O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
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O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
O papel da criação animal na agroecologia:
limites e potencialidades ao desenvolvimento
Agosto de 2008
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
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CONCRAB - Confederação das Cooperativas de
Reforma Agrária do Brasil
Convênio Concrab/Incra/CRT/DF/79400/2007
Setor Comercial Sul, Quadra 6,
Bloco A, Edifício Arnaldo Villares,
Sala 213, 2° Andar
CEP. 70.310 - 500
Telefone: (61) 3038-1464
Correio eletrônico: [email protected]
Organização e revisão:
Dario Fernando Milanez de Mello
Capa e diagramação:
Fábio Carvalho
Fotos:
Arquivo Concrab
Tiragem:
3.000 exemplares
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O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
Sumário
Apresentação: Criação animal x Produção animal .......................... 7
A produção animal industrial e seu papel na
manutenção da fome no mundo
Dario Fernando Milanez de Mello ................................................................ 11
Criação animal agroecológica
Luiz Carlos Pinheiro Machado Filho e Luciana Aparecido Honorato ....................... 28
Agroecologia na pecuária de leite – Coopernova
Francis V. N. L. Guedes e Renata Gondim Costa ............................................ 40
Pastoreio Racional Voisin (PRV) - Para além de
uma revolução na ciência
Prof. Dr. Clarilton Ribas ............................................................................ 56
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
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O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
Apresentação
Criação animal x Produção animal
Há milhares de anos o
gênero humano cria animais com
distintos objetivos. Entre os mais
freqüentes estão à alimentação, o
trabalho, a companhia e o prazer.
Dificilmente seria possível
hierarquizar a ordem de
importância da criação animal sem
que
fossem
previamente
estabelecidos critérios. Mesmo
estabelecendo critérios, estes
remotamente seriam concebidos e
facilmente consensuados.
No atual período em que
vive a humanidade, pode parecer
desnecessário tecer discussões
conceituais. Especialmente em se
tratando do tema relacionado a
uma parcela da agricultura, a
criação animal. Para alguns, se não
muitos, esta discussão pode ser
considerada obsoleta. Já que, em
certa medida a academia superou
este conflito, optando pelo uso do
termo produção animal.
Não se pretende fazer desta
discussão, repete-se, conceitual, a
questão central ao debate sobre a
produção de alimentos e o rol dos
animais. Portanto, este tema não
será aprofundado entendendo que
deva ser um debate realizado em
outro momento e de outra maneira.
De qualquer forma, considera-se
necessário tratar deste tema, como
uma provocação superficial, com o
objetivo de suscitar a atenção do
leitor a esta questão tão relevante
ao meio ambiente e, por
conseqüência, a humanidade,
como a forma de se criar animais.
Contudo, esta questão
conceitual não é menos
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
7
importante, já que, pode-se
considerar ponto de partida ao
serem estabelecidos, sistemas
criatórios com o objetivo de
produzir alimentos. Ou seja,
conforme se constrói, se utiliza e se
opta por determinados conceitos,
também vai se demonstrando com
qual visão de mundo se constrói
sistemas complexos como a
agricultura e de forma mais ampla
a própria sociedade.
Quando se diz, que a
academia optou por tratar a criação
animal como produção animal,
evidentemente, há de se considerar
as circunstâncias e o pensamento
que se tornou hegemônico neste
meio. Fortemente influenciado pela
“necessidade” da ampliação da
produção de alimentos e, nos
últimos cinqüenta ou sessenta anos,
pela visão reducionista que banha
a agricultura. Mesmo que, esta
visão reducionista, tenha sua
origem, um pouco mais remota, a
partir do século XIX, mais
precisamente em 1843 quando o
Barão Justus Von Liebig postulou a
lei do mínimo que diz:
“A produtividade das culturas é
limitada pelo nutriente que estiver em
menor disponibilidade do solo, mesmo
que os demais estejam em níveis
8
adequados”.
A partir da questão
postulada por Liebig é que então se
passou a considerar apenas a
trilogia NPK (Nitrogênio, Fósforo e
Potássio) como regra para o
estabelecimento da adubação do
solo. Passou-se a considerar não
mais a biologia do solo, reduzindose a preocupação agronômica, a
química do solo. É também este, o
marco que separa a criação animal
dos cultivos vegetais. Segrega-se o
cultivo vegetal das criações
animais, pratica estabelecida há
milhares de anos, em que se
complementavam.
Voltando
a
questão
conceitual, mesmo que se obtenha
da criação animal, produtos
alimentícios, entende-se que o ato de
criar animais, não pode ser tratado
simplesmente como produção
animal, já que desta maneira reduzse os animais a produtos, negandolhes o direito à categoria de seres
vivos. Desta maneira, se
transformam os animais em meras
máquinas com a finalidade de se
produzir alimentos.
Pode-se dizer que se trata de
uma questão ética. E, entendendo
desta forma, questiona-se se é
possível dar tratamentos tão
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
distintos a seres tão semelhantes?
Metade dos cães dos Estados
Unidos da América recebeu
presentes no último natal. Ao
mesmo tempo, não se conhece
estatísticas sobre quantas crianças
no mundo receberam presentes no
último natal, mas a julgar pelos
índices de pobreza e fome
mundiais, talvez menos da metade
delas tenham recebido presentes. Já
os
suínos,
que
segundo
pesquisadores excedem os cães em
inteligência, tem recebido um
tratamento bastante diferenciado.
Ao invés de receberem presentes,
fazem parte da ceia de natal.
Talvez não seja este o problema,
mas sim a forma com que em vida
são tratados. A produção animal
industrial e, neste caso sim,
entende-se como produção animal,
desconsidera os direitos básicos de
que qualquer ser vivo deva possuir.
Inclusive, desconsidera os cinco
direitos elementares estabelecidos
pelo comitê Brambell 1 ainda na
década dos anos de 1960, que são:
virar-se; cuidar-se corporalmente;
levantar-se; deitar-se e estirar seus
membros; sem falar nos direitos ao
não sofrimento.
Não com o objetivo de
concluir o debate sobre o tema, mas
sim, de provocar a reflexão, afirmase aqui, que se os animais não são
máquinas ou simples “coisas”, não
podem ser produzidos e sim
criados, em que pese o mesmo
destino final. Ou seja, trata-se de
uma questão ética, que se entende,
deva ser mais bem discutida e
debatida na sociedade, na medida
em que esta vai evoluindo e já não
mais suporta o racismo, o sexisimo
e que provavelmente um dia não
tolerará o especismo, ou seja, a
discriminação entre espécies. Não
sendo por isso, não tolerará mais a
produção industrial de animais, na
medida em que perceber que esta é
extremamente perdulária ao meio
ambiente e que possui um balanço
energético, da mesma maneira,
extremamente negativo, e que
compactua com a manutenção da
fome no mundo.
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
Concrab
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O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
A produção animal industrial
e seu papel na manutenção
da fome no mundo
Dario Fernando Milanez de Mello
Resumo
manifestações da fome. Aponta
alguns elementos que corroboram
pretende
na manutenção da fome dando
apresentar a questão da fome no
ênfase ao destino dos alimentos,
mundo sob a ótica da produção e do
especialmente no uso destes para
destino dos alimentos. Pretende
produção animal industrial e seus
tratar a fome como um fenômeno
efeitos. Por fim, indica algumas
socialmente
produzido
não
medidas, no que diz respeito à
pretendendo
discutir
suas
produção e destino dos alimentos
repercussões, mas antes disso,
no mundo, que se entendem
discutir se existe a necessidade do
necessárias para erradicação da
aumento da produção de alimentos
fome no mundo.
Este
artigo
ou readequar seu uso e destino.
Para tanto, introduz o tema da
fome a partir de uma abordagem
Introdução
histórica, onde procura tratá-la de
forma quantitativa e qualitativa,
Abordar a questão da fome
demonstrando os efeitos e a
não se trata de nenhuma novidade.
abrangência
Talvez por isso, esteja ocupando
das
diferentes
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
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um lugar marginal nas discussões
aumentou 5,4%, chegando a 2.244,8
acadêmicas e na política mundial.
milhões de toneladas ou algo
Entretanto, o tema tem sua
próximo a 340 kg somente de
atualidade perpetuada, pela
cereais por pessoa e por ano, cifra
manutenção de um contingente
mais do que suficiente para
superior a 850 milhões de pessoas
alimentar a humanidade.
famintas no mundo. Em que pese
nas últimas décadas a Organização
Paradoxalmente, nos países
para
do capitalismo central e mesmo já
Alimentação e Agricultura (FAO)
em alguns países considerados em
anunciar
desenvolvimento
das
Nações
Unidas
constantes
quedas
tem
se
percentuais no contingente de
apresentado, e de forma crescente,
famélicos, seu recente informe
o fenômeno da obesidade. Este
(2008), aponta no último ano um
fenômeno está associado ao
aumento considerável de pessoas
sedentarismo e à cultura alimentar
em condições de insegurança
cada vez mais globalizada dos
alimentar
nutricional.
alimentos de fácil acesso, ricos em
Ultrapassando a cifra – diga-se, já
gordura e conseqüentemente em
considerada histórica - dos 850
energia conjuntamente ao aumento
milhões de famintos e atingindo
do consumo de refrigerantes. Ou
923 milhões de pessoas, ou seja,
seja, refeições desbalanceadas
cerca de 80 milhões de famintos
nutricionalmente onde opta-se pela
acima da média histórica dos
facilidade ao acesso em detrimento
últimos 50 anos. Efeito claro, direto
a uma dieta equilibrada e saudável
e objetivo do aumento do preço dos
que contenha verduras e legumes
alimentos no último período.
entre outros alimentos sadios. Isto
e
se dá pelo estreitamento da base
a
alimentar mundial com uma
produção mundial de alimentos
intensa redução da diversidade
vem aumentando em sua totalidade
alimentar que hoje consta de quatro
e em valores per capta. Somente em
a cinco grãos1 e em função de um
2008 a produção de cereais
forte apelo a “facilidade de
Contraditoriamente,
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O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
consumo” posto em marcha por
problema da fome no mundo não
estratégias comerciais muito bem
se trata de um problema de
elaboradas.
