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FORMAÇÃO INICIAL DE EDUCADORES E EDUCADORAS DO
CAMPO: ASPECTOS TEÓRICOS1
Eliane Miranda Costa2
Universidade do Estado do Pará - UEPA
[email protected]
Resumo: Este estudo procura socializar e discutir o conhecimento produzido na área da
Educação do Campo, em especial, da formação inicial de educadores/as do campo, no período
entre 2003 a 2010. O recorte temporal aqui selecionado tem como referência a aprovação das
Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo (2002). O objetivo é
construir um inventário acerca das produções acadêmicas publicadas neste campo de
investigação, sobretudo, no Estado do Pará, lócus deste estudo, de modo a apresentar e
discutir o que vem sendo mais recorrente nas produções tanto em nível local como nacional,
assim como evidenciar o que precisa ser explorado em relação à formação de educadores/as
do campo. Caracteriza-se como um estudo de caráter bibliográfico, e restrito à produção
acadêmica na área de Educação do campo, baseado nas seguintes fontes: produção discente de
mestrado e doutorado do banco de resumos de dissertações e teses da Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES; artigos científicos no site do
Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino – ENDIPE, além de livros referentes a
essa literatura publicados no período em estudo. Para fundamentar de forma teórica as
discussões emitidas recorremos a autores como Arroyo (2010), Molina (2010), Munarim
(2006), Hage (2010), entre outros. As discussões e análises das referidas produções levam-nos
a inferir que a formação dos educadores/as do campo ainda se encontra no silenciamento, o
que pressupõe a necessidade de políticas públicas educacionais que valorize e reafirme os
educadores/as do campo como profissionais.
Palavras-chave: Educação do campo. Formação Inicial de Educadores/as do campo.
Produções acadêmicas.
Eixo temático: Educação do Campo e Práticas Pedagógicas
1
O artigo integra a dissertação de mestrado em andamento orientado pela Profa. Drª Albene Lis Monteiro para o
Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação da Universidade do Estado do Pará – UEPA. Cabe
ressalvar que o conteúdo deste trabalho é de inteira responsabilidade do autor.
2
Pedagoga (UFPA), Especialista em Educação do Campo, Desenvolvimento e Sustentabilidade (UFPA) e
discente do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação da UEPA.
2
INTRODUÇÃO
Este artigo tem como objetivo socializar e discutir o conhecimento na área de
Educação do Campo, em especial, acerca da formação inicial de educadores e educadoras do
campo, a partir da revisão de produções acadêmicas no período entre 2003 a 2010. O recorte
temporal selecionado tem como referência a aprovação das Diretrizes Operacionais para a
Educação Básica nas Escolas do Campo (2002), a fim de se produzir um quadro das
produções acadêmicas publicadas neste campo de investigação, sobretudo, no Estado do Pará,
lócus específico deste estudo.
Trata-se de uma pesquisa de caráter bibliográfica em que consistiu mapear
dissertações e teses disponíveis no banco de dado da Coordenação de Aperfeiçoamento de
Pessoal de Nível Superior – CAPES, bem como no site do Encontro Nacional de Didática e
Prática de Ensino ENDIPE, além de livros referente a essa literatura que foram publicados no
período em estudo referente à temática investigada.
Nesta revisão procuramos identificar as principais questões presentes na literatura
brasileira em relação à formação dos educadores e educadoras do campo, no intuito de
apresentar um conjunto de informações sistematizadas sobre como a formação docente se
configura no período anteriormente citado a partir das políticas/iniciativas desenvolvidas tanto
em nível nacional como estadual.
Estruturalmente, o texto apresenta três seções. Em Formação dos Educadores e
educadoras do campo: o cenário brasileiro, apresentamos um mapeamento preliminar do
cenário brasileiro das produções referentes à formação inicial de educadores/as do campo, a
fim de evidenciar os níveis de produção por área, assim como, por instituições e regiões de
maior abrangência.
