NOEMY KARINY DA SILVA PATRIMÔNIO HISTÓRICO Um estudo da política e prática preservacionista: o caso paranaense Monografia de conclusão do Curso de Graduação em História, do Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, da Universidade Federal do Paraná, apresentada à disciplina Estágio Supervisionado em Pesquisa Histórica. Orientador: Professor Antonio Cesar de Almeida Santos CURITIBA 1999 SUMÁRIO LISTA DE GRÁFICOS E TABELAS..............................................................iii INTRODUÇÃO...................................................................................................1 1 O PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO: uma introdução ao estudo das primeiras manifestações de interesse pela sua preservação no Paraná...................................................................................................................4 2 O PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO PARANAENSE E A INSTITUCIONALIZAÇÃO DE SUA PROTEÇÃO......................................10 3 1953 – INAUGURAÇÃO DE NOVOS TEMPOS: política e práticas preservacionistas paranaenses..........................................................................15 CONCLUSÃO....................................................................................................24 FONTES.............................................................................................................27 ANEXO 1 ...........................................................................................................28 ANEXO 2 ...........................................................................................................29 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.............................................................30 ii LISTA DE GRÁFICOS E TABELAS Gráfico1 Comparativo entre o número total de tombamentos por ano e o total de inscrições no Livro Tombo Histórico por Ano no Paraná entre 1962 e 1999............................................17 Tabela1 Total de tombamentos por ano das inscrições dos quatro Livros Tombo; Total de inscrições no Livro do Tombo Histórico e o Tipo de Arquitetura.......................................18 iii 1 INTRODUÇÃO A presente monografia tem como objetivo discutir os critérios e conceitos estabelecidos pelo governo paranaense para a definição do que se entende como patrimônio histórico, bem como para a normatização de órgãos de proteção desse patrimônio. Perpassam nestas formulações elementos que buscam definir uma identidade paranaense, pois, através desses elementos são selecionados bens definidos como pertencentes a um passado comum do povo paranaense. As práticas de preservação utilizadas no Estado do Paraná seguem o disposto na Lei Estadual n.º 1.211, de 16 de setembro de 1953, que teve sua redação calcada no que dispôs anteriormente o Decreto Federal n.º 251, permanecendo sem alterações desde sua promulgação. A citada Lei Estadual constitui fonte para a análise dos critérios e conceitos da política estadual que seleciona e define a produção cultural constitutiva de uma história do Paraná, implicando na necessidade de se rever as “modalidades de intervenção do Estado nas atividades de preservação do patrimônio”2, já que à partir de 1953, o estado assume o papel de preservar o que ele mesmo define como “os fatos memoráveis da história do Paraná”. Neste trabalho utilizo como fontes de pesquisa as inscrições que constam no Livro do Tombo Histórico, que está sob responsabilidade da Curadoria do Patrimônio Histórico e Artístico da Secretaria de Estado da Cultura. Nele constam dados sumários dos bens tombados: número da inscrição e do processo de tombamento, natureza, caráter da inscrição, localização, endereço, nome do proprietário, características e data da inscrição. 1 No dia 30 de novembro de 1937, vinte dias após o golpe que instaurou o Estado Novo, Getúlio Vargas aprovava o decreto-lei n.º 25 que dispunha sobre o “patrimônio histórico e artístico nacional”, caraterizando-se como a primeira medida institucional de organização e proteção desse patrimônio. 2 GOUVEIA, Maria Alice Machado de. Políticas de preservação do patrimônio (três experiências em confronto): Inglaterra, Estados Unidos e França. IN: MICELI & GOUVEIA. 2 Como fontes também utilizo processos de tombamento e atas das reuniões do Conselho Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico entre os anos de 1949 (data da 1ª reunião) a 1999. A maior parte desses tombamentos trata de bens imóveis, edifícios públicos e privados, inscritos entre os anos de 1962 e 1999, caracterizando a prática preservacionista paranaense pela preocupação com a arquitetura, estando diretamente vinculada à atuação do SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), criado nos anos 30 e que por muitos anos teve seus trabalhos assessorados por arquitetos. O sentido de patrimônio histórico, encontrado tanto no texto da Lei Estadual, quanto na prática preservacionista, desconsidera o caráter dinâmico desta forma de produção cultural. A cultura, entendida como conjunto de códigos organizadores da vida em sociedade, possui natureza dinâmica já que “cada grupo inventa, reinventa, adota e transforma”3 estes códigos, de modo singular. Sendo a cultura exteriorizada através de suportes físicos, o patrimônio passa a ser entendido como a “série de falas que só adquirem inteligibilidade por referência àqueles códigos”4 . O sentido de patrimônio vai além, como afirma Magnani5, da idéia da transmissão de uma “herança” que passa de geração para geração servindo como elo entre elas, reavivando o conjunto de práticas culturais caraterísticas daquele grupo social, e retratando fielmente uma sociedade onde o entendimento pleno das relações de convívio apresenta-se de forma complexa. Com sentido mais abrangente, patrimônio deve ser aqui entendido como forma de representação desse universo complexo de práticas que organizam a sociedade, pois “o que se transmite são os suportes físicos, manifestações concretas e condições efetivas de 3 MAGNANI, José Guilherme Cantor. Pensar grande o patrimônio cultural. LUA NOVA, nº2, out./dez 86, p. 63. 