Index SISTEMA DIGITAL DE INSTRUMENTAÇÃO E SEGURANÇA PARA REATORES NUCLEARES DE PESQUISA Mauricio A. C. Aghina e Paulo Vítor R. Carvalho Instituto de Engenharia Nuclear – IEN – CNEN/RJ Via 5 s/n, Cidade Universitária 21945-970 Ilha do Fundão, Rio de Janeiro, Brasil RESUMO Este trabalho descreve uma proposta para um sistema de instrumentação nuclear e segurança totalmente digital para o reator Argonauta. O sistema se divide nos subsistemas: Canal de Pulsos, Canal de Corrente, Instrumentação Convencional e Sistema de Segurança. A interligação dos subsistemas é feita através de rede local dupla redundante, usando o protocolo modbus/rtu. Tanto o Canal de Pulsos, o canal de corrente e o Sistema de Segurança utilizam módulos operando em redundância tripla. Keywords: digital, security, instrumentation, redundancy. I. INTRODUÇÃO A proposta deste trabalho é modernizar a instrumentação de fluxo neutrônico e a lógica de segurança do Reator Argonauta. A instrumentação atual é analógica e a segurança usa tecnologia de portas lógicas e ambas foram desenvolvidas no IEN. A principal dificuldade de conceber este novo projeto, foi de conciliar a confiabilidade técnica com a simplicidade e o custo. A confiabilidade devera ser mantida com o projeto estando dentro das normas regulatórias de hardware e software para instrumentação e segurança nuclear. A simplicidade se baseia em um projeto totalmente digital. As instrumentações neutrônica e convencional são conectadas, via rede, a um sistema de segurança com arquitetura de redundância tripla, o que torna fácil a programação de parâmetros e diminui a quantidade de ligações físicas entre elementos do sistema. A instrumentação neutrônica é constituída por um canal de pulsos e um canal de corrente. Cada canal é dividido em três módulos idênticos ligados a rede para que o sistema de segurança possa fazer uma lógica de votação usando redundância de 2 para 3. As saídas de dados dos canais contem as informações de contagem de pulsos ou corrente e o período, em unidades de engenharia (cps,A,seg) , e também o seu status de funcionamento. A instrumentação convencional é constituída de módulos de condicionamento de sinais analógicos ou digitais para converte-los em unidades de engenharia e envia-los, através da rede, ao sistema de segurança. O sistema de segurança é constituído de três processadores redundantes. Cada processador lê independentemente todos os módulos de instrumentação ligados a rede e verifica se houve ultrapassagem do nível de alarme programado ou falha. Através de um barramento interno os processadores se comunicam entre si, caso haja informações coincidentes de ultrapassagem de alarme ou falha em pelo menos dois processadores , as suas saídas são acionadas para que um votador analógico 2 para 3 acione o relé de scram do reator. A rede usada é dupla do tipo RS-485, usando o protocolo MODBUS RTU. Todos dados lidos na rede são enviados pelo sistema de segurança a um computador supervisório conectado a rede através de isolamento ótico. II. REDE Atualmente praticamente todos os sistemas modernos de instrumentação e controle utilizam redes locais em sua arquitetura básica, como o PROFIBUS da SIEMENS , FIELDBUS FOUNDATION ou o MODBUS da MODICOM. A rede é a espinha dorsal do sistema. A grande vantagem é a troca de dados já em unidades de engenharia. Deste modo o sistema fica praticamente imune a ruídos que degradam as grandezas analógicas e diminuindo muito o numero de fios das conecções da instrumentação ao sistema de segurança e supervisório. O padrão elétrico escolhido foi o RS-485, usando par trançado como meio físico. Este padrão é amplamente utilizado nos meios de controle de processos , devido a sua grande rejeição a ruídos e longas distancias de conecção. Todos os módulos da rede, bem como os processadores do sistema de segurança utilizam drivers para RS-485 isolados galvânicamente. O protocolo utilizado foi o MODBUS/RTU por ser um protocolo aberto e amplamente utilizado pelos sistemas supervisórios comerciais. Uma grande vantagem deste protocolo é a sua simplicidade, pois ele utiliza o conceito de registros. É como se ler uma variável na memória, só que utilizando uma rede. Outra vantagem é que o frame de dados é variável podendo-se ler quantos registros quiser. O Index método utilizado para verificação da integridade dos dados enviados é o CRC (Cyclic Redundancy Check) de 16 bits um dos mais utilizados em protocolos atualmente . A topologia da rede é do tipo Daisy chain, ou seja, cada elemento da rede se liga ao próximo. A rede é determinística do tipo master-slave. Os processadores do sistema de segurança são os masters e os demais módulos da rede ,bem como o sistema