produção, na medida em que os
alimentos produzidos seriam
A história já demonstrou que os
suficientes para alimentar a
a
população atual e, todavia, com
humanidade não podem, tampouco
sobra de excedentes. Contudo,
serão resolvidos pelo simples
compreende-se a fome mundial,
desenvolvimento do capital ou
como um problema de destino,
mesmo da tecnologia. Há muito a
utilização e distribuição dos
humanidade produz mais do que
alimentos
necessita e, mesmo assim, a fome
concentração de renda imposta
continua
assombrando
pela lógica do sistema econômico
considerável
parcela
da
hegemônico. Quanto ao destino e
humanidade. A FAO, organismo
uso dos alimentos, será discutida
das
para
a utilização dos alimentos vegetais
alimentação e agricultura, indica
na produção animal industrial,
em seus levantamentos que se o
seus impactos e dissonâncias em
progresso global continuar com sua
relação ao problema central: a
velocidade atual levará mais 130
fome e a produção de alimentos!
problemas
que
nações
assolam
unidas
gerada
pela
anos para acabar com a fome. Há
três questões relacionadas aos
problemas
que
humanidade,
assolam
a
Caracterização da fome no mundo
considerados
centrais: matriz energética; crise
Atualmente existem no
ambiental que assola o planeta; e,
mundo cerca de 923 milhões de
os métodos de produção, tomados
pessoas em situação de fome e
como fundamentos de relações
outros mais de um bilhão em
sociais mais amplas (MELLO,
condições
2006).
alimentar. Josué de Castro
de
insegurança
caracterizou e descreveu a fome
Os fatos demonstram que o
no mundo como um “flagelo
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
13
fabricado por homens contra
crônica ou parcial, que corrói
outros homens”. Parte-se desta
silenciosamente
descrição e propõe-se a discutir as
populações do mundo”. (Josué de
questões envolvidas no âmbito da
Castro)
inúmeras
fome e sua relação com a produção
Entende-se, que a manifestação
animal industrial.
da fome não se encerra na fome
Julga-se necessário, fazer uma
aguda e total, apesar de ser a forma
abordagem conceitual da fome e
mais impactante do ponto de vista
descrever
imediato. Entretanto ao se fazer
seus
tipos
mais
recorrentes. Ainda, segundo Josué
uma
análise
de Castro existem dois tipos de
profundidade, pode-se concluir
fome: a fome aguda e total e a fome
que outras formas de manifestação
parcial, geralmente crônica. A fome
da
total é o fato de se passar fome por
importantes. No caso brasileiro, a
não ter acesso ao alimento (a
fome parcial se manifesta de forma
inanição), que está presente em
mais evidente no caso da falta de
locais de extrema miséria, como em
acesso a proteína2 e vitaminas3 por
algumas regiões da África, da Ásia
grande parte da população. Com
e da América Latina. Já a fome
isso, pode-se dizer que grande parte
parcial é bastante comum. Nela,
da população brasileira é faminta
pela falta de alguns nutrientes no
por “carne” (na verdade proteínas)
regime alimentar, as pessoas ficam
e frutas (vitaminas).
fome
com
são
ainda
maior
mais
desnutridas, podendo chegar até a
morte. A fome parcial acontece por
Reconhece-se que o problema da
falta de condições econômicas para
fome não se relaciona com a
comprar alimentos nutritivos.
quantidade
de
alimentos
produzidos. Dados da FAO (2008a)
14
“Mais grave ainda que a fome
indicam que 100 milhões de
aguda e total, devido às suas
toneladas
repercussões
e
utilizadas em 2008 para produção
econômicas, é o fenômeno da fome
de combustíveis. Destas, cerca de
sociais
de
cereais
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
serão
95 milhões de toneladas são de
cerca de 30%. Esta elevação dos
milho. Isto representa 12% da
preços dos alimentos tem agravado
produção mundial de cereais. Os
a situação de insegurança alimentar
EUA é o maior produtor de etanol
em todos os países do mundo nas
do mundo a base de milho. Neste
camadas populares de mais baixa
ano, deverá chegar a utilizar 81
renda.
milhões de toneladas de milho para
produção de etanol. Isto representa
Neste contexto de insegurança
um crescimento de 32 milhões de
alimentar mundial, em que a
toneladas de milho ou 37% em
produção de combustível passa a
relação ao ano passado.
disputar os grãos com o consumo
humano, deve-se estudar o que
Na América Central e em grande
mais compete com a alimentação
parte da América Latina e Caribe o
humana na utiliza dos grãos. Além
milho se constitui como a base da
dos ditos biocombustíveis, a
alimentação. O uso pelos EUA do
produção animal industrial coloca
milho para produção de etanol tem
os animais em competição por
gerado situações extremas de
alimentos com os humanos.
elevação de preços e falta de
A produção mundial de cereais
abastecimento.
de 2007 alcançou 2,1 bilhões de
Apesar da safra 2007-2008
toneladas, ou 4,6% mais do que a
apresentar-se como nova safra de
produção de 2006. Em 2008, deve
recorde mundial, os estoques
ultrapassar os 2,2 bilhões de
mundiais de alimentos estão baixos
toneladas. É uma produção recorde,
e, entre outros elementos –
mas, mesmo assim, os preços
especialmente
diferentes
internacionais de alguns dos
destinos dados aos alimentos –, tem
principais produtos já atingiram o
elevado
níveis
nível mais alto da história e tendem
exorbitantes. Entre janeiro de 2007
a subir mais. Os produtos agrícolas
e janeiro de 2008 o preço do trigo
em geral estão ficando mais caros.
subiu mais de 80% e o do milho em
Desde o início do ano de 2007, o
o
os
preço
a
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
15
preço do trigo duplicou e as cotações
fabricação do etanol impulsionou
do milho, do leite e de oleaginosas
o preço desse produto no mercado
já alcançaram seu valor mais alto
mundial.
de todos os tempos.
americanos responderam a esses
Os
agricultores
dois estímulos - apoio do governo
Por muitos anos, os preços dos
e preços em alta - aumentando a
alimentos estiveram em queda -
área plantada com milho, que no
segundo a revista The Economist,
ano de 2008 foi a maior desde a 2ª
entre 1975 e 2004, eles diminuíram
Guerra Mundial. A produção será
75% em termos reais -, mas a
recorde, mas, assim mesmo, os
tendência se inverteu. De 2005 até
preços do milho continuam a subir
agora, diz a revista, a cotação de um
.
grupo de alimentos de maior
A utilização de mais terras para
consumo no mundo aumentou 75%
o cultivo do milho reduz o plantio
em termos reais. Acabou a era do
de outros produtos, cujos preços
alimento barato?
também sobem. A produção animal
industrial,
que
utiliza
O mercado mundial de grãos
intensamente rações derivadas
passa por mudanças que devem ser
desses produtos, igualmente
duradouras. A produção cada vez
incorre em custos maiores. O
mais intensa de biocombustíveis e
resultado é o encarecimento das
a mudança do padrão alimentar em
carnes em geral.
países
cuja
renda
cresce
rapidamente são as principais
A esse fenômeno soma-se outro:
causas dessas mudanças, cujos
o aumento do consumo de carne na
efeitos se espalham por todos os
maioria
países,
desenvolvimento.
produtores
ou
consumidores.
dos
países
E
em
maior
consumo de carne quer dizer
também maior consumo de grãos,
O estímulo concedido pelo
como foi visto. No mundo inteiro,
governo dos Estados Unidos para o
há mais gente comendo mais carne
plantio do milho destinado à
em
16
maior
quantidade.
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
De
exportadora de soja, a China
tornou-se a maior compradora do
mercado, importando 27,6 milhões
de toneladas de produtos de soja
em 2005.
Nos últimos anos, a expansão da
produção e consumo de soja teve
como mola propulsora a conversão
de proteína vegetal em animal. Do
volume colhido, 90% destinam-se
ao esmagamento. Apesar de o óleo
de soja corresponder a mais de 30%
de todo o óleo vegetal produzido
no mundo, 79% da soja esmagada
vira farelo para a ração animal.
Para a produção de um quilo de
carne são necessários de seis a oito
quilos de ração. Em 40 anos, o
apetite mundial por carne
duplicou, chegando a quase 40
quilos per capita e por ano em
média. No Brasil, a proporção de
carne à mesa triplicou, passando
dos 75 quilos anuais per capita no
mesmo período, nível de países
desenvolvidos.
Os
norteamericanos são campeões de
consumo, com mais de 120 quilos
per capita e por ano.
responsáveis por um alto consumo
de cereais. Cerca de 35% dos cereais
consumidos no mundo são destinados
aos animais, outros 18% são
destinados para outros usos, inclusive
produção de bicombustíveis e
somente menos de 47% são
destinados ao consumo humano. Ou
seja, mais da metade dos cereais
produzidos não são destinados ao
consumo humano, contribuindo para
perpetuação da fome.
Da soja produzida no Brasil,
40% são exportados em grãos,
principalmente para a Europa e a
China. Os outros 60% são
esmagados: cerca de 20% é
transformado em óleo e 79% em
farelo para alimentação animal e
o restante entra em outras formas
de alimentação.
Atualmente estima-se que a ração
no Mundo tenha a seguinte
distribuição: 40% para aves; 32%
para suínos; 16% para pecuária de
leite; 6% para pecuária de corte;
aqüicultura, 4%; e 2% para os demais
segmentos. No Brasil, 44% dos grãos
Os animais, quando criados em
sistemas de produção industrial, são
são destinados a fabricação de
rações para o consumo animal.
