Cruz e Sousa Obra Completa Volume 2 PROSA Cruz e Sousa Obra Completa Volume 2 PROSA Pesquisa e Organização Lauro Junkes Presidente da Academia Catarinense de Letras © Copyright 2008 Avenida Gráfica e Editora Ltda. Projeto Gráfico, Editoração e Capa ESPAÇO CRIAÇÃO ARQUITETURA DESIGN E COMPUTAÇÃO GRÁFICA LTDA. www.espacoecriacao.com.br Fone/Fax: (48) 3028.7799 Revisão Lingüístico-Ortográfica PROFª Drª TEREZINHA KUHN JUNKES PROF. Dr. LAURO JUNKES Impressão e Acabamento AVENIDA GRÁFICA E EDITORA LTDA. Formato 14 x 21cm FICHA CATALOGRÁFICA Catalogação na fonte por M. Margarete Elbert - CRB14/167 S725o Sousa, Cruz e, 1861-1898 Obra completa : prosa / João da Cruz e Sousa ; organização e estudo por Lauro Junkes. – Jaraguá do Sul : Avenida ; 2008. v. 2 (657 p.) Edição comemorativa dos 110 anos de falecimento e do traslado dos restos mortais de Cruz e Sousa para Santa Catarina. 1. Sousa, Cruz e, 1861-1898. 2. Poesia catarinense. I. Junkes, Lauro. II. Titulo. CDU: 869.0(816.4)-1 SUMÁRIO 11 Critérios Para Esta Edição 13 Tropos e Fantasias 14 15 17 19 26 31 34 Casos e Cousas Allegros e Surdinas Piano e Coração A Bolsa da Concubina O Padre Pontos e Vírgulas Sabiá-Rei 37 Dispersos 38 40 42 43 45 47 49 62 64 67 70 74 85 91 92 93 95 98 101 121 Da Bahia Interjeições da Lágrima Victor Hugo Perfis a Vapor Victor Hugo Major Camilo O Espectro do Rei Perfis a Vapor Virgílio Várzea e Cruz e Sousa Abolicionismo Biologia e Sociologia do Casamento Um Novo Livro Emile Zola Guilherme I O “El-Dorado” Carta a Gonzaga Duque Horácio de Carvalho O Pequeno Boldrini Signos A Virgílio Várzea 123 Histórias Simples 125 126 128 130 133 136 138 143 I. À Iaiá II. À Sinhá III. À Nicota IV. À Bilu V. À Santa VI. À Bibi VII. À Neném VIII. À Zezé 147 Outras Evocações 148 150 161 164 170 173 176 179 183 188 191 193 195 198 201 206 208 210 213 215 218 221 222 225 228 230 Elizirna Consciência Tranqüila O Estilo Je Dis Non Écloga Impressões Croqui dum Excêntrico A Casa O Senhor Presidente O Senhor Secretário Nicho de Virgem Aroma A Milionária De Volta aos Prados Investigação Psicose Luz e Treva Volúpia... A Carne Os Felizes Natal Em Julho Símbolo O Batizado Doença Psíquica Policromia 233 235 240 243 Flor Sentimental Velho Decaído Fugitivo Sonho 245 Formas e Coloridos 246 248 250 252 254 A Abelha Obsessão da Noite Hora Certa Rosicler Beijos Mortos 255 Últimas Evocações 256 260 263 265 271 273 274 276 279 280 283 285 Margarida Comemoração do Sexagésimo Primeiro Aniversário Natalício de Joaquim Gomes de Oliveira e Paiva Julieta dos Santos A Musa Moderna Manhã no Campo Uma Lenda A Romaria da Trindade O Abolicionismo Gema Cuniberti A Noite de São João Entre Ciprestes A Vida nas Praias 289 Missal 290 292 294 295 297 300 301 304 Oração ao Sol Dolências... Ocaso no Mar Sob as Naves Paisagem Astro Frio Bêbado Sabor 306 307 308 309 312 313 314 317 318 320 324 326 327 329 330 333 336 338 341 343 347 348 352 353 356 357 358 364 366 368 371 374 375 378 381 382 385 Lenda dos Campos Noctambulismo Navios Emoção Os Cânticos Fulgores da Noite Psicologia do Feio Vitalização Gloria in Excelsis Página Flagrante Tintas Marinhas Esmeralda Fidalgo Angelus Núbia Som Gata Dias Tristes Paisagem de Luar Artista Sacro Visões A Janela Umbra Modos de Ser No Faeton Ritos Mulheres Perspectivas Campagnarde Ritmos da Noite... Sugestão Sofia Manhã d’Estio Aparição da Noite Estesia Eslava Tísica Oração ao Mar 387 Evocações 388 396 398 407 417 422 424 429 434 437 443 447 451 452 458 460 468 470 472 478 506 510 512 521 526 532 539 542 546 551 557 558 561 563 564 568 581 Iniciado Seráfica Mater Capro A Noite Melancolia Condenado à Morte Anho Branco O Sono Triste Adeus! Tenebrosa Região Azul... Sonambulismos Dor Negra Sensibilidade Asas... Espiritualizada Asco e Dor Intuições Morto Vulda Anjos Rebelados Um Homem Dormindo... No Inferno A Nódoa Talvez a Morte?!... Ídolo Mau Balada de Loucos Espelho contra Espelho Abrindo Féretros Primeiro Féretro – Ana Segundo Féretro – Antônia Terceiro Féretro – Carolina Quarto Féretro – Guilherme O Sonho do Idiota A Sombra 591 606 609 Nirvanismos Extrema Carícia... Emparedado 633 Correspondência 634 634 635 636 638 639 640 641 642 644 646 646 648 648 649 649 650 650 651 652 652 653 653 654 654 654 655 655 656 656 656 657 À Comissão Organizadora do Clube dos Jornalistas À Sociedade Carnavalesca Diabo a Quatro A Gavita A Gavita A Gavita A Gavita A Germano Wendhausen A Germano Wendhausen A Virgílio Várzea A Araújo Figueiredo A Luiz Delfino A Gonzaga Duque A Nestor Vítor A Nestor Vítor A Alberto Costa A Nestor Vítor A Araújo Figueiredo A Nestor Vítor A Nestor Vítor A Araújo Figueiredo A Nestor Vítor A Nestor Vítor A Nestor Vítor A Araújo Figueiredo A Nestor Vítor A Nestor Vítor Dedicatórias em Missal A Araújo Figueiredo A Tibúrcio de Freitas Dedicatórias em Retratos A Gonzaga Duque Ao Pai CRITÉRIOS PPARA ARA EST A EDIÇÃO ESTA Como ocorreu no volume da Poesia destas Obras Completas de João da Cruz e Sousa, também a ordenação dos textos neste volume de Prosa se diferencia das edições anteriores. Alguns textos recentemente descobertos e identificados por Iaponan Soares/Zilma Gesser Nunes – as “Últimas Evocações”, publicadas no livro Cruz e Sousa, Dispersos. São Paulo: Fundação Editora da UNESP: Giordano, 1998 – foram incorporados à Obra Completa, organizada por Andrade Muricy e atualizada por Alexei Bueno. Outrossim, sempre com o desejo de lograr maior aproximação ao evoluir literário do autor de Evocações, alteramos a disposição dos textos no volume. Como Missal e Evocações foram os dois únicos conjuntos organizados pelo autor, deverão representar a maturidade do prosador Cruz e Sousa, a seleção mais perfeita por ele mesmo feita em relação aos seus escritos em prosa. Embora alguns textos dispersos tenham sido escritos na última fase da sua vida, a grande maioria constitui produção anterior até mesmo à sua adesão à estética simbolista. Por essa razão, englobamos todos eles no início do volume, na fase de formação do escritor. Apenas a Correspondência, que abrange diversas épocas, ocupa a parte final do volume. Para estabelecer o texto, também houve cotejo de diversas edições. A Tese de Doutoramento de Rosane Cordeiro da Silva, defendida na UFSC em 2006 e intitulada Entre missais e evocações: a prosa desterrada de Cruz e Sousa, cotejando 18 manuscritos autógrafos, permitiu, através da crítica textual, aproximar-nos mais da vontade do autor e retificar aspectos substanciais dos textos. O respeito à redação e à intenção do autor constituiu orientação imprescindível. Na decisão sobre as variantes, a opção buscou elucidar o binômio forma e conteúdo. A pontuação, sobretudo a vírgula, foi alterada em casos de incorreções, sendo eliminada quando separava o sujeito do predicado. Objetivou-se contribuir para tornar mais claro o pensamento do autor, sem introduzir maiores modificações. A atualização ortográfica obedece à grafia atual. Permaneceram intocadas as colocações pronominais e as concordâncias utilizadas pelo autor, mesmo que firam a norma culta. Nos textos autógrafos, o autor assinava Souza com “z”; porém está consagrada a substituição por “s”: Sousa. Tropos e Fantasias 14 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 CASOS E COUSAS As Ilusões são como as cerejas. Se estas se desprendem uma a uma, quando as tentamos apanhar juntas, também aquelas. Tropos e Fantasias sintetizam um punhado de ilusões... avigoradas no idealismo, emigrando, leves, leves, para os espíritos asseados e limpos, na higiene e na salutariedade essencial da luz. E foi nestes casos que publicamos estas cousas. VIRGILIO VÁRZEA E CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 15 ALLEGROS E SURDINAS A B. Lopes Foi pela primavera. A natureza fecunda e prodigiosa extasiava o raciocínio com as pompas exuberantes, com a fertilização da verdura. As flores abriam-se, como os risos alegres e vibrantes da terra. Havia nos espaços, profundamente calmos, a expansibilidade suavíssima das cousas. Pairava em tudo como que o amor espiritualizado. Foi pela primavera. * * * * * * * * * * A falange gloriosa dos canários, dos coleiros, dos gaturamos, dos sabiás rasgava o horizonte, aqui e ali, de risadas apopléticas, que chocalhavam como guizos, que tiniam, que bimbalhavam como campanários de aldeia. Toda a floresta tomava a proporção de um deslumbramento equatorial. As fontes, as cascatas, os ribeiros, sonoros, harmônicos, musicais, faziam coro na grande ópera da Criação. A vitalidade, a seiva tinha erupções vulcânicas, desde os troncos mais hartos, até as mais frágeis raízes. Cintilava, cantava o verde florido dos prados e o azul refrigerante dos céus. Almas e almas vagavam, como silfos, como asas, como nuvens e nuvens, pelas zonas consoladoras e luminosas do idealismo. Trinos e trenos, por tudo. A falange gloriosa dos canários, dos coleiros, dos gaturamos, dos sabiás rasgava o horizonte, aqui e ali, de risadas apopléticas, que chocalhavam como guizos, que tiniam, que bimbalhavam como campanários de aldeia. * * * * * * * * * * 16 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Uma simpatia boa acariciava, por fora, a casinha alva, muito alva, encarapitada do cimo da colina. Dentro, morrera o Gigi, uma criança, um beijo cristalizado, um sonho dos colibris; e as esperanças dos pais imergiam, pela sombra melancólica das mágoas, como pombas, tristes, tristes... Morrera o Gigi; a primavera da vida, na primavera da natureza. E as névoas crepusculares que invadiam a tarde penumbravam o aposento inteiro... Nos objetos parecia haver também a reticência da dor. E quando o foram conduzir para o túmulo, as estradas arenosas tinham aquela gravidade séria dos corações desamparados de crenças. As lavadeiras, atravessando o caminho, em curvas, cantarolando, com as brancuras honestas de roupas à cabeça, punham tons de uma afabilidade rara no fúnebre trajeto. Os ciprestes, silenciosos, acompanhavam aquela angústia, chorando as suas compridas lágrimas de orvalho. Perfumes agrestes espiralavam-se das matas verdes, fartas de florações viçosas e castas. Estendiam-se, para além, nas serras oblongas, alguns mugidos vagos de bois satisfeitos, que pastavam deleitosamente. E na extremidade curvilínea das praias, as ondas claras, espumantes refletiam os coloridos silforamáticos que o sol produzia, frechando as colinas pedregosas e altanadas, parecendo, à movimentação do globo, resvalar pelo seu ocaso eterno e supremo, numa auréola de fogo. Uma simpatia boa acariciava, por fora, a casinha alva, muito alva, encarapitada no cimo da colina. Dentro, morrera o Gigi, uma criança, um beijo cristalizado, um sonho dos colibris; e as esperanças dos pais imergiam, pela sombra melancólica das mágoas, como pombas, pombas tristes, tristes... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 17 PIANO E CORAÇÃO A Isidoro Martins Júnior O piano, o piano e o coração. Ó melodias do coração, ó harmonias do piano. Chopin, Gounod, Metra, Strauss, Beethoven, Gottschalk, constelação gloriosa de boêmios de ouro!... Quando o piano musicaliza, caracteriza, espiritualiza as longas escalas cromáticas, os adoráveis allegros, os interessantes pizzicatos, quem fala primeiro que os cérebros artísticos é o coração. Ele canta mais alto que todos os órgãos humanos. O coração é o pulso do cérebro artístico. Pela temperatura e o grau de sentimento de um, o músico estabelece a proporção do outro. Um dirige, outro executa. Um tem a fórmula, outro funciona. Um é o oxigênio, outro o carvão. Um faz o relâmpago, outro produz o raio. Coração e cérebro aliam-se, homogeneízam-se. Assim o piano, eternamente assim. O coração é a luta, as grandes tempestades desoladoras, varadas de cóleras surdas de vendavais gargalhantes e intérminos, de frios que estortegam, enregelando as noites soturnas das trevas compridas e absolutas; o coração é a maciosidade dos linhos, a candidez consoladora dos luares estrelados, a fluidez elétrica dos perfumes excitantes, as expansivíssimas alegrias, castamente sonoras e sonoramente castas. O coração ruge e vibra. Assim o piano. Cada palpitação do piano é uma fibra do coração, que bate. Tem os mesmos triunfos, os mesmos humorismos fúnebres, as mesmas imponências e coruscações, o piano. Chora e canta, ri e soluça. 18 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Quanta vez o artista não canta, não ri e chora e soluça com o piano. Dizei à sensibilidade que emudeça. À sombra que se subdivida, partícula por partícula, pela própria sombra. O piano, como o coração, representa um ser complexo, com os elementos necessários, com os nervos, com os músculos de vitalidade dispostos, preparados, desenvolvidos, de forma a infiltrar nos demais seres a seiva psíquica, a sangüinidade simpática da arte. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 19 A BOLSA DA CONCUBINA A Horácio de Carvalho O amor é uma escada que tem uma extremidade na glória e outra no abismo – disse-o Matias de Carvalho. Vezes há que essa escada, devendo resvalar na glória, resvala abruptamente no abismo. E ai daqueles que se têm librado a ela. O amor é uma torrente de circunstâncias anormais. Quanto maior é o amor, maior deve ser o sacrifício. O amor faz gigantes e faz anões, ilumina e entenebrece os espíritos nervosos e doentios. É como o cáustico; cura mas deixa os sinais evidentes. Daí as incompatibilidades, as duras idiossincrasias do amor. Daí as monstruosidades e os abortos morais, os perigos e as aberrações sociais. O amor, o amor que se consubstancia no dever, na harmonia, no bem-estar, no sossego de espírito, na probidade e na lisura, é o maior elemento higiênico da moral da família. Para a felicidade doméstica, o agente que mais influi é o amor, mas não esse amor gasto que anda a suspirar pelos madrigais, pelas belas noutes de luar, pelos suntuosos saraus de onde se sai com o estômago encharcado de maus vinhos e a consciência cambaleando, pelo efeito das luzes, das flores, das músicas e das pompas. Não! Não!... Mas o amor sadio, limpo, asseado, o amor que sabe ter energias e sabe ter heroísmos, o amor que ri com a esposa e soluça com o filho, o amor que mostra a camisa rota do operário, o arado do aldeão, mas que à noite, nas suavíssimas meias sombras do lar, lembra-se que tem de almoçar no dia seguinte e que a mulher já lhe 20 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 disse, abraçando-o expansivamente, entre as harmonias alegres e francas de um sorriso, que não há lenha em casa. É esse o amor. O amor que faz bem, que corporifica os sentimentos da alma, que se multiplica de vitalidade pelos sentidos, pelos olhos, pelos ouvidos, pelos gestos, por todos os atos e complementos psicológicos e fisiológicos. O amor que é a filosofia dos seres bons, honestos, o amor que é o oxigênio da temperatura do afeto humano. Assim como o ar atmosférico tem influência sobre os pulmões, o amor tem influência sobre o trabalho, sobre o dever, sobre a virtude. Da temperatura do amor depende a temperatura da felicidade conjugal. Há desgraçados que deveriam ser felizes, assim como há felizes que deveriam ser desgraçados. Os primeiros porque trabalharam para ser felizes; os últimos porque nada fizeram para isso, não deixando, porém, de ter a consideração de zelosos de seu bemestar e trabalhadores do seu futuro. O verdadeiro amor, aquele que é para as crianças o imaculado tesouro, o verdadeiro amor, aquele que é para os cegos a benéfica luz, aquele que é para os mortos o miraculoso surge et ambula, esse, esse amor, supremo como as supremas harpas do infinito, claro, magnífico como as vestiduras brancas dos justos, imponente como a memória de Camões cortando a monotonia de gelo de trezentos anos, esse amor é a afinação das almas pela música da natureza criadora. Fora preciso que a humanidade não cuidasse tanto das funções peristálticas do estômago, para abrir o grande livro da virilidade universal: O amor. Fora preciso que as consciências expelissem de si todos os fetos e aleijões que elas produzem e que, tomando uma nova seiva, uma porção de sangue, uma OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 21 boa parcela de massa encefálica, uma intuição muito direita, muito outra, dos admiráveis problemas que a filosofia derrama na flor, na árvore, no infinito, em toda a criação, em toda a natureza, sintetizassem no amor a concretização de todos os fenômenos e acontecimentos animais. – O amor, tem razão o poeta, é uma escada que tem uma extremidade na glória e outra no abismo. * * * * * * * * * * Casaram-se. Ela muito limpa sempre, muito asseada, sabendo ler bem, costurando à noite, na máquina, paletós, calças, coletes, sacos de aniagem; fazendo à mão toalhas de rosto, bordando, toda alegre, com os seus pospontos muito bem acabados, delicadamente feitos; indo ao quintal de manhã cedo, aos raios mais firmes do dia, ver a alacridade doce de suas plantas, de suas flores, de sua horta muito galante, dando de comer milho moído aos pintos, que vinham, vinham, vinham, em pequeninos gritos, em expansões castas, abrindo o bico, ruflando as asas tenras, roçando as penas pela macia plumagem das mães, umas galinhas gordas, satisfeitas, parecendo donas de casa, amarelas, rajadas de branco e preto, levando os grãozitos de milho ao bico e dando aos pintos todos contentes de sua vida. Uma alegria das pobres aves. Ele um pintor boêmio, sem apreço à honra; casarase por amor, mas depois uns amigos maus, hipócritas, transformaram-no inteiramente. Mesmo dizia-se que nunca tivera juízo. Mas, como quem vê cara não vê coração, a pobre da moça amou-o muito, com toda a força de sua crença e casaram-se. Depois ele tinha um vício. 22 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Era pobre, pobre e amasiara-se com uma mulher com a qual banqueteava-se. Às vezes, ia para a casa com o sorriso alvar de animalidade alcoolizada. Não era barulhento, não era de instintos ferozes, mas bestializava o seu proceder. A honesta mulher sabia de tudo, mas ah! grande luz do seu imenso coração, envergonhava-se, não queria escândalos, chorava no escuro, baixinho, toda pesarosa, toda magoada; lembrava-se do filho que tinham, sabia que era ele o pai e que se esse pai os abandonasse, seria desairoso para ela e então suportava tudo. Pois se ela era tão honesta! Ah! o seu filho, o seu querido filho tão bonito como ela o chamava. O seu querido filho tão bonito! Oh! as mães, as mães! E no entanto a criança era raquítica, não parecia ter seis meses; o crânio muito comprido e achatado, o frontal muito largo, de uma saliência enorme, abaulado, deixando aparecer muito no fundo, dous olhos sem expressão, quase sem movimento, dava-lhe o aspecto de uma caveira; o corpo mal desenvolvido, o rosto amarelado e de uma pele seca, as pernas em arco, magras, tudo emprestava àquilo que ela chamava o seu querido filho tão bonito uma aparência sinistra e má. Não obstante ela o adorava!... Oh! as mães, as mães!... Que sacrifício profundo e sacrossanto é maior que o coração das mães?! – O espetáculo estupendo do sol, faiscando pelos espaços intérminos, como um colosso de fogo, iluminando as esferas, dando umas tonalidades claras ao espírito das cousas, abrindo e fecundando as grandes almas de tudo, não é mais deslumbrante de eloqüência que o amor das mães!... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 23 Elas se imortalizam na memória dos filhos, quando eles se chamam Dante, Shakespeare, Vítor Hugo e Zola. As mães são o compêndio infinito de todas as ciências, a irradiação maravilhosa de toda a luz filosófica. Por isso ela estremecia muito o seu querido filho tão bonito. E ele, o marido, andava fora, ou no trabalho ou em casa dela. E ela, a mulher, essa outra – ela – tão modesta, tão santa, tão trabalhadora, ainda nova, na manhã transparente dos seus vinte e dous anos, sentia necessidade, umas abundâncias de extremos, de umas exuberâncias de afeições puras, revolvia-se toda, às vezes, como uma freira na sua cela, ficava nuns letargos mornos, sensuais, num sonambulismo etéreo, fechando os olhos numa dormência calada, como se cedesse ao poder de um magnetismo soberano. Tinha necessidade de adulterar, mais o seu querido filho e tão bonito ali estava, fisicamente feio, como a atalaia da sua honra, como a porta de bronze a lhe interceptar a entrada no palácio silforamático da prostituição. E então ela erguia-se em toda a majestade do seu dever e abraçava e beijava o filho, numa aluvião delirante de carinhos enternecedores. Aquele filho livrava-a de ter uma Waterloo na batalha renhida da sua existência. E então trabalhava, trabalhava muito. Ele já pouco ia ver a mulher e o filho. O pão, no entanto, escasseava, o fogão estava negro e calado. O proprietário da casa onde moravam já lhes falara uma vez, duas, três vezes. Tinham-se atrasado um tanto... uns cinco meses. O fornecedor o vira entrar em casa diversas noites, cambaleando, e mastigando frases desencontradas. 24 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Dissera que não fiava a bêbados, desconfiava que não seria pago e depois atirava os seus dichotes canalhas à sua freguesa e desejava-a, mas o único meio de a obter, pensava ele, era tornando-se desapiedado e negando-lhe o alimento, porquanto ela assim cederia, já que o marido pouco parava em casa. No entanto, a vida dela caía, caía como as pétalas de uma rosa ao chegar o inverno desabrido e úmido. As papoulas de sua face desbotavam dia-a-dia. Ele já não trabalhava quase, desmoralizara-se de todo e negavam-lhe trabalho. Deixava, dez, quinze dias de ir ver a família. Uma ocasião foram dizer-lhe, um pequeno aprendiz seu, que o filho fora atacado de varíola. Achava-se ele em casa da concubina. Ela, ao ouvir o recado do pequeno, sorriu-se com um sorriso de vingança, pois dizia – que ele lhe prometera casamento, que a enganara, mas que ela se vingaria; e, terminantemente, ordenou-lhe que não aparecesse em casa, que não fosse ver o filho, que ela faria as despesas da moléstia e do enterro, caso a criança morresse. E pegando da pena escreveu, imitando o quanto possível a letra do amante: – “Minha querida – sinto extremamente o estado do nosso filho, mas como não encontro trabalho na cidade e é absolutamente preciso que eu parta hoje para a vila de..., a um magnífico negócio onde poderei ter mais prontos resultados de dinheiro, desculpa a precipitação com que te escrevo e olha bem por nosso filho. – Tu és boa, perdoa-me, pois, os dias que não tenho ido à casa. – Para que nada falte ao pequeno, aí te envio uma sofrível importância; a sua doença não há de ser nada; daqui a pouco te mandarei lá o médico. – Teu marido A.” Meteu o bilhete num envelope, puxou de uma bolsa, colocou dentro umas cinco notas de mil-réis e deu ao pequeno que saiu. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 25 Ele, bestializado com tudo aquilo, meio parvo, fechava de vez em quando os olhos, como que para não ver ou não desvendar a profundidade do seu abismo. No entanto ela ria canibalescamente e redobrava de afagos para com o seu louro – como lhe chamava. Era viúva, herdara alguma cousa para a sua subsistência e sabia atrair os ladinos e triunfar dos seus caprichos, como fazia com ele. E enquanto a viúva pantera explosia as suas paixões venenosas, a honesta mulher, só em casa, desamparada como uma criança nua numa estrada, por uma noite negra, muito negra, aos uivos de um temporal cruel, sentindo ao longe, lá ao longe o monótono grasnar das aves agoureiras, via que o médico não chegava, que seu filho se sumia, se sumia, como a asa de uma andorinha na última extrema do horizonte. Parecia que um prédio tinha desabado sobre ela. Estava abatida, desconsolada, desfalecida. Não ia ao quintal para não ver as suas aves, não ia à janela para não ver o sol percorrer satisfeito as amplidões serenas da serena luz. Não ia porque, nas aves e no sol, ela via seu filho contente adormecido aos seus beijos. E o aprendiz, pinoteador, travesso, acriançado, não fora lá, logo no mesmo dia. Mas no dia seguinte, de tarde, quando no éter calmo se esbatiam as tintas crepusculares, e que a sinfonia da natureza, os límpidos turíbulos das florestas, derramando perfumes suaves, convidavam o raciocínio a um recolhimento poético, morria-lhe nos braços o filho, como um Cristo menino nos braços de Maria. E então, ela, numa angústia despedaçadora de mãe dolorosa, lembrando-se daquele corpo, daqueles olhos, daqueles lábios que iam talvez rebentar numa explosão de boninas, de cravos e de violetas, viu abrirse a porta e entrar o aprendiz com um objeto que lhe entregou. Era a bolsa da concubina!! 26 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 O PADRE A João Lopes Um padre escravocrata!... Horror! Um padre, o apóstolo da Igreja, que deveria ser o arrimo dos que sofrem, o sacrário da bondade, o amparo da inocência, o atleta civilizador da cruz, a cornucópia do amor, das bênçãos imaculadas, o reflexo do Cristo... Um padre que comunga, que bate nos peitos, religiosamente, automaticamente, que se confessa, que jejua, que reza o – Orate fratres, que prega os preceitos evangélicos, bradando aos que caem surge et ambula. Um escravocrata de... batina e breviário... horror!... Fazer da Igreja uma senzala, dos dogmas sacros leis de impiedade, da estola um vergalho, do missal um prostíbulo... Um padre, amancebado com a treva, de espingarda a tiracolo como um pirata negreiro, de navalha em punho, como um garoto, para assassinar a consciência. Um canibal que pega nos instintos e atira-os à vala comum da noite da matéria onde se revolvem as larvas esverdeadas e vítreas da podridão moral. Um padre que benze-se e reza, instante a instante, que gagueja à frente do cadáver o aforismo de Horácio – Hodie mihi cras tibi. Um padre, que deixando explosir todas as interjeições da ira, estigmatiza a abolição. Ela há de fazer-se, malgrado os exorcismos crus dos padres escravocratas; depende de um esforço moral e os esforços morais são, quase sempre, para a alta filosofia – mais do que os esforços físicos – o fio condutor da restauração política de um país!... O interesse egoístico de um indivíduo não pode prevalecer sobre o interesse coletivo de uma nação, disseo um moço de alevantado talento, Artur Rocha. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 27 Não é com a ênfase dogmática do didatismo ou com a fraseologia tecnológica dos cinzelados folhetins de Teófilo Gautier que o trabalho da abolição se fará. Mas com a palavra educada, vibrante – essa palavra que fulmina – profunda, nova, salutar como as teorias de Darwin. Com a palavra inflamável, com a palavra que é o raio e dinamite, como o era na boca de Gambetta, a maior concretização do estupendo – depois do sol. A palavra que ri... de indignação; um riso convulso... de réprobo, funambulesco... de jogral. Um riso que atravessa séculos como o de Voltaire. Um riso aberto, franco, eloqüentemente sinistro. O riso das trevas, na noite do calvário. O riso de um inferno... dantesco. Ouves, padre?... Compreendes, sacerdote?... Entendes, apóstolo?... Então para que empunhas o chicote e vais vibrando, vibrando, sem compaixão, sem amor, sem te lembrares daquele olhar doce e aflitivo que tinha sobre a cruz o filho de Maria?... O filho de Maria, sabes?!... Aquele revolucionário do bem e aquele cordeiro manso, manso como um ósculo da alvorada nas grimpas da montanha, como o luar a se esbater num lago diamantino... Lembras-te?!... Era tão triste aquilo... Não era padre, ó padre?!... Não havia naquela suprema angústia, naquela dor cruciante, naquela agonia espedaçadora, as mesmas contorções de uma cólica nefrética, os mesmos arrancos informes de um escravo?... Não compreendes que se açoitares um mísero que for pai, uma desgraçada que for mãe, as bocas dos filhinhos, daquelas criancinhas negras, sintetizando o 28 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 remorso, o aguilhão da tua consciência se abrirão nuns gritos desoladores que, como uns bisturis envenenados, trespassar-te-ão as carnes?... Não compreendes que de seus olhos, acostumados a paralisarem-se ante o terror, irromperão as lágrimas, esse líquido precioso das alminhas inocentes?!!... Pois tu, nunca choraste?!... Nunca sentiste os engasgos de um soluço saltarem-te pela garganta, quando te lembras de trocar as tuas magníficas conquistas, os teus manjares especiais, os teus licores dulçorosíssimos pela noite escura, muito escura, onde grasnam surdamente as aves da treva, onde Dante se acentua no Lasciate ogni speranza, onde os espíritos vis desaparecem e os Homeros e Camões e Virgílios surgem e se levantam pelo braço hercúleo da posteridade, pelo fôlego intérmino e secular da História? Nunca?!... Sim, tu estás comigo, padre!... Estás!... És bondoso, eu sei, tens a alma tão serena e tão lúcida como uma imagem de N.S. da Conceição. Eu sei disso!... Olha, quando morreres – se é que morres – irás de palmito e capela, na mudez dos justos e as virgens tímidas e cloróticas, entoando grave De profundis, murmurarão lacrimosas: – Coitado, foi o pai carinhoso das donzelas... Requiescat in pace!... Que bonito será, não!... E depois o céu! Sim, porque tu irás para o céu! Não crês no céu, padre? Pois crê, esses filólogos mentem, têm princípios errôneos e tu, padre, és um sábio... Tu és bom... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 29 Porém... por Deus, como é que vendes a Cristo como um quilo de carne verde no mercado?!... Ah! É verdade, és muito pobre, andas com os sapatos rotos, não tens que comer e... és muito caridoso... Mas, escuta, vem cá: – Eu tenho também minhas fantasias; gosto de sonhar às vezes com o azul. O Azul!... Deslumbro-me quando o sol se atufa no oceano, espadanando os raios purpureados, como flechas de fogo, pela enormidade côncava do espaço; inebrio-me quando a natureza, com seu tropicalismo, ergue-se do banho de alvoradas, jorrando nos organismos de ouro o licor olímpico e santo do ideal, as músicas maviosíssimas e puras da inspiração, nos crânios estrelejados!... Pois façamos uma cousa: – Eu escrevo um livro de versos que intitularei: O ABUTRE DE BATINA puros alexandrinos, todos iguais, corretos, com os acentos indispensáveis, com aquele tic da sexta – tipo elzevir, papel melado – e ofereço-to, dou-to. Prescindo dos meus direitos de autor e tu o assinas!... Com os diabos, hás de ter influência no teu círculo. Imprimes um milhão de exemplares, vende-os e assim terás das loiras para a tua subsistência, porque tu és paupérrimo, padre, e necessitas mesmo de dinheiro, porque tens família, muitos afilhados que te pedem a bênção e precisas dar-lhes no dia de teu santo nome um mimo qualquer. Faz isso, mas... não te metas com o abolicionismo; é a idéia que se avigora. Talvez digas, mastigando o teu latim: – Primo vivere deinde philosophare. 30 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Mas é porque tu és míope e os míopes não podem encarar o sol... Mas eu dou-te uns óculos, uns óculos feitos da mais fina pele dos negros que tu azorragas... Pode ser que a influência animal da matéria excite o espírito e que tu... vejas. Pode ser... Há cegos de nascença que vêem... pelos olhos da alma. E se tu és padre e se tu és metafísico... deves ter alma... Compreendes?... Faz-se preciso que desapareçam os Torquemadas, os Arbues, maceradores da carne, como tu, padre. Em vez de prédicas beatíficas, em vez de reverências hipócritas, proclama antes a insurreição... Tens dentro de ti, bate-te no peito, nas palpitações da seiva, um coração que eu penso não ser um músculo oco. Vibra-o pois, fibra por fibra, se não queres que os meus ditirambos e sarcasmos, quentes, inflamados, como brasas, persigam-te eternamente, por toda a parte, no fundo de tua consciência, como uns outros medonhos Camilos de Zola; vibra-o se não queres que eu te estoure na cabeça um conto sinistro, negro, a Edgar Poe. É tempo de zurzirmos os escravocratas no tronco do direito, a vergastadas de luz... Sejam-te as virtudes teologais, padre, – a liberdade, a igualdade e a fraternidade – maravilhosa trilogia do amor. Unge-te nas claridões modernas e expansivas dessas três veias artérias da verdadeira Filosofia Universal. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 31 PONTOS E VÍRGULAS A Artur Rocha As estradas são longas e é curta a piedade dos homens, escreveu no – “Outro amável milagre” – contido no “Feixe de Penas” o primorosíssimo, o delicioso, o onipotentíssimo psicólogo Eça de Queirós. São longas as estradas. É curta a piedade dos homens. * * * * * * * * * * Quer isto dizer que se acha na capital de Santa Catarina o notável glosista Margarida, esse analfabeto, esse doudo da luz, arremessado nas trevas, esse bom velho rude e chão, que, se não é, na frase original e observada do esplêndido fantasista, Virgílio Várzea – um sofrimento que vive a rir – é um humorismo fúnebre, dentro de uma alma cristalina de poeta. São longas as estradas. E ele veio de muito longe, do país das lágrimas e das saudades, dos enevoamentos do luto, porque perdeu sua esposa, o mote supremo de todas as suas glosas. Vem em busca de um filho, que supôs morto também, morto, na impassibilidade da pedra, na rigidez do granito. Vem procurá-lo, vem vê-lo ainda, embora, do fundo pesado da sua existência, alguma cousa lhe murmure aos ouvidos: São longas as estradas. É curta a piedade dos homens. E ele, quase absolutamente, que precisa dessa piedade, ó filhos de Cristo. Uma piedade justa, que não desdoura, que não humilha; honesta como a intenção destes pontos e vírgulas, franca como a expansibilidade do aroma. Ele quer essa piedade. 32 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Mães, esposas e filhas, operárias do bem doméstico, colunas direitas dos brios sociais, bíblias inesgotabilíssimas do conforto, das consolações e... da piedade, arremessai um ceitil da vossa fartura aos peregrinos que passam, abri o escrínio da vossa abastança aos que imploram, dignamente, em pé, de rosto limpo mas... desfigurado; deixai as vossas aristocracias de princesas bourbônicas, as vossas reverências e cortesias fidalgas, desapertai o colete do estilo, quebrai a linha da hereditariedade titular, saí, por um momento, dos arminhos flácidos das nossas alcovas elegantes e confortáveis, arquiteturadas, cinzeluradas de azul, brosladas de prata, cheias de caprichos arabescados de arte. Sede democratas, uma vez. Com a democracia dos sentimentos, preclaros, decentes, bonitos, galgareis o corrimão feito de rosas e madressilvas e jasmins, da escadaria rutilíssima, madreperolizada, da aristocracia da virtude. Formai das glosas, dos versos, das rimas do poeta, uma nuvem de ouro, com cintilações purpúreas, para subirdes, envoltas nela, aos intermúndios da crença, de onde o adorável, o cândido Jesus das cândidas bênçãos entornará nos vossos lábios os aprazíveis licores da ventura infinita, e, vamos, provai, livres da vossa irritabilidade nervosa, do vosso temperamento sanguíneo, que aqui, nesta terra de Oliveira Paiva, o apóstolo sincero da bondade extrema, deixa de existir a sentença do mestre: É curta a piedade dos homens. O poeta vos pede pouco, muito pouco. Atirai em leilão os livros que ele traz, arremataios todos, ponde em quermesse os vossos corações, enchei aquelas mãos calosas e dignas, dos mais simpáticos e sonoros níqueis e tudo será feito. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 33 Deixai um momento o sarcasmo, a sátira e o egoísmo; lembrai-vos que a humanidade está sujeita às mesmas leis eternas e imutáveis. Amanhã, será por vós, talvez, que passará a desolação da vida. Amanhã, talvez, os caminhos do vosso bem-estar, tilintantes de alegria, inundados de sol, relampagueados de júbilos, estejam tristes, bem tristes.., duma tristeza funda e pungitiva. Deveis pesar os clarões da vossa felicidade, pelas sombras das mágoas alheias. O poeta vos pede pouco, muito pouco. 34 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 SABIÁ-REI A César Muniz O sabiá ruflava as asas pardas e amplas, sempre que fazia explosir, como uma girândola no ar inefável e translúcido, a sua escala cromática, de gorjeios claros e espontâneos, pela saleta de uns tons violáceos, com filetes e cinzeladuras doiradas. Quando o sol, gloriosamente tranqüilo, numa fartura de luz benéfica, numa refrangibilidade prismática, atirava os venábulos cintilantes pela janela da luxuosa saleta, fazia bem ouvir-se, consorciados à coloração vermelha, rubra, os artísticos concertos do incomparável maestro das sinfonias selvagens, do empório largo da natureza criadora. Era o deslumbramento da harmonia e da luz. E quanto mais o sol fulgia, coruscando do alto, em rutilante cascata, mais o sabiá cantava, cantava, cantava sempre. Parecia que nos raios do grande Filósofo da evolução natural, vinha presa, fundida, corporificada toda aquela música sonorosa e adoravelmente casta que lhe saía do laringe metálico. Sentia-se como que o irromper imponentíssimo de heróis, de espíritos saudáveis, em marchas triunfais, em pompas, pela curvidão marmórea do Azul, ao escutarse o primoroso tenor das selvas. Como cantava bem; como os trinados cheios, como os vocábulos musicalizados se derramavam todos, com orgulho, inflados de brio, recortados de uma bravura nervosa, sobre os objetos silenciosos – os ricos móveis facetados de madrepérola, os divãs de custo superior, os contadores róseos, as chaises-longues, o piano, sobre o qual dormiam algumas rêveries de Schubert, as cômodas poltronas austeras, os cristais finíssimos, as estatuetas representando amores pagãos, os reposteiros suntuosos, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 35 cor marron, as múltiplas fanfreluches chinesas, as esquisitas ânforas gregas – tudo na imobilidade da treva. Um dia, deixaram a porta da gaiola aberta e o sabiá, lembrando-se que tinha talvez um lar mais livre na amplitude livre da floresta, um ninho mais amigo, mais carinhoso, na doçura consoladora da paina e do musgo, bateu, abriu as asas de gênio inspirado, num último acorde de músico e vibrante e... fugiu, rasgando a transparência das esferas alegres e infinitas. Mas um caçador ingrato que rodeava aquelas paragens, vendo o esvoaçar vitorioso do pássaro cantarolador, disparou um tiro valente e o sabiá caiu... Nos seus olhos havia ainda os derradeiros lampejos do tropicalismo da raça. E o sangue a rebentar-lhe da ferida aberta, como que parecia também salmodiar a nênia sombria da ingratidão dos homens pelas Aves da Luz. Dispersos 38 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 DA BAHIA SOBRE OS POETAS CATARINENSES SANTOS LOSTADA E VIRGÍLIO VÁRZEA Acabo de receber jornais com o espírito hors ligne de ambos. Maravilhoso! Único! Li, reli, treli os versos e “quinquili” o folhetim. Admirável! O Lostada, com a sua palavra toda irisada de florões levantinos, arquitetando uma fraseologia própria, original, levada nas claridões aurorais, cinzelando um pedaço de marfim, cheio de salpicações multicores de azul, rouge, e ouro, traçou um dos folhetins mais cheios de verve que eu tenho lido. Brilhante de concepção, intuitivo, vibrante como um tímpano de metal ou um anafim mourisco. Parece uma filigrana de Alencar, uma página da Dama das Camélias de Dumas Filho, ou uma frase perfumada, de luva gris-pèrle de Théophile Gautier, o delicado inspirador de Mademoiselle de Maupin. É um belo trabalho, e, direi mesmo, un chefd’oeuvre. Completo, artístico, palpitar de almas, cânticos à liberdade... É galantemente espirituoso e espirituosamente galante, Lostada, o teu folhetim pschutt; é vivo como uma alvorada ou uma orquestração de aves que rouxinolizam através das fulgurações ensangüentadas de sol no seu plaustro iluminado e triunfante, quando sobe a escadaria longa e suntuosa do Levante! Ainda bem! Principiam eles a ter as imponências de águia condoreira, nessa infeliz terra que eu tanto amo, que defendo sempre que o senso mo manda fazer, e que lhes tem sido ingrata! Oxalá saibam os catarinenses, como os dous bandeirantes, compreender o evolucionismo do século e agitar o cérebro pensante do Desterro. Eu cá estou de longe para guardar, no sacrário de minha admiração convicta e séria, as pérolas e as flores OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 39 de luz e ouro, do ideal desses combatentes moços que se chamam Virgílio Várzea e Santos Lostada e que, como uns intrépidos soldados da Idade Média, sabem na luta do talento, na batalha do livro e do estudo, atirar o seu cartel, a sua luva de desafio à ignorância e à insensatez que não ousa dar um passo na vanguarda do Belo filosófico, do Belo estético de que fala Eugène Véron no admirável livro L’Esthétique. Não posso ir mais além. Estou ainda sob a impressão daquelas linhas, cheias de rendilhados, belas, luzidias. Abraço-os, num fervor explosivo de entusiasmo e brado-lhes da sombra onde estou, intimamente saudoso, por não os ver: – Avante, amigos! Na grande cruzada da luz são os heróis, aqueles que se erguem da treva, do obscurantismo, da democracia, e de luta em luta, de lágrima em lágrima, de fel em fel, de desespero em desespero. São aqueles que riem... quando choram e que choram... quando riem. São esses que de Tântalo passam a ser glorificados como Voltaire ou Dumas. Salve! E como paráfrase àqueles versos do másculo cantor da Abolição, Castro Alves, quando diz – “Bravo quem salva o futuro fecundando a multidão” – eu, em completa síntese de aplausos, dir-lhes-ei: – A perfectibilidade moral e intelectual de um povo depende da mocidade, essa vigorosa e audaz fundidora do porvir. Salve! Que a minha alma adeje nas asas policromas da inspiração, para saudar os dois talentos mais amplos e os dois poetas mais perfeitos da nova idade literária catarinense. 40 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 INTERJEIÇÕES DA LÁGRIMA (ARTUR ROCHA) Ainda funâmbulo do ideal, Moleque, vamos, reticência de soluços os períodos de tuas colunas, vírgula de lágrimas essenciais e austeras a tua fraseologia, corta, rasga, espedaça, destrói a tua vestidura multicor, alegre como os guizos sonoros, vibrados à música da pandeireta; para as tuas cambalhotas atrevidas, no trapézio da crítica, apostrofa a gargalhada vermelha do ditirambo cortante como a navalha, sacode os teus nervos, acorda a tua animalidade, o teu humor que ri e que chora – e, vamos, Moleque – fazendo explosir os gritos da matéria, as impetuosidades pantéricas da carne, afoga o teu organismo, mergulha-o na sombra do não ser, do eterno problema trágico de Shakespeare. Morreu Artur Rocha. O que quer dizer isto?! O que se deduz destas três frases, ali acima desta preposição, enfileiradas, alinhadas, perfiladas, na solenidade fúnebre dos ciprestes inteligentes, graves, circunspetos? O que significa aquela afirmativa, que tem a tristeza, a unção religiosa dos soluços indefiníveis do órgão, espalhando-se, derramando-se pelas abóbadas de um templo enorme e majestosíssimo? O que quer dizer isto?! Quer dizer que desapareceu na noite metafísica um dos mais valorosos espíritos da geração deste país. Quer dizer que entregou-se ao conúbio do verme, no conceito de um talento forte, uma das mais radiantes, uma das mais ousadas e selvagens imaginações que conheço. Artur Rocha tinha um magnífico cabedal literário, o seu espírito compreendia a força intuitiva das cousas e às vezes, varado por uma loucura que se poderia qualificar de genial, a sua pena coruscava, relampejava, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 41 fuzilava na escrita, com as nuances sulfúreas dos fenômenos que se observam nas marés. Sua inteligência fina, penetrante e superior, dum atilamento de filósofo, alargava-se pelos mundos da ciência, a fora, como uma águia gloriosa e imponente na fartura das penas e na rijeza das asas. O estilo saía-lhe terso e animado por uma chama sempre nova, viva e ardente. Parece que ele bebia, pelos órgãos visuais e pelos órgãos auditivos, toda a seiva, toda a fecundidade natural, porque os seus artigos tinham raízes boas, alcances magníficos, fundos didáticos e evolucionistas. Não se compreendia o Artur Rocha, sem o seu lenço ao pescoço, nem o Rio Grande, sem o senso jornalístico de Artur Rocha. Se Artur de Oliveira era um desespero de talento, doido e tresloucado, que enveredou no antro surdo da dúvida, Artur Rocha era um cérebro sadio – cuja natureza urgia, com a sua preponderância animal e inevitável, mais horizontes para viver, mais céus estrelados de sóis para alargar e fortalecer o sangue vital das células intelectivas. Vamos, Moleque, retesa os músculos e, embora pareça que ris sempre como o Ghwinplaine sombrio, nas eternas cabriolas da dor, no sarcasmo epilético da agonia, pontua isto, com a lágrima franca e sincera, em consideração ao talento que cai. 42 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 VICTOR HUGO – La gloire t’a donné la jeunesse immortelle. Isto escreveram-te no teu octogésimo terceiro aniversário natalício. Hoje, depois do teu eclipse no mundo animal, mas da tua transformação, da tua entrada majestática pelos sóis das idéias, pelos corações valentes das gênesis dos povos – eu, mandando a palavra musculizada, enfibrada, palpitar como um organismo, sintetizando as tuas obras, arremesso, pelo teu túmulo a dentro, isto: Morreste em todas aquelas mortes. Viveste em todas aquelas vidas. * * * * * * * * * * O poeta d’Os Miseráveis, aquele que tinha uma consolação imaculada e profunda para todos os miseráveis; o poeta da PIEDADE SUPREMA, aquele que tinha uma suprema piedade por todos os desgraçados desabou como um sol triunfante e glorioso e, agora, como numas pequeninas visões de oftalmia, causadas pela luz excessiva, todas as raças hão de sentir os olhares ofuscados nos clarões estupendos que o Cristo da Liberdade universal espalhou pelos séculos afora; esse Cristo extraordinário, esse poeta do HOMEM QUE RI, que ria dos nababos da treva e chorava pelos mendigos da lama numa loucura genial, esse poeta de l’ombre et de l’abîme. E agora, a sombra e o abismo riem-se por lhe sorverem a matéria, mas a luz folga, acariciando a substância espiritual do vulto. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 43 PERFIS A VAPOR CARLOS SCHIMIDT O Carlos, o Schimidt!... O Schimidt, o Carlos!... Duas pessoas, distintas e... uma só individualidade verdadeira. Magnífico, o Carlos Schimidt!... Quem o não conhece; aquele invólucro simpático, guardando um coração valentemente democrata e digno, como o cálice de uma flor delicada guarda o perfume, que é o espírito da natureza vegetal; como o crânio guarda o espírito, que é o perfume da natureza animal. Quem enfrentou ainda com esse caráter em linha reta pelos escombros e anfratuosidades da vida, que não sentisse vibrar dele a nota da adorabilidade e da magnitude?... Carlos Schimidt faz da honradez uma couraça temível contra as marteladas e os golpes adestrados da luta sociocrática. Podem atirá-lo aos empurrões, aos solavancos, aos embates fortes por despenhadeiros compactos de treva, esses numes invisíveis que formam os destinos do ser, que o bom do homem, o esplêndido coração, cairá sempre, mas sempre em terreno plano, luminoso, suave. Talvez desarranje um músculo, mas o caráter, olhem bem para ele e... vê-lo-ão em todo o vigor, com toda a correção do estado primitivo... Faz bem, no meio de um materialismo que cega, duma indiferença que regela, dum egoísmo e mesquinhez de sentimentos, sentir palpitar ainda, surgir do caos da podridão moral, almas decentes e profundamente boas e úteis, com verdadeiro direito à vida, como a deste adorável catarinense. Não conheço ninguém mais atilado para as ocasiões do trabalho, com mais competência de senso para o encargo superior de pai de família. 44 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Carlos Schimidt conhece as meias-tintas do lar, sabe esbater na tela doméstica as cores das circunstâncias da existência, distribui com arte o colorido da felicidade de suas filhas e... encara, rindo, a gradação das sombras do pesar. Pode-se dizer que no centro harmonioso da família e da sociedade ele é, como diz Guerra Junqueiro – Um gigante nu contra um gigante d’aço. A atividade do Schimidt espelha-se partícula por partícula, em todas as coisas, como o orvalho gota a gota em cada pistilo das magnólias. Na arte plástica, nas ligeiras cinzeluras arquitetônicas do desenho, por intuição, por gosto, por estética, nos fanfreluches do espírito fino, carnavalesco, no humor caricatural, pronto, claro, preciso, espontâneo – observa-se no Carlos uma adivinhação de tudo o que é belo, grande, primoroso. Possui uma perfeita organização de artista, onde há muita seiva, muita coragem bonita, muita compreensão do difícil e do bom, mas pouco, muito pouco horizonte, muito estreito campo, acanhados limites... Ele é como os objetos em cujas facetas a luz reflete-se em prismas. Apresente, por isso, e só por isso, o excelente Schimidt que é, dentre as personalidades que apodrecem no vulgo – como que um grito alegre da terra – no tropo de Ramalho Ortigão. Gosto do Carlos, porque ele afinal de contas... é mesmo assim... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 45 VICTOR HUGO Ne dites pas mourir; dites vivre, croyez. É o apotegma glorioso do mestre, que sintetiza toda a valentia, toda a força superior do seu atilamento espiritual. Nunca morrem os homens de cérebro, aqueles que têm a penetração filosófica das grandes causas, que sobem, pela idéia, às maiores alturas, de onde, se caem, é pela vertigem que lhes causa a luz, a zona infinita do éter. Quem viveu como Victor Hugo, dentro destes três preceitos grandiosíssimos da mais simpática e revolucionária figura da História, o Cristo, o filósofo supremo, esses preceitos racionais da Liberdade, Igualdade e Fraternidade – há de cair humanizado na dúvida sinistra do túmulo, mas há de entrar em essência, em vigor intelectual pelos corações de todos os povos. Pensar, educar e combater. Ele o fez. Ninguém mais franca e lealmente se colocou do lado dos pequenos da sombra para ferir os miseráveis da luz, ninguém tanto abençoou os pequenos da luz para estigmatizar os miseráveis da sombra. Victor Hugo foi mais do que um revolucionário, foi uma revolução. A indomabilidade selvagem do seu organismo, os seus elementos de combate, a sua argúcia pronta e assombrosa no desenvolvimento das evoluções morais e sociais deram um cunho fantástico na escala extraordinária dos seus assuntos verbalizados ou expostos em caracteres. Esse operário do bem, esse bem do operário ou antes: esse próprio bem que existiu pela sua animalidade quase um século, concluiu as obras monumentais de cem séculos. 46 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Representou em oitenta e três anos uma porção de paixões, uma porção de lutas, um milhão de sentimentos. Viveu a fase do homem e a fase do leão. Bebeu inspirações maravilhosas, mergulhando a cabeça no infinito e trazendo-a ensopada em luz. Viu quedas de reis e de estados, de usos, de costumes, atravessou os mares de todas as tempestades, viu morrer Gambetta, viu morrer Littré e Girardin, sentiu as maiores vibrações e estremecimentos de triunfo, viu, em pé, no trono de seus livros, aureolado pelo arco-íris da sua palavra doida, nervosa, desesperada, passar toda a enorme imponência que pode admitir o pensamento e o olhar: Viu Paris, fartamente alegre e alegremente farta de glórias, ajoelhar-se, beijar, vitoriar num bombardeamento pelos sóis das intelectualidades universais. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 47 MAJOR CAMILO É uma gargalhada de sessenta e tantos anos, sempre cristalina e vibrante. É o homem que ri... Não “o homem que ri” do Pater oceanus na frase de Théophile Gautier, mas o homem que ri, de Santa Catarina. É um patusco, a gente diz ao enfrentar com o Camilo. É um caráter limpo e honesto, a gente diz ao enfrentar com o Major. E Camilo e Major e Major e Camilo formam um Major Camilo muito direito, muito reto, muito respeitável. Dentro do seu organismo, chocalham, tilintam todos os guizos do prazer e da alegria franca. O seu espírito não se preocupa com os enevoamentos do ser. Sabe o que são lutas porque tem vivido o tempo preciso para elas, mas, ao contrário dos espelhos, não reproduz, não reflete sempre as sombras melancólicas que por acaso cruzam-se dentro de si. Tem a preocupação da arte, a inteligência, a finura. É um magnífico conquereur do ideal, metido na tebaida da indiferença. Nos teatros, pelo carnaval, com a hábil direção do seu pincel, tem pintado o sete, a manta... e... não sei se, sobretudo, algum xale... ou sobretudo... Pinta também... o diabo na “Diabo a quatro” sem mesmo pintar nenhum diabo. E é um diabo dos diabos. Quando ele está entre os seus amigos e que, de repente, explodem em risadas todos eles, não há que ver – Estourou por ali a bomba de alguma anedota do Major. Todos cercam o precioso cidadão de afabilidades e gabos, porque ele, no sacrário da família, guarda, 48 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 acaricia e afaga a hóstia de luz, a lembrança do amor imaculado e supremo de sua mãe que vivia para estenderlhe, sobre a cabeça, como um manto estrelado de consolações e de bondades, o seu olhar piedoso e santo. O Major Camilo representa, na atividade humana, o humorismo alegre de Júlio César Machado. Ri, ri nervosamente, funambulescamente, talvez para tapar, com risos, os escombros, os vácuos da sua felicidade. Ri, talvez, para dar mais claros aos escuros da sua existência. Ri, porque é uma necessidade dos seus músculos, dos seus órgãos vitais... O seu coração expande-se pelas cousas dignas, bate ainda com força, nas palpitações fortes da mocidade, porque o Major recorda o seu tempo, o seu bem-estar de moço, pelo país dos sonhos a dentro, vendo o cosmorama simpático da sua ventura de rapaz, sentindo cantar-lhe no peito os gloriosos vôos em busca das aprazíveis esferas infinitas da infinita luz. E ele ri, ri, como um doido do prazer; porque assim como a atmosfera, por um princípio fisiológico, influi no sangue, o riso influi no temperamento do Major. E, nos momentos dos entusiasmos justos, toda a aurora eterna da sua alma sobe, aflui-lhe ao rosto, como o colorido rubro da virtude e da dignidade. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 49 O ESPECTRO DO REI VERSOS DE MOREIRA DE VASCONCELOS (Maranhão, 1884) “Quem diz poesia, diz Emoção, quem diz Emoção subentende sinceridade”, escreveu Oliveira Martins, perlongando as Odes e Canções, de Luís de Magalhães. O trabalho de que nos vamos ocupar um tanto detalhadamente merece esse apotegma do ilustre escritor português. Há duas cousas no Brasil que são como que homogêneas: a política e a poesia, por não serem tomadas convenientemente a sério, por serem entregues a muitos espíritos pueris, duma penetração frívola e vulgar. Falar em poesia é, neste país, para a compreensão fácil e leviana de indivíduos inconscientes da verdade filosófica das grandes coisas tangíveis, uma imbecilidade, um entretenimento inútil, uma aspiração vazia de senso e de critério. Mas não se pense assim; não. Se a poesia é uma banalidade, uma questão de rimas e de amores romanescos, de tolices doiradas, rasguem-se para sempre, lancem-se ao fogo Os Lusíadas, a Divina Comédia, o Fausto, as tragédias de Shakespeare, o D. Juan, de Byron, a Jerusalém libertada, de Tasso, e tantas revelações geniais que não só levantaram homens na grandiosa comunhão das idéias, mas que celebrizaram nações imortalmente. A poesia é uma arte poderosa e positivamente séria; tais sejam a força intuitiva dos poetas e a sua unção religiosamente estética e afetiva. Todos os assuntos são valorosos e grandes, uma vez que sejam descritos e tratados com observação analítica. Se em todos os países civilizados a poesia segue na vanguarda de todas as altas criações do espírito humano, por que não há de ser assim no Brasil? 50 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Independência e idéias, consciência ao largo deixemos estrugir lá fora, na sociedade que arrota o seu bom vinho ao almoço, que vai pelos clubes passear a sua dispepsia, deixemos estrugir, sim, os ditirambos crus, e as ironias entrecortadas de risadinhas vaidosas, insufladas de pedanteria e bílis. Agitar a alma a todas as sensações capazes de robustecer o espírito, ter a penetração do “Grande Meio” na frase de Comte, ser grande com os grandes, e pequeno com os pequenos, trazer sempre no organismo a harmonia vital do exuberante empório das maravilhas, a natureza criadora, adivinhar todos os fenômenos, ser artista, valentemente artista, inspiradamente cinzelador, conhecer as meias-tintas e os claros-escuros, as meias-sombras da vida, soluçar de pé como um colosso, rir como um desvairado de luz, compreender as largas mutações cósmicas, os nimbos crespusculares das amplitudes do éter, rasgadas em coloridos undiflavados, em tonalidades supremas de melancolias suaves e cândidas – sentir, ver tudo isto com o eloqüente olhar do raciocínio, com a indomabilidade selvagem da crença animal – eis o que é ser poeta. Poesia quer dizer emoção, quer dizer sinceridade, quer dizer alma e consciência. Todos os dias criam-se trovadores mas não se criam poetas; criam-se máquinas mas não se criam corações. Da fecundidade espontânea e livremente franca do espírito, do estudo superior e particular de todas as coisas da existência, das frases pequeninas, das minuciosidades notáveis do ser, dos compridos vôos de aspiração, firmados em claros alicerces de verdade, deve nascer o poeta, boêmio eterno das incomensuráveis estâncias do Ideal. O Evolucionismo, que tende a aperfeiçoar, completar, dar razoabilidade a tudo, exige da poesia uma transfiguração natural da forma, uma regularidade OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 51 matemática no metro e uma selva brilhante de concepções elevadas e límpidas. Pela forma, ser nítida, clara como os cristais a cintilarem batidos pelas arestas do gás; pelo metro, ser correto como Ângelo Buonarotti na admirável arte da escultura; pela concepção, ser elevada, grande como a frase de Girardin, delicada como o espírito das flores – o perfume. Se tivéssemos de caracterizar uma poesia brasileira, genuinamente nossa, seria a lírica, porque é essa a nossa índole e afeição poética, porque os nossos primeiros cantores foram líricos, porque a mor parte de todos os elementos e princípios de vitalidade intelectual dão em resultado a poesia lírica. No meu modo de pensar, calmo e refletido, acho que a transformação absoluta e normal que alguns sérios poetas brasileiros têm dado à poesia, é indiscutivelmente superior e de resultados mais seguros e mais dignos. * * * * * * * * * * Para mim cousa alguma deve estacionar; fazer poesia relativamente às necessidades congênitas da nossa natureza letárgica e mole parece-me de mau gosto e não condigno das proporções, que, à luz dos conhecimentos do século, tem tomado a inteligência humana. Essas vantagens de transformação universal nas artes, nas ciências, nas letras e que a crítica sensata estuda e compara com a máxima argúcia são o triunfo verdadeiro dos direitos de vida que o homem deve ter sobre a terra. Com a acentuação do estudo e do progresso, a inteligência cria frutos mais sazonados e bons. Incontestavelmente a literatura moderna é mais revolucionária, mais conscienciosa, mais firme e mais inspirada do que a antiga. 52 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 O romance positivamente sem força experimental era escrito de um fôlego, sobre a perna, sem uma única preocupação estética, sem um cuidado de forma, todo ele cheio de situações de cordel, falso, imprestável, inútil. Hoje é um corpo sólido, sentindo todos os agitamentos, todas as palpitações dos nervos; hoje o romance é um pedaço tirado à vida social, analiticamente psicológico e fisiológico; contendo a seriedade lógica dos fatos, a irrepreensível escola da verdade; doutrinando, argumentando, influindo nos costumes e nos vícios, como a atmosfera influi no sangue. Hoje a forma amplia-se à largueza dos sentimentos, a largueza dos sentimentos à força da imaginação, a força da imaginação aos materiais do bom senso, cujos produtos são perfeitamente distintos dos produtos banais e estéreis. Antigamente parecia um pieguismo indecifrável ver-se um homem educado, convenientemente instruído, a ler um romance; hoje é fato que honra e distingue, quando esse romance tem na sua lombada os nomes aureolados de Zola, Flaubert, Daudet, Manzoni, Eça de Queirós e Teixeira de Queirós (Bento Moreno). A poesia, como o romance, é fora de dúvida que tem a seguir o mesmo caminho, colocar-se na mesma esfera, isto é, dizer alguma coisa de novo sem incompatibilizar-se com o sentimento expansivo da inspiração e da verdade. – O verso deverá ser fluente, o metro inteiro, a rima perfeita. “Um verso frouxo ou manco e uma rima equívoca ou violenta hão de ser perpetuamente defeitos. Quem disser o contrário – ou é tolo ou tem ouvidos de cortiça.” Afirma o sr. Alexandre da Conceição. * * * * * * * * * * OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 53 No Brasil ninguém lê versos ou se alguém os lê é por distração, por hábito, para fazer disposição a alguma cena postiçamente dramática com a sua loira ou a sua morena, para acender a pólvora da paixão que há de explodir aos pés de uma “ela”. Quem lê versos na acepção mais inteira e clara da frase é quem faz versos; é o poeta, e até aí se acentua a máxima de – poetas por poetas sejam lidos. Este meu – ler versos – não quer dizer recitá-los, repeti-los automaticamente, decorá-los; quer dizer, sentilos, pensar neles com madureza, compreender-lhes a origem, o gérmen que os fecunda, a grandeza que os inspira e anima. Sem dúvida, a tarefa de sentir propriamente, cada um por si, não é tão difícil nem tão religiosamente fenomenal, como a de compreender e sentir, por assim dizer, o sentimento alheio. Nas diversas fases de sensações, aquelas que damos a outrem pelos produtos artísticos, pelas criações do gênio, pelo esforço da inteligência e da razão, são mais admiráveis e grandes do que aquelas que recebemos!... Isto é uma questão toda intuitiva, natural, uma questão de mais ou menos sangue nos glóbulos cerebrais; não se argumenta, afirma-se; não se debate, raciocinase; não se exemplifica, pesa-se no senso. Toda a fonte de vida e de reflexão que rebenta de um bom verso ou mesmo de um bom livro de verso, necessita outras dezenas de fontes de sentimento, de critério artístico – grande segredo racional – para que esse ou esses versos possam ser julgados competentemente, com a maior fartura de sagacidade e atilamento. Muita gente há que ouve estas coisas mas teima em não querer compreender, em ficar numa ignorância por hábito, por uma falta de importância dada a si mesma, por um ódio surdo e inabalável ao seu 54 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 semelhante. E essa gente envelhece sob as mesmas impressões, olha para os mesmos horizontes, pensa as mesmas idéias, chora as mesmas lágrimas e ri os mesmos risos, sem ver que tudo isso acontece porque essa gente vive dentro do seu eu, e só para ele. Eterna preponderância, a majestade eterna da miséria no instinto do homem. – E daí, dessa rebeldia moral, o aplauso por cálculo, por convenção; e daí, desse fato que é uma anomalia monstruosa, perante o século, a indiferença de gelo por sucessos literários reais, o desconceito pelo estudo e pelo trabalho das nossas mais belas individualidades literárias, o desleixo mais cabal pelos elementos de luz que nos pertencem. Não comparam, não analisam, não anatomizam o nosso centro de letras, não estabelecem exemplos comparativos, de épocas, de meio, de índoles, de adiantamento; não entram com interesse, compaixão sincera de quem luta desenvolto, franco, livre, num exame de consciência, pela porta do dever e da verdade, apoteosando o mérito, não; mas quando se fala da nossa ainda nova literatura brasileira, perguntam o que é, parvamente, com um gestozinho de deboche de mulheres avinhadas, cofiando a barba, com a importância imbecil de um fiscal de teatro de feira. Mas entretanto, se se falar na literatura de um outro país, acham afirmativamente Victor Hugo o maior sábio deste mundo e do outro. São esses os críticos, são esses os entendidos, são esses os capazes, os didáticos; se nos atrevemos a dizer verdades como estas, somos parlapatões, ridículos, esmagam-nos com epigramas e piparotes de diabretes. * * * * * * * * * * Não obstante não querem enxergar nunca o direito, muito embora esteja ele de pé, à vista de todos; não OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 55 podem fitar nunca o sol da justiça porque são míopes de... raciocínio; vegeta nesses cérebros a dúvida do ser ou não ser – do príncipe da Dinamarca; isto é, não tendo confiança no valor da sua existência, não compreendem como podem acreditar que os outros existam para a vitalidade da matéria, fracos eles, para a vitalidade do espírito. E no meio da espontaneidade, da lisura com que dizem analisar os produtos racionais, sempre surge o despeito, lá cresce ele, – cresce, avoluma-se, toma corpo, enfibra-se, muscula-se e faz sombra à sinceridade e aos bons sentimentos da crítica imparcial e reta. A força consciente cede lugar à pequenez de uma paixão animal qualquer e aquele que se critica, que se observa, tendo as dificuldades, plenas e essenciais para ser colocado em superiores vantagens literárias, ferido na sua consciência, aviltado na sua justa proporção intelectual, amaldiçoa o trabalho e atira para a rua como uns objetos imprestáveis, o livro e a pena, causas primordiais da desorganização de seu futuro triunfante e de aspirações honestas. Caem então sobre o inspirado da luz, sobre o herói da idéia, mais tarde, quando o seu talento mergulhou de todo no profundo túmulo do esquecimento, quando o seu gênio deixou de bater as asas como um pássaro vitorioso e alegre, pelas distâncias intermináveis do Azul amplíssimo e doce; caem sobre ele, sim, as interjeições extravagantes e sombriamente irônicas da própria crítica que diz: – Fulano era um jovem esperançoso; por que não trabalha, não produz, não cria? Por Deus, como aquele talento, com aquela hilaridade!... Que bonito futuro lhe estava aberto!... Ah! esta mocidade é indolente, não é enérgica, não é vigorosa; tem as armas na mão e lança-as fora sem nada haver produzido. Lamentamos que Fulano desaparecesse da arena da inteligência. É uma perda notável para o seu país. 56 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Entretanto essa crítica não se lembra que ela foi quem o esmagou com a sua indiferença, quem o desanimou com a sua presunção, quem o estigmatizou com o seu despeito. Quando o pensamento humano fundir-se no crisol da verdade e da justiça, nesta bela terra brasileira verse-á que tais coisas, ditas aqui com a dignidade da retidão e da lhaneza, não são simplesmente para fazer esticar os nervos dos mal-intencionados, dos prevenidos como se diz, nem para levantar rigorosidades de estilo inflamado, mas sim para este reotipar, clara e concisamente, o modo de ver dos que pesam o juízo coletivo de uma literatura! * * * * * * * * * * Ocupemos-nos mais de perto do nosso assunto geral: O Espectro do Rei, síntese político-sociocrática, por Moreira de Vasconcelos. Esse livro vigoroso e robusto, por si só bastaria para formar uma reputação superior; revolucionar mesmo. Moreira de Vasconcelos escreveu-o de um fôlego, sem pausa, quase, diremos, sem refletir pesadamente, no acanhado espaço de dois meses em que nós que lhe sentimos a vertigem do cérebro, a pulsação das veias, o glorificávamos satisfeito, à vista de tanta pujança de talento, de tanta facilidade de concepção, de tão extraordinária abastança de idéias e assuntos originais. É preciso que se diga alto e altivamente estas verdades de bronze: – Poucos têm a felicidade de, reunindo a forma à arte, a rima ao metro, o fino e delicado espírito à sátira valente e mordaz, acumulando fato sobre fato, originalidade sobre originalidade, passagens históricas, variando de ritmo, de tons, de propriedade de ação, de propriedade de estilo, ampliando figuras nítidas e OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 57 completas, imagens claras e soberbas, harmonia superior e rimas não vulgares, algumas, muitas, únicas e brilhantíssimas, poucos têm a felicidade de preparar, em dois únicos meses de um trabalho nervoso, um livro de versos tão magnífico, tão bem acabado, o mais exigentemente possível, para quem quer enxergar as coisas direitas. Não têm aparecido a meu ver, no Brasil, muitos livros de versos superiores ao Espectro do Rei; consultemos o nosso tesouro poético, estabeleçamos paralelos entre os livros da moderna geração e esse de que trato. Moreira de Vasconcelos é um talento perfeito, audacioso, revolucionário e que, abominando as velharias, burila no seu gabinete de trabalho, com a paciência de um artista de raça, com a coragem forte de uma organização na qual o sentimento estético se difunde, as mais belas estrofes selvagens e inspiradas, grandes e imponentes como as eternas estrofes da criação. A gente lê todos os versos desse livro encantador sob uma impressão estranha e agradável. Parecem-se a uma quantidade ilimitada de pedras preciosas, de berilos, de topázios, de esmeraldas, de ônixes, de diamantes, de prásios, de pérolas, de corais, de safiras, de brilhantes, de turquesas – tudo isso rutilando, fulgindo, brilhando muito, aceso numa claridade espontânea e límpida, pelas línguas de fogo de um sol cintilador e rubro. O poeta apanhou na sua síntese toda a gestão do rei, a figura legendária a quem todos os fatores do movimento político superior exprobram e invectivam. Como no fenômeno da Luz, os raios refratores do talento do poeta iluminam todas as fases da história político-social da Nação. * * * * * * * * * * 58 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 É preciso ler-se o livro e acompanhar com o gosto e com a observação as particularidades do sentimento e do estudo. Moreira de Vasconcelos, com o seu engenho esplêndido, com as suas convicções literárias e profundas, com os seus ideais novos, com a sua filosofia grandiosa, fez revolução com O Espectro do Rei, como o prodigioso e inimitável maior poeta português Guerra Junqueiro, com o seu estupendo e divino D. João. No D. João há prodigalidade de idéias, esbanjamento de imagens infinitas; n’O Espectro do Rei, de Moreira de Vasconcelos, há a impetuosidade nevrálgica de poesia vibrante, a seiva de uma mocidade musculosa e rija de saúde. Por vezes parece que sente a gente aquelas estrofes boas, de um cheiro ativo de sangue de um corpo de artista, de um rapaz de alma simpática e adorável. A segunda parte, a “Visão de César”, que é o desfilar solene e majestático dos titãs da Liberdade e do Direito, em versos gloriosamente heróicos e fluentíssimos; a terceira, que é o “Tribunal supremo” onde imperam juízes soberanos; a quarta, que é o “Orfeão terrestre”, umas preciosas quadras corretas, das quais ressumbra ovante a lei do transformismo; a quinta, a “Agonia nacional”, onde a sátira, o ridículo e o espírito genuinamente notável e elegante se consorciam; a sexta, o “Drama psíquico”, onde a História, a grande mãe da humanidade exerce o seu poder inabalável, traçando na fronte do Réprobo o estigma da ignomínia; a sétima, o “Espectro do Rei”; a nona “Fases diversas”; a décima, “Dissolução moral” e a décima primeira, o “Sonho doloroso”, – formam em torno da inspiradora cabeça do poeta moderno uma sinfonia wagneriana de gritos, de soluços, de risos, de beijos, de explosões de dignidade, de epopéia de sentimentos e de luz. “O Fundibulário d’O Espectro do Rei”, para estar com a frase sisuda e larga do autor das Visões de hoje, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 59 da Poesia científica e dos Retalhos, o conceituado dr. Martins Júnior; o Fundibulário d’O Espectro do Rei, repetimos, não necessita dos encômios nem dos elogios ad hoc preparados para alarmar uns reclames falsos e bombásticos. O que ele é, o que ele vale, o que ele estuda, o que ele inova e aperfeiçoa aí está para os que lêem, aí fica provado para os que criticam sem paixões, para os que aplaudem sem ficelles. É natural que no valor vivíssimo da inspiração o sal da arte não convergisse todos os seus venábulos para um ou outro verso, mas isso será uma circunstância, uma falha tão diminuta como uma mancha no sol físico. Para um nababo, que gasta, a mãos-cheias, os tesouros de sua bonita intelectualidade, que esperdiça com profusão, com exuberância, como um perdulário, as moedas fortes do seu talento sadio, isso não pode ser defeito, não é, nunca o será. Demais, até hoje não se tem dado à luz da publicidade um livro de versos modernos com tanta originalidade de forma, com tanta beleza de rima e de imagens, tão completo e tão opulento. * * * * * * * * * * A crítica que o desminta, a crítica que o prove, pronunciando a última palavra do senso e da verdade. E depois, Moreira de Vasconcelos conhece a construção do verso e tem sobrevantagem sobre todos os poetas brasileiros e portugueses: os acentos tônicos, a partir do princípio de todos os versos, o que observou muito em algumas partes do seu livro, na maior porção de estrofes. Isto, que desde O Espectro do Rei ele pode constituir uma regra no Brasil, especialmente sua, pelo menos ante os processos dos versos publicados em volume, e que ele os analisa, – ficará perfeita e claramente 60 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 assentado nas Manhãs sonoras, produto da escola líricoparnasiana e que se deverá seguir à aparição d’O Espectro do Rei. O que sai da pena assim, vertiginosamente, é tudo quanto me merece a importância artística do autor; são os sufrágios da minha admiração convicta e francamente livre, por um talento nosso, original, despido das crenças caducas e aparelhado para o augusto congresso das idéias e reformas literárias. O que é O Espectro do Rei sente-se em cada página que se lê, em cada rima que se nota, em cada figura que se observa. Desta allure febricitante do livro, desta maneira de vibrar os seus sentimentos, deste jeito todo particular, das múltiplas faces da expressão, – o poeta abre com a sua síntese político-sociocrática uma exceção de valor, entre os mais seletos cultores da poesia nacional. A sua observância, a sua experiência natural, a sua prática absoluta de todas as coisas e fatos da vida, reunindo tudo isso à fecundidade do seu pensar, colocam-no em lugar especial e distinto no nosso pequeno mundo de letras. Moreira de Vasconcelos não esperdiça a sua atividade, não faz parar as funções ordinárias do seu cérebro, e cede ao impulso vigoroso duma vontade enérgica, ao movimento propulsor das suas ativas disposições mentais. Enquanto faz sair dos prelos O Espectro do Rei, constrói um outro belo edifício poético – as Manhãs sonoras; escreve crônicas artístico-literárias, conclui uma comédia original – O pato, revê provas da Luz da pampa, novo trabalho da escola sensualista, e prepara os instrumentos de combate para a síntese religiosa A família. Dessa efervescência de luta apresenta-se a crítica, com as suas convicções, com os seus exemplos num livro OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 61 republicano de idéias resolutas e firmes, moldando o seu ideal pelos seus confrontos. Seja teimosia, seja extravagância no gosto, o que é certo é que O Espectro do Rei, de Moreira de Vasconcelos, é um livro decente e adiantado, novo e original, e que, se não interessa, se não impressiona agradavelmente, de uma forma elevada e boa, as divindades literárias de lhama e papelão, do grande templo mitológico do júri artístico brasileiro, tem para mim o valor intrínseco de uma obra escrita inspiradamente, baseada em fatos históricos da maior gravidade social. É um perfeito poeta que vibra a teoria gigantesca dos assuntos necessários, coletivos, no presente, para fazer acordar o brio, a dignidade nacional no futuro; com a coragem cívica de Gambetta e a verve incomparável de Voltaire. Merece muito da justiça, da imparcialidade da crítica e esta que o considere, que o receba como é do seu dever restrito fazê-lo, não por ostentação banal, por uma vaidade imbecil, mas pela força consciente dos espíritos varonis e sensatos que são obrigados a fitar a luz em todas as suas mais amplas manifestações e em qualquer círculo que ela abranja. 62 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 PERFIS A VAPOR ELE Uma atividade! Uma locomotiva, deitando nove milhas por hora e ainda puxada por doze touros briosos e corpudos... É a síntese d’Ele... Sempre o vi andar e rir... Nunca parar, nem chorar... O quanto anda, ri, e gargalha... Lembra um vapor... às risadas... Parece que direito ao seu fim, pela estrada tortuosa da vida, calcando os enrugamentos do chão, quando há sol causticante e nervoso, quando a chuva abre, fundamente, estrelas na face polida do mar, nunca dão encontrões na desgraça; ao menos se ela o viu, passou de largo, num marche-marche acelerado, batida pelo olhar d’Ele, olhar de baioneta calada... Pode ser talvez que se esqueça, um dia, de rir e chorar por engano, para experimentar, de brincadeira, como diz a rapaziada juvenilizante, leve, nas travessuras douradas do jogo da bola... Mas isso, tão rápido, tão ligeiramente acontecerá, que nem mesmo Ele há de observar a transformação... De resto, tem uma cabeça curada para receber o eletrismo psíquico, as células desenvolvidas de modo a fazer o que não supõe ou imagina. Mergulhador perfeito das dificuldades que desolam, não precisa descer ao mar profundo de todas elas, na altitude fantástica, involucrado como os mergulhadores dos mares do Norte; leva consigo, unicamente, o grande facho da coragem que o ilumina e transparentiza todo, deixando-lhe a descoberto a sua alma forte e a sua pujança viril... Sabe ler o D. João, do Guerra Junqueiro, esses versos que parecem milhões de espadas luzidias, cada OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 63 uma com um sol espetado na ponta, entrando pela Imortalidade a dentro, e já me disse que sentia um bombardeio de assombros lendo Zola, o mestre dos mestres supremos... É um enveredador do futuro, absorvido, engolido pelo esôfago de um meio ignorante, onde influenciam mal os elementos climatológicos e etnográficos... 64 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 VIRGÍLIO VÁRZEA E CRUZ E SOUSA Temos a elevada honra de transladar para as nossas colunas um notabilíssimo e superior artigo crítico sobre os Tropos e Fantasias daqueles nossos amigos, insertos na Semana, da Corte, – a primeira revista crítica, científica e literária do país. O artigo é escrito, ou antes, admiravelmente burilado por Araripe Júnior, o profundo espírito literário, o conceituado crítico do Germinal, de Zola, e incontestavelmente um dos mais fortes talentos de combate. É isso um sério triunfo para os nossos amigos e uma esporada, um vibrante coup de balai na obtusidade córnea dos invejosos que queiram ou não queiram, gostem ou não gostem, apreciem-nos ou deixem de os apreciar, nunca conseguirão enfraquecer ou desvirtuar o seu inabalável merecimento. Morda-se, pois, toda a cáfila dos invejosos: “Os Nossos LIVROS – TROPOS E FANTASIAS” É o título de um pequeno livro escrito com estilo em Santa Catarina, por dois moços que nunca de lá saíram: Virgílio Várzea e Cruz e Sousa. Nesse fato está o seu maior elogio. Em verdade, publicar um trabalho literário em uma terra, onde a imprensa mal serve para o escoamento do expediente das repartições públicas e da intriga, já significa alguma coisa, muito mais ainda se esse trabalho tem colorido e recomenda-se por uma forma até certo ponto nova, cuidadosamente rebuscada. Os srs. Virgílio Várzea e Cruz e Sousa deram, pois, uma prova de vitalidade não sucumbindo à ação de um meio tão ingrato como é aquele dentro do qual achamse mergulhados; mostram talento pondo-se, através de tantas dificuldades físicas e morais, em contacto ou em OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 65 relações de simpatia com os espíritos que dominam o nosso século literário. Os Tropos e Fantasias, quando outra qualidade não tivessem, seriam objeto de curiosidade pela audácia que revelam. Seus autores, filiando-se à escola naturalista, atiram-se às formas literárias cultivadas por E. Zola e Eça de Queirós, com um entusiasmo frenético só comparável à ansiedade e aos deslumbramentos do pioneer que pela primeira vez penetra em uma jazida aurífera. Daí uma conseqüência. O estilo ressente-se das irregularidades e incongruências que se encontram na primeira fase de todo o desenvolvimento orgânico. Atrofias e hipertrofias, que só virão a desaparecer com a integração final. Completamente despreocupados das radicais do pensamento, os srs. Várzea e Cruz e Sousa fazem com a frase, com o período o mesmo que os miniaturistas com os seus artefatos. Pouco se importam que a lâmina da espada brilhe ou corte, contanto que os copos ofereçam aos olhos de quem a empunha uma obra de buril cheia de mágicos rendilhados. As páginas, os pequenos contos do livrinho que tenho em cima da pasta, não passam, portanto, de fragmentos de talentos que ainda não tiveram tempo de compor-se. A palavra, o período está completo, perfeitamente afinado pelo diapasão da escola; mas sente-se que no meio de todo aquele jogo de expressões, de imagens, de idéias esfuziadas, falta alguma coisa essencial. Essa coisa é o complemento da vida na frase; é a certeza ou o isocronismo da função resultante do perfeito acordo entre o pensamento e a palavra, de modo que esta não seja mais intensa do que aquele, e vice-versa. O tempo se encarregará de corrigir esse defeito. Quando amadurecido o espírito dos autores pelo exercício 66 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 e pela observação dos fatos exteriores, não lhes custará substituir a ênfase pela expressão exata e profunda. Há uma verdadeira e real classificação para o estilo desses moços: um ensaio de coloridos, de tintas acres, em uma palheta empunhada por mão nervosa. Percebe-se, à primeira vista, que os dois pintores ainda não dispõem do segredo da união dos grupos ou partes diversas que compõem a paisagem. Araripe Junior Depois disto, após esse juízo espontâneo e observador, após esta vergalhada mestra, todos os imbecis que morram na noite da sua vulgaridade, embrulhados nos farrapos das suas idéias, ficando sabendo que, quer leiam os escritos dos nossos amigos, quer não leiam, eles com isso nada têm a perder, nem a ganhar, porque esses imbecis não formam tribunal julgador, por não terem competência intelectual, nem nome que lhes faculte o direito para isso. É verdade que os imbecis encontram sempre outros imbecis que os aplaudam – mas isso é natural porque, quando não entendem uma cousa, dizem que não presta, unicamente por não terem a coragem precisa de dizer frase de mais senso. São assim todas as nulidades cínicas. O brilhantíssimo escrito de Araripe Júnior chamase a justiça, o dever da crítica literária não se chama egoísmo, não se chama ignorância. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 67 ABOLICIONISMO A escravatura – escrevia o Correio Brasiliense em Londres – é um mal para o indivíduo que a sofre e para o estado onde ela se admite, lemos no “O Brasil e a Inglaterra ou o tráfico dos africanos”. No intuito de esboroar, derruir a montanha negra da escravidão no Brasil, ergueram-se em toda a parte apóstolos decididos, patriotas sinceros que pregam o avançamento da luz redentora, isto é, a abolição completa. O Ceará, que foi o berço da literatura que deu Alencar, quis também ser a cabeça libertadora da raça escrava deste país e, a golpes de direito e a vergastadas de clarões, conseguiu este Aleluia supremo: Não há mais escravo no Ceará! Não obstante o desenvolvimento gradual, acessivo da grande idéia da democracia sociocrática que prepara os homens, fá-los cidadãos para o trabalho moderno, educado por uma filosofia mais spenceriana, mais na razão do século evolucionador, aparece a lei do sr. Saraiva, desmentindo todo o brio patriótico, toda a dignidade cívica da nação do sr. Pedro Segundo. Uma lei de fancaria, essa; uma lei que escraviza os escravos e documenta, com a morte, a liberdade dos mais velhos. Uma lei que faria rir o próprio Voltaire, numa daquelas suas explosões tremendas de ironia fantástica e diabólica. Entretanto, para organizar, por assim dizer, mais exata e mais verdadeira a idéia abolicionista nesta terra de Oliveira Paiva, O Moleque, que sempre alargou todos os seus sentimentos altruístas pela causa da humanidade servil, que é a causa do futuro, começa a publicar hoje alguns fragmentos de uma brilhante conferência abolicionista do seu pujantíssimo redator, 68 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 sobre esse assunto, feita na sala da redação da Gazeta da Tarde da Bahia. Concluída que seja esta, publicará um discurso do mesmo, pronunciado no Teatro S. João, por ocasião da libertação total do luminoso Ceará, e assim, sucessivamente, O Moleque prestará o seu humanitário auxílio para movimentar, de certa forma mais inteira, mais entusiasta, a abolição entre nós: “Estamos em face de um acontecimento estupendo, cidadãos: A abolição da escravatura no Brasil. Neste momento, do alto desta tribuna, onde se tem derramado, em ondas de inspiração, o verbo vigoroso e másculo de diversos outros oradores, eu vou tentar vibrar nas vossas almas, cidadãos, no fundo de vossos corações irmanados na Abolição; eu vou apelar para vossas mães, para vossos filhos, para vossas esposas. A Abolição, a grande obra do progresso, é uma torrente que se despenca; não há mais pôr-lhe embaraços à sua carreira vertiginosa. As consciências compenetram-se dos seus altos deveres e caminham pela vereda da luz, pela vereda da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, essa trilogia enorme, pregada pelo filósofo do Cristianismo e ampliada pelo autor dos – Châtiments – o velho Hugo. Já é tempo, cidadãos, de empunharmos o archote incendiário das revoluções da idéia, e lançarmos a luz onde houver treva, o riso onde houver pranto, e abundância onde houver fome. Basta de gargalhadas! Este século, se tem rido muito, e se o riso é um cáustico para a dor física, é um veneno para a dor moral, e o século ri-se à porta da dor, ri-se como um Voltaire, ri-se como Polichinelo. O riso, cidadãos, torna-se a síntese de todos os tempos. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 69 Mas, há ocasiões, em que se observam as palavras da Escritura: “Quem com ferro fere, com ferro será ferido”. E então, o riso, esse riso secular, que zombou da lágrima, levanta-se a favor dela e a seu turno convence, vinga-se também. É aí que desaparecem, na noite da história, os Carlos I e Luís XVI, as Maria Antonieta e Rainha Isabel, é aí que desaparece o cetro, para dar lugar à República, a única forma de governo compatível com a dignidade humana, na frase de Assis Brasil, no seu belo livro República Federal. [continua] 70 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 BIOLOGIA E SOCIOLOGIA DO CASAMENTO (PELO DR. GAMA ROSA) Entre as obras de Herbert Spencer e as produções do ilustre sr. dr. Gama Rosa encontramos o mesmo tom de conjunto, os mesmos traços gerais, os mesmos golpes de observação e de crítica científica, a mesma serenidade idealizadora. Na verdade, ter calma filosófica num país equatorial e inter-tropical de um sol cáustico é uma qualidade verdadeiramente e seriamente admirável, tanto mais se essa calma, se essa tranqüilidade de análise, se esse esforço mental paciente são completados por uma notável orientação e abstração de cérebro, fazendo lembrar o caráter pacificamente frio e pensador da raça anglo-saxônica. O dr. Gama Rosa identificou-se, compenetrou-se profundamente das teorias, dos princípios de doutrina do sábio bretão. Discute e amplia de frente os assuntos. Essa sua nova obra, Biologia e Sociologia do Casamento, exata nos processos críticos e filosóficos como está, parece-nos uma grande obra extraordinária que há de ficar viva e triunfante para a sociologia brasileira.* A complexidade de espírito, a forte chama imaterial de talento e o elevado poder técnico do filósofo brasileiro, solidificados por um largo critério indestrutível e por um vastíssimo cabedal de conhecimentos teóricos das questões e problemas que esclarece com a sua ininterruptível onda psíquica de saber e de luz, não estão em nível das capacidades inferiores, nem podem ser medidos pelas conformações débeis, que não pairam como os pensadores, como os filósofos nos altos ares soberanos da crítica científica. ____________________________________________________________________ * Foi traduzida para o francês e publicado na França, por Max Nordau OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 71 Os documentos, os dados, e todo o material ativo e regularizado da sua obra, a ferramenta de que ele se serve para poli-la, para dar-lhe convicção, sinceridade e verdade, estabelecem um ponto de partida geral, utilitário, dominante e prático. Daí partem, então, as poderosas razões, caras, iluminadas e puras, deduzidas das diferentes fórmulas de casamento, como a monogamia, a poligamia, etc., em uso nas diversas tribos de raças indo-européias. O casamento civil com divórcio está biologicamente, sociologicamente demonstrado na obra de que tratamos, é uma necessidade coletiva da família brasileira. No estado de evolução e ampliação de raciocinamentos práticos e positivos, lógicos e humanos a que as gerações chegaram, retardar ou embaraçar o desenvolvimento completo da família é atrasar, é puxar para trás a humanidade. A família deve ser não uma parte dependente dos fatores sociais, mas sim um corpo unitário, complexo como um organismo, entrando, como agente principal, em toda a orientação da vida moderna. Da família sairão, pela sangüinidade, pelos meios, pelos temperamentos, pelas influências e relações sexuais, pelo cruzamento de elementos de raças melhores, as bases de uma sociedade nova que há de garantir e aperfeiçoar a atividade material e intelectual futuras, definindo e acentuando a estética do tipo. E, para chegarmos a esse complemento radical, integral dos direitos da felicidade humana, é o casamento civil, com divórcio, a única força preparadora e naturalmente estabelecida no nosso centro, mesclado de tipos desencontrados e opostos ao progredimento deste ramo sul da raça latina. Entre nós, brasileiros, há uma defectiva tendência etnológica, sobre todos os outros povos, como um brunet especial, para a exterioridade nas aspirações. Não se vê o caráter nacional de investigação e generalização no 72 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 desdobrar dos fenômenos que os próprios fatos biológicos nos apresentam. O caráter exterior, tão pujantemente explicado e tão sabiamente desenvolvido por Spencer na Educação Intelectual, Moral e Física, documentado pelo testemunho de Humboldt, nos índios orenoques, tem servido até hoje de embaraço às faculdades criadoras de longa reforma social do individualismo da nação. Por ora, no Brasil, toda a integração de crítica, toda a aplicação sintética de filosofia é flutuante e vaga como as névoas que nascem dos lagos silenciosos, adormecidos na nitidez e na transparente brancura das manhãs. O dr. Gama Rosa, portanto, trazendo à luz da ciência as causas que a matrimonialidade católica obrigatória produz, não concorrendo para a seleção natural, não protegendo nem dignificando os destinos nem os misteres para que a humanidade se propõe – para engrandecer-se – presta um distintíssimo e o mais real e franco serviço à sociologia, honrando-a com a amplidão do seu espírito superiormente alimentado de idéias evolutivas. Para explanamento da cor dos princípios da obra Biologia e Sociologia do Casamento, basta-nos tirar à página 169 o seguinte: O progresso, que é uma conquista sobre o indeterminado e o incerto, tende justamente a instituir a previsão, a exatidão, eliminando o acaso nas condições da vida; mas presentemente o arbitrário e o fortuito encerram ainda importância capital. Ninguém ignora que as mais brilhantes situações sociais são perfeitamente compatíveis com a capacidade. As condições dessa seleção artificial encontram-se mais comumente no privilégio por direito de nascimento, na postergação da justiça, no favoritismo, na OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA amplitude, deixada ao azar no curso da vida humana e leis econômicas do mundo. Vê-se, deste corolário de argumentos práticos, que o livro em questão não implica conseqüências graves para o país, mas sim traz desenvolvimentos mais necessários e inclinadas incontroversas mais latas. São circunstâncias, ainda mais, são leis extremamente variadas, essenciais, incontroversas e permanentes, tiradas dos próprios casos biológicos e sociológicos tendentes à personalização e assimilação de uma raça. * 73 74 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 UM NOVO LIVRO (Desterro, abr., 1887) Ao Eminente Filósofo Dr. Gama Rosa Da evolução, da luta, da tenacidade, da força e da vontade foi que se fez o homem moderno. É isto que está ampla e indiscutivelmente comprovado pelas vastas teorias do século. Oliveira Martins, o poderoso filósofo da Biblioteca das Ciências Sociais, e, ao que nos parece a maior força pensante de Portugal, um homem cujo espírito extraordinário, investigador, paciente e infatigável, coloca-o no mesmo paralelo de Spencer e Haeckel, diz na sua criteriosa e exatíssima História da República Romana: “A antiguidade clássica foi equilibrada e por isso feliz, mas por falta de filosofia, caiu de um lado na depravação abjeta, do outro no naturalismo desenfreado; e, gregos e latinos, sepultados na cova cristã, deram de si o homem moderno – mais fraco, mais atormentado, acaso porém maior, por isso mesmo que sofreu mais”. Mais fraco, mais atormentado exclama o filósofo. Mais fraco sim, porque a luta tem sido desfibradora, os meios terríveis e arestosos, e o organismo cada vez mais perfeito. E o homem quanto mais se afasta das formas rudimentares, primitivas da natureza, mais frágil, menos resistente vai ficando sempre, além de que a falta de crenças e a perda constante de forças morais o depauperam e atrasam. Mais atormentado porque a verdade adquirida pelo conhecimento dos fatos positivos o torna cada vez mais responsável; porque a sua individualidade está sempre no embate de todas as hostilidades, de todas as contestações; porque precisa ter cotovelos de bronze para rasgar a crosta do anônimo, como bem pensa o ilustre literato italiano, o sr. Edmundo de Amicis; porque, finalmente traz a sua cabeça alta, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 75 acima daqueles que são ainda retardatários, e que a não podem trazer erguida na esfera azul das idéias. O homem moderno não é o homem superficial, o homem visionário, o homem triste. A tristeza é uma condição de moléstia, está no organismo como a filoxera nas vinhas; e o homem moderno tem de ser alegre, porque tem de ser higiênico e não há melhor higiene do que a da alegria. É da saúde que vem a força e a força é a luz, a vitalidade, a cor, o tom e a juventude eterna da natureza. Devemos cuidar, por isso, em sermos saudáveis, fortes e higiênicos. Tem-se falado, dito e escrito tanto sobre a direção que os espíritos têm tomado nestes últimos tempos, que parecerá ocioso e fútil demorarmo-nos no assunto. Mas há verdades que precisam ser bem elucidadas, bem combatidas, bem esclarecidas, gritadas a largos pulmões de touro, ao ouvido de muita gente atrapalhada, pessimista e fóssil, que ainda nos pequeninos centros ri, cancaneia arruaçante, com chufas e pedradas anônimas de garoto, das teorias resplandecentes e triunfantes, dos homens da Ciência. E o nosso caso não é outro senão o de fazer desfraldar, bem claro nos ares, o branco estandarte dessas teorias que são verdadeiras descobertas, irrefutáveis verdades, incontraditáveis fatos. As correntes influenciadoras que definiram e acertaram o pensamento novo são mais proveitosas, mais positivas, mais práticas. Podemos recebê-las como leis, não como gosto, nem como imitação ou moda. Nem o verdadeiro espírito de hoje tem moda ou imitação. O que ele tem unicamente é ação, é vontade, é força. Ele está dentro de uma evolução, se quiserem, do seu momento, do seu estado de laboração psíquica, e daí é que sai, inteiro, fiel e nítido, para o jornal ou para o livro, o seu esforço mental, como um produto fotográfico das cousas. Não tem mais o pedantismo acadêmico, nem 76 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 a retórica nem a gramática da convenção. Só admitiremos que ele receba idéias da realidade dos acontecimentos, das impressões poéticas e fecundíssimas da Natureza. A sua disciplina de homem, os seus modos de observar, o seu jeito de ter a dedução e a indução dos fatos são aprendidos, naturalmente, por meio de reiterados estudos e observações no mundo social. Homem moderno não quer dizer homem da moda. Modernismo de desenvolvimento, aperfeiçoamento, convicção, verdade, natureza, processos de exatidão num dado assunto crítico, literário, artístico ou científico. Modernismo é aproveitamento, utilidade, vantagem de uma época sociológica sobre outra, etc., etc.. Emile Zola é um sociologista. E o que é o Germinal senão o clamor, o clarim atroante de uma grande crise social, que o notável psicólogo descreve admiravelmente, pedindo a justificação, a solidariedade e a consubtanciação dos princípios liberais e humanos dos indivíduos das classes inferiores e ignorados? O que é Estêvão Lantier? O que é Suvarine? O “romance” Germinal, diz toda a gente! Mas nós não entendemos os livros literários especiais, de observação e de análise sob esse título. Ficou, desde Balzac, desde os Goncourt, sem propriedade, sem significação. O público os lê como se viessem da fábrica cerebral de Montepin, ou de qualquer outro. Não se importa, não lhe dá que fazer o estudo, a faturação, o estilo. Um livro literariamente escrito com a mesma proficiência científica e com a mesma certeza de técnica com que Oliveira Martins trata das ciências sociais, não deveria ter na sua lombada o título, já hoje gasto e romântico, de romance. É por demais escuro e insignificante para exprimir todas as colorações, todo o límpido cristal do espírito contemporâneo. É a nossa opinião. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 77 Depois desta rápida exposição da doutrina filosófica e literária de hoje, ou como pensem, vamos tratar de apreciar, ligeiramente, os fundos traços cavados de sinceridade, de lealdade e de justiça, como os traços de um colorido rubro e acre de Rubens, o caráter literário do belo provinciano que tanto nos impressiona e preocupa. É uma banalidade e uma falta de senso prático, uma inaptidão mesmo para adiantar outra coisa, dizerse que há elogio mútuo, superficial, quando um amigo trata dos merecimentos intelectuais de um outro amigo. É infundado e mesquinho tal modo de pensar. Neste século de luta em que cada hora passa como um raio, em que o homem não tem quase tempo de lançar os olhos sobre os acontecimentos da véspera, mais detidamente, com mais pausa, com mais vagar, porque tem de ocupar-se com o que vem adiante, enflorescendo e estrelando mais e mais o firmamento das idéias, não quer dizer nada, nem importa que um amigo escreva sobre um outro amigo. E isto pela razão única, intuitiva e lógica de que é esse amigo, por todos os sentidos, por todos os modos, o mais competente para fazer crítica sobre o outro, por estar em contacto com a sua personalidade, o seu temperamento, os seus tics, as suas emoções, a sua impressionabilidade, a sua feição particular de escritor. Pela crítica, pela justiça que lhe faz é que o público lê os seus artigos, compra os seus livros e aceita os seus preceitos. Nem pode ser de outro modo. Victor Hugo, no exemplo, documenta e comprova o que pensamos. Ele teve Lamartine, teve Sainte-Beuve, teve Théophile Gautier, etc., etc., que o elogiaram quando despontou na literatura. E esses indivíduos, esses escritores, eram os afeiçoados de Hugo. E se assim não for, como qualquer talento superior, entalado no círculo estreito da sua terra natal, onde não há aspirações 78 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 nobres e os espíritos apenas têm vôos galináceos, há de ficar no domínio dos homens que sabem? Pois se ele não tem quem o encorage, quem o estimule senão os seus amigos, uma vez que o egoísmo, a inveja, a indiferença e outros sentimentos tristemente hipócritas tentam combatê-lo, consterná-lo, dizei-nos, dizei-nos de que forma há de ele dar vazão ao seu talento, às nevroses mordentes que lhe queimam o cérebro, às idéias, senão permitindo que algum amigo os apregoe e os faça vibrar ao longe e ao largo dos Congressos das inteligências mais imperantes e mais disciplinadas – por um ato de fineza e, principalmente por um ato de justiça. Digamos, pois, o que se deve dizer, tranqüilos e seguros de nosso feito, com a retidão e a verdade, que é a filosofia de todas as eras. O que nos sugeriu as idéias acima e as que se vão seguir foi o ter sido enviado, há dias, para Portugal, a fim de ser publicado ali pela notável casa editora do Porto, de Eduardo da Costa dos Santos, o livro das Miudezas. Virgílio Várzea é um provinciano e um meridional. Nasceu sob a impressão simpática e colorida da paisagem, na atmosfera clara e vibrante deste pedaço da SulAmérica – em Canavieiras, um sítio de província, sossegado, discreto e verdejante, cheio de floridas várzeas, risonho e casto, onde a vida calma, singela e simples, saturada do bom ar sadio e fresco dos vegetais, corre livre, virtuosa, independente e não tem os aparatosos realces das lindas cidades elegantes, onde as donairosas mulheres amorenadas usam na tournure os mais exagerados tics, e os flaneurs vão, de rosa jalde na Capela, fazer estoirar o líquido opalino do Champagne Cliquot, rotulado a prata e a ouro em garrafas galantes, dentro de taças que tinem à noite, pelos cafés relampejantes e ruidosos. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 79 É uma natureza, esse moço; e daí o tom acentuado e muito colorido do aspecto das suas paisagens, dos seus contos. O seu temperamento tem várias modalidades. Porém, como os raios refratores de uma luz, essas modalidades, podendo multiplicarem-se, espalharem-se em estrias na verificação dos objetos e das cousas, reúnem-se, coligam-se, justapõem-se e formam um só foco luminoso e forte a que chamamos ordem. Virgílio Várzea tem ordem, tem exercício e disciplina literária. A sua educação de Artista fez-se naturalmente, sob a influência dos bons mestres, tendo o preciso critério de conhecê-los bem e muito, de compará-los, de não se munir de Larousses postiçamente sábios, que são como que Cartilhas de algibeiras, de onde sai logo uma legião de ilustrações feitas com muita manuseação e com muita consulta do conhecido dicionário francês, verdadeira biblioteca dos que gastam literatura por manha de didatismo ou de ecletismo artificial e fácil. Talento de assimilação, sabendo apropriar-se e compenetrar-se dos assuntos, com a percepção viva, do semblante animado, das coisas, Virgílio Várzea não é um principiante ou um medíocre que não mereça a análise franca da crítica. É mais do que uma esperança da pátria, e menos do que um jovem hábil, porque é mais do que essas duas comparativas. Discípulo digno e direito de uma Escola hoje completamente predominante – o Naturalismo – que chega a exigir que editores ofereçam 28 contos fortes à Daudet, por uma obra, ele tem todos esses detalhes, todas essas circunstâncias, todas essas finas e delicadíssimas originalidades que a compõem, ou então muito de inteira correlação com os talentos espontâneos, sinceros e firmes. Não é tudo quanto dizemos sobre esse moço catarinense, nenhum entusiasmo pueril. Nem nós temos aqui à mão uma pilha Volta que nos comunique e que nos empreste eletrismo de 80 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 entusiasmo e de aplausos fáceis. Se há pilha, é das nossas convicções, da nossa alma franca, serena e justa de combatente. Os que conhecerem Virgílio Várzea e lerem os trabalhos de que nos ocupamos aqui adiante acharão, por certo, que ele é um talento firme, original, trabalhador, afinado pelos maiores espíritos do seu tempo; mas nós que o conhecemos pessoalmente, momento por momento, instante por instante, dia por dia, que assistimos muitas vezes à confecção dos seus contos e que sabemos onde ele se adiantou, como lutou, como conheceu os golpes do estilo e a maneira de ver, como produziu sem elementos influentes para isso, como se destacou dos outros, como se especializou, afirmamos que ele é extraordinário. Nem esta escrita quer dizer nada diante da aprovação ou desaprovação da crítica sobre o livro do nosso constituinte. Porque também Emile Zola, quando começou a publicar o Mon salon, no Figaro, foi apedrejado pela pulha literária e sevandija dos cafés cantantes. Também os Goncourt foram contestados e só se ergueram em toda a culminância gloriosa dos seus espíritos depois, muito mais tarde, e isto em Paris, em Paris! a grande apoteosadora dos espíritos. Quanto mais numa cidade onde não se cuida de literatura, onde os velhos letrados, dos antigos periódicos obscuros, não deram mais um passo além do latim, e onde os novos, os moços que surgem agora, continuam na lição dos provectos mestres, como eles os chamam, sempre discípulos, sempre escolares, de braço dado com a rotina, caducos já na mocidade, como os velhos letrados de que ali acima falamos, sem tomarem um caráter mais saliente e mais elevado na Arte, na Política e na Literatura. Poderão dizer-nos que Virgílio Várzea não é nenhum Zola nem nenhum Goncourt. De acordo. Mas nós também poderemos objetar, muito logicamente, muito racionalmente, que o Brasil não é a França e que OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 81 não conhecemos, por ora, prosador literário mais original, mais imaginoso e mais objetivista, do que Virgílio Várzea. Quando dizemos imaginoso, não dizemos retórico, palavroso. A imaginação, principalmente num escrito moderno, participa da verdade e da observação. Imaginação como o nosso Ideal a representar num pressuposto fenômeno. Imaginação relativa à aquilo e àquele indivíduo ou àquele fato social que, como se mete em pauta qualquer loucura genial de Wagner ou qualquer admirável sinfonia de Beethoven, a gente mete em estilo, em vocábulos brilhantes ou ásperos, secos ou úmidos, conforme a precisão onomatopaica e o efeito de impressionismo que passou pela retina do escritor, do artista e do estilista. Neste ruído de teorias e de idéias gerais naturalistas que ainda não se firmaram totalmente neste País, aparece o vigoroso provinciano com as Miudezas. Não se escreveu ainda, pensamos, nem mesmo em língua portuguesa, um livro de contos tão pitoresco, tão “pintado”, tão musical e tão cantante. E nós dizemos um livro de contos, sem indagarmos se ele tem o todo necessário, o plano que constitui o caráter de um livro, isto é, a síntese de um estudo social, artístico, político ou religioso. Mas se formos a demorar bem o olhar no merecimento das Miudezas, ver-se-á que são muitos livros dentro de um só livro, porque cada conto representa uma fisionomia particular, destacada e distinta. Assim, o “Albino”, o “Morfético”, “Romance de um rapaz”, o “Manuel basta”, “A enjeitadinha”, etc. são contos profundamente humanos, paisagistas, parnasianos, cheios de um humor notável, vibrados a rijos golpes de verdade, naturais, onde se observam estudos de psicologia, um conhecimento exato do estilo moderno, uma penetrabilidade de escritor consciencioso, fiel na execução de seus personagens, dos seus moldes de comunicabilidade afetiva. 82 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Os outros, a “Cabra cega”, “Enterro no sítio”, “A travessia”, “O Sândalo”, “Passeio no campo”, etc., etc. exprimem os seus coloridos, os seus sons quentes e radiosos, as suas vibrações, os seus toques de pintura cromática de água-forte. H. Taine, o soberano crítico francês, diz, na sua Philosophie de l’Art, o que damos aqui, textual e autêntico, no próprio idioma, que “Chaque artiste a son style, un style qui se retrouve dans toutes ses oeuvres. Si c’est un peintre, il a son coloris, riche ou terne, ses types préférés, nobles ou vulgaires, ses attitudes, sa façon de composer, même ses procedés d’éxecution, ses empâtements, son modèle, ses couleurs, son faire. Si c’est un écrivain, il a ses personages, violents ou paisibles, ses intrigues compliquées ou simples, ses dénouements, tragiques ou comiques, ses effets de style, ses périodes et jusqu’a son vocabulaire.” Seus efeitos de estilo, seus períodos e até seu vocabulário, conclui o grande crítico. E é o que tem o nosso valente escritor jovem: seus efeitos de estilo, seus períodos e seu vocabulário, que alguns chamam neologismos e outros, menos incompetentes e mais ousados, termos empolados ou pedantes; questão esta que ele resolve e explica distinguidamente e cabalmente no prólogo da sua obra. Neste ou em qualquer caso, as Miudezas são um livro superior, adorável, primoroso e extasiante, constelado de surpresas de imaginação, matinal e festivo como se uma eterna aurora iluminada e perfumosa cantasse e risse pelas páginas a fora. As palavras, a verve, a graça, a elegância, a gentileza e a delicadeza das imagens lembram um rio de ouro fluido, sutil e límpido, que se desenrola pelos meandros do livro em ondulações suaves; rio, em cuja face sonora um sol de vitória derrama rubis, topázios, esmeraldas e berilos da refrangibilidade dos seus venábulos cintilantes. Uma pessoa recorda-se, pela imaginação acesa desses escritos, dos suntuosos palácios do Alcorão, e OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 83 vê-se numa sala oriental, toda de espelhos e púrpuras e cristais, ao lado de alguma divindade majestática, coroada de estrelas, de túnica de rosas e de lírios, tendo aos pés, num morno êxtase sensual e amoroso, qualquer Paxá asiático, extravagante e faiscante de pedrarias, com as suas pantufas verdes marchetadas de pérolas e diamantes. Nas Miudezas há o goût de terroir de que falam os franceses, e sente-se o vigor, o enseivamento de uma natureza literária muito sistematizada, decidida e pertinaz no trabalho. Ninguém, com mais propriedade e unidade de ação tomou a si e desenvolveu aqueles assuntos que, pela simplicidade ingênua, pelo saudoso e grato sabor de infância que conservam, pela intimidade e pureza de que são revestidos, parecem a muitos vulgares e banais. Referimo-nos a “Cabra cega”, para não citar mais, onde Virgílio Várzea pôs, tão maviosa e tão doce, uma nesga de luz da sua infância, fazendo ressuscitar aquele passado morto, tomar vida, mover-se e caminhar do fundo da tela das descrições, a mais expressiva e a mais verdadeira, com um milagre do seu talento indiscutível, pronto, decisivo na ação como um belo aparelho rotativo. É preciso ter-se um merecimento bem vasto e bem real para se saber dar valor e tratar assuntos tocantes que quaisquer outros, mesmo de certa nomeada, repeliriam por supô-los indignos e sem significação alguma de toda a forma que fossem encarados. Realmente, o talento é uma coisa imperceptível, um delicadíssimo filtro de luar que poucos percebem. Uma espécie desses corpos microscópicos que estão n’água, a mais cristalina, a mais clara e a mais etérea, sem serem vistos senão através de lentes graduadas e próprias. Nesta hora em que a preguiça mental tornouse quase geralmente uma [ilegível] é bom, é consolador ler-se um livro sincero, novo, escorrendo psiquismo, cheio de alma; faz-nos bem, tonifica-nos completamente a vida. E, deitando um olhar até a última linha extrema do 84 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 horizonte, por sobre o dorso esverdinhado e nevrótico do mar, onde a luz da lua, a clorótica Ônfale do infinito, cai como um dolente beijo de amor, lembremo-nos lá, além, longe, do outro lado da montanha, e do lado ainda de um outro mar, a seara dos espíritos cada vez mais enlourece e se enflora; e, deixando os que ficam atrás de nós, caminhemos sempre para legar aos de amanhã a bênção de nossas palmas e dos nossos triunfos. As Miudezas não são tudo quanto se tem de esperar do magnífico e encantador talento de Virgílio Várzea. Aguardemos os acontecimentos, deixemos que a evolução se faça, e em seguida aos frutos da alvorada, aos saborosíssimos contos, morangos que ele colheu nas alamedas do parque aristocrático e azul do Ideal, hão de surgir mais idéias, tão bonitas, tão cristalinas e tão nobres como estas, armadas de dignidade e de força, como um exército de cossacos, cujos sabres e cujos capacetes, à mordedura nervosa da luz, faíscam de reflexos de aço pelos relvosos campos de batalha. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 85 EMILE ZOLA (1887) Em torno da Academia Francesa tem esvoaçado, ultimamente, num luminoso eletrismo, como um grande pássaro de ouro, o nome de Emile Zola. Discussões sobre discussões acumularam-se de intensidade com relação à entrada do prodigioso artista na Academia, e mais especialmente depois que Pierre Loti para lá entrou agora. Essas discussões e opiniões que se cruzam parecem, de certo modo, estranhar a entrada de Zola na casa dos imortais, e isso unicamente por que ele em tempos foi o maior combatente contra aquela casa. Mas, por isso mesmo, a entrada de Emile Zola na Academia Francesa sugere-me, entre as diferentes opiniões que se deblateraram, uma ordem de idéias que tentarei expor, usando o mais livre exame, que é um dos acentuados característicos do mestre. A princípio, sem uma investigação demorada e refletida, diante de um espírito tão intransigente, tão demolidor, completado por moldes tão críticos, tão profundos de analista, chefe de um sistema literário, avant-coureur de um movimento novo na Arte, como é Emile Zola, a idéia que acode a quase todos é de uma transigência de doutrinas, quando, para o caso do infatigável operário, esse vivo desejo, convertido já em resolução definitiva, constitui a força natural que faz com que os heróis se recolham triunfalmente, depois de imensas batalhas ganhas, à sombra dos seus louros flamantes, à maneira do sol que se oculta no seio dos ocasos em sangue. Porém, quanto a mim, isso não empalidece a glória do poderoso escritor. Desde o “Mon Salon”, no Figaro, que Zola estendeu pelo mundo, com o seu nome, um rastro de estrelas, uma via-láctea tão estranhamente luminosa e vinculada 86 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 aos corações como as intensas raízes de uma robusta árvore monumental. Ele conhecia bem a força da sua estatura, media bem a vibração do seu pulso. De um vigor mental extraordinário, trazendo para a escrita a corrente das teorias positivas que se firmavam no mundo culto e delas adquirindo mais essencialmente a ciência fisiológica, como base de todo o pensamento moderno, Emile Zola, com a possança dos seus músculos, cabal, necessária, equilibrada, sabendo girar com todos os elementos de que carecia, meteu-se supremamente à forja e, com um valor gigantesco, foi acumulando na sociedade, no tempo, livros que outra cousa não representavam senão fatos, documentos da verdade, sob o mais rigoroso experimentalismo e uma forma naturalistamente definitiva na relatividade dos seus processos e que lhe parecia ficar como uma alta significação ou afirmação da natureza. O egrégio observador, num impulso d’águia, conhecia, decerto, a obra que levantava, o movimento de luz que distribuía em torno do seu nome, pelo aplauso, pela admiração das nações, e, pesando o alcance de sua envergadura, estabeleceu fisiologicamente uma série de teses, isto é, de assuntos que ele os desenvolveria evolutivamente, na proporção das funções de um organismo animado. Daí essa engrenagem de obras, todas elas obedecendo a um princípio assente, marcando uma fase, determinando uma época ou estudando um temperamento. Numa elevada pressão de idéias ele se tinha imposto à lei de marchar direito ao seu fim, sereno sempre, na convicção dos seus admiráveis planos. Fazia vagamente lembrar o Dr. Fausto, idealizado com a sua ciência, surdo às contestações do mundo, na análise crua dos homens e das coisas, atraído pelas OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 87 profundas investigações do saber e esquecido, alheio às solicitações da carne. O colossal edifício que Zola tem erguido firme na terra é um trabalho ainda para mais ser abrangido no futuro, quando outras gerações mais pensantes do que a nossa o sentirem de mais perto. O incomparável artista de Germinal lembra um gerador, um enseivador de progresso, determinando, de modo singular e concreto, abrangente do que nos cerca, pela retina e por todas as expressões dos sentidos, a vida dos seres orgânicos e inorgânicos como ela se desenrola, pronunciando-se como a manifestação do ar e da luz. Só a perfectibilidade cerebral mais delicada, mais dúctil, com mais vibração sensacional, poderá finamente perceber, em todos os minuciosos detalhes, esse excêntrico e assombroso vulto que enche a França e o mundo, embora o mundo inteiro seja ainda um academismo, esteja preso ainda, se bem que não manifestamente, à casuística da metafísica; embora por aí andem, mal percebidos e assinalados, os livros fundamentais que poderiam fazer do mundo, das sociedades, dos homens, um fio só de pensamento, dando-lhes o poder de abstração e síntese que só se adquire em virtude de condições muito probantes, e de faculdades superiores e radicais de raça. O certo é que Zola nunca foi compreendido, genericamente, na sua alta manière, na sua prodigiosa estrutura de analista. O que mais se percebe dele são as chamadas imoralidades, produtos do meio social, correspondendo à flor dos pântanos e terrenos charcosos que, nem por isso, deixa de viçar para os astros. A sociedade, na sua maior parte, é obtusa e não pode penetrar, como uma luz não penetra uma parede, em sentimentos muito leves, muito fluidos, que só um 88 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 vasto cultivo e aperfeiçoamento estético consegue apreender. No Brasil, por exemplo, a seleção dos espíritos não se fez ainda totalmente porque é necessário, primeiro, para isso, que concorram elementos, principalmente étnicos, para depois se formar o tipo da nossa mentalidade. E numa raça de atributos diversos, heterogêneos, sem condensamento, dificilmente se pode determinar o objetivo psíquico. Porque, se é certo que no Brasil há um grupo ilustre de escritores com a plasticidade necessária para a adaptação de idéias gerais, uns temperamentos mais requintados, mais exóticos, mais artísticos, com penetração mais aguda, é certo, também, que estão fora da sua época, relativamente, porquanto o meio não comporta ainda todas as suas excentricidades, nervosismos e pontos de vista novos, o que os faz prevalecer pouco ou vagamente, sem tomarem a posição que lhes compete. Nem quase se pode responsabilizar ninguém por esse fato, que depende de razões muito fundamentais. Seria como quem quisesse responsabilizar a raça negra pela diferença do pigmento, que apenas obedece a um simples fenômeno de química biológica. A opinião muito generalizada e superficial, que se tem de Emile Zola, é que ele é um rude e brutal trapeiro que anda remexendo os monturos só para tirar de lá os sujos e esfrangalhados farrapos, o osso descarnado e frio. Mas esse brutal trapeiro, por entre esses sujos farrapos que sentis pelo olfato, ó eunucos, bonzos do entendimento!, muitas vezes esconde turbilhões e turbilhões de brilhantes, turbilhões e turbilhões de cristais, de fino ouro, de radiantes pedrarias, constelações deslumbrantes, enfim, que o vosso duro olhar não vê, que o vosso espesso cérebro, nem os vossos rombos ouvidos percebem a harmonia sonora. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 89 Com a provável entrada para o oficialismo da Academia Francesa, o cérebro de Zola não perde a sua organização vital, a sua disciplina, a sua função. Isso não passa de uma preocupação natural do Mestre, se atendermos à sua idade, pela aclamação do alto. Tendo já o aplauso reverente e franco da multidão, ele quer agora o do mundo oficial: da aristocracia e da burguesia, para a completa coroação da sua obra. Mas fica sendo o mesmo aparelho reprodutor, a mesma câmara fotográfica para receber, em clichés instantâneos, toda a movimentação da vida. No pórtico da Academia o seu espírito será como um astro de fulgor e grandeza raros, o centro de um mundo, o sol a jorrar luz para todas as direções da terra. Não pode aquela natureza, subordinada ao sistema, à orientação artística, ao soberano regulamentarismo de preceitos de crítica, afastar-se uma só linha da rota seguida. Pode, entretanto, terminar a sua fase guerreira, a grandiosa fase, mas não pode terminar a sua vitória, que é imortal. Velho agora, ele se recolherá ao descanso para dar lugar a novos combatentes. Esse batismo, que se efetuará futuramente, decerto, ou essa fé intelectual de seita, se assim se pode dizer de uma célebre individualidade que foi sempre eminentemente pagã nos princípios, não tem, contudo, a significação baroque e arcaica que se supõe. Antes, pode-se afirmar que será a apoteose feita a uma cerebração genial, a suprema aclamação, a consagração do triunfo que, em toda a parte, se votou ao vencedor. São as festas do leão que, com o salto das garras, conquistadoramente abateu os fósseis nas cavernas. Ele é que jamais ficará fóssil! porque o sentimento naturalista das suas obras se perpetuará, evidenciando a tirânica força sugestiva das suas concepções literárias, 90 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 como uma bandeira desfraldada, na eminência de um forte evidência, a grandeza e a heroicidade de uma pátria. Podem passar, desdobrar-se, desfilar diante dele as escolas! – o bronze inteiriço das suas criações ficará inalterável, eterno, de pé, no Tempo e no Espaço – pela verdade, pela ação, pela luz, pela cor, pela voz e pela majestade, por tudo isso que dá às suas estupendas, maravilhosas páginas uma segunda natureza original e palpitante, que é a natureza peculiar a cada objeto e a cada ser. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 91 GUILHERME I (1888) O imperador Guilherme morreu, morreu o Imperador Guilherme! Sobre o saxão estandarte negro, branco e vermelho, esvoaça agora uma grande e dominadora águia sinistra, a mesma que nos campos de batalha pairara sobre os corpos rígidos e frios... Ressoam orquestrações militares, clarins atroam o ar clamorosamente, passam a mil e mil os estandartes de todas as nações do mundo, passam e tornam a passar os séquitos guerreiros, os colossais esquadrões, reverentes, na pompa das tristezas solenes, d’armas em funeral, para as exéquias do Imperador, fazendo tilintar e fulgir os estrepitosos metais das espadas e dos sabres. No céu, calado, imóvel, o sol, como um ofuscante capacete bávaro, rutila com a alva luz prateada das pontas das baionetas. Mas, que é esse sol, deus dos poetas? E os espíritos célebres de Goethe, Heine e Uhland, esse que cantara outrora a batalha de Leipzig, pasmam e silênciam no ar parado que a neve cobriu de um vasto e fulgente sendal branco. Quem é, então, esse sol frio? E dos lados da Alsácia e da Lorena levanta-se um murmúrio, como que um trêmulo rio de vozes, surdo, abafado numa noite profunda, através das altas, rochosas montanhas alpestres, onde os graves castelos feudais geram as lendas e os sonhos. E o rio das vozes, crescendo, subindo, enchendo a imensidade, assim sombriamente murmura: Esse sol é Bismarck, que ficará, pelos tempos, como o Alerta avançado das glórias militares, das supremas conquistas da guerra, atroando o espaço de ecos metálicos de fanfarras, avassalando as forças 92 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 estranhas com a técnica belicosa do transcendentalismo alemão, como o mar avassala o mundo... E os sonhadores da jovem Germânia, os utopistas revolucionários, Laube, Gutskow, Wienberg, Mundt, palpitariam de emoção nas sepulturas se ainda pudessem ficar agindo no mecanismo da velha e austera Alemanha, nevoenta e sonora da alma de Schiller, que é a alma da balada, o prepotente chanceler de ferro. E de lá do fundo glacial das sepulturas, todos eles dirão, sorrindo, na cortante, na ácida ironia teutônica, que a Rússia armipotente gelará vencida, na Sibéria, o fogo dos seus canhões soberanos, que aterram... Mas, o imperador Guilherme morreu, morreu o imperador Guilherme! E, na serena mudez das catedrais e, no luto do Império saxônio, o Protestantismo livre e de pedra aponta filosoficamente para o sol, nas flechas pontiagudas das torres góticas, como uma interjeição! O “EL-DORADO” Esse então é um nunca acabar de apoteoses, de glórias. Mal a gente sai encantada de lá uma noite e já outras noites se sucedem, num esplendor de sóis, cantantes, alegres, radiosos. Quem uma vez entra ali sai curado de males e lavado de dúvidas. As águas lustrais do prazer lá estão. Na boca rósea de todas aquelas mulheres ferve o champagne do amor. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 93 CARTA A GONZAGA DUQUE Rio, 11 de abril de 1894. Na impossibilidade de falar-te calmamente, escrevo-te uma ligeira exposição sobre a Revista dos Novos. Penso que o grupo que deve constituir os combatentes da Revista dos Novos tem de ser composto da tua individualidade, Emiliano Perneta, Oscar Rosas, Artur de Miranda, Nestor Vítor, B. Lopes, Emílio de Meneses, Lima Campos, Araújo Figueiredo, Virgílio Várzea, Santa Rita, Maurício Jubim, Cruz e Sousa e Gustavo Lacerda, simplesmente, sendo que este último deverá dar escritos sintéticos, muito generalizados, sem personalismos, sobre política socialista. Penso assim porque esses foram sempre, mais ou menos, de vários modos intelectuais, e em tese, os nossos companheiros, tendo cada um deles, na proporção da sua aptidão na esfera da sua perfectibilidade, um sentimento homogêneo do nosso sentimento comum na Arte do Pensamento escrito. Penso também que o único homem fora da nossa linha artística de seleção relativa possível, que deve ser simpaticamente admitido para críticas científicas, para artigos de caráter positivo e moderno, é o Gama Rosa, que podemos considerar, à parte toda a nossa independência e rebelião, como um austero e curioso Patriarca do Pensamento novo. Os mais, seja quem for, que venham de fora, isto é, que se apresentem com trabalhos estéticos de tal natureza alevantados e sérios que possam ser admitidos nas colunas nobres da grande Revista, para o que basta uma análise severa, rigorosa, desses trabalhos. Enfim, apenas esse deve ser o grupo fundador por excelência, deve constituir o corpo uno das Idéias da Revista nos seus elevados fundamentos gerais, à parte os detalhes da compreensão de cada um em particular. Entre esses fundamentos gerais acho que deve ser um 94 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 dos principais, o maior e o mais firme radicalismo sobre teatro, não permitir seções, notícias, folhetins ou coisa que diga respeito a teatro, que, por princípio e integração de Idéias, não deve existir para a nossa orientação d’Arte na Revista dos Novos. