CINEMA · 1, 2, 14, 15, 28, 29, 30 DE ABRIL, 5 E 6 DE MAIO DE 2005 18h30 e 21h30 · Pequeno Auditório e Grande Auditório · 2 Euros (Preço único) Figuras da Dança no Cinema 2º Módulo – 14 de Abril • 21h30 Material filmado para A Study for Choreography for the Camera [outtakes] de Maya Deren, 1945-77, 16’, 16mm, pb A Study for Choreography for the Camera de Maya Deren, 1945, 3’, 16mm, pb, sil. Im Spiegel der Maya Deren de Martina Kudlacek, 2001, 103’, 35mm, som A Study… e Ritual for a Transfigured Time são dois filmes da primeira fase do trabalho cinematográfico de Maya Deren que ilustram o seu interesse pela coreografia e, nomeadamente, pela coreografia para câmara. O primeiro, a abrir a sessão, é um filme-tese que desenvolve um léxico particular de articulação entre o movimento filmado e a imagem em movimento, explorando as possibilidades de conciliar a montagem com as velocidades da imagem, permitindo espacializar de modo inovador a progressão dos gestos da coreografia concebida por Talley Beatty. O documentário de Martina Kudlacek, para além dos depoimentos sobre Deren, é uma evocação rica em documentos sobre a autora, dos quais se destacam os excertos de alguns dos seus projectos inacabados, imagens inéditas filmadas no Haiti e sobretudo os registos sonoros da cineasta. A propósito de A Study for Choreography for the Camera: [excerto de Dialogues Théoriques avec Maya Deren – Du cinéma expérimental au cinéma ethnographique de Alain-Alcide Sudre, Harmattan, CGPompidou, 1996] Na teoria cinematográfica de Maya Deren, a dança nunca é objecto de um desenvolvimento particular, apesar de ter sido a sua reflexão sobre o filme como coreografia que lhe permitiu afastar-se do modelo ficcional ainda presente no seu primeiro filme, Meshes of the Afternoon (1943). Catrina Neiman vê esta opção artística como resultado directo da colaboração entre Deren e a digressão americana da Companhia de Katherine Dunham. […] Estes elementos contingentes são inegáveis. Mas num plano filmológico é inegável que a originalidade de Maya Deren foi a de se Culturgest, uma casa do mundo. Informações 21 790 51 55 · Edifício Sede da CGD, Rua Arco do Cego, 1000-300 Lisboa [email protected] • www.culturgest.pt afastar radicalmente de uma abordagem documental, não concebendo os seus filmes enquanto dança filmada, mas como filme-dança, fazendo a simbiose das duas artes do movimento. Aspirando a uma cine-coreografia apenas traduzível através deste modo de expressão, Maya Deren quis conceber a sua prática a partir de uma nova realidade do espectador estabelecida a partir do espaço-cinema. Assim, pensando a transposição entre o espaço do palco e o espaço do ecrã, pretende: “Destruir as figuras coreográficas cuidadosamente concebidas para o espaço de um palco teatral e uma audiência frontal fixa. […] O espaço cinematográfico – o mundo inteiro – transforma-se num elemento activo da dança ao invés de ser um espaço no qual a dança tem lugar. E o bailarino partilha com a câmara e com a montagem uma responsabilidade partilhada pelos próprios movimentos. O resultado é uma dança fílmica que apenas pode ser executada no cinema.” Num artigo publicado na Dance Magazine em 1946, o filme que se segue dá a Deren a oportunidade de elaborar o conceito do “filmedança”: “A Study for Choreography for the Camera foi um esforço para deslocar o bailarino do espaço estático da cena teatral para um espaço que fosse tão móvel e volátil quanto os seus movimentos. […] Ritual in Transfigured Time desenvolve esse conceito a partir de elementos não coreográficos. […] O que faz deles filmes-dança ou uma dança fílmica é que todos os movimentos – estilizados ou acidentais, corpo inteiro ou em detalhe – estão ligados uns aos outros, por um lado, no imediato e, por outro, na totalidade do filme, segundo um conceito coreográfico.” Se a ideia do “filme como um todo” nos conduz uma vez mais a uma concepção gestaltista da obra, os títulos dos filmes – Estudo para uma coreografia para a câmara e Ritual para um tempo transfigurado – contêm os valores das suas propostas teóricas. Mesmo que estes estudos se desenvolvam segundo uma perspectiva de mise-en-scène – com o controlo da organização dos elementos pró-filmicos contando tanto quanto as operações cinematográficas (e aí Maya Deren não se afasta do cinema clássico) –, os seus títulos indicam explicitamente Figuras da Dança no Cinema – 2º Módulo que nos libertámos do universo da mimesis para penetrar no círculo ritual do “mundo da obra”. […] Após terminar o seu Ritual in Transfigured Time, Maya Deren escrevia ao crítico de dança John Martin: “Apercebo-me que penso cada vez mais em termos de movimentos naturais não adquiridos – os movimentos das crianças quando implicadas nos seus jogos, dos adultos quando se deslocam na noite – como elementos que, manipulados ritmicamente na rodagem e na montagem, podem ser relacionados numa estilização de dança. É uma espécie de extensão da teoria do filme-dança… a utilização de movimentos informais, de tipo espontâneo, para criar um todo formalizado. Existe uma quantidade infinita de possibilidades, e estou muito impaciente para terminar este filme em curso para me poder concentrar no desenvolvimento desta nova abordagem, na qual conto poder utilizar o som.” […] Da dança e do cinema, do mesmo modo que do texto, Maya Deren não quer reter nenhum elemento anedótico, mas apenas a sua essência comum, ou, para ficarmos no concreto das coisas, o seu constituinte fundamental: o movimento. Procura a partir dele criar uma simbiose das duas artes através da qual o tempo possa ser transfigurado; e mesmo que não se detenha aí, fazer transparecer uma ideia da imagem como transcendência que veícula à sua maneira a ideia do filme como poema e do filme como ritual. A Study for Choreography for the Camera Maya Deren, Film Culture, n. 39, 1965 A coreografia não consiste apenas no desenho dos movimentos individuais dos bailarinos, mas igualmente na criação de padrões que estes e os seus movimentos estabelecem enquanto unidade espacial.