Promovendo Saúde na Contemporaneidade: desafios de pesquisa, ensino e extensão Santa Maria, RS, 08 a 11 de junho de 2010 UM MAPEAMENTO DE ESTUDOS SOBRE A PRODUÇÃO CIENTÍFICA EM PSICOLOGIA DA 1 SAÚDE 2 3 Silva, M.L. ; Arpini, D. M. 1 Trabalho de Pesquisa _UFSM 2 Mestranda em Psicologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria, RS, Brasil 3 Professora do Departamento Psicologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria, RS, Brasil E-mail: [email protected]; [email protected] RESUMO O estudo objetivou mapear a produção científica sobre psicologia da saúde no Brasil. Selecionaramse abstracts de periódicos científicos nacionais, indexados na bases de dados LILACS, buscando-se palavras no título psicologia e saúde. A revisão dos abstracts resultou em 58 artigos, produzidos de 1998 a 2009, percebendo-se aumento do número de publicações a partir de 2001. Em função da quantidade de artigos encontrados, escolheu-se problematizar o material referente ao ano de 2009, tentando tecer comentários em relação às publicações recentes relativas à psicologia da saúde, contextualizando-as com textos trabalhados na disciplina Psicologia da Saúde, do Mestrado em Psicologia da UFSM. Considerou-se que metade dos abstracts analisados referiu-se à clínica como forma de intervenção dos psicólogos e a outra metade demonstrou uma preocupação dos profissionais em criar novas formas de intervenção em psicologia da saúde. Esta análise contribuiu para entender quais reflexões e práticas os psicólogos constróem acerca da psicologia da saúde. Palavras-chave: Psicologia da Saúde. Intervenção Profissional. Análise de Abstracts. 1. INTRODUÇÃO A psicologia da saúde é a aplicação dos conhecimentos da psicologia aos processos de saúde e doença, considerando os contextos sociais e culturais nos quais estes se desenvolvem, tendo como finalidade principal, intervenções que contribuam para o bem- estar dos indivíduos e das comunidades (TEIXEIRA, 2004). Segundo este autor, são três as áreas de atuação do psicólogo da saúde: a promoção de saúde – através do trabalho com fatores que fortalecem a saúde - , os serviços clínicos em diferentes contextos e ainda o ensino, a formação e a investigação. Teixeira (2004) ainda ressalta que a psicologia da saúde possui um corpo teórico influenciado pela psicologia clínica, psicologia comunitária, psicologia social e da psicobiologia. Uma das marcas trazidas por este autor, para delimitar o conceito de psicologia da saúde, que em seu estudo parece tão amplo e diplomático, é o caráter interdisciplinar que as reflexões e práticas do psicólogo devem conter. Spink (2003) também salienta a importância da interdisciplinaridade, devido à saúde ser um fenômeno multivariável, daí a impossibilidade de ser apreendido por uma única disciplina. Entende-se que este caráter é fundamental, pois a psicologia da saúde encontrou seu espaço subsidiada pelo conceito de saúde preconizado pela OMS, como o estado de completo bem-estar físico, psíquico e social, o que faz pensar na impossibilidade de se trabalhar isoladamente, já que o próprio conceito da OMS acena para a interdisciplinaridade na definição de saúde. Porém, ao longo da pesquisa bibliográfica, percebeu-se que as produções na área ainda são ambivalentes, quem sabe, pela amplitude do conceito de psicologia da saúde ou ainda por uma razão já assinalada por Witter (2008): a coexistência de duas concepções sobre saúde. Uma dessas concepções é mais ampla - relacionada ao conceito da OMS -, o qual inclui, além da biologia, aspectos psicológicos, sociais, ambientais e ecológicos para determinar se uma pessoa desfruta de saúde. Porém, há outro conceito, no qual o componente biológico ganha mais força: ter saúde é não ter doença, ainda que a pessoa possa se considerar infeliz e excluída socialmente. Assim, percebeu-se uma divisão entre trabalhos na área da psicologia da saúde: quando o sofrimento já estava instalado e trabalhos que conseguiram chegar na frente, propondo prevenção e promoção, baseados no conceito ampliado de saúde. 1 Promovendo Saúde na Contemporaneidade: desafios de pesquisa, ensino e extensão Santa Maria, RS, 08 a 11 de junho de 2010 Assim, este estudo teve por objetivo mapear as produções científicas dos profissionais atuantes na área da psicologia da saúde no Brasil, os quais ajudam a construir as intervenções que acabam por caracterizar a área. 2. DESENVOLVIMENTO O presente mapeamento da produção científica sobre psicologia da saúde no Brasil foi realizado através da seleção de abstracts de periódicos científicos nacionais, indexados na bases de dados LILACS, buscando-se palavras no título psicologia e saúde. A revisão dos abstracts resultou em 58 artigos, produzidos de 1998 a 2009, percebendo-se um aumento do número de publicações a partir de 2001. Em função da quantidade de artigos encontrados, escolheu-se problematizar o material referente ao ano de 2009, por se tratar da produção mais recente na área. Dos sete artigos