UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ – UNIVALI PRÓ-REITORIA DE PESQUISA, PÓS-GRADUÇÃO, EXTENSÃO E CULTURAPROPPEC CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E JURÍDICAS PROGRAMA DE MESTRADO PROFISSIONAL EM GESTÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS - PMGPP LIMITES E POSSIBILIDADES DA IMPLANTAÇÃO DE UMA ZPE - ZONA DE PROCESSAMENTO DE EXPORTAÇÃO EM CÁCERES - MT – ARTICULAÇÕES INSTITUCIONAIS E INTERESSES ECONÔMICOS THIAGO SILVA GUIMARÃES Itajaí – SC, 2012 UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ – UNIVALI PRÓ-REITORIA DE PESQUISA, PÓS-GRADUÇÃO, EXTENSÃO E CULTURAPROPPEC CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E JURÍDICAS PROGRAMA DE MESTRADO PROFISSIONAL EM GESTÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS - PMGPP LIMITES E POSSIBILIDADES DA IMPLANTAÇÃO DE UMA ZPE - ZONA DE PROCESSAMENTO DE EXPORTAÇÃO EM CÁCERES - MT – ARTICULAÇÕES INSTITUCIONAIS E INTERESSES ECONÔMICOS THIAGO SILVA GUIMARÃES Dissertação apresentada à Banca Examinadora no Mestrado Profissional em Gestão de Políticas Públicas da Universidade do Vale do Itajaí UNIVALI, sob a orientação do Prof. Dr. Ricardo Stanziola Vieira e Coorientação do Prof. Msc. Eduardo Guerini, como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em Gestão de Políticas Públicas. Itajaí – SC, 2012 Esta Dissertação foi julgada APTA para a obtenção do título de Mestre em Gestão de Políticas Públicas e aprovada, em sua forma final, pela Coordenação do Programa de Mestrado Profissional em Gestão de Políticas Públicas – PMGPP/UNIVALI. _______________________________________ Dr. FLÁVIO RAMOS COORDENADOR Apresentada perante a Banca Examinadora composta pelos Professores _______________________________________________________________ Dr. RICARDO STANZIOLA VIEIRA (UNIVALI) PRESIDENTE E ORIENTADOR _______________________________________________________________ MSC. EDUARDO GUERINI (UNIVALI) MEMBRO E COORIENTADOR _______________________________________________________________ Dr. LUIZ BRÁULIO FARIAS BENITEZ (UNIVALI) MEMBRO _______________________________________________________________ Dr. GUILLERMO ALFREDO JOHNSON (UFGD) MEMBRO EXTERNO Itajaí (SC), 06 de junho de 2012 DEDICATÓRIA À minha Mãe que sempre esteve ao meu lado, me dando força, carinho e amor; ao meu Pai por toda sua paciência e simplicidade, um exemplo de ser humano; à minha esposa Alessandra, me dando força, carinho e amor, acompanhando minha trajetória. Aos meus irmãos, Flávio, João Luiz, José Roberto, Ana Paula, pela união e amor que sempre demonstraram. À minha sogra Sueli, por toda sua paciência e carinho e, por todo apoio nos momentos difíceis. AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente a Deus por esta oportunidade e, por me dotar de capacidade em mais esta etapa. A minha esposa Alessandra por todo apoio e carinho. Só você e Deus sabem da minha trajetória. Aos Professores do Programa de Mestrado, em especial o Professor Guerini pela sua paciência, sabedoria em dar o direcionamento neste trabalho. Ao Professor Eng. Adilson Domingos dos Reis pelo apoio que me foi ofertado neste trabalho. Aos funcionários do Programa de Mestrado em Especial a Tânia e o Luiz Fernando. A todos aqueles que de uma forma ou de outra contribuíram para que esta pudesse se materializar e se fazer presente. SUMÁRIO LISTA DE QUADROS.......................................................................................................... viii LISTA DE FIGURAS.............................................................................................................. ix LISTA DE TABELAS .............................................................................................................. x LISTA DE GRÁFICOS .......................................................................................................... xi LISTA DE MAPAS ................................................................................................................ xii LISTA DE SIGLAS ............................................................................................................... xiii RESUMO................................................................................................................................ xiv ABSTRACT ............................................................................................................................ xv INTRODUÇÃO ...................................................................................................................... 16 CAPÍTULO I .......................................................................................................................... 21 BASES E MODELOS DE POLÍTICAS PÚBLICAS DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL E LOCAL ......................................................................................................... 21 1.1 POLÍTICA PÚBLICA NO BRASIL .................................................................................. 21 1.2 CONDICIONANTES HISTÓRICOS DAS POLÍTICAS DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL ........................................................................................................................ 27 1.3 A QUESTÃO DA CONCENTRAÇÃO E CENTRALIZAÇÃO DAS ATIVIDADES REGIONAIS ....................................................................................................................... 32 1.4 CENTRALIZAÇÃO E DESCENTRALIZAÇÃO DE ATIVIDADES NO CASO BRASILEIRO ..................................................................................................................... 34 1.5 AS POLÍTICAS DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL NO CASO MATOGROSSENSE ..................................................................................................................... 38 1.6 REGIÃO E REGIONALISMO NO BRASIL CONTEMPORÂNEO ............................... 42 CAPÍTULO II ......................................................................................................................... 49 CENÁRIOS ALTERNATIVOS NO DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO DE MATO GROSSO .................................................................................................................... 49 2.1 DIMENSÃO ECONÔMICA DE MATO GROSSO .......................................................... 50 2.1.1 Diversificação da estrutura produtiva e adensamento das cadeias ....................... 52 2.1.2 Mato Grosso e suas relações com o Mercado Externo ............................................ 56 2.1.3 Dinâmica de Mato Grosso frente ao Mercado Interno ........................................... 59 2.1.4 Investimentos em infraestrutura econômica e logística .......................................... 60 2.2 DIAGNÓSTICO SOCIAL E LOCALIZAÇÃO DE MATO GROSSO ............................. 62 2.2.1 Dimensão Social .......................................................................................................... 64 2.2.2 Crescimento regional cumulativo e dinâmica demográfica .................................... 65 2.3 POLÍTICAS PÚBLICAS E DESENVOLVIMENTO LOCAL EM CÁCERES - MT ...... 67 CAPÍTULO III ....................................................................................................................... 69 LIMITES E POSSIBILIDADES DA IMPLANTAÇÃO DE UMA ZPE - ZONA DE PROCESSAMENTO DE EXPORTAÇÃO EM CÁCERES - MT – ARTICULAÇÕES INSTITUCIONAIS E INTERESSES ECONÔMICOS ..................... 69 3.1 OS LIMITES E AS POSSIBILIDADES DE UMA POLÍTICA PÚBLICA DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL ......................................................................... 69 3.2 ZPE - ZONA DE PROCESSAMENTO DE EXPORTAÇÃO........................................... 71 3.3 PASSOS PARA IMPLANTAÇÃO DE UMA ZPE ........................................................... 79 3.4 AGENTES ECONÔMICOS LOCAIS ............................................................................... 83 3.5 OS LIMITES E POSSIBILIDADES DA IMPLANTAÇÃO DA ZPE EM CÁCERES - MT ................................................................................................................. 86 3.6 IMPLICAÇÕES PARA IMPLANTAÇÃO EM CÁCERES .............................................. 96 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................... 100 REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 104 ANEXOS ............................................................................................................................... 110 LISTA DE QUADROS Quadro 01 - Descrição e situação das ZPEs criadas no Brasil ................................................. 77 Quadro 02 - População por situação de domicílios, 1991 e 2000 ............................................ 87 Quadro 03 - Geografia do município de Cáceres - MT ............................................................ 87 LISTA DE FIGURAS Figura 01 - Evolução histórica das ZPEs no Mundo ................................................................ 74 Figura 02 - Localização das 17 ZPEs autorizadas por decreto presidencial ............................ 77 Figura 03 - Cronologia das ZPEs no Brasil .............................................................................. 83 Figura 04 - Imagens de Cáceres ............................................................................................... 84 Figura 05 - Delimitação da área destinada para implantação da ZPE em Cáceres .................. 92 Figura 06 - Edificação da ZPE em Cáceres - MT..................................................................... 93 Figura 07 - Fases para o alfandegamento da Receita Federal do Brasil ................................... 94 Figura 08 - Industrialização que poderão ser realizadas na ZPE de Cáceres - MT .................. 95 Figura 09 - Ponto alfandegado de fronteira Cáceres – Corixa ................................................. 96 LISTA DE TABELAS Tabela 01 - Exportações em ZPEs de países em desenvolvimento .......................................... 27 Tabela 02 - Investimentos Previstos para Mato Grosso ........................................................... 54 Tabela 03 - Brasil e Mato Grosso - Balança Comercial – 1996 a 2010 – US$ Bilhões ........... 57 Tabela 04 - Evolução da taxa média geométrica de crescimento anual no Estado de Mato Grosso ................................................................................................................... 66 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 01 - Evolução da estrutura de formação do PIB mato-grossense ................................ 53 Gráfico 02 - Participação dos produtos nas exportações de Mato Grosso em 2009 ................ 57 Gráfico 03 - Principais países importadores dos produtos mato-grossenses em 2010 ............. 58 Gráfico 04 - Principais países exportadores para Mato Grosso em 2010 ................................. 59 Gráfico 05 - Evolução da população do Estado de Mato Grosso 1940-2010 .......................... 65 LISTA DE MAPAS Mapa 01 - Localização geográfica do Estado de Mato Grosso ................................................ 63 Mapa 02 - Regiões de planejamento do Estado de Mato Grosso ............................................. 64 Mapa 03 - Recursos hídricos de Cáceres - MT ........................................................................ 85 LISTA DE SIGLAS AFRMM AGECOPA - Adicional ao Frete para a Renovação da Marinha Mercadante - Agência Estadual de Execução dos Projetos da Copa do Mundo do Pantanal AZPEC - Administradora da Zona de Processamento de Exportação em Cáceres MT CEDEM - Conselho Estadual de Desenvolvimento Empresarial CEPAL - Comissão de Estudos para América Latina COFINS - Contribuição social para financiamento da Seguridade Social CONFAZ - Conselho Nacional de Política Fazendária CZPE - Conselho Nacional das Zonas de Processamento de Exportação EIA - Estudos de Impacto Ambiental IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ICMS - Imposto sobre Circulação de Mercadorias IFMT - Instituto Federal de Mato Grosso IICA - Instituto Interamericano de Cooperação para Agricultura FAMATO - Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso FAPAN - Faculdade do Pantanal Matogrossense FIEMT - Federação das Indústrias no Estado de Mato Grosso FIESC - Federação das Indústrias do Estado de São Paulo LDO - Lei de Diretrizes Orçamentárias LOA - Lei Orçamentária Anual MDIC - Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior MT - Mato Grosso NCM - Nomenclatura Comum do Mercosul OIT - Organização Internacional do Trabalho PAC - Programa de Aceleração do Crescimento PGE - Procuradoria Geral do Estado PIN/PROTERRA - Programa de Infraestrutura e de Integração Nacional PIB - Produto Interno Bruno POLOCENTRO - Programa para o Desenvolvimento dos Cerrados PPA - Plano Plurianual RIMA - Relatório de Impacto ao Meio Ambiente SEBRAE - Serviço de Apoio as Micro e Pequenas Empresas SENAI - Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial SESC - Serviço Social do Comércio SICME - Secretaria de Indústria, Comércio, Minas e Energia do Estado de Mato Grosso SUDAM - Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia SUDECO - Superintendência de Desenvolvimento do Centro-Oeste UNEMAT - Universidade do Estado de Mato Grosso UNOPAR - Universidade Norte do Paraná ZFM - Zona Franca de Manaus ZPE - Zona de Processamento de Exportação RESUMO Esta pesquisa tem como objetivo analisar os limites e possibilidades de implantação de uma ZPE – Zona de Processamento de Exportação em Cáceres - MT – Articulações Institucionais e Interesses Econômicos. Para responder aos questionamentos que direcionam esta pesquisa, busca-se analisar as políticas de desenvolvimento regional, voltadas para as potencialidades econômicas do Estado de Mato Grosso; as políticas locais de desenvolvimento, sobretudo aquelas relacionadas ao Município de Cáceres e; apresentar a articulação política, econômica e social que motivaram os atores regionais na implantação de uma ZPE em Cáceres. Para isto, o trabalho tem o propósito de apresentar as bases e modelos contextualizando as principais políticas de desenvolvimento regional/local; dinâmica do desenvolvimento regional do Estado de Mato Grosso; articulação política regional, que com base no Decreto Lei nº 99.043 de 06 de março de 1990, estabelece um marco na criação da ZPE em Cáceres - MT. Neste estudo proceder-se-á uma pesquisa exploratória através de uma abordagem qualitativa. Busca-se como procedimentos metodológicos a revisão de literatura pertinente a temática apresentada; e a pesquisa documental, esta viabilizada pela parceria com a Administradora AZPEC – Administradora da Zona de Processamento de Exportação de Cáceres S.A., que disponibilizou o acesso aos documentos e arquivos inerentes a implantação da ZPE. A análise destes foi efetuada a partir das dimensões legal, econômica e política. Este estudo se propõe ainda a apresentar os modelos existentes, sobretudo apontar aquele que melhor se enquadra à realidade mato-grossense, especificamente no município de Cáceres, assim como seus impactos, no importante cenário da Política Exportadora Brasileira. Ao estabelecer as diretrizes teórica e prática, este trabalho visa proporcionar à sociedade, informações acerca das ZPEs e as perspectivas de Cáceres - MT para o mercado internacional, no aspecto macroeconômico, no qual o país está inserido. PALAVRAS-CHAVE: Zona de Processamento de Exportação, Políticas Públicas, Desenvolvimento Econômico, Desenvolvimento Regional, Articulação Política. ABSTRACT This research analyzes the limits and possibilities of implementation of an SPA - Export Processing Zone, in Cáceres-MT - Institutional Linkages and Economic Interests. To answer the questions that guide this research, it analyzes the regional development policies, focusing on the economic potential of the State of Mato Grosso and the local development policies, particularly those related to the city of Cáceres. It also presents the political, economic and social cooperation that led to the establishment of a regional SPA in Caceres. For this, the work presents the bases and models, contextualizing the main policies for regional and local development; the dynamics of regional development of the State of Mato Grosso; and the joint regional cooperation which, based on Decree Law No. 99043 of March 06 1990, marked a milestone in the creation of the SPA Cáceres-MT. This is an exploratory study, through a qualitative approach. The methods used include a review of the literature on the theme, and documentary research, made possible through a partnership with AZPEC Administrator Administrator of the Export Processing Zone Caceres SA, which provided access to documents and files relating to the implementation of the SPA. These documents were analyzed from the legal, economic and political perspectives. This study also presents the existing models, especially pointing out the one that best fits the reality of Mato Grosso, specifically in the town of Cáceres, and its impacts on the important scenario of Brazilian Export Policy. By establishing theoretical and practical guidelines, this paper aims to provide society with information on EPZs and the prospects of Cáceres-MT for the international market, in the macroeconomic context of the country as a whole. KEY WORDS: Export Processing Zone, Public Policy, Economic Development, Regional Development Policy Coordination. 16 INTRODUÇÃO Quando ingressei no Programa de Mestrado, a problemática que organizava essa pesquisa inicialmente girava em torno do crescimento econômico local de Cáceres em Mato Grosso (MT), limitando-se a destacar a Zona de Processamento de Exportação (ZPE) como instrumento viabilizador de crescimento da economia regional. O objetivo inicial era investigar até que ponto a implantação da ZPE em Cáceres poderia contribuir para o desenvolvimento da região. Mas para discutir a questão economia regional, sobretudo os impactos do ponto de vista econômico e social, foi necessário ampliar o objetivo e fazer outras escolhas teóricas e assim, passar a discutir problemas relativos à articulação política regional, os agentes econômicos e sociais, sobretudo identificar as bases de organização e formulação movidas para implantação da ZPE em Cáceres, que de acordo com estudos realizados tem o propósito de trazer o desenvolvimento econômico para a região e, posteriormente se beneficiar do mesmo. Sobre um contexto mais amplo, justifica-se na presente pesquisa uma abordagem a cerca da importância das ZPEs para o desenvolvimento econômico dos países e sua necessária adoção no Brasil. Por ser um mecanismo de industrialização voltado para a exportação, elas agilizam o comércio internacional deixando-o prático e versátil. Uma breve retrospectiva da economia brasileira mostra que o Brasil protegeu muito sua indústria local se valendo do modelo de substituição de importações e acabou tendo crescimento mais lento do que diversos outros países emergentes, além de ter concentrado seu parque industrial apenas nas regiões Sul e Sudeste do País, causando enormes disparidades econômicas e sociais entre as regiões. Desde os anos 1960 vários países do mundo, tanto desenvolvidos como em desenvolvimento, vem adotando mecanismos que facilitam a produção e as trocas internacionais. Um desses mecanismos é adoção de zonas econômicas. Elas têm diversas finalidades econômicas e gozam de desoneração tributária. São amplamente adotadas na industrialização voltada para exportação, principalmente por países que tem o objetivo de acelerar o desenvolvimento de suas regiões. Além do desenvolvimento da infraestrutura, elas atraem investimentos externos, absorvem novas tecnologias e geram novos empregos. No Brasil a ideia, tem ganhado proporções significativas através dos seus Estados, que por sua vez, tem buscado junto ao Governo Federal, articulações no intuito de adotar estes mecanismos na tentativa de resolver os enormes desequilíbrios econômicos entre suas regiões. 17 O objetivo geral desta pesquisa pautou-se na pretensão de pesquisar os limites e possibilidades da implantação de uma ZPE em Cáceres - MT e perceber como a articulação política, entre os atores regionais se fez presente neste processo, centrando a atenção no estudo de aspectos socioeconômicos relacionados ao desenvolvimento econômico regional. A problemática, portanto, é discutir variantes relativas à implantação da ZPE, seus reflexos e quais políticas institucionais foram adotadas desde sua criação através do Decreto Lei nº 99.043. Questiona-se ainda por que as ZPEs no Brasil ainda não estão em funcionamento? Quais os mecanismos adotados pelo Brasil para que as ZPEs possam ter o seu funcionamento pleno? Será que a ZPE de Cáceres - MT representa mais um anseio político do que uma política de desenvolvimento econômico regional? Trata-se, então de um estudo que aborda também o Estado e suas políticas públicas, de como estas contribuíram de certa maneira para que Mato Grosso se desenvolvesse e tivesse se tornado um vigor potencial em outros segmentos, além da produção de grãos e pecuária que hoje ocupa grande destaque. É importante destacar os objetivos desta pesquisa, que estão alicerçados em primeiramente analisar as políticas de desenvolvimento regional, sob a ótica mato-grossense; identificar as políticas locais de desenvolvimento, com ênfase nas políticas municipais de desenvolvimento econômico e; identificar os elementos políticos, econômicos e sociais que motivaram os atores regionais na implantação da ZPE em Cáceres. O presente estudo constitui-se em uma pesquisa exploratória, sendo analisadas as fases de implantação da ZPE em Cáceres; as principais políticas regionais de desenvolvimento econômico em Mato Grosso; o contexto regional sob a ótica do desenvolvimento desigual nas diferentes regiões brasileiras, em especial vivenciada em Mato Grosso. Conforme esclarece Gil (2002), a pesquisa exploratória visa proporcionar uma visão geral de um determinado fato. Um trabalho é de natureza exploratória quando envolver levantamento bibliográfico, entrevistas com pessoas que tiveram (ou têm) experiências práticas com o problema pesquisado e análise de exemplos que estimulem a compreensão. O estudo terá uma abordagem qualitativa e utilizará os procedimentos metodológicos segundo os objetivos específicos a seguir: a) Apresentação das bases e modelos de políticas públicas de desenvolvimento regional e local, visando atender ao objetivo de ampliar os conhecimentos através de leituras específicas sobre os assuntos acima citados. 