Cruz e Sousa
Obra Completa
Volume 2
PROSA
Cruz e Sousa
Obra Completa
Volume 2
PROSA
Pesquisa e Organização
Lauro Junkes
Presidente da Academia Catarinense de Letras
© Copyright
2008 Avenida Gráfica e Editora Ltda.
Projeto Gráfico, Editoração e Capa
ESPAÇO CRIAÇÃO ARQUITETURA DESIGN E COMPUTAÇÃO GRÁFICA LTDA.
www.espacoecriacao.com.br
Fone/Fax: (48) 3028.7799
Revisão Lingüístico-Ortográfica
PROFª Drª TEREZINHA KUHN JUNKES
PROF. Dr. LAURO JUNKES
Impressão e Acabamento
AVENIDA GRÁFICA E EDITORA LTDA.
Formato
14 x 21cm
FICHA CATALOGRÁFICA
Catalogação na fonte por M. Margarete Elbert - CRB14/167
S725o
Sousa, Cruz e, 1861-1898
Obra completa : prosa / João da Cruz e Sousa ; organização
e estudo por Lauro Junkes. – Jaraguá do Sul : Avenida ; 2008.
v. 2 (657 p.)
Edição comemorativa dos 110 anos de falecimento e do
traslado dos restos mortais de Cruz e Sousa para Santa Catarina.
1. Sousa, Cruz e, 1861-1898. 2. Poesia catarinense. I.
Junkes, Lauro. II. Titulo.
CDU: 869.0(816.4)-1
SUMÁRIO
11
Critérios Para Esta Edição
13
Tropos e Fantasias
14
15
17
19
26
31
34
Casos e Cousas
Allegros e Surdinas
Piano e Coração
A Bolsa da Concubina
O Padre
Pontos e Vírgulas
Sabiá-Rei
37
Dispersos
38
40
42
43
45
47
49
62
64
67
70
74
85
91
92
93
95
98
101
121
Da Bahia
Interjeições da Lágrima
Victor Hugo
Perfis a Vapor
Victor Hugo
Major Camilo
O Espectro do Rei
Perfis a Vapor
Virgílio Várzea e Cruz e Sousa
Abolicionismo
Biologia e Sociologia do Casamento
Um Novo Livro
Emile Zola
Guilherme I
O “El-Dorado”
Carta a Gonzaga Duque
Horácio de Carvalho
O Pequeno Boldrini
Signos
A Virgílio Várzea
123
Histórias Simples
125
126
128
130
133
136
138
143
I. À Iaiá
II. À Sinhá
III. À Nicota
IV. À Bilu
V. À Santa
VI. À Bibi
VII. À Neném
VIII. À Zezé
147
Outras Evocações
148
150
161
164
170
173
176
179
183
188
191
193
195
198
201
206
208
210
213
215
218
221
222
225
228
230
Elizirna
Consciência Tranqüila
O Estilo
Je Dis Non
Écloga
Impressões
Croqui dum Excêntrico
A Casa
O Senhor Presidente
O Senhor Secretário
Nicho de Virgem
Aroma
A Milionária
De Volta aos Prados
Investigação
Psicose
Luz e Treva
Volúpia...
A Carne
Os Felizes
Natal
Em Julho
Símbolo
O Batizado
Doença Psíquica
Policromia
233
235
240
243
Flor Sentimental
Velho
Decaído
Fugitivo Sonho
245
Formas e Coloridos
246
248
250
252
254
A Abelha
Obsessão da Noite
Hora Certa
Rosicler
Beijos Mortos
255
Últimas Evocações
256
260
263
265
271
273
274
276
279
280
283
285
Margarida
Comemoração do Sexagésimo Primeiro Aniversário
Natalício de Joaquim Gomes de Oliveira e Paiva
Julieta dos Santos
A Musa Moderna
Manhã no Campo
Uma Lenda
A Romaria da Trindade
O Abolicionismo
Gema Cuniberti
A Noite de São João
Entre Ciprestes
A Vida nas Praias
289
Missal
290
292
294
295
297
300
301
304
Oração ao Sol
Dolências...
Ocaso no Mar
Sob as Naves
Paisagem
Astro Frio
Bêbado
Sabor
306
307
308
309
312
313
314
317
318
320
324
326
327
329
330
333
336
338
341
343
347
348
352
353
356
357
358
364
366
368
371
374
375
378
381
382
385
Lenda dos Campos
Noctambulismo
Navios
Emoção
Os Cânticos
Fulgores da Noite
Psicologia do Feio
Vitalização
Gloria in Excelsis
Página Flagrante
Tintas Marinhas
Esmeralda
Fidalgo
Angelus
Núbia
Som
Gata
Dias Tristes
Paisagem de Luar
Artista Sacro
Visões
A Janela
Umbra
Modos de Ser
No Faeton
Ritos
Mulheres
Perspectivas
Campagnarde
Ritmos da Noite...
Sugestão
Sofia
Manhã d’Estio
Aparição da Noite
Estesia Eslava
Tísica
Oração ao Mar
387
Evocações
388
396
398
407
417
422
424
429
434
437
443
447
451
452
458
460
468
470
472
478
506
510
512
521
526
532
539
542
546
551
557
558
561
563
564
568
581
Iniciado
Seráfica
Mater
Capro
A Noite
Melancolia
Condenado à Morte
Anho Branco
O Sono
Triste
Adeus!
Tenebrosa
Região Azul...
Sonambulismos
Dor Negra
Sensibilidade
Asas...
Espiritualizada
Asco e Dor
Intuições
Morto
Vulda
Anjos Rebelados
Um Homem Dormindo...
No Inferno
A Nódoa
Talvez a Morte?!...
Ídolo Mau
Balada de Loucos
Espelho contra Espelho
Abrindo Féretros
Primeiro Féretro – Ana
Segundo Féretro – Antônia
Terceiro Féretro – Carolina
Quarto Féretro – Guilherme
O Sonho do Idiota
A Sombra
591
606
609
Nirvanismos
Extrema Carícia...
Emparedado
633
Correspondência
634
634
635
636
638
639
640
641
642
644
646
646
648
648
649
649
650
650
651
652
652
653
653
654
654
654
655
655
656
656
656
657
À Comissão Organizadora do Clube dos Jornalistas
À Sociedade Carnavalesca Diabo a Quatro
A Gavita
A Gavita
A Gavita
A Gavita
A Germano Wendhausen
A Germano Wendhausen
A Virgílio Várzea
A Araújo Figueiredo
A Luiz Delfino
A Gonzaga Duque
A Nestor Vítor
A Nestor Vítor
A Alberto Costa
A Nestor Vítor
A Araújo Figueiredo
A Nestor Vítor
A Nestor Vítor
A Araújo Figueiredo
A Nestor Vítor
A Nestor Vítor
A Nestor Vítor
A Araújo Figueiredo
A Nestor Vítor
A Nestor Vítor
Dedicatórias em Missal
A Araújo Figueiredo
A Tibúrcio de Freitas
Dedicatórias em Retratos
A Gonzaga Duque
Ao Pai
CRITÉRIOS PPARA
ARA EST
A EDIÇÃO
ESTA
Como ocorreu no volume da Poesia destas Obras
Completas de João da Cruz e Sousa, também a ordenação
dos textos neste volume de Prosa se diferencia das
edições anteriores. Alguns textos recentemente
descobertos e identificados por Iaponan Soares/Zilma
Gesser Nunes – as “Últimas Evocações”, publicadas no
livro Cruz e Sousa, Dispersos. São Paulo: Fundação
Editora da UNESP: Giordano, 1998 – foram incorporados
à Obra Completa, organizada por Andrade Muricy e
atualizada por Alexei Bueno.
Outrossim, sempre com o desejo de lograr maior
aproximação ao evoluir literário do autor de Evocações,
alteramos a disposição dos textos no volume. Como Missal
e Evocações foram os dois únicos conjuntos organizados
pelo autor, deverão representar a maturidade do prosador
Cruz e Sousa, a seleção mais perfeita por ele mesmo
feita em relação aos seus escritos em prosa. Embora
alguns textos dispersos tenham sido escritos na última
fase da sua vida, a grande maioria constitui produção
anterior até mesmo à sua adesão à estética simbolista.
Por essa razão, englobamos todos eles no início do volume,
na fase de formação do escritor. Apenas a
Correspondência, que abrange diversas épocas, ocupa a
parte final do volume.
Para estabelecer o texto, também houve cotejo de
diversas edições. A Tese de Doutoramento de Rosane
Cordeiro da Silva, defendida na UFSC em 2006 e
intitulada Entre missais e evocações: a prosa desterrada de
Cruz e Sousa, cotejando 18 manuscritos autógrafos,
permitiu, através da crítica textual, aproximar-nos mais
da vontade do autor e retificar aspectos substanciais
dos textos. O respeito à redação e à intenção do autor
constituiu orientação imprescindível. Na decisão sobre
as variantes, a opção buscou elucidar o binômio forma e
conteúdo. A pontuação, sobretudo a vírgula, foi alterada
em casos de incorreções, sendo eliminada quando
separava o sujeito do predicado. Objetivou-se contribuir
para tornar mais claro o pensamento do autor, sem
introduzir maiores modificações. A atualização ortográfica
obedece à grafia atual. Permaneceram intocadas as
colocações pronominais e as concordâncias utilizadas
pelo autor, mesmo que firam a norma culta. Nos textos
autógrafos, o autor assinava Souza com “z”; porém está
consagrada a substituição por “s”: Sousa.
Tropos e Fantasias
14 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
CASOS E COUSAS
As Ilusões são como as cerejas.
Se estas se desprendem uma a uma, quando as
tentamos apanhar juntas, também aquelas.
Tropos e Fantasias sintetizam um punhado de
ilusões... avigoradas no idealismo, emigrando, leves,
leves, para os espíritos asseados e limpos, na higiene e
na salutariedade essencial da luz.
E foi nestes casos que publicamos estas cousas.
VIRGILIO VÁRZEA E CRUZ E SOUSA
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 15
ALLEGROS E SURDINAS
A B. Lopes
Foi pela primavera.
A natureza fecunda e prodigiosa extasiava o
raciocínio com as pompas exuberantes, com a fertilização
da verdura.
As flores abriam-se, como os risos alegres e
vibrantes da terra.
Havia nos espaços, profundamente calmos, a
expansibilidade suavíssima das cousas.
Pairava em tudo como que o amor espiritualizado.
Foi pela primavera.
* * * * * * * * * *
A falange gloriosa dos canários, dos coleiros, dos
gaturamos, dos sabiás rasgava o horizonte, aqui e ali,
de risadas apopléticas, que chocalhavam como guizos,
que tiniam, que bimbalhavam como campanários de
aldeia.
Toda a floresta tomava a proporção de um
deslumbramento equatorial.
As fontes, as cascatas, os ribeiros, sonoros,
harmônicos, musicais, faziam coro na grande ópera da
Criação.
A vitalidade, a seiva tinha erupções vulcânicas,
desde os troncos mais hartos, até as mais frágeis raízes.
Cintilava, cantava o verde florido dos prados e o
azul refrigerante dos céus.
Almas e almas vagavam, como silfos, como asas,
como nuvens e nuvens, pelas zonas consoladoras e
luminosas do idealismo.
Trinos e trenos, por tudo.
A falange gloriosa dos canários, dos coleiros, dos
gaturamos, dos sabiás rasgava o horizonte, aqui e ali,
de risadas apopléticas, que chocalhavam como guizos,
que tiniam, que bimbalhavam como campanários de
aldeia.
* * * * * * * * * *
16 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Uma simpatia boa acariciava, por fora, a casinha
alva, muito alva, encarapitada do cimo da colina.
Dentro, morrera o Gigi, uma criança, um beijo
cristalizado, um sonho dos colibris; e as esperanças dos
pais imergiam, pela sombra melancólica das mágoas,
como pombas, tristes, tristes...
Morrera o Gigi; a primavera da vida, na primavera
da natureza.
E as névoas crepusculares que invadiam a tarde
penumbravam o aposento inteiro...
Nos objetos parecia haver também a reticência da
dor.
E quando o foram conduzir para o túmulo, as
estradas arenosas tinham aquela gravidade séria dos
corações desamparados de crenças.
As lavadeiras, atravessando o caminho, em curvas,
cantarolando, com as brancuras honestas de roupas à
cabeça, punham tons de uma afabilidade rara no fúnebre
trajeto.
Os ciprestes, silenciosos, acompanhavam aquela
angústia, chorando as suas compridas lágrimas de
orvalho.
Perfumes agrestes espiralavam-se das matas
verdes, fartas de florações viçosas e castas.
Estendiam-se, para além, nas serras oblongas,
alguns mugidos vagos de bois satisfeitos, que pastavam
deleitosamente.
E na extremidade curvilínea das praias, as ondas
claras, espumantes refletiam os coloridos silforamáticos
que o sol produzia, frechando as colinas pedregosas e
altanadas, parecendo, à movimentação do globo, resvalar
pelo seu ocaso eterno e supremo, numa auréola de fogo.
Uma simpatia boa acariciava, por fora, a casinha
alva, muito alva, encarapitada no cimo da colina.
Dentro, morrera o Gigi, uma criança, um beijo
cristalizado, um sonho dos colibris; e as esperanças dos
pais imergiam, pela sombra melancólica das mágoas,
como pombas, pombas tristes, tristes...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 17
PIANO E CORAÇÃO
A Isidoro Martins Júnior
O piano, o piano e o coração.
Ó melodias do coração, ó harmonias do piano.
Chopin, Gounod, Metra, Strauss, Beethoven,
Gottschalk, constelação gloriosa de boêmios de ouro!...
Quando o piano musicaliza, caracteriza,
espiritualiza as longas escalas cromáticas, os adoráveis
allegros, os interessantes pizzicatos, quem fala primeiro
que os cérebros artísticos é o coração.
Ele canta mais alto que todos os órgãos humanos.
O coração é o pulso do cérebro artístico.
Pela temperatura e o grau de sentimento de um,
o músico estabelece a proporção do outro.
Um dirige, outro executa.
Um tem a fórmula, outro funciona.
Um é o oxigênio, outro o carvão.
Um faz o relâmpago, outro produz o raio.
Coração e cérebro aliam-se, homogeneízam-se.
Assim o piano, eternamente assim.
O coração é a luta, as grandes tempestades
desoladoras, varadas de cóleras surdas de vendavais
gargalhantes e intérminos, de frios que estortegam,
enregelando as noites soturnas das trevas compridas e
absolutas; o coração é a maciosidade dos linhos, a
candidez consoladora dos luares estrelados, a fluidez
elétrica dos perfumes excitantes, as expansivíssimas
alegrias, castamente sonoras e sonoramente castas.
O coração ruge e vibra.
Assim o piano.
Cada palpitação do piano é uma fibra do coração,
que bate.
Tem os mesmos triunfos, os mesmos humorismos
fúnebres, as mesmas imponências e coruscações, o
piano.
Chora e canta, ri e soluça.
18 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Quanta vez o artista não canta, não ri e chora e
soluça com o piano.
Dizei à sensibilidade que emudeça.
À sombra que se subdivida, partícula por partícula,
pela própria sombra.
O piano, como o coração, representa um ser
complexo, com os elementos necessários, com os nervos,
com os músculos de vitalidade dispostos, preparados,
desenvolvidos, de forma a infiltrar nos demais seres a
seiva psíquica, a sangüinidade simpática da arte.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 19
A BOLSA DA CONCUBINA
A Horácio de Carvalho
O amor é uma escada que tem uma extremidade
na glória e outra no abismo – disse-o Matias de Carvalho.
Vezes há que essa escada, devendo resvalar na
glória, resvala abruptamente no abismo.
E ai daqueles que se têm librado a ela.
O amor é uma torrente de circunstâncias
anormais.
Quanto maior é o amor, maior deve ser o sacrifício.
O amor faz gigantes e faz anões, ilumina e
entenebrece os espíritos nervosos e doentios.
É como o cáustico; cura mas deixa os sinais
evidentes.
Daí as incompatibilidades, as duras idiossincrasias
do amor.
Daí as monstruosidades e os abortos morais, os
perigos e as aberrações sociais.
O amor, o amor que se consubstancia no dever,
na harmonia, no bem-estar, no sossego de espírito, na
probidade e na lisura, é o maior elemento higiênico da
moral da família.
Para a felicidade doméstica, o agente que mais
influi é o amor, mas não esse amor gasto que anda a
suspirar pelos madrigais, pelas belas noutes de luar,
pelos suntuosos saraus de onde se sai com o estômago
encharcado de maus vinhos e a consciência
cambaleando, pelo efeito das luzes, das flores, das
músicas e das pompas.
Não! Não!...
Mas o amor sadio, limpo, asseado, o amor que sabe
ter energias e sabe ter heroísmos, o amor que ri com a
esposa e soluça com o filho, o amor que mostra a camisa
rota do operário, o arado do aldeão, mas que à noite,
nas suavíssimas meias sombras do lar, lembra-se que
tem de almoçar no dia seguinte e que a mulher já lhe
20 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
disse, abraçando-o expansivamente, entre as harmonias
alegres e francas de um sorriso, que não há lenha em
casa.
É esse o amor.
O amor que faz bem, que corporifica os sentimentos
da alma, que se multiplica de vitalidade pelos sentidos,
pelos olhos, pelos ouvidos, pelos gestos, por todos os atos
e complementos psicológicos e fisiológicos.
O amor que é a filosofia dos seres bons, honestos,
o amor que é o oxigênio da temperatura do afeto humano.
Assim como o ar atmosférico tem influência sobre
os pulmões, o amor tem influência sobre o trabalho, sobre
o dever, sobre a virtude.
Da temperatura do amor depende a temperatura
da felicidade conjugal.
Há desgraçados que deveriam ser felizes, assim
como há felizes que deveriam ser desgraçados.
Os primeiros porque trabalharam para ser felizes;
os últimos porque nada fizeram para isso, não deixando,
porém, de ter a consideração de zelosos de seu bemestar e trabalhadores do seu futuro.
O verdadeiro amor, aquele que é para as crianças
o imaculado tesouro, o verdadeiro amor, aquele que é
para os cegos a benéfica luz, aquele que é para os mortos
o miraculoso surge et ambula, esse, esse amor, supremo
como as supremas harpas do infinito, claro, magnífico
como as vestiduras brancas dos justos, imponente como
a memória de Camões cortando a monotonia de gelo de
trezentos anos, esse amor é a afinação das almas pela
música da natureza criadora.
Fora preciso que a humanidade não cuidasse tanto
das funções peristálticas do estômago, para abrir o
grande livro da virilidade universal:
O amor.
Fora preciso que as consciências expelissem de
si todos os fetos e aleijões que elas produzem e que,
tomando uma nova seiva, uma porção de sangue, uma
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 21
boa parcela de massa encefálica, uma intuição muito
direita, muito outra, dos admiráveis problemas que a
filosofia derrama na flor, na árvore, no infinito, em toda
a criação, em toda a natureza, sintetizassem no amor a
concretização de todos os fenômenos e acontecimentos
animais.
– O amor, tem razão o poeta, é uma escada que
tem uma extremidade na glória e outra no abismo.
* * * * * * * * * *
Casaram-se.
Ela muito limpa sempre, muito asseada, sabendo
ler bem, costurando à noite, na máquina, paletós, calças,
coletes, sacos de aniagem; fazendo à mão toalhas de
rosto, bordando, toda alegre, com os seus pospontos
muito bem acabados, delicadamente feitos; indo ao
quintal de manhã cedo, aos raios mais firmes do dia,
ver a alacridade doce de suas plantas, de suas flores,
de sua horta muito galante, dando de comer milho moído
aos pintos, que vinham, vinham, vinham, em pequeninos
gritos, em expansões castas, abrindo o bico, ruflando as
asas tenras, roçando as penas pela macia plumagem
das mães, umas galinhas gordas, satisfeitas, parecendo
donas de casa, amarelas, rajadas de branco e preto,
levando os grãozitos de milho ao bico e dando aos pintos
todos contentes de sua vida.
Uma alegria das pobres aves.
Ele um pintor boêmio, sem apreço à honra; casarase por amor, mas depois uns amigos maus, hipócritas,
transformaram-no inteiramente.
Mesmo dizia-se que nunca tivera juízo.
Mas, como quem vê cara não vê coração, a pobre
da moça amou-o muito, com toda a força de sua crença
e casaram-se.
Depois ele tinha um vício.
22 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Era pobre, pobre e amasiara-se com uma mulher
com a qual banqueteava-se.
Às vezes, ia para a casa com o sorriso alvar de
animalidade alcoolizada.
Não era barulhento, não era de instintos ferozes,
mas bestializava o seu proceder.
A honesta mulher sabia de tudo, mas ah! grande
luz do seu imenso coração, envergonhava-se, não queria
escândalos, chorava no escuro, baixinho, toda pesarosa,
toda magoada; lembrava-se do filho que tinham, sabia
que era ele o pai e que se esse pai os abandonasse,
seria desairoso para ela e então suportava tudo.
Pois se ela era tão honesta!
Ah! o seu filho, o seu querido filho tão bonito como
ela o chamava.
O seu querido filho tão bonito!
Oh! as mães, as mães!
E no entanto a criança era raquítica, não parecia
ter seis meses; o crânio muito comprido e achatado, o
frontal muito largo, de uma saliência enorme, abaulado,
deixando aparecer muito no fundo, dous olhos sem
expressão, quase sem movimento, dava-lhe o aspecto de
uma caveira; o corpo mal desenvolvido, o rosto amarelado
e de uma pele seca, as pernas em arco, magras, tudo
emprestava àquilo que ela chamava o seu querido filho
tão bonito uma aparência sinistra e má.
Não obstante ela o adorava!...
Oh! as mães, as mães!...
Que sacrifício profundo e sacrossanto é maior que
o coração das mães?!
– O espetáculo estupendo do sol, faiscando pelos
espaços intérminos, como um colosso de fogo, iluminando
as esferas, dando umas tonalidades claras ao espírito
das cousas, abrindo e fecundando as grandes almas de
tudo, não é mais deslumbrante de eloqüência que o amor
das mães!...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 23
Elas se imortalizam na memória dos filhos, quando
eles se chamam Dante, Shakespeare, Vítor Hugo e Zola.
As mães são o compêndio infinito de todas as
ciências, a irradiação maravilhosa de toda a luz filosófica.
Por isso ela estremecia muito o seu querido filho
tão bonito.
E ele, o marido, andava fora, ou no trabalho ou
em casa dela.
E ela, a mulher, essa outra – ela – tão modesta,
tão santa, tão trabalhadora, ainda nova, na manhã
transparente dos seus vinte e dous anos, sentia
necessidade, umas abundâncias de extremos, de umas
exuberâncias de afeições puras, revolvia-se toda, às
vezes, como uma freira na sua cela, ficava nuns letargos
mornos, sensuais, num sonambulismo etéreo, fechando
os olhos numa dormência calada, como se cedesse ao
poder de um magnetismo soberano.
Tinha necessidade de adulterar, mais o seu
querido filho e tão bonito ali estava, fisicamente feio,
como a atalaia da sua honra, como a porta de bronze a
lhe interceptar a entrada no palácio silforamático da
prostituição.
E então ela erguia-se em toda a majestade do
seu dever e abraçava e beijava o filho, numa aluvião
delirante de carinhos enternecedores.
Aquele filho livrava-a de ter uma Waterloo na
batalha renhida da sua existência.
E então trabalhava, trabalhava muito.
Ele já pouco ia ver a mulher e o filho.
O pão, no entanto, escasseava, o fogão estava negro
e calado.
O proprietário da casa onde moravam já lhes falara
uma vez, duas, três vezes.
Tinham-se atrasado um tanto... uns cinco meses.
O fornecedor o vira entrar em casa diversas noites,
cambaleando, e mastigando frases desencontradas.
24 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Dissera que não fiava a bêbados, desconfiava que
não seria pago e depois atirava os seus dichotes canalhas
à sua freguesa e desejava-a, mas o único meio de a
obter, pensava ele, era tornando-se desapiedado e
negando-lhe o alimento, porquanto ela assim cederia,
já que o marido pouco parava em casa.
No entanto, a vida dela caía, caía como as pétalas
de uma rosa ao chegar o inverno desabrido e úmido.
As papoulas de sua face desbotavam dia-a-dia.
Ele já não trabalhava quase, desmoralizara-se de
todo e negavam-lhe trabalho.
Deixava, dez, quinze dias de ir ver a família.
Uma ocasião foram dizer-lhe, um pequeno
aprendiz seu, que o filho fora atacado de varíola.
Achava-se ele em casa da concubina.
Ela, ao ouvir o recado do pequeno, sorriu-se com
um sorriso de vingança, pois dizia – que ele lhe prometera
casamento, que a enganara, mas que ela se vingaria; e,
terminantemente, ordenou-lhe que não aparecesse em
casa, que não fosse ver o filho, que ela faria as despesas
da moléstia e do enterro, caso a criança morresse.
E pegando da pena escreveu, imitando o quanto
possível a letra do amante: – “Minha querida – sinto
extremamente o estado do nosso filho, mas como não
encontro trabalho na cidade e é absolutamente preciso
que eu parta hoje para a vila de..., a um magnífico negócio
onde poderei ter mais prontos resultados de dinheiro,
desculpa a precipitação com que te escrevo e olha bem
por nosso filho. – Tu és boa, perdoa-me, pois, os dias que
não tenho ido à casa.
– Para que nada falte ao pequeno, aí te envio uma
sofrível importância; a sua doença não há de ser nada;
daqui a pouco te mandarei lá o médico. – Teu marido A.”
Meteu o bilhete num envelope, puxou de uma
bolsa, colocou dentro umas cinco notas de mil-réis e
deu ao pequeno que saiu.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 25
Ele, bestializado com tudo aquilo, meio parvo,
fechava de vez em quando os olhos, como que para não
ver ou não desvendar a profundidade do seu abismo.
No entanto ela ria canibalescamente e redobrava
de afagos para com o seu louro – como lhe chamava.
Era viúva, herdara alguma cousa para a sua
subsistência e sabia atrair os ladinos e triunfar dos seus
caprichos, como fazia com ele.
E enquanto a viúva pantera explosia as suas
paixões venenosas, a honesta mulher, só em casa,
desamparada como uma criança nua numa estrada, por
uma noite negra, muito negra, aos uivos de um temporal
cruel, sentindo ao longe, lá ao longe o monótono grasnar
das aves agoureiras, via que o médico não chegava, que
seu filho se sumia, se sumia, como a asa de uma
andorinha na última extrema do horizonte.
Parecia que um prédio tinha desabado sobre ela.
Estava abatida, desconsolada, desfalecida.
Não ia ao quintal para não ver as suas aves, não
ia à janela para não ver o sol percorrer satisfeito as
amplidões serenas da serena luz.
Não ia porque, nas aves e no sol, ela via seu filho
contente adormecido aos seus beijos.
E o aprendiz, pinoteador, travesso, acriançado, não
fora lá, logo no mesmo dia.
Mas no dia seguinte, de tarde, quando no éter
calmo se esbatiam as tintas crepusculares, e que a
sinfonia da natureza, os límpidos turíbulos das florestas,
derramando perfumes suaves, convidavam o raciocínio
a um recolhimento poético, morria-lhe nos braços o filho,
como um Cristo menino nos braços de Maria.
E então, ela, numa angústia despedaçadora de
mãe dolorosa, lembrando-se daquele corpo, daqueles
olhos, daqueles lábios que iam talvez rebentar numa
explosão de boninas, de cravos e de violetas, viu abrirse a porta e entrar o aprendiz com um objeto que lhe
entregou.
Era a bolsa da concubina!!
26 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
O PADRE
A João Lopes
Um padre escravocrata!... Horror!
Um padre, o apóstolo da Igreja, que deveria ser o
arrimo dos que sofrem, o sacrário da bondade, o amparo
da inocência, o atleta civilizador da cruz, a cornucópia
do amor, das bênçãos imaculadas, o reflexo do Cristo...
Um padre que comunga, que bate nos peitos,
religiosamente, automaticamente, que se confessa, que
jejua, que reza o – Orate fratres, que prega os preceitos
evangélicos, bradando aos que caem surge et ambula.
Um escravocrata de... batina e breviário... horror!...
Fazer da Igreja uma senzala, dos dogmas sacros
leis de impiedade, da estola um vergalho, do missal um
prostíbulo...
Um padre, amancebado com a treva, de espingarda
a tiracolo como um pirata negreiro, de navalha em punho,
como um garoto, para assassinar a consciência.
Um canibal que pega nos instintos e atira-os à
vala comum da noite da matéria onde se revolvem as
larvas esverdeadas e vítreas da podridão moral.
Um padre que benze-se e reza, instante a instante,
que gagueja à frente do cadáver o aforismo de Horácio –
Hodie mihi cras tibi.
Um padre, que deixando explosir todas as
interjeições da ira, estigmatiza a abolição.
Ela há de fazer-se, malgrado os exorcismos crus
dos padres escravocratas; depende de um esforço moral
e os esforços morais são, quase sempre, para a alta
filosofia – mais do que os esforços físicos – o fio condutor
da restauração política de um país!...
O interesse egoístico de um indivíduo não pode
prevalecer sobre o interesse coletivo de uma nação, disseo um moço de alevantado talento, Artur Rocha.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 27
Não é com a ênfase dogmática do didatismo ou
com a fraseologia tecnológica dos cinzelados folhetins
de Teófilo Gautier que o trabalho da abolição se fará.
Mas com a palavra educada, vibrante – essa
palavra que fulmina – profunda, nova, salutar como as
teorias de Darwin.
Com a palavra inflamável, com a palavra que é o
raio e dinamite, como o era na boca de Gambetta, a
maior concretização do estupendo – depois do sol.
A palavra que ri... de indignação; um riso
convulso... de réprobo, funambulesco... de jogral.
Um riso que atravessa séculos como o de Voltaire.
Um riso aberto, franco, eloqüentemente sinistro.
O riso das trevas, na noite do calvário.
O riso de um inferno... dantesco.
Ouves, padre?...
Compreendes, sacerdote?...
Entendes, apóstolo?...
Então para que empunhas o chicote e vais
vibrando, vibrando, sem compaixão, sem amor, sem te
lembrares daquele olhar doce e aflitivo que tinha sobre
a cruz o filho de Maria?...
O filho de Maria, sabes?!...
Aquele revolucionário do bem e aquele cordeiro
manso, manso como um ósculo da alvorada nas grimpas
da montanha, como o luar a se esbater num lago
diamantino...
Lembras-te?!...
Era tão triste aquilo...
Não era padre, ó padre?!...
Não havia naquela suprema angústia, naquela dor
cruciante, naquela agonia espedaçadora, as mesmas
contorções de uma cólica nefrética, os mesmos arrancos
informes de um escravo?...
Não compreendes que se açoitares um mísero que
for pai, uma desgraçada que for mãe, as bocas dos
filhinhos, daquelas criancinhas negras, sintetizando o
28 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
remorso, o aguilhão da tua consciência se abrirão nuns
gritos desoladores que, como uns bisturis envenenados,
trespassar-te-ão as carnes?...
Não compreendes que de seus olhos, acostumados
a paralisarem-se ante o terror, irromperão as lágrimas,
esse líquido precioso das alminhas inocentes?!!...
Pois tu, nunca choraste?!...
Nunca sentiste os engasgos de um soluço
saltarem-te pela garganta, quando te lembras de trocar
as tuas magníficas conquistas, os teus manjares
especiais, os teus licores dulçorosíssimos pela noite
escura, muito escura, onde grasnam surdamente as aves
da treva, onde Dante se acentua no Lasciate ogni speranza,
onde os espíritos vis desaparecem e os Homeros e
Camões e Virgílios surgem e se levantam pelo braço
hercúleo da posteridade, pelo fôlego intérmino e secular
da História?
Nunca?!...
Sim, tu estás comigo, padre!...
Estás!...
És bondoso, eu sei, tens a alma tão serena e tão
lúcida como uma imagem de N.S. da Conceição.
Eu sei disso!...
Olha, quando morreres – se é que morres – irás
de palmito e capela, na mudez dos justos e as virgens
tímidas e cloróticas, entoando grave De profundis,
murmurarão lacrimosas:
– Coitado, foi o pai carinhoso das donzelas...
Requiescat in pace!...
Que bonito será, não!...
E depois o céu!
Sim, porque tu irás para o céu!
Não crês no céu, padre?
Pois crê, esses filólogos mentem, têm princípios
errôneos e tu, padre, és um sábio...
Tu és bom...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 29
Porém... por Deus, como é que vendes a Cristo
como um quilo de carne verde no mercado?!...
Ah! É verdade, és muito pobre, andas com os
sapatos rotos, não tens que comer e... és muito caridoso...
Mas, escuta, vem cá: –
Eu tenho também minhas fantasias; gosto de
sonhar às vezes com o azul.
O Azul!...
Deslumbro-me quando o sol se atufa no oceano,
espadanando os raios purpureados, como flechas de fogo,
pela enormidade côncava do espaço; inebrio-me quando
a natureza, com seu tropicalismo, ergue-se do banho de
alvoradas, jorrando nos organismos de ouro o licor
olímpico e santo do ideal, as músicas maviosíssimas e
puras da inspiração, nos crânios estrelejados!...
Pois façamos uma cousa: –
Eu escrevo um livro de versos que intitularei:
O ABUTRE DE BATINA
puros alexandrinos, todos iguais, corretos, com
os acentos indispensáveis, com aquele tic da sexta – tipo
elzevir, papel melado – e ofereço-to, dou-to.
Prescindo dos meus direitos de autor e tu o
assinas!...
Com os diabos, hás de ter influência no teu círculo.
Imprimes um milhão de exemplares, vende-os e
assim terás das loiras para a tua subsistência, porque
tu és paupérrimo, padre, e necessitas mesmo de
dinheiro, porque tens família, muitos afilhados que te
pedem a bênção e precisas dar-lhes no dia de teu santo
nome um mimo qualquer.
Faz isso, mas... não te metas com o abolicionismo;
é a idéia que se avigora.
Talvez digas, mastigando o teu latim: – Primo vivere
deinde philosophare.
30 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Mas é porque tu és míope e os míopes não podem
encarar o sol... Mas eu dou-te uns óculos, uns óculos
feitos da mais fina pele dos negros que tu azorragas...
Pode ser que a influência animal da matéria excite
o espírito e que tu... vejas.
Pode ser...
Há cegos de nascença que vêem... pelos olhos da
alma.
E se tu és padre e se tu és metafísico... deves ter
alma...
Compreendes?...
Faz-se preciso que desapareçam os Torquemadas,
os Arbues, maceradores da carne, como tu, padre.
Em vez de prédicas beatíficas, em vez de
reverências hipócritas, proclama antes a insurreição...
Tens dentro de ti, bate-te no peito, nas palpitações
da seiva, um coração que eu penso não ser um músculo
oco.
Vibra-o pois, fibra por fibra, se não queres que os
meus ditirambos e sarcasmos, quentes, inflamados,
como brasas, persigam-te eternamente, por toda a parte,
no fundo de tua consciência, como uns outros medonhos
Camilos de Zola; vibra-o se não queres que eu te estoure
na cabeça um conto sinistro, negro, a Edgar Poe.
É tempo de zurzirmos os escravocratas no tronco
do direito, a vergastadas de luz...
Sejam-te as virtudes teologais, padre, – a
liberdade, a igualdade e a fraternidade – maravilhosa
trilogia do amor.
Unge-te nas claridões modernas e expansivas
dessas três veias artérias da verdadeira Filosofia
Universal.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 31
PONTOS E VÍRGULAS
A Artur Rocha
As estradas são longas e é curta a piedade dos
homens, escreveu no – “Outro amável milagre” – contido
no “Feixe de Penas” o primorosíssimo, o delicioso, o
onipotentíssimo psicólogo Eça de Queirós.
São longas as estradas.
É curta a piedade dos homens.
* * * * * * * * * *
Quer isto dizer que se acha na capital de Santa
Catarina o notável glosista Margarida, esse analfabeto,
esse doudo da luz, arremessado nas trevas, esse bom
velho rude e chão, que, se não é, na frase original e
observada do esplêndido fantasista, Virgílio Várzea – um
sofrimento que vive a rir – é um humorismo fúnebre,
dentro de uma alma cristalina de poeta.
São longas as estradas.
E ele veio de muito longe, do país das lágrimas e
das saudades, dos enevoamentos do luto, porque perdeu
sua esposa, o mote supremo de todas as suas glosas.
Vem em busca de um filho, que supôs morto
também, morto, na impassibilidade da pedra, na rigidez
do granito.
Vem procurá-lo, vem vê-lo ainda, embora, do fundo
pesado da sua existência, alguma cousa lhe murmure
aos ouvidos:
São longas as estradas.
É curta a piedade dos homens.
E ele, quase absolutamente, que precisa dessa
piedade, ó filhos de Cristo.
Uma piedade justa, que não desdoura, que não
humilha; honesta como a intenção destes pontos e
vírgulas, franca como a expansibilidade do aroma.
Ele quer essa piedade.
32 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Mães, esposas e filhas, operárias do bem
doméstico, colunas direitas dos brios sociais, bíblias
inesgotabilíssimas do conforto, das consolações e... da
piedade, arremessai um ceitil da vossa fartura aos
peregrinos que passam, abri o escrínio da vossa abastança
aos que imploram, dignamente, em pé, de rosto limpo
mas... desfigurado; deixai as vossas aristocracias de
princesas bourbônicas, as vossas reverências e cortesias
fidalgas, desapertai o colete do estilo, quebrai a linha
da hereditariedade titular, saí, por um momento, dos
arminhos flácidos das nossas alcovas elegantes e
confortáveis, arquiteturadas, cinzeluradas de azul,
brosladas de prata, cheias de caprichos arabescados de
arte.
Sede democratas, uma vez.
Com a democracia dos sentimentos, preclaros,
decentes, bonitos, galgareis o corrimão feito de rosas e
madressilvas e jasmins, da escadaria rutilíssima,
madreperolizada, da aristocracia da virtude.
Formai das glosas, dos versos, das rimas do poeta,
uma nuvem de ouro, com cintilações purpúreas, para
subirdes, envoltas nela, aos intermúndios da crença,
de onde o adorável, o cândido Jesus das cândidas
bênçãos entornará nos vossos lábios os aprazíveis licores
da ventura infinita, e, vamos, provai, livres da vossa
irritabilidade nervosa, do vosso temperamento sanguíneo,
que aqui, nesta terra de Oliveira Paiva, o apóstolo sincero
da bondade extrema, deixa de existir a sentença do
mestre:
É curta a piedade dos homens.
O poeta vos pede pouco, muito pouco.
Atirai em leilão os livros que ele traz, arremataios todos, ponde em quermesse os vossos corações, enchei
aquelas mãos calosas e dignas, dos mais simpáticos e
sonoros níqueis e tudo será feito.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 33
Deixai um momento o sarcasmo, a sátira e o
egoísmo; lembrai-vos que a humanidade está sujeita às
mesmas leis eternas e imutáveis.
Amanhã, será por vós, talvez, que passará a
desolação da vida. Amanhã, talvez, os caminhos do vosso
bem-estar, tilintantes de alegria, inundados de sol,
relampagueados de júbilos, estejam tristes, bem tristes..,
duma tristeza funda e pungitiva.
Deveis pesar os clarões da vossa felicidade, pelas
sombras das mágoas alheias.
O poeta vos pede pouco, muito pouco.
34 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
SABIÁ-REI
A César Muniz
O sabiá ruflava as asas pardas e amplas, sempre
que fazia explosir, como uma girândola no ar inefável e
translúcido, a sua escala cromática, de gorjeios claros
e espontâneos, pela saleta de uns tons violáceos, com
filetes e cinzeladuras doiradas.
Quando o sol, gloriosamente tranqüilo, numa
fartura de luz benéfica, numa refrangibilidade prismática,
atirava os venábulos cintilantes pela janela da luxuosa
saleta, fazia bem ouvir-se, consorciados à coloração
vermelha, rubra, os artísticos concertos do incomparável
maestro das sinfonias selvagens, do empório largo da
natureza criadora.
Era o deslumbramento da harmonia e da luz.
E quanto mais o sol fulgia, coruscando do alto, em
rutilante cascata, mais o sabiá cantava, cantava, cantava
sempre.
Parecia que nos raios do grande Filósofo da
evolução natural, vinha presa, fundida, corporificada toda
aquela música sonorosa e adoravelmente casta que lhe
saía do laringe metálico.
Sentia-se como que o irromper imponentíssimo
de heróis, de espíritos saudáveis, em marchas triunfais,
em pompas, pela curvidão marmórea do Azul, ao escutarse o primoroso tenor das selvas.
Como cantava bem; como os trinados cheios, como
os vocábulos musicalizados se derramavam todos, com
orgulho, inflados de brio, recortados de uma bravura
nervosa, sobre os objetos silenciosos – os ricos móveis
facetados de madrepérola, os divãs de custo superior,
os contadores róseos, as chaises-longues, o piano, sobre
o qual dormiam algumas rêveries de Schubert, as cômodas
poltronas austeras, os cristais finíssimos, as estatuetas
representando amores pagãos, os reposteiros suntuosos,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 35
cor marron, as múltiplas fanfreluches chinesas, as
esquisitas ânforas gregas – tudo na imobilidade da treva.
Um dia, deixaram a porta da gaiola aberta e o
sabiá, lembrando-se que tinha talvez um lar mais livre
na amplitude livre da floresta, um ninho mais amigo,
mais carinhoso, na doçura consoladora da paina e do
musgo, bateu, abriu as asas de gênio inspirado, num
último acorde de músico e vibrante e... fugiu, rasgando
a transparência das esferas alegres e infinitas.
Mas um caçador ingrato que rodeava aquelas
paragens, vendo o esvoaçar vitorioso do pássaro
cantarolador, disparou um tiro valente e o sabiá caiu...
Nos seus olhos havia ainda os derradeiros lampejos
do tropicalismo da raça.
E o sangue a rebentar-lhe da ferida aberta, como
que parecia também salmodiar a nênia sombria da
ingratidão dos homens pelas Aves da Luz.
Dispersos
38 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
DA BAHIA
SOBRE OS POETAS CATARINENSES SANTOS
LOSTADA E VIRGÍLIO VÁRZEA
Acabo de receber jornais com o espírito hors ligne
de ambos. Maravilhoso! Único!
Li, reli, treli os versos e “quinquili” o folhetim.
Admirável! O Lostada, com a sua palavra toda
irisada de florões levantinos, arquitetando uma
fraseologia própria, original, levada nas claridões
aurorais, cinzelando um pedaço de marfim, cheio de
salpicações multicores de azul, rouge, e ouro, traçou um
dos folhetins mais cheios de verve que eu tenho lido.
Brilhante de concepção, intuitivo, vibrante como
um tímpano de metal ou um anafim mourisco.
Parece uma filigrana de Alencar, uma página da
Dama das Camélias de Dumas Filho, ou uma frase
perfumada, de luva gris-pèrle de Théophile Gautier, o
delicado inspirador de Mademoiselle de Maupin.
É um belo trabalho, e, direi mesmo, un chefd’oeuvre. Completo, artístico, palpitar de almas, cânticos
à liberdade...
É galantemente espirituoso e espirituosamente
galante, Lostada, o teu folhetim pschutt; é vivo como uma
alvorada ou uma orquestração de aves que rouxinolizam
através das fulgurações ensangüentadas de sol no seu
plaustro iluminado e triunfante, quando sobe a escadaria
longa e suntuosa do Levante!
Ainda bem! Principiam eles a ter as imponências
de águia condoreira, nessa infeliz terra que eu tanto
amo, que defendo sempre que o senso mo manda fazer,
e que lhes tem sido ingrata!
Oxalá saibam os catarinenses, como os dous
bandeirantes, compreender o evolucionismo do século e
agitar o cérebro pensante do Desterro.
Eu cá estou de longe para guardar, no sacrário de
minha admiração convicta e séria, as pérolas e as flores
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 39
de luz e ouro, do ideal desses combatentes moços que
se chamam Virgílio Várzea e Santos Lostada e que, como
uns intrépidos soldados da Idade Média, sabem na luta
do talento, na batalha do livro e do estudo, atirar o seu
cartel, a sua luva de desafio à ignorância e à insensatez
que não ousa dar um passo na vanguarda do Belo
filosófico, do Belo estético de que fala Eugène Véron no
admirável livro L’Esthétique.
Não posso ir mais além.
Estou ainda sob a impressão daquelas linhas,
cheias de rendilhados, belas, luzidias. Abraço-os, num
fervor explosivo de entusiasmo e brado-lhes da sombra
onde estou, intimamente saudoso, por não os ver: –
Avante, amigos!
Na grande cruzada da luz são os heróis, aqueles
que se erguem da treva, do obscurantismo, da
democracia, e de luta em luta, de lágrima em lágrima,
de fel em fel, de desespero em desespero. São aqueles
que riem... quando choram e que choram... quando riem.
São esses que de Tântalo passam a ser glorificados
como Voltaire ou Dumas. Salve!
E como paráfrase àqueles versos do másculo cantor
da Abolição, Castro Alves, quando diz – “Bravo quem salva
o futuro fecundando a multidão” – eu, em completa
síntese de aplausos, dir-lhes-ei: – A perfectibilidade
moral e intelectual de um povo depende da mocidade,
essa vigorosa e audaz fundidora do porvir. Salve!
Que a minha alma adeje nas asas policromas da
inspiração, para saudar os dois talentos mais amplos e
os dois poetas mais perfeitos da nova idade literária
catarinense.
40 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
INTERJEIÇÕES DA LÁGRIMA
(ARTUR ROCHA)
Ainda funâmbulo do ideal, Moleque, vamos,
reticência de soluços os períodos de tuas colunas, vírgula
de lágrimas essenciais e austeras a tua fraseologia,
corta, rasga, espedaça, destrói a tua vestidura multicor,
alegre como os guizos sonoros, vibrados à música da
pandeireta; para as tuas cambalhotas atrevidas, no
trapézio da crítica, apostrofa a gargalhada vermelha do
ditirambo cortante como a navalha, sacode os teus
nervos, acorda a tua animalidade, o teu humor que ri e
que chora – e, vamos, Moleque – fazendo explosir os gritos
da matéria, as impetuosidades pantéricas da carne, afoga
o teu organismo, mergulha-o na sombra do não ser, do
eterno problema trágico de Shakespeare.
Morreu Artur Rocha.
O que quer dizer isto?!
O que se deduz destas três frases, ali acima desta
preposição, enfileiradas, alinhadas, perfiladas, na
solenidade fúnebre dos ciprestes inteligentes, graves,
circunspetos?
O que significa aquela afirmativa, que tem a
tristeza, a unção religiosa dos soluços indefiníveis do
órgão, espalhando-se, derramando-se pelas abóbadas de
um templo enorme e majestosíssimo?
O que quer dizer isto?!
Quer dizer que desapareceu na noite metafísica
um dos mais valorosos espíritos da geração deste país.
Quer dizer que entregou-se ao conúbio do verme,
no conceito de um talento forte, uma das mais radiantes,
uma das mais ousadas e selvagens imaginações que
conheço.
Artur Rocha tinha um magnífico cabedal literário,
o seu espírito compreendia a força intuitiva das cousas
e às vezes, varado por uma loucura que se poderia
qualificar de genial, a sua pena coruscava, relampejava,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 41
fuzilava na escrita, com as nuances sulfúreas dos
fenômenos que se observam nas marés.
Sua inteligência fina, penetrante e superior, dum
atilamento de filósofo, alargava-se pelos mundos da
ciência, a fora, como uma águia gloriosa e imponente
na fartura das penas e na rijeza das asas.
O estilo saía-lhe terso e animado por uma chama
sempre nova, viva e ardente.
Parece que ele bebia, pelos órgãos visuais e pelos
órgãos auditivos, toda a seiva, toda a fecundidade natural,
porque os seus artigos tinham raízes boas, alcances
magníficos, fundos didáticos e evolucionistas.
Não se compreendia o Artur Rocha, sem o seu
lenço ao pescoço, nem o Rio Grande, sem o senso
jornalístico de Artur Rocha.
Se Artur de Oliveira era um desespero de talento,
doido e tresloucado, que enveredou no antro surdo da
dúvida, Artur Rocha era um cérebro sadio – cuja natureza
urgia, com a sua preponderância animal e inevitável,
mais horizontes para viver, mais céus estrelados de sóis
para alargar e fortalecer o sangue vital das células
intelectivas.
Vamos, Moleque, retesa os músculos e, embora
pareça que ris sempre como o Ghwinplaine sombrio, nas
eternas cabriolas da dor, no sarcasmo epilético da
agonia, pontua isto, com a lágrima franca e sincera, em
consideração ao talento que cai.
42 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
VICTOR HUGO
– La gloire t’a donné la jeunesse immortelle.
Isto escreveram-te no teu octogésimo terceiro
aniversário natalício. Hoje, depois do teu eclipse no
mundo animal, mas da tua transformação, da tua
entrada majestática pelos sóis das idéias, pelos corações
valentes das gênesis dos povos – eu, mandando a palavra
musculizada, enfibrada, palpitar como um organismo,
sintetizando as tuas obras, arremesso, pelo teu túmulo
a dentro, isto:
Morreste em todas aquelas mortes.
Viveste em todas aquelas vidas.
* * * * * * * * * *
O poeta d’Os Miseráveis, aquele que tinha uma
consolação imaculada e profunda para todos os
miseráveis; o poeta da PIEDADE SUPREMA, aquele que
tinha uma suprema piedade por todos os desgraçados
desabou como um sol triunfante e glorioso e, agora, como
numas pequeninas visões de oftalmia, causadas pela
luz excessiva, todas as raças hão de sentir os olhares
ofuscados nos clarões estupendos que o Cristo da
Liberdade universal espalhou pelos séculos afora; esse
Cristo extraordinário, esse poeta do HOMEM QUE RI,
que ria dos nababos da treva e chorava pelos mendigos
da lama numa loucura genial, esse poeta de l’ombre et
de l’abîme.
E agora, a sombra e o abismo riem-se por lhe
sorverem a matéria, mas a luz folga, acariciando a
substância espiritual do vulto.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 43
PERFIS A VAPOR
CARLOS SCHIMIDT
O Carlos, o Schimidt!...
O Schimidt, o Carlos!...
Duas pessoas, distintas e... uma só
individualidade verdadeira.
Magnífico, o Carlos Schimidt!...
Quem o não conhece; aquele invólucro simpático,
guardando um coração valentemente democrata e digno,
como o cálice de uma flor delicada guarda o perfume,
que é o espírito da natureza vegetal; como o crânio guarda
o espírito, que é o perfume da natureza animal.
Quem enfrentou ainda com esse caráter em linha
reta pelos escombros e anfratuosidades da vida, que não
sentisse vibrar dele a nota da adorabilidade e da
magnitude?...
Carlos Schimidt faz da honradez uma couraça
temível contra as marteladas e os golpes adestrados da
luta sociocrática.
Podem atirá-lo aos empurrões, aos solavancos, aos
embates fortes por despenhadeiros compactos de treva,
esses numes invisíveis que formam os destinos do ser,
que o bom do homem, o esplêndido coração, cairá
sempre, mas sempre em terreno plano, luminoso, suave.
Talvez desarranje um músculo, mas o caráter,
olhem bem para ele e... vê-lo-ão em todo o vigor, com
toda a correção do estado primitivo...
Faz bem, no meio de um materialismo que cega,
duma indiferença que regela, dum egoísmo e mesquinhez
de sentimentos, sentir palpitar ainda, surgir do caos da
podridão moral, almas decentes e profundamente boas
e úteis, com verdadeiro direito à vida, como a deste
adorável catarinense.
Não conheço ninguém mais atilado para as
ocasiões do trabalho, com mais competência de senso
para o encargo superior de pai de família.
44 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Carlos Schimidt conhece as meias-tintas do lar,
sabe esbater na tela doméstica as cores das
circunstâncias da existência, distribui com arte o colorido
da felicidade de suas filhas e... encara, rindo, a gradação
das sombras do pesar.
Pode-se dizer que no centro harmonioso da família
e da sociedade ele é, como diz Guerra Junqueiro – Um
gigante nu contra um gigante d’aço.
A atividade do Schimidt espelha-se partícula por
partícula, em todas as coisas, como o orvalho gota a gota
em cada pistilo das magnólias.
Na arte plástica, nas ligeiras cinzeluras
arquitetônicas do desenho, por intuição, por gosto, por
estética, nos fanfreluches do espírito fino, carnavalesco,
no humor caricatural, pronto, claro, preciso, espontâneo
– observa-se no Carlos uma adivinhação de tudo o que é
belo, grande, primoroso.
Possui uma perfeita organização de artista, onde
há muita seiva, muita coragem bonita, muita
compreensão do difícil e do bom, mas pouco, muito pouco
horizonte, muito estreito campo, acanhados limites...
Ele é como os objetos em cujas facetas a luz
reflete-se em prismas.
Apresente, por isso, e só por isso, o excelente
Schimidt que é, dentre as personalidades que apodrecem
no vulgo – como que um grito alegre da terra – no tropo
de Ramalho Ortigão.
Gosto do Carlos, porque ele afinal de contas... é
mesmo assim...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 45
VICTOR HUGO
Ne dites pas mourir; dites vivre, croyez.
É o apotegma glorioso do mestre, que sintetiza
toda a valentia, toda a força superior do seu atilamento
espiritual.
Nunca morrem os homens de cérebro, aqueles que
têm a penetração filosófica das grandes causas, que
sobem, pela idéia, às maiores alturas, de onde, se caem,
é pela vertigem que lhes causa a luz, a zona infinita do
éter.
Quem viveu como Victor Hugo, dentro destes três
preceitos grandiosíssimos da mais simpática e
revolucionária figura da História, o Cristo, o filósofo
supremo, esses preceitos racionais da Liberdade,
Igualdade e Fraternidade – há de cair humanizado na
dúvida sinistra do túmulo, mas há de entrar em essência,
em vigor intelectual pelos corações de todos os povos.
Pensar, educar e combater.
Ele o fez.
Ninguém mais franca e lealmente se colocou do
lado dos pequenos da sombra para ferir os miseráveis
da luz, ninguém tanto abençoou os pequenos da luz para
estigmatizar os miseráveis da sombra.
Victor Hugo foi mais do que um revolucionário, foi
uma revolução.
A indomabilidade selvagem do seu organismo, os
seus elementos de combate, a sua argúcia pronta e
assombrosa no desenvolvimento das evoluções morais e
sociais deram um cunho fantástico na escala
extraordinária dos seus assuntos verbalizados ou
expostos em caracteres.
Esse operário do bem, esse bem do operário ou
antes: esse próprio bem que existiu pela sua animalidade
quase um século, concluiu as obras monumentais de
cem séculos.
46 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Representou em oitenta e três anos uma porção
de paixões, uma porção de lutas, um milhão de
sentimentos.
Viveu a fase do homem e a fase do leão.
Bebeu inspirações maravilhosas, mergulhando a
cabeça no infinito e trazendo-a ensopada em luz.
Viu quedas de reis e de estados, de usos, de
costumes, atravessou os mares de todas as tempestades,
viu morrer Gambetta, viu morrer Littré e Girardin, sentiu
as maiores vibrações e estremecimentos de triunfo, viu,
em pé, no trono de seus livros, aureolado pelo arco-íris
da sua palavra doida, nervosa, desesperada, passar toda
a enorme imponência que pode admitir o pensamento e
o olhar: Viu Paris, fartamente alegre e alegremente farta
de glórias, ajoelhar-se, beijar, vitoriar num
bombardeamento pelos sóis das intelectualidades
universais.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 47
MAJOR CAMILO
É uma gargalhada de sessenta e tantos anos,
sempre cristalina e vibrante.
É o homem que ri... Não “o homem que ri” do Pater
oceanus na frase de Théophile Gautier, mas o homem
que ri, de Santa Catarina.
É um patusco, a gente diz ao enfrentar com o
Camilo.
É um caráter limpo e honesto, a gente diz ao
enfrentar com o Major.
E Camilo e Major e Major e Camilo formam um
Major Camilo muito direito, muito reto, muito respeitável.
Dentro do seu organismo, chocalham, tilintam
todos os guizos do prazer e da alegria franca.
O seu espírito não se preocupa com os
enevoamentos do ser.
Sabe o que são lutas porque tem vivido o tempo
preciso para elas, mas, ao contrário dos espelhos, não
reproduz, não reflete sempre as sombras melancólicas
que por acaso cruzam-se dentro de si.
Tem a preocupação da arte, a inteligência, a
finura.
É um magnífico conquereur do ideal, metido na
tebaida da indiferença.
Nos teatros, pelo carnaval, com a hábil direção do
seu pincel, tem pintado o sete, a manta... e... não sei
se, sobretudo, algum xale... ou sobretudo...
Pinta também... o diabo na “Diabo a quatro” sem
mesmo pintar nenhum diabo.
E é um diabo dos diabos.
Quando ele está entre os seus amigos e que, de
repente, explodem em risadas todos eles, não há que
ver – Estourou por ali a bomba de alguma anedota do
Major.
Todos cercam o precioso cidadão de afabilidades
e gabos, porque ele, no sacrário da família, guarda,
48 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
acaricia e afaga a hóstia de luz, a lembrança do amor
imaculado e supremo de sua mãe que vivia para estenderlhe, sobre a cabeça, como um manto estrelado de
consolações e de bondades, o seu olhar piedoso e santo.
O Major Camilo representa, na atividade humana,
o humorismo alegre de Júlio César Machado.
Ri, ri nervosamente, funambulescamente, talvez
para tapar, com risos, os escombros, os vácuos da sua
felicidade.
Ri, talvez, para dar mais claros aos escuros da
sua existência.
Ri, porque é uma necessidade dos seus músculos,
dos seus órgãos vitais...
O seu coração expande-se pelas cousas dignas,
bate ainda com força, nas palpitações fortes da mocidade,
porque o Major recorda o seu tempo, o seu bem-estar de
moço, pelo país dos sonhos a dentro, vendo o cosmorama
simpático da sua ventura de rapaz, sentindo cantar-lhe
no peito os gloriosos vôos em busca das aprazíveis esferas
infinitas da infinita luz.
E ele ri, ri, como um doido do prazer; porque assim
como a atmosfera, por um princípio fisiológico, influi no
sangue, o riso influi no temperamento do Major.
E, nos momentos dos entusiasmos justos, toda a
aurora eterna da sua alma sobe, aflui-lhe ao rosto, como
o colorido rubro da virtude e da dignidade.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 49
O ESPECTRO DO REI
VERSOS DE MOREIRA DE VASCONCELOS
(Maranhão, 1884)
“Quem diz poesia, diz Emoção, quem diz Emoção
subentende sinceridade”, escreveu Oliveira Martins,
perlongando as Odes e Canções, de Luís de Magalhães.
O trabalho de que nos vamos ocupar um tanto
detalhadamente merece esse apotegma do ilustre
escritor português.
Há duas cousas no Brasil que são como que
homogêneas: a política e a poesia, por não serem tomadas
convenientemente a sério, por serem entregues a muitos
espíritos pueris, duma penetração frívola e vulgar.
Falar em poesia é, neste país, para a compreensão
fácil e leviana de indivíduos inconscientes da verdade
filosófica das grandes coisas tangíveis, uma imbecilidade,
um entretenimento inútil, uma aspiração vazia de senso
e de critério.
Mas não se pense assim; não.
Se a poesia é uma banalidade, uma questão de
rimas e de amores romanescos, de tolices doiradas,
rasguem-se para sempre, lancem-se ao fogo Os Lusíadas,
a Divina Comédia, o Fausto, as tragédias de Shakespeare,
o D. Juan, de Byron, a Jerusalém libertada, de Tasso, e
tantas revelações geniais que não só levantaram homens
na grandiosa comunhão das idéias, mas que
celebrizaram nações imortalmente.
A poesia é uma arte poderosa e positivamente
séria; tais sejam a força intuitiva dos poetas e a sua
unção religiosamente estética e afetiva.
Todos os assuntos são valorosos e grandes, uma
vez que sejam descritos e tratados com observação
analítica.
Se em todos os países civilizados a poesia segue
na vanguarda de todas as altas criações do espírito
humano, por que não há de ser assim no Brasil?
50 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Independência e idéias, consciência ao largo deixemos
estrugir lá fora, na sociedade que arrota o seu bom vinho
ao almoço, que vai pelos clubes passear a sua dispepsia,
deixemos estrugir, sim, os ditirambos crus, e as ironias
entrecortadas de risadinhas vaidosas, insufladas de
pedanteria e bílis.
Agitar a alma a todas as sensações capazes de
robustecer o espírito, ter a penetração do “Grande Meio”
na frase de Comte, ser grande com os grandes, e pequeno
com os pequenos, trazer sempre no organismo a
harmonia vital do exuberante empório das maravilhas,
a natureza criadora, adivinhar todos os fenômenos, ser
artista, valentemente artista, inspiradamente
cinzelador, conhecer as meias-tintas e os claros-escuros,
as meias-sombras da vida, soluçar de pé como um
colosso, rir como um desvairado de luz, compreender as
largas mutações cósmicas, os nimbos crespusculares das
amplitudes do éter, rasgadas em coloridos undiflavados,
em tonalidades supremas de melancolias suaves e
cândidas – sentir, ver tudo isto com o eloqüente olhar
do raciocínio, com a indomabilidade selvagem da crença
animal – eis o que é ser poeta.
Poesia quer dizer emoção, quer dizer sinceridade,
quer dizer alma e consciência. Todos os dias criam-se
trovadores mas não se criam poetas; criam-se máquinas
mas não se criam corações.
Da fecundidade espontânea e livremente franca
do espírito, do estudo superior e particular de todas as
coisas da existência, das frases pequeninas, das
minuciosidades notáveis do ser, dos compridos vôos de
aspiração, firmados em claros alicerces de verdade, deve
nascer o poeta, boêmio eterno das incomensuráveis
estâncias do Ideal.
O Evolucionismo, que tende a aperfeiçoar,
completar, dar razoabilidade a tudo, exige da poesia uma
transfiguração natural da forma, uma regularidade
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 51
matemática no metro e uma selva brilhante de
concepções elevadas e límpidas.
Pela forma, ser nítida, clara como os cristais a
cintilarem batidos pelas arestas do gás; pelo metro, ser
correto como Ângelo Buonarotti na admirável arte da
escultura; pela concepção, ser elevada, grande como a
frase de Girardin, delicada como o espírito das flores – o
perfume.
Se tivéssemos de caracterizar uma poesia
brasileira, genuinamente nossa, seria a lírica, porque é
essa a nossa índole e afeição poética, porque os nossos
primeiros cantores foram líricos, porque a mor parte de
todos os elementos e princípios de vitalidade intelectual
dão em resultado a poesia lírica.
No meu modo de pensar, calmo e refletido, acho
que a transformação absoluta e normal que alguns sérios
poetas brasileiros têm dado à poesia, é indiscutivelmente
superior e de resultados mais seguros e mais dignos.
* * * * * * * * * *
Para mim cousa alguma deve estacionar; fazer
poesia relativamente às necessidades congênitas da
nossa natureza letárgica e mole parece-me de mau gosto
e não condigno das proporções, que, à luz dos
conhecimentos do século, tem tomado a inteligência
humana.
Essas vantagens de transformação universal nas
artes, nas ciências, nas letras e que a crítica sensata
estuda e compara com a máxima argúcia são o triunfo
verdadeiro dos direitos de vida que o homem deve ter
sobre a terra.
Com a acentuação do estudo e do progresso, a
inteligência cria frutos mais sazonados e bons.
Incontestavelmente a literatura moderna é mais
revolucionária, mais conscienciosa, mais firme e mais
inspirada do que a antiga.
52 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
O romance positivamente sem força experimental
era escrito de um fôlego, sobre a perna, sem uma única
preocupação estética, sem um cuidado de forma, todo
ele cheio de situações de cordel, falso, imprestável,
inútil.
Hoje é um corpo sólido, sentindo todos os
agitamentos, todas as palpitações dos nervos; hoje o
romance é um pedaço tirado à vida social, analiticamente
psicológico e fisiológico; contendo a seriedade lógica dos
fatos, a irrepreensível escola da verdade; doutrinando,
argumentando, influindo nos costumes e nos vícios, como
a atmosfera influi no sangue.
Hoje a forma amplia-se à largueza dos
sentimentos, a largueza dos sentimentos à força da
imaginação, a força da imaginação aos materiais do bom
senso, cujos produtos são perfeitamente distintos dos
produtos banais e estéreis.
Antigamente parecia um pieguismo indecifrável
ver-se um homem educado, convenientemente instruído,
a ler um romance; hoje é fato que honra e distingue,
quando esse romance tem na sua lombada os nomes
aureolados de Zola, Flaubert, Daudet, Manzoni, Eça de
Queirós e Teixeira de Queirós (Bento Moreno).
A poesia, como o romance, é fora de dúvida que
tem a seguir o mesmo caminho, colocar-se na mesma
esfera, isto é, dizer alguma coisa de novo sem
incompatibilizar-se com o sentimento expansivo da
inspiração e da verdade.
– O verso deverá ser fluente, o metro inteiro, a
rima perfeita.
“Um verso frouxo ou manco e uma rima equívoca
ou violenta hão de ser perpetuamente defeitos.
Quem disser o contrário – ou é tolo ou tem ouvidos
de cortiça.”
Afirma o sr. Alexandre da Conceição.
* * * * * * * * * *
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 53
No Brasil ninguém lê versos ou se alguém os lê é
por distração, por hábito, para fazer disposição a alguma
cena postiçamente dramática com a sua loira ou a sua
morena, para acender a pólvora da paixão que há de
explodir aos pés de uma “ela”.
Quem lê versos na acepção mais inteira e clara
da frase é quem faz versos; é o poeta, e até aí se acentua
a máxima de – poetas por poetas sejam lidos.
Este meu – ler versos – não quer dizer recitá-los,
repeti-los automaticamente, decorá-los; quer dizer, sentilos, pensar neles com madureza, compreender-lhes a
origem, o gérmen que os fecunda, a grandeza que os
inspira e anima.
Sem dúvida, a tarefa de sentir propriamente, cada
um por si, não é tão difícil nem tão religiosamente
fenomenal, como a de compreender e sentir, por assim
dizer, o sentimento alheio.
Nas diversas fases de sensações, aquelas que
damos a outrem pelos produtos artísticos, pelas criações
do gênio, pelo esforço da inteligência e da razão, são
mais admiráveis e grandes do que aquelas que
recebemos!...
Isto é uma questão toda intuitiva, natural, uma
questão de mais ou menos sangue nos glóbulos cerebrais;
não se argumenta, afirma-se; não se debate, raciocinase; não se exemplifica, pesa-se no senso.
Toda a fonte de vida e de reflexão que rebenta de
um bom verso ou mesmo de um bom livro de verso,
necessita outras dezenas de fontes de sentimento, de
critério artístico – grande segredo racional – para que
esse ou esses versos possam ser julgados
competentemente, com a maior fartura de sagacidade e
atilamento.
Muita gente há que ouve estas coisas mas teima
em não querer compreender, em ficar numa ignorância
por hábito, por uma falta de importância dada a si
mesma, por um ódio surdo e inabalável ao seu
54 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
semelhante. E essa gente envelhece sob as mesmas
impressões, olha para os mesmos horizontes, pensa as
mesmas idéias, chora as mesmas lágrimas e ri os
mesmos risos, sem ver que tudo isso acontece porque
essa gente vive dentro do seu eu, e só para ele.
