CONSCIÊNCIA CRÍTICA E FICÇÃO CONTEMPORÂNEA CRITICAL CONSCIENCE AND CONTEMPORARY FICTION Paulo César Silva de Oliveira* Resumo Este artigo tem por objetivo investigar as principais questões críticas contemporâneas e seu impacto no estudo da ficção brasileira atual. O debate acerca do multiculturalismo e suas implicações serão privilegiados, tendo em vista a força dos postulados dessa corrente. A querela entre texto e contexto norteia esta investigação, que procura observar, na análise de alguns escritores contemporâneos como Rubem Fonseca, Caio Fernando Abreu e Silviano Santiago, o que significa narrar-pensar hoje. Palavras-chave: Multiculturalismo, Ficção Brasileira,Teoria, Contemporaneidade. Abstract This article aims at investigating the main contemporary critical issues and its impact in the study of the Brazilian current fiction.The debate on multiculturalism and its implications will be focused regarding the main topics concerning this critical tendency.The debate between text and context surrounds this investigation which will analyze some contemporary writers such as Rubem Fonseca, Caio Fernando Abreu and Silviano Santiago, trying to approach the following concern: what does narration and thought have in common? Key words: Multiculturalism, Brazilian Fiction,Theory, Contemporary Thought. 1 Introdução Se o multiculturalismo dominou, e de certa forma ainda domina, a cena crítica acerca das questões contemporâneas, também é verdade que a discussão se tornou por demais abrangente para que possamos compreendê-la em poucos parâmetros. Esse estado de saudável confusão agrada, ao que parece, o teórico multiculturalista: já que a segurança do lugar, do centro catalisador foi desmascarada, saudemos a desejável indefinição que nos rodeia, parecem dizer. Porém, mesmo os que adulam tal atmosfera sabem que há o momento necessário da essencialização, o que não significa subjugação a regulamentos e normas que nutrem o arcabouço logocêntrico. Portanto, ao retomar discussões no âmbito do multiculturalismo, relacionando-as à ficção brasileira contemporânea, iremos pensar o papel fundamental da crítica nesses embates. A questão que pretendemos abordar é recente, mas não é nova. Ela parte de um projeto de pesquisa iniciado em 2003, no âmbito de nossa instituição (UNIG), e que visava ao estudo da ficção brasileira contemporânea sob o ponto de vista dos conceitos de inclusão e exclusão no contexto do aparecimento de novas vozes e sua relação com o cânone. Dissemos em diversos trabalhos anteriores (Oliveira, 2006a, p. 15-20; Oliveira, 2006b; Oliveira, 2006c; Oliveira, 2005, p. 83-100; Oliveira, 2004; Oliveira, 2003a; e Oliveira, 2003b) que, em uma sociedade cada vez mais mediatizada, faz-se urgente discutir os papéis do escritor, do crítico e da escrita ficcional sob um prisma cada vez mais problematizador. Ler a ficção contemporânea é interrogar o lugar do sujeito, interpelar o fenômeno da violência, discutir a sociedade do espetáculo, perquirir os processos de hibridização cultural em espaços cada vez mais multifacetados nos quais interagimos. Esta reflexão nasceu, principalmente mas não somente, dessas indagações. Serão apresentadas algumas conclusões oriundas do problema investigado, as quais, sabemos, serão sempre e necessariamente transitórias. 2 Multiculturalismo, Ficção e Crítica Para início de discussão, iremos delimitar nossas interrogações, na medida do possível, às relações entre ficção contemporânea e cultura do espetáculo. Em primeiro lugar, interessa-nos pensar certas correspondências entre ficção contemporânea e cultura midiática; cânone e valor, propondo uma interrogação inicial: como entender, em uma cultura cada vez mais ávida de espetáculo, menos letrada, mais cosmopolita e híbrida, a lógica do cânone literário? Como a crítica contemporânea vem tratando a questão? Para Nestor-García Canclini (1995a), o multiculturalismo surgiu “das formas modernas de segmentação e organização da cultura em sociedades industrializadas” (p. 204). A noção de modernização, entretanto, deve incorporar ainda segmentos que não coadunam com a lógica da homogeneização, posto que a diferença surge como marca dos países periféricos, tais como os da América Latina. Nessa categoria, estariam os 30 milhões de indígenas espalhados