Stomatos
ISSN: 1519-4442
[email protected]
Universidade Luterana do Brasil
Brasil
Marturelli, Rachel; Macêdo Cavalcanti, Natália; Barbosa de Souza, Fábio; de Oliveira Barbosa Porto,
Patrícia; Vicente da Silva, Claudio Heliomar
Alternativa estética para reconstrução de dentes anteriores fraturados
Stomatos, vol. 13, núm. 25, julho-dezembro, 2007, pp. 123-130
Universidade Luterana do Brasil
Río Grande do Sul, Brasil
Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=85002507
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Projeto acadêmico sem fins lucrativos desenvolvido no âmbito da iniciativa Acesso Aberto
Alternativa estética para reconstrução de
dentes anteriores fraturados
Rachel Marturelli
Natália Macêdo Cavalcanti
Fábio Barbosa de Souza
Patrícia de Oliveira Barbosa Porto
Claudio Heliomar Vicente da Silva
RESUMO
Fraturas em dentes anteriores são situações clínicas que exigem do cirurgião-dentista
conhecimento científico, habilidade técnica e senso artístico para o sucesso do tratamento, o
qual tem a tecnologia adesiva como uma alternativa conservadora e rápida com ótimos resultados estéticos. Este trabalho objetiva, através de relato clínico, descrever uma técnica para
reconstrução de dentes anteriores fraturados, com envolvimento endodôntico, utilizando resina
composta micro-híbrida e pino estético direto de fibra de vidro.
Palavras-chave: Dente. Estética. Resinas compostas.
Aesthetic alternative for reconstruction of fractured anterior teeth
ABSTRACT
Anterior teeth fractures are clinical situations that demand scientific knowledge, technical
ability and artistic sense for the success of the treatment, which has the adhesive technology as
an conservative and fast alternative, with excellent aesthetic results. The purpose of this
clinical report is to describe a reconstruction technique of fractured teeth with endodontic
involvement, by the use of micron-hybrid composite resin and aesthetic fiber glass post.
Key words: Tooth. Esthetics. Composite resins.
INTRODUÇÃO
A valorização da estética, no âmbito da Odontologia, recai nas exigências por um
sorriso harmonioso, com dentes claros, contorno e forma adequados. Aspectos estes
que são considerados como um sinal de saúde e beleza, podendo exercer influência no
desenvolvimento psico-social do indivíduo.
Rachel Marturelli é cirurgiã-dentista graduada pela Universidade Federal de Pernambuco.
Natália Macêdo Cavalcanti é cirurgiã-dentista graduada pela Universidade Federal de Pernambuco.
Fábio Barbosa de Souza é Mestre em Clínica Integrada pela Universidade Federal de Pernambuco.
Patrícia de Oliveira Barbosa Porto é Doutora em Endodontia pela Universidade de Pernambuco.
Claudio Heliomar Vicente da Silva é professor de Dentística da Universidade Federal de Pernambuco.
Endereço para Correspondência: Claudio Heliomar Vicente da Silva – Rua Jorge Couceiro da Costa Eiras,
443/2403 – Boa Viagem – CEP: 51021-300 – Recife/PE. E-mail: [email protected]
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A perda desta harmonia, decorrente de traumatismos dentais nos dentes
anteriores, pode acarretar um perfil psicológico alterado, dificuldade de relacionamento,
além de envelhecimento e timidez excessiva (CUNHA et al., 2002). Este fato constitui
uma condição desafiadora para o clínico, pois exige grande conhecimento científico
para as tomadas de decisão diagnóstica e terapêutica; bem como, treinamento técnico
e senso artístico para que se possa devolver a forma, função e a naturalidade óptica da
cor dos dentes fraturados.
A complexidade dessas fraturas, o grau de envolvimento coronário, o diagnóstico
pulpar, as exigências do paciente quanto à estética são fatores que determinam o tipo
de tratamento a ser instituído (OLIVEIRA et al., 2003).
Os avanços da odontologia adesiva permitiram que nos casos de perda coronária
extensa, apresentando envolvimento endodôntico, o emprego de resinas compostas
associado aos pinos intra-canais fossem considerados uma boa conduta terapêutica
na reconstrução de dentes anteriores fraturados (SANTIAGO et al., 2000; MONDELLI
et al., 2002; SOUZA et al., 2002, MITSUI; MARCHI, 2005).
O objetivo deste trabalho é, através de relato clínico, descrever uma técnica para
reconstrução de dentes anteriores fraturados, com envolvimento endodôntico,
empregando-se resina composta micro-híbrida e pinos adesivos estéticos diretos de
fibra de vidro.
RELATO DE CASO CLÍNICO
Paciente M. M. C., sexo feminino, 17 anos, procurou atendimento clínico no
Curso de Odontologia da Universidade Federal de Pernambuco, queixando-se de
sensibilidade dolorosa nos elementos 11 e 21. Com a anamnese a paciente relatou ter
sofrido um trauma, aos 13 anos de idade, o qual ocasionou a fratura dos tais elementos.