Eterna preponderância, a majestade eterna da
miséria no instinto do homem.
– E daí, dessa rebeldia moral, o aplauso por cálculo,
por convenção; e daí, desse fato que é uma anomalia
monstruosa, perante o século, a indiferença de gelo por
sucessos literários reais, o desconceito pelo estudo e
pelo trabalho das nossas mais belas individualidades
literárias, o desleixo mais cabal pelos elementos de luz
que nos pertencem.
Não comparam, não analisam, não anatomizam o
nosso centro de letras, não estabelecem exemplos
comparativos, de épocas, de meio, de índoles, de
adiantamento; não entram com interesse, compaixão
sincera de quem luta desenvolto, franco, livre, num
exame de consciência, pela porta do dever e da verdade,
apoteosando o mérito, não; mas quando se fala da nossa
ainda nova literatura brasileira, perguntam o que é,
parvamente, com um gestozinho de deboche de mulheres
avinhadas, cofiando a barba, com a importância imbecil
de um fiscal de teatro de feira.
Mas entretanto, se se falar na literatura de um
outro país, acham afirmativamente Victor Hugo o maior
sábio deste mundo e do outro.
São esses os críticos, são esses os entendidos,
são esses os capazes, os didáticos; se nos atrevemos a
dizer verdades como estas, somos parlapatões, ridículos,
esmagam-nos com epigramas e piparotes de diabretes.
* * * * * * * * * *
Não obstante não querem enxergar nunca o direito,
muito embora esteja ele de pé, à vista de todos; não
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 55
podem fitar nunca o sol da justiça porque são míopes
de... raciocínio; vegeta nesses cérebros a dúvida do ser
ou não ser – do príncipe da Dinamarca; isto é, não tendo
confiança no valor da sua existência, não compreendem
como podem acreditar que os outros existam para a
vitalidade da matéria, fracos eles, para a vitalidade do
espírito.
E no meio da espontaneidade, da lisura com que
dizem analisar os produtos racionais, sempre surge o
despeito, lá cresce ele, – cresce, avoluma-se, toma corpo,
enfibra-se, muscula-se e faz sombra à sinceridade e aos
bons sentimentos da crítica imparcial e reta.
A força consciente cede lugar à pequenez de uma
paixão animal qualquer e aquele que se critica, que se
observa, tendo as dificuldades, plenas e essenciais para
ser colocado em superiores vantagens literárias, ferido
na sua consciência, aviltado na sua justa proporção
intelectual, amaldiçoa o trabalho e atira para a rua como
uns objetos imprestáveis, o livro e a pena, causas
primordiais da desorganização de seu futuro triunfante
e de aspirações honestas.
Caem então sobre o inspirado da luz, sobre o herói
da idéia, mais tarde, quando o seu talento mergulhou
de todo no profundo túmulo do esquecimento, quando o
seu gênio deixou de bater as asas como um pássaro
vitorioso e alegre, pelas distâncias intermináveis do Azul
amplíssimo e doce; caem sobre ele, sim, as interjeições
extravagantes e sombriamente irônicas da própria crítica
que diz: – Fulano era um jovem esperançoso; por que
não trabalha, não produz, não cria? Por Deus, como
aquele talento, com aquela hilaridade!... Que bonito
futuro lhe estava aberto!... Ah! esta mocidade é indolente,
não é enérgica, não é vigorosa; tem as armas na mão e
lança-as fora sem nada haver produzido. Lamentamos
que Fulano desaparecesse da arena da inteligência. É
uma perda notável para o seu país.
56 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Entretanto essa crítica não se lembra que ela foi
quem o esmagou com a sua indiferença, quem o
desanimou com a sua presunção, quem o estigmatizou
com o seu despeito.
Quando o pensamento humano fundir-se no crisol
da verdade e da justiça, nesta bela terra brasileira verse-á que tais coisas, ditas aqui com a dignidade da
retidão e da lhaneza, não são simplesmente para fazer
esticar os nervos dos mal-intencionados, dos prevenidos
como se diz, nem para levantar rigorosidades de estilo
inflamado, mas sim para este reotipar, clara e
concisamente, o modo de ver dos que pesam o juízo
coletivo de uma literatura!
* * * * * * * * * *
Ocupemos-nos mais de perto do nosso assunto
geral: O Espectro do Rei, síntese político-sociocrática, por
Moreira de Vasconcelos.
Esse livro vigoroso e robusto, por si só bastaria
para formar uma reputação superior; revolucionar
mesmo.
Moreira de Vasconcelos escreveu-o de um fôlego,
sem pausa, quase, diremos, sem refletir pesadamente,
no acanhado espaço de dois meses em que nós que lhe
sentimos a vertigem do cérebro, a pulsação das veias, o
glorificávamos satisfeito, à vista de tanta pujança de
talento, de tanta facilidade de concepção, de tão
extraordinária abastança de idéias e assuntos originais.
É preciso que se diga alto e altivamente estas
verdades de bronze:
– Poucos têm a felicidade de, reunindo a forma à
arte, a rima ao metro, o fino e delicado espírito à sátira
valente e mordaz, acumulando fato sobre fato,
originalidade sobre originalidade, passagens históricas,
variando de ritmo, de tons, de propriedade de ação, de
propriedade de estilo, ampliando figuras nítidas e
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 57
completas, imagens claras e soberbas, harmonia superior
e rimas não vulgares, algumas, muitas, únicas e
brilhantíssimas, poucos têm a felicidade de preparar,
em dois únicos meses de um trabalho nervoso, um livro
de versos tão magnífico, tão bem acabado, o mais
exigentemente possível, para quem quer enxergar as
coisas direitas.
Não têm aparecido a meu ver, no Brasil, muitos
livros de versos superiores ao Espectro do Rei;
consultemos o nosso tesouro poético, estabeleçamos
paralelos entre os livros da moderna geração e esse de
que trato.
Moreira de Vasconcelos é um talento perfeito,
audacioso, revolucionário e que, abominando as
velharias, burila no seu gabinete de trabalho, com a
paciência de um artista de raça, com a coragem forte de
uma organização na qual o sentimento estético se
difunde, as mais belas estrofes selvagens e inspiradas,
grandes e imponentes como as eternas estrofes da
criação.
A gente lê todos os versos desse livro encantador
sob uma impressão estranha e agradável.
Parecem-se a uma quantidade ilimitada de pedras
preciosas, de berilos, de topázios, de esmeraldas, de
ônixes, de diamantes, de prásios, de pérolas, de corais,
de safiras, de brilhantes, de turquesas – tudo isso
rutilando, fulgindo, brilhando muito, aceso numa
claridade espontânea e límpida, pelas línguas de fogo
de um sol cintilador e rubro.
O poeta apanhou na sua síntese toda a gestão do
rei, a figura legendária a quem todos os fatores do
movimento político superior exprobram e invectivam.
Como no fenômeno da Luz, os raios refratores do
talento do poeta iluminam todas as fases da história
político-social da Nação.
* * * * * * * * * *
58 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
É preciso ler-se o livro e acompanhar com o gosto
e com a observação as particularidades do sentimento e
do estudo.
Moreira de Vasconcelos, com o seu engenho
esplêndido, com as suas convicções literárias e
profundas, com os seus ideais novos, com a sua filosofia
grandiosa, fez revolução com O Espectro do Rei, como o
prodigioso e inimitável maior poeta português Guerra
Junqueiro, com o seu estupendo e divino D. João.
No D. João há prodigalidade de idéias,
esbanjamento de imagens infinitas; n’O Espectro do Rei,
de Moreira de Vasconcelos, há a impetuosidade
nevrálgica de poesia vibrante, a seiva de uma mocidade
musculosa e rija de saúde.
Por vezes parece que sente a gente aquelas
estrofes boas, de um cheiro ativo de sangue de um corpo
de artista, de um rapaz de alma simpática e adorável.
A segunda parte, a “Visão de César”, que é o
desfilar solene e majestático dos titãs da Liberdade e
do Direito, em versos gloriosamente heróicos e
fluentíssimos; a terceira, que é o “Tribunal supremo”
onde imperam juízes soberanos; a quarta, que é o “Orfeão
terrestre”, umas preciosas quadras corretas, das quais
ressumbra ovante a lei do transformismo; a quinta, a
“Agonia nacional”, onde a sátira, o ridículo e o espírito
genuinamente notável e elegante se consorciam; a sexta,
o “Drama psíquico”, onde a História, a grande mãe da
humanidade exerce o seu poder inabalável, traçando na
fronte do Réprobo o estigma da ignomínia; a sétima, o
“Espectro do Rei”; a nona “Fases diversas”; a décima,
“Dissolução moral” e a décima primeira, o “Sonho
doloroso”, – formam em torno da inspiradora cabeça do
poeta moderno uma sinfonia wagneriana de gritos, de
soluços, de risos, de beijos, de explosões de dignidade,
de epopéia de sentimentos e de luz.
“O Fundibulário d’O Espectro do Rei”, para estar
com a frase sisuda e larga do autor das Visões de hoje,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 59
da Poesia científica e dos Retalhos, o conceituado dr.
Martins Júnior; o Fundibulário d’O Espectro do Rei,
repetimos, não necessita dos encômios nem dos elogios
ad hoc preparados para alarmar uns reclames falsos e
bombásticos.
O que ele é, o que ele vale, o que ele estuda, o
que ele inova e aperfeiçoa aí está para os que lêem, aí
fica provado para os que criticam sem paixões, para os
que aplaudem sem ficelles.
É natural que no valor vivíssimo da inspiração o
sal da arte não convergisse todos os seus venábulos para
um ou outro verso, mas isso será uma circunstância,
uma falha tão diminuta como uma mancha no sol físico.
Para um nababo, que gasta, a mãos-cheias, os
tesouros de sua bonita intelectualidade, que esperdiça
com profusão, com exuberância, como um perdulário, as
moedas fortes do seu talento sadio, isso não pode ser
defeito, não é, nunca o será.
Demais, até hoje não se tem dado à luz da
publicidade um livro de versos modernos com tanta
originalidade de forma, com tanta beleza de rima e de
imagens, tão completo e tão opulento.
* * * * * * * * * *
A crítica que o desminta, a crítica que o prove,
pronunciando a última palavra do senso e da verdade.
E depois, Moreira de Vasconcelos conhece a
construção do verso e tem sobrevantagem sobre todos
os poetas brasileiros e portugueses: os acentos tônicos,
a partir do princípio de todos os versos, o que observou
muito em algumas partes do seu livro, na maior porção
de estrofes.
Isto, que desde O Espectro do Rei ele pode constituir
uma regra no Brasil, especialmente sua, pelo menos
ante os processos dos versos publicados em volume, e
que ele os analisa, – ficará perfeita e claramente
60 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
assentado nas Manhãs sonoras, produto da escola líricoparnasiana e que se deverá seguir à aparição d’O Espectro
do Rei.
O que sai da pena assim, vertiginosamente, é tudo
quanto me merece a importância artística do autor; são
os sufrágios da minha admiração convicta e francamente
livre, por um talento nosso, original, despido das crenças
caducas e aparelhado para o augusto congresso das
idéias e reformas literárias.
O que é O Espectro do Rei sente-se em cada página
que se lê, em cada rima que se nota, em cada figura
que se observa.
Desta allure febricitante do livro, desta maneira
de vibrar os seus sentimentos, deste jeito todo particular,
das múltiplas faces da expressão, – o poeta abre com a
sua síntese político-sociocrática uma exceção de valor,
entre os mais seletos cultores da poesia nacional.
A sua observância, a sua experiência natural, a
sua prática absoluta de todas as coisas e fatos da vida,
reunindo tudo isso à fecundidade do seu pensar,
colocam-no em lugar especial e distinto no nosso pequeno
mundo de letras.
Moreira de Vasconcelos não esperdiça a sua
atividade, não faz parar as funções ordinárias do seu
cérebro, e cede ao impulso vigoroso duma vontade
enérgica, ao movimento propulsor das suas ativas
disposições mentais.
Enquanto faz sair dos prelos O Espectro do Rei,
constrói um outro belo edifício poético – as Manhãs
sonoras; escreve crônicas artístico-literárias, conclui
uma comédia original – O pato, revê provas da Luz da
pampa, novo trabalho da escola sensualista, e prepara
os instrumentos de combate para a síntese religiosa A
família.
Dessa efervescência de luta apresenta-se a crítica,
com as suas convicções, com os seus exemplos num livro
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 61
republicano de idéias resolutas e firmes, moldando o
seu ideal pelos seus confrontos.
Seja teimosia, seja extravagância no gosto, o que
é certo é que O Espectro do Rei, de Moreira de
Vasconcelos, é um livro decente e adiantado, novo e
original, e que, se não interessa, se não impressiona
agradavelmente, de uma forma elevada e boa, as
divindades literárias de lhama e papelão, do grande
templo mitológico do júri artístico brasileiro, tem para
mim o valor intrínseco de uma obra escrita
inspiradamente, baseada em fatos históricos da maior
gravidade social.
É um perfeito poeta que vibra a teoria gigantesca
dos assuntos necessários, coletivos, no presente, para
fazer acordar o brio, a dignidade nacional no futuro; com
a coragem cívica de Gambetta e a verve incomparável
de Voltaire.
Merece muito da justiça, da imparcialidade da
crítica e esta que o considere, que o receba como é do
seu dever restrito fazê-lo, não por ostentação banal, por
uma vaidade imbecil, mas pela força consciente dos
espíritos varonis e sensatos que são obrigados a fitar a
luz em todas as suas mais amplas manifestações e em
qualquer círculo que ela abranja.
62 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
PERFIS A VAPOR
ELE
Uma atividade!
Uma locomotiva, deitando nove milhas por hora e
ainda puxada por doze touros briosos e corpudos...
É a síntese d’Ele...
Sempre o vi andar e rir...
Nunca parar, nem chorar...
O quanto anda, ri, e gargalha...
Lembra um vapor... às risadas...
Parece que direito ao seu fim, pela estrada tortuosa
da vida, calcando os enrugamentos do chão, quando há
sol causticante e nervoso, quando a chuva abre,
fundamente, estrelas na face polida do mar, nunca dão
encontrões na desgraça; ao menos se ela o viu, passou
de largo, num marche-marche acelerado, batida pelo
olhar d’Ele, olhar de baioneta calada...
Pode ser talvez que se esqueça, um dia, de rir e
chorar por engano, para experimentar, de brincadeira,
como diz a rapaziada juvenilizante, leve, nas travessuras
douradas do jogo da bola...
Mas isso, tão rápido, tão ligeiramente acontecerá,
que nem mesmo Ele há de observar a transformação...
De resto, tem uma cabeça curada para receber o
eletrismo psíquico, as células desenvolvidas de modo a
fazer o que não supõe ou imagina.
Mergulhador perfeito das dificuldades que
desolam, não precisa descer ao mar profundo de todas
elas, na altitude fantástica, involucrado como os
mergulhadores dos mares do Norte; leva consigo,
unicamente, o grande facho da coragem que o ilumina e
transparentiza todo, deixando-lhe a descoberto a sua
alma forte e a sua pujança viril...
Sabe ler o D. João, do Guerra Junqueiro, esses
versos que parecem milhões de espadas luzidias, cada
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 63
uma com um sol espetado na ponta, entrando pela
Imortalidade a dentro, e já me disse que sentia um
bombardeio de assombros lendo Zola, o mestre dos
mestres supremos...
É um enveredador do futuro, absorvido, engolido
pelo esôfago de um meio ignorante, onde influenciam
mal os elementos climatológicos e etnográficos...
64 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
VIRGÍLIO VÁRZEA E CRUZ E SOUSA
Temos a elevada honra de transladar para as
nossas colunas um notabilíssimo e superior artigo crítico
sobre os Tropos e Fantasias daqueles nossos amigos,
insertos na Semana, da Corte, – a primeira revista crítica,
científica e literária do país.
O artigo é escrito, ou antes, admiravelmente
burilado por Araripe Júnior, o profundo espírito literário,
o conceituado crítico do Germinal, de Zola, e
incontestavelmente um dos mais fortes talentos de
combate.
É isso um sério triunfo para os nossos amigos e
uma esporada, um vibrante coup de balai na obtusidade
córnea dos invejosos que queiram ou não queiram, gostem
ou não gostem, apreciem-nos ou deixem de os apreciar,
nunca conseguirão enfraquecer ou desvirtuar o seu
inabalável merecimento.
Morda-se, pois, toda a cáfila dos invejosos:
“Os Nossos LIVROS – TROPOS E FANTASIAS”
É o título de um pequeno livro escrito com estilo
em Santa Catarina, por dois moços que nunca de lá
saíram: Virgílio Várzea e Cruz e Sousa.
Nesse fato está o seu maior elogio. Em verdade,
publicar um trabalho literário em uma terra, onde a
imprensa mal serve para o escoamento do expediente
das repartições públicas e da intriga, já significa alguma
coisa, muito mais ainda se esse trabalho tem colorido e
recomenda-se por uma forma até certo ponto nova,
cuidadosamente rebuscada.
Os srs. Virgílio Várzea e Cruz e Sousa deram,
pois, uma prova de vitalidade não sucumbindo à ação de
um meio tão ingrato como é aquele dentro do qual achamse mergulhados; mostram talento pondo-se, através de
tantas dificuldades físicas e morais, em contacto ou em
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 65
relações de simpatia com os espíritos que dominam o
nosso século literário.
Os Tropos e Fantasias, quando outra qualidade não
tivessem, seriam objeto de curiosidade pela audácia que
revelam. Seus autores, filiando-se à escola naturalista,
atiram-se às formas literárias cultivadas por E. Zola e
Eça de Queirós, com um entusiasmo frenético só
comparável à ansiedade e aos deslumbramentos do
pioneer que pela primeira vez penetra em uma jazida
aurífera.
Daí uma conseqüência. O estilo ressente-se das
irregularidades e incongruências que se encontram na
primeira fase de todo o desenvolvimento orgânico.
Atrofias e hipertrofias, que só virão a desaparecer com a
integração final.
Completamente despreocupados das radicais do
pensamento, os srs. Várzea e Cruz e Sousa fazem com a
frase, com o período o mesmo que os miniaturistas com
os seus artefatos. Pouco se importam que a lâmina da
espada brilhe ou corte, contanto que os copos ofereçam
aos olhos de quem a empunha uma obra de buril cheia
de mágicos rendilhados.
As páginas, os pequenos contos do livrinho que
tenho em cima da pasta, não passam, portanto, de
fragmentos de talentos que ainda não tiveram tempo de
compor-se. A palavra, o período está completo,
perfeitamente afinado pelo diapasão da escola; mas
sente-se que no meio de todo aquele jogo de expressões,
de imagens, de idéias esfuziadas, falta alguma coisa
essencial.
Essa coisa é o complemento da vida na frase; é a
certeza ou o isocronismo da função resultante do perfeito
acordo entre o pensamento e a palavra, de modo que
esta não seja mais intensa do que aquele, e vice-versa.
O tempo se encarregará de corrigir esse defeito.
Quando amadurecido o espírito dos autores pelo exercício
66 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
e pela observação dos fatos exteriores, não lhes custará
substituir a ênfase pela expressão exata e profunda.
Há uma verdadeira e real classificação para o
estilo desses moços: um ensaio de coloridos, de tintas
acres, em uma palheta empunhada por mão nervosa.
Percebe-se, à primeira vista, que os dois pintores
ainda não dispõem do segredo da união dos grupos ou
partes diversas que compõem a paisagem.
Araripe Junior
Depois disto, após esse juízo espontâneo e
observador, após esta vergalhada mestra, todos os
imbecis que morram na noite da sua vulgaridade,
embrulhados nos farrapos das suas idéias, ficando
sabendo que, quer leiam os escritos dos nossos amigos,
quer não leiam, eles com isso nada têm a perder, nem a
ganhar, porque esses imbecis não formam tribunal
julgador, por não terem competência intelectual, nem
nome que lhes faculte o direito para isso.
É verdade que os imbecis encontram sempre
outros imbecis que os aplaudam – mas isso é natural
porque, quando não entendem uma cousa, dizem que
não presta, unicamente por não terem a coragem precisa
de dizer frase de mais senso.
São assim todas as nulidades cínicas.
O brilhantíssimo escrito de Araripe Júnior chamase a justiça, o dever da crítica literária não se chama
egoísmo, não se chama ignorância.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 67
ABOLICIONISMO
A escravatura – escrevia o Correio Brasiliense em
Londres – é um mal para o indivíduo que a sofre e para o
estado onde ela se admite, lemos no “O Brasil e a
Inglaterra ou o tráfico dos africanos”.
No intuito de esboroar, derruir a montanha negra
da escravidão no Brasil, ergueram-se em toda a parte
apóstolos decididos, patriotas sinceros que pregam o
avançamento da luz redentora, isto é, a abolição
completa.
O Ceará, que foi o berço da literatura que deu
Alencar, quis também ser a cabeça libertadora da raça
escrava deste país e, a golpes de direito e a vergastadas
de clarões, conseguiu este Aleluia supremo:
Não há mais escravo no Ceará!
Não obstante o desenvolvimento gradual, acessivo
da grande idéia da democracia sociocrática que prepara
os homens, fá-los cidadãos para o trabalho moderno,
educado por uma filosofia mais spenceriana, mais na
razão do século evolucionador, aparece a lei do sr.
Saraiva, desmentindo todo o brio patriótico, toda a
dignidade cívica da nação do sr. Pedro Segundo.
Uma lei de fancaria, essa; uma lei que escraviza
os escravos e documenta, com a morte, a liberdade dos
mais velhos.
Uma lei que faria rir o próprio Voltaire, numa
daquelas suas explosões tremendas de ironia fantástica
e diabólica.
Entretanto, para organizar, por assim dizer, mais
exata e mais verdadeira a idéia abolicionista nesta terra
de Oliveira Paiva, O Moleque, que sempre alargou todos
os seus sentimentos altruístas pela causa da
humanidade servil, que é a causa do futuro, começa a
publicar hoje alguns fragmentos de uma brilhante
conferência abolicionista do seu pujantíssimo redator,
68 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
sobre esse assunto, feita na sala da redação da Gazeta
da Tarde da Bahia.
Concluída que seja esta, publicará um discurso
do mesmo, pronunciado no Teatro S. João, por ocasião
da libertação total do luminoso Ceará, e assim,
sucessivamente, O Moleque prestará o seu humanitário
auxílio para movimentar, de certa forma mais inteira,
mais entusiasta, a abolição entre nós:
“Estamos em face de um acontecimento
estupendo, cidadãos:
A abolição da escravatura no Brasil.
Neste momento, do alto desta tribuna, onde se
tem derramado, em ondas de inspiração, o verbo vigoroso
e másculo de diversos outros oradores, eu vou tentar
vibrar nas vossas almas, cidadãos, no fundo de vossos
corações irmanados na Abolição; eu vou apelar para
vossas mães, para vossos filhos, para vossas esposas.
A Abolição, a grande obra do progresso, é uma
torrente que se despenca; não há mais pôr-lhe
embaraços à sua carreira vertiginosa.
As consciências compenetram-se dos seus altos
deveres e caminham pela vereda da luz, pela vereda da
Liberdade, Igualdade e Fraternidade, essa trilogia
enorme, pregada pelo filósofo do Cristianismo e ampliada
pelo autor dos – Châtiments – o velho Hugo.
Já é tempo, cidadãos, de empunharmos o archote
incendiário das revoluções da idéia, e lançarmos a luz
onde houver treva, o riso onde houver pranto, e
abundância onde houver fome.
Basta de gargalhadas!
Este século, se tem rido muito, e se o riso é um
cáustico para a dor física, é um veneno para a dor moral,
e o século ri-se à porta da dor, ri-se como um Voltaire,
ri-se como Polichinelo.
O riso, cidadãos, torna-se a síntese de todos os
tempos.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 69
Mas, há ocasiões, em que se observam as palavras
da Escritura: “Quem com ferro fere, com ferro será
ferido”.
E então, o riso, esse riso secular, que zombou da
lágrima, levanta-se a favor dela e a seu turno convence,
vinga-se também.
É aí que desaparecem, na noite da história, os
Carlos I e Luís XVI, as Maria Antonieta e Rainha Isabel,
é aí que desaparece o cetro, para dar lugar à República,
a única forma de governo compatível com a dignidade
humana, na frase de Assis Brasil, no seu belo livro
República Federal.
[continua]
70 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
BIOLOGIA E SOCIOLOGIA DO CASAMENTO
(PELO DR. GAMA ROSA)
Entre as obras de Herbert Spencer e as produções
do ilustre sr. dr. Gama Rosa encontramos o mesmo tom
de conjunto, os mesmos traços gerais, os mesmos golpes
de observação e de crítica científica, a mesma serenidade
idealizadora.
Na verdade, ter calma filosófica num país
equatorial e inter-tropical de um sol cáustico é uma
qualidade verdadeiramente e seriamente admirável,
tanto mais se essa calma, se essa tranqüilidade de
análise, se esse esforço mental paciente são completados
por uma notável orientação e abstração de cérebro,
fazendo lembrar o caráter pacificamente frio e pensador
da raça anglo-saxônica.
O dr. Gama Rosa identificou-se, compenetrou-se
profundamente das teorias, dos princípios de doutrina
do sábio bretão. Discute e amplia de frente os assuntos.
Essa sua nova obra, Biologia e Sociologia do Casamento,
exata nos processos críticos e filosóficos como está,
parece-nos uma grande obra extraordinária que há de
ficar viva e triunfante para a sociologia brasileira.*
A complexidade de espírito, a forte chama
imaterial de talento e o elevado poder técnico do filósofo
brasileiro, solidificados por um largo critério indestrutível
e por um vastíssimo cabedal de conhecimentos teóricos
das questões e problemas que esclarece com a sua
ininterruptível onda psíquica de saber e de luz, não estão
em nível das capacidades inferiores, nem podem ser
medidos pelas conformações débeis, que não pairam como
os pensadores, como os filósofos nos altos ares soberanos
da crítica científica.
____________________________________________________________________
* Foi traduzida para o francês e publicado na França, por Max Nordau
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 71
Os documentos, os dados, e todo o material ativo
e regularizado da sua obra, a ferramenta de que ele se
serve para poli-la, para dar-lhe convicção, sinceridade e
verdade, estabelecem um ponto de partida geral,
utilitário, dominante e prático. Daí partem, então, as
poderosas razões, caras, iluminadas e puras, deduzidas
das diferentes fórmulas de casamento, como a
monogamia, a poligamia, etc., em uso nas diversas tribos
de raças indo-européias.
O casamento civil com divórcio está biologicamente, sociologicamente demonstrado na obra de que
tratamos, é uma necessidade coletiva da família
brasileira. No estado de evolução e ampliação de
raciocinamentos práticos e positivos, lógicos e humanos
a que as gerações chegaram, retardar ou embaraçar o
desenvolvimento completo da família é atrasar, é puxar
para trás a humanidade.
A família deve ser não uma parte dependente dos
fatores sociais, mas sim um corpo unitário, complexo
como um organismo, entrando, como agente principal,
em toda a orientação da vida moderna. Da família sairão,
pela sangüinidade, pelos meios, pelos temperamentos,
pelas influências e relações sexuais, pelo cruzamento
de elementos de raças melhores, as bases de uma
sociedade nova que há de garantir e aperfeiçoar a
atividade material e intelectual futuras, definindo e
acentuando a estética do tipo. E, para chegarmos a esse
complemento radical, integral dos direitos da felicidade
humana, é o casamento civil, com divórcio, a única força
preparadora e naturalmente estabelecida no nosso
centro, mesclado de tipos desencontrados e opostos ao
progredimento deste ramo sul da raça latina.
Entre nós, brasileiros, há uma defectiva tendência
etnológica, sobre todos os outros povos, como um brunet
especial, para a exterioridade nas aspirações. Não se vê
o caráter nacional de investigação e generalização no
72 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
desdobrar dos fenômenos que os próprios fatos biológicos
nos apresentam.
O caráter exterior, tão pujantemente explicado e
tão sabiamente desenvolvido por Spencer na Educação
Intelectual, Moral e Física, documentado pelo testemunho
de Humboldt, nos índios orenoques, tem servido até hoje
de embaraço às faculdades criadoras de longa reforma
social do individualismo da nação.
Por ora, no Brasil, toda a integração de crítica,
toda a aplicação sintética de filosofia é flutuante e vaga
como as névoas que nascem dos lagos silenciosos,
adormecidos na nitidez e na transparente brancura das
manhãs.
O dr. Gama Rosa, portanto, trazendo à luz da
ciência as causas que a matrimonialidade católica
obrigatória produz, não concorrendo para a seleção
natural, não protegendo nem dignificando os destinos
nem os misteres para que a humanidade se propõe –
para engrandecer-se – presta um distintíssimo e o mais
real e franco serviço à sociologia, honrando-a com a
amplidão do seu espírito superiormente alimentado de
idéias evolutivas.
Para explanamento da cor dos princípios da obra
Biologia e Sociologia do Casamento, basta-nos tirar à página
169 o seguinte:
O progresso, que é uma conquista sobre o
indeterminado e o incerto, tende justamente a
instituir a previsão, a exatidão, eliminando o
acaso nas condições da vida; mas
presentemente o arbitrário e o fortuito encerram
ainda importância capital.
Ninguém ignora que as mais brilhantes
situações sociais são perfeitamente compatíveis
com a capacidade. As condições dessa seleção
artificial encontram-se mais comumente no
privilégio por direito de nascimento, na
postergação da justiça, no favoritismo, na
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
amplitude, deixada ao azar no curso da vida
humana e leis econômicas do mundo.
Vê-se, deste corolário de argumentos
práticos, que o livro em questão não implica
conseqüências graves para o país, mas sim
traz desenvolvimentos mais necessários e
inclinadas incontroversas mais latas.
São circunstâncias, ainda mais, são leis
extremamente variadas, essenciais,
incontroversas e permanentes, tiradas dos
próprios casos biológicos e sociológicos
tendentes à personalização e assimilação
de uma raça.
* 73
74 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
UM NOVO LIVRO
(Desterro, abr., 1887)
Ao Eminente Filósofo Dr. Gama Rosa
Da evolução, da luta, da tenacidade, da força e da
vontade foi que se fez o homem moderno. É isto que está
ampla e indiscutivelmente comprovado pelas vastas
teorias do século.
Oliveira Martins, o poderoso filósofo da Biblioteca
das Ciências Sociais, e, ao que nos parece a maior força
pensante de Portugal, um homem cujo espírito
extraordinário, investigador, paciente e infatigável,
coloca-o no mesmo paralelo de Spencer e Haeckel, diz
na sua criteriosa e exatíssima História da República
Romana: “A antiguidade clássica foi equilibrada e por
isso feliz, mas por falta de filosofia, caiu de um lado na
depravação abjeta, do outro no naturalismo desenfreado;
e, gregos e latinos, sepultados na cova cristã, deram de
si o homem moderno – mais fraco, mais atormentado,
acaso porém maior, por isso mesmo que sofreu mais”.
Mais fraco, mais atormentado exclama o filósofo.
Mais fraco sim, porque a luta tem sido desfibradora, os
meios terríveis e arestosos, e o organismo cada vez mais
perfeito.
E o homem quanto mais se afasta das formas
rudimentares, primitivas da natureza, mais frágil, menos
resistente vai ficando sempre, além de que a falta de
crenças e a perda constante de forças morais o
depauperam e atrasam. Mais atormentado porque a
verdade adquirida pelo conhecimento dos fatos positivos
o torna cada vez mais responsável; porque a sua
individualidade está sempre no embate de todas as
hostilidades, de todas as contestações; porque precisa
ter cotovelos de bronze para rasgar a crosta do anônimo,
como bem pensa o ilustre literato italiano, o sr. Edmundo
de Amicis; porque, finalmente traz a sua cabeça alta,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 75
acima daqueles que são ainda retardatários, e que a
não podem trazer erguida na esfera azul das idéias.
O homem moderno não é o homem superficial, o
homem visionário, o homem triste. A tristeza é uma
condição de moléstia, está no organismo como a filoxera
nas vinhas; e o homem moderno tem de ser alegre,
porque tem de ser higiênico e não há melhor higiene do
que a da alegria. É da saúde que vem a força e a força é
a luz, a vitalidade, a cor, o tom e a juventude eterna da
natureza. Devemos cuidar, por isso, em sermos
saudáveis, fortes e higiênicos.
Tem-se falado, dito e escrito tanto sobre a direção
que os espíritos têm tomado nestes últimos tempos, que
parecerá ocioso e fútil demorarmo-nos no assunto.
Mas há verdades que precisam ser bem elucidadas,
bem combatidas, bem esclarecidas, gritadas a largos
pulmões de touro, ao ouvido de muita gente atrapalhada,
pessimista e fóssil, que ainda nos pequeninos centros
ri, cancaneia arruaçante, com chufas e pedradas
anônimas de garoto, das teorias resplandecentes e
triunfantes, dos homens da Ciência. E o nosso caso não
é outro senão o de fazer desfraldar, bem claro nos ares,
o branco estandarte dessas teorias que são verdadeiras
descobertas, irrefutáveis verdades, incontraditáveis
fatos.
As correntes influenciadoras que definiram e
acertaram o pensamento novo são mais proveitosas, mais
positivas, mais práticas. Podemos recebê-las como leis,
não como gosto, nem como imitação ou moda. Nem o
verdadeiro espírito de hoje tem moda ou imitação.
O que ele tem unicamente é ação, é vontade, é
força.
Ele está dentro de uma evolução, se quiserem, do
seu momento, do seu estado de laboração psíquica, e
daí é que sai, inteiro, fiel e nítido, para o jornal ou para
o livro, o seu esforço mental, como um produto fotográfico
das cousas. Não tem mais o pedantismo acadêmico, nem
76 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
a retórica nem a gramática da convenção. Só admitiremos
que ele receba idéias da realidade dos acontecimentos,
das impressões poéticas e fecundíssimas da Natureza.
A sua disciplina de homem, os seus modos de
observar, o seu jeito de ter a dedução e a indução dos
fatos são aprendidos, naturalmente, por meio de
reiterados estudos e observações no mundo social.
Homem moderno não quer dizer homem da moda.
Modernismo de desenvolvimento, aperfeiçoamento,
convicção, verdade, natureza, processos de exatidão num
dado assunto crítico, literário, artístico ou científico.
Modernismo é aproveitamento, utilidade, vantagem
de uma época sociológica sobre outra, etc., etc..
Emile Zola é um sociologista. E o que é o Germinal
senão o clamor, o clarim atroante de uma grande crise
social, que o notável psicólogo descreve admiravelmente,
pedindo a justificação, a solidariedade e a
consubtanciação dos princípios liberais e humanos dos
indivíduos das classes inferiores e ignorados?
O que é Estêvão Lantier? O que é Suvarine?
O “romance” Germinal, diz toda a gente!
Mas nós não entendemos os livros literários
especiais, de observação e de análise sob esse título.
Ficou, desde Balzac, desde os Goncourt, sem
propriedade, sem significação.
O público os lê como se viessem da fábrica cerebral
de Montepin, ou de qualquer outro. Não se importa, não
lhe dá que fazer o estudo, a faturação, o estilo.
Um livro literariamente escrito com a mesma
proficiência científica e com a mesma certeza de técnica
com que Oliveira Martins trata das ciências sociais, não
deveria ter na sua lombada o título, já hoje gasto e
romântico, de romance.
É por demais escuro e insignificante para exprimir
todas as colorações, todo o límpido cristal do espírito
contemporâneo.
É a nossa opinião.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 77
Depois desta rápida exposição da doutrina
filosófica e literária de hoje, ou como pensem, vamos
tratar de apreciar, ligeiramente, os fundos traços cavados
de sinceridade, de lealdade e de justiça, como os traços
de um colorido rubro e acre de Rubens, o caráter literário
do belo provinciano que tanto nos impressiona e
preocupa.
É uma banalidade e uma falta de senso prático,
uma inaptidão mesmo para adiantar outra coisa, dizerse que há elogio mútuo, superficial, quando um amigo
trata dos merecimentos intelectuais de um outro amigo.
É infundado e mesquinho tal modo de pensar.
Neste século de luta em que cada hora passa como um
raio, em que o homem não tem quase tempo de lançar
os olhos sobre os acontecimentos da véspera, mais
detidamente, com mais pausa, com mais vagar, porque
tem de ocupar-se com o que vem adiante, enflorescendo
e estrelando mais e mais o firmamento das idéias, não
quer dizer nada, nem importa que um amigo escreva
sobre um outro amigo.
E isto pela razão única, intuitiva e lógica de que é
esse amigo, por todos os sentidos, por todos os modos, o
mais competente para fazer crítica sobre o outro, por
estar em contacto com a sua personalidade, o seu
temperamento, os seus tics, as suas emoções, a sua
impressionabilidade, a sua feição particular de escritor.
Pela crítica, pela justiça que lhe faz é que o público lê os
seus artigos, compra os seus livros e aceita os seus
preceitos. Nem pode ser de outro modo. Victor Hugo, no
exemplo, documenta e comprova o que pensamos.
Ele teve Lamartine, teve Sainte-Beuve, teve
Théophile Gautier, etc., etc., que o elogiaram quando
despontou na literatura. E esses indivíduos, esses
escritores, eram os afeiçoados de Hugo. E se assim não
for, como qualquer talento superior, entalado no círculo
estreito da sua terra natal, onde não há aspirações
78 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
nobres e os espíritos apenas têm vôos galináceos, há de
ficar no domínio dos homens que sabem?
Pois se ele não tem quem o encorage, quem o
estimule senão os seus amigos, uma vez que o egoísmo,
a inveja, a indiferença e outros sentimentos tristemente
hipócritas tentam combatê-lo, consterná-lo, dizei-nos,
dizei-nos de que forma há de ele dar vazão ao seu talento,
às nevroses mordentes que lhe queimam o cérebro, às
idéias, senão permitindo que algum amigo os apregoe e
os faça vibrar ao longe e ao largo dos Congressos das
inteligências mais imperantes e mais disciplinadas –
por um ato de fineza e, principalmente por um ato de
justiça.
Digamos, pois, o que se deve dizer, tranqüilos e
seguros de nosso feito, com a retidão e a verdade, que é
a filosofia de todas as eras.
O que nos sugeriu as idéias acima e as que se vão
seguir foi o ter sido enviado, há dias, para Portugal, a
fim de ser publicado ali pela notável casa editora do
Porto, de Eduardo da Costa dos Santos, o livro das
Miudezas.
Virgílio Várzea é um provinciano e um meridional.
Nasceu sob a impressão simpática e colorida da paisagem,
na atmosfera clara e vibrante deste pedaço da SulAmérica – em Canavieiras, um sítio de província,
sossegado, discreto e verdejante, cheio de floridas
várzeas, risonho e casto, onde a vida calma, singela e
simples, saturada do bom ar sadio e fresco dos vegetais,
corre livre, virtuosa, independente e não tem os
aparatosos realces das lindas cidades elegantes, onde
as donairosas mulheres amorenadas usam na tournure
os mais exagerados tics, e os flaneurs vão, de rosa jalde
na Capela, fazer estoirar o líquido opalino do Champagne
Cliquot, rotulado a prata e a ouro em garrafas galantes,
dentro de taças que tinem à noite, pelos cafés
relampejantes e ruidosos.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 79
É uma natureza, esse moço; e daí o tom acentuado
e muito colorido do aspecto das suas paisagens, dos seus
contos. O seu temperamento tem várias modalidades.
Porém, como os raios refratores de uma luz, essas
modalidades, podendo multiplicarem-se, espalharem-se
em estrias na verificação dos objetos e das cousas,
reúnem-se, coligam-se, justapõem-se e formam um só
foco luminoso e forte a que chamamos ordem.
Virgílio Várzea tem ordem, tem exercício e
disciplina literária. A sua educação de Artista fez-se
naturalmente, sob a influência dos bons mestres, tendo
o preciso critério de conhecê-los bem e muito, de
compará-los, de não se munir de Larousses postiçamente
sábios, que são como que Cartilhas de algibeiras, de
onde sai logo uma legião de ilustrações feitas com muita
manuseação e com muita consulta do conhecido
dicionário francês, verdadeira biblioteca dos que gastam
literatura por manha de didatismo ou de ecletismo
artificial e fácil. Talento de assimilação, sabendo
apropriar-se e compenetrar-se dos assuntos, com a
percepção viva, do semblante animado, das coisas,
Virgílio Várzea não é um principiante ou um medíocre
que não mereça a análise franca da crítica.
É mais do que uma esperança da pátria, e menos
do que um jovem hábil, porque é mais do que essas duas
comparativas. Discípulo digno e direito de uma Escola
hoje completamente predominante – o Naturalismo – que
chega a exigir que editores ofereçam 28 contos fortes à
Daudet, por uma obra, ele tem todos esses detalhes,
todas essas circunstâncias, todas essas finas e
delicadíssimas originalidades que a compõem, ou então
muito de inteira correlação com os talentos espontâneos,
sinceros e firmes.
Não é tudo quanto dizemos sobre esse moço
catarinense, nenhum entusiasmo pueril.
Nem nós temos aqui à mão uma pilha Volta que
nos comunique e que nos empreste eletrismo de
80 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
entusiasmo e de aplausos fáceis. Se há pilha, é das
nossas convicções, da nossa alma franca, serena e justa
de combatente.
Os que conhecerem Virgílio Várzea e lerem os
trabalhos de que nos ocupamos aqui adiante acharão,
por certo, que ele é um talento firme, original,
trabalhador, afinado pelos maiores espíritos do seu tempo;
mas nós que o conhecemos pessoalmente, momento por
momento, instante por instante, dia por dia, que
assistimos muitas vezes à confecção dos seus contos e
que sabemos onde ele se adiantou, como lutou, como
conheceu os golpes do estilo e a maneira de ver, como
produziu sem elementos influentes para isso, como se
destacou dos outros, como se especializou, afirmamos
que ele é extraordinário.
Nem esta escrita quer dizer nada diante da
aprovação ou desaprovação da crítica sobre o livro do
nosso constituinte. Porque também Emile Zola, quando
começou a publicar o Mon salon, no Figaro, foi apedrejado
pela pulha literária e sevandija dos cafés cantantes.
Também os Goncourt foram contestados e só se ergueram
em toda a culminância gloriosa dos seus espíritos depois,
muito mais tarde, e isto em Paris, em Paris! a grande
apoteosadora dos espíritos. Quanto mais numa cidade
onde não se cuida de literatura, onde os velhos letrados,
dos antigos periódicos obscuros, não deram mais um
passo além do latim, e onde os novos, os moços que surgem
agora, continuam na lição dos provectos mestres, como
eles os chamam, sempre discípulos, sempre escolares,
de braço dado com a rotina, caducos já na mocidade,
como os velhos letrados de que ali acima falamos, sem
tomarem um caráter mais saliente e mais elevado na
Arte, na Política e na Literatura.
Poderão dizer-nos que Virgílio Várzea não é
nenhum Zola nem nenhum Goncourt. De acordo. Mas
nós também poderemos objetar, muito logicamente,
muito racionalmente, que o Brasil não é a França e que
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 81
não conhecemos, por ora, prosador literário mais original,
mais imaginoso e mais objetivista, do que Virgílio Várzea.
Quando dizemos imaginoso, não dizemos retórico,
palavroso. A imaginação, principalmente num escrito
moderno, participa da verdade e da observação.
Imaginação como o nosso Ideal a representar num
pressuposto fenômeno. Imaginação relativa à aquilo e
àquele indivíduo ou àquele fato social que, como se mete
em pauta qualquer loucura genial de Wagner ou qualquer
admirável sinfonia de Beethoven, a gente mete em estilo,
em vocábulos brilhantes ou ásperos, secos ou úmidos,
conforme a precisão onomatopaica e o efeito de
impressionismo que passou pela retina do escritor, do
artista e do estilista.
Neste ruído de teorias e de idéias gerais
naturalistas que ainda não se firmaram totalmente neste
País, aparece o vigoroso provinciano com as Miudezas.
Não se escreveu ainda, pensamos, nem mesmo em língua
portuguesa, um livro de contos tão pitoresco, tão
“pintado”, tão musical e tão cantante.
E nós dizemos um livro de contos, sem indagarmos
se ele tem o todo necessário, o plano que constitui o
caráter de um livro, isto é, a síntese de um estudo social,
artístico, político ou religioso. Mas se formos a demorar
bem o olhar no merecimento das Miudezas, ver-se-á que
são muitos livros dentro de um só livro, porque cada
conto representa uma fisionomia particular, destacada
e distinta. Assim, o “Albino”, o “Morfético”, “Romance de
um rapaz”, o “Manuel basta”, “A enjeitadinha”, etc. são
contos profundamente humanos, paisagistas,
parnasianos, cheios de um humor notável, vibrados a
rijos golpes de verdade, naturais, onde se observam
estudos de psicologia, um conhecimento exato do estilo
moderno, uma penetrabilidade de escritor consciencioso,
fiel na execução de seus personagens, dos seus moldes
de comunicabilidade afetiva.
82 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Os outros, a “Cabra cega”, “Enterro no sítio”, “A
travessia”, “O Sândalo”, “Passeio no campo”, etc., etc.
exprimem os seus coloridos, os seus sons quentes e
radiosos, as suas vibrações, os seus toques de pintura
cromática de água-forte.
H. Taine, o soberano crítico francês, diz, na sua
Philosophie de l’Art, o que damos aqui, textual e autêntico,
no próprio idioma, que “Chaque artiste a son style, un style
qui se retrouve dans toutes ses oeuvres. Si c’est un peintre, il
a son coloris, riche ou terne, ses types préférés, nobles ou
vulgaires, ses attitudes, sa façon de composer, même ses
procedés d’éxecution, ses empâtements, son modèle, ses
couleurs, son faire. Si c’est un écrivain, il a ses personages,
violents ou paisibles, ses intrigues compliquées ou simples,
ses dénouements, tragiques ou comiques, ses effets de style,
ses périodes et jusqu’a son vocabulaire.”
Seus efeitos de estilo, seus períodos e até seu
vocabulário, conclui o grande crítico. E é o que tem o
nosso valente escritor jovem: seus efeitos de estilo, seus
períodos e seu vocabulário, que alguns chamam
neologismos e outros, menos incompetentes e mais
ousados, termos empolados ou pedantes; questão esta
que ele resolve e explica distinguidamente e cabalmente
no prólogo da sua obra.
Neste ou em qualquer caso, as Miudezas são um
livro superior, adorável, primoroso e extasiante,
constelado de surpresas de imaginação, matinal e festivo
como se uma eterna aurora iluminada e perfumosa
cantasse e risse pelas páginas a fora. As palavras, a
verve, a graça, a elegância, a gentileza e a delicadeza
das imagens lembram um rio de ouro fluido, sutil e
límpido, que se desenrola pelos meandros do livro em
ondulações suaves; rio, em cuja face sonora um sol de
vitória derrama rubis, topázios, esmeraldas e berilos da
refrangibilidade dos seus venábulos cintilantes.
Uma pessoa recorda-se, pela imaginação acesa
desses escritos, dos suntuosos palácios do Alcorão, e
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 83
vê-se numa sala oriental, toda de espelhos e púrpuras e
cristais, ao lado de alguma divindade majestática,
coroada de estrelas, de túnica de rosas e de lírios, tendo
aos pés, num morno êxtase sensual e amoroso, qualquer
Paxá asiático, extravagante e faiscante de pedrarias,
com as suas pantufas verdes marchetadas de pérolas e
diamantes. Nas Miudezas há o goût de terroir de que falam
os franceses, e sente-se o vigor, o enseivamento de uma
natureza literária muito sistematizada, decidida e
pertinaz no trabalho. Ninguém, com mais propriedade e
unidade de ação tomou a si e desenvolveu aqueles
assuntos que, pela simplicidade ingênua, pelo saudoso
e grato sabor de infância que conservam, pela intimidade
e pureza de que são revestidos, parecem a muitos
vulgares e banais. Referimo-nos a “Cabra cega”, para
não citar mais, onde Virgílio Várzea pôs, tão maviosa e
tão doce, uma nesga de luz da sua infância, fazendo
ressuscitar aquele passado morto, tomar vida, mover-se
e caminhar do fundo da tela das descrições, a mais
expressiva e a mais verdadeira, com um milagre do seu
talento indiscutível, pronto, decisivo na ação como um
belo aparelho rotativo.
É preciso ter-se um merecimento bem vasto e bem
real para se saber dar valor e tratar assuntos tocantes
que quaisquer outros, mesmo de certa nomeada,
repeliriam por supô-los indignos e sem significação
alguma de toda a forma que fossem encarados.
Realmente, o talento é uma coisa imperceptível, um
delicadíssimo filtro de luar que poucos percebem. Uma
espécie desses corpos microscópicos que estão n’água,
a mais cristalina, a mais clara e a mais etérea, sem
serem vistos senão através de lentes graduadas e
próprias. Nesta hora em que a preguiça mental tornouse quase geralmente uma [ilegível] é bom, é consolador
ler-se um livro sincero, novo, escorrendo psiquismo, cheio
de alma; faz-nos bem, tonifica-nos completamente a vida.
E, deitando um olhar até a última linha extrema do
84 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
horizonte, por sobre o dorso esverdinhado e nevrótico do
mar, onde a luz da lua, a clorótica Ônfale do infinito, cai
como um dolente beijo de amor, lembremo-nos lá, além,
longe, do outro lado da montanha, e do lado ainda de
um outro mar, a seara dos espíritos cada vez mais
enlourece e se enflora; e, deixando os que ficam atrás
de nós, caminhemos sempre para legar aos de amanhã
a bênção de nossas palmas e dos nossos triunfos.
As Miudezas não são tudo quanto se tem de esperar
do magnífico e encantador talento de Virgílio Várzea.
Aguardemos os acontecimentos, deixemos que a
evolução se faça, e em seguida aos frutos da alvorada,
aos saborosíssimos contos, morangos que ele colheu nas
alamedas do parque aristocrático e azul do Ideal, hão de
surgir mais idéias, tão bonitas, tão cristalinas e tão
nobres como estas, armadas de dignidade e de força,
como um exército de cossacos, cujos sabres e cujos
capacetes, à mordedura nervosa da luz, faíscam de
reflexos de aço pelos relvosos campos de batalha.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 85
EMILE ZOLA
(1887)
Em torno da Academia Francesa tem esvoaçado,
ultimamente, num luminoso eletrismo, como um grande
pássaro de ouro, o nome de Emile Zola.
Discussões sobre discussões acumularam-se de
intensidade com relação à entrada do prodigioso artista
na Academia, e mais especialmente depois que Pierre
Loti para lá entrou agora.
Essas discussões e opiniões que se cruzam
parecem, de certo modo, estranhar a entrada de Zola
na casa dos imortais, e isso unicamente por que ele em
tempos foi o maior combatente contra aquela casa.
Mas, por isso mesmo, a entrada de Emile Zola na
Academia Francesa sugere-me, entre as diferentes
opiniões que se deblateraram, uma ordem de idéias que
tentarei expor, usando o mais livre exame, que é um
dos acentuados característicos do mestre.
A princípio, sem uma investigação demorada e
refletida, diante de um espírito tão intransigente, tão
demolidor, completado por moldes tão críticos, tão
profundos de analista, chefe de um sistema literário,
avant-coureur de um movimento novo na Arte, como é
Emile Zola, a idéia que acode a quase todos é de uma
transigência de doutrinas, quando, para o caso do
infatigável operário, esse vivo desejo, convertido já em
resolução definitiva, constitui a força natural que faz
com que os heróis se recolham triunfalmente, depois de
imensas batalhas ganhas, à sombra dos seus louros
flamantes, à maneira do sol que se oculta no seio dos
ocasos em sangue.
Porém, quanto a mim, isso não empalidece a glória
do poderoso escritor.
Desde o “Mon Salon”, no Figaro, que Zola estendeu
pelo mundo, com o seu nome, um rastro de estrelas,
uma via-láctea tão estranhamente luminosa e vinculada
86 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
aos corações como as intensas raízes de uma robusta
árvore monumental.
Ele conhecia bem a força da sua estatura, media
bem a vibração do seu pulso.
De um vigor mental extraordinário, trazendo para
a escrita a corrente das teorias positivas que se firmavam
no mundo culto e delas adquirindo mais essencialmente
a ciência fisiológica, como base de todo o pensamento
moderno, Emile Zola, com a possança dos seus músculos,
cabal, necessária, equilibrada, sabendo girar com todos
os elementos de que carecia, meteu-se supremamente
à forja e, com um valor gigantesco, foi acumulando na
sociedade, no tempo, livros que outra cousa não
representavam senão fatos, documentos da verdade, sob
o mais rigoroso experimentalismo e uma forma
naturalistamente definitiva na relatividade dos seus
processos e que lhe parecia ficar como uma alta
significação ou afirmação da natureza.
O egrégio observador, num impulso d’águia,
conhecia, decerto, a obra que levantava, o movimento
de luz que distribuía em torno do seu nome, pelo aplauso,
pela admiração das nações, e, pesando o alcance de sua
envergadura, estabeleceu fisiologicamente uma série de
teses, isto é, de assuntos que ele os desenvolveria
evolutivamente, na proporção das funções de um
organismo animado.
Daí essa engrenagem de obras, todas elas
obedecendo a um princípio assente, marcando uma fase,
determinando uma época ou estudando um
temperamento.
Numa elevada pressão de idéias ele se tinha
imposto à lei de marchar direito ao seu fim, sereno
sempre, na convicção dos seus admiráveis planos.
Fazia vagamente lembrar o Dr. Fausto, idealizado
com a sua ciência, surdo às contestações do mundo, na
análise crua dos homens e das coisas, atraído pelas
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 87
profundas investigações do saber e esquecido, alheio às
solicitações da carne.
O colossal edifício que Zola tem erguido firme na
terra é um trabalho ainda para mais ser abrangido no
futuro, quando outras gerações mais pensantes do que
a nossa o sentirem de mais perto.
O incomparável artista de Germinal lembra um
gerador, um enseivador de progresso, determinando, de
modo singular e concreto, abrangente do que nos cerca,
pela retina e por todas as expressões dos sentidos, a
vida dos seres orgânicos e inorgânicos como ela se
desenrola, pronunciando-se como a manifestação do ar
e da luz.
Só a perfectibilidade cerebral mais delicada, mais
dúctil, com mais vibração sensacional, poderá finamente
perceber, em todos os minuciosos detalhes, esse
excêntrico e assombroso vulto que enche a França e o
mundo, embora o mundo inteiro seja ainda um
academismo, esteja preso ainda, se bem que não
manifestamente, à casuística da metafísica; embora por
aí andem, mal percebidos e assinalados, os livros
fundamentais que poderiam fazer do mundo, das
sociedades, dos homens, um fio só de pensamento,
dando-lhes o poder de abstração e síntese que só se
adquire em virtude de condições muito probantes, e de
faculdades superiores e radicais de raça.
O certo é que Zola nunca foi compreendido,
genericamente, na sua alta manière, na sua prodigiosa
estrutura de analista.
O que mais se percebe dele são as chamadas
imoralidades, produtos do meio social, correspondendo
à flor dos pântanos e terrenos charcosos que, nem por
isso, deixa de viçar para os astros.
A sociedade, na sua maior parte, é obtusa e não
pode penetrar, como uma luz não penetra uma parede,
em sentimentos muito leves, muito fluidos, que só um
88 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
vasto cultivo e aperfeiçoamento estético consegue
apreender.
No Brasil, por exemplo, a seleção dos espíritos
não se fez ainda totalmente porque é necessário,
primeiro, para isso, que concorram elementos,
principalmente étnicos, para depois se formar o tipo da
nossa mentalidade. E numa raça de atributos diversos,
heterogêneos, sem condensamento, dificilmente se pode
determinar o objetivo psíquico. Porque, se é certo que
no Brasil há um grupo ilustre de escritores com a
plasticidade necessária para a adaptação de idéias gerais,
uns temperamentos mais requintados, mais exóticos,
mais artísticos, com penetração mais aguda, é certo,
também, que estão fora da sua época, relativamente,
porquanto o meio não comporta ainda todas as suas
excentricidades, nervosismos e pontos de vista novos, o
que os faz prevalecer pouco ou vagamente, sem tomarem
a posição que lhes compete.
Nem quase se pode responsabilizar ninguém por
esse fato, que depende de razões muito fundamentais.
Seria como quem quisesse responsabilizar a raça
negra pela diferença do pigmento, que apenas obedece
a um simples fenômeno de química biológica.
A opinião muito generalizada e superficial, que se
tem de Emile Zola, é que ele é um rude e brutal trapeiro
que anda remexendo os monturos só para tirar de lá os
sujos e esfrangalhados farrapos, o osso descarnado e
frio.
Mas esse brutal trapeiro, por entre esses sujos
farrapos que sentis pelo olfato, ó eunucos, bonzos do
entendimento!, muitas vezes esconde turbilhões e
turbilhões de brilhantes, turbilhões e turbilhões de
cristais, de fino ouro, de radiantes pedrarias,
constelações deslumbrantes, enfim, que o vosso duro
olhar não vê, que o vosso espesso cérebro, nem os vossos
rombos ouvidos percebem a harmonia sonora.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 89
Com a provável entrada para o oficialismo da
Academia Francesa, o cérebro de Zola não perde a sua
organização vital, a sua disciplina, a sua função. Isso
não passa de uma preocupação natural do Mestre, se
atendermos à sua idade, pela aclamação do alto.
Tendo já o aplauso reverente e franco da multidão,
ele quer agora o do mundo oficial: da aristocracia e da
burguesia, para a completa coroação da sua obra.
Mas fica sendo o mesmo aparelho reprodutor, a
mesma câmara fotográfica para receber, em clichés
instantâneos, toda a movimentação da vida.
No pórtico da Academia o seu espírito será como
um astro de fulgor e grandeza raros, o centro de um
mundo, o sol a jorrar luz para todas as direções da terra.
Não pode aquela natureza, subordinada ao
sistema, à orientação artística, ao soberano
regulamentarismo de preceitos de crítica, afastar-se
uma só linha da rota seguida. Pode, entretanto, terminar
a sua fase guerreira, a grandiosa fase, mas não pode
terminar a sua vitória, que é imortal.
Velho agora, ele se recolherá ao descanso para
dar lugar a novos combatentes.
Esse batismo, que se efetuará futuramente,
decerto, ou essa fé intelectual de seita, se assim se
pode dizer de uma célebre individualidade que foi
sempre eminentemente pagã nos princípios, não tem,
contudo, a significação baroque e arcaica que se supõe.
Antes, pode-se afirmar que será a apoteose feita
a uma cerebração genial, a suprema aclamação, a
consagração do triunfo que, em toda a parte, se votou ao
vencedor.
São as festas do leão que, com o salto das garras,
conquistadoramente abateu os fósseis nas cavernas.
Ele é que jamais ficará fóssil! porque o sentimento
naturalista das suas obras se perpetuará, evidenciando
a tirânica força sugestiva das suas concepções literárias,
90 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
como uma bandeira desfraldada, na eminência de um
forte evidência, a grandeza e a heroicidade de uma pátria.
Podem passar, desdobrar-se, desfilar diante dele
as escolas! – o bronze inteiriço das suas criações ficará
inalterável, eterno, de pé, no Tempo e no Espaço – pela
verdade, pela ação, pela luz, pela cor, pela voz e pela
majestade, por tudo isso que dá às suas estupendas,
maravilhosas páginas uma segunda natureza original e
palpitante, que é a natureza peculiar a cada objeto e a
cada ser.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 91
GUILHERME I
(1888)
O imperador Guilherme morreu, morreu o
Imperador Guilherme!
Sobre o saxão estandarte negro, branco e
vermelho, esvoaça agora uma grande e dominadora águia
sinistra, a mesma que nos campos de batalha pairara
sobre os corpos rígidos e frios...
Ressoam orquestrações militares, clarins atroam
o ar clamorosamente, passam a mil e mil os estandartes
de todas as nações do mundo, passam e tornam a passar
os séquitos guerreiros, os colossais esquadrões,
reverentes, na pompa das tristezas solenes, d’armas em
funeral, para as exéquias do Imperador, fazendo tilintar
e fulgir os estrepitosos metais das espadas e dos sabres.
No céu, calado, imóvel, o sol, como um ofuscante
capacete bávaro, rutila com a alva luz prateada das pontas
das baionetas.
Mas, que é esse sol, deus dos poetas?
E os espíritos célebres de Goethe, Heine e Uhland,
esse que cantara outrora a batalha de Leipzig, pasmam
e silênciam no ar parado que a neve cobriu de um vasto
e fulgente sendal branco.
Quem é, então, esse sol frio?
E dos lados da Alsácia e da Lorena levanta-se um
murmúrio, como que um trêmulo rio de vozes, surdo,
abafado numa noite profunda, através das altas, rochosas
montanhas alpestres, onde os graves castelos feudais
geram as lendas e os sonhos.
E o rio das vozes, crescendo, subindo, enchendo a
imensidade, assim sombriamente murmura:
Esse sol é Bismarck, que ficará, pelos tempos,
como o Alerta avançado das glórias militares, das
supremas conquistas da guerra, atroando o espaço de
ecos metálicos de fanfarras, avassalando as forças
92 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
estranhas com a técnica belicosa do transcendentalismo
alemão, como o mar avassala o mundo...
E os sonhadores da jovem Germânia, os utopistas
revolucionários, Laube, Gutskow, Wienberg, Mundt,
palpitariam de emoção nas sepulturas se ainda
pudessem ficar agindo no mecanismo da velha e austera
Alemanha, nevoenta e sonora da alma de Schiller, que
é a alma da balada, o prepotente chanceler de ferro.
E de lá do fundo glacial das sepulturas, todos eles
dirão, sorrindo, na cortante, na ácida ironia teutônica,
que a Rússia armipotente gelará vencida, na Sibéria, o
fogo dos seus canhões soberanos, que aterram...
Mas, o imperador Guilherme morreu, morreu o
imperador Guilherme!
E, na serena mudez das catedrais e, no luto do
Império saxônio, o Protestantismo livre e de pedra aponta
filosoficamente para o sol, nas flechas pontiagudas das
torres góticas, como uma interjeição!
O “EL-DORADO”
Esse então é um nunca acabar de apoteoses, de
glórias.
Mal a gente sai encantada de lá uma noite e já
outras noites se sucedem, num esplendor de sóis,
cantantes, alegres, radiosos.
Quem uma vez entra ali sai curado de males e
lavado de dúvidas.
As águas lustrais do prazer lá estão.
Na boca rósea de todas aquelas mulheres ferve o
champagne do amor.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 93
CARTA A GONZAGA DUQUE
Rio, 11 de abril de 1894.
Na impossibilidade de falar-te calmamente,
escrevo-te uma ligeira exposição sobre a Revista dos
Novos.
Penso que o grupo que deve constituir os
combatentes da Revista dos Novos tem de ser composto
da tua individualidade, Emiliano Perneta, Oscar Rosas,
Artur de Miranda, Nestor Vítor, B. Lopes, Emílio de
Meneses, Lima Campos, Araújo Figueiredo, Virgílio
Várzea, Santa Rita, Maurício Jubim, Cruz e Sousa e
Gustavo Lacerda, simplesmente, sendo que este último
deverá dar escritos sintéticos, muito generalizados, sem
personalismos, sobre política socialista. Penso assim
porque esses foram sempre, mais ou menos, de vários
modos intelectuais, e em tese, os nossos companheiros,
tendo cada um deles, na proporção da sua aptidão na
esfera da sua perfectibilidade, um sentimento
homogêneo do nosso sentimento comum na Arte do
Pensamento escrito. Penso também que o único homem
fora da nossa linha artística de seleção relativa possível,
que deve ser simpaticamente admitido para críticas
científicas, para artigos de caráter positivo e moderno,
é o Gama Rosa, que podemos considerar, à parte toda a
nossa independência e rebelião, como um austero e
curioso Patriarca do Pensamento novo.
Os mais, seja quem for, que venham de fora, isto
é, que se apresentem com trabalhos estéticos de tal
natureza alevantados e sérios que possam ser admitidos
nas colunas nobres da grande Revista, para o que basta
uma análise severa, rigorosa, desses trabalhos.
Enfim, apenas esse deve ser o grupo fundador por
excelência, deve constituir o corpo uno das Idéias da
Revista nos seus elevados fundamentos gerais, à parte
os detalhes da compreensão de cada um em particular.
Entre esses fundamentos gerais acho que deve ser um
94 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
dos principais, o maior e o mais firme radicalismo sobre
teatro, não permitir seções, notícias, folhetins ou coisa
que diga respeito a teatro, que, por princípio e integração
de Idéias, não deve existir para a nossa orientação d’Arte
na Revista dos Novos.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 95
HORÁCIO DE CARVALHO
Diante deste nome, desenrolado como uma
tapeçaria de Beauvais à frente dos nossos olhos,
lembramos o Oriente, a Turquia, a Arábia, a Pérsia, todos
os povos muçulmanos, que têm a frouxidão dos nervos, a
elasticidade de membros de raças decadentes em todas
as suas funções fisiológicas e psíquicas. Principalmente
a Pérsia lembra-nos a indolência, a languidez orgânica
de Horácio de Carvalho, indolência de fantasista, de
sonhador e artista intertropical, que não constitui
propriamente, porém, um senão físico, uma falha ou
ausência de qualidades originais de espírito; mas que
antes representa uma “maneira de ser” na vida – muda
abstração, na qual o pensamento é, sem dúvida, um
doirado pássaro, viajando pelas mais altas regiões
etéreas, inacessíveis à vontade da matéria.
Com o seu ar fidalgo, que lhe dá através dos vidros
do pince-nez as linhas nítidas, a distinção e o ar douto
de um sadio e forte estudante da Universidade de Bonn
ou de Oxford, Horácio de Carvalho parece viver apenas
numa flirtation com as idéias, numa despreocupação de
touriste e num diletantismo d’Arte, a que as asperezas e
arestosidades do meio emprestaram já as cores tristes
e carregadas de um pessimismo pungente que se
originara primeiro nas leituras intensas desse intenso
e artístico Schopenhauer, conquanto, na transparência
dessa despreocupação aparente, ele analise, perceba e
sinta passar, como entre a difusa e doce luz do
crepúsculo matinal os primeiros aspectos do dia que sobe,
as for mas vivas e as manifestações dos fenômenos
naturais.
Na verdade, esse amargo pessimismo que os
pensadores e artistas germanos, anglo-saxônios e
eslavos, beberam nas obras profundas do grande filósofo
de Dantzig, como numa enorme ânfora de ouro cinzelada
onde houvessem purificado num vinho negro o sentir e
96 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
o dolorido pensar de muitas gerações; esse pessimismo
agro-doce, divino e ao mesmo passo torturante d’O Mundo
como vontade e representação, dos Aforismos sobre a
sabedoria da vida e das Páginas fundamentais da ética, bem
como desse outro genial Eduardo de Hartmann,
especialmente nessa transcendente Filosofia do
Inconsciente, parece amarrar ainda mais Horácio de
Carvalho ao poste do ceticismo de Murger, de Nerval e
de outros tantos artistas queimados pela chama interna
de grandes Sonhos e Desejos nunca corporificados ou
materializados numa floração ou frutificação natural ou
real...
Mas esse pessimismo, feito de névoas germanas
ou eslavas, tênue, sutil, que insensivelmente inebria e
transporta ao seio paradisíaco da Espiritualidade e da
Ilusão, como esse venenoso e verde absinto dos Franceses
e esse flamante e nevado kümmel dos russos, esse
pessimismo, se Horácio de Carvalho o tem enraizado
até à medula, não lhe enevoa e nem ensombra,
entretanto, a garrida e fulva verve do espírito, de vôo
amplo e alígero, la grâce qui ouvre les ailes, colorida como
asas de borboletas e dançante ao vento como galhardetes
de navios festivos.