pelo continente latino-americano. Se o problema da diferença é fundamental, a não menos importante questão do hibridismo cultural é outro importante paradigma. A América Latina é um lugar onde as contradições de uma modernidade vacilante acabaram por estilhaçar sociedades, tornando-as cada vez mais segmentadas e desiguais. Transportando essas preocupações para o campo da arte, Canclini (1995b) as vê de forma bastante singular: What is art is not only an aesthetic question; we have to take into account how it responds at the intersection of what is done by journalists and historians and museum writers, art dealers, collectors and speculators. In similar fashion, the popular is not defined by an a priori essence but by stable, diverse strategies with which the subaltern sectors themselves construct their positions and also by the way the folklorist and the anthropologist stage popular culture for the museum or the academy, the sociologists and the politicians for the political parties, the communications specialists for the media (p. 6). Pensar a arte significa criticar os pressupostos que moldaram o gosto, estabeleceram critérios de valor e subordinaram o objeto artístico a elementos estéticos representativos apenas de classes hegemônicas. As teorias que nas últimas décadas interrogam a diferença, os conceitos de hegemonia, valor, classe, grupo e etnicidade, dentre outros, vão, em contrapartida, privilegiar discursos cada vez mais representativos de grupos segmentados, cuja construção da identidade já não pode mais ser pensada por um grand récit. Em uma pequena obra, escrita entre 1954 e 1956, Barthes já refletia sobre alguns mitos presentes na vida francesa. Do catch ao bife com batata, passando pela fotografia, teatro, cinema, nada escapava à percepção do crítico. Em seu ensaio há uma dura constatação: “Parece que estamos condenados, durante certo tempo, a falar excessivamente do real”. Entretanto, Barthes (1993) propõe “uma reconciliação entre o real e os homens, a descrição e a explicação, o objeto e o saber” (p. 178). A sociedade de massas estaria, ainda segundo Barthes, oscilando entre dois métodos que consistem em ideologizar ou poetizar o real. Canclini propõe a negociação com as instâncias ideológicas e seus mecanismos, criando, assim, estratégias de entrada e saída para os impasses e as contradições da modernidade. Barthes fala de um momento em que se começa a desconstruir de forma contundente a História (com H maiúsculo) e suas ilusões logocêntricas e eurocêntricas. A inclusão de novos discursos abriu caminhos para o questionamento da autoridade do historiador e da própria noção de autoria. Foucault vai dizer, em “What is an author”, que devemos romper com a crença de que há um sujeito autêntico, original, que se apresenta na obra. A discutida questão da morte do autor nos traz novas possibilidades de abordagem: What are the modes of existence of this discourse? Where has it been used, how can it circulate, and who can appropriate it for himself? What are the places in it where there is room for possible subjects? Who can assume these various subject functions? (Foucault, 1984, p. 120). Para Foucault, a autoridade sobre o discurso se desloca do ponto de vista de um sujeito autoritário para os possíveis e vários sujeitos construídos no e pelo discurso. Homi Bhabha vai argumentar que o papel do sujeito e sua fala só podem ser compreendidos pelo lugar que este ocupa. Seguindo as discussões encaminhadas pelas teorias da desconstrução, Bhabha propõe o conceito de fronteira (Border) como característica do presente – entrecruzamento, horizonte, além: “The beyond is neither a new horizon, nor a leaving behind of the past (...)” (Bhabha, 1994, p. 1). Bhabha fala do presente como um tempo sem começos ou fins visíveis, ou seja, como “momento de trânsito”, em que espaço e tempo se cruzam e produzem figuras complexas de diferença e identidade. Propõe ainda estabelecer “a sign of the present” (um signo do presente), no qual a modernidade se caracterizará pela ética da self-construction em nome da autonomia cívica e do remodelamento dos conceitos (Bhabha, 1994, p. 240-241). Para negociar com as instâncias do presente e do passado, precisamos aprender como funcionam estes mecanismos de entrada e saída, propõe