida no estado bruto. Outro ponto que chama a atenção no manual dos Naturalistas é a ênfase em determinados capítulos em detrimento de algumas poucas linhas para outros. É o caso, por exemplo, do terceiro capítulo da primeira parte sobre o reino mineral em que numerosos e largos parágrafos referentes às minas e aos sais são redigidos, enquanto algumas poucas linhas são escritas para as pedras e bitumes, o que sugere uma desproporção entre os estágios de conhecimento e de interesse das 20 Méthodo de Recolher, Preparar, Remeter, e Conservar os Productos Naturais. Segundo o plano que tem concebido, e publicado alguns Naturalistas, para o uso dos Curiosos que visitam os sertões, e costas do Mar. Lisboa: 1781. 21 Sobre as redes de informações científicas, ver: DOMINGUES, Ângela. Para um melhor conhecimento dos domínios coloniais: a constituição de redes de informação no Império português em finais de Setecentos. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, vol. VIII (suplemento), 823-28, 2001 109 classes naturais em questão. Ainda no exame desse manual, outro aspecto que se sobressai é a sua dimensão pedagógica em relação ao tratamento da natureza. Já que se trata de um material destinado aos amadores, fica evidente também que certos hábitos tradicionais deveriam ser corrigidos pelas instruções a fim de que a História Natural pudesse avançar. Na primeira parte do manual, sobre o método de recolha dos animais, há a distinção entre os sujeitos caçadores, que se utilizam da espingarda para abater sua presa, dos naturalistas metódicos e sistemáticos em relação à captura dos animais. O método dos primeiros, próprio da caça por divertimento ou necessidade alimentar, acaba por dilacerar a presa e impossibilitar sua reconstituição, o que inviabilizaria sua exposição em um gabinete, enquanto os segundos esforçam-se por manter a forma externa do animal intacta. Para isso seria preciso capturar o animal com cordas, vazar o seu sangue e em seguida preenche-lo com substâncias e conservantes para que pudesse ser exposto da forma mais próxima do original. Outra maneira era deixar o animal morrer ou aplicarlhe algum veneno. Nesse sentido é que as instruções incutem uma nova educação em relação ao tratamento do homem com a natureza, pois lhe sugerem uma postura mais sistemática. Por isso mesmo também há uma particularidade nesse manual que é a inclusão de seções sobre instrumentos de trabalho. Trata-se de listar ferramentas que ajudarão o naturalista a capturar os espécimes de forma eficaz e com os devidos cuidados como laços, gaiolas, alçapões, tesouras, agulhas, maçaricos, etc. Tomando por base esses cinco manuais, o que se procura evidenciar é o estado de arte desse gênero em sua tradição literária. Produzidos entre finais da década de 1770 e início de 1780, as instruções científicas portuguesas acompanham a evolução geral de produção de manuais, tomando por base os textos clássicos de Nordeblad (1759), Lettsom (1772) e até mesmo aqueles anteriores a esse período (Boyle e Woodward). Percebe-se uma clara influência das Instructio Peregrinatoris sobre o manual de Vandelli. Isto é visível na estruturação temática de seu texto, ou seja, a forma como sistematiza os espaços naturais em geografia física, terra e beira-mar e também na maneira como organiza a ordem dos reinos da natureza (Mineral, Vegetal e Animal), embora inclua um capítulo específico para insetos. Apresenta também uma especificidade ao propor um capítulo no início da dissertação específico para orientar a feitura de diários. Sendo assim, esse texto de Vandelli também serviu como referência para o manual da Academia de Ciências de Lisboa, para o Methodo de Recolher e para o Methodo de fazer observaçoens, tendo apenas sua organização temática invertida e seu conteúdo sintetizado ao máximo. Embora as Breves Instrucçõens mantenham os modos de preparar os objetos do reino animal, vegetal e mineral em capítulos específico, reduz a organização do manual de Vandelli referente aos capítulos da geografia física e moral dos povos, ar e beira-mar em apenas uma seção. Já o Methodo de Recolher, embora também seja mais prático, o que se evidencia por uma tentativa de atender a uma sistematicidade de divisão, não foi aprovado pelo mestre Vandelli e nem chegou a ser publicado. De fato, apresenta algumas limitações técnicas, mas também contém particularidades como tópicos para os instrumentos de recolha e preparo, além de possuir um 110 cunho mais pedagógico e padronizador na mobilização dos agentes envolvidos no desenvolvimento da história natural. Em Vidigal essa busca por uma sistematização parece ser mais bem sucedida e contempla os principais tópicos dos outros manuais portugueses, além de apresentar algumas especificidades, fruto de sua vasta referência bibliográfica, como capítulos relativos à medicina e tópicos referentes ao utilitarismo. Já o compêndio de Sá é dotado de algumas particularidades por tratar dos aspectos políticos da viagem e fundamentá-la através de vários modos explicativos e apresentar capítulos específicos como a conversação, a descrição e as qualidades do viajante. Sua obra segue uma disposição distinta dos outros manuais e seu tratamento dos temas é pautado em uma orientação teórica mais abrangente, embora menos técnica. Contudo, na parte referente ao modo de preparar e remeter os objetos naturais segue a mesma cartilha das instruções de Vandelli e da Academia. O que se procura avaliar acerca das instruções científicas portuguesas é justamente sua filiação a uma ciência moderna em vias de se auto-afirmar enquanto modelo explicativo total dos fenômenos naturais no século XVIII. De forma que essa ciência estava pautada na observação, construir um método universal que pudesse padronizar o olhar in loco para o reino natural e, consequentemente, extrair dali seus benefícios para o reino civil, era o grande projeto do iluminismo. Realizar um inventário da natureza consistiria em empreender viagens de exploração pelo mundo a fim de coletar os espécimes que seriam alojados no museus de história natural e, para que a empresa fosse bem sucedida, os naturalistas deveriam ser instruídos da melhor forma possível a fim de evitar gastos e desperdícios e tornarem-se além de naturalistas, viajantes. Recolher, preparar, remeter e conservar são procedimentos técnicos abarcados em um empreendimento de dimensões que extrapolam esse âmbito meramente tecnicista e requerem a construção de um modelo de viajante-naturalista habilitado a lidar com todas as circunstâncias do mundo natural e social. Da Universidade para a Natureza e desta para o Museu são construídos padrões, sistemas e modos de operacionalidade que formam o arcabouço teórico-metodológico do viajante-naturalista. Se os traços de estilo da própria construção discursiva dos textos de instruções são elementos formadores desse sujeito operante e do seu olhar, esses mesmos traços acabam também por fundamentar a base da própria construção escrita do relato de viagem. Já é sabida, por exemplo, a produção de relatos de viagem por escritores estrangeiros do século XIX acerca da natureza brasileira em que a retórica romântica forjou as bases de tal conhecimento. Da mesma forma, se tal relação entre discurso e natureza reflete uma dimensão histórica própria do período avaliado, no caso desse artigo, acerca do final do século XVIII, está justificado o exame desses manuais. 111 BIBLIOGRAFIA Breves instrucções aos correspondentes da Academia das Sciencias de Lisboa sobre as remessas dos produtos e notícias pertencentes a historia da natureza para formar um Museo Nacional. Lisboa : Tipografia da Academia, 1781. COLLINI, S. & VANNONI, A. I testi di istruzioni scientifiche per i viaggiatori aspetti di um genere das seicento al novecento. In: BOSSI, Maurizio e GREPPI, Cláudio (orgs.). Viaggi e scienza; Le istruzioni scientifiche per i viaggiatori nei secoli XVII-XIX. Firenze: Leo S. Olschki, 2005. DOMINGUES, Ângela. Para um melhor conhecimento dos domínios coloniais: a constituição de redes de informação no Império português em finais do Setecentos. História, Ciências, Saúde Manguinhos, v.8(supl.), 2001. p.823-838. KURY, Lorelai. Homens da ciência no Brasil: impérios coloniais e circulação de informações (1780-1810). História, Ciências, Saúde - Manguinhos, Rio de Janeiro, v.11.(supl.), 2004. p.109129. Méthodo de Recolher, Preparar, Remeter, e Conservar os Productos Naturais. Segundo o plano que tem concebido, e publicado alguns Naturalistas, para o uso dos Curiosos que visitam os sertões, e costas do Mar. Lisboa: 1781. PATACA, E. M.; PINHEIRO, R. Instruções de viagem para a investigação científica do território brasileiro. Revista da SBHC, RJ, v. 03, n. 01, p. 58-79, 2005. PEREIRA, M. R. De M. & DA CRUZ, A. L. Da R. B. O viajante instruído: os manuais portugueses do Iluminismo sobre métodos de recolher, preparar, remete, e conservar os productos nacionais. In: Doré, Andréa e Santos, Antonio Cesar de Almeida (org.), Temas setecentistas. Governos e populações no Império Português, Curitiba, UFPR/CSHLA - Fundação Araucária, 2009.p.241251. SÁ, J. A. De. Compêndio de Observações que formam o plano da Viagem Política e Filosófica que se deve fazer dentro da Pátria. Lisboa: Officina de Francisco Borges de Sousa, 1783. SIMON, W. J. Scientific expeditions in the portuguese overseas territories (1783-1808). Lisboa: Instituto de Investigação Tropical, 1983. VANDELLI, D. Viagens Filosoficas ou Dissertaçaõ sobre as importantes regras que o Filosofo Naturalista nas peregrinações deve principalmente observar, 1779. Academia das Ciências de Lisboa, série vermelha 405. 112 O PRISMA ATLÂNTICO COMO PONTO DE PARTIDA: A REORIENTAÇÃO DA PRODUÇÃO HISTORIOGRÁFICA BRASILEIRA ACERCA DO TRÁFICO TRANSATLÃNTICO DE ESCRAVOS E DA POLÍTICA EXTERNA IMPERIAL 1 Gilberto da Silva Guizelin Mestrando do PPGHS/UEL Bolsista CAPES [email protected] RESUMO: A década de 1980 representou, de modo geral, um momento de inflexão para a historiografia brasileira. Ao alcançar um novo estado de amadurecimento, com base em múltiplas e diferentes abordagens teóricas e metodológicas, a historiografia nacional passou por uma profunda reavaliação de seus principais paradigmas. Pode-se afirmar que os estudos centrados na análise dos episódios mais célebres e conhecidos da História nacional, o tráfico negreiro realizado entre a África e o Brasil em mais de 300 anos de comércio escravagista, foram dos que mais se enriqueceram. Mas outros campos de pesquisa, antes pouco vislumbrados ou abordados, também foram beneficiados. A evolução dos estudos voltados à investigação dos caminhos percorridos pela política externa nacional é um bom exemplo disto. Neste trabalho visamos apresentar a perspectiva fornecida pelo prisma atlântico, ou seja, de uma modalidade de análise, interpretação e escrita da história baseada na associação direta entre história, tempo e espaço. Mais precisamente, como os acontecimentos, processos e fenômenos encerrados e compartilhados, especificamente, entre as comunidades margeadas pelo Atlântico inferiram nessas duas áreas historiográficas – sobre o tráfico negreiro e acerca da política externa nacional – que em um trabalho maior ainda em desenvolvimento encontram-se entrecruzadas. Palavras-chave: Prisma Atlântico; Tráfico Transatlântico de Escravos; Política Externa Imperial. CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES No presente trabalho centramos nossas atenções em um dos assuntos mais célebres da História do Brasil – o tráfico transatlântico de escravos – junto com um dos temas mais vislumbrados do atual momento pelo qual passa a historiografia nacional – a política externa imperial. O elo teórico, metodológico, enfim, analítico que une a temática é a relação próxima que suas respectivas publicações desenvolveram nos últimos anos com as perspectivas investigativas levantadas pelos Estudos Atlânticos. Em outras palavras, por uma modalidade de escrita da história centrada na historicização dos fatos, fenômenos e/ou personagens pertencentes, atuantes e circunscritos ao ―Mundo Atlântico‖ 2. A relação entre a produção acerca do comércio escravista oceânico e os paradigmas atlânticos não é difícil de delimitar. Trata-se de um esforço cada vez mais aparente em localizar, investigar e trazer luz experiências e interconexões de gentes, episódios e/ou fenômenos até 1 Este trabalho corresponde a uma pesquisa maior ainda em desenvolvimento e intitulada O Comércio de Almas e a Política Externa Imperial: A Diretriz Atlântico-Africana da Diplomacia Brasileira, 1822-1856, orientado pelo professor José Miguel Arias Neto. 2 Acerca da noção de ―Mundo Atlântico‖ ver: THORNTON, John. A África e os africanos na formação do mundo atlântico, 1400-1800. Tradução de Marisa Rocha Motta – Rio de Janeiro: Elsevier/Editora Campus, 2004. Sobretudo as páginas 41 à 43. 113 então pouco valorizados e/ou conhecidos. A relação entre a produção acerca da política externa imperial com os mesmos preâmbulos parece, no entanto, um tanto quanto imperceptível. Mas ela existe! E, quem sabe, não ganhe maior visibilidade ao lembrarmos que no período que ao longo da primeira metade do Oitocentos esteve à diplomacia imperial a serviço, quase que exclusivo, da questão do tráfico negreiro fato que, por si só, coloca a produção historiográfica deste campo como uma das beneficiárias diretas do desenvolvimento de tal modalidade de pesquisa. Nas páginas e linhas que se seguiram, abordaremos de uma maneira geral, sem escolher um ou outro trabalho e/ou autor em especial, como este prisma epistemológico tem ajudado na reorientação, observada nas últimas décadas, da produção historiográfica brasileira acerca do tráfico transatlântico de escravos e da política externa imperial. O PRISMA ATLÂNTICO: SUA EMERGÊNCIA E SUAS PROPOSIÇÕES Segundo Beatriz Gallotti Mamigonian3, entre os recortes temáticos situados no cerne desta modalidade encontram-se os estudos que privilegiam a questão do desenraizamento da terra natal e da ressocialização em território estrangeiro, respectivamente, das sucessivas levas de homens, mulheres e crianças comercializados, vendidos e transportados através do Atlântico entre meados dos séculos XVI e XIX4. Contudo, como a própria Mamigonian nos diz, este é só o plano central e unificador dos interesses dispersos e multidisciplinares engajados nesta ampla perspectiva de investigação5. Que é também, tal qual expõem os norte-americanos Peter Linebaugh e Marcus Rediker: [...] acima de tudo, uma história das origens do capitalismo e da colonização, do comércio mundial e da construção de impérios [sendo] inevitavelmente, ―uma história do desarraigamento e da movimentação de pessoas, do fabrico e da organização e preparação transatlântica de ‗mãos‘ (...) de exploração e resistência à exploração, de como foi gasta a ‗seiva dos corpos‘ (...) de cooperação entre pessoas diferentes para alcançar os objetivos díspares de ganhar dinheiro e sobreviver [...]‖6. É, portanto, uma história da expropriação, resistência, cooperação e imposição do trabalho, da vida, de pessoas, de práticas e da violência empreendida por governos, instituições, associações e personagens inseridos num contexto coletivo e/ou, mesmo, individual. Por outro lado, no que tange o aspecto teórico-metodológico deste campo de estudo, é possível notar, ainda de acordo com Mamigonian, a realização de trabalhos que primam pela 3 MAMIGONIAN, Beatriz Gallotti. África no Brasil: Mapa de uma área em expansão. In: Topoi. Rio de Janeiro: PPGHS da UFRJ, vol. 5, nº. 9, pp. 33-53, 2004. 4 Idem, ibidem, p. 36. 5 Idem, ibidem, p. 33. 6 LINEBAUGH, Peter; REDIKER, Marcus. A hidra de muitas cabeças: Marinheiros, escravos, plebeus e a história oculta do Atlântico revolucionário. Tradução de Berilo Vargas – São Paulo: Companhia das Letras, 2008, pp. 23-24. 114 redução da escala de observação7. Neste sentido, tem-se optado por delimitar o foco de análise sob pessoas e/ou grupos étnicos diminutos inseridos em microcosmos de dimensões históricosociais singulares. Eis uma das principais razões para a concentração de estudos cujo locus de observação recaem, constantemente, sob regiões que no passado constituíram rotas privilegiadas do comércio atlântico de escravos8. A exemplo do Golfo do Benin e dos portos de Luanda, Cabinda e Benguela, na Costa Ocidental e Centro-Ocidental da África respectivamente, assim como – só para nos limitarmos ao âmbito do Atlântico Sul – da Baía de Todos os Santos e da Baía de Guanabara, em Salvador e no Rio de Janeiro. Concomitante a isto, tem-se realizado também nestas mesmas regiões o arrolamento de múltiplos e variados tipos de documentação, encobrindo desde registros de embarcados e desembarcados até registros de batismos, casamentos e obituários9. Resultando, ao fim, no desenvolvimento em série de estudos de casos assim como de trajetórias de vidas, sejam elas coletivas ou individuais, voltados, na maioria das vezes, à reconstituição e à redefinição dos elementos culturais transplantados, semelhantes e remanescentes de um lado a outro do Atlântico10. Portanto, não é exagero afirmar que na onda dos Estudos Atlânticos as ações, anseios e ideários dos seres humanos, ou melhor, dos agentes histórico-sociais ocupam o centro da história. Perspectiva esta, por sinal, compartilhada pela vertente da História Social do Trabalho inspirada, sobretudo, na obra A formação da classe operária inglesa (1978) de Edward P. Thompson e pela História do Cotidiano originária, por sua vez, da coletânea História da vida privada (1986) organizada e dirigida por Philippe Áries e George Duby. Ainda que com propósitos analíticos específicos, estas três linhas de investigação histórica emergentes, simultaneamente, no contexto historiográfico brasileiro do pós-1980 sugerem alguns pressupostos empíricos convergentes a respeito da preocupação em resgatar, rediscutir e redefinir as bases das relações sociais constituídas entre dominantes e dominados: (1º.) ao romperem com a premissa de que, na relação entre dominantes e dominados, os primeiros possuidores de um ―poder absoluto e ilimitado‖ de coerção conseguiriam sem empecilho ou oposição controlar e anular os últimos; (2º.) ao compreenderem que, no interior desta mesma relação há diferentes hierarquias e relações de poder e submissão que resultam ora em convergência ora em divergência de interesses entre dominantes e dominados, envolvendo, portanto, espaços de negociações entre ambas as partes que precisam ser valorizados e historicizados; (3º.) ao ampliarem o entendimento do que se tinha e do que se queria por ―dominador‖ e ―dominado‖, reconhecendo que estas relações iam – e vão – além das estruturas jurídicas e institucionais internacionais (os Estados) e nacionais (governos, partidos e/ou facções políticas e 7 MAMIGONIAN, Beatriz Gallotti. Op. Cit., p. 36. Idem, ibidem, pp. 37-39. 9 Idem, ibidem, p. 39. 10 Idem, ibidem, pp. 39-42. 8 115 de classe), podendo abarcar, também, relações desenvolvidas associações, corporações e/ou sujeitos. Estas são, pois, as inquietações que desde as duas últimas décadas do século há pouco findado – o XX – têm predominado no quadro geral da historiografia nacional, em especial, no tocante a historiografia devotada especificamente à escravidão. O TRÁFICO TRANSATLÂNTICO DE ESCRAVOS: UMA REORIENTAÇÃO HISTORIOGRÁRICA De acordo com as reflexões de Ângela de Castro Gomes11, acerca, justamente, da inflexão da questão social nos modelos interpretativos contemporâneos, os trabalhos emergentes dos últimos anos que tem como foco de análise a escravidão brasileira em si, têm-se mostrado direcionados ao combate incisivo de uma série de mitos assentados, há muito, em premissas teóricas e literárias sobre a sociedade escravagista brasileira de origens, até certo ponto, ―imemoriais‖12. Desta feita, ainda segundo Gomes, tem sido possível observar nessa historiografia em particular o desenvolvimento de reflexões preocupadas em relativizar não só a face ―adocicada‖, em outras palavras, não-violenta da escravidão brasileira – oriunda de interpretações amplamente propagadas e difundidas pela academia nacional entre os anos de 1930 e 1940, que atribuíam tal caráter a uma suposta tradição de concessão de alforrias por parte de ―senhores compreensivos‖ e, em certa medida, ―agradecidos‖ para com a sua escravaria doméstica – como, também, a face ―desumana‖, logo, extremamente violenta da mesma – fruto direto da apreensão desigual das relações estabelecidas entre senhores e cativos, acentuada, em muito, pela concepção do ―escravo coisa‖, ou seja, do escravo destituído por completo de consciência em razão do estado de dominação o qual este se encontrava acometido e/ou a do ―escravo rebelde‖ posto pela mesma ausência de consciência no caminho da revolta radical contra a ordem escravagista da sociedade da qual este fazia parte13. Os desafios e as estratégias, enfrentados e desenvolvidas por esta nova historiografia são muitos. Sendo o saldo até aqui, felizmente, bastante positivo e animador. Com base nas informações que nos chegam por Herbert Klein14, por exemplo, é possível perceber que o desenvolvimento quantitativo e qualitativo de estudos preocupados com questões ligadas à etnicidade tem revelado uma nova faceta do ―comércio de almas‖ realizado entre a África e o Novo Mundo. Ao passo, que, se por um lado é certo que este rompeu com vínculos ancestrais que ligavam grupos familiares e étnicos, por outro, também é certo que este não 11 GOMES, Ângela de Castro. Questão social e historiografia no Brasil do pós-1980: Notas para um debate. In: Estudos Históricos. CPDOC/FGV, vol. 2, nº. 34, pp. 157-186, 2004. 12 Idem, ibidem, p. 163. 13 Idem, ibidem, pp. 163-166. 14 KLEIN, Herbert. Novas interpretações no tráfico de escravos do Atlântico. In: Revista de História. São Paulo: DH/FFLCH/USP, nº. 120, pp. 3-25, Jan. – Jul. de 1989. 116 conseguiu destruir por completo na memória dos negros transportados os elementos e valores que os identificavam e os distinguiam como pertencentes ou não-pertencentes de grupos étnicos e familiares – mesmo sendo este último fruto de relações fictícias de parentesco forjadas ou durante a embarcação ou após o desembarque – reconstituídos deste lado do Atlântico. O que aponta para o grande potencial dos estudos direcionados à ―prática de dar nomes‖ no Brasil Colonial e Imperial. A profusão de pesquisas voltadas às análises das relações domésticas, costumeiras e diárias, logo, da vida cotidiana desenvolvida entre senhores e cativos é outro subtema em torno da escravidão que, de acordo com Anthony John Russel-Wood15, vem causando surpresa aos pesquisadores no que se refere a base institucional da escravidão, uma vez que, esta não tem se mostrado tão imutável como até pouco tempo atrás se imaginava ser. Pois, ainda que, o senhor fosse o dono legítimo do escravo, cabendo a ele a escolha do destino que melhor lhe aprouvesse sobre o mesmo, por vezes isso não significou em aceitação imediata e absoluta por parte do cativo, que, vez ou outra tinha plena disponibilidade de realizar esforços consideráveis em ―se fazer ouvir‖. Utilizando, para tanto, ora da fuga ora das práticas regulatórias da própria instituição escravagista. Não é coincidência, portanto, que, grande parcela destes novos estudos concentre sua atenção na descrição e na verificação das experiências de vida destes indivíduos, fossem eles um negro cativo, fujão e/ou alforriado. Outro filão bastante promissor e amplamente visado pelos historiadores contemporâneos, tem sido o campo de pesquisa direcionado ao estudo dos papéis ocupacionais do trabalhador negro. O trabalho de Mary C. Karasch16 é leitura obrigatória para os interessados no estudo dos ritmos da vida do negro fora do campo. Afinal, não faz muito tempo, constatou-se que para além da plantation também havia trabalho escravo17. De fato, no Brasil Colonial e Imperial, os negros tanto escravos como libertos estiveram engajados nas mais variadas e distintas ocupações dentro e fora do campo. Sendo o espaço da urbe o locus, por excelência, da maior variação dos afazeres. Sobretudo, no que confere a ocupação feminina, tendo em vista que, tal como na África, onde as mulheres sempre estiveram habituadas e familiarizadas com o lugar do mercado, no cenário urbano brasileiro estas não só mantiveram como multiplicaram a alta proporção de sua participação em funções diversas: das amas ao alimentar bebês e cuidar de crianças à quituteiras que elaboravam e vendiam doces. Este breve sobrevôo sobre as tendências de produção mais em voga em relação a esta nova historiografia revela que, a história da escravidão e, particularmente, o seu episódio marítimo que o tráfico, vem passando por uma total renovação no que tange os seus paradigmas principais – ou aspectos fundamentais tal qual descreve Russel-Wood. Constata-se, portanto, 15 RUSSEL-WOOD, Anthony John. Através de um prisma africano: Uma nova abordagem ao estudo da diáspora africana no Brasil colonial. In: Revista Tempo. Niterói: DH/PPGH/UFF, vol. 6, nº. 12, pp. 11-50, dezembro de 2001. 16 KARASCH, Mary C. A vida dos escravos no Rio de Janeiro, 1808-1850. Tradução de Pedro Maia Soares. 1ª reimpressão – São Paulo: Companhia das Letras, 2000. 17 Idem, ibidem, pp. 99-142. 117 como já apresentado inicialmente, que a revitalização das interpretações acerca do tráfico transatlântico de escravos – em especial o realizado entre a África e o Brasil – a partir do prisma epistemológico da perspectiva de construção de uma História Atlântica não causa tanta surpresa assim. Isto porque, o tema ao mesmo tempo clássico e controverso tanto por parte da historiografia brasilianista como por parte da historiográfica brasileira. Clássico, já que, desde meados do século XX até o presente momento a temática já despertara – como, aliás, segue provocando – o interesse de inúmeros autores. E, controverso, tendo em vista que, a cada nova interpretação sucediam-se – como, aliás, ainda se sucedem – diferentes abordagens, sujeitos e explicações para sua existência e perpetuidade no tempo. A título de exemplificação, podemos recordar, rapidamente, alguns nomes de autores que têm contribuído para a renovação das investigações em torno do comércio transatlântico de escravos. Entre os brasilianistas, além de Klein, Russel-Wood e Karasch, os trabalhos mais difundidos, talvez, sejam os de Philip D. Curtin18, Richard Graham19, Robert Edgar Conrad20, Stuart B. Schwartz21, e, de David Eltis22. Já entre os pesquisadores brasileiros da ―nova geração‖ algumas das obras que mais se destacam são as de Manolo G. Florentino23, João Luís R. Fragoso24, Jaime Rodrigues25, Luís Felipe de Alencastro26, Luiz Geraldo Silva27, Flávio dos Santos Gomes28, assim como, João José Reis e Marcus José Murilo de Carvalho 29. No decorrer de nossa dissertação recorremos novamente a estes autores, fazendo, então, quando necessário uma exposição mais pormemorizada de suas argumentações, se agora os mencionamos é única e exclusivamente a fim de atentar para a amplitude da literatura acadêmica especializada sobre o tráfico transatlântico de escravos. 18 CURTIN, Philip D. The Atlantic slave trade. A census. Madison: University of Wisconsin Press, 1969. GRAHAM, Richard. A Grã-Bretanha e o início da modernização no Brasil, 1850-1914. São Paulo: Brasiliense, 1973. 20 CONRAD, Robert Edgar. Tumbeiros: O tráfico escravista para o Brasil. Tradução de Elvira Serapicos. São Paulo: Brasiliense, 1985. 21 SCHWARTZ, Stuart B. Slaves, peasants and rebels. Reconsidering Brazilian slavery. Chicago: University of Ilinois Press, 1996. 22 ELTIS, David. The transatlantic slave trade. Cambridge: Cambridge University Press, 1999. 23 FLORENTINO, Manolo G. Em costas negras: Uma história do tráfico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro (Séculos XVIII e XIX). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1997. 24 FRAGOSO, João Luís R. Homens de grossa aventura: Acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro, c. 1790 – c. 1830. 2ª edição – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998. 25 RODRIGUES, Jaime. O infame comércio: Propostas e experiências no final do tráfico de africanos para o Brasil (1800-1850). 2ª edição – Campinas/São Paulo: Editora da Unicamp/Cecult, 2000. De costa a costa: Escravos, marinheiros e intermediários do tráfico negreiro de Angola ao Rio de Janeiro (1780-1860). São Paulo: Companhia das Letras, 2005. 26 ALENCASTRO, Luís Felipe de. O trato dos viventes: A formação do Brasil no Atlântico Sul. Séculos XVI e XVII. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. 27 SILVA, Luiz Geraldo. A fana, a festa e o rito: Uma etnografia histórica sobre as gentes do mar – Sécs. XVII ao XIX. Campinas: Papirus, 2001. 28 GOMES, Flávio dos Santos. Experiências transatlânticas e significados locais: Idéias, temores e narrativas em torno do Haiti no Brasil escravista. In: Revista Tempo. Rio de Janeiro/Niterói: UFF, vol. 7, nº 13, pp. 209-246, junho de 2002. 29 REIS, João José; CARVALHO, Marcus José Murilo de; GOMES, Flávio dos Santos. África e Brasil entre margens: Aventuras e desventuras do africano Rufino José Maria, 1822-1853. In: Estudos Afro-Asiáticos. Rio de Janeiro: Universidade Candido Mendes, vol. 2, pp. 255-298, 2004. 19 118 A POLÍTICA EXTERNA IMPERIAL: UMA REORIENTAÇÃO HISTORIOGRÁFICA EM CURSO No que tange à produção historiografia acerca da política externa imperial a situação é um tanto que adversa a produção relacionada ao tráfico transatlântico de escravos. De longe, o trabalho idealizado por João Pandiá Calógeras A política exterior do império (1927-1933)30 é o primeiro grande ensaio desenvolvido em relação ao campo da história diplomática nacional. Configurando, mesmo hoje, transcorrido quase um século de sua publicação, entre os trabalhos mais completos acerca, especificamente, do trato da diplomacia imperial. A obra originalmente visava compor o número comemorativo da Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro previsto para 1925 – ano da celebração do centenário de nascimento de D. Pedro II, o ―saudoso‖ fundador da dita instituição. Mas logo se viu que as ambições de Calógeras ultrapassavam o formato e as expectativas previamente definidas pelo IHGB pois demandou um espaço maior e inteiramente devotado à publicação do mesmo. Então, redefinido, o trabalho deveria ser dividido em quatro volumes que cobrissem o mapeamento dos elementos fundadores e tradicionais da diplomacia inserida colonial; perpassasse a institucionalização e maturação do órgão e das diretrizes diplomáticas no decorrer do Império; e atingisse ao fim, a identificação dos elementos modernizadores que caracterizaram as relações exteriores do país na transição do Império para a República. Desse grande projeto, três volumes vieram à tona sendo que o último não foi desenvolvido em razão do falecimento do autor. Ainda assim, tal qual assinalado por Paulo Roberto de Almeida31: Os três volumes constituem o que se poderia chamar de monumento diplomático, uma vez que A política exterior do império não se limita ao século XIX, mas remonta no tempo remoto as próprias origens da nacionalidade portuguesa [...] fio condutor e meio de preparação do terreno para a ampla história diplomática do Brasil que ele [o autor] tinha se decidido a escrever [...]32 O que ele realizou, diga-se de passagem, com bastante empenho e propriedade. Bem ao estilo das premissas discursivas de sua época ―dominada pela história política tradicional, [em outras palavras] pela ‗ditadura‘ do événementielle‖33 mas que, de forma alguma, ofusca ou diminui o mérito de sua pesquisa, pois: Seja como for, Calógeras é o primeiro ‗sistematizador‘ da história das relações internacionais do Brasil, o primeiro a pensar de forma unificada (ainda que não integrada) o itinerário da nacionalidade brasileira em sua dimensão internacional. Como ressaltou o embaixador João Hermes em 30 CALÓGERAS, João Pandiá. A política exterior do império. Vol. I: As origens/Vol. II: O primeiro reinado/Vol. III: Da regência à queda de Rosas. Reedição de Fac-similar. – Brasília: Senado Federal, 1998. 31 ALMEIDA, Paulo Roberto de. Estudos de relações internacionais do Brasil: Etapas da produção historiográfica brasileira, 1927-1992. In: Revista Brasileira de Política Internacional. Brasília: IBRI/MRE. Vol. 36, nº. 1, pp. 11-36, 1993. 32 Idem, ibidem, p. 16. 33 Idem, ibidem, p.17. 119 sua introdução à nova edição, ―anteriormente a Calógeras (...) nenhum autor brasileiro tratou, com espírito científico e dentro de uma visão geral, de nossa história diplomática‖ (...). E como bem indicou o professor Amado Cervo: ―Depois de Calógeras (...) fazer história das relações internacionais do Brasil não seria mais um trabalho para diletantes‖. Segundo esse [mesmo] historiador, ―sua obra merece um estudo que venha definir-lhe o método, mas é certo que situava-se a frente da história historicizante que então se fazia em todo o mundo‖. Com efeito, ele praticou uma ‗história política total‘ com pleno conhecimento de causa, produzindo uma obra de referência (...) que permitiria embasar novas tentativas de interpretação por gerações ulteriores de historiadores.34. De fato, deve-se a Calógeras o estabelecimento dos primeiros e mais duradouros critérios metodológicos a respaldarem a escolha dos temas, episódios, personagens e documentos a serem valorizados no estudo da história diplomática do Brasil. Não por acaso, as questões limítrofes, sobretudo, as que envolvem a região platina – cenário que mereceu atenção especial do autor nos três volumes editados – concentraram, desde então, quase que sem nenhuma concorrência, a atenção dos esforços investigativos dos pesquisadores. Da mesma forma que o foi, com: o episódio da Independência – que é, quiçá, o capítulo do passado diplomático brasileiro mais revisitado entre os estudiosos do campo; a direção da política externa imperial pelos dirigentes nacionais – em especial, das figuras de D. Pedro I e D. Pedro II; e, a valorização dos ―tratados fundadores‖ do Brasil – a saber, os tratados bilaterais luso-hispânicos do século XVIII que tratavam da fixação das fronteiras entre os dois impérios no Novo Mundo, e, os tratados comerciais, principalmente, os anglo-brasileiros, celebrados na década de 1820 em prol do reconhecimento da emancipação nacional. Balizados por semelhante narrativa, outros assuntos essenciais à política externa imperial brasileira – caso da regulação das trocas comerciais com outros países, da definição das regras de navegação dos rios internacionais e da resolução do tráfico transatlântico de escravos – permaneceram em segundo plano nos textos dos diplomatas e/ou historiadores que, depois de Calógeras, se dedicaram ao estudo da história diplomática nacional. Pode-se bem dizer, aliás, que, a reviravolta nos quadros da produção historiográfica acerca dos interesses diplomáticos brasileiros é algo recente. Coincidentemente, ou não, esta reorientação da história diplomática no Brasil tem ocorrido, simultaneamente, a um processo, grosso modo, generalizado de revitalização de outros gêneros históricos. Desta feita, a exemplo do que vem ocorrendo, nos últimos anos, no campo da história econômica, militar, regional e – como já falado alguns parágrafos atrás – da escravidão, a história diplomática vem se beneficiando da confluência cada vez maior de paradigmas teóricos e metodológicos diversos responsáveis por sua transformação. Uma transformação, tal qual apontado por Antônio Carlos Lessa35: 34 Idem, ibidem, pp. 18-19. LESSA, Antônio Carlos. A identificação do debate acadêmico e social sobre as relações internacionais e política exterior no Brasil. In: _______. & ALTEMANI, Henrique. (Orgs.). Relações internacionais do Brasil: Temas e agenda, Vol. II. São Paulo: Saraiva/IBRI/FAG, 2006, pp. 457-491. 35 120 [...] caracterizada no abandono dos parâmetros da antiga História Diplomática, na consequente adoção de horizontes mais amplos e na incorporação de ―novos atores‖ que condicionam a atuação internacional dos Estados (atores sociais, opinião pública etc.) levando em conta, necessariamente, os grandes movimentos internacionais (a evolução da ordem internacional, os desígnios das grandes potências) e, evidentemente, internalizando toda a complexa agenda a que têm que se dedicar os Estados nas suas interações com o meio internacional [...]36 No âmbito acadêmico nacional as reflexões que, talvez, melhor sintetizem estas transformações desenvolvidas pelos seguintes estudiosos: Amado Luiz Cervo acerca do envolvimento do poder Legislativo na formulação, implementação e gerenciamento da política externa ao longo do Império37. Synesio Sampaio Goes Filho que se aventurou em analisar o papel desempenhado por navegantes, bandeirantes e diplomatas – agentes singulares no que tange sua formação, ofícios e expectativas – no decorrer do longo e multifacetado processo de delimitação e demarcação do território brasileiro38. Paulo Roberto de Almeida que abordou a relação intrínseca entre economia e política externa, estudando a internacionalização da economia brasileira a partir dos convênios comerciais celebrados pelo regime monárquico 39 . E Luiz Cláudio Villafañe Gomes Santos que, por sua vez, preferiu dirigir sua atenção para as tentativas de aproximação política, econômica e militar empreendidas pela diplomacia imperial com relação aos países sublocados na bacia dos Andes e do Pacífico40. Ainda que cada um destes trabalhos verse sobre temas diferentes, todos têm em comum a necessidade de enfatizar, através do rigor com que consultaram e com que trataram as fontes primárias que tiveram em mãos, a vida cotidiana e as experiências pessoais que fizeram dos legisladores, desbravadores, comissários comerciais e/ou diplomatas retratados homens competentes para deliberar sobre assuntos vitais aos governos que, em algum momento, representaram. Uma preocupação na forma de se abordar e de escrever a história claramente inspirada num dos novos e mais recorrentes prismas de pesquisa dos últimos tempos: o da história social. O vértice social não tem sido o único influenciador deste novo ambiente da história diplomática brasileira. Justiça seja feita, os Estudos Atlânticos têm trazido, também, importantes benefícios para este campo. E isso, tanto para as pesquisas especificamente devotadas ao período imperial como para aquelas direcionadas a assuntos mais contemporâneos. Em ambos os casos, vale ressaltar, tem se operado na investigação da diretriz africana da política externa 36 Idem, ibidem, p. 473. CERVO, Amado Luiz. O parlamento brasileiro e as relações internacionais, 1826-1889. Brasília: Editora da UnB, 1981. 38 GOES FILHO, Synesio Sampaio. Navegantes, bandeirantes e diplomatas: Um ensaio sobre a formação das fronteiras do Brasil. São Paulo: Martins Fontes, 1999. 39 ALMEIDA, Paulo Roberto de. Formação da diplomacia econômica no Brasil: As relações econômicas internacionais no império – Vol. I & II. São Paulo/Brasília: Editora Senac/Funac, 2001. 40 SANTOS, Luis Cláudio Villafañe Gomes. O império e as repúblicas do Pacífico: As relações do Brasil com Chile, Bolívia, Peru, Equador e Colômbia, 1822-1889. Curitiba: Editora da UFPR, 2002. 37 121 brasileira41. No que se refere, estritamente, a política externa imperial o tema que vem recebendo grande tratamento por parte dos historiadores contemporâneos é, não outro, que, a política de defesa do tráfico transatlântico empreendida pelos representantes brasileiros nos variados e diferentes momentos em que o mesmo fora motivo de discussão nos foros internacionais. A razão disto, segundo nos informa Mamigonian42, deve-se a nova postura da historiografia política do império que, uma vez informada dos avanços da literatura sobre a escravidão das últimas décadas, tem, também, repensado as suas colocações acerca de um tema que sempre esteve no centro do problema da formação do Estado nacional brasileiro. Desta maneira, como a autora faz questão de enfatizar, a preocupação emergente dos estudos mais recentes: [...] Não se trata mais de identificar germes abolicionistas em discursos extemporâneos ou de discutir a compatibilidade entre liberalismo e escravidão; pelo contrário, trata-se de mostrar que os fundadores do império defenderam-se das pressões externas formulando um discurso da necessidade de uma abolição gradual enquanto estruturavam o Estado para defender a ordem escravista [...]43 Logo, seguindo os pressupostos investigativos que têm reorientado os pensamentos e as especulações em torno dos intercâmbios comerciais, sociais e culturais entre as principais zonas exportadoras e importadoras de escravos africanos, o intercâmbio diplomático entre os governantes destas regiões, surgido e orientado em função do comércio transatlântico, também tem despertado especial atenção entre os estudiosos. Nesse sentido, tanto as narrativas glorificadoras do passado africano formuladas com base no prisma pan-africanista que emergiu em apoio aos movimentos emancipacionistas da África de meados dos anos de 1950 à década de 1970 como as narrativas vitimizadoras do prisma dependentista que eximiam ou amenizavam africanos e americanos na participação direta no tráfico transatlântico de escravos, tem cedido a vez a outras interpretações. Estas discutem, mais clara e substancialmente, o papel destes ―novos atores‖ nas múltiplas e diferenciadas facetas apreendidas pela escravidão de acordo com as vicissitudes dos contextos históricos específicos vivenciados nos quatro cantos da Orbe Atlântica: a África, o Caribe, o ―Velho Sul‖ Norte-Americano e o Brasil. 41 A presente exposição limita sua análise às publicações direcionadas, especificamente, ao enfoque da política externa imperial. Contudo, a título de informação, para uma leitura acerca da influência dos Estudos Atlânticos na historiografia diplomática contemporânea consultar: SARAIVA, José Flávio Sombra. O lugar da África: A dimensão atlântica da política externa brasileira de 1946 a nossos dias. Brasília: Editora da UnB, 1996. – A revista Estudos Históricos – do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea da Fundação Getúlio Vargas – possui também um volume dedicado às relações BrasilÁfrica (vol. 1, nº 39, jan. – jun. de 2007) onde se encontram dois excelentes artigos que versam sobre o assunto: O Itamaraty e a África: As origens da política africana do Brasil – de Pio Penna Filho & Carlos Moraes Lessa (pp. 57-81); e, “Ao vencedor as batatas”: O reconhecimento da independência de Angola – de Letícia Pinheiro (pp. 83-120). 42 MAMIGONIAN, Beatriz Gallotti. A proibição do tráfico atlântico e a manutenção da escravidão. In: GRINBERG, Keila & SALLES, Ricardo. (Orgs.). O Brasil Imperial. Volume I – 1808-1831. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, pp. 207-233. 43 Idem, ibidem, p. 229. 122 BIBLIOGRAFIA ALENCASTRO, Luís Felipe de. O trato dos viventes: A formação do Brasil no Atlântico Sul. Séculos XVI e XVII. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. ALMEIDA, Paulo Roberto de. Estudos de relações internacionais do Brasil: Etapas da produção historiográfica brasileira, 1927-1992. In: Revista Brasileira de Política Internacional. Brasília: IBRI/MRE. Vol. 36, nº. 1, pp. 11-36, 1993. ________. Formação da diplomacia econômica no Brasil: As relações econômicas internacionais no império – Vol. I & II. São Paulo/Brasília: Editora Senac/Funac, 2001. CALÓGERAS, João Pandiá. A política exterior do império. Vol. I: As origens/Vol. II: O primeiro reinado/Vol. III: Da regência à queda de Rosas. Reedição de Fac-similar. – Brasília: Senado Federal, 1998. CERVO, Amado Luiz. O parlamento brasileiro e as relações internacionais, 1826-1889. Brasília: Editora da UnB, 1981. 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Gustavo Siqueira Campos Cheliga Aluno do Programa de Pós-Graduação, Especialização em História Social da Universidade Estadual de Londrina [email protected] RESUMO: Nosso projeto de pesquisa em andamento considera que as relações entre natureza e sociedade sempre foram objeto de investigação de diversos ramos do saber. Dentro desse quadro adotarei uma orientação teórico metodológico que vem progredindo sistemicamente nos últimos anos no mercado brasileiro. Este novo ramo de atuação histórica diferencia-se em níveis; do entendimento sobre o conceito de natureza; da análise sócio econômica e da percepção, valores éticos, leis e outras estruturas que ligam o homem à natureza. Neste enfoque existem duas disciplinas que se destacam pelo caráter inovador de abordagem e pela sua facilidade de interdisciplinaridade, permitindo um intenso diálogo com as ciências sociais e das ciências naturais, estou me referindo a História ambiental e a ecologia histórica. Ambas incorporam a história, mas o que as diferencia é o conceito de história desempenhado na produção do saber. Nosso objetivo é discutir o foco dessas duas disciplinas, mas também estabelecer o diálogo efetivo entre esses ramos do saber, uma vez que a história ambiental analisa acontecimentos históricos que modificaram e foram modificados pela relação com o ambiente e a ecologia histórica, procura compreender os fenômenos e componentes ecológicos sobre a visão de processos históricos de transformação da paisagem. Enfim ambas estão produzindo saberes inéditos que tem alcançado uma boa aceitação da crítica e de púbico sobre questões ambientais discutidas na contemporaneidade. PALAVRAS-CHAVES: Historiografia; Sociedade; Natureza. HISTORIA AMBIENTAL E ECOLOGIA HISTÓRICA X A INTERPRETAÇÃO DA PAISAGEM A história ambiental tem como foco os acontecimentos históricos que modificaram e, ao mesmo tempo, foram modificados pelo ambiente. A ecologia histórica procura compreender os fenômenos e componentes ecológicos, a funcionalidade dos ecossistemas, a composição e a estrutura das comunidades, sob a luz dos processos históricos de transformação da paisagem. Segundo Williams1, no início do processo de formação da área onde a história ambiental atuaria Thad Tade assinalou a ausência de uma delimitação da disciplina, e propôs então quatro pontos importantes para sua circunscrição: a percepção humana do mundo natural; as inovações tecnológicas relativas à transformação da natureza; a compreensão dos processos ecológicos e a regulação política do meio ambiente 1 WILLIAMS, M. The relations of environmental history and historical geography. Journal of Historical Geography, v. 20, n. 1, 1994, pp. 3-21. Apud. SOLÓRZANO, A.; OLIVEIRA, R. R.; GUEDES-BRUNI, R. R. Geografia, história e ecologia: criando pontes para a interpretação da paisagem. In. Ambiente & Sociedade. Campinas: v. XII, n. 1, 2009 pp. 49-66. 125 Já Worster2 acerca do conhecimento da história ambiental, delimitou os seus objetivos, conceitos e temas de maneira clara e concisa sistematizando a disciplina em níveis para a abordagem. O primeiro trataria do entendimento da natureza propriamente dita, como se organizou e funciona em seus aspectos orgânicos e inorgânicos. O segundo seria o domínio socioeconômico ao ponto de sua interação com o meio-ambiente (as relações sociais e as ferramentas criadas para produzir bens a partir dos recursos naturais). O terceiro nível é intelectual, ou seja, percepções, valores éticos, leis, mitos e outras estruturas de significação enquanto parte do diálogo entre homem e natureza3. Colocado essas perspectivas de atuação se iniciou uma inter-relação principalmente da ecologia e geografia para o estabelecimento de questões de história ambiental, fornecendo algumas bases teórico-metodológicas. Assim a nova disciplina histórica buscava romper com a clássica concepção da história, que dedicava parte substancial de sua atenção ao funcionamento e às estruturas dos Estados Nacionais. O rompimento surgiu a partir da década de 1970, com a emergência das questões ambientais e ecológicas. Neste período houve uma valorização crescente de conceitos geográficos como território, territorialidades, paisagem e outras noções de espaço da geografia4. O campo de atuação da historiografia voltado para questões ambientais é relativamente novo, surgiu do interesse de historiadores e biólogos norte-americanos, vindos de diferentes especialidades crescendo conjuntamente com o movimento ambientalista, numa época de reavaliação e reforma cultural no panorama mundial. A história ambiental segundo Worster se coloca como uma tentativa de tornar a disciplina história mais inclusiva preocupada com questões políticas. Seu objetivo principal é refletir sobre o entendimento de como os homens, através de processos históricos, conduzem e são conduzidos pela relação com o entorno observando sempre as duas faces da inter-relação dialética homemnatureza5. Na ecologia histórica de acordo com Crumley6 a abordagem das relações entre os seres humanos e o meio ambiente, a paisagem é retratada como a manifestação material. Sob esta perspectiva, a autora adota o conceito de que as relações entre seres humanos e ambiente são dialeticamente interativas. Pode-se compreender a paisagem ainda como ―um processo histórico 2 WORSTER, D. Para fazer história ambiental. In: Estudos Históricos, v. 4, n. 8, 199. Ibdm, pp. 202. 4 Historicamente a geografia, trata a relação homem-natureza como uma de suas grandes questões. In, FREITAS, I. A. A geografia na construção de uma história ambiental brasileira. Boletim Goiano de Geografia, v. 22, n. 2, 2002, pp.155-168. 5 WORSTER, D. Para fazer história ambiental. In: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 4, n. 8, 1991, pp. 199-200. 6 CRUMLEY, C. L. Historical Ecology: a multidimensional ecological orientation. In.: Crumley, C. L. (Eds). Historical Ecology: cultural knowledge and changing landscapes. Santa Fé: School of American Research Press, 1993. Apud. SOLÓRZANO, A.; OLIVEIRA, R. R.; GUEDES-BRUNI, R. R. Geografia, história e ecologia: criando pontes para a interpretação da paisagem. In. Ambiente & Sociedade. Campinas: v. XII, n. 1, 2009 pp 52. 3 126 de construção de formas de apropriação da natureza, da paisagem natural ‗pré-antrópica‘ em paisagem artificial‖ 7. Diversas abordagens sejam elas, geográficas ou ecológicas, contribuem efetivamente para o conhecimento da história ambiental de uma determinada área delimitada territorialmente e/ou culturalmente. Worster aponta que a história ambiental perde a sua base de sustentação se não incorporar o conhecimento ecológico da natureza, fragilizando assim a sua coerência com um todo. Para tanto, destaca diferentes autores que a partir de uma abordagem antropológica deram ênfase aos processos ecológicos. O primeiro ensaio que tentou definir este recente campo de atuação da história foi o de Roderick Nash8, ―encaremos toda a paisagem ao nosso redor como um tipo de documento histórico sobre o qual os norte-americanos vêm escrevendo a respeito de si mesmo e dos seus ideais‖. O livro de Nash, ―Wilderness and the American mind‖, foi concebido no início da década de 1960 quando nascia o movimento ecológico nos EUA, esse é um texto rico de informações. Nash deu continuidade com as preocupações de Leo Marx, outro historiador influente para a história ambiental, que discutia os conceitos e significados para nós humanos sobre a natureza primitiva, intocada. Nash cria um conceito de escassez da natureza selvagem. Para ele essa natureza é tão mais temida e desprezada quanto mais escassa e distante ela estiver. Isso diz muito sobre quem é a favor e quem é contra a preservação dessa forma de natureza. Outra percepção de Nash é sobre a defesa da natureza ―selvagem‖, fato culturalmente revolucionário nas sociedades ocidentais, as quais sempre valorizam a natureza apenas de acordo com o grau de alteração ou controle humano9. O historiador da literatura Leo Marx por quem Nash foi influenciado produziu um livro que ensinou toda a primeira geração de historiadores ambientais, intitulado de ―The machine in the garden-tecnology and pastoral ideal in America‖, Marx discute a importância analítica dos valores atribuídos às diferentes formas de natureza. Trata-se de um estudo dos contrastes entre ―maquina‖ e natureza. O autor mostra como as paisagens elogiadas pelos escritores clássicos e contemporâneos amantes da natureza são na verdade ―jardins‖, áreas criadas pelos homens, ele mostra como o homem ocidental ama as paisagens que ele mesmo constrói. Quanto à natureza 7 FREITAS, I. A. A geografia na construção de uma história ambiental brasileira. Boletim Goiano de Geografia, v. 22, n. 2, 2002, pp.158 8 ―The state of environmental history‖ ( A situação da história ambiental). NASH, Roderick. Wilderness and the American Mind. 3 ed. Cambridge, Yale University Press, 1982. Apud. DRUMMOND, J. A. A história ambiental: temas, fontes e linhas de pesquisa. In: Estudos Históricos. Rio de Janeiro: v. 4, n. 8, 1991, pp. 13-14 9 Ibdm, pp. 13-14. 127 ―selvagem‖, intocada, incontrolável, ele tem pavor ou um apetite insaciável de controlar, domesticar, civilizar10. Essas atitudes afetam profundamente as ações das sociedades humanas em relação aos seus ambientes naturais. Muitas vezes uma sociedade acredita que está salvando a natureza, mas salva apenas uma obra sua11. Outra abordagem que envolve a diferenciação da história ambiental da ecologia histórica é o peso do materialismo e do idealismo na análise da dicotomia natureza-cultura. A perspectiva da análise materialista pressupõe que a natureza molda o comportamento humano, como por exemplo, o fato de as práticas culturais serem vistas como adaptação ao ambiente. Na visão idealista da relação homem-natureza, preza pelo sistema de crença como o principal agente no processo de transformações da natureza. Portanto fica claro mais uma diferença entre as linhas de analise da concepção do papel da natureza, ora como moldadora das ações humanas (materialista), ora como receptora das ações humanas (idealista) 12. Na visão ecológica, os documentos históricos são utilizados para determinar o alcance e a variabilidade dos processos ecológicos durante tempos em que os ecossistemas eram menos afetados pelo homem. Esta linha é denominada de ecologia histórica aplicada. Esta pode ser definida como o estudo de ecossistemas passados detalhando o processo de transformação da paisagem ao longo do tempo13. A disciplina ecologia histórica procura explicar as características dos ecossistemas e paisagens a partir dos legados históricos de atividades humanas14. Oliveira destaca que a ecologia histórica realiza as suas análises voltadas para duas áreas distintas: a evolução dos ecossistemas, através da reconstituição de paleoambientes e floras fósseis; e a antropologia ecológica, que estuda os sistemas ecológicos por meio dos componentes humanos, como economia, religião e cultura, e de suas relações com a natureza. Deixando nítido, dois caminhos dos muitos aqui encontrados das linhas de atuação ecológica, a primeira onde as fontes são provenientes de aspectos naturais, como de estudos de dendrologia e de sedimentos, e outra de documentos históricos, como relatos de usos passados, fotografias aéreas antigas15. Crumley destaca que esta disciplina estabelece relações dialéticas entre as ações humanas e as ações da natureza, manifestadas na paisagem indicando que a introdução da 10 MARX, Leo The machine um the garden technology and the pastoral ideal in America. London, Oxford University Press, 1964. Apud. DRUMMOND, J. A. A história ambiental: temas, fontes e linhas de pesquisa. In: Estudos Históricos. Rio de Janeiro: v. 4, n. 8, 1991, pp. 12. 11 Ibdm, pp. 11. 12 SOLÓRZANO, A.; OLIVEIRA, R. R.; GUEDES-BRUNI, R. R. Geografia, história e ecologia: criando pontes para a interpretação da paisagem. In. Ambiente & Sociedade. Campinas: v. XII, n. 1, 2009 pp 53. 13 Ibdm, 2009 pp 53. 14 Ibdem, pp.53 15 OLIVEIRA, R. R. O futuro nas marcas do passado. In: OLIVEIRA, R. R. (Ed). As marcas do homem na floresta: história ambiental de um trecho urbano de Mata Atlântica. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio, 2005, pp. 227-230. 128 história nas análises ambientais é uma oportunidade para a aplicação dos conhecimentos da geografia e da própria história. A partir da ecologia, surgiu a necessidade de compreender os aspectos históricos de transformações da natureza, sem constituir uma disciplina em si, mas caracterizando um enfoque mais especifico, ora da história ambiental, ora da ecologia histórica. Contudo, a história é incorporada para auxiliar na compreensão da realidade atual, mais especificamente para entender como diferentes usos do solo afetaram a regeneração do ecossistema. Este é o principal foco desta linha ecológica: comparar florestas que tiveram usos distintos do solo no passado para buscar detectar padrões possivelmente diferenciados de regeneração. Neste caso, a história tem um foco bastante específico: a relação do uso histórico do homem em áreas de floresta ou de outro ecossistema e poderíamos compreender esse enfoque como sendo uma parte da história ambiental. Ao longo destas ultimas décadas, muitos cientistas envolvidos em estudos ecológicos passaram a reconhecer que a história, de suas respectivas áreas de estudo, está envolvida na estrutura e no funcionamento dos ecossistemas. Da mesma maneira, a história ambiental passou a ser considerada como parte integrante da ciência ecológica16. Um importante periódico dedicado a esse tipo de publicação na área de história ambiental, mas também se valendo de uma interdisciplinaridade, é a revista Environmental Historia Review anteriormente batizada de Environmental Review fundada nos EUA em 1976 por John Opie historiador de tecnologia, ramo ligado à história das civilizações e publicada pela associação Norte Americana de história ambiental. A revista busca entender a experiência humana no meio ambiente estimulando o diálogo entre as disciplinas a respeito de todos os aspectos das relações atuais e passadas da humanidade com o ambiente natural. O periódico coloca a história ambiental como uma área de pesquisa acadêmica e científica em expansão e em fase de refinamento de métodos e temas17. Worster coloca também outros historiadores que já haviam dedicados estudos relacionados a temas que confluíam para esta nova abordagem da história como Richard White, Frederick Jackson Turner, Walter Prescott Webb e James Malin, todos historiadores da escola norte-americana que dedicaram-se ao estudo da fronteira e do oeste. Também os historiadores franceses ligados à escola dos Annales como Marc Bloch nos estudos sobre a vida rural na França, Febvre sobre geografia social e Fernand Braudel em sua grande obra o Mediterrâneo18. Em 1974 os Annales dedicam uma edição especial a ―Historie et environnement‖, onde Emmanuel Le Roy Ladurye descreve o campo de estudo da recém criada história ambiental: ―A 16 SOLÓRZANO, A.; OLIVEIRA, R. R.; GUEDES-BRUNI, R. R. Geografia, história e ecologia: criando pontes para a interpretação da paisagem. In. Ambiente & Sociedade. Campinas: v. XII, n. 1, 2009, pp. 56. 17 DRUMMOND, J. A. A história ambiental: temas, fontes e linhas de pesquisa. In: Estudos Históricos. Rio de Janeiro: v. 4, n. 8, 1991, pp. 10-11. 18 Segundo Braudel a terra é um elemento fora do nosso tempo cronológico, que age moldando a vida dos seres vivos por um processo de longa duração (longue durre) impossível de ser observado pelo tempo cronológico. In. WORSTER, D. Para fazer história ambiental. In: Estudos Históricos, v. 4, n. 8, 1991, pp. 200. 129 historia reúne os temas mais antigos com os mais recentes na historiografia contemporânea: a evolução das epidemias e do clima, ambos os fatores sendo partes integrantes do ecossistema humano, a destruição da natureza‖19. Para Le Roy, as pesquisas vinham se desenvolvendo há muito tempo, por que segundo ele o material ―Historie et Environnent‖ já estava disponível, mas apenas agora está sendo reorganizado por esse novo olhar historiográfico20. Anteriormente a história ambiental abrangia o conhecimento de diversas áreas, inclusive da ecologia, assim podemos considerar este ramo da ecologia como parte da história ambiental, pois está dentro do primeiro nível de questões levantadas por Worster21, que seria a compreensão do funcionamento da natureza dentro de um quadro histórico. Entretanto, autores como García Montiel22, demonstram uma preocupação com estudos ecológicos sem a adequada ponderação da dimensão histórica com um papel norteador, não só para os processos ecológicos propriamente ditos, como também como fonte de reflexão acerca dos movimentos sociais, culturais, políticos e econômicos desse processo de uso e transformação. De maneira geral o enfoque da ecologia histórica apresenta uma abordagem mais antropológica e ecológica, focando o seu estudo na compreensão do homem com agente transformador do ambiente, ao mesmo tempo em que procura as conseqüências ecológicas de tais eventos23. Portanto, antes de estabelecer as diferenças entre história ambiental e ecologia histórica percebe-se que dentro da própria ecologia histórica já existe uma divisão: uma abordagem mais cultural (antropológica) e outra mais ecológica (paleoecologica). A partir da busca da antropologia em relacionar os aspectos culturais ao meio ambiente, surge a antropologia ecológica24. A história ambiental parte da busca dos historiadores por compreender tanto os processos históricos de transformação da natureza quanto o desenvolvimento socioeconômico originário da utilização dos recursos naturais. Sua tradição analítica está ligada principalmente à história, mas também a outros ramos do saber. Na história ambiental a ecologia e as demais ciências naturais são utilizadas para compreender os aspectos do funcionamento da natureza, em relação à transformação imposta pelo homem apresentando uma tradição maior das ciências 19 WORSTER, D. Para fazer história ambiental. In: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 4, n. 8, 1991, pp. 201. 20 Ibdm, pp. 201. 21 Ibdm, pp.202. 22 GARCÍA-MONTIEL, D. El legado de la actividad humana en los bosques neotropicales contemporáneos. In: GUARIGAUTA, M. R.; KATTAN, G. H. Ecología y conservación de bosques neotropicales. Cartago: Ediciones LUR, 2002. p. 97-112. Apud. SOLÓRZANO, A.; OLIVEIRA, R. R.; GUEDES-BRUNI, R. R. Geografia, história e ecologia: criando pontes para a interpretação da paisagem. In. Ambiente & Sociedade. Campinas: v. XII, n. 1, 2009. 23 SOLÓRZANO, A.; OLIVEIRA, R. R.; GUEDES-BRUNI, R. R. Geografia, história e ecologia: criando pontes para a interpretação da paisagem. In. Ambiente & Sociedade. Campinas: v. XII, n. 1, 2009, pp. 57. 24 CRUMLEY, C. L. Historical Ecology: a multidimensional ecological orientation. In.: Crumley, C. L. (Eds). Historical Ecology: cultural knowledge and changing landscapes. Santa Fé: School of American Research Press, 1993. Apud. SOLÓRZANO, A.; OLIVEIRA, R. R.; GUEDES-BRUNI, R. R. Geografia, história e ecologia: criando pontes para a interpretação da paisagem. In. Ambiente & Sociedade. Campinas: v. XII, n. 1, 2009 pp 59. 130 sociais enfatizando o elemento humano25. Percebe-se assim uma sutil, mas importante diferença entre as duas disciplinas na ênfase dada pela história ambiental à história e em contraste à ênfase dada pela ecologia histórica à ecologia. Worster traz um celebre dizer que, para todo historiador ambiental, descreve com quais preocupações a nova história funciona: ―A história ambiental trata do papel e do lugar da natureza na vida humana‖ 26. A história ambiental para reconstruir os processos de mudanças da paisagem tem que dialogar com diversas áreas do conhecimento como as ciências naturais, geografia, antropologia, ecologia e etc. Mas o mais importante diálogo entre as disciplinas foi com a ecologia, tanto que alguns dizem praticar não história ambiental, mas a ―história ecológica― ou a ―ecologia histórica‖ querendo pressupor uma aliança mais estreita com as ciências27. Grande parte da história ambiental se dedica a examinar mudanças voluntarias ou forçadas, nos modelos de relacionamento do ser humano com o entorno. Logo percebemos a importância de outras disciplinas como a antropologia para compreender a relação das culturas materiais com a natureza, estabelecendo um diálogo entre ecologia e economia. Portanto, a história ambiental na medida em que tenta definir um método de investigação do passado humano, cria uma rede interdisciplinar com outras áreas do conhecimento ligando a história natural à história social. Neste ponto a história ambiental conseguiu circunscrever algumas características metodológicas e analíticas, isto serve de resposta àqueles que dizem que esta nova especialidade da história não teria um conceito próprio. Segundo Drummond estas características são divididas em cinco partes: A primeira é que quase todas as análises focalizam uma região com alguma homogeneidade ou identidade natural, o que denota numa familiaridade com a história natural. A outra característica é o diálogo já referendado com as ciências naturais. Os historiadores ambientais dependem diretamente das ciências naturais para entender o funcionamento dos ecossistemas, os limites e o papel da ação humana dentro destes. A terceira é a análise dos diferentes processos civilizatórios das sociedades humanas e a apropriação diversificada dos recursos naturais úteis e inúteis durante estas distintas civilizações. A quarta característica é a valorização, aproveitamento e variedade das fontes para o estudo da relação entre homem-natureza. Podem ser usadas fontes da história econômica e social como: censos populacionais, econômicos, atas legislativas e jurídicas, crônicas, memórias, 25 WORSTER, D. Para fazer história ambiental. In: Estudos Históricos. Rio de Janeiro: v. 4, n. 8, 1991, pp. 200 26 Ibdm, pp. 201. 27 O cientista natural Aldo Leopold falou de ―uma interpretação ecológica da história‖. Pouco depois de, o historiador James Malin, publicou uma serie de ensaios que apontavam para ―uma revisão ecológica da história dos EUA‖. Segundo Malin ―o ponto de vista ecológico acreditava ser valioso para o estudo da história, não sob a ilusão de que assim a história poderia se converter numa ciência,mas apenas como uma maneira de ver o objeto e os processos da história‖. WORSTER, D. Para fazer história ambiental. In: Estudos Históricos. Rio de Janeiro: v. 4, n. 8, 1991, pp. 203-204. 131 diários, inventários, testemunhos, ou seja, tudo que permita encontrar informações sobre os usos, valores e disponibilidade dos recursos naturais. A última característica levantada por Drummond é o trabalho de campo. Trata-se de ler a história na paisagem que como diz Drummond são marcas essas que nem sempre constam nos documentos escritos28. A pesquisa e a escrita da história ambiental é um campo que engloba muitas práticas e contribuições tornando a disciplina interdisciplinar, porém fica claro que ela é ligada principalmente à área da história a das civilizações e a antropologia cultural. A sua originalidade está em colocar a sociedade na natureza e o no equilíbrio com que busca a interação, a influência mútua entre sociedade e natureza. CONSIDERAÇÕES FINAIS: Espero ter conseguido, a partir dos conceitos aqui apresentados, esclarecer que as áreas da história ambiental e da ecologia histórica tem mais semelhanças do que contrastes, tanto pela suas proximidades interdisciplinares com as áreas do conhecimento da ciências naturais e das ciências sociais, como pela aproximação de interesse em tratar das transformações ocorridas nos diversos ecossistemas devido a relação homem-natureza. A análise conjunta dos fenômenos sociais e dos fenômenos naturais coloca essas disciplinas em posição privilegiada, capaz de fornecer conceitos e estudos integrados de ambiente e processos históricos. É claro que a história ambiental como campo interdisciplinar enfrenta alguns entraves. A falta de uma delimitação mais clara de sua metodologia e a própria variedade de conceitos e métodos de outras áreas podem ser o maior impedimento de um estudo realmente reconhecido como campo de atuação da história. Porém, a maior contribuição da história ambiental é o fato da disciplina fornecer uma maneira singular de olhar para a paisagem trazendo novos questionamentos, dados e informações da história das civilizações humanas. Portanto, a partir dessa visão interdisciplinar da integração de novos conceitos que trazem a luz aspectos nunca antes trabalhados sobre a relação homens –natureza, da compreensão sobre as transformações da paisagem, tanto a história ambiental quanto a ecologia histórica re-significam a exploração do mundo natural. No campo da História Ambiental, a Ecologia traz a luz uma racionalidade diferente permitindo descobrir os limites da eficiência da atividade econômica e as condições extraeconômicas desta. A partir de uma visão ecologizante descobrimos que a economia, para atingir 28 DRUMMOND, J. A. A história ambiental: temas, fontes e linhas de pesquisa. In: Estudos Históricos, v. 4, n. 8, 1991, pp.04-05. 132 ofertas relativas, produz depois de um certo limite demandas absolutas e intransponíveis: os rendimentos tornam-se negativos, a produção destrói mais do que produz. Essa relação entrópica aparece quando a atividade econômica sobrepõe-se ao equilíbrio dos ciclos naturais e quando as fontes de nossa sobrevivência mostram-se incapazes de regenerar ou de reconstituir os seus patamares de exploração29. Estudar a sociedade e sua produção pela perspectiva de uma racionalidade ecológica contribui para elucidar problemas atuais ou futuros que possam advir da forma organizada para produzir. 29 ALMEIDA, J. P. História ambiental: construindo um campo de estudos. In. : Maquinações: História e natureza, Londrina: v.1, n1, 2009 133 REFERÊNCIAS: ALMEIDA, J. P. História ambiental: construindo um campo de estudos. In. : Maquinações: História e natureza, Londrina: v.1, n1, 2009. CRUMLEY, C. L. Historical Ecology: a multidimensional ecological orientation. In.: Crumley, C. L. (Eds). Historical Ecology: cultural knowledge and changing landscapes. Santa Fé: School of American Research Press, 1993. DRUMMOND, J. A. A história ambiental: temas, fontes e linhas de pesquisa.In: Estudos Históricos, Rio de Janeiro: v. 4, n. 8, p. 177-197, 1991. FREITAS, I. A. A geografia na construção de uma história ambiental brasileira. In: Boletim Goiano de Geografia, v. 22, n. 2, p.155-168, 2002. GARCÍA-MONTIEL, D. El legado de la actividad humana en los bosques neotropicales contemporáneos. In: GUARIGAUTA, M. R.; KATTAN, G. H. Ecología y conservación de bosques neotropicales. Cartago: Ediciones LUR, 2002. MARX, Leo. The machine um the garden technology and the pastoral ideal in America. London, Oxford University Press, 1964. NASH, Roderick. Wilderness and the American Mind. 3 ed. Cambridge: Yale University Press, 1982. OLIVEIRA, R. R. O futuro nas marcas do passado. In: OLIVEIRA, R. R. (Ed). As marcas do homem na floresta: história ambiental de um trecho urbano de Mata Atlântica. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio, 2005, pp. 227-230. SOLÓRZANO, A.; OLIVEIRA, R. R.; GUEDES-BRUNI, R. R. Geografia, história e ecologia: criando pontes para a interpretação da paisagem. In: Ambiente & Sociedade. Campinas: v. XII, n. 1, 2009 WILLIAMS, M. The relations of environmental history and historical geography. In: Journal of Historical Geography, v. 20, n. 1, p. 3-21, 1994. WORSTER, D. Para fazer história ambiental. In: Estudos Históricos, Rio de Janeiro: v. 4, n. 8, p. 198-215, 1991. 134 NACIONALISMO E PROPOSTA DE (RE)CONSTRUÇÃO DA NAÇÃO BRASILEIRA DESENVOLVIDA PELA AÇÃO INTEGRALISTA BRASILEIRA NA DÉCADA DE 1930 1 Jaqueline Tondato Sentinelo Mestranda em História pela Universidade Estadual de Maringá [email protected] RESUMO: A Ação Integralista Brasileira (AIB) foi um movimento político criado por Plínio Salgado em 07 de outubro de 1932. Existiu oficialmente no Brasil entre 1932 e 1937, período de mudança na estrutura política vigente no país, proporcionada pela denominada Revolução de 1930. Contexto em que a elite política e intelectual nacional visava reformular a vida política do país e (re)construir a nação brasileira. Os envolvidos na deflagração da revolução utilizavam o argumento de que era necessário construir um novo tipo de política para o país, a partir do qual o interesse nacional superasse o regional característico até então. Nessa perspectiva, a AIB se apresentava como única organização política capaz de estabelecer a unidade nacional, considerada necessária à reconstrução do país, e defendia que o Integralismo deveria ascender ao poder para realizar a tarefa. A AIB propunha instituir no Brasil um novo tipo de sociedade, que deveria integrar de maneira homogênea todos os elementos nacionais. A nação deveria ser pensada e estabelecida a partir da valorização ou da recuperação dos aspectos considerados genuinamente brasileiros, tais como povo, história, cultura, e costumes, entre outros. Nesse sentido, no presente trabalho, pretende-se demonstrar a relação entre o nacionalismo presente na doutrina integralista e o objetivo da AIB de construir no Brasil a nação integral. PALAVRAS-CHAVE: Ação Integralista Brasileira, Nacionalismo, Nação integral. INTRODUÇÃO Durante a década de 1930 o Brasil passou por alterações políticas, sociais e econômicas. No início deste decênio a estrutura política vigente no país foi modificada com a denominada Revolução de 1930, que derrubou a ―velha‖ república e instituiu um governo provisório sob a presidência de Getúlio Vargas. Com a modificação, que tinha como principal propósito acabar com a chamada política dos governadores que caracterizara a República do Café com Leite – por meio da qual São Paulo e Minas Gerais se revezavam no poder presidencial –, os envolvidos na deflagração da revolução utilizavam o argumento de que era necessário construir um novo tipo de política no Brasil, pelo qual o interesse nacional superasse o regional característico até então. 1 O trabalho faz parte de pesquisa de Mestrado em andamento financiada pela Capes. 135 Segundo esse ponto de vista, somente a partir da mudança no tipo de política é que os problemas presentes na sociedade brasileira poderiam ser resolvidos. Nessa perspectiva, grande parte dos políticos e intelectuais nacionais entendia que era o momento de propor reformas e instituí-las na sociedade, a fim de consolidar a unidade nacional e (re)construir a nação brasileira. Foi naquele contexto, marcado internamente pela necessidade de (re)construir uma ordem política nacional; e internacionalmente assinalado pelo fortalecimento das ideias e organizações políticas de extrema direita (fascistas) – que se apresentavam como solução para os problemas econômicos e sociais do mundo europeu advindos com a Grande Guerra (1914-1918) e com a Crise econômica de 1929 –, que Plínio Salgado organizou a Ação Integralista Brasileira, ou AIB. Refletindo as aspirações e discussões do momento, a AIB almejava construir uma nova nação no Brasil, que deveria priorizar os aspectos que a organização considerava como genuinamente brasileiros, tais como o povo e seus costumes (tradição), a história e a cultura nacional, entre outros. Dessa forma, segundo a AIB, ela seria a organização responsável por englobar ―todos‖ os elementos constituintes do país e garantir a unidade nacional. Para compreender o projeto de nação da AIB é necessário relacioná-lo a uma das características da ideologia integralista, o nacionalismo. Assim, neste trabalho, pretendese apresentar como o nacionalismo está presente na doutrina integralista, bem como demonstrar como esta característica era importante para o objetivo da AIB de estabelecer no Brasil a nação integral. A AÇÃO INTEGRALISTA BRASILEIRA NO CONTEXTO DE (RE)CONSTRUÇÃO DA NAÇÃO BRASILEIRA Na década de 1930, ou seja, no contexto de existência da Ação Integralista Brasileira, já haviam sido formuladas diversas explicações acerca do desenvolvimento da nação brasileira, bem como haviam sido desenvolvidas diversas propostas de reformas necessárias para a sociedade nacional, que abordavam a identidade nacional e a possibilidade de progresso da nação de acordo com a composição étnica da população do país. Entre as formulações acerca das possibilidades do Brasil evoluir existiam teorias que condenavam a nação brasileira ao fracasso, ao considerar o povo mestiço degenerado, e, por isso, incapaz de fazer o país progredir; a teoria do branqueamento, 136 que defendia a regeneração das raças inferiores (negros e índios) pela sua amalgamação com a raça superior (branca); e a valorização do mestiço como o elemento diferenciador da nação brasileira. Nesse sentido, naquele período, a constituição racial ou étnica do povo era essencial para se pensar a nacionalidade no Brasil. Desde pelo menos a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a defesa de que o Brasil ―daria certo‖ como nação se fez mais presente entre a intelligentsia nacional do que aquelas que condenavam a sociedade brasileira ao fracasso devido à sua composição racial. Assim, as iniciativas para concretizar a nação brasileira também se tornaram mais constantes. Portanto, para a elite intelectual e política nacional daquele período, essa consolidação parecia ser mais palpável a partir de então. As ações da guerra eram caracterizadas como desumanas e autodestrutivas das nações europeias, e, por isso, demonstrariam a desestabilização do ―velho mundo‖ e seu provável declínio. Naquela conjuntura, considerava-se que o Brasil se desenvolvia internamente, principalmente pela diversificação das atividades industriais pela qual o país passava. Ao mesmo tempo, buscava-se demonstrar a importância externa do país, devido à sua participação (a partir de outubro de 1917) no conflito mundial que envolvia as grandes nações. É evidente que a participação do Brasil na Grande Guerra não foi essencial para o resultado do conflito, entretanto, devemos considerar o impacto que essa participação teve na formulação de ideias que considerassem que o país estava em via de alcançar o progresso e a civilização. Um exemplo interessante nesse sentido é a Liga de Defesa Nacional (LDN) criada em 1916 no Rio de Janeiro por um grupo de proeminentes intelectuais do período formado por Olavo Bilac, Pedro Lessa e Miguel Calmon, entre outros. Os objetivos de indicar mecanismos para a solidificação da nação podem ser constatados na seguinte parte do discurso proferido por Olavo Bilac no dia da fundação da Liga, 7 de setembro de 1916: O paiz já sabe, pela rama, o que esta Liga pretende fazer: estimular o patriotismo consciente e cohesivo; propagar a instrucçao primaria, profissional-militar e cívica; e defender: com a disciplina - o trabalho; com a força - a paz; com a consciência - a liberdade; e com o culto do heroísmo a dignificaçao da nossa historia e a preparação do nosso porvir. O intuito principal dos que nos animam é este: a fundação de um centro de iniciativa e de encorajamento, de resistência e de conselho, de perseverança e de continuidade para acção dos dirigentes e para o labor tranquillo e 2 assegurado dos dirigidos . (grifo nosso). 2 BILAC (1916). A Ata de fundação da Liga de Defesa Nacional – LDN –, com o discurso de Olavo Bilac, assim como o primeiro estatuto, pode ser encontrados no sítio oficial da LDN. Disponível em: <http://www.ligadadefesanacional.org.br/primeiroestatuto.htm> (acesso em 30-06-2010). 137 A partir daquele momento, os esforços empreendidos pela elite intelectual para fortalecer o sentimento nacional na população brasileira, a fim de desenvolver a nação, tornaram-se mais evidentes. Dessa forma, verifica-se o fortalecimento de um nacionalismo prático em oposição ao nacionalismo ufanista ou romântico que predominou no Brasil durante o século XIX e nas primeiras décadas do século XX. Na década de 1920, grande parte da intelectualidade nacional se engajou no movimento modernista, o qual, iniciado como movimento literário e artístico, posteriormente, adquiriu posições políticas dividindo-se em quatro tendências, com orientação política de esquerda ou de direita. De acordo com Hélio Trindade, o nacionalismo estava presente em todas as tendências do movimento modernista, e os envolvidos nessa renovação literária e artística no Brasil romperam com o passado, ao mesmo tempo em que seu interesse estético deu lugar ao interesse político. Para o autor, apesar das diferenças ideológicas entre as tendências, ―há um fundo comum a todos eles, que é o nacionalismo‖3. Plínio Salgado, futuro chefe da AIB, se envolveu em uma das tendências, a denominada nacionalista, de orientação política de direita, que, juntamente com a tendência espiritualista, englobaria parte significante da intelectualidade do Integralismo4. O movimento modernista foi muito importante para fortalecer as ideias nacionalistas no Brasil. Entretanto, o sentimento nacional adquiriu evidência política (no sentido de ser tomado como projeto político) no momento em que, depois de rompida a estrutura da ―velha‖ ordem, buscava-se reformular e reconstruir a nação brasileira, ou seja, na década de 1930. Nessa perspectiva, até 1932, as forças políticas eram esparsas e não apresentavam propostas específicas de reformulação da nação brasileira e, portanto, não houve o surgimento de movimentos políticos organizados com o objetivo de criar um novo tipo de sociedade para o Brasil. Com essa finalidade, a Ação Integralista Brasileira (AIB) foi fundada oficialmente em 07 de outubro de 1932, por Plínio Salgado, com a divulgação do documento que ficou conhecido como Manifesto de Outubro. A organização apresentava como principal proposta a construção de uma nova nação no Brasil, a partir da valorização e da recuperação de aspectos considerados genuinamente nacionais, atestando, assim, o caráter nacionalista que o movimento assumiu. 3 4 TRINDADE (1979, p. 44). Ibidem. 138 A Ação Integralista Brasileira foi criada a partir da Sociedade de Estudos Políticos (SEP), organizada meses antes, em fevereiro de 1932, em São Paulo, também por Plínio Salgado. O objetivo da SEP era reunir os intelectuais deste estado para discutir sobre os problemas nacionais e apresentar-lhes soluções. A AIB foi organizada primeiramente como célula da SEP voltada às ações práticas da organização. Com a publicação do Manifesto em outubro começava a se estruturar a organização administrativa da AIB, que, de acordo com os seus estatutos, estava aparelhada de forma hierárquica em Núcleos, Províncias, Diretorias (depois transformadas em Secretarias), e Chefia Nacional. Esta representava o poder máximo do movimento e foi exercida pelo seu idealizador e criador, Plínio Salgado, durante toda a existência da AIB. O modelo administrativo da AIB deveria ser mantido quando ela assumisse o poder político no Brasil e implantasse o Estado Integral. A propaganda, a simbologia e a ritualística eram mecanismos muito utilizados pela AIB, com a finalidade de divulgar os seus ideais, bem como de arregimentar adeptos ao movimento. Com o propósito de divulgar as decisões da chefia nacional e disseminar a doutrina e ideologia integralista, a AIB possuía um grande número de periódicos em todo o território nacional. Contando com jornais e revistas de circulação nacional, regional ou local, a imprensa integralista era muito bem constituída, chegando a contabilizar 138 periódicos ao longo dos anos de existência da AIB. No ano de 1935, o Integralismo passou a contar com a Sigma Jornaes Reunidos, uma empresa jornalística criada pela organização seguindo o modelo de imprensa comercial do período. Naquele ano, a AIB contou com 88 periódicos5. A simbologia e a ritualística6 também eram ferramentas muito importantes para a AIB. A organização política possuía uniforme, bandeira, símbolo, hino, palavra de ordem, e rituais para diversos acontecimentos, publicando, inclusive, os Protocolos e Rituais, que demonstravam como os integralistas deveriam se comportar nas sedes (nucleares ou provinciais) do movimento, e até mesmo na vida social e familiar. A letra grega em maiúsculo, sigma (∑), era a insígnia da AIB, e fazia parte, inclusive, da bandeira integralista (em azul, com a letra grega em cor preta dentro de um círculo de cor branca). A soma (significado do sigma na matemática) representaria a integração ou o desejo de integrar todos os cidadãos brasileiros na unidade nacional. A saudação integralista era feita com o braço direito levantado (semelhante ao gesto 5 6 OLIVEIRA (2009). A descrição de alguns rituais integralistas podem ser verificados em TRINDADE (1979, p. 188-198), BERTONHA (2008, p. 245-265) e FAGUNDES (2009). 139 utilizado pelos nazistas), seguido do pronunciamento da palavra de ordem, ―Anauê!‖, de origem tupi que significa ―Você é meu amigo‖7, o que demonstraria o caráter brasileiro do movimento. Ao longo da sua existência, a AIB delineou sua organização, funcionamento e ideologia. Em março de 1935, no II Congresso Integralista realizado em Petrópolis, o estatuto da Ação Integralista Brasileira foi modificado. A organização foi transformada em partido político, deixando de ser uma sociedade civil de caráter privado, como era concebida até então. A partir da modificação, os objetivos de participar das eleições tornaram-se evidentes. Nas eleições legislativas dos anos de 1935 e 1936 a AIB conseguiu eleger grande número de candidatos. Em 1937, lançou a candidatura de Plínio Salgado à presidência para a eleição que seria realizada em janeiro de 1938, o que não ocorreu devido ao golpe de Getúlio Vargas em novembro de 1937. Com a implantação do Estado Novo no Brasil, ficou proibida a existência de partidos políticos, o que marcou o fim da AIB. Depois disso, a Ação Integralista Brasileira foi transformada em Associação Brasileira de Cultura (ABC), para destituir-se de seu caráter político, e existiu assim até maio de 1938, quando, depois de uma tentativa frustrada de tomada de poder por alguns ex-integralistas, foi extinta por Getúlio Vargas. A composição da ideologia integralista tem sido alvo de debates na historiografia desde os primeiros trabalhos publicados sobre o assunto. A principal discussão a respeito do tema está atrelada à relação (ou não) entre a ideologia integralista e a ideologia dos movimentos fascistas. Para este trabalho, considera-se que (apesar das discussões) é possível verificar a existência de algumas características como parte do ideário integralista, as quais estavam presentes tanto nos textos doutrinários, quanto nos meios oficiais de doutrinação (imprensa) da AIB, sendo elas: o nacionalismo, o anticomunismo, o antiliberalismo, a antidemocracia, o espiritualismo, a disciplina, a ordem, e a hierarquia8. 7 BERTONHA (2005, p. 66). As características ideológicas do Integralismo e sua vinculação ou não à ideologia fascista é bastante discutida pela historiografia sobre o assunto. Para o presente trabalho consideramos a caracterização de TRINDADE (1979). 8 140 O NACIONALISMO DA AIB E A NAÇÃO INTEGRAL O principal objetivo da AIB era chegar ao poder para implantar um governo forte – antiliberal e antidemocrático – capaz de criar no Brasil um novo tipo de sociedade, com base nos seus princípios ideológicos. Apesar da diversidade na defesa e no impacto desses princípios entre os ideólogos, doutrinadores e militantes integralistas, bem como apesar dos diferentes motivos que determinavam a filiação dos militantes ao Integralismo, as características ideológicas elencadas acima apareciam frequentemente na propaganda política integralista. Em meio a essa diversidade de opiniões e à subjetividade da motivação para entrar para as fileiras da AIB, é possível inferir que, mesmo que não fosse o motivo de adesão da maioria dos integralistas ou a característica mais valorizada por todos os doutrinadores e ideólogos do movimento político, o nacionalismo era essencial para a AIB, pois representaria o ―ponto comum‖ a todos os brasileiros. Nesse sentido, o nacionalismo pode ser entendido como um elemento fundamental para angariar adeptos ao movimento, pois ao mesmo tempo em que, para a AIB, este artifício da sua doutrina demonstrava as aspirações da pátria e de todos os seus componentes, comprovaria as intenções nacionalistas do movimento, pois este era apresentado como o verdadeiro responsável pela recuperação dos valores nacionais e da (re)organização da nação brasileira. Com o propósito de chegar ao poder e consolidar no Brasil um governo centralizado e autoritário, a AIB defendia que era necessário organizar no país uma sociedade que integrasse todos os brasileiros e todos os elementos nacionais, na qual não houvesse espaço para conflitos, o que constituiria a nação integral. A consolidação desta sociedade, por sua vez, seria tarefa possível de ser realizada somente pelo Integralismo. Portanto, para criar a nova nação seria imprescindível recuperar os valores brasileiros que representavam a identidade nacional, que, para a AIB eram a história, a cultura, os costumes e as características (como o espiritualismo, por exemplo) inerentes ao povo brasileiro. Assim, para consolidar a nação integral, era essencial unir toda a diversidade presente no país. Nessa perspectiva, o nacionalismo da AIB e a sua proposta de (re)construção da nação brasileira podem ser entendidos a partir da valorização da harmonia social e da unidade nacional, no sentido de que, para o Integralismo, a existência de fatores causadores de desordem na sociedade prejudicariam a unidade nacional e o 141 fortalecimento da nação. De acordo com o projeto integralista de nação, portanto, a integração nacional deveria ir além da questão territorial, deveria ser preconizada e pensada a partir da homogeneização dos elementos que fizessem parte da sociedade brasileira.O caráter nacionalista da AIB pode ser verificado no seu lema, que demonstrava os principais valores defendidos pelo movimento, ―Deus, Pátria e Família‖. A nação estava ao lado da religião e da família como princípios fundamentais a serem valorizados pelos integralistas. O documento de fundação da organização, o Manifesto de Outubro (1932), também demonstra a importância da pátria para o Integralismo, bem como o caráter nacionalista da AIB. Nos itens intitulados: Como entendemos a nação brasileira, e O nosso nacionalismo, especialmente neste último, é possível observar a defesa da necessidade de unificar todos os elementos nacionais para estabelecer a nação brasileira, o que deveria ser feito pela Ação Integralista Brasileira: Levantamo-nos num grande movimento nacionalista, para affirmar o valor do Brasil e de tudo que é util e bello, no caracter e nos costumes brasileiros num só espirito [...] todos os que ainda têm no coração o amor de seus maiores e o enthusiasmo pelo Brasil. Temos de nos affirmar como um povo unido e forte que nada mais poderá dividir. O nacionalismo para nós não é apenas o culto da Bandeira e do Hymno Nacional; é a profunda consciência das nossas necessidades, do caracter, das tendencias, das aspirações da Patria e do valor da raça. Essa é uma grande 9 campanha que vamos empreender . (grifo nosso). O nacionalismo também pode ser constatado nas publicações do jornal A Offensiva, periódico de circulação nacional publicado entre maio de 1934 e maio de 1938 (semanário até dezembro de 1935, e diário até maio de 1938) que tinha o objetivo de divulgar a doutrina do Integralismo. Assim, a veiculação de determinados temas nesse jornal evidencia as características doutrinárias do movimento político. O nacionalismo está presente tanto nos textos que abordam o tema especificamente, quanto em publicações que, ao discutir uma questão referente à doutrina integralista, perpassa o caráter nacionalista da AIB. No texto intitulado Brasilidade10 observa-se nitidamente a intenção da AIB em difundir a ideia de que sua tarefa era despertar o sentimento pátrio no povo brasileiro, a partir da valorização dos elementos nacionais: 9 Manifesto de Outubro de 1932. Para as citações do Manifesto de Outubro neste trabalho utiliza-se a publicação do texto no jornal integralista A Offensiva, edição de 13 de junho de 1937, ano IV, n. 513, p.2. Assim, a partir de agora o documento será nomeado e não mais referenciado. 