VARIABILIDADE DIURNA DE PRECIPITAÇÃO E DE TROVOADAS EM RIO BRANCO-AC Dimitrie Nechet Departamento de Meteorologia da UFPa-Belém-Pará, e-mail: [email protected] Marta de Oliveira Sá Aluna de Graduação do Curso de Meteorologia da UFPa Edivaldo da Silva Barros Serviço Regional de Proteção ao Vôo de Belém(SRPV-BE)-Belém-Pará Luciana Chaves Pereira Aluna de Graduação Curso de Meteorologia da UFPa ABSTRACT The diurnal variability of precipitation and thunderstorm at Rio Branco-AC(Lat. 10o 00'S, Long. 067o 48'W, Alt. 142,0 m) was studied, using 8 years(1990-1997) of data. It was generated 24 graphics showing the results fortnight/hour in percentage of events of the precipitation and thunderstorm. Rio Branco has showed continental pattern. At rainy time(Sep-May) the peaks is between 1300-1700 LST, and at dry time(jun jul aug) there are a few porcentage of precipitation and thunderstorm events, at afternoon(15:00-19:00 LST) and at night. INTRODUÇÃO A precipitação, na região amazônica é vital para a sobrevivência dos seres vivos. Grande quantidade de energia que chega, alta taxa de evaporação, reduzindo a quantidade de água disponível, mesmo em época considerada chuvosa, trás preocupações em todas as atividades humanas, tendo em vista que a maior quantidade de água cai na forma de pancadas e, geralmente, cria condições adversas de tempo. A Trovoada, por sua vez representa o máximo de instabilidade na atmosfera, sendo comum na Amazônia, principalmente como fenômeno de meso-escala. A expressão Trovoada(TRV) é usada aqui, como um termo técnico que significa a nuvem Cumulonimbus, onde ocorrem fenômenos de grande intensidade como chuva moderada ou forte, vento forte, descargas elétricas de grande intensidade, formação de gelo em altos níveis, granizo, má visibilidade e turbulência em seu interior. Na observação convencional, o fenômeno é relatado quando se ouve o trovão da primeira descarga elétrica e é considerado dissipado ou deslocado para longe do ponto de observação, quando durante 10(dez) minutos não se ouviu nenhuma descarga. Quando o fenômeno está distante da estação e não se ouve o barulho da descarga, mas se vê a luminosidade dos raios, relata-se como relâmpago(RPG). Isso na prática, para efeito de análise, significa uma Trovoada distante da estação. Esse tipo de observação necessita de constante observação, pois depende do sistema auditivo e visual do observador. A variação diurna(variação durante as 24 horas) desses dois fenômenos ainda é pouca conhecida em toda a Amazônia, mas apenas em alguns pontos e o seu conhecimento ajuda o entendimento da evolução desses dois elementos, não só no aspecto puro da Meteorologia, mas para utilização em planejamentos a médio e longo prazo, podendo ser utilizado na área operacional, como "ferramenta de trabalho" em determinados tipos de previsão do tempo, em que há necessidade do conhecimento climatológico durante as 24 horas do dia e de sua variabilidade nos aspectos quinzenais, mensais e sazonais. Rio Branco, levando em conta o ponto de observação no antigo Aeroporto está localizado nas coordenadas geográficas Lat. 10o 00'S, Long. 067o 54'W, Alt. 142,0 m. Possui temperatura média anual de 24,oC com as temperaturas médias mínimas variando de 18,5oC a 22,7oC e as máximas médias TABELA 01 - Precipitação(mm) média de Rio Branco-AC ---------------------------------------------------------------------Janeiro 283,4 Julho 35,2 Fevereiro 270,1 Agosto 37,6 Março 227,3 Setembro 101,8 Abril 173,4 Outubro 165,2 Maio 104,3 Novembro 186,6 Junho 44,0 Dezembro 246,1 ---------------------------------------------------------------------Fonte: INMET e SRPV-MN(Período de 1969 a 1996) 478 variando de 30,3oC a 32,8oC (INMET, 1992). Rio Branco, situada à margem do Rio Acre, quanto à precipitação, tem um período chuvoso que vai de setembro a maio e um período seco que vai de junho a agosto(TABELA 01), sendo os meses de menor precipitação, todos os meses do período seco(junho, julho e agosto), apesar dessa época ser a da penetração dos sistemas frontais, com mais intensidade. ATKINSON(1971) em trabalhos feitos em várias partes do mundo na região tropical concluiu, ao contrário do que se pensa, que muitas áreas tropicais não mostram chuva máxima durante o período da tarde associado com o máximo aquecimento da superfície, em vez disso muitas áreas continentais mostram um máximo de chuvas durante as horas noturnas. Também em pesquisas posteriores de chuva tropical, Wallace(1975) e Gray e Jacobson(1977) citados por ASNANI(1993) também enfatizaram a existência de uma grande variedade de padrões que não se encaixam nas classes de