© Fabiano Camilo. Todos os direitos reservados.
como nascem os anjos
Editora www.comosanjos.com.br
corpo: as relações entre interior e exterior mediadas pela pele
www.comosanjos.com.br foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não
Adaptada. com base no trabalho disponível em www.comosanjos.com.br. podem estar disponíveis autorizações adicionais ao âmbito
desta licença em www.comosanjos.com.br.
Fabiano Camilo
Brasília-DF
2012
como nascem os anjos
corpo: as relações entre interior e exterior mediadas pela pele
como nascem os anjos
corpo: as relações entre interior e exterior mediadas pela pele
Fabiano Camilo
Brasília-DF
2012
© Fabiano Camilo. Todos os direitos reservados.
ISBN 978-85-913350-0-8
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Texto, capa, projeto gráfico e diagramação
Fabiano Camilo
ficha catalográfica
S586c
Silva, Fabiano Camilo e.
Como nascem os anjos – corpo: as relações entre interior e exterior
mediadas pela pele / Fabiano Camilo e Silva – Brasília: www.comosanjos.com.
br, 2012. 68 f.
ISBN 978-85-913350-0-8
Orientador: Jaime Ferreira de Vasconcellos Neto
Trabalho de Conclusão de Curso (Especialista em Artes Visuais) SENAC/
DF, 2012.
1. Fotografia. 2. Realidade. 3. Espiritualidade. I.Título.
CDU 77
O corpo: superfície de inscrição dos acontecimentos
(enquanto que a linguagem os marca e as ideias os dissolvem),
lugar de dissociação do Eu (que supõe a quimera de uma unidade
substancial), volume em perpétua pulverização. A genealogia,
como análise da proveniência, está, portanto, no ponto de
articulação do corpo com a história. Ela deve mostrar o corpo
inteiramente marcado de história e a história arruinando o corpo.
FOUCAULT, 1979, p. 22
agradecimentos
salve Ariel Lacerda Xavier Camilo e Silva,
meu filho e meu Consigliere;
salve Simone Xavier por mostar o caminho que não deve ser trilhado;
salve meus pais, Sandra Lúcia dos Santos Silva
e José Oswaldo da Silva, pela construção e cuidado com a família;
salve meus avós, Geralda Moreira dos Santos Silva
e Geraldo José da Silva,
pais da minha mãe,
Iracema Tavares da Silva
e José Pedro da Silva,
pais do meu pai,
pela origem;
salve tia-avó Nair Moreira dos Santos pela sabedoria;
salve meus irmãos Sandro e Pedro Camilo;
salve monge Bruno Mitih Seigen;
salve São Jorge pela proteção às lágrimas derramadas;
salve equipe SENAC-DF, coordenadores e tutores.
lista de figuras
32
Fig. 1 – foto da escultura O Êxtase de Santa Tereza, Gian Lorenzo Bernini,
esculpida entre 1645-1652, capela Cornaro,na Igreja de Santa Maria della
Vittoria, Roma, Itália.
33
Fig. 2 – foto detalhe da escultura O Êxtase de Santa Tereza, Gian Lorenzo
Bernini, esculpida entre 1645-1652, capela Cornaro, na Igreja de Santa Maria
della Vittoria, Roma, Itália.
34
Fig. 3 – foto detalhe da escultura O Êxtase de Santa Tereza, Gian Lorenzo
Bernini, esculpida entre 1645-1652, capela Cornaro, na Igreja de Santa Maria
della Vittoria, Roma, Itália.
35
Fig. 4 – foto detalhe da escultura O Êxtase de Santa Tereza, Gian Lorenzo
Bernini, esculpida entre 1645-1652, capela Cornaro, na Igreja de Santa Maria
della Vittoria, Roma, Itália.
37
Fig. 5 – foto da escultura da beata Ludovica Albertoni, Gian Lorenzo Bernini,
esculpida entre 1671-1674, capela Paluzi-Albertoni, na Igreja San Francesco a
Ripa, Roma, Itália.
38
Fig. 6 e 7 – fotos do Cristo Barroco no livro Salvador de Mario Cravo Neto,
nascido em 1923.
42
Fig. 8 a 21 – como nascem os anjos: corpo : as relações entre interior e exterior
mediadas pela pele.
sumário
9
lista de figuras
13
introdução
15
processo arqueológico
41
produção para saber
61
conclusão
63
referências
67
anexo
como nascem os anjos
introdução
Este trabalho teve como ponto de partida o tema corpo: as relações
entre interior e exterior mediadas pela pele. Utilizando o registro
fotográfico de uma perfomance de suspensão corporal, busca-se o
entendimento do que aparentemente é um sofrimento, contudo, por
aquilo que está oculto, o que não é dito, ou, o que aparentemente está
oculto. Considerando as infinitas possibilidades dos afetos que pulsam
e circulam nas diferentes sociedades humanas, a pele não é apenas o
limite físico dos nossos corpos, pode e é manipulada para atender as
necessidades individuais para a sobrevivência. Obviamente temos,
pelas fotos, uma ligação com o efêmero, aquilo que não temos domínio,
mas somos dominados por ele, o tempo; para alguns, vida e morte,
para outros, religiosidade, e a arte facilitando a compreensão.
Como suporte ferramental, procurei utilizar a Judische Kop uma
forma cultural específica de abordar a realidade, na qual o uso da
ignorância é o ponto de partida. Conta-nos Bonder (1995, p.7): “Não
se trata de um método e nem de uma sabedoria, mas do acúmulo de
‘massa crítica’ mínima de problemas necessária para instaurar um
processo voluntário de questionamento do impossível”.
Na etapa de prospecção arqueológica, busquei o entendimento da
representação do corpo, no imaginário dominante no processo de
formação histórica e cultural da sociedade brasileira. A realidade é para
*
13
14
*
fabiano camilo
ser desbravada, observe o seu corpo, não apenas a carne, mas todos os
belos pedaços que nos compõem ou integra. As palavras nada são do
que a nossa imaginação. 1
Na etapa de produção para saber, fui ao encontro do êxtase, êxtase, s.
m., arrebatamento do espírito; enlevo; contemplação do que é divino,
sobrenatural, maravilhoso.2 Apesar de aparentemente, a evidência é de
sofrimento, pendurar carnes humanas por anzóis.