Na seção, Formação de educadores e educadoras do campo: o Pará em destaque,
identificamos as produções acadêmicas referentes à formação inicial do educador e educadora
do campo no Estado do Pará, no intuito de perceber qual o olhar que vem sendo destinado,
por parte da academia aos educadores e educadoras do campo no estado do Pará.
Ao finalizar, explicitamos o que mais vem sendo investigado e o que mais se precisa
investigar acerca da formação dos educadores e educadoras que atuam nas escolas do campo.
3
Formação dos Educadores e educadoras do campo: o cenário brasileiro
O cenário educacional presente no campo brasileiro é fruto de um longo processo
histórico marcado pelo caráter dicotômico e reducionista resultante da política de manutenção
dos interesses do paradigma dominante3. Tal paradigma “projeta o campo como a faceta
atrasada da sociedade e a cidade como o lugar ideal para o desenvolvimento” (MUNARIM,
2006, p.19).
Romper com essa lógica tem sido a bandeira de luta dos movimentos sociais do
campo, em especial, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST que por meio
da “Articulação Nacional Por Uma Educação do Campo” após manifestações, reivindicações
e lutas tem conseguido colocar na agenda nacional a educação do campo como um direito
humano. Para Molina (2010, p.370) “a ruptura com as tradicionais visões fragmentadas do
processo de produção de conhecimento, com a disciplinarização da complexa realidade sócioecônomica do meio rural na atualidade, é um dos desafios postos à Educação do Campo”.
A aprovação das Diretrizes Operacionais de Educação Básica para as escolas do
campo em 2002 possibilitou a legitimação do direito a educação do e no campo, e com isso
marcou uma importante conquista na história da educação dos povos que vivem e trabalham
no campo. É pertinente ressalvar que a existência da lei por si só não garante a legitimação de
uma educação do e no campo, é preciso fazê-la materializar-se, e isso ocorrerá por meio de
constantes articulações e organizações dos sujeitos. Como alerta MacLaren (1997, p.72) “a
justiça não existe simplesmente porque a lei existe. A justiça necessita ser continuamente
criada e conquistada”.
Diante da relevância da citada diretriz para o fortalecimento da educação dos sujeitos
do campo é que centramos nosso recorte temporal no período de 2003 a 2009, com o objetivo
de identificar no que se refere à formação do educador e educadora do campo, o que vem
sendo proposto e ao mesmo tempo realizado no sentido de superar o ruralismo pedagógico e a
hierarquização de conhecimentos materializados pela visão urbanocêntrica4.
Neste sentido, nossas observações iniciais referem-se à quantidade de produções
encontradas. Assim sendo, no banco de dados da CAPES encontramos 23 produções, das
3
Conforme Santos (2010), paradigma dominante “é o modelo de racionalidade que preside à ciência moderna
constituindo-se a partir da revolução científica do século XVI e desenvolvendo-se nos séculos seguintes
basicamente no domínio das ciências naturais (p. 20/21).
4
O termo urbanocêntrico aqui utilizado refere-se à visão de uma educação voltada para a reprodução do modelo
didático-pedagógico utilizado nas escolas da cidade para as escolas do campo (HENRIQUES, 2007).
4
quais 18 são dissertações e 05 teses (Quadro 01) e no site do ENDIPE encontramos 07 artigos
(Quadro 02).
Quadro 01 – Produções: CAPES - Ano de defesa, níveis e totais na área.
ANO DE DEFESA
2003
2004
2005
2006
2007
2008
2009
Total
DISSERTAÇÃO
02
05
03
05
03
18
TESE
01
03
01
05
TOTAL
01
02
05
06
05
04
23
Fonte: Banco de dados – Capes período: 2003/2009. Área: Educação do campo/Educação rural.
Quadro 02 - Publicação dos Anais do XV ENDIPE: Convergências e tensões no campo
da formação e do trabalho docente, Belo Horizonte, 2010.
