A beleza das pessoas tatuadas “Uma análise da tatuagem desde a percepção do belo ou não belo que esta pode gerar”. Camila Rodrigues de Azevedo Ferreira1 Resumo O trabalho a ser apresentado tem como objetivo fazer a representação da beleza das pessoas tatuadas, usando como base para análise e possível representação, o belo em um contexto histórico. Para representar a beleza desse padrão comumente entendido como estranho, será feito um catálogo fotográfico como resultado final do estudo aqui apresentado, representando o belo das pessoas tatuadas. Para mostrar o belo do padrão entendido como estranho, o estudo será baseado em conceitos da história das artes, como um referencial, Kant, que apresenta o juízo de gosto. Palavras-chave: tatuagem ; belo; padrão ; estranho. 1 Graduanda da Universidade Católica de Brasília. 8º Semestre de 2014 do curso de Comunicação Social com especialização em Publicidade e Propaganda. E-mail: [email protected] Abstract The work to be presented aims to make the representation of the beauty of tattooed people, using as basis for analysis and possible representation, the beautiful in a historical context. To represent the beauty of this pattern commonly seen as strange, a photographic catalog will be the final result of the study presented here, representing the beautiful tattooed people. To show the beautiful pattern perceived as strange, the study is based on concepts of the history of the arts, as a reference, Kant, who introduced the judgment of taste. Keywords: tattoo; beautiful; pattern; weird. Sumário 1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 5 2 BELO E O ESTRANHO (NÃO BELO) ..................................................................... 5 3 PADRÃO DE BELEZA NA PUBLICIDADE E SEUS EFEITOS............................. 11 3.1 Corpos Perfeitos e os padrões da sociedade ...................................................... 14 4 TATUAGEM COMO PADRÃO CRIÁVEL .............................................................. 17 4.1 História do body modification e a arte de se tatuar ............................................ 19 5 BODY ART E O INÍCIO DO RECONHECIMENTO DA TATUAGEM NA CULTURA ORIENTAL COMO ARTE..........................................................................................21 5.1 A Tatuagem e sua aceitação no mercado de Trabalho.......................................23 6 A REPRESENTAÇÃO DO ESTRANHO COMO ARTE E BELO...........................25 CONCLUSÃO............................................................................................................29 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS..................................................................... ...30 LISTA DE FIGURAS Diadúmeno .................................................................................................................. 6 Laocoonte e seus filhos ............................................................................................... 7 Cânon de 9 cabeças de El Greco................................................................................ 8 Flora Giuseppe Arcimboldo ......................................................................................... 9 Helen Lansdowne Resor ........................................................................................... 12 Tomas Hintnaus .................................................................................................... ...13 Campanha SKOL.........................................................................................................15 Campanha DOLCE & GABANNA................................................................................16 CAMPANHA GUCCI....................................................................................................17 VITO ACCOUNCI.........................................................................................................22 MOÇA COM A FLOR...................................................................................................27 5 1 Introdução Neste trabalho, faz-se a abordagem da análise da tatuagem desde a percepção do belo ou não belo que esta pode gerar. Para isso, como primeiro passo, será analisado o que é belo num contexto histórico, e o não belo será analisado desde a perspectiva do estranho seguindo a conceituação de LISSETT2 (2005, p.204). De modo a falar de tais questões que serão apresentadas nesse estudo, o corpus teórico metodológico será composto por revisão bibliográfica a partir de artigos, livros e publicações sobre História das Artes, modificação e fotografia. Este trabalho será composto pelo presente memorial descritivo e por um ensaio fotográfico. O mesmo terá por objetivo uma aproximação da bela representação do estranho, no intuito de lançar um olhar diferente sobre um grupo de pessoas geralmente vistas como estranhas, diferentes ou não belas. 2 Belo e o estranho (não belo) O belo contido num padrão de beleza corporal como comumente entendido, de fato é o fruto de uma evolução gradativa que na sua conceituação pode se datar desde o século V aC. A partir de então e até hoje, diferentes padrões tem se alternado consecutivamente. Inicialmente, o belo pode ser caracterizado das definições clássicas da estética Platônica e Aristotélica, sendo a primeira associada ao equilíbrio e medida, em que sugere um tipo de beleza em si voltada a um mundo ideal distante, controlado e desumanizado, e a segunda entendida como caótica, musical e expressiva, ou seja, é um tipo de beleza particular. Como expressão da beleza platônica, é definido um padrão rígido, elaborado pelo escultor Policleto3, nele se estabelece um Cânon de medidas descrito num sistema de proporções que partem da medida de uma cabeça, visto que a altura perfeita ideal seria de sete cabeças como no Diadúmeno4 (figura N°1). 