1http://www.citador.pt/pensar.php?op=10&refid=200502182236&author=149&fb_
source=message
2http://www.priberam.pt/DLPO/default.aspx?pal=êxtase
como nascem os anjos
processo arqueológico
A inquietação inicial foi no sentido de entender o que está oculto nas
manifestações de suspensão corporal. Já que não há, pelo menos, na
aparência, evidências de que seja uma prática positiva, que proporcione
prazer e felicidade.
Considerando as infinitas possibilidades dos afetos que pulsam e
circulam nas diferentes sociedades humanas, a pele não é apenas o
limite físico dos nossos corpos, pode e é manipulada para atender
as necessidades individuais para a sobrevivência. Encontramos até a
destruição, auto-infringida, da pele para permitir a continuidade da
vida.
Para tal, recorro à história brasileira, particularmente na representação
acerca da Revolta da Vacina ocorrida no Rio de Janeiro em 1904, que
não considera a realidade histórica complexa em torno da vacinação
na época de Oswaldo Cruz até os dias atuais. Essa representação
acaba servindo para legitimar posturas por parte do Estado brasileiro,
por parte da imprensa e por profissionais de saúde, que continuam
a entender a resistência como uma postura atrasada e reveladora
da ignorância da população, e consequentemente, contrária ao
desenvolvimento social e econômico do país, e mais do que isso,
acaba legitimando a postura autoritária do Estado, quando este
*
15
16
*
fabiano camilo
precisa dialogar e se relacionar com a sociedade, e também revela a
característica histórica pouco democrática da sociedade brasileira.
Este tema surge decorrente da necessidade de compreender as razões
para que o Estado brasileiro depois de 100 anos da Revolta da Vacina,
publicasse uma portaria determinando a obrigatoriedade das vacinas
e mais do que isso, a novidade, exige a comprovação por parte dos
cidadãos.
Há realmente uma mudança de comportamento e percepção por parte
da população em relação à vacinação? A resistência na Revolta da
Vacina à aceitabilidade nos dias atuais. O Ministério da Saúde publica
a Portaria nº 597/GM de 08/04/2004, na qual há a determinação de
que as vacinas e períodos estabelecidos nos calendários de vacinação
são de caráter obrigatório, exigindo a comprovação quando: no
pagamento de salário-família; na matrícula em creches, pré-escola,
ensino fundamental, ensino médio e universidade; no alistamento
militar; para recebimento de benefícios sociais concedidos pelo Estado
e para efeito de contratação trabalhista; ou seja, obriga, cobra e pune
caso o indivíduo não cumpra a obrigatoriedade.3
3
Após, praticamente, seis meses depois da publicação da portaria nº 597/GM de
08/04/2004, o Ministério da Saúde publica a portaria nº 2.170/GM de 07/10/2004 revogando o
artigo 5º, que trata exatamente das penalidades, ou melhor, dos benefícios que o cidadão não
terá direito por não ter se vacinado. Com isso, volta-se a situação anterior, a da portaria de 1978
que instituiu a obrigatoriedade da vacinação mas não as penalidades ou punições pela falta de
comprovação.
O objetivo do artigo 5º da portaria nº 2.170 pode até ser nobre e tecnicamente justificável, ou
seja, garantir o aumento da cobertura vacinal da população brasileira de um modo geral, mas,
desconsidera que o quadro social brasileiro não necessita mais de choques de rumo. A medicina
não é mais a prática privilegiada para o exercício do controle social, continua desempenhando
o seu papel mas não como teve com Oswaldo Cruz, que como vimos, junto da obrigatoriedade
da vacinação trazia todo um leque de transformações para a vida da população. Além disso,
desconsidera as jurisdições de outras áreas do Estado. Sem falar, que ao institucionalizar mais
um documento obrigatório para o exercício da cidadania brasileira, repete o erro ao transformar
direito em dever.
como nascem os anjos
Aparentemente, nada mais justo e correto, já que pela lógica positivista
da ciência do final século XIX, temos como referência o mito fundado
e construído de que temos então uma ruptura com o passado, ou seja,
se é possível tratar das doenças infecciosas utilizando-se da vacinação,
não há razão que possa contrapor ou questionar a sua aplicabilidade.
E mais, se efetivamente vacinar a população é o procedimento
adequado, comprovado cientificamente, para controlar as doenças, a
obrigatoriedade torna-se legítima.
Considerando o contexto em 1904 e o de 2004, são situações
historicamente diferentes, inclusive separadas por lapso temporal
de 100 anos. Contudo, é sintomática a tentativa de resgatar a efetiva
obrigatoriedade da vacinação com a exigência da comprovação, já que
a portaria anterior, Portaria nº 221/GM de 05 de maio de 1978, que
regulamentava o assunto desde então, não contemplava a exigência da
comprovação.
Como devemos perceber e compreender a estratégia estatal em
determinar a obrigatoriedade e a comprovação de vacinação para todos
os indivíduos da sociedade, ou melhor, daquela parcela que faz parte e
daquela que quer fazer parte dos “incluídos”? Será que é legítimo que
o Estado amplie as obrigações individuais em nome da coletividade?
Será que há atualmente as condições sociais, políticas e culturais para a
implementação dessa proposta?
Acredito que devemos procurar estabelecer uma compreensão sobre
o que se ganha e o se perde com a obrigatoriedade e a comprovação de
vacinação para todos os indivíduos, e mais do que isso, o que se ganha
e o que se o que se perde com a forma de resolução, publicando normas
e regulamentos para procedimentos compulsórios sobre os corpos.
*
17
18
*
fabiano camilo
Verifica-se que, ainda hoje, há profissionais de saúde com a mesma
concepção positivista de ciência e, além disso, com motivação e a crença
da necessidade de interferência nos hábitos e costumes da sociedade
de forma impositiva e punitiva, com o objetivo de sanear problemas de
saúde pública.
