III Encontro Nacional de Estudos da Imagem 03 a 06 de maio de 2011 - Londrina - PR MEMÓRIAS DE DAVID Daiane Vaiz Machado Universidade Federal do Paraná Bolsista CAPES Jean-François Sirinelli ressaltou em certo momento a dificuldade que encontram os estudiosos que têm como objeto de estudo o(s) “intelectual(is)” no que se refere à abundância documental. É célebre e aterrorizadora a frase que reproduz de Tocqueville, “eu era como o minerador de ouro sobre cuja cabeça a mina estivesse desabado: estava esmagado sob o peso de minhas notas e não sabia mais como sair dali com meu tesouro." (TOCQUEVILLE apud SIRINELLI, 2003, p. 244-246). As palavras de Tocqueville tornaram-se aterrorizadoras devido a sua assertiva para a dissertação que tem como tema a biografia intelectual do paranaense David Antonio da Silva Carneiro (1904-1990). Nosso personagem foi um ávido escritor, possuí uma extensa produção bibliográfica além de documentação produzida sobre ele (embora esta não seja abundante), como o documentário Memórias de David, aqui analisado. Diante da especificidade desta “fonte”, o documentário, couberam algumas indagações: como tratar esta fonte em meu trabalho? Utilizar, deliberadamente, as falas ali presentes como “discursos objetivos”? Considerá-lo um complemento diante dos demais documentos? Estas são as questões que pretendemos debater neste texto. É notável a crescente reflexão acerca do olhar cauteloso que o historiador deve ter ao tomar narrativas fílmicas como objeto de análise, durante algum tempo os historiadores ou simplesmente ignoraram esse tipo de narrativa devido a sua liberdade de polemizar com os dados históricos (filmes de ficção, teledramaturgias), o que, para eles, tornava a narrativa muito “subjetiva”, ou sem questioná-la beberam da sua fonte (documentário), nesse caso as imagens apresentadas tidas como “objetivas” foram utilizadas como complemento dos documentos escritos ou até como confirmação e ilustração de acontecimentos históricos. A teoria da história e a historiografia vêm questionando a ilusão de objetividade nos documentos escritos herdadas de uma abordagem positivista e metódica, a prudência com relação ao tratamento devido aos vestígios do passado se estendeu ao documento audiovisual (cinema, televisão e registros sonoros). O historiador Marcos Napolitano ressalta a 723 1 III Encontro Nacional de Estudos da Imagem 03 a 06 de maio de 2011 - Londrina - PR necessidade de se considerar no estudo de documentos audiovisuais a tensão entre evidência e representação da realidade passada. (NAPOLITANO, 2010, p. 236). A questão torna-se ainda mais problemática quando o objeto de análise é um “documentário”, o problema inicia-se logo na sua raiz etimológica, “documentum, que significaria exemplo, modelo, lição, ensino, demonstração, prova.” (MENEZES, 2003. p. 91, grifo do autor). A narrativa fílmica nasceu como gênero que deveria supor uma relação direta com a realidade, portanto devido a sua ética com a verdade seria distinta de filmes de ficção. Este tipo de filme documentário com o seu “potencial de verdade” foi largamente utilizado pelos historiadores sem qualquer questionamento. Os estudiosos vêm apontando que é tênue a fronteira entre o gênero ficcional e o documental, pois é preferível trabalhar com a relação existente entre ambos, para Lagny a diferença entre cinema do real e cinema de ficção é incerta, “os limites entre os gêneros não são estanques e a ficção se inspira freqüentemente no documentário ou o documentário na ficção.” (LAGNY, 2009, apud SEBRIAN, 2010, p.05). Segundo Robert A. Rosenstone o documentário também às vezes usa imagens que são aproximações mais do que realidade literais (uma paisagem hoje no lugar da mesma paisagem em algum momento do passado, imagens genéricas de soldados no lugar de imagens específicas), ocasionalmente dramatiza cenas e regularmente cria uma estrutura que adapta o material às convenções de um filme dramático, um enredo que começa com problemas, questões e/ou características, desenvolve suas complicações ao longo do tempo e as resolve no final do filme. (ROSENSTONE, 2010, p. 110). O documentário é dotado de intencionalidade, deve ser tratado como “construção, sempre