2 Andrea Lisset doutora em Antropologia social, num de seus estudos analisa a questão da identidade através da pele na monografia “A identidade à flor da pele: Etnografia da prática da tatuagem na contemporaneidade”. 3 Policleto , escultor da Grécia Antiga, fundador junto com Fídias do Classicismo escultórico, conhecido também como Pai da Teoria da Arte do Ocidente. 4 Diadúmeno é uma das esculturas mais conhecidas de Policleto, constituindo as três formas básicas de escultura Grega que idealizam homens jovens representados de maneira natural. 6 Figura N°1 Diadúmeno, Cânon de sete cabeças de Policleto, Ano e criação: 420 A.C Fonte:http://wladimirwagner.blogspot. com.br/2011/09/as-esculturasgregas-e-sua-influencia.html A beleza Aristotélica, ainda que tenha um caráter expressamente dramático, preserva o sistema de medidas e proporções, porém com movimento e humanização. Um exemplo disso esta no conjunto escultórico do Laooconte5 (figura N°2), obra de autor desconhecido, em que o mesmo retrata a lenda do Laocoonte e seus filhos Antífanes e Timbreu, todos eles mortos estrangulados por serpentes marinhas, sendo esta a punição dada por Apolo por ter arremessado uma lança contra o cavalo de Troia. 5 Laooconte, é um personagem do ciclo épico sobre a guerra de Troia. Contra a vontade de Apolo, se casou, teve filhos que eram Antífanes e Timbreu, e devido sua desobediência, Apolo enviou serpentes de Tênedos que o mataram juntamente com seus filhos. 7 Figura N°2 Laocoonte e seus filhos Autor desconhecido Ano de criação: 140 A.C Fonte:http://dc304.4shared.com/ doc/JVqxLJtR/preview.html Cabe destacar que nesta caracterização clássica de beleza, ha um reconhecimento e aceitação a priori pelo público, deixando-se de lado o estranho do tema representado, já que o mesmo descreve a angústia e desespero de um pai que sofre a dor física do estrangulamento e a dor de ver os filhos entregues a uma morte terrível e impiedosa. É estranho pensar que o belo pode estar na cena tão cruel, mas como foi mencionado e aceito, é reconhecido como tal. Esta simples análise deixa entrever um dualismo paradoxal que o estranho ou não belo pode sim ser entendido e aceito de primeira mão como belo. Este Cânon de medidas só foi refutado no maneirismo espanhol com o Cânon de nove cabeças apresentado por El Greco6 (figura N°3). 6 El Greco, artista Grego, mestre em tradição artística pós-bizantino. Em sua permanência na Itália enriqueceu seu estilo com elementos do maneirismo e da renascença veneziana. O estilo das suas obras é o Dramático e expressivo. El Greco foi considerado como estranho para seus contemporâneos, porém no século XX foi visto como um precursor do expressionismo e do cubismo. 8 Figura N°3 Cânon de nove cabeças de El Greco Ano de criação: (desconhecido) Fonte:http://5dias.net/2008/12/11/para -quem-acha-que-manoel-de-oliveirafilma-mal-aqui-vai-um-autor-muito-lade-casa-que-pintava-mal-muito-malmesmo-muito-mal-e-era-e-e-umgrande-chato/ O segundo Cânon apresentado nesse estudo, sugere no primeiro olhar, pela composição da figura com traços alongados demais, o estímulo no apreciador da sensação de dramatismo nas pessoas representadas, mas de fato o estranho está presente numa deformação controlada, já que os comuns das pessoas carecem dessas proporções. Outro exemplo de estranho dentro do mesmo período do maneirismo, está constituído pela obra do renomeado artista Giuseppe Arcimboldo7 (Figura Nº 4), nele a distância da estética Platônica e Aristotélica aumenta mais ainda, já que qualquer sistema rígido de medidas como o Cânon de sete cabeças ou o de nove está ausente na proposta de suas pinturas. 7 Giuseppe Arcimboldo, pintor Italiano, considerado um dos mais celebres representantes do Maneirismo, onde suas pinturas consideradas estranhas mostram figuras humanas pela composição de frutas, legumes, animais e objetos exóticos. 9 A grande originalidade nele é o fato de compor supostos retratos a partir da organização de frutas e objetos, onde a beleza neste caso se define pela genialidade e originalidade sem precedentes, e então, o estranho se faz interessante e plausível. Figura N°4 Flora Giuseppe Arcimboldo Ano de criação: 1591 Fonte:http://arthistory.about.com/ od/from_exhibitions/ig/arcimboldo _paris/gaml1007_18.htm Gombrich8 explica este fenômeno do seguinte modo, afirmando que, gostos e padrões do que é belo variam imensamente. A beleza que está dentro de uma obra, como o Laocoonte ou como Flora de Arcimboldo, pode levar um tempo para ser notada, mas o belo está presente. O que trás a dificuldade para esta percepção, é a insistência do público apreciador em procurar o que já foi aceito como belo em obras de arte já consagradas, como exemplo disso, está em relacionar beleza com algo parecido à realidade. 8 Ernest Gombrich, um dos mais célebres historiadores da arte do século XX, em especial por seus estudos sobre o renascimento. Autor do livro: The History of art, publicado em 1950 em Londres. 