Canclini, altercando com as forças da modernidade, reagindo a suas ambivalências de modo a produzir espaços de maleabilidade e diferenças. E como a ficção vem se comportando em relação a essa problemática? Quais relações teriam os sujeitos refletidos ficcionalmente com um mundo cultural cada vez mais híbrido? Em breve parêntese, queremos lembrar o pioneirismo de Machado de Assis, cuja ficção nos legou, na figura de Brás Cubas, nosso primeiro grande anti-herói cultural, pelo qual o sentido do espetáculo, em gestos e palavras, já se fazia sentir, seja na busca pela notoriedade a qualquer preço, ou no sentimento, ora amargo, ora irônico, de que o mundo é um palco para grandes ou pequenas encenações, mas sempre espaço de representações. Olhando para o presente, sem perder de vista o traço machadiano, traremos três autores em que as contradições da sociedade contemporânea exigem discussões acerca da diferença, dos mass media e da cultura do espetáculo, sintomas das perplexidades que rondam a ficção brasileira contemporânea. 3 Consciência Crítica e Ficção Contemporânea Nas poucas questões até aqui expostas, tentamos traçar um pequeno painel da reflexão multicultural, apontando a complexidade que ronda tal debate crítico. Em Barthes, a questão dos mitos que circundam o espetáculo (a violência, os estereótipos etc.) traduz uma forma burguesa de organização ideológica que “tudo preenche e sem qualquer risco” (Barthes, 1993, p. 160-161). Canclini apontou um problema maior, que é o da dominação por meio da cultura, advertindo que os processos de hibridização são motores da reflexão quando servem à desconstrução dos próprios mecanismos de dominação e das assimetrias que estruturam a sociedade. O problema da assimetria intercultural preocupa Ottmar Ette (1995), que vê no processo uma fundamentação tão antiga que remonta às antigas colônias européias. Ainda que várias culturas tenham sido postas à margem, os processos de hibridização possibilitaram pensar e combater as formas assimétricas de dominação, ainda que um tanto desordenadamente. O modernismo, completa, inaugura uma nova fase nas relações entre as metrópoles e suas antigas colônias. Mas se é fácil perceber no campo econômico os vestígios dessas assimetrias, na produção ficcional a questão se reveste de outras nuanças, próprias da ambigüidade característica do texto. A partir dessas indagações, faremos uma leitura de três autores e de alguns de seus temas recorrentes: a violência como matéria reflexiva, em Rubem Fonseca; a questão das relações interpessoais fragmentadas, em Caio Fernando Abreu; sem esquecer a preocupação com o fenômeno da diluição das fronteiras literárias, bem encaminhada na prosa de Silviano Santiago.Veremos como o sujeito, em sua perplexidade diante de um mundo que já não pode ser compreendido pelas vias metafísicas, retorna ao palco do questionamento sob lentes diferenciadas. 3.1 Rubem Fonseca: violência e espetáculo Rubem Fonseca vem produzindo seus contos em períodos distintos da cena política nacional: ditadura militar, abertura e redemocratização. Ao longo de mais de 40 anos, a temática da violência em sua obra é obsessiva. Em um de seus livros mais instigantes, O buraco na parede (Fonseca, 1995), no conto “Idiotas que falam outra língua”, Fonseca articula uma narrativa que se desloca do clássico triângulo amoroso para várias outras triangulações, introduzindo a temática da perda coletiva da identidade. A certa altura, os personagens já não sabem quem são ou quem é quem, tudo em clima de pesadelo e irrealidade. Observe-se que, se a temática da violência como espetáculo predomina no conjunto de sua obra, é certo que ela vem se metamorfoseando. Atenua-se, na produção mais atual de Fonseca, a marca forte do outrora nomeado por Antonio Candido “realismo feroz” (1989, p. 212). Acrescenta-se um relato desencantado das microformas de violência que impregnam o cotidiano das grandes metrópoles: miséria da subjetividade, miséria social; desolação, solidão. Há ainda o apelo humano das utopias, observado na personagem Augusto, com sua filosofia desencantada, em “A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro”. Nesse conto longo, o leitor acompanha o percurso de um sujeito que se impõe a missão de ensinar prostitutas a ler e falar