18 b) Pesquisa documental: a coleta de dados documental dos processos referente à implantação da ZPE em Cáceres, adquiridos com a ajuda da Administradora da Zona de Processamento de Exportação de Cáceres S.A. (AZPEC). c) A análise dos documentos utilizará as seguintes dimensões: Dimensão Econômica: Verificar-se-á o desenvolvimento regional em Mato Grosso com a implantação da ZPE em Cáceres; Dimensão Social: Verificar-se-á implantação da ZPE sob a ótica social como instrumento de política pública, visando atender a sociedade; Dimensão Política: Identificar-se-á articulação entre os agentes regionais em detrimento a implantação da ZPE, que visa buscar o desenvolvimento econômico, a partir do funcionamento desta. No Capítulo I desta pesquisa iremos abordar as bases e modelos de Políticas Públicas de Desenvolvimento Regional e Local, fazendo uma revisão da literatura em Políticas Públicas, sobretudo aquelas relacionadas aos condicionantes históricos das Políticas de Desenvolvimento Regional, apresentando modelos e alternativas de uma política nacional e sua relação com as diferentes regiões brasileiras. Neste contexto, as Políticas de Desenvolvimento Regional no caso Mato-grossense, apresentam um padrão desigual de crescimento regional, dentre os quais podemos citar a predominância do modelo de desenvolvimento concentrador de renda e o atraso científico tecnológico. Esse modelo presente em algumas regiões do Brasil é também objeto de comparação nesta pesquisa, que busca identificar a caracterização do atual processo de desenvolvimento regional, demonstrando a existência dos desequilíbrios regionais e identificando seus fatores condicionantes, sob a luz das teorias e da práxis da economia e do desenvolvimento regional, no caso brasileiro e mato-grossense. No Capítulo II, mostraremos alguns cenários alternativos no Desenvolvimento Econômico de Mato Grosso, no qual temos a dimensão econômica, registrando importantes taxas de crescimento nos últimos 20 anos, a diversificação da estrutura produtiva e adensamento das cadeias, que está alicerçada em um modelo concentrado na agropecuária e limitado na industrialização da produção regional, fazendo com que se tenha baixa agregação de valor à economia. Além desses serão apresentadas importantes evoluções da economia mato-grossense e suas Relações com o Mercado Externo, aliadas a dinâmica regional de Mato Grosso frente ao mercado interno. As políticas públicas de desenvolvimento local em Cáceres têm como proposta a implantação de uma ZPE, como um instrumento de política pública de 19 desenvolvimento regional, haja vista que esse empreendimento, pode atrair investimentos para região. Neste sentido, têm-se condições de apresentar as semelhanças e diferenças do desenvolvimento regional, estabelecendo um marco contextual da economia mato-grossense, refazendo uma leitura de um padrão desigual vivenciado nos últimos anos no Estado. Assim, serão apresentadas alternativas e possibilidades voltadas para as potencialidades econômicas do Estado no cenário brasileiro e mundial. No Capítulo III será apresentado o foco de nossa pesquisa, que é analisar os Limites e Possibilidades de Implantação de uma ZPE em Cáceres – Articulações Institucionais e Interesses Econômicos. Como proposta de discussão neste capítulo, cabe apresentar os limites e as possibilidades de uma política pública de desenvolvimento regional, que a princípio requer uma articulação entre políticas setoriais, que podem contribuir para o desenvolvimento, conferindo às regiões o papel de autodeterminadoras do seu desenvolvimento. Neste contexto, será importante discutir a criação das ZPEs objeto de estudo desta pesquisa, que apesar de reconhecida a importância, não houve efetivação dos projetos. O argumento defendido aqui será tratar a ZPE como instrumento que busca a promoção da redução das desigualdades em áreas menos desenvolvidas. A intenção de uma ZPE no município de Cáceres - MT, não representa uma ideia isolada, é um dos reflexos de um anseio político generalizado dos segmentos desenvolvimentistas da região centro-oeste brasileira em inserir-se no sistema econômico nacional e internacional, associado a medidas gerais de incentivo a uma redistribuição, no espaço nacional, da matriz industrial brasileira. Os possíveis efeitos das ZPEs em relação ao desenvolvimento das regiões podem ser traduzidos em termos gerais através de três elementos consistentes, sendo eles: ganhos potenciais de divisas internacionais permitem que as economias de baixa renda afrouxem suas restrições de comércio internacional relacionadas à necessidade de importações do resto da economia, além de promover o governo com o aumento de recurso; em segundo, os efeitos dos investimentos diretos estrangeiros, adquiridos através das transferências tecnológicas. Nos países em desenvolvimento, em seus estágios iniciais de desenvolvimento, ligações têm ocorrido quando empresas nas ZPEs utilizam processos produtivos básicos, onde materiais brutos domésticos e insumos intermediários podem ser utilizados. Essa prática pode representar uma sofisticação industrial da produção doméstica, uma vez que a mesma pode ser usada em produtos altamente competitivos para o mercado internacional; em terceiro podemos citar o efeito no emprego da economia local, que representa uma das principais 20 metas e uma das principais contribuições das ZPEs para economia. Esse objetivo leva em consideração entre outros fatores a rigidez do mercado de trabalho e seus altos custos trabalhistas. 21 CAPÍTULO I BASES E MODELOS DE POLÍTICAS PÚBLICAS DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL E LOCAL Neste estudo iremos tratar de Políticas Públicas de Desenvolvimento Regional e Local, em especial aquelas inerentes ao Brasil que desde os anos 60, vem adotando mecanismos para facilitar a produção e as trocas internacionais. Um desses mecanismos, objeto de estudo desta pesquisa, é a adoção de zonas econômicas. Elas têm diversas finalidades econômicas e gozam de desoneração tributária. São amplamente adotadas na industrialização voltada para exportação, principalmente por países que tem o objetivo de acelerar o desenvolvimento de suas regiões. Além do desenvolvimento da infraestrutura, elas atraem investimentos externos, absorvem novas tecnologias e geram novos empregos. O Brasil, através dos seus Estados, está buscando adotar estes mecanismos na intenção de resolver os enormes desequilíbrios econômicos entre suas regiões. Nesta ótica é necessário visualizar no contexto histórico o processo de formulação e sua relação com as Políticas de Desenvolvimento Regional no caso brasileiro. 1.1 POLÍTICA PÚBLICA NO BRASIL A política pública enquanto área de conhecimento e disciplina acadêmica nasce nos EUA, rompendo a tradição europeia de estudos e pesquisas nessa área, que se concentravam, mais na análise sobre o Estado e suas instituições do que na produção dos governos. Assim, na Europa, a área de políticas públicas vai surgir como um desdobramento dos trabalhos baseados em teorias explicativas sobre o papel do Estado e de uma das mais importantes instituições do Estado, o governo, produtor, por excelência, de políticas públicas. Nos EUA, ao contrário, a área surge no mundo acadêmico sem estabelecer relações com as bases teóricas sobre o papel do Estado, passando direto para a ênfase nos estudos sobre a ação dos governos (SOUZA, 2006). 22 Conforme Celina Souza (2006), não existe uma única, nem melhor, definição sobre o que sejam políticas públicas. Mead (1995) a define como um campo dentro do estudo da política que analisa o governo à luz de grandes questões públicas e Lynn (1980), como um conjunto de ações do governo que irão produzir efeitos específicos. Peters (1986) diz que política pública é a soma das atividades dos governos, que agem diretamente ou através de delegação, e que influenciam a vida dos cidadãos. Por isso, diz-se que a política pública é o que o governo escolhe fazer ou não fazer. Quando se analisa política pública tenta-se responder. Quem ganha o quê? Por quê? Que diferença faz? É por meio da política pública que se define para onde vai o dinheiro público, pois ela é também um conjunto de procedimentos que expressam relações de poder, decisões e de ações relativas à alocação de pessoas e recursos para um determinado objetivo (SOUZA, 2006 apud FRANK; SEVEGNANI; TOMASELLI, 2009). Diante das indagações, podemos citar as peças de elaboração orçamentária: Plano Plurianual (PPA); Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e; Lei Orçamentária Anual (LOA), por onde o Estado planeja suas ações, com intuito de trazer o bem-estar à sociedade de forma coletiva. Tudo isso nos leva ao pensamento de Fernandes (2007), que relembra as várias funções sociais possíveis de serem exercidas pelo Estado, tais como saúde, educação, previdência, moradia, saneamento básico, entre outras. Na prática se trata disso, entretanto para que sejam implementadas as diversas políticas em cada área social é necessário definir e compreender a estrutura institucional do Estado que contempla tais funções, ou seja, seu conjunto de órgãos, autarquias, ministérios competentes em cada setor, além do processo de financiamento e gestão. No entanto, as políticas públicas apresentam-se como princípios norteadores de ação do poder público, regras e procedimentos para as relações entre o poder público e sociedade, mediações entre atores da sociedade e do Estado. Políticas públicas traduzem, no seu processo de elaboração e implantação e, sobretudo em, seus resultados, formas de exercício do poder político, envolvendo a distribuição e redistribuição de poder, o papel do conflito social nos processos de decisão, a repartição de custos e benefícios sociais (TEIXEIRA, 2002). Na ótica de Teixeira (2002), elaborar uma política pública significa definir quem decide o quê, quando, com que consequências e para quem. Uma política pública requer definições relacionadas com a natureza do regime político em que se vive, com o grau de organização da sociedade civil e com a cultura política vigente. 23 É importante destacar a presença cada vez mais ativa da sociedade civil nas questões de interesse geral, que torna a publicização fundamental na contextualização desta vertente (TEIXEIRA, 2002). Por outro lado, as políticas públicas tratam de recursos públicos diretamente ou através de renúncia fiscal, ou de regular relações que envolvem interesses públicos. As políticas públicas visam responder a demandas, principalmente dos setores marginalizados da sociedade, considerados como vulneráveis. Essas demandas são interpretadas por aqueles que ocupam o poder, porém influenciadas por uma agenda que se cria na sociedade civil através da pressão e mobilização social. Os objetivos das políticas têm uma referência valorativa e exprimem as opções e visões de mundo daqueles que controlam o poder, mesmo que, para sua legitimação, necessitem contemplar certos interesses de segmentos sociais dominados, dependendo assim da sua capacidade de organização e negociação. Para entender melhor o cenário socioeconômico brasileiro, sobretudo as políticas públicas existentes no Brasil, faz-se necessário voltarmos nos anos 20 e/ou 30, quando o Brasil passa por uma transformação grande, onde o censo de 1920 revelava que 30% da população brasileira viviam nas cidades e 70% no campo (ARAÚJO, 2003). Por volta de 1980 ocorria exatamente o inverso, 70% nas cidades e 30% no campo. Nesta época a economia brasileira somava a oitava maior potência industrial do mundo. É importante destacar que em menos de meio século houve uma mudança de perfil na sociedade e na economia brasileira. O que alguns países levaram séculos para fazer, o Brasil fez em cinquenta ou sessenta anos. Neste período, boa parte da sociedade já estava morando na cidade. Atualmente, segundo dados do censo de 2010, 85% da população residem em zona urbana e 15% residem na zona rural. Seguindo uma linearidade das políticas públicas no Brasil, é importante destacar o período entre 1930 e 1945, na chamada “era Vargas”, que se inicia após a revolução de trinta. Esse período ficou caracterizado como uma fase de modernização do aparelho de Estado e também de incentivo à modernização econômica com o financiamento a indústria nacional. No que se refere aos direitos sociais, em 1930 é criado o Ministério do Trabalho, que entre outras coisas elaborou toda a legislação social e trabalhista do país, sendo a mais importante a Consolidação das Leis do Trabalho de 1943, vigente até os dias de hoje com pequenas modificações. Nesta época o movimento sindicalista se fazia presente, através de 24 movimentações, exigindo do Governo melhores condições de trabalho e salário. (FERNANDES, 2007). De acordo com Sousa (2011), no Brasil o planejamento em políticas públicas é fruto de um acúmulo de experiências iniciado nos anos 1930 sob o governo Getúlio Vargas, conforme mencionado anteriormente (1930-1945). Naquele momento o país transitava do Estado patrimonialista, sob a prevalência das oligarquias regionais, e do modelo primárioexportador para o Estado burocrático, com ascensão de novos sujeitos políticos e sociais. Assim como ascendia a concepção de um modelo de desenvolvimento baseado na industrialização e na substituição de importação. Podemos destacar que essencialmente, o que caracterizava o Estado brasileiro nesse período (1920-1980) era seu caráter desenvolvimentista, centralizador e autoritário. Não era um Estado de Bem-Estar social. O Estado era promotor do desenvolvimento e não o transformador das relações da sociedade. Um Estado conservador que logrou promover transformações fantásticas sem alterar a estrutura de propriedade, por exemplo. Nessa fase, o grande objetivo do Estado brasileiro era consolidar o processo de industrialização. Desde o começo do século, optou-se pela industrialização. Assim, o grande objetivo era de ordem econômica: construir uma potência intermediária no cenário mundial. O Estado desempenhava a função de promover a acumulação privada na esfera produtiva. O essencial das políticas públicas estava voltado para promover o crescimento econômico, acelerando o processo de industrialização, “o que era pretendido pelo Estado brasileiro, sem a transformação das relações de propriedade na sociedade brasileira” (ARAÚJO, 2003, p. 1). O Estado brasileiro é, tradicionalmente, centralizador. Há pouca ênfase no bem-estar, onde o Estado deveria assumir muito mais o objetivo do crescimento econômico e muito menos o objetivo social ao conjunto da sociedade, isso fez com que o Estado adquirisse uma postura de fazedor e não de regulador (ARAÚJO, 2003). Neste direcionamento o Estado assume um papel de não regulador, porém de Estado fazedor. Precisamos de um Estado que negocie com a sociedade os espaços políticos, pois um Estado regulador requer o diálogo entre governo e sociedade civil, que por enquanto o Brasil não tem tradição de fazer isso. As tentativas do Brasil de promover o desenvolvimento se traduzem em um perfil autoritário e conservador, certa maneira como tradicionalmente são pensadas as políticas sociais. Cada lugar requer uma solução que venha da realidade. Quando se tem uma política centralizada, o tratamento é homogeneizado. A centralização faz com que as propostas 25 venham de cima para baixo, e essa é uma tradição das políticas sociais no país. Se junta a isso a consequente dificuldade de promover a participação da sociedade (ARAÚJO, 2003). De acordo com estudos realizados no âmbito da Comissão de Estudos para América Latina (CEPAL), aponta a questão das desigualdades intra-regionais, tema de maior complexidade, pois a intradesigualdade (interior das regiões) geralmente é responsável pela maior parte da situação de desigualdade nacional, enquanto a interdesigualdade entre regiões responde marginalmente. Em outras palavras, a concentração no interior das regiões é o fator determinante da distribuição da renda no país, sendo pouco significativa a contribuição das diferenças entre renda média das regiões. Igualmente, os argumentos para reduzir as desigualdades regionais se relacionam com o dever do Estado de prover igualdade de oportunidades para todos os cidadãos, independente de seu lugar de nascimento. Neste contexto, outros merecem atenção especial, a relação entre crescimento econômico regional, distribuição da renda e a pobreza, por exemplo. Outro aspecto a relevar é o de qual seria a estratégia para mensurar o desenvolvimento regional. Surge daí dois enfoques: o da renda familiar e do produto. Porém, nem sempre a renda familiar tem estreita correlação com o produto regional. Existem territórios e regiões com renda média familiar baixa, mas com o produto per capita elevado. As investigações recentes revelam uma relação direta com o modelo de desenvolvimento predominante em cada país: a) se o modelo de crescimento se concentra em apoiar o setor tradicional da economia, haverá uma redução das desigualdades associadas a um aumento da renda geral; b) se o crescimento se concentra em apoiar apenas o setor moderno, provocará um aumento das desigualdades e da renda geral; c) se o crescimento se concentra em ampliar o setor moderno, provocará em médio prazo um aumento das igualdades e da renda geral. Portanto, a formulação das políticas de desenvolvimento regional, a articulação entre o crescimento econômico e a distribuição da renda e da riqueza são de fundamental importância e condicionantes para o resultado esperado, o da redução das desigualdades intra e interregionais. Isso só se é possível fazer com uma intervenção planejada e complementar do estado, garantindo a melhor qualificação da mão de obra local, novos investimentos em tecnologia, inserção da pequena e média propriedade nos circuitos econômicos, reestruturação fundiária e 26 redistribuição do excedente econômico para as políticas sociais compensatórias via sistema fiscal. A implantação de novas atividades econômicas, com base nas oportunidades competitivas regionais, se não tiverem incorporado os princípios do que estamos conceituando como “desenvolvimento regional”, podem resultar num processo socialmente excludente para a população local e gerar apenas um ciclo econômico. As características regionais (grau de urbanização, estrutura fundiária e de produção) condicionam as alternativas a serem adotadas para cada região. Em algumas, o desenvolvimento regional só será factível se levar em conta um ordenamento territorial com base num zoneamento sócio-econômico-ecológico e na reestruturação fundiária regional. Neste aspecto é importante destacar a adoção e o desenvolvimento das zonas econômicas de exportação, que não só contribui para acelerar o crescimento das exportações, como também permite a diversificação destas, pois é um instrumento especialmente importante para o desenvolvimento de países pobres e que estejam atrelados diretamente à exportação, apenas de produtos primários. Em alguns países as ZPEs exercem ação tão representativa nas exportações de manufaturados que elas representam a maior parte do montante das exportações. Por exemplo, na América Central chega a ser 79% na Nicarágua; 77% na República Dominicana e 67% no Panamá. Na Ásia e no Pacífico: 75,6% em Bangladesh; 67,1% no Siri Lanka; 78,2% nas Filipinas e 50,3% no Paquistão. No Oriente Médio e África do Norte: 36,3% no Líbano; 68,9% no Bahrain; 61% no Marrocos. Na África Sub-Sahaariana: 22,4% em Ghana; 80% em Madagascar e 34,4% em Maurício (BIRD, 2008). No geral é possível indicar que as ZPEs contribuem bastante no total global das exportações dos países em desenvolvimento. Apresentam expressivo percentual como indica a tabela a seguir: 27 Tabela 01: Exportações em ZPEs de países em desenvolvimento Fonte: BIRD, 2008. De tudo que os países em desenvolvimento possam exportar 40,8% foram produzidos nas ZPEs. 1.2 CONDICIONANTES HISTÓRICOS DAS POLÍTICAS DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL Em meados da década de 1950, as políticas de desenvolvimento regional fundamentaram-se, de maneira geral, no conceito de pólos de crescimento e na dinâmica de atração de investimentos supostamente dotados de grande potencial de irradiação. (PERROUX, 1977; MYRDAL, 1960; HIRSCHMAN, 1958). Em diversas regiões do mundo, formuladores de políticas públicas dedicados à busca de ferramentas eficazes para solucionar problemas de crescimento e desenvolvimento desigual propuseram ações dessa natureza. Apoiando-se numa visão intervencionista do Estado (ROSENSTEIN-RODAN, 1943; NURKSE, 1957), tais propostas, à medida que se disseminavam e ganhavam consistência, reforçavam estruturas públicas de planejamento e execução, conformando um modelo de atuação do Estado com características próprias. Esse modelo, conhecido como desenvolvimentista, buscava a superação do subdesenvolvimento através de uma industrialização capitalista, planejada e apoiada pelo Estado, tornando-se hegemônico na maior parte dos países periféricos (BIELSCHOWSKY, 1996). 28 De acordo com Amaral (2005), desenvolvimento regional pode ser definido como sendo o fornecimento de ajuda e assistência a outras regiões que são menos desenvolvidas economicamente. Desenvolvimento regional pode ser ainda de natureza nacional ou internacional. As implicações e o alcance do desenvolvimento regional, portanto, pode variar de acordo com a definição de uma região, e como a região e seus limites são percebidos internamente e externamente. O debate sobre políticas públicas e sua territorialização1, tem a ver com um processo muito avançado de globalização. Inicialmente, porque os territórios transformam-se, cada vez mais, em palco de operação dos grandes agentes mundiais, que são capazes de operar em centenas de territórios ao mesmo tempo. Isso é uma mudança importante por certas razões: Primeiro, porque isso aumenta a intenção entre os diversos territórios do mundo. A capacidade desses agentes amplia as ligações entre os vários territórios, colocando uns diante de outros. Mas a razão mais importante não é essa. É que esses agentes difundem seus padrões nos diversos territórios onde atuam. Disso resulta o que chamamos de tendência à homogeneização. Trata-se de uma tendência a tudo ficar parecido nos diversos territórios do espaço mundial (ARAÚJO, 2008). Nesse contexto, é possível identificar, em cada território, processos, atributos, padrões, tendências, que não são daquele território. São de outros, mas foram trazidos para eles por agentes que estão presentes em muitos territórios. Essa é uma das razões pela qual a discussão sobre a organização e dinâmica dos territórios vem se tornando mais intensa. Por outro lado, esse movimento uniformizador gera uma tensão entre esse processo de homogeneização e a realidade concreta de cada território. O movimento de globalização não é uniforme. Na verdade, ele é redefinidor de hierarquias entre lugares e entre agentes. Alguns têm a capacidade de atuar mundo afora, a maioria atua localmente. Mas os agentes globais não escolhem todos os territórios para atuar: escolhem alguns territórios a partir dos seus próprios interesses e nesse movimento, vão criando hierarquias (ARAÚJO, 2008). Por sua vez, o processo histórico de ocupação humana e econômica do imenso território deste país deixou heranças, marcas, muito importantes. A primeira delas foi a intensidade da ocupação litorânea. Um país desse tamanho ousou ocupar intensamente o litoral e deixar os territórios do interior subocupados. 1 A abordagem da territorialização das políticas públicas faz parte do processo de descentralização administrativa das atividades governamentais, que ganhou importância a partir da metade da década de 1980 e início dos anos 1990. 