Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.16, n.1, p.83-91, 2014 ISSN 1517-8595 83 CARACTERIZAÇÃO FÍSICO QUÍMICA E ANÁLISE SENSORIAL DE BEBIDA ELABORADA À BASE DE EXTRATO DE ARROZ E POLPA DE ABACAXI COM HORTELÃ Joana Dias Souto-Maior¹, Zuleica Novello² RESUMO O extrato de arroz é uma bebida de origem vegetal que recentemente, vem sendo explorada e estudada, por estar introduzida em um mercado que vem buscando cada vez mais esta linha de produtos. Este trabalho foi realizado com a intenção de desenvolver uma bebida à base de extrato de arroz, utilizando concentrações de 30%, 50% e 70% de polpa de abacaxi e hortelã, como forma de saborização da mesma. Foram realizadas análises físico-químicas nas três formulações, tais como umidade, cinzas, proteínas, lipídios e carboidratos. Para comprovação da inocuidade das bebidas, pois as mesmas passaram por testes sensoriais, foram realizadas análises de coliformes fecais e totais, os quais apresentaram resultados negativos. No teste de ordenação, comprovou-se a diferença da amostra de 30% em relação ás amostras de 50% e 70% de polpa de abacaxi e hortelã. Com a amostra de 50% de polpa, foi realizado um teste de aceitação por meio de escala hedônica de 7 pontos, para quantificar a aceitação dos atributos da bebida. O desenvolvimento de bebida elaborada à base de extrato de arroz, saborizada com polpa de abacaxi e hortelã, além de ser uma alternativa ao consumo de extrato de soja é também uma maneira de agregar valor a um sub-produto de indústrias beneficiadoras de arroz como é o caso do fragmento de arroz, matéria prima utilizada na elaboração do extrato. Palavras-chave: Extrato de arroz. Polpa de abacaxi e hortelã. Físico-química. Sensorial. PHYSICAL CHARACTERISTICS AND CHEMICAL ANALYSIS OF SENSORY DRINK PREPARED BASED ON RICE EXTRACT AND PULP PINEAPPLE WITH MINT ABSTRACT The rice extract is a beverage plant that recently has been explored and studied, to be introduced in a market that is increasingly seeking this product line. This work was carried out with the intention of developing a drink will base rice extract, using concentrations of 30%, 50% and 70% pulp pineapple and mint as a way to savor the same. Analyses physicochemical in three formulations, such as moisture, ash, protein, fat and carbohydrates. To prove the safety of the drinks, because they went through sensory tests were conducted analyzes of total and fecal coliform, which showed negative results. In ranking test proved the difference sample by 30% for samples of 50% and 70% pulp pineapple and mint. With the sample of 50% pulp was conducted by an acceptance test using a 7-point hedonic scale for quantifying the attributes of the acceptance of the drink. The development will be based drink based on extracts of rice flavored with mint and pineapple pulp besides being an alternative to the consumption of soy extract, is also a way to add value to a sub-product of the beneficiary industries as rice is the if the fragment of rice, raw material used in preparing the extract. Keywords: Extract rice. squash and pineapple mint. Physico-chemical. Sensory.1 Protocolo 202012-75 de 12 /12/ 20112 ¹ Acadêmica do curso de Engenharia de Alimentos, Departamento de Engenharia de Alimentos, Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC – CEP 89870-000- Pinhalzinho – SC - Brasil. *E-mail: [email protected] ² Docente do curso de Engenharia de Alimentos, Departamento de Engenharia de Alimentos, Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC – Pinhalzinho - SC – Brasil 84 Caracterização físico química e análise sensorial de bebida elaborada à base de extrato de arroz..... Souto Maior & Novelo INTRODUÇÃO O arroz está entre os cereais mais consumidos do mundo. O Brasil é o nono maior produtor mundial. A produção está distribuída nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Mato Grosso (MINISTÉRIO DA AGRICULTURA,2012). Sua contribuição na produção nacional de grãos varia de 15% a 20%. Cultivado praticamente em todo o País, e tendo seu consumo difundido em todas as classes sociais, ocupa posição de destaque do ponto de vista econômico e social, sendo responsável por suprir a dieta básica da população com um considerável aporte de calorias, proteínas e sais minerais (GOMES; JÚNIOR, 2004). A quebra de grãos no beneficiamento é de grande importância econômica para a indústria do arroz, especialmente quando se atenta para a diferença na valoração do produto inteiro e do quebrado (VIEIRA, 2004). Os subprodutos e resíduos gerados pela agroindústria são pouco explorados no país para fins de consumo humano, porém apresentam potencial nutricional e funcional, possibilitando a agregação de valor às respectivas cadeias produtivas e geração de produtos de baixo custo acessíveis à população de baixa renda (SOARES et al., 2007). De acordo com Felberg et al. (2004), a busca por alimentos mais nutritivos e saudáveis tem sido demonstrada por uma parcela significativa da população, motivada a consumir alimentos de baixo teor calórico, com menor teor de gordura e sem colesterol, seja por razões médicas, filosóficas ou religiosas. Neste contexto, a soja e seus derivados surgem como uma alternativa valiosa para a referida parcela da população. Devido ao seu odor e sabor característico, o leite de soja é comercializado como bebida nutritiva, adoçada e aromatizada (SILVA, 2008). Entretanto, apesar do seu alto valor nutritivo, o extrato de soja ainda sofre restrições de aceitação por parte dos consumidores devido ao sabor e aroma desagradáveis desenvolvidos durante o processo tradicional de sua elaboração (FELBERG et al., 2004). Assim, o uso de outros cereais como matéria prima para a produção de bebidas elaboradas com extratos vegetais é uma alternativa à ser explorada na elaboração de novos produtos. O arroz, tanto grãos inteiros como quebrados e quirera, pode ser utilizado como uma nova opção neste nicho de mercado devido à presença de nutrientes e proteínas essenciais. Segundo Pinheiro (2008), a proteína do arroz é pobre em lisina, mas é uma excelente fonte de aminoácidos sulfurados, como metionina e cistina. Além de contribuir também com nutrientes como tiamina, riboflavina, niacina e zinco (KENNEDY et al., 2002). O sabor e o aroma característicos do abacaxi são atribuídos à presença e aos teores de diversos constituintes químicos, ressaltando entre eles, os açúcares e os ácidos responsáveis pelo sabor, e compostos voláteis associados ao aroma. Os principais ácidos responsáveis pela acidez são o cítrico e o málico, os quais contribuem respectivamente com 80% a 20% da acidez total (GONÇALVEZ & CARVALHO, 2000). De acordo com Kadam et al. (2010), as folhas de hortelã são conhecidas por sua refrescância, ação anti-séptica e anti- asmática. O mercado brasileiro de sucos de frutas industrializado foi o que mais cresceu na categoria das bebidas não alcoólicas no país. A exemplo do que ocorre em outros países, os brasileiros vêm aumentando sua preferência por sucos e bebidas industrializados. Estimulada por este potencial, a indústria de suco de fruta industrializado vem buscando aumentar a oferta de novos sabores e melhoras na qualidade dos produtos para popularizar seu consumo (AMARO et al., 2002). Sendo assim, a produção de bebida elaborada à do base extrato de arroz, e saborizada com polpa de frutas se torna um nicho de mercado de interesse para as indústrias. Portanto, a elaboração de uma bebida elaborada á base de extrato de arroz com polpa de abacaxi e hortelã é uma alternativa para agregar valor à um resíduo da indústria beneficiadora de arroz, e também proporcionar novos produtos ao mercado consumidor. MATERIAIS E MÉTODOS Para a elaboração do referido extrato foram utilizados fragmento arroz, polpa de abacaxi e hortelã, e açúcar refinado; todos obtidos no mercado local de Pinhalzinho SC. Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.16, n.1, p.83-91, 2014 Caracterização físico química e análise sensorial de bebida elaborada à base de extrato de arroz..... Souto Maior & Novelo O processo para obtenção do extrato de arroz foi baseado no método utilizado segundo Soares et al. (2008). Os grãos foram lavados para eliminar alguma sujidade presente, e foram cozidos em panelas de alumínio previamente sanitizadas com solução de hipoclorito de sódio. Para o cozimento, foram utilizados os grãos e água na proporção volumétrica de 1:2, por 30 minutos, a fim de se obter um produto cozido. Após o cozimento foi feito a desintegração dos grãos com água mineral em liquidificador, na proporção volumétrica de 1:2, até obtenção de uma mistura homogênea. Após isso, 500 ml desta combinação, foram misturadas em mais 1 litro de água, e homogeneizada em liquidificador novamente. Posteriormente esta mistura foi filtrada num pano de algodão, previamente fervido por 30 minutos e seco ao sol. O resultado dessas operações foi a obtenção do extrato de arroz. Com o extrato de arroz já preparado, foi feito a saborização do mesmo pela adição de diferentes concentrações de polpa de abacaxi e hortelã, e açúcar refinado. Foram preparadas três formulações com 30%, 50% e 70% de polpa por litro de extrato de arroz, e adoçadas com 100 g de açúcar refinado por litro da bebida. Foi preparado um volume de 2 L de cada formulação para a realização de todas as análises físico-químicas, microbiológicas e sensoriais. Para a amostra de 30%, foram utilizados 1400 ml de extrato de arroz e 600 g de polpa de abacaxi com hortelã; para a amostra de 50% foram utilizados 1000 ml de extrato de arroz e 1000 g de polpa de abacaxi e hortelã, e para a formulação com 70% de polpa, foram utilizados 600 ml de extrato de arroz e 1400 g de polpa de abacaxi e hortelã. Os extratos saborizados foram pasteurizados a 65 ºC durante 30 minutos, embalados em recipientes plásticos de polietileno de alta densidade (PEAD) com tampa rosqueável e mantidos sob temperatura de refrigeração (5 ± 1°C) até o momento das análises. Para a caracterização físico-química, as análises de proteínas, umidade e cinzas foram realizadas segundo métodos do Instituo Adolf Lutz (1985), onde as proteínas foram quantificadas pelo método de Kjeldahl, a umidade pelo método de secagem direta em estufa a 105ºC, e as cinzas pela incineração 85 da amostra em mufla a 550ºC. Os lipídios foram determinados pelo método de Bligh & Dyer (1959), o qual é baseado na extração da classe com uso de solvente à frio. Já os carboidratos foram calculados por diferença, ou seja, 100 menos o valor de proteínas, lipídios, cinzas e umidade. As análises foram feitas em triplicata para a obtenção de um resultado com maior precisão, e os resultados foram comparados entre si, por análise de variância (ANOVA) e pelo teste de Tukey ao nível de 5% de significância, com auxílio do programa estatístico ASSISTAT. Para análise microbiológica de coliformes totais e fecais, para comprovação da inocuidade do produto, foi realizado o procedimento conforme o método American Public Health Association, descrita no Compendium of Methods for the Microbiological Examination of Foods (VANDERZANT & SPLITTS-TOESSER, 1992). Estas análises foram realizadas em duplicata. Esta análise consiste no uso de diluições em água peptonada estéril (0,1%), onde serão inoculadas em tubos com Caldo Lauril Sulfato (LST), a 35◦C por 24horas, e é observado se há crescimento com produção de gás. Se a análise for negativa, o tubo é reincubado até completar 48 horas. Para confirmação de coliformes totais, os mesmos, são repicados, cada tubo de resultado positivo, em tubos de caldo verde brilhante e incubados por 24-48horas, à 36◦C. Para prova confirmativa de coliformes