Hann. REED(1983) também mostrou grande variedade de modelos no Pacífico Central e na África tropical. NECHET(1984, 1990, 1992, 1993, 1994, 1996 e 1998) mostra que na Amazônia cada local possui características próprias. Belém apresenta em todo o ano o modelo continental, Santarém, o modelo marítimo, apesar de estar em uma região, praticamente central da Amazônia, São Luís, uma época continental e outra do tipo misto, Macapá, apresenta os dois modelos, marítimo e continental, tendo dois máximos por dia e as demais localidades, como Manaus, Boa Vista e Porto Velho do tipo misto. Este trabalho tem como objetivo mostrar a variação diurna e sua variabilidade entre as quinzenas, para servir de ferramenta de trabalho em previsões operacionais de períodos contínuos e para aplicação em planejamentos a médio e longo prazo. MATERIAL E MÉTODOS Foram utilizadas observações horárias do período de 1990 a 1997(8 anos), sem interrupção, da Estação Meteorológica localizada no antigo Aeroporto de Rio Branco-AC, pertencente ao Serviço Regional de Proteção ao Vôo de Manaus(SRPV-MN), que opera durante as 24 horas do dia, em observação contínua, de apoio à navegação aérea, com observadores meteorológicos especializados. Os dados meteorológicos(eventos de precipitação e de trovoadas) horários das 24 observações diárias foram agrupados por quinzena/hora para cada elemento meteorológico. Chama-se atenção da precipitação, que trata-se de eventos e não da quantidade de precipitação. Foi feito o relacionamento entre os eventos potencialmente possíveis de ocorrerem e os eventos reais, resultando em porcentagem de ocorrência de eventos, por quinzena, durante as 24 horas do dia. Após isso os resultados foram colocados em 24 gráficos quinzena/hora, para utilização em todo o ano. Neste trabalho são apresentados somente os gráficos representativos da estação chuvosa, estação seca e gráficos das épocas de transições, para se ter uma idéia do comportamento diurno desses elementos e de sua variabilidade. A opção de se fazer por quinzena e não por mês, foi devido haver variações existentes entre as quinzenas e que em termos mensais, essas variações seriam "mascaradas". Como exemplo disso temos a primeira quinzena e a segunda quinzena de junho. RESULTADOS E DISCUSSÃO Os gráficos mostram a variabilidade diurna de precipitação e de trovoadas, em diversos períodos do ano. O modelo apresentado em Rio Branco-AC é do tipo continental, se levarmos em conta os modelos tradicionais de Hann(1901) citados por ASNANI(1993) definindo o modelo continental(chuvas à tarde e/ou início da noite) e o modelo marítimo(chuvas durante a noite e de madrugada) e o modelo misto, quando ocorrem os dois ou não se enquadra em nenhum deles. Porcentagem 30 25 PRP 20 TRV 15 10 24 23 22 21 20 19 18 17 16 15 Hora Local 14 13 12 11 10 9 8 7 6 5 4 3 2 1 0 0 5 Fig. 01 - Variação diurna média da Segunda Quinzena de Janeiro para Rio Branco-AC, no período de 1990 a 1997(Época chuvosa) 479 Rio Branco, com relação à precipitação na época chuvosa, apresenta os efeitos dos grandes sistemas na parte noturna e um máximo à tarde, em torno das 14:00 horas, evidenciando os efeitos locais, mostrando o modelo continental. Os eventos de trovoadas, de menor porcentagem, apresentam também um máximo à tarde, sem atividade durante o período noturno. Como exemplo a segunda quinzena de janeiro(Fig. 01). Na época de transição da época chuvosa para a época seca, a precipitação apresenta também, em menor porcentagem, um pico, em trono das 14:00 horas e os eventos de trovoadas, praticamente, não ocorrem, durante as 24 horas, na quinzena. Como exemplo desse período tem-se a primeira quinzena de junho. (Fig. 02), iniciando a transição para os três meses com menor precipitação. 30 PRP Porcentagem 25 TRV 20 15 10 24 22 20 18 16 14 12 10 8 6 4 2 0 0 5 Hora Local Fig. 02 - Variação diurna média da primeira quinzena de junho para Rio Branco-AC no período de 1990 a 1997(Época de transição) Já no período seco, como exemplo a segunda quinzena de julho, apresenta os menores valores em porcentagem, tanto de precipitação, como de trovoadas(Fig. 03). Durante toda essa quinzena, no período das 08:00 às 14:00 horas local, não houve nem precipitação e nem trovoadas. O interessante é que em Rio Branco pode ocorrer precipitação em qualquer hora do dia, em qualquer época do ano, sendo isso mais comum na época chuvosa. Essa situação é normal, tendo em vista à penetração de sistemas frontais que ocorrem nessa região (Trewartha 1961, Parmenter 1976, Ratisbona 1976, citados por MOLION, 1990; VIRJI e KOUSKY, 1983). Rio Branco tem um comportamento semelhante à Belém, com relação ao modelo. 