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
17
Panorama do mercado mundial de cereais4
2006/07
2007/08
2008/09
Variação de 2007/08
a 2008/09
Estimativa Prognóstico
Milhões de toneladas
%
Balança mundial
Produção
2.010,6
2. 128,2
2.241,5
5,3
Comercio
257,0
272,0
264,0
-2,9
Utilização total
2.061,9
2.126,8
2.197,0
3,3
Consumo humano
994,31
1.010,1
1.023,4
1,3
Rações animais
738,7
750,9
765,6
2,0
Outros usos
328,9
365,8
407,9
11,8
Existências finais (estoque) 426,4
433,2
474,0
9,4
168
259
66
Índice da FAO para o
preço dos cereais5
122
Fonte: FAO (2008)
Para complicar, quando houve o
O Fenômeno socioeconômico
aumento do preço do petróleo
denominado FOME e sua relação
encareceu os custos de transportes
com a produção animal industrial
dos produtos agrícolas. E a maioria
dos países de baixa renda importa
Torna-se necessário abordar o
boa parte dos alimentos que
tema indo além do conceito clássico
consome.
dos indicadores antropométricos
18
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
baseados na trilogia grave,
moderada ou leve. Expressada,
segundo o déficit de peso/idade
(crônica, nanismo nutricional) e
pelo déficit idade/altura. Estes
indicadores
apesar
de
universalmente aceitos e de sua
validade incontestável, descrevem
apenas a expressão clínica da fome.
As diferentes denominações às
manifestações da fome tais como a
desnutrição,
desnutrição
energético-protéica, subnutrição ou
má-nutrição protéico-calórica.
Além da questão ideológica e
metodológica de explicação e
registro, elas significam em comum,
a expressão biológica da carência
prolongada da ingestão de hidratos
de carbono, gorduras e proteínas,
nutrientes essenciais à manutenção,
ao crescimento, desenvolvimento e
a reprodução orgânica. Um
processo orgânico, determinado,
todavia pela exploração capitalista,
na medida em que regulam o acesso
aos bens essenciais, neste caso, os
citados nutrientes advindos dos
alimentos.
estabelece
quando
se
tem
restringido o acesso a alimentação.
Esta noção se estabelece formando
o censo comum de que a fome
trata-se de um tema relacionado
apenas a situações de extrema
pobreza ou a miséria. Considerase, portanto como fome, apenas ou
quase somente, a restrição total ou
parcial na quantidade ingerida de
alimentos e/ou no número de
refeições, ou seja, na quantidade
acessada de alimentos.
Dessa maneira, desconsidera-se
o caráter qualitativo da nutrição.
Como se bastasse, por exemplo,
ingerir alimento em quantidade
para estar com a fome saciada.
Para melhor compreensão deste
tema, a seguir, se descreverá
sucintamente os nutrientes, suas
funções essenciais no organismo e
sua disponibilidade.
Utilização dos Nutrientes no
processo de produção animal
industrial
Água
Na população existe certo
entendimento de que a fome se
O uso da água na obtenção de
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
19
alimentos vegetais e de origem
apesar da melhoria de índices
animal é o mais representativo no
mundiais de acesso a água potável,
mundo. Enquanto a população
tem se configurado como uma
mundial dobrou nos últimos 50 anos
chaga social de alto risco em países
do Século XX (1951 a 2000), o
de baixa disponibilidade deste
consumo de alimentos de origem
recurso,
animal quadruplicou elevando a
continente africano. A restrição de
pressão sobre a água. Nos países
acesso a água, atinge atualmente
industrializados o consumo per
cerca de 1,1 bilhões de pessoas, ou
capita diário de alimentos de origem
seja, mais de uma pessoa em cada
animal elevou-se de 104 gramas
seis não tem acesso a água.
(ano 1990) para 320 gramas (ano
Entretanto, não se pode esquecer,
2000), exigindo cerca de 1.430 litros
aquelas pessoas que vivem em
de água, por dia, para uma pessoa
locais de certa abundância de água,
manter uma dieta alimentar
mas que não possuem renda
saudável (CHRISTOFIDIS, 2006).
suficiente para acessar este recurso
principalmente
no
em qualidade e quantidade
A água, entre os nutrientes, é o
adequadas.
com maior capacidade de causar
enfermidades e até mesmo a morte
A produção animal em sistemas
mais rapidamente em caso de
de uso intensivo de insumos
restrição ao acesso ou quando
químico-sintéticos e de alta
possui má qualidade. Uma pessoa
concentração animal, ou seja,
pode
tão
sistemas de confinamento animal
rapidamente que se estivesse sem
geram um alto volume de dejetos
consumir outros alimentos pouco
com alto potencial poluidor. A
notaria. Da mesma forma, se a água
maioria destes sistemas criatórios
não apresenta condições de
não apresenta as condições
consumo,
necessárias
padecer
de
pode
sede
ocasionar
enfermidades de alto risco à saúde.
ao
adequado
tratamento destes efluentes que
por sua vez vem a contaminar as
A restrição de acesso a água,
20
águas superficiais e as contidas nos
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
lençóis freáticos. Para se produzir
restrição se ocasiona de forma
um quilo de carne bovina nestes
multifatorial. Entretanto, entende-
sistemas é necessário mais de
se que seja necessária uma análise
15.000 litros de água, enquanto
dos
para produzir um quilo de trigo, é
contemporaneamente tem gerado
necessário apenas 150 litros de
restrição de acesso a energia
água. Ou seja, uma relação
alimentar. Adiantam-se dois
perversa, no uso deste importante
fenômenos que preocupam: o
e cada vez mais escasso recurso
primeiro é a crescente utilização de
natural.
alimentos para produção de
principais
fatores
que
combustíveis; e, o segundo - e foco
principal deste artigo - é o uso
Energia
indiscriminado de alimentos na
produção animal industrial. O
Energia é o nutriente mais
segundo será discutido a seguir.
abundante no planeta terra. No
caso de restrição parcial de
Os alimentos fontes de energia
nutrientes, quase sempre é o último
alimentar, são comuns aos humanos
nutriente a fazer falta na mesa.
e
Constitui-se principalmente de
considerados onívoros6. A criação
carboidratos, açucares e gorduras.
de aves, assim como a de suínos,
Encontra-se em maior quantidade
utiliza como principais fontes
nos alimentos vegetais de forma
energéticas o milho e o sorgo.
geral e nas gorduras de forma
Alimentos utilizados pelos latinos
concentrada. A gordura possui
(milho) e por africanos (sorgo).
outros
animais
também
cerca de seis vezes o seu peso em
energia.
Além do alto consumo de energia
alimentar, sistemas de produção
Apesar da abundância, há no
animal industrial, altamente
mundo milhares de pessoas que
intensificado, como o confinamento
tem restrito o acesso a este
de bovinos de corte demanda alto
nutriente. Considera-se que esta
custo energético. Nos “feedlots”
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
21
de
que ocasiona o alto grau de
confinamentos, para produzir-se
restrição ao acesso entre a
01 libra de carne bovina se
população.
americanos,
ou
centros
consome o equivalente a 01 galão
de gasolina em energia fóssil,
resultando numa relação calorias
Minerais
de energia cultural investida /
calorias de energia alimentícia
Os minerais raramente são
produzida de 5:1. Em contraste, a
lembrados como nutrientes. Na
produção de carne e leite pastoril
verdade,
na África tem uma relação de 1:10,
crescimento e ao desenvolvimento
ou seja 50 vezes mais eficiente
humanos. Uma dieta diversificada,
energeticamente (MACHADO
rica em legumes e verduras,
FILHO e colaboradores, 2007).
geralmente
são
essenciais
dá
conta
ao
das
necessidades nutricionais de
minerais. Ao passo que, dietas com
estreita base alimentar, carecem de
Proteína
minerais e levam a deficiências que
A proteína, entre os nutrientes,
provocam
a
debilidade
e
ao
no
é o mais escasso na natureza.
crescimento
mal
Formada por compostos de
funcionamento do organismo. O
aminoácidos, está presente em
leite e seus derivados são uma rica
altas concentrações em poucos
fonte de cálcio e outros minerais ao
vegetais. As leguminosas como os
passo em que a carne é muito rica
feijões e algumas oleaginosas como
em fósforo.
a soja são as que apresentam maior
concentração de proteína. Os
alimentos de origem animal são os
que
apresentam
Vitaminas
maior
concentração de proteína e, por sua
As vitaminas a exemplo dos
escassez, os que apresentam preço
minerais, geralmente são pouco
mais elevado entre os alimentos o
lembradas no cotidiano alimentar.
22
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
Sendo relacionadas pela população
facilidade e comodidade para vida
em geral apenas como fortificantes
contemporânea. A agricultura
que devem ser utilizadas como
desenvolveu-se
suplemento alimentar quando na
décadas a ponto de, em muitas
verdade, novamente verduras e
culturas, dobrar sua capacidade
legumes, juntamente com a carne e
produtiva.
o leite, são fontes riquíssimas destes
produção de alimentos per capta no
nutrientes. A falta ou o consumo
mundo entre 1970 e 2005 em cerca
insuficiente de vitaminas levam a
de 40%
nas
últimas
Aumentou-se
a
enfermidades banais que podem
causar transtornos graves a saúde.
Entende-se
que
alguns
elementos, tem se destacado na
O que torna o tema da fome
manutenção da situação de fome no
ainda mais incompreensível é
mundo. Pode-se dizer que alguns
quando se observa que a ciência e a
são estruturais e associados
técnica atingiram um nível de
diretamente ao modo de produção
desenvolvimento inaudito e em um
capitalista, fazendo parte de sua
ritmo exponencial. No campo da
essência como a concentração de
informática,
computadores
renda. Outros elementos são
lançados em um dia logo são
gerados como conseqüência da
superados
em
necessidade de manutenção dos
obsolescência, bastando dois ou três
altos índices de reprodução do
anos para isso. Há quem diga que
capital, que na sociedade de
estes tempos serão menores. Este
consumo apresenta uma demanda
desenvolvimento, da ciência e da
crescente de energia e com a crise
técnica,
o
energética mundial leva a corrida
forças
de novas fontes energéticas e a
produtivas como jamais visto. A
utilização de alimentos para
indústria, nos mais variados ramos,
produção de combustíveis. Entre
vem superando dia após dia seus
outros
índices de produção. Novos
relacionados à questão da fome,
produtos são lançados trazendo
este artigo tem por objetivo destacar
e
colocados
possibilitou
desenvolvimento
das
vários
elementos
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
23
o uso de alimentos com potencial
elo da cadeia alimentar - os animais
utilização pelos humanos sendo
- especialmente os cereais e a soja,
destinados para a produção
faz com que seja reduzida a 10% da
animal.
energia contida originalmente
nestes alimentos, reduzindo a
disponibilidade de alimentos.