ANO BASE
2010
Total
ARTIGOS
05
02
01
07
INSTITUIÇÃO
UFMG
UFPA
UFRS
-
REGIÃO
Sudeste
Norte
Sul
-
Fonte: Banco de dados do Endipe
Os dados ajudam a demonstrar que a formação do educador e educadora do campo
apesar de ser uma questão reconhecida pelos movimentos sociais como elemento fundante na
luta por uma educação do e no campo, ainda se manifesta na academia de forma muito
incipiente, uma vez que, apenas 23 produções científicas fora encontradas.
Ao considerar as produções (dissertações e teses) é importante ressaltar que todas
enfatizam como necessidade a existência de uma formação específica para o professor e
professora que atua na escola do campo, e para tanto, as políticas públicas são apontadas
como a principal ferramenta. Nesse sentido, Arroyo (2010, p.482/483) nos alerta que “para
um projeto econômico, político, social de campo não terá sentido formar educadores(as)
docentes genéricos, com domínios de competências genéricos, válidos para qualquer contexto
econômico, social, cultural. Sobretudo no tenso contexto político vivido pelos coletivos-povos
do campo”.
Molina assevera que (2010, p.396),
O educador do campo precisa de uma formação que o habilite a refletir sobre
sua experiência, comprometido com a luta, que considera o modo de
produção da vida com o trabalho com a terra, com a água e com as plantas
como digno e bom. O educador do campo precisa ter a compreensão da
5
dimensão do seu papel na construção de alternativas de organização do
trabalho escolar.
Tudo indica que a formação do educador e educadora do campo é um dos maiores
desafios não só para a academia, como para o próprio educador e movimentos sociais. Uma
vez que, reconhecer a formação como ferramenta necessária a construção de um campo e uma
sociedade mais humana e solidária, é parte fundamental para construção de uma educação, ou
melhor, de um profícuo projeto de sociedade capaz de romper com o modelo eurocêntrico
positivista que se encontra fortemente presente na educação e na vida de cada sujeito.
Podemos dizer que as produções de maneira tímida tende apresentar uma tendência
que procura romper com o neutralismo das pesquisas positivistas. Os percursos
metodológicos anunciado demonstraram que as produções tendem a seguir caminhos
parecidos, isto é, mencionam que a abordagem é qualitativa, muito embora, em algumas
explicitem elementos quantitativos, os instrumentos, quase sempre são: narrativas, história
oral, entrevistas semiestruturadas, observação participante e questionários. O método
informado é o dialético e a pesquisa quase sempre é a documental (Quadro 03).
Quadro 03 – Metodologia utilizada nas produções
Abordagem
Qualitativa
Pesquisa
Tipo Etnográfico
Instrumento/Técnicas
Observação
Documental
Questionário
Bibliográfica
Entrevista semiestruturada
Investigação - ação
História de vida
Estudo de caso
Analise documental
Método
Dialético
Fonte: Banco de dados – Capes período: 2003/2009. Área: Educação do campo/Educação rural.
O fato em discussão é reflexo da visão dicotômica que subalterniza o campo e
valoriza a cidade, e isso pode ser evidenciado também a partir da quantidade de produções
desenvolvidas nas instituições de ensino. Como podemos observar a maioria das instituições
só tem uma produção ao longo de 08 anos e quase sempre, em nível de mestrado (78%). Das
20 instituições, apenas 04 (22%) apresentam produções em nível de doutorado (Quadro 04).
Quadro 04: Produção científica por instituição de ensino superior.
INSTITUIÇÃO
UFBA
UFES
UFRS
DISSERTAÇÃO
02
02
-
TESE
02
TOTAL
02
02
02
6
PUC-RJ
PUC-Campinas
PUC-Góias
PUC – Minas
UC Dom Bosco
UR do Noroeste do RS
UFRN
FUFP
UFMS
UF Uberlândia
UFPB
UF Fluminense
FUFS
UF Pelotas
UFPR
UFSCar
UFC
Total
Total %
01
01
01
01
01
01
01
01
01
01
01
01
01
01
18
78
01
01
01
05
22
01
01
01
01
01
01
01
01
01
01
01
01
01
01
01
01
01
23
100
Fonte: Banco de dados – Capes período: 2003/2009. Área: Educação do campo/Educação rural.