corretamente o português. Enquanto perambula pela cidade, recolhe antigas memórias e histórias de prédios e árvores, relato melancólico de um tempo em que o passado cede lugar a um presente no qual fala e escrita são meros artefatos, bens culturais de propriedade da alta intelectualidade. O conto mostra um mundo sombrio e desencantado, bem exemplificado no diálogo entre as personagens Augusto e o Velho: “E a esperança?” “A esperança na verdade só liberta os jovens”. “Mas você disse no Timpanas...” “Que a esperança é uma espécie de libertação... Mas você precisa ser jovem para gozar isso...” (Fonseca, 1992, p. 49). Em Feliz ano novo, de 1975, Rubem viria a criar um universo crudelíssimo de violência. O conto que dá nome ao livro é um exercício emblemático de técnica ficcional e narrativa cinematográfica sublinhadas pelo realismo cruel das imagens e diálogos. Em “Feliz Ano Novo”, um dos mais violentos contos de nossa literatura, um grupo de marginais chacina uma família de classe alta; seu contraponto é “Passeio Noturno I e II” (Fonseca, 1975, p. 47-56), no qual um alto executivo alivia a tensão e o tédio atropelando e matando principalmente mulheres e homens pobres. Em ambos a violência é apenas apresentada, representada como elemento do cotidiano de um mundo que se abstém de pensá-la detidamente. Cabe ao leitor completar a reflexão. Em O cobrador (1989), no entanto, a personagem central do conto homônimo se apropria do mito do justiceiro social e, como um Robin Hood desconstruído, quer “cobrar” o que a sociedade lhe negou: “Odeio dentistas, comerciantes, advogados, industriais, funcionários, médicos, executivos, essa canalha inteira. Todos eles estão me devendo muito” (Fonseca, 1989, p. 13). Retifiquei nas referências bibliográficas. Também é a crítica ácida às formas midiáticas, nas quais se insere sobremaneira a influência televisiva, outro ponto de reflexão: Fico na frente da televisão para aumentar o meu ódio. Quando minha cólera está diminuindo e eu perco a vontade de cobrar o que me devem eu sento na frente da televisão e em pouco tempo meu ódio volta. Quero muito pegar um camarada que faz anúncio de uísque. Ele está vestidinho, bonitinho, todo sanforizado, abraçado com uma loura reluzente, e joga pedrinhas de gelo num copo e sorri com todos os dentes, os dentes dele são certinhos e são verdadeiros, e eu quero pegar ele com a navalha e cortar os dois lados da bochecha até as orelhas, e aqueles dentes brancos vão todos ficar de fora num sorriso de caveira vermelha (Fonseca, 1989, p. 16). O que o personagem quer cobrar advém de estereótipos produzidos e repetidos pela cultura de massa encharcada de ideologia burguesa, como bem definiu Barthes (1993): A ideologia burguesa pode portanto preencher tudo e, sem qualquer risco, perder o seu nome: ninguém lho irá devolver; pode, sem encontrar resistência, apresentar o teatro, a arte, o homem burguês, como o teatro, a arte, o homem eternos; em suma, pode omitir a sua denominação livremente, visto que existe apenas uma e única natureza humana: a deserção do nome burguês é, assim, total (p. 160). A sociedade de espetáculo burguesa utiliza “signos bastardos” (Barthes, 1993, p. 23), elípticos e pretensiosos. O perigo desse poder de sedução pode ser sentido na proposta reflexiva de Fonseca representada no “cobrador”. Embora sob uma capa revolucionária, o que o personagem procura vingar é a sua exclusão da sociedade de consumo que lhe veda o acesso a seus produtos. Como não critica profundamente os estereótipos que formam esse mundo, o “cobrador” reduplica valores; sua noção de pertencimento vinculase a ideais de consumo que, por um lado, são o motivo de sua vingança; e, por outro, objetos de desejo, condicionadores de sua existência e revolta. Acaba por idolatrá-los, ainda que pareça combatê-los, o que Barthes chamará de vitória do mito, o qual resiste à razão e se insurge e insinua de onde menos se espera. A função desalienante da literatura de Fonseca vai se revelando nas entrelinhas do discurso, nos entrediscursos que forma, pondo e repondo ao leitor variedades reflexivas como desafio. Os personagens de Rubem Fonseca transitam pelo espetáculo da cultura de massa. Em um espetáculo de catch, de cartas marcadas, o lutador de “O desempenho”, conto que integra