como construção, e, portanto, como sendo sempre parcial, direcionado, e, no limite, interpretativo.” (MENEZES, 2003, p. 93). Em Memórias de David notamos a intenção implícita de preservar as memórias de um ícone da intelectualidade paranaense. A diretora Berenice Mendes e a produtora Lu Rufalco pretenderam “deixar à comunidade um documento histórico envolvendo não só a vida de David Carneiro mas a sua extensíssima obra como escritor e também como colecionador.” (EM VÍDEO, AS MEMÓRIAS DE DAVID CARNEIRO, 1988, s/p). Percebemos no discurso das idealizadoras que o documentário tomou o caráter de registro documental na concepção de documentário com finalidade pedagógica, pois nas palavras de René Dotti, por meio do documentário que trata da vida e da obra de David Carneiro os expectadores teriam acesso à História do Paraná. Este tipo de narrativa fílmica que possuí um personagem com centro é denominado, segundo Rosenstone, de cinebiografia. O estudioso ressalta a similaridade existente entre as cinebiografias e as biografias escritas, que no limite possuem a mesma intenção, tratar da vida 724 2 III Encontro Nacional de Estudos da Imagem 03 a 06 de maio de 2011 - Londrina - PR de um personagem histórico. Ambas, narrativa escrita e fílmica, precisam selecionar fatos, dão maior visibilidade à determinadas passagens de uma trajetória, à determinadas vinculações sociais e espaços ocupados, articulam, enfim, os vestígios de uma vida em uma trama. Para Rosenstone, “tanto o biógrafo quanto o cineasta se apropriam de alguns dos detalhes remanescentes de uma vida e os tramam para formar um enredo que tem um tema que infunde significado nos dias do biografado.” (ROSENSTONE, 2010, p. 139). O gênero biográfico escrito é demasiadamente antigo mas, segundo François Dosse (2009), ao longo do século XIX e metade do século XX a biografia foi objeto de um interdito nos meios eruditos das ciências humanas. Foi apenas com a revalorização das ações dos indivíduos e dos fenômenos intencionais, a partir da década de 1980 aproximadamente, que esse gênero foi reabilitado (SILVA, 2003, p. 20). Nessa nova configuração os estudos de biografia histórica não têm a pretensão de uma biografia total, interrogar uma vida não significa traçar um percurso linear para o sujeito, mas sim, considerar os seus vínculos plurais, a “pluralidade das identidades, o plural dos sentidos da vida.” (DOSSE, 2009, 359). Alerta Rosenstone, assim como a nova abordagem da biografia escrita abandonou a pretensão de retratar o personagem em sua realidade passada o filme também não pode “criar o enredo verdadeiro”. (ROSENSTONE, 2010, p.131). Produzido em menos de duas semanas Memórias de David é um documentário relativamente breve, com cerca de 25 minutos, neste curto espaço de tempo são selecionadas fases da vida de David Carneiro que não são tratadas de forma linear, vislumbramos o Carneiro museólogo preocupado com o patrimônio histórico, jornalista, pesquisador da Revolução Federalista no Paraná, positivista, esposo “formidável”. O documentário foi produzido em 1988, dois anos antes do falecimento de Carneiro. Em seus 84 anos de idade, o personagem central é retratado em seu museu, em sua biblioteca e jardim de sua residência, lugares que compõe o mesmo espaço físico. Carneiro e a esposa, Marilia Suplicy de Lacerda Carneiro, são indagados sobre temas selecionados e discorrem sobre eles. A fala de ambos é direcionada segundo os temas suscitados pela roteirista. Os demais participantes, a partir de suas competências, ressaltam algumas atividades exercidas e características gerais das obras desse estudioso. Assim, Cassiana Lacerda Carollo com seu atributo de professora lembra as condições educacionais privilegiadas que David Carneiro teve, tornando-se notável, para ela, que todo o investimento cultural tenha sido potencializado “numa permanente reflexão da história e do passado nacional”. A professora finda sua participação frisando “a permanente vigilância, defesa e criação condições de acesso ao nosso patrimônio”, empreendidas por Carneiro. Foi esta 725 3 III Encontro Nacional de Estudos da Imagem 03 a 06 de maio de 2011 - Londrina - PR atividade de protetor do patrimônio