ISSN 1809 4589 Ano VI – nº 12 – Junho de 2011 Página 20 – 25 DIÁLOGOS SOBRE A REVOLUÇÃO FRANCESA Rodrig o Janoni Carvalho1 Podemos considerar a Revolução Francesa sendo apenas uma revolução burguesa e/ou uma luta de classes? Seguindo o pensamento de Solé, a nobreza e a burguesia não se distinguiam demasiadamente, pois possuíam interesses comuns em relação à classe operária. “A aristocracia agrária e a burguesia imobiliária, que as possuíam [uma fortuna anterior à revolução] formavam um só grupo sócio-econômico.” 2 (acréscimo nosso). Com o “aburguesamento” da nobreza, que mantinha o desenvolvimento do capitalismo, as ideologias tanto de uma “nobreza burguesa” como a de uma “burguesia nobre” eram cada vez mais difíceis de se diferenciar. A nobreza era uma elite que continha muitos privilégios, o que certamente causava um desejo por parte dos outros grupos em fazer parte desse meio social. Era respeitada pelo governo real e o que realmente lhe causava perigo eram as suas divisões internas. Por outro lado, a burguesia também não era tão unida e não se via enquanto classe. Esse grupo não dava importância ao trabalho braçal e o desprezava, e possuíam uma vontade em deixar de exercer o seu ofício, os negócios, brevemente. O que a desconsertava era o impedimento que era exercido pelo Antigo Regime em relação à mobilidade social, logo sua ascensão era retida. Assim como a parte esclarecida da nobreza, os burgueses mais cultos pensavam em transformar a sociedade. Então, tem-se o início de uma aliança com os opositores da aristocracia. Dessa forma, a burguesia volta o olhar para si e enxerga-se como uma classe passando a influir-se com o jogo político, que era anteriormente exercido somente pelos nobres. Contudo, isso não significava uma decadência da nobreza; eram responsáveis pelo “curso marítimo”, pelas indústrias, pela metalurgia etc., ou seja, continuavam a enriquecer-se. Na nobreza era “onde cultura e 1 Bacharel e 2 SOLÉ, Licenciado em História pela Universidade Federal de Uberlândia. Jacques. A Revolução Francesa em questões. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1989. p. 55. Cerro Grande - RS www.agora.ceedo.com.br F. 55 3756 1133 ISSN 1809 4589 Ano VI – nº 12 – Junho de 2011 Página 20 – 25 capitalismo se encontravam mais que ent re os burgueses” 3. No entanto não houve uma investida por parte desse grupo para que se houvesse uma tentativa de dar consistência a uma hierarquia tradicional. Assim, é possível perceber mais uma união entre estes dois grupos em função de seus interesses do que um embate realizado de forma direta entre eles. A nobreza não resistia a uma possível elevação de status social burguesa, que era justificada economicamente, e a burguesia continuava com a sua “estratégia de ascensão social”. Portanto, justificar a Revolução Francesa como sendo estritamente uma luta de classes parece-nos um tanto inviável considerando os argumentos nos quais é mostrado uma semelhança ideológica e não um confronto direto de interesses. Na Revolução houve uma participação de políticos e intelectuais que eram privilegiados. E como os privilégios eram concedidos à nobreza, é possível descartar de imediato uma revolução coordenada somente pela burguesia. Além disso, os deputados oriundos da nobreza não eram totalmente contrários à revolução, sendo que liberaram uma série de concessões que possibilitaram a execução da mesma. A atmosfera política causará um embate entre burguesia e nobreza posteriormente. Isso se dará com a recusa da nobreza em acatar as propostas do terceiro estado. Dessa maneira, a burguesia tomará o poder constituindo uma Assembleia Nacional, na qual o voto seria por cabeça e não possuiria distinção de ordens. Aliás, os presidentes dessa Assembléia serão em maioria de deputados da nobreza e terão parte