publicados no ano de 2009, um deles foi excluído por tratar-se de um estudo espanhol, publicado em revista brasileira. É importante salientar que estes artigos foram analisados buscando-se inferir que forma de entendimento da psicologia da saúde eles ajudam a construir, consolidando as práticas psicológicas voltadas à saúde brasileira. Percebeu-se que três abstracts debruçaram-se sobre as práticas exercidas pela psicologia em unidades básicas de saúde - a entrada de estagiários na ESF; as práticas exercidas por psicólogas vinculadas à atenção primária à saúde; o uso da abordagem existencialista de Jean-Paul Sartre para justificar a intervenção clínica no SUS. Nestes trabalhos, identificou-se uma preocupação clínica de intervenção e a inserção dos profissionais nas unidades básicas foi através da clínica. Refletir sobre esta situação remete à necessidade e até mesmo à urgência que o atendimento clínico encontra em diversos contextos, onde o sofrimento está instalado e este tipo de atuação seja indicada, contribuindo para que o sujeito possa re-construir sua história e re-significar questões de sua vida. Porém, a atividade clinica foi aquela que por muitos anos identificou a categoria profissional e trouxe satisfação para os psicólogos assim, quem sabe, em alguns contextos, seja difícil se desvencilhar de uma prática já consolidada há muitos anos e na qual há relativa segurança do psicólogo em exercê-la, seja onde for. Estes abstracts fazem pensar nos achados de Dantas, Costa, Silva, Alverga, Carvalho e Yamamoto (2004), como uma idéia compartilhada pelos profissionais de que o psicólogo se satisfaz profissionalmente quando clinica, assim, quem sabe ao transferir o consultório para a unidade básica de saúde, o psicólogo continue na busca dessa mesma satisfação e quem sabe sinta-se atuando naquilo que imaginariamente seja mais valorizado pela categoria. Além disso, segundo Dantas e cols (2004), a clínica se constitui como uma base técnica e teórica mais do que uma área de atuação. Em situações de desconhecimento e angústia em relação ao próprio fazer, quem sabe o profissional sinta-se respaldado pela clínica. Essa formação básica da psicologia se contrapõe ao modelo do Sistema Único de Saúde, dificultando o trabalho com promoção e proteção à saúde e até mesmo o reconhecimento de outras atuações possíveis pelos próprios psicólogos e pelos outros profissionais da unidade. Com isso, não se quer dizer que a atividade clínica não seja adequada ou pouco importante em unidade básica, mas entende-se que a clínica tradicional, transposta sem respeitar as particularidades sociais da população atendida poderá constituir-se numa clínica cujo único sentido seja satisfazer as necessidades do próprio profissional, vinculada exclusivamente a um modelo de saúde assistencial-curativo (DANTAS et al, 2004), no qual a atenção primária e secundária não encontram lugar. Segundo Spink (2003,p69): Se o viés individualista perpassa toda a psicologia, perpassando até mesmo várias vertentes da psicologia social – a disciplina mais fronteiriça com as demais ciências sociais – como não haveria de influenciar a psicologia da saúde que se consolidava nos anos 70 e 80! A exclusividade da atenção terciária em unidade básica de saúde causa até estranhamento se levarmos em conta a participação que a psicologia teve nos movimentos sociais e na ampliação do campo de atuação proporcionada pelo movimento sanitário e pela crítica ao modelo hospitalocêntrico, o qual buscou garantir um espaço profissional que antes era de exclusividade médica, espaço este 2 Promovendo Saúde na Contemporaneidade: desafios de pesquisa, ensino e extensão Santa Maria, RS, 08 a 11 de junho de 2010 que tem como objetivo a recuperação, a prevenção e a promoção em saúde. Chama a atenção essa tentativa da psicologia de manter-se vinculada à prática clinica em unidade básica de saúde, pois os artigos pareceram apresentar o mesmo teor de defesa da clínica, quem sabe até mesmo por uma desvalorização que historicamente foi dada aos espaços de saúde pública e aos profissionais que nela trabalham. Seria a clínica o “ouro puro” da psicologia, uma forma do profissional sentir-se valorizado num ambiente considerado de pouca satisfação profissional? As dificuldades na construção de outra formas de atuação estariam relacionadas à desvalorização deste campo de trabalho? Dantas et al (2004) demonstraram que o serviço público significa, muitas vezes, a estabilidade financeira que possibilita ao psicólogo exercer o consultório particular, este sim seu objetivo maior. Entende-se, baseado em Lima (2005), que a primeira atividade do psicólogo na rede básica de saúde deveria ser montar um plano de ação para a população a ser atendida, direcionado a demandas coletivas, ou seja, procurando atingir aquilo que a população precisa, privilegiando atividades grupais, as quais, além de otimizar o tempo do profissional, auxiliam maior número de usuários e contribuem para a identificação entre