A LINGUAGEM DA DANÇA NA CULTURA DE MOVIMENTO Raimundo Nonato Assunção Viana Mestrando em Educação PPGEd – UFRN Terezinha Petrúcia da Nóbrega Dra. – UFRN A construção deste artigo iniciou-se com o questionamento sobre qual seria a contribuição das danças tradicionais brasileiras para a linguagem da dança, e, para a vivência da cultura de movimentos, bem como, as possibilidades conceituais e metodológicas para o ensino dessas danças no contexto da Educação Física. Ao discorrermos sobre cultura, educação, cultura de movimento e dança, fazemos um convite à reflexão sobre o conceito de dança na perspectiva de sua resignificação na interface com a cultura brasileira, também quanto as possibilidades pedagógicas para a tematização das danças tradicionais do Brasil, na cultura de movimento enquanto critério organizador do conteúdo da prática pedagógica da Educação Física. Considerando a cultura como a transformação e apropriação do mundo, seu conhecimento, o poder, as relações sociais, a arte, a religião e etc. A educação é, portanto, aprendizagem da cultura, e o faz, atentando sobretudo as relações dos acontecimentos do passado e do presente, procurando compreender a produção da mesma, e visando participação mais significativa nos acontecimentos futuros e prosseguimento da história cultural (REZENDE, 1990). A educação escolar constitui-se num sistema de instituição de ensino com propostas intencionais, práticas sistematizadas e alto grau de organização ligados intimamente as demais práticas sociais. A escola torna-se por excelência, um espaço no qual, a partir das relações estabelecidas entre a educação e o mundo , entre o educando e a cultura, ocorre o fenômeno da aprendizagem da cultura. Ressaltamos ainda que, não será de uma cultura feita, mas, se fazendo, onde a intenção pedagógica possa ser vivida como uma experiência entre o educador e o educando, devendo portanto, superar o conceito de ato pedagógico como transmissão de um determinado conteúdo, supondo “um discurso pedagógico que busque a constatação, a compreensão, a interpretação e a projeção da realidade” (MOREIRA, 1990, p. 30). Entre os legados culturais inseridos no ambiente escolar, estão as expressões da ”cultura de movimento”, expressão utilizada por KUNZ (1991, p.38), para significar “uma conceituação global de objetivações culturais, em que o movimento humano se torna o elemento de intermediação simbólica e de significações produzidas e mantidas tradicionalmente em determinadas comunidades e sociedades” isto é, “todas as atividades do movimento humano, tudo que o homem produziu ou criou através do seu movimento de acordo com sua conduta, com o seu comportamento, são definidos como cultura do movimento” (KUNZ, op cit p.62). A cultura de movimento se expressa sob as mais diferentes formas de danças, jogos, competições, ou teatro de movimentos, que, ao lado da ginástica, das lutas entre outras constituem o conteúdo da educação física escolar, esta por sua vez, enquanto componente curricular tem como competência dar tratamento pedagógico a estes temas, reconhecendo-os como dotados de significados e sentidos, porquanto constituído historicamente. É, portanto, considerada como critério organizador do conteúdo da prática pedagógica da Educação Física (KUNZ, op cit). Gostaríamos de destacar que, apesar de existirem outras nomenclaturas na área, como cultura corporal e cultura corporal de movimentos, que também são utilizadas para definirem a organização do conteúdo da Educação Física, optamos por escolher o conceito cultura de movimentos, porque os anteriores deixam margens a dualismos e a redundâncias. A expressão da cultura do movimento a ser objeto de análise deste artigo é a dança. A dança é expressão através do movimento do corpo, organizado em seqüências significativas e transmite sentimentos, emoções, valores, vontades, idéias, costumes. É uma forma de expressão da cultura de um indivíduo, grupo social, comunidade, classe, religião, raça, etc. É uma criação de homens e mulheres concretos que utilizam o movimento como linguagem. Ao dançar o homem se movimenta, este movimento é repleto de sentidos e significados, através dele, a interioridade do homem se encontra com o mundo e revela uma relação singular com sua corporeidade. O movimento não é meramente mecânico e não acontece no abstrato, é a expressão de seres que vivem em contextos históricos diferenciados, portanto, deve ser analisado a sua simbologia e ser considerado um elemento constituitivo da cultura, pois, enquanto linguagem está carregado de significado que traduzem símbolos. Desde a origem das sociedades, é pela dança e pelo canto que o homem se afirma como membro de uma comunidade que o transcende. Para GARAUDY (1980 ), dançar é vivenciar e exprimir com o máximo de intensidade a relação do homem com a natureza, com a sociedade, com os seus deuses. Dançar é antes de tudo estabelecer uma relação ativa entre o homem e a natureza, é participar do movimento cósmico e do domínio sobre ele. Como afirma o autor, a dança é um modo de existir: não apenas um jogo, mas celebração, participação e não espetáculo, a dança está presa a magia e a religião, ao trabalho e a festa, ao amor e a