O reflexo dessa pouca produção, e porque não dizer da marginalidade pode ser
acompanhado também no mapeamento das produções por região. Das cinco regiões
brasileiras, o Sudeste é a região mais produtiva do país, isso certamente se dá pelo fato desta
ser considerada a região mais desenvolvida do país e concentrar grandes centros de pesquisas,
tais como PUC-RJ, PUC-MG, UFSCar, entre outras.
A região Norte por sua vez pode ser considerada a região menos produtiva, já que
nem se quer aparece neste estudo. É preciso ponderar que nesta região os cursos de pósgraduação stritus senso começaram a ser implantados na última década, o que significa dizer
que em termos de pesquisa as instituições nortistas estão apenas começando. No Estado do
Pará, as principais universidades públicas, isto é, Universidade Federal do Pará e
Universidade do Estado do Pará implantaram seus Programas de pós-graduação stritus senso
há pouco tempo.
O Programa da UFPA fez dez anos em 2010 e o Programa da UEPA fez 05 anos,
o que em termos de pesquisa é um tempo muito reduzido. Porém, embora esses programas
não tenham produção relativa à formação inicial do educador do campo, são programas que
procuram priorizar em suas pesquisas as peculiaridades da região e de seus sujeitos, o que
contribui de maneira significativa com a educação do campo na região e quiçá no país.
A falta de produção da região norte, remete de certa maneira a conjuntura histórica
que a educação foi submetida ao longo dos tempos para garantir a manutenção do status quo
7
de uma minoria dominante. É evidente que as outras regiões, incluindo a região Sudeste,
apresentam poucas produções, o que tende a reforçar o caráter hegemônico (Quadro 05).
Quadro 05: Produção científica por região.
REGIÃO
SUDESTE
DISSERTAÇÃO
06
TESE
02
TOTAL
08
NORDESTE
SUL
CENTRO OESTE
TOTAL
06
03
03
18
01
02
05
07
05
03
27
Fonte: Banco de dados – Capes período: 2003/2009. Área: Educação do campo/Educação rural.
As produções analisadas indicam a falta de uma formação específica para o educador
e educadora do campo, bem como explicitam a necessidade de políticas pública construídas
no coletivo e institucionalizada pelo poder público com a participação da sociedade em um
permanente processo de articulação, reivindicação, lutas e conquistas. Como mencionamos as
produções discentes, ainda são limitadas, até pela dificuldade em fazer pesquisa e mesmo pelo
fato da universidade pública dispor de poucas vagas, e também por destinar ao campo, ou
melhor, aos seus sujeitos o olhar do colonizador.
A herança colonial pode ser acompanhada não só nas dissertações e teses produzidas.
Ao contrário, as demais produções, isto é, artigos, ensaios, entre outros, também corresponde
a essa característica. Das publicações encontradas no site do ENDIPE, apenas 07 artigos
focam a formação do educador e educadora do campo. Desses somente 02 é da região Norte
(Quadro 02).
Neste sentido, que evidenciamos a formação do educador e educadora do campo,
como pauta de discussão por entender que sem uma formação consistente e condizente com a
dinâmica social da vida dos sujeitos do campo, pouco poderá ser feito no sentido de romper
com o paradigma dominante.
Na caminhada em busca de reconhecimento pela educação do campo e rompimento
com o paradigma dominante, em termos de produção podemos destacar a “coleção por uma
educação do campo”, considerada o carro chefe desse processo, visto que tende apresentar um
verdadeiro panorama da situação educacional presente no campo brasileiro. É válido
considerar que apesar de se destinar certa visibilidade ao campo, à formação dos educadores e
educadoras ainda encontra-se no silenciamento, muito embora, a necessidade de uma
formação diferenciada faça parte do discurso defendido.