termotolerantes, cada tubo, com resultado positivo, é repicado para outro tubo com caldo EC e incubado a 45◦C, por 24-48horas. Após período de incubação, são realizadas leituras em que os resultados positivos são validados e os negativos ficarão incubados por mais 24horas. E com auxílio de tabela de resultados, chega-se ao valor do Número Mais Provável por grama. Para análise sensorial foram realizados dois testes. Primeiramente, foi realizado um teste de ordenação com as três formulações, em que 36 julgadores foram conduzidos a ordenar as amostras de acordo com sua preferência, da mais preferida para a menos preferida na ficha de avaliação, conforme a Figura 1. As amostras foram classificadas com números aleatórios como 789, 654 e 312, os quais equivalem às Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.16, n.1, p.83-91, 2014 86 Caracterização físico química e análise sensorial de bebida elaborada à base de extrato de arroz..... Souto Maior & Novelo Figura 1. Ficha de avaliação sensorial, utilizada no teste de ordenação das três formulações de bebida elaborada à base de extrato de arroz com diferentes concentrações de polpa de abacaxi e hortelã. amostras de 30%, 50% e 70% de polpa de abacaxi e hortelã, respectivamente. A avaliação estatística é feita pelo teste de Friedman, utilizando a tabela de Newell e Macfarlane, para verificar se houve ou não diferença significativa entre amostras (INSTITUTO ADOLF LUTZ, 2008). Posteriormente, com os resultados do teste de ordenação, foi realizado um segundo teste sensorial utilizando escala hedônica de 7 pontos, onde 1 correspondeu a desgostei muito e 7 a gostei muito, conforme Figura 2. A amostra foi avaliada por 25 julgadores em relação a seus atributos como cor, sabor, odor e textura. Nos dois testes realizados, as bebidas foram apresentadas de forma aleatória aos provadores, que foram instruídos a beber água mineral entre as amostras para limpar o palato. Figura 2. Ficha de avaliação sensorial com escala hedônica, utilizada no teste de aceitação dos atributos da bebida à base de extrato de arroz e polpa de abacaxi e hortelã. RESULTADOS E DISCUSSÃO Os resultados dos teores médios de umidade, cinzas, proteínas, lipídios e carboidratos das bebidas obtidas de extrato de arroz, saborizadas com concentrações de 30%, 50% e 70% de polpa de abacaxi, hortelã e açúcar estão apresentados na Tabela 1. Tabela 1. Médias da composição centesimal de bebida elaborada diferentes concentrações de polpa de abacaxi e hortelã. Quantidade de polpa/litro de extrato de arroz 30% Umidade¹ 80,6 ±0,472 a Cinzas¹ 1,07±0,059 a Proteínas¹ 0,35±0,02 a à base de extrato de arroz com 50% 80,0±0,458 a 1,29±0,066 a 0,36 ±0,065 a 70% 79,9±0,721 a 1,24 ±0,087 a 0,37 ± 0,045 a Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.16, n.1, p.83-91, 2014 Caracterização físico química e análise sensorial de bebida elaborada à base de extrato de arroz..... Souto Maior & Novelo 87 Lipídios¹ 0,26 ± 0,053 a 0,21±0,026 a 0,18± 0,026 a Carboidratos¹ 17,97±0,48 a 18,11±0,65 a 18,31±0,65 a ¹ - Médias seguidas pela mesma letra não diferem entre si ao nível de 5% de probabilidade de erro pelo teste de Tukey. Os teores de umidade, cinzas, proteínas, lipídios e carboidratos não diferiram entre si ao nível de 5% de probabilidade de erro. Em resultados encontrados por Soares et al. (2010), a umidade entre extrato de arroz integral e extrato de quirera de arroz também não tiveram diferença entre si, porém à nível de 1% de probabilidade. Os valores encontrados pelos autores foram de 77,9 g (100 g)-¹ para o extrato de quirera de arroz, e 79,27 g (100 g)-¹ para o extrato de arroz integral. Os valores se mostraram próximos à valores encontrados no presente trabalho, sendo que, foi utilizada a mesma metodologia para a obtenção do extrato de arroz. Em relação ao teor de cinzas em resultados apresentados por Carvalho et al. (2011), o mesmo foi de 0,508 g (100 g)-¹, enquanto que, no presente trabalho, o teor de matéria inorgânica foi em média de 1,2 g (100 g)-¹ . De acordo com a Tabela Brasileira de Composição de Alimentos da Universidade de São Paulo – USP (2005), o teor de cinzas para o arroz polido é 0,30 g (100 g)-¹. Foi analisado também o teor de cinzas da polpa de abacaxi e hortelã, o qual apresentou valor médio de 1,4 g (100 g)-¹. Com estes dados, pode-se concluir que a diferença entre o resultado obtido, e os resultados gerados por Carvalho et al.