morte. Os homens dançaram os momentos solenes de sua existência: a guerra e a paz, o casamento e os funerais, a semeadora e a colheita (GARAUDY op . cit, p.13). A dança é uma expressão da cultura que pode, através de movimentos, contar-nos, entre outras coisas, a história de um povo. No processo histórico de aquisição de conhecimentos concebidos através das relações sociais, a educação é um veículo pelo qual o movimento histórico cultural da humanidade prossegue e se transforma de geração em geração. Como forma de conhecimento, de experiência estética, de expressão do ser humano ,a dança pode ser elemento de educação social do indivíduo. Neste contexto, entendemos que a dança deve propiciar no processo educativo, o resgate de cultura de movimentos, que são fenômenos histórico-culturais, que não devem ser omitidos. E é com este significado que entende-se ser o ,papel da educação, ou seja, resgatar também toda essa riqueza da cultura através da dança.´ KUNZ (1991, p.188) afirma que “quando da utilização de culturas tradicionais, no caso , a dança, não se deve trabalhar somente o sentido prático dessas culturas, mas, redimensioná-las, dando novas formas e sentidos, reinterpretando-as através da iniciativa e criatividade dos alunos, levando-os a uma atitude reflexiva sobre valores e a ideologia implícitas nestas culturas.” A dança pode ser o espaço onde o aluno pode entender as suas características, sua história, reconhecer suas qualidades de movimento expressivo fazer uma análise cultural, isto é, reconhecer a construção cultural deste conteúdo, como as instituições se apropriaram dele, o significado ao longo do tempo; seu papel na sociedade. Enfim, deve oferecer ao aluno uma verdadeira experiência corporal. A respeito do termo, cita-se: a experiência corporal e do movimento inclui a percepção, anterior a qualquer formação de conceitos das possibilidades e dos limites do corpo físico - `conhecimento´ este fundado em experiência anteriores e nas características da situação presente ao mesmo tempo, a percepção do mundo circundante, em sua relação com ele.(GONÇALVES,2000, P 146). O conhecimento da dança poderá proporcionar aos alunos uma autêntica experiência corporal a fim de que o mesmo possa lidar de forma adequada com sua corporeidade, no sentido de conscientizar-se corporalmente, experimentar com o corpo, experimentar seu corpo no espelho dos outros, vivenciar a expressividade do corpo e da interpretação da linguagem corporal do outro. A linguagem do corpo constitui a base de todas as comunicações, é através do seu corpo, através do seu movimento que o homem se relaciona com algo exterior a ele próprio. A partir destas relações corporais com o mundo, que se desenvolvem trocas cada vez mais socializadas que se expressam de diferentes maneiras, como a linguagem gráfica e a linguagem verbal. A escola deveria utilizar-se de todas essas linguagens para atingir seu objetivo que é a transmissão do legado cultural da humanidade. É no ambiente escolar que as pessoas tornam-se mais inseridas na sua cultura, tudo que diz respeito ao homem e a sua cultura devem ser levados em consideração no processo pedagógico; os elementos cinemotores (corpo, espaço, tempo e forças motoras coordenativas) do movimento como linguagem corporal, transcrito na gestualidade, na oralidade, na escrita e nas imagens, e a possibilidade de articular sentidos afetivos, ”o homem não aprende somente com sua inteligência, mas, com seu corpo e suas vísceras, sua sensiblidade e sua imaginação“ (REZENDE, 1990 p.49). O corpo está longe de ser reduzido a um instrumento de expressão técnica, de está enraizado, ou seja,sua respiração, sua energia, comunica e portanto constitui linguagem. Ele fala, brinca consigo mesmo, com o chão, com o ar , com objetos e outros corpos ,é mais que técnica de expressão corporal, pois tende a sofrer uma elaboração estruturada de acordo com o contexto sóciocultural. Para DANTAS (1999) “não existirá significação em dança se não houver denominação, se os movimentos, os gestos, a coreografia não forem abrigados e, ou percebidos no contexto da linguagem.” .Isto porque o sentido só existe quando é denominado, e o mundo dos significados, ocorre sempre e cada vez mais a partir da linguagem falada , ou escrita. A partir dos pressupostos sobre educação, cultura, cultura de movimento, interrogamonos sobre a linguagem da dança como vivência da corporeidade no contexto das aulas de Educação Física. Considerando-se que nos estudo sobre dança, há diferentes classificações ou gêneros (clássico, moderno, dança de salão, folclórico, etc ) nos identificamos com o gênero dito popular, conceituado como: tipo específico de danças que anonimamente caíram no domínio público e são dançadas em várias ocasiões sociais, especialmente pelos escalões subalternos de uma sociedade de classes, persistem no tempo, continuam preservando o mesmo elemento de uma mesma estrutura apesar de estarem sendo constantemente criada pela iniciativa criadora dos seus praticantes ou por necessidade de adaptação a um novo contexto” (OLIVEIRA, 1993, p.31). No entanto há criticas sobre a fragmentação entre os conceitos de arte popular e arte erudita ou de cultura