É que ele, por entre a variabilidade das
circunstâncias e do tempo, não perde a “linha” luminosa
e serena das atitudes mentais, acordando dessa morna
indolência turca ou persa para pôr ditos d’arte faiscantes
nas abstratas e transcendentes palestras literárias,
porque é especialmente um causeur, sóbrio e fúlgido,
que atrai e fascina sempre com o seu verbo brilhante e
límpido, embora escasso e tardo, mas de uma ironia que
lampeja e tine aqui e ali na frase, como os guizos de
Colombina e Arlequim deslocando-se em pinchos loucos
e febris, ao tam-tam-tam carnavalesco e burlesco na
Alegria e da Folia.
É um temperamento singular, esquisito, que tem
nesses próprios qualificativos o documento positivo e
autêntico da sua inteligência, da sua estesia artística.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 97
Vivendo na província, num centro antagônico ao
desenvolvimento e fulgor do seu talento; na aridez das
estafadas idéias em circulação, entre muros fechados
de assuntos banais, numa atmosfera onde a hematose
quase não se faz, onde o sangue não circula bem, nem
os nervos se tonificam convenientemente, Horácio de
Carvalho lembra um cáctus ou uma flor boreal, nascida
sobre a rocha ou sobre o gelo, vermelha ou alva, perdida
tristemente na esterilidade, queimada por um sol de
brasas ou na desolação da frigidez imensa...
O seu estado de languidez, de inércia mental na
escrita se parece com certos dias pardacentos,
nebulosos, sombrios, cobertos de nuvens, por detrás dos
quais, entretanto, o sol brilha a pleno esplendor, e, em
certos momentos admiravelmente se mostra por uma
nesga aberta no Azul, iluminando por instantes um
recanto do Espaço e da Terra, para logo atrás se obumbrar
sob cúmulos, voltando então todo o céu ao seu primitivo
estado de névoa.
Assim é Horácio de Carvalho, cérebro nevoento
como esses céus da Germânia e da Rússia, ao Centro
do qual, porém, rebrilha o sol do pensamento sobre a
amplidão azul da inteligência, que estranhos cúmulos e
nimbos encobrem perenemente, permitindo apenas
raras, raríssimas vezes, revelar-se por pequenas nesgas
de luz que aparecem instantaneamente, lançando frases,
ditos, conceitos e observações delicados sobre todos os
assuntos – modo de ser fisiológico e neuro-psíquico
singular e inexplicável, sob o qual arde e flameja a brasa
radiante de um grande e ansioso anelar de espírito,
feição quase enigmática e fenomenal de uma bela
organização humana, cuja psicologia o entendimento
comum dos homens não apreenderá jamais, mas que os
pensadores e os artistas sentem e compreendem nas
suas manifestações superiores e efêmeras, sem lhe
pretenderem sondar os motivos e as origens.
98 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
O PEQUENO BOLDRINI
Uma jóia o pequeno Boldrini.
Não era exatamente bem pequeno, porque fizera
quinze anos já.
Linda, bem linda cabeça tinha ele, redonda, leve
e macia, como cabeça de ave.
Ah! Havia de encerrar lá dentro muito sonho
dourado a cabeça do pequeno Boldrini.
O seu nome musical, miúdo e tímido, dizia de que
pátria ele viera: do Mediterrâneo, sob um céu largo e
azul sempre, sentado à Porta do Sol, em Roma, quem
sabe! fazendo gemer demoradamente no ar claro do dia
as notas trêmulas da sua rabeca.
Porque o pequeno Boldrini tinha a sua rabeca
amiga, afetuosíssima e boa, que chorava com ele pelas
praças e ruas.
E que dueto de lágrimas faziam ambos: o fanciulleto
e o instrumento! Era adorável de ver o pequeno Boldrini:
rosado, de uma bela cabeleira crespa caída em anéis
castanhos sobre a testa morena.
Muito bom, realmente, encantadoramente bom,
deliciosamente bom aquele tic nervoso das suas arcadas.
Ora o arco, vibrando rijo nas cordas, duro e
retesado como um músculo distendido, tirava sons
soturnos, cavernosos como regougos de condenados ao
fundo de subterrâneos. Parecia então haver uma
tempestade de lutas na alma do pequeno Boldrini; aquilo
tinha um jeito de Wagner, e dava a toda gente que o
ouvia um ar vago e dúbio de sonâmbulo.
Ora as arcadas eram solenes, majestosas, falavam
de coisas transcendentais, de soberanias místicas, dando
uma exaltação à idéia: era como que um desfilar heróico
de procissões de rajás, de altas imponências egipcíacas,
extravagantes de luz e de pompa na resplandecência
viva do sol da manhã atravessando galerias e largos pátios
suntuosos lajeados de mármore branco.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 99
Ora a rabeca tinha romanzas de beijos, barcarolas
saudosas, idílios de balcões em flor, cantava todo o louro
viver lascivo e madrigalesco de Veneza, dizia as canções
do Tirol, doces e castas, prateadas como o luar, abrindo
o peito às lufadas frescas das perfumosas aragens que
vêm dos laranjais floridos do amor.
E, às vezes, notas mais brandas, ciciadas como
brisas, desfolhavam-se no ar, semelhantes a pétalas de
rosas, como se fossem os íntimos segredos imaculados
dessa almazinha de artista das ruas, alma que se abria,
cheia de fantasias e de quimeras, como um livro cheio
de letras douradas, diante da presença de todos.
E o pequeno Vítor Boldrini, com quinze anos, que
eram talvez quinze ilusões da sua existência, metido no
seu jaleco de veludo preto, todo moreno e crespo, olhos
repassados de doçura de mar sereno, atravessados de
luz como cristal, lá ia vivendo como uma delicada flor de
estufa, meridional e azul, ou como uma flor de parque
aristocrático, no terreno palustre e neutral de uma
cidade populosa e inclemente da América do Sul, vendo
a sua Itália amada pelo cosmorama do seu coração de
bambino ou nas vistas coloridas e fulgurantes dos realejos
dos seus patrícios.
Então, o pequeno Boldrini, à noite, sonhava
histórias interessantes: via-se no Coliseu, grande na
presença dos homens, tocado duma chama divina e
regendo com o arco, não aquele arco velho e vulgar, mas
um outro arco novo, encrustado de ouro, uma vasta
orquestra real de músicos dolentes e romantizados,
falando de gôndolas sobre golfos iluminados de redondos
giornos de luz verde, rubra e amarelada, pondo
esmeraldas, rubis e topázios nas frias águas dormentes.
E o piccolo maestro abria muito os olhos como
costumamos fazer diante de uma coisa que deslumbra,
vendo através do espelho do seu sonho desenhado tudo
aquilo que ele cismara acordado, crente no futuro, mas
que lhe parecia, quando se levantava de dormir, ao outro
100 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
dia, fugir para sempre; porque as aspirações que ele
tinha, longe de horizontes italianos e sem esperanças
de voltar para lá, nada mais eram do que uma sombra
que se deveria esvair mais tarde, a exemplo da sombra
que acompanha na frente o corpo até ao meio-dia e que
depois fica para trás, como uma dúvida que nos tortura
e persegue eternamente.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 101
SIGNOS
(NESTOR VITOR)
A missão dos medíocres célebres, que em
batalhões cerrados enchem os milhões de andares da
Babilônia típica da história, a missão do cretinismo,
notório é já nascer morta, ironicamente no ventre dos
Destinos, qualquer cousa que deveriam trazer de
assinalado e luminoso.
A missão dos Espíritos, dignos desse nome, entre
a mascarada das classificações, é trazer uma vida dupla,
é viver, em dualidade e densamente, uma vida perpétua
no Espaço, fora do estreito veredictum dos homens e das
suas ostentações.
Claramente que a caraça de papelão dos parvos
há de opor obstáculos, com o seu sorrisozinho inócuo de
“havemos de ver isso”. Mas o espírito que traz força oculta,
que traz em cada mão, agitada no ar, o gládio pujante
da sua fé serena de conquistador; o espírito firme e
temerário, que assistiu, sorrindo, a todas as hecatombes,
a todas as misérias e a todas as glórias que fazem a
auréola triste do mundo, esse resiste no seu pólo
invulnerável, esse está afeito aos tufões, experimentou
bem de perto, nos ouvidos, o estrondo, o rouco estridor
das tormentas, sentiu rolarem-lhe aos pés os raios
inclementes e fulminadores, conserva os olhos perfeitos
e serenados na confusão babélica das coisas, é bem livre
e bem alta, a cabeça, para que ao menos as estrelas a
vejam.
Nada pode fazer vacilar ou perder sua intensidade
maior ou diminuir seu impulso mais amplo nessas
naturezas, ou antes nessas afirmações fenomenais do
Espírito, que quanto mais sentem a dura mossa que lhes
faz a Terra, mais almejam o céu; que quanto mais
sentem o vácuo que lhes querem dar por morada, mais
o procuram encher das constelações e magnificências
do sonho.
Nestor Vítor é o novo missionário do Espírito.
102 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
É a natureza para os largos horizontes, é a alma
para as grandes e emocionantes comunhões.
Ele sente a sede inflamada e bendita de rasgar
novas esferas ao pensamento, de fazê-lo girar
imprevistamente nas zonas da eterna luz, de criar e
fecundar prodigiosos estados sensíveis para a alma,
nessa esquisita e infinita percussão de todos os sentidos
refinados.
O surpreendente e curiosíssimo artista dos Signos,
que agora tão soberbamente se manifesta nas páginas
deste livro de uma alta significação estética, tão
anunciante de segredos, tão revelador de mistérios e
tão sugestivo de majestade, é um dos raros poderosos
que tem o dom magnífico e mágico de violentamente
arrebatar a nossa alma, de a fazer tremer e soluçar de
comoção diante da sua, de a fazer dignamente humilharse, na curva doce, aristocrática, nobre, das profundas
admirações diante da sua, de enfim despir-se, na nudez
mais pura e mais franca dos sentimentos, diante da
su’alma. Porque a su’alma é como um destes exóticos e
deslumbrantes instrumentos que acordam toda uma
série delicada e nervosa de sons que só ouvidos eleitos
escutam e reconhecem. Um desses instrumentos
saudosamente e egregiamente velhos que algum erradio
menestrel do Oriente vibrou acaso por algum poente
triste, no fundo de alguma era remota...
Só este grande amor que nos fecunda, só esta
abundante seiva de Idealismo, só esta potente fé
transfigurada que nos alimenta e ilumina pode
responder, como a clarividente voz do Desconhecido,
porque são as campanhas formidáveis em que nos
empenhamos, porque são os arrebatamentos loucos em
que vivemos, porque são as contemplações em que
mergulhamos, porque é, enfim, toda esta poesia tocante
e trágica que nos tonifica e convulsiona.
O artista dos Signos pertence à aristocracia
mental dos Poetas. Na sua sensibilidade existe o cunho
original da mais delicada e penetrante poesia, que não
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 103
será fácil de ser sentida pelas velhas carcaças das
Letras.
Porque isso de Letras não é mais do que a falsa
exposição de tipos, cada qual com uma teoriazinha
serôdia atrás da orelha, estafados de serem inócuos e
inodoros, aparecendo aqui e ali pelos alçapões teatrais
da opinião como verdadeiros marionetes de feira.
Nestor Vítor é uma alma intimorata de poeta; traz
o seu ser banhado dos eflúvios raros da mais
incomparável poesia. Mas dessa poesia nobilitante e
purificadora que tem asas para o Infinito, ansiedades
para as Esferas.
Os Signos, apesar de serem trabalhados em prosa,
evidenciam extasiantes modos de ser de um curioso
poeta, dão a medida de uma alma bastante elevada para
não ser apenas terrestre, bastante impoluta e requintada
para não deixar de embalsamar-se nas ondas
fascinadoras de uma emovente poesia, que é a linguagem
interpretativa do Sonho.
A maneira, os processos de Nestor Vítor, ao menos
nesta obra, são simples, mas dessa simplicidade que
implica complexidade, como toda a simplicidade que
nasce de fundamentos superiores.
A sua estética possui a severidade de um dogma
e a precisão, a eloqüência de uma vontade manifesta.
O que se lê neste livro sente-se que é sentido,
que é vivido, que é filtrado puro da imaginação do autor,
tão claro, tão lúcido, tão percuciente e tão flagrante como
se o Sentimento se movesse em torno de nós e falasse e
dissesse e vivesse a sua psicose e a sua nevrose.
O seu estilo, a sua forma, ele a faz com verdadeira
pompa de um desdém fidalgo. Isto é, não se preocupa de
modo fatigante e rebuscado, e deixa que a forma surja,
original e fascinadora no entanto, porque vem vestindo
um pensamento original e fascinador. E como cada
pensamento já sai naturalmente revestido da solenidade
da forma, o artista deixa simplesmente que esse
pensamento se manifeste, ficando então, desdenhoso,
104 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
tranqüilo, a sorrir da forma que tenha de vir, porque já
sabe que essa forma há de ser, sem esforço, superior,
desde que é uma correspondente direta de um
pensamento do mesmo modo superior.
Nesse ponto Nestor Vítor recorda um pouco Villiers
de L’Isle-Adam, cuja sobriedade e simplicidade de forma
repousa, no entanto, num processo complexo, excelso e
raro, que é o segredo de certos estilos surpreendentes,
inefáveis, que de tão requintadamente simples não
parecem estilos. Esses podem ser classificados os estilos
brancos ou os estilos leves e finamente estrelados, que
decorrem do pensamento de um cérebro superior, com o
alto desdém aristocrático de quem sente que é Eleito
entre os Eleitos, e não desce a prestar obediência dos
seus espirituais brasões honoríficos à plebe ignara e
sacrílega, que quer à força reconhecer a legitimidade
da hierarquia, das linhas nobres e puras da raça ideal
de onde esse Eleito procede.
A maior ambição que Nestor Vítor põe na forma é
a de conduzir a sua idéia para o rumo onde ele a queira
levar. É de fazer com que essa idéia, deixando o nebuloso
caos da sua origem, encontre livre, espontânea, franca
e ampla, a forma, para, como asas, alar a idéia para as
alturas, arrebatá-la na luz, fasciná-la nos astros e
deslumbrá-la nos céus.
O estilo de Nestor Vítor, forte, solene, é a evidente
característica, o desdobramento especial e genuíno da
sua feição grave e séria na Arte; representa bem o cunho
austero e eminentemente determinado, significativo, da
sua Estética elevada e nobre, rude às vezes, violenta,
libérrima e sobretudo desdenhosa em certos pontos de
vista.
Ele sente essa angústia, essa sede do Exprimir,
do Dizer, mas do Dizer denso, intenso e legitimamente
original.
Quer que o seu vocábulo sangre a vida, que o seu
verbo cave fundo na natureza do seu pensamento, que
imprima um movimento de convulsão e de sensação às
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 105
cabeças, nos quatro pontos cardeais da Terra; quer que
o seu verbo opere a luz e ilumine de uma cintilação
muito clara, eletrize, faça acordar, agitar-se, palpitar,
estremecer o sentimento ocioso e covarde que dormita
dentro das almas.
Um espírito assim, uma eloqüência assim, de tanta
penetração e de tanta concentração, tem de ser uma
grande tuba nervosa desconhecida, um clamor mais
ardente e mais virgem, uma voz de uma vibração e de
um impulso maior que projeta mais alto e mais longe o
pensamento que ela enuncia e proclama.
Essa covardia e essa inépcia para afirmar os que
pairam nas Transcendências da Arte e no Imprevisto do
Gênio, esse eterno e capcioso Não-Sentir e esse eterno
e capcioso Não-Ver dos que vivem se equilibrando em
mútuas muletas de Fama; essa tendência criminosa e
fatal que têm muitas vezes as almas mais bem dotadas
para se deflorarem e envenenarem nos sinistros tédios
culpados; todos esses esguios e escuros corredores onde
se esguelham e encolhem as lesmas sutis de vagos
movimentos caolhos e hipócritas da psicologia de certas
naturezas; todas essas escápulas cômodas para o Silêncio
e para a Sombra, essas cumplicidades mudas com a
própria Consciência, essas cópulas ilícitas e sacrílegas
com a Treva, este Verbo em febre do espírito dos Signos
condena do alto do seu dogma dantesco e santo, fustiga
com as suas ironias e a sua verve comburente, queima
e fulmina com os seus jorros de raios flamejantes.
Nos Signos há um sentimento delicado de velha
fidalguia estética; dessa delicadeza que é uma
florescência nobre e egrégia da estesia, dessa delicadeza
que é o refinamento dos nervos e do psiquismo e não
dessa outra toda exterior e aparente que parece feita
de óleo de oriza, de chic, de boninas do prado, de brisa e
dos suspiros das onze mil virgens.
Quanto à observação de Nestor Vítor, esta ele a
possui poderosa, pronta, fácil, livre e simples, quer dizer,
espontânea e natural. A sua imaginação toda particular
106 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
fornece-lhe um imenso cabedal para isso. Mas Nestor
Vítor considera a observação, como realmente o é, um
ponto de partida e não o fator máximo da sua obra.
Superiormente dotado, ele sabe que essa
observação, tão aclamada pelos medíocres e pelos
estacionários em Estética, não constitui a fonte, ou
antes, a causa primordial da elevação maior ou menor
de um espírito.
É lógico que quem tem ao seu dispor qualidades
estéticas singulares, elementos seguros e radiantes
para as interpretações mais belas da Arte, vê na
observação uma preliminar, uma força elementar dessa
Arte, mas nunca a sua melhor ou maior expressão.
Ter simplesmente observação, por mais vasta e
completa que ela seja, é, na Região do Pensamento, estar
apto para fazer alguma coisa ainda, mas não considerar
já essa coisa feita pelo único fato de possuir observação.
Assim, a observação não é mais do que uma
acidental nos grandes planos do Pensamento,
subordinada, dependendo de outras forças muito mais
complexas e abstratas.
Um livro do qual só se pode dizer – tem muita
observação, mesmo muita, e exata – é, quando menos,
um livro que olha e perscruta, com toda a correção,
embora tenha certos lados inferiores, cheira e palpa
muito as cousas, mas que não se eleva nem se projeta,
profunda e emocionalmente, em esferas superiores.
Celebração séria e serena, na mais absoluta
expansão da Arte, perscrutador penetrante do coração
humano, psicólogo de novas faces e de novos mundos
humanos, vendo quase tudo por uma visão de hora de
ocaso de outono, com certas linhas langues, mornas e
mórbidas, mas desse mórbido psíquico que é soluço e
que é dor na atmosfera mental, o glorioso artista dos
Signos conseguiu enfeixar na sua obra os símbolos mais
expressivos e belos, alguns de um fundo bem cruel e
bem funesto, mas onde ressaltam, vivas e dominantes,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 107
as sensações e as idéias que uma rara fé desperta nos
espíritos definitivos.
Do centro, porém, dos Signos destacam-se
iluminantemente quatro singulares trabalhos que
formam como que o eixo fundamental em torno ao qual
se movem todos os outros.
Embora prenda admirativamente a nossa atenção,
“Alegria fúnebre”, onde Nestor Vítor atesta toda a sua
larga observação generalizada, sintética, que ele tem
das cousas, todo o conhecimento perfeito da espécie
humana, desenvolvendo com emoção e pujança
extraordinárias a vida de dois seres miseráveis e
shakespeareanos na sua desgraça; embora nos seduza
e encante a psicologia ingrata, de uma sensação travosa
de desespero sem remédio, mas firme, completa, desse
outro lindíssimo trabalho “A Vitória”, e ainda o bizarrismo
precioso, a fina e desdenhadora fidalguia, o soberano
sarcasmo, intenso e cortante como lâminas aceradas,
como peste de fogo, desse “Olivério”; embora sintamos
esse esplendor de charge, impiedosa humour, caricatura
de uma face inédita, descarnando muito a fundo ridículas
usanças típicas, costumes incaracterísticos,
macaqueados, postiços, carregando a zarcão os
medalhões de uma sociedade falsa, que se julga
equilibrada e correta, embora compreendamos essa
excentricidade, essa firmeza perceptiva, essa segurança
de observação mundana, esse mal-entendu das relações,
de pessoas que se encontram num dado meio, pelas
correntes do acaso e que mutuamente se impressionam
e mistificam, sem, no fundo, se conhecerem com nitidez
e exatidão, como no “O Máscara”; muito embora mesmo
ainda vejamos a risada bárbara, selvagem, de “Hirânio
e Garba”, páginas tão irônicas e tão verdes na exótica
expressão, rindo, sob a égide do símbolo, de um mundo
que até para o amor tem fórmula e convenção; de “Hirânio
e Garba”, cujo pitoresco da forma revela preciosamente
o picaresco do fundo, que a ela com uma perfeita
curiosidade se adapta, o que parecerá talvez arcaico,
108 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
esteticamente antipático e desgracioso aos
entendimentos superficiais e frívolos que acreditam que
a Arte é a elegância e o bom gosto dos assuntos; embora,
enfim, tudo isso, há neste livro quatro trabalhos
culminantes que são as colunatas de ouro maciço que
sustentam toda a cúpula ideal dos Signos.
“Fatalidade”, símbolo amargo do Amor, o primeiro
casal enleado nas ilusões do amor, casal idílico, ingênuo,
querendo fugir, furtar-se loucamente e em vão ao seu
destino e ao seu fim na Espécie, querendo fazer do amor
um platonismo inefável, um eterno, imperecível laço sem
o cumprimento das leis fatais da Natureza, até que
ambos, ele e ela, rolam crua e animadamente no
Irremediável do gozo carnal que é a enganadora sedução
com que o amor ironicamente se oculta e tenta.
Porque mesmo, no fundo da grande Causa, todos
os encantos, todas as graças e atrativos de que se reveste
um casal que mutuamente se impressiona na vida, são
simples e instintivamente para o efeito da função
fisiológica, são seduções apenas para encobrir de vagos
véus aparentes e sugestivos o sentimento sexual da
procriação da espécie – triste sonho genésico que
alimenta e embala, consolando, a cismadora e aflita raça
humana.
“Agonias” – miserere solene, majestoso, de uma fé
que morre, sintetizada num fiel e num justo. Soluço
generalizado do Requiescat in pace dos grandes esforços
vãos, das lutas e dos sacrifícios seculares, das humildes
propagandas, das obscuras mas veementes doutrinas,
dos sublimes Vencidos ainda crentes e consolados até
mesmo às portas da morte; tristes lágrimas e
lancinamentos derradeiros de simpáticos e eloqüentes
apóstolos perdidos ao longe na poeira do infinito Saara
da Ilusão e da Fé, e que apenas têm como prêmio o
ponto final da cova.
“Gavita” – o encanto culpado, esse estado de
volubilidade inquieta, aparente ou latente, que reside
na mulher em flor.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 109
Qualquer cousa de volúpia do luar e da delícia do
néctar e das rosas. Curvas leves, aéreas de um sonho
corporificado, alvorando em esquivas surpresas, cantando
frescura e música, sorrindo e viçando graça.
Íris de virgindade, no céu azul constelado de uma
beleza de melindrosos atrativos e seduções pecadoras,
fazendo irradiar de si todo o delicioso cromatismo da
feminilidade borboleteante, fugitiva.
Desabrochar de alvorada de frutos de ouro, que
uma névoa deslumbrante de mistério envolve ainda de
translucidez, de magia e de meigas suavidades aladas.
Gavita é uma dessas criaturas meio imaginadas
e meio reais que formam no comovido coração de quem
as ama um doce oásis consolador.
Poucos sentirão a diafaneidade daquelas linhas,
os lascivos quebrantamentos daquele ser vaporoso,
metade sílfide e metade áspide, graça delicada e branca
de vôo de anjo, mas inevitável e demoníaco travor de
perfídia nos movimentos inconscientes e cúmplices do
seu fenômeno de mulher e de virgem.
“Sapo” – um desespero de condenado mordendo
os pulsos, terrível galé da Sibéria dos Destinos, sentindo
que o mundo está para ele do avesso, que as perspectivas
gangrenam, que os aspectos gangrenam, que os homens
gangrenam.
Ruge e troveja nessa criação densa e monstruosa
uma dor tão intensa, tão abismante, tão absurda como
se o oceano crescendo e inchando para o firmamento
rebentasse numa explosão de uivos pantéricos
atroadores.
O “Sapo” é uma destas concepções que parecem
fundidas em bronze por artistas revéis e alucinados. Por
todas aquelas páginas percorre um frio soluçante e
nirvânico. A vida ali ganha uma inconcebível densidade
e crueza, uma irradiação, mórbida, de eclipse de morte.
Secretos, os instintos da destruição moral, do
aniquilamento de tudo, fazem a sua catequese feroz e
sombria na já devastada alma do Bruce. E o Bruce, nesse
110 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
terror de alma sangrada na mais indefinível angústia,
clama e chora despedaçadamente, já até com o pânico
de si mesmo, como que sentindo o próprio solo, na
formidável catástrofe do mundo, recuar-lhe dos pés. A
dor, então, atinge até a um grau de transcendência e
de furor que parece epilético.
Nestor Vítor descobre, revela, rasga, ali, com
profundidade, o infinito de uma dor pateticamente
humana e misteriosa.
A vida contrai, aperta cada vez mais os seus
círculos. Um estreito Teorismo pretende tomar de assalto
o mundo. O mundo parece chegar à vacuidade do nada.
Tudo se desloca dos eixos, se desagrega do conjunto.
Como que o ritmo das cousas cessa e vai se estabelecer
a confusão geral. Daí, sujeitas a esse anárquico
sentimento universal, na harmonia negra desse estado
social e moral, sob a lei fatal desse Momento histórico,
geram-se naturezas como a do Bruce, de um fundo, no
entanto, dignamente intelectual e límpido, mas que
vendo para sempre partido, quebrado o maior fio de uma
afetividade qualquer que as equilibra na Terra, e já
trazendo mesmo, no seu íntimo, certas qualidades
ingênitas de desorganização, desorientam-se de todo,
desmoronam por completo, e tomam, no físico e na alma,
a gravidade triste, desesperadora, de flores tóxicas de
doenças patológicas.
A conclusão a que se chega no “Sapo” é cruel,
desoladora, mas eloqüentemente verdadeira.
A convulsão e vulcanização psíquica desta
admirável concepção, o símbolo tremendo que ela
representa, a mordacidade de caveira que ri
cabalisticamente da Vida e que é a própria mordacidade
glacial de Nestor Vítor, o fatalismo horrível que a
nirvaniza e que lhe sopra tufões inquisitoriais, tudo isso
enchendo malditamente aquelas páginas de belezas
austeras e tristes, de luzes roxas e amargas, como que
nos torna acerba e antipática a alma, tira-lhe toda a
piedade e toda a misericórdia, todas as auréolas brancas
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 111
da compaixão e do carinho, fazendo-a desvairada, louca,
maligna, perdida por dédalos sinistros de crimes, sem
fé e sem rumo, desvirginada nas suas nobres e delicadas
raízes.
A grandeza perigosa e envenenada desse trabalho
é de tal forma, a vastidão suprema do tema abala de tal
modo a nossa Consciência, fá-la de tal modo descer, fála de tal modo subir, acende uma luz tão clara e tão
grande, mas ao mesmo tempo tão impiedosa, tão dura,
tão castigadora, que perguntamos aterrorizados a nós
mesmos por que é que se foi revolver tanto sentimento
estranho, por que é que se foi arrancar ao Incognoscível
tanto mundo tenebroso, por que é que se foi descobrir,
com tanta paixão e tanta febre, tamanha região de
lancinamentos e de culpas!
Depois, essa esquisita silhouette do Pai do Bruce,
assim como Nestor Vítor a sentiu, dando-lhe toda a
impressionabilidade da sua natureza, traz-nos uma
sugestão de diabólico, de fantástico pavor.
Esse velhinho de olhos piscos, andar apressado e
miudinho – sombra, espectro na vida, sombra, espectro
na morte – porque o glorioso artista dos Signos faz dele
um perfil indeciso, nebuloso, do qual não se pode precisar
bem as linhas e as qualidades integrais; esse velhinho
ideal, lugubremente grotesco, meio sinistro, meio
feiticeiro e meio profeta como surgindo do fundo
cabalístico de um além-túmulo macabro; esse ignoto
velhinho, sonâmbulo das Cinzas, tão sombra espectral
na morte como foi sombra espectral na vida, é de um
raro exotismo e de um maravilhoso segredo de
imaginação genuinamente infernal!...
O próprio Ernesto é um perfil cativante, amorável.
Dessas organizações lânguidas, cuja juvenilidade
solitária, desabrochada na amargura e no abandono,
parece provocar sempre uma simpatia imediata, um
movimento de amparo e uma irresistível atração. É quase
uma natureza feminina, nervosamente histérica, de um
fundo tocantemente romântico, de onde mórbidas e
112 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
mornas vicejam flores pálidas e lascivas de timidez, de
frouxidão.
O Ernesto é o lírio magoado e doce, é a sombra
acariciadora e terna daquele Vale de lágrimas, que é o
Bruce; é o canto matinal e lírico daquela epopéia
humana, é a água dessedentadora, ainda que nublada,
daquele deserto horrível.
Lembra um ser esquecido em si mesmo,
adormecendo, do fundo da sua castidade meiga e da
sua melancolia, num desejo impreciso, vago de que ele
mesmo não sabe explicar nem acompanhar as
ondulações e as curvas.
Só quem subterraneamente e chamejantemente
viver nos infernos de agonias semelhantes ou idênticas
pode estremecer e chorar diante dessa concepção
formidanda, na qual o trágico e estranho perfil do Bruce
louco fica como um farol negro e de pedra, alto e imóvel,
na solidão carregada e bárbara de uma ilha longínqua
desconhecida do mundo onde um vento noturno e
gemebundo glacialmente sopra e sibila.
É preciso, na verdade, ter a cabeça
melancolicamente voltada para certas teses, para certos
problemas da psicologia humana; vir de muito longe na
peregrinação do Pensamento; trazer em si uma força
majestática, uma clarividência suprema e, além de tudo,
um desprendimento completo, absoluto, das frívolas
vaidades mundanas, para arrancar de tão fundo essas
raízes sangrentas de vida, para clamar de tão alto
verdades tão augustas, tão independentes e perigosas,
para rasgar, enfim, com tão violentos movimentos de
ação e sensação, os longos sudários que pesadamente
encobrem essas mórbidas auroras pressagas do
Sentimento.
O tipo do Bruce é um dos mais intensos e
profundos entre as Criações universais. Sente-se que
ele desloca as correntes do ar, move-se, respira, vive,
agita convulsamente os braços no Infinito.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 113
É um louco formidável que se fez homem; um
soluço que enche as Esferas com a ansiedade e a nevrose
subterrânea da alma delicada, com passiva, comovida e
angustiada de um russo.
Todos os desclassificados do destino, todos os
vacilantes, todos os sem rumo, todos os sem objetivo
certo, todos os silenciosos do orgulho nobre, todos os
corações amargos e fracos, todos os dolentes e desolados
do espírito, todas as vidas de meia luz e de meia sombra,
todos os vencidos da Glória, todos os inacabados, todos
os incompletos que aspiram um Ser, todos os que ondulam
entre a Fé e a Dúvida, todos os incompreendidos, todos
os irresolutos ou covardes morais encontrarão no
poderoso e sintético tipo do Bruce afinidades, diretas
correspondências, secretas confissões e apelos, ritmos
harmônicos e sugestivos, pontos especialíssimos e
tocantes de contato, hão de senti-lo e amá-lo.
De todas essas linhas vagas que formam tantas
almas indecisas, sôfregas, ansiosas e sofredoras que
por aí andam, de uma fronteira a outra da Terra,
esbatidas em nuances de melancolia e tédio, de
desespero e de agonia; de todas essas queixas confusas
e desencontradas dos Desgraçados, dos Solitários e dos
Contemplativos de todo esse sensível, denso e imenso
crespúsculo geral de gemidos, que é o fundo sublime e
misterioso da alma humana, foi que se gerou a natureza
do Bruce, foram esses os germens que constituíram tão
extraordinário tipo e que assim lhe dão, por isso, clara e
perfeitamente, a característica de simbólico.
Há no “Sapo” um niilismo agudo; tremendo, quase
sinistro, mas ao mesmo tempo justo e consolador, porque
vem para purificar e punir...
Esses quatro trabalhos formam com efeito o centro
do poderoso e admirável espírito de Nestor Vítor. Neles
acha-se condensada a maior massa de idéias. Sentetizase aí a psicologia curiosa de um ser que voa no sonho
das águias; sente-se aí a nervosidade mais coleante,
114 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
mais voluptuosa, mais sedutora; palpita aí a gênese mais
imprevista, mais original, a estesia mais delicada, a
sensibilidade mais dúctil, a profundidade mais
misteriosa. Por esses quatro trabalhos tem-se a medida
exata da sua celebração, toma-se a altura do seu vôo,
vê-se o infinito Intangível do seu espírito.
Do fundo de cada um desses Signos ou desses
temas psíquicos raia uma forte, clara luz soberana de
Arte.
Cada conjunto daqueles tem uma irradiação
central: são focos estéticos representando o máximo da
luz de uma singular natureza.
Cada um por si vive as suas linhas, traz a sua
sensação especial, o seu ritmo langoroso, a sua música
amarga, a sua tempestade trágica ou a sua nudez cruel.
Cada um de per si acende as suas estrelas de
melancolia e de cismada dolência, as suas violáceas
luas de morte ou os seus comburentes e chagados sóis
de vida.
O grau supremo a que pode atingir um espírito,
através de Abstrações e de Sínteses refinando-se,
apurando-se, na maior contensão da alma, tocando com
a alma o pólo astral das Quintessências do Sonho fazendo
da alma a nova Estrela-d’alva nas Matinas da nova Fé;
esse ansiar virgem, branco, nobre, claro, que é como se
andássemos pelas divinas eiras celestes, sequiosos por
devorar o trigo de ouro dos astros; essas asas do Inaudito,
que não são asas para a Terra e que palpitam e roçam
pelo peregrino fogo sagrado e sidéreo da Arte, tudo, como
estranhas relíquias de um outro encantado mundo, como
talismãs eternos que miraculosamente dão a vida e dão
a morte, esse pálido Sonhador dos Signos traz consigo
das estradas de onde vem, fazendo de algum modo
emudecer, e cismar, é a palidez dolente do seu
semblante, o altivo traço de austeridade, de força, da
sua cabeça eleita e a magnificência, a claridade sã,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 115
acolhedora, de deus jovem, mas serenamente severo,
dos seus olhos inquietadores e profundos.
Não são, essas criações dos Signos, produtos de
um realista, de um observador seco, mirrado, ou de um
analista de minúcias banais. Não é um fútil teorismo
ronchante e metafísico querendo empolgar o mundo com
as suas tentaculosas sistematizações, os seus caducos
julgamentos a sua miopia e estreiteza de microcéfalo.
Não é um frívolo bater de bigorna nos estafados e
relaxados assuntos que são a eterna tela dos seculares
torneiros de todas as literaturas do mundo.
O horizonte que aqui se alarga, os planos gerais
que aqui se estabelecem são outros.
Trata-se de uma natureza verdadeiramente,
legitimamente natureza, cuja complexidade e
fundamentos são extraordinários e assinalados.
É um grande ser, bem irmão dos grandes seres,
que desperta, pálido e grave, com o seu Verbo, para dizer
à Terra a grandeza do profundo Sentimento que trouxe
consigo.
A Terra poderá não o ouvir, não o entender, não o
escutar, não o amar; mas a sinfonia majestosa da sua
alma continuará, se desdobrará pelos dias, passará os
anos, encherá a atmosfera dos séculos, e, como um
soluço feito de beijos, feito de músicas, feito de lágrimas
e ansiedades, irá rolar, rolar, rolar, rolar na Eternidade
abismante um pouco da sua sensibilidade para torná-la
mais doce, um pouco da sua luz para torná-la menos
abismante, um pouco do seu amor para torná-la menos
tediosamente Eternidade.
Nestor Vítor traz no seu temperamento as mais
radicais qualidades; ele vem para o apostolado da sua
Obra, para determinar com elevação e pujança o
caprichoso e extravagante fenômeno de seu ser.
Ele vem para o apostolado da sua Obra, e uma
Obra é a evidência integral de uma Consciência, a cabal
116 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
afirmação de um pensamento, a radical expansão de
um sentimento.
Trazer uma Obra é ser capaz de todas as altas e
gerais responsabilidades, de todos os ódios e antipatias,
ineptos e injustos, que uma verdadeira obra provoca.
É arrostar, sem temor e sem alucinações, com as
zumbaias fúteis ou com zombarias atroadoras.
Certamente que uma coleção de livros, por
brilhantes e mesmo notáveis que eles sejam, não chega
a constituir o que na realidade se pode chamar uma
obra, desde que esses livros não tragam o cunho quase
imperceptível, o selo particular que caracteriza uma obra
e que forma o fundo da sua irradiação e da sua amplidão
no tempo e no espaço.
A obra de um artista vem inteira e completa nos
seus nervos, no seu sangue, na sua aspiração, na sua
virtude, na sua moral, na sua alma, realizando o que de
fato se pode chamar a natureza de um Complexo estético,
um mundo novo de Intelectualismo requintado.
A obra de um artista é feita na segregação de
elementos corruptores, fora das atmosferas viciadas,
infectas do mundanismo, das perspectivas rasas, no
isolamento do meio social banal, como uma gestação
nas purificadas esferas celestes.
A obra de um artista é feita de todos os fluidos e
forças da concentração, da intensidade, da fé abstrata,
do amor e da mais perfeita seriedade mental.
É a ação freqüente e conseqüente de um estado
legítimo da alma, o latente e intenso palpitar de uma
aspiração para o Sonho, a expressão generalizada,
sintética de uma Vida, o sistema arterial de uma
simples, pura e profunda Convicção.
Com todos estes atributos essenciais, com todos
estes predicados rigorosos aparece agora Nestor Vítor,
radiando de si uma obra, isto é, constituindo-se ele o
vivo órgão, o invólucro da matéria palpitante que vem
comportando a Emoção e a Sensação de uma obra.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 117
Os movimentos do seu espírito têm qualquer coisa
de avalanches que, quando passam, vão arrastando
consigo tudo. Ele é a avalanche mental, arrasa tudo,
devasta tudo, desola tudo com a sua fatal visão acerba e
sombria de Fulminador do Espírito. Parece que uma
aluvião má de demônios atravessa, por vezes, na câmara
escura dos seus pensamentos e nela tragicamente
proclama, escreve o Nihil, a vermelho.
No seu riso, ora de um desdém galvânico, de um
sarcasmo oblíquo, ora de uma desfaçatez de belo rebelde,
de divino celerado da Arte, cascalha a risada da morte.
E não estamos apenas rendilhando estilo,
floriturando frases, imaginando tropos: – o Poeta dos
Signos, insistimos, tem essas soberbas e raras
singularidades fatais consigo, o que o faz semelhar, de
certo modo e certas faces, a um desses esquisitos e
flagelados Sonhadores eslavos.
Mas, entretanto, o fundo melancolicamente
doentio e letal da sua natureza artística esbate-se, diluise logo na candidez abençoada da sua alma, na
transcendentalizada bondade de todo o seu ser de
demônio que se fez anjo, e anjo para punir as antigas
culpas do demônio.
Como, pelos requintes a que sobe, pelos raios de
luz em que paira, pela perfectibilidade a que chega, o
artista é o ciliciador de si próprio, o purificador de si
mesmo, que anda recebendo os santos-óleos, a extrema
unção dos extremos perdões, Nestor Vítor poderá ter do
demônio apenas a velha nostalgia, a triste visão do Letes;
mas tem, porque com ela para sempre ficou na esfera
tranqüila da sua alma, no mudo mistério casto da sua
alma, toda a glória e toda a celeste resplandecência dos
anjos.
Mas ainda mesmo sendo anjo, tomando do anjo o
resplendor e as asas vitoriosas, a olímpica divindade
desse anjo foi como que aos poucos desaparecendo, se
transformando; e onde era uma excelsa brancura de
118 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
anjo ficou uma lividez de monge, e onde eram as níveas
asas triunfais de um anjo, ficaram as vestes de um
monge, e onde eram o deslumbramento e o ruído
apoteósico de um anjo, ficaram o silêncio e a sombra de
um monge.
Ele é, na sua gênese, na sublime essência do seu
ser, um perfeito demônio que se fez monge, que foi
cristalizando e transfigurando a alma através dessa
longa vida que não é só vivida nos anos, que não é apenas
escoada no tempo, mas através da vida vivida nas idéias,
na intensidade e na chama das idéias, da vida que faz
dos pensamentos velhos monges solitários a desfiarem
o interminável rosário das sensações do mundo, quando
se adquire, através de lentas e recônditas transformações, essa grave expressão refinada de
espiritualidade, de dolência e melancolia antiga.
Quem nunca trouxe a cabeça docemente e
pungentemente pendida para certos lados secretos do
Pensamento e do Sentimento nunca poderá entrever
esses céus claros, céus e céus que se desdobram na
Imensidade peregrina da alma. E elevar a alma até essas
essências ignotas da Luz e fazê-la pairar, bendita e
branca, na paz infinita do Éter espiritual, é sagradamente
mostrar ao mundo que a alma não deve ser apenas um
miserável frangalho imundo, abjeto, nos círculos
nervosos da Vida. Que ela, a alma, quando sabe sentir e
sonhar, encantando tudo, maravilhando tudo,
transfigurando tudo, pondo claros céus novos em tudo,
é porque traz em si um toque desconhecido de graça e
grandeza, qualquer cousa de tabernáculo inviolável, de
venerado e abstrato que os contatos terrestres não
conseguem jamais poluir.
Os Signos são a extraordinária sinfonia de abertura
de obras formidáveis que aí vêm vindo e nas quais o
grande espírito de Nestor Vítor há de soberanamente e
fatalmente assinalar cada vez mais a sua superioridade
artística entre as intelectualidades do mundo.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 119
Ele vem para o alto objetivismo. Mas sabe, no
entanto, que não há puro e perfeito objetivismo sem puro
e perfeito subjetivismo, porquanto o objetivo não pode
deixar de depender do subjetivo, isto é, porquanto o
mundo interior do eu não se pode desprender do mundo
exterior que a visão abrange ou, mais claramente,
porquanto o temperamento não se pode separar do
documento do real e nem o fato prescindir da alma, a
fim de persistirem as essenciais concordâncias, baseadas
na Sinceridade do ser, que formam o fundo das legítimas
naturezas artísticas.
Cabeça de larga generalização, alto desdenhador
de todas as fórmulas sociais e de todos os estilos
literários, mesmo os mais aclamados, a completa
individualidade de Nestor Vítor tem sérias afinidades
com Balzac na análise, com Goethe na complexidade e
na síntese, com Ibsen no sereno poder pensador e
filosófico e na alma vasta, perfectibilizada e cismadora,
e com Villiers de L’Isle Adam no estilo, no pinturesco
sarcástico lúgubre, macabro, e mesmo no lado emocional
sutil e penetrante de certos assuntos.
Mas, além de todas as qualidades que
representam o conjunto harmônico desta natureza, há
nela a faculdade maravilhosa, quase sobre-humana e
quase divina, de arrancar das almas todas as mais
secretas e fugitivas verdades, como que vendo e sentindolhes as transparências íntimas do Invisível,
surpreendendo-lhes o pensamento incógnito e todas as
suas curiosidades e latitudes.
Nestor Vítor é um dos raros que trazem a fé viva e
superior do Pensamento, o seu Intelectualismo é uma
alvorada que rebenta cheia dos mais majestosos
prenúncios.
Nele não há a fé pretensa do simples métier, a
atitude falsa de parecer um açodamento momentâneo,
o interesse medíocre pela contemporaneidade, o que
120 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
caracteriza especialmente os continuativos e os
oportunistas da Arte.
Do íntimo de su’alma, de algum modo
soluçantemente ritmada por nonchalances, dolências e
aristocráticas melancolias hamléticas, nasce-lhe uma
fé poderosa e consoladora, como uma flor mística cujo
aroma purificador indefinivelmente o enleva.
Por isso, apesar de todo o seu vulcanismo
revolucionário, de todas as suas faces significativas de
Revelador de novos hemisférios da Emoção, a obra de
Nestor Vítor é edificante, de uma grande luz simpática,
levanta as almas e as impele a marchar por um cuidado
claro e seguro, que é o simples, livre e sensibilizante
caminho da Perfectibilidade ante as manifestações
fenomenais da Natureza.
Os Signos, da forma por que estão elaborados,
trazem essa propriedade secreta e característica que
têm os Eleitos de confundir e mistificar o
convencionalismo oficial da Opinião.
Nestor Vítor vem com a compreensão nítida e
absoluta da missão livre da Arte, do ser por ser, de
logicamente produzir por logicamente sentir.
Ele vem com este arrebatamento emocional, esta
doce volúpia de amor de sentir uma alma, mas uma
verdadeira alma, e ir espontaneamente ao encontro dela.
Com esta ansiedade nervosa e transcendente, com este
grande soluço para alargar, dar mais amplidão e mais
ar às esferas da Vida, a fim de ficar mais sereno e mais
puro diante da transformação da Morte!
Nesta hora violácea de ocaso, em que o Egoísmo
tomou conta da Terra; nestas confusões, neste caos dos
Espíritos e do Tempo, fazem-se mister largas
investigações mortais, mergulhamentos, fundas e
profundas sondagens luminosas, para achar e ter a nobre
coragem de levantar, clara e pura no Espaço, a Radical
de um Espírito.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 121
A VIRGÍLIO VÁRZEA
Evocando com emoção, com a mais intensa
sensibilidade, a época floreal, combatente, bizarra, da
saudosíssima Tribuna Popular, obscura ermida metida por
entre as sombras da vegetação primitiva de uma província
simples e onde uma campanha viva, chamejante, abria
em messes de ouro.
À camaradagem, à febre, ao entusiasmo, ao amor
daqueles intrépidos e inolvidáveis tempos, sans peur et
sans reproche, tempos de gládio e facho, sob as
impressionativas emulações dos belos companheiros, hoje
desgarrados: Araújo Figueredo, Carlos de Faria, Horácio
de Carvalho, e sob a repercutidora saudade de Santos
Lostada.
A esse tocante en arrière, que neste momento me
faz profundamente e recordativamente viver...
Histórias Simples
124 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Para solenizar gentilmente, com todas as
delicadezas do espírito, a fulgurantíssima idéia de libertar
escravos nesta aprazível terra, vamos contar aos
amabilíssimos senhores e particularmente às Exmas.
senhoras, umas “histórias simples”, interessantes e
leves e fáceis e claras, uma espécie de croquis ligeiro
do escravo no lar e na sociedade, com a mesma luz geral
do método racionalista, intuitivo e prático do grande
alemão Froebel, um belo homem que à luz do Jardim da
Infância estabeleceu a fisionomia lógica do ensino primário
nas sociedades infantis do mundo, com a sua ciência
liberal e fecunda de transcendentalismo pedagógico.
As “histórias simples” desfilarão por estas colunas
como um cortejo de bênçãos e de ironias, picantes e
dóceis, como um perfume de coreopsis ou como um
perfume de violeta.
Serão trabalhadas de estilo, brandamente
esmaltadas de idéias como um céu esmaltado de
estrelas.
Baterão no assunto pelo que ele tiver de mais
verdade, de mais penetrabilidade, de mais objetivismo,
de mais caráter. Descerão do trono de papelão o ridículo
manequim do preconceito oficial e improgressivo, numa
grande risada salutar e vitoriosa, bem da alma, bem de
crítica e de análise.
Eis, pois, as
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 125
HISTÓRIAS SIMPLES
I
À IAIÁ
Vós sabeis, Iaiá, como o mar é indomável e mau.
O vosso admirável paisinho, uma gentil pessoinha
fraca de nervos, impressionada e enjoada pelos grandes
e fortes balanços do navio no mar alto, o vosso pai,
quando volta de viagem, vos tem de certo contado as
inclemências do oceano, as suas lutas, os seus uivos
despedaçando-se e abrindo-se em diamantes de espuma
no costado das embarcações. E ele tem um riso de alma
contente para vós, unicamente porque se lembra do que
haveríeis de sentir, do quanto o vosso histerismo se
abalaria se o acompanhásseis, a ele já velho e doente,
na costumada peregrinação sobre as águas que gemem
saudades. Pois, ouvi-me, Iaiá: um belo dia, pacífico e
doce, cheio talvez da doçura infinita do vosso olhar, pela
hora calma e solene do meio-dia, um grupo de homens,
pescadores, marinheiros, operários, trabalhadores de
toda a casta, lutadores de toda a vida, fisionomias rudes
e chãs, agrestes como as altas árvores selvagens, se
ocupavam à beira de uma praia em observar qualquer
coisa estranha e inexplicável.
O sol direito jorrando do alto como que apagava,
pela força da luz, os traços ou as sombras carregadas e
duras dos seus rostos. Mas, queridíssima Iaiá, um
agrupamento, de indivíduos em certos lugares e em
certas ocasiões, influi, pelas circunstâncias de mistério
de que se cerca, nas nossas naturezas ocidentais e
brasileiras, ávidas de surpresa, de acontecimentos, de
fantasmagoria. A indecisão de conhecer a verdade
arrasta-nos e nós lá vamos, sôfregos, ofegantes,
impacientes, saber do ocorrido que tem para nós uma
ardente e atormentadora tentação de pecado.
126 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
O caso era o seguinte:
Tinha dado a uma outra praia deserta e longínqua
e fora transportado para aquela, até ser entregue à
família que quem sabe se ele a teria, ou simplesmente
atirado à implacável e fria indiferença da terra, o cadáver
de um homem, velho e negro, envolto numa noite física
que parecia rir muito, com um riso aflitivo e trêmulo,
em toda a extensão da pele do seu corpo. Era
tragicamente lindo de ver-se, Iaiá, o seu cadáver sinistro
mas calmo, mas sereno, como um deus terrível dos
destinos, em cujos olhos vidrados e mudos o sol punha
vivos reflexos luzidios.
.................................................................
Depois, interessante e amável e bela Iaiá, os
boatos correram no cruzamento e, na acumulação dos
tempos, e a história verdadeira dos fatos que abre luz
nos assuntos da treva, veio dizer-nos que aquele
desgraçado não era nada mais nada menos do que... um
escravo que procurava na desventura da vida, a liberdade
da morte, no mar, no mesmo mar indomável e mal aberto
à existência quase marítima do vosso pai.
A Regeneração, Desterro, 23 de junho de 1887.
II
À SINHÁ
Foi pelo inverno que se deu esta cena triste e
lúgubre, Sinhá.
Tinha eu ido passar a invernada de Junho, num
dos nossos sítios tranqüilos e modestos, cheios da
placidez melancólica da vida humilde e serena, duma
paz virginal, lá onde o verde da paisagem não é mais
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 127
casto nem mais doce que as naturezas francas dos
matutos.
No dia em que se deu o fato que vou relatar,
chovera.
Miudinhas cintilações de diamantes, de prata,
como vidro liquefeito, tremeluziam vivamente nos troncos
e nos galhos das árvores. Havia então um ar de frescura,
de purificação, de nitidez em toda a atmosfera e escala
ascendente do verde, desde o verde-paris, claro e forte,
até ao verde-mar, ao verde-bronze, mais cerrado e
compacto.
Não sei se, naquele sítio de um aspecto pueril e
dócil, poderia haver a invasão da maldade e do egoísmo
do homem, Sinhá; mas sei entretanto que os meus olhos
e que o meu coração, doídos e magoados, tiveram de
presenciar isto: Um homem rude, de fisionomia cruel e
trágica, apresentando todo o irracionalismo e
temperamento animal explosivo, vergastava a duros
golpes de relho, de pé atrás para retesar e dar toda a
elasticidade e esgrima melhor ao músculo do braço, uma
frágil mulher, escrava indefesa que não sei se ria ou
chorava, se blasfemava ou suplicava, tanta era a descarga
de impropérios que o terrível homem lhe rebentava as
faces, como o estado de brusca excitação nervosa em
que os meus sentimentos se achavam diante da mais
ignóbil das cenas.
Oh! era brutal, não, Sinhá?
A Sinhá é casada ou é solteira ou é viúva. Tem de
cuidar do seu maridinho querido ou do seu vestido creme
com rendas da Inglaterra para o baile do primo João que
é seu noivo, ou tem de cuidar de chorar elegantemente
o passado através do véu negro, rodeada talvez de filhitos
louros que o defunto deixou; tem de pensar nestas
feminilidades, nestas miudezas, nestes chics de mulher,
nestes nadinhas bonitos e encantadores mas sempre
criancis, mas sempre ingênuos; não tem a preocupação
crua e material do outro sexo, os negócios, a vida prática,
128 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
a responsabilidade da inteligência mais culta para dirigir
nações, para fazer livros, para fazer leis. A sinhá não
tem, por isso, a rija couraça de aço da luta que põe na
consciência de certos homens um terror obtuso e bronco
pela moral, pelo caráter, pelo amor. E o amor é para a
Sinhá, eu sei, o primeiro princípio da sabedoria feminina.
E mal sabe agora a Sinhá o que me ocorreu à
idéia quando vi o caso que lhe contei: É que aquele
desgraçado ente era uma mulher e vivia sob a pressão
do chicote, num sítio afastado e pobre; e a Sinhá é uma
mulher também e vive na cidade dos ricos, das luzes e
dos rumores, sob a música e harmoniosíssima influência
de um piano de Erard que geme scherzos dolentes
atravessados de um luar de amor ou de uma balada
meiga e saudosa cantada por nereidas de voz de prata e
lábios de aurora, numa barca, à flor de espuma do mar
azul.
A Regeneração (o recorte não traz indicação de
data).
III
À NICOTA
Loura Nicota, venta muito lá fora. O leste frenético
e convulsivo arrepia e desgrenha as árvores, fazendo
hieróglifos de rugas trêmulas nas águas turvas dos rios.
Não chove. Mas esse leste que zune, efusiva e zarguncha
num desespero nevrótico de doido, zangaleando as
vidraças, esse leste, loura Nicota, devasta tanto como
as grandes chuvas copiosas que caem dos torvos ares
elétricos. É noite, escura e erma; e alguns vultos que
passam nela, encolhidos, esguios, a largos passos para
casa, semelham duendes, antigos fantasmas das belas
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 129
histórias patuscas contadas por nossas avós junto à
fogueira crepitante e alegre das noites de São João.
Loura Nicota, venta muito lá fora; e tu estarás
talvez dormindo e tu não sentirás o zum-rum do leste;
dormirás no teu leito de alvas cobertas de renda, num
quarto arejado, de papel escarlate com estrelinhas
douradas, janelas para o nascente, sonhando, quem
sabe, este sonho que tem o mesmo ar vago, inconsciente
e o mesmo tom indeciso do vento. Sonhavas que eras
escrava, pobre loura Nicota, que ias vendida para longe,
para além, para onde tu não sabias. Haviam te amarrado
os pés para não fugires. Tinhas no rosto um rasgão de
sangue; e a tua fina pele delicada e cetinosa doía-se
toda naquela crueldade imprudente. E tu gemias e tu
choravas e tu suplicavas. Em vão tudo. Iam te levar para
lá. Tu não sabias bem onde era lá, mas ias. O teu filho,
porque tu tinhas um filho, gritava por ti, soluçava e tinha
quase uns magoados e surdos ganidos de cãozinho amado
e mimoso que o pé brutal de um estranho fere de rijo na
pequenina pata dianteira.
E tu eras mãe, tinhas um filho, querias ficar ou
levá-lo; mas lá estava o olhar imperioso de um sujeito
de cara de pedra impassível e tredo, que te ordenava
que seguisses sem ele. Era daí a instantes. Tinhas que
embarcar. Lá estava o mar brasileiro, o mar latino a te
chamar na coma espumada das suas ondas onde o sol
abria coruscações. Lá estavam as velas enfunadas dos
barcos que se meneavam, as saliências rubras das bóias,
a nuvem branca e macia de algum cano de vapor a sair,
os botes com a mastreação armada, de remos nas
toleteiras, toda a paisagem marítima, fresca e saudável,
desenrolada como um cosmorama diante dos teus olhos
pisados do choro.
E tu embarcaste.
Nisto as névoas do teu sonho se desfizeram como
se desfazem as neblinas da manhã destacando o dorso
azulado das montanhas, e tu, impressionada, levemente
130 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
comovida, fizeste-te a honra de chorar uma lagrimazinha,
um diamante redondo que te tremia na asa rosada do
nariz, como se tu foras a desventurada que, não em
sonhos, mas em realidades, alguém houvesse escravizado
e enviado a senhor estranho, da outra banda do mar,
loura Nicota, fora da terra em que nasceste e na qual
tivesses deixado um filho!
A Regeneração, n° 141, domingo, de julho de 1887.
IV
À BILU
Vamos no trem, Bilu. A locomotiva corta as
distâncias, de um fôlego, atravessando o ar cálido dos
túneis, subindo e descendo montanhas, na grande
coragem de ferro do seu ventre, pelo trilho em fora, aos
guinchos da máquina que apita e expele ondas de fumaça
adiante.
No carro em que eu vou, ao meu lado direito, um
francezito de cabeça pelintra, louro e moço passeia o
seu olhar viajado e latino pela fremente natureza que
acordara com o dia.
As janelas do wagon estão abertas. Vêem-se
extensões de terreno agricultado, terras aradeadas e
lavradas, pastagens, gado que muge, pinheirais imensos,
um mar tremulante e verde de canas, despenhadeiros,
grotas onde a água cai cascateando branca e cristalina,
cumes de serras altas onde os ventos aflam, povoados,
casarias brancas alinhando ao alto das encostas, rindo
na luz clara da manhã, um idílio fresco de mulheres, de
raparigas novas que levam cabras ao monte, cantando,
todo um bucolismo e um lirismo campestre que o largo
concerto wagneriano da floresta enche dos pomposos
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 131
sons metálicos das aves, que estridulam notas no espaço,
voando.
O francezito louro, duma aparência fina de duque,
com toilette leve de verão, assesta repetidas vezes o seu
lorgnon para fora, para as amplidões de verdura e
particularmente para mim.
Eu indago de mim mesmo o que será. Ele retorna
a acertar-me o vidro redondo, sem aro, apenas com uma
pequenina argola de metal de onde pende uma delgada
fita preta. Há uma atmosfera de curiosidade. Os viajantes
interrogam-se com o olhar despindo os guarda-pós pela
razão da calma que já vai no dia, um forte dia de verão.
Mas o francezito não se pode conter e olha desta vez
para mim num seigneur de admiração e de surpresa.
Eu não dou cavaco e faço não entender. Ele então
levanta-se do seu posto, vem a mim e pergunta-me baixo,
mas em louvável português, apontando para um vasto
terreno onde uns homens negros, mais de cem,
trabalhavam sob a ardente chama do faiscante sol
abrasador: O que é aquilo, homens negros, trabalhando
assim, ao sol, quase nus! Oh! São escravos brasileiros,
respondi-lhe eu no mesmo tom. Então os brasileiros são
escravos!... Eu disse que sim. Falei-lhe da França,
mostrei-lhe os seus homens, Thiers, Gambetta, Michelet,
os grandes patriotas, os belos corações do amor da
igualitaridade humana. Toquei-lhe em Girardin. Teve
uma comoçãozita nervosa. Riu-se. Disse mesmo, Girardin
é o Jornal, é o princípio, é a doutrina. Falei-lhe de Zola,
de Goncourt, de Daudet, de Maupassant, de Mendés, de
Richepin, de Rollinat.
Falei-lhe da Inglaterra. Olhando-me e disse: da
Inglaterra só o sport man e o punch, não o jornal,
acrescentou com espírito, mas o punch feito com rum e
conhaque, chamejante, de vivas chamas azuis e
amarelas.
Compreendi. Mas ele voltou-me aos homens
negros que trabalhavam.
132 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Eu então expliquei-lhe que eram escravos no eito,
trabalhando sem cessar, desde o romper da aurora até
a noite, quase nus, vivendo em senzalas, buracos escuros
e subterrâneos onde não há ar e onde uma eterna
umidade de terrenos palustres põe nos pulmões a
mordente tarântula da tísica. Expliquei-lhe mais que
não havia nas fazendas, como se chamavam os centros
em que residem escravos, ordem de doenças, de agonias,
de prazeres, de entusiasmos. Aqueles indivíduos cor de
treva eram maquinados, dizia eu; tinham um cordel nos
olhos, outro na boca, outro na cabeça, outro nas pernas,
outro nas mãos. Quando o feitor queria que eles rissem
puxava um cordel, quando queria que chorassem puxava
outro, quando queria que pensassem puxava outro,
quando queria que andassem puxava outro, quando
queria que falassem puxava outro.
O francezito ria devagar e entredentes.
Depois, senhor, explicava-lhe ainda eu, não têm
vontade própria para coisa alguma, comem os restos mal
cheirosos de comidas de muitos dias, são separados
brutalmente, os filhos de suas mães, as mães de seus
filhos, e quando alguém intercede piedosamente por eles,
há um personagem notável, Sua Majestade o feitor, que
os amarra a troncos de árvores e lhes abre as carnes, a
chicote, em fundas chagas de sangue.
E o francezito ria. E perguntava, de olhar aceso e
indagador, com um sarcasmo agudo na ponta do nariz
de celta: E a polícia?! Eu ria-me também, dizendo-lhe:
Mas isso é lei, é muito legal tudo quanto explico ao
senhor; pois se os donos de escravos têm até direito de
propriedade! Eles compraram a mercadoria, compraram
a carne, podem fazê-la apodrecer nas senzalas.
Nisto anuncia-se a estação a que eu me destinava
e tive de separar-me do amável francês que ficou no
trem; ia desembarcar mais adiante.
Porém ainda hoje, prezada Bilu, parece-me ver o
francezito de cabeça pelintra, louro e moço, o francezito
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 133
chamado Ideal pátrio, rir muito, rir ironicamente do país
da luzida pessoa do D. Pedro II, assestando o seu pedaço
de vidro redondo, na noite, numa careta diabólica, para
os homens negros escravizados à vergonha da História.
A Regeneração, n° 144, Desterro, quinta-feira, 7
de julho de 1887.
V
À SANTA
Nós, adorada santa, tu e eu somos livres,
escravizados apenas pelo amor. Bom é agora, neste caso,
que eu te conte umas coisas bonitas sobre liberdade e
sobre escravidão. Escuta.
* * * * * * * * * *
O nazareno Jesus, de maneiras singelas e
cândidas, de voz persuasiva e penetrante, de palavra
fácil e clara como a luz, representa o poderoso e grande
princípio da moral dos povos. A sua vida, uma vida de
piedade, de simplicidade e de amor, será, pelos tempos
em fora, a filosofia abençoada da humanidade. Ele veio
da Galiléia, veio do povo hebreu, cheio de mistérios
sagrados. O divino operário, o filho humilíssimo e calmo
do carpinteiro José, tinha ao redor de si uma atmosfera
de honestidade e de paz.
Os fracos, os pequenos, os tristes, os sofredores,
os lacrimosos, todos ele cobria e aquecia do frio da
desolação com o seu olhar bom como a sua doutrina,
doce como o seu rosto e como os seus cabelos
encrespados e lindos.
Deixai vir a mim os pequeninos, dizia ele. E as
crianças dóceis e pobres aproximavam-se risonhas desse
134 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Cristo que era a esperança, que era a caridade, que era
a crença e que era a fé.
Nunca fora sonhado outro céu mais largo e mais
puro do que a alma cristã do Messias cuja vinda a
profecia anunciara, pela voz dos sábios do Oriente, em
letras de verdade e de luz.
Desde a Caldéia até a Síria a sua fama e o ar
brando e simpático do seu tipo ressoavam, casta e
sonorosamente, como uma música vinda dos astros;
alastravam-se nos corações como eternos rosais que o
sol fecunda e faz vigorizar. Cristo! Cristo! Cristo! Jesus!
Jesus! Jesus! Assim iam de boca em boca estas sílabas,
como preces, como ladainhas católico-romanas.
Quando ele aparecia era como uma aurora
iluminando tudo. Abriam-se os casais e as almas para
recebê-lo como para receber o dia. Paravam as gentes
nas estradas, os betânios, os de Jaffa, para vê-lo de
perto e para ouvi-lo falar; ou sentavam-se junto às
piscinas, ou debaixo dos sicômoros, ou à sombra das
palmeiras, deliciados pela sua frase nua e tosca onde
havia unção do bem, tanta humanidade, tanta
fraternidade e grandeza.
E o Cristo tinha sempre diante de si, dos seus
olhos meigos e ternos que sabiam ver longe e fundo, a
humanidade triste e paciente que sofria e chorava na
obscuridade da noite, lá, quem sabe onde, muito além,
na pátria da miséria, longe da vida e bem perto da morte.
E ninguém diga que ele foi um revolucionário.
Ele foi um revolucionário se acaso o sol com a sua
viva claridade pode fazer revolução nos vegetais. Não!
Ele não foi petroleiro, não foi incendiário; transformava
mas não revoltava. Como pensador, pensava; como pastor
de almas, apascentava o seu rebanho.
Jesus era escravo do seu ideal, era escravo da
sua religião, da sua igreja, do seu apostolado, da
humanidade enfim; mas Jesus amava e queria, pelo
amor, a liberdade dessa própria humanidade.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 135
Uma bela mulher morena e pecadora lhe acendera
uma chama tão veemente e tão nobre que Jesus se
considerava um Deus, tanta era a altura do afeto que o
santificava todo.
Jesus, escravo, queria ser livre também para o
amor como a outra gente; queria amar muito, amar
sempre, amar na eternidade; porque Jesus, como Deus,
tinha essas consoladoras palavras, falava em eternidade,
falava em céu. Queria a vida eterna e a alma imortal.
Madalena, que outra não era a sua amada, tinha
pelo nazareno muito respeito e muita adoração. O amor
entre eles dois era a liberdade. Mas a Judéia era a
escravidão, a escravidão do princípio, de doutrina, de
uma certa ordem de idéias práticas e puras da vida e
que Jesus apregoava, esclarecia e exemplificava com as
suas parábolas e com as suas prédicas.
Por isso a Judéia crucificou Jesus e por isso Jesus
não fecundou o ser de Madalena; de sorte que não ficou
sobre a terra homem nenhum profundamente e tão
santamente imaculado e sereno como ele.
E essa mesma lenda da ressurreição que a Bíblia
conta e que só poderia ser feita por filósofos evangelistas
embriagados pelos eflúvios transcendentais do
cristianismo, tal é o seu alcance, a sua natureza
racional, nada mais que dizer senão que aquele que
adora, protege e combate a liberdade, triunfa e ressuscita
até da morte que é a única escravidão eterna, onde
habita o verme; porque, se não ressuscita em matéria,
ressuscita em espírito no coração de todas as eras.
* * * * * * * * * *
Eis pois, aí tens, Santa, oh doce filha do meu amor,
o que é liberdade e o que é escravidão!
A Regeneração, n° 146, Desterro, sábado, 9 de julho
de 1887.
136 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
VI
À BIBI
A Bibi foi criada desde pequenina com a sua
escrava Maria. Maria é uma crioula muito viva, de olhos
rasgados, raiados de sangue, acusando temperamento
ardente e tresloucado. Nunca Bibi deixara Maria. Eram
os “irmãos siameses”, costumava a afirmar com
autoridade o senhor, o Castro, advogado, quando voltava
dos clientes para a família.