a obra Lúcia McCartney (Fonseca, 1987, p. 9-16), frustra as expectativas da platéia, a qual torce por seu oponente. Mais uma vez, é o espetáculo da violência que serve à reflexão. Mitos como o da vitória, da derrota, da força e da perseverança são estruturas de um sistema semiológico cuja função é repetir gestos previamente estabelecidos e que são aguardados pelo público. Ao frustrar o andamento do espetáculo, vencendo a luta de cartas marcadas, o lutador desmonta momentaneamente esse sistema, o qual será imediatamente restaurado, já que o elemento surpresa será apropriado pela cadeia de significação da ideologia. Recomposto em seu fundamento, uma vez assimilado o elemento surpresa, o espetáculo flui, e o personagem sai aclamado do ringue pela multidão que antes o hostilizava: “olho comovido a arquibancada cheia de admiradores e curvome enviando beijos para os quatro cantos do estádio” (Fonseca, 1987, p. 15). À fluidez e inconstância das massas atraídas pelo espetáculo romano e sangrento é incorporada a novidade, a surpresa que não desarticula, antes reafirma, reassenta, apazigua, dociliza o que poderia ser resistência e inconformismo. Restaura-se, assim, a ordem desejável pela lógica do espetáculo. Nos contos de Rubem Fonseca, transparece um mundo no qual a consciência crítica é necessariamente ambígua e sem saída, porque já não pode ser parâmetro para a compreensão das flutuações de uma sociedade que cultua estereótipos, mitos de um tempo desencantado para a reflexão crítica. Os sujeitos que sua prosa retrata estão mergulhados no eterno presente, do qual só se livram em breves e fugazes momentos de questionamento. Os que mergulham fundo no abismo radical da pergunta são sujeitos desesperançados, que crêem na transformação do real, mas o sabem somente possível como projeto utópico. Utópico e melancólico: “... falta de esperança me libertou” (Fonseca, 1992, p. 48). 3.2 Caio Fernando Abreu: melancolia pós O último livro de Caio Fernando Abreu (1996), lançado postumamente, inclui três contos curtos e uma novela, já publicada em Triângulo das águas, de 1983. Um dos contos, “London, London”, também publicado anteriormente, em 1977, embora seja uma narrativa breve, resume as temáticas desenvolvidas ao longo da obra. O fio condutor que perpassa as narrativas apresentadas em Estranhos estrangeiros é a solidão do indivíduo em um mundo cada vez mais absorto no simulacro do homem atravessado pelas marcas do hibridismo cultural, em que o autoconhecimento só pode se dar na preservação de espaços subjetivos. Sua geografia existencial é construída no desvio, no cruzamento de fronteiras, na reflexão sobre o que seja pertencimento, nação e consciência crítica. Já no próprio título do conto, “London, London ou Ájax, Brush, and Rubbisch”, percebemos a interpenetração cultural e a dissolução de fronteiras geográficas e de língua. A questão não se reveste apenas de um aspecto formal. Essa verdadeira jornada cross-cultural implica revisão de conceitos arraigados do que vem a ser a criação literária e dos conceitos de literatura nacional frente ao processo de globalização cultural, marcado por um redimensionamento das idéias de particular e universal. Tudo isso, claro, ungido pela idéia de uma cultura nacional cada vez mais híbrida, nutrida no desejo do espetáculo, este cada vez mais internacional e internacionalizante. A frase que abre o conto é emblemática: “Meu coração está perdido, mas tenho um mapa de Babylon City entre as mãos” (Abreu, 1996, p. 43). O clima cinzento de Londres recria um dia na vida de um estrangeiro que presta serviço (odd jobs) a uma Lady londrina. A Babylon City revela-se na confusão das línguas, pois o narrador já não narra em sua língua apenas; ele é cruzado por tantas outras: espanhol, francês, além, é claro, do inglês. Suas referências culturais são marcadas por referências as mais diversas e provêm de diferentes países e nacionalidades. O que revela essa profusão de imagens? Se voltássemos à velha tese da colonização cultural, reduziríamos o problema à antiga querela da dependência. Lendo mais detidamente, percebemos na própria ambigüidade do texto a denúncia dos estereótipos da cultura contemporânea. Mrs. D(N)ixon – em cujo nome já insinua o movimento irônico e corrosivo – traduz a lógica da