importante no que se remete à elaboração das leis. Haverá ainda, uma iniciativa conciliatória com a burguesia revolucionária por parte da nobreza, correspondente à reforma fundiária, em troca a nobreza oferece moderação. Todavia, segundo Soboul, o grupo que mais se destacou não foi a burguesia revolucionária, mas sim “a massa dos pequenos produtores”, que eram prejudicados pelo monopólio da “aristocracia feudal”. De acordo com o autor “A revolta dos pequenos produtores, camponeses e artesãos desferiu os golpes mais eficazes na antiga sociedade” 4. Dessa forma, é de suma importância que não se caracterize a Revolução Francesa como uma revolução de caráter estritamente burguês, pois vemos a influência tanto desse grupo quanto da nobreza aristocrática e das “massas rurais e urbanas”. Com isso podemos considerar que: “A contra-revolução aris tocrática obrigou a burguesia revolucionária a prosseguir, não menos obstinadamente, a destruição total da antiga ordem. Mas esta somente chega a is to se aliando com as massas rurais e urbanas às quais era preciso contentar: a feudalidade foi destruída, a democracia instaurada. O instrumento político da mutação foi à dit adura jacobina da pequena e da média burguesias, apoiada das massas populares: categorias sociais cujo ideal era uma democracia de pequenos produtores autônomos, camponeses e artesãos independentes, trabalhando e trocando liv remente. A Revolução Francesa fixou 3 Idem. p. 58. 4 SOBOUL, Albert. A Revolução Francesa. 5ª ed. São Paulo: DIFEL, 1985. p. 109. Cerro Grande - RS www.agora.ceedo.com.br F. 55 3756 1133 ISSN 1809 4589 Ano VI – nº 12 – Junho de 2011 Página 20 – 25 assim um lugar singular na história moderna e contemporânea: a revolução camponesa estava no âmago da revolução burguesa e a impelia para frente.”5 (grifo nosso). Diálogos com o acontecimento histórico “Há nesta assembleia, ao que parece, alguns ouvidos sensíveis , que não suportam bem a palavra “sangue”. Algumas considerações sobre a natureza e a História talvez possa convencê-los de que não somos mais cruéis do que a natureza e o tempo (...) E um acontecimento que modif ica a inteira estrutura da natureza moral, is to é, da humanidade, não teria direito de passar através de sangue?”6 O discurso acima é então mais um dos tantos outros similares na obra de Büchner. Versado por Saint-Just na Assembleia, emerge a todos como uma perfeita justificativa, quase que uma real lógica para o Terror, uma expressão forte que remata definitivamente a ideia de que a “violência é a parteira da História”. O Terror no período revolucionário francês é o principal tema da obra de Büchner. Erwin Theodor, no prefácio da edição usada por nós, levanta o argumento da “desesperança” como fator mais preponderante da obra, todavia, cremos que até mesmo essa desesperança é causa do Terror. Danton se apresenta desiludido com qualquer chance de se salvar da guilhotina por um fato quase que único, o simples fato de dela não proporcionar salvação, o fato é que, a revolução andou por caminhos, no mínimo, tortuosos. Aquilo que deveria assegurar aos cidadãos franceses seus direitos inalienáveis, logo se tornou o seu mais implacável tirano; de algum modo, talvez até mais cruel do que Luis XVI. Seria impossível aqui não citar um dos diálogos (que sempre se apresentam mais como monólogos) finais da obra, onde Lucília após o festival de sangue da guilhotina, diz “Viv a o Rei!”7 uma frase que tão logo foi dita, já fez de sua autora uma inimiga da revolução. Mas, enfim, quais seriam os ensinamentos que isso nos traz? “A revolução chegou a sua fase de reorganização. A Revolução deve cessar para que comece a República.” 