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 95 HORÁCIO DE CARVALHO Diante deste nome, desenrolado como uma tapeçaria de Beauvais à frente dos nossos olhos, lembramos o Oriente, a Turquia, a Arábia, a Pérsia, todos os povos muçulmanos, que têm a frouxidão dos nervos, a elasticidade de membros de raças decadentes em todas as suas funções fisiológicas e psíquicas. Principalmente a Pérsia lembra-nos a indolência, a languidez orgânica de Horácio de Carvalho, indolência de fantasista, de sonhador e artista intertropical, que não constitui propriamente, porém, um senão físico, uma falha ou ausência de qualidades originais de espírito; mas que antes representa uma “maneira de ser” na vida – muda abstração, na qual o pensamento é, sem dúvida, um doirado pássaro, viajando pelas mais altas regiões etéreas, inacessíveis à vontade da matéria. Com o seu ar fidalgo, que lhe dá através dos vidros do pince-nez as linhas nítidas, a distinção e o ar douto de um sadio e forte estudante da Universidade de Bonn ou de Oxford, Horácio de Carvalho parece viver apenas numa flirtation com as idéias, numa despreocupação de touriste e num diletantismo d’Arte, a que as asperezas e arestosidades do meio emprestaram já as cores tristes e carregadas de um pessimismo pungente que se originara primeiro nas leituras intensas desse intenso e artístico Schopenhauer, conquanto, na transparência dessa despreocupação aparente, ele analise, perceba e sinta passar, como entre a difusa e doce luz do crepúsculo matinal os primeiros aspectos do dia que sobe, as for mas vivas e as manifestações dos fenômenos naturais. Na verdade, esse amargo pessimismo que os pensadores e artistas germanos, anglo-saxônios e eslavos, beberam nas obras profundas do grande filósofo de Dantzig, como numa enorme ânfora de ouro cinzelada onde houvessem purificado num vinho negro o sentir e 96 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 o dolorido pensar de muitas gerações; esse pessimismo agro-doce, divino e ao mesmo passo torturante d’O Mundo como vontade e representação, dos Aforismos sobre a sabedoria da vida e das Páginas fundamentais da ética, bem como desse outro genial Eduardo de Hartmann, especialmente nessa transcendente Filosofia do Inconsciente, parece amarrar ainda mais Horácio de Carvalho ao poste do ceticismo de Murger, de Nerval e de outros tantos artistas queimados pela chama interna de grandes Sonhos e Desejos nunca corporificados ou materializados numa floração ou frutificação natural ou real... Mas esse pessimismo, feito de névoas germanas ou eslavas, tênue, sutil, que insensivelmente inebria e transporta ao seio paradisíaco da Espiritualidade e da Ilusão, como esse venenoso e verde absinto dos Franceses e esse flamante e nevado kümmel dos russos, esse pessimismo, se Horácio de Carvalho o tem enraizado até à medula, não lhe enevoa e nem ensombra, entretanto, a garrida e fulva verve do espírito, de vôo amplo e alígero, la grâce qui ouvre les ailes, colorida como asas de borboletas e dançante ao vento como galhardetes de navios festivos. É que ele, por entre a variabilidade das circunstâncias e do tempo, não perde a “linha” luminosa e serena das atitudes mentais, acordando dessa morna indolência turca ou persa para pôr ditos d’arte faiscantes nas abstratas e transcendentes palestras literárias, porque é especialmente um causeur, sóbrio e fúlgido, que atrai e fascina sempre com o seu verbo brilhante e límpido, embora escasso e tardo, mas de uma ironia que lampeja e tine aqui e ali na frase, como os guizos de Colombina e Arlequim deslocando-se em pinchos loucos e febris, ao tam-tam-tam carnavalesco e burlesco na Alegria e da Folia. É um temperamento singular, esquisito, que tem nesses próprios qualificativos o documento positivo e autêntico da sua inteligência, da sua estesia artística. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 97 Vivendo na província, num centro antagônico ao desenvolvimento e fulgor do seu talento; na aridez das estafadas idéias em circulação, entre muros fechados de assuntos banais, numa atmosfera onde a hematose quase não se faz, onde o sangue não circula bem, nem os nervos se tonificam convenientemente, Horácio de Carvalho lembra um cáctus ou uma flor boreal, nascida sobre a rocha ou sobre o gelo, vermelha ou alva, perdida tristemente na esterilidade, queimada por um sol de brasas ou na desolação da frigidez imensa... O seu estado de languidez, de inércia mental na escrita se parece com certos dias pardacentos, nebulosos, sombrios, cobertos de nuvens, por detrás dos quais, entretanto, o sol brilha a pleno esplendor, e, em certos momentos admiravelmente se mostra por uma nesga aberta no Azul, iluminando por instantes um recanto do Espaço e da Terra, para logo atrás se obumbrar sob cúmulos, voltando então todo o céu ao seu primitivo estado de névoa. Assim é Horácio de Carvalho, cérebro nevoento como esses céus da Germânia e da Rússia, ao Centro do qual, porém, rebrilha o sol do pensamento sobre a amplidão azul da inteligência, que estranhos cúmulos e nimbos encobrem perenemente, permitindo apenas raras, raríssimas vezes, revelar-se por pequenas nesgas de luz que aparecem instantaneamente, lançando frases, ditos, conceitos e observações delicados sobre todos os assuntos – modo de ser fisiológico e neuro-psíquico singular e inexplicável, sob o qual arde e flameja a brasa radiante de um grande e ansioso anelar de espírito, feição quase enigmática e fenomenal de uma bela organização humana, cuja psicologia o entendimento comum dos homens não apreenderá jamais, mas que os pensadores e os artistas sentem e compreendem nas suas manifestações superiores e efêmeras, sem lhe pretenderem sondar os motivos e as origens. 98 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 O PEQUENO BOLDRINI Uma jóia o pequeno Boldrini. Não era exatamente bem pequeno, porque fizera quinze anos já. Linda, bem linda cabeça tinha ele, redonda, leve e macia, como cabeça de ave. Ah! Havia de encerrar lá dentro muito sonho dourado a cabeça do pequeno Boldrini. O seu nome musical, miúdo e tímido, dizia de que pátria ele viera: do Mediterrâneo, sob um céu largo e azul sempre, sentado à Porta do Sol, em Roma, quem sabe! fazendo gemer demoradamente no ar claro do dia as notas trêmulas da sua rabeca. Porque o pequeno Boldrini tinha a sua rabeca amiga, afetuosíssima e boa, que chorava com ele pelas praças e ruas. E que dueto de lágrimas faziam ambos: o fanciulleto e o instrumento! Era adorável de ver o pequeno Boldrini: rosado, de uma bela cabeleira crespa caída em anéis castanhos sobre a testa morena. Muito bom, realmente, encantadoramente bom, deliciosamente bom aquele tic nervoso das suas arcadas. Ora o arco, vibrando rijo nas cordas, duro e retesado como um músculo distendido, tirava sons soturnos, cavernosos como regougos de condenados ao fundo de subterrâneos. Parecia então haver uma tempestade de lutas na alma do pequeno Boldrini; aquilo tinha um jeito de Wagner, e dava a toda gente que o ouvia um ar vago e dúbio de sonâmbulo. Ora as arcadas eram solenes, majestosas, falavam de coisas transcendentais, de soberanias místicas, dando uma exaltação à idéia: era como que um desfilar heróico de procissões de rajás, de altas imponências egipcíacas, extravagantes de luz e de pompa na resplandecência viva do sol da manhã atravessando galerias e largos pátios suntuosos lajeados de mármore branco. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 99 Ora a rabeca tinha romanzas de beijos, barcarolas saudosas, idílios de balcões em flor, cantava todo o louro viver lascivo e madrigalesco de Veneza, dizia as canções do Tirol, doces e castas, prateadas como o luar, abrindo o peito às lufadas frescas das perfumosas aragens que vêm dos laranjais floridos do amor. E, às vezes, notas mais brandas, ciciadas como brisas, desfolhavam-se no ar, semelhantes a pétalas de rosas, como se fossem os íntimos segredos imaculados dessa almazinha de artista das ruas, alma que se abria, cheia de fantasias e de quimeras, como um livro cheio de letras douradas, diante da presença de todos. E o pequeno Vítor Boldrini, com quinze anos, que eram talvez quinze ilusões da sua existência, metido no seu jaleco de veludo preto, todo moreno e crespo, olhos repassados de doçura de mar sereno, atravessados de luz como cristal, lá ia vivendo como uma delicada flor de estufa, meridional e azul, ou como uma flor de parque aristocrático, no terreno palustre e neutral de uma cidade populosa e inclemente da América do Sul, vendo a sua Itália amada pelo cosmorama do seu coração de bambino ou nas vistas coloridas e fulgurantes dos realejos dos seus patrícios. Então, o pequeno Boldrini, à noite, sonhava histórias interessantes: via-se no Coliseu, grande na presença dos homens, tocado duma chama divina e regendo com o arco, não aquele arco velho e vulgar, mas um outro arco novo, encrustado de ouro, uma vasta orquestra real de músicos dolentes e romantizados, falando de gôndolas sobre golfos iluminados de redondos giornos de luz verde, rubra e amarelada, pondo esmeraldas, rubis e topázios nas frias águas dormentes. E o piccolo maestro abria muito os olhos como costumamos fazer diante de uma coisa que deslumbra, vendo através do espelho do seu sonho desenhado tudo aquilo que ele cismara acordado, crente no futuro, mas que lhe parecia, quando se levantava de dormir, ao outro 100 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 dia, fugir para sempre; porque as aspirações que ele tinha, longe de horizontes italianos e sem esperanças de voltar para lá, nada mais eram do que uma sombra que se deveria esvair mais tarde, a exemplo da sombra que acompanha na frente o corpo até ao meio-dia e que depois fica para trás, como uma dúvida que nos tortura e persegue eternamente. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 101 SIGNOS (NESTOR VITOR) A missão dos medíocres célebres, que em batalhões cerrados enchem os milhões de andares da Babilônia típica da história, a missão do cretinismo, notório é já nascer morta, ironicamente no ventre dos Destinos, qualquer cousa que deveriam trazer de assinalado e luminoso. A missão dos Espíritos, dignos desse nome, entre a mascarada das classificações, é trazer uma vida dupla, é viver, em dualidade e densamente, uma vida perpétua no Espaço, fora do estreito veredictum dos homens e das suas ostentações. Claramente que a caraça de papelão dos parvos há de opor obstáculos, com o seu sorrisozinho inócuo de “havemos de ver isso”. Mas o espírito que traz força oculta, que traz em cada mão, agitada no ar, o gládio pujante da sua fé serena de conquistador; o espírito firme e temerário, que assistiu, sorrindo, a todas as hecatombes, a todas as misérias e a todas as glórias que fazem a auréola triste do mundo, esse resiste no seu pólo invulnerável, esse está afeito aos tufões, experimentou bem de perto, nos ouvidos, o estrondo, o rouco estridor das tormentas, sentiu rolarem-lhe aos pés os raios inclementes e fulminadores, conserva os olhos perfeitos e serenados na confusão babélica das coisas, é bem livre e bem alta, a cabeça, para que ao menos as estrelas a vejam. Nada pode fazer vacilar ou perder sua intensidade maior ou diminuir seu impulso mais amplo nessas naturezas, ou antes nessas afirmações fenomenais do Espírito, que quanto mais sentem a dura mossa que lhes faz a Terra, mais almejam o céu; que quanto mais sentem o vácuo que lhes querem dar por morada, mais o procuram encher das constelações e magnificências do sonho. Nestor Vítor é o novo missionário do Espírito. 102 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 É a natureza para os largos horizontes, é a alma para as grandes e emocionantes comunhões. Ele sente a sede inflamada e bendita de rasgar novas esferas ao pensamento, de fazê-lo girar imprevistamente nas zonas da eterna luz, de criar e fecundar prodigiosos estados sensíveis para a alma, nessa esquisita e infinita percussão de todos os sentidos refinados. O surpreendente e curiosíssimo artista dos Signos, que agora tão soberbamente se manifesta nas páginas deste livro de uma alta significação estética, tão anunciante de segredos, tão revelador de mistérios e tão sugestivo de majestade, é um dos raros poderosos que tem o dom magnífico e mágico de violentamente arrebatar a nossa alma, de a fazer tremer e soluçar de comoção diante da sua, de a fazer dignamente humilharse, na curva doce, aristocrática, nobre, das profundas admirações diante da sua, de enfim despir-se, na nudez mais pura e mais franca dos sentimentos, diante da su’alma. Porque a su’alma é como um destes exóticos e deslumbrantes instrumentos que acordam toda uma série delicada e nervosa de sons que só ouvidos eleitos escutam e reconhecem. Um desses instrumentos saudosamente e egregiamente velhos que algum erradio menestrel do Oriente vibrou acaso por algum poente triste, no fundo de alguma era remota... Só este grande amor que nos fecunda, só esta abundante seiva de Idealismo, só esta potente fé transfigurada que nos alimenta e ilumina pode responder, como a clarividente voz do Desconhecido, porque são as campanhas formidáveis em que nos empenhamos, porque são os arrebatamentos loucos em que vivemos, porque são as contemplações em que mergulhamos, porque é, enfim, toda esta poesia tocante e trágica que nos tonifica e convulsiona. O artista dos Signos pertence à aristocracia mental dos Poetas. Na sua sensibilidade existe o cunho original da mais delicada e penetrante poesia, que não OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 103 será fácil de ser sentida pelas velhas carcaças das Letras. Porque isso de Letras não é mais do que a falsa exposição de tipos, cada qual com uma teoriazinha serôdia atrás da orelha, estafados de serem inócuos e inodoros, aparecendo aqui e ali pelos alçapões teatrais da opinião como verdadeiros marionetes de feira. Nestor Vítor é uma alma intimorata de poeta; traz o seu ser banhado dos eflúvios raros da mais incomparável poesia. Mas dessa poesia nobilitante e purificadora que tem asas para o Infinito, ansiedades para as Esferas. Os Signos, apesar de serem trabalhados em prosa, evidenciam extasiantes modos de ser de um curioso poeta, dão a medida de uma alma bastante elevada para não ser apenas terrestre, bastante impoluta e requintada para não deixar de embalsamar-se nas ondas fascinadoras de uma emovente poesia, que é a linguagem interpretativa do Sonho. A maneira, os processos de Nestor Vítor, ao menos nesta obra, são simples, mas dessa simplicidade que implica complexidade, como toda a simplicidade que nasce de fundamentos superiores. A sua estética possui a severidade de um dogma e a precisão, a eloqüência de uma vontade manifesta. O que se lê neste livro sente-se que é sentido, que é vivido, que é filtrado puro da imaginação do autor, tão claro, tão lúcido, tão percuciente e tão flagrante como se o Sentimento se movesse em torno de nós e falasse e dissesse e vivesse a sua psicose e a sua nevrose. O seu estilo, a sua forma, ele a faz com verdadeira pompa de um desdém fidalgo. Isto é, não se preocupa de modo fatigante e rebuscado, e deixa que a forma surja, original e fascinadora no entanto, porque vem vestindo um pensamento original e fascinador. E como cada pensamento já sai naturalmente revestido da solenidade da forma, o artista deixa simplesmente que esse pensamento se manifeste, ficando então, desdenhoso, 104 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 tranqüilo, a sorrir da forma que tenha de vir, porque já sabe que essa forma há de ser, sem esforço, superior, desde que é uma correspondente direta de um pensamento do mesmo modo superior. Nesse ponto Nestor Vítor recorda um pouco Villiers de L’Isle-Adam, cuja sobriedade e simplicidade de forma repousa, no entanto, num processo complexo, excelso e raro, que é o segredo de certos estilos surpreendentes, inefáveis, que de tão requintadamente simples não parecem estilos. Esses podem ser classificados os estilos brancos ou os estilos leves e finamente estrelados, que decorrem do pensamento de um cérebro superior, com o alto desdém aristocrático de quem sente que é Eleito entre os Eleitos, e não desce a prestar obediência dos seus espirituais brasões honoríficos à plebe ignara e sacrílega, que quer à força reconhecer a legitimidade da hierarquia, das linhas nobres e puras da raça ideal de onde esse Eleito procede. A maior ambição que Nestor Vítor põe na forma é a de conduzir a sua idéia para o rumo onde ele a queira levar. É de fazer com que essa idéia, deixando o nebuloso caos da sua origem, encontre livre, espontânea, franca e ampla, a forma, para, como asas, alar a idéia para as alturas, arrebatá-la na luz, fasciná-la nos astros e deslumbrá-la nos céus. O estilo de Nestor Vítor, forte, solene, é a evidente característica, o desdobramento especial e genuíno da sua feição grave e séria na Arte; representa bem o cunho austero e eminentemente determinado, significativo, da sua Estética elevada e nobre, rude às vezes, violenta, libérrima e sobretudo desdenhosa em certos pontos de vista. Ele sente essa angústia, essa sede do Exprimir, do Dizer, mas do Dizer denso, intenso e legitimamente original. Quer que o seu vocábulo sangre a vida, que o seu verbo cave fundo na natureza do seu pensamento, que imprima um movimento de convulsão e de sensação às OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 105 cabeças, nos quatro pontos cardeais da Terra; quer que o seu verbo opere a luz e ilumine de uma cintilação muito clara, eletrize, faça acordar, agitar-se, palpitar, estremecer o sentimento ocioso e covarde que dormita dentro das almas. Um espírito assim, uma eloqüência assim, de tanta penetração e de tanta concentração, tem de ser uma grande tuba nervosa desconhecida, um clamor mais ardente e mais virgem, uma voz de uma vibração e de um impulso maior que projeta mais alto e mais longe o pensamento que ela enuncia e proclama. Essa covardia e essa inépcia para afirmar os que pairam nas Transcendências da Arte e no Imprevisto do Gênio, esse eterno e capcioso Não-Sentir e esse eterno e capcioso Não-Ver dos que vivem se equilibrando em mútuas muletas de Fama; essa tendência criminosa e fatal que têm muitas vezes as almas mais bem dotadas para se deflorarem e envenenarem nos sinistros tédios culpados; todos esses esguios e escuros corredores onde se esguelham e encolhem as lesmas sutis de vagos movimentos caolhos e hipócritas da psicologia de certas naturezas; todas essas escápulas cômodas para o Silêncio e para a Sombra, essas cumplicidades mudas com a própria Consciência, essas cópulas ilícitas e sacrílegas com a Treva, este Verbo em febre do espírito dos Signos condena do alto do seu dogma dantesco e santo, fustiga com as suas ironias e a sua verve comburente, queima e fulmina com os seus jorros de raios flamejantes. Nos Signos há um sentimento delicado de velha fidalguia estética; dessa delicadeza que é uma florescência nobre e egrégia da estesia, dessa delicadeza que é o refinamento dos nervos e do psiquismo e não dessa outra toda exterior e aparente que parece feita de óleo de oriza, de chic, de boninas do prado, de brisa e dos suspiros das onze mil virgens. Quanto à observação de Nestor Vítor, esta ele a possui poderosa, pronta, fácil, livre e simples, quer dizer, espontânea e natural. A sua imaginação toda particular 106 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 fornece-lhe um imenso cabedal para isso. Mas Nestor Vítor considera a observação, como realmente o é, um ponto de partida e não o fator máximo da sua obra. Superiormente dotado, ele sabe que essa observação, tão aclamada pelos medíocres e pelos estacionários em Estética, não constitui a fonte, ou antes, a causa primordial da elevação maior ou menor de um espírito. É lógico que quem tem ao seu dispor qualidades estéticas singulares, elementos seguros e radiantes para as interpretações mais belas da Arte, vê na observação uma preliminar, uma força elementar dessa Arte, mas nunca a sua melhor ou maior expressão. Ter simplesmente observação, por mais vasta e completa que ela seja, é, na Região do Pensamento, estar apto para fazer alguma coisa ainda, mas não considerar já essa coisa feita pelo único fato de possuir observação. Assim, a observação não é mais do que uma acidental nos grandes planos do Pensamento, subordinada, dependendo de outras forças muito mais complexas e abstratas. Um livro do qual só se pode dizer – tem muita observação, mesmo muita, e exata – é, quando menos, um livro que olha e perscruta, com toda a correção, embora tenha certos lados inferiores, cheira e palpa muito as cousas, mas que não se eleva nem se projeta, profunda e emocionalmente, em esferas superiores. Celebração séria e serena, na mais absoluta expansão da Arte, perscrutador penetrante do coração humano, psicólogo de novas faces e de novos mundos humanos, vendo quase tudo por uma visão de hora de ocaso de outono, com certas linhas langues, mornas e mórbidas, mas desse mórbido psíquico que é soluço e que é dor na atmosfera mental, o glorioso artista dos Signos conseguiu enfeixar na sua obra os símbolos mais expressivos e belos, alguns de um fundo bem cruel e bem funesto, mas onde ressaltam, vivas e dominantes, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 107 as sensações e as idéias que uma rara fé desperta nos espíritos definitivos. Do centro, porém, dos Signos destacam-se iluminantemente quatro singulares trabalhos que formam como que o eixo fundamental em torno ao qual se movem todos os outros. Embora prenda admirativamente a nossa atenção, “Alegria fúnebre”, onde Nestor Vítor atesta toda a sua larga observação generalizada, sintética, que ele tem das cousas, todo o conhecimento perfeito da espécie humana, desenvolvendo com emoção e pujança extraordinárias a vida de dois seres miseráveis e shakespeareanos na sua desgraça; embora nos seduza e encante a psicologia ingrata, de uma sensação travosa de desespero sem remédio, mas firme, completa, desse outro lindíssimo trabalho “A Vitória”, e ainda o bizarrismo precioso, a fina e desdenhadora fidalguia, o soberano sarcasmo, intenso e cortante como lâminas aceradas, como peste de fogo, desse “Olivério”; embora sintamos esse esplendor de charge, impiedosa humour, caricatura de uma face inédita, descarnando muito a fundo ridículas usanças típicas, costumes incaracterísticos, macaqueados, postiços, carregando a zarcão os medalhões de uma sociedade falsa, que se julga equilibrada e correta, embora compreendamos essa excentricidade, essa firmeza perceptiva, essa segurança de observação mundana, esse mal-entendu das relações, de pessoas que se encontram num dado meio, pelas correntes do acaso e que mutuamente se impressionam e mistificam, sem, no fundo, se conhecerem com nitidez e exatidão, como no “O Máscara”; muito embora mesmo ainda vejamos a risada bárbara, selvagem, de “Hirânio e Garba”, páginas tão irônicas e tão verdes na exótica expressão, rindo, sob a égide do símbolo, de um mundo que até para o amor tem fórmula e convenção; de “Hirânio e Garba”, cujo pitoresco da forma revela preciosamente o picaresco do fundo, que a ela com uma perfeita curiosidade se adapta, o que parecerá talvez arcaico, 108 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 esteticamente antipático e desgracioso aos entendimentos superficiais e frívolos que acreditam que a Arte é a elegância e o bom gosto dos assuntos; embora, enfim, tudo isso, há neste livro quatro trabalhos culminantes que são as colunatas de ouro maciço que sustentam toda a cúpula ideal dos Signos. “Fatalidade”, símbolo amargo do Amor, o primeiro casal enleado nas ilusões do amor, casal idílico, ingênuo, querendo fugir, furtar-se loucamente e em vão ao seu destino e ao seu fim na Espécie, querendo fazer do amor um platonismo inefável, um eterno, imperecível laço sem o cumprimento das leis fatais da Natureza, até que ambos, ele e ela, rolam crua e animadamente no Irremediável do gozo carnal que é a enganadora sedução com que o amor ironicamente se oculta e tenta. Porque mesmo, no fundo da grande Causa, todos os encantos, todas as graças e atrativos de que se reveste um casal que mutuamente se impressiona na vida, são simples e instintivamente para o efeito da função fisiológica, são seduções apenas para encobrir de vagos véus aparentes e sugestivos o sentimento sexual da procriação da espécie – triste sonho genésico que alimenta e embala, consolando, a cismadora e aflita raça humana. “Agonias” – miserere solene, majestoso, de uma fé que morre, sintetizada num fiel e num justo. Soluço generalizado do Requiescat in pace dos grandes esforços vãos, das lutas e dos sacrifícios seculares, das humildes propagandas, das obscuras mas veementes doutrinas, dos sublimes Vencidos ainda crentes e consolados até mesmo às portas da morte; tristes lágrimas e lancinamentos derradeiros de simpáticos e eloqüentes apóstolos perdidos ao longe na poeira do infinito Saara da Ilusão e da Fé, e que apenas têm como prêmio o ponto final da cova. “Gavita” – o encanto culpado, esse estado de volubilidade inquieta, aparente ou latente, que reside na mulher em flor. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 109 Qualquer cousa de volúpia do luar e da delícia do néctar e das rosas. Curvas leves, aéreas de um sonho corporificado, alvorando em esquivas surpresas, cantando frescura e música, sorrindo e viçando graça. Íris de virgindade, no céu azul constelado de uma beleza de melindrosos atrativos e seduções pecadoras, fazendo irradiar de si todo o delicioso cromatismo da feminilidade borboleteante, fugitiva. Desabrochar de alvorada de frutos de ouro, que uma névoa deslumbrante de mistério envolve ainda de translucidez, de magia e de meigas suavidades aladas. Gavita é uma dessas criaturas meio imaginadas e meio reais que formam no comovido coração de quem as ama um doce oásis consolador. Poucos sentirão a diafaneidade daquelas linhas, os lascivos quebrantamentos daquele ser vaporoso, metade sílfide e metade áspide, graça delicada e branca de vôo de anjo, mas inevitável e demoníaco travor de perfídia nos movimentos inconscientes e cúmplices do seu fenômeno de mulher e de virgem. “Sapo” – um desespero de condenado mordendo os pulsos, terrível galé da Sibéria dos Destinos, sentindo que o mundo está para ele do avesso, que as perspectivas gangrenam, que os aspectos gangrenam, que os homens gangrenam. Ruge e troveja nessa criação densa e monstruosa uma dor tão intensa, tão abismante, tão absurda como se o oceano crescendo e inchando para o firmamento rebentasse numa explosão de uivos pantéricos atroadores. O “Sapo” é uma destas concepções que parecem fundidas em bronze por artistas revéis e alucinados. Por todas aquelas páginas percorre um frio soluçante e nirvânico. A vida ali ganha uma inconcebível densidade e crueza, uma irradiação, mórbida, de eclipse de morte. Secretos, os instintos da destruição moral, do aniquilamento de tudo, fazem a sua catequese feroz e sombria na já devastada alma do Bruce. E o Bruce, nesse 110 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 terror de alma sangrada na mais indefinível angústia, clama e chora despedaçadamente, já até com o pânico de si mesmo, como que sentindo o próprio solo, na formidável catástrofe do mundo, recuar-lhe dos pés. A dor, então, atinge até a um grau de transcendência e de furor que parece epilético. Nestor Vítor descobre, revela, rasga, ali, com profundidade, o infinito de uma dor pateticamente humana e misteriosa. A vida contrai, aperta cada vez mais os seus círculos. Um estreito Teorismo pretende tomar de assalto o mundo. O mundo parece chegar à vacuidade do nada. Tudo se desloca dos eixos, se desagrega do conjunto. Como que o ritmo das cousas cessa e vai se estabelecer a confusão geral. Daí, sujeitas a esse anárquico sentimento universal, na harmonia negra desse estado social e moral, sob a lei fatal desse Momento histórico, geram-se naturezas como a do Bruce, de um fundo, no entanto, dignamente intelectual e límpido, mas que vendo para sempre partido, quebrado o maior fio de uma afetividade qualquer que as equilibra na Terra, e já trazendo mesmo, no seu íntimo, certas qualidades ingênitas de desorganização, desorientam-se de todo, desmoronam por completo, e tomam, no físico e na alma, a gravidade triste, desesperadora, de flores tóxicas de doenças patológicas. A conclusão a que se chega no “Sapo” é cruel, desoladora, mas eloqüentemente verdadeira. A convulsão e vulcanização psíquica desta admirável concepção, o símbolo tremendo que ela representa, a mordacidade de caveira que ri cabalisticamente da Vida e que é a própria mordacidade glacial de Nestor Vítor, o fatalismo horrível que a nirvaniza e que lhe sopra tufões inquisitoriais, tudo isso enchendo malditamente aquelas páginas de belezas austeras e tristes, de luzes roxas e amargas, como que nos torna acerba e antipática a alma, tira-lhe toda a piedade e toda a misericórdia, todas as auréolas brancas OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 111 da compaixão e do carinho, fazendo-a desvairada, louca, maligna, perdida por dédalos sinistros de crimes, sem fé e sem rumo, desvirginada nas suas nobres e delicadas raízes. A grandeza perigosa e envenenada desse trabalho é de tal forma, a vastidão suprema do tema abala de tal modo a nossa Consciência, fá-la de tal modo descer, fála de tal modo subir, acende uma luz tão clara e tão grande, mas ao mesmo tempo tão impiedosa, tão dura, tão castigadora, que perguntamos aterrorizados a nós mesmos por que é que se foi revolver tanto sentimento estranho, por que é que se foi arrancar ao Incognoscível tanto mundo tenebroso, por que é que se foi descobrir, com tanta paixão e tanta febre, tamanha região de lancinamentos e de culpas! Depois, essa esquisita silhouette do Pai do Bruce, assim como Nestor Vítor a sentiu, dando-lhe toda a impressionabilidade da sua natureza, traz-nos uma sugestão de diabólico, de fantástico pavor. Esse velhinho de olhos piscos, andar apressado e miudinho – sombra, espectro na vida, sombra, espectro na morte – porque o glorioso artista dos Signos faz dele um perfil indeciso, nebuloso, do qual não se pode precisar bem as linhas e as qualidades integrais; esse velhinho ideal, lugubremente grotesco, meio sinistro, meio feiticeiro e meio profeta como surgindo do fundo cabalístico de um além-túmulo macabro; esse ignoto velhinho, sonâmbulo das Cinzas, tão sombra espectral na morte como foi sombra espectral na vida, é de um raro exotismo e de um maravilhoso segredo de imaginação genuinamente infernal!... O próprio Ernesto é um perfil cativante, amorável. Dessas organizações lânguidas, cuja juvenilidade solitária, desabrochada na amargura e no abandono, parece provocar sempre uma simpatia imediata, um movimento de amparo e uma irresistível atração. É quase uma natureza feminina, nervosamente histérica, de um fundo tocantemente romântico, de onde mórbidas e 112 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 mornas vicejam flores pálidas e lascivas de timidez, de frouxidão. O Ernesto é o lírio magoado e doce, é a sombra acariciadora e terna daquele Vale de lágrimas, que é o Bruce; é o canto matinal e lírico daquela epopéia humana, é a água dessedentadora, ainda que nublada, daquele deserto horrível. Lembra um ser esquecido em si mesmo, adormecendo, do fundo da sua castidade meiga e da sua melancolia, num desejo impreciso, vago de que ele mesmo não sabe explicar nem acompanhar as ondulações e as curvas. Só quem subterraneamente e chamejantemente viver nos infernos de agonias semelhantes ou idênticas pode estremecer e chorar diante dessa concepção formidanda, na qual o trágico e estranho perfil do Bruce louco fica como um farol negro e de pedra, alto e imóvel, na solidão carregada e bárbara de uma ilha longínqua desconhecida do mundo onde um vento noturno e gemebundo glacialmente sopra e sibila. É preciso, na verdade, ter a cabeça melancolicamente voltada para certas teses, para certos problemas da psicologia humana; vir de muito longe na peregrinação do Pensamento; trazer em si uma força majestática, uma clarividência suprema e, além de tudo, um desprendimento completo, absoluto, das frívolas vaidades mundanas, para arrancar de tão fundo essas raízes sangrentas de vida, para clamar de tão alto verdades tão augustas, tão independentes e perigosas, para rasgar, enfim, com tão violentos movimentos de ação e sensação, os longos sudários que pesadamente encobrem essas mórbidas auroras pressagas do Sentimento. O tipo do Bruce é um dos mais intensos e profundos entre as Criações universais. Sente-se que ele desloca as correntes do ar, move-se, respira, vive, agita convulsamente os braços no Infinito. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 113 É um louco formidável que se fez homem; um soluço que enche as Esferas com a ansiedade e a nevrose subterrânea da alma delicada, com passiva, comovida e angustiada de um russo. Todos os desclassificados do destino, todos os vacilantes, todos os sem rumo, todos os sem objetivo certo, todos os silenciosos do orgulho nobre, todos os corações amargos e fracos, todos os dolentes e desolados do espírito, todas as vidas de meia luz e de meia sombra, todos os vencidos da Glória, todos os inacabados, todos os incompletos que aspiram um Ser, todos os que ondulam entre a Fé e a Dúvida, todos os incompreendidos, todos os irresolutos ou covardes morais encontrarão no poderoso e sintético tipo do Bruce afinidades, diretas correspondências, secretas confissões e apelos, ritmos harmônicos e sugestivos, pontos especialíssimos e tocantes de contato, hão de senti-lo e amá-lo. De todas essas linhas vagas que formam tantas almas indecisas, sôfregas, ansiosas e sofredoras que por aí andam, de uma fronteira a outra da Terra, esbatidas em nuances de melancolia e tédio, de desespero e de agonia; de todas essas queixas confusas e desencontradas dos Desgraçados, dos Solitários e dos Contemplativos de todo esse sensível, denso e imenso crespúsculo geral de gemidos, que é o fundo sublime e misterioso da alma humana, foi que se gerou a natureza do Bruce, foram esses os germens que constituíram tão extraordinário tipo e que assim lhe dão, por isso, clara e perfeitamente, a característica de simbólico. Há no “Sapo” um niilismo agudo; tremendo, quase sinistro, mas ao mesmo tempo justo e consolador, porque vem para purificar e punir... Esses quatro trabalhos formam com efeito o centro do poderoso e admirável espírito de Nestor Vítor. Neles acha-se condensada a maior massa de idéias. Sentetizase aí a psicologia curiosa de um ser que voa no sonho das águias; sente-se aí a nervosidade mais coleante, 114 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 mais voluptuosa, mais sedutora; palpita aí a gênese mais imprevista, mais original, a estesia mais delicada, a sensibilidade mais dúctil, a profundidade mais misteriosa. Por esses quatro trabalhos tem-se a medida exata da sua celebração, toma-se a altura do seu vôo, vê-se o infinito Intangível do seu espírito. Do fundo de cada um desses Signos ou desses temas psíquicos raia uma forte, clara luz soberana de Arte. Cada conjunto daqueles tem uma irradiação central: são focos estéticos representando o máximo da luz de uma singular natureza. Cada um por si vive as suas linhas, traz a sua sensação especial, o seu ritmo langoroso, a sua música amarga, a sua tempestade trágica ou a sua nudez cruel. Cada um de per si acende as suas estrelas de melancolia e de cismada dolência, as suas violáceas luas de morte ou os seus comburentes e chagados sóis de vida. O grau supremo a que pode atingir um espírito, através de Abstrações e de Sínteses refinando-se, apurando-se, na maior contensão da alma, tocando com a alma o pólo astral das Quintessências do Sonho fazendo da alma a nova Estrela-d’alva nas Matinas da nova Fé; esse ansiar virgem, branco, nobre, claro, que é como se andássemos pelas divinas eiras celestes, sequiosos por devorar o trigo de ouro dos astros; essas asas do Inaudito, que não são asas para a Terra e que palpitam e roçam pelo peregrino fogo sagrado e sidéreo da Arte, tudo, como estranhas relíquias de um outro encantado mundo, como talismãs eternos que miraculosamente dão a vida e dão a morte, esse pálido Sonhador dos Signos traz consigo das estradas de onde vem, fazendo de algum modo emudecer, e cismar, é a palidez dolente do seu semblante, o altivo traço de austeridade, de força, da sua cabeça eleita e a magnificência, a claridade sã, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 115 acolhedora, de deus jovem, mas serenamente severo, dos seus olhos inquietadores e profundos. Não são, essas criações dos Signos, produtos de um realista, de um observador seco, mirrado, ou de um analista de minúcias banais. Não é um fútil teorismo ronchante e metafísico querendo empolgar o mundo com as suas tentaculosas sistematizações, os seus caducos julgamentos a sua miopia e estreiteza de microcéfalo. Não é um frívolo bater de bigorna nos estafados e relaxados assuntos que são a eterna tela dos seculares torneiros de todas as literaturas do mundo. O horizonte que aqui se alarga, os planos gerais que aqui se estabelecem são outros. Trata-se de uma natureza verdadeiramente, legitimamente natureza, cuja complexidade e fundamentos são extraordinários e assinalados. É um grande ser, bem irmão dos grandes seres, que desperta, pálido e grave, com o seu Verbo, para dizer à Terra a grandeza do profundo Sentimento que trouxe consigo. A Terra poderá não o ouvir, não o entender, não o escutar, não o amar; mas a sinfonia majestosa da sua alma continuará, se desdobrará pelos dias, passará os anos, encherá a atmosfera dos séculos, e, como um soluço feito de beijos, feito de músicas, feito de lágrimas e ansiedades, irá rolar, rolar, rolar, rolar na Eternidade abismante um pouco da sua sensibilidade para torná-la mais doce, um pouco da sua luz para torná-la menos abismante, um pouco do seu amor para torná-la menos tediosamente Eternidade. Nestor Vítor traz no seu temperamento as mais radicais qualidades; ele vem para o apostolado da sua Obra, para determinar com elevação e pujança o caprichoso e extravagante fenômeno de seu ser. Ele vem para o apostolado da sua Obra, e uma Obra é a evidência integral de uma Consciência, a cabal 116 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 afirmação de um pensamento, a radical expansão de um sentimento. Trazer uma Obra é ser capaz de todas as altas e gerais responsabilidades, de todos os ódios e antipatias, ineptos e injustos, que uma verdadeira obra provoca. É arrostar, sem temor e sem alucinações, com as zumbaias fúteis ou com zombarias atroadoras. Certamente que uma coleção de livros, por brilhantes e mesmo notáveis que eles sejam, não chega a constituir o que na realidade se pode chamar uma obra, desde que esses livros não tragam o cunho quase imperceptível, o selo particular que caracteriza uma obra e que forma o fundo da sua irradiação e da sua amplidão no tempo e no espaço. A obra de um artista vem inteira e completa nos seus nervos, no seu sangue, na sua aspiração, na sua virtude, na sua moral, na sua alma, realizando o que de fato se pode chamar a natureza de um Complexo estético, um mundo novo de Intelectualismo requintado. A obra de um artista é feita na segregação de elementos corruptores, fora das atmosferas viciadas, infectas do mundanismo, das perspectivas rasas, no isolamento do meio social banal, como uma gestação nas purificadas esferas celestes. A obra de um artista é feita de todos os fluidos e forças da concentração, da intensidade, da fé abstrata, do amor e da mais perfeita seriedade mental. É a ação freqüente e conseqüente de um estado legítimo da alma, o latente e intenso palpitar de uma aspiração para o Sonho, a expressão generalizada, sintética de uma Vida, o sistema arterial de uma simples, pura e profunda Convicção. Com todos estes atributos essenciais, com todos estes predicados rigorosos aparece agora Nestor Vítor, radiando de si uma obra, isto é, constituindo-se ele o vivo órgão, o invólucro da matéria palpitante que vem comportando a Emoção e a Sensação de uma obra. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 117 Os movimentos do seu espírito têm qualquer coisa de avalanches que, quando passam, vão arrastando consigo tudo. Ele é a avalanche mental, arrasa tudo, devasta tudo, desola tudo com a sua fatal visão acerba e sombria de Fulminador do Espírito. Parece que uma aluvião má de demônios atravessa, por vezes, na câmara escura dos seus pensamentos e nela tragicamente proclama, escreve o Nihil, a vermelho. No seu riso, ora de um desdém galvânico, de um sarcasmo oblíquo, ora de uma desfaçatez de belo rebelde, de divino celerado da Arte, cascalha a risada da morte. E não estamos apenas rendilhando estilo, floriturando frases, imaginando tropos: – o Poeta dos Signos, insistimos, tem essas soberbas e raras singularidades fatais consigo, o que o faz semelhar, de certo modo e certas faces, a um desses esquisitos e flagelados Sonhadores eslavos. Mas, entretanto, o fundo melancolicamente doentio e letal da sua natureza artística esbate-se, diluise logo na candidez abençoada da sua alma, na transcendentalizada bondade de todo o seu ser de demônio que se fez anjo, e anjo para punir as antigas culpas do demônio. Como, pelos requintes a que sobe, pelos raios de luz em que paira, pela perfectibilidade a que chega, o artista é o ciliciador de si próprio, o purificador de si mesmo, que anda recebendo os santos-óleos, a extrema unção dos extremos perdões, Nestor Vítor poderá ter do demônio apenas a velha nostalgia, a triste visão do Letes; mas tem, porque com ela para sempre ficou na esfera tranqüila da sua alma, no mudo mistério casto da sua alma, toda a glória e toda a celeste resplandecência dos anjos. Mas ainda mesmo sendo anjo, tomando do anjo o resplendor e as asas vitoriosas, a olímpica divindade desse anjo foi como que aos poucos desaparecendo, se transformando; e onde era uma excelsa brancura de 118 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 anjo ficou uma lividez de monge, e onde eram as níveas asas triunfais de um anjo, ficaram as vestes de um monge, e onde eram o deslumbramento e o ruído apoteósico de um anjo, ficaram o silêncio e a sombra de um monge. Ele é, na sua gênese, na sublime essência do seu ser, um perfeito demônio que se fez monge, que foi cristalizando e transfigurando a alma através dessa longa vida que não é só vivida nos anos, que não é apenas escoada no tempo, mas através da vida vivida nas idéias, na intensidade e na chama das idéias, da vida que faz dos pensamentos velhos monges solitários a desfiarem o interminável rosário das sensações do mundo, quando se adquire, através de lentas e recônditas transformações, essa grave expressão refinada de espiritualidade, de dolência e melancolia antiga. Quem nunca trouxe a cabeça docemente e pungentemente pendida para certos lados secretos do Pensamento e do Sentimento nunca poderá entrever esses céus claros, céus e céus que se desdobram na Imensidade peregrina da alma. E elevar a alma até essas essências ignotas da Luz e fazê-la pairar, bendita e branca, na paz infinita do Éter espiritual, é sagradamente mostrar ao mundo que a alma não deve ser apenas um miserável frangalho imundo, abjeto, nos círculos nervosos da Vida. Que ela, a alma, quando sabe sentir e sonhar, encantando tudo, maravilhando tudo, transfigurando tudo, pondo claros céus novos em tudo, é porque traz em si um toque desconhecido de graça e grandeza, qualquer cousa de tabernáculo inviolável, de venerado e abstrato que os contatos terrestres não conseguem jamais poluir. Os Signos são a extraordinária sinfonia de abertura de obras formidáveis que aí vêm vindo e nas quais o grande espírito de Nestor Vítor há de soberanamente e fatalmente assinalar cada vez mais a sua superioridade artística entre as intelectualidades do mundo. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 119 Ele vem para o alto objetivismo. Mas sabe, no entanto, que não há puro e perfeito objetivismo sem puro e perfeito subjetivismo, porquanto o objetivo não pode deixar de depender do subjetivo, isto é, porquanto o mundo interior do eu não se pode desprender do mundo exterior que a visão abrange ou, mais claramente, porquanto o temperamento não se pode separar do documento do real e nem o fato prescindir da alma, a fim de persistirem as essenciais concordâncias, baseadas na Sinceridade do ser, que formam o fundo das legítimas naturezas artísticas. Cabeça de larga generalização, alto desdenhador de todas as fórmulas sociais e de todos os estilos literários, mesmo os mais aclamados, a completa individualidade de Nestor Vítor tem sérias afinidades com Balzac na análise, com Goethe na complexidade e na síntese, com Ibsen no sereno poder pensador e filosófico e na alma vasta, perfectibilizada e cismadora, e com Villiers de L’Isle Adam no estilo, no pinturesco sarcástico lúgubre, macabro, e mesmo no lado emocional sutil e penetrante de certos assuntos. Mas, além de todas as qualidades que representam o conjunto harmônico desta natureza, há nela a faculdade maravilhosa, quase sobre-humana e quase divina, de arrancar das almas todas as mais secretas e fugitivas verdades, como que vendo e sentindolhes as transparências íntimas do Invisível, surpreendendo-lhes o pensamento incógnito e todas as suas curiosidades e latitudes. Nestor Vítor é um dos raros que trazem a fé viva e superior do Pensamento, o seu Intelectualismo é uma alvorada que rebenta cheia dos mais majestosos prenúncios. Nele não há a fé pretensa do simples métier, a atitude falsa de parecer um açodamento momentâneo, o interesse medíocre pela contemporaneidade, o que 120 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 caracteriza especialmente os continuativos e os oportunistas da Arte. Do íntimo de su’alma, de algum modo soluçantemente ritmada por nonchalances, dolências e aristocráticas melancolias hamléticas, nasce-lhe uma fé poderosa e consoladora, como uma flor mística cujo aroma purificador indefinivelmente o enleva. Por isso, apesar de todo o seu vulcanismo revolucionário, de todas as suas faces significativas de Revelador de novos hemisférios da Emoção, a obra de Nestor Vítor é edificante, de uma grande luz simpática, levanta as almas e as impele a marchar por um cuidado claro e seguro, que é o simples, livre e sensibilizante caminho da Perfectibilidade ante as manifestações fenomenais da Natureza. Os Signos, da forma por que estão elaborados, trazem essa propriedade secreta e característica que têm os Eleitos de confundir e mistificar o convencionalismo oficial da Opinião. Nestor Vítor vem com a compreensão nítida e absoluta da missão livre da Arte, do ser por ser, de logicamente produzir por logicamente sentir. Ele vem com este arrebatamento emocional, esta doce volúpia de amor de sentir uma alma, mas uma verdadeira alma, e ir espontaneamente ao encontro dela. Com esta ansiedade nervosa e transcendente, com este grande soluço para alargar, dar mais amplidão e mais ar às esferas da Vida, a fim de ficar mais sereno e mais puro diante da transformação da Morte! Nesta hora violácea de ocaso, em que o Egoísmo tomou conta da Terra; nestas confusões, neste caos dos Espíritos e do Tempo, fazem-se mister largas investigações mortais, mergulhamentos, fundas e profundas sondagens luminosas, para achar e ter a nobre coragem de levantar, clara e pura no Espaço, a Radical de um Espírito. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 121 A VIRGÍLIO VÁRZEA Evocando com emoção, com a mais intensa sensibilidade, a época floreal, combatente, bizarra, da saudosíssima Tribuna Popular, obscura ermida metida por entre as sombras da vegetação primitiva de uma província simples e onde uma campanha viva, chamejante, abria em messes de ouro. À camaradagem, à febre, ao entusiasmo, ao amor daqueles intrépidos e inolvidáveis tempos, sans peur et sans reproche, tempos de gládio e facho, sob as impressionativas emulações dos belos companheiros, hoje desgarrados: Araújo Figueredo, Carlos de Faria, Horácio de Carvalho, e sob a repercutidora saudade de Santos Lostada. A esse tocante en arrière, que neste momento me faz profundamente e recordativamente viver... Histórias Simples 124 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Para solenizar gentilmente, com todas as delicadezas do espírito, a fulgurantíssima idéia de libertar escravos nesta aprazível terra, vamos contar aos amabilíssimos senhores e particularmente às Exmas. senhoras, umas “histórias simples”, interessantes e leves e fáceis e claras, uma espécie de croquis ligeiro do escravo no lar e na sociedade, com a mesma luz geral do método racionalista, intuitivo e prático do grande alemão Froebel, um belo homem que à luz do Jardim da Infância estabeleceu a fisionomia lógica do ensino primário nas sociedades infantis do mundo, com a sua ciência liberal e fecunda de transcendentalismo pedagógico. As “histórias simples” desfilarão por estas colunas como um cortejo de bênçãos e de ironias, picantes e dóceis, como um perfume de coreopsis ou como um perfume de violeta. Serão trabalhadas de estilo, brandamente esmaltadas de idéias como um céu esmaltado de estrelas. Baterão no assunto pelo que ele tiver de mais verdade, de mais penetrabilidade, de mais objetivismo, de mais caráter. Descerão do trono de papelão o ridículo manequim do preconceito oficial e improgressivo, numa grande risada salutar e vitoriosa, bem da alma, bem de crítica e de análise. Eis, pois, as OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 125 HISTÓRIAS SIMPLES I À IAIÁ Vós sabeis, Iaiá, como o mar é indomável e mau. O vosso admirável paisinho, uma gentil pessoinha fraca de nervos, impressionada e enjoada pelos grandes e fortes balanços do navio no mar alto, o vosso pai, quando volta de viagem, vos tem de certo contado as inclemências do oceano, as suas lutas, os seus uivos despedaçando-se e abrindo-se em diamantes de espuma no costado das embarcações. E ele tem um riso de alma contente para vós, unicamente porque se lembra do que haveríeis de sentir, do quanto o vosso histerismo se abalaria se o acompanhásseis, a ele já velho e doente, na costumada peregrinação sobre as águas que gemem saudades. Pois, ouvi-me, Iaiá: um belo dia, pacífico e doce, cheio talvez da doçura infinita do vosso olhar, pela hora calma e solene do meio-dia, um grupo de homens, pescadores, marinheiros, operários, trabalhadores de toda a casta, lutadores de toda a vida, fisionomias rudes e chãs, agrestes como as altas árvores selvagens, se ocupavam à beira de uma praia em observar qualquer coisa estranha e inexplicável. O sol direito jorrando do alto como que apagava, pela força da luz, os traços ou as sombras carregadas e duras dos seus rostos. Mas, queridíssima Iaiá, um agrupamento, de indivíduos em certos lugares e em certas ocasiões, influi, pelas circunstâncias de mistério de que se cerca, nas nossas naturezas ocidentais e brasileiras, ávidas de surpresa, de acontecimentos, de fantasmagoria. A indecisão de conhecer a verdade arrasta-nos e nós lá vamos, sôfregos, ofegantes, impacientes, saber do ocorrido que tem para nós uma ardente e atormentadora tentação de pecado. 126 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 O caso era o seguinte: Tinha dado a uma outra praia deserta e longínqua e fora transportado para aquela, até ser entregue à família que quem sabe se ele a teria, ou simplesmente atirado à implacável e fria indiferença da terra, o cadáver de um homem, velho e negro, envolto numa noite física que parecia rir muito, com um riso aflitivo e trêmulo, em toda a extensão da pele do seu corpo. Era tragicamente lindo de ver-se, Iaiá, o seu cadáver sinistro mas calmo, mas sereno, como um deus terrível dos destinos, em cujos olhos vidrados e mudos o sol punha vivos reflexos luzidios. ................................................................. Depois, interessante e amável e bela Iaiá, os boatos correram no cruzamento e, na acumulação dos tempos, e a história verdadeira dos fatos que abre luz nos assuntos da treva, veio dizer-nos que aquele desgraçado não era nada mais nada menos do que... um escravo que procurava na desventura da vida, a liberdade da morte, no mar, no mesmo mar indomável e mal aberto à existência quase marítima do vosso pai. A Regeneração, Desterro, 23 de junho de 1887. II À SINHÁ Foi pelo inverno que se deu esta cena triste e lúgubre, Sinhá. Tinha eu ido passar a invernada de Junho, num dos nossos sítios tranqüilos e modestos, cheios da placidez melancólica da vida humilde e serena, duma paz virginal, lá onde o verde da paisagem não é mais OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 127 casto nem mais doce que as naturezas francas dos matutos. No dia em que se deu o fato que vou relatar, chovera. Miudinhas cintilações de diamantes, de prata, como vidro liquefeito, tremeluziam vivamente nos troncos e nos galhos das árvores. Havia então um ar de frescura, de purificação, de nitidez em toda a atmosfera e escala ascendente do verde, desde o verde-paris, claro e forte, até ao verde-mar, ao verde-bronze, mais cerrado e compacto. Não sei se, naquele sítio de um aspecto pueril e dócil, poderia haver a invasão da maldade e do egoísmo do homem, Sinhá; mas sei entretanto que os meus olhos e que o meu coração, doídos e magoados, tiveram de presenciar isto: Um homem rude, de fisionomia cruel e trágica, apresentando todo o irracionalismo e temperamento animal explosivo, vergastava a duros golpes de relho, de pé atrás para retesar e dar toda a elasticidade e esgrima melhor ao músculo do braço, uma frágil mulher, escrava indefesa que não sei se ria ou chorava, se blasfemava ou suplicava, tanta era a descarga de impropérios que o terrível homem lhe rebentava as faces, como o estado de brusca excitação nervosa em que os meus sentimentos se achavam diante da mais ignóbil das cenas. Oh! era brutal, não, Sinhá? A Sinhá é casada ou é solteira ou é viúva. Tem de cuidar do seu maridinho querido ou do seu vestido creme com rendas da Inglaterra para o baile do primo João que é seu noivo, ou tem de cuidar de chorar elegantemente o passado através do véu negro, rodeada talvez de filhitos louros que o defunto deixou; tem de pensar nestas feminilidades, nestas miudezas, nestes chics de mulher, nestes nadinhas bonitos e encantadores mas sempre criancis, mas sempre ingênuos; não tem a preocupação crua e material do outro sexo, os negócios, a vida prática, 128 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 a responsabilidade da inteligência mais culta para dirigir nações, para fazer livros, para fazer leis. A sinhá não tem, por isso, a rija couraça de aço da luta que põe na consciência de certos homens um terror obtuso e bronco pela moral, pelo caráter, pelo amor. E o amor é para a Sinhá, eu sei, o primeiro princípio da sabedoria feminina. E mal sabe agora a Sinhá o que me ocorreu à idéia quando vi o caso que lhe contei: É que aquele desgraçado ente era uma mulher e vivia sob a pressão do chicote, num sítio afastado e pobre; e a Sinhá é uma mulher também e vive na cidade dos ricos, das luzes e dos rumores, sob a música e harmoniosíssima influência de um piano de Erard que geme scherzos dolentes atravessados de um luar de amor ou de uma balada meiga e saudosa cantada por nereidas de voz de prata e lábios de aurora, numa barca, à flor de espuma do mar azul. A Regeneração (o recorte não traz indicação de data). III À NICOTA Loura Nicota, venta muito lá fora. O leste frenético e convulsivo arrepia e desgrenha as árvores, fazendo hieróglifos de rugas trêmulas nas águas turvas dos rios. Não chove. Mas esse leste que zune, efusiva e zarguncha num desespero nevrótico de doido, zangaleando as vidraças, esse leste, loura Nicota, devasta tanto como as grandes chuvas copiosas que caem dos torvos ares elétricos. É noite, escura e erma; e alguns vultos que passam nela, encolhidos, esguios, a largos passos para casa, semelham duendes, antigos fantasmas das belas OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 129 histórias patuscas contadas por nossas avós junto à fogueira crepitante e alegre das noites de São João. Loura Nicota, venta muito lá fora; e tu estarás talvez dormindo e tu não sentirás o zum-rum do leste; dormirás no teu leito de alvas cobertas de renda, num quarto arejado, de papel escarlate com estrelinhas douradas, janelas para o nascente, sonhando, quem sabe, este sonho que tem o mesmo ar vago, inconsciente e o mesmo tom indeciso do vento. Sonhavas que eras escrava, pobre loura Nicota, que ias vendida para longe, para além, para onde tu não sabias. Haviam te amarrado os pés para não fugires. Tinhas no rosto um rasgão de sangue; e a tua fina pele delicada e cetinosa doía-se toda naquela crueldade imprudente. E tu gemias e tu choravas e tu suplicavas. Em vão tudo. Iam te levar para lá. Tu não sabias bem onde era lá, mas ias. O teu filho, porque tu tinhas um filho, gritava por ti, soluçava e tinha quase uns magoados e surdos ganidos de cãozinho amado e mimoso que o pé brutal de um estranho fere de rijo na pequenina pata dianteira. E tu eras mãe, tinhas um filho, querias ficar ou levá-lo; mas lá estava o olhar imperioso de um sujeito de cara de pedra impassível e tredo, que te ordenava que seguisses sem ele. Era daí a instantes. Tinhas que embarcar. Lá estava o mar brasileiro, o mar latino a te chamar na coma espumada das suas ondas onde o sol abria coruscações. Lá estavam as velas enfunadas dos barcos que se meneavam, as saliências rubras das bóias, a nuvem branca e macia de algum cano de vapor a sair, os botes com a mastreação armada, de remos nas toleteiras, toda a paisagem marítima, fresca e saudável, desenrolada como um cosmorama diante dos teus olhos pisados do choro. E tu embarcaste. Nisto as névoas do teu sonho se desfizeram como se desfazem as neblinas da manhã destacando o dorso azulado das montanhas, e tu, impressionada, levemente 130 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 comovida, fizeste-te a honra de chorar uma lagrimazinha, um diamante redondo que te tremia na asa rosada do nariz, como se tu foras a desventurada que, não em sonhos, mas em realidades, alguém houvesse escravizado e enviado a senhor estranho, da outra banda do mar, loura Nicota, fora da terra em que nasceste e na qual tivesses deixado um filho! A Regeneração, n° 141, domingo, de julho de 1887. IV À BILU Vamos no trem, Bilu. A locomotiva corta as distâncias, de um fôlego, atravessando o ar cálido dos túneis, subindo e descendo montanhas, na grande coragem de ferro do seu ventre, pelo trilho em fora, aos guinchos da máquina que apita e expele ondas de fumaça adiante. No carro em que eu vou, ao meu lado direito, um francezito de cabeça pelintra, louro e moço passeia o seu olhar viajado e latino pela fremente natureza que acordara com o dia. As janelas do wagon estão abertas. Vêem-se extensões de terreno agricultado, terras aradeadas e lavradas, pastagens, gado que muge, pinheirais imensos, um mar tremulante e verde de canas, despenhadeiros, grotas onde a água cai cascateando branca e cristalina, cumes de serras altas onde os ventos aflam, povoados, casarias brancas alinhando ao alto das encostas, rindo na luz clara da manhã, um idílio fresco de mulheres, de raparigas novas que levam cabras ao monte, cantando, todo um bucolismo e um lirismo campestre que o largo concerto wagneriano da floresta enche dos pomposos OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 131 sons metálicos das aves, que estridulam notas no espaço, voando. O francezito louro, duma aparência fina de duque, com toilette leve de verão, assesta repetidas vezes o seu lorgnon para fora, para as amplidões de verdura e particularmente para mim. Eu indago de mim mesmo o que será. Ele retorna a acertar-me o vidro redondo, sem aro, apenas com uma pequenina argola de metal de onde pende uma delgada fita preta. Há uma atmosfera de curiosidade. Os viajantes interrogam-se com o olhar despindo os guarda-pós pela razão da calma que já vai no dia, um forte dia de verão. Mas o francezito não se pode conter e olha desta vez para mim num seigneur de admiração e de surpresa. Eu não dou cavaco e faço não entender. Ele então levanta-se do seu posto, vem a mim e pergunta-me baixo, mas em louvável português, apontando para um vasto terreno onde uns homens negros, mais de cem, trabalhavam sob a ardente chama do faiscante sol abrasador: O que é aquilo, homens negros, trabalhando assim, ao sol, quase nus! Oh! São escravos brasileiros, respondi-lhe eu no mesmo tom. Então os brasileiros são escravos!... Eu disse que sim. Falei-lhe da França, mostrei-lhe os seus homens, Thiers, Gambetta, Michelet, os grandes patriotas, os belos corações do amor da igualitaridade humana. Toquei-lhe em Girardin. Teve uma comoçãozita nervosa. Riu-se. Disse mesmo, Girardin é o Jornal, é o princípio, é a doutrina. Falei-lhe de Zola, de Goncourt, de Daudet, de Maupassant, de Mendés, de Richepin, de Rollinat. Falei-lhe da Inglaterra. Olhando-me e disse: da Inglaterra só o sport man e o punch, não o jornal, acrescentou com espírito, mas o punch feito com rum e conhaque, chamejante, de vivas chamas azuis e amarelas. Compreendi. Mas ele voltou-me aos homens negros que trabalhavam. 132 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Eu então expliquei-lhe que eram escravos no eito, trabalhando sem cessar, desde o romper da aurora até a noite, quase nus, vivendo em senzalas, buracos escuros e subterrâneos onde não há ar e onde uma eterna umidade de terrenos palustres põe nos pulmões a mordente tarântula da tísica. Expliquei-lhe mais que não havia nas fazendas, como se chamavam os centros em que residem escravos, ordem de doenças, de agonias, de prazeres, de entusiasmos. Aqueles indivíduos cor de treva eram maquinados, dizia eu; tinham um cordel nos olhos, outro na boca, outro na cabeça, outro nas pernas, outro nas mãos. Quando o feitor queria que eles rissem puxava um cordel, quando queria que chorassem puxava outro, quando queria que pensassem puxava outro, quando queria que andassem puxava outro, quando queria que falassem puxava outro. O francezito ria devagar e entredentes. Depois, senhor, explicava-lhe ainda eu, não têm vontade própria para coisa alguma, comem os restos mal cheirosos de comidas de muitos dias, são separados brutalmente, os filhos de suas mães, as mães de seus filhos, e quando alguém intercede piedosamente por eles, há um personagem notável, Sua Majestade o feitor, que os amarra a troncos de árvores e lhes abre as carnes, a chicote, em fundas chagas de sangue. E o francezito ria. E perguntava, de olhar aceso e indagador, com um sarcasmo agudo na ponta do nariz de celta: E a polícia?! Eu ria-me também, dizendo-lhe: Mas isso é lei, é muito legal tudo quanto explico ao senhor; pois se os donos de escravos têm até direito de propriedade! Eles compraram a mercadoria, compraram a carne, podem fazê-la apodrecer nas senzalas. Nisto anuncia-se a estação a que eu me destinava e tive de separar-me do amável francês que ficou no trem; ia desembarcar mais adiante. Porém ainda hoje, prezada Bilu, parece-me ver o francezito de cabeça pelintra, louro e moço, o francezito OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 133 chamado Ideal pátrio, rir muito, rir ironicamente do país da luzida pessoa do D. Pedro II, assestando o seu pedaço de vidro redondo, na noite, numa careta diabólica, para os homens negros escravizados à vergonha da História. A Regeneração, n° 144, Desterro, quinta-feira, 7 de julho de 1887. V À SANTA Nós, adorada santa, tu e eu somos livres, escravizados apenas pelo amor. Bom é agora, neste caso, que eu te conte umas coisas bonitas sobre liberdade e sobre escravidão. Escuta. * * * * * * * * * * O nazareno Jesus, de maneiras singelas e cândidas, de voz persuasiva e penetrante, de palavra fácil e clara como a luz, representa o poderoso e grande princípio da moral dos povos. A sua vida, uma vida de piedade, de simplicidade e de amor, será, pelos tempos em fora, a filosofia abençoada da humanidade. Ele veio da Galiléia, veio do povo hebreu, cheio de mistérios sagrados. O divino operário, o filho humilíssimo e calmo do carpinteiro José, tinha ao redor de si uma atmosfera de honestidade e de paz. Os fracos, os pequenos, os tristes, os sofredores, os lacrimosos, todos ele cobria e aquecia do frio da desolação com o seu olhar bom como a sua doutrina, doce como o seu rosto e como os seus cabelos encrespados e lindos. Deixai vir a mim os pequeninos, dizia ele. E as crianças dóceis e pobres aproximavam-se risonhas desse 134 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Cristo que era a esperança, que era a caridade, que era a crença e que era a fé. Nunca fora sonhado outro céu mais largo e mais puro do que a alma cristã do Messias cuja vinda a profecia anunciara, pela voz dos sábios do Oriente, em letras de verdade e de luz. Desde a Caldéia até a Síria a sua fama e o ar brando e simpático do seu tipo ressoavam, casta e sonorosamente, como uma música vinda dos astros; alastravam-se nos corações como eternos rosais que o sol fecunda e faz vigorizar. Cristo! Cristo! Cristo! Jesus! Jesus! Jesus! Assim iam de boca em boca estas sílabas, como preces, como ladainhas católico-romanas. Quando ele aparecia era como uma aurora iluminando tudo. Abriam-se os casais e as almas para recebê-lo como para receber o dia. Paravam as gentes nas estradas, os betânios, os de Jaffa, para vê-lo de perto e para ouvi-lo falar; ou sentavam-se junto às piscinas, ou debaixo dos sicômoros, ou à sombra das palmeiras, deliciados pela sua frase nua e tosca onde havia unção do bem, tanta humanidade, tanta fraternidade e grandeza. E o Cristo tinha sempre diante de si, dos seus olhos meigos e ternos que sabiam ver longe e fundo, a humanidade triste e paciente que sofria e chorava na obscuridade da noite, lá, quem sabe onde, muito além, na pátria da miséria, longe da vida e bem perto da morte. E ninguém diga que ele foi um revolucionário. Ele foi um revolucionário se acaso o sol com a sua viva claridade pode fazer revolução nos vegetais. Não! Ele não foi petroleiro, não foi incendiário; transformava mas não revoltava. Como pensador, pensava; como pastor de almas, apascentava o seu rebanho. Jesus era escravo do seu ideal, era escravo da sua religião, da sua igreja, do seu apostolado, da humanidade enfim; mas Jesus amava e queria, pelo amor, a liberdade dessa própria humanidade. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 135 Uma bela mulher morena e pecadora lhe acendera uma chama tão veemente e tão nobre que Jesus se considerava um Deus, tanta era a altura do afeto que o santificava todo. Jesus, escravo, queria ser livre também para o amor como a outra gente; queria amar muito, amar sempre, amar na eternidade; porque Jesus, como Deus, tinha essas consoladoras palavras, falava em eternidade, falava em céu. Queria a vida eterna e a alma imortal. Madalena, que outra não era a sua amada, tinha pelo nazareno muito respeito e muita adoração. O amor entre eles dois era a liberdade. Mas a Judéia era a escravidão, a escravidão do princípio, de doutrina, de uma certa ordem de idéias práticas e puras da vida e que Jesus apregoava, esclarecia e exemplificava com as suas parábolas e com as suas prédicas. Por isso a Judéia crucificou Jesus e por isso Jesus não fecundou o ser de Madalena; de sorte que não ficou sobre a terra homem nenhum profundamente e tão santamente imaculado e sereno como ele. E essa mesma lenda da ressurreição que a Bíblia conta e que só poderia ser feita por filósofos evangelistas embriagados pelos eflúvios transcendentais do cristianismo, tal é o seu alcance, a sua natureza racional, nada mais que dizer senão que aquele que adora, protege e combate a liberdade, triunfa e ressuscita até da morte que é a única escravidão eterna, onde habita o verme; porque, se não ressuscita em matéria, ressuscita em espírito no coração de todas as eras. * * * * * * * * * * Eis pois, aí tens, Santa, oh doce filha do meu amor, o que é liberdade e o que é escravidão! A Regeneração, n° 146, Desterro, sábado, 9 de julho de 1887. 136 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 VI À BIBI A Bibi foi criada desde pequenina com a sua escrava Maria. Maria é uma crioula muito viva, de olhos rasgados, raiados de sangue, acusando temperamento ardente e tresloucado. Nunca Bibi deixara Maria. Eram os “irmãos siameses”, costumava a afirmar com autoridade o senhor, o Castro, advogado, quando voltava dos clientes para a família. Bibi era uma raparigota faísca, barulhenta, mexendo em tudo, algazarrenta, trepando aos etagères para brincar com os copos limpos e arrumados ali, derrubando de sobre o gueridon o elegante álbum de couro da Rússia com fecho de metal branco, alvoroçando as aves domésticas no quintal, amarrotando e quizilando as visitas com implicâncias, com ditos, com esquisitas comparações desastrosas. Porque afinal os pais faziamlhe a vontade, deixavam-lhe o gênio à rédea solta, não lhe ralhavam, não viam aquilo. Demais, Bibi era o mimo da casa, a filha única, não queriam contrariá-la, coitadinha; também, era uma criança, diziam, tinha tanta graça. E Maria e Bibi completavam-se. Nunca se via uma sem a outra. Influenciada por Maria, Bibi fazia tudo. Maria mandava-a tirar às escondidas da sinhá velha um torrão de açúcar, Bibi tirava; Maria mandava tirar uma ave qualquer do quintal para fazer com as meninas da vizinhança um festejo de bonecas, Bibi tirava; Maria mandava tirar um vintém ou dois ou três ou quatro ou cinco, do resto das compras do dia, de sobre a mesa da sala de jantar, Bibi tirava. Ambas inclinadas ao mal desenvolviam-se no mesmo meio como uma planta enxertada na outra. E Bibi tornava-se imprudente, de OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 137 maus costumes, mentirosa e vingativa. Maria era a causa, Bibi o efeito. Bibi ia fazer quinze anos. Tinha todos os predicados complementares da feminilidade verde: a excessiva vaidade, o amor pelos galanteios, o romantismo dos recitativos langorosos e sem metro acompanhados ao piano numa melopéia monótona e esfalfada, os passeios ao luar calmo e voluptuoso de tranças soltas pelas espáduas; os espetáculos de dramas sinistros, impossíveis, os bailes, os romances manhosos e desenxabidos de causar nevroses, vertigens, febres, um poucochinho de spleen pela virtude e de nostalgia pelo vício. Pelas quinze primaveras de Bibi, dançara-se muito, fizera-se estilo palaciano nas salas do Castro. Ele e a mulher tinham o coração transbordando de entusiasmos paternos pela filha, como os convivas tinham as taças transbordando de champagne rosé e de chambertin, nos hips e nos hurrahs. E as luzes das serpentinas crivando prismas faiscantes nos pingentes que tilintavam com o ruído das valsas dulçorosas que faziam palpitar os seios e gemer as sedas, descreviam hieróglifos de sonhos confusos, cheios de névoas, como castelos no ar, nas imaginações picadas de vinho e atordoadas naquela quente temperatura coreográfica. Um dia Bibi teve um namorado. Soube-se que era pobre, os pais não queriam. A gente de Bibi também não era rica; mas afetava de modo luzente e discreto. Pobre de Bibi. Que de choros, de agoniazinhas, de raivas naquela natureza fremente e desregrada... Que bater de pé! Mas Bibi não perdera todos os recursos, tinha a sua íntima, a sua Maria. Foi a ela, aconselhou-se com ela, abriu-se, disselhe tudo. Maria ouvia Bibi, reluzindo toda no ônix de sua cor. 138 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Deu-lhe planos, conselhos, ensinou-a em coisas que sabia, de muito efeito. Disse-lhe que escrevesse que ela levaria a carta e traria alguma que ele tivesse. Ficaram nisto. Passados tempos soube-se que Bibi fugira com um palhaço e que Maria dissera ao vê-la partir: – Tenho saudades dela mas não perdi o negócio. O meu plano valeu-me cinco notas de dez tostões, novinhas em folha. Muito bom aquele seu Chico palhaço! Este interessante caso da outra Bibi de teu nome fez-me despertar no cérebro a idéia de que todas as Bibis como tu, criadas desde a infância com alguma escrava Maria, recebem os costumes e os instintos maus dessa própria Maria; porque o elemento escravo, pernicioso e fatal como é, contagia de vícios a família brasileira da qual tu, meiguíssima, boa e excepcional Bibi, puramente descendes. A Regeneração, n° 150, Desterro, quinta-feira, 14 de julho de 1887. VII À NENÉM Hoje é domingo, Neném. Celebra-se a Semana Santa. Estamos na Ressurreição. São cinco horas da manhã. Na rua, há ainda um ar vago de alvorada que põe uma guipure de névoa nos aspectos variados da natureza. Entremos na igreja. Na igreja, há também o mesmo ar vago trazido pela larga e polida vidraçaria do templo que se conserva aberta; ar com tudo menos vago talvez pela razão dos lustres acesos e da gala sagrada que enche de OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 139 resplandecimento e solenidades toda a extensa nave onde os fiéis rumorejam num crescendo de mar tormentoso e cavado. O altar-mor está vistosamente ornado, rutilante, cheio de flores colocadas em jarros dourados, rodeado de grandes tocheiros que faíscam e reluzem com as suas chamas ensangüentadas e amarelas. Lá em cima, até onde os olhos sobem mais, num trono de luzes, entre uma pesada cortina escarlate caída em pregas longas e fundas, vê-se o Cristo, ressuscitado e chagado, tendo numa das mãos um ramo verde. Nos altares laterais, os santos parecem ainda possuir a auréola triunfal de aleluia de ontem e sorriem seraficamente, meigos, tanto os mártires como os gloriosos. Pelo teto abobadado, como convém às construções de certos edifícios em conseqüência da acústica, da repercusão dos sons entre as harmonias melífluas, sentimentosas, ternas e docemente melancólicas dos violoncelos e das rabecas, das flautas e do harmonicorde que chora, pianíssimo, na majestade sagrada das suas notas, ecoam sonoramente as vozes que vêm do coro, beatíficas e sérias, entoando o Kirie eleison, num misticismo de bandolins empíricos cujas cordas flébeis os ventos celestes vêm gemer e soluçar tremulamente. Os sacerdotes festivamente paramentados, com as suas capas lustrosas e relampejantes, verdes, encarnadas, brancas e roxas, bordadas a flores de ouro, de estolas pendidas no braço, ou com as suas sobrepelizes alvas e rendadas destacando forte na batina preta, curvam-se em genuflexões religiosas diante do altarmor e, levantando-se depois com mesuras graves e medidas, lê um deles a “sacra”, em voz pouco alta: In principio erat verbum et verbum, etc., enquanto os acólitos, em linha e reverentes, agitam, fazem balançar cadenciada e ritmadamente os lavrados turíbulos de prata, donde partem brancas e leves espirais de incenso. 140 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 E o cerimonial prossegue com toda a minudência escrupulosa do rito romano. Mas a minha atenção prende-se agora a um vulto feminino ajoelhado para lá do cruzeiro. Olha, não estás vendo, Neném, aquela senhora idosa, de cabelo repartido em bandós, de vestido preto e de amplo mantelete de vidrilhos, ali, perto da capela do santíssimo? Bem que tu conheces! Repara bem como ela reza com devoção. O longo rosário de padre-nossos e de ave-marias pende-lhe das mãos engelhadas e trêmulas que o reviram sempre de um lado para outro, enquanto os seus lábios frouxos e desmaiados balbuciam com furor histérico intermináveis orações que falam do amor divino, da tentação da carne, do inferno e da glória eterna. Em cada ruga profunda do seu rosto há um mistério, talvez um remorso, um crime talvez. Ela mal pode ter-se de joelhos, as pernas fraqueiam-se-lhe, o seu tronco curva-se e curva-se mais como se se quisesse dobrar e partir; e no entanto essa senhora reza sempre, sem levantar os olhos para ninguém, nem para os santos, preocupada no seu mister beato e salvador, apenas olhando obliquamente, de soslaio, como uma pessoa vesga, de modo invejoso e cruel, para algum chapéu Pierrete, de rosas e clematites, colocado vitoriosamente, com um atrevimento e uma brejeirice e petulância chic, na cabeça grácil de alguma mulher bela e nova. Oh! essa velha tem uma história lúgubre, Neném. Ali onde a vês está sem dúvida com cinco comunhões e seis confissões. Vem todos os dias à igreja, muito cedo; às vezes ainda há crepúsculo matutino, confessar-se pelos seus grandes pecados e obter a absolvição e as indulgências do senhor padre. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 141 Ah! ele que a confessa não tem culpa, não. Não tem porque conhece certamente, embora o fumo espesso da teologia lhe tirasse ao espírito certa lucidez filosófica mais necessária, ele conhece como é feita toda essa manobra da religião, não a religião alegre, piedosa e consoladora do Cristo que eu e tu adoramos, Neném, mas a triste e pervertente religião hipócrita dos homens. Neném, tu és uma moça de espírito, tocas muito bem Schubert e Verdi, tens uma paixão artística pelo “sento una forza indomita” do Guarani e pelos musicais esplendores gregos da Aída; teu pai, um capitalista grave e lord, de cheques ao portador, parecido com um certo nobre de teatro, educou-te muitíssimo bem, com capricho e dedicação mesmo; fez-te aprender o francês, o inglês, pôs às tuas ordens um magnífico professor de música vocal, mandou-te ensinar um pouco de geografia física, de geografia matemática, de geografia política e de história e creio mesmo que até chegou a conseguir que tu folheasses com atenção, por muitas vezes, um tratado de fisiologia e de patologia, porque o teu belo pai tinha um orgulho e um desejo extravagante e clássico de te fazer médica. Até mesmo me afirmaram que certos folhetins que os periódicos literários publicam são escritos por ti, como “As borboletas”, “Os ninhos de colibris”, “Os querubins do lar”, etc. com a maneira gentil de Valentina de Lucena, de Guiomar Torresão, de Júlia da Costa e sob o pseudônimo esbelto e aristocrático de – Rosalina do Val. Portanto, educada assim como és, inteligente e ponderosa, hás de saber por certo o que é um caso patológico. Sabes, não é? Pois essa velha é isso, é um caso patológico terrível que ainda o mais sábio homem de ciência não poderá estudar facilmente. Essa velha tem a nevrose da maldade. 142 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Ela é devota assim como tu vês, não é verdade?... Mas se tu a visses em casa! Em casa ela muda de figura, transforma-se, não é aquela que lá está, não é a mesma. Todo aquele aparato de beatice some-se como numa mágica, pelo alçapão do cálculo e do interesse egoísta e fica só em cena, no tablado da sala, da varanda ou da cozinha, uma mulherzinha pantérica, sinistra e fatal que não é mais trêmula como a outra nem mais curvada também; mas uma mulher que se impertiga, que anda rápida e desembaraçada, falando forte, de relâmpagos na voz e com um olhar onde há o sangue dessorado e venenoso de muita raiva concentrada e de muita inveja dos outros. Essa velha possui escravos que castiga atrozmente, de uma maneira desumana e brutal. E quando volta da igreja, com o ar ressabiado e hostil por ter ouvido repreensões ásperas do confessor que a conhece e que não lhe permite fazer todas as maldades e barbaridades que ela quer, a velha, despeitada por ele não estar sempre do seu lado, a seu favor naquele modo de vida, de mulher irascível e má, chama uma pobre escrava, doente e encanecida pela idade e pelos sofrimentos, e dá-lhe pela cara com um vergalho de couro molhado e passado em areia ou chegalhe aos seios e às pernas um pedaço de lenha ardente em brasa, dizendo-lhe entre um riso satânico e feroz: Anda, negrinha, pula agora aí e lembra-te do pai Antônio que não te quis; também o padre não me quer mais a mim. A Regeneração, n° 162, Desterro, quinta-feira, 28 de julho de 1887. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 143 VIII À ZEZÉ Neste momento, Zezé, tenho sobre a mesa de escrita, diante dos olhos, um pequeno folheto cuja capa da frente forma o desenho sereno de uma nuvem prateada, no meio da qual um bando alegre de serafins celestes, de crianças louras e rechonchudas voa com as suas asas rosadas, suspendendo no ar uma fita azulclaro que diz – Lisboa-Creche. Lisboa-Creche é um jornal-miniatura, galantezinho, leve e acariciador como um ninho de ave, onde uma turba luminosa de indivíduos que escrevem deixou toda a cintilação do seu espírito doce e cantante como uma revoada zumbente de abelhas douradas. Esmaltam a Creche, além dos escritos mignons, graciosíssimas aquarelazitas, espécie de cromos encantadores, das quais ressalta a Tarantella, interessante dança de costumes napolitanos, meridional e vibrante, ruidosa de primor e de graça, pintada com muito chic pelo pincel elegante e radioso de Bordallo Pinheiro, cheia de um sol de talento artístico como de um sol dos trópicos. E para que se fez esse jornal miniatura? Eu te digo. Um dia, em Portugal, lá onde canta a cotovia “tão límpido, tão alto que parece que é a estrela no céu que está cantando” uma rainha amável e pia como o seu nome deu-se ao bom humor, lembrou-se de descer simpaticamente até ao povo e abriu os seus braços fidalgos às crianças sem asilo e sem pão. Porém, tantas e tão pobres eram elas que não bastariam por certo o socorro e o amparo de uma rainha, conquanto benévola e poderosa fosse, porque essa rainha não sustentaria, ela só, nos seus ombros débeis e 144 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 delicados, o peso de tanta desventura e tanta necessidade juntas. Então agruparam-se em redor dela os artistas, os escritores, os poetas – todos eles floridos e frementes de idéias – contentes e gloriosos como se fossem desenterrar de cova do passado, com a enxada da fantasia, todas as lembranças queridas e saudosas da sua infância. E daí nasceu, como homenagem à idéia da rainha, o Lisboa-Creche. Bem vês, Zezé, que a intenção, que a razão principal desse jornalzinho não pode ser mais pura; é tão pura, tão casta e tão cândida mesmo como uma magnólia aberta, orvalhada ao luar. Ocorre-me isto à memória, apraz-me narrar-te, conversar amigavelmente e fraternalmente contigo estas coisas, porque sei que também tens um coração generoso como a rainha. Tens sim. E para prova disso, basta olhar para as lindas chinelas de lã, bordadas a missanga, que tu trabalhas com tanto gosto e orgulho. As tuas mãos giram e tornam a girar o tapete de um para outro lado, esse tapete por hora tosco e simples, mas que há de ficar estrelado daqui a pouco dos fulguramentos da tua habilidade. Os fios de lã caem de entre os teus dedos, flexivelmente, como fios de luz, enquanto o retrós colorido e fino, com tons de íris etéreo, confunde-se em meadas, cujo segredo da ponta só tu conheces, dentro da tua cesta de vime. E para que fazes isso, Zezé? Tu mesma nada me dirás, nada me responderás, nada me contará a tua boca, porque desejas conservar mistério nessas chinelas até um certo tempo, até ao dia em que elas tiverem de levar o destino que tu imaginas e queres; mas, não obstante essa tua persistência em OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 145 nada me revelares, eu sei de boa fonte, de fonte bem cristalina, sei do teu próprio coração que não mente nunca nem engana a ninguém, que tu caprichas nesse objeto porque tencionas dá-lo ao bazar dos escravos e lá deve haver com certeza ricos objetos aprimorados, muito preciosos e muito lindos com os quais esse não poderia naturalmente competir jamais, se não fosse, como está sendo, trabalhado caprichosamente. A Regeneração, n° 193, Desterro, sábado, de setembro de 1887. Outras Evocações 148 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 ELIZIRNA Elizirna! Elizirna! Como faz a gente pensar nos mundos de além, emigrar, boemizar, para a gare azul dos sonhos estrelados de auroras, o teu perfil correto, linha direita de imperatriz da Rússia. Como essa cintura, mais delicada e galante do que a pétala branca, de leite, da deliciosa magnólia, quando a gente te vê elegantemente espartilhada, jubilosa, parecendo uma alegria do céu, tantaliza e arrebata os bravios leões do desejo. Elizirna! Elizirna! E a tua epiderme, macia, jambosa, com a penugem veludínea do pêssego, molar com a suavidade doce do creme, e o frescor perfumoso da malva-maçã; de um róseo queimado, a tua epiderme, flor azul dos luares brancos, impressiona o nervosismo, dá irritabilidades espasmódicas. E a música do teu laringe, o gargantear cantarolante do cristal, semelhante ao tinido miúdo, claro, sonoro de uma campainha elétrica, vibrada num palácio de vidro, como prostra a alma num êxtase, num êxtase... Elizirna! Elizirna! E a curva do teu colo, a abençoada curva do teu colo! Quantos ideais meus, quantas cismas encharcadas no licor saborosíssimo da ventura que palpita, que ferve, que escalda e esbraseia, não foram flutuar, boiar no maciosíssimo topázio rico do teu colo moreno, como um batalhão triunfal de pássaros vermelhos, nos fluidos da enorme concha de alabastro do firmamento. Elizirna! Elizirna!... Pomba doce dos países de ouro. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 149 E a tua boca, cor de pitanga madura, levemente roxa, esse escrínio rútilo dos meus beijos, esse fruto ruborizado, polposo, sempre aromático, infiltrado do sândalo agradável da mocidade, do gosto saudável da beleza pura, castíssima, frescurizada, vegetabilizante, como é consoladora e boa. Elizirna! Elizirna! E a tempestade negra dos teus cabelos, cortada pelos fuzis dos meus olhares, por onde o vento absurdo, desabrido, das minhas desgraças, faz ziguezagues e esfuziotes continuados; o mar profundo e vão dessas tranças, por onde o meu destino naufraga desoladoramente, como eu acho terrivelmente deslumbrante, esmagadoramente belo... Elizirna! Elizirna!... E os teus olhos, filha, abundantes de cousas celestiais, fartos das bênçãos do gozo, inundados dos equatorianos rosicleres primaverinos, cheios dos pizzicatos, dos acceleratos das paixões, como iluminam e cantam... Elizirna! Elizirna!... Parecem dois sóis esplendorosíssimos, os teus olhos, cada qual com um sabiá dentro, abrindo, cristalinizadoramente, em trilhos gorjeadores, a bravuresca garganta lírica... 150 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 CONSCIÊNCIA TRANQÜILA O ilustre, o douto homem rico, o abastado senhor de escravos está já, segundo a previsão do seu médico, quase às portas da morte. Sobre o luxuoso leito largo, na alvura fria dos linhos, entre os gélidos silêncios das paredes altas, ele está mudo, semimorto, dormindo, como que se predispondo para o sono eterno. No confortável aposento onde ele aguarda afinal o último suspiro, vai e vem, abafando os passos, toda uma sociedade de honrados bajuladores, de calculistas espertos e frios, de interessados argutos, de herdeiros capciosos, de tipos bisonhos e suspeitos, almas simplesmente consagradas ao instinto de conservação da vida no que ela tem de mais caviloso e oblíquo. Graves e grandes, como bocejos lassos, como tédios esquecidos, os momentos do moribundo se prolongam e os comentários esfuziam e ferem, à surdina, o ar doentio, pesado... – Não há dúvida que vamos perder um homem útil, prestimoso, eminente, carregado de saber e virtudes, bom e piedoso, ah! sobretudo bom e piedoso. Que coração de anjo para os humildes, para os tristes, para os fracos, para os desamparados. A sua bolsa, sempre inesgotável, dividia-se com todos. Verdadeiro apóstolo da caridade, da religião e da ciência, era um justo na acepção da palavra, de uma moral elevada até à santidade. Nunca me há de esquecer de como ele foi sempre generoso para essas raparigas miseráveis, gente baixa, que nem ao menos tem a vala comum para cair morta e que ele afinal protegia com a sua bolsa e arranjava-lhes noivos entre pobres-diabos da plebe, quando por acaso elas deixavam de ser virgens com ele... De muitas, de muitas sei eu que ele tornou felizes com o seu prestígio, dando-lhes casamento e dinheiro. Sim! porque outro fosse ele, como esses bandidos que por aí OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 151 andam, que deixariam as pobrezinhas ao desamparo e com filhos. Ele, não; casava-as logo e assim trazia felicidade aos casais que constituía. Muito, muito justo, sempre foi muito justo em tudo! Homem distinto! Homem distinto! Este é dos poucos que podem morrer com a sua consciência tranqüila, perfeitamente tranqüila! Quem assim falava com esta ingênua malignidade, com esta nova, inédita inocência, com esta terrível e eloqüente ironia, por si próprio, no entanto, desconhecida, era um homem de olhos ladinos e gestos sacudidos, próspero, rubicundo, expressão loquaz de ave rapace, nariz altivo, espécie de sagaz furão de negócios, parecendo estar sempre ocupado em absorver e conhecer pela atilada pituitária o ar das cousas e dos interesses imediatos. Num dos dedos da sua mão ágil, pronta, precisa para o assalto à vida, com a medida exata dos grandes golpes ocultos, reluzia a clara gota d’água iriada de um rijo brilhante. Mas, o troféu de glórias deste curioso exemplar humano era o famoso e filaucioso cavaignac, meio diabólico, meio cínico, que ele afagava com gravidade e volúpia, abrindo em leque, num gozo particular, como se o cavaignac fosse o seu inspirador e o seu oráculo naquela eloqüência. Como todo o bandido bem acabado, perfeito, como todo o Tartufo casuístico, tinha o seu séquito, os seus satélites, que instintiva ou calculadamente ouviam e aprovavam sempre em silêncio servil tudo quanto ele dizia e lhe forneciam a manhosa e morna atmosfera, feita de rastejantes e vermiculares sentimentos na qual ele vivia à farta, num transbordamento de tecidos adiposos, cevando-se nas lesmentas vaidades e caprichos mesquinhos dos outros, lisonjeando-lhes as pretensões, alimentando-lhes os vícios, devorando-lhes o ar, numa verdadeira existência parasitária. 152 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Mas, agora, todas as atenções se voltavam, alvoroçadas, ansiosas, para o velho moribundo, que acordara afinal em sobressaltos, o olhar desvairadamente pairado num ponto, como se por um esquisito fenômeno tivesse ressurgido do terror do sono eterno e viesse ainda perseguido por glaciais fantasmas que o arrastavam pelos cabelos e pelas vestes, através de uma treva duramente muda e aflitiva... E, ou fosse remorso ou fosse álgido medo da hora extrema ou fosse mesmo agudo e histérico delírio imaginativo de senil e tábido celerado que vai morrer, o certo é que todos, no auge do espanto, no mais esmagador dos assombros, sem poder conter a súbita e estupenda torrente que lhe foi espumando e jorrando da boca bamba, ouviram este cruel e amorfo monólogo, feito de lama e podridão, de estanho inflamado, de ferro e fogo, de acres e apunhalantes sarcasmos, de ódio e visco, de mordentes perversidades, de chagas nuas, de lacerações de carnes gangrenadas, de soluços e estupros, de ais e risadas, de suspiros e concupiscências baixas, de beijos e venenos, de estertores e lágrimas, tudo rodando, rodando através do pesadelo da Morte. Como que a seu pesar, um fenômeno desconhecido o transfigurava, punha-lhe na boca a eloqüência viva de chamas devoradoras. Ele era, naquele momento, a presa formidanda das correntes da matéria, que os mais curiosos e estupendos sentimentos abalavam: como que uma outra natureza, sem ser propriamente, legitimamente a sua, a natureza dos mistérios, que paira acima de tudo o que nos é terrenamente acessível, a natureza do Incognoscível das Esferas, dos maravilhosos Ritmos, o inspirava, falava pela voz dele, enchia-o de fluidos prodigiosos, arrebatava-o para um meio sonho e para um meio delírio, onde, contudo, transpareciam faces verdadeiras das cousas, já galvanizadas pelo passado. Aquilo era como que o exemplo vivo, iniludível e supremo dessa vaga névoa, dessa bruma de Abstrato, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 153 que há em todo o Tangível, do Sobrenatural que há em todo o Verdadeiro. – Ah! lá se vão elas, vejam, lá se vão elas! Quantas! Quantas! Eram todas minhas! Vinham entregar-se ao meu ouro que tinia, tilintava, tinia com a sua luz sonora. Olhem, lá vão elas! Todos aqueles corpos eu beijei, eu gozei, eu depravei, eu saciei! Todos aqueles belos corpos brancos se adelgaçaram, se quebraram, vergaram, em curvas voluptuosas de abóbada estrelada, às minhas furiosas luxúrias. Parecia que corcéis de fogo disparavam no meu sangue, corriam a toda brida nos meus nervos, tanto a sensualidade me agitava, me vertiginava, aguilhoava-me com os seus aguilhões acerados. E eram todas virgens, que eu desviei, estrábico de gozo, nas formidáveis alucinações da carne. Pois se eu tinha o meu ouro, o meu ouro que agisse sem demora e mas trouxesse vencidas; pois se eu tinha o meu ouro, o meu ouro que as escravizasse à minha lascívia, o meu ouro que as fascinasse, o meu ouro que as atraísse, o meu ouro que as magnetizasse, o meu ouro que as cegasse, o meu ouro que as perdesse, o meu ouro que as aviltasse! Pois se eu tinha o meu ouro, que mal então que eu comprasse formas de argila, com o meu ouro de forma de sol! Pois se eu tinha o meu ouro! Pois se eu tinha o meu ouro! Pois se eu tinha o meu ouro! Por entre os linhos alvos do leito, naquelas brancuras preciosas, como que um rio de ouro, um cascatear de ouro, uma música de ouro vinham então finamente e fluidamente rolando, distendendo pelo leito os seus harmoniosos e claros veios de ouro, numa feeria de som, de alvura e de ouro. E o senil e tábido milionário estava ali como um célebre mago dominado pelo ritmo alucinante, pela vara magnética desse êxtase de visionário moribundo, pela doentia e sonâmbula superexcitação nervosa, por toda essa vertigem, por todo esse deslumbramento hipnótico, fatal, enlouquecedor, do ouro. E ele ria alvarmente uma 154 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 risada entre amarela e negra, que fazia lembrar o fúnebre caixão que o esperava... Todos, estupefatos, suspensos, diante daquele delirante e sensacional espetáculo que não podiam encobrir nem conter, tinham a respiração sufocada, os semblantes transtornados, lívidos, tão lívidos que pareciam outros tantos moribundos que ouviam, imóveis, num espasmo de angustioso terror, esse outro sinistro moribundo falando. Agora, porta mais negra e mais ensangüentada se abrira escancaradamente, num rápido rasgão de raio que fende as nuvens, ao delírio do cérebro demente do quase morto: era como se nenhum escrúpulo delicado, sutil o prendesse mais à terra e aos homens; se todos os fios e laços das suscetibilidades da alma se houvessem partido, despedaçado e ele ficasse só nos instintos, à vontade, besta desenfreada, livre de todas as correntes do Sensível, sob o impulso primitivo, selvagem, desorientado, animal, deserto, da simples matéria e da simples carnalidade: – Ah! Ah! pois não era o meu ouro, só o meu ouro, sempre o meu ouro que comprava tanta carne humana, desprezível, que eu via entrar nas senzalas, de volta do eito?! Negros trêmulos, velhos e tristes, com o dorso curvado por uma remota subserviência ancestral, atávica, fantasmas de pedra, mudos e cegos na sua dor absurda... Às vezes era pelos amargos desfalecimentos da tarde; e, no fundo denso da noite algumas estrelas espiavam como sentinelas, de olhos acesos e vigilantes, aquela torva massa trôpega e tarda que caminhava como do fundo de um tempestuoso e formidável sonho: os crânios desconformemente alongados, os perfis com deformações hediondas, talhados à bruta por mãos de gênios rebeldes, infernais e os olhos envenenados pela mais atroz, bárbara e mórbida melancolia das melancolias. Como que vinham, num turvo e amorfo desfilar do centro misterioso da terra, com a cor da terra, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 155 com a cor das trevas primitivas, esqueléticos, cadavéricos, héticos, na assombrosa condensação de todas as criações shakespeareanas, arrastando os miseráveis e ensangüentados farrapos das almas. Parecia-me que se cavava de repente, por toda a extensão do eito, imensa, profunda cova; que essa cova era como velha chaga secular formidavelmente grande, sinistramente sangrenta, a devorar, a devorar, a devorar carne humana, legiões e legiões de míseros, um fabuloso mar negro e selvagem de corpos e almas amaldiçoadas... E essa chaga tremenda, avassaladora, fatal, ia então alastrando, não já sangrenta, mas verde, podre, gangrenada, aberta a monstruosa e purulenta boca verde. Não sei para que sobre-humano horror eu recuava, para que noite caótica de horror animal eu mergulhava a tremer, a tremer, a tremer... Ficava então de repente com a imaginação dominada por cruéis sobressaltos, com ansiedades, delírios a se vulcanizarem no cérebro... Subiam-me ao cérebro obsessões de loucura, como que os meus pensamentos se agachavam, se encolhiam aterrorizados a um canto do cérebro... Um medo agudo, invencível, me amarrava os nervos... Todo eu gelava, suava medo... E aquela bamba, trôpega e tarda massa torva, fenomenal, numerosa, estranha, tão estranha aos meus sentidos apavorados, dava-me a impressão fantástica de abismos que caminhavam, de tenebrosas florestas de corpos cheias de rugidos de feras, de garras, de dentes devoradores, que eu via de repente atirarem-se, arrojarem-se sobre mim, bramindo vingança, e despedaçarem-me, estrangularem-me todo. Ao meu espírito aterrado, ao mundo virgem e nunca visto de visões que se me desenvolviam no deslumbrado raio visual, era como se todos aqueles esqueletos negros se reproduzissem, surgissem por toda a parte turbilhões e turbilhões, tumultos e tumultos, matas serradas, compactas, selvas bravias de esqueletos 156 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 negros, toda a África colossal ululando e soluçando num ululo e num soluço milenário... E, por sobre todos esses milhões de cabeças tenebrosas, pairava no ar, solenemente, prognosticadamente, sugestionadoramente, como o satânico e sinistro Anjo da Guarda da negra raça dos desertos, lassa e descomunal, lânguida e letárgica serpente, talvez dormindo e sonhando novos e mais maravilhosos venenos, com as grandes asas abertas... Ah! eram sobrenaturais esses sofrimentos que assim me remordiam tanto com tamanhos dentes e com tamanhas garras! Deus, a essas horas tão tremendas para a minha consciência, ali tão humilhada, batida, cobarde de terror diante daqueles negros espectros, onde estava Deus, para trazer-me um alívio, um consolo para ter piedade de mim, para dar-me de beber da fonte clara, fresca e suave da tranqüilidade, para saciar a sede de humildade, de pobreza, de simplicidade, a sede devoradora que me incendiava, a mim, a gula viva do ouro, a mim, a gula viva da sensualidade, a mim, a gula viva do crime! No entanto, ah!, que risadas satânicas, diabólicas, que satisfação perversa me assaltava quando o feitor, bizarro, mefistofélico, de chicote em punho, lanhava, lanhava, lanhava os miseráveis e lindos corpos de certas escravas que não queriam vir comigo! Oh! lembra-me bem de uma que mandei lanhar sem piedade. A cada grito que ela soltava eu gritava também ao feitor: – Lanha mais, lanha mais! E o bizarro feitor lanhava! O sangue, grosso e lento, como uma baba espessa, ia formando no chão um pântano onde os porcos vinham fuçar regaladamente! Com que febre, com que alucinação inquisitorial eu gozava essas torturas! Até mesmo, às vezes, via-me possuído de um extravagante desejo animal, de um desejo monstro de beber, como os porcos, todo aquele sangue. Lembro-me também de outra, bestialmente grávida, prestes a ser mãe, a quem eu, para saciar a minha sede feroz de ciúme, a minha sede OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 157 de raiva, a minha sede de concupiscência suína, mandei aplicar quinhentas chicotadas, enquanto os meus dentes rangiam na volúpia do ódio saciado. Desta foi tamanha e tão atroz a dor, tão horríveis as contorções, enroscandose como serpente dentro de chamas crepitantes, que esvaiu-se toda em sangue, abortou de repente e ali mesmo morreu logo, felizmente lembro-me bem, com a boca retorcida numa tromba mole, espumando roxo e duas grossas lágrimas profundas a escorrerem-lhe no canto dos olhos vidrados... E de outra ainda lembro-me também, porque eu a mandei afogar no rio das Sete Chagas, junto à figueirado-inferno, com o filho, que era execravelmente meu, dentro das entranhas... Mandei afogar tarde, a horas mortas, depois que certo sino cavo soluçou as doze badaladas lentas e sonolentas no amortalhado luar... E devo ter algum remorso disso? Remorso? De quê? Por quê? Por quem? Meu filho? Como? Feito por um civilizado num bárbaro, num selvagem? Remorso por tão pouco? Por lama vil que se joga fora, por barro ignóbil que para nada presta?! Remorso por fezes, resíduos exíguos de elementos inservíveis, bílis negra, composto de produtos podres, gases deletérios e inúteis, pus fétido – pois por essa asquerosa e horrenda cousa que se formou e ondulou misteriosamente sonâmbula nas entranhas pantéricas de uma negra hei de ter, então, remorso, hei de ter, então, remorso?! E os quatro enforcados da encruzilhada do engenho, com as hirtas línguas de fora, por uma noite de trovões e relâmpagos, oscilando dos galhos das árvores como pêndulo da morte! E os que morreram no tronco, com a espinha dorsal quase vergada ao meio! E aqueles que de desespero e de aflição sem remédio se rasgaram os ventres enterrando-lhes fundo facas agudas! Os que estalaram tostados, queimados nos fornos em brasa! Os que foram arrastados pelos campos a fora, a galope, atados a caudas de cavalo! Os que tiveram os ventres 158 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 atravessados pelas aspas dos bois bravios! Os que se envenenaram com venenos mais mortais que o das serpentes! Os que se degolaram na mais desesperada das agonias! E aquela negra terrível que morreu louca, abraçada ao filho pequeno, dando-lhe alucinadamente de mamar, nua, toda nua, com o seio a escorrer leite e ao mesmo tempo a escorrer sangue pelas feridas de trezentas e setenta e tantas chicotadas, com os olhos esbugalhados, a olhar-me muito, a olhar-me sempre, parece que ainda horrivelmente a olhar-me agora, a perseguir-me, a cortar-me de pavor como uma lâmina gelada e penetrante. Ah! e aquele negro de cem anos, morfético, inchado como um sapo enorme, manipanço senil, a quem eu arranquei os dois olhos com a ponta de uma verruma, enquanto ele urrava e escabujava de dor como um tigre apunhalado! E isto em pleno eito, num meio-dia de ferro e fogo, que cortava e queimava, por um sol dilacerante, devorador como feras esfaimadas, sangüinolentas! E eu arranquei-lhe os olhos, enterrando-lhe fundo a verruma sem piedade, depois de já lhe haver aplicado por todo o corpo, apodrecido e chagado pela morféia, seiscentas vergalhadas, de pulso musculoso e rijo e de relho forte aberto em trinta pernas terminando em agudos pregos nas pontas. Ah! como o velho manipanço se retorcia, espumava, gania, mordia a língua, soltava pinchos por entre os torvelinhos, os círculos vertiginosos, desvairados, das trinta pontas aguçadas das pernas rígidas do relho! E ainda aquele outro negro decrépito, de uma boçalidade caduca, cego, mudo e idiota, completamente cego e mudo, que foi encontrado morto no curral dos porcos, a cabeça fora do tronco, inteiramente decepada a machado, os órgãos genitais dilacerados! Remorsos, eu, então, de toda essa treva trágica, de toda essa lama de crimes apodrecida?! Como, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 159 remorso? Pois não era do trono do meu ouro que eu estava rei soberano, assim, com o cetro do chicote em punho, coroado de ouro, arrastando um manto de púrpura feito de muito sangue derramado?! Remorso? De quê? Se o meu ouro tudo lavava, vencia, subjugava a todos e a tudo, emudecia a justiça, tornava completamente servis e de pedra os homens, fazendo de cada sentimento um eunuco?! A estas palavras como que pareceu haver um certo movimento de protesto, de altivez revoltada, na pasmada assembléia que o ouvia: quase que um vago vento de indignação passou... Mas, como entre os males da vida “o mal de muitos consolo é”, e quase todos que ali estavam eram parentes do moribundo, aguardavam uma parte do seu grande ouro; e como também nos seus cerebrozinhos empíricos lhes passasse de repente a idéia de que talvez por um milagre da riqueza, por um extraordinário valor e soberania do potentado, ele muito bem podia levantarse do leito ainda e expulsá-los a chicote daquele recinto, todos se entreolharam manhosamente e fizeram depressa espinha mais flexível, fingiram-se mortos o melhor que puderam – vivos, mais mortos que o semimorto. Toda essa delirante epopéia de lama, treva e sangue, era por ele murmurada lentamente, com voz cava, soturna, como através das paredes de um lôbrego subterrâneo ou nas sombrias, solitárias arcadas de um convento os crepusculamentos de um Requiem... Impelido por uma força nervosa erguera-se um pouco no leito, talvez ainda mais envelhecido agora, trêmulo, transfigurado, o olhar sempre fixo num ponto, olhar de cego que olha em vão tudo, que como que só vê para dentro de si mesmo... Mas de repente o moribundo teve uma risada alvar, lugubremente idiota, entre amarelada e negra, que fazia fatalmente lembrar o fúnebre caixão que o esperava... E, arremessando convulsamente as frases como lançadas 160 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 no ar, na violência do esforço derradeiro, tremendo, como quem chama a si as últimas energias da matéria que desfalece, a língua já presa, já acorrentada pelos pesados grilhões da morte que vinha vindo, pendeu a encanecida cabeça de celerado senil, exausto de forças, os braços molemente caídos ao longo do leito, os olhos e a boca desmesuradamente abertos, a respiração siflante, num espasmo sinistro... No ambiente ansioso, inquietante, do aposento, pairou uma comoção mortal... Dos lençóis alvos e frios do leito, bruscamente revoltos na alucinadora aflição daquele velho corpo martirizado, como que transpareciam, se levantavam brancas visões de sepulcro... Nos circunstantes, à maneira de velhos instrumentos de cordas usadas, que vibram insolitamente, percorreu logo um pavoroso estremecimento. Todos se acercaram do leito, os rostos transfigurados, na agitação convulsa do grande final – míseras, tristes sombras que num movimento arrastado, impelidas por sensações secretas, se acercavam de uma sombra mais mísera, mais triste... E, ó ironia da Culpa original!, numa leve contração da boca, ainda com um voluptuoso e luminoso alento de vida a esvoarçar-lhe nos olhos, sem longos e torturantes estertores, deixando apenas escapar um fugitivo, breve gemido de lá bem do fundo vago, quase apagado, longínquo, do seu Crime, na atitude de um justo, o ilustre homem rico, o abastado e poderoso senhor de escravos expirou – dir-se-ia mesmo com a sua consciência tranqüila, completamente tranqüila... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 161 O ESTILO O estilo é o sol da escrita. Dá-lhe eterna palpitação, eterna vida. Cada palavra é como que um tecido do organismo do período. No estilo há todas as gradações da luz, toda a escala dos sons. O escritor é psicólogo, é miniaturista, é pintor – gradua a luz, tonaliza, esbate e esfuminha os longes da paisagem. O princípio fundamental da Arte vem da Natureza, porque um artista faz-se da Natureza. Toda a força e toda a profundidade do estilo está em saber apertar a frase no pulso, domá-la, não a deixar disparar pelos meandros da escrita. O vocábulo pode ser música ou pode ser trovão, conforme o caso. A palavra tem a sua anatomia; e é preciso uma rara percepção estética, uma nitidez visual, olfativa, palatal e acústica, apuradíssima, para a exatidão da cor, da forma e para a sensação do som e do sabor da palavra. Um, porém, pode desvirtuar toda a ação e vitalidade do estilo, como pode também segurá-lo e afiná-lo. Os utensílios da escrita são extraordinários, o jogo da frase é poderoso. Os livros de Zola, para dar aqui o exemplo de uma das organizações chefes do nosso tempo, aí estão – candentes, gerados numa atmosfera de fornalha, transbordando de surpresas de observação e análise. Nos livros de Zola, porém, sente-se o efeito de uma monstruosa trombeta de bronze soprada por um Hércules gigantesco, formidável – tal é o largo tufão que dá rumor e faz pulsar todas as páginas. São naturais, humanos, plenos de natureza esses livros. Apresentam as faces mais lógicas da existência. Tais livros palpitam em cada um de nós, saíram de nós, dos nossos pensamentos, dos nossos usos, das nossas paixões; falam da direção do nosso espírito, da nossa 162 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 idiossincrasia – segundo o nosso temperamento, o nosso meio, os elementos climatológicos e etnográficos, a perspectiva das paisagens, tristes ou doentes, alegres ou saudáveis, e todos os princípios gerais estabelecidos e acentuados pela ciência e que influenciam direta e racionalmente em toda educação física e intelectual. O escritor nada se tem que importar que os fatos ou os assuntos lhe sejam simpáticos ou não. Não há mais, nas evoluções das idéias, exterioridades, púrpuras de palavra vestindo um assunto de pau tosco. Pelo contrário! as vestes, as púrpuras da palavra são de conformidade com os assuntos. E é isso que faz a inteireza do caráter da escrita... É preciso que haja um forte tom interior para haver unidade de ação, de verdade no que se analisa, no que se observa. E é por isso, por uma infinidade de qualidades de análises variadas e radicais, que constituem uma ordem de fenômenos, que o Estilo há de acentuar-se, condensar-se, intensificar-se mais entre nós à medida que se for fazendo a evolução da nossa literatura, quando a corrente da Arte estiver em íntimas relações simpáticas com a nossa produtividade mental, estabelecendo nela a complexidade de um todo uniforme, depois que nos houvermos libertado dos hibridismos étnicos que tiram a linha de segurança, de firmeza intelectual das raças que estão em via de constituir-se. Entretanto, quando leio um livro, uma frase, cheios de todas as audácias do talento, vibrantes de energia espiritual e examino os documentos inteligentes que estão atestando uma orientação mais completa, um golpe mais fundo e amplo na luz, mais certeza de “visão”, mais força e vigor celular, mais profusão de glóbulos rubros, alvoroço-me, deslumbro-me e eletrizo-me, porque estou vendo diante de mim, em toda a largueza da minha rotina, com toda a sinceridade emotiva da minha convicção e do meu elevado Amor pela arte, espíritos OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 163 mais livres e lúcidos que abrem e batem asas, como pássaros vermelhos na glória do sol, para além, para longe da retórica e da metafísica, afastando-se dos princípios de todos os dias, rubricados pelo fastio da chapa, amarrados pelos barbantes de uma gramática oficial e convencionada que obriga a idéia a fazer cabriolas e os esfuziotes do raio, sem regimentá-lo no alto dever da luta, sem defini-la, sem engrandecê-la, sem dar-lhe um intenso valor, uma pobre tranqüilidade consciente, uma fisionomia particular e superior. 164 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 JE DIS NON A Virgílio Várzea Subindo uma vez com um amigo, sob a luz esfuziante e alegre de rubro sol de verão, uma rua ruidosa e fremente de vasta cidade da América do Sul, paramos a olhar detidamente a larga vitrina de vistosa livraria no plano direito de quem sobe a rua, vindo da direção do mar. Por muito tempo estivemos ali parados, viajando o olhar que pousava, como borboleta inquieta neste e naquele livro, sobre este e aquele título de obras, como se o nosso espírito quisesse, à maneira dos insetos nas flores, absorver, compenetrar-se pelos títulos, numa síntese radical de observação, dos princípios e idéias contidos em cada livro. Súbito a nossa atenção parou, descansou sobre a capa de um volume, vermelha, e onde se lia em grandes letras negras: – Je dis non. Parou a nossa atenção nesse volume de capa vermelha, como se descobríssemos nele, mais do que em todos, alguma coisa de original, de singular, de excêntrico – algum sangrento episódio de psicologia que lá estava a despertar a nossa análise, dentro da vitrina, longe de o podermos observar, sentir de perto, e por isso mesmo tentava mais. Fidalgo de pensamento, experimentalista, o meu companheiro era um analista rude, d’ar petit marquis, duma contensão filosófica muito possante, iluminada figura transfigurada e mística às vezes, espécie de Fausto de Goethe, numa perene jovialidade e jovialismo amoroso, imprevisto e radiante pela verve e sugestões críticas – um desses cérebros poderosos que definitivamente marcam época, um desses claros soberanos entendimentos, penetrantes como o ar na vida animal orgânica, muito inauditos na Abstração e no Gênio, e para os quais Taine, o supremo chefe da Crítica, teria OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 165 de estabelecer uma nova e derivativa linha determinante de sua estesia. Conceituoso, com o pensamento direto ferindo, atacando muito certo, em flecha, os assuntos, como quem derruba águias do elevado pendor duma montanha, ele, sabendo armar e dirigir o aparelho receptor do seu cérebro à adaptação e generalização das idéias, ainda as mais delicadas, sutis, fluidas quase – começou, primeiramente, a tomar a obra em bloco, a uniformizála, a compô-la, como um organismo, tecido por tecido, célula por célula, molécula por molécula, dando-lhe corpo, consubstanciando-a, alargando-a – até que ela pareceu crescer, crescer, subir, ganhar um vulto estranho através da vitrina, como se a enchesse toda: – uma grande tela vermelha com letras negras ao centro – Je dis non; e como se, por um inconcebível, misterioso processo, ali estivesse ardendo uma chama, mas que não alastrasse em línguas de fogo, unida, compacta, igual, à maneira duma prodigiosa matéria inflamável que não excedesse ou sobrepujasse aquela transparente circunferência de vidro. Depois, então, o luminoso originalista, o evolucionista spenceriano continuou humoradamente a bordar folhetins sobre a obra, como ele próprio dizia, a desmanchá-la, a tirar-lhe a consistente verdade, a preparar-lhe os planos, a determinar-lhe os detalhes, a sua latente psicologia, a sua tangibilidade de ser, a tecelagem de ouro da sua forma, a discernir-lhe a linguagem, a penetrar na nevrose do temperamento que a confeccionara, que fabricara em estilo a sua contextura, apanhando-a, dissecando-a, já em mil voltas, já em mil giros, já em mil efeitos de espírito, sob os mais novos aspectos, dando do assunto inteiramente tudo que o assunto poderia dar e penetrando segura e esmerilhadamente nos entranhados filões recônditos que lhe constituíam toda a potente força criadora de obra afirmativa da Natureza. 166 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 E, nesse profundo trabalho de composição e decomposição mental, ia-se uma incomparável, infinita porção de glóbulos rubros, à qual a mais requintada estesia d’Arte se integrava completamente. Eu, absorto, perplexo, calado pela atenção aguda, acompanhava sorrindo, numa alegria que me sacudia os membros eletrizados, os condoreiros vôos do mestre, que subiam regiões para o alto, além, até aos astros, na rija envergadura das flavas asas à luz em jorro, que depois abundantemente fulgurava, resplandecia na obra, a iluminava por dentro dum clarão, numa transcendente visão espiritual arrebatadora. E o filósofo, o Schopenhauer moderno, nessas sortidas intelectuais que me enlevavam, projetando as idéias mais admiráveis e fecundas, dizia-me então, na serenidade correta dos seus gestos de disciplinado, de frio saxônio: – Pois, é isso, vê? Je dis non! Imagine uma dessas paixões que tudo consigo arrastam para sempre, que desmoronam a vida de um artista contemplativo, vivendo das impressões da Natureza, sob o grito, os vibrantes clarins da carne e a alucinante, inquietadora vertigem dos ideais insonhados! Imagine um instante quintessenciado no absoluto das coisas, amando dum amor imaculado, virginal, sidéreo, já pouco da Terra, desde longo tempo, uma dessas vigorosas mulheres de Tom de luxo, de idade outonal de fruta, que tanto entontecem, perturbam como uma ampla absorção de ar, de luz e de aroma no altanado cume das serras, quando se tem saído da densa e lôbrega treva dum calabouço. Louras Ceres maduras, um tipo, enfim, forte de primitiva beleza, opulenta e formosa deusa da Hélade, uma dessas maravilhosas criaturas, assim humanas e assim etéreas, que eternamente conservam na carne a centelha da mocidade, na epiderme o doce aroma das violetas, a frescura das magnólias, o diáfano cor-de-rosa das auroras de sangue e que através dos seus nervos, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 167 do ímpeto da sua seiva ainda palpitante e viçosa, sabem, como animal que esconde as garras, pôr apenas em evidência, diante de uns olhos apaixonados que as desejam, não o afeto que igualmente as emociona e torna convulsas, mas toda a febricitante graça borboleteadora, alada, dos seus encantos, todo o atraente enlevo das suas sedições – radiantes asas satânicas com que a Natureza as dotou e com as quais elas voam desassombradas para o coração do homem, como para uma chama, vencendo-o, subjugando-o, empolgando-o, sem, contudo, porém, muitas vezes, nem de leve crestarem as rutilantes plumagens. Imagine isso, uma dessas paixões, trágicas, apunhalantes, que queimam, incendeiam, devoram tudo – bárbara paixão selvagem de Otelo por uma Desdêmona fria, de luar gelado, mas formosa; indiferente mas altivamente olímpica, onipotente no esplendor cinzelado, como os mármores coríntios ou os bronzes celinescos, do alabastro do corpo. Uma dessas paixões tumultuosas em onda, em que os amantes estão por vezes separados só pela distância de um beijo e de um abraço, e que quando ele, sonhando a hora feliz e ao mesmo tempo fatal entre todas, que lhe parecesse a mais serena às exigências dela, o doce momento aflitivo no qual ele com veemência pensasse que ela nada lhe negaria, depois de tanto esperar, depois de tanto ansiar – nem a flor dos seus beijos nem a flor dos seus carinhos nem a flor da sua carne – nesse supremo instante enfim em que ele supusesse que do encontro, do atrito amoroso das suas almas tão longamente afastadas, entre si irradiasse e nascesse o sol do mais imperecível amor – ela, com os olhos fagulhantes cheios de expressão e sagacidade feminina, fria por cálculo, indiferente por sistema, acostumados já aos lancinantes envenenamentos dolorosos que trazem as desesperadas e fundas loucuras, 168 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 lhe dissesse, pondo nas suas palavras todo o torturante fel do desprezo: – Jes dis non. Suponha, pense tudo isso e veja a brusca e abrupta alucinação dele, o seu desvairamento ao ouvi-la condenar o seu amor. No entanto esse errante das ilusões teria quase toda a certeza que ela o atenderia, lá o esperava com beijos ardentes esvoaçando já nos lábios como abelhas. Observando, sabendo todas as modalidades da alma, conhecendo todas as manifestações da Natureza, o artista não havia, entretanto, compreendido essa, não pôde abrangê-la nunca no que ela tem de mais imperceptível, de mais vago, surpreendente, aéreo. Não pôde abrangê-la e ei-lo agora aí desmoronado, esmagado, como se todo o império romano do seu afeto de repente perdesse a pompa gloriosa e se fizesse em ruínas. Palácios mouriscos, torreões e minaretes árabes, mesquitas persas, coruscantes pagodes incrustados de madrepérola e pedrarias preciosas, suntuosas e góticas catedrais, um luxo de damascos esmirnos, todo o famoso deslumbramento dos seus sonhos de um místico templário do amor, feito subitamente em cinzas com aquelas pungitivas palavras dilacerantes. Aí tem, pois, o que é Je dis non. Assustador, angustioso, estranho na sua gênese, mas é Jes dis non. Di-lo a epígrafe, em letras negras, dilo a capa vermelha, que é o pronunciamento psicológico de uma tormenta de sensibilidade, de nevropatia que agitou a existência de alguém. Mas, não o leiamos nunca: deixemo-lo estar assim, o excêntrico volume, lá ao fundo, através da vitrina, saciando a nossa sede de Ideal, absorvendo os nossos sentidos na emoção íntima de um gozo intelectual muito mais intenso e raro que a realidade. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 169 A realidade pode não ser isso que sugeri, pode ser banal, qualquer caso de deformação da vida, qualquer fenômeno teratológico da moral, que abata e deprima as iluminuras e ilusionismos da frase, os caprichosos floreios estéticos que agora faço. Deixemo-lo estar nessa impressionante mudez de Esfinge. De tal forma valerá mais para a nossa análise, para o consolo do rebuscamento de singularidade que perscrutamos em redor do mundo, que se lhe penetrarmos na verdade fundamental da concepção e do estilo. Assim, essa Esfinge vale astros e flores. Rasgando o mistério que para nós ambos, num momento dado da investigação, a celebrizou, talvez apenas valesse areia ou lama. Vivamos, pois, na excepcionalidade virginal, etereal do espírito. Não desçamos à bruta crueza flagrante da matéria... 170 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 ÉCLOGA À hora do sol, por estes tranqüilos sítios afastados, goza-se os montes vestidos de um polvilhamento de ouro; as perspectivas deliciosas na matinal e ruidosa expansão da luz; estes luxos bizarros e tons quentes de estio, onde parece que Sátiros lascivos vão trepando e saltando pelas escarpas calcárias e pelos socalcos pedregosos, entre o verde lustroso e denso da folhagem da mata e os encachoeirados, tormentosos rios. Galharda natureza esta, de manhã, cheirosa e sadia, em que o jorro da vida vertiginosamente entra e circula pelos pulmões em ar e aroma, dando uma fremente e forte sonoridade aos órgãos humanos, como vibrante clarim de batalha que nos soprasse metalicamente ao peito, enchendo-o de ecos, de alvoroço, de música e rumores. Por aqui estende-se, amplia-se, alarga-se por aqui o céu verde das copadas ramagens das árvores — e nada mais idílico e bucólico, nada mais virgiliano e pastoril do que estes aspectos sagrados, quase bíblicos, onde a écloga rebenta de cada tufo perfumoso de rosas, de cada serpente elétrica de hera, de cada pâmpano báquico de vinha, de cada ramo salitroso de murta e de cada concha rosada e branca nas finas e claras praias, além, onde o mar espumeja doce, parecendo trazer, no fluxo e refluxo das suas ondas cantantes, a olímpica e serena recordação da mocidade e da formosura da Grécia, ritmada em flóreas canções de Afroditas engrinalda das de algas... Montes e vales, vales e montes, faz bem percorrer aqui estes religiosos recantos, estes saudosos retiros onde parece que o passado, que tudo o que está longe, que tudo o que está remoto, ilusões e eras, tudo aí se veio refugiar e vive um momento agora da nossa presença, da nossa alacridade, do nosso humor, que nós nababescamente derramamos por todas as paisagens, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 171 entre estes pássaros que cantam e voam, purificandose no Azul, como os palpitantes pássaros alados do inquieto, do vertiginoso Espírito. Encantaria ser pastor, para galgar esses penhascos solenes, para subir essas alcantiladas serras e ver borbotar delas a água fresca em finos e prateados fofos vaporosos de espuma, abundante, em turbilhões impulsivos porejando virgem das origens recônditas, como grande força represa, insubmissa e elementar da Natureza, rebentando e surgindo das profundas entranhas rijas da terra e dominando, enchendo, avassalando a amplidão do ar. Encantaria ser pastor, para ir, cedo, na luz, campo em fora, peludo e florestal como Pã, no vigoroso esplendor de sangue da força de um touro novo, por entre a exuberante luxúria vegetal, apascentar os mansos rebanhos alvos de arminho das nostálgicas ovelhas, que balassem desoladamente, numa compunção evangélica; e conduzi-las após ao redil, já tarde, na roxa melancolia das tintas da noite – enquanto a lua, fluida e fria, nevasse as tenras culturas e subisse então infinitamente ao céu – e enquanto, à distância, longe, no ermo, uma leve e flutuante fita de voz se desenrolasse, esvoaçasse e perdesse ao longo e ao largo pelas quebradas, na mais harmoniosa e apaixonada cantiga! Ah! Roma antiga! Ah! Grécia! Ah! Paganismo! Quanto melhor não fora pecar na primitividade dos instintos e dos impulsos, alma espiritualizada no ideal abstrato, existência votada aos cultos soberanos da matéria e tendo para equilíbrio no requinte da calcinação do entendimento, o requinte da elaboração do sentir e do gozar – aberto em chamas no sangue, aberto em chamas nos nervos, aberto em chamas na carne – até ao supremo aniquilamento final, no qual a morte era como uma nova espécie transcendental de concupiscência e lascívia mais requintada ainda, por 172 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 isso que era original, desconhecida inteiramente para esses que a experimentavam. Antes nascer e morrer num leito de rosas, amando e gozando rosas, coroado de rosas, como um romano ou como um grego, no mais virtual e mítico paganismo, do que ter-te a ti, vida consciente e disciplinar, como a tremenda esfinge de pedra, colossal e terrível, sufocando, esmagando a seiva, o ímpeto, uma corrente de desregramento animal que há no fundo de todo o organismo, no fundo de todo o temperamento. E é por isso que dá um instintivo desejo de pastorear e que se sente uma emoção do mesmo modo instintiva quando essas imaculadas existências campestres, rudes mas angélicas e sãs na sua casta nudez de sentimentos, nos sulcam a alma como um clarão, a iluminam e a cobrem de esplendor, desdobrando-nos ante os olhos estupefatos, como opulentas, riquíssimas lhamas rutilosas de diamantes, as magnificências reais do mais profundo e germinal Amor! OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 173 IMPRESSÕES Através das verdejantes colinas do sul, a noite de São João tem a graça pitoresca de uma animada pintura, tornando vivo o clarão de amor das cousas adormecidas ou mortas nas recordações passadas. Ora é numa beira de praia, ora é num trecho de rua que se passam essas cenas de costumes, esses episódios característicos, cheios de um encanto virgem, que afagam a nossa memória. Desceu a noite já! E num luar de junho. As verduras, pulverizadas de luz, escorrendo prata líquida, numa crua irradiação branca, reluzem com a nitidez e brilho dos alvos flocos de neve. Para lá da terra firme, além de uma curta divisa de mar manso, navegável em canoas, num ponto em que os olhos distinguem claramente bem uma aragem fresca, leve, como um sopro musical de flauta campestre, afla nos canaviais viçosos que se agitam suavemente. Porém, na rua, umas vozes cantantes, cheias de mocidade e frescura, gritam alto, sonoras: – Olá, João, anda cá! Hoje é teu dia. Viva S. João! Viva S. João! E o João, um rapaz que passara assobiando, jovial, franco, na alegria da sua alma chã, entra numa venda, paga vinho – um vinho cor de topázio bebido entre a algazarra dos companheiros e os bruscos entusiasmos do taverneiro, que faz tinir as moedas, todo risonho, na gaveta do balcão. – E as canas, João, e as canas! – repetem as vozes. E o João paga de novo e de novo a algazarra cresce, os vivas, as aclamações, os prazeres acesos nas almas desses bons rapazes, como as bichas e os buscapés que eles soltam nos largos, por troça, em meio de muita gente reunida, dispersando e alvoroçando tudo, entre galhofas e risadas. 