histórico no Paraná a enfatizada por José de La Pastina, superintendente regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. David Carneiro durante 16 anos manteve a coluna “Veterana Verba” no Jornal Gazeta do Povo, um dos jornais de maior circulação no Estado. Foi seu diretor, Francisco da Cunha Pereira Filho quem convenceu a família, devido ao estado de saúde de Carneiro, de que era “imprescindível a colaboração de David Carneiro por que a cultura do professor David Carneiro não pertence apenas a cidade de Curitiba, mas pertence a todo o Paraná e ao Brasil, é sem dúvida um dos grandes historiadores da nossa terra e uma das grandes culturas [...]”. A afirmação de que David Carneiro era considerado um dos grandes historiadores do seu tempo também foi partilhada por Cecília Maria Westphalen, professora de história da Universidade Federal do Paraná. Envolta em uma atmosfera de saber representada pela biblioteca da qual proferiu seu depoimento (provavelmente a biblioteca da universidade na qual lecionava), Westphalen fala do tipo de história feita por David Carneiro: história política, social, econômica, administrativa e militar. A historiadora ressalta que Carneiro foi um dos poucos historiadores do Paraná que se preocuparam com a historiografia paranaense. A qualidade e a diversidade dos escritos do intelectual paranaense também estiveram presentes na fala de Túlio Vargas, escritor e presidente da Academia Paranaense de Letras. Para Túlio Vargas, David Carneiro é referência fundamental para todos aqueles que desejam fazer pesquisas sobre a história do Paraná. Os depoentes são pessoas que compartilham o mesmo universo social de David Carneiro, seus discursos são carregados de tons de admiração pelas atividades destacadas, podendo ser qualificados também como “testemunhas” de uma vida e admiradores dela. A narrativa fílmica também é composta por muitos registros fotográficos. Poderíamos afirmar que a passagem de diversas fotos do casal Carneiro em suas viagens ao exterior, em seus momentos familiares com os filhos, são efeitos para confirmar a afirmação da esposa Marília, “David é um esposo formidável”. A trilha sonora também completa a representação de um ambiente familiar e romântico, durante a passagem das fotos o espectador ouve a música Elegia interpretada por Caetano Veloso. Como figura pública há a exibição de fotos de Carneiro conferindo palestras e participando de eventos. Registrou-se também os seus vínculos sociais mais representativos, fotos ao lado de Luiz Carlos Prestes, do pianista Artur Moreira Lima e do artística plástico João Turin. Durante toda a narrativa fílmica notamos uma tentativa de harmonizar as falas, imagens, poemas e trilha sonora. 726 4 III Encontro Nacional de Estudos da Imagem 03 a 06 de maio de 2011 - Londrina - PR Dois temas estão muito presentes no documentário: o museu Coronel David Carneiro e o acontecimento da Revolução Federalista no Paraná. Como observamos nas falas dos participantes do documentário, Carneiro dedicou-se a preservação do patrimônio histórico paranaense e da história escrita do seu estado. A maior parte do documentário é ambientada em seu museu, inclusive a primeira participação de David Carneiro refere-se a sua definição do que seria um museu “o museu é acervo de coisas do passado que ficaram resguardadas para que servissem de modelo de incentivo à trabalhos futuros”. Criado em 1928, o “Museu Coronel David Carneiro”, reuniu um grande acervo que privilegiou, sobretudo, acontecimentos regionais. Carneiro ressaltou no seu museu o que deveria ser guardado na memória, rememorado, vangloriado. Organizado segundo os princípios de Augusto Comte, Carneiro representou nesse espaço a história a partir de suas concepções. O acervo do museu é privilegiado pelas câmeras, entre os objetos retratados estão estátuas, vasos, quadros, retratos, armas, canhões, medalhas e uniformes. As câmeras transitam pelo museu e nesse momento ora se ouve ao fundo batidas de coração ora sons de pessoas rindo, conversando, vozes de criança e latidos de cachorros. Acreditamos que esses sons e o movimento das câmeras podem ser metáforas de um “museu vivo”, museu que para Carneiro emite sentidos, pois