8 Assim dizia Herault a Camile Demoulins, Phillipeaux e Danton, e há de se concordar que essa era a retórica usada por todos na tentativa de acabar com o reinado do terror. Mas, ao tentar acabar com o Terror, Danton e seus asseclas debateram de frente com Robespierre, e isso, por fim, leva-os à morte. Lucília, após perder seu marido, compreende muito bem a situação e exclama “Viva o Rei” por razões óbvias; Desmoulins, Danton e os demais foram presos e condenados por constituírem a oposição, por baterem de frente contra o sistema. Na rua o povo continuava a sua penúria diária, a situação social mudara pouco, quase tudo continuava como nos tempos do Rei, exceto o direito à liberdade de expressão. 5 Idem. p. 116. 6 BÜCHNER, Karl Georg. A morte de Danton. São Paulo, Brasilie nse, 1992, p. 54. 7 Idem, p. 99. 8 Idem, p. 6. Cerro Grande - RS www.agora.ceedo.com.br F. 55 3756 1133 ISSN 1809 4589 Ano VI – nº 12 – Junho de 2011 Página 20 – 25 Sabemos que os primeiros a sentirem o peso de uma ditadura são aqueles que se dedicam às atividades intelectuais e a oposição; e num país que tentava se constituir sob bases igualitárias, que lutou contra o dito despotismo pela liberdade, o que acontecia era justamente a cassação da liberdade. Aqueles deputados que deveriam assegurar ao povo os direitos conquistados tornaram-se mais ferozes e implacáveis que o seu antigo tirano, e através de um julgamento que foi o tempo todo manipulado, Danton e os outros, por serem a oposição, tiveram que ser aniquilados. Lacroix diz ao povo “Vós nos matais no dia em que perdestes a razão; no dia que a recobrardes, matareis a eles.” 9 O povo tinha anseios de uma vida melhor, fez dos seus anseios Revolução, e os que ansiavam liberdade também, contudo, aquilo que deveria garantir ao povo sua liberdade, fazia justamente ao contrário, ceifava-a. Se pensarmos em termos práticos, uma simples aproximação de tudo que aqui foi discutido com o tema da Revolução Russa pode nos elucidar melhor. Será que vale tudo em nome do povo? Vale massacrar, matar e tiranizar? Danton diria que “Algum dia, a verdade será conhecida. Vejo grandes desventuras se abaterem sobre a França. É a ditadura.” Situação similar nos é mostrada em Casanova e a Revolução de Ettore Scola quando o sedutor nobre Casanova, fazendo apontamentos sobre alguns aspectos em andamento da Revolução, é proibido por um jovem apaixonado de falar. O filme de Scola apresenta ainda diversos olhares sobre a Revolução, olhares que vão dos mais otimistas aos mais pessimistas. Outro aspecto que ainda podemos levantar desta obra, trata-se do simbolismo. Apesar do filme de Scola não seguir o curso da Revolução até a morte do Rei, sabese perfeitamente que o simples ato da prisão já era um ultraje demasiadamente grande, e que de forma alguma a situação voltaria atrás. Neste sentido, a cena final do filme é uma perfeita construção sobre aquilo que se espera transmitir. É a mensagem mais do que perfeita dizer que “se ele estivesse vestido assim, certamente não teria sido preso.” É verdade, pois nossos valores simbólicos podem reger completamente a vida, um Rei vestido de cocheiro não é um Rei, mas aquele manto apresentado ao final simboliza a realeza. Outro aspecto importante na obra de Scola é a própria construção feita em cima da figura de Casanova. Casanova não representa um mero sedutor, ele é uma forte mensagem simbólica que o diretor tenta transmitir ao seu espectador. Casanova é a imagem perfeita da aristocracia e da realeza naquele momento. Ele é pobre e viv e de passado, é o anacronismo em pessoa, ou melhor, a mais pura representação do que é um anacronismo. O tempo passou, e com a Revolução a ordem social foi alterada, só que Casanova seguia sua vida como no passado, tudo nele é postiço, assim como o poder real. 9 Idem, p. 96. Cerro Grande - RS www.agora.ceedo.com.br F. 55 3756 1133 ISSN 1809 4589 Ano VI – nº 12 – Junho de 2011 Página 20 – 25 “Assim, foi realmente nesse dia que a nobreza foi liquidada na França.” 