interpenetração cultural, embora sob o crivo da visão européia de mundo. Sua casa exibe troféus da diversidade cultural e da barbárie: cinzeiro de prata tailandês, travesseiro da dinastia Mink, tamancos de Portobello Road etc. Enquanto lista os objetos da casa, o narrador expõe os despojos da cultura, expondo o leitor a processos de hibridização performatizados: apaga um cigarro americano; divaga sobre ruas, espaços, dança moderna, jazz, música brasileira, imagens cristalizadoras de um mundo cujos emblemas apontam para a plurissignificação cultural da matéria vertente, contundente em sua aparência democrática. Os últimos escritos de Abreu encenam essa perplexidade e talvez inevitabilidade. Em “Pela noite”, ao som de Piazolla e Mulligan, personagens aturdidos vagam por um universo de incertezas: “Tenho milhões de medos. Alguns até mais graves. Medo de ficar só, medo de não encontrar, medo de AIDS. Medo de que tudo esteja no fim, de que não exista mais tempo para nada” (Abreu, 1996, p. 12). Por isso, o narrador quer, pela noite, viver o presente. E é esse “estado de eterno presente”, conforme disse Bhabha, que a prosa de Caio Fernando Abreu procura refletir. Os signos da cultura podem nos tornar mais astutos, mas são insuficientes, e por isso nos desorientam. Talvez um dos efeitos negativos da perda do centro tenha sido essa compulsão pelo presente que por vezes significa sobrevida, indefinição, desorientação, e não desconstrução, desafio que a literatura propõe como sendo tarefa do pensamento. As referências culturais em Caio vão do popular ao erudito, passeando pelos mass media. Todas se combinam para traçar um perfil do narrador como “sujeito de seu tempo”, exposto ao espetáculo diário dos fragmentos culturais que compõem este mosaico pós-moderno de descentralização da verdade, de fluidez da consciência e das relações interpessoais. E se esses elementos não tornam a escritura menos amarga, por outro lado fornecem subsídios para que pensemos uma nova ética, na qual a contribuição multiculturalista é fenômeno discursivo complexo, porém inconcluso, e a espetacularização do cotidiano realidade onipresente, exposta sobremaneira na produção ficcional contemporânea. 3.3 Silviano Santiago: fronteiras diluídas O que dizer, portanto, de um romance intitulado Stella Manhattan, ambientado em Nova Iorque, oscilando entre a geografia das ruas daquela metrópole e o Consulado Brasileiro, com trama policial underground, recheada de ironia e desencanto, sendo seu autor brasileiro e escrita em português? Assim como o “vendedor” de Canclini (1995b, especialmente a introdução), que cruza diariamente a fronteira entre México e Estados Unidos, traficando produtos e oscilando entre mundos diferenciados, a prosa de Silviano percorre as mesmas trilhas, devolvendo-nos em relato arguto reflexões sobre a condição pós-moderna. Vejamos do que ou de quem a narrativa trata: Stella Manhattan, aliás Eduardo da Costa e Silva, com terno da Bloomingdale´s, camisa de colarinho abotoado e gravata com listras oblíquas dos Brooks Brothers, há ano e meio chegou mal vestido, medroso e deprimido a Nova Iorque. Apesar de não ser da carreira, veio para trabalhar no Consulado Brasileiro lá no Rockfeller Center. Puseram-no na seção de passaportes, com a função de atender o público (Santiago, 1991, p. 16). Stella, alter ego de Eduardo, está no centro de uma trama que envolve política, sexo, troca de identidades – ingredientes do mais puro best-seller. Notemos que todos os personagens da trama possuem dupla identidade ou são ambíguos. O ano de 1969, em que se desenrola a trama, também é sintomático. O sentido da história aqui é subvertido. Ficção e história se imbricam, reclamam e envolvem o leitor nos acontecimentos mais importantes do momento político brasileiro da ditadura. O compromisso com a história é revestido pela desconfiança em relação à própria verdade histórica. Com seus personagens cindidos, a narrativa multicultural de Silviano repensa as fronteiras do literário e pergunta: o que é literatura nacional, como pode a literatura refletir a história; de que forma, hoje, podemos nos permitir ignorar a diluição das fronteiras mundiais, especialmente no campo estético? A questão da arte e do papel da literatura são recorrentes em Stella Manhattan: sobre o que reflete a arte; qual sua utilidade? “Arte não é nem pode ser norma, é energia desperdiçada mesmo” (Santiago, 1991, p. 70), diz a certa altura o narrador sem nome nem rosto. Silviano representa a dissolução do centro em trama que mostra o apagar da subjetividade quando já não se pode pleitear uma consciência unívoca catalisada por uma força logocêntrica, a qual comandaria o destino dos homens. A intromissão do narrador é uma das provocações do texto, requer do leitor atenção para a peculiaridade do ato ficcional, que é a de ser jogo, fruição, em descompromisso com a História maiúscula. As locações da cultura determinam de que lugar se parte quando se fala. Oriundas de um ponto qualquer do círculo (não do centro), essas falas exclamam diferença e jogo: diferença que ameaça o sistema de representação quando subverte suas restrições metafísicas; jogo que lança o projeto estético na saudável indefinição e liberdade de seu sistema semiológico, espaço só preenchido pelo leitor, único elemento “ativo” no processo de significação do texto, como já apontou Barthes. O leitor, conclamado a pensar o sentido do jogo, é quem na verdade produz esses efeitos de diferença. Jogo de identidades misturadas, fronteiras diluídas, o espetáculo da hibridização também produz monstros. A reflexão ficcional aponta impasses, marca diferenças, permite ver o sentido do jogo como puro exercício do pensamento e por isso não apazigua. Se Silviano sacraliza e reduplica o conceito canônico de arte é para mostrar como esse próprio cânone é subvertido no jogo estético: “O ócio é o ideal do homem e não o trabalho” (Santiago, 1991, p. 77). O que vale para o ócio vale para a arte. Embora resumida e um tanto esquemática, nossa abordagem quer apontar indefinições, zonas conflagradas, visando a mostrar o caráter essencialmente interrogativo da ficção contemporânea, bem ao gosto da prosa de Santiago. Talvez esteja na reflexão sobre os estatutos da subjetividade uma das chaves para se compreender a fragmentação do sujeito e da consciência como marca de uma sociedade em crise com as construções canônicas, e que tem o imperativo de criticar agudamente a subordinação da vida ao espetáculo, papel que a arte exerce com propriedade, devido a sua característica intrínseca, a incondicionalidade. 4 Uma Possível Conclusão: narrar-pensar hoje Quando pretendemos falar do presente, geralmente incorremos em certas generalizações e assertivas que a distância temporal ratifica ou desconstrói. A crença em um passado histórico verificável pela análise crítica também pode ser questionada no momento em que a própria história se encontra abalada em seus estatutos de verdade. A pós-modernidade nos legou este estado de presente contínuo, próprio da sociedade do show e do espetáculo. Sob estas leis ora etéreas, ora pretensamente insufladas pela desconstrução das vias metafísicas, oscilando entre o desejo de não essencializar conceitos e a própria dificuldade de fazê-lo, o pensamento que reflete o sujeito contemporâneo corre o risco de ser tragado pela própria trama da desconstrução incessante, a qual pode (e, deveras, tem) nos conduzido a um beco sem saída. É correto dizer que a desconstrução solapou as bases do pensamento metafísico, a tal ponto que já não possuímos referências seguras com as quais possamos contar. Pode parecer que há um rastro de nostalgia nessa constatação. Tratemos de eliminá-lo. As bases da metafísica, após a empreitada desconstrutiva, foram definitivamente abaladas, e é significativo saber que com isso ganhou-se a possibilidade de trazer à cena vozes antes eludidas pelo discurso. Mas isso, longe de responder aos impasses da contemporaneidade, traz à cena novas inquietações e perguntas. A sociedade de massas se vale de seu volume de produções discursivas para difundir seus mitos, diz Barthes. Quando desconstruímos esses mitos, ao fazer com que se contradigam e neguem o próprio discurso e a verdade que encaminham, contribuímos para que se desfaçam seus nós, suas amarras. Talvez resida aí a possibilidade do narrar-pensar. Já se disse que a tarefa de desconstrução da metafísica é impossível e infindável. Mas é pela ação cotidiana de desmistificação dos postulados que a formaram que se pode construir um pensamento à margem (ou das