Hoje em dia, embora o conceito de aceitabilidade tenha se tornado
politicamente correto, valorizando a vertente positiva da resistência,
a maioria dos colóquios sobre vacinas ainda não se posiciona sobre o
assunto e concede pouco espaço às associações ou aos especialistas de
ciências sociais. Isso porque a resistência continua sendo percebida,
na maioria das vezes, como uma reação secundária que complica o
trabalho das empresas farmacêuticas e das instituições estatais, um
obstáculo a ser contornado mais do que entendido, manifestando-se
uma certa hesitação em ouvir as “lições da história”. (MOULIN, 2003,
p. 506-507)
A Revolta da Vacina ocorrida no Rio de Janeiro em 1904, nos
apresenta um excelente exemplo do corpo compreendido dentro do
contexto histórico de formação cultural da sociedade brasileira.
Encontram-se opiniões na imprensa que afirmam de forma enfática
como nascem os anjos
que o tempo deu razão a Oswaldo Cruz 4 5. Parece que há uma
confusão na percepção entre a necessidade das ações de prevenção e
controle de doenças e na forma com que são conduzidas essas ações.
Não se trata aqui de discutirmos se havia ou não a necessidade em
realizar ações para o controle da varíola no Rio de Janeiro de 1904,
mas sim, como essas ações são implementadas pelo Estado. Como
esse Estado se relaciona com a população para resolver um problema
de saúde pública. Como a partir da questão da vacinação contra a
varíola, podemos perceber de forma inequívoca, a pouca inclinação
para o discurso democrático e a facilidade com que o Estado Brasileiro
utiliza-se da violência para estabelecer o consenso.
4
MAGNO, Ana Beatriz. Apartheid imunológico. Correio Braziliense, Brasília, 31 out. 2004,
p.29-30. Essa matéria aborda a questão da vacinação afirmando existir um aphartheid, uma separação
imunológica (entendida como uma proteção) entre a parcela da população que se utiliza das vacinas que
estão disponíveis para todos na rede pública do SUS, com a parcela que têm condições de utilizar as vacinas
disponíveis na rede privada. Essa situação, segundo a repórter, é decorrente dos cortes orçamentários de um
lado, e o avanço científico de outro, o que proporcionou o aumento da oferta privada de vacinas. Nos chama
a atenção, como em nenhum momento se refere ao contexto mercadológico existente hoje em diversas
áreas, principalmente quando falamos de saúde. Na segunda parte da matéria, busca retratar a Revolta da
Vacina, lembra que Oswaldo Cruz assumiu o cargo de diretor-geral de Saúde Pública com “a complicada
missão de sanear a cidade e limpar a imagem do país”. “Oswaldo Cruz optou por duas medidas drásticas.
Derrubou as moradias populares infestadas de ratos e conseguiu aprovar no Senado uma legislação que
obrigava a vacinação e punia quem desobedecesse. O povo chiou. A imprensa fez forte oposição e satirizou
o médico. No dia 13 de novembro de 1094, eclodia a Revolta da Vacina. Teve quebra-quebra, barricada e
tiroteio durante três dias. O governo derrotou o levante, mas suspendeu a obrigatoriedade das injeções. O
tempo deu razão a Oswaldo Cruz….”. Sevcenko nos fala que os revoltosos “Obstavam, enfim, não contra
a vacina, cuja utilidade reconheciam, mas contra as condições de sua aplicação e acima de tudo contra o
caráter compulsório da lei” (SEVCENKO, 2003, p.14). A perspectiva da matéria elabora uma representação
histórica vazia, não estabelece a complexidade que envolvia os acontecimentos, não percebe a teia de
relações sociais e culturais existentes na sociedade do Rio de Janeiro de 1904, os diversos interesses dos
grupos sociais da época. Elege uma data para a eclosão da revolta que não tem fundamento histórico.
Personaliza os acontecimentos em torno de Oswaldo Cruz, reduzindo de forma drástica os significados
sociais da revolta, e delimita a compreensão histórica da revolta como sendo uma discussão (fictícia) a favor
ou contra a vacinação. Dessa forma, realiza uma leitura dos acontecimentos conforme e em concordância
com o relato oficial do Estado, aborda Oswaldo Cruz como vitorioso na Revolta da Vacina, ignora o contexto
social, político e cultural que envolvia as resistências frente a obrigatoriedade da vacinação.
5
VERISSIMO, Luiz Fernando. Coluna: Verrisimo. O Globo, Rio de Janeiro, 23 out. 2005. Em sua
coluna do jornal, o autor aborda e discute a questão do plebiscito que o Estado brasileiro realizou sobre
a proibição ou não do comércio de armas de fogo e munição no território brasileiro. Realiza uma reflexão
na qual faz referência a Revolta da Vacina, acontecimento histórico que, segundo o autor, evidencia uma
situação de ignorância da população sobre os reais impactos e objetivos da vacinação. Ao utilizar essa
referência, nos mostra mais um exemplo de como é representado, a imagem que se tem sobre a resistência
de setores da população do Rio de Janeiro em 1904.
*
19
20
*
fabiano camilo
Utilizando-se do diário de Lima Barreto como fonte primária dos
acontecimentos acerca da Revolta da Vacina, o historiador Sevcenko
selecionou um trecho da obra que aborda a reação e os procedimentos
do Estado para disciplinar e impor a ordem pública, além de
demonstrar alto pendor do autor para o humor irônico, demonstra
também, a sua capacidade de análise dos acontecimentos que
presenciou relacionando-os com a história do país, eis o trecho :
Um progresso! Até aqui se fazia isso sem ser preciso estado de sítio;
o Brasil já estava habituado a essa história. Durante quatrocentos
anos não se fez outra coisa pelo Brasil. Creio que se modificará o
nome: estado de sítio passará a ser estado de fazenda. De sítio para
fazenda, há sempre um aumento, pelo menos no número de escravos.
(SEVCENKO, 2003, p.80)
Lima Barreto observa com bastante propriedade como o passado
de uma sociedade escravocrata, manifesta-se nos modos de ação e
percepção do Estado quando este procura estabelecer e implantar
novos projetos. Este novo projeto é o que está por trás da Revolta da
Vacina, muito mais do que um simples procedimento médico e de
saúde pública, uma ação que procura sanear, higienizar um espaço
urbano e ordená-lo para atender e proporcionar, conforme coloca
Sevcenko (2003, p.9) :
a constituição de uma sociedade predominantemente urbanizada
e de forte teor burguês no início da fase republicana, resultado do
enquadramento do Brasil nos termos de uma nova ordem econômica
mundial instaurada pela Revolução Científico-Tecnológica (por
volta de 1870), foi acompanhada de movimentos convulsivos e crises
traumáticas, cuja solução convergiu insistentemente para um sacrifício
cruciante dos grupos populares.
como nascem os anjos
Considerando a revisão historiográfica proposta por Hespanha sobre
a forma de funcionamento e de como é estruturado o poder no Antigo
Regime. Muito mais do que um poder absoluto, dentro de um Estado
Absolutista, este poder se configura em uma série de poderes oriundos
de diferentes jurisdições. (HESPANHA, 2001, p.165-187 e 1994,
p.295-324.)