supervisório, são os slaves. Cada processador é independente, acessando seqüencialmente todos os módulos da rede. Quando este finaliza então o próximo executa a mesma tarefa. Este método é utilizado por segurança, para que não haja conflito de dados na rede e consequentemente perda dos mesmos. A rede em si é fisicamente dupla , caso haja a ruptura de uma, o sistema passa a operar automaticamente com a outra. A velocidade da rede é de 375 Kbaud. III. SISTEMA DE SEGURANÇA O sistema de segurança é composto de três processadores ( PS - processador de segurança) operando de forma redundante. Como foi dito acima os processadores são independentes, devendo cada um ler todos os módulos da rede. Os processadores se comunicam entre si utilizando um barramento proprietário, independente da rede principal. Este barramento serve para que os processadores possam trocar entre si, informações sobre a disponibilidade da rede para que não haja colisão na leitura de dados, e também os dados obtidos na leitura dos módulos da rede. Os dados lidos dos módulos são basicamente: contagem de pulsos (CPS) para módulos do canal de pulsos e corrente para módulos do canal de corrente, período ,nível de alarme ,ultrapassagem de nível de alarme, ultrapassagem de período mínimo e status de funcionamento do módulo. Após os três processadores lerem os módulos, é iniciado o processo de troca de informações. Cada processador analisa se houve ultrapassagem de nível de alarme, ultrapassagem de período mínimo ou falha no módulo, caso haja estas condições de falha, os dados são disponibilizados para que o próximo processador compare com os seus. Caso haja as mesmas condições de falha em dois módulos de um canal e pelo menos dois processadores tiverem estas mesmas informações, as saídas dos processadores são atuadas para que o votador de redundância 2 para 3 possa acionar o relé de scram do reator. As saídas dos processadores e o votador utilizam lógica dinâmica para garantir o conceito de falha segura, ou seja, quando a saída do processador esta no estado de não falha ela apresenta um nível pulsado e quando é mal funcionamento ou condição de falha o nível é zero. Após cada ciclo de leitura dos dados de todos os módulos da rede, estes são enviados para o computador supervisório. Cada processador possui circuito de watch-dog, resetando o mesmo em caso de mal funcionamento. IV. CANAL DE PULSOS O Canal de pulsos é constituído de três módulos redundantes. Cada módulo se divide em duas partes: preamplificador de pulsos (PP) e módulo processador digital (MPD). O preamplificador amplifica os pulsos analógicos do detector e os converte para pulsos digitais. O módulo processador digital faz a contagem dos pulsos sempre utilizando o intervalo de tempo de 50 ms, mas pode ser estendido para melhorar a estatística, ou seja, o tempo total de contagem é o somatório de vários intervalos de contagem de 50 ms até que o processador tenha contado 5 pulsos . Este método apresenta a vantagem de se ter um tempo de contagem rápido para altas taxas de contagem (máximo de 1 MCPS) e uma estatística mínima confiável em baixas taxas. A contagem é então normalizada em CPS para que se possa fazer um processo de filtragem digital, a fim de eliminar a flutuação estatística. Após a filtragem é também calculado o período. finalmente é analisado se estes dados ultrapassaram os níveis de alarmes programados. Os dados ficam disponíveis na memória para que os processadores do sistema de segurança possam acessá-los. Os níveis de alarme e constantes de configuração dos módulos ficam armazenados em memória flash. Esta programação é feita em um modo especial de operação, usando a rede e um computador rodando um programa especifico para este fim. O módulo também tem um modo de operação de teste. Neste modo o usuário, via chave, ou o sistema de segurança, via rede, forçam o preamplifiacdor a fornecer a máxima contagem permitida, para que o módulo possa apresentar ultrapassagem de alarme. V. CANAL DE CORRENTE O Canal de corrente é constituído de três módulos redundantes. Cada módulo se divide em duas partes: preamplificador analógico (PA) e módulo processador digital (MPD). O preamplificador analógico é um eletrômetro com a sua saída ligada a um conversor analógico digital (ADC). A saída de dados do conversor é serial e isolada opticamente, para que o ruído do módulo processador digital não interfira no eletrômetro. O chaveamento de escalas é feito pelo módulo digital usando sinais digitais isolados opticamente. O módulo processador digital após ler o ADC e selecionar a escala mais adequada executa as mesmas funções descritas no módulo processador digital do canal de pulsos. VI. INSTRUMENTAÇÃO