(2011), deve-se ao fato do extrato ser saborizado com polpa de abacaxi e hortelã. A amostra que apresentou menor resultado foi a de 30% de polpa, enquanto que as amostras de 50% e 70% demonstraram resultados mais próximos indicando que o aumento no teor de cinzas no caso de extrato de arroz, saborizado com polpa de abacaxi e hortelã deve-se ao uso da polpa do fruto. As proteínas nos extratos saborizados apresentaram resultados muito próximos, em média 0,36g (100 g)-¹. Jaekel et al. (2010), em bebida de extrato de arroz e soja obtiveram um teor de proteínas de 1,06g (100 g)-¹ para bebida com 70% de extrato de arroz e 2,10g (100 g)-¹ para bebida com 70% de extrato de soja, sendo que, esta diferença é devido ao uso de maior concentração de extrato de soja, apresenta teor proteico muito maior em relação ao arroz. O conteúdo de proteínas no arroz é considerado baixo, em média 7%(WALTER et al. 2007). Já Carvalho et al.(2011) apresentou 0,730g (100 g)-¹ em extrato de arroz. E de acordo com Potter e Hotchkiss (1999), o conteúdo de proteína em frutas e hortaliças é inferior a 3,5%. Sendo assim, o baixo teor de proteínas, no caso da bebida elaborada à base de extrato de arroz, polpa de abacaxi e hortelã deve-se á baixa concentração deste nutriente nas matérias-primas utilizadas. O arroz contém proporção significativa de ácidos graxos insaturados que possuem papel importante em vários processos fisiológicos e que, por não serem sintetizados pelo organismo humano, devem ser supridos pela alimentação (WALTER et al., 2007). No presente trabalho, o teor de lipídios foi em média 0,23g (100 g)-¹, sendo que Cavalho et al.(2011) encontrou 0,410g (100 g)-¹ no extrato de quirera de arroz. Segundo Bortolatto et al. (2008), frutas e hortaliças apresentam 0,5% de lipídios em sua composição. Portanto a diminuição do teor de lipídios neste trabalho, comparado ao de Carvalho et al.(2011), deve-se ao uso da polpa de abacaxi e hortelã. Os carboidratos presentes nas amostras tiverem uma média de 18,02g (100g)-¹, enquanto que nos resultados obtidos por Jaekel et al. (2010), o teor de carboidratos para bebida com 30% de extrato de soja e 70% extrato de arroz foi de 7,76 g (100g)-¹. Segundo Walter et al. (2007), os carboidratos são os principais constituintes do arroz. Além do amido, que corresponde a aproximadamente 90% da matéria seca do arroz polido, também estão presentes açúcares livres e fibra. O carboidrato é o principal constituinte nutricional do abacaxi in natura, em torno de 13,53% (BORTOLATTO & LORA, 2008). Sendo assim, a diferença existente entre a literatura e o presente trabalho se deve ao uso da polpa de abacaxi e hortelã, e também ao uso de açúcar na formulação das bebidas. Antes da análise sensorial foram realizadas análises microbiológicas para comprovação da inocuidade das bebidas. Foram feitas análise de coliformes fecais e totais nas três formulações, e todas em duplicata. A presença desta classe de Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.16, n.1, p.83-91, 2014 88 Caracterização físico química e análise sensorial de bebida elaborada à base de extrato de arroz..... Souto Maior & Novelo microorganismos em alimentos processados é considerada uma indicação útil de contaminação pós-sanitização ou pósprocesso (principalmente no caso da pasteurização), evidenciando práticas de higiene