serve para “incentivar trabalhos futuros”. O museu também foi fundamental para seus escritos, notadamente o empreendimento historiográfico sobre a Revolução Federalista no Paraná. Se o interesse pela preservação de objetos foi incentivado pelo pai e avô paterno, o interesse pelo Cerco da Lapa foi aguçado quando era noivo de Marília, filha de família tradicional da Lapa. A partir das conversas com o sogro intensificou-se o interesse pelo episódio e se iniciou a busca por objetos que fizeram parte daquele acontecimento, armas, canhões, medalhas, uniformes, jornais, atas, diários, toda e qualquer espécie de documentos relativos ao evento. Dessa forma, partimos da hipótese que Carneiro ao criar um “lugar de memória” (conforme concebeu Pierre Nora), o “Museu Coronel David Carneiro”, instituiu o seu local de produção privilegiado a partir de temas pertencentes ao acervo do museu ao qual era diretor. É recorrente em suas produções escritas notas de rodapé avisando o leitor que pode encontrar aquela peça de artilharia ou uniforme militar, aquela carta, ofício ou jornal no “Museu Coronel David Carneiro”. Os livros que abordam o episódio do Cerco da Lapa durante a Revolução Federalista no Paraná são os que se sobressaem em relação ao rigor da descrição do cenário do episódio. 727 5 III Encontro Nacional de Estudos da Imagem 03 a 06 de maio de 2011 - Londrina - PR As primeiras produções de Carneiro como historiador foram sobre a Revolução Federalista. Publicou, em 1934, O Cerco da Lapa e seus Heróis, posteriormente Os fuzilamentos de 1894 no Paraná, em 1937, O Paraná e a Revolução Federalista, em 1944, e no mesmo ano Os Dois Máximos Heróis da Resistência da Lapa, retomando o tema em suporte literário/ficcional com Um Noivado em 1894, reeditado em 1971 sob o título Rastros de sangue.... Suas obras ressaltaram o tom dramático dos conflitos armados em solo regional, essa mesma dramaticidade esteve presente no documentário quando o tema foi abordado. Durante a narração do poeta Wilson Bueno, contextualizando o espectador sobre os acontecimentos da Revolução Federalista no Paraná, cenas do conflito (pinturas e desenhos, material pertencente ao acervo do museu), passam ligeiramente com som de tiros de canhão e balas de revolveres ao fundo. A entonação da voz do narrador, os efeitos sonoros, a forma com as imagens são filmadas, são recursos para aumentar o impacto da imagem e provocar sentimentos no espectador. Em seus escritos Carneiro defendeu a idéia de que esse foi o período mais marcante da história paranaense, discordando de historiadores contemporâneos seus como Romário Martins e Francisco Negrão, que não consideram, como ele e Ermelino de Leão, que “a Revolução Federalista tivera importância capaz de moldar a feição social do nosso Estado.” (CARNEIRO, 1971. p.5). O episódio federalista em si, para Carneiro é um divisor de águas na história do Estado, é o primeiro movimento nacional de participação militar intensa, do qual o Paraná deve se orgulhar porque cumpriu o seu papel, pois, embora invadido, defendeu a República e foi parte importante para a sua manutenção. A ênfase dada no documentário para esse evento denota a tentativa de legitimação de uma narrativa sobre o episódio federalista no Paraná, corroborando assim para a solidificação da memória do evento no imaginário social paranaense, lembremos que o documentário foi produzido em co-produção com órgão oficial do estado, a Secretaria da Cultura. O episódio do Cerco da Lapa durante a Revolução Federalista está muitas vezes associado ao seu acervo no museu. O museu foi a menina dos olhos de seu criador e desde o momento de feitura do documentário já vinha sendo alvo de disputas devido a dívidas contraídas. Após o seu falecimento iniciou uma queda-de-braço entre os herdeiros do museu, o Banco do Brasil, representantes do Estado e de instituições de preservação da memória. O museu também foi o local onde Carneiro costumava reunir-se com seus pares. “Há cerca de 50 anos reúne, ininterruptamente, aos domingos, às 10 horas, no Museu Coronel David Carneiro, um grupo de amigos, que abordam temas filosóficos, históricos e políticos 728 6 III Encontro Nacional de Estudos da Imagem 