29 O Brasil atual tem muitos lugares para serem ocupados na sua porção Centro-Norte. Mesmo que não ocupemos a Amazônia – e ela não deve ser adensada – o País tem um imenso território a ocupar. Só a região Sul do Brasil está quase que inteiramente ocupada. Todas as outras regiões ainda possuem muitos espaços a ocupar. A segunda herança que se destaca não é revelada por uma linha que se coloca seguindo o litoral. Trata-se aqui de uma linha que divide o Brasil ao meio. É a herança da desigualdade. Como encontrar essa linha? Qualquer mapa de indicadores sociais (índice de desenvolvimento humano, taxa de analfabetismo, número médio de anos de estudo, renda per capita, entre outros) revela dois Brasis: um de Belo Horizonte para cima, outro de Belo Horizonte para baixo (ARAÚJO, 2008). Nessa vertente destaca-se um vínculo entre a distribuição da atividade econômica no território e o desenvolvimento social, que apresenta uma preocupação por parte de alguns pesquisadores e governantes. No entrave à melhoria das condições de vida da população brasileira, fatores relacionados às específicas formas de organização da atividade econômica no território foram considerados um obstáculo fundamental à redução das desigualdades e ao aumento do bem estar. Nos últimos anos, a desigualdade regional tornou-se um tema nacional e internacional (DOMINGUES; RUIZ, 2006). As economias modernas têm se baseado numa intensa divisão do trabalho que segmentou a produção em múltiplos setores de atividade. Agricultura, indústria e serviços representam uma divisão convencional de atividades econômicas, embora a classificação prática de uma atividade nesse tripé possa ser questionada. Notadamente no caso da economia brasileira, desde o final dos anos 1990, apesar do concentrado aumento da participação do setor de serviços, a atividade industrial ainda representa o elemento-chave do dinamismo econômico nacional e regional. Em diferentes contextos territoriais (municípios, estados ou regiões) a ausência da atividade industrial pode representar um obstáculo ao desenvolvimento, daí o interesse das políticas públicas no estímulo à descentralização dos investimentos públicos e privados. Tais políticas foram consubstanciadas no papel ativo do Estado brasileiro na integração econômica do território nacional (DOMINGUES; RUIZ, 2006). Observa-se uma enorme diferença de padrões socioeconômicos entre essas duas realidades, resultante do processo histórico de ocupação humana e econômica do País ao longo de cinco séculos. Na trajetória recente do desenvolvimento regional, o Brasil ousou concentrar, exageradamente, investimentos, na porção que fica abaixo de Belo Horizonte. Concentrou 30 indústrias, mas concentrou também infraestrutura econômica, centros de pesquisa, as principais universidades etc. Essa é uma herança pesada e que precisa ser considerada quando se trabalha com abordagem territorial. E o que caracteriza o atual contexto brasileiro, quando visto na perspectiva do desenvolvimento regional? Primeiro, o engate na globalização, inclusive financeira. Nela, o Brasil dos anos 1990 mergulhou de cabeça. No que se refere à globalização da esfera produtiva, o Brasil aprofunda sua inserção e isso faz avançar a desnacionalização de seu parque produtivo. Um dado: antes do Plano Real, 5% do PIB brasileiro era produzido por transnacionais e hoje esse percentual atinge os 20%. Mas há novidades no âmbito mundial que atingem o Brasil. Só para citar duas macro tendências, o mundo está menos unipolar e a América Latina mudou de rumo. A economia brasileira não está mais tão dinâmica como foi no século XX, quando o Brasil fez uma verdadeira revolução nas suas bases produtivas, crescendo sua produção a taxas anuais de 10% a 14%. O Brasil era a China de hoje, em alguns momentos do século XX. Chegou a ser a 8ª base produtiva no mundo (ARAÚJO, 2008). Apesar de o Brasil apresentar uma taxa de crescimento da economia modesta, a desigualdade está diminuindo. E isso é um dado importante para a discussão sobre desenvolvimento territorial, porque esse não era o Brasil com o qual estávamos acostumados a lidar. Lidávamos com um Brasil dinâmico na economia, mas crescentemente desigual. Agora, o dinamismo é menor, mas o País está menos desigual, conforme se destacam dados coletados pelo Instituto Interamericano de Cooperação para Agricultura (IICA). E há outras mudanças que merecem destaque. A população do interior do Brasil, por exemplo, está crescendo mais do que a das grandes cidades litorâneas. É outro Brasil. A “era São Paulo” passou. A “era Rio de Janeiro” passou. O Brasil tem ocupando mais o interior do País e as médias cidades brasileiras são as que mais têm crescido nos últimos tempos. Nesse contexto, há mudanças nas tendências do processo de ocupação física do território do País que precisam ser consideradas. Há uma hipótese de que o Brasil está vivendo outro momento. E este outro momento estimula a discussão sobre o desenvolvimento regional. E aqui, há outra mudança. No século XX, a ênfase do debate sobre desenvolvimento regional no Brasil era colocada sobre a desigualdade inter-regional de renda e de crescimento econômico. A ênfase era no debate sobre a desigualdade entre as regiões. 31 Por isso, é importante destacar as potencialidades a partir da leitura dos diversos territórios do País. E isso parece ser positivo. A intenção não é esquecer-se da desigualdade, pois ela ainda é enorme. O Nordeste não é o Sul. São realidades muito diferentes. Organizar o desenvolvimento de um território do Sul é uma coisa. Organizar no Norte é outra. Organizar no Nordeste é outra. Organizar no Centro-Oeste é outra. É necessário aprender a trabalhar com isso. Redescobrir essas diferenças e não ver isso como uma coisa ruim. Pelo contrário, ver isso como uma coisa positiva, como um dos patrimônios que herdamos e, que podem ser trabalhados de várias maneiras (ARAÚJO, 2008). Do ponto de vista das políticas públicas, a observação é que o território entrou na agenda dos debates. Várias políticas tratam o território. Mas há vários movimentos que precisam ser entendidos melhor. Considerando que a efetiva redução das desigualdades regionais depende do exercício de esforços governamentais planejados, uma vez que a convergência de renda entre diferentes regiões é um desafio e que as iniciativas governamentais se destinam ao desenvolvimento das Regiões, não ter surtido efeito esperado, criam-se a necessidade e o espaço para experimentar um novo instrumento de desenvolvimento regional. Nesta perspectiva surge a necessidade de elaboração de uma nova política industrial nacional voltada para exportações e de uma política estadual interessada em reduzir as desigualdades regionais, o instrumento ZPE reacende como alternativa no intuito de recuperar o dinamismo econômico das regiões, sobre tudo a ZPE de Cáceres - MT, objeto de estudo desta pesquisa. A identificação das prováveis vantagens da instalação de uma ZPE (atração de investimentos, geração de empregos, promoção da difusão tecnológica, incremento da competitividade das exportações) e do teor de suas respectivas limitações sugere que a adoção do instrumento deve ser apoiada por algumas ações estratégicas e complementada por providências de apoio ao funcionamento da ZPE. No que tange às providências complementares a serem tomadas para possibilitar o bom funcionamento e a expansão da ZPE, constam: o atendimento às necessidades de infraestrutura e logística no entorno do projeto, cuja demanda deverá ser ampliada pelo próprio funcionamento da ZPE; a efetivação do alfandegamento local por parte da Receita Federal e outros órgãos competentes; a formação de profissionais adequada ao trabalho na ZPE; disponibilização de crédito para alavancar os investimentos; planejamento da incorporação de novos setores à operação da ZPE a médio e longo prazo, o que também vai 32 gerar impactos sobre a infraestrutura e a logística; desenvolvimento de trabalho em rede entre instituições governamentais e privadas visando assegurar a obtenção do máximo de sinergias e soluções para o funcionamento da ZPE. Essas são algumas providências importantes, na construção de uma nova política nacional de desenvolvimento, com base na criação de uma ZPE. 1.3 A QUESTÃO DA CONCENTRAÇÃO E CENTRALIZAÇÃO DAS ATIVIDADES REGIONAIS Neste estudo serão abordados aspectos sobre a questão da concentração e centralização das atividades regionais. De início podemos citar como exemplo a cidade de Cáceres - MT que já foi um espaço de grande concentração e centralização das atividades regionais. Desde sua inserção no cenário regional, Cáceres está localizada na região Sudoeste do Estado, constitui-se cidade pólo, contando com dois pontos de alfândega, San Mathias e Porto Esperidião. Formada por 22 municípios, maior aglomeração municipal das regiões de Mato Grosso (CÁCERES, 2010). A noção de atividade de base não se limita somente às indústrias de exportação, estendendo-se a todas as atividades que tragam recursos na forma de divisas para a região. Egler (1995, p. 08) destaca: [...] uma alternativa para tratar a questão regional, seria buscá-la definir no quadro da integração territorial, que manifesta a síntese concreta dos processos de divisão técnica e social do trabalho, de concentração produtiva e de centralização financeira no território. Desde logo é importante advertir que o conceito de território é distinto de uma visão puramente espacial, conforme apontado anteriormente. Portanto o conceito de território pressupõe a existência de relações de poder, sejam elas definidas por relações jurídicas, políticas ou econômicas. Nesse sentido é uma mediação lógica distinta do conceito de espaço, que representa um nível elevado de abstração, ou de região, que manifesta uma das formas materiais de expressão da territorialidade. Do ponto de vista da dinâmica regional, vista como motor do processo de integração é importante ressaltar e discutir dois níveis analíticos fundamentais e interligados. O primeiro é o das relações cidade e campo, que embora sejam tratadas conjuntamente nos fundamentos do pensamento econômico, perderam grande parte de seu poder analítico ao serem dividas em 33 ramos distintos do conhecimento, como a economia rural e agrícola e, seu quase reverso, a economia urbana e industrial. No Brasil, a partir da crise de 1973, a estratégia governamental se tornou mais seletiva, atuando não mais numa escala macrorregional e sim sub-regional, através da implantação de pólos de crescimento. Sob a perspectiva da acumulação capitalista, a ideologia dos pólos de desenvolvimento mostrou-se o modelo mais adequado para a organização do território proposta pelo estado autoritário, uma vez que envolvia a criação de locais privilegiados, capazes de interligar os circuitos nacionais e internacionais de fluxos financeiros e de mercadorias (EGLE, 1988). Este contexto apresentava uma inexorabilidade da lógica representada por uma polarização, que afastou o planejamento regional de suas determinações sociais e políticas privilegiando o papel da regionalização, como instrumento de ordenação do território (BOLSIER, 1979). O resultado foi o progressivo esvaziamento da região, enquanto categoria de análise e intervenção, em grande parte devido à ausência de uma teoria explícita do Estado e a falha para distinguir entre relações políticas e econômicas (MARKUSEN, 1981). No caso brasileiro, podemos citar a concentração e centralização, demonstrando São Paulo, uma metrópole, que consiste num aglomerado de grandes extensões territoriais e com limites difíceis de definir. Possui uma dinâmica territorial relacionada a processos sociais que necessita ser compreendida, dada a interação existente entre dinâmica social e a espacial (LENCIONI, 2008). Para melhor compreender essa unidade, é importante apresentar dois conceitos, o de concentração e centralização do capital nos parece fundamental, pois permite relacionar à dinâmica dos lugares. Em particular, possibilita discutir a questão da centralidade da cidade no caráter econômico urbano. Neste processo, cabe observar que concentração e centralização do capital são conceitos relativos à reprodução do capital, referidos, portanto, ao processo social. Por outro lado ressalta a valorização do capital diante dos movimentos observados. Por concentração entende-se o processo que faz expandir os meios de produção e de trabalhadores, ampliando, assim, a base da acumulação e confundindo-se com ela. Ainda nesta ideia, o processo de concentração do capital, por ser um processo de acumulação, que está diretamente relacionado à produção da riqueza econômica, a qual tem no indicador Produto Interno Bruto (PIB) um dos elementos de sua apreensão. Priorizando a perspectiva territorial, destaca-se a concentração territorial da riqueza gerada no Brasil. 34 Quanto à centralização, a primeira distinção é que essa não se confunde com a acumulação. Centralizar significa intensificar capital. O processo de centralização constitui-se num processo em que frações individuais de capitais se associem, se fundem ou se reagrupem. A centralização é, a rigor, a abolição da autonomia do capital individual, ou seja, significa a expropriação de um capitalista por outro, que acaba por transformar capitais menores, num capital de maior magnitude. A centralização é, portanto, uma reorganização da distribuição da propriedade dos capitais. Altera-se apenas o agrupamento das partes constitutivas do capital social e, nesse sentido, é que concentra a propriedade do capital, mas não se constitui num processo de acumulação, não resultando, portanto em nenhum aumento do capital social (MARX, 1984). Ao relacionarmos a concentração e centralização das atividades regionais, busca-se refletir de forma positiva, tendências à formação de um meio técnico-científico informacional, o espaço geográfico que, se caracteriza pela transformação dos territórios nacionais em espaços nacionais da economia internacional, já que se criam condições para que fluxos de informação e financeiros perpassem as fronteiras nacionais, o mesmo acontecendo com o comércio e os investimentos diretos, mediante acordos gerais ou bilaterais (SANTOS, 1996). Na trajetória recente da economia brasileira, diante de um contexto que vem sendo formado, aparecem propostas de criação de zonas de livre comércio, zonas de processamento de exportação (tema que será tratado posteriormente), uniões aduaneiras e mercados comuns a partir do agrupamento de países, principalmente vizinhos. 1.4 CENTRALIZAÇÃO E DESCENTRALIZAÇÃO DE ATIVIDADES NO CASO BRASILEIRO O marco histórico que se desdobra no contexto brasileiro, refaz uma trajetória sobre a administração de forma centralizada desde o período colonial. A herança de um Estado centralizado no passado colonial e na monarquia foi abalada com a instauração da República, mas durante a maior parte da história brasileira a criação de recursos administrativos necessários para o desempenho de capacidades estatais esteve concentrado no nível central do governo. No entanto, foi a partir de 1930 que, com a emergência do Estado Desenvolvimentista e a ampliação progressiva das funções de governo, a União assumiu uma 35 parcela altamente expressiva das capacidades financeiras e administrativas em vários níveis de governo. A forma centralizada do Estado então emergente é resultado de dois movimentos simultâneos: de um lado, os principais tributos e fontes de recursos fiscais passaram progressivamente a ser de competência exclusiva do governo federal (o fenômeno da centralização financeira); de outro lado, e não menos importante, foi o nível federal que desencadeou uma bem sucedida estratégia de fortalecimento institucional, compreendendo a criação de órgãos administrativos capazes de formular estratégias de desenvolvimento econômico e de inovação em política social, bem como a formação de burocracias tecnicamente preparadas. Este duplo movimento dotou o nível federal de governo numa capacidade de inovação política, de formulação em políticas de longo prazo e de cooptação do capital privado nacional e da classe trabalhadora que não teve, até muito recentemente, paralelo em qualquer outra instância de governo (ARRETCHE, 1996). Neste sentido, a centralização estatal a partir de 1930 (e que teve uma expansão contínua até fins da década de 1970), não é apenas fruto de um processo de expropriação das capacidades de governo dos níveis subnacionais, mas também, derivada do fato de que foi o nível federal que desmontou elevada capacidade de inovação institucional e de resposta às pressões advindas dos processos de industrialização e urbanização em curso. Na trajetória política do Brasil, sobretudo durante o regime militar inaugurado em 1964, a concentração dos recursos fiscais e a formação de agências encarregadas da formulação de políticas nacionais na União alcançou níveis sem precedentes. De acordo com uma forma de expansão do Estado inaugurada nos anos 1930, o governo federal ampliou sua capacidade de extração de recursos financeiros (seja pela reforma tributária de 1966, seja pela ampliação da capacidade de obtenção de recursos via fundos extra-orçamentários), bem como expandiu significativamente o volume de empresas estatais, de órgãos públicos da regulação da atividade econômica e de agências federais encarregadas da prestação de serviços sociais (ARRETCHE, 1996). Sobre uma análise progressista, é importante destacar a expansão do Estado realizada durante o regime militar, na qual implicaria a criação de capacidades institucionais e administrativas nos estados e municípios, capacidades estas que explicam em parte a natureza do processo de descentralização hoje em curso. Após o período 1964, as transferências de recursos, especialmente para os municípios, significaria a possibilidade de seu fortalecimento administrativo. O exame da disposição final 36 da receita tributária global no período da centralização fiscal revela que, do montante de recursos de que dispunha efetivamente cada nível de governo, uma vez realizadas as transferências constitucionais, ocorreu uma queda significativa no que diz respeito aos estados (de 34% do total da receita tributária em 1960 para 26% em 1988), mas, no que diz respeito aos municípios, esta sofreu elevação (de 6,5% do total da receita tributária em 1960 para 11,4% em 1988) (AFONSO, 1992). A centralização tributária na União significa que os estados e municípios dispunham de uma margem muito pequena de recursos a serem aplicados livremente, o governo federal (seja para uma parte das transferências automáticas a itens de despesa e, deste modo, a centralização tributária implicava falta de autonomia de gasto ou estreita margem decisória para estados e municípios, mas não significava indisponibilidade de recursos. Em outras palavras, ainda que certamente de modo inteiramente desigual no interior do território nacional, os municípios brasileiros, ainda que fortemente controlados pelo governo central, magnificaram no pós 1964 sua capacidade de gasto (ARRETCHE, 1996). Seguindo adiante, a Constituição de 1988 favoreceu, nos seus ordenamentos, a descentralização na distribuição dos recursos tributários e do poder político no Brasil (SOUZA, 1998). No pós-Constituição, “a autoridade política de cada nível de governo é soberana e independente das demais. Diferentemente de outros países, os municípios brasileiros foram declarados entre federativos autônomos, o que implica que um prefeito é autoridade soberana em sua circunscrição” (ARRETCHE, 2000, p. 4). Todavia, os resultados práticos desta descentralização ainda estão longe de configurar uma significativa autonomia decisória no âmbito subnacional, notadamente na maior parte dos municípios. Uma saída à visão municipalista autárquica da descentralização é a proposta de redes de articulação regional. Ela também se constitui num contraponto à ação centralizada do governo federal e/ou estadual, incorporando não só os municípios e regiões dentro das unidades federativas, como também outras formas de articulação e cooperação regional entre atores públicos e privados. Portanto, descentralização requer novos padrões de governança local capaz de fomentar e coordenar a cooperação regional. Embora a descentralização tenha este apelo à maior autonomia do poder local, à articulação de atores regionais e ao controle mais efetivo do cidadão das ações governamentais, não há garantia alguma de que uma proposta de descentralização supere, por si só, o clientelismo, a corrupção, a perda de capacidade regulatória e de formulação de 37 políticas públicas pelo governo central, além de poder atuar como elemento facilitador do acirramento de disparidades regionais (ARRETCHE, 1996). As estratégias utilizadas pela União e/ou Estados para que os municípios aderissem à descentralização também não aliviaram as práticas de cooptação patrimonialista. Não raro os prefeitos e as lideranças regionais vislumbram muito bem os benefícios políticos de oferecer localmente serviços públicos antes centralizados. Este vislumbre certamente representa um poderoso incentivo à municipalização e à regionalização (ARRETCHE, 2000). Contudo, nem sempre os municípios e regiões alcançaram capacidade administrativa, capacidade técnica instalada, recursos técnicos, equipamentos, recursos humanos e conhecimento especializado necessários á descentralização, carecendo da ajuda expressa de níveis superiores de governo, a fim de modernizarem sua estrutura e seus modelos de gestão. Neste sentido, torna-se necessário “abandonar a falsa e estéril dicotomia entre centralização e descentralização” (ABRUCIO; SOARES, 2001, p. 15), e centrar o foco na democratização das relações intergovernamentais. Encerrando o entendimento desta argumentação, é preciso discutir a diferença conceitual e operacional entre descentralização e desconcentração. Tobar (1991) direciona para um distanciamento qualitativo entre as duas categorias. Enquanto a descentralização implica redistribuição do poder, a desconcentração é a delegação de competência sem, necessariamente, o deslocamento do poder decisório. A desconcentração significa um “conjunto de procedimentos funcionais para a racionalização, modernização ampliada do sistema a modificar” (TOBAR, 1991, p. 5). Nesta ideia, a adoção da descentralização ou da desconcentração produzirão diferentes resultados na sua implementação. A descentralização, entendida como estratégia para promover o desenvolvimento regional, como parece ser intenção de alguns governos estaduais, requer uma análise da perspectiva da regionalização do desenvolvimento. Hoje há o reconhecimento do papel desempenhado pela região, vista como espaço de integração entre atores sociais que propicia o favorecimento da emergência de dinâmicas coletivas de desenvolvimento integrado (BECATTINI, 2002). A definição objetiva de região depende da visão dos atores sociais e é amplamente variável, podendo ser as suas fronteiras mutáveis de acordo com os mais diversos interesses em jogo (FILIPPIM; ABRUCIO, 2010). No bojo desta discussão podemos citar como instrumento de política pública de desenvolvimento a Superintendência de Desenvolvimento do Centro-Oeste (SUDECO), é uma autarquia Federal, criada por meio da Lei nº 5.365, de 1º de dezembro de 1967, com o 38 objetivo de promover o desenvolvimento econômico da região Centro-oeste. Mas apenas no Governo do Presidente Lula, através da Lei Complementar nº 129 de 8 de Janeiro de 2009, ganhou notoriedade legal, sendo regulamentada no Governo da Presidente Dilma Rousseff em maio de 2011. De acordo com a referida Lei em seu Art. 4º Compete à SUDECO: [...] Elaborar o Plano Regional de Desenvolvimento do Centro-oeste, articulando-o com as políticas e os planos de desenvolvimento nacional, estaduais e municipais e, em especial, com a Política Nacional de Desenvolvimento Regional [...] entre outros. É importante destacar ainda que a SUDECO, abrange os Estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e o Distrito Federal. O caso de Mato Grosso revela contradições em relação ao que as teorias de mobilização social e institucionalização política apontam como esperado. Sobretudo há razões para fazer uma exploração contextual elencando as principais políticas de desenvolvimento regional e, algumas fraturas existenciais, deixadas pela governança estadual em sua trajetória política. 1.5 AS POLÍTICAS DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL NO CASO MATOGROSSENSE Para entendermos melhor o contexto que se apresenta em Mato Grosso, sobretudo nas políticas norteadoras do desenvolvimento regional, é necessário uma retrospectiva simplificada do seu processo de ocupação recente, que permite visualizar as etapas que marcaram a evolução da sua organização espacial, cabendo destacar, sob a tutela do Estado Novo, período entre 1930-1950, “a marcha para oeste” que atingiu as regiões do Araguaia, Rondonópolis e Cáceres, como um dos marcos da ocupação territorial, com o início da formação das primeiras colônias agrícolas. Em meados da década de 1960, surge o novo movimento, que vai atingir seu momento mais intenso na década de 1970, fundamentado na ocupação e integração do território, através da modernização da grande propriedade. Esse fato ocorreu em função de uma forte intervenção estatal, tendo como instrumento, os Programas de Infraestrutura e de Integração Nacional (PIN/PROTERRA) e da política de incentivos fiscais para Amazônia (SUDAM). 