CAPÍTULO UM
O RELÂMPAGO
C
erto dia, o velho sr. Pandolfo, que não vinha se
sentindo muito bem ultimamente, resolveu que
estava na hora de fazer um espantalho. Os pássaros andavam incomodando muito. Por falar nisso, seu
reumatismo estava incomodando, assim como os soldados incomodavam, o clima incomodava e seus primos
incomodavam. Estava tudo um pouco demais para ele.
Até mesmo seu velho corvo de estimação tinha voado
para longe.
Não havia nada que ele pudesse fazer em relação ao
reumatismo, ou aos soldados, ou ao clima, ou aos seus
primos — o problema que mais o incomodava. Era uma
família inteira deles — os Buffaloni —, e queriam tomar
conta de suas terras, secar as nascentes, desviar os córregos, drenar todos os poços e construir uma fábrica de
veneno para ervas daninhas, ratos e até inseticidas.
Problemas demais para o velho sr. Pandolfo, mas ele
achou que, pelo menos em relação aos pássaros, poderia
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fazer alguma coisa. Assim, criou um elegante espantalho,
com um enorme e robusto nabo no lugar da cabeça e um
forte cabo de vassoura para ser a coluna, o vestiu com
seu velho paletó xadrez e o recheou com bastante palha.
Depois, enfiou uma pequena carta dentro dele, protegida
por um oleado.
— Aí está você — disse. — Agora, lembre-se de seu
trabalho e do lugar a que pertence. Seja amável e corajoso, honrado e gentil. E que a sorte esteja sempre em
seu caminho.
Ele fincou o espantalho no meio do campo de trigo e
foi para casa deitar-se, pois não se sentia nada bem.
Naquela noite, outro fazendeiro veio e roubou o espantalho; era um homem muito preguiçoso para fazer um
para si mesmo. E, na noite seguinte, veio outro e roubou
o espantalho novamente.
Assim, aos poucos, o espantalho foi se afastando do lugar onde fora feito, cada vez mais maltrapilho e rasgado,
até finalmente não se parecer em nada com o espantalho
elegante e com jeito de sabido que o sr. Pandolfo tinha
feito. Foi deixado no meio de um lamaçal, e lá ficou.
Mas, certa noite, caiu uma tempestade cheia de raios
e trovões. E foi uma tempestade muito violenta, todos na
região se arrepiaram, tremeram e pularam, como se os
trovões fossem tiros de canhão e os relâmpagos, chicotadas. O espantalho ficou no meio do vento e da chuva,
indiferente.
E poderia ter continuado assim, não fosse um desses
acasos que acontecem uma vez em um milhão, igual a
ganhar na loteria. Todas as suas moléculas, átomos, par10
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tículas elementares e coisas desse tipo estavam alinhadas
na posição exata para serem ligadas quando o raio o atingisse, o que aconteceu às duas da manhã, a eletricidade
assobiando através de seu nabo, passando pelo cabo de
vassoura e perdendo-se na lama.
O Espantalho piscou, surpreso, e olhou ao redor. Não
havia muita coisa para ver, a não ser um monte de lama,
e a luz era fraca até mesmo para isso, exceto quando
relampejava.
Ainda assim, não havia qualquer pássaro à vista.
— Excelente — disse o Espantalho.
Na mesma noite, um menino chamado Jack havia se
abrigado por acaso em um celeiro perto dali. O trovão
foi tão forte que fez com que acordasse com um pulo. A
princípio, pensou que fossem tiros de canhão e se sentou,
morrendo de medo, com os olhos
arregalados. Ele não conseguia
pensar em nada pior do que
soldados e canhões, pois, não
fosse pelos soldados, ele ainda teria uma família e uma
cama para dormir.
Mas, sentado ali com o
coração em disparada, ele
ouviu o barulho da chuva no telhado e percebeu que a explosão
fora apenas uma trovoada e não
um tiro de canhão. Suspirou aliviado e voltou a se deitar, tremendo e
fungando, tentando se esquentar vi11
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rando de um lado para o outro sobre o feno, até finalmente adormecer.