03 a 06 de maio de 2011 - Londrina - PR etc...” (ACADEMIA BRASILEIRA DE HISTÓRIA, p. 13, grifo nosso)1 . Era nas dependências do museu que funcionava o Centro de Propaganda do Positivismo no Paraná, fundado em 1927. Carneiro foi um entusiasta da filosofia positivista de Augusto Comte e adepto fervoroso da “Religião da Humanidade”. No documentário Carneiro é chamado a explicar a importância do positivismo. Sua fala iniciasse logo após a passagem de uma imagem que representa uma mulher toda vestida de preto com um guarda-chuva da mesma cor sendo rodado por ela enquanto de costa para o espectador segue caminhando. A imagem se fecha no centro e iniciasse a filmagem das estátuas que representam as grandes figuras da humanidade, segundo o apostolado positivista. A figura da mulher pode simbolizar o grande ícone dos positivistas, a escritora francesa Clotilde de Vaux co-fundadora da “Religião da Humanidade”, e o sentido do seu caminhar para frente é logo significado nas palavras de David Carneiro, “e o homem vai andando no sentido positivo, no sentido científico, ele vai acreditando nas coisas reais cada vez mais, nas coisas úteis, nas coisas certas e depois nas coisas relativas, e a relativização das coisas torna tudo mais compreensível”. Ao lado da crença em princípios racionais e de uma verdade científica e exclusivamente humana, Carneiro também ressalta os valores morais quando fala do “simpático”, que seria o amor e a solidariedade que é devido aos homens entre si, de acordo com a religião positivista. As idéias comteanas foram notadamente importantes para as tomadas de posições de David Carneiro, para a sua visão do movimento histórico, para sua pesquisa e interpretação da história. Após as bonitas falas da esposa dedicada, causa certo espanto quando Carneiro responde negativamente a pergunta: “o senhor se considera uma pessoa feliz?”. Se o positivismo estava presente em sua visão de mundo só haveria felicidade completa quando sua esposa abandonasse as crenças teológicas. Considerações finais Memórias de David foi produzido em março de 1988, mas podemos dizer que era aguardada desde outubro de 1987. Na referida data o jornalista Aramis Millach em sua coluna “O campo de batalha” publicada no jornal O Estado Paraná, noticia o novo projeto de diretora Berenice Mendes, “realizar um curta-metragem sobre o professor David Carneiro, que aos 83 anos é o último remanescente de uma escola da intelectualidade paranaense”. (MILLARCH, 1987, p. 03). A diretora naquele momento vinha se destacando com as sua produções, Millarch destacou seu recente prêmio em Fortaleza devido a produção do média729 7 III Encontro Nacional de Estudos da Imagem 03 a 06 de maio de 2011 - Londrina - PR metragem "A Classe Roceira". O jornalista, um amante do cinema, noticiou durante longo período todos os passos dados para que se viabilizasse o projeto da diretora Berenice do longa-metragem baseado no romance histórico "O Drama da Fazenda Fortaleza", do “mestre” David Carneiro2. É devido ao intenso contato com David Carneiro para tratar do roteiro de “O Drama da Fortaleza”, que Berenice, tendo em conta a idade avançada do estudioso, levou ao conhecimento da Secretária do Estado da Cultura o projeto de registrar as memórias de David Carneiro. Assim que o projeto recebeu parecer favorável Millarch publicou, em janeiro de 1988, em sua coluna o texto “‘Memória de David’, um registro indispensável”, reafirmando a homenagem que é devida ao historiador paranaense, pois num país de fraca memória cultural, no qual se perdem os melhores valores, um documentário sobre o professor David Carneiro - e que por conseqüência será também sobre o próprio Paraná, a Lapa (cuja história ele conhece melhor do que ninguém), e tantas personalidades e acontecimentos de nosso Estado, é projeto inadiável e imediato. (MILLARCH, 1988, p. 03). Para o jornalista, o documentário torna-se indispensável devido a necessidade dos paranaenses conhecerem o seu passado histórico e as suas personalidades ilustres. No documentário o secretário da cultura, René Dotti, ressalta as qualidades do público à que o documentário se destina: “um público generoso, e que certamente não é só um público espectador, mas