39 Paralelamente, observou-se, um significativo processo de colonização privada, com expansão em direção ao norte Mato-grossense e uma intensificação do processo de modernização agropecuária em direção aos cerrados, que teve seu ápice, com a criação do Programa de Desenvolvimento dos Cerrados (POLOCENTRO) em 1975. Já adiante na década 1980/1990, consolidam-se os processos iniciados, sendo complementados por surtos da atividade da mineração extrativista, atingindo diversas regiões do Estado. As características marcantes desse processo de ocupação e transformação produtiva e social foram à concentração da estrutura produtiva, predominando a pecuária de corte, a cultura do arroz e a extração de madeiras; ocupações desordenadas, extrativas e concentradas baseadas em sistemas produtivos extensivos ou semiextensivos, considerando os recursos florestais como apenas subproduto da expansão das fronteiras agrícolas e a ausência de um sistema gerador de tecnologias adaptadas aos ecossistemas/biomas regionais, gerando significativos impactos negativos nas dimensões ambiental, econômica e social. Estudos realizados sobre esse período destacavam que o referido processo de modernização agrícola (deu origem a ocupação no cerrado, período entre os anos 1960-1980), não teve como origem às condições e mecanismos internos de expansão do setor agropecuário baseado na disponibilidade e custos dos fatores produtivos, mais sim como uma pressão industrial (máquinas, insumos agrícolas etc.), viabilizado pelo Estado, por meio de investimentos em infraestrutura e expansão do crédito altamente subsidiado. A partir de 1990, surge um novo processo de ocupação comandado pelas “commodities” do agronegócio, com destaque para os produtos da soja e do algodão, caracterizando-se por uma modernização baseada nas médias e grandes empresas, com baixa diversificação da especialização regional, trazendo, como consequências, a intensificação da degradação ambiental e a redução do emprego rural, evidenciando-se, ainda, intensos processos de urbanização em todas as regiões do Estado. Neste contexto, pode-se afirmar que os processos de ocupação descritos anteriormente sempre priorizaram a questão do crescimento econômico, sem se preocupar com as diversas dimensões da sustentabilidade, desconsiderando a espacial que dentre elas é primordial. A espacial deveria ser o principal foco das políticas de desenvolvimento regional, haja vista ser a base para o desenvolvimento regional sustentado. A questão da ocupação mato-grossense surge há vários anos e, que se apresenta diante de uma realidade marcante do território, resultante desse processo de ocupação e 40 transformação. Outro ponto é a disparidade territorial, econômica e social, agravada por intensos processos de urbanização distante do que se denominar de uma “sustentabilidade espacial”, caracterizada por um sistema equilibrado de territórios e cidades. Como estratégia o valor econômico de um território, em qualquer escala geográfica, decorre em grande parte de sua velocidade de passar ao novo paradigma tecno-econômico. Na região Centro Oeste, todos os estados tiveram índices superiores aos nacionais decorrentes da maior inserção de suas exportações para o mercado externo, ampliando a sua participação nas contas nacionais. Entretanto, esse crescimento econômico da região Centro Oeste apresenta também um caráter concentrador, mantendo elevadas situações de disparidades territoriais, também presente no Estado de Mato Grosso. No contexto de políticas públicas existente em Mato Grosso, ainda contrapõe o modelo de gestão, na qual compreende estratégias, na busca da redução das desigualdades intra e inter-regionais (Política de Desenvolvimento Regional), contribuindo para o alcance dos objetivos estratégicos de Governo. O problema relacionado com o desenvolvimento regional é a existência de desequilíbrios ou desigualdades espaciais. No caso de Mato Grosso, várias são ainda as causas da existência de um padrão desigual de crescimento regional, dentre os quais se podem citar: a predominância do modelo de desenvolvimento concentrador de renda; uma ação paternalista e centralizadora do Estado; a visão atomizada e conjuntural da problemática do desenvolvimento (inexistência de planejamento estratégico); a falta de infraestrutura; a degradação ambiental; a concentração da renda e da terra; a falta de mercado interno (baixa densidade demográfica); as deficiências de capital social e humano; o atraso científico e tecnológico e até mesmo a fragilidade (quase inexistência) de efetivas políticas públicas de desenvolvimento regional e de ciência e tecnologia de caráter descentralizador (SEPLAN-MT, 2008). O importante para as políticas regionais é o conhecimento preciso das dinâmicas dos sistemas econômicos territoriais que subsidiem a construção adequada das instituições responsáveis pela articulação dos atores, possibilitando inclusive a existência de arranjos institucionais inter-regionais. A despeito do desenvolvimento econômico e competitividade agrícola em Mato Grosso, a região central do país defronta-se ainda com a necessidade premente de aumento da escolaridade média de sua população, de melhoria e consolidação da infraestrutura de transportes e saneamento, de redução das desigualdades sociais e regionais e de preservação 41 ambiental, sob pena de comprometer a auto-sustentabilidade econômico-social pretendida pela sociedade local. A importância da agropecuária na economia de Mato Grosso pode ser dimensionada a partir de algumas constatações conforme estudo realizado pela Secretaria de Estado de Planejamento e Coordenação Geral (SEPLAN-MT): A diversidade do solo e a topografia permitem a exploração de cerca de 60% de sua área; As estações Chuvosas bem demarcadas e constantes, além de vastas planícies de solo roxo, fazem de Mato Grosso um território privilegiado para a produção de grãos, fibras, arroz, feijão, milho, sorgo, além da pecuária de grandes e pequenos animais; Mato Grosso destaca-se no cenário nacional como o maior produtor de soja e algodão e como o segundo maior rebanho de corte do país. O setor agropecuário responde por mais de 30% do PIB local e pela absorção de 35% da população economicamente ativa; Há potencialidade para a diversificação agrícola e produção de matéria-prima para fins industriais e energéticos e, ainda, para o cultivo e exploração de especiarias essências amazônicas e do cerrado. A importância do desempenho e competitividade do setor agropecuário do estado fica evidenciada pela crescente demanda por alimentos no Brasil e no mundo, pela necessidade de geração de superávit na balança comercial brasileira, pela demanda de matérias-primas do parque agroindustrial, pelo potencial para o desenvolvimento de uma agricultura moderna e pela imensa área agricultável, suficiente para abrigar programas e projetos agrícolas de cunho social, capazes de ampliar e incluir na base econômica milhares de brasileiros. Além deste vasto potencial agropecuário, Mato Grosso apresenta diversidade de minerais capazes de, com conhecimento adequado, dar sustentabilidade a um parque míneroindustrial significativo. Estudos e pesquisas já destacaram ocorrência de minerais estratégicos como o cobre, zinco, chumbo, e pedras ornamentais. O Estado também reúne fatores diferenciados e peculiares para o mercado turístico. O Parque Nacional da Chapada dos Guimarães e o complexo formado pelo Pantanal Matogrossense, aliados à riqueza e exuberância da flora e fauna terrestre e aquática, tornam o seu ecossistema em um local propício para o desenvolvimento de estudos e pesquisas científicas que também compõem a moldura de um cenário projetando Mato Grosso internacionalmente. 42 1.6 REGIÃO E REGIONALISMO NO BRASIL CONTEMPORÂNEO O desenvolvimento da história, segundo Milton Santos (2003) foi lento, por muito tempo permitindo que a região fosse vista como espaço de identidade. Essa identidade regional, que se modificava a passos vagarosos, trazia o enorme peso do passado, das tradições. Os objetos que representavam uma região, que nela se consolidavam, forneciam a impressão de algo praticamente contido em si. As regiões, que se formavam a partir da solidariedade orgânica entre os povos e seus territórios, produziam identidades consistentes ao longo do tempo e limites espaciais coesos entre elas. A solidariedade era fruto de uma organização local, econômica, social, política e cultural que satisfazia as necessidades de cada região. A diferença entre as regiões se dava pelas peculiaridades das relações internas entre os homens e a natureza, sem a presença, necessariamente, de mediação externa. Nos países centrais, as regiões pareciam ter certa autonomia em virtude da fluidez do espaço e em razão de as atratividades do centro urbano terem facilitado o acesso aos serviços. Nos países subdesenvolvidos, onde a industrialização é tardia, a criação de metrópoles nacionais é, também, retardatária devido à falta de integração nacional. Eram as metrópoles regionais que exerciam o papel de fornecedoras de bens e serviços. À falta de integração nacional, essas metrópoles estabeleciam maiores laços políticos e econômicos com centros do sistema mundial (SANTOS, 1985). Nas regiões subdesenvolvidas, os espaços eram, sobretudo, históricos, onde o peso do passado influenciava bastante a configuração da paisagem. As relações econômicas e culturais se mantinham internamente estáveis, fato que levou especialistas a afirmarem a coerência interna das regiões, deixando encobertas as relações externas que influenciavam a conformação regional. “A falta, porém, de reconhecimento dessas relações mais amplas assegurava a permanência de uma noção que, desde a segunda revolução industrial e a implantação do imperialismo, já não mais correspondia à realidade.” (SANTOS, 1985, p. 66). A questão regional leva a uma interpretação e análise dos conceitos de região e regionalismo, seus vínculos e diferenciações que, muitas vezes, excedem a dimensão do problema estritamente econômico. A abrangência que é dada ao termo região, em virtude da diversidade de concepções e da complexidade que envolve a interpretação do espaço geográfico como formação do espaço 43 social, torna-o associável a espaços de dimensões variáveis que vão desde extensões territoriais pequenas até a supranacional (AMARAL, 2005). As regiões são subdivisões do espaço: do espaço total, do espaço nacional e mesmo do espaço local. Um espaço de conveniência, meros lugares funcionais de todo contexto. A região foi, no passado, um sinônimo de territorialidade absoluta de um grupo por meio das suas características de exclusividade, de identidade e de limites. Hoje, o número de mediações é muito grande, levando até a crer que dessa forma tradicional não existe mais (AMARAL, 2005). A abordagem do conceito de região2 enfrenta problemas epistemológicos e metodológicos semelhantes aos confrontados pelas noções de espaço e território, pois são conceitos elaborados envolvendo várias disciplinas, sendo difícil encontrar ou estabelecer a predominância de alguma. Como aponta Haesbaert (1999, p. 18), “trata-se de uma palavra das mais imprecisas, devido as suas características polissêmicas, de polivalência e de multiescolaridade”. Visando reforçar a discussão conceitual, é importante rever algumas definições da região. Na aceitação mais geral, a região é caracterizada como uma construção social localizada dentro de fronteiras territoriais, remetendo à associação com questões econômicas. Assim, região se refere a um conceito que abrange uma variedade de escalas espaciais, com variados conteúdos políticos, econômicos e sociais. De acordo com Ramirez (2001, p. 11), em sua definição mínima e mais difundida, “a região é entendida como um nível territorial intermediário entre o estado e os municípios, apesar de que, no processo de criação de blocos econômicos entre países, existem regiões que superam em tamanho os estados nacionais”. A região, também, é identificada em função de critérios geográficos, como espaços físicos mais ou menos homogêneos em termos topográficos, climáticos etc., sendo definida por um ponto central comum existente dentro de um território, como pode ser uma cidade ou um acidente geográfico. 2 Para o entendimento atual do conceito de região, deve-se ater às características que assume a divisão do trabalho nos tempos atuais, em que existem várias superposições de diferentes níveis de divisão do trabalho (internacional, nacional e local) redefinindo a reorganização espacial de forma deliberada e planejada. 44 As regiões também podem ser definidas em funções de variáveis culturais, tais como: tradições compartilhadas, padrões de socialização, linguagem / dialeto ou de acordo com uma identidade compartilhada por cidadãos e atores políticos do território. Algumas regiões são definidas em função de divisões institucionais, constituídas historicamente ou de criação mais recente estabelecida como resultado da ação pública, privada ou intermediária. A região também pode ser pensada em função de fatores econômicos (KEATING, 1998, p. 8), em que “a definição tem como base, padrões comuns de produção, interdependência real ou potenciais, problemas e projetos comuns, mercado de trabalho entre outros.” A concepção é de que a forma espacial é expressão da combinação entre uma porção de território e um modo de produção que sobre ele se concretiza em um dado momento histórico, portanto, o ato de definir regiões é, por natureza, político, embora apoiado por critérios de natureza técnica. Essa decisão implica numa pré-definição de objetivos, isto é, ligada a uma política estabelecida. O tipo de região adequada aos propósitos de quem regionaliza está sempre associada aos objetivos. Por exemplo, nos estudos de regionalização do IBGE, as mesorregiões das unidades da federação foram definidas pelas seguintes dimensões: o processo social como determinante, o quadro social como condicionante e a rede de comunicação e de lugares como elementos da articulação espacial, assegurando-lhes uma identidade regional. Posteriormente, elas sofreram uma sub-regionalização (microrregiões) face às especificidades, quanto à organização do espaço, possibilitando visualizar melhor a diferenciação territorial (estruturas de produção diferenciadas) (AMARAL, 2005). Apesar da diversidade de conceitos de região, da qual decorre a multiplicidade de critérios de regionalização, bem diferenciados em sua natureza e que resultam na delimitação de diferentes áreas territoriais, compreende-se que existe um conceito restrito de região que implica na concepção de região organizada, isto é, de espaço estruturado, caracterizado não pela homogeneidade de estado de uma ou algumas variáveis ou pela morfologia, mas definida por relações entre cidades dentro de um sistema de organização hierárquica e de distribuição espacial de funções que permitam identificar uma unidade espacial com evidência de coesão interna. É a região funcional. De qualquer forma, independente de maior ou menor conteúdo político, o importante para a prática do desenvolvimento regional é conhecer a estrutura e a dinâmica regional, que é 45 o ponto de partida para a tomada de decisões quanto às intervenções (ação regionalizada) ou para o processo de regionalização e do processo de planejamento regional. Na evolução do conceito de região no contexto de disciplinas da economia e da geografia ao longo do século XX, cabe destacar, nos princípios dos anos 1980, o tratamento dado à região, entendida como um processo motriz da vida social, e não apenas como resultado de um processo econômico político, ressurgindo como centro do pós-fordismo, da flexibilidade da produção e dos sistemas baseados na aprendizagem. Uma das concepções mais importantes sobre região é aquela baseada na teoria dos sistemas, como insiste Keating (1998, p. 10): As regiões devem ser entendidas como sistemas abertos em constante processo de definição, onde as estratégias, os interesses, a identidade regional não devem ser expressão de fatores causais e deterministas, nem a expressão de desejos, interesses e estratégias específicas, mais sim surgir e ser propriedade dos atores da mesma, onde a manifestação do interesse regional deve ser entendida como um processo político complexo. A região é uma realidade complexa e dinâmica. É dinâmica tanto no sentido de ser teatro de contínuas interações entre seus componentes, ao mesmo tempo em que interage com outras regiões, como sentido de que é passível de mudanças ao correr do tempo, quer em suas características, que em seus limites. Sua complexidade decorre da multiplicidade de aspectos que constituem a realidade total e que se manifestam através de fenômenos de natureza e amplitude diversas que se inter-relacionam. Como se vê, o conceito de região pode ser expresso de formas diversas através das dimensões política, econômica, social, cultural, sem que necessariamente haja uma articulação entre diferentes manifestações. Trata-se, pois, de um conceito dinâmico, cujo conteúdo é instável e mutável, variando de acordo com os resultados do processo político e as tendências dominantes no terreno econômico. Outro conceito a esclarecer é o de “Regionalismo” referente à organização política da demanda regional e a mobilização do interesse regional. Existe um consenso em torno da ideia de que, na medida em que as dimensões, tais como identidade cultural, coesão política, econômica etc., coincidem dentro de um mesmo espaço territorial dando lugar a um grau de demanda e mobilização do interesse regional impulsionada a partir da região, tem-se o que se denomina de “Regionalismo”. 46 Portanto, o regionalismo é gerado no contexto dos estados modernos: os estadosnacionais hoje conhecidos foram consolidados, em sua maior parte, a partir do domínio hegemônico de uma região que impôs cultura, língua, religião e sistema produtivo sobre outras regiões (CASTRO, 1997). Em suma a natureza do regionalismo foi inserida através de lutas por recursos, poder simbólico, afirmação de uma identidade, caracterizando um desejo de soberania, embora identidades culturais fortes como a língua, religião e etnia sejam símbolos eficientes nas disputas regionalistas. O regionalismo não se esgota neste tipo de viés cultural (CASTRO, 1997). No período em que se formou o Estado sem que existisse ainda a nação, as pessoas se julgavam primeiro pernambucanas, paraibanas, paulistas, mineiras, fluminenses, gauchas etc. e depois brasileiras. A condição de brasileiro, da nacionalidade, vinha depois da naturalidade (ANDRADE, 2004). Nesta vertente podemos citar alguns exemplos de regionalismo no Brasil: Revolução Pernambucana e independência; a adesão da Amazônia ao Brasil (1823); Confederação do Equador (1824); Sabinada (proclamação da República Baiense, 1837-1838). Fatos importantes que de certa forma deixaram contribuições sobre a formação do contexto regional brasileiro. Se considerar que as regiões constituem arenas para a negociação de sistemas funcionais de ação em suas dimensões políticas, econômicas e sociais, o regionalismo pode prover as bases para propósitos convergentes. Uma região onde o regionalismo se faz presente geralmente possui um ambiente favorável para uma cooperação desenvolvimentista, ou seja, uma aliança de base territorial conformada por atores políticos e sociais pertencentes a distintos setores sociais, cujo objetivo é o de impulsionar o desenvolvimento econômico de um determinado território. Pode-se refletir o regionalismo como um movimento político-administrativo que visa à criação de uma estrutura governamental para coordenar e implementar um conjunto de funções públicas, intermediário entre os órgãos centrais e os governos locais. O importante a destacar é de que a região e o regionalismo podem dar sustento à constituição de atores da base regional, com algum nível de representação regional frente ao nível superior da hierarquia funcional (nacional ou estadual), formulando projeto próprio de interesse regional. Assim, o regionalismo pode ser encarado como atividades de um moderno processo de planejamento governamental, como forma de democratizar e integrar as atividades do 47 governo de assegurar maior eficácia aos objetivos regionalizados das políticas públicas (AMARAL, 2005). Conforme aponta Araújo (1999), no contexto atual da questão regional brasileira, a saída seria a criação de um Conselho Nacional de Políticas Públicas, ligado diretamente presidido pelo Presidente da República, no qual seria discutido e consequentemente onde seriam tomadas as decisões mais relevantes que digam respeito ao tratamento da questão regional brasileira contemporânea, considerando-se tanto propostas voltadas para a desconcentração da atividade produtiva no território nacional, quanto uma melhor distribuição das oportunidades de empregos produtivos e o desencadeamento de um processo de redução dos níveis de vida entre os habitantes das diferentes regiões do país. Ainda conforme análise da autora, um país continental e heterogêneo como o Brasil não pode ser entregue apenas às decisões ditadas pelas regras do mercado. Pode e deve ter uma política pública ativa de desenvolvimento regional. Como têm os principais países. Ela faz parte de uma opção por compatibilizar interesses nacionais importantes com a inserção num mundo cada vez mais competitivo e interconectado. Interesse como o de evitar uma fragmentação indesejada da dinâmica econômica que solidarize o destino do país e faça emergir regionalismos. Em síntese, ao longo dos últimos 60 anos, e conduzido por um projeto capitalista, o Estado brasileiro sedimentou, em todas as esferas do poder público, um ideário permeado por teorias desenvolvimentistas e integracionistas que, por sua vez, nortearam a criação de órgãos regionais de planejamento como, por exemplo, a Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM). Com posturas notadamente geopolíticas, apregoando a necessidade da ocupação territorial para a defesa das fronteiras nacionais e para a ampliação da utilização das riquezas naturais, o que se viu foi à efetivação do controle, por parte do Estado, de todo o território nacional, sem, no entanto, refletir em mudanças qualitativas no nível de vida da grande maioria da população do país. O fortalecimento do Estado Nacional, desse modo, decorreu de uma política territorial voltada para a articulação e integração das diferentes parcelas ao contexto nacional, ‘produzindo’, no entanto, mais elementos para a diferenciação do espaço brasileiro. Em se tratando das áreas menos desenvolvidas, tal política se materializou através de duas estratégias principais: a articulação comercial (inicialmente) e a integração produtiva (em seguida), ambas sob a hegemonia da região Sudeste (GUIMARÃES NETO, 1997), 48 cristalizando, por sobre o território, padrões distintos de produção e desenvolvimento capitalistas. A história nacional é marcada por uma dinâmica econômica regionalmente diferenciada, produzindo desigualdades e disparidades regionais. A economia brasileira, até a primeira metade dos anos 1960, passou de uma fase de fraca articulação regional (comercial) para uma fase de maior integração (produtiva), principalmente durante o período de industrialização via substituição de importações, realizando a constituição do mercado interno via articulação comercial, sob a hegemonia do Sudeste, particularmente do estado de São Paulo, cristalizando uma dinâmica econômica desigual entre as regiões do país. O Estado Nacional, por sua vez, vê-se fortalecido, dado o alto grau de controle e centralização que marca o fim do isolamento entre os vários subespaços nacionais, através de políticas territoriais ostensivamente direcionadas pela conquista e interiorização. O caso de Mato grosso também foi marcado pela desigualdade regional, conforme apresentado anteriormente, isso representou particularmente impactos negativos na economia e desenvolvimento do estado. A proposta a seguir, é apresentar o cenário econômico de desenvolvimento em Mato Grosso, sobretudo identificar as políticas públicas voltadas para o desenvolvimento regional, potenciais econômicos e alternativas vivenciadas pelo Estado nos últimos anos. 49 CAPÍTULO II CENÁRIOS ALTERNATIVOS NO DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO DE MATO GROSSO O Estado de Mato Grosso destacou-se, nas últimas décadas, pelo dinamismo econômico, posição de relevo no agronegócio, e contribuição à expansão das exportações brasileiras. Ao mesmo tempo, o Estado ganha evidência pela exuberância de seus recursos naturais e diversidade dos seus ecossistemas, sobre os quais a expansão econômica tem gerado intensa pressão antrópica. A história recente de Mato Grosso caracteriza-se pelo intenso e rápido processo de ocupação da fronteira agrícola com a penetração da moderna agropecuária, que projeta o Estado como um importante pólo produtor e exportador do Brasil. Ao longo de quase 20 anos, Mato Grosso registrou taxa de crescimento econômico de 7,6% ao ano (1985/2003), três vezes superior à média de crescimento da economia brasileira (2,5% ao ano), precisamente no período de relativa estagnação da economia nacional. O Estado mais dinâmico do Brasil, Mato Grosso, cresce também acima da média do CentroOeste, região de fronteira de expansão recente (SEPLAN, 2006). Analisando pesquisas recentes sobre a dinâmica regional brasileira, compreendendo 2002-2006, expressada pela variação do PIB microrregional em termos constantes, demonstra que taxas significativas de crescimento da produção ocorreram, principalmente na Amazônia Legal e em áreas pontuais no Sudeste, no Centro-Oeste e no Nordeste. A taxa de crescimento médio anual do Brasil nesse período alcançou o nível de 3,48% e, em praticamente metade das microrregiões, o crescimento observado extrapola esse percentual. Grande parte das regiões com taxas de crescimento expressivas, entretanto, não tem participação substancial na formação do PIB nacional, pois se localiza em áreas onde a produção ainda não é relevante para o total da economia brasileira. Várias microrregiões que experimentaram taxas anuais superiores a 10% no período analisado estão localizadas em territórios da Amazônia Legal, sobretudo nos estados do Pará, Amazonas e Maranhão. O crescimento da extração mineral e a expansão da fronteira agrícola e do setor de serviços contribuíram para as altas taxas verificadas em parcelas dos estados do Amazonas, de Rondônia, Mato Grosso e Tocantins (PNDR, 2010). 