174 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Mas a noite de S. João dobra de encantos e de enlevos. Agora, fogueiras crepitantes estendem a sua ardente chama, loura e alegre, na frente das casas, dourando-as. Agora, a rapaziada, crianças saltam as fogueiras; velhos de cócoras ou sentados em redor contam uns aos outros histórias cabalísticas de bruxas e almas do outro mundo, e, aquecendo-se do frio da noite, esfregam confortavelmente as mãos, fazendo às vezes ressoar no claro ar sereno a nota cristalina de uma cantiga de ritmo simples, como motivo da festa, tremida e repinicada na voz, misteriosa e cheia de saudades amadas. Agora são as novenas nos lares – as velhas novenas que de tão longe vêm na religião, como ainda um doloroso soluço atormentado dessa fanática e sonâmbula Idade Média... Numa sala, ao centro de um altar armado em dossel, resplandecente de luzes, de alfaias, de jarras azuis e de flores, S. João Batista, com o seu rosto roliço e doce, destaca, sorrindo, de um quadro de moldura dourada, em estampa, do fundo de um nimbo cinzento, cabeleira crespa, faces coloridas, abraçado ao cordeiro manso, que olha para a gente com os seus olhos pequeninos, plenos de docilidade e de paz. E, depois da novena cantarolada numa lúgubre melopéia, a rapaziada cai na arrastação dos pés, e dança, gingando, com os voluptuosos requebros e bamboleios quentes da raça. No intervalo das danças, bebe-se Carlsberg e comem-se belos bom-bocados saborosos que cocegam aperitivamente o céu da boca, e as brancas ou rosadas cocadas, em forma de estrela, que lembram a Bahia, tal é o paladar do coco de que elas são feitas. No meio disso tira-se a sorte, numa espécie de consulta ao destino: para saber se morrerá cedo ou tarde, se casará, se terá este ou aquele desejo. Passatempo OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 175 esse que dá às pessoas que nele tomam parte um contentamento e uma felicidade que iluminam as fisionomias, remoçando e fortalecendo a velhice e consolando de esperança a todos. No fim desse contratempo e das últimas contradanças de grandes e frenéticos galopes, todo o mundo volta para casa, tarde bastante, no frio silêncio hibernal da longa noite já sem lua, mas estrelada, de um amarelado tom esmaecido de madrugada cor de limão. Nem mais um só ruído notável do prazer se escuta na rua. Apenas, a essa alta hora, um ou outro foguete tardio, ao longe, aqui e ali, como esquecido elemento da festa ou indiferente conviva que chega tarde, estala e brilha no ar saudosamente. 176 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 CROQUI DUM EXCÊNTRICO Diante do nome deste Excêntrico, dum brilho feérico de fantasia, desenrolado aos meus olhos como tapeçaria de Beauvais, lembro nitidamente o remoto Oriente: a Turquia, a Arábia, a Pérsia – todos os povos muçulmanos, que têm a frouxidão dos nervos, a elasticidade de membros de raças decadentes, em todas as suas especiais funções fisiológicas e manifestações psíquicas. Principalmente a Pérsia lembra-me a indolência, a morbidez orgânica deste Excêntrico – a indolência que não constitui, no entanto, defeito fundamental, ausência de qualidades singulares de espírito, mas que antes representa uma maneira de ser na vida – muda abstração na qual o pensamento é um grande pássaro alado viajando nas mais altas regiões, inacessíveis à vontade da matéria. Com o seu ar fidalgo, que lhe dá, através dos finos vidros claros do pince-nez, as linhas e a distinção correta e douta de um sadio e forte estudante da Universidade de Bonn ou de Oxford, o Excêntrico parece viver apenas numa flirtation de idéias, numa despreocupação de touriste e num diletantismo fatigado de artista boulevardier, a quem as asperezas e arestosidades do meio emprestaram já as findas cores carregadas e pungentes do pessimismo – conquanto na transparência dessa despreocupação aparente, ele analise, perceba e sinta passar, como entre uma luz difusa, o corpo vivo dos positivos fenômenos naturais. Na verdade, esse amargo pessimismo que os artistas anglo-saxônios e eslavos beberam, como numa dorna onde se houvesse purificado num vinho negro o sentir e o dolorido pensar de várias gerações; esse pessimismo torturante por vezes nos livros de Schopenhauer e Hartmann, especialmente nessa transcendente Filosofia do Inconsciente, parece prendê- OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 177 lo também ao ceticismo mórbido de Murger, de Nerval e Chatterton e de tantos outros artistas queimados pela flamejante chama interna de um desejo nunca realizado. Mas esse pessimismo, feito de germanismo e eslavismo, tênue, fluido, sutil, que entontece capciosamente, insensivelmente, como os glóbulos microscópicos do álcool que fica no fundo do copo de um russo envenenado pelo niilismo e pelo rum, esse pessimismo, se o Excêntrico o possui, não lhe tira, de resto, a bizarra, a garrida forma do espírito leve, fino, a iriante graça de abelha. É que ele, contudo, por entre a variabilidade do tempo, não perde as latentes atitudes nervosas do seu temperamento, acordando dessa persa indolência para gozar a Arte, para sentir e para amar a Arte. Num centro antagônico do desenvolvimento e fulgor do seu espírito estético, na aridez dos fatos, numa atmosfera onde um ar livre de ideal não circula no sangue, um sangue fremente, rico, não gorgoleja nas veias e as turgesce, o Excêntrico lembra um cáctus, uma rara flor nascida no gelo, alva na vastidão das fulgurantes neves, dando, entretanto, uma encantadora poesia serena de pitoresco e originalidade a toda a amplidão do terreno. Ou, então, para abrasileirar mais o símile comparativo, lembra também uma dessas simples parasitas brancas, flores pensativas e melancólicas que rebentam dentre pedras, florindo virginalmente para o azul, indiferentes à rigidez do granito... O seu estado de morbidez intelectual, que parece, por humorismo sombrio talvez, corresponder a um estado comatoso, é como a aparência de certos céus turvos, nebulosos, não obstante carregados do ouro flamante do sol e do intenso azul, que de repente aparece em nesgas, como um prenúncio de aurora, através de fuscos, floreosos pedaços de nuvens que se vão, lenta, demoradamente esgarçando... Depois, outras nuvens, 178 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 mais pesadas, mais densas, correm, como cortina de brumas, sobre esse ouro de sol e esse azul, voltando então tudo às primitivas névoas eternas. Alma êxul do Espaço, triste às vezes, decerto, mas dessa alta e excelsa tristeza e magoada nonchalance de velha águia real de cabeça pendida e parado vôo, como que adormecida, sonhando dolentemente a melancolia do Azul... Assim é, assim será para sempre esse meditativo Excêntrico! Névoa de emoções, debaixo da qual estão o sol e o azul de uma idéia, que se descobrem, bem poucas vezes, para determinadas observações delicadas sentirem; cinza fria de afetos debaixo da qual arde a radiante, rubra constelação de um anelar do espírito, cuja complexidade o entendimento comum dos homens não apreende nem percebe. Natureza calma, contemplativa, que a placidez das montanhas e os aspectos quietos, remansosos do campo pacificaram, ele se apura e delicia na nobre convivência, na grandeza mental dos livros, onde a espiritualidade e o esmalte da forma pedem a atenção dos sentidos civilizados. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 179 A CASA Perto do mar, junto às velhas e carcomidas muralhas musgosas de uma antiga fortaleza, em redor da qual cresce a erva como a hera que alastra os pórticos de um solar em ruínas, há uma tosca vivenda dentro de um pequeno cercado de espinheiros e miúdas e coloridas rosas agrestes. Aí arborizações luxuriosamente sobem para o alto, numa alacridade de vivos tons de folhagem. Na rusticidade dessa vivenda, todas as tardes, numa ilha verde do Atlântico, eu vou gozar o incoercível sentimento humano do amor, olhando o mar sulcado de embarcações, calmo, brando de leite, como um luxuoso e pesado damasco azul, e olhando os ocasos incomparáveis do sol solene que mergulha num ouro infinito, através das montanhas. Para ali vou gozar o sentimento incoercível do amor, que emociona e exalta, faz nascerem e viverem em mim, desprenderem para longe o vôo, indefiníveis águias do pensamento. E eu não sei que fluidos serenos se exalam dos nossos corações e se encontram; que há em nós a mais harmoniosa simpatia congênere de sentimentos. A doçura lirial da palma de sua mão, quando eu a aperto nas minhas, passa-me inteiramente a sua alma em eflúvios, inteiramente, com a recôndita emoção afetiva de todo o seu ser e –, nesses instantes, seria pequeno o mar, tão grande, que lá está fulgurando e cantando diante dos nossos olhos, e o céu, lá em cima, amplo e azul, para conter tão intensa e consoladora ventura. Então, assim, só com ela, eu desejara bem estabelecer lar, fundar casa – não sobre alicerces de pedra e areia, mas sobre o alicerce profundo das nossas almas. Fazer da casa uma canção eterna, uma simples tenda de irmãos, arejada pela comunicativa e mútua 180 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 afinidade suave do afeto dos dois, e que cada um, na preciosa singeleza do gosto, firmasse a lei do viver, a lei de amar, a lei de ser feliz, deixando fluir, fortalecente e livre, o amor – como um fio d’água subindo e descendo montes, descendo e subindo vales, regando ervagens, fartando a sede à terra e fartando a sede aos que erram, sob sóis ardentes. No íntimo desse conforto, no supremo egoísmo desse sentimento, da vida exterior apenas eu gozaria as aves meigas e afagadoras, que voassem, d’asas abertas e ruflantes, espalmadas no espaço, arrulhando sobre o nosso amor; os navios que passassem, eretos, na ideal e fugidia correção dos mastros, velas brancas tufadas, quando o mar está rosetado das arestas do sol, picado de agulhetas de raios, como uma fulgurante tapeçaria chamalotada; o crescente da lua, frescura salutar, subindo, meigo, numa ternura de poma cheia e afagadora que aleita os eternos peregrinos e os sequiosos eternos, fria, silenciosa, na soturna paz da noite; as ridentes veigas que se estendem para os lados, além, verdes, em raros veludos, na planície infinita... Depois a morte aí me viria colher, aí seria para mim como uma leve mudança fácil de sonhos, a viagem para o abstrato ideal, transformação passageira, enfim, ascensão de vôo perdido no éter transluzente... Mas, acima dessa perspectiva que eu gozasse e sentisse em torno da existência, que o seu olhar sobre mim radiasse, fulgisse, resplandecesse, protetor e angélico, com o misticismo, a suavidade dos astros... Para isso, porém, bastaria, bastaria para isso, que essa recíproca afeição tivesse sempre o encanto, a limpidez e a graça original, a vegetal candidez de flores que se leva por uma doirada manhã de presente a alguém. Bastaria que uma música só fizesse o acordo de dois corações, como muitos aromas reunidos dão ao olfato uma só sensação. Não bastaria, certamente, sentir dentro de nós uma igual similitude de enlevos e de OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 181 cuidados: seria preciso que ambos se percebessem, se completassem, se identificassem nessa similitude, como edificação moral em que cada um trabalhasse, conjunta e compreensivamente, para o outro. Seria mister viver numa absoluta homogeneidade de entendimentos e afetos – como as aves que pousam nas romãzeiras e nos pessegueiros em flor, têm, cada uma, todos os dias, a mesma homogeneidade inefável nas gorjeações e no vôo... Assim, a casa, dessa forma, bem fundada e perfeita ficaria; e, sol, harmonia e perfume, canções de amor e de mocidade subiriam alto no tempo, adoçando todas as coisas, pacificando a existência dos dois, como uma grande bênção e um grande perdão podem trazer messes de felicidade e misericórdia à consciência de muitos. Ao contrário disso, tudo terminaria enfim para ambos. A vegetação que ao redor daquelas regiões, fora das proximidades da vivenda, viça em arbustos rentes como em terras da Palestina, pareceria murchar, definhar, secar e acabar para sempre; e os ramos d’árvores, pela manhã enxameada de pássaros, perderiam toda a sonoridade dos trinados; e o mar, bucólico e épico, que tem às vezes o seu som profundo, as graves e harmoniosas imponências catedralescas de órgão, circunvolvendo em ondas toda essa habitação de amor, como uma ronda poderosa que guardasse raro e fabuloso tesouro escondido – o mar ficaria então semelhante a um surdo e cego a quem são indiferentes belezas virgens de paisagens, enroseirados trechos de colinas, madrugadas, auroras e noites estreladas, peregrinos cantos melodiosos de pássaros e trinados cantos matinais de raparigas do campo indo à fonte encher os cântaros d’água. Sem poder jamais fundar a casa, dirigir a casa, dar-lhe o claro, gradual desenvolvimento de um livro, tudo, afinal, em mim, esperanças e sonhos, de repente 182 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 se esvairia, como esses opulentos ocasos undiflavados, tintos de prata e sangue, que na turva neblina crepuscular das tardes esmaecem e morrem... E a alma alegre do meu ser, como uma fresca e fina flor de neve, definharia no Esquecimento e na Sombra; e na minha boca, como na boca dessa criatura amada, os sorrisos e os beijos morreriam logo, como plantas estioladas a que os fortes verões abrasadores crestaram fundo as entranhadas, enraizadas origens... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 183 O SENHOR PRESIDENTE (Desterro) O senhor presidente vai chegar, vai chegar o senhor presidente. Por toda a parte da terra pacata e simples os senhores burocratas, os senhores políticos de ambas as parcialidades, e o povo murmuram: O senhor presidente vai chegar, vai chegar o senhor presidente. Boatos locais correm parelhas, vitoriam e martirizam, conforme o caso, desprestigiosos ou honrosos, a pessoa ignota do senhor presidente. Homens e mulheres, à maneira de necromantes, deitam pareceres, opiniões, como numa mesa de jogo se deitam cartas ao azar: será alto, gordo, baixo, magro; usará cavaignac, será louro, terá suíças, será moreno, ou usará simplesmente bigode, ou não terá barba nenhuma? Os provincianos não sabem. Calculam, estabelecem semelhanças, fazem paralelos, comparam o presidente fulano, o presidente sicrano, etc., e o nome do senhor presidente, que deve chegar no paquete do dia, desenrola-se de todas as bocas, flexivelmente, invariavelmente, dando impaciências e febrilidades à massa anônima que o quer ver já ao pé de si, saber-lhe os tics, como veste, se é bonito ou se é feio. Mas lá no fundo do horizonte plúmbeo destaca-se um vultinho, por ora sem forma, vago, indeciso e nebuloso, como uma bola negra. Porém, à proporção que os horizontes se desfumaçam e as montanhas somam saliências azuladas e contornadas, transparentizando-se então os variados aspectos das cousas em conseqüência da onda de luz matinal que agora ilumina e faz viver tudo, a bola negra avulta gradualmente, veste as conformações que lhe dá a luz da manhã caindo eterificada, diluída em prata no mar, destaca-se, afirma-se e, todos, algumas senhoras 184 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 e cavalheiros que assestam o binóculo para lá, e o povo, apinhado no cais, curioso e alvoroçado, exclamam: É o vapor, é o vapor; aí vêm o presidente, aí vêm o presidente. Que tal será, seu Barbosa, perguntam uns indivíduos, você que entende isso de política?! E o seu Barbosa, homenzinho hirto, franzino e magro, conhecido por muito engraçado, de boas chalaças e que estava placidamente a olhar o mar, volta os olhos para estes indivíduos, endireitando e puxando para cima, desafogando do pescoço o alto colarinho brilhante como não cabendo na honra e no orgulho da consulta que lhe fazem e da competência que lhe dão em assunto tão palpitante e melindroso, dizendo com importância: Homem, isto de presidentes médicos não é lá para que digamos. Todo o mundo bem sabe que ele é médico; ora, é muito capaz o nosso cidadão de quando a província precisar leis fazer-lhe receitas. Não aprovo um facultativo no governo da província. E o seu Barbosa, rindo, gingando com garbo e discretamente, para não perder a sua linha de sensatez, foi indo para outras rodas, inchado de bazófia, supondose imortalizado pela sua opinião. Então os tais indivíduos insuflados por aqueles argumentos, banais e atrabiliários, sem cor e sem retidão, deram-se mutuamente os pêsames de não haverem tido há mais tempo a idéia tão original e exata sobre o senhor presidente. Mas um som rasgado e metálico de cornetas ouve-se ao longe: é a guarda que vem fazer honras do estilo ao senhor presidente. Chega-se ao cais, ao mando do superior e aguarda as ordens, formada, porque o paquete aproxima-se já, entra no porto, fundeia entre baforadas alvas de fumo, apitando. E, do lado da capitania, do lado da polícia, da alfândega e do trapiche geral parte uma fila vileira e alegre de botes, de escaleres, repletos de gente, leves e alígeros como golfinhos, os escaleres com os seus toldos OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 185 brancos debruados de vermelho, os botes com as suas velas em verga, enfumadas, de bandeirolas e galhardetes no topo do mastro, aproando ao paquete, na alegria e no colorido brunido da manhã, às frescas aragens salutares que aflam do norte. Após a visita de bordo, o senhor presidente aparece no tombadilho, na doçura e na nitidez da paisagem marinha, novo como uma surpresa, de estatura regular e curta barba redonda e preta, parecendo feita a riscos de fusain, e pince-nez nos olhos profundos e graves. É abraçado e saudado no meio de muita palavra balofa com falta de S, S, cheia de perdigotos, de alguns senhores funcionários públicos que se atrapalham e coram. O senhor presidente toma então o escaler que lhe é destinado e embarca com os correligionários e algumas autoridades da terra. Logo que o senhor presidente se aproxima do trapiche, o povo murmurinha, sussurra, gesticula e olha vagamente, com uma interjeição pregada à cara: Qual daqueles será, vêm outros estranhos no escaler da polícia. Efetivamente com o senhor presidente vêm outras pessoas. Passageiros, amigos do senhor presidente talvez. Mas o povo está frenético; sentem a prurigem da ansiedade. Ah! dizem uns, há de ser aquele ali, à direi ta daquele sujeito baixo de pince-nez – aquele alto e louro, de chapéu de castor branco, fino sobretudo claro no braço. Sim! Sim! É esse naturalmente, é aquele mesmo, confirmam outros, logo se vê pela figura importante e pelos trajes. Mas o senhor presidente chegara ao cais, saltara já com os seus companheiros. E a curiosidade crescia, crescia como uma onda muito alta que avassala e alastra tudo. Porém a multidão se desiludira afinal a respeito do seu modo de ver sobre o qual era o senhor presidente; porque agora o senhor presidente é cumprimentado, apertando-lhe a mão, dizem-lhe coisas sepulcrais, tristes 186 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 de espírito: Cumprimentamos a V. Exª., felicitamos a província, etc.. E o povo vê então que o sujeito de pince-nez e sem mais elegantes maneiras de toillette é que é o senhor presidente. Já daí nasce uma dúvida sobre o governamento que ele poderia dar à província. No entanto o senhor presidente com o seu amplo olhar de médico conhece de um só golpe de vista qual a doença étnica desse povo e qual o diagnóstico a fazerse. Os soldados que aguardam a presença do senhor presidente fazem sentido, braço armas, apresentar armas, enquanto o senhor presidente passa, baixo e moreno, enxergando através do seu pince-nez de vidro claro, como de uma larga vitrina aberta ao sol, todas as aspirações e necessidades da terra. O senhor presidente é transcendentalista. O seu espírito latino, incomensural e vasto como o mar donde acaba de vir, tem a larga solenidade austera das catedrais babilônicas do mundo. No cérebro do senhor presidente cabem todas as grandezas e todas as elevadas nobrezas mentais. Nunca a terra tivera um homem na gerência dos seus negócios tão transcendentalmente ilustre e preclaro. O franco ar iluminado que vinha de sua erudição, da sua serenidade anglo-saxônia, fazia impressão rude e brusca nos patriotas, nos dissidentes de pequena política, a ponto de tomarem o senhor presidente por selvagem. A imaginação popular pensou jamais poder compreender o senhor presidente; se atordoava e entontecia como sujeito que leva à noite numa esquina forte pedrada na cabeça sem saber de que lado partiu. E o senhor presidente vivia num modesto luxo burguês e clássico de palácio de província, numa vida de fábula como um deus fantástico cuja ausência OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 187 provocava ateísmos e anátemas, exorcismos puros, mas cuja presença acabrunhava e desarmava a todos, tal era o respeito que lhe vinha debaixo do pince-nez dos seus tranqüilos olhos de filósofo, como um poderoso e desconhecido fluido do magnetismo animal que, sem saber como, tendo sobre o povo as mais inabaláveis e prontas influências, imobilizava-o, transformava-o em mudo e automático eunuco. 188 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 O SENHOR SECRETÁRIO O senhor secretário está sentado à mesa do trabalho e faz os papéis do seu mister oficial com uma letra espichada e magra, como pernas de inseto. O senhor secretário também é magro, de uma magreza natural e estética, tendo o rosto, como um pergaminho, estrelado de miudinhos sinais de sarda. O senhor secretário veste com certa elegância que, num golpe de vista rápido, não parece de todo provinciana. Há mesmo um discreto tic de parisianismo na forma do seu chapéu em forro, verde-garrafão, um tanto afunilado, armado em cone, de abas quase direitas, colocado em cima de uma estante em que há jornais velhos. O senhor secretário está na sua juventude valente e florida e tem um enamorado jeitinho patrício; diz-se até que ele vive na flirtation das belas jovens de cuja sociedade faz parte; e, como na sua linda cabeça meridional há uma provável calvície e o senhor secretário quer parecer sempre bem às mulheres, deixa cair para a testa, desde a nuca, uma grande pasta castanha perfumada a Orisa e a Ilan-Ilang. Traz ao pescoço, à maneira dos rio-grandenses, um fourlard a listas estreitas e de cores variadas que parecem significar os tons cambiantes do ideal que o senhor secretário abraça. De vez em quando pára de escrever, e abre, com uma espátula de marfim, as folhas de um livro de tipo elzeviriano, impresso em papel melado, com filetes e delicadas bordaduras na fina capa de granito e apenas com dois frisos dourados na lombada. São versos. Depois abre a gaveta de verniz rosé da sua secretária e tira de lá um outro livro, volumoso, mas não de tão elegante luxo de arte como o primeiro. Folheia- OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 189 o. Lê uma passagem, alto, para uma pessoa que está à sua direita. É O Primo Basílio. Oh! o senhor secretário é literato?! Parece que sim... Ele tem um precioso paladar estético, muito celta, e goza então a delícia de ler o Eça. Esse artista incomparável tem para o senhor secretário a alta importância, quase cultual, de uma adoração. O severo estilo impecável do Primo Basílio dá ao senhor secretário uma grande vitalidade mental, ampla, larga, que o inunda de sol. Nunca esse livro admirável sai das burocráticas mãos do senhor secretário, tão amado e contemplado é ele. Os trechos mais delicados, os tipos mais característicos, as descrições mais fotográficas, de mais pompa e esplendoroso vigor de estilo passam e tornam a passar na retina psíquica do senhor secretário, intermitentemente, como vistas vivas e brilhantes de um gigantesco Caleidoscópio. A paisagem da Escócia, vivendo fundo no livro; o Visconde Reinaldo, esquelético e finamente elegante e crevé, murmuram e vivem nas idéias do senhor secretário numa forte chama sideral de astro. Ah! que suntuoso e que nobre, ser-se o senhor secretário. Na verdade há um límpido ar de conforto na repartição em que ele está! Um ar fresco e lavado de marinha, de capitania do porto. Deve bem ser agradável, sem dúvida, fruir ali, desde as 10 horas, o expediente encerrado às 3. Que o mesmo senhor secretário, na atmosfera clara da arejada sala verde, rodeado de cartas geográficas, de tabelas de sinais, fazendo a escrita com uma bela tinta azul muito fluida, sobre o vistoso e polido 190 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 papel oficial com os troféus de armas da Nação, como um brasão nobiliário, e tendo a alegria touriste de viajar os olhos pelo mar que freme perto, o senhor secretário parece gozar um céu exclusivo, ter um paradisíaco Te Deum de felicidades. Quem o vê fazer soar cristalinamente o tímpano a fim de que se dê cumprimento a qualquer ordem superior, de que se expeça qualquer papel, tem-no por um pequeno príncipe gentil (porque o senhor secretário é de pequena estatura) coberto de opulência e cuja hierarquia o mundo constela de glórias supremas. Feliz, no entanto, sem essas apoteoses, o senhor secretário vive cantando e sorrindo à limpidez do seu espírito desabrochado e reflorido com a virgindade das rosas que abrem à beira-mar... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 191 NICHO DE VIRGEM Loura, numa frescura de prados atravessados de luar, de madressilvais floridos ou, morena, tostada a pele virginal de fino fruto aromado, assim é que eu te vejo dentro do nicho da tua alcova, quando, no alto do teu claro palácio, uma janela me aparece iluminada na noite. Bem por vezes o firmamento suntuoso d’estrelas espalha no silêncio da natureza uma irradiação eucarística de sacrário e no meu ser viva chama de sideral emoção. E, bem por outras vezes, uma estrela só surge com um brilho aceso, coruscante, pelo firmamento tranqüilo, quando eu, amorosa e instintivamente, olho a janela do santuário em que tu às vezes na noite apareces como se olhasse a estrela em cima. E fico a meditar, languidamente, nos linhos, nas bretanhas e cambraias finas dessa alcova, nas painas alvas do teu leito, onde a tua vida de astro resplende na nudez da carne. Fico a meditar nessa serena beleza que brilha e canta na capela mística do Amor, num nicho de prata e esmeralda, com o esplendor das Virgens por entre ritmos e timbres diamantinos e verdes. Idealizo logo majestosos salões iluminados, ondulosas, vaporosas nuvens de valsas, amantes entrelaçados, num noivado de aves, por entre exalações de aromas voluptuosos, inebriando-te, fascinando-te em sonhos o cérebro delicado. Um véu tenuíssimo, como que tecido de névoas, pende-te candidamente da cabeça enflorada e radiante; tens suntuosidades e linhas harmoniosas de harpas e elances augustos, etéreos, idealidades soberbas e sonhadoras, de arcanjo, cujas níveas e transluzentes asas vão desprender vôos inefáveis, celestes; os teus olhos fulguram com tão incomparável fulgor e toda a tua 192 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 formosura desfere uma luz tão original, tão imaculada, tão nobre, que parece que as graças, os infinitos encantos, as eternas mocidades, só de dentro de ti, da tua carne, auroram. E, na penumbra fidalga do nicho onde repousas, entre lustres e candelabros, esse vulto valquiriano, essa sombra doce de balada, formada das espirais d’incenso do teu próprio sonho, se esvairá, se apagará, por fim, como o último cintilar da luz no cristal dos lustres e candelabros. E aí ficarás, só e dolente, fechada na treva da tua alcova, no cárcere de chumbo do sono, com as curiosas seduções e os eletrismos atraentes de veludosa serpente de volúpia, à espera que o sol, esmaltando a alta e branca janela do teu palácio, venha pela manhã abrir-te os olhos no nicho das cambraias e das bretanhas; à espera que o sol, fabuloso dragão de asas consteladas, desprenda os seus vôos majestosos e rufle sonora e fulgentemente as asas sobre o teu corpo, surpreendendo-te a luxuosa florescência carnal e deixando escorrer das asas, sobre ela, como finos vinhos de ouro, cálidos e palpitantes, das estreladas Vindimas, o pólen claro e virgem das supremas fecundações – ó formosa e frívola Divindade que com os tentáculos magnéticos e fascinantes da Carne estrangulas o mundo... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 193 AROMA Manhã clara, cristais de luz, que parecem ter finas vibrações de sonorosos clarins no ar... Uma dessas manhãs líricas, aromadas, de um azul apaixonado... Alta, loura, esguia, o perfil nervoso, destacado ao sol com a nitidez, a correção de gravura em aço, vêm subindo a areada alameda das violetas e jasmins, dos resedás e lilases de antigo parque famoso, na toilette fofa e fresca dos climas quentes, meio-dia em dezembro, à fulva irradiação do calor. De toda a sua estatura nova, lirial, exala-se brandamente um peregrino perfume, um aroma delicioso de campo enroseirado, quando o luar acorda as culturas. As madeixas caprichosas, lânguidas serpentes do sol, preguiçosamente se lhe abandonam, em carícias luminosas, sobre as aladas formas arcangélicas das espáduas de ouro, de marfim e rosa: o colo claro esplende na brancura macia de penugentos veludos, fascinantemente desnudado para o tépido enlaçamento dos braços, para o chamejante estrelejamento dos beijos. Toda a linha suave do seu perfil encanta, atrai os sentidos; enquanto o olfato penetrante, delicado, sutil, talvez por um requinte artístico de sensualidade, buscaa, procura-a, percorre-lhe o corpo todo, a rósea, áurea carne cheirosa, como infinidade de irrequietos e sequiosos faunos. E tudo o que dela vem, a emanação virginal dos seus seios e da sua boca, parece fecundar a luz de frescuras imaculadas, purificar o aroma das Cousas, inebriar o som. Como que o ar onde cintila a auréola resplandecente da sua formosura recende embalsamado do feno fresco dos prados, fica banhado em ambrosias, em nardos, mirras e sândalos orientais. 194 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Experimenta-se rara sensação esquisita, que dilata, tensibiliza os nervos, dá agudas vibratilidades, intensos espasmos de luxúria, quando o olfato mais a sente, mais se aproxima dela, tateando-a, tocando-a, absorvendo-a, como se o olfato só para ela palpitasse... Há um deslumbramento de gozo, quando a flor do decote lácteo do seio, entre os cetinosos rendados e os folhos luxuosos do corpete, um aroma impoluto de aristocráticas magnólias trescala, adocicado e morno. E há também o mesmo, ou maior deslumbramento ainda, quando, numa graça de ave, ela abre, rindo, a boca. Então, não só da boca, não só do seio, como de toda a aveludada alvura daquele ser, evola-se um eflúvio de forças virgens, a suprema beleza em auroras flavas aflora. Delgada, ágil, com histerismos de mulher felina, faz idealmente lembrar cinzelada ânfora d’incenso, marchetado turíbulo de prata, de onde, para o alto, alamse claros, alvos fumos puríssimos e sacros... E, sempre que o olfato iluminado, atilado sente, longe ou perto, o aroma casto, inalterável, da loura resplandecente, é como se ela, então, de repente vicejasse, florescesse na frescura cheirosa de suntuoso pomar de frutos e alvorecesse em rosas ou em flores níveas e afrodisíacas de Noivado, majestosamente nua, de dentro de um tálamo branco... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 195 A MILIONÁRIA Todos os que te vêem passar, ou passeando o olhar através dos brancos luares tranqüilos, ou, pelas tardes de março, indo às pitorescas digressões costumadas e elegantes, a algum pic-nic de rapazes do tom no teu coupé ou na tua victoria puxada por vistosos e lindos cavalos do Cabo – os que te vêem passar exclamam a meia voz e com respeito, com solenidade: – Oh! como esta senhora é milionária! Na verdade, essas pessoas não mentem. O irradioso luxo das tuas toilettes de verão e de inverno, de um alto ar nobre e aristocrático, enchendo as ruas por onde passas de uma majestade principesca, lembra as fulgurantíssimas pompas orientais, perto das quais o sol parece triste e desmaiado, tal é a prodigiosa onda de luz, de perfume e encantamento que nelas faz explosão e ruído... E o teu formoso chalet, de altas janelas para os ares frescos, engrinaldado de rosas, de heras e madressilvas, com incrustações de marfim como os chalets chineses, cantante e alegre ao sol, como é artístico e raro! E o teu parque, o teu parque, largo e doce, de tanques cheios de pequenos peixes de prata e vermelhos, que pulam n’água estrelando-a de irradiações sulfúreas, de esquisitas aves de toda a parte do mundo, desde o pavão, que vêm da Ásia, colorido e ovante, até ao melro e o rouxinol da Europa e até aos sabiás da América do Sul, que cantam nas palmeiras; de árvores grandes e graves, viço que murmuram luxuriosos salmos de amor na sua folhagem rica e farta de seiva – o teu parque, milionária senhora, tem a placidez, a vasta serenidade do conforto das riquezas. Realmente, tu és milionária. Tem razão o povo. No entanto, entre essas qualidades possuis uma outra, que parece destoar do caráter geral da tua pompa. 196 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 És caridosa, muito caridosa, tão caridosa mesmo quanto és rica. Muitas vezes os teus sentimentos de mulher ilustre, preclara têm sido cantados em prosa e verso, em prosa seca e desalinhada e em verso ainda pior do que a prosa. E tu, sentindo no ouvido o velho tom clássico daquela frase banal que diz “Valha o desejo se não vale o canto”, lês os jornais, orgulhada e embevecida dos dizeres chics, encomiásticos, sentada na tua chaise-longue ou na tua conversadeira, na sala amarela de reposteiros também amarelos, cheia de bijouteries, de estatuetas de Saxe, de cristais de Sèvres, lembrando todo esse requinte e galanteria da arte de Luís XV e da Pompadour. E ficas vivamente enlevada, tocada de um eflúvio de grandeza e opulência bizarra, abandonada a mão fidalga e polposa, de transparentes unhas rosadas, sobre o regaço que treme debaixo do roupão claro e em tufos na frente, entremeados de fitas azuis e rendas. Não obstante, apesar do rumor e da luz que sai do teu ouro, me parece a mim, rica senhora, que tu não és caridosa. Pelo menos ia eu jurá-lo. E senão, vejamos. Prodigamente ofertas quantias aos clubes de dança, aos jockey-clubs, aos clubes de regatas, ao lírico, aos concertos, aos jornais de modas, a todo o mundanismo elegante das belas cidades de estilo e de elite. Mas tudo isso que fazes é com rubros cartazes de ostentação, é propalado com reclamos espetaculosos, a mise-en-scène mágica da tua vaidade. Mesmo os hospitais, as sociedades de utilidade pública que socorres com a tua bolsa, inesgotável e poderosa, não é por um simples impulso emocional, simpático, de uma risonha compreensividade, mas sim por um chiquismo, um certo aplomb oficial das naturezas criadas, desenvolvidas na atmosfera fácil da riqueza. Depois tu serias profunda e evangelicamente caridosa se eu próprio nada soubesse das tuas magnanimidades. E eu não tive ainda a suprema delícia OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 197 de sonhar, ao menos acordado, que entras obscuramente numa casa onde há crianças famintas e maltrapilhas e aí deixas uma bolsa cheia de ouro, sem um sinal qualquer, sem os teus brasões, sem o traço azul da tua filiação genealógica de sangue, se é que és baronesa ou condessa. Porque tu só praticas a caridade pela apoteose gloriosa, triunfante do teu nome. E tanto é assim que, no dia seguinte a uma magnanimidade tua, toda a gente te vê nas ruas e nos bairros mais populosos da terra a mostrares a tua pessoa, moça e formosa, como uma vitrina se mostra, aos olhos ávidos e espantados do transeunte inexperiente das maravilhas do mundo, um originalíssimo brilhante negro. A caridade tem para ti a influência de um perfume raro e forte que, aspirado persistentemente, perturba e excita os nervos. É uma espécie de ópio ou de haschih árabe que te permite ter alucinações, deliciosas visões fantásticas e sonhar com cousas paradisíacas, com galgos e genuflexões de indivíduos de curvatura flexível e leve. E o que tu pareces sonhar vê-lo realizado pelos jornais, por pessoas que falam em ti com adoração, com respeito, quase com medo; pelos srs. deputados, ministros, conselheiros e toda uma ala luzida de titulares, que te tiram o chapéu a grandes e amplas barretadas adulatórias, todos eles refulgentes de triunfo, por terem ocasião de te saudar sempre e por serem os primeiros que aparecem nos teus chás cavalheirescos, pondo-te açúcar na preciosa xícara dourada aberta em preciosos lavores. 198 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 DE VOLTA AOS PRADOS Venho da paisagem. Acaba de me entrar um largo jorro de vida pelos pulmões. De andar todo o dia através searas e prados, entre giestas em flor, finas, frescas e fofas papoulas rubras, campos verdes e floridos de rosais, trago o aspecto um tanto rude e campônio, tenho a linha pitoresca e viril de um rural boy. A fim de me arejar do pó da cidade levei para a natureza virgem dos campos, de onde volto agora, um livro espiritualizante. E nada mais encantador e sereno do que esse picnic de bom humor e de verve que eu acabo de fazer, sob as árvores, como um druida, debaixo de tetos verdes onde as aves cantam, sentindo, na frescura da seiva, os vegetais virem à carícia morna do sol. Nada mais de sentimentos nostálgicos, de vagos nevoeiros de spleen. O ar salubérrimo da paisagem, pondo-me nas carnes a elétrica sensação do sangue alvoroçado, despertou-me a intensa, a profunda, a complexa fibra sonora da Arte. Porque eu não sei de cascatas de ouro de lei, de portentosas riquezas nabábicas, de luxos asiáticos, os mais extravagantes e majestosos, que possam apagar na imaginação dos verdadeiros artistas as impressões que se recebe de uma bela prosa estilada, certa, onde a palavra esboça, desenha e cobre todos os variados e complicados assuntos da vida, como que fotografando a luz, o perfume, o movimento, a cor. Na natureza de cada objeto, na essência de cada ser há, nos livros que se propõem a mais alguma cousa do que divertir, e a agradar, mas a convencer, a impressionar, a comover pela psicologia e a análise, uma resplandecente verdade que ilumina de um largo clarão de filosofia a consciência do escritor. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 199 Com nuances diversas, como fitas de fuzis, os livros acusam sempre a maneira literária, sugestiva de um temperamento, pondo-lhe à luz a excitabilidade nervosa das personalidades desenvolvidas num dado meio, amorosas, apaixonadas, tendo, para cada expansão da vida, além de um espírito seguro, impulsivo, uma qualidade de sentir, de ver, de assimilar, de discernir e de crer, a mais estética e delicada. Nós, que estamos cá para a América do Sul, pareceme que ainda não nos podemos compenetrar bem, com toda a profundidade e largueza, desses grandes sentimentos afetivos que, filtrados do cristal da alma, passam, na mais graciosa e límpida forma literária, para umas tantas páginas de livro. Porque é preciso fazer transplantar para a escrita aquilo que sentimos, com toda a expressão do colorido, com toda a gradação de tons, com toda a crua exposição do real – do mesmo modo e com a mesma intensidade com que o ar nos tonifica o sangue e nos dá movimento, ação, a todas as funções do organismo. Agora, porém, é que vem rompendo uma floração de talentos, artistas do Atlântico, mais complexos, mais dúcteis, com toda a delicadeza da expressão e o colorido de cinzelada forma – artistas preocupados da correção suprema, que num trecho de prosa fazem vibrar os seus nervos, palpitar a vigorosa força dos seus músculos, resplandecer a flamante aurora vertiginosa do seu sangue. Esses são os impressionistas, os coloristas, os estilistas, dando à escrita a intensa vibração dos órgãos humanos, fazendo da linguagem o mais prodigioso aparelho que, como um estranho instrumento de ouro, brilha nos nossos olhos, canta nos nossos ouvidos, impressiona e sensibiliza a nossa alma. Todo o processo literário depende, primeiro que tudo, das tendências, do caráter objetivo do escritor. 200 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 E, quem conseguir ter idéias gerais das cousas e souber dispor de elementos de observação e análise, será necessariamente um escritor, dentro dos limites do seu alto dever artístico, pintando a natureza como a natureza se apresenta, e dando a cada assunto, a cada particularidade a cor e o estilo que cada assunto e que cada particularidade pedir. Assim far-se-ão escritores e não máquinas reprodutivas de toda uma natureza morta, de todo um cliché de idéias por bitola, e isso para o bem, para a inteira perfeição da Arte. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 201 INVESTIGAÇÃO O que ela pensa de ti não é nada gentil e não é nada amável. Tu fazes versos. Ninguém sabe se os teus madrigais, se os teus idílios rimados nadam diluídos no éter ou servem de harmonia à garganta de algum pássaro. Ninguém sabe disso. Mas o certo é que tu fazes versos, lindos versos, sonoros versos musicais e frementes, que dizem toda a história do coração, todos os episódios da alma humana. O teu modo de vibrar as estrofes é natural e fluente, e exprime bem o estado do teu ser, penetra nos organismos, tem toda a comunicabilidade sutil e delicada como um excitante perfume. Incontestavelmente possuis algum oculto veio de sol no cérebro! Porque, na verdade, tudo isso, florescente e radiando, que te surge assim do pensamento, não pode vir apenas do sangue. É necessário um outro elemento mais poderoso e intenso para te inflamar, exaltar assim de poesia e esse elemento é, sem dúvida alguma, o sol... Contudo, isso, assim como num enxurro que as chuvas carregam para os rios vai muita coisa inútil e pode ir também muito brilhante e muita pérola, no jorro de luz da tua imaginação vem às vezes, como ironia aguda, muito morto elemento de verso fútil, que passa e que vai embora, ao mesmo tempo que se sucedem os mais heróicos e bravios leões da idéia... E é de forma tal o teu espírito, que o teu nome poderia constelar de glória qualquer página de história sem o mais tênue ridículo. No entanto, são bastantes todas essas qualidades para ela te aborrecer e preferir a ti o mais banal e ínfimo dos homens. É certo, porém, que tens obtido dela firmes provas de afeição: os anéis de cabelo, os mais sedosos e belos; os olhares, os mais apaixonados e ardentes; as frases, as mais convencedoras e amantes. 202 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Mas tu esqueceste que o coração ilude quase sempre, esqueceste o coração dela, não lhe perguntaste nada, não o dissecaste como a um querido cadáver, porque ai! o coração das nossas amadas é quase sempre um indiferente cadáver gelado. Nada indagando, enfim, do coração da tua morena ou da tua loura, deixaste-te ir boiando na embaladora onda dos seus beijos e das suas carícias, dormiste sobre essa onda, a sonhar, e acordaste nas aflições e nos desesperos do naufrágio... Oh! oh! dirás, este senhor escritor entra-me pela alma a dentro como se entrasse por uma sala deserta... É exato que ela me tem iludido algumas vezes, mas tão poucas vezes mesmo que até nem me dei ao trabalho de contar, nem valeria a pena fazê-lo... E esse senhor escritor te responderá: Não, não acertaste por esse lado. Se ela te tem enganado tão poucas vezes, que não te deste ao trabalho de contar, oh! dói-te de ti mesmo, errante louco do amor! porque se não consegues te enumerar todas as vezes que ela te iludiu, é que tantas, tantas foram elas, que o teu brio aparenta ou a tua consciência de forte se envergonha de o confessar... Esta é que parece ser a verdade tremenda, esmagadora, que te comprime e achata o cérebro. E se não crês, vejamos. Ontem ela viu-te passar, a “tua eternamente”, como ela mesmo te diz nas suas cartas. Tu não a viste. Ela estava à janela e, assim que te aproximaste, ocultouse. E por quê? Não te adora ela tanto? Mas é que tu te não lembras que vinhas com companheiros, amigos, rapazes como tu, e, entre eles todos, eras, não o mais feio, mais o mais pobre de toilette. As tuas botas tortas e rotas faziam-te escorregar na calçada, dando-te a aparência dúbia de bêbado. Tu não pisavas firme, não tinhas elegância como os outros, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 203 e isso oh! perdoa, mas a tua amada não podia suportar nem desculpar sequer. Ah! Ah! doía-lhe mais isso na vaidade, certamente, do que se soubesse, nesse mesmo instante, que tinhas acabado de morrer. Parece-te demais isto, não? Pois escuta ainda. Hoje há um grande baile de luxo num clube da capital. Foram expedidos convites a toda a gente fina e ilustre. A ti ninguém julga ilustre; e se alguém te julga fino é apenas na magreza da luta pela vida que te enruga o semblante num brusco movimento de dor, quase numa picaresca momice. Mas, como tu andas pelos jornais, em espírito, e os senhores sócios do clube, supondo-te um imbecil, “contam com uma notícia floreada sobre a festa”, como eles dizem, tu alcanças o teu convite, bem certo de que ela irá, e simplesmente por causa dela. Para isso vais consultá-la. Ela diz-te que irá com certeza, sem se esquecer de te fazer sentir que vai por teu respeito, por valsar contigo, para estar perto de ti. E, não obstante os seus olhos dizerem o contrário, não obstante afirmarem que vai para ver os outros, para divertir-se, tu, com todo o teu poder de espírito e verve, ficas preso nas capciosas malhas dessa fidelidade de momento, mas em que tu absolutamente crês, e vais ao clube, alegre e triunfante, como os vencedores. Lá, ninguém sabe que tamanha nevrose experimentas, que ficas excitado, bebes demais, começas a tontear no solo das contradanças, não por causa das botas tortas, porque nesse dia tiveste o cuidado gentil de calçar um Milliés elegante, mas pelo álcool que te sobe então à cabeça em espessas e atordoantes névoas de vapor... De repente perdes o equilíbrio num galope e cais bruscamente no assoalho. Todos te cercam e dão-te socorros que o acidente requer; mas a “a tua amada para sempre”, essa, deixa-se ficar a um canto, no vão da sacada, pelo braço do cavalheiro, pálida e trêmula, é 204 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 verdade, mas do susto apenas, tendo logo o cuidado de dizer: – Que inconveniente! Quem o convidaria? Eu nem o conheço, é a primeira vez que o vejo. E tu, desfigurado, abatido depois de mais calmo o teu estado fatal, voltas para casa com uma agonia de despeito e de vergonha que te insufla de soturnos soluços abafados toda a concavidade do peito. E se isto não basta ainda, se te não convence, ora ouve lá então... No dia seguinte, tu, com o corpo mole e quebrado como se te houvessem esbordoado com chibatadas de junco, com o paladar azedo para tudo, deixaste-te ficar em casa e, incendiado por um ciúme que aplica tenazes em brasa nas carnes – profundo ciúme despedaçador nascido do ridículo que pusera em ti aquele fato, e dos indivíduos que ficaram ainda no clube a gozar a beleza da tua amada, tu lhe escreves umas linhas emocionadas, quentes, cheias de febre da paixão, desculpando-te o mais hábil e convencedoramente possível daquele incidente involuntário, dado apenas pela vertigem de adoração que ela te inspirou no clube. Porém ela, recebendo a carta, impassível e fria, não a abrirá, não a lerá, rasgando-a. E o portador, já teu conhecido, que leva a resposta e que viu, de olhos arregalados de espanto, a tua amada rasgar a carta na sua presença, tendo dó de ti, porque sabe o tormentoso amor que tu votas a ela, te há de dizer que ela leu a carta com desvanecimento, com interesse, à sua vista; e que acrescentou mais até que não escrevia já naquele momento por estar muito nervosa em conseqüência de um pobre, esfrangalhado e sujo, que lhe foi pedir esmola logo pela manhã, atrever-se a apertar, beijando-a, a sua mão delicada. Tu, então, vendo nisso a graciosa maneira de reatar uma afeição que parecia perdida, acreditarás no portador; e apesar de todos os teus grandes sentimentos, por ti mesmo apregoados, maldirás no íntimo esse OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 205 miserável pobre que te impediu de receberes logo a desejada, a querida resposta da tua carta. E, assim, andarás, dessa amada para outra, ontem, hoje, amanhã, como em três pesadelos da vida, jogado para lá, para cá, como um corpo morto, no mar, ao embate das ondas entre recifes – sem quereres admitir que o que ela pensa de ti não é nada gentil e nem é nada amável; sem acreditares que tu és para ela nada mais nada menos que um pequeno cão bravio, que late e se arrepela às vezes, mas que serena, amansa logo, desde que o tacão ou a ponta de uma bota se levanta no ar ameaçadoramente. 206 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 PSICOSE Ritmos de cristais aristocráticos; harmonias veludosas de órgão; nostálgicos, neblinosos violinos; maravilhosas sonatas tudescas de um sonâmbulo luar; sons dispersos, inexpremíveis da Noite! está diante de vós o cruciante fantasma da minha Dor! Ele persegue-me eternamente, como um vigia que eu tivesse dentro de mim! E eu o sinto horrivelmente escancarar a boca, e rir, e rir, numa risada pungente, dilacerante, como a das figuras dantescas que o funambulesco Doré criou. É a comédia negra, a comédia das torturas psíquicas, que ri, porque a sua faculdade de chorar é rindo, nuns esgares bufos, numa ironia musical de Offenbach. Ah! são precisas lâmpadas de entendimento para descer aos ergástulos sombrios, lôbregos de certas almas, para ver-lhe o fundo tenebroso onde a Dor sempre cavou a fonte das lágrimas. Tudo o que essas almas manifestam para fora de si, são apenas efeitos, esmaltes de sol, que se apagam logo que a luz na altura se apaga. O que realmente existe lá dentro é uma densa poeira triste de desertos caminhados em desolação, onde a figura torva do tédio fica ao alto, num relevo de bronze, na eterna gravura do humorismo. Flor de luxo das civilizações requintadas, flor doente, o tédio espiritualiza-se, recebe a contextura da prosa, entra na concepção e no estilo. É como o personagem ideal, alegre e doloroso ao mesmo tempo, o personagem vermelho e negro, o Mefistófeles fantasioso que, sob as estrelas, sabe peregrinamente cantar, para que algumas almas solucem. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 207 Olhando para dentro de certas naturezas nem sempre tudo é claro, de uma luz larga, ampla e vivamente palpitante como o mar ao sol. Há pontos obscuros, turvos, nebulosos, espécie de mundos de idéias ainda em gênese, em formação e que às vezes não chegam nunca a desenvolver-se. Aspectos vagos de chuva e sol, quando, entre a leve cintilação da luz, caem as neblinas, os nevoeiros, a chuva, apresentando à visão um brando tom impressionista de clarão e de sombra. Assim és tu, nobre natureza das idéias que eu amo! Tu te fortaleceste nos combates, te avigoraste e reuniste em ti a força, a alegria nova dos campos lavrados, quando os primeiros rebentos começam virginalmente a florir numa intensidade de verdura. Em ti natureza das idéias deu-se o mesmo que nos campos: a charrua era forte, o aço era fino e lampejante e poderia bem lavrar terras abundantes para que o veio original do espírito surgisse, viesse, raiasse a flor. Mas, ante essa força e alegria nova de campos, raramente deixa de perseguir-te, de avassalar-te, nobre natureza das idéias que eu amo! – esse duro tédio que, como a invasão de um budismo nirvanamente religioso, lança-me venenos letais nas veias. Em vão, em vão às vezes o meu sangue flameja, como uma aurora boreal de reação contra essa noite fria, glacial, apagada d’estrelas e rijamente cortada de uivos convulsivos de ventos epiléticos... 208 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 LUZ E TREVA Não sei que luz estranha ilumina os espíritos superiores; eles refletem cousas extraordinárias que os seres vulgares nem sequer percebem, cambiantes de mágico brilho, fulgurações de astros incendidos no céu através a bruma transparente distendida no espaço. Nessas imaginações esplêndidas, que parecem continuamente mergulhadas numa fosforescência translúcida, há incêndios de sóis, rendilhados jasperinos de espumas, colorações de astros e flores, diafaneidades de gozos indescritíveis; há risos de auroras, prantos de orvalho, rios de lágrimas, céus de alegrias, noites de tristezas, oceanos estrelados de amor, tempestades de ódio, eternidades de agonia; há envergaduras de heróis, reflexos de mulheres divinas, corpos aéreos de criaturas sobre humanas!... Há um mundo, uma natureza além das cousas terrestres superior a todas as cousas, em que vivem deuses fabulosos, arcanjos e sombras, que a vulgaridade não conhece. É a grande visão do imenso olhar do talento, que se debruça para dentro do próprio cérebro, que reverbera como um grande foco elétrico, deslumbrado, refletindo visões que pairam no pensamento, aureoladas e fúlgidas, como as cousas sublimes que o escritor transporta à tela incomparável dos seus quadros fantásticos, luminosos... Só os cérebros apagados não sabem ver assim; só os que não possuem o reflexo da luz suavíssima e aurifulgente das auroras do pensamento, só eles não podem ver, na cinza escura da sua esterilidade, as grandes telas esbatidas e enfeixadas de raios, estrelas, e sóis dentro de infinitos azulados e tranqüilos; é que na escuridão vazia e tenebrosa que eles têm em si, nada distinguem, nada compreendem, porque não lhes chameja a imaginação, essa peregrina centelha OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 209 acendida no cérebro como um grande farol na imensidade, essa luz fertilizante que vê as cousas inauditas que nos deslumbram; é que eles têm dentro do crânio a maldição da treva a esterilizar-lhes a mente, a mergulhá-los na sombra implacável do vácuo e do nada! 210 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 VOLÚPIA... A chuva cai lá fora, ininterrupta, em torrente fria... Uma tinta escura entenebrece o ar. Não se vê mais o sol. O grande sol flavo, original Fecundador, não surgiu hoje das nuvens, não raiou, com a sua prodigiosa luz. E a chuva, assim torrencial nesta manhã de outubro, dá-me um afrouxamento aos nervos, uma infinita lassidão, um torpor que voluptuosamente sensibiliza... Que continue a cair lá fora a chuva, morosa e nostálgica, nessa viuvez triste de melancolia, numa cadência, num lânguido ritmo. Não sei por que vaga, abstrata expressão dos horizontes, ao longe, das horas dormentes deste dia, eu amo fidalgamente a chuva que cai dos altos espaços. Quisera estar agora, na indolente filosofia de um faquir, com a luxúria e o luxo de um mandarim, numa larga sala de mármores brancos, ouvindo a sonoridade da água que desce das brumas e ouvindo músicas aristocráticas, sonatas convulsivas e dolentes e místicas de Beethoven, que me enlevassem, a pensar, a pensar, organizando com delicadeza e curiosidade idéias imaculadas. E que a chuva, fora, caísse, jorrasse, cantasse em amplos, largos, claros, frescos pátios sonoros ladrilhados de verdes mosaicos. Ou, então, quisera bem, numa igreja silenciosa, ouvir ao confessionário, como os sacerdotes católicos, as femininas almas amarguradas e virgens, que me dissessem, numa pureza de veio original, na linguagem de luz que só os astros devem cristalinamente possuir, os secretos dilaceramentos e ansiedades, as obscuras e inquietantes paixões que como áspides ardentes e caprichosas alvoroçam e mordem de nervosidades, de êxtases, nos paroxismos do delírio genital, as alvoradas brancas das Noivas adolescentes. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 211 E, contemplativo, absorto, desejara, do meio de velhos e austeros palácios renanos, ouvir, sublimemente, comentar Schopenhauer, dentre um fundo meditativo de bruma germânica, sob retalhante, fuzilante humor a Heine; ou, senão, num evocativo transporte, ver passar, desfilar diante dos meus olhos, fagulhante e em pompa, empoada, numa esfuziante coquetterie e ostentação fabulosa, a brava Corte fascinante e faustosa de Luís Quinze, na linha dos ritmos donairosos, dentre os meneios fidalgos do minuete – cintilante colméia de sol, de onde se filtrou outrora o divino mel da graça e onde essa voluptuosa e luxuosa Pompadour tentadoramente reinou, esvoaçando, ágil, trêfega, com a sua volubilidade e favoritos encantos de grande e deslumbrante Abelha funesta e cor-de-rosa. Desse modo, então, tudo na minha imaginação ficaria deliciado, pelo esplendor e bizarra galanteria nobre das mulheres, como por esquisita essência finíssima de ambrosia, de formosura e sol. Assim concentrado, alheado de tudo, como que vagamente entontecido pelos vapores quiméricos do vinho alvo de um luar de Idealismos, ansiara infinitamente gozar todos os Grandes Amados, os curiosos sensibilizados do Pensamento e da Forma. Gozá-los nas suas vivas páginas evocativas, sagradamente, com emoção e paixão, incendiando-me nas suas chamas, perdendo-me nas suas lânguidas e extravagantes Arábias de Sonhos, subindo aos seus crepitantes delírios, às suas alucinações e crises nervosas que a mentalidade gera, mergulhando com intensidade, com profundidade, nas suas poderosas sensações. Assim, penetrado de emoções tocantes e luminosas, eu vivamente sentiria a alegria espiritual, voluptuosa, de viver e todo o meu ser viçaria logo numa triunfal beleza radiante de grandes rosas escarlates. 212 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Poderia a chuva insistentemente cair! Eu experimentaria, no religioso e cativante silêncio da minha reclusão mental, uma sensação íntima, preciosa, original, que me vibrasse, despertando a mais delicada sensibilidade nervosa, o frêmito, o alvoroço d’asas, os caprichos d’arrebatamento de vôo de pássaro selvagem, ao sol do mar largo, e o ressurgir inefável de certas sentimentalidades passadas... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 213 A CARNE Para nós, que estamos sentindo, como numa grande calamidade de legenda, a carestia da carne, a sua fabulosa inópia, a visão da felicidade toma aspecto de bife de grelha, sangrento, alapardado numa porcelana de frisos doirados, entre as franjas louras das alfaces lavadas, macias, frescas, deliciosas... Adormece-se ao entorpecimento de um dia mal alimentado; tem-se sonhos terríveis de voracidades espantosas, entrevendo através de mil estiletes agudos de uma barreira de dificuldades, as pomposas polpas de carne rubra, fascinante como um sorriso de madona, sob a roupagem amarela e tênue da gordura fresca, oleosa... Mais além, na planície verdurosa e banhada de córregos múrmuros, a boiada ofegante, coleando na pastagem rica, mastigando e mugindo, como numa antecâmara de guilhotina, à espera da hora em que terá de entrar para o talho... São as visões cruciantes do caminheiro abandonado num deserto de areias, ressequido e estéril, a ver, na vigília causticante, no sono, as límpidas cascatas em borbotões espumarados, jorrando as massas líquidas, irisadas, de um pedregal entre selvas, marulhado de ondas e bafejado de coruscantes brisas, por uma fresca e iluminada manhã outonal, do sul. Mas como num acordar de sonho, alquebrados, famintos e triturantes, ao volver os olhos à realidade, eis-nos deparados com a lamentável e furibunda inópia: a dessa farta iguaria que os deuses chamariam o seu manjar, em terras da América, mais ricas do que os campos da Austrália. E uma grande tristeza, alastrada de lágrimas, em nossos olhos rasos se desenha, como numa noite de inverno, ao viandante friorento, em torno de uma fogueira apagada! 214 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 O que estamos sofrendo todos, na sequidão devorante dos apetites dilacerados pela ignomínia da carestia que nos tortura, é uma cousa inaudita, semelhante àquelas antigas calamidades bíblicas, dos tempos dos Faraós, pela penúria dos trigos. Pode-se dizer que o bife está transformando o caráter nacional. Já não se encontra quem tenha no rosto a expressão da alegria sã, com um sinal evidente de um povo repleto e farto; toda a gente nesta terra parece triste, por essa espécie de alta inopinada da carne que, mais avara de si mesma que a libra esterlina, ou não vêm aos mercados ou apodrece à porta dos açougues, mas não se deixa ir para a mesa de qualquer, se não a peso de ouro e destemperado como um acepipe alemão. O horror da fome já nos apunhala a alma; porque tudo que em nós não é fome é mágoa pela escassez do bife, pelo adelgaçamento da pança, pelas torturas das vísceras, que pedem beef! Daqui a mais alguns dias, se não abranda a carestia, seremos apenas isto – a fome! OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 215 OS FELIZES No bairro aristocrático duma aprazível cidade do sul da América, quem mora lá ou quem viaja para lá há de ver uma elegante habitação pitoresca, ao rés-do-chão, graciosa na rua arejada e larga, entrançada de heras e de roseiras que alastram pelas vidraças e pelos telhados, transformando-a num nicho de viçosa e tufada verdura. Nos lados que deitam saudavelmente para o mar erguem-se pombais, onde pombos alvadios, de peito oválico, entram e saem, numa revoada alegre, ruflando a branca plumagem das asas e ternamente arrulhando, como num tom de soluços, amorosas baladas que só eles conhecem. Uma habitação colocada num trecho fremente e confortador de paisagem, recebendo a frescura marinha das praias, o bom cheiro acre da maresia, bem certo é que parece um castelo feudal medievo, na Alemanha, entre árvores velhas e enevoadas. Só lhe falta a montanha alpestre e o rio azul fluindo e gorgolejando nas penedias. Mas, à falta do rio azul, tem a caprichosa morada um pequeno ribeiro que vai, a uns tantos passos de distância, em estrias de prata, gemente nas suas águas tranqüilas. Ah! aí nessa vivenda deve existir a felicidade! O casal que lá mora não pode ter mais conforto, mais bem-estar, melhor graça na vida. A mulher, ménagère alemã, ativa e prática no mister do seu ménage, virtuosa, fiel como poucas – um belo tipo de nobreza grega, esbelto, de uma plástica doce, linha direita de imperatriz da Áustria, formosa como se se tivesse gerado da luz. O marido, quase um lorde, satisfeito nas toilettes finas, muito sports-man, sempre num belo cavalo fogoso e claro d’espuma, de crinas cetinosas que o vento agita 216 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 e faz tremular nos galopes, ao sol, como delicadíssimos filamentos de astros. À noite, quer haja luar, quer não; quer a lua surja, redonda e glacial, quer haja apenas estrelas, a música consoladora soa ali, através dos stores verdes, em partituras alemãs, em scherzos e melancólicas sonatas. A orquestra que se escuta dentro é executada por um curioso terceto de instrumentos: é o piano, o violino e o violoncelo – almas apaixonadas que murmuram sonoramente todas as alegrias e amarguras das notas. Mas, ah! egoístas da felicidade! Esses pequenos concertos a négligé, feitos entre o chá da noite, sem diletantismo, são ocultos e misteriosos. O gentil casal fecha discretamente todas as portas da sua linda casa e encerra-se com a sua música dentro de uma sala, como Luís da Baviera e Wagner, sozinhos, dentro de suntuosos palácios reais. E, olhando de fora, através dos stores verdes, descidos nas janelas entre a luz também verde, coada da sala para a rua, os olhos e a alma, embevecidos, enlevados, extasiam-se diante daquela atmosfera de paz e de afetos, perfumosa e confortável, onde as harmonias, como uma água fresca muito fina que flui ou como prantos arrancados de cítaras saudosas, se evolam, sobem alto, muito alto, até onde a nossa fantasia não poderá voar jamais. Dá veementes desejos de amar, de abrir os braços, num êxtase, a um ideal qualquer, tal é o inefável ritmo penetrante de suavidade que sobe desse retiro sereno, banhado de um misticismo casto de sacrário, onde parece que devem viver e cantar as lendas nevoentas dos Niebelungen todas as almas virgens dos seres apaixonados, contemplativos e comovidos, sonhando quimeras no alvo regaço das suas valquírias de neve. Então, assim como essas provas irrefutáveis que a gente sente em redor de si, como que se afirma logo OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 217 que há nesse casal uma duradoura felicidade de céu claro, firme, perfeita e eterna como a morte. Mas, entretanto, não vos assombreis, não duvideis um instante, ó iludidos felizes do mundo! se alguém vos for dizer que esse casal divorciou-se porque o alemão, num doloroso momento, encontrou a altiva ménagère entregue à pecadora lascívia de outro – daquele, talvez, que ele acreditara incapaz de inspirar afeto a quem quer que fosse, e de quem, por julgá-lo tão ignóbil e fútil, não se daria a honra de ter, ao menos, nem piedade, nem ódio, nem compaixão sequer. 218 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 NATAL À hora matinal das borboletas brancas e do lirial desabrochamento das rosas, cedo na luz, quando havia ainda uma espécie de oscilante névoa luminosa nos ares, dando uma translucidez aos aspectos e espiritualizando os longes – good morning! – salta fora do leito! Adeus atarracadas casarias tumulares da cidade, adeus ruas estreitas, encaminhadas e lôbregas como corredores de convento, adeus por um dia e vamos para o campo. A luz, duma finíssima e branca fulguração, dava vivas tonalidades de prata às perspectivas. Rios de prata sonora; verdes de paisagem com suavíssimas nuances de prata; curtos e coleados riachos de prata; colinas e montes polvilhados de uma leve rutilância de prata; e ao fundo, destacando na linha geral do campo, o mar, fúlgido, calmo, cinzelado num esmalte d’águas, como vasta e polida baixela de prata para dar de comer às nereidas e às náiades. Dentro e fora, na cidade, ficará em brilho o Natal. E as casas, numa radiante alacridade de primavera, como se o sol, à maneira de uma champagne de ouro, as tivesse alvoroçado e por elas se derramado em cascata; na garridice de presepes, de bibelots, de árvores luminosas e coloridas, garrulavam de risos, de alegria, de flores e vaporosos riachos espumantes à mesa do almoço e do jantar, nas comunicativas horas simpáticas do lar, quando em torno à querida mamã, morenas e louras crianças cor-de-rosa, de cheirosa carne macia, meigas e delicadas, para o fino pincel maneiroso de Lobrichon ou Geoffroy, são os mais encantadores frutos e as mais risonhas festas do Natal. E eu tive como presentes e festas a vastidão do campo, entre a natureza solene e as grandes árvores revestidas de folhagens como de ilusões, mais vigorosas e verdadeiras do que as simbólicas árvores do Natal, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 219 porque naquelas corre a livre seiva impetuosa da força vegetativa que maravilhosamente desenvolve os troncos, faz infinitamente brotar a folha e o fruto. Indo para o campo, como um pagão, farto da materialidade da forma prática da vida em cidade – cidade fusca, pesada, cor de terra da Arábia – eu simples, banalmente não fui contemplar, mudo, num êxtase muçulmano de derviche, a natureza verde, rindo em tudo a luz, surpreendendo em tudo o aroma e cantando em tudo o colorido. Não fui para consultar os sombrios monges dos troncos, para que eles me revelassem toda a evolução do mundo, que é, nativamente, em essência, a genuína, a clara evolução do amor. Fui para que em todos os ninhos das árvores desse campo, tão conhecido e por mim gozado na infância, os mesmos bicos de aves implumes eu visse, como outrora, abertos e trêmulos de ansiedade à aproximação maternal dos alimentos, pipilando, balbuciando as notas que mais tarde haveriam de encher o espaço de harmoniosos sons alados. Fui para que esses ninhos, vazios agora de pássaros, eu os encontrasse, como corações desabrochando em sonhos, derramados na tenra verdura campestre das ramagens. As árvores, umas, figueiras e nogueiras, laranjeiras a que eu tanta vez subira e vira crivadas de gaturamos furta-cores, que ao sol tinham fugidios tons de arco-íris, são as mesmas de há bem vinte anos; e outras, viçosas e reluzentes de folhagem, numa exuberância de força, são desconhecidas para mim, novas e virginais habitantes que eu estranho ao enfrentar com elas, mas que entretanto adoro também porque continuam a viver na mesma amplidão fecunda do terreno onde a minha infância floriu, resplandeceu e cantou... 220 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Assim um coração que ama na vida uma só mulher, não é de todo indiferente às outras mulheres virgens e formosas, que desconhece, mas que no entanto o perfumam com a esvoaçante graça de um sorriso e o fascinante enlevo de uma sedução passageira. Os ninhos caíram dessas árvores amadas, se desfizeram, findaram. Emigraram já para longe os pássaros: chegou um dia a neve do tempo e enregeloulhes as asas. Morreram. Tal e qual o passado em mim, para sempre morreram. Apenas resta, em meio à nostalgia e desolação que me invadem, aquele imenso campo que me ensinou a sonhar e algumas árvores, já velhas, onde os ventos tantas canções e baladas desferiram. Contudo, a esses que pelo Natal recebem ricas e suntuosas festas em deliciosos presentes, e parecem ficar profundamente satisfeitos e gloriosos, a esses nem mesmo eu de leve me posso comparar agora – porque tenho nesta perfumosa e idolatrada recordação o mais carinhoso, o mais casto e consolador presente de festas que o Natal me poderia trazer à comovida e espiritual alegria. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 221 EM JULHO Cantante ao sol e cantante azul impregnado de frescura, de aroma dos campos, sonoro de alegria e trinados de ave! Cantante sol e cantante azul de julho! Há agora na natureza um terrestre noivado de rosas brancas, nas manhãs frias, e um celeste noivado de estrelas brancas, pelas noites claras! A natureza flori agora em rosas; é tudo um vasto, opulento rosa!, como os rosais de Jerusalém, os rosais de Sião, numa pompa de rosas. Ritmos de amor afinam as almas numa só esperança e num só desejo e as almas buscam o tépido, carinhoso aconchego dos ninhos. Ardam, ardam, no grande esplendor das paixões fecundantes, os corações que se amam; palpitem, sensibilizadas, as fibras que se desejam, as carnes que se procuram, os organismos sãos, felizes e virgens que se completam. Julho aí está, doirado e frio, luminoso, para fecundar a aurora desses sangues frementes, desses sangues vivazes. Desflorem-se alvas grinaldas, esgarcem-se véus castos e, sob a púrpura ardente, sob a chama inflamada do luxurioso desejo, brote, surja mais tarde um demoninho louro ou moreno, que encha de encanto tudo, bulhento, garrulador de alacridante vivacidade de pássaro, vindo em festa, como este próprio julho. E que tu, belo astro nobre das salas, divinizado na formosura, alta e irradial, guardes ainda para mim, por este e por outros julhos, a mirra pura e real dos teus beijos, dentre a melancolia monástica, a dolência meiga dos teus olhos de monja. Guarda para mim, sempre, como infinita, indelével primavera, esses beijos imaculados, e eu, gloriosamente, das profundas catedrais iluminadas onde celebro o culto deste Ideal, farei brilhar, faiscar ao sol, sobre os polidos zimbórios elevados, a bandeira vermelha e a negra cruz do Amor! 222 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 SÍMBOLO Em norte américa, contam as crônicas, um terrível desastre ocorreu outrora nas costas da Virgínia. Sobrevindo ali tremenda e trovejante borrasca, como as que tragicamente abalam aquelas costas, deuse, além de imensos naufrágios no mar, da inundação da cidade de Norfolk, um dos mais destruidores e surpreendentes incêndios. No momento em que um trem expresso, repleto de viajantes, entrava nos campos de Dakota, uma faísca elétrica caiu sobre os campos, inflamando-os, acendendo neles um estranho, infernal esplendor dantesco. Era mister atravessar a zona incendiada; porém a zona era muito mais extensa do que na realidade se julgava. O trem, então, teve de parar, decidindo-se, fatalmente, que recuaria. Mas era muito tarde já. Para trás o incêndio ganhara os trilhos; para diante alastrava cada vez mais, devastador, horrível, em tentáculos de fogo. A morte, morte aflitiva, angustiosa, tornara-se, decerto, inevitável. Os viajantes, batidos, acossados de pânico, lívidos, ansiosos, como se acabassem de ser desenterrados vivos, apearam-se, como visões espectrais, na mudez sinistra dos pavores absolutos, tentando salvar-se, alcançar o ar, a frescura, a livre expansão dos pulmões quase asfixiados. Em vão! em vão! Todos os passageiros tiveram de voltar ao trem, queimados, com as roupas em desordem, numa confusão de derrota. Então, aí, o terror tornou-se indescritível. Homens e mulheres, num desespero, num dilaceramento profundo, atravessavam desgrenhados, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 223 com aspecto selvagem, por entre o fumo que subia em grossos rolos, em novelos densos, empastados, como longas e largas, espessas telas negras suspensas no ar... Aquilo lembrava avalanche humana, delirante e enorme, quase louca, através de campos incendiados. Modelada em bronze, numa ampla gravura, essa palpitante tragédia daria ao genial Doré uma vasta página assombrosa, como aquelas em que ele pinta, a sangue, a treva e a sol, exércitos armipotentes, d’armas duras de aço, e báratros avérnicos, formidandos, onde arrojamse capros, peludos, cornóides e corpulentos satanases. Naquela assoberbante catástrofe de chamas tornava-se impossível respirar. Dentro, no trem, na vasta galeria dos vagões, silhouettes confusas de cabeças e braços moviam-se, agitavam-se agora, numa ânsia suprema na cruciante expressão dos enforcados. Um esforço de maravilhosa coragem, um verdadeiro prodígio de resolução, imediatamente, e talvez ficassem salvos! Essa coragem, essa resolução surgiu enfim, triunfal, na alegre, na rumorosa esperança, no poderoso sentimento instintivo da conservação da vida, como um fio d’água brotando, fluindo de repente da avidez de uma rocha e dessedentando bocas ardentes e ressequidas que andassem se quiosas, sob sóis tórridos, por torvos e escalvados desertos. Era forçoso caminhar adiante. Então, o maquinista deu todo o vapor à máquina. E durante alguns segundos o trem, colossal, como um formidável animal pré-histórico, atravessou, numa velocidade vertiginosa, elétrica, os campos de Dakota. Afinal, decorridos esses pungentes, torturantes segundos, o trem franqueou o círculo de fogo, ganhando o terreno livre até onde o incêndio não alastrara. 224 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Já era tempo, porque os vagões começavam a arder e os viajantes estavam desfalecidos de asfixia... * * * * * * * * * * Ó nervosa mulher glacial e satânica, Lésbia pálida e sarcástica, por quem, no entanto, clamo e procuro nas horas da concentração do silêncio! Como esse aterrador incêndio nos campos de Dakota, também um outro incêndio, mais funesto, mais impetuoso e mortal, absorveu-me, extinguiu-me dolorosamente o coração. Como um glorioso viajante, um deus original coroado de pâmpanos, ele embarcara um dia numa locomotiva iluminada, florida de rosas e doirada como as galeras de Cleópatra. Partira alegre e feliz, a rir e a cantar, na carreira vertiginosa da vida, às conquistas triunfais do Amor, indo afinal morrer por entre as chamas altas e deslumbrantes do Sonho. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 225 O BATIZADO (Desterro) Ao fulgurante talento de Horácio de Carvalho 2a dedicatória: a Gonzaga Duque-Estrada Por uma manhã de aromas, cheia de rosas e ouro, em que voavam pombos em vôos triangulares ao alto dos beirais das casas, e os pássaros trinavam festivalmente nos arvoredos ramosos, um rancho alegre de lavradores descia, em caminho da igreja do sítio e no ruído vivaz de coloridas conversas risonhas e cantadas, a íngreme ladeira barrenta daqueles terrenos agrestes, mais para o lado em que o mar freme e se encrespa à chicotada brusca dos ventos, nas brancas praias caladas. Era um rancho em descanso e em festa, um tanto livre dos amanhos das terras e do longo mourejar dos dias passados, que levava a batizar um filho do seu amor, o gorducho pimpolho rosado das lavouras do seu coração, e que lá ia, sorrindo na ternura das delicadas carnes infantis, cheiroso, perfumado de trevo, contente e fresco como um rosal, de linda touca de fitas escarlates esvoaçantes na aragem, envolto numa toalha de trabalhadas rendas vistosas, sobre os orgulhosos braços polpudos da madrinha, rica rapariga de sol, radiante como um altar em Maio, florente como trigais. O dulçuroso encanto desta abençoada gente, passando ali, sob o raro calmo damasco do Azul, através de campos, dava à paisagem uma leve graça pitoresca de pintura aldeã pastoril, ou lembrava essa tão séria vida holandesa disciplinar e feliz de outrora, em que as pessoas, só com terem um fértil pedaço de pasto vivo e o bucolismo e o idílio de alguns bois amenizadamente a gozarem, ou a viçosa horta dentro da simpleza campestre de cerca dos verdes, eram, para todo o sempre, consoladamente ditosas e cristãs! 226 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Na margem dos caminhos alvoroçados do rumor e da alacridade vibrante da luz, em murmurosas fontes cristalinas, cujos finos veios de prata corriam nitidamente esfiados, rudes mulheres lavadeiras tagarelavam, batendo a roupa na pedra, com um estalo seco, à proporção que interminamente desenrolavam os picantes episódios de amor e as fundas desgraças negras daquele sítio, que se desfolhavam e sumiam na correnteza espumante e túrgida das águas. O rancho dos lavradores tomava agora por um comprido atalho, fazendo curva, coleando, até chegar a uma ampla várzea, onde, no tom alvo de uma visão de balada, ficava a igrejinha, muda e clara no dia, como um símbolo sereno de religião e de fé na crença e na primitiva paz vegetal da natureza. Subiam já, sorrindo e palrando, o curto adro da igreja e entravam na alegria comunicativa do ato que iam realizar – pura e cândida alegria essa! tão pura e tão cândida mesmo como a infância que forja no colo da madrinha, quase mais batizada também pela luz que a acariciava e doirava então do que pelas católicas águas lustrais que lhe deveriam apostolicamente banhar a virginal cabeça pequenina. À volta, após o batizado, na humildade rústica do lar, os chorados repinicados da viola, entre cantigas esfuziadas no rosto meigo da criança, aos padrinhos, aos pais, num tropear jubiloso e fremente, e num alentado e aberto gozo tranqüilo de felicidade obtida sem queixas, sem invejas, sem cuidados e sem remorsos, na pobreza casta e sagrada das suas almas chãs, ante a lembrança do Senhor do Bonfim e da cera que a Maricas prometera o ano passado para que aquele bem tão querido, agora alvorecido no mundo, nascesse e se batizasse e crescesse sem males, sem dores, são, saudável como os Campos que se andavam sachando e mondando por tantos verões amados. Não há nem doces nem vinho. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 227 Tão somente, mais quase à noite, no meio dos sonoros guizos dos grilos melancolicamente nas folhagens mudas de sombra, os ocasos em chama, tão vermelhos como se houvessem passado nas nuvens uma enorme esponja grossa embebida e encharcada em sangue, são a acesa púrpura do vinho com que estas serenas gentes dos sítios apenas se confortam e aquecem, nas suas festas, dos frios invernos da vida. 228 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 DOENÇA PSÍQUICA Que mal vos fez a vida, ó serenos filósofos, para a encherdes do mais negro Pessimismo, como de uma treva soturna e dolorosa e de um rio de sangue eternamente caudaloso?! Para ti, Schopenhauer, a existência é a materialidade; o alimento, para ti, é apenas a necessidade de prevalecer na luta, a força para a função dos órgãos nervosos, a bem de que se propague a espécie; – enquanto que para outros, ó sombrios monges do Pensamento, o alimento é a lascívia, a luxúria da carne, que fazia, desde os romanos, a Carne viçosa e rica. Basta, para ti, que o estômago metodicamente funcione, na normalidade cronométrica de um relógio, a fim de que tenhas a positiva segurança de que subsiste aos vermes e à seca dissecação dos fenômenos da natureza. No entanto, para outros, o sentimento palatal educado, gozando o requinte das iguanas faustosas, de incomparáveis gourmandises, as vaporosas luminosidades de dourados vinhos, apenas, bastam para que os sonhos sejam felizes e o sorriso seja alegre. Para esses, os alimentos, como no Oriente o fumo, têm insubstituíveis encantos, voluptuosas graças de viver, que atilam, acendem a imaginação, fazem abrir e flamejar por todos os pontos do mundo, infinitamente, os mais inauditos sóis do espírito. Neles, a vida é um fluido, um alado perfume de úmidas bocas purpúreas de rosa, de níveos colos cor de camélia, de veludosos seios, macios como a alva plumagem fresca de um pássaro real; um amoroso ansiar de etéreos olhos de estrelas, atravessando em visão, claros e pesados de luz, com o brilho aceso e ardente de preciosas e raras pedrarias, a quase extinta noite remota das recordações. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 229 Para ti, Schopenhauer, os seres orgânicos não têm senão o caráter essencial da concorrência vital e representam no mundo, funcionalmente, o mesmo valor dos elementos inorgânicos, químicos e físicos da terra. Assim, a pedra, o fogo, o ar, a água são tantas forças complexas da vida como o homem – ou labore pelo psiquismo, num século de livros, sob o complicado aparelho da ciência ou, simplesmente, ame, seja fator da evolução humana, dando a forma do Amor ao princípio genesíaco da sexualidade. Por isso, ó egrégio, magnificente filósofo alemão, eu, que no entanto sinto e percebo a tua radiante e clara verdade, que brilha e fere como as arestas agudas de um cristal – verdade aceita pelos homens sob a nebulosa denominação de Pessimismo – eu tenho tédio, profundo, supremo, e inesgotável tédio, vendo que a vida orgânica é toda ela adstrita à matéria, e que apenas, para ser feliz, nada mais é preciso do que ter a estrutura de um forte e belo animal, premunido de garras para o assalto, de dentes para devorar e com a regular circulação do sangue para o equilíbrio do coração e do cérebro. 230 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 POLICROMIA A Maurício Jubim Pintar a cor sangrenta da vida, a cor gelada da morte; dizer a dor dos tons, todo o cromatismo das tintas interpretar, à maneira nova, fresca, original, palpitante, de forma que os pincéis comuniquem com veemência uma alma à tela, que os coloridos vivam e cantem na trinalagem vibrante de pássaros matutinos. Exprimir as tonalidades quentes e possantes, os rubores humanos, o purpurejamento dos sangues, com tintas acres e com tintas delicadas, numa expressão forte de luxúria ou numa branda nuance de carne virginal e saudável, onde a aurora das seivas puras resplende. Pintar toda a pungência latente de uma Cabeça triunfante de vida, perfumada de graça, idealizada por algum sonho enevoado; dar-lhe, à feição da tua sensibilidade artística, linhas vagas, fugidias, linhas angélicas e pulcras, firme e fundo cavando-lhe a negro ou a louro a onda torrencial dos cabelos, dando-lhe luz estrelar aos olhos, sangrando-lhe álacre a massa tenra dos lábios, traçando-lhe a meia lua dos seios lácteos – gerando-a, enfim, com tintas dúcteis, de modo que a cabeça surja maravilhosamente da tela, te fascine, te deslumbre e tu a ames, como se ela possuísse o recôndito sentimento chamejante da Vida. E, assim, boca, olhos, cabelos, nariz, seios e faces pintar a claro, na limpidez d’ouro da luz, banhando a tela de luz, inundando-a de luz, descrevendo as curvas da primorosa cabeça com o pincel encharcado em sol, no clarão sideral de uma luz ampla, larga, alastrante... Com esse fulgor de execução, sem os empirismos clássicos, com toda a expansão da liberdade de sentir e de ver, de traçar, de apanhar os efeitos, de aparelhar as tintas, é que te fora prodigioso pintar, dum golpe altivo de concepção, fora da tacanhez dos moldes, já célebres OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 231 embora, já afamados e já universais, mas por isso mesmo acadêmicos, arcaicos, sem o grito rubro das grandes revoltas, o clamor agudo das naturezas inquietas que lutam para significarem, à parte das confusões e leis preestabelecidas, a seleção das faculdades estéticas. Recluso do ideal, enclausurado, sombrio e mudo, alvoroça-te o desejo vertiginoso de pintar intenso, de pintar singular, numa virgindade de cores, com toda a escala do íris, com a gama variada do alvorecer e a indizível cor abstrata de tudo aquilo que te sensibiliza. Tons violáceos e espiritualizados de crepúsculos ou tons brancos de manhãs diáfanas, com sonoridade de trompa de caça, branca e fresca também na claridade matinal; sensações rasadas de carnes impolutas, cheirosas a flor de laranjeira e a leite, excitam-te a pintar miraculosamente, a distribuir na palheta tintas inexploradas e imortais e passá-las e filtrá-las para a tela, na execução da misteriosa Cabeça, a tua simbólica ansiedade mais viva, mais vibrante, através dessa fecunda e fremente paixão da Arte – sempre flamante, em labareda febril e alta, aberta na tua alma brava e branca como uma sagrada umbela rutilante e vermelha. Um movimento nervoso, um impulso decisivo e vitorioso do teu pincel imaginativo, donde as cores jorram como um turbilhonante enxame de colibris e de borboletas iriadas voejando e a Cabeça, em que meditas e te alagas sonhadoramente em contemplações, emergirá da tela, lavada em tons puros, nascida do cristal virgem da Originalidade, sem mácula e sem defeito, numa harmonia de toques deliciosos, imprevistos, vivendo nas tintas castas, viçosas e cintilantes que lembrem a irradiação do teu sangue primaveril, forte, sadio, latejando nas veias de ricos rubis de glóbulos abundantes. Fantasias finas, como silfos aéreos, te fecundarão a palheta com polens radiantes; e em torno a esse símbolo das tuas emoções, com que andas ainda 232 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 alimentando a imaginação, como um produto de idealizados requintes, visões em variadas formas de cabeças liriais circularão anelantes e vaporosas, leves nas infinitas brancuras do colorido inefável, floridas de peregrino encanto, consteladas por esse Amor dominante da Arte que tudo diviniza e transfigura, cada uma delas mais nobre, mais bela e mais maravilhosa, rindo, como ninfas na frescura açucenal de vergéis, dentre a vitalidade, a força juvenil, a impulsiva espontaneidade nervosa da coloração. Tintas alvas de lírios e de espumas para os cetins e veludos da epiderme; tintas fluidas e secretas para dar o deslumbramento aos olhos; tintas voluptuosas, purpurinadas, para a expressão fascinante da boca, para o inaudito e cristalino borbulhar do riso; tintas sutis, flexíveis, etéreas, para as curvas arredondadas da face, para as linhas cinzeladas do busto a Cabeça que idealizas tanto raiará, alvorecerá da tela – tão viva e virginal como a sensibilidade do teu temperamento inquieto, do teu ser errante de beduíno que vaga e cisma na planície oriental infinita. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 233 FLOR SENTIMENTAL Prodigioso Sancta Sanctorum vedado aos Infiéis, ó mistério sutil da Sensibilidade, envolve-me nos delicados azuis, nas diluências de magnólias maceradas dos teus diáfanos luares, vibra-me os vagos e finos scherzos dos teus stradivarius amargurados... Ó flor sentimental, que te despojaste, na Morte, da carne maravilhosa, perfumadamente tecida de jasmins e lírios. Ó Flor sentimental, que os grandes e fervorosos beijos de uma paixão sacramentada, ungida nas profundas lágrimas, purificaram para sempre! Ó Flor sentimental que as imensas caudais de sangue das chagas do sofrimento, da dilaceração, da angústia martirizante, outrora tanto e tão intensamente orvalharam! Se é que te podes recompor ainda, ao menos uma vez em sonhos, das essências imaculadas do teu ser delicado, angélico, surge, aparece e vem trazer a esta existência que se debate, que anseia nos círculos titânicos das inquisitoriais inclemências, o segredo da crença, que tu levaste. Dos cibórios d’ouro dos Astros, vem, sidéreo, Sirius sagrado, Vésper clara, clara Vésper diamantina e matutina e traz-me essa hóstia magnolial e rara, lá dos altos cibórios d’ouro dos Astros... Se é verdade que agora reinas triunfalmente, por entre chamas de luz azul, nas serenas Espiritualidades celestes; se bem certo é, sidério Sirius Sagrado, clara, cândida Vésper diamantina e matutina, que te exilaste lá, cismativa, solitária, ó fria e fina Flor sentimental!, dentre as pálidas, lânguidas, mortas auréolas de luar da Eternidade, ressurge, vêm, flameja por esses níveos caminhos constelados, na tua meiga, terna harmonia 234 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 de claridade e saudade e nesse breve encanto alado do teu perfil de forma hasteal de letra siríaca. Traz contigo velhas recordações impalpáveis, doces e tépidos abraços da adolescência – a alegria aleluial de cânticos na frescura nova das primaveras louras, a flórea suavidade do oásis virgem e cor-de-rosa da Infância, todo esse incomparável Amor que tu levaste para além contigo. Ah! como eu vos recordo, Sombras, como eu vos lembro, Fantasmas, como eu vos evoco, Espectros, como eu me revolvo em ânsias, em palpitações, em êxatase, no infindável deserto das Noites sensibilizantes dessas agora tão longínquas e enregeladas reminiscências... Como eu me despenho, choroso, taciturno, só, absurdamente só, no silêncio e no esquecimento, negras, lôbregas e abismadoras galerias que vão dar aos subterrâneos da loucura, foragido dos flagelados clamores humanos, na desolação e empoeirado desalinho de derrotado ovante guerreiro de cem batalhas heróicas, pela primeira vez ferido e insolitamente vencido ou na melancolia decadente do ideólogo, imaginoso demônio inclementemente apedrejado de Anátemas! Ó tristeza dos momentos lívidos! Vácuos amargos desses longos, lentos poentes nublados, ciliciados de ansiedade, de aflitivas visões de dúvida, e onde o Espírito erra, ondula, flutua por entre névoas e surdinas... Sentimento indefinido, inquieto, insatisfeito, que turvas e agitas e convulsionas de tumultos a alma, num torvo, vendavalesco rodomoinho de ardente e atordoante simum!... Ó algidez fulminante, aterradora, mortal, de tudo o que finda, leve, vaporoso, vago, nas linhas sutis, fugidias, da infinita lembrança! Ó antiga velhice das Mágoas! Ó dor de esquecer! Ó dor de desesperar e descrer! Como toda essa música negra, toda essa mórbida sinfonia nervosa voluptuosamente me punge... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 235 VELHO Pelas infinitas estradas do tempo, a fora, ao sol, segue, mudo, soturnamente silencioso, esse frio deserto ambulante, a que alguns chamam Velho e outros chamam apenas Desilusão. Hirto, engelhado, com o seu alforje de peregrino, a sua rude veste de estamenha, o seu bordão de jornada, e os seus pés nus, caminha, o deserto frio – tão vago, tão tateante, tão verdadeiramente sombra, que dir-seia que é o vácuo, o intangível que caminha... Longas, profundas barbas brancas alvejam-lhe no rosto, dando-lhe um ar de austeridade profética, evocando as severas e legendárias figuras dos Patriarcados bíblicos. Na sua fronte vasta, sulcos imensos formam como que vias dolorosas por onde pensamentos amargos percorrem, lembranças angustiantes peregrinando passam... Certo, esse Velho, assim sugestivo e belo, viera dos Mitos, do fundo das odisséias gregas e ouvira d’alto cantar nos finos céus d’ouro da Hélade a alma augusta e mediterrânea de Homero, sentira as linhas doces da graça antiga e mergulhara sereno no seio branco e de rosas do Olimpo dos deuses priscos. Nenhum manto real o cobria, nenhum laurel o coroava – nada parecia revelar, tangivelmente, os seus troféus de onipotência. No entanto, pelos vestígios supremos, deixados não só nas rugas da sua face, não só na tristeza e contemplatividade ascética dos seus olhos e até nos caracteres abstratos da Angústia que lhe singularizava o aspecto, como também em todo o seu vulto fascinante, dominativo e grave, percebia-se o poder e a clarividência transcendental de um Predestinado, de um Inspirado, de um Deus, perfeito e sagrado Deus concebido da Dor, alimentado e envelhecido na Dor. 236 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Certo, era ele, o Poderoso da Dor, aquele a quem a Dor avassalara mas não vencera, a quem a Dor ungira mas não execrara nem banalizara. Maior, talvez um século maior com o contacto espiritualizante dos Sofrimentos, era efetivamente agora que ele existia, como a própria consubstanciação da Dor. Mas, nos abismos fundos dos seus olhos velados, amortalhados de saudade, vivos e vendo e parecendo, no entanto, cegos, um sonho impenetrável esvoaça muito de leve, e de muito leve surge, sai, em forma de silfo, de dentro dos olhos amortalhados do Velho e põe-se então a rondar, a rondar em torno dele, numa fascinação, com as suas asas diáfanas e fosforescentes de tentador demônio... E o Velho, subitamente deslumbrado pela fosforescência das asas, das asas diáfanas de silfo, tem estremecimentos convulsivos; e a sua face, então, toma a expressão singularíssima, de tal modo fica nesse momento transfigurada, que até como que se lhe aprofundam, que se lhe cavam mais as rugas... Também logo, com a rapidez própria dos sonhos, a fosforescente Visão desaparece... E o Velho, taciturno e trágico, parecendo concentrar em si toda a eloqüência simbólica do Eclesiastes, como que lança na terra a condenação suprema do Juízo Final, tendo, porém, na face agora imensamente lívida, duro ríctus sarcástico de ceticismo voltaireano... Mas, ah! quem poderia penetrar nos labirintos daquela existência; quem poderia saber os vergéis, campos, vales cheirosos, enflorados de Ilusão, onde essa alma viveu, floresceu e gozou; os pântanos esverdeados, de concupiscência animal ou de tédio desesperado, onde ela mergulhou vencida; as alvejantes e ermas encruzilhadas de caminhos onde a Imagem desolada dos seus Destinos errou, vagueou e gemeu exausta, fatigada, batida ao largo dos temporais atroantes e tremendos da Vida! OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 237 Todos que o viam passar, que lhe admiravam a enfibratura óssea, os filamentos nervosos das grandes rugas; que experimentavam a sensação quase de um pavor abstrato de respeito divino que a sua patriarca figura inspirava, pareciam inquiri-lo, fazer-lhe mil curiosas e significativas perguntas: – Se tinha já cem anos, que saudades, que recordações trouxera na alma, que pão fresco no alforje; que jornadas fizera, e se cansara muito, nas longas e pedregosas estradas áridas; se tivera fome através os pomposos banquetes à Luculo das altas cidades; se tivera frio sob as cruas neves inclementes e fulgurantes; se sentira sede d’água, mas só sede d’água!, por tórridos e languescentes calores, ou se sentira sede insaciável de desejos ante o pecado de uns olhos... Solenemente grande pela Dor, fazia lembrar, como sentimento de religiosidade que dele vinha, todas as magnificências do Elevado e do Sagrado. Parecia, então, que aquela incomparável amargura de Doloroso ganhava proporções de matéria inerte, se condensava, concretizava em blocos de granito e mármore; que aquela sublimidade de mistérios de secular Velhice tomava formas estáveis, solidificadas com raízes infinitas na Terra, de arquiteturas prodigiosas de catedrais, de igrejas góticas, de basílicas, de templos vetustos. E, pelo sentimento de divinização que ele inspirava, os olhos absortos, extasiados imaginosamente, viam que essa Dor ia se transmutando e avultando colossalmente como organismo físico, alargando, alargando, alargando para o espaço, na vastidão de um bojo enorme, arredondando pomposamente em cúpulas estreladas, em zimbórios de bronze, em torres formidáveis, crescendo, crescendo, ficando então monstruosamente de pé na amplidão alta, a majestade eterna da Basílica da Dor – ao mesmo tempo de venerações e sacrilégios, igualmente divina e profanada! 238 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Passados ermos, remotas antiguidades, eram extintas, recordando lentos, longos desânimos; ansiedades, desesperos, impaciências e saudades, eram como que a melancólica penumbra da imensa nave dessa Basílica. E as paixões atormentadas, os ímpetos lascivos, os desejos delirantes e em grita, as deprecações e blasfêmias, as raivas rugidoras, os ódios tempestuosos, eram então as vozes clamantes e plangentes dos violoncelos, no coro, e os profundos graves chorosos, de soluços pungentes e atormentados, dos órgãos e cantochão. Alvoroços másculos e sãos de juventude, heroísmos alegres e alados de esperança, bondade bizarra e florescente, galhardias, lhanezas afetivas, pensamentos límpidos, castos, de brancuras virgens, ternuras angelicais de sonho, eram, enfim, símbolos eucarísticos, pão e vinho claros de comunhões puras. Todo o espírito do Velho se afinava por esse acorde, a harmonia das grandes Intuições e Criações evangélicas o consagrava e santificava Deus – harmonia que se elevava para ele numa auréola de bênção elísia... * * * * * * * * * * A natureza, em redor, calma, repousada, tranqüila, penetrada dos sentimentos imponderáveis do Absoluto, ampliava-se numa expansibiidade de vegetações que pareciam quiméricas, numa concentrativa mudez de forças originais. Para os largos e longes do vasto e verde mar melancólico, alguns barcos singravam, dentre os espreguiçamentos voluptuosos da luz, no leve ritmo da graça banzeira de bamboleantes bailadeiras bailando... E a figura profética do Velho, com a alva cabeça nua, as longas barbas brancas ondulando aos ventos gementes, ia vivamente desenhada no fundo vago da OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 239 luz, como a concepção extravagantemente soberana, grandiosa dos egrégios Desígnios, a caminho das jornadas eternas, pelas peregrinações perpétuas, pelas estradas sem termo, pelos indefiníveis desertos sem fim... * * * * * * * * * * Vai, Velho! Clarão frio, clarão morto! Tu que trazes contigo Agonias e Recordações seculares, sobe, sobe solitário, só, sinistramente só, a escalvada montanha erriçada de agudos cardos bravos, de ásperas ríspidas silvas, dos Fatalismos tremendos, eloqüentes, épicos, rasgando, ferindo, chagando, ensangüentando mortalmente os pés. Vai para o Esquecimento e para o Nada, calado, mudo, fechado no sepulcro do teu segredo místico, com os extremos e expressivos silêncios da clausura da tu’alma, levando sob a umbela dos Astros o Sacramento eucarístico da tua Dor. Vai! Vai! Some-te, perde-te, mergulha soturnamente, aprofundadamente, nas estranhas sombras, nas estranhas sombras, nas estranhas sombras... 240 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 DECAÍDO Arrebatado num violento rodomoinho, num verdadeiro ciclone de paixões, o que esperas, Tu, Sátiro tricórnio e bufo, que resfolegas e inchas de pantagruelismo e luxúria – tricórnio como trifloro – com três hirtos cardos agudos?! O gozo das mórbidas concupiscências tomou, para a tua idiossincrasia afetada do Infinito, aspectos soturnos e miríficos, efeitos mais do que genuinamente capros, mais do que virtual e genitalmente eróticos, duma insânia ingênita e transcendental de lascívia; e isso de tal forma supersexual intensa, que és apenas um simples Sátiro tricórnio e bufo e não és mais Diabo mago e sulfúreo, nem radiante belo e horrível Arcanjo de maravilhosas asas colossais e flamipotentes de fundas envergaduras a ouro fosco e bronze, mas um Satanás suíno e gongórico, um Sileno senil tatuado das equimoses do Vício, tremendamente decaído nos abismos torvos... Êxtases, indefinidos espasmos estéticos, que espiritualizavam outrora em eras primitivas os teus estranhos olhos d’águia, cheios de um fulgor de epopéias, operaram nesse maquiavélico, complicado organismo, evoluções, metamorfoses, profundas transfigurações; e a tua cabeça titânica, satânica, cortada, detalhada fundo nas auréolas negras das supremas Blasfêmias e dos Anátemas, cantou e radiou vitória, triunfou milenariamente das outras frívolas, desfantasiadas cabeças. Era a conquista real do Sonho, em que a tua cauda espiralante e magnética ia traçando caracteres simbólicos e feiticeiros e em que os teus cornos tetros e sibilinos, expressivamente assinalados como a coroa genial e hostil da Rebelião, davam o ritmo, com a cauda espiralante e magnética, das divinas sinfonias da Imaginação. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 241 Porque, Tu, criador legendário das Ideogenias! velho Ideólogo imortal!, desde logo foste o Deus uno e trino, o Todo-Poderoso do Sonho, fascinando almas e almas, almas e almas e arrastando-as frementes aos teus lagos noturnos e chamejados, originalmente brotando da condensação de bilhões de noites sem estrelas, porque já eram abstratamente, esses chamejados lagos noturnos, estrelados de Ideal. E os teus cornos tetros e sibilinos, dominando amplidões, esgarçavam, rasgavam, defloravam os diáfanos véus nevoentos das Nuvens onde o segredo dos viços e germens ocultos, das virgindades brancas, das castidades tenras, das originalidades puras, dormia, mumiamente, sonos seculares e ignaros. E esse segredo e mistério que dormiam perpétuos sonos, num dormir infinito de fenômenos, Tu, com a significativa mágica do Ideal, fizeste para sempre acordar e circular e morrer e febricitar de vertigens e alucinações a Terra. E esse abençoado e prodigioso bem fecundou admiravelmente a terra, semeou constelações nos mares, tocou de auroras os temperamentos, floresceu de rosas, de madressilvas e lírios, as leves, as sutis espiritualidades humanas. Uma seiva do Desconhecido errou e cintilou por toda a parte, inundou tudo; as púrpuras palpitantes de um novo Idealismo se desdobraram como firmamentos ou majestosos mediterrâneos. Mas hoje, que o teu mundanal e soberano domínio é bem raro já, que todo o esplendor das tuas flavas, flamejantes glórias é já remotamente e olvidadamente passado, não és mais o excelso, o preclaro Sátiro fino, o Diabo prófugo e ágil, aventureiro e sábio, que notivagou em gôndolas por Veneza, nos estrelados idílios; que cantou outrora baladas aos astros aristocráticos, com o seu bandolim de luar e o seu perfil mais aristocrático ainda; que apaixonou e languesceu as monjas com suas 242 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 curiosas lendas enevoadas e rendilhadas; que foi o Gentil-Homem da Aventura e da Graça nas Cortes de Luís Quinze; que dourou e enflorou toda a Grécia e fecundou de Poesia e Arte o antigo Inferno mítico. Arrebatado num violento rodomoinho, num verdadeiro ciclone de paixões, és agora o Sátiro tricórnio e bufo, o membralhudo e velho histrião devasso, que resfolegas e inchas de pantagruelismo e luxúria. Não és mais o delicado deus artista, que eu muitas vezes vi, através das brumas azuladas da fantasia, pelos contemplativos crepúsculos da Alemanha, cismando, envolto num resplendor de imponderáveis saudades e nostalgias, tocado dos supremos desdéns, sentado junto aos pórticos medievais com as alongadas, esguias pernas mefistofélicas fidalgamente cruzadas em x. E tu perpetuas agora, através da universal harmonia, no equilíbrio sempiterno, Belzebu obeso e bonzo, inchado de concupiscência e tédio, ignobilmente obsceno, grotesco e esfingético, sonâmbulo de melancolias, tragicamente triste, atirado para um canto obscuro das Idades, como a truanesca e monstruosa figura orgíaca, báquica e pantagruélica do Vício! FUGITIVO SONHO Pouco sentiria eu que o teu olhar fulgisse e a tua voz vibrasse, se tu não fosses a loura e sugestiva Imagem que vi em sonhos e ainda hoje entre os nimbos da memória me aparece, terna como as baladas antigas. Eu não digo que seja o luzido e bizarro cavaleiro medieval de nobre coturno e cinzelada espada d’aço polido, retinindo e fulgindo, que te aguarde na rendilhada sala gótica, ou nos pátios de mármore, ou nos balcões em flor, para fugirmos, alucinados e errantes, por alguma escada de seda, nalgum nitrente corcel. Tu és bem loura e bem fria para os medievos arrojos, para esses aventurosos jogos florais, e eu sou, talvez, em demasia tímido para arriscar-me a tais assaltos, que romanticamente e naturalmente teriam de ser ao luar, na vaporosa e velada voluptuosidade da lua, como nesses lascivos jardins do Capuleto aquela sonhadora Julieta e aquele pálido Romeu arrulhando em abraços e beijos. Mas tu cantaste. Cantaste, e o que eu tinha já morto nas recordações ressurgiu, enfim, nesse canto. Tu cantaste e eu, enfim, revivi e resplandeci para o Amor. A tua garganta, fina, aristocrática, fazia voar, como um pássaro branco, uma voz alada, cuja harmoniosa sonoridade penetrava, escorria pelo meu ser como um raro líquido untuoso... E eu parecia diluir-me em essência, em leves eflúvios, nos gorjeios. Os límpidos trinados, nos apaixonados, impetuosos vôos altos da tua voz – pura, clara, clara fresca e aberta no ar – amplo firmamento estrelado desenrolado por sobre mim odorante dilúvio de luar, ou como um pássaro branco e estranho que por ali surgisse, abrisse, ruflasse, batesse fremente as asas para além dos etéreos seios virgens das empíreas regiões... 244 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Tu cantaste, trinaste, desfolhaste em rosas, fizeste esvoaçar em abelhas e borboletas radiantes todas as músicas, todas as emotivas canções, todas as barcarolas e baladas em que há névoas de lágrimas e essas lágrimas – tanta era a melodiosa tonalidade da tua voz – quase que as sentia eu passar, nítidas, cristalinas, através da transparência do canto que constelava sonoramente o ar como um luminoso tecido de finos fios melodiosos. E, enquanto, dessa forma, em requinte, funcionava em mim o extasia do sentimento, o teu olhar fulgia e a tua voz vibrava, vibrava, vibrava infinitamente, num esplendor harmonioso e claro, fazendo evocar a expressão feérica de uma lua muito branca, do alto cantando sonoridades de prata, subindo céus acima, astros acima, por legiões luminosas e gloriosas de águias, cantando... Formas e Coloridos 246 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 A ABELHA Naquele dia a industriosa abelha iriada, como surgisse a manhã num fulgurante pó branco de neblinas e ela fosse desferir o vôo até à colméia onde trabalhava, nos quentes verões, com outras companheiras; perdeuse em caminho, entre o nevoeiro, como se a cegasse de repente ali aquela alva irradiação matinal. Contudo, animada por uma chama intensa e viva, e que outra cousa não era mais do que o amor à carinhosa colméia, tentava sempre romper o nevoeiro, ir através da bruma espessa, penetrar nela num arrojo mais de vôo, fazendo um pequenino orifício por onde pudesse atravessar, feliz e gloriosamente, o seu gentil organismo diminuto e alado. Mas em vão! A cada esforço empregado em distender para frente as asas débeis, a cada ímpeto resoluto, a cada impulso tenaz, parecia que a neblina se obstinava em condensar-se, em intensificar-se mais; e estava esta lua já assim há tempo continuada resultando talvez num triste perigo para o volatilizado ser microscópico e sonoro, quando, finalmente, num golpe de luz – o sol irrompeu; surgiu, subiu festivo e triunfoso para o alto, como um redondo cano de ouro cheio de molhos inflamados de loiras espigas ardendo. Perante o brusco emergir flamejante do sol a rápida (...) abelha mais ainda se entonteceu e deslumbrou então; e tanto se deslumbrou e entonteceu que jamais conseguiu vencer a fina gaze diáfana, que agora, com o súbito clarão já se ia esvaindo no ar... E era inefável, deliciava entretanto ver a abelha presa no éter, sem poder caminhar, sem poder voar, suspensa no azul e doirada pelo sol, como uma leve gota que o sol deixasse pender no espaço, caída das suas rutilantes pedrarias de raios e librada apenas nos imperceptíveis fios sutis do fluido luminoso. Ah! se a abelha pudesse enviar recado à colméia, às companheiras, que a viessem tirar bem depressa dali! OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 247 Mas quem sabia onde era a colméia? Os reis, que habitam lá acima os claros palácios do luxo, entre soberanos confortos sedosos? Os ministros que passam lá embaixo no culto rumor da cidade, fechados no seu coupé, lendo jornais, como dentro de um rodante e tépido gabinete de estudo? A rapariga do campo, que através da frescura dos fenos, leva o gado a pastar na grama vasta e viçosa que cintila e fuma pelas manhãs? Quem sabia onde era a colméia?! Ninguém o saberia decerto! E essa tênue e voejante abelha, embora solta da trama da luz e não obstante claramente saber para que lados ficava a colméia, erraria em vão pelos vales cheirosos, perdida para todos os pontos, daquelas vargens, castos vergéis – porque esse tempo gasto a vaguear e a vacilar na neblina a cobriria de receio em comparecer, mais uma vez só que fosse, à presença das outras, sem que sentisse nos seus dormentes e enxameados zumbidos a mais acusadora censura e a queixa mais penetrante às horas que, no exigente pensar egoísta e caprichoso das companheiras, ela andara à toa no campo em flor amando e sugando alguma pétala, em vez de ir, por essa radiosa manhã, para o trabalho, abrir, no favo de mel, as curiosidades artísticas e os arabescos filigranados da efervescente colméia. * * * * * * * * * * Também, ó imaginária criatura amada! a peregrina abelha de meu sonho, voando um dia para a vida, foi logo em viagem surpreendida pelas profundas névoas impenetráveis das desilusões, e, sem poder nem prosseguir nem recuar, vencida pela distância e pela altura vertiginosa do ideal, perdeu para sempre, para nunca mais encontrar o desejado rumo, o caminho fluido, luminoso e gorjeante, que vai dar ao teu coração. 248 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 OBSESSÃO DA NOITE Vem, tartufo, rir ao pé de mim a tua risada de fel. O sol, em cima, ri a sua risada de aurora, que tudo aclara e resplende. Mas é em vão para essa risada de luz, que jorra d’alto sobre tudo, que tudo ilumina e claresce. Quero-te a ti, risada de fel, Tartufo! Quero-te a ti, risada do crime, risada da noite, risada da treva. Apavora-me esse sol eterno, a flamejar, incendiado na altura, porque ele todas as coisas põe em relevo. Eu não quero essa aflitiva evidência da luz – que ri das nossas chagas, ironiza o nosso amor e avulta o nosso remorso. Quero a sombra que esbate os claros aspectos, que esfuminha os longes, que enevoa e quebra a linha dos corpos. A sombra que desce, que se desdobra em noites, em trevas amargas. Esse luto etéreo que tudo esconde e faz repousar no mesmo vasto silêncio. O luto que esconde o crime e esconde a dor, que confunde a máscara hedionda de Gwymplaine com a máscara loura de Vênus. Esse luto, essa noite, essa treva é que eu desejo. Treva deliciosa que me anule entre a degenerescência dos sentimentos humanos. Treva que me disperse no caos, que me eterifique, que me dissolva no vácuo, como um som noturno e místico de floresta, como um vôo de pássaro errante. Treva sem fim, que seja o meu manto sem estrelas que eu arraste indiferente e obscuro pelo mundo a fora, arredado dos homens e das cousas, confundido no supremo movimento da natureza, como um ignorado braço de rio, que através de profundas selvas escuras vai sombria e misteriosamente morrer no mar... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 249 Nela é que eu quero afundar-me, na noite que me defende da lesma humana que babuja ao sol, à grandeza da luz. Nela é que eu quero viver, na treva que me despe da realidade da vida, que me sepulta e piedosamente consola. Ela tem a majestade para me apagar da vista esses mil animais sinistros e terríveis que, em múltiplas formas diversas, mordem sempre, caminhando para mim ao clarão do dia em truculenta marcha cerrada de massas pesadas e formidáveis. Quero, ó noite niveladora, fria águia negra das solidões infinitas, ir preso nas tuas asas e perder-me, insensivelmente vagar átomo desconhecido, talvez a gerar longe o mundo estranho de uma nova Dor! 250 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 HORA CERTA Inexoravelmente, imperturbavelmente, na inevitabilidade de um pêndulo estranho, o último suspiro há de soar, na hora atroz, que reboará soturna como por cavernas e subterrâneos. Com a alma supliciada de nevroses, assediada por ciúmes inquisidores, através de trêmulos angustiantes de violinos, o Agonizante elevará os olhos claros, cheios já da transfulgência de outras esferas e aspirará, ainda, gemente, Águia triste de solenes asas despedaçadas, os desejos esparsos, perdidos, que para além ficaram no clamor atordoante da Vida. Como por um mapa fabuloso, viajará ainda a imaginação desfalecida pelas regiões de outrora, onde se agitaram, vivas e palpitantes, todas as grandes forças do seu sentir. E, diante dos olhos adivinhadores de belezas secretas; dos olhos penetrantes e gozadores que pousavam inteligentemente nas cousas com finas asas ideais, amando-as, envolvendo-as numa chama de sentimento, nobres olhos de emoção e profundidade; dos olhos, cujo entendimento cintilava quando olhavam curiosamente tudo; diante dos olhos do Agonizante desfilará então a Visão do seu Ideal – Beleza tão radiante, tão doce, que lhe lembrará ao mesmo tempo a frescura iluminada de um vale e a profunda pompa noturna das estrelas. O muito que odiou e o muito que amou, os traços reveladores do seu espírito, formas de enunciação características de sentimento, ondulações voluptuosas de som, tudo, como um fumo, lhe tecerá brumas na retina; e certas recordações, já nebulosas na memória, certas tempestades d’alma, já entrecruzadas, difundidas e repercutidas na tempestade das Esferas, tudo, como um fumo, lhe tecerá brumas na retina. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 251 Soberbos oceanos de imaginação onde mergulhou seguro o desenterramento da sua Obra, do Escuro para a Luz, ressuscitando-a das sepulturas do Nada e fazendoa logo abrir clarões e asas no Espaço, tudo, tudo há de ecoar, em extremo, nos desvãos do seu cérebro a fenecer, como a vibração esmorecidamente saudosa de rouca fanfarra longínqua no fim crepuscular de triste e ovante vitória assinalada por aclamações e festões de louros, regada abundantemente pelo vinho quente e humano do sangue. E, relembrando cousas, revendo todas as veredas passadas, como quem revolve poeira, se o Agonizante achar então que afinal lhe doeu muito a Vida, consolado morrerá de que sofrendo por todos teve assim a mais bela e nobre purificação e consagração dessa Dor. E, de reminiscência em reminiscência, consultando no largo, no amplo, no formidável mostrador do Tempo as horas certas do Mundo – a hora certa para o Amor, a hora certa para o Ouro, a hora certa para o Ódio, sentirá, então, claro, nítido, evidente na eloqüência fatal do último suspiro – concentração tremenda de todos os círculos tremendos do Ser – sentirá então que a única hora certa, ó Vida!, é a hora da Morte, quando o último suspiro soa, trêmulo, marcando o inevitável rumo, como um pêndulo estranho que marca horas imponderáveis caindo inexoravelmente, imperturbavelmente... 252 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 ROSICLER Imaginar agora, saudosa Rosicler, que essa boca virginal, onde têm vivido, esvoaçado e cantado os ardentes pássaros dos beijos, fica gelada e muda, negra, como a boca de uma cova; que o colorido alvoral da tua carne esmaece, morre; que os fluidos Danúbios claros e azuis dos teus olhos somem-se na névoa da morte; que tu toda esfrias horrivelmente nas minhas mãos, num pavoroso contacto de neves álgidas – hirta, inteiriçada, glacial – como pesado e rígido bloco maciço de mármore branco! E imaginar, também, que a tua infância de flor, de alva magnólia cheirosa cor de luar, na seda fina da pele nívea, foi passada entre os meus braços: todo o delicioso encanto louro dos teus cabelos, a delicada polpa rosada dos teus lábios e as límpidas marchetarias dos teus dentes na láctea candidez do rosto a que os fluidos Danúbios claros e azuis dos teus olhos de ninfa davam frescuras bucólicas de mirtais e de mares meigos da Grécia. E imaginar, também, celeste Rosicler, que tu, já na pubescência, com as nobrezas régias de dama medieval, planta inglesa e forte desabrochada na atmosfera de uma estufa de Lorde, na luxuosa irradiação da formosura, vais, através do aristocrático rumor de cidades, alta e loura, como soberba Águia fidalga que para sempre houvesse abandonado algum antigo, grande palácio renano! Outros chamem-te Aurora! Hoje que já tens a esveltez palmeiral, o viçoso verdor primaveril e que na transparência d’ouro da epiderme dos seios cantam-te inefavelmente os desejos... Outros chamem-te Aurora! Hoje que já o travo picante da perfídia feminina dá um encanto fatal e acídulo à tua cabeça funesta e trêfega e dá volúpias secretas e OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 253 tentadoras às tuas garridas formas de louro demônio, a essa sedução prófuga e prônuba, entre sílfide e áspide... Outros chamem-te Aurora! Uma vez que ainda diante dos olhos vejo a rosada e consoladora luz difusa da tua Infância; que ainda sinto os leves e perfumados eflúvios da tua voz; o cristalinar do teu riso nos lábios frescos de vida e de leite; os fios sonoros do teu cabelo de sol na primorosa, suave, resplandecente cabeça; agora que tudo isso, enfim, acorda ainda no meu ser a balada longínqua das Recordações, não te chamarei jamais Aurora, mas Rosicler! que lembra os tons alvorais incomparáveis da tua vaporosa existência de aroma, quando eu tinha nos braços, envolta em neblinas paradisíacas do sonho, a tua formosa, suave, resplandecente cabeça, da excelsa idealização de cabeças de Anjos, revivescentemente cinzeladas em astro... 254 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 BEIJOS MORTOS Para o frio silêncio do firmamento, para a alta sideração das estrelas, os beijos de chama que me deste outrora subiram mortos, frígidos, glaciais, sem aquele quente, inflamado clarão que os tornava apaixonados. Foram-se os beijos e tu te foste também com eles, Alma sonora, Carne de perfume e de luz, cujos olhos, de tanto incomparável amor carinhosamente me falavam. A minha boca, sequiosa e saudosa agora desses beijos que a constelaram, mal pode sonorizar as sílabas de sol – Amor – que tão inefavelmente sonorizava. Foram-se os teus beijos, sumiram-se aqueles astros, que ardiam, e, agora, ei-los, já frios, lá, acima, no esplendor, esparsos no arqueado Azul infinito... Que brilhem, lá, gélidos, esses beijos mortos, como a serena e sagrada Via-Láctea da Paixão! Para mim, cá da terra, embaixo, eu os verei e os sentirei ainda palpitar para sempre sobre a minha alma, purificando-a e iluminando-a, miraculosamente, contra o frio veneno negro da Dor, derramada fundo no meu peito por fulvos e inquisitoriais demônios, atropeladamente arremessados à escalada vertiginosa do Mundo! Últimas Evocações Resgatadas por Iaponan Soares e Zilma Gesser Nunes Dispersos – Poesia e Prosa 256 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 MARGARIDA Sorrisos e lágrimas de Margarida O que procuraria nele?!... Talvez quisesse descobrir nesse imenso véu onde estariam embuçados seus pais, talvez, fitando esse horizonte rosicler, seu pensamento voasse a se encontrar com os deles! Não, não era isso! Ela volvia o olhar a Deus para pedir-lhe sempre a mesma paz de espírito, a mesma bonança em sua vida e que o sorriso lhe brincasse eterno nos lábios purpurinos! Quanto era misterioso esse seu pensar! Brilhante e preclaríssima existência!!!... De manhã, antes que a luz do sol principiasse a irradiar nos azulados píncaros dos montes, ela, essa virgem meiga, erguia-se de seu leito e ia tratar do rebanhozinho! Que quadro admirador, o ver-se a gentil pastora acariciando suas ovelhas... Umas deitavam-se em seu lindo colo, outras osculavam-lhe as alvinitentes mãos, os cetinosos e louros cabelos; outras, saltando em torno dela, pareciam dizerlhe: Olha, nós te adoramos, só tu és a nossa querida mãe. E ela, como que adivinhando-lhes o pensamento, tornava a afagá-las ainda com mais ardor, com mais doçura, como se fora uma própria mãe. E passava horas e horas esquecidas afagando-as, acariciando-as, conchegando-as a seu palpitante seio num anelo suave, numa louca vertigem, enfim numa languidez febril. E assim corriam os anos, os meses, os dias, as horas, os minutos, os segundos, para ela sempre de gozo, de sorrisos lúcidos, de manhã de flores, de prazer infinito. Depois desses puros estremecimentos, dessa expansão de sua alma, começava a correr, a saltar como a borboleta febril, por moitas, por vales, por lagozinhos OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 257 de prata, em busca de saudades e lírios, flores de sua afeição. E lá ia veloce, célere como as setas! Como encantava vê-la assim. Vestida de uma linda saia curta que deixava ver o bem torneado de uma linda perna, com duas louras tranças presas nas pontas por laços azuis que se deslizavam por suas bem contornadas espáduas, dir-seia uma divindade. E corria sempre com o sorriso doirando-lhe os lábios. Nunca lágrimas, nem uma só!... E era assim sua vida!... .......................................................... Um dia, ao cair da tarde, quando estava embebida em ver, em admirar os aurifulgentes arrebóis de que se orna a sidérea cúpula, foi surpreendida por um leve rumor próximo à choupana; voltou-se e verificou que tivera motivo essa surpresa. Era um caçador que indo divertir-se por aqueles lados e como chegasse a noite desejava ali, se acaso o consentisse Margarida, descansar um tanto, para depois continuar seu caminho, pois morava um pouco retirado. Ambos saudaram-se... Depois ele, com certa entonação de voz, dirigiulhe a palavra: – Minha linda pastora, dá-me por alguns minutos um agasalho em sua modesta choupana?... Margarida, tremendo toda como um arbusto agitado pelo vento e baixando os olhos, respondeu-lhe: – Mas, sr., eu não o conheço, não sei quem é... e... além disso eu... Suspendeu-se. – Mas, tornou-lhe o jovem, asseguro-lhe que nada tem a temer; é que venho muito cansado e almejo mais 258 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 que tudo uma hora de repouso, para então continuar o meu caminho. – Pois bem, senhor, eu estou segura da sua probidade. O senhor parece-me um belo moço; entremos. Mesmo apesar deste elogio quem olhasse para as faces de Margarida, vê-las-ia tornarem-se rubras e morder de leve o lábio inferior. Contudo, conteve-se e tímida, acanhada, levantou o trinco da porta e abriu-a. Entraram... Margarida, aquela virgem infante sentou-se a um canto trêmula. Não sabia o que dizer. O caçador também, por mando de Margarida, descansara sua espingarda a um canto e sentara-se. A pastora, conservando sempre os olhos baixos, não se atrevia a erguê-los para se não encontrarem com os do caçador que a fitava com ternura. Depois de alguns instantes, este rompeu o silêncio. – Então, minha linda pastora, habita aqui, sozinha, não tem receio de algum maldoso? Ela estremeceu com esta idéia e com um leve movimento de cabeça, respondeu: – Não... – Oh! Então é por que está bem guardada? Margarida não respondeu, mas levantando-se abriu uma portinhola e mostrou-lhe dois grandes cães que dormiam. – Oh! belo! São guardas de respeito! Como se chamam? – Um chama-se Cérbero e outro Leão. E cerrou a porta. – Ora até que enfim falou... Vamos, diga-me quem são seus pais? – Não os tenho, respondeu-lhe comovida a pastora. E aquela que vimos há pouco sorrindo e saltando levou a mão a seu avental para enxugar uma lágrima. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 259 – É bem infeliz, tornou-lhe o caçador... diga, esta é a sua verdadeira pátria? – Não, respondeu-lhe Margarida, com a sua voz meiga, o senhor é bom, é; parece-me que estou vendo transparecer em sua alma a meiguice, a bondade! Oh! o senhor é bom! – Diga-me uma coisa, formosa pastora, gosta desta vida que passa, nunca pensou em estreitar os laços do himeneu, nunca pensou em casar-se? Dois olhares e ao mesmo tempo dois sorrisos encontraram-se. Depois profundo silêncio... – Então, não responde? – Senhor... disse enleada, corando a pastora. – E... nunca amou... nunca conheceu o amor? Outra vez dois olhares trocados, mas mais ardentes, mais vivos, mais vertiginosos. – Então, minha encantadora pastora, nunca amou, insistiu o caçador. – Nunca! gemeu a pastora. E o jovem não podendo conter mais a sua louca paixão e o pulsar inquieto de seu coração, lançou-se-lhe aos pés exclamando: – Pois bem eu serei quem te ame, dar-te-ei meu coração, consagrar-te-ei mil afetos; tu chamar-me-ás Jorge eu direi... – Margarida, concluiu a pastora, sorrindo-se entre lágrimas e com uma suavidade na voz que encantava! E depois, de repente, estacando, parando de comoção e dizendo entre Si: – Oh! meu Deus, e meu Futuro com ele, quem sabe o que será! E pendendo o rosto na mão ficou pensativa. – Então, linda Margarida, o que tens?! Ainda há pouco tão expansiva e agora... Colombo. Folhetim. Desterro, 14 e 21 maio, 1881. 260 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 COMEMORAÇÃO DO SEXAGÉSIMO PRIMEIRO ANIVERSÁRIO NATALÍCIO DE JOAQUIM GOMES DE OLIVEIRA E PAIVA É hoje o dia 12 de Julho, data do nascimento do grande orador Joaquim Gomes de Oliveira e Paiva. É preciso que o povo catarinense, animado pelo sublime amor patriótico, revista-se de entusiasmo como de uma inconcussa clâmide romana, em honra daquele que tanto o engrandeceu. É preciso que o povo catarinense erguendo-se do fatal marasmo, são, lépido como o Lázaro da Escritura, fazendo um esforço hercúleo, estranho, quebre os ferruginosos grilhões que o entorpecem, exulte iluminado pelos raios abrasadores de seu mais soberbo revérbero: – o nome de – Oliveira e Paiva. Já é tempo de ao menos por um dia, por uma hora, por um segundo, deitarmos por terra o fundo materialismo, de não cuidarmos única e precisamente do nosso eu. Já é tempo de não nos deixarmos embrutecer na parva admiração de uma gorda parcela monetária, para subirmos à luz da história, à luz dos conhecimentos humanos, intelectuais. Toda a moral, toda a estética, toda a pura filosofia, deve abraçar por certo os princípios que vimos de descrever. Não é absorvendo o tempo em coisas fúteis comezinhas, materiais, quando não estólidas, ridículas; não é enervando, calcinando a alma nos desregrados orcos terrenos dos gozos fáceis, hebetisinando a razão, que nos fazemos homem, que nos fazemos povo. Por Deus!... nem tanta filáucia, nem tanto egoísmo!... É próprio isso dos tempos antediluvianos! OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 261 Não é, repetimos, deixando passar desapercebido o que é grande, o que é louvável, o que é justo, que podemos dizer temos civilização. Quem sabe se muitos julgam que a verdadeira acepção dessa palavra está apenas nos cumprimentos familiares, nas atenções para com as senhores, no respeito à honra e em muito mais que nos seria fastidioso relatar?!... Não, mil vezes não! Olhai a Europa; fitai o mundo exterior ou quando não seja assim, sondai bem vossa razão que encontrareis lá bem nas profundidades dela o completo qualificativo de civilização. Quem não conheceu Oliveira e Paiva, aquela cabeça leonina onde irradiavam mil constelações de pensamentos?!... Quem não lhe apreciou a palavra eloqüente que brotava de seus lábios em enormes catadupas, em repetidos borbotões de rasgos oratórios?!... Quem não admirou aquele todo simpático e preclaro de uma polidez sutil a toda prova?! Quem, por último, não conviveu com esse irmão de Mont’Alverne, Vieira, Anchieta, Souza Caldas, Patrício Moniz e tantos outros?... Não há negar pois, que o povo Catarinense seria por demais ingrato, se envolvesse no espesso manto do olvido esse dia tão faustoso que trouxe ao mundo o grande, o Messias querido que gravou seu nome, com letras indeléveis, eternas, nos corações verdadeiramente patrióticos. Para nós que, se revolvemos o humilde e pequeno cinerário da história, não encontramos muitos vultos tão ilustres como o do exímio pregador Oliveira e Paiva; não é mistério, é prova mesmo de adiantamento, de progresso, fazer uma homenagem como a que se acaba de preparar. 