10 Contudo, as obras que apresentam características estranhas ou de não beleza, seria como uma forma de realidade distorcida, isso choca, mas revela uma falta de ousadia na exploração de novos modelos. Esta reflexão tem relação direta com o estudo desse trabalho, tatuagem e a percepção do belo ou não belo que esta pode gerar. A beleza daquilo que normalmente é tido como uma realidade distorcida, estranha e em consequência como não belo, no olhar de Gombrich passa a ser tão somente a espera pela ousadia do apreciador. A tatuagem em si e as pessoas tatuadas geralmente vistas como estranhas, inicialmente chocam, mas a beleza está dentro delas assim como na obra de arte, a diferença está no suporte da beleza, em que na obra de arte encontra-se na tela ou na pedra, e nas tatuagens, está na pele das pessoas. Este pode ser entendido então como um padrão de beleza corporal que foge do que é comum. Logo, para ser belo, não precisa seguir um padrão, precisa-se entender o que aquele corpo está trazendo e enxergá-lo além dos traços, que por fim, são artes na pele, e toda arte por si, trás sua singularidade e beleza. (LISSET. 2005, p.209) Pode-se mencionar que a origem de uma proposta de estética corporal que será vista como estranha e “não belo”, tem outro referencial que vem desde o Oriente e se remonta ao do Japão Feudal; Aproximadamente em 1180 dC, as tatuagens eram usadas como forma de punição, se tornando sinônimo de criminalidade para os japoneses, onde para os mesmos, ser tatuado podia ser pior do que a morte. Tempo depois, em 1600, na era Tokugawa (também conhecida como clã Tokugawa)9, uma época caracterizada pela intensa repressão, ser criminoso virou sinônimo de resistência, popularizando então a tatuagem como um sinal de força. 9 Clã tokugawa, é uma família daimiô poderosa do japão. Daimiô trata-se dos mais poderosos senhores da terra do período do século X a meados do século XIX na história do Japão, depois do xogum. 11 Ainda no século XVII, surgiu Yakuza10, a máfia japonesa, onde seus membros costumavam pintar a totalidade do corpo em sinal de lealdade e sacrifício à organização e assim sinalizando a sua oposição ao regime. Tão somente na década de 1960, a tatuagem começa a ser evidenciada e posteriormente popularizada neste lado do planeta. A partir do exposto, estudiosos como (Cury, 2005, p.47)11 passam a defender esta forma de arte corporal dizendo que, “Toda beleza é imperfeitamente bela, jamais deveria haver um padrão, pois toda beleza é exclusiva como um quadro de pintura, uma obra de arte”. Esta apreciação bem pode estar fundamentada na estética kantiana. Immanuel Kant foi um filosofo prussiano que desenvolveu e apresentou uma nova estética, na qual se considera a ideia subjetiva da beleza, o belo não é próprio do objeto em si, a beleza está na percepção da cada apreciador, no olhar individual. Nega a concepção universal da beleza, destacando que cada um pode determinar um objeto como belo de acordo com a subjetividade através do juízo do gosto. 3 Padrão de beleza na publicidade e seus efeitos. Ao iniciar a discussão sobre padrão de beleza corporal, pode se tomar como norteador inicial a série de descrições de FREITAS, LIMA, et al (2010, p.398) 12 . Eles explicam que dentro dos padrões comuns existentes, a beleza é identificada e determinada, segundo o que diz no estudo “corpo, sociedade e visão sobre a beleza visto de fora”, onde neste se menciona que o padrão pode ser definido como “modelo oficial de pesos e medidas, que servem de base ou norma para avaliação e objeto que serve de modelo a feitura de outro”. E nesta perspectiva que se faz a seguinte abordagem. 10 Yakuza, membros tradicionais de crime organizado existente no Japão. Surgiram como associações criminosas e obedeciam a regras rígidas específicas e com o tempo começaram a influenciar diversos segmentos da sociedade e política japonesa. 11 Augusto Cury, é um pesquisador na área de qualidade de vida, desenvolveu a teoria da inteligência Multifocal e é autor do livro: “A ditadura da beleza e a revolução das mulheres”. 12 Clara Maria Silveira Monteiro de Freitas; Ricardo Bezerra Torres Lima; António Silva Costa; Ademar Lucena Filho, doutores na área de moda da Universidade de Desporto em Portugal, o projeto base para este apresentado, foi: “O padrão de beleza corporal sobre o corpo feminino mediante o IMC”. 12 O uso do corpo em campanhas publicitárias começou ser feito em 1841 pela agência criada por Volney Palmer13 em Boston, a mulher nestes anos não tinha muito espaço no mercado, dali que a Publicidade e Propaganda passaram a ser uma grande porta para trabalhos com uso de imagem feminina. A modelo Helen Bayless Lansdowne Resor14 (Figura Nº 5) pioneira neste mercado se transformou num ícone padrão que seria seguido. Figura N°5 Helen Lansdowne Resor Ano de publicação: 1841 Fonte:http://www.vintageadbrowser.c om/beauty-and-hygiene-ads- Este trabalho é um retrato do que seria um corpo ajustado aos padrões a serem admitidos dentro da publicidade, devendo o mesmo se ajustar a uma 13 Volney Palmer, norte-americano criador da primeira agência de publicidade do mundo na Filadélfia. Também o responsável por sugerir a ideia de cobrar 25% de comissão dos jornais para veicular anúncio. 14 Helen Bayless Lansdowne Resor é uma modelo executiva da publicidade americana. Nomeada em 1967 a 14ª pessoas da publicidade, reconhecida até o século 20. 