50 O dinamismo da moderna agropecuária de Mato Grosso, em grande parte está voltado para exportação, gerou em 2008 um PIB de R$ 53,02 bilhões de reais. Ao longo de décadas de crescimento econômico e forte migração, o estado convive com problemas sociais e, principalmente, ambientais, embora tenha indicadores sociais quase sempre acima da média nacional (SEPLAN, 2011). A articulação institucional, apresentada pelo Estado baseia-se em um cenário de longo prazo, revisado em 2011, que prioriza linhas de ações estruturantes, com base em estratégias direcionadas ao aproveitamento das principais potencialidades e a resolução dos estrangulamentos para o bem da condução do processo de desenvolvimento do estado de Mato Grosso. Nesse sentido, cabe ressaltar pelo menos quatro aspectos fundamentais a serem observados na busca do desenvolvimento do Estado: 1) a existência de uma extensa dimensão territorial; 2) a distribuição da população nesse espaço; 3) a busca por novos modelos produtivos com redução da degradação ambiental e 4) redução das desigualdades intra e interregionais existentes, conforme apontados em estudos anteriores. O crescente contingente populacional, levantado pela última contagem conforme apontou o Censo 2010 do IBGE, sinaliza para uma preocupação recente relativa ao alcance e abrangência das políticas públicas do Estado e a desarticulação de uma série de medidas apresentadas pelos Municípios, Estados e União de forma independente. Tal fato leva a uma preocupação quanto à realização de investimentos e serviços executados de forma pulverizada e que apresentam pouca efetividade e pouco alcance nos objetivos esperados das políticas públicas, existentes do ponto de vista econômico e social. Para compreender melhor as ações, sobretudo a articulação integrada entre os órgãos do Estado, busca-se a tentativa de preenchimento dessa lacuna, de forma a contribuir efetivamente na realização de políticas públicas e/ou agenda, com foco nas ações inter e intraregionais. 2.1 DIMENSÃO ECONÔMICA DE MATO GROSSO Mato Grosso é um dos Estados mais ricos e diversificados do país. Possui três biomas, quais sejam: o Cerrado, a Amazônia e o Pantanal. O Estado vem, ao longo dos anos, 51 experimentando um movimento acelerado de crescimento econômico e modernização na agricultura, ambos acompanhados por rápido crescimento demográfico. Ao longo de décadas de crescimento econômico e forte migração, o estado de Mato Grosso convive com problemas sociais e, principalmente, ambientais, embora tenha indicadores sociais quase sempre acima da média nacional. O crescimento da economia no período de 2002 a 2007 está sustentado na agropecuária, na indústria e nos serviços, permitindo que Mato Grosso crescesse em média 7,73% ao ano, quase dois pontos percentuais acima da média brasileira. Esse índice elevou a participação de Mato Grosso na economia brasileira (de 1,22%, no ano 2000 para 1,7%, em 2008) e na economia do Centro-Oeste, região de alto crescimento, o PIB de Mato Grosso representa, atualmente, quase 20% da economia regional. O desempenho econômico das últimas décadas promoveu um aumento da renda e da riqueza no Estado e elevou o PIB per capita de R$14.953,58 em 2007 para R$ 17.927,00 em 2008. O agronegócio é a base da economia mato-grossense. A agropecuária representa quase 30% do PIB estadual e o setor industrial que contribuiu com aproximadamente 17% (média do período 2002/2007) apresenta um movimento de declínio continuado nos últimos anos. Com uma forte integração externa, Mato Grosso foi um dos estados brasileiros de maior presença no mercado internacional com exportações de commodities, principalmente grãos. Em 2009, o Estado exportou o equivalente a 31% do PIB estadual, limitando-se, no geral, a bens primários. Mato Grosso é um estado de grande potencial econômico e social decorrente da riqueza que dispõe em recursos florestais e hídricos, aliado a biodiversidade, assim como pela sua diversidade cultural e múltiplas manifestações culturais. Infelizmente, porém, tem convivido com modos de produção que impõem forte pressão antrópica sobre os recursos naturais existentes. A alta produtividade da agropecuária tem sido absorvida pelo “Custo Mato Grosso”, fruto dos grandes estrangulamentos na infraestrutura e na logística de escoamento da produção de grãos e de produtos industrializados. No mesmo sentido, as vantagens auferidas pela alta produtividade são pouco aproveitadas nos demais elos das cadeias produtivas, que em geral, possui baixo adensamento em seus elos o que reduz o potencial de geração de emprego e renda na produção de valor agregado da economia mato-grossense. A forte integração externa da economia do Estado depende também da evolução futura do Brasil, com suas políticas e os investimentos, assim como do comportamento que venha a 52 apresentar, nos próximos anos, a economia mundial. A alta dependência da exportação de alimentos e commodities poderá ser revertida nos próximos anos com estratégias adotadas para a busca do desenvolvimento sustentável de Mato Grosso. 2.1.1 Diversificação da estrutura produtiva e adensamento das cadeias O Estado de Mato Grosso tem sua economia fortemente concentrada na agropecuária que representou 28,9% do PIB em 2008. Essa representatividade da agropecuária no PIB estadual é uma das mais altas no Brasil. Os outros dois principais setores responsáveis pela formação do PIB são: serviços com 55% e o industrial que contribuiu com menos de 16%; sendo que dentro desse setor a indústria de transformação representava apenas 8% da economia mato-grossense. Esses números refletem uma limitada industrialização da produção regional e, por consequência, baixa agregação de valor à economia. O grande salto do setor de serviços na economia do Estado ocorreu em 2006, quando o setor elevou sua participação para quase 57% do PIB, apesar de representar um grande percentual ainda está muito baixo se comparado com outros estados do Brasil. Por outro lado, dentro do setor industrial, a indústria de transformação é a atividade mais relevante, sobretudo, na geração de empregos, embora tenha declinado sua contribuição de 2004 para 2008 em quase quatro pontos percentuais, como mostra o gráfico a seguir: 53 Gráfico 01: Evolução da estrutura de formação do PIB mato-grossense Fonte: Contas Regionais, IBGE. O baixo adensamento das cadeias produtivas e da base industrial do Estado manifestase também nas exportações. Os produtos básicos representam 91,5% do total exportado, sendo que os bens industrializados chegam a apenas 8,5% do total em 2009 (MDIC/SECEX, 2010). Na indústria de transformação, o setor de maior destaque é a indústria de produtos alimentícios, responsável por 48% do pessoal ocupado (SEPLAN, 2010), dentro do qual se inclui o processamento industrial de bens agropecuários. O segundo grande setor da indústria de transformação é a fabricação de produtos madeireiros com 17% do emprego industrial no Estado. Nos últimos anos, contudo, ocorreram investimentos importantes no beneficiamento de grãos, com a implantação de unidades industriais que agregam valor e diversificação produtiva na área de alimentos. Houve crescimento da avicultura, da suinocultura e do turismo. Na última reunião do Conselho Estadual de Desenvolvimento Empresarial (CEDEM), realizada em 29 de março, foram aprovados projetos de 99 empresas industriais para incentivo ao investimento, aproximadamente R$ 295 milhões. Dentre as empresas que receberam incentivos, 12 processam e beneficiam soja (óleo comestível, óleo degomado e outros subprodutos), o que vai projetar Mato Grosso como o maior produtor de óleo comestível do Brasil, de acordo com informações da Secretaria de Estado de Indústria, Comércio, Minas e Energia do Governo de Mato Grosso. 54 A estimativa da Secretaria de Estado de Indústria Comércio, Minas e Energia registrou que por meio de incentivos, já foram investidos em Mato Grosso quase R$ 5 bilhões em 300 empresas que geraram mais de 149 mil empregos diretos e indiretos. Esses dados sinalizam que o Estado possui uma economia agroindustrial. A tabela abaixo mostra investimentos previstos para o Estado de Mato Grosso: Tabela 02: Investimentos Previstos para Mato Grosso Fonte: RENAI/MDCI. Embora a indústria extrativa mineral tenha uma participação limitada na economia mato-grossense, à mineração é uma atividade de grande potencial e deve reiniciar um ciclo de expansão no futuro. Trata-se de uma atividade primária, de baixo valor agregado, mas que pode favorecer a diversificação produtiva, além de ter, em alguns segmentos, complementaridade com a agropecuária. Estudos recentes, dentro do Projeto Noroeste, já identificaram centenas de pontos de afloramento mineral na região: ouro, cobre, prata, ferro, e 55 também, cálcio e calcário. Possibilidades que atraíram investimentos privados de mais de U$ 70 milhões para o Estado, desde que o estudo da região começou em 2004. O governo espera, neste início de década, a mobilização de investimentos de bilhões de reais no estado de Mato Grosso, a maioria voltada para a agroindústria, especialmente, a produção de etanol, bebidas, beneficiamentos de grãos e de frutos, incluindo a castanha de caju. Na produção de etanol merecem destaques os projetos da indústria Cluster Bioenergia com investimentos de aproximadamente de R$ 2,8 bilhões em três destilarias e 180 mil hectares plantados com cana-de-açúcar; um grupo de empresários com US$ 3 bilhões e 85 mil hectares plantados com cana-de-açúcar e 10 mil hectares de eucalipto, Brenco Poliduto e Usina com investimentos de R$ 2,8 bilhões (SEPLAN, 2011). De certa maneira observa-se a necessidade de rediscutir algumas ações sobre o controle de gestão exercido pelo Estado, embasado em algumas discussões: 1. Intensificar a difusão da legislaçao (Estatuto das Cidades, Consórcios Públicos, Lei do Saneamento, e Habitação Popular, Parcerias Público-Privadas), referentes ao planejamento e gestão das cidades e o desenvovimento urbano através da realização de cursos, seminários, oficinas e fóruns regionais ; 2. Divulgar a lei dos consórcios, visando a sua potencialização e operacionalização, como instrumento de gestão e cooperação com o aumento da capacidade administrativa dos municípios da região; 3. Definir um programa permanente e descentralizado (equipes estaduais) de assistência técnica e capacitação na área do planejamento e gestão das cidades com destaque para elaboração e gestão compartilhada dos planos diretores muncipais e dos planos setoriais; 4. Fomentar a cooperação financeira (cooperativas, associações e consórcios) para realização de obras de infraestrutura e ações conjuntas e a descentralização de recursos. 5. Ampliar, viabilizar e desburocratizar o apoio e financiamento para apoiar projetos de modernização administrativa dos municípios, através do Governo Federal e Estadual e dos agentes financeiros; 6. Promover a estruturação e integração dos órgãos de planejamento e desenvolvimento urbano na administração municipal; 7. Estruturar e implementar em todos os municípios os Conselhos das Cidades, com capacitação dos seus membros; 56 A realização das Conferências das Cidades de caráter estadual, regional e municipal a partir de 2003, vem recuperando a responsabilidade do Estado na execução e implementação das políticas públicas de desenvolvimento regional e urbano, cuja missão maior é a de inserir no processo de desenvolvimento, a dimensão da sustentabilidade espacial, contribuindo dessa maneira para a redução das desigualdades regionais e sociais no Estado. 2.1.2 Mato Grosso e suas relações com o Mercado Externo O estado de Mato Grosso tem uma posição destacada no mercado mundial de alimentos e energia (etanol). O Estado contribui, atualmente, com 5,52% das exportações brasileiras e exportou, em 2010, cerca de US$ 8,45 bilhões. A maior parte das exportações mato-grossenses é de produtos alimentícios, principalmente grãos que atendem à crescente demanda mundial. Ao comparar a evolução da balança comercial do Brasil com a do estado de Mato Grosso pode-se observar que ocorreram registros de déficit nos saldos da balança comercial do Brasil no período 1996-2000. A partir de 2001, houve uma inversão e passou a apresentar superávit de US$ 2,68 bilhões. Por sua vez, no mesmo ano, o superávit da balança comercial de Mato Grosso foi de US$ 1,26 bilhão. Portanto, esse valor respondeu por aproximadamente 47% do superávit registrado na balança comercial do País nesse mesmo ano, apontando a importância dos produtos comercializados pelo estado de Mato Grosso no comércio internacional e a sua contribuição para os saldos positivos registrados na balança comercial do País, que do ponto de vista econômico pode representar importantes resultados no contexto estadual, porém é importante destacar que o estado precisa buscar a diversificação das cadeias produtivas, descentralizando a economia para outras regiões, podendo beneficiar programas e ações de âmbito social. Os resultados mais recentes (2001-2010) apontam saldos expressivos na balança comercial do estado de Mato Grosso que passaram de US$ 1,26 bilhões em 2001 para mais de US$ 7,4 bilhões em 2010. 57 Tabela 03: Brasil e Mato Grosso - Balança Comercial – 1996 a 2010 – US$ Bilhões Fonte: Base de dados do Sistema ALICE/SECEX. Os resultados positivos na balança comercial do Estado e a sua contribuição para os saldos da balança brasileira são expressivos. Observa-se, no entanto, uma nítida concentração das exportações em alguns poucos produtos: soja, milho, carne e algodão. Gráfico 02: Participação dos produtos nas exportações de Mato Grosso em 2009 Fonte: Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. 58 Um fato interessante a destacar é que mesmo exportando produtos primários há ampliação dos parceiros comerciais, sobretudo os países asiáticos. Eles têm contribuído para com os saldos positivos na balança comercial. Uma estratégia interessante seria focar os esforços no fortalecimento dessas parcerias, diversificar a pauta de exportações e aumentar o volume de produtos exportados com maior valor agregado. No que se refere aos parceiros comerciais do Estado, dentre os principais compradores situados na Ásia estão: China, Tailândia, Irã, Indonésia, Países Árabes e na Europa: Holanda, Espanha, França. Em dezembro de 2010 o valor exportado superou os US$ 633,49 milhões, possibilitando um incremento de 16%, em relação a 2009, no valor exportado. A China destaca-se por importar 27% dos nossos produtos, é seguida pela Holanda com 9% e pela Tailândia com 6%, conforme demonstrado no gráfico 03 abaixo. Pode-se perceber que essa é uma dinâmica não muito favorável ao Brasil, sobretudo ao estado de Mato Grosso que precisa agregar valor ao produto exportado, consequentemente gerar serviços (mão de obra), alavancando a economia regional do estado. Gráfico 03: Principais países importadores dos produtos mato-grossenses em 2010 Fonte: Base de dados do Sistema ALICE/SECEX. Em contrapartida são importados produtos principalmente da BELARUS, Rússia e Estados Unidos com 17%, 13% e 12% respectivamente. A nossa pauta de importação está associada à importação de insumos agrícolas e bens de capital. Uma nota interessante a 59 destacar é de que apenas 10 países representam mais de 85% de tudo que Mato Grosso importa. Dessa forma, é pertinente apontar a dependência existente em Mato Grosso no que se refere à importação de insumos para a produção de grãos, visto que dentre os produtos importados estão: máquinas e equipamentos, uréia, nitratos e adubos de forma geral. Insumos básicos para a produção de soja, milho e algodão que são os principais itens exportados pelo Estado. Gráfico 04: Principais países exportadores para Mato Grosso em 2010 Fonte: Base de dados do Sistema ALICE/SECEX. Neste sentido, é preciso verificar se existe vantagem comparativa e competitiva ao exportar poucos produtos de menor valor agregado. Devemos também avaliar a dependência que temos dos fornecedores de insumos por um número reduzido de países fornecedores, e por último, buscar a diversificação dos produtos para ampliar a pauta de exportação, sobretudo, de bens industrializados. 2.1.3 Dinâmica de Mato Grosso frente ao Mercado Interno Com uma população relativamente pequena se comparada aos grandes centros consumidores do país e com uma renda média considerável, o mercado interno de Mato 60 Grosso não tem um mercado amplo para criação de uma base produtiva de bens e serviços voltados para as demandas do próprio Estado. A base produtiva da economia de Mato Grosso é fortemente voltada para exportação, equivalente a 31,06% do PIB e em outra ponta, destina boa parte para o restante do Brasil, o que diminui a orientação produtiva para o mercado interno, pode expressar que é relativamente, restrito. Vale destacar que o Estado tem um PIB per capita elevado, próximo a R$ 17.927,00 em 2008, acima da média nacional. Além disso, Mato Grosso tem uma renda bem menos concentrada que a média do Brasil, uma das maiores dos estados brasileiros, isso reflete na baixa concentração de renda e no poder de compra de uma parcela elevada da população. O Estado, todavia, apresenta elevada desigualdade na distribuição da riqueza entre as regiões e isso ocasiona um desenvolvimento desigual. A produção da agricultura familiar, no tocante ao atendimento da demanda interna de alimento, tem destacada importância, tanto na produção de alimentos quanto na geração de emprego e renda e, principalmente, na redução da pobreza rural, caracterizando como pontuais arranjos produtivos locais. Outro fator que contribui para o baixo destaque do mercado interno e para o aumento na participação de produtos no mercado externo é o reduzido encadeamento das cadeias produtivas. Tal fato diminui o valor agregado e inibe o efeito de transbordamento destas cadeias na economia, no emprego e na renda da população. Por isso, grande parte dos empregos indiretos dessas atividades não se realiza no Estado e, como consequência, a renda é direcionada para outros locais (outros estados e países). Devido a esses fatores o futuro do mercado interno de Mato Grosso depende, principalmente do crescimento da economia, mas também, da geração e distribuição da renda interna, por meio do encadeamento produtivo. 2.1.4 Investimentos em infraestrutura econômica e logística A deficiência de infraestrutura econômica é um dos grandes estrangulamentos em Mato Grosso, fator que reduz a competitividade da economia mato-grossense. As distâncias dos centros de produção e a ampla dimensão territorial mato-grossense demandam uma malha 61 mais ampla e multimodal de transporte. A malha viária é reduzida e a má qualidade de grande parte do sistema de transporte rodoviário eleva os custos de frete, e também, o tempo de deslocamento das pessoas e das mercadorias e neutraliza parte das vantagens competitivas do agronegócio (SEPLAN, 2011). A grande restrição à competitividade sistêmica de Mato Grosso, reside na distância dos portos e nas dificuldades da infraestrutura e logística da economia mato-grossense, principalmente no transporte. Estas restrições comprometem também a integração da economia nacional, pela importância geopolítica do Estado e possibilidade de integração continental que passa pelo seu território. Até 2010, segundo relatório do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo Federal foram investidos R$ 19,6 bilhões. Desses R$ 6,6 bilhões, foram alocados no segmento energético. Em logística foram investidos R$ 3,9 bilhões, em energia, aproximadamente R$ 12,61 bilhões e mais de R$ 3,08 bilhões no segmento social e urbano. Vários projetos de investimento na infraestrutura de Mato Grosso estão previstos no PAC para os próximos anos, de acordo com as previsões estabelecidas no programa. Alguns deles em fase de implantação, como o início do novo trecho das obras da Ferronorte (Ferrovia criada com o propósito de ligar Porto Velho - RO à Santarém - PA), em parceria com o setor privado. Esses projetos devem ampliar a rede de logística e armazenagem do Estado, pois ambas constituem também um gargalo sério a comercialização de grãos do Estado. Os projetos de investimentos previstos pelo PAC complementam e ampliam os que foram definidos para o período anterior. Apenas para transporte estavam previstos projetos de R$ 3,6 bilhões no Centro-oeste, parte dos quais em Mato Grosso ou conectando o Estado ao Brasil. A maioria destes ainda não concluídos ou nem mesmo iniciados. Dentre os projetos previstos está a continuidade das obras nas rodovias matogrossenses, sob a responsabilidade do Governo Federal que consistem na duplicação da BR 163, continuidade da pavimentação da BR 163, além de outras obras a serem concluídas nas rodovias estaduais, por exemplo a MT-158 e a MT-242. No que se refere à infraestrutura de armazenagem, fundamental para a logística da economia agropecuária, Mato Grosso apresenta um cenário positivo em sua rede de centros de armazenamento e distribuição, embora ainda com restrições e deficiências para acompanhar um ciclo de crescimento econômico. Uma das principais dificuldades de acesso à armazenagem pelos pequenos e médios produtores. 62 Estão previstos, em decorrência da realização da copa do mundo, investimentos vultosos em logística com a melhoria da infraestrutura aeroportuária, em especial, destaque para as cidades que compõem a área de influência de ações desenvolvidas para a copa do mundo. Para o aeroporto internacional de Cuiabá, nessa primeira etapa estão sendo previstos investimentos que totalizam R$ 2,250 milhões para ampliar a capacidade de atendimento para 700 mil pessoas ao mês até que o terminal de desembarque definitivo seja realizado. Estão previstos R$ 428 milhões para a infraestrutura turística, em conformidade com a parceria Governo Federal e Governo do Estado. Eles serão investidos em ações que promovam o desenvolvimento estratégico da cadeia produtiva do turismo e que expandam as atividades turísticas nas suas diferentes modalidades como: turismo ecológico, rural esportivo, de negócios, e também, eventos que promovam o potencial turístico do Estado, indispensáveis ao desenvolvimento do turismo. São contempladas, ainda, ações que promovam a estruturação e formatação de produtos turísticos, a certificação da qualidade dos empreendimentos turísticos e apoio às iniciativas regionais de turismo. Segundo relatório de investimentos da Agência Estadual de Execução dos Projetos da Copa do Mundo do Pantanal (AGECOPA), foram previstos para os próximos 3 anos R$ 1,126 bilhões dos quais R$ 707,047 milhões estão previstos para 2012, outros R$ 230,166 milhões para 2013 e para 2014 R$ 177,862 milhões serão investidos na melhoria da infraestrutura da região. 2.2 DIAGNÓSTICO SOCIAL E LOCALIZAÇÃO DE MATO GROSSO O estado de Mato Grosso situa-se na Região Centro-Oeste do Brasil e localiza-se na porção central do continente sul-americano. Sua superfície é de 903.357,91 km². Limita-se ao Norte com os estados do Pará e do Amazonas, ao Sul com Mato Grosso do Sul, a Leste com Goiás e Tocantins e a Oeste com Rondônia e Bolívia. 63 Mapa 01: Localização geográfica do Estado de Mato Grosso Fonte: IBGE, anuário estatístico do Brasil, 2009. O Estado possui 141 municípios distribuídos em 12 Regiões de Planejamento, conforme se verifica no mapa a seguir. 64 Mapa 02: Regiões de planejamento do Estado de Mato Grosso Fonte: Secretaria de Estado de Planejamento e Coordenação Geral - MT – 2011. 