10 O artigo sem autoria nos remete à opinião do chefe nacional, diretor e/ou orientador deste periódico durante todo o período de sua existência. BRASILIDADE... (1934, p. 2). 142 O Integralismo quer um Brasil bem brasileiro. Despertar a alma da raça, as profundas energias da nação. Crear uma cultura, uma politica, um governo genuinamente nossos, originaes e reveladores do espirito da terra. Crear um novo espírito nacional, com raízes em nossa tradição e com as vivas e sensiveis antennas volvidas para o futuro. Realizar uma larga e vigorosa política de affirmação nacional. Tudo isso é 11 integralismo. É a nossa revolução . Um aspecto que pode ser vinculado ao caráter nacionalista da AIB é a crítica aos elementos estrangeiros. Para o Integralismo, a nação deveria ser defendida da influência externa, ao mesmo tempo em que as características nacionais deveriam ser valorizadas. A história e a cultura – língua, costumes, folclore, literatura, etc. – do país deveriam ser recuperadas para a construção de uma nação forte e livre da influência estrangeira. Essa influência, segundo a doutrina integralista, estaria presente na sociedade brasileira desde a Independência política do Brasil em 1822. No contexto de existência da AIB, o ―estrangeirismo‖ poderia ser observado na economia, na cultura e na política nacionais. Assim, segundo a doutrina da AIB, a influência internacional, ligada ao materialismo representado tanto pelo liberalismo quanto pelo comunismo, prejudicava a unidade nacional. Um texto assinado pelo Capitão Mauriciano – ―um militar christão que se fez integralista‖, publicado em A Offensiva, demonstra a importância do nacionalismo para a AIB, bem como a relação entre este sentimento e a unidade nacional, e a sua contraposição às influências estrangeiras consideradas inimigas da pátria, como é possível observar na seguinte passagem: O Integralismo quer o Brasil para os brasileiros, mas um só Brasil para todos os brasileiros.O nacionalismo é o seu grande argumento, a barreira que elle antepõe ao communismo internacionalista. [...] E a mim que allio, mercê de Deus, um forte sentimento de nacionalismo a um grande horror ao separatismo, satisfaz a Doutrina 12 Integralista em suas múltiplas affirmações nesse sentido . (grifo nosso). Na mesma perspectiva de valorização do nacionalismo em contraposição ao estrangeiro, foi publicada a tradução de um artigo sobre o Integralismo que teria sido publicado em fevereiro de 1935 em uma revista de Nova York, La nueva democrácia. O artigo divulgava o livro de Gustavo Barroso, O Integralismo de norte a sul, demonstrando a importância do fascismo para o movimento integralista, especialmente devido ao anticomunismo característico do fascismo. Entretanto, evidenciava a especificidade da AIB em relação aos movimentos fascistas europeus, a partir do 11 BRASILIDADE... (1934, p. 2). 12 MAURICIANO (1937, p. 4). 143 sentimento de brasilidade representado pelo nacionalismo integralista, como atesta a seguinte passagem: Contudo, o Integralismo não copia exactamente o fascismo. Tem seus matizes proprios, seu caracter de brasileirismo. O dr. Barroso dedica alguns periodos a Integralismo e Brasilidade, offerecendo nelles ao leitor os seus aspectos mais nitidamente nacionaes. Com o lema ―Deus, Patria e Familia‖, o Integralismo pretende restituir ao Brasil sua integridade e grandeza [...] Mais tarde affirmou que o movimento integralista não é um partido, mas uma doutrina, uma cultura e uma fé, bastando que a nação a comprehenda para sentir sua grandeza e sua capacidade em 13 novamente dignificar o Brasil . Dessa forma, a AIB se afirmava como representante da unidade nacional e organização política capaz de recuperar a integridade e grandeza da pátria brasileira. Para tanto, o Integralismo deveria transformar a sociedade brasileira em uma sociedade integral, o que seria feito quando esta organização política chegasse ao poder e implantasse o estado integral ou integralista. A transformação se daria a partir de modificações na economia, na política e na cultura nacional. Para consolidar a nação brasileira integral seria necessário instituir um poder centralizado e forte que fosse capaz de modificar a estrutura econômica do país, a partir da nacionalização dos bancos, das minas, da energia hidrelétrica e do petróleo; do controle das redes de transportes e comunicações. Além disso, seriam necessárias ―revisão de todos os contratos assinados com estrangeiros; a renegociação da dívida externa; a reforma do serviço diplomático; uma legislação mais rigorosa para a imigração [...]‖14. Assim, os problemas econômicos e estruturais brasileiros, de acordo com a proposta integralista de estado-nação, estariam relacionados, em partes, à ausência de projetos econômicos nacionalistas por parte do governo instituído, que deveria ser substituído pelo estado integral. Mais do que controlar a economia, o estado integralista deveria adentrar todos os setores da sociedade brasileira para unificar os seus elementos constituintes e formar a nação integral. Nesse sentido, o nacionalismo do movimento se caracterizava pela defesa da união de todos os brasileiros ―num só espírito‖, a partir da valorização das características do Brasil, de acordo com o propósito da AIB de criar uma ―cultura, uma civilização, um modo de vida genuinamente brasileiro‖15. O Manifesto de Outubro demonstra o caráter homogeneizante da proposta integralista de nação brasileira, atentando à necessidade de fortalecer o sentimento de 13 BRASILIDADE... (1935, p. 5). 14 LEVINE (1980, p. 130). TRINDADE (1979, p. 209-210). 15 144 integração nacional em todos os brasileiros: ―A Nação Brasileira deve ser preconizada, una, indivisível, poderosa, prospera, rica e feliz. Para isso precisamos de que todos os brasileiros estejam unidos‖16. Destarte, a AIB apresentava sua proposta de (re)construção da nação brasielira baseando seu discurso na integração (ou união) de todos os elementos nacionais, e apresentando-se como única organização política capaz de integrar esses elementos e consolidar a unidade nacional. Ao verificar os elementos destacados pela AIB como obstáculos externos (tais como liberalismo e comunismo) à consolidação da nação integral, é possível considerar que o projeto integralista de nação se baseava em um nacionalismo ligado às outras características doutrinárias ou ideológicas da AIB, tais como antiliberalismo, anticomunismo e antidemocracia. 16 Manifesto de Outubro de 1932. 145 REFERÊNCIAS ARAÚJO, Ricardo Benzaquen de. Totalitarismo e revolução – O Integralismo de Plínio Salgado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 1988. BATISTA, Alexandre Blankl. “Mentores da nacionalidade”: a apropriação das obras de Euclides da Cunha, Alberto Torres e Farias Brito por Plínio Salgado. 2006. 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O jornal A Voz do Trabalhador, nas publicações do Primeiro de Maio, possui textos alusivos a data, a fim de conscientizar o operariado para que compreenda o verdadeiro significado da data, ao mesmo tempo criticando a forma como os trabalhadores considerados inconscientes comemoram a data, alegando que na sociedade capitalista não existe nenhum motivo para festejar o trabalho. PALAVRAS-CHAVE: Primeira República, Primeiro de Maio, anarquismo. INTRODUÇÃO Inicialmente no Brasil as comemorações do Primeiro de Maio tinham um caráter festivo na quais as instituições ligadas aos operários realizavam bailes, festas em homenagem ao trabalhador. Os europeus que vieram para o Brasil na esperança de encontrar um lugar para viver em liberdade e prosperar contribuíram para o desenvolvimento da consciência de classe dos trabalhadores nacionais, trazendo para o país as ideologias negadoras como o anarquismo e socialismo. Devido ao sistema político da época que dificultava a eleição de trabalhadores, defendida pelos socialistas, o anarquismo ganha mais espaço no movimento operário brasileiro em comparação ao socialismo. Os anarquistas buscavam no passado, a legitimação da data apoiando-se no luto pelos ―mártires de Chicago‖, nas manifestações ocorridas em 1º de maio de 1886 nesta cidade pela redução na jornada de trabalho para oito horas. Os manifestantes foram duramente reprimidos pelas autoridades, resultando em outra manifestação, marcada dpara o dia 4 de maio do mesmo ano. No momento do tumulto uma bomba de origem desconhecida explodiu no meio dos policiais, a reação foi imediata, o policias abriram fogo contra os manifestantes. Os principais líderes foram presos e condenados, cinco deles a morte e três a prisão. A escolha da data coincide com as Resoluções da Segunda Internacional Operária realizada em Paris, em julho de 1889, quando foi decidida a criação de uma data na qual os trabalhadores de todo o mundo reivindicariam seus direitos, um dia internacional dedicado a paralisações. Estabelecendo que a primeira manifestação da data ocorresse em 1890, porém no Brasil em 1890 não há registro a respeito de comemorações do Primeiro de Maio. 148 Em 1906 foi realizado no Rio de Janeiro o Primeiro Congresso Operário, que entre suas resoluções, definiu como o operário consciente deveria ―comemorar‖ a data, alegando que diante da sociedade capitalista, deviriam se conscientizar e lutar contra a exploração burguesa, que tudo rouba do trabalhador. O trabalho tem por objetivo analisar as comemorações do Primeiro de Maio no Brasil durante a Primeira República, tendo como fonte o periódico anarquista A Voz do Trabalhador, publicado entre 1908 e 1915 no Rio de Janeiro. IMAGENS E MENSAGENS LIBERTÁRIAS O veiculo principal utilizado para propagar as idéia anarquista, e convocação dos trabalhadores era o jornal operário. Os discursos e imagens libertárias, veiculados na imprensa operária, ao mesmo tempo em que forneciam elementos para a construção de um imaginário violento e ameaçador, por seu caráter incisivo e vibrante, procuravam neutralizar e defender-se, expressando, nos textos, suas idéias de harmonia e libertação. As imagens produzidas pelos jornais libertários brasileiros apresentam elementos inspirados na Revolução Francesa, ou até tradição de países com raízes anarquistas, como Espanha, Portugal, França, Argentina e Itália, eram emprestadas em nome de uma legitimação ideológica, nas palavras de Raquel de Azevedo, ―a reprodução de alguns textos e ilustrações não se fundava apenas na carência de uma produção nacional, mas desempenhava intencionalmente o intercâmbio internacional e a reiteração do passado.‖ 1 O jornal anarco-sindicalista A Voz do trabalhador, que servirá de base documental desta pesquisa, teve duas fases, a primeira foi de 1º de janeiro de 1908 a 9 de dezembro de 1909, com a publicação de 21 números, sob a responsabilidade de Manoel Moscoso, como editor; José Romero, administrador; Mota Assunção e Carlos Dias. A segunda fase iniciou-se em 1º de janeiro de 1913 e foi até 8 de junho de 1915, com edições quinzenais, oscilando entre 3 000 a 4 000 exemplares. Recebeu edição fac-símile em 1985 da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, com a publicação de 71 edições. O jornal da Confederação Operária Brasileira, em comparação com outros jornais anarquistas do Rio de Janeiro, teve uma vida longa, porém devido à posição que assumia, era constantemente reprimido, ao ponto de ter sua edição interrompida por um significativo período, nas palavras de Boris Fausto: [...] Embora surgisse como jornal da COB, assumiu as posições do anarco-sindicalismo aí dominantes, convertendo-se em um exemplo de equilibrada combinação entre a divulgação teórica, a 1 AZEVEDO, Raquel de. A Resistência Anarquista: uma questão de identidade (1927-1937), 2002 p. 170. 149 propaganda, a temática do movimento operário. Sobretudo em sua primeira fase, constitui-se também em um canal de expressão dos problemas dos trabalhadores no nível da empresa. 2 Para os anarcos-sindicalistas era preciso organizar o movimento apoiado sobre três princípios: propaganda, educação e rebelião, através da organização de vários eventos culturais, produção de folhetos, jornais, revistas e outros materiais impressos, para que os operários se engajassem na luta pela liberdade. O jornal possuía em média quatro páginas, com exceção para a edição dedicada ao Primeiro de Maio. As páginas eram organizadas em cinco colunas, com artigos de opinião, noticiário e espaço para propaganda de livros e eventos, sendo que outros tipos de propaganda eram estritamente proibidos. Para manter as publicações do jornal os editores organizavam eventos, recebiam doações de sindicatos e mantinham uma assinatura mensal. Seu publico alvo era os trabalhadores, porém conforme o editorial, seu apelo também era direcionado a todas as associações que lutam pelo bem estar da classe trabalhadora. Já na primeira edição do jornal, em 1º de junho de 1908, são apresentados aos trabalhadores os objetivos que o jornal pretendia alcançar, como a de agitar o proletário, que diante de sua situação parecia estar conformado, defender a emancipação dos trabalhadores, denunciarem a tirania e exploração capitalista, bem como a linha ideológica que seria seguida. A edição dedicada ao Primeiro de Maio de 1909, apesar da campanha realizada na edição anterior para arrecadação de fundos para uma publicação maior e mais detalhada, foi publicada com apenas quatro páginas, porém com vários textos alusivos à data. Já em sua primeira página, começa com uma nota de convocação aos operários para que comparecessem à manifestação que seria realizada no mesmo dia na rua, conclamando: Operários! A federação operária do Rio de Janeiro comemora hoje o 1º de Maio com uma manifestação pública que partirá da sua sede, Rua do Hospício, 144, á 1 hora da tarde, indo, depois percorrer varias ruas, até o Largo de S. Francisco onde se realizará um comício. [...] 3 Segundo o jornal o Primeiro de Maio deve ser: [...] dedicado à confraternização do operariado universal. Todos que trabalham devem considerar esta data a maior que o ano possui, porque ela não só lembra o sangue das vitima de Chicago, como prova que a burguesia rústica e ignóbil, tem praticado todas as misérias na sociedade atual. Todas as misérias sim, porque ao operário é negado aquilo que lhe pertence de direito. Não se lhe faz justiça, sacrifica-se-lhe por 2 3 FAUSTO, Boris. Trabalho urbano e conflito social, 1977, p.79. A Voz do Trabalhador, Rio de Janeiro, 1º de maio de1909, ano I, nº 10, p. 1. 150 protestar contra a ambição do potentado, enfim, ele é a vitima dessa fúria hedionda. Porque a burguesia, que é um conjunto de algozes, domina a sociedade pervertida em que vivemos. 4 O jornal convocava a todos os operários para saírem à rua a reivindicar os direitos que lhes foram privados, defendendo a necessidade de que os operários demonstrassem o seu descontentamento por toda a miséria que invadia seus lares. A edição do Primeiro de Maio de 1913 tem em sua primeira página uma imagem (ilustração 1) na qual um trabalhador é representado com os punhos cerrados olhando para o horizonte, onde o sol nascente remete ao surgimento da nova era. O trabalhador trajado como sua roupa de trabalho anda sobre os escombros do passado destruído. Os escombros são representados pelas instituições exploradoras do proletariado: a Igreja, o capitalismo, a burguesia, o militarismo e aristocracia. A alegoria representada pelo trabalhador musculoso e de peito nu, representa o símbolo da união e da consciência operária. As algemas rompidas ao mesmo tempo em que representam a disposição para luta e o sinal de uma mente liberta e revolucionária fazem uma ligação com a escravidão. Ilustração 1 A Voz do Trabalhador, Rio de Janeiro, 1º de maio de 1913, ano VI, nº 31, p. 1. Arquivo UEL – CDPH 4 A Voz do Trabalhador, Rio de Janeiro, 1º de maio de 1909, ano I, nº 10, p. 1. 151 O Primeiro de Maio no Brasil durante a Primeira República, inicialmente foi comemorado como festa do ―trabalho‖, fato amplamente criticado pelos anarquistas, pois, segundo eles, ao festejar a data, o trabalhador estava desvirtuando-a de seu verdadeiro significado. Segundo A Voz do Trabalhador, isso ocorria, porque os trabalhadores desconheciam a verdadeira origem da data: [...] Erroneamente e isso por desconhecerem a verdadeira causa que deu margem ao 1º de Maio, grande número de operários o festejam. Por interesse, por bajulação, como um pretexto para salamaleques, muito indivíduos, exploradores do operariado preparam grandiosas festanças, ruas embandeiradas, foguetórios, musicadas tudo enfim para desvirtuar a origem desta data e distrair o trabalhador, pois bem sabem que enquanto ele vai deixando explorar ingenuamente vão os amigos dos operários gozando sem preocupações com o dia de amanhã. 5 Para os operários o dia ideal seria dividido em três partes iguais, uma parte destinada ao trabalho, outra ao prazer e finamente uma parte para o merecido repouso. No caso brasileiro este ideal, aparece em A Voz do Trabalhador com o titulo de ―Fadiga e o dia de oito horas‖, na edição dedicada ao Primeiro de Maio de 1913, trazendo referência aos três oitos: ―Entre as reivindicações que os operários organizados de todos os países põem na ordem do dia, encontra-se a diminuição das horas de trabalho que eles, no geral, reduzem a oito, formando a já celebre jornada dos Três Oito: oito horas de trabalho, oito horas de sono e oito horas de recreio. [...] 6 Nas edições que seguiam a do Primeiro de Maio, era feito um balanço das manifestações da data, em 15 de maio de 1913, A Voz do Trabalhador, trouxe informações a respeito da data, noticiando que, apesar de todas as barreiras, o Primeiro de Maio foi comemorado no Rio de Janeiro como exige a sua origem, dando-lhe um caráter verdadeiramente revolucionário. Segundo o jornal, uma numerosa multidão compareceu ao comício que se realizou no Largo São Francisco na comemoração do Primeiro de Maio de 1913 com a distribuição de um conciso manifesto explicando a origem do Primeiro de Maio. Aludindo à data, falaram Luiz de França, Cecílio Vilar, Demetrio Minhana, Zenon Budazewiski e Edgar Leuenroth, que vindos de São Paulo expuseram a situação horrível dos trabalhadores. Após terminar o comício, e quando a multidão se havia em grande parte dispensada, houve um tumulto que resultou na prisão de Edgar Leuenroth que, dias depois, foi posto em liberdade ante o protesto popular que tomava vulto. 7 O editorial na edição especial de Primeiro de Maio de 1914, reforçava o significado que a data deveria ter para o operário consciente, pois, segundo o jornal, devido a sua condição de 5 Voz do Trabalhador, Rio de Janeiro, 1º de maio de 1913, ano VI, nº 31, p. 2. A Voz do Trabalhador, Rio de Janeiro, 1º de maio de 1913, ano VI, nº 31, p. 4. 7 A Voz do Trabalhador, Rio de Janeiro, 15 de maio de 1913, ano VI, nº. 31, p. 2. 6 152 escravo, não haveria motivo para festejar o trabalho, somente poderiam festejar a data quando tiverem conquistado seus direitos. Na mensagem publicada, o caráter festivo deveria ser deixado de lado, assumindo o trabalhador uma consciência de luta, pois mesmo com a República, os direitos prometidos não se cumpriram, restando aos operários somente sua disposição e braço para luta: [...] O operário, que é o braço forte do progresso de todas as nações, que impulsiona o comercio e a indústria, que constrói os portentosos palácios, que tudo movimenta e edifica, vai-se compenetrando da sua importância nas sociedades modernas. [...] O 1º de Maio, dia de veementes protestos contra a organização social vigente, baseada em falsos princípios, onde não existe justiça e o direito é uma vara torta, não deve ser transformado em dia de festa estrondosas, sob pena de perverter o seu verdadeiro caráter de reivindicação. 8 A edição de 1915 será a ultima publicação alusiva ao Primeiro de Maio de A Voz do Trabalhador, em 8 de julho de 1915 o jornal encerrou suas publicações definitivamente. A publicação daquele 1º de maio seguiu com um inflamado discurso de protesto contra a sociedade vigente, exploradora do sangue operário, onde o capitalismo, e o burguês aparecem associados a características animalizadas: Um ano mais em que chega esta data comemorativa, e os explorados de toda a vida continuam entregando a hiena capitalista o seu suor, a sua vida e o porvir de seus filhos, um porvir tão negro como a mesma miséria eternamente instalada nos nossos lares, como caracteres alarmantes, semeando a tuberculose com toda a sua força de infiltração horripilante. [...] Um ano mais em que os assalariados se tem deixado arrancar o produto integro do seu labor diário, suportando covardemente a morte à fome dos seus velhos pais e dos seus filhos, sem que por isso tenhamos visto vislumbrar-se, nos seus rostos agoniados, o menos sinal de descontentamento e de protesto contra os que durante todo ano chupam o sangue de humanos músculos, qual si nestes pampas americanos acampassem grandes legiões de antropófagos. Um ano mais em que o eterno grupo de homens conscientes derramam às mãos cheias a semente fecunda da rebeldia, preparando a grande colheita emancipadora, e a terra que recebe essa semente, plena de abrolhos e de joio político, estéril, nega-se a fecundar o ―ventre‖ (leiase a Revolução) que há de dar à luz a integral liberdade dos homens escravizados nesta sociedade hipócrita, mãe da burguesia exploradora e ruim madrasta dos que trabalham e não comem. Um ano mais em que a burguesia, insaciável de ouro, explorou impunemente grandes legiões de escravos modernos, atentando contra a legítima propriedade dos nossos braços, e ainda sem ter em conta que a grande massa proletária jamais sentiu satisfeita as suas necessidades estomacais. [...] 9 8 9 A Voz do Trabalhador, Rio de Janeiro, 1º de maio de 1914, ano VII, nº 53-54, p.2. A Voz do Trabalhador, Rio de Janeiro 1º de maio de 1915, ano VIII – nº 70, p. 3. 153 O texto finaliza convocando os trabalhadores a ―engrossar as filas do exército proletário‖, pois somente com a união o ―polvo social que cravando seus tentáculos no lar operário‖, deixando semeadas a miséria, a tuberculose, a prostituição e a ruína, pode ser derrotado: Companheiro! Tenhamos firmeza na união dos explorados, fé no porvir e demonstremos à burguesia e ao Estado que estamos dispostos a que este ano seja de verdadeiras reivindicações e conquistas e assim demonstraremos ao mundo burguês que sempre chega a data do 1º de maio entrincheirados em nossas invencíveis posições fazemos retroceder anos nossos inimigos, répteis que alimentam do sangue operário, do nosso sangue. 10 CONSIDERAÇÕES FINAIS As comemorações do Primeiro de Maio no Brasil, durante o período analisado, foram caracterizadas por divergências, tanto em sua interpretação quanto na forma de marca a data. Porém, todos pareciam entender que o dia deveria ser dedicado a confraternização do operariado, com passeatas e comícios. Os anarquistas, pelo seu veículo de imprensa, A Voz do Trabalhador, se preocuparam em ensinar ao operariado o verdadeiro significado da data, buscando no passado do movimento operário sua legitimação. Assim, defendiam que o dia deveria ser dedicado a paralisações, greves, reivindicação, condenando a forma como os operários inconscientes comemoram a data, por desconhecerem o seu verdadeiro significado, ou motivados pelos governantes e socialistas. Mediante as pesquisas realizadas, foi possível compreender a preocupação do jornal em conscientizar o trabalhador a respeito de sua condição de explorado, de vítima da sociedade capitalista. A imprensa libertária ocupou um lugar de destaque dentro do movimento operário, por propagar os ideais libertários, pois, segundo a concepção anarquista, somente com a educação seria possível atingir a reforma social. Portanto, o Primeiro de Maio, mesmo apresentando divergências em torno da sua forma de representação, significou um dos mais importantes momentos de expressão e ampliação da consciência de classe, presente especialmente nos setores mais organizados do operariado. 10 A Voz do Trabalhador, Rio de Janeiro 1º de maio de 1915, ano VIII – nº 70, p. 3. 154 BIBLIOGRAFIA ARÊAS, Luciana B. As comemorações do Primeiro de Maio no Rio de Janeiro (1890-1930). História Social, IFHC/UNICAMP, n. 4/5, 1997/1998. AZEVEDO, Raquel de. A Resistência Anarquista: uma questão de identidade (1927-1937) / Raquel de Azevedo – São Paulo: Arquivo do Estado, Imprensa Oficial, 2002. (Coleções Teses e Monografias, vol. 3). A Voz do Trabalhador: Orgam da Confederação Operária Brazileira: coleção fac-similar de 71 números, 1908-1915. Prefácio de Paulo Sérgio Pinheiro. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado. Secretária da Cultura: Centro de Memória Sindical, 1985. BATALHA, Cláudio H. M. 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Porto Alegre: L&PM, 2002. 156 NATUREZA E AGRICULTURA EM ITU NO SÉCULO XIX: O SIGNIFICADO DA FAZENDA MODELO Karina Barbosa Sousa Quiroga Mestranda do Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Estadual de Londrina [email protected] RESUMO: O trabalho apresentado é fruto de uma necessidade da época, ou seja, do momento em que as preocupações em torno do desenvolvimento sustentável ou dos impactos gerados pelas ações humanas se tornam cada vez mais presentes em debates científicos e, conseqüentemente em iniciativas políticas. Nossa proposta parte da necessidade de compreensão das idéias que se desenvolveram em Itu sobre a natureza ao final do séc. XIX. Como fonte utilizamos três periódicos desde 1860, O agricultor Paulista, 25 de Março e o Correio Paulistano. Os dois primeiros foram editados em Itu por iniciativa de Carlos Ilidro da Silva, agrônomo interessado em reformar os métodos de cultivo praticados até aquele momento. No último jornal, editado na cidade de São Paulo, o agricultor passou a escrever uma coluna quinzenal, na qual discorria sobre as mesmas práticas que deveriam ser superadas e os meios para tal. Baseando-nos em suas ideias procuramos identificar como natureza e agricultura se coadunavam, no sentido de compreender uma face de um movimento mais amplo vivido no país, qual seja, o crescimento de uma sensibilidade em relação ao mundo natural no século XIX. Palavras-chave: história; meio-ambiente; desmatamento. 1 – INTRODUÇÃO O tema central dessa pesquisa refere-se ao ideário de Carlos Ilidro da Silva, o qual procurou refletir sobre alternativas para revigorar o solo, desgastado pelos anos de culturas sucessivas. Agricultor, nascido em Araçariguama, formado em Direito, viveu em Itu entre os anos de 1860 e 1867 e desenvolveu nesse município uma escola agrícola, mantida em funcionamento em sua Fazenda Modelo, fundada em 1860. A criação da Fazenda teve como finalidade instruir os agricultores da região sobre os métodos mais modernos de cultivo e trabalho com o solo, sobre a utilização de maquinários aratórios e também a respeito da importância da utilização de adubos e a necessidade de conservação das matas para a agricultura. Fazia parte das suas propostas editar um periódico – O Agricultor Paulista – fonte primária dessa pesquisa, no qual discorria sobre os mais variados gêneros agrícolas e a respeito dos melhores meios para o aproveitamento dos terrenos e obtenção de boas colheitas. O agricultor editava paralelamente a ele um jornal quinzenal – O 25 de Março, cuja finalidade era discutir assuntos ligados diretamente ao município e tecer alguns comentários pontuais sobre a atuação de alguns políticos que influenciavam diretamente suas ações. Nosso principal objetivo nessa pesquisa foi refletir como natureza e agricultura foram pensadas pelo agricultor e perceber de que modo seus apontamentos estiveram perfilados a um conjunto de ideias lançadas por outros pensadores que procuraram refletir sobre os problemas agrícolas associados ao problema da devastação. 157 A ideia de estudar o pensamento de Carlos Ilidro surgiu a partir do momento em que percebemos a ligação do mesmo com intelectuais da época que procuraram refletir sobre a natureza e seus recursos, sobre métodos considerados rotineiros e pensar alternativas para o progresso agrícola do Brasil. No limite, a maior parte desses pensadores pertencia ao círculo de instituições oficiais do Império, através das quais teciam suas observações. Nesse sentido, procuramos apresentar em que medida o contato de Ilidro com esses intelectuais favoreceu a disseminação da crítica sobre os usos dos recursos naturais, associados ou não ao escravismo, latifúndio e à ideia de preservação além dos espaços institucionais de discussão. 2 – A HISTÓRIA AMBIENTAL E A CRÍTICA AMBIENTAL NO BRASIL Nossa pesquisa se insere no campo das reflexões da história ambiental que estão crescendo no Brasil das últimas décadas. No que se refere ao nosso objeto de pesquisa, a Fazenda Modelo, cumpre ressaltarmos a atualidade de um debate que já se percebia dinâmico em 1860. As preocupações em relação ao desgaste do solo, aos métodos rotineiros de cultivo, às queimadas, à efemeridade com que os agricultores lidavam com os recursos naturais, percebidas e analisadas pelo agricultor Carlos Ilidro da Silva, possibilitam uma reflexão importante sobre participação dos agricultores no debate ambiental do século XIX, os quais procuraram discorrer sobre a relevância da natureza, seja pela importância dos seus recursos, pela salubridade a ela associada ou pelo prazer decorrente de sua beleza. Tomamos o importante cuidado em não transpormos conceitos e definições atuais para a análise das fontes, procurando, desse modo, apresentar os termos da forma como foram lançados pelo agricultor, a fim de que pudéssemos compreender qual era o debate proposto na época em referência à natureza e à agricultura. A história ambiental possui um campo de atuação vasto, porém relativamente novo. Os historiadores dessa área, nas palavras de Donald Worster1, enxergam a experiência humana a partir das restrições naturais. Seu objetivo principal é entender como os seres humanos foram afetados pelo seu ambiente natural e como inversamente o afetaram. Isso implica em necessariamente atribuir aos componentes naturais a capacidade de condicionarem a sociedade e a cultura humanas. Para a história ambiental a natureza assume o estatuto de agente definidor da sociedade na proporção em que a cultura humana age sobre o meio físico se apropriando do que ele oferece para o seu uso. Para Donald Worster, a importância da história nesse tipo de análise reside no fato de poucos cientistas terem encarado o homem como parte integrante dos ecossistemas, fato que 1 WORSTER, Donald, Para Fazer História Ambiental: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol.4, nº8, 1991, p. 198-215. 158 outorga aos historiadores a tarefa de unirem esses dois elementos, que convencionalmente foram analisados separadamente. O historiador que lida com o domínio da história ambiental, portanto, deseja saber que papel a natureza teve na moldagem de métodos produtivos e os impactos que tais métodos exerceram sobre a natureza. Donald Worster afirma que podemos identificar na história ambiental também um trabalho de análise cultural, pois estuda percepções e valores de pessoas em relação ao mundo não humano, ou seja, percepções de como uma cultura percebeu e avaliou a natureza. Contribuindo com a análise de Woster, Marcos Lobato Martins sugere que a nossa preocupação é colocar as sociedades humanas na natureza. Dito de outra forma, ela quer conferir às forças da natureza o estatuto de agente condicionador ou modificador da cultura, atribuir aos componentes naturais ‗objetivos‘ a capacidade de influir significativamente sobre os rumos da história.2 Marcos Lobato Martins esclarece que nossa ambição deve ser a de compreender de que modo sociedade e natureza se coadunam, procurando fugir de reducionismos geográficos e biológicos e estabelecendo uma análise que considere uma série de fatores, dentre as quais aponta geografia, tecnologia, demografia e exigências sociais e políticas. Um marco de referência nesse modelo de abordagem foi a Escola dos Annales, a qual através das ideias de estrutura e longa duração superou tanto o determinismo do darwinismo social como o pensamento sobre a necessidade de superação das forças da natureza como meta das civilizações prósperas. Com Braudel, a reflexão sobre a história é também uma reflexão sobre o meio ambiente, na qual o meio ambiente não é nem um determinante absoluto nem um simples cenário passivo e estático em que se dá a trajetória humana. O meio ambiente na perspectiva braudeliana é ativo e dinâmico, é determinante e determinado, é espaço natural e espaço construído, move-se embora lentamente.3 Como apontamos anteriormente, nesse domínio histórico buscamos encontrar a natureza na vida humana e compreender as conseqüências ecológicas das ações humanas no meio natural.4 2 MARTINS, Marcos Lobato. História e Meio Ambiente. São Paulo: Annablume, 2007, p. 22. MARTINS, Marcos Lobato. História e Meio Ambiente. São Paulo: Annablume, 2007. p. 21. 4 Idem, p. 23. 3 159 Do mesmo modo, Martins percebe que a história ambiental promove um diálogo com a história econômica, pois ambas enfatizam as condições materiais da existência das sociedades, que se instituem como tema fundamental de ambos os domínios da história. A natureza também é analisada como fonte de valores que nutrem as artes, as religiões e os saberes. Portanto, a imagem produzida sobre ela é uma construção cultural, que depende, para ser preservada, da construção coletiva de um conjunto de valores. Quanto ao plano teórico, a história ambiental busca nas ciências naturais aquilo que pode ser pertinente a cada pesquisa. A epistemologia deve, portanto, ser flexível o bastante para responder às exigências de cada objeto de estudo. Como sugere Martins: No decurso da pesquisa, à medida que se constrói o método em direção ao seu objeto, emergirão as oportunidades para os diálogos com os saberes acumulados pelas disciplinas das ciências naturais e das ciências humanas5. Quanto aos métodos utilizados para a pesquisa em história ambiental, José Carlos Martins sugere ao historiador encarar as sociedades e a natureza do ponto de vista holístico, de modo que possam proporcionar a observação de múltiplas variáveis ambientais e sociais, além de elaborar um inventário o mais completo possível dessas relações, considerando o repertório de técnicas, instrumentos e equipamentos de que dispõem a sociedade estudada ou, dito de outro modo, o meio pelo qual os homens adquirem da natureza as matérias-primas e a energia que necessitam. O historiador deve tomar o espaço e o meio ambiente como dados físicos e naturais, e também como dados sociais e culturais, realizando trabalhos de campo como forma de se inserir no conjunto de relações que procura compreender. Dialogar com a demografia, sociologia, geografia, climatologia, ecologia, geologia, paleontologia e biologia também faz parte do trabalho do pesquisador.6 Dora S. Correa, ao estudar o processo social que favoreceu o desaparecimento da mata de Itapeva, definiu aspectos a serem considerados no que se refere ao plano teórico que define o estudo da história ambiental. Em sua tese considera que seria um engano encarar a história ambiental como o conjunto de estudos que tem como temática o meio ambiente. Isto por que as obras dos historiadores têm apontado enfoques bastante divergentes. Algumas apresentam o homem como personagem central da narrativa, enquanto outras enxergam a natureza como protagonista. Como exemplo dessa divergência de enfoque a autora analisou as abordagens de Keith Thomaz e Warren Dean. 5 6 MARTINS, Marcos Lobato. História e Meio Ambiente. São Paulo: Annablume, 2007, p.51. Idem. 160 Para Keith Thomas, o mundo natural e o homem compõem uma realidade apenas dentro de uma historia humana, enquanto Warren Dean destaca a natureza de um mundo humano, como se fossem duas forças antagônicas, sempre numa relação de destruição. Enquanto a primeira se reconhece enquanto história social e não foge das fronteiras das ciências humanas, a outra se apresenta como uma especialidade totalmente nova, penetrando na ecologia. É esta última tendência que constitui a historia ambiental e seus promotores se intitulam historiadores ambientais7. Portanto, percebemos que a abordagem entre os historiadores ambientais ocorre a partir de enfoques diversos e, por vezes, antagônicos. A história ambiental parte do pressuposto de que toda ação humana provoca alterações na natureza, que gera um impacto sobre a mesma e afeta reciprocamente a humanidade. Nesse sentido, os críticos8 desse domínio da história apontam que ela está amparada na ideia de uma consciência universal e que, portanto, esconde a diversidade dos homens no tempo e no espaço. Ainda segundo Dora. S Correa, há uma certa fragilidade da história ambiental quando se mudam os protagonistas tradicionais da ciência humana, substituindo pela natureza, num processo de personificação da Natureza. O problema consiste na conclusão a que chegam essas análises, pois ao final, mesmo quando ao se referem aos índios ou aos industriais, conclui-se que houve algum grau de impacto e devastação. Nesse sentido é importante que as novas abordagens considerem a possibilidade de reflexão maior sobre o objeto a ser trabalhado para que essa tendência possa ser superada. É importante, portanto lançar mão de elementos de pesquisas recentes no campo da história ambiental que possam superar essas fragilidades. Nossa perspectiva entende que a preocupação com o mundo natural não é algo recente. Pretendemos demonstrar nesse trabalho como natureza, agricultura, técnica e homem se integraram num período e local específicos do século XIX, partindo análise documental. Além disso, temos observado que trabalhos recentes como o de José Augusto Pádua – Um sopro de destruição – têm demonstrado superar essas fragilidades mencionadas por Dora S. Correa, pois têm buscado perceber as projeções humanas sobre a natureza. Desse modo, a visão de que a humanidade estaria em choque permanente com a natureza tem sido substituída por um procedimento que busca perceber de que maneiras os homens se relacionaram com a natureza e qual visão construíram sobre o mundo natural. Esse é o foco da nossa análise. 3 – A PRESERVAÇÃO 7 CORREA, Dora S. Paisagens sobrepostas. Índios, posseiros e fazendeiros nas matas de Itapeva (1723 – 1930). Tese de doutoramento. Universidade de São Paulo, 1993, p. 38. 8 CORREA, Dora S., 1997, p. 47. Destacam-se nessa referência crítica os autores SAUNDERS e MARSTON. 161 Algumas das mais importantes considerações de Ilidro, autor e editor do periódico - O Agricultor Paulista - foi a respeito da importância das florestas para a agricultura, além de refletir sobre o problema do escasseamento da mão de obra e da necessidade de aumento da produtividade diante do progresso técnico. O agricultor afirmava, desse modo, que as matas dos terrenos pedregosos ou inclinados deveriam ser preservadas. É porque já ouvimos alguns perguntarem o que hão de fazer de grande porção de terras pedregosas e montes alcantilados que possuem em suas fazendas, julgamos conveniente antecipar uma simples resposta que mais tarde desenvolveremos, é que devem destinar a criação das matas que espontaneamente fornecem um grande produto pelo corte das madeiras para construções, e que já vai se sentindo necessidade, e sobretudo pela salubridade do clima agrícola, porque as matas absorvem e entretém a umidade [...] e purificam o ar e o ambiente de que todos precisamos, e que já não é o que foi em nossa província pela desastrosa extinção das matas, o pior dos malefícios da cega rotina.9 Carlos Ilidro revelava em seus escritos uma preocupação com a destruição das florestas, que já evidenciava alterações do clima. As áreas não aráveis, portanto, deveriam ser preservadas para o corte da madeira e para manutenção da salubridade climática e do ar. Para ele, esses terrenos abandonados à criação das matas teriam um dia um imenso valor e aplicações que o progresso da agricultura indicaria no futuro. Portanto, na falta de maiores utilidades, o autor sugeria que se mantivessem essas áreas em função do progresso agrícola. Em oposição ao machado e ao fogo, Carlos Ilidro prometia grandes benefícios a partir do uso do arado. Afirmava que se a superabundância da vegetação era uma grande fonte de estrume, maiores fontes poderiam ser os currais e chiqueiros. Não era preciso, portanto, queimar as florestas para obter-se boa qualidade de produção.10 Também percebemos em relação às matas nativas a instrução de afastá-las dos terreiros, pois, por maior que fosse o benefício ao ar atmosférico, com o frescor e o orvalho que temperam os grandes calores, era uma má vizinhança, pela umidade excessiva que detinha na terra. Ao redor do terreiro, portanto, o conselho do agricultor paulista era de converter as matas em jardins, pomares e prados artificiais. No entanto, não aconselhava deixar o terreiro totalmente descoberto de algumas árvores, pois elas temperam os rigores da insolação e favorecem a reparação do princípio respirável do ar.11 Sua preocupação com o progresso da agricultura o levou a refletir sobre a salubridade do clima e sobre os fenômenos naturais prejudiciais à agricultura. No artigo: Saneamento de um país 9 O agricultor Paulista, nº 02, p. 25. Idem, p. 25. 11 Ibdem, p. 25. 10 162 se faz pela plantação de árvores, o autor descreveu estudos sobre a fisiologia vegetal e os benefícios que a preservação e o replantio de árvores poderiam trazer para a vida e para a agricultura. Os que tem estudado a fisiologia vegetal sabem que as árvores absorvem a água por meio de suas folhas. Destas duas faculdades de absorção e evaporação, resulta, que possuem os grandes vegetais, que em todos os lugares onde existem muitas árvores não existem pântanos e vice-versa. Concebe-se bem isto refletindo-se no duplo modo de funcionar das árvores, que absorvem pelas suas raízes a umidade contida na terra e a restituem à atmosfera por uma espécie de transpiração insensível de suas folhas: essa água, incessantemente dissolvida na atmosfera, é levada pelos ventos. Compreende-se, portanto facilmente que o melhor meio de dessecar um terreno é plantá-lo com árvore.12 Continuando sua reflexão sobre a importância das árvores para o clima, o autor apontou os benefícios que a preservação das florestas poderiam trazer para a humanidade. Além disso, se preocupou em descrever os fenômenos naturais prejudiciais existentes em decorrência do desmatamento. O clima e a salubridade do ar apareceram em suas reflexões associados ao problema do desmatamento. As conseqüências dessa prática eram a explicação para as constantes chuvas torrenciais e para os períodos de estiagem prolongada, ambos prejudiciais à agricultura. Regularização das chuvas. – Durante a estação chuvosa, e em intervalos mais ou menos próximos, as chuvas torrenciais caem sobre a terra, a diluem demasiadamente e fazem muitas vezes apodrecer as sementes; essas chuvas fazem igualmente engrossar as torrentes que descem das montanhas, inundam as planícies e dão lugar a formação de pântanos, que secando mais tarde pela ação do calor solar deixam escapar esses eflúvios tão perigosos que resultam dos materiais vegetais adjacentes [...] Durante a estação seca, os campos ficam secos e as culturas sofrem muito, se não existem meios de fazer irrigações artificiais permanentes, ou por meio de reservatórios subterrâneos, tais como poços etc.13 A solução para esses fenômenos estava associada à conservação das florestas, pois a umidade condensada em torno das árvores, formaria nuvens, das quais cairiam chuvas regulares, que seriam em seguida absorvidas pelas árvores. Lentamente as planícies receberiam os detritos fertilizadores, sem que houvesse os prejuízos das chuvas torrenciais. Deixando de parte a muito importante questão da produção das madeiras de construção e da lenha, a plantação das árvores, ou a não destruição dos bosques e floresta, ao menos no cimo das montanhas e colinas, é da mais notória utilidade; porque elas saneiam a terra e a preservam de ficar arruinada pelas torrentes, diminuem a violência dos ventos, e, finalmente tornam mais salubre o ar de todo o país, decompondo os gases 12 13 O Agricultor Paulista, nº 11, p. 210. Idem. 163 carbonados paludeanos (hidrogênio carbonado, ácido carbônico etc.), que misturados ao ar constituem uma poderosa causa de insalubridade.14 Percebemos que esses apontamentos revelam uma preocupação essencialmente econômica, mas, apesar de identificarmos que em sua reflexão estão os benefícios que a conservação de áreas florestais poderiam trazer para a agricultura, também percebemos uma influência no sentido de apontar para consequências mais gerais. Quando o foco era o problema da escassez de lenha, o autor procurou citar exemplos de como resolvê-lo. O modelo veio dos países europeus, que solucionaram a falta de lenha com o replantio de árvores. O agrônomo Lavergne é de parecer que a destruição das florestas têm inconvenientes pouco graves nos países frios, mas que é extremamente nociva nos países quentes, que faz menos mal nas planícies que nas montanhas. Em toda parte, diz ele, quer o clima seja frio, quer quente, são desastrosos os efeitos que resultam em desguarnecer de árvores as montanhas, e mesmo as colinas e as inclinações escarpadas. Os lugares onde outrora floresceram muitas nações estão hoje reduzidos a desertos inóspitos pelo simples fato do derrubamento das florestas. A falta de madeiras tem obrigado a formar florestas artificiais, e pode-se dizer que a Europa replanta árvores: e essa cultura, que forma hoje um ramo particular da agricultura, começou pelos países mais frios do norte da Europa, que atualmente fazem um ativíssimo comércio com a florestas artificiais, plantadas e replantadas, e cuidadosamente tratadas.15 Nenhuma região estaria isenta dos danos causados pelo desmatamento. Até mesmo a Europa, que segundo alguns, por ser de clima frio não sofreria os efeitos da derrubada de árvores, para Ilídro não estaria distante de sofrer essas consequências. Prova disso era que esse continente iniciava a cultura do replantio das árvores, depois chamada silvicultura, criada pelos europeus. O autor se aproximava de uma ideia lançada por José Bonifácio, o qual ao mencionar os países do Oriente Médio, afirmava que antes de se tornarem desertos, estiveram repletos de florestas, fato que poderia se repetir no Brasil caso continuasse com o ritmo de devastação. É importante ressaltarmos, todavia, que o pensamento do agricultor não se distanciava dos seus contemporâneos, que se preocupavam em refletir o estado da agricultura, os métodos agrícolas em relação à natureza. A natureza para ele era também um recurso a ser explorado para exclusivo benefício humano, como observamos na passagem que segue: ―[...] Devemos procurar tirar partido das grandes vantagens, que nossa brilhante natureza nos oferece, e obter lucros extraordinários que nossa incúria tem feito abandonar‖.16 Por outro lado, não podemos deixar de mencionar o quanto o agricultor estava afinado com ideias que estavam sendo discutidas no Brasil referentes aos usos dos recursos naturais e sua extrema importância para a agricultura e para a vida. 14 O Agricultor Paulista, nº 11, p. 210. Idem, p. 211. 16 O Agricultor Paulista, 1860, nº 8, p. 141. 15 164 Ilidro retomou o tema dois anos mais tarde, quando escrevia para o Correio Paulistano. Suas reflexões continuaram, sobretudo, pautadas nas conseqüências que a destruição das matas poderiam trazer para a agricultura. No artigo intitulado Saneamento dos terrenos agrícolas em referência ao mal dos cafezais, o agricultor procurou verificar as causas dos males que assolavam os cafezais da Província do Rio de Janeiro, com o intuito de enfatizar medidas preventivas para a Província de São Paulo. Dentre essas medidas, o destaque foi para a conservação das matas nos arredores dos cafezais e nas montanhas. Queremos hoje falar do devastamento das matas virgens nos centros cultivados, sobre o que há muito tempo, que nós e outros temos chamado, lembrado aos lavradores as funestas conseqüências de semelhante fatalismo e imprevidência.17 O agricultor chamou atenção para os efeitos sentidos no Rio de Janeiro pela extinção das matas, que já apontava para o aparecimento da praga dos cafezais, prenunciando a ruína dessa cultura. Para tanto lançou como causa essencial a extinção das matas dos arredores das plantações e das áreas montanhosas. Infelizmente vemos que os fazendeiros de café em nossa província vão procedendo com a mesma imprevidência daqueles do Rio de Janeiro, e consiste principalmente na ligação dos cafezais novos com os velhos e conseqüente descortinamento dos altos e colinas, e por isso no devastamento geral das matas. E se continuarem obstinadamente em semelhante sistema teremos de lamentar sem remédio, grandes reveses nesta importante cultura em época mais ou menos próxima [...].18 Baseado nas observações de agrônomos, Ilidro enfatizou a significância das matas para o saneamento dos países. O papel fundamental exercido pelas matas estava associado fenômenos meteorológicos, pois, para ele, as árvores eram capazes de absorver a água e a expelirem por meio de suas folhas. A dupla função das árvores era responsável, portanto, pelo seu duplo resultado: absorvendo por meio das raízes a umidade da terra, a restituía à atmosfera, possibilitando a regularização das chuvas. Considerando os efeitos principais da existência da matas, Ilidro retomava a ideia de que a devastação das mesmas diminuía a qualidade das águas correntes, devido à diminuição das chuvas e a evaporação mais rápida das águas pluviais, ao passo que as florestas opunham um obstáculo à evaporação, regularizando as correntes. O problema das chuvas torrenciais, em decorrência da extinção das matas, novamente foi abordado pelo agricultor, que associou a existência de matas nos altos das colinas à condensação atmosférica em torno das árvores e a liberação de chuva benéfica. Sem as matas no alto dos 17 18 Correio Paulistano, ano IX, 24/01/1862, p.01. Idem, p. 01. 165 morros, as chuvas torrenciais provocavam o engrossamento das planícies, deixando-as cobertas de pedras e areia, provocando a diminuição da fertilidade do solo. A existência, portanto, das matas exerce decidida influência na localidades, por que saneiam a terra, preservando-a de ruínas pelas torrentes, diminuem a violência dos ventos, e finalmente tornam mais salubre o ar de todo o país, decompondo os gases carbonados paludaneos, que misturados com o ar constituem a poderosa causa de insalubridade.19 Para o agricultor, a ruína dos altos destruía também a esperança do cultivador. O papel importante representado pelas montanhas podia ser sentido a grandes distâncias e poderia ser desastroso, na medida em que ocasionava destruição em lugares escarpados de sua vegetação. Das montanhas cobertas de matas é que nascem as fontes e os rios que orvalham e vivificam os campos. Eles moderam e vivificam os campos. Eles moderam a violência dos ventos, atraem e suspendem as nuvens, as quais condensando-se resolvem-se em chuvas.20 Reafirmava que a conseqüência imediata da destruição das matas das alturas provocaria torrentes devastadoras, esterilizando as terras, diminuindo as vertentes e alternado o clima e o regime de chuvas benéficas. Concordava plenamente com a ideia de que a extensão das matas alterava profundamente o clima agronômico. Acrescentava a isso o problema da cultura contínua dos cafezais, que sem a alternância conjunta a outros gêneros, somado à devastação das matas, eram as causas do mal que assolava a província do Rio de Janeiro. Em época mais ou menos próxima, o agricultor considerava que o mesmo mal poderia assolar a Província de São Paulo, caso não adotassem os agricultores medidas preventivas. Aconselha-se aos fazendeiros de café a necessidade de irem isolando as novas plantações de café, intercalando entre elas, e os velhos cafezais divisões largas das matas virgens ou capoeirões de modo que uma área cultivada com café fique sempre rodeada de matas com suficiente largura. E finalmente que não despovoem inteiramente as colinas ou encostas das matas que as cobrirem.21 A primeira conclusão a que chegamos, desse modo, é que a preocupação de Carlos Ilidro da Silva com o revigoramento da agricultura refletia, em certa medida, uma sensibilidade em relação à natureza, que já era sentida desde o século XVIII. Ilidro, portanto, continuava uma crítica que estava sendo desenvolvida no Brasil desde o século anterior. Dessa maneira, existia em seus 19 Ibdem, p.01. Correio Paulistano, ano IX, 24/01/1862, p. 02. 21 Idem, p. 02. 20 166 escritos algum tipo de preocupação ou de consciência sobre os danos causados ao meio ambiente por uma agricultura considerada por ele irracional, pensada também por outros agricultores e intelectuais, como sugere José Augusto Pádua.22 O agricultor procurou em suas reflexões perceber as causas do atraso da agricultura e propor medidas de superação desse atraso. Em muitos dos seus escritos ele associou a questão agrária à questão florestal. Desse modo, com as ideias selecionadas para compor esse trabalho, procuramos ressaltar essa preocupação. 4 – ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Percebemos que, ao longo do século XIX, foram várias as representações que existiram a respeito do mundo natural. Notamos, além disso, que houve o crescimento de uma sensibilidade em relação à natureza entre a intelectualidade, da qual emergiram alguns fazendeiros. Através desses estudos foi possível compreender o contexto no qual surgiram as aspirações de Carlos Ilidro da Silva a respeito da agricultura. Se de algum modo o agricultor refletia sobre os avanços científicos e os benefícios que eles poderiam trazer para a agricultura, de outro considerava que a técnica e o progresso não poderiam superar a racionalidade dos métodos. As ideias de aproveitamento de matérias orgânicas e de conservação das matas, associadas às iniciativas em relação ao revigoramento do solo, através do uso de arados, de adubos e alternância de cultura, entre tantas outras ideias defendidas pelo agricultor, demonstram que para uma parcela dos agricultores paulistas, o progresso não foi buscado a qualquer custo. Entretanto, não podemos deixar de mencionar que, por mais que suas ideias tenham sido colocadas em prática por um grupo de agricultores, elas não impediram o avanço das plantações, a continuação dos métodos considerados por ele rotineiros e a prática da destruição do dossel primitivo. Outra consideração importante diz respeito a visibilidade das discussões que ocorreram fora dos espaços institucionais do Brasil Imperial. Percebemos que no Brasil oitocentista várias instituições se dedicaram a discorrer sobre o estado da agricultura e a conservação das florestas, mas essas discussões geralmente ocorriam nos espaços institucionais, como a SAIN. Os trabalhos realizados por Ilidro, que incluem a escola prática de agricultura – Fazenda Modelo, os periódicos O Agricultor Paulista e O 25 de Março, e os artigos do Correio Paulistano, ambos realizados por sua iniciativa particular, deixam transparecer a amplitude das reflexões e da sensibilidade em relação ao mundo natural no Brasil Imperial. 22 ―Existiu um campo de reflexão, no entanto, onde o pensamento brasileiro foi capaz de desenvolver uma clara postura crítica a partir da década de 1830, inclusive enveredando para críticas mais diretas ao escravismo. Foi no interior da literatura agrícola, aspecto crucial do debate econômico no Brasil oitocentista, que reapareceram os elementos de uma aproximação entre os problemas da destruição ambiental e do trabalho servil‖. PADUA, José Augusto. Um sopro de destruição. Pensamento político e crítica ambiental no Brasil escravista (1786-1888). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004, p. 233 e 234. 167 FONTES O agricultor Paulista, 1860. Correio Paulistano, ano IX, 24/01/1862. BIBLIOGRAFIA WORSTER, Donald, Para Fazer História Ambiental: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol.4, nº8, 1991. MARTINS, Marcos Lobato. História e Meio Ambiente. São Paulo: Annablume, 2007. CORREA, Dora S. Paisagens sobrepostas. Índios, posseiros e fazendeiros nas matas de Itapeva (1723 – 1930). Tese de doutoramento. Universidade de São Paulo, 1993. PADUA, José Augusto. Um sopro de destruição. Pensamento político e crítica ambiental no Brasil escravista (1786-1888). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004. 168 A SISTEMATIZAÇÃO DA OCUPAÇÃO PORTUGUESA SOBRE AS MINAS DO CUIABÁ E AS RESISTÊNCIAS DA SOCIEDADE COLONIAL (1721 – 1728)1 Luis Henrique Menezes Fernandes Unesp (FCL de Assis) [email protected] Resumo: Intentamos avaliar, em contraposição à tendência historiográfica enaltecedora do bandeirismo paulista, o papel da metrópole portuguesa no processo de expansão das fronteiras luso-americanas, na primeira metade do século XVIII. Focalizando a incorporação das recémdescobertas minas de Cuiabá (1718) aos domínios portugueses, durante o governo de capitãogeneral Rodrigo César de Menezes na Capitania de São Paulo (1721 – 1728), enfatizaremos os três pilares que julgamos essenciais para a compreensão desse processo: o aumento da governabilidade metropolitana sobre os novos descobrimentos auríferos; a política de mercês, enquanto prática característica e estrutural do Império Português; e por fim, a concessão de sesmarias, destinada à produtividade das terras para o abastecimento interno da região mineradora. O ideal metropolitano de estabelecer sobre as recém-descobertas minas auríferas dos sertões do Cuiabá uma estrutura social produtiva, organizada, tributada e submissa, se deparou com alguns obstáculos que denominamos ―resistências da sociedade colonial‖: o desvio dos quintos régios, a belicosidade das sociedades indígenas nativas, as fugas de escravos, os desvios de comportamento, os interesses particulares dos delegados régios, são as principais manifestações de uma sociedade em formação que se mostrava contumaz e irredutível às formatações impostas pela metrópole pelo Conselho Ultramarino. Palavras-chave: Expansão dos Domínios Portugueses; Minas de Cuiabá; Século XVIII. * Assim se expressavam os membros do Conselho Ultramarino, órgão máximo responsável pelas questões relativas às possessões portuguesas do Oriente e do Ocidente, em consulta apresentada ao rei D. João V, no dia 31 de outubro de 1719: que uns sertanistas da mesma Comarca [de São Paulo] tinham feito um descobrimento no sertão que dava esperanças de grandezas de ouro e que este era em um sítio mui perto do de Paraguai, e tão vizinho dondo assistem castelhanos, que poucos dias antes ou depois tiveram os ditos sertanistas fala com eles.2 Este importante descobrimento aurífero, realizado por sertanistas paulistas no seio dos incógnitos sertões da América do Sul, de que a consulta do Conselho Ultramarino acima referida faz menção, corresponde às minas do Cuiabá, cujas ―esperanças de grandezas‖ não foram frustradas e donde a metrópole lusitana angariou fartas arrobas de ouro, sobretudo durante a primeira década após seu descobrimento. Neste mesmo documento, os membros do Conselho sugerem ao monarca que este supra ―a grande necessidade que há para se separar o distrito de 1 Pesquisa de mestrado financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). 2 Sobre a conta que deu o Conde de Assumar D. Pedro de Almeida da que lhe dera também o Ouvidor Geral de São Paulo, do descobrimento de ouro que fizeram os sertanistas em um sítio mui perto do de Paraguai. apud Otávio CANAVARROS, O poder metropolitano em Cuiabá (1727 – 1752). Cuiabá: UFMT, 2004, p. 168. 169 São Paulo do governo das Minas, constituindo-se nele governador”. Neste mesmo raciocínio, advertem que, caso contrário: se continuarão a usurpação que nos estão fazendo os castelhanos naquelas terras, as quais podem ser maiores e com mais crescido empenho a respeito das novas minas que naquela parte se descobrem, sendo também preciso que se funde uma colônia, […] e este será o único caminho de segurar aquele sertão. É nesta conjuntura conflituosa em que a capitania de São Paulo, após o desmembramento de Minas Gerais em 1720, surge enquanto unidade administrativa independente. Embora tenha sido inicialmente nomeado governador da nova capitania um tal Pedro Álvares Cabral, por algum motivo acabou não tomando posse do cargo. Em seu lugar, foi enviado outro fidalgo português, que tornou-se efetivamente o primeiro governador da capitania de São Paulo: o capitão-general Rodrigo César de Menezes. Rodrigo César tomou posse do cargo em 6 de setembro de 1721, perante o Senado da Câmara de São Paulo, e permaneceu no cargo até 1728. Era membro de uma nobre família – os César de Menezes – da qual descenderam importantes autoridades do vasto Império português. Seu pai, Luís César de Menezes, fora governador do Rio de Janeiro, de Angola e posteriormente governador-geral do Brasil. Durante o período em que Rodrigo César de Menezes esteve encarregado do governo da capitania de São Paulo, seu irmão mais velho, Vasco Fernandes César de Menezes, primeiro Conde de Sabugosa, ocupava o cargo de vice-rei do Brasil, com o qual trocou abundante correspondência. É importante mencionar também que, após o término de seu serviço na capitania de São Paulo, Rodrigo César de Menezes foi também governador de Angola de 1732 a 1738, ano em que faleceu, em sua viagem de volta para o Rio de Janeiro. Durante o período em que esteve à frente do governo da capitania de São Paulo, as preocupações políticas de Rodrigo César de Menezes estiveram centralizadas na problemática do estabelecimento da governabilidade metropolitana sobre as minas cuiabanas. Embora estivessem descobertas pelo menos desde 1718, graças à expedição sertanista comandada por Pascoal Moreira Cabral, era urgente que a metrópole expandisse sua influência sobre aqueles sertões, afim de estabelecer satisfatoriamente a tributação devida à Sua Majestade. É no interior desse processo que se encontram tanto a política metropolitana de ocupação do território, como as resistências provenientes da sociedade colonial contrárias esse processo. São, portanto, estes dois aspectos que analisaremos ao longo deste artigo. Para melhor compreendermos o aumento da governabilidade metropolitana sobre as recém-descobertas minas de Cuiabá, é necessário notarmos que essa expansão portuguesa sobre os sertões da América tem íntimas relações com a chamada ―política de mercês‖, ou seja, a prática característica e estrutural do Império português na modernidade, destinada ao reconhecimento público de serviços prestados por particulares para a realização do serviço real e materializada pela monarquia através da concessão de recompensas honoríficas aos beneméritos 170 súditos. Esse instrumento foi também parte essencial da política metropolitana de anexação dos sertões cuiabanos aos domínios lusitanos. No entanto, o aumento da governabilidade e a política de mercês, embora ambos característicos da ação metropolitana para a incorporação das minas cuiabanas ao domínio lusitano, são realidades distintas e encontram-se em patamares políticos próprios. O sistema de recompensas é uma ferramenta utilizada pela metrópole na América portuguesa que visa determinados objetivos – como o incentivo aos descobrimentos auríferos nos sertões, a abertura de caminhos, a estruturação administrativa e militar, etc. -, que não são fins em si mesmos. Em outros termos, a política de mercês é um instrumento que visa gerar outros instrumentos, que por sua vez corroboram para o alcance do objetivo final: o aumento da Fazenda Real. De modo distinto, o aumento da governabilidade é um meio – em certa medida também colocado em prática pela política de mercês – que visa diretamente o acúmulo de riquezas, através de tributação, para o incremento do erário régio. Antes de tudo, porém, é indispensável que apresentemos de modo mais claro a definição do conceito de ―aumento da governabilidade‖, do modo como o conceberemos ao longo deste texto. Com base nas próprias fontes, e também em outros autores, compreenderemos o aumento da governabilidade como o incremento da atividade fiscal do Estado sobre determinado espaço, advindo da montagem de uma estrutura administrativa e militar. Somente após estruturada essa atividade fiscal sobre a região visada é que de fato houve a sua incorporação territorial ao Estado. A efetiva governabilidade de determinado espaço por um Estado está associada à estrutura fiscal instalada, cujo objetivo é o aumento da fazenda, mas também ao estabelecimento de uma legitimidade para a ocupação de determinada região. A legitimidade das estruturas políticas era um dos alvos da metrópole para os sertões da capitania de São Paulo, para que esses territórios fossem considerados possessões portuguesas. Deste modo, a ocupação de uma região e sua incorporação efetiva a um Estado não se faz simplesmente pela força de tratados e diplomas, e muito menos pela mera exploração desse território por expedições desbravadoras: é necessário que haja uma integração do espaço almejado ao sistema econômico e político do Estado, para que ele seja consequentemente incorporado ao seu domínio. E ainda que a colonização dos sertões auríferos da capitania e o seu resultante aumento populacional também seja um aspecto fundamental para a sua incorporação à América portuguesa, este não é um aspecto suficiente e nem mesmo principal. O afluxo populacional para as regiões auríferas de Cuiabá foi espontâneo, pois grupos humanos foram naturalmente impelidos a esse espaço em busca de enriquecimento. Coube à metrópole, porém, regularizar e organizar essa ocupação populacional, transformando-a em ocupação racional, equilibrada e produtiva. Sem essas formatações, seria impossível estender uma real governabilidade àqueles sertões e ampliar de fato os domínios lusitanos na América. A política de ocupação de que tratamos, portanto, não significa ocupação populacional, visto que esta tende a ocorrer naturalmente nos sertões metalíferos da capitania de São Paulo. 171 Trata-se de uma política de organização da ocupação e da governabilidade do espaço, a fim de aplicar a tributação eficazmente, promovendo por fim o aumento da Fazenda Real. Por este motivo, o ―serviço de sua Majestade‖ na América, cuja realização necessitava de determinados instrumentos, não era em essência a dilatação territorial da colônia, mas sobretudo o aumento da governabilidade aos sertões para efetiva tributação sobre as novas minas descobertas no interior da capitania. A expansão das fronteiras ocorreu como decorrência do estabelecimento do governo nos sertões recém-descobertos no continente. Entretanto, tanto os descobrimentos auríferos como o próprio estabelecimento do governo metropolitano sobre eles foram efetivados através do auxílio dos próprios paulistas, através da política de mercês. No caso das minas de Cuiabá, os próprios descobridores tornaram-se posteriormente os funcionários do Estado para o estabelecimento da ordem e da cobrança de impostos na região. Rodrigo César de Menezes afirmava em carta a João Antunes Maciel e Fernando Dias Falcão, descobridores das minas de Cuiabá, juntamente com Pascoal Moreira Cabral, e agora instalados nos sertões cuiabanos com importantes cargos administrativos, que ―a pessoa que os conduzir [os quintos reais], será atendido o serviço que fizer, e Vossa Mercê em executar esta ordem não só fará serviço a Sua Majestade, mas a mim me dará um grande gosto‖.3 Dessa maneira, compreendemos que o descobrimento de riquezas minerais em Cuiabá pelos sertanistas paulistas não garantiria por si só o estabelecimento do domínio português na região. O que proporcionou eficazmente a dilatação dos domínios portugueses ao extremo oeste americano não foram os descobrimentos em si, mas a expansão da governabilidade e da autoridade metropolitana sobre essas regiões. Para este fim, a Coroa se valia de inúmeros artifícios. Os domínios da Coroa portuguesa na América só seriam de fato dilatados se ocorresse nos sertões cuiabanos uma ocupação organizada, para que a administração colonial pudesse fiscalizá-la satisfatoriamente. Por isso encontramos na correspondência de Rodrigo César de Menezes, tanto com o Conselho Ultramarino como com autoridades locais, uma insistência do capitão-general para que não houvesse mais de um caminho para as minas de Cuiabá, como queria Dom Lourenço de Almeida, governador da capitania de Minas Gerais. Ele relatava a situação ao Conselho Ultramarino nos seguintes termos: Já pus na real presença de Vossa Majestade os inconvenientes que se ofereciam de haver mais de um caminho para as novas minas de Cuiabá que o que se abrisse por esta capitania, assim por ser infalível a extração do ouro que delas vier, como pela grande perturbação que aos povos se há de seguir, e não parece justo que, depois de terem tido tanto trabalho, perda de fazenda e vidas, os paulistas naquele descobrimento experimentem o que nas Minas Gerais se lhes fez, cuja ferida ainda parece lhes verte sangue, quando do golpe dela se lembram. […] e para poder se evitar a tempo o que depois será dificultoso atalhar-se, me parece ser preciso que Vossa Majestade ordene não só a ele [Dom Lourenço de 3 Registro de outra carta que se escreveu a João Antunes Maciel, [estando] ausente, a Fernando Dias Falcão. Documentos Interessantes, v. XX, p. 182 – 183. 172 Almeida], mas aos que lhe sucederem, não intentem a abertura do tal caminho.4 Além da preocupação com o extravio do ouro, essa insistência do governador pode ser compreendida pelo fato de que a abertura de mais de um caminho para as novas minas de Cuiabá estava em estrutural contradição com o seu propósito para a ocupação política daqueles sertões. A estratégia de Rodrigo César de Menezes para a incorporação dos sertões da capitania aos domínios lusitanos consistia basicamente em estabelecer a autoridade de Portugal sobre a região de maneira suave, para que os moradores ficassem de boa vontade em posição de submissão. Em carta dirigida a Antônio Alves Lanhas Peixoto, ouvidor-geral da capitania, o capitão-general afirmava que: […] sendo a real vontade de Sua Majestade que o ponto principal por hora era que levantasse vila e estabelecesse estas minas, dando a entender que no princípio se fazia mais preciso que a justiça que se fizesse fosse suave, e pelo tempo adiante os mesmos moradores, enfastiados de a experimentarem favorável, recorreriam ao soberano, pedindo-lhe ministros que os esfolassem. Bom exemplo há nas Sagradas Letras, quando os israelitas pediram a Deus que lhe desse reis, e não obstante os grandes prejuízos que lhes propôs, assim o quiseram.5 Muito ilustrativo é esse trecho da correspondência, no qual o governador demonstra que o propósito da metrópole para a região das minas de Cuiabá consistia em estabelecer uma estrutura jurídica bastante suave, para que os moradores não se insurgissem contra a autoridade portuguesa. Dessa maneira, a governabilidade da região deveria ser estabelecida gradualmente. O método central utilizado por Rodrigo César de Menezes na incorporação de Cuiabá, do qual encontramos inúmeras referências na documentação, foi a expansão do poder metropolitano de maneira suave e sorrateira, de modo que às vezes permitia propositalmente algumas infrações dos mineiros, levando-os a se acostumarem com a presença do Estado, para que num segundo momento pudesse efetivar a dominação com maior rigor. Isso transparece claramente na seguinte carta emitida pelo Conselho Ultramarino em nome de D. João V, em agosto de 1725, na qual se aprova o procedimento tomado por Rodrigo César de Menezes em casos de desvio de pequenas quantidades de ouro dos quintos reais: porém que com o zelo que tínheis da minha real fazenda, vos parecia que eu tivesse piedade com todos os que vem do sertão, sabendo o muito que lhes custa adquirirem alguma coisa, pelo dilatado da viagem e perigos dela, pois em princípios de descobrimentos, não se achando ainda estabelecidas as minas, se deve permitir alguma dissimulação, para que se não desanimem os homens […] Me pareceu dizer-vos que se aprova tudo 4 Sobre os inconvenientes do caminho de Minas Gerais para o Cuiabá. Documentos Interessantes, v. XXXII, p. 132 – 133. 5 Registro de uma carta que se escreveu ao desembargador Antônio Alves Lanhas Peixoto em resposta da carta sobredita. Documentos Interessantes, v. XX, p. 281. 173 o que neste particular tendes disposto, e também o meio que apontais de se haver com alguma dissimulação com os homens que vem do sertão das ditas minas, a respeito do que nestes princípios convém não ir com eles com todo o rigor.6 Assim, pode-se concluir que a incorporação daquele território à América portuguesa se fez de maneira lenta, gradual, intencional e calculada, de modo que a metrópole teve papel fundamental nesse processo. Ainda de modo mais claro, o governador apresenta alegoricamente sua estratégia de ocupação para o ouvidor-geral da capitania, buscando convencê-lo da superioridade do seu método: Não é conveniente que estas minas, sendo uma criança tão tenra, se lhe principiem a dar sangrias tão difusas; deixe-se-lhe tomar corpo, que à proporção das forças criarão mais sangue, e então se fará a sangria precisa, porque se acha o corpo mais adulto, e a robustez o anima a fazer uma travessura, a qual se não pode recear da inocência. […] com rigor resultariam perniciosas consequências, sendo a mais essencial desampararem os homens estas minas, sendo tão necessários nelas. […] isto é o que se faz preciso em princípio de minas, para o seu melhor estabelecimento.7 É impressionante a clareza com que Rodrigo César de Menezes apresenta a política de ocupação do território, e mais especificamente a necessidade do aumento da governabilidade sobre a região. Mais uma vez nos convencemos de que essa política, embora não seja explicitada na forma de um tratado organizado, constitui-se em um corpo de idéias coerentes e aplicadas conscientemente pelo poder metropolitano. O interesse da Coroa portuguesa em relação à incorporação dos sertões era promover uma ocupação racional e ordenada, que estivesse de conformidade com os seus interesses fazendários para a América. Tudo era ordenado para que se formasse um sistema economicamente lucrativo e organizado. Em outra carta ao Vice-Rei do Estado do Brasil, Rodrigo César de Menezes relatava mais uma vez o funcionamento da sua estratégia para o aumento da governabilidade sobre as minas de Cuiabá: procurei valer-me de prudência, modo e afabilidade, porque em tais casos conseguem mais que a mesma força, e não só aproveitou aos que vivem em povoado, mas aos que assistem naquele sertão, aos que escrevia repetidas vezes, insinuando-lhes que eram vassalos de Sua Majestade, e que o dito Senhor os estimava, e que da sua parte lhes segurava as honrarias e premiaria conforme o serviço que lhe fizessem, e sem embargo que as primeiras cartas não encontraram bom agasalho, com a repetição delas não só consegui responderem-me, mas darem-me conta de tudo, pedindo-me com grande ânsia passe sem demora àquelas minas, prometendo-me receber-me, o que não consentiriam a outrem, e que sem 6 Carta régia aprovando algumas medidas tomadas para evitar o extravio do ouro que vem do Cuiabá, em consequência do falecimento do provedor do registro do Rio Grande. Documentos Interessantes, v. XVIII, p. 154. 7 Registro de uma carta que se escreveu ao desembargador... Documentos Interessantes, v. XX, p. 282 – 283. 174 a minha assistência, não poderia tomar forma aquele estabelecimento, nem seria boa a arrecadação da fazenda real, vivendo todos em uma continua desunião.8 Essa carta faz referência à importância da viagem de Rodrigo César de Menezes à Cuiabá, como uma forma de estabelecer com mais consistência a ordem e a governabilidade metropolitana sobre a região. A profecia enunciada pelo governador, na já citada carta ao ouvidorgeral, de que ―bom exemplo há nas Sagradas Letras, quando os israelitas pediram a Deus que lhe desse reis, e não obstante os grandes prejuízos que lhes propôs, assim o quiseram‖, parecia se cumprir fielmente, pois agora os paulistas rogavam a presença do governador.9 Isso porque, embora os sertanistas responsáveis pela ocupação inicial daqueles sertões não estivessem interessados na tributação imposta pela metrópole, certamente desejavam a presença de uma forte autoridade colonial, representante do monarca, que aplicasse a justiça e trouxesse segurança pela defesa militar contra os indígenas belicosos e os castelhanos. A viagem de Rodrigo César de Menezes à Cuiabá representa, portanto, o cumprimento dos propósitos da metrópole para a região, e através da fundação da Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiabá, em janeiro de 1727, estabelecia legitimamente a autoridade portuguesa sobre aqueles sertões, tão além do meridiano de Tordesilhas. Assim como a metrópole instrumentalizava seus esforços visando atingir determinados intentos para os sertões cuiabanos, cumpre notar que a sociedade colonial também utilizava seus próprios meios para minimizar a almejada sistematização da ocupação do interior. De fato, a sociedade fronteiriça que se constituía nos sertões auríferos da capitania de São Paulo não estava muitas vezes contente com as diretrizes apresentadas pela metrópole, através de seus delegados régios e do Conselho Ultramarino, principalmente no que tange à tributação imposta. Entretanto, cabe ressaltar que essas resistências não devem jamais ser compreendidas como reflexos de uma anacrônica dicotomia entre Brasil e Portugal, mas sim entre a sociedade civil colonial e as ordenações do Estado. Os desvios dos quintos são provavelmente o melhor e mais comum exemplo de resistências ao aumento da governabilidade nos sertões mineradores. Em toda a documentação analisada, existem inúmeras referências a casos de desvio. A incorporação da região cuiabana aos domínios lusitanos consistia fundamentalmente na instauração de um aparelho tributário eficaz, o que foi constantemente frustrado pelo desejo de enriquecimento ilícito dos mineradores. Como já vimos anteriormente, o governador exercia especial cuidado nessa questão, agindo com cautela, para que a opressão do Estado não se fizesse sentir demasiadamente. Em regimento elaborado para a instauração de uma Casa de Registro no Rio Grande, no caminho de Cuiabá, Rodrigo César advertia ao provedor eleito Domingos da Silva Monteiro que: 8 Para o Senhor Vice-Rei. Documentos Interessantes, v. XX, p. 36 – 37. 9 Registro de uma carta que se escreveu ao desembargador Antônio Alves Lanhas Peixoto em resposta da carta sobredita. Documentos Interessantes, v. XX, p. 281. 175 Não deixará o dito Provedor passar ninguém que vier das Minas por aquele Registro, sem que primeiro manifeste todo o ouro que trouxer das ditas minas, e pague logo os quintos que dever e fará toda a diligência possível para averiguar que ninguém lhe desencaminha nenhum, fazendo para isso todas as diligências e exames necessários, que julgar serem úteis, para que se não possa divertir nenhuma oitava.10 Inúmeras resistências contra a autoridade real ocorriam cotidianamente nas minas. Contra elas, a metrópole utilizava a violência evocando o conceito de ―bem comum‖. O interesse pelo bem comum que inúmeras vezes aparece na documentação deve ser compreendido como um esforço no sentido de promover a paz social da capitania, para que o serviço de Sua Majestade fosse efetivado com tranquilidade. Desse modo, o interesse da metrópole não está centralizado no bem estar da população da capitania em si, mas na submissão da sociedade para que esta, por sua vez, pudesse cumprir seu papel de contribuinte, para o aumento da Real Fazenda. Para o aumento da governabilidade metropolitana sobre a região de Cuiabá, Rodrigo César de Menezes também buscou utilizar a cooptação dos mais influentes e poderosos paulistas, saudando-os com inúmeras mercês, para que estes servissem Sua Majestade em seu propósito de ocupação. Em carta escrita a potestades paulistas residentes nas minas de Cuiabá, o governador lhes comunicava que: [o monarca] se dignou de nomear-me por governador e capitão-general dela [da capitania], cuja notícia participo a Vossa Mercê, para dizer-lhe da parte do dito Senhor o quanto estima o serviço que lhe tem feito, e eu espero que Vossa Mercê o continue, de modo que mereça a sua real atenção, porque então experimentará Vossa Mercê não só os aumentos, mas honras, prêmio que não costuma negar aos que lealmente o servem, e eu me capacito a que Vossa Mercê se empregue tanto em concorrer para se aumentar a fazenda real, que faça inveja aos mais e procurem imitar a Vossa Mercê, e porque tenho a certeza de que Vossa Mercê se há de lembrar de que é um vassalo do rei, nosso Senhor.11 Dessa maneira, o governador procurava saudar os poderosos da capitania com honras e mercês, para assim atingir os objetivos visados. A sistematicidade desse procedimento é evidente, pois notamos que essa mesma carta foi enviada para outros oito poderosos paulistas.12 Em outra circunstância, Rodrigo César de Menezes buscava honrar dois dos mais poderosos das minas de Cuiabá que estavam de passagem pela cidade de São Paulo, para que através deles, depois de confirmada a sua submissão aos desígnios do monarca, pudesse 10 Registro do regimento que levou Domingos da Silva Monteiro para a Casa do Registro que se manda fazer no Rio Grande, para as minas novas do sertão do Cuiabá. Documentos Interessantes, v. XII, p. 46. 11 Registro de uma carta que se escreveu a Brás Mendes, assistente nas novas minas do Cuiabá, sobre procurar o aumento da fazenda real e sossego dos moradores que se acham naquele novo descobrimento. Documentos Interessantes, v. XX, p. 61 - 62. 12 Também se escreveu para as mesmas minas a mesma carta, e sobre o mesmo particular, às pessoas abaixo declaradas. Documentos Interessantes, v. XX, p. 62. ―Gabriel Antunes Maciel, José Pires de Almeida, Jacinto Barbosa, José de Sá e Arruda, Antônio Pires de Campos, Manuel Dias da Silva, Antônio de Almeida Lara e Gaspar de Godói‖. 176 estabelecer com mais eficácia a governabilidade metropolitana sobre aqueles sertões. Esses dois eram os irmãos Lourenço Leme e João Leme, posteriormente perseguidos pelo capitão-general. Em carta escrita ao Vice-Rei, o governador relatava pormenorizadamente o acontecido: e chegando [os dois] a falar-me, lhes mostrei que era general no que lhes disse, não faltando a tudo aquilo que me pareceu necessário para fazerlhes conhecer o poder que tinha, para assim mais os intimidar. E depois de uma larga prática que lhes fiz, procuraram destruir parte das culpas que se lhes imputavam, mostrando arrependimento das que tinham, e prometendo emendar aquela soltura com que costumavam viver, ao que os despedi, dizendo-lhes que se procedessem como deviam, e fizessem o serviço a Sua Majestade, que Deus guarde, seriam atendidos.13 Embora estivesse consciente de que estes dois potentados paulistas tinham cometido alguns crimes graves na capitania, o governador prometia a mercê do perdão, caso estes se arrependessem e se submetessem ao poder metropolitano. De modo admiravelmente claro, o governador apresentava sua estratégia ao Vice-Rei: […] como este governo todo é de engonços, por ora se não deve obrar coisa alguma que não seja por jeito, principalmente donde não há forças, e ainda que as houvesse, na conjuntura presente consegue mais o modo e a indústria, que assim me tem mostrado a experiência, e as coisas se acham ainda tão vidrentas, que é necessário cuidar muito em contentar estes homens […] e atendendo a todas estas razões e esperar que por este caminho se aumente muito a fazenda real, me acomodei com o parecer de todos a tomar esta resolução, por serem estes os casos em que é preciso fazer do ladrão [um] fiel‖14 A estratégia da cooptação dos Leme se mostrava necessária na ocasião, por causa da riqueza e poder desses paulistas, e o governador nomeou cada um deles em cargos importantes nas minas de Cuiabá. No entanto, eles desprezaram essa mercê oferecida pelo capitão, argumentando que João Leme já havia ocupado cargo de maior honra nas Minas Gerais. Desse modo, ambos negaram receber as mercês, a menos que Rodrigo César de Menezes voltasse atrás e oferecesse um cargo de maior prestígio. Essa recusa enfureceu o governador, pois demonstrou a existência de poderes paralelos na capitania. Desde então, os antigos crimes desses potentados não foram mais perdoados e lançou-se um bando para capturar os régulos, vivos ou mortos. Assim, os irmãos Leme representaram uma rebeldia em relação à política portuguesa de ocupação dos sertões cuiabanos. Eram potentados paulistas desafiaram com sua postura a dominação metropolitana sobre os novos descobrimentos de Cuiabá e foram exterminados porque significavam um risco à hegemonia do poder monárquico português na região. Eram obstáculos à efetivação das diretrizes metropolitanas para a ocupação da região. 13 Registro de outra carta para o dito Senhor. Documentos Interessantes, v. XX, p. 81. 14 Registro de uma carta para o Vice-Rei. Documentos Interessantes, v. XX, p. 67. 177 Por fim, há ainda uma carta do governador Rodrigo César de Menezes aos descobridores das minas de Cuiabá que apresenta admiravelmente uma circunstância simbólica para a compreensão do aumento da governabilidade na fronteira oeste da América portuguesa. Nessa correspondência, o capitão-general ordena aos paulistas a construção de um estabelecimento para a cobrança de impostos, devidos às diversas mercadorias que entravam no sertão, estendendo dessa maneira a estrutura fiscal da metrópole nos territórios recém-descobertos. Afirmava o governador que: Como se faz preciso participar a Vossa Mercê esta notícia, para com prontidão se lhe dar providência necessária, lhe ordeno que logo procure por na parte mais conveniente que lhe parecer, casa de registro, assim para os escravos e cargas pagarem o que for lícito […] e porque me dizem que a casa que foi do defunto Lourenço Leme, pela paragem em que está, é a mais conveniente, a elegerá Vossa Mercê ou a que lhe parecer, de sorte que não tenha descaminho a arrecadação da real fazenda.15 Curioso é notar a recomendação do governador para que o tal estabelecimento fosse edificado na ―casa que foi do defunto Lourenço Leme”, de modo que a independência e autogoverno representados pelos célebres irmãos Leme iam sendo paulatinamente substituídos pela governança metropolitana. Esse trecho apresenta fielmente a expansão dos domínios lusitanos sobre os sertões de Cuiabá, através da substituição dos poderes locais pelo poder central metropolitano. 15 Registro de uma carta que se escreveu às minas do Cuiabá a João Antunes Maciel e Fernando Dias Falcão sobre se cobrarem os quintos dos negros e cargas que entrarem nas ditas minas. Documentos Interessantes, v. XX, p. 170. 178 BIBLIOGRAFIA BLAJ, Ilana. A trama das tensões: o processo de mercantilização de São Paulo colonial (1681 – 1721). São Paulo: Humanitas, 2002. BOBBIO, Norberto. Dicionário de política, 2 v. 4 ed. Brasília: Editora UNB, 1992. BOXER, Charles R. A idade de ouro do Brasil: dores de crescimento de uma sociedade colonial. 2. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1969. CANAVARROS, Otávio. O poder metropolitano em Cuiabá (1727 – 1752). Cuiabá: UFMT, 2004. DAVIDSON, David M. How the Brazilian West was won: Freelance and State in the Mato Grosso Frontier (1737 – 1752). In: ALDEN, Dauril (org). 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Edição do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, 1937. 