Bibi era uma raparigota faísca, barulhenta,
mexendo em tudo, algazarrenta, trepando aos etagères
para brincar com os copos limpos e arrumados ali,
derrubando de sobre o gueridon o elegante álbum de couro
da Rússia com fecho de metal branco, alvoroçando as
aves domésticas no quintal, amarrotando e quizilando
as visitas com implicâncias, com ditos, com esquisitas
comparações desastrosas. Porque afinal os pais faziamlhe a vontade, deixavam-lhe o gênio à rédea solta, não
lhe ralhavam, não viam aquilo. Demais, Bibi era o mimo
da casa, a filha única, não queriam contrariá-la,
coitadinha; também, era uma criança, diziam, tinha
tanta graça.
E Maria e Bibi completavam-se. Nunca se via uma
sem a outra.
Influenciada por Maria, Bibi fazia tudo. Maria
mandava-a tirar às escondidas da sinhá velha um torrão
de açúcar, Bibi tirava; Maria mandava tirar uma ave
qualquer do quintal para fazer com as meninas da
vizinhança um festejo de bonecas, Bibi tirava; Maria
mandava tirar um vintém ou dois ou três ou quatro ou
cinco, do resto das compras do dia, de sobre a mesa da
sala de jantar, Bibi tirava. Ambas inclinadas ao mal
desenvolviam-se no mesmo meio como uma planta
enxertada na outra. E Bibi tornava-se imprudente, de
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 137
maus costumes, mentirosa e vingativa. Maria era a
causa, Bibi o efeito.
Bibi ia fazer quinze anos. Tinha todos os predicados
complementares da feminilidade verde: a excessiva
vaidade, o amor pelos galanteios, o romantismo dos
recitativos langorosos e sem metro acompanhados ao
piano numa melopéia monótona e esfalfada, os passeios
ao luar calmo e voluptuoso de tranças soltas pelas
espáduas; os espetáculos de dramas sinistros,
impossíveis, os bailes, os romances manhosos e
desenxabidos de causar nevroses, vertigens, febres, um
poucochinho de spleen pela virtude e de nostalgia pelo
vício.
Pelas quinze primaveras de Bibi, dançara-se muito,
fizera-se estilo palaciano nas salas do Castro. Ele e a
mulher tinham o coração transbordando de entusiasmos
paternos pela filha, como os convivas tinham as taças
transbordando de champagne rosé e de chambertin, nos
hips e nos hurrahs.
E as luzes das serpentinas crivando prismas
faiscantes nos pingentes que tilintavam com o ruído das
valsas dulçorosas que faziam palpitar os seios e gemer
as sedas, descreviam hieróglifos de sonhos confusos,
cheios de névoas, como castelos no ar, nas imaginações
picadas de vinho e atordoadas naquela quente
temperatura coreográfica.
Um dia Bibi teve um namorado. Soube-se que era
pobre, os pais não queriam. A gente de Bibi também não
era rica; mas afetava de modo luzente e discreto. Pobre
de Bibi.
Que de choros, de agoniazinhas, de raivas naquela
natureza fremente e desregrada... Que bater de pé!
Mas Bibi não perdera todos os recursos, tinha a
sua íntima, a sua Maria.
Foi a ela, aconselhou-se com ela, abriu-se, disselhe tudo. Maria ouvia Bibi, reluzindo toda no ônix de sua
cor.
138 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Deu-lhe planos, conselhos, ensinou-a em coisas
que sabia, de muito efeito.
Disse-lhe que escrevesse que ela levaria a carta
e traria alguma que ele tivesse. Ficaram nisto.
Passados tempos soube-se que Bibi fugira com um
palhaço e que Maria dissera ao vê-la partir:
– Tenho saudades dela mas não perdi o negócio.
O meu plano valeu-me cinco notas de dez tostões,
novinhas em folha. Muito bom aquele seu Chico palhaço!
Este interessante caso da outra Bibi de teu nome
fez-me despertar no cérebro a idéia de que todas as
Bibis como tu, criadas desde a infância com alguma
escrava Maria, recebem os costumes e os instintos maus
dessa própria Maria; porque o elemento escravo,
pernicioso e fatal como é, contagia de vícios a família
brasileira da qual tu, meiguíssima, boa e excepcional
Bibi, puramente descendes.
A Regeneração, n° 150, Desterro, quinta-feira, 14
de julho de 1887.
VII
À NENÉM
Hoje é domingo, Neném. Celebra-se a Semana
Santa.
Estamos na Ressurreição.
São cinco horas da manhã.
Na rua, há ainda um ar vago de alvorada que põe
uma guipure de névoa nos aspectos variados da natureza.
Entremos na igreja.
Na igreja, há também o mesmo ar vago trazido
pela larga e polida vidraçaria do templo que se conserva
aberta; ar com tudo menos vago talvez pela razão dos
lustres acesos e da gala sagrada que enche de
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 139
resplandecimento e solenidades toda a extensa nave
onde os fiéis rumorejam num crescendo de mar
tormentoso e cavado.
O altar-mor está vistosamente ornado, rutilante,
cheio de flores colocadas em jarros dourados, rodeado
de grandes tocheiros que faíscam e reluzem com as suas
chamas ensangüentadas e amarelas.
Lá em cima, até onde os olhos sobem mais, num
trono de luzes, entre uma pesada cortina escarlate caída
em pregas longas e fundas, vê-se o Cristo, ressuscitado
e chagado, tendo numa das mãos um ramo verde.
Nos altares laterais, os santos parecem ainda
possuir a auréola triunfal de aleluia de ontem e sorriem
seraficamente, meigos, tanto os mártires como os
gloriosos.
Pelo teto abobadado, como convém às construções
de certos edifícios em conseqüência da acústica, da
repercusão dos sons entre as harmonias melífluas,
sentimentosas, ternas e docemente melancólicas dos
violoncelos e das rabecas, das flautas e do harmonicorde
que chora, pianíssimo, na majestade sagrada das suas
notas, ecoam sonoramente as vozes que vêm do coro,
beatíficas e sérias, entoando o Kirie eleison, num
misticismo de bandolins empíricos cujas cordas flébeis
os ventos celestes vêm gemer e soluçar tremulamente.
Os sacerdotes festivamente paramentados, com
as suas capas lustrosas e relampejantes, verdes,
encarnadas, brancas e roxas, bordadas a flores de ouro,
de estolas pendidas no braço, ou com as suas sobrepelizes
alvas e rendadas destacando forte na batina preta,
curvam-se em genuflexões religiosas diante do altarmor e, levantando-se depois com mesuras graves e
medidas, lê um deles a “sacra”, em voz pouco alta: In
principio erat verbum et verbum, etc., enquanto os acólitos,
em linha e reverentes, agitam, fazem balançar
cadenciada e ritmadamente os lavrados turíbulos de
prata, donde partem brancas e leves espirais de incenso.
140 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
E o cerimonial prossegue com toda a minudência
escrupulosa do rito romano.
Mas a minha atenção prende-se agora a um vulto
feminino ajoelhado para lá do cruzeiro.
Olha, não estás vendo, Neném, aquela senhora
idosa, de cabelo repartido em bandós, de vestido preto e
de amplo mantelete de vidrilhos, ali, perto da capela do
santíssimo?
Bem que tu conheces!
Repara bem como ela reza com devoção.
O longo rosário de padre-nossos e de ave-marias
pende-lhe das mãos engelhadas e trêmulas que o
reviram sempre de um lado para outro, enquanto os seus
lábios frouxos e desmaiados balbuciam com furor
histérico intermináveis orações que falam do amor
divino, da tentação da carne, do inferno e da glória
eterna.
Em cada ruga profunda do seu rosto há um
mistério, talvez um remorso, um crime talvez.
Ela mal pode ter-se de joelhos, as pernas
fraqueiam-se-lhe, o seu tronco curva-se e curva-se mais
como se se quisesse dobrar e partir; e no entanto essa
senhora reza sempre, sem levantar os olhos para
ninguém, nem para os santos, preocupada no seu mister
beato e salvador, apenas olhando obliquamente, de
soslaio, como uma pessoa vesga, de modo invejoso e
cruel, para algum chapéu Pierrete, de rosas e clematites,
colocado vitoriosamente, com um atrevimento e uma
brejeirice e petulância chic, na cabeça grácil de alguma
mulher bela e nova.
Oh! essa velha tem uma história lúgubre, Neném.
Ali onde a vês está sem dúvida com cinco
comunhões e seis confissões.
Vem todos os dias à igreja, muito cedo; às vezes
ainda há crepúsculo matutino, confessar-se pelos seus
grandes pecados e obter a absolvição e as indulgências
do senhor padre.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 141
Ah! ele que a confessa não tem culpa, não.
Não tem porque conhece certamente, embora o
fumo espesso da teologia lhe tirasse ao espírito certa
lucidez filosófica mais necessária, ele conhece como é
feita toda essa manobra da religião, não a religião alegre,
piedosa e consoladora do Cristo que eu e tu adoramos,
Neném, mas a triste e pervertente religião hipócrita dos
homens.
Neném, tu és uma moça de espírito, tocas muito
bem Schubert e Verdi, tens uma paixão artística pelo
“sento una forza indomita” do Guarani e pelos musicais
esplendores gregos da Aída; teu pai, um capitalista grave
e lord, de cheques ao portador, parecido com um certo
nobre de teatro, educou-te muitíssimo bem, com capricho
e dedicação mesmo; fez-te aprender o francês, o inglês,
pôs às tuas ordens um magnífico professor de música
vocal, mandou-te ensinar um pouco de geografia física,
de geografia matemática, de geografia política e de
história e creio mesmo que até chegou a conseguir que
tu folheasses com atenção, por muitas vezes, um tratado
de fisiologia e de patologia, porque o teu belo pai tinha
um orgulho e um desejo extravagante e clássico de te
fazer médica.
Até mesmo me afirmaram que certos folhetins que
os periódicos literários publicam são escritos por ti, como
“As borboletas”, “Os ninhos de colibris”, “Os querubins
do lar”, etc. com a maneira gentil de Valentina de
Lucena, de Guiomar Torresão, de Júlia da Costa e sob o
pseudônimo esbelto e aristocrático de – Rosalina do Val.
Portanto, educada assim como és, inteligente e
ponderosa, hás de saber por certo o que é um caso
patológico.
Sabes, não é?
Pois essa velha é isso, é um caso patológico
terrível que ainda o mais sábio homem de ciência não
poderá estudar facilmente.
Essa velha tem a nevrose da maldade.
142 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Ela é devota assim como tu vês, não é verdade?...
Mas se tu a visses em casa!
Em casa ela muda de figura, transforma-se, não
é aquela que lá está, não é a mesma.
Todo aquele aparato de beatice some-se como
numa mágica, pelo alçapão do cálculo e do interesse
egoísta e fica só em cena, no tablado da sala, da varanda
ou da cozinha, uma mulherzinha pantérica, sinistra e
fatal que não é mais trêmula como a outra nem mais
curvada também; mas uma mulher que se impertiga,
que anda rápida e desembaraçada, falando forte, de
relâmpagos na voz e com um olhar onde há o sangue
dessorado e venenoso de muita raiva concentrada e de
muita inveja dos outros.
Essa velha possui escravos que castiga atrozmente,
de uma maneira desumana e brutal.
E quando volta da igreja, com o ar ressabiado e
hostil por ter ouvido repreensões ásperas do confessor
que a conhece e que não lhe permite fazer todas as
maldades e barbaridades que ela quer, a velha,
despeitada por ele não estar sempre do seu lado, a seu
favor naquele modo de vida, de mulher irascível e má,
chama uma pobre escrava, doente e encanecida pela
idade e pelos sofrimentos, e dá-lhe pela cara com um
vergalho de couro molhado e passado em areia ou chegalhe aos seios e às pernas um pedaço de lenha ardente
em brasa, dizendo-lhe entre um riso satânico e feroz:
Anda, negrinha, pula agora aí e lembra-te do pai Antônio
que não te quis; também o padre não me quer mais a
mim.
A Regeneração, n° 162, Desterro, quinta-feira, 28
de julho de 1887.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 143
VIII
À ZEZÉ
Neste momento, Zezé, tenho sobre a mesa de
escrita, diante dos olhos, um pequeno folheto cuja capa
da frente forma o desenho sereno de uma nuvem
prateada, no meio da qual um bando alegre de serafins
celestes, de crianças louras e rechonchudas voa com as
suas asas rosadas, suspendendo no ar uma fita azulclaro que diz – Lisboa-Creche.
Lisboa-Creche é um jornal-miniatura, galantezinho,
leve e acariciador como um ninho de ave, onde uma
turba luminosa de indivíduos que escrevem deixou toda
a cintilação do seu espírito doce e cantante como uma
revoada zumbente de abelhas douradas.
Esmaltam a Creche, além dos escritos mignons,
graciosíssimas aquarelazitas, espécie de cromos
encantadores, das quais ressalta a Tarantella,
interessante dança de costumes napolitanos, meridional
e vibrante, ruidosa de primor e de graça, pintada com
muito chic pelo pincel elegante e radioso de Bordallo
Pinheiro, cheia de um sol de talento artístico como de
um sol dos trópicos.
E para que se fez esse jornal miniatura?
Eu te digo.
Um dia, em Portugal, lá onde canta a cotovia “tão
límpido, tão alto que parece que é a estrela no céu que
está cantando” uma rainha amável e pia como o seu
nome deu-se ao bom humor, lembrou-se de descer
simpaticamente até ao povo e abriu os seus braços
fidalgos às crianças sem asilo e sem pão.
Porém, tantas e tão pobres eram elas que não
bastariam por certo o socorro e o amparo de uma rainha,
conquanto benévola e poderosa fosse, porque essa rainha
não sustentaria, ela só, nos seus ombros débeis e
144 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
delicados, o peso de tanta desventura e tanta
necessidade juntas.
Então agruparam-se em redor dela os artistas, os
escritores, os poetas – todos eles floridos e frementes
de idéias – contentes e gloriosos como se fossem
desenterrar de cova do passado, com a enxada da
fantasia, todas as lembranças queridas e saudosas da
sua infância.
E daí nasceu, como homenagem à idéia da rainha,
o Lisboa-Creche.
Bem vês, Zezé, que a intenção, que a razão
principal desse jornalzinho não pode ser mais pura; é
tão pura, tão casta e tão cândida mesmo como uma
magnólia aberta, orvalhada ao luar.
Ocorre-me isto à memória, apraz-me narrar-te,
conversar amigavelmente e fraternalmente contigo estas
coisas, porque sei que também tens um coração generoso
como a rainha.
Tens sim.
E para prova disso, basta olhar para as lindas
chinelas de lã, bordadas a missanga, que tu trabalhas
com tanto gosto e orgulho.
As tuas mãos giram e tornam a girar o tapete de
um para outro lado, esse tapete por hora tosco e simples,
mas que há de ficar estrelado daqui a pouco dos
fulguramentos da tua habilidade.
Os fios de lã caem de entre os teus dedos,
flexivelmente, como fios de luz, enquanto o retrós colorido
e fino, com tons de íris etéreo, confunde-se em meadas,
cujo segredo da ponta só tu conheces, dentro da tua
cesta de vime.
E para que fazes isso, Zezé?
Tu mesma nada me dirás, nada me responderás,
nada me contará a tua boca, porque desejas conservar
mistério nessas chinelas até um certo tempo, até ao dia
em que elas tiverem de levar o destino que tu imaginas
e queres; mas, não obstante essa tua persistência em
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 145
nada me revelares, eu sei de boa fonte, de fonte bem
cristalina, sei do teu próprio coração que não mente
nunca nem engana a ninguém, que tu caprichas nesse
objeto porque tencionas dá-lo ao bazar dos escravos e lá
deve haver com certeza ricos objetos aprimorados, muito
preciosos e muito lindos com os quais esse não poderia
naturalmente competir jamais, se não fosse, como está
sendo, trabalhado caprichosamente.
A Regeneração, n° 193, Desterro, sábado, de
setembro de 1887.
Outras Evocações
148 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
ELIZIRNA
Elizirna! Elizirna!
Como faz a gente pensar nos mundos de além,
emigrar, boemizar, para a gare azul dos sonhos estrelados
de auroras, o teu perfil correto, linha direita de
imperatriz da Rússia.
Como essa cintura, mais delicada e galante do
que a pétala branca, de leite, da deliciosa magnólia,
quando a gente te vê elegantemente espartilhada,
jubilosa, parecendo uma alegria do céu, tantaliza e
arrebata os bravios leões do desejo.
Elizirna! Elizirna!
E a tua epiderme, macia, jambosa, com a penugem
veludínea do pêssego, molar com a suavidade doce do
creme, e o frescor perfumoso da malva-maçã; de um
róseo queimado, a tua epiderme, flor azul dos luares
brancos, impressiona o nervosismo, dá irritabilidades
espasmódicas.
E a música do teu laringe, o gargantear
cantarolante do cristal, semelhante ao tinido miúdo,
claro, sonoro de uma campainha elétrica, vibrada num
palácio de vidro, como prostra a alma num êxtase, num
êxtase...
Elizirna! Elizirna!
E a curva do teu colo, a abençoada curva do teu
colo!
Quantos ideais meus, quantas cismas
encharcadas no licor saborosíssimo da ventura que
palpita, que ferve, que escalda e esbraseia, não foram
flutuar, boiar no maciosíssimo topázio rico do teu colo
moreno, como um batalhão triunfal de pássaros
vermelhos, nos fluidos da enorme concha de alabastro
do firmamento.
Elizirna! Elizirna!...
Pomba doce dos países de ouro.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 149
E a tua boca, cor de pitanga madura, levemente
roxa, esse escrínio rútilo dos meus beijos, esse fruto
ruborizado, polposo, sempre aromático, infiltrado do
sândalo agradável da mocidade, do gosto saudável da
beleza pura, castíssima, frescurizada, vegetabilizante,
como é consoladora e boa.
Elizirna! Elizirna!
E a tempestade negra dos teus cabelos, cortada
pelos fuzis dos meus olhares, por onde o vento absurdo,
desabrido, das minhas desgraças, faz ziguezagues e
esfuziotes continuados; o mar profundo e vão dessas
tranças, por onde o meu destino naufraga
desoladoramente, como eu acho terrivelmente
deslumbrante, esmagadoramente belo...
Elizirna! Elizirna!...
E os teus olhos, filha, abundantes de cousas
celestiais, fartos das bênçãos do gozo, inundados dos
equatorianos rosicleres primaverinos, cheios dos
pizzicatos, dos acceleratos das paixões, como iluminam e
cantam...
Elizirna! Elizirna!...
Parecem dois sóis esplendorosíssimos, os teus
olhos, cada qual com um sabiá dentro, abrindo,
cristalinizadoramente, em trilhos gorjeadores, a
bravuresca garganta lírica...
150 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
CONSCIÊNCIA TRANQÜILA
O ilustre, o douto homem rico, o abastado senhor
de escravos está já, segundo a previsão do seu médico,
quase às portas da morte.
Sobre o luxuoso leito largo, na alvura fria dos
linhos, entre os gélidos silêncios das paredes altas, ele
está mudo, semimorto, dormindo, como que se
predispondo para o sono eterno.
No confortável aposento onde ele aguarda afinal o
último suspiro, vai e vem, abafando os passos, toda uma
sociedade de honrados bajuladores, de calculistas
espertos e frios, de interessados argutos, de herdeiros
capciosos, de tipos bisonhos e suspeitos, almas
simplesmente consagradas ao instinto de conservação
da vida no que ela tem de mais caviloso e oblíquo.
Graves e grandes, como bocejos lassos, como tédios
esquecidos, os momentos do moribundo se prolongam e
os comentários esfuziam e ferem, à surdina, o ar doentio,
pesado...
– Não há dúvida que vamos perder um homem
útil, prestimoso, eminente, carregado de saber e
virtudes, bom e piedoso, ah! sobretudo bom e piedoso.
Que coração de anjo para os humildes, para os tristes,
para os fracos, para os desamparados. A sua bolsa,
sempre inesgotável, dividia-se com todos. Verdadeiro
apóstolo da caridade, da religião e da ciência, era um
justo na acepção da palavra, de uma moral elevada até
à santidade. Nunca me há de esquecer de como ele foi
sempre generoso para essas raparigas miseráveis, gente
baixa, que nem ao menos tem a vala comum para cair
morta e que ele afinal protegia com a sua bolsa e
arranjava-lhes noivos entre pobres-diabos da plebe,
quando por acaso elas deixavam de ser virgens com ele...
De muitas, de muitas sei eu que ele tornou felizes com
o seu prestígio, dando-lhes casamento e dinheiro. Sim!
porque outro fosse ele, como esses bandidos que por aí
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 151
andam, que deixariam as pobrezinhas ao desamparo e
com filhos. Ele, não; casava-as logo e assim trazia
felicidade aos casais que constituía. Muito, muito justo,
sempre foi muito justo em tudo! Homem distinto! Homem
distinto! Este é dos poucos que podem morrer com a sua
consciência tranqüila, perfeitamente tranqüila!
Quem assim falava com esta ingênua malignidade,
com esta nova, inédita inocência, com esta terrível e
eloqüente ironia, por si próprio, no entanto,
desconhecida, era um homem de olhos ladinos e gestos
sacudidos, próspero, rubicundo, expressão loquaz de ave
rapace, nariz altivo, espécie de sagaz furão de negócios,
parecendo estar sempre ocupado em absorver e conhecer
pela atilada pituitária o ar das cousas e dos interesses
imediatos.
Num dos dedos da sua mão ágil, pronta, precisa
para o assalto à vida, com a medida exata dos grandes
golpes ocultos, reluzia a clara gota d’água iriada de um
rijo brilhante.
Mas, o troféu de glórias deste curioso exemplar
humano era o famoso e filaucioso cavaignac, meio
diabólico, meio cínico, que ele afagava com gravidade e
volúpia, abrindo em leque, num gozo particular, como se
o cavaignac fosse o seu inspirador e o seu oráculo naquela
eloqüência.
Como todo o bandido bem acabado, perfeito, como
todo o Tartufo casuístico, tinha o seu séquito, os seus
satélites, que instintiva ou calculadamente ouviam e
aprovavam sempre em silêncio servil tudo quanto ele
dizia e lhe forneciam a manhosa e morna atmosfera,
feita de rastejantes e vermiculares sentimentos na qual
ele vivia à farta, num transbordamento de tecidos
adiposos, cevando-se nas lesmentas vaidades e caprichos
mesquinhos dos outros, lisonjeando-lhes as pretensões,
alimentando-lhes os vícios, devorando-lhes o ar, numa
verdadeira existência parasitária.
152 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Mas, agora, todas as atenções se voltavam,
alvoroçadas, ansiosas, para o velho moribundo, que
acordara afinal em sobressaltos, o olhar desvairadamente
pairado num ponto, como se por um esquisito fenômeno
tivesse ressurgido do terror do sono eterno e viesse ainda
perseguido por glaciais fantasmas que o arrastavam pelos
cabelos e pelas vestes, através de uma treva duramente
muda e aflitiva...
E, ou fosse remorso ou fosse álgido medo da hora
extrema ou fosse mesmo agudo e histérico delírio
imaginativo de senil e tábido celerado que vai morrer, o
certo é que todos, no auge do espanto, no mais esmagador
dos assombros, sem poder conter a súbita e estupenda
torrente que lhe foi espumando e jorrando da boca
bamba, ouviram este cruel e amorfo monólogo, feito de
lama e podridão, de estanho inflamado, de ferro e fogo,
de acres e apunhalantes sarcasmos, de ódio e visco, de
mordentes perversidades, de chagas nuas, de lacerações
de carnes gangrenadas, de soluços e estupros, de ais e
risadas, de suspiros e concupiscências baixas, de beijos
e venenos, de estertores e lágrimas, tudo rodando,
rodando através do pesadelo da Morte.
Como que a seu pesar, um fenômeno desconhecido
o transfigurava, punha-lhe na boca a eloqüência viva de
chamas devoradoras. Ele era, naquele momento, a presa
formidanda das correntes da matéria, que os mais
curiosos e estupendos sentimentos abalavam: como que
uma outra natureza, sem ser propriamente,
legitimamente a sua, a natureza dos mistérios, que paira
acima de tudo o que nos é terrenamente acessível, a
natureza do Incognoscível das Esferas, dos maravilhosos
Ritmos, o inspirava, falava pela voz dele, enchia-o de
fluidos prodigiosos, arrebatava-o para um meio sonho e
para um meio delírio, onde, contudo, transpareciam faces
verdadeiras das cousas, já galvanizadas pelo passado.
Aquilo era como que o exemplo vivo, iniludível e
supremo dessa vaga névoa, dessa bruma de Abstrato,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 153
que há em todo o Tangível, do Sobrenatural que há em
todo o Verdadeiro.
– Ah! lá se vão elas, vejam, lá se vão elas! Quantas!
Quantas! Eram todas minhas! Vinham entregar-se ao
meu ouro que tinia, tilintava, tinia com a sua luz sonora.
Olhem, lá vão elas! Todos aqueles corpos eu beijei, eu
gozei, eu depravei, eu saciei! Todos aqueles belos corpos
brancos se adelgaçaram, se quebraram, vergaram, em
curvas voluptuosas de abóbada estrelada, às minhas
furiosas luxúrias. Parecia que corcéis de fogo disparavam
no meu sangue, corriam a toda brida nos meus nervos,
tanto a sensualidade me agitava, me vertiginava,
aguilhoava-me com os seus aguilhões acerados. E eram
todas virgens, que eu desviei, estrábico de gozo, nas
formidáveis alucinações da carne. Pois se eu tinha o
meu ouro, o meu ouro que agisse sem demora e mas
trouxesse vencidas; pois se eu tinha o meu ouro, o meu
ouro que as escravizasse à minha lascívia, o meu ouro
que as fascinasse, o meu ouro que as atraísse, o meu
ouro que as magnetizasse, o meu ouro que as cegasse, o
meu ouro que as perdesse, o meu ouro que as aviltasse!
Pois se eu tinha o meu ouro, que mal então que eu
comprasse formas de argila, com o meu ouro de forma
de sol! Pois se eu tinha o meu ouro! Pois se eu tinha o
meu ouro! Pois se eu tinha o meu ouro!
Por entre os linhos alvos do leito, naquelas
brancuras preciosas, como que um rio de ouro, um
cascatear de ouro, uma música de ouro vinham então
finamente e fluidamente rolando, distendendo pelo leito
os seus harmoniosos e claros veios de ouro, numa feeria
de som, de alvura e de ouro.
E o senil e tábido milionário estava ali como um
célebre mago dominado pelo ritmo alucinante, pela vara
magnética desse êxtase de visionário moribundo, pela
doentia e sonâmbula superexcitação nervosa, por toda
essa vertigem, por todo esse deslumbramento hipnótico,
fatal, enlouquecedor, do ouro. E ele ria alvarmente uma
154 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
risada entre amarela e negra, que fazia lembrar o
fúnebre caixão que o esperava...
Todos, estupefatos, suspensos, diante daquele
delirante e sensacional espetáculo que não podiam
encobrir nem conter, tinham a respiração sufocada, os
semblantes transtornados, lívidos, tão lívidos que
pareciam outros tantos moribundos que ouviam, imóveis,
num espasmo de angustioso terror, esse outro sinistro
moribundo falando.
Agora, porta mais negra e mais ensangüentada
se abrira escancaradamente, num rápido rasgão de raio
que fende as nuvens, ao delírio do cérebro demente do
quase morto: era como se nenhum escrúpulo delicado,
sutil o prendesse mais à terra e aos homens; se todos
os fios e laços das suscetibilidades da alma se houvessem
partido, despedaçado e ele ficasse só nos instintos, à
vontade, besta desenfreada, livre de todas as correntes
do Sensível, sob o impulso primitivo, selvagem,
desorientado, animal, deserto, da simples matéria e da
simples carnalidade:
– Ah! Ah! pois não era o meu ouro, só o meu ouro,
sempre o meu ouro que comprava tanta carne humana,
desprezível, que eu via entrar nas senzalas, de volta do
eito?! Negros trêmulos, velhos e tristes, com o dorso
curvado por uma remota subserviência ancestral, atávica,
fantasmas de pedra, mudos e cegos na sua dor absurda...
Às vezes era pelos amargos desfalecimentos da
tarde; e, no fundo denso da noite algumas estrelas
espiavam como sentinelas, de olhos acesos e vigilantes,
aquela torva massa trôpega e tarda que caminhava como
do fundo de um tempestuoso e formidável sonho: os
crânios desconformemente alongados, os perfis com
deformações hediondas, talhados à bruta por mãos de
gênios rebeldes, infernais e os olhos envenenados pela
mais atroz, bárbara e mórbida melancolia das
melancolias. Como que vinham, num turvo e amorfo
desfilar do centro misterioso da terra, com a cor da terra,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 155
com a cor das trevas primitivas, esqueléticos,
cadavéricos, héticos, na assombrosa condensação de
todas as criações shakespeareanas, arrastando os
miseráveis e ensangüentados farrapos das almas.
Parecia-me que se cavava de repente, por toda a
extensão do eito, imensa, profunda cova; que essa cova
era como velha chaga secular formidavelmente grande,
sinistramente sangrenta, a devorar, a devorar, a devorar
carne humana, legiões e legiões de míseros, um fabuloso
mar negro e selvagem de corpos e almas amaldiçoadas...
E essa chaga tremenda, avassaladora, fatal, ia então
alastrando, não já sangrenta, mas verde, podre,
gangrenada, aberta a monstruosa e purulenta boca verde.
Não sei para que sobre-humano horror eu recuava,
para que noite caótica de horror animal eu mergulhava
a tremer, a tremer, a tremer...
Ficava então de repente com a imaginação
dominada por cruéis sobressaltos, com ansiedades,
delírios a se vulcanizarem no cérebro... Subiam-me ao
cérebro obsessões de loucura, como que os meus
pensamentos se agachavam, se encolhiam aterrorizados
a um canto do cérebro... Um medo agudo, invencível,
me amarrava os nervos... Todo eu gelava, suava medo...
E aquela bamba, trôpega e tarda massa torva, fenomenal,
numerosa, estranha, tão estranha aos meus sentidos
apavorados, dava-me a impressão fantástica de abismos
que caminhavam, de tenebrosas florestas de corpos
cheias de rugidos de feras, de garras, de dentes
devoradores, que eu via de repente atirarem-se,
arrojarem-se sobre mim, bramindo vingança, e
despedaçarem-me, estrangularem-me todo.
Ao meu espírito aterrado, ao mundo virgem e
nunca visto de visões que se me desenvolviam no
deslumbrado raio visual, era como se todos aqueles
esqueletos negros se reproduzissem, surgissem por toda
a parte turbilhões e turbilhões, tumultos e tumultos,
matas serradas, compactas, selvas bravias de esqueletos
156 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
negros, toda a África colossal ululando e soluçando num
ululo e num soluço milenário... E, por sobre todos esses
milhões de cabeças tenebrosas, pairava no ar,
solenemente, prognosticadamente, sugestionadoramente, como o satânico e sinistro Anjo da Guarda da
negra raça dos desertos, lassa e descomunal, lânguida
e letárgica serpente, talvez dormindo e sonhando novos
e mais maravilhosos venenos, com as grandes asas
abertas... Ah! eram sobrenaturais esses sofrimentos que
assim me remordiam tanto com tamanhos dentes e com
tamanhas garras!
Deus, a essas horas tão tremendas para a minha
consciência, ali tão humilhada, batida, cobarde de terror
diante daqueles negros espectros, onde estava Deus,
para trazer-me um alívio, um consolo para ter piedade
de mim, para dar-me de beber da fonte clara, fresca e
suave da tranqüilidade, para saciar a sede de humildade,
de pobreza, de simplicidade, a sede devoradora que me
incendiava, a mim, a gula viva do ouro, a mim, a gula
viva da sensualidade, a mim, a gula viva do crime!
No entanto, ah!, que risadas satânicas, diabólicas,
que satisfação perversa me assaltava quando o feitor,
bizarro, mefistofélico, de chicote em punho, lanhava,
lanhava, lanhava os miseráveis e lindos corpos de certas
escravas que não queriam vir comigo! Oh! lembra-me
bem de uma que mandei lanhar sem piedade. A cada
grito que ela soltava eu gritava também ao feitor: – Lanha
mais, lanha mais! E o bizarro feitor lanhava! O sangue,
grosso e lento, como uma baba espessa, ia formando no
chão um pântano onde os porcos vinham fuçar
regaladamente! Com que febre, com que alucinação
inquisitorial eu gozava essas torturas! Até mesmo, às
vezes, via-me possuído de um extravagante desejo
animal, de um desejo monstro de beber, como os porcos,
todo aquele sangue. Lembro-me também de outra,
bestialmente grávida, prestes a ser mãe, a quem eu,
para saciar a minha sede feroz de ciúme, a minha sede
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 157
de raiva, a minha sede de concupiscência suína, mandei
aplicar quinhentas chicotadas, enquanto os meus dentes
rangiam na volúpia do ódio saciado. Desta foi tamanha
e tão atroz a dor, tão horríveis as contorções, enroscandose como serpente dentro de chamas crepitantes, que
esvaiu-se toda em sangue, abortou de repente e ali
mesmo morreu logo, felizmente lembro-me bem, com a
boca retorcida numa tromba mole, espumando roxo e
duas grossas lágrimas profundas a escorrerem-lhe no
canto dos olhos vidrados...
E de outra ainda lembro-me também, porque eu a
mandei afogar no rio das Sete Chagas, junto à figueirado-inferno, com o filho, que era execravelmente meu,
dentro das entranhas... Mandei afogar tarde, a horas
mortas, depois que certo sino cavo soluçou as doze
badaladas lentas e sonolentas no amortalhado luar... E
devo ter algum remorso disso? Remorso? De quê? Por
quê? Por quem? Meu filho? Como? Feito por um civilizado
num bárbaro, num selvagem? Remorso por tão pouco?
Por lama vil que se joga fora, por barro ignóbil que para
nada presta?! Remorso por fezes, resíduos exíguos de
elementos inservíveis, bílis negra, composto de produtos
podres, gases deletérios e inúteis, pus fétido – pois por
essa asquerosa e horrenda cousa que se formou e
ondulou misteriosamente sonâmbula nas entranhas
pantéricas de uma negra hei de ter, então, remorso,
hei de ter, então, remorso?!
E os quatro enforcados da encruzilhada do
engenho, com as hirtas línguas de fora, por uma noite
de trovões e relâmpagos, oscilando dos galhos das árvores
como pêndulo da morte! E os que morreram no tronco,
com a espinha dorsal quase vergada ao meio! E aqueles
que de desespero e de aflição sem remédio se rasgaram
os ventres enterrando-lhes fundo facas agudas! Os que
estalaram tostados, queimados nos fornos em brasa! Os
que foram arrastados pelos campos a fora, a galope,
atados a caudas de cavalo! Os que tiveram os ventres
158 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
atravessados pelas aspas dos bois bravios! Os que se
envenenaram com venenos mais mortais que o das
serpentes! Os que se degolaram na mais desesperada
das agonias!
E aquela negra terrível que morreu louca,
abraçada ao filho pequeno, dando-lhe alucinadamente
de mamar, nua, toda nua, com o seio a escorrer leite e
ao mesmo tempo a escorrer sangue pelas feridas de
trezentas e setenta e tantas chicotadas, com os olhos
esbugalhados, a olhar-me muito, a olhar-me sempre,
parece que ainda horrivelmente a olhar-me agora, a
perseguir-me, a cortar-me de pavor como uma lâmina
gelada e penetrante.
Ah! e aquele negro de cem anos, morfético,
inchado como um sapo enorme, manipanço senil, a quem
eu arranquei os dois olhos com a ponta de uma verruma,
enquanto ele urrava e escabujava de dor como um tigre
apunhalado! E isto em pleno eito, num meio-dia de ferro
e fogo, que cortava e queimava, por um sol dilacerante,
devorador como feras esfaimadas, sangüinolentas! E eu
arranquei-lhe os olhos, enterrando-lhe fundo a verruma
sem piedade, depois de já lhe haver aplicado por todo o
corpo, apodrecido e chagado pela morféia, seiscentas
vergalhadas, de pulso musculoso e rijo e de relho forte
aberto em trinta pernas terminando em agudos pregos
nas pontas. Ah! como o velho manipanço se retorcia,
espumava, gania, mordia a língua, soltava pinchos por
entre os torvelinhos, os círculos vertiginosos,
desvairados, das trinta pontas aguçadas das pernas
rígidas do relho!
E ainda aquele outro negro decrépito, de uma
boçalidade caduca, cego, mudo e idiota, completamente
cego e mudo, que foi encontrado morto no curral dos
porcos, a cabeça fora do tronco, inteiramente decepada
a machado, os órgãos genitais dilacerados!
Remorsos, eu, então, de toda essa treva trágica,
de toda essa lama de crimes apodrecida?! Como,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 159
remorso? Pois não era do trono do meu ouro que eu
estava rei soberano, assim, com o cetro do chicote em
punho, coroado de ouro, arrastando um manto de púrpura
feito de muito sangue derramado?! Remorso? De quê?
Se o meu ouro tudo lavava, vencia, subjugava a todos e a
tudo, emudecia a justiça, tornava completamente servis
e de pedra os homens, fazendo de cada sentimento um
eunuco?!
A estas palavras como que pareceu haver um certo
movimento de protesto, de altivez revoltada, na pasmada
assembléia que o ouvia: quase que um vago vento de
indignação passou... Mas, como entre os males da vida
“o mal de muitos consolo é”, e quase todos que ali estavam
eram parentes do moribundo, aguardavam uma parte do
seu grande ouro; e como também nos seus cerebrozinhos
empíricos lhes passasse de repente a idéia de que talvez
por um milagre da riqueza, por um extraordinário valor
e soberania do potentado, ele muito bem podia levantarse do leito ainda e expulsá-los a chicote daquele recinto,
todos se entreolharam manhosamente e fizeram
depressa espinha mais flexível, fingiram-se mortos o
melhor que puderam – vivos, mais mortos que o
semimorto.
Toda essa delirante epopéia de lama, treva e
sangue, era por ele murmurada lentamente, com voz
cava, soturna, como através das paredes de um lôbrego
subterrâneo ou nas sombrias, solitárias arcadas de um
convento os crepusculamentos de um Requiem...
Impelido por uma força nervosa erguera-se um
pouco no leito, talvez ainda mais envelhecido agora,
trêmulo, transfigurado, o olhar sempre fixo num ponto,
olhar de cego que olha em vão tudo, que como que só vê
para dentro de si mesmo...
Mas de repente o moribundo teve uma risada alvar,
lugubremente idiota, entre amarelada e negra, que fazia
fatalmente lembrar o fúnebre caixão que o esperava...
E, arremessando convulsamente as frases como lançadas
160 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
no ar, na violência do esforço derradeiro, tremendo, como
quem chama a si as últimas energias da matéria que
desfalece, a língua já presa, já acorrentada pelos pesados
grilhões da morte que vinha vindo, pendeu a encanecida
cabeça de celerado senil, exausto de forças, os braços
molemente caídos ao longo do leito, os olhos e a boca
desmesuradamente abertos, a respiração siflante, num
espasmo sinistro...
No ambiente ansioso, inquietante, do aposento,
pairou uma comoção mortal...
Dos lençóis alvos e frios do leito, bruscamente
revoltos na alucinadora aflição daquele velho corpo
martirizado, como que transpareciam, se levantavam
brancas visões de sepulcro...
Nos circunstantes, à maneira de velhos
instrumentos de cordas usadas, que vibram
insolitamente, percorreu logo um pavoroso
estremecimento. Todos se acercaram do leito, os rostos
transfigurados, na agitação convulsa do grande final –
míseras, tristes sombras que num movimento arrastado,
impelidas por sensações secretas, se acercavam de uma
sombra mais mísera, mais triste...
E, ó ironia da Culpa original!, numa leve contração
da boca, ainda com um voluptuoso e luminoso alento de
vida a esvoarçar-lhe nos olhos, sem longos e torturantes
estertores, deixando apenas escapar um fugitivo, breve
gemido de lá bem do fundo vago, quase apagado,
longínquo, do seu Crime, na atitude de um justo, o ilustre
homem rico, o abastado e poderoso senhor de escravos
expirou – dir-se-ia mesmo com a sua consciência
tranqüila, completamente tranqüila...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 161
O ESTILO
O estilo é o sol da escrita. Dá-lhe eterna
palpitação, eterna vida. Cada palavra é como que um
tecido do organismo do período. No estilo há todas as
gradações da luz, toda a escala dos sons.
O escritor é psicólogo, é miniaturista, é pintor –
gradua a luz, tonaliza, esbate e esfuminha os longes da
paisagem.
O princípio fundamental da Arte vem da Natureza,
porque um artista faz-se da Natureza.
Toda a força e toda a profundidade do estilo está
em saber apertar a frase no pulso, domá-la, não a deixar
disparar pelos meandros da escrita.
O vocábulo pode ser música ou pode ser trovão,
conforme o caso.
A palavra tem a sua anatomia; e é preciso uma
rara percepção estética, uma nitidez visual, olfativa,
palatal e acústica, apuradíssima, para a exatidão da cor,
da forma e para a sensação do som e do sabor da palavra.
Um, porém, pode desvirtuar toda a ação e vitalidade
do estilo, como pode também segurá-lo e afiná-lo. Os
utensílios da escrita são extraordinários, o jogo da frase
é poderoso.
Os livros de Zola, para dar aqui o exemplo de uma
das organizações chefes do nosso tempo, aí estão –
candentes, gerados numa atmosfera de fornalha,
transbordando de surpresas de observação e análise.
Nos livros de Zola, porém, sente-se o efeito de
uma monstruosa trombeta de bronze soprada por um
Hércules gigantesco, formidável – tal é o largo tufão que
dá rumor e faz pulsar todas as páginas.
São naturais, humanos, plenos de natureza esses
livros. Apresentam as faces mais lógicas da existência.
Tais livros palpitam em cada um de nós, saíram de nós,
dos nossos pensamentos, dos nossos usos, das nossas
paixões; falam da direção do nosso espírito, da nossa
162 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
idiossincrasia – segundo o nosso temperamento, o nosso
meio, os elementos climatológicos e etnográficos, a
perspectiva das paisagens, tristes ou doentes, alegres
ou saudáveis, e todos os princípios gerais estabelecidos
e acentuados pela ciência e que influenciam direta e
racionalmente em toda educação física e intelectual.
O escritor nada se tem que importar que os fatos
ou os assuntos lhe sejam simpáticos ou não.
Não há mais, nas evoluções das idéias,
exterioridades, púrpuras de palavra vestindo um assunto
de pau tosco. Pelo contrário! as vestes, as púrpuras da
palavra são de conformidade com os assuntos. E é isso
que faz a inteireza do caráter da escrita...
É preciso que haja um forte tom interior para
haver unidade de ação, de verdade no que se analisa,
no que se observa.
E é por isso, por uma infinidade de qualidades de
análises variadas e radicais, que constituem uma ordem
de fenômenos, que o Estilo há de acentuar-se,
condensar-se, intensificar-se mais entre nós à medida
que se for fazendo a evolução da nossa literatura, quando
a corrente da Arte estiver em íntimas relações
simpáticas com a nossa produtividade mental,
estabelecendo nela a complexidade de um todo uniforme,
depois que nos houvermos libertado dos hibridismos
étnicos que tiram a linha de segurança, de firmeza
intelectual das raças que estão em via de constituir-se.
Entretanto, quando leio um livro, uma frase, cheios
de todas as audácias do talento, vibrantes de energia
espiritual e examino os documentos inteligentes que
estão atestando uma orientação mais completa, um golpe
mais fundo e amplo na luz, mais certeza de “visão”, mais
força e vigor celular, mais profusão de glóbulos rubros,
alvoroço-me, deslumbro-me e eletrizo-me, porque estou
vendo diante de mim, em toda a largueza da minha
rotina, com toda a sinceridade emotiva da minha
convicção e do meu elevado Amor pela arte, espíritos
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 163
mais livres e lúcidos que abrem e batem asas, como
pássaros vermelhos na glória do sol, para além, para
longe da retórica e da metafísica, afastando-se dos
princípios de todos os dias, rubricados pelo fastio da
chapa, amarrados pelos barbantes de uma gramática
oficial e convencionada que obriga a idéia a fazer cabriolas
e os esfuziotes do raio, sem regimentá-lo no alto dever
da luta, sem defini-la, sem engrandecê-la, sem dar-lhe
um intenso valor, uma pobre tranqüilidade consciente,
uma fisionomia particular e superior.
164 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
JE DIS NON
A Virgílio Várzea
Subindo uma vez com um amigo, sob a luz
esfuziante e alegre de rubro sol de verão, uma rua ruidosa
e fremente de vasta cidade da América do Sul, paramos
a olhar detidamente a larga vitrina de vistosa livraria
no plano direito de quem sobe a rua, vindo da direção do
mar.
Por muito tempo estivemos ali parados, viajando o
olhar que pousava, como borboleta inquieta neste e
naquele livro, sobre este e aquele título de obras, como
se o nosso espírito quisesse, à maneira dos insetos nas
flores, absorver, compenetrar-se pelos títulos, numa
síntese radical de observação, dos princípios e idéias
contidos em cada livro.
Súbito a nossa atenção parou, descansou sobre a
capa de um volume, vermelha, e onde se lia em grandes
letras negras: – Je dis non.
Parou a nossa atenção nesse volume de capa
vermelha, como se descobríssemos nele, mais do que
em todos, alguma coisa de original, de singular, de
excêntrico – algum sangrento episódio de psicologia que
lá estava a despertar a nossa análise, dentro da vitrina,
longe de o podermos observar, sentir de perto, e por isso
mesmo tentava mais.
Fidalgo de pensamento, experimentalista, o meu
companheiro era um analista rude, d’ar petit marquis,
duma contensão filosófica muito possante, iluminada
figura transfigurada e mística às vezes, espécie de Fausto
de Goethe, numa perene jovialidade e jovialismo amoroso,
imprevisto e radiante pela verve e sugestões críticas –
um desses cérebros poderosos que definitivamente
marcam época, um desses claros soberanos
entendimentos, penetrantes como o ar na vida animal
orgânica, muito inauditos na Abstração e no Gênio, e
para os quais Taine, o supremo chefe da Crítica, teria
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 165
de estabelecer uma nova e derivativa linha determinante
de sua estesia.
Conceituoso, com o pensamento direto ferindo,
atacando muito certo, em flecha, os assuntos, como quem
derruba águias do elevado pendor duma montanha, ele,
sabendo armar e dirigir o aparelho receptor do seu
cérebro à adaptação e generalização das idéias, ainda
as mais delicadas, sutis, fluidas quase – começou,
primeiramente, a tomar a obra em bloco, a uniformizála, a compô-la, como um organismo, tecido por tecido,
célula por célula, molécula por molécula, dando-lhe corpo,
consubstanciando-a, alargando-a – até que ela pareceu
crescer, crescer, subir, ganhar um vulto estranho
através da vitrina, como se a enchesse toda: – uma
grande tela vermelha com letras negras ao centro – Je
dis non; e como se, por um inconcebível, misterioso
processo, ali estivesse ardendo uma chama, mas que
não alastrasse em línguas de fogo, unida, compacta,
igual, à maneira duma prodigiosa matéria inflamável
que não excedesse ou sobrepujasse aquela transparente
circunferência de vidro.
Depois, então, o luminoso originalista, o
evolucionista spenceriano continuou humoradamente a
bordar folhetins sobre a obra, como ele próprio dizia, a
desmanchá-la, a tirar-lhe a consistente verdade, a
preparar-lhe os planos, a determinar-lhe os detalhes, a
sua latente psicologia, a sua tangibilidade de ser, a
tecelagem de ouro da sua forma, a discernir-lhe a
linguagem, a penetrar na nevrose do temperamento que
a confeccionara, que fabricara em estilo a sua contextura,
apanhando-a, dissecando-a, já em mil voltas, já em mil
giros, já em mil efeitos de espírito, sob os mais novos
aspectos, dando do assunto inteiramente tudo que o
assunto poderia dar e penetrando segura e
esmerilhadamente nos entranhados filões recônditos que
lhe constituíam toda a potente força criadora de obra
afirmativa da Natureza.
166 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
E, nesse profundo trabalho de composição e
decomposição mental, ia-se uma incomparável, infinita
porção de glóbulos rubros, à qual a mais requintada
estesia d’Arte se integrava completamente.
Eu, absorto, perplexo, calado pela atenção aguda,
acompanhava sorrindo, numa alegria que me sacudia
os membros eletrizados, os condoreiros vôos do mestre,
que subiam regiões para o alto, além, até aos astros, na
rija envergadura das flavas asas à luz em jorro, que
depois abundantemente fulgurava, resplandecia na obra,
a iluminava por dentro dum clarão, numa transcendente
visão espiritual arrebatadora.
E o filósofo, o Schopenhauer moderno, nessas
sortidas intelectuais que me enlevavam, projetando as
idéias mais admiráveis e fecundas, dizia-me então, na
serenidade correta dos seus gestos de disciplinado, de
frio saxônio:
– Pois, é isso, vê? Je dis non! Imagine uma dessas
paixões que tudo consigo arrastam para sempre, que
desmoronam a vida de um artista contemplativo, vivendo
das impressões da Natureza, sob o grito, os vibrantes
clarins da carne e a alucinante, inquietadora vertigem
dos ideais insonhados! Imagine um instante
quintessenciado no absoluto das coisas, amando dum
amor imaculado, virginal, sidéreo, já pouco da Terra,
desde longo tempo, uma dessas vigorosas mulheres de
Tom de luxo, de idade outonal de fruta, que tanto
entontecem, perturbam como uma ampla absorção de
ar, de luz e de aroma no altanado cume das serras,
quando se tem saído da densa e lôbrega treva dum
calabouço. Louras Ceres maduras, um tipo, enfim, forte
de primitiva beleza, opulenta e formosa deusa da Hélade,
uma dessas maravilhosas criaturas, assim humanas e
assim etéreas, que eternamente conservam na carne a
centelha da mocidade, na epiderme o doce aroma das
violetas, a frescura das magnólias, o diáfano cor-de-rosa
das auroras de sangue e que através dos seus nervos,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 167
do ímpeto da sua seiva ainda palpitante e viçosa, sabem,
como animal que esconde as garras, pôr apenas em
evidência, diante de uns olhos apaixonados que as
desejam, não o afeto que igualmente as emociona e torna
convulsas, mas toda a febricitante graça borboleteadora,
alada, dos seus encantos, todo o atraente enlevo das
suas sedições – radiantes asas satânicas com que a
Natureza as dotou e com as quais elas voam
desassombradas para o coração do homem, como para
uma chama, vencendo-o, subjugando-o, empolgando-o,
sem, contudo, porém, muitas vezes, nem de leve
crestarem as rutilantes plumagens.
Imagine isso, uma dessas paixões, trágicas,
apunhalantes, que queimam, incendeiam, devoram tudo
– bárbara paixão selvagem de Otelo por uma Desdêmona
fria, de luar gelado, mas formosa; indiferente mas
altivamente olímpica, onipotente no esplendor cinzelado,
como os mármores coríntios ou os bronzes celinescos,
do alabastro do corpo.
Uma dessas paixões tumultuosas em onda, em
que os amantes estão por vezes separados só pela
distância de um beijo e de um abraço, e que quando ele,
sonhando a hora feliz e ao mesmo tempo fatal entre
todas, que lhe parecesse a mais serena às exigências
dela, o doce momento aflitivo no qual ele com veemência
pensasse que ela nada lhe negaria, depois de tanto
esperar, depois de tanto ansiar – nem a flor dos seus
beijos nem a flor dos seus carinhos nem a flor da sua
carne – nesse supremo instante enfim em que ele
supusesse que do encontro, do atrito amoroso das suas
almas tão longamente afastadas, entre si irradiasse e
nascesse o sol do mais imperecível amor – ela, com os
olhos fagulhantes cheios de expressão e sagacidade
feminina, fria por cálculo, indiferente por sistema,
acostumados já aos lancinantes envenenamentos
dolorosos que trazem as desesperadas e fundas loucuras,
168 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
lhe dissesse, pondo nas suas palavras todo o torturante
fel do desprezo:
– Jes dis non.
Suponha, pense tudo isso e veja a brusca e abrupta
alucinação dele, o seu desvairamento ao ouvi-la condenar
o seu amor.
No entanto esse errante das ilusões teria quase
toda a certeza que ela o atenderia, lá o esperava com
beijos ardentes esvoaçando já nos lábios como abelhas.
Observando, sabendo todas as modalidades da
alma, conhecendo todas as manifestações da Natureza,
o artista não havia, entretanto, compreendido essa, não
pôde abrangê-la nunca no que ela tem de mais
imperceptível, de mais vago, surpreendente, aéreo.
Não pôde abrangê-la e ei-lo agora aí desmoronado,
esmagado, como se todo o império romano do seu afeto
de repente perdesse a pompa gloriosa e se fizesse em
ruínas.
Palácios mouriscos, torreões e minaretes árabes,
mesquitas persas, coruscantes pagodes incrustados de
madrepérola e pedrarias preciosas, suntuosas e góticas
catedrais, um luxo de damascos esmirnos, todo o famoso
deslumbramento dos seus sonhos de um místico
templário do amor, feito subitamente em cinzas com
aquelas pungitivas palavras dilacerantes.
Aí tem, pois, o que é Je dis non.
Assustador, angustioso, estranho na sua gênese,
mas é Jes dis non. Di-lo a epígrafe, em letras negras, dilo a capa vermelha, que é o pronunciamento psicológico
de uma tormenta de sensibilidade, de nevropatia que
agitou a existência de alguém.
Mas, não o leiamos nunca: deixemo-lo estar assim,
o excêntrico volume, lá ao fundo, através da vitrina,
saciando a nossa sede de Ideal, absorvendo os nossos
sentidos na emoção íntima de um gozo intelectual muito
mais intenso e raro que a realidade.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 169
A realidade pode não ser isso que sugeri, pode
ser banal, qualquer caso de deformação da vida, qualquer
fenômeno teratológico da moral, que abata e deprima as
iluminuras e ilusionismos da frase, os caprichosos
floreios estéticos que agora faço.
Deixemo-lo estar nessa impressionante mudez de
Esfinge. De tal forma valerá mais para a nossa análise,
para o consolo do rebuscamento de singularidade que
perscrutamos em redor do mundo, que se lhe
penetrarmos na verdade fundamental da concepção e
do estilo.
Assim, essa Esfinge vale astros e flores.
Rasgando o mistério que para nós ambos, num
momento dado da investigação, a celebrizou, talvez
apenas valesse areia ou lama.
Vivamos, pois, na excepcionalidade virginal,
etereal do espírito. Não desçamos à bruta crueza
flagrante da matéria...
170 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
ÉCLOGA
À hora do sol, por estes tranqüilos sítios afastados,
goza-se os montes vestidos de um polvilhamento de ouro;
as perspectivas deliciosas na matinal e ruidosa expansão
da luz; estes luxos bizarros e tons quentes de estio,
onde parece que Sátiros lascivos vão trepando e saltando
pelas escarpas calcárias e pelos socalcos pedregosos,
entre o verde lustroso e denso da folhagem da mata e os
encachoeirados, tormentosos rios.
Galharda natureza esta, de manhã, cheirosa e
sadia, em que o jorro da vida vertiginosamente entra e
circula pelos pulmões em ar e aroma, dando uma
fremente e forte sonoridade aos órgãos humanos, como
vibrante clarim de batalha que nos soprasse
metalicamente ao peito, enchendo-o de ecos, de alvoroço,
de música e rumores.
Por aqui estende-se, amplia-se, alarga-se por aqui
o céu verde das copadas ramagens das árvores — e nada
mais idílico e bucólico, nada mais virgiliano e pastoril
do que estes aspectos sagrados, quase bíblicos, onde a
écloga rebenta de cada tufo perfumoso de rosas, de cada
serpente elétrica de hera, de cada pâmpano báquico de
vinha, de cada ramo salitroso de murta e de cada concha
rosada e branca nas finas e claras praias, além, onde o
mar espumeja doce, parecendo trazer, no fluxo e refluxo
das suas ondas cantantes, a olímpica e serena
recordação da mocidade e da formosura da Grécia,
ritmada em flóreas canções de Afroditas engrinalda das
de algas...
Montes e vales, vales e montes, faz bem percorrer
aqui estes religiosos recantos, estes saudosos retiros
onde parece que o passado, que tudo o que está longe,
que tudo o que está remoto, ilusões e eras, tudo aí se
veio refugiar e vive um momento agora da nossa
presença, da nossa alacridade, do nosso humor, que nós
nababescamente derramamos por todas as paisagens,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 171
entre estes pássaros que cantam e voam, purificandose no Azul, como os palpitantes pássaros alados do
inquieto, do vertiginoso Espírito.
Encantaria ser pastor, para galgar esses penhascos
solenes, para subir essas alcantiladas serras e ver
borbotar delas a água fresca em finos e prateados fofos
vaporosos de espuma, abundante, em turbilhões
impulsivos porejando virgem das origens recônditas, como
grande força represa, insubmissa e elementar da
Natureza, rebentando e surgindo das profundas
entranhas rijas da terra e dominando, enchendo,
avassalando a amplidão do ar.
Encantaria ser pastor, para ir, cedo, na luz, campo
em fora, peludo e florestal como Pã, no vigoroso esplendor
de sangue da força de um touro novo, por entre a
exuberante luxúria vegetal, apascentar os mansos
rebanhos alvos de arminho das nostálgicas ovelhas, que
balassem desoladamente, numa compunção evangélica;
e conduzi-las após ao redil, já tarde, na roxa melancolia
das tintas da noite – enquanto a lua, fluida e fria,
nevasse as tenras culturas e subisse então infinitamente
ao céu – e enquanto, à distância, longe, no ermo, uma
leve e flutuante fita de voz se desenrolasse, esvoaçasse
e perdesse ao longo e ao largo pelas quebradas, na mais
harmoniosa e apaixonada cantiga!
Ah! Roma antiga! Ah! Grécia! Ah! Paganismo!
Quanto melhor não fora pecar na primitividade dos
instintos e dos impulsos, alma espiritualizada no ideal
abstrato, existência votada aos cultos soberanos da
matéria e tendo para equilíbrio no requinte da calcinação
do entendimento, o requinte da elaboração do sentir e
do gozar – aberto em chamas no sangue, aberto em
chamas nos nervos, aberto em chamas na carne – até
ao supremo aniquilamento final, no qual a morte era
como uma nova espécie transcendental de
concupiscência e lascívia mais requintada ainda, por
172 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
isso que era original, desconhecida inteiramente para
esses que a experimentavam.
Antes nascer e morrer num leito de rosas, amando
e gozando rosas, coroado de rosas, como um romano ou
como um grego, no mais virtual e mítico paganismo, do
que ter-te a ti, vida consciente e disciplinar, como a
tremenda esfinge de pedra, colossal e terrível, sufocando,
esmagando a seiva, o ímpeto, uma corrente de
desregramento animal que há no fundo de todo o
organismo, no fundo de todo o temperamento.
E é por isso que dá um instintivo desejo de
pastorear e que se sente uma emoção do mesmo modo
instintiva quando essas imaculadas existências
campestres, rudes mas angélicas e sãs na sua casta
nudez de sentimentos, nos sulcam a alma como um
clarão, a iluminam e a cobrem de esplendor,
desdobrando-nos ante os olhos estupefatos, como
opulentas, riquíssimas lhamas rutilosas de diamantes,
as magnificências reais do mais profundo e germinal
Amor!
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 173
IMPRESSÕES
Através das verdejantes colinas do sul, a noite de
São João tem a graça pitoresca de uma animada pintura,
tornando vivo o clarão de amor das cousas adormecidas
ou mortas nas recordações passadas.
Ora é numa beira de praia, ora é num trecho de
rua que se passam essas cenas de costumes, esses
episódios característicos, cheios de um encanto virgem,
que afagam a nossa memória.
Desceu a noite já!
E num luar de junho.
As verduras, pulverizadas de luz, escorrendo prata
líquida, numa crua irradiação branca, reluzem com a
nitidez e brilho dos alvos flocos de neve.
Para lá da terra firme, além de uma curta divisa
de mar manso, navegável em canoas, num ponto em
que os olhos distinguem claramente bem uma aragem
fresca, leve, como um sopro musical de flauta campestre,
afla nos canaviais viçosos que se agitam suavemente.
Porém, na rua, umas vozes cantantes, cheias de
mocidade e frescura, gritam alto, sonoras:
– Olá, João, anda cá! Hoje é teu dia. Viva S. João!
Viva S. João!
E o João, um rapaz que passara assobiando, jovial,
franco, na alegria da sua alma chã, entra numa venda,
paga vinho – um vinho cor de topázio bebido entre a
algazarra dos companheiros e os bruscos entusiasmos
do taverneiro, que faz tinir as moedas, todo risonho, na
gaveta do balcão.
– E as canas, João, e as canas! – repetem as vozes.
E o João paga de novo e de novo a algazarra cresce,
os vivas, as aclamações, os prazeres acesos nas almas
desses bons rapazes, como as bichas e os buscapés que
eles soltam nos largos, por troça, em meio de muita
gente reunida, dispersando e alvoroçando tudo, entre
galhofas e risadas.
174 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Mas a noite de S. João dobra de encantos e de
enlevos.
Agora, fogueiras crepitantes estendem a sua
ardente chama, loura e alegre, na frente das casas,
dourando-as. Agora, a rapaziada, crianças saltam as
fogueiras; velhos de cócoras ou sentados em redor
contam uns aos outros histórias cabalísticas de bruxas
e almas do outro mundo, e, aquecendo-se do frio da
noite, esfregam confortavelmente as mãos, fazendo às
vezes ressoar no claro ar sereno a nota cristalina de
uma cantiga de ritmo simples, como motivo da festa,
tremida e repinicada na voz, misteriosa e cheia de
saudades amadas.
Agora são as novenas nos lares – as velhas novenas
que de tão longe vêm na religião, como ainda um doloroso
soluço atormentado dessa fanática e sonâmbula Idade
Média...
Numa sala, ao centro de um altar armado em
dossel, resplandecente de luzes, de alfaias, de jarras
azuis e de flores, S. João Batista, com o seu rosto roliço
e doce, destaca, sorrindo, de um quadro de moldura
dourada, em estampa, do fundo de um nimbo cinzento,
cabeleira crespa, faces coloridas, abraçado ao cordeiro
manso, que olha para a gente com os seus olhos
pequeninos, plenos de docilidade e de paz.
E, depois da novena cantarolada numa lúgubre
melopéia, a rapaziada cai na arrastação dos pés, e dança,
gingando, com os voluptuosos requebros e bamboleios
quentes da raça.
No intervalo das danças, bebe-se Carlsberg e
comem-se belos bom-bocados saborosos que cocegam
aperitivamente o céu da boca, e as brancas ou rosadas
cocadas, em forma de estrela, que lembram a Bahia, tal
é o paladar do coco de que elas são feitas.
No meio disso tira-se a sorte, numa espécie de
consulta ao destino: para saber se morrerá cedo ou tarde,
se casará, se terá este ou aquele desejo. Passatempo
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 175
esse que dá às pessoas que nele tomam parte um
contentamento e uma felicidade que iluminam as
fisionomias, remoçando e fortalecendo a velhice e
consolando de esperança a todos.
No fim desse contratempo e das últimas
contradanças de grandes e frenéticos galopes, todo o
mundo volta para casa, tarde bastante, no frio silêncio
hibernal da longa noite já sem lua, mas estrelada, de
um amarelado tom esmaecido de madrugada cor de
limão.
Nem mais um só ruído notável do prazer se escuta
na rua.
Apenas, a essa alta hora, um ou outro foguete
tardio, ao longe, aqui e ali, como esquecido elemento da
festa ou indiferente conviva que chega tarde, estala e
brilha no ar saudosamente.
176 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
CROQUI DUM EXCÊNTRICO
Diante do nome deste Excêntrico, dum brilho
feérico de fantasia, desenrolado aos meus olhos como
tapeçaria de Beauvais, lembro nitidamente o remoto
Oriente: a Turquia, a Arábia, a Pérsia – todos os povos
muçulmanos, que têm a frouxidão dos nervos, a
elasticidade de membros de raças decadentes, em todas
as suas especiais funções fisiológicas e manifestações
psíquicas.
Principalmente a Pérsia lembra-me a indolência,
a morbidez orgânica deste Excêntrico – a indolência que
não constitui, no entanto, defeito fundamental, ausência
de qualidades singulares de espírito, mas que antes
representa uma maneira de ser na vida – muda abstração
na qual o pensamento é um grande pássaro alado
viajando nas mais altas regiões, inacessíveis à vontade
da matéria.
Com o seu ar fidalgo, que lhe dá, através dos finos
vidros claros do pince-nez, as linhas e a distinção correta
e douta de um sadio e forte estudante da Universidade
de Bonn ou de Oxford, o Excêntrico parece viver apenas
numa flirtation de idéias, numa despreocupação de touriste
e num diletantismo fatigado de artista boulevardier, a
quem as asperezas e arestosidades do meio
emprestaram já as findas cores carregadas e pungentes
do pessimismo – conquanto na transparência dessa
despreocupação aparente, ele analise, perceba e sinta
passar, como entre uma luz difusa, o corpo vivo dos
positivos fenômenos naturais.
Na verdade, esse amargo pessimismo que os
artistas anglo-saxônios e eslavos beberam, como numa
dorna onde se houvesse purificado num vinho negro o
sentir e o dolorido pensar de várias gerações; esse
pessimismo torturante por vezes nos livros de
Schopenhauer e Hartmann, especialmente nessa
transcendente Filosofia do Inconsciente, parece prendê-
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 177
lo também ao ceticismo mórbido de Murger, de Nerval e
Chatterton e de tantos outros artistas queimados pela
flamejante chama interna de um desejo nunca realizado.
Mas esse pessimismo, feito de germanismo e
eslavismo, tênue, fluido, sutil, que entontece
capciosamente, insensivelmente, como os glóbulos
microscópicos do álcool que fica no fundo do copo de um
russo envenenado pelo niilismo e pelo rum, esse
pessimismo, se o Excêntrico o possui, não lhe tira, de
resto, a bizarra, a garrida forma do espírito leve, fino, a
iriante graça de abelha.
É que ele, contudo, por entre a variabilidade do
tempo, não perde as latentes atitudes nervosas do seu
temperamento, acordando dessa persa indolência para
gozar a Arte, para sentir e para amar a Arte.
Num centro antagônico do desenvolvimento e
fulgor do seu espírito estético, na aridez dos fatos, numa
atmosfera onde um ar livre de ideal não circula no
sangue, um sangue fremente, rico, não gorgoleja nas
veias e as turgesce, o Excêntrico lembra um cáctus,
uma rara flor nascida no gelo, alva na vastidão das
fulgurantes neves, dando, entretanto, uma encantadora
poesia serena de pitoresco e originalidade a toda a
amplidão do terreno.
Ou, então, para abrasileirar mais o símile
comparativo, lembra também uma dessas simples
parasitas brancas, flores pensativas e melancólicas que
rebentam dentre pedras, florindo virginalmente para o
azul, indiferentes à rigidez do granito...