margens). Quando desconstruímos essas margens, voltamo-nos necessariamente para discursos que promovem fissuras nas certezas metafísicas. O discurso literário se presta a esse serviço, pois é inaugural, ambíguo e aleatório. Como o jogo, sobrevive do e pelo acaso e na inevitabilidade desse ato. Conforme avançam as reflexões desconstrutoras, seja no cotidiano, nas ações práticas da vida intramundana, nas relações interpessoais, faz-se urgente pensar a posição do sujeito descentrado frente a essas provocações. Se, como disse Foucault, o sujeito é uma invenção, produção do discurso, no discurso; se a história é uma construção e o saber, ele próprio, produção discursiva de determinados grupos, como poderá o indivíduo contemporâneo transitar por esse território minado, rarefeito, desenhado para criar referentes ilusórios e que se assemelham àquilo que costumamos chamar de a verdade? Resumindo: na Babel contemporânea, o que significa refletir? Canclini propõe a negociação – Habermas já há muito defende essa idéia – mas não diz exatamente como ela pode efetivamente resolver as tensões geradas pelo mundo contemporâneo. A violência e a guerra, representadas na prosa contemporânea dos autores aqui chamados ao debate, nos mostram que o consenso anula o outro na medida em que todo consenso pressupõe perda, diferença, injustiça, anulação e dano. Retornamos ao impasse apontado por Heidegger (1990), quando mostrou ser a metafísica a história do esquecimento do Ser. No momento em que a sociedade está sob o risco de anestesiar-se na massificação, precisamos pensar criticamente a cultura do espetáculo, sua capacidade de regeneração e adaptação, que é o que a torna, muitas vezes, impermeável à desconstrução. Lembremos de Barthes, quando diz que o mito, mesmo quando aparentemente derrotado, se reelabora. A literatura trata com propriedade esses problemas. Não são os personagens de Caio Fernando Abreu, Rubem Fonseca e Silviano Santiago aqueles que mergulham na própria indefinição das questões que elaboram: quem sou eu, o que narro, por que narro? Ou, ainda, que discurso me narra e me transforma no que sou? O lugar de onde se fala, aponta Bhabha, é a única certeza que a prosa parece ostentar. Mas não esqueçamos o leitor, o elemento vivo, diz Barthes, que não só atualiza a narrativa, mas pode perceber que o lugar de onde se fala é sempre ideológico. Na reflexão em torno do leitor – aquele que, como o mitólogo, se afasta do mito para romper com a dureza de sua questão, descolando-se do texto para apontar a rigidez do sistema, o qual precisa ser descosido – encontra-se a chave para a compreensão da ficção e, mais além, para a compreensão do próprio sujeito ficcionalizado, atravessado pelas contradições que o cruzam. A questão do literário continua sendo um desafio para os que procuram nexos entre arte e sociedade. Desafiando o cânone, o texto, como vimos, permanece um discurso privilegiado e só a reflexão crítica pode dar conta – provisoriamente – de suas tantas peculiaridades. Negociar, na sociedade do espetáculo, é preciso, mas, como no jogo, estamos sob o lance e no lance, como a definição heideggeriana de sujeito como subjectum: aquele que se lança e, nesse lance, reflete a si próprio e o próprio salto. Referências ABREU, Caio Fernando. Estranhos estrangeiros. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. ARANTES, Paulo. Nação e reflexão. In: ABDALA JR., Benjamin; CARA, Salete de Almeida (Org.). Moderno de nascença: figurações críticas do Brasil. São Paulo: Boitempo, 2006. p. 27-45. BARTHES, Roland. Mitologias. 9. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993. BHABHA, Homi. The location of culture. London: Routledge, 1994. CANCLINI, Nestor-García. Consumidores e cidadãos: conflitos culturais da globalização. Rio de Janeiro: Ed. da UFRJ, 1995a. ______. 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Dados do autor: Paulo César Silva de Oliveira * Doutor em Ciência da Literatura/Poética – UFRJ – e Professor Titular de Literatura Brasileira e Teoria Literária – Universidade Iguaçu/UNIG Endereço para contato: Universidade Iguaçu – Faculdade de Educação e Letras – UNIG/FAEL 26260-000 Nova Iguaçu, RJ – Brasil Endereço eletrônico: [email protected] Data de recebimento: 30 maio 2007 Data de aprovação: 11 set. 2007