A ideia existente então, sobre o poder e como ele deve funcionar,
está diretamente relacionada a uma mentalidade muito mais feudal
do que capitalista. Hespanha nos apresenta a teoria corporativa
da sociedade, que, baseada no pensamento social medieval, é
diferente do pensamento, da concepção de mundo, próprio do
capitalismo, fundamentado na ação do indivíduo. São pensamentos
diametralmente opostos. Enquanto o capitalismo fundamenta-se
no individualismo, “na irredutibilidade da sua natureza ontológica
e dos seus fins”, ou seja, os desejos e consequentemente os direitos
individuais, orientam e balizam os encaminhamentos dos projetos
políticos que se manifestam na sociedade, e, além disso, estabelecem as
maneiras e os modos de organização social, bem como a sua dinâmica;
o pensamento medieval “era dominado pela idéia de ‘corpo’, ou seja,
de organização supra-individual, dotada de entidade diferente da
das partes, prosseguindo fins próprios e auto-organizada ou autoregida em função desses fins”. Ora, para o pensamento medieval, havia
uma ordem universal que regia todos os homens e todas as coisas.
Com forte influência da filosofia cristã, o criador (Deus) destinou
para cada elemento uma função específica que deveria ser executada,
para o perfeito funcionamento do cosmos e por desdobramento da
sociedade. Por mais estranho que possa parecer em um primeiro
momento, os elementos, as partes, os órgãos do corpo social não
*
21
22
*
fabiano camilo
podiam ser reduzidos ou negligenciados pois, eram indispensáveis para
o correto funcionamento do corpo integral, dessa forma, Hespanha,
declara a impossibilidade lógica da existência de um governo político
absolutamente centralizado, já que, vai de encontro à concepção de
mundo hegemônica existente na época e que proporcionava a maneira
de perceber a realidade pelos integrantes da sociedade.
Essa revisão historiográfica provoca uma reflexão enquanto cidadãos
do século XXI, pois resgata e constrói uma forma de pensamento que
não é clara a princípio. A nossa concepção de mundo fundamentada
no individualismo e na lógica racional e positiva, entra em choque no
momento de montarmos virtualmente, e tentarmos fazer inteligível a
teoria corporativa da sociedade, pois são bases opostas. No entanto,
após esse esforço inicial, torna-se mais compreensível diversas
características e dinâmicas da sociedade brasileira, ecoando esse
passado feudal e corporativo.
Façamos um parêntesis, para trazer à tona o trabalho de Perry
Anderson (1985) sobre as origens do Estado Absolutista, que ao
invés de representar uma ruptura com o Feudalismo que o precedeu,
representa na verdade uma continuidade das sociedades feudais.
Uma continuidade que incorpora modificações, principalmente,
trazendo novas dinâmicas, novos ritmos e tempos de trabalho e de
vida, ampliando as relações sociais internamente e externamente sem,
contudo, modificar a “superestrutura”. Anderson cita o reflorescimento
do direito romano, que na política favorece os instrumentos para
efetivar a centralização dos poderes, e, na economia favorece o
estabelecimento e a expansão do livre capital, a propriedade fica livre
de foros e obrigações próprias do feudalismo. A modernização jurídica
como nascem os anjos
tem como efeito reforçar a dominação da classe feudal tradicional, o
que provoca um paradoxo aparente, uma modernidade superficial e um
arcaísmo subterrâneo.
Esse parêntesis serve, entre outras coisas, para reforçar o interesse
das elites coloniais em propagar a idéia de um colonialismo absoluto
e centralizado, quando se lança no movimento para a independência.
O discurso dessas elites fundamenta-se em construir uma visão de
conflito entre os interesses da metrópole com os da colônia, pontuando
de tal forma, que procura transformar os brasileiros “nativos” em
uma grande massa homogênea, com interesses semelhantes, em
contraposição aos representantes da metrópole. Hespanha nos mostra
que, no caso do Brasil, é mais “agradável” entendermos a existência
de um poder absoluto por parte da metrópole, determinando todas
as ações e atividades realizadas e que viriam a ser desenvolvidas na
colônia, ou seja, os responsáveis pelas causas dos nossos problemas são
eles.
Com a teoria do Estado Corporativo, podemos refletir sobre como
é constituído o poder estatal na sociedade brasileira, bem como, as
características e manifestações específicas da Justiça. Esse Estado traz
toda uma cultura anterior da época feudal, e em alguns pontos até da
Roma antiga. É pensado e vivido, levando em conta que a sociedade
deve funcionar conforme um organismo, um ser vivo criado e
instituído por Deus. Da mesma forma que um organismo, a sociedade
é pensada e representada como constituída de um corpo, onde cada
membro possui a sua função e especificidade. Esses membros não são
indivíduos isolados, mas, sim, grupos e corporações que possuem os
seus costumes e a sua jurisprudência.
*
23
24
*
fabiano camilo
Ao tomarmos contato com os acontecimentos relacionados à Revolta
da Vacina, as ações e as formas de atuação do Estado constituído
por indivíduos com uma mentalidade que considera o corpus social
hierarquizado, as ações de resistência da população são percebidas
como contrárias à ordem natural das coisas. Não basta apenas lutar
por um projeto, é necessário desqualificar a resistência e, mais do
que isso, realizar procedimentos que têm como objetivo isolar o mal,
conduzí-lo para o mais longe possível, na tentativa de garantir que não
mais se manifeste. Daí a utilização das ações de punição sumária e a
manifestação institucionalizada do Estado praticando o terror.