Após exame clínico (Figura 1) e radiográfico, verificou-se em ambos os dentes: presença
de fratura coronária; comprometimento da vitalidade pulpar e perda de espaço coronário
decorrente da mesialização dos elementos vizinhos pela demora na procura por
tratamento.
FIGURA 1 – Aspecto clínico inicial.
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A tomada de decisão terapêutica evidenciou a necessidade do controle da
atividade de cárie e da realização do tratamento endodôntico; preenchimento coronário
com resina composta utilizando ancoragem intracanal com emprego de pino estético;
recuperação do espaço coronário perdido e facetamento vestibular dos dentes 11 e 21.
A atividade de cárie foi controlada através da motivação da paciente quanto à
higiene bucal e cuidados com a dieta, associada à fluorterapia.
O tratamento endodôntico foi realizado através da técnica escalonada coroaápice sem pressão. Neste escalonamento, os instrumentos endodônticos, em ordem
decrescente de diâmetro, avançam para o interior do canal, no sentido coroa-ápice.
Esta técnica promove um acesso mais retilíneo à região apical, a forma final obtida
favorece a obturação do canal e facilita a remoção parcial da obturação do canal para
receber retentor intra-radicular (LOPES et al., 1999). A obturação foi realizada com
cones de guta-percha e cimento endodôntico Sealer 26 (Dentsply / Maillefer) pela
técnica da condensação lateral ativa. Esta técnica consiste na colocação sucessiva de
cones auxiliares lateralmente a um cone principal bem adaptado e cimentado no canal
(SIQUEIRA JR. et al., 1999). Com a conclusão desta etapa, realizou-se a desobturação
de 2/3 do canal radicular, medida correspondente a aproximadamente metade da inserção
óssea da raiz, para permitir a ancoragem intracanal dos pinos (Figura 2).
FIGURA 2 – Aspecto radiográfico após desobturação dos canais.
Os retentores intracanais têm a função principal de auxiliar na retenção do material
restaurador e distribuir as tensões impostas, particularmente nos dentes anteriores
que recebem, mais frequentemente, forças oblíquas e/ou horizontais ou de
cisalhamento, dissipando-as assim, ao longo do remanescente coronário e da raiz,
prevenindo a ocorrência de fraturas (CONCEIÇÃO, 2002).
Neste caso, foram selecionados pinos estéticos diretos de fibra de vidro
(Reforpost/Angelus). São artefatos fabricados a partir de fibras longitudinais de vidro
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combinadas com uma matriz resistente de resina composta, que lhes conferem a
propriedade de refração e transmissão das cores internas através da estrutura dentária,
porcelana ou resina. Além disso, apresentam módulo de elasticidade próximo ao da
dentina e altos valores de adesão resinosa (CARVALHO et al., 2005; MITSUI; MARCHI,
2005). Os pinos foram selecionados de acordo como diâmetro dos canais em questão,
sendo empregado no elemento 11 um pino radiopaco (Reforpost Raio X/Ângelus) e no
elemento 21 um pino radiolúcido (Reforpost/Ângelus), ambos foram seccionados em
seu comprimento antes da sua cimentação (Figura 3).
FIGURA 3 – Corte dos pinos com ponta diamantada em alta rotação.
Na seqüência realizou-se a limpeza interna dos canais com EDTA líquido
(Biodinâmica); condicionamento com ácido fosfórico 37% das paredes internas dos
canais radiculares e remanescentes coronários por 15 segundos; lavagem por igual
tempo, sendo excesso de umidade removido com cones de papel absorvente. Com
auxílio de um pincel, tipo microbrush, aplicou-se um agente de união (Masterbond/
Biodinâmica) em toda área condicionada, com a remoção do excesso de adesivo realizada
com cones de papel absorvente para não gerar obstáculos durante a cimentação do
pino. A ativação da polimerização do sistema adesivo e de todos os materiais
fotoativados deste estudo foi realizada de acordo com os tempos recomendados pelos
fabricantes com emprego do aparelho de LED Radii / SDI.
Após aplicação do sistema adesivo, a cimentação do pino foi realizada com
cimento resinoso Fill Magic Dual Cement (Vigodent), o qual possui dupla ativação da
sua presa sendo considerado mais recomendado em decorrência da certeza da sua
completa polimerização em todas as regiões do conduto radicular (SOUZA JR; SANTOS,
2002; MONDELLI et al., 2002). Miranda et al. (2005) afirmaram que a composição dos
cimentos resinosos de dupla ativação (duais), que associa fotoativação e ativação
química, proporciona propriedades físicas e mecânicas superiores as dos demais
materiais para cimentação.
