DESABAFO
Hoje vou ficar com a boca fechada. Prometo. Não
vou dizer “vai escovar dente, menino”, “ta na hora do
banho”, “tira o pé do sofá”. Quero ficar na minha,
sentir firmeza no meu espaço e só enxergar a mim
mesma para qualquer lado em que me virar.
Quero entrar no banheiro com todo o tempo do
mundo, sem ter que sair depressa porque o Júnior
deu um murro nas costas da Juliana e ela respondeu
com uma mordida. Não vou escutar o choro deles
nem me importar se a vizinha pensar mal de mim.
Quero entrar no banheiro e me deixar ficar, não
como se ele fosse um esconderijo ou um escudo,
mas como se fosse o paraíso, com seu perfume de
sabonete novo e o aroma da suave água-de-cheiro.
Quero ficar no meu quarto comigo mesma,
pensando em muitas coisas ou em nada pensando,
se quiser. Quero ter o direito de não pensar quem é
que vai buscar as crianças na escola, e não quero
me preocupar se o pó de café acabou ou se nada
existe para o lanche.
Não quero ouvir o telefone tocar, nem o interfone ou
a campainha. Hoje estou apenas para mim mesma
como quando era adolescente e fazia o que queria
com a desculpa de ser jovem demais para ter
responsabilidade.
Hoje quero tirar férias da minha família e da minha
casa, sem querer dizer com isso que não me sinto
bem com eles e dentro dela. Quero ficar de papo pro
ar, cúmplice de mim mesma, solidária, fazendo
castelos antes que o vento os jogue no chão.
Quero investir em mim, nem que seja na minha
solidão, e me fazer guerreira ou santa, menina ou
mulher. Quero me jogar na rede, adormecer sem
sonhos e rir como puder.
Quero me sentir solta e descompromissada, sem
planos, sem regra e sem jogo, sem notícias e sem
assunto. Não quero saber do meu país, da vida que
está matando tanta gente, da fome e do medo, do
sangue e do tiroteio.
Não quero saber das mulheres violentadas, dos
homens encarcerados sem nenhuma ocupação, dos
pivetes abandonados nas ruas, das lágrimas que
inundam nossas calçadas e nossa gente. Não quero
saber do jovem, que mesmo sendo jovem já sabe
que o sonho acabou.
Não quero rosas porque sei que elas têm espinhos,
nem quero o verde porque ele está se esvaindo. Não
quero promessas porque elas se mostraram inúteis,
nem quero sombra porque a árvore já secou.
Quero mostrar a meus filhos que não sou deles
assim como eles não serão meus um dia, Quero tirar
minha fantasia de mulher forte e fantasiar este
momento do jeito que a imaginação quiser. Quero
ter medo de barata sem ser ridícula, usar roupa nova
sem ser fútil e ver o tempo passar sem envelhecer.
Não quero ouvir “meu bem, onde está minha
gravata?”, “mamãe, cadê meu uniforme?”, “patroa,
me dá o dinheiro do pão”. Quero me sentir inútil
nesta casa, sem préstimo e sem serventia. Não
quero ser uma agência de prestação de serviços ou
um balcão de informações. Quero expulsar esta
rotina e apenas cuidar de mim – quero ser minha
única companhia.
Hoje quero meu tempo
espremida entre o balé
caçula. Hoje eu faço meu
sem me dividir, sem me
com o relógio do tempo,
sem relógio.
só para mim, sem ficar
da filha e a natação do
dia do jeito que eu quiser,
doar, sem me preocupar
pois vou fazer um tempo
Hoje eu me volto para mim, me procuro, me acho.
Amanhã – quem sabe – começará um novo dia pela
manhã...
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