4 Ibid. 5 Ibid. 3 existência da cultura”6. O que a política e a prática de seleção do patrimônio histórico no Paraná ignoram e limitam é a percepção dessa dinâmica social onde está inserido o seu objeto de trabalho. Nesse processo, a percepção do valor simbólico da produção cultural deve abranger um vasto campo de significações e usos, não se limitando a uma única via de interpretação da realidade social. No primeiro capítulo refiro-me as primeiras manifestações de interesse pela preservação de determinados bens ao longo da história do Brasil e particularmente no caso do Paraná. Nota-se, nesses casos, a necessidade de se construir uma identidade nacional e mais especificamente uma identidade para o Estado e para o povo paranaense. No segundo capítulo trato dos trabalhos de preservação realizados no Paraná no período anterior a Lei Estadual de 1953. O que se percebe nesse momento é o interesse particular que intelectuais paranaenses, vinculados ao governo do estado, deixam transparecer ao longo dos trabalhos de preservação, e também o vínculo entre os órgãos estaduais e os federais na preservação do patrimônio. No terceiro e último capítulo trato do momento em que é institucionalizada a prática preservacionista através da Lei Estadual n.º 1.211, e de lá até os dias de hoje. Nesse momento, o Estado assume o papel de preservar o que ele mesmo vai determinar como patrimônio histórico, e que se apresenta como meio capaz de justificar e explicar como se constituiu o Paraná e quem é o povo paranaense. 6 Ibid., p. 64. 4 1 O PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO: uma introdução ao estudo das primeiras manifestações de interesse pela preservação no Paraná. Segundo publicação do Ministério da Educação e Cultura7, no Brasil, as primeiras manifestações de interesse na preservação de um determinado “patrimônio cultural”, datam do século XVIII, quando o Conde de Galveias, defendeu a preservação das edificações deixadas pelos holandeses em Pernambuco. Preocupando-se em historicizar sua atuação, a Secretaria do Patrimônio Nacional reconhece ainda que, com a vinda da família real ao Brasil, em 1808, tornando-o sede do Império Português, fez-se necessária a construção de uma nova identidade para a legitimação desse processo. Assim, no interior dessa política de institucionalização do Império, é lembrada a criação do Museu Real (hoje, Museu Nacional), no Rio de Janeiro, em 1818, como tendo o objetivo de preservar o patrimônio botânico e zoológico nacional. Após a Independência, verifica-se uma nova política de formação da identidade nacional, a qual superaria o passado colonial e garantiria a unidade nacional, conferindo ao Brasil uma nova imagem. Dentro desse processo é fundado, no Rio de Janeiro, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), em 1838. Depois, com a República, fez-se necessária, mais uma vez, a construção de uma nova identidade nacional, em substituição à figura do imperador, que representava “a imagem do país identificado com a de seu líder máximo”. Nesse contexto os estados da federação vão desenvolver a 7 BRASIL. Ministério da Educação e da Cultura: Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Proteção e revitalização do patrimônio cultural no Brasil: uma trajetória brasileira. 1980. 5 construção de identidades regionais, já que o novo regime trouxera consigo a descentralização política do país.8 Na primeira Constituição republicana do Brasil (1891), pode ser percebido o prenúncio de um conceito de patrimônio histórico e a normatização da sua preservação. No Artigo 8º das Disposições Transitórias é oficializada a aquisição da casa em que faleceu Benjamin Constant, “grande patriota – o fundador da República”, cedendo direito de usufruto do imóvel a sua viúva. Constitucionalmente, erigia-se um monumento à memória daquele republicano e da própria República. O próximo passo para a criação de uma política (e de uma prática) que visasse a construção de um patrimônio histórico e artístico nacional, entendido como fundamentador de uma identidade brasileira, terá em Mário de Andrade o seu principal personagem.9 Entre 1917 e 1925, Mário de Andrade viajou para o nordeste e o sul do país na busca de um traço típico e unificador da cultura brasileira. Esse elemento é encontrado por ele no patrimônio arquitetônico religioso, que respeita, na maioria das cidades, as mesmas características de religião católica, símbolo do elemento colonizador português. Ao longo de sua vida, Mário de Andrade esteve preocupado com a identificação de elementos culturais brasileiros e a sua preservação, tendo sido ele também responsável pela elaboração do Anteprojeto de criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), em 1936, com a finalidade de “determinar, organizar, conservar, e propagar o patrimônio artístico nacional”. Posteriormente à criação do SPHAN, Mário de Andrade atuou nele como Assistente Técnico, mantendo durante cerca de nove anos correspondência com Rodrigo Mello 8 PEREIRA, Luiz Fernando Lopes. Paranismo: Cultura e Imaginário no Paraná dos anos 20. In: DE NIPOTTI, C.; ARRUDA, G. (orgs.). Cultura e Cidadania. v. 1. Londrina (PR): ANPUH/PR, 1996, p. 274. 9 Em 1920, Bruno Lobo, presidente da Sociedade Brasileira de Belas Artes, e Alberto Chide, diretor do Museu Nacional, vão se preocupar em elaborar um projeto de lei em defesa do patrimônio histórico. 6 Franco de Andrade, diretor do Serviço desde sua criação (1937) até 1967, no intuito de discutir e sugerir assuntos e propostas relacionadas a cultura brasileira, sua preservação e a estruturação de “meios que pudessem atender à coletivização do saber”10. Entre estas cartas, uma delas, escrita em 16 de outubro de 1937, diz: Como Assistente Técnico do SPHAN para esta Sexta Região, venho apresentar a V. Ex.a o relatório das primeiras pesquisas, realizadas no Estado de S. Paulo, a respeito de monumentos arquitetônicos de valor histórico ou artístico, dignos a meu ver, de tombamento federal. (...) Cumpre ainda lembrar mais uma vez o que já afirmei a V. Ex.a verbalmente. Não é possível esperar-se de S. Paulo grande coisa com valor artístico tradicional. As condições históricas e econômicas deste meu Estado, a contínua evasão de Paulistas empreendedores para outras partes do Brasil nos sécs. XVII e XVIII, o vertiginoso progresso ocasionado pelo café são as causas principais da nossa miséria artística tradicional.11 Na lista que segue a estas observações, são indicados para tombamento federal cerca de 56 exemplares de arquitetura religiosa, entre igrejas e capelas, além de 26 outros tipos de edificações. Ainda nos anos 20, o movimento artístico modernista representa a produção simbólica de uma identidade nacional. Entre as propostas do movimento, representado pela Semana de Arte Moderna (1922), está a de renovar a arte brasileira, fugindo do tradicionalismo, e apoiando-se na pesquisa da língua e da cultura brasileira para a criação do que seria a arte brasileira na essência. Participaram do movimento artistas como Di Calcanti, Vítor Brecheret, Anita Malfati, e Mário de Andrade, entre outros. Alguns desses intelectuais formaram ainda movimentos posteriores à realização da Semana: Movimento 10 BRASIL. Ministério da Educação e da Cultura: Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Mário de Andrade: cartas de trabalho. Correspondências com Rodrigo Mello Franco de Andrade (1936-1945). Rio de Janeiro, 1981. p. 22. 