O seu estado de morbidez intelectual, que parece,
por humorismo sombrio talvez, corresponder a um estado
comatoso, é como a aparência de certos céus turvos,
nebulosos, não obstante carregados do ouro flamante do
sol e do intenso azul, que de repente aparece em nesgas,
como um prenúncio de aurora, através de fuscos,
floreosos pedaços de nuvens que se vão, lenta,
demoradamente esgarçando... Depois, outras nuvens,
178 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
mais pesadas, mais densas, correm, como cortina de
brumas, sobre esse ouro de sol e esse azul, voltando
então tudo às primitivas névoas eternas.
Alma êxul do Espaço, triste às vezes, decerto, mas
dessa alta e excelsa tristeza e magoada nonchalance de
velha águia real de cabeça pendida e parado vôo, como
que adormecida, sonhando dolentemente a melancolia
do Azul...
Assim é, assim será para sempre esse meditativo
Excêntrico!
Névoa de emoções, debaixo da qual estão o sol e o
azul de uma idéia, que se descobrem, bem poucas vezes,
para determinadas observações delicadas sentirem;
cinza fria de afetos debaixo da qual arde a radiante,
rubra constelação de um anelar do espírito, cuja
complexidade o entendimento comum dos homens não
apreende nem percebe.
Natureza calma, contemplativa, que a placidez das
montanhas e os aspectos quietos, remansosos do campo
pacificaram, ele se apura e delicia na nobre convivência,
na grandeza mental dos livros, onde a espiritualidade e
o esmalte da forma pedem a atenção dos sentidos
civilizados.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 179
A CASA
Perto do mar, junto às velhas e carcomidas
muralhas musgosas de uma antiga fortaleza, em redor
da qual cresce a erva como a hera que alastra os pórticos
de um solar em ruínas, há uma tosca vivenda dentro de
um pequeno cercado de espinheiros e miúdas e coloridas
rosas agrestes.
Aí arborizações luxuriosamente sobem para o alto,
numa alacridade de vivos tons de folhagem.
Na rusticidade dessa vivenda, todas as tardes,
numa ilha verde do Atlântico, eu vou gozar o incoercível
sentimento humano do amor, olhando o mar sulcado de
embarcações, calmo, brando de leite, como um luxuoso
e pesado damasco azul, e olhando os ocasos
incomparáveis do sol solene que mergulha num ouro
infinito, através das montanhas.
Para ali vou gozar o sentimento incoercível do
amor, que emociona e exalta, faz nascerem e viverem
em mim, desprenderem para longe o vôo, indefiníveis
águias do pensamento.
E eu não sei que fluidos serenos se exalam dos
nossos corações e se encontram; que há em nós a mais
harmoniosa simpatia congênere de sentimentos.
A doçura lirial da palma de sua mão, quando eu a
aperto nas minhas, passa-me inteiramente a sua alma
em eflúvios, inteiramente, com a recôndita emoção
afetiva de todo o seu ser e –, nesses instantes, seria
pequeno o mar, tão grande, que lá está fulgurando e
cantando diante dos nossos olhos, e o céu, lá em cima,
amplo e azul, para conter tão intensa e consoladora
ventura.
Então, assim, só com ela, eu desejara bem
estabelecer lar, fundar casa – não sobre alicerces de
pedra e areia, mas sobre o alicerce profundo das nossas
almas. Fazer da casa uma canção eterna, uma simples
tenda de irmãos, arejada pela comunicativa e mútua
180 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
afinidade suave do afeto dos dois, e que cada um, na
preciosa singeleza do gosto, firmasse a lei do viver, a lei
de amar, a lei de ser feliz, deixando fluir, fortalecente e
livre, o amor – como um fio d’água subindo e descendo
montes, descendo e subindo vales, regando ervagens,
fartando a sede à terra e fartando a sede aos que erram,
sob sóis ardentes.
No íntimo desse conforto, no supremo egoísmo
desse sentimento, da vida exterior apenas eu gozaria as
aves meigas e afagadoras, que voassem, d’asas abertas
e ruflantes, espalmadas no espaço, arrulhando sobre o
nosso amor; os navios que passassem, eretos, na ideal e
fugidia correção dos mastros, velas brancas tufadas,
quando o mar está rosetado das arestas do sol, picado
de agulhetas de raios, como uma fulgurante tapeçaria
chamalotada; o crescente da lua, frescura salutar,
subindo, meigo, numa ternura de poma cheia e afagadora
que aleita os eternos peregrinos e os sequiosos eternos,
fria, silenciosa, na soturna paz da noite; as ridentes
veigas que se estendem para os lados, além, verdes, em
raros veludos, na planície infinita...
Depois a morte aí me viria colher, aí seria para
mim como uma leve mudança fácil de sonhos, a viagem
para o abstrato ideal, transformação passageira, enfim,
ascensão de vôo perdido no éter transluzente...
Mas, acima dessa perspectiva que eu gozasse e
sentisse em torno da existência, que o seu olhar sobre
mim radiasse, fulgisse, resplandecesse, protetor e
angélico, com o misticismo, a suavidade dos astros...
Para isso, porém, bastaria, bastaria para isso, que
essa recíproca afeição tivesse sempre o encanto, a
limpidez e a graça original, a vegetal candidez de flores
que se leva por uma doirada manhã de presente a
alguém. Bastaria que uma música só fizesse o acordo
de dois corações, como muitos aromas reunidos dão ao
olfato uma só sensação. Não bastaria, certamente, sentir
dentro de nós uma igual similitude de enlevos e de
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 181
cuidados: seria preciso que ambos se percebessem, se
completassem, se identificassem nessa similitude, como
edificação moral em que cada um trabalhasse, conjunta
e compreensivamente, para o outro. Seria mister viver
numa absoluta homogeneidade de entendimentos e
afetos – como as aves que pousam nas romãzeiras e nos
pessegueiros em flor, têm, cada uma, todos os dias, a
mesma homogeneidade inefável nas gorjeações e no
vôo...
Assim, a casa, dessa forma, bem fundada e perfeita
ficaria; e, sol, harmonia e perfume, canções de amor e
de mocidade subiriam alto no tempo, adoçando todas as
coisas, pacificando a existência dos dois, como uma
grande bênção e um grande perdão podem trazer messes
de felicidade e misericórdia à consciência de muitos.
Ao contrário disso, tudo terminaria enfim para
ambos.
A vegetação que ao redor daquelas regiões, fora
das proximidades da vivenda, viça em arbustos rentes
como em terras da Palestina, pareceria murchar,
definhar, secar e acabar para sempre; e os ramos
d’árvores, pela manhã enxameada de pássaros,
perderiam toda a sonoridade dos trinados; e o mar,
bucólico e épico, que tem às vezes o seu som profundo,
as graves e harmoniosas imponências catedralescas de
órgão, circunvolvendo em ondas toda essa habitação de
amor, como uma ronda poderosa que guardasse raro e
fabuloso tesouro escondido – o mar ficaria então
semelhante a um surdo e cego a quem são indiferentes
belezas virgens de paisagens, enroseirados trechos de
colinas, madrugadas, auroras e noites estreladas,
peregrinos cantos melodiosos de pássaros e trinados
cantos matinais de raparigas do campo indo à fonte
encher os cântaros d’água.
Sem poder jamais fundar a casa, dirigir a casa,
dar-lhe o claro, gradual desenvolvimento de um livro,
tudo, afinal, em mim, esperanças e sonhos, de repente
182 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
se esvairia, como esses opulentos ocasos undiflavados,
tintos de prata e sangue, que na turva neblina
crepuscular das tardes esmaecem e morrem... E a alma
alegre do meu ser, como uma fresca e fina flor de neve,
definharia no Esquecimento e na Sombra; e na minha
boca, como na boca dessa criatura amada, os sorrisos e
os beijos morreriam logo, como plantas estioladas a que
os fortes verões abrasadores crestaram fundo as
entranhadas, enraizadas origens...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 183
O SENHOR PRESIDENTE
(Desterro)
O senhor presidente vai chegar, vai chegar o
senhor presidente.
Por toda a parte da terra pacata e simples os
senhores burocratas, os senhores políticos de ambas as
parcialidades, e o povo murmuram: O senhor presidente
vai chegar, vai chegar o senhor presidente.
Boatos locais correm parelhas, vitoriam e
martirizam, conforme o caso, desprestigiosos ou
honrosos, a pessoa ignota do senhor presidente.
Homens e mulheres, à maneira de necromantes,
deitam pareceres, opiniões, como numa mesa de jogo se
deitam cartas ao azar: será alto, gordo, baixo, magro;
usará cavaignac, será louro, terá suíças, será moreno,
ou usará simplesmente bigode, ou não terá barba
nenhuma?
Os provincianos não sabem. Calculam,
estabelecem semelhanças, fazem paralelos, comparam
o presidente fulano, o presidente sicrano, etc., e o nome
do senhor presidente, que deve chegar no paquete do
dia, desenrola-se de todas as bocas, flexivelmente,
invariavelmente, dando impaciências e febrilidades à
massa anônima que o quer ver já ao pé de si, saber-lhe
os tics, como veste, se é bonito ou se é feio.
Mas lá no fundo do horizonte plúmbeo destaca-se
um vultinho, por ora sem forma, vago, indeciso e
nebuloso, como uma bola negra.
Porém, à proporção que os horizontes se
desfumaçam e as montanhas somam saliências azuladas
e contornadas, transparentizando-se então os variados
aspectos das cousas em conseqüência da onda de luz
matinal que agora ilumina e faz viver tudo, a bola negra
avulta gradualmente, veste as conformações que lhe dá
a luz da manhã caindo eterificada, diluída em prata no
mar, destaca-se, afirma-se e, todos, algumas senhoras
184 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
e cavalheiros que assestam o binóculo para lá, e o povo,
apinhado no cais, curioso e alvoroçado, exclamam: É o
vapor, é o vapor; aí vêm o presidente, aí vêm o presidente.
Que tal será, seu Barbosa, perguntam uns
indivíduos, você que entende isso de política?!
E o seu Barbosa, homenzinho hirto, franzino e
magro, conhecido por muito engraçado, de boas chalaças
e que estava placidamente a olhar o mar, volta os olhos
para estes indivíduos, endireitando e puxando para cima,
desafogando do pescoço o alto colarinho brilhante como
não cabendo na honra e no orgulho da consulta que lhe
fazem e da competência que lhe dão em assunto tão
palpitante e melindroso, dizendo com importância:
Homem, isto de presidentes médicos não é lá para que
digamos. Todo o mundo bem sabe que ele é médico; ora,
é muito capaz o nosso cidadão de quando a província
precisar leis fazer-lhe receitas. Não aprovo um facultativo
no governo da província.
E o seu Barbosa, rindo, gingando com garbo e
discretamente, para não perder a sua linha de sensatez,
foi indo para outras rodas, inchado de bazófia, supondose imortalizado pela sua opinião.
Então os tais indivíduos insuflados por aqueles
argumentos, banais e atrabiliários, sem cor e sem
retidão, deram-se mutuamente os pêsames de não
haverem tido há mais tempo a idéia tão original e exata
sobre o senhor presidente. Mas um som rasgado e
metálico de cornetas ouve-se ao longe: é a guarda que
vem fazer honras do estilo ao senhor presidente.
Chega-se ao cais, ao mando do superior e aguarda
as ordens, formada, porque o paquete aproxima-se já,
entra no porto, fundeia entre baforadas alvas de fumo,
apitando.
E, do lado da capitania, do lado da polícia, da
alfândega e do trapiche geral parte uma fila vileira e
alegre de botes, de escaleres, repletos de gente, leves e
alígeros como golfinhos, os escaleres com os seus toldos
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 185
brancos debruados de vermelho, os botes com as suas
velas em verga, enfumadas, de bandeirolas e galhardetes
no topo do mastro, aproando ao paquete, na alegria e no
colorido brunido da manhã, às frescas aragens salutares
que aflam do norte. Após a visita de bordo, o senhor
presidente aparece no tombadilho, na doçura e na nitidez
da paisagem marinha, novo como uma surpresa, de
estatura regular e curta barba redonda e preta,
parecendo feita a riscos de fusain, e pince-nez nos olhos
profundos e graves. É abraçado e saudado no meio de
muita palavra balofa com falta de S, S, cheia de
perdigotos, de alguns senhores funcionários públicos que
se atrapalham e coram. O senhor presidente toma então
o escaler que lhe é destinado e embarca com os
correligionários e algumas autoridades da terra.
Logo que o senhor presidente se aproxima do
trapiche, o povo murmurinha, sussurra, gesticula e olha
vagamente, com uma interjeição pregada à cara: Qual
daqueles será, vêm outros estranhos no escaler da
polícia.
Efetivamente com o senhor presidente vêm outras
pessoas. Passageiros, amigos do senhor presidente
talvez. Mas o povo está frenético; sentem a prurigem da
ansiedade. Ah! dizem uns, há de ser aquele ali, à direi
ta daquele sujeito baixo de pince-nez – aquele alto e louro,
de chapéu de castor branco, fino sobretudo claro no braço.
Sim! Sim! É esse naturalmente, é aquele mesmo,
confirmam outros, logo se vê pela figura importante e
pelos trajes.
Mas o senhor presidente chegara ao cais, saltara
já com os seus companheiros. E a curiosidade crescia,
crescia como uma onda muito alta que avassala e alastra
tudo.
Porém a multidão se desiludira afinal a respeito
do seu modo de ver sobre o qual era o senhor presidente;
porque agora o senhor presidente é cumprimentado,
apertando-lhe a mão, dizem-lhe coisas sepulcrais, tristes
186 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
de espírito: Cumprimentamos a V. Exª., felicitamos a
província, etc..
E o povo vê então que o sujeito de pince-nez e sem
mais elegantes maneiras de toillette é que é o senhor
presidente.
Já daí nasce uma dúvida sobre o governamento
que ele poderia dar à província.
No entanto o senhor presidente com o seu amplo
olhar de médico conhece de um só golpe de vista qual a
doença étnica desse povo e qual o diagnóstico a fazerse.
Os soldados que aguardam a presença do senhor
presidente fazem sentido, braço armas, apresentar
armas, enquanto o senhor presidente passa, baixo e
moreno, enxergando através do seu pince-nez de vidro
claro, como de uma larga vitrina aberta ao sol, todas as
aspirações e necessidades da terra.
O senhor presidente é transcendentalista. O seu
espírito latino, incomensural e vasto como o mar donde
acaba de vir, tem a larga solenidade austera das
catedrais babilônicas do mundo. No cérebro do senhor
presidente cabem todas as grandezas e todas as elevadas
nobrezas mentais. Nunca a terra tivera um homem na
gerência dos seus negócios tão transcendentalmente
ilustre e preclaro.
O franco ar iluminado que vinha de sua erudição,
da sua serenidade anglo-saxônia, fazia impressão rude
e brusca nos patriotas, nos dissidentes de pequena
política, a ponto de tomarem o senhor presidente por
selvagem.
A imaginação popular pensou jamais poder
compreender o senhor presidente; se atordoava e
entontecia como sujeito que leva à noite numa esquina
forte pedrada na cabeça sem saber de que lado partiu.
E o senhor presidente vivia num modesto luxo
burguês e clássico de palácio de província, numa vida
de fábula como um deus fantástico cuja ausência
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 187
provocava ateísmos e anátemas, exorcismos puros, mas
cuja presença acabrunhava e desarmava a todos, tal
era o respeito que lhe vinha debaixo do pince-nez dos
seus tranqüilos olhos de filósofo, como um poderoso e
desconhecido fluido do magnetismo animal que, sem
saber como, tendo sobre o povo as mais inabaláveis e
prontas influências, imobilizava-o, transformava-o em
mudo e automático eunuco.
188 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
O SENHOR SECRETÁRIO
O senhor secretário está sentado à mesa do
trabalho e faz os papéis do seu mister oficial com uma
letra espichada e magra, como pernas de inseto.
O senhor secretário também é magro, de uma
magreza natural e estética, tendo o rosto, como um
pergaminho, estrelado de miudinhos sinais de sarda.
O senhor secretário veste com certa elegância
que, num golpe de vista rápido, não parece de todo
provinciana.
Há mesmo um discreto tic de parisianismo na forma
do seu chapéu em forro, verde-garrafão, um tanto
afunilado, armado em cone, de abas quase direitas,
colocado em cima de uma estante em que há jornais
velhos.
O senhor secretário está na sua juventude valente
e florida e tem um enamorado jeitinho patrício; diz-se
até que ele vive na flirtation das belas jovens de cuja
sociedade faz parte; e, como na sua linda cabeça
meridional há uma provável calvície e o senhor secretário
quer parecer sempre bem às mulheres, deixa cair para
a testa, desde a nuca, uma grande pasta castanha
perfumada a Orisa e a Ilan-Ilang.
Traz ao pescoço, à maneira dos rio-grandenses,
um fourlard a listas estreitas e de cores variadas que
parecem significar os tons cambiantes do ideal que o
senhor secretário abraça.
De vez em quando pára de escrever, e abre, com
uma espátula de marfim, as folhas de um livro de tipo
elzeviriano, impresso em papel melado, com filetes e
delicadas bordaduras na fina capa de granito e apenas
com dois frisos dourados na lombada.
São versos.
Depois abre a gaveta de verniz rosé da sua
secretária e tira de lá um outro livro, volumoso, mas
não de tão elegante luxo de arte como o primeiro. Folheia-
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 189
o. Lê uma passagem, alto, para uma pessoa que está à
sua direita.
É O Primo Basílio.
Oh! o senhor secretário é literato?! Parece que
sim...
Ele tem um precioso paladar estético, muito celta,
e goza então a delícia de ler o Eça.
Esse artista incomparável tem para o senhor
secretário a alta importância, quase cultual, de uma
adoração.
O severo estilo impecável do Primo Basílio dá ao
senhor secretário uma grande vitalidade mental, ampla,
larga, que o inunda de sol.
Nunca esse livro admirável sai das burocráticas
mãos do senhor secretário, tão amado e contemplado é
ele.
Os trechos mais delicados, os tipos mais
característicos, as descrições mais fotográficas, de mais
pompa e esplendoroso vigor de estilo passam e tornam a
passar na retina psíquica do senhor secretário,
intermitentemente, como vistas vivas e brilhantes de
um gigantesco Caleidoscópio.
A paisagem da Escócia, vivendo fundo no livro; o
Visconde Reinaldo, esquelético e finamente elegante e
crevé, murmuram e vivem nas idéias do senhor secretário
numa forte chama sideral de astro.
Ah! que suntuoso e que nobre, ser-se o senhor
secretário.
Na verdade há um límpido ar de conforto na
repartição em que ele está! Um ar fresco e lavado de
marinha, de capitania do porto.
Deve bem ser agradável, sem dúvida, fruir ali,
desde as 10 horas, o expediente encerrado às 3.
Que o mesmo senhor secretário, na atmosfera
clara da arejada sala verde, rodeado de cartas
geográficas, de tabelas de sinais, fazendo a escrita com
uma bela tinta azul muito fluida, sobre o vistoso e polido
190 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
papel oficial com os troféus de armas da Nação, como
um brasão nobiliário, e tendo a alegria touriste de viajar
os olhos pelo mar que freme perto, o senhor secretário
parece gozar um céu exclusivo, ter um paradisíaco Te
Deum de felicidades.
Quem o vê fazer soar cristalinamente o tímpano a
fim de que se dê cumprimento a qualquer ordem superior,
de que se expeça qualquer papel, tem-no por um pequeno
príncipe gentil (porque o senhor secretário é de pequena
estatura) coberto de opulência e cuja hierarquia o mundo
constela de glórias supremas.
Feliz, no entanto, sem essas apoteoses, o senhor
secretário vive cantando e sorrindo à limpidez do seu
espírito desabrochado e reflorido com a virgindade das
rosas que abrem à beira-mar...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 191
NICHO DE VIRGEM
Loura, numa frescura de prados atravessados de
luar, de madressilvais floridos ou, morena, tostada a
pele virginal de fino fruto aromado, assim é que eu te
vejo dentro do nicho da tua alcova, quando, no alto do
teu claro palácio, uma janela me aparece iluminada na
noite.
Bem por vezes o firmamento suntuoso d’estrelas
espalha no silêncio da natureza uma irradiação
eucarística de sacrário e no meu ser viva chama de
sideral emoção.
E, bem por outras vezes, uma estrela só surge
com um brilho aceso, coruscante, pelo firmamento
tranqüilo, quando eu, amorosa e instintivamente, olho
a janela do santuário em que tu às vezes na noite
apareces como se olhasse a estrela em cima.
E fico a meditar, languidamente, nos linhos, nas
bretanhas e cambraias finas dessa alcova, nas painas
alvas do teu leito, onde a tua vida de astro resplende na
nudez da carne.
Fico a meditar nessa serena beleza que brilha e
canta na capela mística do Amor, num nicho de prata e
esmeralda, com o esplendor das Virgens por entre ritmos
e timbres diamantinos e verdes.
Idealizo logo majestosos salões iluminados,
ondulosas, vaporosas nuvens de valsas, amantes
entrelaçados, num noivado de aves, por entre exalações
de aromas voluptuosos, inebriando-te, fascinando-te em
sonhos o cérebro delicado.
Um véu tenuíssimo, como que tecido de névoas,
pende-te candidamente da cabeça enflorada e radiante;
tens suntuosidades e linhas harmoniosas de harpas e
elances augustos, etéreos, idealidades soberbas e
sonhadoras, de arcanjo, cujas níveas e transluzentes
asas vão desprender vôos inefáveis, celestes; os teus
olhos fulguram com tão incomparável fulgor e toda a tua
192 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
formosura desfere uma luz tão original, tão imaculada,
tão nobre, que parece que as graças, os infinitos
encantos, as eternas mocidades, só de dentro de ti, da
tua carne, auroram.
E, na penumbra fidalga do nicho onde repousas,
entre lustres e candelabros, esse vulto valquiriano, essa
sombra doce de balada, formada das espirais d’incenso
do teu próprio sonho, se esvairá, se apagará, por fim,
como o último cintilar da luz no cristal dos lustres e
candelabros.
E aí ficarás, só e dolente, fechada na treva da tua
alcova, no cárcere de chumbo do sono, com as curiosas
seduções e os eletrismos atraentes de veludosa serpente
de volúpia, à espera que o sol, esmaltando a alta e branca
janela do teu palácio, venha pela manhã abrir-te os olhos
no nicho das cambraias e das bretanhas; à espera que o
sol, fabuloso dragão de asas consteladas, desprenda os
seus vôos majestosos e rufle sonora e fulgentemente as
asas sobre o teu corpo, surpreendendo-te a luxuosa
florescência carnal e deixando escorrer das asas, sobre
ela, como finos vinhos de ouro, cálidos e palpitantes,
das estreladas Vindimas, o pólen claro e virgem das
supremas fecundações – ó formosa e frívola Divindade
que com os tentáculos magnéticos e fascinantes da Carne
estrangulas o mundo...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 193
AROMA
Manhã clara, cristais de luz, que parecem ter
finas vibrações de sonorosos clarins no ar...
Uma dessas manhãs líricas, aromadas, de um azul
apaixonado...
Alta, loura, esguia, o perfil nervoso, destacado ao
sol com a nitidez, a correção de gravura em aço, vêm
subindo a areada alameda das violetas e jasmins, dos
resedás e lilases de antigo parque famoso, na toilette
fofa e fresca dos climas quentes, meio-dia em dezembro,
à fulva irradiação do calor.
De toda a sua estatura nova, lirial, exala-se
brandamente um peregrino perfume, um aroma delicioso
de campo enroseirado, quando o luar acorda as culturas.
As madeixas caprichosas, lânguidas serpentes do
sol, preguiçosamente se lhe abandonam, em carícias
luminosas, sobre as aladas formas arcangélicas das
espáduas de ouro, de marfim e rosa: o colo claro esplende
na brancura macia de penugentos veludos,
fascinantemente desnudado para o tépido enlaçamento
dos braços, para o chamejante estrelejamento dos beijos.
Toda a linha suave do seu perfil encanta, atrai os
sentidos; enquanto o olfato penetrante, delicado, sutil,
talvez por um requinte artístico de sensualidade, buscaa, procura-a, percorre-lhe o corpo todo, a rósea, áurea
carne cheirosa, como infinidade de irrequietos e
sequiosos faunos.
E tudo o que dela vem, a emanação virginal dos
seus seios e da sua boca, parece fecundar a luz de
frescuras imaculadas, purificar o aroma das Cousas,
inebriar o som.
Como que o ar onde cintila a auréola resplandecente da sua formosura recende embalsamado do feno
fresco dos prados, fica banhado em ambrosias, em nardos,
mirras e sândalos orientais.
194 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Experimenta-se rara sensação esquisita, que
dilata, tensibiliza os nervos, dá agudas vibratilidades,
intensos espasmos de luxúria, quando o olfato mais a
sente, mais se aproxima dela, tateando-a, tocando-a,
absorvendo-a, como se o olfato só para ela palpitasse...
Há um deslumbramento de gozo, quando a flor do
decote lácteo do seio, entre os cetinosos rendados e os
folhos luxuosos do corpete, um aroma impoluto de
aristocráticas magnólias trescala, adocicado e morno.
E há também o mesmo, ou maior deslumbramento
ainda, quando, numa graça de ave, ela abre, rindo, a
boca.
Então, não só da boca, não só do seio, como de
toda a aveludada alvura daquele ser, evola-se um eflúvio
de forças virgens, a suprema beleza em auroras flavas
aflora.
Delgada, ágil, com histerismos de mulher felina,
faz idealmente lembrar cinzelada ânfora d’incenso,
marchetado turíbulo de prata, de onde, para o alto, alamse claros, alvos fumos puríssimos e sacros...
E, sempre que o olfato iluminado, atilado sente,
longe ou perto, o aroma casto, inalterável, da loura
resplandecente, é como se ela, então, de repente
vicejasse, florescesse na frescura cheirosa de suntuoso
pomar de frutos e alvorecesse em rosas ou em flores
níveas e afrodisíacas de Noivado, majestosamente nua,
de dentro de um tálamo branco...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 195
A MILIONÁRIA
Todos os que te vêem passar, ou passeando o olhar
através dos brancos luares tranqüilos, ou, pelas tardes
de março, indo às pitorescas digressões costumadas e
elegantes, a algum pic-nic de rapazes do tom no teu coupé
ou na tua victoria puxada por vistosos e lindos cavalos do
Cabo – os que te vêem passar exclamam a meia voz e
com respeito, com solenidade:
– Oh! como esta senhora é milionária!
Na verdade, essas pessoas não mentem.
O irradioso luxo das tuas toilettes de verão e de
inverno, de um alto ar nobre e aristocrático, enchendo
as ruas por onde passas de uma majestade principesca,
lembra as fulgurantíssimas pompas orientais, perto das
quais o sol parece triste e desmaiado, tal é a prodigiosa
onda de luz, de perfume e encantamento que nelas faz
explosão e ruído...
E o teu formoso chalet, de altas janelas para os
ares frescos, engrinaldado de rosas, de heras e
madressilvas, com incrustações de marfim como os
chalets chineses, cantante e alegre ao sol, como é
artístico e raro!
E o teu parque, o teu parque, largo e doce, de
tanques cheios de pequenos peixes de prata e vermelhos,
que pulam n’água estrelando-a de irradiações sulfúreas,
de esquisitas aves de toda a parte do mundo, desde o
pavão, que vêm da Ásia, colorido e ovante, até ao melro
e o rouxinol da Europa e até aos sabiás da América do
Sul, que cantam nas palmeiras; de árvores grandes e
graves, viço que murmuram luxuriosos salmos de amor
na sua folhagem rica e farta de seiva – o teu parque,
milionária senhora, tem a placidez, a vasta serenidade
do conforto das riquezas.
Realmente, tu és milionária. Tem razão o povo.
No entanto, entre essas qualidades possuis uma
outra, que parece destoar do caráter geral da tua pompa.
196 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
És caridosa, muito caridosa, tão caridosa mesmo
quanto és rica.
Muitas vezes os teus sentimentos de mulher
ilustre, preclara têm sido cantados em prosa e verso,
em prosa seca e desalinhada e em verso ainda pior do
que a prosa. E tu, sentindo no ouvido o velho tom clássico
daquela frase banal que diz “Valha o desejo se não vale
o canto”, lês os jornais, orgulhada e embevecida dos
dizeres chics, encomiásticos, sentada na tua chaise-longue
ou na tua conversadeira, na sala amarela de reposteiros
também amarelos, cheia de bijouteries, de estatuetas de
Saxe, de cristais de Sèvres, lembrando todo esse requinte
e galanteria da arte de Luís XV e da Pompadour.
E ficas vivamente enlevada, tocada de um eflúvio
de grandeza e opulência bizarra, abandonada a mão
fidalga e polposa, de transparentes unhas rosadas, sobre
o regaço que treme debaixo do roupão claro e em tufos
na frente, entremeados de fitas azuis e rendas.
Não obstante, apesar do rumor e da luz que sai do
teu ouro, me parece a mim, rica senhora, que tu não és
caridosa. Pelo menos ia eu jurá-lo.
E senão, vejamos. Prodigamente ofertas quantias
aos clubes de dança, aos jockey-clubs, aos clubes de
regatas, ao lírico, aos concertos, aos jornais de modas,
a todo o mundanismo elegante das belas cidades de estilo
e de elite. Mas tudo isso que fazes é com rubros cartazes
de ostentação, é propalado com reclamos espetaculosos,
a mise-en-scène mágica da tua vaidade.
Mesmo os hospitais, as sociedades de utilidade
pública que socorres com a tua bolsa, inesgotável e
poderosa, não é por um simples impulso emocional,
simpático, de uma risonha compreensividade, mas sim
por um chiquismo, um certo aplomb oficial das naturezas
criadas, desenvolvidas na atmosfera fácil da riqueza.
Depois tu serias profunda e evangelicamente
caridosa se eu próprio nada soubesse das tuas
magnanimidades. E eu não tive ainda a suprema delícia
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 197
de sonhar, ao menos acordado, que entras obscuramente
numa casa onde há crianças famintas e maltrapilhas e
aí deixas uma bolsa cheia de ouro, sem um sinal
qualquer, sem os teus brasões, sem o traço azul da tua
filiação genealógica de sangue, se é que és baronesa ou
condessa.
Porque tu só praticas a caridade pela apoteose
gloriosa, triunfante do teu nome.
E tanto é assim que, no dia seguinte a uma
magnanimidade tua, toda a gente te vê nas ruas e nos
bairros mais populosos da terra a mostrares a tua pessoa,
moça e formosa, como uma vitrina se mostra, aos olhos
ávidos e espantados do transeunte inexperiente das
maravilhas do mundo, um originalíssimo brilhante negro.
A caridade tem para ti a influência de um perfume
raro e forte que, aspirado persistentemente, perturba e
excita os nervos.
É uma espécie de ópio ou de haschih árabe que te
permite ter alucinações, deliciosas visões fantásticas e
sonhar com cousas paradisíacas, com galgos e
genuflexões de indivíduos de curvatura flexível e leve.
E o que tu pareces sonhar vê-lo realizado pelos
jornais, por pessoas que falam em ti com adoração, com
respeito, quase com medo; pelos srs. deputados,
ministros, conselheiros e toda uma ala luzida de
titulares, que te tiram o chapéu a grandes e amplas
barretadas adulatórias, todos eles refulgentes de triunfo,
por terem ocasião de te saudar sempre e por serem os
primeiros que aparecem nos teus chás cavalheirescos,
pondo-te açúcar na preciosa xícara dourada aberta em
preciosos lavores.
198 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
DE VOLTA AOS PRADOS
Venho da paisagem.
Acaba de me entrar um largo jorro de vida pelos
pulmões.
De andar todo o dia através searas e prados, entre
giestas em flor, finas, frescas e fofas papoulas rubras,
campos verdes e floridos de rosais, trago o aspecto um
tanto rude e campônio, tenho a linha pitoresca e viril de
um rural boy.
A fim de me arejar do pó da cidade levei para a
natureza virgem dos campos, de onde volto agora, um
livro espiritualizante.
E nada mais encantador e sereno do que esse picnic de bom humor e de verve que eu acabo de fazer, sob
as árvores, como um druida, debaixo de tetos verdes
onde as aves cantam, sentindo, na frescura da seiva, os
vegetais virem à carícia morna do sol.
Nada mais de sentimentos nostálgicos, de vagos
nevoeiros de spleen. O ar salubérrimo da paisagem,
pondo-me nas carnes a elétrica sensação do sangue
alvoroçado, despertou-me a intensa, a profunda, a
complexa fibra sonora da Arte.
Porque eu não sei de cascatas de ouro de lei, de
portentosas riquezas nabábicas, de luxos asiáticos, os
mais extravagantes e majestosos, que possam apagar
na imaginação dos verdadeiros artistas as impressões
que se recebe de uma bela prosa estilada, certa, onde a
palavra esboça, desenha e cobre todos os variados e
complicados assuntos da vida, como que fotografando a
luz, o perfume, o movimento, a cor.
Na natureza de cada objeto, na essência de cada
ser há, nos livros que se propõem a mais alguma cousa
do que divertir, e a agradar, mas a convencer, a
impressionar, a comover pela psicologia e a análise, uma
resplandecente verdade que ilumina de um largo clarão
de filosofia a consciência do escritor.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 199
Com nuances diversas, como fitas de fuzis, os
livros acusam sempre a maneira literária, sugestiva de
um temperamento, pondo-lhe à luz a excitabilidade
nervosa das personalidades desenvolvidas num dado
meio, amorosas, apaixonadas, tendo, para cada expansão
da vida, além de um espírito seguro, impulsivo, uma
qualidade de sentir, de ver, de assimilar, de discernir e
de crer, a mais estética e delicada.
Nós, que estamos cá para a América do Sul, pareceme que ainda não nos podemos compenetrar bem, com
toda a profundidade e largueza, desses grandes
sentimentos afetivos que, filtrados do cristal da alma,
passam, na mais graciosa e límpida forma literária, para
umas tantas páginas de livro.
Porque é preciso fazer transplantar para a escrita
aquilo que sentimos, com toda a expressão do colorido,
com toda a gradação de tons, com toda a crua exposição
do real – do mesmo modo e com a mesma intensidade
com que o ar nos tonifica o sangue e nos dá movimento,
ação, a todas as funções do organismo.
Agora, porém, é que vem rompendo uma floração
de talentos, artistas do Atlântico, mais complexos, mais
dúcteis, com toda a delicadeza da expressão e o colorido
de cinzelada forma – artistas preocupados da correção
suprema, que num trecho de prosa fazem vibrar os seus
nervos, palpitar a vigorosa força dos seus músculos,
resplandecer a flamante aurora vertiginosa do seu
sangue.
Esses são os impressionistas, os coloristas, os
estilistas, dando à escrita a intensa vibração dos órgãos
humanos, fazendo da linguagem o mais prodigioso
aparelho que, como um estranho instrumento de ouro,
brilha nos nossos olhos, canta nos nossos ouvidos,
impressiona e sensibiliza a nossa alma.
Todo o processo literário depende, primeiro que
tudo, das tendências, do caráter objetivo do escritor.
200 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
E, quem conseguir ter idéias gerais das cousas e
souber dispor de elementos de observação e análise,
será necessariamente um escritor, dentro dos limites
do seu alto dever artístico, pintando a natureza como a
natureza se apresenta, e dando a cada assunto, a cada
particularidade a cor e o estilo que cada assunto e que
cada particularidade pedir.
Assim far-se-ão escritores e não máquinas
reprodutivas de toda uma natureza morta, de todo um
cliché de idéias por bitola, e isso para o bem, para a
inteira perfeição da Arte.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 201
INVESTIGAÇÃO
O que ela pensa de ti não é nada gentil e não é
nada amável. Tu fazes versos. Ninguém sabe se os teus
madrigais, se os teus idílios rimados nadam diluídos no
éter ou servem de harmonia à garganta de algum
pássaro. Ninguém sabe disso. Mas o certo é que tu fazes
versos, lindos versos, sonoros versos musicais e
frementes, que dizem toda a história do coração, todos
os episódios da alma humana.
O teu modo de vibrar as estrofes é natural e
fluente, e exprime bem o estado do teu ser, penetra nos
organismos, tem toda a comunicabilidade sutil e delicada
como um excitante perfume.
Incontestavelmente possuis algum oculto veio de
sol no cérebro! Porque, na verdade, tudo isso, florescente
e radiando, que te surge assim do pensamento, não pode
vir apenas do sangue. É necessário um outro elemento
mais poderoso e intenso para te inflamar, exaltar assim
de poesia e esse elemento é, sem dúvida alguma, o sol...
Contudo, isso, assim como num enxurro que as
chuvas carregam para os rios vai muita coisa inútil e
pode ir também muito brilhante e muita pérola, no jorro
de luz da tua imaginação vem às vezes, como ironia
aguda, muito morto elemento de verso fútil, que passa e
que vai embora, ao mesmo tempo que se sucedem os
mais heróicos e bravios leões da idéia...
E é de forma tal o teu espírito, que o teu nome
poderia constelar de glória qualquer página de história
sem o mais tênue ridículo.
No entanto, são bastantes todas essas qualidades
para ela te aborrecer e preferir a ti o mais banal e ínfimo
dos homens.
É certo, porém, que tens obtido dela firmes provas
de afeição: os anéis de cabelo, os mais sedosos e belos;
os olhares, os mais apaixonados e ardentes; as frases,
as mais convencedoras e amantes.
202 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Mas tu esqueceste que o coração ilude quase
sempre, esqueceste o coração dela, não lhe perguntaste
nada, não o dissecaste como a um querido cadáver,
porque ai! o coração das nossas amadas é quase sempre
um indiferente cadáver gelado.
Nada indagando, enfim, do coração da tua morena
ou da tua loura, deixaste-te ir boiando na embaladora
onda dos seus beijos e das suas carícias, dormiste sobre
essa onda, a sonhar, e acordaste nas aflições e nos
desesperos do naufrágio...
Oh! oh! dirás, este senhor escritor entra-me pela
alma a dentro como se entrasse por uma sala deserta...
É exato que ela me tem iludido algumas vezes, mas tão
poucas vezes mesmo que até nem me dei ao trabalho de
contar, nem valeria a pena fazê-lo...
E esse senhor escritor te responderá: Não, não
acertaste por esse lado. Se ela te tem enganado tão
poucas vezes, que não te deste ao trabalho de contar,
oh! dói-te de ti mesmo, errante louco do amor! porque
se não consegues te enumerar todas as vezes que ela te
iludiu, é que tantas, tantas foram elas, que o teu brio
aparenta ou a tua consciência de forte se envergonha
de o confessar...
Esta é que parece ser a verdade tremenda,
esmagadora, que te comprime e achata o cérebro. E se
não crês, vejamos.
Ontem ela viu-te passar, a “tua eternamente”,
como ela mesmo te diz nas suas cartas. Tu não a viste.
Ela estava à janela e, assim que te aproximaste, ocultouse. E por quê? Não te adora ela tanto?
Mas é que tu te não lembras que vinhas com
companheiros, amigos, rapazes como tu, e, entre eles
todos, eras, não o mais feio, mais o mais pobre de toilette.
As tuas botas tortas e rotas faziam-te escorregar
na calçada, dando-te a aparência dúbia de bêbado. Tu
não pisavas firme, não tinhas elegância como os outros,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 203
e isso oh! perdoa, mas a tua amada não podia suportar
nem desculpar sequer. Ah!
Ah! doía-lhe mais isso na vaidade, certamente,
do que se soubesse, nesse mesmo instante, que tinhas
acabado de morrer.
Parece-te demais isto, não? Pois escuta ainda.
Hoje há um grande baile de luxo num clube da
capital. Foram expedidos convites a toda a gente fina e
ilustre. A ti ninguém julga ilustre; e se alguém te julga
fino é apenas na magreza da luta pela vida que te enruga
o semblante num brusco movimento de dor, quase numa
picaresca momice. Mas, como tu andas pelos jornais,
em espírito, e os senhores sócios do clube, supondo-te
um imbecil, “contam com uma notícia floreada sobre a
festa”, como eles dizem, tu alcanças o teu convite, bem
certo de que ela irá, e simplesmente por causa dela.
Para isso vais consultá-la. Ela diz-te que irá com
certeza, sem se esquecer de te fazer sentir que vai por
teu respeito, por valsar contigo, para estar perto de ti.
E, não obstante os seus olhos dizerem o contrário, não
obstante afirmarem que vai para ver os outros, para
divertir-se, tu, com todo o teu poder de espírito e verve,
ficas preso nas capciosas malhas dessa fidelidade de
momento, mas em que tu absolutamente crês, e vais ao
clube, alegre e triunfante, como os vencedores.
Lá, ninguém sabe que tamanha nevrose
experimentas, que ficas excitado, bebes demais, começas
a tontear no solo das contradanças, não por causa das
botas tortas, porque nesse dia tiveste o cuidado gentil
de calçar um Milliés elegante, mas pelo álcool que te
sobe então à cabeça em espessas e atordoantes névoas
de vapor...
De repente perdes o equilíbrio num galope e cais
bruscamente no assoalho. Todos te cercam e dão-te
socorros que o acidente requer; mas a “a tua amada
para sempre”, essa, deixa-se ficar a um canto, no vão da
sacada, pelo braço do cavalheiro, pálida e trêmula, é
204 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
verdade, mas do susto apenas, tendo logo o cuidado de
dizer: – Que inconveniente! Quem o convidaria? Eu nem
o conheço, é a primeira vez que o vejo.
E tu, desfigurado, abatido depois de mais calmo o
teu estado fatal, voltas para casa com uma agonia de
despeito e de vergonha que te insufla de soturnos soluços
abafados toda a concavidade do peito.
E se isto não basta ainda, se te não convence, ora
ouve lá então...
No dia seguinte, tu, com o corpo mole e quebrado
como se te houvessem esbordoado com chibatadas de
junco, com o paladar azedo para tudo, deixaste-te ficar
em casa e, incendiado por um ciúme que aplica tenazes
em brasa nas carnes – profundo ciúme despedaçador
nascido do ridículo que pusera em ti aquele fato, e dos
indivíduos que ficaram ainda no clube a gozar a beleza
da tua amada, tu lhe escreves umas linhas emocionadas,
quentes, cheias de febre da paixão, desculpando-te o
mais hábil e convencedoramente possível daquele
incidente involuntário, dado apenas pela vertigem de
adoração que ela te inspirou no clube.
Porém ela, recebendo a carta, impassível e fria,
não a abrirá, não a lerá, rasgando-a.
E o portador, já teu conhecido, que leva a resposta
e que viu, de olhos arregalados de espanto, a tua amada
rasgar a carta na sua presença, tendo dó de ti, porque
sabe o tormentoso amor que tu votas a ela, te há de
dizer que ela leu a carta com desvanecimento, com
interesse, à sua vista; e que acrescentou mais até que
não escrevia já naquele momento por estar muito nervosa
em conseqüência de um pobre, esfrangalhado e sujo,
que lhe foi pedir esmola logo pela manhã, atrever-se a
apertar, beijando-a, a sua mão delicada.
Tu, então, vendo nisso a graciosa maneira de
reatar uma afeição que parecia perdida, acreditarás no
portador; e apesar de todos os teus grandes sentimentos,
por ti mesmo apregoados, maldirás no íntimo esse
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 205
miserável pobre que te impediu de receberes logo a
desejada, a querida resposta da tua carta.
E, assim, andarás, dessa amada para outra, ontem,
hoje, amanhã, como em três pesadelos da vida, jogado
para lá, para cá, como um corpo morto, no mar, ao embate
das ondas entre recifes – sem quereres admitir que o
que ela pensa de ti não é nada gentil e nem é nada
amável; sem acreditares que tu és para ela nada mais
nada menos que um pequeno cão bravio, que late e se
arrepela às vezes, mas que serena, amansa logo, desde
que o tacão ou a ponta de uma bota se levanta no ar
ameaçadoramente.
206 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
PSICOSE
Ritmos de cristais aristocráticos; harmonias
veludosas de órgão; nostálgicos, neblinosos violinos;
maravilhosas sonatas tudescas de um sonâmbulo luar;
sons dispersos, inexpremíveis da Noite! está diante de
vós o cruciante fantasma da minha Dor!
Ele persegue-me eternamente, como um vigia que
eu tivesse dentro de mim! E eu o sinto horrivelmente
escancarar a boca, e rir, e rir, numa risada pungente,
dilacerante, como a das figuras dantescas que o
funambulesco Doré criou.
É a comédia negra, a comédia das torturas
psíquicas, que ri, porque a sua faculdade de chorar é
rindo, nuns esgares bufos, numa ironia musical de
Offenbach.
Ah! são precisas lâmpadas de entendimento para
descer aos ergástulos sombrios, lôbregos de certas almas,
para ver-lhe o fundo tenebroso onde a Dor sempre cavou
a fonte das lágrimas.
Tudo o que essas almas manifestam para fora de
si, são apenas efeitos, esmaltes de sol, que se apagam
logo que a luz na altura se apaga.
O que realmente existe lá dentro é uma densa
poeira triste de desertos caminhados em desolação, onde
a figura torva do tédio fica ao alto, num relevo de bronze,
na eterna gravura do humorismo.
Flor de luxo das civilizações requintadas, flor
doente, o tédio espiritualiza-se, recebe a contextura da
prosa, entra na concepção e no estilo.
É como o personagem ideal, alegre e doloroso ao
mesmo tempo, o personagem vermelho e negro, o
Mefistófeles fantasioso que, sob as estrelas, sabe
peregrinamente cantar, para que algumas almas
solucem.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 207
Olhando para dentro de certas naturezas nem
sempre tudo é claro, de uma luz larga, ampla e vivamente
palpitante como o mar ao sol.
Há pontos obscuros, turvos, nebulosos, espécie de
mundos de idéias ainda em gênese, em formação e que
às vezes não chegam nunca a desenvolver-se.
Aspectos vagos de chuva e sol, quando, entre a
leve cintilação da luz, caem as neblinas, os nevoeiros, a
chuva, apresentando à visão um brando tom
impressionista de clarão e de sombra.
Assim és tu, nobre natureza das idéias que eu
amo!
Tu te fortaleceste nos combates, te avigoraste e
reuniste em ti a força, a alegria nova dos campos
lavrados, quando os primeiros rebentos começam
virginalmente a florir numa intensidade de verdura.
Em ti natureza das idéias deu-se o mesmo que
nos campos: a charrua era forte, o aço era fino e
lampejante e poderia bem lavrar terras abundantes para
que o veio original do espírito surgisse, viesse, raiasse a
flor.
Mas, ante essa força e alegria nova de campos,
raramente deixa de perseguir-te, de avassalar-te, nobre
natureza das idéias que eu amo! – esse duro tédio que,
como a invasão de um budismo nirvanamente religioso,
lança-me venenos letais nas veias.
Em vão, em vão às vezes o meu sangue flameja,
como uma aurora boreal de reação contra essa noite
fria, glacial, apagada d’estrelas e rijamente cortada de
uivos convulsivos de ventos epiléticos...
208 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
LUZ E TREVA
Não sei que luz estranha ilumina os espíritos
superiores; eles refletem cousas extraordinárias que os
seres vulgares nem sequer percebem, cambiantes de
mágico brilho, fulgurações de astros incendidos no céu
através a bruma transparente distendida no espaço.
Nessas imaginações esplêndidas, que parecem
continuamente mergulhadas numa fosforescência
translúcida, há incêndios de sóis, rendilhados jasperinos
de espumas, colorações de astros e flores, diafaneidades
de gozos indescritíveis; há risos de auroras, prantos de
orvalho, rios de lágrimas, céus de alegrias, noites de
tristezas, oceanos estrelados de amor, tempestades de
ódio, eternidades de agonia; há envergaduras de heróis,
reflexos de mulheres divinas, corpos aéreos de criaturas
sobre humanas!...
Há um mundo, uma natureza além das cousas
terrestres superior a todas as cousas, em que vivem
deuses fabulosos, arcanjos e sombras, que a vulgaridade
não conhece.
É a grande visão do imenso olhar do talento, que
se debruça para dentro do próprio cérebro, que reverbera
como um grande foco elétrico, deslumbrado, refletindo
visões que pairam no pensamento, aureoladas e fúlgidas,
como as cousas sublimes que o escritor transporta à
tela incomparável dos seus quadros fantásticos,
luminosos...
Só os cérebros apagados não sabem ver assim; só
os que não possuem o reflexo da luz suavíssima e
aurifulgente das auroras do pensamento, só eles não
podem ver, na cinza escura da sua esterilidade, as
grandes telas esbatidas e enfeixadas de raios, estrelas,
e sóis dentro de infinitos azulados e tranqüilos; é que
na escuridão vazia e tenebrosa que eles têm em si, nada
distinguem, nada compreendem, porque não lhes
chameja a imaginação, essa peregrina centelha
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 209
acendida no cérebro como um grande farol na
imensidade, essa luz fertilizante que vê as cousas
inauditas que nos deslumbram; é que eles têm dentro
do crânio a maldição da treva a esterilizar-lhes a mente,
a mergulhá-los na sombra implacável do vácuo e do nada!
210 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
VOLÚPIA...
A chuva cai lá fora, ininterrupta, em torrente fria...
Uma tinta escura entenebrece o ar. Não se vê
mais o sol. O grande sol flavo, original Fecundador, não
surgiu hoje das nuvens, não raiou, com a sua prodigiosa
luz.
E a chuva, assim torrencial nesta manhã de
outubro, dá-me um afrouxamento aos nervos, uma infinita
lassidão, um torpor que voluptuosamente sensibiliza...
Que continue a cair lá fora a chuva, morosa e
nostálgica, nessa viuvez triste de melancolia, numa
cadência, num lânguido ritmo.
Não sei por que vaga, abstrata expressão dos
horizontes, ao longe, das horas dormentes deste dia, eu
amo fidalgamente a chuva que cai dos altos espaços.
Quisera estar agora, na indolente filosofia de um
faquir, com a luxúria e o luxo de um mandarim, numa
larga sala de mármores brancos, ouvindo a sonoridade
da água que desce das brumas e ouvindo músicas
aristocráticas, sonatas convulsivas e dolentes e místicas
de Beethoven, que me enlevassem, a pensar, a pensar,
organizando com delicadeza e curiosidade idéias
imaculadas.
E que a chuva, fora, caísse, jorrasse, cantasse
em amplos, largos, claros, frescos pátios sonoros
ladrilhados de verdes mosaicos.
Ou, então, quisera bem, numa igreja silenciosa,
ouvir ao confessionário, como os sacerdotes católicos,
as femininas almas amarguradas e virgens, que me
dissessem, numa pureza de veio original, na linguagem
de luz que só os astros devem cristalinamente possuir,
os secretos dilaceramentos e ansiedades, as obscuras e
inquietantes paixões que como áspides ardentes e
caprichosas alvoroçam e mordem de nervosidades, de
êxtases, nos paroxismos do delírio genital, as alvoradas
brancas das Noivas adolescentes.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 211
E, contemplativo, absorto, desejara, do meio de
velhos e austeros palácios renanos, ouvir, sublimemente,
comentar Schopenhauer, dentre um fundo meditativo
de bruma germânica, sob retalhante, fuzilante humor a
Heine; ou, senão, num evocativo transporte, ver passar,
desfilar diante dos meus olhos, fagulhante e em pompa,
empoada, numa esfuziante coquetterie e ostentação
fabulosa, a brava Corte fascinante e faustosa de Luís
Quinze, na linha dos ritmos donairosos, dentre os
meneios fidalgos do minuete – cintilante colméia de sol,
de onde se filtrou outrora o divino mel da graça e onde
essa voluptuosa e luxuosa Pompadour tentadoramente
reinou, esvoaçando, ágil, trêfega, com a sua volubilidade
e favoritos encantos de grande e deslumbrante Abelha
funesta e cor-de-rosa.
Desse modo, então, tudo na minha imaginação
ficaria deliciado, pelo esplendor e bizarra galanteria
nobre das mulheres, como por esquisita essência
finíssima de ambrosia, de formosura e sol.
Assim concentrado, alheado de tudo, como que
vagamente entontecido pelos vapores quiméricos do vinho
alvo de um luar de Idealismos, ansiara infinitamente
gozar todos os Grandes Amados, os curiosos
sensibilizados do Pensamento e da Forma.
Gozá-los nas suas vivas páginas evocativas,
sagradamente, com emoção e paixão, incendiando-me
nas suas chamas, perdendo-me nas suas lânguidas e
extravagantes Arábias de Sonhos, subindo aos seus
crepitantes delírios, às suas alucinações e crises
nervosas que a mentalidade gera, mergulhando com
intensidade, com profundidade, nas suas poderosas
sensações.
Assim, penetrado de emoções tocantes e
luminosas, eu vivamente sentiria a alegria espiritual,
voluptuosa, de viver e todo o meu ser viçaria logo numa
triunfal beleza radiante de grandes rosas escarlates.
212 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Poderia a chuva insistentemente cair! Eu
experimentaria, no religioso e cativante silêncio da
minha reclusão mental, uma sensação íntima, preciosa,
original, que me vibrasse, despertando a mais delicada
sensibilidade nervosa, o frêmito, o alvoroço d’asas, os
caprichos d’arrebatamento de vôo de pássaro selvagem,
ao sol do mar largo, e o ressurgir inefável de certas
sentimentalidades passadas...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 213
A CARNE
Para nós, que estamos sentindo, como numa
grande calamidade de legenda, a carestia da carne, a
sua fabulosa inópia, a visão da felicidade toma aspecto
de bife de grelha, sangrento, alapardado numa porcelana
de frisos doirados, entre as franjas louras das alfaces
lavadas, macias, frescas, deliciosas...
Adormece-se ao entorpecimento de um dia mal
alimentado; tem-se sonhos terríveis de voracidades
espantosas, entrevendo através de mil estiletes agudos
de uma barreira de dificuldades, as pomposas polpas de
carne rubra, fascinante como um sorriso de madona,
sob a roupagem amarela e tênue da gordura fresca,
oleosa...
Mais além, na planície verdurosa e banhada de
córregos múrmuros, a boiada ofegante, coleando na
pastagem rica, mastigando e mugindo, como numa
antecâmara de guilhotina, à espera da hora em que terá
de entrar para o talho...
São as visões cruciantes do caminheiro
abandonado num deserto de areias, ressequido e estéril,
a ver, na vigília causticante, no sono, as límpidas
cascatas em borbotões espumarados, jorrando as massas
líquidas, irisadas, de um pedregal entre selvas,
marulhado de ondas e bafejado de coruscantes brisas,
por uma fresca e iluminada manhã outonal, do sul.
Mas como num acordar de sonho, alquebrados,
famintos e triturantes, ao volver os olhos à realidade,
eis-nos deparados com a lamentável e furibunda inópia:
a dessa farta iguaria que os deuses chamariam o seu
manjar, em terras da América, mais ricas do que os
campos da Austrália. E uma grande tristeza, alastrada
de lágrimas, em nossos olhos rasos se desenha, como
numa noite de inverno, ao viandante friorento, em torno
de uma fogueira apagada!
214 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
O que estamos sofrendo todos, na sequidão
devorante dos apetites dilacerados pela ignomínia da
carestia que nos tortura, é uma cousa inaudita,
semelhante àquelas antigas calamidades bíblicas, dos
tempos dos Faraós, pela penúria dos trigos.
Pode-se dizer que o bife está transformando o
caráter nacional. Já não se encontra quem tenha no
rosto a expressão da alegria sã, com um sinal evidente
de um povo repleto e farto; toda a gente nesta terra
parece triste, por essa espécie de alta inopinada da carne
que, mais avara de si mesma que a libra esterlina, ou
não vêm aos mercados ou apodrece à porta dos açougues,
mas não se deixa ir para a mesa de qualquer, se não a
peso de ouro e destemperado como um acepipe alemão.
O horror da fome já nos apunhala a alma; porque
tudo que em nós não é fome é mágoa pela escassez do
bife, pelo adelgaçamento da pança, pelas torturas das
vísceras, que pedem beef!
Daqui a mais alguns dias, se não abranda a
carestia, seremos apenas isto – a fome!
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 215
OS FELIZES
No bairro aristocrático duma aprazível cidade do
sul da América, quem mora lá ou quem viaja para lá há
de ver uma elegante habitação pitoresca, ao rés-do-chão,
graciosa na rua arejada e larga, entrançada de heras e
de roseiras que alastram pelas vidraças e pelos telhados,
transformando-a num nicho de viçosa e tufada verdura.
Nos lados que deitam saudavelmente para o mar
erguem-se pombais, onde pombos alvadios, de peito
oválico, entram e saem, numa revoada alegre, ruflando
a branca plumagem das asas e ternamente arrulhando,
como num tom de soluços, amorosas baladas que só eles
conhecem.
Uma habitação colocada num trecho fremente e
confortador de paisagem, recebendo a frescura marinha
das praias, o bom cheiro acre da maresia, bem certo é
que parece um castelo feudal medievo, na Alemanha,
entre árvores velhas e enevoadas. Só lhe falta a
montanha alpestre e o rio azul fluindo e gorgolejando
nas penedias.
Mas, à falta do rio azul, tem a caprichosa morada
um pequeno ribeiro que vai, a uns tantos passos de
distância, em estrias de prata, gemente nas suas águas
tranqüilas.
Ah! aí nessa vivenda deve existir a felicidade!
O casal que lá mora não pode ter mais conforto,
mais bem-estar, melhor graça na vida.
A mulher, ménagère alemã, ativa e prática no
mister do seu ménage, virtuosa, fiel como poucas – um
belo tipo de nobreza grega, esbelto, de uma plástica doce,
linha direita de imperatriz da Áustria, formosa como se
se tivesse gerado da luz.
O marido, quase um lorde, satisfeito nas toilettes
finas, muito sports-man, sempre num belo cavalo fogoso
e claro d’espuma, de crinas cetinosas que o vento agita
216 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
e faz tremular nos galopes, ao sol, como delicadíssimos
filamentos de astros.
À noite, quer haja luar, quer não; quer a lua surja,
redonda e glacial, quer haja apenas estrelas, a música
consoladora soa ali, através dos stores verdes, em
partituras alemãs, em scherzos e melancólicas sonatas.
A orquestra que se escuta dentro é executada por um
curioso terceto de instrumentos: é o piano, o violino e o
violoncelo – almas apaixonadas que murmuram
sonoramente todas as alegrias e amarguras das notas.
Mas, ah! egoístas da felicidade!
Esses pequenos concertos a négligé, feitos entre o
chá da noite, sem diletantismo, são ocultos e
misteriosos.
O gentil casal fecha discretamente todas as portas
da sua linda casa e encerra-se com a sua música dentro
de uma sala, como Luís da Baviera e Wagner, sozinhos,
dentro de suntuosos palácios reais.
E, olhando de fora, através dos stores verdes,
descidos nas janelas entre a luz também verde, coada
da sala para a rua, os olhos e a alma, embevecidos,
enlevados, extasiam-se diante daquela atmosfera de paz
e de afetos, perfumosa e confortável, onde as harmonias,
como uma água fresca muito fina que flui ou como
prantos arrancados de cítaras saudosas, se evolam,
sobem alto, muito alto, até onde a nossa fantasia não
poderá voar jamais.
Dá veementes desejos de amar, de abrir os braços,
num êxtase, a um ideal qualquer, tal é o inefável ritmo
penetrante de suavidade que sobe desse retiro sereno,
banhado de um misticismo casto de sacrário, onde parece
que devem viver e cantar as lendas nevoentas dos
Niebelungen todas as almas virgens dos seres
apaixonados, contemplativos e comovidos, sonhando
quimeras no alvo regaço das suas valquírias de neve.
Então, assim como essas provas irrefutáveis que
a gente sente em redor de si, como que se afirma logo
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 217
que há nesse casal uma duradoura felicidade de céu
claro, firme, perfeita e eterna como a morte.
Mas, entretanto, não vos assombreis, não duvideis
um instante, ó iludidos felizes do mundo! se alguém vos
for dizer que esse casal divorciou-se porque o alemão,
num doloroso momento, encontrou a altiva ménagère
entregue à pecadora lascívia de outro – daquele, talvez,
que ele acreditara incapaz de inspirar afeto a quem quer
que fosse, e de quem, por julgá-lo tão ignóbil e fútil, não
se daria a honra de ter, ao menos, nem piedade, nem
ódio, nem compaixão sequer.
218 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
NATAL
À hora matinal das borboletas brancas e do lirial
desabrochamento das rosas, cedo na luz, quando havia
ainda uma espécie de oscilante névoa luminosa nos
ares, dando uma translucidez aos aspectos e
espiritualizando os longes – good morning! – salta fora do
leito! Adeus atarracadas casarias tumulares da cidade,
adeus ruas estreitas, encaminhadas e lôbregas como
corredores de convento, adeus por um dia e vamos para
o campo.
A luz, duma finíssima e branca fulguração, dava
vivas tonalidades de prata às perspectivas.
Rios de prata sonora; verdes de paisagem com
suavíssimas nuances de prata; curtos e coleados riachos
de prata; colinas e montes polvilhados de uma leve
rutilância de prata; e ao fundo, destacando na linha
geral do campo, o mar, fúlgido, calmo, cinzelado num
esmalte d’águas, como vasta e polida baixela de prata
para dar de comer às nereidas e às náiades.
Dentro e fora, na cidade, ficará em brilho o Natal.
E as casas, numa radiante alacridade de
primavera, como se o sol, à maneira de uma champagne
de ouro, as tivesse alvoroçado e por elas se derramado
em cascata; na garridice de presepes, de bibelots, de
árvores luminosas e coloridas, garrulavam de risos, de
alegria, de flores e vaporosos riachos espumantes à mesa
do almoço e do jantar, nas comunicativas horas
simpáticas do lar, quando em torno à querida mamã,
morenas e louras crianças cor-de-rosa, de cheirosa
carne macia, meigas e delicadas, para o fino pincel
maneiroso de Lobrichon ou Geoffroy, são os mais
encantadores frutos e as mais risonhas festas do Natal.
E eu tive como presentes e festas a vastidão do
campo, entre a natureza solene e as grandes árvores
revestidas de folhagens como de ilusões, mais vigorosas
e verdadeiras do que as simbólicas árvores do Natal,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 219
porque naquelas corre a livre seiva impetuosa da força
vegetativa que maravilhosamente desenvolve os troncos,
faz infinitamente brotar a folha e o fruto.
Indo para o campo, como um pagão, farto da
materialidade da forma prática da vida em cidade –
cidade fusca, pesada, cor de terra da Arábia – eu simples,
banalmente não fui contemplar, mudo, num êxtase
muçulmano de derviche, a natureza verde, rindo em
tudo a luz, surpreendendo em tudo o aroma e cantando
em tudo o colorido.
Não fui para consultar os sombrios monges dos
troncos, para que eles me revelassem toda a evolução
do mundo, que é, nativamente, em essência, a genuína,
a clara evolução do amor.
Fui para que em todos os ninhos das árvores desse
campo, tão conhecido e por mim gozado na infância, os
mesmos bicos de aves implumes eu visse, como outrora,
abertos e trêmulos de ansiedade à aproximação maternal
dos alimentos, pipilando, balbuciando as notas que mais
tarde haveriam de encher o espaço de harmoniosos sons
alados.
Fui para que esses ninhos, vazios agora de
pássaros, eu os encontrasse, como corações
desabrochando em sonhos, derramados na tenra verdura
campestre das ramagens.
As árvores, umas, figueiras e nogueiras,
laranjeiras a que eu tanta vez subira e vira crivadas de
gaturamos furta-cores, que ao sol tinham fugidios tons
de arco-íris, são as mesmas de há bem vinte anos; e
outras, viçosas e reluzentes de folhagem, numa
exuberância de força, são desconhecidas para mim,
novas e virginais habitantes que eu estranho ao
enfrentar com elas, mas que entretanto adoro também
porque continuam a viver na mesma amplidão fecunda
do terreno onde a minha infância floriu, resplandeceu e
cantou...
220 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Assim um coração que ama na vida uma só
mulher, não é de todo indiferente às outras mulheres
virgens e formosas, que desconhece, mas que no entanto
o perfumam com a esvoaçante graça de um sorriso e o
fascinante enlevo de uma sedução passageira.
Os ninhos caíram dessas árvores amadas, se
desfizeram, findaram. Emigraram já para longe os
pássaros: chegou um dia a neve do tempo e enregeloulhes as asas.
Morreram. Tal e qual o passado em mim, para
sempre morreram.
Apenas resta, em meio à nostalgia e desolação
que me invadem, aquele imenso campo que me ensinou
a sonhar e algumas árvores, já velhas, onde os ventos
tantas canções e baladas desferiram.
Contudo, a esses que pelo Natal recebem ricas e
suntuosas festas em deliciosos presentes, e parecem
ficar profundamente satisfeitos e gloriosos, a esses nem
mesmo eu de leve me posso comparar agora – porque
tenho nesta perfumosa e idolatrada recordação o mais
carinhoso, o mais casto e consolador presente de festas
que o Natal me poderia trazer à comovida e espiritual
alegria.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 221
EM JULHO
Cantante ao sol e cantante azul impregnado de
frescura, de aroma dos campos, sonoro de alegria e
trinados de ave!
Cantante sol e cantante azul de julho! Há agora
na natureza um terrestre noivado de rosas brancas, nas
manhãs frias, e um celeste noivado de estrelas brancas,
pelas noites claras!
A natureza flori agora em rosas; é tudo um vasto,
opulento rosa!, como os rosais de Jerusalém, os rosais
de Sião, numa pompa de rosas.
Ritmos de amor afinam as almas numa só
esperança e num só desejo e as almas buscam o tépido,
carinhoso aconchego dos ninhos.
Ardam, ardam, no grande esplendor das paixões
fecundantes, os corações que se amam; palpitem,
sensibilizadas, as fibras que se desejam, as carnes que
se procuram, os organismos sãos, felizes e virgens que
se completam.
Julho aí está, doirado e frio, luminoso, para
fecundar a aurora desses sangues frementes, desses
sangues vivazes.
Desflorem-se alvas grinaldas, esgarcem-se véus
castos e, sob a púrpura ardente, sob a chama inflamada
do luxurioso desejo, brote, surja mais tarde um
demoninho louro ou moreno, que encha de encanto tudo,
bulhento, garrulador de alacridante vivacidade de
pássaro, vindo em festa, como este próprio julho.
E que tu, belo astro nobre das salas, divinizado na
formosura, alta e irradial, guardes ainda para mim, por
este e por outros julhos, a mirra pura e real dos teus
beijos, dentre a melancolia monástica, a dolência meiga
dos teus olhos de monja.
Guarda para mim, sempre, como infinita, indelével
primavera, esses beijos imaculados, e eu, gloriosamente,
das profundas catedrais iluminadas onde celebro o culto
deste Ideal, farei brilhar, faiscar ao sol, sobre os polidos
zimbórios elevados, a bandeira vermelha e a negra cruz
do Amor!
222 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
SÍMBOLO
Em norte américa, contam as crônicas, um terrível
desastre ocorreu outrora nas costas da Virgínia.
Sobrevindo ali tremenda e trovejante borrasca,
como as que tragicamente abalam aquelas costas, deuse, além de imensos naufrágios no mar, da inundação
da cidade de Norfolk, um dos mais destruidores e
surpreendentes incêndios.
No momento em que um trem expresso, repleto
de viajantes, entrava nos campos de Dakota, uma faísca
elétrica caiu sobre os campos, inflamando-os, acendendo
neles um estranho, infernal esplendor dantesco.
Era mister atravessar a zona incendiada; porém
a zona era muito mais extensa do que na realidade se
julgava.