A violência policial se distingue não só pela sua intensidade e
amplitude, mas sobretudo pelo seu caráter difuso. Não importava
definir culpas, investigar suspeitas ou conduzir os acusados aos
tribunais. O objetivo parecia ser mais amplo: eliminar da cidade todo
o excedente humano, potencialmente turbulento, fator permanente de
desassossego para as autoridades.
O desassossego das autoridades, não era apenas contra a massa de
desocupados, vagabundos, gatunos e todo tipo de classificação que a
sociedade faz para aqueles que estão à margem, mas sim, aos que se
levantam e resistem contra ações do Estado. Vemos que as autoridades
da época utilizavam um discurso que tinha como objetivo simplificar o
leque do estrato social que criava a desordem. Esse estrato eram os que
necessitavam de intervenção, de uma regeneração, moldar esses indivíduos
para que se integrem ao projeto colocado em pauta pelo Estado.
A relação entre medicina e Estado não é uma situação aleatória
ou circunstancial, como pode parecer superficialmente. Podemos
como nascem os anjos
identificar um aperfeiçoamento dos mecanismos de disciplina e de
controle social deste a Revolução Francesa até os dias de hoje. A
sociedade burguesa, ou melhor, o capitalismo necessita e busca a
disciplina, a ordenação do trabalho e das atividades humanas em geral.
O sucesso da disciplina é obter corpos que atuam, se expressam e
vivam dentro da ordem hegemônica.
Como nos mostra Foucault, há um equívoco quando se considera
a medicina praticada nos dias de hoje como sendo uma prática
individual e não uma prática coletiva.
Pode-se dizer – como dizem alguns, em uma perspectiva que pensam
ser política, mas que não é por não ser histórica – que a medicina
moderna é individual porque penetrou no interior das relações de
mercado? Que a medicina moderna, na medida em que é ligada a
uma economia capitalista, é uma medicina individual, individualista,
conhecendo, unicamente a relação de mercado do médico com o
doente, ignorando a dimensão global, coletiva, da sociedade? … a
medicina moderna é uma medicina social que tem por background
uma certa tecnologia do corpo social; que a medicina é uma prática
social que somente em um de seus aspectos é individualista e
valoriza as relações médico-doente. … com o capitalismo não se deu
a passagem de uma medicina coletiva para uma medicina privada,
mas justamente o contrário; que o capitalismo, desenvolvendo-se
em fins do século XVIII e início do século XIX, socializou um
primeiro objeto que foi o corpo enquanto força de produção, força
de trabalho. O controle da sociedade sobre os indivíduos não se
opera simplesmente pela consciência ou pela ideologia, mas começa
no corpo, com o corpo. Foi no biológico, no somático, no corporal
que, antes de tudo, investiu a sociedade capitalista. O corpo é uma
realidade bio-política. A medicina é uma estratégia bio-política.
(FOUCAULT, 1979, p. 79-80)
*
25
26
*
fabiano camilo
Por mais estranho que possa parecer em um primeiro momento, é sobre
os corpos que a história é construída. O uso e os abusos com que o Estado
exerce o seu poder são sobre o corpo que as ações se tornam concretas.
Como também, é através dos corpos que o poder passa de um indivíduo
para o outro, manifestando-se de maneiras distintas, específicas, conforme
cada situação e cada ambiente, mas mantendo o núcleo duro intacto, a ação
disciplinadora e ordenadora. Não é por outra razão, que a preocupação
com os bons modos, os bons costumes, a forma certa e socialmente aceita
de se comportar, de se vestir, de manusear os talheres, a forma adequada
de se expressar, o cuidado com a higiene e com a saúde, é potencializada no
início do século XIX na Inglaterra vitoriana.
Não precisamos ir tão longe para constatar essa realidade. Em relação
a medicina, temos um relato pujante sobre a maneira de atuação dos
guardas do Departamento de Profilaxia da Lepra (DPL) no estado
de São Paulo em 1941, que seguindo o modelo que prevaleceu no
país a partir de 1920 para tratamento dos portadores de hanseníase,
a captura com o uso da força, quando necessário, e o isolamento
completo dos doentes em asilos ou sanatórios.
Os guardas, depois de passar pela casa, foram encontrá-lo a quatro
quarteirões, em um bar da praça Marechal Deodoro, onde ele
jogava bilhar. Ele tentou fugir, mas o mal perfurante nos pés, que se
agravara, impediu que corresse. Não conseguiu ir além da calçada.
Com a mesma técnica usada pelos homens da carrocinha para
pegar cachorros na rua, um dos guardas tirou uma corda da cintura
e laçou-o pelo tronco. Edmundo, um jovem de dezesseis anos, foi
empurrado para a ambulância, que arrancou em direção à avenida
Doutor Arnaldo, onde se localizava a sede do DPL. Ele chegou lá
amarrado e, horas depois, seria mandado para Mogi das Cruzes, a 61
quilômetros da capital. (MARANHÃO, 2004, p. 32)
como nascem os anjos
Edmundo Donato, posteriormente Marcos Rey – seu nome artístico
– escritor conhecido nacionalmente, autor da obra Memórias de
um Gigolô, e tantas outras, cometeu qual crime para receber esse
tratamento? Para alguns, não havia e não há problema algum em se
praticar tais procedimentos, já que existe uma razão maior, o bem estar
coletivo. Contudo, não podemos perder o foco de que o bem estar
coletivo é uma idéia construída historicamente em bases específicas,
no caso brasileiro, a partir de uma estrutura social hierarquizada e
uma cultura patriarcal, onde as micro jurisprudências estão sempre
presentes. Isso significa que a manifestação do poder patriarcal não
fica restrita aos que estão no topo da estrutura social, se aceitamos
que o poder percorre os corpos e se manifesta através deles, aqueles
indivíduos que sofrem também farão sofrer.
O corpo: superfície de inscrição dos acontecimentos (enquanto que a
linguagem os marca e as idéias os dissolvem), lugar de dissociação do
Eu (que supõe a quimera de uma unidade substancial), volume em
perpétua pulverização. A genealogia, como análise da proveniência,
está portanto no ponto de articulação do corpo com a história. Ela
deve mostrar o corpo inteiramente marcado de história e a história
arruinando o corpo. (FOUCAULT, 1979, p. 22)
Foucault, ao estudar o poder, a sua manifestação, compreendeu como
ele sobrevive nas relações sociais. Acabamos por viver uma realidade,
na qual criticamos e às vezes nos opomos às instituições formais
e que representam a face material do poder hegemônico, contudo,
muitas vezes esquecemos que nós próprios, enquanto indivíduos,
estabelecemos com os outros relações que veiculam e manifestam o
poder que criticamos.