os membros, favorecendo que o grupo se fortaleça e construa ações. Estas seriam possibilidades de intervenção que possibilitariam a construção (LIMA, 2005) de uma prática articulada à concepção de saúde e vinculada à população que se quer atingir. Na seara da psicologia da saúde, há que se transpor e ampliar práticas tradicionais/individuais e construir, como o próprio termo diz, é fazer algo que ainda não está dado, o que mobiliza o profissional, fazendo-o sair de lugares já instituídos. Esta construção não é tarefa fácil, pois quem sabe tenha que partir primeiro de uma valorização do campo de trabalho e da população atendida, antes mesmo de problematizarmos as dificuldades presentes na formação profissional. As ações diferenciadas em saúde já vem sendo realizadas e foram visualizadas em outros 3 dos abstracts encontrados, os quais demonstraram a possibilidade de inovar as práticas em psicologia da saúde. Esses trabalhos relacionaram-se à problematização de instrumentos utilizados na psicologia e consequente busca de referências contextualizadas para a pesquisa em psicologia da saúde; trabalho com promoção de saúde em uma instituição de educação infantil, o qual contou com diferentes frentes de atuação, incluindo famílias e professores; grupo realizado em um CAPS com referencial da psicologia positiva. Todos esses trabalhos ultrapassaram os limites do atendimento clínico individual e demonstraram um esforço na construção de um corpo de conhecimentos psicológicos vinculados às necessidades da população e aos princípios do SUS, utilizando-se da concepção de saúde atual, que vai além da ausência de doença. Percebeu-se ainda neste levantamento bibliográfico, um esforço no sentido de demonstrar que diferentes teorias da psicologia (nestes estudos, a ênfase foi o existencialismo e a psicologia positiva) podem embasar as práticas em psicologia da saúde, o que faz pensar em um movimento dos profissionais no sentido de buscarem seus referenciais teóricos para dar conta da realidade em que estão se inserindo, tentando legitimá-las, o que é interessante, pois este movimento pode partir de reflexões sistemáticas dos atores, de uma problematização tanto de teorias quanto da realidade vivenciada, porém, é importante salientar, que não existe uma teoria mais adequada que a outra e que vá se inserir de maneira mais promissora na área da saúde: a inovação das práticas parece mais relacionada a postura do profissional e sua disponibilidade a ampliar práticas, conectando-as às modificações dos conceitos de saúde e doença e às demandas do local em que se trabalha. 3. CONCLUSÃO Diante do mapeamento realizado, pode-se dizer que existem duas linhas de publicações científicas na área da psicologia da saúde, caracterizadas ora por uma tentativa de afirmação da psicologia clínica no âmbito da saúde pública, ora por novas incursões dos profissionais neste campo. Segundo Spink (2003), a psicologia da saúde é um novo saber que está se estruturando e, nesse sentido, a abertura de novos campos de atuação introduziria transformações nas práticas, as quais requerem novas perspectivas teóricas. Esta foi parte da realidade encontrada no presente estudo, onde percebeu-se uma apropriação dos profissionais em relação ao campo de seu trabalho, através da leitura adequada do contexto social no qual estavam se inserindo e da criação de práticas que pudessem trazer 3 Promovendo Saúde na Contemporaneidade: desafios de pesquisa, ensino e extensão Santa Maria, RS, 08 a 11 de junho de 2010 resultados às comunidades e que contavam com a articulação da mesma, favorecendo o fortalecimento dos grupos, um ideal que pode ser alcançado a medida que os profissionais se dispõem a valorizar a atuação em psicologia da saúde, ou seja, há que se pensar na vinculação do profissional com o seu fazer. Percebeu-se que um outro grupo de profissionais manteve-se vinculado à atividade clínica, realizando-a em postos de saúde. A clínica é uma atividade que traz grande satisfação profissional (Dantas et al, 2004), mas que, não precisa se constituir como a única atividade do psicólogo em unidades básicas de saúde, pois isto significaria deixar de lado a possibilidade de criação de um grande número de práticas coladas à realidade social das comunidades na qual o psicólogo da saúde se insere. Além disso, transpor uma atividade de uma esfera para outra, sem um questionamento do seu alcance, parece estar mais à serviço da segurança do profissional do que da população atendida. A psicologia da saúde, como um campo em construção, pode problematizar as exigências da prática profissional, atentando para os contextos na qual se insere e vinculado-se às demandas sociais, situando as questões da saúde na sua conexão entre o individual e o social. REFERÊNCIAS ANDRADE, J.F.S.M.; SIMON, C.P. Psicologia na atenção primária à saúde: reflexões e implicações práticas Paidéia (Ribeirão Preto);19(43):167-175, maio-ago, 2009. 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