262 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Portanto deve a elite literária da sociedade Catarinense apresentar-se garbosa, preparar seus brilhantes discursos, suas éclogas, seus sonetos, para o maior realce e solenidade dessa festa. Deixamos que o Zoilo ignaro, escancarando a boca com a gargalhada mordaz, estendendo a ponta aguçada do estilete do sarcasmo, dos vis esgares, como um truão imbecil, como um palhaço mazorral das praças públicas esbraveje, raive, zurre furiosamente. Deixemos que soltem o agourento grasno esses esquálidos, negros e esfaimados abutres. Deixamos que se anteponham a nossos passos esses semicadáveres! Para as consciências inteiramente de lama, talvez sejam os nossos festejos encarados pelo lado do ridículo; para os hodiernos realistas talvez pratiquemos uma fanfarronada, é a frase admissível; mas para as consciências imparciais, sensatas, claras, teremos feito, se bem que em parte, o que o nosso herói merece e lançado aos fundos alicerces de seu Panteão de glória, uma pedrinha de bastante valor. .................................................. Se viveras ainda, ó excelso Paiva, iríamos pressurosos a teu gabinete de trabalho ofertar-te, hoje, data do teu grande nascimento, mil coroas de lírios e açucenas, vivas imagens da inocência; porém como morreste, ou antes tropeçaste tão somente na campa, ressurgindo à imortalidade, ousamos dedicar à tua memória estas toscas, rudes, mas sinceras palavras. Jornal do Comércio, Desterro, 12 jul., 1882. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 263 JULIETA DOS SANTOS Julieta dos Santos estreou segunda-feira, 25, no drama Georgeta, a cega. Eu achava-me lá no teatro, nessa grande escola, maquinalmente sentado, com a cheia de esperanças e a alma a transbordar de desejos febris, vagos, loucos, vorazes, aguardando a ocasião de ver surgir do palco essa embrionária terrível. A seu tempo ergueu-se o pano e dali a instantes apareceu em cena, dentre os bastidores, como as sombras evocadas pelo poeta nas noites do mistério, no céu ideal, o evoluciozinho de uma borboleta delicada, vaporosa, sutil. Eu acotovelei o companheiro que se achava junto a mim e disse-lhe – emudece. Ela começou a falar. Sua voz levemente embaraçada, insinuante, tinha de quando em vez umas vibrações cristalinas; seus alvinitentes bracinhos estendidos ao longo buscavam os tropeços que por acaso houvessem em sua passagem. Eu, boquiaberto, estático, vezes colado à cadeira, sentia a algidez de uma estátua de aço, às vezes como impelido por uma mola secreta, estranha, erguia-me insensivelmente sentindo percorrer nas fibras d’alma uns fluidos magnéticos. E as cenas sucediam-se cada vez mais brilhantes, mais belas, mais expressivas. E eu acotovelava o meu companheiro fazendo-lhe notar ora um gesto, ora uma inflexão, ora um jogo fisionômico dessa Favart, dessa Raquel, dessa Téssera do futuro. Terminou o primeiro ato sempre esplendente, sempre ameno, sempre divino da parte da pequena atrizinha e também de seus colegas que secundaram mui devidamente. 264 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Passaram-se alguns momentos. A orquestra dirigida pelo Sr. Brasilício executou uma melopéia suave. E eu, impaciente, esperava o 2° ato. Subiu o pano afinal!... Apareceu Georgeta sempre cega, sempre simpática, já eletrizando-me nuns lirismos vagos e encantadores, já sensibilizando-me nuns lances ternos, numas queixas repassadas de langor, nuns quês finalmente impassíveis e solenes. Oh! mas quando ela recupera a luz, quando se abisma na contemplação dos objetos, das flores, quando se aproxima do espelho e tem ante ele aquela cena inimitável, aquela luta gigante como a da treva com o clarão, como a do possível com o impossível, como a da matéria com o espírito eu, por Deus, senti em meu cérebro uma revolução como que um cataclismo moral. Terminou o drama e eu maravilhado, emudecido, sentia-me preso à cadeira por uma atração irresistível. Oh! quanto prende, quanto arrasta essa criação fenomenal!... Gênio, eu te saúdo, porque tu tens o dom de animar as almas de gelo, as organizações de pedra, como Fídias as suas criações esculturais, como Rafael a sua Fornarina. Tu inspiras, tu suplantas, tu avassalas. Trabalhastes na – Georgeta, a cega – e no entretanto encheste de luz!!... O Caixeiro, Desterro, 31 dez., 1992. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 265 A MUSA MODERNA (Versos de Damasceno Vieira) O sr. Damasceno Vieira, no pródromo sintético da sua obra, fundamenta umas teorias didáticas que não acentua bem, de modo claro e filosófico. Desde o batismo do seu trabalho Musa Moderna encontra-se analiticamente, observadamente uma falta de coerência, de concatenação lógica com as idéias expendidas na substância do livro. S.S. mesmo diz: “Para dar a medida exata de seu tempo – preocupação de todo artista superior – cumpre ao poeta identificar-se com as aspirações do século nas suas idéias filosóficas, nos seus gigantescos impulsos de progresso, na sua veemente paixão pela liberdade.” Ora, S.S. admira Guerra Junqueiro e quase não admite Jean Richepin, quando, segundo a minha opinião, foi na Chanson des Gueux que aquele poeta bebeu a maior luz da inspiração para o seu último poema. A fim de atestar, ampliar mais sensatamente o seu modo de ver as coisas, S.S. cita algumas palavras de Ramalho Ortigão, desse escritor tão reputado e tão querido, mas que embora a sua nomeada, a sua consideração européia, não suponho, estudadamente visto, digno de uma crítica séria sobre poesia. Não devemos receber a luz porque ela venha dc alto, do mais alto píncaro das serras elevadas. Não!... Irrompa ela da sombra, mas seja uma luz clara, franca, espontânea. Venha ela das anfractuosidades das minas, das gargantas das fornalhas, dos brasidos do carvão – mas seja luz. Para se compreender as vantagens da nova literatura, em todas as fases, é preciso ter as bossas 266 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 intelectivas desenvolvidas na altura dessas mesmas vantagens. O poeta de hoje é o reformador, o inspirado, o revolucionário. São os três elementos constitutivos do poeta. Dizendo-se revolucionário, compreende-se que poeta seja artista inteiro, completo. Se a arte caminha ao lado das revoluções do espírito, não se admitirá por certo revolução sem arte. Ora, o sr. Damasceno que bate os linfáticos da Musa, aqueles que não têm pulmões nem sangue para os entusiasmos decentes, para as concepções grandes e fortes, abre o seu livro ainda com versos sem rima, solto como se diz, quando a rima, natural, precisa, verossímil é a cintilação prismática, a eufonia dulçorosíssirna do verso; quando os melhores poetas da península e mesmo os novos brasileiros têm essa preocupação que é também um dos esmaltes mais delicados e bonitos da forma. Daí, S.S. continua no emprego estafado das décimas e oitavas francesas, pesadas, retumbantes pela sua factura pelo seu modo arrogante de exprimir o pensamento. Os poetas devem conhecer, para o complemento da arte, a maneira de distribuir os tons a fim de que as consoantes aglomeradas, empacadas não esporeiem o ouvido do leitor; colocar esteticamente os agudos, os graves e esdrúxulos – dispor muito concisamente o colorido da inspiração vibrante, altívola, sangüínea. Os poetas – essa boemia de ouro, essa borboleta azul que muitas vezes se queima na sua própria luz, quanto a mim devem arrojar-se mais e mais nas asas da fantasia a águia do infinito das idéias – devem ter os vôos desesperados, as cóleras supremas, o humorismo doido, as gargalhadas estrepitosas do mar, rugir como o leão e arrulhar como a pomba, ter a fulguração escaldante do sol e a sua suavidade consoladora do luar. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 267 Não há poesia onde não houver fôlego, sentimento, paixão pela natureza sempre farta de assuntos para os espíritos empreendedores. Não há poesia onde houver convenção, onde a espontaneidade e a fé individual do cantor não se revelem com força. O sr. Damasceno bem sabe quais são as armas combate, mas não usa delas, talvez por uma religiosidade pacata aos seus escrúpulos literários. O sr. Damasceno Vieira é por vezes fraco nos seus ideais, nas suas imagens e comparações. O seu espírito não conserva na Musa Moderna a nota nervosa do sentimento, os rasgos apaixonados da razão. Não há na sua poesia uma fluência agradável que force a ler-se o livro até o fim, na melhor disposição de gosto; vai-se tropeçando a cada passo com versos soltos, com uns nomes próprios, de uns heróis da guerra, como espantalhos da civilização, introduzidos nas estrofes, dando-lhes uma gravidade pesada, pouco artística e poética. E além disso a originalidade, a primeira qualidade do homem moderno, não é com certeza a lei do distinguido escritor. S.S. canta a escola, as oficinas, o trabalho, o progresso com tintas nada originais e boas. A verdadeira centelha da arte, o fogo, a robustez, o pulso, como disse Edmundo de Amicis, tratando de Zola, não são circunstâncias às quais o sr. Damasceno ligue muito séria importância. Achará que isto são tropos de estilo, são esmiuçamentos de crítica. Mas nem nos propusemos a escrever uma crítica sobre o seu livro; unicamente como S.S. não é positivamente um calouro da literatura, mas uma inteligência que tem produzido diferentes frutos, nos certames da idéia, é preciso, que pelo menos os que 268 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 cuidam de letras, autopsiem franca e lealmente, com a dignidade superior de confrades, os trabalhos que vão à luz da publicidade. E demais S.S. teve a delicadeza de remeter, com dedicatória especial e bastante lisonjeira, a Virgílio Várzea, Santos Lostada e à minha humílima individualidade, a sua Musa Moderna. Nasce, portanto, desse atestado despretensioso de simpatia – esta ligeira análise da obra. Não diria coisa alguma sobre ela, se a achasse fora dos trâmites da crítica e dos limites do senso. Há nela, em todo o caso, cunho de talento, mas não rijeza firme de idéias. Não existe homogeneidade na sua observação, complexidade no seu raciocínio. O seu espírito não tem nem aquela facilidade dúctil, nem aqueles atrevimentos razoáveis e admissíveis do poeta. É possível que se encontre sinceridade nas suas doutrinas mas para os outros, porque S.S. não professa as doutrinas que expõe. Fala de progresso, de arte, de evolução, apresentanos os seus dados filosóficos e – apoteosifica, endeusa as guerras, porque endeusa os seus heróis. Quando hoje, na vanguarda triunfante do evolucionismo, não pode, não deve seguir a guerra, senão como um escarro de sangue atirado à face da luz. Porque é preciso não confundir evolucionismo com moda. Há espíritos alheios de intuição, da percepção clara das coisas, que, dizendo-se modernos, evolucionistas, adiantados – não estudam profundamente a organização desse vocábulo. E Evolucionismo é a direção racional que tomam todos os cérebros, ante os fenômenos patológicos, psicológicos e fisiológicos é a fonte elementar onde se bebem todos os princípios da verdade, toda a sua saúde OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 269 do pensamento; o Evolucionismo é que nos apresenta as causas primordiais do existir, as transformações da matéria, os necessários terremotos do Cosmos universal. É pelo Evolucionismo que o homem compreende, vê, sabe, conhece os poderes que tem para olhar, para ouvir, para pensar. Com o Evolucionismo é que o homem se apodera dos direitos da sua animalidade – alargando, estendendo os conhecimentos diversos. É no Evolucionismo que pairam todas as crenças robustas desta humanidade pensadora, que trabalha para a educação de todas as consciências que ainda não entenderam o seu lugar sobre a terra. Dentro pois do Evolucionismo, em toda a sua acepção, deve girar a esperança do poeta, como um pêndulo enorme, oscilando de entre a curvidade azulada dos espaços amplíssimos. Nestas horas em que a civilização vai rasgando todos os horizontes compactos de treva, não há meios termos, ou o escritor se adapta à sua época ou morre – ou tem músculos para galgar a montanha de verdade filosófica ou estaciona pelas estradas das quimeras e das dúvidas que não guiam, mas adoecem profundamente os crânios. Para se rasgar a crosta do anônimo, é preciso cotovelos de bronze, escreveu alguém, isso. E o sr. Damasceno Vieira, já não está do lado do anônimo... Mais um esforço sobre si mesmo e estará do lado justo da verdade. O seu livro não é um – Grito de Guerra. É um clamor que não se sabe bem de que trombeta foi saído. Não se pode analisar, de boa atitude, a escala e os sons. A Musa Moderna – segundo a sua estrutura, a sua essência, não é um livro que possa atravessar futuros e 270 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 entrar no conclave dos poetas da musa incontestavelmente moderna. O sr. Damasceno Vieira que encaminhe o seu espírito por outras veredas, que atravessa a floresta da existência... intelectual, como um leão e que sinta em si o bronze inabalável da coragem, na frase de Guerra Junqueiro, a encouraçar-lhe o peito das suas convicções. Regeneração, Desterro, 9, 10 e 11 jun., 1885. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 271 MANHÃ NO CAMPO A Eliseu Guilherme Quase manhã. Vagos bocejos de vida, ainda, nas compriduras verdes dos campos. A natureza estremunha. Uma pessoa como que tem ímpetos de sorver o ar fresco que paira sobre as coisas, de infiltrar nos pulmões largas baforadas de oxigênio. Bebe-se o leite quente das cabras monteses e peraltas, que andam a saltar as cercas tufadas de jasmins e rosas agrestes, para as várzeas distantes. Os bois saem das manjedouras na silenciosidade dos túmulos. Mugem, mais além, desconsoladoramente. É que vão para a cidade. As fontes estão como se alguém se lembrasse de espalhar um punhado de sombras, por elas. Sente-se apenas a cristalinidade, o som metálico de seus veios fartos. O lavrador acorda para o plantio, revolvendo, aradeando a terra, como quem prepara um ventre para a fecundação animal. Rompem do chão a vitalidade saudável e o frescor que a seiva introduz nos vegetais. Para longe, nos sítios afastados, os galos, como sentinelas, dialogam monótonos alertas, cantaroladoramente. Nos firmamentos altos e longos, baralha-se uma confusão de cores. Ora um amarelo-gema de ovo, claro, vai morrer num sulfurino vivo; uns chamalotes de prata, muito alva e nítida, perdem-se num roxo-violeta; cintilações rosadas unificam-se a escumilhas com tonalidades de chumbo; um azul-ferrete limpo, amalgama-se ao escarlate vibrante, que parece cantar. 272 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Como que se sente o cheiro ativo e o gosto dos coloridos. E o sol, como uma cobiça de ouro, como o fruto do Bem procriador, lá vem vindo, na vermelhidão do fogo das coivaras, atrás dos reposteiros pardos da montanha, que agora rasgam-se... Regeneração, 12 jul., 1885. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 273 UMA LENDA Ao sr. M. das Oliveiras Margarida É uma lenda fantástica, a vida dos imigrantes da luz. Eu conheço uma dessas compleições, batida pelos ventos desordenados de um milhão de desgraças, estrangulada pelo guante fatal de indiferenças atrozes e que, como todo o boêmio do Ideal dourado, sente cantar dentro de si a balada saudosa, estribilhada de esperanças e de crenças, metido numa tebaida de asceta, tendo, talvez, uma gargalhada de Polichinelo, para a sociedade que passa, tilintando os guizos da loucura e do prazer. E, pela calada harmônica da tarde, quando o céu profundamente azulado parece uma turquesa enorme; quando a natureza veste a escumilha finíssima do crepúsculo, cortado pelas badaladas melancólicas da AveMaria, ele passa, com o seu tronco curvado, barba de profeta antigo, as mãos fartas de rosas, caminho direito ao cemitério, na atitude calma e triste de quem se quer remontar pelo pensamento, a algum passado mavioso e bom, fico cismando porque é que a terra criadora não lhe introduziu, não lhe infiltrou nos poros, toda aquela mocidade castíssima e doce das filhas, cuja campa ele vai sempre cobrir de flores e de lágrimas?! Por que a seiva exuberante, do que é novo e forte, não pode emprestar vida aos organismos velhos e magoados?! Por que todo o sangue fecundo dos corpos há de apenas fortalecer os nervos e os músculos das plantas, dar o grão germinativo à saúde dos vegetais?!... Ah! Daudet, Daudet!... Tens razão em deplorar a morte das fadas!... Se existissem fadas, eu lhes pediria um palácio de ouro, com escadarias de marfim, portas de esmeraldas e safiras, iluminado por cem sóis representando lustres, guardado por mil fortalezas de bronze, onde habitasse, numa irradiação de estrelas, essa outra fada olímpica – a mocidade. O Moleque, Desterro, 2 ago., 1885. 274 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 A ROMARIA DA TRINDADE Tradicionalismo é a filosofia do povo e faz acordar em nossas almas, como o eco de uma balada longínqua e saudosa, perdida na distância azul dos montes cobertos de neblina, tudo o que viveu de esperanças, tudo o que viveu de sonhos e felicidades. Esta romaria que se faz à Trindade é tradicional e festiva. A certa hora do dia, começa a afluir gente: carroças de molas perras e gastas, enfeitadas de fazendas de cores vibrantes e fortes onde sobressai o escarlate, com grandes penachos coloridos de flores e fitas, radiantes de bandeirolas, conduzindo dentro toda uma rapaziada ávida de troça, de pândega, gargalhando alto no ar calmo e iluminado o seu bom humor de romaristas, cascaquinando ditos, numa algazarra franca de consciências despreocupadas e jovens, aos estridentes sons metálicos da banda fanfarrona que atira os seus agudos de requinta e os seus abertos e rasgados de trombone pela estrada adiante. Simpáticas amazonas nos seus cavalos mansos e dóceis, como convém ao sexo, deixando ondular aos ventos o véu azul e roxo e branco e verde dos seus chapelitos altos, cartolados, pretos, dando-lhes, colocados na cabeça gentil e estética, uma aparência de cavaleiras fantásticas do ideal indo à romaria da moda e da elegância. Depois, já na Trindade, uma aglomeração ruidosa do povo, de todo o colorido e de toda a casta, como uma aquarela imensurável feita a largos traços quentes de verde-paris, de amarelo e de uma grande porção de borrões estirados e grossos de tinta encarnada. Ao ar livre, ou debaixo das laranjeiras cobertas de fruto que os raios do sol um tanto já perpendiculares mais enlourecem e douram, ou nas barracas de lona e de aniagem, nas velhas barracas tradicionais, come-se à OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 275 fartela, numa deglutição furiosa, bebendo-lhe em cima um péssimo vinho picante temperado a pão campeche e a cana miúda, o belo farnel querido que se leva em cabazes ou acondicionado nas maxam-bombas ou no charà-bancs: o farnel crônico e frugal da galinha assada, da mortadela, da sardinha e do aperitivo lombo de porco, tostado e porejando gordura. A seu tempo, os sinos bimbalhantes vibram no ar, abrindo naquela atmosfera de festa e de rumor, um vivo clarão de alegria, e os foguetes estourantes e estrepitosos, com a marcha brava e pomposa da música, põem em tudo aquilo espalhafatosos e murmúrios, como o eterno zumbir de cem colméias trabalhadoras e amigas. Então, numa gala de púrpura e de arminho, saem da igreja, S.M. infantis e ingênuas, num sorriso feliz de crianças festejadas, comendo as balas ou as massas, em forma de boizinhos e bonecas, que a boa mamãe ou o festeiro lhes trouxera todo expansivo e contente. Dá-se por concluída a festa da igreja e, no mesmo instante, vêem-se grupos que altercam, indivíduos e avinhados e congestos que questionam, que gritam, fazendo estourar murros sobre as pequenas mesas toscas das barracas, alvoroçando a polícia que apita e chega sempre tarde e as cavalgaduras que rincham e dão pinotes correndo algumas à rédea solta pela planura relvosa do adro. Mais tarde, ao descambamento lento do dia, o regresso à cidade, em grupos, aos pares, trôpegos, cansados e frouxos como quem vem em debandada, carregados, mulheres e homens, de laranjas, de canas, de flores, de preguiça, e de tédio da viagem que deixa de ter agora toda a satisfação e todo o prazer, por se ter já acabado toda a graça e todo o contentamento que a gente sente ver acabar no domingo pachorrento e tranqüilo como um domingo de Páscoa. Regeneração, 5 jun., 1887. 276 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 O ABOLICIONISMO A ação que o Abolicionismo tem tomado nesta capital é profundamente significativa. Nem podia ser menos franca e menos sincera a adesão de todos a esta idéia soberana, à vista dos protestos da razão humana, do patriotismo e do caráter nacional ante tão bárbara e absurda instituição – a do escravismo. A onda negra dos escravocratas tem de ceder lugar à onda branca, à onda de luz que vem descendo, descendo, como catadupa de sol, dos altos cumes da idéia, preparando a pátria para uma organização futura mais real e menos vergonhosa. Porque é preciso saberse, em antes de se ter uma razão errada das coisas, que o Abolicionismo não discute pessoas, não discute indivíduos nem interesses; discute princípios, discute coletividade, discute fins gerais. Não vai unicamente pôr-se a favor do escravo pela sua posição tristemente humilde e acobardada pelos grandes e pelos maus, mas também pelas causas morais que o seu individualismo traz à sociedade brasileira, atrasando-a e conspurcando-a. Não se liberta o escravo por pose, por chiquismo, para que pareça a gente brasileira elegante e graciosa ante as nações disciplinadas e cultas. Não se compreendendo, nem se adaptando ao meio humanista a palavra escravo, não se adapta nem se compreende da mesma forma a palavra senhor. Tanto tem esta de absurda, de inconveniente, de criminosa, como aquela. Se a humanidade do passado por uma falsa com preensão dos direitos lógicos e naturais, considerou que podia apoderar-se de um indivíduo qualquer e escravizálo, compete-nos a nós, a nós que somos um povo em via de formação, sem orientação e sem caráter particular de ordem social, compete-nos a nós, dizíamos, fazer desaparecer esse erro, esse absurdo, esse crime. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 277 Não se pense que com a libertação do escravo, virá o estado de desorganização, de desmembramento no corpo ainda não unitário do país. Em toda a revolução, ou preparação de terreno para um progredimento seguro, em todo o desenvolvimento regulado de um sistema filosófico ou político tem de haver certamente, razoáveis choques, necessários desequilíbrios, do mesmo modo que pelas constantes revoluções do solo, pelos cataclismos pelos fenômenos meteorológicos, descobrem-se terrenos desconhecidos, minerais preciosos, astros e constelações novas. O desequilíbrio ou o choque que houver não pode ser provadamente sensível, fatal para a nação. Às forças governistas compete firmar a existência do trabalho do homem tornado repentinamente livre, criando métodos intuitivos e práticos de ensino primário, colônias rurais, estabelecimentos fabris, etc.. A Escravidão recua, o Abolicionismo avança, mas avança seguro, convicto, como uma idéia, como um princípio, como uma utilidade. Até agora o maior poder do Brasil tem sido o braço escravo: dele é que partem a manutenção e a sustentação dos indivíduos de pais dinheirosos; com o suor escravo é que se fazem deputados, conselheiros, ministros, chefes de Estado. Por isso no país não há indústria, não há índole de vida prática social, não há artes. Os senhores filhos de fazendeiros não querem ser lavradores, nem artífices, nem operários, nem músicos, nem pintores, nem escultores, nem botânicos, nem floricultores, nem desenhistas, nem arquitetos, nem construtores, porque estão na vida farta e fácil, sustentada e amparada pelo escravo dos pais, que lhes enche a bolsa, que os manda para as escolas e para as academias. De sorte que, se muitas vezes esses filhos têm vocação para uma arte que lhes seja nobre, que os engrandeça mais do que um diploma oficial, são obrigados 278 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 a doutorarem-se porque se lhes diz que isso não custa e que poderão, tendo o título, ganhar mais facilmente e até sem merecimento, posições muito elevadas; e mesmo porque, ser artista, ser arquiteto, ser industrial, etc., é uma coisa que, no pensar acanhado dos escravocratas, dos retrógrados e dos egoístas, não fica bem a um nhonhô nascido e criado no conforto, no bem-estar no gozo material da moeda dada pelo braço escravo. Regeneração, Desterro, 22 jun., 1887. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 279 GEMA CUNIBERTI Esta grande atrizinha, que por toda a parte foi muito admirada, deixou o teatro e reside em Turim, onde seus pais a fazem estudar literatura. A inteligente menina tem surpreendido os seus mestres com os progressos que vai fazendo, revelandose já uma poetisa de estro elevado. A princípio custou-lhe a abandonar a cena, mas hoje raras vezes vai a espetáculos e dedica-se aos estudos com tanto aproveitamento, que tornam-se extraordinárias a sua intuição e o seu talento precoce. Regeneração, Desterro, 20 jul., 1887. 280 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 A NOITE DE SÃO JOÃO Nunca o meu provinciano peito de artista vibrou mais forte, mais rijo e mais fremente do que vibra nessas deliciosas festas populares onde a minha infância acorda, canta e sonha feliz. Tão belos, tão expressivos e harmoniosos são esses festejos, que o cérebro se incendeia dos lumes navios da imaginação para desenhá-los, para pintá-los a largos traços comovidos, sinceros e quentes como o vivo clarão de amor que eles trazem às coisas adormecidas e mortas nas recordações passadas. Oh! que painel aí se desenrola, na frente dos nossos olhos, cheio de meiga ternura do tempo que passou que não volta mais! É num terraço, numa praia ou num pedaço de rua que se passam estas cenas de costumes, estes episódios característicos que afagam a nossa memória. Desceu a noite já. Faz um luar que dá gosto. Oh! como a lua é lírica no Azul! As verduras pulverizadas de luz, escorrendo prata líquida, numa crua irradiação branca, reluzem com a nitidez e o brilho dos alvos blocos de mármore. Para lá da terra firme, além de uma curta divisa de mar manso navegável em canoas, num ponto que os olhos distinguem claramente bem, uma aragem fresca, leve, como um sopro musical de flauta campestre, afia nos canaviais viçosos que se agitam branda e suavemente. Porém na rua umas vozes contentes e sonoras gritam cheias de mocidade e frescura: Olá! João, anda cá; vamos às canas. Pague! Pague! Hoje é o seu dia. Viva S. João! Viva S. João. E o João, um rapaz que passara ali assobiando, jovial e franco, ria alegria da sua alma chã, entra numa venda, paga vinho, um rico vinho cor de topázio bebido entre a algazarra dos companheiros e os entusiasmos bruscos e metálicos do homem da onda que faz tinir os cobres, todo risonho, na gaveta do balcão. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 281 E as canas, João, e as canas, repetem as vozes. E o João paga de novo, e de novo a algazarra cresce, os vivas, as aclamações, os prazeres que estouram nas almas desses bons rapazes, como as bichas e os buscapés ziguezagueantes que eles soltam em pândega, nos largos, no meio de muita gente reunida, dispersando tudo, entre galhofas e risadas. Mas a noite de S. João dobra de encantos e de enlevos. Agora as rubras fogueiras crepitantes estendem a sua ardente chama loura e alegre na frente das casas; agora a rapaziada – crianças saltam as fogueiras, velhos sentados ao redor delas contam uns aos outros interessantes histórias de bruxa e de alma do outro mundo, aquecendo-se do frio da noite e fazendo às vezes ressoar no claro ar sereno a nota cristalina de uma cantiga de ritmo ameníssimo e simples, com o motivo da festa, tremida e repenicada na voz misteriosa e cheia de saudades amadas. Então! olha essas batatas que saiam – gritam cá de fora para o interior da casa. O fogo está bom. Venha isso. Maria traz as batatas e as canas, traz também o aipim. Vamos assar. Êta diabo! O fogo está mesmo bom, está pedindo coisa. Então. Venha isso! De repente alguém exclama: Vamos ao terço do seu João da passagem; principia às oito, são sete. Hoje há lá forrobodó, há comes e bebes, vai orquestra. Vamos! E vão-se todos ao terço do seu João da passagem. Aí há muita gente, a sala parece um ovo, diz uma rapariga; e, no centro de um altar armado em dossel, esplandecente de luzes, de alfaias, de jarras azuis e de flores, o S. João Batista todo imaculado e tranqüilo, satisfeito e sorridente, com o seu rosto roliço e doce, gordo e macio, destaca de um quadro em moldura dourada, em estampa, do fundo de um nimbo cinzento, muito colorido e crespo, com uma tanga escarlate, abraçado com o cordeiro divino que olha para a gente com os seus olhos irracionais e pequeninos pleno de docilidade, de mansidão e de paz. 282 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Então a dona da casa, a sinha Jacinta que vem lá de dentro toda redonda, como uma roda de fogo, de saias engomadas, de babados e de tufos, diz que o terço vai começar. Aí um capelão prosa e pernóstico põe todo o seu saber sacerdotal à vista dos devotos e ingresa um latino onde há muito orum, retumbado, cantarolado e pavonesco, numa melopéia fúnebre. Depois a rapaziada cai na patusca arrastação de pés, e dança, gingada e requebrada, ao som da orquestra que fere as polcas do Calado e as quadrilhas do Mesquita, de uma melodia delicada, original e vibrante, cheia de guizos, como uma partitura de Offenbach ou de Souppé. No intervalo das contradanças bebe-se Carlsberg e comem-se os belos bombocados saborosos que cocegam aperitivamente o céu da boca, e as brancas e rosadas cocadas em forma de estrela que lembram a Bahia tal é o paladar do coco de que elas são feitas. No meio disso, tiram-se sortes; uma espécie de consulta ao destino: para a gente saber se morrerá cedo ou tarde, se casará, terá este ou aquele desejo, etc.. Divertimento esse que dá às pessoas que nele tomam parte um contentamento e uma felicidade luminosa que escorrem nas fisionomias como um óleo celeste de esperança e de fé remoçando e fortalecendo a velhice e consolando e abençoando a todos. No fim desse passatempo agradável e das últimas contradanças de grandes e frenéticos galopes entusiásticos, todo o mundo volta para as suas casas, bastante tarde, no silêncio da noite já sem lua, mas estrelada e bonita, de um amarelado tom de madrugada cor de limão sem mais ruído notável de prazer; apenas animada por um ou outro foguete tardio, que, ao longe, aqui e ali, como esquecido elemento da festa, ou como um indiferente conviva que chega tarde, estala, e brilha no ar saudosamente. Regeneração, 18 set., 1887. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 283 ENTRE CIPRESTES (No dia de finados) Viva a morte! Aqui estão sob estes ciprestes, nas geladas criptas sombrias dos vermes, as mulheres louras, esses pálidos luares de neve que deliciam; as mulheres morenas esses ardentes sóis tropicais que matam. Aqui estão. Quanta vez, nas lagoas brancas da alma delas a alva-garça do sonho não vagueou e rufou as asas. Quanta vez, as vermelhas rosas da quimera, como flores de aurora, não perfumaram a religiosa eucaristia mística do seu coração? Quanta vez? E agora? Agora aquelas esperanças não florescem nem abrem mais os lírios puríssimos daqueles olhos não recenderão mais de aromas imaculados e doces, não estrelarão mais de afetos o céu agora vazio da existência de muitos homens. Tudo acabou, tudo gelou desapiedadamente nesta crua treva da terra, aqui, lá embaixo, no profundo Nirvana para onde se desce hirto, de dentes cerrados, num resfriamento material que dói. Foi-se tudo nestas paragens da eterna noite incoercível, entre estes ciprestes que grasnam o pulvis est no tremendo repouso lúgubre dos mochos: Viva a Morte! Viva a Morte! e que vai ecoando funebremente. E além, sob os chorões desgrenhados como imensas cabeleiras verdes, estende-se a galeria dos mortos de luxo, belos mortos aristocratas cheios de anéis nos dedos e reluzentes crachás no peito: príncipes, cavalheiros da legião de honra, e duques, que ostentam os seus pomposos exílios mortuários onde se exilaram para sempre vindos do país da vida, entre lágrimas ignorados desmentidos em jornais comunistas e demagógicos, desses que gritam contra o conforto e a suprema felicidade dos reis que as mais das vezes andam errantes e loucos de tédio e de dor nas imponências da corte enquanto lá fora, nas praças, o populacho se 284 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 alvoroça e exalta fazendo ressoar nas pedras de pátios de palácios os seus grossos sapatos revolucionários. E os mochos repetem: Viva a morte! Viva a morte! E a galeria dos mortos continua: Cá estão as mães sofredoras, as mães que choraram, que gemeram, que soluçaram, que endoideceram de amor de pesar na existência dos filhos; e cá estão também os filhos homens uns, já responsáveis da vida; com a idade da luta, esboroados de sofrimentos, martirizados até o desespero; crianças outros, como botões de rosas em antes de abrir, como beijos que petrificaram tão cedo, tão de madrugada, tão nos translucidamente e na inefável paz da quermesse da vida infantil na qual os sorrisos são as jóias preciosíssimas, as delicadas prendas adoráveis e estremecidas. Mas, viva Deus! a este soturno e convulso chorar de mágoas e de saudades dos ciprestes esguios respondem ainda assim, vitoriosamente, como um clarim de batalha, as rosas que rebentam como corações perfumados pelos aromas do céu, as vermelhas rosas que ao menos cantam nestas regiões tristes a canção alegre do sangue que lembra a vida, a vida escorrendo em grandes borbotões do fogo enorme do sol e da seiva profunda das árvores. Viva Deus! Regeneração, Desterro, 19 nov., 1887. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 285 A VIDA NAS PRAIAS Ah! a vida nas praias! a vida nas praias! Pela manhã a claridade esterificada e igual que aveludece as perspectivas convida-nos aos belos passeios pitorescos sobre a areia clara das praias – passeios que têm tanto de artístico como de científico. Artístico porque nos dão a firmeza da linha estética na imaginação que recorda viagens sobre os mares calmos, horizontes novos; largos jorros de vida saudável e de frescura matinal nas toldas de navios transatlânticos, quando em antes do almoço de bordo se estuda e se observa a binóculo os pontos afastados da natureza que se iluminam pouco a pouco com o dia. Científico porque se estuda também um modo prático, intuitivo e gracioso de insuflar azoto no sangue, de tornar temperada a extravagante temperatura do corpo, de oxigenar o cérebro cujo fósforo se acende de aticismo e de bom humor. A vida nas praias é uma espécie de educação física dos nervos que ginasticam e ficam preparados para todas as evoluções musculares que dão à rijeza das formas essa aparência da fortaleza seivosa dos troncos das árvores. E as ondas do mar esfarelando-se numa espumarada branca de champagne ao longo das praias, têm o ingênuo ar de candidez do desenho d’A Natividade, de Wagrez, sob uma nítida gravura de Baude. E os temperamentos ásperos e montanhos como que se docilizam, como que se amaciam, recebendo as emanações de saúde e força vital que as marés lhes infiltram, enquanto que as epidermes anêmicas, mordidas pela clorose enervante das grandes paixões que gelaram, tornam-se sangüíneas, tomam cor, da mesma forma que o fruto amadurece e se ruboriza aos ardentes clarões solares. O sentimento vegetal que vem da existência passada em prados, entre searas e campos agrícolas, 286 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 tem um quê de correlativo e harmônico com a vida nas praias. Há em ambas as vidas uma completa afinação de detalhes, o mesmo tom geral quase. A vida nas praias é a vida na natureza livre, no vastíssimo lar de todos nós, cujo teto azul, lá no alto, se arredonda côncavo sobre as nossas cabeças. A vida vegetal, a vida dos prados, das searas e dos campos agrícolas, é a vida primitiva, a vida livre também, a vida pagã, a vida das vinhas carregadas de uvas maduras e saborosas, como de ametistas, a vida dos primeiros israelitas que iam ao morrer abrir e armar as tendas floridas das suas almas nuas e chãs no dourado território da glória eterna onde uma aluvião de pombinhos alvos, emissários do Espírito Santo, os havia de receber e arrulhar em redor das suas frontes venerandas coroadas e sagradas pelo resplendor dos cabelos brancos. E, por um desses dias que amanhecem enevoados, cerrados dos reposteiros das neblinas, e que depois surgem resplandecentes, vertiginosos de sol, com um azul muito intenso brunido no céu; num desses dias que parecem emergidos de um banho de ouro fluido, dá um consolo e uma satisfação tamanha passear à beira das praias, com os altos sossegos da voz, contemplando o efeito ridente e sereno da marinha quando na láctea transparência casta do ar voam as aves em circumevoluções pela paisagem toda e que a gente as segue demoradamente com a vista; lembrando-se de viajar assim com elas, de prender nas suas asas a alma com a fita verde da esperança uma vez que não pode prender o corpo pesado de chumbo que mais tarde a terra há de achar tão leve como uma pena destruindo-o sem esforços nem piedade. E o nosso espírito artístico, batido pelas impetuosidades higiênicas das aragens frescas do mar, sente-se rejuvenescido, vitalizado, num renascimento e numa eflorescência de rosas brancas, como um viajante OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 287 eletrizado no forte ambiente de luz de uma purpureada aurora dos trópicos. Pela exuberância da cor e pela placidez da hora matinal a vida nas praias identifica-se com o sistema nervoso, aplica às espontâneas e disciplinadas organizações literárias uma ducha salutar de verve e de crítica – dessa crítica e dessa verve que nasce da tenra retina e da idéia muito passeada pelo grandioso panorama da natureza, sob uma rigorosa lente de observação e de análise em ordem. E, quando chegam as ameníssimas tardes enriquecidas pelas acesas e flamejantes pedrarias do ocaso, e que o tênue filó das nuvens leves e volantes se rarefaz e se adelgaça, é agradável, à viva percepção dos sentidos, é doce à delicadeza material do olfato e dos olhos ver passar para o banho as mulheres cor de jambo e cor de pérola, cujos perfis, movendo-se em flexões suaves e balanceadas, lá se vão mergulhar na onda clara, surgindo delas frescos, palpitantes e macios como a carne polposa, rosada e tenra das crianças cheirosas de vida e babadas do leite suspensas ao colo protetor e tépido das mães. Regeneração, 20 nov., 1887. Missal 290 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 ORAÇÃO AO SOL Sol, rei astral, deus dos sidéreos Azuis, que fazes cantar de luz os prados verdes, cantar as águas! Sol imortal, pagão, que simbolizas a Vida, a Fecundidade! Luminoso sangue original que alimentas o pulmão da Terra, o seio virgem da Natureza! Lá do alto zimbório catedralesco de onde refulges e triunfas, ouve esta Oração que te consagro neste branco Missal da excelsa Religião da Arte, esmaltado no marfim ebúrneo das iluminuras do Pensamento. Permite que um instante repouse na calma das Idéias, concentre cultualmente o Espírito, como no recolhido silêncio de igrejas góticas, e deixe lá fora, no rumor do mundo, o tropel infernal dos homens ferozmente rugindo e bramando sob a cerrada metralha acesa das formidandas paixões sangrentas. Concede, Sol, que os manipanços não possam, grotescamente, chatos e rombos, com grimaces e gestos ignóbeis, imperar sobre mim; e que nem mesmo os Papas, que têm à cabeça as veneráveis orelhas e os chavelhos da Infalibilidade, para aqui não venham, com solene aspecto abençoador, babar sobre estas páginas os clássicos latins pulverulentos, as teorias abstrusas, as regras fósseis, os princípios batráquios, as leis de Crítica megatério. E faz igualmente, Sultão dos espaços, com que os argumentos duros, broncos, tortos não sejam arremessados à larga contra o meu cérebro como incisivas pedradas fortes. Livra-me tu, Luz eternal, desses argumentos coléricos, atrabiliários, como que feitos à maneira de armas bárbaras, terríveis, para matar javalis e leões nas selvas africanas. Dá que eu não ouça jamais, nunca mais! a miraculosa caixa de música dos discursos formidáveis! E que eu ria, ria – ria simbolicamente, infinitamente, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 291 até o riso alastrar, derramar-se, dispersar-se enfim pelo Universo e subir, nos fluidos do ar, para lá no foco enorme onde vives, Astro, onde ardes, Sol, dando então assim mais brilho à tua chama, mais intensidade ao teu clarão. Pelo cintilar dos teus raios, pelas ondas fulvas, flavas, ó Espírito da Irradiação! pelos empurpuramentos das auroras, pela clorose virgem das estepes da Lua, pela clara serenidade das Estrelas, brancas e castas noviças geradas do teu fulgor, faculta-me a Graça real, o magnificente poder de rir – rir e amar, perpetuamente rir, perpetuamente amar... Ó radiante orientalista do firmamento! Supremo artista grego das formas indeléveis e prefulgentes da Luz! pelo exotismo asiático desses deslumbramentos, pelos majestosos cerimoniais da basílica celeste a que tu presides, que esta Oração vá, suba e penetre os etéreos paços esplendorosos e lá para sempre vibre, se eternize através das forças firmes, num som álacre, cantante, de clarim proclamador e guerreiro. 292 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 DOLÊNCIAS... Tu, na emoção desse encanto doloroso e acerbo da Arte, te sentirás, um dia, velho, fatigado, como um peregrino que percorreu ansiosamente todas as viassacras torturantes e perigosas. Essa maravilhosa seiva de pensamentos, toda essa púrpura espiritual, as vivas forças impetuosas do teu sangue, agindo poderosamente no cérebro, irão aos poucos, momento a momento, desaparecendo, num brilho esmaecido, vago, o brilho branco e virgem das estrelas glaciais. A tua alma será condenada à solidão e silêncio, como certas formosuras claustrais de monjas que brumalmente aparecem por entre as celas, deixando no espírito de quem as vê, quase que o mistério de um religioso esplendor... E, já assim emudecido e gelado para as nobres sensações do Amor, ficarás então como se estivesses morto – sem cabelos, sem dentes, sem nariz, sem olhos – sem nenhuma dessas expressões físicas que tornam os seres humanos harmoniosamente perfeitos. Em vão te recordarás da doçura de mãos aveludadas e brancas, da amorosa diafaneidade de uns olhos claros... As tuas Iedos, as tuas Lésbias e as tuas Aldas fluidamente te passarão na memória, alvas e frias... Por infinitamente tratar de idéias como de astros prodigiosos, sonhas-te com os opulentos, doirados prestígios da Glória; pensaste na Elevação como na solenidade augusta das montanhas. Mas, velho já, lembrarás um sol apagado, cuja forma material poderá persistir talvez ainda e cuja chama fecundadora e ardente se extinguirá para sempre... Não crer em nada, não sentir nada, não pensar nada, será a tua filosofia da senilidade. E, neste estado do ser, mais cruel que o Budismo, deixarás, como disse OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 293 Heine, que a morte vá enfim tapar-te a boca com um punhado de terra... No entanto, pela tua retina cansada, desfilará tudo o que tu outrora amaste com intensidade: os ocasos afogueados, de verberações de metal sobre o mar e sobre o rio. Os finos frios radiantes, de azul resplandecente. A Lua, como estranha rosa branca, perfumando o ar, derramando lactescências luminosas nos campos alfombrosos. Os navios, as escunas e os iates, todas as embarcações admiráveis, que fazem sonhar, balouçando nas ondas, em relevos nítidos, em gravuras esmaltadas ao fundo dos horizontes. Tudo o que pensaste, o que trabalhaste pela Forma, com nervos e com sangue; tudo o que te deixou despedaçado, na amargura das lutas com o estilo e com a frase, cantará saudosamente no teu peito, cantará grandioso, solene, como os Salmos de Salomão. Com essa natureza mística, quase religiosa, que possuis, o Mundo te parecerá uma catedral vastíssima, colossal, de bilhões e bilhões de torres de cristal, de safira, de rubi, de ametista, de ônix, de topázio e d’esmeralda. E, à hora longínqua de profundo luar glacial e imóvel, de cada uma dessas torres surgirá um espectro branco dos teus sonhos, como uma ronda fantástica, e os sinos plangentemente vibrarão ao mesmo tempo, com tristezas noturnas e lancinantes, por todo o sepulcramento dos teus Ideais. E tu, velho, embora, na torre verde d’esmeralda, ficarás egrégio, vencedor, imortal, eterno, só e sereno, ao alto, sob as estrelas eternas... 294 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 OCASO NO MAR Num fulgor d’ouro velho o sol tranqüilamente desce para o ocaso, no limite extremo do mar, d’águas calmas, serenas, dum espesso verde pesado, glauco, num tom de bronze. No céu, de um desmaiado azul, ainda claro, há uma doce suavidade astral e religiosa. Às derradeiras cintilações doiradas do nobre Astro do dia, os navios, com o maravilhoso aspecto das mastreações, na quietação das ondas, parecem estar em êxtase na tarde. Num esmalte de gravura, os mastros, com as vergas altas, lembrando, na distância, esguios caracteres de música, pautam o fundo do horizonte límpido. Os navios, assim armados, com a mastreação, as vergas dispostas por essa forma, estão como que a fazerse de vela, prontos a arrancar do porto. Um ritmo indefinível, como a errante, etereal expressão das forças originais e virgens, inefavelmente desce, na tarde que finda, por entre a nitidez já indecisa dos mastros... Em pouco as sombras densas envolvem gradativamente o horizonte em torno, a vastidão das vagas. Começa, então, no alto e profundo firmamento silencioso, o brilho frio e fino, aristocrático das estrelas. Surgindo através de tufos escuros de folhagem, além, nos cimos montanhosos, uma lua amarela, de face chata de chim, verte um óleo luminoso e dormente em toda a amplidão da paisagem. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 295 SOB AS NAVES Àquela hora, meio tarde no dia, não sei que compunção evangélica me assaltou, me invadiu a alma, que eu penetrei no templo iluminado. Altas naves sombrias pela névoa crespuscular da tarde, já em tons violáceos, abriam-se aos meus olhos, numa solene paz mística. Do alto do altar-mor vinha uma austera eloqüência de Religião, de Fé Católica, de Rito Romano. Velas amareladas e frias, de chama nobre e ardente, elevavam-se em tocheiros cinzelados, numa luz oscilante, trêmula às vezes por alguma momentânea aragem, como almas na indecisão do viver. Na capela do Santíssimo, rutilante de caros brocados e douraduras custosas, de fulgentes pratarias, de tons azulados e brancos de jarras esbeltas, uma lâmpada fulgurava, toda em esmaltes de prata, por entre a meia-tinta aveludada da hora, através do silêncio eucarístico, monástico da capela. Uma serenidade de força divinal, de majestade tranqüila, enchia o templo de um grande ar panteísta. Nos altares laterais, os santos, histerismos mumificados, no imortal resplendor das cousas abstratas, dos impulsos misteriosos que alucinam e por vezes fazem vacilar a matéria, tinham dolorosas e fortes expressões de luxúria. Eu sentia, sob aquelas rígidas carnes mortificadas, frêmitos vivos do sangue envenenado e demoníaco do pecado. E, de repente, não sei por que profana, tentadora sugestão, vi nitidamente Nossa Senhora descer aos poucos do altar, branca e muda, arrastando um manto estrelado, e, vindo anelante para mim, de braços abertos, dar-me, com os olhos claros de azul, profundos e celtas, infinitas, inefáveis promessas... 296 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Ah! naturalmente eu sonhara acordado, porque Tu, durante este meu sonambulismo de sátiro lascivo, subitamente entraste, trêfega, com vivacidades de pássaro, no templo iluminado; e eu então logo senti que os lindos olhos claros de azul que virginalmente se encaminharam para os meus, na ardência de um desejo, eram, por certo, os teus olhos, sempre meigos, sempre amorosos, ó luz, ó sol, ó esplendor dos meus olhos! OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 297 PAISAGEM Na colina da vila trepada no alto agrupam-se as casarias. Há sol. E na frente das casas caiadas de branco a luz vibra nervosamente, fazendo tremer a vista sob a crua irradiação da soalheira, como sob os flamantes bicos vertiginosos do gás da ribalta; enquanto que nas casas pintadas de amarelo e de vermelho quebra-se a forte intensidade da luz. Nestas ubérrimas regiões agricultáveis, de louras messes de produto, amanha-se a terra para a plantação da cana, da mandioca e do milho – do milho que nasce e cresce com as suas folhas compridas, flexíveis e largas como lustrosas, acetinadas fitas verdes. E vê-se agora, na grande extensão do campo, entre a verdura fremente de sol, a gente da lavoura, aplicada ao arado, ao alvião e à enxada – homens, mulheres e crianças, com os trajes da labuta, trabalhando e cantando queixas passadas que ecoam no ar tranqüilo, emprestando a essas paragens o pitoresco tom de vida de um desenho quente e colorido de leque chinês. Mais abaixo da roça, além de uma estreita ponte de pau-a-pique, que se atravessa a um de fundo, está o mar, fulgurante, profundamente calmo e liso, espelhando o céu, e cortado, às vezes docemente, por canoas à vela e a remo de voga que seguem para o mar grosso, ou por canoas a remo de pá que vão e voltam da pesca, cheias de peixe fresco que salta dentro, prateado e luzente, ainda vivo, com olhos vidrados de madrepérola, as guelras rubras e as barbatanas membranosas palpitando, no último anseio vão de se moverem na água. Ao lado direito da lavoura estão os engenhos de açúcar, de farinha e de arroz, com seu ar rústico, emadeirados de novo, no aspecto simples dessa vida rude do trabalho nos campos. Ao lado esquerdo há uma vasta eira de sólida argamassa de cimento romano, mandada fazer pelo 298 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 proprietário desses terrenos campestres e férteis, na qual se põem a secar, se debulham e limpam os cereais, pelo tempo das eiras, no outono, e onde os pequenos lavradores daqueles arredores brincam o Tempo-será, de cabeça nua ao fresco dos luares serenos que espalham grandes silêncios soturnos e misteriosos nas brancas estradas dos sítios. Quem anda por ali, nas estações primaveris, goza do panorama ridente da vila, refrescado de auras leves e puras, que vêm do mar; da resina que exalam as árvores à noite, salubrizando a atmosfera e dando às verdejantes campinas a frescura e a nitidez de uma gouache encantadora. E, quem for artista, e quiser percorrer ao longo da costa, até a uma gruta de pedras brancas, que ali há, formando um vulto agachado, ou ao longo da paisagem toda, nos descampados; ou ao comprido dos atalhos marginados de ervas agrestes e tufos de espinheiros abrindo em flor, ou ao direito do chão claro, arenoso e úmido das praias, há de sentir as mais pitorescas e vivas comoções da Natureza. De manhã, o gado que desce os vales, lento e dócil, aspirando a temperatura azotada, seguido pelo tropeiro que canta alegre no seu cavalo; os leiteiros, que vêm de longe, que passam para a cidade com o leite dentro de latas bojudas colocadas em paus que eles atravessam no ombro direito; as graciosas raparigas da roça, que levam a apascentar o rebanho das cabras monteses que saltam barrancos e carcavões, alígeras, lépidas, com os seus pequenos chifres pontudos, a Mefistófeles; os carros de boi, que chiam devagar, morosamente, na poesia do seu campestre ritmo simpático, atulhados de lenha e de cana rosa e guiados pelo campônio que vai na frente, munido de varapau, rosto grave e sóbrio, governando os benignos animais com a velha técnica arrastada e tremida na aspereza da voz – abençoada técnica que já vem de lá dos seus OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 299 antepassados e que os seus queridos filhos e netos, depois, mais tarde, quando ele fechar os olhos, terão de a receber também, intacta, sempre a mesma, saturada do íntimo perfume intenso do passado, como uma herança eterna. À tarde, o gado que volta de abeberar-se, de arejar no campo, ao suave ocaso do dia, quando tintas multicores se esbatem no fundo dos espaços côncavos; os leiteiros que voltam com a féria arranjada, pitando, ou de cigarro atrás da orelha, assobiando meigas cantigas que aprenderam na infância e que se fundem à melancolia, à dolência da loira luz que morre – quando, no cimo da encosta, após a última badalada saudosa do Angelus, apagam-se os esboços e os contornos dos horizontes, caindo então sobre a terra a neblina cinzenta do crepúsculo... 300 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 ASTRO FRIO Por entre celas místicas, silenciosas, lá te foste emudecer, para sempre, ó harmonioso e célebre pássaro do canto, nos pesados claustros. Cor de rosa e de ouro na iluminada sala dos teatros, trinavas para o alto inefavelmente, e, agora, não sei por que tormentosa paixão que te desolou um dia, ficaste infinitamente reclusa, sob os fuscos tetos de um convento, como uma rara rosa opulenta numa estufa triste, fugindo ao sol dos prados. Fria e muda, estarás, talvez, a estas horas, ajoelhada na capela de um Cristo glacial de marfim sagrado – branca, mais glacial e de mais branco marfim do que esse Cristo, com as níveas mãos de cera e a face também de cera macerada pelos jejuns e pelos cilícios, dentro de sombrias vestes talares. E, assim muda e assim fria, perpassarás como a sombra de um vivo afeto ou de um profundo sentimento artístico, ao frouxo clarão de âmbar das lâmpadas lavoradas. O teu alado perfil, as tuas linhas suaves, serão, no religioso crepúsculo da capela, como que a recordação do aroma, da luz, do som que tu para a Arte foste. Nos olhos, apenas uma centelha, uma leve faísca evidenciará o passado esplendor, o encanto que eles tiveram, quando amaram, cá fora no mundo, com as violências do desejo, com os ímpetos frenéticos, vertiginosos da carne. E os corações que te adoraram, que te ouviram outrora os incomparáveis gorjeios da garganta, que te sentiram a carnação formosa palpitando sob a vitória dos aplausos, ficarão saudosos e perplexos, ao ver-te agora assim para sempre enclausurada, para sempre gelada aos fulgores e sensações do mundo, mergulhada, enfim, na necrópole de um convento, como um astro através de frígidas e espessas camadas de neve... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 301 BÊBADO Torvo, trêmulo e triste na noite, esse bêbado que eu via constantemente à porta dos cafés e dos teatros, parara em frente do cais deserto, na alta, profunda hora solitária. Espadaúdo, de grande estatura, ombros fortes, como um cossaco, costumava sempre bater a cidade em marchas vertiginosas, na andadura bamba dos ébrios, indo pernoitar depois ali, perto das vagas, amigas eternas da sua nevrose. Um luar baço, enevoado, de quando em quando brilhava, abria, rasgando as nuvens, num clarão que iluminava amplas faixas de céu de um tom esverdeado, como folhagens tenras e frescas lavadas pela chuva. O Mar tinha uma estranha solenidade, imóvel nas suas águas, com uma larga refulgência metálica sobre o dorso. Da paz branca e luminosa da lua caía, na vastidão infinita das ondas, um silêncio impenetrável. E tudo, em torno, naquela imensidade de céu e mar, era a mudez, a solidão da lua... Junto ao cais, olhando as vagas repousadas, a taciturna figura do bêbado destacava em silhouette sombria. E ele gesticulava e falava, movia os braços, proferia palavras ásperas e confusas, como os tartamudos. Eu via-lhe as mãos, todo o corpo invadido por um convulsivo tremor, que não era, decerto, a desoladora e enregelada doença da senilidade. O seu aspecto, ao mesmo tempo piedoso e feroz, traduzia a expressão terrível que deixa o bronze inflamado da Dor calcinando naturezas nervosas e violentas, Trôpego, espectral, fazia pensar, pela corpulência, na massa formidanda de um desses ursos 302 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 melancólicos, caminhando aos boléus, como que numa bruma de pesadelo... Os seus grandes olhos d’árabe, muito perturbados pelo álcool, tinham o brilho amargo de um rio de águas turvas e tristes. Era talvez um desses seres nebulosos, gerados do sangue aventureiro e venenoso de uma bailarina e de um judeu, sem episódios pitorescos, frescos e picantes de alegria e saúde. Um desses seres tenebrosos, quase sinistros, a quem faltou um pouco de graça, um pouco de ironia e riso para florir e iluminar a vida. Alma sem humor – essa força fina e fria, radiante, que deu a Henri Heine tanta majestade. No entanto, quanto mais eu observava esse fascinado alcoólico, pasmando instintivamente, na confusão neblinosa da embriaguez, para as ondas adormecidas na noite, mais meditava e sentia as profundas visões de sonâmbulo que lhe vagavam no cérebro, as saudades e as nostalgias. Porque o álcool, pondo uma névoa no entendimento, apaga, desfaz a ação presente das idéias e fá-las recuar ao passado, levantando e fazendo viver, trazendo à flor do espírito, indecisamente, embora, as perspectivas, as impressões e sensações do passado. Nos límpidos espaços nem um movimento, um frêmito leve de aragem perturbava a harmoniosa tranqüilidade da noite clara, por entre os finos rendilhamentos prateados das estrelas. Mais amplo, mais vasto e sereno ainda, o silêncio descia, pesava na natureza, sobre os telhados, que pareciam, agrupados, aglomerados nos infindáveis renques de casas, enormes dorsos escuros de montanhas, de elefantes e dromedários. Sobrepujando, avassalando tudo, com expressões misteriosas da Idade Média, as elevadas torres das igrejas, como vigias colossais de granito, eretas para o OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 303 firmamento na luminosa sonoridade do luar, tinham a nitidez dos desenhos. E a luz do astro noturno e branco, da Verônica do Azul, fria, congelada de mágoas, envolvia a face atormentada do bêbado como num longo sudário de piedades eternas... 304 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 SABOR Os ingleses, fidalgo entendimento de artista, para significar – o melhor – dizem na sua nobre língua de prata: the best. O que os ingleses chamam the best é finamente o que eu quero exprimir com a palavra – sabor – que, para a requintada espiritualidade, marca alto na Arte – filtrada, purificada pela exigência, pelo excentrismo da Arte. Após a delícia frugal de um lunch de frutas silvestres e claros vinhos, numa colina engrinaldada de rosas, quando o sol sob nuvens aparece e desaparece, numa confortante meia-sombra de luz, não é apenas o gozo das frutas e dos vinhos que te fica saboreando no paladar. O asseado aspecto do dia levemente frio, agulhante nas carnes, o ouro novo do sol em cima, a cor bizarra, correta do verde luxuoso, o gelo fresco e cristalino nas taças sonoras espumantes de líquidos vaporosos, e o viçoso encanto de formosas mulheres, rindo em bocas de aurora e dentes de neve – toda essa impressionante, alegre palheta de pintura à água, aflora num esplendor de gozo a que tu bem podes chamar o raro sabor das cousas. A clarividência na atitude dos perfis que a essa hora pintalgam a paisagem de colorido variado, o aroma que de tudo vem e que de tudo sobe para a serenidade azul, o ritmo simpático do momento, a lassitude branda de nervos, que engolfa as idéias numa larga felicidade amável – como em amplos coxins de arminho – todas essas preciosas maneiras e pitorescos estilos que dão linha, grande tom ao viver, fazem, enfim, que de tudo se experimente um radiante, aguçado sabor. Não basta, pois, o paladar. Esse, apenas, materializa. Não é, portanto, suficiente, que se sinta o sabor na boca, que se o examine, que se o depure, que OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 305 se o saiba distinguir com acuidade, com atilamento. É necessário, indispensável que, por um natural desenvolvimento estético, se intelectualize o sabor, se perceba que ele se manifesta na abstração do pensamento. Para mim, as palavras, como têm colorido e som, têm, do mesmo modo, sabor. O cinzelador mental, que lavora períodos, faceta, diamantiza a frase; a mão orgulhosa e polida que, na escrita, burila astros, fidalgo entendimento de artista, deve ter um fino deleite, um sabor educado, quando, na riqueza da concepção e da Forma, a palavra brota, floresce da origem mais virginal e resplende, canta, sonoriza em cristais a prosa. Para a profundidade, a singularidade de todo o complexo da Natureza, o artista que sente claro entende claro, pensa claro, saboreia claro. 306 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 LENDA DOS CAMPOS Por uma doirada tarde azul, em que os rios, após as chuvas torrenciais, sonorizavam cristalinamente os bosques, os camponeses de uma vila risonha, numa unção bíblica, conduziam ao tranqüilo cemitério florido o loiro cadáver branco de uma virgem noiva, morta de amor, tão bela e tão nova, emudecida no féretro, como se tivesse acabado de nascer da rosada luz da manhã. Infantil ainda, viera outrora da Alemanha, através de castelos feudais, de montanhas alpestres, de árvores velhas e enevoadas... E, então, desde o dia da sua morte, uma lenda espalhou-se, como a dos Niebelungen, em todas aquelas cabeças ingênuas, rudes e humildes. Ela era a deusa fantástica, a visão encantada dos antigos palácios medievais de vidraçaria gótica, onde as rainhas mortas apareciam, brancas ao luar, à flor dos lagos e rios, suspirando toda a tragédia histérica dos convulsivos amores passados, que os ventos de hoje como que ainda melancolicamente repetem... Era a monja das ameias dos castelos feudais, graves e solenes, cheios de névoas alemãs, atravessados de fantasmas que fazem mover alvas e longas clâmides de linho no ar neutralizado da meia-noite... E, por altas horas, em certos dias, ao luar, a imaginação apreensiva dos homens e mulheres do campo, via uma virgem loira, de ignoto aspecto de ondina mágica, surgir do solo entre exalações fosforescentes, o coração traspassado de flechas inflamadas, arrastando soturnamente pela areia luminosa uma vasta túnica branca, os cabelos de sol soltos para trás, candidamente pálida, cantando a canção sonâmbula do túmulo e desfolhando grandes grinaldas de flores de laranjeira, cujas frescas e níveas pétalas cheirosas redemoinhavam, agitadas por um vento frio – pelo vento gelado e soluçante da Morte... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 307 NOCTAMBULISMO Enquanto, fora, na noite, gralha, grasna e grulha o Carnaval em fúria, vai, Mergulhador, rindo para o espaço a tua aguda risada acerba. Os luminosos lírios das estrelas desabrocharam já nos faustosos brocados do Firmamento, como que para ritmar em claras árias de luz a tua torva risada triste. Apavora-te o Sol flamejante, eterno, na altura infinita. Não queres a aflitiva evidência do sol, que tudo põe num relevo brusco, que pinta as chagas de vermelho, faz sangrar as dores, perpetuar em bronze o remorso. Amas a sombra, que esbate os aspectos claros, esfuminha os longes, turva e quebra a linha dos corpos. Queres a noite, longas trevas amargas que confundam máscaras hediondas de Gwimplaines com faces louras de deusas. Noite igualmente deliciosa e dilacerante que te anule para os sentimentos humanos, que te disperse no vácuo, dissolva imortalmente o espírito num som, num aroma, num brilho. Noite, enfim, que seja o vasto manto sem astros que tu arrastes pelo mundo a fora, perdido no movimento supremo da Natureza, como um misterioso braço de rio que, através fundas selvas escuras, vai, por estranhas regiões, sombriamente morrer no Mar... A noite tem, para a tua delicada sensibilidade, o majestoso poder de apagar-te dos olhos esses sinistros animais terríveis que babujam ao sol e desfilam, diante de ti, na truculenta marcha cerrada de pesadas massas formidandas. Enquanto, pois, lá fora, o Carnaval em fúria gralha, grasna e grulha, num repique macabro de guizos jogralescos, uivando uma língua convulsiva e exótica de duendes e noctâmbulas bruxas walpurgianas, prendete, ó deus do Tédio, Mergulhador dos Mediterrâneos da Arte! às imensas asas da fria águia negra das amplidões – a Noite – e ri, ri! sob as claras árias de luz das Estrelas, a tua venenosa risada em fel e em sangue... 308 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 NAVIOS Praia clara, em faixa espelhada ao sol, de fina areia úmida e miúda de cômoro. Brancuras de luz da manhã prateiam as águas quietas, e, à tarde, coloridos vivos de ocaso as matizam de tintas rútilas, fiavas, como uma palheta de íris. Navios balanceados num ritmo leve flutuam nas vítreas ondas virgens, com o inefável aspecto das longas viagens, dos climas consoladores e meigos, sob a candente chama dos trópicos ou sob a fulguração das neves do Pólo. Alguns deles, na alegre perspectiva marinha, rizam matinalmente as velas e partem – mares a fora – visões aquáticas de panos, mastros e vergas, sobre o líquido trilho esmaltado das espumas, em busca, longe, dos ignotos destinos... À tarde, no poente vermelho, flamante, dum rubro clarão de incêndio, os navios ganham suntuosas decorações sobre as vagas. O brilho sangrento do ocaso, reverberando na água, dá-lhes uma refulgência de fornalha acesa, de bronze inflamado, dentre cintilações de aço polido. Os navios como que vivem, se espiritualizam nessa auréola, nesse esplendor feérico de sangue luminoso que o ocaso derrama. E mais decorativos são esses aspectos, mais novos e fantasiosos efeitos recebem as afinadas mastreações dos navios, donde parece subir para o alto uma fluida e fina harmonia, quando, após o esmaecer da luz, a ViaLáctea resplende como um solto colar de diamantes e a Lua surge opaca, embaciada, num tom de marfim velho. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 309 EMOÇÃO Não sei que estranho frisson nervoso percorre-me às vezes a espinha, me eletriza e sensibiliza todo como se o meu corpo fosse um harmonioso teclado de cristal vibrando as sonoridades mais delicadas. Um ombro aveludado e trescalante a frescuras aromáticas, que pelo meu ombro levemente roce na rua, num encontro fortuito, produz-me um estado tal de volúpia, dá-me tão longa, larga volúpia, que me vejo por entre incensos, festivamente paramentado como o sacerdote que ergue o cálix acima da cabeça, ao alto do Altar-Mor dos templos doirados, sentindo que uma aluvião de almas crentes o adora de joelhos. A mão fina, ideal, calçada em luva clara, de formosa mulher que por entre a multidão aparece e desaparece, como uma estrela por entre nuvens, bem vezes, também, me alvoroça e agita o sangue. E sigo, radiante, triunfal, rei, essa nobre mão enluvada, à qual eu em vão pediria o ouro, a riqueza afetuosa de um gesto carinhoso – a essa delicada mão avara e milionária que, para mais avara tornar-se ainda, se fora esconder na maciez elegante da luva fresca, vivendo dentro dela afagada, confortada, palpitando talvez por encontrar a mão feliz que vibrará de amor ao seu contacto. Então, assim, a emoção que desperta todos os meus sentidos, no curioso giro que faço com o pensamento acompanhando a feminina mão fidalga, não é uma emoção de indiferença, por certo, mas uma emoção de despeito. Estranhamente, como uma força hercúlea que me prendesse à terra, chamando-me à iniludível Realidade, desço das inauditas, siderais regiões a que subira. Vejo-me logo, então, profundamente vencido no tempo, e, no meu rosto, à maneira dos fundos sulcos que as charruas abrem nos campos, imprevistas rugas 310 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 se evidenciam, como se eu tivesse de repente envelhecido um ano. Da Dor, bem poucas vezes sinto só o que ela tem de selvagem, de rugidora. Emoções delicadas, sutis, que me doem também fundo na alma porque me melancolizam, deixam-me um ritmo de música, uma afinada dolência de suavíssimos violinos, e que por fim delicia. É como se alguém vibrasse de brando as cordas dum instrumento e ele, trêmula, amorosamente, ficasse a gemer no mais meigo, no mais doce dos dedilhados acordes... A emoção é que me faz amar os eucaliptos, altos, afilados, contorcidos convulsamente, como a dor dum gigante. É ainda essa mesma emoção que me faz perceber e ouvir o misterioso som dos metais: o claro riso diamantino da Prata e o trovejante rumor do Bronze. O que o mundo chama fatalidades, negras e assoberbantes catástrofes, como um incêndio, não posso bem com nitidez dizer que emoção me causa. Realmente, num incêndio, todas aquelas chamas são maravilhosas! Não sei que raro, que estupendo Rembrandt veio de surpresa encharcar de um rubro violento, sanguinolento e flamejante, todo aquele belo edifício que, há pouco, era um rendilhado palácio ou uma igreja gótica, um Louvre em pompas ou um faiscante chalet d’esmalte. E não sei até como todas essas chamas, formando miríades de fantasmagorias, ilusionismos, entre os quais às vezes perpassa a deliciosa cor azulada, aveludada, de poncheiras colossais, não devoraram logo tudo a um tempo! Têm sido, talvez, benévolas, piedosas demais as chamas, porque há já bastantes horas que o fogo alastrou, minou, rastejou como um verme de incêndio, pelos alicerces do edifício e só agora é que os travejamentos OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 311 desabam, as paredes caem, como se fossem de cera, milhares de fogozinhos correm eletricamente como microscópicos insetos luminosos pelo luxuoso papel das paredes, enquanto todo o resto da madeira estala e range, num craque-craque seco, caindo desmantelada como os mastros e vergas de um navio que se afunda na fúria dos oceanos, sob o rijo estourar das tormentas. Alucinamento, nevropatia, embora, eu não sei bem, na verdade, se um incêndio me apavora ou me delicia – o que sei é que intimamente me sobreexcita. Também o Mar, a emoção que experimento ao vêlo, verde, amplo, espelhado, dá-me uma saúde virgem, uma força virgem. Sinto o gozo repousante de sondá-lo, de descer à imensa e profunda necrópole gelada onde uma florescência de algas vegeta; e, ao mesmo tempo, diante do Mar, sinto o peito alanceado da incomparável saudade de países vistos através do caleidoscópio da imaginação, dos sonhos fantasiosos – países lindos e felizes, floridos trechos de terra, ilhas tranqüilas, províncias loiras, simples, de caça e pesca, onde a sombra amorosa da paz benfazeja fosse como uma sombra doce, protetora, de árvore velha, e onde, enfim, a Lua tudo imaculasse numa frescura salutar de pão alvo... A emoção, a sensibilidade em mim, quase sempre desperta uma meditativa amargura, uma grande e mística dolência do passado, que enevoa tudo – como o indefinido mistério perfumado dessas soberbas mulheres de Versailles, carnações fidalgas e perfeitas que estremeceram de luxúria e apaixonadamente amaram pelos velhos parques abandonados, rojando sobre a areia sonora das alamedas a cauda astral das vestes de Deusas. 312 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 OS CÂNTICOS No templo branco, que os mármores augustos e as cinzeluras douradas esmaltam e solenizam com resplandecência, dentre a profusão suntuosa das luzes, suavíssimas vozes cantam. Coros edênicos inefavelmente desprendem-se de gargantas límpidas, em finas pratas de som, que parecem dar ainda mais brancura e sonoridade à vastidão do templo sonoro. E as vozes sobem claras, cantantes, luminosas como astros. Cristos aristocráticos de marfim lavrado, como fidalgos e desfalecidos príncipes medievos apaixonados, emudecem diante dos Cânticos, da grande exaltação de amor que se desprende das vozes em fios sutilíssimos de voluptuosa harmonia. O seu sangue delicado, ricamente trabalhado em rubim, mais vivo, mais luminoso e vermelho fulge ao clarão das velas. Dir-se-ia que esse rubim de sangue palpita, aceso mais intensamente no colorido rubro pela luxúria dos Cânticos, que despertam, ciliciando, todas as virgindades da Carne. Fortes, violentas rajadas de sons perpassam convulsamente nos violoncelos, enquanto que as vozes se elevam, sobem, num veemente desejo, quase impuras, maculadas quase, numa intenção de nudez. E, através da volúpia das sedas e damascos pesados que ornamentam o templo, das luzes adormentadoras, dos perturbadores incensos, da opulência festiva dos paramentos dos altares e dos sacerdotes, das egrégias músicas sacras, sente-se impressionativamente pairar em tudo a volúpia maior – a volúpia branca dos Cânticos. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 313 FULGORES DA NOITE Desce um desses crepúsculos violáceos em que parece errar no espaço a enevoada música das casuarinas... Envolvem gradativamente a imensidade os veludos negros da Noite. Num céu frio d’inverno, que umas mais frias estrelas esmaltam pouco a pouco, começa prodigiosamente a surgir a Lua, alta e misteriosa, lembrando baladas. Dias d’ouro, ricos e raros, resplandeceram já com o Sol na luxúria verde da folhagem. E agora, o luar, que veste as noites de noivas, desdobra suntuosamente as suas tules delicadas e os seus luxuosos cetins brancos, imaculados. Fecundam-se os grandes campos, quietos na nívea luz da Lua, no clarão que dela jorra, dormente e doce. E os animais, que repousavam na amplidão dos viçosos gramados, gozam tranqüilos um sono brando, acariciador, como que produzido pela amorfinada claridade da Lua límpida e profunda. As águas, as frescas águas das fontes e rios, as largas águas dos mares serenamente adormecem, num esplendor cristalino. Apenas uma surdina leve que sai delas, como um leve ressonar, lhes denuncia, no silêncio claro da noite, a natureza sonora. E enquanto a rumorosa paisagem, todos os frementes impulsos do dia calam-se, em redor, na noite, a lua e as estrelas amorosas acordam e brilham, num recolhimento de Santuário, todas de branco, como virgens para a primeira comunhão. 314 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 PSICOLOGIA DO FEIO Peters, esse humorismo ao mesmo tempo alucinante e alado; o pessimismo paradoxal de Alphonse Karr e Gustavo Droz, tão semelhantes nas linhas gerais; todo aquele pungente, doloroso, estranho Livro de Lázaro, de Henri Heine, tudo isso, fundido numa cristalização de lágrimas e sangue, como a flamejante e espiritualizada epopéia do Amor, exprimiria bem, talvez, a noite da tua psicologia negra, ó soturno, ó triste, ó desolado Feio! Tu vens exata e diretamente do Darwin, da forma ancestral comum dos seres organizados: eu te vejo bem as saliências cranianas do Orango, o gesto lascivo, o ar animal e rapace do símio. As tuas feições, duras, secas, quase imobilizadas em pedra, puxadas, arrepanhadas num momo, como a confluência interior dos desesperos e das torturas, abrem-se rebeladamente num sarcasmo, ao qual às vezes uma gesticulação epiléptica, nevrótica, clownesca, faz impetuosa brotar a gargalhada das turbas, enquanto a tua voz coaxa e grasna, numa deprecação de morte, com ásperas e surdas variabilidades ventríloquas de tons. O teu horror não é deplorável só, não causa só piedade – mas é um obsceno horror – e as abas compridas e esfrangalhadas duma veste que te fica em rugas, em pregas encolhidas de largura nesse teu corpo esquelético, e que parece a mortalha dalgum hirto cadáver que houvessem desenterrado – as esquisitas abas dessa veste, sob o chicote elétrico do vento, alçam-se em vôo, deblateram por trás de ti, ansiosas, aflitas, puxando-te, num arrebatamento histérico, como se fossem fúrias tremendas que te quisessem arrojar pelos ares, num delírio de darem-te a morte. Outras vezes, porém, lembram as asas de um grande morcego monstro, imensas e membranosas, causando asco nauseante e enchendo tudo duma OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 315 sinistra treva lugubremente cortada de arrepios e esvoaçamentos medonhos. Árvores frondentes e undiflavadas de sol, onde os pássaros cantem; rios gorgolejantes de cristais sonoros; vivos e iluminados vergéis em flor; campos verdes, afogados na verdura tenra, como estofos de veludos e sedas rutilosas e orientais, não são já para a tua alegria, recuada agora no fundo das nostálgicas neblinas da torturante desilusão de seres Feio. Os perpétuos gelos do Volga e do Neva para sempre rolam, em densas camadas, sobre o teu coração; e, aí, tudo o que dele se aproxima, outros corações que te buscam, outros afetos que te procuram, perdem todo o calor, resfriam logo, inteiramente ficam gelados já diante da tangibilidade gwimplainesca da tua fealdade. Só eu, numa suprema hora de spleen, de esgotamento de forças psíquicas, em que me falte extensamente o humor – essa radiosa bondade hilariante do Espírito – te idolatro e procuro, ó lascivo Feio! que na luxúria pantagruélica dos vermes devoras na treva os sonhos – porque não os podes alimentar, nem ver florir, nem crescer! sem que a diabólica verdade flagrante esteja a rir do teu amor e a pintar picarescamente caricaturas na quase apagada perspectiva da tua existência. Só as artísticas sensibilidades nervosas, vibráteis, quase feminis podem amar-te; enquanto que as individualidades ocas, estéreis, áridas, duras, sem vibração sensacional, sem cor, sem luz, sem som e sem aroma, fugirão para sempre de ti como à repelência asquerosa de um putrefato. Entretanto, eu gosto de ti, ó Feio! porque és a escalpelante ironia da Formosura, a sombra da aurora da Carne, o luto da matéria doirada ao sol, a cal fulgurante da sátira sobre a ostentosa podridão da beleza pintada. Gosto de ti porque negas a infalível, a absoluta correção das Formas perfeitas e consagradas, conquanto 316 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 tenhas também, na tua hediondez, toda a correção perfeita – como o sapo, coaxando cá embaixo na lodosa argila, tem, no entanto, a repelente correção própria de sapo; – como a estrela, fulgindo, lá, em cima, no precioso Azul, tem a serena e sidérea correção própria d’estrela. Por uma espécie apenas de schopenhauerismo é que eu adoro-te, ó Feio! e quereria bem rolar contigo nesse Nirvana de dúvida até à suprema aniquilação da Morte, vendo surgir, como de lagos de quimeras, em estalagmites de neve, diante de mim, sombrios e álgidos pesadelos de mulheres amadas: pálidas Ofélias, Margaridas louras, Julietas atormentadas, visões, enfim, como nas tragédias de Macbeth ou a nevoenta Visão germânica do Graal. Numa seda negra d’Arte, vestidos de negro, à semelhança desse trágico Hamlet da Dinamarca, iríamos os dois, através dos largos e profundos cemitérios silenciosos, consultar as rígidas caveiras das virginais Ilusões que se foram, e que, à nossa aproximação, sorririam, talvez, felizes, como se lhes levássemos a palpitante matéria animada dos nossos corpos para cobrir, fazer viver as suas galvanizadas carcaças frias. Mas ah! eu quisera bem, por vezes, também, ter o rude materialismo analítico de Büchner, que, certamente, não sentiria por ti, ó Feio! esta extravagante, excêntrica, singular influência mórbida que nas funções de meu cérebro vem, contudo, como doença amarga, um tédio amarelo e pesado de chim que o ópio estuporou e enervou. Não houvesse dentro em mim, através das Ilíadas do Amor, das Bacanais do Sonho, um sentimento melancólico ao qual o pensamento dá uma expressão de enfermidade psicológica, e eu não arrastaria a tua sombra, não andaria preso ao teu esqueleto, ó soturno, ó triste, ó desolado Feio! OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 317 VITALIZAÇÃO Há uma irradiação larga e opulentíssima nos ares. O esbraseamento do sol do fim da tarde dá fortes verberações quentes à paisagem, que resplandece, e de cuja vegetação estuante de calor parecem rebentar as raízes túmidas de seiva como veias imensas latejando de sangue oxigenado e vivo. Nessa elaboração enorme da Terra que procria e fecunda, na gestação desses mundos que, como astros, gravitam talvez em cada grão de areia, pululando e vibrando, a Natureza é como uma grande força animada e palpitante dando entendimento e sentimento à Matéria e fazendo estacar a vida no profundo ocaso da Morte. E daí a pouco, a Lua, através das matas do vale, anelante e álgida, surgirá, rasgará d’alto as nuvens no céu, acordando os aromas adormecidos, cristalizada, vagarosa e tristemente, como uma dor que gelou... 318 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 GLORIA IN EXCELSIS Num recolhimento sugestivo, como se o meu espírito estivesse longinquamente a orar nalguma velha abadia, penetrei na catedral em festa. Não sei quê de nevoento, vago, dolente e nostálgico me invadira de repente e por tal forma que eu fui como que sonambulamente à solenidade. Todo o templo, ornamentado, resplandecia, numa imponência, numa augusta suntuosidade, a que o grande esplendor das luzes dava majestades romanas. A onda humana, compacta, densa, mumurejava, numa compunção. Alvuras de incenso envolviam como que em brumas imaculadas, em flocos matinais de neblinas, o vasto recinto da igreja. Lustres imensos pendiam pomposamente da abóbada branca, numa infinidade de pingentes que tiniam e cintilavam como polidas, facetadas lâminas metálicas, num brilho molhado. Do coro, para o alto, os instrumentos de corda choravam, salmodiavam, num crescendo de notas, através dos vivos metais sonoros. Eram excelsos, eram egrégios aqueles sons sacros, religiosos, que subiam para as naves à maneira que os incensos subiam. No peito, como numa urna de cristal, o coração batia-me, pulsava-me, anelante, na ânsia, na vertigem de vê-la por entre todo aquele confuso e amplo borboletear de cabeças. E, quando houve um alegre e diamantino tilintar de campas e o sacerdote elevou no cálix o Vinho Sagrado, o coração, como estranho pássaro de sol, fugiu-me do peito, num alvoroço, arrebatado, maravilhado na grande luz do templo, em busca dos olhos dela, que de repente me fitaram, longos, negros e veludosos, quando, por entre níveas névoas d’incenso, o Gloria in Excelsis, exalçando OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 319 os Evangelhos, triunfava nas vozes e levantava um festivo rumor no templo. E foi, para o meu coração lancinado de amor, como se Ela, naquele instante, me trouxesse toda essa Glória luminosa nos olhos... 320 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 PÁGINA FLAGRANTE Inflamados de sol, como pássaros no esplendor da aurora, partiam ambos a digressões singulares, por manhãs alegres, da alegria impulsiva e bizarra dos Halalis de caça. Uma virginal exalação de leite, um aroma finíssimo de lilás e rosa errava pelos prados sãos e férteis, na grande luz alastrante e germinadora da primavera. Na franqueza heróica da força que a expansão vigorescente da Natureza lhes infiltrava, experimentavam ambos uma sensação aguda de espiritualidade, um eletrismo de idéias, que os agitava, dava-lhes intensa vibratilidade, uma embriaguez fascinante de acre aticismo mental, por entre os radiantes orientalismos da luz. E eles partiam nervosamente, alvoroçados, finos, fulgurantes, como sob a impressão da alta e convulsionante música wagneriana. De uma abundante e luxuriosa vegetação psíquica, enclausurados na Arte como numa cela, lá iam sempre nessas continuadas batidas, nesses verdadeiros assaltos ao Ideal, num fausto de Império Romano, arrebatados pela grande borboleta iriante, fugidia e fascinadora da Arte. Vinham então os livres exames, os amplos golpes de Crítica, ao fundo e ao largo, através dos turbilhões luminosos do sol. Quase feroz, cheio de bárbaros venenos e ao mesmo tempo untuoso como os inquisidores, um deles fazia vagamente lembrar a urze das montanhas áridas, sobre a qual, entretanto, o Azul canta de dia os hinos claros do sol e à noite a amorosa barcarola da lua e das estrelas. O outro recordava também, pela sua exótica natureza perpetuamente envolta numa bruma de mistério, um Cristo célebre de Gabriel Marx, corpulento, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 321 viril, de aspecto igualmente aterrador e piedoso, que vi uma vez numa galeria... Organizações dúbias, obscuras, de acridão agreste, que representam, na ordem animal, o que representa, para as camélias e para as rosas, o cróton. E aquelas duas almas, intelectualmente impulsionadas, abriam-se em chamas altas, aos deslumbramentos da sua estesia. As idéias fulgiam, cabriolavam, penetravam todo o arcabouço do assunto, tomavam formas, aspectos estranhos, macabros; e era tal a intensidade, a veemência com que brotavam do cérebro, que pareciam viver, radiar, ter cor, vibrar. A verve esfuziava, mentalizada pela Análise, pela Abstração e pela Síntese; sátiras frias, cortantes como rijos e aguçados cutelos, espetavam capras a carne tenra, viçosa, próspera, de S. Majestade Imbecil; e, para supremamente assinalar todas as surpresas e elevação do Entendimento, uma psicologia rubra, flamante, sangrava, sangrava em jorro, torrencialmente sangrava. E eram boutades maravilhosas, a charge leve, pitoresca, ferretoando, zumbindo sobre os homens circunspectos, que passavam, o andar solene, ritmado, em cadência, como na marcha das procissões. E Ambos riam, riam, numa risada sonora e forte, como se festins cintilantes, bacanais, triclínios, todas as vermelhas orgias do Espírito, lhes cantassem cristalinamente no riso. De repente, como uma pausa repousadora nesse crepitante incêndio de verve, penetravam sutilmente, com delicadezas extremas, nos pensamentos mais curiosos, mais sugestivos, nos amargos dolorimentos e pungências latentes da Arte. Diziam cousas aladas, quase fluidas, que determinavam a abstração do ser que os animava e floria; tinham essa percepção, esse entendimento profundo, tanto luar como sol, que explica, mais ainda do que o 322 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 que se perpetua em flagrância num livro, a poderosa força criadora, a ductilidade, a emoção e a contensão nervosa de raras naturezas artísticas. Refletiam que certo modo de colocar, de pôr as mãos, de certas mulheres, lhes fazia longamente considerar, meditar nas monjas... Pensavam que no mundo há naturezas tão excêntricas e nebulosas que, pelas condições complexas em que se encontram na vida, precisariam de uma filosofia nova, original, para determiná-las. Eram como que existências eriçadas de abetos alpestres, carnes que se rasgavam, se despedaçavam... As rosas pareciam-lhes belezas opulentas, pomposas, da Inglaterra... E todo o universo estava agora tão atrozmente perseguido por tédios mortais, que os homens já naturalmente falavam em morrer como quem fala em viajar ou em rir... Quanto à Arte queriam que a expressão, que a frase vivesse, brilhasse, sonora e colorida, como um órgão perfeito. Que tudo o que dissessem ficasse imperecível, eterno, perpetuado no Espaço e no Tempo, com os sons que os circundavam, a cor, a luz, o aroma que os atraía. As palavras deveriam ser, para se eternizarem, cravadas no ar límpido, como num forte cristal de rocha. Era a ânsia dos requintes supremos, a exigência das formas castas, que os fascinava, que os seduzia, tentava como nudez formosa de mulher virginal. Tudo, enfim, na Arte, deveria ficar luminoso e harmonioso, como um cantar d’astros. E lá caminhavam, inquietos, vertiginosos, no esplendor matinal, que os alagava e fecundava, como um prodigioso rio de ouro e diamantes, terras maravilhosas e produtivas. Iam à conquista das Origens verdes, das puras águas brancas da Originalidade, dentre o vibrante OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 323 alarido de cristal dos seus temperamentos austrais, ardentes e sangrentos. Como orquestrações largas, sinfonias vivas de emoção e idéias, rompiam dia a dia nessas batidas frementes, numa transcendência de princípios e sentimentalidades – talvez no íntimo dolorosos, lancinados pelo Miserere das Ilusões elevadas. E, muitas vezes, já alta madrugada, sob o sereno e suave adormecer das estrelas alvorais, não era sem uma derradeira Apóstrofe à soberana Chatice que essas duas existências chamejantes se separavam, num grande clarão espiritual de afetos. Então, um deles, numa aclamação, num gesto singular e profético, arrojava, além, para os séculos, esta charge infernal, suprema: – A divina Estupidez, a onipresente Imbecilidade ficaria eterna, ao alto, junto às nuvens, sobre uma estranha Babel de milhões de degraus de bronze, como num trono colossal, bufando e roncando, a dominar as imensidades, fantasticamente, onipotentemente guardada por cem mil esquadrões ferozes, monstruosos e formidáveis, de hipopótamos e búfalos!... 324 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 TINTAS MARINHAS Mar manso, pelo fim da tarde. O ouro fulvo dos horizontes no ocaso a pouco e pouco esmaece. Pela manhã chovera; mas em antes do pôr-do-sol o dia levantara e as perspectivas úmidas e frescas embebem-se agora no eflúvio salutar das marés. No espaço há uma grande acumulação de nuvens áureas e róseas, dum forte colorido de silforama. Para além, da outra banda do mar, a faixa larga e prateada da praia, em curvas, coleando, está de uma extrema doçura e nitidez inefável. A retina mal pode apanhá-la. Os olhos pestanejam, nas infinitas vertigens e nos prismas visuais sutis e cambiantes de míope, diante do encanto dos tons da luz leve, rarefeita, espiritualizante e fina como um tecido tenuíssimo. Há em toda a marinha um aspecto amável, uma suavidade de aquarela d’après nature, quase êxtase... Dá um esplêndido efeito à visão óptica e um revigoramento humorado às faculdades artísticas, este belo trecho sadio e agradável de vagas, em cuja superfície a luz frouxa da tarde se encarrega, com as suas pinceladas de fantasista, de fazer as mais extravagantes e rendilhadas decorações. O mar, aquietado, sereno, está de um verde glauco ativo e salgado, convidando a viajar, e, sobre ele, navios balouçantes, embarcações, soltas como aves, de delicadas formas artísticas, com afinidades abstratas de certas linhas fugidias de um perfil de mulher, conservam então, como lenços de adeuses, as suas velas brancas estendidas, os seus panos a secar da chuva da manhã. Balançam-se um pouco, numa cadência harmônica, num ritmo musical, com os altos mastros erguidos para o céu em posição de vigia. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 325 E, assim, com os mastros e as velas, na aglomeração das adriças e dos cabos, os navios fazem vagamente lembrar, na calma da tarde, enormes e estranhas plantas de ornamentação. Ao fundo, na recortada e esfuminhada linha das montanhas, uma queimada faz evolar para os ares o seu azulado penacho de fumo. E, no meio da pitoresca delícia da marinha alegre e lavada, de um acre sabor de azote, uma ou outra gaivota esvoaça, além, num vôo incisivo, rápido, ou pousa junto aos líquens ou junto às algas, mergulhando e roçando na vítrea vaga a nevada plumagem de arminho. Então, de toda a paisagem, larga, aberta, revigorativa e cheia de um grande ar primitivo de virilidade, vem um sopro intenso, confortador e pagão de Heroísmo e de Mocidade, fazendo inflar o peito, e um sentimento anelante e virgem de pesca, no bravo Mar Alto, entre tropicalismos primaverais de sóis sangrentos e de dias azuis, sobre as rasgadas ondas murmurejosas. 326 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 ESMERALDA No fundo verde da tela avulta em claro uma Cabeça macilenta, dolorosa, como que envolta num albornoz branco. Toques da mesma cor garça põem-lhe leves nuances nos cabelos, nos olhos cismativos, anelantes, que têm a expressão de um desejo nômade... Desse cromatismo de tons verdes idealizou o artista o nome da sua viva cabeça imaginária — que parece uma dessas fisionomias raras que só naturezas especiais sabem distinguir e amar, uma dessas cabeças de mulheres singulares que a dolência da paixão enervante calcinou e turvou de dores. Do golpe rubro da boca escapa-lhe um sentimento de amargor, que a travoriza e acidula, como se um acre veneno ardente lhe estivesse sangrando os lábios. E essa boca, assim em golpe rubro, purpurejada por um vinho secreto de ilusão antiga, destacando álacre no palor do rosto frio, como que excita aos beijos, turbilhões de beijos como de chamas... E descendo da boca aos seios alvos de lua, a imaginação vai fantasiosamente compondo todo o corpo de Esmeralda e despindo-o à proporção que o vai compondo, despindo-o e gozando a carne cor de papoula. E, as tintas, na tela, vivendo da impressionabilidade artística que um pincel de mão original e nervosa lhes infiltrou, como que exprimem, no colorido e no ideal da contemplativa Cabeça, a emoção vaga, aérea, de alguma formosa e amada Esmeralda virgem, perdida e morta dentre as verdes pedrarias do Mar solene... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 327 FIDALGO Pé esguio, fino, leve, a Mefistófeles, para galgar, não já a Roma pomposa e purpúrea, enflorada em glórias; nem mesmo já até a Grécia estóica, de ouro e de mármore; mas para supremamente galgar as regiões infinitas e virgens da deslumbrante Originalidade. Colorido de graça, madrigalesco e maravilhoso, a luva negra vestindo a mão real de loiro e fantasioso Excentrista, a face meditadora e branca voltada para as Estrelas, donde surgiriam as leis transcendentes da Arte, penetrarias os pórticos suntuosos de palácios d’esmeralda e safira, subindo por escadarias de prata e pérola. E, prodigiosamente, em sedas e ouros de luz, aí te perpetuarias nos Azuis imortais da Eternidade, onde o Espírito deve ter, não a claridade coruscante e clarinante do Sol mas o brilho de paz, de incomparável repouso são da Lua sonele e sonolenta. A tua Obra, vasta e fecundadora, seria então singularmente traçada em panos mais largos que os de tendas de desertos e mais alvos ainda do que as neves imaculadas. Com um fio d’astro cinzelarias, darias esmaltes indeléveis e marchetarias idéias, como um tecido d’estrelas, liriais e siderais. E para que a correção inteira, a harmonia perfeita irradiasse na Obra, em luz mais clara, um pássaro estranho, verde, cor de brasa, branco, azul, conforme o tom do teu Ideal, cantaria, gorjearia em ruflagens d’asa ao alto da tua nobre cabeça fidalga, como que para te ritmar as idéias. E tu, como um deus mítico, afinarias pelo ritmo inefável do canto os pensamentos delicados da grande Obra, até produzires nela a harmonia, a cor, o aroma. Músicas excelsas e tristes, como uma combinação de roxo e azul profundo, dariam frêmitos, vibrações às 328 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 tuas páginas, que ficariam vivendo como o Som, perpetuamente. Bonzos, Manitus, não gralhariam e grasnariam jamais em torno do teu ser abstrato e tranqüilo, feito para florir, cantar e resplandecer. Como as pérolas guardadas em cofre do Oriente, envoltas em areia do Mar Vermelho, para não perderem o raro esplendor, a tua Obra, coroada pelas rosas triunfais da Originalidade, ficaria afinal, ó Fidalgo da Arte! envolta nos mistérios do Sol, egregiamente cantando e chamejando, na helênica resplandecência da Forma. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 329 ANGELUS Um sol em sangue alastra, mancha prodigiosamente o luxuoso e largo damasco do Firmamento. Opulentos, riquíssimos esplendores de púrpuras luminosas dão uma glória sideral à tarde. E, pela sugestão cultual, quase religiosa da hora, os deslumbrantes efeitos escarlates do grande astro que desce, d’envolta com douramentos faustosos, fazem lembrar a magnificência romana, a ritual majestade dos Papas, um festivo desfilar católico de bispos e cardeais, através dos resplandecentes vitrais do Vaticano, com os báculos e as mitras altas, sob os pálios aurilavrados. Embalsamam a tarde aromas frescos, sãos, purificadores, como que emanados da saúde, das virgindades eternas. Um ar olímpico, talvez o sopro vital de mares verdes e gregos, eterifica harmoniosamente a curva das montanhas, ao longe, contorna-as, recorta-as, dá-lhes a nitidez, o esmalte do aço. Como que a Natureza, nesse esmaecer do dia, tem mocidades imortais e como que as forças, as origens fecundas da terra, desabrocham em rosas. O rubente esplendor solar gradativamente smorza num cor-de-rosa leve, de veludosa suavidade. Serenamente, lentamente, uma pulverização neblinosa desce das amplidões infinitas... Névoas crepusculares envolvem afinal a imensidade, no recolhimento, na paz dos ascetérios. Os campos, as terras da lavoura, a vegetação dos vales e das colinas adormecem além, repousam num fluido noctambulismo... Por estradas agrestes pacificadas na bruma, uma voz de mulher, dispersa no silêncio, clara e sonora, canta amorosamente para as estrelas que afloram rútilas e mudas. Canta para as estrelas! e parece que a sua voz, errante na vastidão infinita, vai inundada do mesmo perfume original que a alma viçosa e branda dos vegetais exala na Noite... 330 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 NÚBIA Amar essa núbia – vê-la entre véus translúcidos e florentes grinaldas, Noiva hesitante, ansiosa, trêmula, tê-la nos braços como num tálamo puro, por entre epitalâmios; sentir-lhe a chama dos beijos, boca contra boca, nervosamente – certo que é, para um sentimento d’Arte, amar espiritualmente e carnalmente amar. Beleza prodigiosa de olhos como pérolas negras refulgindo no tenebroso cetim do rosto fino; lábios mádidos, tintos a sulferino; dentes de esmalte claro; busto delicado, airoso, talhado em relevo de bronze florentino, a Núbia lembra, esquisita e rara, esse lindo âmbar negro, azeviche da Islândia. O seu sangue quente, aceso em púrpuras de luxúria, através da pele sombria e veludosa, recorda avermelhamentos de aurora dentre uma penumbra de noite, como o deslumbramento boreal das regiões polares... No entanto, amar essa carne deliciosa de Núbia, ansiar por possuí-la, não constitui jamais sensação exótica, excentricidade, fetichismo, aspiração de um ideal abstruso e triste, gozo efêmero, afinal, de naturezas amorfas e doentias. Senti-la como um desejo que domina e arrasta, querê-la no afeto, para fecundá-lo e flori-lo, como uma semente d’ouro germinando em terreno fértil, é querer possuí-la para a Arte, tê-la como uma página viva, veemente, da paixão humana, vibrando e cantando o amor impulsivo e franco, natural, espontâneo, como a obra d’arte deve vibrar e cantar espontaneamente. Crescida, desenvolta aos poucos no meio culto, entre relações de simpatia inteligente e harmônica, sob um sol saudável de cuidados, de apuro de tratos e de maneiras, que tornou mais leve e penetrante, iluminando, o seu cérebro simples, de ignorância ingênua, a Núbia abriu em flor de carícia, alvorou com a OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 331 doce meiguice dos tipos galantes e preclaros de mulher e recebeu também, em linhas de conjunto, do mesmo meio onde desabrochou, essa suavidade e graça núbil que é todo o encanto vaporoso, aéreo, do ser feminino. No seu rosto oval, de uma penugem sedosa de fruto sazonado, há, por vezes, certa expressão de melancolia, de cisma dolorosa, que punge e contrista; o tênue, já quase apagado raio errante de uma lembrança vaga – como se Ela de repente parasse na existência e se sentisse no vácuo, perdida e só nos caminhos desolados, desertos, de onde veio outrora, sem leito e em lágrimas, a caravana gemente da sua raça... Então, nesses momentos em que um dolorimento secreto, misterioso, a conturba e magoa, Ela parece serena divindade aureolada de martírios, macerada de prantos; e é talvez bem pequeno, bem frágil todo o amor do mundo para proteger, para amparar, como que numa redoma sagrada de Misericórdia, essa humilde criatura que o fatalismo das forças fenomenais da Natureza condenou à indiferença gelada e à desdenhosa ironia das castas poderosas e cultas. Assim, adorá-la em compunção afetiva, trazê-la no coração como relíquia rara num relicário estranho, claro é que não significa banal emoção transitória, que o rude desdém da análise fria pode, apenas com um golpe brusco, extinguir para sempre. Essa emoção, esse amor, cada vez mais profundo e espiritualizante, penetra impetuoso no sangue como a luz e o ar, deliciando e ao mesmo tempo afligindo como a Idéia e a Forma igualmente deliciam e afligem... E, nem mesmo, no fundo íntimo de qualquer ser tocado de uma intuição maravilhosa da origem terrestre da felicidade podem resplandecer, mais do que a Núbia, as belezas de neve da Escócia e da Irlanda ou as formosuras originais e flagrantes da Armênia e da Circássia. 332 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Tudo ela possui de luminoso e perfeito, como a noite possui as Estrelas e a Lua, visto e sentido tudo através da harmonia espiritual, da alta compreensão requintada e subjetiva de quem a ama e deseja. A sua alma, de forma singela e branca de hóstia, tem ritmos de bondade infinita, meigas claridades brandas e consoladoras de piedade e enternecimento, e a sua voz sonorizada, com a vivacidade nervosa e o alado timbre argentino, claro e fresco, de um gorjeante cristal de pássaro, derrama por toda a parte a música emocionante, sugestiva e curiosa, de violino afinado... E nenhum peito dedicado de nobre dama medieval nobiliárquica será mais gentil e dedicado que o seu peito, donde jorra, com firmeza e força, em onda original, talvez manado dessa simpleza de obscuridade, um inefável sentimento verdadeiro e virgem como o tenro broto verde dos arbustos. Ela é a Núbia-Noiva, singular e formosa, amada com religioso fervor artístico, com a fé suprema, a unção ritual dos evangeliários do Pensamento; e todo esse feminino ser precioso brota agora em exuberâncias de afeto, em pompa germinal de extremos lascivos, floresce em rosas juvenis e polínicas de puberdade, abertas sexualmente nos seios pundonorosos e pulcros... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 333 SOM Trago todas as vibrações da rua, por um dia de sol, quando uma elétrica corrente de movimento circula no ar... Mas, de todas as vibrações recolhidas, só me ficou, vivendo a música do som no ouvido deliciado, a canção da tua voz, que eu no ouvido guardo, para sempre conservo, como um diamante dentro de um relicário de ouro. Cá está, cá a sinto harmonizar, alastrar em som o meu corpo todo, como flexuosa serpente ideal, a tua clara voz de filtro luminoso, magnética, dormente como um ópio... Muitas vezes, por noite em que as estrelas marchetam o céu, tenho pulsado à sensação de notas errantes, de vagos sons que as aragens trazem. As fundas melancolias que as estrelas e a noite fazem descer pelo meu ser, da amplidão silenciosa do firmamento, dão-me à alma abstratas suavidades, vaporosos fluidos, sinfonias solenes, misticismos, ondas imensas de inaudita sonoridade. E, calado, na majestade sombria da Natureza, como num religioso recolhimento de cela, vou ouvindo, esparsos na vastidão, smorzando nos longes, entre redondos tufos escuros de folhagem, onde se oculta alguma luxuosa existência de mulher, inebriantes sons de peregrinas vozes ou de invisíveis instrumentos. E os sons chegam, vêm até mim, na estrelada tranqüilidade da noite, frescos e finos, como através de rios claros que nevassem ou de vagas embaladoras que o frio luar prateasse. E eu penso, então, nessas simpáticas, corretas atitudes e expressões da música. Vejo, na nitidez de cristal do pensamento, a harpa, sonora asa de ouro, com as cordas tensas, dedilhada por brancas mãos aristocráticas que arrancam dela 334 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 frêmitos, soluçantes dolências, plangências incomparáveis. Escuto a pompa, a imponência sonorizante de um órgão de catedral, quando, pelas altas naves, sobem rolos alvos de incenso, e, o sol, fora, com as flechas dos raios, constela de astros microscópicos as polidas e góticas vidraçarias. Ou, pressinto ainda, num fidalgo salão do tom, onde os perfis ostentam valorosidades de linhas ducais e a luva impera galantemente, a assinalada elegância dos concertos da graça, quando os violinos, zurzinando notas que esvoaçam do arco resinado às cordas retesadas, zumbindo e ruflantemente, prendem-se à voz que resplende, triunfa na sala, sonorizando-a e iluminando-a mais que os fúlgidos lustres e os candelabros facetados, como se, da garganta de quem cantasse, a aurora alvorecesse e vibrasse. E cuido logo ver uma mulher – alta, beleza grega, formas esculturais primorosamente cinzeladas. A cabeça, de uma discreta severidade de deusa, pousa-lhe no rico, abundante torso inteiriço do corpo forte. Há uns meigos tons louros no aveludado cabelo que, por entre a luz, mais louro e aveludado brilha. De pé, ereta, o perfil nitidamente marcado, no meio da cauda astral da veste de seda rara, ela desprende, evola a voz da garganta de aço novo e essa espiral de voz revoluteia no salão, fica algum tempo aquecendo e sonorizando o ar... Como um astro, essa voz flameja, palpita e gira na iluminada órbita da sala cheia da multidão que a escuta, e, como um astro, cai, fulgurando, semelhante a exalações meteóricas, no fundo do meu ser como num golfo... Nobremente, pela cadência do canto, o corpo da imaginária mulher tem certas flexões delicadas e OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 335 eletrismos de gata voluptuosa, e o seio, fremente da melodia que o emociona, se afervora e pulsa. E a voz ala-se, ala-se, gorjeada, arrulhante, trinada, ave de luz harmoniosa que ela enfim solta do aviário do peito. Todos esses dulçurosíssimos efeitos musicais me impressionam singularmente, distribuindo por mim a mais aguda vitalidade mental, que me sensibiliza os nervos da atenção, como se todo eu me achasse sob uma atmosfera salutar e tonificante. Ou, então, cobrem-me também de opulências, de gloriosas soberanias, as vivas forças orquestrais, onde perpassam ruídos largos de floresta, clarins, inefáveis, misteriosas melodias de pássaros. Mas, do som, da música, não me exalça, não me enleva só o ritmo leve, educado, que deixa uma suavidade acariciando, bafejando o ouvido como um perfume bafeja, acaricia o olfato. Ficam-me nos sentidos, nos nervos, calafrios sutis, ligeiros narcotismos, pequeninas vibrações que, não sei de que rútila chama, parecem faiscar... E começo, após um engolfamento de sons profundos, a ter penetrabilidades intensas, estranhas emoções que me despertam infinita série de fatos já gelados no tempo, como passadas fases de lua. Evidenciam-se-me idéias, impressões, sugestões curiosas, certos obscuros estados mórbidos da alma, que em vão a espiritualidade humana tenta transplantar para os livros, mas que só o ritmo aviventa, levanta aos poucos da nebulosa das existências, como um sol sempre amado, mas já antigo, já velho, remotamente apagado nos sentimentos... 336 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 GATA De neve, de uma maciez de arminho e lactescência de neve, de uma nervosidade frenética, era luxuosa, principesca, decerto, essa orgulhosa gata. As esmeraldas dos seus olhos claros fosforeavam sensualmente, eletricamente, quando alguém, no conforto da casa, lhe acarinhava de manso o dorso, o focinho tenro, polposo, espiguilhado de prateados fios sutis; e, no seu lindo pêlo cetinoso e alvo, como numa fresca e virginal epiderme de mulher aristocrata, perpassava um frisson de ternura, um estremecimento, como se em toda ela vibrasse alguma fibra de espiritual e amoroso. E era então fidalga nas sensações, no ronronar apaixonado, ao luar, sob o cintilante cristal das estrelas, pelas caladas vastidões da noite, ou, nas horas de sesta, nos quentes, enlanguescedores mormaços, preguiçosa e fatigada, anelando o repouso, numa onda de gozo e volúpia, enroscada, serpenteada, torcicolosa e convulsa, como um organismo suave e débil que um vivo azougue eletriza e agita. Talvez fosse a alma de alguma vaporosa rainha que ali vivesse nesse precioso animal, alguma misteriosa visão polar dentro daquele feltro branco, daquela pelúcia rica, daqueles flocos eslavos; algum sonho, enfim, errante, vago, perdido nesse nobre exemplar felino de formas lascivas, flexuosas e delicadas. Às vezes, mesmo, ela errava, como a nômade que perde a rota da caravana pelos desertos escaldados de sol, em busca de alimento; e os seus olhos, penetrantes no verde úmido e agudo das luminosas pupilas, mais até fantasiosa a tornavam e mais nevoeiro davam à sua lenda de fadas. E assim, arminho girante, que as quatro veludosas patas faziam fidalgamente caminhar, miando histérica, era como uma sonâmbula idealizada e amante que OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 337 soluçava e gemia implorativamente a sua dor, através de aposentos, na indiferença de quase todos. Um dia, porém, uma doce mão feminina e perfumada quis tê-la junto de si e levou-a consigo para a tepidez e a pompa das alcovas cheirosas, vivendo com ela ao colo, passando-lhe os íntimos alvoroços do seu sangue de Virgem – como se a gata fosse um profundo seio de afagos a que ela confiasse todos os seus mistérios e segredos de Noiva ainda presa no claustro cerrado, como as monjas normandas, da carne inquietante e alucinadora. Agora, com a formosa seda do pêlo vibrando à carícia, alta e feliz a cabeça artística, vive nesse colo impoluto, em sonhos deliciosos e gozos infinitos de orientalista, o belo exemplar felino, branco, voluptuoso e dolente como a luz embalada e cismando, imaculadamente, no seio azul das Esferas. 338 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 DIAS TRISTES Apesar do sol, que imensa tristeza para certos seres, que dias tristes, esses, de uma melancolia e dolorosa névoa... Os ruídos todos, o esplendor da luz, convergindo em foco para o coração, deslumbram, fascinam de modo tal e tão profundamente, que o abatem, infiltrando-lhe essa tristeza infinita que se não define e que está, como um fundo de morbidez, nas almas contemplativas e nômades, que vão armar a sua tenda nas desconhecidas e longínquas paragens abstratas do Pensamento. Dias tristes, muita vez, os dias de sol. Mergulhado o espírito na onda profunda de desejos irresistíveis, como numa intensa e luxuriosa paixão, os aspectos que se lhe manifestam na Natureza são amargos, atravessados dessa pungência aflitiva, dessa magoante desolação e atormentadora ironia que há na essência de todas as cousas e idéias. E, como o pensar dá uma grande tristeza, põe no cérebro uma incomparável tortura, o Pensamento, à evidência da luz, na alegria do sol, deixa-se possuir de um nervosismo triste, de um meio luar turvo e trágico de impressões agudas, dilacerantes. Os dias tristes, para raras naturezas intelectuais, são quase sempre os dias triunfantemente alegres, sonorizados de pássaros, quando há uma alta irradiação no ar, um repouso, uma paz feliz em toda a vegetação e que o sol, numa vitória astral, vai, como um deus pagão, em festins de luz... Como que filtros de dolorimento partem de todas essas luminosidades, todo esse fulgor solar verte uma nostalgia cruciante, que fere e fende o peito, incisivamente, como as flechas letalmente envenenadas dos hindus. Quanto a mim, amargamente sinto esses dias tristes. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 339 À larga luz de um templo vasto, na suntuosidade de uma festa católica, quando pela infinidade de rutilantes lustres acesos há facetas de estrelas, íris fulgurantes e pelos douramentos dos altares borboleteiam faíscas, acendem-se chamas nas velas amareladas, e vozes flébeis, numa compunção religiosa, sobem para as naves com a vaporosidade dos brancos incensos, dentre mósicas festivas – um angustioso anseio me insufla, me enche infinitamente o peito. E, batido de uma pungência, vibrado de uma recordação, alanceado por uma idéia, subitamente, para logo, toda a aparente radiação de alegria foge e eu me vejo então dentro dos meus dias tristes e que alguém, dos longes do Passado, acena-me, ou com um lenço amoroso, para as recônditas e virgens emoções do coração, ou com uma bandeira de combate, para as impulsivas faculdades do cérebro. Se um riso me aflora aos lábios, nervosamente; se uma verve satânica os inflama; se uma esfuziante sátira os eletriza, é ainda assim uma maneira de ser triste, apunhalante sarcasmo às tempestades mentais que se dão por dentro – humorismo doente, que para se convencer de que é alegre e de que é são, flori em rosas de riso, abre em Via-Láctea de riso. O esplendor das salas iluminadas, na abundância de cristais e flores, entre auroras de mulheres e luxuosas roupagens, dá-me também, a pouco e pouco, um abatimento, um afrouxamento aos nervos e daí nasceme logo, como uma tentaculosa planta negra e de morte, essa indescritível tristeza, que é a feição ingênita de tudo, que cobre tudo como que de uma neblina crespuscular sensibilizante... Assim, também, ao almoço, pelas claras manhãs, quando a toalha branca da mesa, as flores das jarras, o pão, o vinho, a atitude correta das pessoas, a limpidez simpática da hora, fazem lembrar resplandecências, alvuras castas, paramentações de altar para a evangélica 340 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 celebração da Missa, um sentimento de inexplicável tristeza me invade, nascido de toda essa disposição harmoniosa de objetos e de pessoas. E, abstratamente, como num nebuloso sonho, durante toda a alimentação desenrola-se lenta, vagarosa e fluida no meu ser, uma surdina oceânica que parece estar, na plangência de sons abafados, lembrando todas as abundantes fontes de afeto que para mim já para sempre secaram, todos os astros prodigiosos de enternecedor carinho que para mim já eternamente se apagaram. Mas, esses dias tristes, as horas, os momentos desses nevoeiros d’alma, tão densos, tão cerrados, nascem apenas de uma Visão que se adora, que nos abre inefavelmente os braços, que o espírito ama no seu recolhimento, na sua cela sombria e muda! essa Visão seráfica, nervosa, histérica, ideal – a Santa Teresa mística da Arte. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 341 PAISAGEM DE LUAR Na nitidez do ar frio, de finas vibrações de cristal, as estrelas crepitam... Há um rendilhamento, uma lavoragem de pedrarias claras, em fios sutis de cintilações palpitantes, na alva estrada esmaltada da Via-Láctea. Uma serenidade de maio adormecido entre frouxéis de verdura cai do veludo do firmamento, torna a noite mais solitária e profunda. O Mar, pontilhado dos astros, faísca, fosforesce e rutila, agitando o dorso glauco. E, de leve, de manso, um clarão branco, lânguido, lívido, vem subindo dos montes, escorrendo fluido nas folhagens, que prateiam-se logo, como se fabuloso artista invisível as prateasse e as polisse. A lua cheia transborda em rio de neve na paisagem, e, no mar, há pouco apenas fagulhante da inação das estrelas, a lua jorra do alto. Por ele a fora, pelo vasto mar espelhado, pequenas embarcações se destacam agora, alígeras, lépidas, à pesca da noite, velas brancas serenas, sob a constelação dos espaços. A água repercute, na amorosa solidão do luar, a barcalora sonora dos pescadores, que, de entre a glacial amplidão da água, mais fresca e sonora, vibra. Um aspecto de natureza verde, virgem, que repousa, estende-se nos longes, desce aos prados, sobe às montanhas e infinitamente espalha-se nas mudas praias alvejantes. E, à proporção que a lua mais vai subindo o páramo, à proporção que ela mais galga a altura, mais as pequenas embarcações de pesca avançam nas vagas resplandecentes, com as asas das velas abertas à salitrosa emanação marinha. Com o brilho fúlgido, aceso, d’esmeralda facetada, uma estrela parece peregrinamente acompanhar de perto a lua, num ritmo harmonioso... 342 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Perfumes salutares, tonificantes eflúvios exalamse da frescura nova, imaculada dos campos, como dum viçoso e casto florir de magnólias, na volúpia da natureza adormecida numa alvura de linhos, dentre opulências de Noivados. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 343 ARTISTA SACRO Na catedral, com toda a pompa da liturgia, celebrase a Semana Santa. Pela Ressurreição, às quatro horas da manhã, há na igreja um ar vago de alvorada, em amarelo cidrento, trazido da rua pela larga e polida vidraçaria que se conserva aberta – ar menos vago, contudo, do que a névoa que turva fora os aspectos, em virtude dos lustres acesos, da variada profusão de luzes e da gala sagrada que enche de resplandecências e solenidades toda a extensa Nave onde os devotados católicos murmurejam num crescendo de mar tormentoso e cavado... O Altar-Mor está vistosamente ornado, deslumbrante, viçando de flores colocadas em jarras azuis e douradas, numa frescura e colorido cromático de jardim, rodeado de grandes tocheiros arabescados que faíscam, flamejam com chamas ensangüentadas e amarelas. Em cima, até onde os olhos sobem mais, num trono de luzes, entre uma pesada cortina de damasco vermelho, de tons profundos, caída para os lados em pregas longas e largas, vê-se o Cristo, na alegoria de Redivivo, com a chaga simbólica no flanco direito, tendo numa das mãos um ramo verde. Nos altares laterais os Santos como que ainda mostram possuir a auréola triunfal da Aleluia, sorrindo seraficamente, quer os mártires, quer os gloriosos. Pelo teto abobadado, dentre as melífluas harmonias, as melancólicas sonoridades dos violinos, das flautas, dos violoncelos e do órgão pianíssimo, ecoam majestosas as vozes que irrompem do coro, beatíficas, no Kirie Eleison. Os sacerdotes, festivamente paramentados, com as suas casulas custosas, relampejantes, bordadas a flores de ouro, em alto-relevo; de estolas rutilantes e franjadas pendidas no braço ou com as sobrepelizes alvas 344 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 e rendadas destacando forte na batina preta, curvamse genuflexos diante do Altar-Mor, erguendo-se após com mesuras graves e medidas, enquanto os acólitos, ao fundo, em linha e reverentes, fazem balançar, cadenciada e ritmadamente, turíbulos lavorados, de onde se exalam espiralados incensos... E o Cerimonial prossegue, na minudência exata, escrupulosa do Rito romano. Mas, nas suntuosidades da festa, ressalta de magnificências, esmaltadamente, um esbelto sacerdote novo e formoso, talhado em estátua branca, e que ergue no meio das outras vozes, a sua clara voz sonora, cheia de unção religiosa como de um sentimento amoroso e carnal. Chegado há pouco de Roma é essa a primeira cerimônia de mais estilo em que toma parte com o seu tipo amável, doce e misericordioso, amantíssimo, de São Luís Gonzaga. A sua linda cabeça suave, direita, correta, através da vaporosidade incensal, domina pela saúde e pela mocidade, que resplende no rosto liso, escanhoado, onde os olhos brilham com raios místicos... O seu porte ornamental, que parece afirmar o poder de uma força divina, conserva-se aprumado, ereto; e, quando a voz se lhe desprende untuosa dos lábios, como que ele paira num resplendor espiritual, vaga num nimbo etéreo, cercado por alas de querubins inefáveis e de arcanjos de asas fulgentes... De toda essa pessoa clerical como que vêm fluidos magnéticos, que fascinam e prendem certo olhares juvenis femininos, que a seguem, que a buscam em todas as direções, em todos os movimentos, sofregamente, deliciados da sua prodigiosa figura que ali naquele recinto sagrado tão imperiosamente e tão alto se destaca, como que revestida de poderes celestes. E o sacerdote instintivamente percebe os êxtases, os enlevos que despertam nas mulheres belas, porque OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 345 dá então mais nitidez às mesuras, requinta nas curvaturas solenes, fica mais excelso e egrégio ainda, deixando escapar com brandura um sorriso paradisíaco, que é talvez a promessa sacrossanta dos dons maravilhosos, das graças, do Perdão infinito que a sua onipotência consegue. Nas suas mãos aristocráticas, delicadas e níveas como hóstia, sente-se, quando ele as eleva no ritmo do Cerimonial, um ligeiro estremecimento amoroso, que o embaraça, fazendo com que logo, para apagar essa impressão pecadora, exagere o Rito, afetadamente. Os olhares femininos, deslumbrados pelo êxito daquelas maneiras evangélicas, não deixam jamais de seguir o airoso sacerdote, as linhas harmoniosas da sua figura, o seu másculo vigor de deus viril e vitorioso, como seguem, no circo, os movimentos ágeis, dúcteis, e a plástica, firme e forte, dos corpos cinzelados de acrobatas célebres e atraentes... Realmente, na sua carne, que os incensos perfumam, circula o sangue em labareda de instintos sexuais e a sua cabeça primaveril, que a Arte da Religião abençoou em Roma, tem o encanto, a fascinação diabólica, satânica, da venenosa cabeça da Serpe bíblica. Mas, o decorativo apóstolo, resplandecendo nas vestes talares, imponente, magistral, faz simbolicamente lembrar, assim venerado pelas mulheres, com fervor beatífico, um Sultão em palácios, no Bósforo, como AbdulAzid, amado por odaliscas e sultanas. De vez em quando, no templo, passam fios etéreos de harmonias de instrumentos e cânticos, que ondulam, que flutuam no ar... E o Eclesiástico, numa volúpia sacra, com toda essa Arte ritual de símbolos, de missais, de eucaristias, de pálios, de pedras de ara, de corporais, de âmbulas, de santos óleos, de chamalotes, lavrados e damascos, íris, lhamas de prata e ouro, recebe a opulência, o brilho feérico, o luminoso esplendor de um astro. 346 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 De lá, do seu sólio real de aparatosos efeitos, entre sedas, chamas e pedrarias, ele rege, com renomes episcopais, solene e sereno, a sinfonia das eternas Dulias. É o ateniense das formas católico-romanas, triunfando no idealismo de um gótico, de um medieval, através de cinzeluras de templos, com refulgências siderais de constelado... Casto cenobita, recluso nas celas do Cristianismo, ficará, talvez, para sempre, com elanguescimentos histéricos, na muda contemplação das cismadoras Imagens liriais dos hagiológios. Ou, batido das realidades carnais, sentindo a avidez das paixões terrestres, verá passar, ante os olhos mortificados na marmórea veneração de Jesus, à luz de círios ou de lâmpadas, violentamente, a visão cor-derosa das virgens vitais – fina, transparente epiderme da gaze auroral das papoulas. Então, dirá decerto ao mundo, extasiado por essas vivas expressões carnais que o transfiguram e humanizam, todos os mistérios, todos os inauditos clarões da Eternidade, que Ele, Artista Sacro, transcendentalmente conhece, lendo sempre, para dar mais abstração ao Miraculoso, os arcaicos latins apocalípticos e antifônicos... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 347 VISÕES Num brilho cintilante de tiara persa a Via-Láctea encurva-se do alto por sobre mim, nas alvas flores cristalinas das suas estrelas. Encurva-se por sobre mim a pompa negra da noite densa, vagamente lembrando o luminoso esplendor de uns olhos dentre a pompa negra de aromados cabelos. Como em arejados pátios claros de castelos renanos desfilassem visões germânicas, willis enamoradas e vaporosas, sílfides serenas e encantadoras, ao luar das baladas, de cada estrela frígida, branca, desfila, vai desfilando nas rutilantes esferas uma Ilusão e um Sonho e cada Sonho e cada Ilusão se corporifica, toma consistência de nervos e cinzelada escultura de linhas, e eis então aí fascinadoras, deslumbrantes mulheres avassalando o firmamento, como ampla Via-Láctea de corpos ondulantes e níveos... * * * * * * * * * * Ah! mulher que eu procuro e desejo da tenda nômade da Arte, peregrina e fugidia sereia! que as harmonias deliciosas da tua carne não sejam como são, misteriosas para mim como a Via-Láctea, a cujas estrelas, que representam cada uma, uma Ilusão e um Sonho, está infinitamente presa, num amoroso eletrismo, esta alma ardente, alanceada e nervosa... 348 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 A JANELA Dava para o mar a larga janela verde, em frente às águas também verdes e turbilhonantes às vezes, outras limpidamente quietas, num remanso de golfo sereno. Velas saudosas de navios, enfunadas ao impulso das correntes aéreas; mastreações caprichosas e confusas, misteriosamente interrogando o céu; os montes, ao fundo, formando panoramas álacres com os seus cabeços azulados e colossais, e a grandeza olímpica das ondas fechadas pela natureza numa extensa área de terreno, tudo gozava e sentia além viver a janela; e, ao longe, na indefinida barra dos horizontes esfuminhados, a linha vaga, melancolizada, das imensas distâncias intermináveis... Dum lado e doutro da janela, subindo-a, galgandoa festivamente em caracóis negligentes, a expansão, a nevrose vegetal da folhagem trepadeirante que busca em ânsias o ar... Rosas vermelhas e rosas jaldes alastravam numa primaveral e casta alegria radiosa de Via-Láctea, o quadrado verde da janela, enquanto amorosamente um jasmineiro florido, entrelaçado às rosas, com flores alvas e cheirosas desabrochadas em forma de pequeninas estrelas, punha um encanto romântico e noival de janela de Julieta na larga janela verde que dava para o mar. E as embarcações, os iates, os navios, os paquetes paravam no mar dormente e do mar dormente partiam, lá iam todos a fora – ambulância marinha, dorso de tritões ferozes e soturnos, vogando na superfície das ondas... Iam talvez perto: a países meridionais, sob céus elegantes e azuis, ou – mundo a dentro – às eternas neves glaciais das geleiras do Pólo: às regiões setentrionais das flamejantes auroras boreais: a Islândia, a Lapônia, a Noruega, por entre as frias e brancas estalactites fulgurantes da lua... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 349 Em frente à janela eram terrenos desapropriados e planos, que um rente folhedo luxuriosamente cobria. Depois era o mar, sempre o mar, todos os dias, a toda hora, a todo o instante, cortando, no entanto, com a monotonia do seu aspecto, a agreste monotonia daqueles sítios suaves. Mas, contudo isso, o mar nenhuma monotonia parecia inspirar, porque dava à janela, àquele original recanto, àquele desconhecido retiro isolado, aberto na parede como o nicho de uma Santa, a recordação de todo o vasto ruído atordoante e culto da vida de longe: os rumorosos cais frementes, as movimentosas cidades alegres, os grandes portos febris de efervescente efusão cosmopolita de mil exemplares de povos. Pela manhã, aparecia à janela, como um lindo sol feminino, uma bela mulher, forte, alta, loura, de flavos cabelos, talhada dum golpe numa quente e perfumosa massa de luz e de sangue, clara da epiderme macia e clara dos rendados vestidos em fofos e folhos que lhe afogavam soberbamente a garganta bourbônica, arrematados por fitas de azul leve e doce graciosamente enlaçarotadas sobre o sedoso colo oválico. E logo os seus olhos azuis como as fitas, da mesma meiga frescura e candidez de hóstia transparente, pareciam adejar, voar, como dois pássaros inquietos e deslumbrados, pela amplidão das vagas verdes e vivas, como se ambos quisessem nelas colher alguma certeza ou derramar alguma esperança. E o seu perfil, sob o sol, alvorecido na janela, lavado nas frescas essências salitrosas que emanavam do mar, tinha florescimentos, resplandecências, um vivo fulgor de ouro novo, derramando no ambiente eflúvios de magnólia. Às vezes ela deixava-se ficar por mais tempo à janela – e era então ali uma deliciosa e cristalina ária de trinados, de matutinos gorjeios de pequenas aves que por entre a viçosa verdura da janela esvoaçavam 350 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 em ruflos e contentamentos d’asa, em palpitações elétricas de plumagem, cantando para o espaço todo esse sonoro amor infinito dos pássaros que o seu estreito laringe metálico tão maravilhosamente sabe desfolhar em notas, como se essa mulher loura fosse a corporificação da própria aurora que raiasse doirada no acanhado horizonte enquadrado na florida janela verde. E ficava ali constantemente a olhar, a ver o mar, talvez na esperança de algum sonho de afeto que de repente lhe surgisse e cuja enamorada lembrança lhe vibrava o coração anelante, fazendo dolentemente o seu colo arfar, agitar-se, numa onda nervosa de convulsão e alvoroço, inflado desse tormentoso e vago desejo irresistível do amor, que um dia vertiginou o mundo, e que, quanto mais afastado se está de quem se adora, mais fundo, mais entranhado fere e martiriza. Pelas noites, quando o hostiário das estrelas abria a sua rendilhada cintilação de prata nos sidéreos espaços calmos, ou as finíssimas gazes lácteas da lua flutuavam, velando tudo, ela, virgem noiva, branca e muda como a lua, por lá ficava ainda a viajar na gôndola da imaginação e fantasiosa saudade que a emocionava, através do mar, ao encontro sonhado do seu afeto querido. E, tonta, magnetizada, narcotizada na emoliente volúpia da lua, na quente exalação dos aspectos, lá adormecidamente ficava a amar, presa na fluida teia luminosa das estrelas e da lua... * * * * * * * * * * Agora um muro enrijecido e alto, que o musgo e o limo maciamente vestem de um veludoso verde escuro de tapeçaria, veio para sempre obstar a ampla vista azotada e alegre do edificante panorama do Mar. Para além, como um gigantesco protesto que a pedra opusesse às jubilosas, triunfantes águas marinhas, o muro vai, longo e impenetrável, estendido em pano OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 351 ríspido de parede socavada e cerrada, que tudo do mar avaramente encobre – levantado da terra como um brusco e bronco biombo de treva à livre expansão da luz. Austeros homens egoístas, no intuito de edificar, apropriaram-se dos terrenos e para ali ergueram, dividindo-os, semelhante à rija muralha d’imperecível fortaleza, esse imenso muro empedernido, rochoso, como que feito de um só bloco inteiriço de calcária matéria rude. Então, sem a perspectiva da alacridade vitoriosa e bizarra das ondas, sem aquela vastidão consoladora, salutar, das águas salgadas, e sem a visão branca dessa mulher, vive agora quase sempre fechada, triste e fria, a reluzente vidraça clara eternamente descida, na meia sombra crepuscular da persiana, a idealizada janela verde – a florejante janela que abria, como um desejo vago, para o Mar infinito... 