11 Ibid., p. 80. 7 Pau-Brasil, Movimento Verde-amarelo, Grupo Anta e o Movimento Antropofágico, todos claramente com ideais voltados à cultura nacional. Nesse contexto dos anos 20, intelectuais paranaenses fundaram um movimento que ficou conhecido como Paranismo, pelo qual buscou-se a “construção de uma identidade cultural para o estado do Paraná neste período da I República, em uma época de vazio de representações e de necessidade de invenção das tradições, em particular através das artes plásticas”.12 A identidade paranaense pretendida pelo Movimento Paranista apoiava-se na construção de um passado no qual figuravam lendas sobre as origens do estado e sobre os heróis paranaenses. O que se pretendia era não somente criar na memória dos paranaenses um passado de mitos e feitos, mas demonstrar uma trajetória de crescimento econômico que, naquele momento, se projetava através da indústria da erva-mate e que possibilitaria ao Paraná progresso e desenvolvimento. Esse movimento contava com a participação de diversos artistas que reproduziam tais idéias e que expunham seus trabalhos com o intuito de retratar a identidade paranaense. Orientado por uma crença no progresso e na ciência, ideologia positivista herdada do século XIX, o Paranismo destacava a nova política do Paraná, estado da República Federativa do Brasil. Essa idéia trazia questionamentos sobre a forma como o Paraná estaria inserido nesse novo contexto. Havia a necessidade da afirmação de uma determinada tradição histórica para que fosse criado “um sentimento de pertencimento a uma terra que até então não possuía sequer a garantia física de seu território”13. 12 PEREIRA, op. cit. p. 275. PEREIRA, Luis Fernando Lopes. Paranismo: o Paraná inventado: cultura e Imaginário no Paraná da I República. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1997, p. 75. 13 8 Vinculado ao Movimento, encontrava-se Romário Martins, responsável pela criação do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná (IHGP), nos moldes do Instituto Brasileiro, e que voltava suas atenções para o projeto paranista. A criação do IHGP data de 1900, em comemoração ao “VI centenário do descobrimento do Brasil”14, e para o qual Romário Martins previa uma larga existência de brilhos (...) exaltando os nomes dos seus melhores filhos, assignalando a influencia histórica dos seus memoráveis succesos, descrevendo a altitude das suas regiões esplendentes, e expondo, com largos traços vibrantes, a accentuada feição da nossa característica (...) tornando-se um poderoso auxiliar do Poder Público, reunindo dados e estudando documentos para a exacta determinação official dos nossos limites com Santa Catharina.15 O mesmo Romário Martins, em 1935, vai ser um dos responsáveis pela criação do Conselho Superior de Defesa do Patrimônio Cultural do Paraná, instituído pela Lei Estadual n.º 38, de 31 de outubro de 1949. Destinava-se o Conselho “a colaborar, como órgão consultivo do Governo, na defesa do patrimônio cultural do Paraná e no estímulo de toda atividade intelectual e artística do mesmo Estado, com o objetivo de elevar a sua cultura sob todos os pontos de vista” (Art. 2º). Ao Conselho também cabia defender as “riquezas naturais, artísticas, literárias e históricas do estado” (Art. 6º, d). Dentre as “riquezas” a que faz alusão a referida lei é possível citar a produção paranista de artistas como Zaco Paraná, João Turin, Alfredo Andersen e muitos outros que colaboraram com a construção simbólica de elementos reconhecidos como paranaenses: a pinha, o pinhão, a erva-mate e a figura do “Semeador” - alusão ao estado caracterizado como essencialmente 14 15 BOLETIM DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO PARANÁ. Curitiba, 1918, p. 5. Ibid., p. 6 e 7. 9 agrícola. A atuação do Conselho, anteriormente a criação da Lei Estadual n.º 1.211, que define e regulamenta a proteção do patrimônio histórico paranaense, traz consigo um modo de pensar e agir muito semelhante ao que pode ser percebido no movimento paranista no contexto dos anos 20. Nele, intelectuais assumem a responsabilidade de pensar e criar o que entendiam como o Paraná sua gente. 10 2 O PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO PARANAENSE E A INSTITUCIONALIZAÇÃO DE SUA PROTEÇÃO A criação do Instituto Histórico e Geográfico Paranaense, em 1900, e posteriormente a criação de um movimento preocupado em escrever uma história do Paraná, nos quais atuou Romário Martins, demonstram o vínculo que ia se estabelecendo entre os ideais políticos e a necessidade de construção de uma história das origens do estado. Mas de certo modo, poderíamos considerar que as preocupações com a memória e o patrimônio histórico do Paraná são anteriores, pois em 1855, foi criado o Arquivo Público que tinha como objetivo reunir todas as memorias impressas ou manuscriptas relativas à história e geographia da provincia, cartas geographicas, copias de projectos de obras publicas, mappas statisticos e mais trabalhos deste genero; relatorios do presidente da provincia, collecções de leis provinciaes e geraes, amostras de quaesquer productos naturaes ou artístícos, que forem offerecidos ao governo e cuja conservação for possível.16 Entretanto, como vimos, apenas em 1935, com a Lei Estadual n.º 38, o governo estadual institucionaliza, em sua estrutura, a existência de um órgão com a atribuição específica de tratar do “patrimônio histórico, artístico e cultural” do Paraná. Interessante notar aqui o pioneirismo do estado, já que esta lei antecede a criação oficial do SPHAN (Decreto-lei n.