13 caracterização de traços mais leves e voltados a feminilidade e delicadeza, além de trazer em si elegância, enquanto mulher. No caso masculino o corpo deveria ser definido, porém não extremamente malhado, com a aparência elegante e charmosa. Nestes primórdios da publicidade já vemos que para ser aceito em uma campanha publicitária surge um padrão de beleza tal como descreve FREITAS, LIMA, et al (2010, p. 355). Dando um pulo no tempo e já em 1988, pode se citar como exemplo de padrão de beleza masculino um rosto que se destacou em campanhas publicitárias de roupa intima, Thomas Hintnaus 15(Figura Nº 6) , nas campanhas da Calvin Klein. Figura N°6 Tomas Hintnaus Ano de publicação: 1988 Fonte:http://blog.undiefactory.co.uk/2 012/02/calvin-klein-underwear-30thanniversary.html O tipo de corpo descrito nestas campanhas seria também um padrão de comparação e qualificação para qualquer outro tipo, definindo-se um padrão de beleza na sociedade, ou aceito a priori num consenso comum. 15 Thomas Hintnaus é o primeiro modelo de campanha publicitária da Calvin Klein, e sua foto saiu em uma revista como “ As 10 fotos que mudaram a américa”, além de ser um atleta, fazendo saltos. 14 Em decorrência deste padrão de beleza corporal para a publicidade, o assunto se relaciona com o universo da moda, onde a questão do corpo em comparação e o padrão se tornam fortes influenciadores do juízo do gosto. LIPOVETSKY16 (1989) quando fala sobre o belo enquanto padrão, o explica através desses conceitos: o enfraquecimento e a necessidade. O enfraquecimento seria a negação da sociedade porque as pessoas que não seguem tal padrão não estariam “padronizadas” como Fashion, o que propicia a necessidade de que estas mesmas pessoas fora de padrão possam ir à procura do corpo Fashion, ou definidos (resultado de treinos e alimentação controlada). Desde esta perspectiva, a publicidade tem o poder de influenciar o consumidor de qualquer produto, através de modelos ou padrões a serem seguidos. Analisando o ponto de vista aqui mencionado, o mercado da moda, juntamente com a publicidade tem o poder de indicar padrões a uma parcela significativa de pessoas, fazendo-as então seguir tal padrão para estarem de acordo com o que é entendido como belo. Já Miranda17, diz a respeito à atualidade, que o padrão atualmente visto como comum está dividido em dois: as pessoas que possuem corpos definidos de malhação, sendo essas que buscam diariamente ter alimentações controladas juntamente com muito treino, por outro lado o Fashion, que é o padrão visto em passarelas representando o universo da moda tanto feminino, como masculino. 3.1 Corpos perfeitos e os padrões da sociedade A busca pelo corpo perfeito é algo constante na vida de muitas pessoas, e essa busca se encontra com um ramo do mercado da publicidade. Nele se aproveita o sensual feminino, colocando de manifesto o que descrito por Miranda, sendo esse manifesto, a existência de uma padrão de beleza estética corporal de corpos malhados. “Essas mulheres ganharam espaço no mercado da propaganda por possuírem um corpo bastante atrativo quando o intuito é mexer com o 16 Gilles Lipovetsky, Filósofo francês, autor dos livros, “A Era do vazio” , “ O luxo eterno” , “O império do efêmoro” , entre outros, e faz estudos sobre a sociedade pós-moderna. 17 Fernanda Miranda, pós-graduada em moda, blogueira e pesquisadora sobre “Beleza e seus padrões”. 15 público masculino, colocando então as mesmas para propaganda de cerveja e programa de auditório, por ser um corpo que prende mais a atenção do público, já que a propaganda de cerveja e programas de 18 auditório trabalha muito a sedução.” (BERGER 2007, p.16) . É comum ver mulheres com corpos definidos claramente malhados vendendo marcas de cerveja em propagandas (Figura N°7), ou então em programas de auditório, que possuam públicos variados, atingindo principalmente o público masculino. Como exemplo, o programa Pânico na Band, em que todo produto divulgado, faz uso de uma mulher com um corpo estereotipadamente sensual. Figura N°7 Campanha da Sol Ano de publicação: 2012 Fonte: http://comunicandoideias.blogspot.com.br/2011/08/o-usoda-mulher-em-propaganda-de.html Nesse momento, o que é vendido por meio da modelo, levanta uma questão que leva a diversas interpretações. Segundo BERGER (2007, p.16): [...]”Essas mulheres que são apresentadas, expostas, não são vistas como padrão de beleza, e sim o que se vende é a sensualidade, algo que também entra em um grupo mais seletivo, excluindo outros diversos tipos de mulheres existentes na sociedade”[...] (BERGER 2007, p.16). 18 Mirela Berger, mestre e doutora em antropologia Social, professora do departamento de Ciências Sociais da UFES, coordenadora do grupo de estudos de Imagem e Som em antropologia. 16 Logo, esse modelo apresentado em campanhas de publicidade voltado para o publico masculino, trabalha esse ideal bastante presente na sociedade, que é as mulheres com corpos definidos, e através desse artifício, ganham novos consumidores do produto ali divulgado. Os homens malhados podem ser vistos como um padrão de sensualidade ajustado ao gosto feminino. A Dolce e Gabbanna, assim como outras marcas ousaram e trabalharam em campanhas com modelos masculinos do tipo homens malhados, estes possuem traços que se distanciam o galã romântico, voltando-se em forma objetivada para o sensual. (figura N°8). Em contrapartida, o padrão Fashion trabalha o corpo dentro de uma perspectiva do homem e mulher elegantes e estilizados como na Gucci (figura N° 9). Figura N°8 Campanha Dolce & Gabbana Ano de publicação: 2008 Estética corporal malhada Fonte: http://www.blogdolcevita.com/post/116 5/sexy-italians-in-dolce-gabbanaunderwearcampaignhttp://www.blogdolcevita.co m/post/1165/sexy-italians-in-dolcegabbana-underwearcampaignhttp://www.blogdolcevita.co m/post/1165/sexy-italians-in-dolcegabbana-underwear-campaign 17 Figura N°9 Estética