é também um público testemunha da obra, do trabalho extraordinário de David Carneiro, e também do progresso desse nosso grande Estado”. Millarch e Dotti dirigem-se aos seus congêneres paranaenses. Encontramos a notícia da transmissão de Memórias de David ao público em geral somente por ocasião da celebração do sétimo dia de falecimento de David Carneiro. O documentário foi, então, exibido pela TV Educativa de Curitiba com a intenção de homenagear o ilustre morto e também relembrar aos paranaenses, mais especificamente aos curitibanos, quem foi David Carneiro. O documentário cumpre, assim, uma função social, preservar a memória de uma personalidade que deveria ser representativa do paranaense. Ele pode instruir o paranaense sobre o seu passado e seus personagens ilustres. O que reforça a capacidade “que as imagens cinematográficas (e também as imagens estáticas ou as imagens televisivas) possuem de se configurar como elementos de uma educação audiovisual, um meio de educação informal”. (SEBRIAN, 2010, p. 06). Acreditamos que a intenção dos produtores e idealizadores de Memórias de David foi construir um discurso histórico enquanto narrativa fílmica. Entre as interpretações possíveis 730 8 III Encontro Nacional de Estudos da Imagem 03 a 06 de maio de 2011 - Londrina - PR que o documentário pode suscitar, acreditamos que se construiu uma narrativa que buscou erigir um personagem símbolo paranaense, há um desejo manifesto de preservar as memórias de “um dos maiores representantes da inteligência paranaense”. Dessa forma, acredita-se que o documentário pode ser lido como um espaço onde se (re)constroem narrativas que se pretendem oficiais. Fonte: MEMÓRIAS de David. Direção: Berenice Mendes. Produção de Fernando Morini. Curitiba: Secretária de Estado da Cultura, 1988. 1 DVD. Referências bibliográficas: Academia Brasileira de História. Prof. David Carneiro, O historiador. Curitiba: Editora Lítero-Técnica, 1982. CARNEIRO, David. Rastros de Sangue...Curitiba: Max Roesner, 1971. DOSSE, François. O Desafio Biográfico: escrever uma vida. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2009. EM VÍDEO, AS MEMÓRIAS DE DAVID CARNEIRO. O Estado do Paraná, Curitiba, s/p., 03 abr. 1988. MACACHEIRA, Carlos A. Vinte e cinco minutos de memórias. O Estado do Paraná, Curitiba, p. 21, 18 ago. 1990. MENEZES, Paulo. Representificação. As relações (im)possíveis entre cinema documental e conhecimento. RBCS, São Paulo, v. 18, n. 51, p. 87-191, fev. 2003. MILLARCH, Aramis. "Memória de David", um registro indispensável. O Estado do Paraná, Curitiba, p. 03, 13 jan. 1988. Disponível em: <http://www.millarch.org/>. Acesso em: 03 abr. 2011. _______. No campo de batalha. O Estado do Paraná, Curitiba, p. 03, 14 out. 1987. Disponível em: <http://www.millarch.org/>. Acesso em: 03 abr. 2011. _______. O vídeo sobre David e o filme da bela Tânia. O Estado do Paraná, Curitiba, p. 03, 21 abr. 1988. Disponível em: <http://www.millarch.org/>. Acesso em: 03 abr. 2011. NAPOLITANO, Marcos. A História depois do papel. In: PINSKY, Carla B. (org.). Fontes históricas. 2. ed., 2ª reimpressão. São Paulo: Contexto, 2010, p. 235-289. ROSENSTONE, Robert A. A história nos filmes, os filmes na história. Tradução Marcello Lino. São Paulo: Paz e Terra, 2010. SEBRIAN, Raphael N. N. História e cinema. Guarapuava: Universidade Estadual do CentroOeste, 2010. Disponível em: < 731 9 III Encontro Nacional de Estudos da Imagem 03 a 06 de maio de 2011 - Londrina - PR http://moodle.unicentro.br/moodle/mod/resource/view.php?inpopup=true&id=40611>. Acesso em: 03 abr. 2011. SILVA, Helenice R. da. A História Intelectual em questão. In: LOPES, Marcos A. (org.). Grandes Nomes da História Intelectual. São Paulo: Contexto, 2003 SIRINELLI, Jean-François. Os intelectuais. In: RÉMOND, Réne. Por uma história política. 2. ed. Rio de Janeiro: UFRJ/FGV, 2003, p. 231-269. 1 Prática que parece ter permanecido, pois nos dias atuais, na cidade de Curitiba, há o encontro de um pequeno grupo de pessoas, seguidores da religião da humanidade, no “Centro Positivista do Paraná – Associado ao Movimento Ético e Humanista Mundial”. 2 Devido à falta de recursos financeiros o projeto não se concretizou. 732 10