º 25, de 30/11/1937). A criação e a instalação do Conselho Consultivo da Divisão do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural, porém, só é efetuado em 11 de agosto de 1949. Conforme a lei que o 16 Lei Estadual n.º 33, de 07 de abril de 1855. 11 instituíra, o Conselho deveria ser formado por representantes da Universidade Federal do Paraná, do ensino superior estadual, do ensino secundário particular, por um jornalista, um pintor, um músico, além de “três membros escolhidos ainda em identicas condições, pelo Govêrno, entre personalidades de alto e notorio saber” (Artigo 4o). Dentre os primeiros Conselheiros estavam Julio Moreira, “Diretor da Secção de História do Museu Paranaense”, José Loureiro Fernandes, representante do “Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense”, David Carneiro, “professor de História da Arte”, e Fernando Corrêa de Azevedo, “Diretor do Departamento de Cultura”.17 Nas primeiras reuniões foram discutidas questões referentes à organização interna do Conselho, ao preenchimento de cargos e à criação de um regimento interno, utilizando cópia do regimento do Conselho Consultivo da Divisão de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, para ”que servisse de orientação”18. As primeiras reuniões também foram ocupadas pela realização de um histórico sobre os trabalhos desenvolvidos até aquele momento. Pede a palavra o Professor Fernando Corrêa de Azevedo para fazer uma exposição do trabalho desenvolvido até agora (...). Fala então sobre a creação do Museu de Paranaguá(...). Aborda em seguida a questão do Colégio dos Jesuítas em Paranaguá, expondo as medidas que foram tomadas para a sua desocupação (...); as obras de restauração projectadas; as verbas a elas destinadas pelos Govêrnos Federal e Estadual; o levantamento pormenizado do edifício e as providências já executadas junto à Delegacia do Serviço do Patrimônio da União, nesta capital, para a passagem do prédio ao domínio do Estado. (...) fala sôbre a cadeia velha de Guaratuba, os estudos para a sua conclusão e a verba que lhe foi assegurada (...) sobre o problema dos sambaquis, enumerando as providências tomadas pelo 17 PARANÁ. Secretaria da Educação e Cultura. Conselho Consultivo da Divisão do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural. Curitiba. Ata de instalação redigida no dia 11 ag. 1949, Livro 01, p. 02 verso. 18 Ibid. 12 Departamento de Cultura, para evitar a sua demolição com finalidades exclusivamente econômicas.19 Apesar do caráter consultivo atribuído ao Conselho, entre a sua instalação e a aprovação da Lei Estadual nº1.211, de 16 de setembro de 1953, que “dispõem sobre o patrimônio Histórico, Artístico e natural do Estado do Paraná” e a sua preservação, muitas foram as atividades desenvolvidas pelo Conselho, nesse período. Conforme as atas das reuniões, realizadas esporadicamente, pode ser percebida a ligação que manteve, durante cerca de quinze anos, com os trabalhos desenvolvidos pelo governo federal, pois “da parte do Governo Federal, com a criação da 7a Região do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, abrangendo todo o Brasil Meridional, houve uma tentativa inicial de defesa desse patrimônio no território paranaense“.20 Assim, a partir de 1949, conforme registros, muitas são as reivindicações solicitando ao governo federal e à Divisão de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (DPHAN) o tombamento, ou medidas de preservação, de determinados bens no estado do Paraná. Constam nas Atas de reunião desse período relatos de trabalhos de preservação e restauração, em conjunto e diretamente vinculados à Divisão Nacional, como informações sobre o andamento das medidas de desocupação e restauração do antigo Colégio dos Jesuítas, em Paranaguá, sobre o processo de tombamento da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, em Curitiba, sobre a preocupação em se evitar a demolição de sambaquis no litoral paranaense,21 e sobre a conservação da Igreja de Santo Antonio da Lapa22. 19 Idem Ata de instalação redigida no dia 11 ag. 1949, Livro 01, p. 02 verso Idem. Ata de reunião redigida no dia 12 dez 1949, Livro 01, p. 17 verso. 21 Idem Ata de instalação redigida no dia 11 ag. 1949, Livro 01, p. 03 verso. 22 Idem, Ata de reunião redigida no dia 12 dez 1949, Livro 01, p. 05 verso. 20 13 Antes mesmo da criação do Conselho, haviam sido tombados pelo governo federal vários bens no Paraná, entre eles, a Casa Lacerda, na Lapa, em 15 de fevereiro de 1938; a Igreja de São Luiz, em Guaratuba, e a Igreja Matriz de Santo Antonio, na Lapa, em 01 de abril de 1938; a Fortaleza Nossa Senhora dos Prazeres e o Antigo Colégio dos Jesuítas, em Paranaguá, em 24 de maio de 1938; e, a Casa de Câmara e Cadeia, na Lapa, em 14 de maio de 1940. A manutenção desses imóveis, após o seu tombamento, era regularmente solicitada ao DPHAN. Não obstante sua atenção para com os bens do patrimônio histórico paranaense, os conselheiros, com certa freqüência, manifestavam sua insatisfação com o caráter consultivo conferido ao Conselho, alegando a limitação das suas ações imposta pelo governo estadual. No dia 21 de junho de 1951, foi transcrito em ata um memorial, redigido em nome do Conselho por Loureiro Fernandes, então conselheiro, dirigido ao Secretário de Educação e Cultura do Estado. Negando o caráter “consultivo” do Conselho, este termo é propositadamente substituído por “de Defesa”, sugestão de Fernando Corrêa de Azevedo. O memorial apresentava um histórico do funcionamento do Conselho. Nele justificam a não instalação efetiva do Conselho até a data da primeira reunião, em 11 de agosto de 1949, e a paralização das atividades no ano de 1951 por “desinteresse” do governo e pela falta de recursos. Desta forma, Loureiro Fernandes vai afirmar que logo se tornou patente o desinteresse oficial pela obra de proteção do Patrimônio Histórico, Artístico e Natural do Estado do Paraná, pois, verificou-se que não haviam sido incorporados ao orçamento de 1949, a sugestão, encaminhada pelo secretário no sentido de dotar a divisão dos recursos necessários (e que) lhe são atribuídas por lei funções de órgão puramente consultivo23 23 Idem Ata de instalação redigida no dia 11 ag. 1949, Livro 01, p. 14. 