corporal Fashion Campanha da Gucci Ano de publicação: 2011 Fonte: http://www.dasmariasblog.com/post/56 64/raquel-zimmermann-na-campanhagucci-cruise-2011 Voltando ao conceito kantiano de juízo de gosto também compreendido através dos padrões criáveis, se abrem as portas para que o perfeito que se faz relativo ganhe espaço. Considerando então a existência de um padrão corporal belo, de algum modo imposto por diferentes formas, seja através dos cânones de beleza ou das campanhas publicitarias, têm-se também graças ao juízo de gosto, outra possibilidade de identificar beleza corporal, ainda que inicialmente seja vista como estranha, depois de um tempo a beleza contida pode ser apreciada, tudo depende, como diz Gombrich, da ousadia do apreciador. Pode-se então falar sobre a beleza das tatuagens e a beleza das pessoas tatuadas o que vai além da estranheza que estas possam despertar na percepção imediata das pessoas. 4 Tatuagem como padrão criável Apesar de existirem padrões já estipulados, Miranda apresenta os padrões criados posteriormente, porém não vistos como belos e sim como estranhos. Estes 18 padrões se expressam entre outros, nas pessoas que possuem tatuagens excessivas pelo corpo. Quando se trata de estranhamento, choca ver aquelas pessoas que possuem partes específicas do corpo coberto de tatuagens, isso por não ser algo visto comumente no dia a dia, como no pescoço, rosto, mãos e olhos. (MIRANDA, 2012). Através de Kant, entende-se a percepção da beleza dependendo do juízo de gosto e como tal o belo é algo criável. Miranda contribui nesta perspectiva dizendo que o padrão de estética corporal é de fato algo criado, mas sua percepção de belo ou estranho pode ser influenciada pela mídia, onde a interpretação do mesmo está relacionada a uma possível parição de forma distorcida nas mídias, relacionando pessoas tatuadas a algo diferente, underground, formando então, uma imagem de padrão rebelde. No livro “O corpo como objeto da arte”, Jeudy19 faz uma reflexão sobre a beleza das mulheres nativas retratando o corpo estranho: “... É difícil sair de semelhantes clichês, pois, parece que o corpo estranho é uma espécie de “motor original” dos estereótipos culturais. A função estética que atua na circulação dos estereótipos baseia-se na imagem do corpo estranho...”. JEUDY (2002, p.84). Esse corpo muitas vezes estereotipado como estranhos, são encontrados por questão de culturas e períodos, como exemplo, o período do colonialismo, onde a beleza das nativas não era convencional, e sim visto como algo radical e não belo, já que o padrão da época era o modelo Europeu. (JEUDY, 2002, p.84). No livro, Jeudy aponta que, quando volta o olhar para as nativas e não as vê como estranhas, a sociedade da época se retrai, já que elas eram o inverso do padrão, onde o mesmo era o Europeu, mas o que despertou o olhar dele para as nativas foi o estranho, o diferente que não seguia o que era comum, mas tinha em si sua beleza diferente do padrão conhecido. A discussão da beleza das tatuagens e das pessoas tatuadas se vincula ao conceito de Jeudy, ao serem vistas como estranhas, o que seguindo o conceito de Kant sobre os padrões criáveis, esta forma de arte seria apenas mais um padrão 19 JEUDY Henry Pierre, sociólogo, professor de estética na escola de arquitetura de París-Villemin, autor do livro “O corpo como objeto da arte” publicado em 2002. 19 criado com características de estranho, o que não exclui a beleza intrínseca da criação artística. 4.1 História do body modification e a arte de se tatuar. O body modification em termos mais usuais, é a arte de modificar o corpo, sendo essa modificação com piercing, tatuagens, tatuagens sem tinta (scarification) que é conhecida também como Scar – cicatrizes, enxertos de pele, em resumo, toda e qualquer modificação feita no corpo que modifique a feição da pessoa, onde as diferenciam bastante das demais de uma sociedade. VOLPI20 ( 2009, p.12). A questão cultural em relação às modificações é visível em raízes indígenas, que trás em suas características o scar e o alargador, que durante anos foi objeto de uso exclusivo deles, pela cultura, e hoje é algo tão comum na sociedade que podemos dizer que a sociedade aderiu a essa cultura. RODRIGUES21 (2011, p.09). O body modification teve início no século XVI, onde as primeiras formas de modificações surgiram em partes espalhadas pelo mundo, como a suspensão na Índia, a tatuagem na Oceania, perfurações na Ásia e escarificação na África, sendo que, os costumes tribais foram descobertos por marinheiros europeus no Século XVI. Esses eram vistos com maus olhos, pois, não tinham reconhecimento como arte, e foi quando surgiu à primeira visão de negação do ato de se marcar, onde essas pessoas que o praticavam, eram chamadas de marginais. VOLPI (2009, p.04). O uso desse termo vem desde o período já apresentado no estudo, sendo este o do Japão Feudal, em que pessoas tatuadas eram sinônimos de criminosos. A ligação direta da tatuagem com pessoas de má índole trouxe então o bordão que até os dias de hoje pode ser escutado, onde o qual diz que “Tatuagem é coisa de bandido”. VOLPI (2009, p.12) Esse bordão é usado também por pessoas que praticam o ato de tatuar, e elas reconhecem a visão ainda existente de forma negativa, como diz o tatuador Wendel: 20 VOLPI , José Henrique, doutor em estética de Curitiba, responsável pelo projeto “ Body Modification, uma leitura caracterológica da identidade inscrita no corpo”, apresentado no Anual encontro paranaense de psicoterapias corporais em 2009. 