O trem, então, teve de parar, decidindo-se,
fatalmente, que recuaria.
Mas era muito tarde já.
Para trás o incêndio ganhara os trilhos; para
diante alastrava cada vez mais, devastador, horrível, em
tentáculos de fogo.
A morte, morte aflitiva, angustiosa, tornara-se,
decerto, inevitável.
Os viajantes, batidos, acossados de pânico, lívidos,
ansiosos, como se acabassem de ser desenterrados vivos,
apearam-se, como visões espectrais, na mudez sinistra
dos pavores absolutos, tentando salvar-se, alcançar o
ar, a frescura, a livre expansão dos pulmões quase
asfixiados.
Em vão! em vão!
Todos os passageiros tiveram de voltar ao trem,
queimados, com as roupas em desordem, numa confusão
de derrota.
Então, aí, o terror tornou-se indescritível.
Homens e mulheres, num desespero, num
dilaceramento profundo, atravessavam desgrenhados,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 223
com aspecto selvagem, por entre o fumo que subia em
grossos rolos, em novelos densos, empastados, como
longas e largas, espessas telas negras suspensas no
ar...
Aquilo lembrava avalanche humana, delirante e
enorme, quase louca, através de campos incendiados.
Modelada em bronze, numa ampla gravura, essa
palpitante tragédia daria ao genial Doré uma vasta página
assombrosa, como aquelas em que ele pinta, a sangue,
a treva e a sol, exércitos armipotentes, d’armas duras
de aço, e báratros avérnicos, formidandos, onde arrojamse capros, peludos, cornóides e corpulentos satanases.
Naquela assoberbante catástrofe de chamas
tornava-se impossível respirar.
Dentro, no trem, na vasta galeria dos vagões,
silhouettes confusas de cabeças e braços moviam-se,
agitavam-se agora, numa ânsia suprema na cruciante
expressão dos enforcados.
Um esforço de maravilhosa coragem, um
verdadeiro prodígio de resolução, imediatamente, e talvez
ficassem salvos!
Essa coragem, essa resolução surgiu enfim,
triunfal, na alegre, na rumorosa esperança, no poderoso
sentimento instintivo da conservação da vida, como um
fio d’água brotando, fluindo de repente da avidez de uma
rocha e dessedentando bocas ardentes e ressequidas
que andassem se quiosas, sob sóis tórridos, por torvos e
escalvados desertos.
Era forçoso caminhar adiante. Então, o maquinista
deu todo o vapor à máquina.
E durante alguns segundos o trem, colossal, como
um formidável animal pré-histórico, atravessou, numa
velocidade vertiginosa, elétrica, os campos de Dakota.
Afinal, decorridos esses pungentes, torturantes
segundos, o trem franqueou o círculo de fogo, ganhando
o terreno livre até onde o incêndio não alastrara.
224 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Já era tempo, porque os vagões começavam a arder
e os viajantes estavam desfalecidos de asfixia...
* * * * * * * * * *
Ó nervosa mulher glacial e satânica, Lésbia pálida
e sarcástica, por quem, no entanto, clamo e procuro nas
horas da concentração do silêncio!
Como esse aterrador incêndio nos campos de
Dakota, também um outro incêndio, mais funesto, mais
impetuoso e mortal, absorveu-me, extinguiu-me
dolorosamente o coração.
Como um glorioso viajante, um deus original
coroado de pâmpanos, ele embarcara um dia numa
locomotiva iluminada, florida de rosas e doirada como
as galeras de Cleópatra.
Partira alegre e feliz, a rir e a cantar, na carreira
vertiginosa da vida, às conquistas triunfais do Amor, indo
afinal morrer por entre as chamas altas e deslumbrantes
do Sonho.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 225
O BATIZADO
(Desterro)
Ao fulgurante talento de Horácio de Carvalho
2a dedicatória: a Gonzaga Duque-Estrada
Por uma manhã de aromas, cheia de rosas e ouro,
em que voavam pombos em vôos triangulares ao alto dos
beirais das casas, e os pássaros trinavam festivalmente
nos arvoredos ramosos, um rancho alegre de lavradores
descia, em caminho da igreja do sítio e no ruído vivaz de
coloridas conversas risonhas e cantadas, a íngreme
ladeira barrenta daqueles terrenos agrestes, mais para
o lado em que o mar freme e se encrespa à chicotada
brusca dos ventos, nas brancas praias caladas.
Era um rancho em descanso e em festa, um tanto
livre dos amanhos das terras e do longo mourejar dos
dias passados, que levava a batizar um filho do seu amor,
o gorducho pimpolho rosado das lavouras do seu coração,
e que lá ia, sorrindo na ternura das delicadas carnes
infantis, cheiroso, perfumado de trevo, contente e fresco
como um rosal, de linda touca de fitas escarlates
esvoaçantes na aragem, envolto numa toalha de
trabalhadas rendas vistosas, sobre os orgulhosos braços
polpudos da madrinha, rica rapariga de sol, radiante
como um altar em Maio, florente como trigais.
O dulçuroso encanto desta abençoada gente,
passando ali, sob o raro calmo damasco do Azul, através
de campos, dava à paisagem uma leve graça pitoresca
de pintura aldeã pastoril, ou lembrava essa tão séria
vida holandesa disciplinar e feliz de outrora, em que as
pessoas, só com terem um fértil pedaço de pasto vivo e o
bucolismo e o idílio de alguns bois amenizadamente a
gozarem, ou a viçosa horta dentro da simpleza campestre
de cerca dos verdes, eram, para todo o sempre,
consoladamente ditosas e cristãs!
226 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Na margem dos caminhos alvoroçados do rumor e
da alacridade vibrante da luz, em murmurosas fontes
cristalinas, cujos finos veios de prata corriam
nitidamente esfiados, rudes mulheres lavadeiras
tagarelavam, batendo a roupa na pedra, com um estalo
seco, à proporção que interminamente desenrolavam os
picantes episódios de amor e as fundas desgraças negras
daquele sítio, que se desfolhavam e sumiam na
correnteza espumante e túrgida das águas.
O rancho dos lavradores tomava agora por um
comprido atalho, fazendo curva, coleando, até chegar a
uma ampla várzea, onde, no tom alvo de uma visão de
balada, ficava a igrejinha, muda e clara no dia, como
um símbolo sereno de religião e de fé na crença e na
primitiva paz vegetal da natureza.
Subiam já, sorrindo e palrando, o curto adro da
igreja e entravam na alegria comunicativa do ato que
iam realizar – pura e cândida alegria essa! tão pura e
tão cândida mesmo como a infância que forja no colo da
madrinha, quase mais batizada também pela luz que a
acariciava e doirava então do que pelas católicas águas
lustrais que lhe deveriam apostolicamente banhar a
virginal cabeça pequenina.
À volta, após o batizado, na humildade rústica do
lar, os chorados repinicados da viola, entre cantigas
esfuziadas no rosto meigo da criança, aos padrinhos,
aos pais, num tropear jubiloso e fremente, e num
alentado e aberto gozo tranqüilo de felicidade obtida sem
queixas, sem invejas, sem cuidados e sem remorsos, na
pobreza casta e sagrada das suas almas chãs, ante a
lembrança do Senhor do Bonfim e da cera que a Maricas
prometera o ano passado para que aquele bem tão
querido, agora alvorecido no mundo, nascesse e se
batizasse e crescesse sem males, sem dores, são,
saudável como os Campos que se andavam sachando e
mondando por tantos verões amados.
Não há nem doces nem vinho.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 227
Tão somente, mais quase à noite, no meio dos
sonoros guizos dos grilos melancolicamente nas folhagens
mudas de sombra, os ocasos em chama, tão vermelhos
como se houvessem passado nas nuvens uma enorme
esponja grossa embebida e encharcada em sangue, são
a acesa púrpura do vinho com que estas serenas gentes
dos sítios apenas se confortam e aquecem, nas suas
festas, dos frios invernos da vida.
228 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
DOENÇA PSÍQUICA
Que mal vos fez a vida, ó serenos filósofos, para a
encherdes do mais negro Pessimismo, como de uma
treva soturna e dolorosa e de um rio de sangue
eternamente caudaloso?!
Para ti, Schopenhauer, a existência é a
materialidade; o alimento, para ti, é apenas a
necessidade de prevalecer na luta, a força para a função
dos órgãos nervosos, a bem de que se propague a espécie;
– enquanto que para outros, ó sombrios monges do
Pensamento, o alimento é a lascívia, a luxúria da carne,
que fazia, desde os romanos, a Carne viçosa e rica.
Basta, para ti, que o estômago metodicamente
funcione, na normalidade cronométrica de um relógio,
a fim de que tenhas a positiva segurança de que subsiste
aos vermes e à seca dissecação dos fenômenos da
natureza.
No entanto, para outros, o sentimento palatal
educado, gozando o requinte das iguanas faustosas, de
incomparáveis gourmandises, as vaporosas luminosidades de dourados vinhos, apenas, bastam para que
os sonhos sejam felizes e o sorriso seja alegre.
Para esses, os alimentos, como no Oriente o fumo,
têm insubstituíveis encantos, voluptuosas graças de
viver, que atilam, acendem a imaginação, fazem abrir e
flamejar por todos os pontos do mundo, infinitamente,
os mais inauditos sóis do espírito.
Neles, a vida é um fluido, um alado perfume de
úmidas bocas purpúreas de rosa, de níveos colos cor de
camélia, de veludosos seios, macios como a alva
plumagem fresca de um pássaro real; um amoroso ansiar
de etéreos olhos de estrelas, atravessando em visão,
claros e pesados de luz, com o brilho aceso e ardente de
preciosas e raras pedrarias, a quase extinta noite remota
das recordações.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 229
Para ti, Schopenhauer, os seres orgânicos não têm
senão o caráter essencial da concorrência vital e
representam no mundo, funcionalmente, o mesmo valor
dos elementos inorgânicos, químicos e físicos da terra.
Assim, a pedra, o fogo, o ar, a água são tantas
forças complexas da vida como o homem – ou labore pelo
psiquismo, num século de livros, sob o complicado
aparelho da ciência ou, simplesmente, ame, seja fator
da evolução humana, dando a forma do Amor ao princípio
genesíaco da sexualidade.
Por isso, ó egrégio, magnificente filósofo alemão,
eu, que no entanto sinto e percebo a tua radiante e
clara verdade, que brilha e fere como as arestas agudas
de um cristal – verdade aceita pelos homens sob a
nebulosa denominação de Pessimismo – eu tenho tédio,
profundo, supremo, e inesgotável tédio, vendo que a vida
orgânica é toda ela adstrita à matéria, e que apenas,
para ser feliz, nada mais é preciso do que ter a estrutura
de um forte e belo animal, premunido de garras para o
assalto, de dentes para devorar e com a regular
circulação do sangue para o equilíbrio do coração e do
cérebro.
230 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
POLICROMIA
A Maurício Jubim
Pintar a cor sangrenta da vida, a cor gelada da
morte; dizer a dor dos tons, todo o cromatismo das tintas
interpretar, à maneira nova, fresca, original, palpitante,
de forma que os pincéis comuniquem com veemência
uma alma à tela, que os coloridos vivam e cantem na
trinalagem vibrante de pássaros matutinos.
Exprimir as tonalidades quentes e possantes, os
rubores humanos, o purpurejamento dos sangues, com
tintas acres e com tintas delicadas, numa expressão
forte de luxúria ou numa branda nuance de carne
virginal e saudável, onde a aurora das seivas puras
resplende.
Pintar toda a pungência latente de uma Cabeça
triunfante de vida, perfumada de graça, idealizada por
algum sonho enevoado; dar-lhe, à feição da tua
sensibilidade artística, linhas vagas, fugidias, linhas
angélicas e pulcras, firme e fundo cavando-lhe a negro
ou a louro a onda torrencial dos cabelos, dando-lhe luz
estrelar aos olhos, sangrando-lhe álacre a massa tenra
dos lábios, traçando-lhe a meia lua dos seios lácteos –
gerando-a, enfim, com tintas dúcteis, de modo que a
cabeça surja maravilhosamente da tela, te fascine, te
deslumbre e tu a ames, como se ela possuísse o recôndito
sentimento chamejante da Vida.
E, assim, boca, olhos, cabelos, nariz, seios e faces
pintar a claro, na limpidez d’ouro da luz, banhando a
tela de luz, inundando-a de luz, descrevendo as curvas
da primorosa cabeça com o pincel encharcado em sol,
no clarão sideral de uma luz ampla, larga, alastrante...
Com esse fulgor de execução, sem os empirismos
clássicos, com toda a expansão da liberdade de sentir e
de ver, de traçar, de apanhar os efeitos, de aparelhar as
tintas, é que te fora prodigioso pintar, dum golpe altivo
de concepção, fora da tacanhez dos moldes, já célebres
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 231
embora, já afamados e já universais, mas por isso mesmo
acadêmicos, arcaicos, sem o grito rubro das grandes
revoltas, o clamor agudo das naturezas inquietas que
lutam para significarem, à parte das confusões e leis
preestabelecidas, a seleção das faculdades estéticas.
Recluso do ideal, enclausurado, sombrio e mudo,
alvoroça-te o desejo vertiginoso de pintar intenso, de
pintar singular, numa virgindade de cores, com toda a
escala do íris, com a gama variada do alvorecer e a
indizível cor abstrata de tudo aquilo que te sensibiliza.
Tons violáceos e espiritualizados de crepúsculos
ou tons brancos de manhãs diáfanas, com sonoridade
de trompa de caça, branca e fresca também na claridade
matinal; sensações rasadas de carnes impolutas,
cheirosas a flor de laranjeira e a leite, excitam-te a
pintar miraculosamente, a distribuir na palheta tintas
inexploradas e imortais e passá-las e filtrá-las para a
tela, na execução da misteriosa Cabeça, a tua simbólica
ansiedade mais viva, mais vibrante, através dessa
fecunda e fremente paixão da Arte – sempre flamante,
em labareda febril e alta, aberta na tua alma brava e
branca como uma sagrada umbela rutilante e vermelha.
Um movimento nervoso, um impulso decisivo e
vitorioso do teu pincel imaginativo, donde as cores jorram
como um turbilhonante enxame de colibris e de
borboletas iriadas voejando e a Cabeça, em que meditas
e te alagas sonhadoramente em contemplações,
emergirá da tela, lavada em tons puros, nascida do cristal
virgem da Originalidade, sem mácula e sem defeito,
numa harmonia de toques deliciosos, imprevistos,
vivendo nas tintas castas, viçosas e cintilantes que
lembrem a irradiação do teu sangue primaveril, forte,
sadio, latejando nas veias de ricos rubis de glóbulos
abundantes.
Fantasias finas, como silfos aéreos, te fecundarão
a palheta com polens radiantes; e em torno a esse
símbolo das tuas emoções, com que andas ainda
232 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
alimentando a imaginação, como um produto de
idealizados requintes, visões em variadas formas de
cabeças liriais circularão anelantes e vaporosas, leves
nas infinitas brancuras do colorido inefável, floridas de
peregrino encanto, consteladas por esse Amor dominante
da Arte que tudo diviniza e transfigura, cada uma delas
mais nobre, mais bela e mais maravilhosa, rindo, como
ninfas na frescura açucenal de vergéis, dentre a
vitalidade, a força juvenil, a impulsiva espontaneidade
nervosa da coloração.
Tintas alvas de lírios e de espumas para os cetins
e veludos da epiderme; tintas fluidas e secretas para
dar o deslumbramento aos olhos; tintas voluptuosas,
purpurinadas, para a expressão fascinante da boca, para
o inaudito e cristalino borbulhar do riso; tintas sutis,
flexíveis, etéreas, para as curvas arredondadas da face,
para as linhas cinzeladas do busto a Cabeça que idealizas
tanto raiará, alvorecerá da tela – tão viva e virginal como
a sensibilidade do teu temperamento inquieto, do teu
ser errante de beduíno que vaga e cisma na planície
oriental infinita.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 233
FLOR SENTIMENTAL
Prodigioso Sancta Sanctorum vedado aos Infiéis, ó
mistério sutil da Sensibilidade, envolve-me nos
delicados azuis, nas diluências de magnólias
maceradas dos teus diáfanos luares, vibra-me os vagos
e finos scherzos dos teus stradivarius amargurados...
Ó flor sentimental, que te despojaste, na Morte,
da carne maravilhosa, perfumadamente tecida de
jasmins e lírios.
Ó Flor sentimental, que os grandes e fervorosos
beijos de uma paixão sacramentada, ungida nas
profundas lágrimas, purificaram para sempre!
Ó Flor sentimental que as imensas caudais de
sangue das chagas do sofrimento, da dilaceração, da
angústia martirizante, outrora tanto e tão intensamente
orvalharam!
Se é que te podes recompor ainda, ao menos uma
vez em sonhos, das essências imaculadas do teu ser
delicado, angélico, surge, aparece e vem trazer a esta
existência que se debate, que anseia nos círculos
titânicos das inquisitoriais inclemências, o segredo da
crença, que tu levaste.
Dos cibórios d’ouro dos Astros, vem, sidéreo, Sirius
sagrado, Vésper clara, clara Vésper diamantina e
matutina e traz-me essa hóstia magnolial e rara, lá dos
altos cibórios d’ouro dos Astros...
Se é verdade que agora reinas triunfalmente, por
entre chamas de luz azul, nas serenas Espiritualidades
celestes; se bem certo é, sidério Sirius Sagrado, clara,
cândida Vésper diamantina e matutina, que te exilaste
lá, cismativa, solitária, ó fria e fina Flor sentimental!,
dentre as pálidas, lânguidas, mortas auréolas de luar
da Eternidade, ressurge, vêm, flameja por esses níveos
caminhos constelados, na tua meiga, terna harmonia
234 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
de claridade e saudade e nesse breve encanto alado do
teu perfil de forma hasteal de letra siríaca.
Traz contigo velhas recordações impalpáveis, doces
e tépidos abraços da adolescência – a alegria aleluial de
cânticos na frescura nova das primaveras louras, a flórea
suavidade do oásis virgem e cor-de-rosa da Infância, todo
esse incomparável Amor que tu levaste para além contigo.
Ah! como eu vos recordo, Sombras, como eu vos
lembro, Fantasmas, como eu vos evoco, Espectros, como
eu me revolvo em ânsias, em palpitações, em êxatase,
no infindável deserto das Noites sensibilizantes dessas
agora tão longínquas e enregeladas reminiscências...
Como eu me despenho, choroso, taciturno, só,
absurdamente só, no silêncio e no esquecimento, negras,
lôbregas e abismadoras galerias que vão dar aos
subterrâneos da loucura, foragido dos flagelados
clamores humanos, na desolação e empoeirado desalinho
de derrotado ovante guerreiro de cem batalhas heróicas,
pela primeira vez ferido e insolitamente vencido ou na
melancolia decadente do ideólogo, imaginoso demônio
inclementemente apedrejado de Anátemas!
Ó tristeza dos momentos lívidos! Vácuos amargos
desses longos, lentos poentes nublados, ciliciados de
ansiedade, de aflitivas visões de dúvida, e onde o Espírito
erra, ondula, flutua por entre névoas e surdinas...
Sentimento indefinido, inquieto, insatisfeito, que
turvas e agitas e convulsionas de tumultos a alma, num
torvo, vendavalesco rodomoinho de ardente e atordoante
simum!...
Ó algidez fulminante, aterradora, mortal, de tudo
o que finda, leve, vaporoso, vago, nas linhas sutis,
fugidias, da infinita lembrança!
Ó antiga velhice das Mágoas! Ó dor de esquecer!
Ó dor de desesperar e descrer! Como toda essa música
negra, toda essa mórbida sinfonia nervosa
voluptuosamente me punge...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 235
VELHO
Pelas infinitas estradas do tempo, a fora, ao sol,
segue, mudo, soturnamente silencioso, esse frio deserto
ambulante, a que alguns chamam Velho e outros
chamam apenas Desilusão.
Hirto, engelhado, com o seu alforje de peregrino,
a sua rude veste de estamenha, o seu bordão de jornada,
e os seus pés nus, caminha, o deserto frio – tão vago,
tão tateante, tão verdadeiramente sombra, que dir-seia que é o vácuo, o intangível que caminha...
Longas, profundas barbas brancas alvejam-lhe no
rosto, dando-lhe um ar de austeridade profética,
evocando as severas e legendárias figuras dos
Patriarcados bíblicos.
Na sua fronte vasta, sulcos imensos formam como
que vias dolorosas por onde pensamentos amargos
percorrem, lembranças angustiantes peregrinando
passam...
Certo, esse Velho, assim sugestivo e belo, viera
dos Mitos, do fundo das odisséias gregas e ouvira d’alto
cantar nos finos céus d’ouro da Hélade a alma augusta
e mediterrânea de Homero, sentira as linhas doces da
graça antiga e mergulhara sereno no seio branco e de
rosas do Olimpo dos deuses priscos.
Nenhum manto real o cobria, nenhum laurel o
coroava – nada parecia revelar, tangivelmente, os seus
troféus de onipotência.
No entanto, pelos vestígios supremos, deixados não
só nas rugas da sua face, não só na tristeza e
contemplatividade ascética dos seus olhos e até nos
caracteres abstratos da Angústia que lhe singularizava
o aspecto, como também em todo o seu vulto fascinante,
dominativo e grave, percebia-se o poder e a clarividência
transcendental de um Predestinado, de um Inspirado,
de um Deus, perfeito e sagrado Deus concebido da Dor,
alimentado e envelhecido na Dor.
236 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Certo, era ele, o Poderoso da Dor, aquele a quem
a Dor avassalara mas não vencera, a quem a Dor ungira
mas não execrara nem banalizara.
Maior, talvez um século maior com o contacto
espiritualizante dos Sofrimentos, era efetivamente agora
que ele existia, como a própria consubstanciação da Dor.
Mas, nos abismos fundos dos seus olhos velados,
amortalhados de saudade, vivos e vendo e parecendo,
no entanto, cegos, um sonho impenetrável esvoaça muito
de leve, e de muito leve surge, sai, em forma de silfo, de
dentro dos olhos amortalhados do Velho e põe-se então
a rondar, a rondar em torno dele, numa fascinação, com
as suas asas diáfanas e fosforescentes de tentador
demônio...
E o Velho, subitamente deslumbrado pela
fosforescência das asas, das asas diáfanas de silfo, tem
estremecimentos convulsivos; e a sua face, então, toma
a expressão singularíssima, de tal modo fica nesse
momento transfigurada, que até como que se lhe
aprofundam, que se lhe cavam mais as rugas...
Também logo, com a rapidez própria dos sonhos, a
fosforescente Visão desaparece... E o Velho, taciturno e
trágico, parecendo concentrar em si toda a eloqüência
simbólica do Eclesiastes, como que lança na terra a
condenação suprema do Juízo Final, tendo, porém, na
face agora imensamente lívida, duro ríctus sarcástico
de ceticismo voltaireano...
Mas, ah! quem poderia penetrar nos labirintos
daquela existência; quem poderia saber os vergéis,
campos, vales cheirosos, enflorados de Ilusão, onde essa
alma viveu, floresceu e gozou; os pântanos esverdeados,
de concupiscência animal ou de tédio desesperado, onde
ela mergulhou vencida; as alvejantes e ermas
encruzilhadas de caminhos onde a Imagem desolada dos
seus Destinos errou, vagueou e gemeu exausta, fatigada,
batida ao largo dos temporais atroantes e tremendos da
Vida!
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 237
Todos que o viam passar, que lhe admiravam a
enfibratura óssea, os filamentos nervosos das grandes
rugas; que experimentavam a sensação quase de um
pavor abstrato de respeito divino que a sua patriarca
figura inspirava, pareciam inquiri-lo, fazer-lhe mil
curiosas e significativas perguntas: – Se tinha já cem
anos, que saudades, que recordações trouxera na alma,
que pão fresco no alforje; que jornadas fizera, e se
cansara muito, nas longas e pedregosas estradas áridas;
se tivera fome através os pomposos banquetes à Luculo
das altas cidades; se tivera frio sob as cruas neves
inclementes e fulgurantes; se sentira sede d’água, mas
só sede d’água!, por tórridos e languescentes calores,
ou se sentira sede insaciável de desejos ante o pecado
de uns olhos...
Solenemente grande pela Dor, fazia lembrar, como
sentimento de religiosidade que dele vinha, todas as
magnificências do Elevado e do Sagrado.
Parecia, então, que aquela incomparável amargura
de Doloroso ganhava proporções de matéria inerte, se
condensava, concretizava em blocos de granito e
mármore; que aquela sublimidade de mistérios de
secular Velhice tomava formas estáveis, solidificadas
com raízes infinitas na Terra, de arquiteturas prodigiosas
de catedrais, de igrejas góticas, de basílicas, de templos
vetustos.
E, pelo sentimento de divinização que ele
inspirava, os olhos absortos, extasiados imaginosamente,
viam que essa Dor ia se transmutando e avultando
colossalmente como organismo físico, alargando,
alargando, alargando para o espaço, na vastidão de um
bojo enorme, arredondando pomposamente em cúpulas
estreladas, em zimbórios de bronze, em torres
formidáveis, crescendo, crescendo, ficando então
monstruosamente de pé na amplidão alta, a majestade
eterna da Basílica da Dor – ao mesmo tempo de
venerações e sacrilégios, igualmente divina e profanada!
238 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Passados ermos, remotas antiguidades, eram
extintas, recordando lentos, longos desânimos;
ansiedades, desesperos, impaciências e saudades, eram
como que a melancólica penumbra da imensa nave dessa
Basílica.
E as paixões atormentadas, os ímpetos lascivos,
os desejos delirantes e em grita, as deprecações e
blasfêmias, as raivas rugidoras, os ódios tempestuosos,
eram então as vozes clamantes e plangentes dos
violoncelos, no coro, e os profundos graves chorosos, de
soluços pungentes e atormentados, dos órgãos e
cantochão.
Alvoroços másculos e sãos de juventude,
heroísmos alegres e alados de esperança, bondade
bizarra e florescente, galhardias, lhanezas afetivas,
pensamentos límpidos, castos, de brancuras virgens,
ternuras angelicais de sonho, eram, enfim, símbolos
eucarísticos, pão e vinho claros de comunhões puras.
Todo o espírito do Velho se afinava por esse acorde,
a harmonia das grandes Intuições e Criações evangélicas
o consagrava e santificava Deus – harmonia que se
elevava para ele numa auréola de bênção elísia...
* * * * * * * * * *
A natureza, em redor, calma, repousada,
tranqüila, penetrada dos sentimentos imponderáveis do
Absoluto, ampliava-se numa expansibiidade de
vegetações que pareciam quiméricas, numa concentrativa
mudez de forças originais.
Para os largos e longes do vasto e verde mar
melancólico, alguns barcos singravam, dentre os
espreguiçamentos voluptuosos da luz, no leve ritmo da
graça banzeira de bamboleantes bailadeiras bailando...
E a figura profética do Velho, com a alva cabeça
nua, as longas barbas brancas ondulando aos ventos
gementes, ia vivamente desenhada no fundo vago da
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 239
luz, como a concepção extravagantemente soberana,
grandiosa dos egrégios Desígnios, a caminho das
jornadas eternas, pelas peregrinações perpétuas, pelas
estradas sem termo, pelos indefiníveis desertos sem
fim...
* * * * * * * * * *
Vai, Velho! Clarão frio, clarão morto! Tu que trazes
contigo Agonias e Recordações seculares, sobe, sobe
solitário, só, sinistramente só, a escalvada montanha
erriçada de agudos cardos bravos, de ásperas ríspidas
silvas, dos Fatalismos tremendos, eloqüentes, épicos,
rasgando, ferindo, chagando, ensangüentando
mortalmente os pés.
Vai para o Esquecimento e para o Nada, calado,
mudo, fechado no sepulcro do teu segredo místico, com
os extremos e expressivos silêncios da clausura da
tu’alma, levando sob a umbela dos Astros o Sacramento
eucarístico da tua Dor.
Vai! Vai! Some-te, perde-te, mergulha soturnamente, aprofundadamente, nas estranhas sombras,
nas estranhas sombras, nas estranhas sombras...
240 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
DECAÍDO
Arrebatado num violento rodomoinho, num
verdadeiro ciclone de paixões, o que esperas, Tu, Sátiro
tricórnio e bufo, que resfolegas e inchas de
pantagruelismo e luxúria – tricórnio como trifloro – com
três hirtos cardos agudos?!
O gozo das mórbidas concupiscências tomou, para
a tua idiossincrasia afetada do Infinito, aspectos soturnos
e miríficos, efeitos mais do que genuinamente capros,
mais do que virtual e genitalmente eróticos, duma
insânia ingênita e transcendental de lascívia; e isso de
tal forma supersexual intensa, que és apenas um simples
Sátiro tricórnio e bufo e não és mais Diabo mago e
sulfúreo, nem radiante belo e horrível Arcanjo de
maravilhosas asas colossais e flamipotentes de fundas
envergaduras a ouro fosco e bronze, mas um Satanás
suíno e gongórico, um Sileno senil tatuado das equimoses
do Vício, tremendamente decaído nos abismos torvos...
Êxtases, indefinidos espasmos estéticos, que
espiritualizavam outrora em eras primitivas os teus
estranhos olhos d’águia, cheios de um fulgor de epopéias,
operaram nesse maquiavélico, complicado organismo,
evoluções, metamorfoses, profundas transfigurações; e
a tua cabeça titânica, satânica, cortada, detalhada fundo
nas auréolas negras das supremas Blasfêmias e dos
Anátemas, cantou e radiou vitória, triunfou
milenariamente das outras frívolas, desfantasiadas
cabeças.
Era a conquista real do Sonho, em que a tua cauda
espiralante e magnética ia traçando caracteres
simbólicos e feiticeiros e em que os teus cornos tetros e
sibilinos, expressivamente assinalados como a coroa
genial e hostil da Rebelião, davam o ritmo, com a cauda
espiralante e magnética, das divinas sinfonias da
Imaginação.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 241
Porque, Tu, criador legendário das Ideogenias!
velho Ideólogo imortal!, desde logo foste o Deus uno e
trino, o Todo-Poderoso do Sonho, fascinando almas e
almas, almas e almas e arrastando-as frementes aos
teus lagos noturnos e chamejados, originalmente
brotando da condensação de bilhões de noites sem
estrelas, porque já eram abstratamente, esses
chamejados lagos noturnos, estrelados de Ideal.
E os teus cornos tetros e sibilinos, dominando
amplidões, esgarçavam, rasgavam, defloravam os diáfanos
véus nevoentos das Nuvens onde o segredo dos viços e
germens ocultos, das virgindades brancas, das
castidades tenras, das originalidades puras, dormia,
mumiamente, sonos seculares e ignaros.
E esse segredo e mistério que dormiam perpétuos
sonos, num dormir infinito de fenômenos, Tu, com a
significativa mágica do Ideal, fizeste para sempre acordar
e circular e morrer e febricitar de vertigens e
alucinações a Terra.
E esse abençoado e prodigioso bem fecundou
admiravelmente a terra, semeou constelações nos mares,
tocou de auroras os temperamentos, floresceu de rosas,
de madressilvas e lírios, as leves, as sutis
espiritualidades humanas.
Uma seiva do Desconhecido errou e cintilou por
toda a parte, inundou tudo; as púrpuras palpitantes de
um novo Idealismo se desdobraram como firmamentos
ou majestosos mediterrâneos.
Mas hoje, que o teu mundanal e soberano domínio
é bem raro já, que todo o esplendor das tuas flavas,
flamejantes glórias é já remotamente e olvidadamente
passado, não és mais o excelso, o preclaro Sátiro fino, o
Diabo prófugo e ágil, aventureiro e sábio, que notivagou
em gôndolas por Veneza, nos estrelados idílios; que
cantou outrora baladas aos astros aristocráticos, com o
seu bandolim de luar e o seu perfil mais aristocrático
ainda; que apaixonou e languesceu as monjas com suas
242 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
curiosas lendas enevoadas e rendilhadas; que foi o
Gentil-Homem da Aventura e da Graça nas Cortes de
Luís Quinze; que dourou e enflorou toda a Grécia e
fecundou de Poesia e Arte o antigo Inferno mítico.
Arrebatado num violento rodomoinho, num
verdadeiro ciclone de paixões, és agora o Sátiro tricórnio
e bufo, o membralhudo e velho histrião devasso, que
resfolegas e inchas de pantagruelismo e luxúria.
Não és mais o delicado deus artista, que eu muitas
vezes vi, através das brumas azuladas da fantasia, pelos
contemplativos crepúsculos da Alemanha, cismando,
envolto num resplendor de imponderáveis saudades e
nostalgias, tocado dos supremos desdéns, sentado junto
aos pórticos medievais com as alongadas, esguias pernas
mefistofélicas fidalgamente cruzadas em x.
E tu perpetuas agora, através da universal
harmonia, no equilíbrio sempiterno, Belzebu obeso e
bonzo, inchado de concupiscência e tédio, ignobilmente
obsceno, grotesco e esfingético, sonâmbulo de
melancolias, tragicamente triste, atirado para um canto
obscuro das Idades, como a truanesca e monstruosa
figura orgíaca, báquica e pantagruélica do Vício!
FUGITIVO SONHO
Pouco sentiria eu que o teu olhar fulgisse e a tua
voz vibrasse, se tu não fosses a loura e sugestiva Imagem
que vi em sonhos e ainda hoje entre os nimbos da
memória me aparece, terna como as baladas antigas.
Eu não digo que seja o luzido e bizarro cavaleiro
medieval de nobre coturno e cinzelada espada d’aço
polido, retinindo e fulgindo, que te aguarde na
rendilhada sala gótica, ou nos pátios de mármore, ou
nos balcões em flor, para fugirmos, alucinados e errantes,
por alguma escada de seda, nalgum nitrente corcel.
Tu és bem loura e bem fria para os medievos
arrojos, para esses aventurosos jogos florais, e eu sou,
talvez, em demasia tímido para arriscar-me a tais
assaltos, que romanticamente e naturalmente teriam
de ser ao luar, na vaporosa e velada voluptuosidade da
lua, como nesses lascivos jardins do Capuleto aquela
sonhadora Julieta e aquele pálido Romeu arrulhando
em abraços e beijos.
Mas tu cantaste. Cantaste, e o que eu tinha já
morto nas recordações ressurgiu, enfim, nesse canto.
Tu cantaste e eu, enfim, revivi e resplandeci para o Amor.
A tua garganta, fina, aristocrática, fazia voar, como
um pássaro branco, uma voz alada, cuja harmoniosa
sonoridade penetrava, escorria pelo meu ser como um
raro líquido untuoso...
E eu parecia diluir-me em essência, em leves
eflúvios, nos gorjeios. Os límpidos trinados, nos
apaixonados, impetuosos vôos altos da tua voz – pura,
clara, clara fresca e aberta no ar – amplo firmamento
estrelado desenrolado por sobre mim odorante dilúvio
de luar, ou como um pássaro branco e estranho que por
ali surgisse, abrisse, ruflasse, batesse fremente as asas
para além dos etéreos seios virgens das empíreas
regiões...
244 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Tu cantaste, trinaste, desfolhaste em rosas, fizeste
esvoaçar em abelhas e borboletas radiantes todas as
músicas, todas as emotivas canções, todas as barcarolas
e baladas em que há névoas de lágrimas e essas lágrimas
– tanta era a melodiosa tonalidade da tua voz – quase
que as sentia eu passar, nítidas, cristalinas, através da
transparência do canto que constelava sonoramente o
ar como um luminoso tecido de finos fios melodiosos.
E, enquanto, dessa forma, em requinte, funcionava
em mim o extasia do sentimento, o teu olhar fulgia e a
tua voz vibrava, vibrava, vibrava infinitamente, num
esplendor harmonioso e claro, fazendo evocar a expressão
feérica de uma lua muito branca, do alto cantando
sonoridades de prata, subindo céus acima, astros acima,
por legiões luminosas e gloriosas de águias, cantando...
Formas e Coloridos
246 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
A ABELHA
Naquele dia a industriosa abelha iriada, como
surgisse a manhã num fulgurante pó branco de neblinas
e ela fosse desferir o vôo até à colméia onde trabalhava,
nos quentes verões, com outras companheiras; perdeuse em caminho, entre o nevoeiro, como se a cegasse de
repente ali aquela alva irradiação matinal.
Contudo, animada por uma chama intensa e viva,
e que outra cousa não era mais do que o amor à
carinhosa colméia, tentava sempre romper o nevoeiro,
ir através da bruma espessa, penetrar nela num arrojo
mais de vôo, fazendo um pequenino orifício por onde
pudesse atravessar, feliz e gloriosamente, o seu gentil
organismo diminuto e alado.
Mas em vão! A cada esforço empregado em
distender para frente as asas débeis, a cada ímpeto
resoluto, a cada impulso tenaz, parecia que a neblina se
obstinava em condensar-se, em intensificar-se mais; e
estava esta lua já assim há tempo continuada resultando
talvez num triste perigo para o volatilizado ser
microscópico e sonoro, quando, finalmente, num golpe
de luz – o sol irrompeu; surgiu, subiu festivo e triunfoso
para o alto, como um redondo cano de ouro cheio de
molhos inflamados de loiras espigas ardendo.
Perante o brusco emergir flamejante do sol a
rápida (...) abelha mais ainda se entonteceu e
deslumbrou então; e tanto se deslumbrou e entonteceu
que jamais conseguiu vencer a fina gaze diáfana, que
agora, com o súbito clarão já se ia esvaindo no ar...
E era inefável, deliciava entretanto ver a abelha
presa no éter, sem poder caminhar, sem poder voar,
suspensa no azul e doirada pelo sol, como uma leve gota
que o sol deixasse pender no espaço, caída das suas
rutilantes pedrarias de raios e librada apenas nos
imperceptíveis fios sutis do fluido luminoso.
Ah! se a abelha pudesse enviar recado à colméia,
às companheiras, que a viessem tirar bem depressa dali!
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 247
Mas quem sabia onde era a colméia?
Os reis, que habitam lá acima os claros palácios
do luxo, entre soberanos confortos sedosos? Os ministros
que passam lá embaixo no culto rumor da cidade,
fechados no seu coupé, lendo jornais, como dentro de
um rodante e tépido gabinete de estudo?
A rapariga do campo, que através da frescura dos
fenos, leva o gado a pastar na grama vasta e viçosa que
cintila e fuma pelas manhãs?
Quem sabia onde era a colméia?!
Ninguém o saberia decerto! E essa tênue e
voejante abelha, embora solta da trama da luz e não
obstante claramente saber para que lados ficava a
colméia, erraria em vão pelos vales cheirosos, perdida
para todos os pontos, daquelas vargens, castos vergéis –
porque esse tempo gasto a vaguear e a vacilar na neblina
a cobriria de receio em comparecer, mais uma vez só
que fosse, à presença das outras, sem que sentisse nos
seus dormentes e enxameados zumbidos a mais
acusadora censura e a queixa mais penetrante às horas
que, no exigente pensar egoísta e caprichoso das
companheiras, ela andara à toa no campo em flor amando
e sugando alguma pétala, em vez de ir, por essa radiosa
manhã, para o trabalho, abrir, no favo de mel, as
curiosidades artísticas e os arabescos filigranados da
efervescente colméia.
* * * * * * * * * *
Também, ó imaginária criatura amada! a peregrina
abelha de meu sonho, voando um dia para a vida, foi
logo em viagem surpreendida pelas profundas névoas
impenetráveis das desilusões, e, sem poder nem
prosseguir nem recuar, vencida pela distância e pela
altura vertiginosa do ideal, perdeu para sempre, para
nunca mais encontrar o desejado rumo, o caminho fluido,
luminoso e gorjeante, que vai dar ao teu coração.
248 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
OBSESSÃO DA NOITE
Vem, tartufo, rir ao pé de mim a tua risada de fel.
O sol, em cima, ri a sua risada de aurora, que
tudo aclara e resplende.
Mas é em vão para essa risada de luz, que jorra
d’alto sobre tudo, que tudo ilumina e claresce.
Quero-te a ti, risada de fel, Tartufo! Quero-te a
ti, risada do crime, risada da noite, risada da treva.
Apavora-me esse sol eterno, a flamejar, incendiado
na altura, porque ele todas as coisas põe em relevo.
Eu não quero essa aflitiva evidência da luz – que
ri das nossas chagas, ironiza o nosso amor e avulta o
nosso remorso.
Quero a sombra que esbate os claros aspectos,
que esfuminha os longes, que enevoa e quebra a linha
dos corpos.
A sombra que desce, que se desdobra em noites,
em trevas amargas.
Esse luto etéreo que tudo esconde e faz repousar
no mesmo vasto silêncio.
O luto que esconde o crime e esconde a dor, que
confunde a máscara hedionda de Gwymplaine com a
máscara loura de Vênus.
Esse luto, essa noite, essa treva é que eu desejo.
Treva deliciosa que me anule entre a degenerescência
dos sentimentos humanos. Treva que me disperse no
caos, que me eterifique, que me dissolva no vácuo, como
um som noturno e místico de floresta, como um vôo de
pássaro errante.
Treva sem fim, que seja o meu manto sem estrelas
que eu arraste indiferente e obscuro pelo mundo a fora,
arredado dos homens e das cousas, confundido no
supremo movimento da natureza, como um ignorado
braço de rio, que através de profundas selvas escuras
vai sombria e misteriosamente morrer no mar...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 249
Nela é que eu quero afundar-me, na noite que me
defende da lesma humana que babuja ao sol, à grandeza
da luz.
Nela é que eu quero viver, na treva que me despe
da realidade da vida, que me sepulta e piedosamente
consola.
Ela tem a majestade para me apagar da vista esses
mil animais sinistros e terríveis que, em múltiplas
formas diversas, mordem sempre, caminhando para mim
ao clarão do dia em truculenta marcha cerrada de
massas pesadas e formidáveis.
Quero, ó noite niveladora, fria águia negra das
solidões infinitas, ir preso nas tuas asas e perder-me,
insensivelmente vagar átomo desconhecido, talvez a
gerar longe o mundo estranho de uma nova Dor!
250 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
HORA CERTA
Inexoravelmente, imperturbavelmente, na
inevitabilidade de um pêndulo estranho, o último suspiro
há de soar, na hora atroz, que reboará soturna como por
cavernas e subterrâneos.
Com a alma supliciada de nevroses, assediada por
ciúmes inquisidores, através de trêmulos angustiantes
de violinos, o Agonizante elevará os olhos claros, cheios
já da transfulgência de outras esferas e aspirará, ainda,
gemente, Águia triste de solenes asas despedaçadas,
os desejos esparsos, perdidos, que para além ficaram no
clamor atordoante da Vida.
Como por um mapa fabuloso, viajará ainda a
imaginação desfalecida pelas regiões de outrora, onde
se agitaram, vivas e palpitantes, todas as grandes forças
do seu sentir.
E, diante dos olhos adivinhadores de belezas
secretas; dos olhos penetrantes e gozadores que
pousavam inteligentemente nas cousas com finas asas
ideais, amando-as, envolvendo-as numa chama de
sentimento, nobres olhos de emoção e profundidade; dos
olhos, cujo entendimento cintilava quando olhavam
curiosamente tudo; diante dos olhos do Agonizante
desfilará então a Visão do seu Ideal – Beleza tão
radiante, tão doce, que lhe lembrará ao mesmo tempo a
frescura iluminada de um vale e a profunda pompa
noturna das estrelas.
O muito que odiou e o muito que amou, os traços
reveladores do seu espírito, formas de enunciação
características de sentimento, ondulações voluptuosas
de som, tudo, como um fumo, lhe tecerá brumas na
retina; e certas recordações, já nebulosas na memória,
certas tempestades d’alma, já entrecruzadas, difundidas
e repercutidas na tempestade das Esferas, tudo, como
um fumo, lhe tecerá brumas na retina.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 251
Soberbos oceanos de imaginação onde mergulhou
seguro o desenterramento da sua Obra, do Escuro para
a Luz, ressuscitando-a das sepulturas do Nada e fazendoa logo abrir clarões e asas no Espaço, tudo, tudo há de
ecoar, em extremo, nos desvãos do seu cérebro a fenecer,
como a vibração esmorecidamente saudosa de rouca
fanfarra longínqua no fim crepuscular de triste e ovante
vitória assinalada por aclamações e festões de louros,
regada abundantemente pelo vinho quente e humano
do sangue.
E, relembrando cousas, revendo todas as veredas
passadas, como quem revolve poeira, se o Agonizante
achar então que afinal lhe doeu muito a Vida, consolado
morrerá de que sofrendo por todos teve assim a mais
bela e nobre purificação e consagração dessa Dor.
E, de reminiscência em reminiscência,
consultando no largo, no amplo, no formidável mostrador
do Tempo as horas certas do Mundo – a hora certa para
o Amor, a hora certa para o Ouro, a hora certa para o
Ódio, sentirá, então, claro, nítido, evidente na eloqüência
fatal do último suspiro – concentração tremenda de todos
os círculos tremendos do Ser – sentirá então que a única
hora certa, ó Vida!, é a hora da Morte, quando o último
suspiro soa, trêmulo, marcando o inevitável rumo, como
um pêndulo estranho que marca horas imponderáveis
caindo inexoravelmente, imperturbavelmente...
252 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
ROSICLER
Imaginar agora, saudosa Rosicler, que essa boca
virginal, onde têm vivido, esvoaçado e cantado os ardentes
pássaros dos beijos, fica gelada e muda, negra, como a
boca de uma cova; que o colorido alvoral da tua carne
esmaece, morre; que os fluidos Danúbios claros e azuis
dos teus olhos somem-se na névoa da morte; que tu
toda esfrias horrivelmente nas minhas mãos, num
pavoroso contacto de neves álgidas – hirta, inteiriçada,
glacial – como pesado e rígido bloco maciço de mármore
branco!
E imaginar, também, que a tua infância de flor,
de alva magnólia cheirosa cor de luar, na seda fina da
pele nívea, foi passada entre os meus braços: todo o
delicioso encanto louro dos teus cabelos, a delicada polpa
rosada dos teus lábios e as límpidas marchetarias dos
teus dentes na láctea candidez do rosto a que os fluidos
Danúbios claros e azuis dos teus olhos de ninfa davam
frescuras bucólicas de mirtais e de mares meigos da
Grécia.
E imaginar, também, celeste Rosicler, que tu, já
na pubescência, com as nobrezas régias de dama
medieval, planta inglesa e forte desabrochada na
atmosfera de uma estufa de Lorde, na luxuosa irradiação
da formosura, vais, através do aristocrático rumor de
cidades, alta e loura, como soberba Águia fidalga que
para sempre houvesse abandonado algum antigo, grande
palácio renano!
Outros chamem-te Aurora! Hoje que já tens a
esveltez palmeiral, o viçoso verdor primaveril e que na
transparência d’ouro da epiderme dos seios cantam-te
inefavelmente os desejos...
Outros chamem-te Aurora! Hoje que já o travo
picante da perfídia feminina dá um encanto fatal e acídulo
à tua cabeça funesta e trêfega e dá volúpias secretas e
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 253
tentadoras às tuas garridas formas de louro demônio, a
essa sedução prófuga e prônuba, entre sílfide e áspide...
Outros chamem-te Aurora!
Uma vez que ainda diante dos olhos vejo a rosada
e consoladora luz difusa da tua Infância; que ainda sinto
os leves e perfumados eflúvios da tua voz; o cristalinar
do teu riso nos lábios frescos de vida e de leite; os fios
sonoros do teu cabelo de sol na primorosa, suave,
resplandecente cabeça; agora que tudo isso, enfim,
acorda ainda no meu ser a balada longínqua das
Recordações, não te chamarei jamais Aurora, mas
Rosicler! que lembra os tons alvorais incomparáveis da
tua vaporosa existência de aroma, quando eu tinha nos
braços, envolta em neblinas paradisíacas do sonho, a
tua formosa, suave, resplandecente cabeça, da excelsa
idealização de cabeças de Anjos, revivescentemente
cinzeladas em astro...
254 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
BEIJOS MORTOS
Para o frio silêncio do firmamento, para a alta
sideração das estrelas, os beijos de chama que me deste
outrora subiram mortos, frígidos, glaciais, sem aquele
quente, inflamado clarão que os tornava apaixonados.
Foram-se os beijos e tu te foste também com eles,
Alma sonora, Carne de perfume e de luz, cujos olhos, de
tanto incomparável amor carinhosamente me falavam.
A minha boca, sequiosa e saudosa agora desses
beijos que a constelaram, mal pode sonorizar as sílabas
de sol – Amor – que tão inefavelmente sonorizava.
Foram-se os teus beijos, sumiram-se aqueles
astros, que ardiam, e, agora, ei-los, já frios, lá, acima,
no esplendor, esparsos no arqueado Azul infinito...
Que brilhem, lá, gélidos, esses beijos mortos, como
a serena e sagrada Via-Láctea da Paixão!
Para mim, cá da terra, embaixo, eu os verei e os
sentirei ainda palpitar para sempre sobre a minha alma,
purificando-a e iluminando-a, miraculosamente, contra
o frio veneno negro da Dor, derramada fundo no meu
peito por fulvos e inquisitoriais demônios,
atropeladamente arremessados à escalada vertiginosa
do Mundo!
Últimas Evocações
Resgatadas por Iaponan Soares e
Zilma Gesser Nunes
Dispersos – Poesia e Prosa
256 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
MARGARIDA
Sorrisos e lágrimas de Margarida
O que procuraria nele?!...
Talvez quisesse descobrir nesse imenso véu onde
estariam embuçados seus pais, talvez, fitando esse
horizonte rosicler, seu pensamento voasse a se encontrar
com os deles!
Não, não era isso!
Ela volvia o olhar a Deus para pedir-lhe sempre a
mesma paz de espírito, a mesma bonança em sua vida e
que o sorriso lhe brincasse eterno nos lábios purpurinos!
Quanto era misterioso esse seu pensar!
Brilhante e preclaríssima existência!!!...
De manhã, antes que a luz do sol principiasse a
irradiar nos azulados píncaros dos montes, ela, essa
virgem meiga, erguia-se de seu leito e ia tratar do
rebanhozinho!
Que quadro admirador, o ver-se a gentil pastora
acariciando suas ovelhas...
Umas deitavam-se em seu lindo colo, outras
osculavam-lhe as alvinitentes mãos, os cetinosos e louros
cabelos; outras, saltando em torno dela, pareciam dizerlhe: Olha, nós te adoramos, só tu és a nossa querida
mãe.
E ela, como que adivinhando-lhes o pensamento,
tornava a afagá-las ainda com mais ardor, com mais
doçura, como se fora uma própria mãe.
E passava horas e horas esquecidas afagando-as,
acariciando-as, conchegando-as a seu palpitante seio
num anelo suave, numa louca vertigem, enfim numa
languidez febril.
E assim corriam os anos, os meses, os dias, as
horas, os minutos, os segundos, para ela sempre de gozo,
de sorrisos lúcidos, de manhã de flores, de prazer infinito.
Depois desses puros estremecimentos, dessa
expansão de sua alma, começava a correr, a saltar como
a borboleta febril, por moitas, por vales, por lagozinhos
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 257
de prata, em busca de saudades e lírios, flores de sua
afeição.
E lá ia veloce, célere como as setas!
Como encantava vê-la assim.
Vestida de uma linda saia curta que deixava ver o
bem torneado de uma linda perna, com duas louras
tranças presas nas pontas por laços azuis que se
deslizavam por suas bem contornadas espáduas, dir-seia uma divindade.
E corria sempre com o sorriso doirando-lhe os
lábios.
Nunca lágrimas, nem uma só!...
E era assim sua vida!...
..........................................................
Um dia, ao cair da tarde, quando estava embebida
em ver, em admirar os aurifulgentes arrebóis de que se
orna a sidérea cúpula, foi surpreendida por um leve rumor
próximo à choupana; voltou-se e verificou que tivera
motivo essa surpresa.
Era um caçador que indo divertir-se por aqueles
lados e como chegasse a noite desejava ali, se acaso o
consentisse Margarida, descansar um tanto, para depois
continuar seu caminho, pois morava um pouco retirado.
Ambos saudaram-se...
Depois ele, com certa entonação de voz, dirigiulhe a palavra:
– Minha linda pastora, dá-me por alguns minutos
um agasalho em sua modesta choupana?...
Margarida, tremendo toda como um arbusto
agitado pelo vento e baixando os olhos, respondeu-lhe:
– Mas, sr., eu não o conheço, não sei quem é...
e... além disso eu...
Suspendeu-se.
– Mas, tornou-lhe o jovem, asseguro-lhe que nada
tem a temer; é que venho muito cansado e almejo mais
258 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
que tudo uma hora de repouso, para então continuar o
meu caminho.
– Pois bem, senhor, eu estou segura da sua
probidade. O senhor parece-me um belo moço; entremos.
Mesmo apesar deste elogio quem olhasse para as
faces de Margarida, vê-las-ia tornarem-se rubras e
morder de leve o lábio inferior.
Contudo, conteve-se e tímida, acanhada, levantou
o trinco da porta e abriu-a.
Entraram...
Margarida, aquela virgem infante sentou-se a um
canto trêmula.
Não sabia o que dizer.
O caçador também, por mando de Margarida,
descansara sua espingarda a um canto e sentara-se.
A pastora, conservando sempre os olhos baixos,
não se atrevia a erguê-los para se não encontrarem com
os do caçador que a fitava com ternura.
Depois de alguns instantes, este rompeu o
silêncio.
– Então, minha linda pastora, habita aqui, sozinha,
não tem receio de algum maldoso?
Ela estremeceu com esta idéia e com um leve
movimento de cabeça, respondeu:
– Não...
– Oh! Então é por que está bem guardada?
Margarida não respondeu, mas levantando-se abriu uma
portinhola e mostrou-lhe dois grandes cães que dormiam.
– Oh! belo! São guardas de respeito! Como se
chamam?
– Um chama-se Cérbero e outro Leão. E cerrou a
porta.
– Ora até que enfim falou... Vamos, diga-me quem
são seus pais?
– Não os tenho, respondeu-lhe comovida a pastora.
E aquela que vimos há pouco sorrindo e saltando
levou a mão a seu avental para enxugar uma lágrima.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 259
– É bem infeliz, tornou-lhe o caçador... diga, esta
é a sua verdadeira pátria?
– Não, respondeu-lhe Margarida, com a sua voz
meiga, o senhor é bom, é; parece-me que estou vendo
transparecer em sua alma a meiguice, a bondade! Oh! o
senhor é bom!
– Diga-me uma coisa, formosa pastora, gosta desta
vida que passa, nunca pensou em estreitar os laços do
himeneu, nunca pensou em casar-se?
Dois olhares e ao mesmo tempo dois sorrisos
encontraram-se.
Depois profundo silêncio...
– Então, não responde?
– Senhor... disse enleada, corando a pastora.
– E... nunca amou... nunca conheceu o amor?
Outra vez dois olhares trocados, mas mais
ardentes, mais vivos, mais vertiginosos.
– Então, minha encantadora pastora, nunca amou,
insistiu o caçador.
– Nunca! gemeu a pastora.
E o jovem não podendo conter mais a sua louca
paixão e o pulsar inquieto de seu coração, lançou-se-lhe
aos pés exclamando:
– Pois bem eu serei quem te ame, dar-te-ei meu
coração, consagrar-te-ei mil afetos; tu chamar-me-ás
Jorge eu direi...
– Margarida, concluiu a pastora, sorrindo-se entre
lágrimas e com uma suavidade na voz que encantava!
E depois, de repente, estacando, parando de
comoção e dizendo entre Si:
– Oh! meu Deus, e meu Futuro com ele, quem
sabe o que será!
E pendendo o rosto na mão ficou pensativa.
– Então, linda Margarida, o que tens?!
Ainda há pouco tão expansiva e agora...
Colombo. Folhetim. Desterro, 14 e 21 maio, 1881.
260 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
COMEMORAÇÃO DO SEXAGÉSIMO PRIMEIRO
ANIVERSÁRIO NATALÍCIO DE JOAQUIM GOMES DE
OLIVEIRA E PAIVA
É hoje o dia 12 de Julho, data do nascimento do
grande orador Joaquim Gomes de Oliveira e Paiva.
É preciso que o povo catarinense, animado pelo
sublime amor patriótico, revista-se de entusiasmo como
de uma inconcussa clâmide romana, em honra daquele
que tanto o engrandeceu.
É preciso que o povo catarinense erguendo-se do
fatal marasmo, são, lépido como o Lázaro da Escritura,
fazendo um esforço hercúleo, estranho, quebre os
ferruginosos grilhões que o entorpecem, exulte iluminado
pelos raios abrasadores de seu mais soberbo revérbero:
– o nome de – Oliveira e Paiva.
Já é tempo de ao menos por um dia, por uma hora,
por um segundo, deitarmos por terra o fundo
materialismo, de não cuidarmos única e precisamente
do nosso eu.
Já é tempo de não nos deixarmos embrutecer na
parva admiração de uma gorda parcela monetária, para
subirmos à luz da história, à luz dos conhecimentos
humanos, intelectuais.
Toda a moral, toda a estética, toda a pura filosofia,
deve abraçar por certo os princípios que vimos de
descrever.
Não é absorvendo o tempo em coisas fúteis
comezinhas, materiais, quando não estólidas, ridículas;
não é enervando, calcinando a alma nos desregrados
orcos terrenos dos gozos fáceis, hebetisinando a razão,
que nos fazemos homem, que nos fazemos povo.
Por Deus!... nem tanta filáucia, nem tanto
egoísmo!...
É próprio isso dos tempos antediluvianos!
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 261
Não é, repetimos, deixando passar desapercebido
o que é grande, o que é louvável, o que é justo, que
podemos dizer temos civilização.
Quem sabe se muitos julgam que a verdadeira
acepção dessa palavra está apenas nos cumprimentos
familiares, nas atenções para com as senhores, no
respeito à honra e em muito mais que nos seria fastidioso
relatar?!...
Não, mil vezes não!
Olhai a Europa; fitai o mundo exterior ou quando
não seja assim, sondai bem vossa razão que encontrareis
lá bem nas profundidades dela o completo qualificativo
de civilização.
Quem não conheceu Oliveira e Paiva, aquela
cabeça leonina onde irradiavam mil constelações de
pensamentos?!...
Quem não lhe apreciou a palavra eloqüente que
brotava de seus lábios em enormes catadupas, em
repetidos borbotões de rasgos oratórios?!...
Quem não admirou aquele todo simpático e
preclaro de uma polidez sutil a toda prova?!
Quem, por último, não conviveu com esse irmão
de Mont’Alverne, Vieira, Anchieta, Souza Caldas, Patrício
Moniz e tantos outros?...
Não há negar pois, que o povo Catarinense seria
por demais ingrato, se envolvesse no espesso manto do
olvido esse dia tão faustoso que trouxe ao mundo o grande,
o Messias querido que gravou seu nome, com letras
indeléveis, eternas, nos corações verdadeiramente
patrióticos.
Para nós que, se revolvemos o humilde e pequeno
cinerário da história, não encontramos muitos vultos
tão ilustres como o do exímio pregador Oliveira e Paiva;
não é mistério, é prova mesmo de adiantamento, de
progresso, fazer uma homenagem como a que se acaba
de preparar.
262 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Portanto deve a elite literária da sociedade
Catarinense apresentar-se garbosa, preparar seus
brilhantes discursos, suas éclogas, seus sonetos, para o
maior realce e solenidade dessa festa.
Deixamos que o Zoilo ignaro, escancarando a boca
com a gargalhada mordaz, estendendo a ponta aguçada
do estilete do sarcasmo, dos vis esgares, como um truão
imbecil, como um palhaço mazorral das praças públicas
esbraveje, raive, zurre furiosamente.
Deixemos que soltem o agourento grasno esses
esquálidos, negros e esfaimados abutres.
Deixamos que se anteponham a nossos passos
esses semicadáveres!
Para as consciências inteiramente de lama, talvez
sejam os nossos festejos encarados pelo lado do ridículo;
para os hodiernos realistas talvez pratiquemos uma
fanfarronada, é a frase admissível; mas para as
consciências imparciais, sensatas, claras, teremos feito,
se bem que em parte, o que o nosso herói merece e
lançado aos fundos alicerces de seu Panteão de glória,
uma pedrinha de bastante valor.
..................................................
Se viveras ainda, ó excelso Paiva, iríamos
pressurosos a teu gabinete de trabalho ofertar-te, hoje,
data do teu grande nascimento, mil coroas de lírios e
açucenas, vivas imagens da inocência; porém como
morreste, ou antes tropeçaste tão somente na campa,
ressurgindo à imortalidade, ousamos dedicar à tua
memória estas toscas, rudes, mas sinceras palavras.
Jornal do Comércio, Desterro, 12 jul., 1882.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 263
JULIETA DOS SANTOS
Julieta dos Santos estreou segunda-feira, 25, no
drama Georgeta, a cega. Eu achava-me lá no teatro, nessa
grande escola, maquinalmente sentado, com a cheia de
esperanças e a alma a transbordar de desejos febris,
vagos, loucos, vorazes, aguardando a ocasião de ver surgir
do palco essa embrionária terrível.
A seu tempo ergueu-se o pano e dali a instantes
apareceu em cena, dentre os bastidores, como as
sombras evocadas pelo poeta nas noites do mistério, no
céu ideal, o evoluciozinho de uma borboleta delicada,
vaporosa, sutil.
Eu acotovelei o companheiro que se achava junto
a mim e disse-lhe – emudece.
Ela começou a falar.
Sua voz levemente embaraçada, insinuante, tinha
de quando em vez umas vibrações cristalinas; seus
alvinitentes bracinhos estendidos ao longo buscavam os
tropeços que por acaso houvessem em sua passagem.
Eu, boquiaberto, estático, vezes colado à cadeira,
sentia a algidez de uma estátua de aço, às vezes como
impelido por uma mola secreta, estranha, erguia-me
insensivelmente sentindo percorrer nas fibras d’alma
uns fluidos magnéticos.
E as cenas sucediam-se cada vez mais brilhantes,
mais belas, mais expressivas.
E eu acotovelava o meu companheiro fazendo-lhe
notar ora um gesto, ora uma inflexão, ora um jogo
fisionômico dessa Favart, dessa Raquel, dessa Téssera
do futuro.
Terminou o primeiro ato sempre esplendente,
sempre ameno, sempre divino da parte da pequena
atrizinha e também de seus colegas que secundaram
mui devidamente.
264 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Passaram-se alguns momentos. A orquestra
dirigida pelo Sr. Brasilício executou uma melopéia suave.
E eu, impaciente, esperava o 2° ato.
Subiu o pano afinal!... Apareceu Georgeta sempre
cega, sempre simpática, já eletrizando-me nuns lirismos
vagos e encantadores, já sensibilizando-me nuns lances
ternos, numas queixas repassadas de langor, nuns quês
finalmente impassíveis e solenes.
Oh! mas quando ela recupera a luz, quando se
abisma na contemplação dos objetos, das flores, quando
se aproxima do espelho e tem ante ele aquela cena
inimitável, aquela luta gigante como a da treva com o
clarão, como a do possível com o impossível, como a da
matéria com o espírito eu, por Deus, senti em meu
cérebro uma revolução como que um cataclismo moral.
Terminou o drama e eu maravilhado, emudecido,
sentia-me preso à cadeira por uma atração irresistível.
Oh! quanto prende, quanto arrasta essa criação
fenomenal!... Gênio, eu te saúdo, porque tu tens o dom
de animar as almas de gelo, as organizações de pedra,
como Fídias as suas criações esculturais, como Rafael
a sua Fornarina.
Tu inspiras, tu suplantas, tu avassalas.
Trabalhastes na – Georgeta, a cega – e no entretanto
encheste de luz!!...
O Caixeiro, Desterro, 31 dez., 1992.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 265
A MUSA MODERNA
(Versos de Damasceno Vieira)
O sr. Damasceno Vieira, no pródromo sintético
da sua obra, fundamenta umas teorias didáticas que
não acentua bem, de modo claro e filosófico.
Desde o batismo do seu trabalho Musa Moderna
encontra-se analiticamente, observadamente uma falta
de coerência, de concatenação lógica com as idéias
expendidas na substância do livro.
S.S. mesmo diz:
“Para dar a medida exata de seu tempo –
preocupação de todo artista superior – cumpre ao poeta
identificar-se com as aspirações do século nas suas idéias
filosóficas, nos seus gigantescos impulsos de progresso,
na sua veemente paixão pela liberdade.”
Ora, S.S. admira Guerra Junqueiro e quase não
admite Jean Richepin, quando, segundo a minha opinião,
foi na Chanson des Gueux que aquele poeta bebeu a maior
luz da inspiração para o seu último poema.
A fim de atestar, ampliar mais sensatamente o
seu modo de ver as coisas, S.S. cita algumas palavras
de Ramalho Ortigão, desse escritor tão reputado e tão
querido, mas que embora a sua nomeada, a sua
consideração européia, não suponho, estudadamente
visto, digno de uma crítica séria sobre poesia.
Não devemos receber a luz porque ela venha dc
alto, do mais alto píncaro das serras elevadas.
Não!...
Irrompa ela da sombra, mas seja uma luz clara,
franca, espontânea.
Venha ela das anfractuosidades das minas, das
gargantas das fornalhas, dos brasidos do carvão – mas
seja luz.
Para se compreender as vantagens da nova
literatura, em todas as fases, é preciso ter as bossas
266 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
intelectivas desenvolvidas na altura dessas mesmas
vantagens.
O poeta de hoje é o reformador, o inspirado, o
revolucionário.
São os três elementos constitutivos do poeta.
Dizendo-se revolucionário, compreende-se que
poeta seja artista inteiro, completo.
Se a arte caminha ao lado das revoluções do
espírito, não se admitirá por certo revolução sem arte.
Ora, o sr. Damasceno que bate os linfáticos da
Musa, aqueles que não têm pulmões nem sangue para
os entusiasmos decentes, para as concepções grandes
e fortes, abre o seu livro ainda com versos sem rima,
solto como se diz, quando a rima, natural, precisa,
verossímil é a cintilação prismática, a eufonia
dulçorosíssirna do verso; quando os melhores poetas da
península e mesmo os novos brasileiros têm essa
preocupação que é também um dos esmaltes mais
delicados e bonitos da forma.
Daí, S.S. continua no emprego estafado das
décimas e oitavas francesas, pesadas, retumbantes pela
sua factura pelo seu modo arrogante de exprimir o
pensamento.
Os poetas devem conhecer, para o complemento
da arte, a maneira de distribuir os tons a fim de que as
consoantes aglomeradas, empacadas não esporeiem o
ouvido do leitor; colocar esteticamente os agudos, os
graves e esdrúxulos – dispor muito concisamente o
colorido da inspiração vibrante, altívola, sangüínea.
Os poetas – essa boemia de ouro, essa borboleta
azul que muitas vezes se queima na sua própria luz,
quanto a mim devem arrojar-se mais e mais nas asas
da fantasia a águia do infinito das idéias – devem ter os
vôos desesperados, as cóleras supremas, o humorismo
doido, as gargalhadas estrepitosas do mar, rugir como o
leão e arrulhar como a pomba, ter a fulguração
escaldante do sol e a sua suavidade consoladora do luar.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 267
Não há poesia onde não houver fôlego, sentimento,
paixão pela natureza sempre farta de assuntos para os
espíritos empreendedores.
Não há poesia onde houver convenção, onde a
espontaneidade e a fé individual do cantor não se revelem
com força.