180 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A MODERNIDADE A ORDEM JURÍDICA PORTUGUESA E A LINGUAGEM DAS DEFESAS DE CRIMES DE LESA-MAJESTADE EM FINAIS DO ANTIGO REGIME1 Marcelo Dias Lyra Júnior Mestrando em História pela Universidade Federal Fluminense [email protected] RESUMO: Este trabalho tem por proposta analisar as linguagens de dois discursos de defesa, referentes a dois dos mais importantes movimentos de contestação à autoridade política na América portuguesa: A Inconfidência Mineira de 1789 e a Insurreição Pernambucana de 1817. Ao privilegiaremse aqui os discursos escritos por José de Oliveira Fagundes e Antônio Luís de Brito Aragão e Vasconcelos, respectivamente, pretende-se refletir sobre as concepções de poder e sociedade neles expressos, buscando compreender seus lugares no complexo mundo letrado luso-brasileiro de finais do século XVIII e inícios do século XIX. O enfoque em tela tem por objetivo mais profundo pensar a passagem de uma sociedade de Antigo Regime para uma sociedade moderna, referendada por uma nova mundividência e por novas referências políticas. Não obstante englobe processos sociais, políticos e culturais de múltiplas dimensões, e que encontra seu momento derradeiro no Setecentos, a análise das fontes jurídicas torna-se interessante a medida que constitui-se numa porta de entrada aos quadros mentais do contexto, marcados pela coexistência de discursos e conceitos referentes a temporalidades distintas. PALAVRAS-CHAVE: Direito – Modernidade – Linguagem A segunda metade do século XVIII marcou um novo rumo na política real portuguesa. Se nos primeiros cinqüenta anos do Setecentos o mundo português vivera momentos de opulência, motivado pelo denso fluxo de metais preciosos oriundos da América portuguesa, a fonte foi esgotando-se em seu decorrer. O abalo sísmico ocorrido em Lisboa no ano de 1755 completou o terremoto da monarquia lusa, criando o contexto para a emergência de soluções mais enérgicas. Foi nesse ínterim que o futuro Marquês de Pombal conseguiu dar vazão a suas idéias. Com o objetivo de retirar Portugal da situação de atraso em relação às demais potências européias - diagnóstico construído a partir da sua vasta experiência como embaixador em diversas partes do continente - o ministro soube contar com a assistência de letrados para a construção de um discurso que justificasse suas iniciativas. O reforço da autoridade central implicava necessariamente o ataque aos poderes concorrentes. Destarte, a construção do discurso absolutista pautou-se principalmente em atacar aqueles que, segundo a ótica pombalina, seriam os principais responsáveis pela fragilidade do poder régio: a Companhia de Jesus. Pedra basilar dessa empreitada, a Deducção Chronológica e Analítica, supostamente de autoria de José Seabra da Silva e publicada por ordem de Sua Majestade em 1767, estabeleceu os fundamentos principais para o reforço da autoridade régia. Voltava-se assim contra as teorias constitucionalistas, utilizando-se de argumentos próprios destas, como a referência às Atas de Lamego, não obstante modificando o topos da mediação dos povos, próprio do pensamento escolástico do Seiscentos, para o da sucessão hereditária. Opondo-se a natureza pactícia do poder 1 Bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) 181 defendida pelos jesuítas, às identificava como monarcômacas; e acusava de crime de lesa-majestade aqueles que teriam sido principais responsáveis pela difusão dessas teorias em Portugal, os membros da Companhia de Jesus2. Aproveitando o contexto de crise, o discurso absolutista associou-se e difundiu-se a diversas reformas. Apoiando-se em tratados pedagógicos da época, como O Verdadeiro Método de Estudar(1746), de Luís Antonio Verney3, as reformas do ensino português atacaram o método da Ratio Studiorum jesuítica, e tinham como principal objetivo construir ―uma ordem em que o poder secular fosse o principal fiador da unidade civil na harmonia da família cristã4‖, filtrando a entrada dos conteúdos que fossem contrários à religião e à autoridade do poder do rei. Segundo o Compêndio histórico do estado da Universidade de Coimbra ao tempo da invasão dos denominados jesuítas (1771), o método jesuítico tinha, desde 1598, instituído uma ignorância artificial, e de impossibilidade para se aprenderem as mesmas Ciências, que se fingiu quererem ensinar5. Assim, os novos Estatutos (1772) estabeleciam as novas diretrizes pedagógicas da Universidade, atualizando os estudos superiores portugueses de acordo com os progressos da ciência do século. Em relação ao ensino jurídico, a reforma afirmou a exaltação do direito natural e das gentes, o uso moderno do direito romano e a valorização do direito pátrio6. Consolidava algumas tendências que já encontravam-se em curso, influenciando mais profundamente a formação dos futuros magistrados portugueses. A lei de 18/08/1769, chamada da Boa Razão, havia acabado com o uso indiscriminado do direito romano e comum, além de ter subtraído o Direito Canônico do âmbito temporal7 e, junto com ele, toda uma plêiade de doutrinadores e comentadores que prevaleciam até então nos tribunais do rei8. Em termos práticos, as intervenções de Pombal na justiça e nos estudos buscavam acabar com a pluralidade jurídica e fazer do rei e das Ordenações as únicas fontes do direito em Portugal. Em sua empresa de eliminar os poderes concorrentes, reduzia também o poder político dos magistrados, cuja fonte consistia no monopólio de interpretação da doutrina. 2 Rodrigo Elias Caetano GOMES, As letras da tradição: o Tratado de direito natural de Tomás Antônio Gonzaga e as linguagens políticas na época pombalina (1750- 1772), Niterói, Universidade Federal Fluminense, Dissertação de Mestrado, 2004, p. 70-73. 3 Segundo Tereza Cristina Kirshner, ―embora não atacasse a fé católica e não se destacasse pela originalidade, o livro foi enfático na crítica ao clima intelectual que reinava em Portugal e à pedagogia utilizada no ensino universitário‖. Tereza Cristina KIRSHNER, Visconde de Cairu – Itinerários de um ilustrado luso-brasileiro, Belo Horizonte, Alameda, 2009, p.297. Sobre a obra e as polêmicas travadas pelo oratoriano com os jesuítas, ver Patrícia Domingos Wooley CARDOSO. Os jesuítas diante de “O Verdadeiro Método de Estudar”: conflitos políticos e de idéias no setecentos português (1740-1760), Niterói, Universidade Federal Fluminense, Dissertação de Mestrado, 2004. 4 Laerte Ramos de CARVALHO, As Reformas Pombalinas da Instrução Pública, São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo/Saraiva, 1978, p. 33. 5 Compendio historico do estado da Universidade de Coimbra no tempo da invasão dos denominados jesuitas e dos estragos feitos nas sciencias e nos professores, e directores que a regiam pelas maquinações, e publicações dos novos estatutos por elles fabricados. Lisboa. Régia Oficina Tipográfica. 1771, p. xiii. 6 Nuno J. Gomes Espinosa da SILVA, História do Direito Português – Fontes de Direito, Lisboa, Fundação Calouste Gulbekian, 1991, p. 369-370. 7 Esclarecia assim que aos tribunais seculares ―não toca o conhecimento dos pecados; mas sim e tão somente dos delitos‖. SILVA, op.cit, p. 362-3. 8 IDEM, Ibidem. p.341-369 e Arno WEHLING e Maria José WEHLING, Despotismo Ilustrado e Uniformização Legislativa. O Direito Comum nos períodos pombalino e pós-pombalino, Revista da Faculdade de Letras, Porto, Faculdades de Letras da Universidade do Porto, II série, Vol. XIV, 1997, p. 418. 182 A ação da política pombalina e o discurso absolutista acabaram por inaugurar uma nova percepção sobre o mundo da política portuguesa, constituindo-se numa linguagem política influente que tencionou os debates políticos e jurídicos das décadas subseqüentes. No último quarto do século XVIII, os debates em torno da elaboração de um Novo Código de Direito Público para Portugal constituem-se em excelente exemplo das concepções em disputa. Paschoal de Mello Freire, autor do Código de Direito Público na parte relativa à reforma do livro II das Ordenações Filipinas, filiava-se à tradição absolutista ao defender que aos vassalos compete amar e obedecer ao imperante e aos que governam em seu nome, servir aos cargos públicos e pedir ao Príncipe, não só a sua proteção, mas graças e mercês em remuneração de seus serviços9. Em caso de agravo, ao súdito cabia apenas a eventual e humilde representação ao monarca, sendo as doutrinas que consideravam a idéia de pacto social coisa de monarcômacos10. Já Antonio Ribeiro dos Santos, censor da Junta de Censura e Revisão do Novo Código, explicitou o caráter despótico do Novo Código proposto por Mello Freire, defendendo a idéia do pacto social que delimitava a esfera voluntarista do poder do Príncipe e a dos direitos e deveres dos povos. O censor fundamentava historicamente esta convenção entre o rei e o povo nas Leis Fundamentais, que estariam pautadas pelas Atas de Lamego11 e as reuniões das Cortes durante o século XVII12. A divergência dos dois letrados quanto ao poder tinha como questão central o papel das Leis Fundamentais. Segundo Paschoal de Mello Freire, as Atas de Lamego dispunham somente sobre a sucessão dos reis, sendo a monarquia pura e absoluta, fundada na conquista e na hereditariedade do poder, uma vez que todos os poderes da soberania residem na única pessoa dos nossos príncipes, sendo recebidos do Deus Todo Poderoso13. Já Ribeiro dos Santos afirmava que tratavam também da natureza do governo, encontrando no tradicionalismo constitucional uma saída mais equilibrada e disciplinada que a do ―desarrumado avulso pombalino e o ultrapassado das Ordenações‖14. Embora Ribeiro dos Santos demonstrasse uma percepção mais voluntarista das relações entre soberano e vassalos, referindo-se a necessidade de uma refundação constitucional15, a manutenção da referência a tradição demonstra o quando estes homens ainda se mantinham presos ao espaço de experiência do mesmo passado que referendava a ordem corporativa. As Atas de Lamego legitimavam uma concepção corporativa de sociedade e a permanência dessa referência 9 Paschoal de Mello Freire MELLO, Novo Código de Direito Público de Portugal, Coimbra, 1844, p.1. José Esteves PEREIRA, O pensamento político em Portugal no século XVIII: Antônio Ribeiro dos Santos. Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1983, p. 243-269 e 364-387. 11 Airton Cerqueira Leite SEELAENDER, Notas sobre a constituição do direito público na idade moderna, Revista Seqüência, Nº 53, ano XXVI, Florianópolis, dez-2006, p. 202-3. 12 IDEM, Ibidem, p. 243-269. 13 Logo, partia do mesmo pressuposto que Seabra da Silva usara na Dedução Chronológica. Neste, buscava-se a legitimação da soberania no direito de conquista por meio da batalha de Ourique, ao mesmo tempo em que afirmava-se a sacralidade com a aparição divina a D. Afonso Henriques durante a tomada do reino aos mouros. GOMES, op.cit, p. 74-75. 14 PEREIRA, op. cit, p. 254. 15 HESPANHA, A. M e XAVIER, Angela Barreto, A representação da sociedade e do poder IN HESPANHA, Antonio Manuel (coord.), História de Portugal, vol. 4: O Antigo Regime, Lisboa, Estampa, 1993, p.144-145. 10 183 implicava numa certa continuidade na forma de perceber a hierarquia social. Exemplar da relevância desta referência ainda na leitura que aqueles homens tinham do mundo foi a discussão em torno da palavra Classe entre os acusados pela Insurreição de Pernambuco de 1817. Presos nos cárceres da Bahia, ao tomarem como referência às Leis Fundamentais, concluíram que a palavra equivalia a Hierarquia, ou seja, Clero, Nobreza e Povo16. Partamos portanto para uma breve análise das defesas dos movimentos contestatórios de finais do Antigo Regime português, buscando ponderar o quanto estas representações mais tradicionais continuaram presentes no universo letrado luso-brasileiro do período das últimas décadas do Setecentos à segunda década do XVIII. Embora tenham feito seus estudos em períodos relativamente distantes, o bacharel carioca José de Oliveira Fagundes e o baiano Antonio Luís de Brito Aragão e Vasconcelos tiveram a oportunidade de estudar na Coimbra reformada, conhecendo assim a mudança de rumos de sua pedagogia. O futuro defensor dos inconfidentes encontrou-se na instituição coimbrã de outubro de 1770 à junho de 1778, enquanto o advogado dos insurrectos de Pernambuco ingressou em outubro de 1798, se formando em 1805. Apesar de Oliveira Fagundes ter ficado mais tempo na Universidade, temos a informação de que só assistiu aos cursos de leis e matemática, e é possível que o fato de somente após a Reforma o tempo do curso tenha diminuído de oito para cinco anos, tenha-lhe tornado impossível cursá-lo em menos tempo. Já Aragão e Vasconcelos aproveitou seus alongados sete anos para cursar cânones, filosofia, matemática e direito17. As informações que temos do advogado carioca restringem-se aquelas extraídas de uma nota de rodapé do volume 7 dos Autos da Devassa da Inconfidência Mineira. Nesta, consta que, ao momento em que fora chamado para a função de advogado dos inconfidentes, residia na Rua do Sacusarará (trecho da rua do Ouvidor entre a Rua da Direita –atualmente Primeiro de Março - e a Rua da Quitanda, no Rio de Janeiro). Funcionava junto aos Juízes de instância inferior e defendia o partido da Santa Casa da Misericórdia. Recebera desta 200$000 ―pelo trabalho de defender os réus da Conjuração de Minas Gerais‖. Já de Aragão e Vasconcelos possuímos um pouco mais de informações. Nascera em 1775, na cidade da Bahia. Aos 24 anos, seguia então os passos do pai, que também cursara a faculdade de Cânones na Universidade de Coimbra. Em Portugal, casou-se com uma portuguesa de nome Joaquina Cândida Emília Brito. Formou-se no ano de 1805, segundo Pedro Calmon com notas baixas. Atuou como almotacé por alguns meses na cidade, e durante a invasão napoleônica, lutou junto ao Corpo dos Acadêmicos e Advogados da mesma cidade. No ano de 1810, regressou à Bahia, junto com sua mulher, onde passou a atuar como advogado nos auditórios da cidade. No mesmo ano, encaminhou requerimento pedindo a mercê do Hábito de Cristo, 16 Manoel de Oliveira LIMA, Notas IN Francisco Muniz Tavares, História da Revolução de Pernambuco em 1817, Recife, Imprensa Industrial, 1917, p.325. 17 Rafael Rodrigues Dias ALVES, Os estudantes naturais do Brasil e a Universidade de Coimbra após a reforma dos estatutos universitários de 1772, Niterói, Dissertação de Mestrado, Universidade Federal Fluminense. 2006. 184 elencando os serviços militares prestados durante a invasão napoleônica18. Provavelmente ainda no início da década, escrevera umas Memórias sobre o Estabelecimento do Império Brasileiro ou Novo Império Lusitano, defendendo que a permanência da sede do Império no Brasil faria de Portugal o maior império comercial do mundo19. Partilhava assim dos ideais dos homens graduados na Coimbra reformada,que tinham servido ou buscavam servir ao Estado, e que na mesma linha do ministro Rodrigo de Sousa Coutinho, identificavam-se a idéia de um império luso-brasileiro, com o território americano como centro político20. Não temos notícias do advogado baiano referentes à segunda década do Oitocentos, incluindo a razão de sua escolha como advogado dos insurrectos. Ambos estavam inseridos de alguma forma nos novos rumos que a autoridade política, desde meados do Setecentos, buscou traçar para a mentalidade portuguesa. Dentre as inúmeras defesas e documentos jurídicos produzidos pelos dois personagens, selecionamos dois para analisar em que medida os debates e as mudanças da ordem jurídica em finais do século XVIII incidiram sobre a sua argumentação e as representações de sociedade e poder. Do advogado carioca, os Embargos ao acórdão da Comissão da Alçada, datada de dois de novembro de 1791; e a Defesa Geral, produzida por Aragão e Vasconcelos provavelmente no ano de 1819. Esta seleção tem sua explicação por se tratarem de discursos que buscavam dar uma justificação global dos eventos de que tratavam, e logo interpretando os autos à luz das referências jurídicas e políticas que possuíam, no sentido de convencer a Justiça real da inocência dos réus em causa. No que se refere às referências jurídicas de ambos os advogados, encontramo-lhes, como era de se esperar, afetados, em maior ou menor grau, pelas mudanças introduzidas pelas ofensivas pombalinas sobre o direito. Menos afetado pela ―separação do universo de leituras‖21 introduzido pelas reformas, Oliveira Fagundes buscou legitimar o uso do direito comum e das Leis Antigas, aludindo à Lei da Boa Razão, afirmando que apesar da proibição do uso indiscriminado das Leis Romanas, esta não se aplicaria quando na falta das L. L. pátrias, e costumes legítimos, a aplicação e observância 18 Dados biográficos retirados de: Coleção Documentos Biográficos da Biblioteca Nacional – C-0547,022; AHU, Bahia, Castro Almeida, Cx. 90, doc. 17.621 e cx. 109, doc. 21.181; AHU, Bahia, Avulsos, cx. 253, doc. 17.431. Pedro CALMON, História da Literatura Baiana, Rio de Janeiro, José Olympio, 1949, p. 90. 19 Antonio Luiz de Brito Aragão e VASCONCELOS, Memórias sobre o estabelecimento do Império do Brasil ou novo Império Lusitano, Seção de Manuscritos da Biblioteca Nacional, s/d. 20 Sobre a chamada ―geração de 1790‖, letrados luso-brasileiros formados na Coimbra reformada que serviram Rodrigo de Souza Coutinho na administração do Império e partilharam com este a idéia de um grande império luso-braileiro, ver Kenneth MAXWELL, A geração de 1790 e a idéia de império lusobrasileiro IN Chocolates, Piratas e mais Malandros, São Paulo, Paz e Terra, 1999, p.157-207. Na época em que ocupava a função de embaixador português em Turim, D.Rodrigo traduziu, de forma clara, o espírito da reforma dos estudos jurídicos ao afirmar que em um Estado absoluto e perfeito o interesse do soberano e da nação devem ser inseparáveis e todos os vassalos deveriam estar igualmente sujeitos à lei e contribuir igualmente para a defesa e segurança do Estado. E nenhum corpo intermédio da magistratura, do clero ou da nobreza poderia, pelos seus pretendidos privilégios, obstar à execução das ordens régias. Ofício de D.Rodrigo de Souza Coutinho, 29.7.1789 apud KIRSCHNER, op.cit., p.27. 21 Segundo Hespanha e Xavier, ao lado da progressiva hegemonização da produção da doutrina política pelo moderno, a separação do universo de leituras instituiu ―o moderno numa também formidável máquina de produção e difusão de esquemas de compreensão e raciocínio sobre os fenômenos políticos e sociais‖. HESPANHA e XAVIER, op.cit., p.122. No sentido da relativização dessa separação nos usos dos advogados nos auditórios mineiros formados antes e depois da reforma da Universidade, ver IDEM, Fiat Justitia: os Advogados e a Prática da Justiça em Minas Gerais (1750-1808), Campinas, Departamento de História da Unicamp, Tese de Doutorado, 2005. 185 delas quando são fundadas na boa razão e equidade natural22. A defesa do princípio de equidade na interpretação da lei demarcava a presença de uma herança jurídica própria da ordem jurídica tradicional e de concepções próprias de uma sociedade que se auto-concebia enquanto hierarquicamente desigual, na qual inexistia o princípio de igualdade perante a lei23. Buscando justificar a ausência de conato das conversações mineiras, defendia a legitimidade das doutrinas, [...]ainda quando há lei, ou estatuto, que manda expressamente punir o conato, posto que se não siga o efeito; porque sempre se entende proceder a sua disposição no caso somente de haver ato próximo ao malefício, porque já nesse caso tomou o conato a natureza de um delito especial, em que não fica bastando a penitência do agente24. Já num tempo mais afastado dos usos antigos do direito, Aragão e Vasconcelos pautou-se mais estritamente nas disposições da Justiça Real referentes ao movimento de 1817, utilizando-se quase que de forma exclusiva da interpretação das Cartas Régias produzidas entre 1817 e 1819, além das Ordenações e de um assento da Casa da Suplicação. A supremacia das Cartas Régias sobre as outras fontes aparece mais explicitamente quando trata de expor às leis que regulam o crime de lesamajestade As leis que regulam a pena dos crimes de lesa-majestade são a Ordenação do livro 5º., título 6, desde o parágrafo 1º até o 8º, mas esta foi declarada e restringida pela Carta Régia de 6 de agosto de 1817, pela de 6 de fevereiro de 1818, e pela de 29 de maio de 1819.25 Sobre o cerne de ambas as justificações, cabe ressaltar algumas especificidades. Embora num mesmo discurso, Oliveira Fagundes tratou de justificar cada réu individualmente, havendo no conjunto uma coerência que traduz certa leitura sobre o evento. Já Aragão e Vasconcelos, logo no início de sua Defesa Geral, propôs arranjá-la como memória, fazendo um discurso geral sobre todos conforme as estreitezas do tempo26. Nesse sentido, expôs realmente uma interpretação dos eventos, sendo mais rico no que se refere às representações de poder e sociedade. Comecemos, portanto, com a argumentação do advogado baiano, por se tratar de uma construção mais integral do lugar da revolta e dos atores históricos nas relações e concepções de 22 Autos da Devassa da Inconfidência Mineira, Brasília, Câmara dos Deputados, Belo Horizonte, Imprensa Oficial de Minas Gerais, 1982, v.7, p.147-8. [nas próximas vezes em que citarmos essa obra, nos referiremos a ela por ADIM] 23 Segundo o historiador italiano Giovanni Levi, o conceito de equidade ―surgió y tuvo importancia en sociedades que no reconocían la igualdad entre ciudadanos abstractos —según la cual la ley es igual para todos—, sino que, por el contrario, cargaban el acento en la desigualdad de una sociedad jerárquica y segmentada, en que convivían sistemas jerárquicos correspondientes a diversos sistemas de privilegio y de clasificación social: por tanto, una pluralidad de equidades según el derecho de cada uno a que se le reconozca lo que le corresponde sobre la base de su situación social y de acuerdo con un principio de justicia distributivo.‖ Giovanni LEVI, Reciprocidad Mediterránea, Hispania, LX/1, núm. 204, Madrid, ,2000, p.103-126. 24 ADIM, op.cit., p.197. 25 DIVISÃO de obras raras e publicações da Biblioteca Nacional, Coleção Documentos Históricos, Rio de Janeiro MEC, 1954, v. CVI, p.106.[a partir de então, nos referiremos a essa obra apenas como D.H.] 26 Idem, Ibidem, p.49. 186 poder e sociedade. Inicialmente, dirigia-se ao lugar institucional em que seu discurso estava se inserindo, equivalendo a Justiça Real a bondade do soberano e dos ministros que divinamente o representam27. Identificando o crime contra a autoridade política como um crime contra a pessoa real, legitimava enquanto justa qualquer punição, como vingança à vista de tão grande ofensa Majestade ultrajada28 e à mácula que os habitantes de Pernambuco haviam feito à honra de seus antepassados. Referia-se assim ao tribunal e aos ministros de Sua Majestade apelando à imagem do soberano como pai doce e amável, ao mesmo tempo em que lhe conferia o papel de justiceiro29, inserindo-se portanto numa concepção personalista de poder. As tênues fronteiras das concepções entre delito e pecado, política e moral, poder público e poder real, reiterava aspectos da concepção de ordem integrada, onde religião e política se entrelaçavam. Imiscuindo-se da leitura da rebelião, o advogado baiano afirmava que, se haveria de existir algum culpado pela rebelião de Pernambuco, este seria o governador deposto Caetano Pinto de Miranda Montenegro, posto que um general nunca deve desamparar o seu posto até o último lance na desgraça, porque aliás fica o corpo sem cabeça, e desfalecido.30 Com o governo sem cabeça, os assassinos puderam fazer uma revolução porque não acharam resistência, uniram-se muitos ao seu partido porque não havia outro, o povo elegeu um governo por falta dele, visto que o Governador tinha cedido do seu e deixado o povo em anarquia.31 Destarte, a eleição de um Governo Provisório após a fuga do governador teria sido uma forma de sossegar o tumulto e dissipar a anarquia (...) enquanto Sua Majestade não mandava forças capazes de restabelecer a antiga felicidade dos pernambucanos e torná-los às doçuras do seu Paternal Governo.32 A idéia de ―anarquia‖, conforme o argumento alusivo à fuga do governador, condizia estritamente à concepção corporativa de poder e sociedade. Tal relação é possível de ser constatada ao verificarmos o significado expresso no Vocabulário Português e Latino do padre Raphael Bluteau, onde o termo aparece como o estado de huma Cidade, ou Republica, sem cabeça, ou sem príncipe legítimo que a governe[...]. Segundo o vocábulo do padre dicionarista, só aquelles que no meio das 27 Idem, Ibidem, p.51. Idem, Ibidem, p.52. 29 Antonio Manuel HESPANHA, Da ―iustitia‖ à ―disciplina‖ – textos, poder e política penal no Antigo Regime, Antonio Manuel HESPANHA (org.), Justiça e litigiosidade: história e prospectiva, Lisboa, Fundação Calouste Gulbekian, 1993, p.314-16. 30 D.H, op.cit., p.57. [grifo meu] 31 Idem, Ibidem, p.57. [grifo meu] 32 Idem, Ibidem, p.58-59. [grifo meu] 28 187 perturbações da Republica, querem melhorar com dano alheio a sua fortuna, são amigos da anarchia33. Em tom consonante ao significado encontrado no vocábulo, Aragão e Vasconcelos prosseguiu com seus argumentos. Tendo em vista a acefalia do governo após a fuga despropositada de Caetano Pinto, os assassinos, homens descontentes de sua sorte34, passaram a figurar como líderes e protetores do povo, pois este não sabe lógica para discorrer com princípios, fundamentos e conseqüências, arrebata-se com as primeiras idéias, que lhes pintam de males iminentes, ou bem futuros35. Outro seria o lugar de alguns letrados que participaram do Governo Provisório eleito. Nesse caso, Aragão e Vasconcelos colocava-os em seu devido lugar, como homens cordatos, estabelecidos, e abastados que não se querem arriscar a pendências com malvados no auge da sua desesperação [...] sucumbiram para evitar o martírio que iriam sofrendo um por um que se descobrissem sem fruto para a Causa Real e justa 36. A qualidade social trazia assim consigo as noções de honra e reputação, que levava em conta a lealdade e os serviços prestados pelos vassalos e seus antepassados e que produzia o vínculo político e moral com a Monarquia Portuguesa. Se os pernambucanos manchavam, enquanto parte do corpo político da monarquia, essa relação, seus melhores filhos deveriam ser preservados enquanto naturalmente incapazes de tal ingratidão. A partir de uma análise quase filológica da Carta Régia de seis de agosto de 1817, Aragão e Vasconcelos afirmava que o governo instituído pelos pernambucanos não fora rebelde, mas sim ―monstruoso‖, pois era ocupado por homens sem representação, e a rebeldia só poderia ser caracterizada por um governo ocupado tão somente por um governo de homens que não a possuíssem. O epíteto monstruoso que na mesma carta se dá àquele governo é bem significativo e não se pode entender por sinônimo de rebelde, porque monstruoso deriva-se da palavra rebelde ―monstrum‖ que se entende coisa prodigiosa, não se costuma suceder e que causa admiração, assim não deixa de causar admiração que se instituísse em Pernambuco um governo no qual os que mais figuravam e mais influíam como Domingos Teotônio e Martins eram os que menos sabiam e que antes disso pouca ou nenhuma representação faziam e por isso o governo era na verdade monstruoso, mas não rebelde, porque para o ser era preciso que todos ô fossem37. A relação entre essa noção hierárquica, própria do Antigo Regime português, e a capacidade de se rebelarem contra a autoridade real também havia sido, vinte e oito anos antes, a principal característica dos embargos de Oliveira Fagundes. Para este, o presumido levante e conjuração contra o real e supremo poder de Sua Majestade e contra o Estado não passara de 33 Padre Raphael BLUTEAU, Vocabulário Português e Latino, Coimbra, 1712-1728, p.361. D.H., op.cit, p.70. 35 Idem, Ibidem, p.59. 36 Idem, Ibidem, p.63. 37 Idem, Ibidem, p.110.[grifo meu] 34 188 um criminoso excesso de loquacidade, e entretenimento de quiméricas idéias, que se desvaneciam logo que cada um desses R.R. se separavam,prova evidente de não haver deliberação de ânimo para a execução da confederação e levante por que se lhes formou o sumário38. Reconhecendo que nenhum deles, nem todos juntos, seriam capazes, pelo seu ânimo, opulência e costumes, de conseguir que se executasse o que se conversava nos conventículos39, viu a necessidade de falar individualmente de cada réu. Em sua maioria, as defesas individuais relacionam a qualidade social do réu, seu ofício, cor e riqueza à possibilidade de participação intencional na rebelião. Assim, ao justificar aquele que seria o principal símbolo da conjuração, Joaquim José da Silva Xavier, afirmava que, além deste ter perdido a ordem e regularidade natural, também seria incapaz para poder sublevar tão grande número de vassalos quantos lhe seriam indispensáveis para o imaginário levante contra o Estado, e alto poder de Sua Majestade, pois achava-se provado ser ele conhecido por loquaz, sem bens, sem reputação, sem crédito para tal empresa40. A participação na conjuração era avaliada por Oliveira Fagundes principalmente a partir da quantidade de bens e o lugar social ocupado pelos réus. Justificava a inocência do Sargento-Mor Luiz Vaz de Toledo, que anuíra a respeito do imaginário levante pela sujeição e dependência em que vivia à sombra do irmão, o Vigário Carlos Correia de Toledo e Mello, e que seria insuficiente para ele mesmo perpetrar o horroroso crime, sendo igualmente certo que não se lhe achou preparo, nem disposição alguma para a consumação dele, nem tinha forças e bens em que se pudessem esperançar os outros R. R. (...)41 Se a ausência de bens servia à alegação da inocência, o ser servidor de Sua Majestade também era alegado no mesmo sentido. Desta forma justificava a inocência do famoso Tomás Antônio Gonzaga e do Coronel Francisco Antonio de Oliveira. Sobre o primeiro, em cuja nota de rodapé nos é informado que elaborara a própria defesa, qualquer suspeita deveria ser desterrada, pois além de nunca ter se fechado em casa para falar em segredo, também achava-se [...] contratado para casar, e à espera da licença de Sua Majestade, e com o projeto de partir para lugar de Desembargador da Bahia, para onde estava despachado[...]42. Na defesa do supracitado coronel, ainda era mais explícita a relação entre as funções desempenhadas na Capitania, sua lealdade à Coroa e a inocência. Argumentava-se portanto que ao réu faltaria ânimo para a rebelião, visto que fora 38 ADIM, op.cit,p.144-5. Idem, Ibidem, p.148 40 Idem, Ibidem, p.148-149. 41 Idem, Ibidem, p.169-171. 42 Idem, Ibidem, p.168-169. 39 189 sempre exato no Real serviço, já na tropa Auxiliar, nos postos de Alferes, Tenente e Capitão, já na regular, para onde passou por Capitão da Cavalaria da Guarnição de Minas Gerais [...]43 Embora as conversações na Capitania parecessem conspirar contra o poder real, principalmente naquelas novas sociabilidades surgidas num nascente ambiente urbano - elas não passariam de conversas inocentes, sendo fora de cogitação qualquer dolo contra a autoridade real, já que era impossível verificar em um país onde quase todos os vassalos que o habitam são legítimos portugueses, e descendentes dos que o vieram povoar mandados pelo Senhor Rei D. Manuel, e seus Augustos sucessores desde que se descobriu esta América. [...]44 Ao enfatizar em seus discursos valores como a honra e a reputação, tanto Oliveira Fagundes quanto Aragão e Vasconcelos reiteravam uma ordem social e política que guardava muitas permanências de uma sociedade de Antigo Regime. As relações e concepções de poder e sociedade ainda vinculavam-se aquela esfera distributiva da Justiça real, na qual, como expresso no projeto de Direito Público de Mello Freire, cabia aos vassalos servir ao rei em troca das graças e mercês por este dispensadas. Logo, conservavam uma ordem hierárquica onde os indivíduos eram avaliados e julgados não somente por sua ação, mas também pelo que lhes precedia, os seus serviços anteriores e dos seus antepassados. Nesse sentido, a ―Memória‖ produzida por Aragão e Vasconcelos no início da década de 1810 reforçava não somente o lugar do rei enquanto Pai Civil de seus vassalos, cujas comodidades deve promover 45 , mas expressava também seu desejo de usufruir das honras e ofícios públicos dispensados pelo Monarca, visto que a produção de memórias constituía-se numa forma de serviço e posterior recompensa46. O lugar central do rei, realizado através dessa ―economia das mercês‖47, na preservação e governo de seus domínios e a conseqüente concepção de uma sociedade desigual, encontrou eco também em sua ―Defesa Geral‖ , quando refletia a consciência dos membros do Governo Provisório acerca da superioridade das monarquias sobre as repúblicas. Os eleitos do Governo Provisório e do Conselho constando pela maior parte de homens prudentes, veteranos, e sábios não ignoravam que as monarquias, sempre foram mais poderosas e felizes do que as repúblicas, porque o monarca por isso que é independente a sua fortuna dos vassalos não cogita nos seus interesses particulares, mas sim na felicidade dos seus vassalos, e todos lhe merecem igual desvelo, porque todos para com eles formam uma igual massa, que se chama povo, e ele para com todos exerce igual poder, a riqueza da Nação, e o seu comércio, indústria, atividade e 43 Idem, Ibidem, p.173. Idem, Ibidem, p. 150. 45 VASCONCELOS, op.cit., 16 46 Antonio ALMODOVAR, Introdução IN José da Silva LISBOA. Escritos Econômicos Escolhidos (18041820)-Tomo I, Introdução e direção de António Almodovar, Lisboa, Banco de Portugal, 1993, p.XIII. 47 Para uma discussão sobre a ―economia das mercês‖, ver Fernanda OLIVAL, As Ordens Militares e o Estado Moderno. Honra, mercê e venalidade em Portugal (1641-1789), Lisboa, Estar, 2001. 44 190 todas as vantagens constituem a sua glória e a sua grandeza, ao mesmo passo que as repúblicas sendo cada cidade governada por modo, e por governos diferentes, cada um dos governos se dispunham e cogitam nos interesses do seu povo, e cada um dos seus membros em particular. O monarca com as honras e mercês tem um tesouro inexaurível com que premiar o mérito sem despesa, ao mesmo passo que o Estado republicano adotando a igualdade impossível na harmonia social, porque a virtude não pode ser igual ao vício, a ciência à estupidez, o trabalho ao ócio, não tem com que premiar o mérito, ou então ilude o povo com idéias de igualdade só existentes na voz48. Embora as tentativas de reformar a ordem jurídica e política portuguesa em finais do século XVIII buscassem torná-las mais racionais e condizentes ao fortalecimento do poder central, encontravam seus limites na manutenção de uma sociedade de privilégios legitimada pela permanência de uma concepção corporativa. Reiterando esta ordem, a relação simbolicamente paternal entre súditos e vassalos denotava a indissociabilidade entre o vínculo político e a fé religiosa. Convergentes às categorias fornecidas pelo quadro epistemológico contra-reformista ensinado pelos jesuítas no decorrer de quase duzentos anos, constituiu um filtro pelo qual as idéias transformadoras das Luzes ganhavam uma recepção própria, a Revelação complementando o conhecimento do mundo pela Razão, impedindo uma mais completa secularização do pensamento e das representações de sociedade e poder. 48 D.H., op.cit., p.110. [grifo meu] 191 1) FONTES MANUSCRITAS REQUERIMENTO de Antonio Luís de Brito Aragão Vasconcelos ao príncipe regente [D.João] solicitando passaporte para a Bahia com esposa [14 de março de 1810, AHU, Bahia, Avulsos, cx.253, doc.17431] REQUERIMENTOS encaminhados por Antonio Luís de Brito Aragão e Vasconcelos ao Ministério do Império,solicitando mercê do Hábito da Ordem de Cristo e certidão de assento de batismo. 1810-1811. [Fundo Coleção Documentos Biográficos da Biblioteca Nacional. Localização: C0547,022.] VASCONCELOS, Antonio Luis de Brito Aragão e. Memórias sobre o estabelecimento do Império do Brazil ou Novo Império Lusitano. Edição manuscrita. s/d. [seção de manuscritos da Biblioteca Nacional] 2) FONTES IMPRESSAS AUTOS da Devassa da Inconfidência Mineira, 2ª ed. Brasília, Câmara dos Deputados, Belo Horizonte, Imprensa Oficial de Minas Gerais, 1982, v.7. BLUTEAU, Rafael, Vocabulário portuguez e latino (1712-1721), Rio de Janeiro, UERJ, Departamento Cultura, 2000. 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Neste processo é essencial a compreensão dos conflitos na Bacia do Prata e para tal fim será analisada a Guerra da Cisplatina, primeiro conflitos que o Brasil entrou com uma nação para defender as fronteiras que almejava. PALAVRAS-CHAVE: Cisplatina, Marinha de Guerra e Estado Brasileiro INTRODUÇÃO Pretende-se neste artigo discutir a Guerra da Cisplatina, entre o Império do Brasil e as Províncias Unidas do Rio da Prata2. Este conflito girava em torno da posse da Província Cisplatina3, considerada um território estratégico para a navegação e comércio no estuário platino, procurando-se compreender os desdobramentos políticos, econômicos e sociais brasileiros deste período. Na busca do Estado Brasileiro por afirmação como um sistema monárquico e na busca por integrar os territórios que eram de jurisdição portuguesa ao novo governo estabelecido, é importante entender a formação das Forças Armadas, como uma força de violência legítima do Estado em sua afirmação territorial, enfocando-se a Marinha de Guerra, levando-se em conta que naquela época a comunicação dava-se basicamente por mar, devido a distância entre as províncias, bem como o fato de a maior parte da população e as principais cidades encontraremse localizadas na faixa litorânea de terra. Se levando em consideração estes aspectos e se pensarmos que a maior parte dos conflitos entre o Império do Brasil e as Províncias Unidas se deram no estuário platino e não em terra, é importante fazer uma análise da atuação da Marinha de Guerra dentro do conflito Cisplatino. A guerra iniciou-se em fins de 1825, com a declaração de guerra do Império do Brasil às Províncias Unidas do Rio da Prata, após esta declara a Província Cisplatina parte integrante de sua República, fato visto como hostil pelo Império do Brasil. Não Obstante a guerra transcorrer de 1825 a 1828, o recorte temporal compreende entre os anos de 1808 e 1828. Isso se justifica, pois, 1 Graduada em História pela Universidade Estadual de Londrina, Especialista em História Social e Ensino de História pela mesma universidade. 2 Corresponde ao território que hoje conhecemos como República Argentina. 3 Atual República Uruguaia, que no período estudado era província integrante do Império Brasileiro. 195 é em 1808 que ocorreu a transmigração da família Real para a colônia brasileira, e com isto houve a transferência de uma estrutura de administrativa e militar, o Brasil deixando de ser colônia para tornar-se a nova sede do Império Português, e com a mudança da Corte para o reino brasileiro haverá uma nova política em relação ao Rio da Prata, com D. João buscando se aproximar desta região como um meio de obter maior espaço dentro do comércio, navegação e política dentro do Rio da Prata. OS CONFLITOS DO PERÍODO COLONIAL E JOANINO NO PRATA Para que possamos compreender melhor os motivos que levaram o Império do Brasil e as Províncias Unidas do Rio da Prata a entrarem em disputa pelo território cisplatino, precisamos conhecer um pouco do histórico de conflitos na Bacia do Prata e as razões destes conflitos terem acontecido. Os primeiros atritos na região platina aconteceram com a fundação de uma colônia portuguesa, em 1680, em território espanhol, a Colônia do Sacramento. Portugal, procurando expandir seus territórios na América do Sul, começou a fundar colônias em áreas que pelo Trato de Tordesilhas pertenciam ao reino da Espanha. A fundação da Colônia do Sacramento, segundo Prado4, deveria viabilizar e restabelecer vínculos com a região platina, vínculos que foram perdidos pelos portugueses após a separação das duas coroas Ibéricas em 1640. De acordo com Wilma Peres Costa5, a fundação desta colônia teve duas funções, a primeira foi um papel de elemento estratégico e a segunda um posto de contrabando de prata peruana. O domínio e a defesa desta posição eram determinantes para a participação nestas atividades, assim como, para manter um caminho aberto para os territórios longínquos do Mato Grosso. A fundação de uma colônia as margens do Rio da Prata para Portugal era uma necessidade, como também estratégica, caso quisessem participar das atividades comerciais e ilícitas na região. No processo de expansão portuguesa, foram fundadas cidades, fortes e núcleos de povoamento português ao longo do litoral da colônia brasileira, para encurtar as comunicações e o envio de ajuda e recursos as regiões mais ao sul do continente, com destaque a região platina, também havendo a abertura caminhos e de rotas comerciais no interior do continente, com destaque para o comércio de gado e charque. É importante entendermos esse processo ocorrido nos territórios sulinos para melhor compreendermos a dinâmica da expansão e da colonização portuguesa na América do Sul. No entanto, esta expansão não se daria de maneira pacífica, a Espanha não desistiria da posse efetiva de seus territórios sul-americanos. Na América do Sul como um todo havia áreas em 4 PRADO, Fabrício Pereira. Colônia do Sacramento: A Situação Fronteira na Fronteira Platina no Século XVIII. In: Horizontes Antropológicos. Porto Alegre, ano 9, n. 19, p. 79-107, julho de 2003. 5 COSTA, Wilma Peres. A Espada de Dâmocles: o exército, a guerra do Paraguai e a crise do Império. São Paulo: HUCITEC/Editora da UNICAMP, 1996. 196 disputa entre espanhóis e portugueses, porém, de maneira mais intensa e mais conflituosa na região platina. As fronteiras entre Espanha e Portugal na América do Sul eram, muitas vezes, incertas e bastante tênues. Ambos os reinos conquistavam e reconquistavam áreas e cidades6 conforme a necessidade e a estratégia traçada por cada reino na região platina. O processo de demarcação de fronteiras gerou vários tratados7, dentre eles podemos citar os Tratados de Utrecht (1713 e 1715), o Tratado de Madri (1750), o Tratado de Pardo (1761) e o Tratado de Ildefonso (1777). Após este último tratado, um período de relativa paz se instauro entre as coroas Ibéricas, até 1800, quando, na Europa, França e Inglaterra entram em conflito, e a Espanha alia-se à França8. Portugal procurou manter-se em neutralidade no quadro europeu, mesmo assim foi invadida. O diferencial deste momento é a ausência de auxílio inglês, o qual não viria. O reino português foi obrigado a assinar um tratado de paz com a França, o Tratado de Badajós, em 1801. Este conflito na Europa teve repercussões diretas na América do Sul, pois Portugal aproveitou-se o rompimento das relações com a Espanha e voltou expandir-se. Iniciaram-se novas hostilidades entre as populações fronteiriças no sul, com as tropas luso-brasileiras invadindo a Banda Oriental e os Sete Povos das Missões. Essas invasões ocorreram antes da assinatura do tratado de paz, este não fazendo nenhuma menção quanto aos territórios americanos, somente tratando dos limites e das devoluções de áreas dentro da Europa. No entanto, os franceses voltaram a entrar em guerra com os ingleses. Portugal, ciente de suas dificuldades novamente procurou manter o estatuto de nação neutra, afim de evitar uma nova guerra com a França, além de evitar confrontar a Inglaterra, com a qual necessitava manter boas relações, pois sua economia dependia do comércio com as colônias, principalmente a brasileira. Apesar das pressões francesas para que Portugal rompesse com os ingleses, a conjuntura favoreceu a política de neutralidade portuguesa, enquanto as tropas napoleônicas encontravam-se lutando com os austríacos. Porém, com a capitulação austríaca em 1805, Napoleão voltará sua atenção para Portugal. Os governantes portugueses viam-se de um lado pressionados por Napoleão a romper com os ingleses, de outro a Inglaterra pressionava Portugal para aceitar auxílio militar. A situação agravou-se com o decreto, por Napoleão, do Bloqueio Continental e com a iminente invasão franco-espanhola de Portugal, que acabou com a transmigração da Corte portuguesa e de toda uma Estrutura de Estado para a colônia brasileira, que em 1808, deixou de ser uma colônia e passando a ser a sede do Império Português. 6 Como foi o caso das cidades de Sacramento, Maldonado e Montevidéu, consideradas estratégicas dentro da Bacia do Rio da Prata, foram disputadas por Portugal e Espanha durante séculos. 7 Estes tratados não diziam respeito somente a demarcação de fronteiras na região platina. 8 Esta aliança foi chamada de ―Pacto de Família‖, que foi a união dos governantes da Casa de Bourbon. PEDREIRA, Jorge; COSTA, Fernando Dores. D. João VI: um príncipe entre dois continentes. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. 197 A mudança da Corte portuguesa para a América levou inquietação a coroa espanhola, que com a instalação de um aparelho de Estado na colônia brasileira e sua transformação na nova sede do Império Luso, a impressão que se passou ao Império Espanhol era de que não seria algo temporário, mas sim sugeria a permanência da coroa portuguesa na América, bem próxima de possessões espanholas que por séculos foram alvo de discórdias entre as duas coroas ibéricas. Somando-se a esse fator, tinha os problemas pelos quais passavam as possessões espanholas, com a ausência do legítimo rei, Fernando VII, preso por Napoleão, e a disputa entre as juntas de governo formadas nas províncias do reino espanhol. Os espanhóis temiam que com a proximidade do regente português encontrava-se das províncias espanholas na América, lendo-se aqui Vice-Reino do Rio da Prata, este aproveita-se a oportunidade para tenta-se uma aproximação e concretizar um antigo objetivo da coroa portuguesa, a anexação dos domínios platinos ao Império português. O regente português D. João, com a perspectiva de permanência no Brasil, começa a aproximar-se aos poucos do Vice-Reino do Prata, aproveitando-se das disputas entre as partes constituintes do vice-reinado e oferecendo auxílio militar à Banda Oriental contra Buenos Aires. Para legitimar uma investida armada D. João primeiro ofereceu apoio ―logístico‖ ao Vice-Rei Elío, o qual foi negado. No entanto, os preparativos para a expansão ao sul vinham sendo tomados pelo governo joanino com o deslocamento de tropas para a província do Rio Grande do Sul, esperando pelo momento que fossem solicitadas. A oportunidade veio em agosto de 1811, após um pedido formal de auxílio por parte do Vice-Rei Elío. Ainda neste mês, o exército luso-brasileiro adentra a Banda Oriental, atravessando a fronteira pelo Rio Grande do Sul, e assim, tomando parte na disputa entre Buenos Aires e Montevidéu. Dentre as justificativas para a intervenção estava a ameaça que representaria o movimento artiguista para os domínios lusitanos, em espacial os territórios sulinos, além da necessidade de resguardar-se a segurança do Império, a cidade do Rio de Janeiro. A intervenção Joanina não foi vista com bons olhos, com ambas as partes em conflitos receosas das reais intenções de D. João, o que colaborou para um acordo entre as cidades de Montevidéu e Buenos Aires. Após o acordo, as tropas luso-brasileiras começaram a sofrer pressões para retirar-se, o que só aconteceu em 26 de maio de 1812, quando D. João aceitou um armistício. Pouco tempo depois da realização do armistício de 1812, a Banda Oriental voltaria a convulsionar-se pouco tempo depois, primeiro com o crescimento do movimento artiguista e depois com as novas investidas do governo de Buenos Aires. Porém a corte lusa, neste momento, decide manter-se neutra quanto aos conflitos, por não ter condições imediatas de preparar nova investida, como também esperava por um momento oportuno9, o que só ocorreu em 1816, desta 9 PIMENTA, João Paulo G. Estado e Nação no Fim dos Impérios Ibéricos no Prata (1808-1828). São Paulo: Editora Hucitec/Fapesp, 2002. 198 vez com o apoio do governo de Buenos Aires, que não conseguira com que Artigas se unisse a eles, nem conseguiam combatê-lo. Uma nova intervenção luso-brasileira também era apoiada pelas elites locais da Banda Oriental, pois a província estava exaurida pelas guerras, e o movimento artiguista radicalizava-se, oferecendo perigo às propriedades e atividades comerciais destas elites. Para elas, uma intervenção luso-brasileira representaria a chance de uma nova abertura do comércio, o fim dos conflitos na província, bem como uma alternativa para não ter de se submeterem ao jugo de Buenos Aires. Ainda em 1816, as forças luso-brasileiras cruzam a fronteira da Banda Oriental para combater os seguidores de Artigas, e pouco tempo antes das tropas invadirem o território Oriental foi enviada ao Rio da Prata uma esquadra com a finalidade de bloquear o porto de Montevidéu. Depois de uma longa marcha e algumas batalhas as tropas luso-brasileiras entram na cidade de Montevidéu vitoriosas em 20 de janeiro de 1817. Contudo a resistência artiguista só seria vencida em 1820, com a fuga de José Artigas para o Paraguai. Após a tomada de Montevidéu, iniciou-se na cidade uma administração portuguesa, em parte viabilizada pela permanência das tropas em território oriental, bem como parte da força naval. A permanência destas forças também viabilizou a articulação da anexação da Banda Oriental ao Império Português, o que ocorreu em 21 de julho de 1821, quando os representantes do território oriental reuniram-se em Assembléia, esta quase totalmente controlada pelo governo joanino, onde votou0se pela integração do território ao Reino do Brasil. Foram séculos de lutas até Portugal consolidar a margem norte do Rio da Prata como parte de seus domínios. No entanto, quando ocorreu a anexação D. João já se encontrava em Portugal, o que nos faz pensar sobre o peso que os interesses regionais, tanto das elites que residiam no Rio de Janeiro, como das elites e dos habitantes do Rio Grande do Sul, tiveram sobre a integração da Banda Oriental. A INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA, A FORMAÇÃO DA MARINHA DE GUERRA E O CONFLITO CISPLATINO Com a ruptura do Reino do Brasil com o Reino de Portugal temos a criação de um Estado brasileiro, aproveitando-se da estrutura deixada pelos portugueses, como por exemplo, os órgãos administrativos, criados após a chegada da Corte. Não foi diferente em relação à Marinha de Guerra, após a migração da Corte, transplantaram-se para a colônia os principais órgãos administrativos10 da marinha portuguesa, além dos navios de guerra. 10 Dentre estes órgãos temos o Arsenal de Guerra, o Hospital Militar, os ministérios do Reino, da Marinha e Ultramar, Guerra e Estrangeiros, da Secretaria de Estado e Negócios da Marinha, do quartel general da Armada, da Intendência, da Academia dos Guardas Marinhas, foram criados os serviços de contadoria, a fábrica de pólvora. HISTÓRIA NAVAL BRAILEIRA. 3V. Tomo I. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação Geral da Marinha, 2002. 199 No momento de criação da marinha brasileira esta estrutura foi usada como base para a criação do aparato administrativo da Marinha de Guerra Imperial. Também foram confiscados os navios portugueses que se encontravam no Brasil no momento do desligamento com Portugal, formando-se, assim, a primeira força naval brasileira. Em defesa deste novo Estado que se forjava foi determinante a ação dessas forças armadas que foram criadas junto com o novo governo estabelecido. Os territórios que eram de jurisdição portuguesa na América do Sul, aos poucos foram aderindo ao novo Estado, porém não foram todos. As províncias da Bahia, Maranhão e Pará preferiram permanecer ligadas ao Reino de Portugal, ao invés de se aliarem ao Rio de Janeiro11, e na Cisplatina, que apesar de ter aderido oficialmente ao novo regime, as forças portuguesa que estavam estacionadas no local recusaram-se a retirar-se. A luta pela integração destes territórios ao Império do Brasil ficou conhecida como Guerra de Independência. Estava em jogo não somente os interesses territoriais, mas também a defesa dos pilares sobre os quais se ergueram o governo estabelecido: a monarquia e a escravidão. Indo na contramão do restante dos territórios americanos, o Império do Brasil é o único no contexto americano a manter a escravidão como regime de trabalho e o sistema monárquico de governo, denotando que ainda havia uma forte ligação política e cultural com Portugal apesar do rompimento, outro ponto que demonstrava esta ligação era o fato do imperador brasileiro ser da casa reinante portuguesa, a marinhagem, durante o período de colônia e Reino, era de origem portuguesa, e boa parte dela permaneceu no Brasil após a independência, servindo ao novo país. Manter os territórios unidos e contínuos sob o governo de D. Pedro era garantir a continuidade destes pilares. Nesta luta pela integração dos antigos territórios portugueses ao Brasil é fundamental a atuação da Marinha de Guerra, uma vez que a maioria das cidades encontrava-se no litoral, bem como grande parte da população. A dificuldade de comunicação e de recebimento de recursos por terra era muito grande, portanto recorria-se a via marítima. A primeira província a ser atacada pelas forças brasileiras foi a da Bahia, em 29 de março de 1823, com o bloqueio por mar e por terra da cidade de Salvador. As lutas na Bahia continuaram até 2 de julho de 1823, com a capitulação das tropas lusas. Após isto, parte da frota brasileira dirige-se até o Maranhão, porém somente um navio foi efetivamente foi até a província. A idéia era fazer com que as forças portuguesas e a população da cidade pensassem que o restante da frota chegaria em poucos dias, contando com a debilitada situação da resistência da cidade de São Luís, que já vinha sofrendo bloqueio por terra, como ainda esperavam que as notícias das lutas ocorridas na Bahia desanimassem qualquer resistência. Os portugueses foram intimados a render-se em 27 de julho de 1823, porém não foi aceita. Neste mesmo dia o navio que 11 A cidade do Rio de Janeiro funcionava como um centro comum, do qual D. Pedro se utilizou congregar as elites em torno de si, elites que se encontravam irregularmente distribuídas ao longo do território. CARVALHO, José Murilo. A Construção da ordem: a elite política imperial. Teatro das Sombras: a política Imperial. 3ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. 200 se encontrava estacionado frente a São Luís bombardeia a cidade, a capitulação das forças lusas e a adesão ao Império do Brasil ocorreu no dia seguinte. Estratégia semelhante seria usada na província do Pará. O navio da frota brasileira chega a Belém em 10 de agosto de 1823, intimidando a província a aderir ao novo regime. No dia seguinte a Junta Governativa da cidade se reúne e decide por aderir ao novo Estado. Somente após estas três províncias aderirem ao Império que parte da esquadra brasileira foi destacada para a província Cisplatina. O comandante das tropas portuguesas estacionadas no Rio da Prata, sob pressão do Império e após alguns combates frente à cidade de Montevidéu, já com poços recursos para continuar a resistência, o comandante luso capitula em 8 de novembro de 1823, no entanto, os soldados portugueses só partiram no ano seguinte, em 4 de março de 1824, em navios mercantes e escoltados pela esquadra brasileira. Por um tempo, pequeno, o Império não teria outros conflitos com que lidar o que possibilitou com que o Estado se voltasse para outras questões, como a negociação do reconhecimento português da independência. O acordo, mediado pelos ingleses, foi caracterizado por uma política de concessões, que para Amado Luiz Cervo e Clodoaldo Bueno, marca o período inicial do novo Estado.12 O reconhecimento do Estado brasileiro, na Europa, seria facilitado pela adoção do sistema monárquico de governo, segundo Wilma Peres Costa13, pois após o período napoleônico há um incentivo, bem como um reforço das monarquias que resistiram ao período. Se a opção pela monarquia ajudaria quanto ao reconhecimento das nações européias em especial, junto as nações sul-americanas seria um elemento que dificultaria as relações entre estas e o Império do Brasil, pois este era visto com desconfiança por ser o único a optar pela adoção do sistema monárquico, uma vez que as nações que surgiram do desmembramento do Império espanhol adotavam o regime republicano de governo. A desconfiança quanto ao Estado brasileiro só aumentaria com o início do conflito cisplatino. O conflito na Província Cisplatina iniciou-se no final do ano de 1825, em 10 de Dezembro. Os primeiros embates começaram com uma insurreição dentro da província, apoiado pelo governo de Buenos Aires, depois entrando em guerra aberta por terra e mar contra o Império do Brasil. O gatilho para a deflagração da guerra foi o pronunciamento, por parte das Províncias Unidas do Rio da Prata, que a Cisplatina passava a ser parte integrante de sua república, ato visto como hostil pelo Império, frente a isso foi declarada a guerra. A importância da região para o Estado brasileiro pode ser percebida pelo fato de que, apesar das dificuldades financeiras e estruturais, foi enviada ao Rio da Prata uma esquadra, 12 Dentre as concessões aos ingleses estava a manutenção da tarifa de 15% (de acordo com dos Tratados de 1810 entre Portugal e Inglaterra), um novo acorde em 1826 que fixava a suspensão gradativa do tráfico negreiro, liberdade comercial e manutenção dos privilégios e direitos dos súditos ingleses em território brasileiro e aceitou-se eliminar qualquer traço de união entre o território brasileiro e as colônias portuguesas na África. CERVO, Amado Luiz; BUENO, Clodoaldo. A Política Externa Brasileira 1822-1985. São Paulo: Editora Ática, 1986. 13 COSTA, Wilma Peres. A Espada de Dâmocles: o exército, a guerra do Paraguai e a crise do Império. São Paulo: HUCITEC/Editora da UNICAMP, 1996. 201 concentrando-se nessa região a maior parte da força naval brasileira. Já no estuário platino, a esquadra brasileira montou bloqueio a todos os portos e costas das Províncias Unidas, visando a interceptação de qualquer navio que tentasse chegar, principalmente a Buenos Aires, comercial ou que estivesse levando auxílio em armamentos para as Províncias Unidas. As operações navais do Império se desenvolveriam principalmente no estuário platino e suas proximidades, poucos embates entre o Império e Províncias Unidas se deram em mar aberto. O que para a força naval brasileira foi uma dificuldade a mais, tendo-se em vista que a maior parte dos navios destacados para o sul eram de navegação atlântica, portanto de grande calado, e o Rio da Prata é em sua maioria semeado por inúmeros bancos de areia e baixios, que dificultavam a navegação, além dos ventos, que fazia com que em certos locais o nível da água baixasse. Os portos, tanto das Províncias Unidas, como da Cisplatina também não eram profundo, sendo que os portos de Sacramento, Maldonado e Montevidéu eram bastante abertos e pouco seguros. Estes fatores faziam com que os navios brasileiros se mantivessem mais afastados da costa, possibilitando algumas manobras na tentativa de furar o bloqueio. Apesar das dificuldades, a frota brasileira era maior que a portenha, e inicialmente o objetivo de atingir economicamente a cidade de Buenos Aires foi bem sucedida, foi quando esta última autorizou corsários a agirem em nome das Províncias Unidas ao longo de toda a costa brasileira, o que gerou perdas econômicas para o Brasil, pois devido ao tamanho de sua costa não era possível com a estrutura da Marinha protegê-la por inteiro, fazendo-se, efetivamente, o patrulhamento dos principais portos. Além das perdas econômicas, a ação dos corsários levou escassez de alguns gêneros em cidades litorâneas menores. Mesmo antes do início da ação dos corsários na costa brasileira, o conflito não era popular entre a população, tanto por se despenderem recursos que o Brasil não tinha, necessitando-se recorrer a um empréstimo frente à Inglaterra, como na época o recrutamento era forçado, boa parte da população não querendo lutar no conflito. Outro ponto desfavorável ao governo brasileiro foi a perda do apoio frente as elites cisplatinas, que aliaram-se ao Rio de Janeiro como uma alternativa a política centralizadora de Buenos Aires, porém não sentiram nenhuma diferença quanto a seus ganhos, o que os levou a retirar o apoio ao governo brasileiro. Exauridas pela guerra, as Províncias Unidas do Rio da Prata e o Império Brasileiro, em 1827 iniciam conversações sobre um tratado de paz, negociado pelos ingleses, que tinham interesse na reabertura comercial do estuário platino. Em 1828, após os dois países em conflito entrarem em acordo quanto aos termos do tratado, este foi assinado em 27 d agosto, após a aprovação de todos os artigos pelo Conselho de Estado brasileiro, e ratificado em 30 de agosto. A solução encontrada para o impasse entre Brasil e Províncias Unidas foi à criação de um Estado independente, a República Uruguaia. Ficava estabelecido pelo Tratado Preliminar de Paz que a Cisplatina constituiria um Estado livre, separado do Brasil, com as Províncias Unidas também declarando a independência daquele território, ambas as partes se obrigando a defender a independência do Estado uruguaio. As forças brasileiras não se retiraram por completo do 202 território uruguaio no momento do tratado e da criação do novo país, ficando uma parte com o fim de garantir os termos assinados no acordo de paz. No Brasil a guerra agravou a crise financeira pela qual passava o Império, tanto pelos gastos da guerra em si, como pelas perdas econômicas sofridas com as atividades corsárias no litoral brasileiro, o que aumentou a impopularidade de D. Pedro I, dando mais munição a oposição, revelando a fragilidade do regime político brasileiro. O desfecho da crise gerada pela crise financeira e pela Guerra de Cisplatina culminou na abdicação do imperador em 1831. CONSIDERAÇÕES Pretende-se contribuir para o estudo e análise da questão dos conflitos na Bacia do Prata, por ser o território em questão comum aos processos de construção e consolidação dos Estados brasileiro e argentino, e qual o papel da Marinha de Guerra nestes conflitos, como um instrumento de poder do qual o Estado Brasileiro se utiliza para tentar manter a ―integridade‖ do território, defender a ―fronteira natural‖ – artificialmente construída - que estaria ―destinado‖ o Brasil a ter. 203 FONTES BRASIL. Atas do Conselho de Estado. 1822-1831. Brasília: Senado Federal, 1978. BRASIL. Coleção de Leis do Império do Brasil. (1810-1831). BRASIL. Relatórios do Ministério da Marinha. (1822-1831). CARVALHO, M. E. Gomes de. Os Deputados Brasileiros nas Cortes Gerais de 1821. V. 12. Brasília: Edições do Senado Federal, 2003. Primeiro Tratado de Utrecht – http://info.lncc.br/wrmlll/utrecht1.html. Acesso em 17/05/2008. Segundo Tratado de Utrecht – http://info.lncc.br/wrmkkk/utrech2.html. Acesso em 17/05/2008. Efemérides Argentinas – http://www.ara.mil.ar/hist_efemerides.asp. Acesso em 18/10/2007. Efemérides Uruguaias – http://www.armada.mil.uy/general/historia/historia-cronologia.html1#. Acesso em 18/10/2007. Tratado de Madri – http://info.lncc.br/wrmkkk/madri.html. Acesso em 27/05/2008. Tratado de El Pardo – http://info.lncc.br/wrmkkk/pardo.html. Acesso em 30/05/2008. Tratado de Salto Ildefonso – http://info.lncc.br/wrmkkk/ildef.html. Acesso em 20/06/2008. Site da Câmara imperais dos Deputados, encontra-se onde a Coleções disponível de Leis e Decisões on-line. http://www.camara.gov.br/Internet/InfDoc/conteudo/colecoes/Legislacao/Legimp-G.pdf, acesso em 25/01/2009 às 03:17. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BANDEIRA, L. A. Muniz. O expansionismo Brasileiro e a formação dos Estados na Bacia do Prata: Argentina, Uruguai e Paraguai – da colonização à Guerra da Tríplice Aliança. 3ed. Rio de Janeiro: Revan; Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1998. 204 BOITEUX, Alexandre Lucas. A Marinha Imperial na Campanha da Cisplatina, 1826-1828. Rio de Janeiro: SDM. CARVALHO, José Murilo. A Construção da ordem: a elite política imperial. Teatro das Sombras: a política Imperial. 3ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. CERVO, Amado Luiz; BUENO, Clodoaldo. A Política Externa Brasileira 1822-1985. São Paulo: Editora Ática, 1986. COSTA, Wilma Peres. A Espada de Dâmocles: o exército, a guerra do Paraguai e a crise do Império. São Paulo: HUCITEC/Editora da UNICAMP, 1996. DORATIOTO, Francisco. A Guerra do Paraguai. São Paulo: Editora Brasiliense. FALCON, Francisco. História e Poder. In: CARDOSO, Ciro F.; VAINFAS, R. (Orgs.). Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997. FAORO, Raimundo. Os Donos do Poder: Formação do Patronato Político Brasileiro. 3ed. São Paulo: Globo, 2001. FREGA, Ana. La Integración de los ―Pueblos Livres‖: A Propósito del Federalismo Artiguista. IN: HEINZ, Flávio M. & HERRLEIN JR., Ronaldo (org). Histórias Regionais do Cone Sul. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2003. GUEDES, Max Justo (Coord.). História naval brasileira. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação Geral da Marinha, 1975-1979. HISTÓRIA NAVAL BRAILEIRA. 3V. Tomo I. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação Geral da Marinha, 2002. LYRA, Maria de Lourdes Viana. Utopia do Poderoso Império, Portugal e Brasil: Bastidores da Política 1798-1822. Sette Letras. MAGNOLI, Demétrio. O corpo da Pátria: imaginação geográfica e política externa no Brasil (1808-1912). São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1997. MYERS, Jorge. A Revolução de Independência no Rio da Prata e as Orientações da Nacionalidade Argentina (1806-1825). In: PAMPLONA, Marco A.; MÄDER, Maria Elisa. 205 Revoluções de Independências e Nacionalismos nas Américas: Regiões do Prata e Chile. São Paulo: Paz e Terra, 2007 (Coleção Margens. América Latina; v. I). PRADO, Fabrício Pereira. Colônia do Sacramento: A Situação Fronteira na Fronteira Platina no Século XVIII. In: Horizontes Antropológicos. Porto Alegre, ano 9, n. 19, p. 79-107, julho de 2003. PEDREIRA, Jorge; COSTA, Fernando Dores. D. João VI: um príncipe entre dois continentes. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. PIMENTA, João Paulo G. Estado e Nação no Fim dos Impérios Ibéricos no Prata (1808-1828). São Paulo: Editora Hucitec/Fapesp, 2002. REMOND, René. Por uma historia política. Rio de Janeiro: UFRJ/FGV, 1996. SANTOS, Luís Carlos Villafañe Gomes. O Império e As Repúblicas do Pacífico: as relações do Brasil com Chile, Bolívia, Peru, Equador e Colômbia. Curitiba: Editora da UFPR, 2002. SODRÉ, Nelson Werneck. As Razões da Independência. Rio de Janeiro: ED. Civilização Brasileira S.A., 1969. 206 UMA ANÁLISE DO UNIVERSO FASCISTA NO JORNAL INTEGRALISTA A OFFENSIVA (1934-1935) Murilo Antonio Paschoaleto Universidade Estadual de Maringá (UEM) [email protected] RESUMO: O período entre-guerras foi marcado pelo surgimento de vários movimentos de caráter fascista. Apesar de tais movimentos terem chegado ao poder apenas na Alemanha e na Itália, podemos dizer que o fascismo foi um fenômeno presente em grande parte dos países (mesmo nos que possuíam longa tradição democrática, como França e Inglaterra), inclusive no Brasil, com a Ação Integralista Brasileira (AIB). Aqui, a AIB, procurando lograr êxito político, utilizou dos meios de comunicações, sobretudo jornais e revistas, visando difundir sua doutrina, arregimentar novos militantes e, ainda, estabelecer uma padronização, em âmbito nacional, tanto da difusão ideológica, quanto da própria estruturação do movimento. A rede impressa do movimento contou com vários jornais, revistas e boletins, com abrangência nacional, provincial ou regional. Dentre os periódicos do movimento, o jornal A Offensiva, editado entre 1934 e 1938, na cidade de Rio de Janeiro, merece uma atenção especial: ele foi o principal periódico do movimento. No presente trabalho, objetivamos fazer uma análise de como o jornal A Offensiva apresentava a conjuntura internacional, sobretudo no que se refere aos demais movimentos fascistas existentes ao redor do mundo, a seus militantes. Para tanto, utilizamos como fonte, a primeira fase (maio de 1934 - maio 1935) deste periódico e percebemos que, neste conturbado período, o jornal trabalhou no sentido de apresentar de forma afável os demais movimentos de caráter fascista aos seus militantes. PALAVRAS-CHAVE: Integralismo; Fascismo; Imprensa Integralista. INTRODUÇÃO O período entre-guerras foi marcado pelo surgimento de vários movimentos de caráter fascista. Apesar de tais movimentos terem chegado ao poder apenas na Alemanha e na Itália, podemos dizer que o fascismo foi um fenômeno presente em grande parte dos países (mesmo nos que possuíam longa tradição democrática, como França e Inglaterra), inclusive no Brasil, com a Ação Integralista Brasileira (AIB). Aqui, a AIB, procurando lograr êxito político, utilizou dos meios de comunicações, sobretudo jornais e revistas, visando difundir sua doutrina, arregimentar novos militantes e, ainda, estabelecer uma padronização, em âmbito nacional, tanto da difusão ideológica, quanto da própria estruturação do movimento. Levando-se tais objetivos em consideração, o movimento chegou a contar com mais de cem periódicos, além de milhares de boletins semanais ou quinzenais1. Dentre estes jornais, havia os de abrangência nacional, provincial ou regional e nuclear. De forma geral, os jornais menores, de circulação nuclear e/ou provincial, visavam, basicamente, a transmissão da doutrina integralista, enquanto os jornais de abrangência nacional (como o A Offensiva, editado na cidade do Rio de Janeiro e o Acção, na cidade de São Paulo), que eram maiores e de maior periodicidade, não se detinham apenas à difusão doutrinária. 1 Monitor Integralista apud CAVALARI, 1999, p. 87 207 Sucintamente, podemos dizer que os editores destes jornais procuravam diversificar seu conteúdo, esperando que estes atingissem um maior número de pessoas. Tendo-se em vista este objetivo, seu conteúdo abarcava notícias sobre o contexto nacional e internacional, economia, finanças, questões sindicais, moda, saúde, esportes, cinemas, teatros e, inclusive, uma página policial. Levando-se em consideração a importância desempenhada pela imprensa para o desenvolvimento da Ação Integralista Brasileira, procuramos realizar um estudo de como esta imprensa apresentava aos seus leitores os demais movimentos fascistas existentes no mundo. De acordo com Barbosa, ao fazer abordagens do contexto externo, contexto, este, marcado por intensa disputa de tendências ideológicas antagônicas (a saber: liberalismo, comunismo e fascismo) [...] a AIB, através de sua imprensa, se posicionava apologeticamente diante os avanços do Eixo Roma – Berlim, assim como às manifestações de movimentos de extrema direita na Europa e na América Latina2 Vale ressaltar que Barbosa faz sua análise a partir do jornal Acção, um dos grandes periódicos da imprensa integralista. Contudo, apesar de este jornal ter tido como irrefutável sua contribuição, sobretudo no que se refere ao estado de São Paulo, numa hierarquia de importância, se assim podemos dizer, o jornal A Offensiva encabeçava esta lista. E é por isto que nos propomos a realizar um estudo que tivesse como fonte tal periódico. O A Offensiva, editado na cidade do Rio de Janeiro, foi o jornal de maior longetividade e abrangência com que o movimento contou. A folha circulou entre os anos de 1934 e 1938, com periodicidade semanal entre 1934 e 1935, e diária entre os anos de 1936 e primeiro trimestre de 1938, quando foi extinto. O jornal, segundo Oliveira, passou por três fases distintas ao longo de sua existência3. No presente trabalho, nos detivemos na análise da primeira fase do periódico, que vai de maio de 1934 à maio de 1935. OS FASCISMOS NAS PÁGINAS DO JORNAL A OFFENSIVA De forma geral, notamos que as notícias referentes aos movimentos fascistas podem ser divididas em dois grandes grupos: o primeiro, que procura apresentar os diversos movimentos e regimes fascistas aos leitores e um segundo, que procura mostrar aos leitores que tais movimentos e regimes são vítimas do boicote por parte das agências de notícias e da grande imprensa, que os apresentam como agressivos. 2 BARBOSA, 2007, pg. 12 3 Para mais, ver OLIVEIRA, 2009 208 Adiantando um pouco, em nossa conclusão, no momento em que tenta desconstruir as ―difamações‖ destes órgãos e apresentar as suas versões, que seriam as verdadeiras, sobre os movimentos e regimes fascistas, o A Offensiva, sutilmente, se esforçou para apresentar de forma agradável os fascismos aos seus leitores. Podemos dizer, ainda, que este esforço, que se deu de forma consciente (senão, como explicarmos todo o trabalho na tentativa de desconstruir as notícias correntes e, em seguida, dar a sua versão interpretativa sobre os movimentos?), acabou por revelar o posicionamento da A.I.B perante os demais movimentos fascistas. Destarte, já na sua segunda edição, o jornal A Offensiva traz um artigo apresentando o fascismo Inglês ao leitor. O artigo, de autoria de Câmara Cascudo, diz que o movimento dos Camisas-Negras ingleses, liderado por sir Oswald Mosley, era visto com desdém em seu país. No entanto, os jornais independentes começaram, paulatinamente, a permitir registros, telegramas simpáticos, deixando ver que lá fora, nos Estados Unidos e Inglaterra também vivem homens pensando a mesma coisa que Plínio Salgado, Chefe Nacional do Integralismo. O artigo prossegue dizendo que Lord Rothermere, um importante político inglês da época, provou através de um artigo publicado no jornal Daily Mail, que o Fascismo é a paz, destruindo a balela de que fascismo é agressivo e lembrou, ainda, que há 100 anos o liberalismo encontrara na Europa as mesmas dificuldades e lutara contra as mesmas incompreensões que o fascismo hoje se depara e nem por isso deixou de se infiltrar. Assim, para Rothermere, o fascismo inglez é uma fatalidade histórica, social e moral. Sua vitória é breve e será perpétua. O artigo prossegue, com Cascudo concluindo que essa dialectica de lord Rothermere e de sir Mosley é a dos INTEGRALISTAS BRASILEIROS. Esperemos que o ambiente se modifique pelo conhecimento da doutrina e leal assimilação de seus postulados4. No mês seguinte, na edição do dia 14 de junho, o jornal reproduz uma tabela com os 10 Pontos do Fascismo Inglez, segundo sir Oswald Mosley5. Nesta mesma edição, outro artigo de Câmara Cascudo apresenta os movimentos fascistas estadunidenses aos leitores do A Offensiva. O autor diz que Kaki Shirts of América, surgido em 1932, sob direção de um Conselho Supremo de Generais e Coronéis e que cujo quartel general se localizava na Filadélfia, possuía, à época, um milhão e quinhentos mil milicianos, dentre os quais o senador Huey Long, o deputado Mac Fadder e o general Smedley Dudler, comandantechefe dos fuzileiros norte-americanos. Discorre, também, sobre os White Shirts, que contavam, à época, com dois milhões de militantes, sob liderança de Georg G. Christians e possuíam núcleos fortes em Nova York, Washington e Tennese; sobre a National Watchmen, cujos principais núcleos ficavam em Nova York, Chicago e S. Luiz e que contavam à época, com quinhentos mil inscritos; e sobre os Silver Shirts, que, para Cascudo, era o movimento fascista local mais popular, 4 5 CASCUDO, Luiz Câmara. Sir Oswald Mosley. A Offensiva, 24 de fevereiro de 1934, pg. 3. A OFFENSIVA. Os 10 pontos do fascismo inglez, segundo sir Oswald Mosley. A Offensiva, 14 de junho de 1934, pg. 3. 209 com dois milhões de legionários, sob comando de William Dudley Pelley e com sedes em Oklahoma, Carolina do Norte, Califórnia, Ohio, Pensilvânia, Maryland, Otawa e Nebraska6. Ainda ao que se refere aos fascismos nos Estados Unidos, no dia 29 de novembro de 1934 uma notícia informa aos leitores que Bond, então senador dos Estados Unidos, se apoderara do Estado da Lousiania e que lá estabelecera um regime em desacordo com as leis da União, fato que estava desgostando o governo federal. De acordo com o jornal, o senador Bond, que era uma grande potência política yankee, era, também, chefe do fascismo meridional americano e um dos ―leaders‖ dos famosos Silver Shirts. Dessa forma, de acordo com o A Offensiva, um estado da liberal Norte America já se encontrava nas mãos dos fascistas7. Já sobre o movimento fascista francês, um artigo de Gustavo Barroso, um dos principais expoentes da cúpula integralista, visa informar ao leitor sobre a quantas anda o francismo. O autor discorre sobre alguns grupos francistas, dos quais, o liderado por Marcel Bucard, que era composto exclusivamente por jovens entre 18 e 30 anos, nenhum velho e o liderado por Henry Coston, que ainda pequeno, contava, à época, com 500 mil militantes. Para Barroso, o Fascismo na França brota em diversos grupos, da mesma forma que se deu na Inglaterra, e diz que, assim como nesta última, cujos vários movimentos fascistas já se uniram em torno da Britsh Union of Fascists (BUF), um dia os francezes se reunirão para o grande esforço commum que lhes dará a victoria e conclui: A França Fascista é o anúncio do Mundo Fascista8. Nesse sentido, vale citar a nota dada no dia 9 de agosto do mesmo ano, que informa aos leitores que o grupo nacionalista francês Solidarité Nationale acabara de aderir à grande organização dos verdadeiros francistas, que obedece à chefia de Henry Coston9. Vale salientar que da mesma forma que o jornal reproduzira, anteriormente, os 10 Pontos Do Fascismo Inglez, na edição de 30 de agosto o periódico reproduziu para seus leitores Os Vinte Pontos do Programma Francista10. Já na edição do dia 6 de setembro de 1934, temos uma noticia sobre os fascistas holandeses. De acordo com o periódico, os vários grupos fascistas da Holanda, assim como os franceses, ainda não se agruparam em torno de uma única organização, mas hão de fazê-lo. À época, a organização fascista holandesa mais forte era o National Socialistche Nederlandsche Aberder Partig, chefiado por Waterland, que contava com cerca de quinze mil membros, além de editar um jornal. Afora este, havia, ainda, o movimento chefiado por Baar e um terceiro, chefiado pelo engenheiro Mussert11. 6 CASCUDO, Luiz Câmara. O Fascismo nos Estados Unidos. A Offensiva, 24 de fevereiro de 1934, pg. 3. 7 A OFFENSIVA. Os Camisas-Prateadas nos Estados Unidos. A Offensiva, 29 de novembro de 1934, pg. 8. 8 BARROSO, Gustavo. O Movimento Fascista em França. A Offensiva, 7 de junho de 1934, pg. 3. 9 A OFFENSIVA. O Fascismo em França. A Offensiva, 9 de agosto de 1934, pg. 3. 10 A OFFENSIVA. Os Vinte Pontos do Programma Francista. A Offensiva, 30 de agosto de 1934, pg. 3 11 A OFFENSIVA. O Nacional Socialismo Hollandez. A Offensiva, 6 de setembro de 1934, pg.3. 210 Já na edição de 15 de novembro, o periódico publica uma extensa matéria sobre os movimentos fascistas argentinos. De acordo com a nota, havia, à época, vários movimentos fascistas na Argentina, sendo o mais importante os camisas-cinzas da Legião Cívica, cuja sede era Buenos Aires. Este movimento possuía dois líderes, um civil, conhecido como dr. Floro Lavalle, e um militar, Fasolo Castano, que era general do Exército Argentino. Dentro de suas fileiras havia inúmeros oficiais do Exército, Marinha, estudantes, além de contarem com a simpatia de deputados e senadores. A notícia prossegue, afirmando que a ideologia do movimento Legião Cívica era mais ampla e mais aproximada da do Integralismo do que sua congênere chilena, que era dirigida pelo dr. Julio Schwarzenber12. No artigo do dia 22 de novembro de 1934, Luiz Martin Chauffier discorre sobre a história de Mussolini, da formação do Partido Fascista e sobre a ascensão do Fascismo ao poder13. Na semana seguinte, no dia 29 de novembro, o jornal veicula um artigo, de autoria de Henry Bidou, contando a história, um tanto quanto apaixonada, de Hitler, da fundação do Partido Nazista e sua ascensão ao poder14. Em 31 de janeiro de 1935, em razão do segundo aniversário da chegada de Hitler ao poder, o jornal publica uma notícia discorrendo acerca das dificuldades que Hitler passou para implantar, com sucesso, o seu governo. De acordo com a notícia, a Alemanha saiu destruída com a Grande Guerra: estava politicamente dividida, estagnada moralmente e com o índice de desemprego elevadíssimo. Além disso, no campo externo, sofria com o isolamento político e com as severas penas impostas pelo Tratado de Versalhes. Contudo, com a firmeza de Hitler, de acordo com o periódico, a Alemanha está recuperando a sua posição no cenário europeu15. A apresentação dos diversos movimentos fascistas existentes no mundo prossegue. Na edição de 2 de agosto de 1934, vemos a tradução de uma entrevista dada por Primo de Rivera, chefe do fascismo que vae se alastrando pela Hespanha, à um jornal francês16; na de 16 de agosto do mesmo ano, vemos uma nota informando sobre a situação da Bulgária, que, segundo o jornal, graças à uma revolução pacífica que tomou o governo sem ao menos que um tiro fosse disparado, acha-se hoje sob o regimen fascista17; na de 6 de setembro, o jornal apresenta aos seus leitores os Peskonkrusts, movimento fascista na Letônia, que, de acordo com o periódico, graças à seus hábeis líderes, está em franco progresso18. 12 A OFFENSIVA. O Fascismo na Argentina. A Offensiva, 15 de novembro de 1934, pg. 3. 13 A OFFENSIVA. Mussolini e as Experiências do Fascismo. A Offensiva, 22 de novembro de 1934, pg. 3. 14 A OFFENSIVA. Hitler e o III Reich. A Offensiva, 29 de novembro de 1934, pg. 3. 15 A OFFENSIVA. O Segundo Anniversario da Chegada ao Poder do Nacional-Socialismo Allemão. 31 de janeiro de 1935, pg. 3. 16 A OFFENSIVA. O Fascismo na Hespanha. A Offensiva, 2 de agosto de 1934, pg. 3. 17 A OFFENSIVA. O Fascismo na Bulgária. A Offensiva, 9 de agosto de 1934, pg. 3. 18 A OFFENSIVA. O Fascio na Letonio. A Offensiva, 6 de setembro de 1934, pg. 2. 211 Ainda apresentando os movimentos fascistas aos seus leitores, no dia 27 de dezembro de 1934, o jornal traz uma nota sobre a situação do fascismo polonês. De acordo com esta notícia, o fascismo polonês, nos seus tempos áureos, chegou a contar com quase 3 milhões de membros. Segundo o jornal, por conta de uma contra ofensiva judaica, o movimento foi, lamentavelmente, dissolvido pelo governo no dia 13 de junho de 1934. No entanto, o partido recomeça a trabalhar, publicando, com dificuldade, o jornal Nasza-Polska. A notícia é concluída com idéia de que a semente está lançada na terra de Koscinsko [...] um dia os camisas-cereja gritarão de novo “Napizód”!-Avante!19. Ao lado da notícia sobre o fascismo polonês, há outra, que discorre sobre o fascismo na Rússia. Esta noticia diz que por mais inverossímil que possa parecer, há, na Rússia, um movimento fascista, inspirado, sobretudo, no Nacional Socialismo alemão, que brotou no seio do próprio partido comunista20. No dia 3 de janeiro de 1935, o jornal traduz uma matéria que o canadense Mauricio Halperin faz sobre o México e sobre os fascistas mexicanos, quando de sua visita ao país. A nota diz que o México estava, à época, tomado pelo communismo, e que os trabalhadores mexicanos estavam sendo explorados pelos capitalistas americanos, já que o México é um paiz semi-colonial sob a dependência norte-americana. A notícia prossegue afirmando que felizmente, o povo mexicano está acordando dessa ilusão [...] [pois] já existe no México a Acção Revolucionária Mexicana ala fascista, que organiza os camisas-douradas e que conta com o apoio de altas personalidades, como o presidente Rodriguez. De acordo com a nota, a Acção Revolucionaria Mexicana é uma forte organização anti-semita e anti-comunista21. Na edição de 21 de junho de 1934, as fotos das juventudes fascistas da Alemanha e da Itália e suas respectivas legendas, mostram-nos que o jornal também se preocupou em apresentá-las aos seus leitores. Logo abaixo da foto de um rapaz integrante da Juventude Hitlerista, lemos a seguinte frase: Por toda Nova Allemanha ressoam os clarins da mocidade que o nacional-socialismo soube reunir, victoriosamente, em torno da grande idéa22 e logo abaixo da foto de jovens da Juventude Fascista, podemos ler Os balistas da Nova Italia têm uma organização perfeita, que deve servir de exemplo ás crianças de todo o mundo [...]23. Ainda nesta mesma edição, podemos ver na coluna Notas do Exterior, que o jornal faz comentários acerca da desestabilização política na Europa Central e diz que Mussolini, o Duce, graças ao seu gênio político, está tendo sucesso na intermediação dos diferentes interesses das diferentes nações da região24. Já na notícia intitulada Crepúsculo Judaico, que, na verdade, é a 19 A OFFENSIVA. O Fascismo na Polônia. A Offensiva, 27 de dezembro de 1934, pg 3. 20 A OFFENSIVA. Fascismo na Russia?. A Offensiva, 27 de dezembro de 1934, pg. 3. 21 A OFFENSIVA. Os Camisas-Douradas no México. A Offensiva, 3 de janeiro de 1935, pg. 3. 22 A OFFENSIVA. Juventude Hitlerista. A Offensiva, 21 de junho de 1934, pg. 3. 23 A OFFENSIVA. Juventude Fascista. A Offensiva, 21 de junho de 1934, pg. 3. 24 A OFFENSIVA. Notas do Exterior. A Offensiva, 21 de junho de 1934, pg. 3. 212 tradução de um artigo publicado em um jornal de Málaga, vemos que o jornal atribui à Hitler, um homem capaz, a tarefa de enfrentar o inimigo destruidor universal, os judeus25. O A Offensiva, em algumas notas, chegou a ver o Duce e Hitler como os salvadores do século. Para o autor da noticia veiculada no jornal no dia 22 de novembro de 1934, nosso século soffre de uma moléstia que o clamor publico resolveu denominar “crise mundial” [...] A crise ia levando a humanidade pouco a pouco, em silencio quasi, se não fora o grito de alarme de Mussolini e o brado angustioso de Hitler [...]26. Entre os meses de novembro de 1934 e janeiro de 1935, o A Offensiva traz em praticamente todas as suas edições, notícias que visam informar o leitor sobre o Caso Sarre. Esse Caso girava em torno da disputa entre França e Alemanha pela região do Sarre, rica em minerais, que ao findar da Grande Guerra fora ocupada pela Sociedade das Nações. Para o jornal, que se posiciona completamente ao lado da Alemanha, o Sarre deve passar para o controle deste país, pois este possui razões de facto, fundadas em considerações históricas, incontestáveis, econômicas e sociais. Enquanto que da parte da França há apenas razões de direito. O jornal prossegue, falando que à exceção de três pequenos períodos de ocupação, o Sarre sempre foi alemão e que a quasi totalidade de sua população possue língua e espírito alemão. Mais adiante, a notícia conclui que se a liberdade for respeitada, o Sarre voltará à Allemanha, dessa forma, toda a questão, portanto, repousa nas condições em que se realizará o plebiscito [do dia 10 de janeiro de 1935] 27. Ainda sobre o Caso Sarre, uma nota do dia 6 de dezembro de 1934, tenta mostrar, novamente, razões para que o Sarre volte para o controle da Alemanha. Mais uma vez, o jornal sai em defesa da Alemanha, que é vítima de uma injustiça quando tentam privá-la de um território que sempre fez parte de seu todo, tanto pela sua origem, como pela descendência do seu povo allemão. Dessa vez, o periódico recorre às estatísticas para sua formular sua argumentação e mostrar que os alemães são um povo sem espaço. De acordo com o jornal, na Rússia há 6 operários para cada km2, na França há 8 operários por km2, nos E.U.A, 12 operários por km2, na Espanha, esse número sobe para 26 operários por km2, ao passo que, na Alemanha, esse número é de 140 operários por km2. Assim, de acordo com o periódico, além das razões históricas, culturais e sociais, a Alemanha e os alemães, levando-se em consideração os fatores demográficos, precisam do Sarre, pois são um povo sem espaço28. É relevante, também, comentarmos sobre um tipo de notícia que vai se fazer presente ao longo das mais variadas edições do A Offensiva. São notas que procuram mostrar aos leitores que grande parte dos meios de comunicações negligenciam a existência dos movimentos fascistas existentes no mundo e, por isso, dizem, nós ignoramos completamente a extensão das 25 A OFFENSIVA. Crepúsculo Judaico. A Offensiva, 21 de junho de 1934, pg. 3. 26 A OFFENSIVA. O Néo-Machiavelismo. A Offensiva, 22 de novembro de 1934, pg. 1. 27 A OFFENSIVA. O Sarre e a Inquietação Européa. A Offensiva, 29 de novembro de 1934, pg. 1 e 8. 28 A OFFENSIVA. Povo sem Espaço. A Offensiva, 6 de dezembro de 1934, pg. 2. 213 idéias fascistas na Europa, Ásia, África e América porque as agencias fazem uma boycotagem completa desses acontecimentos. A nota prossegue, dizendo que há fascismo no Chile e na Argentina e são fortes e em marcha para a victoria. E, em tom de inconformidade, indagam Quem sabe disso por aqui? Ninguem29. Além destas, há um tipo recorrente de notícia: a que visa mostrar aos leitores do A Offensiva que todas atrocidades atribuídas, por parte da maioria dos meios de comunicação, à Alemanha, à seu governo e à Hitler é mentira, pois estes jornais e agências telegráficas, controlados por grandes capitalistas e por judeus, tinham interesse em boicotar a obra que estava a se realizar na magnífica Alemanha. Ou seja, em última instância, o A Offensiva, ao tentar desconstruir as notícias transmitidas por outros jornais, sai em defesa da Alemanha, de Hitler e do Nazismo. Isso pode ser facilmente visto através da já citada coluna Notas do Exterior, do dia 28 de junho de 1934. Nela, o jornal diz que Nenhum problema é mais delicado para o commentador de factos internacionaes que o da distincção entre o que haja de verdadeiro e de certo nas informações telegraphicas e o que seja, apenas, jogo das agencias transmissoras de noticias externas. Entre o que de facto acontece e o que é contado pelos cabos submarinos ou pela telegraphia, ha sempre profundas differenças [...] É a sua recrudescida campanha, simultaneamente mantida, contra os armamentistas italianos e alemães. É a sua defesa da Sociedade das Nações, que mantêm a despeito de todos os seus desastres. É, principalmente, a constante propaganda anti-nazista, já que não podem mais apresentar accusações acceitaveis contra o fascismo italiano [...] A esse respeito, calummnias as mais descabelladas são constantemente propaladas, como se ainda mais tolos que os seus autores se julgassem ser os públicos dos paizes em que são espalhadas 30 Além disso, na tentativa de desconstruir a imagem da Alemanha e do nazismo que era passada pelas agências telegráficas manipuladoras, o jornal faz uma referência à um plebiscito que ocorrera na Alemanha, no dia 19 de agosto de 1934 e que conferiu à Hitler, ao assumir, além da função de Chanceler, a de Presidente, o supremo poder do Reich. Tal nota diz que Hitler recebera 40 milhões de ―sim‖, ao passo que apenas 4 milhões de ―não‖ e, por isso, é irrisório o intuito de certa imprensa pretendendo reduzir as proporções da esmagadora vitória do Fuehrer. A nota prossegue, afirmando que estes 4 milhões de ―não‖ se explicam pelo fato de ainda existirem na Alemanha 4 milhões de judeus e socialistas31. Ainda neste sentido, a nota veiculada em 18 de outubro, que acham curioso que na imprensa do Rio de Janeiro diariamente se fala das atrocidades de Hitler contra os carneirinhos 29 A OFFENSIVA. As Agencias Telegraphicas Contra as Pátrias. A Offensiva, 15 de novembro de 1934, pg. 2. 