e sanificação aquém dos padrões requeridos para o processamento de alimentos (VANDERZANT & SPLITTSTOESSER, 1992). As análises microbiológicas realizadas mostraram resultados negativos, ou seja, tanto em 24 como em 48 horas, não houve presença de gás nem turvação nas três diluições utilizadas (10-¹, 10-², 10-³). Sendo descartada a hipótese de contaminação pósprocesso e comprovado a inocuidade da bebida, seguiu-se para as análises consequentes. Para o teste sensorial de ordenação, as amostras foram codificadas com números aleatórios, onde 789 corresponde à formulação com 30% de polpa de abacaxi e hortelã, a amostra 654 à formulação de 50% de polpa e a amostra 312 à formulação com 70% de polpa. Os totais de ordenação foram obtidos com o somatório das notas estabelecidas, onde 3 foi atribuído à amostra mais preferida e 1 para a menos preferida. O resultado do total de ordenação para cada amostra foi de 51, 81 e 84, para as formulações com 30%, 50% e 70% de polpa, respectivamente, conforme Figura 3. Na tabela de Newell e Macfarlane, utilizando o número de 36 julgadores que participaram, 90 Somatório de Ordenação 80 70 60 50 40 30 20 10 0 30% 50% 70% Concentração de polpa de abacaxi e hortelã Figura 3. Apresenta os totais de ordenação de acordo com resultados do teste sensorial. foi encontrado o limite crítico igual a 20. Realizando o módulo da diferença entre as somas das amostras obteve-se que as amostras com 50% e 70% não diferiram entre si ao nível de 5% de significância, enquanto que a amostra com 30% apresentou diferença em relação às demais no mesmo nível de probabilidade de erro. De acordo com o resultado obtido no teste de ordenação, foi realizada uma segunda batelada de teste de análise sensorial com a amostra de 50% de polpa, com objetivo de quantificar a aceitação dos atributos da amostra como cor, sabor, aroma e textura. Para este teste, participaram 25 julgadores e a análise foi feita com auxílio de escala hedônica de 7 pontos, onde os resultados estão dispostos na Figura 4. 9 Média de preferência 8 7 6 5 4 3 2 1 0 Sabor Textura Cor Aroma Figura 4. Apresenta os dados de índice de aceitabilidade dos atributos da bebida elaborada á base de extrato de arroz com 70% de polpa de abacaxi e hortelã, bem como seus respectivos desvios padrão. A aceitação dos atributos da bebida obtiveram uma média em torno de 6 que, de acordo com a escala utilizada no teste, corresponde entre “gostei regularmente” e Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.16, n.1, p.83-91, 2014 Caracterização físico química e análise sensorial de bebida elaborada à base de extrato de arroz..... Souto Maior & Novelo “gostei muito”. As médias para sabor, textura, cor e aroma foram 6,24; 6,4; 6,36 e 6,08; respectivamente. Segundo Soares et al. (2010), em bebidas elaboradas com extrato de quirera de arroz e suco de maracujá o aroma foi avaliado entre “gostei pouco” e “gostei muito”. Já para a bebida com polpa de abacaxi e hortelã, neste presente trabalho, o aroma foi avaliado entre “gostei ligeiramente” e “gostei muito”. Esta diferença pode ser atribuída ao uso das quantidades de polpa, pois na elaboração da bebida com suco de maracujá foram utilizados 30% da polpa do fruto, enquanto que, no presente trabalho, foi utilizada a formulação com 50% de polpa. Em relação à textura alguns julgadores perceberam resíduo no palato, que pode ter sido causado pelo uso de 50% de polpa de abacaxi e hortelã. Para Silva et al. (2007), a textura em bebida de soja e arroz saborizada com morango teve uma média de 6,2 que equivale à “gostei moderadamente” na escala de 9 pontos utilizada. Enquanto que na escala de 7 pontos utilizada neste trabalho, a aceitação da textura foi de 6,4 correspondendo ao termo “gostei regularmente”, demonstrando que a aceitação desta bebida foi semelhante à bebida com uso de polpa de morango. O atributo sabor é a