O preenchimento coronário foi realizado com resina composta recobrindo os pinos
e devolvendo a forma parcial dos dentes dentro do espaço existente. Para Melo et al.
(2005), a resistência à fratura de dentes tratados endodonticamente restaurados com
pinos pré-fabricados e preenchimento coronário em resina composta apresentam valores
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mais elevados em relação ao uso de uma resina composta de presa dual específicas para
preenchimento, independentemente da quantidade de remanescente coronário.
Para a recuperação do espaço coronário perdido lançou-se mão de tiras de
borrachas, feitas a partir de luvas de látex, colocadas nos contatos proximais, por 24
horas, para separação mediata dos dentes, com acréscimo de resina composta nos
espaços alcançados e interposição de nova borracha, até a obtenção das medidas
ideais para os incisivos centrais superiores (Figura 4).
FIGURA 4 – Separação inter-dentária com tiras de borracha.
Em seguida, realizou-se o facetamento vestibular. Procedimento este que
apresenta indicação em dentes com fraturas amplas, pois é interessante o recobrimento
da face vestibular com resina composta, no intuito de harmonizar o resultado estético
(CONCEIÇÃO; BRITO, 2002).
Foi realizada profilaxia (com pedra pomes e água), e posterior seleção de cor,
baseada nos dentes inferiores anteriores que se apresentavam hígidos.
Com o emprego da ponta diamantada 4138 (KG Sorensen), confeccionou-se
canaletas verticais, mantendo os planos de inclinação dos dentes, que serviram de
orientação para posterior redução dessa face nos sentidos mesial e distal. Os preparos
realizados para as facetas foram parciais (atípicos), envolvendo terços incisal e médio,
finalizando em bisel no início do terço cervical (Figura 5).
FIGURA 5 – Preparos atípicos para faceta, após união dos sulcos.
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Para isolamento do campo operatório empregou-se afastador labial (Espandex),
roletes de algodão hidrofílico, sugador potente e fio retrator gengival Gengiret Médium
(Dentsply).
Procedeu-se o condicionamento ácido; aplicação e ativação da polimerização do
sistema adesivo.
Seguiu-se então, com a aplicação da primeira camada de resina composta Master
Fill (Biodinâmica) opaca cor A2, para mascarar as variações de cores. A seguir, foi
aplicada a mesma resina na cor A3 sobre o bisel do terço cervical, A2 no terço médio e
A1 no terço incisal, em única camada adaptada com auxílio do pincel para possibilitar
um degrade nas cores empregadas – aplicação em cascata (Figura 6).
FIGURA 6 – Emprego do pincel (tipo trincha) para obtenção do Degrade.
Alguns autores salientam as propriedades mecânicas e ópticas das resinas
compostas micro-híbridas e microparticuladas para a reconstrução de dentes anteriores
(HIRATA et al., 2001; BEDRAN DE CASTRO et al., 2002). As resinas compostas microhíbridas apresentam alta resistência à fratura e ao desgaste e devido ao tamanho e
distribuição das partículas de carga, são resinas mais opacas, sendo indicadas para a
reconstrução da dentina. Já as resinas compostas microparticuladas, devido à maior
quantidade de matriz resinosa, são resinas mais translúcidas, extremamente políveis,
vítreas e estéticas, sendo indicadas para reconstrução de esmalte perdido. Porém, no
caso em questão, optou-se pela utilização somente da resina composta micro-híbrida,
pois, de acordo com Anauate Netto et al. (2005), assim como as resinas nanoparticuladas,
se trata de uma resina com partículas muito pequenas que permitem uma boa adaptação,
além de possuírem possibilidades amplas de obtenção de estética. Tais resinas são
facilmente modeláveis, apresentam satisfatória resistência mecânica e permitem um
bom acabamento, texturização e polimento.
O acabamento imediato foi realizado com brocas diamantadas para acabamento,
removendo assim os excessos mais grosseiros, enquanto que o acabamento e o
polimento final foram realizados uma semana após a conclusão da restauração, para
que ocorresse a expansão higroscópica da resina. Sendo, então, utilizados discos de
lixas do sistema Sof-Lex (3M/ESPE) da granulação grossa para a fina, tiras de lixas
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proximais, pontas abrasivas do sistema Enhance (Dentsply) e discos de feltro com
pasta de polimento para a conclusão do caso (Figura 7).
FIGURA 7 – Aspecto clínico após acabamento e polimento.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A utilização de resina composta e pino intracanal estético direto de fibra de vidro
constitui uma alternativa viável na recuperação de dentes anteriores fraturados com
envolvimento endodôntico, implicando em um resultado estético favorável, com maior
preservação de estrutura dentária hígida remanescente e possibilitando menor custo
para o paciente.
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Recebido em: 11/01/2007
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Aceito em: 02/11/2007
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