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Temos então uma situação que, ao mesmo tempo em que verificamos
o esforço para transformar e inserir a sociedade brasileira na nova
conjuntura econômica mundial, a estrutura social permanece com a
mesma característica de extrema hierarquização em conjunto com
a permanência da visão de mundo tomista, ou seja, uma sociedade
corporativa. As transformações necessárias para um funcionamento
da sociedade em perfeita sintonia com os preceitos do capitalismo se
esbarram com as defesas dos micropoderes. Daí podermos entender,
como a formação histórica da sociedade brasileira necessitou de quase
200 anos para aprovar o divórcio em suas leis. A concepção tomista
da sociedade está intimamente ligada a uma relação umbilical entre
Estado e Igreja, esta ditando, orientando e balizando os valores a
serem seguidos, principalmente, em relação aos direitos civis. Essa
característica histórica da sociedade brasileira conduz a uma situação
onde o uso do autoritarismo é visto como algo natural e o seu uso e
prática é um direito, uma prerrogativa do patriarca, o paterfamilis,
aquele que cuida, providencia sustento, comanda e domina a sua
família. As concepções que estabelecem o código de direto civil,
evidenciam uma estrutura mental, de visão de mundo, sobre como
funcionam as relações entres as pessoas. (NEDER e FILHO, 2001)
Encontramos na legislação de criação do Sistema Único de Saúde, Lei
nº 8.080 de 19/09/1990, algumas definições interessantes:
Art. 2º A saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo o
Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício.
§ 1º O dever do Estado de garantir a saúde consiste na formulação
e execução de políticas econômicas e sociais que visem à redução
de riscos de doenças e de outros agravos e no estabelecimento de
condições que assegurem acesso universal e igualitário às ações e aos
como nascem os anjos
serviços para a sua promoção, proteção e recuperação.
§ 2º O dever do Estado não exclui o das pessoas, da família, das
empresas e da sociedade.
…
Dos Princípios e Diretrizes
Art. 7º As ações e serviços públicos de saúde e os serviços privados
contratados ou conveniados que integram o Sistema Único de Saúde
(SUS), são desenvolvidos de acordo com as diretrizes previstas no
art. 198 da Constituição Federal, obedecendo ainda aos seguintes
princípios:
…
III - preservação da autonomia das pessoas na defesa de sua
integridade física e moral;
... (BRASIL, 1990)
Ao mesmo tempo em que a saúde é definida como um direito
fundamental do ser humano, institui o dever do Estado em garantíla, contudo, logo em seguida transforma o direito em dever, coresponsabilizando as pessoas, as famílias, as empresas e a sociedade,
ou seja, todo mundo tem o dever de garantir a saúde. Além disso,
é necessário preservar a autonomia das pessoas na defesa de sua
integridade, física e moral, como um dos princípios e diretrizes
da legislação em questão. Como é possível conciliar isso tudo? A
autonomia não pressupõe o direito de governar a si mesmo?
Essas questões que vêm à tona, dizem respeito ao exercício do poder e
as relações sociais.
Dispomos da afirmação que o poder não se dá, não se troca, nem se
retoma, mas se exerce, só existe em ação, como também da afirmação
que o poder não é principalmente manutenção e reprodução das
relações econômicas, mas acima de tudo uma relação de força.
(FOUCAULT, 1979, p. 175)
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Claro que sabemos que a própria existência do Estado, qualquer que
seja, está ligada a uma relação de poder hierarquizada, há aqueles que
mandam e os que obedecem. Isso também significa que a resistência
aos ordenamentos, é parte intrínseca do processo, por maior que seja o
controle existente. (CLASTRES, 2003)
Retomando o foco para o corpo, é sobre os corpos que a história é
construída. Inserido no processo da Contra-Reforma levado a cabo
pela Igreja Católica, o trabalho de Gian Lorenzo Bernini, 15981680, escultor, pintor, arquiteto, desenhista e cenógrafo, materializou
representações de manifestações espirituais ou místicas para as artes
sacras, seguindo os preceitos definidos pelo Concílio Ecumênico de
Trento, 1545-1563, contra as inovações doutrinárias dos protestantes,
para tê-las e utilizá-las como instrumento pedagógico para o ensino
dos mistérios da fé.
986. Quanto às Imagens de Cristo, da Santíssima Virgem e de outros
Santos, se devem ter e conservar especialmente nos templos e se
lhes deve tributar a devida honra e veneração, não porque se creia
que há nelas alguma divindade ou virtude pelas quais devam ser
honradas, nem porque se lhes deva pedir alguma coisa ou depositar
nelas alguma confiança, como outrora os gentios, que punham suas
esperanças nos ídolos (cfr. Sl 134, 15 ss), mas porque a veneração
tributada às Imagens se refere aos protótipos que elas representam,
de sorte que nas Imagens que osculamos, e diante das quais nos
descobrimos e ajoelhamos, adoremos a Cristo e veneremos os Santos,
representados nas Imagens. Isto foi sancionado nos decretos dos
Concílios, especialmente no segundo de Nicéia contra os iconoclastas.
987. Os bispos ensinem, pois, diligentemente, com narrações dos
mistérios de nossa redenção, com quadros, pinturas e outras figuras,
pois assim se instrui e confirma o povo, ajudando-o a venerar e
como nascem os anjos
recordar assiduamente os artigos de fé. Então sim, grande fruto se
poderá auferir do culto das sagradas Imagens, não só porque por
meio delas se manifestam ao povo os benefícios e as mercês que Deus
lhes concede, mas também porque se expõem aos olhos dos fiéis os
milagres que Deus opera pelos seus Santos, bem como seus salutares
exemplos. Rendam, assim, por eles graças a Deus, regulem a sua
vida e costumes à imitação deles e se afervorem em adorar e amar a
Deus, fomentando a piedade. Se alguém ensinar ou pensar de modo
contrário a estes decretos — seja excomungado.