352 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 UMBRA Volto da rua. Noite glacial e melancólica. Não há nem a mais leve nitidez de aspectos, porque nem a lua, nem as estrelas, ao menos, fulgem no firmamento. Há apenas uma noite escura, cerrada, que lembra o mistério. Faz frio... Cai uma chuva miúda e persistente, como fina prata fosca moída e esfarelada do alto... À turva luz oscilante dos lampiões de petróleo, em linha, dando à noite lúgubres pavores de enterros, vêem-se fundas e extensas valas cavadas de fresco, onde alguns homens ásperos, rudes, com o tom soturno dos mineiros, andam colocando largos tubos de barro para o encanamento das águas da cidade. A terra, em torno dos formidáveis ventres abertos, revolta e calcária, com imensa quantidade de pedras brutas sobrepostas, dá idéia da derrocada de terrenos abalados por bruscas convulsões subterrâneas. Instintivamente, diante dessas enormes bocas escancaradas na treva, ali, na rigidez do solo, sentindo na espinha dorsal, como numa tecla elétrica onde se calca de repente a mão, um desconhecido tremor nervoso, que impressiona e gela, pensa-se fatalmente na Morte... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 353 MODOS DE SER Com uma nobre emoção da Arte dizia Balzac que faltariam sempre cordas à lira de uma alma que nunca tivesse visto o Mar. Na verdade, sem o Mar, sem esse organismo vivo, movimentado, vibrante, as perspectivas como que são indecisas, vagas, a retina pouco se desenvolve e educa sem essa larga vastidão das ondas, de onde parece subir, nascer para o alto, como uma luz original, todo o sentimento indutivo das cousas. Diante do mar, à sua influência vital, que é a influência da força, do vigor do pensamento, as faculdades de cada um recebem impressões estéticas muito consideráveis, ampliando o seu modo de ser, dando-lhe a sugestão das latitudes geográficas, correspondentes também, para um espírito de indução e dedução fina e atilada, à amplidão das idéias. Gozar o Mar é viver, sentir a eflorescência da carne, crer nalgum poder forte e épico que nos encoraje, dê ao pulso e ao cérebro essa poderosa segurança de existir que levanta sobre rijos alicerces os princípios e crenças de cada homem. Do Mar vem essa emanação virginal, salutar, que traz o impulso às ações, o vigor nobre à vontade, dando a todo o organismo uma função especial, uma atividade própria, uma determinação expressivista da Natureza. Os efeitos maravilhosos que a visão recebe do Mar, como uma máquina fotográfica recebe nitidamente as fisionomias, desenvolvem-se nos temperamentos artísticos em impressões, em nuances, em colorações, em estilos, em linhas, em sutilezas de percepção, em ductilidades, em fiorituras de imagens, em abundantes floras de imaginação, tão múltiplas e luminosas quantas são as infinidades de ilhas verdes de algas e de sargaço que o Mar contém no seu seio. 354 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Ele infiltra nos órgãos emocionais e pensantes todo um exuberante eletrismo nervoso, todo um fluido de luz e originalidade, uma essência, um gérmen rico e novo de graça e fantasia alada. Fica-se numa saudável impressão e frescura radiante de caça e pesca, numa alegria de sol undiflavando rouparias brancas e finas. * * * * * * * * * * Serenidade de Campo e Mar é esta em que estou agora. Campo fértil, verde, como se agora mesmo brotasse, em flor, da terra. Nas manhãs claras, de grande majestade de sol, pelos domingos, a missa da capela branca convida a digressar entre árvores, sob o festivo e claro repique do sino. E, por estar no campo, numa extensão de relva, de verdurosas alfombras, lembro-me vivamente do campo das paradas, ao sol, num espelhar faiscante de baionetas, rutilar de fardas e triunfal desfraldamento de bandeiras, quando, imensas, pesadas massas marciais, na evolução de um corpo disciplinar, agitam-se, num tinir e cintilar de metais, como enorme serpente de coruscantes escamas. Com o espírito livre, em asa aberta, eu procuro arrancar das vozes mudas, inexprimíveis da Natureza, significações. Campo e Mar estendem-se até longe, ao infinito horizonte, fulgurando às luxuosíssimas sedas do sol. Elevados cômoros de areias alvas, ao longo das praias, conservam a aparência de grandes dorsos de elefantes brancos deitados. Então, um ritmo me sobe da alma ao cérebro para me afinar os pensamentos em aspectos felizes, luminosos, como quando os alemães, fumando cachimbo OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 355 e bebendo cerveja, por entre uma leve névoa ideal de fumo e álcool, mentalmente produzem filosofias... Como essas raças finas e louras a que nada mareia a pureza clara da carne civilizada, a idéia da Arte surgeme, alvorece-me no espírito, diante das ondas, sideral, imaculada, como uma doce monja vestida de linho branco e virgem. Estranhos, misteriosos, na magia dos feiticeiros caldeus, com o pensamento cristalizado na Forma, sinto que me ferem o cérebro, pesando fundo sobre ele, os nevropatas de agudeza psíquica, mórbida, doentia, os psicólogos tenebrosos que, como Huysmans, vibram num eletrismo histérico, numa dança macabra, satânica, num deliriutm tremens de sensações. Ninfomaníacos mentais, como que sob a impressão de um sono de morfina ou de ópio, numa alucinação ou fascinação de hipnotizados, a alma deles flutua, desce sombriamente lá abaixo, ao antro negro da Terra, ou sobe lá acima, à infinita mudez do céu, como que em busca, sinistros e luminosos, revoltados Moisés de uma Bíblia nova, em busca de saber qual a doença que dá a Morte... Sente-se-lhes isso na tortura da prosa, no funambulesco cabriolar do estilo, na acre violência das palavras, abertas umas em chagas e escorrendo sangue, outras brancas como Noivas amadas derramando lágrimas astrais... E, dentre esse exalar de vida espiritual dolorosa, rompem coros de catedrais entoados por veladas, místicas vozes freiráticas; ouvem-se Missas negras e abrem-se, num ritual cristão, para a contemplação dos áugures e dos símbolos, os medievos Hagiológios. 356 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 NO FAETON Na manhã fria, fresca de maio, por uma rua areada, um nobre esplendor de mulher iluminou-me e surpreendeu-me os olhos. Numa elegância de pelúcias claras, o seu perfil delicado, um biscuit d’arte, surgia em flor no faeton, alta a estatura, sobre as moles almofadas, a cabeça serena, com a graça educada de amazona espiègle. Nos amplos largos de aspecto arejado de gare, sob o espaço vibrante, sonoro como uma grande cúpula de cristal, o faeton girava, de manso, na doce flexão das rodas leves, como se girasse sobre macias relvas de veludo. Os cavalos normandos, lustrosos no cetim do pêlo, davam a correção, o tom das carruagens de molas flexíveis, suaves, das envernizadas caleches aristocráticas de luxo, cujos claros e polidos metais dos eixos cinti1am. Com uma linha fidalga ela manobrava as rédeas, nuns volteios audazes e galantes, a mão fremente, agitada, convulsa pelo ferir matinal do frio no sangue novo de gazela, com a orgulhosa atitude das ecuyères. Algumas atenções paravam diante desse feminil deslumbramento desabrochado ao sol em aromas e formosura. No ar nítido, azul, fino do dia, duma limpidez deliciosa, o seu esbelto porte nervoso vinha ereto, num alto-relevo, destacando forte no fundo luminoso, transparente da manhã, como que cortado, talhado numa lâmina de vidro. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 357 RITOS À luz lirial da Lua abre a tu’alma, artista, como um solar antigo. Sob a névoa luminosa do grande astro noctâmbulo, as visões que um dia amaste aparecerão agora. Ah! a tu’alma é um antigo solar, onde mulheres prodigiosas, enfioradas de beleza, peles finas, transparentes, de delicadezas de porcelana, passaram. És um solar antigo... Tens o ar enevoado do crepúsculo de melancolia que há nos velhos solares. Alguma coisa de nostálgico, de evocativo, como vagos sons plangentes, à noite, ou à hora do Angelus, na solidão dos campos, levanta e acorda a tu’alma. Teu coração é o Sagrado Viático, mais puro e branco que as claras hóstias. De que fundo de civilização, de que ramo de raça, de que regiões vieste assim, numa original sensação de nervos, palpitante, convulso como o mar e como o mar sereno e também como o mar profundo e grande?! Pelas tuas idéias, pelos teus olhos fatigados de ver e perceber de perto o incoercível mundo, passam as alegrias, as lágrimas, o intenso viver de muitas gerações. E tu representas bem todas elas, és a essência espiritual de infinitas camadas humanas, o luminoso requinte dessas gerações que findaram e que não foram mais do que simples moléculas para formar o teu estranho, poderoso organismo de artista. Sofreram, gozaram e pensaram – para que tu sobre elas fizesses nascer, surgir o mundo virgem das tuas impressões e idéias. E é por isso, artista, que abres a tu’alma, como um solar antigo, à luz lirial da Lua – apaixonada sultana que vaga à noite, que vigia e vela pelas Religiões incomparáveis do Pensamento, seguida do fulgurante cortejo das estrelas odaliscas... 358 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 MULHERES Magnólias de aroma tépido, finos astros, que elas sejam, olhos fascinantes, como águas dormentes de delicioso Danúbio que a luz sonoriza e doura, humildes e imperiosas, ninguém jamais saberá o mistério que as envolve... Amar e gozar as nebulosas mulheres, mergulhar, engolfar a alma infinitamente, inefavelmente, em repouso, como num harmonioso luar, sem sobressaltos e ansiedades, na alma enevoada que elas ocultam sempre, só é dado às naturezas vulgares, que amam com a carne, que amam com o sangue apenas, no ímpeto brutal de todos os instintos, com a luxúria viva da carne, que fazia, desde os romanos, a carne viçosa e rica. Os que as amam e gozam sensualmente, à lei da sexualidade, não lhes ouvem a vaporosa música embriagante do vinho dos encantos da voz e do sorriso; não lhes sentem o perfume delicado de úmidas bocas, purpúreas, de níveos colos cor de camélia, de veludosos seios macios como a alva plumagem fresca de um pássaro real; não lhes percebem o amoroso ansiar de etérea cintilação de estrela nos olhos indagadores, que atravessam, costumam passar em visão, pesados de luz, com o brilho aceso e fagulhante de preciosas e raras pedrarias, as geladas noites brumosas do Ciúme... Para esses, que só as possuem sexualmente, elas trazem um deleite, um atrativo, como no Oriente o fumo, que dá prazeres insubstituíveis, voluptuosas graças de viver, atila e acende a imaginação, faz abrir e flamejar, incomparavelmente, para todos os pontos do mundo, os mais inauditos sóis do Espírito... Esses, ainda outros ou todos, poderão decerto inundar-se no esplendor da beleza das mulheres, fruir delas toda a fremente carícia, possuí-las, dominá-las sem hesitações e embaraços estranhos. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 359 Para todos elas não terão sombrias torcicolosidades de serpente, anseios, anelos indecifráveis, enigmas tremendos, que nos deixam deslumbrados, extáticos, na mais intrincada rede de perplexidades. Elas serão para todos o eterno feminino, leve, simples, fácil na conquista, fácil na vitória, tendo para os homens os arrastamentos prontos de um animal que se abandona à lubricidade. Ninguém saberá ver nas mulheres esse complicado segredo de nervos, que ora se patenteia claro e penetrável e que ora mais se condensa, se intensifica de obscuridade, torturando, afligindo, vago, abstrato como a dor e por isso ainda mais terrível, mais esmagador e frio... Só um ser, consubstanciação de todas as angústias, de todas as incertezas e dilaceramentos do espírito, um ser contemplativo, amargurado pelas análises, ferido sempre pela observação, pelas idéias que sangram e vivem perpetuamente a martirizá-lo, para o seu gozo excêntrico e único, só esse ser as compreenderá, mudo e solene, encerrado na solidão dos seus pensamentos, como um missionário, alheio às exterioridades dos corpos delas, às linhas, ou só as amando por sentimento estético e analisando continuamente, sondando, perscrutando o feminino organismo dúbio. Só a psicologia desse ser, que é o artista, saberá ver fundo o delicado ser das mulheres e penetrar nas sutilezas, nas direções variadíssimas e múltiplas que toma o seu espírito, à maneira das aves que voam alto, sem rumo, além, indefinidas na distância... Esse poderá querê-las muito, adorá-las com outra chama sagrada; mas nunca as poderá amar carnalmente, friamente com os nervos – porque aparecerá sempre o analista sufocando o afeto espontâneo que não se delimita nem regulariza, o entendimento artístico, que 360 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 ama a Forma, destruindo o fator humano que fecunda a Carne, que perpetua a Espécie. Quanto mais elas forem complexas, segredantes, misteriosas, tanto mais a análise se manifestará mais arguta, mais penetrante, de um modo experimental, nu, amplo; e as mulheres, afinal, ficarão diante do artista como documentos palpitantes de uma dada natureza, provas flagrantes de paixões veementes, de desejos, de vontades, de uma infinidade de atributos e qualidades radicalizadas na alma feminina e que o pensamento do artista investiga, conhece, põe para fora, a toda a luz, como se expusesse, na presença do mundo, explicando a função de cada um, os milhares de glóbulos de sangue que circulam no organismo humano. A dor de tudo isso, porém, a pungitiva dor de tudo, é que o artista não pode, assim como todos espontaneamente amar. Ele ama um golpe de luz, um olhar, a fascinação de uns cabelos quentes, a polpa virgem de uns seios, a graça idealizante e alada de um sorriso, o talho vermelho de uns lábios frescos, o tom das elegâncias fidalgas dessas Flores escarlates das Babéis do ouro, que passam na corrente das civilizações e na febre, no delírio dos luxos fortes. Vendo para dentro de si, como para o fundo de um mar prodigioso, ele domina com o olhar perscrutante, inquieto, que apanha de pronto as situações, a maravilhosa ductilidade das mulheres, vendo também perfeita e singularmente o que se dá dentro delas, as suas inquietitudes, as suas impaciências, os seus receios, os seus caprichos inesperados, as suas volubilidades doentes e curiosas, as suas resoluções bruscas, os seus ímpetos de leoa, os seus enternecimentos ingênuos e monocordes, os seus momentos horríveis de crise hiper-histérica, sem causa determinada, sem assinalamentos de origem, mas assoberbantes, convulsos e que de repente cessam como OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 361 vieram, para tornarem ainda, mais desabridos e persistentes. As mulheres, para o artista, para a estesia exigente, requintada, são apenas um elemento de sugestão estética amoldável às necessidades artísticas do sugestionado. Elas falam, abrem-se mesmo ao amor em rosas fecundas de sinceridade, dizem os ardores apaixonados, as recônditas sensações, a vida íntima do seu afeto; mas o artista as ouvirá, como artista que é, a frio, simulando interesse, formando já, mentalmente, com as palavras delas, com essa confissão franca, pura e sentida, embora, verdadeiras páginas de emoção e estilo. E, no entanto, ele as quererá amar muito, eternamente e sem reserva, abrir-lhes os braços ao amor, com todas as forças másculas, vigorosas e livres de homem, com a firmeza mais casta dos carinhos e das ternuras, estremecendo-as, idolatrando-as. Mas, um ligeiro contacto apenas, um leve roçar de lábios, um abraço desfalecido, murcho, algumas frases balbuciadas materialmente, ao acaso – e aí estará de novo o mentalizado, o espiritual, descendo a investigações, medindo cada gesto e cada olhar, inquieto, aflito com a expressão de um toque de luz numa trança de cabelos, que ele quer levar para a sua Obra ou preocupado com o fino Sèvres que fulgurou uma noite em certo boudoir, faiscando centelhas de astro. Contudo, quando esse luminoso torturado as vê descendo ou subindo os átrios claros de palácios festivos, altas Valquírias de neve nas pompas orgulhosas das sedas que roçagam, como que fica preso, magnetizado por aqueles aromas fluidos, vivendo na auréola majestosa do clarão que elas de si desprendem; e então como que na cauda constelada e rojante os fulgores sedosos levam aspirações, sonhos que ficam errantes e que quereriam talvez subir ou descer, opulentamente, com as deusas 362 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 resplandecentes, os mesmos festivos palácios de átrios claros. Entretanto, não é aí o amor o sentimento que se manifesta ainda na alma artística, não é uma expansão afetiva – mas uma verdadeira expressão d’arte, um desejo de posse, que logo invade as naturezas dominadoras, altivas, onde as idéias predominam, atuando, fatais e intensas, nos fenômenos da Vida os mais elementares ainda. O que excita o artista, seja nos átrios claros de palácios ou em toda a parte, é simplesmente a Forma, é toda essa roupagem deslumbrante que faz as mulheres parecerem auroras boreais; o que lhe incita a pensar nelas, a desejá-las, é a plástica olímpica, o onipotente esplendor das curvas cinzeladas, os mármores coríntios, o alabastro dos corpos flóreos. O que o surpreende, deixa atraído e fascinado, é o luar gelado da carne alva das louras, que deliciam, o ardente sol tropical da carne tentadora das morenas, que cheiram a sândalo e matam. Amar as mulheres, profundamente, com simplicidade, com singeleza, sem cuidados latentes de observá-las a toda hora, com os mínimos detalhes, linha por linha, traço por traço, sem essa preocupação doente que as exigências do Pensamento provocam, não é para a concentração, para a contensão nervosa dos falangiários da Arte, que, de todas as coisas, querem arrancar o gérmen que necessitam, o pólen que lhes é mister para a fecundação da sua Obra. A linguagem feminina, algumas fiorituras de frases passageiras constituem, de certo modo, um tecido primoroso, os fios delicadíssimos com que a Arte contextura, urde a tecelagem da Forma. Mas o desolado psicologista do Pensamento não as pode amar com intensidade e desprendimentos espirituais, sem as querer observar sempre, desataviálas das plumagens garridas e ver-lhes, à luz, o que elas sentem e pensam de nebuloso... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 363 Por isso é que muito naturalmente, por intuição própria, elas percebem que não poderão jamais amar os artistas, tendo até para eles uma repulsão como que instintiva e sendo mesmo indiferentes às suas solicitações mais veementes e calorosas. Vendo-se a cada instante o objeto das interpretações deles, reveladas através dos seus pensamentos tão recatados como os seus seios, os pudores dos seus corpos angélicos, em tantas páginas dilacerantes e impiedosas, as mulheres não buscam sistematicamente os artistas para amar, feridas nos seus orgulhos melindrosos, nas suas vaidades excessivas e principescas, nas suas finas suscetibilidades de formosos seres triunfantes e inacessíveis. Só raramente, por singularidade, uma ou outra mulher ama o artista, quando já acaso também existe nela qualquer corrente de simpatia mental, qualquer relação de afinidade que estabeleça entre ambos uma claridade e harmonia de sentimentos mais ou menos congêneres, equilibrados. 364 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 PERSPECTIVAS Naquela alvejante planura de areias salitrosas, onde o mar espumeja; naquela fulgurante extensão de praias brancas, indizíveis de pitoresco, felizes os olhos que se demoram, com o carinho, o afeto das coisas, a gozar as riquezas, o encanto, a imponência imortal dos aspectos. Mas manhãs, céus louçãos, de um leve ar azul, azotado, fresco, pacificam o porto, adoçam os horizontes, inefavelmente. Ocasos opulentos, feéricos, imprimem às tardes a mais suntuosa e serena majestade. No mar, ao largo, entram e saem navios de alto bordo, numa infinita beleza de excêntricas formas requintadas, em caprichosos estilos diversos, mastreações aparatosas, parecendo enormes aparelhos estranhos para maravilhosamente arrancarem do fundo das ondas o misterioso deus das algas, da lenda secular e virgem dos hirsutos tritões verdes. Marinheiros terrosos e fuscos, como que sujos a betume; outros louros, flamejantes do sol, do ouro cantante da pele, dão à paisagem sã, revigoradora e larga, tons álacres e acres. Das vagas, como exóticos monstros marinhos, as rubras e arredondadas cabeças das bóias, aqui e além, emergem. Os mastros avultam, enchem prodigiosamente o mar supremo, sob a flava cintilação do dia; e, assim firmes, aprumados ao alto, ao firmamento, parecem tochas imensas para a celebração do Te Deum sideral dos astros, nos templos pagãos dos navios. À noite, peregrinadoras estrelas, em claras chamas sagradas, nos espaços ardem. Uma lua virginal, aureolada de branco, irrompe, fria e magoada, com um ar antigo e desolante de OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 365 histerismo atormentado, como as freiras que envelhecem nos claustros. Hálitos, vivos estremecimentos elétricos, passam, perpassam no dorso glauco das ondas que o luar então alastra... Mas, o que mais enternecidamente enleva e perturba até as lágrimas, num sentimento intenso, de recôndita vibração, é um simples lenço, um adeus febril, vertiginoso, em ânsia, que ali fica às vezes a palpitar ao sol, infinitamente, na emoção de uma alma, para a vela que vai já além confusa na distância, desaparecendo, perdida nos longes esfuminhados, infinitamente, infinitamente... 366 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 CAMPAGNARDE O dia abriu numa explosão d’oiro, dum oiro inflamado de forja, trescalando perfumes, cheirando acremente à terra. Tu, gárrula vivandeira dos prados, que ao primeiro rumor sonoro do teu coração amoroso, como ao alegre rufo bizarro de um tambor de guerra ou à esfuziante vibração matinal de uma trompa de caça, toda estremeces e fremes, voltas agora púrpura dos campos onde te fecundaste, desabrochaste e floriste logo em papoula. E voltas mais púbere, mais virtual, mais mulher, porque sorveste o leite virginal e sadio aos abundantes seios da Natureza. Quando para lá foste, o teu corpo frágil, tênue, traspassado do azulado enraizamento arterial das veias, era quase diáfano, transparente, vitrescível quase, através do qual bem facilmente a aurora coaria os seus flavos raios rútilos, como através de um delicado e aromático filó finíssimo, cor-de-rosa e translúcido. Além disso, quando para lá foste, eras infantil ainda, ainda a ave implume, e entrarias daí por diante, como por uma zona de sol, nesse luxurioso período genesíaco da mulher, quando as suas formas se ampliam, se completam e perdem essa volatilidade aérea, o borboletismo, essa tonalidade vaporosa da primitiva graça, para irem aos poucos adquirindo opulências, exuberante vigor germinativo no sangue que as alimenta, enlabareda e fecunda, arredonda e turgesce triunfais e alucinantes no colo as duas polposas saliências carnudas, das quais, em busca da instintiva subsistência, pende, mais tarde, como astros no firmamento, o encanto virgem dos filhos. Mas, agora que de lá chegas, vens florescente como a vinha verde, dum sabor de uva branca, inundada OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 367 do palpitante pólen dourado da antera dos vegetais, das emanações revigorativas da planturosa paisagem. Trazes a carne amadurecida, sazonada em fruto, exalando essências de campos, sutilíssimos eflúvios de vergéis, alastrada de brilhos quentes, de elétricas faíscas narcotizantes, como se o teu imaculado torso inteiriço irrompesse, brotasse do noivado da Natureza no mesmo veemente e original impulso das árvores e rios. Perfeito, soberbamente rico e raro, Campagnarde! esse humor campestre, esse alagamento e deslumbramento de luz com que regressas da Vida, do seio livre da grande amplidão da saúde, onde tudo, afinal, são concentradas forças, pujanças novas para o sangue, renascimento para a carne. Ninguém, por certo, calcula, a ninguém sugere, por certo, a alta realidade do quanto é salutar e é nobre o supremo bem que lá se goza nos campos e como ao corpo abalado pelos inevitáveis golpes da matéria falível, resiste o espírito, o fluido nervoso, dando à existência o equilíbrio sereno. Nenhum pincel colorista, nenhuma entranhada emoção ou visão impressionista d’arte, nenhuma perceptibilidade acústica de músico poderá bem com exatidão apanhar a cor, o sentimento, a errante, dispersa harmonia que se eterifica na liberdade dos campos e que assim te penetrou pelo coração e pelos olhos, primorosamente enflorescendo e viçando no teu corpo de garça, lirial e formoso. Abres a veludosa e cerejada boca e os teus esmaltados dentes rutilam – lisos e claros – enrijados nos ares puros, nas frescas águas correntes, nos frutos castos e doces. Falas, e a tua voz, em músicas, desfolha notas da canção feliz da tu’alma; e a tua voz pelo espaço voa, voa, voa de eco em eco, infinitamente, inefavelmente, parecendo então reproduzir o teu próprio nome, Campagnarde! Campagnarde! e eternamente desdobrá-lo, arremessá-lo ao longe, por colinas e vales derramá-lo, Campagnarde! Campagnarde! 368 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 RITMOS DA NOITE... Lá fora a noite é estrelada e quente. Chego da rua. A vida ferve ainda nos cafés, com intensidade. No Londres, uns imbecis doirados de popularidade fácil, saudaram-me, e, nessa saudação, senti o ar episcopal das proteções baratas que os conselheiros costumam dar aos jovens esperançosos. Eu percebi o conselheirismo e tive uma careta, uma grimace diabólica de ironia... Oh! oh! infinitamente incomparáveis os caríssimos imbecis doirados de popularidade fácil!... * * * * * * * * * * No meu quarto, entro, enfim, agitado, da rua, com mil idéias, com mil impressões e dúvidas e fundamente considero, tenho tão estranhos monólogos mentais, que quase que me alucinam. A luz da vela, em torno à sombra do quarto, põe uma claridade velada, penumbrada, quase morta. Um retrato de Daudet, pendurado à parede, parece ter para mim piedade no seu fino perfil de Cristo alemão. Ah! por que será que na hora dos estrangulamentos supremos, quando a Dor nos alanceia e torna velhos, os objetos têm todos, para nós, uma feição singularmente diversa da que têm sempre – ou sinistra, ou agressiva, ou piedosa? Por que será que nas longas noites de desolação, quando uma ventania de desesperos sopra por trompas de bronze do nosso peito, todas as cousas desfalecem aos nossos olhos, as perspectivas se anulam, os astros loiros se apagam e a própria luz de uma lamparina ou de uma vela projeta claridade dúbia, que antes punge, que antes apunhala e dói do que ilumina!? OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 369 O coração cerra-se-nos de uma névoa triste, e, como um solitário monge, põe-se a balbuciar, não sei para que mundos distantes, orações indefinidas, kyries eternos e nostálgicos, de um nebuloso sentimentalismo, que estão no fundo de todos os seres espirituais. São fluidos íntimos, virginais, da alma, que sobem para o desconhecido; são incensos inefáveis de que está cheio o turíbulo do nosso amor e que, nos lancinantes momentos em que se desmorona para nós alguma força nobre, alguma força edificante, partem candidamente para as regiões do Ideal, país jamais descoberto e que só o Pensamento logrou conhecer... Vão lá saber qual é a tecla sombria que vibra no nosso organismo em certas horas, qual é a corda que pulsa, quais os nervos que se agitam! Por uma impressionabilidade indizível, por um toque no orgulho, por uma mancha no cetim branco da Arte, lá fica uma nobre cabeça doente, sob a febre das nevroses, sentindo ebulir o sangue em chama e sentindo até que o cronômetro regular do pulso alterou a marcha das vibrações... Tudo o que nos vem às idéias são princípios de demolição, de destruição, armados das rijas couraças e das agudas lanças da sua inevitabilidade. O mundo surge-nos logo como uma formidável floresta dos tempos primitivos e só tremendos animais de uma colossal corpulência urram e bufam sanguinolentos. E a Noite, que verte fel no espírito, arrebatando-o não sei para que inferno de agitações, não sei para que tercetos do Dante, ainda mais pesadas barras de chumbo arroja sobre o florido arbusto da Crença, cujas flores luminosas já a indiferença humana calcou a pés, ou a ruidosa, jogralesca multidão dos cafés desdenhosamente cuspiu em cima. E, nessas batalhas, batalhas vivas, acres, onde o coração está eternamente a sangrar, a sangrar; nesses 370 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 rudes combates, ao mesmo tempo tão puros e fidalgos, a carne é o menos que fica ferido, os músculos são o menos que se perde, os nervos, o menos que se atrofia. O que se perde de todo é a alta penetração da Vida, do Mundo e dos Homens, para terrivelmente se adquirir uma doença amarga, aguda e dilacerante que se constitui das frias e torturosas análises e que se chama – Psicologia. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 371 SUGESTÃO Tu, quem quer que sejas, obscuro para muitos, embora, tens um grande espírito sugestivo. Os jornais andam cantando a tua verve flamante, pertences a uma seita de princípios transcendentais. Na tua terra os cretinos gritam, vociferam. Não sabem o que tu escreves. Não entendem aquilo... Palavras, palavras, dizem. Tu tens, porém, uma tal orientação, uma tão profunda firmeza artística, que não te abalas com a vozeria que se levanta. Pelo contrário! À bateria de frases ríspidas, que te assestam, rompe do teu cérebro a bateria viva das idéias. Não recuas, escreves. Tudo quanto a imaginação pode criar de imprevisto, original, surpreendente, vais arrancar à nevrose da composição, incrustar, como pedrarias, na escrita cinzelada, cujo estilo apuras e aprimoras com verdadeiro êxtase de uma devotada seita religiosa. E, apesar das frases que te dirigem, cercam-te apoteoses. E isso, conquanto simules o contrário, sempre te desvanece. Então, para que o teu esplendor seja maior e mais completo, andas a preparar um livro de estilo nobre e que, segundo pensas nas horas de nervosismo psíquico, há de fazer sucumbir no lodo da banalidade a turba triunfante dos imbecis. E assim, com a tua elevação mental e disciplina, julgas-te profundamente feliz. Não trocarias o teu espírito pela ostentação e pompas do mundo. Ah! se tu tens a pompa das idéias! O cocheiro mais agaloado e galante, guiando o mais elegante coupé tirado por éguas de raça, de amplas ancas carnudas e luzidias, cheias de nervosidades, de altivezes bourbônicas, com um fino sentimento mulheril nas linhas, tudo isso, Artista, não vale a página mais simples, mais frouxa, sem mesmo maior ornamentação de estilo, que tu, por acaso, escrevas. 372 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Nem tu trocarias todo o veio virgem do ouro do mundo pelo livro que daí a meses deve entrar para o prelo. Os reclamos soam pelos jornais, como clarins. Andam já longe. Caminham. Chega já ao domínio de todos a notícia. Há ansiedade. Espera-se a obra. Vai aparecer, brevemente, cintilando, a duas cores, em tipos Elzevires, vistosos e claros, com o teu retrato, papel satin, nas lustrosas vitrinas, acendendo um clarão em torno do teu nome, como um facho de fama. Mas, um dia, vais ao teatro, um acaso, por exemplo. Sentas-te na tua poltrona junto à orquestra. Num intervalo suas demasiadamente. Estás abafado do calor da noite tórrida. Precisas de ar, de refrigerantes. Um sorvete, um gelado. E, seguro do teu vigor de mocidade, da tua saúde e do radiante rubor do teu rosto, que é admirado na rumorosa cidade onde habitas, tomas, sem o menor receio, o gelado que te trazem. Daí sentes-te logo como que atordoado. Não estás bem. Calafrios agudos percorrem-te a espinha. Vertigens cálidas fisgam-te a cabeça. Ardemte os olhos e se umedecem sob a luz flagrante e crua da ribalta; mesmo o gás te dá mais febre; parece que te estalam as fontes, latejando fortemente – e tu não podes mais ficar, nem um instante sequer, na vasta sala iluminada e cheia da multidão matizada que formiga e aplaude. Então, um dos teus amigos te conduz à casa, já abatido e quase sem voz; e, mais tarde, passados dias, corre a dolorosa notícia – ó amargurado Espírito moderno! – de que morreste de uma pneumonia aguda... E após a tua morte ainda se haveria de contestar o teu merecimento. Muitos diriam: – Também não deixou um livro que significasse a sua individualidade. A que outros responderiam: OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 373 – Mas deixou escritos em jornais. – Ora, jornais! jornais são papéis avulsos, vivem o curto espaço de um minuto ou de um segundo, e, muitas vezes, até sem os lermos, com os mais resplandecentes pensamentos contidos em suas colunas, os deitamos pela janela fora... Um livro sintetiza qualquer individualidade. Não se pode acreditar, portanto, não há documentos que atestem, criticamente, o valor intelectual desse escritor que morreu. Daí então, só o preciso decurso de tempo para o teu cadáver apodrecer na soberana indiferença da terra, aparece o teu livro, aquele mesmo onde tanto trabalhaste, que fecundaste de idéias, onde tanto derramaste o vivo poder do teu cérebro, onde consumiste uma porção de sangue e de nervos, assinado, e com outro título, por uma vulgaridade batráquia, na qual toda a gente acredita, e, oh! comparando-a contigo, acha-a mais superior, extraordinária, sem igual até. E tu, lá embaixo, ficarás, na frialdade da terra, sem nunca teres vencido! com a ironia dessa glória de néscio a rir de ti, perpetuamente, à chuva, aos vendavais e ao sol, do alto da tua cova! 374 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 SOFIA Foi na sala branca, de leves listrões d’ouro, que eu a vi interpretar um dia ao piano Mendelsohn, Schumann, as fugas de Bach, as sinfonias de Beethoven. Tinha um nome bíblico, lembrando palmeiras e cisternas: chamava-se Sofia. Era alta, de uma brancura de hóstia, como certas aves esguias que os aviários conservam e que aí vivem num grande ar dolente de nostalgia de selvas, de matas cerradas, de sombrios bosques. Nervosa, de um desdém fidalgo de fria flor dos gelos polares, e triste, traía a Arte aquele altivo aspecto, a orgulhosa cabeça ereta em frente das partituras, que os seus olhos garços liam e que os seus dedos rosados e aristocráticos executavam com perfeição, com claro entendimento nas teclas. E de todo esse nobre ser delicado, de todo esse perfil de imagem de jaspe, irradiava uma harmonia vaga, melancólica, uma auréola de pungitiva amargura, mais desolada que as sinfonias de Beethoven, como se todas aquelas músicas excelsas tivessem sido inspiradas nela. * * * * * * * * * * Ó aromas, sutilíssimas essências dos finos frascos facetados do luxuoso boudoir dessa musical Magnólia; aromas vaporosos, maravilhosos perfumes que incensais, à noite, de volúpia, a sua alcova, como as purpurinas bocas das rosas, falai a linguagem alada que as vozes humanas não podem falar e dizei os murmúrios estranhos dos sentimentos imperceptíveis, imaculados, que alvoroçam a alma ansiosa dessa sonhadora Sofia. Só os aromas, só as essências terão os eflúvios castos, os fluidos luares de expressão, o ritmo inefável para contar que latentes palpitações traz Ela no sangue, que chama d’astro lhe inflama o peito, quando volta triste dos concertos egrégios e vai enclausurar-se na alcova – muda, muda, talvez sob a névoa das lágrimas, na emovente concentração dos que morrem amando... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 375 MANHÃ d’ESTIO O azul hoje amanheceu numa melodiosa canção, duma consoladora carícia veludosa de arminho, duma doce e suavíssima frescura de maçã rosada — brunido, reluzente, como um raro bronze florentino finíssimo, vivamente cheirando a violetas, a jasmins e a rosas machucadas. Na cristalina sonoridade do côncavo páramo aberto há uma etérea música que passa em fios sutilíssimos de luz e de aroma pela sua transparência diamantina e velada, como um líquido radioso e fragrante através duma primorosa safira. E o canto de um pássaro, que além atravessa o céu, é mais brando, é mais terno, então, mais harmonioso e sereno, prende, emociona e arrebata mais porque vai cheio desta ambiente fluidez matinal, desta vaporosa e delicada tonalidade aérea, deste fino sentimento amoroso do impoluto noivado dos elementos naturais animados, destes, enfim, deliciosos tons alegres que dão um rico sabor à terra, uma vibração luminosa aos aspectos e um mais meigo encanto imaculado aos frutos que pendem das árvores e às flores que cobram, dulcificam tudo com a graça, a inefável candidez de sorrisos. Os arvoredos recortam nitidamente no ar as suas ramagens intensas, cujo verde orvalhado cintila, e as palmeiras, que mais de perto avisto, altas, sobrepujando os outros arvoredos, como a afirmação soberana do poder germinativo, aprumam-se, firmes, desdobrando no alto as suas verdejantes plumas que tremeluzem nas aflantes aragens. Na pradaria florida os gorjeios crescem, trinados festivalmente cortam o espaço, vôos, rumores d’asas, claros e argentinos ruídos frescos de rios, chiantes carros dormentes de lavouras tomando o vermelho e risonho atalho murmuroso dos campos relvosos, entre a 376 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 implorativa plangência mugidora dos tardos bois melancólicos; movimentos agrícolas de enxadas, de sachos e arados, todos os instrumentos e aparelhos rurais, cavando, mondando, preparando a terra para as culturas, avigorando-a e adubando-a, dando-lhe a larga força nutriente aos germens para que ela opere e produza, farte infinitamente a todos de sazonadas colheitas. E toda essa orquestração da Natureza e do trabalho, todas essas impetuosas, palpitantes correntes da Vida, enchem o ar de alvoroço, de alarido, duma religiosa bênção panteísta e dum cântico enlevador que desce consolativamente sobre as cousas – como se toda a seiva, vegetal e humana, estivesse na gestação poderosa, na fecunda elaboração de mundos virgens e novos. Nós, Artistas, que dissipamos toda a nossa mais bela e opulenta porção de glóbulos rubros para arrancar à Natureza a sua latente verdade; que nos embevecemos na contemplação, no misticismo do céu; que de tudo ansiamos pelas recônditas, encantadas origens; que tanta vez nos mergulhamos no azedume e na inclemente maresia do tédio, achando a vida gasta, acabada, falazes e mentidos os seus lentejoulados, fascinantes enlevos, trememos de comoção, ficamos extasiados quando essas perspectivas se nos antolham assim d’esplendor, trazendo ainda à nossa desvirilizada e já quase decadente estrutura moral um pouco de alento, heroísmo e força, de sagrada virtude de pensamento e gloriosa envergadura espiritual para a luta, hauridos a plenos sorvos nos abundantes mananciais da luz, na soberba caudal imensa da Natureza fecunda e generosa. Porque só a Natureza, germinalmente só ela, nos sabe dar à alma e ao corpo esta nobre saúde, estas estóicas atitudes épicas; porque só ela nos comunica os seus emotivos impressionismos, nos penetra os seus evangélicos, pensativos silêncios e recolhimentos OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 377 alpestres, tão empiricamente transvasados do neblinoso luar dos Sonhos e tão relicariamente votados ao culto como os santuários; só é dela que vem a crença robusta que nos põe no peito como que afiadas lâminas de espada para destruirmos bizarros as mil venenosas cabeças da formidável serpente da Dúvida; só ela nos veste dessa flamante irradiação de aurora da qual emergimos vitoriosos, no fluido ouro resplandecente da apoteose da Vida; e só ela, enfim, nos lava do Mal, nos purifica como a salitrosa salsugem do Mar glauco nas salutares e matinais travessias d’alacridade picante, quando se volta das ondas numa eflorescência pagã de Tritão marinho, no luminoso frescor primaveril e sonoro dum viçoso ramo silvestre ruflante de revoadas de coleiros e gaturamos cantando. Um clarim, uma trompa de caça que por aqui vibrasse, como numa pastoral da Idade Média, nesta formosa manhã perfumada, apanharia, tomaria destes murmúrios todos, pelo fenômeno acústico da recepção e transladação dos sons, como em placas fonográficas, todos os profundos e vagos ecos e os levaria então para longe – derramando-os, espalhando-os em cada placidez sedentária de sítio, em cada remanso bonançoso de campo, fazendo renascer a brava cultura ingênita das terras, palpitar o rijo pulmão d’aço do movimento incessante, pulsar, latejar vinculativamente as artérias da fecundidade e circular em tudo o sangue oxigenado, ardoroso e produtivo que gera e fortalece tudo e que não é mais do que o Sol eletricamente entranhado nas mais profundas raízes de tudo. 378 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 APARIÇÃO DA NOITE Fria aparição da meia-noite, o Luar seja contigo! Tu vens da neve, das algidezes cruas da neve; e eu não sei bem se é a neve que te faz fria ou se és tu que fazes fria a neve. Há, contudo, em ti, algum calor, que não é inteiramente a vida, mas que suaviza os apunhalantes regelos da neve; que não é o sol da tua carne, a chama do teu corpo, mas um quente raio d’estrela, a estrela do teu olhar aceso como velas místicas no recolhido e sagrado santuário de uma Capela. O luar seja contigo, seja contigo o luar emoliente e lascivo, este luar equatorial que não é dia nem noite, mas uma doce penumbra velada do sol do teu sorriso – como se sobre o sol do teu sorriso, para dulcificar a intensidade do foco da sua luz, quando tu eras astro inflamado, que ardias, força latente, matéria animada e pulsante, se houvesse colocado um transparente abatjour verde, branco, azulado e amarelado, conforme é, às vezes, a refração luminosa da Lua. Mas tu deveras aparecer-me, fria Visão da meianoite, dentro de uma redoma de cristal, por entre um resplendor de lágrimas, para eu então poder assim crer no teu encanto, no teu mistério de meia-noite. No entanto, aqui me apareces, metida em peles de Astrakan, melancólica, pálida, vaporosa, livorescida quase, como aquelas belezas apagadas e tristes que vêm dos frígidos ares desolados do Norte. Porque tu acabas de vir da Rússia agora, das fulgurantes estepes, da ostentação militar do Tzar de ferro, ouvindo os clamores da dinamite. Vens das hirtas margens do Neva para os coruscantes fogos tropicais das terras da América. E chegas ainda virginal e pubescente para a irradiação angélica do Véu, para o simbolismo cândido da Grinalda OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 379 de flores de laranjeira, para a bênção serena e perfumosa do Noivado. Chegas a tempo... E se queres um noivo, se andas em busca de um noivo, aí tens, pois, o Luar, frio como essa natureza fria, e alvo, lirialmente alvo, como tu. Aí tens o Luar... Envolve-te na sua clâmide de linho, mergulha-te nos seus flocos de prata, ó meiga Eslava triste, meu desmaiado amor e heliotropo branco dos sonhos, que aqui vieste findar eternamente a vida nessa nostálgica doença nervosa de melancolia que trouxeste do teu país polar, muito longe nos gelos, e que até te dá já a névoa densa, a espessa nuvem dolorosa das ilusões que se transformam em nuvens. Vens para sempre extinguir-te sob estes tórridos mormaços, nessa doença histérica de que ninguém na tua pátria pôde decerto determinar a pungentíssima origem, e que não é mais, nada mais é, talvez, do que a doença do clima, do spleen das tardes, das exaustas paisagens sem seiva; as displicências amargas à hora dos longos ocasos taciturnos, quando adormecidamente as campinas e as planícies incultas nevam e o horizonte é de uma trespassante angústia crepuscular que desola... Aí tens o luar... Cobre-te nessa musselina fúlgida, veste essa finíssima gaze diáfana... Abre os primorosos olhos de Madona, castíssimos, chorosos e macerados, e absorve pelos cílios todo este nosso fluido e luxuoso azul; e fecha depois esses teus primorosos olhos também azuis... Sorri ainda uma vez, como num supremo frêmito final de ave ferida no peito; agita amorosamente, languescidamente, numa poeirada d’ouro, como na última noite de beijos da remota paixão que se foi, a loira e divina cabeça astral, leonina e doirada; tem um derradeiro estremecimento convulsivo e sonoro de cordas 380 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 d’harpa em todo o níveo corpo; cerra à música celeste, eucarística da voz para sempre os lábios, e, assim, nesse lácteo nimbo seráfico da Lua, fica em êxtase, na doce, na infinita quimera misteriosa da Morte, numa leve graça idealizante e alada de vôo etéreo de Querubins, como quem está dormindo ou como um sol que empederniu e gelou... Fria Aparição da meia-noite, o Luar seja contigo! OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 381 ESTESIA ESLAVA Como os embriagados de cava da Polinésia vou tartamudeando e soluçando sob as paixões, ó águia, Águia Germânica, imperiosa e doirada! Uma estranha harmonia de “Dança Macabra” de Saint-Saens me entorpece e invade em lágrimas negras de notas. Todo o meu pensar e sentir estacou de súbito agora, como um nervoso cavalo da Arábia a que se refreia o bridão, diante da tua plumagem d’oiro, da tua rija envergadura d’asa valente – ó águia! doirada Águia humana e Germânica, que tudo de mim para sempre levas, Esperanças e Sonhos, impetuosamente arrebatado no alto, ao impulso fremente das tuas garras alpinas. E eu fico em ânsias no vácuo, num vago anelar indefinido, como a aspiração do perfume que quer ser luz... Mas, um pedaço de horizonte ao longe marcando as infinitas distâncias e uma língua de terra aprumada em monte, tornam-me tangível o sentimento da realidade; e, então, claramente vejo e sinto, desiludido das Cousas, dos Homens e do Mundo, que o que eu supunha embriagamento, arrebatamento de amor nas tuas asas, ó loira Águia Germânica! nada mais foi que o sonambulismo dum sonho à beira de rios marginados de resinosos aloendros em flor, na dolência da Lua nebulosa e fria, à alta paz do Azul, sob as pestanejantes estrelas rutilantemente acesas... 382 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 TÍSICA Lângüida e loura, tinha, na verdade, um ruidoso e festivo acordar de canários. Quando o dia vem triunfalmente cantando por todas as gargantas de oiro dos pássaros, perfumado por todos os prados de rosas, rumorejando por todos os sonoros veios cristalinos de fontes, Ela erguia-se também do leito, cantando, numa alegria comunicativa que iluminava tudo e ia para o piano soluçar ao teclado lindas barcarolas de valsas. Quanta vez a ouvi, e quantas outras a vi no résdo-chão que enfrentava a minha morada, sempre com um vermelho esmaecido, manchado, em ambas as faces. Como era feliz, e que ruidoso e festivo acordar de canários tinha Ela! * * * * * * * * * * Chegou, afinal, o Inverno. A emigração das andorinhas começa em vôos incisivos, que frisam os espaços translúcidos de ruflagens d’asa... Os grandes frios pedem as grandes capas de lã para as mulheres, os confortáveis regalos de pelúcia, as luvas, que agasalham, que protegem as mãos, os pardessus e os largos fichus para a cabeça. Desprendem-se já do éter as fortes lestadas de vento e chuva, destruidoras e rijas, arrepiando e convulsivamente contorcendo os galhos das árvores, que amarelecem. Amanhece-se tiritando sob o fulgurante ar frígido das geadas, que nevam os plácidos campos. E, lá, acima das serras altas, nas desprotegidas cabanas onde a miséria habita, tiritam também de frio e desamparadamente morrem, com uma chama azul no olhar vítreo, as louras e morenas virgens tísicas que na OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 383 estação passada levaram a trabalhar nos rudes amanhos da lavoura e a mourejar nas longas vigílias amargurosas da agulha. * * * * * * * * * * A tísica! A tísica! Essa doença simbolicamente dolorosa e triste, que devasta os lares como os cortantes invernos devastam a searas! Doença artística e desolada, que dá um aspecto eminentemente romântico a todas as mulheres, como àquela violeta de Parma, flor dolente e venenosa do Amor, essa Margarida Gautier, roxo lírio inefável de melancolia plantado à margem de lagos furtacores de quimeras e que a mais abrasadora paixão, a febre mais intensa, o tufão ardente de um fundo e desvairado sentimento para sempre emurcheceu e desfolhou! Doença amarga! que soturnamente devorando os pulmões, põe em redor de quem a sofre um magoado impressionismo de saudade e uma névoa gelada de sepulcro... E as virgens, que morrem dessa doença tão atormentadora e serena ao mesmo tempo, levam para o túmulo, na crispação dos lábios entreabertos e violáceos, como derradeira e a mais pungente ironia da Dor, o desmaiado sorriso da última esperança, do último sonho, da última ilusão que tiveram sobre a Terra. * * * * * * * * * * Há muitos dias já que não a vejo, a lângüida Loura. Não sei por quê, mas a sua ausência inquietame. Eu quisera sempre vê-la, como dantes, pálida, lângüida e loura, com um vermelho esmaecido, manchado, em ambas as faces. Porém ela não aparece, não vai, como então, sentar-se ao piano, no luminoso purpurear das manhãs, 384 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 fazendo soluçar no teclado lindas barcarolas de valsas. E isso punge-me n’alma de tal modo que eu procuro saber o que é feito dela e dizem-me que adoeceu. – Adoeceu! E de quê? – Está tísica. O médico diz que não durará muito. – Tísica! Tão moça e tão bela! E que ar festivo tinha ela. Como cantava! Que sonoridade de voz! E tudo isso agora acabar, morrer... * * * * * * * * * * É certo, aflitivamente certo o que me disseram. Ela vai morrer! Vejo-a continuamente de uma palidez clorótica, os olhos de um brilho cru, agudo, que faz febre; as orelhas diáfanas, muito despegadas do crânio; o nariz cada vez mais afilado e desfalecido; toda ela de uma amarelada transparência de morte, duma magreza hirta, como essas santas mártires do cilício que vivem nos claustros fechados e austeros de pedra, olhando entre grades para céus fuscos, com olhos cheios dos fluidos místicos do Panteísmo, e que parecem subir, através de nimbos, além, às empíreas regiões dos excelsos arcanjos alvos de luz... Vejo-a, constantemente, através de vidraças, sem brilho de vida quase, como um astro vesperal prestes a apagar para sempre todo o seu clarão diamantino e virgem. E, no entanto, nos intervalos lúcidos da doença, que lhe abrem no peito, às Esperanças, como um esplendor de força nova, de vigorosa saúde, o piano vibra de quando em quando, sob as suas mãos febris, trêmulas, nervosas e cadavéricas, alguma melodia triste de casuarinas gementes, um desvairamento histérico de lágrimas, a fina música nostálgica do fim de tudo – talvez essa suspirante serenata de Schubert, cujo ritmo saudoso tão fundamente nos invade a alma e a entristece e no qual parece haver gritos e soluços de amor entrecortados pela agonia torturante da Morte... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 385 ORAÇÃO AO MAR Ó mar! Estranho Leviatã verde! Formidável pássaro selvagem, que levas nas tuas asas imensas, através do mundo, turbilhões de pérolas e turbilhões de músicas! Órgão maravilhoso de todos os nostalgismos, de todas as plangências e dolências... Mar! Mar azul! Mar de ouro! Mar glacial! Mar das luas trágicas e das luas serenas, meigas, como castas adolescentes! Mar dos sóis purpurais, sangrentos, dos nababescos ocasos rubros! No teu seio virgem, de onde derivam as correntes cristalinas da Originalidade, de onde procedem os rios largos e claros do supremo vigor, eu quero guardar, vivos, palpitantes, estes Pensamentos, como tu guardas os corais e as algas. Nessa frescura iodada, nesse acre e ácido salitre vivificante, Eles se perpetuarão, sem mácula, à saúde das tuas águas mucilaginosas onde geram-se prodígios como de uma luz imortal fecundadora. Nos mistérios verdes das tuas ondas, dentre os profundos e amargos Salmos luteranos que elas cantam eternamente, estes Pensamentos acerbos viverão para sempre, à augusta solenidade dos astros resplandecentes e mudos. Rogo-te, ó Mar suntuoso e supremo! para que conserves no íntimo da tu’alma heróica e ateniense toda esta dolorosa Via-Láctea de sensações e idéias, estas emoções e formas evangélicas, religiosas, estas rosas exóticas, de aromas tristes, colhidas com enternecido afeto nas infinitas aléias do Ideal, para perfumar e florir, num abril e maio perpétuos, as aras imaculadas da Arte. Em nenhuma outra região, Mar triunfal! ficarão estes Pensamentos melhor guardados do que no fundo das tuas vagas cheias de primorosas relíquias de corações gelados, de noivas pulcras, angélicas, mortas no derradeiro espasmo frio das paixões enervantes... 386 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Lá, nessas ignotas e argentadas areias, estas páginas se eternizarão, sempre puras, sempre brancas, sempre inacessíveis a mãos brutais e poluídas, que as manchem, a olhos sem entendimento, indiferentes e desdenhosos, que as vejam, a espíritos sem harmonia e claridade, que as leiam... Pelas tuas alegrias radiantes e garças; pelas alacridades salgadas, picantes, primaveris e elétricas que os matinais esplendores derramam, alastram sobre o teu dorso, em pompas; pelas convulsas e mefistofélicas orquestrações das borrascas; pelo epiléptico chicotear, pelas vergastantes nevroses dos ventos colossais que te revolvem; pelas nostálgicas sinfonias que violinam e choram nas harpas da cordoalha dos Navios, ó Mar! guarda nos recônditos Sacrários d’esmeralda as Idéias que este Missal encerra, dá-o, pelas noites, a ler às meditadoras Estrelas, à emoção dos Angelus espiritualizados e, majestosamente, envolve-o, deixa que Ele repouse, calmo, sereno, por entre as raras púrpuras olímpicas dos teus ocasos... Evocações 388 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Les seuls vivants méritant le nom d’Artistes sont les créateurs, ceux qui éveillent des impressions intenses, inconnues et sublimes. VILLIERS DE L’ISLE ADAM, L’Ève Future INICIADO Desolado alquimista da Dor, Artista, tu a depuras, a fluidificas, a espiritualizas, e ela fica para sempre, imaculada essência, sacramentando divinamente a tua Obra. Pedrarias rubentes dos ocasos; Angelus piedosos e concentrativos, a Millet; Te Deum glorioso das madrugadas fulvas, através do deslumbramento paradisíaco, rumoroso e largo das florestas, quando a luz abre imaculadamente num som claro e metálico de trompa campestre – claro e fresco, por bizarra e medieval caçada de esveltos fidalgos; a verde, viva e viçosa vegetação dos vergéis virgens; os opalescentes luares encantados nas matas; o cristalino cachoeirar dos rios; as colinas emotivas e saudosas – todo aquele esplendor de colorida paisagem, todo aquele encanto de exuberância de prados, aqueles aspectos selvagens e majestosos e ingênuos, quase bíblicos, da terra acolhedora e generosa onde nasceste – deixaste, afinal, um dia, e vieste peregrinar inquieto pelas inóspitas, bárbaras terras do Desconhecido... Vieste da tua paragem feliz e meiga – amplidão de bondade patriarcal, primitiva – mergulhar na onda nervosa do Sonho, que já de longe, dos ermos rudes do teu lar, fascinava de magnéticos fluidos, de imponderados mistérios, o teu belo ser contemplativo e sensibilizado. Chegas para a Via-Sacra da Arte a esta avalanche imensa de sensações e paixões uivantes, roçando esta OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 389 multidão insidiosa, confusa, dúbia, que de rastos, de rojo, burburinha, farejando ansiosamente o Vício. Vens ainda com todo o sol fremente do teu solitário firmamento provinciano na carnação vigorosa de forte, de virilizado naqueles ares; trazes ainda no sangue aceso a impetuosidade dos lutadores alegres e heróicos e ainda todo esse organismo desenvolvido livremente nos campos respira a saúde brava daquela atmosfera casta e verde, dos amplos céus úmidos da tinta fresca das manhãs, aguarelados delicadamente de claro azul. Mas, daí a pouco, uma vez imerso completamente na Arte, uma vez concentrado definitivamente nela, todo esse brilho e viço vitoriosos, por uma surpreendente transfiguração, desaparecerão para sempre, e então, tu, lívido, trêmulo, espectral, fantástico, terás o impressionante aspecto angustioso e fatal do lúgubre aparato de um guilhotinado... A Arte dominou-te, venceu-te e tu por ela deixaste tudo: a viva, a penetrante, a tocante afeição materna, de um humano enternecimento até as lágrimas, até a morte, até o sacrifício do sangue. Por ela deixaste esse afeto extremo, louco, quase absurdo, de tua mãe – cabeça branca estrelada de amarguras, Espírito celestial do Amor, aquela que, nas miragens infinitas e nas curiosidades enigmáticas da Infância, santificou, ungiu o teu corpo com o óleo sacrossanto dos beijos. Tudo esqueceste, para vir fecundar o teu ser nos seios germinadores da Arte. E, quando alimentado, quando conquistado e vencido por ela, quiseres voltar depois aos braços acariciantes de tua mãe, num risonho movimento de afetiva alegria, clara, fresca, espontânea, sadia e simples como a de outrora, esse movimento lhe parecerá funesto e acerbo, como o ríctus de uma caveira, sem jamais o antigo encanto e frescura. E tu, então, surgirás para ela como a sombra, o fantasma do que foste, um desvairado, perdido, errante na Dor – tais e tantas serão em ti as duras rugas, 390 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 imprevistas e prematuras, para sempre pungitivamente produzidas pelo dilaceramento da Paixão estética. Mas tua mãe te falará das bizarras correrias da tua mocidade, mais florida e mais virgem do que um campo de rosas brancas nas agrestes regiões onde nasceste. E a alma da tua mocidade, a tua jovem bravura de mocidade, andará, vagará já, errando, errando, esquecida do mundo, como um solitário monge, através dos longos e sombrios claustros da Saudade. E, não só tua mãe, mas teus irmãos, teu pai, todos os teus te olharão depois, secretamente abalados, como a um desconhecido, sentindo, por vago instinto, que os caracteres ignotos e supremos do teu ser não são apenas, elementarmente, os mesmos caracteres da simples e natural consagüinidade; que tu, por mais unido que estejas a eles por laços inevitáveis, fatais, estás longe, afastado deles a teu pesar, sem malícia, de alma desprevenida e sã, como as estrelas nas soberanias transcendentes da sua luz estão para sempre afastadas da obscura Terra. E tudo isso por andares atraído por forças redentoras, perdido nos centros fascinantes do absoluto sentir e do absoluto sonhar! Agora, ainda trazes a alma como a mais excêntrica flor do Sol, com todas as febrilidades e deslumbramentos do Sol – flor da força, da impetuosidade das seivas, aberta, rasgada em rubro, viva e violenta a vermelho, cantando sangue... Porém, se és vitalmente um homem, e trazes o cunho prodigioso da Arte, vem para a Dor, vive na chama da Dor, vencedor por senti-la, glorioso por conhecê-la e nobilitá-la. Tira da Dor a profunda e radiante serenidade e a solene harmonia profunda. Faze da Dor a bandeira real, orgulhosa, constelada dos brasões soberanos da poderosa Águia Negra do Gênio e do Dragão cabalístico das Nevroses, para envolver-te grandiosamente na Vida e amortalhar-te na Morte! OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 391 Vem para esta ensangüentada batalha, para esta guerra surda, absurda, selvagem, subterrânea e soturna da Dor dos Loucos Iluminados, dos Videntes Ideais que arrastam, além, pelos tempos, para os infinitos do incognoscível futuro, as púrpuras fascinadoras das suas glórias trágicas. Se não tens Dor, vaga pelos desertos, corre pelos areais da Ilusão e pede às vermelhas campanhas abertas da Vida e clama e grita: quem me dá uma Dor, uma Dor para me iluminar! Que eu seja o transcendentalizado da Dor! Vem para a Dor, que tu a elevas e purificas, porque tu não és mais que a corporificação do próprio Sonho, que vagueia, que oscila na luxúria da luz, através da Esperança e da Saudade – grandes lâmpadas de luas de unção piedosa, cuja velada claridade tranqüila dá ao teu semblante a expressão imaterial, incoercível, etérea, da Imortalidade... E essa Imortalidade em que meditas é a das Idéias, da Forma, das Sensações, da Paixão, cristalizadas maravilhosamente num corpo vivo, quente, palpitante, que sintas mover, que sintas estremecer, agitar-se numa onda de sensibilidade, fremer, vibrar nas efervescências da luz... Condensa, apura, perfectibiliza, pois, o teu Sonho – Sol estranho, em torno ao qual voam condores e águias vitoriosas de garras e asas conquistadoras... Para a gênese desse Sonho, para a gênese dessa Arte, é necessário o Otimismo da Fé, poderosa e religiosamente sentida; é necessário que a tua alma, forte, avigorada para a grande Esfera, tenha a Crença edificante e paire presa às correntes invisíveis, ignotas, de um sentimento espiritualizado e sereno. Ao Pessimismo de Schopenhauer, que tu, pelo fundo de crítica psicológica e de alada e fagulhante ironia adoras, como Satã, por diabólica fantasia, adora os abstrusos venenos do Mal; a esse Pessimismo seco, duro, 392 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 ditador e esterilizante, prefere antes o Otimismo religioso de Renan, que não abate nem envilece as almas, mas antes as alevanta e ilumina, sem lhes tirar a retidão austera da Verdade, as linhas justas e solenes da alta compreensão da Vida. Do pessimismo e do otimismo, do conjunto dessas duas forças, tira a linha geral do teu ser, para que a visão da tua alma fique perfeita e profunda e não ganhe nem hipertrofias nem vícios de percepção nem graves e antipáticos desequilíbrios de sensibilidade, na frescura abençoada e nos rejuvenescimentos e reflorescências da Fé. Assim, concordará a ação com a sensação, estarás em imediata e clara harmonia com a tua extrema natureza, estudados os fundamentos que intimamente a constituem: a bondade, o afeto, o enternecimento, a delicadeza, a resignação, a brandura, a abnegação, o sacrifício e a calma, latentes qualidades essas todas puramente de um Otimismo religioso, porque são essas qualidades que representam o fundo sincero e sério das faculdades estéticas, presas sempre a um Ideal abstrato, que é, na sua essência, o Ideal do Infinito, da Imortalidade, da Religião, da Fé. Se tens Fé, se vens inflamado veemente e intensamente para o sentimento original da Concepção e da Forma; se te devora a ansiedade lancinante de uma Aspiração que arrebata em asas, que desprende vôos brancos e largos para regiões muito além da Morte; se percorrem os teus nervos, em prodígios de harmonia, músicas estranhas e coloridas como paixões e sensações; se dentro de todo o teu ser há o Inferno dantesco, tumultuoso de Visões, épico de majestade mental, a crescer, a crescer, a subir mediterraneamente em ondas cerradas, compactas de sonambulismos estéticos; se sentes a atraente vertigem da palpitação dos astros, a dolência pungente das melancolias enevoadas e doentes que insensivelmente umedecem os olhos; se na luz, se OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 393 no ar, se na cor, se no som, se no aroma tens a fina, a delicada, a sutil percepção da Arte; se sabes ser, ter na Arte uma existência una, indivisível, és o Eleito dela, o Impressionado, o Iniciado. Não tens mais do que agir fatalmente pelo teu temperamento, numa função original, numa castidade ingênita de emoções, na espontaneidade do teu sangue novo e dos teus nervos aristocráticos, tensibilizados pela estesia. Mas, para livremente chegares a esse resultado artístico, é mister que preceda a tudo isso um sistema de princípios integrais, fecundos e profundos na tua natureza, dando-te, por esse modo, uma firmeza e serenidade emotiva. Não é, apenas, querer, não é poder, apenas – é Ser! – E se tu sabes ser, se tu és, numa legitimidade flagrante, num enraizamento muito intenso de todo o teu organismo, vivendo a Arte e não a Arte vivendo em ti; se assim tu és, na profundidade real desse esquisito e maravilhoso estado, meio-inconsciência, meio-névoa, que te impulsiona para a Concepção; se assim tu és, por germens inevitáveis, fatais, a tua Obra, ainda em gestação, atestará eloqüentemente, mais tarde, as inauditas manifestações do temperamento. Tudo está em seres a tua Dor, em seres o teu Gozo, homogeneamente; em saíres, por movimentos espontâneos, livres e simples, representativos de um vivo e afirmativo Fenômeno, da Esfera do mero Instinto para a Esfera reabilitadora, pura e radiante do Pensamento. Se é certo que trazes em ti a principal essência, as expressivas raízes, a flama eterna, o nebuloso segredo dos Assinalados, um poder mágico, irresistível, a que não poderás fugir jamais, te arrastará, te arrojará, como Visão legendária, profética, numa grande convulsão e estremecimento, para fora das humanas frivolidades terrestres, para fora das impressões exteriores do 394 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Mundo, mergulhando-te soberanamente, para sempre!, no fundo apocalíptico, solene, das Abstrações e do Isolamento... Se trazes essa verdadeira, perfeita aristocracia genésica do Sentimento; se sentes que toda a límpida e nobre grandeza está apenas na simplicidade com que te despires dos vãos ouropéis mundanos, para entrar larga e fraternalmente na Contemplação da Natureza; se vens para dizer a tua grave, funda Nevrose, que nada mais é do que a eloqüente significação da Nevrose do Infinito, que tu buscas abranger e registrar; se tens essa missão singular, quase divina, vai sereno, o peito estrelado pelas constelações da Fé, impassível ao apedrejamento dos Impotentes, firme, seguro, equilibrado por essa força oculta, misteriosa e suprema que ilumina milagrosamente os artistas calmos e poderosos na obscuridade do meio ambiente, quando floresce e alvorece nas suas almas a rara flor da Perfeição. Que importam a excomunhão e os desprezos mordazes sobre a tua cabeça?! Que importam os arremessados lançaços d’aço e de ferro contra o broquel do teu peito e contra o vigor de tronco em rebentos verdes do teu flanco?! Os ímpios não pairam nestas órbitas, não giram nestas chamejantes Esferas, não se incendeiam e não morrem nestes augustos e inéditos Infernos. Segue, pois, os que seguem contritos, sob um arcoíris celestial de esperanças vagas, a alma como uma flor exótica dos trópicos ceruleamente aberta às messes de ouro do sol, e a boca, no entanto, secamente, asperamente amordaçada sem piedade pelas sedes tenazes e amargas dos mais inquietantes desejos... E vai sereno, como os Eleitos da Arte, extremados e apaixonados na chama do seu Segredo, da sua excelsa Vontade – levitas extraordinários, martirizados nas inquisições truculentas da Carne, mas benditos, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 395 purificados, sem culpa de pecado mundano, na recôndita manifestação das Emoções e do Entendimento. Segue resoluto, impávido, para a Arte branca e sem mancha, sem mácula, virginal e sagrada, desprendido de todos os elos que entibiem, de todas as convenções que enfraqueçam e banalizem, sem as explorações desonestas, os extremos de dedicação falsa, as fingidas interpretações dos cínicos apóstatas, mas com toda a forte, a profunda, a sacrificante sinceridade, da tua grande alma, conservando sempre intacta, sempre, a flor espontânea e casta da tua sensibilidade. Para resistir aos perturbadores ululos do mundo fecha-te à chave astral com a alma, essa esfera celeste, dentro das muralhas de ouro do Castelo do Sonho, lá muito em cima, lá muito em cima, lá no alto da torre azul mais alta dentre as altas torres coroadas d’estrelas. Vai sereno, belo Iniciado! Vai sereno para esta prodigiosa complexidade de Sentimentos, agora que abandonaste a franqueza rude das montanhas, além, longe, na solidão concentrativa, no silêncio banhado de impressionante, comunicativa e augusta poesia, da tua terra de selvas e bosques bíblicos! Vai sereno! a cabeça elevada na luz, vitalizada e resplandecida na nevrosidade mordente da luz e os fatigados olhos sonhadores, graves, ascéticos, atraídos pelo mistério da Vida, magnetizados pelo mistério da Morte... 396 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 SERÁFICA Como as iluminuras dos Missais, que ressaltam de marfins ebúrneos, era infinitamente seráfica, da beatitude angélica dos querubins, aquela pálida mulher juncal, de um moreno triste e contemplativo de magnólia crestada. Seus grandes olhos negros, profundos e veludosos, de finíssimos cílios rendilhados, raiados de uma expressão judaica, tornavam ainda maior o relevo do palor esmaiado do rosto melancólico, que a singular formosura brandamente iluminava de claridade velada... As linhas harmoniosas do seu busto sereno, perfeito, davam-lhe encanto vago, aéreo, siderações egrégias, prefulgências de Arcanjo. Pairavam nessa mulher jalde-esmaiado, que na luz loura do sol tinha toques d’ouro, suavidades de cânticos sacros, carícias de aves, e ritmos preciosos de cítaras e harpas finamente vibradas través a sonoridade clara das lânguidas águas do Mar. Altiva e alta, com o sentimento frio do mármore das Imagens amarguradas, fluíam-lhe da voz, quando raramente falava, cismativas dolências, fundas nostalgias enevoadas... Mas, muda, na mudez das religiosas claustrais, ficava então de uma beleza divinal e secreta, da excelsa resplandecência sagrada dos Hostiários. E, quando erguia os cílios densos e cetinosos e o clarão dos olhos brilhava, como que se evaporizavam deles chamas e músicas paradisíacas, uma espiritualização a glorificava, eflúvios de aroma, a leve irisação da graça. Dominadora, triunfal, na auréola do esplendor que a circundava, parecia reinar num altar etéreo, por entre os finos astros imortais. Fazia crer que todos os sentimentos afetivos purificados, que todas as emanações originais da terra correriam, perpetuamente, em cortejos reverentes, a OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 397 vê-la passar, a beijá-la na epiderme de cera, a venerála, enfim, com esse amor ideal, indelével, eterno, da natureza abstrata... O perfume e a radiação da sua cabeça majestosa, astral não fascinavam, não atraíam apenas, mas idealizavam sempre – como se a Seráfica fosse a Aparição simbólica, surgindo de um fundo lívido de lua, uma Santa Teresa, bela e ascética nos cilícios da religião do Amor, amortalhada na castidade das açucenas e lírios... A alma dos Estéticos, dos curiosos Emocionados se deslumbrava em êxtases de ocasos ao ver-lhe a aristocrática esveltez monjal, os grandes olhos negros e magoados, de beleza deífica, os ondeados cabelos tenebrosos e a boca purpurejante, anelante, letárgica, ligeiramente golpeada de um travor enervante de volúpia dolorosa... Os seios deliciosos e tépidos, origem branca e bela da graça e do desejo, eram duas raras rosas intemeratas, cujo aroma esquisito e vivo meigamente deixava um fino encanto e uma suave fascinação no ar... Virgem ainda, com todo o impoluto verdor do seu corpo misterioso, fechada nos recatos ingênitos do pudor, a Morte, afinal, veio entoar o Canto Nupcial de Seráfica, o seu Epitalâmio... E ela, no tálamo da Morte, nessa mística melancolia de outrora, que a velava, e naquele esmaiado palor, lembrava, aos entendimentos delicados, aos solenes e reclusos profetas da Grande Arte, ter emudecido glacialmente para sempre, sem os impundonorosos, profanadores contatos, de uma exótica e asiática doença... 398 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 MATER Naquela hora tremenda, grande hora solene na qual se ia inicar outra nova vida, foi para mim uma sensibilidade original, um sofrimento nunca sentido, que me desprendia da terra, que me exilava do mundo, tal era o choque violento dos meus nervos nesse momento, tal a delicada e curiosa impressão de minh’alma nesse transe supremo. Ela, abalada por gemidos, na dor que a dilacerava, quase desfalecia, com a mais rara expressão misteriosa nos grandes olhos, os lábios lívidos, o semblante de uma contemplatividade de martírio, transfigurada já pela angústia sagrada daquela hora, no instante augusto da Maternidade. Todo o meu ser, arrebatado por essa imensa tragédia de sacrifícios, de abnegação cristã, de heroísmos incomparáveis, sofria com o estranho ser da Mater toda a amargura infinita do majestoso aparato da Vida prestes a surgir do caos, da chama palpitante, prestes a irromper da treva... Como que outra natureza, uma paixão viva e forte, um carinho maior me inundava, subia vertiginosamente pelo meu ser, me incendiava numa onda flamante de luz virginal, de claridade vibrante, que me trazia ao organismo alvoroçado rejuvenescimentos inauditos, mocidade viril, poderosa, alastrando em seiva fremente de sensações, nervosamente, nervosamente impulsionando o sangue. Às vezes ficava como que num vácuo, só, numa sinistra amplidão vazia de afetos, sob o eletrismo de correntes invisíveis que me prendiam, me arrastavam ao pensamento da Morte, ao auge do dilaceramento, da aflição, do delírio despedaçador da lembrança de vê-la morta, sem estremecimentos de vitalidade; sem que as suas mãos cheias de afago, as suas mãos dementes, bem-aventuradas, misericordiosas, perdoadoras, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 399 sagradas, relicariamente sagradas, me acariciassem mais; sem que os seus braços longos, lentos, lânguidos, me acorrentassem de tépidos abraços; sem que o contacto dos meus beijos apaixonadamente profundos a acordasse, – fria, insensível, horrível, gelada ao meu clamor de adeus, ao meu grito tenebroso, tremendo, de leão despedaçado, ferido pela flecha envenenada de uma dor onipotente, rojado de bruços, baqueando em soluços sobre a terra maldita e bárbara! De súbito, porém, as lancinantes incertezas, as brumosas noites pesadas de tanta agonia, de tanto pavor de morte, desfaziam-se, desapareciam completamente como os tênues vapores de um letargo... E uma claridade inefável de madrugadas de ouro, alvorecida das aves brancas de um país sideral, apagava em mim a dor fria, exacerbante, desses pensamentos impacientes e torvos; dava-me o vigoroso alento, a grande esperança de que ela sobreviveria, de que ela sentiria, com Orgulho sagrado, nesse primeiro movimento da Maternidade, correr nas veias todo o impulso delicioso e nobre, toda a delicada aptidão ingênita, poderosa, profunda, para amamentar, fazer florir e cantar no hostiário sacrossanto dos seus seios, aquela doce e vicejante existência que na sua atribulada existência se gerara. E toda a antiga e virtual castidade, a adolescência promissora, prenuncial, o mago segredo púbere da sua passada virgindade se transfigurariam na opulência, no fausto de sensibilidade, de nervosidade, da complexa paixão materna. Mas o momento da angústia suprema se aproximava, fazia-se uma pausa religiosa nesse monólogo mental que me agitava em febre, na concentração aflitiva dos meus pensamentos – agora mudos, no reverente silêncio, na ansiedade calada de quem espera... Era chegado o momento, grande, grave e belo momento entre todos, em que a mulher, perdendo a 400 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 volubilidade, a gracilidade diáfana e o alado encanto de virgem, se transfigura e recebe uma auréola, um sério resplendor de nobre martírio, de simpático consolo, envolve-se numa sombra e num silêncio de piedade e de sacrifício, num Angelus abençoado de amor. Era chegado o momento em que aquelas formas se espiritualizavam, se eterizavam, tomavam asas de sonho, inflamadas por um novo e alto sentimento, tão tocante e tão augusto, que parecia afinado e fecundado nos céus pela graça divina e peregrina dos anjos. Ê quando a mulher parece desprender-se, libertar-se suave e secretamente da argila que a gerou e criar para si, solenemente, uma esfera perfeita e eleita de abnegação infinita e de resignação sublime. Quando os seus seios magnificentes, nos renascimentos da Beleza, símbolos delicados da maternal Ternura, florescem à vida dos pequenos seres que nascem, numa alvorada carinhosa e tépida de agasalho, amamentando-os com o néctar delicioso do leite. Nessa hora extrema em que parece desprenderem-se da mulher, desatarem-se, evaporarem-se véus translúcidos de virgindade, para surgir, como de um caule misterioso, a meiga e mágica flor da Maternidade. Todo aquele organismo fecundado estremecia, estremecia, nesse inicial e materno estremecimento virgem, vagamente lembrando as fugitivas vibrações nervosas de sonora harpa nova, de ouro puro, original e intacta, pela primeira vez vibrada com excepcional emoção por dedos inviolados e ágeis... E, em pouco, então, como num suntuoso levante de púrpuras, através de gemidos pungentes, de gritos e ânsias delirantes, a cabeça docemente pendida numa contemplativa amargura, os olhos adormentados pelas brumas crepusculares e lacrimosas de um pressentimento vago, magoado e esmaecida toda a suave graça feminina, na extrema convulsão do corpo dela, todo aquele surpreendente fenômeno foi como que acordando, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 401 alvorecendo, surgindo das névoas mádidas e sonolentas, letárgicas, de pesadelo... E a flor maravilhosa e rubra da matéria, gerada na imensa dor, abriu, enfim, em prodígios, pomposamente. Numa apoteose de sangue, respirando o sangue impetuoso, abundante, que jorrava em auroras, em primaveras vermelhas de viço germinal, raiara como clarão aceso de Vida, num grito íntimo, latente, do seu tenro organismo elementar ainda – um grito talvez selvagem, um grito talvez bárbaro, um grito talvez absurdo, arremessado para além, ao Desconhecido do mundo em cujos dédalos intrincados esse delicado ser acabara de penetrar agora por entre ensangüentamentos. Parecia que de uma zona fantástica, dessa Índia ouro e verde, opulenta, feérica, como caprichoso tesouro de Lendas e de Baladas, alvorara o Encanto, criara asas e viera, com o pólen radiante da fecundação, insuflar a vertigem, dar o fremente sopro criador à cabeça, aos olhos, à boca, aos braços, ao tronco, a todo o corpo num movimento quebrado, voluptuoso, lânguido, de germens que se concretizam, que se condensam e vão adquirindo aos poucos, com infinitas delicadezas e inefabilidades, todas as formas perfeitas, todas as linha dúcteis, todas as curvas e flexibilidades sensíveis, todas as fugitivas expressões corretas e harmoniosas. Ali estava aquele vivo e eloqüente rebento, iluminado pelos idealismos da minh’alma, vivendo dos florescimentos olímpicos, da alacridade cantante, do ruído em festa, da imaculada frescura da minha livre e forte alegria antiga de adolescente. Ali estava, para o meu amor sereno, para o consolo meditativo das minhas grandes horas de anseio, para o recolhimento ascetérico da minha fé estesíaca, a Imagem palpitante, gárrula, trêfega, da Infância já passada. Ali estava agora a vida desabrochante, o encanto alegre, aflorado, ridente – hino viçoso e verde e virgem e 402 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 evocativo e sugestivo de uma ventura morta, saudade intensa, chamejante, como que espiritualizada no Filho, rememorando, evocando, numa expressão elegíaca, todos esses longínquos, remotos e significativos deslumbramentos, cânticos, miragens, sóis e estrelas da primeira idade tão enternecivelmente assinalada. Era como que a retrospectividade luminosa de um tempo, que subia, em incensos, de um fundo enevoado: terra sagrada e extinta, saudosa e verdejante Palestina que eu entrevia longe, nas brumas vagas da memória, dentre hosanas e sicômoros; – página recordativa que as estrelas e os aromas docemente fecundaram de amor e de sonhos. E eu ficava por muito tempo a olhá-lo, a olhá-lo, a rever-me na frescura cândida daquela carne, a aspirar com avidez o perfume violento daquela flor viva, considerando, meditando sobre todos os seus traços, sobre a expressão curiosa, de pequenina múmia, do seu corpo veludoso, como que embalsamado no óleo virtuoso de preciosas ervas verdes e virgens. Ali estava, enfim, quem me tornava de ora em diante soturno, calado, no êxtase mudo da contemplação, como sob o impressionante poder cabalístico, sob a eloqüência vidente de hieróglifos mágicos... E, assim mentalmente considerando, eu sentia o mais reverente, o mais profundo, o mais concentrado respeito, o afeto mais vibrantemente tocante, aureolado de lágrimas, pelo templo majestoso e santo daquele belo ventre, onde enfim se oficiara a primeira Missa de Propagação perpétua. Todas as perfeições espirituais do ser que se liberta da materialidade vil, todos os anseios supremos pelas formas intangíveis das transcendentes sensibilidades, me transfiguravam, contemplando em silêncio aquele ventre precioso e bom, onde tomara corpo, se consolidara em organismo o gérmen quente e intenso da Paixão. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 403 Contemplando em silêncio aquele ventre venerando e divino – Vas honorabile! – de onde o sentimento épico e místico das sempiternas Abnegações ondulou como aroma eterno e celeste; ventre gerador e poderoso que se purificara e sagrara triunfalmente com os sacrificantes milagres da Fecundação; Olimpo glorioso que abrira os pórticos fabulosos à dominativa emoção, à fantasia heróica, à graça d’asas seráficas, do Gênio consolador, estóico e elíseo das amparadoras, misericordiosas Mães! Ó Ventre obscuro e carinhoso, soberbo e nobre pela egrégia função de gerar! Ventre de afetivas sublimidades, donde cantou e floresceu à luz a dolente vitória de uma existência, a encarnação soberana, a fugitiva tulipa negra para idealizar singularmente os Infinitos nostálgicos da minha Crença! Ó Ventre amado. Como foram extremamente puros e penetrantes e frementes os beijos de apaixonada volúpia e reverência sacrossanta que eu depus sobre o teu ébano! Em torno, no ambiente carregado da intensidade de toda essa maravilhosa sensação, errava o segredo ritmal de Litanias, de preces que Visões rezavam baixo, por Céus inefáveis, num abrir e fechar d’asas arcangélicas, d’asas límpidas, d’asas e asas rumorejantes, aflantes, cujo suave e ciciante ruído eu na Imaginação escutava enlevado... E a doce Mater, mais calma, numa unção de bemaventurança, numa auréola deífica, serenada já da dor profunda da Maternidade, parecia penetrada de um sentimento celeste, de fluidos virtuais do grande Amor, de resignada piedade – água lustral, da maternal paixão, que a lavava do mal do torturante pecado, purificando a sua alma simples, iluminando-a toda com o altivo esplendor de uma força heróica. Lembrava uma dessas excelsas Divindades espirituais, a Entidade das Abstrações dos reclusos místicos, Aparição imortal, cuja face, no resplendor 404 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 translúcido daquele sofrimento regenerante, tinha para mim o encanto mais alto, a ternura mais bela, a abnegação mais serena. Sentia-me diante de completa Religião nova que evangelizava a Crença naquela Mãe e naquele Filho – inteira Religião nova, cujos rituais e cultos eternos eram para mim agora esses dois seres extremadamente amados, cujo sangue irradiava no meu sangue, cuja vida penetrava na minha vida, inoculando-a de um júbilo e de uma graça profética – graça de Anjos e Astros em claridades, músicas e cânticos, por fios sutis de múltiplas cordas d’harpas, d’harpas e harpas, dentre os Azuis e as Constelações... Ao mesmo tempo sentia então que profundos e penetrantes frêmitos me abalavam, me convulsionavam todo, como se se operassem no meu organismo transformações recônditas, gerando uma outra alma, trazendo-me sede insaciável da Vida, o ressurgimento de estesia particular e rara. Força estranha, que eu até aí não conhecia, circulava com veemência nos meus nervos, dava-lhes tensibilidade e vibratilidade mais leves, mais finas; e, grandes asas diáfanas de Aspiração e Sonho, alavamme às supremas serenidades da Piedade e do Amor. O desejo que me clamava dentro do peito, em claras trompas guerreiras, numa onda sonora e impetuosa, era o de ir além, fora, longe do tédio das cidades murmurejantes, longe das curiosidades indiscretas, dos indiferentes e frívolos, das sentimentalidades aparatosas, dos enternecimentos calculados, decorativos e clássicos, das expansões d’estilo, ornamentais como corpos em tatuagem, de tudo o que grulha e reina na boçalidade majestática da espécie humana. O meu desejo indômito era de ir além, fora das brutas portas de pedra da Região dos Egoísmos, gritar, gritar, clamar, livremente, à natureza virgem, aos OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 405 campos, às florestas, aos mares, às ululantes tempestades, aos sóis em febre, às noites triunfais, coroadas d’estrelas, aos ventos coroados de pesadelos, que esse Filho extravagantemente amado nascera, que surgira enfim do mistério sonâmbulo da Maternidade... A ansiedade que me agitava, levantando dentro de mim o desconhecido, convulsionando este organismo num incêndio de sensação, era de deprecar ao Indefinido das Cousas, ao Abstrato das Formas, ao Intangível do Espírito, à Eloqüência dos Presságios, para que me dissessem o que ia ser desse frágil obscuro, dessa tímida flor da Desgraça, o que ia ser daqueles membros tenros, débeis; que estupendos augúrios dormiriam no brilho fugitivo daqueles olhos inconscientes, perdidos no vago de um fluido sentimento, sob o fundo fatal das impurezas da Carne, das inquietações do Pecado – germens latentes ainda, apesar do desdobramento milenário das eras, da absoluta e primitiva Culpa humana. Ansiava que me dissessem que mágicos filtros de gnomos da Noite o predestinariam; que frêmitos de desejo convulsionariam essa boca ainda tão impoluta, sã, ainda sem laivos visguentos; que luxúria intensa e nova inflamaria, acenderia centelhas nessa boca úmida, fresca, viçosa, apenas entreaberta já num indefinido anelo, sedenta, inquieta, impaciente, ávida já da instintiva volúpia do leite... Todo o evocativo estremecimento das saudades, das esperanças, das alegrias, das lágrimas me invadia a alma num sonho esquisito, exótico, oriental, por entre os nardos quentes, perturbadores e magnéticos, da Abissínia e da Arábia Ideal de todos os meus pensamentos fugidios, circulando, girando, torvelinhando, como silfos procriadores, em torno àquela meiga e venerada cabeça. Eu ficava absorto, contemplativo ante as sugestões delicadas que o supremo fenômeno trazia, nessa manifestação singular de curiosidades de preciosas 406 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 revelações ingênitas e caprichos ignotos da Natureza, sentindo que o Filho poderosamente me fascinava, que a mais irresistível atração me chamava para ele, atração vital, imediata, eterna, do sangue comunicativo e fraterno que clama pelo sangue fraterno. Ela, afetiva Sacrificada, Mater, dolorosamente aí ficaria na terra, gravitando nos centros nervosos da Vida, – Sombra divina e errante! – para o futuro, para a obscuridade, para a velhice, para o silêncio e esquecimento dos tempos... Ele, Filho, surgindo das nebulosidades da Matéria, caminhando, caminhando à Via-Sacra das horas e dos dias pelas ermas e infinitas encruzilhadas dos Destinos, iria então, resignado ou desesperado, para o Vilipêndio ou para as medíocres conquistas do Mundo, através dos conclamadores Anátemas, através dos lancinamentos inconcebíveis, através das taciturnidades melancólicas, através de tudo, tudo, tudo o que chora d’alto, profunda e apocalipticamente, o Requiem solene, a soberana majestade, tremenda, trágica, da imponderável Dor!... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 407 CAPRO Dentro daquele organismo em seiva fumente de novilho espojando se na amplidão os campos relvosos, trinavam, cantavam pássaros, vibravam fanfarras marciais. Temperamento de guerra, ostentoso como um carro de triunfo, outrora, nas hostes helênicas, era a volúpia que lhe ritmava as idéias, que lhe dava diapasão ao entendimento. Virginal, como a alva constelação dos astros, a sua Arte abria-se numa florescência vigorosa, dimanando o aroma natural, puro, criador e intenso, de terras lavradas e germinais, revolvidas de fresco, a doçura verde das tenras e viçosas folhagens, entre as quais brilha ao sol a loura abundância sazonada dos frutos. A sua natureza deveria ser estudada sem roupagens, sem atavios, livremente, a golpes crus e acres, a tons violentos e rubros, profundos e flagrantes, na plenitude de toda a extravagância e de toda a idiossincrasia que o singularizava. A afloração da sua força psíquica fazia lembrar uma fantástica floresta vermelha por efeito de um incêndio colossal: – largas e longas manchas de sangue alastrando tudo, clarinando tudo de gritos, de brados, de púrpuras de indignação, de ódios artísticos, de despeitos, de tédios mortais, de spleens enevoados. A cor, a luz, o perfume, para a sua esquisita e caprichosa sensibilidade, sangravam, vertiam sangue sinistro de dolorosa volúpia; e, todos os aspectos, todas as perspectivas, pareciam-lhe à retina requintada e misteriosa outras tantas manchas de sangue, que a sua estesia doente mais vivas, mais flagrantes via por toda a parte. E nessa tendência espiritual orgânica para os efeitos sangrentos, preferia à clorose das magnólias e 408 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 lírios brancos a rubente coloração das rosas e cravos bizarros. Superexcitado pelas nevroses ardentes do Pensamento, desde as liturgias simbólicas de Verlaine até aos satanismos de Huysmans, exigindo as linhas em alto requinte da Arte, toda a sua estética se manifestava então por uma corrente impetuosa de luxúria, de caprismo, de lubricidade pagã de sátiro, de fauno mítico, estirado ao sol, como certos animais no período da incubação, gozando, sibaritamente, a morna carícia do eterno clarão fecundante. Diante da retina coruscavam-lhe deslumbramentos de idéias, com claras, cantantes cores. Feriam-lhe agudamente a retina, impressionandoa, hipnotizando aquela idiossincrasia fatal, o ensangüentamento dos ocasos, os vermelhos clarinantes dos clarões de fogo, os rubros candentes, inflamados, das forjas, os escarlates violentos das púrpuras, os álacres rubis de certas tropicais florações e folhagens, os rubores quentes de certos sumarentos e selvagens frutos, a sulferina coloração delicada de vinhos tépidos, todos os rubros majestosos, potentes, embriagantes, toda a clamante alucinação dos vermelhos crepitando em sensações de chama, todas as atroantes fanfarras e gamas infinitas e finíssimas das cores como que aperitivas, palatais, genealógicas do Sangue. Os livros carnalíssimos, que porejam luxúria, acendiam-lhe, mais flamejantes, os instintos sensuais; e ficava então puro maometano, revestido em sedas e pedrarias prodigiosas de gozo, nesse lasso luxo oriental em que a Ásia se perpetua como o lânguido sol decadente das exóticas sensualidades. Nos seus nervos, nas suas veias circulavam flamas geradoras dessa Originalidade trucidante que naturezas febris ansiosamente procuram, como buscariam o recôndito veio profundo da água nas camadas mais obscuras da terra. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 409 Olfato delicado, claro, que tudo sentia, que tudo respirava, ainda por extremo requinte de volúpia, era extraordinária, maravilhosa a sensibilidade aguda da sua membrana pituitária, fariscando ativamente, em cios. Mas, os cheiros mais prediletos, mais sugestivos para ele, que lhe penetravam e cocegavam mais a mucosa nasal, numa atuação de esfregamento, como que no atrito agradável provocado na pele para a cessação de irritante prurigem, eram os cheiros acres de matérias resinosas, as emanações de folhas silvestres machucadas, a exalação úbere dos estábulos, o aroma estonteador e verde das maresias, o odor do sedimento de certos líquidos, o fartum que diversos animais segregam, o hircismo quente dos bodes, o estimulante de fermentação da cevada nas cervejarias, o sumo travoroso e ativo dos limões verdoengos, quase que tocados de um sentido penetrante, claro, inteligente e todos os amargos sabores das frutas ácidas e cálidas que como que lhe feriam, abriam numa chaga, em apetites aguçados e picantes, o grosso lábio enervado pela volúpia letárgica. E como ele se empurpurasse, se enlabaredasse no esplendor triunfal da Arte, esses odores todos o penetravam, o fascinavam, alertando-o, transfigurandoo para a Escrita, para a Forma. Era como se saísse de andar em volta de vasta coivara a arder e viesse dela aquecido, com o sangue esporeado, as veias latejando em febre, numa sensação intensa de produtividade. Mas, uma vez caído em frente ao papel branco, que tinha de receber o exuberante pólen do seu espírito, todos esses ímpetos, esses fervores esmoreciam, o calor dessa temperatura artística baixava logo e ei-lo então novamente vencido, numa espécie de coma, no adormecimento que lhe tolhia sempre o próprio esforço da vontade. 410 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 E, súbito, naquela espiritual ansiedade de natureza impotente, como que a dolorosa e enervante crise olfativa continuava, mais violenta, dava- se o mesmo fenomenal período de volúpia capra, nervosa, mental, no qual o sentimento pituitário dominava, impunha-se, avassalava as outras funções de modo verdadeiramente estranho. E o seu olfato desejava, ansiava sentir o talho sangrento nos açougues, as carnes rasgadas nos anfiteatros anatômicos, as feridas abertas nos hospitais de sangue, dentre os aços frios e cortantes dos instrumentos, como indiferentes, desdenhosos aparelhos, rindo, em rijas cutiladas sonoras, cantando o hino dos metais fulgentes ante as torturas humanas da matéria dilacerada. No entanto, outrora, esse lascivo, natureza dispersa, sem unidade de conjunto, produzira já algumas belas páginas cantantes, estilos com flamejamentos de espadas, vibrações candentes de bigorna, cintilantes como os polidos, espelhados broquéis antigos. Fora isso na adolescência, quando a sua natureza não se achava absorvida pela pestilência do meio ou mesmo quase constituindo, como agora, as próprias células dele. Eram primícias, prodigalidades do seu cérebro ainda não sazonado completamente; a abundância espontânea, mas não produzida por seleção, de um temperamento fecundo, farto de idealização e de força, mas sem a intensidade essencial que nasce da condensação e da síntese. Aquelas páginas eram verdadeiros viços, opulências de rebentos, florescências inéditas e castas que lhe brotavam do ser com o mesmo ímpeto de germinação dos vegetais rasgando a terra. Mas, desde que o seu temperamento chegara ao mais cabal desenvolvimento, que atingira à Elevação, subindo a extremos requintes, ele sentira essas páginas descoloridas, ocas, vazias, sem mergulharem no mar convulsivo, vulcânico da sua Imaginação, sem dizerem, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 411 sem falarem, sem reproduzirem todo o sol e toda a treva da sua recôndita Nevrose. Armado de coruscante cota de malha de espírito, tecida de diamantes, ele agora quereria para a Estética um majestoso damasco de Inauditismo, a psicologia imprevista que os organismos virgens e novos provocam na sua evolução lenta e curiosa. Impotente, no entanto, para revelar, sob uma forma gráfica, os segredos espirituais que o dominavam, incapaz de concentração, de isolamento para agrupar e dar corpo às visões que ondulavam em torno do seu centro ardente de ação mental, o pólo das emoções do Capro, talvez por um doentio e instintivo despeito dessa Impotência, era a sensualidade, e era gozar, através das puras manifestações da Carne, sem a dolorosa expressão escrita, a volúpia secreta de um anseio transcendental, de um Ideal rebuscado e uno, olfatando tudo, tocando mentalmente tudo, para ver se encontraria nas cousas o odor do Desconhecido, a essência singular, a emanação casta e original que tanto o inquietava e atraía. A idéia da Morte, com os seus terrores ocultos, obscuros e surdos, imponderados, com os seus enregelamentos supremos, lançava-lhe sempre à espinha um frio de angústia, soprava-lhe no cérebro tredo tufão tenebroso, esmagando-o e deleitando-o ao mesmo tempo, num deleite luxurioso e fatal, que o envenenava como de ódio terrível, sanguinolento. Vinha de um fundo misterioso, de recônditas raízes de sofrimento, de ânsias e desesperos concentrados, esse vendaval ululante de sensações imprevistas que o abalavam até ao íntimo do seu ser, perante a idéia vulcanizadora da Morte, da lívida, da rígida, da impenetrável Morte... Era o estremecimento latente, lancinante, de um terror absurdo, que o esmagava, que o dilacerava, como se já andasse de rastros, agrilhoada às sombras e à gelidez tumulares, toda a sua convulsa existência de 412 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 extasiado olímpico, de absorto egrégio nas luminosas volúpias da Arte. E quando lhe soava nos nervos a hora alta da febre da grande alucinação para a perpetuidade do nome no espírito das Gerações que surgissem; quando se surpreendia absorto, na contemplatividade muda desse inquietante e vago Aspirar que fecunda as almas anelantes de Indefinível; nesses impressionativos momentos em que ele, transfigurado, empalidecia, os que mais e melhor sentiam todos os íntimos segredos, todos os voluptuosos encantos da sua mentalidade, lhe perguntavam pela obra que deixaria, lhe diziam: – Então! nada tens feito que revele a tua estesia, que determine as tuas sensações, a tua sensibilidade extrema. Vives preguiçando, dormindo lassos, longos sonos de luxúria... Olha que a morte aí vêm, aí vêm já, irremovível e oblíqua, sôfrega, sequiosa da tua carne e te vai surpreender inútil, mudo, sem nada dizeres ao mundo, cérebro budicamente indiferente, boca fechada numa contração torturante de impotência doentia rodando na mesma poeira vertiginosa, no mesmo torvo e banal rodomoinho dos homens e das cousas, sem nunca revelares todo esse estranho Infinito que trazes na alma. Sentes o mundo vão, estreito, de dolorosa dureza e no entanto não queres ou não sabes fugir dele pela única larga porta estrelada que se te oferece ao teu espírito, esse vasto campo ideal onde livremente colhes a cada passo tanta admirável flor de pensamento! Olha a morte, olha a morte!... Aí vêm ela, irremovível e oblíqua... Olha o tempo, olha as horas fatais que te caem na cabeça, negras e surdas, fulminando-te, com a inevitabilidade inquisitorial do lento suplício do pingo d’água. Ele ficava, ante estas abaladoras palavras, em sobressaltos assustadores, aterrado, azoinado e vencido, quase cambaleando, como um homem que leva de repente em cheio uma forte pedrada em pleno peito. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 413 Abria-se então na alma inquieta do Capro um rasgão de mar e estrelas, dava-se no seu temperamento fugitivo um tocsin de alarma, um bimbalhar de carrilhões ruidosos, um estrugir de músicas marciais em marcha, clarões que rompiam névoas de vacilação, de timidez psíquica, um flavo e transfigurado acordar de alvoradas, todo um sol de alvoroço e triunfo que o iluminava, impelindo-o ao trabalho tenazmente, insistentemente, mergulhando-o na chama das concepções, dos estilos virgens, das formas não sonhadas ainda — órbitas estreladas e azuis onde a sua astral natureza com tanta ansiedade girava. Mas desde que essas transfigurações o impulsionavam ao trabalho, desde que ele procurava traduzir, por formas caprichosamente sensacionais e singulares, as impressões que o abalavam, que viviam nele vida curiosa e intensa, todo esse poderoso esforço tornava-se vão, o pulso, de repente, gelava-se-lhe, a mão não agia com eficácia, e os pensamentos, confusos, embaralhados, emaranhados, num tropel, fugiam, recuavam como paisagens encantadas, feéricas, como ondulantes zonas de luz que desaparecessem da retina deslumbrada de um opiado visionário. Um vácuo tenebroso, um vazio sepulcral, horrível fazia-se logo no seu cérebro, como se uma onda pestífera, violenta e glacial, lhe varresse os pensamentos desoladoramente. Ficava então sufocado, em ânsias, respirando mal: parece que lhe faltava ar, sol, céu. Erguia-se da mesa do trabalho, inquieto, lívido; sentava-se de novo; erguiase outra vez; saía, corria, desorientado, desesperado, a vagar nalgum cais, onde o mar parecia estar de grandes braços abertos para recebê-lo, para dar-lhe generosamente toda a seiva dos seus abismos glaucos; ou então buscava com ansiedade a paz bucólica de algum campo próximo, respirando assim com avidez e consolo o hálito virgem, as sadias emanações fortalecentes da 414 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 vegetação e das ondas salgadas, como se procurasse haurir nelas todo o poder secreto que não possuía, toda a força de concentração, de generalização e de síntese que no momento fatal da Concepção tão capciosa se lhe mostrava e tão impiedosamente lhe fugia. Era como se ele fosse um condenado a quem estivessem para sempre interditas as portas livres e luminosas da salvação. Natureza que a intemperante sensualidade, já pela sua expressão alcoólica, já pela sua expressão carnal, já pela sua expressão de preguiça inerte e até mesmo, por fim, de gula, ia aos poucos devorando funestamente. Dir-se-ia que procurava nos inebriamentos, vertigens, delírios e perturbações da Carne como que o veículo mais pronto, mais fácil, embora inferior, para nele fazer mover e canalizar alucinadamente a Sensação que trazia. As qualidades que lhe tinham de vir unas, homogêneas, condensadas para o espírito, dispersavamse na sensualidade, transformavam-se em instintos puramente sensuais, como que para mais e melhor justificar, agravando, a sua impotência conceptiva. Nas claras e fundas horas abstratas de julgamento próprio que cada um tem no seu Íntimo, seja o mais puro ou o mais perverso dos homens, o mais superior ou inferior, ele reconhecia toda a sua Impotência, via-se flagrante no espelho cruel e nu do seu Nada. Assim como há certos intelectuais que na superioridade dos grandes meios ficam radicalmente esmagados, enquanto outros ganham o mais extraordinário esplendor e vigor, como que absorvem o céu e a terra, os continentes, são infinitos que se desdobram no Infinito; há também, especialmente nas regiões da Arte, seres que trazendo consigo a alta responsabilidade do Espírito, pelo verbo falado, não a podem registrar, entretanto, pelo verbo escrito. Como que se dá com eles o mesmo fenômeno curioso e aflitivo de um cego que sente tactilmente as OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 415 cousas, mas que não as pode ver; de um mudo, que possui o órgão vocal, mas que não pode falar... Nesses momentos acerbos de irrequietabilidade mórbida, doentia, quando lhe fugiam todos os raios de unidade amorável e harmoniosa do seu ser e que alguém lhe surpreendia o flagrante do sentimento, o íntimo do íntimo da alma, certas negruras venenosas, o Capro perdia-se na floresta de brumas, afundava-se nos atoleiros lúbricos do álcool, como numa capciosa desculpa de vício, de miséria e de tristeza, para que não lhe sentissem os gritos surdos e o ranger de dentes daquela Impotência. Parece que se dava nele um transbordamento esquisito de natureza, uma anomalia da visão e da imaginação, de modo a não se poderem ligar entre si os fios sutis e harmônicos do entendimento e do sentimento, a não terem correspondência direta e rítmica as correntes psíquicas do seu cérebro e da su’alma. Parece que falta a esses seres mais um grão de visão para abrangerem o complexo todo psíquico ou que algumas das suas células não têm a intensidade una, a energia pronta, a espontaneidade essencial e igual para manifestar por completo as sensações que experimentam... E o Capro perdia-se, mergulhava no centro devorador do seu nirvana de impotência; sucumbia sob as garras ferozes e os despedaçadores tentáculos do seu Irremediável! Ah! era o eterno, o tremendo e incognoscível sofrer da dor das Idéias, implacavelmente, no tormento profundo das mais acerbas agonias. Mas essa insaciabilidade, essa aguda inquietação indomável, tensibilizando-lhe cada vez mais os nervos, requintando-lhe os sentidos, galvazinando-lhe o rosto num espasmo lívido, ia no entanto cavando d’enxadadas brutais e inevitáveis a sua própria cova. 416 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Toda a desarmonia geral, todo o desequilíbrio do seu esforço ingênito de mentalizado, toda a ação desvirtualizada dos seus pensamentos, que era já o desmoronamento final provocado pela hipertrofia, ou anulação de uma função do seu cérebro, todo o desmembramento intelectual do Capro, resultante do seu subjetivismo facilmente transbordante, sem centros de intensidade, de condensação, tudo isso apressava já os seus passos impacientes, ávidos nas batidas da Vida, para a sepultura, dando- lhe à fisionomia gasta e dolente um lúgubre macabrismo de esqueleto... E, quando afinal o vi na Morte, pairando-lhe na face fria o êxtase ignoto da indefinida, incoercível visão do Sonho, não sei por que vaga sugestão daquela improdutiva concupiscência psíquica, daquele lascivo e psicológico sentir e pensar desordenado, os seus pés, hirtos, enregelados no féretro, pareciam ter também, sinistra e ironicamente, estranha evidência capra, como se toda aquela espiritualidade que transbordara em luxúria, como se todo aquele vão e dilacerado esforço houvesse, por agudos fenômenos de sensibilidade nervosa, por cristalização de angústias lancinantes, desesperadas, supremas, transformado fantástica e exoticamente o seu ser naquela expressão animal reveladora do seu espírito, por um espectral e derradeiro desdém da Natureza... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 417 A NOITE Ó doce abismo estrelado, nirvana sonâmbulo, taça negra de aromas quentes, onde eu bebo o elixir do esquecimento e do sonho! Como eu amo todas as tuas majestades, todas as tuas estrelas, todos os teus ventos, todas as tuas tempestades, todas as tuas formas e forças! Como eu sinto os perfumes que vêm das grandes rosas místicas dos teus maios; os eflúvios vibrantes, cândidos e finos dos teus junhos; o grasnar dos teus abutres e o claro bater das asas dos teus anjos! Como eu aspiro sedento todos esses cheiros salgados do mar dominador, essa vida aromal das folhagens, das selvas reverdecidas com os teus orvalhos revigoradores, com a tua esquiva castidade misteriosa! Ah! como eu te amo, Noite! Como a tua eloqüência muda me fala, me impressiona e me chama, Aparição seráfica, fabulosa irmã do Caos e das Legendas! O peito cheio de vibrações ansiosas, a alma em cânticos de amor, os olhos iluminados por esplendores secretos, como é maravilhoso vagar no solene tabernáculo dos teus silêncios, no in pace do teu Sonho! Como faz bem e tonifica mergulhar profundamente a cabeça nos teus mistérios que deslumbram, adormecer com eles, deixar que a alma se embale neles, vaguear pelo Infinito, tendo todos esses mistérios imaculados como o vasto manto consolador da Piedade e do Descanso! A tua docilidade e frescura, o teu carinho, os teus afagos, a tua música selvagem, as tuas solenidades augustas, o teu antediluviano encanto bíblico, as monstruosas risadas mefistofélicas dos teus fantasmas tenebrosos são como seres singulares, verdadeiros irmãos da minh’alma. Mordido de nervosidade aguda, perdido no teu solitário regaço maternal, ó estranha Noite, eu sinto que o cavalo de asas da minha consciência galopa, voa longe, livre, sumindo-se na infinita poeira de ouro dos 418 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 astros; que os movimentos dos meus braços ficam também livres, para abraçar as Quimeras; que os meus olhos, alegremente felizes, se libertam do carnívoro animal humano, para só fitarem sombras; que a minha boca aspira o Vácuo estrelado, para saciar-se dele, para beber todo o seu luminoso vinho noturno; que os meus pés erram melhor, oscilantes e vagos embora na embriaguez e na cegueira da treva, para melhor se desiludirem de que se arrastam na terra; que as minhas mãos se estendem e se movem largamente, como asas de espontâneo vôo bizarro, para dizerem triunfante adeus por algumas horas às terríveis contingências da Vida! Perdido nas solidões da tua treva vibram-me as tuas harpas, seduzem-me os teus êxtases, arrebatamme os teus misticismos. Com os olhos radiantemente abertos, como se fossem duas curiosas flores de raios celestes, eu nôctambulo em silêncio, na concentração de um missionário contemplativo vagando num imenso templo deserto e cheio de sagradas sombras... Em cima, sobre a cabeça, sinto cantar-me, doce e terna, a fina luz das meigas estrelas, e essa luz arde, chameja melancolicamente como uma alma que aspira... Dentro de mim uma sensibilidade incomparável vibra e vive como essas estrelas delicadas e meigas. Todos os quebrantos da noite fascinam-me, enlevam-me e eu me surpreendo arrebatado por uma transfiguração que não sei de onde parte, que não sei de onde vem, mas que me enche a alma como de uma crença maior, como de um revigoramento de marés picantes, como de um largo e belo sopro natal de revivescências juvenis! E quando levanto acaso religiosamente os meus olhos, no meio da candidez da solidão noturna, para o azulado e magoado estrelejamento do céu e vejo o céu suntuoso e mudo com os seus astros, os meus olhos, felizes e gloriosos por te olharem, Noite, exilam-se cada OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 419 vez mais na tua mudez, vivem cada vez mais do teu deslumbramento e do teu gozo, inteiramente órfãos de todas as outras perspectivas, como dois príncipes hamléticos exilados para sempre numa sombria, mas inefavelmente amorável região de luto. Quando um pesadelo sinistro cavalga o meu dorso, me oprime o peito e os rins, tira-me a respiração – pesadelo gerado do Nada que nos envolve a todos – a tua fascinação astral é para mim um alívio supremo, a tua liberdade ampla é para mim larga emanação vital. As tuas sutilezas me acordam, os teus Stradivarius me espiritualizam, os teus preciosos ritmos me afinam... Ó Noite! inimiga irreconciliável dos que não te sabem engrinaldar com os lírios das suas saudades, encher com os seus soluços, estrelar com as suas lágrimas! Hóstia negra dos Sonhos brancos que eu eternamente comungo! Tu que és misericordiosa e que és boa, que és o Perdão estrelado suspenso sobre as nossas desgraçadas cabeças, tu que és o seio espiritual dos miseráveis seres, embalsama-me com os teus ósculos perfumados, com o eflúvio da infância primitiva dos teus idílios, abençoa-me com o teu Isolamento, cobre-me com os longos mantos de veludo e pedrarias das tuas volúpias, purifica-me com a graça dos teus Sacramentos. Fantasista do soturno, do galvânico, do lívido; Colorista do shakespeareano e do dantesco; Mater dos meios tons e das meias sombras, das silhouettes e das nuances; trombeta de Josafá, que fazes caminhar todos os espectros, ressuscitar todos os mortos, máscara irônica de todas as chagas; confessionário de todos os pecados; liberdade de todos os cativos: como eu recordo a galeria subterrânea dos teus mórbidos bêbados, dos teus ladrões cavilosos, das tuas lassas meretrizes, dos teus cegos sublimes e formidáveis, dos teus morféticos obumbrados e monstruosos, dos teus mendigos teratológicos, de aspecto feroz e perigoso de tigres e ursos enjaulados, acorrentados na sua miséria, dos teus 420 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 errantes e desolados Cains sem esperança e sem perdão, toda a negra boêmia cruel e tormentosa, ultra-romântica e ultra-trágica, dos vadios, dos doentes, dos degenerados, dos viciosos e dos vencidos! E a peregrina boêmia dos teus cães uivantes e contemplativos no amoroso espasmo do luar, dos teus gatos sonhadores, exilados e raros estetas felinos deslizando sutis pelos muros, histéricos da lua, os olhos fosforescentes como a luz de estranhos santelmos! Noite que abres teus circos funambulescos, cheios de palhaços rubicundos, tatuados de mil cores, de acrobatas de formas e movimentos aligeros e elásticos como serpentes; que expões todo o arco-íris inflamado dos teus bazares, a vertigem de zumbir de abelhas dos teus fagulhantes cafés-cantantes, o olho ignívomo e solitário dos faróis no mar alto e toda essa ondulação de aspectos e sonhos fugitivos, essa nebulosa do rumor e da emoção, que é o teu véu de noiva, que é o teu manto real! Tu apagas a mancha sangrenta da minha vida, fazes adormecer as minhas ânsias, és a boca que sopras a chama do meu desespero, és a escada de astros que me conduzes à minha torre de sonho, és a lâmpada que desces aos carcavões da minh’alma e fazes desencantar, caminhar e falar os meus Segredos... Tens uma expressão milenária de Epopéias, um curioso e extravagante sentimento druídico, e como que toda melancolia arcaica da Decadência latina. No fundo velho e pitoresco do teu Oriente, ó Noite, meu caprichoso e exótico Crisântemo; nos longes dos teus grandes e famosos Frescos ondulam em curvas lascivas e donairosas as românticas e visionárias virgens, os pálidos poetas meditativos, os ascetas lívidos que velam à claridade magoada dos círios, os fascinantes e capciosos Fra-Diavolos, os galhardos, zumbentes e coruscantes carnavais de Veneza da tua prodigiosa Fantasia e as quermesses louras e cor-de-rosa dos OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 421 querubins da Infância, que dormem sonhando, lírios de comovida ternura, meigamente seduzidos e embriagados no delicado e casto regaço do mistério dos sexos. O bendita Noite! dá-me a morte na irradiação dos teus raios, para que eu rompa o selo cabalístico dos teus segredos; dá-me a morte na cristalização dos teus astros, nas auréolas das tuas nuvens, no pesado luxo das tuas constelações, no vaporoso de tuas visões de lagos, na solenidade bíblica das tuas montanhas enevoadas, nas cerradas cegueiras apocalípticas das tuas maravilhosas florestas virgens, quando lentas luas langues florescerem nos céus como grandes beijos congelados de brancas noivas gigantes encantadas e mortas... 422 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 MELANCOLIA Falo ainda e sempre a ti, branco Lusbel das espirituais clarividências! A ti, cuja ironia é ferro e é fogo! Cuja eloqüência grave e vasta faz lembrar, como a de Bossuet, longas alamedas de verdes e frondejantes, altos plátanos chorosos. A ti, que amargurado deploras toda esta decadência dos seres; a ti, que te voltas desolado e saudoso para os tempos augustos que se foram, quando a Honra vã de hoje, era, como um poderoso e altivo brasão de águias negras atravessado de uma espada no centro! Sim! branco Lusbel, nós caminhamos para o irreparável empedernimento; desde o solo até aos astros, homens e cousas, tudo vai quedar de pedra. Será um sono universal de uma universal esfinge. Tudo, na pedra, dormirá um sono de pedra. A pedra respirará pedra. A pedra sentirá pedra. A pedra almejará pedra. E esta tremenda aspiração de pedra profundamente simbolizará os sentimentos de pedra dos homens de hoje. E, então, branco e iluminado Lusbel, mais claro do que nunca, verás que os olhos dos homens só luzem diante do dinheiro! Que pelo Amor nenhum se sente com ânimo de brandir um facho, de agitar um gládio ou desfraldar uma bandeira! Que pelo Sacrifício nenhum se arrojará nos Nirvanas transcendentes, porque dói muito abandonar o Conforto! Que pela Abnegação nenhum se colocará na vanguarda, porque custa muito aniquilar o Interesse. Bem sei que tu, ainda com uns restos de demência, não sei se diabólica, não sei se divina, acharás paradoxal esta intuitiva profecia; mas, para te fazer apagar de uma vez as últimas claridades de crença inexperiente que ainda conservas na alma, vou ministrar-te um rápido e curioso exemplo – síntese preciosa de que o Sentimento está metalizado em ouro, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 423 de que a alma anda em cheques universais, no câmbio feroz do egoísmo humano: – Meu filho, ouvi perguntar um dia a uma criança de sete para oito anos que chegara desse rude e corrupto mundo europeu a tentar fortuna nestas novas terras azuis – meu filho, você, com certeza, deixou lá fora família, sua mãe, seu pai, não?! – Deixei, respondeu ele. – E não tem vontade de voltar, não tem saudade deles? – Eu! saudades, replicou a inocente criança de sete para oito anos; eu não vim cá para ter saudades, vim para ganhar dinheiro! Aí tens tu, branco e iluminado Lusbel, a boca dessa esquisita criança, na qual deveria desabrochar a flor tépida de um afeto cândido, instintivamente gangrenada já por tamanhas abjeções de palavras duras! Nesse ingênuo bandidozinho aí tens tu a imagem simbólica, a mais que exata medida da alma humana universal que tu desoladamente observas com tão desesperada melancolia, cuja psicologia secreta tu penetras tanto nos requintes de toda a tua inquieta Indignação! 424 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 CONDENADO À MORTE Soyez victorieux de la terre. BALZAC, Seraphita. Desde que ele, o doloroso Estético, penetrou naquele Noviciado divino, que se sentiu para sempre condenado à Morte!... Bem o pressentiu logo, bem o compreendeu, assim que em torno à sua cabeça melancólica e triunfante um clangor de guerra ecoou, vitoriando-o, e cem mil estandartes gloriosos dos falangiários do Ideal se desfraldaram e abateram ante seus pés, numa solene homenagem de conquista. A Vida terrena do Tangível que flamejasse lá fora, nos turbilhões cruentos dos dias, no dilaceramento das horas; os homens que se atropelassem e gemessem e rojassem sob a mole formidanda das paixões; o gozo, a ebriedade do gozo, o prazer picante e álacre, fútil, leve, fácil, que cantasse sobre a terra, que agitasse todos os seus guizos jogralescos, rufasse todos os seus tambores festivos, fizesse ressoar todos os seus clarins ovantes... Ele, o Estético doloroso, não! Dentro desse Noviciado divino estaria perpetuamente condenado à Morte – visão, fantasma, sombra do Imponderável, arrebatado não sei por que estranho Mistério, não sei por que esquisita impressão abstrata, não sei por que fluido maravilhoso, para a Morte, antes mesmo da consumação da matéria, por condenar as vãs alegrias que arrastam tantas almas, as venturas banais que fascinam e embriagam tão loucamente os homens. Outros que se alassem às correrias preciosas da Mocidade, às opulências, ao fausto, ao esplendor das pompas exteriores, ao estridente rumor das festas, perdidos pelas estradas intermináveis, longínquas, ermas, dos Destinos desencontrados. Ele, o Estético doloroso, não! Naquela intuição tocante de Iluminado, ficaria no Desconhecido, para a OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 425 consagração do Espírito, olhando, numa indizível tristeza de mar noturno, as gerações que se aglomeram e mutuamente devoram nos pórticos desolados do Universo, pela batalha bárbara do Existir... Ele estivera já em contactos com o Mundo, sentindo-o, respirando o mesmo ar, chocando-se com os sentimentos mais abstrusos e soturnos, com as paixões mais vorazes, com os corações mais gelados, roídos pelo cancro alastrante de um tédio doentio, de um nirvanismo agudo, de um nihil eslavo... Sentira todas essas psicoses sangrentas, todas essas manifestações exóticas de uma espécie de absurda teratologia mental; todas essas complexidades d’alma de um fundo caótico, esmagador, aniquilante, de onde a Fé fugiu desolando e enrijecendo tudo, ficando apenas o granito de umas naturezas hirtas, impassíveis, estratificadas no egoísmo e na indiferença das cousas, vendo a perfeição, a beleza serena das abstrações ideais, das formas onipotentes e singulares, com os vesgos olhos da lascívia, da impotência ou da inveja reptilosa e lesmenta. Ele viu atritarem-se convulsamente os leprosos, os aleijados, os epilépticos, os morféticos, os tísicos, os cegos, enroscados todos na sua negra mortalha de suicidas, cambaleantes, ébrios de dor, de desespero, na agonia da carne que se dilacera, que se rasga, que se despedaça – enquanto o soberbo sol, dos Altos, como um pagão, bizarro, cantava sobre todas essas chagas abertas, sarcasticamente, diabolicamente, indiferentemente, a música offenbachiana, do seu clarão comunicativo e cortante... Ele viu, como um largo mediterrâneo, todo o assombro das lágrimas recalcadas, toda a epopéia sinistra, toda a majestade dolorosa da alma humana, torcida num espasmo de angústia lancinada, amargamente lancinada numa aflitiva treva de dilaceramentos. 