O sr. Damasceno bem sabe quais são as armas
combate, mas não usa delas, talvez por uma religiosidade
pacata aos seus escrúpulos literários.
O sr. Damasceno Vieira é por vezes fraco nos seus
ideais, nas suas imagens e comparações.
O seu espírito não conserva na Musa Moderna a
nota nervosa do sentimento, os rasgos apaixonados da
razão.
Não há na sua poesia uma fluência agradável que
force a ler-se o livro até o fim, na melhor disposição de
gosto; vai-se tropeçando a cada passo com versos soltos,
com uns nomes próprios, de uns heróis da guerra, como
espantalhos da civilização, introduzidos nas estrofes,
dando-lhes uma gravidade pesada, pouco artística e
poética.
E além disso a originalidade, a primeira qualidade
do homem moderno, não é com certeza a lei do
distinguido escritor.
S.S. canta a escola, as oficinas, o trabalho, o
progresso com tintas nada originais e boas.
A verdadeira centelha da arte, o fogo, a robustez,
o pulso, como disse Edmundo de Amicis, tratando de
Zola, não são circunstâncias às quais o sr. Damasceno
ligue muito séria importância.
Achará que isto são tropos de estilo, são
esmiuçamentos de crítica.
Mas nem nos propusemos a escrever uma crítica
sobre o seu livro; unicamente como S.S. não é
positivamente um calouro da literatura, mas uma
inteligência que tem produzido diferentes frutos, nos
certames da idéia, é preciso, que pelo menos os que
268 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
cuidam de letras, autopsiem franca e lealmente, com a
dignidade superior de confrades, os trabalhos que vão à
luz da publicidade.
E demais S.S. teve a delicadeza de remeter, com
dedicatória especial e bastante lisonjeira, a Virgílio
Várzea, Santos Lostada e à minha humílima
individualidade, a sua Musa Moderna.
Nasce, portanto, desse atestado despretensioso
de simpatia – esta ligeira análise da obra.
Não diria coisa alguma sobre ela, se a achasse
fora dos trâmites da crítica e dos limites do senso.
Há nela, em todo o caso, cunho de talento, mas
não rijeza firme de idéias.
Não existe homogeneidade na sua observação,
complexidade no seu raciocínio.
O seu espírito não tem nem aquela facilidade
dúctil, nem aqueles atrevimentos razoáveis e admissíveis
do poeta.
É possível que se encontre sinceridade nas suas
doutrinas mas para os outros, porque S.S. não professa
as doutrinas que expõe.
Fala de progresso, de arte, de evolução, apresentanos os seus dados filosóficos e – apoteosifica, endeusa
as guerras, porque endeusa os seus heróis.
Quando hoje, na vanguarda triunfante do
evolucionismo, não pode, não deve seguir a guerra, senão
como um escarro de sangue atirado à face da luz.
Porque é preciso não confundir evolucionismo com
moda.
Há espíritos alheios de intuição, da percepção clara
das coisas, que, dizendo-se modernos, evolucionistas,
adiantados – não estudam profundamente a organização
desse vocábulo.
E Evolucionismo é a direção racional que tomam
todos os cérebros, ante os fenômenos patológicos,
psicológicos e fisiológicos é a fonte elementar onde se
bebem todos os princípios da verdade, toda a sua saúde
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 269
do pensamento; o Evolucionismo é que nos apresenta as
causas primordiais do existir, as transformações da
matéria, os necessários terremotos do Cosmos universal.
É pelo Evolucionismo que o homem compreende,
vê, sabe, conhece os poderes que tem para olhar, para
ouvir, para pensar.
Com o Evolucionismo é que o homem se apodera
dos direitos da sua animalidade – alargando, estendendo
os conhecimentos diversos.
É no Evolucionismo que pairam todas as crenças
robustas desta humanidade pensadora, que trabalha
para a educação de todas as consciências que ainda
não entenderam o seu lugar sobre a terra.
Dentro pois do Evolucionismo, em toda a sua
acepção, deve girar a esperança do poeta, como um
pêndulo enorme, oscilando de entre a curvidade azulada
dos espaços amplíssimos.
Nestas horas em que a civilização vai rasgando
todos os horizontes compactos de treva, não há meios
termos, ou o escritor se adapta à sua época ou morre –
ou tem músculos para galgar a montanha de verdade
filosófica ou estaciona pelas estradas das quimeras e
das dúvidas que não guiam, mas adoecem profundamente
os crânios.
Para se rasgar a crosta do anônimo, é preciso
cotovelos de bronze, escreveu alguém, isso.
E o sr. Damasceno Vieira, já não está do lado do
anônimo...
Mais um esforço sobre si mesmo e estará do lado
justo da verdade.
O seu livro não é um – Grito de Guerra.
É um clamor que não se sabe bem de que trombeta
foi saído.
Não se pode analisar, de boa atitude, a escala e
os sons.
A Musa Moderna – segundo a sua estrutura, a sua
essência, não é um livro que possa atravessar futuros e
270 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
entrar no conclave dos poetas da musa incontestavelmente moderna.
O sr. Damasceno Vieira que encaminhe o seu
espírito por outras veredas, que atravessa a floresta da
existência... intelectual, como um leão e que sinta em
si o bronze inabalável da coragem, na frase de Guerra
Junqueiro, a encouraçar-lhe o peito das suas convicções.
Regeneração, Desterro, 9, 10 e 11 jun., 1885.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 271
MANHÃ NO CAMPO
A Eliseu Guilherme
Quase manhã.
Vagos bocejos de vida, ainda, nas compriduras
verdes dos campos.
A natureza estremunha.
Uma pessoa como que tem ímpetos de sorver o ar
fresco que paira sobre as coisas, de infiltrar nos pulmões
largas baforadas de oxigênio.
Bebe-se o leite quente das cabras monteses e
peraltas, que andam a saltar as cercas tufadas de
jasmins e rosas agrestes, para as várzeas distantes.
Os bois saem das manjedouras na silenciosidade
dos túmulos.
Mugem, mais além, desconsoladoramente.
É que vão para a cidade.
As fontes estão como se alguém se lembrasse de
espalhar um punhado de sombras, por elas.
Sente-se apenas a cristalinidade, o som metálico
de seus veios fartos.
O lavrador acorda para o plantio, revolvendo,
aradeando a terra, como quem prepara um ventre para
a fecundação animal.
Rompem do chão a vitalidade saudável e o frescor
que a seiva introduz nos vegetais.
Para longe, nos sítios afastados, os galos, como
sentinelas, dialogam monótonos alertas, cantaroladoramente.
Nos firmamentos altos e longos, baralha-se uma
confusão de cores.
Ora um amarelo-gema de ovo, claro, vai morrer
num sulfurino vivo; uns chamalotes de prata, muito alva
e nítida, perdem-se num roxo-violeta; cintilações
rosadas unificam-se a escumilhas com tonalidades de
chumbo; um azul-ferrete limpo, amalgama-se ao
escarlate vibrante, que parece cantar.
272 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Como que se sente o cheiro ativo e o gosto dos
coloridos.
E o sol, como uma cobiça de ouro, como o fruto do
Bem procriador, lá vem vindo, na vermelhidão do fogo
das coivaras, atrás dos reposteiros pardos da montanha,
que agora rasgam-se...
Regeneração, 12 jul., 1885.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 273
UMA LENDA
Ao sr. M. das Oliveiras Margarida
É uma lenda fantástica, a vida dos imigrantes da
luz.
Eu conheço uma dessas compleições, batida pelos
ventos desordenados de um milhão de desgraças,
estrangulada pelo guante fatal de indiferenças atrozes
e que, como todo o boêmio do Ideal dourado, sente cantar
dentro de si a balada saudosa, estribilhada de esperanças
e de crenças, metido numa tebaida de asceta, tendo,
talvez, uma gargalhada de Polichinelo, para a sociedade
que passa, tilintando os guizos da loucura e do prazer.
E, pela calada harmônica da tarde, quando o céu
profundamente azulado parece uma turquesa enorme;
quando a natureza veste a escumilha finíssima do
crepúsculo, cortado pelas badaladas melancólicas da AveMaria, ele passa, com o seu tronco curvado, barba de
profeta antigo, as mãos fartas de rosas, caminho direito
ao cemitério, na atitude calma e triste de quem se quer
remontar pelo pensamento, a algum passado mavioso e
bom, fico cismando porque é que a terra criadora não
lhe introduziu, não lhe infiltrou nos poros, toda aquela
mocidade castíssima e doce das filhas, cuja campa ele
vai sempre cobrir de flores e de lágrimas?!
Por que a seiva exuberante, do que é novo e forte,
não pode emprestar vida aos organismos velhos e
magoados?!
Por que todo o sangue fecundo dos corpos há de
apenas fortalecer os nervos e os músculos das plantas,
dar o grão germinativo à saúde dos vegetais?!...
Ah! Daudet, Daudet!...
Tens razão em deplorar a morte das fadas!...
Se existissem fadas, eu lhes pediria um palácio
de ouro, com escadarias de marfim, portas de esmeraldas
e safiras, iluminado por cem sóis representando lustres,
guardado por mil fortalezas de bronze, onde habitasse,
numa irradiação de estrelas, essa outra fada olímpica –
a mocidade.
O Moleque, Desterro, 2 ago., 1885.
274 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
A ROMARIA DA TRINDADE
Tradicionalismo é a filosofia do povo e faz acordar
em nossas almas, como o eco de uma balada longínqua
e saudosa, perdida na distância azul dos montes cobertos
de neblina, tudo o que viveu de esperanças, tudo o que
viveu de sonhos e felicidades.
Esta romaria que se faz à Trindade é tradicional
e festiva.
A certa hora do dia, começa a afluir gente:
carroças de molas perras e gastas, enfeitadas de
fazendas de cores vibrantes e fortes onde sobressai o
escarlate, com grandes penachos coloridos de flores e
fitas, radiantes de bandeirolas, conduzindo dentro toda
uma rapaziada ávida de troça, de pândega, gargalhando
alto no ar calmo e iluminado o seu bom humor de
romaristas, cascaquinando ditos, numa algazarra franca
de consciências despreocupadas e jovens, aos estridentes
sons metálicos da banda fanfarrona que atira os seus
agudos de requinta e os seus abertos e rasgados de
trombone pela estrada adiante.
Simpáticas amazonas nos seus cavalos mansos e
dóceis, como convém ao sexo, deixando ondular aos
ventos o véu azul e roxo e branco e verde dos seus
chapelitos altos, cartolados, pretos, dando-lhes,
colocados na cabeça gentil e estética, uma aparência
de cavaleiras fantásticas do ideal indo à romaria da moda
e da elegância.
Depois, já na Trindade, uma aglomeração ruidosa
do povo, de todo o colorido e de toda a casta, como uma
aquarela imensurável feita a largos traços quentes de
verde-paris, de amarelo e de uma grande porção de
borrões estirados e grossos de tinta encarnada. Ao ar
livre, ou debaixo das laranjeiras cobertas de fruto que
os raios do sol um tanto já perpendiculares mais
enlourecem e douram, ou nas barracas de lona e de
aniagem, nas velhas barracas tradicionais, come-se à
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 275
fartela, numa deglutição furiosa, bebendo-lhe em cima
um péssimo vinho picante temperado a pão campeche e
a cana miúda, o belo farnel querido que se leva em
cabazes ou acondicionado nas maxam-bombas ou no charà-bancs: o farnel crônico e frugal da galinha assada, da
mortadela, da sardinha e do aperitivo lombo de porco,
tostado e porejando gordura.
A seu tempo, os sinos bimbalhantes vibram no ar,
abrindo naquela atmosfera de festa e de rumor, um vivo
clarão de alegria, e os foguetes estourantes e
estrepitosos, com a marcha brava e pomposa da música,
põem em tudo aquilo espalhafatosos e murmúrios, como
o eterno zumbir de cem colméias trabalhadoras e amigas.
Então, numa gala de púrpura e de arminho, saem
da igreja, S.M. infantis e ingênuas, num sorriso feliz de
crianças festejadas, comendo as balas ou as massas,
em forma de boizinhos e bonecas, que a boa mamãe ou o
festeiro lhes trouxera todo expansivo e contente. Dá-se
por concluída a festa da igreja e, no mesmo instante,
vêem-se grupos que altercam, indivíduos e avinhados e
congestos que questionam, que gritam, fazendo estourar
murros sobre as pequenas mesas toscas das barracas,
alvoroçando a polícia que apita e chega sempre tarde e
as cavalgaduras que rincham e dão pinotes correndo
algumas à rédea solta pela planura relvosa do adro.
Mais tarde, ao descambamento lento do dia, o
regresso à cidade, em grupos, aos pares, trôpegos,
cansados e frouxos como quem vem em debandada,
carregados, mulheres e homens, de laranjas, de canas,
de flores, de preguiça, e de tédio da viagem que deixa
de ter agora toda a satisfação e todo o prazer, por se ter
já acabado toda a graça e todo o contentamento que a
gente sente ver acabar no domingo pachorrento e
tranqüilo como um domingo de Páscoa.
Regeneração, 5 jun., 1887.
276 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
O ABOLICIONISMO
A ação que o Abolicionismo tem tomado nesta
capital é profundamente significativa. Nem podia ser
menos franca e menos sincera a adesão de todos a esta
idéia soberana, à vista dos protestos da razão humana,
do patriotismo e do caráter nacional ante tão bárbara e
absurda instituição – a do escravismo.
A onda negra dos escravocratas tem de ceder lugar
à onda branca, à onda de luz que vem descendo,
descendo, como catadupa de sol, dos altos cumes da
idéia, preparando a pátria para uma organização futura
mais real e menos vergonhosa. Porque é preciso saberse, em antes de se ter uma razão errada das coisas,
que o Abolicionismo não discute pessoas, não discute
indivíduos nem interesses; discute princípios, discute
coletividade, discute fins gerais.
Não vai unicamente pôr-se a favor do escravo pela
sua posição tristemente humilde e acobardada pelos
grandes e pelos maus, mas também pelas causas morais
que o seu individualismo traz à sociedade brasileira,
atrasando-a e conspurcando-a.
Não se liberta o escravo por pose, por chiquismo,
para que pareça a gente brasileira elegante e graciosa
ante as nações disciplinadas e cultas. Não se
compreendendo, nem se adaptando ao meio humanista
a palavra escravo, não se adapta nem se compreende da
mesma forma a palavra senhor.
Tanto tem esta de absurda, de inconveniente, de
criminosa, como aquela.
Se a humanidade do passado por uma falsa com
preensão dos direitos lógicos e naturais, considerou que
podia apoderar-se de um indivíduo qualquer e escravizálo, compete-nos a nós, a nós que somos um povo em via
de formação, sem orientação e sem caráter particular
de ordem social, compete-nos a nós, dizíamos, fazer
desaparecer esse erro, esse absurdo, esse crime.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 277
Não se pense que com a libertação do escravo,
virá o estado de desorganização, de desmembramento
no corpo ainda não unitário do país.
Em toda a revolução, ou preparação de terreno
para um progredimento seguro, em todo o
desenvolvimento regulado de um sistema filosófico ou
político tem de haver certamente, razoáveis choques,
necessários desequilíbrios, do mesmo modo que pelas
constantes revoluções do solo, pelos cataclismos pelos
fenômenos meteorológicos, descobrem-se terrenos
desconhecidos, minerais preciosos, astros e constelações
novas. O desequilíbrio ou o choque que houver não pode
ser provadamente sensível, fatal para a nação. Às forças
governistas compete firmar a existência do trabalho do
homem tornado repentinamente livre, criando métodos
intuitivos e práticos de ensino primário, colônias rurais,
estabelecimentos fabris, etc..
A Escravidão recua, o Abolicionismo avança, mas
avança seguro, convicto, como uma idéia, como um
princípio, como uma utilidade. Até agora o maior poder
do Brasil tem sido o braço escravo: dele é que partem a
manutenção e a sustentação dos indivíduos de pais
dinheirosos; com o suor escravo é que se fazem
deputados, conselheiros, ministros, chefes de Estado.
Por isso no país não há indústria, não há índole de vida
prática social, não há artes.
Os senhores filhos de fazendeiros não querem ser
lavradores, nem artífices, nem operários, nem músicos,
nem pintores, nem escultores, nem botânicos, nem
floricultores, nem desenhistas, nem arquitetos, nem
construtores, porque estão na vida farta e fácil,
sustentada e amparada pelo escravo dos pais, que lhes
enche a bolsa, que os manda para as escolas e para as
academias.
De sorte que, se muitas vezes esses filhos têm
vocação para uma arte que lhes seja nobre, que os
engrandeça mais do que um diploma oficial, são obrigados
278 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
a doutorarem-se porque se lhes diz que isso não custa e
que poderão, tendo o título, ganhar mais facilmente e
até sem merecimento, posições muito elevadas; e mesmo
porque, ser artista, ser arquiteto, ser industrial, etc., é
uma coisa que, no pensar acanhado dos escravocratas,
dos retrógrados e dos egoístas, não fica bem a um nhonhô
nascido e criado no conforto, no bem-estar no gozo
material da moeda dada pelo braço escravo.
Regeneração, Desterro, 22 jun., 1887.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 279
GEMA CUNIBERTI
Esta grande atrizinha, que por toda a parte foi
muito admirada, deixou o teatro e reside em Turim, onde
seus pais a fazem estudar literatura.
A inteligente menina tem surpreendido os seus
mestres com os progressos que vai fazendo, revelandose já uma poetisa de estro elevado.
A princípio custou-lhe a abandonar a cena, mas
hoje raras vezes vai a espetáculos e dedica-se aos estudos
com tanto aproveitamento, que tornam-se
extraordinárias a sua intuição e o seu talento precoce.
Regeneração, Desterro, 20 jul., 1887.
280 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
A NOITE DE SÃO JOÃO
Nunca o meu provinciano peito de artista vibrou
mais forte, mais rijo e mais fremente do que vibra nessas
deliciosas festas populares onde a minha infância acorda,
canta e sonha feliz.
Tão belos, tão expressivos e harmoniosos são esses
festejos, que o cérebro se incendeia dos lumes navios
da imaginação para desenhá-los, para pintá-los a largos
traços comovidos, sinceros e quentes como o vivo clarão
de amor que eles trazem às coisas adormecidas e mortas
nas recordações passadas.
Oh! que painel aí se desenrola, na frente dos
nossos olhos, cheio de meiga ternura do tempo que
passou que não volta mais!
É num terraço, numa praia ou num pedaço de rua
que se passam estas cenas de costumes, estes episódios
característicos que afagam a nossa memória.
Desceu a noite já. Faz um luar que dá gosto. Oh!
como a lua é lírica no Azul!
As verduras pulverizadas de luz, escorrendo prata
líquida, numa crua irradiação branca, reluzem com a
nitidez e o brilho dos alvos blocos de mármore.
Para lá da terra firme, além de uma curta divisa
de mar manso navegável em canoas, num ponto que os
olhos distinguem claramente bem, uma aragem fresca,
leve, como um sopro musical de flauta campestre, afia
nos canaviais viçosos que se agitam branda e
suavemente.
Porém na rua umas vozes contentes e sonoras
gritam cheias de mocidade e frescura: Olá! João, anda
cá; vamos às canas. Pague! Pague! Hoje é o seu dia.
Viva S. João! Viva S. João.
E o João, um rapaz que passara ali assobiando,
jovial e franco, ria alegria da sua alma chã, entra numa
venda, paga vinho, um rico vinho cor de topázio bebido
entre a algazarra dos companheiros e os entusiasmos
bruscos e metálicos do homem da onda que faz tinir os
cobres, todo risonho, na gaveta do balcão.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 281
E as canas, João, e as canas, repetem as vozes.
E o João paga de novo, e de novo a algazarra cresce,
os vivas, as aclamações, os prazeres que estouram nas
almas desses bons rapazes, como as bichas e os buscapés ziguezagueantes que eles soltam em pândega, nos
largos, no meio de muita gente reunida, dispersando
tudo, entre galhofas e risadas.
Mas a noite de S. João dobra de encantos e de
enlevos.
Agora as rubras fogueiras crepitantes estendem
a sua ardente chama loura e alegre na frente das casas;
agora a rapaziada – crianças saltam as fogueiras, velhos
sentados ao redor delas contam uns aos outros
interessantes histórias de bruxa e de alma do outro
mundo, aquecendo-se do frio da noite e fazendo às vezes
ressoar no claro ar sereno a nota cristalina de uma
cantiga de ritmo ameníssimo e simples, com o motivo da
festa, tremida e repenicada na voz misteriosa e cheia
de saudades amadas.
Então! olha essas batatas que saiam – gritam cá
de fora para o interior da casa. O fogo está bom. Venha
isso. Maria traz as batatas e as canas, traz também o
aipim. Vamos assar. Êta diabo! O fogo está mesmo bom,
está pedindo coisa. Então. Venha isso!
De repente alguém exclama: Vamos ao terço do
seu João da passagem; principia às oito, são sete. Hoje
há lá forrobodó, há comes e bebes, vai orquestra. Vamos!
E vão-se todos ao terço do seu João da passagem.
Aí há muita gente, a sala parece um ovo, diz uma
rapariga; e, no centro de um altar armado em dossel,
esplandecente de luzes, de alfaias, de jarras azuis e de
flores, o S. João Batista todo imaculado e tranqüilo,
satisfeito e sorridente, com o seu rosto roliço e doce,
gordo e macio, destaca de um quadro em moldura
dourada, em estampa, do fundo de um nimbo cinzento,
muito colorido e crespo, com uma tanga escarlate,
abraçado com o cordeiro divino que olha para a gente
com os seus olhos irracionais e pequeninos pleno de
docilidade, de mansidão e de paz.
282 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Então a dona da casa, a sinha Jacinta que vem lá
de dentro toda redonda, como uma roda de fogo, de saias
engomadas, de babados e de tufos, diz que o terço vai
começar.
Aí um capelão prosa e pernóstico põe todo o seu
saber sacerdotal à vista dos devotos e ingresa um latino
onde há muito orum, retumbado, cantarolado e
pavonesco, numa melopéia fúnebre.
Depois a rapaziada cai na patusca arrastação de
pés, e dança, gingada e requebrada, ao som da orquestra
que fere as polcas do Calado e as quadrilhas do Mesquita,
de uma melodia delicada, original e vibrante, cheia de
guizos, como uma partitura de Offenbach ou de Souppé.
No intervalo das contradanças bebe-se Carlsberg
e comem-se os belos bombocados saborosos que cocegam
aperitivamente o céu da boca, e as brancas e rosadas
cocadas em forma de estrela que lembram a Bahia tal é
o paladar do coco de que elas são feitas.
No meio disso, tiram-se sortes; uma espécie de
consulta ao destino: para a gente saber se morrerá cedo
ou tarde, se casará, terá este ou aquele desejo, etc..
Divertimento esse que dá às pessoas que nele tomam
parte um contentamento e uma felicidade luminosa que
escorrem nas fisionomias como um óleo celeste de
esperança e de fé remoçando e fortalecendo a velhice e
consolando e abençoando a todos.
No fim desse passatempo agradável e das últimas
contradanças de grandes e frenéticos galopes
entusiásticos, todo o mundo volta para as suas casas,
bastante tarde, no silêncio da noite já sem lua, mas
estrelada e bonita, de um amarelado tom de madrugada
cor de limão sem mais ruído notável de prazer; apenas
animada por um ou outro foguete tardio, que, ao longe,
aqui e ali, como esquecido elemento da festa, ou como
um indiferente conviva que chega tarde, estala, e brilha
no ar saudosamente.
Regeneração, 18 set., 1887.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 283
ENTRE CIPRESTES
(No dia de finados)
Viva a morte! Aqui estão sob estes ciprestes, nas
geladas criptas sombrias dos vermes, as mulheres louras,
esses pálidos luares de neve que deliciam; as mulheres
morenas esses ardentes sóis tropicais que matam. Aqui
estão. Quanta vez, nas lagoas brancas da alma delas a
alva-garça do sonho não vagueou e rufou as asas. Quanta
vez, as vermelhas rosas da quimera, como flores de
aurora, não perfumaram a religiosa eucaristia mística
do seu coração? Quanta vez? E agora? Agora aquelas
esperanças não florescem nem abrem mais os lírios
puríssimos daqueles olhos não recenderão mais de
aromas imaculados e doces, não estrelarão mais de
afetos o céu agora vazio da existência de muitos homens.
Tudo acabou, tudo gelou desapiedadamente nesta crua
treva da terra, aqui, lá embaixo, no profundo Nirvana
para onde se desce hirto, de dentes cerrados, num
resfriamento material que dói.
Foi-se tudo nestas paragens da eterna noite
incoercível, entre estes ciprestes que grasnam o pulvis
est no tremendo repouso lúgubre dos mochos: Viva a
Morte! Viva a Morte! e que vai ecoando funebremente.
E além, sob os chorões desgrenhados como
imensas cabeleiras verdes, estende-se a galeria dos
mortos de luxo, belos mortos aristocratas cheios de anéis
nos dedos e reluzentes crachás no peito: príncipes,
cavalheiros da legião de honra, e duques, que ostentam
os seus pomposos exílios mortuários onde se exilaram
para sempre vindos do país da vida, entre lágrimas
ignorados desmentidos em jornais comunistas e
demagógicos, desses que gritam contra o conforto e a
suprema felicidade dos reis que as mais das vezes andam
errantes e loucos de tédio e de dor nas imponências da
corte enquanto lá fora, nas praças, o populacho se
284 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
alvoroça e exalta fazendo ressoar nas pedras de pátios
de palácios os seus grossos sapatos revolucionários.
E os mochos repetem: Viva a morte! Viva a morte!
E a galeria dos mortos continua: Cá estão as mães
sofredoras, as mães que choraram, que gemeram, que
soluçaram, que endoideceram de amor de pesar na
existência dos filhos; e cá estão também os filhos homens
uns, já responsáveis da vida; com a idade da luta,
esboroados de sofrimentos, martirizados até o desespero;
crianças outros, como botões de rosas em antes de abrir,
como beijos que petrificaram tão cedo, tão de madrugada,
tão nos translucidamente e na inefável paz da quermesse
da vida infantil na qual os sorrisos são as jóias
preciosíssimas, as delicadas prendas adoráveis e
estremecidas.
Mas, viva Deus! a este soturno e convulso chorar
de mágoas e de saudades dos ciprestes esguios
respondem ainda assim, vitoriosamente, como um clarim
de batalha, as rosas que rebentam como corações
perfumados pelos aromas do céu, as vermelhas rosas
que ao menos cantam nestas regiões tristes a canção
alegre do sangue que lembra a vida, a vida escorrendo
em grandes borbotões do fogo enorme do sol e da seiva
profunda das árvores. Viva Deus!
Regeneração, Desterro, 19 nov., 1887.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 285
A VIDA NAS PRAIAS
Ah! a vida nas praias! a vida nas praias!
Pela manhã a claridade esterificada e igual que
aveludece as perspectivas convida-nos aos belos passeios
pitorescos sobre a areia clara das praias – passeios que
têm tanto de artístico como de científico. Artístico porque
nos dão a firmeza da linha estética na imaginação que
recorda viagens sobre os mares calmos, horizontes novos;
largos jorros de vida saudável e de frescura matinal nas
toldas de navios transatlânticos, quando em antes do
almoço de bordo se estuda e se observa a binóculo os
pontos afastados da natureza que se iluminam pouco a
pouco com o dia. Científico porque se estuda também
um modo prático, intuitivo e gracioso de insuflar azoto
no sangue, de tornar temperada a extravagante
temperatura do corpo, de oxigenar o cérebro cujo fósforo
se acende de aticismo e de bom humor.
A vida nas praias é uma espécie de educação física
dos nervos que ginasticam e ficam preparados para todas
as evoluções musculares que dão à rijeza das formas
essa aparência da fortaleza seivosa dos troncos das
árvores. E as ondas do mar esfarelando-se numa
espumarada branca de champagne ao longo das praias,
têm o ingênuo ar de candidez do desenho d’A Natividade,
de Wagrez, sob uma nítida gravura de Baude. E os
temperamentos ásperos e montanhos como que se
docilizam, como que se amaciam, recebendo as
emanações de saúde e força vital que as marés lhes
infiltram, enquanto que as epidermes anêmicas,
mordidas pela clorose enervante das grandes paixões
que gelaram, tornam-se sangüíneas, tomam cor, da
mesma forma que o fruto amadurece e se ruboriza aos
ardentes clarões solares.
O sentimento vegetal que vem da existência
passada em prados, entre searas e campos agrícolas,
286 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
tem um quê de correlativo e harmônico com a vida nas
praias.
Há em ambas as vidas uma completa afinação de
detalhes, o mesmo tom geral quase.
A vida nas praias é a vida na natureza livre, no
vastíssimo lar de todos nós, cujo teto azul, lá no alto, se
arredonda côncavo sobre as nossas cabeças. A vida
vegetal, a vida dos prados, das searas e dos campos
agrícolas, é a vida primitiva, a vida livre também, a vida
pagã, a vida das vinhas carregadas de uvas maduras e
saborosas, como de ametistas, a vida dos primeiros
israelitas que iam ao morrer abrir e armar as tendas
floridas das suas almas nuas e chãs no dourado território
da glória eterna onde uma aluvião de pombinhos alvos,
emissários do Espírito Santo, os havia de receber e
arrulhar em redor das suas frontes venerandas coroadas
e sagradas pelo resplendor dos cabelos brancos.
E, por um desses dias que amanhecem enevoados,
cerrados dos reposteiros das neblinas, e que depois
surgem resplandecentes, vertiginosos de sol, com um
azul muito intenso brunido no céu; num desses dias
que parecem emergidos de um banho de ouro fluido, dá
um consolo e uma satisfação tamanha passear à beira
das praias, com os altos sossegos da voz, contemplando
o efeito ridente e sereno da marinha quando na láctea
transparência casta do ar voam as aves em circumevoluções pela paisagem toda e que a gente as segue
demoradamente com a vista; lembrando-se de viajar
assim com elas, de prender nas suas asas a alma com a
fita verde da esperança uma vez que não pode prender o
corpo pesado de chumbo que mais tarde a terra há de
achar tão leve como uma pena destruindo-o sem esforços
nem piedade.
E o nosso espírito artístico, batido pelas
impetuosidades higiênicas das aragens frescas do mar,
sente-se rejuvenescido, vitalizado, num renascimento
e numa eflorescência de rosas brancas, como um viajante
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 287
eletrizado no forte ambiente de luz de uma purpureada
aurora dos trópicos.
Pela exuberância da cor e pela placidez da hora
matinal a vida nas praias identifica-se com o sistema
nervoso, aplica às espontâneas e disciplinadas
organizações literárias uma ducha salutar de verve e
de crítica – dessa crítica e dessa verve que nasce da
tenra retina e da idéia muito passeada pelo grandioso
panorama da natureza, sob uma rigorosa lente de
observação e de análise em ordem.
E, quando chegam as ameníssimas tardes
enriquecidas pelas acesas e flamejantes pedrarias do
ocaso, e que o tênue filó das nuvens leves e volantes se
rarefaz e se adelgaça, é agradável, à viva percepção dos
sentidos, é doce à delicadeza material do olfato e dos
olhos ver passar para o banho as mulheres cor de jambo
e cor de pérola, cujos perfis, movendo-se em flexões
suaves e balanceadas, lá se vão mergulhar na onda clara,
surgindo delas frescos, palpitantes e macios como a
carne polposa, rosada e tenra das crianças cheirosas de
vida e babadas do leite suspensas ao colo protetor e tépido
das mães.
Regeneração, 20 nov., 1887.
Missal
290 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
ORAÇÃO AO SOL
Sol, rei astral, deus dos sidéreos Azuis, que fazes
cantar de luz os prados verdes, cantar as águas! Sol
imortal, pagão, que simbolizas a Vida, a Fecundidade!
Luminoso sangue original que alimentas o pulmão da
Terra, o seio virgem da Natureza! Lá do alto zimbório
catedralesco de onde refulges e triunfas, ouve esta
Oração que te consagro neste branco Missal da excelsa
Religião da Arte, esmaltado no marfim ebúrneo das
iluminuras do Pensamento.
Permite que um instante repouse na calma das
Idéias, concentre cultualmente o Espírito, como no
recolhido silêncio de igrejas góticas, e deixe lá fora, no
rumor do mundo, o tropel infernal dos homens
ferozmente rugindo e bramando sob a cerrada metralha
acesa das formidandas paixões sangrentas.
Concede, Sol, que os manipanços não possam,
grotescamente, chatos e rombos, com grimaces e gestos
ignóbeis, imperar sobre mim; e que nem mesmo os Papas,
que têm à cabeça as veneráveis orelhas e os chavelhos
da Infalibilidade, para aqui não venham, com solene
aspecto abençoador, babar sobre estas páginas os
clássicos latins pulverulentos, as teorias abstrusas, as
regras fósseis, os princípios batráquios, as leis de Crítica
megatério.
E faz igualmente, Sultão dos espaços, com que os
argumentos duros, broncos, tortos não sejam
arremessados à larga contra o meu cérebro como
incisivas pedradas fortes.
Livra-me tu, Luz eternal, desses argumentos
coléricos, atrabiliários, como que feitos à maneira de
armas bárbaras, terríveis, para matar javalis e leões
nas selvas africanas.
Dá que eu não ouça jamais, nunca mais! a
miraculosa caixa de música dos discursos formidáveis!
E que eu ria, ria – ria simbolicamente, infinitamente,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 291
até o riso alastrar, derramar-se, dispersar-se enfim pelo
Universo e subir, nos fluidos do ar, para lá no foco
enorme onde vives, Astro, onde ardes, Sol, dando então
assim mais brilho à tua chama, mais intensidade ao
teu clarão.
Pelo cintilar dos teus raios, pelas ondas fulvas,
flavas, ó Espírito da Irradiação! pelos empurpuramentos
das auroras, pela clorose virgem das estepes da Lua,
pela clara serenidade das Estrelas, brancas e castas
noviças geradas do teu fulgor, faculta-me a Graça real,
o magnificente poder de rir – rir e amar, perpetuamente
rir, perpetuamente amar...
Ó radiante orientalista do firmamento! Supremo
artista grego das formas indeléveis e prefulgentes da
Luz! pelo exotismo asiático desses deslumbramentos,
pelos majestosos cerimoniais da basílica celeste a que
tu presides, que esta Oração vá, suba e penetre os
etéreos paços esplendorosos e lá para sempre vibre, se
eternize através das forças firmes, num som álacre,
cantante, de clarim proclamador e guerreiro.
292 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
DOLÊNCIAS...
Tu, na emoção desse encanto doloroso e acerbo
da Arte, te sentirás, um dia, velho, fatigado, como um
peregrino que percorreu ansiosamente todas as viassacras torturantes e perigosas.
Essa maravilhosa seiva de pensamentos, toda essa
púrpura espiritual, as vivas forças impetuosas do teu
sangue, agindo poderosamente no cérebro, irão aos
poucos, momento a momento, desaparecendo, num brilho
esmaecido, vago, o brilho branco e virgem das estrelas
glaciais.
A tua alma será condenada à solidão e silêncio,
como certas formosuras claustrais de monjas que
brumalmente aparecem por entre as celas, deixando no
espírito de quem as vê, quase que o mistério de um
religioso esplendor...
E, já assim emudecido e gelado para as nobres
sensações do Amor, ficarás então como se estivesses
morto – sem cabelos, sem dentes, sem nariz, sem olhos
– sem nenhuma dessas expressões físicas que tornam
os seres humanos harmoniosamente perfeitos.
Em vão te recordarás da doçura de mãos
aveludadas e brancas, da amorosa diafaneidade de uns
olhos claros...
As tuas Iedos, as tuas Lésbias e as tuas Aldas
fluidamente te passarão na memória, alvas e frias...
Por infinitamente tratar de idéias como de astros
prodigiosos, sonhas-te com os opulentos, doirados
prestígios da Glória; pensaste na Elevação como na
solenidade augusta das montanhas.
Mas, velho já, lembrarás um sol apagado, cuja
forma material poderá persistir talvez ainda e cuja chama
fecundadora e ardente se extinguirá para sempre...
Não crer em nada, não sentir nada, não pensar
nada, será a tua filosofia da senilidade. E, neste estado
do ser, mais cruel que o Budismo, deixarás, como disse
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 293
Heine, que a morte vá enfim tapar-te a boca com um
punhado de terra...
No entanto, pela tua retina cansada, desfilará tudo
o que tu outrora amaste com intensidade: os ocasos
afogueados, de verberações de metal sobre o mar e sobre
o rio. Os finos frios radiantes, de azul resplandecente.
A Lua, como estranha rosa branca, perfumando o ar,
derramando lactescências luminosas nos campos
alfombrosos. Os navios, as escunas e os iates, todas as
embarcações admiráveis, que fazem sonhar, balouçando
nas ondas, em relevos nítidos, em gravuras esmaltadas
ao fundo dos horizontes.
Tudo o que pensaste, o que trabalhaste pela Forma,
com nervos e com sangue; tudo o que te deixou
despedaçado, na amargura das lutas com o estilo e com
a frase, cantará saudosamente no teu peito, cantará
grandioso, solene, como os Salmos de Salomão.
Com essa natureza mística, quase religiosa, que
possuis, o Mundo te parecerá uma catedral vastíssima,
colossal, de bilhões e bilhões de torres de cristal, de
safira, de rubi, de ametista, de ônix, de topázio e
d’esmeralda.
E, à hora longínqua de profundo luar glacial e
imóvel, de cada uma dessas torres surgirá um espectro
branco dos teus sonhos, como uma ronda fantástica, e
os sinos plangentemente vibrarão ao mesmo tempo, com
tristezas noturnas e lancinantes, por todo o
sepulcramento dos teus Ideais.
E tu, velho, embora, na torre verde d’esmeralda,
ficarás egrégio, vencedor, imortal, eterno, só e sereno,
ao alto, sob as estrelas eternas...
294 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
OCASO NO MAR
Num fulgor d’ouro velho o sol tranqüilamente
desce para o ocaso, no limite extremo do mar, d’águas
calmas, serenas, dum espesso verde pesado, glauco, num
tom de bronze.
No céu, de um desmaiado azul, ainda claro, há
uma doce suavidade astral e religiosa.
Às derradeiras cintilações doiradas do nobre Astro
do dia, os navios, com o maravilhoso aspecto das
mastreações, na quietação das ondas, parecem estar
em êxtase na tarde.
Num esmalte de gravura, os mastros, com as
vergas altas, lembrando, na distância, esguios caracteres
de música, pautam o fundo do horizonte límpido.
Os navios, assim armados, com a mastreação, as
vergas dispostas por essa forma, estão como que a fazerse de vela, prontos a arrancar do porto.
Um ritmo indefinível, como a errante, etereal
expressão das forças originais e virgens, inefavelmente
desce, na tarde que finda, por entre a nitidez já indecisa
dos mastros...
Em pouco as sombras densas envolvem
gradativamente o horizonte em torno, a vastidão das
vagas.
Começa, então, no alto e profundo firmamento
silencioso, o brilho frio e fino, aristocrático das estrelas.
Surgindo através de tufos escuros de folhagem,
além, nos cimos montanhosos, uma lua amarela, de face
chata de chim, verte um óleo luminoso e dormente em
toda a amplidão da paisagem.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 295
SOB AS NAVES
Àquela hora, meio tarde no dia, não sei que
compunção evangélica me assaltou, me invadiu a alma,
que eu penetrei no templo iluminado.
Altas naves sombrias pela névoa crespuscular da
tarde, já em tons violáceos, abriam-se aos meus olhos,
numa solene paz mística.
Do alto do altar-mor vinha uma austera eloqüência
de Religião, de Fé Católica, de Rito Romano.
Velas amareladas e frias, de chama nobre e
ardente, elevavam-se em tocheiros cinzelados, numa luz
oscilante, trêmula às vezes por alguma momentânea
aragem, como almas na indecisão do viver.
Na capela do Santíssimo, rutilante de caros
brocados e douraduras custosas, de fulgentes pratarias,
de tons azulados e brancos de jarras esbeltas, uma
lâmpada fulgurava, toda em esmaltes de prata, por entre
a meia-tinta aveludada da hora, através do silêncio
eucarístico, monástico da capela.
Uma serenidade de força divinal, de majestade
tranqüila, enchia o templo de um grande ar panteísta.
Nos altares laterais, os santos, histerismos
mumificados, no imortal resplendor das cousas abstratas,
dos impulsos misteriosos que alucinam e por vezes fazem
vacilar a matéria, tinham dolorosas e fortes expressões
de luxúria.
Eu sentia, sob aquelas rígidas carnes mortificadas,
frêmitos vivos do sangue envenenado e demoníaco do
pecado.
E, de repente, não sei por que profana, tentadora
sugestão, vi nitidamente Nossa Senhora descer aos
poucos do altar, branca e muda, arrastando um manto
estrelado, e, vindo anelante para mim, de braços abertos,
dar-me, com os olhos claros de azul, profundos e celtas,
infinitas, inefáveis promessas...
296 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Ah! naturalmente eu sonhara acordado, porque
Tu, durante este meu sonambulismo de sátiro lascivo,
subitamente entraste, trêfega, com vivacidades de
pássaro, no templo iluminado; e eu então logo senti que
os lindos olhos claros de azul que virginalmente se
encaminharam para os meus, na ardência de um desejo,
eram, por certo, os teus olhos, sempre meigos, sempre
amorosos, ó luz, ó sol, ó esplendor dos meus olhos!
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 297
PAISAGEM
Na colina da vila trepada no alto agrupam-se as
casarias. Há sol. E na frente das casas caiadas de branco
a luz vibra nervosamente, fazendo tremer a vista sob a
crua irradiação da soalheira, como sob os flamantes bicos
vertiginosos do gás da ribalta; enquanto que nas casas
pintadas de amarelo e de vermelho quebra-se a forte
intensidade da luz.
Nestas ubérrimas regiões agricultáveis, de louras
messes de produto, amanha-se a terra para a plantação
da cana, da mandioca e do milho – do milho que nasce e
cresce com as suas folhas compridas, flexíveis e largas
como lustrosas, acetinadas fitas verdes.
E vê-se agora, na grande extensão do campo, entre
a verdura fremente de sol, a gente da lavoura, aplicada
ao arado, ao alvião e à enxada – homens, mulheres e
crianças, com os trajes da labuta, trabalhando e cantando
queixas passadas que ecoam no ar tranqüilo,
emprestando a essas paragens o pitoresco tom de vida
de um desenho quente e colorido de leque chinês.
Mais abaixo da roça, além de uma estreita ponte
de pau-a-pique, que se atravessa a um de fundo, está o
mar, fulgurante, profundamente calmo e liso, espelhando
o céu, e cortado, às vezes docemente, por canoas à vela
e a remo de voga que seguem para o mar grosso, ou por
canoas a remo de pá que vão e voltam da pesca, cheias
de peixe fresco que salta dentro, prateado e luzente,
ainda vivo, com olhos vidrados de madrepérola, as
guelras rubras e as barbatanas membranosas palpitando,
no último anseio vão de se moverem na água.
Ao lado direito da lavoura estão os engenhos de
açúcar, de farinha e de arroz, com seu ar rústico,
emadeirados de novo, no aspecto simples dessa vida rude
do trabalho nos campos.
Ao lado esquerdo há uma vasta eira de sólida
argamassa de cimento romano, mandada fazer pelo
298 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
proprietário desses terrenos campestres e férteis, na
qual se põem a secar, se debulham e limpam os cereais,
pelo tempo das eiras, no outono, e onde os pequenos
lavradores daqueles arredores brincam o Tempo-será, de
cabeça nua ao fresco dos luares serenos que espalham
grandes silêncios soturnos e misteriosos nas brancas
estradas dos sítios.
Quem anda por ali, nas estações primaveris, goza
do panorama ridente da vila, refrescado de auras leves
e puras, que vêm do mar; da resina que exalam as árvores
à noite, salubrizando a atmosfera e dando às verdejantes
campinas a frescura e a nitidez de uma gouache
encantadora.
E, quem for artista, e quiser percorrer ao longo da
costa, até a uma gruta de pedras brancas, que ali há,
formando um vulto agachado, ou ao longo da paisagem
toda, nos descampados; ou ao comprido dos atalhos
marginados de ervas agrestes e tufos de espinheiros
abrindo em flor, ou ao direito do chão claro, arenoso e
úmido das praias, há de sentir as mais pitorescas e
vivas comoções da Natureza.
De manhã, o gado que desce os vales, lento e
dócil, aspirando a temperatura azotada, seguido pelo
tropeiro que canta alegre no seu cavalo; os leiteiros,
que vêm de longe, que passam para a cidade com o leite
dentro de latas bojudas colocadas em paus que eles
atravessam no ombro direito; as graciosas raparigas da
roça, que levam a apascentar o rebanho das cabras
monteses que saltam barrancos e carcavões, alígeras,
lépidas, com os seus pequenos chifres pontudos, a
Mefistófeles; os carros de boi, que chiam devagar,
morosamente, na poesia do seu campestre ritmo
simpático, atulhados de lenha e de cana rosa e guiados
pelo campônio que vai na frente, munido de varapau,
rosto grave e sóbrio, governando os benignos animais
com a velha técnica arrastada e tremida na aspereza da
voz – abençoada técnica que já vem de lá dos seus
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 299
antepassados e que os seus queridos filhos e netos,
depois, mais tarde, quando ele fechar os olhos, terão de
a receber também, intacta, sempre a mesma, saturada
do íntimo perfume intenso do passado, como uma
herança eterna.
À tarde, o gado que volta de abeberar-se, de arejar
no campo, ao suave ocaso do dia, quando tintas multicores
se esbatem no fundo dos espaços côncavos; os leiteiros
que voltam com a féria arranjada, pitando, ou de cigarro
atrás da orelha, assobiando meigas cantigas que
aprenderam na infância e que se fundem à melancolia,
à dolência da loira luz que morre – quando, no cimo da
encosta, após a última badalada saudosa do Angelus,
apagam-se os esboços e os contornos dos horizontes,
caindo então sobre a terra a neblina cinzenta do
crepúsculo...
300 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
ASTRO FRIO
Por entre celas místicas, silenciosas, lá te foste
emudecer, para sempre, ó harmonioso e célebre pássaro
do canto, nos pesados claustros.
Cor de rosa e de ouro na iluminada sala dos
teatros, trinavas para o alto inefavelmente, e, agora,
não sei por que tormentosa paixão que te desolou um
dia, ficaste infinitamente reclusa, sob os fuscos tetos
de um convento, como uma rara rosa opulenta numa
estufa triste, fugindo ao sol dos prados.
Fria e muda, estarás, talvez, a estas horas,
ajoelhada na capela de um Cristo glacial de marfim
sagrado – branca, mais glacial e de mais branco marfim
do que esse Cristo, com as níveas mãos de cera e a face
também de cera macerada pelos jejuns e pelos cilícios,
dentro de sombrias vestes talares.
E, assim muda e assim fria, perpassarás como a
sombra de um vivo afeto ou de um profundo sentimento
artístico, ao frouxo clarão de âmbar das lâmpadas
lavoradas.
O teu alado perfil, as tuas linhas suaves, serão,
no religioso crepúsculo da capela, como que a recordação
do aroma, da luz, do som que tu para a Arte foste.
Nos olhos, apenas uma centelha, uma leve faísca
evidenciará o passado esplendor, o encanto que eles
tiveram, quando amaram, cá fora no mundo, com as
violências do desejo, com os ímpetos frenéticos,
vertiginosos da carne.
E os corações que te adoraram, que te ouviram
outrora os incomparáveis gorjeios da garganta, que te
sentiram a carnação formosa palpitando sob a vitória
dos aplausos, ficarão saudosos e perplexos, ao ver-te
agora assim para sempre enclausurada, para sempre
gelada aos fulgores e sensações do mundo, mergulhada,
enfim, na necrópole de um convento, como um astro
através de frígidas e espessas camadas de neve...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 301
BÊBADO
Torvo, trêmulo e triste na noite, esse bêbado que
eu via constantemente à porta dos cafés e dos teatros,
parara em frente do cais deserto, na alta, profunda hora
solitária.
Espadaúdo, de grande estatura, ombros fortes,
como um cossaco, costumava sempre bater a cidade em
marchas vertiginosas, na andadura bamba dos ébrios,
indo pernoitar depois ali, perto das vagas, amigas eternas
da sua nevrose.
Um luar baço, enevoado, de quando em quando
brilhava, abria, rasgando as nuvens, num clarão que
iluminava amplas faixas de céu de um tom esverdeado,
como folhagens tenras e frescas lavadas pela chuva.
O Mar tinha uma estranha solenidade, imóvel nas
suas águas, com uma larga refulgência metálica sobre
o dorso.
Da paz branca e luminosa da lua caía, na vastidão
infinita das ondas, um silêncio impenetrável.
E tudo, em torno, naquela imensidade de céu e
mar, era a mudez, a solidão da lua...
Junto ao cais, olhando as vagas repousadas, a
taciturna figura do bêbado destacava em silhouette
sombria.
E ele gesticulava e falava, movia os braços,
proferia palavras ásperas e confusas, como os
tartamudos.
Eu via-lhe as mãos, todo o corpo invadido por um
convulsivo tremor, que não era, decerto, a desoladora e
enregelada doença da senilidade.
O seu aspecto, ao mesmo tempo piedoso e feroz,
traduzia a expressão terrível que deixa o bronze
inflamado da Dor calcinando naturezas nervosas e
violentas, Trôpego, espectral, fazia pensar, pela
corpulência, na massa formidanda de um desses ursos
302 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
melancólicos, caminhando aos boléus, como que numa
bruma de pesadelo...
Os seus grandes olhos d’árabe, muito perturbados
pelo álcool, tinham o brilho amargo de um rio de águas
turvas e tristes.
Era talvez um desses seres nebulosos, gerados do
sangue aventureiro e venenoso de uma bailarina e de
um judeu, sem episódios pitorescos, frescos e picantes
de alegria e saúde.
Um desses seres tenebrosos, quase sinistros, a
quem faltou um pouco de graça, um pouco de ironia e
riso para florir e iluminar a vida.
Alma sem humor – essa força fina e fria, radiante,
que deu a Henri Heine tanta majestade.
No entanto, quanto mais eu observava esse
fascinado alcoólico, pasmando instintivamente, na
confusão neblinosa da embriaguez, para as ondas
adormecidas na noite, mais meditava e sentia as
profundas visões de sonâmbulo que lhe vagavam no
cérebro, as saudades e as nostalgias.
Porque o álcool, pondo uma névoa no entendimento,
apaga, desfaz a ação presente das idéias e fá-las recuar
ao passado, levantando e fazendo viver, trazendo à flor
do espírito, indecisamente, embora, as perspectivas, as
impressões e sensações do passado.
Nos límpidos espaços nem um movimento, um
frêmito leve de aragem perturbava a harmoniosa
tranqüilidade da noite clara, por entre os finos
rendilhamentos prateados das estrelas.
Mais amplo, mais vasto e sereno ainda, o silêncio
descia, pesava na natureza, sobre os telhados, que
pareciam, agrupados, aglomerados nos infindáveis
renques de casas, enormes dorsos escuros de
montanhas, de elefantes e dromedários.
Sobrepujando, avassalando tudo, com expressões
misteriosas da Idade Média, as elevadas torres das
igrejas, como vigias colossais de granito, eretas para o
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 303
firmamento na luminosa sonoridade do luar, tinham a
nitidez dos desenhos.
E a luz do astro noturno e branco, da Verônica do
Azul, fria, congelada de mágoas, envolvia a face
atormentada do bêbado como num longo sudário de
piedades eternas...
304 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
SABOR
Os ingleses, fidalgo entendimento de artista, para
significar – o melhor – dizem na sua nobre língua de
prata: the best.
O que os ingleses chamam the best é finamente o
que eu quero exprimir com a palavra – sabor – que, para
a requintada espiritualidade, marca alto na Arte –
filtrada, purificada pela exigência, pelo excentrismo da
Arte.
Após a delícia frugal de um lunch de frutas
silvestres e claros vinhos, numa colina engrinaldada de
rosas, quando o sol sob nuvens aparece e desaparece,
numa confortante meia-sombra de luz, não é apenas o
gozo das frutas e dos vinhos que te fica saboreando no
paladar.
O asseado aspecto do dia levemente frio,
agulhante nas carnes, o ouro novo do sol em cima, a cor
bizarra, correta do verde luxuoso, o gelo fresco e
cristalino nas taças sonoras espumantes de líquidos
vaporosos, e o viçoso encanto de formosas mulheres,
rindo em bocas de aurora e dentes de neve – toda essa
impressionante, alegre palheta de pintura à água, aflora
num esplendor de gozo a que tu bem podes chamar o
raro sabor das cousas.
A clarividência na atitude dos perfis que a essa
hora pintalgam a paisagem de colorido variado, o aroma
que de tudo vem e que de tudo sobe para a serenidade
azul, o ritmo simpático do momento, a lassitude branda
de nervos, que engolfa as idéias numa larga felicidade
amável – como em amplos coxins de arminho – todas
essas preciosas maneiras e pitorescos estilos que dão
linha, grande tom ao viver, fazem, enfim, que de tudo se
experimente um radiante, aguçado sabor.
Não basta, pois, o paladar. Esse, apenas,
materializa. Não é, portanto, suficiente, que se sinta o
sabor na boca, que se o examine, que se o depure, que
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 305
se o saiba distinguir com acuidade, com atilamento. É
necessário, indispensável que, por um natural
desenvolvimento estético, se intelectualize o sabor, se
perceba que ele se manifesta na abstração do
pensamento.
Para mim, as palavras, como têm colorido e som,
têm, do mesmo modo, sabor.
O cinzelador mental, que lavora períodos, faceta,
diamantiza a frase; a mão orgulhosa e polida que, na
escrita, burila astros, fidalgo entendimento de artista,
deve ter um fino deleite, um sabor educado, quando, na
riqueza da concepção e da Forma, a palavra brota, floresce
da origem mais virginal e resplende, canta, sonoriza em
cristais a prosa.
Para a profundidade, a singularidade de todo o
complexo da Natureza, o artista que sente claro entende
claro, pensa claro, saboreia claro.
306 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
LENDA DOS CAMPOS
Por uma doirada tarde azul, em que os rios, após
as chuvas torrenciais, sonorizavam cristalinamente os
bosques, os camponeses de uma vila risonha, numa
unção bíblica, conduziam ao tranqüilo cemitério florido
o loiro cadáver branco de uma virgem noiva, morta de
amor, tão bela e tão nova, emudecida no féretro, como
se tivesse acabado de nascer da rosada luz da manhã.
Infantil ainda, viera outrora da Alemanha, através
de castelos feudais, de montanhas alpestres, de árvores
velhas e enevoadas...
E, então, desde o dia da sua morte, uma lenda
espalhou-se, como a dos Niebelungen, em todas aquelas
cabeças ingênuas, rudes e humildes.
Ela era a deusa fantástica, a visão encantada dos
antigos palácios medievais de vidraçaria gótica, onde as
rainhas mortas apareciam, brancas ao luar, à flor dos
lagos e rios, suspirando toda a tragédia histérica dos
convulsivos amores passados, que os ventos de hoje como
que ainda melancolicamente repetem...
Era a monja das ameias dos castelos feudais,
graves e solenes, cheios de névoas alemãs, atravessados
de fantasmas que fazem mover alvas e longas clâmides
de linho no ar neutralizado da meia-noite...
E, por altas horas, em certos dias, ao luar, a
imaginação apreensiva dos homens e mulheres do campo,
via uma virgem loira, de ignoto aspecto de ondina mágica,
surgir do solo entre exalações fosforescentes, o coração
traspassado de flechas inflamadas, arrastando
soturnamente pela areia luminosa uma vasta túnica
branca, os cabelos de sol soltos para trás, candidamente
pálida, cantando a canção sonâmbula do túmulo e
desfolhando grandes grinaldas de flores de laranjeira,
cujas frescas e níveas pétalas cheirosas redemoinhavam,
agitadas por um vento frio – pelo vento gelado e soluçante
da Morte...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 307
NOCTAMBULISMO
Enquanto, fora, na noite, gralha, grasna e grulha
o Carnaval em fúria, vai, Mergulhador, rindo para o
espaço a tua aguda risada acerba.
Os luminosos lírios das estrelas desabrocharam
já nos faustosos brocados do Firmamento, como que para
ritmar em claras árias de luz a tua torva risada triste.
Apavora-te o Sol flamejante, eterno, na altura
infinita. Não queres a aflitiva evidência do sol, que tudo
põe num relevo brusco, que pinta as chagas de vermelho,
faz sangrar as dores, perpetuar em bronze o remorso.
Amas a sombra, que esbate os aspectos claros,
esfuminha os longes, turva e quebra a linha dos corpos.
Queres a noite, longas trevas amargas que
confundam máscaras hediondas de Gwimplaines com
faces louras de deusas.
Noite igualmente deliciosa e dilacerante que te
anule para os sentimentos humanos, que te disperse no
vácuo, dissolva imortalmente o espírito num som, num
aroma, num brilho.
Noite, enfim, que seja o vasto manto sem astros
que tu arrastes pelo mundo a fora, perdido no movimento
supremo da Natureza, como um misterioso braço de rio
que, através fundas selvas escuras, vai, por estranhas
regiões, sombriamente morrer no Mar...
A noite tem, para a tua delicada sensibilidade, o
majestoso poder de apagar-te dos olhos esses sinistros
animais terríveis que babujam ao sol e desfilam, diante
de ti, na truculenta marcha cerrada de pesadas massas
formidandas.
Enquanto, pois, lá fora, o Carnaval em fúria gralha,
grasna e grulha, num repique macabro de guizos
jogralescos, uivando uma língua convulsiva e exótica de
duendes e noctâmbulas bruxas walpurgianas, prendete, ó deus do Tédio, Mergulhador dos Mediterrâneos da
Arte! às imensas asas da fria águia negra das amplidões
– a Noite – e ri, ri! sob as claras árias de luz das Estrelas,
a tua venenosa risada em fel e em sangue...
308 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
NAVIOS
Praia clara, em faixa espelhada ao sol, de fina
areia úmida e miúda de cômoro.
Brancuras de luz da manhã prateiam as águas
quietas, e, à tarde, coloridos vivos de ocaso as matizam
de tintas rútilas, fiavas, como uma palheta de íris.
Navios balanceados num ritmo leve flutuam nas
vítreas ondas virgens, com o inefável aspecto das longas
viagens, dos climas consoladores e meigos, sob a
candente chama dos trópicos ou sob a fulguração das
neves do Pólo.
Alguns deles, na alegre perspectiva marinha,
rizam matinalmente as velas e partem – mares a fora –
visões aquáticas de panos, mastros e vergas, sobre o
líquido trilho esmaltado das espumas, em busca, longe,
dos ignotos destinos...
À tarde, no poente vermelho, flamante, dum rubro
clarão de incêndio, os navios ganham suntuosas
decorações sobre as vagas.
O brilho sangrento do ocaso, reverberando na
água, dá-lhes uma refulgência de fornalha acesa, de
bronze inflamado, dentre cintilações de aço polido.
Os navios como que vivem, se espiritualizam nessa
auréola, nesse esplendor feérico de sangue luminoso
que o ocaso derrama.
E mais decorativos são esses aspectos, mais novos
e fantasiosos efeitos recebem as afinadas mastreações
dos navios, donde parece subir para o alto uma fluida e
fina harmonia, quando, após o esmaecer da luz, a ViaLáctea resplende como um solto colar de diamantes e a
Lua surge opaca, embaciada, num tom de marfim velho.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 309
EMOÇÃO
Não sei que estranho frisson nervoso percorre-me
às vezes a espinha, me eletriza e sensibiliza todo como
se o meu corpo fosse um harmonioso teclado de cristal
vibrando as sonoridades mais delicadas.
Um ombro aveludado e trescalante a frescuras
aromáticas, que pelo meu ombro levemente roce na rua,
num encontro fortuito, produz-me um estado tal de
volúpia, dá-me tão longa, larga volúpia, que me vejo por
entre incensos, festivamente paramentado como o
sacerdote que ergue o cálix acima da cabeça, ao alto do
Altar-Mor dos templos doirados, sentindo que uma
aluvião de almas crentes o adora de joelhos.
A mão fina, ideal, calçada em luva clara, de
formosa mulher que por entre a multidão aparece e
desaparece, como uma estrela por entre nuvens, bem
vezes, também, me alvoroça e agita o sangue.
E sigo, radiante, triunfal, rei, essa nobre mão
enluvada, à qual eu em vão pediria o ouro, a riqueza
afetuosa de um gesto carinhoso – a essa delicada mão
avara e milionária que, para mais avara tornar-se ainda,
se fora esconder na maciez elegante da luva fresca,
vivendo dentro dela afagada, confortada, palpitando talvez
por encontrar a mão feliz que vibrará de amor ao seu
contacto.
Então, assim, a emoção que desperta todos os
meus sentidos, no curioso giro que faço com o
pensamento acompanhando a feminina mão fidalga, não
é uma emoção de indiferença, por certo, mas uma
emoção de despeito.
Estranhamente, como uma força hercúlea que me
prendesse à terra, chamando-me à iniludível Realidade,
desço das inauditas, siderais regiões a que subira.
Vejo-me logo, então, profundamente vencido no
tempo, e, no meu rosto, à maneira dos fundos sulcos
que as charruas abrem nos campos, imprevistas rugas
310 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
se evidenciam, como se eu tivesse de repente
envelhecido um ano.
Da Dor, bem poucas vezes sinto só o que ela tem
de selvagem, de rugidora.
Emoções delicadas, sutis, que me doem também
fundo na alma porque me melancolizam, deixam-me um
ritmo de música, uma afinada dolência de suavíssimos
violinos, e que por fim delicia.
É como se alguém vibrasse de brando as cordas
dum instrumento e ele, trêmula, amorosamente, ficasse
a gemer no mais meigo, no mais doce dos dedilhados
acordes...
A emoção é que me faz amar os eucaliptos, altos,
afilados, contorcidos convulsamente, como a dor dum
gigante.
É ainda essa mesma emoção que me faz perceber
e ouvir o misterioso som dos metais: o claro riso
diamantino da Prata e o trovejante rumor do Bronze.
O que o mundo chama fatalidades, negras e
assoberbantes catástrofes, como um incêndio, não posso
bem com nitidez dizer que emoção me causa.
Realmente, num incêndio, todas aquelas chamas
são maravilhosas!
Não sei que raro, que estupendo Rembrandt veio
de surpresa encharcar de um rubro violento,
sanguinolento e flamejante, todo aquele belo edifício que,
há pouco, era um rendilhado palácio ou uma igreja gótica,
um Louvre em pompas ou um faiscante chalet d’esmalte.
E não sei até como todas essas chamas, formando
miríades de fantasmagorias, ilusionismos, entre os quais
às vezes perpassa a deliciosa cor azulada, aveludada,
de poncheiras colossais, não devoraram logo tudo a um
tempo!
Têm sido, talvez, benévolas, piedosas demais as
chamas, porque há já bastantes horas que o fogo alastrou,
minou, rastejou como um verme de incêndio, pelos
alicerces do edifício e só agora é que os travejamentos
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 311
desabam, as paredes caem, como se fossem de cera,
milhares de fogozinhos correm eletricamente como
microscópicos insetos luminosos pelo luxuoso papel das
paredes, enquanto todo o resto da madeira estala e
range, num craque-craque seco, caindo desmantelada
como os mastros e vergas de um navio que se afunda na
fúria dos oceanos, sob o rijo estourar das tormentas.
Alucinamento, nevropatia, embora, eu não sei
bem, na verdade, se um incêndio me apavora ou me
delicia – o que sei é que intimamente me sobreexcita.
Também o Mar, a emoção que experimento ao vêlo, verde, amplo, espelhado, dá-me uma saúde virgem,
uma força virgem.
Sinto o gozo repousante de sondá-lo, de descer à
imensa e profunda necrópole gelada onde uma
florescência de algas vegeta; e, ao mesmo tempo, diante
do Mar, sinto o peito alanceado da incomparável saudade
de países vistos através do caleidoscópio da imaginação,
dos sonhos fantasiosos – países lindos e felizes, floridos
trechos de terra, ilhas tranqüilas, províncias loiras,
simples, de caça e pesca, onde a sombra amorosa da paz
benfazeja fosse como uma sombra doce, protetora, de
árvore velha, e onde, enfim, a Lua tudo imaculasse numa
frescura salutar de pão alvo...
A emoção, a sensibilidade em mim, quase sempre
desperta uma meditativa amargura, uma grande e
mística dolência do passado, que enevoa tudo – como o
indefinido mistério perfumado dessas soberbas mulheres
de Versailles, carnações fidalgas e perfeitas que
estremeceram de luxúria e apaixonadamente amaram
pelos velhos parques abandonados, rojando sobre a areia
sonora das alamedas a cauda astral das vestes de
Deusas.
312 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
OS CÂNTICOS
No templo branco, que os mármores augustos e
as cinzeluras douradas esmaltam e solenizam com
resplandecência, dentre a profusão suntuosa das luzes,
suavíssimas vozes cantam.
Coros edênicos inefavelmente desprendem-se de
gargantas límpidas, em finas pratas de som, que parecem
dar ainda mais brancura e sonoridade à vastidão do
templo sonoro.
E as vozes sobem claras, cantantes, luminosas
como astros.
Cristos aristocráticos de marfim lavrado, como
fidalgos e desfalecidos príncipes medievos apaixonados,
emudecem diante dos Cânticos, da grande exaltação de
amor que se desprende das vozes em fios sutilíssimos
de voluptuosa harmonia.
O seu sangue delicado, ricamente trabalhado em
rubim, mais vivo, mais luminoso e vermelho fulge ao
clarão das velas.
Dir-se-ia que esse rubim de sangue palpita, aceso
mais intensamente no colorido rubro pela luxúria dos
Cânticos, que despertam, ciliciando, todas as virgindades
da Carne.
Fortes, violentas rajadas de sons perpassam
convulsamente nos violoncelos, enquanto que as vozes
se elevam, sobem, num veemente desejo, quase impuras,
maculadas quase, numa intenção de nudez.
E, através da volúpia das sedas e damascos
pesados que ornamentam o templo, das luzes
adormentadoras, dos perturbadores incensos, da
opulência festiva dos paramentos dos altares e dos
sacerdotes, das egrégias músicas sacras, sente-se
impressionativamente pairar em tudo a volúpia maior –
a volúpia branca dos Cânticos.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 313
FULGORES DA NOITE
Desce um desses crepúsculos violáceos em que
parece errar no espaço a enevoada música das
casuarinas...
Envolvem gradativamente a imensidade os veludos
negros da Noite.
Num céu frio d’inverno, que umas mais frias
estrelas esmaltam pouco a pouco, começa
prodigiosamente a surgir a Lua, alta e misteriosa,
lembrando baladas.
Dias d’ouro, ricos e raros, resplandeceram já com
o Sol na luxúria verde da folhagem.
E agora, o luar, que veste as noites de noivas,
desdobra suntuosamente as suas tules delicadas e os
seus luxuosos cetins brancos, imaculados.
Fecundam-se os grandes campos, quietos na nívea
luz da Lua, no clarão que dela jorra, dormente e doce.
E os animais, que repousavam na amplidão dos
viçosos gramados, gozam tranqüilos um sono brando,
acariciador, como que produzido pela amorfinada
claridade da Lua límpida e profunda.
As águas, as frescas águas das fontes e rios, as
largas águas dos mares serenamente adormecem, num
esplendor cristalino.