30 A OFFENSIVA. Notas do Exterior. A Offensiva, 28 de junho de 1934, pg. 3. 31 A OFFENSIVA. Hitler e o plebiscito de Sarre. A Offensiva, 23 de agosto de 1934, pg 3. 214 judeus, embora não se cite nenhuma dessas atrocidades, ao passo que se silenciaram quanto ao fato de os comunistas espanhóis terem queimado, ainda vivo, um vigário. A nota prossegue, afirmando que se fosse Hitler que houvesse queimado vivo um innocentinho israelita, todos esses jornaes estariam ahi aos berros epilépticos32. CONSIDERAÇÕES FINAIS Por meio da análise documental, podemos nos lançar a algumas conclusões gerais. Primeiramente, o jornal procura apresentar os vários movimentos fascistas aos seus leitores. De forma geral, o periódico fala de um país e elenca os movimentos fascistas lá existentes, como no caso da França, Argentina, Canadá, México, Letônia, Polônia, Inglaterra, Estados Unidos, etc. Faz uma introdução a cada um desses movimentos, contando um pouco da história de sua formação, do estilo de organização, aponta o nome dos seus líderes, o número de militantes, as cores das camisas que vestem, os locais onde tais movimentos possuem sede ou sub-sedes, se editam jornais, se são influentes ou não na política local e se há a presença de alguma figura política de destaque integrando o movimento. Percebemos, também, que o periódico, a todo instante, procura criar a sua versão sobre os fatos. O que queremos dizer com isso? Queremos dizer, de forma sucinta, que o periódico tenta desconstruir a imagem que os jornais, afora os da rede integralista, passam sobre os demais movimentos fascistas, já que, nas palavras do A Offensiva, essa imprensa e as agências de notícias são manipuladores, não comentam quase nada dos movimentos fascistas e, quando comentam, proclamam apenas calúnias, pois nada podem provar (à exemplo da notícia Se fosse Hitler). Por meio da análise das fontes, notamos que o A Offensiva se coloca ao lado dos movimentos fascistas e, nessa época, sobretudo ao lado da Alemanha, que, para o periódico, estava sendo vítima das cláusulas do Tratado de Versalhes e de ataques sem fundamentos por parte da França. Faz, também, uma extensa critica ao boicote que os jornais e as agências de notícias fazem ao fascismo. Boicote, este, duplo: relativo tanto quando se calam, quanto quando se manifestam, pois, quando se manifestam, falam apenas mentiras. Dessa forma, notamos que o A Offensiva, no período que se propõe a análise deste artigo, trabalha arduamente para construir uma imagem boa dos movimentos fascistas existentes no mundo, pois é a estes, junto com o Integralismo, que o periódico atribui a esperança de construção de um novo mundo, livre do socialismo, comunismo, liberalismo, democracia. 32 A OFFENSIVA. Se Fosse Hitler. A Offensiva, 18 de outubro de 1934, pg. 3. 215 BIBLIOGRAFIA A OFFENSIVA, Rio de Janeiro, 1934 – maio de 1935 BARBOSA, Jefferson Rodrigues. Sob a sombra do eixo: camisas-verdes e o jornal integralista Acção (1936-1938). 274 pg. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista, Marília, 2007. BERTONHA, João Fábio. Fascismo, nazismo, integralismo. São Paulo: Ática, 2005. _____________________. O fascismo e os imigrantes italianos no Brasil. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2001. _____________________. Sobre a direita: Estudos sobre o fascismo, o nazismo e o integralismo. 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A Associação Brasileira de Cultura (1938), o Partido de Representação Popular (1945-1964) e os atuais grupos neo-integralistas são algumas destas experiências voltadas à retomada do integralismo, cada qual com as devidas características e campos de atuação. Além da conjuntura política de cada época, que definiam o limite da inserção de cada um destes modelos, outros entraves surgiram para que estas propostas fossem efetivadas. Um dos casos significativos deste aspecto foram as críticas públicas do ex-chefe de doutrina da AIB, Miguel Reale, críticas estas que eram direcionadas não somente às novas organizações integralistas, mas também a aspectos doutrinários do movimento, configurando desta forma algumas barreiras extremamente problemáticas aos que persistiam na busca pelo Sigma. Propõe-se, deste modo, a análise sobre esta questão, e de que maneira – e com qual intensidade – influenciou no fracasso de algumas das retomadas integralistas. PALAVRAS-CHAVE: Integralismo. Memória, Miguel Reale Ao longo da década de 1920, a sociedade brasileira foi palco de profundas e diversas transformações em variados âmbitos, desde o panorama político, até questões culturais, econômicas e sociais como um todo. Evidentemente, grande parte destas mutações cumpria uma agenda influenciada pelas relações internacionais, como um notório e significativo caso foi a crise do capitalismo após a quebra (crack) da bolsa de Nova York em 1929. Além desta situação limite além das fronteiras nacionais, o próprio contexto da sociedade brasileira desta época já indicava que certas estruturas estavam sofrendo um grande revés e transformações. Partindo do campo cultural, há o caso emblemático da Semana de Arte Moderna (1922) que trouxe em seu cerne uma longa discussão pautada em teores nacionalistas não apenas sobre a arte em si, mas também sobre a questão nacional e os possíveis encaminhamentos políticos, tanto para a esquerda ou mesmo pela direita. Toda esta questão de discussão sobre o papel da arte em relação à identidade nacional foi impulsionada pelo conturbado contexto político desta época. Desde o início da década de 1920, o Brasil vivia intensas agitações fruto de um grande descontentamento de setores da sociedade em relações às estruturas de dominação até então presentes e institucionalizadas. Um dos principais movimentos que buscou romper esta tradição de poder arraigada na prática política brasileira foi o movimento Tenentista que, de um modo geral, buscava o fim do poder oligárquico manifestado principalmente pelas forças da política café-com-leite, assim como algumas questões tal qual o fim do voto de cabresto, entre outros. Apesar do insucesso de tais iniciativas, o crescente apoio de diversos setores da sociedade a tais propostas, assim como a 1 Bolsista - CAPES 217 instabilidade gerada na política nacional auxiliaram no processo que culminou com o fim da chamada República Velha, em 1930. A partir deste momento então, a política nacional abre espaço para outros atores, e embora alguns destes manifestassem interesse no retorno às antecedentes práticas políticas (tal qual grande parcela dos idealizadores da revolução constitucionalista paulista de 1932), outro setor da política nacional buscava inserir novos projetos e iniciativas políticas e ideolpogicas, muitas destas enquanto reflexo de movimentos exteriores sobretudo Europeus - seja como um quase-mimetismo ou mesmo adaptação às condições locais. Evidentemente, mesmo antes da Revolução de 1930, alguns setores da direita e da esquerda política brasileira já vinham se articulando, seja nos casos descritos acima ou mesmo em organizações próprias, tal qual o Centro Dom Vital (1922, fundado por Jackson de Figueiredo) ou o Partido Comunista Brasileiro (PCB, fundado oficialmente também em 1922). No entanto, é inegável notar que a efervescência e o estímulo para o surgimento das diversas participações político-partidárias se deram justamente por conta da ordem legal para a existência destas práticas a partir de 1930. Além do PCB, os setores da esquerda tinham representatividade – nem sempre legal – em outros grupos comunistas ou mesmo anarquista, estando, portanto, com um nível de organização política invejado pelos seus opositores. A direita intelectual brasileira que, durante vários anos esteve atrelada aos setores conservadores da Igreja Católica (Centro Dom Vital, por exemplo), passa a seduzir-se pela ascensão fascista observada na Itália. Desta maneira, o que se vê é o surgimento de diversas organizações de cunho proto-fascistas ou fascistas propriamente ditas, que buscavam inserir ou rearticular questões de cunho ultranacionalista e de forjamento de uma nova identidade nacional na política brasileira. A primeira organização proto-fascista observada na história política brasileira foi, de acordo com Trindade2, a Legião Cruzeiro do Sul, fundada em 1922, seguida pela Ação Social Brasileira fundada por J. Fabrino, que tinha um claro programa fascista (tanto nos moldes organizacionais do programa partidário – corporativismo – quanto no aspecto simbólico – uniformes) e que buscou fundar o Partido Nacional Fascista, sem sucesso. A Legião Cearense do Trabalho, fundada pelo Tenente Severino Sombra no de 1931 foi uma das organizações brasileira de tendência fascista que obteve maior apoio popular, chegando a cerca de 15.000 membros (legionários). Além das organizações citadas, Trindade elenca alguns dos grupos fascistas do período, como: Partido Nacional Sindicalista (criado pelo jornalista mineiro Olbiano de Mello e que, apesar de contar com um detalhado programa partidário nos moldes fascistas, não obteve expressivo apoio popular) e a Ação Imperial Patrionovista Brasileira (fundada em 1928 e, como o nome deixava claro, propunha uma retomada da monarquia, porém com uma clara tendência corporativista advinda dos modelos fascistas). O surgimento destes diversos grupos, embora não indique necessariamente um apoio popular às medidas propostas, auxilia a notar a curva crescente que era desenhada no tocante à criação e ao fortalecimento de 2 TRINDADE, p.103 218 grupos e tendências políticas da extrema-direita, em especial aqueles com claros indícios de similaridades com o fascismo. O fascismo - entendido aqui não como um fenômeno específico, mas como um corpus de conceitos e propostas similares em vários casos, experiências e localidades - se aproveitava da prévia aceitação dos setores médios da sociedade e da intelectualidade brasileira do período, sobretudo dos jovens e recém-ingressos na vida pública, não necessariamente política. Com o fim da chamada República Velha, a prática político-partidária daquele período assume (à revelia, certamente) o caráter arcaico relacionado constantemente com os moldes oligárquicos de dominação. Contraponto a tal proposta, as ideologias de esquerda – comunismo e anarquismo, embora obtivessem certo apoio de uma significativa parcela do operariado urbano do período (sobretudo nos anos 1920), eram extremamente mal-vistos por grande parte da população brasileira, tomados como contrários à ordem e destruidores da moral cristã. Desta maneira, o fascismo de uma forma geral adquire um caráter extremamente atraente aos grupos citados anteriormente, considerado ―modernizador‖ e jovem. Isto explica, em parte, tanto a guinada de alguns grupos conservadores da Igreja para movimentos fascistas, quanto à grande adesão de jovens e intelectuais a estas experiências. Contudo, como abordado anteriormente, as propostas fascistas apresentadas até meados de 1931 e 1932 tinham como característica geral a efemeridade, com pequena exceção da Legião Cearense do Trabalho. O processo de criação e fortalecimento de grupos políticos de expressão fascista coube de fato à iniciativa de Plínio Salgado, jornalista, escritor e político paulista (nascido em São Bento do Sapucaí, no ano de 1895) que, no ano de 1932 funda a Sociedade de Estudos Políticos (SEP). Salgado, que já era medianamente conhecido nos círculos públicos nacionais, sobretudo por conta de sua participação na Semana de Arte Moderna de 1922, havia recém rompido com o molde partidário tradicional em meados de 1930 (fora deputado federal pelo Partido Republicano Paulista), quando parte em viagem para a Itália e se encanta pela experiência fascista de Mussolini, tendo inclusive realizado uma breve reunião com o Duce, que teria sido preponderante para sua iniciativa futura (a SEP). A primeira reunião da SEP ocorre no dia 24 de fevereiro de 1932, em São Paulo, na sede do jornal A Razão, local onde Plínio Salgado trabalhava, reunindo um grupo de jovens intelectuais liderados por Salgado, além de vários estudantes da Faculdade de Direito. Dezessete dias após a primeira reunião, acontece a assembléia de fundação da SEP, onde Plínio Salgado discursa conclamando para os presentes a necessidade da busca pelo estudo dos problemas nacionais para auxiliar na formação de uma política salvadora. A SEP organizava-se sob a coordenação de um órgão superior (Grupo de Centralização), e os membros eram divididos em vários grupos de estudos temáticos: educação física, arte, história e sociologia, higiene e medicina social, religião, política internacional, agricultura, entre outros. A SEP reuniu diversos intelectuais, sob um discurso ideológico extremamente nacionalista e antiliberal. Dentro da organização havia uma divisão não oficial que foi desenhada em torno de 219 dois grandes grupos: aqueles que seguiam uma cartilha mais próxima ao fascismo e eram capitaneados por Plínio Salgados e outro grupo que era formado por membros do monarquismo patrionovista e que foram se afastando gradativamente da organização. Desta maneira, o fascismo passa a configurar-se como aspecto preponderante dentro da SEP em seu período de atuação e confirma o relativo de Plínio Salgado em reunir diversos intelectuais e políticos dispersos, muitos deles que já haviam participado de semelhantes grupos anteriores. No dia 6 de maio de 1932, ocorre a terceira reunião da SEP. Nesta, Plínio Salgado sugere a criação de uma seção subordinada e paralela à SEP, com objetivo de ampliar de forma prática (ação) a educação nos moldes do grupo, de uma maneira mais acessível e abrangente, possibilitando assim a formação de uma consciência acerca dos problemas nacionais. Contrariando a posição de alguns membros, como Cândido Motta Filho (que defendia que a SEP deveria conservar o caráter unicamente cultural do movimento), Salgado obtém apoio da grande maioria dos membros SEP e consegue fundar a Ação Integralista Brasileira (AIB), conhecida como maior movimento político fascista existente no Brasil no Século XX e também, de acordo com Cavalari3, o primeiro movimento político moderno de massas do país. A partir dos últimos meses de 1932, Plínio Salgado em companhia de alguns integrantes da AIB, passam a fazer campanhas de disseminação do ideal integralista, buscando arregimentar militantes e simpatizantes, Brasil afora, sobretudo jovens, para formar o que seria a base intelectual do movimento integralista. No início de 1933 ocorre a filiação daqueles que se consolidariam como principais nomes do integralismo além do Chefe Nacional Plínio Salgado: Miguel Reale (futuro Chefe de Doutrina Integralista) e Gustavo Barroso (futuro Chefe das Milícias Integralistas). Gustavo Barroso, natural (1888) de Fortaleza (CE), quando ingressou no integralismo em 1933 já era nacionalmente conhecido, tanto pelas funções de jornalista (havia dirigido uma importante revista da época - Fon!-Fon! - na então capital federal), assim como no campo político, por ter ocupado o cargo de deputado federal entre 1915 e 1917 (eleito pelo Partido Republicano Federal). Além destas atribuições, Barroso era também famoso por ser membro da Academia Brasileira de Letras (ingresso em 1923) e também um dos idealizadores do Museu Histórico Nacional (1922). Miguel Reale, nascido no ano de 1910 na cidade de São Bento do Sapucaí (assim como o Chefe Nacional, embora ambos relatassem que não houvessem se conhecido até a experiência integralista), muda-se para São Paulo ainda jovem, passando a estudar em um tradicional colégio da cidade (Dante Alighieri). Inclinado pelos seus pais a seguir a centenária tradição familiar profissional de médicos, Reale desiste da ambição paterna e ingressa na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (atualmente vinculada à USP), um dos mais importantes centros de formação política e intelectual do período no país. Influenciado pelo conturbado panorama político existente na capital paulista, Miguel Reale decide se alistar nas forças paulistas que lutaram na 3 CAVALARI, p. 28. 220 Revolução Constitucionalista de 1929, atuando como sargento na linha de batalha. Com a derrota paulista frente ao governo federal, Reale retorna às atribuições anteriores e só tem efetivo contato com um movimento de cunho político expresso quando adere à Ação Integralista Brasileira, no ano de 1933. Logo quando ingressa no movimento integralista, Miguel Reale passa a exercer importante papel político no movimento. Em abril de 1933 ocorre em São Paulo o primeiro desfile integralista, em apoio à candidatura de Reale nas eleições para a Assembléia Constituinte, pro ano de 1934. O desfile contou com a participação de cerca de quarenta mil militantes trajados com as camisas verdes (uniforme do movimento) orneadas com um distintivo composto pela letra grega Sigma (Σ), símbolo do integralismo. Reale participou ativamente de outra estratégia de divulgação e arregimentação de novos membros para o integralismo, as ―Bandeiras Integralistas‖, que consistiam em viagens feitas pelos líderes (Salgado, Barroso e Reale) a diversas regiões do país, como forma de divulgação e doutrinação. As bandeiras que rumaram ao norte e nordeste do Brasil foram lideradas por Gustavo Barroso, sendo nesta bem recebido muito por conta da popularidade deste na região. As bandeiras da região Sul do país foram levadas por Reale, sendo que nestas foram inaugurados os núcleos integralistas do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina4. Além do papel de constante disseminação e fortalecimento da militância integralista, Miguel Reale desempenhava um papel essencial para a constituição ideologia da AIB. Na tríade chefia integralista – Salgado, Barroso, Reale -, Plínio Salgado ocupava-se da chefia nacional e, no aspecto intelectual, lançava obras destinadas a pensar a questão nacional para os integralistas, assim como idealizar a ―nova humanidade‖ que deveria emergir do Brasil, sobretudo e tão somente a partir da experiência proposta pelo movimento. Já Gustavo Barroso ocupava-se, além da função de formação de uma ala paramilitar do movimento (as milícias integralistas, destinadas ao enfrentamento nas ruas, principalmente com grupos esquerdistas e, mais adiante, a Aliança Nacional Libertadora), o papel ideológico que representava a ala mais radical – e anti-semita – do movimento, repetindo um discurso extremamente preconceituoso que relacionava e personificava os inimigos do integralismo a uma suposta obra subterrânea e complô dos judeus que seriam os responsáveis pela iminente destruição da civilização cristã – o que, evidentemente, seria contida somente pelos esforços integralistas e de outros movimentos fascistas ao redor do mundo5. No caso de Miguel Reale coube a função, justamente por conta de suas atribuições profissionais e notórias capacidades pessoais, de chefia da doutrina integralista no âmbito organizativo do almejado Estado Integral. Desta maneira, em diversos livros doutrinários voltado ao movimento integralista (―O Estado Moderno‖ – 1934, ―ABC do Integralismo‖ – 1935, ―O Capitalismo Internacional‖ – 1935, etc.) Miguel Reale buscava traçar uma análise do que viria a 4 BARBOSA, 2006, p. 73.. Cf. MAIO, Marcos Chor. Nem Trotsky nem Rotschild: o Anti-semitismo de Gustavo Barroso. Rio de Janeiro: Imago, 1997. 5 221 ser a configuração do Estado brasileiro sob domínio do integralismo. A relação que se fazia entre a configuração do Estado e o integralismo levavam em conta a busca pela instituição do modelo corporativista de organização, claramente influenciado pelo fascismo italiano. No entanto, uma das características gerais do integralismo e que automaticamente também era presente na doutrina integralista de Miguel Reale é a busca pela originalidade do movimento, como forma de não pautar o movimento como um mero ―mimetismo‖ ideológico dos congêneres europeus, o que, no caso específico do chefe de doutrina integralista, aproximava-se muito mais do fascismo italiano. Desta maneira, por mais que os traços de semelhanças fossem facilmente notados ou mesmo explícitos, era consenso na doutrina e discurso das lideranças do movimento que a AIB supostamente significava algo diferente – ou mesmo além – do modelo proposto pelos co-irmãos. Com este discurso uníssono do movimento, buscava-se distanciar de possíveis críticas de um ―seguidismo‖ eurocêntrico, fator que obviamente seria problemático em um movimento de tendência ultranacionalista. Isto não impedia, no entanto, que os integralistas se visualizassem como participantes de um grande bloco político, constituído de diversos movimentos ao redor do mundo (não somente Europeus) e, o que unia estas expressões políticas em torno de um grande grupo eram justamente as características fascistas ou fascistizantes, como o apelo às massas, o ultra-nacionalismo, o conservadorismo, o corporativismo do Estado, o anticomunismo, a simbologia e estética em alguns pontos semelhantes entre si (vestimenta), saudações, organizações paramilitares/milícias, etc.6. Algumas destas características da configuração do integralismo enquanto fascismo (nãomimético) auxiliara na conquista de militância do Sigma e na grande amplitude do movimento, de modo efetivamente nacional. Para arregimentar membros e doutriná-los da maneira mais uniformemente possível, a AIB construiu e utilizou de maneira sistêmica um maquinário doutrinário constituído de livros (obras com autoria na grande maioria da tríade chefia), jornais do movimento (todos submissos a um órgão nacional de coordenação – Sigma Jornais Reunidos), inserções na mídia de massa (rádio), simbologia e ritualística (uniforme, peças gráficas, cartazes, cânticos, cerimônias, festividades), entre outros aspectos, que garantiam a capacidade do integralismo em penetrar no íntimo dos militantes, tornando o movimento presente em grande parte da vida destes, não apenas nos cerimoniais políticos convencionais, como ocorria em diversos outros partidos e agremiações políticas e culturais. A resposta do integralismo a uma época de grave crise, buscando elevar e (re) criar uma nacionalidade brasileira, assim como oferecer uma resposta às ideologias ―inimigas‖ (o liberalismo, o comunismo e anarquismo), aliada ao aparato doutrinário descrito acima, foram um fator preponderante do relativo sucesso do movimento. Números oficiais, expressos em revistas integralistas como ―Anauê‖, ―Panorama‖, entre outras, jogavam o tamanho da militância para mais de 6 um milhão e meio de membros, dado provavelmente Cf. BARROSO, Gustavo O Integralismo e o Mundo, 1933. superestimado para fins 222 propagandísticos. No entanto, mesmo se lidarmos com um número menor (de 500 a 800 mil militantes, como afirma Hilton7), ainda assim é um valor extremamente significativo para a sociedade brasileira da época, ainda mais se levarmos em conta as dificuldades de comunicação e de locomoção de então, o que certamente era um entrave para um maior crescimento do movimento. A crença no sucesso do movimento auxiliou para a transformação, durante o II Congresso Nacional Integralista (realizado na cidade de Petrópolis em 1935), da AIB em partido político (era até então movimento cívico, político e cultural). Esta questão, no entanto, foi preponderante para a proibição da AIB quando do início da ditadura do Estado-Novo de Getúlio Vargas. Embora os integralistas houvessem apoiado publicamente o golpe Estadonovista, quando Getúlio Vargas toma o poder, dissolve todos os partidos políticos, inclusive a AIB. Deste modo, os integralistas caíram na ilegalidade. Num primeiro momento, as lideranças integralistas buscaram dialogar com Getúlio Vargas, tentando recriar o integralismo nos moldes originais (não-partidário) sob uma nova sigla, a Associação Brasileira de Cultura (ABC). No entanto, setores mais radicais do movimento começaram a ficar extremamente descontentes com determinadas ações do Estado-Novo, que incluía desde a proibição da atuação da ABC, até prisão de alguns militantes que ousavam se manifestar publicamente adeptos do Sigma. A situação chegou ao limite em meado de 1938, quando alguns militantes integralistas, juntamente com não-adeptos (inclusive liberais) empreenderam uma tentativa de golpe sobre Getúlio Vargas, chamada também de Putsch Integralista. O fracasso desta tentativa, como observa Silva8, fruto também de despreparo dos envolvidos no processo, acabou por determinar o completo rompimento de Getúlio Vargas e os integralistas. A repressão foi crescente, houve busca e apreensão (destruição) de diversos materiais integralistas e diversos integralistas foram presos, inclusive o chefe nacional Plínio Salgado, que em decorrência direta deste evento parte para o exílio em Portugal, retornando somente no ano de 1945, quando se dá o fim do Estado-Novo. Até o fim do Estado-Novo o que se seguiu foi uma constante campanha pública de denúncia contra o integralismo, buscando colocar o movimento como ―traidores da nação‖, ―agentes do eixo‖, dentre outras acusações que tornavam extremamente remotas quaisquer possibilidades concretas de rearticulações integralistas no período. Quando Plínio Salgado, ainda no exílio, começa a tentar rearticular e conter a extensa dispersão dos integralistas de então por meio do Partido de Representação Popular (PRP – primeira organização integralista concreta após a AIB), o panorama já não era mais o mesmo dos tempos áureos da AIB. Em primeiro lugar, há de constar que muitos integralistas acabaram por se aliar ao EstadoNovo por visualizar neste algumas das bandeiras historicamente defendida pelo integralismo, como o modelo corporativista de organização, o discurso conservador, a defesa do municipalismo contrário aos regionalismos, certos aspectos simbólicos, o nacionalismo e o autoritarismo. Outros 7 8 HILTON, 1977. SILVA, 1971, p.23. 223 militantes (como Hélder Câmara) migraram para organizações de esquerda, jamais se reaproximando de organizações integralistas ou de direita. Outra parcela ainda buscava se esquecer da participação do movimento integralista, visto que após o Estado-Novo o movimento tornara-se ―maldito‖ para a opinião pública em geral, fruto em parte da grande campanha efetuada pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado-Novo). Há ainda o caso de militantes, caso específico de Gustavo Barroso, que após a experiência integralista jamais voltaram a ocupar cargos e estabelecer relações no campo político-partidário institucionalizado. O caso específico de Miguel Reale insere-se certamente no primeiro grupo descrito acima. Após se desligar do integralismo, Reale passa a dedicar-se às atribuições profissionais na área do direito, lançando em 1940 a Teoria Tridimensional do Direito, tida como uma das maiores contribuições de sua vida intelectual, reconhecida em âmbito internacional. No ano de 1942, passa a integrar oficialmente o Estado-Novo, ocupando o cargo de Membro do Conselho Administrativo do Estado, até meados de 1944. Quando Plínio Salgado passa a coordenar – com o auxílio de Raymundo Padilha – a organização do PRP, Reale chega a ser cortejado a participar desta nova empreitada integralista e, além de negar a participação, tece comentário que se tornaram extremamente problemáticos neste contexto de retomada e reorganização integralista. Em entrevista concedida ao Diário de Notícias (12/05/1945), Miguel Reale afirmou que via a movimentação de rearticulação integralista como um perigo para as possibilidades pacíficas de soluções dos problemas nacionais. O ex- Chefe de Doutrina da AIB já tinha manifestado anteriormente o reconhecimento pessoal em que admitia determinadas deficiências presentes no ideal de seu antigo partido. Os motivos das mudanças de postura que teriam levado Reale a se afastar do integralismo e não apoiar a articulação do PRP fica exposto na entrevista, onde Reale afirma que sua desilusão para com o integralismo foi causada principalmente por ter visto na prática quais eram os resultados dos moldes corporativistas numa nação9. A viagem que fez à Itália fascista em 1938 deu-lhe oportunidade de visualizar o corporativismo além dos livros, algo que Reale definiu na prática como um sistema burocrático decepcionante. Afirmou que os compromissos que os integralistas tinham com a AIB desapareceram quando da transformação desta em ABC, sendo que quaisquer ordens ditas aos antigos integralistas eram ilusórias. Estas afirmações marcaram por completo a ruptura de Reale com o integralismo (algo que, mesmo com a participação durante o Estado-Novo não era necessariamente evidente). Neste período (1945), Reale funda, juntamente com Marrey Junior, o Partido Popular Sindicalista (PPS), partido este que depois viria a se transformar no Partido Social Progressista (PSP), fruto de fusão com outras diversas siglas, como o PRP (não integralista) de Adhemar de Barros. Embora seja difícil quantificar o impacto que tais declarações tenham causado junto à militância integralista, é necessário ressaltar que outros figurões importantes da mais alta hierarquia integralista, como Santhiago Dantas, Belmiro Valverde e Gustavo Barroso não 9 CALIL, Gilberto. p. 96 224 apoiaram o PRP. Carone10 afirma que este foi um grande empecilho à formação do PRP, porém, como observa Calil, grande parte da liderança intermediária integralista apoiou Plínio Salgado e o PRP, ao menos em um primeiro momento. Vários chefes provinciais da AIB, inclusive de alguns estados importantes para o integralismo, tais quais os estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraíba, Bahia, Minas Gerais, Guanabara e Rio de Janeiro auxiliaram Salgado. Porém, é plausível supor que o posicionamento de Miguel Reale neste momento tenha atingido certa parcela da militância integralista, pois ainda era importante para os antigos membros a manutenção das estruturas existentes até então na chefia, ou o mais próximo possível. O fato, inclusive, de Miguel Reale propor a fundação de um novo partido – também com inspiração corporativista, embora sob os moldes do sindicalismo e, desta maneira, mais distante tanto do integralismo quanto (conforme sua própria colocação anterior) do fascismo, pode ser visto como um fator de desestabilização da militância integralista, de modo que talvez seja possível verificar, em estudos futuros, a carga de ex-integralistas inseridos em projetos políticos distintos ao de Plínio Salgado, incluídos nisto o PPS de Miguel Reale. O posicionamento de Miguel Reale logo no início de formação do Partido de Representação Popular de Plínio Salgado tem de ser visto também como uma questão de contexto, inclusive pela existência de dois programas distintos entre si e em disputa: o PRP e o PSP. No tocante à ―escrita de si‖, considerada neste contexto não necessariamente no aspecto autobiográfico ou mesmo letrado, o que, como aborda Souza11 inclui também as entrevistas como um dos grandes aspectos de materialização (oral) da escrita, o posicionamento de Miguel Reale é dúbio se analisado em relação a entrevistas mais recentes, realizadas consecutivamente em 1997 (Programa Roda Viva, da TV Cultura) e em 2002 (Programa Memória Política, da TV Câmara). Nestas entrevistas (1997 e 2002), Miguel Reale retoma o significado do integralismo em sua vida, fazendo uma ampla defesa do movimento, buscando colocá-lo como diametralmente oposto da prática fascista. Esta questão ilustra claramente a mudança de posição e discurso de Miguel Reale em relação ao integralismo de acordo com o contexto de cada fala. Evidentemente, durante a primeira entrevista abordada aqui, Miguel Reale vivia o auge de uma carreira profissional, pública e com relações e ambições políticas. Neste momento, tanto o seu passado integralista, quanto a rearticulação de seus antigos companheiros ou mesmo sua insistência em utilizar o modelo corporativista (revisto, sob moldes sindicalistas) era extremamente problemático e necessitava um imediato afastamento da mácula fascista. Já nas entrevistas nos últimos anos de vida, quando já tinha uma carreira consolidada, estando aposentado e a experiência integralista estava restrita ao contexto dos anos 1930 e era analiticamente apresentado como reação aos problemas da época, tal posicionamento já não adquire o peso anterior. No entanto, embora estas duas últimas entrevistas citadas podem ser vistas como uma espécie de mea-culpa de Miguel Reale, o peso destas são inequivocamente inferiores para as 10 11 CARONE, 1973, p.213. SOUZA, 2008. 225 ambições de retomada integralista (ainda presentes na atualidade) se comparadas ao contexto de 1945, onde havia ainda grande parte da militância integralista ainda viva, a presença do chefe nacional Plínio Salgado (que viria a falecer em 1975) e o apego à democracia da sociedade brasileira era bastante inferior à sociedade atual, o que, para os integralistas, era uma possibilidade de avanço, algo que não ocorreu (ao menos como esperavam). 226 BIBLIOGRAFIA BARBOSA, Jefferson Rodrigues. A ascensão da Ação Integralista Brasileira (1932 – 1937).in: Revista de Iniciação Científica da FFC, v. 6, n. 1/2/3, p.67-81, 2006. CALIL, Gilberto Grassi. O Integralismo no Pós-Guerra: A formação do PRP (1945-1950). Porto Alegre: EDIPUCRS, 2001. CARONE, Edgar. A segunda república. São Paulo: Difusão européia do livro, 1973. CAVALARI, Rosa Maria Feiteiro. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil (1932-1937). Bauru, SP: Edusp, 1999. HILTON, Stanley. Ação Integralista Brasileira: o Fascismo no Brasil, 1932-1938. In: ________. O Brasil e a Crise Internacional, 1930-1945. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977. p. 23-57. SILVA, Hélio. 1938: Terrorismo em Campo Verde. O Ciclo Vargas, Vol. X. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1964. SOUZA, Valdir Apaercido de. Representações de si: o imaginário dos intelectuais e a História Contemporânea. In: Revista Eletrônica do Centro de Estudos do Imaginário. Disponível em: < http://www.cei.unir.br/artigo115.html> (acesso em 10 nov. 2010). TRINDADE, Hélgio. Integralismo. O fascismo brasileiro na década de 30. 2. ed. rev. amp. São Paulo-Rio de Janeiro: Difel, 1979. 227 IDENTIDADES E MEMÓRIA DE IMIGRANTES JAPONESES E DESCENDENTES EM LONDRINA: 1930-1970 Priscila Martins Fernandes Msª pelo Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Estadual de Londrina [email protected] RESUMO: Abordaremos a análise feita a respeito do processo de construção das identidades nikkeis em Londrina entre o início da década de 1930 até o ano de 1970 a partir da memória de indivíduos pertencentes a esse grupo étnico, recorrendo ao uso e à análise das fontes orais. Assim, verifica-se como foram constituídas as estratégias de sobrevivência e de ascensão social dos familiares dos entrevistados — ao todo, cinco — as possíveis transformações, conflitos e negociações de uma memória identitária diante de uma sociedade em sua maioria não descendente, e como essa memória estaria ou não ligada às questões socioeconômicas. Analisa-se, ainda, a importância da educação como suporte para formação das identidades nikkeis, além de verificar aspectos presentes na memória desse grupo étnico, tidos como parte constituinte de suas identidades, como honestidade, responsabilidade entre outros, e que servem de elementos que podem diferenciá-los diante da sociedade brasileira. Outro processo é o de negociação das identidades e os conflitos vividos, onde analisa-se por meio da memória dos membros desse grupo étnico, em quais momentos se afirma e em quais se nega suas identidades nikkeis. PALAVRAS-CHAVE: Imigração Japonesa; Identidade; Memória. IDENTIDADES E MEMÓRIA DO GRUPO ÉTNICO NIKKEI1 EM LONDRINA Em 2008 foram celebrados os cem anos da chegada dos primeiros migrantes japoneses. A comemoração do centenário da imigração foi realizada em diversas cidades brasileiras entre elas Londrina, tendo como principal evento o Imin 100 2. Formada por uma comissão organizadora de membros desse mesmo grupo étnico, o Imin 100 promoveu a realização de uma exposição especial, com apresentações artísticas, feira gastronômica, shows, entre outros. Houve também inaugurações de monumentos, e de espaços públicos, como a Praça Tomie Nakagawa 3. O próprio príncipe japonês Naruhito visitou o Brasil e esteve em Londrina. Os diversos meios de comunicação produziram matérias e reportagens sobre a presença desta etnia e de seus descendentes no Brasil. 1 2 3 Nesse trabalho o conceito de ―nikkei‖ será abordado de acordo com a definição dada por Jeffrey Lesser, que segundo ele é um termo geral usado para os descendentes de japoneses nascidos no Brasil. Também chamado de Expo Imin 100, ocorreu entre os dias 18 e 22 de junho de 2008, no Parque de Exposições Ney Braga, em Londrina (PR). Essa praça localizada na região central de Londrina foi inaugurada em 22 de junho do ano de 2008. A praça leva o nome de Tomie Nakagawa, a última sobrevivente do navio Kasato Maru (que trouxe a primeira leva de imigrantes em 18 de junho de 1908). Tomie viveu e faleceu em Londrina. A inauguração da praça Tomie Nakagwa contou com a presença do príncipe Naruhito do Japão, entre outras autoridades. Esse empreendimento foi patrocinado pela comunidade nikei de Londrina e custou R$ 2,5 milhões. Fonte: <http:www.londrinatur.com.br/Londrina/Turismo_Londrina/Atrativos_Turismo/Praça_Tomie_Nakagawa/2/2 7/1783.html >. 228 Além disso, várias empresas veicularam anúncios publicitários mostrando as características e os valores destes homens e mulheres originários do outro lado do mundo. Os jornais Gazeta do Povo e Jornal de Londrina4, publicados em Curitiba e em Londrina também produziram, conjuntamente, suas reportagens em um suplemento especial dos 100 anos de imigração japonesa. Esse suplemento organizado em cinco volumes5, e publicado entre os dias 16 e 20 de junho de 2008, aborda a trajetória dos imigrantes desde a saída de seu país natal, passando pelo ingresso, acomodação e progresso no Brasil, e principalmente no estado do Paraná, ao longo das décadas seguintes, chegando até o recente fenômeno dos dekasseguis6. Neste material encontramos os temas que podem ser destacados como as características escolhidas como elementos de identidades tanto pelos descendentes como pelos jornalistas. Outros temas da cultura japonesa trazida para o Brasil também foram apresentados nesse suplemento, como a religiosidade, a gastronomia, a escrita, os esportes, entre outros. Um nikkei da cidade de Assai, no Norte do Paraná, comenta em seu depoimento publicado em um artigo do suplemento, o que considera o legado deixado pelos imigrantes japoneses ao Brasil. Nesta fala é possível perceber alguns elementos identitários presentes na memória desse grupo étnico: moralidade, pureza, dedicação, amor e esforço. No final demonstra o que considera o fim das tradições e dá pistas sobre as transformações identitárias: [...] segundo o produtor rural e presidente da Liga das Associações Culturais de Assaí (Laca), Cairo Koguishi, cuja família chegou à cidade em 1935, Assaí é a cidade mais japonesa do Paraná, claro que numa proporção bem menor que a da época de sua fundação. ―Se no começo a população era 99% japonesa, acredito que hoje não chegue à metade dos habitantes, muito pelo movimento dekassegui‖, lembra ele [...], ele diz ter sido boa a herança dos imigrantes no país. O mais marcante ele acredita que seja o aspecto de moral, de pureza, dedicação e de não fazer o mal aos outros. ―Existe um lema emblemático que diz que o amor e o suor são fundamentais e na sociedade em que não existem essas duas coisas é muito mais comum ocorrerem problemas‖, assinala Koguishi, comentando 4 Ambos os jornais do grupo RPC (Rede Paranaense de Comunicação) afiliada a Rede Globo. Os cinco volumes do suplemento 100 anos de imigração japonesa têm como temas centrais os seguintes assuntos: Volume 1: Pioneiros desbravam terras brasileiras. Volume 2: Antonina, a primeira morada dos imigrantes. Volume 3: Norte do Paraná acolhe imigrantes em busca de uma vida melhor. Volume 4: Territórios nipônicos no interior do Paraná. Volume 5: Retorno à fantástica terra dos ancestrais. 6 Palavra de origem japonesa que significa sair temporariamente do lugar de origem para trabalhar em outro lugar, seja no mesmo país ou no exterior. Aqui, este termo será designado para se referir aos brasileiros descendentes de japoneses que vão trabalhar no Japão. 5 229 que muitas das tradições vêm sendo deixadas de lado pela comunidade, como falar a língua japonesa em casa, por exemplo. [...] 7 O editorial do 3º volume, ressalta a participação japonesa no desenvolvimento e ‗progresso‘ de cidades do Norte do Paraná como Londrina, Maringá e Apucarana. Se hoje são grandes as cidades no Norte paranaense como Londrina, Maringá e Apucarana, muito se deve aos imigrantes japoneses que ali se instalaram ao deixarem o regime de quase escravidão em fazendas de café paulistas. Não foi da frustração do sonho de enriquecer que surgiram as forças que ajudaram a levar o progresso para aquelas terras, foi a descoberta paulatina da potência própria da perseverança e da união da comunidade nipônica que fizeram as terras brasileiras belas e férteis. Aqui, as tradições se mantêm, passados cem anos da imigração, como os estilos teatrais Noh, Kabuki e Bunraku, a singela poesia dos minimalistas haikais e as virtudes nascidas com os samurais, devidamente cultivadas no seio dessa comunidade.8 Destaca-se a ideia do desapego ao sonho frustrado de enriquecimento, a perseverança e a união da comunidade nipônica, e que esses elementos fizeram das terras brasileiras belas e férteis. O primeiro trecho citado apresenta a memória de um descendente, enquanto que esse último trecho é um editorial escrito por nacionais 9, o que demonstra as formas como aparecem às imagens dos descentes tanto por eles próprios quanto pelos outros (não descendentes). Também nos anúncios publicitários aparecem referências ao centenário e a determinadas características identitárias do grupo étnico japonês. Um dos anúncios, de uma rede privada de colégios diz: ―No Paraná, muitos foram trabalhar em plantações e enfrentaram dificuldades. Hoje, colhem prosperidade‖.10 A mensagem é que, apesar das dificuldades enfrentadas pelos imigrantes no Paraná, hoje a comunidade japonesa colhe a prosperidade, trazendo assim a ideia de que as estratégias de sobrevivência e de ascensão social desses imigrantes foram bem sucedidas. Em outro anúncio, de um banco estatal federal, destaca que o sonho dos imigrantes japoneses cem anos após a imigração ao Brasil teria se tornado realidade. 7 JUSTINO, Adriano. ―Pedaços‖ do Japão sofrem com esvaziamento. Gazeta do Povo; Jornal de Londrina. Curitiba; Londrina, 19 jun. 2008. Suplemento especial: 100 anos de imigração japonesa, 4/5 v. p. 6-8. 8 Rumo às terras do Norte. In: Gazeta do Povo; Jornal de Londrina. Curitiba; Londrina, 18 jun. 2008. Suplemento especial: 100 anos de imigração japonesa, 3/5 v. p. 2. 9 100 anos de imigração japonesa é uma série de fascículos desenvolvida pela editoria de Projetos Especiais, encartada pelos jornais Gazeta do Povo e Jornal de Londrina. Diretor de redação: Nelson Souza Filho. Edição: Andréa Sorgenfrei e Keyse Caldeira. 10 Anúncio publicitário da Rede Marista de Colégios. Gazeta do Povo; Jornal de Londrina. Curitiba; Londrina, 18 jun. 2008. Suplemento especial: 100 anos de imigração japonesa, 3/5 v. p. 3. 230 Esse sonho seria o de garantir uma vida melhor, uma vida próspera, e que esse sonho foi conquistado por milhares de nikkeis e que também teriam contribuído para o desenvolvimento do país. Assim, como o anúncio anterior esse também apresenta a ideia de que as estratégias de sobrevivência e de ascensão dos nikkeis dentro da sociedade brasileira teriam sido alcançadas. ―Há 100 anos os ‗japoneses vieram atrás dos seus sonhos. Hoje eles se tornaram realidade. Em 1908 chegou no Porto de Santos o Kasato Maru, primeiro navio com imigrantes japoneses. Na bagagem, havia a cultura milenar e muita força para o trabalho. Depois de 100 anos, a esperança se transformou em desenvolvimento para os milhares de nikkeis e para o Brasil. Esse povo que acreditou em um sonho e o transformou numa próspera realidade merece uma grande homenagem [...]‖.11 Por meio deste editorial e também dos dois anúncios publicitários podemos perceber a recorrente utilização das possíveis características identitárias dos imigrantes e descendentes, como: educação, trabalho, perseverança, disciplina, união, organização. Nota-se também uma imagem autorreferente, a do nikkei bem sucedido que estaria presente tanto na memória dos pertencentes a este grupo étnico quanto nos discursos da sociedade envolvente. Portanto, cabe aqui se fazer as seguintes questões: como se formou esta imagem? Quais papéis tiveram a educação, a tradição, entre outros elementos identitários? Assim, um dos objetivos principais desta pesquisa foi verificar a penetração da imagem do nikkei bem sucedido e até que ponto ela estaria presente na memória desse grupo étnico, além de analisar como essa memória atuou na construção das identidades e na negociação de uma etnicidade12 nikkei. Neste sentido, analisamos como foram construídas as identidades nikkeis em Londrina a partir da memória de indivíduos pertencentes a esse grupo étnico. Além de averiguar, com base na memória de membros desse grupo, como foram formadas as estratégias de sobrevivência e de ascensão social de sua família, as possíveis transformações ocorridas na memória destes indivíduos diante de uma sociedade em sua maioria não descendente e, como a negociação de uma memória identitária estaria ou não intimamente ligada também às questões socioeconômicas. Para investigar este processo optou-se por Londrina no período entre a chegada dos imigrantes japoneses e descendentes ao município, no início da década de 1930, até o ano de 1970. Isso porque desde a década de 1940, a região Norte do Paraná, onde Londrina se insere, é 11 Anúncio publicitário da Caixa (banco). Gazeta do Povo; Jornal de Londrina. Curitiba; Londrina, 18 jun. 2008. Suplemento especial: 100 anos de imigração japonesa, 3/5 v. p. 12. 12 O conceito de etnicidade é entendido aqui como um sentimento de pertencimento exclusivo a um determinado grupo étnico, assim, um conceito próximo ao de identidade. ―É preciso ressaltar que se, por um lado, muitas comunidades se auto-afirmam positivamente a partir de seus costumes, por outro, a identidade étnica (a etnicidade) é um elemento que contribui para a construção do etnocentrismo. Ao se identificarem com membros de uma cultura em comum, diferentes dos que o cercam, um determinado grupo reage às culturas diferentes muitas vezes com repulsa. O sentimento de superioridade diante de diferentes culturas é, assim, criado na identidade étnica. [...] Em suma, a discussão sobre etnia nos leva repensar o próprio conceito de etnocentrismo.‖ Fonte: SILVA, Kalina Vanderlei; SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de conceitos históricos. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2006, p. 125-126. 231 tida como a segunda maior concentração de japoneses no Brasil13. Não só a grande concentração de nikkeis em Londrina chama atenção, mas também a forma de colonização, já que a presença de imigrantes japoneses e descendentes, e de outras pessoas vindas de diferentes estados do Brasil e também advindas de outros países, ocorreu devido à ação da Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP). Esta empresa privada administrou a venda de lotes rurais, de pequeno e médio porte, e, portanto, mais acessíveis para serem comprados na região de 1930 e 1940. Isso proporcionou aos japoneses e descendentes, a oportunidade de saírem da situação de empregados nas fazendas de café paulistas e de se tornarem proprietários, em muitos casos pela primeira vez. Assim, verifica-se como a construção das identidades nikkeis se deu nessa situação, visto que os japoneses e descendentes nesta região do país puderam ser proprietários. Além disso, tiveram de se relacionar de forma mais aprofundada com os outros migrantes e estrangeiros, distinta da experiência paulista. Observamos também que, em Londrina, o processo dessa construção identitária ocorreu tanto na geração de imigrantes, que provavelmente viveu no meio rural entre os 1930 e início dos anos de 1950, quanto na de seus descendentes que se mudaram para o meio urbano, principalmente nas décadas de 1950 a 1970. Para a realização desta pesquisa utilizou-se principalmente as fontes orais, abordando as hipóteses de que a importância da educação, e valores como a honestidade, a pontualidade, a responsabilidade entre outros, poderiam servir de elementos identitários, e que este recurso também poderia ser utilizado como justificativa de apresentar a memória do grupo étnico japonês como algo coeso, além de reforçar a imagem de um grupo bem sucedido na sociedade envolvente. Alguns trabalhos14 já apresentaram a difícil aceitação que os imigrantes japoneses tiveram no Brasil antes mesmo da chegada do primeiro navio, em 1908, por ser uma etnia não europeia, além de abordarem o preconceito e as dificuldades vividas por esses imigrantes na adaptação à cultura brasileira. O balanço de mais de cem anos da imigração japonesa para o Brasil mostra que muito se escreveu sobre a presença desses imigrantes e de seu legado ao país. No entanto, durante as celebrações do centenário notou-se que pouco ou praticamente nada se problematizou do processo de inserção e de aceitação desse grupo étnico, em um país onde somente os imigrantes ―brancos‖ e europeus eram aceitáveis. Além disso, tanto o grupo étnico, com a sua autorreferência, quanto as propagandas feitas por nacionais buscaram evidenciar uma imagem de 13 Fonte: ARAI, Jhony; HIRASAKI, Cesar. 100 anos da imigração japonesa no Brasil. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo; Bunkyo – Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social, 2008, p. 74. 14 Elencamos dois trabalhos que analisam o contexto pré-imigratório: LESSER, Jeffrey. A negociação da Identidade Nacional: Imigrantes, minorias e a luta pela etnicidade no Brasil. São Paulo: Editora da Unesp, 2001. NOGUEIRA, Arlinda Rocha. Restrições ao braço asiático (chinês e japonês) como força de trabalho. Diferenças regionais. In: Imigração japonesa na História Contemporânea do Brasil. São Paulo: Massao Ohno Editor; Centro de Estudos Nipo-Brasileiros, 1984, pp. 79-116 232 um nikkei bem sucedido, e que teria deixado um legado aos brasileiros de valores como a importância da educação, honestidade e a responsabilidade. Para tentar responder as questões colocadas anteriormente, privilegiou-se a pesquisa com as fontes orais e, portanto, a memória. Michael Pollak ao investigar sobre memória coletiva e memória individual retoma a análise de Maurice Halbwachs. Em vários momentos, Maurice Halbwachs insinua não apenas a seletividade de toda memória, mas também um processo de ‗negociação‘ para conciliar memória coletiva e memórias individuais: ‗Para que nossa memória se beneficie da dos outros, não basta que eles nos tragam seus testemunhos: é preciso também que ela não tenha deixado de concordar com suas memórias e que haja suficientes pontos de contato entre ela e as outras para que a lembrança que os outros nos trazem passa ser reconstruída sobre uma base comum‘.15 Dessa maneira, as análises de fontes orais, mesmo se tratando de memórias individuais, devem ser analisadas como memórias que negociam o tempo todo com a memória coletiva, que pode ser a memória do grupo étnico, reconstruída sobre uma base comum. A rede de entrevistados foi constituída por cinco membros do grupo formado pelos imigrantes e descendentes de japoneses que viveram em Londrina entre os anos de 1930 e 1970, com intuito de se ter uma melhor noção de como ocorreu o processo de negociação e de integração desse grupo na sociedade brasileira, no caso específico de Londrina. A partir daí, verifica-se como na memória desses imigrantes e descendentes se formaram alguns elementos identitários e quais estratégias de sobrevivência e de ascensão social se destacaram. Outro elemento verificado por meio das fontes orais a educação e como ela é uma das principais estratégias de ascensão social na memória identitária desse grupo étnico. Com relação ao perfil dos cinco integrantes somente um dos entrevistados é imigrante japonês, enquanto que um entrevistado é neto de imigrantes, e os outros três descendentes de imigrantes da primeira geração nascida no Brasil, ou seja, nisseis. Eles foram selecionados porque além de fazerem parte do grupo a ser analisado nesse trabalho, eles vivenciaram um momento importante de transição apontado pela historiografia: os nikkeis ficaram entre preservar a cultura de seus ancestrais e também de se estreitar maiores relações sociais com os nacionais, sendo os que mais promoveram a entrada do grupo étnico japonês na sociedade brasileira. Por fim, os cinco entrevistados são formados em nível superior, isso demonstra que o grupo familiar de todos eles optou pela estratégia de educação para elaborarem as identidades nikkeis. 15 POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. In: Estudos Históricos. Rio de Janeiro: CPDOC FGV, v. 2, n. 3, 1989, p. 3-4. 233 Como se verificou nos trechos destacados do suplemento em comemoração do centenário da imigração japonesa, a atual conjuntura se apresenta favorável a ideia de prosperidade desse grupo étnico. Além disso, nota-se que parte dos nikkeis se inseriu com sucesso em alguns setores socioeconômicos em Londrina nos últimos anos, seja como profissionais liberais, empresários ou comerciantes. Alguns valores apontados nos depoimentos como significativos das identidades, como honestidade, pontualidade, responsabilidade e principalmente a importância da educação dos descendentes já nascidos no Brasil, podem, desta perspectiva, serem vistos como uma interpretação do próprio passado do indivíduo e da memória coletiva que aparecem como construções de estratégias de sobrevivência e de ascensão social, além de serem possíveis elementos que buscam diferenciar esse grupo étnico dos demais. [...] A memória, essa operação coletiva dos acontecimentos e das interpretações do passado que se quer salvaguardar, se integra, como vimos, em tentativas mais ou menos conscientes de definir e de reforçar sentimentos de pertencimento e fronteiras sociais entre coletividades de tamanhos diferentes: partidos, sindicatos, igrejas, aldeias, regiões, clãs, famílias, nações etc. A referência ao passado serve para manter a coesão dos grupos e das instituições que compõem uma sociedade, para definir seu lugar respectivo, sua complementariedade, mas também as oposições irredutíveis.16 Essa questão do pertencimento e das fronteiras sociais, partindo do aspecto da memória coletiva, pode ser observada no contexto da imagem de sucesso profissional e socioeconômico dos nikkeis, onde a ideia de coesão do grupo se torna importante para definir seu lugar na sociedade, além de se defender das possíveis oposições. Como podemos observar na análise do historiador norte-americano Jeffrey Lesser. [...] A geração issei17 (imigrante) foi quase inteiramente rural, mas isso mudou drasticamente quando os nisseis (primeira geração) mudaram-se para áreas urbanas em busca de educação e profissões liberais. Desde 1950 os nikkeis brasileiros têm sido, no todo, altamente representados nas classes alta e média da sociedade brasileira, se os parâmetros forem renda, localização residencial, educação ou profissão. Nesse sentido, o nikkei se encaixa na mesma categoria que os descendentes tanto de imigrantes judeus, quanto árabes (Oriente Médio), cujas estratégias similares usadas para ascender social e economicamente eu explorei em um trabalho anterior. [...] A cultura oficial brasileira nega a importância — ou mesmo a existência de etnia e, mais ainda, de raça. Ao mesmo tempo, tem o branco como ideal. Essa contradição cultural é importante porque os imigrantes japoneses e seus descendentes no Brasil esforçaram-se para 16 Ibid., p. 9. Termo japonês dado aos imigrantes japoneses, nascidos no Japão. Os filhos, nascidos no Brasil são denominados de nisseis. Aos netos brasileiros de imigrantes japoneses é dado o nome de sanseis. Os bisnetos são denominados de yonseis, e os tataranetos de gosseis. Fonte: Veja. São Paulo: Abril, ano 40, n. 2038, 12 dez. 2007. p. 82-91. 17 234 se transformarem em brancos, fazendo a noção de ―japonês‖ [...] tornar-se algo como uma metáfora de sucesso no Brasil.18 Segundo Lesser, houve a utilização dessa metáfora de sucesso por parte do grupo étnico nikkei como uma estratégia de inserção positiva na sociedade brasileira, e dessa forma a questão da ascensão social teve um papel importante dentro do processo de construção da memória. Além do aspecto da educação aparecer diversas vezes como um dos elementos formadores das identidades na memória do grupo étnico japonês, outros aspectos identitários como honestidade, responsabilidade e dedicação também são pertinentes, e podem ser analisados como estratégias presentes na memória desse grupo para a negociação de um espaço melhor dentro da sociedade brasileira. Não apenas esses elementos, como também a questão dos nikkeis e o aspecto da crise identitária vivenciada entre ser brasileiro e ser japonês, não só pelas características físicas, mas também pelo conflito e a constante negociação das identidades vivenciada por esse grupo. Vale então questionar em que situação afirma-se ou nega-se essa identidade. Podemos avaliar, por meio dos depoimentos e também baseando na bibliografia que trata sobre o tema, que a memória do grupo étnico japonês, neste caso recorrendo às análises das fontes orais dos cinco entrevistados, nos aponta para uma construção das identidades que remete às tentativas dos imigrantes e descendentes não-europeus em definir seu lugar dentro da identidade nacional brasileira. Percebe-se também, que o uso de identidades múltiplas é comum entre o grupo de ascendência japonesa, ou seja, em determinadas situações ora é vantagem rejeitar suas origens japonesas —, no caso, quando se trata do convívio social com os não descendentes e também de seus traços fisionômicos, devido ao preconceito da sociedade majoritária — ora é vantagem afirmá-las, como, por exemplo, no aspecto profissional, associando sua etnicidade à ascensão social. CONSIDERAÇÕES FINAIS As matérias de jornais e propagandas impressas apresentadas aqui revelam uma memória autorreferente do grupo étnico japonês, procurando destacar que houve uma inserção socioeconômica bem sucedida alcançada por este grupo étnico. Ainda por meio da análise das entrevistas, observou-se que os nikkeis completam esta autorreferência de forma que os de fora a reforça. Temos que levar em consideração que a construção 18 LESSER, Jeffrey. De nikkei para brasileiro e vice-versa: o papel da etnicidade na luta armada de São Paulo. In: HASHIMOTO, Francisco; TANNO, Janete Leiko; OKAMOTO, Monica Setuyo (Orgs.). Cem anos da imigração japonesa: história, memória e arte. São Paulo: Editora da UNESP, 2008. p. 24-25. 235 destas identidades autorreferentes se apresenta dentro de um contexto específico: o processo sócio-histórico brasileiro no pós-guerra. Mediante análises historiográficas, que o processo de imigração em massa ao Brasil para esses grupos étnicos foi uma aventura imigratória bem sucedida, tanto no plano de ascensão social quanto no da integração à sociedade nacional, mas, enquanto narrativa hegemônica. Por isso, não poderíamos deixar de esquecer o roteiro de dificuldades no processo de inserção e mais, como essas dificuldades, crises e conflitos vividos influenciaram nas opções de estratégias de sobrevivência e de ascensão social, aspectos constituintes da luta dentro do ―capitalismo de vencedores‖. Constatamos também que os descendentes trazem em sua memória elementos identitários que recriam um passado para se religar as origens de seus ancestrais integrando passado e presente, contudo, o passado que eles rememoram é, como todas as reconstruções, uma idealização, seja na vida individual, familiar ou relacionado ao grupo étnico. Um dos exemplos disso seria a incorporação de um elemento presente em mais de uma entrevista — o espírito guerreiro dos samurais — que seria um indicativo do uso de aspectos identitários tidos como japoneses na construção das identidades posteriores. Pela análise das fontes orais notou-se que as identidades e memórias autorreferentes refletem os conflitos, preconceitos e embates vividos nestes mais de cem anos da presença dos japoneses e descendentes na sociedade brasileira. Portanto, as identidades se apresentam como híbridas e conflituosas. Temos entre os entrevistados alguns perfis em comum que devem ser levados em conta nessa análise, como formação em nível superior e uma inserção positiva profissional: um empresário (engenheiro civil), um médico, uma professora universitária aposentada, um dentista e também professor universitário, e por fim, um engenheiro agrônomo aposentado. Fazendo parte de uma camada que atingiu certa ascensão social eles procuram justificar, através de suas memórias e experiências, como atualmente se apresenta esse grupo étnico em uma conjuntura favorável. Assim, aparece na memória elementos identitários que tentam definir e reforçar sentimentos de pertencimento e de fronteiras sociais, por meio da referência a um passado ancestral, que busca promover uma aparente coesão desse grupo étnico definindo seu lugar na sociedade. A presença da valoração da educação na fala dos depoentes aqui levantados acaba por reforçar um discurso para com o outro, não descendente, apresentando a adesão deles ao processo hegemônico capitalista brasileiro. Assim, o investimento feito pelo grupo étnico nikkei para a manutenção de seus valores e tradições, além da utilização de alguns mecanismos para a sua inserção na sociedade brasileira, entre eles a opção por seguir carreiras profissionais 236 altamente valorizadas indicam que não houve apenas um projeto de ascensão social, mas também um alinhamento específico pelo alto. O ingresso dos descendentes de japoneses às escolas e faculdades convencionais proporcionou a ampliação da inserção desse grupo étnico na sociedade abrangente, além de ter sido eleita por eles, a melhor estratégia para que os descendentes participassem das transformações socioeconômicas que estavam ocorrendo no Brasil, no período pós-guerra. As opções pelos cursos das áreas de Exatas e de Biológicas garantiram o projeto de ascensão social, e, sobretudo, foi um dos elementos mais importantes que constituíram a imagem autorreferente deste grupo étnico, servindo como suporte para a formação das identidades e memórias nikkeis. Verificou-se ainda, que a educação tratada como compromisso familiar e disciplina embasou as identidades e aparece como um valor distintivo deste grupo étnico perante a sociedade brasileira. Com isso, este trabalho avançou ao verificar por meio das memórias a importância da educação como suporte para formação das identidades nikkeis, além de analisar outros elementos identitários e os conflitos vivenciados, e como estes aspectos se apresentaram tanto como uma estratégia de sobrevivência, mas, principalmente como um projeto de ascensão social. 237 BIBLIOGRAFIA ALVIM, Zuleika. A Vida Privada dos Pobres do Campo. In: NOVAIS, Fernando A. (Coord.). SEVCENKO, Nicolau (Org.). História da Vida Privada no Brasil: República: da Belle Époque à Era do Rádio. São Paulo: Companhia das Letras, v. 3, 1998, pp. 215-287 ARAI, Jhony; HIRASAKI, Cesar. 100 anos da imigração japonesa no Brasil. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo; Bunkyo – Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social, 2008. SAKURAI, Célia; COELHO, Magda Prates (Orgs.). Resistência e integração: 100 anos de imigração japonesa no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 2008. CAPELO, Maria Regina Clivati. Educação, escola e diversidade cultural no meio de Londrina: quando o presente reconta o passado. 2000. 288p. Tese (Doutorado em Educação). Universidade Estadual de Campinas, Campinas. FAUSTO, Boris. Imigração: Cortes e Continuidades. In: NOVAIS, Fernando A. (Coord.). SCHWARCZ, Lilia Moritz (Org.). História da Vida Privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea. São Paulo: Companhia das Letras, v. 4, 1998, pp. 13-61 Gazeta do Povo; Jornal de Londrina. Curitiba; Londrina, 16-20 jun. 2008. Suplemento especial: 100 anos de imigração japonesa, 5 v. LESSER, Jeffrey. A negociação da Identidade Nacional: Imigrantes, minorias e a luta pela etnicidade no Brasil. São Paulo: Editora da Unesp, 2001. ______. De nikkei para brasileiro e vice-versa: o papel da etnicidade na luta armada de São Paulo. In: HASHIMOTO, Francisco; TANNO, Janete Leiko; OKAMOTO, Monica Setuyo (Orgs.). Cem anos da imigração japonesa: história, memória e arte. São Paulo: Editora da UNESP, 2008, pp. 23-39. MELLO, João Manuel Cardoso; NOVAIS, Fernando A. Capitalismo tardio e sociabilidade moderna. In: NOVAIS, Fernando A. (Coord.). SCHWARCZ, Lilia Moritz (Org.). História da Vida Privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea. São Paulo: Companhia das Letras, v. 4, 1998, pp. 559-658. NOGUEIRA, Arlinda Rocha. Restrições ao braço asiático (chinês e japonês) como força de trabalho. Diferenças regionais. Imigração japonesa na História Contemporânea do Brasil. São Paulo: Massao Ohno Editor; Centro de Estudos Nipo-Brasileiros, 1984, pp. 79-116 POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. In: Estudos Históricos. Rio de Janeiro: CPDOC - FGV, v. 2, n. 3, 1989, pp. 3-15 SILVA, Kalina Vanderlei; SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de conceitos históricos. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2006. 238 USOS DO PASSADO: IMPERIALISMO E ARQUEOLOGIA NA INGLATERRA VITORIANA Renata Cerqueira Barbosa1 Doutoranda - UNESP/Assis [email protected] RESUMO: Os estudos Historiográficos têm demonstrado o quanto é comum lidarmos com sociedades e comunidades para as quais o passado é essencialmente o padrão para o presente. Observa-se, portanto, a freqüência de certos clamores por restauração em favor da velha lei e da velha moralidade ou religião que visa a ser efetivo. Nesta perspectiva a Inglaterra Vitoriana tornase um exemplo ao retomar a Antiguidade Clássica com o objetivo de ―instaurar‖ ou ―recuperar‖ valores necessários a uma sociedade industrial em desenvolvimento, ao mesmo tempo, em contraste com o aumento da desigualdade social. Esta necessidade de controle insere-se no contexto de uma nação que vive um momento de mudanças devido à crescente industrialização e logo ao descontrole populacional desencadeado por fatores sociais, econômicos e imperialistas. Partindo deste pressuposto, o objetivo deste trabalho é fazer uma análise da sociedade vitoriana, levando em conta aspectos políticos, econômicos e sociais, bem como, a necessidade de restauração de velhos valores devido às mudanças causadas pela industrialização, entre outros fatores. Neste momento, a Arqueologia se desenvolveu como uma disciplina útil que traduzia uma imagem idealizada do passado étnico em realidades táteis usando cânones modernos de conhecimento. PALAVRAS-CHAVE: Imperialismo; Estudos Clássicos; Arqueologia. Em história, é comum lidarmos com sociedades e comunidades para as quais o passado é essencialmente o padrão para o presente. Nas palavras de Hobsbawm,2 o passado é uma dimensão permanente da consciência humana, um componente inevitável das instituições, valores e outros padrões da sociedade humana. O problema para os historiadores é analisar a natureza desse ―sentido do passado‖ na sociedade e localizar suas mudanças e transformações. Teoricamente, cada geração copia e reproduz sua predecessora até onde seja possível, e se considera em falta para com ela na medida em que falha nesse intento. Obviamente, uma dominação total do passado excluiria todas as mudanças e inovações legítimas. No entanto, o domínio do passado não implica uma imagem de imobilidade social. É compatível com visões cíclicas de mudança histórica, e certamente com a regressão e a catástrofe. É incompatível com a idéia de progresso contínuo. De acordo com Hobsbawm, quando a mudança social acelera ou transforma a sociedade para além de certo ponto, o passado deve cessar de ser o padrão do presente, e pode, no máximo, tornar-se modelo para o mesmo. Porém, que aspectos do passado serão selecionados para o esforço da restauração? Os historiadores tendem a observar a freqüência de certos clamores por restauração em favor da velha lei, da velha moralidade. 1 Bolsiata FAPESP. HOBSBAWM, Eric. ―O Sentido do Passado‖ In: Sobre História. São Paulo: Cia das Letras, 1998, pp. 2235. 2 239 Entretanto, deve-se fazer uma distinção entre tentativas simbólicas e efetivas de restauração. Por exemplo, o clamor por uma restauração da velha moralidade ou religião visa a ser efetivo.3 Este exemplo nos remete à Inglaterra Vitoriana, a qual retoma a Antiguidade Clássica com o objetivo de instaurar uma moralidade à sociedade que vive um momento de crescente tecnologia em contraste com a crescente desigualdade social, levando a questões contraditórias no que diz respeito à família, à saúde e ao gênero, como mencionado anteriormente. Além do mais, ao retomar suas origens na Bretanha Romana, com o objetivo de conseguir legitimidade para suas ações imperialistas e imposições políticas e econômicas, pôde contar com a Arqueologia, a qual teve papel fundamental neste processo de legitimação a partir das escavações dos sítios, bem como a Paleografia na leitura e interpretação das inscrições encontradas. Segundo Martin Bernal, os estudos clássicos durante os séculos XIX e XX, desempenharam um papel central no esforço de legitimação histórica da cultura européia ocidental, tendo sido marcado por uma atitude francamente política. De acordo com o autor, Eles teriam incorporado os padrões sociais e culturais dos contextos em que se desenvolveram, fornecendo, em troca, argumentos em favor da noção de uma incontestável superioridade européia sobre todos os outros continentes. Tal estratégia veio ao encontro de uma espécie de justificação das ações imperialistas ou neocolonialistas do período, como se fossem ―missões civilizadoras‖.4 Neste sentido, Richard Hingley5 analisa como as imagens proporcionadas pela Roma Clássica foram utilizadas, ou nas palavras dele, ―redesenhadas‖ para ajudar a definir as idéias da origem inglesa, bem como a justificativa do império6 (sic) de 1880 até por volta de 1930. Este momento foi o auge do imperialismo britânico e a ―ideologia imperial‖ tornou-se parte da linguagem do patriotismo. Além do mais, foi um período em que novas correntes intelectuais se desenvolveram para definir e sustentar o controle britânico por extensas partes do mundo. Trabalhos acadêmicos, escritos políticos e literatura popular refletem esta necessidade imperial e o passado imperial romano foi retomado para ajudar a tornar conhecida a ―missão‖ imperial britânica. É preciso deixar claro, no entanto, que a utilização da arqueologia se faz necessária 3 Idem, p. 24-27. BERNAL, Martin. ―A imagem da Grécia Antiga como uma ferramenta para o colonialismo e para a hegemonia européia.‖ IN: FUNARI, P. P. A. (org). Textos didáticos: Repensando o Mundo Antigo. Campinas: IFCH/Unicamp - nº49, 2005, p.14. 5 HINGLEY, Richard. ―Concepções de Roma: Uma perspectiva inglesa‖. In: FUNARI, P. P. A. (Org). Repensando o Mundo Antigo. Textos Didáticos. Campinas: IFCH/UNICAMP, Nº 47, 2002, pp. 27-62. 6 O autor utiliza o termo ―império‖, no entanto, Norberto Guarinello faz uma distinção entre Império e Imperialismo. Segundo ele, Imperialismo é uma ação, política ou econômica, de expansão e dominação de um Estado sobre outros. Império é um Estado, por vezes o resultado de uma ação imperialista, mas que não se confunde com esta. (MENDES, N. M. & SILVA, G. V. (Orgs.) Introdução. Repensando o Império Romano: perspectiva socioeconômica, política e cultural. Rio de Janeiro: Mauad; Vitória, ES: EDUFES, 2006, p.14. 4 240 como metodologia, nesse processo de romanização, evidenciando neste contexto de estudo sua prática indispensável. Nas palavras de alguns autores7, a Arqueologia seria filha do nacionalismo, do colonialismo e do imperialismo. Devido a sua subordinação à sociedade ou, aos grupos dominantes, torna-se clara sua dependência frente a esses, para a obtenção de verbas e do apoio institucional necessários ao desenvolvimento da pesquisa arqueológica. Sob influência do nacionalismo do século XIX, a Arqueologia tem no modelo histórico-cultural sua teoria mais difundida. A partir da noção de que cada nação seria composta de um povo (grupo étnico, definido biologicamente), um território delimitado e uma cultura (entendida como língua e tradições sociais), formou-se o conceito de cultura arqueológica. De acordo com Funari8, esta seria um conjunto de artefatos semelhantes, de determinada época, e que representaria, portanto, um povo, com uma cultura definida e que ocupava um território demarcado. O modelo históricocultural parte do pressuposto que a cultura seja homogênea e que as tradições passem de geração a geração. Partindo destas afirmações, a ligação entre arqueologia e política apresenta-se sempre mediatizada. Não se trata apenas de justificar certas relações de poder, ou de fortalecer certas ideologias, mas de legitimá-las pela presença de testemunhos materiais que dêem sustentação científica a essas pretensões. Nas palavras de Funari, a criação e valorização de uma identidade nacional ou cultural relacionam-se muitas vezes com a arqueologia. Neste caso, predominam com freqüência os interesses dos grupos dominantes mediados pela ação do Estado. Além do mais, a exploração e a valorização dos territórios nacionais implicam também, um relacionamento particular entre a arqueologia, a sociedade e os grupos de poder. Trata-se da incorporação de monumentos e objetos numa prática de valorização e transformação econômica da paisagem. De maneira geral, a arqueologia tem privilegiado os artefatos dos segmentos dominantes das sociedades estudadas como objetos admiráveis, justamente, pelo seu caráter elitista. 9 Outra questão a ser levantada no que diz respeito ao papel da arqueologia como parte da ―engrenagem‖ da ―exploração imperialista‖, está no diferencial de poder entre metrópoles e colônias – ou entre o centro e periferia – que sempre acarretou mecanismos de apropriação de bens das colônias para as metrópoles. Nesse processo, a arqueologia teve um papel relevante na transferência de monumentos e objetos arqueológicos dos países de origem para as metrópoles formando-se assim, os acervos dos principais museus europeus. De acordo com o autor, essa apropriação ocorria durante o período colonial, pela imposição de força de ocupação militar metropolitana da qual, não raras vezes, faziam parte os arqueólogos. A partir da descolonização, a apropriação de vestígios arqueológicos passou a ocorrer por mecanismos econômicos. Assim, 7 Como: TRIGGER, B. A History of archaeological thought. Cambridge University Press, 1990; GRAVESBROWN, P., JONES, S., GAMBLE, C. (edd.) Cultural identity and Archaeology: the construction of European Communities. Londres: (?), 1996. 8 FUNARI, P. P. A. Cultura material Histórica e Patrimônio.Campinas, IFCH/Unicamp, Abril/2003, p. 13. 9 FUNARI, P. P. A. Arqueologia. São Paulo: Contexto, 2003, p. 101-105. 241 com a expansão do mercado de peças arqueológicas, a saída muitas vezes ilegal de objetos de países subdesenvolvidos para os países desenvolvidos, efetua-se pela venda das peças no mercado internacional. Isso significa que, à expropriação forçada do período colonial, seguiu-se uma nova fase na qual a transferência do patrimônio arqueológico adquiriu, via mercado, uma capa de legalidade.10 Partindo deste pressuposto, torna-se necessário analisar como se deu o processo de Romanização e de Anglicidade, bem como a necessidade de legitimação de uma história construída na Inglaterra Vitoriana. O conceito de "Romanização" aparece como problema central, no século XIX, em estudos realizados, a princípio, por Theodor Mommsen11, sendo marcado pela idéia, de um lado, da superioridade cultural romana sobre culturas "indígenas" e, de outro, da existência de uma possível cultura romana homogênea imitada por povos autóctones.12 A partir do século XIX, concomitante aos estudos de Mommsen, inicia-se a compilação do Corpus Inscriptionum Latinarum (CIL, desde 1868), o qual além de prover fontes para o estudo do mundo romano e deste processo de romanização colabora em parte, com novas evidências para a nascente ciência da Arqueologia preocupada com a emergência política da questão das identidades nacionais. 13 Aqui a cultura material ainda é confundida com as noções de "civilização",14 não se separando de seu objeto de investigação; de seu projeto de busca/criação destas identidades orgânicas, estabelecendo no passado da Antigüidade romana, as origens de uma determinada noção de "povo".15 Segundo Richard Hingley, o passado tem sido desdobrado por europeus e povos do mundo ocidental em geral, para esculpir identidades que se opõem, para construir o Ocidente e o ―não-Ocidente‖ e criar uma ascendência cultural. Neste contexto, a construção do passado nunca foi uma atividade imparcial. Roma teve um lugar especial na definição da História e do pensamento europeu, sendo construída em vários momentos históricos para representar autoridade literária, unificação política, poder imperial e proeza militar entre outros. Uma dicotomia entre a imagem romana e aquelas munidas pelas idéias de uma identidade nativa pode ser extraída das concepções de Roma. A efígie do império romano proporcionou um mito de origem para muitos povos da Europa e, em particular, para a História do ocidente como um todo. De acordo com o autor, com relação à contrastante idéia de identidade nativa, as fontes escritas 10 Idem, p. 104-105. FREEMAN, P. W. M. ―Mommsen through to Haverfield: the origens of Romanization studies in late nineteenth-century Britain‖. In: MATTINGLY, D. J. (Ed.) Dialogues in Rome Imperialism: Power, Discourse, and Discrepant Experience in the Roman Empire. JRS. Supplementary Series, 1997, p. 23. 12 HUSKINSON, J. ―Looking for culture, identity and Power‖. In. Experiencing Rome. Culture, Identity and Power in the Roman Empire. London: Routledge, 2000, p. 20. 13 OLIVIER, L. ―A Arqueologia Francesa e o Regime de Vichy (1940-1944‖. In: BENOIT, H. e FUNARI, P. P. A. (org.) Ética e Política no Mundo Antigo. Campinas: Ed. Unicamp, 2001, p. 243. 14 PESEZ, J-M. ―História da Cultura Material‖. In: LE GOFF, J. A História Nova. São Paulo: Martins Fontes, 1993, pp. 180-215. 15 GONÇALVES, C. R. ―La Ficción como Verdad. La invención de la cultura de los Libertos en la historiografía y en la Cena Trimalchionis (Satyricon 29-78)‖. Limes. 12, 2000, p.77 11 242 romanas serviram para prover a idéia de ―alteridade‖ que foi usada para ajudar a definir e unir povos dentro de nações individuais na Europa Ocidental. Ao definir sua própria civilização em oposição aos ―outros‖ bárbaros, autores clássicos proporcionaram um poderoso instrumento interpretativo, que ajudou a criar nações e impérios modernos. Autores romanos que escreveram durante o período de expansão no final do primeiro milênio a.C. e início do primeiro milênio d. C., registraram nomes e feitos de vários grupos étnicos significativos no império ocidental ou em outros locais, incluindo gauleses, batavos, germanos, bretões, dácios, entre outros. Alguns textos romanos importantes se tornaram disponíveis a uma elite ilustrada na Europa Ocidental do século XVI em diante, devido ao fato de tais textos conterem informações sobre estes primeiros povos, histórias sobre seus hábitos cotidianos e seus atos de resistência ante o imperialismo romano. Ocasionalmente, os textos também indicavam uma localização geográfica aproximada na qual estes povos teriam vivido.16 Historiadores romanos produziram relatos nos quais um suposto poder ―civilizador‖ representado por Roma, teria entrado em conflito com os ―bárbaros‖, além de contos em que a resistência de vários povos nativos à expansão imperial romana eram desenvolvidos sob um forte estilo anti-romano. Nacionalistas acharam isto útil em algumas circunstâncias, no entanto, o fato de conceber grupos nativos sendo incorporados ao império, era também, profundamente influenciado pela ―civilização‖ dos romanos. Neste contexto é significativo que a Roma imperial fosse freqüentemente vista executando um papel especial – a transferência da ―civilização‖ mediterrânea a vários povos do ocidente europeu, que efetivamente permitiu que a distinção romana e as concepções nativas fossem combinadas. As fontes clássicas confirmam a classificação de povos pré-históricos na Gália, Germânia, Ibéria, Britânia e, até mesmo, Itália – povos que, de alguma maneira, pareciam mais semelhantes a populações nativas do Novo Mundo do que com as populações contemporâneas da Europa Ocidental. Argumentava-se que Roma teria civilizado todos estes povos. Os romanos teriam introduzido a cultura da civilização – estradas, cidades, banhos públicos, impostos e a língua latina – uma civilização que a Europa ocidental sentia ter herdado. A Europa cristã também se sentia herdeira desta tradição religiosa da Roma Clássica. Autores romanos falaram em latim às aulas de uma elite ilustrada européia dos séculos XIX e XX – uma língua que ajudou a definir sua identidade. Nas palavras de Hingley: Como resultado, muitos membros destas classes sentiram uma associação com os romanos clássicos como uma herança de uma tradição, religião e civilização clássica em comum – uma associação que foi de todas a mais influente devido ao domínio da língua latina na educação da elite contemporânea.17 No entanto, os romanos e as imagens da origem dos nativos não foram sempre desenvolvidos em oposição de uma a outra, como foi argumentado em certas ocasiões. Nas 16 17 HINGLEY, op. Cit. p. 28-30. HINGLEY, op. Cit. p. 31. 243 palavras de Hingley, elas poderiam ser combinadas para desenvolver uma concepção nacionalista da grandeza contemporânea. Isto tinha um significado particular no contexto da Inglaterra do final do século XIX e início do XX.18 A conquista e ocupação romana do sudeste da Britânia iniciaram-se em 43 d. C. e duraram até o princípio do quinto século. Segundo o autor, a efígie de Roma formou um conjunto útil de referências históricas tanto para os ingleses como para outras nações, em parte, devido ao seu impacto direto na história doméstica dessa região. Os antigos relatos históricos que confirmaram o caráter devastador da invasão Anglo-Saxônica na Britânia pós-romana, no entanto, criaram um forte mito da origem racial teutônica para os ingleses durante o século XIX. A missão do Império Romano em alguns trabalhos de literatura passaram a retratar a transmissão da civilização clássica e cristandade para antigos bretões, que então, formavam uma parte importante da origem racial mista da população inglesa moderna. Neste sentido, a herança romana também serviu para retratar as classes inglesas educadas como sucessoras da elite imperial romana.19 Durante o final do século XIX e início do XX, foram produzidos vários trabalhos populares relacionados à origem do inglês. Cientistas naturais, geógrafos e antropólogos procuravam usar as necessidades do império para justificar a expansão do ensino e pesquisa em seus campos de investigação neste período. De acordo com Hingley, assim como objetos que eram dominados por amadores passaram a ter um caráter acadêmico crescente dado por estudiosos, estruturas para carreiras começaram a existir. Neste sentido, a Arqueologia Romana, sob influência de Francis Haverfield, foi um dos objetos de estudos que conseguiram credibilidade acadêmica. Para o autor, a relevância imperial da Arqueologia Romana foi resultado, em parte, da visão de Haverfield sobre o valor da ―Romanização‖ para a definição do caráter inglês. Esta foi utilizada para ajudar a corrigir uma primeira imagem que sugeria que um pouco da civilização romana fora transmitida para os antigos bretões. Esta idéia foi alcançada a partir do desenvolvimento de um significado no qual civilização era tido como algo que poderia ser transferido. Nas palavras do autor: (...) A Romanização estava baseada em uma definição de oposição binária entre nativos bárbaros e romanos civilizados – era o processo pelo qual o bretão (ou europeu) não civilizado alcançava a civilização.20 A teoria da romanização se encaixa em um contexto no qual, muitos escritores populares e políticos estavam buscando uma continuidade nas imagens da vida nacional inglesa. Por meio deste processo de civilização, passava-se a idéia de que Roma teria transmitido seu próprio espírito imperial para os ingleses. A civilização, religião e habilidade imperial inglesa foram traçadas indo ao encontro do passado romano de maneira que os nativos da Britânia romana sempre foram vistos como tendo adotado a civilização romana e a melhorado, em um grande 18 Idem, p. 32. Idem, p. 32-33. 20 Idem, p.33-34. O trabalho de Haverfield proporcionou a base que irá ser chamada interpretação ―progressiva‖ da romanização. (Hingley 1996, 2000) 19 244 esforço para criar a moderna Inglaterra e o Império Britânico. O ―valente‖ espírito dos antigos bretões que se opuseram a Roma estava incorporado nesta mistura étnica inglesa. Neste contexto, algumas pinturas da Britânia romana deram uma visão nacionalista de uma província britânica distintamente civilizada – uma sustentação linear para a moderna Inglaterra.21 Identificase assim a tradição inventada, citada por Hobsbawm, a qual estabelece ou simboliza a coesão social ou as condições de admissão de um grupo ou de comunidades reais ou artificiais. A partir de 1813, os estudos literários ingleses estruturam uma estratégia de containment 22 dos colonizados em uma parte do império, particularmente a Índia. Por meio destes se constrói e se propaga a representação de um tipo ideal de inglês, um exemplo moral, contraponto da imagem negativa que os autóctones podiam ter do ocupante pela observação direta de seus feitos e gestos. A política da anglicidade ou anglitude política do orientalismo 23 (Englishness) toma a dianteira em relação à 24 . A representação da anglicidade tem uma longa história de desenvolvimento, de acordo com Hingley, surgindo a partir das linhagens políticas emergentes dos anos de 1880 como resultado, em parte, de uma crise geral da sociedade urbana. Em trabalhos de autores influentes da literatura britânica, esta representação focalizou o ideal de permanência de uma história nacional. Um grande número de autores no final do século XIX e início do XX começou a desenvolver uma imagem de anglicidade que trazia novas respostas às perguntas sobre a origem inglesa. Esta representação da anglicidade definiu o inglês como uma etnia misturada da ilha que teve sua herança étnica organizada a partir de diversos povos que viveram na Britânia no passado. A herança étnica derivava não só dos germânicos, mas também dos antigos bretões, romanos, dinamarqueses e normandos. Além do mais, esta herança incluía a inspiração dos valentes e antigos heróis bretões e também a transmissão da civilização dos romanos clássicos.25 Com a ascensão do antiquarismo e da arqueologia, evidências físicas derivadas do passado – artefatos e estruturas – puderam ser utilizadas para localizar estes povos na paisagem contemporânea européia. Neste contexto, a Arqueologia desenvolveu-se como uma disciplina útil que traduzia uma imagem idealizada do passado étnico em realidades táteis usando cânones modernos de conhecimento. No final do século XIX e início do XX, arqueólogos usavam técnicas para localizar, datar, descrever e classificar vestígios materiais, mas eles também proporcionaram ―histórias‖ sobre a origem dos monumentos e artefatos que auxiliaram no desenvolvimento de uma identidade nacional própria. Nestas histórias, os elementos físicos de uma cultura herdada – 21 Idem, p. 34. Containment é uma espécie de tática, uma estratégia que pode ser entendida como efeito dominó, uma forma de ―contaminação‖. Podemos entendê-la como contenção, antecipar-se para prevenir a expansão de um poder ou idéias hostis. 23 São termos usados por tradutores diferentes, mas se referem ao termo Englishness. 24 Estratégia de integração fundada sobre a consideração de elementos da ―cultura índia‖ (sic) que a administração colonial inventara por volta do fim do século XVIII para facilitar a indigenização de seus quadros. MATTELART, A. NEVEU, E. Op. Cit. p. 31. 25 HINGLEY, op. Cit. pp. 46- 47. 