14 Posteriormente, em dezembro do mesmo ano, o conselheiro David Carneiro, “antigo Diretor da Quarta Zona do Brasil do Departamento de Defesa do Patrimônio Nacional”, ressaltava a necessidade da institucionalização das práticas desenvolvidas pelo Conselho, já que ele entendia que nós, os membros do Conselho Consultivo, somos responsáveis pelos crimes que se cometerem contra o Patrimônio Artístico, Histórico ou Cultural, de nossa Terra. Era pois necessário que nós definíssemos a nossa situação, junto ao Senhor Governador do Estado, no qual não se podia acreditar um inimigo da Cultura paranaense. Os presentes se manifestaram no mesmo sentido.24 As atividades do Conselho nesse período podem ser entendidas mais como pretensões pessoais levadas a cabo por seus integrantes do que uma preocupação do governo estadual em organizar e instituir suas práticas. Tanto Loureiro Fernandes quanto David Carneiro demonstram tais preocupações criticando a falta de apoio do governo para com suas atividades, e expondo constantemente a necessidade de ampliar as atribuições do Conselho conferindo-lhe, não exclusivamente uma função meramente consultiva, mas também funções deliberativas, pois, sabemos haver muitas vezes possibilidades através de Departamentos Estaduais de realizações benéficas em prol do nosso Patrimônio, que não são executadas por falta de uma sugestão bem orientada nesse sentido, a qual não ocorre muitas vezes nas suas decisões de profissionais preocupados particularmente com a (...) exata solução técnica dos problemas administrativos.25 Deste modo é que são realizadas as atividades desenvolvidas pelos conselheiros nesse período. A expectativa de normatização das funções e a possibilidade de maior atuação do Conselho nas questões relacionadas a preservação do patrimônio serão regulamentadas em 1953 quando, enfim, é criada a Lei Estadual n.º 1.211. 24 25 Idem Ata de reunião redigida no dia 12 dez 1949, Livro 01, p. 05 verso. Idem. p. 17 verso. 15 3 1953 - INAUGURAÇÃO DE NOVOS TEMPOS: política e práticas preservacionistas paranaenses Nos anos 50, Bento Munhoz da Rocha Neto, então governador, afirmava que “o Brasil marcou encontro no Paraná”.26 Esta proposição qualificou um discurso modernizador, atribuindo ao estado paranaense o papel de exemplo de desenvolvimento e prosperidade para o país. O discurso do governo denotava a preocupação de, ao mesmo tempo, modernizar o Estado e preservar uma determinada memória na tentativa de criar uma identidade paranaense legitimadora da sua prática política de modernização. Momento propício a uma auto-afirmação da nossa identidade, o governo vai criar, em 1953, no ano do centenário da emancipação política do estado, a “Comissão de Comemoração do Centenário”, com o objetivo de elaborar elementos festivos, inaugurando obras como o Centro Cívico, o Teatro Guaíra e a Praça 19 de Dezembro. Essa praça foi inaugurada “com certa pompa no dia 19 de dezembro de 1953, contando com a presença do presidente Getúlio Vargas”27. Nela encontramos um painel em granito retratando a ocupação do território paranaense e sugerindo a evolução sócio-econômica do estado, servindo como referencial para a construção da memória desse período da história paranaense. Outro referencial, no mesmo conjunto da praça é o “gigantesco homem de concreto”, que “simboliza o desbravador do Paraná, passo à frente, desnudo de vaidades e de vãs filosofias, que procuram antes encobrir a realidade”28. A elaboração do projeto urbanístico da Praça 19 de Dezembro transformou aquele espaço num marco da legitimação do discurso político de 26 PARANÁ. Mensagem apresentada à Assembléia Legislativa do Estado por ocasião da abertura da 4ª Sessão Ordinária da 2ª Legislatura pelo Sr. Bento Munhoz da Rocha Neto governador do Paraná. Curitiba, 1954. 27 Jornal Gazeta do Povo. Curitiba, 19 de abril de 1981. 28 Jornal Gazeta do Povo. Curitiba, 19 de abril de 1981. 16 progresso e desenvolvimento do Paraná, estando ao mesmo tempo, inserido em uma trajetória histórica. Em meio a estes acontecimentos, a prática preservacionista estadual foi (re) institucionalizada, com a edição da Lei n.º 1.211 (16/09/1953) que dispôs sobre o “patrimônio Histórico, Artístico e natural do Estado”. Com esta lei, o estado assumia para si a tarefa de preservar os “fatos memoráveis da história do Paraná”, ação que estivera, até então, na órbita do governo federal (SPHAN) e que contava com a participação de um Conselho Consultivo Estadual. A prática do tombamento seria, assim, não mais um ato do executivo federal, o próprio Paraná se encarregaria da preservação de seu patrimônio histórico. Ou seja, servindo-se do trabalho de preservação do patrimônio, agia-se na reconstrução da história paranaense, com a inclusão de determinados bens materiais em Livros Tombo. Entende-se aqui que o patrimônio preservado é um referencial através do qual se constrói determinada memória, e através dela é que se dá a construção da identidade. Tais questões são discutidas ainda ao longo da conclusão. Segundo a Lei Estadual n.º 1.211, em seu Artigo 1º, serão inscritos 1) – no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, as coisas pertencentes as categorias de arte arqueológica, etnográfica, ameríndia e popular, bem assim os monumentos naturais; 2) – no Livro do Tombo Histórico, as coisas de interesse histórico e obras de arte históricas; 3) – no Livro do Tombo das Artes Aplicadas, as obras que se incluirem na categoria da Artes Aplicadas, nacionais e estrangeiras; 4) – no Livro do Tombo das Belas Artes, as coisas da arte erudita estadual, nacional ou estrangeira. 17 Gráfico 1 - Comparativo entre o número total de tombamentos por ano e o total de inscrições no Livro Tombo Histórico por Ano no Paraná entre 1962 e 1999. 18 04 LIVROS TOMBO TOMBO HISTÓRICO ANO TOTAL TIPO ARQUITETURA OFICIAL/CIVIL 1962 1963 1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 03 00 01 00 12 01 02 02 05 04 07 02 09 04 01 04 07 05 00 05 05 04 00 05 02 01 06 05 19 06 01 00 02 00 00 00 08 09 00 00 01 00 03 00 02 02 01 04 03 02 04 01 01 02 06 00 00 05 02 01 00 04 00 01 04 04 13 05 01 00 02 00 00 00 05 09 TIPO ARQUITETURA RELIGIOSA OUTROS TOTAL 03 00 00 00 07 01 00 00 02 00 02 00 01 00 00 01 00 02 00 00 01 00 00 01 00 00 01 00 00 01 00 00 00 00 00 00 02 00 00 00 00 00 00 00 00 00 00 00 02 00 00 00 00 00 00 00 00 00 00 00 00 00 00 00 00 00 00 00 00 00 00 00 00 00 00 00 03 00 01 00 10 01 02 02 03 04 07 02 04 01 01 03 06 02 00 05 03 01 00 05 00 01 05 04 13 06 01 00 02 00 00 00 07 09 Tabela 1 - Total de tombamentos por ano das inscrições dos quatro Livros Tombo; Total de inscrições no Livro do Tombo Histórico e o Tipo de Arquitetura. 