A publicação de livros, específico para formação do educador e educadora do campo
também se apresenta em uma fase embrionária, o que certamente é reflexo do sistema
8
excludente que temos, em especial, quando se trata de educação dos povos do campo. O livro
“Educação do Campo: Desafios para formação de professores”, organizado por Maria Izabel
Antunes-Rocha e Aracy Alves Martins e publicado em (2010) pela editora Autêntica,
constitui-se no principal livro encontrado. Este livro traz uma coletânea de artigos de vários
autores que enfatizam a formação do educador/a do campo a partir da experiência do
Programa de Apoio às Licenciaturas em Educação do Campo (PROCAMPO). Essa é uma
publicação, que traz reflexões acerca da formação docente e com isso possibilita desencadear
experiências e proposições para a construção de uma formação específica para o campo.
O processo educativo descrito demonstra o quanto à formação do/a educador/a do
campo necessita ser debatida, refletida, mas, sobretudo, encarada com responsabilidade por
parte do poder público. A seguir evidenciaremos tal processo no estado do Pará.
Formação de educadores e educadoras do campo: o Pará em destaque
A educação do campo no Estado do Pará, não foge a regra do país, isto é, nasce
atrelada a manutenção dos interesses dominantes, e, portanto, submetida à mesma lógica
estrutural de exclusão e discriminação. Não é atoa que a oferta da educação a população do
campo volta-se principalmente para o primeiro segmento do ensino fundamental
desenvolvidas, na maioria em classes multisseriadas, o que tem feito deste, o Estado com o
maior número de escolas multisseriadas do país. Vale ressaltar, que a educação infantil e o
ensino médio se fazem presentes no campo de forma bem incipiente.
Essa é uma questão preocupante, pelo fato das escolas multisseridas apresentarem
uma série de particularidades que certamente compromete o processo educacional
desenvolvido no campo.
Conforme Hage (2010, p. 465)
Parte significativa das escolas multisseriadas possui infraestrutura precária e
funcionam, em muitas situações, sem prédio próprio, na casa do professor,
de um morador local ou em salões de festas, barracões, igrejas, etc; sem
energia, água, equipamentos e dependências necessárias para o
funcionamento adequado.
A escola multisserida tem levado o educador e educadora atuarem em múltiplas
séries concomitantemente, desenvolvidas em uma única sala de aula, onde os alunos
9
apresentam diferentes níveis de aprendizagem e faixa etária. Além disso, tem o fato desses
educadores enfrentarem uma sobrecarga de trabalho, uma vez que “além das atividades
docentes, são forçados a assumir outras funções, na escola, como: faxineiro, diretor,
secretário, merendeiro, e na comunidade, como: líder comunitário, agente de saúde, parteiro
etc” (HAGE, 2010, p. 466).
É pertinente salientar que a maioria dos educadores que atuam nas escolas do campo
é oriundo da cidade, e ao se deparar com a realidade citada, em geral, por possuir uma
formação alicerçada pela visão urbanocêntrica, tende a reproduzir a lógica vigente, o que faz
da educação ofertada ao campo “prática de dominação” (FREIRE, 2005, p.76). Verificamos
com isso que a formação é uma importante ferramenta na construção da educação, seja no
sentido de manter o que está posto como pronto e acabado ou no sentido de romper e
contribuir com uma educação voltada para a emancipação crítica dos sujeitos.
Diante da importância da formação do professor procuramos evidenciar como essa
temática vem sendo tratada pelas universidades, bem como governo e sociedade em geral
referente ao educador e educadora do campo no Estado do Pará. Para tanto, recorremos a sites
de busca, como o banco de dados da CAPES, ENDIPE, observatório de educação do campo,
Portal Educampo do Fórum Paraense de educação do campo (FEPEC), além dos programas
de pós-graduação em educação – PPGED da Universidade Federal do Pará (UFPA) e
Universidade do Estado do Pará (UEPA), onde encontramos apenas 02 artigos. Ambos no site
do ENDIPE.