CONVENCIONAL A instrumentação convencional é constituída de dois módulos distintos: Módulo de Aquisição Analógica (MAA) e Módulo de Aquisição Digital (MAD). O Módulo de Aquisição Analógica possui 16 entradas analógicas para monitorar os sensores da planta. Index O usuário pode programar, via computador remoto usando a rede, os parâmetros de span, unidade e alarme. Este parâmetros ficam armazenados em memória flash. Os dados em unidades de engenharia e ultrapassagem de alarme , bem com os parâmetros de programação, ficam disponíveis na memória para que os processadores do sistema de segurança possam acessá-los. O Módulo de Aquisição Digital é idêntico ao analógico, só que com 16 entradas digitais. Estes Módulos podem ser substituídos por PLCs comerciais que disponham de saída de dados em rede com protocolo MODBUS/RTU. Figura 1. Arquitetura do Sistema. Index VII. CONCLUSÕES Na instrumentação clássica de fluxo neutrônico as saídas dos equipamentos são sinais analógicos que são ligados a comparadores, também analógicos, e estes ao sistema de segurança, normalmente baseados em lógica de relés. As desvantagens deste tipo de instrumentação são: Ela é susceptível a ruídos que podem mascarar os valores dos sinais analógicos. Grande quantidade de ligações físicas e complexidade de projeto, pois cada instrumentação , principalmente o sistema de segurança, é especifico para cada reator. Dificuldade de peças de reposição e manutenção. Na instrumentação digital estas desvantagens são minimizadas. O problema de degradação de dados por ruído é mínimo, pois estes são enviados em unidades de engenharia. A quantidade de ligações físicas é muito reduzida devido a conecção de todos os instrumentos por uma rede local. A principal vantagem, é que o sistema de segurança é único para todos os tipos de projetos de reatores. O que muda são os parâmetros de programação do sistema de segurança, que são programados por computador em memórias não voláteis flash. Na programação de alarmes, que era feita com multímetros, tabelas e chaves de fenda na instrumentação convencional, passa a ser facilmente programada por computador usando valores com unidades desejadas. A principal razão de se adotar a lógica de relé para sistemas de segurança, era o conceito da falha segura, pois ele sempre ficaria num estado definido em caso de falha desconhecida, o que não ocorre num circuito digital. Este problema agora é superado com o emprego de módulos de redundância tripla . Atualmente já se encontram no mercado PLCs qualificados nuclearmente para sistemas de segurança para reatores nucleares de potência, como o TELEPERM XS da SIEMENS e o TRICON da TRICONEX, ambos com tecnologia de redundância tripla. A intenção deste projeto é de se ter um sistema de instrumentação e segurança digital dentro das normas nucleares de segurança com baixa complexidade e custo reduzido. REFERÊNCIAS [1] IEC 880, Software for Computers en the Safety Systems of Nuclear Power Stations– 1986. [2] IEC 801, Electromagnetic Compatibility for Industrial Process Measurement and Control Equipment (Partes 1 a 6). [3] IEEE 7.4.3.2, Application Criteria for Programable Digital Computer Suystems of Nuclear Power Generating Stations. [4] ANS 10.4, Guidelines for the Verification and Validation of Scientific and Engineering Computer Programs for the Nuclear Industry, ANSI/ANS 10.4 (1987). [5] IEEE 603, IEEE Standard Criteria for Safety Systems for Nuclear Power Generating Stations, (1991). [6] IEEE 610.12, IEEE Standard Glossary of Software Engineering Terminology, (1990). [7] IEEE 730.1, IEEE Standard for Quality Assurance Plans, ANSI/IEEE 730.1 (1989) [8] IEEE 730.2, IEEE Guide to Software Quality Assurance Planning, IEEE Draft 730.2 (1993). [9] IEEE 828, IEEE Standard for Software Configuration Management Plans, ANSI/IEEE 828 (1983). [10] IEEE 829, IEEE Standard for Software Test Documentation, ANSI/IEEE 829 (1983). [11] IEEE 830, IEEE Guide to Software Requirements Specification, ANSI/IEEE 830 (1984). [12] Dreves W. , Modern Safety-Related I&C Systems, Siemens Nuclear GmbH 2000. [13] Lawrence D., Software Reliability and Safety in Nuclear Reactor Protection Systems, Lawrence Livermore National Laboratory, (1993). ABSTRACT This work describes a proposal for a system of nuclear instrumentation and safety totally digital for the Argonauta Reactor. The system divides in the subsystems: Channel of Pulses, Channel of Current, Conventional Instrumentation and Safety System. The conection of the subsystems is made through redundant double local net, using the protocol modbus/rtu. So much the Channel of Pulses, the current channel and Safety's System use modules operating in triple redundancy.