21 RODRIGUES, Alexandra Arnold, pós-graduanda em Psicologia, na área de concentração, constituição do sujeito e historicidade da universidade estadual de Maringá, dona do projeto “ O corpo em-cena, a sociedade administrada e o trauma nas body modification”, 2011 20 “Quando recebemos um cliente no estúdio em que vai fazer a primeira tatuagem, sempre brincamos dizendo,” Preparado para ser visto como bandido” ? Afinal, crescemos ouvindo ditados do gênero, que o mesmo é coisa de bandido, mas quando fazemos essa brincadeira, é muito para criar um clima descontraído com nossos clientes, porém essa é a realidade que ele terá que encarar da porta para fora do estúdio, pois os olhares de forma de negação vai existir e cabe a ele saber lidar com isso e entender os valores que trás em seu corpo, e não deixar que visões negativas influenciem em sua essência, mesmo que suas tatuagens não tenham sido feitas com algum significado e sim somente por achar “legal, bonito, descolado”. Wendel Pikeno, Tatuador do Estúdio Planet Tattoo. Quando pensado na tatuagem com um significado de valor, se pode fazer uma ligação desta com uma arte a ser apreciada por admiradores do ato de tatuar. Na arte da tatuagem, em que aqui é discutida, a mesma possui significado para algumas pessoas, sendo que muitas trabalham o corpo como um instrumento de guardar historia, valores e memórias através da tatuagem, tornando-se então, ela muito mais que simples traços, e sim uma obra de arte na pele. Apesar de muitas pessoas trabalharem o ato de se tatuar como arte envolvendo significados e valores pessoais, existe pessoas que fazem a tatuagem apenas por gostar, não seguindo a ideia do corpo como um quadro de historias, mas sim como um mural de artes diversas por considerar belo esteticamente. VOLPI (2009, p.11). Observando tal afirmativa, podem-se analisar três grupos dentro de um mesmo gosto da arte estética falado, sendo ela o grupo que se tatua por questões culturais; como exemplo, os indígenas, que trabalham as tatuagens do estilo Maori22 por conta de sua cultura; além dessas, existem as pessoas que usam o corpo como um museu para guardar história, significados através da tatuagem, e existe o grupo das pessoas que admiram o ato de se tatuar, mas não as fazem com significados especificamente, e sim somente como estética, por considerar belo. VOLPI (2009, p.09). 22 Maori, arte de desenhar figuras geométricas. Os desenhos geométricos possuem significado espiritual e religioso. Maori também é nome de uma tribo, onde os homens pintavam os rostos, e essa pintura representava a posição social, que aumentava proporcionalmente à quantidade de tatuagens que cobria a face. 21 Segundo Souza e Cruz23 (2008, p.490): “A motivação para realizar modificações corporais parte da percepção /reação a condições negativas vividas ao longo da vida (ressentimento, insatisfação), integração social reduzida e comportamento guiado pela necessidade paranoica de provocação-aceitação, erotismo”. SOUZA E CRUZ( 2008, p.490) Quando abordado o ato de se tatuar como estética sem um significado especifico, Souza e Cruz afirmam em seu estudo que, muitas pessoas que fazem a tatuagem seguindo essa proposta, buscam fazer parte de um dos padrões criáveis existentes, que é dos tatuados, sendo motivados a tal decisão, por possivelmente ter sofrido algum trauma na infância, como exemplo, ser considerado feio, então se integraram a esse padrão para a partir de então, ganhar visibilidade e estilo, mostrando o outro lado da beleza, considerada por muitos, estranho, porém pela visão Kantiana, pode ser dado como belo, já que o gosto é subjetivo, e para ser belo, basta ter a ousadia do olhar para analisar com outros olhos. Quando relatado o corpo como modelo para fazer arte, se aproxima então do conceito da Body Art, em que a ligação da representação da arte na pele é desenvolvida e entendida como tal. 5 Body Art e o início do reconhecimento da tatuagem na cultura oriental como arte. A idéia da Body art, não tem como finalidade fazer novas representações sobre o corpo, e sim de usar o corpo como instrumento para fazer intervenções de uma forma generalizada CLARCK (2003)24, logo, segundo DELFINO25 , a body art, é o ato de fazer a arte no corpo, transformando o mesmo em um quadro de registros. 23 SOUZA, Machorro Mario e CRUZ Moreno Lenin, autores da publicação da revista Mexicana de Neurociencia “ Modificaciones corporales, autolesión y Salud” publicado em 2008. 24 Fernanda Clarck, autora do projeto “estética corporal e os julgamentos sociais.”, publicado em 2003. 25 DELFINO, Carlos, participante do grupo Tupinão dá, trabalha com performance em grafite desde a década de 1980 , escreveu um estudo sobre a “Body art e intervenções sociais”. 