988. Se nestas santas e salutares observâncias se introduzirem abusos,
deseja ardentemente este santo Concílio que sejam totalmente
abolidos, a fim de que não tenha isso para os simples as aparências
de um falso dogma e não seja ocasião de erros. E se alguma vez
acontecer que se representem e ilustrem episódios e narrações da
Sagrada Escritura, como aliás é conveniente ao povo pouco instruído,
ensine-se então que nem por isso é possível representar a divindade,
como se a víssemos com os olhos corporais, ou a pudéssemos exprimir
em cores e figuras... (CONCÍLIO ECUMÊNICO DE TRENTO,
Sessão XXV, 3 e 4-12-1563)
A maioria das obras de Bernini foi realizada para a Igreja Católica,
obviamente, após as disputas travadas com os representantes da
Reforma era imperioso registrar a glória. Sua obra mais emblemática,
a escultura O Êxtase de Santa Tereza encontra-se na Capela Cornaro,
à esquerda do altar-mor da Igreja de Santa Maria Della Vitoria,
Roma. Originalmente, a Igreja, cujo projeto foi de responsabilidade
de Carlo Maderno, considerado o arquiteto-chefe do Vaticano na
primeira década do século XVII, era dedicada a São Paulo sendo
posteriormente devotada à Santa Virgem Maria, e aos cuidados da
ordem dos Carmelitas Descalços 6.
6<http://pt.wikipedia.org/wiki/Ordem_dos_Carmelitas_Descalços>
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Após a vitória dos católicos sobre os protestantes em White Mountain,
em 1620, batalha decisiva para a Contra-Reforma na Boêmia, a Igreja
passa a ser denominada Santa Maria Della Vitoria. 7 8
Fig. 1 – foto da escultura O Êxtase de Santa Tereza, Gian Lorenzo Bernini,
esculpida entre 1645-1652, capela Cornaro, na Igreja de Santa Maria della
Vittoria, Roma, Itália.
Fonte : <http://smarthistory.khanacademy.org/bernini-ecstasy-of-st.-theresa>
acessada em 19/11/2011
7<http://en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_White_Mountain>
8
< http://www.britannica.com/EBchecked/topic/642395/Battle-of-White-Mountain>
como nascem os anjos
Fig. 2 – foto detalhe da escultura O Êxtase de Santa Tereza, Gian Lorenzo
Bernini, esculpida entre 1645-1652, capela Cornaro, na Igreja de Santa Maria
della Vittoria, Roma, Itália.
Fonte : <http://multiplosestilos.blogspot.com/2010/03/o-extase-de-santa-tereza-bernini.html>
acessada em 19/11/2011
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Fig. 3 – foto detalhe da escultura O Êxtase de Santa Tereza, Gian Lorenzo
Bernini, esculpida entre 1645-1652, capela Cornaro, na Igreja de Santa Maria
della Vittoria, Roma, Itália.
Fonte: <http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Êxtase_de_Santa_Teresa>
acessada em 19/11/2011
como nascem os anjos
Fig. 4 – foto detalhe da escultura O Êxtase de Santa Tereza, Gian Lorenzo
Bernini, esculpida entre 1645-1652, capela Cornaro, na Igreja de Santa Maria
della Vittoria, Roma, Itália.
Fonte : <http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Êxtase_de_Santa_Teresa>
acessada em 19/11/2011
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Bernini trabalha o mármore para impregná-lo da emanação de
verdade, há vida ali, e por conta disso, vemos as emoções de Santa
Tereza, já que aqui não podemos colocar no singular. No caso, o êxtase,
o arrebatamento do espírito; enlevo; contemplação do que é divino,
sobrenatural, maravilhoso (PRIBERAM). O corpo é o documento
original, a primeira fonte, o êxtase é a alma se desprendendo do corpo
em direção a algo maior e imensurável, uma sublimação da dor em
prazer pelo abandono do corpo (FERREIRA, 2003, p. 03).
As representações de êxtase espiritual novamente foram o foco na
escultura da beata Ludovica Albertoni, com Bernini já nos seus
73 anos quando inicia esta nova obra. Ludovica é oriunda de uma
família rica e proeminente, mãe de três filhos, viúva em 1506. Seguia
os preceitos dos franciscanos, conhecida por seus êxtases místicos e
milagres. Segundo relatos, tinha o dom da levitação. Ela faleceu de
causas naturais. 9 10 11 12
9<http://www.franciscanos.org/santoral/ludovicaalbertoni.htm>
10<http://en.wikipedia.org/wiki/Ludovica_Albertoni>
11<http://www.escape-artists.com/berninis-rome/beata-blessed-ludovica-albertoni/>
12
< http://pt.wikipedia.org/wiki/Ludovica_Albertoni>
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Fig. 5 – foto da escultura da beata Ludovica Albertoni, Gian Lorenzo Bernini,
esculpida entre 1671-1674, capela Paluzi-Albertoni, na Igreja San Francesco a
Ripa, Roma, Itália.
Fonte: <http://it.wikipedia.org/wiki/File:Gian_Lorenzo_Bernini_-_Statua_della_Beata_Ludovica_
Albertoni.jpg>
acessada em 19/11/2011>
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Mesmo sem conseguir identificar a autoria da escultura fotografada
por Mario Cravo Neto e incluída em seu livro Salvador, ISBN 8585098-02-3, temos aqui um exemplar do Barroco nas terras e paragens
brasileiras, revelando outra forma de êxtase.
Fig. 6 – fotos do Cristo Barroco no livro Salvador de Mario Cravo Neto,
nascido em 1923.
Fonte: <http://www.cravoneto.com.br/salvador/po/index.html>
acessada em 19/11/2011.
como nascem os anjos
Fig. 7 – fotos do Cristo Barroco no livro Salvador de Mario Cravo Neto,
nascido em 1923.
Fonte: <http://www.cravoneto.com.br/salvador/po/index.html>
acessada em 19/11/2011.
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produção para saber
Tendo como objeto a ser tratado, utilizei os registros fotográficos
feitos por Bruno Mitih, durante apresentação de suspensão corporal
na Galeria Prestes Mais, durante a Virada Cultural em São Paulo/SP,
entre os dias 15 e 16 de maio de 2010. Bruno Mitih realiza trabalhos
audiovisuais e fotográficos.