19 A seleção dos bens a serem tombados sugere a necessidade de se discutir as “modalidades de intervenção do Estado nas atividades de preservação do patrimônio”29, pois esses referenciais tornam possível o estabelecimento de uma identificação entre indivíduos e assim a formação de um grupo social. O processo de tombamento é constituído por várias fases. Num primeiro momento é necessário que se dê entrada, junto ao Conselho, do pedido de tombamento. Esse pedido pode ser feito por qualquer pessoa, mesmo que não seja o proprietário do imóvel, ou ainda os próprios conselheiros podem sugerir um tombamento. Dentro desse processo, cabe a avaliação técnica do estado de conservação física do bem. Se esse parecer técnico, nesse caso elaborado por arquitetos, membros do Conselho, for favorável, há a necessidade de, no caso de um bem específico ser sugerido como possível tombamento histórico, de uma justificativa da sua “importância histórica”. Neste caso o Conselho trata de elaborar uma justificativa, através de pesquisas, para o tombamento a ser inscrito no Tombo Histórico, aqui em questão. Estabelecendo o gráfico relacional entre o Total de Tombamentos por Ano e o Total de Inscrições no Livro Tombo Histórico por Ano, podemos perceber que o maior número de inscrições conforme demonstra o Gráfico1, encontra-se registrado no Livro do Tombo Histórico. Referindo-se ao Tipo de Tombamento, anotado quando da inscrição do bem imóvel no Livro Tombo, a Tabela1 demonstra que o tipo Arquitetura Civil/Oficial é encontrado com maior freqüência seguido pelo tipo Arquitetura Religiosa. 29 GOUVEIA, Maria Alice Machado de. Políticas de preservação do patrimônio (três experiências em confronto): Inglaterra, Estados Unidos e França. In: MICELI, Sérgio & GOUVEIA, Maria Alice Machado de. Política Cultural Comparada. RJ: FUNARTE, 1985. p. 20 Dos 116 bens inscritos no Tombo Histórico, a maior parte trata de imóveis, edifícios públicos e privados, tombados entre os anos de 1962 e 1999. Ao tratar das justificativas para estes tombamentos, encontramos em primeiro plano uma justificativa técnica que ressalta a importância arquitetônica, tida como representativa de um período histórico. Desde a criação do Conselho Consultivo em 1938, organização mais remota no trabalho de preservação do patrimônio no Paraná, ele manteve seus trabalhos diretamente vinculados ao governo federal e seus agentes de atuação no Estado, como o atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN, criado nos anos 30 pelo governo Vargas e que por 30 anos manteve como diretor o arquiteto Rodrigo Mello Franco de Andrade. Esta unidade de caráter nacional mantém-se dividida ainda hoje em regionais que abrangem todos os estados brasileiros, podendo desta forma coordenar os trabalhos de preservação no âmbito nacional e assessorar os demais órgão interessados na preservação do patrimônio. Como exemplos desta prática preservacionista, voltada ao interesse arquitetônico, está o tombamento da “Fonte Velha junto ao rio Itiberê”, em Paranaguá, “construção do século XVII, (...) monumento mais antigo da cidade”30; o “Teatro São João”, na Lapa, por se tratar de “edificação colonial”31; a “Estação Rodoviária de Londrina”, “pioneira da arquitetura moderna no Paraná”32. O “Edifício sede da Fundação Cultural de Curitiba, antigo Palácio Wolff”, tombado em 198233, apresenta duas perspectivas diferentes de tratamento por parte do Conselho. 30 PARANÁ. Secretaria de Estado da Cultura. Curadoria do Patrimônio Histórico e Artístico. Livro do Tombo Histórico. Curitiba. Inscrição n.º 4, de 26/01/1964. 31 Ibid. Inscrição nº21, de 13/03/1969. 32 Ibid. Inscrição nº52, de 08/09/1974. 33 Ibid. Inscrição nº71, de 09/04/1981. 21 Num primeiro momento, em ata de 08 de abril de 1981, é transcrito o parecer elaborado por Rajindra Kahur Singh, arquiteta membro do Conselho, que diz tratar-se Pelas sua características de simetria, de ornamentação, de vocabulário rítmico das fachadas, a edificação se consolida, como um exemplar significativo de uma das linhagens de sobrados espalhados pelo país na segunda metade do século passado. Em contrapartida a técnica construtiva adotada é altamente regionalizada e marcada pela presença do imigrante alemão. Este parecer é o que nos apresenta a justificativa anotada no próprio Livro do Tombo Histórico para o tombamento desse edifício. Porém em ata, o texto prossegue tratando de outras questões: Funções relevantes desempenhadas: Sede de atividades maçônicas (século XIX), sede do Quartel General (século XIX); abrigou a “Secção Alemã” do Colégio Bom Jesus (de 1906 a 1911), abrigou a Prefeitura e a Câmara de Curitiba (de 1912 a 1913), Fundação Cultural de Curitiba. Entorno: é presença marcante de uma das praças municipais do centro histórico de Curitiba.34 Ainda apresentando estas duas perspectivas distintas, permanecendo em primeiro plano a importância arquitetônica, está o exemplo da “Casa situada à Praça Getúlio Vargas, 10, em Castro”, edifício que é sugerido como exemplo de arquitetura urbana de transição entre o colonial e neoclássico. Constitui testemunho de uma época cujos exemplares são cada vez mais raros no Paraná”35. 34 PARANÁ. Secretaria da Educação e Cultura. Conselho Consultivo da Divisão do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural. Curitiba. Ata de reunião redigida no dia 08 abr. 1981, Livro 01, p. 93. 35 PARANÁ. Secretaria de Estado da Cultura. Curadoria do Patrimônio Histórico e Artístico. Livro do Tombo Histórico. Curitiba. Inscrição nº77, de 04/01/1982. 