22 Um exemplo de intervenção vista na sociedade, é a peça Rubbing Piece (1970), em que foi encenado pelo ator Vito Acconci26 (Figura Nº10), onde o artista esfregou o próprio braço até formar uma ferida. O corpo então, no entendimento do mesmo, serve de suporte para se modificar e criar uma identidade nova seja ela com tatuagens, ferimentos, atos repetidos, deformações, escarificações entre outros, logo o corpo serve como um quadro, que faz a arte nele, uns que exigem um pouco mais de esforço para ter o resultado e outros não. Figura Nº10 Vito Acconci Ano de Publicação: 1990 Fonte: http://www.artrecord.com/in dex.cfm/artist/205-stelarc/ O Vito Acconci, mostra em sua arte a suspenção, e a arte alí exposta, vai além da estética, e sim um controle espiritual de suportar a dor em prol da arte, trazendo em si uma leveza e não um desconforto pela imagem, quando analisada com a leveza exposta nela. 26 Vito Acconci, é um arquiteto e artista contemporâneo, adotou a performance como manifestação preferencial, para concretizar suas propostas estéticas, faz uso do próprio corpo como tema e material de trabalho para a expressão, ligando-se a Body Art. 23 Outra pessoa que ativou o conceito da Body Art em sua conceituação e uso do corpo para intervenções com a arte, foi o artista Bruce Nauman (1941)27, em que o mesmo relata em entrevista que sua motivação para tais transformações está relacionada ao prazer de usar o corpo como um material de forma a manipulá-lo e com isso criar memórias, registros com significados VILHAÇA28 (2003), ou seja, Bruce Nauman entrega seu corpo à arte para ser usado como um instrumento de registro e significados , sejam elas por meio de tatuagens ou por outros meios. O fator que leva essas pessoas a entregar-se a Body art, não está em busca de um belo propriamente dito, mas sim em mostrar a arte na pele de forma a representar significados sendo ou não belo, independente da visão de fora sobre tais intervenções no corpo. Na década de 60, a tatuagem começa a ser reconhecida na cultura oriental e passa então a ser algo mais popular, porém, as perfurações no corpo como os piercings só ganharam reconhecimento 10 anos depois, sendo trazidos pela tribo “punk”.LISSETT (2005, p.204). Segundo PIRES29 (2005), esses possuíam um estilo de se vestir transparecendo sempre um ar agressivo e de rebeldia, onde, os mesmos tinham um gosto diferente pelas artes e ao que diz respeito à arte no corpo. 5.1 A tatuagem e sua aceitação no mercado de trabalho. No livro “Tatto Your Soul – A dor e o prazer de ser você mesmo”, Marcelo Galega30 faz um estudo sobre a arte e sua representação como estranho. Acredita-se em seu livro que, a tatuagem tem o poder de explorar os valores sociais de quem se tatua, onde os mesmos conseguem ter sensibilidade de retratar a arte de alguma forma, onde a mesma exige dor, esforço, para que seu resultado seja concluído, trazendo por fim uma arte na pele, representando o belo estranho onde com o olhar subjetivo pode se analisar a beleza ali escondida. 27 Bruce Nauman, artista estadunidense, no âmbito da arte contemporânea, autor de obras em neón, vídeos e instalações sonoras. 28 VILHAÇA, Nízia, professora titular da ECO/UFRJ, Coordenadora do grupo comunicação, e estratégias corporais, autora dos livros: “ Em nome do corpo” e “Paradóxo do pós-moderno, sujeito e ficção”. 29 PIRES, Paula Vanessa de Azevedo Gonçalves, mestre em sociologia de educação, autora do projeto: “Ser punk, a narrativa de uma identidade jovem centrada no estilo e sua trajetória”. 30 Marcelo Galega, empresário, autor do livro “Tattoo your soul, a dor e o prazer de ser você mesmo” publicado em 2010. 24 Apesar da beleza vista quando analisada com um olhar ousado, a sociedade como uma maioria, ainda possui diversos preconceitos com tudo que foge do padrão comum de ser visto, e este inclui o padrão tatuado. ROSO, STREY et al. (2002, p.85). Xavier31 (2006, p.52) relata em seu estudo, que essas pessoas que seguem o padrão visto como estranho por uma parcela significativa da sociedade, é caracterizado como pessoas desleixadas, por seguir um padrão visto como rebelde e que inclui bastantes informações no corpo, causando então o desconforto no olhar de quem não admira, e consequentemente um pré-conceito. O que causa desconforto de pessoas em relação a estas tatuadas, segundo ROSO, STREY, et al. (2002, p.62), é o fator excessivo da tatuagem, onde o excesso é muitas vezes comparado a poluição da imagem, gerando então o estranhamento de modo agressivo. A repercussão do pré-conceito em relação a pessoas tatuadas de forma exagerada, pode ser percebida quando analisado o mercado de trabalho, porém o preconceito em relação aos mesmos diminuiu bastante. Em 2012, foi lançada uma matéria no G1 sobre o risco da tatuagem no mercado de trabalho, onde, pessoas tatuadas relatam suas dificuldades de trabalho em alguns setores específicos quando se tem o excesso. Apesar desse preconceito ainda existente, por outro lado, se tem outra vertente do mercado de trabalho em que o qual já consegue ver a tatuagem como um acessório a mais em determinadas marcas, como diz na matéria do G1 sobre a tatuagem no mercado de trabalho. A vendedora Deyse que possui 27 tatuagens pelo corpo, relata que para conseguir o emprego dela na loja onde estava no momento, o estilo foi um ponto fundamental: "O mais importante no comércio é a aparência. Aí a tatuagem é uma coisa a mais. É como se fosse uma jóia, uma coisa que chama a atenção". Deyse Belo, vendedora. 31 XAVIER, Ricardo, autor do livro “Gestão de pessoas na prática, os desafios e as soluções”, publicado em 2006. 25 Em seu relato, Deyse não se considera uma exceção, onde a mesma acredita que a resistência em relação à tatuagem diminuiu bastante, por ser algo que está sendo visto hoje em dia mais, mas a mesma conclui que o preconceito ainda existe, e o que precisa ser trabalhado é que o ato de se tatuar não muda o caráter da pessoa, sendo este apenas um modelo que segue por um gosto sobre o belo ousado que trás um olhar despido de preconceitos sobre esse padrão criável. Já em alguns setores específicos, como em órgãos públicos, OLIVEIRA32 (2010, p.703) relata que é comum cargos de empresas do gênero, serem ocupadas por profissionais que possuam o padrão comum dentro da sociedade, acreditando que esses possuam uma postura mais formal, transmitindo então maior credibilidade. Essa visão surge devido a uma ideia social que já está lançada na sociedade, onde para mudar esse pensamento, precisa-se primeiro mudar uma sociedade, logo uma visão social. OLIVEIRA (2010, p.705). 