Considerações Finais
A alta concentração de animais
Sem a pretensão de estabelecer
eleva o risco de doenças e aumenta
conclusões e, com isso, evitar
a produção de dejetos o que por sua
simplificações, por se compreender
vez leva a uma contaminação
que o tema possui um grau de
ambiental, especialmente das
complexidade que vai além dos
águas. Portanto, a criação animal
limites deste artigo, pretende-se
deve ser realizada em escala
indicar algumas medidas com o
compatível a disponibilidade de
objetivo de evitar que a criação
recursos
animal
possibilidades de dar adequado
corrobore
com
a
manutenção da fome no mundo. Da
naturais
e
das
destino aos dejetos.
mesma maneira, medidas que
apontem uma relação harmoniosa
A criação animal deve estar
entre a criação animal e o meio
integrada aos cultivos vegetais,
ambiente.
se
objetivando fazer uso dos restos
estabeleça uma relação humano-
culturais, favorecendo uma relação
animal, no mínimo pautada pelo
de mútuo auxílio entre animais e
respeito ao bem-estar entendido
vegetais. Os cultivos vegetais
como um direito dos animais.
oferecendo biomassa e os animais
Assim
como,
respondendo com a fertilização dos
Deve-se
evitar
que
a
solos a partir de seus excrementos.
alimentação dos animais seja
realizada com alimentos possíveis
É indispensável à alteração dos
de consumo humano. A simples
atuais padrões de consumo de
passagem do alimento por mais um
carnes e derivados dos países
24
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
desenvolvidos e das camadas
Maria, FONSECA, Nilva Nicolao,
abastadas dos países pobres ou em
SILVA, Caio Abércio, PINHEIRO,
desenvolvimento. Os atuais cerca
João Waine (Org.). A Zootecnia
de 70 kg per capta ano conduzirão
Frente
ao agravamento da fome e de
Londrina: UEL, 2007, v. , p. 3-16.
problemas ambientais. Estes
MELLO, Dario Fernando Milanez.
padrões
são
Agroecologia e Educação: ações
insustentáveis em relação ao
pedagógicas do Movimento dos
ambiente e a meta de erradicação
Trabalhadores Rurais Sem Terra
da fome.
– MST. Florianópolis, 2006. 116p.
de
consumo
a
Novos
Desafios.
POLLAN, Michael. O dilema do
Onívoro: uma história natural de
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O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
25
26
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
27
Criação Animal Agroecológica
Luiz Carlos Pinheiro Machado Filho
e Luciana Aparecido Honorato
Núcleo de Pastoreio Racional Voisin / LETA
Laboratório de Etologia Aplicada,
Dep. de Zootecnia e Des. Rural, CCA/UFSC.
E-mail: [email protected]
www.cca.ufsc.br/leta
A agroecologia pressupõe
que chegam à idade adulta, dessa
entender a Natureza e trabalhar
forma, há uma seleção de genes
COM e não CONTRA ela. Da
através dos indivíduos mais
mesma forma, na criação animal
adaptados. Tal seleção foi uma das
agroecológica devemos considerar
primeiras prerrogativas ecológicas
a história do processo de melhoria
a ser deturpada pela Agricultura
da adaptação das populações
Moderna com os conceitos de
através da seleção dos genes, ou
“praga”, “erva-daninha”, etc.
seja, a teoria da evolução e seleção
Ao longo do processo de
natural (DARWIN, 1872). A seleção
“modernização” da Agricultura,
natural requer diversidade e muito
foram selecionados genes de
dessa diversidade deve ter origem
organismos vegetais e animais
genética. Ainda, para haver
principalmente baseados na
seleção, o número de indivíduos
produtividade dos indivíduos,
que nasce deve ser bem superior aos
esquecendo-se de critérios de
28
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
Sistemas
adaptação. Assim, difundiu-se
agrícolas
são
mundialmente a planta de trigo ou
ABERTOS, logo a energia fóssil que
milho mais produtiva, mas menos
entra no sistema deve ser menor do
resistente a pragas, tanto quanto a
que a que sai. Dessa forma, o SOL
vaca que produz mais leite, mas é
deve ser o principal insumo a ser
menos resistente aos parasitas, ao
otimizado dentro do sistema.
estresse térmico, à mamite.
Considerando-se ainda a
Atualmente, o sistema de
sustentabilidade energética do
produção baseado nesse modelo de
sistema, na criação bovina, por
agricultura está sendo colocado em
exemplo, o Sistema de Pastoreio
xeque
sua
Racional Voisin (PRV) é o método
sustentabilidade. Um sistema de
científico de produção animal cujo
produção, além de eficiente, deve
insumo fundamental é a energia
ser ambientalmente benéfico,
solar. Através da fotossíntese,
eticamente defensável, socialmente
produz-se o pasto, alimento natural
aceitável, e relevante para os
do bovino. Dentre os sistemas de
objetivos, necessidades e recursos
manejo de pastagem conhecidos, o
das comunidades para os quais foi
PRV é o mais eficiente em
desenhado para servir (TRIBE,
transformar energia solar em pasto.
quanto
a
1985).
O aumento da produção e
Acrescentamos as necessidades
produtividade animal via o uso
mais específicas quanto ao bem-
intensivo e racional da pastagem,
estar animal e ao bem-estar
é
humano, e a integração da
ambientalmente sustentável, e
produção animal-vegetal como
social e eticamente justificável. A
fundamentais para o sistema e,
utilização do pastoreio racional
finalmente, o sistema produtivo
Voisin em granjas leiteiras
precisa ser energeticamente
americanas durante os meses sem
sustentável.
neve
economicamente
resultou
em
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
viável,
maior
29
lucratividade e menor trabalho
mostra que de 1975 a 2005, nos
para
Estados Unidos, o aumento médio
os
produtores,
ao
dos preços dos insumos pagos pelos
confinamento durante os 12 meses
produtores foi de 180%, enquanto
do ano (USDA, 1989).
o aumento médio dos preços
comparativamente
recebidos pelos agricultores por
O PRV já vem sendo adotado por
seu produto foi de 71% (USDA,
10% do total dos produtores de leite
2006). Essa série histórica mostra a
dos estados americanos de
tendência geral da agricultura,
Vermont e Wisconsin (MURPHY,
embora possa haver altos e baixos
1994).
da
nessas cifras, como o aumento
produtividade da pastagem às
médio de 23% nos preços recebidos
custas de pesadas adubações
pelos
nitrogenadas, ou o aumento da
americanos no último ano (NASS,
produtividade animal via o
2007). Embora os números sejam
confinamento intensivo com a
dos Estados Unidos, esta tendência
conseqüente concentração de
se verifica mundialmente, o que
dejetos, trouxe como resultado a
leva
contaminação da água do subsolo
agricultura, com a saída de vários
com nitrato a níveis alarmantes
agricultores da atividade e a
(NRC, 1989).
concentração da produção. Em
Já
o
aumento
agricultores
à
norte-
monopolização
da
Santa Catarina, no ano de 1985
atualmente
cerca de 57% do rebanho suíno
agricultura
catarinense
era
convencional tem um alto custo
(confinado).
Em
energético, que também se traduz
percentual cresceu para 75% (IBGE,
em alto custo de produção. Na
1997). Já o número de suinocultores
Tabela 1, os custos energéticos dos
industriais em SC, que em 1985 era
principais insumos utilizados são
de 54.176, no ano 2000 ficou
apresentados. Um cálculo a partir
reduzido a 17.500 produtores
de dados apresentados pelo USDA
(IBGE, 2001), evidenciando um
Os
insumos
utilizados
30
na
industrial
1996
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
esse
claro processo de concentração
pasto em PRV e semi-confinado
fundiária e da produção.
com alimentação no cocho. Os
Custos energéticos (em energia
custos de produção do sistema a
fóssil) e custos econômicos
pasto são significativamente
parecem estar estreitamente
menores, resultando em melhor
associados. Na Tabela 2 é mostrada
rentabilidade ainda que com
uma comparação entre dois
produtividades similares.
sistemas de produção de leite, a
Tabela 1. Custo energético dos principais
insumos industriais utilizados na
Agricultura.
Diesel
11.450 kcal/L
Nitrogênio
14.700 kcal/kg
Fósforo
3.000 kcal/kg
Potássio
1.860 kcal/kg
Calcário
295 kcal/kg
Inseticidas
85.680 kcal/kg
Herbicidas
111.070 kcal/kg
Dados de Fluck, 1992.
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
31
Tabela 2. Custos de Produção de Leite em SC, comparação entre sistema
convencional e PRV.
N° de Matrizes
Un.
30
10
PRV (30)
Produção anual/vaca
L
5.500
3.700
5.500
Custos Variáveis
R$
57.984
13.430
26.400
Custos Fixos
R$
19.492
7.827
34.650
Custo Total
R$
77.476
21.257
61.050
Custo / L(total)
R$
0,47
0,57
0,37
Custo / L (variável)
R$
0,35
0,36
0,16
Fonte: ICEPA, 2005; Lorenzon & Machado Filho, 2004
A otimização do uso da energia,
Mcal/ha;
especialmente a fóssil, nos sistemas
de produção agrícola levam a um
- Descentralização e diversifi-
melhor resultado econômico,
cação da produção (integração
menor impacto ambiental, e maior
animal – vegetal);
sustentabilidade. Já em 1974 os
autores Steinhart & Steinhart
(1974) propunham as seguintes
- Rotação de culturas representa
uma economia de 600 Mcal/ha;
medidas para a redução do gasto
energético na agricultura:
- Métodos biológicos de controle
de “pestes”;
- Uso de bosta e urina
representam uma economia de 400
32
- Uso de pesticidas somente
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
quando
necessário
(35-50%
sustentáveis e ambientalmente
corretos.
redução no uso);
- Seleção de variedades mais
Ausência de bem-estar animal e
sofrimento não podem ser
resistentes;
- Abandonar produção com
confundidos com crueldade
animal. A crueldade animal é
químicos.
deliberada, sádica, inútil e
Além da questão energética, os
desnecessária inflição de dor,
grandes desafios da Agricultura
sofrimento e negligência contra
Moderna estão na redução do
animais. A ética social tradicional
impacto ambiental, na segurança
condena a crueldade e os maus
alimentar, e no bem-estar dos
tratos contra os animais. O debate
animais de produção (ROLLIN,
sobre bem-estar animal se originou
1995). O bem-estar animal é um
em 1964, quando Ruth Harrison
pré-requisito para que um sistema
publicou o livro Animal Machines,
seja eticamente defensável e
denunciando os maus tratos a que
socialmente aceitável. A sociedade
os animais eram (são) submetidos
tem debatido as questões da
na criação animal confinada. Essa
atualidade da agricultura, e cada
publicação provocou um grande
vez mais questões éticas tem sido
impacto na sociedade, e motivou o
levantadas.
com
Parlamento da Grã-Bretanha à
certificação de origem e de
criação do Comitê Brambell, no
qualidade tem sido cada vez mais
mesmo ano, então formado por
procurados pelos consumidores.
agriculturalistas.