22 Esta é a justificativa anotada no Livro do Tombo Histórico. No Livro Ata, porém, novamente é possível encontrar outra interpretação para o sentido desse tombamento. Nele o parecer diz A casa construída pelo Coronel Manoel Ignácio do Canto e Silva no final do século XIX, é um exemplo de arquitetura urbana de transição entre o colonial e o neoclássico. As transformações sócio-econômicas a que foi submetida a sociedade brasileira a partir de meados do século XIX, provocam mudanças profundas nos conceitos de habitação e construção. As formas de uso deixaram de se apoiar no sistema servil. Os mecanismos de adaptação às novas condições, deram origem à casa urbana, (...) uma divisão entre dois ambientes principais: um, social ou comercial, o outro, de habitação familiar. Esta divisão entretanto, se tornou muito menos rígida do que nos séculos anteriores, em que o hóspede muitas vezes não passava do alpendre.36 Ainda como exemplo dessa caracterização arquitetônica para o tombamento está a “Igreja de Bom Jesus da Pedra Fria”, em Jaguariaíva, cujos “espaços refletem características da arquitetura luso-brasileira, em sua organização”37; o “Teatro 13 de Maio”, em Curitiba, “testemunho da arquitetura industrial no Paraná do início do século XX”38. E o exemplo aqui mais explícito desse parecer técnico, o da “Casa Kirchgässmer”, em Curitiba, citado pelo arquiteto Key Imaguire Júnior, para quem Dentro do vasto e riquíssimo universo que é a arquitetura brasileira, existe um grande número de casos lapidares, obras únicas por seu significado de beleza de caminhos percorridos (...) constituindo-se em contraponto importante das mecânicas evolutivas da cultura brasileira, situado muito além de mera factualidade de ser ou não a primeira casa verdadeiramente moderna concebida no país39 36 PARANÁ. Secretaria da Educação e Cultura. Conselho Consultivo da Divisão do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural. Curitiba. Ata de reunião redigida no dia 21 out. 1981, Livro 02, p. 07. 37 PARANÁ. Secretaria de Estado da Cultura. Curadoria do Patrimônio Histórico e Artístico. Livro do Tombo Histórico. Curitiba. Inscrição nº89, de 29/01/1988. 38 Ibid. Inscrição nº90, de 26/05/1988. 39 Ibid. Inscrição nº115, de 26/10/1991. 23 A prática preservacionista paranaense tende, desta forma, a privilegiar o objeto do tombamento como um marco de acontecimentos da nossa história. Prontamente materializado num edifício, deste ou daquele determinado estilo, o objeto torna-se uma reificação do processo histórico sugerindo a possibilidade de encerrar em si toda a dinâmica social a qual fez, ou faz parte. Assim, neste tipo de análise, não é possível ignorar o tipo de tratamento recebido pelo patrimônio cultural quando determinado grupo social intervém sugerindo seu tombamento. Esse processo delimita a construção de uma memória usando o “patrimônio histórico”, aqui em questão, e sugere a possibilidade de uma materialização da realidade social de contextos distintos do qual fazemos parte. 24 CONCLUSÃO Em “A memória coletiva”40, Maurice Halbwachs preocupa-se com essa perspectiva da memória, tratando do modo como determinado discurso foi construído na memória do indivíduo através dos referenciais do grupo social onde ele estava inserido. Da percepção que a memória é um fenômeno social, que é construída à partir da relação entre indivíduo e grupo não existindo enquanto memória individual, já que vai sempre se reportar à coletividade, através de pontos de contato com a realidade do grupo, a memória serve como suporte essencial da identidade. Segundo Ulpiano Bezerra de Menezes o conceito de identidade implica a semelhança a si próprio, formulada como condição de vida psíquica e social. Nessa linha, está muito mais próximo dos processos de reconhecimento do que de conhecimento.(...) A Antropologia e a Sociologia, por sua vez, nos informam que a identidade, quer pessoal, quer social, é sempre atribuída, socialmente mantida e também só se transforma socialmente. (...) Isto é, não se pode ser humano por si, por representação própria: os valores, significações, papéis que me atribuo necessitam de legitimação social, de confirmação por parte de meus semelhantes. Pode-se dizer, assim, que é em virtude de definições que existem indivíduo e sociedade. Dentro dessa ótica, é fácil entender que o processo de identificação é um processo de construção de imagem, por isso terreno propício a manipulações41 Portanto a memória é uma construção social que se dá através de uma série de mecanismos e que deve ser compreendida à partir do contexto onde surge a necessidade de elaborá-la. É necessário, segundo Ulpiano, “considerar não somente o sistema (os 40 HALBWACHS, Maurice . A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990. MENEZES, Ulpiano Bezerra de. Identidade cultural e patrimônio arqueológico. In: BOSI, Alfredo (org.). A cultura brasileira. São Paulo: Ática, 1987, cap. XII, pp. 182-191. 41 25 mecanismos, os suportes/referenciais), os conteúdos (as representações), mas também incluir os agentes e suas práticas”42. Segundo José Reginaldo Gonçalves43 a construção da memória é ideológica porque se utiliza de referenciais para sua legitimação, já que “a identidade (...) pode ser definida pelos seus monumentos – aquele conjunto de bens culturais associados ao passado”(p.267). Desta forma ao tratar a construção de um determinada memória, atentamos para o fato dela implicar num processo de seleção e associação relacionado a um meio social, que necessita de relações entre indivíduos e instituições para que ela se manifeste. Segundo Adélia Bezerra de Menezes44, a memória é uma construção que se dá à partir dessas relações e experiências ligadas a uma rede de significações entre as imagens da memória e a vivência do indivíduo. Esse processo seletivo se dá, portanto, a partir de necessidades das representações atuais do universo do indivíduo. A elaboração de uma memória sugere a idéia de lembranças e esquecimentos, o que faz com que o trabalho com a memória deva ocupar-se de perceber não somente o que é lembrado a partir da percepção do tempo presente e que relação ele tem com a memória, mas também de que maneira o esquecimento de determinados acontecimentos pode estar relacionado com o presente do indivíduo. A memória enquanto elaboração é, segundo Michel Pollak, uma elaboração coletiva. A memória do indivíduo possui pontos de contato com a memória do grupo onde ele está inserido, existindo referenciais que ligam estas duas formas de produção da memória, e que são definidas pelo grupo. Esses referenciais tornam possível o estabelecimento de uma 42 Idem. A história cativa da memória? Para um mapeamento da memória no campo das Ciências Sociais. INSTITUTO DE ESTUDOS BRASILEIROS. São Paulo, n.º 34, p.9-23,1992. 43 GONÇALVES, José Reginaldo. Autenticidade, memória e ideologias nacionais: o problema dos patrimônios culturais. ESTUDOS HISTÓRICOS. RJ, vol. 1, 1988. 