propriedade sensorial que está associada aos teores de açúcares e acidez (Jaekel et al., 2010). Para a bebida elaborada à base de extrato de quirera de arroz saborizado com polpa de maracujá, Soares et al. (2010) obteve escore médio de 7,89 ao atributo sabor que corresponde entre “gostei regularmente” e “gostei muito”. Equivalendo assim aos resultados obtidos no presente trabalho (“gostei regularmente”), o que demonstra que o uso de frutas com alto teor de acidez favorece a aceitação das bebidas. Para Silva et al. (2007), em bebida de soja e arroz saborizada com morango, o atributo cor mostrou-se o mais limitante dentre os parâmetros avaliados, tendo obtido média 4,0 na escala hedônica que corresponde ao termo “desgostei ligeiramente”. Já para a bebida de extrato de arroz com polpa de abacaxi e hortelã, o atributo cor obteve uma média de 6,08 que corresponde à “gostei regularmente”. Esta diferença pode ser atribuída ao fato do uso de diferentes frutos e, também, das diferentes concentrações do mesmo. Sendo que na bebida de morango foram utilizados 20% de polpa, enquanto que 89 neste trabalho a polpa de abacaxi e hortelã corresponde à 50% da bebida. Conclusão Os resultados das análises físicoquímicas das três formulações de bebidas elaboradas com diferentes concentrações de polpa de abacaxi e hortelã, não apresentaram diferença significativa entre si à nível de 5% de probabilidade de erro no teste de Tukey. As amostras de 50% e 70% de polpa não diferiram entre si ao nível de 5% de significância pela tabela de Newel e Macfarlane, enquanto que a amostra com 30% de polpa apresentou diferença em relação as demais ao mesmo nível de significância. Sendo assim, a amostra de 50% de polpa passou por um segundo teste sensorial em que os atributos, da mesma, foram avaliados por meio de escala hedônica e demonstraram uma boa aceitação. A aceitação das bebidas, com uma maior concentração de polpa de abacaxi e hortelã demonstrou um resultado mais favorável. Sendo assim, indicam-se estudos mais aprofundados para o desenvolvimento de uma bebida com maior concentração de extrato de arroz para que se possa garantir uma melhor aceitação pelo público consumidor, bem como a avaliação da vida útil da mesma. A elaboração da bebida elaborada à base de extrato de arroz com polpa de abacaxi e hortelã é uma ideia a ser explorada, pois além de utilizar sub-produtos da indústria beneficiadora de arroz como matéria-prima, possui também bom potencial de comercialização. Referências American Public Health Association - APHA. Technical committee on microbiological methods for food. In: Vanderzant, C.; Splittstoesser, D. F. Compendium of methods for the microbiological examination of foods. 3 ed. Washington, 1992. p. 336-383. Amaro, A.P.; Bonilha, P.R.M.; Monteiro, M. Efeito do tratamento térmico nas características físico-químicas e microbiológicas da polpa de maracujá. Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.16, n.1, p.83-91, 2014 90 Caracterização físico química e análise sensorial de bebida elaborada à base de extrato de arroz..... Souto Maior & Novelo Alimentos e Nutrição. Araraquara. v.13, p.151-162, 2002. Bortolatto, J.; Lora, J. Avaliação da composição centesimal do abacaxi (Ananas comosus (L.) Merril) liofilizado e in natura. 2008. Disponível em:< h t t p : / / periodicosunesc.net/index. php/saude/article/viewArticle/142>. Acesso em: 01 set. 2012. Bligh, E. G.; Dyer, W. J. A rapid method of total lipid extraction and purification. Canadian J Biochem and Phys 1959; 37: 911-6. Carvalho, W. T. de et al. Características físico-químicas de extratos de arroz integral, quirera de arroz e soja. Pesq. Agropec. Trop., Goiânia, v. 41, n. 3, p. 422-429, jul./set. 2011. Dutcosky, Silvia Deboni. Análise sensorial de alimentos. 2ª ed. – Curitiba: Champagnat, 2007. Felberg, Ilana et al. 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