22 245 os artefatos, edifícios e paisagens – propiciaram uma conexão tangível e particular com um passado étnico imaginado. De acordo com Richard Hingley: (...) o sentido de pertencimento é vital para uma definição própria de identidade nacional e a ligação de identidades étnicas a certos tipos de evidências arqueológicas tornou-se um instrumento poderoso tanto na Inglaterra como em vários outros países europeus.26 Alguns debates surgiram em torno desta política da anglicidade, dos quais três são pertinentes. O primeiro relaciona-se com a centralidade de uma reflexão gerada pelo impacto da Revolução Industrial sobre a cultura nacional, com as ameaças que esta faria pesar tanto sobre a coesão social como sobre a preservação de uma vida intelectual. O segundo tem a ver com a responsabilidade que, para além de suas contradições, os autores atribuem a alguns intelectuais, produtores ou difusores culturais como despertadores e educadores de uma cultura nacional. O terceiro diz respeito às contradições dessa referência ao cultural e a seus jogos de poder. Mesmo entre os mais conservadores, observa-se uma forma de sensibilidade moderna, antropológica, ao cultural, que integra os estilos de vida, a estética da cotidianidade. Simultaneamente as humanidades e especificamente a literatura nacional, aparecem como os instrumentos privilegiados de civilização e de compreensão do mundo, enquanto as ciências sociais, a economia, a sociologia nascente são vistas com suspeitas. 27 Entre as fontes utilizadas para ajudar a formar esta política da anglicidade, estão obras históricas clássicas que descrevem a invasão romana na Britânia no século primeiro d. C. e as descrições de vestígios arqueológicos recolhidas por antiquários e arqueólogos. Como resultado, a Arqueologia teve uma grande participação na definição do propósito imperial da Inglaterra.28 (20 min) Segundo Richard Hingley, a mistura étnica como fonte para a forte etnia inglesa evidentemente teve um papel distinto na ideologia do propósito imperial. A idéia de que a população da Inglaterra e Britânia era geneticamente misturada serviu para proporcionar um mito de origem mais aberto que a imagem teutônica, uma idéia que poderia servir para criar um maior sentido de unidade para o povo britânico. Fundamentalmente, a herança do espírito imperial dos romanos clássicos também proporcionou ao inglês um papel distinto na direção da política imperial em contraste com os galeses e escoceses. 29 Richard Hingley afirma que o interesse por linhas de continuidade na vida nacional inglesa estruturou trabalhos acadêmicos e populares. Sendo assim, a Arqueologia Romana passou a ter um valor distinto como parte da representação da anglicidade. Os tipos de analogias que foram feitos entre Britânia e Roma durante os séculos XIX e XX influenciaram profundamente o caráter dos estudos de Haverfield que, por sua vez, influenciou aqueles que estavam por vir. Neste 26 Idem, p. 30-31. MATTELART, A. NEVEU, E. Op. Cit. pp. 31-35. 28 HINGLEY, Op. Cit. p. 28. 29 Idem, p. 50. 27 246 sentido, acadêmicos selecionaram imagens de uma história mítica que projetaria a estabilidade da vida nacional e contribuiriam para a representação da anglicidade. Um dos resultados deste processo foi o desenvolvimento da arqueologia Romana na Britânia sob um caráter nacional particular. Desta forma, a teoria arqueológica durante os séculos XIX e XX serviu para projetar muitas visões populares que substituíram os limites do estado nacional inglês pelo passado romano.30 30 Idem, p. 35. 247 BIBLIOGRAFIA BERNAL, Martin. ―A imagem da Grécia Antiga como uma ferramenta para o colonialismo e para a hegemonia européia.‖ IN: FUNARI, P. P. A. (org). Textos didáticos: Repensando o Mundo Antigo. Campinas: IFCH/Unicamp - nº49, 2005. FREEMAN, P. W. M. ―Mommsen through to Haverfield: the origens of Romanization studies in late nineteenth-century Britain‖. In: MATTINGLY, D. J. (Ed.) Dialogues in Rome Imperialism: Power, Discourse, and Discrepant Experience in the Roman Empire. JRS. Supplementary Series, 1997. FUNARI, P. P. A. Arqueologia. São Paulo: Contexto, 2003. FUNARI, P. P. A. Cultura material Histórica e Patrimônio.Campinas, IFCH/Unicamp, Abril/2003. GONÇALVES, C. R. ―La Ficción como Verdad. La invención de la cultura de los Libertos en la historiografía y en la Cena Trimalchionis (Satyricon 29-78)‖. Limes. 12, 2000. GRAVES-BROWN, P., JONES, S., GAMBLE, C. (edd.) Cultural identity and Archaeology: the construction of European Communities. Londres: (?), 1996. HINGLEY, Richard. ―Concepções de Roma: Uma perspectiva inglesa‖. In: FUNARI, P. P. A. (Org). Repensando o Mundo Antigo. Textos Didáticos. Campinas: IFCH/UNICAMP, Nº 47, 2002. HOBSBAWM, Eric. ―O Sentido do Passado‖ In: Sobre História. São Paulo: Cia das Letras, 1998. HUSKINSON, J. ―Looking for culture, identity and Power‖. In. Experiencing Rome. Culture, Identity and Power in the Roman Empire. London: Routledge, 2000. MATTELART, A.; NEVEU, E. Introdução aos Estudos Culturais. São Paulo: Parábola Editorial, 2004. MENDES, N. M. & SILVA, G. V. (Orgs.) Introdução. Repensando o Império Romano: perspectiva socioeconômica, política e cultural. Rio de Janeiro: Mauad; Vitória, ES: EDUFES, 2006. OLIVIER, L. ―A Arqueologia Francesa e o Regime de Vichy (1940-1944‖. In: BENOIT, H. e FUNARI, P. P. A. (org.) Ética e Política no Mundo Antigo. Campinas: Ed. Unicamp, 2001. PESEZ, J-M. ―História da Cultura Material‖. In: LE GOFF, J. A História Nova. São Paulo: Martins Fontes, 1993, pp. 180-215. TRIGGER, B. A History of archaeological thought. Cambridge University Press, 1990. 248 A PRODUÇÃO HISTORIOGRÁFICA NO BRASIL NOS ANOS DE 1960 E 1970. Robson Carlos Souza1 Mestrando do Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Estadual de Londrina [email protected] RESUMO: Atualmente várias são as obras que se dedicam a comentar ou até mesmo analisar a produção historiográfica no Brasil. Este tipo de preocupação em relação aos estudos históricos e da escrita da história é relativamente nova e data do final dos anos de 1960 e início dos anos de 1970. Não podemos negar que anterior ao período por nos acima destacado não ocorreram nem um tipo de discussão em torno da produção dos historiadores. Na realidade, a prática de tecer comentários sobre as obras dos pares não constitui propriamente uma atividade nova no campo do ofício do historiador. Vem sendo cultivada, pelo menos, desde a antiguidade clássica, como demonstra Silva (2001). Porem como linha de trabalho e investigação específica, com a preocupação correlata de desenvolvimento e apuro de conceitos e métodos adequados, data certamente do início do século XX, a partir de Edurd Fueter. Esta comunicação tem como objetivo promover a discussão em torno da produção historiográfica no Brasil no contexto dos anos de 1960 e 1970. PALAVRAS-CHAVE: Historiografia; Historiadores; Política Institucional. Para nossa análise usaremos como principais referencia as seguintes obras: A História Em Questão: Historiografia Brasileira Contemporânea, História e Historiografia Brasil Pós 64. A outra obra escolhida para esse trabalho foi o livro: Historiografia Luso – Brasileira Contemporânea obra conjunta dos historiadores José Jobson de Arruda e José Manuel Tengarrinha. A PRODUÇÃO HISTORIOGRÁFICA NO BRASIL NOS ANOS DE 1960 E 1970. Essa comunicação tem o objetivo de contribuir para o debate em relação aos estudos da historiografia brasileira, para tanto buscamos analisar as tendências de nossa historiografia nas décadas de 1960 e 1970. Escolhemos essas duas décadas por marcar fortemente nossa produção historiográfica. Pois nesse período que se tem a afirmação da produção historiográfica vinculada as instituições universitárias, a criação dos primeiros cursos de pós-graduação no Brasil. Para nossa análise usaremos como principais referencia as seguintes obras: A História Em Questão: Historiografia Brasileira Contemporânea, História e Historiografia Brasil Pós 64. A outra obra escolhida para esse trabalho foi o livro: Historiografia Luso – Brasileira Contemporânea obra conjunta dos historiadores José Jobson de Arruda e José Manuel Tengarrinha. Iniciaremos nossa analise pela obra do professor José Roberto do Amaral Lapa, A historia em Questão Editora Vozes, 1976. O professor Lapa inicia dando a seguinte justificativa para a escrita dessa obra que para ele foi pensada a partir dos trabalhos no ensino e na pesquisa universitária autor destaca que: 1 Bolsista Fundação Araucária 249 A análise da Historiografia brasileira contemporânea, com que se abre o volume, é inédita. Começou a ser escrita em 1972, com o objetivo de atender um convite da historiadora portuguesa Virgínia Rau, para ser apresentada como relatório no VII Colóquio Internacional de Estudos LusoBrasileiros, programado para aquele ano em Portugal. (LAPA, 1977, p. 7) A presente obra do professor Lapa foi dividida em quatro partes. A primeira parte intitulada Historiografia Brasileira Contemporânea que consiste na análise da produção historiográfica brasileira. Inicialmente, o autor da uma definição do termo historiografia, ressaltando a importância de se compreender os usos e as práticas historiográficas pelos historiadores. Para essa reflexão em relação a historiografia, Lapa se apóia na teoria da história, fundamentada por Benedetto Crose. O amadurecimento dos estudos históricos e a evolução da historiografia brasileira têm inicio no Brasil a partir dos anos de 1930 com a criação das Instituições Universitárias e da grande contribuição das ciências sociais para a renovação da historiografia brasileira. Anterior a produção historiográfica, produzida em Institutos Universitários, a escrita da história brasileira esteve vinculada principalmente ao IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro) e seus congêneres espalhados por todo país. O principal instrumento de divulgação da história do IHGB foi a sua revista que publicou seu primeiro número em 1868. Posteriormente, há as publicações dos periódicos dos Institutos Históricos e Geográficos regionais, como o de São Paulo, que publicou sua revista em 1895. No mesmo ano foi publicado o primeiro número da revista do Museu Paulista e, em 1934, surgiu o primeiro número da Revista do Arquivo Municipal de São Paulo. Fica claro na redação de ―A História Em Questão‖ a preocupação do professor Lapa com os rumos que poderiam tomar a produção historiográfica nacional. Antes, o que evidenciamos foi simplesmente a criação recente da Universidade brasileira e o fato de que caminhamos rapidamente para institucionalizar a pesquisa histórica em termos universitários, por imposições científicas que vão dos equipamentos sofisticados à integração das ciências do Homem que são exigidos do historiador em nossos dias. Para tanto a individualização e o autoditatismo vão encontrando dificuldades insuperáveis para sobreviver. (Lapa,1976, p. 25.) Ainda na primeira parte, nos chama a atenção o destaque dado pelo autor em relação ao crescimento das publicações de periódicos dedicados a divulgação dos estudos históricos no Brasil. Ressalta o autor, que no ano de 1963 foi criado o periódico Estudos Históricos, publicado pelo Departamento de História da Faculdade de Filosofia e Letras de Marília. Estudos Históricos foi o primeiro periódico publicado em uma instituição universitária do interior do Estado de São Paulo. No primeiro ano de existência, sua publicação foi semestral e nos anos posteriores passou a ser anual. No final da década de 1960, surgiu outra revista que seguiu as mesmas características da revistas Estudos Históricos. Essa revista foi Anais de História que teve seu primeiro número publicado em 1968-69. Essa revista foi publicada anualmente pelo Departamento 250 de História da Faculdade de Ciências e Letras de Assis. O professor José Roberto do Amaral Lapa, em seu estudo A História em Questão – Historiografia Brasileira Contemporânea 1977 - nos informa: ...no Estado de São Paulo circulam atualmente três revistas universitárias especializadas em história, aliás, as únicas do país: Revista de História, com mais de cem números publicados, editada pelo Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP; Estudos Históricos, com doze números publicados, editada pelo Departamento de História da FCL de Marília, e Anais de História, com seis números publicados, editados pelo Departamento de História da FCL de Assis. (Lapa 1976, p.28) Antes da criação das Revistas Estudos Históricos e Anais de História, a Revista de História, publicação do Departamento de História da Universidade de São Paulo, fundada no ano de 1950, foi o primeiro periódico produzido dentro de uma instituição universitária dedicada aos estudos históricos do Brasil. Além do destaque dado em relação às revistas universitárias de história, o autor revela um panorama das principais tendências historiográficas do período analisado. Para essa análise, Lapa quantificou os dados de diferentes naturezas nos dois. Segundo Lapa, os maiores centros de pesquisa do país: São Paulo e Rio de Janeiro. A proposta do autor é de analisar o conjunto e a evolução temática das teses de doutoramento apresentadas, durante trinta anos, na Universidade de São Paulo. (Lapa 37) Na sua analise sobre as tendências historiográficas o autor conclui que: Pode-se, portanto, concluir, em face desses dados, que a resistência aos estudos do Brasil Republicano foi e é ainda bastante pronunciada, aparecendo só em 1969 a primeira tese sobre tema republicano, sendo que no ano seguinte nada tivemos nesse sentido, enquanto que em 1971 se apresentaram 3 teses – o índice mais alto – que viria a cair nos anos seguintes, respectivamente para 2 e 1 em 1972 e 1973.(LAPA 1976, p.37) Além dos temas e períodos mais abordados pelos historiadores em suas pesquisas, o autor elege um grupo seleto de historiadores que ele denomina de primeira geração que melhor representam algumas das tendências da historiografia brasileira contemporânea. Os nomes escolhidos por Lapa são: José Honório Rodrigues, Sergio Buarque de Holanda, Caio Prado Junior e Nelson Werneck Sobré. Para Lapa esses historiadores apresentam uma obra não convergente, embora alguns pontos comuns possam ser apontados ao longo de seus livros. Lapa ressalta também que as obras desses quatro autores, tomada em conjunto, permite-nos ir da História Econômica (Caio Prado Junior) à História Social (Buarque de Holanda); da História Política (Honório Rodrigues) à História Cultural (Werneck Sobré). Posterior a essa primeira geração de historiadores, Lapa toma como analise o que ele chama de segunda geração de historiadores brasileiros. Importante ressaltarmos que essa segunda geração sofre uma influência ainda maior em seus trabalhos da Institucionalização dos 251 estudos históricos no Brasil. Fazem parte diretamente desse grupo de historiadores os seguintes nomes: Carlos Guilherme Mota, Fernando A. Novaes, Maria Luísa Marcílio Luís Lisanti e Katia Matoso. Seguindo sua análise em relação ao trabalho do historiador, o professor Lapa considera fundamental o reconhecimento de certas obras que servem de modelo por vários motivos: a natureza das fontes aproveitadas, as técnicas de pesquisa, o método, a temática, o apuro da análise, as inovações que trouxeram exercendo com isso marcada influência sobre seus contemporâneos e os que vieram depois. Para o autor é suficiente lembra alguns historiadores como Fernand Braudel, Paul Mantoux, Ernest Labrousse ou E. J. Hamilton, esses com uma grande contribuição para a historiografia econômica, Marc Bloch para a História Social. Outro tema que será destacado nessa obra do professor Lapa é o do desenvolvimento da historiografia estrangeira sobre o Brasil. Esses estudiosos de origem norte-americana, que tiveram uma forte atuação, principalmente nos anos de 1960, e que eram denominados brazilianists. Segundo o autor, as principais motivações para esse grupo de estudiosos norte-americanos atuarem eram devido a facilidades que encontravam através das bolsas de estudos que os garantiam viver no Brasil num padrão de vida superior ao comum dos historiadores brasileiros. Além dessas questões materiais, atraentes para esses pesquisadores, outras causas levaram os norte-americanos a essa preferência pelos estudos históricos brasileiros. São outras causas desse fenômeno brazilianists: A importância econômico-política do Brasil nesta parte do continente; O advento do regime comunista em Cuba, colocando em causa a hegemonia dos E.U.A. sobre o continente; A existência nos Estados Unidos de alguns centros de documentação bem informados sobre o Brasil; Formação de um mercado profissional universitário graças aos núcleos de estudos latinoamericanos e Os rumos que tomavam o nacionalismo brasileiro na década de 1960. (Lapa,1976, p.68.) Segundo Lapa, na historiografia estrangeira sobre o Brasil os Estados Unidos ocupam um lugar excepcional. Porém, outros países também tiveram um interesse na História Brasileira, destacando a França, a Inglaterra, União Soviética, a Bélgica, a Alemanha e a Holanda. No tópico Historiadores Brasileiros o autor procura demonstrar a precária condição da pesquisa histórica no Brasil, nas décadas de 1960 e 1970. Para essa análise o professor Lapa retomara novamente os trabalhos de José Honório Rodrigues e especificamente o livro ―A pesquisa Histórica no Brasil‖. Fica bem claro nessa análise as dificuldades encontradas pelos historiadores no que se refere a conservação e manutenção de fontes, documentos e obras de referências usadas na produção historiográfica. O autor também não deixa de ressaltar os avanços que nesse período estavam sendo realizados no sentido da criação de centro de documentação dando como exemplo desse esforço o Centro de Documentação Histórica da Universidade de São Paulo que, 252 entre outras realizações, procedeu à catalogação dos jornais do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Chama atenção na obra de José Roberto do Amaral Lapa o tópico intitulado Para uma História da Historiografia Brasileira neste tópico professor Lapa nos apresenta autores e trabalhos específicos que se dedicam ao tema da historiografia brasileira, entre esses trabalhos podemos destacar a tese de doutoramento de Pedro de Alcântara Figueira, intitulado Historiografia Brasileira: 1900-1930 (Análise Crítica) e o segundo exemplo, o artigo de Carlos Guilherme Mota, Historiografia Brasileira Nos Últimos Quarenta Anos: Tentativa de Avaliação Crítica. Os dois textos propõem um debate no qual desloca certos focos de análise em relação a autores e obras e sua significação no longo processo de produção do conhecimento histórico brasileiro. Podemos concluir em relação a Historiografia Brasileira Contemporânea: A História em Questão que se trata de uma obra fundamental para o entendimento da produção historiográfica brasileira nas décadas de 1960 e 1970. Na obra seguinte escolhida por nós para esse trabalho iremos analisar outra obra do professor José Roberto do Amaral Lapa, História e Historiografia Brasil Pós 64. Em sua obra fez um breve balanço sobre o desenvolvimento da historiografia brasileira e das condições de trabalho dos historiadores no inicio da década de 1980. Além de ressaltar os progressos ocorridos em relação aos Estudos Históricos no âmbito quantitativo quanto no qualitativo. Ainda na introdução de História e Historiografia Brasil Pós 64, Lapa deixa claro o objetivo de seu livro, que segundo o autor é a analisar a evolução dos Estudos Históricos, particularmente sobre o Brasil, gravitados pela Universidade e, portanto, praticados por historiadores que nela se profissionalizaram. (Lapa 1985 p. 8) Notamos na obra em questão que a análise do autor centrase principalmente na produção historiográfica brasileira produzida em centros universitários. Nos dois primeiros capítulos dessa obra intitulados I – 1964: a História e os Historiadores e II – O querer, o saber e o fazer. O professor Lapa discute a conjuntura e o engajamento do historiador brasileiro nos problemas relativos ao movimento de 1964 além da relação que corresponde, ou não, entre o movimento de 1964, dentro do processo histórico, e o pensamento produzido durante esse período. Mesmo em um período de grandes dificuldades para os intelectuais e seus estudos, o professor Lapa afirma que: Apesar da atividade castradora do Estado ou até mesmo devido a ela, os que ficaram no país, e nele particularmente os que permaneceram na Universidade, souberam usar o pouco espaço de produção intelectual descompromissada do sectarismo ideológico e político. Não se deixou a peteca cair. (Lapa 1985 p. 33) O autor defende ainda a idéia de que a abertura política permitiu que as condições de produção intelectual, a historiografia que se precedeu no período avançou, apesar da falta de condição de trabalho e mesmo de sobrevivência. 253 Nos capítulos posteriores: III – A institucionalização do saber e IV – Projeções da Historiografia, José Roberto do Amaral Lapa retoma as discussões em relação a produção historiográfica produzida dentro das Instituições Universitárias, o processo de organização dos historiadores e a divulgação da produção historiográfica nacional. Sobre a estrutura da universitária brasileira o autor defende a institucionalização dos departamentos e o fim do regime de cátedras, essas mudanças para o autor influenciaram de forma positiva, pois estimulou a coletivização das responsabilidades, a racionalidade dos recursos e o trabalho em grupo. Ainda nesse sentido, o autor afirma que os anos de 1960 marcaram a montagem de uma infra-estrutura organizatória, que inclusive viria contribuir para viabilizar a institucionalização geral que se seguiria até o final dos anos de 1970. Outra questão fundamental nesse processo de renovação da produção e institucionalização da produção historiográfica brasileira, ocorreu devido a criação da PósGraduação, que arrogou a si a grande tarefa de ordenar em bases comuns e sob estímulos mais ou menos idênticos a produção do conhecimento científico que se fez por meio da Universidade. O desdobramento do processo desencadeado com a criação dos cursos de PósGraduação no Brasil levou a reestruturação da associação dos profissionais de História. Dentro desta perspectiva, o autor destaca a ampliação de novos espaços alternativos para o debate entre os historiadores. Isso se dá com a multiplicação dos encontros de profissionais de história em todo Brasil. Nesse sentido, Lapa destaca também o crescimento e a renovação do campo editorial e o surgimento de novos periódicos dedicados a divulgação dos estudos históricos. ...vale registra que nestes últimos anos as perspectivas melhoraram bastante. Se entre 1976 e 1977 deixaram de circular as revistas Estudos Históricos (Marília SP), Anais de História (Assis SP) e a Revista de História (USP), as duas primeiras foram reunidas numa só – História – a partir de 1982, com periodicidade anual e mantida pela Universidade Estadual Paulista, através dos dois Departamentos de História que possui em Assis e Franca. (Lapa 1985 p. 45) No que diz respeito à divulgação do conhecimento histórico brasileiro em geral, o autor destaca também algumas iniciativas de editoras no sentido da publicação de coleções como a História Popular, da editora Global e História, Texto e Consulta, da Editora Brasiliense. O autor atribui esse crescimento editorial, graças a ampliação do público leitor no qual naturalmente destaca-se a faixa universitária. Encerrando o debate sobre a ampliação e o desenvolvimento dos estudos históricos, Lapa retoma a discussão em torno dos autores que se dedicaram ao exame da historiografia brasileira destacando a idéia que ocorre no início da década de 1980 um crescente interesse por esse tema tendo em vista a criação de cursos permanentes na graduação e na pós-gradação, freqüência com que o tema é tratado em seminários e reuniões científicas. 254 Finalizando essa obra com o capítulo V – Tendência o autor retoma novamente questões já discutidas na obra A História em Questão Historiografia Brasileira Contemporânea, analisadas por nos neste trabalho. Vale lembrar que nessa retomada, as tendências da historiografia brasileira, o autor propõem alguns questionamentos em relação a análise da historiografia como em que direção projeta-se o conhecimento histórico brasileiro? O que caracteriza esse conhecimento como ciência? Em que níveis se desenvolvem sua progressão? Os historiadores que o produzem estão vocacionalmente votados para que períodos políticos da História do Brasil? (Lapa 1985 p 57) Esses questionamentos, segundo o autor, remetem para uma série de possíveis pesquisas, cujos resultados podem mostrar algumas tendências que marcaram o conhecimento histórico brasileiro e o seu processo de produção. Para o exame e apuração das tendências historiográficas, o professor Lapa procurou examinar: 1. Área de especialização dentro do conhecimento histórico; 2. Período político da História do Brasil. Os pontos que diferem o capítulo Tendência dessa obra e da já analisada por nos anteriormente, são os relativos à metodologia usada pelo autor. No plano geral desse capítulo, o autor repete os dados e a forma de análise usada na obra anterior A História em Questão Historiografia Brasileira. Podemos concluir que tanto A História em Questão Historiografia Brasileira em Questão e História e Historiografia Brasil Pós 64. São obras fundamentais para o entendimento da produção e do desenvolvimento da historiografia brasileira e dos desdobramentos dos estudos históricos em nosso país. *** Para finalizarmos esse trabalho passaremos para a obra conjunta de José Jobson de Arruda e José Manuel Tengarrinha, intitulada Historiografia Luso – Brasileira Contemporânea. – Bauru, SP: EDUSC, 1999. O ensaio é uma reconstituição da historiografia brasileira a partir dos debates e controvérsias dessa área de conhecimento. Abre o texto um capítulo conceitual, que define com bastante precisão o conceito de história e historiografia. Em seguida, buscam-se apreender a trajetória e as etapas dos estudos sobre a historiografia brasileira, desde os trabalhos de José Honório Rodrigues até o final da década de 1990. O exercício propriamente de história da história envolve os capítulos três, quatro e cinco, denominados a pré-história, o nascimento e consolidação da moderna produção histórica no Brasil. O ensaio termina com um balanço crítico da produção dos brasilianistas e da produção acadêmica dos últimos trinta anos no Brasil. Uma leitura atenta do ensaio revela os problemas recorrentes dos estudos de historiografia: a escolha das obras, a definição de suas etapas evolutivas e o viés analítico que se pretende adotar. As 255 soluções apresentadas por Arruda sobre esses aspectos são interessantes, mas não estão isentas de problemas. Vejamos alguns pontos. No capítulo inicial, o conceito de história é definido como um tipo de conhecimento que tem especificidades e que busca a compreensão de múltiplos aspectos do acontecer humana: ―o das práticas dos sujeitos e suas significações e o da realidade objetiva‖ (Arruda e Tengarrinha, 1999, p. 12). Nesse sentido, não há uma identificação estreita com um perfil profissional específico. Isso é relevante observar porque, no corpo do texto em que o autor reconstitui a trajetória da produção histórica no Brasil, a formação dos autores e do profissional do conhecimento adquire uma posição central nos esquemas de classificação e periodização da produção. Diz Arruda: ―Encerrada a fase dos historiadores eruditos/autodidatas, era a vez dos profissionais do saber específico, pesquisadores e professores formados nos quadros universitários. Convivem ainda nesse período (1930-1970) pensadores do velho estilo, mas extremamente inventivos [...]‖ (Arruda e Tengarrinha, 1999, p. 41). Nesse sentido, a chamada ―pré-história‖ da produção histórica articula-se com o profissional erudito/ autodidata; o período de ―nascimento‖ com o convívio autodidata e universitário; o período de ―consolidação‖ com o profissional universitário. Outro aspecto que chama a atenção é o modo como resolve o problema dos chamados cronistas coloniais. Arruda não inclui esse elenco de obras no seu estudo. Na primeira etapa da historiografia brasileira Arruda não trata de historiografia e tampouco pertence ao Brasil: ―num largo espaço de tempo que vai do século XVI ao XIX, identificado à condição colonial do Brasil, praticamente não há obras de história que atendem aos requisitos mínimos para merecerem esta catalogação‖ (Arruda e Tengarrinha, 1999, p. 17). Do ponto de vista dos comentários e análises sobre as obras, há uma preocupação em estabelecer uma articulação com os processos mais abrangentes da vida social e política brasileira. Nesse aspecto, apesar da abrangência do período estudado e do caráter necessariamente introdutório das avaliações propostas, percebe-se uma preocupação em evitar reducionismos, mas enfatizar as correlações entre movimentos da sociedade e mudanças na esfera do pensamento e do trabalho intelectual. O texto de Arruda desemboca num ensaio crítico sobre as tendências e as perspectivas da historiografia brasileira acadêmica nessa passagem do século XX para o XXI. O modo como vê esse momento condicionou de certa forma o capítulo anterior de reconstituição histórica, pois o cenário atual, tal como foi desenhado pelo autor, é marcado fundamentalmente por uma divisão e por um debate entre os historiadores profissionais. Cenário no qual se podem identificar dois grupos com concepções distintas, às vezes antagônicas, a respeito do que é o conhecimento histórico, sua função social e os procedimentos mediante os quais ele é produzido. O fato é que a posição de Arruda informa diretamente os critérios a partir dos quais se deram a avaliação e a definição das etapas da historiografia brasileira. O nascimento da historiografia acadêmica aparece como um desdobramento das grandes Histórias Formas e problemas da historiografia brasileira sínteses e propostas interpretativas de autores como Caio 256 Prado Jr., Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre,entre outros. Tais obras teriam apontado e abriram possibilidades que foram objeto de investigações de caráter mais monográfico, típicos da academia. Verticalizações que propunham reformulações muitas vezes das grandes sínteses, mas não as negavam. Na avaliação de Arruda, foi justamente esse tipo de articulação no trabalho acadêmico que teria sido abandonado, ou colocado sob suspeita, por alguns historiadores da nova geração. Concluindo nosso trabalho gostaríamos de citar aqui outras obras referentes a analise da produção historiográfica brasileira e que tem também em sua abordagem o tema de nosso trabalho de mestrado que são as revistas universitárias dedicadas ao tema da história. BREVE CONSIDERAÇÕES SOBRE OS ESTUDOS HISTORIOGRÁFICA E OS PERIÓDICOS DE HISTÓRIA RELATIVOS A PRODUÇÃO Os estudos que têm como objetos de análise periódicos de História vêm aumentando no Brasil significativamente. Trabalhos como o livro da professora Ângela de Castro Gomes, História e Historiadores por exemplo, discutem o trabalho dos historiadores, tendo como objeto a produção histórica não profissional, para isso, usa como fonte de dados o suplemento literário do jornal A Manhã, Autores e Livros, e a revista mensal de estudos brasileiros publicada pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), Cultura Política, todos circularam entre os anos de 1941 a 1945. O texto da Professora Maria de Lourdes Mônaco Janotti, denominado: O Diálogo Convergente: Políticos e Historiadores no Início da República, levanta questões a respeito das mudanças na tendência metodológicas dos historiadores brasileiros ocorridas no Brasil a partir dos anos de 1970. A autora afirma que as mudanças mais profundas na produção dos historiadores ocorrerão no início dos anos de 1980, quando os historiadores receberam fortes influências da ―Nova História Francesa‖. Para Janotti, este fato levou os historiadores a deixarem de utilizar o vocabulário marxista e adotaram um discurso voltado para a ―História das Mentalidades‖. Buscando analisar a historiografia, não só no âmbito nacional, mas dentro de uma perspectiva mais ampla, o professor Rogério Forastieri Silva desenvolve um estudo que analisa a historiografia de modo geral, publicando o livro História da Historiografia. Nesse livro o autor direciona seu estudo no sentido de constituir uma História geral da historiografia e, simultaneamente, situar a Nova História Francesa nos quadros das principais tendências da historiografia contemporânea. Tendo como objeto de análise A Escola dos Annales e A Nova História Francesa, autores como Peter Burke e Fraçois Dosse, cada um à sua maneira, tiveram grande êxito em trabalhos realizados no início dos anos 1990. Dosse procurou em sua História em Migalhas, fazer uma apreciação ampla dos aspectos ideológicos que envolviam as tendências historiográficas francesas. Questiona incansavelmente 257 os integrantes da Nova História, principalmente os historiadores que se intitulavam a terceira geração dos Annales. Burke, por sua vez, descreve, analisa e avalia a ―escola‖ dos Annales de forma simples em seu livro, A Escola dos Annales de 1929 a 1989. Assim, nos permite tomar conhecimento e compreender algumas questões da historiografia contemporânea e dos historiadores vinculados, direta ou indiretamente à História Nova francesa. Ainda dentro dos embates da historiografia francesa contemporânea, o livro de entrevistas da professora Márcia Mansor D‘ Alessio, Reflexões sobre o saber histórico, retoma a discussão em torno dos domínios da História durante os anos de 1970. A partir de entrevistas com historiadores como: Pierre Vilar, Michel Vovelle, Madeleine Rebérioux que expressam suas opiniões a respeito dos embates sobre a historiografia contemporânea, principalmente durante a década de 1970, quando as agitações intelectuais no campo da historiografia são provocadas pelas práticas políticas do mundo socialista, cujos vícios e impasses, colocaram em discussão a mais bem–sucedida teoria da História , o marxismo. D’Alessio (1988 p.14) O estudo das circulações das idéias e das propostas teóricas e metodológicas tem chamado a atenção de historiadores brasileiros. Muitos estudos e pesquisas têm sido realizados em torno de tais problemas. Também são diversificados os recortes temporais usados nesses estudos. 258 BIBLIOGRAFIA ARRUDA, José Jobson. e TENGARRINHA, José Manuel. Historiografia Luso – Brasileira Contemporânea. – Bauru, SP: EDUSC, 1999. BURKE, Peter. A Escolas dos Annales (1929 – 1989) ―A Revolução Francesa da Historiografia‖. Trad. Nilo Odália, 6a reimpressão. SP: Editora da UNESP, 1997. __________ (Org) . A Escrita da História : novas perspectivas. Tradução de Magda Lopes. – São Paulo: Editora UNESP 1992. __________. O que é história cultural? Trad. Sérgio Goes de Paula. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005 CARBONELL, Charles-Olivier. Historiografia. Tradução de: Pedro Jordão. Coleção Teorema vol. 21, Editora Editipo, Lda. Lisboa, 1981. CLARO, Silene Ferreira. Revista do Arquivo Municipal de São Paulo: um espaço científico e cultural esquecido (proposta inicial e as mudanças na trajetória – 1934 – 1950). (FFLCH-USP – doutoranda em História Social)- 2008. COLLINGWOOD, Roger G. Idea de la Historia. Trad. 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Reagan, um ex-ator hollywoodiano, promove políticas de militarização, desregulamentação econômica e derrubada das políticas de bem-estar social, pautadas pelo ideal de livre mercado e a adoção do neoliberalismo. Como em diversos setores da sociedade, as políticas da chamada ―Era Reagan‖ produziram efeitos na indústria do cinema hollywoodiano, afetando diretamente os formato dos filmes dessa época. Defensor dos interesses dos grandes estúdios desde os tempos do alvorecer da Guerra Fria (final da década de 1940 e início da década de 1950), Reagan permite, através de suas políticas, o fortalecimento da industria cinematográfica de hollywood através de um processo de fusões e aquisições que integram o cinema vertical e horizontalmente, permitindo aos grandes estúdios controlarem todas as etapas de comercialização dos filmes, bem como a integração de hollywood em conglomerados de comunicação e entretenimento. Esse processo introduziu modificações na forma de se produzir os filmes e em suas narrativas, consolidando o formato blockbuster de cinema e a estratégia Highconcept como forma realizá-lo. O presente trabalho discute como esse processo permitiu-se uma maximização dos lucros, ampliação do público, e a comercialização do filme de forma integrada a outros produtos pertencentes a essa cadeia de empresas integradas a ele. Assim o cinema atua de forma sinérgica no mercado do entretenimento. PALAVRAS-CHAVE: Reagan; Hollywood; Cinema. Política e cinema são questões muitas vezes encaradas de forma dissociada pela sociedade, meios de comunicação e em algumas vezes, até mesmo na academia. Contudo, nas ultimas décadas a utilização do cinema como objeto de pesquisa e fonte de conhecimento histórico, trouxe para a historiografia questionamentos acerca da importância do cinema para auxiliar a compreensão não somente de um período histórico, mas da construção representativa de elementos sociais e políticos e sua difusão através das imagens. Autores como Marc Ferro e Pierre Sorlin propuseram desde as décadas de 1960 e 1970 idéias que buscavam incluir o cinema como um campo de estudo promissor para a disciplina de história. Ambos, afirmam a necessidade de o historiador não poder negligenciar o cinema como fonte de pesquisa em uma sociedade constantemente mergulhada em imagens. Em meio a essa valorização do cinema na academia, proponho debater nas páginas seguintes acerca de como a política e as imagens fílmicas constantemente se inter-relacionam. Colaborando tanto para a existência de um modo de fazer cinema cuja indústria e a narrativa são intimamente influenciadas pelo contexto político; quanto a política (incluindo os governos) se utilizam do cinema para a difusão de valores e ideologias. Conforme aponta Pierre Sorlin, o campo de estudos acerca do cinema é multidisciplinar, devido a quantidade de elementos que compõe um filme, sua produção e a indústria 1 Bolsista pela CAPES. 260 cinematográfica, sejam eles econômicos, políticos, culturais, sociais ou pertencentes à própria linguagem cinematográfica. Por isso a análise do filme não pode ser realizada de forma isolada, mas associada a todas essas variáveis. Entretanto nosso objetivo é realizar uma análise de um recorte contextual que envolve o fator político no cinema, a Era Reagan A Era Reagan corresponde ao período da presidência de Ronald Reagan nos EUA (19811989). A partir desse contexto, analisaremos de forma sucinta e em linha gerais o como a indústria do cinema hollywoodiano sofreu profundas alterações durante a Era Reagan, e que transformaram tanto a estrutura econômica dos grandes estúdios, o formato das produções, a distribuição e a exibição dos filmes; quanto a estrutura narrativa das grandes produções hollywoodianas, chamadas a partir desse contexto de ―Blockbusters”. O processo de transformação na indústria cinematográfica se inicia anteriormente à ascensão de Reagan à presidência da república nos EUA. Ainda em meados da década de 1970, quando inicia-se o processo de fusões e aquisições dos grandes estúdios, que passam a integrar grandes conglomerados de empresas de comunicação. Além disso – embora atrelada economicamente a esse processo – ocorre uma mudança no formato dos filmes Hollywoodianos, que passam a contar com a realização de filmes com orçamentos astronômicos e com um potencial de mercado que envolve outros produtos. Apesar de iniciar antes da era Reagan, esse processo de transformação é impulsionado, e crescente durante o governo Reagan, que fomenta através de suas políticas econômicas – as chamadas ―Reaganomics” – uma aceleração do processo de fusões e aquisições dos grandes estúdios por grupos internacionais. Além disso, é na Era Reagan que os blockbusters se multiplicam e invadem as salas de cinema nos EUA, bem como as novas mídias daquela época: O Vídeo-cassete e a TV a cabo. É primordial destacarmos em que contexto tudo isso surge, e qual a influencia de Ronald Reagan para esse contexto. Devemos levar em consideração que os agentes sociais não constroem os processos sociais individualmente, contudo, muitas vezes representam e se aliam a forças que possuem o papel de agentes sociais, alicerçados por um certo apoio popular. Dito isto, afirmamos que Reagan, apesar de não ter governado sozinho e não ser o único a defender e implementar ideais conservadores, possuía uma trajetória política que desde fins da década de 1945 se aliava aos setores conservadores da sociedade, e no que concerne ao nosso enfoque, era um homem com laços muito próximos aos estúdios Hollywoodianos, que por sua vez sempre foram beneficiados pelas atuações políticas de Ronald Reagan. Uma vez que os interesses dos grandes estúdios se aliavam com o interesse de conservadores do Partido Repúblicano, ao qual Reagan pertencia. Reagan era conhecido como um anticomunista conservador convicto desde meados do século XX, quando, durante a Segunda Guerra Mundial e principalmente no período pós-guerra inicia de forma ativa sua atuação e influencia no campo político. Nesse contexto, como ator Hollywoodiano, sua atuação política está relacionada aos rumos que o cinema estadunidense 261 tomaria na década de 1950. Atuando como membro de associações profissionais do ramo cinematográfico, sempre em colaboração com o governo estadunidense na implementação de políticas de livre-mercado para os estúdios e principalmente em políticas que apregoavam uma contenção de um suposto avanço comunista na sociedade estadunidense e dentro da indústria do cinema. Foi até mesmo informante do FBI no contexto das perseguições de pessoas ligadas à indústria cinematográfica. Chris Jordan, ao realizar um balanço da influência da presidência de Ronald Reagan nos rumos dos grandes estúdios e por consequência no cinema da década de 1980, reconstrói a trajetória política de Ronald Reagan, desde o período pós Segunda Guerra Mundial, associada sempre ao apoio de grandes empresas do ramo cinematográfico dos EUA2. Reagan era membro do Motion Picture Industrial Council – doravante MPIC- que reunia representantes dos e os membros do ramo cinematográfico em torno dos interesses industriais e econômicos do setor. Jordan aponta que o MPIC foi fundamental para a elaboração das políticas de expansão dessa indústria para outros continentes e para angariar o apoio do presidente Harry Truman ao setor3. Reagan participou ativamente dessas definições; segundo Jordan, ele chegou a sugerir ao departamento de estado que cortasse auxílios e impusesse barreiras comerciais aos países que se negavam a importar filmes estadunidenses. A principal influencia de Reagan nas políticas governamentais empreendidas pela Casa Branca e pelo Congresso se referem ao período do Macartismo, o auge da perseguição e histeria anticomunista em Hollywood, período também conhecido como ―caça às bruxas‖. Quando órgãos e comissões ligadas o Congresso e à Casa Branca levantavam diversas suspeitas acerca da presença de comunistas entre os atores, diretores, produtores e outros envolvidos com a indústria do cinema. Entre estas comissões está a House Un-American Activities Committee, (doravante HUAC) talvez a mais conhecida comissão de inquérito que visava investigar e convocar para depoimento todos aqueles que julgavam suspeitos de ligação com entidades comunistas. Muitas vezes elaboravam ―listas negras‖ que excluíam determinados indivíduos do meio cinematográfico, muitas vezes, sem, contudo, provar uma real ligação dos mesmos com organizações comunistas. Antes de consolidar sua posição como conservador convicto, no período pré-Segunda Guerra Mundial, Reagan fez parte de uma entidade de centro-esquerda em Hollywood, o Hollywood Independent Citzens Committee of Arts, Sciences and Professions (HICCASP). Logo após a guerra ele proveu informações sobre essa associação ao FBI. Em outras associações das quais fez parte, mesmo as mais híbridas ideológicamente, sempre adotou posturas conservadoras e de cooperação com o governo – principalmente com as políticas anticomunistas - e com os interesses dos grandes estúdios. 2 JORDAN, Chris. Movies and the Reagan presidency: success and ethics. Praeger. Westport: Praeger Publisher, 2003. 3 Truman governou os EUA de 1945 a 1953. Seguiu em Washington por dois mandatos, nos quais deu início às políticas do período da Guerra Fria. 262 Na presidência da SAG esteve sempre ao lado dos grandes estúdios, auxiliando, inclusive, o crescimento da Music Corporation of America (MCA), defendendo o direito da MCA de atuar tanto como uma ―agencia de talentos‖ quanto como produtora de televisão. Que dava a ela uma grande vantagem competitiva, no contexto de vigência do decreto Paramount, que separava produção, distribuição e exibição4. Uma mesma empresa era proibida de controlar mais de uma dessas atividades. No que diz respeito à sua escalada na carreira política, podemos afirmar que não somente pelos seus trabalhos como ator e apresentador - o que dava maior visibilidade e popularidade a Reagan na corrida eleitoral – o auxiliaram a conquistar cargos, mas sua relação com os estúdios de cinema foi um considerável trampolim para chegar aos cargos pretendidos pelo republicano. Primeiramente, ao cargo de Governador da Califórnia por dois mandatos – 1967 até 1975 e, posteriormente, ao cargo de Presidente da República dos EUA nos anos 1980. Durante sua campanha eleitoral para concorrer ao cargo de Governador da Califórnia, Ronald Reagan obteve apoio de grandes estúdios cinematográficos pela sua proximidade e associação com altos executivos de Hollywood. A MCA, o auxiliou na organização da campanha e a Twentieth Century Fox, em uma operação estranha, comprou uma propriedade de Ronald Reagan nas montanhas de Santa Monica, Califórnia, por um preço supervalorizado, e, posteriormente, vendeu a mesma para o governo da Califórnia – já sob o comando de Reagan – por valor menor5. Já no cargo de governador em 1967, Reagan, iniciou um processo de desregulamentação econômica no Estado da Califórnia, e aqui já defendia um projeto de redução na participação do estado na economia e relações econômicas baseadas do laissez-faire. Demonstrando um pouco da postura que posteriormente teria como presidente, o governador Ronald Reagan realizou cortes de impostos no estado. Jordan afirma que ele realizou altos incentivos fiscais para os estúdios, que recompensavam aqueles que o apoiaram na campanha. A influência dos estúdios foi fundamental também na campanha eleitoral de Reagan para chegar à Casa Branca, bem como a de diversas corporações dos EUA. Essas corporações, insatisfeitas com as políticas econômicas de Jimmy Carter, e vendo no Partido Republicano esperança de incentivos fiscais, criaram diversos Comitês de Ação Política. Segundo Jordan esses comitês serviam para que empresários e associações comerciais pudessem atuar no sentido de desestabilizar o governo de Carter. Empresas integrantes desses comitês chegavam, inclusive a pressionar seus empregados à fazer contribuições financeiras à esses comitês. A eleição de Reagan marca o triunfo do conservadorismo ascendente em um contexto de redefinição das políticas externa e doméstica como um todo, do retorno da direita estadunidense ainda mais fortalecida no poder, e da difusão de ideais conservadores que perpassaram as plataformas governamentais voltadas para dentro e para fora dos EUA. 4 5 Cf. Ibid, p. 27-28. Cf. Ibid, p.29. 263 A chegada de Reagan e dos republicanos no poder, aponta para um novo momento das políticas governamentais, que incrementa sua ação na política externa, realiza reformas econômicas de desregulamentação do mercado e, corta gastos com políticas públicas alegando serem medidas para conter o déficit orçamentário, mas em contrapartida, promove um rombo para os cofres nacionais com investimentos astronômicos no setor militar: armamentos, novas tecnologias, empreitadas militares em países periféricos e a retomada da corrida armamentista com a URSS. Assim que assumiu a Casa Branca, Reagan, pautado pela defesa do Neoliberalismo, passou colocar em prática as propostas de desregulamentação da economia estadunidense lançando seu programa de corte de impostos. Em 1981 realizou uma revisão na Lei Federal dos Impostos, criando um clima favorável aos investimentos para os proprietários de empresas e acionistas6. Além disso, as políticas de Reagan destruíram os pilares das políticas de ―Bem estar social‖, que em geral abrangiam as camadas mais baixas da sociedade. O argumento era o de reduzir o papel do estado na economia, que deveria ser conduzida pelos indivíduos. Além disso, argumentava que essas políticas de ―bem-estar social‖, consumiam uma soma muito alta nos cofres do governo, e que por isso, o melhor era cortá-la. Sob a mesma alegação orçamentária, desregulamentou o sistema de saúde do país. Esse corte de impostos vêm associado à uma política voltada para favorecer os negócios. O ramo empresarial era privilegiado por Reagan, que o considerava portador de um espírito empreendedor que promoveria a riqueza coletiva baseada nos valores individuais. Chris Jordan, ao tratar de como a política econômica do governo Reagan influenciou a criação de uma nova estrutura econômica para o cinema Hollywoodiano. O produto dessa industria, os filmes, enalteceram por diversas vezes em suas narrativas valores individualistas existentes na sociedades estadunidense desde longa data, mas nem sempre com a força que adquiriu na Era Reagan, quando coincidiam com o espírito de empreendedorismo que as políticas neoliberais buscavam conquistar. Reagan explorou essas ideias e tentava enfatizar o valor individual dos estadunidenses como o grande caminho a ser seguido para salvar a economia. A figura dos Yuppies7, como exemplos de cidadãos bem sucedidos, criou uma imagem que se espalhou com força na sociedade estadunidense, ajudando a difundir essa cultura empreendedora, a cultura do ―self-made man‖. O cinema, adotou uma perspectiva de enaltecimento dessa cultura, glamourizando a figura dos funcionários dos escritórios de empresas, com um ar jovem e bem sucedido. As reformas econômicas neoliberais do governo Reagan facilitaram - conforme já apontamos – o processo de mudança na estrutura de propriedade dos estúdios. Sublinha-se que desde o final da década de 1970 esse setor dava sinais de que caminhava para um processo de 6 Cf. Ibid, p.35 Jovens empreendedores que galgavam altos cargos nas empresas e possuíam uma postura agressiva de encarar o mercado 7 264 integração horizontal e vertical8. Esse processo, auxiliado pelas políticas de Reagan se dirigia justamente na contramão da liberdade de mercado, visto que concentrava o entretenimento nas mãos de poucas empresas, aliadas a interesses de grandes investidores do mercado financeiro, incluindo bancos. O exposto limitava assim a variedade de produtos disponibilizados no mercado para o grande público. Desde o final da década de 1960 e grande parte da década de 1970 a indústria do cinema passou por um período de problemas estruturais, envolvendo principalmente questões econômicas relacionadas a faturamento. Foi um momento de aperto de cintos e contenção de gastos. Além de ser um contexto de reformulação nos valores administrativos dos estúdios, principalmente no que diz respeito às produções e, consequentemente, seus custos e receitas geradas por eles. Os frutos desse processo começaram a ser percebidos a partir da segunda metade da década de 1970 e se consolidou durante os anos 1980. Jordan afirma que os estúdios passam a investir em um novo modelo de filme que começa a dar resultado na segunda metade da década de 1970, o blockbuster. Um tipo de filme que tem como características o alto orçamento, e o alargamento da audiência. O objetivo é diminuir riscos em relação ao retorno financeiro. A garantia de retorno se dá pela introdução do high-concept, que podemos definir como a fórmula para se produzir o blockbuster e construir sua estrutura narrativa. O cinema high-concept opta por um formato narrativo com histórias mais condensadas, ou seja, de fácil e rápida assimilação e familiarização do público com esse formato. e principalmente, facilitando a divulgação por facilmente poder reduzir a narrativa do filme em rápidos comerciais de televisão e sinopses de poucas linhas que dariam conta de explicar a narrativa ao público. O advento do high-concept também é caracterizado pela introdução de elementos de diversos gêneros cinematográficos em uma única produção. Dessa forma, vários filmes combinam ação, romance, comédia, suspense. Destaca-se também uma forte sinergia comercial, que acopla o cinema a outros produtos relacionados a filme e promovidos pelo mesmo. É uma consequência de um processo de modificação econômica e do tipo de expectador do cinema neste período. As “Reaganomics” tiveram papel fundamental tanto no que diz respeito ao incentivo fiscal quanto na legislação que modificou a relação de propriedades na economia estadunidense, desregulamentando o setor e permitindo a concentração de poder econômico no ramo do entretenimento. O próprio processo de eleição do republicano foi acompanhado com euforia pelos estúdios. Já que anteviam um clima favorável para os negócios. A revisão da Lei Federal de Impostos anunciava o clima do governo Reagan, que em seus discursos afirmava que os negócios e a indústria eram a chave para o enriquecimento da nação. 8 Um exemplo disso é a compra da Paramount pela Gulf & Western, ainda em fins da década de 1960, mas com desdobramentos que se deram durante a década de 1980. O modelo foi precursor de uma nova forma de propriedade em Hollywood. A Gulf & Western era um modelo de corporação dominante no processo de integração horizontal e vertical. Um conglomerado que atuava em distintos setores da sociedade. 265 Como se observa, o discurso reaganista se assentava em uma ética que valorizava o sucesso individual acima de qualquer outro valor. O governo de Washington realizou um grande corte de impostos, beneficiando os estúdios e outros ramos do entretenimento e de muitas outras áreas da economia. Jordan afirma que essas medidas geraram maior reserva financeira para os conglomerados multinacionais envolvidos em diversas formas de mídia, permitindo a eles realizarem investimentos no cinema. Essas empresas, envolvidas em diversos campos da mídia e do entretenimento realizaram fusões e aquisições envolvendo os grandes estúdios, que passaram a fazer parte desses conglomerados multinacionais. Além disso, mudanças na legislação se tornam fundamentais para essas operações. Jordan aponta que a sob a administração Reagan, o Federal Communications Commission- doravante FCC – realiza a quebra da regulamentação que limita a quantidade de emissoras de televisão que poderiam ser concentradas nas mãos de um mesmo proprietário, no caso uma mesma corporação. Isso permite que os investimentos englobem esses setores e os coloquem para atuar em sinergia. Cabe-nos ressaltar que essas facilidades fizeram com que aumentasse a entrada de capitais provenientes do mercado financeiro e de outros setores na industria cinematográfica estadunidense. Com os incentivos fiscais, a quebra de barreiras para a circulação de capital, o fim de alguns limites no que diz respeito à concentração de propriedades, e a ascensão de mídias lucrativamente promissoras – TV a cabo e videocassete, por exemplo - vários bancos e investidores acabaram por migrar seus investimentos para os esses conglomerados multimídias. O processo de mudança no sistema propriedades englobou todos os principais estúdios de Hollywood entre o início e o fim dos anos 1980. A Warner, que havia investido em emissoras de TV a cabo em fins da década de 1970 e no início dos anos 1980, funde-se com o grupo midiático Time em 1990 e passa a ser um dos maiores conglomerados do setor de entretenimento e comunicação. A Columbia Pictures é comprada pela Coca-cola em 1981, formando a Columbia Tri-Star, no entanto é vendida em 1989 para a Sony Corporation9. A Universal pertencia à MCA desde 1962, mas busca saída financeira para o momento de declínio na década de 1980 por meio do investimento em setores como brinquedos, televisão, música; seu empreendimento mais promissor foi a transferência dos estúdios para Orlando10; no entanto a MCA foi comprada pela Matsushita em 1990. A United Artists funde-se com a Metro Goldwyn Mayer em 1981, mas em 1985 a MGM é comprada pela Pathe Communications11. 9 Foi vendida por um insucesso do estúdio sob essa nova administração. Uma das explicações para esse fracasso se dá pelo fato de que a Columbia foi o único estúdio a não adotar o sistema de contratos milionários de exclusividade com atores, atrizes, produtores e diretores consagrados. Como essa prática se tornou comum nos outros estúdios, em pouco tempo a Columbia se viu com poucas opções de elenco para investir em grandes produções. O que prejudicou seu faturamento. 10 Essa transferência permitiu que a Universal explorasse o potencial turístico de Orlando, através do investimento em um parque temático do estúdio 11 Ibid, p.6 266 Entre as empresas abrangidas por essas corporações, estão estúdios, emissoras de televisão, produtoras, editoras, distribuidoras de filmes, salas de cinema, produtos eletrônicos – incluindo produtos ligados à exibição dessas mídias, como televisores e videocassetes – apenas para citar alguns setores correlacionados. É importante destacar que para essa mudança é fundamental o surgimento de novas formas de mídia: a televisão a cabo; o Video Home System (VHS); e o novo modelo de salas de exibição em shoppings: os chamados multiplex. O processo de integração dos mercados a partir da desregulamentação e do processo de fusão dos estúdios, agora inseridos em conglomerados com vários ramos do entretenimento, fez com que muitos estúdios se interligassem a emissoras de TV a cabo. Desse modo, de inúmeras formas o cinema tirou proveito desse tipo de TV. . Devemos levar em consideração, primeiramente o formato de programação das emissoras de TV a cabo, que era particularmente atraente para os estúdios. Os canais de TV a cabo possuem muitas vezes programação específica para cada canal. Ou seja, canais especificamente de esportes, de séries, e, é claro, de filmes. A exibição da programação 24 horas por dia, possibilitava que filmes fossem exibidos o tempo todo. Criando um veículo a mais para a exibição das produções, e principalmente, como aponta Jordan, gerando uma familiarização do público com atores e diretores famosos, facilitando assim a promoção da imagem dos mesmos em produções seguintes. Outro fator fundamental da TV a cabo, que despertou interesse dos estúdios nessas emissoras, foi o público que essa TV abrangia. Em geral, eram jovens estadunidenses de classe média. Um público que se torna foco de inúmeras produções na década de 1980, e passa a ser fundamental para o formato de se produzir filmes a partir de fins da década de 1970. Neles se vê um potencial de consumo muito grande, visto que fazem parte de uma camada da sociedade estadunidense – a classe média suburbana – que compartilhava de uma crescente cultura de consumo. Jordan aponta que, em geral, os jovens de classe média, passaram a consumir bens não mais pela necessidade dos produtos, mas pelo próprio hábito de consumir, pela busca do efêmero. Fazendo com que as empresas realizem grandes apostas no crescimento do mercado destinado a essa faixa de consumidores. As emissoras de TV a cabo possuem papel fundamental na promoção das grandes produções dos estúdios e criava uma nova janela de exibição para essas produções, permitindo um aumento dos lucros, por maior divulgação e por lançar um mesmo filme em mídias diferentes. A partir da década de 1980 os estúdios fecham contratos com canais de filmes, que passam a exibir documentários e propagandas de seus lançamentos no cinema, promovendo, consequentemente, uma futura exibição desses filmes. Canais como a HBO12 obtiveram bastante sucesso com esse tipo de contrato. 12 A HBO (Home Box Office) foi o primeiro canal exclusivamente de filmes, se tornou o mais popular canal nesse sentido. Foi um dos canais do grupo Time Inc. e com a fusão desse grupo com a Warner, passa a pertencer a esse novo conglomerado em 1989, a Time Warner. 267 É importante ressaltar que essa integração vertical se complementa pela integração horizontal da distribuição da TV a cabo, que passa a pertencer a operadoras ligadas às emissoras e aos estúdios, que lucram com as assinaturas e também com serviços auxiliares, como a cobrança por serviços de manutenção, venda de aparelhos conversores, de programações cobradas à parte, os chamados pay-per-view. Ao regulamentar a TV a cabo, o discurso do FCC era o de aumentar as possibilidades de escolha da programação, que seria marcada por uma variedade de programação. Entretanto, a prometida variedade não existiu. O advento das fusões e da multinacionalização dos meios de comunicação e do entretenimento, fez com que as emissoras e as operadoras se concentrassem nas mãos de poucas empresas. Além disso, os estúdios estavam ligados a essas emissoras, por relações de propriedade ou por contrato, limitando a possibilidade dos filmes a serem exibidos. O fato de se ter, na maioria dos canais, programações voltadas para jovens, também gerou certa limitação quanto à variedade. Outra mídia, igualmente importante para a ampliação do mercado cinematográfico, foi o VHS. Esse formato é fundamental para se pensar a economia cinematográfica a partir da década de 1980. A indústria assimilou bem o VHS, os filmes passam a ser lançados no formato, após sua exibição nas salas de cinema, e introduzem uma nova possibilidade a de se assistir os filmes em casa e sem horários previamente programados. A qualidade da imagem era inferior à exibida no cinema, contudo, valia a pena pela comodidade de se assistir o filme em casa. Além disso, o formato permitiu que os estúdios tivessem outra via de distribuição e exibição de um filme, podendo aumentar o lucro com a venda das copias desses filmes. Esse formato se integra em um mercado que, a partir da década de 1980, passa a atuar em sinergia, tanto com outros setores como através do lançamento de um mesmo filme por diversas vezes. Além disso, permite assegurar o retorno de altos investimentos na produção cinematográfica, fazendo com que muitos filmes que tiveram um retorno mediano nas bilheterias, gerassem maior lucro na venda e locação em formato VHS. Muitas vezes, os grandes estúdios batiam recordes de vendas e locações de vídeo em vídeo, conseguindo lucros que não obtinham nas bilheterias. Jordan ressalta, contudo, que esse formato de filme privilegiou, sobretudo, os grandes estúdios e prejudicou os menores, visto que os direitos de distribuição dos filmes de maior sucesso e repercussão, eram, em geral, adquiridos pelos grandes estúdios. Assim, o autor aponta que o quadro mostrava a existência de cada vez menos estúdios detendo fatias maiores do capital arrecadado pela produção cinematográfica. Além disso, o mercado da locação de filmes, também era dominado pelas grandes corporações do entretenimento, em especial do setor da TV a cabo, que incrementavam os seus acervos com filmes mais antigos e adquiriam os chamados filmes-A, produzidos apenas pelos grandes estúdios. 268 Muitos imaginaram que o VHS eliminria as salas de cinema, contudo, na prática ocorreu o inverso. De acordo com Stephen Prince, a quantidade de pessoas que assistiam filmes em casa crescia, contudo, não acabavam com as salas de cinema, que ao contrário expandiram em número13, graças ao advento do multiplex. Configuram-se por pertencerem cadeias de salas de cinema, instaladas geralmente em shopping-centers, ou em redes de grandes lojas. Essas cadeias de salas de cinema, em geral pertencem aos estúdios. O modelo de salas multiplex possibilita aos estúdios planejarem de forma estratégica os lançamentos. Levando em conta os locais nos quais as salas de cinema estão instaladas. Em geral, estão localizadas em shoppings de bairros de classe-média estadunidenses. Geralmente são compostos por várias salas com o intuito de oferecer opções diferentes de filmes. Este tipo de sala de cinema está intimamente relacionado à forma como os estúdios lançavam seus filmes, visto que grande parte do lucro ocorreria nos primeiros dias de exibição dos filmes. A ênfase no marketing por exaustão, ou seja, utilizando os diversos tipos de mídia integradas aos estúdios, para promover o lançamento do filme. Dessa forma, tinha-se por objetivo possibilitar que os grandes filmes aumentassem seu potencial de bilheteria no momento em que apenas as salas ligadas aos estúdios exibissem as produções. A localização destas salas de cinema em grandes shoppings também foi fundamental na realização da publicidade. Visto que a integração do cinema com outros ramos do comércio possibilitava a presença de textos publicitários em inúmeros produtos dentro destes shoppings. Além disso, os próprios estúdios eram proprietários de inúmeros shoppings e, dessa forma, podiam auferir lucros com o aumento de freqüentadores dos shoppings como decorrência dos filmes lá exibidos. Essa tática demonstrou-se lucrativa, diversas produções como E.T: o extraterrestre (E.T, 1982), que faturou cerca de U$ 12 milhões somente na primeira semana; Rocky III: o desafio supremo (Rocky III, 1982), que faturou U$ 49 milhões em quatro semanas; Footloose (Footloose, 1984), faturando U$ 8,5 milhões apenas no feriado do President’s Day14 e Um Tira da Pesada 2 (Beverly Hills Cop, 1987) que faturou U$ 64 milhões nos primeiros vinte dias, sendo exibido simultaneamente em 2326 salas de cinema em todo os EUA15. Ressaltemos que esse processo foi fundamental para estruturar os modelos da industria cinematográfica que se mantém até os dias de hoje. Toda essa transformação econômica, acelerada pelas políticas de Ronald Reagan, influenciou na estrutura narrativa, na estética dos filmes e nos gêneros cinematográficos que obtiveram maior êxito no mercado. Porém, nosso enfoque recorta apenas o que diz respeito ao processo de transformação das estruturas da industria do cinema. 13 PRINCE, Cf. PRINCE, Stephen. Movies and 1980s. In PRINCE, Stephen (org.). American Cinema of the 1980s: themes and Variations. New Jersey: Rutgers University Press, 2007. 14 Feriado em comemoração ao aniversário de George Washington. 15 Cf. JORDAN, op. cit. p. 41. 269 Dessa forma, procuramos elucidar como um processo em ocorrência na década de 1970 foi fomentado e solidificado na década de 1980 com o auxílio de uma política que fortaleceu as grandes corporações. A compreensão desse processo é importante para questionarmos a estrutura cinematográfica existente atualmente, além de indagarmos sobre a estrutura midiática no mundo, que em geral é responsável pela veiculação de notícias e de programação em diversos países. 270 BIBLIOGRAFIA AQUINO, Rubim Santos Leão de. Neoliberalismo. In: TEIXEIRA DA SILVA, Francisco Carlos et. all (org.). Enciclopédia de Guerras e Revoluções do Século XX: as grandes transformações do mundo contemporâneo: conflitos, cultura e comportamento. 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Porto Alegre: Ed. da UFRGS, 2006. 272 A ÁGUIA VOA: A POLÍTICA EXTERNA DOS ESTADOS UNIDOS E O DESENVOLVIMENTO DE SUAS DOUTRINAS MILITARES E DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS NO PÓS-SEGUNDA GUERRA MUNDIAL (1945-2009) Sandro Heleno Morais Zarpelão Mestre em História Política (UEM) Especializando em Direito Internacional e Econômico (UEL) [email protected] RESUMO: O objetivo do trabalho é demonstrar como ocorreu o desenvolvimento da política externa dos Estados Unidos, no pós-Segunda Guerra Mundial, a partir de 1945, através de doutrinas militares e de relações internacionais. Assim, será efetuado um breve histórico de cada uma partindo da Doutrina de Contenção, desenvolvida pelo diplomata George Frost Kennan, em 1947, passando pelas Doutrinas Truman, Eisenhower, Nixon, Carter, Reagan, Powell, Clinton, Bush e Rumsfeld. A metodologia empregada foi a análise de referências que se debruçam sobre a política externa dos Estados Unidos. Tem-se que alguns princípios de uma doutrina, influenciam a outra, como foi o caso da Doutrina Carter, cujo princípio de defesa dos interesses de Washington, com relação ao petróleo, também ajudou na construção da Doutrina Powell e na ocorrência da Guerra do Golfo, de 1991. Conclui-se que a política externa dos Estados Unidos desenvolveu-se para defender os interesses do país na seara internacional, seja através da diplomacia, seja através da guerra. O presente tema é resultado da dissertação de mestrado ―Tempestade no Iraque: a Guerra do Golfo, a Política Externa dos Estados Unidos, a Historiografia Militar e a Imprensa Escrita Brasileira (1990-1991)‖, defendida em 2008, na Universidade Estadual de Maringá (UEM). PALAVRAS-CHAVE: política externa, Estados Unidos, doutrinas militares e de relações internacionais. INTRODUÇÃO A Guerra do Golfo foi mais um conflito em que os Estados Unidos se envolveram diretamente no século XX. Assim, para entender melhor o seu comportamento como ator internacional, torna-se imprescindível que se estude a política externa dos Estados Unidos antes, durante e depois da Guerra do Golfo. A política externa dos Estados Unidos da América do Norte pode ser enquadrada no paradigma da longa duração, pois desde o século XIX, poucas mudanças e rupturas ocorreram ao longo da história. Ao longo da segunda metade do século XIX e até a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), ocorreram importantes embates na sua política externa, entre os chamados isolacionistas e os internacionalistas. Nesse sentido, a atuação da política externa estadunidense na primeira metade do século XX, oscilou entre o isolacionismo, principalmente nas décadas de 1920 e 1930, e o internacionalismo, como aconteceu na Primeira e na Segunda Guerra Mundial. 273 Os Estados Unidos, durante o governo do presidente James Monroe1, em 1823, devido à sua política externa, elaborou a chamada Doutrina Monroe. Sua principal idéia era evitar e repudiar qualquer intervenção européia nos países do continente Americano. A influência dos Estados Unidos sobre a América, principalmente a América Latina foi aumentando ao longo dos anos posteriores. Os Estados Unidos desejavam, com tal doutrina, expandir a sua influência econômica e internacional sobre a América Latina, incluíndo a América do Sul, conquistando, com o passar do tempo, a condição de mediador e orientador das políticas externas dos países latino-americanos. O objetivo era criar uma área de influência estadunidense sobre a aludida região. A frase ―A América para os americanos‖, consubstancia bem a Doutrina Monroe. Assim, em vários momentos, Washington fez valer seus interesses econômicos, geopolíticos e comerciais. Até mesmo por causa de empresas, os Estados Unidos, já no início do século XX, intervieram duramente na região, principalmente na América Central. Portanto, intervenções por causa de motivos econômicos e de corporações foram uma constante. O Destino Manifesto era basicamente a idéia de que os Estados Unidos tinham a missão de levar seus valores, o cristianismo protestante, a liberdade, os valores democráticos, as idéias liberais, os preceitos capitalistas e o progresso científico para os povos indígenas da região oeste aos Estados Unidos e depois o mundo. Os imigrantes que chegaram à América e fundaram as 13 colônias, acreditavam que era a sua missão fundar a Nova Jerusalém. Daí nasceu a idéia de Destino Manifesto2, como sendo os eleitos de Deus, únicos detentores de moral para levarem os valores cristãos para o mundo. Isso justificará as ações militares dos Estados Unidos pelos cinco continentes. Depois tal prerrogativa foi bastante usada por Washington em sua política externa para a América Latina e depois, no século XX, para suas ações no Oriente Médio. Também não pode ser esquecido a famosa Política do ―Big Stick‖ (grande porrete), que partiu das premissas ideológicas contidas na Doutrina Monroe e no Destino Manifesto. A Política do ―Big Stick‖ foi erigida pelo então presidente dos Estados Unidos, Theodore Roosevelt 3. Tal política concedia a liberdade para Washington usar a força, através de intervenções militares nos países americanos que estivessem endividados para com os Estados Unidos. Em outras palavras, quando um interesse econômico estadunidense estivesse ameaçado em qualquer região do continente americano, em situações de não pagamento das dívidas contraídas ou de 1 O presidente James Monroe lutou durante a Independência dos Estados Unidos da América, em 1776. Formou-se em Direito e tinha como seu mentor político Thomas Jefferson. Foi governador do Estado da Virgínia por duas vezes, secretário de Estado e também da Defesa. Em 1817 assumiu o poder como o 5º presidente da história dos Estados Unidos tendo governado até 1825. 2 Ver as obras: LUKACS, John. Uma Nova República: História dos Estados Unidos no Século XX. GALANTE, Vera (trad.). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006, p. 211-212; ITUASSU, Arthur. Política Externa Norte-Americana até 1939. In: SILVA, Francisco Carlos Teixeira da (coord.) [et al]. Enciclopédia de guerras e revoluções do Século XX: as grandes transformações do mundo contemporâneo. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004, p. 693-694; JUNIOR, Arthur Schlesinger. Os ciclos da história americana. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992. 3 O presidente Theodore Roosevelt foi o vigésimo sexto presidente da história dos Estados Unidos. Governou o país entre 1901 e 1909, tendo recebido o título de Corolário Roosevelt. Foi bastante incisivo em sua política exterior para a América Latina. 274 instabilidades políticas, os Estados Unidos deveriam agir em sua política externa com diplomacia, mas também com o uso de um ―grande porrete‖4. Assim, realizou várias intervenções militares em países latino-americanos, apenas para ficar em alguns exemplos, podemos mencionar, como a Nicarágua (1909) e o México (1911). Tal estratégia perdurou até o início do governo Herbert Hoover (1929-1933), que esboçou os princípios do que posteriormente foi denominado de Política da Boa Vizinhança. O presidente que o sucedeu, Franklin Delano Roosevelt (1933-1945), aprofundou e estruturou essa política. A Política da Boa Vizinhança passou a ter maior aplicação quando emergiu a possibilidade de um conflito, no caso a Segunda Guerra Mundial, com a conseqüente invasão estrangeira sobre o continente americano. Voltando à questão dos embates entre as vertentes isolacionistas e internacionalistas, vale ressaltar que a primeira prevaleceu de certa forma até a Segunda Guerra Mundial. Após tal conflito, e com irrupção da Guerra Fria, ela passou a ser considerada um modelo de poder dos Estados Unidos em termos globais. O debate entre as linhas internacionalista e isolacionista desapareceu, já que a primeira, no interior do Departamento de Estado estadunidense, se sobrepôs definitivamente sobre a segunda linha teórica. A POLÍTICA EXTERNA DOS ESTADOS UNIDOS E O DESENVOLVIMENTO DE SUAS DOUTRINAS MILITARES E DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS NO PÓS-SEGUNDA GUERRA MUNDIAL (1945-2009) De acordo com Munhoz5, no pós-guerra, os Estados Unidos construíram um sistema de relações internacionais baseados nos modelos das suas instituições domésticas. Exemplos disso são: a Organização dos Estados Americanos (OEA), a Organização das Nações Unidas (ONU), o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Acordo Geral de Comércio e Tarifas (GATT) e o Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento (Bird). A estratégia dos Estados Unidos, durante a Guerra Fria, seria a da contenção. Havia a idéia estadunidense que o maior perigo soviético não era o exército vermelho, mas o poder de atração ideológica que o comunismo possuía no interior das democracias capitalistas. A Guerra Fria, segundo George Kennan, era consubstanciada pelo enorme dispêndio de recursos militares e econômicos por parte dos soviéticos, que causaria futuramente contradições e a própria derrocada do regime soviético. O regime soviético, na Guerra Fria, representava uma ameaça concreta para as democracias ocidentais. Poderia seduzir parcelas significativas das populações dos países 4 ITUASSU, Arthur. Política Externa Norte-Americana até 1939. In: SILVA, Francisco Carlos Teixeira da (coord.) [et al]. Enciclopédia de guerras e revoluções do Século XX: as grandes transformações do mundo contemporâneo. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004, p. 693-694; 5 Ver a obra: MUNHOZ, Sidnei José. Guerra Fria: um debate interpretativo. In: SILVA, Francisco Carlos Teixeira da (coord.). O Século Sombrio: Uma História Geral do Século XX. Rio de Janeiro: Editora Campus Elsevier, 2004, p. 261-281. 275 vinculados ao mundo capitalista e jogá-las contra os seus respectivos governos, estimulando processos revolucionários e a desestabilização da ordem vigente. Vale lembrar que as duas superpotências, a União Soviética e os Estados Unidos, usavam o seu poder de veto geralmente quando o lado rival propunha alguma resolução que pudesse ferir os seus interesses. De acordo com Sidnei José Munhoz6, durante a Guerra Fria, os Estados Unidos e a União Soviética disputaram a hegemonia mundial e buscaram consolidar seus diversos projetos políticos. A Guerra Fria provocou a eclosão de conflitos regionais em escala planetária, ao mesmo tempo, que construiu certa estabilidade e padrões previsíveis e toleráveis de guerras. Os dois Estados nunca se enfrentaram diretamente, mas o fizeram através de seus aliados, de uma forma indireta, sempre evitando que tais embates regionais se transformassem em uma ameaça a segurança mundial. Essa Ordem Mundial dominou o mundo entre os anos de 1947 e 1991, e era baseada na bipolarização, isto é, havia dois centros ou pólos de poder que disputavam a hegemonia sobre o restante do mundo, no caso os Estados Unidos da América (EUA) e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Foi em 1947, que o diplomata George Frost Kennan, diante da escalada crescente das tensões entre Moscou e Washington, propôs uma estratégia visando à contenção do imperialismo soviético. Ela ficou conhecida depois como Doutrina da Contenção. A elaboração da citada diretriz de política externa começou quando Kennan enviou para o Departamento de Estado, um longo telegrama (1946), contendo uma análise minuciosa sobre a política externa soviética. Ademais, Kenann definia também como deveria ser a relação entre Estados Unidos e União Soviética. Depois Kenann, já em 1947, escreveu o artigo ―The Sources of Soviet Conduct, publicado na Revista Foreign Affairs. Keenan afirmava que Moscou não acreditava ser possível um acordo leal com as nações capitalistas, pois a relação entre socialismo e capitalismo era conflitante. Como, na perspectiva marxista, o socialismo iria triunfar, sob a ótica marxista, pois o capitalismo semearia a semente da sua própria destruição, então não poderia haver conciliação entre Moscou e Washington. Contudo, Kenann acreditava que o establishment soviético pensasse em termos de longa duração, ao mesmo tempo em que o povo soviético, diante de sua experiência histórica, sabia reconhecer quando existiam forças superiores e quando era o momento de recuar. Diante desse quadro, Kennan defendia que os Estados Unidos precisavam colocar em prática uma Política Externa de longa duração através da contenção do expansionismo soviético. Ele entendia que qualquer sinal de agressão soviético deveria ser respondido com uma resposta dura e a altura para que Moscou e o movimento comunista internacional recorressem à 6 Ver a obra: MUNHOZ, Sidnei José. Guerra Fria: um debate interpretativo. In: SILVA, Francisco Carlos Teixeira da (coord.). O Século Sombrio: Uma História Geral do Século XX. Rio de Janeiro: Editora Campus Elsevier, 2004. 276 moderação. Isso enfraqueceria a União Soviética, pois ele a enxergava como o lado frágil na Guerra Fria. Para Kennan, que acreditava na superioridade do modelo capitalista e que se contida em seu campo a União Soviética seria incapaz de atender às necessidades econômicas e sociais de sua população. Isso poderia provocar revoltas, conflitos, crises internas e a própria destruição da União Soviética, como de fato bem mais tarde ocorreu, em 1991. A Doutrina da Contenção foi fundamental à política externa dos Estados Unidos, durante quase toda a Guerra Fria. Mesmo assim, ainda em 1948, Kennan começou a se afastar do governo Truman, por entender que as diretrizes de tal doutrina foram distorcidas quando da elaboração da Doutrina Truman. Essa, em seu entendimento, causaria uma aceleração da corrida armamentista. Assim, foi contra as intervenções militares dos Estados Unidos, no Vietnã e na Península Coreana, além de entender que a Doutrina Truman poderia adiar consideravelmente os objetivos da Doutrina da Contenção, isto é, a derrocada soviética e do socialismo e o fortalecimento do capitalismo e do mundo ocidental. Em 12 de março de 1947, o mundo já via com preocupação a escalada crescente da tensão entre Estados Unidos e a União Soviética, quando o então presidente estadunidense Harry Truman, realizou um importante pronunciamento para o Capitólio, solicitando que fosse aprovado um projeto de ajuda econômica para a Turquia e a Grécia. Esses países viviam forte instabilidade política devido aos movimentos comunistas internos que desejavam o poder. Truman justificou seu pedido através da imperiosa urgência que havia na época de se combater o comunismo em prol do sistema capitalista e da democracia. Nos Estados Unidos, o projeto do presidente Harry Truman, posteriormente chamado de Doutrina Truman, conquistou o apoio daqueles que viam em tal pensamento, uma clara demonstração de que Washington não toleraria em hipótese alguma, investidas políticas e militares de Moscou, em áreas de seu interesse. A Doutrina Truman representava, em contrapartida, o considerável aumento nos gastos públicos através de uma política intervencionista, que permitia aos Estados Unidos agirem em qualquer área no mundo em que seus interesses estivessem em jogo. A Doutrina Eisenhower infligiu aos países do Oriente Médio a necessidade de optarem pelo apoio à Washington ou à Moscou, tendo sido elaborada pelo presidente Dwight Eisenhower. Apesar do Oriente Médio ainda não ser uma área prioritária na política externa dos Estados Unidos, entre 1945 e a década de 1970, com o passar dos anos e o desenvolvimento do processo histórico da Guerra Fria, cada vez mais o Departamento de Estado e o Pentágono se interessavam pela região. Baseava-se em dois aspectos: o primeiro era a autorização para o envio de tropas estadunidenses à região, caso os seus interesses estivessem ameaçados pela União Soviética ou, principalmente, pelo nacionalismo árabe, com destaque para o do Egito, do líder Gamal Abdel Nasser. O segundo aspecto é que possuía uma retórica anticomunista e, portanto, os Estados 277 Unidos iriam ajudar econômica e militarmente qualquer país que se encontrava ameaçado pelo comunismo. A Doutrina Eisenhower foi bastante influenciada por J. Foster Dulles que defendia o combate ao ―perigo comunista‖. e a adoção do Roll Back, isto é, a necessidade de empurrar a União Soviética de volta às suas fronteiras. Isso diferencia essa política claramente da doutrina da contenção. Uma é conter, a outra vai além, significa retomar áreas sob influência soviética. A Roll Back está impregnada de anticomunismo militante (o que também a diferencia da contenção de Kennan). Ela permitiu aos Estados Unidos se tornarem o ―xerife‖ do Oriente Médio. Tratava-se de uma doutrina que possuía dois objetivos: assegurar a proteção dos países cujos regimes eram favoráveis ao Ocidente, mormente aos Estados Unidos, como o Irã, através do uso de força militar. O segundo objetivo focava na necessidade de se impedir que movimentos nacionalistas, considerados ―radicais‖, tentassem chegar ao poder em seus países, e também conter os governantes dessa natureza que almejavam causar instabilidades políticas nos Estados vizinhos. Observa-se que a Doutrina Eisenhower força os países do Oriente Médio a escolhem qual lado deveriam apoiar na Guerra Fria: os Estados Unidos ou a União Soviética. O nacionalismo árabe crescente era visto como uma ameaça aos interesses geopolíticos e econômicos dos Estados Unidos na região e deveria ser anulado. Então, um dos alvos da Doutrina Eisenhower não apenas Moscou, mas o nacionalismo árabe do Egito, de Abdel Nasser. Vale lembrar que foi o governo do presidente Eisenhower que a teoria do dominó ganhou ―corpo‖ e foi colocada em prática, através da Doutrina Eisenhower. No ano de 1968, o então candidato republicano à presidência da República, nos Estados Unidos, Richard Nixon, derrotou o seu oponente, o candidato democrata Hubert Humphrey. Sua vitória deveu-se, dentre tantos motivos, a exploração da insatisfação latente da opinião pública interna e da população estadunidense, com o desenrolar da Guerra do Vietnã (1965-1975). Os Estados Unidos, durante o governo do presidente democrata Lyndon B. Johnson (19631969), envolveram-se diretamente na guerra entre Vietnã do Norte e Vietnã do Sul, ao apoiar os sulvietnamitas. Na verdade, Washington se viu em um grande ―atoleiro‖, pois à medida que o conflito avançava mais e mais soldados, equipamentos e dinheiro dos Estados Unidos eram enviados para o teatro de operações, sem conseguir o sucesso pretendido. Várias derrotas estadunidenses foram sendo acumuladas diante do Vietnã do Norte e dos vietcongues. Corpos e mais corpos de soldados estadunidenses vitimados chegaram aos Estados Unidos, causando comoção, dor, revolta e protestos contra a política belicosa da Casa Branca. Assim, Richard Nixon não encontrou grandes dificuldades para conseguir uma vitória eleitoral, ao explorar a questão vietnamita. Em janeiro de 1969, Richard Nixon assumiu a presidência dos Estados Unidos e tinha como um de seus grandes objetivos, juntamente com o seu secretário de Estado, Henry Kissinger, reduzir ao máximo possível o envolvimento estadunidense 278 em guerras do então chamado ―Terceiro Mundo‖, principalmente no Oriente Médio. Percebe-se, notoriamente, a influência da Síndrome do Vietnã sobre o governo e a população estadunidense. Tratava-se de uma tarefa complexa e difícil, pois em um contexto histórico mais amplo, os Estados Unidos e o mundo viviam sob a égide da Guerra Fria. A ameaça soviética continuava a preocupar Washington. Ademais, não se pode esquecer de que o menor envolvimento direto dos Estados Unidos em conflitos nos países subdesenvolvidos, não poderia colocar em risco a defesa dos seus interesses e do Ocidente como um todo. Desse modo, em julho de 1969, foi elaborado e enviado um relatório presidencial ao Congresso, em que se anunciava a Doutrina Nixon. De acordo com essa nova política, os Estados Unidos retomariam a ideia de delegar as suas responsabilidades militares, no Oriente Médio, ao Irã e à Arábia Saudita. Os Estados Unidos e o Ocidente teriam seus interesses econômicos, políticos e geopolíticos defendidos por países, da própria região do Oriente Médio, financiados, treinados e armados pelo Pentágono. A política dos ―dois pilares‖, embasadora de tal doutrina, tinha como modelo a transferência dos objetivos e atuações militares para o governo do Vietnã do Sul. Para Kupchan7, a Doutrina Nixon deve ser analisada não apenas sob a ótica da Guerra do Vietnã. Para ele, é mais importante o fato de que estava ocorrendo uma redução da tensão internacional, com a diminuição das disputas entre Estados Unidos e União Soviética no ambientes regionais. Tanto o presidente Nixon como o secretário de Estado, Kissinger buscaram construir tal política com bastante afinco. De acordo com Igor Fuser ―(...) A dupla Nixon-Kissinger estava convencida de que o Kremlin, numa situação de paridade nuclear e relativa debilidade econômica, estava mais interessado em negociações de armas atômicas e em acordos para a importação de trigo dos EUA do que, por exemplo, em solidificar sua influência no mundo árabe.‖8 Então, a Doutrina Nixon deve ser analisada sob a influência da détente, principalmente, e da Guerra do Vietnã. Voltando à questão do relatório do presidente Nixon, esse confirmava o compromisso dos Estados Unidos de defender os seus aliados diante de um ataque de alguma potência nuclear. É claro que o documento se refere, nas entrelinhas, à União Soviética. Em outros tipos de conflitos, de guerra convencional, o governo estadunidense não se via obrigado a intervir diretamente. Nota-se, portanto, que a política estadunidense para o Oriente Médio observou uma diminuição dos embates com a União Soviética. Isso possibilitou ao governo de Richard Nixon construir uma política mais pragmática em defesa dos interesses estadunidenses, no Oriente Médio e menos preocupada com a ameaça soviética. 7 Ver a obra: KUPCHAN, Charles A.. The Persian Gulf and the West: The Dilemmas of Security. Boston: Allen & Unwin, 1987. 8 FUSER, Igor. O petróleo e o envolvimento militar dos Estados Unidos no Golfo Pérsico (1945-2003). Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais ―Santiago Dantas‖, da Universidade Estadual de São Paulo (UNESP), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), 2005, p. 140-141. 