2.2.1 Dimensão Social Jornalistas, lideranças populares, políticos e a população em geral utilizam-se, cada vez mais de indicadores sociais para avaliar os avanços ou retrocessos nas condições de vida da população, apontam a eficácia ou ineficácia dos resultados das políticas públicas. Os indicadores sociais passaram a integrar, finalmente, depois de alguns anos, o vocabulário corrente dos agentes políticos responsáveis para as definições das prioridades das políticas sociais e alocação dos recursos públicos. Hoje, os indicadores sociais deixaram de figurar apenas nos diagnósticos e relatórios governamentais e ganharam um papel mais relevante nas arenas de discussão político-social da sociedade brasileira. É importante destacar que no Brasil o trabalho sistemático de captação e organização das estatísticas socioeconômicas são essenciais para o avanço na qualidade dos diagnósticos de problemas e na proposição de caminhos para enfrentá-los, a par de, concomitantemente, prover meios para que os profissionais da área, em seus contínuos aprendizados, aperfeiçoem experienciais e se equipem para novos desafios. 65 É nesse sentido, que a Secretaria de Estado de Planejamento de Mato Grosso, responsável em coordenar o planejamento no nosso Estado, tem se dedicado a atender essas demandas, aperfeiçoando cada vez mais sua condição de disseminadora, coordenadora e produtora de informações. 2.2.2 Crescimento regional cumulativo e dinâmica demográfica O estado de Mato Grosso, de acordo com dados do IBGE, possuía 192.531 habitantes em 1940, já em 2010, aproximadamente 70 anos depois, este número subiu para 3.033.991 de habitantes. Vivem na zona urbana 81,9% da população e 18,1% da zona rural. O número de homens corresponde a 51,05% da população e está ligeiramente superior ao de mulheres que representam 48,95%. A área geográfica do Estado é de 903.357,9 km² e apresenta uma densidade demográfica de 3,36 hab/km². Gráfico 05: Evolução da população do Estado de Mato Grosso 1940-2010 Fonte: SEI/SEPLAN – Cálculos elaborados a partir dos censos populacionais. Elaboração: SEPLAN – MT/ Superintendência de Estudos e Informações – SEI. Mato Grosso passou por um lento processo de crescimento populacional entre 1940 e 1970. O Programa Federal “Marcha para o Oeste”, no período 1930/1950, objetivava dar início ao processo de integração do Estado com o território nacional, por meio de políticas de 66 integração e garantia dos limites territoriais nas áreas de fronteiras. Essas ações pouco contribuíram para o incremento populacional e, consequentemente, para a fixação do homem à terra. Foi com a construção de Brasília que começou, efetivamente, o processo de ocupação e integração da Região Centro-Oeste ao território nacional. Sobretudo, devido aos reforços dos investimentos governamentais em infraestrutura viária na região. O processo contava com uma forte política nacional de apoio na mobilização de recursos destinados ao financiamento das empresas e nas obras de infraestrutura, com destaque para a rodovia Belém-Brasília, abertura das BRs-364 e 163 e a implementação de programas de ocupação e colonização na região. Tabela 04: Evolução da taxa média geométrica de crescimento anual no Estado de Mato Grosso Fonte: IBGE. Elaboração: SEPLAN-MT / Superintendência de Estudos e Informações (SEI). Na década de 1970/1980, a população de Mato Grosso obteve um crescimento anual de 6,62%; de 4,05% do Centro-Oeste e de 2,48% do Brasil. No período entre 1980/1991, Mato Grosso apresentou um crescimento populacional anual na ordem de 5,38%, bem superior à taxa do Brasil que foi de 1,93%. Continuava essa década igual à anterior, mostrando forte crescimento populacional alicerçado, fundamentalmente, na migração, pois tratava-se de uma área recente de fronteira agrícola. A partir de 1991 começou a retração do crescimento populacional no estado de Mato Grosso que se mostra válido até a data atual, com taxa de crescimento anual em torno de 2%. Podemos dizer, em primeiro lugar, que a principal causa da desaceleração nas taxas de crescimento populacional, nos períodos mais recentes, foi a drástica diminuição dos fluxos migratórios dirigidos para Mato Grosso, ocasionados principalmente pelo “fechamento da 67 fronteira agrícola”. Outro fator foi a queda generalizada das taxas de fecundidade, em todo o país, que refletem, diretamente, sobre o crescimento demográfico. Dessa forma, com o declínio rápido e generalizado da fecundidade no Brasil, como ocorre também nos países desenvolvidos e em alguns do terceiro mundo, é bastante realista supor que ao final da segunda década deste século, a população do Brasil deverá apresentar níveis de fecundidade e mortalidade que, a longo prazo, apresentem taxas de crescimento em torno de zero. Pode-se prever para o estado de Mato Grosso um cenário próximo ao da realidade brasileira, o que acarretará novos desafios por parte do poder público. Uma população com crescimento bem inferior ao que vinha acontecendo em décadas passadas e com baixo índice de mortalidade infantil e fecundidade influenciará diretamente na estrutura socioeconômica da população mato-grossense. 2.3 POLÍTICAS PÚBLICAS E DESENVOLVIMENTO LOCAL EM CÁCERES - MT Sabe-se que a mineração, a agricultura e o extrativismo foram atividades econômicas predominantes na fronteira de Mato Grosso com a Bolívia, na fase de colonização e em parte do século XX. Uma das atividades econômicas que nem sempre é descrita é a especulação da terra. Os processos de colonização atraem especuladores e a ação do Estado via dotação de infraestrutura valoriza o espaço. Os especuladores acumulam capital não produtivo que também circula no mercado e reproduz economias e, de alguma forma, essa economia produzida, dinamiza as formas de ocupação do espaço urbano, como o comércio, a especulação imobiliária, os serviços públicos e privados e, junto a esse processo, se intensificam as migrações na procura por emprego e trabalho. Entretanto, deve-se ponderar que os processos não são mecânicos e, portanto, não são lineares. Quase sempre não ocorrem no tempo exigido pelas conjunturas da modernização. Ou seja, o tempo real do modelo de produção agrário e urbano e das necessidades de acumulação dos especuladores, do espaço, em especial os do solo, não têm sincronia com tempo real das necessidades da modernização capitalista. Entretanto, a acumulação produzida pelos especuladores se realiza em algum lugar que pode não ser o lugar de materialização da 68 especulação. As investidas do capital ao nível local estão articuladas com os processos regionais e globais. No contraponto de sua modernização e opulência encontra-se também um denso processo de favelização e empobrecimento de áreas populares periféricas. Nesse processo de modernização econômica as diferenças espaciais também se acentuam ao nível das microrregiões. Por outro lado, os territórios “periféricos” da modernização reagem e tentam utilizar novas funções complementares no cerne do desenvolvimento capitalista central, com forte inserção nas atuais formas reprodutivas na região Centro-Oeste. No Estado de Mato Grosso, na microrregião de Cáceres, na fase atual, deve-se considerar a importância da instalação dos cursos universitários e tecnológicos, principalmente por parte da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT) e do Instituto Federal Mato-grossense, bem como a dinamização do atendimento médico através dos hospitais Regional e Municipal. É necessário observar que, a partir dos anos 1980 a região Centro-Oeste é alvo de uma nova fase de expansão do desenvolvimento movido pela inserção de capital, através da modernização da agricultura, principalmente em Mato Grosso, expandindo-se e modernizando ainda mais em direção ao Norte do Estado, pela BR-163 e pela BR-158, com processos e formas diferenciadas na ocupação do espaço em função das questões ambientais em ambos os espaços. De acordo com informações repassadas pelos produtores, na BR-163, tanto a questão indígena como os problemas que envolvem a preservação ambiental, implica dificuldades de escoamento de produção atravessando o Estado do Pará saindo pelo Oceano Atlântico, em direção à Europa. Nas tentativas de integração da cidade de Cáceres à modernização e aos processos de expansão do desenvolvimento vigente em Mato Grosso, retomam-se as propostas de Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs), propostas em governos anteriores e retomadas na atual conjuntura. Somadas a essa instalação das ZPEs caminham em paralelo as tentativas de utilização do escoamento de grãos produzidos em Mato Grosso pela Hidrovia ParanáParaguai, em processo de discussão, porém embargada pelo Ministério Público Federal devido às questões ambientais em relação à utilização do Rio Paraguai e dos impactos ambientais sobre ecossistemas do Pantanal mato-grossense. Considere-se também a instalação do novo aeroporto em Cáceres, como apoio logístico à sua articulação regional e com mercado sul americano. 69 CAPÍTULO III LIMITES E POSSIBILIDADES DA IMPLANTAÇÃO DE UMA ZPE - ZONA DE PROCESSAMENTO DE EXPORTAÇÃO EM CÁCERES - MT – ARTICULAÇÕES INSTITUCIONAIS E INTERESSES ECONÔMICOS Este capítulo tem como proposta identificar e discutir, as articulações institucionais entre os agentes econômicos regionais, no processo de implantação da ZPE em Cáceres - MT. Nesta perspectiva, iremos apresentar a importância da ZPE como instrumento de políticas públicas que, visa o desenvolvimento sob a ótica de dinamizar a desigualdade regional. Busca-se, portanto, analisar a dimensão legal, econômica, política e social, para melhor entender o contexto regional de desenvolvimento do Estado de Mato Grosso. 3.1 OS LIMITES E AS POSSIBILIDADES DE UMA POLÍTICA PÚBLICA DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL A princípio, poder-se-ia chamar de política pública regional o conjunto de normas, diretrizes e ações de natureza pública privada que tenham como uma de suas funções ou consequências, fazer convergir a renda de uma região para a renda média territorial (estado/país) reduzindo as disparidades regionais. Cabe ressaltar que o interesse básico que deve permear o processo é o desenvolvimento dos seres humanos e não de territórios, que são apenas instrumentos de maior ou menor eficácia para esse fim. Assim, pode-se confiar na organização autônoma de um sistema técnico, econômicosocial e ver o desenvolvimento como uma emergência sistêmica, gerada a partir de certo nível de complexidade dos territórios. Alguns fracassos podem ser evidenciados pela carência cognitiva e uma deficiência de metodologia para tratar da questão regional, enfatizando que a cooperação entre a sociedade 70 civil e a sociedade política foi o ponto chave para superar as deficiências e os procedimentos centralizados e verticalizados do passado. A articulação entre políticas setoriais e território no Brasil, como vem ocorrendo até os dias atuais, consistiu fundamentalmente em distribuir incentivos e conceder isenções como formas de estímulo à localização produtiva em regiões deprimidas com base numa decisão do Estado e na execução e controle de suas agências regionais. As superintendências, os bancos regionais e os fundos constitucionais respondem a essa lógica distributiva própria a um período histórico de construção do estado, cuja exaustão se revela nas ideias atuais de governança, de parceria público-privado e de Estado em rede (AMARAL, 2005). O reforço das atividades econômicas nas sociedades contemporâneas passa menos pela capacidade de o Estado central determinar onde vão situar certas empresas que, no poder de estimular o surgimento do empreendedorismo, de um ambiente localizado propício ao reforço do tecido produtivo de cada região. Por outro lado, constata-se que o processo de desenvolvimento é cada vez mais resultado do esforço organizado de toda a sociedade. Fica clara a necessidade de uma reinvenção da gestão pública em que características como a visão de longo prazo, a articulação com os diferentes atores sociais e territoriais, a introdução de uma cultura de cooperação e inovação tecnológica se tornam marcantes e necessárias. Portanto, podemos definir o desenvolvimento regional, em suas diferenças e potencialidades, conferindo às regiões o papel de autodeterminadoras do seu desenvolvimento. É a valorização de um modelo específico para cada região, que ela mesma define, em função de suas reais potencialidades de expansão produtiva e da preservação de seus recursos culturais e ambientais. Aprofundando melhor, Amaral (2005) defende que por meio das práticas da descentralização, tem-se o Estado criando condições para que o ambiente regional assuma as questões ligadas ao crescimento econômico, com o fortalecimento da identidade regional. Nesse contexto, é importante discutir a dimensão política do desenvolvimento regional, ou seja, a questão do poder político. O argumento básico é que todas as regiões se encontram articuladas entre si por relação de dominação e dependência, hierarquicamente ordenadas, o que significa que um dos principais problemas para as regiões é substituir total ou em parte este tipo de relação de dominação/dependência para uma relação cooperativa. Uma região pode acumular poder político por dois processos, quais sejam: a descentralização e a criação de poder político. O primeiro dá-se através de um projeto 71 nacional/estadual descentralizador, e o segundo mediante o consenso político, pactos territoriais, a cultura de cooperação e a capacidade de criar, principalmente, de forma coletiva, um projeto político, baseado numa visão estratégica de desenvolvimento regional. Se o desenvolvimento regional é o resultado do esforço organizado de toda a sociedade, parece clara a necessidade de novas formulações mais pragmáticas, onde os territórios exerçam um papel fundamental. Nesse sentido, um dos condicionantes é a reinvenção da gestão pública a fim de incorporar uma concepção integral da inovação tecnológica como um processo de mudança social, institucional e cultural, na qual a articulação entre os diferentes atores sociais territoriais substitua o planejamento centralizado. Primeiramente a estratégia predominante é de ter uma visão territorial e não apenas do desenvolvimento, pois o objetivo é a inovação, qualidade e flexibilidade e não apenas crescimento quantitativo, que serão viabilizados através de mobilização do potencial endógeno com a utilização dos recursos locais. A gestão do desenvolvimento é compartilhada e local através de organizações intermediárias e dos diversos atores sociais. Por outro lado, impulsionar as iniciativas locais em favor do desenvolvimento por parte dos poderes públicos não consiste em colocar os atores sociais sob sua tutela, mas, ao contrário, em ajudar a construir os mercados de serviços empresariais e tecnológicos estratégicos para a produção, a fim de tornar acessíveis aos sistemas produtivos locais com o fortalecimento dos territórios. 3.2 ZPE - ZONA DE PROCESSAMENTO DE EXPORTAÇÃO As Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs) são distritos industriais, onde as empresas neles localizadas operam com isenção de impostos e liberdade cambial (não sendo obrigadas a converter em reais as divisas obtidas nas exportações), com a condição de destinarem a maior parte de sua produção ao mercado externo (ABRAZPE, 2011). Esses distritos, que recebem diferentes denominações (ZPE, Zona Franca, Zona Econômica Especial, Zona de Livre Comércio, “Foreign-trade zones”; Subzones, Zonas de Desenvolvimento, etc.) segundo os países iniciadores na criação, são instrumentos bastante utilizados no mundo para, simultaneamente: atrair investimentos estrangeiros voltados para as exportações; colocar as empresas nacionais em igualdade de condições com seus concorrentes localizados em outros países, que dispõem de mecanismos semelhantes; criar empregos; 72 aumentar o valor agregado das exportações; difundir novas tecnologias e corrigir desequilíbrios regionais. No Brasil essas áreas receberam o nome de Zona de Processamento de Exportação (ZPE). No final dos anos 80, quando o programa das ZPEs foi criado, havia uma forte oposição do meio empresarial, especialmente o representado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP). Isso era fácil de explicar: não tinha ocorrido ainda à abertura econômica e a indústria era muito protegida. Nessas condições, qualquer sinalização de que se pudesse alterar essa situação era imediatamente combatida. Embora as ZPEs fossem concebidas para exportar (e não para vender no mercado interno, com incentivos), os empresários temiam que as ZPEs se transformassem em novas “Zonas Francas de Manaus” (SENADO FEDERAL, 2011). Hoje, de um modo geral, os empresários brasileiros já se ajustaram às contingências da economia globalizada, que obriga à convivência com as importações e com a concorrência externa. Vários líderes empresariais importantes já recomendaram a implantação das ZPEs no Brasil. As manifestações em contrário são residuais e decorrem basicamente do desconhecimento das verdadeiras características do mecanismo e das salvaguardas incluídas na legislação para assegurar uma concorrência leal com as demais empresas localizadas no País. No Congresso Nacional durante mais de 12 anos de tramitação do projeto de lei nº 196/1996, que deu origem à atual Lei nº 11.508/2007. Foi ampla e democraticamente discutido, aprovada três vezes pelo Plenário do Senado Federal e pelo Plenário e mais quatro comissões da Câmara dos Deputados (Comissões de Trabalho, de Desenvolvimento e Indústria, de Finanças e Tributação, e de Constituição e Justiça). Atualmente, há uma quase unanimidade entre os políticos quanto à importância estratégica das ZPEs para o Brasil. Mesmo políticos que, em algum momento, se opuseram ao mecanismo passaram a divulgar suas vantagens e a recomendar às suas bases eleitorais que se candidatassem a sediar uma ZPE. O Ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva já havia em seu governo se pronunciado, repetidas vezes, a favor da rápida implementação do programa das ZPEs. Da mesma forma, a maioria dos governadores de Estado também se posicionou favoravelmente ao mecanismo, sendo que vários deles já encaminharam proposta de criação de ZPEs (que até então não 73 existia) ou de sua relocalização para áreas mais adequadas, de conformidade com as novas estratégias de desenvolvimento de seus governos (SENADO FEDERAL, 2011). EXPERIÊNCIA INTERNACIONAL As ZPEs são o instrumento mais utilizado no mundo para promover, simultaneamente, os seguintes objetivos: - Atrair investimentos estrangeiros voltados para as exportações; - Colocar as empresas nacionais em igualdade de condições com seus concorrentes localizados em outros países, que dispõem de mecanismos semelhantes; - Criar empregos; - Aumentar o valor agregado das exportações e fortalecer o balanço de pagamentos; - Difundir novas tecnologias e práticas mais modernas de gestão; - Corrigir desequilíbrios regionais. Com diferentes nomes, as ZPEs são utilizadas em praticamente todos os países do mundo, independentemente do nível de desenvolvimento e do regime econômico adotado. Existem ZPEs nos Estados Unidos, na União Europeia, na Ásia, na África e nas Américas do Sul e Central. De acordo com dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) existem no mundo inteiro mais de 3 mil zonas desse gênero, responsáveis pela geração de mais de 37 milhões de empregos. Na China são mais de 30 milhões de pessoas empregadas nas chamadas “special economic zones” (CIEN-MT; FIEMT. 2009). Algumas críticas voltam-se contra a incompatibilidade entre a legislação que regulamenta as ZPEs e as normas estabelecidas pela Organização Mundial do Comércio. A China, Estados Unidos e México são os países que mais utilizam o mecanismo de zonas especiais de produção destinada à exportação. Na China já são mais de 200 do gênero. Ao final dos anos 90, os Estados Unidos já contavam com mais de 150 “foreign-trade zones”. Além dessas, existem mais de 256 empresas isoladas, denominadas de “subzones”, que recebem o mesmo tratamento fiscal e administrativo das anteriores. No México, ao final da década de 90, encontravam-se em funcionamento 107 zonas especiais, com a geração de mais de 1,3 milhões de empregos (CIEN-MT; FIEMT, 2009). Além desses países, vale ainda mencionar mais alguns exemplos de áreas especiais de produção: União Europeia 33 zonas francas; Índia 10, Comunidade Andina 40, (Bolívia-15, 74 Colômbia-12, Equador-6, Peru-4 e Venezuela-3); Emirados Árabes 9; Filipinas 142; Indonésia 25; Polônia 17; Tailândia 27. Os jatos regionais da Bombardier no Canadá são produzidos em uma “foreign-trade zone” localizada em Montreal (CIEN-MT; FIEMT, 2009). Mesmo tendo várias zonas francas, os países europeus asseguram o “status” de ZPE para todas as suas empresas, onde quer que elas se localizem. Não precisam ficar agrupadas em ZPEs/Zonas Francas. O normal, porém, inclusive nos EUA, é a delimitação de áreas, onde as empresas são concentradas, para facilitar o controle aduaneiro. A parcela da produção vendida no mercado doméstico paga integralmente o imposto de importação sobre o conteúdo importado, e todos os impostos indiretos calculados sobre o preço total dos produtos. A maioria dos países utiliza essas zonas também como um instrumento de descentralização da atividade industrial, ou seja, como mecanismo de desenvolvimento regional, que é o objetivo que acreditamos ser possível alcançar no Brasil (ABRAZPE, 2011). Figura 01: Evolução histórica das ZPEs no Mundo Fonte: ABRAZPE, 2011. ZPES NO BRASIL As ZPEs no Brasil foram criadas pelo Decreto-Lei 2.452/88 (alterado pelas Leis 8.396/92 e 8.924/94). Essa lei proíbe que os bens produzidos sejam vendidos no mercado interno. Entre os anos de 1988 e 1994 foram criadas, por meio de Decreto Presidencial 17 ZPEs, embora nenhuma delas esteja em funcionamento. Quatro estão com obras de 75 infraestrutura (cercas, acessos, instalações para a Receita Federal, sistema de vigilância, etc.) prontas, mas não obtiveram alvará de funcionamento pela Receita Federal. O Projeto de Lei do Senado (nº 146/96) de autoria do então Senador Joel de Hollanda faculta a venda de 20% do valor da produção das ZPEs no mercado interno, desde que sejam recolhidos todos os tributos, inclusive os incidentes sobre os insumos importados para a produção dos bens em questão. Esse PLS já foi aprovado no Senado em 2001 e encaminhado para a Câmara dos Deputados (PL 5.456/2001), onde foi objeto de algumas emendas que devem ser apreciadas pelo Senado Federal. A criação de Zonas de Processamento de Exportações, sobretudo em áreas menos desenvolvidas, busca a promoção da redução das desigualdades regionais, com o aumento das exportações, da entrada de divisas internacionais. As empresas instaladas nas ZPEs gozarão dos seguintes incentivos na esfera federal (Lei 11.508, com as alterações introduzidas pela Lei 11.732/2008): Suspensão de impostos e contribuições federais (Imposto de Importação, IPI) - As empresas poderão destinar o correspondente a até 20% do valor da receita bruta resultante da venda de bens e serviços para o mercado interno. Sobre estas vendas incidirão, integralmente, todos os impostos e contribuições normais sobre a operação e mais os impostos/contribuições suspensos quando da importação e aquisição de insumos no mercado interno; As empresas implantadas em ZPE localizada nas áreas da SUDAM ou da SUDENE terão direito à redução de 75% do Imposto de Renda pelo prazo de 10 anos; As empresas terão “liberdade cambial” (poderão manter no exterior 100% das divisas obtidas nas suas exportações); Os tratamentos fiscal, cambial e administrativo resumidos acima serão assegurados pelo prazo de até 20 anos; e As empresas em ZPE poderão se beneficiar ainda da isenção do Imposto sobre Circulação de Mercadorias (ICMS) nas importações e nas compras no mercado interno. O Convênio ICMS 99/1998 do Conselho Nacional de Política Fazendária (CONFAZ), autoriza a isenção do ICMS nas saídas destinadas aos estabelecimentos localizados em ZPEs; na entrada de mercadorias de bens importados do exterior; e na prestação do serviço de transporte de mercadorias ou bens entre as ZPEs e os locais de embarque / desembarque. 