Dos artigos encontrados, um evidencia a formação a partir da relação com a prática
pedagógica é o caso do artigo “Práticas pedagógicas em escolas multisseriadas: entre tensões e
interações, a importância da formação dos Professores” de Salomão Mufarrej Hage (UFPA) e
Fábio Josué Souza Dos Santos (UFPA). O outro, intitulado “Formação dos professores da
educação do campo: desafios e perspectivas” de Raquel Alves de Carvalho (Universidade
Metodista de Piracicaba – UNIMEP) e Evandro Costa de Medeiros (UFPA) busca provocar
reflexões acerca dos desafios postos à formação de professores, de maneira que contemple as
questões vividas pelos povos do campo. Ambos trazem elementos importantes no que diz
respeito à produção teórica que servirá de referencial para futuras pesquisas.
Quanto a livros, encontramos apenas 01 artigo referente à formação continuada no
Pará, porém, mesmo que este estudo não priorize a formação inicial, consideramos pertinente
mencioná-lo, uma vez que evidencia a complexidade que o docente enfrenta para exercer sua
profissão no campo, em especial, em classes multisseriadas, bem como as contribuições
10
trazidas a esses educadores pelo Programa Educamazônia5, por meio de formação continuada.
Trata-se do artigo “Formação continuada de professores de classes multisseriadas do campo:
perspectivas, contradições, recuos e continuidades” das professoras Albene Lis Monteiro e
Cely do Socorro Costa Nunes publicado em 2010 pela editora Autêntica no livro “Escola de
direito: reinventado a escola multisseriada” organizado por Maria Izabel Antunes-Rocha e
Salomão Mufarrej Hage.
De certo modo, a marginalização da formação do educador e educadora do campo no
Pará, continua sendo processada pelo paradigma hegemônico, onde o campo é o celeiro de
matéria-prima barata e servil, portanto, precisa ser regulado e a cidade o progresso. Essa é
uma visão que apesar da intensa movimentação pelo reconhecimento do campo como lugar de
história e vida continua fazendo parte da realidade paraense.
Para romper com o paradigma seriado urbano é preciso que o educador reconheça o
educando/a do campo como pessoa. Isso quer dizer que o educador precisa se colocar no lugar
do educando, não para representá-lo, mas para criar condições de maneira que ele fale por sua
própria voz. Como educadoras/es não podemos falar por nossos alunos, nosso compromisso é
contribuir com uma formação mais humana e solidária.
É neste sentido que a formação não pode ser compreendida apenas na relação com o
aluno, mas numa intensa relação com a comunidade, com os sujeitos, com a dinâmica cultural
e social de determinada realidade. Isso implica dizer que a formação do educador e educadora
do campo não pode dar-se isolada do contexto social, no caso do Pará, da realidade ribeirinha,
de estradas, fazendas, quilombos e aldeias, entre outras.
CONCLUSÕES: o que se pesquisa e o que mais pesquisar?
No caminhar deste estudo, que por ora, chamamos de inventário, percebemos que
mesmo depois de oito anos de aprovação das Diretrizes Operacionais do Campo (DOC), a
pesquisa acerca da formação do educador e educadora do campo continua no silenciamento.
O que torna está temática, mais desafiante.
5
O Programa Educação do Campo na Amazônia paraense: construindo ações inclusivas e multiculturais no
campo (EducAmazônia) nasceu em 2005 com o objetivo de fortalecer as bases e ações da educação do campo no
Pará.
11
O crescente movimento que vem sendo feito acerca da educação do campo no país, e
consequentemente, no Estado do Pará, tem colocado esta educação na agenda nacional e
despertado interesse de vários pesquisadores e estudiosos. Com isso, artigos, teses,
dissertações, entre outros, trazem o fenômeno da educação do campo como objeto de estudo.