279 Isso não representa que os Estados Unidos deixaram seus objetivos precípuos em sua política para o Oriente Médio, na ótica da Doutrina Nixon. O que mudou foi o enfoque e não os seus interesses. Portanto, os Estados Unidos não abandonaram os seus principais interesses e objetivos no Oriente Médio. Nas décadas de 1950 e 1960, tais interesses eram eclipsados pela crescente preocupação com o nacionalismo árabe, com a emergência de regimes políticos radicais apoiados pela União Soviética. Tal doutrina passou a recorrer de forma crescente ao Irã e à Arábia Saudita, como forma de defender os interesses dos Estados Unidos, no Golfo Pérsico. Consequentemente, as despesas militares iranianas e sauditas explodiram financiadas pelas vultosas receitas oriundas do lucrativo mercado petrolífero. A Arábia Saudita, com o auxílio de Washington, instalou uma academia militar de elite para a formação de oficiais sauditas. Para o Irã, não foi diferente, pois o país do Xá Reza Pahlevi verificou na Doutrina Nixon a grande possibilidade de finalmente transformá-lo na maior potência do Oriente Médio. Os petrodólares ajudaram o Irã a construir uma grande força militar, muito maior do que a saudita. Dessa maneira, os Estados Unidos atenderam aos anseios militares e geopolíticos sauditas e iranianos, através de ajuda técnica e militar. Aviões, caças, tanques, helicópteros foram fornecidos regularmente por Washington para Riad e Teerã. O efeito direto foi o fortalecimento militar da Arábia Saudita e, principalmente, do Irã. Este aumentou consideravelmente sua presença militar na região do Golfo Pérsico, ao patrulhar, por exemplo, o Estreito de Hormuz, fundamental para a proteção e manutenção do fornecimento de petróleo para o Ocidente, através dos petroleiros. Portanto, o governo iraniano se preocupou em aumentar o seu poderio militar para se projetar em termos geopolíticos, na citada região. A Casa de Saud, destinou os novos armamentos adquiridos dos Estados Unidos, para manter e reforçar a sua política de segurança interna. Para tanto, montou a Guarda Nacional, para defender a monarquia saudita das possíveis ameaças ao seu poder, instabilidade que permanece até os dias hodiernos na Arábia Saudita. Já em 1980, o então presidente dos Estados Unidos da América, James Earl Carter (19771981), mais conhecido como Jimmy Carter, revelou ao país e ao mundo que o Oriente Médio, mais especificamente o Golfo Pérsico, era uma área importantíssima para os interesses estadunidenses, principalmente na questão de fornecimento de petróleo. Sendo assim, o democrata Jimmy Carter ao proferir o discurso anual ―O Estado da União‖ 9 (―The State of the Union‖), em 23 de janeiro de 1980, demonstrou que a região do Golfo Pérsico 9 A cada ano que se inicia, todo presidente dos Estados Unidos deve,geralmente em janeiro, apresentar ao Congresso os princípios e regras que irão ditar os rumos de seu governo, seja no aspecto interno bem como no aspecto externo. É o chamado discurso ―O Estado da União‖. 280 era vital para a geopolítica da Casa Branca. Carter salientou que se fosse necessário empregar até meios militares para que os objetivos dos Estados Unidos fossem protegidos, ele o faria10. Indubitavelmente, a Doutrina Carter representou uma considerável mudança na política exterior dos Estados Unidos para o Oriente Médio. Entre os anos de 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial, e 1979, com a Revolução Islâmica Iraniana, Washington procurou garantir o acesso ao petróleo através de uma aliança ambígua com o Reino Unido e, depois, em uma aproximação com a Arábia Saudita e o Irã. Isso pressupunha o não uso do poderio militar para conseguir alcançar as abundantes reservas petrolíferas encontradas principalmente na região próximo ao Golfo Pérsico, no Oriente Médio. Contudo, a citada transformação ocorreu porque cinco fatos históricos ocorridos na década de 1970 forçaram o Departamento de Estado e o Pentágono, nos Estados Unidos, a se adequarem aos novos tempos. O primeiro fato foi a Primeira Crise Internacional do Petróleo 11, em 1973, causado pela Guerra do Yom Kippur 12 entre Israel contra Egito e Síria. O segundo fato histórico foi a Revolução Islâmica Iraniana, em fevereiro de 1979, que derrubou o Xá Reza Pahlevi que governava o Irã desde 1953. Em seu lugar assumiu o Aiatolá Khomeini. O terceiro fato foi a Segunda Crise Internacional do Petróleo13, no biênio 1979/1980, em que os preços do barril de petróleo subiram ainda mais, agravando e colocando em risco o fornecimento do ―ouro negro‖ para os mercados ocidentais. O quarto fato ocorreu em novembro de 1979, quando um grupo de muçulmanos radicais atacou a grande mesquita localizada em Meca, colocando em risco a estabilidade política do governo saudita e o apoio dos Estados Unidos para Riad14. Por fim, o quinto e último fato histórico relevante foi a Invasão do Afeganistão pela União Soviética, em dezembro de 1979. De acordo com Igor Fuser os Estados Unidos, com a Doutrina Carter, aumentaram sua presença diplomática e política no Oriente Médio, pois existia um duplo obstáculo 10 FUSER, Igor. O petróleo e o envolvimento militar dos Estados Unidos no Golfo Pérsico (1945-2003). Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais ―Santiago Dantas‖, da Universidade Estadual de São Paulo (UNESP), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), 2005, p. 168-169. 11 a 1 Crise Internacional do Petróleo: devido ao embargo do petróleo feito pela OPEP contra os países ocidentais, ocorreu um aumento considerável no preço do barril de petróleo, passando de aproximadamente US$ 2,00 para US$ 12,00, provocado pela OPEP. Vale ressaltar que esta última utilizou o petróleo como ―arma política‖ para tentar pressionar os Estados Unidos e os países da Europa Ocidental a pressionarem Israel, para que este devolvesse os territórios ocupados na já mencionada Guerra dos Seis Dias. 12 Guerra do Yom Kippur (1973): conflito ocorrido entre Israel contra Egito e Síria, sendo que estes dois últimos realizaram um ataque surpresa no dia do Yom Kippur, ou dia do ―perdão‖, data sagrada para a religião do judaísmo. Conseqüência direta da Guerra dos Seis Dias (1967), vencida por Israel. O efeito direto foi a manutenção dos territórios ocupados e reivindicados por jordanianos, egípcios, palestinos e sírios, no caso a Faixa de Gaza, Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Colinas do Golan sob o domínio a israelense. Outro efeito foi a 1 Crise Internacional do Petróleo. 13 a A 2 Crise Internacional do Petróleo foi causada em grande parte pela Revolução Islâmica Iraniana, de 1979 e pelo início da Guerra Irã-Iraque (1980-1988). O envolvimento de dois dos mais importantes produtores de petróleo mundiais e da OPEP, fez o barril de petróleo aumentar substancialmente no mercado internacional 14 SCHUBERT, Frank N.; KRAUS, Thereza L. Tempestade do Deserto: operações da Guerra do Golfo. FONSECA, Luis Cesar (trad.). Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1998, p. 52-53. 281 ―(...) 1) assegurar o controle das reservas de petróleo do Golfo Pérsico, e 2) reagir à intervenção da URSS no Afeganistão, interpretada, ao menos publicamente, como uma ameaça.‖15 A Doutrina Carter vinculava o petróleo com a segurança do Golfo Pérsico. Tratavam-se de temas interdependentes na visão daquela doutrina. Assim, o Oriente Médio passou a ser considerado uma região prioritária para os interesses dos Estados Unidos e, em conseqüência, deveria ficar sob o controle e a proteção direta da Casa Branca. Em outras palavras, o Oriente Médio deveria ser sua área de influência, livre das ingerências da União Soviética e dos países europeus ocidentais como o Reino Unido e a França. A Doutrina Carter pode ser considerada uma ―Doutrina Monroe para o Oriente Médio‖, de acordo com o historiador Douglas Little16. A partir da Doutrina Carter, houve um aumento crescente da presença militar dos Estados Unidos no Oriente Médio, durante os governos subseqüentes como de Ronald Reagan, George H. Bush, Bill Clinton e George Walker Bush. Então, mesmo após a elaboração de novas doutrinas militares e de política externa como a Powell, Clinton, Bush e Rumsfeld, a essência da Doutrina Carter continuou presente, isto é, a forte presença militar, diplomática e política dos Estados Unidos no Oriente Médio, aliando a questão da segurança dos Estados Unidos com o petróleo. A crise no Oriente Médio, em 1990, entre o Iraque e o Kuwait, acelerou a elaboração de uma nova doutrina estratégica para os Estados Unidos. Era imperativo construir uma doutrina capaz de conjugar o uso de armas tecnologicamente avançadas, conhecidas como ―inteligentes‖, que arrasariam o inimigo, com a sua destruição para depois ocorrer uma intervenção terrestre. A idéia era causar o menor número possível de baixas de soldados estadunidenses e também de civis do adversário. A Guerra do Golfo ocorreu exatamente em uma época de transição nas relações internacionais, de agonia da Guerra Fria e do surgimento da Doutrina Powell. Destaca-se que ela foi concebida a partir da experiência negativa dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã, com a questão dos conscritos. Assim, ao final do citado conflito, o Exército dos Estados Unidos sofrerá uma profissionalização a partir de 1973. A mudança ocorreu em grande parte devido à traumática experiência envolvendo os conscritos que lutaram nas Forças Armadas Estadunidenses durante a Guerra do Vietnã (1961-1975)17. 15 FUSER, Igor. O petróleo e o envolvimento militar dos Estados Unidos no Golfo Pérsico (1945-2003). Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais ―Santiago Dantas‖, da Universidade Estadual de São Paulo (UNESP), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), 2005, p. 169. 16 Ver a obra: LITTLE, Douglas. American Orientalism: The United States and the Middle East since 1945. Chapel Hill and London: The University of North Carolina Press, 1994. 17 Ver a obra: SILVA, Carlos Leonardo Bahiense da. Guerra do Vietnã. In: SILVA, Francisco Carlos Teixeira da (coord.) [et al]. Enciclopédia de guerras e revoluções do Século XX: as grandes transformações do mundo contemporâneo. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004, p. 409-412. 282 Por conseqüência, foram criadas condições ideais para que se elaborasse uma nova doutrina militar pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos e pelo Pentágono. Era a Doutrina Powell18 que defendia a idéia de guerra limpa, com bombardeios cirúrgicos e estratégias que poupariam vidas dos aliados na guerra. Era a guerra de videogame. A idéia de zero killed (morte zero) era muito forte e importante como princípio inserido em tal doutrina. Ressalta-se, que o presidente George Bush (1989-1993), dos Estados Unidos, precisava desenvolver tal doutrina, para que permitisse ao Pentágono possuir uma capacidade estratégica de agir concomitantemente em dois lugares diferentes, em termos militares, mesmo que fossem geograficamente distantes. Assim, Estados considerados potências regionais ou aspirantes a esse posto, sem influência mundial, cujos interesses estratégicos fossem concorrentes aos dos Estados Unidos, como o Iraque, Irã e Síria, por exemplo, passaram a ser os novos inimigos dos Estados Unidos no início da década de 1990. Eram os Estados ―fora-da-lei‖. Emergiu, ainda na década de 1990 e principalmente, com os atentados de 11 (onze) de setembro de 2001, em Washington e New York, o terrorismo que também passou a ser considerado inimigo do ―Tio Sam‖. Durante os governos dos presidentes Ronald Reagan (1981-1989) e George Bush os Estados Unidos elegeram novos inimigos em sua política externa, substituindo o algoz soviético e seu socialismo. Foram eleitos, de acordo com Noam Chomsky19, quatro novos inimigos: a instabilidade econômico-política dos Estados terceiro-mundistas, o narcotráfico hispanoamericano, o terrorismo em escala internacional, principalmente no Oriente Médio e o fundamentalismo islâmico. A Doutrina Powell estabeleceu que os Estados Unidos só poderiam intervir em duas situações: quando estivessem em risco áreas com reservas de combustíveis fósseis, como petróleo, abastecedoras do Ocidente, como o Kuwait e o Iraque, no Oriente Médio; e, em áreas estratégicas consideradas essenciais para a segurança de aliados e de locais economicamente fundamentais para os Estados Unidos. Para a doutrina, o país necessita de segurança e equilíbrio no cenário internacional para poder agir. Isso quer dizer que Washington não iria intervir em todo e qualquer conflito regional. Do ponto de vista da ação militar, a Doutrina Powell ainda se faz presente e é mantida. Não se pode esquecer que ela foi substituída pelas Doutrinas Clinton e Bush, mas ainda assim, permanece atual nas intervenções militares dos Estados Unidos. O problema das baixas em combate é um tema delicado no território estadunidense desde a Guerra do Vietnã. As freqüentes comparações da Invasão dos Estados Unidos sobre o Iraque, a partir de 2003, com o conflito no Vietnã, é um claro sinal disso. 18 Ver a obra: Silva, Francisco Carlos Teixeira da. Powell (Doutrina). In: SILVA, Francisco Carlos Teixeira da (coord.) [et al]. Enciclopédia de guerras e revoluções do Século XX: as grandes transformações do mundo contemporâneo. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004, p. 703-704. 19 Conforme a obra: CHOMSKY, Noam. Novas e Velhas Ordens Mundiais. COUTINHO, Paulo Roberto. São Paulo: Scritta, 1996 (Coleção Clássica). 283 A atual intervenção militar de Washington, no Iraque, inicialmente encontrou apoio da mídia e de parcela da população estadunidense. Contudo, a euforia inicial da guerra passou e aconteceu a emergência de novos fatos que desmentiram os argumentos apresentados pelos governos dos Estados Unidos e do Reino Unido, para justificar a guerra preventiva contra o Iraque, em 2003. Os argumentos eram basicamente dois: o primeiro se referia a possíveis ligações do governo de Saddam Hussein com a rede terrorista Al Qaeda, de Osama Bin Laden. Já o segundo, era a existência de programas de desenvolvimento e de estoques de armas de destruição em massa (nucleares, químicas e biológicas). As relações estratégicas de poder de Washington na seara internacional foram organizadas e formuladas na administração do governo do presidente Bill Clinton (1993-2001), quando a Doutrina Powell foi sucedida, em termos de relações internacionais, pela Doutrina Clinton. Em abril de 1999, durante a reunião comemorativa do cinqüentenário da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), o presidente democrata Bill Clinton anunciou que os novos objetivos da organização seriam a luta contra as ditaduras e todos os regimes políticos que não fossem liberais representativos, contra as ameaças que pairavam sobre os direitos humanos e à ecologia, assim como o combate ao narcotráfico internacional. Eram os princípios que embasaram a chamada Doutrina Clinton. As causas dos direitos humanos e da ecologia se transformaram em instrumentos globais de política por parte dos Estados Unidos, através do então vice-presidente Al Gore. É óbvio pensar que o conjunto de princípios nos quais a Doutrina Clinton se embasava contrariou os interesses do setor industrial, principalmente o de energia fóssil, como o petrolífero e o Partido Republicano e a New new Right20 que julgavam a administração Clinton/Gore como sendo contrária aos Estados Unidos, além da Organização das Nações Unidas representarem e comandarem uma administração anti-estadunidense. A supremacia estadunidense, por conseqüência, far-se-ia através da imposição de seus valores, princípios, objetivos e interesses ao resto do mundo como a única forma de se conseguir e garantir a paz no globo. Pode-se observar que a gama de idéias e princípios que embasavam a política externa dos Estados Unidos, sob o governo Bill Clinton, de acordo com os seus idealizadores, em termos práticos ajudava Washington em seus interesses, seja para justificar ingerências em locais como o Iraque, seja para ignorar áreas não-sensíveis, como no caso dos conflitos étnicos envolvendo Ruanda, Burundi e República Democrática do Congo (antigo Zaire). 20 A New new Right é o setor de direita na política dos Estados Unidos que não está inserida em nenhum dos partidos políticos, no caso o Democrata e o Republicano, e que se organiza em entidades religiosas cristãs como a Christianity Identity, ou na forma de milícias armadas como, por exemplo, a Aryan Nation. Pode-se afirmar que se tratam de grupos de extrema direita defensores de que os Estados Unidos estariam perdendo espaço no mundo, acometidos por um processo violento de decadência e perda de seus valores morais, além da ameaça a identidade estadunidense consubstanciada pela sigla WASP (White, AngloSaxon e Protestant). 284 Percebe-se, então, que durante os dois mandatos do presidente Bill Clinton (1993-2001), a política externa dos Estados Unidos alicerçou-se sobre a mistura de realpolitik e de princípios e idéias wilsonianas. Entretanto, tal cenário nas relações internacionais iria mudar muito com a eleição do candidato republicano postulante à Casa Branca, George Walker Bush, em 2001. O establishment conservador governamental conduziu os Estados Unidos, entre os meses de janeiro e setembro de 2001, portanto antes dos Atentados de 11 de setembro, para uma política externa conservadora, bastante focalizada nos interesses estadunidenses em detrimento do mundo. Então, tal política externa unilateral, defensora árdua dos interesses estadunidenses, foi chamada pelo Departamento de Estado de ―multilateralismo à la carte‖. Washington se reservou o direito de analisar e agir pontualmente cada questão internacional, de acordo com os seus interesses, mesmo que fosse necessário infringirem tratados ou o próprio direito internacional. O governo dos Estados Unidos recusou participar da Corte Penal Internacional de Haia, do Protocolo de Kyoto, da Convenção sobre Armas Portáteis, de restrições ao uso de minas terrestres, do controle sobre armas químicas de destruição de massa e do acordo de limitação de mísseis com a Rússia. Em situações internacionais bastante delicadas, como o caso do Iraque, no Oriente Médio, Washington se recusava a agir em determinados momentos e em outros, seguia um caminho próprio, sem levar em consideração os tradicionais aliados, como os europeus e também organizações internacionais, como as Nações Unidas. Tratava-se de um unilateralismo perigoso para a estabilidade internacional. Na seara econômica internacional, o governo estadunidense tratou de erigir a defesa de seu próprio espaço econômico, com a luta pela criação do Acordo de Livre Comércio das Américas (ALCA) e da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC), para enfrentar a União Européia e os países do Leste e Sudeste Asiático, como a emergente República Popular da China. Tais ações unilaterais estadunidenses se intensificaram no cenário internacional após os atentados terroristas de onze de setembro de 2001, em New York e Washington. No mesmo mês, o presidente George Walker Bush reafirmou que os Estados Unidos lutariam com afinco e grande força, perante os congressistas do Capitólio, contra o terrorismo internacional, sem a interferência e mediação de organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas, através do estabelecimento de uma política de combate estadunidense para eliminar tal problema. A Doutrina Bush, cada vez mais institucionalizada e presente nas entranhas do aparato estatal dos Estados Unidos, foi colocada em prática no sentido de preparar as Forças Armadas Estadunidenses para a invasão ao território iraquiano. Vale lembrar que a nova doutrina se tornou mais explícita a partir de 2002, quando Condoleeza Rice afirmou que, diferentemente da Guerra Fria, não bastava possuir grande quantidade de armas de destruição em massa para convencer o inimigo de não atacar, pois as forças inimigas se apresentariam dispersas e múltiplas, isto é, sem alvos a proteger. Então o 285 território deveria ser redefinido para efeito de estratégia de guerra. As idéias de Condoleeza Rice foram amplamente aceitas por Bush, em seu discurso realizado no dia 30 de janeiro de 2002, ao afirmar na época que os Estados Unidos detinham o direito de realizar ataques preventivos contra países que estivessem desenvolvendo armas que ameaçassem a sua segurança. Seria o caso do Iraque. As ações dos Estados Unidos no cenário mundial sempre objetivaram intervir em países onde os conflitos ou crises coloquem em risco os interesses estadunidenses. Mesmo a Doutrina Powell ter sido substituída nas relações internacionais, vale mencionar que na área militar ela ainda permanece no interior da Doutrina Bush. A Invasão ilegal do Iraque pelos Estados Unidos, em 2003, e a preocupação constante da opinião pública estadunidense com a questão das baixas são fortes indícios da manutenção da essência da Doutrina Powell. Os Estados Unidos, com base na Doutrina Bush, então intensificaram várias ações militares de caráter preventivo, isto é, fez uso da chamada guerra preventiva para se defenderem de qualquer ameaça a sua segurança nacional. Lamentavelmente, o governo do presidente George Walker Bush passou a usar um discurso de cunho religioso, leia-se cristão, contra o chamado eixo do mal (Iraque, Irã e Coréia do Norte)21. Na área econômica a Doutrina Bush era contraditória, pois defendia um forte protecionismo ao mercado interno, principalmente nos setores mais frágeis em termos competitivos de sua economia, como o agrícola e o industrial e também um liberalismo extremo, através da livre circulação de capitais e a redução dos tributos às empresas e grupos mais ricos do país. E foi quando a Doutrina Bush ainda estava sendo aplicada, mormente na política externa estadunidense, que começou a nascer uma outra doutrina: a Rumsfeld. Desde o fim da Guerra Fria os Estados Unidos têm vivenciado contínuas mudanças no seu pensamento tático para travar guerra. Atualmente, os Estados Unidos parecem caminhar segundo João Fábio Bertonha, para um novo paradigma militar, consubstanciado pela Doutrina Rumsfeld. Não se trata de uma transformação no modo de ver a guerra por Washington, com raízes no modelo ocidental, mas de uma nova forma de operacionalização militar22. Contudo, o modo de agir dos pensadores do Pentágono se modificou consideravelmente a partir da década de 1970 devido à ocorrência de dois fatos: o primeiro foi a Guerra do Vietnã e o segundo, foi a certeza de que uma guerra com a União Soviética, de acordo com a velha forma de guerrear, poderia ser desastrosa para os Estados Unidos, devido a grande superioridade numérica soviética. 21 MUNHOZ, Sidnei José. Apontamentos para uma reflexão sobre política imperial e conflitos internacionais relacionados aos Estados Unidos (do final do século XIX ao tempo presente). In: VI Encontro Nacional de Estudos Estratégicos, 2006, Rio de Janeiro. VI Encontro Nacional de Estudos Estratégicos – apresentação dos Conferencistas. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação da Marinha, 2006. p. 91. 22 Ver a obra: BERTONHA, João Fábio. ―A Doutrina Rumsfeld: Novo paradigma da guerra moderna?‖. In: A Defesa Nacional. Rio de Janeiro, set/out/nov/dez 2003, ano LXXXIX, n. 797: pp.179. 286 A Guerra do Vietnã (1961-1975) demonstrou de forma implacável que a superioridade e poder militar esmagador são inúteis contra um adversário que evita um confronto decisivo, optando por arrastar o embate bélico por um longo tempo, sem perspectiva de soluções e com muitas baixas. As Forças Armadas Estadunidenses perceberam que uma intervenção em um país do Terceiro Mundo só teria sucesso caso fosse rápido, objetivo, com estratégia bem definida e ampla superioridade. Enquanto permaneceu no seu cargo de secretário de Defesa dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld, principalmente durante o primeiro mandato do presidente George Walker Bush, a partir de 2001, passou a ser um grande defensor dessa mudança. O uso cada vez maior de forças leves, munidas de alta tecnologia, com intensivo apoio aéreo, bombas inteligentes e de modernos sistemas de informação seria necessário diante de Estados beligerantes como de organizações terroristas. A presença de grandes quantidades de soldados e tanques seria diminuída na mesma proporção. No primeiro trimestre do ano de 2002, o secretário de Defesa Donald Rumsfeld, apresentou o Plano de Defesa que foi aplicado e concretizado na Segunda Guerra do Golfo, em 2003, quando os Estados Unidos invadiram o Iraque. Percebe-se, então, que o Plano de Defesa defendido por Rumsfeld e parte do Pentágono era a base para a implantação de uma nova doutrina militar, a Doutrina Rumsfeld. Tal plano, como já mencionado anteriormente, foi usado na Invasão do Iraque, em 2003, e defendia uma série de 6 (seis) idéias fundamentais para o seu funcionamento. A primeira era de que a ação militar deveria promover uma campanha para que se negasse asilo político aos líderes inimigos em qualquer lugar do mundo. A segunda idéia defendia a fundamental proteção dos canais de informação na guerra. Já a terceira objetiva uma coordenação sincrônica e coordenada entre a Marinha, Aeronáutica e Exército dos Estados Unidos. A quarta é bastante desafiadora, pois sustenta ser necessário que uma nova estrutura de poder seja construída e mantida no local que foi invadido, mesmo que seja distante. O quinto ponto é que o território estadunidense e suas bases militares espalhadas pelo mundo devem ser defendidas com segurança. Já a sexta e última idéia almeja que o acesso ao espaço seja sem qualquer objeção, ao mesmo tempo, que o sistema de defesa do espaço fosse protegido contra qualquer ameaça do adversário. Os pontos acima levantados demonstram o quanto é complexo colocar em prática os princípios da Doutrina Rumsfeld. Isso é agravado pela necessidade indubitável de se manter os pontos estratégicos conquistados. Para tanto, é imprescindível o apoio da população, a interação entre as Forças Armadas, utilização de ataques preventivos como forma de defesa, a formação de uma aliança de países dentro do chamado multilateralismo à la carte e a utilização de forças terrestres combinadas com forças especiais e aéreas. Não se pode esquecer-se de mencionar que o Plano de Defesa, de Rumsfeld, não aceitava a idéia de que os Estados Unidos deveriam agir simultaneamente em duas situações de guerra, ao mesmo tempo, defendida pela Doutrina Powell e exposta pelo Pentágono em maio de 287 1997. Donald Rumsfeld também rejeitava a estratégia baseada em tratados e também a utilização de grande quantidade de soldados nos fronts numa guerra assimétrica, contra um inimigo nãoconvencional ou de força militar infinitamente menor. A Doutrina Rumsfeld, em plena construção foi testada pelos Estados Unidos no Afeganistão, em 2001, e parcialmente no Iraque, em 2003, quando da invasão estadunidense. Mesmo assim, foi necessário o uso de infantaria e de batalhas terrestres com armamento pesado, para Washington vencer as guerras, seja com a Aliança do Norte, no primeiro caso, ou com o exército anglo-estadunidense, na segunda situação. As experiências vivenciadas pelos Estados Unidos, na Guerra do Golfo, de 1991, provaram o quão imprescindível foi a atuação do exército contra o Iraque, mesmo após o intensivo bombardeio aéreo com ―armas inteligentes‖ e ―cirúrgicas‖. Tal aprendizado se verificou durante a Invasão estadunidense sobre o Iraque, em 2003, na Segunda Guerra do Golfo. Então, o que ajudou a derrotar o Iraque, tanto na Primeira (1991) quanto na Segunda Guerra do Golfo, em 2003, foram os bombardeios cirúrgicos, a alta tecnologia bélica e as ―armas inteligentes‖, com o objetivo de reduzir a capacidade de defesa do inimigo ao máximo para que depois fossem usados infantaria, tanques e soldados. Nota-se nos exemplos acima, principalmente no caso da Invasão do Iraque feita pelos Estados Unidos, em 2003, que a experiência da Primeira Guerra do Golfo foi fundamental. Mesmo que a Doutrina Powell não seja mais usada nas relações internacionais, ela continua muito presente nas ações militares dos Estados Unidos. Preocupações como a questão das baixas em guerra, o uso de alta tecnologia, os bombardeios ―cirúrgicos‖, a coordenação de poder aéreo e terrestre e a troca de informações estão presentes nas doutrinas que a sucederam. Mesmo que a Doutrina Powell não tenha representado, de acordo com João Fábio Bertonha, uma mudança completa de paradigma militar, percebe-se que as suas citadas premissas militares foram e estão sendo aperfeiçoadas pelas Doutrinas Clinton, Bush e a Rumsfeld, principalmente para se evitar um número elevado de baixas e para se defender os interesses dos Estados Unidos no mundo. Em concordância com João Fábio Bertonha23, a Doutrina Rumsfeld poderá ser muito eficaz em uma guerra contra inimigos que não sejam Estados armados com grande tecnologia, caso as suas condições políticas locais sejam propícias e também grupos terroristas. Contudo, para lutarem contra países fortes, armados e estáveis politicamente, a força pesada e as pretéritas doutrinas militares ainda são imprescindíveis. Todavia, ressalta-se que a Doutrina Rumsfeld, de acordo com os rumos trilhados pelo governo de Barak Obama, desde janeiro de 2009, não se concretizou e já se fala em uma nova Doutrina, a Obama, ainda em fase de construção e consolidação. 23 Ver a obra: BERTONHA, João Fábio. ―A Doutrina Rumsfeld: Novo paradigma da guerra moderna?‖. In: A Defesa Nacional. Rio de Janeiro, set/out/nov/dez 2003, ano LXXXIX, n. 797: pp.178-181. 288 CONSIDERAÇÕES FINAIS Verificou-se, em primeiro lugar, que os Estados Unidos, principalmente desde o pósSegunda Guerra Mundial, erigiu suas doutrinas nas áreas militar, diplomática e de relações internacionais, para defender destacadamente os seus interesses econômicos, políticos e geopolíticos, independente de qual partido estivesse comandando a Casa Branca, no caso o Democrata ou o Republicano. Assim, tais doutrinas permitiram que a águia estadunidense voasse e a ajudasse a se transformar e manter-se como uma grande potência mundial. Em segundo lugar, nota-se que mesmo quando uma nova doutrina era oficializada, institucionalizada e coloca em prática, os princípios e idéias principais da doutrina anterior muitas vezes permaneciam e influenciavam-na. Foi o que ocorreu com as Doutrinas Powell e Bush, que foram influenciadas, na questão da defesa dos interesses estadunidenses petrolíferos, no Oriente Médio, por meio do uso da força militar direta, pela Doutrina Carter. Como terceira consideração, deve-se ressaltar que a compreensão da política externa estadunidense é de suma importância para a melhor compreensão de como funciona e da estrutura de poder internacional, pois o hodierno sistema de relações internacionais foi construído por meio da atuação firme e multilateral dos Estados Unidos, refletindo os seus interesses, por meio das citadas doutrinas. Como quarta e última consideração salienta-se que a temática das doutrinas de política externa dos Estados Unidos é pouco estudada e trabalhada no Brasil, em termos acadêmicos. Mesmo o Brasil tendo importantes relações comerciais, geopolíticas e históricas com os Estados Unidos, a produção acadêmica brasileira sobre tal temática ainda é muito pequena. Apesar de toda a crise econômica e da perda de influência dos Estados Unidos no mundo, atualmente, não se pode esquecer que Washington ainda terá grande papel no equilíbrio e na economia internacional no século XXI. Assim, compreender e estudar sua política externa, através de suas doutrinas, é um caminho interessante para poder permitir ao Brasil entender e aprender como ela funciona e assim, construir e defender melhor os interesses brasileiros na seara internacional. 289 BIBLIOGRAFIA BERTONHA, João Fábio. ―A Doutrina Rumsfeld: Novo paradigma da guerra moderna?‖. In: A Defesa Nacional. 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Monografia de Especialização apresentada Curso de Especialização em História Social e Ensino de História, do Departamento de História do Centro de Letras e Ciências Humanas, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), 2006. ___________. Tempestade no Iraque: a Guerra do Golfo, a Política Externa dosEstados Unidos, a Historiografia Militar e a Imprensa Escrita Brasileira (1990-1991).Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), 2008. 291 AS CONJUNTURAS DA CONSTRUÇÃO DE BRASÍLIA Sara Cesar Brito Universidade do Estado do Rio de Janeiro Faculdade de Formação dos Professores [email protected] RESUMO: A construção de Brasília se deu na segunda metade dos anos 50 por Juscelino Kubitschek atendendo a uma medida proposta desde o início do século. Vários estudos realizados pelo próprio governo resultaram na construção e transferência do Distrito Federal para o Planalto Central em um contexto de desenvolvimento e abertura do País ao Capital Estrangeiro. Buscando analisar as conjunturas desse período, esse trabalho visa responder a seguinte pergunta: Como o contexto político-econômico vivenciado nessa época influenciou no processo da construção da nova Capital? PALAVRAS CHAVES: Brasília; desenvolvimento social; política INTRODUÇÃO Nos últimos anos, o governo JK vem sendo colocado em voga na comunidade midiática de modo bem intenso. Em 2006, aniversário de 30 anos da morte deste, surgiram livros de jornalistas como Francisco Viana — ‖A Saga de um Herói Brasileiro‖ — e a minissérie global ―JK‖, mostrando o presidente desde sua infância até a morte, misturando vida pessoal e política, construindo uma imagem de presidente perfeito que fazia tudo transparente e em conjunto com a população. Outro fato que trouxe esse tema a tona recentemente, foi a comemoração do Cinqüentenário de Brasília, trazendo consigo inúmeros debates e discussão acerca de sua construção e importância para o projeto de desenvolvimento do país. Nessa perspectiva, o artigo foi desenvolvido no intuito de verificar como se deu o projeto de construção de uma nova capital distante da onde os eventos políticos ganhavam fervor e um risco de combustão maior. A primeira parte do texto buscou-se contextualizar os projetos acerca da transferência do Distrito Federal, na segunda parte apresentou-se a chegada de um novo elemento para o entendimento econômico do Brasil que pode ser representado por uma ascendente burguesia industrial, e encerra-se com a explanação das mudanças empreendidas para a construção em si. O CONTEXTO HISTÓRICO DA CONSTRUÇÃO DE BRASÍLIA Ao contrário do que muitos pensam, a interiorização da capital não foi uma medida idealizada apenas por Juscelino Kubitschek. É recorrente na bibliografia nacional a referência direta ao governo JK dessa importante política territorial, que trouxe conseqüências políticas, 292 econômicas e sociais importantes para o conjunto do país, para a Região Centro Oeste e, sobretudo, para a cidade e estado do Rio de Janeiro. A disseminação dessa idéia reduz o alcance analítico do fato de que a transferência, como em geral todas as políticas territoriais, são produtos da historia social (Lefebvre, 1976:29) e que devemos resgatar essa história para compreendermos todo o processo e considerar os fatos que realmente influíram nesse deslocamento da capital para Brasília. Devemos sempre ter em conta que essa transferência não foi um capricho de JK e que deve ser compreendida como uma ação que resultou para um maior conhecimento do interior Brasileiro, uma integração maior entre todas as regiões do país, antes sem comunicação (por exemplo a Região Norte, Nordeste e Centro-Oeste eram isoladas das outras em termos de estradas, ferrovias e demografia) e uma mudança política importante para o Estado da Guanabara, antiga capital federal. As primeiras discussões sobre a transferência da capital do Rio de Janeiro podem ser localizadas nos Autos da Devassa da Inconfidência Mineira, onde encontramos registros de que os inconfidentes tentavam influir no deslocamento do Distrito Federal para Minas Gerais. Para eles, além da maior segurança contra ataques externos, era crucial a presença da capital no setor onde se encontravam os principais minérios como o ouro (apesar do declínio da mineração nessa época, ela ainda era a principal atividade da região). Como a revolta não foi bem sucedida, essa idéia só voltaria com José Bonifácio, que dedica uma de suas Memórias para essa proposição à Assembléia Legislativa do Império do Brasil em 1823 – onde o futuro nome ―Brasília‖ aparece como indicação pela primeira vez. Contudo, com a perda de popularidade do então imperador D. Pedro I, a busca pela nãofragmentação do território brasileiro, os problemas que surgiriam como o conturbado período Regencial e a posterior pressão pela abolição da escravidão, a transferência da capital não foi tida como necessária no momento. Já com a Proclamação da República em 1889, a questão do Distrito Federal ganha importância, aparecendo como Emenda em 1890 na Constituição Provisória da República e ganhando um espaço na seção de ―Organização do País‖ da Constituição oficial de 24 de Fevereiro de 1891. Nesse momento, o governo federal organiza uma Comissão para cuidar desse tema e lança uma missão de reconhecimento e exploração do Planalto Central que ficou conhecida como Missão Cruls1. Eles tinham como objetivos enviar relatórios a respeito do território e mapeá-lo buscando a melhor localização para demarcação dos 14.440 Km reservados à futura Capital. Essa Missão foi importante para o conhecimento do interior do país e de espécies biológicas que ali se abrigavam, porém o sucesso da missão e a demarcação do chamado Quadrilátero Cruls não foram suficientes para fazer com que a construção fosse posta em prática. Os planos estagnaram e os posteriores eventos só pioraram o ―esquecimento‖ do projeto previsto na Constituição. 1 O nome dessa Missão é em referência ao chefe da missão e o remetente dos relatórios ao governo, o astrônomo belga Luís Cruls. Para maiores informações, os documentos se encontram no Arquivo Público do Distrito Federal. 293 Com a redemocratização do país em 1945 e a nova Constituição Federal em 1946, Brasília volta ao cenário político como uma Disposição Transitória e uma Comissão é montada a fim de planejar e organizar a dita transferência. A Comissão Poli-Coelho como foi denominada não deu passos realizadores, mas efetuou mais alguns estudos a respeito do tema e localização e acirrou uma discussão: a capital deveria ser no Planalto Central (como dizia a Constituição) ou no Triângulo Mineiro? Mesmo com a discussão e as convulsões políticas e econômicas geradas pela eleição e posterior suicídio de Vargas, o projeto teve continuidade durante o governo interino de Café Filho. Sendo finalmente realizado pelo presidente e auxiliado por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. CONJUNTURA ECONÔMICA BRASILEIRA NO PERÍODO VARGAS 1930/54. A compreensão do processo histórico de transferência da capital para o centro Oeste, portanto, nos obriga a analisar as conjunturas que resultaram nesse processo, isto é, o momento em que ele se deu. Segundo Chico de Oliveira em seu livro ―Crítica a Razão Dualista‖, o Brasil iniciou um processo de intensa industrialização e mudança da sociedade a partir do marco que ficou conhecido como Revolução de 30. Esse evento, que fez de Getúlio Vargas presidente do Brasil, tendia a mudar as estruturas sócio-econômicas, como o fim da sociedade oligárquica agrária que tomou conta da sociedade desde o império e a implantação do industrialismo. Essa Revolução é bastante discutida no âmbito acadêmico, sendo entendida como Golpe por alguns autores – Thomas Skidmore é um exemplo –, ou como uma ―tentativa‖ de Revolução Burguesa no Brasil. Essa segunda visão defendida por Florestan Fernandes se justifica pela idéia de que os protagonistas desse momento buscavam uma cisão no modelo político e agro-exportador implantado e realizado durante toda a duração da primeira República. A crise de 1929 foi importante nesse processo de rompimento com a política agroexportadora e incentivou a urgência de um projeto industrializante no país, já que a compra das sacas de café haviam se rareado. Não seria a primeira vez, já que o setor cafeeiro cresceu além da demanda exportadora, e vinha encontrando problemas com os excedentes que não eram vendidos, desde Campos Salles. O que vemos é a emergência de um governo que vai tentar mudar o foco econômico ao invés de simplesmente comprar as sacas e queimá-las mascarando um problema estrutural. Vargas continuará o processo de compra e destruição do excedente, porém desde que esses grandes fazendeiros e produtores passassem a investir em indústrias no setor urbano. Por essa idéia, temos uma mudança do eixo econômico do país que começa a investir no setor industrial e urbano, porém não temos a mudança da classe dominante nacional. As mesmas pessoas que antes faziam parte de uma política agro-exportadora continuariam participando ativamente do país, seja no Conselho Nacional do Café, seja no financiamento industrial. A burguesia brasileira está associada aos interesses cafeeiros e não é raro verificar industriais 294 comprando fazendas e vice-versa (Roberto Simonsen é um grande exemplo disso), mostrando a faceta arcaica do moderno. Como Fernandes demonstra: ―O subdesenvolvimento econômico não só envolve a perpetuação de estruturas econômicas mais ou menos arcaicas. Promove a modernização limitada ou segmentada em todos os níveis da organização da economia da sociedade e da cultura, ou seja, o subdesenvolvimento paralelo e todas as esferas da vida.‖2 A fim de lidar com esse novo eixo econômico, Vargas empreende novas estruturas para a sociedade como a legislação trabalhista com a criação da carteira de trabalho, instituição do salário mínimo e de 8 horas diárias de trabalho, entre outras; melhorias no ensino público como a obrigatoriedade do ensino fundamental e a criação de escolas técnicas e a mudança no sistema eleitoral incluindo a participação feminina no sufrágio. Isso, acrescido do aumento no número de ofertas de emprego, lhe dá a caracterização como ―pai dos pobres‖, porém sem nunca deixar de nacionalizar os interesses da classe dominante do país o que lhe rendeu o epíteto ―mãe dos ricos‖. Com Vargas, a não intervenção do Estado típica do liberalismo dá lugar a presença de um Estado forte que direciona o processo de industrialização e desenvolvimento através da criação de indústrias de base como a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), a Companhia Vale do Rio Doce e, mais tarde, no segundo governo, a Petrobrás e a Eletrobrás. Porém o fim da Segunda Guerra Mundial e a fortalecida saída dos Estados Unidos do confronto fazem com que haja uma pressão destes pela importação não só de produtos, mas das empresas conhecidas como multinacionais. Vargas ainda tentou resistir ao processo aprovado por seu sucessor Dutra, e no segundo governo (1950-1954) buscou através da Lei de Remessa de Lucro diminuir esse processo, porém com o seu suicídio, o projeto industrial vai ganhar o reforço de capitalização estrangeira. A CONJUNTURA DE MUDANÇAS Juscelino Kubitschek chega a Presidência em 1955 através de uma campanha política que pregava o desenvolvimento econômico através da realização bem-sucedida de um Planejamento baseado nos dados econômicos do país desde 1941, que ficou conhecido como Plano de Metas. Esse programa era uma lista de metas que deveriam ser alcançadas durante os cinco anos de governo, a fim de que o Brasil chegasse ao status quo de país industrializado e desenvolvido. Numa divisão que poderia lembrar parcialmente a do fracassado Plano SALTE3, lançado durante 2 FERNANDES, Florestan. Classes Sociais na América Latina. In: Capitalismo Dependente e classes sociais na América Latina. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1975, pp. 64. 3 O Plano SALTE, foi um programa de governo empreendido pela administração Dutra, buscando investimentos nas áreas de Saúde, Alimentação, Lazer, Transporte e Energia. Esse programa foi um fracasso. 295 o governo Dutra, trinta metas se dividiam em cinco grandes grupos de trabalho: Energia, Transporte, Alimentação, Indústrias de Base e Educação, e ajudaram o restabelecimento da estabilidade política após o conturbado problema da posse, segundo Benevides: ―Juscelino Kubitschek assumiu a presidência numa situação de ‗legitimidade‘ contestada, oposição radical, queda da taxa de crescimento, crise econômicofinanceira gerada pela herança de uma estrutura de produção caótica, de desequilíbrios e graves pontos de estrangulamento. [...] O Programa de Metas seria, pois, o elemento propiciador da catálise política através da qual a ligação governo-sociedade seria tentada e finalmente conseguida no decorrer do período.‖4 Apoiado no sucesso realizado enquanto governador de Minas Gerais do Binômio ―Transporte e Energia‖, o Presidente objetivava uma maior integração e aceleração do processo de industrialização do Brasil. Por isso o acréscimo da transferência do Distrito Federal para o Planalto Central, considerado uma inclusão de ―última hora‖ - JK em uma de suas memórias escreve que essa idéia só se tornou parte de seu Programa após um comício em Goiás, onde um dos ouvintes a mencionou como item constitucional5 – se estabeleceu como a Meta-Síntese de seu programa governamental. Por ter sido pensada e situada em um território considerado como ―o coração do Brasil‖, exigia todo um desenvolvimento nos transportes através de uma demanda de construções de estradas e hidrelétricas que melhorassem a distribuição e comunicação entre todos os estados e regiões do Brasil, possibilitando assim a realização dos itens do planejamento dos ―50 anos em 5‖. Apesar de estar na ―ordem do dia‖ da agenda constitucional como vimos no primeiro ponto, a idéia juscelinista de sua efetuar sua plena construção durante os cinco anos de governo colecionava impressões no Congresso: Para udenistas, principais opositores de Juscelino, não passava de um ―sonho delirante‖; Para o presidente e seus correligionários, representava o sonho em debate no Congresso há tempos; Para os brasileiros influenciados pelo discurso modernizador de JK, Brasília viria a representar a concretização de novos tempos para o país. A descrença na realização dessa empreitada era paupável no Congresso, apesar da aprovação da data de inauguração para o dia 21 de abril de 1960. Todos gostariam de ―pagar para ver‖ como Kubitschek iria conseguir tal feito. Os debates internos não levavam em conta o principal elemento com o qual o governo de JK dispunha. O financiamento externo e privado era favorecido pela conjuntura internacional e se tornara o principal recurso utilizado pelo segmento considerado desenvolvimentista não só no Brasil, mas em toda a América Latina. 4 BENEVIDES, Maria Vitória. O Governo Kubitschek: Desenvolvimento Econômico e Estabilidade Política. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2001, 4ª Ed. pp. 211-212. 5 KUBITSCHEK, Juscelino. Como Construí Brasília. Brasília, Senado Federal, v. 70, 2006, 3ª Ed. 296 ―O Estado opera através de uma estrutura fiscal primitiva e extremamente regressiva, como que fatalmente incorrerá em déficits crescentes, numa curiosa forma de aumentar até limite sua dívida interna sem mutuários credores. (...) Dessa forma, a aceleração que se tentará movimentar-se-á em assincronia com a estratégia política dos países centrais, do que resultará quase nenhum financiamento de governo a governo. Nessas circunstâncias, recorre-se ao endividamento externo privado de prazos curtos, o que acarretará pressões sobre a balança de pagamentos, numa etapa em que a elasticidade da exportação perante o crescimento do produto é relativamente nula.‖6 O que Francisco de Oliveira enfatiza nesse trecho nada mais é do que a necessidade de recursos para que não só Brasília seja construída, mas também que todo o Programa seja viável. O sistema capitalista no Brasil e na América Latina não possuía recursos para crescer por si só, então buscava-se o que ficou marcado em uma charge da Revista Careta de 17 de Março de 1956 de ―lubrificação‖ para as engrenagens funcionarem melhor. Essa ―lubrificação‖ foi conseguida através de algumas ações governamentais como: a política de crédito a fim de canalizar investimentos privados para as indústrias de bases, isenção da necessidade de providenciar cobertura cambial externa para as empresas estrangeiras, tarifas protecionistas aos produtos importados, obrigatoriedade de associação dessas empresas estrangeiras a empresas nacionais e a importação de tecnologias e projetos já prontos e não o chamado know how. Oliveira também deixa claro que a maior quantidade de financiamentos veio não dos Estados Unidos como se costumava pensar, mas, sobretudo, do Mercado Comum Europeu, dado já analisado também por Maria Vitória Benevides (2001). Interessante pensar que o novo Distrito Federal do Brasil construído no meio de um deserto no interior viesse a ser o símbolo de desenvolvimento de um país latino-americano. Com uma arquitetura e projeto urbanístico arrojado e moderno, Brasília foi erigida com dois objetivos principais: O primeiro seria o de mostrar aos países tidos como centrais ou desenvolvidos que o Brasil poderia ser inserido no ―concerto das nações‖, eliminando assim a imagem do Brasil como um país de ‗jecas‘; O segundo objetivo fica demonstrado na leitura do trecho de Florestan Fernandes: ―Entre os fatores externos à economia, os elementos que parecem mais importantes para a consolidação, o rendimento e as probabilidades de autonomização progressiva (até o presente, apenas parcial) são o tamanho da população e as probabilidades de excluir os centros de decisão (especialmente ao nível da política econômica e do funcionamento do Estado) de tendências ao incremento à participação social pelas massas (especialmente assalariados e despossuídos).‖7 Através dessa leitura fica evidente que o segundo objetivo é a retirada dos centros políticos de poder dentre a convulsão populacional que só tendeu a aumentar desde o suicídio de Vargas. 6 OLIVEIRA, Francisco. A Aceleração do Plano de Metas: As Pré-condições da Crise de 1964. In: Crítica a Razão Dualista/ O Ornitorrinco. São Paulo, Boitempo Editorial, 2003, pp.72-73. 7 FERNANDES. Op. Cit. pp. 55. 297 O temor de um levante populacional incentivado pelo sindicalismo ou o tão temido comunismo, buscava nesse isolamento político certo nível de estabilidade fora da população. Como o Rio de Janeiro crescia cada dia mais demograficamente e a localização das instituições decisórias da política nacional ficava tão próxima dos centros populacionais a idéia era retirar dali e buscar a segurança do deserto Planalto Central. Assim a burguesia nacional enfraquecia ainda mais o caráter político da população mais pobre no momento em que as retira do meio governamental, algo que é negativamente compreendido por Fernandes. Para esse autor, a burguesia brasileira se enfraquece quando elimina o seu oponente não tendo assim ninguém que possa disputar o poder ou formar projetos políticos como ocorre em outros países capitalistas. CONCLUSÃO Como podemos ver Brasília surge em meios a grandes transformações sistemáticas do país tanto na parte política como na parte econômico-social do Brasil. A ascensão de uma burguesia industrial, sem que se perdesse o caráter agro-exportador completamente é tido como algo típico e específico do processo de desenvolvimento capitalista realizado no Brasil e em outros países latino-americanos. A acumulação primitiva de capital realizada pelos setores rurais era o grande combustível do processo industrial e urbano do país, mantendo-se assim o controle hegemônico nas mãos dos mesmos personagens do cenário político nacional. Através da visão de Florestan Fernandes, Francisco de Oliveira e Rui Mauro Marini, o tido ―atraso econômico brasileiro‖ perante outras nações pode ser explicado pela visão deles de capitalismo dependente. A dependência era causada pela necessidade da classe dominante de manter na ordem do dia os seus interesses, através de um desenvolvimento que teria sido produzido a partir de necessidades de acumulação e não de consumo e, portanto, não buscava o desenvolvimento de um projeto nacional, já que não havia investimento para tal. Porém ao entendermos o objetivo do isolamento do Distrito Federal dos pontos de convivência da população a fim de evitar manifestações e efervescências de idéias em um lugar estruturalmente frágil como o Rio de Janeiro8, começamos a nos perguntar se essa medida realmente deu certo. No quesito político, temos a manutenção do Distrito Federal na cidade construída, contudo não temos uma seqüência democrática estável para afirmar com precisão. Afinal, JK apenas construiu e inaugurou, Jânio Quadros eleito seu sucessor renunciou com seis meses de governo e Jango, seu vice, foi deposto com a instituição do Governo Militar que durou vinte anos. O Rio de Janeiro também não sentiu sua temperatura abaixar, no momento em que as principais manifestações contra a ditadura se deram em seu território. Quais foram as conseqüências dessa transferência no futuro Estado da Guanabara, então? Isso é outro assunto a ser abordado posteriormente. 8 Digo que o Rio de Janeiro era estruturalmente frágil, pela quantidade de ruas estreitas e vielas, ótimas para a formação de barricadas e outros tipos de manifestações. 298 BIBLIOGRAFIA ARVIN-RAD, Hassad; WILLIEMSEN, Maria José; WITTE, Ann Dryden. Industrialização e Desenvolvimento no Governo Vargas: Uma análise empírica de Mudanças Estruturais. In: Estudos Econômicos. São Paulo: USP, v. 27, n. 1, 1997, pp. 127 -166. BENEVIDES, Maria Vitória. O Governo Kubitschek: Desenvolvimento Econômico e Estabilidade Política. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2001, 4ª Ed. FERNANDES, Florestan. Capitalismo Dependente e classes sociais na América Latina. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1975. LEFEBVRE, Henri. Espacio y política. Ediciones Península, 1976. KUBITSCHEK, Juscelino. Como Construí Brasília. Brasília, Senado Federal, v. 70, 2006, 3ª Ed. MARINI, Rui Mauro. Dialética da Dependência. Petrópolis, Editora Vozes, 2000. OLIVEIRA, Francisco. Crítica a Razão Dualista/ O Ornitorrinco. São Paulo, Boitempo Editorial, 2003. SKIDMORE, Thomas. Brasil de Getúlio a Castelo (1930-1964). Rio de Janeiro, Editora Saga, 1969. 299 ANEXO 1 REVISTA CARETA, 1956, Número 2.490. Disponível em: http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_periodicos/careta/careta_1956/careta_1956_2488. pdf 300 É PROÍBIDO TRANSGREDIR: A RELAÇÃO DO PCB COM OS ARTISTAS E INTELECTUAIS COMUNISTAS (1945-1953) Tiago João José Alves1 Mestrando em História - Universidade Estadual de Maringá [email protected] RESUMO: A partir de 1945, o PCB abrigou em suas fileiras uma respeitável quantidade de intelectuais e artistas, eles encontravam no partido um ambiente propício para encampar a luta pelo fim dos dilemas da humanidade. Ao reluzir o astro da democracia no país, ainda que brevemente, o PCB experimentou os aportes e vivências daqueles que rejeitavam o fascismo e o nazismo, dos que se interessavam pela libertação da ciência, da cultura, da arte, que almejavam o uso da racionalidade e desprezavam a ―decadência‖ da sociedade capitalista. O partido viveu duas etapas, na primeira fase, de 1945 a 1947, a adesão de nomes respeitáveis foi expressiva, pois o PCB representava pioneirismo e criatividade em seu projeto artístico/cultural, emanando renovação estética aos olhos dos atentos observadores. Na segunda fase, de 1947 a 1953, sofreu um duro êxodo: grande parte do contingente que havia ingressado na organização abandonou o partido. Através da doutrina do Realismo Socialista, perspectiva que dominou os ambientes partidários comunistas, combinada às intransigências, ao enrijecimento e ao controle da produção de escritores e artistas, o partido afastou aqueles que buscavam liberdade e renovação. No presente texto, pretendo demonstrar a relação do PCB com os ditames soviéticos no campo artístico/intelectual, e demonstrar os impactos dessa absorção em sua relação com os esperançosos no projeto cultural do partido. Utilizo como fontes, os Jornais Voz Operária e A Classe Operária. PALAVRAS-CHAVE: PCB, Guerra Fria, Realismo Socialista Na década de 40, o PCB abrigou em suas fileiras uma boa e respeitável quantidade de intelectuais e artistas, eles encontravam no partido um organismo útil para debaterem e encaminharem as lutas em defesa das necessidades do povo. Depois de 1945, ao reluzir momentaneamente o astro da democracia no país, a adesão foi considerável. Os comunistas se tornaram um pólo de atração importante daqueles que rejeitavam o fascismo e o nazismo, dos que se interessavam pela libertação da ciência, da cultura, da arte, que almejavam o uso da racionalidade e desprezavam a ―decadência‖ da sociedade capitalista. O PCB viveu dois momentos depois de 45, na primeira fase, de 1945 a 1947, recebeu a adesão de artistas e intelectuais, pois representou pioneirismo e originalidade no projeto cultural, o partido vivia um momento de renovação estética; Na segunda fase, de 1947 a 1953, viveu o êxodo desses mesmos homens e mulheres que haviam aderido ao partido, pois o Realismo Socialista dominou o cenário do partido e afastou aqueles que buscavam liberdade e renovação2. Para termos dimensão da grande adesão de artistas e intelectuais, podemos citar alguns nomes significativos daqueles que experimentaram uma vivência orgânica revolucionária: Escritores – Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Monteiro Lobato, Dalcídio Jurandir, 1 Bolsista da CAPES. 2 MORAES, Denis de. O imaginário vigiado: a imprensa comunista e o realismo socialista no Brasil (1947-1953). Rio de Janeiro: Ed. José Olympio, 1994, p. 138. 301 Graciliano Ramos, Caio Prado Júnior, Jacob Gorender, Paulo Cavalcanti, Ricardo Ramos, Aníbal Machado; Jornalistas – Rui Facó, Mário Alves, Armênio Guedes, Milton Pedrosa, Rivadávia Mendonça, Ary de Andrade; Dramaturgos – Dias Gomes, Bráulio Pedrozo, Joracy Camargo; Poetas – Vinícius de Moraes, Rossine Guarnieri, Aluísio Medeiros, Lila Ripoll; Pintores – Di Cavalcanti, Mário Gruber, Carlos Scliar, Cândido Portinari, José Pancetti, Clóvis Graciano; Atores – Mário Lago, Modesto de Souza; Pesquisadores – Victor Konder, Mário Schemberg, Nise da Silveira; Advogados – Paulo Mercadante, Raul Lins, Humberto Telles, Luís Werneck de Castro; Médicos – Alcedo Coutinho, Valério Konder, Arquitetos – Oscar Niemeyer, Vilanova Artigas; Cineastas – Rui Santos, Nelson Pereira dos Santos; Músicos – Guerra Peixe, José Siqueira, Arnaldo Estrela. Essa gama expressiva de personalidades garantiu ao partido a criação de ―oito jornais diários, semanários e revistas culturais e de variedades, uma agência de notícias, duas editoras, uma distribuidora de livros e um serviço de cine jornal3‖. Esses veículos cumpriam o propósito de intervir na batalha da Guerra Fria e proporcionar a formação comunista dos militantes, além disso, emanar as opiniões dos comunistas ao conjunto da população. Muitos desses intelectuais e artistas escreviam no jornal do partido, Carlos Scliar e Jorge Amado, por exemplo, pintavam e escreviam fábulas no jornal A Classe Operária, Dalcídio Jurandir escrevia artigos e textos nas revistas e periódicos. Observando as páginas dos materiais do partido, percebemos que muitos artistas e intelectuais participavam de suas redações, dando peso e prestígio à redação dos organismos de propaganda do PCB. Através de modelos ideológicos e estéticos propostos pelos comunistas – intelectuais e artistas eram atraídos ao projeto marxista como meio de expressão às formas modernas e criativas de intervenção artística e intelectual. A teoria que orientava os comunistas de todo o mundo durante o início da Guerra Fria, era a Doutrina do Realismo Socialista. Aprovada no I Congresso dos Escritores Soviéticos, em 1934, a doutrina do cumpriu o papel de formular orientações para as atividades artísticas feitas por comunistas a partir da década de 30. Andrei Jdanov e Máximo Gorki foram os dois responsáveis por sistematizarem a proposta, com isso, o Realismo Socialista se tornou a doutrina oficial do estado soviético e explanou seu regulamento aos comunistas de outros países. A teoria buscou disciplinar artistas e intelectuais através do controle do Estado Soviético, da intolerância à criatividade e de uma intensa censura e repressão aos desafiadores da doutrina4. 3 4 Ibid. Ibid. 302 Os inconformados tinham vetadas as possibilidades de liberdade de expressão, de autonomia intelectual e imaginativa, ao invés dessas perspectivas, precisavam encarnar a imagem de intelectuais alistados, artistas envolvidos e escritores disciplinados às exigências comunistas. Dênis de Moraes discute que no início da Revolução Russa, a liberdade de criação era permitida, inovações em diversos campos da literatura e das artes estavam sendo alcançados. Entretanto, a ambição de atrelar a cultura ao estado e ao partido, travou esse desenvolvimento. O autor nos diz que o modelo de partido único, e a intervenção erosiva de Stalin, foram fatores que determinaram o atrofiamento da fermentação artística soviética5 e comunista em geral. No Realismo Socialista, o objetivo do cinema, do teatro, da música, das artes plásticas, da literatura, passou a ter a meta de proporcionar a exaltação do partido comunista, dos líderes e da União Soviética, transpondo uma imagem esplendorosa dos camponeses e operários, ou seja, contribuía para mitificar a URSS e seus símbolos. Os escritores tiveram que dialogar com formas ficcionais para valorizarem as figuras de operários e camponeses, os artistas precisaram transcrever uma representação perfeita das aspirações e sensibilidades dos seres humanos. A produção estética e intelectual burguesa era categorizada como imoral, corrupta, decadente, suja, individualista e deveria ser rejeitada pelos comunistas. Pelo uso do terror, da propaganda, do auxílio da literatura e das artes, o país tentava traduzir o verdadeiro paraíso na terra, seduzindo aderentes a esse discurso. No campo da intelectualidade, os soviéticos também criaram um protótipo, George Politzer, ideólogo comunista fuzilado pelo nazismo, ajudou a sistematizar o paradigma do intelectual revolucionário. O modelo servia como guia aos homens e mulheres que decidiam se tornar pessoas ―honestas e sensíveis‖ ingressando no partido. Politzer ratificou o dogma de que lugar de gente inteligente, sensível, criativa e comprometida era no partido comunista. Jorge Ferreira traduziu as perspectivas desse modelo: George Politzer […] apresentava aos comunistas uma história exemplar, um modelo de comportamento humano, como deveria ser e como deveria portar-se um verdadeiro intelectual revolucionário: estudioso dos quatro clássicos do marxismo, paciente, humilde, modesto, severo consigo mesmo, incapaz de desdenhar o trabalho prático e que aderiu ao comunismo por uma questão de honestidade intelectual e probidade mental. FERREIRA, Jorge. Prisioneiros do mito: cultura e imaginário político dos comunistas no Brasil (1930-1956). Rio de Janeiro, Ed. Eduff, 2002, p.177. A valorização e os elogios eram atribuídos constantemente aos artistas e intelectuais que ingressavam nas fileiras do marxismo. Logo após a filiação, o fato era explorado pelo partido para servir de exemplo ao comunista pouco letrado e desapegado do conhecimento intelectual: ―ao saber que importantes e renomados 5 Ibid. 303 escritores e romancistas estavam ao lado dos bolcheviques, sentia aumentar sua confiança e certeza na causa que abraçou‖ (FERREIRA, 2002, p.178). O partido também referendava que ao entrar no partido, o artista ou intelectual poderia dar um salto em sua capacidade de produção, o marxismo ampliava as suas visões e sensibilidades. O escritor Jorge Amado, em artigo no jornal A Classe Operária, falou sobre o aguçamento das potencialidades de um artista que se filiava ao marxismo: O conhecimento do marxismo e a compreensão da linha do Partido […] dão ao criador de cultura uma formidável independência de movimentos na análise dos fatos e na sua interpretação artística. Para um poeta, para um compositor, para um pintor, para um romancista, a vida partidária traz uma infinidade nova de temas, de sugestões, de matéria para ser transformada em beleza imortal. Nenhum escritor ou artista pode se limitar ao ter vida partidária. Essa lhe dará sempre maior amplitude, estenderá os limites[...] A Classe Operária, 16 de Março de 1946. Quanto mais os artistas se aproximavam da política exigida pelo partido, mais elogios e referências eram feitas. O pintor Cândido Portinari conquistou várias páginas nos periódicos do partido por ter alcançado essa meta, em nota, o partido diz: Cândido Portinari se torna cada vez mais um pintor popular. A sua grande arte se identifica com o povo à medida que Portinari se apercebe dos grandes problemas nacionais sem solução, das condições de miséria a que está relegado o nosso camponês, da exploração de que é vítima sob um regime semi-feudal do solo, da pobreza de vastas camadas da população em nosso paíz. Portinari vê na luta do nosso proletariado por melhores condições de vida algo de verdadeiramente empolgante, e reconhece que somente o Partido Comunista pode dirigir essa luta de maneira sistemática, fazendo com que dele participe o operariado e o povo. A Classe Operária, 23 de Março, de 1951. Monteiro Lobato, foi outra personalidade reverenciada nas páginas dos periódicos comunistas, após a sua morte, o partido relatou a sua importância na militância revolucionária: O que caracterizava Monteiro Lobato, apurando o seu talento e dando uma verdadeira popularidade à sua obra, era o patriotismo consequente, a preocupação honesta e constante pelos problemas de nosso povo, pelo progresso e bem estar de nossa gente. Esse patriotismo é que fez de LOBATO um revolucionário de nossa cultura e, depois, um revolucionário militante, aproximando-o cada vez mais de Prestes e dos comunistas […] A Classe Operária, 10 de Julho de 1948. O PCB aproveitava para lançar uma máxima: para ser um verdadeiro patriota e lutador, era preciso estar próximo dos comunistas: O seu exemplo é o de que, nos dias de hoje é impossível se ser patriota, lutar pelo progresso e pela felicidade de nosso povo, pela independência nacional, sem se marchar junto dos comunistas ao lado dos comunistas, quando não seja dentro de suas fileiras. Ibid. 304 Continuando, lançava sua opinião a respeito da ―limpeza‖ que pode sofrer um filho da burguesia, da pequena-burguesia que ingressava na organização: Este encontro com o proletariado e seu partido deu a LOBATO novos horizontes, libertando-o do ceticismo, do desespero ou do cinismo apodrecido em que se afundam os intelectuais que se confiram no ambiente mesquino das classes dominantes. Ibid. Quando esses artistas e intelectuais cometiam algum deslize, suas imagens eram criticadas e reprovadas, como exemplo, temos o pedido de ingresso no Partido Comunista Mexicano, feito pelo pintor Diego Rivera. Diego Rivera havia sido expulso do partido depois recebeu León Trotsky em sua casa, após o exílio do velho líder bolchevique. Ao ter hospedado o principal inimigo de Stalin, o pintor acabou fraturando sua imagem diante dos comunistas mexicanos, o PCB, aproveitando a oporunidade, publicou um artigo que narrava esse fato: O Partido Comunista Mexicano recusou o pedido de reingresso no Partido apresentado por Diego Rivera, por causa dos serviços que prestou ao trotzkismo, o 'pior dos delitos que pode cometer um militante político'. 'A conduta de Diego Rivera – opina o partido – dêsde sua expulsão, não pode ser considerada como uma política simplesmente errônea, nem seus atos como simples equívocos. Desde o princípio de sua trajetória que provocou sua expulsão do Partido, Diego Rivera trilhou o caminho da corrupção e da degeneração políticas, até atingir o extremo, passando para o campo inimigo e aí atuando contra o movimento revolucionário e o movimento democrático'. (A Classe Operária, 28 de Setembro, de 1946). O ainda informava o que era preciso ser feito para Rivera poder retornar ao partido: 'Para que Diego Rivera comprove que seu desejo de servir ao movimento operário e ao povo constitui uma decisão verdadeira, séria, firme e sólida, deve começar por reconhecer plena e abertamente seus delitos, sem limites nem restrições, principalmente porque os mesmos foram cometidos conscientemente. […] Diego Rivera deve combater diariamente o bando de delinquentes contra-revolucionários trotzkistas. (A Classe Operária, 28 de Setembro, de 1946). O partido mexicano demonstrava que para continuar na organização era preciso seguir com afinco suas resoluções e doutrinas, do contrário, não merecia o título de comunista. O PCB publicou essa nota em seu jornal de forma consciente, pois vivia um momento em que muitos artistas e intelectuais se abrigavam no partido, artigos dessa magnitude buscavam prevenir o acontecimento de casos semelhantes e serviam de alerta. O Realismo Socialista e o paradigma de Politzer ganharam força na vida do PCB, os tópicos formulados em periódicos e revistas seguiam um modelo único e formal: consignas antiimperialistas, defesa da paz mundial, exaltação da URSS e de Stalin, luta pela libertação 305 nacional. O desprezo aos formatos e linguagens criativos, era visível. A revista Problemas, lançada na década de 40, foi um veículo usado para a publicação dos primeiros artigos de Jdanov. Com a revista, o partido acreditava que poderia criar uma verdadeira cultural popular, livre das amarras capitalistas, baseada no Realismo Socialista e nos ensinamentos de Politzer. Completando um ano de publicação, em outubro de 1948, Dalcídio Jurandir escreveu um artigo contemplando as vitórias da revista contra a decadência das publicações oficiais e burguesas: Festejamos o primeiro aniversário de "Problemas". Doze números na rua. Cem mil exemplares distribuídos. Diante de uma enorme e sórdida publicidade de crimes sensacionais, novelas radiofônicas, gibis e "contos curtos" americanos, folhinhas pornográficas exportadas de Nova York, "memórias" de fascistas e "espiões" forjadas nas redações dos jornais da reação para aumentar a vendagem, cem mil exemplares de "Problemas" significam um triunfo. Esse fato se torna mais importante ainda se levamos em conta a nossa condição de país com milhões de analfabetos, dominado por uma ditadura semi-feudal e na hora em que a ofensiva imperialista para colonizar o Brasil chega a seu auge (Problemas - Revista Mensal de Cultura Política nº 14 - Outubro de 1948). O artigo também culpou o imperialismo e as elites nacionais por amarrarem a cultura e o conhecimento: Sabemos que os grupos dominantes no país e seus amos imperialistas fazem funcionar todos os seus aparelhos de publicidade para tentar impedir que o pensamento democrático atinja as grandes massas. Por outro lado, exercem a violência indiscriminada e brutal. Essa publicidade, apoiada nessa violência, abrange também as miúdas e complicadas correntes chamadas filosóficas, a poesia hermética e fora de qualquer sentido, os romances desenrolados numa atmosfera de mórbida irrealidade, de alheamento e desprezo das grandes ações humanas, o cinema americano, o abstracionismo na pintura, o sensacionalismo na deformação dos fatos. Tudo isso constitui o caldeirão ideológico das classes dominantes. (Problemas - Revista Mensal de Cultura Política nº 14 - Outubro de 1948). As criações e publicações burguesas eram classificadas como uma ―falsificação em série da cultura e da inteligência‖. Por meio dos seus instrumentos de propaganda e agitação, o PCB reverberava as opiniões, as doutrinas e o receituário soviético. O enrijecimento, o controle e a intervenção na produção de escritores e artistas, afastou a grande leva de ingressos que o partido viveu. A relação do partido com artistas e intelectuais passou por momentos de tensão e de conflito, pois a oposição aos ditames endurecidos do PCB hostilizava e renegava os injustiçados. Após um dia de glória, exaltação e elogio, o intelectual ou artista que discordasse dos 306 propósitos do partido, era abominado e odiado, além do desprezo e da desconfiança, o sentimento anti-intelectual era outra vertente presente no partido. Os intelectuais e artistas que se sentiam presos, vigiados e controlados percebiam que não era necessário formular as linhas ideológicas e políticas, nem dar vazão a inspiração, Stalin, Prestes e o partido já tinham percorrido esse árduo caminho. 307 BIBLIOGRAFIA BACZKO, Bronislaw, “A imaginação social” In: LEACH, Edmund et Alii. AnthroposHomem. Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1985. Disponível em http://www.scribd.com/doc/12853058/Bronislaw-Baczko-Imaginacao-Social CLAUDÍN, Fernando. 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FONTES Voz Operária A Classe Operária Revista Problemas LINHA II: CULTURA, REPRESENTAÇÕES E RELIGIOSIDADES 309 CEMITÉRIOS MILITARES BRASILEIROS: O EMBATE ENTRE O RELIGIOSO E O PATRIÓTICO1 Adriane Piovezan Doutoranda pela UFPR [email protected] RESUMO: A existência do Cemitério Militar Brasileiro em Pistóia e a construção do Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial no aterro do Flamengo indica as relações e atitudes diante da morte por parte da sociedade brasileira contemporânea. A pesquisa tem como objeto os embates provocados pela destinação dos corpos dos soldados mortos em combate durante a guerra e as discussões envolvendo as tradições populares, instituições militares e as instituições religiosas neste processo. O evento da transladação dos corpos em 1960 e as questões referentes as discussões sobre todo o processo permitem estabelecer problemáticas a respeito das mudanças e embates entre as questões religiosas que acabam sendo hegemônicas no tratamento dos ritos fúnebres e as questões militares que desde a Proclamação da República em 1889 e até meses antes do embarque da tropa brasileira para o front, em 1944, haviam tomado uma posição anti-clerical abolindo inclusive o corpo de capelães no Exército. Enquanto em Pistóia elementos da crença cristã dominavam o campo santo, como cruzes, etc, já no Mausoléu do Aterro ocorre a total substituição destes elementos pelos inequivocamente cívicos e patrióticos, como também aconteceu em relação ao seu uso pela sociedade. Neste sentido, podemos observar como demonstrou Michel Vovelle que o período pós Segunda Guerra Mundial anulou fórmulas triunfalistas nos monumentos fúnebres, com a construção de monumentos abstratos e antimonumentos. PALAVRAS-CHAVE: morte, cemitérios militares, instituições militares. Recentemente a temática da morte e dos chamados Estudos Cemiteriais tem se ampliado no meio acadêmico brasileiro. Por meio das questões das narrativas artísticas, da questão espacial e de elementos ideológicos, mausoléus, túmulos e monumentos fúnebres aparecem como fontes privilegiadas para o entendimento das relações da sociedade com a morte, com a memória e a rememoração dos mortos. A presente pesquisa tem como objetivo identificar as questões suscitadas pelo caso da destinação dos corpos dos soldados brasileiros no período posterior à Segunda Guerra Mundial. Como os demais soldados aliados que lutaram na Europa, o Brasil tinha um cemitério militar em Pistóia, local de homenagens, visitas e celebrações religiosas no período de 1945 até 1960. Neste ano, os corpos são trazidos para o Brasil e depositados no Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial no Aterro do Flamengo no Rio de Janeiro. Os debates provocados, as discussões relativas ao monumento e a utilização do espaço permitem refletir sobre as questões das atitudes e representações diante da morte no Brasil contemporâneo, em que tradições populares, instituições militares, instituições 1 Bolsista CAPES/REUNI 310 religiosas demonstram o embate entre o laico e o confessional no período de 1889 até 1960. Somente em tempos recentes as atitudes diante da morte em tempo de guerra tem sido tomado como objeto de estudo. A escala maciça da mortandade nas duas guerras mundiais e em vários outros conflitos armados no século XX inspirou a coletânea organizada por Jay Winter e Emmanuel Sivan. Neste livro são abordados diversos contextos nacionais e a relação das culturas populares e dos poderes institucionais com a destinação e rememoração dos mortos nas guerras. Raros são os estudos das atitudes diante da morte no Brasil no século XX. Poucos também são os trabalhos acadêmicos elaborados sobre a Força Expedicionária Brasileira (FEB). Neste aspecto, destaca-se a tese de Francisco César Ferraz intitulada ―A guerra não acabou: reintegração social dos ex-combatentes da Força Expedicionária Brasileira (1945-2000) ‖. Da maior importância para esta pesquisa, são as considerações do autor referentes ao processo de rememoração dos mortos da FEB com a transladação dos corpos dos soldados brasileiros do Cemitério de Pistóia na Itália para o Memorial aos Mortos da FEB no aterro do Flamengo no Rio de Janeiro. De particular interesse para esta pesquisa é o processo de consultas que teria sido elaborado pela Comissão de Repatriamento dos Mortos, encarregada de indagar aos parentes e familiares dos combatentes caídos em combate sobre sua preferência no que se referia a destinação dos corpos, entendendo-se que a adesão ao sepultamento coletivo no mausoléu em questão seria opcional. A construção deste mausoléu, destino final dos corpos dos que morreram durante a Campanha da Itália, se insere num contexto marcado por uma série de conflitos, envolvendo o Exército, a Igreja e elementos da cultura popular ligados aos rituais fúnebres. O Exército brasileiro havia, com a proclamação da República (1889) abolido o corpo de capelães militares e extinto todas as práticas religiosas no interior dos quartéis. A ampla disseminação dos ideais positivistas nas forças armadas levou não só à laicização das suas práticas, mas também a um acentuado anti-clericalismo. A entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial colocou este compromisso institucional em cheque. Por razões ainda não totalmente esclarecidas, o corpo de capelães militares é recriado, sendo incorporados à Força Expedicionária Brasileira 25 (vinte e cinco) padres católicos e 2 (dois) pastores protestantes. Logo após o início das operações militares na Itália é construído um cemitério militar em Pistóia, de características inequivocamente cristãs: seu solo foi consagrado, os mortos baixavam à 311 sepultura com os ritos inerentes à sua religião, sobre cada túmulo era colocada uma cruz de madeira branca e, no pátio central do cemitério, foi colocada uma enorme cruz que dominava todo local. Com o translado dos corpos para o Brasil, abandonou-se toda e qualquer referência a Deus e à religião, assumindo o monumento – sob alguns protestos e muitas polêmicas – feições assumidamente cívicas e patrióticas. O estágio atual das pesquisas relativas às representações e atitudes diante da morte tem enfatizado a importância do entendimento da preparação em vida para o próprio falecimento. No processo desempenham papel central as instituições encarregadas de organizar o conjunto de atitudes e providências que o indivíduo gostaria que fossem tomadas por ocasião da sua morte. Entende-se, pois, o êxito das pesquisas que se dedicam à relação do indivíduo com a Igreja, tanto no que se refere à observância às suas normas, quanto no que diz respeito ao papel social da instituição com a guarda e arquivamento dos principais documentos de registro destas práticas, os testamentos. O desafio colocado pelo recurso as fontes do Exército Brasileiro para o enfrentamento destas questões é bastante claro. Afinal de contas, trata-se de uma instituição que era senão anti-clerical, certamente laica, e que apenas sob pressão das implicações decorrentes na participação em um conflito de dimensões mundiais, e mesmo assim somente à última hora , admitiu a incorporação de padres e sacerdotes à força destacada para lutar na Segunda Guerra Mundial. Contudo, o fato de ser também uma burocracia de grandes proporções, possibilita o levantamento e a sistematização de fontes e documentos alternativos e, até aqui, completamente inéditos para o entendimento da p interpretar os documentos da Administração do Monumento Votivo de Pistóia na Itália, a fim de entender a relação do Cemitério Militar com seus visitantes (italianos e brasileiros) e homenagens ali ocorridas no período 1945-1960. Da mesma forma pretende-se proceder no que se refere à relação da sociedade mais ampla com o atual Monumento Nacional aos Mortos na Segunda Guerra Mundial, construído no Aterro do Flamengo. Documentação necessária a esta pesquisa reparação em vida para a morte daqueles indivíduos. Para Michel Vovelle, os monumentos modernos funerários têm por característica a democratização e funcionalização da representação da morte em favor dos vivos. Enquanto o período entre-guerras assistiu o fenômeno da proliferação de monumentos aos mortos, o Brasil, por não ter tido participação no conflito não fez parte deste processo. Ainda Vovelle identificou este período como o ciclo de nascimento, vida e morte do monumento "comemorativo", que se encerraria no segundo pós-guerra com a anulação das fórmulas triunfalistas, com a construção de monumentos abstratos e antimonumentos. 312 Neste sentido, o caso brasileiro foi uma exceção, sendo praticamente o único a aparecer nos manuais sobre a arquitetura moderna brasileira, o Monumento Nacional aos Mortos na Segunda Guerra Mundial é uma das obras, em relação ao tema do monumento, que alcançaram maior repercussão no país. Esta repercussão está associada à forte presença da campanha da Força Expedicionária Brasileira (FEB) no imaginário nacional – ou nacionalista – oficial daquele período. As discussões acerca da escolha do monumento são trabalhadas no artigo de Ricardo de Souza que coloca o Monumento inserido na confluência de várias séries: desde a mais geral, relacionada aos monumentos aos mortos ou caídos em conflitos – que admite uma subdivisão por tipos: fúnebre, patriótico etc, passando pela série dos "monumentos ao expedicionário; incluindo a que se refere especificamente ao "monumento ao Brasil na Guerra" ou ao "monumento nacional aos mortos na Segunda Guerra Mundial" – da qual faz parte ainda o bem menos conhecido Monumento Votivo Militar Brasileiro (1967), projeto de Olavo Redig Campos, localizado no Cemitério de Pistóia, na Itália. O Monumento aos Mortos no aterro do Flamengo teve alguns elementos inspirados em outras obras fúnebres militares, no caso, para o túmulo do soldado desconhecido veio daquele existente no Arco do Triunfo, em Paris: um pórtico abrigando o fogo simbólico. A idéia de uso público e acesso livre do espaço do Monumento aos Pracinhas privilegiou a visão da baía desde o solo, idéia de que fora cumprida a promessa do Marechal Mascarenhas de Moraes, então comandante da FEB de que nenhum soldado brasileiro ficaria na Itália. Além disso, o projeto articulou a idéia de monumento e cotidiano, já que ao mesmo tempo se tornou espaço de "lazer" integrado ao Parque do Flamengo e lugar cerimonial e cívico. Elementos significativos do embate entre o laico e o confessional na concepção do monumento estão indicados no fato da ausência de cruzes e imagens de santos. Ainda que para as famílias dos mortos tais imagens teriam maior significado num monumento que guardaria os corpos de seus entes queridos, o Estado como financiador do projeto, preferiu destacar o caráter de monumento nacional, onde a pátria (e não os pais) homenageava seus filhos. Para o historiador Michel Vovelle, estas características comuns do modelo "contemporâneo" do monumento aos mortos pode ser caracterizado por uma igualização progressiva , em que ocorre a substituição do monumento ao general vitorioso por um túmulo do soldado desconhecido, atenuaria a hierarquização do papel do indivíduo na guerra. Assim também, configuraria em uma difusão cada vez maior do monumento, 313 ligada ao fato de que o obscurecimento do caráter religioso ou expiatório torna o monumento coletivo mais apto a transmitir uma mensagem política funcional. A questão dos locais em que os soldados foram sepultados e da constituição dos cemitérios militares indica como as representações diante da morte da sociedade brasileira contemporânea. Hoje em dia, o Monumento Votivo em Pistóia ainda é local de peregrinação e homenagens por parte de italianos e brasileiros. O Monumento fica ao lado do cemitério Municipal de San Rocco, local bastante freqüentado pela população local como tivemos oportunidade de observar. O Monumento brasileiro, segundo o administrador atual do local, Sr. Mario Pereira também é local de inúmeras homenagens e visitas, principalmente no dia 2 de novembro. Atualmente existe apenas um soldado desconhecido enterrado lá, cujo corpo foi descoberto em 1967, após a partida dos demais restos mortais dos soldados para o Rio de Janeiro. O monumento ainda conserva as quadras onde os mortos estavam enterrados, mas as cruzes brancas foram retiradas e colocadas apenas as placas de mármore com o nome de cada combatente. Segundo as informações do Sr. Mario Pereira ainda hoje existem discussões de parentes de ex-combatentes sobre o desejo de colocar ou não cruzes no local. O interessante é notar que mesmo sem nenhum símbolo religioso, as pessoas ainda freqüentam e homenageiam com flores e objetos pessoais o local no dia dos mortos e não nas datas comemorativas referentes ao término do conflito da Segunda Guerra Mundial. Outro ponto de grande interesse que demonstra as relações da sociedade contemporânea com os mortos é a consulta aos livros de visitas do Monumento. Os livros dos anos 60 até 2010 mostram como as pessoas descrevem sua emoção ao visitar o local onde abrigou nossos soldados. Expressões como honra, emoção, alegria, aparecem em muitas mensagens deixadas pelos visitantes. Pode-se fazer uma comparação com a utilização do monumento aos mortos no Rio de Janeiro, onde serão ainda pesquisados os livros de visitas e o uso e freqüência do monumento no dia 02 de novembro. As pesquisas sobre os mausoléus no Brasil são escassas, refletindo nossa relação com a idéia de rememoração/comemoração, bem diferentes com o que acontece na Europa, onde estes locais são muito visitados e prestigiados tanto pelo poder público como pela população em geral. O monumento brasileiro é um caso específico, nenhuma outra nação aliada retirou seus mortos dos locais onde foram sepultados, existindo até mesmo um cemitério militar alemão na Itália. 314 Interessante também é comparar o Monumento aos mortos da Segunda Guerra Mundial com o Mausoléu dos mortos de 32 no parque do Ibirapuera em São Paulo. Também este pretendeu ser um monumento coletivo, em que a memória da guerra civil de 32 tentou ser preservada e comemorada, mas devido a diversas questões de ordem política, o monumento nunca teve a unanimidade nem por parte do poder público, sendo complicada seu término e sua manutenção até hoje. Neste caso, também prevaleceu a dispersão dos mortos em monumentos por vezes construídos em suas próprias cidades de origem. Outros mausoléus coletivos, principalmente os localizados no Cemitério São João Batista no Rio de Janeiro, também pretendem ser espaços de memória de grupos de participantes de conflitos armados no Brasil, como o caso do Monumento em honra aos mortos do Encouraçado na Revolta Tenentista de 1924 e do Mausoléu aos mortos nos conflitos de 1938 na Revolta Integralista. Além destes, no mesmo cemitério encontramos o Mausoléu da FEB, onde estão enterrados alguns ex-combatentes mortos após o término da guerra, destacando as urnas funerárias do Marechal Mascarenhas de Moraes e sua esposa, e dois Monumentos aos Aviadores. A análise destes e de outros monumentos permite com que identifiquemos os elementos simbólicos e patrióticos nestes mausoléus, mas também, ainda que tímidas, manifestações de religiosidade em meio aos elementos laicos (como rosários pendurados junto aos nomes nas lápides). O monumento funerário, desta forma, demonstra este embate entre o religioso e individual versus ao patriótico e coletivo. 315 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARIÈS, P. Sobre a História da morte no Ocidente desde a Idade Média. Lisboa, Teorema, 1975. _______. O homem diante da morte. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1981, v1 e 2. BOLETIM ESPECIAL DO EXÉRCITO. Os mortos da FEB, Rio de Janeiro, 1984. BOURDÉ, G. & MARTIN, H. As escolas históricas. Lisboa, Publicações Europa-América, 1983. BURKE, P. A Revolução Francesa da Historiografia: A Escola dos Annales (1929-1989). São Paulo, UNESP, 1991. CARVALHO, J. M. Forças Armadas e política no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. CASTELLS, M. 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Ideologias e mentalida 318 SEDUÇÃO E RAPTO CONSENSUAL: ANÁLISE HISTÓRICA A PARTIR DE AUTOS CRIMINAIS: 1940 – 1970 Clodoaldo Oliveira Silva Mestrando Universidade Estadual de Londrina [email protected] RESUMO: Propõe-se uma análise histórica dos artigos 217 e 220 do Código Penal Brasileiro de 1940, ou seja, dos crimes de sedução e rapto consensual, bem como suas implicações sociais, desvelando práticas discursivas oriundas de relações de poder, produtoras do saber jurídico e social. Ainda, as contradições desse saber, a discussão sobre a naturalização do binômio corpo e sexo e dupla moral sexual. A proposta parte das contribuições teóricas de Michel Foucault. PALAVRAS-CHAVE: práticas discursivas, Direito, Foucault Propõe-se, tendo como referencial o horizonte teórico foucaultiano, uma analítica acerca dos crimes de sedução e rapto consensual, expressos respectivamente nos artigos 217 e 220 do Código Penal Brasileiro de 1940, com os seguintes textos: “Seduzir mulher virgem, menor de dezoito e maior de catorze, e ter com ela conjunção carnal, aproveitando-se de sua inexperiência ou justificável confiança: Pena – reclusão de dois a quatro anos” e “Raptar mulher honesta, com seu consentimento, sendo a mesma maior de catorze e menor de vinte e um anos, para fim libidinoso: Pena – reclusão, de um a três anos.”1 Discutindo sobre os conceitos presentes no Código Penal de 1940, ou seja, procurando compreender a narrativa do mesmo, busca-se a explicação do conceito de inexperiência, a partir do doutrinador Julio Fabbrini Mirabete2, e chega-se ao consenso de que inexperiência, segundo a ótica do Direito, não significa inocência ou completa ingenuidade, e sim o fato de a menor ser incapaz de avaliar a gravidade de seus atos, em decorrência de não possuir elementos suficientes para tal, ou seja, por imaturidade. Experiente, por dedução, é a moça que dorme forma de casa ou que freqüenta bailes sozinha, voltando para de casa de madrugada, além de apresentar um comportamento sem recato. O elemento ―justificável confiança‖ é um binômio, segundo Mirabete, composto por segurança íntima e fé em determinada pessoa, sendo essa credulidade razoável. Caracteriza-se após namoro prolongado e ostensivo, associado a freqüentes visitas do cortejador à casa dos pais da vítima, com promessas de casamento, seguidos ou não de noivado oficial. Segundo outro jurista, Guilherme de Souza Nucci3, a captação lenta da confiança da menor, por meio de namoro prolongado, ao ponto de a vítima permitir o defloramento, seja como prova de sua virgindade ou para agradar o acusado, caracterizam figuras delituosas do crime de sedução. 