76 Administrativamente, o programa das ZPEs integra a estrutura do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, cabendo ao Conselho Nacional das Zonas de Processamento de Exportação (CZPE) aprovar a criação de ZPEs, autorizar a instalação de projetos industriais nas ZPEs e disciplinar os vários aspectos relativos ao funcionamento do programa. O CZPE é composto pelos Ministros do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (presidente), da Fazenda, da Integração Nacional, do Meio Ambiente e do Planejamento. A literatura internacional não inclui a Zona Franca de Manaus (ZFM) na categoria de zonas francas/ZPEs. A característica essencial desses mecanismos é a vinculação dos incentivos às exportações – e esta vinculação não constitui uma exigência na ZFM. Esta tem uma justificativa geopolítica, econômica e de integração nacional, mas não constitui uma ZPE. A falta de conhecimento dessas diferenças e a consequente associação das ZPEs à ZFM têm prejudicado o correto entendimento do programa (ABRAZPE, 2011). No resto do mundo, as vendas realizadas pelas zonas francas/ZPEs no mercado doméstico são tratadas rigorosamente como importações, ou seja, pagam integralmente os direitos alfandegários sobre o conteúdo importado, assim como todos os impostos indiretos (no caso brasileiro, pagarão IPI, ICMS, COFINS e PIS-PASEP). Por essa razão as zonas francas/ZPEs não acarretam concorrência desleal com as empresas localizadas fora delas. LEGISLAÇÃO BÁSICA DAS ZPES NO BRASIL A legislação básica das ZPEs no Brasil é a Lei nº 11.508/2007, com as alterações introduzidas pela Lei nº 11.732/2008, sancionada recentemente. A legislação básica será complementada pelo seu decreto de regulamentação e revisão das normas aduaneiras (a cargo da Receita Federal) e cambiais (de responsabilidade do Banco Central). O Conselho Nacional das Zonas de Processamento de Exportação (CZPE) deverá ainda atualizar suas várias resoluções, ainda baseadas na legislação anterior Decreto Lei nº 2.452/1988. 77 Figura 02: Localização das 17 ZPEs autorizadas por decreto presidencial Fonte: ABRAZPE, 2011. Município - Estado Data de Criação Tamanho (hectares) Maracanaú - CE 17/10/88 387,72 Macaíba – RN 17/10/88 200,78 Suape – PE 22/12/88 400,00 Parnaíba - PI 26/12/88 270,29 São Luís - MA 21/03/89 492,00 Situação Atual Está em andamento demanda do governador para cancelar essa autorização e transferir a ZPE para a retroárea do Porto do Pecém. Está sendo elaborado um projeto de transferência da ZPE para o Vale do Assú, no oeste do Estado. A ZPE será transferida para um terreno fora do Distrito Industrial de Suape, uma vez que a área inicial não está mais disponível. Em função da precariedade logística (perto de Parnaíba), a ZPE deverá ser transferida para um terreno próximo a Teresina, ao longo da Ferrovia que liga a Pecém (CE) e Itaqui (MA). A ZPE será transferida da Ilha de São Luiz (que não tem mais condições ambientais para receber grandes projetos siderúrgicos) para o Município de Bacabeira, no continente, em um terreno cortado pela Ferrovia de Carajás. 78 João Pessoa - PB 21/03/89 209,78 Barcarena - PA 17/08/93 925,71 N. S. do Socorro - SE 17/08/93 93,54 Araguaína – TO 06/09/89 300,00 Ilhéus – BA 02/05/89 225,00 Cáceres – MT 06/03/90 247,26 Rio Grande – RS* 30/11/93 543,78 Corumbá - MS 30/11/93 250,00 Vila Velha - ES 22/12/94 124,14 Imbituba – SC 28/04/94 200,57 Itaguaí – RJ 13/10/94 250,00 Teófilo Otoni – MG 13/10/94 14,31 A área inicial não está mais disponível, e a ZPE será transferida para outro terreno, ainda não definido. A área inicial não está mais disponível, e a ZPE será transferida de Barcarena para a Ponta da Tijoca, no nordeste do Estado. A ZPE será retomada, depois da recente construção de uma ponte sobre o Rio Sergipe, que deixa a área a menos de 20km da capital, Aracaju. Trabalhos de infraestrutura já concluídos. Aguardando alfandegamento pela Receita Federal. O projeto está sendo retomado, com a ampliação da área para 500ha. Aguardando início dos trabalhos de infraestrutura. Trabalhos de infraestrutura concluídos. Aguardando alfandegamento pela Receita Federal. Projeto sendo retomado, para sediar um pólo siderúrgico. Trabalhos de infraestrutura já iniciados. O projeto será retomado, possivelmente em outra localização. Trabalhos de infraestrutura concluídos. Aguardando alfandegamento pela Receita Federal. A ZPE será transferida do Município de Itaguaí para o Município de Caxias. Trabalhos de infraestrutura concluídos. Aguardando alfandegamento pela Receita Federal. Quadro 01: Descrição e situação das ZPEs criadas no Brasil Fonte: SENADO, 2011. O programa das ZPEs é administrado pelo Conselho Nacional das Zonas de Processamento de Exportação (CZPE), que é composto pelos Ministros do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (na qualidade de seu presidente), da Fazenda, da Integração Nacional, do Meio Ambiente, do Planejamento e da Casa Civil. O CZPE integra a estrutura administrativa do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) e a ele cabe aprovar a criação de ZPEs, autorizar a 79 instalação de projetos industriais nas ZPEs e disciplinar os vários aspectos relativos ao funcionamento do programa. O apoio técnico e administrativo ao Conselho é prestado por uma Secretaria-Executiva, também pertencente ao MDIC. A criação de ZPEs é feita através de decreto do Presidente da República, mediante proposta encaminhada por governador/prefeito municipal e aprovada pelo CZPE. As decisões do Conselho são publicadas no Diário Oficial da União. 3.3 PASSOS PARA IMPLANTAÇÃO DE UMA ZPE A solicitação de instalação de empresa em uma ZPE será realizada mediante apresentação de projetos, e deverá seguir os requisitos estabelecidos na Resolução CZPE n° 003. Os projetos submetidos à apreciação do CZPE deverão estar acompanhados de documento firmado pelo representante legal da Administradora da ZPE à qual se destinam, manifestando a aceitação do empreendimento. Nos projetos deverá constar relação dos produtos a serem fabricados de acordo com sua classificação na Nomenclatura Comum do MERCOSUL (NCM). Os projetos industriais deverão apresentar as seguintes informações (MDIC; SECEX, 2009): I - Dados gerais dos proponentes; II - Características do projeto; III - Aspectos econômico-financeiros; e IV - Estudo de Mercado. Os projetos de instalação industrial deverão apresentar a origem dos bens de capital e dos insumos, em valor absoluto, discriminando-os em nacionais ou importados. ANÁLISE A análise de projetos industriais obedecerá a roteiro a ser definido por Resolução do CZPE de utilização obrigatória pelos técnicos da Secretária-Executiva ou a seu serviço, encarregados dessa atividade (MDIC; SECEX, 2009). 80 Para fins de análise dos projetos, o CZPE levará em consideração as seguintes diretrizes: Atendimento às prioridades governamentais, sobretudo as contidas na PDP; e Valor dos investimentos totais da empresa interessada a operar em ZPE. A apreciação dos projetos de instalação de empresa em ZPE será realizada de acordo com a ordem de protocolo no CZPE. APROVAÇÃO Compete ao CZPE aprovar os projetos industriais, inclusive os de planta inicialmente instalada. Após a aprovação, os interessados deverão constituir empresa no prazo de noventa dias nos termos estabelecidos pelo CZPE. A inobservância do prazo citado acima implicará revogação do ato de aprovação do respectivo projeto. REQUISITOS GERAIS PARA A CRIAÇÃO E FUNCIONAMENTO DA ZPE: As ZPEs deverão ser criadas em regiões menos desenvolvidas. Observar o disposto na orientação superior da política das ZPEs, a ser fixada pelo CZPE. O Estado ou Município deverá prover a infraestrutura e serviços de utilidade pública que atendam à demanda gerada pela atividade desenvolvida na ZPE, por exemplo, transporte, energia elétrica e segurança pública. A proposta elaborada pelos Estados deve atender, rigorosamente, o disposto no art. 2º da Lei nº 11.508/2007 e no Decreto nº 6.814/2009. A proposta de criação da ZPE será examinada pelo CZPE, que, aprovando-a, recomendará sua criação ao Presidente da República. A administradora deverá arcar com os custos para as instalações e equipamentos necessários às atividades de controle, vigilância e administração aduaneira local. Antes de iniciar o funcionamento, a área da ZPE deverá ser devidamente alfandegada pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. 81 Produtos produzidos em ZPEs não podem gerar impactos negativos a indústria nacional. A produção e seus impactos serão monitorados pela Secretaria-Executiva do CZPE. REQUISITOS PARA AS EMPRESAS OPERAREM EM ZPE: A instalação de empresa em ZPE será feita mediante apresentação de projeto, sujeito à aprovação do CZPE. Devido ao seu caráter eminentemente exportador, as pessoas jurídicas instaladas em ZPE deverão auferir e manter, por ano-calendário, receita bruta decorrente de exportação para o exterior de, no mínimo, 80% (oitenta por cento) de sua receita bruta total de venda de bens e serviços. Ou seja, o comércio com o mercado interno só poderá representar 20% (vinte por cento) da receita bruta da empresa. A venda para o mercado interno representará fato gerador para a incidência de todos os tributos devidos. Além disso, serão pagos, culminados com mora, o Imposto de Importação (II) e o Adicional ao Frete para a Renovação da Marinha Mercante (AFRMM) suspensos ao longo do ciclo produtivo. A empresa instalada em ZPE não poderá constituir filial ou participar de outra pessoa jurídica fora da ZPE, ainda que para usufruir incentivos na legislação tributária. É vedada a simples transferência de planta industrial já existente para ZPE. A produção de armas, explosivos e material radioativo deverá ser autorizada por órgãos competentes. Outros produtos poderão ter sua produção impedida por regulamento. Aprovado o projeto de instalação pelo CZPE, os interessados deverão constituir empresa, no prazo de 90 dias, nos termos estabelecidos pelo CZPE. A empresa constituída, na forma descrita acima, assumirá compromisso, perante o CZPE, no prazo de trinta dias, contados de sua constituição, de: I - cumprir outras condições que, no exame do respectivo projeto, tenham sido formuladas pelo CZPE; e II - auferir e manter, por ano-calendário, receita bruta decorrente de exportação para o exterior conforme estabelecido em Lei. 82 VANTAGENS E DIFICULDADES Pesam nas vantagens de operar em ZPEs os incentivos fiscais e a simplificação das operações. Em suma (MDIC; SECEX, 2009): O fato de não haver necessidade de licenças, e estar em uma área alfandegada, com desembaraço aduaneiro no próprio local, implica sensível redução dos custos operacionais; Há flexibilização nos procedimentos importação de máquinas, aparelhos, instrumentos e equipamentos, inclusive usados; Ao contrário de outros regimes aduaneiros especiais, não há exigência de prazo máximo para efetivação de exportações com usufruto da suspensão de determinados tributos no momento da importação de insumos, bem como não há exigência de Licenças de Importação; Também em comparação com outros regimes, o grau de confiança é maior para o investidor, uma vez que não se sujeita à revogação e alteração, e tem o prazo mínimo de 20 anos. Em relação às dificuldades, destacam-se (MDIC; SECEX, 2009): O fato dos benefícios das empresas instaladas em ZPEs se restringirem aos expressos na Lei nº 11.508, as impedem de obter outros incentivos; Devido ao seu caráter eminentemente exportador, as ZPEs não são adequadas àqueles que desejam vender seus produtos ao mercado interno; e Elevado grau de exigência desde a apresentação da proposta de criação de ZPE. As ZPEs constituem uma ferramenta de política para o crescimento das exportações e desenvolvimento regional. Porém, o seu sucesso não dependerá somente da infraestrutura alocada, da simplificação de procedimentos administrativos e da segurança jurídica, mas também da integração de ações estratégicas na contribuição das estruturas produtivas e sociais das regiões em que serão instaladas. 83 3.4 AGENTES ECONÔMICOS LOCAIS A Criação da ZPE em Cáceres, Mato Grosso, objeto do Decreto nº 99.043, de 06 de março de 1990, tem como objetivo central o desenvolvimento socioeconômico matogrossense a ser alavancado através dos seguintes fatores (AZPEC S.A., 1995): a) verticalização da economia mato-grossense com uma maior incidência das atividades industriais em seu potencial produtivo; b) aumento das exportações, atualmente restrito à parcela de 0,70% do total nacional, através da agregação de valor aos produtos primários antes de sua efetiva exportação; c) interiorização do desenvolvimento, atualmente centralizado na região sul/sudeste do país, estimulando uma nova organização do espaço econômico nacional; d) criação de oportunidades de crescimento econômico para os setores produtivos locais; e) melhoria do nível de vida da população regional. Figura 03: Cronologia das ZPEs no Brasil Fonte: Eng. Adilson Reis. O desenvolvimento da economia mato-grossense depende da mobilização de novos fatores de transformação que possibilitem a mudança da atual fase pioneira, de extração e 84 comercialização primária de suas riquezas naturais, para estágios onde as estruturas econômicas do estado, fortalecidas pela industrialização, sejam mais integradas e estáveis, com menor grau de dependência das regiões mais desenvolvidas do país. A ZPE de Cáceres representa um passo importante no fortalecimento da economia do estado (AZPEC S.A., 1995). A escolha da cidade de Cáceres para implantação da ZPE, no estado de Mato Grosso é uma decorrência natural de fatores históricos, geográficos e econômicos ligados ao município. Figura 04: Imagens de Cáceres - MT Fonte: AZPEC – Administradora da Zona de Processamento de Exportação de Cáceres S.A. Cáceres - MT, centro urbano fluvial mais antigo da região do Alto Paraguai, tem raízes comerciais e políticas em sua história, tendo sido instalada ali uma das mais antigas casas de comércio do estado, como consequência da navegação fluvial no rio Paraguai (AZPEC S.A., 1995). 85 Mapa 03: Recursos Hídricos de Cáceres - MT Fonte: AZPEC – Administradora da Zona de Processamento de Exportação de Cáceres S.A. Num enfoque mais amplo, o Estado de Mato Grosso, estando na região central do continente, enfrenta atualmente grandes desafios para escoamento de seus produtos de exportação. O município de Cáceres tem posição estratégica com relação à política de exportação para o estado. Três são os fatores que conduzem Cáceres a esta situação e favoreceram a sua escolha para instalação da ZPE. A cidade é servida por uma malha rodoviária importante no contexto econômico do estado; A proximidade e a ligação rodoviária com a Bolívia configuram Cáceres como a porta para a futura ligação com o Pacífico e escoamento de produtos mato-grossenses para os países asiáticos; Sendo o último ponto navegável da hidrovia Paraguai-Paraná, favorece o intercâmbio comercial com os países do Cone Sul e o acesso aos mercados europeu e americano via Oceano Atlântico, através de operações de transbordo para navios no Porto de Nueva Palmira, no Uruguai. 86 3.5 OS LIMITES E POSSIBILIDADES DA IMPLANTAÇÃO DA ZPE EM CÁCERES MT A Vila de São Luís de Cáceres foi fundada em 6 de outubro de 1778 pelo Tenente de Dragões Antônio Pinto no Rego e Carvalho, por determinação do quarto Governador e Capitão-General da Capitania de Mato Grosso, Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres (MDA, 2010). Em 1860, Vila-Maria do Paraguai já contava com sua Câmara Municipal, mas só em 1874 foi elevada à categoria de cidade, com o nome de São Luiz de Cáceres, em homenagem ao padroeiro e ao fundador da cidade. Em 1938, o município passou a se chamar apenas Cáceres. Em fevereiro de 1883, foi assentado na Praça da Matriz, atual Barão do Rio Branco, o Marco do Jauru, comemorativo do Tratado de Madri, de 1750. Junto com a Catedral de São Luís, cuja construção teve início em 1919, mas só foi concluída em 1965 (MDA, 2010). A navegação pelo Rio Paraguai desenvolveu o comércio com Corumbá, Cuiabá e outras praças, e o incremento das atividades agropecuárias e extrativistas fez surgir os estabelecimentos industriais representados pelas usinas de açúcar e as charqueadas de Descalvados e Barranco Vermelho, de grande expressão em suas épocas. No início dos anos 60, foi construída a ponte Marechal Rondon, sobre o rio Paraguai, que facilitou a expansão em direção ao noroeste do Estado. A chegada de uma nova leva migratória, causada pelo desenvolvimento agrícola que projetou pólo de produção no Estado e no país, mudou o perfil de Cáceres, cuja ligação com a capital, Cuiabá, foi se intensificando à medida em que melhoravam as condições da estrada ligando as duas cidades. É nesse período que ocorre a emancipação dos novos núcleos socioeconômicos (MDA, 2010). Assim, emanciparam-se de Cáceres: o distrito de Mirassol D'Oeste, Rio Branco, Salto do Céu, Jauru, Porto Esperidião, Pontes e Lacerda, São José dos Quatro Marcos, Araputanga, Reserva do Cabaçal, Figueirópolis, Porto Estrela, Glória D'Oeste e Lambarí D'Oeste. A população atual do município de Cáceres é 84.175 habitantes (IBGE/contagem 2007). Abaixo segue um estudo da evolução do número de habitantes. 87 Ano População Total Urbana Rural Taxa de Urbanização 1991 78.312 54.163 24.148 69,16% 2000 85.857 66.457 19.400 77,40% Quadro 02: População por Situação de Domicílio, 1991 e 2000 Fonte: AZPEC – Administradora da Zona de Processamento de Exportação de Cáceres S.A. No período 1991-2000, a população de Cáceres teve uma taxa média de crescimento anual de 1,07%, passando de 78.312 em 1991 para 85.857 em 2000. De acordo com o último censo de 2010 Cáceres tem 88.314 habitantes. A base econômica do município de Cáceres - MT está vinculada a Agricultura (diversas culturas), pecuária e turismo. Altitude 118 m. Distância da Capital 209,70 km. Extensão Territorial 24. 398 km2 (IBGE) 24.965,94 km2 (Município) Localização Geográfica Mesorregião 130: Centro-sul matogrossense. Microrregião 535: Alto Pantanal. Relevo Depressão Paraguai, calha do Rio Paraguai. O sul do município participa do Pantanal mato-grossense. Destacam-se as serras Olho d’Água, Araras, Morro do Selado e Jacobina Formação Geológica Coberturas não dobradas de fanerozóico, Bacia Quaternária dobradas do Proterozóico com granitóides associados. Intrusas e alcalinas, no centro do município e Grupo Alto Paraguai no nordeste e noroeste. Grande Bacia do Prata. Bacia Hidrográfica Clima Tropical quente e sub-úmido. Precipitação anual de 1.500mm, com maior intensidade nos meses de janeiro, fevereiro e março. Temperatura média anual de 24ºC, maior máxima 42ºC, e menor mínima 0ºC. Quadro 03: Geografia do município de Cáceres – MT Fonte: AZPEC – Administradora da Zona de Processamento de Exportação de Cáceres S.A. 88 Algumas articulações regional/local têm ganhado proporções significativas nos últimos anos em relação às reais possibilidades de implantação da ZPE no Município de Cáceres. De acordo com notas explicativas publicadas pela Administradora da Zona de Processamento de Exportação de Cáceres (AZPEC), que traz esclarecimentos e encaminhamentos, e ainda trata a respeito dos esforços e ações movidas em Mato Grosso, nos últimos anos sobre a implantação da ZPE, conforme segue: 1 - A ZPE de Mato Grosso em Cáceres foi criada através da Lei nº 99.043 de 6 de março de 1990. 2 - A instalação e administração da ZPE de Mato Grosso cabem a uma empresa criada em junho de 1992, a Administradora da Zona de Processamento de Exportação de Cáceres S.A. (AZPEC), que desde então busca executar todas as tarefas necessárias para o seu adequado funcionamento. 3 - Todos os procedimentos iniciais foram desenvolvidos e aprovados junto aos Órgãos oficiais, começando com a criação obrigatória da própria Administradora (AZPEC S.A.), Estudos de Impacto Ambiental, Relatório de Impacto ao Meio Ambiente - EIA/RIMA e Plano Diretor da ZPE. 4 - A implantação deste Programa no Brasil tem seu novo marco legal no Decreto nº 6.814, de 6 de abril de 2009 – que regulamenta a Lei nº 11.508, de 20 de julho de 2007 - que dispõe sobre o regime tributário, cambial e administrativo das Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs). 5 - Mato Grosso publicou a Lei nº 8996 de 20/10/2008, que dispõe sobre o tratamento tributário às operações que destinarem bens, mercadorias ou serviços às empresas instaladas na Zona de Processamento de Exportação (ZPE), localizada no Município de Cáceres, e dá outras providências. 6 - A AZPEC S.A., juntamente com a Prefeitura Municipal de Cáceres, passou a trabalhar junto à sociedade organizada como forma de ampliar contatos com vários grupos empresariais interessados em utilizar as vantagens comparativas do Programa; 7 - Coordenadas pelo Prefeito Túlio Fontes, atual gestão municipal, foram ampliadas as ações políticas através de audiências com o Ministério de Indústria e Comércio, com o Governador do Estado e Secretários, com os Deputados Estaduais Sérgio Ricardo e Riva, viabilizando a realização de Audiência Pública na Assembleia Legislativa do Estado, com o Dr. Helson Braga, presidente da ABRAZPE, além de participações em eventos junto ao Serviço de Apoio as Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) - MT, Sindicatos filiados à 89 Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (FAMATO) e à Federação das Indústrias no Estado de Mato Grosso (FIEMT), e Fórum Brasileiro de ZPEs; 8 - A infraestrutura está sendo trabalhada junto ao Governo do Estado em conjunto com a Prefeitura Municipal, ambos acionistas da AZPEC S.A. No entorno, tivemos o início das obras de asfaltamento da Avenida dos Ramires, que também dá acesso ao Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), Campus Cáceres, bem como foram feitas consultas preliminares à Rede-Cemat visando investimentos para fornecimento de toda a energia necessária. 9 - A área de implantação é de 240 hectares, a ser desmembrada do Distrito Industrial do Estado, situada ao sul da zona urbana da cidade, com frente para a Avenida dos Ramires e esquina com a Via Joni Oliveira Fontes. As empresas interessadas podem antecipar seus processos através de Carta de Intenção dirigida à AZPEC, justificando suas necessidades e providenciando reserva de área para implantação. Hoje há 13 empresas cadastradas nas áreas de processamento de alimentos, madeiras, borracha, couros e reciclagem de plásticos. 10 - A área de implantação da ZPE é de domínio do Estado de Mato Grosso, ou seja, trata-se de área pública com fim específico: implantação de Distrito Industrial sob a responsabilidade da Secretaria de Indústria, Comércio, Minas e Energia do Estado de Mato Grosso (SICME), e sobre a qual o Governo do Estado tem autorização da Assembleia Legislativa para desmembrar os 240 hectares necessários para a implantação da ZPE de Mato Grosso em Cáceres. A AZPEC já encontrou ocupantes no local, e, desde 1988/89 providenciou um Cadastro de Ocupantes Provisórios, na época em número de 35 famílias, colhendo no mesmo documento uma Declaração de conhecimento que aquela é uma área pública destinada ao processo de implantação do Distrito Industrial da ZPE, inserindo inclusive a foto de cada um no Cadastro. Portanto, em tal ato não houve “permissão” de quem quer que seja, como querem fazer parecer alguns irresponsáveis oportunistas detentores de mandato e de concessão pública na área de comunicações, que usam pessoas como inocentes úteis, com clara intenção politiqueira. 11 - A Procuradoria Geral do Estado (PGE), através de ação própria, obteve liminar para a reintegração de posse da área, cujo prazo de cumprimento está em curso. Observa-se que a solução para o passivo social, de alguns casos, não encontra guarida neste tipo de ação, daí a necessidade da intervenção do Estado através de órgão próprio (Intermat) analisando caso a caso. 90 12 - A AZPEC S.A., enquanto gestora do Processo de implantação e gestão da ZPE, NÃO cabem quaisquer providências além de dar suporte às ações de Estado, afinal esta é uma empresa de economia mista onde o poder público é majoritário e por consequência ela é instrumento de execução de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento regional, não sendo parte direta do processo judicial. 