[…] Pretendo que este filme seja uma amostra do filme-dança, ou seja, uma dança tão relacionada com a câmara e com a montagem que não possa ser interpretada enquanto unidade noutro meio que não o filme. No espaço reduzido do filme (limitado por problemas financeiros com a produção) fui apenas capaz de sugerir as potencialidades de uma tal forma. Espero que o filme-dança possa ser rapidamente desenvolvido e que, no interesse desse desenvolvimento, possa surgir uma nova era de colaborações entre os bailarinos e os cineastas – uma era em que ambos possam despoletar as suas energias criativas na criação de uma forma integrada de expressão. Descrição: As sequências de abertura ilustram a exploração do campo de visão móvel e igualmente o uso de uma câmara interrompida, de modo a esconder os métodos através dos quais se consegue a ilusão. No resultado final, a câmara, começando da direita, faz um lento movimento para a esquerda quase até completar um círculo. No decorrer deste movimento descobre o mesmo bailarino quatro vezes em diferentes momentos do seu movimento em espiral e em cada passagem cada vez mais próximo da câmara. Esta ilusão curiosa em que o tempo do movimento em espiral do bailarino é sincronizado com o tempo do movimento da câmara é conseguida do seguinte modo: a câmara começa a filmar e, ao rodar, encontra e cruza Talley Beatty. Quando Beatty já não está na imagem, a câmara pára de filmar. Beatty toma então uma posição fora de campo, à esquerda. A câmara recomeça a filmar, retomando a curva em que parou e reencontra o bailarino no Culturgest, uma casa do mundo. Informações 21 790 51 55 · Edifício Sede da CGD, Rua Arco do Cego, 1000-300 Lisboa [email protected] • www.culturgest.pt seu movimento para a esquerda. Isto repete-se três vezes até que, num grande plano, a cabeça de Beatty “transborda” do enquadramento. Museu Metropolitan Este plano ilustra o uso criativo das lentes. As lentes de longo-alcance fazem o Egytpian Hall do Metropolitan Museum parecer mais profundo do que realmente é. Beatty começa muito próximo da câmara, completando facilmente a distância até ao fim do corredor. No entanto, a perspectiva exagerada das lentes causa uma rápida atrofia da escala, fazendo parecer que percorreu uma distância tremenda em pouco tempo. A pirueta Esta sequência é um exemplo do modo como a câmara pode colaborar na criação de um movimento de dança. O movimento é aqui uma pirueta simulada, isto é, a cabeça, mostrada em grande-plano, gira numa pirueta; Beatty estava no entanto a fazer um movimento derviche com os dois pés. A volta derviche pode ser sustentada por um número indefenido de piruetas com o balanço requerido para manter a cabeça muito próxima da sua posição original (necessária para o enquadramento em grande-plano). Uma vez que esta volta pode ser mantida com bastante estabilidade, pode-se filmá-la durante muito tempo sem interrupções, durante o qual mudei a velocidade da câmara de extremoralenti para aceleração extrema. O movimento começa com uma qualidade que o aproxima do sonho, e termina com o enevoamento de uma parte da máquina. Extensão para o exterior, grande-plano no interior Aqui o bailarino começa com uma extensão para o exterior. Enquanto baixa a perna, a câmara filma-a até descer ao nível da cintura. Mais tarde um grande-plano acompanha o movimento da mesma perna enquanto esta entra por um dos lados do enquadramento, outra vez ao nível da cintura, com a diferença de que agora tudo se passa num apartamento. Quando estes dois planos são montados, a ilusão é a de que Beatty deu um passo dos bosques para o apartamento com um movimento único e contínuo. Erguendo-se num salto Aqui a acção que vemos consiste numa queda de Beatty do alto, com uma volta em espiral, caíndo no chão. Tornando a acção reversível, criei a ilusão da sua ascensão súbita a partir do chão com a mesma qualidade de libertação e leveza com que um balão de ar sobe quando é libertado. Esta técnica é muitas vezes utilizada pelos seus efeitos cómicos, como sair da água ao contrário ou regressar à prancha de mergulho. Aqui foi usado pelo seu efeito na qualidade do movimento, para criar, no filme, o salto idealizado que é despoletado pelo esforço em contradizer a gravidade, surgindo sem preparação a partir de uma pirueta. No filme o salto é sustido durante meio minuto, bastante mais tempo que o humanamente possível. Isto foi conseguido através de uma relação entre o ângulo da câmara e campo de visão com a montagem do filme. Começa com uma salto de Beatty a largar o chão, cortado antes da sua descida. Segue-se um grande-plano do tronco que passa no enquadramento em ascensão; segue-se uma figura completa do salto de Beatty, mas em que não vemos a origem e finalização do salto; segue-se ainda um grande-plano do seu tronco a descer lentamente; e mais uma vez o corpo inteiro que desce, incluindo o aterrar e a postura final. Aqui está em filme o salto flutuante, idealizado.