Alimentos
Segundo Warris (2000) as pessoas
com
Em 1965 o Comitê Brambell
“qualidade ética”, isto é, oriunda de
apresentou um relatório, no qual
animais que foram tratados e
recomendou que todo animal deve
abatidos em condições de bem-estar
ter direito, no mínimo, à cinco
e que foram criados em sistemas
liberdades mínimas: virar-se;
desejam
comer
carne
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
33
cuidar-se corporalmente; levantar-
1995). A relação entre o homem e
se; deitar-se e estirar seus membros.
o animal na agricultura é
Até a presente data ainda existem
resgatada (ROLLIN, 1995). Uma
sistemas criatórios, como poedeiras
vez que sabemos que o animal é
em gaiolas de bateria, matrizes
um ser senciente, que reage, que é
suínas em jaulas parideiras ou em
capaz e experimentar emoções
presas na gestação, vacas leiteiras
como ansiedade, frustração, medo,
em coleiras, onde sequer essas
dor e sentimentos, “induzir um
cinco liberdades elementares são
animal a um sofrimento calculado
permitidas aos animais. Por isso, é
ou desnecessário é eticamente
opinião deste autor que estes
reprovável” (FRASER, 1985).
sistemas devem ser banidos da
Esta mudança de concepção
criação animal.
avançou muito devido a estudos
A partir do relatório do Comitê
de
comportamento
animal.
Brabell, começa a ser questionada
Recentemente, estudos sobre
a visão tradicional da zootecnia,
avaliação de aprendizado em
onde o animal zootécnico é
animais provêm importantes
considerado
“uma
informações acerca do bem-estar
formidável máquina de produção”
mostrando que, a exemplo do que
ou ainda, “máquinas vivas
ocorre em humanos, situações de
transformadoras e valorizadoras
estresse afetam a capacidade
de alimentos” (DOMINGUES,
cognitiva dos animais. Por
1960). Na década de 1980, vários
exemplo, um estudo onde leitões
trabalhos científicos do campo da
desmamados aos 10 dias foram
Etologia Aplicada subsidiam uma
comparados com leitões não
nova concepção de animal
desmamados, submetidos a
zootécnico, baseada no fato de que
isolamento social por 15 minutos
o animal é um ser sentiente
aos
(FRASER, 1980) e portanto uma
imediatamente sacrificados. A
entidade psicológica (HURNIK,
combinação de estresse de
34
como
12
dias
de
idade,
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
e
desmame e isolamento social
sistemas alternativos que vêm
produziram
na
sendo propostos, tanto a avicultura
expressão de genes no córtex
e suinocultura intensiva a campo,
frontal, que afeta a memória e o
quanto a produção de leite e carne
controle emocional (POLETTO et
a base de pasto devem considerar
al., 2004).
os seguintes pressupostos: a seleção
mudanças
genética deve ser utilizada para
Tais estudos etológicos nos
aumentar o bem-estar animal,
permitem (e nos levam) a fortes
disseminando
críticas
de
resistência às doenças e levem a
confinamento intensivo. Ora,
menor suscetibilidade ao estresse.
partindo do pressuposto que a
A criação animal deve ser
domesticação de animais iniciou
integrada a produção vegetal e,
entre 6 e 10 mil anos e o
como
confinamento há cerca de 100 anos,
anteriormente,
e que a adaptação depende de uma
energética e econômica se dará
combinação entre genética e
pela otimização da energia solar
aprendizagem, fica evidente que
(gratuita), através da alimentação
aos animais não estão adaptados ao
dos animais a pasto. Enfim,
confinamento intensivo. Frente a
preconizar uma criação ética,
impossibilidade de adaptação, os
promovendo a justiça social e a
animais
valorização cultural deve consistir
aos
sistemas
redirecionam
comportamentos, que podem ser
já
genes
para
mencionado
a
eficiência
no principal objetivo do sistema.
facilmente percebidos comparando
os repertórios comportamentais de
animais em confinamento e
animais ao ar livre.
Para propor uma criação animal
agroecológica é necessário repensar
o sistema como um todo. Dos
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
35
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37
38
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
39
Agroecologia
na Pecuária de Leite
O Sistema de Pastoreio Racional Voisin (PRV)
na COOPERNOVA Assentamento 1º de Junho,
Tumiritinga - MG
Francis V. N. L. Guedes – Veterinário – MST-MG
Renata Gondim Costa – Veterinária – MST-MG
1. INTRODUÇÃO
40 anos de implementação no
Brasil, à expulsão de centenas de
A agroecologia como instrumento
milhares de trabalhadores do
político-econômico
campo e a uma grande devastação
ambiental, conseqüências ainda em
Já há alguns anos, o Movimento
curso. Dentro dos principais
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
objetivos
desta
– MST, estabeleceu a Agroecologia
Agroecologia, estão:
opção
pela
como princípio norteador de suas
atividades agropecuárias, como
•
Domínio do conhecimento
teoria e prática alternativas ao
pelos trabalhadores, numa
modelo dominante, calcado nas
perspectiva de constante
grandes monoculturas, no uso de
construção e apropriação
insumos químico-industriais e na
teórica
mecanização pesada. Modelo esse
contraposição
que levou, ao longo de seus mais de
conhecimento acadêmico
40
e
prática,
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
em
ao
hegemônico, base do modelo
produção agropecuária que
dominante
priorizem a utilização de
e
intencionalmente fora do
insumos
produzidos
alcance daqueles;
localmente, a diversificação
de culturas e a preservação
•
dos recursos naturais.
Libertação econômica da
classe trabalhadora do
da
Obviamente, a prática da
minimização do uso de
Agroecologia como mudança de
insumos
aos
matriz tecnológica não trará
se
respostas aos dilemas da classe
encontra, sempre adquiridos
trabalhadora do campo, que só
através de compra, e por
serão
meio da busca de canais
transformação radical do modo de
alternativos
produção.
campo,
por
meio
externos
ambientes
em
ela
de
solucionados
Pelos
com
a
motivos
comercialização. Ou seja, na
relacionados acima, ela é um
busca do rompimento do
potencial instrumento político e
círculo de dominação do
econômico de subversão do modelo
capital onde, tanto os
dominante; mas esse potencial só é
insumos necessários ao
realizável desde que ela esteja,
processo produtivo, quanto
necessariamente, apoiada em
a comercialização, estão sob
princípios socialistas.
o controle do modelo
dominante;
2. A EXPLORAÇÃO DO VALE DO
•
Estabelecimento de uma
RIO DOCE
relação mais harmoniosa
coma natureza, através da
O Vale do Rio Doce, região de
redução do impacto das
Minas Gerais onde se encontra o
ações humanas, a ser
Assentamento 1° de Junho, tem
alcançado por meio da
como características principais a
utilização de práticas de
degradação ambiental intensa e a
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
41
presença marcante do latifúndio,
minerais era outra fonte de lucro
sobretudo de criação de gado. Área
rápido. Os camponeses tornaram-
anteriormente coberta pela Mata
se, então, produtores dependentes
Atlântica, a região sofreu um
(parceiros,
rápido processo de desmatamento
assalariados nesses latifúndios ou
a partir dos anos 40, época da
migraram para as cidades, como
construção da BR 116 (Rio-Bahia).
Governador Valadares e Belo
Vieram as serrarias, as mineradoras
Horizonte, onde passaram a
e os criadores de gado. A ação dos
habitar as favelas. Nesse processo
grileiros de terras no Vale do Rio
de proletarização, surgiram legiões
Doce, ligados ou não às siderúrgicas
de sem-terra.
meeiros)
ou
e madeireiras, chegou às manchetes
da
grande
privatização
imprensa.
A
ilegal
a
e
concentração de terras nas mãos
3. O ASSENTAMENTO 1º DE
JUNHO
dos coronéis e de grandes empresas
contaram com intimidações,
Em Minas Gerais, o MST iniciou
assassinatos e outras formas de
sua trajetória nos vales do Mucuri
violência, no processo de expulsão
e do Jequitinhonha, a partir das
dos camponeses das terras em que
Comunidades Eclesiais de Base
viviam, em certos casos, há mais de
(CEB’s), ligadas à Comissão
vinte anos. Para isso, contava-se
Pastoral da Terra (CPT) As
com o apoio de jagunços, da polícia
primeiras reuniões aconteceram no
militar, de políticos e de juízes. O
município de Poté, no Vale do
capim colonião, considerado uma
Mucuri. Nelas, se discutia a
praga das lavouras, passou a ser a
conscientização dos trabalhadores
fonte de lucro fácil da pecuária
e a construção do Movimento em
extensiva. Na década de setenta, as
Minas Gerais. Estava claro que não
terras ocupadas pelo campesinato
se poderia esperar por uma política
já haviam sido incorporadas pelos
governamental e que era necessário
latifúndios de criação de gado. A
que os trabalhadores criassem seu
exploração da madeira e de
próprio instrumento de luta. Em
42
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
junho de 1985, os Sem Terra
da Aruega continuava sem solução
organizaram seu primeiro Encontro
e o MST ocupou a sede do INCRA
Regional em Teófilo Otoni, também
para pressionar pela resolução da
no Vale do Mucuri, e iniciaram os
questão. Parte delas acampou no
trabalhos de base em diversas
município de Teófilo Otoni e foi
comunidades e municípios. A
assentada no município de Itaipé,
primeira ocupação foi a da fazenda
no Assentamento Santa Rosa. A
Aruega, no município de Novo
RURALMINAS (Fundação Rural
Cruzeiro, localizado no Vale do
Mineira
Jequitinhonha. A fazenda possuía
Desenvolvimento Agrário) tentou
630 ha e foi ocupada por 400
transferir a outra parte daquelas
famílias no dia 12 de fevereiro de
famílias para o Projeto de
1988. Seiscentos policiais militares,
Assentamento Craúna, área de
enviados pelo governo estadual,
11.000 ha localizada em Pedra Azul,
acamparam em local próximo ao
no Vale do Jequitinhonha. Essa
acampamento do MST, para
operação revelou-se um engodo,
impedir a saída dos trabalhadores
visto que a área para a qual foram
e a entrada de alimentos. Após
destinadas as famílias, isolada e sem
muita pressão exercida pelo MST,
infra-estrutura, não era a mesma
pela CPT e pelos STR’s (Sindicatos
apresentada pelos técnicos da
dos Trabalhadores Rurais) sobre os
RURALMINAS. De lá saíram e
governos estadual e federal e a
acamparam à margem da BR 116,
realização de uma ocupação da
no município de Padre Paraíso, Vale
sede do INCRA em Belo Horizonte,
do Jequitinhonha. Em 1º de junho
a
foi
de 1993, essas famílias ocuparam o
desapropriada e destinada ao
latifúndio fazenda Califórnia, de
assentamento de 25 famílias.