popular e cultura erudita. Baseando-se sobretudo na dinamicidade dos processos sociais e culturais, SHURSTERMAN (1998), ao discutir sobre a estética da arte popular frente a arte erudita, enunciada pelo autor como arte maior, afirma que junto aos filósofos e teóricos da cultura, a arte popular não tem gozado de tamanha popularidade, quando não é completamente ignorada, indigna, é rebaixada a lixo cultural. Seguindo o pensamento do autor, a própria história nos mostra que o divertimento popular de uma cultura, pode se tornar o grande clássico de outra época, ou dentro de um mesmo período cultural dependendo da maneira como é interpretada e apropriada pelo público. “Em ambos os tipos de arte, a distinção entre eles sendo mais flexível e histórica do que rígida e intrínseca, existe necessidade como espaço para julgamento de seus sucessos e fracassos do ponto de vista estético” (SHURSTERMAN, op. cit., p.103). Sob este ponto de vista, acreditamos que o que se denomina de cultura popular não existe isoladamente, protegida dos condicionantes sociais, da indústria cultural e da própria dinamicidade, deveremos abordá-la como: “manifestação diferenciada que se realiza no interior de uma sociedade que é a mesma para todos, mas, dotada de sentidos e finalidades diferentes para cada uma das classes sociais” (CHAUÍ, 1996, p.24). Embora neste momento já sentimos necessidade de uma reflexão sobre o conceito de dança popular considerando o limite das conceituações e classificações sobre os diferentes tipos de dança ressaltamos que não é objetivo imediato deste artigo. Em princípio, ao invés de usar o termo popular, utilizaremos o conceito de danças brasileiras, como danças tradicionais de nossa cultura e que são resignificadas em diferentes contextos, onde sejam criadas, dançadas, ensinadas, aprendidas, recriadas e apreciadas. Considera-se inclusive estudos que apontem necessidade de se pensar sobre a dança que se faz e que se dança no Brasil e, que tem interfaces com as manifestações das tradições culturais do nosso país. Essas danças seriam populares porque presentes no dia a dia, de número considerável de pessoas que as tratam como uma coisa que deve ser consumida (dançada ou assistida) por prazer e principalmente por um prazer que se escolhe (...) Ao mesmo tempo estarão ligadas a diversas tradições de cada nação, região ou grupo de pessoas que as habitam (...). (NAVAS, 1999, p.66) Compreendendo a educação como um dos possíveis contextos onde a linguagem da dança pode ser resignificada, entre outros elementos a partir da interface com as danças brasileiras, não podemos deixar de atentar para a forma como essas danças são tratadas no contexto da educação escolarizada em especial na Educação Física.. Em geral, estas são levadas para a escola com o propósito de resgate cultural e são especificamente trabalhados nas datas comemorativas, resumindo-se apenas na leitura de suas tradições e nas repetições mecânicas de coreografias construídas historicamente. Ora, se todas essas manifestações trazem no ser bojo uma riqueza de movimentos, aqui entendidos como uma totalidade dinâmica que se reestrutura, a cada instante em função de dois pólos, homem e mundo, por quê não utilizá-las como um instrumento de uma disponibilidade corporal no sentido de apreensão sem ênfase nas coreografias tradicionais, sem no entanto deturpar o significado nelas implícitos? Faz-se necessário, portanto, uma nova abordagem de linguagem da dança. (...) Trilhar os caminhos da dança, de sua história, de sua sensibilidade, não é reproduzir fria e estaticamente a sua construção, nem tão pouco fatigar por meio de uma retrospectiva histórica, a todos que já se envolveram com a mesma de uma forma ou de outra, mas visualizá-la com novos `olhos´, é poder reescrevê-la, reinterpretando-a (LARA,1993). No âmbito da cultura de movimento, a dança é uma linguagem, um patrimônio da humanidade que deve ser vivenciado pelos alunos. Fazer uma análise dessa linguagem implica em entender que o ser humano vive com o seu ambiente em constante processo de trocas, além disso, remontar a entender que o princípio dessa linguagem reside na ação, no agir, e na atividade. A partir das considerações, afirmamos nosso convite a reflexão sobre: qual a contribuição das danças brasileiras para a linguagem da dança e para a vivência da cultura de movimento? e quais as possibilidades conceituais e metodológicas para o ensino das danças brasileiras no contexto da Educação física? REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AYALA, Marcos & AYALA, Maria Ignez Novais. Cultura popular no Brasil. São Paulo: Ática, 1987. BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares de Educação Física. Brasília, 1998. CHAUÍ, Marilena. Conformismo e resistência: aspecto da cultura popular no Brasil. São Paulo: Ed. Brasiliense. 1996 DANTAS, Mônica. Dança, o enigma do movimento. Porto Alegre: Editora da Universidade, UFRGS,1999. GARAUDY, Roger. Dançar a vida. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1980. GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 4ª ed. São Paulo: Atlas, 1995. GONÇALVES, Maria Augusta Salin. 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