13 - A planilha físico-financeira apresentada na Audiência Pública realizada na Assembleia Legislativa em março/2010 aponta que serão necessários recursos na casa de 14 milhões para a infraestrutura interna (fechamento, bloco administrativo, pavimentação, energia, guaritas, alfandegamento, etc.), e outro tanto para a infraestrutura do entorno (acessos, redes de água e energia, etc.). Existe o compromisso formal da bancada Federal de Mato Grosso, liderada pelo Senador Jaime Campos, para viabilizar os recursos necessários, complementando o quantum programado a ser levantado através da participação dos acionistas da própria AZPEC S.A. 14 - Falamos do Processo da ZPE de Mato Grosso em Cáceres, porém, neste cenário é importante lembrarmo-nos de outras características e fatos regionais, como componentes na área da Educação representados entre outros pela Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), Universidade Norte do Paraná (UNOPAR), Faculdade do Pantanal Matogrossense (FAPAN), Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) e Serviço Social do Comércio (SESC); na área da Saúde o Município é Polo Regional; a posição geográfica de Cáceres em ponto equidistante de portos oceânicos no Atlântico e no Pacífico potencializa componentes logísticos como os Terminais Portuários Alfandegados, Ponto Alfandegado de Fronteira/Corixa, Aeródromo de Cáceres, que pode ser pista alternativa para voos internacionais e transformado em suporte ao Aeroporto Marechal Rondon – Varzea Grande/Cuiabá para o evento da Copa do Pantanal – 2014. Lembrando que Cáceres juntamente com Cuiabá é um dos 65 Municípios Indutores do Turismo no Brasil, também estamos falando de um município que tem regulamentada a Lei Geral da Micro e Pequena Empresa, está trabalhando a Lei da Economia Solidária e cuidando da revitalização/criação de seus Conselhos Sociais, portanto, para todo investimento local haverá sempre um alto e permanente grau de resposta social local e regional. 15 - O prazo legal para início das obras de edificação física da ZPE é de 30 de junho de 2010, a responsabilidade é conjunta, e a AZPEC S.A. acaba de renovar o seu Conselho de Administração e Conselho Fiscal, com a representação direta do Estado nas pessoas dos Secretários Eder Moraes da Casa Civil e Edmilson José dos Santos da Secretaria de Fazenda, 91 a Prefeitura de Cáceres, representada pelo Prefeito Túlio Fontes. Também participam a FIEMT, na pessoa do José C. Job, e complementam os Advogados José Lacerda Filho e Nestor F. Fidélis, além de representante do Grupo Itamaraty; no Conselho Fiscal: Rubens Porto, Wilson M. Kishi, Fernando M. Xavier, Edward França do Amaral e Gilson Ambrósio. O Conselho de Administração definiu as posições na Diretoria Executiva, que ficou assim constituída: Presidente Adilson Domingos dos Reis, Diretor Administrativo Financeiro Cesar Zilio, Diretor Técnico Ilson Fernandes Sanches e Diretor Comercial Pedro A. Panoff de Lacerda. Cáceres tem condições excepcionais por sua equidistância dos centros de produção de matéria-prima, já que sua vocação natural é para a agroindústria, e têm garantidas por Lei condições para importação de equipamentos modernos, aumentando a competitividade de seus produtos. A medida provisória que desobriga o pagamento de ICMS aos produtos básicos destinados para exportação contribui com as vantagens comparativas das ZPEs, já que os insumos destinados ao processamento nestas, têm tratamento de exportação (REVISTA PORTAL, 2007). Para o Eng. Adilson Domingos dos Reis, ex-presidente da AZPEC e nosso parceiro nesta pesquisa, entender que o Estado, apesar de seu grande potencial, apresenta níveis de renda sofríveis limitando sobremaneira o acesso à infraestrutura básica mínima, impactando negativamente as áreas de transporte, energia, comunicação, habitação, educação, saúde e saneamento, colocando-se em condição muito inferior ao que se observa em outras regiões do Brasil. Nas palavras dele “Hoje, a ZPE de Mato Grosso está exatamente em um momento de transição, passando de condicionante para o desenvolvimento, acondicionada do desenvolvimento, contribuindo para a busca de maior movimentação nas operações internacionais, passando a se exigir dos segmentos responsáveis uma maior atenção à infraestrutura, à busca da qualidade de vida, qualificação profissional, etc., gerando, portanto, o seu primeiro grande impacto”. A AZPEC trabalha no segundo dos objetivos ditados pelo programa: a atração/consolidação de empresas no Distrito Industrial da ZPE localizado em Cáceres, induzindo a realização de investimentos voltados para a exportação. Estas ações não são realizadas apenas no local do empreendimento, mas, sobretudo em outras regiões produtoras, articulando com empresas cuja ação inicial compreenda a venda de insumos e serviços e fortalecendo as reservas cambiais, já que também são voltadas para exportação e esta gera divisas e melhora a balança de pagamentos. 92 Adilson Reis como gosta de ser chamado, explica ainda, que “as novas tecnologias são muito importantes aliadas à área de pesquisa, pois na medida em que as empresas terão que concorrer no exterior, estas têm que ser 100% eficientes. Passa a ser uma questão até de sobrevivência a aplicação de tecnologias de última geração, e de forma geral, estaremos absorvendo tecnologia e, consequentemente, melhorando a qualificação da mão de obra e de gerenciamento”. Estas foram às ações e importantes contribuições movidas através da articulação política regional, agentes econômicos locais, empresas que buscam espaço no mercado local e visibilidade no mercado internacional, sociedade civil através de seus representantes. Figura 05: Delimitação da área destinada para implantação da ZPE em Cáceres Fonte: AZPEC. Elaboração: Eng. Adilson Domingos dos Reis. Conforme veremos adiante a 1ª etapa já está bem encaminha, haja vista que o processo de desocupação das 35 famílias já foi realizado. As imagens apresentadas a seguir mostram que está faltando apenas o alfandegamento da Receita Federal, para dar continuidade aos 93 trabalhos e instalação das empresas que segundo o Eng. Adilson Domingos dos Reis, já foram entregues 18 cartas de intenção de empresas de vários setores até janeiro de 2012. Quadro 06: Edificação da ZPE em Cáceres - MT Fonte: AZPEC. Elaboração: Eng. Adilson Domingos dos Reis. 94 Figura 07: Fases para o alfandegamento da Receita Federal do Brasil Fonte: AZPEC. Elaboração: Eng. Adilson Domingos dos Reis. 95 Figura 08: Industrializações que poderão ser realizadas na ZPE de Cáceres - MT Fonte: AZPEC. Elaboração: Eng. Adilson Domingos dos Reis. 96 Figura 09: Ponto alfandegado de fronteira Cáceres - Corixa Fonte: AZPEC. Elaboração: Eng. Adilson Domingos dos Reis. 3.6 IMPLICAÇÕES PARA IMPLANTAÇÃO EM CÁCERES As ZPEs brasileiras podem ser classificadas como fechadas (isoladas por cerca quando próximas a centros urbanos), em alguns estados elas são públicas (totalmente pertencentes ao governo estadual), em outros, são privadas (foram licitadas e passadas a grupos privados) e, na maioria dos casos, mistas (pertencentes aos governos estadual e municipal, associadas a grupos privados, como é o caso da ZPE de Cáceres - MT). Até o momento, nenhuma dessas ZPEs é funcional. Elas só existem no papel, mas não na prática. Está faltando à autorização final operacional do governo brasileiro. Em Cáceres, conforme informações publicadas no Jornal Oeste em uma entrevista com o atual Presidente da AZPEC, Administradora da ZPE em Cáceres - MT Pedro Panoff de Lacerda, relatou que todo o processo de alfandegamento da 97 Receita Federal, estaria concluído até o primeiro semestre de 2012, para que somente então as empresas pudessem efetivamente se instalar na ZPE (JORNAL OESTE, 2012). Nos últimos três governos presidenciais, o programa da ZPEs não recebeu devida importância. A legislação das ZPEs é ainda bastante restritiva e pouco competitiva, existem sinais de resistência em certas áreas do Governo Federal responsável pela sua implementação e, além disso, permanece desconhecido o instrumento ZPE para grande parte do empresariado e da população. Vários argumentos vêm sendo utilizados contra a ZPE em Cáceres: (i) promovem a concorrência desigual contra empresas fora das ZPEs. Esse argumento não é verdadeiro já que essas empresas em ZPEs são orientadas para exportação e utilizam para sua produção muitas vezes insumos domésticos; (ii) como consequência do primeiro argumento contra, as ZPEs reduziriam as chances de contribuição para criação, desenvolvimento e difusão tecnológica doméstica. As ZPEs poderão contribuir significativamente para o desenvolvimento tecnológico nacional, mas as medidas governamentais responsáveis pela questão tecnológica também terão que ser funcionais; (iii) A ZPE representaria um bom exportador e não uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo. Política econômica de longo prazo é uma questão complexa para ser resolvida apenas por um instrumento. As ZPEs isoladamente não poderiam solucionar o problema, mas em conjunto com outras medidas de política industrial e comercial poderiam contribuir para o aumento de exportações, geração de empregos, difusão tecnológica e atração de investimento estrangeiro; (iv) A ZPE favorece o contrabando. Como essas zonas no caso brasileiro são consideradas fechadas, ou seja, são cercadas por se localizarem perto de centros urbanos e vias de grande acesso, esse argumento não é consistente. Por outro lado, a maioria dos governos estaduais detentores de autorização para implantar ZPEs mostraram-se interessados na manutenção do programa, mas decidiram que só retomariam os investimentos em suas ZPEs quando o assunto fosse inteiramente definido, no âmbito federal, enfatizando que o interesse não veio dos investidores privados. Macadar (1992) sinalizou alguns obstáculos à integração latino-americana, enfrentados já no início da criação das ZPEs no Brasil. Entre eles podemos destacar as alterações nas condições de concorrência que prejudicam os cálculos da viabilidade econômica dos projetos empresariais que poderiam fortalecer os vínculos sub-regionais. Essa atitude, nas decisões unilaterais sem discutir suas consequências sobre os compromissos assumidos e sem propor ações corretivas, deixa transparecer o caráter subordinado que a 98 ênfase atual na integração econômica ainda continua tendo em relação à abertura das economias latino-americanas. De acordo com o ex-presidente da AZPEC, Adilson Domingos dos Reis, que acompanha o processo de implantação da ZPE em Cáceres - MT desde 1990, quando foi criada pelo Decreto nº 99.043 através do Governo de José Sarney, relata que uma das principais dificuldades de implantação da ZPE é a falta de vontade política e, destaca ainda que a implementação da ZPE está devidamente articulada pelo governo federal, principalmente nas áreas de abrangência de órgãos que têm competência para implantar infraestrutura. Alguns políticos, lideranças regional/local, apresentam opiniões sobre as ZPEs no Brasil que podem servir de base para a ZPE de Cáceres, onde destacam que as ZPEs foram superadas pelas sucessivas alterações na legislação tributária; as ZPEs não se tornaram viáveis no Brasil por causa de condições estruturais, destacadamente do elevado custo Brasil, que torna difícil concorrer com os países que oferecem melhor estrutura para instalação das indústrias. A proposta de implantação das ZPEs no Brasil, especialmente a de Cáceres em sua trajetória tem gerado críticas contundentes, apesar de vários movimentos favoráveis a sua implantação. Observa ainda que um fator que poderia constituir-se como vantagem locacional para a implantação da ZPE seria a disponibilidade de falta de mão de obra barata e de baixa qualificação que seria utilizada em atividades rotineiras em unidades de montagem padronizada. Partindo do pressuposto de que as ZPEs serão instrumentos significativos de atração de capitais internacionais, que o mercado nacional será preservado da concorrência danosa das empresas que nelas venham a se instalar, o único motivo que pode justificar sua implantação está na possibilidade das empresas já presentes no mercado doméstico operarem no mercado mundial sem restrições cambiais e tarifárias, o que significa na verdade concentrar os incentivos e subsídios fiscais e creditícios já existentes para a exportação, com o acréscimo da liberdade cambial, em um conjunto de pontos privilegiados no território nacional (EGLER, 1995). Por final, o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) constitui um ambicioso projeto de integração territorial, relativamente independente dos planos norte-americanos para a América ao Sul do Equador, que se defronta com sérias dificuldades para sua efetiva implementação. O Tratado de Assunção (1991), firmado pelo Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai previa a 99 criação de uma união aduaneira que progressivamente se ajustaria na consolidação de um mercado unificado. O Tratado previa a data de 25 de janeiro de 1995 para a eliminação de barreiras tarifárias e não-tarifárias entre os países membros, postulando a livre circulação de bens e serviços no interior deste mercado doméstico supranacional que teria uma única tarifa externa comum. Independente dos problemas derivados das políticas macroeconômicas dos signatários do acordo, que, diga-se de passagem, não são poucos principalmente considerando a diversidade de políticas monetárias e cambiais, a questão central residia nos impactos que a unificação produziria sobre as estruturas produtivas nacionais e sobre seus segmentos regionais. Lima e Oliveira (2002) entendem que não parece conveniente adotar o modelo de ZPE, em vista de que ele tende a agravar disparidades regionais, concentrando ainda mais indústrias nas cidades que forem beneficiadas. Como política de desenvolvimento regional, as ZPEs tendem a dar resultados contrários aos esperados. Sendo ineficientes para viabilizar políticas que visam a desconcentrar a produção. 100 CONSIDERAÇÕES FINAIS O interesse em realizar esta pesquisa surgiu após perceber a importância da ZPE no contexto regional, sobretudo para o Município de Cáceres - MT. Através da análise da experiência internacional com o uso de ZPEs podemos concluir que esse instrumento de política industrial pode representar um bom contexto de políticas econômicas, inclusive uma política nacional consistente com a expansão das exportações. Este contexto geral de políticas econômicas consistentes e adequadas representa a condição necessária para o aumento das exportações e do crescimento. Com uma política distorcida de desenvolvimento, ZPEs possuem pequeno impacto, mas como segunda melhor política podem gerar efeitos positivos até que reformas estruturais básicas possam ser introduzidas. A utilização correta da política de exportações envolve mecanismos capazes de atrair empresas estrangeiras exportadoras estimulando a participação de empresas nacionais, utilizando mecanismos como isenções fiscais, facilidade de acesso a serviços de infraestrutura e poucas barreiras à entrada e saída, etc. Além dessas políticas condizentes, as ZPEs também funcionam melhor naqueles países que possuem uma sólida indústria de base. O Brasil não deveria abrir mão de um instrumento indutor do desenvolvimento, que promove o crescimento econômico, através do aumento de exportações, atração de investimentos e transferência tecnológica. Neste contexto, podemos citas algumas mudanças relativamente positivas com a implantação de uma ZPE, especificamente a de Cáceres - MT, que está diretamente ligada ao processo de desenvolvimento regional, agindo como instrumento redutor de desigualdade entre as regiões, além da mudança estrutural que conduz à melhoria de vida da população local e no qual podem ser distinguidas várias dimensões a saber: A econômica, na qual os atores usam sua capacidade para organizar os fatores produtivos locais com níveis de produtividade suficiente para serem competitivos nos mercados; A de formação de recursos humanos, de acordo com os requerimentos da inovação dos perfis produtivos locais; A sociocultural, na qual os valores e as instituições locais impulsionam o próprio processo de desenvolvimento; A ambiental que assegura a sustentabilidade do meio ambiente; 101 A institucional na qual a gestão territorial, facilita a articulação público-privada em nível territorial; e A científica-tecnológica, visando a criação de inovações favoráveis ao desenvolvimento produtivo. As políticas públicas regionais, nesse contexto, passam a ter como objetivo maior o de criar, nas regiões, um ambiente favorável à atração de investimentos, desenvolvendo o fortalecendo instituições que conduzam ao aumento de sua capacidade de transformação e de aceitação de inovações tecnológicas e, sobretudo que proporcionem um maior grau de integração intra e inter-regional. De modo geral as ZPEs têm sido um bom mecanismo para o desenvolvimento das economias em vários países do mundo. Elas recebem incentivos fiscais, administrativos e cambiais, o que flexibiliza especialmente o comércio internacional promovendo principalmente as exportações. Essas zonas são mecanismos que podem ser empregadas tanto para o comércio, como para a industrialização, assim como para os serviços. Através da metodologia utilizada foi possível observar que a implantação da ZPE, pode representar uma perfeita sintonia entre as ações do governo e as atividades desenvolvidas nos complexos produtivos, de modo a garantir um pleno desenvolvimento para as regiões, que proporcionem um aumento da capacidade de inovação e de introdução de novas tecnologias, incluindo parcerias entre governos, comunidade e agentes produtivos, fortalecendo a cadeia produtiva em diferentes segmentos. Aqui caberia um retorno ao questionamento inicial sobre a necessidade, os limites e as possibilidades, da existência de uma política pública regional, de caráter estadual na contemporaneidade atual, que venha contemplar todas essas vertentes. Primeiramente, a sustentabilidade espacial, entendida como criação ou manutenção de um sistema de regiões e cidades, hierarquizado e equilibrado, é componente fundamental do que denominamos desenvolvimento. Fica evidenciado que, cada vez mais, no contexto dos processos de globalização e descentralização, o Estado tem um importante papel a cumprir para que os desequilíbrios regionais não continuem a ser uma marca do atual modelo de desenvolvimento. Deve, isso sim, na sua função de alocador de recursos, ser promotor e articulador, em conjunto com a sociedade, de novas dinâmicas de desenvolvimento regional, pelo fortalecimento da rede de cidades. A dimensão do regional e sua importância surgem, primeiramente, no fato que, para o Estado, a escala regional é o objeto de suas ações e torna factível o processo de 102 descentralização, auxiliando a consolidar um sistema estadual de planejamento com essas bases, descentralizado e participativo. Também estimula a organização da sociedade como parceira do desenvolvimento estadual, permite a gestão das desigualdades regionais, favorece a integração das três esferas de governo: federal, estadual e municipal, segundo uma visão regional e, ainda, contribui significativamente para a competitividade sistêmica. Por outro lado, muitos problemas da escala municipal, inclusive aqueles relacionados com a economia, não são resolvidos apenas no âmbito municipal e as soluções exigidas demandam ações de natureza regional. Concluindo, este estudo contribui com a reflexão sobre o tema ZPE como Mecanismo de Política Pública de Desenvolvimento Regional, criada com intuito de reduzir as desigualdades entre as regiões. É importante registrar que o papel da sociedade é acompanhar e participar ativamente das ações promovidas pelo Estado. Observa-se que, a experiência internacional e as avaliação realizadas por diversos organismos internacionais deixam muitas dúvidas sobre o alcance dos objetivos almejados pelas ZPEs, especificamente a de Cáceres. Apenas o aumento do nível de emprego é dado como certo conforme observou-se durante a realização desta pesquisa. Mesmo assim, é certo que as ZPEs representam um percentual muito pequeno do emprego dos países onde estão instaladas. Há também alguns fatores que impendem à política externa brasileira, sobretudo na articulação dos atores econômicos regionais de consolidar nas ZPEs uma ferramenta de política para o crescimento das exportações e desenvolvimento regional. Porém, o sucesso não depende somente da infraestrutura alocada, da simplificação de procedimentos administrativos e da segurança jurídica, mas também da integração de ações estratégicas na contribuição das estruturas produtivas e sociais das regiões em que serão instalados estes instrumentos, especificamente a ZPE de Cáceres que atravessa desde sua criação em 1990 dificuldades de inserção na implantação. Nos últimos anos as lideranças regionais do Estado de Mato Grosso, estuda maneiras de infraestrutura como importante para o porto fluvial mato-grossense, incorporando-se à política de integração latino-americana, buscando a implantação do sistema de transporte intermodal, e a ligação por rodovia com a Bolívia, terminando no Oceano Pacífico, no Chile. A hidrovia Paraguai-Paraná, em Cáceres, é um modal alternativo às exportações estaduais, importante nesse processo de incorporação na integração Latino-Americana e saída do Brasil para o Pacífico. 103 A industrialização do município de Cáceres vai se intensificar com a implantação da ZPE se assim ocorrer. Um fator positivo do Território é sua situação geográfica que proporciona o desenvolvimento dos macro projetos como Mercosul, ZPE, Hidrovia, Zona de Livre Comércio, consequentemente o desenvolvimento de seus produtos agropecuários. Contudo, esta pesquisa não é conclusiva, pois poderá existir continuidade através de um novo ambiente para o desenvolvimento regional, originário principalmente dos processos de globalização, de reestruturação produtiva e descentralização, que permitirá alterações significativamente das condições de competitividade, ficando, ele mesmo, dependente de serem criadas estratégias competitivas baseadas no conhecimento e na inovação tecnológica e de gestão para os sistemas produtivos locais numa disposição de competir realisticamente no seu ambiente nacional/regional/local e de melhorá-lo num processo contínuo de construção e de aprendizagem coletiva. 104 REFERÊNCIAS ABRUCIO, Fernando Luiz; SOARES, Márcia Miranda. Redes Federativas no Brasil: cooperação intermunicipal no grande ABC. São Paulo: CEDEC, Fundação Konrad Adenauer, Oficina Municipal, 2001. 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DOU de 7/3/90 p. 4.401/02 DECRETO Nº 99.043, DE 06 DE MARÇO DE 1990 Cria a Zona de Processamento de Exportação de Cáceres, no Estado de Mato Grosso. O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso da atribuição que lhe confere o artigo 84 inciso IV da Constituição, tendo em vista o disposto no artigo 2º do Decreto-lei nº 2.452, de 29 de julho de 1988, e o Parecer nº 011/90 do Conselho Nacional das Zonas de Processamento de Exportação – CZPE, e tendo em vista a solicitação do Governo do Estado de Mato Grosso, D E C R E T A: Art. 1º Fica criada a Zona de Processamento de Exportação – ZPE, localizada no Município de Cáceres, no Estado de Mato Grosso, com área total de 247,26 hectares, cuja descrição do perímetro é a seguinte: M1-M2 – com o rumo magnético de 20º00’NE, com a distância de 895,00m, divisando com diversas Chácaras de Lazer, M2-M3 – Com o rumo magnético de 81º30’SE, com a distância de 1.440,0m, divisando com área do Distrito Industrial de CÁCERES, M3-M4 – Com o rumo magnético de 8º30’NE, com a distância de 840,00m, divisando com área do Distrito Industrial de CÁCERES, M4-M5 – Com o rumo magnético de 81º30’SE, com a distância de 800,00m, divisando com área de Loteamento Jardim Vila Real, M5-M6 – Com o rumo magnético de 17º30’SW, com a distância de 1.735,0m, divisando com a Escola Agrotécnica Federal de CÁCERES, M6-M1 – Com o rumo magnético de 81º30’NW, com a distância de 2.165,0m divisando com área da Agropecuária Grendene S/A. Art. 2º A ZPE de Cáceres entrará em funcionamento após o Alfandegamento da respectiva área pela Secretaria da Receita Federal, observado o projeto aprovado pelo Conselho Nacional das Zonas de Processamento de Exportação – CZPE. Art. 3º As empresas industriais que desejarem instalar-se na ZPE, criada por este Decreto, apresentarão ao Conselho Nacional das Zonas de Processamento de Exportação, obrigatoriamente, em anexo ao respectivo projeto industrial, Estudo de Impacto Ambiental ou Relatório de Impacto Ambiental expedido pelo órgão estadual competente. Art. 4º Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação. Brasília, em 06 de março de 1990; 169º da Independência e 102º da República. JOSÉ SARNEY Roberto Cardoso Alves