aproximadamente
fazenda
Aruega
–
Colonização
2.000
e
ha,
localizada no município de
Depois de diversas tentativas
Tumiritinga, no Vale do Rio Doce.
de ocupação de outras áreas na
Essa fazenda já havia sido
região e em outros locais do estado,
desapropriada para fins de Reforma
o problema das famílias excedentes
Agrária e, apesar de a família do
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
43
fazendeiro tentar reverter essa
Cooperativa
de
Produção
situação, veio a se tornar o
Agropecuária, forma avançada de
Assentamento 1º de Junho.
cooperação
onde
existe
coletivização total dos meios de
produção. Suas grandes linhas de
-
produção a cachaça, o leite, a carne,
COOPERATIVA DE PRODUÇÃO
a farinha de mandioca e o mel.
AGROPECUÁRIA
Além disso, grãos (principalmente
4.
A
COOPERNOVA
NOVO
milho e feijão), hortaliças e outros
HORIZONTE
produtos são produzidos em escala
No Assentamento 1º de Junho
familiar pelos cooperados. Em
vivem 81 famílias assentadas. Uma
todas elas, existe o objetivo
grande parte delas reside em uma
constante de aumentar a qualidade
agrovila, que conta com redes de
e a produtividade, e a busca de
água e luz, escola e posto de saúde.
industrialização dos produtos
Um total de 25 famílias trabalha de
primários, visando a elevação da
forma
na
renda. A Cooperativa possui uma
COOPERNOVA – Cooperativa de
fábrica de cachaça, a “Mineira do
Produção Agropecuária Novo
Leste”, e uma farinheira artesanal.
Horizonte, e as outras 56 famílias
Para
trabalham de forma individual e
mandioca, estão em construção as
compõem a APIFC – Associação
estruturas que irão abrigar
dos Produtores Individuais da
equipamentos
Fazenda Califórnia. Nos dias de
industrial de farinha.
hoje,
cooperada
o
uso
de
o
beneficiamento
de
da
produção
práticas
agroecológicas e a diversificação da
A atividade de bovinocultura de
produção contribuem para se
leite
possui
importância
alcançar o equilíbrio ambiental, a
estratégica dentro dos mecanismos
segurança alimentar das famílias e
de sobrevivência e geração de
a geração de renda.
renda da agricultura camponesa,
pelo fato de garantir o ganho
A COOPERNOVA é uma CPA –
44
monetário
periódico,
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
em
contraposição
às
atividades
agrícolas, de comportamento
5.
O
PRV
–
PASTOREIO
RACIONAL VOISIN
sazonal. A linha de bovinocultura
O
de leite tem sido, nos últimos anos,
PRV
é
a
alternativa
alvo de análise, planejamento e
agroecológica para a produção
ações por parte da COOPERNOVA,
animal. É o método mais racional
sendo utilizados, na medida em
de manejo de pastagens, onde se
que as condições objetivas atuais
estabelece um equilíbrio dinâmico
permitem, os princípios da
com permanente interação do solo,
Agroecologia.
do pasto, dos animais, do meio
ambiente em geral e do ser
Nesse sentido, duas ações em
humano. Sua utilização garante a
execução possuem um caráter
elevação da produção por hectare,
estratégico. No campo da sanidade,
a redução do custo por unidade do
a utilização da Homeopatia,
produto,
principalmente no controle de
fertilidade do solo, a proteção do
ectoparasitas, experiência exitosa
ambiente, o balanço energético
pela qual a Cooperativa é
positivo, a produção de alimentos
nacionalmente conhecida. Na
limpos, o respeito ao bem-estar
alimentação, foi implantada uma
animal,
área de PRV – Pastoreio Racional
integração de fatores e uma maior
Voisin, sistema que busca o
lucratividade real. Segundo Luiz
equilíbrio dinâmico entre as
Carlos Pinheiro Machado, “há uma
pastagens, os animais e o solo, busca
permanente ação recíproca e
esta dirigida pelo ser humano, em
dinâmica entre o sujeito – o humano
um manejo racional que permite o
– e o objeto – o complexo sol, solo,
aproveitamento máximo do pasto.
pasto, animal – que se completa e
o
a
incremento
viabilização
da
da
se integra na maximização
qualiquantitativa da produção”.
Além disso, é totalmente adequado
à
realidade
da
agricultura
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
45
camponesa, visto que possui baixos
longitudinais, com cerca elétrica de
custos
e
dois fios, abrangendo uma área
manutenção e prioriza a utilização
total de, aproximadamente, 12,6
de insumos locais.
ha. Essa área é formada, sobretudo,
de
implantação
pelo capim Tanzânia, variedade do
Em novembro de 2006, diversos
Panicum
maximum
(capim
membros da COOPERNOVA
Colonião). Os piquetes têm, em sua
participaram de um curso sobre o
grande maioria, área de 3.000 m²
sistema de PRV, realizado no
com medidas de 50m x 60m. Para
Assentamento Canudos, localizado
cada quatro piquetes, foi instalado
no estado de Goiás. Esse curso foi
um ponto de saída de água, de
uma etapa do “Projeto Siboney”, do
modo que todos os piquetes foram
qual a Cooperativa é participante e
servidos. Os bebedouros são móveis
que
descrito
e foram construídos com tambores
posteriormente, e teve o importante
de plástico (200 l), cortados ao
papel de servir de motivação e
meio, e com bóias comuns.
será
melhor
impulso para a implantação do
sistema pela Cooperativa, que já
A utilização do sistema nessa
tinha como meta o uso mais
ocasião, entretanto, serviu apenas
racional da áreas de pastagem
como um ensaio, pois ele ficou
utilizadas para a bovinocultura de
pronto para a entrada dos animais
leite.
somente no final da estação das
águas. Mesmo assim, dois aspectos
Imediatamente após a chegada
de melhora, pelo menos, puderam
do curso, a COOPERNOVA iniciou
ser observados: a melhoria da
a discussão, seguida da aquisição de
qualidade da pastagem e o
materiais e da distribuição de
aumento da produtividade. O
tarefas para a implantação da área
capim Tanzânia encontrava-se
de PRV. Esse trabalho inicial
muito passado, pois havia sido
resultou na instalação de 41
sucessivamente submetido a corte
piquetes e quatro corredores
em momentos errados, estando as
46
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
touceiras em elevado estágio de
O rebanho que se alimentou na
lignificação, o que comprometia o
área, nesse período, esteve entre 40
crescimento normal da pastagem,
e 55 cabeças (vacas em lactação e
assim como o seu uso. A solução
“roçadeiras biológicas”. O tempo
empregada foi a utilização de
de
roçadeira mecânica na área e a
aproximou de meio dia e o período
colocação dos animais após o
médio de repouso foi de 21 dias; ou
crescimento
capim,
seja, houve utilização de toda a
imediatamente após a qual já se
área a cada ciclo. Apesar de terem
podia observar uma impressionante
sido planejados para se chegar ao
revitalização da pastagem. A
uso por 50 animais a cada dois dias
entrada das matrizes no sistema,
(desnate e repasse), a ainda
juntamente com a realização uma
insuficiente cobertura de forragem
seleção rigorosa entre elas, causou
levou à utilização de dois piquetes
uma elevação da produtividade. Até
por dia em muitos casos. Durante
o presente momento, a alimentação
esse período, a média de produção/
das
da
animal/dia permaneceu em
COOPERNOVA, durante a estação
quatro litros, baixa em relação ao
das secas, se faz tendo como base a
que se almeja chegar, mas já um
cana-de-açúcar.
considerável avanço, já que a
matrizes
do
leiteiras
permanência
médio
se
idade avançada das matrizes de
Com o advento da estação das
melhor qualidade, a ausência de
águas seguinte (que, de maneira
reposição destas por novilhas
excepcional, iniciou-se muito
devidamente selecionadas e o uso
tardiamente e se restringiu a um
não racional das pastagens vinham
curto período de tempo) o sistema de
determinando médias muito
PRV da COOPERNOVA entrou em
baixas.
plena utilização, surgindo daí, os
erros e acertos na utilização, na
É também importante que se
busca do equilíbrio e da experiência
faça a descrição do manejo geral do
que só a prática pode trazer.
rebanho, para que se possa
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
47
alcançar uma visão de caráter mais
curral, onde, via de regra, também
global do sistema produtivo do
é fornecida pequena quantidade de
leite na COOPERNOVA. Os
farelo de milho. Juntamente com o
bezerros permanecem com a mãe
sal mineral são fornecidos os
por três dias, após o que são
medicamentos homeopáticos, para
separados, mamando duas vezes
o controle de carrapatos, bernes e
por dia até os 60 dias de idade, e
moscas-dos-chifres, e também da
uma vez a partir daí até o
mamite. A forte separação entre as
desmame. Desde os primeiros dias
estações seca e chuvosa na região
de vida vão para o pasto, mas as
do Vale do Rio Doce, aliada à
áreas utilizadas por eles ainda não
impossibilidade de irrigação da
estão manejadas através de PRV.