426 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Ele observara tudo, descera a esses subterrâneos fatais, a essas criptas letíficas de nevroses e spleenéticas doenças, onde parece errarem duendes infernais e onde como que uma lua lívida, espectral, d’além túmulo, trêmula e triste, derrama sonolenta e esverdeada claridade de augúrios medonhos e indefiníveis... Vira tudo isso, mas vira igualmente todas as graças e aromas da terra na fascinação satânica da mulher, no encanto virginal da sua carne, na tantálica tentação dos seus braços tentaculosos. Mas, tendo desde logo entrado na posse secreta de si mesmo, o doloroso Estético só sentira mais a mulher nas linhas e aspectos da visão, desprezara a carne, idealizara, espiritualizara a mulher. Ele vira os fatigantes prazeres, as bizarras e galhardas alacridades do Vinho – quando a mocidade ruidosa, num alvoroço, arrebatada nos fantasiosos corcéis alados da alegria, por ser futilmente, mas intensamente amada, abre os braços nervosos à loucura, com todo aquele sangue exuberante, claro, vigoroso, de leão dominador, que mais tarde a boca visguenta da cova há de beber, sugar então fartamente para sempre. Tudo, absolutamente tudo, ele vira; tudo o que é ventura breve, mas tangível, mas real, tudo o que se goza pelo olfato, pelos olhos, pelo paladar e pelo tato; tudo o que constitui o epicurismo grego e o que constitui o júbilo mundano, a felicidade clássica, oficial, convencionada, das sociedades cansadas, decadentes, esgotadas pela degenerescência do sangue, pela intensidade da Análise, torporizadas e entorpecidas no amolecimento e no postiço das fórmulas, sem ter enfibratura para a Grande Vida, em regiões estreladas, ao de leve, sutil e delicadamente, noutra chama, noutra esfera mais fina, mais pura... Completamente tudo, afinal, ele vira e sentira com profundidade, enclausurado naquele Noviciado divino, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 427 pelo qual, como de dentro da terrível, solene e hieroglífica porta do INFERNO, deixara lá fora no Mundo toda a esperança de gozos efêmeros, de ambições medíocres, de aclamações decretadas, de acolhimentos e apoteoses mundanas, de séquitos reverentes e cortesãos arrastando a pompa impura, enxovalhada, rota, ridícula, da larga púrpura de ovações cediças e seculares. Se ainda lhe fosse permitido ouvir o eco adormecido, distante, vago, das Ilusões, das Alegrias livres, dos Sonhos de há vinte anos, das Esperanças imensas, das Saudades intraduzíveis da sua adolescência, para lá destas eras rudes e austeras do Pensamento e do Sentimento, outra cousa não repetiriam, não clamariam todas essas sacrossantas Imagens, todas essas inefáveis Visões, senão que o doloroso Estético é agora um perfeito condenado à Morte – sereno e grande condenado que ufanamente esqueceu e desprezou, para trás, para os tempos de outrora, tanta luz de tranqüilidade, de paz ingênua, para vir então espontaneamente entregar-se aos martirizantes cilícios das Idéias. As sensações que poderia experimentar com simplicidade, como natureza elementar, sem febre, sem delírio de impressões, sem agudezas de nervosismos; essas sensações comuns de sentir, físicas, flagrantes como ferro em brasa chiando em cheio nas carnes, o doloroso Estético deixou intensamente de experimentar, para mais intensas sentir as outras sensações que tocam por toda a escala dos nervos, por todo o enraizamento das fibras, por toda a delicadeza etérea, aeriforme, da ductilidade e da vibração. Impassível diante de tudo que não seja a expressão de uma Estética, a afirmação de uma estesia rara, a latente, profunda originalidade sensacional e vivendo por entre o ruído, a confusão, a vertigem da multidão que ri, que goza com distinções boçais, com a sua celulazinha empírica – Ele não vive a vida externa dos 428 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 homens, não participa, de fato, do meio ambiente — antes o seu estado vital é a morte, por uma condenação perpétua e lógica de todos os vários elementos da Matéria contra ele conclamados... Isolado do Mundo, no exílio da Concentração, solitário, na tristeza majestosa de um belo deus esquecido, as outras forças múltiplas que agem na Terra, na luta desenfreada de cada dia, que equilibram as sociedades, que regem a massa vã dos princípios, que dão ritmo à onda eterna do movimento e entram na vasta elaboração da cultura das raças, sentiram-se hostilizados diante da sua intuitiva percuciência de vidente, da sua ironia gelada de asceta, do seu desdém soberano de apóstolo, da sua Fé indestrutível, serena de missionário, de extraordinário levita sombrio de um culto estranho, que leva aos lábios, em extremo, o Cálix místico da comunhão suprema da Espiritualidade e da Forma. E então, o doloroso Estético, soberbo e sublime na sua solidão e no seu silêncio, vagueou – afastado do foco real, positivo da Vida – sem existir de fato, como um simples condenado à Morte, errante fantasma na sombra de sepulcros, misteriosamente vibrado por grande Sonho doloroso ritmado nas longas, monótonas e amargurantes melancolias do Mar, para sempre gemendo e sonhando, noturnamente, velhas lendas bárbaras. É que o Estético viera da caudal misteriosa dos que acharam clarividentemente o inédito das suas almas, que se sentiram seres, que se salvaram do Caos universal com a evidência simples e clara de uma natureza afirmativa. Mas, afinal, assim mesmo condenado à Morte, sob os filtros negros da Morte, ele, purificado do Espírito, perfectibilizado da Alma, remido e libertado da Matéria, ficou simbolizando, no entanto, o único ser verdadeiramente livre e legitimamente ser, o mais belo, o maior, o mais alto ser, ainda que desolado e sombrio, vitorioso da Terra! OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 429 ANHO BRANCO Lembrava frescura de úmidas rosas desabrochadas, eflorescência de magnólias e a candidez de alma de pastores aquela carnação opulentamente branca. Existência singela, segetal, um tanto primitiva, de serranias alpestres, o espírito a imaginava surgindo dentre vergéis de lírios e açucenas, numa clara fulguração de brancuras, como se as constelações a houvessem fecundado. Uma luz desconhecida parecia rodeá-la de auréolas arcangélicas, celestiais... No entanto, a sua carne viva, virgem, radiantemente alva, da translucidez requintada da lua, determinava bem a sua terrestre descendência. Pelos campos, pelos prados, ela surgia com o sol, ela noctivagava com as estrelas, branca e de fino ouro flavo nos cabelos. Surgia com o sol, na lactescência imaculada do seu corpo de flexibilidades e delicadezas de linho; noctivagava com as estrelas, na chama doirada dos seus cariciosos, suaves cabelos. Na alvorada púbere desse sangue majestoso de Virgem, inefável Infinidade de sereias de volúpia cantava. Relâmpagos vagos de desejos quiméricos cruzavam, abriam claridades iriadas nesse sangue triunfal impoluto, tão puro e verde nas exuberâncias como as verdes e tropicais vegetações dos campos claros que a geraram. A alma adormecia no azul doce, langue, balouçante, dos seus olhos radiantes, festivos, inundados de uma frescura silvestre de náiade onde, por vezes, a dolente melancolia de amargas águas de mar em repouso vagava. Carne casta e branca, tenra e veludosa, epiderme de leve luz rosada, cujas transparências sutis 430 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 extasiavam, tinha, no entanto, uma fascinação animal, um quebranto delicioso de pecado, uma provocante flexura nervosa nos quadris afelinados, qualquer cousa de inebriante segredo selvagem no extravagante conjunto da linhas dúcteis da alva e flavescente figura. Certos caprichos que a dominavam, certos arrojos e aventuras, traziam-lhe mesmo afinidades selvagens: – em saltar aos vales, logo pela manhã, aos primeiros e luxuosos coloridos; em coroar-se de rosas agrestes, pelos prados, gárrula, trêfega, no aspecto bizarro, no movimento fugidio e arisco de pássaro airoso; na ousada graça montanhesa de subir a árvores frondejantes e dormir depois à sombra delas, livre, descuidadosa, na expansão vegetal dos campos, identificando-se larga e singularmente com todos os aromas e mistérios da Natureza. E era surpreendente vê-la assim, transfiguradamente formosa, errando pelos vergéis, pelas campinas e vales, voando quase, na febre da luz e da paisagem verde que a impressionava, que a eletrizava, como se ocultas asas a levassem, a levassem, para sempre confundida e mergulhada nas eflorescências abundantes das louras, sazonadas searas. E, por entre os giestais engrinaldados de flores amarelas, por entre a rubente coloração das papoulas, a espessura densa das folhagens glaucas, a gradação pinturesca da verdura e pela margem das lagoas e lagos prateados e sonolentos, à beira dos brejos e alagados, das fontes, cachoeiras e rios e ainda sob a tenda abrigadora dos tamarineiros e jambeiros perfumados, e ainda por entre as galhardas alacridades dos cravos, por entre os amargosos e acres rosmaninhos, era o encanto picante, o supremo êxtase ver como essa Ninfa branca das selvas corria, corria, toda resplandecida de sol, arrebatada através das seivas impetuosas, dos travorosos odores, dos bálsamos, das resinas, das cheirosas e vertiginosas emanações de todas as ervagens OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 431 e plantas exuberadas, na fascinante volubilidade alígera de movimentos imprevistos de gamo, acusando ainda mais, fazendo ainda mais viver e cintilar, em luminosos relevos, no desalinho soberbo da corrida, a glória da carne branca, a pubescência maravilhosa das formas. E essas seduções prófugas, essa timidez e melindre gracioso, junto às audácias e vivacidades másculas, às surpresas e revelações do seu borboletismo irrequieto, faziam meditar, em silêncio e melancolia, nos sigilos assinaladores, nos recônditos, secretos pudores, na recatada e ingênita malícia de alguma curiosa filha de lendário e poderoso gigante, viçada branca, sob o inflamado e fecundativo pólen do sol, na luxúria animal e verde das florestas. E ela corria, corria, galgava as ribanceiras, transpunha pomares em fruto, sebes de madressilvas e acácias, e perdia-se, perdia-se fantasiosamente pelos infinitos estrelados de flores e de brilhos de todas aquelas amplas, sonoras, e prodigiosas regiões de virgindades campestres. Errava um primitivo e saudoso sentimento de Criação paradisíaca sempre que ela irrompia através da vaga esmeralda das vinhas, do purpurejamento palpitante das rosas, entre as aves que abriam e batiam asas cantando em torno à sua esvelta e fascinadora cabeça d’ouro virgem. Na solenidade épica dos vales, dos bosques, das colinas e campos, onde bois resignados e majestosos tocante e melancolicamente mugiam com os grandes olhos de um sentimento bíblico, espiritualizados por um suavíssimo luar de lágrimas de evangélica bondade, esse corpo branco de brancura olímpica de deusa – ode das odes vivas, Cântico dos Cânticos, Via-Láctea transfundida em carne – parecia ter a influência misteriosa de um silfo alado, parecia derramar, por aqueles horizontes augustos, o luar de imensos e 432 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 voluptuosos pesadelos dos fenômenos infinitos da Germinação... Era a estranha Visão florestal que, quando aparecia, como que tornava brancos todos os aspectos, fazendo a retina sentir, por efeito dos deslumbramentos e ampliações visuais, vastas miragens brancas, vertigens de cores brancas, perspectivas brancas, nuances brancas, tudo nevadamente aceso em fulguramentos e cambiantes brancos. Nem o sol, com a sua clarinante chama fiava, conseguira jamais empalidecer, dar tons de razão a essa brancura intacta, da inviolabilidade de tabernáculos, que parecia sempre repurificada nas origens das extremas lactescências, das neves inacessíveis, dos indeléveis florescimentos. E essa incomparável brancura magnetizava os sentidos como eflúvios de óleos exóticos e místicos vaporosamente queimados... Mas, as curvas esquisitas do seu perfil ágil, lépido, tentadoramente assinalado por fugitivos meneios animais e curiosos; o coleante movimento dos braços de lânguidas nervosidades de áspide; a dilatação sedenta das narinas acendidas numa aspiração de sorver os cheiros vitais das terras fundamente revolvidas e das ervas sumarentas e quentes; a gula farta da boca úmida num viço rubro, exalando lilás e trevo; as mornas e magas magnólias embriagantes dos seios; as finas e elíseas claridades azuis dos olhos, e, enfim, a candidez e brancura suave das pompas da carne virgem, despertariam nos temperamentos violentos, selvagens, anseios intensos, acordariam o gozo idiossincrático, não de desvirginá-la, de violá-la, na brutalidade feroz dos instintos, mas de a morder, de fazer sangrar à faca, com volúpia, com febricitante paixão, carne tão odorante, tão balsâmica, tão lirial e nevada, engolfando saciadoramente nela o aço fólgido e rijo, rasgando-a com a lâmina acerada e aguda em talhos veementes, vivos, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 433 gritantes de sangue fresco e fumegante, escorrendo, gotejando rubinosos vinhos de aurora, toda ela flagrantemente aberta numa esdrúxula floração boreal. E, então, toda, toda essa sexual magnificência, toda essa casta beleza, fazia extravagantemente despertar a lembrança, dava a impressão sugestiva, ao mesmo tempo profana e sagrada, da unção angélica, da encarnação humanada e miraculosa do alvo, tenro e meigo cordeiro imaculado, do lhano, doce e delicioso Anho branco original dos Ermos, para a efusiva Páscoa nova das transcendentes luxúrias... 434 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 O SONO Ceux qui rêvent éveillés ont connaissance de mille choses qui échappent à ceux qui ne rêvent qu’endormis. Dans leurs brumeuses visions, ils attrapent des échapées de l’éternité et frissonent, en se réveillant, de voir qu’ils ont été un instant sur le bord du grand secret. EDGARD POE, Eleonora. A tua voz! a tua voz! Clamo em vão pela tua voz, procuro-a como por uma ave maravilhosa e a tua voz está estranhamente adormecida no sono... Está adormecida no sono, muda, calada de gorjear, de cantar na tua garganta e na tua boca, aquela voz que eu sonhara filtrada dos raios do sol, tecida dos raios do sol, de uma prodigiosa essência etérea na qual radiasse o sol, todo o esplendor do sol. Tu estás nostalgicamente dormindo, e esse sono em tão profundo e misterioso Além te imergiu, que pareces de mármore. E é, assim, em vão que clamo, trêmulo e desvairado, pelo brilho quente dos teus olhos, pela vida da tua voz, que me sacia de vida, que me afoga, que me embriaga de vida. Acorda! acorda! acorda! acorda os olhos e a voz, e mergulha-me na vida que se derrama deles: quero sentir os teus olhos olharem, a tua boca palpitar de voz, como um rio transbordante, perenal, que chamejasse, ondulando em gorgolões e vertigens. Esse sono frio, hirto, que me aflige, que me dilacera, lembra uma esperança que dorme perpetuamente, um desejo, uma alegria que não acorda mais e dorme, dorme para sempre nos gelos infinitos. Os meus ciúmes, bravos leões acordados, instigamse, açulam com a tua mudez, feridos de penetrante susceptibilidade por não sentirem os frêmitos, o alvoroço nervoso da tua voz. Eu quero toda a fremência, toda a palpitação da tua voz, acordada em músicas, em sinfonias de beijos, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 435 atordoando a dor da minh’alma, como harmonioso e estonteante carinho, como extasiante licor renano, vivendo na intensidade, nos turbilhões do movimento, do ar... Quero a sensibilidade, a flexibilidade voluptuosa da tua voz alvorecida do sono como de uma noite polar, ressurgida, lavada do caos, clara, imaculada de som. Quero a tua voz, ágil, dúctil, aflante como asas e como asas abrindo e fechando em tépidos e alvoroçados véus... Acorda! fala! fala! No teu sono pairam neblinas glaciais, as primeiras névoas do esquecimento... As auréolas místicas, os nimbos cintilantes do Sonho, as miragens e os íris, circulam a tua bela e imaginativa cabeça; e hordas invisíveis de resplandecentes arcanjos, vibrando cítaras, alaúdes, harpas e violinos, numa inefável surdina, guardam, velam de ritmos vaporosos o teu sono seráfico... Eu não sei que sentimentos estão agora em curiosa gênese dentro de mim, que na minha alucinação e superexcitação nervosa apalpo ansioso o vácuo, que o sono em que mergulhas encheu de segredos cabalísticos, e procuro, procuro em vão as formas, as formas, as fugitivas formas intangíveis, extremas, ondeantes, sutis, as formas de perfume, as formas de luz e as formas de som da tua voz, que o emoliente sono levou não sei para que necrópoles vazias, não sei para que geladas estepes de egoísticas e mortais indiferenças. Ver-te assim, dormindo, esmaiada, branca e lânguida, nesse abandono de delíquio, num aspecto e espasmo sonhador de lua morta, faz-me experimentar a mais dolorosa ansiedade, como que a sensação flagelante de esquecer-te, uma angústia, uma agonia de sensibilidade tal, que os meus nervos quase se despedaçam, tão grande, tão profunda é a tensibilidade deles quando te apercebem dormindo, e que os teus olhos, fechados por longas e pesadas trevas, não deixam ver os recônditos deslumbramentos; e que a tua boca, muda, calada, encerrando em cárcere misterioso a tua 436 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 voz virginal, não deixa sentir a alada harmonia das formas e dos aromas! Oh! acorda! fala! fala! Vivamente acordada, que sejas, em flama ardente de vida, nesse hosana triunfante da imortal beleza, eu agito-me, estremeço, vibro e desvairo, para beber insaciavelmente todos os encantos delicados e ignotos da tua voz, todas as ciciantes carícias e luxúrias. E só com a martirizante lembrança de que talvez esse sono seja eterno e eu não ouça, não sinta jamais, nunca mais! as vibrações e as chamas da tua voz, percorrem-me o corpo todo estranhos calafrios, letais pesadelos alucinadores me sufocam... E eu clamo, clamo, num tremor convulso, pela tua voz: procuro-a transfigurado, pergunto inquietamente ao Vago em que mistério a escondeu, em que abismo infernal de trevoso horror rolou, voou e extinguiu-se, apagou-se, desapareceu, como a alma original dos ventos e da luz, a tua colorida e chamejante voz! Invade-me a ânsia de te sentir a voz fluir, borbotar dos lábios, acesa na paixão de existir, de viver, de sensacionalmente viver. A ânsia, o desejo sedento de ver a tua boca febrilmente, frementemente palpitar com o meu nome, dizê-lo, repeti-lo, repeti-lo sempre, sempre, ungi-lo e acariciá-lo na voz, perpetuá-lo com amor, com compaixão, com misericórdia, com volúpia, com febre, com essa emoção e agitação de sentimento que impele, arrebata a alma aos êxtases da Eternidade! Dormindo, no nebuloso e mago sono, onde a mórbida flor das melancolias e desdéns amargos murcha e outonalmente desfolha, e onde esvoaçam em torvelinhos magnéticos as borboletas translúcidas e multicoloridas da Quimera, o carinho e a piedade maior, mais intensa, mais viva, dos teus olhos e da tua voz, deixam-me desamparado, só, num deserto de silêncio e de frio, tiritando de pavor e desespero, envelhecendo cego, tateando de abandono, de desolamento... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 437 TRISTE Je devorais mes pensées comme d’íautres dévorent leurs humiliations. BALZAC, Histoire Intellectuelle de Louis Lambert. Absorto, perplexo na noite, diante da rarefeita e meiga claridade das estrelas eucarísticas, como diante de altares sidéreos para comunhões supremas, o grande Triste mergulhou taciturno nas suas profundas e constantes cogitações. Sentado sobre uma pedra do caminho, imoto rochedo da solidão – ele, monge ou ermitão, anjo ou demônio, santo ou cético, nababo ou miserável, ia percorrendo a escala das suas sensações, acordando da memória as fabulosas campanhas do dia, as incertezas, as vacilações, as desesperanças; inventariando com rara meticulosidade e um rigor de detalhes verdadeiramente miraculoso todos os fatos curiosos, coincidências e controvérsias engenhosas que se haviam dado durante o dia, como um gênero insólito e singular de tortura nova. As estrelas resplandeciam com a sua doce e úmida claridade terna, lembrando espíritos fugitivos perdidos nos espaços para, compassivamente, entre soluços, conversar com as almas... E o grande Triste, então, prosseguia no seu monólogo esquisito, mentalmente pensado e sentido e que de tão violento que era nos fundos conceitos, naturalmente até os mais revolucionários e independentes do espírito achariam, por certo, ser um monólogo injusto, pessimista, cruel: – E assim vai tudo no grande, no numeroso, no universal partido da Mediocridade, da soberana Chatez absoluta! 438 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 O caso está em ser ou parecer surdo e cego, em tudo e por tudo, conforme as conveniências o exigem. Pôr a mão, de dedos abertos, sobre o rosto e parecer, fingir não ver e passar adiante, porque as conveniências o exigem. Essa é que é afinal a teoria cômoda dos tempos e que os tempos seguem à risca, a todo transe, ferozmente, selvagemente, com o queixo inabalável, duro, inacessível ao célebre e pitoresco freio da Civilização, protegendose contra o perigoso assalto da Lucidez. – Apaguem o sol, apaguem o sol, pelo amor de Deus; fechem esse incomodativo gasômetro celeste, extingam a luz dessa supérflua lamparina de ouro, que nos ofusca e irrita; matem esse moscardo monótono e monstruoso que nos morde, é o que clamam os tempos. Deixem-nos gozar a bela expressão – locomotiva do progresso – tão suficiente e verdadeira e que cabe tanto na agradável e estreita órbita em que giramos e não nos aflijam e escandalizem com os tais pensamentos, com as tais espiritualidades, com a tal arte legítima e outros paradoxos de loucura. Deixem-nos pantagruelicamente patinhar, suinar aqui no nosso lodoso e vasto buraco chamado mundo, anediando pacatamente os ventres velhos e sagrados, eis o que dizem os tempos. Que excelente, que admirável regalo se a humanidade se tornasse toda ela numa máquina de boas válvulas de pressão, um simples aparelho útil e econômico, do mais irrefutável interesse – sem saudade, sem paixão, sem amor, sem sacrifício, sem abnegação, sem Sentimento, enfim! Que admirável regalo! Inútil, pois, continua a sonhar o Triste, todo o estrelado valor e bizarro esforço novo das minhas asas, todo o egrégio sonho, orgulho e dor, sombrias majestades que me coroam – monge ou ermitão, anjo ou demônio, santo ou cético, nababo ou miserável, que eu sou – inútil tudo... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 439 Por mais desprezível que fosse esta procedência, ainda que eu viesse da salsugem do mar das raças, não seria tanta nem tamanha a minha atroz fatalidade do que tendo nascido dotado com os peregrinos dons intelectuais. Assim, dada a situação confusa, esquerda, tumultuária, do centro onde vou agindo, estas nobres mãos, feitas para a colheita dos astros, têm de andar a remexer estrume, imundície, detritos humanos. Adaptações, pastiches, intelectualismos, espécie de verdadeiros enxertos da Inteligência, esses florescem fáceis logo, porque bem difícil e raro é determinar a pureza infinitamente delicada, sentir onde reside o fio profundo, a linha sutil divisória que separa, como por maravilhoso traço de fogo, os Dotados, dos Feitos ou Transplantados. E, pois, com a alma tocada de uma transcendente sensibilidade e o corpo preso ao grosso e pesado cárcere da matéria, irei tragando todas as ofensas, todas as humilhações, todos os aviltamentos, todas as decepções, todas as deprimências, todos os ludíbrios, todas as injúrias, tudo, tudo tragando como brasas e ainda cumprimentos para cá, cumprimentos para lá, para não suscetibilizar as vaidades e presunções ambientes. Como flechas envenenadas tenho de suportar sem remédio as piedades aviltantes, as compaixões amesquinhadoras, todas as ironiazinhas anônimas, todos os azedumes perversos e tediosos da Impotência ferida. Tenho que tragar tudo e ainda curvar a fronte e ainda mostrar-me bem inócuo, bem oco, bem energúmeno, bem mentecapto, bem olhos arregalados e bem boca escancaradamente aberta ante a convencional banalidade. Sim! suportar tudo e cair admirativamente de joelhos, batendo o peito, babando e beijando o chão e arrependendo-me do irremediável pecado ou do crime sinistro de ver, sonhar, pensar e sentir um pouco... Suportar tudo e obscurecer-me, ocultar-me, para não 440 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 sofrer as visagens humanas. Encolher-me, enroscar-me todo como o caracol, emudecer, apagar-me, numa modéstia quase ignóbil e obscena, quase servil e quase cobarde, para que não sintam as ansiedades e rebeliões que trago, os Idealismos que carrego, as Constelações a que aspiro... Recolher-me bem para a sombra da minha existência, como se já estivesse na cova, a minha boca contra a boca fria da terra, no grande beijo espasmódico e eterno, entregue às devoradoras nevroses macabras, inquisitoriais, do verme, para que assim nem ao menos a respiração do meu corpo possa magoar de leve a pretensão humana. E, sobretudo, nem afirmar nem negar: – ficar num meio termo cômodo, aprazivelmente neutral. Que até nem mesmo eu possa, na melancolia crepuscular dos tempos, dar com unção emotiva e com cordialidade o braço a certos profundos e obscuros Segredos íntimos e, levemente irônico e pungido de dolência, errar e conversar com eles através das avenidas sombrias de minh’alma. Nada de pairar acima de tudo isto que nos cerca, dos turbilhões ignaros do rumor humano, deste estrondo atroador de rugidos, desta ondulante matéria, desta convulsão de lama, acima mesmo destas Esferas que cantam a luz pela boca dos astros. E que o mundo veja e sinta que eu o conheço e compreendo, e que apesar da obscuridade com que me atrito comumente com ele, apesar dos contactos execrandos na rodante contingência da Vida, tenho-o como que fechado nesta pequena e frágil mão mortal. Dizendo tudo ao mundo, originalmente tudo, com o verbo inflamado em vertigens e chamas da mais alta eloqüência, que só um complexo e singular sentimento produz, o mundo, espantado da minha ingenuidade, fugirá instintivamente de mim, mais do que de um leproso. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 441 E até mesmo lá numa certa e feia hora em que se abre na alma de certos homens uma torporizada flor tóxica de perversidade, lá muito no íntimo, lá bem no recesso das suas consciências, nuns vagos instantes vesgos e oblíquos, quantos dos mais generosos amigos não acharão, embora falando baixo, muito baixo, como que num piscar de olhos ao próprio eu, mais ridículo que doloroso o meu interminável Sofrimento! Mas, por mais que me humilhe, abaixe resignado a desolada cabeça, me faça bastante eunuco, não murmure uma sílaba, não adiante um gesto, ande em pontas de pés como em câmaras de morte, sufoque a respiração, não ouse levantar com audácia os olhos para os graves e grandes senhores do saber; por mais que eu lhes repita que não me orgulho do que sei, mas sim do que sinto, porque quanto ao saber eles podem ficar com tudo; por mais que lhes diga que eu não sou deste mundo, que eu sou do Sonho; por mais que eu faça tudo isto, nunca eles se convencerão que me devem deixar livre, à lei da Natureza, contemplando, mudo e isolado, a eloqüente Natureza. E, então, assim, infinitamente triste, réprobo, maldito, secular Ahasverus do Sentimento, de martírio em martírio, de perseguição em perseguição, de sombra em sombra, de silêncio em silêncio, de desilusão em desilusão, irei como que lentamente subindo por sete mil gigantescas escadas em confusas espirais babélicas e labirínticas, como que feitas de sonhos. E essas sete mil escadas babilônicas irão dar a sete mil portas formidáveis, essas sete mil portas e essas sete mil escadas correspondendo, como por provação das minhas culpas, aos sete pecados mortais. E eu baterei, por tardos luares mortos, baterei, baterei sem cessar, cheio de uma convulsa, aflitiva ansiedade, a essas sete mil portas – portas de mármore, portas de bronze, portas de pedra, portas de chumbo, portas de aço, portas de ferro, portas de chama e portas 442 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 de agonia – e as sete mil portas sete mil vezes tremendamente fechadas a sete mil profundas chaves, seguras, nunca se abrirão, e as sete mil misteriosas portas mudas não cederão nunca, nunca, nunca!... Num movimento nervoso, entre desolado e altivo, da excelsa cabeça, como esse augusto agitar de jubas ou esse nebuloso estremecimento convulso de sonâmbulos que acordam, o grande Triste levantara-se, já, de certo, por instantes emudecida a pungente voz interior que lhe clamava no espírito. De pé agora, em toda a altura do seu vulto agigantado, arrancado talvez a flancos poderosos de Titãs e fundido originalmente nas forjas do sol, o grande Triste parecia maior ainda, sob os constelados diademas noturnos. As estrelas, na sua doce e delicada castidade, tinham agora um sentimento de adormecimento vago, quase um velado e comovente carinho, lembrando espíritos fugitivos perdidos nos espaços para, compassivamente, entre soluços, conversar com as almas... E, na angelitude das estrelas contemplativas, na paz suave, alta e protetora da noite, o grande Triste desapareceu – lá se foi aquele errante e perpétuo Sofrimento, lá se foi aquela presa dolorosa dos ritmos sombrios do Infinito, tristemente, tristemente, tristemente... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 443 ADEUS! Zulma, adeus! adeus, Zulma! O derradeiro abraço, o derradeiro beijo, e adeus! Os primeiros esmorecimentos do dia descem e um crepúsculo de cismas, de brumas misteriosas, turva as claridades bizarras e palpitantes de há pouco. É o crepúsculo da noite – velha saudade dos tempos, recordação fugidia das eras primitivas, spleen das almas – acendendo no alto das colinas remotas e enternecedoras do Passado todos os faróis apagados das reminiscências, fazendo cintilar claros todos os pressagos santelmos das Navegações velejantes, outrora, pelos países da Ilusão! Adeus, Zulma! O derradeiro abraço, o derradeiro beijo, e adeus! As inclementes amarguras do Mundo vieram já gralhar agoirentamente dentro da necrópole sombria deste coração... E tu foste a maior dessas amarguras, que em forma de ave sinistra gralhaste os teus dolorosos agoiros. Através dos dilaceramentos da Vida, das tortuosidades do Desejo, das inquietações do Espírito, uma tarde – bela e majestosa tarde foi essa! – cheia de silêncios e sombras, vi pela primeira vez o teu perfil fascinativo, que o ritmo nobre de uma estranha música de perfeições e graça sonorizava serenamente. Pareceu-me que desconhecida Divindade inspirava e iluminava a tua beleza, envolvendo num sacrário de estrelas a tua castidade branca. Uma auréola de exclamações cercava-te, vibrantemente, em assombros admirativos, em hinos e aleluias aclamatórias. Coleantes, sutis, de rastros, iam as minhas impaciências, os meus frêmitos, o meu anseio profundo, formando ígneo terreno vulcânico, um chão de chamas, 444 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 por onde tu passavas indiferentemente, alta no esplendor translúcido da beleza. Era, para mim, surpreendente revelação, o tipo extravagante, irreal, da tua não sonhada formosura – tipo de pureza e pompa brava, evocando, trazendo consigo os segredos grandes dos Vedas. Qualquer coisa de prodigioso fazia flamejar os teus olhos negros, negros, negros até a fadiga, até o pesadelo, até a saciedade, negros, intensamente negros até o tenebroso requinte da cor negra, até os profundos tons exagerados, até a uma nova e inédita interpretação visual da cor negra. E os meus sentidos sentiam, por atração irresistível, os atritos, os contactos da tua pele embalsamada de ambrosia, quentemente impressionante; corria pelos meus nervos uma volúpia doce e morna, que no entanto me fazia estremecer e tiritar de inexplicável gozo, como por calafrio de imenso medo... Mas, ah! que tentadora beleza, abençoada ou maldita, eras, então, tu, Zulma, que assim me deixavas extático, dominado, vencido, sem quase ação no pensamento e só ação e chama e febre e transfiguração no gozo? Onde era o teu Céu, onde era o teu Mar, onde era a tua Terra ou o teu Inferno – deusa dos Astros, deusa das Ondas, deusa dos Bosques, deusa infernal?! Onde era?! Não sei! Só o que sei é que a fascinação produzida pela tua boca acesa em lavas de desejo, pelo negror de caos bíblico dos teus olhos, pela cisterna farta de leite dos seios verdemente virgens e pulcros, pela cristalização de todas as tuas formas, fez florescer em mim a Vinha exuberante e ardente da Paixão, cujos frutos, afinal, me embriagaram de tal modo, tão violentamente me arrebataram, de tais travores tóxicos me angustiaram e acidularam a alma, de tão finos dolorimentos e agoniados transes a laceraram, que eu parto hoje para sempre de ti desiludido, deixo, abandono, para nunca mais! a amplidão larga, tépida e magnética OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 445 dos teus braços, a cuja sombra mancenilhosa adormeci descuidoso, sonhei e acordei agora fundamente envenenado por letais narcotismos... Fugi de ti, desiludido, fatigado de percorrer as estepes da tua alma, cansado de girar absorto em torno dos enigmáticos caracteres egipcíacos dos teus caprichos indomáveis, do sepulcro tremendo onde jaz a múmia fria do teu Afeto. Não posso mais entregar-me ao cilício martirizante de tua insana volubilidade, aos calvários tantálicos da tua sede egoística e vingativa de gélidos e apunhalantes desdéns, aos teus sorrisos negros, aos teus beijos negros, ao teu coração sombriamente morto como um relógio parado numa casa deserta, aos teus encantos sinistros, a todos os teus feminis e sedutores encantos sinistros... Parto, sigo, vou-me para sempre embora! A tua voracidade de Águia famulenta fez-me delirar de incertezas, de dúvidas e blasfemar dessa beleza augusta, do bronze majestoso onde por certo algum demônio inquisitorial e régio modelou satanicamente a encarnação soberana dessas formas. Adeus, Zulma! Levo no coração a vertigem sanguinolenta daqueles desesperos alucinantes do ciúme; e no lábio ansioso, anelante, a palpitação inquieta deste adeus supremo, torturado, aflitivo; deste adeus soluçado num crepúsculo amargo; deste adeus de vôos solitários, cujas asas, como as de um pássaro torvo de erradias e taciturnas tristezas, voam longe, para além das lembranças, para além das saudades, para além das recordações e reminiscências antigas... Adeus! Adeus! Adeus! Fujo arrebatadamente de ti, levando para desertos áridos, sáfaros, longínquos, às regiões do Esquecimento, lá, muito para lá da monstruosa Terra, o único talismã precioso que me deste – a Dor! E, como para perpetuar a comoção crepuscular deste adeus, destas transfiguradas lágrimas de adeus, 446 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 todo o infinito nirvânico deste adeus, nesta hora poente em que os Céus começam a revestir-se dos soturnos e solenes ensombramentos da Noite, eu irei erigindo, levantando com essa Dor, com os seus despedaçamentos, dilaceramentos e gritos, as torres de Mistério e Melancolia dos negros castelos maravilhosos da Paixão, em cujos soberbos, longos e silenciosos paços constelados as nossas duas almas erraram letárgicas, sonâmbulas, acorrentadas pelos Estigmas imponderáveis dos Sentimentos humanos e em cujos terraços altos e desolados tanta vez me debrucei aterrado e vencido, nas fundas horas da fadiga, da saciedade e das alucinações do Tédio, sentindo em torno rugir, bramar temporais, trovões, fora, surda e confusamente na Natureza, os desgrenhados invernos lívidos... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 447 TENEBROSA Alta, alta e negra, de uma quase gigantesca altura, torso direito e forte, retesada na espinha dorsal como rígido sabre de guerra; colo erguido de ave pernalta, aprumado, gargalado e toroso; longos braços roliços, vigorosos, caídos, como extensas garras de falcão, ao amplo dos quadris abundantes e de linhas serenas, esculturais, de soberana estátua de mármore – semelhas bem uma noturna e carnívora planta bárbara, ardente e venenosa da Núbia. Olhos grandes, largos, profundos, cheios de tropical sensualismo africano e abertos como estrelas no céu da refulgente noite escura de ébano polido do rosto redondo – alta, alta e negra, de uma quase gigantesca altura – lembras também o astro nublado, caliginoso da Paixão, girando na órbita eterna da humanizada dolência da Carne, como mancha na luz, ou soturna mulher da Abissínia, cujos luxuriosos sentimentos panterizados sinistramente gelaram e petrificaram na muda esfinge dos secos areais tostados. E eu quisera possuir o teu amor – o teu amor, que deve ser como frondejante árvore de sangue dando frutos tenebrosos. O teu amor de ímpetos de fera nas brenhas e nas selvas, sobre os broncos, graníticos penhascos, na cáustica solar de exóticos climas quentes de raças tropicalizadas na emoção, porque tu és feita do sol em chamas e das fuscas Areias, da terra cálida dos desertos ermos... Quisera possuí-lo – inteiro, estranho, eterno, esse amor! E que me parecesse, se o possuísse e o gozasse, possuir e gozar o Mar, ter dentro de mim o oceano coalhado – como a minh’alma está coalhada de sonhos – de navios, de iates, de escunas, de lugares, galeões, naus e galeras, por uma tormenta avassaladora em que trovões formidáveis e cabriolas elétricas de raios fosforescentes, brechando o firmamento, sacudissem, 448 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 num brusco arrepio proceloso, o túmido colo crespo e ululante das Vagas. Quisera amar-te assim! E que nesse Mar tormentoso, sob a angustiosa pressão dos elementos, a um cabalístico sinal meu, como se absoluto poder me houvesse constituído o Deus terrível e supremo da Terra – iates, navios, lugares, escunas, naus e galeras, conduzindo toda a humanidade a várias regiões do monstruoso mundo, de repente soçobrassem juntos, subitamente se afundassem nas goelas hiantes do Mar escancarado, abismante, tremendo... Nós dois, então, fulminados pelo mesmo raio, batidos, esporeados pelo mesmo estertoroso trovão, seríamos arremessados ao seio glauco do oceano, abraçados na extrema contração espasmódica do gozo, indo dar às ilimitadas praias do Ideal os nossos cadáveres, ainda fortemente, desesperadamente unidos, enlaçados, presos, como se a derradeira agonia cruciante da sensualidade e da dor houvesse justaposto os nossos corpos na fremência carnal dos alucinados sentidos! Alguma coisa de aventuroso – fantástico, como o espírito de Byron, aceso pela caricatura viva de uma deformação física; alguma coisa de estranho e satânico como Poe, tantalizado também pelas agruras da ironizante matéria, e por isso mesmo ainda mais esfuziante e flamejante; alguma coisa, enfim, de infernal, de diabólico, de luminoso e tétrico, ficaria então para sempre esvoaçando e pairando em torno da nossa memória, sobre o Nihil das nossas vidas, como sinistra ave desgarrada de outras ignotas regiões inacessíveis e cujo canto soturno e maravilhoso reproduzisse a magoada plangência da harpa misteriosa dos nossos sentimentos, infinitamente vibrando e soluçando através do lento desenrolar das longas eras que passam. Quisera amar-te assim! Vibrado ao sol do teu sangue, incendiado na tua pele flamante, cujos OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 449 penetrantíssimos aromas selvagens me alvoroçam, entontecem e narcotizam. Assim amar-te e assim querer-te – nua, lúbrica, nevrótica, como a magnética serpente de cem cabeças da luxúria – os olhos livorescidos, como prata embaciada; a fila rútila dos rijos dentes claros cerrada no deslumbramento, no esplendor animal do coito; os nervos e músculos contraídos e os formosos seios de cetinoso tecido elevados como dois pequenos cômoros negros, cheios de narcotismos letais, impundonorosamente nus – nus como todo o corpo! – excitantes, impetuosos, tensibilizados e turgescidos, na materna afirmação sexual do leite virgem da procriação da Espécie! E que a tua vulva veludosa, afinal! vermelha, acesa e fuzilante como forja em brasa, santuário sombrio das transfigurações, câmara mágica das metamorfoses, crisol original das genitais impurezas, fonte tenebrosa dos êxtases, dos tristes, espasmódicos suspiros e do Tormento delirante da Vida; que a tua vulva, afinal, vibrasse vitoriosamente o ar com as trompas marciais e triunfantes da apoteose soberana da Carne! Assim, arrebatado no teu impulso fremente de águia famulenta de alcantiladas montanhas alpestres, eu teria sobre ti o poderoso domínio do leão de majestosa juba revolta, amando-te de um amor imaterial, sob a impressão miraculosa de transcendente sensação, muito alta e muito pura, que se dilatasse e ficasse eternamente intangível sobre todas as vivas forças transitórias da terra. Então, na cela mística do meu peito, como num sacrário, eu sentiria passar em vôos brancos esse grande Amor espiritualizado, estrela diluída em lágrimas, lágrimas convertidas em sangue, como a expressão de um sonho, ao mesmo tempo carnal e etéreo, humano e divino, que palpitasse, vivesse no meu ser e me trouxesse o travo, o sabor picante e amarguroso da Dor, que é a consagração, a perfeita essência do Amor. 450 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Seria esse um requintado gozo pagão, cujo aroma enervante e capro, como o aroma selvático que vem do bafo morno e do cio dos animais das africanas florestas virgens, embriagasse o meu viver, desse ao meu espírito a alada forma de pássaro e desse à Arte que cultualmente venero, a pompa larga e bravia desse teu bufalesco temperamento e o resistente bronze inteiriço e emocional do teu nobre corpo de bizarro corcel guerreiro ó alta, alta e maciça torre de treva, de cuja agulha elevada, esguia, aguda e expirante no Azul, o condor do meu Desejo vertiginosamente trêmula e vai as asas ruflando em torno... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 451 REGIÃO AZUL... As águias e os astros abrem aqui, nesta doce, meiga e miraculosa claridade azul, um raro rumor d’asas e uma rara resplandecência solenemente imortais. As águias e os astros amam esta região azul, vivem nesta região azul, palpitam nesta região azul. E o azul, o azul virginal onde as águias e os astros gozam, tornouse o azul espiritualizado, a quintessência do azul que os estrelejamentos do Sonho coroam... Músicas passam, perpassam, finas, diluídas, finas, diluídas, e delas, como se a cor ganhasse ritmos preciosos, parece se desprender, se difundir uma harmonia azul, azul, de tal inalterável azul, que é ao mesmo tempo colorida e sonora, ao mesmo tempo cor e ao mesmo tempo som... E som e cor e cor e som, na mesma ondulação ritmal, na mesma eterificação de formas e volúpias, conjuntam-se, compõem-se, fundem-se nos corpos alados, integram-se numa só onda de orquestrações e de cores, que vão assim tecendo as auréolas eternais das Esferas... E dessa música e dessa cor, dessa harmonia e desse virginal azul vem então alvorando, através da penetrante, da sutil influência dos rubros Cânticos altos do sol e das soluçadas lágrimas noturnas da lua, a grande Flor original, maravilhosa e sensibilizada da Alma, mais azul que toda a irradiação azul e em torno à qual as águias e os astros, nas majestades e delicadezas das asas e das chamas, descrevem claros, largos giros ondeantes e sempiternos... 452 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 SONAMBULISMOS Foi pelas horas concentrativas de uma noite tropical de verão, numa dessas noites em que o espírito se debate e anseia na infinita vertigem das profundas e sombrias cogitações, alanceado por amarguras incomparáveis; numa noite em que desfalecimentos supremos me assediavam, que a minha visão ficou sonambulamente deslumbrada por este espantoso e imaginoso espetáculo da Lua. Todo o azulado espaço estrelara já, fina e aristocraticamente. Na floreada constelação da Via-Láctea, na vasta, solene e celeste, alta Nave dos Astros, alvas cintilações pompeavam, rútilos fagulhamentos, faustosas chamas claras sideralmente acesas, palpitação de harmonias, de formas, de brancuras imaculadas. Como que diamantinas cordas tensibilizadas de harpas miraculosas afinavam sonoramente de ritmos inefáveis a solidão sagrada, eucarística, da noite; e como que também vinham desfilando, descendo lentas e letárgicas pelos fios etéreos das estrelas, alas e alas fulgentes de querubins e arcanjos revestidos das pratarias, da translucidez, da névoa vaporosa da ViaLáctea. E eu sentia leves, doces rumorejos de asas que afiavam, girando num torvelinho, num redemoinho branco de plumagens suaves... Mas, nas sutis vibrações ignotas do Éter, errava certa sensibilidade, o dolorimento secreto de imperceptíveis nervos delicados de freira histérica, dilacerada nos infinitos êxtases do misticismo alucinado, dos intensos refinamentos, dos requintes esquisitos das macerações. Parecia que nas esparsas correntes do ar a dor circulava, cristalizada, filtrada na tenuidade vaga da luz... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 453 As transparências luminosas da noite tinham altos silêncios augustos de sacrários, fazendo meditar e sonhar... E toda a amplidão das Estrelas era de uma solenidade e majestade muda. Através de brumas diáfanas, como através de uma paisagem de nevoeiros polares, vinha lentamente vogando, vogando, lassa, leve, como numa atmosfera aquosa, a angustiada aparição da estupenda lua, imensa, mole e mórbida, untuosa, magnetizadora Flor de filtros letais, Odalisca Fabulosa do opulento Mar-Sultão, derramando uma paz branca, morna, claridade viscosa nas vastidões em torno. Do modo por que eu a via, por que eu a estava sentindo na imaginação e na visão, a lua parecia crescer, crescer, ir avolumando cada vez mais e, à proporção que avolumava, ir adelgaçando, adelgaçando, frouxa e oleosamente, numa forma glutinosa e elástica de estranho Verme sulfúreo rastejando em preguiçosas, felinas ondulações e enchendo, avassalando todo o espaço com a sua redonda auréola luminosa e langue... E então todo o firmamento ficava invadido por essa maravilhosa face da lua, que velava completamente as estrelas. E era só uma ampla lua que formava o espaço inteiro, era só aquela face fria, branca, que dominava de fosforescência toda a vastidão do horizonte. Mas essa mesma face fria como que depois se transfigurava ainda; certos aspectos, os caracteres, as linhas, o contorno breve que lhe dá a semelhança de uma máscara de múmia, as manchas e sombras que por vezes turvam a ebúrnea candidez do seu palejante clarão, subitamente desapareciam, se desfaziam; e ela, a lua espectral, a lua frígida, cadavérica, começava a experimentar a sensação de um ser, a viver a vida de uma alma... Pouco e pouco se acentuavam linhas, traços, aspectos, iam aparecendo novas formas intensas, que 454 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 acusavam já a contornação de um vulto destacado nos amplos céus, gerado da face lívida da lua. Imensa dolência e imensa tristeza, transfundidas na asiática beleza judaica de Rabino erradio e sacrossanto, como que envolviam numa bruma ideal de paixão essa magoada e cismadora figura. E era, afinal, agora, pela metamorfose da luz, todo o busto sereno, a face dolorosa do Cristo, como que surgindo num grande e profundo soluço mudo. Era a face do Cristo, aparecendo nos sudários do Infinito, ciliciada no meio de esplendores sidéreos, com a imaginativa cabeça enxameada de curiosos e fascinadores apólogos, coroada de epodos, inflamada dos segredos ardentes e voluptuosos do Cristianismo! E essa cabeça legendária, de triste e de patética doçura, de emotiva palidez romântica, avultava, avultava mais, num relevo fundo, como se se quisesse corporificar e mover, abrindo desmesuradamente os olhos cheios de mistérios incomparáveis e fazendo ondular no ar a espessa cabeleira enovelada, derramada em longos caracóis flavescentes pelas espáduas divinas... E eu olhava, absorto, para o surpreendente espetáculo da lua, assim sagradamente transfigurada!! Ah! e como a branda face de Jesus sorria agora para mim com magoa do sorriso de piedade; como esse sorriso me acarinhava, derramava perdões e clemências, do alto, sobre a minh’alma terrena! Um sorriso da mais bem-aventurada bondade, da ternura mais celeste, um sorriso infinito que abrangia toda a amplidão e se confundia com a claridade dormente da noite. E era bem para mim esse sorriso, porque ele me atraía, me magnetizava com o seu vaporoso fluido, radiando como esmaecida, lívida madrugada, na boca sensual e roxa pelo fel da agonia, boca contorcida no derradeiro espasmo, do Cristo peregrino, no Cristo errante lacerado de chagas... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 455 Com esse enternecido e perdoador sorriso eu me sentia lavado de todos os soturnos e rudes males, viame purificado de tudo, vivendo nas primitivas essências imaculadas do Bem. Ao mesmo tempo parecia que aquele prodigioso sorriso se transformava num gesto de mão poderosa, onipotente, mas, contudo, mansa, que me afagava meigamente a vertiginada cabeça, com doçura, com ternura, com amor, acordando em mim indefinidos estados d’alma, células que adormeciam há muito os seus desencontrados pensamentos e arrebatando alucinadamente todo o meu ser não sei para que estranhos mistérios e fenômenos da sensação... E eu, abstraído, enlevado, gozava com volúpia, sob aquela mão divinal e terna que me acarinhava, que me mergulhava, quase adormecido, em branduras inefáveis de tufos de sedas alvas, de linhos repousantes, de veludosidades, de arminhos consoladores. E dizia comigo, mentalmente: – Sim! Tu és, afinal, o meu Deus, bom e justo, Todo poderoso, o Unigênito, que te sorris para mim abençoando-me e protegendo-me contra o Mal com o teu sempiterno perdão! Eu me humilho à tua Onisciência e à tua Graça, porque eu pensava sempre que te haveria de encontrar um dia, uma hora, um momento, bom e justo, dando-me o alívio extremo! Oh! és tu! és tu! que eu reconheço bem! És tu o louro Deus profético e apaixonado das saudosas terras da Ásia! Oh! és tu! és tu! Bem te reconheço, pela majestade das transcendentes misericórdias que semeias e pelas ciliciantes grinaldas de sonhos que te circundam a aflitiva, desolada cabeça... Tanto clamei, tanto bradei por ti nas solidões, que tu afinal apareceste para me salvar do fundo desta geena onde em vão me debato e rojo. Do fundo desta geena que me devora, apertando-me nos seus cem mil círculos de ferro. 456 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Sim! vens consolar-me de tudo na atroz geena do Mundo, vens suavizar-me estes áridos dias de pedra em que até mesmo o sol é para mim a pedra mais indiferente de todas as pedras. Vens trazer-me justiça, Deus sempiterno – justiça, a quem vive sequioso por ela; justiça, a quem vive de agonias por ela; justiça, a quem combate e depreca no mundo por causa dela. Se eu aqui me desalento e desolo perante a tua Imagem não é que eu duvide da tua suprema clemência nem da tua suprema justiça! Não é porque eu julgue a justiça uma palavra inútil, convencional, vã, perfeito engodo doirado para iludir as almas crédulas, para favorecer os potentados e punir os humildes! Não é! Não! Mas, um dia, já um visionário do Infinito, um desses errantes do Ideal, com uns olhos espiritualizados de tísico, contou-me que lá no seu país bárbaro, uma vez que ele quis justiça, que ele clamou por justiça, responderam-lhe com esta espada fria de sarcasmo: – Ah! tu queres justiça, vais ter justiça. Metam este diabo numa jaula, derretam-lhe os pés em azeite a ferver, arranquem-lhe a pele a ferro em brasa e arranquem-lhe a língua pelas costas, se é que ele, na verdade, quer justiça, da pura e boa justiça, da imparcial, da generosa justiça! Tu, Deus excelso, sim, tu não iludes ninguém, tu vens trazer-me justiça, eu bem creio, eu creio muito, porque o sorriso inefável que abre essa original aurora nos teus lábios não pode iludir nunca, não pode enganar jamais. E mesmo os mais descrentes, os mais céticos e pessimistas acreditariam, se vissem! como eu agora vejo nesse teu piedoso sorriso tão carinhosamente iluminado da mais incomparável irradiação de justiça... Sim! vens trazer-me justiça! vens trazer-me justiça! Parecia mesmo, então, que para como que afirmar ainda mais os meus amargurados pensamentos, um OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 457 pranto imenso, diluvial, me inundava, caindo do alto; que o Cristo chorava, chorava, num monótono choro soluçante que eu escutava pungido e enternecidamente agradecido a Ele por tanto e tanto compreender e sentir assim a minha Dor e assim chorar por mim... Mas, de repente, como por uma transmutação de mágica, tive um fundo sobressalto; do meio daquela espécie de torpor fui violentamente sacudido por uma impressão de deslumbramento, e, então, vi! estupefato, que aqueles divinos lábios lívidos a pouco e pouco se satanizavam e enrubesciam, passava sobre eles um relâmpago de fogo; aquela boca martirizada afinal abriase estranhamente rubra, estranhamente rubra! — e desvairadas gargalhadas vermelhas estalaram e rolaram retumbantemente pelo espaço a fora como atroantes excomunhões... E as estrepitosas risadas rolaram ríspidas, cortadas sangrentamente de sarcasmos e ensangüentando e abalando todo o espaço, como risadas de um novo Cristo satânico, despenhado e rebelde na eterna confusão dos séculos... Toda aquela face de celeste ternura desaparecera, a doce expressão piedosa daqueles olhos se exilara para longe e apenas então ficara o mais duro e feroz semblante, com a apocalíptica expressão sagrada e selvagem do Arcanjo titânico dos Extermínios agitando no ar o gládio fulminante. E a boca rubra dessa face tremenda ria, bruta, grosseiramente como os Getas da Trácia, bárbaras, empedernidas risadas d’escárnio que rolavam, rolavam pela noite a dentro, de eco em eco, com o clangor monstruoso de turbilhões, de cerradas massas de sons de trombetas conclamantes ou formidáveis e pesados carros de batalha, fantástica e atropeladamente arremessados através dos bíblicos, profundos e tenebrosos despenhadeiros de Josafá! 458 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 DOR NEGRA E como os Areais eternos sentissem fome e sentissem sede de flagelar, devorando com as suas mil bocas tórridas todas as rosas da Maldição e do Esquecimento infinito, lembraram-se, então, simbolicamente da África! Sanguinolento e negro, de lavas e de trevas, de torturas e de lágrimas, como o estandarte mítico do Inferno, de signo de brasão de fogo e de signo de abutre de ferro, que existir é esse, que as pedras rejeitam, e pelo qual até mesmo as próprias estrelas choram em vão milenariamente?! Que as estrelas e as pedras, horrivelmente mudas, impassíveis, já sem dúvida que por milênios se sensibilizaram diante da tua Dor inconcebível, Dor que de tanto ser Dor perdeu já a visão, o entendimento de o ser, tomou decerto outra ignota sensação da Dor, como um cego ingênito que de tanto e tanto abismo ter de cego sente e vê na Dor uma outra compreensão da Dor e olha e palpa, tateia um outro mundo de outra mais original, mais nova Dor. O que canta Requiem eterno e soluça e ulula, grita e ri risadas bufas e mortais no teu sangue, cálix sinistro dos calvários do teu corpo, é a Miséria humana, acorrentando-te a grilhões e metendo-te ferros em brasa pelo ventre, esmagando-te com o duro coturno egoístico das Civilizações, em nome, no nome falso e mascarado de uma ridícula e rota liberdade, e metendo-te ferros em brasa pela boca e metendo-te ferros em brasa pelos olhos e dançando e saltando macabramente sobre o lodo argiloso dos cemitérios do teu Sonho. Três vezes sepultada, enterrada três vezes: na espécie, na barbaria e no deserto, devorada pelo incêndio solar como por ardente lepra sidérea, és a alma negra dos supremos gemidos, o nirvana negro, o rio grosso e OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 459 torvo de todos os desesperados suspiros, o fantasma gigantesco e noturno da Desolação, a cordilheira monstruosa dos ais, múmia das múmias mortas, cristalização d’esfinges, agrilhetada na Raça e no Mundo para sofrer sem piedade a agonia de uma Dor sobrehumana, tão venenosa e formidável, que só ela bastaria para fazer enegrecer o sol, fundido convulsamente e espasmodicamente à lua na cópula tremenda dos eclipses da Morte, à hora em que os estranhos corcéis colossais da Destruição, da Devastação, pelo Infinito galopam, galopam, colossais, colossais, colossais... 460 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 SENSIBILIDADE Com os seus lindos bandos brancos e o seu rendado mantelete de vidrilhos, aquela doce velhice tinha, apesar de enrugada e trêmula, um certo encanto nobre. Fazia lembrar uma gravura antiga e grave, dessas, solenes e vagas, que pousam tristes, quase apagadas de traço, esmaecidas na tela, mas saudosas, ao fundo de algumas salas severas. O seu nome carinhoso e parnasiano, recordava à primeira vista, pelo esmalte claro das sílabas, a forma de delicada porcelana, um fino e precioso mosaico ou os embutidos luxuosos dos charões. E esse nome, aveludadamente azul – Lúcia – cantava-me ao ouvido com a doçura, a terna suavidade da mais íntima, penetrante carícia. Rara e obscura existência, cabeça embranquecida nos gelos das sombrias dores ignoradas e apunhalantes, Lúcia, no entanto, andava dentre auréolas invisíveis de bem-aventurança, dentre etéreas redomas de clemência divina, como se nunca roçasse as diáfanas e níveas asas sutis das suas ilusões e reminiscências no lutulento, letífico charco da terra... Era assim uma alma ainda não esgotada, ainda intacta, inédita, purificada nos rios claros e evangélicos das esperanças, atravessando o mundo sem ruído, oculta, calada, vivendo baixo, devagar, nos sugestivos silêncios, como numa eterna pausa de todos os rumores, pedindo aos recônditos dilaceramentos do coração que emudecessem, ou magoassem e afligissem, mas em segredo, para que lá fora o faustoso clamor da Vida, desdenhoso e vão, não se importunasse e humilhasse. Era uma dessas assinaladas e tocantes velhinhas que impressionam e das quais, muita vez, a tremenda complexidade da Dor fica como que encerrada aos olhos OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 461 insensíveis da formidanda massa do Mundo, através das brumas do egoísmo. E ela mesma como que faz pensar em todas essas brumas, porque o seu perfil é brumoso, são brumosos os seus belos cabelos, é brumosa toda a sua contemplativa figura, que as brumas, as neblinas, os nevoeiros de fundo mistério envolvem de um luar solitário... Outrora toda a sua bondade espiritualizava-se, subia à serenidade dos Astros, quando, pelas manhãs d’ouro e linho virgem, frescas de sol, eu a via, junto ao mar melancólico, gozando a saudade das vagas. Por ali, perto das vagas, erguia-se um muro austero e alto, donde bucolicamente pendiam imensas e exuberantes latadas, verdes tentáculos de folhagem estrelados de rosas jaldes, de rosas brancas e de rosas rubras. Através de um gradil aberto viam-se louçanias de jardins, preciosidades de plantas, uma alegria pinturesca de vergéis e um repouso secreto e claro de Recolhimento, quebrado em dadas horas pelo quente esplendor bizarro de risadas. Era uma página de comunicativa emoção, de emoção sempre crescente, sentir, no ouro e na prata fluido-vagante das manhãs, o pequenino perfil da Lúcia, vago e triste, tão humanizado naqueles momentos, tão existente, tão ser, tão vivo na irradiação alegre, clarinal do dia, olhando ao mesmo tempo, com igual enternecimento, o mar e os jardins próximos ruidosos em certas horas. O peito desoprimia-se, respirava ao largo amplos e sadios haustos de mar diante dessa velhinha meiga, tão infinitamente sensível, tocada de uma graça de amor supremo, talvez pouco da terra já mas que parecia ser o símbolo sagrado das resignadas, abnegadas mães. Toda aquela vida era, entretanto, assediada de agitações constantes, com todos os fenômenos do Desconhecido, fenômenos profundos, com origens e raízes longínquas e em cujo centro ciclônico, terrível, 462 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 ela girava amargamente, confusamente, arrebatada na vertigem do Mundo. E tudo, em redor, como que a torturava em fogueiras acesas de inquisições, fazendo-a delirar de angústia, dessa lancinante impaciência, dessa inquietude que alvoroça os corações velhos que não têm a esperar mais nada. E quantas, quantas vezes eu a vi, perdida nos tumultos, circulando por entre as multidões cerradas e atordoantes – erma, isolada, trêmula e triste, como se levasse toda a fatigada velhice lutadora de rastros ao sacrifício dos desdéns eternos, à indiferença de ferro das bárbaras hordas humanas. E tão só, tão só caminhava, talvez sem objetivo, talvez sem rumo, que a minh’alma compadecida a acompanhava de longe, numa grande e genuflexa piedade muda de companheira misteriosa e solitária. Mas com que dolorosa agonia, com que tormento, quase voluptuoso, ela circulava através multidões, errava através do ruído, através do alarido das ruas, das praças, através dos burburinhantes enxames de uma população variada, diversa de atitudes, de sensações, brutal de instintos, impetuosa de gestos, frívola, fútil, mexendose em ondulações de estupendos bichos vorazes, venenosamente serpenteando... Muitas vezes era pelos dias de abrasante sol e poeira, quando os mormaçosos estios relampejam e torram as vegetações recentes e o ar pesa elétrico, túmido de trovões e raios. As correntes intensas e luminosas do calor, as atmosféricas fulgurações zumbentes e escaldantes, atravessadas da poeirada fatigante, punham no ambiente lassa preguiça tropical, dando uma forte exaustão de nervos, que pedia longas, demoradas sestas... Era por esses dias febrilmente calmosos, em que o espaço, hirto, rígido, parece feito de metais incandescentes e de vidro. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 463 Candente dureza estéril, surda, sufoca, numa asfixia mortal. Paira em tudo a prostração, a combustão de um incêndio prodigioso em longas extensões de florestas, de selvas intermináveis, de matas escuras e virgens; a tontura morna e enervante da chamejação poderosa, luxuosa, rica, de grossas e resinosas cordoalhas alcatroadas ou das línguas flamívomas e fantásticas de enormes aglomerações de carvão de pedra ardendo com feéricas e estrepitosas labaredas. Como que chiantes e algazarrantes crepitações de cigarras, riscam, retalham e cortam nervosas, com a vibrátil tensibilidade das asas, as fremências ríspidas do sol aberto, aceso estranhamente nos altos. E o sol, devorando ferozmente as seivas, numa insaciabilidade animal de tigres e panteras esfaimadas, faz lembrar horrível, tremendo e torturante carrasco levantando no Infinito guilhotinas atrozes, cujos formidáveis e ígneos cutelos invisíveis fulminam medonhamente os corpos... E a retina fatigada, cansada de fitar os aspectos quentes, as paisagens abrasadas, ofuscada pelos deslumbrantes estrelejamentos que a constelaram, descai langue, frouxa, perdendo já a percepção clara das linhas. Lúcia, entretanto, nômade eterna, errava entre essa atmosfera de sol e poeira, como nas tórridas, áridas vastidões de um deserto. E o seu humilde perfil de peregrina, martirizado pela inclemente ação cáustica da luz, parecia convulsionar-se, contrair-se, contorcerse espiralmente em eletrismos ardentes de serpes ébrias de cio, encolher-se, murchar como planta esquisita e melindrosa que a chama cresta, devora... Era de uma sensibilidade que magoava até às profundezas da alma ver girar sob o sol em fogo, na amolentadora dormência da poeira turva, o vulto triste dessa velhinha – alquebrada, aturdida, sonolenta nos 464 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 entontecedores espasmos, nas radiantes nevroses do sol... Parecia que todo o fino tecido, todas as fibrilhas e filamentos da claridade fulva, vibrante, a magnetizavam, a prendiam como que em redes cintilantes de raios, de brilhos, de centelhas, de siderações, de flamas, de ardências solares, de coruscantes crepitações. Parecia que as chamejativas e agulhantes áspides mordentes e circundantes do sol a apertavam, a comprimiam, a enlaçavam, roçando, babando, lambendo sedentas, sedentas, a epiderme engelhada da suplicia da velhinha, embebedando-a de sensações infinitamente complexas e esdrúxulas com as atritantes e cocegantes flexibilidades circulatórias dos seus filiformes e moles organismos... Deveria, ao certo, embalá-la, adormecê-la, fazêla sonhar um pouco, ao certo, toda aquela luminosidade letárgica, ansiante, flagelativa, que morbidamente a atravessava, a inoculava de tóxicos e alcoolizadores amavios de feitiços narcotizantes, de venenosos e deliciosos ópios, de sutilezas, de delicadezas nervosíssimas de uma sensibilidade quase lasciva, de tão martirizante, dolorosa e penetrante que era através dos espessos, densos nevoeiros da poeira e do sol... Fazia pensar que uma desconhecida voz, que ela não sabia de onde vinha, chamava com carinho por ela, a abençoava na sua aflição, no seu dilaceramento, suavizando-a na dor, protegendo-a na torturante peregrinação, compadecendo-se dela, bradando, clamando, como através do nebuloso pesadelo de um sono ou de brumas de luar, o seu nome meio velado, meio sonhado e soluçante: Lúcia, Lúcia, Lúcia – como o consolo da Sombra, como a piedade do Mistério, como a demência do Vago: Lúcia, Lúcia, Lúcia! O seu coração agoniado vibrava com mais veemência, com mais ímpeto, com febre, num profundo êxtase de sofrimento; e os seus amortecidos olhos, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 465 turvados pela névoa das lágrimas, espiritualizavam-se, languesciam, como num torpor comatoso, e ela então voltava, voltava, tornava a circular, ali, além, lá, por entre a multidão tenebrosa, como ainda na última esperança de alcançar o que buscava, o que em vão procurava no torvelinhoso caos da existência – velhinha, trêmula, triste, frágil, a cabeça agitada numa convulsão, no lancinamento angustioso de todo o seu ser fatigado, sob o flagelo inflamado das cortantes refrações luminosas, das faíscas e fuzis cambiantes e circunvolventes e da inquietante poeirada turva que subia em turbilhões no ar... Parecia que aquele coração sofredor, arrancado violentamente do peito, eu sentia e via palpitar, sangrando ainda, suspenso, solto, alado, magnetizado, atraído pela intensa e estonteante vibratibilidade aérea, ao alto do Éter vertiginoso, com todos os seus gemidos, com todos os seus soluços, com todos os seus ais, com todos os seus gritos, com todos os seus gritos, com todos os seus gritos! Penetrado de uma curiosidade doentia, desse indefinido desejo de mergulhar no absoluto das cousas, o espírito a acompanhava, sem se aperceber quase, por um movimento instintivo e simpático de atração pelo que é obscuro, isolado, só, como acompanha as emoções e sensações que abrem asas à noite, fugindo ao esmagamento do dia. Não era apenas uma velhinha, trêmula, engelhada, que vagava todas as manhãs, desamparadamente: – era a Dor, a Dor cruel e ignota, que ninguém sentia, ninguém via, mas que vinha sempre sombriamente viver junto à estranha vida que no mar palpitava. E, quem olhasse bem para ela, com afeto piedoso, com todo o concentrado sentimento, e demorasse num exame lento, silencioso, detalhado, de todas as suas feições, de todas as suas rugas, veria então como a Lúcia 466 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 se transfigurava sempre que ouvia a matinal correria nos jardins do Recolhimento, sempre que encarava por muito tempo o mar, fitando-o como horrível inimigo que se não pode jamais destruir, mas apenas odiar em vão. Um amargor, um fel, uma ansiedade, ansiedade de tudo, ansiedade mortal a crucificava, e ela então começava a percorrer novamente ao longo das praias, mas tão febril, tão inquieta, tão vertiginada a nobre e doce cabeça branca, que se temeria que ela fosse enlouquecer ou morrer ali de desespero. Fazia mesmo lembrar um louco, igualmente cego e mudo, encarcerado e tateando na sua desgraça, debatendo-se para espedaçar as perpétuas grades do cárcere tenebroso da loucura, da cegueira e da mudez, ensangüentando inutilmente as mãos nos grilhões imaginários, com o delírio supremo, a aflição tremenda de uma alma que não sabe, que não pode dizer quanto sofre e sofre ainda mais por isso e sufoca e soluça e convulsiona e rebenta de sofrimento. Era uma dor que tinha a sensibilidade curiosa de um violino miraculoso, vibrando freneticamente, com requintada nevrose, através de nevoeiros frios, nalgum país polar, e cujo som, partindo em arestas finíssimas e inflamáveis, em vez de deliciar de harmonia, ferisse, cortasse e queimasse as carnes. A princípio aquela Dor subia como leve, melodiosa balada fria e triste, por turvo luar, sobre lagos calados, entre paisagens de lenda. Subia suspirantemente, na mágoa dilacerante dos adeuses derradeiros, aflitiva lancinância das preces... Depois, transfigurada por invisível vendaval sinistro, era uma Dor que avassalava todo o seu organismo como um espasmo de alucinação, rugindo em bramidos de mar alto nos bravios costões desertos, nas abruptas penedias, nas brenhas brancas, sob as trevas soturnas e avérnicas das tempestades, cruzadas pelos Signos diabólicos e fosforescentes dos relâmpagos... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 467 Ah! como eu a amava, como eu me apiedava dela assim, como me identificava com o seu sentir, como penetrava nos crepúsculos estrelados da minh’alma, assim dolente, assim fatalizada, essa extraordinária Criação dos dolorimentos, das incoercíveis angústias imponderáveis! Vencida pela saudade e sugestão evocativa das ondas, ela vagava sempre, sem que ninguém soubesse qual era o seu objetivo secreto... E essa maravilhosa dor como que se ampliava, se derramava, enchia as vastidões do Mar imaginativo, cortado de lubricidade e tédio, enevoado de spleen, embriagado de um vinho sombrio e glauco, fascinador, inebriante, atordoativo, de sonambulismos esparsos, sedento da monstruosa, da satânica paixão dos naufrágios, soturnamente cantando, com triunfos d’inquisidor, as elegias das noivas – mais formidável que a Morte! E enchia, enchia, enchia profundamente o Mar a grande Dor, filtrava-se pelos raios fluidos da luz, diluíase no cheiro azotado e virginal das marés, eterificavase, era essência, era eflúvio de emoção, era gérmen de sonho, perdido no ambiente picante, acre e ácido, das largas, amargas águas marinhas; era sensibilidade humana depurada, cristalizada, vivida na sensibilidade voluptuosa das ondas, partindo, vagando, errando como aroma e brilho flavo de sol nos turbilhões fugitivos das velas nômades, também infladas, palpitantes também de flutuante, balouçante volúpia e da mais alanceada e nostálgica sensibilidade do Infinito... 468 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 ASAS... Abertas em iris, pelos espaços intérminos, esvoaçam as Asas, voam a regiões antigas enevoadas de dolência e de lenda, às velhas maravilhas do mundo: pelos Jardins da Babilônia, pelas Pirâmides do Egito. Vão à Pérsia, palpitar no fulgor de alcatifas e tapeçarias; vão à Arábia, voar entre os incensos orientais e, condorizadas, sempre pelas fulvas, fagulhantes opulências do Oriente em fora, ruflar e subir, perder-se além das esguias agulhas alanceoladas das mesquitas, que arrojam para o firmamento as liturgias maometanas... E as Asas flavescem, doiram-se ao sol prisco dos tempos, à chama acesa da Imortalidade – porque as Asas são o Desejo, o Sonho, o Pensamento, a Glória – que tomam assim sempre essa forma, mil vezes, alada, peregrina, errante, das asas. Porque a Forma, a Forma é esse ansiar para o alto, esse fremente rufiar e abrir largo d’asas impulsionadas na Luz, na refulgência das Estrelas, de onde, a música, a harmonia pura da Arte, serena e ritmalmente canta... Mas, essa Forma que abre, cinzelada em astro flamejante, essa mesma Forma sai pontuada de lágrimas, como um relicário onde eternamente ficassem guardadas as hóstias impoluídas de um amor sideral infinito. E essas mesmas lágrimas são asas – asas espirituais, partindo da fremência de um sentimento doloroso, pungente, que nos alanceia, impacienta e agita em febre – sentimento fundamental do Profundo, do Vago, do Indefinido... Turbilhões d’asas, turbilhões d’asas, turbilhões d’asas – asas, asas e asas imensas, amplas, largas, infinitamente rufladoras, infinitamente, infinitamente, cruzando-se e acumulando-se nos tempos, nas orgias OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 469 báquicas do Sol, nas deblaterantes e atroantes nevroses das tormentas, no rouco e surdo regougar de epilepsias satânicas dos ventos. Asas leves, finas, borboleteantes, falenosas, dos magnificentes, dos radiantes, dos delicados, dos febris, dos imaginosos, dos vibráteis, dos penetrantes, dos emotivos, dos sutis, curiosas abelhas d’ouro, insetos flavos do sol, esmeraldas e meteoros voejantes e asas gigantescas, condoreiramente titânicas, dos hercúleos Proteus do Sentimento e da Forma. Tudo recebe singularidades, impressionantes transfigurações de asas – asas que abrem e tumultuam com vertiginoso e confuso tropel nos Céus, que da Terra vibrando partem, asas, asas e asas, em enigmas esfíngicos, num anseio, num frêmito, num delírio de alcançar, subir além, maravilhosamente subir, com pujanças repurificadoras e a majestade melancólica das águias, à Aspiração Suprema! 470 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 ESPIRITUALIZADA Agora fechando de leve os olhos, fechando-os, como para adormecimentos vagos, vejo-te, no entanto, melhor, sinto-te eterizada, de uma essência finíssima onde há diluidamente talvez muito do sol e muito da lua... Assim, mudo e só, neste obscuro aposento, onde apenas uma janela alta dá para o claro dia, como um coração que abre e pulsa para a vida, gozo a divina graça de ficar isolado, intacto, neste momento, ao menos, dos atritos nauseantes da laureada banalidade, de certo fundo chato de plebeísmo intelectual de sentir. Nos seis ou sete palmos deste aposento, que ainda não são, contudo, os sete palmos da cova, eu vejo-te das prefulgentes transcendências da minha Piedade, e, aristocratizando a alma, como um céu se requinta aristocraticamente d’estrelas, sinto que me apareces espiritualizada pelo grande Afeto que te fecundou e sinto que há de ti para mim uma tal influência estésica, uma identidade tamanha, uma tão intensa irradiação, que as nossas naturezas fundem-se num mesmo êxtase, num mesmo espasmo emotivo e numa mesma chamejação de beijos... E, assim, ainda assim, nobre Palmeira de sagrada sombra que me abrigas o coração errante; e, ainda assim, pelas virtudes sublimes do teu ser, canta-me na alma o Cântico claro de que não me separarei jamais de ti, que me acompanharás, boa, crente, do castelo branco das tuas altas virtudes, pelas jornadas eternais da Morte, saciando-me a sede ansiosa, inquieta, de Infinito, com as cisternas puras e transbordantes da tua eterizada Bondade. E como o nosso pequenino filho preso à tua carne pelo cordão umbilical, eu ficarei para sempre preso aos teus graciosos cuidados e fugitivos enlevos, girando em torno à tua ternura – vibrante abóbada de músicas e de luzes – como um velho pássaro fatigado abrindo e OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 471 fechando lenta e amorosamente as asas sem no entanto desprender o vôo através do atordoamento e rumor das Esferas... Crê, tem fé profunda na profunda chama que por ti me eleva. Fechando de leve os olhos, como para adormecimentos vagos, mais eu vejo a curiosa beleza negra dos teus olhos transfigurados por olhares pouco terrestres e olhares de tão cintilantes fluidos, de raios tão penetrantes, de tão afagadoras, consoladoras baladas, que só olhares de olhos resignados, perfectibilizados por egrégio Sofrimento, podem por tal forma exprimir a impressionante transfiguração dos teus olhos. Crê, pois, que eu te amo, crê que eu te amo com a majestade serena de um apóstolo e a meiguice trêmula de uma criança. Crê que eu te amo com a alma simples, com o coração inundado de frescura, iluminado de bondade. Crê que eu te amo, sacrossantamente te amo de um afeto indissolúvel, indelével, indefinível, que se perpetuará além da minha morte, sobreviverá aos meus suspiros, aos meus amargos gemidos, abraçar-te-á com abraços muito longos, beijar-te-á com beijos ainda mais longos que esses abraços, numa carícia lenta, muda e aflita, sob o repouso branco das estrelas, na imensa mágoa, no desolado enviuvamento das noites... Assim, maternizada, ó boa e generosa terra de sangue de onde brotou a flor nervosa e lânguida do filho; assim, transfigurado pelo sentimento purificante da Maternidade, ó ser docemente, arcangelicamente formoso, dessa formosura triste, mas nobre, mas excelsa, mas imaculada, das almas que se sensibilizam e vibram; assim, nessa expressão tocante, fina, sutil, do teu semblante que a dolência pungente da Maternidade enluarou de harmonia, fluidificou de delicadezas, angustiou de mistério, és, afinal, a Eleita peregrina do meu Sonho, coroada de um diadema de lágrimas... 472 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 ASCO E DOR Últimos risos palermas, últimos escancaramentos de bocas parvas nos fins destroçados de um carnaval, por tarde ardente e nevoenta. Massas de nuvens torvas tumultuam no firmamento, sob múltiplas conformações fabulosas. Raios derradeiros de sol em poente languescem do alto, mornamente crepusculares. Um tédio enorme espreguiça, estremunha no ar, lânguido, letárgico, invencível, indefinível... Por uma rua estreita, sombria e lôbrega como um prolongado corredor de convento ou uma infecta galeria subterrânea, vem desfilando, aos pinchos, saracoteando toda, desconjuntando-se toda, uma turba miserável de carnavalescos, impondo aos últimos raios tristes do sol as suas carantonhas mais horrivelmente tristes ainda, as suas vestimentas funambulescas, fazendo lembrar diferentes aspectos de loucura, graus de imbecil demência, angulosidades de crime, estados primitivos de ignorância amassados numa embriaguez mórbida, selvagem e sinistra. Os pinchos, os saracoteios, os ziguezagues dos quadris elásticos das mulheres, com os moles seios bambos e as nádegas proeminentes, num deboche nu de Inferno relaxado onde vinhos alucinantes entrassem como oceano canalizado para as bocas; os perfis ósseos, anfratuosos dos homens, mascarados de sapo, de gorila, de serpente, de crocodilo, de dragão de cornos, de morcego, de monstro bifronte, de urso, de elefante e de mentecapto, dão à turba carnavalesca a sensação formidável do descaro final, do pandemonium derradeiro, da nudez lúbrica, desbragada, bestial, da cega hediondez dos instintos soltos na hora eclíptica do aniquilamento do mundo! Mas, eis que do centro do desprezível bando, vestida em farrapos, boçal, congestionada de bestialidade, urrante de chascos, destaca-se uma OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 473 terrível figura mais grotesca do que as outras, trazendo na cabeça, em forma de troféu, uma trunfa alta, feita de cobras emaranhadas, com as caudás em pé, semelhando uma coroa de vícios em convulsão. E no meio do círculo que as outras formam e ao som de palmas cadenciadas e batuques selvagens, através de risadas aparvalhadas do público, fica então a dançar alucinadamente. Nas suas pernas magras, espectrais, de esqueleto ironicamente esquecido pela cova, dir-seá que lhe puseram azougue e lhe puseram também rodízios nos pés. E ela fica então a rodar, a rodar, macabra, doida, numa febre, num delírio, como se fosse esse todo o extremo esforço das suas faculdades de dançarina. E ela roda, roda, vai rodando, em vertigens e vertigens, em giros esquisitos, fazendo flutuar os dourados farrapos da veste, dentre uma saraivada grossa de risos e aclamações, gozando triunfos na miséria daquilo tudo, como a rainha da lama humana. E a grotesca figura roda, mascarada de múmia verde – alucinação que ondula, desvairamento que serpenteia – a exemplo de uma cousa amorfa, de um bicho inconcebivelmente estranho que se tivesse ao mesmo tempo absurdamente tomado de uma epilepsia nervosa e da dança de SãoGuido... De vez em quando piparoteiam-lhe a pança, as nádegas moles e ela então, ignóbil animal aguilhoado por essa baixa carícia, saracoteia mais, espaneja-se toda no seu lodo como num leito de volúpia. Ah! daquela momice cínica, daquela desordenada bebedeira d’instintos erguiam-se, hórridos fantasmas de sangue, de lama e lágrimas, o Asco e a Dor! Eu para ali me arrastara, no amargo tédio da tarde, na ânsia crepuscular do sol, que lembrava um palhaço senil e lúgubre, sem mais alegria, vestido de ouro e morrendo, só, desamparado até mesmo das ovações ou 474 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 dos apupos da rota garotagem, no fundo de um beco imundo... Levaram-me para ali não sei que desencontrados sentimentos, que emoções opostas, que vagos pressentimentos... A verdade é que eu para ali fora, talvez fascinado por certo encanto misterioso dessa miséria cega: para embriagar-me de asco, para envenenar-me de asco e tédio e desse tédio e desse asco talvez arrancar os astros e ferir as harpas de alguma curiosa sensação. A verdade é que eu para ali fora, quase hipnotizado, de certo modo mesmo impelido pela extravagante turba carnavalesca, pela sua monstruosa miséria. Mas, agora, todo esse misto de animalidade, de suinice, esse hibridismo mascarado, de paixões rastejantes, vermiculares, essas formas humanas que atrozmente se convulsionavam como feras devorando, todo esse ambulante sabbatt foi então desfilando por outras ruas, seguindo o seu rumo de calcetas do ridículo, bambamente, aos boléus sob o fim torvo da tarde que parecia, também mascarada de feiticeira, rindo uma risada de augúrio feral aos últimos bamboleios carnavalescos que se afastavam, finalizando como a tarde finalizava, dispersando-se, desaparecendo pelos oblíquos becos tortos num tropel de manadas de gado estropiado que uma peste assolou... E enquanto a multidão, vesga, atordoada, tonta, azoinada de calor, de rumor, de carnaval e de poeira, aplaudia com gritos e zumbaias delirantes, ensurdecedoras, aquela turba vil, incaracterística, a minh’alma sentia-se como que pendida de um cadafalso que a estrangulava, acorrentada a um asco mortal, a uma dor tremenda que não tinha linhas de unidade, de conjunto e de entendimento com as outras dores; dor ingenitamente original, que não participava, em nenhuma das suas fibras, em nenhuma das suas interpretações sensacionais, das outras dores do mundo! Dor legitimamente outra, que não tinha limites no limite OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 475 da dor comum; dor que me parecia cobrir o céu de luto, enegrecer tudo, aumentando-me o asco de tal sorte que o ar, os horizontes enublados, as árvores, as pedras da rua, as paredes dos edifícios, a multidão que burburinhava, tudo me parecia estar possuído do mesmo asco e da mesma dor. Dor sem raízes conhecidas, sem ritmos definidos, sem origens encontradas nem na vida, nem na morte, fora das correntes eternas, das correlações das esferas, das circunvoluções do pensamento! Dor inaudita, cujas partículas sagradas eram formadas da flamejante constelação de um anseio transcendental, da luz misteriosa das espiritualizações supremas, de sentimentos fugidios, sutis, de sensações que volteavam e ondulavam em torno da minha cabeça, como auréolas psíquico-estesíacas, por paragens ultraterrestres. Asco que era para mim como se eu me sentisse coberto de lesmas, lesmas fazendo pasto no meu corpo, lesmas entrando-me pelos ouvidos, lesmas entrandome pelos olhos, lesmas entrando-me pelas narinas, pela boca asquerosamente entrando-me lesmas. Um asco feito de sangue, lama e lágrimas, composto horrível de um sentimento inexplicável, hediondo, donde brotava a flor de fogo e veneno de uma dor sem termo. Asco daquelas postas de carne que além obscenamente se rebolavam numa mascarada infernal, bêbadas, bambas, fora da razão humana, a toda a brida no Infinito do deboche, sem fé e sem freios, na confusão dos instintos como na confusão do caos. Dor e asco dessa salsugem de raça entre as salsugens das outras raças. Dor e asco dessa raça da noite, noturnamente amortalhada, donde eu vim através do mistério da célula, longinquamente, jogado para a vida na inconsciência geradora do óvulo, como um segredo ou uma relíquia de bárbaros escondida numa furna ou num subterrâneo, entre florestas virgens, nas margens de um rio funesto... 476 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Dor e asco desse apodrecido e letal paul de raça que deu-me este luxurioso órgão nasal que respira com ansiedade todos os aromas profundos e secretos para perpetuá-los através da mucosa; estes olhos penetradores e lânguidos que com tanta volúpia e mágoa olham e assinalam as amarguras do mundo; estas mãos longas que mourejam tanto e tão rudemente; este órgão vocal através do qual sonâmbula e nebulosamente gemem e tremem veladas saudades e aspirações já mortas, soluçantes emoções e reminiscências maternas; este coração e este cérebro, duas serpentes convulsas e insaciáveis que me mordem, que me devoram com os seus tantalismos. Dor e asco dessa esdrúxula, absurda turba bruta que além, sob a tarde, uivava, desprezivelmente ridícula, na infrene mascarada, com os seus ínfimos vultos sinistros transfigurados em crocodilos, em serpentes, em sapos, em morcegos, em monstros bifrontes, todos, todos da mesma origem tenebrosa de onde eu vim, negros, sob a lua selvagem e sonolenta dos desertos, no seio torcido das areias desoladas... Asco e dor dessa ironia que para mim vinha, que para mim era, que só eu estava compreendendo e sentindo assim particular e exótica – ironia gerada nos lagos langues do Letes, fundida nas perpétuas chamas do Abstrato das Esferas, ironia para mim só, só para mim descoberta nas camadas infinitas da Vida; ironia só para o meu Orgulho mortal, só para a minha Ilusão humana, só para o meu insatisfeito Ideal, ironia! ironia! ironia rindo às gargalhadas no fim da tarde pelas máscaras obtusas e pela boca parva da multidão que aplaudia truanescamente como o supremo truão eterno. E, ó Dor maior! Asco mais estranho ainda! Daqueles círculos mômicos, daqueles círculos de chacota e de zumbaias, daqueles requebros de quadris obscenos, daquelas vertigens mórbidas e redomoinhos de corpos lassos, entorpecidos, suarentos, empoeirados, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 477 esfalfados; daquelas caras bestiamente cínicas, ignaras e negras, sem máscaras algumas, pintalgadas a cores vivas, a tatouages grosseiras; daqueles langores mornos e doentios de olhos suínos, de todos esses grilhões medonhos, de todo esse lodoso cárcere fatal eu ficava como uma sombra irremediavelmente presa dentro de outra sombra, querendo fugir dali por esforços inauditos e vãos, debatendo-me no vácuo contra esse golfo sem fundo, contra esses vórtices tremendos da matéria, de onde, no entanto, a minh’alma viera, cristalizada em essência, requintada numa imaculabilidade d’estrelas purificadas nos cadinhos celestes. E a minh’alma circunvagava, ia e vinha alucinada, através de adormecidas zonas de sonho, oscilante como um pêndulo de pesadelos, numa aflita ondulação de nevroses, meio dividida entre a bárbara turba mascarada e meio dividida entre a natureza, circundante, cá e lá, guilhotinada misteriosamente pela mesma dor e pelo mesmo asco, cá e lá misturada, amalgamada e perdida em iguais misérias de sangue, lama e lágrimas, ainda e para sempre com o mesmo asco e com a mesma dor... 478 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 INTUIÇÕES – Mas, afinal, por que és triste?! – Sou triste, porque o fundo de toda a Natureza é triste. Triste, por que a tristeza é Deusa, Deusa severa e soberana, com a sua larga, longa clâmide majestosa sombriamente pendida em graves, grandes rugas, envolvendo para sempre os Desolados... A tristeza medita... E é poderosa e sagrada, porque simboliza a profundidade dos Fenômenos que nos rodeiam. Olha tu para tudo. Ergue d’alto a visão do pensamento por essa inclemência dolorosa da Vida e vê lá, se, no íntimo, no recôndito das origens eternas, não está a tristeza irreparável de tudo?! Ouve os teus tumultos interiores! Busca as correntes da Vida e as correntes da Morte. Procura as tuas aspirações supremas e vê lá se não é pela estrada infinita, mas excelsa, da tristeza, que elas seguem. Amo a tristeza, porque ela fecunda a todos os sentimentos de uma nobre paixão abstrata. E é doce, suavizador e piedoso para mim quando às vezes encontro, pelos caminhos que trilho, tão augusta Deusa transfigurando os celerados, purificando os bandidos, dando paz e morte serena aos corações dos cínicos. Ser fundamentalmente triste não exclui, no entanto, a alegria, a alegria sã – essa alegria mesma que é mais sincera e séria porque foi fecundada na sinceridade e seriedade da própria tristeza. Não essa alegria romba, a alegria dos adolescentes espirituosos, que é a forma mais expressiva da imbecilidade distinta. Não a alegria dos que não são vitalmente alegres, dos que riem, pelo estilo, pelo tom de rir, por ser oficial o riso, por estar, d’alto abaixo, decretado, na grande causerie famosa do Mundo, que se deve rir, porque o riso dá maneira, porque o riso dá egrégias virtudes, porque o riso dá beleza, e não se pode, nos centros da fina gente, deixar, enfim, de proclamar o riso! OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 479 Não é essa alegria fácil, fútil, essa que chega a celebrizar-se, a formar tipo, que constitui o singular encanto sereno de certo modo de ser e sentir... Mas, bem diferentes, outros aspectos e linhas da alegria, bem variados e nobres. A alegria de um lindo rosto louro de Ruth angélica e segetal; uma serenidade cor-de-rosa de face de Cibele branca surgindo dentre lírios; a alegria verde da originalidade dos viços virgens, dos imaculados renovos; a alegria nova dos vergéis em maio, sob o Te Deum do sol. A alegria fantasiosa de um Baco empurpurado de vinho; a alegria pagã de um grego engrinaldado de acanto; a alegria ideal do Diabo coroado de cornos; a alegria obscura e ascética do Isolamento; a alegria clemente, justa, do orgulho natural e simples; a alegria modesta e sóbria da fé convicta e messiânica; a alegria tranqüila e fria do desdém calado e secreto; a alegria da bondade simples e radiante, a alegria enfim, fecundadora e sã dos que se sentem fortes porque se sentem dignos! A solenidade dessas alegrias todas vem das linhas, da harmonia, da austeridade pura da tristeza – noite miraculosa que gera sóis. A alma anseia ficar intacta das argilas lodosas, o espírito aspira envelhecer casto, na velhice milenária da Dor, mas elevando bem alto o sacrocibório das comunhões intelectuais. E, assim, essa tristeza é o tabernáculo severo e sombrio donde o espírito ergue-se calmo e mudo, intenso e seguro nas múltiplas faces da Vida, conhecendo e sentindo com eloqüência os homens e tirando desse conhecimento e desse sentimento as forças altas e os nobilitantes vigores para a profética, fecunda clemência. Pois no fundo dessa tristeza resultante das fadigas e tédios que deixa o insano ardor por se haver dado o balanço final aos Homens e às Cousas, existe a felicidade 480 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 forte, de robustez de fundamentos, uma espécie de Otimismo desdenhoso, que é a única e compensadora alegria mais elevada e pura das almas. Sou triste, sem ser cético; sou triste, porque creio ainda, vendo já, no entanto, tudo a esfacelar-se em ruínas... Por isso, por essas causas absolutas, sou triste. Eram dois vultos que caminhavam estrada a fora, através de paisagens, mergulhados numa intensa palestra d’idéias, por clara tarde maravilhosa de luz. Um deles, adolescente, imberbe, conservava a aparência reservada e sisuda de um monástico, acusando mesmo, pelo seu rosto um tanto alongado e o seu perfil bisonho, soturno, haver pertencido a um desses antigos seminários de província, reclusos dentre muros contemplativos e brancos e rodeados das sombras silenciosas de altas e recordativas árvores frondejantes. Visto um pouco ligeiramente parecia ter na face uma expressão dura, rígida, uma tonalidade seca e cética, à Voltaire. Mas, bem reparado de frente, os seus doces olhos grandes, tenebrosos e raiados levemente de vermelho, quebravam essa impressão voltaireana. Tudo, de expressivo e oculto, que ele tinha, estava nos olhos. Uma onda de seivas virgens parecia fluir milagrosamente deles. Dormiam talvez ainda, lá, como princesas encantadas em bosques fabulosos, as misteriosas Paixões do Pensamento e da Forma. Olhos reveladores, de uma expressão inédita de sentimento, dizendo límpido na sua transparente claridade úmida todos os segredos e sonhos que andem sonambulamente romeirando nas almas. Desses olhos para cujo centro profundo e luminoso parece afluir toda a essência pura, todo o idealismo claro e são, todo o alto requinte de Sensibilidade de uma geração mais elevada, mais bela, prestes a surgir! OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 481 O outro, mais severo, mais perseguido de perto pelas desilusões, com o ar fatigado de quem vem de muito longe – olhos de uma penetração aguda de brilho fundo, um tanto adormentados por uma melancolia nômade; boca de mordacidade viva, de onde as palavras deveriam irromper incisivas como dardos ou sugestivas como parábolas. Sentia-se logo que era doutras Regiões, transfigurado dos Rumos espiritualizantes, dos Fatalismos sombrios, reivindicador solitário do peso negro e venenoso das grandes culpas e por isso, agora, calmo, seguro, como os que trazem consigo, sem até mesmo pressentirem, o cunho singular das Predestinações imprescritíveis, a sede e a febre de um saber intuitivo, contemplativo. De vez em quando, no diálogo que ia estabelecendo com o outro, a sua boca sorria, num sorriso de resignada esperança, de muda contemplação, ou, ferida por um sarcasmo tão puramente justo que a idealizava, ria claro, ria, mas um riso leal, bom e regenerante, fresco, balsâmico, capaz de inundar e imacular de bens as milenárias e maléficas impurezas do Mundo decaído. E a tarde, numa paz luminosa, em auréolas de ouro, os envolvia beatificamente. As duas figuras, unificadas naquele instante por um idêntico e chamejante pensamento, caminhavam devagar na tarde, sob a efusão simpática da suave claridade da tarde. Entretanto, o diálogo continuara. – Sim, sou alegre como Deus, entediado, invejando o Inferno; sou triste como o Diabo, arrependido e sonhando, querendo voltar para o Céu! Sinto esta tristeza impaciente do Irreparável, do Irremediável, do Perdido... E a febre que me devora, a vertigem que me alvoroça, é por não poder fundir as almas sob novas formas, dar-lhes intuições novas, entendimentos inauditos, encarnar-lhes o sentimento 482 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 noutros moldes mais belos, fazê-las, enfim, mais flexíveis, mais dúcteis, torná-las mais espirituais e vibráteis para as grandes comoções do Imprevisto. A paixão da minha tristeza é por não poder fecundar de novo essas almas, não lhes poder dar as maleabilidades sensíveis, inocular-lhes o fluido estranho de uma vida aperfeiçoada, quintessenciada numa chama eterna. A doença espiritual da minha tristeza é por não poder impoluir, virginar jamais as consciências já violadas; por não poder fazer brotar nelas a flor melindrosa e boa da timidez simples, que o pecado brutal das luxúrias imponderadas e das intemperanças ferozes fez para sempre murchar. A nevrose da minha tristeza é por não me ser dada a graça magna, o dom soberano e assinalado de vazar, nos cadinhos de ouro da fecundação perpétua, só seivas prodigiosas, ineditamente belas, só germens sãos e perfeitos, só sementes preciosas e raras, para que, talvez, assim então se gerassem as Formas impecáveis, as Correções extremas, as Perfectibi1idades imperecíveis. Aos que, como tu, se fundam nos mistérios da sua própria natureza; para os que surgem das obscuras gêneses, no movimento de espontaneidade das Origens vivas, das afirmações eloqüentes e cujo espírito vai, no tempo e no espaço, se organizando por células, fecundando por sonhos, completando por vibrações de nervos, por germens de paixão, por glóbulos de Vida, aguardando, calmos e resolutos, sentindo a intuição de esperar o instante original para irromper da Sombra – para esses, deve significativamente impressionar toda a fundamental tristeza destas Manifestações supremas. O certo é que a humanidade erra pelo fantástico, que a natureza está toda sobrecarregada de fantástico. E nem mesmo há homem que não tenha o seu lado extravagantemente ideal, fantasioso; que não percorra, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 483 nas vagas horas da Desolação, as galerias sinistras dos fantasmas, ou que não vá em busca do Sonho, que existe na Realidade, como os fenômenos físicos existem esparsos no organismo concreto do Universo. O ideal é real, desde que radia no mundo criado à parte, na circunvolução cerebral de cada ser. Tudo está em saber acordar, com estilo e emoção, esse sonho, onde ele exista, ou na alma do selvagem ou na alma do culto. Para isso os Artistas de todos os tempos produzem as suas Obras que nascem sempre por um movimento de meia inconsciência conceptiva, para serem assim mais fortemente vivas e mais transcendentemente sensacionais. Porque o real é cheio de brumas de sobrenatural, o verdadeiro é cheio de brumas de fantástico e no fundo original da grande Causa está o Sonho. – Ah! Sim! Sim! Clamou o outro, num grito de alvoroçado assentimento: – o natural na Arte é o alto Absurdo, é o Absurdo, o Fantástico, Intangível! Se eu dissesse, em páginas, mais tarde, os êxtases volúpicos que me dominavam no silêncio discreto do Seminário, diante da Imaculada Conceição, doce e cândida no seu rosto de porcelana fina, com aqueles olhos paradisíacos que tanto me aproximavam da serena e celeste luz! Se eu dissesse quanta nevrose, quanto delírio sexual percorreu a minha carne naquele solitário noviciado; quanto misticismo mórbido me ciliciou a alma; quanto espasmo lânguido me dominou o corpo, certo me julgariam louco... E depois, quando deixei a paz austera do Seminário, a sua clausura mestra, os seus hábitos duros; quando deixei toda aquela vasta, longa melancolia que dentro dele reinava como nevoenta Visão de meditações e recolhimentos; quando despedi-me das suas paredes brancas, das suas torres simbólicas, das suas árvores evangélicas, da sua fachada ampla e adormecida olhando para a alegria verde do Mar – e caí então na plebéia profanação da Existência – ah! que 484 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 complicadas sensações de prazer, de recordação, de mundanismo, de misticismo, de liberdade, de saudade, de inexprimível angústia, promiscuamente vivendo dentro de mim e viçando os mais tenebrosos, os mais negros e já agora irremediáveis tédios! No entanto, se eu descrever um dia com flagrância de tintas, com violências e cruezas, todo este trecho passado da minha vida; se eu lhe der todo o impressionismo abstrato, todo o requinte de sensibilidade e mesmo até de impressões fantásticas, dirão que eu não tenho a mínima observação do Natural, que não observo a verdade inteira, e sou, em tudo, absurdo. – Belas palavras, essas, a verdade, a observação! Tanto é verdade aquela que determinadas individualidades apenas vêem com os olhos, apalpam com o tato das mãos, ouvem com os ouvidos, experimentam pelo paladar, aspiram pelo olfato, apreendem com a atenção, lembram com a memória, percebem, enfim, com todos os sentidos inferiores, como é verdade a verdade que a Imaginação vê, que a Concepção cria, que o Ideal fecunda, que o Sonho transmite, desde que não haja, no modo de reproduzir essa verdade vista pela Imaginação, uma completa hipertrofia sensacional e sim, de certa forma, um fundo lógico, rítmico, harmonioso e equilibrado, até mesmo no próprio Absurdo. Tanto é verdade todo esse mecanismo, todo esse aparelho montado, toda essa fotografia exata, de exatidão até à futilidade e banalidade, como é verdade, tanto mais verdade ainda, tudo que os Estesíacos sentem através dos seus entontecedores desvairamentos, através dos seus espiritualizantes espasmos, dos seus êxtases emocionais e profundos. A verdade na Arte existe em cada temperamento sincero que se manifesta, em cada singular sentimento que se revela, em cada alma original que vem dizer o seu segredo à Vida! OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 485 Porque a perfeita verdade da Vida na sua alta e pura essência, não é tangível – é intangível. Para apanhála não se faz mister uma visão direta, uma observação imediata, muito perto dos fatos, muito em cima dos tipos, nem um psicologismo científico sistemático, à outrance. A frase do egrégio Balzac – o artista adivinha o verdadeiro – é de uma eloqüência profunda e transcendental neste assunto. A vida é real e é ideal, é ideal e é real. As inverossimilhanças, as coincidências, os acasos, os pressentimentos, a fatalidade dos seres, os absurdos, as exceções dos fenômenos gerais, as correntes de atração simpática ou antipática, as impressões desconhecidas, os espasmos ou estados patéticos, o contato, o choque, o encontro magnético e curioso das almas, o Indefinido das cousas, como que constituem o secreto lado ideal, fantástico, de sonho, da Vida. A alta verdade da Vida está em Hamlet – pêndulo miraculoso e eterno que marca as oscilações da Alma. Hamlet surge-nos de um fundo diluído e tocante de lágrimas e lírios, da evocação simpática e doce do Angelus das almas, num crepúsculo abençoado de infinita dolência, espiritualizado como um círio divino bruxuleando na câmara mortuária das almas numa luz final consoladora. Hamlet é o céu melancólico das almas, cujas estrelas tristes, contemplativas, deslumbram-nos de um gozo quintessenciado e nos tornam cegos e perplexos de Indefinível... Hamlet é a grande ansiedade do Sonho, é o Sonho se dilatando, se dilatando, como celeste, sideral serpente, na esfera da Dor, tomando nessas transfigurações, esses velados, sombrios silêncios e essas nevrorias mentais da Dúvida. Hamlet é o violino imortal e secreto do Pensamento humano que as torturantes noites nebulosas da Consciência ferem de sons desolados. 486 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Hamlet é o Arcanjo supremo das nostalgias, branco e belo, meigo, arrebatador e convulsivo, cujo gládio em chama fosforescente flameja num fundo de sombra de exótico e fulminante desdém e cujo grave gênio pálido, de uma alta e velha aristocracia de Sensibilidade, requintada e esquecida para além nos limbos da Saudade, se debruça, desespera e chora delirantemente sobre o ideal firmamento de astros mortos do seu amor... Hamlet não é louco, não é doente, não é epiléptico, conforme o veredictum, as investigações e cogitações dos críticos, dos fisiologistas e psicólogos de todos os tempos. Hamlet é o zênite da alma humana, nos seus momentos augustos e tremendos, nos seus estados soberbos e soberanos de laceração. É o espasmo do desdém e do orgulho transcendentalizados, acima das camadas da Terra, girando no Absoluto. É o Abstrato que odeia e que ama, que perdoa e que castiga. É a Matéria que tem sede de ser Sombra, para esvair-se, para apagar-se, para desaparecer da Matéria que a encarcera, e que a tortura. É a vibrante chama sensível da Aspiração insaciável que sonha ser o pó do Nada, para que o invólucro físico e efêmero que a contém possa acabar de aspirar e de sofrer. É o sentimento da volúpia radiante, redentora e purificadora da Morte na Vida, secretamente embalsamando de um aroma letal estonteador, como um longo e lento beijo imortal de alémtúmulo, os infinitos da Eternidade. Cada homem, quando se escuta a si mesmo, quando se olha a si mesmo, quando se palpa a si mesmo, quando desce em silêncio à funda cisterna imensa de si mesmo, há de sentir um pouco de si mesmo no Hamlet, daquelas irrequietabilidades, daqueles surdos, soturnos e subterrâneos desesperos, daqueles preguiçamentos edênicos, daquela alma não alma, daquele ser não ser, daqueles sublimes vácuos candidamente e misteriosamente cheios ainda de tépidas e quiméricas irradiações de estrelas apagadas. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 487 Os tipos de Shakespeare não são absurdos propriamente ditos, nem são fantásticos; todos, mais ou menos, existem nos fenômenos livres e simples, espontâneos, ainda que muito pouco visíveis ou perceptíveis, da Natureza; isto é, cada um no seu conjunto, no seu todo, tem as particularidades secretas peculiares a cada ser. São tipos que rigorosamente não existem no seu modo complexo. Mas cada sentimento obscuro, esquisito, raro, subterrâneo, misterioso, de cada ser em particular, representa uma célula do organismo de cada tipo de Shakespeare, uma qualidade formadora daquelas concepções. Esses sentimentos todos, na suma unidade geral, na mais alta condensação, é que concorrem para a formação capital das sínteses maravilhosas de Shakespeare. Porque nele os tipos vinham por blocos inteiriços, por avalanches de paixões, por complexidades sugestivas, o que por isso lhes dá a significava toda especial de Criações. Entretanto essas Criações não entram em absoluto nas regiões do incognoscível absurdo nem do incompreensível; são, pelo contrário, possíveis e verossímeis no Tempo e no Espaço, no infinito dos sentimentos humanos, porque definem esses próprios sentimentos em teses formidáveis, embora não sejam tangíveis os objetivos que tais Criações genericamente representam e simbolizam. Mas, justamente porque a natureza sutil de certos fenômenos da alma e da consciência nos tipos de Shakespeare se encontra harmonicamente num dado momento com a natureza sutil dos fenômenos da alma e da consciência humana, num choque emocional profundo de forças e de elementos que se reconhecem e equilibram, é que as obras sintéticas de Shakespeare serão eternamente aclamadas, ainda que só intimamente e mais profundamente admiradas e sobretudo mais sentidas por capacidades artísticas, por 488 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 intensidades mentais nervosas cujos fenômenos girem, mais ou menos, pelos mesmos pólos por onde gira a genialidade assombrosa de Shakespeare. Para isso é preciso subir toda a escala misteriosa da Intuição e chegar a certos altos espasmos psíquicos da alma. Esses que dizem perceber Shakespeare, admirar Shakespeare, sentir Shakespeare, para o fazerem vestem casacas de erudição por dentro, concentram-se oficialmente, ficam graves e sérios, tornam-se os difíceis e os inacessíveis da Sabedoria, porque, no entender deles, é necessário toda essa compostura solene, todo esse aparato clássico de maneiras e atitudes, quando, no entanto, para ver Shakespeare basta penetração clara, pureza e nitidez de ser, porque ele é uma expressão da Natureza, por certo a maior, a mais intensa, a mais condensada, a mais transcendente, mas uma expressão, uma força fenomenal dela deslocada, como se deslocam os corpos meteorológicos e cósmicos. Sendo um foco central Shakespeare é, no entanto, uma expansão natural dos elementos vivos e superiores da matéria organizada, é uma voz de todas as vozes, uma hora de todas as horas, um tempo de todos os tempos, uma atmosfera de todas as atmosferas, um ser de todos os seres, uma alma de todas as almas. Se Shakespeare não tivesse atrás de si séculos, nem as gravidades dos doutos juízos dogmáticos, nem as fundamentações de teses críticas, nem os rebuscamentos fundos de análises psicológicas, de agudos comentários, nem as réplicas e tréplicas famosas das argumentações cerradas e fecundas como as camadas da Terra, Shakespeare não seria visto com essa encenação prodigiosa nem com esses estilos oficiais, nem com esse fundo sonhado que lhe dá a distância do tempo. Quase que já se aliena do cérebro a idéia de que Shakespeare fosse matéria animada, estivesse sujeito às leis fisiológicas dos outros homens. Hoje o seu Gênio OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 489 perde-se no Espaço, é como o fio do infinito do Espírito unindo-se etereamente ao fio do infinito da Matéria e formando um só corpo abstrato. Para entender, para amar, para sentir Shakespeare é apenas preciso vê-lo sem convenções nem preconceitos obscuros de consciência, na mais fácil, franca e vital nudez do Sentimento, na espontaneidade do ser, em toda a largueza genésica das suas obras, em toda a sua amplidão de Liberdade, em todos os seus gritos de Justiça, em todos os seus brados de Misericórdia, em todos os seus ais de Piedade, em todo o seu clamor de Desespero, em todo o seu soluço universal, em toda a sua dor augusta, suprema, em todo o seu amor integral e germinal da Natureza. Shakespeare é uma dessas cristalizações puras e excepcionais das Paixões, o seu consumado e colossal gladiador. Shakespeare, assim como Dante, pelo maravilhoso das chamejantes esferas psíquicas onde os seus espíritos rodavam estranhamente, singularmente, pela grandiosidade patética dos seus aspectos sublimes, pela resplandecente flagrância, pelo caráter genuinamente livre, altivo e soberano da sua Imaginação, pelas iconoclastias à fórmula da Compreensão secular estreita, pelas irreverências ao Método e ao Dogma, deduzidas fatalmente e logicamente dos grandes traços gerais e dos profundos golpes de vista das suas obras, dos seus temas fundamentais e revolucionários em absoluto, por conseguinte contra a Convenção moral e espiritual do Mundo; Shakespeare e Dante, fora do oficialismo e do classismo dos seus renomes imortais, mas vistos em toda a larga e luminosa amplidão da Natureza, como devem ser vistos os grandes Espíritos, são os trágicos e majestosos faróis magnos de todas as épocas, os órgãos poderosos e mágicos da Sensibilidade humana. Shakespeare nos evoca as correntes vulcânicas, largos e fundos abalos atmosféricos, rara e curiosa 490 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 elaboração de um novo sistema planetário, vales de rosas e de lágrimas, eclipses de sol e de lua, o Caos tomando forma e tomando corpo, a luz, por fim, se projetando e iluminando a Imensidade. Shakespeare é a Vida por camadas densas, chamejando e clamando, polarizada no abismante infinito do Sonho. Shakespeare é o Grandioso do Belo-Horrível, do Trágico-Sublime e do Trágico-Grotesco, do Riso-Lúgubre, do Sarcasmo de lama, estrelas e ais – é o Deus infernal e o Diabo divino. Shakespeare é a Flora absurdamente gigantesca, esquisita e ensangüentada do estranho e morno mar marulhoso e maravilhoso dos gemidos, dos soluços, das lágrimas. Quanto à observação, essa é o fatigado, o gasto lugar-comum dos que muito pouco ou mesmo nada possuem além dela. É evidente que um artista, desde que chegou a requintes superiores, desde que a sua concepção e forma atingiram graus elevados, se espiritualizaram, se eterificaram em abstrações, a origem dessas perfectibilidades, o crisol onde esse artista se apurou foi no da observação, no da análise. A observação parece a força mais poderosa, a qualidade mais particular para os realistas da última hora, porque no Realismo a observação é flagrante pelo documento humano, é flagrante nos objetos, nos aspectos, nas atitudes, nos tipos. Ligeiramente visto, parece, com efeito, ser a mais radical qualidade, por ficar mais em evidência, mais no primeiro plano, fazendo como que um grande relevo no Realismo e sendo assim, por isso, mais acessível às faculdades inferiores da atenção, da visualidade e da memória. Mas, o que é certo, é que em todos os tempos, para dizer um aspeto de céu, de paisagem, para traçar um fato ou um tipo, nas narrativas, novelas e romances antigos, houve sempre a observação, senão com a perfeição e apreensão OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 491 modernas, ao menos com os elementos que as épocas forneciam. E mesmo nunca se poderia prescindir dessa observação na ocasião de puras descrições e desenhos de lugares, de horas, de acontecimentos, de paisagens. Por isso não me parece que seja a observação faculdade suprema. Acho-a muito evidencial, muito física, muito de nota e informação subsidiária, participando muito da natureza dos trabalhos de investigação material, de detalhes, de minudências, para poder constituir e representar a força magna do Pensamento humano. É até às vezes faculdade elementar, conseguida mais pela tenacidade de organismos por algum modo oficiais, inferiores, pela pesquisa paciente, de visão perscrutadora, do que pelas linhas profundas que formam a estesia eleita de um artista. A observação constitui a força básica do artista, dela é que ele parte para as mais altas abstrações estéticas, como os Decadentes, os Simbolistas, os Místicos partem das cruezas brutais do Materialismo, da tangibilidade do Realismo e do agudo e livre exame das Idéias positivas, além de outras absolutas origens idealistas nevro-psíquicas, num movimento natural, simples e até nobre e claramente evolutivo, de requintes da alma. Se dado artista chegou logicamente a um apuro maior de emoções e só as determina de um modo abstrato, vago, fluido, não quer isso dizer que ele não tenha observação, pois essa se enuncia e consubstancia muitas vezes apenas num vocábulo exato, determinante próprio e profundo do sentimento, essa ficou, como os resíduos de um corpo líquido que se filtra, no fundo daquelas mesmas emoções mais requintadas. E, como a natureza não dá saltos, uma fisionomia legítima de artista, desde que se perfectibilizou no pensar e no sentir, passou primeiro pelos processos, embora obscuros, desconhecidos, meramente mentais, da mais pura observação, deixando simplesmente dela, para trás, tudo 492 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 quanto ela tem de mais presente, seco e documental. É precisamente um trabalho delicado de alquimia da Emoção, para dar cristalinidade astral ao Espírito e à Forma, que no organismo artístico intuitivamente e invisivelmente se opera. De outro modo, não se daria então o caso dos artistas que não são realistas se compenetrarem, com inteira compreensão e unção, do sentimento de observação e análise de todas as obras verdadeiramente notáveis, singularmente belas do Realismo. Aqui mesmo, agora, no que vamos naturalmente dizendo, com este ar de livre e leve bom humor, estamos exercendo a observação, mais do que a observação a análise, mais do que a análise, a direta, a penetrante psicologia das Cousas. A observação, a análise, a psicologia, depuradas, filtradas pela Sensibilidade, produzem, em essência, a Abstração. E, já que abordamos estes pontos curiosos, atraentes, ouve ainda o que penso: Quanto à prosa, para ligar um fio de palestra que já há dias tivemos e que agora correlaciona-se a estes assuntos, dir-te-ei que a prosa não é qualidade excepcional dos prosadores exclusivos. Para um espírito complexo de Arte, para o verdadeiro Clarividente, para o Poeta, na grande acepção de sensibilidade desse vocábulo, prosa e verso são teclas, órgãos diferentes onde ele fere as suas Idéias e Sonhos. Prosa e verso são simples instrumentos de transmissão do Pensamento. E, quanto a mim, se me fosse dado organizar, criar uma nova forma para essa transmissão, certo que o teria feito, a fim de dar ainda mais ductilidade e amplidão ao meu Sonho. Nem prosa nem verso! Outra manifestação, se possível fosse. Uma Força, um Poder, uma Luz, outro Aroma, outra Magia, outro Movimento capaz de veicular e fazer viver e sentir e chorar e rir e cantar e eternizar tudo o que ondeia e OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 493 turbilhona em vertigens na alma de um artista definitivo, absoluto. A prosa não pode ser sempre de caráter imutável, impassível diante da flexibilidade nervosa, da aspiração ascendente, da volubilidade irrequieta do Sentimento humano. Não há hoje, nesta Hora alta e suprema dos tempos, fórmulas preestabelecidas e constituídas em códigos para a estrutura da prosa, principalmente quando ela é feita por uma sensibilidade doentia e extrema. Há tantas maneiras de fazer cantar a prosa, de a fazer viver, radiar, florir e sangrar, quantas sejam as diversidades dos temperamentos reais e eleitos. E um caquetismo intelectual ou cavilosidade dos que só produzem verso e dos que só produzem prosa, não perceberem que determinado artista se manifesta igualmente no verso e na prosa, especialmente quando nessa prosa ele consegue traduzir, comunicar com clareza, com profundidade, a sua estesia, a sua idiossincrasia, os seus êxtases, as suas ansiedades íntimas. Pouco importa que essa prosa não guarde regularidades de preceitos, de dogmas, de convenções, que embora partindo às vezes de cérebros até certo ponto livres, são ainda, de certo modo, por certas causas, convenções puras. O que importa é que o artista consiga dizer imperturbavelmente, com a sinceridade dos seus nervos e da sua visão, o que de mais delicado e elevado experimenta. Desde que ele tenha conseguido com lealdade estética essa profunda manifestação do seu temperamento, tem funcionado na prosa como num legítimo e perfeito órgão da sua Arte, com toda a virginal originalidade das formas inquietas, dos estilos que não são apenas literariamente feitos, que não são apenas literariamente burilados, intelectualmente brunidos, mas das formas sentidas, vividas, mas dos estilos arrancados, sangrados, vibra dos eloqüentemente da Alma. 494 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Se essa determinada prosa dá sugestões, desperta curiosidades, faz acordar a imaginação e consegue trazer no estilo modalidades perfeitamente originais, correspondentes à originalidade do temperamento do artista, como, pois, que o que ele produz, não é prosa, não se deverá chamar prosa? Por um lado até mesmo parece que não deveria ser esse o seu nome; não por não abranger o pretendido sentimento e forma especiais, particulares, da prosa, mas por ultrapassar, por superiorizar-se, por tomar outra elasticidade, outras vibrações, outras modalidades que a prosa convencional e feita sob moldes estabelecidos jamais comporta. Demais, prosa e verso, numa dada natureza, são cordas vibráteis, manifestações integrais e simples de uma Estética pura e à parte. E, dessas cordas vibráteis, se muitos possuem apenas uma, com delicadeza, intensidade e correção superior, não quer isso dizer que outros não possam, por excepcionalidade, possuir duas, com igual ou maior correção ainda, o que simplesmente indica complexidade e força. Um ser artístico assim é como uma harpa exótica de duas cordas: – uma corda para a prosa, outra corda para o verso, formando os sons de ambas essas cordas uma igual harmonia. Há horas em que o espírito, por infinitas dolências, pela volúpia do Vago, pelo desejo consolador de elevar cânticos às Esferas, de compor músicas leves, sutis, ritmos langues, finas baladas, peregrinas barcarolas, de murmurar, enfim, queixas veladas, cinzela estrofes, vaga pelas gôndolas siderais da Poesia... Mas, há também outras horas, em que o espírito, revestido de severas vestes talares, é arrastado por sugestões desconhecidas de uma eloqüência magna, mais indutiva, comunicativa e direta e fala então clarividentemente pelo Salmo austero da prosa. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 495 Da prosa que nos faz viver com as suas vidências sugestivas, que cria para nós novos mundos imaginativos, que nos revela tesouros virgens, intactos de pensamento e que nos abre de par em par as portas de uma outra Vida. Da prosa clarividente e percuciente – alvorada de fanfarras de ouro e diamantes, que acorda, chamando alvoroçadamente e nervosamente a postos, os belos e bravos legionários da Reivindicação do Espírito! Do verso que nos desperta, que nos chama com seu amor, que nos procura, que vem a nós generosamente, que nos conquista e que nos bate heroicamente ao peito com suas asas de águia. Do verso que renasce, que ressuscita na glória da Forma e que semeia d’estrelas e de lágrimas o seio branco, cândido e fecundo da Alma. E a Originalidade alacridade nervosa, vinho acídulo e delicioso da sensação, extravagante humor corde-rosa – timbra claro e quente, com os afidalgamentos do Estilo, a emotiva e esdrúxula linguagem do atormentado Sentimento. Depois, há naturezas que são como cristais de múltiplas facetas; têm diversas irradiações, brilhos imprevistos, que são fugidios, escapam a muitas percepções. Depois, certas percuciências, certos atilamentos, certos golpes acres e fundos, embora por síntese, em tudo quanto é meandro e capciosidade do medalhismo, certos sentidos, exotismos de forma, dão, para certa classe incolor e inodora de inteligências, um efeito d’escândalo obsceno. Como que perfeitamente causam, sempre, em todas as épocas, em todas as fases, a sensação brusca, violenta, de um homem flagrantemente nu entre outros homens inteiramente vestidos e muito apertados numa espécie de espartilho de convenção intelectual. 496 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 – É como a velha questão das escolas, dos grupos, que desorienta e confunde a tantos. – É verdade, as escolas, as escolas! As escolas só ficam com os principais, com os chefes ou fundadores. Só os que conseguem marcar fundo a expressão de um sentimento e de uma forma, os que têm os arrebatamentos e alucinações do Sonho e que pairam fora das órbitas geralmente traçadas. Os mais são apenas satélites, reflexos pálidos, metidos numa compreensão restrita como em escuros, lôbregos e estreitos corredores. Essas filiações, pois, desde que não há grandes asas desvairadas para plainar no alto, só amesquinham e vão aos poucos inoculando o espírito frívolo de moda nos que não possuem temperamento ingênito nem essa força de isolamento mental para criar sem sugestões diretas, imediatas. Quanto aos grupos, tanto quanto é mister a organizações sociais, não há grupos constituídos, como a Sociedade Amor às Letras, a Palestra Amena, a Brisa e o Grêmio do Momento Solene. Os grupos, como se compreende, são os que se podem dizer criados por abstrações, isto é, individualidades que já existindo, aqui, além, lá, em todo o tempo, vêm a se ligar mais tarde, no mesmo meio ou fora dele, por grandes linhas gerais, por correntes de simpatia intelectual, por inteiras relações de afinidade estética, por harmonia de requintes até certo modo unos, embora cada uma dessas individualidades tenha a sua enfibratura especial correspondente a um dado requinte. Os grupos, quanto a mim, só se estabelecem assim, independente da vontade própria de cada um, mas por um impulso desconhecido, por um instintivo apuramento, por uma seleção natural que foge a todas as regras preestabelecidas. Assim, meu caro e saudoso seminarista de outrora, de que servem argumentos de ferro, de que valem confusões e atropelos, se tudo, na Arte, vai se aclarando numa luz meiga, inefável, serena como a desta OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 497 tarde que nos envolve, se tudo são embaraços que desaparecem uma vez que se adquire a força altiva, embora obscura e humildemente desenvolvida, de uma convicção e fé verdadeiras?! Em Arte é escusado negar quem for um ser definitivo, supremo, como também é escusado afirmar quem o não for. Não é a opinião deste nem daquele, nem mesmo do mundo inteiro que afirma ou que nega; mas sim única e simplesmente a Natureza nas espontâneas, flagrantes Revelações, no poder misterioso, na inevitabilidade dos seus fenômenos profundos. Depois, quando se chega a certas claras alturas; quando, transfigurados, nos encontramos frente a frente, e de olhos leais e límpidos, com a verdadeira magia do Belo; quando, afinal, sentimos dentro em nós viver o Absoluto, ficamos vagamente sorrindo, serenos e silenciosos, a cabeça um tanto inclinada numa atitude beatífica, como, na eloqüente mudez das Esferas, sob a augusta solidão das estrelas, a atitude patética e meio sonâmbula de um demônio divino. De que servem, pois, mofas, de que valem, pois apupos? É de ti, deste, daquele, que falam, que vociferam? Pois as bocas, que eles trazem, para que foram feitas? Para falar, não é assim? Pois que falem, as bocas... Pois que unjam de fel o teu nome, as bocas... Pois que se saciem de ti, as bocas... Pois que lubricamente te devorem, as bocas... Que te neguem, por pregões ridículos, por decretos grotescos, que façam, em torno do teu nome, a campanha cavilosa do silêncio ou das perfídias e caluniazinhas da mediocridade e nulidade triunfante – que importa isso?! – se tu, na serena força da tua Fé, vais calmo, vais tranqüilo, no radiante humor, despreocupado, simples, dos que caminham, dos que seguem desdenhando sempre?! 498 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Riem de ti, acaso?! Pois, então, ri-te, tu, do riso... A tudo isso, a tudo isso, ri-te, ri-te... Por mais venenos, por mais perversidades, por mais volúpia maligna, por mais crime, por mais vício psíquico que essas risadas possam ter, fica simples e alto, intacto, imperturbável diante de tudo isso e ri-te, – risadas, risadas, grandes risadas vibradas d’alto e ao largo a tudo isso – grandes risadas, grandes risadas! E, um dia, pelas razões ingênitas da tua organização, se tiveres uma natureza genuinamente eleita, tocando alto no Sentimento; um dia que a manifestares toda inteira, amplamente, tal como se foi ela de grau em grau fecundando, verás o abalo, os turbilhões de ar que irás aos poucos deslocando em torno de ti. A princípio, os mais fátuos, que te julgarem conhecer melhor, só sentirão e conhecerão de ti os lados visíveis, os pontos de perfeita tangibilidade. Mas, quando a obra que estiver chamejando dentro de ti for tomando complexidades, absurdos novos, exotismos, eloqüências esquisitas e por isso inocentemente agressivas, atacantes e demolidoras nas suas linhas gerais, sem parti-pris, sem pose, mas por fundamentações e interações, tudo se bandeará do teu lado, os de mais lisura ou mais afeta dos apenas de intelectualidade recuarão de ti como se tivesses lepra ou trouxesses estigmas infamantes, labéus ignóbeis, e, desde logo, a cisão fatal se dará então subitamente, pejando o ar de dissabores amargos de veementes dissensões... É como se tu fosses por um livre caminho a fora com diferentes companheiros e de repente o caminho se bifurcasse: – várias encruzilhadas, uma direita, clara, extensa, as outras curtas e tortuosas, se te apresentas sem diante dos olhos. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 499 Tu seguirias pela mais longa, pela mais ampla, pela mais larga. Poucos te acompanhariam. A maior parte tomaria as fáceis encruzilhadas curtas, mas tortuosas... E, se um dia, chegado primeiro que eles ao termo da viagem, em virtude da mais pronta acessibilidade do caminho largo, franco, direito, tivesses de os encontrar mais tarde, poderias, não há dúvida, apertar-lhes lealmente as mãos, falar-lhes com simplicidade e afeto, abrir-lhes cordialmente os braços, mas terias ficado, pelas dispersadoras fatalidades do tempo, já muito afastado, muito longe deles. É que as almas, quando chega a hora alta e grave dos supremos julgamentos, das seleções supremas, separam-se inevitavelmente, sem remédio, irreconciliáveis e tristes, só ficando juntas sempre aquelas que marcham para o centro inflamado do mesmo Objetivo. Depois, mesmo, neste deserto de pedra das almas, as almas brancas, essas que trazem a Grandeza e a Espiritualidade consigo, essas, em virtude das Dúvidas, das Oscilações ambientes, têm que soluçar até à morte! Enquanto passares por certa fase de incipiência; enquanto deres a esperança de ser uma eterna esperança; enquanto te julgarem o perpétuo acólito reverenciador e discreto, a fácil muleta de apoio às suas vaidades e pretensões, todos te bafejarão como um recém-nascido beijocado de mimos, amamentado com carinhos babosos, cercado de cuidados infinitos, de enleios afagadores. A Hidra das Literaturas, supondo-te tímido e nulo, te embalará em seu seio, iludida contigo, dizendo soturnamente: – este é dos nossos! este é dos nossos! Mas, assim que levantares resoluta e inabalavelmente a fronte, assim que começares a manifestar mais a recôndita sensibilidade dos teus nervos, a insatisfação da tua estesia, assim que o teu espírito for se difundindo no espaço, enchendo as 500 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Esferas, a boa Hidra-Mãe te será carrasco, forjando para a tua cabeça, subterraneamente, a guilhotina feroz! Vendavais de antipatias, de ódios, de despeitos, de retorcidas e esverdeadas invejas soprarão desencadeados sobre os teus ombros atléticos e firmes... Enfim, carregar cruzes, arrastar calvários, irás pelo mundo, irás pelo mundo! Se trazes com efeito contigo uma feição nova da Arte, trazes contigo uma Dor nova... Se trazes com efeito contigo a inflamada matériaprima para fundir os Ideais mais nobres e belos, agora é só comunicar-lhes vida, intensos sopros de vida, te concentrares neles, e resplandecer, e alar... Nessas romarias e escaladas obscuras em que por ora vais, pelo Espírito, não sejas dos oportunistas da Arte. Acompanhe-te, ilumine-te sempre esse profundo sentimento artístico de abnegação cultual, de resignação, ou antes de conciliação na Dor, de desprendimento completo das Ambições e Ostentações, do Grande-Lânguido Verlaine, alma de meigo lirismo, essa frescura e velhice cândida de emoção, FaunoSacerdote a oficiar nos Missais hieroglíficos da suprema volúpia da Forma ou desse outro ducal, aureoladamente flordelisado e excelso Villiers de L’Isle Adam, sublime e celeste Artista, que tem para mim um encanto misterioso de cintilação planetária e uma solenidade sagrada de tabernáculos intactos. Que a tua forma seja floresta, seja mar ou seja céu! Segue, com unção e contrição, essa espécie dolente de martirizados Santos sem nichos – Santos temerários que afrontam com impassibilidade os incêndios devoradores das paixões do mundo; que, como Santo Estêvão, se deixam brusca e impetuosamente apedrejar na concavidade do peito, tendo a douta, a erudita clemência apostólica de Santo Agostinho. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 501 Segue esses Santos tristes meio obscuros e poderosos, meio humildes e rebelados, meio ironistas e sarcásticos. Seres mórbida e voluptuosamente estesíacos, eles como que trazem um curioso desvio do sexo, fazendo evocar Santa Teresa de Jesus, cuja requintada mortificação no recolhimento da cela parecia significar a tortura máscula, viril, do sentimento de um eleito da Grande Arte, que se tivesse ido fenomenalmente asilar, por sutil, imperceptível erro genésico, num delicado e nervoso temperamento feminino... Falo-te assim, venho formando diante da tua imaginação prenuncial de noviço esta atmosfera de Evangelho e Religião, não por abusados e calculados misticismos, mas porque falo a quem, pelo menos, sentiu já, nas reclusões aquietadoras do Seminário, os grandes e graves Ensinamentos e Eloqüências e Intuições da Religião, na sua essência livre, na sua estética original e na sua harmonia. Segue, pois, com todos os teus exageros de natureza, com todos os teus grandes defeitos aclamados, que a Chatez gloriosa há de esmiuçar e descobrir mais tarde, para não se sentir muito pequena, diminuída na tua presença; defeitos só correspondentes a grandes qualidades, e que constituiriam, só por si, de tão eloqüentes e francamente excepcionais que são, as obras mais espontâneas e impressionantes dos que não trazem nem mesmo esses grandes defeitos, dos que são apenas individualidades feitas, intelectualizadas, mas não originadas de fatais e enraizados fundamentos artísticos. Ah! esta sufocação de ar, esta asfixia, estes escrúpulos, esta suscetibilidade por ver-se a gente livre de todos os incipientes, de todos os noviços, que são eternamente incipientes, eternamente noviços, “porque não têm horas vagas para obrazinha, porque isso de Literaturas não dá pão para a boca”, e outras capciosas razões de impotência que eles entre si discutem. 