6 A representação do estranho como arte e belo. Diante do exposto já no estudo, o alcance do reconhecimento da beleza estranha, aqui representada pelo modelo de pessoas tatuadas, é algo que se aproxima, quando observado com um olhar ousado sobre tais representações de belo, porém distante de ser reconhecido por uma grande parcela da sociedade como um padrão comum, porém já se reconhece como um padrão criável. VOLPI (2009, p. 16). Com o reconhecimento da existência de padrões criáveis, sendo a pessoa tatuada um desses padrões, o olhar em relação a essas pessoas se distanciou do modelo preconceituoso como uma opinião comum de estranho em relação a elas, começando então a ser entendido como um padrão diferente dentro da sociedade, em que a visão sobre elas já teve um avanço. VOLPI (2009, p.22). OLIVEIRA (2010, p.728) conclui que o estranho pode ser entendido como um padrão estético de beleza que tem uma essência própria, mostrando então a pessoa 32 Oliveira, Wenderson Silva, pesquisador do NUPEPE, Uberlândia, autor do projeto: “As estéticas contemporâneas e o ensino de arte na escola pública: Conceito sobre a Body Art.”, publicado em 2010. 26 tatuada não como feia, e sim apenas diferente dos padrões vistos como comum em um modo geral. No livro “Tatto Your Soul – A dor e o prazer de ser você mesmo”, já mencionado anteriormente no estudo, apresenta uma reflexão em relação ao olhar das pessoas sobre as tatuadas, onde, a questão que é abordada é: “a pessoa tatuada sofre preconceito pela sociedade ou ela mesma busca de alguma forma ser o destaque para então sofrer o preconceito?”. Em resposta a essa pergunta, Marcelo Galego, autor do livro, mostra que o verdadeiro culpado pelo preconceito, são as próprias pessoas que se tatuam, onde o comportamento de muitas e atitudes que gera o estranhamento de outras pessoas em relação à mesma. Diferente do que é entendida das tatuagens, a mesma pode ter significados explorando valores sociais da própria pessoa tatuada ou de alguém, sendo essa representação de significados feitas com desenhos sobre a pele. O estranho nesse aspecto, quando analisado com o olhar Kantiano, torna-se belo. No livro “O corpo como objeto da arte” por JEUDY (2002, p.83), reforça então, que estranho são todos aqueles que fogem do que a sociedade impõe como o correto, mas não é porque é estranho que é feio, ele apenas possui uma singularidade em sua essência e única, se tornando então um belo diferente, que foge dos padrões estipulados pela sociedade, porém é o belo com sua singularidade. Gauguin33 retrata o belo, em seu quadro Moça com a flor (Figura N°11) com a seguinte conceituação no livro de JEUDY (2002 p.85) : “Não há beleza perfeita, sem certa singularidade nas proporções”. 33 Paul Gauguin, pintor francês do pós- impressionismo. 27 Figura Nº 11 Moça com a Flor Ano de Publicação: 1891 Fonte: http://culturafrancesa.org/2 013/06/16/un-peintre-paulgauguin/ Quando Gauguin trás tal afirmativa, ele reforça sua admiração ao padrão que fugia do que a sociedade regia como regra, sendo esta o modelo Europeu. Seu encanto com esse novo padrão surgiu quando passou o tempo com os Maoris, e viveu com as nativas, onde a beleza dessas pessoas era vistas como animalistas, sendo totalmente recriminada, porém ele teve um olhar ousado e contrário aos padrões, mostrando que o belo está na singularidade que ela passa. JEUDY (2002, p.85) Logo, pode-se dizer que não existe uma regra para avaliar o belo ou não belo da pessoa tatuada, como em qualquer outro tipo de padrão de beleza criável existente, sendo que o conceito de belo depende do gosto de quem está avaliando, sendo então uma opinião subjetiva. PEREIRA (2000, p.158). 28 A arte na pele então possui significados, e as pessoas que aderem a esse padrão, tendem a ter um gosto em comum por uma representação de beleza através da arte na pele, por não considerar apenas traços, e sim por existir para a pessoa um significado especial, fazendo assim a tatuagem ser muito mais que apenas simples traços, considerando então uma arte. 29 Conclusão Segundo afirmativa de Kant já desenvolvido no decorrer do estudo, conclui-se que o belo é algo subjetivo, sendo que o conceito de belo nós criamos de acordo com nosso gosto particular. Diante de tal afirmativa, o estranho aqui apresentado pode ser visto como belo quando lançado um olhar ousado sobre os mesmos e analisando a tatuagem não somente como traços coloridos, e sim como arte que possui significado. As pessoas tatuadas normalmente são vistas como estranhas, onde o que o estudo apresentou foi que na verdade, essas pessoas apenas possuem um padrão de beleza diferente do comumente visto. Logo, o belo pode estar em qualquer forma de representação de beleza, o que torna ou não algo belo, é o olhar que está sendo lançado sobre o mesmo seguido de um gosto particular, mas não deixa de ser algo belo, apenas uma arte, um padrão de beleza que não atrai algumas pessoas. LISSETT (2005, p.130). 30 Referências BARBOUR, Rosaline. Grupos Focais. Porto Alegre: Bookman companhia editora ltda, 2009. BERGER, Mirela. Mídia e Espetáculo no culto ao corpo: o corpo miragem. In: SINAIS – Revista Eletrônica – Ciências Sociais. 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