área de PRV até o momento e de
No curral, recebem suplementação
estruturação de outros esquemas
mineral, e também farelo de milho,
de alimentação durante a seca,
sobretudo nas secas.
restringiu o seu uso intensivo ao
período chuvoso, recebendo os
As matrizes são manualmente
animais alimentação à base de
ordenhadas uma vez por dia, com
cana-de-açúcar durante todo o
bezerro ao pé, em curral adjacente
período seco.
à área dos piquetes; após a
ordenha, permanecem no pasto até
No âmbito do melhoramento
a madrugada seguinte, exceto pelo
genético, há cerca de dois anos está
momento (à tarde) em que são
em andamento o “Projeto Siboney”,
levadas ao curral para a mamada
parceria entre a Confederação das
dos bezerros com idade inferior a
Cooperativas de Reforma Agrária
60 dias. Apenas as vacas em
do Brasil – CONCRAB, o Instituto
lactação permanecem no sistema
Nacional de Colonização e Reforma
de PRV, além daquelas outras
Agrária – INCRA, a Embaixada de
utilizadas como “roçadeiras
Cuba, o Ministério de Relações
biológicas”.
Internacionais e a Empresa
Recebem
suplementação mineral apenas no
48
Brasileira
de
Pesquisa
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
Agropecuária – EMBRAPA, com os
número de piquetes, já ter sido
objetivos de capacitação em
implantado
inseminação artificial e em PRV e
recomendado (40 piquetes), muitos
de aporte de material genético das
deles encontram-se com formação
raças Siboney (Cuba) e Girolando
insuficiente, o que compromete o
(Brasil) para os assentamentos
cumprimento dos períodos de
envolvidos,
permanência e repouso planejados
dentre
eles
o
Assentamento 1º de Junho, com
participação
efetiva
da
COOPERNOVA. Porém, ainda é
cedo para se fazerem sentir as
conseqüências dessa ação, visto que
as bezerras mais velhas estão com
idade pouco superior a um ano.
O
sistema
COOPERNOVA
de
PRV
pode
o
mínimo
e necessários e reduz a carga animal
realizável, sendo preciso realizar o
replantio do capim pra melhorar a
cobertura em curto prazo. Como foi
dito, o período médio de repouso foi
de 21 dias. O elevado índice
pluviométrico e a temperatura
da
ser
considerado ainda em fase de
implantação, já que ainda não foi
alcançado um “padrão mínimo”,
que permita um funcionamento
equilibrado, havendo necessidade
de diversas medidas de avanço, de
ajuste e de consolidação, algumas
já em andamento. São elas:
ambiente durante o período
chuvoso da região proporcionam
um crescimento muito rápido do
capim. Porém, é recomendado que
os animais não voltem a um piquete
em um período inferior a 28 dias
por sucessivas vezes, sob pena de se
comprometer
o
pleno
restabelecimento das reservas
energéticas das raízes, o que pode
levar ao perecimento da pastagem.
A devida formação da área
1. Aumento da disponibilidade de
permitirá a regularização dos
pastagem:
períodos
de
repouso
e
de
permanência, assim como o
Apesar de, se tratando do
aumento da carga animal.
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
49
Além disso, está em andamento
gradual o aumento do número de
2. Consolidação da alimentação
para as secas
piquetes, o que irá permitir um
manejo mais racional e a entrada
Até o momento, a alimentação
de um número maior de animais no
das matrizes durante a estação das
sistema. O resultado de suma
secas se fez tendo como base a cana-
importância dessa ação é a
de-açúcar. A partir da expansão da
possibilidade de se permanecer por
área de PRV, a disponibilidade de
mais tempo com os animais dentro
forragem durante as águas será
do sistema quando do fim da
superior à capacidade de consumo
estação das águas. Com o
do rebanho. Essa “sobra” deve será
crescimento progressivamente
aproveitada como reserva de
mais lento do capim, torna-se
alimento para a seca, sob a forma de
necessária a elevação dos períodos
feno ou silagem, o que reduzirá ou
de repouso, o que só é possível com
cessará a necessidade de cana-de-
um número de piquetes mais
açúcar.
elevado. Se tratando dos animais
planejada pela COOPERNOVA, é
adultos, a meta final é chegar a 96
instalar um sistema de irrigação em
piquetes, abrangendo uma área de,
parte da área, garantindo, assim, o
aproximadamente 29 ha.
crescimento do capim na ausência
Outra
possibilidade,
de chuvas.
Como foi dito, as áreas de pasto
dos bezerros ainda não são
manejadas através de PRV. Está
3. Aumento da ingestão de proteína
planejada a divisão de uma área de
pastagem de Estrela Africana, ou
As gramíneas tropicais, de
(Cynodon
maneira geral, apresentam baixos
plectostachins), para seu uso. Isso
teores de proteína. Sendo assim,
aumentará a disponibilidade de
devem
pastagem de qualidade para eles,
alimentos, que sejam melhores
incluindo-os no manejo racional.
fontes, para serem fornecidos aos
capim
50
Estrela
ser
buscados
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
outros
animais. As leguminosas são a
com pneus cortados ao meio. Eles
melhor opção, sendo fontes ricas de
devem ser colocados nos piquetes
proteína de elevada digestibilidade.
em extremidade oposta à do
Nesse sentido, está em vias de
bebedouro. Há alguns meses, a
implantação uma pequena área de
COOPERNOVA
Leucena (Leucaena spp.) para
fabricação própria de sal mineral,
pastoreio, a funcionar como banco
uma forma de redução de custos,
de proteína. Outra possibilidade
através da diminuição do uso de
estudada é a consorciação entre
insumos externos, e de garantir os
gramíneas e leguminosas em alguns
níveis mínimos dos nutrientes na
piquetes, apesar de ser um
mistura final.
iniciou
a
consórcio com dificuldades de se
manter em longo prazo, devido aos
diferentes ciclos (tempos de
5. Sombreamento dos piquetes
crescimento).
Para efeitos práticos, pode-se
considerar
4. Melhoria da mineralização
não
haver
sombreamento na área de PRV da
COOPERNOVA, visto que existem
O suplemento mineral é
árvores em pouquíssimos piquetes.
fornecido às vacas somente durante
Necessário nas mais diversas
os momentos em que elas se
condições climáticas, ele ganha
encontram no curral de ordenha. É
importância fundamental na
importante que essa suplementação
realidade do Vale do Rio Doce, que
passe a ser feita também nos
apresenta altas temperaturas e sol
piquetes, ou seja, é preciso que os
intenso. Para e resolução deste
animais a tenham à sua disposição
problema estão sendo plantadas
todo o tempo, para que, assim,
mudas de espécies arbóreas nos
façam o consumo das quantidades
piquetes e também se planeja
adequadas. Uma forma prática e de
plantar uma parte através de
baixo custo é fazer saleiros móveis
alporquia. O conforto térmico se
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
51
refletirá em melhora do bem-estar
campo, privando-os do controle dos
animal e no conseqüente aumento
meios de produção necessários à sua
da produção.
sobrevivência
e
ao
seu
desenvolvimento. Por outro lado,
perpetuou-se procedendo a uma
6. CONCLUSÃO
dilapidação dos recursos naturais,
com resultados bastante conhecidos:
A produção a pasto é a forma
compactação do solo, erosão e
mais adequada de realização da
assoreamento
intensos,
bovinocultura de leite, por uma
desaparecimento de nascentes e
razão bastante óbvia: o pasto é a
vastas áreas sem vegetação arbórea.
alimentação natural dos bovinos.
Basear a sua alimentação no
O PRV é a tecnologia mais
fornecimento de grãos constitui um
apropriada para se frear e reverter
desperdício energético e estabelece
a degradação ambiental causada
competição por área com a
pelas
produção de alimentos para os seres
realizadas no modelo dominante, e
humanos. Porém, mesmo tendo as
sua aplicação garante os objetivos
pastagens como fonte principal de
da opção pela Agroecologia feita
alimento, a forma como se deu
pelo MST, listados na introdução
historicamente a bovinocultura no
deste
Brasil, com base no latifúndio de
conhecimento pelos trabalhadores,
criação extensiva, trouxe nefastas
sua libertação econômica e o
conseqüências para a classe
estabelecimento de uma relação
trabalhadora e para a natureza. A
mais harmoniosa com a natureza.
crescente e absurda concentração
Seu exercício, que tem baixos custos
de terras ao longo dos anos
e prioriza a utilização de insumos
(determinada pela expansão dos
locais, é totalmente adequado à
diversos tipos de latifúndio, entre
agricultura camponesa.
explorações
texto:
pecuárias
domínio
do
eles, os de criação de gado) expulsou
e/ou submeteu os trabalhadores do
52
A experiência da COOPERNOVA
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
mostra a necessidade de uma
organização popular orientada
iniciativa
para a transformação radical do
por
parte
dos
trabalhadores no sentido da busca
modo de produção.
e da construção diária de
conhecimentos
para
o
desenvolvimento de atividades
7. BIBLIOGRAFIA
econômico-produtivas concretas.
Os assentados se apropriaram da
BORGES, M. E. L. Utopias e Contra-
tecnologia, a implementaram na
Utopia: Movimentos Sociais Rurais
prática e, agora, realizam o seu
em Minas Gerais. 1988. Dissertação
desenvolvimento,
(Mestrado
buscando
Sociologia).
e
Faculdade de Filosofia e Ciências
questões
Humanas, Universidade Federal da
cotidianamente
respostas
soluções
as
para
em
Minas Gerais, Belo Horizonte.
encontradas.
Mas, mais uma vez, é importante
GUEDES, F. V. N. L. Condições,
deixar claro que a adoção de
Modo
tecnologias alternativas ao modelo
Assentamento Liberdade, Periquito-
dominante, ou seja, a mudança da
MG.
matriz tecnológica, não resolverá
Epidemiologia
as mazelas da classe trabalhadora.
Dissertação
A Agroecologia é um importante
Epidemiologia).
instrumento político e econômico
Veterinária, Universidade Federal
de
de Minas Gerais, Belo Horizonte
subversão
do
modelo
de
Vida
e
Renda
Fundamentação
no
para
Social.