Essa releitura teve como princípio, trazer para o plano principal a
protagonista, além de implementar modificações de recorte, cores e
inclusão de outros elementos com o objetivo de representar o contexto
espiritual da experiência de suspensão corporal.
Mesmo que nos dias atuais, a presença de público é quase uma
obrigatoriedade, o foco é na individualidade da experiência específica
da protagonista em tela.
Fig. 8 a 21 – como nascem os anjos : corpo : as relações entre interior e
exterior mediadas pela pele.
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Tive a intenção, no momento da escolha da representação de verdade
a ser tratado, em ressaltar as características barrocas do fato em si, a
suspensão corporal. Obviamente, o uso de anzóis, objeto ordinário no
processo de pesca e em açougues, matadouros ou frigoríficos, estes,
usam comumente os anzóis para dependurar carcaças inteiras, ou
partes, cortes de carnes dos animais esquartejados e processados para
consumo.
O que se evidencia da alma pela aparência da bela mulher em
suspensão? O êxtase. 13
Aparentemente cruel, mas ao se verificar as ocorrências pelo mundo
e pelo tempo, que objetivam pela dor levar a alma a se desprender do
corpo, há algo aí além do que os corpos suportam. Auto crueldade,
sadismo, masoquismo? Não é possível generalizar, a resposta só
podemos vislumbrar após observação do corpo ou corpos, caso seja
feito em um ritual coletivo, que buscam o êxtase. 14 15 16 17 18 19 20 21
Pergunto, para quê dizer se já disseram antes? Cantado por Amélia
Rodrigues, fadista, conhecida internacionalmente, e, atualmente pela
Carminho, nome completo, Carmo Rebelo de Andrade, nascida em
Lisboa, a 20 de Agosto de 1984.22
13<http://pt.wikipedia.org/wiki/Êxtase>
14<http://www.blogdacompanhia.com.br/2010/09/a-santa-teresa-de-bernini/>
15<http://pt.wikipedia.org/wiki/Penitência>
16<http://www.portaldemissoes.com.br/pt/noticias/atualidades/677-cristaos-seautoflagelam-e-sao-crucificados-para-sentir-o-que-jesus-sentiu>
17<http://www.universocatolico.com.br/index.php?/o-qmisterioq-do-opus-dei-1.html>
18<http://www.youtube.com/watch?v=Pb98z5VPwLc>
19<http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI5505950-EI308,00-Iranianos+celebra
m+a+Ashura+principal+festividade+xiita.html>
20<http://pt.wikipedia.org/wiki/Ashura>
21<http://www.chabad.org.br/tora/cabalaterapia/index3.html>
22<http://pt.wikipedia.org/wiki/Carminho>
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As penas
Como diferem das minhas
As penas das avezinhas
Que de leves leva o ar
Só as minhas pesam tanto
Que às vezes nem já o pranto
Lhes alivia o pesar
As minhas penas não caem
Nem voam nunca, nem saem
Comigo desta amargura
Mostram apenas na vida
A estrada já conhecida
Trilhada pelos sem ventura
Os passarinhos têm penas,
Que em lindas tardes amenas
Os levam por esses montes!
De colina em colina,
Ou pela extensa campina
A descobrir horizontes!
Passam dias, passam meses
Passam anos, muitas vezes
Sem que uma pena se vá
E se uma vem, mais pequena
Ai, depois nem vale a pena
Porque mais penas me dá
Que felizes são as aves
Como são leves, suaves,
As penas que Deus lhes deu
Só as minhas pesam tanto
Ai, se tu soubesses quanto…
Sabe-o Deus e sei-o eu!
As penas, poema de Fernando Caldeira, português, 1841-1894. 23
A representação do êxtase, óbvio que é, necessitava das penas
explícitas, afinal, só acrescentei o que compreendi como sendo o oculto
do aparente.
23<http://jepleuresansraison.com/2011/06/26/as-penas-amalia-rodrigues-maria-teresade-noronha/>
como nascem os anjos
Como complemento e síntese deste trabalho, o vídeo como nascem os
anjos em anexo procura em 10min30 apresentar por meio de registros
imagéticos, com som de Erik Satie, o aparente do oculto ou o oculto
do aparente.
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conclusão
Nos tempos atuais, os corpos são mercadorias, produtos como os
demais existentes no mercado. O êxtase, a experiência espiritual,
nos tempos de hoje e em outros tempos também, para alguns há a
necessidade que o corpo seja despertado, sensibilizado por dores
físicas, para que a alma seja tocada.
Obviamente, antes, agora e depois há inúmeras maneiras e formas, eu,
opto pela que preserva a integridade e a fluidez da vida. O nosso corpo
é o templo do que a nossa mente assim significar. Por isso, aqui cabe
um pensamento jamaicano, se você não tem dinheiro, não é pobre, mas
se não tem amor é muito pobre.24
O que cabe aqui, se não, a referência a tradição e a sabedoria.
Três votos fará aquele
que não ser tolo decida
e venha deles primeiro
o de obediência à vida
será o segundo a vir
o de não querer ser rico
o muito passe de largo
o pouco lhe apure o bico
não violar-se a si próprio
como principal o veja
alto ou baixo gordo ou magro
assim nasceu assim seja.
24<http://www.youtube.com/watch?v=KbQa2HsJLx0&feature=BFa&list=PL2457C5043F2
BCF74&lf=BFa>
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Vida, poema de Agostinho da Silva, português, in ‘Poemas’. 25
Considerando a sabedoria das escrituras antigas e dos novos avanços
da neurociência, temos que cultivar o bom uso da língua 26. Há uma
ligação direta dela com o coração e o cérebro. 27 28
25<http://www.citador.pt/poemas/vida-agostinho-da-silva>
26
... que uma palavra de verdade preceda toda a tua diligência. Uma palavra má transtorna
o coração; dela vêm quatro coisas : o bem e o mal, a vida e a morte; sobre elas quem domina de
contínuo é a língua. Eclesiástico 36-37 : Prudente escolha de um conselheiro
27<http://gnt.globo.com/gntdoc/videos/_1304510.shtml>
28<http://www.youtube.com/watch?v=Xl7ql1wDsMM>
como nascem os anjos
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