Claro que ainda é um tema coadjuvante se formos comparar com a educação urbana, mas já
começa a imprimir no meio acadêmico certa força. Contudo, são estudos, que se preocupam
com várias questões pertencentes à realidade do campo, mas tem deixado de lado a formação
dos educadores e educadoras.
De acordo com o Quadro 01, a quantidade de produções relativa a essa temática é
muito diminuta em todo o país. No caso, específico do Norte, a situação é pior, visto que
nenhuma dissertação ou tese foi encontrada. No Pará, isso só se confirma, vez que apenas 03
artigos foram encontrados. É claro que pode haver produções não disponíveis nos sites que
buscamos. Por isso, faz-se necessário ampliar esse estudo em outro momento.
Com as análises observamos que as produções acerca da formação inicial do
educador/a do campo evidenciam a prática pedagógica a partir da relação teoria e prática, bem
como as condições de trabalho, as dificuldades, os desafios da docência no campo, elementos
fulcrais para o fortalecimento da formação docente. No entanto, consideramos nevrálgico dar
ênfase cada vez mais a esses elementos somados aos saberes docentes, valorização,
profissionalização, isto é, elementos que contribuam com a construção teórica e
epistemológica de uma formação docente do e no campo, ou seja, de uma formação que se dê
a partir da valorização e reconhecimento da cultura, saberes, valores, crenças, ou melhor, da
dinâmica social e cultural do homem e da mulher do campo em uma intensa relação dialógica
com os saberes e cultura dos povos da cidade, no intuito de contribuir com a constatação da
dominação ou não e firmação de um profícuo projeto de sociedade.
Referências
ARROYO, Miguel González. Educação do Campo: Movimentos Sociais e Formação
Docente In: SOARES, Leôncio et al (Orgs.). Convergências e tensões no campo da formação
e do trabalho docente. Belo Horizonte: Autêntica, 2010.
12
CAPES: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. BANCO DE
DADOS. Disponível em: http://www.capes.gov.br/servicos/banco-de-teses. Acesso em: 23 de
Nov. de 2010.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. RJ, Paz e Terra, 2005.
FPC: Fórum Paraense de Educação do Campo. PROGRAMA EDUCAMAZÔNIA. Disponível
em: http://www.educampoparaense.org. Acesso em 03 de jan de 2011.
HAGE, Salomão M. Concepções, práticas e dilemas das escolas do campo: contrastes,
desigualdades e afirmação de direitos em debate. In: SOARES, Leôncio et al (orgs.).
Convergências e tensões no campo da formação e do trabalho docente. Belo Horizonte:
Autêntica, 2010.
HENRIQUES, Ricardo et al (Orgs). Educação do Campo: diferenças mudando paradigmas.
Brasília, DF: Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad/MEC),
2007.
MACLAREN, Peter. Multiculturalismo crítico. São Paulo: Cortez, 1997.
MOLINA, Mônica Castagna. Desafios e perspectivas na formação de educadores: reflexões a
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Leôncio et al (Org.). Convergências e tensões no campo da formação e do trabalho docente.
Belo Horizonte: Autêntica, 2010.
MONTEIRO, Albene Lis; NUNES, Cely do S. Costa. Formação continuada de professores de
classes multisseriadas do campo: perspectivas, contradições, recuos e continuidades. IN:
ANTUNES-ROCHA, Maria Isabel; HAGE, Salomão M. (Orgs.). Escola de direito:
reinventando a escola multisseriada. Belo Horizonte: Autêntica, 2010.
MUNARIM, Antônio. Elementos para uma política pública de Educação do Campo. IN:
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PUBLICAÇÃO DOS ANAIS DO XV ENDIPE: Convergências e tensões no campo da
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ROCHA, Maria Isabel Antunes; MARTINS, Aracy Alves (Orgs.). Educação do Campo:
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SANTOS, Boaventura de S. Um discurso sobre as ciências. 7. Edição. São Paulo: Cortez,
2010.
Download

File - Educação do Campo do Norte Pioneiro do Paraná