De manhã, a tempestade tinha ido embora e o céu
brilhava azul e frio. Jack acordou de novo, sentindo mais
frio do que nunca, e também muita fome. Mas sabia
onde achar comida e, não demorou muito, juntou um
punhado de grãos de trigo, dois nabos, uma cenoura
murcha e se sentou na porta do celeiro para comer sob
o sol.
— Poderia ser pior — disse para si mesmo.
Ele comeu bem devagar, para durar, e depois continuou sentado ali, se esquentando. Logo alguém viria para
expulsá-lo, mas, por enquanto, estava seguro.
Foi então que ouviu uma voz chamando, vindo dos
campos. Jack era curioso. Por isso, ficou em pé e protegeu
os olhos com a mão, para ver melhor. Os gritos vinham
de algum lugar nos campos, além da estrada, e como
ele não tinha nada melhor para fazer começou a andar
naquela direção.
Os gritos vinham de um espantalho, espetado no meio
do maior lamaçal por ali. A criatura sacudia os braços
agitadamente, gritando com toda a força, inclinada em
um ângulo muito esquisito.
— Socorro! — gritava. — Venha me ajudar!
— Acho que estou ficando doido — disse Jack para si
mesmo. — Mesmo assim, veja só aquele pobre coitado.
Vou ajudá-lo de qualquer jeito. Parece mais doido do que
eu estou me sentindo.
Assim, ele enfiou o pé na lama e lutou para chegar até
o meio do campo, onde o espantalho o esperava.
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Para falar a verdade, Jack estava um pouco nervoso,
pois não é todo dia que encontramos um espantalho falando com a gente.
— Agora me diga, jovem — disse o espantalho, assim
que Jack se aproximou o suficiente para ouvir —, há algum pássaro por aqui? Corvos, por exemplo? Não consigo
ver atrás de mim. Eles estão escondidos?
Sua voz era intensa e agradável. Sua cabeça era feita
de um grande nabo nodoso, com uma enorme rachadura no lugar da boca e um broto longo e fino no nariz,
além de duas pequenas pedrinhas brilhantes como olhos.
Usava um surrado chapéu de palha, agora bastante chamuscado, um cachecol de lã encharcado e um velho e
esburacado paletó xadrez. Seus braços finos, feitos de
um cabo de ancinho, tinham luvas com palha nas pontas, uma de couro e a outra de lã. Também usava calças
puídas, mas, como tinha apenas uma perna, o lado vazio
da calça estava pendurado frouxamente. Tudo cor de
lama. Jack coçou a cabeça e olhou ao redor.
— Não — respondeu —, não há corvos em nenhum
lugar. Nenhum pássaro.
— Isso é um serviço bem-feito — disse o Espantalho.
— Agora, devo seguir em frente, mas preciso de outra
perna. Se você puder encontrar uma para mim, ficarei
muito agradecido. Exatamente como essa, apenas do outro lado — ele acrescentou, erguendo a barra da calça
delicadamente para mostrar um pedaço de pau fincado
firmemente no chão.
— Está bem — disse Jack. — Dá para fazer isso.
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Seguiu em direção à mata na beira do campo e subiu
pelos ramos mais baixos em busca do tipo certo de galho.
Não demorou muito, achou o que procurava e voltou para
onde estava o Espantalho.
— Deixa ver — disse o Espantalho. — Coloque-o em
pé aqui do meu lado. Isso mesmo. Agora, enfie dentro da
perna da minha calça.
A extremidade do galho estava quebrada e cheia de
pontas, não foi fácil empurrá-la pela perna encharcada e
enlameada da calça, mas Jack finalmente conseguiu enfiá-la até o fim e, em seguida, deu um pulo, pois sentiu
o pedaço de pau revirar-se em sua mão.
Ele o soltou, e a perna se juntou à outra. Mas, assim
que o Espantalho tentou se mexer, o novo pé ficou preso
do mesmo jeito que o outro. Quanto mais lutava, mais
fundo se enfiava.
Finalmente, parou e olhou para Jack. A intensidade
da expressão era surpreendente naquela boca recortada
e naqueles olhos de pedra.
— Meu jovem — disse —, tenho uma proposta. Aí está
você, um rapaz honesto e bem disposto, e aqui estou eu,
um Espantalho empreendedor e talentoso. O que você diria se eu lhe oferecesse o cargo de meu criado pessoal?