44 MENEZES, Adélia Bezerra de. Memória e Ficção. RESGATE. Campinas, n.º 03, 1991. 26 identificação do indivíduo com um determinado grupo, caracterizando a memória como uma construção social porque necessita de referências dentro do social para que possa ser construída. A preservação do patrimônio histórico tem servido, portanto, como elaboração desse processo de construção de identidades através da materialização de um processo histórico, reificado num dado objeto e que assim restringe o entendimento da complexidade das relações sociais e de sua dinâmica dentro do contexto onde esteve inserido. 27 FONTES Atas do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico do Paraná (1949 a 1999). Bento Munhoz da Rocha Neto. Discursos e Conferências (1951-1955). Câmara Municipal de Curitiba. Ata da sessão realizada no dia 12 jun 1879. Decreto-lei Federal n.º 25 de 30/11/37 Diário Oficial do Estado , n.º 196, de 07/11/1953. Livros Tombo Jornal Gazeta do Povo. Curitiba, 19 de abril de 1981. Lei Estadual n.º 1.211, de 16/09/1953 PARANÁ. Assembléia Legislativa do Estado. Mensagem apresentada à Assembléia Legislativa do Estado por ocasião da abertura da 4ª Sessão Ordinária da 2ª Legislatura pelo Sr. Bento Munhoz da Rocha Neto governador do Paraná. Curitiba, 1954. Revista Ilustração Brasileira. Edição Comemorativa do Centenário da Emancipação Política do Paraná. RJ: Gráfica Pimenta de Mello, dez 1953, n.º 204. 28 ANEXO 1 – Termo de abertura do Livro de Atas nº1 do Conselho Consultivo da Divisão do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural do Paraná. 29 ANEXO 2 – Página nº1 da Ata de Instalação do Conselho Consultivo da Divisão do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural do Paraná. 30 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARANTES, Antonio Augusto (org.). Produzindo o passado: estratégias de construção do patrimônio cultural. São Paulo: Brasiliense, 1984. BALHANA, A.; MACHADO, B. P.; WESTPHALEN, C. M. História do Paraná. v. 1. Curitiba: GRAFIPAR, 1969. BRASIL. Ministério da Educação e da Cultura: Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Proteção e revitalização do patrimônio cultural no Brasil: uma trajetória brasileira. 1980. BRASIL. Ministério da Educação e da Cultura: Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Mário de Andrade: cartas de trabalho. Correspondências com Rodrigo Mello Franco de Andrade (1936-1945) 1981. 191 p. CANCLINI, Nestor Garcia. O Patrimônio Cultural e a construção imaginária do nacional. REVISTA DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL. n. º 23. 1994. FONSECA, Maria Cecília Londres. O patrimônio em processo: trajetória da política federal de preservação no Brasil. Rio de Janeiro: UFRJ, 1997. GONÇALVES, José Reginaldo. Autenticidade, memória e ideologias nacionais: o problema dos patrimônios culturais. ESTUDOS HISTÓRICOS. Rio de Janeiro, v. 1, 1988. GOUVEIA, Maria Alice Machado de. Políticas de preservação do patrimônio (três experiências em confronto): Inglaterra, Estados Unidos e França. In: MICELI, Sérgio & GOUVEIA, Maria Alice Machado de. Política Cultural Comparada. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1985. 31 HALBWACHS, Maurice . A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990. IPARDES. A arte de povoar um território: os governos Lupion e Bento. In: O Paraná reinventado. Política e Governo. Curitiba, 1989, p. LA PASTINA FILHO, José. Política oficial de preservação. A ação do SPHAN/ PróMemória no Paraná. CICLO DE ESTUDOS SOBRE O PATRIMÔNIO CULTURAL E MODERNIDADE. Londrina (Paraná), 18 a 20 de outubro de 1989. MAGNANI, José Guilherme Cantor. Pensar grande o patrimônio cultural. LUA NOVA, nº2, out./dez 86. MARTINS, Romário. Bandeiras e Bandeirantes em Terras do Paraná. Curitiba: Editora Guaíra Ltda. ________________. História do Paraná. Curitiba: Travessa dos Editores, 1995. ________________. Terra e gente do Paraná. Curitiba: Empresa Gráfica Paranaense, 1944. MENEZES, Adélia Bezerra de. Memória e Ficção. RESGATE. Campinas, n.º 03, 1991. MENEZES, Ulpiano Bezerra de. A história cativa da memória? Para um mapeamento da memória no campo das Ciências Sociais. INSTITUTO DE ESTUDOS BRASILEIROS. São Paulo. n.º 34. 1992. pp.9-23. __________________________ Identidade cultural e patrimônio arqueológico. In: BOSI, Alfredo (org.). A cultura brasileira. São Paulo: Ática. cap. XII. 1987. pp. 182-191. MICELI, Sérgio (org.). Estado e Cultura no Brasil. São Paulo: DIFEL, 1984. 32 NICOLAS, Maria. O Paraná na Câmara dos Deputados (1853-1977). In: Cem anos de vida parlamentar. Curitiba, 1953. NOVAIS, Fernando. O Brasil nos quadros do antigo sistema colonial. In: MOTTA, Carlos G. (org.). BRASIL EM PERSPECTIVA. Difusão Européia do Livro, 1985. PARCHEN, Rosina Coeli Alice. Políticas oficiais de preservação do patrimônio cultural. CICLO DE ESTUDOS SOBRE O PATRIMÔNIO CULTURAL E MODERNIDADE. Londrina (PR), 18 a 20 de outubro de 1989. PEREIRA, Luiz Fernando Lopes. Paranismo: Cultura e Imaginário no Paraná dos anos 20. IN: DE NIPOTTI, C.; ARRUDA, G. (orgs.). Cultura e Cidadania. v. 1. Londrina (PR): ANPUH/PR, 1996. ___________________________. Paranismo: o Paraná inventado: cultura e Imaginário no Paraná da I República. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1997. POLLAK, Michel. Memória, esquecimento, silêncio. REVISTA DE ESTUDOS HISTÓRICOS, n.º 3, p3-15, 1989. SOARES, José Carlos de Macedo. Fronteiras do Brasil no Regime Colonial. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1939. SOLA, Lourdes. O golpe de 37 e o Estado Novo. In: MOTTA, Carlos G. (org) BRASIL EM PERSPECTIVA. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1968. WESTPHALEN, Cecília Maria. Pequena História do Paraná. Curitiba: Melhoramentos, 1953. BENS TOMBADOS NO PARANÁ Período de 1962 a 1999 20 18 16 Tombamentos por ano 14 12 10 8 6 4 2 99 98 19 97 19 96 19 95 19 94 19 93 19 92 19 91 19 90 19 89 19 88 19 87 19 86 19 85 19 84 19 83 19 82 19 81 19 80 19 79 19 78 19 77 19 76 19 75 19 74 19 73 19 72 19 71 19 70 19 69 19 68 19 67 19 66 19 65 19 64 19 63 19 19 19 62 0 Ano de tombamento Total tombamentos Total Tombo Histórico Gráfico 1 - Comparativo entre o número total de tombamentos por ano e o total de inscrições no Livro Tombo Histórico por Ano no Paraná entre 1962 e 1999.