10 Restif De La Bretonne frisa o tempo todo, em seu texto, que a prisão do Rei francês não era apenas um golpe do destino, era uma questão que colocaria em xeque o poder real e a realeza em toda a Europa. Isso, podemos dizer em termos práticos, é a morte do poder simbólico, da Coroa. Entretanto, o que mais chama a atenção no texto de Bretonne é o olhar diferenciado sobre a Revolução e seus acontecimentos; trata-se de um acesso que o historiador tem a um mundo quase desconhecido feito de anônimos. Conversando com um que exclama “Que terrível revolução! Onde irá parar?” 11 Mostrando o universo de prostituição infantil, as intrigas pessoais que influíram profundamente para que cabeças fossem separadas na guilhotina, a postura hipócrita de muitos que mudavam de posição levianamente, a situação em que se encontrava a liberdade de expressão cerceada pela censura, e os anseios e medos do povo, Restif transmite-nos uma visão diferente da Revolução, uma visão composta não só de documentos ditos “oficiais”, mas também de relatos das mais diversas pessoas oriundas dos mais diversos segmentos sociais. Esse tipo de relato é importante para mostrar que a História não se faz somente de protagonistas, mas principalmente de um exército de coadjuvantes, e, sobretudo, mostrar as pessoas do passado como pessoas, e não como dados estatísticos ou históricos, mostrando os conflitos em que elas estavam envolvidas. Quando tratamos as pessoas do passado como pessoas, podemos fazer da História algo tão crítico como o filme de Wajda, algo que apresenta as pessoas com medos e anseios, em conflito constante consigo. “Billaud-Varene estava barbudo demais, Demoulins fraco demais, Danton bêbado demais. O retrato de um Robespierre gélido, neurótico, desumano (...) era particularmente ofensivo, pois Robespierre era a pedra de toque de ortodoxia nas interpretações da Revolução.” 12 O problema levantado, segundo Darnton, por Mitterrand, era que o povo não estaria preparado para uma história tão crítica e tenaz, e isso até certo ponto é verdade, pois a visão que a sociedade tem de história não passa de narrativas sobre acontecimentos canonizados perpetuada pelos livros didáticos e meios de comunicação. A diferença entre as posturas de Danton e Robespierre são nítidas, mas será que nítidas o bastante para que qualquer um as perceba? Entre muitos temas propícios ao debate, um dos mais importantes, presente em Dant on de Wajda é uma questão que foi amplamente discutida acima: a questão da ditadura do povo, da supressão do direito de liberdade em troca de projetos futuros, seja de democracia ou de socialismo. Referências Bibliográficas 10 BRETONNE. Restif de la. As noites revolu cionárias. São Paulo: Estação Liberdade, 1989, p. 201. 11 Idem, p. 203. 12 DARNTON, Robert. Cinema; Danton e o duplo sentido. In: ___. O beijo de Lamourette: Mídia, Cultura e Revolução. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 60. Cerro Grande - RS www.agora.ceedo.com.br F. 55 3756 1133 ISSN 1809 4589 Ano VI – nº 12 – Junho de 2011 Página 20 – 25 BÜCHNER, Karl Georg. A morte de Danton. São Paulo: Brasiliense, 1992. BRETONNE, Restif de la. As noites revolucionárias. São Paulo: Estação Liberdade, 1989. DARNTON, Robert. Cinema; Danton e o duplo sentido. In: ___. O beijo de Lamourette: Mídia, Cultura e Revolução. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 60. SOBOUL, Albert. A Revolução Francesa. 5ª ed. São Paulo: DIFEL, 1985. SOLÉ, Jacques. A revolução Francesa em questões. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1989. Filmografia Danton, O Processo da Revolução (Andrzej Wajda, França-Polônia, 1983). Casanova e a Revolução (Ettore Scola, França-Itália, 1982). 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