502 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Sim! porque quanto a mim o Artista é um predestinado! Quanto a mim ele é como uma ave estranha que já nascesse com as suas asas poderosas e gigantescas, ainda retraídas embora por algum tempo, mas que depois as fosse abrindo aos poucos, abrindo, abrindo, até que se distendessem de todo pelos espaços fora, projetando então a sua grande e consoladora sombra de Amor sobre o velho mundo fatigado. Ah! esta ansiedade de segregar-se a gente desses liliputianos prolíferos, que se reproduzem mais indefinidamente que os bichos-da-seda; que nos agarram pelo braço, que nos entram pelos ouvidos, pelos olhos, que nos atordoam com prosas e versos, sempre muito superiores e requintados! Dessas individualidades grotescas, que querem tomar a Arte de assalto e à bruta, sem nunca compreenderem profundamente as cousas, por mais que falem, por mais que gesticulem; verdadeiros animais de corrida que pensam que a Arte é uma questão de aposta para ver quem chega primeiro e mais garboso ao final. Iconoclastazinhos, sem essa veneração nobre, sem esse recato elevado, esse melindre das naturezas concentradas, cujo acatamento e cujo fundo de timidez característica são o toque mais belo e mais digno dos que reconhecem justa e eloqüentemente a superioridade dos outros, exprimindo e demonstrando também assim, por essa forma simples e simpática, uma das faces da sua própria superioridade. Oh! insaciável, ardente aspiração de árvore antiga, legendária, que quisesse ficar completamente liberta de todas as parasitas, de todas as ervas, de todas as lianas, de todos os musgos, de todas as trepadeiras e baraços e nervosidades e vertigens de folhagens que a abraçassem, que subissem por ela acima, que a povoassem de verdura alheia – deixando-a só, só, simples OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 503 e cheia de sombra, vivendo serena e silenciosa, ou gorjeada da Aleluia dos pássaros, para a Amplidão azul!... Não, não será por um estreito pessoalismo egoístico, por uma compreensão acanhada, por uma presunção individual que tu te manifestarás com excepcionalidade de sentir, de ver, de pensar. Mas o teu lábio arderá de tanta inquietude, palpitará de tanta febre, sangrará tanto que tu exprimirás então por Sínteses tudo o que constitui a essência do teu ser e passarás assim por iconoclasta e pessimista à outrance, apregoador de falsos paradoxos, demolidor sem o fundo de um objetivo honesto, fútil, folgazão, mundano que afinal até inveja as glórias mais decantadas que cem mil trombetas proclamam das velhas muralhas de Jericó da Opinião! Mas tu, como um inquisidor original e santo, purificarás com o fogo benéfico do teu Espírito essas chagadas consciências humanas debatendo-se, desoladas numa impotência que escondem sempre bem fundo como certos tísicos escondem, negando, o grau agudo da doença corrosiva e lenta que os dilacera. Nós outros, que por aí dolorosamente andamos desbravando as florestas virgens da língua, deflorando os viços púberes do vocábulo, procurando dizer claro, claro como trompas sonoras estrugindo no mar sargaçoso e resplandecente, numa rosada manhã de pesca, claro como se o sol falasse, os nossos estados d’alma, os nossos êxtases, as nossas idiossincrasias e inquietudes, de abelhas nos caprichos curiosos da colméia, somos como fantasmas múmicos, por desertos, batemos de cheio em paredes de bronze, rebentamos horrivelmente a cabeça contra tenebrosas masmorras de granito... E vê, vê tu lá que não é isso uma visão do avesso, um modo rude, violentamente carregado, de sentir; – mas, tu que sonhas, que ambicionas já ser limpo nas tuas Enunciações, trazer o sinal característico, o cunho imaculado, a prata e a bronze, a ouro e a aço, a sol e a 504 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 sangue, de uma evidência firme, vê lá bem se não é assim tudo, se tudo não é corja, corja, corja que rasteja, corja que raiva, corja que ruge, hordas brutas que bramem, bárbaras, hórridas hordas... Através da névoa delicada das cismas que te tecem brando e emovente crepúsculo nos olhos, eu vagamente pressinto radiantes lineamentos, revelações curiosas do teu Oriente espiritual futuro, como das neblinas tranqüilas e luminosas desta carinhosa tarde que finda antevejo a aurora flavescente de amanhã... Sugestivamente, agora, cheia de concentrações e de vago, a tarde descia, mística, suave e sagrada, evangélica, para a Religão solene do Silêncio... Derradeiras harmonias veladas, de sol e sombra, erram indefinidamente nos espaços... E, sombra e sol, na transição dessa hora meditativa, como que parecem sensibilizados, tocados de emoção humana, de músicas enevoadas, misteriosas, sonorizando os afetivos acordes de almas virgens, mortas, felizes e firmes, com alvuras meigas de Castidade, na solidão da Fé cristã. Dorsos de colinas, ao fundo do mar calmo, recortam-se nitidamente no horizonte, já mais vago, esfuminhando o doce tom de verdura que ao longo e ao largo aveludesce. Um barco, lentamente, fere as águas melancólicas do verde e vasto mar amargo. A embaladora dormência dos aspectos dá um repouso pacificante... E, dentre a crepuscular serenidade, mais densa aos poucos, voa, vai e vem e volta através da espuma branca das ondas, pelos aloendros floridos e salitrosos, uma ave alvinitente, de incomparável suavidade, que não canta, mas que dá saudosamente à tarde a mais tocante espiritualidade só com o encanto aéreo dos vôos, só com o ritmo leve, fino, das asas simples e venturosas... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 505 O sol, nos opulentos damascos do Poente imergira já de todo, profundamente: – Nero lascivo, em tédios augustos, no gozo mórbido das chamas rubras do incêndio de Roma; Rei guerreiro, por entre as púrpuras sanguinolentas de acres batalhas. As sombras, vagarosas, no delíquio final do dia, descem, descem... Estrelas, num esmalte finíssimo de cristais e pratas, começam a florescer, a marchetar o firmamento, em faiscantes e trêmulas claridades de Relíquias miraculosas. Soberba, imensa, prodigiosamente branca, misteriosa, como eterna paixão estranha, uma lua brumosa, feiticeira e lendária, surge, trazendo vivamente um desejo na face triste, atormentada, arrastando pesadelos sinistros de assinaladores presságios de vingança... A paisagem amplia-se num adormecimento luminoso e velado, toda ela recendendo aromáticos eflúvios, como se névoas delicadas de perfumes luxuriosos, queimados em ânforas invisíveis, ondulassem vaporosamente... E, sob a noite, que pompeava profunda, aureolada da resplandecência maravilhosa das Estrelas e da Lua, os dois vultos, como missionários graves dos sombrios e supremos Sacrifícios, seguiram mudos, calados, a cabeça descoberta ao sabor carinhoso da aragem perfumada. Assim graves e abstratos caminhando atravessavam agora as abóbadas cheias de segredos noturnos das grandes árvores frondosas de um vasto parque, parecendo, então, pela austeridade religiosa que os exaltava nesse momento, penetrarem, reverentes e calmos, paramentados solenemente, no majestoso Vaticano da Arte. 506 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 MORTO No féretro negro, por entre os círios langues, o grande, o doloroso Errante está serenamente morto. Está morto, no féretro negro, para nunca mais ressurgir! aquele espírito doentio e torturado, aquele organismo triste, tenebroso, que trágicos pessimismos humanos fecundaram do ódio mais canceroso, gangrenado. Ali está, gélido, rígido, alto, esquelético, com o fino aspecto delicado e singular de um magno aristocrata martirizado, inquisitoriado, a cujo fugitivo semblante duros cilícios deram a expressão lancinante de sacrifício ascético. Não sei sob que sugestão de pesadelo ou de letargo fica o pensamento diante desse mortuário aparato, que o morto parece avultar aos meus olhos, ter a enformatura titânica, a grande e extraordinária corpulência de gigante rojado por terra, subjugado, vencido pela majestade suprema de uma dor avassaladora, imensa... Do tom negro do féretro destacam, brusca e pavorosamente, os tons brancos, álgidos, crus, irritantes, dos gelos da Morte... O corpo, hirto, tensibilizados os nervos na extrema convulsão do tremendo e derradeiro momento, tressua um frio horrível, lesmento, que parece, tal a agudeza da impressão mortal que se experimenta, tocar, envenenando, por filtros letais, o pensamento... No silêncio aflitivo e torvo do ambiente como que vagam, num refrain lúgubre, numa sinistra litania, errantes, incoercíveis vozes de além-túmulo, crocitando: morto, morto, morto! E a impiedosa palavra, amargamente desdobrada em angústias, ecoa, ecoa, perde-se no silêncio aflitivo e torvo do ambiente, como um dobre agudo, cortante, arrepiando e pungindo: – morto, morto, morto!... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 507 No entanto, esse aristocrático cadáver, que agora tudo aterroriza e lesma, edificou outrora na Imaginação palácios encantados de índias opulentas, bebeu o vinho perturbador da Vida até à saciedade, sentiu com intensidade a paixão das cousas como chamas eternas que o devorassem e, como por um lodo verde e putrefato, foi vorazmente invadido pela febre pestilenta do Mal... Goza-se agora uma sensação esquisita, mas eloqüentemente bela, em evocá-lo em Vida: quando ele voltava da vertigem, da alucinação das turbas; quando ele errava exilado, perdido, lívido, soturno, silhuético na sombra da multidão desdenhosa, arrastado pelo turbilhão devorador dos fatos, sem hora e sem rumo, como fora de todo o tempo e de todo o espaço – fantasma do Vácuo, impelido pela avalanche sangrenta dos sentimentos atrozes que o apunhalavam, que o retalhavam... Evocá-lo em Vida, desde a profunda cabeça que um nirvanismo búdico assinalava, cabeça venenosa de serpente que em vão a si própria morde, cabeça donde voejaram idéias sinistras como famulentas aves de rapina. A face, branca e lânguida, de um estremecimento precocemente senil, que os livores de intensa mágoa tornavam ainda mais branca, mais esmaecida e transfigurada... Face trêmula e fria, como velho e maravilhoso mármore móvel, acusando todos os nervosismos interiores, todas as vibrações recônditas, todos os tédios desesperados e infinitos. Os olhos lúridos, desse lúrido sombrio que dá a biliosa expansão dos ódios, olhos turbados pelos nevoeiros da amargura, pela melancolia da meditação, ou estranhamente iluminados pelos incêndios do delírio e onde a feérica fantasia rutilara e cantara outrora; esses olhos fatigados que tanto se queimaram de curiosidades exóticas, de visualidades fantásticas, de miragens excêntricas, que tanto se embriagaram na orgia da luz 508 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 e do sangue, que tanto viram, gozaram, se extasiaram e esgotaram na paixão de olhar, que tantas vezes sentiram, atônitos, estupefatos, a Visão do Ignoto persegui-los, afligi-los, agoniá-los... A boca, a boca mordaz de outrora, acre, violenta, remordida asperamente de um sarcasmo satânico, ansiada de apetites, aberta na febre voluptuosa de devorar os frutos atraentes do pecado, e rubra, rubra, acesa num colorido vermelho de guerra, gritando e cantando guerra, gritando e cantando guerra, gritando e cantando guerra, guerra, guerra, guerra, por toda a parte, por toda a parte, por toda a parte... Evocá-lo nas mãos, luxuosas mãos de príncipe esvelto, esgalgado, nas mãos de falanges longas, e rememorar que gestos curiosos, magos, que hieróglifos demoníacos, que símbolos miraculosos aquelas mãos não traçariam finamente no ar!? Quanto poder dominativo, real, que solenes predomínios, que majestade suprema, só com um sinal rítmico dessas mãos inteiriçadas agora! Quanto ideal e quanta glória impulsionados no gesto simples, sóbrio, das mãos que tão veementemente palpitaram, que tanto estremeceram e pulsaram vivas como dois estranhos corações que vibrassem juntos! Que fugidias expressões nas linhas, nas curvas e que fluido de mistério, que segredo nos atritos, no contacto quente dessas mãos que foram já os seres caprichosos, flexíveis, dúcteis, das delicadezas da forma. Dessas mãos batalhadoras, combatentes, tenazes, onde uma vitalidade excepcional de atividades circulava; mãos intrépidas, vitoriosas, cheias de emoção, de sensibilidade, de alma, penetradas de uma bravura indômita de aplicação, de altivez e sereno orgulho; mãos donde parecia alarem-se leves asas diáfanas e triunfais de um sonho e cuja ramificação das veias, em múltiplos raios estriados, parecia também acusar uma eflorescência perpétua de qualidades, de aptidões, de sentimentos, de gostos, de secretas e particulares predileções do tato... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 509 Para onde foi, já, todo esse surpreendente encanto das mãos, toda essa maravilha de sutilezas de pássaro, de névoa, de nuvem, que as duas mãos enigmáticas desse enregelado e esgalgado cadáver por tanto tempo prodigiosamente contiveram?! Onde, já, a beleza artística do seu gesto, a graça da sua ductilidade, a eloqüência do seu movimento?... E os pés, – ah – e os pés?! Por onde ficou perdido todo aquele alvoroço e ardor de caminhar, toda aquela sede insaciável, toda aquela angústia de percorrer caminhos, de demandar estradas, de conquistar distâncias, de romper nervosamente, infatigavelmente, o rumo de um Destino desconhecido?! Onde essa febre, essa febre de caminhar, de vagar sonâmbulo, pelas noites, pelos dias, taciturnamente? Onde? Onde essa nervosidade, esse calor latente para errar, para noctambular só, por entre os rudes aspectos hostis da Natureza fechada em trevas, mudo e só nas noites, sem estrelas e sem rumo! Onde a ansiedade vertiginosa, delirante, desses pés agora frígidos, parados no espasmo terrível, no doloroso enregelamento, petrificados na amargurante saudade de rasgar caminhos ermos e infinitos?! Pés inquietos, impacientes, atormentados pela desolação dos desertos, queimados pelas tórridas areias saarianas, e agora – ah! – para sempre álgidos, hirtos e horríveis, rígidos no féretro, para jamais caminharem, para jamais errarem, como que numa glacial ironia de mudez e terror... 510 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 VULDA Os veludos e aromas noturnos do teu próprio nome, Vulda, têm o estranho encanto dessa indiana majestade bramânica e ao mesmo tempo uma volúpia morna de luar de Verão, derramado lânguido, lento, molemente, pelas longas e caladas praias claras... Desperta-me o desejo do longe, do ignoto, do remoto, do ermo, do indefinido, na nonchalance, na displicência e preguiça aristocrática de um príncipe êxul, que erra e sonha, contemplativo e solitário, nas arcarias góticas dos nobres pórticos onde viera vê-lo, outrora, a Amada peregrina. Sempre que o pronuncio, sempre que ele me aflora aos lábios, Vulda, experimento a sensação esquisita do sabor de um fruto delicioso, de maravilhosa tonalidade, sazonado num clima d’ouro e d’azul, por sóis germinais e terras virgens. Sempre que o pronuncio, como que sinto o lábio sangrar, sangrar, pelo gozo vivo, intenso, de o pronunciar, como se a minha boca mordesse com avidez, com gula, a polpa deslumbrante de áurea carne viçosa, pubescente, fina. Fico num êxtase de o murmurar baixo, mansamente, e o ficar gozando, gozando, quase palatalmente, no requinte voluptuoso de todos os sentidos apurados. Evapora-se dele o eflúvio emoliente, langue, da penugem sedosa das gatas a coleante e hipnótica nervosidade das serpentes, tentando, fascinando, tentando, magneticamente fascinando pelo brilho agudo, aterrorizante e elétrico, dos sinistros olhos letíficos... Como que escorre do teu nome um óleo doce que tudo fluidifica, dilui... E faz pensar num vasto mar desolado, deserto, em regiões longínquas, onde, d’alto, d’asa espalmada e ufana, pássaros tardos voam... Nome excêntrico, lembrando o tropicalismo de uma vegetação exuberada, exultante de seivas, que dir-se-ia OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 511 profundamente vibrada de sensação psíquica, vivendo a nevrose estética de sentimentos delicados. Ele evoca-me o colorido extravagante, exótico, de uma Flor selvagem e rara destas prodigiosas florestas da ampla e verdejante América – Flor aberta através as vertigens e as pompas de folhagens seculares e através as plantas gigantescas e esdrúxulas, de uma complexidade original de germens, de fibras, de infinitas raízes, de cheiros acres, mornos e intensos, de nuanças e formas múltiplas, como de desejos e aspirações vivas. Teu nome sugestivo, conceptivo, constela-me a Imaginação de bizarras e preciosas fantasias. E só de o lembrar, só de o recordar e acender nos lábios, uma grande Saudade fere-me pungitivamente a alma, que agitada estremece, e tu, então, surges, Vulda, surges do meio de um clarão esmaecido – não sei se viva, não sei se morta!... Não sei se viva, com a boca alvorada num beijo em febre, os olhos crepitando na chama de uma luxuriosa ansiedade, e vagos, vagos na perdida dolência infinita das cismas e melancolias. Não sei se morta, álgida, mumificada, os impolutos braços e seios florescentes outrora, agora lívidos, rígidos, desvirginados pela peçonha lesmenta, larvosa, da Morte... E há também o langor d’onda quebrada, adormentada, Vulda, no teu nome nostálgico e evocativo de extasiantes ocasos – nome harmonioso, ritmal, de voluptuosa graça d’ave, voando, Vulda; nome sonâmbulo de mistério, Vulda; nome impressionante, velado, solitário e dolente, de monja, Vulda; nome de Visão alanceada, martirizada, em cilícios e sonhos circulando, volteando, Vulda; nome, enfim, de trágica, de bárbara e bela, sanguinolenta Rainha de aventuras e apaixonada, apunhalando, em gôndolas, sobre golfos, nos alucinamentos do ciúme, pelas maravilhosas noites prateadamente estreladas do Adriático, num delírio romântico, os patéticos Manfredos espiritualizados e pálidos... 512 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 ANJOS REBELADOS Trindade de tristes e de trêmulos, sombrio terceto do Dante, todas as tardes, pela violácea bruma poente, aquelas velhas obscuras apareciam, solitárias, soturnas, e tomavam diretamente o nebuloso caminho do Campo Santo. As suas três altas e graves figuras de impressão violenta, talhadas em relevo forte, evocavam mesmo, juntas, um titânico terceto dantesco, pela expressão funda e singular, pela majestade sagrada que ressaltava dos seus semblantes pálidos e macerados. Mas, quem olhasse bem para elas, quem lhes penetrasse as psicologias profundas, sentiria que através de toda essa austera e estranha fisionomia pairava uma candura diáfana, a meiga e terna suavidade de Grandes Anjos brancos e piedosos. O encanto de um sonho, o sentimento de uma infinita nostalgia, dessa nostalgia de seres emigrados de regiões longínquas e misteriosas nimbavam os seus perfis assinalados de uma unção celeste. Era como se elas tivessem realmente descido dos céus, brancas e arcangélicas, as grandes asas excelsas palpitando, o grande resplendor das Onipotências e das Graças nas frontes intemeratas, para purificar e tornar perfeitas as pobres almas na Terra. Toda a intensa e nobre vida afetiva, toda a resignação, todos os abnegados sacrifícios, todo o imenso martirológio humano cantavam elegias, melancólicas sonatas nos seus olhos misteriosamente nublados pela névoa das desesperanças... Percebia-se que eram Mães, pelo acentuado das solenes figuras, pela linha das cabeças sublimadas, grandíloquas, que uma larga auréola de estoicismo circundava, santificando. Mas, porque a Dor transforma as almas mais belas, faz blasfemar as consciências mais firmes e OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 513 crentes, faz poluir de deprecações e anátemas as bocas mais castas, mais impolutas e santas, as três Dolorosas se transfiguravam, os seus corações traspassados das espadas dilacerantes da agonia infinita, enchiam-se de um torturante fel, de um mal secreto, de uma terrível cólera sacrílega contra o Vago, o Desconhecido, o Incerto. E, então, os Grandes Anjos brancos e piedosos eram agora os Anjos Rebelados, iluminados pela luz das Vinganças absolutas, de joelhos junto aos túmulos amados dos filhos, com os braços abertos em êxtase, na ansiedade e palpitação de asas que desejam abrir vôo para além, para além das recordações. A angústia que lhes agitava os espíritos, a atmosfera circundante: – campas, contemplativos ciprestes, chorões suspirantes, eucaliptus nervosos e contorcidos, a doentia vegetação de todo o Campo Santo, aquele ambiente carregado de impressionismos lúgubres, de silêncios penetrantes, de solenidades panteístas, davam às três velhas e aflitivas figuras uma eloqüência suprema de Videntes. A rudeza, as asperezas, os volteios chãos e simples da sua linguagem, vestiam-se, pelo efeito mágico das intuitivas inspirações, de suntuosos veludos; pompas augustas de frase davam deslumbramentos inauditos às suas queixas, iluminavam as suas blasfêmias, imponderalizavam os seus sacrilégios, que vinham mais radicais, mais irrefutáveis que Dogmas! E as imprecações lhes jorravam vivas e violentas das fundas bocas amargas e murchas... Uma lividez de desesperos contidos, mais forte, lhes avivava a máscara trágica dos rostos engelhados, cujas peles ressequidas tinham, por vezes, com a febre interior do sangue, leve brilho fugace. Ventos desencontrados e duros, soprando rijos no crepusculamento da tarde, agitavam como frouxas e flébeis cordas de harpa os fios sonoros e cetinosos dos 514 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 seus cabelos alvos, através dos quais passava uma ligeira música convulsiva, que os desgrenhava... Eram três pesadelos deblaterantes, hirtos – cabeças brancas elevadas ao céu, braços espectrais abertos, abertos, abertos na ânsia das inconsoláveis saudades, abertos em busca dos bens amados que lhes fugiram, como vazias cruzes de estradas ermas esperando em vão os Cristos místicos e ensangüentados que imprevistamente as desampararam levados por transluzentes Arcanjos invisíveis. E, das suas fundas bocas amargas e murchas, a linguagem blasfematória, assim épica e transcendentemente, em monólogos, clamava: – Aqui estou, meu Deus, Senhor! nesta penitência de angústia, batendo o peito, junto à sepultura querida do meu filho, murmurando as rezas, as orações da minha Fé. Tanto que te pedi, tanto que te supliquei que me deixasses morrer primeiro que o meu Luís, ou que me deixasses acabar ao menos perto dele, para que pudesse cobrir de ardentes beijos os seus olhos azuis que eu adorava, as suas mãos que batalharam por mim, sentir o último clarão da sua doce inteligência e alma pura que só, só para mim viviam, só por mim eram felizes e carinhosas! O meu primeiro filho, que tanta luta me custou, tantos perigos, tantos e tão grandes me fez sofrer! O que eu te pedia, só, Senhor! é que me deixasses meu filho, tão rico de mocidade, tão rico de esperança, tão protegido do meu amor e que lá se foi morrer longe de mim, náufrago, nessa cova medonha do Mar, por uma noite de tempestade, talvez já sem velas o barco e sem ao menos, ah!, quem sabe!, sem ao menos estrelas no céu, Senhor, sem estrelas no céu, Senhor! Apenas um consolo tive e esse bem amargo, bem amargo consolo foi. Quando encontraram o seu cadáver e que mo vieram piedosamente trazer para que eu o enterrasse, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 515 para que eu sentisse a comoção derradeira de vê-lo e enfim dar-lhe a sepultura, a última despedida do meu olhar, o desesperado adeus final; quando mo vieram trazer, quando vi aquele cadáver amado perto de mim, ah! como estremeci de horror e de agonia... Como estava tão mudado, tão desfigurado, tão monstruosamente feio, de tal modo inchado e esverdeado pela asfixia do Mar, que não parecia mais ser ele, o meu filho, o meu Luís adorado que eu trouxera outrora com extremos tamanhos dentro de meu ventre. Tu, Senhor, apesar de estares em toda a parte, de tudo saberes e adivinhares, nunca soubeste o que era o meu filho, coração simples, religioso e suave como as humildes ermidas brancas, bondade mansa, evangélica como a dos bois que ele pastoreava alegre, cantando... E como eu me orgulhava quando o via, forte, generoso, franco, leal como a árvore que dá sombra, como a fonte clara e fresca que mata a sede, como o céu estrelado que dá encanto aos olhos. Oh! como ele percorria aqueles campos íntimos da sua mocidade, onde a sua infância desabrochou como as rosas, onde a sua adolescência viu e sentiu ir embranquecendo os meus cabelos, aprofundando a melancolia das minhas rugas. Vê tu, pois, que viuvez agora no meu peito, que desconforto na minha alma, que vazio imenso em torno a mim sem o amparo, a bondade do meu filho, esse bordão seguro a que eu me arrimava na cegueira da minha velhice, o meu filho, a única, a melhor e maior claridade que iluminou sempre a minha pobre cabeça branca. Ó Deus sem piedade, ó Deus sem religião e compaixão, maldito sejas! Que Satanás, o Vencido por ti, vingue todas as Mães, vencendo-te, conquistando todo o teu poder, triunfando eternamente de ti nas masmorras negras do Inferno! 516 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 E a outra boca, amarga e murcha, blasfemou então: – Jesus dos Amargurados, Jesus dos Tristes, Jesus dos Desamparados! A mim roubaste a filha, a minha idolatrada filha; e, tão sem piedade o fizeste, que não foi até mesmo um castigo que mandaste pelos meus pecados, foi um crime que cometeste. E tão sem misericórdia, com tamanha crueldade, que tu não pareces, Jesus, filho dessa angélica Maria que alucinada gemeu e se desolou por teus martírios! Roubaste a minha filha quando ela era noiva, quando estava a cingir a grinalda branca e virgem, quando estava a galgar, tímida, com os pudores da puberdade, o altar sagrado, sob o véu resplandecente como um pedaço de nuvem do teu céu estrelado! Como hei de viver sem o seu encanto, sem a candidez da sua alma, como me hei de tranqüilizar neste deserto onde vivo sem ela, onde existo, solitária, sozinha por este Mundo, inteiramente sozinha, como perdida numa escura floresta, num lodaçal sinistro, ouvindo uivar lobos? Pois não te bastava tanta vida que ceifas dia a dia, tanta lágrima que fazes correr em silêncio? Não te saciaram já tantas e tão preciosas existências que levaste, era preciso ainda roubares minha filha, formosa e já noiva, radiante da alegria de ser depois também mãe como eu? Ah! se tu soubesses, quando ela adoeceu, que cuidados, que sacrifícios, que vigílias, quanto doloroso esforço para dar-lhe logo a saúde! Eu te pedi tanto, te supliquei tantas vezes de joelhos, roguei tanto à tua Onipotência, tanto que afligi e cansei pedindo o teu socorro para ela e, no entanto, foi tudo inútil, o teu desdém me feriu, o teu desprezo me apunhalou e tu de repente a levaste, ela, afinal, morreu... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 517 Depois, quando a vi completamente morta nos meus braços, como sofri, quantos padecimentos horríveis, que choro perdido e convulso me sufocou a garganta, que delírio me acometeu! Ah! foram estas mãos magras, esqueléticas, estes dedos ressequidos que lhe colocaram, trêmulos de comoção, dolorosamente enternecidos, a grinalda e o véu de noiva de que ela foi vestida. Foram estas mãos cadavéricas que ornaram aquela cabeça loura, linda; que ajeitaram com delicadeza entre aqueles admiráveis cabelos os níveos botões das flores de laranjeira; que colocaram entre aquelas mãos gentis e enregeladas o ramo branco simbólico, o crucifixo de marfim e o pequeno missal azul de fechos de prata. Depois, depois, já deitada no caixão, num sono sereno de Querubim, quando uns homens vestidos de negro, indiferentes, decerto, estranhos à minha dor, vieram arrancá-la, arrebatá-la de junto a mim, estremeci tanto, tantos abalos me atravessaram, tantos e tamanhos horrores, tal luz alucinante me cegou os olhos, que eu pensei enlouquecer de tormentos, caída de bruços, soluçando, chorando, gemendo sobre o caixão medonhamente fechado que para sempre a levava... Ah! nunca pensei que aquele corpo adorado que vi crescer e florescer aos poucos, ganhando graça e beleza, descesse tão cedo ao irremediável apodrecimento; que o branco enxoval perfumado, feito com carinho, com alegria feliz, com todo o enternecimento, servisse apenas para tão depressa amortalhá-la!... Jesus das supremas bênçãos, dos infinitos perdões, dos infinitos consolos, das infinitas misericórdias! Do fundo do meu coração despedaçado de saudades, de desesperanças, de aflições, eu te lanço todas as blasfêmias, todos os anátemas, todo o fel à tua Inclemência! E a última, amarga e murcha boca, ainda deprecou assim, mais convulsa e violentamente que as outras: 518 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 – Ó Santa Virgem das Dores, Mãe de todos os desamparados, de todos os sós, de todos os famintos, de todos os cegos, de todos os nus, de todos os Jós, de todos os desiludidos! Como tu foste desnaturada para mim! Que angústias me reservaste! Que tormentos! Que dilacerações! Que prantos! Que dores! Ó Santa Virgem dos Martírios! Mãe vã, que concebeste por obra e graça do Espírito Santo! Mãe sem Maternidade verdadeira, sem o parto brutal e ensangüentado do teu Filho, sem os olhos desvairados no humano transe de dar à luz, sem as entranhas rasgadas, despedaçadas, sem os gritos horríveis, sem os espasmos catalépticos, sem os letargos febris! Ó Mãe sem nervos e sem sangue, sem estremecimentos, sem sensibilidades, sem êxtases, sem frêmitos, sem convulsões da carne na hora augusta de gerar, ah! como tu dilaceraste entre os teus dedos sagrados, como entre garras ferozes, o meu humilde e frágil coração materno! Num só dia, por um seco simoun de peste, levaste todos os meus três filhos, negros e apodrecidos ainda quentes pelo atroz fantasma da morte. Pequeninos, anjos que eram, dizem, talvez para me consolar agora, que eles foram para o Céu. Mas, no Céu, no Mar, na Terra, mortos como estão, tudo são covas, Virgem das Dores, tudo são covas e eu bem sei que eles jazem enterrados, medonhamente enterrados! No entanto, quando as chuvas são torrenciais, à noite, e o vento ruge com violência, arrepiando as árvores, vento gemente e gelado de tempestade, ah! como parece à minha pobre cabeça dolorida e tresloucada de Mãe sem consolo, tristemente horrível o frio que eles hão de sentir lá, lá embaixo desses buracos negros! Como parece aos meus extremos alucinados, à minha aflição de demente que eles hão de tiritar sem remédio dentro dessas covas, sozinhos, lá, tão fundo, tão fundo nas sepulturas! Eu bem sei e bem sinto ainda agora com os meus brancos cabelos arrepiados de pavor até à raiz, que OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 519 línguas e dentes glaciais de vermes os devorarão sem se saciarem; que nunca mais os beijarei como outrora; que não terei, palpitando mais, aquecendo-se ao meu seio protetor, aqueles corpos tenros, delicados; que tudo, afinal, acabou, Santa Virgem das Dores, Maria! Mãe! Mãe desnaturada que eu daqui amaldiçôo, numa imprecação selvagem, atirando pragas profundas, como facadas contra a sementeira improdutiva da tu’alma... Não é só em nosso nome mas em nome de todas as mães que te falamos nós três, que pela grandeza do Amor que nos liga e sublimiza descendemos diretamente do Cristianismo e somos três apenas, representando juntas o sentimento uno da Maternidade. É em nome de todas as mães que vêm sofrendo desde o princípio do mundo que nos dirigimos a ti: das mães que viram seus filhos morrer na guilhotina; que os perderam nas guerras, rasgados os ventres por baionetas e por metralhas; que os viram devorados pelos incêndios; que os souberam naufragados, na agonia horrível das ondas, ou mortos nas minas, operários míseros, ou loucos, andando como fantasmas, ou cegos, caminhando como sombras. Ah! é por tudo isso, por todo esse infinito de dores que eu me rebelo contra ti, que eu te amaldiçôo, que eu te amaldiçôo, que eu te amaldiçôo! Três vezes! Em nome do Diabo Todo-Poderoso, Criador do Inferno e do Mal! Eu te amaldiçôo! Eu te amaldiçôo! Eu te amaldiçôo! Que tu te transformes na serpente negra que tens aos pés sobre a esfera estrelada e azul e que uma peste bárbara, infernal, peste de fome e fogo, de sole, extermine esse teu Céu fatal, gangrene esse teu Paraíso falso, cujas bem-aventuranças são mentiras, cuja piedade e consolação só trazem cruéis e aterradoras torturas! E, a cada monólogo, os braços esqueléticos dessas três piedosas figuras, assim tão profundamente transfiguradas pela Dor, agitavam-se, debatiam-se no 520 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 ar aflitivamente, aflitivamente, abertos às inexprimíveis majestades da solidão do Campo Santo. Os eucaliptos, ciprestes e chorões, como que impressionados, tocados da emoção que se derramava em fluidos magnéticos desse tremendo terceto dantesco, espiritualizavam-se de segredos sonâmbulos, gemendo baixo nas nervosidades e retorcidos movimentos convulsos, epilépticos, das melancólicas ramagens. Mas, de repente, nas copas mais densas e altas das grandes árvores corpulentas, os ventos, como titãs despenhados, sopraram torvos, atroantes trovejamentos; enquanto grasnos corvejantes de bruxas iam sarcasticamente crocitando ríspidas, rápidas risadas, através das finas e sensibilizadas casuarinas siflantes e dos ciprestes vetustos... A noite, desabrochada na amplidão com estranho esplendor tenebroso, florira de estrelas claras ao alto. Em torno, dentre os montes longínquos, uma cintilante neblina fria vinha então harmonicamente emergindo, emergindo, e, súbito, o plenilúnio cidrento, de marfinal claridade mortificada, ondulou e fulgiu sereno sobre a paisagem da Morte. E as trêmulas Velhas simbólicas, arrebatadas numa mesma febre, levadas por igual alucinação de dor, já de pé sobre a terra úmida e revolta das últimas covas, clamavam ainda em coro: – Maldição! Maldição! Maldição! desaparecendo depois silenciosas, como almas esquecidas num abandono de ruínas antigas, por entre as sombras esparsas – Grandes Anjos Rebelados, de asas impotentes, vencidas, com os dolorosos vultos funestos agora parecendo mais altos, quase gigantescos, mais velhos, mais brancos, mais misteriosamente alvejados e findos sob a volúpia triste, a mágoa muda do luar elegíaco e macerado... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 521 UM HOMEM DORMINDO... Les hommes endormis et les hommes morts ne sont que de vaines peintures. SHAKESPEARE, Macbeth Ei-lo, na noite, após as inclementes fadigas do dia, corpo estirado sobre o leito, gozando o repouso de algumas horas, mudo e imóvel dormindo... O descanso, como um bem misericordioso, como um óleo consolador, unge-o voluptuosamente, enquanto a grande asa crepuscular da ave taciturna da Cisma faz-lhe uma sombra piedosa, grave e doce como uma bênção paterna, em torno do corpo cansado. Na indiferença quase da morte, que o envolve todo de um vago esquecimento das cousas, deitado sobre o leito, como estirado sobre a terra, com a face mergulhada num meio luar galvânico de lividez, esse homem de ombros vigorosos e largos, de tórax poderoso, de estatura gigantesca, hércules fatigado e melancólico da Natureza, talvez o vencedor de batalhas formidáveis, parece, agora, tão pequeno, deitado! De pé, há pouco no dia, caminhando, andando, girando no absurdo Contingente, sob as guerras armadas da Vida, como esse homem se projetava verdadeiramente grande, se compenetrava do valor do aço do seu peito, se iludia a si mesmo com os seus invejáveis músculos, com a sua forte andadura de animal de campanha – lesto, tenaz, reto, preciso e forte nas distâncias e nas culminâncias a galgar! Mas, agora, deitado no leito, como esse homem forte parece fraco, como toda a sua força hercúlea se evaporou à toa pelos interstícios da prisão brumal do sono e, como simplesmente, mas fatalmente ele recorda, exprime bem a rastejante atitude de um verme! Há nele a expressão do mais completo aniquilamento, da mais funda inanição; ele sente-se sufocado 522 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 pelos espectros sub-reptícios do Nada que vertiginam e rodam em torno ao eterno absoluto. Deitado, dormindo, ele não é mais o homem, mas o silêncio, o vácuo, o além, o esquecimento. Dormindo, ele conserva essa aparência, essa abstração aflitiva, essa espasmada alucinação de um ser que já foi ser, de uma voz que se tornou mudez, de um movimento que se fez impassibilidade. Não importa mesmo que todos os seus órgãos não estejam totalmente paralisados, sob camadas letais de gelo. Mas a expressão do sono é por tal forma aureolada de mistérios, tais segredos escapam dessa indiferença, que o homem que dorme estirado no leito fica nesse momento mais indefeso, mais frágil e mais inócuo do que uma criança, que na sua vibrante garrulice cor-derosa e cristalina impõe mais ação, mais vida, desprende mais ritmos e acordes do sangue, projeta mais ondas sonoras e nervosas de movimento. Pelo estado inerme desse homem que está dormindo parece que uma força oculta, uma catástrofe inesperada, invisivelmente suspensa há muito sobre a sua existência, vai, afinal, certeira e rápida, desapiedadamente esmagar-lhe, caindo dos altos Destinos, a atormentada e vaidosa cabeça com a mais natural facilidade. Pois não é tão fácil, sem dúvida, destruir um obscuro reptil que se arrasta na terra?! Toda a sua coragem louca de guerreador da Existência, toda a aspiração alucinada, todo o sonho de Infinito que lhe povoa a alma, sem mesmo ele se aperceber disso, e que às vezes, por acaso, escapa, traindo-se pelo brilho misterioso dos olhos e por vagos, perdidos suspiros desolados que ele desprende à toa, sem mesmo saber por que, na inconsciência dos fenômenos ingênitos do seu ser; tudo isso está por algum tempo desvanecido, apagado, sumido já nessa amesquinhada posição de homem deitado, a quem só OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 523 falta, cerradas como estão as pálpebras, cruzar sobre o ventre as mãos e unir os pés para semelhar um morto. Entretanto, no silêncio e na sombra desse sono como que se está gerando secretamente, sutilmente e profundamente, átomo a átomo, um mundo de fenômenos, uma tragédia muda de fenômenos. Entretanto, assim parecendo despreocupado dos segredos e signos da Vida, renunciando a tudo, agora, nesse aspecto de aparente tranqüilidade simples do sono, ele está ali curiosamente, em fundas brumas, vivendo uma alta e íntima vida psíquica muito mais intensa, muito mais complexa e preocupada do que a outra. Porque ninguém sabe que, a seu pesar, ele, por mil sutis combinações transcendentes e engenhosas do querer latente do seu organismo anelante deseja atingir, tocar e radiar entre as esferas siderais do majestoso Espírito. Porque mesmo não há alma nenhuma, por mais vã, por mais humilde, por mais obscura que seja que não aspire subir, por secretos movimentos instintivos e intuitivos, que são as transfulgentes escadas do Abstrato, às transfiguradoras montanhas do Sonho, ao desenvolvimento melhor, à pura perfectibilidade; penetrar, consolada, alheando-se de tudo, nas transcendentalizantes auroras boreais do Sentimento, satisfazendo assim, embora inconscientemente, a ansiedade de Infinito que cada alma traz mais ou menos em si, por maior ou menor que seja a esfera de ação onde ela gravite. No sono como que esses fenômenos tomam vulto, começam a girar, a girar, a girar, em íris de sensibilidade, em halos de lua, na Imaginativa do homem dormindo, cujo fundo vago carregado de narcotismos e de ópios secretos e fascinantes fica como uma rara região, rara e polar, gerando flores exóticas de quintessência. 524 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 E nas volúpias e melancolias do sono a alma paira absorta, perplexa, tateando em brumas maravilhosas, como celeste cega de sede da Imortalidade, nos círculos convulsos das lágrimas. Véus diáfanos adelgaçam-se para além da visão terrena! Véus de fimbrias de luar! Véus de centelhas de luar! Véus de fogos-fátuos de luar! E o ser, mudo, solitário, solene, pálido, indiferente, misterioso, fugitivo, trágico, belo, horrível, no espasmo elixírico do sono, dormindo, dormindo aspira, dormindo, dormindo anseia, dormindo, dormindo goza e sofre e geme e soluça e suspira e chora para além da outra vida dos sentidos encarcerados no sono e na outra vida do sono sonha com a Morte libertadora, engrinaldada de virgem, esqueleto extravagante de nervosismos e histerismos terríveis e curiosos de Eternidade – noiva do Soluço, branca, friamente bela e branca, de um terror que vence, que atrai, que esmaga, e que faz delirar de sinistra majestade e de sinistra beleza. É que o ser bebeu, esgotou até às fezes o licor sombrio, taciturno e estranho do sono pelo cálice amargo da Fadiga e ficou embriagado de sombra, vencido de sombra, desceu ao poço cheio de cismas e pesadelos do Nada para no Nada dormir ansiando, para no Nada viver dormindo, para no Nada dormir sonhando... O sono em que ele está embalsamado põe-lhe em torno à fronte fatigada uma auréola de martírio, mas de um martírio tão singular e tão abstrato que parece como que glorificá-lo, imortalizá-lo, dando-lhe a aparência secreta de estar gozando um gozo muito belo e muito triste, vagamente empoeirado de Esquecimento... Nessa hora de descanso transitório, a mágoa, os dissabores, os infortúnios inclementes, as desgraças sem remédio, as paixões desmanteladas e sem termo, as aflições, os desesperos, os sentimentos obscuros que revestem uma expressão magicamente cabalística, toda essa horrível escala humana de desventuras e misérias, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 525 tudo está, por um pouco, sem movimento, inerte, como animais de emboscada, à socapa, eternamente de espreita na vida desse homem, esperando que ele de novo acorde para de novo assaltá-lo e para de novo vencêlo. E ah! como a esse homem que dorme estirado no leito da sua noite de mísero e efêmero repouso, quase mergulhado na calma negra da morte, há de talvez parecer sempre essa noite pútrida, esverdeada e formidável vala comum onde podem perpetuamente caber bilhões e bilhões de corpos humanos! 526 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 NO INFERNO Mergulhando a imaginação nos vermelhos Remos feéricos e cabalísticos de Satã, lá onde Voltaire faz sem dúvida acender a sua ironia rubra como tropical e sangüíneo cáctus aberto, encontrei um dia Baudelaire, profundo e lívido, de clara e deslumbradora beleza, deixando flutuar sobre os ombros nobres a onda pomposa da cabeleira ardentemente negra, onde dir-se-ia viver e chamejar uma paixão. A cabeça triunfante, majestosa, vertiginada por caprichos d’onipotência, circulada de uma auréola de espiritualização e erguida numa atitude de vôo para as incoercíveis regiões do Desconhecido, apresentava, no entanto, imenso desolamento, aparências pungentes de angústia psíquica, fazendo evocar os vagos infinitos místicos, as supremas tristezas decadentes dos opulentos e contemplativos ocasos... Como que a celeste imaculabilidade, a candidez elísea de um Santo e a extravagante, absurda e inquisidora intuição de um Demônio dormiam longa e promiscuamente sonos magos naquela ideal e assinalada cabeça. A face, branca e lânguida, escanhoada como a de um grego, destacava calma, num vivo relevo, dentre a voluptuosa noite de azeviche molhado, poderosa e tépida, da ampla cabeleira. Nos olhos dominadores e interrogativos, cheios de tenebroso esplendor magnético, pairava a ansiedade, uma expressão miraculosa, um sentimento inquietador e eterno do Nomadismo... A boca, lasciva e violenta, rebelde, entreaberta num espasmo sonhador e alucinado, tinha brusca e revoltada expressão dantesca e simbolizava aspirar, sofregamente, anelantemente, intensos desejos dispersos e insaciáveis. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 527 Parecia-me surpreender nele grandes garras avassaladoras e grandes asas geniais arcangélicas que o envolviam todo, condoreiramente, num vasto manto soberano. Era no esdrúxulo, luxuoso e luxurioso parque de Sombras do Inferno. Em todo o ar, d’envolta com um cheiro resinoso e acre de enxofre, evaporizava-se uma azulada tenuidade brumosa, fazendo fugitivamente pensar no primitivo Caos donde lenta e gradativamente se geraram as cores e as formas... Como que diluente, fina harmonia de violinos vagos abstrusamente errava em ritmos diabólicos... Árvores esguias e compridíssimas, em alamedas intermináveis e sombrias, lembrando necrópoles, apresentavam troncos estranhos que tinham aspectos curiosos, conformações inimagináveis de enormes tóraxes humanos, fazendo pender fantásticas ramagens de cabelos revoltos, desgrenhados, como por estertorosa agonia e convulsão. Pelas longas alamedas exóticas do fabuloso parque, deuses hirsutos, de patas caprinas e peluda testa cornóide, riam com um riso áspero de gonzo, numa dança macabra de gnomos, cabriolando bizarros. De vez em quando, as suas asas fulgurantes, furtacores e fortes, rufiavam e relampejavam... Baudelaire, no entanto, suntuoso e constelado firmamento de alma refletindo em lagos esverdeados e mornos, donde fecundas e esquisitas vegetações como que sonâmbula e nebulosamente emergem, estava mudo, imóvel, com o seu perfil suavemente cinzelado e fino, fazendo lembrar a figura austera e altiva, a alada graça perfeita de um deus de cristal e bronze – tranqüilamente de pé, como num sólio real, na posição altanada de quem vai prosseguir nos excelsos caminhos dos inauditos Desígnios... 528 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Por conhecer-lhe os ímpetos, as alucinações da audácia, as indomabilidades estesíacas, os alvoroços idiossincráticos da Fantasia, eu imaginava encontrá-lo, vê-lo revoltamente arrebatado para os convulsos Infinitos da Arte por potentes, negros e rebelados corcéis de guerra. Mas, a sua atitude serena, concentrada, isolada de tudo, traía a meditação absorvente, fundamental, que o encerrava transcendentemente no Mistério. E eu, então, murmurei-lhe, quase em segredo: – Charles, meu belo Charles voluptuoso e melancólico, meu Charles nonchalant, nevoento aquário de spleen, profeta muçulmano do Tédio, ó Baudelaire desolado, nostálgico e delicado! Onde está aquela rara, escrupulosa psicose de som, de cor, de aroma, de sensibilidade; a febre selvagem daqueles bravios e demoníacos cataclismos mentais; aquela infinita e arrebatadora Nevrose, aquela espiritual doença que te enervava e dilacerava? Onde está ela? Os tesouros d’ouro e diamante, as pedrarias e marchetarias do Ganges, as púrpuras e estrelas dos firmamentos indianos, que tu nababescamente possuíste, onde estão agora? Ah! se tu soubesses com que encanto ao mesmo tempo delicioso e terrível, inefável, eu gozo todas as tuas complexas, indefiníveis músicas; os teus asiáticos e letíficos aromas de ópios e de nardos; toda a mirra arábica, todo o incenso litúrgico e estonteante, todo o ouro régio tesourial dos teus Sonhos Magos, magnificentes e insatisfeitos; toda a tua frouxa morbidez, as doces preguiças aristocráticas e edênicas de decaído Arcanjo enrugado pelas Antigüidades da Dor, mas inacessível e poderoso, mergulhado no caos fundo das Cismas e de cuja Onisciência e Onipotência divinas partem ainda, excelsamente, todos os Dogmas, todos os Castigos e Perdões! OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 529 Oh! que demorados e travorosos sabores experimento com o quebranto feminil das tuas volubilidades mentais de bandoleiro... Essa alma de funestos Signos, como que gerada dentro de atordoante e feiticeiro sol africano, com todas as evaporações flamívomas, com todas as barbarias das florestas, com todo o vácuo inquietante, desolador, inenarrável, dos desertos, flexibiliza-se, vibratiliza-se, adquire suavidades paradisíacas de açucenais sidéreos, do céu espiritualizado pelos mortuários círios roxos dos ocasos... Açula-me a desvairadora sede, espicaça-me a ansiedade indomável de beber, de devorar, sorvo a sorvo, sofregamente, o extravagante Vinho turvo, de lágrimas e sangue, que orvalha, como um suor de agonias, todas essas olímpicas e monstruosas florações do teu Orgulho. Ah! se tu soubesses como eu intensamente sinto e intensamente percebo todos os teus alanceados, lacerados anseios, todas as suas absolutas tristezas dormentes e majestosas, o grande e longo chorar, o desmantelamento vertiginoso das tuas noites soturnas, as fascinadoras ondas febris e ambrosíacas da tua insana volúpia, as bizarrarias e milagrosos aspectos da tua Rebelião sagrada; a fulminativa ironia dolorida e gemente, que evoca melancolias de dobres pungentes de Requiem aeternam rolando através de um dia de sol e azul, vibrados numa torre branca junto ao Mar!... Como eu ouço religiosamente, com unção profunda, as tuas Preces soluçantes, as tuas convulsas orações do Amor! Como são fascinativos, tentadores e embriagantes os perfumosos falernos da tua sensação, os esquecidos Reinados enevoados e exóticos onde a tua clamante e evocativa Saudade implorativa e contemplativa canta, ondula e freme com lascívia e nonchalance! A tua inviolável e milenária Saudade, velha e antiga Rainha destronada, aventurosa e famosa, que erra nos brumosos e vagos infinitos do Passado, como através das luas amarguradas 530 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 e taciturnas do tempo. A tua lancinante Saudade de beduíno, perdida, peregrinante por países já adormecidos nas eras, remotos, longe, nos neblinamentos da Quimera, onde os teus desejos agitados e melancólicos tumultuam numa febre de mundos multiformes de germens, em estremecimentos sempiternos; onde as tuas carícias nervosas e felinas sibaritamente dormem ao sol e espojam-se com sensualidade, num excitamento vital frenético de se perpetuarem com os aromas cálidos, com os cheiros fortes que impressionativos e afrodisíacos provocam, atacam, cocegam e ferem de extrema sensibilidade as tuas aflantes e capras narinas! Ah! como eu supremamente vejo e sinto todo esse esplendor funambulesco e todas essas magnificências sinistras do teu Pandemonium e do teu Te Deum! Ó Baudelaire! Ó Baudelaire! Ó Baudelaire! Augusto e tenebroso Vencido! Inolvidável Fidalgo de sonhos de imperecíveis elixires! Soberano Exilado do Oriente e do Letes! Três vezes com dolência clamado pelas fanfarras plangentes e saudosas da minha Evocação! Agora que estás livre, purificado pela Morte, das argilas pecadoras, eu vejo sempre o teu Espírito errar, como veemente sensação luminosa, na Aleluia fúlgida dos Astros, nas pompas e chamas do Setentrião, talvez ainda sonhando, nos êxtases apaixonados do Sonho... E a singular figura de Baudelaire, alta, branca, fecundada nas virgens florescências da Originalidade, continuava em silêncio, impassível, dolorosamente perdida e eternizada nas Abstrações supremas... E, enquanto ele assim imergia no Intangível azul, velhos deuses capros, teratológicos Diabos lúbricos e tábidos, desaparecidos desse egrégio vulto satânico, cismativo e sombrio, dançavam, saltavam, infernalmente gralhando e formando no ar quente, em vertigens de diabolismos, os mais curiosos e simbólicos hieróglifos OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 531 com a flexibilidade e deslocamento acrobático e mágico dos hirsutos corpos peludos e elásticos... Mas, em meio do misterioso parque, elevava-se uma árvore estranha, mais alta e prodigiosa que as outras, cujos frutos eram astros e cujas grandes e solitárias flores de sangue, grandes flores acerbas e temerosas, flores do Mal, ébrias de aromas mornos e amargos, de dolências tristes e búdicas, de inebriamentos, de segredos perigosos, de emanações fatais e fugitivas, de fluidos de venenosas mancenilhas, deixavam languidamente escorrer das pétalas um óleo flamejante. E esse óleo luminoso e secreto, escorrendo com abundância pelo maravilhoso parque do Inferno, formava então os rios fosforescentes da Imaginação, onde as almas dos Meditativos e Sonhadores, tantalizadas de tédio, ondulavam e vagavam insaciavelmente... 532 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 A NÓDOA Naquela hora de superexcitação nervosa, tarde na noite nevoenta em que os ventos lugubremente grasnavam, rondando, rondando, Maurício entrou agitado da rua... Via-se bem, pela lividez espectral do seu rosto, os tumultos sinistros que trazia consigo. Com o cérebro escaldando, numa temperatura mental inconcebível, parecia que alguma cousa dentro do seu ser estava sendo guilhotinada e que grandes, caudalosas torrentes de sangue vivo, quente, o alagavam interiormente, deixando-o exangue, desfalecido... Era, na verdade, um aspecto extravagante o desse cardíaco lascivo, desse neurastênico que o álcool andava aos poucos devastando e povoando já das suas visões trementes e delirantes, lá do fundo absíntico das impenitentes boêmias; desse sombrio e ferrenho misantropo fechado ao alto da sua velha torre torva de melancolia, sentindo em torno o mundo, grosso mar vasto, ululando deprecações... Cabelos em desalinho, olhos estupefatos, boca num espasmo de angústia, mãos convulsas e avelhantadas, braços tateando o ar como garras, pernas trêmulas, tudo naquela desgraçada matéria determinava uma vulcanização muito íntima, um desespero muito particular, talvez o desmoronamento absoluto. Era o lance cruel de uma dessas vidas despedaçadas, dilaceradas, sem centros harmônicos de um objetivo ideal, sem pontos de apoio, girando fora das órbitas da unidade dos sentidos e que vagam, de um a outro extremo da alma, de um ao outro pólo do ser, sem uma luzerna, sem um santelmo, sem Refúgios interiores, quase o vácuo de si próprias, batidas por um frio sinistro de desolação, sob a lei inexorável, horrível, dos desequilíbrios e degenerescências. Demônios mórbidos, fatais, arremessados à terra para cobri-la, como de um OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 533 luto de peste, do sentimento negro, perverso, infernal, do aniquilamento e das culpas. Qualquer cousa de curioso, de secreto, dava-se, sem dúvida, no fundo dessa excepcional natureza que a noite tanto e tão intensamente carregara dos seus esparsos fluidos misteriosos. Apenas mergulhado no aposento, triste tugúrio abandonado e frio, acendeu logo, com a mão febril, nervosamente, a pequena lâmpada que pousava sobre um velho móvel querido que ali jazia como a recordação de vagos e inolvidáveis tempos... Assim que a luz coou em torno a sua tíbia claridade amarelenta, Maurício aproximou-se da luz, sôfrego, a fronte em suor, numa ansiedade muda. Em sobressaltos, inquieto, palpitando, nervoso, cada vez mais nervoso, uma agitação contínua na pupila, quase num delírio, arrastado por curiosidade torturante e ao mesmo tempo por medo avassalador, chegou uma das mãos à luz, aproximou-a da luz, aproximou-a mais da luz, quase a fazendo arder, crepitar, estalar na chama da luz, inquiriu mentalmente toda a palma da mão, o cabalístico M letal, as unhas, uma por uma as falanges, novamente a palma da mão, examinou-a, palpou-a, analisou-a longamente, demoradamente, com movimentos singulares de sonâmbulo e de mago, conservando no rosto tal expressão horrível, tal expressão transfigurada que não era mais deste mundo... E ele olhava e tornava a olhar para a mão, a perscrutá-la bem, detendo-se em cada linha, em cada traço da mão, como sob impressão magnética. – Mas, não, não! dizia, arrepiando o lábio num velado sorriso contrafeito, macabro. Não! Eu vi! Eu vi! Eu bem lhe fui acompanhando a gradação, o vulto que fazia aqui em toda a mão; a princípio tênue, leve, pequena; depois grande, densa e negra, enchendo a mão toda pavorosamente, reptilmente rastejando, pondo-me calafrios tremendos na espinha. Sim! Eu bem a vi, aqui, 534 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 aqui, persistente, entranhada, a horrível nódoa negra, manchando-me a mão toda, não sei como, não sei donde mandada. E os outros que lá estavam também como eu no cabaré, na sua hora d’álcool, sentiram-me a obsessão e riram e perguntaram se eu não estaria louco, se não era de fato um demente. Mas eu ouvi e nada lhes disse, nada lhes respondi porque eu bem via, bem estava vendo a nódoa tomar-me pouco a pouco conta de toda a mão, alastrar-se por ela, negra, em breves momentos. Eu bem a vi! E o que importava o desdém ou a indiferença dos outros, o ridículo que os outros me lançassem, se só eu a via, só eu! unicamente eu percebia que ela cá estava, funda, intensa, sem que eu a pudesse extinguir, fazê-la desaparecer para sempre. Sim! Ela cá estava! Senti então de repente um pavor maior lembrando-me se ela me tomasse o corpo todo, me subisse pelo tronco, me manchasse o rosto, envolvendo-me tenebrosamente na sua oleosa baba negra. E assim pensando parecia-me estar já avassalado por ela, que me cobria como de um manto fúnebre. E nesta sugestão doentia, numa extraordinária vibração de nervos, que titilavam de horror, voei pelas ruas em busca de repouso em meu triste aposento, pois era tão forte a obsessão, tão violenta, punha-me em tal estado, que até julguei, com essa infantilidade ingênua que nos transfigura nas íntimas e esmagadoras aflições, que desapareceria aquela nódoa lúgubre logo que eu estivesse tranqüilamente repousado. Sim! este meu triste, generoso e leal aposento que com tanto e tanto carinho me acolhe sempre na hora do meu grande abandono, dos meus extremos desfalecimentos, saberia condensar todas as suas diluentas amarguras, todas as suas queixas secretas, todas as suas mágoas esparsas, dar-lhes corpo, dar-lhes OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 535 vida e alma para, consolando-me, trazer calma piedosa a esta minha agitação profunda. Com efeito, agora, olho e torno a olhar, para a mão e nada encontro nela, nada do que eu vi, porque eu vi! Não encontro mais a nódoa, não está cá. Olho e torno a olhar, reparo, observo bem tudo e não encontro, não vejo mais a nódoa... E não a vejo, mesmo, por mais que examine, em nenhuma das mãos! Ah! respiro! Não a vejo em nenhuma das mãos! Respiro, enfim! Que alívio! Que alívio supremo! Foi, sem dúvida, foi loucura minha, neblinoso torpor de embriaguez, visão, sombra, pesadelo de momentos. Tinham razão os outros em rir... Foi simples loucura minha, simples loucura minha, simples loucura minha! Entretanto, como se uma diabólica força oculta no seu pobre cérebro demente insistisse, agisse dentro dele com perversa e feroz tenacidade calculada, fisgando-lhe as arestas cruas e agudas de cerrada argumentação casuística, mas em certos planos, de certo modo, irrefutável, Maurício colocou-se diante de um espelho oval que havia no aposento, e mirou-se bem nele, com atenção, com minúcia. Como que queria reconhecer-se, como que acreditava ter perdido a legitimidade do seu ser, terem reaparecido, por um desses incompreensíveis fenômenos nervosos, a perfeita identidade das suas feições, as linhas do seu semblante, da sua natureza, e com elas a sua própria sensibilidade. Mas, não! Ele ali estava, vendo-se apenas tão desfigurado, tão abatido, com esse aspecto vago, ignoto, retrospectivamente antigo, de quem já além viveu... Quase se desconhecia! Não era mais o intrépido, o afouto Maurício de outrora, que a bravura de sentimentos bizarros iluminava de esplendor e força. Não era mais o adolescente, amado desse amor frívolo da mundanal 536 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 mocidade, e cuja alma engrinaldava-se de rosas, esmaltava-se d’estrelas, vibrava de canções e cânticos, na frescura e no azul matinal de um idílio que lhe parecia eterno. Não era mais esse Maurício que através dos longos rumos do tempo se perdera e desaparecera... Era agora um outro Maurício, todo vivamente abalado, é certo, por inquietos sonhos de indefinível ansiedade, mas por isso mesmo acabando, findando já para tudo. Na encruzilhada dos caminhos que percorrera, ele, embevecido, perplexo, como que divulgava, pela curiosa, desoladora e irônica sugestão do espelho, duas nobres figuras de inefável expressão contemplativa que se enlaçavam num amplexo enlevativo e saudoso de idolatrados sentimentos velhos, surgindo das brumas álgidas do Esquecimento. Uma dessas figuras o olhava, atenta, nova e cariciosamente risonha, na meiguice mais cândida, a cabeça loira pendida numa atitude de enternecimento supremo. Igualmente o olhava a outra, subjugada pela febre devoradora do desespero, curvada de anos, por entre rugas e soluços... E ambas essas figuras evocativas se enlaçavam, emocionalmente se enlaçavam, do fundo sombrio e longínquo daquele espelho, no abraço extremo, profundo, infinito, como que fundidas na mesma apaixonada e embriagada convulsão da Vida... E, então, por uma esquisita afinidade de pensamento, como se por acaso mais essa outra obsessão da identidade perdida desnaturasse o rumo lógico do seu raciocínio, esclarecendo, mesmo por esse fato e com igual irrefutabilidade, o fenômeno da nódoa que o perseguia, Maurício espalmou diante do espelho ambas as mãos, certificando-se de tudo, pois até quase lhe parecera, na agonia cruciante daquelas implacáveis conjeturas psíquicas e por lenta compreensibilidade nebulosa, labiríntica do cérebro, mesmo por certa OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 537 infantilidade demente, que o espelho, refletindo assim sobre o seu busto, desnevoaria, arrancaria mais depressa toda a fatal verdade sobre a nódoa do que apenas a simples chama dúbia e amarelenta da doce luz da lâmpada. E o espelho, no seu fundo glacial de boca turva, crespusculada, de poço; cova de névoas e treva de onde naquela hora se desenterravam todos os seus Afetos; alma de cristal onde um delicado sentimento de esquecimento e de saudade parecia estar diluído; o espelho, naquela alta hora noturna dormente e sonolentamente mergulhado na doce luz amarelentada, da lâmpada, lembrava brumoso vale de lágrimas aureolado de luar... E Maurício revia-se no espelho, consultava-o, analisava, comentava, analisava os próprios reflexos e mutismo do espelho; feria a fina corda vibrátil dos seus nervos, dos seus sentidos de desequilibrado, de impotente, monologava com eles, e esse exame tão detalhado, tão minudente, tão penetrante, dava-lhe certa atração doentia, certa volúpia martirizante, certa lascívia de angústia. Mas, nada. Mesmo ante o espelho ele não distinguia nada nas mãos, nem no rosto, nem em parte alguma do corpo. Estava salvo, efetivamente estava salvo do caprichoso e funesto abalo que o sacudira e gelara! Estava salvo! Estava salvo! Nisto, de repente, como se com aquelas argüições e investigações mentais tivesse despertado, provocado violentamente o Mistério, rasgado os profundos véus translúcidos e transcendentes do Mistério, ei-lo que agora fixa demoradamente os olhos na mão esquerda e, recuando como um fantasma até à outra extremidade do aposento, solta este grito surdo. – Ah! a nódoa! Então, a visão que ele teve nesse momento foi tremenda. Recuado até ao fundo da parede, o tronco 538 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 vergado, a cabeça vencida, na expressão dos supremos aniquilamentos, os braços desalentados, os olhos acesos numa fosforescência e parados numa imobilidade persistente de olho de ciclope, a boca escumando todo o horror até ali concentrado, dolorosamente vivido naquele organismo, encolhido como um fardo humano, na atitude de um animal acuado, Maurício estava medonho. Sentia que a nódoa da mão já lhe tomava um braço todo, depois outro, que lhe envolvia o peito e o ventre, que lhe descia às pernas e aos pés e que subia fatalmente, numa inexorabilidade terrível, numa avassalação desolante de peste, pelo rosto, como langue lesma negra, viscosa e envenenada lagarta de pauis apodrecidos, nódoa que até lhe amortalhava os olhos, que o tornava irremediavelmente cego. E por todo ele era só aquela nódoa, aquela nódoa, aquela flageladora nódoa a crescer implacavelmente. Nódoa que mesmo lhe sufocava a garganta para os gemidos e para os gritos, lhe tirava o olfato, lhe roubava os movimentos, o paralisava e gelava todo e o arremessava agora ali, mudo, para um canto, como uma cousa inútil, num semi-idiotismo esquisito, numa lividez mortal, rangendo os dentes e olhando o vácuo, pasmosamente olhando o vácuo... E, assim encolhido, atirado a um canto, as feições já invadidas de súbita e precoce senilidade, dentes rigidamente cerrados, olhos muito abertos vidrados do espanto, do terror singular concentrado no fundo devastado das órbitas, Maurício foi encontrado morto, devorado pela sensacional obsessão delirante daquela estranha nódoa que, no entanto, sem que ele soubesse ou pudesse determinar nitidamente no cérebro alucinado, era a profunda, a incoercível, a grande nódoa negra simbólica da sua própria vida. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 539 TALVEZ A MORTE?!... Sob a florescência casta e voluptuosa da lua, numa noite em que eu ia embebido num desses sonhos que nos transportam ainda mesmo acordados, deparei com um vulto de mulher, alta, esgalgada e lívida, vestida de negro e velada pela redoma vaporosa da bruma da lua... Parecia trazer, como auréola extravagante, a nostalgia de ecos e rumores extintos... O seu rosto branco, lactescente, na majestade do negror das vestes, tinha uma beleza augusta. A fronte era como um céu pálido e sereno para constelar de beijos soluçados de imprevista e suprema paixão. Os cabelos, iriados d’orvalho luminoso, como que desprendiam certa fosforescência leve... Não eram louros, eram negros e de um oleoso quente, impressionante, fascinativo. Os olhos chamejantes lembravam dois astros ardendo numa treva densa e ondulante, coruscando no abismo das duas órbitas fundas, fatidicamente embaladores como berceuses de um doce e delicioso Nirvana... O nariz, ainda que belo e de uma aristocracia incriada, tinha uma expressão de ansiosas luxúrias de além-túmulo, um sentimento de austera firmeza e inexorabilidade de causar mistério e pavor... A boca, de um langor quebrado e letal, de uma expansão meio morta, fazia recordar os alucinamentos e o gozo de uma flor de melancólico desejo alvorecida nos frios terrores de uma cova. O andar, lento e grave, de um gracioso e nervoso balanceado de sonambulismo, maravilhava todo o seu vulto esquisito de um encanto desconhecido, como se ela, na verdade, caminhasse sob a magia de um sonho. 540 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Vagamente, o espírito ficava arrebatado a cismar num grande lírio tenebroso de perfume adormecedor e fatal! De longe, olhando-a entre o enevoamento do luar, ela passava-me na retina ferida de deslumbramento fantasioso, com cintilações de uma estranha serpente branca e negra, os movimentos coleantes e ondulosos do andar lento e grave de curiosidades e de ritmos imaginários. Dir-se-ia a visão das tormentosas nevroses, a deusa cândida das singularidades emotivas, embriagada por vinhos sombrios e sutis de soberanos requintes. Eu experimentava ao vê-la um estremecimento de fascinação e uma tontura de abismo, como se ela própria fosse um abismo que a pesar meu, bela e tremenda, me viesse estrangular com os seus abraços não sei de que sensação e nem de que delírio, num amor venenoso e luminoso ao mesmo tempo... Não se sentia nela o contato carnal, o travo miserando, a garra cruel da matéria. Não era a lama vil que tomava aqueles inauditos aspectos. Certo não a carne venal mundanizada! Uma força secreta fazia com que ela vagasse, caminhasse... Uma espiritualização nobre a revestiu de vida miraculosa – filtro das Esferas, ansiedade palpitante do Infinito, magno amor dos Espaços, imortalidade invisível das Cousas, quintessência da dor do Nada! Como que da su’alma de pinturesco de vitrais, sobre um fundo de madrugadas violáceas, deveriam irradiar aleluias lúgubres... Mas, pela obsessão de olhá-la, parecia-me agora que ela não se movia mais, que quedara num ponto, imperturbavelmente olhando os longes indistintos, alta e branca, afilada como uma torre perdida nos descampados do céu, sob a lua em silêncio supersticioso... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 541 Doze badaladas sombrias, mensageiras funestas do Sortilégio, ressoaram, soluçaram, cavas no ar, lentas, compassadas, monótonas... Inquieto, febril como nunca, cravei o olhar agitado, sofregamente, no ponto onde devia estar a visão; porém ela havia desaparecido, se desfeito, quem sabe! reentrado nos seus mundos, ante as badaladas choradas e cabalísticas da Meia-Noite! Ah! quem era, afinal, essa Visão, essa ave de luto e melancolia celeste?! Talvez a Arte?! Talvez a Morte?! 542 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 ÍDOLO MAU ...voici que, tout à coup, ces élus de l’Esprit sentent effluer d’eux-mêmes où leur provenir, de toutes parts, dons la vastitude, mille et mille invisibles fils vibrants en lesquels court leur Volonté sur les événements du monde, sur les phases des destins, des empires, sur l’influente lueur des astres, sur les forces déchainées des éléments. VILLIERS DE L’ISLE ADAM, Axël De descaro em descaro, de deboche em deboche, as tuas paixões, os teus vícios, monstros leviatânicos, empolgaram-te. Estás agora preso à calceta de sentimentos negros e, obscenamente, te arrastas, lesmado e vil, preso à calceta de sentimentos negros. Na tua alma iníqua, pestilenta e vencida, nada mais arde, nada mais flameja, nada mais canta. Como a ave noturna e luciferina do – Nunca mais! – desse peregrino e arcangélico Poe – como essa ave noturna, pairou sobre ti a desilusão de todas as cousas. E tu, agora, só ouves os misteriosos carrilhões da noite, da grande noite do Nada, convulsamente soluçarem e só vês errar os espectros lívidos da Saudade arrastando as longas túnicas inconsúteis e brancas. De descaro em descaro, de deboche em deboche, as tuas paixões, os teus vícios, monstros leviatânicos, empolgaram-te. De tal sorte te afundaste, te abismaste no caos infernal da malignidade, de tal sorte o crime absurdo, feio, torto, te avassalou supremamente, que a própria origem de lama, de onde surgiste, nega-te, rejeita-te, repele-te. Tu não morrerás mais! OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 543 Ficarás na terra – imenso Purgatório – regenerando, purificando, cristalizando a tu’alma dessa mancha sinistra e lutulenta, que a envolve toda. Não morrerás mais! Te perpetuarás, para te remires do teu enorme Pecado, cuja sombra orbicular põe nódoas fundas no sol, doentias penumbras no luar, turva, entenebrece a fina pedraria branca das estrelas. Entretanto, legiões e legiões de homens deixamse fascinar por ti; tu os atrais insensivelmente ou calculadamente, os sugestionas, os arrastas, e, fetichistas tristes, bufos lúgubres, eles vivem de sugar o veneno hediondo das tuas palavras e das tuas obras, com a alma e a consciência de rastos a teus pés, na covardia langue, lassa, dos que dão toda a veneração vilã aos ídolos malignos. Nem o retalhante knut siberiano, nem os suplícios fabulosos do Tântalo, nem os horríveis martírios de Ugolino são suficientes dilícios para remir e imacular o teu ser da mácula de lodo e sangue que tanto o está manchando cada vez mais intensamente. Tal é a malignidade, o descarnado cinismo em que reinas, bandido e bonzo, que pareces o porta-bandeira funesto das fantásticas legiões armadas do Aniquilamento supremo, trazendo como divisa fatal esta inscrição formidável: – Fome! Peste! Guerra! És, pois, o proclamador da Fome, da Peste, da Guerra. Vieste sob a claridade assinaladora de um íris prenuncial, sob os eclipses pressagos, sob os sóis reveladores, sangrando em chaga, dentre círculos de fogo, sob as luas augurais, mórbidas e sonolentas, de amarelidão defunta. Entretanto, se não fora a preguiça mental, um verdadeiro servilismo, uma covardia crassa que tolhe-te completamente os nervos do Pensamento, poderias salvar-te ainda. Porque tudo está na espiritualidade, na alma. Tudo está em fazer da alma nova hóstia, um sol incomparável, 544 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 a quintessência do Sentimento, para que a alma seja mais eterna que a luz, mais forte que os bronzes, mais etereal do que os astros. Alma, alma, mais alma, mais alma, muita alma, muita alma, toda, toda a alma, toda a infinita alma! É mister que pouco a pouco te devore uma doce ansiedade secreta e nobre; que uma suavidade celestial desça por sobre ti; que um encanto maravilhoso te engrandeça, te levante e faça sonhar; que aspires às sublimes purificações, às emocionais magnitudes, às surpreendentes transformações, às grandes eloqüências da Sensação que perpetuamente constelam as naturezas assinaladas. É mister que a serena e imaculada Sideralidade dê-te o poder das Reivindicações; que de ignóbil e rojado aos mais terrestres vilipêndios, surjas, como de um Batismo novo e original, Arcanjo das Transfigurações, alto e calmo dominando, vencendo os Vândalos em torno. E que uma rara fé, mais forte que toda a fé cristã, mais ardente, mais viva, te inflame e ilumine com as suas chamas prodigiosas. É de lágrimas, é de desejos, é de gemidos, é de aspirações e agonias que se fecunda a imortalidade. Se tu tornares bem intensos os teus pensamentos, bem chamejantes, bem profundos, arrancados do mais íntimo do teu ser com todas as estranhas raízes da tua sensação, tu te salvarás ainda, te remirás do teu crime nefando, do teu cinismo bandido, do teu escarnecedor deboche de celerado. Se souberes manifestar toda a expansão do temperamento, com os segredos da Intuição; se desabrochares como força própria, entranhadamente própria e poderosa, sem veres apenas o que te for tangível aos olhos, sem imaginares o que já foi imaginado, sem sentires o que já foi sentido, sem te nivelares com a materialidade da massa humana, serás uma afirmação, um estado de existir, de impressionar. E, enfim, se OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 545 ficares livre, inteiramente livre de todas as peias obscenas da miséria coletiva e da convenção dourada, serás verdadeiramente um espírito, originalmente um homem, matrimoniando-te com o sentimento, como o sol nos frementes e lúbricos esponsais com a terra. Basta, apenas, para te purificares de todo e com solenidade desse descaro e desse deboche, que te possuas de ti próprio, que comungues os Sacramentos abstratos, que te unjas de dons incomparavelmente preciosos e belos, despindo-te primeiro de todas as necessidades, de todas as vanglórias, para que, enfim, vivas, excepcionalmente vivas; para que sintas, intuitiva, eloqüente, a póstuma volúpia espiritual de te perpetuar de te difundir no Azul, de ainda, através dos tempos, viver... Basta, para isso, que renasças de ti mesmo, com entusiasmos bizarros, revitalizados pelo fluido de ouro, rico e fecundo, dos Idealismos, olhando as cousas com olhos sonoros, harmoniosos; que ascendas à Perfectibilidade e surjas, simples e sereno, da lama esverdeada onde coaxas de descaro em descaro, de deboche em deboche – sapo asqueroso de sensualidades tristes – Astro imortal do Sonho, assim singularmente, curiosamente remido e perdoado para sempre de tudo, na palpitação extática das Luzes, das Formas, das Transcendências!... 546 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 BALADA DE LOUCOS Oui, nulle souffrance ne se perd, toute douleurfructifie, il en reste un arome subtil qui se répand indefiniment dans le monde! M. DE VOGUÉ Mudos atalhos afora, na soturnidade de alta noite, eu e ela, caminhávamos. Eu, no calabouço sinistro de uma dor absurda, como de feras devorando entranhas, sentindo uma sensibilidade atroz morder-me, dilacerar-me. Ela, transfigurada por tremenda alienação, louca, rezando e soluçando baixinho rezas bárbaras. Eu e ela, ela e eu! – ambos alucinados, loucos, na sensação inédita de uma dor jamais experimentada. A pouco e pouco – dois exilados personagens do Nada – parávamos no caminho solitário, cogitando o rumo, como, quando se leva a enterrar alguém, as paradas rítmicas do esquife... Eram em torno paisagens tristes, torvas, árvores esgalhadas nervosamente, epilepticamente – espectros de esquecimento e de tédio, braços múltiplos e vãos sem apertar nunca outros braços amados! Em cima, na eloqüência lacrimal do céu, uma lua de últimos suspiros, morta, agoniadamente morta, sonhadora e niilista cabeça de Cristo de cabelos empastados nos lívidos suores e no sangue negro e esverdeado das letais gangrenas. Eu e ela caminhávamos nos despedaçamentos da Angústia, sem que o mundo nos visse e se apiedasse, como duas Chagas obscuras mascaradas na Noite. Longe, sob a galvanização espectral do luar, corria uma língua verde de oceano, como a orla de um eclipse... O luar plangia, plangia, como as delicadas violetas doentes e os círios acesos das suas melancolias, as fantasias românticas de sonhador espasmado. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 547 Parecia o foco descomunal de tocheiros ardendo mortuariamente. A pouco e pouco – dois exilados personagens do Nada – parávamos no caminho solitário, cogitando o rumo, como, quando se leva a enterrar alguém, as paradas rítmicas do esquife... Beijos congelados, as estrelas violinavam a sua luz de eternidade e saudade. E a louca lúgubres litanias rezava sempre, soluços sem o limitado do descritível dor primeira do primeiro ser desconhecido, originalidade inconsciente de um dilaceramento infinitamente infinito. Eu sentia, nos lancinantes nirvanescimentos daquela dor louca, arrepios nervosos de transcendentalismos imortais! O luar dava-me a impressão difusa e dormente um estagnado lago sulfurescente, onde eu e ela, abraçados na suprema loucura, ela na loucura do Real, eu na loucura do Sonho, que a Dor quintessenciava mais, fôssemos boiando, boiando, sem rumos imaginados, interminamente, sem jamais a prisão do esqueleto humano dos organismos – almas unidas, juntas, só almas vogando, almas, só almas gemendo, almas, só almas sentindo, desmolecularizadamente... E a louca rezava e soluçava baixinho rezas bárbaras. Um vento erradio, nostálgico, como primitivos sentimentos que se foram, soprava calafrios nas suas velhas guslas. De vez em quando, sobre a lua, passava uma nuvem densa, como a agitação de um sudário, a sombra da asa de uma águia guerreira, o luto das gerações. De vez em quando, na concentração esfingética de todos os meus sofrimentos, eu fechava muito os olhos, como que para olhar para o outro espetáculo mais fabuloso e tremendo que acordava tumulto dentro de mim. 548 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 De vez em quando um soluço da louca, vulcanizada balada negra, despertava-me do torpor doloroso e eu abria de novo os olhos. E outro soluço, outro soluço para encher o cálix daquele Horto, outro soluço, outro soluço. E todos esses soluços parecia-me subirem para a lua, substituindo miraculosamente as estrelas, que rolavam, caíam do Firmamento, secas, ocas, negras, apagadas, como carvões frios, porque sentiam, talvez! que só aqueles obscuros soluços mereciam estar lá no alto, cristalizados em estrelas, lá no Perdão do Céu, lá na Consolação azul, resplandecendo e chamejando imortalmente em lugar dos astros. A pouco e pouco – dois exilados personagens do Nada – parávamos no caminho solitário, cogitando o rumo, como, quando se leva a enterrar alguém, as paradas rítmicas do esquife... O vento, queixa vaga dos túmulos, esperança amarga do passado, surdinava lento. De instante a instante eu sentia a cabeça da louca pousada no meu ombro, como um pássaro mórbido, meiga e sinistra, de uma doçura e arcangelismo selvagem e medroso, de uma perversa e febril fantasia nirvanizada e de um sacrílego erotismo de cadáveres. Ficava tocada de um pavor tenebroso e sacro, uma coisa como que a Imaginativa exaltada por cabalísticos aparatos inquisitoriais, como se do seu corpo se desprendessem, enlaçando-me, tentáculos letárgicos, veludosos e doces e fascinativos de um animal imaginário, que me deliciassem, aterrando... Eu a olhava bem na pupila dos grandes olhos negros, que, pela contínua mobilidade e pela beleza quente, davam a sugestão de dois maravilhosos astros, raros e puros, abrindo e fechando as chamas no fundo mágico, feérico da noite. Naquela paisagem extravagante parecia passar o calafrio aterrador, a glacial sensação de um hino negro OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 549 cantado e dançado agoureiramente por velhas e espectrais feiticeiras nas trevas... A lua, a grande mágoa requintada, a velha lua das lágrimas plangia, plangia, como que na expressão angustiosa, na sede mais cega, na mais latente ansiedade de dizer um segredo do mundo... E eu então nunca mais, nunca mais me esquecerei daqueles ais terríveis e evocativos, daquelas indefiníveis dolências, daquela convulsiva desolação, que sempre pungentemente badalará, badalará, badalará na minh’alma dobres agudos e lutuosos de uma Ave-Maria maldita de agonias, como se todos os bons Anjos da Mansão se rebelassem um dia contra mim, cantando em coro reboantes, conclamantes hosanas de perseguição e de fel! Nunca! nunca mais se me apagará do espírito essa paisagem rude, bravia, envenenada e maligna, todo aquele avérnico e irônico Pitoresco lúgubre, por entre o qual silhueticamente desfilamos, eu, alucinado num sonho mudo, ela, alienada, louca – simples, frágil, pequenina e peregrina criatura de Deus, abrigada nos caminhos infinitos deste tumultuoso coração. Só quem sabe, calmo e profundo adormecer um pouco com os seus desdéns serenos e sagrados pelo mundo e escutar já, de manso, através das celas celestes do mistério das almas, uma dor que não fala, poderá exprimir a sensação aflitíssima que me alanceava... Ah! eu compreendia assim os absolutos Sacrifícios que redimem, as provações e resignações que transfiguram e renovam o nosso ser! Ah! eu compreendia que um Sofrimento assim é um talismã divino concedido a certas almas para elas adivinharem com ele o segredo sublime dos Tesouros imortais. Um Sofrimento assim despertava em mim outras cordas, fazia soar outra obscura música. Ah! eu me sentia viver desprendido das cadeias banais da Terra e pairando 550 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 augustamente naquela Angústia, tremenda, que me espiritualizava e disseminava nas Forças repurificantes da Eternidade! E como dentro de mim estava aberto para ela o suntuoso altar da Piedade e da Ternura, eu, com supremos estremecimentos, acariciava essa alucinada cabeça, eu a levantava sobre o altar, acendia todas as prodigiosas e irisantes luzes a esse fantasma santo, que ondulava a meu lado, no soturno e solene silêncio de fim daquela sonâmbula peregrinação, como se ambos os nossos seres formassem então o centro genésico do novo Infinito da Dor! OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 551 ESPELHO CONTRA ESPELHO Tu, alma eleita, que trazes essa sede de Espaço, essa ansiedade de Infinito, essa doença do Desconhecido que te fascina os nervos, que vieste ao mundo para falar pelas outras bocas, para ser a voz viva de todas as vozes mortas; tu, que andas em busca de uma dor que venha ao encontro da tua; tu, que interpretas tanta queixa, tanta queixa, tanta queixa dos Corações, tanta queixa dos Espíritos, tanta queixa das Almas, tudo porque não há resposta a esta pergunta horrível: por que nos deram a Vida?! Tu, que legaste toda a delicadeza virginal do Sentimento a este Apostolado doce e amargo da Arte, bela e triste; tu, que sentes chamejar e cantar a inefável poesia que te alimenta como o óleo alimenta as lâmpadas; tu, cujo espírito é uma fonte de dons maravilhosos onde os sedentos se debruçam e bebem à farta a água mais cristalina, mais clara; tu, que tão sagradamente te revoltas, na majestade ideal das águias e dos leões, e que, na candidez, na ingenuidade casta e santa da tua alta nobreza de Arte, atinges com a ponta das asas espirituais a ponta das asas dos Anjos! Tu, ó alma aureolada de deslumbramentos brancos, Lírio estético que um luar de sonhos sensibilizou, ouve este verbo veemente, vivo, de quem procura sentir os altos segredos da Existência, perscrutar-lhe as íntimas origens fugidias. Ouve este verbo vulcanizado, convulso, cheio das grandes tempestades ideais que abalam o Sentimento do mundo. Ouve este verbo aceso, inflamado na chama do Absoluto, para ele subindo e para ele palpitando sempre. Ouve este verbo indomável vento que sopra pelas trompas do mar e que soluça pelas harpas do céu toda a grandeza de uma Ilusão, toda a majestade de uma Fé. Eu falo a ti, Alma eleita e desolada nos crepúsculos da Cisma; não falo às almas antipáticas, cruamente ardentes, acres, como terrenos crestados, muito flagrantes de sol, sem sombras consoladoras... Falo a ti, 552 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 que sentes e sabes o frio que vai pelo mundo, como as almas tiritam sem agasalho, desabrigadas, como as consciências enregelam sem amor e sem bondade na ferocidade dos brutos instintos, como a doce e nobre Humildade se encolhe e protege nos obscuros vãos de uma porta para não morrer esmagada pelo bárbaro tacão da Prepotência, como a filáucia triunfa e como a Grande Virtude de todos os tempos está cega e pede esmola envolta em duros frangalhos! Tu, Genial, que tens suspiros, que tens ânsias, que tens lágrimas para esta Comédia fúnebre, mas dolorosa, em que vai o mundo; tu, singular e lívido demônio que te fizeste monge, que tens a tua ironia santa que diviniza e nirvaniza, o teu rebelado sarcasmo em brasas, toda tua mordacidade inclemente para essas tristes cousas terrenas, não podes ver sem abalo, sem comoção profunda, almas de mocidade já sem dedicação intensa, sem energias claras, sem entusiasmo absoluto. Não desse entusiasmo oficial, coletivo, das massas – mas esse entusiasmo propulsor das células, esse entusiasmo dúctil, voluptuoso, nervoso, que vem da extrema sensibilidade; esse entusiasmo que é tônico, que é éter puro, que é oxigênio matinal, que é essência criadora, que é chama fecunda e asa branca no genuíno espírito; esse entusiasmo que é força altiva, que é dignidade serena, que é emoção original e casta, que infiltra azul e sol nas veias, acende aurora e vibra cânticos no sangue. Há de doer-te fundo esse desolamento, essa morte das almas, essa aridez, essa petrificação de sentimentos em tudo. Há de doer-te muito que os impotentes se liguem aos impotentes, os nulos aos nulos, os frouxos aos frouxos, os esgotados aos esgotados. Que nada os separe, nada os afaste. Que quanto mais se reconheçam tartufos mais se unam no intuito e no instinto de se conservarem inatacáveis, embora, mesmo, no fundo, e fatalmente, se destruam, se odeiem, achando um incômodo a existência dos outros. Há de doer-te muito que uma envenenada OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 553 relação secreta os una, os congregue, os irmane, para juntos darem batalha subterrânea, cavilosa e vilã, aos que trazem a clara força tranqüila de um alto Desígnio, como armadura de astros, no peito. Há de afligir-te muito que na hora da mais profunda, da infinita Desolação, até os mais íntimos te abandonem, desapareçam, como que tocados pela idéia de que os teus extremos fatalismos são inconvenientes e contagiosos! Há de fazer brotar em ti a luminosa flor da ironia, o aspecto ousado do Asinino, que quer a todo o transe medir-se contigo, pôr-se no mesmo paralelo, porque vê tanto como tu, sente tanto como tu, sonha e é tão legítimo ser como tu!! Se tu lhe dizes versos, ele diz-te versos; se tu lhe dizes prosa, ele diz-te prosa, opondo a natureza dele a tudo, atropelando as cousas, atrabiliariamente, acertando, às vezes, por acaso, por assimilação fácil, por percepção de simples arguto, mas não trazendo os fundamentos de sangue e de sonho, esse longínquo infinito de origem, essa harmonia interior e essa beleza heróica tão pouco perceptível e penetrável. Sentirás no Asinino a pressa de comunicar primeiro que ninguém idéias que já Alguém pôs em circulação no tempo, nas correntes do ar; idéias que já foram acariciadas por outro com delicadeza mais particular, com veemência mais extrema, com intuição mais clara, com amor mais eloqüente, com entendimento mais recôndito. Sentirás no Asinino a natureza essencialmente auditiva, que ouve e torna-se o eco fácil, ingênuo, irresponsável, mas errado, mas corrompido, impuro já, da Grande Voz poderosa, honesta e pura que ouviu, porém que ouviu mal, sem a plasticidade necessária para receber, no seu primitivo apuramento imaculado, todas as complexas e infinitas vibrações, nuances e modalidades dessa Grande Voz. Sentirás no Asinino a intenção capciosa de ser o teu refletor, de cruzar nos teus os seus raios, de produzir 554 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 os mesmos reflexos, de apresentar as mesmas faces iluminantes, as mesmas irradiações e golpes de luz, as facetas do mesmo cristal e o fundo do mesmo aço. Sentirás no Asinino a revelação da tua revelação, o despertar do teu despertar, a sugestão da tua sugestão – mas isso truncado, hipertrofiado, inteiramente desviado dos eixos centrais do teu Objetivo, sem a unidade inicial dos órgãos ingênitos que propulsionaram e deram a integração final às linhas gerais da sensibilidade do teu ser, à zona compacta e luminosa do foco supremo das tuas Intuições. Sentirás no Asinino a imitação do teu Silêncio, a imitação da tua Sombra – sombra e silêncio d’espelho, sombra e silêncio refletidos do teu silêncio e da tua sombra, sombra e silêncio reproduzidos d’espelho contra espelho. Não poderás projetar o teu vulto num lago que o Asinino não projete também o seu vulto no mesmo lago; não poderás aquarelar o teu perfil num luar que o Asinino não aquarele também o seu perfil no mesmo luar. Se a tua Imaginação é virgem, reverdece agora nos luminosos pomares da Fantasia, a Imaginação do Asinino também é virgem e reverdece agora nos mesmos luminosos pomares. Não podes vir da raiz viva e violenta de uma sensação, da agudeza de uma Causa, da livre enunciação de um fenômeno, porque o Asinino também vem de lá, também de lá procede, também de lá se origina. Não há originalidades subjetivas, clama o Asinino, não há o puro sentir, o novo sentir, o excepcional sentir! Tudo já passou depurado pelo meu organismo, que é o crisol das purificações, clama o Asinino. Vida do eu visual, do eu olfativo, do eu mental, do eu sensível, faz vida original, faz vida de temperamento, portanto, vida ingenitamente particular e nova, dirás tu na perfectibilidade da tua visão. Mas o Asinino, que é a Rotina secular, que é a Regra universal, argumenta com pedras em vez de OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 555 argumentar com sentimentos, com emotividades, com dutilidades e mistérios de alma. Nuances novas de alma, caminhos não explorados no mundo do Pensamento, certos segredos e transfigurações, rumos inéditos, paragens de uma inaudita melancolia, tudo é paralelamente julgado pelo Asinino, que logo estabelece para as relações de cada caso especial a mesma esfera de ação de múltiplos casos diversos. Sempre sol contra sol, sempre sombra contra sombra, sempre espelho contra espelho. Sempre este espelho – Homero, contra este espelho – Virgílio. Sempre este espelho – Shakespeare, contra este espelho – Balzac, ou contra este espelho – Dante, ou contra este espelho – Hugo. Sempre este espelho – Flaubert, contra este espelho – Zola, ou contra este espelho – Goncourt. Sempre este espelho – Baudelaire, contra este espelho – Poe, contra este espelho – Villiers e contra este espelho – Verlaine. Sempre este espelho – Ibsen, contra este espelho – Maeterlinck. Sempre, eternamente estes espelhos impolutos e astrais que reproduzem a perfectibilidade de sentimentos nas gerações, paralelamente igualados, medidos e pesados pelo Asinino, que os equipara, confundindo- lhes a delicadeza e fulguração dos cristais. Sempre um Sentimento contra outro Sentimento, como se pudesse haver uma alma com a cor e a sonoridade de outra alma! E tu, na impaciência, na inquietação do teu vôo astral para as serenas Esferas, buscarás libertar-te, desacorrentar-te dos grilhões a que essa Rotina te prendeu, a que ela te sujeitou com a responsabilidade das primitivas camadas da Inteligência, para poderes afirmar que, como os Eleitos guiados a sós pelo seu Destino, tu também vieste só, representando um fenômeno desprendido no Espaço, sem leis de correlação 556 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 no sentimento da tua Dor – uno e indivisível fenômeno no obscuro e perpétuo germinal da Natureza. Na solidão do teu Ideal ficarás como um astro singular vivendo na luz nostálgica de uma órbita imaginária, sem que a confusão dos tempos possa jamais quebrar a intensidade do teu brilho e a serenidade da tua força. O Asinino continuará lá embaixo, na turba, na multidão, no rodar das épocas, estreitamente e empiricamente a comparar, a comparar, a medir o teu Infinito pelo infinito da sua miopia secular, lá embaixo, na turba, na multidão. Tu, além, lá em cima, superpondote aos mundos, rolarás, transbordarás, na augusta perpetuidade do Sentimento. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 557 ABRINDO FÉRETROS Agora, que deixei para lá, na plebéia rua, a filáucia e a mordacidadezinha do inqualificável cretino; agora, que consigo sacudir-me à vontade da poeira da frivolidade dos caminhos; que já estou, afinal, longe dos perturbadores, vampíricos contactos execrandos, posso, talvez, fechando-me nos meus secretos isolamentos, nas minhas solenes abstrações, concentrando-me, afinal, penetrar serenamente no Além, debruçar-me transfigurado no Mistério. Sinto mesmo que o Mistério chama-me, ele chama-me, atravessa-me com os seus sutis e poderosos filtros. Dilui-se na atmosfera do meu ser uma luz doce, dolente, meiga tristeza de leves nuanças violáceas que deve ser melancolia... Acendem-se e ficam crepitando, ardendo, todos os altos círios sagrados da velada capela da minh’alma, onde o meu passado e morto Amor, como o Santíssimo Sacramento, está exposto. Lâmpada por lâmpada vai também se acendendo o langue, untuoso luar das lâmpadas, como nas azuladas e cintilantes arcarias da Via-Láctea estrela por estrela. E, neste tom do Angelus da minh’alma, nesta surdina vesperal, começam as litanias vagas, as preces desoladas por Aparições que só a vara mágica da contrita saudade e da espiritualidade pura sabe fazer desencantar e ressurgir, nimbadas de transfulgentes lágrimas e luzes... Sinto-me afinado por uma música de luar e lírios, por uma eterificação de beijos celestes. E, a meu pesar, sai da minha boca, como de uma cova do esquecimento, este doloroso, ansioso clamor: – Ó mármore impenetrável do Sepulcro! palpita! canta! abre-te em veias! E que por essas veias corra e estue a caudal infinita do sangue leonino e virgem das 558 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 grandes forças criadoras da Beleza! Ó mármore misérrimo! ó matéria missérrima! Escuta-me, ouve-me, sente-me! Sensibiliza-te, espiritualiza-te, vibratibilizate... PRIMEIRO FÉRETRO – ANA Alma de colegial que se fizesse, de repente, irmã de caridade. Ah! essa era, com efeito, irmã da minha vida e tinha caridade de mim. Fazia meditar num destes seres obscuros que morrem sem nunca ninguém lhes penetrar o segredo. Ela mesmo morreu como uma tarde elísea vagueada de pássaros: – no outono da castidade, intacta natureza que o Nada devorou sem piedade, reclusa e triste, só, no ascetério da sua fé, penitente da carne, monja sem mancha. Parece-me ainda vê-la no féretro, a fronte lívida, que os longos e meigos, fagueiros cabelos aureolavam. Era como se um cortejo de águias, em alas, a levasse pelo Azul, enquanto o seu alvo corpo em flor e gelado ia virginalmente, para sempre, dormindo... Parece-me ver no seu olhar se refletir ainda, talvez do fundo claro da Eternidade, este pensamento cândido; ó inocente alegria da Infância, graça cor-derosa e ingênua dos tempos, para onde te exilaste? Eram olhos, os seus, onde vagava a harmonia cantante dos claros rios, e a frescura dessa ingênita bondade que floresce instintivamente e espontaneamente nas almas, como as estrelas no céu, apesar das tentações malignas, das apostasias do Bem, dos sacrilégios do Amor. Olhos onde havia bizarro e cintilante alvoroço alegre de mocidade, qualquer cousa de farfalhante ruflar d’asas por entre festões de flores, sonoridades de cristais e luzes. Como, pois, aquela forma de tanta suavidade e de tanto encanto evaporou-se logo?! Como, pois, aquele ser, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 559 tão oculto da terra, tão obscuro, tão humilde, zero inútil no grande algarismo do Mundo, mas tão simples e tão bom, assim desapareceu um dia, arrebatado num vento macabro, convulsivo, de morte?! Como as essências desconhecidas, os filtros esquisitos daquela triste dor nunca foram descobertos? Como os abafados soluços daquela pobre Mágoa nunca foram ouvidos?! Pois que Deus é esse que faz vigorar nos centros do rumor e da luz, como amplas e verdejantes árvores célebres, existências medíocres que pompeiam e fazem ressoar com vaidoso estrondo a sua prepotência vazia, enquanto aniquila, abate existências onde há um sonho bom de amor e de carinho! Pois que Deus é esse! Que divina misericórdia e que clemência iguais ele, cego, tão cego, semeia na terra, que todos, bons ou maus, colhem o mesmo imutável quinhão?! Que celeste ironia, acaso, dá-lhe asas satânicas, dá-lhe asas ferozes de fogo, que ele, cego, tão cego, tudo por igual incendeia e em toda a parte cospe lesto a peste?! Quando Ana morreu eu senti, tal foi o impressionativo abalo, como que uma espada varar-me, lado a lado, o coração. Eu estava num desses períodos que as reminiscências para sempre conservam, que se não apagam nunca mais no íntimo sadio das nossas fibras, das partículas mínimas do nosso sangue, da espontânea florescência casta do nosso ser. Eu estava na mocidade, na plena e na fortalecente mocidade. Desabrochavam em mim perigosas e viçosas flores de delírio juvenil. Eu aspirava o Vago, o Turbilhão das Quimeras. Palácios de fadas eram as minhas noites. Palácios de fadas eram os meus dias. Uma saúde vital dava-me aços de intrepidez, envergaduras ousadas, fantasia e força e frescura matinal de montanhês que vai galgando montanhas por alvoradas de ouro e aves. 560 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Na paisagem da minha Imaginação só havia cânticos e uma brancura purificadora envolvia as cousas na calma de leve e ingênua felicidade ridente. Ana foi para mim como uma harpa que deixou, de repente, de soar... Ela era, com efeito, a harpa delicada onde eu, adolescente e sem saber como, tirava as harmonias, os sentimentos rítmicos que guardei comigo e que agora aqui vou aos poucos difundindo. Ela era a harpa em cujas cordas sensibilizadas eu sempre adivinhei os acordes místicos e fugitivos de um segredo amargo. Aquela candidez de virgem tinha luto, aquela madrugada de mulher tinha insônias. Um meio-dia de sol, onde, por um etéreo capricho fenomenal dos astros, se entrecruzasse, transfiguradamente, o crepúsculo. Desde que Ana morreu começou a cair na minh’alma uma cinza fria de desolação, uma sombra dolente. Ela foi quem primeiro me ergueu a fronte e as mãos para os sublimes Sacrifícios. Foi ela quem primeiro me ungiu com os seus cuidados cordiais. Foi ela quem me deu a comungar a hóstia da Vida com as suas mãos de amor. Ela arejou a minh’alma, deu sol ao meu Desconhecido, deu luar de paz ao meu Sonho. Vibrações virgens de harpa inviolada para o mundo, as emoções da alma de Ana faziam meditar no mesmo vago e no mesmo encanto longínquo de regiões ainda não descobertas. Nela dir-se-ia dormir uma vida nova, que, ai! nunca despertou e afinal envelheceu no mistério daquele organismo. Delicadezas de sensibilidade que nunca transbordam no mundo, tímidas lágrimas reconcentradas que nunca enchem os oceanos! Com a morte de Ana foi se diluindo a minha sensibilidade, começou de leve, lento, a harmonia velada OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 561 do meu ser, veio vindo, se difundindo e definindo a Dolência. Era um fio imperceptível da minha vida, ligado à vida dela, que se partira e que só se tornaria a reunir, talvez, mais tarde, nos reinos encantados e noturnos da Saudade, perto dos rios roxos do Esquecimento, às margens amargas da Ilusão. Ana fora uma espécie dessas crepusculares, outoniças flores nostálgicas, de desconsoladas perpétuas do celibato que as insônias aquebrantadoras e perigosas definham e crestam como mormaços venenosos. Fazia lembrar uma dessas donzelas de honor, insontes e peregrinas; seres para os quais a Dor tornase de alguma sorte um vinho selvagem e alucinante que embriaga, iluminando de certa forma, e cujas religiosas surpresas e revelações da alma estão para sempre veladas e veladas a muitas almas profanas. E lá, nos reinos encantados e noturnos da Saudade, essa, para mim veneranda e magnânima Criatura – coração, sem dúvida, inquieto, mas parecendo alheio às seduções do mundo e que, quem sabe!, falhou ao seu Destino, lá estará nos parques solitários da Melancolia, no renunciamento de tudo e na indiferença augusta e clássica, nessa doce expressão de beleza de certas estátuas antigas, envelhecidas pelo tempo e tristes, que se vêem através de grandes jardins enevoados... SEGUNDO FÉRETRO – ANTÔNIA Sombra de luto, de viuvez e de velhice. Angelus sem plangências consoladoras de campanário, sem ecos saudosos, sem elos de afeto, só, na solidão árida, no abandono sem limites de uma voz que chamasse por ela – já apagada a última luz dos faróis interiores, escura já toda aquela vasta região de velhice. 562 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Era a harpa soturna, surda, sem cordas, como as que ficam ao acaso, para ali a um canto no leilão dos tempos, sem que uma vibração ambiente as faça gemer, sem que um vento dormente as faça cantar. Vida já de vacilações e de ânsias baixinho, de certos nirvanismos curiosos e mudos – alma sem impulso, sem hora, sem desejo, apenas vácuo e vácuo infernalmente circulado de símbolos desesperadores. Sentimentos anônimos, sem consolo, mas de profunda significação genésica, e que o mundo vãmente arrasta nos seus turbilhões medonhos, no seu pó secular, no tumulto das suas venenosas seduções. Tipo que vaga, tipo que ondeia, tipo que gira sem órbitas definidas, ao acaso dos Desígnios, confundidos, amalgamado no supremo Comum, mas Existente original no fundo abismal do seu ser. Para os que sofrem a Dor do Infinito e mergulham nas profundas, longas e complexas galerias dos subterrâneos das almas, na claridade saudosa dos olhos de Antônia parecia haver a transfiguração de uma cegueira singular da alma, que andava, como as fugidias, capciosas mãos sem visão de um cego, tateando por penumbras de bruma. Naquela ignorada alucinação da vida, que círculos, quantas correntes tão opostas se cruzariam! E a efêmera velhinha, sempre obscura, verdadeira nebulosa de gemidos, despertava curiosidades histéricas, emotivas, como os signos assinaladores do arco de aliança – todas as cores, todo o cromatismo esquisito do sofrimento de um ser que vive isolado na ermida da alma, sobre os penhascos, os ásperos outeiros do mundo. Alma apoiada ao bordão da velhice, tiritando e se arrastando sob as lâminas cruas das espadas glaciais da Desolação, caminhando sem tréguas por entre ruas soturnas e confusas, ao longo de imensos muros, vestidos de limo, sob o soluçante e lacrimoso brumar eterno de uma chuva fina, muito lenta, triste, monotonamente triste... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 563 Eu a via, naquela paz lutuosa dos anos, nas ingênuas manifestações da su’alma como se ela andasse, sob as provações terrestres, a purificar-se por crisóis imortalizadores, além pelos sete céus cristalinos e astrais. TERCEIRO FÉRETRO – CAROLINA Esta, Carolina, uma flor infernal de sangue e treva que a Angústia fecundou. Esta, a harpa maior, a harpa da Dor, cujas cordas são mais puras, mais admiráveis e onde mais alto e majestoso chora todo o incomparável Intangível da minha Saudade. Este féretro é um oceano rasgado de tempestades, de ventos imprecativos, anatematizadores e negros. Fluidifica-se deste féretro uma música bárbara de sensibilidade, de martírio. Aberto diante de mim, assim como eu o estou vendo aqui, que sugestões singulares me traz, que despedaçamentos me recorda, que sombrios idílios e delírios! Ah! na vida avara, como os sentimentos são avaros, como o pensamento humano é avaro para perscrutar uma existência assim! Onde estão os ascetas que se martirizaram, onde estão os apóstolos que creram, onde estão os santos que ciliciaram e que escutaram de perto, mudos, o eloqüente silêncio da Dor, para virem agora, aqui, comigo, aqui, com a minh’alma, traduzir os recônditos segredos que aí estão nesse féretro, penetrar nos ergástulos sem nome que aqui estão, nessa alma. Que purificações e que sugestivas grandezas parabólicas, que transcendentalismos das palavras de Cristo no Sermão da Montanha, ecoando impressionativo e a medo como o ulular primicial e majestoso de imaginários mundos em gestação, poderão, acaso, 564 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 interpretar esta vida deserta que subiu às mais longínquas e altas cordilheiras da Dor, exprimir os ais que a violinaram, os soluços que a transportaram ao céu, os desencontrados combates que a despedaçaram! Sim! Vazio é tudo no mundo! Os olhos acordam nesta ânsia viva de chorar e de amar! As ansiedades que em vão se escondem plangem à flor dos sentidos, diluem-se, fluidificam-se e, vagamente, aí vêm então jorrando, vêm vindo as lágrimas... Sim! Criatura dos Anjos que, no entanto, o Inferno possuiu e por fim acabou por estrangular! Coração sangrante! Ser do meu ser! Os outros seres vãos que babujam a terra com a argilosa Infâmia de que são feitos nunca poderão, nunca saberão, melancolicamente não, nunca, que hóstia sanguinolenta e travorosa deram-te a comungar na Vida, que pão tenebroso de Páscoa de lágrimas deram-te a devorar, que cálix de vinho letal, alucinante, sugado ao fel das chagas e das gangrenas propinaram-te à boca verminada pelo primeiro beijo de amor, quando tu tinhas as fomes e as sedes vorazes, cegas, desesperadas do Não-Ser, quando aspiravas às formas celestes, quando sentias, apesar da tua inocuidade de poeira mas, talvez!, poeira de algum divino astro diluído, o insaciável desejo de abranger Infinitos. QUARTO FÉRETRO – GUILHERME O que importa a Vida e o que importa a Morte, obscuro velhinho que te foste, operário humilde da terra, que levantaste as torres das igrejas e os tetos das casas, que fundaste os alicerces delas sobre pedra e areia como os teus únicos Sonhos. Deixa sinfonicamente cantar sobre ti a sacrossanta alegria branca e forte do profundo Reconhecimento que te votei na existência! Deixa correr sobre o teu virtuoso flanco de lutador, sobre as tuas mãos rudes e abençoadas, sobre os teus olhos OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 565 hipocondríacos de senil desterrado de Reinos ignotos, sobre o teu coração suave de cordeiro imaculado, as grandes e maravilhosas lágrimas repurificantes que nesta hora sublimizam o meu ser de uma divinização incomparável! Velho tronco robusto de onde seivas prodigiosas de Afeição porejaram sempre! A tua alma, blindada de uma honra ingênua, antiga e clássica, parecia-se reveladoramente com a natureza – alma franca e virgem, espontânea nos seus fenômenos, puro bloco inteiriço de Sentimento, de onde os cinzelários do Sonho cinzelariam com a sua estética soberana as criações imortais. A claridade e a harmonia de uma bondade primitiva davam à tua alma, não a consagração espartana unicamente, mas uma simpleza e propriedade genésica de selvas que geram o Desconhecido e o Vago da Pureza, sem contactos egoísticos do mundo. Através da tu’alma eu lia, em caracteres indeléveis, a significação eloqüente do teu fenômeno triste, do teu simpático e lhano irradiamento na Existência! Para os que têm a boa sombra, o Angelus meigo do Amor, para os que sabem venerar e perdoar do fundo dos grandes Silêncios da alma, a flor genuína da tua sensibilidade tinha esse aroma oculto e amargo que se não define – esse aroma acerbo que vem das naturezas chãs mas sempre castas, inevitavelmente sepultadas no obscuro centro fatal do seu Destino. Se aflito, se desolado, se doloroso tu foste, como que esse sentimento era alado, era etéreo, isolado como tu andavas das causas originais de tudo, no relevo de rocha viva da tua Ignorância pura, mergulhado até ao fundo no mar augusto, formidável e sem raias da crença em Deus! A tua figura paternal, que a condição ínfima das frívolas categorias sociais obumbrava profundamente na terra, tinha para mim o encanto mítico de vetusto deus dalguma ilha abandonada em regiões, longe, vivendo 566 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 resignado, paciente, sem queixas, na iluminação teatral, flagrante e acabrunhadora de modernas e autoritárias Civilizações, como o legítimo representante dos seres humanos. Minh’alma, ao cuidar em ti, a considerar nos teus dias, a interpretar a tua mudez, a ver as curiosidades e instintivos caprichos dos teus movimentos de ser, quedava-se numa espécie dessa melancolia, dessa nuance aquebrantadora, desse emovente langor de um verso verlainiano que melancoliza tanto. Eu, longe que andava, ausente do teto onde exalaste o derradeiro gemido, não te pude ver no teu belo e grave desdém tranqüilo de morto. Não pude meditar nas ironias secretas e significativas da morte às vaidades da vida. Não te fui fechar os olhos, compungidamente, com a delicadeza amorável das minhas mãos trêmulas, nem passar para eles, em fluidos ardentes, o magoado adeus dos meus olhos. Não te pude dizer, de manso, bem junto aos teus olhos e coração moribundos, com toda a volúpia da minha dor, as untuosas e extremas palavras da separação, as cousas inefáveis e gementes no dilacerante momento em que os nossos braços abandonam, para nunca mais apertar, os amados braços que já estão vencidos, entregues ao renunciamento de tudo e que nós tanto e tão acariciadamente apertamos. Mas, nada importa a Vida e nada importa a Morte! O encanto do teu ser foi obscuro; a graça do teu Bem foi toda fugitiva. Porém do seio imenso da minh’alma, do fundo oceânico de soluços de que ela é feita, tu emerges e emergirás sempre, proba e doce figura, caridoso fanal do meu passado, que enfim me iluminaste com o clarão da Bondade e me trouxeste com a tua bênção paternal de grande Humilde a Fé sacrificante e salvadora das Resignações para atingir as Esferas supremas do Absoluto. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 567 Lá, no Inexorável, na perpétua Dispersão, não sentirás mais o grosso rugir da miséria humana, a mão de ferro da prepotência esmagando tua subjetividade modesta. Todas as ferocidades, todas as durezas, enfim, cessaram no fundo Silêncio negro. Rebrilharam e ressurgiram as Solenidades transfiguradoras da Saudade! Enfim, és morto, agora! Posso evocar-te de lá das sombrias e glaciais imensidades! Posso sentir-te através do enevoamento de distâncias infinitas estreladas de lágrimas! Posso rasgar pelo Azul portas de Devotamento celestial à procura da tua Imagem. Iluminar a tua funda noite de morte com a triste luz saudosa da minha vida. Tu, eternamente, participarás das formas incoercíveis... E eu irei, por este lutulento mundo, com a cabeça um tanto pendida de dolência, como que vagamente aplicando o ouvido a um ponto distante, escutando, enlevado, em arroubos íntimos, secreta música difusa e longínqua de Além, que parece chamar-me para esse rítmico Indefinido onde afinal te dispersaste e sumiste. E essa música, de atrativos sutis, letíficas seduções, de místicos e transcendentalizadores acordes, fluindo aos meus ouvidos, continuará a chamar-me, a chamar-me, misteriosamente a chamar-me... 568 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 O SONHO DO IDIOTA Je suis inconsolable de t’avoir vue. Hélas! tu es la bien-aimée! J’ai la mélancolie de toi. Je n’ai de force que vers toi. VILLIERS DE L’ISLE ADAM, Axél. Revelações de Gênesis que acorda, talvez, no cérebro daquele idiota. Revelações de gênio incubado, que o segredo de um pensamento isolou e emudeceu... Mas, contudo, o certo era que no cérebro daquele idiota rasgavam-se esferas curiosas de sensação, radiavam chamas fenomenais, línguas malditas falavam as linguagens cabalísticas, misteriosas, das paixões humanas, das complexidades psíquicas. Espécie de formidável olho de ciclope, esse cérebro deformado via em visão múltipla, de sorte que, ainda mesmo na realidade, parecia sempre estar sonhando, ainda mesmo acordado, era um sonho vivo que perambulava... Belo idiota, triste idiota, soturnizado idiota, este, em verdade, atado de pés e mãos ao cepo da sua própria existência, como anfratuoso e feroz orango preso em jaula de ferro! De que rumos obscuros e tortuosos viera ele, girando no centro infernal das agonias desconhecidas; espécie dessas almas soluçantes na Dor e das quais a Natureza, por duras e rudes experiências, faz os eternos mármores e bronzes resistentes onde afia desassombrada e confiantemente as suas espadas e as suas lanças! Quem sabe se ali não dormiria, nesse ser hediondo, a fina intuição arcangélica de um missionário celeste, para sempre irremediavelmente perdido no fundo dos grandes tédios e das grandes saudades?! * * * * * * * * * * OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 569 Uma vez que ermo e hirsuto como um dromedário sonolento errava pelas ruas escuras de certa cidade sombria, o pobre idiota foi corrido por apupos, pela chacota irreverente e apedrejada e penetrou, acolhendo-se, – massa mórbida, riso amolentado, aparência monstruosa de hidrocéfalo – a larga porta aberta de um templo iluminado. Diante da multidão que murmurinhava dentro, ele estacou deslumbrado, como se de repente lhe parasse a circulação da vida, numa expressão animal tão veemente que os que o viram entrar olharam para ele surpresos, com movimentos instintivos de defesa, como diante de um perigo iminente. Ele, mudo, no entanto, mas parecendo falar consigo mesmo qualquer cousa inteligível, exprimir qualquer cousa entre grunhido e voz humana, não se apercebera desses movimentos e continuava ali, parado, a atitude dura e hostil de uma pedra humanizada, em forma de ser existente, mas sem a completação fisiológica de todos os sentidos normalizados. Um perfume celeste errava, vivo e intenso, no ar, evaporava-se lânguido das névoas brancas dos incensos... O órgão nebuloso e sensibilizante, despertando na imaginação a lembrança de uma sombria clausura de almas suspirando e gemendo em sonhos tocantes e solitárias harmonias e magoados queixumes, e ao mesmo tempo longínquo, largo, lento e velado vento onduloso e dormente graduado em sons, expirava com enternecimentos melódicos, com taciturnas lágrimas sonâmbulas, deixando no ar a pungente melancolia fugitiva de um esquecimento amargo... No recinto, agora, bizarros alvoroços passavam... Um zunzunear de turba que ondeia e que murmura. Era o vago adeus de final da festa. Abriam-se vastos e nítidos claros na multidão espessa, que se afastava, que saía... Uma agitação subia, uma pressa e confusão de retirada, como se o sopro rápido e fatal da desolação das cousas 570 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 tivesse vindo inexoravelmente apagar a chama daquela fé que ali há instantes se acendera. E aquela ondulação de corpos ia e vinha, circulava, para a direita, para a esquerda, subia e descia, para baixo, para cima, estuando, com a respiração de desabafo de um grande monstro saciado, já decrescendo, diminuindo, com oscilações fugitivas de torrente que escapa, que cede nos turbilhonamentos do curso... Arrastado pelo povo, atirado aqui e ali pela onda que decrescia cada vez mais, o idiota tinha desaparecido de repente, semelhante a um mergulhador exótico que desce aos incoercíveis abismos do mar para surpreenderlhe os segredos. Mas, daí a pouco, como a última onda da multidão se aproximasse da nave central, voltando do altar-mor onde genuflexara ante a imagem lívida e melancólica de Jesus, o idiota então novamente apareceu. Agora, porém, o seu rosto de uma dureza e aridez de deserto, parecia estar transfigurado por um sentimento de infinita doçura, que o tornava quase belo. Uma irradiação dava-lhe asas... As linhas do seu perfil tortuoso ameigavam-se, suavizavam-se, e, nos olhos sempre opacos e indiferentes, fluía um brilho inefável, uma indizível emoção, tão intensa, tão viva, que dir-seia que os olhos tinham voz, que essa voz falava, que essa fala vinha pungida de lágrimas e acariciada de beijos... Olhos cheios das úmidas fulgurações de ouro líquido dos grandes e comoventes alucinamentos, parecendo terem atravessado a luz virgem de outros mundos intactos, invioláveis a olhos profanos; olhos que continham em si as febris alegrias de gozos inimagináveis. Ele sentira, na verdade, qualquer cousa que o abalara, que o metamorfoseara assim por instantes desse modo. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 571 Desvendara algum mistério, achara alguma constelação na terra, algum anjo entre os homens, alguma visão entre as mulheres! Sim! Ele a tinha visto, na sua beleza mais do céu do que da terra, loura, os cabelos finíssimos, os olhos azuis peregrinos de frescura suave, a boca deliciosa e doce, na expressão cândida, infinitamente delicada, da carícia sutil de beijos alados. Ele a tinha visto, espiritualizada por nimbos de angelitude – flor de graça e de glória, misto de madressilvas e luar, madona de seu viver mumificado, santa de lirial candidez entre todas as santas dos altares que ele estava vendo, mais bela do que todas, bendita e branca, inundada do cintilante pólen fecundativo da puberdade, vestida para o seu amor das alvas resplandecências sidéreas, pomba pulcra que não se dignava abrir e pousar as finas asas níveas e virginais sobre a necrópole vazia do seu coração de Idiota. Sim! ele agora era como um firmamento pomposo de astros: a beleza dela, que sorrira, passara e desaparecera na multidão, o tinha estrelado celestemente. Vergava, pois, ao peso de tanta e luminosa ventura, da ventura única de vê-la, de olhá-la sem pecado e sem crime nesse olhar, de senti-la de longe sem que o seu sentir a lesmasse, a manchasse com a lepra da sua miséria. Não! Ela fora embora, mas tão imaculada ou mais ainda do que nunca por aquele olhar-bênção, por aquele olhar-perdão, por aquele olhar-amor que ele lhe havia vibrado ocultamente, de longe. Nenhuma das partículas da sua desgraça sem limites a maculara, ele bem o sabia. Ela era a flor, ao mesmo tempo carnal e mística, onde dormiam sonos mornos e magnéticos os insetos miraculosos de uma volúpia secreta. E ele, ao vê-la, para ali ficara absorto, contemplativo, no êxtase misterioso de uma Sombra sonhando... Naquele instante divino todo o seu mísero ser estava também divino. Um prodígio de sensibilidade, de 572 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 um sentimento melhor, que não é deste mundo, o iluminava e bendizia. E esse sentimento que o transformava e que ele próprio desconhecia assim tão intenso e curioso na sua alma, transcendentalizava-o e dava-lhe ao obtuso idiotismo uma como que supervisão, certa regularização lúcida e nobre, fazia-o por instantes viver, reflexamente, na origem ignota de uma especial percepção mental e de uma extravagante emoção. Podiam ligar-se, pois, ele e ela, no mesmo fundo de abstratas purezas, prender-se pelas mesmas espirituais correntes, fundir-se nos mesmos emotivos espasmos... Não! ele não violaria os melindres, os escrúpulos arcangélicos daquela natureza delicada, não iria empanar os cristais impolutos das esferas azuis onde ela triunfava. Podia, pois, reentrar, pura, inviolada, nos seus sacrários de ouro, nas suas preciosas redomas, nos seus majestosos domínios e reinados de formosura, incensar-se com o seu perfume de sempre, porque nada inteiramente nela nem de leve experimentara o contacto sutil das secretas e torturantes emoções dele. Naquele grande momento a sua alma de olvidado tinha altares iluminados como esse templo, onde ele hóstias de sentimento comungava. Sim! ela se fora, ela passara, rápida e descuidada dele, mas deixando-lhe nesse curto espaço de tempo, que sintetizava toda a sua vida, mais funda e mais em chama que um abismo de sóis vulcanizados, a sangrante e convulsiva paixão que faz a febre, o delírio mortal do mundo. Entretanto, parecia-lhe que já a havia encontrado outrora, noutros orientes longínquos, noutra região de sol e de néctar, d’estrelas e açucenas, sob outra forma divina. Parecia-lhe que no país vago, azuladamente nevoento e remoto das suas reminiscências ela passara um dia, sob um fundo curioso de dolências, na delícia suprema e nunca mais gozada de sensações inolvidáveis que ele então experimentara. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 573 Mas onde, já, o contacto das suas duas almas, sublimadas no Afeto, se dera na Terra? Onde se assinalara o encontro dos seus seres opostos? Que ritmos simpáticos os tocaram sensibilizantemente? Ah! que vãs Interrogações ao mesmo tempo tão inefáveis e tão terríveis! Sim! não era ela nada mais do que a encarnação palpitante da sua visão, a cristalização das suas fugitivas saudades e ilusões, que por aquela embaladora e fugitiva forma vinha dizer-lhe o melancólico, o aflitivo, o desesperado adeus para sempre. Esse ressurgimento assim inaudito se lhe afigurava ser um fio tenuíssimo, disperso, de esquecida melodia, pelo qual se vai lentamente compondo e definindo aos poucos toda uma abandonada música sugestiva... Criação imprecisa, indecisa, indecisa, e que ele como que sentia ondular, através do espírito, na beleza e na tristeza fatal da lua melancolicamente exilada no exílio dos céus! Ele radiava como uma transfigurada águia de envergaduras maravilhosas por entre um arco-íris sensacional de mistérios solenes – ele, miseranda lesma, que queria atingir, com as suas viscosas babas, o sol, purificar-se, perfectibilizar-se no sol! A sua alma de noite paludosa, de caverna sem eco de vida afetiva, parecia agora feita de um azul meigo e crepuscular de firmamento osculado de luar, acordando numa opulenta e prodigiosa floração de pomos pomposos, de pasmos sensibilizantes... Aquele organismo feio, nauseante, asqueroso, requintara nessa hora imprevista de deslumbramento, numa afinação rítmica de beleza estésica singularíssima, evidenciando ainda mais uma vez, assim desse modo, quanto as chamas da transcendência moral clarividenciam e transfiguram os seres, quintessenciando-lhes a forma do Sonho; que só a alma que sobe, sobe, sobe, que atinge ao céu astral de um purificado e abstrato Amor é bela... 574 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Naquela hora todo o seu ser aspirava às intangibilidades supremas. Vôos e vôos de veementes anelos secretos cruzavam-se no seu ser. Aqueles momentos incoercíveis, etéreos, refinados num gozo original, subiam, do pólo negativo da sua humilhada matéria, ao pólo augusto das imortalidades do Espírito. Sim! Ficariam intactamente imortais esses surpreendentes e transfiguradores momentos de sensibilidade sem igual! Uma luz indelével de ilusão e de sonho fazia alvorecer e vibrar para sempre as recônditas e curiosas sensações, as ocultas e raras harmonias de tão fenomenal natureza. Mas, como estivesse nestas profundas e extraordinárias conjeturas e agitações, revolto e incendido, a exemplo de um terreno onde há matérias inflamáveis, o idiota não havia reparado que a igreja estava quase vazia e que era ele uma das últimas sombras que ainda por ali se arrastavam na inconsciência dos pesadelos. Nos altares já se haviam apagado todas as velas. Apenas, num dos altares laterais, dois círios acesos, mas quase extintos, ardiam, agonizando em fogachos fumosos e sangrentos, últimos soluços da luz, como almas abandonadas que ainda penassem no final de uma dor... Em cima, no seu nicho aberto em arabescos dourados, em ornamentações caprichosas, confusas e complicadas como sonhos, uma Santa loura, linda, o manto azul constelado de estrelas de prata, coroada de um diadema de cintilantes pedrarias, imobilizava-se indiferentemente como se por acaso a visão amada do idiota se tivesse ido ali corporificar nesse mármore de Santa. Na sua pequena mão graciosa abria-se um lírio branco – florescência simbólica das castidades místicas, forma cândida e aromal de volúpias sagradas e noviças... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 575 O templo, como as portas misteriosas de um desses antigos subterrâneos suntuosos de riquezas, fechara-se afinal quase que por encanto... Uma vida fantástica, místico-psíquica, ia sem dúvida se desenvolver agora na sombra, no silêncio frio, na solenidade morta, na solidão sagrada, através das vestiduras dos Santos, das luzes d’ocaso das lâmpadas, dos paramentos chamalotados, dos vitrais multicores, surgir, enfim, do enevoado esquecimento dos Ritos, como se o templo, significando e concentrando simbolicamente toda a histérica unção devota da Idade Média, naquele instante representasse o seu curioso cérebro hipercatólico, maquiavélico e fabuloso. E, ou fosse porque não o tivessem visto ou porque o julgassem inócuo dentro do templo ou por qualquer outra capciosa razão, que escapara à penetração fiscalizadora dos acólitos, o certo é que ninguém deu pela presença do idiota sob aquelas abóbadas, só, silencioso e sombrio, após estarem seguramente fechadas todas as altas, largas e pesadas portas chapeadas de ferro. Um profundo mutismo amortalhava o vasto recinto, dando à impassibilidade marmórea dos Santos uma expressão assustadora. Parecia que todos eles dormiam sonos seculares e que por milagre inconcebível iam afinal acordar coincidentemente naquele momento, mover-se nos seus nichos, descer pé ante pé dos altares e, um a um desfilando, avultando, crescendo em número, enchendo toda a amplidão do templo, surpreender o idiota e punilo para sempre da culpa de tão insólita profanação. Ele, porém, naquela solidão majestosa de onde se levantava o pavor, ia e vinha absorto num sentir extravagante, fechado no segredo tremendo da sua esquisita sensação de idiota, perdido o olhar atentamente nas Imagens mudas, a boca meio aberta, as narinas dilatadas num gozo mórbido de volúpias 576 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 histéricas, como que na absorção das últimas névoas entontecedoras dos incensórios, percorrendo altar por altar, na perambulação hipnótica de fantasma do próprio fantasma do seu Desejo, de sombra da própria sombra do seu Afeto. As altas, caladas e côncavas abóbadas, das quais parecia-lhe aos seus ouvidos alucinados do Desconhecido ouvir o profundo coro apocalíptico, reboando, ecoando de abóbada em abóbada; as grandes lâmpadas, à semelhança vaga de luas marchetadas ou de estranhas lágrimas estratificadas; todas essas magnificências de rituais que emudecem, de culto que dorme no granito e nos mármores dos seus santuários e Imagens, nas suas pratas e nos seus ouros lavrados, o magno e solene sono austero das Religiões, tudo isso incutia na impressionabilidade doentia do idiota emoções esparsas e amorfas, que não eram propriamente nem ingenitamente oriundas das idéias, mas curiosos estados de ser, enigmáticos monólogos, fenômenos nebulosos, talvez recuados ao antropomorfismo das células, à noite caótica, primitiva, da sensibilidade humana. Mas, assim perambulando de altar em altar, de nicho em nicho, o triste idiota estacou diante daquela Santa loura, linda, o manto azul constelado d’estrelas, coroada de um diadema de cintilantes pedrarias, tendo na mão um lírio branco. Estacou diante dela como que impelido por íntimo sobressalto, batido dalguma recordação impulsiva que o tornava mais estranho que nunca. Levantou bem para ela os olhos em bugalhos de delírio, de aflição sem remédio e, caindo de joelhos, prosternado, os braços invocativamente abertos, num espasmo terrível, rolou para ali todo o seu tormento medonho, toda a sua dor amordaçada, toda a sua miséria secreta, numa linguagem obtusa e confusa de demência. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 577 A alma do Idiota alvorava numa aurora negra de lágrimas, abria numa grande flor glacial e lacerante de soluços. Eram soluços e grunhidos, verdadeiramente grunhidos animais e soluços humanos, que abalariam as pedras, se as pedras não fossem mortas, que abalariam os Santos, se os Santos não fossem pedra. Caído de bruços, babando, como mordido por serpentes, na impotência da Dor que encarcera e despedaça a alma, o Idiota tinha viva, de pé, em flor e em beleza diante da sua angústia, como um tentador espectro divino, a florescente aparição que ele vira ali mesmo no templo. Passava-lhe agora pela mente todo esse clarão mortificante de gozo, todo esse tantalismo de mulher que sorri uma vez, brilha e para sempre desaparece. E ele nunca mais a veria, nunca mais, nunca mais, nunca mais! Ah! que inferno nunca sonhado tinha posto ante os seus olhos inúteis e desprezados essa luz consoladora, essa luz que ele jamais sentira, tão bela e tão funesta, aparecendo na serenidade dessa manhã dentro do templo iluminado? Que força desconhecida arrancara dos limbos do mistério aquela formosura ondulante como um verme, perigosa como um veneno, para deixá-lo prostrado assim, assim de bruços rojado, impotente e impenitente, babando a baba do ciúme, talvez a baba verde da Inveja?! Sim! ciúme desesperado por vê-la de outro, por senti-la nos braços de outro, exalando a frescura matinal da sua mocidade inteira nos braços de outro, abrindo e desfolhando todas as rosas e magnólias olentes e virgens dos seus encantos para o gozo de outro! Sim! Ciúme feroz e inveja ainda mais feroz por ver-se idiota, inerme e inútil para florescer, para brilhar ao lado de outro homem são e forte que a desejasse, que a possuísse! Ah! ele tinha uma inveja sinistra de toda essa humanidade que passava equilibrada, direita, sempre 578 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 com os mesmos e retos raciocínios, pela sua presença. Em cada homem ele via um rival desapiedado, indiferente, que lhe roubaria, não somente essa aparição alvoral, mas todas as outras femininas belezas que serpenteiam no mundo. Só o silêncio, só a solidão o consolava e por isso ali estava sob a vastidão daquelas abóbadas, mísero, de rastros, suplicando, como o mais estranho e ignóbil dos mendigos, a esmola santa da morte. Só na morte ele podia libertar-se desta inveja que o acorrentava, que lhe porejava do sangue, que lhe vertia um fel verde à boca – inveja verde, nauseabundo réptil verde enroscando-se-lhe nas carnes, medonho réptil verde saindo- lhe dos olhos, asqueroso réptil verde saindo-lhe das narinas, todo o seu miserável corpo invadido por hediondos réptis verdes. E como se essa sugestão doentia e diabólica da inveja lhe tomasse logo todo o cérebro e pasmosamente lhe gerasse absurdas visões na retina, jungido à mais perseguidora e atroz obsessão, o idiota, como um monstruoso réptil verde, sentiu-se subdividido, multiplicado infinitamente em milhões e bilhões de réptis verdes de todos os aspectos e formas, longos, lentos, elásticos, subindo pelos altares, descendo pelos paramentos, viscando as vestes dos Santos, se arrastando pelas asas, pelos frisos das colunatas, pelo arco cruzeiro, tatuando de verde a pratadas lâmpadas e subindo, sempre triunfais, avassaladoras, sufocantes, numa peste verde, numa alucinação verde, até o altar-mor, sobre o cibório de ouro, sobre o cálix de ouro, sobre a cruz do Cristo de ouro, esmeraldeando maravilhosamente com bizarrismos bizantinos de formas as requintadas cinzeluras refulgentes, de níveas claridades puras e brumosas de Via-Láctea, da velada e suntuosa Capela de reverências, tabernaculal, do Santíssimo Sacramento. Era uma fantástica vegetação de réptis que tomara todo o templo, ondas e ondas de réptis que se acumulavam OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 579 convulsamente, num surdo murmurinhar e sibilos de esmeraldas ondulantes. Uns, de tamanho desconforme, verdadeiras serpentes formidáveis que com as cabeças e as caudas agitadas galgavam as grandes colunas do coro, os suportes dos púlpitos, enlaçando-se-lhes no bojo, em convulsões delirantes, como se os quisessem pôr por terra. Outros, de conformações exóticas, esguios, fugidios, lânguidos, esgueirando-se como crimes, encaracolavam-se nos colos brancos das Santas à maneira de colares. Por toda a parte a invasão sinistra dos réptis verdes da inveja lesmando tudo. Por toda a parte esse pesadelo verde, brilhos, reflexos, refrações esverdeadas por toda a parte, como se aquela vastidão sagrada se abrisse toda numa floresta de lúgubres assombros. Batido, esporeado por um terror supremo, agrilhoado por todos esses réptis verdes, com os olhos transparentes do verde deslumbrados de pânico, no meio de todo aquele mar verde que o afogava, perdida quase a noção de que era humano, o idiota foi se arrastando, se arrastando até ao centro da igreja, como um sapo no fundo de um subterrâneo, agora ironicamente constelado em cheio pelo largo clarão matinal que osculava os vitrais ao alto. A sua figura vil, miseranda, parecia torcida, crispada toda em garras, se arrastando sempre, sempre, a monstruosa cabeça bamboleando – crânio de mentecapto girando dentro do templo como dentro de outro misterioso crânio. Tentou gritar. Mas os gritos, nesse horror de túmulo, morriam-lhe na garganta, sufocavam-no, como se grossas cordas o enforcassem. Apenas podia se arrastar assim, mudo, sem um só gemido! – massa inútil rojada por terra, dor humana mordendo-se, devorando-se, despedaçando-se... E ele se arrastava, se arrastava, em direção às portas, para sair, para correr, fugindo aterrorizado 580 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 daquela colossal avalanche de réptis verdes, que por toda a parte, como ele, se arrastava. Queria fugir como um homem alucinado que foge absurdamente da sua sombra num louco desespero; na agonia tremenda de um cego de nascença que se sentisse de repente preso pelas chamas de um incêndio, sozinho a tatear, a tatear num aposento fechado, aflito, gemente, terrível, sinistramente doloroso, a tatear, a tatear, sozinho, rasgando as roupas, rasgando as carnes, sem nunca conseguir libertar-se das chamas que cada vez mais o fossem devorando verminalmente. E o Idiota se arrastava, se arrastava, se arrastava... Até que, exausto, banhado em suor, batendo os dentes de frio e de febre, grunhindo de horror, numa indefinível sensação, aos arrancos, aos solavancos, chegou afinal à grande e chapeada porta central do templo, que logo, como por encanto, abriu-se às amplas cintilações do sol do meio-dia – alta e larga – de par em par... E só então foi que ele, acordando entre soluços, justamente e coincidentemente num meio-dia de sol, se apercebeu, perplexo, que tinha estado a sonhar, preso às inconseqüências reveladoras do seu Sonho de Idiota, que mesmo assim acordado, continuaria eternamente e amargamente a sonhar... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 581 A SOMBRA Ó Dor das Origens milenárias! Divina Consagração das Lágrimas! Seio profundo e misterioso das Apoteoses negras do Gemido e do Soluço! Dor das supremas Dores! Dor da imponderável Saudade! Que tu sejas neste momento comigo e me unjas com a tua espiritualizante graça... Sim! Devia ser em sonhos, num fundo de fosforescências e neblinas, que eu vi a tua sombra, o teu vulto – certo a tua carne, o teu corpo, palpitando vida, caminhando para mim, espectral e ao mesmo tempo vivo, dessa vida que respira, que fala, que olha, que olfata, que gesticula e ondula... Sim! foi em sonhos! Não sei que estado eu experimentava em certa hora, que estado de nervos, de sensibilidade, de vibração; não sei que música dolente de melancolia, nem que amargurantes tristezas patéticas de saudade me invadiam em certa hora, que distintamente, nitidamente vi! – vi e senti que estava perto de mim aquela Sombra santa e amada que eu perdera um dia no Letes do esquecimento que a Morte cava... Não era alucinação nem pesadelo – não era alucinação: eu estava sentindo diante de mim, como se surgisse do caos da Existência, aquela Sombra muda, mas viva, que caminhava para mim resolutamente, na afirmação vital do Ser. Percorria-me um frio álgido o corpo todo, um frio de pavor, pavor de vê-la, medo de olhá-la assim, naquela imprevista ressurreição. Ah! eu a amara muito, muito, com a eloqüência profunda de um sentimento que não era talvez bem amor, mas sagração, adoração, fé religiosa, veneração e compaixão. Um sentimento que subia como incensos da minh’alma, que se exalavam ante a sua Imagem, como 582 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 num altar sagrado. Sentimento épico, quase clássico, como por mármores augustos, por antigos templos cristãos. Um sentimento de carinhosa piedade patriarca! pelos seus sacrifícios, pela sua abnegação, pelos seus afetos extremos e dedicações sem limites, pela sua lhaneza estóica, pela sua caridosa ingenuidade humana, pela sua celeste ternura e misericórdia. Mas a Sombra avultava, crescia, avultava mais, destacava da treva donde surgira, da treva do Além, das geladas névoas do sepulcral Silêncio... E das névoas, das névoas sepulcrais dos crepúsculos lôbregos, das tenebrosas argilas, vinha ela, numa transfiguração, surgindo viva: – vivas as carnes palpitantes, vivos os olhos amargurados, vivas as mãos batalhadoras, vivo e vibrante o coração majestoso de infinita bondade. Eu a vira, a princípio em linhas indecisas, vagas, o contorno apagado, esboçado apenas num meio-tom de luz esmaecida como numa pálida claridade de lua d’alta noite, quando já os aspectos fulgurantes vão esmaiando, esvaindo lentos e perdendo a graça vaporosa e velada com as primeiras cores de rosa, os primeiros diluimentos e tenuidades da madrugada... Depois, todo aquele fantasma tomava miraculosa feição singular, pouco a pouco; compunha-se todo aquele sistema de nervos, ampliavam-se aquelas formas, ganhavam as essenciais correções, a estrutura de um corpo vitalizado que age, que move-se, que sente. E a Sombra buscava-me, caminhava para mim resolutamente. Como círculos concêntricos de uma luz palejante, iam-se formando em torno dela auréolas, etéreos resplendores, nimbos diáfanos, refulgências de meteoros, vaga tonalidade violácea e amarelada, cintilas de ardentia, como que as dormentes refrações ouro-açoazuladas de um sol de eclipse... Parecia-me que ela vinha transfiguradamente irrompendo por entre discos, discos, discos e discos OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 583 luminosos que se multiplicavam, que se acumulavam, num movimento de rodomoinho de sílfides aéreas vaporosamente circulando, girando em volta de lácteo clarão de leve luz nevoenta e gelada de uma lua polar... Tais cambiantes, tais miríades de cintilações iriadas afetavam-me de tal modo a retina absorta, que nova e original comoção, nova sensibilidade a tocava, como de um ritmo fino... Misticismos de êxtases, delicadezas de sensação, espasmos de ascetas enclausurados, de mártires lívidos nos cilícios da penitência, serenos na suprema Dor – circunvolviam-me de uma ideal beatitude de atenção resignada, para vê-la, para olhá-la, para reparar, trêmulo, no seu aspecto de Passado, de Esquecimento, de Túmulo, percorrendo com magoada ternura nos olhos todas as meigas curvas de sua face que eu beijara, como se o meu olhar deslumbrado tivesse tato, a apalpasse; evocando com lancinante saudade toda a angústia da sua velha e fatigada cabeça que eu tanto amara. Doía-me aquela Aparição, afligia-me aquele Ressurgimento, tão vivo na minha presença, tão tangível ali, tão flagrantemente, que eu não sei de abnegações nem de resignações humanas, só celestes, só divinas! capazes de sofrer, sem estranha convulsão d’espanto, essa realidade móvel que vinha do Desconhecido... E a Sombra buscava-me, caminhava para mim resolutamente! Uma onda forte de emoções me inebriava, me atordoava como uma dor física, fazia-me pairar num círculo dantesco de fenômenos, paralisando-me a voz, o gesto, o andar, mumificando-me à Terra. Só, dentro do meu cérebro, o pensamento girava, funcionava como em brumas muito altas, num revolvimento de germens recônditos; formavam-se mudamente idéias que não achavam a expressão eloqüente da linguagem, tão confusas e atropeladas de terror sagrado vinham elas... 584 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Mas um mistério maior desolava-me de morte, torturava-me, dava-me o suplício gelado de achar-me vivo numa sepultura: – o mistério da semelhança! Ela parecer-se comigo, ter os mesmos traços, certos estremecimentos da face, o mesmo olhar, o mesmo espesso lábio sensual, a mesma expressão nostálgica de beduíno no semblante, a mesma fugitiva melancolia – tudo, tudo isso me flagelava, eram tormentos insanos que eu sofria calado, parecendo que ela trazia em si, em impressionismos abstratos, desfeita, desaparecida, muita sensação que já fora minha, muita esperança, metade da minh’alma já morta, partículas originais de afeto, de cuidados, segredos e curiosidades íntimas, perdões e clemências que tinham ido embora para sempre com ela. Uma infinidade de sentimentos obscuros, secretos, eu via passar, ondulando, através daquela Sombra, como através de um espelho fantástico que ali estivesse milagrosamente refletindo paixões... Eu existia naquela semelhança perseguidora, naquela semelhança que parecia reproduzir imensa aluvião de fenômenos da alma que já dormiam eternamente no meu ser... Eram períodos gradativos e curiosos, a evolução lenta de organismo novo que procura adaptar-se à Vida, a intuição eloqüente dos Destinos, formando grandes e enevoadas colunas de mistério, como as hebraicas colunas de fogo... Então, eu via-me ali quase que vivendo em parte, tendo bem pouco do que tinha quando ela, de fato, vivia – via-me em parte, porque se ela na existência trouxera o meu sangue e esse sangue gelara, deixara de circular nas suas veias, certo era que bem pouco desse sangue eu trazia também agora a circular nas minhas. E sentia diante de tão flagelante semelhança uma dualidade de natureza operando em mim mesmo: – a que partia, fremente, do meu ser, que existia no meu OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 585 eu e a que partia, estranha, daquela Sombra móvel... E no espírito crescia-me a obsessão de que ambas essas naturezas, pertencendo-me, se desequilibravam no entanto no plano geral de existirem unas e indivisíveis. Uma era a natureza real, a propriamente minha; outra era a natureza da Sombra, estranha. E eu debatia-me, debatia-me com ânsia para libertar-me da segunda e envolver-me todo, isolar-me, concentrar-me e subjetivarme, profunda, fundamentalmente na primeira... E eu lutava, bracejava doloridamente, bracejava, tateando numa dúvida cruciante, para sair fora daquele cárcere de angústia, para desprender-me daquela tumular Visão, para fugir daquele mirrado esqueleto a que eu estava agrilhetado e cujo impressionismo de pavor me dilacerava e queimava as carnes, me devorava como uma chaga, rasgava-me a punhaladas o coração, hipertrofiava-me, despedaçava-me os nervos... E eu abria muito os olhos, assombrado, num espanto mudo... E um silêncio negro e gelado e espessas névoas de sono pesavam no ambiente... E nos olhos passavam-me deslumbramentos cegantes, visões pulverulentas de além-sepulcro... E eu abria cada vez mais os olhos, assombrado, num espanto mudo... E eu abria cada vez mais os olhos, cada vez mais, cada vez mais... E os olhos, espasmados de terror, aflitos, perseguidos pela Sombra, parecia-me senti-los crescer, dilatarem-se, grandemente, longamente, rasgadamente abertos e fascinados pelos magnetismos letais da Sombra... Invadia-me um desejo angustioso, soluçante, um delírio mortal de gritar, de gritar alto, atroadoramente, de encher todo aquele ambiente com os meus gritos desesperados; mas, apenas meus lábios se moviam para gritar, um soluço estrangulador guilhotinava-me a voz, desarticulava-me a língua, e apenas rouco, surdo, absurdo som ininteligível, como o grunhido animal de 586 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 um mudo, rolava, arrastava, rangia áspera, pedregosamente na garganta o seu torvo tartamudismo. Parecia-me que se eu gritasse, se abalasse a atmosfera com grandes e longos brados, talvez que o Fantasma, assim arrebatado, assim repeli do, assim violentamente sacudido pelos gritos, se aterrorizasse e desaparecesse... Parecia-me que esses gritos de terror sobrepujariam, venceriam afinal o alucinante fantasma, que era o próprio terror... Mas ao mesmo tempo, temia que esses gritos, como um vento sinistro que levanta, torna mais intensas as chamas de um incêndio, despertassem, acordassem de repente com impetuosidade, com estranha veemência, a vida insana, estupenda, que eu imaginava estar nebulosamente dormindo lá dentro, lá bem no fundo misterioso desse Fantasma. E a Sombra buscava-me, caminhava para mim resolutamente! Por um fenômeno singular de visão, que os nervos superestesiavam, eu a via, ora perto, ora longe, mais longe, muito longe, quase já sumida, já apagada no fundo das cinzas da distância, vindo e se afastando, se afastando e vindo para mim... Mas que germens ocultos fecundaram de novo aquela vida, que seivas inauditas a geraram de novo, que filtros mágicos, maravilhosos, a ressuscitaram, que ela me aparece de tal forma agora, muda, muda, caminhando serenamente para mim, solene e augusta na divinal atitude, sublime, egrégia, como se fosse soberanamente julgar as almas no supremo Juízo Final! E como eu a reconhecia então – ela – a mesma que a Imaginação sonhara – Mãe! Mãe! Mãe! – três vezes bendita entre as mulheres, três vezes crucificada de Agonia! E toda a longínqua e azulada colina de um passado foi se desnevoando, desnevoando, aparecendo aos meus OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 587 olhos, bíblica, povoada dos brancos e mansos rebanhos da paz, da alegria, da suavidade infantil, da adolescência ingênua, guardados pelo amor daquela Sombra – cândido pastor, simples e tranqüilo, vestido de linho alvo, guiado pela estrela simbólica, sob a demência dos Céus... E por que me viera assim surpreender essa heróica e transcendente Aparição? O que vinha ela saber de mim? O que quereria nesse extremo momento? O que buscava? A minh’alma, o meu pecado, o meu crime em viver ainda e abandoná-la no Além, só e fria, enterrada tantos torvos palmos, tão profundamente enterrada na terra lutulenta e enregelada? O que buscava ela? O que procurava em mim assim surgindo, andando sonâmbula, vagando sem rumo e rumor como sobre onda, nuvem, espuma? Mas por que me aparecia ela agora? Seria para exprobrar-me o passado? Seria, por acaso, porque não pude envolver na vida em mais delicados cuidados e recônditas carícias as suas longas dores angustiadas?! Ah! porém ela agora está morta, ela agora está morta! Se estivesse viva sentiria então que devotamentos, que consagrações, que inabaláveis, que terríveis dedicações a cercariam, defendendo-a, como couraças e lanças gloriosas de um soberbo e insólito heroísmo; como eu a estremeceria de um amor infinito, como eu lhe votaria afetos supremos, entranhados, profundos! Que segredos tremendos me vinham agora fazer essa Sombra viva, que eu sentia, que eu via, olhandome muito, em silêncio, mergulhando os seus olhos cavados nos meus olhos, estendendo – ah! horrível! – os braços longos, para mim, como para abraçar-me num abraço, por certo, gélido, num abraço, por certo, esquelético e terrível! Oh! como era lancinante, que aflição de afogado ante essa Visão que me chumbava os pés, que me punha um peso imenso de pavor na língua, um suor letal na fronte e como que lúgubres cadeias de ferro nos pulsos! 588 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Como era dolorosamente, lugubremente medonho o seu caminhar tateante, oscilante, mas que seguia resoluto para mim, perseguindo-me, atraindo-me como um demônio, fascinando-me como um filtro pecaminoso, como um vício secreto, como um mal doentio, como uma serpente magnética, como uma nevrose fatal! E a Sombra caminhava, caminhava para mim resolutamente, resolutamente, agora com o passo mais largo, alongando mais para mim o vulto hediondo... Caminhava, caminhava... E eu, pregado, estatelado ao chão, jazia inerte, hirto, petrificado, sem ação para libertar-me daquele horror... E ela perseguia-me, perseguia-me, inexorável Remorso! com o passo cada vez mais largo, alongando cada vez mais para mim o vulto hediondo, quase já ó Trevas eternas! – tocando as minhas vestes, quase, quase... Quando, eu, quebrando, partindo, despedaçando todos os ferros de algemas das tormentosas masmorras do meu Sonho, num grande grito, afinal, portanto e tão longo tempo angustiadamente sufocado, acordei de repente, esvaindo-se então a Sombra, de um sopro, retomando as letíficas, glaciais estradas do Além, de onde por instantes surgira... Apenas o meu cérebro, atordoado ainda, adormentado, abatido, ficara, como dentre restos de fumo denso, de vapores espessos do fogo de sanguinolenta batalha, turbado pela pesada bruma letárgica do pesadelo que o invadira, subjetivamente chamando este monólogo amargo: – Ah! Sim! Sim! Que estranho pavor! Que estranho pavor ter-te bem junto a mim, num contacto álgido – Tu! – que eu na Grande Hora da Vida amei já, lá para o passado dos anos! Tu, a quem eu consagrei Evangelhos de Adoração, altas venerações, sentimentos excelsos, solenes como elevadas torres de cristal tocando sideralmente as Estrelas... Tu! que produziste a dolente, a magoada Obra de sangue da minha existência e a quem eu dediquei alma, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 589 afetos, ternuras, suavidades do coração, sinfonias beethovínicas do Amor, Tu! – misericordiosa! – Tu! – clemente para mim como nem os Céus o são!, Tu! – dáme o teu perdão, o teu perdão, porque eu não poderia mais receber os teus abraços, os teus beijos, o teu olhar de sepulcro, teria de repelir-te e – ó! desespero dos Esquecimentos eternos! – de repudiar até a tua Sombra, tão grande e tão fundo seria em mim o terror de sentirte perto! Não que eu desdenhasse da tua Entidade amargurada, aflitiva, tristíssima, dolorosíssima; da tua bondade suprema, compassiva e comovente; não que eu crivasse de pungentes ironias a tua obscura alma presa, arrastada pelos ergástulos das lágrimas, abalada tragicamente por soluços... Mas tu me aparecerias tão mudada, tão transfigurada por fluidos, trazendo tão prodigiosos eflúvios de outros mundos, tantos raios doutras esferas, tantas fantásticas expressões e singularidades absolutas da treva de atros, tetros báratros, que eu, frágil, que eu, matéria humana, que eu, tecido tênue de nervos, me aterrorizaria e sucumbiria de pasmo... No entanto experimento ainda uma esquisita sensação de dor de lembrança, de saudade, se te evoco, se recordo os bens assinalados que me fizeste, a Criatura ideal que foste, tão meiga de bondade, que toda a carícia da terra é hoje para mim desprezível e vã diante do mar soberano da tua espiritual Afeição. E, é só espiritualmente, só pela eterificação do Pensamento, que sinto que ardes ainda, em chama perpétua, nas majestosas lâmpadas evocativas dos sacrossantos ocasos das Recordações. Mas, se por um absurdo da Natureza me aparecesses flagrantemente, tangivelmente viva, não mais esqueleto, não mais cadáver inteiriçado – seria tamanho o abalo, a convulsão do meu ser, tão intensos delírios e vertigens, tantas ondas de estremecimento 590 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 me agitariam, tão latentes se riam as transfigurações, as metamorfoses dos meus sentidos, repudiando-te aterrorizado nesse momento – que até tu mesma, que foste Mãe piedosa, Mãe clemente, Mãe misericordiosa, desconhecerias teu filho e talvez então o amaldiçoasses, blasfemando; talvez lhe arremessasses à face Anátemas como pedras, desoladamente chorando e soluçando para sempre por tanto e tão doloroso desamparo e esquecimento eterno!... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 591 NIRVANISMOS Há loucuras que, como as noites polares, se transformam em verdadeiras auroras boreais reveladoras da mais perfeita lucidez e são a ponte mágica de cristal e azul sobre a qual emigramos do gólfão infernal da Terra para as alvoradas de ouro de um Ideal. Madrugada verde, madrugada de esmeraldas liquefeitas que cintilavam na folhagem tenra, foi essa em que Araldo se fez de marcha, florestas densas a dentro, através da frescura e da virgindade lirial da luz que ondulava... Já todo o extremo limite do mar, no horizonte longe, acendia, rebrilhava, num polimento de cristal sonoro e a última estrela tardia, terna e doce, vagava, peregrinalmente vagava na Boêmia celeste, extinta já no esplendor verde da madrugada subindo, a intensidade viva da sua chama branca das cândidas vigílias esponsalícias dos astros. Pairava no ar um anseio voluptuoso de despertar, um espreguiçamento, de braços lânguidos, uma revelação genésica, o nebuloso sentimento da renascença da terra, sempre casta e fecundadora, sonhando e gerando as perpetuidades da Vida. A hora da transição, da ansiedade do claro-escuro surdinava no ar, bandolinava no céu as derradeiras e saudosas serenatas... Um calafrio luminoso alvoroçava tudo. Começavam delicadamente, harmoniosamente a vibrar leves baladas de auras que vinham picadas do sargaçoso mar salgado, dos bafejos aromados das plantas e das resinas. Pelo horizonte subia o êxtase claro da luz difundida aos poucos e gorjeios e cânticos e rumores e alacridades e murmúrios de águas que acordavam cantando, e alaridos e zumbir de insetos, e estrépitos e palpitações, 592 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 e vozes estranhas e vôos e cicios e ecos e clamores longínquos, e frêmitos e beijos e risos e canções e formas confusas, e vertigens e movimentos, tudo acordava em ondas, burburinhantemente, turbilhonantemente. Clareava, clareava; e a claridade meiga, suave, que aveludava tudo, parecia cheirar a magnólias desabrochadas ao luar. Através das florestas, por onde Araldo errava foragido, a alma jungida aos remorsos, fugindo à condenação dos homens, levantavam-se, tremendas e tumultuosas, grandes árvores seculares, sombras e espectros verdes ramalhando as largas copas agitadas de sonhos. Eram florestas imensas, desconhecidas e imensas, por onde nunca o olhar humano vagara, inacessíveis a outros seres, mas onde Araldo sonhou, ansioso, achar de repente um abrigo eterno, profundo, que ninguém poderia devassar jamais! E tinham suntuosidades e orquestrações de órgãos monstruosos de catedrais festivas, gemendo e murmurando, plangendo, suspirando graves litanias, cânticos aclamatórios de grande unção coral magnificente, suprema. Troncos senis e formidandos, como Prometeus petrificados, expunham as suas corpulências primitivas, lembrando aspirações antigas, velhos desejos fatigados que ali houvessem para sempre tomado a compostura indiferente das múmias. Quem teria guiado Araldo por esses ínvios caminhos? Quem lhe teria, Desespero, Tédio ou Saudade, ensinado o abrigo, a solidão, o obscuro repouso dessas florestas invioladas?! Ele queria fugir à Vida, fugir, fugir sempre, esconder-se da face do mundo, habitar numa furna como selvagem, viver nas florestas como os lobos, errar nos desertos como os párias. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 593 Fugir para longe dos execrandos contactos dos homens, da medonha estagnação dos seus sentimentos, da descarnada nudez dos seus egoísmos ferozes. Errar sozinho, sozinho, sombrio visionário peregrino de suprema Aspiração nova, vulto messiânico, talvez um desses graves missionários cujas vidas sacrificadas por uma idéia rasgam-se nos espinhos dos ermos, despedaçam-se nas hostilidades ambientes, martirizam-se crucificadas nas monstruosas cruzes negras dos calvários tantálicos do Tédio... Ah! a solidão, o deserto, o deserto! Que belo e que majestoso o deserto, frio e só, só com a lua, só com o sol, só com as estrelas, caminhando sobre as infinitas areias desoladoras, sentindo chorar no peito, como negra água presa e triste, melancolicamente cismadora, a que despedaçaram as asas sem piedade, o grande sentimento de uma esperança para sempre extinta. Esconder, esconder a chaga da Vida para bem longe, fugir para além deste mundo, para o imponderável Ideal, errar nos sonambulismos da treva e nos sonambulismos da luz – sombra informe batida das rebeliões da terra, arrastada pelas tebaidas de uma enorme saudade e enchendo dela todo o tempo, todo o vácuo desse existir peregrino, desse existir lacerado de impaciências, de febres, de ansiedades, de desejos embrionários cuja primeira flor vermelha e de ouro outras mãos sacrilegamente colheram. Invadido pela força poderosa de uma paixão aterradora, talvez de uma sensibilidade extra-humana, Araldo queria esconder em seios inteiramente intactos de florestas desconhecidas, em regiões nunca vistas, o horror da sua culpa em muito ter amado e em muito ter iludido o coração e os olhos. Verdadeiramente açoitado pela peste, pela lepra sinistra do ódio e do desprezo humano, como um animal acuado, ele espiritualizara mais e mais a sua natureza, requintara o seu sentir, 594 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 quintessenciara os seus nervos e, no sensibilizante misticismo de um Santo, mergulhou no mistério, pairou no maravilhoso, vagueou no Sonho, eterificando-se, diluindo-se em lágrimas, em gemidos abafados, quase perdendo todas as qualidades ingênitas que o prendiam fatalmente à Matéria. E Araldo é agora o Espectro, a Sombra, o Fantasma de si mesmo, que vê rodar, eternamente rodar diante dos olhos, num espasmo de alucinado, o tropel de Visões da alma gemente, das suas desesperadas Saudades. Vê rodar, eternamente rodar os inquisidores círculos múltiplos, trágicos, onde as suas excelsas Esperanças lentamente, monotonamente nasceram e morreram. Já, clara e quente nos horizontes, a luz subira de todo, intensa, larga – mar de ouro, mar de ouro e pedrarias prodigiosas, auréolas de íris, sangue, azul e leite derramado abundantemente, vinhos preciosos de astros escorrendo das domas celestes. E Araldo, na sua peregrinação constante pelas florestas, caminhava... Lívido, a cabeça num bamboleio de fadiga, com os cabelos em patético desalinho, como a cabeça de um enforcado, os olhos transpassados de um tormento mudo, a boca seca, áspera, retorcida por um momo lúgubre, o seu perfil dolorosamente esquecido tinha uma doçura triste, uma carícia dolente, uma taciturnidade tão funda, uma angústia tão cruel, uma aflição tão desamparada, que parecia álgido cadáver que procurava para único descanso o túmulo que até mesmo na morte lhe era vedado; ou então um louco que por alguma sugestão hipnótica, por algum pressentimento estranho que os altos Signos assinalam, corresse a ver, despenhado e incerto, os funerais de sua mãe... E Araldo, nessa peregrinação pelas florestas, caminhava, caminhava. O sol leonino e guerreiro fazia fuzilar d’alto as suas couraças d’aço, de cristal e prata e desses OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 595 coruscantes troféus d’armas facetadas viva marchetaria de raios e de centelhas cravejava as florestas por onde Araldo seguia vestido do manto miraculoso das pompas consteladas. Ah! que transitório, que efêmero nababo ia ele, e que mendigo, que miserando eterno! Mas, que florestas eram essas que Araldo rompia sempre e a quanto tempo ele as rompia? Moço, forte, a cabeça ainda chamejante das Quimeras, todos, com pasmo, o viram partir um dia, desaparecer bruscamente de todos, ocultar-se num esquisito Segredo de viver, cujos fabulosos perigos e originais deslumbramentos ninguém perscrutou jamais! * * * * * * * * * * Ele era da eterna Raça maldita dos gloriosos Tristes, dos gloriosos Grandes e vinha de um fundo muito carregado de Meditações e de Cismas, de sede de Sonho, como do centro misterioso e flamejante de um Sistema planetário. A terra parecera-lhe sempre um formidável buraco onde os homens se arrastavam com as cabeças vazias, mas com os ventres cheios. A mulher parecera-lhe sempre a perfídia, a traição mordente, verminal de lago, com negras asas sutis de tentação fatal e com carícias de fel. Assim, sem objetivo entre os homens, sem laços terrestres e sem amor, como que ia deixando finar-se, apodrecer a matéria, para só ressurgir e vitalizar a flor melindrosa e virgem das quintessências da Espiritualidade. Lembrava um ser que quisesse absurdamente transpor as barreiras inevitáveis da Vida sem estar sob as diretas influências e as correntes impulsionantes e fatais da matéria. 596 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Perdido, emaranhado por obscuras e confusas psicologias, de síntese em síntese, de generalização em generalização, operando-se em todas as suas faculdades criadoras, imaginativas, em todas as complexidades do seu ser mental, uma profunda, radical Transformação, como esses abaladores terremotos que agitam e convulsionam o frágil organismo do mundo, Araldo foi pouco a pouco rasgando horizontes desconhecidos, atingindo pólos raros e mágicos, subindo a Transcendentalismos invisíveis, imperceptíveis, desprendendo-se cada vez mais da velha Causa tangível, despindo-se do Real, fugindo do seu raio biológico de ação comum, entregando-se completamente ao Isolamento, à Abstração absoluta, até que afinal, um dia, em virtude das próprias Regiões quase extrahumanas a que ascendera, penetrou, transfigurado, em outras delirantes e nebulosas Regiões! * * * * * * * * * * Tempos passaram, muito anos, talvez um século e ei-lo que aí segue ainda, velho já, as pernas bambas, bambas, trôpego velhinho que o Silêncio e o Passado santificam e envolvem com o seus longos véus noturnos... Que florestas eram essas, com animais piores que os lobos, piores que os tigres, piores que as serpentes, piores que os homens? Não eram, de certo, em região nenhuma da terra, nem do céu, nem do inferno. Onde eram, então, essas florestas? Onde eram? Mas Araldo, na sua peregrinação constante, caminhava, caminhava, caminhava, como que arrebatado por um vento acre de Imaginação. O sol, que se tornara intenso, flamejava cada vez mais, ardia-lhe cruamente na face em chicotadas de fogo, fervia, chiava-lhe na pele, abria-lhe a pele em equimoses vermelhas, chagava-o com as suas tenazes em brasa e ele rasgava-o com os pés nos cardos bravos, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 597 ensangüentava nos tentáculos hostis das ramagens intrincadas, da multiplicidade maravilhosa de vegetações extravagantes, multiformes, confusas, de exuberâncias fenomenais de folhagens inauditas, dentre as apoteoses viridentes de todas aquelas seivas, das possanças de todos aqueles germens, das impolutas manifestações de todas aquelas vidas vegetativas, sentindo uivar, bramir, rugir feras terríveis que lhe parecia virem de dentro de si próprio, sempre caminhando, caminhando pelas florestas como um deus singular ou um índio magnetizador e feiticeiro que, sob a ação de filtros mágicos, anulasse todo o poder dos animais selvagens, que se abatiam tímidos ante o horror doloroso do seu Espectro peregrinante e como que sobre-humano. E as florestas se reproduziam infindavelmente, cheias de um pavor majestoso, de fenômenos que as fecundavam e circulavam por todas elas como estupendas criações feéricas. E ele rompia florestas, florestas, florestas, caminhando como um pesadelo, numa onda surda de ansiedades que não lhe arrancavam, no entanto, nem um grito, nem um ai agoniado, nem um soluço abafado – mas que o transfiguravam, que o tornavam lívido, mais lívido, muito lívido e as pernas mais bambas e os braços mais desolados e o olhar mais perdido, mais errante, mais perdido... E a hora desse dia era infinita, uma hora que não acabava mais, por um sol que abrasava cada vez mais, incendiava as florestas e parecia não findar nunca! Um dia cruel, interminável, de um sol duro e bruto, pregado impassível no firmamento, que parecia não ter jamais o oásis repousante de um ocaso. Um dia de hora acesa no espaço, como num relógio imutável. Um dia de século, um dia que ele sentia penetrar, abranger a eternidade, à proporção que ia envelhecendo mais, que lhe cresciam barbas mais longas, rugas mais imponderáveis, tremuras 598 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 mais senis, mais pavorosos arrepios, apesar da cáustica flamejação do sol. Envelhecia mais, gradualmente, com as árvores, com as florestas, que se cobriam também surpreendentemente de um nevoeiro branco como de cabeleiras de velhice... Envelhecia, envelhecia e as florestas envelheciam juntas com ele, numa fraternidade piedosa de acompanhá-lo na mesma suprema e insana desolação, na mesma alucinação da Vida. E ele caminhava, caminhava, tão velho como as Idades, no seu constante peregrinar.... Para que novo e intacto Inferno caminhava então ele assim?! Mas, de repente, eis que as florestas recuam, se apagam, vão desaparecendo aos poucos como por encanto; o assombroso esplendor verde das árvores some-se no longínquo horizonte, como névoas que se desfazem, começam, então, de repente, a surgir areais, areais de desertos inóspitos, areais infindáveis, areais que sucessivamente se reproduzem, longos, muito longos e alvejantes, lá, para além das distâncias que a retina não pode abranger nem descortinar... E Araldo começa de novo a mergulhar noutra ansiedade, a engolfar os pés nos fofos areais fugidios que como que recuam a cada passo que ele vai dando. E os areais se prolongam, numa intraduzível tristeza de vastidão, surdos e estéreis, com as suas ondas brancas de pó acumuladas solitariamente. Vencido pelo tempo, vilipendiado, Araldo vai mergulhando nas surdas areias torvas. Mas, a cada passo que ele dá para adiante, a onda de areia, fofa, frouxa, o arrasta mais para trás; cada investida que ele dá para a frente parece uma investida falsa, vã, inútil, porque os seus pés, pesados e adormentados pela marcha perpétua paralisam completamente quando em mais fofa, mole vaga de areia ansiosamente mergulham. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 599 Em certas zonas, em certas regiões, a vastidão plana dos areais se modifica, dá-se uma transmutação súbita; e elevações de colinas, cômoros altos, de protuberâncias piramidais de catafalcos ostentam-se ameaçadores diante do escarnecido pária, que galga por eles acima, vai subindo, subindo, lá enterrando inquietamente os pés nos lassos areais, descendo após às ampliações planas, galgando novamente os catafalcos de pó, subindo, descendo, descendo, subindo, às vezes abalado pela impressão de ir suspenso no ar, com as mãos, trêmulas e tísicas, lesmadas por um frio tumular de medo, tateando, oscilando no espaço como duas asas hirtas e a envelhecida e espectral cabeça martirizantemente nimbada pelo sol. E, à proporção que ele caminha mais para a frente, os horizontes se ampliam e afastam para longe como se obedecessem a um movimento gradual e curioso da elasticidade nos corpos... E Araldo segue, assombroso, sinistro, através da amplidão e da solidão dos areais mortos, como a Epopéia simbólica das sensações! Súbito uma legião de fantásticas aves colossais, formidáveis, de corpulência humana abateu-se sobre ele, precipitou-se, num vôo incisivo, como se acaso ali mesmo o fossem devorar inclementemente. Mas, talvez por tê-lo reconhecido, por senti-lo irmão naquelas agonias supremas, como eram também elas, aves simbolizantes do Sentimento e do Vago, da Piedade e do Consolo, deslizaram suavemente sobre Araldo em carícias de asas, em grasnos compassivos, quase gemidos, cobrindo-o, envolvendo-o com as suas plumagens errantes do Azul e da Treva, na infinita misericórdia das Esferas! E Araldo assim ficou por alguns momentos, subjugado por esse terror sagrado e ao mesmo tempo pacificante, de olhos fechados aos vultos negros e sepulcrais das aves, atordoado, sonâmbulo, dir-se-ia 600 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 gozando morbidamente, inconscientemente, o espanto dessas incognoscíveis e emplumadas Aparições. Depois, quando abriu lentamente os olhos, tinham desaparecido todas as aves, reentrado no Mistério, remergulhado no Vácuo, levando na fimbria das asas olvidadas e poderosas os últimos raios ouro-violáceos do crepúsculo que essas aves ignotas pareciam ter trazido nas imensas sombras das asas e que descera então afinal sobre aquele pasmoso e interminável dia tão duramente impassível como as pedras. As sombras, amplas, largas, pesadas, circunvolveram logo os sáfaros areais desertos. Por entre brumas espessas, vagorosa e taciturna, na lenta gênese da sua luz, apareceu a lua, vagamente lembrando a nebulosa de um Espírito... Uma claridade diluída, fina, frouxa, ia ungindo tudo... Ondas e ondas nervosas de brancuras lívidas se derramavam como resinas iluminantes; evaporações subiam, se exalavam como de ânforas ardentes, envolvendo a vastidão entre diáfanas auréolas fantasiosas. Certas tonalidades azuladas, roxas, sulfúreas, languesciam, quebravam-se... E aqueles aspectos deslumbradores, magos, dos desertos que se repetiam e que o luar martirizava de uma grande mágoa muda, pareciam os aspectos quietos, calados, lacerantemente, silenciosamente dolorosos, das paragens mortas do Esquecimento... E agora, no luar, outra original ansiedade se difundia – profunda, mais profunda do que nunca, para o Desventurado eterno. Harmonias violinadas e doloridas alanceavam-lhe os nervos; finas e sutilíssimas melodias afinadas pela mais intraduzível amargura fluíam dos raios do luar, das neblinas, dos Angelus do luar... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 601 E jamais, jamais Araldo parecera tanto um Espectro como agora, com o selo impenetrável das Desilusões augustas, os olhos, a boca, o peito e os pés já letárgica, sonolentamente tocados por fluidos gélidos e magnéticos de morte, como que revestido do sambenito para os Autos-de-fé, caminhando dentro do Sonho, do espasmo branco do luar soturno e cirial... E todos os sentidos de Araldo se requintavam, atilados na sonoridade acústica da alva claridade noturna; uma percuciência maior, mais intensa, os vibrava; ele sentia a acuidade penetrante de tal modo expressiva e flagrante como se o seu ser fosse parte esparsa, diluída no grande todo que a lua liriava, agindo com o agir dos inorgânicos, do alado, do evaporável, na mesma sensibilidade intangível da natureza circundante. Ele sentia difundir-se-lhe diante dos olhos esse indefinido perpetuar de visões e sensações, essas ondulações de mundos fascinadores e novos, o flutuante, o vaporoso estado principal de orbes, de esferas flamantes em condensação; sentia a sugestão original de gênesis que se revelam, e todo esse torpor, esse adormecido quebranto de corpos que se fecundam e geram, todo o caprichoso caos germinativo e alucinante que deve singularmente afetar, com o mais intenso e profundo nevropsiquismo, impressionar curiosamente a retina interior dos cegos no seu sonambulismo tátil. Fogos-Fátuos, prismas cambiantes, eclípticos, giravam-lhe, fosforeavam-lhe dormentemente diante dos olhos, no enebriamento entorpecedor do luar... Os ouvidos, a cada instante mais dúcteis, mais rítmicos, mais afinados, tinham a pouco e pouco mais aguda suscetibilidade. O terror do deserto, o sigilo amedrontador do luar, a amplidão, o vago, o incoercível da Noite, punha-lhe em todo o organismo essa excessiva vibração, essa extrema sensibilidade, essa extraordinária superestesia nervosa. 602 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Então, através dos finos cristais musicais do luar, com o ouvido de uma delicadeza quase mórbida de percepção, que atuava no seu sistema nervoso pela ansiedade flagelante, pelo excesso atordoador do sofrimento, pelo refinamento da angústia, parecia a Araldo escutar, vibrado longe na limpidez glacial da lua, o seu nome desventurado: Araldo! Araldo! Araldo! E essa voz compungida, num brado claro, como timbrada em aço, chamava alto: – Araldo! Araldo! Onde estás? Onde estás, Araldo?! E como que essa voz se reproduzia, se multiplicava, cada vez se aproximando mais dele – era um marulhar de vozes que estalavam, cantavam de todos os lados, subiam dos areais mortos, desciam dos infinitos céus, do esplendor fabuloso da lua, bradando: Araldo! Araldo! – vibração deslocada na cristalização luminosa; Araldo! Araldo!; osculando os areais desertos, Araldo! Araldo!; vozes castas, carinhosas, abençoadoras e ternas, aladas fantasticamente através do luar tão cheio de miragens, de ilusionismos, tão velado de sugestões e germens miraculosos. De toda a parte ele ouvia o mesmo clamor, chamando-o, procurando-o, buscando-o por toda a parte. E todo esse clamor formava como que um Requiem triste de impaciência, de inquietudes, de ansiedades, crescendo em mar atroante de vozes, sombriamente: Araldo! Araldo! Araldo! A sua velha e atormentada cabeça como que acordava então daquela peregrinante alucinação, agitada pelas saudades que essas erradias vozes lhe traziam, saudades que se transfiguraram outrora nas lendas do luar, saudades que foram para sempre se asilar nos estrelados santuários da Via-Láctea e que vagueavam por lá, sonhando, Virgens e Santas de regiões inacessíveis vestidas do linho imaculado tecido nas refulgências e lactescências dos astros, alanceadas por todas as grandes dores do Mundo, aureoladas de OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 603 cintilantes diademas feitos de todas as puras lágrimas transfundidas, serenas na graça langue dos seus corpos venusinos e com os seios intactos dos beijos tentadores sagradamente nus, aflorados da pubescência inicial. Agora, as vozes vinham-lhe em gradações de sonoridade – vozes graves, soturnizadas e proféticas de cantochão e vozes angélicas e frescas de corais gloriosos nas Dulias matutinas e floreadas de maio. Eram os seus bizarros instintos de Mocidade que acordavam gritando; os aviários de ouro das suas alegrias magoadamente irônicas, que gorjeavam; os seus desejos adormecidos, procurando-o, seduzindo-o, tentando-o; as vibrantes fanfarras, já emudecidas, dos seus vagos triunfos, atordoando-o de ecos dolentes; todo o seu gozo chamejante de outrora e as suas amarguras, desalentos, desesperanças, que o buscavam enternecidamente, com carinho, com profundos estremecimentos. A requintada magia, as deliqüescências do luar, davam velada, quase apagada reminiscência de um luar muito vago, muito remoto, muito triste, já visto, já sentido e já contemplado outrora nalgum país tumular d’além dos tempos, um luar velho, em diluências de giestas amarelas, de margaridas roxas, de pálidos monsenhores... Longo, largo disco azulado circundava prognosticamente agora a face imóvel da lua, que parecia penetrada de um letargo morno... Imensas, imensas e incomparáveis tristezas se difundiam no mistério daqueles desertos infinitos, cujo sentimento tremendo da desolação e do nada dilacerava. Toda a vastidão era como um solitário sarcófago monstruoso, onde – visão dos imprescritíveis Destinos – errasse, cego e só, esse ser desconhecido, única palpitação, única chama nervosa, única alma em ânsias, único suspiro vivo desprendido na mudez absoluta do mágico luar... 604 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Dentre o peso aflitivo da grande noite ritmada de magoadas surdina o céu, o impassível céu estava agora brumosamente velado de um fino nevoeiro d’estrelas, como uns olhos de lágrimas... E Araldo seguia, esquecido Arcanjo primitivo, levado pelas asas sulfúreas dos corcéis árdegos daquele fantástico sonambulismo, tatuado pelos gilvazes do luar; lá ia aquela tormenta viva de nervos, aquela alta psicose, nas transfigurações e nas auréolas da Dor; lá ia o nirvanismo do nirvanismo, o infinito do infinito... Súbito, porém, um vendaval terrível, o atordoante simoun convulsivo, epiléptico, abrasador e medonho, tão espesso, tão denso que encobriu totalmente o luar, bramiu em rodomoinhos, em vórtices tenebrosos, revolvendo, levantando em montanhas no espaço toda a torva poeira das areais. Um simoun estranho, mais horrível que nos desertos da Núbia, enovelado, torcicoloso, em grossas espirais de serpentes gigantescas, ciclópicas, com as caudas e as cabeças titânicas vertiginosamente alvoroçadas nos delírios sanguissedentos dos letíficos e monstruosos venenos. Nas cordas tempestuosas desse vento tremendo choravam por vezes sinfonias tannhäuserianas, loucuras reileareanas. Era como se turbilhões de demônios soltos, arrancando os cabelos com desespero, bufassem e ululassem. Um pavor trágico enchia o deserto, assombrava o deserto. Indefinidas angústias gemiam, e soluçavam no vento velhas queixas encantadas, velhas tristezas milenárias e fundas; primitivas línguas bárbaras violenta e confusamente se dilaceravam, se atropelavam; uivos felinos, ganidos, urros formidáveis de monstros cruzavam-se no ar... A brancura tenra, de anho branco, de cordeiro imaculado, da lua, aparecia, por vezes, de uma tonalidade sombria, apagada, de um eterismo mórbido de eclipse, dando um diluente sentimento de remotividade amarga, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 605 como se a lua assim desse modo vista trouxesse a impressão longínqua de ser ela própria a saudade da lua... No meio desse tétrico deserto nunca imaginado, desse luar inquisitorial, mortal, esse vento sinistro tinha uma ressonância subterrânea, funesta e cruel de clamor niilista, evocava as florescências e as quintessências doentias das sensibilidades do Budismo. E Araldo, cada vez mais Espectro em meio à Natureza toda, cada vez mais silhuético, mais perdido, mais apagado, mais vago no vácuo tremendo daquelas vastidões dolorosas, o vulto cada vez mais diminuído, sumindo-se, sumindo-se, sumindo-se na distância, na absorção da Imensidade circunvolvente, absurda e insensivelmente mergulhou nos turbilhões do vendaval terrível, foi arrebatado nas malhas atrozes e negras do simoun, envolto na lúgubre mortalha dos areais — louco, no auge da sua loucura, na crise formidável dos acordados e alucinados pesadelos que lhe abalavam assim, sempre, fundamente, o cérebro e eram, no entanto, através da grande alucinação da Vida, do abismo eterno da Vida, as únicas horas mais felizes e puras em que ele se enclausurava nos tabernáculos fechados da sua Paixão, os únicos instantes sagrados, os únicos momentos lúcidos para os sóis febricitantes, esquisitos e majestosos da sua fabulosa e sobre-humana Imaginação de louco... 606 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 EXTREMA CARÍCIA... O que ele, apenas, em realidade sentia naquela hora velada, além de uma esparsa e acerba saudade de tudo, era uma carícia infinita, verdadeiramente inexplicável, invadi-lo todo, difundir-se pelo seu ser como que em músicas e mornos tóxicos luminosos. Era uma dormência vaga, uma leve quebreira e letargia que o mergulhava num sono nebuloso, por entre irisações de brancura, num apaziguamento suave, como se ele estivesse acaso adormecido em cisternas de leite, ouvindo pássaros invisíveis cantar e sons sutilíssimos de harpas docemente, finamente fluindo... Era um luar espasmódico, em delíquios, que nervosamente o aureolava, que lhe caía em neblinas de lírios mádidos nas origens mais recônditas da alma. Era um óleo paradisíaco que manso e manso o acalmava, o anestesiava. Uma extrema carícia, que fazia dilataremse-lhe todas as fibras, percorrendo-lhe pelo organismo, extasiantemente, numa onda de fluidos maravilhosos, de longos langores, de demorados gozos, de supremas quintessências de sensibilidade. O sentido palatal, o sentido olfativo e o sentido visual, profundas manifestações da vida molecularizada, ele os sentia agora de uma aguda penetração superorgânica, prodigiosamente penetrados da extrema carícia, dos fenômenos desconhecidos que o invadiam. Um nimbo azul, ouro, azul, ouro, azul, eterizavao, como se ele, por abstratas formas estranhas, girasse nas constelações, nas curiosidades prismáticas, cambiantes dos eclipses... Parecia que áspides delicadas, de uma volúpia ultraceleste, enroscavam-se nele, enlaçavam-lhe o corpo todo, sugando-lhe com insaciável frenesi a força vital das vértebras e dando-lhe uma nova vida ainda não vivida pelos seus nervos, ainda não experimentada pelo seu sangue, ainda não sofrida pelos seus sentidos — vida de OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 607 outras origens, de outras sensações fugitivas, de outras complexidades múltiplas, de outras nevroses absurdas, de outras estesias cândidas, de outros sóis e de outras noites, de outras recordações e de outros esquecimentos... Uma vida sem os contactos epidérmicos, sem os quebrantos doentes da carne, sem os delírios da matéria – inteiramente livre de todos os grilhões do organismo humano. Vida desmolecularizada nas esferas, plainando no absoluto – luz de harmonia, harmonia de luz evaporada, diluída na grande luz astral, subindo camadas, camadas, mais camadas de luz, mais camadas de harmonia, quintessenciadamente subindo sempre, subindo, impessoalizando-se e sideralizandose através dos corpos em gestação, nas partículas mínimas, infinitesimais do Ser, no branco infinito do Sonho... E aquela extrema carícia, sempre a inocular-lhe nas veias um frio e divino vinho voluptuoso de graça langue, de graça mórbida, de graça sonâmbula. Sempre aquela carícia adormentadora miraculosamente adormentadora. Sempre aquele ópio fascinante que o sonolentava, pouco a pouco mais intenso, mais profundo... E névoas, névoas de uma deliciosa e pacificadora noite aveludada, sem uma só estrela! o iam envolvendo de forma capciosa e lenta. Aos poucos se extinguia, num final de crespúsculo, a vida chamejativa e original de seus olhos, a ânsia derradeira, o alento último de sua boca já apagada, já muda. No cérebro ia-se-lhe vagamente distendendo, tentacularizando a sensação secreta de um negro, sinistro silêncio... As reminiscências recuavam, sumiam-se nos indefiníveis mistérios... Mesmo, agora, finas mãos glaciais, esqueléticas e invisíveis, de longos e esguios dedos trêmulos, andavamlhe demoradamente a palpar o corpo todo, de baixo acima, tateando pelo seu rosto, devagar, pousando sobre os seus olhos, sobre as pálpebras, a cerrá-las, a fechá-las com 608 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 cuidado, devagar na delicadeza e na extrema carícia dos longos e esguios dedos trêmulos... Até que, na convulsa vibração das íntimas cordas sensibilizadas de todo o seu ser, ele sentiu então, compreendeu então irremediavelmente já, do mais horrível modo tenebroso e gelado, pela primeira e única vez! todos esses sutis e esquisitos efeitos letais daquela extrema carícia... OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA EMPAREDADO Ah! Noite! feiticeira Noite! ó Noite misericordiosa, coroada no trono das Constelações pela tiara de prata e diamantes do Luar, Tu, que ressuscitas dos sepulcros solenes do Passado tantas Esperanças, tantas Ilusões, tantas e tamanhas Saudades, ó Noite! Melancólica! Soturna! Voz triste, recordativamente triste, de tudo o que está morto, acabado, perdido nas correntes eternas dos abismos bramantes do Nada, ó Noite meditativa! fecunda-me, penetra-me dos fluidos magnéticos do grande Sonho das tuas Solidões panteístas e assinaladas, dá-me as tuas brumas paradisíacas, dá-me os teus cismares de Monja, dá-me as tuas asas reveladoras, dá-me as tuas auréolas tenebrosas, a eloqüência de ouro das tuas Estrelas, a profundidade misteriosa dos teus sugestionadores fantasmas, todos os surdos soluços que rugem e rasgam o majestoso Mediterrâneo dos teus evocativos e pacificadores Silêncios! * 609 610 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Uma tristeza fina e incoercível errava nos tons violáceos vivos daquele fim suntuoso de tarde aceso ainda nos vermelhos sanguíneos, cuja cor cantava-me nos olhos, quente, inflamada, na linha longe dos horizontes em largas faixas rutilantes. O fulvo e voluptuoso Rajá celeste derramara além os fugitivos esplendores da sua magnificência astral e rendilhara d’alto e de leve as nuvens da delicadeza arquitetural, decorativa, dos estilos manuelinos. Mas as ardentes formas da luz pouco a pouco quebravam-se, velavam-se e os tons violáceos vivos, destacados mais agora flagrantemente crepusculavam a tarde, que expirava anelante, num anseio indefinido, vago, dolorido, de inquieta aspiração e de inquieto sonho... E, descidas, afinal, as névoas, as sombras claustrais da noite, tímidas e vagarosas Estrelas começavam a desabrochar florescentemente, numa tonalidade peregrina e nebulosa de brancas e erradias fadas de Lendas... Era aquela, assim religiosa e enevoada, a hora eterna, a hora infinita da Esperança... Eu ficara a contemplar, como que sonambulizado, como o espírito indeciso e febricitante dos que esperam, a avalanche de impressões e de sentimentos que se acumulavam em mim à proporção que a noite chegava com o séquito radiante e real das fabulosas Estrelas. Recordações, desejos, sensações, alegrias, saudades, triunfos passavam-me na Imaginação como relâmpagos sagrados e cintilantes do esplendor litúrgico de pálios e viáticos, de casulas e dalmáticas fulgurantes, de tochas acesas e fumosas, de turíbulos cinzelados, numa procissão lenta, pomposa, em aparatos cerimoniais, de Corpus Christi, ao fundo longínquo de uma província sugestiva e serena, pitorescamente aureolada por mares cantantes. Vinha-me à flor melindrosa dos sentidos a melopéia, o ritmo fugidio de momentos, horas, instantes, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 611 tempos deixados para trás na arrebatada confusão do mundo. Certos lados curiosos, expressivos e tocantes do Sentimento, que a lembrança venera e santifica; lados virgens, de majestade significativa, parecia-me surgirem do suntuoso fundo estrelado daquela noite larga, da amplidão saudosa daqueles céus... Desdobrava-se o vasto silforama opulento de uma vida inteira, circulada de acidentes, de longos lances tempestuosos, de desolamentos, de palpitações ignoradas, como do rumor, das aclamações e dos fogos de cem cidades tenebrosas de tumulto e de pasmo... Era como que todo o branco idílio místico da adolescência, que de um tufo claro de nuvens, em Imagens e Visões do Desconhecido, caminhava para mim, leve, etéreo, através das imutáveis formas. Ou, então, massas cerradas, compactas de harmonias wagnerianas, que cresciam, cresciam, subiam em gritos, em convulsões, em alaridos nervosos, em estrépitos nervosos, em sonoridades nervosas, em dilaceramentos nervosos, em catadupas vertiginosas de vibrações, ecoando longe e alastrando tudo, por entre a delicada alma sutil dos ritmos religiosos, alados, procurando a serenidade dos Astros... As Estrelas, d’alto, claras, pareciam cautelosamente escutar e sentir, com os caprichos de relicários inviolados da sua luz, o desenvolvimento mudo, mas intenso, a abstrata função mental que estava naquela hora se operando dentro de mim, como um fenômeno de aurora boreal que se revelasse no cérebro, acordando chamas mortas, fazendo viver ilusões e cadáveres. Ah! aquela hora era bem a hora infinita da Esperança! De que subterrâneos viera eu já, de que torvos caminhos, trôpego de cansaço, as pernas bambaleantes, com a fadiga de um século, recalcando nos tremendos e majestosos Infernos do Orgulho o coração lacerado, 612 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 ouvindo sempre por toda a parte exclamarem as vãs e vagas bocas: Esperar! Esperar! Esperar! Por que estradas caminhei, monge hirto das desilusões, conhecendo os gelos e os fundamentos da Dor, dessa Dor estranha, formidável, terrível, que canta e chora Requiens nas árvores, nos mares, nos ventos, nas tempestades, só e taciturnamente ouvindo: Esperar! Esperar! Esperar! Por isso é que essa hora sugestiva era para mim então a hora da Esperança, que evocava tudo quanto eu sonhara e se desfizera e vagara e mergulhara no Vácuo... Tudo quanto eu mais eloqüentemente amara com o delírio e a fé suprema de solenes assinalamentos e vitórias. Mas as grandes ironias trágicas germinadas do Absoluto, conclamadas, em anátemas e deprecações inquisitoriais cruzadas no ar violentamente em línguas de fogo, caíram martirizantes sobre a minha cabeça, implacáveis como a peste. Então, à beira de caóticos, sinistros despenhadeiros, como outrora o doce e arcangélico Deus Negro, o trimegisto, de cornos agrogalhardos, de fagulhantes, estriadas asas enigmáticas, idealmente meditando a Culpa imeditável; então, perdido, arrebatado dentre essas mágicas e poderosas correntes de elementos antipáticos que a Natureza regulariza, e sob a influência de desconhecidos e venenosos filtros, a minha vida ficou como a longa, muito longa véspera de um dia desejado, anelado, ansiosamente, inquietamente desejado, procurado através do deserto dos tempos, com angústia, com agonia, com esquisita e doentia nevrose, mas que não chega nunca, nunca!! Fiquei como a alma velada de um cego onde os tormentos e os flagelos amargamente vegetam como cardos hirtos. De um cego onde parece que vaporosamente dormem certos sentimentos que só com a palpitante vertigem, só com a febre matinal da luz clara dos olhos acordariam; sentimentos que dormem OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 613 ou que não chegaram jamais a nascer, porque a densa e amortalhante cegueira como que apagou para sempre toda a claridade serena, toda a chama original que os poderia fecundar e fazer florir na alma... Elevando o Espírito a amplidões inacessíveis, quase que não vi esses lados comuns da Vida humana, e, igual ao cego, fui sombra, fui sombra! Como os martirizados de outros Gólgotas mais amargos, mais tristes, fui subindo a escalvada montanha, através de urzes eriçadas, e de brenhas, como os martirizados de outros Gólgotas mais amargos, mais tristes. De outros Gólgotas mais amargos subindo a montanha imensa – vulto sombrio, tetro, extra-humano! – a face escorrendo sangue, a boca escorrendo sangue, o peito escorrendo sangue, as mãos escorrendo sangue, o flanco escorrendo sangue, os pés escorrendo sangue, sangue, sangue, sangue, caminhando para tão longe, para muito longe, ao rumo infinito das regiões melancólicas da Desilusão e da Saudade, transfiguradamente iluminado pelo sol augural dos Destinos!... E, abrindo e erguendo em vão os braços desesperados em busca de outros braços que me abrigassem; e abrindo e erguendo em vão os braços desesperados que já nem mesmo a milenária cruz do Sonhador da Judéia encontravam para repousarem pregados e dilacerados, fui caminhando, caminhando, sempre com um nome estranho convulsamente murmurado nos lábios, um nome augusto que eu encontrara não sei em que Mistério, não sei em que prodígios de Investigação e de Pensamento profundo: – o sagrado nome da Arte, virginal e circundada de loureirais e mirtos e palmas verdes e hosanas, por entre constelações. Mas, foi apenas bastante todo esse movimento interior que pouco a pouco me abalava, foi apenas bastante que eu consagrasse a vida mais fecundada, 614 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 mais ensangüentada que tenho, que desse todos os meus mais íntimos, mais recônditos carinhos, todo o meu amor ingênito, toda a legitimidade do meu sentir a essa translúcida Monja de luar e sol, a essa incoercível Aparição, bastou tão pouco para que logo se levantassem todas as paixões da terra, tumultuosas como florestas cerradas, proclamando por brutas, titânicas trombetas de bronze o meu nefando Crime. Foi bastante pairar mais alto, na obscuridade tranqüila, na consoladora e doce paragem das Idéias, acima das graves letras maiúsculas da Convenção, para alvoroçarem-se os Preceitos, irritarem-se as Regras, as Doutrinas, as Teorias, os Esquemas, os Dogmas, armados e ferozes, de cataduras hostis e severas. Eu trazia, como cadáveres que me andassem funambulescamente amarrados às costas, num inquietante e interminável apodrecimento, todos os empirismos preconceituosos e não sei quanta camada morta, quanta raça d’África curiosa e desolada que a Fisiologia nulificara para sempre com o riso haeckeliano e papai! Surgido de bárbaros, tinha de domar outros mais bárbaros ainda, cujas plumagens de aborígine alacremente flutuavam através dos estilos. Era mister romper o Espaço toldado de brumas, rasgar as espessuras, as densas argumentações e saberes, desdenhar os juízos altos, por decreto e por lei, e, enfim, surgir... Era mister rir com serenidade e afinal com tédio dessa celulazinha bitolar que irrompe por toda a parte, salta, fecunda, alastra, explode, transborda e se propaga. Era mister respirar a grandes haustos na Natureza, desafogar o peito das opressões ambientes, agitar desassombradamente a cabeça diante da liberdade absoluta e profunda do Infinito. Era mister que me deixassem ao menos ser livre no Silêncio e na Solidão. Que não me negassem a OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 615 necessidade fatal, imperiosa, ingênita de sacudir com liberdade e com volúpia os nervos e desprender com largueza e com audácia o meu verbo soluçante, na força impetuosa e indomável da Vontade. O temperamento que rugia, bramava dentro de mim, esse, que se operasse: precisava, pois, tratados, largos in-fólios, toda a biblioteca da famosa Alexandria, uma Babel e Babilônia de aplicações científicas e de textos latinos para sarar... Tornava-se forçoso impor-lhe um compêndio admirável, cheio de sensações imprevistas, de curiosidades estéticas muito lindas e muito finas – um compêndio de geometria! O temperamento entortava muito para o lado da África: – era necessário fazê-lo endireitar inteiramente para o lado Regra, até que o temperamento regulasse certo como um termômetro! Ah! incomparável espírito das estreitezas humanas, como és secularmente divino! As civilizações, as raças, os povos digladiam-se e morrem minados pela fatal degenerescência do sangue, despedaçados, aniquilados no pavoroso túnel da Vida, sentindo o horror sufocante das supremas asfixias. Um veneno corrosivo atravessa, circula vertiginosamente os poros dessa deblaterante humanidade que se veste e triunfa com as púrpuras quentes e funestas da guerra! Povos e povos, no mesmo fatal e instintivo movimento da conservação e propagação da espécie, frivolamente lutam e proliferam diante da Morte, no ardor dos conúbios secretos e das batalhas obscuras, do frenesi genital, animal, de perpetuarem as seivas, de eternizarem os germens. Mas, por sobre toda essa vertigem humana, sobre tanta monstruosa miséria, rodando, rodomoinhando, lá e além, na vastidão funda do Mundo, alguma cousa da essência maravilhosa da Luz paira e se perpetua, 616 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 fecundando e inflamando os séculos com o amor indelével da Forma. É do sabor prodigioso dessa essência, vinda de bem remotas origens, que raros Assinalados experimentam, envoltos numa atmosfera de eterificações, de visualidades inauditas, de surpreendentes abstrações e brilhos, radiando nas correntes e forças da Natureza, vivendo nos fenômenos vagos de que a Natureza se compõe, nos fantasmas dispersos que circulam e erram nos seus esplendores e nas suas trevas, conciliados supremamente com a Natureza. E, então, os temperamentos que surgissem, que viessem, limpos de mancha, de mácula, puramente lavados para as extremas perfectibilidades, virgens, sãos e impetuosos para as extremas fecundações, com a virtude eloqüente de trazerem, ainda sangradas, frescas, úmidas das terras germinais do Idealismo, as raízes vivas e profundas, os germens legítimos, ingênitos, do Sentimento. Os temperamentos que surgissem: – podiam ser simples, mas que essa simplicidade acusasse também complexidade, como as claras Ilíadas que os rios cantam. Mas igualmente podiam ser complexos, trazendo as inéditas manifestações do Indefinido, e intensos, intensos sempre, sintéticos e abstratos, tendo esses inexprimíveis segredos que vagam na luz, no ar, no som, no aroma, na cor e que só a visão delicada de um espírito artístico assinala. Poderiam também parecer obscuros por serem complexos, mas ao mesmo tempo serem claros nessa obscuridade por serem lógicos, naturais, fáceis, de uma espontaneidade sincera, verdadeira e livre na enunciação de sentimentos e pensamentos, da concepção e da forma, obedecendo tudo a uma grande harmonia essencial de linhas sempre determinativas da índole, da feição geral de cada organização. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 617 Os lados mais carregados, mais fundamente cavados dos temperamentos sangrentos, fecundados em origens novas de excepcionalidades, não seriam para complicar e enturvecer mais as respectivas psicologias; mas apenas para torná-las claras, claras, para dar, simplesmente, com a máxima eloqüência, dessas próprias psicologias, toda a evidência, toda a intensidade, todo o absurdo e nebuloso Sonho... Dominariam assim, venceriam assim, esses Sonhadores, os reservados, eleitos e melancólicos Reinados do Ideal, apenas, unicamente por fatalidades impalpáveis, imprescritíveis, secretas, e não por justaposições mecânicas de teorias e didatismos obsoletos. Os caracteres nervosos mais sutis, mais finos, mais vaporosos, de cada temperamento, perder-se-iam, embora, na vaga truculenta, pesada, da multidão inexpressiva, confusa, que burburinha com o seu lento ar parado e vazio, conduzindo em seu bojo a concupiscência bestial enroscada como um sátiro, com a alma gasta, olhando molemente para tudo com os seus dois pequeninos olhos gulosos de símio. Mas, a paixão inflamada do Ignoto subiria e devoraria reconditamente todos esses Imaginativos dolentes, como se eles fossem abençoada zona ideal, preciosa, guardando em sua profundidade o orientalismo de um tesouro curioso, o relicário mágico do Imprevisto – abençoada zona saudosa, plaga d’ouro sagrada, para sempre sepulcralmente fechada ao sentimento herético, à bárbara profanação dos sacrílegos. Assim é que eu sonhara surgirem todas essas aptidões, todas essas feições singulares, dolorosas, irrompendo de um alto princípio fundamental distinto em certos traços breves, mas igual, uno, perfeito e harmonioso nas grandes linhas gerais. Essa é que fora a lei secreta, que escapara à percepção de filósofos e doutos, do verdadeiro 618 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 temperamento, alheio às orquestrações e aos incensos aclamatórios da turba profana, porém alheio por causa, por sinceridade de penetração, por subjetivismo mental sentido à parte, vivido à parte, – simples, obscuro, natural – como se a humanidade não existisse em torno e os nervos, a sensação, o pensamento tivessem latente necessidade de gritar alto, de expandir e transfundir no espaço, vivamente, a sua psicose atormentada. Assim é que eu via a Arte, abrangendo todas as faculdades, absorvendo todos os sentidos, vencendo-os, subjugando-os amplamente. Era uma força oculta, impulsiva, que ganhara já a agudeza picante, acre, de um apetite estonteante e a fascinação infernal, tóxica, de um fugitivo e deslumbrador pecado... Assim é que eu a compreendia em toda a intimidade do meu ser, que eu sentia em toda a minha emoção, em toda a genuína expressão do meu Entendimento – e não uma espécie de iguaria agradável, saborosa, que se devesse dar ao público em doses e no grau e qualidade que ele exigisse, fosse esse público simplesmente um símbolo, um bonzo antigo, taciturno e cor de oca, uma expressão serôdia, o público A+B, cujo consenso a Convenção em letras maiúsculas decretara. Afinal, em tese, todas as idéias em Arte poderiam ser antipáticas, sem preconcebimentos a agradar, o que não quereria dizer que fossem más. No entanto, para que a Arte se revelasse própria, era essencial que o temperamento se desprendesse de tudo, abrisse vôos, não ficasse nem continuativo nem restrito, dentro de vários moldes consagrados que tomaram já a significação representativa de clichés oficiais e antiquados. Quanto a mim, originalmente foi crescendo, alastrando o meu organismo, numa veemência e num ímpeto de vontade que se manifesta, num dilúvio de emoção, esse fenômeno de temperamento que com OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 619 sutilezas e delicadezas de névoas alvorais vem surgindo e formando em nós os maravilhosos Encantamentos da Concepção. O Desconhecido me arrebatara e surpreendera e eu fui para ele instintiva e intuitivamente arrastado, insensível então aos atritos da frivolidade, indiferente, entediado por índole diante da filáucia letrada, que não trazia a expressão viva, palpitante, da chama de uma fisionomia, de um tipo afirmativamente eleito. Muitos diziam-se rebelados, intransigentes – mas eu via claro as ficelles dessa rebeldia e dessa instransigência. Rebelados, porque tiveram fome uma hora apenas, as botas rotas um dia. Intransigentes, por despeito, porque não conseguiam galgar as fúteis, para eles gloriosas posições que os outros galgavam... Era uma politicazinha engenhosa de medíocres, de estreitos, de tacanhos, de perfeitos imbecilizados ou cínicos, que faziam da Arte um jogo capcioso, maneiroso, para arranjar relações e prestígio no meio, de jeito a não ofender, a não fazer corar o diletantismo das suas idéias. Rebeldias e instransigências em casa, sob o teto protetor, assim uma espécie de ateísmo acadêmico, muito demolidor e feroz, com ladainhas e amuletos em certa hora para livrar da trovoada e dos celestes castigos imponderáveis! Mas, uma vez cá fora à luz crua da Vida e do Mundo, perante o ferro em brasa da livre análise, mostrando logo as curvaturas mais respeitosas, mais gramaticais, mais clássicas, à decrépita Convenção com letras maiúsculas. Um ou outro, pairando, no entanto, mais alto no meio, tinha manhas de raposa fina, argúcia, vivacidades satânicas, no fundo, frívolas, e que a maior parte, inteiramente oca, sem penetração, não sentia. Fechava sistematicamente os olhos para fingir não ver, para não sair dos seus cômodos pacatos de aclamado banal, fazendo esforço supremo de conservar a confusão e a 620 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 complicação no meio, transtornar e estontear aquelas raras e adolescentes cabeças que por acaso aparecessem já com algum nebuloso segredo. Um ou outro tinha a habilidade quase mecânica de apanhar, de recolher do tempo e do espaço as idéias e os sentimentos que, estando dispersos, formavam a temperatura burguesa do meio, portanto corrente já, e trabalhar algumas páginas, alguns livros, que, por trazerem idéias e sentimentos homogêneos dos sentimentos e idéias burguesas, aqueciam, alvoroçavam, atordoavam o ar de aplausos... Outros, ainda, adaptados às épocas, aclimados ao modo de sentir exterior; ou, ainda por mal compreendido ajeitamento, fazendo absoluta apostasia do seu sentir íntimo, próprio, iludidos em parte; ou, talvez, evidenciando com flagrância, traindo assim o fundo fútil, sem vivas, entranhadas raízes de sensibilidade estética, sem a ideal radicalização de sonhos ingenitamente fecundados e quintessenciados na alma, das suas naturezas passageiras, desapercebidas de certos movimentos inevitáveis da estesia, que imprimem, por fórmulas fatais, que arrancam das origens profundas, com toda a sanguinolenta verdade e por causas fugidias a toda e qualquer análise, tudo o quanto se sente e pensa de mais ou menos elevado e completo. Mistificadores afetados de canaillerie por tom, por modernismos falhos apanhados entre os absolutamente fracos, os pusilânimes de têmpera no fundo, e que, no entanto, tanto aparentam correção e serena força própria. Naturezas vacilantes e mórbidas, sem a integração final, sem mesmo o equilíbrio fundamental do próprio desequilíbrio e, ainda mais do que tudo, sem esse poder quase sobrenatural, sem esses atributos excepcionais que gravam, que assinalam de modo estranho, às chamejantes e intrínsecas obras d’Arte, o caráter imprevisto, extra-humano, do Sonho. OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 621 Hábeis viveurs, jeitosos, sagazes, acomodatícios, afetando pessimismos mais por desequilíbrio que por fundamento, sentindo, alguns, até à saciedade, a atropelação do meio, fingindo desprezá-lo, aborrecê-lo, odiá-lo, mas mergulhando nele com frenesi, quase com delírio, mesmo com certa volúpia maligna de frouxos e de nulos que trazem num grau muito apurado a faculdade animal do instinto de conservação, a habilidade de nadadores destros e intrépidos nas ondas turvas dos cálculos e efeitos convencionais. Tal, desse modo, um prestidigitador ágil e atilado colhe e prende, com as miragens e truques da nigromancia, a frívola atenção passiva de um público dócil e embasbacado. Insipientes, uns, obscenamente cretinos, outros, devorados pela desoladora impotência que os torna lívidos e lhes dilacera os fígados, eu bem lhes percebo as psicologias subterrâneas, bem os vejo passar, todos, todos, todos, d’olhos oblíquos, numa expressão fisionômica azeda e vesga de despeito, como errantes duendes da Meia-Noite, verdes, escarlates, amarelos e azuis, em vão grazinando e chocalhando na treva os guizos das sarcásticas risadas... Almas tristes, afinal, que se diluem, que se acabam, num silêncio amargo, numa dolorosa desolação, murchas e doentias, na febre fatal das desorganizações, melancolicamente, melancolicamente, como a decomposição de tecidos que gangrenaram, de corpos que apodreceram de um modo irremediável e não podem mais viçar e florir sob as refulgências e sonoridades dos finíssimos ouros e cristais e safiras e rubis incendiados do Sol... Almas lassas, debochadamente relaxadas, verdadeiras casernas onde a mais rasgada libertinagem não encontra fundo; almas que vão cultivando com cuidado delicadas infamiazinhas como áspides galantes 622 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 e curiosas e que de tão baixas, de tão rasas que são nem merecem a magnificência, a majestade do Inferno! Almas, afinal, sem as chamas misteriosas, sem as névoas, sem as sombras, sem os largos e irisados resplendores do Sonho – supremo Redentor eterno! Tudo um ambiente dilacerante, uma atmosfera que sufoca, um ar que aflige e dói nos olhos e asfixia a garganta como uma poeira triste, muito densa, muito turva, sob um meio-dia ardente, no atalho ermo de vila pobre por onde vai taciturnamente seguindo algum obscuro enterro de desgraçado... Eles riem, eles riem e eu caminho e sonho tranqüilo! pedindo a algum belo Deus d’Estrelas e d’Azul, que vive em tédios aristocráticos na Nuvem, que me deixe serenamente e humildemente acabar esta Obra extrema de Fé e de Vida! Se alguma nova ventura conheço é a ventura intensa de sentir um temperamento, tão raro me é dado sentir essa ventura. Se alguma cousa me torna justo é a chama fecundadora, o eflúvio fascinador e penetrante que se exala de um verso admirável, de uma página de evocações, legítima e sugestiva. O que eu quero, o que eu aspiro, tudo por quanto anseio, obedecendo ao sistema arterial das minhas Intuições, é a Amplidão livre e luminosa, todo o Infinito, para cantar o meu Sonho, para sonhar, para sentir, para sofrer, para vagar, para dormir, para morrer, agitando ao alto a cabeça anatematizada, como Otelo nos delírios sangrentos do Ciúme... Agitando ainda a cabeça num derradeiro movimento de desdém augusto, como nos cismativos ocasos os desdéns soberanos do sol que ufanamente abandona a terra, para ir talvez fecundar outros mais nobres e ignorados hemisférios... Pensam, sentem, estes, aqueles. Mas a característica que denota a seleção de uma curiosa natureza, de um ser d’arte absoluto, essa, não a sinto, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 623 não a vejo, com os delicados escrúpulos e suscetibilidades de uma flagrante e real originalidade sem escolas, sem regulamentações e métodos, sem cotterie e anais de crítica, mas com a força germinal poderosa de virginal afirmação viva. D’alto a baixo, rasgam-se os organismos, os instrumentos da autópsia psicológica penetram por tudo, sondam, perscrutam todas as células, analisam as funções mentais de todas as civilizações e raças; mas só escapam à penetração, à investigação desses positivos exames a tendência, a índole, o temperamento artístico, fugidios sempre e sempre imprevistos, porque são casos particulares de seleção na massa imensa dos casos gerais que regem e equilibram secularmente o mundo. Desde que o Artista é um isolado, um esporádico, não adaptado ao meio, mas em completa, lógica e inevitável revolta contra ele, num conflito perpétuo entre a sua natureza complexa e a natureza oposta do meio, a sensação, a emoção que experimenta é de ordem tal que foge a todas as classificações e casuísticas, a todas as argumentações que, parecendo as mais puras e as mais exaustivas do assunto, são, no entanto, sempre deficientes e falsas. Ele é o supercivilizado dos sentidos, mas como que um supercivilizado ingênito, transbordado do meio, mesmo em virtude da sua percuciente agudeza de visão, da sua absoluta clarividência, da sua inata perfectibilidade celular, que é o gérmen fundamental de um temperamento profundo. Certos espíritos d’Arte assinalaram-se no tempo veiculado pela hegemonia das raças, pela preponderância das civilizações, tendo, porém, em toda a parte, um valor que era universalmente conhecido e celebrizado, porque, para chegar a esse grau de notoriedade, penetrou primeiro nos domínios do oficialismo e da cotterie. Os de Estética emovente e exótica, os gueux, os requintados, os sublimes iluminados por um clarão 624 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 fantástico, como Baudelaire, como Poe, os surpreendentes da Alma, os imprevistos missionários supremos, os inflamados, devorados pelo Sonho, os clarividentes e evocativos, que emocionalmente sugestionam e acordam luas adormecidas de Recordações e de Saudades, esses ficam imortalmente cá fora, dentre as augustas vozes apocalípticas da Natureza, chorados e cantados pelas Estrelas e pelos Ventos! Ah! benditos os Reveladores da Dor infinita! Ah! soberanos e invulneráveis aqueles que, na Arte, nesse extremo requinte de volúpia, sabem transcendentalizar a Dor, tirar da Dor a grande Significação eloqüente e não amesquinhá-la e desvirginá-la! A verdadeira, a suprema força d’Arte está em caminhar firme, resoluto, inabalável, sereno através de toda a perturbação e confusão ambiente, isolado no mundo mental criado, assinalando com intensidade e eloqüência o mistério, a predestinação do temperamento. É preciso fechar com indiferença os ouvidos aos rumores confusos e atropelantes e engolfar a alma, com ardente paixão e fé concentrada, em tudo o que se sente e pensa com sinceridade, por mais violenta, obscura ou escandalosa que essa sinceridade à primeira vista pareça, por mais longe das normas prestabelecidas que a julguem – para então assim mais elevadamente estrelar os Infinitos da grande Arte, da grande Arte que é só, solitária, desacompanhada das turbas que chasqueiam, da matéria humana doente que convulsiona dentro das estreitezas asfixiantes do seu torvo caracol. Até mesmo, certos livros, por mais exóticos, atraentes, abstrusos, que sejam, por mais aclamados pela trompa do momento, nada podem influir, nenhuma alteração podem trazer ao sentimento geral de idéias que se constituíram sistema e que afirmam, de modo radical, mas simples, natural, por mais exagerado que se suponha, a calma justa das convicções integrais, OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 625 absolutas, dos que seguem impavidamente a sua linha, dos que, trazendo consigo imaginativo espírito de Concepção, caminham sempre com tenacidade, serenamente, impertubáveis aos apupos inofensivos, sem tonturas de fascinação efêmera, sentindo e conhecendo tudo, com os olhos claros levantados e sonhadores cheios de uma radiante ironia mais feita de demência, de bondade do que de ódio. O Artista é que fica muitas vezes sob o signo fatal ou sob a auréola funesta do ódio, quando no entanto o seu coração vem transbordando de Piedade, vem soluçando de ternura, de compaixão, de misericórdia, quando ele só parece mau porque tem cóleras soberbas, tremendas indignações, ironias divinas que causam escândalos ferozes, que passam por blasfêmias negras, contra a Infâmia oficial do Mundo, contra o vicio hipócrita, perverso, contra o postiço sentimento universal mascarado de Liberdade e de Justiça. Nos países novos, nas terras ainda sem tipo étnico absolutamente definido, onde o sentimento d’Arte é silvícola, local, banalizado, deve ser espantoso, estupendo o esforço, a batalha formidável de um temperamento fatalizado pelo sangue e que traz consigo, além da condição inviável do meio, a qualidade fisiológica de pertencer, de proceder de uma raça que a ditadora ciência d’hipóteses negou em absoluto para as funções do Entendimento e, principalmente, do entendimento artístico da palavra escrita. Deus meu! por uma questão banal da química biológica do pigmento ficam alguns mais rebeldes e curiosos fósseis preocupados, a ruminar primitivas erudições, perdidos e atropelados pelas longas galerias submarinas de uma sabedoria infinita, esmagadora, irrevogável! Mas, que importa tudo isso?! Qual é a cor da minha forma, do meu sentir? Qual é a cor da tempestade 626 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 de dilacerações que me abala? Qual a dos meus sonhos e gritos? Qual a dos meus desejos e febre? Ah! esta minúscula humanidade, torcida, enroscada, assaltando as almas com a ferocidade de animais bravios, de garras aguçadas e dentes rijos de carnívoro, é que não pode compreender-me. Sim! tu é que não podes entender-me, não podes irradiar, convulsionar-te nestes efeitos com os arcaísmos duros da tua compreensão, com a carcaça paleontológica do Bom Senso. Tu é que não podes ver-me, atentar-me, sentirme, dos limites da tua toca de primitivo, armada do bordão simbólico das convicções pré-históricas, patinhando a lama das teorias, a lama das conveniências equilibrantes, a lama sinistra, estagnada, das tuas insaciáveis luxúrias. Tu não podes sensibilizar-te diante destes extasiantes estados d’alma, diante destes deslumbramentos estesíacos, sagrados, diante das eucarísticas espiritualizações que me arrebatam. O que tu podes, só, é agarrar com frenesi ou com ódio a minha Obra dolorosa e solitária e lê-la e detestála e revirar-lhe as folhas, truncar-lhe as páginas, enodoar-lhe a castidade branca dos períodos, profanarlhe o tabernáculo da linguagem, riscar, traçar, assinalar, cortar com dísticos estigmatizantes, com labéus obscenos, com golpes fundos de blasfêmia as violências da intensidade, dilacerar, enfim, toda a Obra, num ímpeto covarde de impotência ou de angústia. Mas, para chegares a esse movimento apaixonado, dolorido, já eu antes terei, por certo – eu o sinto, eu o vejo! – te arremessado profundamente, abismantemente pelos cabelos a minha Obra e obrigado a tua atenção comatosa a acordar, a acender, a olfatar, a cheirar com febre, com delírio, com cio, cada adjetivo, cada verbo que eu faça chiar como um ferro em brasa sobre o organismo da Idéia, cada vocábulo que eu tenha pensado OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 627 e sentido com todas as fibras, que tenha vivido com os meus carinhos, dormido com os meus desejos, sonhado com os meus sonhos, representativos, integrais, únicos, completos, perfeitos, de uma convulsão e aspiração supremas. Não conseguindo impressionar-te, afetar-te a bossa intelectiva, quero ao menos sensacionar-te a pele, ciliciar-te, crucificar-te ao meu estilo, desnudando ao sol, pondo abertas e francas todas as expressões, nuances e expansibilidades deste amargurado ser, tal como sou e sinto. Os que vivem num completo assédio no mundo, pela condenação do Pensamento, dentro de um báratro monstruoso de leis e preceitos obsoletos, de convenções radicadas, de casuísticas, trazem a necessidade inquieta e profunda de como que traduzir, por traços fundamentais, as suas faces, os seus aspectos, as suas impressionabilidades e, sobretudo, as suas causas originais, vindas fatalmente da liberdade fenomenal da Natureza. Ah! Destino grave, de certo modo funesto, dos que vieram ao mundo para, com as correntes secretas dos seus pensamentos e sentimentos, provocar convulsões subterrâneas, levantar ventos opostos de opiniões, mistificar a insipiência dos adolescentes intelectuais, a ingenuidade de certas cabeças, o bom senso dos cretinos, deixar a oscilação da fé, sobre a missão que trazem, no espírito fraco, sem consistência de crítica própria, sem impulsão original para afirmar os Obscuros que não contemporizam, os Negados que não reconhecem a Sanção oficial, que repelem toda a sorte de conchavos, de compadrismos interesseiros, de aplausos forjicados, por limpidez e decência e não por frivolidades de orgulhos humanos ou de despeitos tristes. Ah! Destino grave dos que vieram ao mundo para ousadamente deflorar as púberes e cobardes inteligências com o órgão másculo, poderoso da Síntese, 628 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 para inocular nas estreitezas mentais o sentimento vigoroso das Generalizações, para revelar uma obra bem fecundada de sangue, bem constelada de lágrimas, para, afinal, estabelecer o choque violento das almas, arremessar umas contra as outras, na sagrada, na bendita impiedade de quem traz consigo os vulcanizadores Anátemas que redimem. O que em nós outros Errantes do Sentimento flameja, arde e palpita é esta ânsia infinita, esta sede santa e inquieta, que não cessa, de encontrarmos um dia uma alma que nos veja com simplicidade e clareza, que nos compreenda, que nos ame, que nos sinta. E de encontrar essa alma assinalada pela qual viemos vindo de tão longe sonhando e andamos esperando há tanto tempo, procurando-a no Silêncio do mundo, cheios de febre e de cismas, para no seio dela cairmos frementes, alvoroçados, entusiastas, como no eterno seio da Luz imensa e boa que nos acolhe. É esta bendita loucura de encontrar essa alma para desabafar ao largo da Vida com ela, para respirar livre e fortemente, de pulmões satisfeitos e límpidos, toda a onda viva de vibrações e de chamas do Sentimento que contivemos por tanto e tão longo tempo guardada na nossa alma, sem acharmos uma outra alma irmã à qual pudéssemos comunicar absolutamente tudo. E quando a flor dessa alma se abre encantadora para nós, quando ela se nos revela com todos os seus sedutores e recônditos aromas, quando afinal a descobrimos um dia, não sentimos mais o peito opresso, esmagado: – uma nova torrente espiritual deriva do nosso ser e ficamos então desafogados, coração e cérebro inundados da graça de um divino amor, bem pagos de tudo, suficientemente recompensados de todo o transcendente Sacrifício que a Natureza heroicamente impôs aos nossos ombros mortais, para ver se conseguimos, aqui embaixo na Terra, encher, cobrir este abismo do Tédio com abismos da Luz! OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 629 O mundo, chato e medíocre nos seus fundamentos, na sua essência, é uma dura fórmula geométrica. Todo aquele que lhe procura quebrar as hirtas e caturras linhas retas com o poder de um simples Sentimento desloca de tal modo elementos de ordem tão particular, de natureza tão profunda e tão séria que tudo se turba e convulsiona; e o temerário que ousou tocar na velha fórmula experimenta toda a Dor imponderável que esse simples Sentimento responsabiliza e provoca. Eu não pertenço à velha árvore genealógica das intelectualidades medidas, dos produtos anêmicos dos meios lutulentos, espécies exóticas de altas e curiosas girafas verdes e spleenéticas de algum maravilhoso e babilônico jardim de lendas... Num impulso sonâmbulo para fora do círculo sistemático das Fórmulas preestabelecidas, deixei-me pairar, em espiritual essência, em brilhos intangíveis, através dos nevados, gelados e peregrinos caminhos da Via-Láctea... E é por isso que eu ouço, no adormecimento de certas horas, nas moles quebreiras de vagos torpores enervantes, na bruma crepuscular de certas melancolias, na contemplatividade mental de certos poentes agonizantes, uma voz ignota, que parece vir do fundo da Imaginação ou do fundo mucilaginoso do Mar ou dos mistérios da Noite – talvez acordes da grande Lira noturna do Inferno e das harpas remotas de velhos céus esquecidos, murmurar-me: – “Tu és dos de Cam, maldito, réprobo, anatematizado! Falas em Abstrações, em Formas, em Espiritualidades, em Requintes, em Sonhos! Como se tu fosses das raças de ouro e da aurora, se viesses dos arianos, depurado por todas as civilizações, célula por célula, tecido por tecido, cristalizado o teu ser num verdadeiro cadinho de idéias, de sentimentos – direito, perfeito, das perfeições oficiais dos meios 630 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 convencionalmente ilustres! Como se viesses do Oriente, rei!, em galeras, dentre opulências, ou tivesses a aventura magna de ficar perdido em Tebas, desoladamente cismando através de ruínas; ou a iriada, peregrina e fidalga fantasia dos Medievos, ou a lenda colorida e bizarra por haveres adormecido e sonhado, sob o ritmo claro dos Astros, junto às priscas margens venerandas do Mar Vermelho! Artista! pode lá isso ser se tu és d’África, tórrida e bárbara, devorada insaciavelmente pelo deserto, tumultuando de matas bravias, arrastada sangrando no lodo das Civilizações despóticas, torvamente amamentada com o leite amargo e venenoso da Angústia! A África arrebatada nos ciclones torvelinhantes das Impiedades supremas, das Blasfêmias absolutas, gemendo, rugindo, bramando no caos feroz, hórrido das profundas selvas brutas, a sua formidável Dilaceração humana! A África laocoôntica, alma de trevas e de chamas, fecundada no Sol e na Noite, errantemente tempestuosa como a alma espiritualizada e tantálica da Rússia, gerada no Degredo e na Neve – pólo branco e pólo negro da Dor! Artista?! Loucura! Loucura! Pode lá isso ser se tu vens dessa longínqua região desolada, lá no fundo exótico dessa África sugestiva, gemente, Criação dolorosa e sanguinolenta de Satãs rebelados, dessa flagelada África, grotesca e triste, melancólica, gênese assombrosa de gemidos, tetricamente fulminada pelo banzo mortal; dessa África dos Suplícios, sobre cuja cabeça nirvanizada pelo desprezo do mundo Deus arrojou toda a peste letal e tenebrosa das maldições eternas! A África virgem, inviolada no Sentimento, avalanche humana amassada com argilas funestas e secretas para fundir a Epopéia suprema da Dor do Futuro, para fecundar talvez os grandes tercetos tremendos de algum novo e majestoso Dante negro! OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 631 Dessa África que parece gerada para os divinos cinzéis das colossais e prodigiosas esculturas, para as largas e fantásticas Inspirações convulsas de Doré – Inspirações inflamadas, soberbas, choradas, soluçadas, bebidas nos Infernos e nos Céus profundos do Sentimento humano. Dessa África cheia de solidões maravilhosas, de virgindades animais instintivas, de curiosos fenômenos de esquisita Originalidade, de espasmos de Desespero, gigantescamente medonha, absurdamente ululante – pesadelo de sombras macabras – visão valpurgiana de terríveis e convulsos soluços noturnos circulando na Terra e formando, com as seculares, despedaçadas agonias da sua alma renegada, uma auréola sinistra, de lágrimas e sangue, toda em torno da Terra... Não! Não! Não! Não transporás os pórticos milenários da vasta edificação do Mundo, porque atrás de ti e adiante de ti não sei quantas gerações foram acumulando, acumulando pedra sobre pedra, pedra sobre pedra, que para aí estás agora o verdadeiro emparedado de uma raça. Se caminhares para a direita baterás e esbarrarás, ansioso, aflito, numa parede horrendamente incomensurável de Egoísmos e Preconceitos! Se caminhares para a esquerda, outra parede, de Ciências e Críticas, mais alta do que a primeira, te mergulhará profundamente no espanto! Se caminhares para a frente, ainda nova parede, feita de Despeitos e Impotências, tremenda, de granito, broncamente se elevará ao alto! Se caminhares, enfim, para trás, ah! ainda, uma derradeira parede, fechando tudo, fechando tudo – horrível! – parede de Imbecilidade e Ignorância, te deixará num frio espasmo de terror absoluto... E mais pedras, mais pedras se sobreporão às pedras já acumuladas, mais pedras, mais pedras... Pedras destas odiosas, caricatas e fatigantes Civilizações e Sociedades... Mais pedras, mais pedras! E as estranhas paredes hão de subir – longas, negras, terríficas! Hão 632 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 de subir, subir, subir mudas, silenciosas, até as Estrelas, deixando-te para sempre perdidamente alucinado e emparedado dentro do teu Sonho...” Correspondência 634 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 1. À COMISSÃO ORGANIZADORA DO CLUBE DOS JORNALISTAS [Bahia, lo semestre de 1885]. Como representante da Gazeta da Tarde, da Bahia, congratulo-me com o Clube dos Jornalistas, aplaudindo, no maior grau das minhas convicções sociais, essa brilhante idéia regeneradora. Assim como a biblioteca é o restaurante do espírito, a imprensa é o grande sol da consciência coletiva. Abraço por isso o jornalismo fluminense, que deve ser a consubstanciação da democracia moderna. Cruz e Sousa 2. À SOCIEDADE CARNAVALESCA DIABO A QUATRO Desterro, 31 de maio de 1887. Ilmos. Srs. Cumpre-me responder ao ofício de Vv. Ss. que me foi dirigido em data de 20 deste mês. Agradecendo, sumamente penhorado, as amabilidades cavalheirosas e distinções que no aludido ofício me fazem, cabe-me a ocasião de cumprimentar, de saudar altamente, com um largo sopro de retumbante clarim de aplauso, a digna e prestimosíssima Sociedade Carnavalesca Diabo a Quatro, à qual Vv. Ss. estão agremiados, pela idéia grandiosa e simpática de promover a libertação dos cativos desta capital. A Sociedade Diabo a Quatro, que ri, que solta a gargalhada do bom humor que abre nos corações de todos, ao sol da idéia, a luminosa e resplandecente febre da alegria, nos curtos dias do seu curto mas pitoresco reina do de galhofa e de crítica – os dias de carnaval – definiu e ampliou ainda mais a alma OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 635 franca e forte que costuma ter nas festas de Momo, dando a essa alma toda a amplidão serena da liberdade. Eu faço significar, com toda a lealdade, o meu aplauso a essa estimável corporação, e ponho ao dispor da bela causa dos tristes, não só a minha insignificante e deslustrada pena, não só o meu pequenino préstimo intelectivo, mas todo o meu coração de patrício, que é, para estes casos, o fator absoluto, aberto como um estandarte de paz e democracia. A Sociedade Diabo a Quatro que tenha sempre como divisa de luta este princípio filosófico e político de um economista inglês: “Destruir para organizar”. Deus guarde a Vv. Ss. Cruz e Sousa 3. A GAVITA Rio, 31 de março de 1892. Minha adorada Gavita Estou cheio de saudades por ti. Não podes imaginar, filhinha do meu coração, como acho grandes as horas, os dias, a semana toda. O sábado, esse sábado que eu tanto amo, como custa tanto a vir. Ah! como se demora o sábado. E tu, minha boa flor da minh’alma, que és o meu cuidado, a minha felicidade, o meu orgulho, a minha vida, não sabes como eu penso em ti, como eu te quero bem e te desejo feliz. Tu, Gavita, não me conheces ainda bem, não sabes que amor eterno eu tenho no coração por ti, como eu adoro os teus olhos que me dão alegria, as tuas graças de mulher nova, de moça carinhosa e amiga de sua boa mãe. Quanto mais te vejo mais te desejo ver, olhar muito, reparar bem no teu rosto, nos teus modos, nos teus movimentos, nas tuas palavras, nos teus olhos e na tua voz, para sentir bem se tu és firme, fiel, se me 636 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 tens verdadeira estima, verdadeira amizade bem do fundo do teu coração virgem, bem do fundo do teu sangue. Por minha parte sempre te quererei muito bem e nada haverá no mundo que me separe de ti, minha filhinha adorada. Se o juramento que me fizeste dentro da igreja é sagrado e se pensas nele com amor, eu creio em ti para sempre, em ti que és hoje a maior alegria da minha vida, a única felicidade que me consola e que me abre os braços com carinho. Estar junto de ti, eu, que nunca dei o meu coração assim a ninguém, tão apaixonadamente, como te dei a ti, é para mim ser muito feliz. Quando estou a teu lado, Gavita, esqueço-me de tudo, das ingratidões, das maldades e só sinto que os teus olhos me fazem morrer de prazer. Adeus! Aceita um beijo muito grande na boca e vem que eu espero por ti no sábado, como um louco. Teu Cruz 4. A GAVITA Noite de terça-feira, 20 de setembro, às 7 horas. Minha adorada Noiva Saudades, saudades, muitas saudades é o que eu sinto por ti. Escrevo-te triste por não te ver e tenho, na hora em que te escrevo, o teu querido retrato diante de mim, entre os meus livros, companheiros dos meus sofrimentos. Minha Vivi estremecida, nunca me esquecerei do dia 18 de setembro, aniversário do dia em que tive o prazer de ver-te pela primeira vez, de admirar os teus lindos olhos, a graça de todo o teu corpo, toda a tua pessoa amável que me prendeu para sempre com os laços OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 637 do mais profundo e sincero amor. Acredita, minha filha adorada do coração, que eu te tenho como o consolo maior da minha vida, a luz do meu coração, a esperança feliz da minha alma. Por minha honra te juro que, sempre serei teu, que podes viver descansada, sem desconfiança, porque o teu Cruz nunca será de outra e só à Vivi fará carinhos, dedicará extremos, amizade eterna. Pela minha honra e pelo dia em que nos vimos pela primeira vez, juro-te que só quero a tua felicidade, só desejo dar-te prazer e tratar-te com os mimos e delicadezas, de que tenho dado provas, bastante. A todas as horas o meu pensamento voa para onde tu estás, vejo-te sempre, sempre e nunca me esqueço de ti em toda a parte onde estou. És a minha preocupação constante, o meu desejo mais forte, a minha alegria mais do coração. Amo-te, amo-te muito, com todo o meu sangue e com todo o meu orgulho e o meu desejo poderoso é unir-me a ti, viver nos teus braços, protegido pela tua bondade pura, pelas tuas graças que eu adoro, pelos teus olhos que eu beijo. No momento em que te escrevo sinto uma grande falta de ti. Só, no meu quarto, eu só possuo, para consolar-me o teu retrato. Mas é muito pouco. Eu te queria a ti, em pessoa, para te apertar de abraços, pedindo a Deus para abençoar o nosso amor. Esta carta é como mais um juramento feito a ti pelo dia 18 de setembro, em que te vi pela primeira vez apanhando flores, tu, que és a flor dos meus sonhos. Espero-te sábado, com aquele penteado de domingo, que te fazia muito bonita. Adeus! Beijo-te muito os olhos, a boca e as mãos e dou-te abraços muito apertados, bem junto ao meu coração, que palpita de saudades por ti. Teu Cruz e Sousa 638 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 5. A GAVITA Quinta-feira, 17 de novembro, à 1 hora da tarde. Minha doce e muito estremecida Vivi Sinto as maiores saudades de ti, que és a alegria do meu coração, o consolo da minha vida. Desde a última noite que te deixei tenho me lembrado sempre de ti e o teu nome adorável não me sai da boca a toda a hora: Estimo de toda a minh’alma que estejas passando bem de saúde. Eu vou bem, apenas com a tristeza de não estar sempre a teu lado, junto de ti, que és hoje para mim no mundo o maior prazer, a maior satisfação. Sou teu como tu és minha, sem me importar com ninguém. Só me lembro que tu vives e que eu te quero extremosamente, com toda a delicadeza e carinhos do meu amor. Tu é que me fazes feliz, orgulhoso, rei do mundo, porque de tuas qualidades, a tua bondade, o teu sorriso, os teus olhos me fazem o homem mais contente, mais alegre do mundo, minha pomba querida, luz da minha vida inteira, Noiva adorada e santa. Como sempre, estou ansioso que chegue sábado, morrendo de saudades por ti, flor da minh’alma, que tanta coragem me dás para a vida e tanta esperança. O teu bom coração pode descansar em mim, porque eu sou teu como se já fosse casado, vivendo na mesma casa contigo, gozando, os teus carinhos. Ah! Gavita, o céu te abençoe, Deus te proteja e te acompanhe sempre para que tu saibas ver o amor eterno que eu te tenho e que está firme no meu coração. Adeus! Recebe o meu sangue, as minhas lágrimas, os meus beijos, os meus abraços. Teu Cruz e Sousa OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 639 6. A GAVITA Rio de Janeiro, quarta-feira, 14 de dezembro de 1892, 7 horas da noite. Minha estremecida Vivi A hora em que te escrevo tenho diante de mim o teu retrato, que trago sempre comigo, que é o meu melhor companheiro e amigo. Adorada do meu coração, não calculas a saudade que sinto de ti, como eu desejava agora estar ao pé de ti, na alegria e na felicidade da tua presença querida, flor da minha vida, consolo do meu coração. Desejo que tenhas passado bem esses dias e que só tenhas como sofrimento, como pesar o não nos vermos, o estares longe de mim, porque isso é o que mais me faz infeliz e triste. Sabes quanto eu te amo, quanto eu te quero do fundo do meu sangue sobre todas as mulheres do mundo. Fico sempre alegre, contente, cheio de orgulho, quando te posso dizer que sou e serei sempre teu, que hei de amar-te até a morte, enchendo-te dos carinhos, das amabilidades, dos extremos, das distinções que só a ti eu quero dar, idolatrada Gavita, adorável criatura dos meus sonhos, dos meus cuidados e, pensamentos. Só tu, és a Rainha do meu amor, só tu mereces os meus beijos e os meus abraços, a honra do meu nome, a distinção da minha Inteligência, os segredos da minh’alma. Só tu és merecedora de que eu te ame muito, como te amo, muito, muito, muito, e cada vez mais, com mais firmeza, sempre fiel, sempre teu escravo bom e agradecido, fazendo de ti, minha estrela, a esposa santa, a adorada companheira dos meus dias. Vê lá que orgulho tu não deves ter! Adeus! Adeus! Estou morto para que chegue sábado e ter o prazer, maior de todos os prazeres, de estar contigo. Aceita beijos e abraços do teu Cruz e Sousa 640 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 7. A GERMANO WENDHAUSEN Desterro, 2 de abril de 1888. Caríssimo e nobre amigo Germano Wendhausen Venho, mais uma vez, valer-me da sua proteção, da generosidade dos seus sentimentos, pedindo-lhe que me faça a gentileza de me ouvir. Ilustre amigo, não sei se sabe ou não a situação difícil da minha vida nem o estado de fatalidade em que me acho; no entretanto, acreditando-me um individuo sério e leal, dará a atenção devida às minhas palavras. Acontece que, por largo espaço de tempo, me tenho visto embaraçado, muito afogado de lutas, achando sempre contrariedades em tudo que proponho fazer para melhorar de estado, para trabalhar, ter um futuro mais garantido e seguro, não encontrando nunca o auxílio de ninguém. Como deve saber, na Tribuna Popular, onde escrevo, nada me dão, nem eu o exijo porque não o podem fazer, e eu estou ali, apenas, para ajudar o Lopes, porque o faço generosamente, de coração aberto, com dedicação e simpatia, e mesmo, pela grande causa abolicionista que nós todos defendemos com desinteresse e honra. Já vê o meu nobre amigo que, nas dificuldades em que estou, tenho absoluta necessidade de procurar destino. Assim, tendo já deliberado a minha viagem para a Corte, venho valer-me do seu prestígio e da sua generosidade jamais desmentidos pedindo-lhe encarecidamente para influir com o seu amigo e correligionário Virgílio Villela sobre uma passagem, ou, no caso de ser isso absolutamente impossível, embora o meu excelente amigo envide os seus esforços, fazer-me o supremo obséquio de me emprestar 50$000 réis para eu poder transportar-me, pois, fica na honestidade do meu caráter OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 641 e do meu brio satisfazer-lhe essa importância desde que o trabalho me garanta mais poderes para isso. Bem sei que já o ocupei e que me serviu tão bondosamente, com tanta consideração e apreço, mas, no estado em que vivo não vejo a quem recorrer senão à sua prestimosa individualidade. Sabe Deus quanto me custa e quanto a minha dignidade se vê abatida por me ver obrigado a fazer-lhe tal pedido! Mas, acredite o sr. Germano Wendbausen que em mim terá sempre um rapaz sincero, franco e leal, daqueles que não abusam e que sabem ser gratos. Só a sua pessoa me pode valer, e eu a ela me dirijo com confiança, em nome de sua veneranda mãe. Disponha sempre de um amigo firme, que fará mais e mais por se tornar digno da sua estima e consideração que tanto distinguem as pessoas que têm a felicidade de as possuir. Cruz e Sousa 8. A GERMANO WENDHAUSEN Corte, junho de 1888. Caro amigo Germano Wendhausen Cá estou nesta grande capital que cada vez mais se distingue pelo movimento e atividade mercantil de que dispõe em alto grau. Isto importa dizer que continuo a ser amigo e apreciador sincero e firme das pessoas que, como o meu belo e generoso amigo, tanto me desvaneceram e honraram com a sua consideração e simpatia. Um dever de cavalheirismo, pois reconheço a franqueza, modéstia e o desprendimento do meu excelente e digno patrício, me faz deixar de falar nas gentilezas incomparáveis que me fez, que eu não esquecerei nunca e que em tempo saberei retribuir como precisa ser. 642 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 O senador Taunay recebeu a minha carta, isto é – a carta que os adoráveis e distintos amigos aí me deram para ele; porém nem ao menos me mandou entrar, procedimento esse que me autorizou a não voltar mais à casa de tal senhor. Embora eu precise fazer carreira, não necessito, porém, ser maltratado; e, desde que o sou, pratico conforme a norma do meu caráter. – Deixemos o sr. Taunay que não passa de um parlapatão em tudo por tudo. Aqui, em alguns arrabaldes, também continuam, com bastante brilho, diferentes festejos em homenagem à libertação do país. Até 15 ainda assisti algumas manifestações de regozijo ao triunfante e heróico acontecimento que ainda me faz pulsar de alegria o coração e o cérebro. A imprensa tem me recebido bem, tenho sido apresentado a todos os escritores da corte, alguns dos quais conhecem-me. – Queira dar-me a honra de escrever e recomendar-me à Exma. família, a Manuel Bithen court, Margarida, Schmidt, dr. Paiva, Manuel João e a toda a leal e gloriosa falange do Diabo a Quatro. – Sou, com consideração e sinceridade, amigo e criado agradecido. Cruz e Sousa 9. A VIRGILIO VÁRZEA Corte, 8 de janeiro de 1889. Adorado Virgílio Estou em maré de enjôo físico e mentalmente fatigado. Fatigado de tudo: de ver e ouvir tanto burro, de escutar tanta sandice e bestialidade e de esperar sem fim por acessos na vida, que nunca chegam. Estou fatalmente condenado à vida de miséria e sordidez, passando-a numa indolência persa, bastante prejudicial OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 643 à atividade do meu espírito e ao próprio organismo que fica depois amarrado para o trabalho. Não sei onde vai parar esta coisa. Estou profundamente mal, e só tenho a minha família, só te tenho a ti, a tua belíssima família, o Horácio e todos os outros nobres e bons amigos, que poucos são. Só dessa linda falange de afeições me aflige estar longe e morro, sim de saudades. Não imaginas o que se tem passado por meu ser, vendo a dificuldade tremendíssima, formidável em que está a vida no Rio de Janeiro. Perdese em vão tempo e nada se consegue. Tudo está furado, de um furo monstro. Não há por onde seguir. Todas as portas e atalhos fechados ao caminho da vida, e, para mim, pobre artista ariano, ariano sim porque adquiri, por adoção sistemática, as qualidades altas dessa grande raça, para mim que sonho com a torre de luar da graça e da ilusão, tudo vi escarnecedoramente, diabolicamente, num tom grotesco de ópera bufa. Quem me mandou vir cá abaixo à terra arrastar a calceta da vida! Procurar ser elemento entre o espírito humano?! Para quê? Um triste negro, odiado pelas castas cultas, batido das sociedades, mas sempre batido, escorraçado de todo o leito, cuspido de todo o lar como um leproso sinistro! Pois como! Ser artista com esta cor! Vir pela hierarquia de Eça, ou de Zola, generalizar Spencer ou Gama Rosa, ter estesia artística e verve, com esta cor? Horrível! És um coração partido, acabo de saber pela tua chorosa carta. Broken heart! Broken heart! A tua Lilly emigrou, doce pássaro d’amor, para esta tumultuosa cidade. Hoje vou vê-la e à mãe e as flores que elas espalharam pela tua lembrança e pelo teu coração, eu farei com que cheguem ainda vivas e cheirosas junto de ti. Quero ver como essa avezinha escocesa trina de amor e saudade... 644 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Adeus! Saudades infinitas à tua encantadora família, e que eu lhe desejo bons anos de ouro e de festas alegríssimas no meio da mais soberana das satisfações. Abraços no celestial Horácio, no Araújo, no Jansen e no digno Lopes da nossa Tribuna e no excelente e adorabilíssimo Bithencourt. Veste o croisé e vai, por minha parte, apresentar pêsames sinceros e honestos às tuas Exmas. primas, pela morte do cavalheiro, do limpo homem de distinção José Feliciano Alves de Brito. Não te esqueças. Honrame por esse modo delicado e gentil. Abraça-te terrivelmente saudoso. Cruz e Sousa 10. A ARAÚJO FIGUEIREDO Ondina, abril, de tarde, 2, de 90. Meu querido poeta Não! Nem canalha, nem mulato, nem ingrato! Não julgues, meu madrigalesco sonhador, que eu sou o vidro de cheiro, na frase do Várzea, do Rodolfinho Oliveira; ele, sim, palito humano, como é, é quem deve ter raivas fáceis e banais ao não receber cartas tuas. E até tu dando-me zangas e canseiras caixeirais pelas demoras de notícias tuas em cartas tuas, igualas-me, comparasme, muito naturalmente e muito logicamente como o vidrinho de cheiro. Mas, vade retro, Araújo! como o outro que dizia – Vade retro, Fradique. Jamais me parecerei com o Rodolfinho: nem nas unhas. Eu, claramente sei o que são atropelos de chegada e depois gozos e gostos de provinciano largamente impulsionados e vibrados numa grande capital como esta em que agora vives lordificado e regalado... Assim, claramente sei também, e vivamente sinto também, que OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 645 em tais cidades, o rumor, sol alto dos assuntos mais inauditos, inflamam, queimam, incendeiam qualquer provinciano, tanto mais quando o provinciano, como tu, tem qualidades e sentimentos de arte. Portanto, sabendo tudo meu espírito, da visão que tenho das coisas, fútil, grandemente fútil foi começares os teus linguaços de correspondência, em data de 15 do que acabou, com aquela suposição de lamuriosas queixas. No mais, não: a tua carta vem arejada, com ar de outros ares, como se o teu viver fosse de dentro de uma toca transportado a um alto castelo situado no mar... Sim senhor! Adoro-lhe as atitudes, a maneira livre, a nota que tem tomado no Rio. – Belo Rio esse, que tão cristalinas águas saudáveis possui para duchar os poetas! Quanto ao perguntar se podes mandar correspondência para a Tribuna achas outra pergunta de muletas. Para que interrogações? Corrija-se disso. Manda, manda tudo! Manda a cabeça do Castro Lopes com arroz; do Melo Moraes, com batatas; do Gastão Bousquet, com abóboras; do Soares de Sousa Júnior, com quiabos; do Gregório de Almeida, com lingüiça; do Barão de Paranapiacaba, com pepinos; do Taunay, com cenouras; do Rangel Sampaío, com feijões; manda, manda todos esses caracteres verdes, manda tudo, que quero empanturrar, fazer rebentar de comedorias a terra. Isto, em blague; agora sem blague: Saberás ou já sabes? que por Maio sigo para aí e conto morar contigo. Nada digas ainda sobre essa resolução ao Oscar. Depois ele o saberá. Convém-me mais morar contigo enquanto não tiver ocupação segura. Por isso apronta-te para receber-me que no princípio d’aquele mês, ou por meados dele, lá estarei, num impulso de verve, a chicotear esses literatos de sapatos, que aí também os há, e a abraçar-te fortemente, amorosamente, num longo abraço espiritual, a ti e ao Oscar. 646 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Adeus! Florzinha! Só me punge agora a dor de não ter uns beijuzitos da titia para mandar-te como recuerdo... Manda a correspondência, mas coisa com jeito, e escreve-me, como na cantiga, ao menos uma vez na vida. Até a volta. Teu Cruz e Sousa 11. A LUIZ DELFINO Capital Federal, 19 de novembro de 1893. Ilustre Poeta Amigo Com os cumprimentos de estima e consideração que lhe apresento, tomo novamente a liberdade de importuná-lo com relação ao pedido que tive necessidade de fazer-lhe por carta. Uma vez que se não dignou responder-me, peçolhe ainda, apelando para os seus generosos sentimentos de homem, que me sirva, já não direi com a quantia de 300$000 réis, como lhe pedi, mas ao menos com a metade ou mesmo com 100$000 réis, pois é bem dolorosa a minha situação neste momento. Peço-lhe, que mesmo em sentido negativo, resolva com urgência este bastante difícil pedido. Seu admirador e am° Cruz e Sousa. 12. A GONZAGA DUQUE Rio, 11 de abril de 1894. Na impossibilidade de falar-te calmamente, escrevo-te uma ligeira exposição sobre a Revista dos Novos. Penso que o grupo que deve naturalmente constituir os combatentes da Revista dos Novos tem de OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 647 ser composto da tua individualidade, Emiliano Perneta, Oscar Rosas, Arthur de Miranda, Nestor Victor, B. Lopes, Emilio de Menezes, Lima Campos, Araújo Figueiredo, Virgílio Várzea, Santa Rita, Maurício Jubim, Cruz e Sousa e Gustavo Lacerda, simplesmente sendo que este último deverá dar escritos sintéticos, muito generalizados, sem personalismo, sobre política socialista. Penso assim por que esses foram sempre, mais ou menos de vários modos intelectuais, e em tese, os nossos companheiros, tendo cada um deles, na proporção de sua aptidão, na esfera de sua perfectibilidade, um sentimento homogêneo do sentimento comum na Arte do Pensamento escrito. Penso também que o único homem fora da nossa linha artística de seleção relativa possível, que deve ser simpaticamente admitido, para críticas científicas para artigos de caráter positivo moderno, é o dr. Gama Rosa, que podemos considerar, à parte toda a nossa independência e rebelião como um austero e curioso Patriarca do Pensamento novo. Os mais, seja quem for, que venham de fora, isto é, que se apresentem com trabalhos estéticos e de tal natureza alevantados e sérios que possam ser admitidos nas colunas nobres da grande “Revista”, para o que basta apenas uma análise severa, rigorosa, desses trabalhos. Enfim, apenas esse deve de ser o grupo fundador por excelência, deve constituir o corpo uno das Idéias da Revista nos seus elevados fundamentos gerais, à parte dos detalhes da compreensão de cada um em particular. Entre esses fundamentos gerais acho que deve ser um dos principais, o maior e mais firme radicalismo sobre teatro, não permitir seções, notícias, folhetins ou coisa que diga respeito a teatro que, por princípio e integração de Idéias, não deve existir para a nossa orientação d’Arte na Revista dos Novos. Teu Cruz e Sousa 648 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 13. A NESTOR VITOR Rio, 16, dezembro de 1894. Meu caro Nestor Sobre a minha pretensão tenho a dizer-te que um dos lugares que me serve é o de amanuense, que tem um vencimento maior do que o lugar que exerço atualmente. O dr. Piragiba que aluda a isso ao marechal Jardim, pois o meu amigo Ricardo de Albuquerque também se interessa com grande e decidido esforço. Também não deixo de aceitar o teu empenho, conforme falaste para o d. Antonio Olyntho a quem sou bastante simpático, segundo estou informado. O momento é de decisão e eficácia. Já longo e doloroso tempo tenho aguardado uma melhora na vida. Teu Cruz e Sousa 14. A NESTOR VÍTOR Rio, 18 de março de 1896. Meu Grande Amigo Peço-te que venhas com a máxima urgência a minha casa, pois minha mulher está acometida de uma exaltação nervosa, devido ao seu cérebro fraco que, apesar das minhas palavras enérgicas em sentido contrário e da minha atitude de franqueza em tais casos, acredita em malefícios e perseguições de toda a espécie. Cá te direi tudo. A tua presença me aclarará o alvitre que devo tomar. Escrevo-te dolorosamente aflito. Teu Cruz e Sousa OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 649 15. A ALBERTO COSTA Rio, 8 de maio de 1896. Meu caro Amigo Abraço-o com afeto e recomendo-me a Exma. família. Ouso insistir no pedido que lhe fiz por carta, pois acho-me na maior angústia e não tenho outro recurso senão importuná-lo ainda uma vez. Peço-lhe encarecidamente que me sirva, se não em toda ao menos na metade da importância que eu lhe solicitei. As minhas contrariedades e aflições avolumam-se cada vez mais. O amigo não pode calcular certamente nem a metade da situação por que estou passando. Pode confiar na pessoa que lhe entregar esta carta. Sempre ao seu dispor, com simpatia e reconhecimento. Amo Obmo Cruz e Sousa 16. A NESTOR VITOR Rio, 2, junho, 96. Nestor Desejo muito que me faças um sacrifício de amigo, ao menos com a quantia de vinte mil réis. Tenho tido grandes saudades da nossa convivência, tão consoladora e tão nobre. Aparece que tenho uns trabalhos para mostrarte. Teu profundo amigo. Cruz e Sousa 650 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 17. A ARAÚJO FIGUEIREDO Rio, 8 de janeiro de 1897. Caríssimo Araújo Saudades e abraços. – Esta carta tem por fim somente convidar-te para uma Revista de Arte que o Nestor Vítor, eu e outros vamos fundar. Será uma publicação vigorosa e alta nos seus fundamentos, trazendo o cunho superior de uma força espontânea e nobre. Deves mandar teus originais o mais breve possível, com a contribuição de 5$000 réis, que é quanto nós arbitramos a cada membro da Revista, mensalmente e durante um ano. Depois disso os membros ficarão considerados remidos. Espero que recebas este convite com vivo entusiasmo, mandando já a tua correspondência e a contribuição mensal para a Rua do Ouvidor n° 74, Papelaria Leandro. Teu Cruz e Sousa 18. A NESTOR VÍTOR Rio, 27 de dezembro de 1897. Meu Nestor Não sei se estará chegando realmente o meu fim; – mas hoje pela manhã tive uma síncope tão longa que supus ser a morte. No entanto, ainda não perdi nem perco de todo a coragem. Há 15 dias tenho tido uma febre doida, devido, certamente, ao desarranjo intestinal em que ando. Mas o pior, meu velho, é que estou numa indigência horrível, sem vintém para remédios, para leite, para nada, para nada! Um horror! OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 651 Minha mulher diz que eu sou um fantasma, que anda pela casa! Se pudesses vir hoje até cá, não só para me confortares com a tua presença, mas também para me orientares n’algum ponto desta terrível moléstia, será uma alegria para o meu espírito e uma paz para o meu coração. Teu Cruz e Sousa 19. A NESTOR VÍTOR Rio, 7 de janeiro de 1898. Nestor Peço-te para ires ao Escritório da Linha, em S. Diogo, entregar o meu requerimento pedindo licença, por que os dias estão passando e eles já reclamaram esse papel. Qualquer demora me pode prejudicar muito. Se já entregaste noutro lugar que não no Escritório de S. Diogo então está tudo atrapalhado e o requerimento perdido. É necessário entregar em mãos do Chefe do Escritório Jacutinga. Peço-te para liquidar isso, pois vivo muito aborrecido porque quase todo o dia vem aqui em casa um empregado do Escritório dizer-me que ainda não receberam o requerimento e que essa demora me pode ser prejudicial. Teu Cruz e Sousa 652 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 20. A ARAÚJO FIGUEIREDO Rio, janeiro de 1898. Meu Araújo Que os meus braços amigos te apertem bem de encontro ao meu coração, no momento em que receberes estas linhas saudosas. Mas escrevo-tas, meu querido irmão, com a alma dilacerada de angústias, porque me vejo a morrer aos poucos, e quisera, pelo menos passar alguns dias contigo, antes que isso sucedesse, pois vejo em ti um grande e afetuoso amparo aos meus últimos desejos. Fala com teu amigo José Fernandes Martins, e arranja com ele uma condução no paquete Industrial, para mim, para a Gavita e para os meus quatro filhos. Se escapar da morte que, no entanto, julgo próxima, ajudar-te-ei no teu colégio, ouviste? Saudades. O teu pelo coração e pela arte, Cruz e Sousa 21. A NESTOR VÍTOR Rio, 18 de janeiro de 1898. Meu caro Nestor Cumprimentos a Exma. Senhora e beijos nas meninas. Preciso muito que dês um pulo até nossa casa, porque apareceu uma dificuldade com relação a minha licença e é necessário desfazer o mais breve possível essa dificuldade. Eu logo vi que por força havia de aparecer uma porcaria destas para incomodar-me. Vem que eu de viva voz te direi tudo e veremos se amenizamos este inferno que em tudo me persegue. Teu profundo amigo Cruz OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 653 22. A NESTOR VITOR Rio, 27 de janeiro de 1898. Meu belo Nestor A tua carta de 24 foi um clarim de anjo trazendome belas novas, animação e coragem. Sim! Nenhuma dúvida deve ter de que eu não esteja absolutamente resolvido a partir. Mas antes disso há muitas cousas sérias a tratar: – principalmente uma procuração ou cousa que o valha para poderes todos os meses receber os meus pingues ordenados; como também deixar feito por antecedência o novo requerimento pedindo prorrogação da minha licença, o que é inteiramente indispensável. Essas cousas devem merecer a nossa maior atenção, porque as datas da licença podem estar extintas e haver demora prejudicial com a entrega tardia do outro requerimento de prorrogação. Enfim penso que tudo se acordará de modo a não haver atropelo e a não suceder que eu seja forçado a deixar o lugar. Teu Cruz e Sousa 23. A NESTOR VÍTOR Nestor A luta das casas continua horrível. Não imaginas que verdadeiro desespero. Todos querem fiador – e é para ali, de punhos cerrados, de dentes cerrados. Já não temos quase recursos nem para os trens nem para os bondes. Estas cousinhas é que ninguém parece lembrar-se delas. 654 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 Não sabemos mais do que havemos de lançar mão para conseguir uma casa ou um cômodo qualquer. Tudo é um despropósito de dinheiro. Amanhã, 28, Gavita vai novamente sair à luta das casas. Não sei se conseguirá a casinha, mas enfim lutará até a última. O furor maior nisso tudo é o da finança, que é uma cousa terrível de se conseguir. Teu Cruz 24. A ARAÚJO FIGUEIREDO Meu Araújo. Esqueci-me de dizer-te, na carta que escrevi há dias, que moramos à Rua Malvino n° 50, no Encantado. O teu Cruz e Sousa 25. A NESTOR VITOR Rio, 3 de fevereiro de 1898. Meu caro Nestor Mudo-me hoje para a rua Malvino Reis — 50. Vem mais Teu Cruz 26. A NESTOR VÍTOR 17 de março de 1898. Meu caro Nestor Cheguei sem novidade a 16 deste por 7 horas e meia da manhã desse dia. Fiquei cansadíssimo da OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 655 viagem. Nada tenho de importante mais a dizer- te. Os remédios tomo-os regularmente. Preciso com muita urgência de dinheiro. Isto aqui é muito agradável. Depois mandarei dizer tudo. Não te esqueças do dinheiro. Lembranças de Gavita. Teu Cruz e Sousa Como vão os meus filhos que aí ficaram? Fico no hotel Amadeu. Sobrado. Diária 6$000. No correr da Estação. Abraço todos os amigos Cruz DEDICATÓRIAS EM MISSAL: A ARAÚJO FIGUEIREDO: Araújo Figueiredo Na serenidade desta página clara, quero perpetuar, como na corrente do Tempo, a Amizade, o Culto Intelectual, o alto Amor estético que te consagro/ ouros, mirras e incensos do meu ser devotado. A ti, Coração nobre; a ti, luminosa Cabeça; a ti, delicioso poeta dos Campos, dos Mares, das Rosas, dos Astros; a ti, amigo-irmão, casta e branca natureza de Sonhador olímpico, Israelita da Arte, que tens a virgindade emotiva das Forças novas, originais/este Missal de Abstração, de Espiritualidade, de Forma. Cruz e Sousa. Rio de Janeiro, 13 de março de 1893. 656 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2 A TIBÚRCIO DE FREITAS: Meu adorável Tibúrcio À tua penetrante compreensão de Arte, à tua delicadeza de sentir/flores raras e luminosas deste meio/ofereço este exemplar do Missal, para que, lendoo muitas vezes, em repouso, possas avaliar da espontânea, viva e comovida simpatia intelectual que me ligou a ti serenamente, num movimento estranho, misterioso e íntimo de almas que se amam e percebem. Assim, belo Tibúrcio, aqui me tens encerrado em essência abstrata de Pensamento/palpitando junto ao teu coração bom e franco, nobre e valoroso, que tão afetivamente me acolhe. Cruz e Sousa Rio, 5, abril de 1893. DEDICATÓRIAS EM RETRATOS: A GONZAGA DUQUE: Meu ilustre e querido Duque Estrada. No fundo desta fotografia eu quisera trazer-te um página de prosa, colorida, sonora, e esmaltada de estilo, mas despretenciosa, mas simples, mas meiga, que me corresse livre, neste cartão, como a expressão franca, profunda e original da minh’alma quando me encontro contigo e te falo de Arte. Porém, não me restando campo, aqui, para eu lavorar, com os instrumentos da forma, uma página d’idéias, que palpitasse e fulgisse junto ao teu belo ser, como um pássaro ao sol, para aí fica, muda, significativamente muda, a minha fisionomia que, para OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA * 657 o teu fino sentimento artístico, que eu tanto sei querer e considerar; para o teu delicado espírito, que eu vivamente acaricio entre as raras flores claras da minha Crítica, para o teu nobilíssimo coração de camarada firme, leal nas crenças, admirações e afetos, deve exprimir o mais íntimo e comovido apreço da Inteligência e da Amizade de Cruz e Sousa. Rio de Janeiro, 3, setembro, 1891. AO PAI: Ao meu bom e extremoso pai que eu estimo e considero de todo o meu coração. Ao respeitável homem, honrado pela velhice, pela bondade e pelo trabalho, que viu junto a si morrer a minha querida mãe, de quem nunca mais hei de esquecer enquanto for vivo. Lembrança de um filho reconhecido. Cruz e Sousa Rio de Janeiro, 9 de setembro de 1891.