(Mestrado
Escola
a
2006.
em
de
dominante, se estiver combinada
com o enfrentamento direto ao
MACHADO, L. C. P. Pastoreio
modelo do Agronegócio (a
Racional
materialização neoliberal do
agroecológica para o terceiro milênio.
latifúndio) e apoiada em princípios
Porto Alegre: Cinco Continentes,
socialistas. As referidas mazelas
2004
Voisin:
tecnologia
somente serão extintas mediante a
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
53
54
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
55
Pastoreio Racional Voisin (PRV)
Para além de uma revolução na ciência
Prof.. Dr. Clarilton Ribas
UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina
representado no limite, pela fome
RESUMO
endêmica e pelos inquietantes
Desde o início da Idade
sinais de degradação da natureza.
Moderna, em torno do Século XV, o
O PRV surge como paradigma
avanço da Ciência e da Tecnologia
tecnológico
experimentaram
um
possibilidades de se contrapor a
desenvolvimento superior à todo
estas tendências, na medida em
aquele acumulado pelo homo
que, mais do que um paradigma
sapiens desde seu aparecimento no
produtivo, indica uma nova forma
planeta. O aparecimento do
de relacionar a produção, a
capitalismo neste período suscitou
sociedade e a natureza.
com
visíveis
o desenvolvimento da tecnologia de
produção de mercadorias em escala
vertiginosa,
sem
nenhuma
1. INTRODUÇÃO
consideração aos limites ambientais
ou sociais de seu desenvolvimento,
Giordano Bruno (1548-1600)
levando ao grande impasse vivido
foi o filósofo renascentista que
nos dias atuais pela humanidade,
pioneiramente saudou o homo faber
56
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
como sendo o único capaz de
precedente da historia humana,
dominar as forças da natureza e,
vindo desembocar, por uma espécie
mais do que isto, colocá-las a
de
serviço de seu bem estar. Este
capitalismo, ordem política e
período da historia da humanidade
econômica que articula a vida social
inaugura a modernidade, idade
na grande maioria do planeta.
seqüência
natural,
no
adulta do homem na qual se
substitui o mítico e o místico pelas
reais potencialidades da razão.
2. O BEM ESTAR HUMANO
Desde então se inicia uma corrida
do intelecto humano na busca da
A estrutura invariante de
superação de mil anos de trevas,
durante os quais o avanço do
todo
conhecimento da natureza só podia
precisamente aquela anunciada por
ocorrer nos estreitos limites
Bruno: colocar a natureza a serviço
avalizados pelos cânones religiosos
do bem estar humano. Ocioso dizer
(o saber como fruto da revelação).
que
O portentoso movimento que se
pontilhada por contradições,
segue nestes tempos, com Nicolau
especialmente aquela que separa
Copérnico, Johannes Kepler e
em dois campos, opostos e
Galileu-Galilei, mas, sobretudo com
inconciliáveis, os produtores da
Descartes (incomodado com a
ciência e da técnica e seus reais
ausência de uma metodologia que
beneficiários. Em outros termos,
abraçasse
as
legiões incontáveis de cientistas e
harmonizasse com uma práxis que
trabalhadores, urbanos e rurais, nos
conduzissem o estudioso numa
laboratórios e universidades, mas
forma que lhe possibilitasse guiar-
também nas fábricas e campos, que
se na “busca da verdade”) viria
concorreram para o acúmulo
determinar o desenvolvimento da
alcançado pela C&T, e o escasso
ciência em todos os campos, numa
número de pessoas que se
magnitude incomparavelmente
beneficiam destes avanços num
superior
esquema de acumulação privada de
as
a
idéias
qualquer
e
época
este
esta
movimento
caminhada
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
é
esteja
57
lucros proporcionados por um
hoje. Sua ampla difusão teve
edifício construído pelos seres
por base um poderoso
humanos nestes quinhentos anos. E
aparato institucional, que ia
é precisamente no interior desta
da extensão e da pesquisa
contradição que vamos tentar
estatais ao sistema nacional
pinçar as possibilidades do
de crédito rural, passando
Pastoreio Racional Voisin – PRV,
pela publicidade e pela crença
não apenas como paradigma
irrestrita
tecnológico, mas também como
organizações
uma forma de produção de
(sobretudo as cooperativas)
alimentos que aponta para as
em
possibilidades de superação desta
modernizantes1.
de
suas
muitas
agrícolas
virtudes
contradição imanente a sociedade
“baseada
na
produção
de
mercadorias”(Marx).
O PRV representa, de todos os
pontos de vista, a negação radical
do pacote tecnológico, comercial e
A primeira grande noção
ideológico
da
denominada
que se pretende ressaltar prende-se
Revolução Verde. Em recente
ao fato, já sabido, do enorme
pesquisa realizada em Querência do
desafio colocado pela ciência e pela
Norte-PR, financiada pelo CNPq,
técnica
na
constatou-se como resultantes da
direção de reverter os efeitos
implementação do projeto de
nefastos originados pela mudança
produção de leite à base de pasto,
de
para
contemporâneos,
matriz
tecnológica
além
das
conclusões
experimentada pelo Brasil a partir
meramente técnicas, os seguintes
dos anos sessenta, apoiada
elementos a seguir.
(...)
num
cardápio
tecnológico, cujo uso em
3. DISCUSSÃO
larga escala está na raiz de
58
seus mais importantes
A adoção do PRV exige uma
problemas ambientais até
nova postura do trabalhador em
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
relação ao seu objeto fundamental
egoísmo
de trabalho, a terra. Desde o
preponderante na mentalidade do
manejo e uso do solo, eliminando
pequeno agricultor. Além disto,
práticas predatórias de preparo
dado que esta opção tecnológica
mecanizado do solo, substituição
tem por pressuposto a eliminação
de
industriais
progressiva de todo o tipo de
dependentes de fertilizantes
insumos de síntese química, o
químicos,
pela
camponês vê-se liberto de operar
estimulação de processos naturais
com produtos sintéticos de
de proteção do solo (adubagem
elevadíssima
orgânica, minhocas, besouros, etc.)
contribuindo por isto, para o seu
até mesmo uma reconfiguração da
bem-estar e o bem-estar de seus
compreensão por parte dos
familiares. Um bom tema para
camponeses de seu entendimento
pesquisa sociológica poderia
dos fenômenos naturais, o que
respeitar aos benefícios a saúde no
costumamos denominar como
trabalho promovida pelo PRV e,
“estabelecer uma relação de
igualmente
diálogo com a natureza”.
economias de recursos públicos
sementes
passando
muitas
vezes
toxicidade,
importante,
as
para a preservação da saúde destes
o
trabalhadores, na medida em que
trabalho: O PRV suscita que se
a ciência está farta de demonstrar
reúnam
os graves problemas sanitários
Nova
as
relação
com
condições
de
estabelecer uma relação de
promovidos
pelos
produtos
trabalho muito mais harmoniosa e
químicos na agricultura.
cooperativa, já que se baseia em
grande medida em trabalho
Ganhos econômicos. Pelo
verdadeiramente solidário, no qual
simples fato de haver sido
a preocupação ou o sucesso de um
realizadas mudanças no sistema
se torna o de todos. Falamos,
hidráulico na produção de leite
portanto de uma nova forma de
(simplesmente levar a água onde a
organização coletiva do trabalho,
vaca
na qual tende a arrefecer o
acréscimo de cerca de 20% na
está!)
implicou
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
num
59
produção dos animais, o que,
qualidade
de
vida
dos
evidentemente, se reflete na renda
trabalhadores do campo e seus
das famílias beneficiadas pelo
familiares.
projeto. E aqui apontamos um fato
que a sociologia rural tem
A hora da relevância. Os
demonstrado cabalmente. O perfil
critérios de desempenho baseados
do trabalhador rural sofreu muitas
estritamente na eficiência e na
transformações nos últimos anos, e
eficácia da ação econômica, cuja
com ele, seus hábitos de consumo.
centralidade se deu no aumento da
De positivo nisto notou-se em anos
p r o d u t i v i d a d e ,
recentes a possibilidade do
independentemente de seu custo,
camponês ter acesso a bens de
se mostram, ainda que não
consumo duráveis e semiduráveis,
irrelevantes, insuficientes para dar
cuja aquisição fica limitada à
respostas aos desafios colocados
capacidade de parcelamento do
pela humanidade neste início de
pagamento.
a
milênio, frente aos principais
aquisição de confortos domésticos
impasses que vivemos, entre eles:
como máquina de lavar, geladeira,
a necessidade de produção de
e mesmo rádio ou televisão tornou-
alimentos para mais de seis bilhões
se acessível ao trabalhador do
de seres humanos, combinada com
campo contanto que ele tivesse
as
capacidade
os
preservação dos recursos naturais.
parcelas
Os efeitos da eficiência e da eficácia
mensalmente. A produção de leite
são conhecidos nas dramáticas
é uma das poucas atividades
alterações
camponesas que permite uma
degradação
relativa estabilidade nas rendas, que
amplamente conhecidas. É a hora
são mensalmente auferidas. Este
de pensarmos num critério de
fato, para os que vivem do trabalho
desempenho econômico que,
assalariado nas cidades, por sua
embora não despreze estes dois
trivialidade, tem pouca relevância,
parâmetros,
levem
mas é decisivo para a melhoria da
consideração
as
pagamentos
60
Desta
de
das
forma,
honrar
urgências
ditadas
sofridas
do
pela
pela
planeta,
em
variáveis
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
ambientais, sociológicas e mesmo
antropológicas na forma de
produzir ações econômicas que
tenham por trasfondo a colocação
da natureza a serviço do homem,
mas com os limites que a urgência
ambiental da qual o planeta dá
evidentes e dramáticos sinais. Pelas
razões apontadas, é bastante
razoável sugerir que o PRV firmase não somente como um novo
paradigma
não
apenas
de
produção animal, mas como forma
original de relacionar sociedade e
natureza.
1 Fonte http://www.atech.br/
agenda21, consultado em 29-062005.
O papel da criação animal na agroecologia: limites e potencialidades ao desenvolvimento
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Reforma Agraria e Meio Ambiente - N 04