1 BRASIL: Código Penal de 1940. 36ª edição. São Paulo: Saraiva, 1998. MIRABETE, Julio Fabbrini. Código Penal Interpretado. 4ª edição. São Paulo: Atlas, 2003. 3 NUCCI, Guilherrne de Souza. Código Penal Comentado. 4ª edição. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2003. 2 319 O crime de rapto freqüentemente está atrelado ao crime de sedução, uma vez que o acusado primeiro seduz, para depois convencer a vítima a fugir com ele. Entretanto, há situações em que o rapto consensual ocorre com o objetivo de acelerar o casamento, buscando aceitação dos pais da moça. A defesa da honra ocorre apenas com o casamento, a moça só consegue ―limpar‖ sua honra, após o rapto, com a consumação civil do casamento. A sociedade, através do Direito, objetiva proteger as menores da corrupção moral e da corrupção física. O contato com as práticas sexuais vai muito além da conjunção carnal, alia-se à virgindade moral. Em relação à virgindade moral, Viveiros de Castro4 afirma não poder o juiz “entrar em devassas psicológicas para examinar o estado de uma alma, se tem a limpidez de uma fonte cristalina ou se a pureza está pervertida por pensamentos impuros.” No século XIX, as livrarias ofereciam leituras proibidas para mulheres, os chamados ―romances para homens‖. Essa literatura, conforme Alessandra El Far5, com histórias eróticas, atraiam o interesse feminino, justamente pela proibição, a tal ponto de Viveiros de Castro supor que a curiosidade despertada nas mulheres, face a essas leituras, traziam à tona desejos e, com esses, necessidade de saciá-los. A perda da virgindade moral ocorre quando a mulher busca a satisfação de desejos lúbricos. Por outro lado, a mulher idealizada pela sociedade regrada, a dona de casa, segundo o higienista Dr. Carlos Costa, é definida nestas palavras: ―Deixemos a mulher no lar doméstico, de que ela é a rainha e o encanto mais poderoso, que ela crie seus filhos, os eduque na religião e na honra e de noite, quando o marido volta fatigado do trabalho do dia, que ela enxugue o seu rosto banhado de suor e o console com seu sorriso.‖6 A essa forma de compreender o papel social feminino, diverso do masculino, denomina-se dupla moral sexual. O homem representa o provedor do lar, a mulher a que cuida do lar. O homem é a força e a mulher, a fragilidade. A idéia de sedução e rapto consensual, eixos temáticos da discussão, bem como sua materialidade em processos criminais, conduz o pesquisador à dupla moral sexual, uma vez que sempre, nesses delitos, o homem será o réu e a mulher a vítima. A mulher honesta, ingênua, menor de idade e, portanto, sem condições emocionais nem racionais de se tutelar, depende de um homem, seu pai, até o momento em que a justificável confiança conduz sua entrega a outro homem que, supõe, será seu esposo, novo tutor. A distinção entre homem e mulher apresenta-se naturalizada na idéia de corpo e sexo, como semelhantes. O processo de desnaturalização supõe a distinção entre sexo e corpo; a sociedade promoveu, através de práticas discursivas eficientes, a construção e naturalização de 4 CASTRO, Francisco Viveiros de. Os delitos contra a honra da mulher. 2ª edição. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1932. 5 EL FAR, Alessandra. Páginas de sensação: literatura popular e pornográfica no Rio de Janeiro (18701924). Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2004. 6 MEYER, Marlyse. Folhetim: uma história. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 320 comportamentos sociais geradores de papéis naturalizados, embora tenham sido construídos, em torno de um binômio que apresenta a característica biológica e a matriz genital. Desta forma, a sexualidade segue o roteiro sexo e gênero, implícita e naturalmente como servindo a uma necessidade reprodutiva e sobretudo heterossexual. A discussão se apresenta no crime de sedução, quando a mulher tem sua virgindade7 roubada, ou perdida. Um fato biológico transforma-se em fato social, sendo naturalizado pelo poder disciplinar, na medida em que esse poder se sobrepõe ao poder soberano. Entretanto, o que possibilita essa movimentação e alternância de poderes é um outro poder: o biopoder. Esta reflexão busca compreender a formação e manutenção da dupla moral sexual, bem como a relevância em desnaturalizá-la, assim como as práticas discursivas materializadas nos autos criminais, reveladoras da ação dos três poderes: soberano, com a denúncia do pai; disciplinar, com a ação da sociedade através dos magistrados; do biopoder, através da análise pericial. A distinção entre homem e mulher, alimentada no campo das práticas discursivas materializadas nos autos, busca distinguir os conceitos corpo e sexo, decorrentes de uma divisão binária com implicações que supõem hierarquia, considerando corpo biológico.8 A sociedade promoveu, através de práticas discursivas, a construção de sexo e gênero como termos distintos e naturais. Há uma incitação por adentrar em uma rede constitutiva de relações sociais, buscando “como funcionam as coisas no nível do processo de sujeição ou dos processos contínuos e ininterruptos que sujeitam os corpos, dirigem os gestos, regem os comportamentos...”9 A necessidade imperativa para a compreensão das práticas discursivas circula no desvelamento de discursos de verdade produzidos sobre o humano e seus recortes sexuados, porque a todo o momento estamos passando por um julgamento que nos absolve ou condena, nos obriga a realizar tarefas em função de práticas discursivas que nos tornam determinados cumpridores de papéis sociais, todos com determinada relevância. A investigação genealógica procura compreender de que forma o poder conduz a produção de discursos ―de verdade‖, cuja materialização discursiva se dá através das práticas sociais, possibilitando a esse poder uma circularidade, com efeitos normalizadores. Portanto, a produção de ―verdades‖ converte-se em necessidade criada pelo poder, ou seja, os autos criminais são ―verdades‖ discursivas materializadas. A perspectiva foucaultiana questiona o historiador em seus próprios instrumentos de trabalho e modos de operação, fazendo com que o mesmo parta do problema, e não do objeto. A fonte histórica, neste caso o processo crime, deve ser problematizado e discutido, o mesmo não sendo a origem da explicação, mas explicado pelas práticas sociais. 7 Aqui, fala-se em não ser mais virgem, mas não necessariamente o rompimento himenal. No Código Penal de 1890, anterior ao de 1940, exigia-se o defloramento, ou seja, rompimento da membrana himenal, como prova material do crime de sedução. Posteriormente, a perícia criminal considera os casos de hímen complacente, onde não há rompimento da membrana, mas há, evidentemente, a perda da virgindade. Nos casos de hímen complacente, a materialidade se dá através de testemunhos, confissão do réu ou gestação. 8 FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade: o cuidado de si. Rio de Janeiro: Graal, 1985. 9 FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento das prisões. 7ª edição. Petrópolis: Vozes, 1988. 321 A genealogia, que desconstrói o processo crime, não parte do mesmo para explicar os costumes sociais acerca da sexualidade, pois são os costumes que possibilitam a criação do auto criminal. Portanto, a genealogia desconstrói a fonte histórica, desnaturalizando os eventos, buscando na analítica do discurso, as epistemes. Deve-se buscar o sistema de poderes que: ―...funciona no interior...assegurado por uma multiplicidade, por uma dispersão, por um sistema de diferenças e de hierarquias e, mais precisamente, pelo que poderíamos chamar de uma disposição tática na qual os diferentes indivíduos ocupam um lugar determinado e cumprem um certo número de funções precisas...é essa disposição tática que permite que o poder se exerça.‖10 Os processos criminais de sedução e rapto consensual apresentam uma estrutura padronizada, da qual é importante considerar.Inicialmente, o processo criminal apresenta uma capa com resumo do ocorrido, onde constam número do auto e datas de início e arquivamento. Em seguida, o nome do acusado. Na página seguinte, já se apresentam os dados do processo, com o resumo do fato ocorrido. A partir de então, divide-se em testemunhos, tanto do acusado quanto da ofendida, o laudo do exame de conjunção carnal, e o desfecho do processo. No laudo de conjunção carnal, o biopoder se apresenta de forma mais explícita, pois o corpo da ofendida fica à disposição dos peritos, que verificam as condições do defloramento, a estrutura física da implicante, e a hipótese repressiva de Michel Foucault deixa de ter legitimidade. Na hipótese repressiva, a repressão sexual funciona como explicação discursiva. Evidentemente, sendo a hipótese repressiva um discurso, está relacionada a um poder e, portanto, o falar sobre sexo já ultrapassaria esse poder. Entretanto, penetra-se no campo do biopoder, o controle sobre o corpo e suas manifestações aceitáveis ou reprováveis. A perícia médica legal, que irá verificar as condições da ofendida, visando produzir um discurso legítimo sobre as condições do hímen da moça, estaria respaldada nessa prática discursiva. O poder que circula a partir da hipótese repressiva incita discussões sobre sexo entre psicólogos, médicos, religiosos, psiquiatras, pedagogos e juristas. O poder estabelece sua ação e controle sobre a sexualidade dos indivíduos através da linguagem, que por uma prática discursiva, simultaneamente a sua articulação, se transforma em lei. Desta forma, todo o discurso constituído acerca dos corpos e da sexualidade, bem como sua divisão hierarquizada pela dupla moral sexual, ou seja, homens e mulheres, é efeito e instrumento de um poder constituinte e constituído pela linguagem, transformada em lei, neste caso Código Penal, e finalmente naturalizada pelas práticas discursivas. Definitivamente, a sexualidade e suas discussões são construções sociais e, portanto, culturais. Desnaturalizando o discurso sobre a mesma, apreende-se seus mecanismos, suas táticas de funcionamento e compreensão, ou seja, as práticas sociais. 10 FOUCAULT, Michel. O Poder Psiquiátrico: Curso Collège de France (1973-1974). São Paulo: Martins Fontes, 2006. 322 É preciso compreender quem fala, de onde, por que, para que e para quem sobre o comportamento sexual. Toda a narrativa e a prática discursiva acerca dos crimes de sedução e rapto consensual possui uma circularidade, mas o epicentro é a figura feminina, sobretudo menor, compreendida como frágil, no sentido de inferioridade e fraqueza em relação ao homem. Os micropoderes podem ser vistos instituindo os corpos em relações dadas, que têm o mérito de fugir das generalizações exageradas, quando se refere a papéis sociais. O poder é difuso, se exerce no adensamento das relações sexuais e sexuadas, instituindo assim a sociedade, um imaginário que seja hegemônico e as representações sociais que orientem a modelagem e utilização dos corpos. Assim, Foucault assinala que essas estratégias são anônimas, mas que a ―racionalidade do poder é a das táticas muitas vezes explícitas no nível onde se inscrevem (...) que se encadeando, se interpelando e se propagando, encontram alhures seu apoio e sua condição e desenham dispositivos gerais.‖11 Para desvelar a denominada vontade de verdade que impulsiona a identificação sexual e a delimitação das práticas sexuais, as figuras do feminino e do masculino surgem como monumentos, no sentido foucaultiano: são imagens unitárias de uma essência revelada por indícios corporais, mas apenas resultado aparente de uma homogeneização construída e naturalizada pelo arbítrio social. Essas relações hierarquizadas, ou seja, da dupla moral sexual, são determinadas, como já afirmadas, pelo sexo biológico. Desta forma, o sexo biológico tem um efeito discursivo. O poder cria o corpo ao anunciá-lo sexuado, ao fazer de sua constituição biológica um fator natural, com características peculiares, tornando indiscutível a divisão dos seres humanos e dois grupos distintos. Claro que não se quer afirmar a inexistência desses grupos distintos, com um aparelho genital dado e sim a forma como o poder utiliza essa divisão. O poder cria a importância dada a esse fator corporal, um sentido de revelador, de catalisador ou de essencial do ser e da identidade individual. Pensa-se nesse momento no sexo enquanto significação, cuja constituição em discurso é gerida pelo próprio discurso e as representações nele contidas. O sexo-discurso produz corpos aos quais se atribui um sexosignificação de forma binária e sobretudo normatizadora, cuja circularidade, pois o poder é circular, tem seu epicentro na reprodução, no convencionado discurso da aliança, e em sexualidades diversas que não cessam de se referir ao sexo ―originário‖, o reprodutor. Destaca-se o discurso de aliança como o que não altera o fato de que é indissociável a significação discursiva da significação corporal atribuída ao ser humano em matrizes de inteligibilidade que produzem o sexo em experiências de gênero. O discurso da aliança é o fundamentador do discurso dos autos criminais de sedução e rapto consensual. Afinal, se não fora 11 FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979. 323 a necessidade de se legitimar a conjunção carnal pelo casamento, não haveria processo crime dessa natureza. Tratando especificamente agora do artigo 220, que trata do rapto consensual, frisa-se que esse crime ofende à família, e não a raptada, considerado o valor ético e sexual da mesma.A ofendida não é a moça raptada, e sim o pai da mesma, que teve sua filha subtraída de sua tutela. O consentimento da vítima, do ponto de vista jurídico, não é válido, uma vez que a menor não se tutela, ou seja, não tem autonomia para responder por seus atos e, portanto, não pode dar consentimento. Entretanto, essa espécie de crime ocorre quando a moça quer se casar com o moço e seus pais não dão consentimento, então uma suposta saída é a fuga. Muitas situações de rapto consensual ocorrem mediante o fato de que a moça quer provocar a aceitação de seus genitores. Contudo, o pai ou tutor que consente a fuga da filha para fim libidinoso responde por outro crime, lenocínio. Como se pode evidenciar, a desconstrução da narrativa dos autos criminais permite uma análise genealógica, no casos dos crimes de sedução e rapto consensual, acerca dos costumes sociais, especificamente sexuais, e as práticas discursivas que compõem os mesmos. Um auto criminal expõe a materialidade das verdades discursivamente construídas, mas não são necessariamente detentores de toda a ―verdade‖. Nenhum discurso detém a totalidade da verdade. A desconstrução possibilita verificar as táticas de construção das práticas discursivas, no âmbito jurídico, e as verdades marginais a essa fonte. Partindo do método genealógico na análise histórica dos autos criminais, verifica-se a produção de um discurso histórico acerca dos costumes sociais, os fundamentos discursivos e as relações de poder-saber que o compõem. 324 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANTUNES, José Leopoldo Ferreira. Medicina, leis e moral: pensamento médico e comportamento no Brasil (1870-1930). São Paulo: UNESP, 1999. CASTRO, Francisco Viveiros de. Os delitos contra a honra da mulher. 2ª edição. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1932. EL FAR, Alessandra. Páginas de sensação: literatura popular e pornográfica no Rio de Janeiro (1870-1924). Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2004. FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: vontade de saber. 12ª edição. Rio de Janeiro: Graal, 1997. _________. História da Sexualidade II: o uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Graal, 1984. _________. História da Sexualidade III: o cuidado de si. Rio de Janeiro: Graal, 1985. _________. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979. _________. O Poder Psiquiátrico: Curso Collège France (1974-1975). São Paulo: Martins Fontes, 2006. _________. Vigiar e Punir. Nascimento das prisões. 7ª edição. Petrópolis: Vozes, 1988. HUNGRIA, Nelson; LACERDA, Romão Cortes de. Comentário ao Código Penal: vol. III. Rio de Janeiro: Forense, 1948. MEYER, Marlyse. Folhetim: uma história. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. MIRABETE, Julio Fabbrini. Código Penal Interpretado. 4ª edição. São Paulo: Atlas, 2003. NUCCI, Guilherme de Souza. Código Penal Comentado. 4ª edição. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2003. PATARO, Oswaldo. Medicina legal e prática forense. São Paulo: Saraiva, 1976. 325 ENTRE VALORES E PRÁTICAS: A INFÂNCIA E ADOLECÊNCIA POBRES ASSISTIDAS NA CIDADE DE TOLEDO/PR (1970-2000) Cristiano Neri Mestrado em História pela UNIOESTE Bolsista da Capes- Demanda Social [email protected] RESUMO: Esta pesquisa problematiza historicamente valores e práticas assistenciais em relação à infância e adolescência pobres na cidade Toledo nas últimas décadas. Em Toledo, região Oeste do Paraná, ocupada nos anos 1940 por migrantes de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, descendentes de italianos, e emancipada em 1951, busca-se cultuar uma memória pública harmônica e heróica acerca dos primeiros ―colonizadores‖. Os usos desse passado acabam silenciando vários processos e conflitos sociais. Nesse sentido, os jornais locais e regionais assim como documentos institucionais relatam a existência cotidiana de sujeitos envolvidos em pequenos furtos, já desde a década de 1970, revelando outra face da cidade em relação à existência da pobreza delinquência infantil e outras mazelas sociais. Também encontramos relatados nestas fontes concepções e práticas de políticas assistenciais desenvolvidas na cidade; de início por religiosos Vicentinos, depois pelo poder público municipal, além de outras formas de controle policial. Na mídia as autoridades apontam que os problemas são normais ou que os envolvidos são sujeitos vindos ―de fora‖ de outras localidades e regiões, trazendo à tona problemáticas relativas à aceitação da alteridade. Dessa forma, a pesquisa objetiva compreender concepções e práticas que orientam esta problemática vivida na cidade de Toledo, assim como os silêncios, os significados e os múltiplos olhares em torno destas práticas. PALAVRAS CHAVES: Infância, Adolescência, Cidade. INTRODUÇÃO Esta pesquisa problematiza historicamente valores e práticas assistenciais em relação à infância e adolescência pobres na cidade Toledo nas últimas décadas. Na cidade de Toledo, região Oeste do Paraná, ocupada nos anos 1940 por migrantes de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, descendentes de italianos, e emancipada em 1951, busca-se cultuar uma memória pública harmônica e heroica acerca dos primeiros ―colonizadores‖. Os usos desse passado acabam silenciando vários processos e conflitos sociais, entre os quais a existência de uma infância e adolescência pobres que, a partir dessa ótica, passam a ser objeto da assistência institucional. Nesse sentido, os jornais locais e regionais relatam a existência cotidiana destes sujeitos envolvidos em pequenos furtos, já desde a década de 1970, revelando outra face da cidade em relação à existência da pobreza e outras mazelas sociais, além da própria delinquência infantil que já também passa a considerada. Também encontramos relatados nestas fontes concepções e práticas de políticas assistenciais desenvolvidas na cidade; de início por religiosos Vicentinos, depois pelo poder público municipal, além de outras formas de controle policial. Na mídia as autoridades apontam que os problemas são normais ou que os envolvidos são sujeitos vindos ―de fora‖ de outras localidades e regiões, trazendo à tona problemáticas relativas à aceitação da alteridade. Dessa 326 forma, a pesquisa objetiva compreender concepções e práticas que orientam esta problemática vivida na cidade de Toledo, assim como os silêncios, os significados e os múltiplos olhares em torno destas práticas. As fontes utilizadas são reportagens jornalísticas e outros documentos públicos de entidades assistenciais. FATORES CONJUNTURAIS Antes de problematizar os valores e as práticas da infância e adolescência pobres assistidas em Toledo é preciso entender: Que momento é este em âmbito conjuntural de por a infância e adolescência em questão? Assim em 1927 temos o primeiro código que regulamenta o atendimento à criança e ao adolescente atrelado aos processos de higienização das cidades e reformas de centros urbanos. Outro marco importante para a infância e adolescência é o código de 1979 que foi considerado por teóricos uma inovação pouco significativa em termos de concepção frente os problemas da época; a prática destes dois códigos é considerada a doutrina da situação irregular em que a infância e adolescência são objeto de direitos e não sujeitos de direitos sendo este último a concepção que norteou os fundamentos do Estatuto da Criança e do Adolescente, ECA; Estes fatores nos mostram que há grandes diferenças entre as legislações e as práticas com a infância e adolescência.Nesse sentido apesar de algumas semelhanças cada região e sobretudo cada cidade apresenta contornos impares destas problemáticas; por isso a importância da analise dos valores e práticas na cidade nas palavras de Neri e Oliveira (2010): Com o novo Código de Menores de 1979 (Lei 6.697) a ―[...] novidade tímida [...] foi de considerar que a proteção da infância era um direito de todas as crianças e adolescentes e um dever do Estado‖ (COLOMBO, 2006, p. 70). Porém, na prática não houve mudanças significativas, a criança e o adolescente continuavam sendo considerados enquanto objetos de direitos e não sujeitos de direitos, este último, é o entendimento atual preconizado no Estatuto da Criança e do Adolescente. Não há também, como já foi apontado, a separação nas medidas propostas entre adolescentes que cometeram ato infracional e os abandonados.1 Feitas algumas considerações deste momento mais no âmbito nacional, é fundamental historicizar a formação econômico social e cultural da cidade de Toledo, pois a mesma foi ocupada a partir da década de 1940, possuindo particularidades desde sua colonização. Dessa maneira, convém realizar a seguinte interrogação: Que cidade é esta, e que infância e adolescência é essa, em que a problemática do menor abandonado e menor infrator começam a ser evidenciado a partir da década de 70 com contornos da memória pública da cidade e minimamente sistematizar os processos de modificação da paisagem social do município e da região, que simultaneamente estavam em processo de intensa transformação. 1 Neri e Oliveira, 2010;p. 10 327 Destarte, já consideramos acima que Toledo é uma cidade colonizada a partir de 1946 por italianos e alemães vindos do Rio grande do Sul e santa Catarina inserida na conjuntura acima descrita, porém, com diversos fatores que são de extrema importância a identificação. Em Toledo busca-se cultuar ainda hoje a memória pública destes colonizadores mesmo após um fluxo heterogêneo de migração vinda de outros lugares do país. Para entender Alguns valores e práticas da colonizadora MARIPÁ do extremo oeste do Paraná Davi Felix Schreiner afirma que Toledo: Segundo o projeto de colonização da MARIPÁ, a preferência por estas etnias deu-se por serem considerados como portadores de ―mão de obra esmeralda‖ e de ―maior valor produtivo‖. Além disso, ainda segundo esse projeto de colonização , o agricultor ―... descende de imigrantes de italianos e alemães , com mais de cem anos de aclimatação no País, conhecedor de nossas matas, doas nossos produtos agrícolas e pastoris, primado pela sua operosidade e pelo seu amor a terra em que trabalha, seria, (...), o elemento humano predestinado a realizar grande parte desta tarefa‖. Ou seja, a tarefa de desenvolver a cultura e a economia da região. 2 Fica evidente também no trabalho de Schreiner, (embora o mesmo não explora este eixo) uma preocupação com o ―outro‖. Quem é este outro? O migrante que não esta nos planos da colonizadora, evidenciando já uma relação de identidade e alteridade nas palavras do autor: A escolha de um tipo específico de mão de obra com características culturais comuns, pressupõe a exclusão de outros. Nesta perspectiva, a MARIPÁ ―não fazia propaganda ruidosa‖ porque, segundo seu projeto de colonização, ―atrairia elevado número de aventureiros e parasitas que nela se entreveriam um meio de vida fácil as suas atividades desonestas. Seria bom retardar o máximo possível a penetração desses elementos para dentro de um setor novo e são‖. Em última análise o que a empresa procura resguardar é o desenvolvimento econômico e cultural que na sua visão só pode acontecer com ―homens sans‖ (sic).3 O autor demonstra também em seu livro a formação de uma cultura do trabalho no extremo oeste do Paraná, ou seja, o culto á uma memória e identidade de Toledo como a cidade do trabalho, primeiramente voltado ao espaço rural e posteriormente com a urbanização e o êxodo rural uma adaptação da mesma para o espaço urbano, pois, na década de 70 e 80 com o processo de mecanização da agricultura, várias famílias se obrigam a vender suas propriedades e migrar para a cidade em busca de emprego. Nesse momento também há uma intensificação do processo de industrialização e uma modificação na estrutura e nos valores das famílias, demarcando a inserção da mulher no mercado de trabalho. Além disso, uma nova difusão de concepção de trabalho é construída de forma que se adéqüe as novas realidades da industrialização; Nesta época a imprensa apresenta Toledo como a ―Capital do trabalho‖. 2 3 (SCHREINER, 1997; P. 66, 67). (SCHREINER, 1997; p.70) 328 Schreiner ainda afirma que os trabalhadores preferidos pelas empresas do agronegócio emergentes eram os que o espaço rural forneceu. A tabela a seguir é apresentada para se ter uma idéia do processo de migração e concentração de pessoas na cidade de Toledo ao longo do tempo, um intenso crescimento é verificado da década de 70 a década de 90, em que se concentra diversas modificações no espaço urbano: Estrutura demográfica município de Toledo Distribuição da população urbana e rural Ano Urbana Rural Total 1956 2.720 7.225 9.945 1960 5.926 19.033 24.959 1970 14.986 53.899 68.885 1980 42.994 38.288 81.282 1991 72.402 22.477 94.879 1996 76.125 14.292 90.417 1997 93.756 1998 96.659 1999 99.387 2000 85.920 12.280 98.200 2001 99.655 2002 100.715 Fonte: IBGE- Censo 2000/ Dados estimados pelo IBGE. No bojo destas transformações que vai ser evidenciado em Toledo os menores abandonados e infratores ocupam a cena pública, sendo alvo das primeiras reportagens em que se evidencia valores e práticas presentes em outros locais do Brasil como valores e práticas específicos desta região. OS VALORES E AS PRÁTICAS SOBRE A INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA POBRES ASSISTIDAS EM TOLEDO O Jornal Oeste, fonte principal deste artigo é editado atualmente e tem como slogan ―Informação a serviço da integração regional foi fundado em 20/05/1984 e tem atualmente 25 anos de existência é um jornal acessível e de elevada circulação em Toledo e região‖. Um exemplo de valores e práticas presente na imprensa nomeada acima em relação à infância e adolescência pobres, é evidenciado em uma reportagem com o titulo ―Gangues‖ Mirins que para desempenhar determinadas práticas a estes infantes e adolescentes não são tratados em igualdade são considerados pelas autoridades policiais como ―sujeira‖ que deve ser limpa para manter uma boa imagem da cidade, nas palavras da reportagem do jornal do oeste sobre a atuação da polícia: O delegado FRANCISCO FONTOURA diz que limpará a cidade da marginalidade infanto-juvenil. 329 O delegado de polícia de Toledo, Francisco Fontoura disse a nossa reportagem na tarde de ontem que a sua equipe esta trabalhando no sentido de fazer uma limpa na cidade, colocando vários menores fora de circulação, bem como os marginais em geral.4 Outra reportagem que apresenta particularidades importantes a respeito da problemática do menor é a intitulada ―Toledo vai desenvolver mutirão contra a violência‖. Que dentre outros assuntos fica evidente uma falta de recursos por parte da delegacia que através da imprensa tenta mobilizar a comunidade na alocação de recursos para a delegacia e propõe uma parceria com a comunidade para identificar os possíveis marginais que são pessoas de ―fora‖ que praticam, assim fica fácil a identificação, no dizer da reportagem: Segundo o promotor, Toledo não, mais permite que se viva com costumes de uma vila, sendo necessária a união da polícia mais os moradores para alcançar a segurança desejada. Para ele os furtos e roubos que ocorrem na cidade dividem-se em dois tipos: os assaltos de residências por marginais armados que em muitas vezes são roubados os carros e o arrombamento, durante o dia ou à noite, de residências por menores e criminosos da cidade. Esses crimes e principalmente os primeiros podem ser prevenidos pelo simples fato de que são pessoas de fora que os praticam, segundo o promotor, sendo, portanto, de fácil identificação para a comunidade que pode assim se defender –se. Seria preciso apenas haver uma integração entre a população e a polícia no sentido de vigiar as pessoas desconhecidas ou suspeitas que eventualmente sejam vistas nas ruas da cidade. Isso levaria a questão do policiamento que conforme reconheceu o tenente Graciano da polícia militar não consegue cobrir de forma adequada à cidade. Segundo informou o tenente, nesta semana ainda devem ser formados mais dez ou doze policiais militares para Toledo além de estarem vindas mais seis motocicletas para patrulhamento do trânsito da cidade as quais poderiam ser utilizadas também na vigilância, mas isso não é suficiente uma vez que nestes dias, por exemplo deve vencer a conta de gasolina da PM e a corporação não tem dinheiro para paga-la junto ao proprietário do posto.5 Apesar da evidência de diversas reportagens e de um depoimento da Irma Luiza responsável pela ação social São Vicente de Paula, em Toledo no jornal Correio do Oeste, afirmando, haver menores abandonados em Toledo desde a década de 70, em uma reportagem publicada na capa do Jornal do Oeste intitulada: ―A reação dos abandonados I‖ diz‖ que até um ano atrás a cidade de Toledo desconhecia totalmente o problema do menor, no dizer da reportagem: O jornal do oeste inicia hoje uma série de reportagens sobre a questão do menor abandonado e infrator que hoje preocupa a sociedade toledana que até um ano atrás desconhecia totalmente o drama de conviver com os meninos de rua. A delegacia de polícia somente nesta semana deteve 11 menores alguns com menos de 10 anos de idade envolvidos em furtos e arrombamentos demonstrando que a situação do menor abandonado ou 4 5 (Jornal do Oeste;13 de abril de 1989,p5) Jornal do Oeste; Toledo sexta feira 11 de agosto de 1989; grifos meus. 330 desassistido, esta assumindo proporções alarmantes na cidade leia página 3.6 Na mesma reportagem evidencia muitas relações entre identidades e alteridade na cidade de Toledo, nas páginas internas dessa edição a matéria foi intitulada: ―TOLEDO ESTÁ VIRANDO REFÚGIO DE MENORES INFRATORES‖, publicada em 6 de outubro de 1989; Conforme o dicionário de língua portuguesa Houaiss a palavra refugio significa ―o Lugar para onde se foge para escapar a um perigo‖ , pela interpretação do titulo a palavra refúgio é fundamental para entender a relação explicitada acima de identidade e da negação da alteridade, pois, mesmo após ter evidenciado uma grande quantidade de menores sendo institucionalizados nas reportagens da ação social e envolvidos em furtos persiste a afirmativa de que os menores são oriundos de outras localidades trazendo a problemática a respeito da aceitação da alteridade, e ainda há todo um discurso com ênfase na institucionalização dos infantes, assim muitos questionamentos vão no sentido de que os infantes são de ―fora‖ pois os nossos infantes carentes sabem que devem recorrer a Ação Social (HOUAISS, 2001; P.2414). Assim a assistência é o caminho imposto pela cidade aos infantes pobres, tanto infratores como abandonados. È evidente também nas reportagens que só a situação dos menores perambulando nas ruas já era motivo de enquadrá-los na situação irregular. Para o promotor público Luiz Torrens existe a denúncia de que pessoas de outras localidades estão trazendo menores para Toledo deixando-os aqui Estes para sobreviverem catam papel ou ferro nos arredores. Neste âmbito eles se criam onde às vezes abandonados tem sua experiências para infratores. O promotor anuncia que existe uma lei que menores de 14 anos trabalhem nestes locais realmente é permitido aos maiores de 14 anos, desde que comprovem que estejam estudando. Na verdade na prática isto não ocorre. O que leva o promotor a acrescentar que estes menores não são daqui é o fato de que Toledo nunca teve crianças abandonadas nas ruas. A ação social e entidades filantrópicas são bastante eficientes e os menores daqui sabem que podem recorrer a essas entidades caso precisem de ajuda diz ele. Por outro lado o promotor alerta que é preciso cuidado com certas pessoas que se dizem dispostas a ajudar a ajudar, mas que na verdade só atrapalham . Ele cita o exemplo de dois garotos que foram tirados da ação social que posteriormente foram abandonados. Hoje estão aqui detidos não se adaptam mais a sociedade , nem a ação social que antes os ajudou. 7 Esta institucionalização evidenciada em Toledo também é identificada em outras regiões do Brasil, Rizzini (2004) evidenciou que se formou-se no país uma cultura da institucionalização de crianças, pois, as famílias pobres eram consideradas incompetentes de educar seus filhos. Além disso, é interessante que a justiça pauta-se na concepção de família nuclear Burguesa. 6 7 (Toledo Sexta feira 6 de outubro de 1989; grifos meus) Jornal do Oeste; Toledo Sexta feira 6 de outubro de 1989; grifos meus. 331 Para o juiz é muito importante o papel da comunidade na recuperação da criança problemática, ―Afinal não podemos melhorar o mundo sozinhos , é preciso um esforço conjunto‖, desabafa. Ele cita um fato comum que tem observado frequentemente ―Muitas vezes as pessoas preferem dar uma esmola ao garoto que esta pedindo a comprar um jornal do menino do lado que está trabalhando, incentivam dessa forma a vida fácil e não o trabalho, o esforço do jornaleiro‖. È evidente continua o juiz ―que a garotada vai preferir a vida fácil, pedindo na rua, a trabalhar para sobreviver‖. Segundo o juiz este tipo de comportamento tem gerado evasão dos centros de atendimento justamente porque, ―embora as exigências nestes estabelecimentos sejam tão rígidas eles sempre cobram da criança disciplina e responsabilidade‖. (Toledo Sexta feira 6 de outubro de 1989) Alguns questionamentos são plenos de sentido após esta exposição tais como: Será que havia alguma resistência por parte das famílias pobres em institucionalizar seus filhos? Ainda não foi possível responder a esse questionamento, pois, as fontes jornalísticas não apresentam a voz das famílias destes infantes e adolescentes, porém em um estudo sobre a circulação de crianças no Brasil Arend (2005) argumenta que os padrões da família nuclear burguesa não se adequam a realidade das famílias pobres, por isso, para as mães que deseja ficar com seus filhos tem que dispor de diversas redes de auxilio como testemunhas dos vizinhos, e ainda táticas para lidar com uma realidade que não é a sua, ou seja, como o discurso da família nuclear burguesa não é vivenciado pelos pobres eles se apropriam destes discursos para formular táticas no judiciário. Ainda na mesma reportagem, uma pessoa da comunidade que teve a casa arrombada por menores e propôs a criação da delegacia do menor Nelson machado e silva, fica evidente em seu dizer um discurso religioso que é muito forte na cidade, assim como o discurso da situação irregular e da heterogeneidade dos arranjos da família, sendo possível a reflexão no sentido de entender, as mazelas do ―progresso‖ que ao mesmo tempo deixa esses jovens vulneráveis e os criminaliza, nas palavras do mesmo: Ele acha que a situação esta hoje ta difícil que é necessário a interferência divina para resolver esta situação. Por isso pede ―que as pessoas rezem muito por estas crianças que não pediram para nascer e não tem culpa de não ter os pais que nós tivemos e que nos educaram".8 Na semana seguinte o jornal lançou mais uma vez na capa da edição a matéria ―A reação dos abandonados II‖: Os meninos de rua, abandonados na vida pública, em muitos casos se transformam em ladrões e assaltantes, estimulados por receptadores de objetos roubados ou quadrilheiros adultos, que usam as crianças para arrombar residência s e estabelecimentos comerciais, ate sob a ameaça de maus tratos físicos. Esses meninos quando presos, são liberados de volta as ruas, porque não existe em Toledo estabelecimento destinado ao 8 Jornal do Oeste; Toledo, Sexta feira 6 de outubro de 1989. 332 atendimento do menor infrator, Para o delegado Francisco Fontoura por tudo isso, o problema dos menores infratores ‖é mais social do que policial‖. Leia na p 3.9 Evidencia-se uma circulação destes menores entre a rua e a delegacia, pois a prisão para as autoridades não tinha eficácia nenhuma, porém durante muitos anos esta prática foi desempenhada. Também fica evidente já a preocupação de criar uma instituição destinada ao menor infrator, pois, quando os adolescentes pegam uma determinada idade eles não se acostumam à assistência social de acordo coma Irma Luiza eles já não se integram a instituição. A delegacia de polícia de Toledo somente na semana passada deteve mais de uma dezena de menores, com idades variando de seis a dezessete anos por estarem envolvidos em furtos, arrombamentos até assaltos . Eles ficaram detidos em uma cela especial, mesmo assim chocando diversas pessoas que estiveram na delegacia de polícia para em seguida serem encaminhados ao poder judiciário. O juizado de menores sem dispor de estabelecimentos destinados a recuperação de menores infratores, por sua vez, foi determinado a liberar a libertação pura e simples dos meninos, embora consciente que dentro de pouco tempo certamente todos eles voltaram a delinquir , tornarão a ser detidos e mais uma vês serão liberados para prosseguir na vida fora da lei , Até que um dia alcancem a maioridade se nada de mais grave lhes acontecer até lá, para então serem punidos pelos crimes cometidos.10 Ainda na mesma reportagem, ficam evidentes as crianças envolvidas em diversas atividades, sob a interferência de adultos inclusive usando drogas como a maconha. De acordo com a reportagem: Esse é o drama vivido pelo grupo de menores delinqüentes de Toledo, que há poucos dias , foi relatado, em minúcias, por um garoto de menos de 10 anos de idade, O menor foi ouvido pelo radialista Naroldo Martan, da rádio União de Toledo, contatando de suas dificuldades de obter alimentação e abrigo, enquanto perambula pelas ruas da cidade ; das carências afetivas; de suas magoas de uma criança sem infância; e o mais lamentável , de sua conturba e violenta convivência com os adultos. “Eles nos dão maconha para fumar e nos obrigam a roubar. Se não roubamos nos batem‖, afirmou o garoto com voz chorosa. Sobre o envolvimento de adultos na criminalidade que envolve os menores de idade, ninguém tem dúvidas, é bom que se frise , mas ninguém sabe ainda de uma forma infalível para sanar esse problema.11 Há um forte discurso de vitimização, infantilização, criminalização, estigmatização dos infantes pobres, em que a culpa pela situação dos mesmos, recai sobre os pais ou pessoas adultas, tão vulneráveis quanto eles. Os valores presentes nos discursos tendem à atribuir a situação de que os pais vivem em uma condição de alcoolismo e brigas; E no dizer de algumas 9 Jornal do Oeste; Toledo Quarta feira 11 de outubro de 1989. Jornal do Oeste; Toledo Quarta feira 11 de outubro de 1989. 11 Jornal do Oeste; Toledo Quarta feira 11 de outubro de 1989. 10 333 reportagens esta condição acaba atrapalhando o trabalho, assim, a comparação é feita sempre de acordo com os valores da família nuclear burguesa que não é vivenciado pelos pobres; E ainda, da mesma forma que os infantes e adolescentes pobres e família,―quando as têm‖, sofrem um processo de violência através da modificações estruturais que a cidade de Toledo atravessa assim como diversas outras localidades. No dizer do delegado da época: Ele entende que o menor é uma simples vitima da sociedade, ―A culpa muito mais nos adultos do que nos menores‖. Segundo o delegado, o ambiente e as pessoas com quem as crianças convivem são os principais responsáveis pelo comportamento dos filhos menores. ―De que adianta prender uma criança , chamar os pais adverti-los se eles voltam para casaquando tem- , para um clima de briga e hostilidade. Isso quando os pais não bebem e a situação se agrava ainda mais", questiona. Conforme o delegado são recolhidos de 8 a 10 adolescentes por noite e postos em liberdade no dia seguinte, com a presença dos pais, ―mas esta é uma medida paliativa, não resolve o problema‖.12 Nesta mesma reportagem há a aceitação da alteridade o que difere de muitas anteriores que há uma tentativa de dizer que os menores são de outras localidades, assumindo os problemas que estavam presentes na cena pública do município de Toledo. Nas palavras da reportagem: A denúncia de que outras pessoas estariam trazendo menores para cá para trabalhar no ferro velho ou coleta de papel, segundo o delegado, foi averiguada, mas não procede. Pelo menos não tem nada comprovado. O êxodo rural e situação financeira difícil são os maiores responsáveis pelo crescimento do número de menores nas ruas. Quanto ao trabalho, diz ele, ―o ideal é que os menores pudessem trabalhar e estudar, dividindo seu tempo com coisas produtivas, mas a gente sabe perfeitamente que a realidade esta muito longe do ideal‖.13 CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir do conjunto das fontes analisadas, fica evidente nos dizeres das autoridades uma preocupação com: o controle social e policial, com a disciplina das instituições assistenciais em relação ao trabalho, com a imagem do município de Toledo, a tentativa de negação da alteridade, a ―incapacidade‖ dos pobres em gerenciar suas famílias‖, ou seja, o conjunto de valores e práticas anteriores ao estatuto da criança e do adolescente atua de maneira semelhante sobre menores que são infratores, ou que simplesmente estão desenvolvendo alguma atividade de trabalho na rua, ou ainda os abandonados, no dizer de Costa: A Doutrina da Situação Irregular é a expressão jurídica do modelo latinoamericano de apartação social, modelo este que, ao longo de nossa 12 13 Jornal do Oeste; Toledo Quarta feira 11 de outubro de 1989. Jornal do Oeste; Toledo Quarta feira 11 de outubro de 1989. 334 evolução histórica, acabou gerando duas infâncias: (i) a infância escolafamília-comunidade e (ii) a infância trabalho-rua-delito.14 É interessante que em Toledo as instituições assistenciais, tinham uma preocupação em institucionalizar o adolescente mesmo que ele estivesse trabalhando na rua, pois, para as autoridades ―eles estão se acostumando a vida fácil nas ruas ao invés de trabalharem‖, contudo ao serem institucionalizados acabam desenvolvendo as mesmas funções, porém, sob a orientação da instituição. O processo de mecanização da agricultura e inicio de uma industrialização desloca os trabalhadores do rural para o urbano, além de vários outros migrantes que se instalam na cidade. De acordo com Schreiner (1997) a preferência das empresas agroindustriais era por trabalhadores rurais que se ―auto-reconheciam afeitos ao trabalho‖. Através das reportagens jornalísticas não é possível evidenciar a origem social e étnica migratória dos infantes institucionalizados ou infratores ou ainda abandonados, neste sentido o fórum da comarca de Toledo pode nos apresentar evidencias importantes sobre estes sujeitos, assim, nos trabalhos posteriores estarei investigando os autos de investigação da infância e adolescência (se me for concedida a permissão), para compreender com maior amplitude os valores e as práticas em relação à infância e adolescência na cidade de Toledo. Neste sentido Neri e Oliveira em um artigo sobre a doutrina da situação irregular afirmam que há alguns entraves em relação ao acesso da fontes da justiça, que no meu entender, se os cientistas se comprometem com a ética na pesquisa e as prerrogativas do Estatuto da criança e do adolescente, não há porque barrar o acesso as fontes, ainda mais neste momento em que os discursos de transparência pública são tão disseminados no entanto eles afirmam: Alguns das dificuldades em pesquisar assuntos correlacionados a infância e adolescência é a dificuldade do acesso as fontes, pois há alguns entraves que se colocam ao pesquisador, como por exemplo, o segredo de justiça, dessa maneira, às vezes se torna complicado para os cientistas sociais: historiadores sociólogos e antropólogos subsidiarem os formuladores de políticas públicas e a sociedade para projetar seu futuro, com estudos de realidades atuais que ajudariam na proposição de medidas que perceba as práticas socioculturais como um processo construído em meio a diversas redes de socialização que vão das que propiciam a incorporação dos ideais de sociedade democrática, como as de socialização perversas e assim pensar em intervenções não somente no extremo do processo de construção do sujeito. Além disso, o conhecimento da práticas socioculturais da infância adolescência deve auxiliar os formuladores de políticas públicas para que suas proposições vão ao encontro das necessidades dos sujeitos sociais em questão.15 Aries (1978) já afirmou que a infância e adolescência são categorias históricas em constante mutação e diversificação em uma mesma periodicidade histórica, sendo que as 14 15 COSTA, 2006, p. 19, grifos do autor. (Neri e Oliveira, 2010;p. 10) 335 particularidades do cotidiano escapa aos esquemas rígidos de pensamento, dessa forma, estudar a infância e adolescência pobres assistidas na cidade de Toledo, pode trazer a historiografia uma série de contornos que são evidenciados em outras localidades como um conteúdo ímpar relacionado à historiografia da formação da região oeste do Paraná que por sua vez faz parte da história do Brasil. 336 BIBLIOGRAFIA AREND. Silvia Maria Fávero. Filhos De Criação: Uma história dos menores abandonados no Brasil (década de 1930). Programa de Pós-graduação em História da Universidade do Rio Grande do Sul (Doutorado). 2005. ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: LTC, 1981. COSTA, Antônio Carlos Gomes da. Socioeducação: estrutura e funcionamento da comunidade educativa. Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos, 2006. ELLIAS, Norbert e John l. Scotson; Os estabelecidos e os Outsiders,Rio de Janeiro; Ed Zahar,2000. NERI, Cristiano e OLIVEIRA, Luiz Carlos. A doutrina da situação irregular e a doutrina da proteção integral: infância e adolescência sob controle e proteção do estado. In: Simpósio Nacional da Educação: Infância e Sociedade; Cascavel UNIOESTE; 2010. RIZZINI, Irene. A Institucionalização de Crianças no Brasil. Rio de janeiro: PUC. 2004. SCHREINER, Davi Félix. Cotidiano, Trabalho e Poder: a formação da cultura do trabalho no extremo oeste do Paraná. 2.ed, Toledo; 1997. FONTES BRASIL. Decreto n° 17.943 A, de 12 de outubro de 1927. Rio de Janeiro, 1927. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1988. JORNAL DO OESTE; Toledo, quinta – feira, 13 de abril de 1989, ANO 6 - n.º 1.050. JORNAL DO OESTE; Toledo, sexta feira 11 de agosto de 1989; Ano 6 – 1133. JORNAL DO OESTE; Toledo, Sexta feira 6 de outubro de 1989; Ano 6 – 1170. JORNAL DO OESTE; Toledo, Quarta feira 11 de outubro de 1989; ano 6 - n ° 1.174. JORNAL DO OESTE; Toledo, sábado e domingo 18 19 de novembro de 1989; ano 6 - n°1.200. JORNAL DO OESTE; Toledo, terça feira, 16 de outubro de 1990; ano 7 - n° 1415. 337 FOME, FRIO E FORCA: IMAGINÁRIO E REPRESENTAÇÃO EM OLIVER TWIST DE CHARLES DICKENS DIOGO HEBER ALBINO DE ALMEIDA (CCHE/CJ/UENP) [email protected] Resumo: Com base no livro Oliver Twist, de Charles Dickens, procura-se nesta pesquisa trazer à luz como foram representadas algumas peculiaridades do imaginário do autor sobre três temáticas da obra: a fome, o frio e a forca. A proposta veio à luz pelo fato de estarem essas três palavras reforçadamente referidas durante todo o texto, o que denota um forte apelo imaginário. A fome viria destacada com o fator de não se comer, se morrer por causa dela, ou passar fome mesmo, tendo até jantares de fartura como representação inversa. O frio viria com o destaque das baixas temperaturas, o frio congelador britânico, o vento, a falta de roupas, ou o excesso delas para não se passar frio, em outras personagens. A forca vem com um apelo do medo de se morrer nela, pois, eram comuns as condenações na forca na Inglaterra da Era Vitoriana, por mendicância (que era proibido) ou bandidagens em geral. Geralmente eram as populações mais pobres que sofriam o medo de se morrer na forca, e isso atingia seu imaginário. Para tanto foram usados alguns autores e filósofos de destaque na composição do texto, entretanto, a metodologia ficou a cargo do historiador Roger Chartier, no que tange às representações, o poder de traduzir algum sentimento ou idéia sobre um objeto; o filósofo Cornelius Castoriadis não foge dessa temática, reforçando o discurso das representações, exemplificando como cada objeto simbólico é carregado de muito mais do que apenas uma semântica literal, contudo, também o fator do imaginário humano; e o teórico da literatura Wolfgang Iser, sobre como o autor compõe em parceria do leitor a obra literária, sendo este último alguém que preenche certas lacunas deixadas pelos autores da literatura, com algum espaço dado ao imaginário. PALAVRAS-CHAVE: Oliver Twist; Imaginário; Representações. INTRODUÇÃO No preâmbulo de certa obra importantíssima na História Ocidental Contemporânea, nada mais nada menos do que o Manifesto do Partido Comunista, escrito por Karl Marx e Friedrich Engels em 1848, uma frase muito emblemática resume o sentimento que se tinha sobre o que era vislumbrado quanto ao possível chamado para a revolução socialista e para o comunismo: ―um espectro ronda a Europa‖1, e conseqüentemente, o medo que isso causava na burguesia industrial. Pois sim, logo no início deste texto, resolveu-se resgatar essa frase para ir mais além, e demonstrar como esse tal espectro vem carregado de simbolismo de outras coisas mais; vem carregado de vários outros espectros, como o espectro da revolução, ou o espectro da loucura individual ou coletiva – como aquela dos choques de grupos sociais, ou mesmo o pior dos espectros como o da morte (e seu imaginário). Esse espectro da morte, por exemplo, vem cheio de simbolismo e de representatividade na vida humana. Sempre que se pensa (e em inglês, por exemplo, tem-se um relativo dessa palavra que ganha ainda mais uma força denotativa em sua tradução que é realize, a qual dá um aspecto 1 MARX, Karl; ENGELS; Friedrich. O Manifesto do Partido Comunista. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2002, p. 43. 338 de proximidade com o real) a temática da ‗morte‘, em cada contexto e tempo histórico, se pensa em seu mais profundo espírito (aquele do alemão Geist), pois os homens e mulheres vivem, ainda mais na contemporaneidade, sua mais confortável e extrema comodidade de vivência. Na Idade Média, para se ter uma anacrônica, mas talvez figurativa comparação, as pessoas vivenciavam a morte constantemente, fosse pelas batalhas, invasões, ou fosse mesmo pelas doenças que eram de certa maneira incontroláveis. No ápice da modernidade tardia, ou da pós-Modernidade, ou o que quer que se tenha por interpretação do que se vive no século XXI, os seres humanos vivem a possibilidade de se poder curar uma doença, prever sua aparição no corpo, e mesmo adiar a ‗morte‘, com um simples exame numa clínica médica. Fica evidente que essa forma de ‗morte‘ destacada aqui, é apenas uma das representações desse tema no mundo contemporâneo ocidental. Existem ainda outras, como cair de avião, por exemplo, ou um acidente de carro (especialmente em países como o Brasil, de péssimo trânsito e imprudência), ou mesmo em um crime de latrocínio (mais uma vez o Brasil ganha referência), ou queimado, afogado, e outras formas menos povoadoras das mentes de algumas culturas. Em alguma parte da história talvez já se teve (entre membros de um grupo) o receio de afundar um navio e morrer afogado, ou devorado por tubarões. Jacques Le Goff, autor da História das Mentalidades (Escola dos Annales), fala do generalizado medo do diabo, dos monstros e gigantes no imaginário popular medieval na França, parte da Espanha e, sobremaneira, Inglaterra2. E no futuro, vai ser o medo de cair de uma espaçonave?! O esquimó, só para provocar uma ilustração especulativa, pode ter medo de morrer devorado por um urso polar, quem sabe? Coisa difícil de um habitante da zona rural do sertão nordestino brasileiro pensar, por exemplo. Tem de se problematizar que o integrante de cada cultura carrega uma memória coletiva, algo próximo – e tão somente, do que propõe René Descartes de um ‗saber inato‘, porém mais plausível diante do empirismo de David Hume, quando este diz: existe uma diferença razoável entre as percepções da mente, quando uma pessoa sente a dor do calor excessivo ou o prazer do calor moderado (...), em sua memória recorda esta sensação ou a antecipa com sua imaginação. (...) Nosso pensamento é um reflexo fiel e copia seus objetos com veracidade quando refletimos sobre nossas sensações passadas, no entanto, as cores que emprega são fracas e embaçadas em comparação com as que revestiam nossas percepções originais3. Portanto, se for um indivíduo da zona rural, não vai ter os mesmos medos do sujeito da zona urbana; ou o cidadão brasileiro não vai ter o mesmo medo de qualquer outra coisa, ou mesmo de morrer, como um indiano ou um sueco, por exemplo. Tem culturas que até idolatram a morte, como um ritual de passagem espiritual para outro plano. 2 LE GOFF, Jacques. Heróis e Maravilhas da Idade Média. Tradução de Stephania Matousek. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2009. 3 HUME, David. Investigação Sobre o Entendimento Humano. Série Filosofar. Tradução de André Campos Mesquita. São Paulo: Escala Educacional, 2006, p. 19. 339 Entretanto, a morte vem sempre representada para nós de alguma maneira. Nosso fim último na vida, o que todo mundo sabe que vai acontecer. Ou seja, como nas proféticas e inestimáveis palavras de Chicó, na obra de Ariano Suassuna, quando se referiu à morte da cachorra dos patrões dizendo que ―(ela) cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre‖4. O historiador das Mentalidades, Philippe Ariès, fala do comportamento humano diante da morte. Suas descrições através da história por inventários e pela literatura mostram como o ser humano se comportava em vários aspectos, desde a roupa, ou suas visitas no cemitério, ou mesmo se era para ser cômico, trágico, triste, alegre, com esperança da eternidade na posteridade ou apenas como sendo algo desconhecido5. REFERENCIAIS TEÓRICOS Para se falar em representação, primeiramente, faz-se necessário tomar emprestadas as palavras do próprio Roger Chartier, onde diz que poderia ser: como dando a ver uma coisa ausente, o que supõe uma distinção radical entre aquilo que representa e aquilo que é representado; por outro lado, a representação (seria) como exibição de uma presença, como apresentação pública de algo ou alguém. No primeiro sentido, a representação é instrumento de um conhecimento mediato que faz ver um objecto ausente através da sua substituição por uma ―imagem‖ capaz de o reconstituir em memória e de o figurar tal como ele é. Algumas dessas imagens são de bem materiais e semelhantes6. Exatamente com esse argumento, o autor exemplifica usando o historiador alemão Ernst Kantorowicz, quando diz que as ――representações‖, que eram colocados por cima do féretro real durante os funerais dos soberanos franceses e ingleses e que mostravam o que já não era visível, isto é, a dignidade imortal perpetuada na pessoa mortal do rei‖7. Termina o autor denotando que há uma relação ―entre o signo visível e o referente por ele significado – o que não quer dizer que seja necessariamente estável e unívoca‖8. Finalmente, acabada se utilizando das palavras do 4 SUASSUNA, Ariano. O Auto da Compadecida. 10ª Edição. Rio de Janeiro: Agir, 2005, p. 42. ARIÈS, Philippe. O Homem Diante da Morte. Tradução de Luiza Ribeiro. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, 1990. 6 A História Cultural: Entre Práticas e Representações. Tradução de Maria Manoela Galhardo. Memória e Sociedade, Coleção Coordenada por Francisco Bethencourt e Diogo Ramada Curto. Lisboa: Difusão Editorial Ltda; Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil S. A., 1990, p. 20. 7 KANTOROWICZ, Ernst. The King‟s Two Bodies: Study in Medieval Political Theology. Princeton: Princeton University Press, 1957. pp. 419-437 apud CHARTIER, Roger. A História Cultural: Entre Práticas e Representações. Tradução de Maria Manoela Galhardo. Memória e Sociedade, Coleção Coordenada por Francisco Bethencourt e Diogo Ramada Curto. Lisboa: Difusão Editorial Ltda; Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil S. A., 1990, p. 20. 8 Idem, p. 21. 5 340 filósofo francês Blaise Pascal, sobre a representatividade simbólica das vestes e dos instrumentos dos magistrados e médicos, quando diz o filósofo que ―a majestade dessas ciências seria por si própria suficientemente venerável. Mas lidando apenas com ciências imaginárias, é-lhes necessário lançar mão desses vãos instrumentos que impressionam a imaginação9daqueles com que têm de tratar; e é deste modo, que se dão ao respeito‖10. Ainda seguindo essa teoria, Chartier expõe que: A relação de representação é, desse modo, perturbada pela fraqueza da imaginação, que faz com que se tome o engodo pela verdade, que considera os signos visíveis como índices seguros de uma realidade que não o é11. Indo mais além, o historiador ainda diz: Nas definições antigas (por exemplo, a do Dicionário universal de Furetière em sua edição de 1727), as acepções correspondentes à palavra ‗representação‘ atestam duas famílias de sentido aparentemente contraditórias: por um lado, a representação faz ver uma ausência, o que supõe uma distinção clara entre o que representa e o que é representado; de outro, é a apresentação de uma presença, a apresentação pública de uma coisa ou de uma pessoa. Na primeira acepção, a representação é o instrumento de um conhecimento mediato que faz ver um objeto ausente substituindo-lhe uma ‗imagem‘ capaz de repô-lo em memória e de ‗pintá-lo‘ tal como é12. Entretanto, observa-se muito que o conceito de imaginário é sempre constante. Esse elemento da mente humana, que não se pode ver, nem tocar, porém, faz parte da realidade individual e coletiva das pessoas, e é presente. A eterna oposição entre razão e aquilo que não é materializado, ou seja, o irracional, sempre esteve ligado aos problemas da ciência Iluminista moderna. Para Platão, havia algo de inseguro em se crer na ficção, como sendo algo imperfeito, distante do mundo perfeito das idéias, aquele que possui os verdadeiros saberes, pois tudo o que viríamos no mundo sensível seria ilusão, ou cópias imperfeitas, bem como seriam os sonhos, a imaginação. Segundo esse filósofo – ao recorrer ao diálogo entre Sócrates e Glauco, ―a arte de imitar executa as suas obras longe da verdade, e, além disso, convive com a parte de nós mesmos, avessa ao bom-senso, sem ter em 9 Grifo meu, para ressaltar a idéia de objeto material do objeto (ou imaterial) representando uma possível realidade. 10 PASCAL, Blaise. Pensées, 104, In Ouvres Completes. Texto estabelecido por Jacques Chevalier. Paris: Bibliothèque de La Plêiade, 1954. p. 1118 apud CHARTIER, Roger. A História Cultural: Entre Práticas e Representações. Tradução de Maria Manoela Galhardo. Memória e Sociedade, Coleção Coordenada por Francisco Bethencourt e Diogo Ramada Curto. Lisboa: Difusão Editorial Ltda; Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil S. A., 1990, p. 22. 11 CHARTIER, Roger. O Mundo como Representação. Texto publicado com permissão da Revista Annales (NOV-DEZ. 1989, Nº 6, pp. 1505-1520). In: Revista de Estudos Avançados. Tradução de Andrea Daher e Zenir Campos Reis. São Paulo, 1991, p. 185. 12 Idem, p. 184. 341 vista, nesta companhia e verdade, nada que seja são ou‖13. Afirmando, logo em seguida, que a ―arte de imitar só produz mediocridades‖14. No entanto, o mesmo filósofo abre espaço, após expulsar os poetas de sua cidade imaginária, aos ―amadores de poesia [não aos poetas em si], que falem em prosa, em sua defesa, mostrando como é não só agradável, como útil, para os Estados [políticos] e a vida humana. E escutá-los-emos favoravelmente, porquanto só teremos vantagem, se se vir que ela não é só agradável, como também útil‖, em sustentação de sua causa15. A poesia é vista como algo também imperfeito. Cornelius Castoriadis considera ―espantoso que a imaginação (...) descoberta e discutida pela primeira vez há vinte séculos por Aristóteles‖ não ter adquirido seu lugar central na filosofia da subjetividade e afirma que o ―imaginário social, imaginário radical instituinte, foi totalmente ignorado ao longo da história do pensamento filosófico, sociológico e político‖16. O Imaginário seria similar a um espaço aberto que, sem indicar limites, permite a invenção do possível como prenúncio de uma outra realidade. O que denominamos realidade é, para Castoriadis, produto do imaginário, sendo sobre este que o poder atua. O imaginário é a instância onde se projetam, criam e também se forjam realidades: O imaginário de que falo não é imagem de. É criação incessante e essencialmente indeterminada (social-histórica e psíquica) de figuras/formas/imagens, a partir das quais somente é possível falar-se de alguma coisa. Aquilo que denominamos realidade e racionalidade são seus produtos17. Castoriadis coloca o poder do simbólico nas coisas que nos rodeiam em sociedade: As profundas e obscuras relações entre o simbólico e o imaginário aparecem imediatamente se refletirmos sobre o seguinte fato: o imaginário deve utilizar o simbólico, não somente para exprimir-se, o que é obvio, mas para existir, para passar do virtual a qualquer coisa mais18. Sendo taxativo em outra observação, aponta: Tudo o que se nos apresenta, no mundo social-histórico, está indissociavelmente entrelaçado com o simbólico [...] Encontramos primeiro o simbólico, é claro, na linguagem. Mas encontramos igualmente, num outro grau e de uma outra maneira, nas instituições. As instituições não se reduzem ao simbólico, mas elas só podem existir no simbólico19. 13 PLATÃO. A República. Tradução de Pietro Nassetti. 7ª Reimpressão. São Paulo: Martin Claret, 2009, p. 302. 14 Idem, ibidem. 15 Ibid. 16 CASTORIADIS, Cornelius. Feito e a ser Feito: As Encruzilhadas do Labirinto V. Tradução de Lílian do Valle. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 1999, p. 241. 17 CASTORIADIS, Cornelius. A Instituição Imaginária da Sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982, p. 13. 18 Idem, p. 154. 19 Idem, p. 142. 342 Também sobre a literatura, o filósofo teceu algumas considerações a seguir, as quais dispensam prolixas observações: Falamos de imaginário quando queremos falar de alguma coisa inventada – quer se trate de uma invenção absoluta (uma história imaginada em todas as suas partes), ou de um deslizamento, de um deslocamento de sentido, onde símbolos já disponíveis são investidos de outras significações que não suas significações normais ou canônicas... nos dois casos, é evidente que o imaginário se separa do real, que pretende colocar-se em seu lugar (uma mentira) ou que não pretende fazê-lo (um romance)20 (...). Por suas conexões naturais e históricas virtualmente ilimitadas, o significante ultrapassa sempre a ligação rígida a um significado preciso, podendo conduzir a lugares totalmente real não tem qualquer ligação com as definições fechadas e transparentes dos símbolos ao longo de um trabalho matemático (o qual aliás jamais pode fechar-se sobre si próprio21. Segundo o teórico da literatura Wolfgang Iser, o imaginário ―não é de natureza semântica, pois, face a seu objeto, tem o caráter de difuso, ao passo que o sentido se torna sentido por seu grau de precisão‖22. Nesse momento do texto, o autor fala da importância do caráter ―difuso‖ do imaginário para que este se torne ―capaz de assumir configurações diversas, o que é sempre exigido se trata de tornar o imaginário apto para o uso‖23. A ficção, segundo o teórico, é a ―configuração apta para o uso do imaginário‖24. Para Iser, existe uma capital importância a introdução de todos esses estudos. A proposta é para que ocorra a aceitação, precursora da compreensão, da existência de um imaginário como fonte ou energia deflagradora de materializações, de concretizações, tanto na ficção quanto na realidade, rompendo, como afirma Wolfgang Iser, com o ―o saber tácito (...) que opõe realidade e ficção‖25. Dentro do conceitual de Iser, ―a ficção é a configuração do imaginário‖26. Ficção e realidade são formadas do mesmo material do imaginário e a realidade não é apreendida, e sim construída numa dinâmica incansável com o imaginário, ―provém do ato de ultrapasse das fronteiras existentes entre o imaginário e o real, mas mantém uma diferença constante quanto a eles (...), adquire predicados da realidade e guarda os predicados do imaginário‖27. Algumas das suas postulações são os ‗Atos de Fingir‘. Entende-se disso que a realidade é repetida no texto e transformada em signo de uma outra coisa, e esta repetição transformada é a 20 Idem, ibidem. Idem: 147. 22 ISER, Wolfgang. Os Atos de Fingir, ou o que é Fictício no Texto Ficcional. Trad. Luiz Costa Lima. In Lima, Luiz Costa. Teoria da Literatura em suas Fontes. Vol.II. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1983, p. 379. 23 Idem, ibidem. 24 Ibid. 25 ISER, Wolfgang. O Fictício e o Imaginário. Trad. Bluma Waddington Vilar. In: ROCHA, João Cezar de Castro (org.). Teoria da ficção – indagações à obra de Wolfgang Iser. Rio de Janeiro: EDUERJ, 1996, p. 13. 26 ISER, Wolfgang. Op. Cit. 1983, p. 379. 27 Idem, ibidem. 21 343 própria configuração do imaginário. No texto ficcional é irrealizada a realidade e realizado o imaginário. E é o imaginário que deflagra a diferença que corrobora para a dinâmica de transgressões de limites e recriações, intra e extra-textual. Para Iser, as transgressões de limites provocadas pelo ato de fingir ―representam a condição para a reformulação do mundo formulado, possibilitam a compreensão de um mundo reformulado e permitem que tal acontecimento seja experimentado‖28. Uma de suas teses postula-se que: Ao mesmo tempo... o que (pela ficção) se representa tem apenas a qualidade de um como se, que não é idêntico nem ao real, nem ao imaginário; à diferença do imaginário, ele é dotado de forma, e à diferença do real, é irreal. Deste modo a ficção mantém uma diferença constante quanto ao imaginário e quanto ao real (...) Através do como se põe-se entre parênteses o representado pela ficção. Este parêntese assim declara que a ficção não representa o representado, mas sim a possibilidade de relacionar o representado a outra coisa, diversa da que se dá a conhecer por sua formulação verbal. Assim o caráter de como se da ficção cria um abismo entre o que é representado e o que deve ser representado29. Dentro desse contexto, ocorrem três etapas, as quais serão de suma importância para a realização desse trabalho: a seleção, a combinação e o desnudamento. Assim, por atos de fingir, ocorre uma seleção e transgressão, e os elementos transgredidos continuarão a selecionar e transgredir na medida em que se associam com outros elementos. Esta etapa de atuação mais visível do imaginário, agora configurado, e se reconfigurando, é chamada por Iser de combinação. O texto passa a ser o a fonte, a base, na qual todo o pensado pelo leitor se reposiciona e da outras semânticas aos elementos. Ao se combinarem, criam ―relacionamentos intra-textuais‖, abrindo novas perspectivas com os elementos não escolhidos para a associação. De acordo com a intencionalidade do texto, ―cada relação estabelecida altera a faticidade dos elementos e os converte em posições que obtêm sua estabilidade através do que excluem‖30. Pode-se observar, de acordo com a descrição de Iser sobre a construção do texto, é uma repetição, em graus maiores de complexidade, da forma inicial utilizada pelo autor da ficção. Na primeira seleção, elementos escolhidos e não escolhidos estão no espaço da escrita e do real. A partir da segunda seleção, que está na segunda etapa do processo, a combinação, tudo estaria, devido aos relacionamentos avocados, no espaço da escrita e da não-escrita ou do dito e do nãodito. ―O relacionamento, como produto de um ato de fingir, é captável a partir de seus efeitos mostrados na língua, sem que a ela pertençam‖31. A complexidade aumenta até que o texto se denuncia, se desnuda, ―se dá a conhecer como ficcional‖32. Iser vê este desnudamento da ficcionalidade, oriundo de ―convenções determinadas, historicamente variadas, de que o autor e o 28 ISER, Wolfgang. Op. Cit. 1996, p. 16. ISER, Wolfgang. Op. Cit. 1983, p. 379. 30 ISER, Wolfgang. Op. Cit. 1996, p. 20. 31 Idem, p. 22. 32 Idem, p. 23. 29 344 público compartilham‖ 33 , como peculiaridade da ficção literária. O desnudamento é, portanto, o traço distintivo entre a ficção textual e as outras ficções – extra-textuais. Estas também ―desempenham um papel importante tanto nas atividades do conhecimento, da ação e do comportamento, quanto no estabelecimento de instituições, de sociedades e de visões de mundo‖34. Mas, é devido a sua peculiaridade, que o texto ficcional posiciona o leitor entre o mundo que foi referência para a ficção, o mundo ―real‖ e o mundo representado, que não é e nem representa o mundo, mas o da perspectiva, criando contrastes, descortina a percepção e induz à comparação, ao como se. A posição do entre, suspenso entre seu próprio mundo e um outro que é como se fosse, ou poderia ou deveria ser, possibilita ao leitor a experiência do não-ser, a experiência de se tornar irreal e, provisoriamente, realizar-se num outro. O mundo do texto possibilita ―que por ele sejam vistos os dados do mundo empírico por uma ótica que não lhe pertence‖35, mas que poderá pertencer ao leitor após a experiência. METODOLOGIA APLICADA Com os trabalhos de Roger Chartier, alguns trabalhos de pesquisa têm sido desenvolvidos no âmbito das representações, inclusive aqueles oriundos do grupo de pesquisa ―Literatura e História: Memória e Representação‖, sob orientação dos professores Marcio Luiz Carreri e Luciana Brito, do Centro de Ciências Humanas e da Educação, Campus Jacarezinho da Universidade Estadual do Norte do Paraná, bem como alguns trabalhos têm sido produzidos na UEL e UNESP nesse sentido. O fato de Cornelius Castoriadis ter sido um dos instrumentos para se chegar a análise do imaginário social estar sendo outro referencial teórico visa entrar em concordância com outras linhas de pesquisa, sobremaneira da UFRS e PUC-RS, que também tratam da questão do imaginário, assim como os escritos de Wolfgang Iser para que se haja uma compreensão de como se pode aplicar tais conceitos nas lacunas deixadas pelos autores literatos em suas obras, fazendo com que o leitor participasse de maneira ativa, não passiva, na criação literária. Propõe-se que cada aspecto dos autores referidos acima, no que tange à Representação e Imaginário, seja algo que ajude na compreensão de certos elementos oferecidos pela Literatura. A aplicabilidade de tais referenciais teóricos numa obra literária perpassa o que se pode apreender de cada autor de forma pura, cética. Nenhuma obra literária é vista sem que se tenha alguma experimentação de um meio, ou de um objeto. Cada indivíduo trará para as páginas do livro elementos de sua experiência, o que dá frutos na imaginação do leitor. Partindo-se desses estudos, foi possível encontrar tais soluções a essas temáticas. 33 Idem, ibid. Idem, p. 25. 35 Idem, p. 28. 34 345 Sendo assim, um dos objetivos desse trabalho é demonstrar qual seria o imaginário representado em uma das mais conhecidas e importantes obras literárias do mundo, Oliver Twist, redigida pelas mãos do autor inglês do século XIX (da Era Vitoriana), Charles Dickens. Buscava-se, inicialmente, apenas a representação do tema ‗pobreza‘ nessa mesma obra. No entanto, percebeu-se que três palavras básicas eram constantes em cada capítulo da obra abordada, e pode-se dizer ainda, que talvez cada página venha recheada desses elementos representativos, e sempre chegando de alguma maneira para povoar, daí então, o imaginário de quem está recebendo essas informações, o leitor, que acaba assimilando essas idéias e fazendo, ele próprio, alguma reflexão sobre o assunto. Notou-se, na realidade, que esses princípios básicos eram três – conforme dito antes: a fome, o frio e a forca. A pobreza não vem sozinha amedrontar os seres humanos, mas ela tem uma parceira muito íntima que é a ‗morte‘, ou seja, o medo desta, e em Oliver Twist vem muito bem representado esse medo, e essa morte vem representada, inclusive, naquelas palavras, e também em outras muitas que por terem sido um pouco menos mencionadas não foram objeto de estudo, porém, não deixa de ter seu simbolismo caracterizador na obra, como, uma doença gerada no seio de herdeiros de uma família toda na obra, como algo grave e insolúvel e ao mesmo tempo aparentemente hereditário, o que amedronta qualquer pessoa, ou a própria ‗pobreza‘ como medo de nos tornamos um dia, ou mesmo os ‗pobres‘ em si, os mendigos, etc. Deve-se frisar que há a representação de ‗medo da morte‘ e de ‗morte‘ em si. Das três palavras, as quais são fome, frio e forca, percebe-se que as duas primeiras têm uma grande intimidade relativa, pois, quando se tem fome, pode-se ter frio conseqüentemente, pois essa ‗fome‘ não é a simples fome de vontade de comer! Essa ‗fome‘ é aquela emblemática que tantos homens e mulheres sentem todos os dias doer em seu estômago e tantos outros sofreram na história humana e, felizmente, outros homens e mulheres espalhados pelo mundo já lutaram contra, como o próprio Marx, que na realidade observava ser uma das condições mais desalentadoras da classe operária que ele tentava defender e estimular para uma revolução. A segunda palavra, o ‗frio‘, pode vir a chamar a atenção simplesmente pelo fato de que a história da obra se passa em um país de clima temperado, a Inglaterra, com muito destaque para Londres, onde o tempo constantemente por pelo menos nove meses no ano ser de temperatura por volta dos cinco graus centígrados (sobremaneira no século XIX, que a temperatura deveria ser um pouco mais baixa relativamente à agora, com toda a explosão da modernidade de prédios e asfaltos, o que provoca as ilhas de calor nas grandes cidades), fazendo com que qualquer indivíduo sinta a necessidade de se cobrir e agasalhar e se vestir da melhor maneira e mais confortável possível. Uma pessoa que tenha a problemática da ‗fome‘ certamente terá outra que é a do ‗frio‘, a qual biologicamente, inclusive, pode vir mais incisiva quando não se alimenta muito bem. Claro que se o texto for lido em um país de clima tropical, esse ‗frio‘ não ganhará muito lugar no imaginário do leitor desatento a essa realidade, no entanto, para aqueles que conhecem bem aquelas temperaturas, pode ser congeladora apenas a idéia de ‗frio‘. 346 A terceira palavra, a ‗forca‘ – ou a morte na ponta desta, vem destoando das outras duas, mas não tanto, pois se refere ao universo da obra mencionada e mesmo ao convívio e a condição de vida do personagem central, o qual está constantemente rodeado de mendigos (e isso é crime na visão das pessoas daquela época, inclusive entre pensadores como John Locke36), ladrões, trapaceiros, entre outras formas humanas consideradas escória da sociedade, especificamente aquela mencionada por Charles Dickens, a londrina (e britânica, generalizadamente) da primeira metade do século XIX. As condenações na forca foram muito corriqueiras e constantemente assistidas pelas pessoas daquela cidade e, claro, suas maiores vítimas eram os delinqüentes que atormentavam a vida pacífica daquela sociedade industrial burguesa, e daquela nobreza esbanjadora. A ‗fome‘ constantemente aparece relacionada com palavras como ‗sem comer‘ ou mesmo na descrição de uma mesa farta ou ainda com outra frase como ‗comer sem parar‘, enfatizando o fato de ser muito presente esse problema da ‗fome‘ para aqueles personagens e, inclusive, traz uma idéia de vulgaridade dessas cenas no cotidiano inglês das classes subalternas. O ‗frio‘ vem relacionado algumas vezes com ‗poucas roupas‘, ou mesmo ‗faz muito frio‘, ou ainda ‗gelar a alma‘. A ‗forca‘ ainda vinha com mais destaque, quando suas referências – que não são poucas, traziam palavras como ‗degolar‘, ‗enforcar‘, e frases simbólicas do tipo ‗dançar na ponta de uma corda‘, e até, inclusive, falar o nome de uma prisão ou bairro onde havia condenações na forca, como ‗Old Bailey‘, por exemplo. Ainda veremos no texto os motivos para tanto denoto à ‗forca‘, como centro de um medo constante de se morrer na ponta dela, como dizem tais personagens. Não deixa, portanto, de serem as três situações, representadas nessas palavras na obra, um espectro constante como parte significativa da vida daqueles personagens. 36 A autora Maria Stella M. Bresciani considera que ―esta é uma sociedade que se institui sobre o pressuposto da positividade do trabalho. Afinal, são John Locke e Adam Smith que desfazem a imagem negativa do trabalho como patrimônio da pobreza, como fardo exclusivo dos que não possuem propriedade, e o definem como fonte de toda a atividade criadora e da riqueza. Daí, os que se recusarem a participar dessa comunidade de trabalhadores aparecerem como figuras exteriores a ela, como estranhos ao pacto constitutivo do social e da sua história‖ (BRESCIANI, 1990: 80). Reforça essa teoria, uma passagem do próprio John Locke, utilizada pelo estado liberal em questão que observa a próxima passagem ao seu gosto e fruição: ―A liberdade não é, pois, (...) ―uma liberdade para qualquer homem fazer o que lhe apraz, viver como lhe convém sem se ver refreado por quaisquer leis‖‖ (FILMER apud LOCKE, 2006: 35). Para a autora, esse é um tipo de idéia contra os mendigos. De certa maneira, numa passagem do próprio Oliver Twist, quando este decide fugir mundo afora, há uma referência nesse sentido, inclusive: ―Notando uma diligência parada diante de uma fazenda, resolveu pedir esmolas aos passageiros; estes, contudo, eram poucos e não lhe deram a mínima atenção. Passando por certa aldeia, Oliver deu com os olhos num cartaz que o fez estremecer: ―Qualquer pessoa que for surpreendida a mendigar dentro deste distrito será presa.‖‖ (DICKENS, 1973: 47). 347 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARIÈS, Philippe. O Homem Diante da Morte. Tradução de Luiza Ribeiro. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, 1990. BRESCIANI, Maria Stella Martins. Londres e Paris no Século XIX: O Espetáculo da Pobreza. 6ª edição. São Paulo: Editora Brasiliense, 1990. CASTORIADIS, Cornelius. A Instituição Imaginária da Sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982. _______________________. Feito e a ser Feito: As Encruzilhadas do Labirinto V. Tradução de Lílian do Valle. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 1999. CHARTIER, Roger. O Mundo como Representação. Texto publicado com permissão da Revista Annales (NOV-DEZ. 1989, Nº 6, pp. 1505-1520). In: Revista de Estudos Avançados. Tradução de Andrea Daher e Zenir Campos Reis. São Paulo, 1991. ________________. A História Cultural: Entre Práticas e Representações. Tradução de Maria Manoela Galhardo. Memória e Sociedade, Coleção Coordenada por Francisco Bethencourt e Diogo Ramada Curto. Lisboa: Difusão Editorial Ltda; Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil S. A., 1990. DICKENS, Charles. Oliver Twist. Tradução e adaptações de Myriam Campello. São Paulo: Editora Abril Cultural S. A., 1973. FILMER, Robert. Observações sobre a Política de Aristóteles a respeito das formas de Governo. Sem cidade: Sem editora, 1652 apud LOCKE, John. Segundo Tratado Sobre o Governo. Tradução Alex Marins. São Paulo: Martin Claret, 2006. FURETIÈRE : Dictionnaire Universel Contenant Généralement tous les Mots Français tant Vieux que Modernes et les Termes des Sciences et des Arts. Corrigido por M. Basnage de Bauval e revisto por M. Brutel de La Rivière, la haye, 1727, artigos Representation e Symbole (todas as citações deste parágrafo são desses dois verbetes) apud CHARTIER, Roger. A História Cultural: Entre Práticas e Representações. Tradução de Maria Manoela Galhardo. Memória e Sociedade, Coleção Coordenada por Francisco Bethencourt e Diogo Ramada Curto. Lisboa: Difusão Editorial Ltda; Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil S. A., 1990. HUME, David. Investigação Sobre o Entendimento Humano. Série Filosofar. Tradução de André Campos Mesquita. São Paulo: Escala Educacional, 2006. ISER, Wolfgang. O Fictício e o Imaginário. Trad. Bluma Waddington Vilar. In: ROCHA, João Cezar de Castro (org.). Teoria da ficção – indagações à obra de Wolfgang Iser. Rio de Janeiro: EDUERJ, 1996. _____________. Os Atos de Fingir, ou o que é Fictício no Texto Ficcional. Trad. Luiz Costa Lima. In Lima, Luiz Costa. Teoria da Literatura em suas Fontes. Vol.II. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1983. KANTOROWICZ, Ernst. The King‟s Two Bodies: Study in Medieval Political Theology. Princeton: Princeton University Press, 1957. pp. 419-437 apud CHARTIER, Roger. 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Tradução de Pietro Nassetti. 7ª Reimpressão. São Paulo: Martin Claret, 2009. SUASSUNA, Ariano. O Auto da Compadecida. 10ª Edição. Rio de Janeiro: Agir, 2005. 349 OLIVEIRA VIANNA: INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA E SÍNTESE DOS PROBLEMAS SOCIAIS DO BRASIL1 Felippe Estevam Jaques Mestrando em História Social – UEL [email protected] RESUMO: As investigações históricas no Brasil no início do século XX tornaram-se marcos de nossa historiografia. Fosse ao âmbito econômico como Caio Prado Júnior, nas interpretações marxistas de Nelson Werneck Sodré, no regionalismo e culturalismo de Gilberto Freyre, entre outros. Inspirado pela metodologia do naturalista bávaro Von Martius de como escrever uma história do Brasil (ganhando o concurso promovido pelo IHGB em 1840), Oliveira Vianna enfatizou três principais aspectos da conjuntura brasileira: a influência do meio geográfico, as instituições e os mecanismos coloniais dos portugueses e a contribuição das raças formadoras, ou seja, índios, negros e os brancos. Este artigo tem como objetivo apresentar um mapeamento geral do qual foram os principais conceitos formulados pelo sociólogo fluminense na intenção de não só explicar quais eram as principais falhas da sociedade brasileira e os apontamentos possíveis no direcionamento do país em vias civilizatórias, como também verificar como o discurso científico exerceu forte influência nos seus escritos e no modelamento de um Brasil ideal. PALAVRAS-CHAVE: História, Literatura, Oliveira Vianna. O AVAL CIENTÍFICO PARA O PROGRESSO A teoria da evolução elaborada por Charles Darwin em meados do século XIX ofereceu uma explicação inédita para a compreensão do aparecimento, transformação e permanência da flora e da fauna na terra. Não demorou, porém, para que suas idéias, originalmente pensadas para compreender o mundo da natureza, fossem utilizadas para pensar as sociedades humanas. Os chamados ―homens de sciencia‖ muniram-se de suas concepções, para elaborar análises pseudo científicas na busca de soluções dos problemas sociais do seu tempo. Essa perspectiva ganhou muito respaldo no Brasil de fins do Império até meados do século XX, principalmente nas grandes sínteses interpretativas que buscavam apontar os problemas do país e/ou encontrar soluções para os mesmos. Entretanto, devemos salientar que a produção do discurso científico não é feito de forma isolada. É necessário estarmos atentos para quem são esses cientistas, a que instituições estão vinculados e quais objetivos eles visam. Nas palavras de Lewontin: Ao mesmo tempo ciência, como qualquer outra atividade produtiva, como o Estado, a família, o esporte, é uma instituição social completamente integrada e influenciada por toda a estrutura de nossas outras instituições sociais. Os problemas que a ciência lida, as ideias que são usadas na investigação desses problemas, mesmo os chamados resultados científicos que saem dessas pesquisas, são todos profundamente influenciados pelas predisposições derivadas da sociedade da qual fazemos parte. Cientistas não começam a vida como cientistas, antes de tudo, mas como seres sociais imersos em uma família, um 1 Pesquisa auxiliada pela por uma bolsa de estudos financiada pela Fundação Araucária. 350 estado, uma estrutura produtiva, e veem a natureza através de uma lente que tem sido moldada por sua experiência social2. (LEWONTIN, 1992, p.03). No Brasil do século XIX instituições como museus, institutos históricos e geográficos, faculdades de direito e de medicina, nos quais de modo geral, o discurso científico propagou-se, ganhou legitimidade e tornaram-se referência no que dizia respeito aos estudos ao desenvolvimento das ciências humanas. Os estudos etnológicos, as análises sobre construção de uma memória e identidade nacional apontavam que o Brasil era um país que sofria de uma doença social. Tais pesquisas eram desenvolvidas principalmente nas faculdades de direito e de medicina e marcava as disputas entre os dois campos de saberes: de um lado os bacharéis de direito, que acreditavam que possuíam o domínio do antídoto e, de outro, os médicos sanitaristas ao defender ser possível a possibilidade encontrar a cura para os mesmos) (SCHWARCZ, 1993, p.296). Torna-se importante, a esta altura, um retorno à década de 1870, momento em que a teoria das desigualdades raciais foi difundida no Brasil ao lado dos ideários naturalistas, positivistas, evolucionistas e cientificistas. Nesta década despontou, dentre outras, a figura de Sílvio Romero, um dos principais críticos literários do Brasil do século XIX e grande entusiasta das noções de ―raça e natureza‖, das quais Oliveira Vianna foi um seguidor. Utilizando a polêmica enquanto instrumento retórico para a propagação de suas concepções, idéias e visões de mundo, Romero procurou fazer uma análise racial da sociedade brasileira com base nos modelos naturalistas e evolucionistas, então em voga. Como referência recorreu a pensadores como Hyppolyte Taine, Herbert Spencer, Gobineau e Louis Agassiz adeptos da teoria poligenista3. De acordo com Lilia Schwarcz, Silvio Romero foi o primeiro a afirmar que éramos "uma sociedade de raças cruzadas" (1895); "mestiços se não no sangue ao menos na alma" (1888). Para esse intelectual, a novidade estava não só na argumentação, tão distante dos modelos românticos e europeizantes até então adotados, como no "critério etnográfico", que surgia como a chave para abrir e desvendar problemas nacionais. Nele o princípio biológico da raça aparecia como denominador comum para todo conhecimento. O caldeamento das três raças formadoras se transformava, dessa maneira, em uma espécie de arianismo de conveniência. Afinal, servia para a eleição de uma raça mais forte, sem que no entanto se incorresse nos supostos dessa postura que 2 LEWONTIN, Richard C. Biology as ideology. New York, HarperPerenial; 1992. No original em inglês: At the same, science, like other productive activities, like the state, the family, sport, is a social institution completely integrated into and influenced by the structure of all our other social institutions. The problems that science deals with, the ideas that is uses in investigating those problems, even the so-called scientific results that come out of scientific investigation, are all deeply influenced by predispositions that derive from the society in which we live. Scientists do not begin life as scientists, after all, but as social beings immersed in a family, a state, a productive structure, and they view nature through a lens that has been molded by their social experience 3 Segundo o paleontologista Stephen J. Gould duas correntes disputavam a hegemonia do pensamento biológico: uma que propunha que todos os humanos eram provenientes de um mesmo Adão e de uma mesma Eva, essa teoria foi denominada de monogenia. A outra defendia que as espécies humanas eram provenientes de diferentes origens e foi denominada de poligenia (GOULD, 2005, p.26). 