30 PRP(%) 25 Porcentagem TRV(%) 20 15 10 5 0 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 Fig. 03 - Variação diurna média da segunda quinzena de julho para Rio Branco-AC no período de 1990 a 1997(Época seca) 480 30 Porcentagem 25 PRP(%) TRV(%) 20 15 10 24 22 20 18 16 14 12 8 6 4 2 0 0 10 5 Hora local Fig. 04 . Variação diurna média da segunda quinzena de outubro de Rio Branco-AC no período de 1990 a 1997( período chuvoso) No período inicial da época chuvosa, tendo como exemplo a segunda quinzena de outubro, verifica-se que tanto os eventos de precipitação, como o de trovoadas, ocorrem em torno das 14:00 horas local.(Fig. 04) Este trabalho, a exemplos dos outros sobre o mesmo assunto, mostra como a Amazônia tem comportamentos diurnos de precipitação e de trovoadas diferenciados, o que mostra como não é adequado fazer generalizações na região, partindo somente de um local, incorrendo em erros grosseiros de análise da Amazônia. CONCLUSÃO Pode-se, então, observar que o conhecimento das variações diurnas, dos elementos precipitação e trovoada de uma localidade é importante na avaliação das condições atmosféricas, durante as 24 horas do dia, bem como sua variabilidade em termos quinzenais, mensais e sazonais. Rio Branco, nos eventos de precipitação, na época chuvosa(Set. a Mai) apresenta um máximo em torno das 14:00 horas local, mostrando o efeito dos efeitos locais e de grande escala. Na parte noturna aparecem os efeitos de grande escala. Na época de transição(primeira quinzena de junho) e na época seca(Jun. a Ago) há também uma predominância à tarde, apesar de menor porcentagem, de eventos, tanto de precipitação, como de trovoadas. Com relação à Trovoada, o comportamento é semelhante à da precipitação, com menor porcentagem de eventos. Este trabalho poderá servir de subsídios para pesquisas posteriores mais profundas sobre a região. Rio Branco tem seu comportamento semelhante ao de Belém, apresentando o modelo continental com porcentagem mais baixa de eventos e diferente das localidades, como São Luís, Santarém, Macapá, Boa Vista, Manaus e Porto Velho. Nos meses mais secos, como junho, julho e agosto ocorre a maior freqüência de penetração de sistemas frontais, mas as massas polares com pouca umidade, praticamente não causam precipitação e trovoadas. Verifica-se, então, que na Amazônia as variações diurnas dos eventos de precipitação e de trovoadas são diferentes, daí a preocupação em não se fazerem generalizações, baseadas apenas em um ponto, ou dados de poucos dias de uma determinada localidade. Este trabalho tem aplicação prática no Centro Meteorológico de Aeródromo de Manaus(CMA), como ferramenta de trabalho, para a confecção da Previsão de Aeródromo Terminal, na forma do código TAF, que divulga informações meteorológicas significativas para a aviação durante um período contínuo de 24 horas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANTAS, L.M. Glossário de Termos Técnicos, São Paulo, Traço Editora, 1979. ASNANI, G.C. Tropical Meteorology, Noble Printers PVT. Ltd. PUNE, India, 2v., 1993 ATKINSON, G.D. Forecaster's Guide to Tropical Meteorology, Air Weather Service, Technical Report 240, USAF, 1971 INMET, Normais Climatológicas(1960-1990), Instituto Nacional de Meteorologia, Brasília-DF, 1992 MOLION, L.C.B. Climate Variability and its Efect on Amazon Hidrology. In: Interciência, (6): 367-372, NovDez, 1990 NECHET, D. Variabilidade Diurna de Precipitação em Belém-PA, Anais do 3o Congresso Brasileiro de Meteorologia, Belo Horizonte, 1984, Pag. 204-211 NECHET, D. Variabilidade Diurna de Trovoadas em Belém-PA, Anais do 6o Congresso Brasileiro de Meteoro481 logia, Salvador, 1990, Pag. 393-396 NECHET, D. Variabilidade Diurna de Precipitação e de Trovoadas em Manaus-AM, Anais do 7o Congresso Brasileiro de Meteorologia, São Paulo, 1992, Vol. 1, Pag. 243-247 NECHET, D. Variabilidade Diurna de Precipitação em Santarém-PA, Boletim de Geografia Teorética, Vol. 23(45-46): 144-149, 1993 NECHET, D. 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Regional and Global Aspects of a Low Latitude Frontal Penetration in Amazonas and Associated Tropical Activity, São José dos Campos-SP, Anais do First International Conference on Southern Hemisphere Meteorology, American Meteorological Society, 1983 WMO. Manual on Codes, Vol. 1, International Codes, Part A, WMO-No 306, 1988, 1992. AGRADECIMENTOS Os autores agradecem ao Serviço Regional de Proteção ao Vôo de Manaus(SRPV-MN) pelo fornecimento dos dados horários dos eventos de Precipitação e de Trovoadas, de Rio Branco-AC, no período de 1990 a 1997, para a realização deste trabalho. 482