— Quais seriam minhas obrigações? — perguntou
Jack.
— Acompanhar-me pelo mundo, pegar e carregar coisas, lavar, cozinhar e atender às minhas necessidades. Em
retribuição, nada tenho a oferecer, a não ser emoção e glória. Podemos sentir fome algumas vezes, mas jamais nos
faltará aventura. Que tal, meu menino? O que acha?
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— Aceito — disse Jack. — Não tenho nada melhor para
fazer além de sentir fome, e nenhum lugar para ir, a não
ser valas e celeiros vazios. Portanto, posso perfeitamente
ter um emprego. Obrigado, sr. Espantalho, eu aceito.
O Espantalho esticou a mão e Jack a apertou
calorosamente.
— Sua primeira tarefa é tirar-me desta lama — disse
o Espantalho. Jack então puxou as duas pernas do Espantalho para fora da lama e o levou para a estrada. Ele
não pesava quase nada.
— Que caminho devemos seguir? — perguntou Jack.
Eles olharam para os dois lados. De um, havia uma
floresta, e do outro, uma linha de montanhas. Não havia
ninguém à vista.
— Para lá! — disse o Espantalho, apontando para as
montanhas.
E assim eles se puseram a caminho, com o sol nas
costas e as montanhas esverdeadas adiante.
Numa casa de fazenda, não muito distante deles, um advogado explicava algo para o fazendeiro.
— Meu nome é Cercorelli — disse —, e minha especialidade é encontrar coisas para os meus empregadores,
a distinta e muito respeitada Companhia Buffaloni, de
Bella Fontana.
O fazendeiro engasgou. Era um sujeito com um rosto
vermelho, grandalhão e preguiçoso, e tinha medo desse
advogado empertigado e bajulador, todo de preto.
— Ah! Os Buffaloni! Sim, é claro, sr. Cercorelli — ele disse. — Em que posso ajudar? Qualquer coisa! É só dizer!
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— Trata-se de um pequeno problema — disse o
advogado —, mas de valor sentimental para os meus
clientes. Refere-se a um espantalho. Foi feito por um
primo distante do presidente da companhia e parece ter
desaparecido de seu lugar de origem. Meu cliente, o sr.
Luigi Buffaloni, é um homem de muito bom coração e
preocupado com a família. Ele gostaria de devolver o
espantalho ao seu lar, em memória do seu querido primo,
que o fez.
O advogado examinou alguns papéis e o fazendeiro
passou o dedo pelo colarinho da camisa, engolindo em
seco.
— Bem, eu, hmm... — ele disse hesitante.
— Pode-se até pensar que aquele espantalho consegue
se mexer! — disse o sr. Cercorelli, sorrindo de maneira
sinistra. — O sujeito circulou um bocado por aí. Já andei
atrás dele por várias fazendas e agora descobri que ele
chegou até a sua.
— Eu, er, eu acho que sei de que espantalho o senhor
está falando — disse o fazendeiro. — Eu rou... Eu o
comprei de outra pessoa, que não precisava mais dele.
— Ah, ótimo. Talvez pudéssemos ver se é o espantalho
certo.
— Ora, mas é claro, eu faria qualquer coisa pelos Buffaloni, pessoas importantes, não gostaria de aborrecêlos... Mas, veja só, ele sumiu.
— Sumiu... De novo? — disse o advogado apertando
os olhos.
— Eu saí hoje de manhã para... Bem... Ajeitá-lo um
pouco, mas ele não estava mais lá. Imagine, houve uma
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grande tempestade na noite passada. Ele pode ter sido
levado pelo vento.
— Ora, meu caro. Isto é muito lamentável. O sr. Buffaloni não vê com muito bons olhos aqueles que não zelam por sua propriedade. Acho que posso dizer que ele
vai ficar consideravelmente desapontado.
O fazendeiro estava inquieto, alarmado.
— Se algum dia eu ouvir qualquer coisa sobre o espantalho — disse —, qualquer coisa que seja, informo
ao senhor imediatamente.
— Acho que isso seria muito sensato — disse o sr.
Cercorelli. — Aqui está o meu cartão. Agora, leve-me até
o campo de onde o espantalho desapareceu.
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