351 se preocupava em denunciar o caráter letal do cruzamento. Com afirmações do tipo "somos mestiços isso é um fato e basta" (1888), Romero não só radiografava nossa posição, como acreditava ver em um branqueamento evolutivo e darwiniano, ou externamente motivado via a imigração européia branca, nosso futuro e solução. Defensor da idéia darwinista social de que os homens são de fato diferentes, Romero preocupou-se em lidar com a mestiçagem com os instrumentos que possuía: afirmá-la para então combatê-la. (SCHWARCZ, 1993, p.91). Silvio Romero buscou mostrar na literatura e no folclore brasileiro que a miscigenação no Brasil era um aspecto positivo e peculiar da sociedade brasileira.Essa visão não era compartilhada por aqueles que defendiam a não-participação dos escravos libertos na sociedade e na construção de uma identidade nacional brasileira do pós- abolição, como o médico-etnólogo Raimundo Nina Rodrigues. Este buscou na craniometria e antroprometria os elementos que considerou essenciais para mostrar a suposta inferioridade que resultava do processo de miscigenação e quanto ele comprometia o futuro do país. Partindo de tal pressuposto, Nina Rodrigues construiu uma visão pessimista sobre a formação brasileira, pois não conseguia encontrar ―um lugar para o negro‖ e também ―ameaçaria a identificação entre os destinos da nação e a civilização branca e ocidental‖ (MAIO, 1996, pp. 185-186). Antes de aprofundarmos sobre suas conclusões dos homens de ciência em geral é necessário entendermos como esses estudos ditos ―científicos‖ ganharam notoriedade e status de verdade naquele contexto e para tanto o conceito de eugenia criado por Francis Galton4 (18221911) é central. Na sua obra ―Hereditary Genius‖ (1869), em que pesquisou baseado em dados estatísticos, as habilidades transmitidas de geração em geração. Também cunhou o termo ―nature vs nuture‖ (uma alusão aos processos ocorridos natureza contra algo feito em um ambiente artificial). O controle matrimonial seria essencial para que a humanidade tivesse uma geração somente de notáveis e ilustres. Para isso, ele divide os homens em diversas categorias de acordo com a sua reputação: juízes ingleses, governantes, comandantes, literários, cientistas, poetas, músicos, pintores, sacerdotes. Ao assim hierarquizá-los ele podia identificar os supostamente melhores e mais capazes de contribuir para gerar indivíduos sadios e superiores. A eugenia foi utilizada como um pensamento que direcionou vários estudos em diferentes áreas como a biometria que baseou-se na craniometria da escola de Paul Broca. Esta serviu de parâmetro para o desenvolvimento da antropometria criminal, ou criminologia criada pelo italiano Cesare Lombroso com desdobramentos na psicologia social mediante estudos de Gustave Le Bom.. 4 De origem vitoriana, Francis Galton era um aristocrata, criado em uma família quacker, tornou-se um grande nome nos estudos estatísticos, foi explorador e era primo do então famoso Charles Darwin (possuíam o mesmo avô materno, o então renomado físico Erasmus Darwin). Pioneiro na utilização da impressão digital como método de investigação; Em sua obra ―Fingerprints‖ (1892) afirmou que cada digital é única em cada ser humano; sua teoria foi tão amplamente aceita que em 1901, a polícia Scotland Yard começou a utilizar o sistema de digitais para a identificação de criminosos. 352 A antropometria criminal pautou-se no critério evolucionista para a hierarquização das raças e também na teoria da neotenia5, e com base neles esse conceito ganhou reputação de a ponto de influenciar medidas reformatórias no sistema educacional italiano: Os grupos superiores conservam até o estágio adulto suas características infantis, enquanto os inferiores chegam à fase superior da infância e logo degeneram e adquirem características simiescas. Lembremos que os cientistas brancos convencionaram que os brancos são superiores e os negros inferiores. Assim, enquanto do ponto de vista da recapitulação, os negros adultos seriam como as crianças brancas, segundo a neotenia os brancos adultos seriam como crianças negras (GOULD, 2005, p.118). Assim, estudos iniciados por Cesare Lombroso na Itália sobre frenologia, antropometria e biometria adquiriram o status de ciência no momento e forma introduzidos no Brasil influenciando as Escolas de Direito como a de Recife que basearam seus estudos na antropologia criminal, e nas Escolas de Medicina, com destaque para de Salvador. A a discussão voltou-se então para a recente medicina legal (SCHARCZ, 1994 ,p. 146. Marcada por pensadores com visões diferenciadas tais como Nina Rodrigues, Capistrano de Abreu, José Veríssimo, Benjamin Constant e Sílvio Romero, a ―geração‖ de 1870 colocava em discussão os critérios raciais e eugênicos europeus, seja combatendo, ou procurando assimilar e aproximando tais concepções do contexto brasileiro. Foi a partir do século XX, aliado a elementos positivistas, evolucionistas e até materialistas,que a busca de uma visão geral e científica do Brasil, baseado nos ideais da civilização e progresso que passaram a ser: os lemas dos críticos da ‗geração de 1870‘. Debateram, na crítica literária e nas polêmicas raciais de final do século XIX, a originalidade e a autonomia das letras e da civilização nos trópicos. Pregaram as reformas mentais julgadas necessárias para lançar o país na trilha do progresso. Incorporaram, à crítica e à polêmica, traços orais, como o dialogismo dos desafios da poesia popular e a oratória inflamada própria aos processos e tribunais. Procuraram converter a palavra em ação, transformar o mundo pela força redentora do discurso‖ (VENTURA, 1991, pp.166-167). Foi pautado nestes mesmos pressupostos que o cientista jurídico-social Franciso José de Oliveira Vianna (1883-1951)6, seguidor das idéias de Silvio Romero, escreveu a obra ―Raça e Assimilação‖ publicada pela primeira vez em 1932, na qual faz uma tentativa de identificar, problematizar e apontar soluções para o problema racial do Brasil. Ao realizarmos análise mais aprofundada do livro do sociólogo fluminense procuraremos entender no seu pensamento de 5 Na teoria da neotenia já uma espécie inversão nos valores da teoria da recapitulação. Oliveira Vianna pertenceu ao IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro) e a Sociedade dos Amigos de Alberto Torres e quando Getúlio Vargas assumiu a presidência do Brasil a partir de 1930, atuando no Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio tornando-se um dos principais consultores jurídicos daquele governo. Participou da criação e da organização de uma série de medidas políticas importantes como: a Lei Orgânica do Trabalho e a Lei Orgânica da Sindicalização. 6 353 forma geral, ou seja, sua tentativa de fazer um mapeamento racial da sociedade procurando nele visualizar de que forma as idéias científicas foram por eles interpretadas e apropriadas7 É possível perceber sua preocupação com a objetividade no livro ―Populações Meridionais do Brasil (1920)‖ obra inaugural e de grande impacto, na qual Oliveira Vianna analisa a história brasileira a partir dos descobrimentos portugueses, criando uma nova divisão temporal para a história do Brasil. O ano de 1500 seria considerado o marco zero e a partir desta data a existência do país realmente passaria a existir e com isso haveria o reinício da contagem dos séculos, portanto o Brasil existiria a partir dos descobrimentos. Ao analisar o período colonial, Vianna identifica na organização da sociedade brasileira uma estruturação clânica, regida por relações sociais internas fechadas ao redor da figura patriarcal. Essa situação reverte-se minimamente no período Imperial. pois mesmo após a fundação do Estado brasílico, os senhores de terra permanecem intimamente ligados à região, dificultando a ação do imperador em tentar unificar o território nacional8. Com isto Oliveira Vianna procurou provar serem insuficientes as ações das ―instituições sociais tutelares‖, ou seja, o brasileiro, sobre este ponto de vista seria sempre dependente de ―um chefe para orientar suas ações‖ (MARTINS, 2007, p. 101). A historiadora Maria Stella Bresciani chamou de ―fundo-comum‖ alguns fatores identificados em vários autores que, no início do século XX, com métodos científicos, elaboraram de síntese sobre a formação da sociedade brasileira, buscando no passado as origens dos principais problemas de cunho social – de cunho econômico, político ou raciail. O primeiro ―fundocomum‖, foi tratar toda a história e constituição do povo brasileiro a partir de um viés negativo da colonização lusa. Os supostos atrasos civilizacionais estariam ligados à estrutura clânica da sociedade e à tendência a não mourejar, a dependência do chefe e a herança de povos mais pouco inclinados ao trabalho. O segundo ―fundo-comum‖ seria a ―carência‖. Assim, ―nossa identidade se constitui na falta, naquilo que não tivemos, na ausência de predicados, na incapacidade de triunfar. Há um vazio a ser preenchido, se possível for‖ (BRESCIANI, 2005, p.107). Essa ausência, por sua vez, permitira que a estruturação clânica sufocasse a identidade do brasileiro. Ainda que existissem elementos comuns como língua, território e símbolos como a bandeira ou um hino, foram insuficientes para romper o vínculo existente entre o senhor e seus dependentes, pois o poder patriarcal absorvia todas as esferas da vida social. O terceiro ―fundo comum‖ seria a ―teoria da importação das idéias‖, à qual os pensadores brasileiros estariam amarrados, a uma espécie de ―uma camisa-de-força‖ reforçando a idéia a qual era necessária e praticamente obrigatória a referência a autores estrangeiros, o que causava um 7 Outro pensador que teve grande influência sobre Oliveira Vianna foi Alberto Torres, no qual ele já indicara como o primeiro a pensar na ―instituição política nacional de legislação e governo, assentada na realidade‖, ou seja, não há espaço para fatores improvisados ou de caráter fictício, em outras palavras, ele é ―anteutopista‖ (sic.). Entretanto, Vianna questiona o seu método por não ser objetivo, não utilizar termos técnicos vigentes, como ele supostamente havia feito em suas obras até então. 8 MARTINS, Mario Lara. ―Revisitando o problema da história em Oliveira Vianna‖. In: Revista eletrônica de história do Brasil, v.9, n.1, 2007. 354 certo constrangimento para os intelectuais da elite brasileira. Estas interpretações denotariam nossa incapacidade criativa e tendência a reproduzir teorias estrangeiras aliada à pouca reflexão, ou seja, na incapacidade para enxergar os ―reais‖ problemas e conflitos existentes no país. Por fim, um quarto fundo comum estaria associado à noção de solidariedade, conceito este que foi muito caro a Oliveira Vianna, presente em praticamente todos os seus escritos. Ele acredita que este o isolamento da sociedade brasileira ocorreria devido à inexistência de uma cultura cívica, ausência de ―hostilidade de classes‖, de um ―inimigo externo‖ e pela falta do ―perigo social‖, o que permitiu e reforçou a dominação dos clãs patriarcais. A solução dos legisladores seria a fundação de instituições associativas, porém, como elas não era orgânicas mas sim impostas, o poder clânico continuou a imperar e superou as tentativas legais. Segundo Vianna somente após a Independência houve a tendência associativista embora o número de pessoas o ainda fosse reduzido: Em tal cenário não há solidariedade social, não há associação para fins comuns, não há cultura cívica, porque predomina o isolamento e não existem fatores indutores de associação como hostilidade entre as classes, inimigo externo e perigo social. Só há a solidariedade dos clãs. Nossos legisladores ignoram isso há cem anos e tentam impor ao país regimes que pressupõem a existência de associativismo e solidariedade públicas, espírito de comunidade e noção de coletividade. Mas essas ausências são a grande essência do povo. Por isso não há poder público até a Independência. A autoridade colonial é passiva perante os conflitos entre os caudilhos, que a desafiam e não são punidos por suas subversões armadas, pela turbulência generalizada provocada pelos conflitos entre potentados e que instauram a anarquia social (PIVA, 2000, p.128). Devemos lembrar, ainda, que para Oliveira Vianna outro fator que contou muito para a formação da sociedade brasileira foi a questão étnica e racial, considerado não só como o maior ―fator determinante‖ do passado, mas também o direcionador de um futuro para a consolidação ou o colapso de uma civilização: Segundo Vianna, Os modos de expressão da vida social, sejam morais, sejam intelectuais, de um dado grupo, como se vê, estão dependentes dos tipos de temperamento e dos tipos de inteligência nele preponderantes. Estes tipos de inteligência e de temperamento estão, por sua vez, dependentes dos ‗tipos de constituição‘. Ora, como estes, por sua vez, estão dependentes dos ‗tipos étnicos‘, isto é, daqueles tipos somatológicos a que chamamos ‗raças‘, a conclusão é que a raça é, em última análise, um fator determinante das atividades e dos destinos dos grupos humanos (OLIVEIRA VIANNA, 1959, pp.41-42). Ao tratar as análises raciais e étnicas como elementos interdependentes um do outro, Oliveira Vianna sublinhou que elas incidiram sobre as sociedades em seus mais diferentes aspectos, fossem culturais (costumes e tradições) ou econômicos, direcionando qual posição determinado povo ocuparia na escalada. Isto justificaria a elaboração de políticas governamentais 355 sobre imigração e controle de natalidade o que determinaria o sucesso ou o fracasso da empreitada. A partir destes elementos podemos visualizar nas idéias de Vianna quais os critérios por ele considerados para pensar as sociedades. O primeiro, a raça como elemento primário e fonte de formação do ―tipo de constituição‖, no sentido fisiológico, ou seja, os aspectos visíveis como a cor da pele, do cabelo, dos olhos determinantes para a formação e identificação dos povos entre si, que incidiram sobre outros tais como os ―tipos de temperamento‖ e os ―tipos de inteligência‖. Estes dois últimos seriam os condutores da sociedade, responsáveis pelas manifestações sociais e culturais expressas no cotidiano. Em suma, os mais diferentes tipos de temperamentos, tais como a docilidade, timidez, coragem conjuntamente com as diversas inteligências determinaram a posição de cada homem na sociedade, seu respectivo emprego, sua educação e outros fatores presentes em sua formação. Interessante notar que para Oliveira Vianna existe uma diferença entre aquilo que é determinado biologicamente e aquilo que é estabelecido socialmente. É nesta separação que ele justifica porque sociedades compostas pelos mais diferentes componentes étnicos, isto é, miscigenadas, não atingissem os graus elevados da civilização. Todavia, alertava ele, Para que nos identifiquemos com esta compreensão científica da psicologia das raças é preciso, antes de tudo, um certo senso de relatividade, cousa que nem sempre levamos para esse domínio. Em geral, temos desses fenômenos uma noção rígida, dogmática, monotípica; não compreendemos que as forças da vida orgânica, tais como as da vida superorgânica, não se subordinam a fórmulas rígidas, a leis flexíveis, a esquemas invariáveis. Hoje, em ciências naturais como em ciências sociais, nenhuma lei é absoluta, nenhum princípio é absoluto, nenhuma afirmação é absoluta; tudo deve ser sempre compreendido num sentido relativo (OLIVEIRA VIANNA, 1959, p.38). Baseando-se nos estudos de Muller e Bleuler, Vianna acreditava que a relação entre o tipo morfológico não estaria limitada ao temperamento e a inteligência, mas a uma gama de interrelações. Isto seria de fundamental importância para os estudos sociais pois não se limitaria a um estudo de base biológica, recorrendo a outras ―ciências‖ com maior credibilidade devido aos resultados supostamente mais exatos, postos que expressos matemáticamente9. Para Vianna, por mais que os métodos científicos fossem rigorosos, empíricos, os resultados obtidos nunca poderiam ser tratados de forma rígida, assim como a teorização de uma lei deveria abrir espaços para a formulação de novas hipóteses, ou seja, deveria ser dada atenção à possibilidade de relativização. Podemos exemplificar esta aplicação que Vianna dá aos problemas quando procura definir uma característica comum aos negros. O ―esquizotémico‖ seria um sujeito sombrio, fechado e esta mesma particularidade poderia ser encontrada no índio, mesmo ele possuindo uma natureza mais ―ciclotímica‖ como pessoa aberta, expansiva, alegre; o mestiço representaria ambas características. 9 Os estudos espaciais-estatísticos ganham uma importância muito grande para Oliveira Vianna. 356 Vianna também afirmou que o ―novo‖ continente americano seria melhor para o estudo racial e étnico do que o ―velho‖ continente europeu já que na Europa a assimilação, a convivência, a miscigenação das raças datam da pré-história. Assim, na América, esta experiência teria somente 400 anos e ressaltou que a presença do índio e do negro, e de todo o processo de comunicação entre as raças poderia ser isolado, transformando o continente americano em um grande laboratório experimental. Inspirado nos escritos do médico Gustave Le Bon, Oliveira Vianna apoiou-se não somente na biologia e na matemática que lecionou na Escola Politécnica; o que ―explica não apenas o gosto que revela por suas fórmulas‖, inclusive, ―o próprio título de alguns de seus livros‖, que eram simplesmente denominados ―Problemas de Política Objetiva, Problemas de Direito Corporativo, Problemas de Direito Sindical, Problemas de Organização e Problemas de Direção‖ (MENEZES, 1997, p.153)10. Também vislumbrou na psicologia social uma importante ferramenta para a análise da sociedade brasileira chegando inclusive a propor uma separação entre uma psicologia das raças e outra, das etnias. A primeira teria um cunho científico, antropológico, determinado pela biologia e seria puramente uma ―questão de psicofisiologia humana‖, de pouca ligação com a psicologia dos grupos sociais no que tange a construção de nação, povos. A segunda concentrava-se na ―ciência social‖, na ―psicologia coletiva‖, focando os estudos na ―alma dos povos‖, considerando o ambiente mesológico, a influência do ―clima‖, ―os agentes econômicos‖, embate entre as culturas, processos migratórios, ―luta de classes‖. A raça adquiria aqui um sentido ―zoológico ou morfológico‖, ou seja, incidiria sobre estruturação do homem. Um conceito importante na teoria de Oliveira Vianna presente em seu livro ―Raça e Assimilação‖ consiste no melting pot, conhecido como cadinho. O ponto de origem da mistura das raças dar-se-ia ao separar ―interfusão de etnias‖ - com os caracteres das nacionalidades e a ―interfusão de raças‖ a partir da questão mais regionalista classificando os povos como celtas, nórdicos e ibéricos. Também emprega-se o método matemático, elaborado por Bloom Wessel, para calcular a fusão, Considerando a existência de raças homogêneas, como exemplo, italianos que só se casaram com italianos e de ancestralidade, o procedimento equaciona raças heterogêneas segundo a sua a média entre os padrões homogêneos e heterogêneos resultando no coeficiente de fusão. Outro conceito importante elaborado por Vianna seria o índice de fusibilidade, determinando o grau de capacidade exogâmica que cada comportaria, isto é, a velocidade e a intensidade de propagação do melting pot, a partir do qual algumas se fundiram mais rapidamente enquanto outras ofereciam mais resistência. 10 Nesta obra percebemos o patamar teórico/metodológico de Oliveira Vianna consistindo na influência do meio social, do meio físico e da história e vida de um povo. Também defende-se a concepção que o sociólogo trabalhasse em uma perspectiva de evolução social, rejeitando conceitos como o uniformismo, unilaterismo e o fatalismo evolucionário, considerando a inexistência de teorias monocausalistas nas ciências sociais. Afirma-se também que Oliveira Vianna foi um grande entusiasta de Eça de Queiroz e Joaquim Nabuco. 357 Importante ressaltar o estilo científico elaborado por Vianna para defender suas idéias e análises, lançando mão de dois conceitos próprios à química: ―fusão‖ e ―diluição‖ – para analisar um fenômeno sociológico. Como se não bastasse, corrobora também a partir de dados estatísticos e chega a conclusão de que seria possível o surgimento de uma nova ―substância‖, ou neste caso, de uma nova ―raça‖, apagando os rastros dos elementos anteriores. Assim, justificava cientificamente a tese de branqueamento o que embasaria futuras decisões políticas voltadas um tipo ideal e desejado de homem que, afinal, iria contribui para a construção do país: Fusão e diluição, duas reações químicas em que os elementos postos em contato perdem suas características originais tornando-se uma outra substância. A imensa massa territorial brasileira assimilada à imagem do melting-pot ou cadinho, como receptáculo dessa reação modificadora, em clara demonstração de seu recorrente recurso estético a imagens relacionadas às ciências em apoio de uma tese política. Mesmo em artigos para divulgação de idéias e posições relativas à questão das ‗raças‘ formadoras da população brasileira... (BRESCIANI, 2005, p.281). O caráter eugênico também está presente em Oliveira Vianna pois ele acreditava que o fator ambiental era determinante pois, ao ―penetrar em um ambiente novo‖ características raciais poderiam sofrer alterações. Assim afirmava que: Na seleção das nossas matrizes étnicas não nos basta, pois, levar em conta o índice eugenístico das várias raças nos seus habitats de origem. O eugenismo, que uma determinada raça revela no seu meio originário, pode sofrer alterações quando ele penetra em meio novo, estranho à sua biologia. Não seria mesmo absurdo supor que raças ou indivíduos destituídos de eugenismo possam, sob a ação desequilibradora do novo habitat, revelar imprevistas qualidades eugenísticas. Ou então, o contrário disto: raças ou indivíduos de alto teor eugenístico num certo meio, ao transplantarem-se para outros muito diferentes, revelarem uma imprevista diminuição no seu índice de eugenismo. Esta última transmutação, aliás, parece ser fato freqüente entre os indivíduos de raças germânicas, quando fixados em meios caracteristicamente tropicais (OLIVEIRA VIANNA, 1959, p. 159). Ao analisar ―Raça e Assimilação‖, Jair de Souza Ramos enfatiza alguns elementos importantes, como a interlocução entre o discurso racista e a abordagem cientificista. Seu método consiste em colocar Oliveira Vianna em diálogo com dois contemporâneos, a saber: os médicos Arthur Ramos e Roquette-Pinto. O bacharel de direito criticaria a posição médica que tentava encontrar na heterogeneidade, na miscigenação, um valor positivo da sociedade brasileira, argumentos que ganharam bastante força a partir das décadas de 1920 e 1930. Ramos também afirma que ao fazer sua análise sobre as raças, Oliveira Vianna no binarismo étnico índios e negros (dividindo-os em ―ciclóides‖ e ―esquizóides‖), e afirma que Vianna não teria aporte suficiente para fazer a mesma distinção na raça branca. Outra crítica importante que Oliveira Vianna fez, diz respeito ao sistema cadastral do censo e ao critério classificatório de raça nele utilizado. Tal divisão classificava as pessoas como: brancas, negras, amarelas e vermelhas. Ele afirmava que essa classificação desconsiderava a 358 existência de toda e qualquer a heterogeneidade dentro de cada uma destas etnias principalmente a divisão étnica existente dentro dos próprios brancos. É neste ponto também que ele entra em desacordo com as idéias de Franz Boas quanto à adaptação ao clima. O antropólogo norteamericano considerava que os filhos de imigrantes provinham de uma relação neolamarckista de amalgamento, enquanto o sociólogo cria no pressuposto de que o branqueamento racial provinha da perda relativa das características dos descentes de negros e índios 11 (RAMOS, 2003, pp.573601). A aproximação entre racismo e cientificismo feita por Ramos traz alguns esclarecimentos relativos às questões pertinentes ao ―fundo-comum‖ e ao desenvolvimento de tais idéias. Entretanto discordamos quando ele diz que Oliveira Vianna não apresentaria nenhum tipo de solução para o caso dos brancos. Ao contrário, nos parece que é a partir do caráter eugênico que o sociólogo encontra a chave para a ―arianização‖ brasileira: Neste ponto, as duas raças são desiguais – e esta desigualdade se reflete na desigualdade da riqueza eugenística das suas elites respectivas. Ora, como a civilização moderna é muito exigente destes tipos superiores na composição das suas elites, compreende-se e explica-se por que o negro, vivendo dentro desta civilização, revela certa inferioridade em face dos grupos brancos e brancóides com os quais convive (OLIVEIRA VIANNA, 1959, p.196). Além do caráter ariano, ressaltamos outra teoria que encontrou grande recepção em meados do século XX, reforçando a hierarquização e a superioridade da raça branca em detrimento das outras etnias, era denominada de neotenia. De acordo com Gould, a neotenia, Do ponto de vista da recapitulação, os adultos de raças inferiores são como as crianças das raças superiores. Mas a neotenia inverte o argumento – ‗bom‘ – ou seja, desenvolvido ou superior – é conservar os traços da infância, desenvolver-se mais lentamente. Assim, os grupos superiores conservam até o estágio adulto suas características infantis, enquanto os inferiores chegam à fase superior da infância e logo degeneram e adquirem características simiescas. Lembremos que os cientistas brancos convencionaram que os brancos são superiores e os negros inferiores. Assim, enquanto do ponto de vista da recapitulação, os negros adultos seriam como as crianças brancas, segundo a neotenia os brancos adultos seriam como crianças negras (GOULD, 2003, p. 118). Para Oliveira Vianna, a desigualdade ambiental - eutenia e a racial - eugênica, encontravam consistência na neotenia. A existência da desigualdade nas elites, as baixas capacidades intelectuais justificavam-se em função da permanência do caráter infantil presente ainda nas melhores mentes dos brancos. Se a situação da raça branca já não era das melhores, a do negro que mesmo estando em um estágio de idade adulta, não era diferente uma vez que ele não conseguia adaptar-se às condições sociais impostas pela sociedade, condenado à inferioridade, à marginalidade, sem qualquer possibilidade de ascensão social. 11 RAMOS, Jair de Souza. ―Ciência e racismo: uma leitura crítica de Raça e Assimilação em Oliveira Vianna‖. História, ciência, saúde – Manguinhos, vol. 10 (2), pp. 573-601, maio-agosto; 2003. 359 CONSIDERAÇÕES FINAIS Oliveira Vianna procurou mapear os problemas sociais existentes no Brasil do início do século XX. Recorreu à história como ponto de partida ao , identificar as causas destes problemas. Entretanto, para este pensador nenhum deles teria uma solução sem uma análise minuciosa dos costumes e principalmente das tradições da sociedade brasileira. A formação e estabelecimento de uma raça nacional que seria fruto de um constante processo de branqueamento, só possível pela intervenção do Estado. Desbravador do conhecimento da ―geração‖ de 1870, sua perspectiva geral em certo grau era otimista, pois apontava um possível direcionamento para analisar e resolver a ―realidade nacional‖ do país. Gilberto Freyre também foi herdeiro da ―geração‖ de 1870 que formulou uma interpretação no seu hoje clássico ―Casa-Grande e Senzala‖ (1933) analisando justamente o patriarcalismo apontando por Oliveira Vianna. Entretanto, um dos principais aspectos que diferenciou os dois pensadores, era que Freyre positivou a figura do mestiço, algo fora de questão em Vianna. Homens do seu tempo e do seu país, ambos tentaram explicá-lo e intervir sobre a sua realidade social e política. Vianna estabeleceu uma teoria se seria possível uma proposta explicativa geral para o Brasil o que foi criticada pela geração de Freyre. Todavia, e como acertadamente esclarece Bresciani, Querelas interpretativas? Discordâncias teóricas? Isso, e mais que isso. Creio necessário lembrar estar na base desse desacordo projetos políticos divergentes; manter os olhos voltados para usos e costumes, ou seja, para a tradição, e aperfeiçoá-la modernizando-a, como ambicionava Oliveira Vianna; fazer da tradição, de... certa tradição, o fundamento do que melhor existira na sociedade e cultura brasileiras, adoçadas ou suavizadas pelo açúcar de grande propriedade senhorial, na proposta de Freyre; ou imputar à tradição nosso atraso e todos os desencontros sociais e políticos, na projeção de um futuro livre dessas raízes mal plantadas e indesejadas, como propunha Buarque de Holanda (BRESCIANI, 2005, p.471). 360 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BRESCIANI, Maria Stella Martins. O charme da ciência e a sedução da objetividade – Oliveira Vianna entre intérpretes do Brasil. São Paulo, Unesp; 2005. GALTON, Francis. Hereditary genius – an inquiry its laws and consequences. New York, Prometheus books, 2006. GINZBURG, Jaime. Política de memória no Brasil: raça e história em Oliveira Vianna e Gilberto Freyre. Sevilla, Araucária, primer semestre, año/vol. 8, nº 015, pp. 36-45; 2006. GOULD, Stephen J. A falsa medida do homem. São Paulo, Martins Fontes; 2003. LEWONTIN, Richard C. Biology as ideology. New York, HarperPerenial; 1992. MENEZES, Geraldo Bezerra de. Intérpretes do Brasil. Niterói, Clube de Leitura Cromos, 1997. OLIVEIRA VIANNA, José Francisco de. Raça e assimilação. Rio de Janeiro, José Olympio; 1959. PIVA, Luiz Guilherme. Ladrilhadores e Semeadores: a modernização brasileira no pensamento de Oliveira Viana, Sergio Buarque, Azevedo Amaral e Nestor Duarte (1920-1940). São Paulo, Editora 34; 2000. SCHWARCZ, Lilia Moritz. Espetáculo da miscigenação. Estudos avançados 8(20), 1994. ________, Espetáculo das raças – cientistas, instituições e questão racial no Brasil (1870-1930). São Paulo, Companhia das letras, 1993. TEIXEIRA, João Paulo A. ―Idealismo e realismo constitucional em Oliveira Viana: análise e perspectivas‖ in Revista de Informação Legislativa, Brasília, n. 135; 1997. VENTURA, Roberto. Estilo tropical – história cultural e polêmicas literárias no Brasil. São Paulo, Companhia das letras; 1991. 361 O ROMANTISMO INGLÊS COMO FENÔMERO HISTÓRICO NA TRANSIÇÃO ENTRE OS SÉCULOS XVIII E XIX NA POESIA DE WILLIAM BLAKE Flavia Maris Gil Duarte Mestranda em história social (UEL) [email protected] RESUMO: Este trabalho pretende analisar a literatura romântica inglesa como parte constitutiva da experiência histórica na transição entre os séculos XVIII e XIX. Essa experiência é representada, por exemplo, nos trabalhos de William Wordsworth, S. T. Coleridge, P. B. Shelley e William Blake. Através da literatura romântica percebemos a forma como os literatos se posicionaram frente às grandes transformações que ocorriam na Inglaterra naquele momento, suscitadas principalmente pelas revoluções francesa e industrial. Podemos compreender o romantismo como um fenômeno plural, no qual os autores valorizavam o sentimento e a expressão individual, apresentando também um gosto por paradoxos. O romantismo transformouse numa visão de mundo entre as últimas décadas do século XVIII e fins da primeira metade do século XIX. Analisando a poesia de William Blake percebemos como ele pensou o romantismo e a sociedade, delimitando seu pensamento em relação a outros poetas românticos do mesmo período. PALAVRAS-CHAVE: Romantismo, Literatura, História. Durante a vida de William Blake não foram poucos aqueles que suspeitaram da lucidez do artista, suas idéias incomuns geraram comentários controversos a seu respeito, principalmente em relação a sua lucidez. Blake afirmava ter visões de anjos, demônios e diversos espectros que povoaram sua obra sempre alheia a convencionalismos e afeita a um universo fantástico. As origens do pensamento de Blake podem ser encontradas em sua concepção de arte, a partir do conceito de ―Alegoria Sublime‖.1 Nesta concepção, as analogias e metáforas utilizadas pelo autor não são imediatamente reconhecidas ou interpretadas pelo leitor de seus poemas ou observador 1 Podemos definir alegoria como ―[...] a metáfora continuada como tropo do pensamento, e consiste na substituição do pensamento em causa por outro pensamento, que está ligado, numa relação de semelhança a esse mesmo pensamento‖. HANSEN, João Adolfo, Alegoria, Construção e Interpretação da Metáfora. São Paulo: Atual Editora, 1986. (p. 1). Desde a antiguidade, existiam regras fornecedoras de lugarescomuns e vocabulário para essa substituição de pensamentos dentro de um determinado campo temático. A alegoria é um procedimento intencional do autor do discurso e a sua interpretação, um ato do receptor, também existindo regras que estabelecem maior ou menor clareza do discurso. (HANSEN, 1986; p. 2). Essas regras sobre como construir um discurso adequado, ou sobre como empregar bem as figuras de linguagem, estavam sendo repensadas pelos autores românticos. William Blake desprezou a alegoria que classificou como ―filha da memória‖, diferenciando a poesia que empregava esse tipo de linguagem baseada em lugares-comuns da poesia que, para ele, seria ―filha da inspiração‖. A memória ou ―entendimento corpóreo‖, de acordo com Blake, corrompe a arte, produzindo um tipo de poesia inferior que diz indiretamente o que poderia simplesmente ser dito diretamente. O caráter indireto da linguagem permanece na Alegoria Sublime, porém, sobre o exercício da imaginação ou das ―faculdades do Intelecto‖ esta expressava o que não poderia ser dito de nenhuma outra forma ao abordar assuntos conceituais poéticos ou espirituais. (ALVES, 2007; p. 44-45). Numa carta endereçada a Thomas Butts em 06 de julho de 1803, na qual descreveu seu poema Milton também definiu o conceito de ―Alegoria Sublime‖ da seguinte maneira: ―Espero (...) falar a gerações futuras através de uma Alegoria Sublime que agora está perfeitamente integrada em um Poema Grandioso. Eu devo louvá-lo pois não ouso aspirar a ser ninguém mais senão o Secretário; os Autores estão na Eternidade (...) Alegoria dirigida às faculdades do Intelecto, ao mesmo tempo que ocultada completamente ao entendimento Corpóreo, esta é Minha Definição da Mais Sublime Poesia.‖ Tradução em: ALVES, 2007; p. 44-45. 362 de suas gravuras, pois, segundo Blake, o público deveria exercitar também sua capacidade imaginativa ao interpretar o seu trabalho. As origens das obras de William Blake são encontradas em sua concepção de arte e, principalmente, na experiência histórica vivenciada pelo poeta na Inglaterra do século XVIII, que sua obra interpreta, expressa e também sobre a qual procura intervir. A metrópole como um espaço de vícios e das piores condições de vida é mostrada em seus poemas, sendo que sua interpretação da realidade se faz sob o paradigma religioso, especialmente alinhado a tradições populares. De acordo com Thompson, se levarmos em conta a dissidência religiosa londrina do século XVIII, Blake não pode ser tomado como um ―gênio inculto e excêntrico‖, mas como uma ―voz original e autêntica de uma longa tradição popular‖. 2 O objetivo deste trabalho, no entanto, não é investigar a veracidade da suposta excentricidade de William Blake ou tampouco entrar no mérito da discussão acerca de suas visões. O que aqui se pretende é compreender de que maneira a realidade por ele vivenciada, na Inglaterra do século XVIII, inspirou a sua produção artística e de que maneira o trabalho de Blake se relacionou com o pensamento e as críticas sociais elaborados pelo movimento romântico inglês. William Blake se situou num período de profundas transformações sociais, que foram acarretadas de acordo com Hobsbawm por uma ―dupla revolução‖ 3 composta pelas revoluções industrial e francesa; estas transformações encontraram no romantismo seu grande espaço de crítica. A literatura produzida pelos românticos ingleses é intrínseca à experiência histórica por eles vivenciada. Uma característica marcante do romantismo 4 é a sua pluralidade, diversos autores atentaram para o fato de que o romantismo foge a qualquer tentativa de definição única, sendo um movimento diversificado que apresentou características contraditórias tanto nas diferentes tradições nacionais, 2 5 quanto, em diversos casos, na obra de um mesmo artista. Independente THOMPSON, E. P. (1924-1993). A formação da classe operária inglesa. São Paulo: Paz e Terra, 2004. (v.1; p. 53). 3 HOBSBAWM, Eric. J. A Era das Revoluções: Europa 1789-1848/ tradução de Maria Tereza Lopes Teixeira e Marcos Penchel. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005. (p. 13). 4 De acordo com Michael Lowy, as formas mais características dos romantismos são as denominadas restitucionista, conservador, fascista, resignado, reformador, o revolucionário e/ou utópico, que compreende diferentes tendências, tais como a jacobino-democrática, a populista, a socialista utópico-humanista, a libertária e a marxista. Segundo ainda este autor, se existe a possibilidade de identificação de algum elo de união entre as diversas manifestações românticas, este elo pode ser encontrado nas contradições originadas pelo sistema capitalista industrial, expressas no pensamento e estilo de vida modernos, e na oposição aos mesmos. Romantismo e Política. Disponível em: www.unipam.edu.br/.../Romantismoepolitica-MichaelLowy.doc acesso em 26/08/2010. 5 O Romantismo também tem um papel relevante na forma como se pensou o nacionalismo naquele contexto. Para o Romantismo, uma nação seria definida através de uma síntese coletiva e histórica articulada através de elementos físicos, vitais e espirituais, conforme o clima e o momento. Unindo o geral e o particular, que seria distinto por valores próprios e intransferíveis, se formaria a personalidade cultural e nacional de cada povo. (NUNES, 2008; p. 59). A pluralidade do movimento e as diferenças no seu interior podem ser explicadas também através da manifestação das particularidades da nação, que seria expressa no pensamento romântico como um ―grande indivíduo‖. Para mais informações sobre a relação entre o romantismo e o nacionalismo, ver também: BAUMER, Franklin L. ―O Mundo Romântico‖. In: O Pensamento Europeu Moderno, 2º volume. Tradução de Maria Manuela Alberty. Lisboa: Edições 70, Lda., 1990. (p. 4650). 363 disso pode-se dizer que em todos os lugares onde o romantismo se manifestou, seus adeptos valorizavam o sentimento e a expressão individual e, apresentavam também um gosto por paradoxos. (BAUMER, 1990; p. 24). O romantismo foi um movimento que extrapolou os limites da arte, abrangendo também o pensamento filosófico e político, sendo encontrado na modernidade o elo capaz de unificar essas diversas manifestações românticas. 6 Os principais focos da produção de obras com características do depois estruturado movimento romântico, que já antes da revolução francesa convencionou-se chamar de pré-românticas, são localizados na Alemanha, Inglaterra e França deste período. Tendo surgido primeiramente na Alemanha e Inglaterra, no século XVIII, o romantismo chegou à França no início do século XIX. Sobre a emergência do romantismo nestes três países, Löwy e Sayre afirmaram que ele ―[...] surgiu, mais ou menos, de forma semelhante, independente e sincrônica, nesses três países que eram, relativamente os mais ‗avançados‘ no processo de modernização e desenvolvimento do capitalismo. [...]‖. 7 Observamos que, concomitantemente, e associada às transformações sócio-econômicas do período, tomou corpo uma transformação ideológica, também desencadeada na renascença, que se cristalizou com o desenvolvimento do pensamento Iluminista no século XVIII, que importava, em grande parte, o modelo das ciências naturais e matemáticas para a analise do ser humano e resolução de seus problemas. Na Inglaterra, com o pensamento de Locke, Hume e principalmente Bentham, essas idéias assumem uma forma particularmente empirista e utilitarista. (LÖWY; SAYRE, 1995; p. 78). Em uma de suas cartas, Blake escreveu um poema no qual afirmou, ―Que Deus nos guarde da Visão Única & do sono de Newton‖. 8 O desenvolvimento do espírito analítico pelos iluministas constituiu a fé na razão como fonte criadora unívoca e um meio pelo qual a natureza poderia ser decifrada. 9 Os românticos se voltaram contra o que consideraram ser a estreiteza de visão de seu tempo, presente tanto na filosofia e na ciência, quanto na arte do século XVIII. Nesse universo, segundo os românticos, o espírito geométrico foi aliado à doutrina do neoclassicismo e ao empirismo lockeano. Podemos considerar estas as questões chave nessa crítica. O espírito geométrico mecanizava a vida ao subordiná-la à razão. O neoclassicismo, ao sugerir modelos ideais da natureza, impunha regras rígidas e universais à arte 6 O que se convencionou chamar modernidade foi fruto de um processo intrínseco ao próprio desenvolvimento do capitalismo, que teve início no século XVII, culminando nos séculos XVIII e XIX. O processo foi desencadeado a partir da renascença e da reforma protestante, e o romantismo surge, desse modo, ―[...] quando as tendências em ação, há muito tempo, se transformam em sistema, quando são criadas as bases da indústria moderna e se concretiza o domínio do mercado sobre o conjunto da vida social [...]‖ (LÖWY; SAYRE, 1995; p. 77). Baumer considerou também o romantismo como o primeiro grande protesto contra a modernidade, definida por ele como a civilização cintífico-racional que começou a desenvolver-se no século XVII e que assumiu uma grande dimensão no século XVIII. (BAUMER, 1990; p. 23). 7 LÖWY, Michael; SAYRE, Robert. Revolta e Melancolia: O romantismo na contramão da modernidade. Petrópolis: Vozes, 1995. (p. 80). 8 May God us keep / From Single vision & Newtons sleep. BLAKE, William [carta] 1802 nov. 22, Felpham [Inglaterra] [para] Thomas Butts – Londres em: ERDMAN, David V. (ed.). The Complete Poetry and Prose of William Blake. New York: Anchor Books, 1988. (p. 722). 9 CASSIRER, Ernst. ―O Pensamento na Era do Iluminismo‖. In: A Filosofia do Iluminismo. Tradução de Álvaro Cabral. Campinas: Edunicamp, 1994. (p. 22). 364 e aos artistas. E, por fim, o empirismo, demasiadamente cético, limitava o conhecimento humano a um mundo de aparências. (BAUMER, 1990; p. 26). E este seria o sono de Newton para Blake, ao considerar apenas os aspectos da matéria e da racionalidade, não percebia que seu trabalho não seria desenvolvido se a imaginação não estivesse presente. Essas críticas românticas associam-se a outra questão que merece ser mencionada: muito do pensamento romântico relacionou-se a uma nova idéia de natureza, ou mesmo de Deus. Thomas Carlyle, por exemplo, considerou que o erro dos filósofos do século XVIII, foi justamente este desencantamento com relação à natureza e sua dimensão sobrenatural, para ele, os filósofos estavam errados, ―porque, em vez de elevaram o natural ao sobrenatural, esforçaram-se por afundar o sobrenatural no natural‖, 10 apontando com esta consideração a sensação de desencantamento do mundo presente no romantismo. Para reaver a fé que acreditavam que o mundo havia perdido, os românticos encontraram diferentes caminhos. Em busca da renovação religiosa, muitos românticos se voltaram para o catolicismo; outros permaneceram protestantes, ainda que também passassem a ver a sua religião de uma forma diferente, idealizada. Outros ainda, dentre eles William Blake, abandonaram as formas instituídas de religião e inventaram novos deuses e novas mitologias. (BAUMER, 1990; p. 31-32). De acordo com Paulo Vizzioli, há uma oposição básica sugerida pelos compêndios de história da literatura, na qual o romantismo se identifica com o sentimento e o neoclassicismo com a razão. Esta classificação revela-se insuficiente na prática, pois tende a voltar-se para a elaboração de conceitos absolutos. Vizzioli lembra-nos de que ―[...] nenhuma arte é exclusivamente baseada no sentimento, assim como nenhuma depende unicamente da razão. Como se sabe, esses dois ingredientes são igualmente essenciais a toda e qualquer manifestação artística [...]‖.11 Vista a partir deste prisma, a diferença entre os diferentes movimentos está na ênfase e no modo de integração dos diferentes elementos na poesia. . Observamos também que no início do movimento romântico na Inglaterra, os autores buscaram o equilíbrio entre elementos racionais e emocionais em suas obras, especialmente os lake poets; 12 porém, a balança freqüentemente pendeu ora para um lado ora para outro, estando distante da noção de equilíbrio que se pretendia. Na segunda edição da obra escrita em parceria com Coleridge 13 denominada Lyrical Ballads (1800), Wordsworth escreve o prefácio que é considerado um documento chave do 10 Carlyle fez estas considerações em seu diário em 1 de fevereiro de 1833. Ver: BAUMER, Franklin L. ―O Mundo Romântico‖. In: O Pensamento Europeu Moderno, 2º volume. Tradução de Maria Manuela Alberty. Lisboa: Edições 70, Lda., 1990. (p. 31). 11 VIZZIOLI, Paulo. ―O sentimento e a razão nas poéticas do romantismo‖ in GUINSBURG, J. (org.). O Romantismo. São Paulo: Perspectiva, 2008. (p. 138-9). 12 Na primeira geração romântica destaca-se um grupo de poetas que ficaram conhecidos como Lake Poets, por volta de 1770. Este nome tem origem no local onde residiu William Wordsworth, conhecido como Lake District, distrito dos lagos, uma região de lagos e montanhas, semelhante à Suíça, de clima frio, situada à noroeste da Inglaterra. (BORGES, 2002; p. 170). Podemos destacar como principais expoentes dentre estes poetas William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge. 13 Wordsworth e Coleridge planejaram a publicação de Lyrical Ballads dividida em duas partes. Uma delas se ocuparia da poesia existente nas vicissitudes comuns da vida de todo homem e, a outra, abordaria a 365 romantismo inglês, 14 nele é desenvolvido um conceito de poesia romântica em que razão e sentimento se fundem harmoniosamente, afirmando que, ―é o sentimento neles desenvolvido que dá importância à ação e à situação, e não a ação e a situação ao sentimento‖. 15 (VIZZIOLI, 2008; p. 143). A diferença fundamental se encontra então, de acordo com Wordsworth, no aspecto que deveria predominar, controlando e selecionando o conteúdo da obra, que para os neoclássicos seria, sobretudo a razão e para os românticos tendeu para o sentimento. Wordsworth mostrou a busca por este equilíbrio no prefácio de Lyrical Ballads ao afirmar que: [...] toda boa poesia é o transbordamento espontâneo de fortes sentimentos; e, embora isto seja verdade, nenhum poema, a que se pode atribuir algum valor, jamais foi produzido, a respeito de qualquer assunto, por alguém que, sendo dotado de sensibilidade orgânica superior à comum, não tivesse também meditado longa e profundamente. (WORDSWORTH, 1988; p. 83). Wordsworth não recomendou, portanto, que os poetas iniciassem a sua composição unicamente sob o impacto imediato das emoções, mas também meditando ―longa e profundamente‖ sobre estas mesmas emoções. Outra questão relevante abordada por Wordsworth na passagem acima citada é que ele considerou que bons poemas seriam produzidos por quem fosse ―dotado de sensibilidade orgânica superior à comum‖. O conceito de organicismo entre os românticos era normalmente uma idéia dinâmica, sugerindo o tipo de desenvolvimento de uma planta. A natureza não era mais vista como um todo acabado, imutável e perfeito, mas sim como um organismo vivo, crescente, criativo, em devir, ela se abria como poder criativo, para encontrar formas sempre novas, e o artista ao criar seria semelhante à esta força natural. A valorização da imaginação no romantismo viu os conceitos da ciência mecanicista como inadequados e voltou-se para analogias biológicas, sugerindo a oposição entre um princípio vivo e um produto acabado e morto. 16 A ―organicidade‖ da poesia, sugeriu ainda um outro tipo de oposição de acordo com Raymond Williams, a oposição entre orgânico e mecânico, designou também o contraste entre o que ―cresce‖ e o que ―é feito‖ na sociedade industrial. (WILLIAMS, 1969; p. 59-60). William Blake não viu a relação entre razão e emoção na poesia e no próprio ser humano de forma harmoniosa, e podemos compreender como estes temas foram abordados pelo poeta em The Marriage of Heaven and Hell. Um certo ―desequilíbrio‖ é encontrado nesse trabalho no poesia do sobrenatural. Esta última foi encomendada a Coleridge, porém, de acordo com Borges, deve-se levar em conta o fato de que Coleridge se encontrava entregue ao ópio, de modo que quando chegou o momento da publicação do livro, Coleridge contribuiu com apenas dois poemas, sendo que todos os demais foram escritos por Wordsworth. (BORGES, 2002; p. 172). 14 Este prefácio é considerado uma referência não apenas para a literatura inglesa como também para a literatura européia em geral nos estudos sobre o romantismo, pois nele Wordsworth expõe a sua teoria acerca da poesia. (BORGES, 2002; p. 172). 15 WORDSWORTH, William (1770-1850). Poesia Selecionada / Edição bilíngüe. Apresentação, tradução e notas de Paulo Vizzioli. São Paulo: Edições Mandacaru, 1988. (p.83). 16 BAUMER, Franklin L. ―O Mundo Romântico‖. In: O Pensamento Europeu Moderno, 2º volume.Tradução de Maria Manuela Alberty. Lisboa: Edições 70, Lda., 1990. (p. 35-37). 366 qual ao retratar os contrários, céu/razão/anjos e inferno/emoção/demônio, ambos sempre presentes no ser humano, Blake privilegiou a emotividade que ele identifica com a ―energia‖, retratando-a como fonte de vida. Blake pensou que nessa relação entre racionalidade e emotividade não há um meio termo, logo não haveria como encontrar o equilíbrio proposto por Wordsworth, que pensou a poesia como ―emoção recolhida na tranqüilidade‖. Para Blake, os verdadeiros artistas seriam aqueles que exerciam a capacidade criativa e imaginativa e logo deveriam defender as propostas do demônio e partilhar de sua visão mundo. No romantismo inglês também encontramos reflexões acerca da transformação existente entre o modo de vida da sociedade pré-industrial e da nascente civilização urbana. A estrutura romântica de sensibilidade também comporta a afirmação da natureza em oposição à indústria e da poesia em oposição ao comércio; a afirmação da humanidade e da comunidade na idéia de cultura. (WILLIAMS, 1989; p. 113). Percebemos esta oposição na poesia de Wordsworth, para quem que o homem ao sentir-se repelido pelo mundo frio tenta encontrar e recriar o homem por meio de uma linguagem própria e da percepção natural, voltando seu olhar para o campo. Também são visíveis no campo as transformações de uma ordem sócio econômica e física, onde a terra estava sendo organizada para a produção, para ser trabalhada por arrendatários e trabalhadores. Wordsworth, então, refugia-se na natureza e descreve uma paisagem em modificação que emerge de um processo histórico perturbador. Ela, a natureza, torna-se a ―ancora dos mais puros pensamentos‖ e guia do ―ser moral‖. 17 Fugindo do mundo concreto e da pressão em que vive a comunidade o poeta se recolhe à tranqüilidade da natureza e, em seu silêncio pode refletir acerca de si mesmo e da humanidade através da contemplação e da nostalgia. Porém o poeta é arrancado de seu silêncio ―[...] com raiva e desespero, para formular o que escreveu em termos do barulho do mercado: lucro, malícia, inveja; um desprezo por sua simplicidade que é uma afetação [...]‖. (WILLIAMS, 1989; p. 197). O poeta busca na natureza os valores que acredita que os homens perderam nessa nova sociedade, ―Jogamos a Alma fora, vis Mercantes‖, 18 acusou Wordsworth para quem a natureza se opunha ao homem corrompido. A revolução industrial serviria como uma das principais fontes de inspiração para o romantismo, e com base nela os românticos produziram obras nas quais construíram visões diversificadas daquilo que estavam vivenciando, visões estas que estavam diretamente relacionadas com suas experiências particulares de vida. Blake, diferente de Wordsworth, era um londrino de nascimento. Enquanto Wordsworth via na cidade estranheza, perda de conexões, de percepção e identidade em meio à multidão, Blake delineava uma imagem generalizada de fraqueza e sofrimento. (WILLIAMS, 1989; p. 211). Através da literatura romântica é possível perceber, o impacto causado pelas migrações das pessoas em direção aos centros urbanos e industriais, a visão sobre as classes 17 WORDSWORTH, William (1770-1850). Poesia Selecionada / Edição bilíngüe. Apresentação, tradução e notas de Paulo Vizzioli. São Paulo: Edições Mandacaru, 1988. (p. 35). 18 WORDSWORTH, William (1770-1850). ―The World Is Too Much With Us‖ in Poesia Selecionada / Edição bilíngüe. Apresentação, tradução e notas de Paulo Vizzioli. São Paulo: Edições Mandacaru, 1988. (p. 71). 367 trabalhadoras, muitas vezes tomadas como perigosas, e a transformação no cenário urbano acarretada pela indústria.19 A cidade passa a ter um novo significado para a sociedade industrial e os escritores vivenciaram também seu rápido processo de expansão e transformação no século XVIII. Um dos significados atribuídos a esta nova cidade pode ser encontrado no poema London 20 de William Blake, sendo talvez o poema que apresente uma imagem mais clara na obra deste autor sobre a cidade onde residiu praticamente por toda sua vida. Raymond Williams, referindo-se ao poema citado, afirmou: [...] A inocência e o vício estão na cidade, fazem parte da cidade, em suas relações concretas e espirituais. O Palácio, símbolo imponente do poder, deve ser visto com muros ensangüentados: a conexão real, porém oculta, é revelada e o mesmo é feito em relação ao contraste entre as convenções de religião e família e a realidade dos que sofriam, eram desprezados e marginalizados. [...] A questão é o estabelecimento de questões novas, no contexto de toda a ordem urbana e do sistema humano que a cidade concentra e encarna. Impor à consciência essas conexões ocultas é, portanto, uma nova maneira de ver a ordem humana e social como um todo. [...] (WILLIAMS, 1989, p. 208) A imagem desta cidade é descrita no referido poema, no qual a capital é vista como um espaço não apenas de multiplicidade, mas também de opressão, de conflitos e dos marginalizados. E ainda que em outras ocasiões William Blake recorra a imagens bucólicas, como no poema dedicado a Milton, no qual se remete a ―campos verdes e agradáveis da Inglaterra‖ e a ―negros Satânicos moinhos‖, 21 seu desejo não é um retorno à sociedade rural, mas a transformação dessa nova sociedade urbana, diminuindo a desigualdade social, acabando com a miséria. Por fim, o último traço a ser abordado neste trabalho é o lugar social do artista, como decorrência da noção de gênio original, que emergiu antes do romantismo, mas que se efetivou com ele. Kant preparou o terreno para a emergência da noção de gênio. Para ele, as obras de arte são tanto mais belas quanto mais assumem um aspecto de formação espontânea, como se fossem livres produções da natureza, sobrepondo os artifícios da arte. Embora a racionalidade seja atuante, e as técnicas existam, como produções singulares que são, não podem ser feitas a 19 Deve-se destacar o fato de que Londres impressionava os observadores locais e estrangeiros principalmente por sua magnitude, pois não se tratava ―[...] certamente de uma cidade bonita, e era mesmo possível que o estrangeiro ajulgasse desagradável. ‗Depois que tiverdes visto a Itália‘, escrevia o Abbé Le Blanc em 1757, ‗nada vereis nos edifícios de Londres que vos cause grande prazer‘. A cidade na verdade só assombra por sua grandeza.‘ [...]‖ (HOBSBAWM, 2009; p. 24). 20 BLAKE, William (1757-1827). William Blake: poesia e prosa selecionadas/ Edição bilíngüe. Introdução, seleção, tradução e notas Paulo Vizioli. São Paulo: Nova Alexandria, 1993. 21 Os ―negros Satânicos Moinhos‖ (dark Satanic Mills) são uma referência à industrialização e ao racionalismo, tidos por Blake como causadores de males a serem combatidos. 368 partir de regras gerais. O belo é algo que tem de agradar sem conceito. Compreendidas dessa forma, as belas-artes são artes do gênio, que através de seu talento é capaz de imprimir em um artifício a aparência espontânea da natureza. A genialidade, pensada como ação do talento, é um dom natural, uma capacidade específica que pertence à natureza. (NUNES, 2008; p. 60). A idéia de gênio ultrapassou as concepções estéticas de Kant e, a ela foram atribuídos vários sentidos, desde a segunda metade do século XVIII, a esta idéia foi agregada a transgressão permanente, desde a quebra dos padrões clássicos entre os pré-românticos ingleses ao questionamento dos padrões sociais de comportamento entre os Stürmer na Alemanha. As leituras de Kant apontavam ainda para uma outra transformação, que era transgressiva da ordem racional, e questionava a autoridade da razão teórica sobre a fantasia, e que fez do gênio, algo incomparável ao talento para a investigação científica, configurando um tipo de organização mental e espiritual à parte. O gênio é alguém que ―[...] produz sem imitar, aprendendo a fazer tãosomente o que as determinações interiores lhe ensinam, o gênio artístico conhece apenas quando produz, e assim conhece, apenas pela intuição, o que o conhecimento racional jamais alcança.‖ (NUNES, 2008; p. 61). No romantismo o gênio transformou-se no mediador entre o homem, seu mundo interior, e a natureza exterior. A faculdade de apresentar idéias estéticas, conforme expostas por Kant, transformou-se na visão romântica, no poder intuitivo cognoscente, que se colocava acima do conhecimento empírico, sendo simultaneamente criador e expressivo da imaginação poética. Na obra de arte o Eu alcança uma intuição de si mesmo como absoluto, dessa forma a intuição artística foi compreendida como a verdadeira espécie de intuição intelectual, pois criaria a seu próprio objeto. (NUNES, 2008; p.61). Dentre as várias manifestações do gênio, propagadas a partir do pensamento romântico, observamos o caráter de um povo visto como manifestação de seu gênio nacional, a genialidade também seria atribuída ao legislador que prevê, ao filósofo que intui, ao homem de estado que altera o destino coletivo, ao homem religioso capaz de profetizar. Porém, é o poeta o gênio por excelência, como mediador do Eu e do mundo, pois supostamente foi através dele que todas as demais manifestações foram criadas. Shelley, em sua Defesa da Poesia, representou bem este pensamento ao afirmar que [...] os poetas ou aqueles que imaginam e expressam essa ordem indestrutível, não são apenas os autores da linguagem e da música, da dança, da arquitetura, da escultura e da pintura; eles são os instituidores das leis, e os fundadores da sociedade civil, e os inventores das artimanhas da vida, e os professores, que levam a certa proximidade com o belo e o real aquela parcial apreensão das atividades do mundo invisível que é chamado de religião. 22 22 SHELLEY, Percy Bysshe, 1792-1822. Uma Defesa da Poesia e Outros Ensaios/ Edição bilíngüe: português/inglês. Tradução de Fabio Cyrino e Marcella Furtado. São Paulo: Landmark, 2008. (p. 81-82) 369 Assim considerado, através da força das obras do poeta, e por causa delas, o gênio nacional poderia florescer; sua linguagem possuía um alcance original formativo, comparável ao trabalho do legislador e próximo do visionário místico e profético. A linguagem do poeta transcenderia a especulação do filósofo, a atividade política e a ciência que ela possibilita, elucida e perpetua (NUNES, 2008; p. 62). No trabalho acima citado, não apenas nesta passagem, como também em outro momento, Shelley realça o papel do poeta afirmando ser ele o ―autor da mais alta sabedoria, prazer, virtude e glória‖ e conclui este pensamento dizendo: ―deixemos que o tempo seja desafiado a declarar se a fama de qualquer outro instituidor da vida humana seja comparável à da de um poeta‖. 23 O homem ideal deixou então de ser o filósofo do século das luzes, passando a ser o artista. 24 Na visão classicista, a produção de obras de arte era fruto da habilidade do artista, que era visto como um homem engenhoso que busca aproximar-se da perfeição, seguindo para tanto as regras do bem dizer e do bem fazer e imitando também os mestres que se aproximavam dessa concepção de perfeição. No romantismo, o objetivo não foi alcançar a perfeição estética e racional, pois conforme afirmou Blake em seus provérbios do inferno, ―O Progresso constrói estradas retas; mas as estradas tortuosas, sem o Progresso, são estradas da Genialidade‖. 25 Dessa forma a obra de arte já nascia completa, ela não poderia, nem deveria ser retocada pelos critérios de perfectibilidade. Levando-se em conta essas afirmações, pode-se dizer, com Hobasbawm, que o artista, apartado de uma função antes reconhecida e apoiada por patronos e por um público restrito, encontrou-se só, e desse modo considerou-se um gênio, que criava somente aquilo que levava dentro de si, e que tinha como desafio um público cujo único direito em relação a ele era aceitá-lo da maneira como era ou rejeitá-lo completamente. (HOBSBAWM, 2005; p. 362). Notamos também outra transformação, através da ampliação das atividades da imprensa, na qual arte ao ser encarada como um dentre vários tipos de produção, denotou que o fator econômico adquiriu um status ―[...] autônomo e dominador em relação ao conjunto das instituições sociais apontando, simultaneamente para a primazia do lucro.‖ (LÖWY; SAYRE, 1995; p. 76). Com o objetivo de ser reconhecido enquanto artista, Blake desenvolveu sua arte literária e visual, pautada nesse conceito de genialidade peculiar, buscando formas próprias para expressar sua arte. E através dela podemos perceber a forma como ele foi capaz de lançar um olhar crítico sobre a vida de pessoas que, como ele, estavam sofrendo os desdobramentos da ―dupla revolução‖ na Inglaterra. 23 SHELLEY, Percy Bysshe, 1792-1822. Uma Defesa da Poesia e Outros Ensaios/ Edição bilíngüe: português/inglês. Tradução de Fabio Cyrino e Marcella Furtado. São Paulo: Landmark, 2008. (p. 118). 24 BAUMER, Franklin L. ―O Mundo Romântico‖. In: O Pensamento Europeu Moderno, 2º volume. Tradução de Maria Manuela Alberty. Lisboa: Edições 70, Lda., 1990. (p. 40). 25 BLAKE, William (1757-1827). William Blake: poesia e prosa selecionadas/ Edição bilíngüe. Introdução, seleção, tradução e notas Paulo Vizioli. São Paulo: Nova Alexandria, 1993. (p. 95). 370 BIBLIOGRAFIA 371 ALVES, Andréa Lima. “A Oposição é Verdadeira Amizade”: Imagem poética e pictórica no livro O Matrimônio do Céu e do Inferno de William Blake. Campinas-SP, 2001. 216 p. Dissertação (mestrado). Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Estudos da Linguagem. ------------------------------ A interação entre texto e ilustração nos illuminated books de William Blake sob o prisma da obra America: A Prophecy. Campinas-SP, 2007. 274 p. Tese (doutorado). Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Estudos da Linguagem. BATAILLE, Georges. A Literatura e o Mal. Tradução de Suely Bastos. Porto Alegre: L&PM, 1989. BAUMER, Franklin L. ―O Mundo Romântico‖. 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Mestrando em História pela UNESP/Faculdade de Ciências e Letras de Assis [email protected] Resumo: O projeto tem como fonte e objeto o jornal Meio-Dia, que circulou durante os anos de 1939 a 1942, sob direção de Joaquim Inojosa, expoente do modernismo pernambucano. O periódico tornou-se notório por apoiar causas defendidas pela Alemanha nazista, em um contexto no qual a maioria dos órgãos da grande imprensa, então amordaçada pelo duplo controle do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) e do Conselho Nacional de Imprensa, apoiava incondicionalmente a causa aliada. O trabalho objetiva analisar como, no jornal Meio-Dia, caso único dentre os periódicos brasileiros da época, se construíram representações acerca da Alemanha nazista, seus líderes, instituições e suas relações com o Brasil desse período. Para tanto, pretende-se analisar, de forma sistemática, os artigos escritos pelo seu diretor-proprietário Joaquim Inojosa, bem como os editoriais desse jornal, baseando-se nos referenciais teóricos propostos por aqueles que refletiram acerca da utilização de fontes periódicas no trabalho do historiador. Palavras-chave: Imprensa carioca, Propaganda nazista, Segunda Guerra Mundial. INTRODUÇÃO: Em 1930, quando Getúlio Vargas chegou ao poder, estava a imprensa brasileira em franco processo de expansão.2 Não apenas boa parte dos jornais passaram a contar com serviço telegráfico efetivo de agências internacionais, como Havas e United Press, como também se valiam de novas técnicas de impressão, via a aquisição das linotipos e de outras novidades no campo da impressão, e do estabelecimento de departamentos de publicidade, o que contribuiu, de forma decisiva, para a consolidação das empresas jornalísticas. Nas décadas de 1930 e 1940, os maiores jornais do país concentravam-se, sobretudo, no Rio de Janeiro, então capital federal, e dominavam o mercado nacional, com amplas tiragens. Destacavam-se o Correio da Manhã, talvez o maior matutino do período; 3 O Jornal, vespertino ―órgão líder‖ dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand; o Diário de Notícias, fundado em 1930 por Orlando Ribeiro Dantas, 4 além de outros títulos não menos importantes como o Jornal do Brasil, Diário Carioca e O Globo. Existiam dois tipos de periódicos, matutinos e vespertinos: os primeiros circulavam logo no começo do dia, possuíam diagramação e linha editorial sólidas e não tinham edições às segundas-feiras. Já o segundo grupo saía por volta das 11 horas da manhã, 1 Trabalho financiado pela FAPESP – Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo. BAHIA, Juarez. Jornal, história e técnica. São Paulo: Martins, 1967, p. 63. 3 A história desse importante órgão da imprensa brasileira foi documentada em ANDRADE, Jeferson Ribeiro de. Um jornal assassinado: a última batalha do Correio da Manhã. Rio de Janeiro: José Olympio, 1991. 4 Mais informações sobre os periódicos acima citados podem ser encontradas em SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad, 1999. E também em RIBEIRO, Ana Paula Goulart. Imprensa e História no Rio de Janeiro dos anos 50. Tese (Doutorado em Comunicação) – Escola de Comunicação, UFRJ, Rio de Janeiro, 2000. 2 374 eram mais fluidos em relação ao seu conteúdo e não apareciam aos domingos. Um vespertino também poderia ter várias edições no decorrer de um mesmo dia, de acordo com sua vendagem, e eram, em geral, considerados mais populares. Em São Paulo, outro centro importante do país, circulava o poderoso O Estado de S. Paulo, propriedade de Júlio de Mesquita Filho,5 bem como o Diário de S. Paulo, outro jornal incorporado à cadeia dos Diários Associados, além da Folha da Noite e Folha da Manhã, esta última surgida em 1925. 6 Não se pode esquecer, todavia, que esse panorama foi severamente influenciado pelos acontecimentos políticos do Brasil nas décadas de 1930 e 1940. O Estado Novo, governo autoritário capitaneado por Getúlio Vargas, foi instaurado em novembro de 1937. O golpe desfechado no dia 10 daquele mês foi alardeado como reação à descoberta do chamado ―Plano Cohen‖, uma suposta revolução para implantar o comunismo no Brasil. Como se descobriu mais tarde, o plano fora arquitetado por um capitão integralista, Olímpio Mourão Filho, que teria participação importante no golpe de 1964, desencadeando o processo que levaria à instauração do regime militar. Em 1937, seu plano serviu como uma luva para os propósitos varguistas de por fim à disputa pela Presidência da República, endurecer definitivamente o regime que, desde a Intentona Comunista de 1935, tornava-se cada vez mais autoritário e centralizador.7 A instauração de uma ditadura levou o governo a agir de forma mais rígida e controladora em relação à imprensa, e para tanto foi criado o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) em dezembro de 1939. As funções do DIP eram muito abrangentes, contando com as seguintes divisões: Divisão de Divulgação, Divisão de Radiodifusão, Divisão de Cinema e Teatro, Divisão de Turismo, Divisão de Imprensa e Serviços Auxiliares. 8 A divisão de Imprensa do DIP contava ainda com o Conselho Nacional de Imprensa, formado por seis membros: três deles nomeados por Vargas, e outros três escolhidos em assembléias realizadas pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI), pelo Sindicato dos Proprietários de Jornais e Revistas do Rio de Janeiro e ainda pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de Janeiro. A direção, porém, cabia ao diretor do DIP – no caso, Lourival Fontes. 9 5 A trajetória de O Estado de S. Paulo foi analisada no pioneiro estudo de Maria Helena Rolim Capelato e Maria Lígia Prado, o qual, com o passar dos anos, também se tornou uma obra de referência sobre a imprensa brasileira. Ver CAPELATO, Maria Helena Rolim & PRADO, Maria Lígia. O Bravo Matutino: Imprensa e ideologia no jornal ―O Estado de S. Paulo‖. São Paulo: Alfa-Ômega, 1980. 6 DUARTE, Paulo. História da Imprensa em São Paulo. São Paulo: Escola de Comunicações e Artes/USP, 1972, p. 31-32. 7 Conforme visto em CARONE, Edgard. O Estado Novo (1937-1945). Rio de Janeiro/São Paulo: DIFEL, 1976. 8 A atuação do DIP e sua trajetória podem ser vistos em ARAÚJO, Rejane. ―Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP)‖. In: ABREU, Alzira Alves de et. al. (Coord.). Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro Pós-1930. Rio de Janeiro: CPDOC/FGV, 2001, p. 1830-1833. 9 GOULART, Silvana. Sob a verdade oficial: Ideologia, propaganda e censura no Estado Novo. São Paulo: Marco Zero, 1990, p. 66. 375 Vê-se assim que a relação do DIP e do governo com os jornais não se pautou apenas pela censura pura e simples, mas foi muito mais abrangente. Algumas vezes não se hesitou em usar a força, como atesta a desapropriação do matutino O Estado de S. Paulo e do diário A Noite, no Rio de Janeiro. Todavia, essas ações constituíram-se em situações extremas, e não eram de forma alguma rotineiras. Muito mais comum era a facilitação de verbas, empréstimos, concessão de publicidade estatal e favores de outras ordens a jornais que apoiassem a ditadura estadonovista, como bem exemplifica a questão das cotas de papel. Como o Brasil não tinha indústrias produtoras de papel-jornal, era preciso importar grandes quantidades, 10 o que era feito pelo Estado. Não obstante, o jornal que apoiasse o governo receberia isenção nas taxas alfandegárias, o que facilitou muito o processo coercitivo. É necessário lembrar, ainda, que o poder do DIP não foi o mesmo de 1939 até o fim do Estado Novo. Maria Helena Capelato destacou como, a partir de 1942, o quadro político alterou-se significativamente, uma vez que a batalha no interior do círculo governista acabou sendo vencida pelos defensores dos Aliados, devido à opção brasileira pelos Estados Unidos, o que implicou em mudanças significativas, como exemplifica a saída de Lourival Fontes da direção do DIP, famoso por sua defesa pró-Eixo. 11 Com a ascensão do Major Coelho dos Reis à direção do órgão, o controle exercido tornou-se cada vez menos estrito, isso porque a situação externa desenhava-se cada vez menos favorável ao regime que, de fato, caiu em outubro de 1945. Em relação à Guerra, estudos recentes demonstraram que órgãos importantes da grande imprensa como o Correio da Manhã12 e O Estado de S. Paulo, 13 se colocaram a favor dos Aliados. Todavia, alguns periódicos de menor circulação destoaram e manifestaram apoio explícito à Alemanha nazista. Pode-se citar o Diário de Notícias da Bahia, analisado por José Carlos Peixoto Júnior, 14 e os cariocas Gazeta de Notícias15 e Meio-Dia. Sobre este último, fonte e objeto desta pesquisa, são necessários alguns esclarecimentos importantes. 10 Fernando Morais afirmou que a maior parte do papel consumido pelo Brasil vinha da Finlândia, a qual após a Guerra de Inverno com a Rússia, passou a restringir suas exportações. A alternativa escolhida foi importar papel do Canadá, cuja produção era insuficiente, o que desencadeou uma alta nos preços. Isso fez com que muitos periódicos, durante a guerra, tivessem que diminuir o número de páginas. Ver MORAIS, Fernando. Chatô: O rei do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p. 427. 11 CAPELATO, Maria Helena Rolim. Multidões em Cena. Propaganda política no varguismo e no peronismo. Campinas: Papirus, 1998, p. 135-136. 12 Ver FRANZOLIN, João Arthur Ciciliato. As representações da Alemanha no jornal Correio da Manhã (1937-1942). Assis: Relatório de Iniciação Científica (Departamento de História – Universidade Estadual Paulista/Campus de Assis/FAPESP) sob a orientação da Professora Dra. Tânia Regina de Luca, 2008. 13 COSTA, Alexandre Andrade da. Caleidoscópio Político. As representações do cenário internacional nas páginas do jornal O Estado de S. Paulo. Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de Ciências e Letras de Assis, Universidade Estadual Paulista, Assis, 2010. 14 PEIXOTO JÚNIOR, José Carlos. A ascensão do nazismo pela ótica do Diário de Notícias da Bahia (1935-1941): um estudo de caso. Dissertação (Mestrado em História Social) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, UFBA, Salvador, 2003. 15 Para um estudo da atuação da Gazeta de Notícias durante o primeiro período varguista e o início do segundo conflito mundial, ver GAK, Igor Silva. Os fins e seus meios: diplomacia e propaganda nazista no Brasil (1938-1942). Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, UFF, Niterói, 2006. 376 DESENVOLVIMENTO: Até o momento, não foram encontrados estudos acadêmicos sobre o Meio-Dia, embora, como se viu, existam dissertações dedicadas ao estudo de jornais que difundiram propaganda nazista no Brasil. 16 Parece o periódico editado de 1939 a 1942 não despertou interesse algum na historiografia brasileira, como atesta o fato de o conhecido Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro Pós-1930, coordenado por Alzira Abreu e outros e editado pelo CPDOC/FGV em 2001, não conter nenhuma referência ao periódico ou mesmo na obra fundamental como História da Imprensa no Brasil, de Nelson Werneck Sodré. O único trabalho existente sobre o vespertino carioca é o livro de Joel Silveira e Geneton Moraes Neto, Hitler/Stalin: O pacto maldito. 17 A obra é, na realidade, uma reportagem dividida em duas partes: a primeira, a respeito do pacto germano-soviético assinado em agosto de 1939, foi escrita por Joel Silveira. A segunda reportagem, feita por Geneton Moraes Neto, 18 trata basicamente das conseqüências da assinatura do pacto no Brasil. A análise feita pelo jornalista detém-se apenas no Meio-Dia, com ênfase no aspecto que julga paradoxal, de um jornal brasileiro apoiar a Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial contando com colaboradores de esquerda. Moraes Neto empenhou-se em traçar uma breve história do periódico, além de elencar colaboradores e apresentar mais informações a respeito do fundador do Meio-Dia, Joaquim Inojosa. Outros pontos destacados são o suplemento literário ―Letras-Artes-Ciências‖, organizado, a princípio, por Jorge Amado, bem como a relação do jornal com o Estado Novo. Um aspecto bastante enfatizado por Moraes Neto em seu livro é o fato de que, a princípio, o jornal contou com expressiva colaboração de nomes da esquerda, como Jorge Amado e Oswald de Andrade. Para compreender tal apoio deve-se ter em vista o pacto germano-soviético e seu impacto sobre as lideranças comunistas no Brasil e em todo o mundo que os colocou, momentaneamente, ao lado de simpatizantes do fascismo, caso do jornal Meio-Dia. Assim, até junho de 1941, quando os nazistas invadiram a União Soviética, os mesmos foram vistos pelos comunistas de todo o mundo, e mesmo dentro da própria URSS, enquanto ―aliados‖ e ―parceiros‖, 16 Vale lembrar que o Meio-Dia é citado em uma delas, a de Igor Silva Gak sobre os jornais Gazeta de Notícias e Boletim Mercantil. Ver GAK, Igor Silva. op. cit. 17 SILVEIRA, Joel; MORAES NETO, Geneton. Hitler/ Stalin: O pacto maldito. Rio de Janeiro: Record, 1990. 18 No seu site oficial, o jornalista esclarece que nasceu no Recife em 13 de julho de 1956. De 1975 a 1980 trabalhou no Diário de Pernambuco e na sucursal nordeste de O Estado de S. Paulo. Depois de um breve período vivendo na França, voltou ao Brasil e começou a trabalhar na Rede Globo Nordeste. Na Rede Globo do Rio de Janeiro desde 1985, foi editor-executivo do Jornal da Globo e do Jornal Nacional, bem como correspondente da Globo News e do jornal O Globo em Londres. Foi, ainda, repórter e editor-chefe do programa Fantástico em duas ocasiões. Mais informações sobre o autor estão na seção ―Quem é‖ de seu website, Disponível em: <http://www.geneton.com.br/quem/>. Acesso em: 31 jan. 2010. O jornalista possui um blog no portal de notícias G1. Acessar MORAES NETO, Geneton. Dossiê geral: o blog das confissões. Contatos imediatos de um repórter em busca de segredos dos anônimos e famosos. Disponível em: < http://colunas.g1.com.br/geneton/>. Acesso em 31 jan. 2010. Vale acrescentar ainda que o autor, atualmente, apresenta o programa Globo News Dossiê aos domingos. A página do programa está disponível em: <http://globonews.globo.com/Jornalismo/GN/0,,JOR337-17665,00.html>. Acesso em 31 jan. 2010. 377 o que eliminava qualquer possibilidade de crítica, por parte da esquerda brasileira e mundial, então aliada da Alemanha nazista e de Hitler. Embora a reportagem tenha seus méritos, Moraes Neto deu pouca atenção aos artigos assinados por Joaquim Inojosa, diretor-proprietário do jornal, comentando apenas alguns deles. Já os editoriais, presentes nas páginas do periódico, nem sequer mereceram comentários do autor. Para tentar entender as mudanças e posicionamentos adotados pelo jornal durante o período em que circulou, torna-se imprescindível um exame acurado desses textos, a fim de que se possa ter um quadro amplo de como se deu, efetivamente, o aventado apoio do vespertino à Alemanha hitlerista. Dessa forma, pretende-se realizar uma análise sistemática desses escritos durante o tempo em que foi publicado o jornal. É necessário precisar, ainda, o nível de envolvimento entre o Meio-Dia e a agência de notícias alemã Transocean. Sobre essa última, conta-se com poucas informações, a maioria fragmentada em obras diversas. 19 Ao que se sabe, suas notícias não ocuparam espaço digno de nota na grande imprensa brasileira, na qual figurou de forma marginal. 20 A Transocean teve atuação em toda a América, incluindo os Estados Unidos, onde era capitaneada por Manfred Zapp e Günther Tonn, tendo finalizado suas atividades nesse país até 10 de julho de 1941. 21 No Brasil, entretanto, suas atividades continuaram até 30 de janeiro de 1942, quando foi definitivamente fechada. 22 Sabe-se que, a agência alemã distribuía propaganda nazista gratuitamente para todos os jornais que aceitassem o seu serviço, como foi o caso da Gazeta de Notícias e do Meio-Dia. Oficialmente, seu diretor no Brasil era José de Carvalho e Silva e o tesoureiro Johanes Geyer. Contudo, segundo Perazzo, ―sabe-se que o verdadeiro diretor era Geyer, alemão, nazista e pessoa de confiança da embaixada alemã‖.23 Dessa forma, vê-se que a empresa não era meramente uma distribuidora de material telegráfico para a imprensa, mas parte importante de engrenagem da máquina de propaganda nazista nas Américas. A trajetória do jornal Meio-Dia, que circulou de março de 1939 a outubro de 1942, praticamente confunde-se com a biografia de seu diretor-proprietário, Joaquim Inojosa. 24 Para a 19 O já citado estudo de Igor Silva Gak sobre a penetração da propaganda nazista no Brasil, bem como o próprio livro de Geneton Moraes Neto e Joel Silveira contém algumas informações importantes sobre a agência alemã de notícias, além ainda do livro de Priscila Perazzo, o qual foi originalmente apresentado na USP como a dissertação de mestrado da autora em 1997. Ver PERAZZO, Priscila Ferreira. O perigo alemão e a repressão policial no Estado Novo. São Paulo: Arquivo do Estado, 1999. (Coleção Teses e Monografias). 20 MÜLLER, Jürgen. Nationalsozialismus in Lateinamerika: Die Auslandsorganisation der NSDAP in Argentinien, Brasilien, Chile und Mexiko, 1931-1945. Stuttgart: Verlag Hans-Dieter Heinz/Akademischer Verlag Stuttgart, 1997, p. 267 apud GAK, Igor Silva. op. cit. 21 WAR & PEACE: Propaganda Trial. Time, New York, 4 agosto 1941. Disponível em: <http://www.time.com/time/magazine/article/0,9171,884360-1,00.html>. Acesso em 31 jan. 2010. 22 SILVEIRA, Joel; MORAES NETO, Geneton. op.cit., p. 443. 23 PERAZZO, Priscila Ferreira. op. cit, p. 90. 24 Embora nos interesse aqui particularmente a atuação de Joaquim Inojosa como jornalista durante as décadas de 1930 e 1940, são necessárias algumas considerações gerais sobre sua vida. O escritor, advogado e jornalista nasceu em Pernambuco, no município de Timbaúba, hoje São Vicente Férrer, em 27 de março de 1901. Os primeiros estudos foram feitos em sua cidade natal bem como no Recife, onde cursou a faculdade de Direito, exercendo posteriormente a profissão de advogado e promotor público. 378 compreensão do jornal é importante ter em conta a atuação de Inojosa enquanto jornalista durante os anos de 1930 a 1945, período particularmente turbulento em termos nacional e internacional. Com o advento da Revolução de 1930, conseguiu Inojosa, por meio de um salvo-conduto, abandonar o Nordeste e chegar ao Rio de Janeiro, onde se empregou em O Jornal, órgão da cadeia dos Diários Associados de Assis Chateaubriand. Em 1934, reorganizou uma indústria de tecidos em Minas Gerais, a ―Companhia de Fiação e Tecelagem Industrial Mineira‖, 25 que faliu em 1939. Em março do mesmo ano fundou o vespertino Meio-Dia, que circulou até outubro de 1942, data a partir da qual Inojosa afastou-se da imprensa, atividade que retomou apenas em 1948. O Meio-Dia circulou em pleno Estado Novo e, por certo, teve que se registrar no Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). Para compreender a história do vespertino é necessário retroagir a outubro de 1938, quando Inojosa firmou um contrato com a Linotipo do Brasil, representante da Mergenthaler Linotype Company, para a compra de equipamentos de impressão para um jornal. 26 Este surgiu alguns meses depois, em 1o de março de 1939 e contou, durante sua tumultuada existência, com vários colaboradores importantes: Oswald de Andrade, que escrevia a coluna ―Banho de Sol‖ e ―De Literatura‖; Jorge Amado, encarregado da página ―Letras-Artes-Ciências‖, além de Joel Silveira, já na época um expoente do jornalismo carioca. Sua edição inaugural foi efusivamente saudada por várias personalidades políticas e jornalísticas da época, como o ministro da Justiça Francisco Campos, autor da carta constitucional Ligou-se aos expoentes da Semana de Arte Moderna de 1922: Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia, dentre outros, e ainda manteve correspondência e contato com Manuel Bandeira, Câmara Cascudo, Austregésilo de Athayde, etc, como se depreende da observação da ficha catalográfica de seu arquivo pessoal, o qual pertence, na atualidade, à Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Também em seus livros o escritor pernambucano fez sempre menção a suas epístolas, além de citá-las quando necessário. Inojosa teve papel importante na divulgação das novas propostas estéticas em Pernambuco. Escreveu o artigo ―Que é futurismo‖, publicado no jornal A Tarde de Recife, em novembro de 1922, de acordo com informação colhida no artigo ―O estopim‖ publicado em O Jornal em 05 de novembro de 1972, presente em INOJOSA, Joaquim. Os Andrades e outros aspectos do modernismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1975, p. 147. Em 1924, lançou o livro A arte moderna, considerado um apelo para a união do Norte e Nordeste do Brasil ao movimento modernista. Ao final de sua experiência jornalística com o Meio-Dia se afastou da imprensa, voltando à atividade jornalística apenas em 1948, com o semanário A Nação, órgão de apoio ao Marechal Eurico Gaspar Dutra, então presidente da República. Em 1965 reeditou, por breve período, o Meio-Dia, a fim de garantir a posse da chancela e, em julho de 1968, voltou a colaborar em O Jornal, no Jornal do Commercio e, ainda, no famoso Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo. Essas informações factuais foram retiradas do livro de memórias INOJOSA, Joaquim. 60 Anos de Jornalismo (1917-1977). Rio de Janeiro: Meio-Dia, 1978. Por fim, Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa afirmaram que o maior feito polêmico e documental do modernista pernambucano ―foi desbancar o falso pioneirismo literário de Gilberto Freyre no Nordeste, cujo Manifesto Regionalista, lançado em 1926, era falso, segundo Inojosa, pois só foi aparecer, de fato, em 1952, lido no I Congresso Regionalista do Nordeste. O próprio G.F. acabou por confessar a farsa‖. Sobre a polêmica ver o verbete ―INOJOSA, Joaquim‖ em COUTINHO, Afrânio; SOUSA, J. Galante de. Enciclopédia de Literatura Brasileira. São Paulo: Global Editora; Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional/DNL, Academia Brasileira de Letras, 2001, p. 859-860. 2v. Depois de grande produção intelectual, Joaquim Inojosa morreu em 12 de janeiro de 1987. Em seus 85 anos de vida, publicou muitas obras, com destaque para O movimento modernista em Pernambuco, No pomar vizinho, Os Andrades e outros aspectos do modernismo, dentre outras. 25 O nome da empresa se encontra em um trecho de um artigo publicado por Oswald de Andrade na primeira edição do Meio-Dia, de 1 de março de 1939. Ver SILVEIRA, Joel; MORAES NETO, Geneton. op.cit., p. 355. 26 SILVEIRA, Joel; MORAES NETO, Geneton. op.cit., p. 412. 379 de 1937, o diretor do DIP, Lourival Fontes, Assis Chateaubriand, dono da cadeia dos Diários Associados, Herbert Moses, então presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Pouco depois da estréia, chegou mesmo a receber uma mensagem de congratulação de Getúlio Vargas. Segundo consta na reportagem de Geneton Moraes Neto, o jornal teve existência conturbada, pois sua orientação pró-Eixo causou-lhe inúmeros problemas e desentendimentos com o DIP e o Conselho Nacional de Imprensa, até o seu fechamento em outubro de 1942. O vespertino circulou originalmente em três edições (surgindo às vezes uma quarta edição, chamada de extra pelo jornal), sendo que a primeira continha 16 páginas. A princípio, as edições subseqüentes aumentavam o número de páginas até o final do dia, chegando a 20 ou 24, e para tanto se utilizavam de material proveniente das agências telegráficas, bem como rearranjavam o conteúdo publicado na primeira edição a fim de ampliar o exemplar. Isso se modificou com o passar do tempo e, no início de 1940, o jornal mantinha três edições diárias (agora denominadas primeira edição, ante-final e final), com 8 páginas cada. Em dezembro de 1939, as dimensões do periódico foram alteradas para o formato maior; o uso de caricaturas de personalidades foi um artifício utilizado unicamente em março daquele ano, e não foi detectado seu emprego novamente em 1939. No mês de dezembro passou a ocorrer maior utilização de fotos, que ilustraram todas as edições a partir de então. O ano de 1940 trouxe, ainda, nova reorganização, com o aparecimento de editoriais não assinados e uma profusão de articulistas alemães da Transocean, bem como o suplemento literário do Meio-Dia, chamado ―Letras, Artes, Ciências‖, que, a princípio, esteve sob o comando de Jorge Amado. Ao mesmo tempo, as fotos passaram a ser fornecidas pela já citada agência alemã Transocean. Em 1941, já não contava o jornal com Jorge Amado ou qualquer outro colaborador da esquerda ou de tendências esquerdistas, pois a invasão da União Soviética por Hitler colocou novamente nazistas e comunistas em lados opostos, o que pôs um fim ao dilema iniciado em agosto de 1939, com o pacto de não-agressão germano-soviético. O expediente do vespertino, tal como nas suas edições, foi sempre alvo de mudanças, com inúmeros secretários de redação. Nele estampavam-se o nome do diretor-proprietário no cabeçalho (no caso, Joaquim Inojosa) juntamente com o do secretário (se houvesse) e o do gerente, cargo este ocupado por Mário da Trindade Henriques durante o período já consultado. José Mandina era o responsável pela publicidade, mas foi substituído, por um curto período, em dezembro de 1939, por Oswaldo Soares de Pinho. A partir de 1941, passaram a figurar também naquele espaço todas as sucursais do Meio-Dia, no Brasil e no exterior. Segundo dados presentes no próprio jornal, a sucursal do exterior localizava-se em Berlim e seu diretor era Silva Monteiro, que também exercia a função de articulista. Já as filiais brasileiras localizavam-se em São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte, Recife, Goiás e Porto Alegre. A publicidade também apresentou significativas mudanças, aliás como todo o conteúdo do vespertino. Em março de 1939, havia anúncios da Tecelagem de Seda e de Algodão de Pernambuco S.A, que, conforme revelou a consulta aos arquivos, era propriedade do sogro de 380 Joaquim Inojosa, João Pessoa de Queiroz; da Companhia de Fiação e Tecelagem Industrial Mineira, a já citada empresa de Inojosa; Casas Pernambucanas; Antarctica; Klabin Irmãos & Cia., além da Westinghouse, a única empresa estrangeira. Tal situação transformou-se em 1940, quando os anúncios tornaram-se, predominantemente, germânicos. Alguns exemplos: Linhas Aéreas Condor; Banco Germânico da América do Sul; Banco Alemão Transatlântico; Bayer; Siemens; Merck, dentre outras. Deve-se levar em conta que a publicidade é peça importante para que se possa averiguar o grau de envolvimento do periódico com a Transocean. O artigo de Joaquim Inojosa, publicado como editorial, localizava-se na primeira ou segunda página da primeira edição. Nas seguintes podia figurar na terceira ou quarta páginas, já que os exemplares tinham sempre sua diagramação alterada no decorrer do dia. De forma mais freqüente, o texto de Joaquim Inojosa era publicado na segunda página, no canto superior esquerdo, e variava de tamanho. Sua periodicidade era irregular, passando a ser publicado diariamente apenas a partir de 1940. Os editoriais, por sua vez, surgiram na mesma época, após o final de ―Registro Internacional‖, e ocuparam geralmente a segunda página, embora sem lugar definido. Sua periodicidade também era inconstante, e tornaram-se correntes no vespertino apenas depois do ataque alemão à Bélgica, Holanda e Luxemburgo em maio de 1940. Outro dado importante a ser considerado é o fato de que a orientação ideológica do MeioDia não foi sempre nazista. Em março de 1939, o jornal contava com uma linha editorial com alinhamento próximo às democracias ocidentais. Curioso notar que, nesse período, não havia extensa colaboração da Transocean nem tampouco possuía o periódico publicidade apenas de empresas alemãs, embora estivessem desde o princípio presentes esses dois elementos. Os dois fatores mencionados, alterados a partir de 1940