Apenas uma surdina leve que sai delas, como um
leve ressonar, lhes denuncia, no silêncio claro da noite,
a natureza sonora.
E enquanto a rumorosa paisagem, todos os
frementes impulsos do dia calam-se, em redor, na noite,
a lua e as estrelas amorosas acordam e brilham, num
recolhimento de Santuário, todas de branco, como virgens
para a primeira comunhão.
314 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
PSICOLOGIA DO FEIO
Peters, esse humorismo ao mesmo tempo
alucinante e alado; o pessimismo paradoxal de Alphonse
Karr e Gustavo Droz, tão semelhantes nas linhas gerais;
todo aquele pungente, doloroso, estranho Livro de Lázaro,
de Henri Heine, tudo isso, fundido numa cristalização
de lágrimas e sangue, como a flamejante e
espiritualizada epopéia do Amor, exprimiria bem, talvez,
a noite da tua psicologia negra, ó soturno, ó triste, ó
desolado Feio!
Tu vens exata e diretamente do Darwin, da forma
ancestral comum dos seres organizados: eu te vejo bem
as saliências cranianas do Orango, o gesto lascivo, o ar
animal e rapace do símio.
As tuas feições, duras, secas, quase imobilizadas
em pedra, puxadas, arrepanhadas num momo, como a
confluência interior dos desesperos e das torturas,
abrem-se rebeladamente num sarcasmo, ao qual às vezes
uma gesticulação epiléptica, nevrótica, clownesca, faz
impetuosa brotar a gargalhada das turbas, enquanto a
tua voz coaxa e grasna, numa deprecação de morte, com
ásperas e surdas variabilidades ventríloquas de tons.
O teu horror não é deplorável só, não causa só
piedade – mas é um obsceno horror – e as abas compridas
e esfrangalhadas duma veste que te fica em rugas, em
pregas encolhidas de largura nesse teu corpo esquelético,
e que parece a mortalha dalgum hirto cadáver que
houvessem desenterrado – as esquisitas abas dessa
veste, sob o chicote elétrico do vento, alçam-se em vôo,
deblateram por trás de ti, ansiosas, aflitas, puxando-te,
num arrebatamento histérico, como se fossem fúrias
tremendas que te quisessem arrojar pelos ares, num
delírio de darem-te a morte.
Outras vezes, porém, lembram as asas de um
grande morcego monstro, imensas e membranosas,
causando asco nauseante e enchendo tudo duma
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 315
sinistra treva lugubremente cortada de arrepios e
esvoaçamentos medonhos.
Árvores frondentes e undiflavadas de sol, onde os
pássaros cantem; rios gorgolejantes de cristais sonoros;
vivos e iluminados vergéis em flor; campos verdes,
afogados na verdura tenra, como estofos de veludos e
sedas rutilosas e orientais, não são já para a tua alegria,
recuada agora no fundo das nostálgicas neblinas da
torturante desilusão de seres Feio.
Os perpétuos gelos do Volga e do Neva para sempre
rolam, em densas camadas, sobre o teu coração; e, aí,
tudo o que dele se aproxima, outros corações que te
buscam, outros afetos que te procuram, perdem todo o
calor, resfriam logo, inteiramente ficam gelados já diante
da tangibilidade gwimplainesca da tua fealdade.
Só eu, numa suprema hora de spleen, de
esgotamento de forças psíquicas, em que me falte
extensamente o humor – essa radiosa bondade hilariante
do Espírito – te idolatro e procuro, ó lascivo Feio! que na
luxúria pantagruélica dos vermes devoras na treva os
sonhos – porque não os podes alimentar, nem ver florir,
nem crescer! sem que a diabólica verdade flagrante
esteja a rir do teu amor e a pintar picarescamente
caricaturas na quase apagada perspectiva da tua
existência.
Só as artísticas sensibilidades nervosas, vibráteis,
quase feminis podem amar-te; enquanto que as
individualidades ocas, estéreis, áridas, duras, sem
vibração sensacional, sem cor, sem luz, sem som e sem
aroma, fugirão para sempre de ti como à repelência
asquerosa de um putrefato.
Entretanto, eu gosto de ti, ó Feio! porque és a
escalpelante ironia da Formosura, a sombra da aurora
da Carne, o luto da matéria doirada ao sol, a cal
fulgurante da sátira sobre a ostentosa podridão da beleza
pintada. Gosto de ti porque negas a infalível, a absoluta
correção das Formas perfeitas e consagradas, conquanto
316 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
tenhas também, na tua hediondez, toda a correção
perfeita – como o sapo, coaxando cá embaixo na lodosa
argila, tem, no entanto, a repelente correção própria de
sapo; – como a estrela, fulgindo, lá, em cima, no precioso
Azul, tem a serena e sidérea correção própria d’estrela.
Por uma espécie apenas de schopenhauerismo é
que eu adoro-te, ó Feio! e quereria bem rolar contigo
nesse Nirvana de dúvida até à suprema aniquilação da
Morte, vendo surgir, como de lagos de quimeras, em
estalagmites de neve, diante de mim, sombrios e álgidos
pesadelos de mulheres amadas: pálidas Ofélias,
Margaridas louras, Julietas atormentadas, visões, enfim,
como nas tragédias de Macbeth ou a nevoenta Visão
germânica do Graal.
Numa seda negra d’Arte, vestidos de negro, à
semelhança desse trágico Hamlet da Dinamarca, iríamos
os dois, através dos largos e profundos cemitérios
silenciosos, consultar as rígidas caveiras das virginais
Ilusões que se foram, e que, à nossa aproximação,
sorririam, talvez, felizes, como se lhes levássemos a
palpitante matéria animada dos nossos corpos para cobrir,
fazer viver as suas galvanizadas carcaças frias.
Mas ah! eu quisera bem, por vezes, também, ter o
rude materialismo analítico de Büchner, que,
certamente, não sentiria por ti, ó Feio! esta extravagante,
excêntrica, singular influência mórbida que nas funções
de meu cérebro vem, contudo, como doença amarga, um
tédio amarelo e pesado de chim que o ópio estuporou e
enervou.
Não houvesse dentro em mim, através das Ilíadas
do Amor, das Bacanais do Sonho, um sentimento
melancólico ao qual o pensamento dá uma expressão de
enfermidade psicológica, e eu não arrastaria a tua
sombra, não andaria preso ao teu esqueleto, ó soturno,
ó triste, ó desolado Feio!
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 317
VITALIZAÇÃO
Há uma irradiação larga e opulentíssima nos ares.
O esbraseamento do sol do fim da tarde dá fortes
verberações quentes à paisagem, que resplandece, e de
cuja vegetação estuante de calor parecem rebentar as
raízes túmidas de seiva como veias imensas latejando
de sangue oxigenado e vivo.
Nessa elaboração enorme da Terra que procria e
fecunda, na gestação desses mundos que, como astros,
gravitam talvez em cada grão de areia, pululando e
vibrando, a Natureza é como uma grande força animada
e palpitante dando entendimento e sentimento à Matéria
e fazendo estacar a vida no profundo ocaso da Morte.
E daí a pouco, a Lua, através das matas do vale,
anelante e álgida, surgirá, rasgará d’alto as nuvens no
céu, acordando os aromas adormecidos, cristalizada,
vagarosa e tristemente, como uma dor que gelou...
318 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
GLORIA IN EXCELSIS
Num recolhimento sugestivo, como se o meu
espírito estivesse longinquamente a orar nalguma velha
abadia, penetrei na catedral em festa.
Não sei quê de nevoento, vago, dolente e nostálgico
me invadira de repente e por tal forma que eu fui como
que sonambulamente à solenidade.
Todo o templo, ornamentado, resplandecia, numa
imponência, numa augusta suntuosidade, a que o grande
esplendor das luzes dava majestades romanas.
A onda humana, compacta, densa, mumurejava,
numa compunção.
Alvuras de incenso envolviam como que em brumas
imaculadas, em flocos matinais de neblinas, o vasto
recinto da igreja.
Lustres imensos pendiam pomposamente da
abóbada branca, numa infinidade de pingentes que
tiniam e cintilavam como polidas, facetadas lâminas
metálicas, num brilho molhado.
Do coro, para o alto, os instrumentos de corda
choravam, salmodiavam, num crescendo de notas,
através dos vivos metais sonoros.
Eram excelsos, eram egrégios aqueles sons sacros,
religiosos, que subiam para as naves à maneira que os
incensos subiam.
No peito, como numa urna de cristal, o coração
batia-me, pulsava-me, anelante, na ânsia, na vertigem
de vê-la por entre todo aquele confuso e amplo borboletear
de cabeças.
E, quando houve um alegre e diamantino tilintar
de campas e o sacerdote elevou no cálix o Vinho Sagrado,
o coração, como estranho pássaro de sol, fugiu-me do
peito, num alvoroço, arrebatado, maravilhado na grande
luz do templo, em busca dos olhos dela, que de repente
me fitaram, longos, negros e veludosos, quando, por entre
níveas névoas d’incenso, o Gloria in Excelsis, exalçando
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 319
os Evangelhos, triunfava nas vozes e levantava um festivo
rumor no templo.
E foi, para o meu coração lancinado de amor, como
se Ela, naquele instante, me trouxesse toda essa Glória
luminosa nos olhos...
320 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
PÁGINA FLAGRANTE
Inflamados de sol, como pássaros no esplendor da
aurora, partiam ambos a digressões singulares, por
manhãs alegres, da alegria impulsiva e bizarra dos Halalis
de caça.
Uma virginal exalação de leite, um aroma finíssimo
de lilás e rosa errava pelos prados sãos e férteis, na
grande luz alastrante e germinadora da primavera.
Na franqueza heróica da força que a expansão
vigorescente da Natureza lhes infiltrava, experimentavam ambos uma sensação aguda de
espiritualidade, um eletrismo de idéias, que os agitava,
dava-lhes intensa vibratilidade, uma embriaguez
fascinante de acre aticismo mental, por entre os
radiantes orientalismos da luz.
E eles partiam nervosamente, alvoroçados, finos,
fulgurantes, como sob a impressão da alta e
convulsionante música wagneriana.
De uma abundante e luxuriosa vegetação psíquica,
enclausurados na Arte como numa cela, lá iam sempre
nessas continuadas batidas, nesses verdadeiros assaltos
ao Ideal, num fausto de Império Romano, arrebatados
pela grande borboleta iriante, fugidia e fascinadora da
Arte.
Vinham então os livres exames, os amplos golpes
de Crítica, ao fundo e ao largo, através dos turbilhões
luminosos do sol.
Quase feroz, cheio de bárbaros venenos e ao
mesmo tempo untuoso como os inquisidores, um deles
fazia vagamente lembrar a urze das montanhas áridas,
sobre a qual, entretanto, o Azul canta de dia os hinos
claros do sol e à noite a amorosa barcarola da lua e das
estrelas.
O outro recordava também, pela sua exótica
natureza perpetuamente envolta numa bruma de
mistério, um Cristo célebre de Gabriel Marx, corpulento,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 321
viril, de aspecto igualmente aterrador e piedoso, que vi
uma vez numa galeria...
Organizações dúbias, obscuras, de acridão agreste,
que representam, na ordem animal, o que representa,
para as camélias e para as rosas, o cróton.
E aquelas duas almas, intelectualmente
impulsionadas, abriam-se em chamas altas, aos
deslumbramentos da sua estesia.
As idéias fulgiam, cabriolavam, penetravam todo
o arcabouço do assunto, tomavam formas, aspectos
estranhos, macabros; e era tal a intensidade, a
veemência com que brotavam do cérebro, que pareciam
viver, radiar, ter cor, vibrar.
A verve esfuziava, mentalizada pela Análise, pela
Abstração e pela Síntese; sátiras frias, cortantes como
rijos e aguçados cutelos, espetavam capras a carne tenra,
viçosa, próspera, de S. Majestade Imbecil; e, para
supremamente assinalar todas as surpresas e elevação
do Entendimento, uma psicologia rubra, flamante,
sangrava, sangrava em jorro, torrencialmente sangrava.
E eram boutades maravilhosas, a charge leve,
pitoresca, ferretoando, zumbindo sobre os homens
circunspectos, que passavam, o andar solene, ritmado,
em cadência, como na marcha das procissões.
E Ambos riam, riam, numa risada sonora e forte,
como se festins cintilantes, bacanais, triclínios, todas
as vermelhas orgias do Espírito, lhes cantassem
cristalinamente no riso.
De repente, como uma pausa repousadora nesse
crepitante incêndio de verve, penetravam sutilmente,
com delicadezas extremas, nos pensamentos mais
curiosos, mais sugestivos, nos amargos dolorimentos e
pungências latentes da Arte.
Diziam cousas aladas, quase fluidas, que
determinavam a abstração do ser que os animava e floria;
tinham essa percepção, esse entendimento profundo,
tanto luar como sol, que explica, mais ainda do que o
322 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
que se perpetua em flagrância num livro, a poderosa
força criadora, a ductilidade, a emoção e a contensão
nervosa de raras naturezas artísticas.
Refletiam que certo modo de colocar, de pôr as
mãos, de certas mulheres, lhes fazia longamente
considerar, meditar nas monjas...
Pensavam que no mundo há naturezas tão
excêntricas e nebulosas que, pelas condições complexas
em que se encontram na vida, precisariam de uma
filosofia nova, original, para determiná-las. Eram como
que existências eriçadas de abetos alpestres, carnes
que se rasgavam, se despedaçavam...
As rosas pareciam-lhes belezas opulentas,
pomposas, da Inglaterra...
E todo o universo estava agora tão atrozmente
perseguido por tédios mortais, que os homens já
naturalmente falavam em morrer como quem fala em
viajar ou em rir...
Quanto à Arte queriam que a expressão, que a
frase vivesse, brilhasse, sonora e colorida, como um órgão
perfeito. Que tudo o que dissessem ficasse imperecível,
eterno, perpetuado no Espaço e no Tempo, com os sons
que os circundavam, a cor, a luz, o aroma que os atraía.
As palavras deveriam ser, para se eternizarem,
cravadas no ar límpido, como num forte cristal de rocha.
Era a ânsia dos requintes supremos, a exigência
das formas castas, que os fascinava, que os seduzia,
tentava como nudez formosa de mulher virginal. Tudo,
enfim, na Arte, deveria ficar luminoso e harmonioso,
como um cantar d’astros.
E lá caminhavam, inquietos, vertiginosos, no
esplendor matinal, que os alagava e fecundava, como
um prodigioso rio de ouro e diamantes, terras
maravilhosas e produtivas.
Iam à conquista das Origens verdes, das puras
águas brancas da Originalidade, dentre o vibrante
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 323
alarido de cristal dos seus temperamentos austrais,
ardentes e sangrentos.
Como orquestrações largas, sinfonias vivas de
emoção e idéias, rompiam dia a dia nessas batidas
frementes, numa transcendência de princípios e
sentimentalidades – talvez no íntimo dolorosos,
lancinados pelo Miserere das Ilusões elevadas.
E, muitas vezes, já alta madrugada, sob o sereno
e suave adormecer das estrelas alvorais, não era sem
uma derradeira Apóstrofe à soberana Chatice que essas
duas existências chamejantes se separavam, num
grande clarão espiritual de afetos.
Então, um deles, numa aclamação, num gesto
singular e profético, arrojava, além, para os séculos, esta
charge infernal, suprema:
– A divina Estupidez, a onipresente Imbecilidade
ficaria eterna, ao alto, junto às nuvens, sobre uma
estranha Babel de milhões de degraus de bronze, como
num trono colossal, bufando e roncando, a dominar as
imensidades, fantasticamente, onipotentemente
guardada por cem mil esquadrões ferozes, monstruosos
e formidáveis, de hipopótamos e búfalos!...
324 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
TINTAS MARINHAS
Mar manso, pelo fim da tarde.
O ouro fulvo dos horizontes no ocaso a pouco e
pouco esmaece.
Pela manhã chovera; mas em antes do pôr-do-sol
o dia levantara e as perspectivas úmidas e frescas
embebem-se agora no eflúvio salutar das marés.
No espaço há uma grande acumulação de nuvens
áureas e róseas, dum forte colorido de silforama.
Para além, da outra banda do mar, a faixa larga e
prateada da praia, em curvas, coleando, está de uma
extrema doçura e nitidez inefável. A retina mal pode
apanhá-la.
Os olhos pestanejam, nas infinitas vertigens e nos
prismas visuais sutis e cambiantes de míope, diante do
encanto dos tons da luz leve, rarefeita, espiritualizante
e fina como um tecido tenuíssimo.
Há em toda a marinha um aspecto amável, uma
suavidade de aquarela d’après nature, quase êxtase...
Dá um esplêndido efeito à visão óptica e um
revigoramento humorado às faculdades artísticas, este
belo trecho sadio e agradável de vagas, em cuja superfície
a luz frouxa da tarde se encarrega, com as suas
pinceladas de fantasista, de fazer as mais extravagantes
e rendilhadas decorações.
O mar, aquietado, sereno, está de um verde glauco
ativo e salgado, convidando a viajar, e, sobre ele, navios
balouçantes, embarcações, soltas como aves, de
delicadas formas artísticas, com afinidades abstratas
de certas linhas fugidias de um perfil de mulher,
conservam então, como lenços de adeuses, as suas velas
brancas estendidas, os seus panos a secar da chuva da
manhã.
Balançam-se um pouco, numa cadência
harmônica, num ritmo musical, com os altos mastros
erguidos para o céu em posição de vigia.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 325
E, assim, com os mastros e as velas, na
aglomeração das adriças e dos cabos, os navios fazem
vagamente lembrar, na calma da tarde, enormes e
estranhas plantas de ornamentação.
Ao fundo, na recortada e esfuminhada linha das
montanhas, uma queimada faz evolar para os ares o seu
azulado penacho de fumo.
E, no meio da pitoresca delícia da marinha alegre
e lavada, de um acre sabor de azote, uma ou outra
gaivota esvoaça, além, num vôo incisivo, rápido, ou pousa
junto aos líquens ou junto às algas, mergulhando e
roçando na vítrea vaga a nevada plumagem de arminho.
Então, de toda a paisagem, larga, aberta,
revigorativa e cheia de um grande ar primitivo de
virilidade, vem um sopro intenso, confortador e pagão
de Heroísmo e de Mocidade, fazendo inflar o peito, e um
sentimento anelante e virgem de pesca, no bravo Mar
Alto, entre tropicalismos primaverais de sóis sangrentos
e de dias azuis, sobre as rasgadas ondas murmurejosas.
326 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
ESMERALDA
No fundo verde da tela avulta em claro uma Cabeça
macilenta, dolorosa, como que envolta num albornoz
branco.
Toques da mesma cor garça põem-lhe leves
nuances nos cabelos, nos olhos cismativos, anelantes,
que têm a expressão de um desejo nômade...
Desse cromatismo de tons verdes idealizou o
artista o nome da sua viva cabeça imaginária — que
parece uma dessas fisionomias raras que só naturezas
especiais sabem distinguir e amar, uma dessas cabeças
de mulheres singulares que a dolência da paixão
enervante calcinou e turvou de dores.
Do golpe rubro da boca escapa-lhe um sentimento
de amargor, que a travoriza e acidula, como se um acre
veneno ardente lhe estivesse sangrando os lábios.
E essa boca, assim em golpe rubro, purpurejada
por um vinho secreto de ilusão antiga, destacando álacre
no palor do rosto frio, como que excita aos beijos,
turbilhões de beijos como de chamas...
E descendo da boca aos seios alvos de lua, a
imaginação vai fantasiosamente compondo todo o corpo
de Esmeralda e despindo-o à proporção que o vai
compondo, despindo-o e gozando a carne cor de papoula.
E, as tintas, na tela, vivendo da
impressionabilidade artística que um pincel de mão
original e nervosa lhes infiltrou, como que exprimem,
no colorido e no ideal da contemplativa Cabeça, a emoção
vaga, aérea, de alguma formosa e amada Esmeralda
virgem, perdida e morta dentre as verdes pedrarias do
Mar solene...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 327
FIDALGO
Pé esguio, fino, leve, a Mefistófeles, para galgar,
não já a Roma pomposa e purpúrea, enflorada em glórias;
nem mesmo já até a Grécia estóica, de ouro e de
mármore; mas para supremamente galgar as regiões
infinitas e virgens da deslumbrante Originalidade.
Colorido de graça, madrigalesco e maravilhoso, a
luva negra vestindo a mão real de loiro e fantasioso
Excentrista, a face meditadora e branca voltada para as
Estrelas, donde surgiriam as leis transcendentes da
Arte, penetrarias os pórticos suntuosos de palácios
d’esmeralda e safira, subindo por escadarias de prata e
pérola.
E, prodigiosamente, em sedas e ouros de luz, aí
te perpetuarias nos Azuis imortais da Eternidade, onde
o Espírito deve ter, não a claridade coruscante e
clarinante do Sol mas o brilho de paz, de incomparável
repouso são da Lua sonele e sonolenta.
A tua Obra, vasta e fecundadora, seria então
singularmente traçada em panos mais largos que os de
tendas de desertos e mais alvos ainda do que as neves
imaculadas.
Com um fio d’astro cinzelarias, darias esmaltes
indeléveis e marchetarias idéias, como um tecido
d’estrelas, liriais e siderais.
E para que a correção inteira, a harmonia perfeita
irradiasse na Obra, em luz mais clara, um pássaro
estranho, verde, cor de brasa, branco, azul, conforme o
tom do teu Ideal, cantaria, gorjearia em ruflagens d’asa
ao alto da tua nobre cabeça fidalga, como que para te
ritmar as idéias.
E tu, como um deus mítico, afinarias pelo ritmo
inefável do canto os pensamentos delicados da grande
Obra, até produzires nela a harmonia, a cor, o aroma.
Músicas excelsas e tristes, como uma combinação
de roxo e azul profundo, dariam frêmitos, vibrações às
328 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
tuas páginas, que ficariam vivendo como o Som,
perpetuamente.
Bonzos, Manitus, não gralhariam e grasnariam
jamais em torno do teu ser abstrato e tranqüilo, feito
para florir, cantar e resplandecer.
Como as pérolas guardadas em cofre do Oriente,
envoltas em areia do Mar Vermelho, para não perderem
o raro esplendor, a tua Obra, coroada pelas rosas
triunfais da Originalidade, ficaria afinal, ó Fidalgo da
Arte! envolta nos mistérios do Sol, egregiamente
cantando e chamejando, na helênica resplandecência
da Forma.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 329
ANGELUS
Um sol em sangue alastra, mancha
prodigiosamente o luxuoso e largo damasco do
Firmamento.
Opulentos, riquíssimos esplendores de púrpuras
luminosas dão uma glória sideral à tarde.
E, pela sugestão cultual, quase religiosa da hora,
os deslumbrantes efeitos escarlates do grande astro que
desce, d’envolta com douramentos faustosos, fazem
lembrar a magnificência romana, a ritual majestade dos
Papas, um festivo desfilar católico de bispos e cardeais,
através dos resplandecentes vitrais do Vaticano, com os
báculos e as mitras altas, sob os pálios aurilavrados.
Embalsamam a tarde aromas frescos, sãos,
purificadores, como que emanados da saúde, das
virgindades eternas.
Um ar olímpico, talvez o sopro vital de mares verdes
e gregos, eterifica harmoniosamente a curva das
montanhas, ao longe, contorna-as, recorta-as, dá-lhes
a nitidez, o esmalte do aço.
Como que a Natureza, nesse esmaecer do dia,
tem mocidades imortais e como que as forças, as origens
fecundas da terra, desabrocham em rosas.
O rubente esplendor solar gradativamente smorza
num cor-de-rosa leve, de veludosa suavidade.
Serenamente, lentamente, uma pulverização
neblinosa desce das amplidões infinitas...
Névoas crepusculares envolvem afinal a
imensidade, no recolhimento, na paz dos ascetérios.
Os campos, as terras da lavoura, a vegetação dos
vales e das colinas adormecem além, repousam num
fluido noctambulismo...
Por estradas agrestes pacificadas na bruma, uma
voz de mulher, dispersa no silêncio, clara e sonora, canta
amorosamente para as estrelas que afloram rútilas e
mudas.
Canta para as estrelas! e parece que a sua voz,
errante na vastidão infinita, vai inundada do mesmo
perfume original que a alma viçosa e branda dos vegetais
exala na Noite...
330 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
NÚBIA
Amar essa núbia – vê-la entre véus translúcidos
e florentes grinaldas, Noiva hesitante, ansiosa, trêmula,
tê-la nos braços como num tálamo puro, por entre
epitalâmios; sentir-lhe a chama dos beijos, boca contra
boca, nervosamente – certo que é, para um sentimento
d’Arte, amar espiritualmente e carnalmente amar.
Beleza prodigiosa de olhos como pérolas negras
refulgindo no tenebroso cetim do rosto fino; lábios
mádidos, tintos a sulferino; dentes de esmalte claro;
busto delicado, airoso, talhado em relevo de bronze
florentino, a Núbia lembra, esquisita e rara, esse lindo
âmbar negro, azeviche da Islândia.
O seu sangue quente, aceso em púrpuras de
luxúria, através da pele sombria e veludosa, recorda
avermelhamentos de aurora dentre uma penumbra de
noite, como o deslumbramento boreal das regiões
polares...
No entanto, amar essa carne deliciosa de Núbia,
ansiar por possuí-la, não constitui jamais sensação
exótica, excentricidade, fetichismo, aspiração de um
ideal abstruso e triste, gozo efêmero, afinal, de naturezas
amorfas e doentias.
Senti-la como um desejo que domina e arrasta,
querê-la no afeto, para fecundá-lo e flori-lo, como uma
semente d’ouro germinando em terreno fértil, é querer
possuí-la para a Arte, tê-la como uma página viva,
veemente, da paixão humana, vibrando e cantando o
amor impulsivo e franco, natural, espontâneo, como a
obra d’arte deve vibrar e cantar espontaneamente.
Crescida, desenvolta aos poucos no meio culto,
entre relações de simpatia inteligente e harmônica, sob
um sol saudável de cuidados, de apuro de tratos e de
maneiras, que tornou mais leve e penetrante,
iluminando, o seu cérebro simples, de ignorância
ingênua, a Núbia abriu em flor de carícia, alvorou com a
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 331
doce meiguice dos tipos galantes e preclaros de mulher
e recebeu também, em linhas de conjunto, do mesmo
meio onde desabrochou, essa suavidade e graça núbil
que é todo o encanto vaporoso, aéreo, do ser feminino.
No seu rosto oval, de uma penugem sedosa de
fruto sazonado, há, por vezes, certa expressão de
melancolia, de cisma dolorosa, que punge e contrista; o
tênue, já quase apagado raio errante de uma lembrança
vaga – como se Ela de repente parasse na existência e
se sentisse no vácuo, perdida e só nos caminhos
desolados, desertos, de onde veio outrora, sem leito e
em lágrimas, a caravana gemente da sua raça...
Então, nesses momentos em que um dolorimento
secreto, misterioso, a conturba e magoa, Ela parece
serena divindade aureolada de martírios, macerada de
prantos; e é talvez bem pequeno, bem frágil todo o amor
do mundo para proteger, para amparar, como que numa
redoma sagrada de Misericórdia, essa humilde criatura
que o fatalismo das forças fenomenais da Natureza
condenou à indiferença gelada e à desdenhosa ironia
das castas poderosas e cultas.
Assim, adorá-la em compunção afetiva, trazê-la
no coração como relíquia rara num relicário estranho,
claro é que não significa banal emoção transitória, que
o rude desdém da análise fria pode, apenas com um
golpe brusco, extinguir para sempre.
Essa emoção, esse amor, cada vez mais profundo
e espiritualizante, penetra impetuoso no sangue como a
luz e o ar, deliciando e ao mesmo tempo afligindo como
a Idéia e a Forma igualmente deliciam e afligem...
E, nem mesmo, no fundo íntimo de qualquer ser
tocado de uma intuição maravilhosa da origem terrestre
da felicidade podem resplandecer, mais do que a Núbia,
as belezas de neve da Escócia e da Irlanda ou as
formosuras originais e flagrantes da Armênia e da
Circássia.
332 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Tudo ela possui de luminoso e perfeito, como a
noite possui as Estrelas e a Lua, visto e sentido tudo
através da harmonia espiritual, da alta compreensão
requintada e subjetiva de quem a ama e deseja.
A sua alma, de forma singela e branca de hóstia,
tem ritmos de bondade infinita, meigas claridades
brandas e consoladoras de piedade e enternecimento, e
a sua voz sonorizada, com a vivacidade nervosa e o alado
timbre argentino, claro e fresco, de um gorjeante cristal
de pássaro, derrama por toda a parte a música
emocionante, sugestiva e curiosa, de violino afinado...
E nenhum peito dedicado de nobre dama medieval
nobiliárquica será mais gentil e dedicado que o seu peito,
donde jorra, com firmeza e força, em onda original, talvez
manado dessa simpleza de obscuridade, um inefável
sentimento verdadeiro e virgem como o tenro broto verde
dos arbustos.
Ela é a Núbia-Noiva, singular e formosa, amada
com religioso fervor artístico, com a fé suprema, a unção
ritual dos evangeliários do Pensamento; e todo esse
feminino ser precioso brota agora em exuberâncias de
afeto, em pompa germinal de extremos lascivos, floresce
em rosas juvenis e polínicas de puberdade, abertas
sexualmente nos seios pundonorosos e pulcros...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 333
SOM
Trago todas as vibrações da rua, por um dia de
sol, quando uma elétrica corrente de movimento circula
no ar...
Mas, de todas as vibrações recolhidas, só me ficou,
vivendo a música do som no ouvido deliciado, a canção
da tua voz, que eu no ouvido guardo, para sempre
conservo, como um diamante dentro de um relicário de
ouro.
Cá está, cá a sinto harmonizar, alastrar em som
o meu corpo todo, como flexuosa serpente ideal, a tua
clara voz de filtro luminoso, magnética, dormente como
um ópio...
Muitas vezes, por noite em que as estrelas
marchetam o céu, tenho pulsado à sensação de notas
errantes, de vagos sons que as aragens trazem.
As fundas melancolias que as estrelas e a noite
fazem descer pelo meu ser, da amplidão silenciosa do
firmamento, dão-me à alma abstratas suavidades,
vaporosos fluidos, sinfonias solenes, misticismos, ondas
imensas de inaudita sonoridade.
E, calado, na majestade sombria da Natureza, como
num religioso recolhimento de cela, vou ouvindo,
esparsos na vastidão, smorzando nos longes, entre
redondos tufos escuros de folhagem, onde se oculta
alguma luxuosa existência de mulher, inebriantes sons
de peregrinas vozes ou de invisíveis instrumentos.
E os sons chegam, vêm até mim, na estrelada
tranqüilidade da noite, frescos e finos, como através de
rios claros que nevassem ou de vagas embaladoras que
o frio luar prateasse.
E eu penso, então, nessas simpáticas, corretas
atitudes e expressões da música.
Vejo, na nitidez de cristal do pensamento, a harpa,
sonora asa de ouro, com as cordas tensas, dedilhada
por brancas mãos aristocráticas que arrancam dela
334 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
frêmitos, soluçantes dolências, plangências
incomparáveis.
Escuto a pompa, a imponência sonorizante de um
órgão de catedral, quando, pelas altas naves, sobem rolos
alvos de incenso, e, o sol, fora, com as flechas dos raios,
constela de astros microscópicos as polidas e góticas
vidraçarias.
Ou, pressinto ainda, num fidalgo salão do tom,
onde os perfis ostentam valorosidades de linhas ducais
e a luva impera galantemente, a assinalada elegância
dos concertos da graça, quando os violinos, zurzinando
notas que esvoaçam do arco resinado às cordas
retesadas, zumbindo e ruflantemente, prendem-se à voz
que resplende, triunfa na sala, sonorizando-a e
iluminando-a mais que os fúlgidos lustres e os
candelabros facetados, como se, da garganta de quem
cantasse, a aurora alvorecesse e vibrasse.
E cuido logo ver uma mulher – alta, beleza grega,
formas esculturais primorosamente cinzeladas.
A cabeça, de uma discreta severidade de deusa,
pousa-lhe no rico, abundante torso inteiriço do corpo
forte.
Há uns meigos tons louros no aveludado cabelo
que, por entre a luz, mais louro e aveludado brilha.
De pé, ereta, o perfil nitidamente marcado, no
meio da cauda astral da veste de seda rara, ela
desprende, evola a voz da garganta de aço novo e essa
espiral de voz revoluteia no salão, fica algum tempo
aquecendo e sonorizando o ar...
Como um astro, essa voz flameja, palpita e gira
na iluminada órbita da sala cheia da multidão que a
escuta, e, como um astro, cai, fulgurando, semelhante
a exalações meteóricas, no fundo do meu ser como num
golfo...
Nobremente, pela cadência do canto, o corpo da
imaginária mulher tem certas flexões delicadas e
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 335
eletrismos de gata voluptuosa, e o seio, fremente da
melodia que o emociona, se afervora e pulsa.
E a voz ala-se, ala-se, gorjeada, arrulhante,
trinada, ave de luz harmoniosa que ela enfim solta do
aviário do peito.
Todos esses dulçurosíssimos efeitos musicais me
impressionam singularmente, distribuindo por mim a
mais aguda vitalidade mental, que me sensibiliza os
nervos da atenção, como se todo eu me achasse sob
uma atmosfera salutar e tonificante.
Ou, então, cobrem-me também de opulências, de
gloriosas soberanias, as vivas forças orquestrais, onde
perpassam ruídos largos de floresta, clarins, inefáveis,
misteriosas melodias de pássaros.
Mas, do som, da música, não me exalça, não me
enleva só o ritmo leve, educado, que deixa uma suavidade
acariciando, bafejando o ouvido como um perfume bafeja,
acaricia o olfato.
Ficam-me nos sentidos, nos nervos, calafrios sutis,
ligeiros narcotismos, pequeninas vibrações que, não sei
de que rútila chama, parecem faiscar...
E começo, após um engolfamento de sons
profundos, a ter penetrabilidades intensas, estranhas
emoções que me despertam infinita série de fatos já
gelados no tempo, como passadas fases de lua.
Evidenciam-se-me idéias, impressões, sugestões
curiosas, certos obscuros estados mórbidos da alma, que
em vão a espiritualidade humana tenta transplantar para
os livros, mas que só o ritmo aviventa, levanta aos poucos
da nebulosa das existências, como um sol sempre amado,
mas já antigo, já velho, remotamente apagado nos
sentimentos...
336 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
GATA
De neve, de uma maciez de arminho e
lactescência de neve, de uma nervosidade frenética, era
luxuosa, principesca, decerto, essa orgulhosa gata.
As esmeraldas dos seus olhos claros fosforeavam
sensualmente, eletricamente, quando alguém, no
conforto da casa, lhe acarinhava de manso o dorso, o
focinho tenro, polposo, espiguilhado de prateados fios
sutis; e, no seu lindo pêlo cetinoso e alvo, como numa
fresca e virginal epiderme de mulher aristocrata,
perpassava um frisson de ternura, um estremecimento,
como se em toda ela vibrasse alguma fibra de espiritual
e amoroso.
E era então fidalga nas sensações, no ronronar
apaixonado, ao luar, sob o cintilante cristal das estrelas,
pelas caladas vastidões da noite, ou, nas horas de sesta,
nos quentes, enlanguescedores mormaços, preguiçosa
e fatigada, anelando o repouso, numa onda de gozo e
volúpia, enroscada, serpenteada, torcicolosa e convulsa,
como um organismo suave e débil que um vivo azougue
eletriza e agita.
Talvez fosse a alma de alguma vaporosa rainha
que ali vivesse nesse precioso animal, alguma misteriosa
visão polar dentro daquele feltro branco, daquela pelúcia
rica, daqueles flocos eslavos; algum sonho, enfim,
errante, vago, perdido nesse nobre exemplar felino de
formas lascivas, flexuosas e delicadas.
Às vezes, mesmo, ela errava, como a nômade que
perde a rota da caravana pelos desertos escaldados de
sol, em busca de alimento; e os seus olhos, penetrantes
no verde úmido e agudo das luminosas pupilas, mais
até fantasiosa a tornavam e mais nevoeiro davam à sua
lenda de fadas.
E assim, arminho girante, que as quatro veludosas
patas faziam fidalgamente caminhar, miando histérica,
era como uma sonâmbula idealizada e amante que
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 337
soluçava e gemia implorativamente a sua dor, através
de aposentos, na indiferença de quase todos.
Um dia, porém, uma doce mão feminina e
perfumada quis tê-la junto de si e levou-a consigo para
a tepidez e a pompa das alcovas cheirosas, vivendo com
ela ao colo, passando-lhe os íntimos alvoroços do seu
sangue de Virgem – como se a gata fosse um profundo
seio de afagos a que ela confiasse todos os seus mistérios
e segredos de Noiva ainda presa no claustro cerrado,
como as monjas normandas, da carne inquietante e
alucinadora.
Agora, com a formosa seda do pêlo vibrando à
carícia, alta e feliz a cabeça artística, vive nesse colo
impoluto, em sonhos deliciosos e gozos infinitos de
orientalista, o belo exemplar felino, branco, voluptuoso
e dolente como a luz embalada e cismando,
imaculadamente, no seio azul das Esferas.
338 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
DIAS TRISTES
Apesar do sol, que imensa tristeza para certos
seres, que dias tristes, esses, de uma melancolia e
dolorosa névoa...
Os ruídos todos, o esplendor da luz, convergindo
em foco para o coração, deslumbram, fascinam de modo
tal e tão profundamente, que o abatem, infiltrando-lhe
essa tristeza infinita que se não define e que está, como
um fundo de morbidez, nas almas contemplativas e
nômades, que vão armar a sua tenda nas desconhecidas
e longínquas paragens abstratas do Pensamento.
Dias tristes, muita vez, os dias de sol.
Mergulhado o espírito na onda profunda de desejos
irresistíveis, como numa intensa e luxuriosa paixão, os
aspectos que se lhe manifestam na Natureza são
amargos, atravessados dessa pungência aflitiva, dessa
magoante desolação e atormentadora ironia que há na
essência de todas as cousas e idéias.
E, como o pensar dá uma grande tristeza, põe no
cérebro uma incomparável tortura, o Pensamento, à
evidência da luz, na alegria do sol, deixa-se possuir de
um nervosismo triste, de um meio luar turvo e trágico
de impressões agudas, dilacerantes.
Os dias tristes, para raras naturezas intelectuais,
são quase sempre os dias triunfantemente alegres,
sonorizados de pássaros, quando há uma alta irradiação
no ar, um repouso, uma paz feliz em toda a vegetação e
que o sol, numa vitória astral, vai, como um deus pagão,
em festins de luz...
Como que filtros de dolorimento partem de todas
essas luminosidades, todo esse fulgor solar verte uma
nostalgia cruciante, que fere e fende o peito,
incisivamente, como as flechas letalmente envenenadas
dos hindus.
Quanto a mim, amargamente sinto esses dias
tristes.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 339
À larga luz de um templo vasto, na suntuosidade
de uma festa católica, quando pela infinidade de
rutilantes lustres acesos há facetas de estrelas, íris
fulgurantes e pelos douramentos dos altares
borboleteiam faíscas, acendem-se chamas nas velas
amareladas, e vozes flébeis, numa compunção religiosa,
sobem para as naves com a vaporosidade dos brancos
incensos, dentre mósicas festivas – um angustioso anseio
me insufla, me enche infinitamente o peito.
E, batido de uma pungência, vibrado de uma
recordação, alanceado por uma idéia, subitamente, para
logo, toda a aparente radiação de alegria foge e eu me
vejo então dentro dos meus dias tristes e que alguém,
dos longes do Passado, acena-me, ou com um lenço
amoroso, para as recônditas e virgens emoções do
coração, ou com uma bandeira de combate, para as
impulsivas faculdades do cérebro.
Se um riso me aflora aos lábios, nervosamente;
se uma verve satânica os inflama; se uma esfuziante
sátira os eletriza, é ainda assim uma maneira de ser
triste, apunhalante sarcasmo às tempestades mentais
que se dão por dentro – humorismo doente, que para se
convencer de que é alegre e de que é são, flori em rosas
de riso, abre em Via-Láctea de riso.
O esplendor das salas iluminadas, na abundância
de cristais e flores, entre auroras de mulheres e
luxuosas roupagens, dá-me também, a pouco e pouco,
um abatimento, um afrouxamento aos nervos e daí nasceme logo, como uma tentaculosa planta negra e de morte,
essa indescritível tristeza, que é a feição ingênita de
tudo, que cobre tudo como que de uma neblina
crespuscular sensibilizante...
Assim, também, ao almoço, pelas claras manhãs,
quando a toalha branca da mesa, as flores das jarras, o
pão, o vinho, a atitude correta das pessoas, a limpidez
simpática da hora, fazem lembrar resplandecências,
alvuras castas, paramentações de altar para a evangélica
340 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
celebração da Missa, um sentimento de inexplicável
tristeza me invade, nascido de toda essa disposição
harmoniosa de objetos e de pessoas. E, abstratamente,
como num nebuloso sonho, durante toda a alimentação
desenrola-se lenta, vagarosa e fluida no meu ser, uma
surdina oceânica que parece estar, na plangência de
sons abafados, lembrando todas as abundantes fontes
de afeto que para mim já para sempre secaram, todos os
astros prodigiosos de enternecedor carinho que para mim
já eternamente se apagaram.
Mas, esses dias tristes, as horas, os momentos
desses nevoeiros d’alma, tão densos, tão cerrados,
nascem apenas de uma Visão que se adora, que nos
abre inefavelmente os braços, que o espírito ama no seu
recolhimento, na sua cela sombria e muda! essa Visão
seráfica, nervosa, histérica, ideal – a Santa Teresa
mística da Arte.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 341
PAISAGEM DE LUAR
Na nitidez do ar frio, de finas vibrações de cristal,
as estrelas crepitam... Há um rendilhamento, uma
lavoragem de pedrarias claras, em fios sutis de
cintilações palpitantes, na alva estrada esmaltada da
Via-Láctea. Uma serenidade de maio adormecido entre
frouxéis de verdura cai do veludo do firmamento, torna
a noite mais solitária e profunda.
O Mar, pontilhado dos astros, faísca, fosforesce e
rutila, agitando o dorso glauco.
E, de leve, de manso, um clarão branco, lânguido,
lívido, vem subindo dos montes, escorrendo fluido nas
folhagens, que prateiam-se logo, como se fabuloso artista
invisível as prateasse e as polisse.
A lua cheia transborda em rio de neve na
paisagem, e, no mar, há pouco apenas fagulhante da
inação das estrelas, a lua jorra do alto.
Por ele a fora, pelo vasto mar espelhado, pequenas
embarcações se destacam agora, alígeras, lépidas, à
pesca da noite, velas brancas serenas, sob a constelação
dos espaços.
A água repercute, na amorosa solidão do luar, a
barcalora sonora dos pescadores, que, de entre a glacial
amplidão da água, mais fresca e sonora, vibra.
Um aspecto de natureza verde, virgem, que
repousa, estende-se nos longes, desce aos prados, sobe
às montanhas e infinitamente espalha-se nas mudas
praias alvejantes.
E, à proporção que a lua mais vai subindo o páramo,
à proporção que ela mais galga a altura, mais as
pequenas embarcações de pesca avançam nas vagas
resplandecentes, com as asas das velas abertas à
salitrosa emanação marinha.
Com o brilho fúlgido, aceso, d’esmeralda facetada,
uma estrela parece peregrinamente acompanhar de
perto a lua, num ritmo harmonioso...
342 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Perfumes salutares, tonificantes eflúvios exalamse da frescura nova, imaculada dos campos, como dum
viçoso e casto florir de magnólias, na volúpia da natureza
adormecida numa alvura de linhos, dentre opulências
de Noivados.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 343
ARTISTA SACRO
Na catedral, com toda a pompa da liturgia, celebrase a Semana Santa.
Pela Ressurreição, às quatro horas da manhã, há
na igreja um ar vago de alvorada, em amarelo cidrento,
trazido da rua pela larga e polida vidraçaria que se
conserva aberta – ar menos vago, contudo, do que a névoa
que turva fora os aspectos, em virtude dos lustres acesos,
da variada profusão de luzes e da gala sagrada que enche
de resplandecências e solenidades toda a extensa Nave
onde os devotados católicos murmurejam num crescendo
de mar tormentoso e cavado...
O Altar-Mor está vistosamente ornado,
deslumbrante, viçando de flores colocadas em jarras
azuis e douradas, numa frescura e colorido cromático
de jardim, rodeado de grandes tocheiros arabescados
que faíscam, flamejam com chamas ensangüentadas e
amarelas.
Em cima, até onde os olhos sobem mais, num trono
de luzes, entre uma pesada cortina de damasco
vermelho, de tons profundos, caída para os lados em
pregas longas e largas, vê-se o Cristo, na alegoria de
Redivivo, com a chaga simbólica no flanco direito, tendo
numa das mãos um ramo verde.
Nos altares laterais os Santos como que ainda
mostram possuir a auréola triunfal da Aleluia, sorrindo
seraficamente, quer os mártires, quer os gloriosos.
Pelo teto abobadado, dentre as melífluas
harmonias, as melancólicas sonoridades dos violinos,
das flautas, dos violoncelos e do órgão pianíssimo, ecoam
majestosas as vozes que irrompem do coro, beatíficas,
no Kirie Eleison.
Os sacerdotes, festivamente paramentados, com
as suas casulas custosas, relampejantes, bordadas a
flores de ouro, em alto-relevo; de estolas rutilantes e
franjadas pendidas no braço ou com as sobrepelizes alvas
344 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
e rendadas destacando forte na batina preta, curvamse genuflexos diante do Altar-Mor, erguendo-se após com
mesuras graves e medidas, enquanto os acólitos, ao
fundo, em linha e reverentes, fazem balançar,
cadenciada e ritmadamente, turíbulos lavorados, de onde
se exalam espiralados incensos...
E o Cerimonial prossegue, na minudência exata,
escrupulosa do Rito romano.
Mas, nas suntuosidades da festa, ressalta de
magnificências, esmaltadamente, um esbelto sacerdote
novo e formoso, talhado em estátua branca, e que ergue
no meio das outras vozes, a sua clara voz sonora, cheia
de unção religiosa como de um sentimento amoroso e
carnal.
Chegado há pouco de Roma é essa a primeira
cerimônia de mais estilo em que toma parte com o seu
tipo amável, doce e misericordioso, amantíssimo, de São
Luís Gonzaga.
A sua linda cabeça suave, direita, correta, através
da vaporosidade incensal, domina pela saúde e pela
mocidade, que resplende no rosto liso, escanhoado, onde
os olhos brilham com raios místicos...
O seu porte ornamental, que parece afirmar o
poder de uma força divina, conserva-se aprumado, ereto;
e, quando a voz se lhe desprende untuosa dos lábios,
como que ele paira num resplendor espiritual, vaga num
nimbo etéreo, cercado por alas de querubins inefáveis e
de arcanjos de asas fulgentes...
De toda essa pessoa clerical como que vêm fluidos
magnéticos, que fascinam e prendem certo olhares
juvenis femininos, que a seguem, que a buscam em todas
as direções, em todos os movimentos, sofregamente,
deliciados da sua prodigiosa figura que ali naquele
recinto sagrado tão imperiosamente e tão alto se destaca,
como que revestida de poderes celestes.
E o sacerdote instintivamente percebe os êxtases,
os enlevos que despertam nas mulheres belas, porque
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 345
dá então mais nitidez às mesuras, requinta nas
curvaturas solenes, fica mais excelso e egrégio ainda,
deixando escapar com brandura um sorriso paradisíaco,
que é talvez a promessa sacrossanta dos dons
maravilhosos, das graças, do Perdão infinito que a sua
onipotência consegue.
Nas suas mãos aristocráticas, delicadas e níveas
como hóstia, sente-se, quando ele as eleva no ritmo do
Cerimonial, um ligeiro estremecimento amoroso, que o
embaraça, fazendo com que logo, para apagar essa
impressão pecadora, exagere o Rito, afetadamente.
Os olhares femininos, deslumbrados pelo êxito
daquelas maneiras evangélicas, não deixam jamais de
seguir o airoso sacerdote, as linhas harmoniosas da sua
figura, o seu másculo vigor de deus viril e vitorioso, como
seguem, no circo, os movimentos ágeis, dúcteis, e a
plástica, firme e forte, dos corpos cinzelados de acrobatas
célebres e atraentes...
Realmente, na sua carne, que os incensos
perfumam, circula o sangue em labareda de instintos
sexuais e a sua cabeça primaveril, que a Arte da Religião
abençoou em Roma, tem o encanto, a fascinação
diabólica, satânica, da venenosa cabeça da Serpe bíblica.
Mas, o decorativo apóstolo, resplandecendo nas
vestes talares, imponente, magistral, faz simbolicamente
lembrar, assim venerado pelas mulheres, com fervor
beatífico, um Sultão em palácios, no Bósforo, como AbdulAzid, amado por odaliscas e sultanas.
De vez em quando, no templo, passam fios etéreos
de harmonias de instrumentos e cânticos, que ondulam,
que flutuam no ar...
E o Eclesiástico, numa volúpia sacra, com toda
essa Arte ritual de símbolos, de missais, de eucaristias,
de pálios, de pedras de ara, de corporais, de âmbulas,
de santos óleos, de chamalotes, lavrados e damascos,
íris, lhamas de prata e ouro, recebe a opulência, o brilho
feérico, o luminoso esplendor de um astro.
346 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
De lá, do seu sólio real de aparatosos efeitos, entre
sedas, chamas e pedrarias, ele rege, com renomes
episcopais, solene e sereno, a sinfonia das eternas
Dulias.
É o ateniense das formas católico-romanas,
triunfando no idealismo de um gótico, de um medieval,
através de cinzeluras de templos, com refulgências
siderais de constelado...
Casto cenobita, recluso nas celas do Cristianismo,
ficará, talvez, para sempre, com elanguescimentos
histéricos, na muda contemplação das cismadoras
Imagens liriais dos hagiológios.
Ou, batido das realidades carnais, sentindo a
avidez das paixões terrestres, verá passar, ante os olhos
mortificados na marmórea veneração de Jesus, à luz de
círios ou de lâmpadas, violentamente, a visão cor-derosa das virgens vitais – fina, transparente epiderme da
gaze auroral das papoulas.
Então, dirá decerto ao mundo, extasiado por essas
vivas expressões carnais que o transfiguram e
humanizam, todos os mistérios, todos os inauditos
clarões da Eternidade, que Ele, Artista Sacro,
transcendentalmente conhece, lendo sempre, para dar
mais abstração ao Miraculoso, os arcaicos latins
apocalípticos e antifônicos...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 347
VISÕES
Num brilho cintilante de tiara persa a Via-Láctea
encurva-se do alto por sobre mim, nas alvas flores
cristalinas das suas estrelas.
Encurva-se por sobre mim a pompa negra da noite
densa, vagamente lembrando o luminoso esplendor de
uns olhos dentre a pompa negra de aromados cabelos.
Como em arejados pátios claros de castelos
renanos desfilassem visões germânicas, willis
enamoradas e vaporosas, sílfides serenas e
encantadoras, ao luar das baladas, de cada estrela
frígida, branca, desfila, vai desfilando nas rutilantes
esferas uma Ilusão e um Sonho e cada Sonho e cada
Ilusão se corporifica, toma consistência de nervos e
cinzelada escultura de linhas, e eis então aí
fascinadoras, deslumbrantes mulheres avassalando o
firmamento, como ampla Via-Láctea de corpos
ondulantes e níveos...
* * * * * * * * * *
Ah! mulher que eu procuro e desejo da tenda
nômade da Arte, peregrina e fugidia sereia! que as
harmonias deliciosas da tua carne não sejam como são,
misteriosas para mim como a Via-Láctea, a cujas
estrelas, que representam cada uma, uma Ilusão e um
Sonho, está infinitamente presa, num amoroso eletrismo,
esta alma ardente, alanceada e nervosa...
348 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
A JANELA
Dava para o mar a larga janela verde, em frente
às águas também verdes e turbilhonantes às vezes,
outras limpidamente quietas, num remanso de golfo
sereno.
Velas saudosas de navios, enfunadas ao impulso
das correntes aéreas; mastreações caprichosas e
confusas, misteriosamente interrogando o céu; os
montes, ao fundo, formando panoramas álacres com os
seus cabeços azulados e colossais, e a grandeza olímpica
das ondas fechadas pela natureza numa extensa área
de terreno, tudo gozava e sentia além viver a janela; e,
ao longe, na indefinida barra dos horizontes
esfuminhados, a linha vaga, melancolizada, das imensas
distâncias intermináveis...
Dum lado e doutro da janela, subindo-a, galgandoa festivamente em caracóis negligentes, a expansão, a
nevrose vegetal da folhagem trepadeirante que busca
em ânsias o ar...
Rosas vermelhas e rosas jaldes alastravam numa
primaveral e casta alegria radiosa de Via-Láctea, o
quadrado verde da janela, enquanto amorosamente um
jasmineiro florido, entrelaçado às rosas, com flores alvas
e cheirosas desabrochadas em forma de pequeninas
estrelas, punha um encanto romântico e noival de janela
de Julieta na larga janela verde que dava para o mar.
E as embarcações, os iates, os navios, os paquetes
paravam no mar dormente e do mar dormente partiam,
lá iam todos a fora – ambulância marinha, dorso de tritões
ferozes e soturnos, vogando na superfície das ondas...
Iam talvez perto: a países meridionais, sob céus
elegantes e azuis, ou – mundo a dentro – às eternas
neves glaciais das geleiras do Pólo: às regiões
setentrionais das flamejantes auroras boreais: a
Islândia, a Lapônia, a Noruega, por entre as frias e
brancas estalactites fulgurantes da lua...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 349
Em frente à janela eram terrenos desapropriados
e planos, que um rente folhedo luxuriosamente cobria.
Depois era o mar, sempre o mar, todos os dias, a
toda hora, a todo o instante, cortando, no entanto, com
a monotonia do seu aspecto, a agreste monotonia
daqueles sítios suaves.
Mas, contudo isso, o mar nenhuma monotonia
parecia inspirar, porque dava à janela, àquele original
recanto, àquele desconhecido retiro isolado, aberto na
parede como o nicho de uma Santa, a recordação de
todo o vasto ruído atordoante e culto da vida de longe: os
rumorosos cais frementes, as movimentosas cidades
alegres, os grandes portos febris de efervescente efusão
cosmopolita de mil exemplares de povos.
Pela manhã, aparecia à janela, como um lindo sol
feminino, uma bela mulher, forte, alta, loura, de flavos
cabelos, talhada dum golpe numa quente e perfumosa
massa de luz e de sangue, clara da epiderme macia e
clara dos rendados vestidos em fofos e folhos que lhe
afogavam soberbamente a garganta bourbônica,
arrematados por fitas de azul leve e doce graciosamente
enlaçarotadas sobre o sedoso colo oválico.
E logo os seus olhos azuis como as fitas, da mesma
meiga frescura e candidez de hóstia transparente,
pareciam adejar, voar, como dois pássaros inquietos e
deslumbrados, pela amplidão das vagas verdes e vivas,
como se ambos quisessem nelas colher alguma certeza
ou derramar alguma esperança.
E o seu perfil, sob o sol, alvorecido na janela,
lavado nas frescas essências salitrosas que emanavam
do mar, tinha florescimentos, resplandecências, um vivo
fulgor de ouro novo, derramando no ambiente eflúvios
de magnólia.
Às vezes ela deixava-se ficar por mais tempo à
janela – e era então ali uma deliciosa e cristalina ária
de trinados, de matutinos gorjeios de pequenas aves
que por entre a viçosa verdura da janela esvoaçavam
350 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
em ruflos e contentamentos d’asa, em palpitações
elétricas de plumagem, cantando para o espaço todo esse
sonoro amor infinito dos pássaros que o seu estreito
laringe metálico tão maravilhosamente sabe desfolhar
em notas, como se essa mulher loura fosse a
corporificação da própria aurora que raiasse doirada no
acanhado horizonte enquadrado na florida janela verde.
E ficava ali constantemente a olhar, a ver o mar,
talvez na esperança de algum sonho de afeto que de
repente lhe surgisse e cuja enamorada lembrança lhe
vibrava o coração anelante, fazendo dolentemente o seu
colo arfar, agitar-se, numa onda nervosa de convulsão e
alvoroço, inflado desse tormentoso e vago desejo
irresistível do amor, que um dia vertiginou o mundo, e
que, quanto mais afastado se está de quem se adora,
mais fundo, mais entranhado fere e martiriza.
Pelas noites, quando o hostiário das estrelas abria
a sua rendilhada cintilação de prata nos sidéreos
espaços calmos, ou as finíssimas gazes lácteas da lua
flutuavam, velando tudo, ela, virgem noiva, branca e
muda como a lua, por lá ficava ainda a viajar na gôndola
da imaginação e fantasiosa saudade que a emocionava,
através do mar, ao encontro sonhado do seu afeto querido.
E, tonta, magnetizada, narcotizada na emoliente
volúpia da lua, na quente exalação dos aspectos, lá
adormecidamente ficava a amar, presa na fluida teia
luminosa das estrelas e da lua...
* * * * * * * * * *
Agora um muro enrijecido e alto, que o musgo e o
limo maciamente vestem de um veludoso verde escuro
de tapeçaria, veio para sempre obstar a ampla vista
azotada e alegre do edificante panorama do Mar.
Para além, como um gigantesco protesto que a
pedra opusesse às jubilosas, triunfantes águas marinhas,
o muro vai, longo e impenetrável, estendido em pano
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 351
ríspido de parede socavada e cerrada, que tudo do mar
avaramente encobre – levantado da terra como um brusco
e bronco biombo de treva à livre expansão da luz.
Austeros homens egoístas, no intuito de edificar,
apropriaram-se dos terrenos e para ali ergueram,
dividindo-os, semelhante à rija muralha d’imperecível
fortaleza, esse imenso muro empedernido, rochoso, como
que feito de um só bloco inteiriço de calcária matéria
rude.
Então, sem a perspectiva da alacridade vitoriosa
e bizarra das ondas, sem aquela vastidão consoladora,
salutar, das águas salgadas, e sem a visão branca dessa
mulher, vive agora quase sempre fechada, triste e fria,
a reluzente vidraça clara eternamente descida, na meia
sombra crepuscular da persiana, a idealizada janela
verde – a florejante janela que abria, como um desejo
vago, para o Mar infinito...
352 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
UMBRA
Volto da rua.
Noite glacial e melancólica.
Não há nem a mais leve nitidez de aspectos, porque
nem a lua, nem as estrelas, ao menos, fulgem no
firmamento.
Há apenas uma noite escura, cerrada, que lembra
o mistério.
Faz frio...
Cai uma chuva miúda e persistente, como fina
prata fosca moída e esfarelada do alto...
À turva luz oscilante dos lampiões de petróleo,
em linha, dando à noite lúgubres pavores de enterros,
vêem-se fundas e extensas valas cavadas de fresco, onde
alguns homens ásperos, rudes, com o tom soturno dos
mineiros, andam colocando largos tubos de barro para o
encanamento das águas da cidade.
A terra, em torno dos formidáveis ventres abertos,
revolta e calcária, com imensa quantidade de pedras
brutas sobrepostas, dá idéia da derrocada de terrenos
abalados por bruscas convulsões subterrâneas.
Instintivamente, diante dessas enormes bocas
escancaradas na treva, ali, na rigidez do solo, sentindo
na espinha dorsal, como numa tecla elétrica onde se
calca de repente a mão, um desconhecido tremor nervoso,
que impressiona e gela, pensa-se fatalmente na Morte...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 353
MODOS DE SER
Com uma nobre emoção da Arte dizia Balzac que
faltariam sempre cordas à lira de uma alma que nunca
tivesse visto o Mar.
Na verdade, sem o Mar, sem esse organismo vivo,
movimentado, vibrante, as perspectivas como que são
indecisas, vagas, a retina pouco se desenvolve e educa
sem essa larga vastidão das ondas, de onde parece subir,
nascer para o alto, como uma luz original, todo o
sentimento indutivo das cousas.
Diante do mar, à sua influência vital, que é a
influência da força, do vigor do pensamento, as
faculdades de cada um recebem impressões estéticas
muito consideráveis, ampliando o seu modo de ser,
dando-lhe a sugestão das latitudes geográficas,
correspondentes também, para um espírito de indução
e dedução fina e atilada, à amplidão das idéias.
Gozar o Mar é viver, sentir a eflorescência da
carne, crer nalgum poder forte e épico que nos encoraje,
dê ao pulso e ao cérebro essa poderosa segurança de
existir que levanta sobre rijos alicerces os princípios e
crenças de cada homem.
Do Mar vem essa emanação virginal, salutar, que
traz o impulso às ações, o vigor nobre à vontade, dando a
todo o organismo uma função especial, uma atividade
própria, uma determinação expressivista da Natureza.
Os efeitos maravilhosos que a visão recebe do Mar,
como uma máquina fotográfica recebe nitidamente as
fisionomias, desenvolvem-se nos temperamentos
artísticos em impressões, em nuances, em colorações,
em estilos, em linhas, em sutilezas de percepção, em
ductilidades, em fiorituras de imagens, em abundantes
floras de imaginação, tão múltiplas e luminosas quantas
são as infinidades de ilhas verdes de algas e de sargaço
que o Mar contém no seu seio.
354 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Ele infiltra nos órgãos emocionais e pensantes
todo um exuberante eletrismo nervoso, todo um fluido
de luz e originalidade, uma essência, um gérmen rico e
novo de graça e fantasia alada.
Fica-se numa saudável impressão e frescura
radiante de caça e pesca, numa alegria de sol
undiflavando rouparias brancas e finas.
* * * * * * * * * *
Serenidade de Campo e Mar é esta em que estou
agora.
Campo fértil, verde, como se agora mesmo
brotasse, em flor, da terra.
Nas manhãs claras, de grande majestade de sol,
pelos domingos, a missa da capela branca convida a
digressar entre árvores, sob o festivo e claro repique do
sino.
E, por estar no campo, numa extensão de relva,
de verdurosas alfombras, lembro-me vivamente do campo
das paradas, ao sol, num espelhar faiscante de baionetas,
rutilar de fardas e triunfal desfraldamento de bandeiras,
quando, imensas, pesadas massas marciais, na evolução
de um corpo disciplinar, agitam-se, num tinir e cintilar
de metais, como enorme serpente de coruscantes
escamas.
Com o espírito livre, em asa aberta, eu procuro
arrancar das vozes mudas, inexprimíveis da Natureza,
significações.
Campo e Mar estendem-se até longe, ao infinito
horizonte, fulgurando às luxuosíssimas sedas do sol.
Elevados cômoros de areias alvas, ao longo das
praias, conservam a aparência de grandes dorsos de
elefantes brancos deitados.
Então, um ritmo me sobe da alma ao cérebro para
me afinar os pensamentos em aspectos felizes,
luminosos, como quando os alemães, fumando cachimbo
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 355
e bebendo cerveja, por entre uma leve névoa ideal de
fumo e álcool, mentalmente produzem filosofias...
Como essas raças finas e louras a que nada mareia
a pureza clara da carne civilizada, a idéia da Arte surgeme, alvorece-me no espírito, diante das ondas, sideral,
imaculada, como uma doce monja vestida de linho branco
e virgem.
Estranhos, misteriosos, na magia dos feiticeiros
caldeus, com o pensamento cristalizado na Forma, sinto
que me ferem o cérebro, pesando fundo sobre ele, os
nevropatas de agudeza psíquica, mórbida, doentia, os
psicólogos tenebrosos que, como Huysmans, vibram num
eletrismo histérico, numa dança macabra, satânica, num
deliriutm tremens de sensações.
Ninfomaníacos mentais, como que sob a impressão
de um sono de morfina ou de ópio, numa alucinação ou
fascinação de hipnotizados, a alma deles flutua, desce
sombriamente lá abaixo, ao antro negro da Terra, ou
sobe lá acima, à infinita mudez do céu, como que em
busca, sinistros e luminosos, revoltados Moisés de uma
Bíblia nova, em busca de saber qual a doença que dá a
Morte...
Sente-se-lhes isso na tortura da prosa, no
funambulesco cabriolar do estilo, na acre violência das
palavras, abertas umas em chagas e escorrendo sangue,
outras brancas como Noivas amadas derramando
lágrimas astrais...
E, dentre esse exalar de vida espiritual dolorosa,
rompem coros de catedrais entoados por veladas, místicas
vozes freiráticas; ouvem-se Missas negras e abrem-se,
num ritual cristão, para a contemplação dos áugures e
dos símbolos, os medievos Hagiológios.
356 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
NO FAETON
Na manhã fria, fresca de maio, por uma rua areada,
um nobre esplendor de mulher iluminou-me e
surpreendeu-me os olhos.
Numa elegância de pelúcias claras, o seu perfil
delicado, um biscuit d’arte, surgia em flor no faeton, alta
a estatura, sobre as moles almofadas, a cabeça serena,
com a graça educada de amazona espiègle.
Nos amplos largos de aspecto arejado de gare, sob
o espaço vibrante, sonoro como uma grande cúpula de
cristal, o faeton girava, de manso, na doce flexão das
rodas leves, como se girasse sobre macias relvas de
veludo.
Os cavalos normandos, lustrosos no cetim do pêlo,
davam a correção, o tom das carruagens de molas
flexíveis, suaves, das envernizadas caleches
aristocráticas de luxo, cujos claros e polidos metais dos
eixos cinti1am.
Com uma linha fidalga ela manobrava as rédeas,
nuns volteios audazes e galantes, a mão fremente,
agitada, convulsa pelo ferir matinal do frio no sangue
novo de gazela, com a orgulhosa atitude das ecuyères.
Algumas atenções paravam diante desse feminil
deslumbramento desabrochado ao sol em aromas e
formosura.
No ar nítido, azul, fino do dia, duma limpidez
deliciosa, o seu esbelto porte nervoso vinha ereto, num
alto-relevo, destacando forte no fundo luminoso,
transparente da manhã, como que cortado, talhado numa
lâmina de vidro.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 357
RITOS
À luz lirial da Lua abre a tu’alma, artista, como
um solar antigo.
Sob a névoa luminosa do grande astro noctâmbulo,
as visões que um dia amaste aparecerão agora.
Ah! a tu’alma é um antigo solar, onde mulheres
prodigiosas, enfioradas de beleza, peles finas,
transparentes, de delicadezas de porcelana, passaram.
És um solar antigo...
Tens o ar enevoado do crepúsculo de melancolia
que há nos velhos solares.
Alguma coisa de nostálgico, de evocativo, como
vagos sons plangentes, à noite, ou à hora do Angelus, na
solidão dos campos, levanta e acorda a tu’alma.
Teu coração é o Sagrado Viático, mais puro e
branco que as claras hóstias.
De que fundo de civilização, de que ramo de raça,
de que regiões vieste assim, numa original sensação de
nervos, palpitante, convulso como o mar e como o mar
sereno e também como o mar profundo e grande?!
Pelas tuas idéias, pelos teus olhos fatigados de
ver e perceber de perto o incoercível mundo, passam as
alegrias, as lágrimas, o intenso viver de muitas gerações.
E tu representas bem todas elas, és a essência
espiritual de infinitas camadas humanas, o luminoso
requinte dessas gerações que findaram e que não foram
mais do que simples moléculas para formar o teu
estranho, poderoso organismo de artista.
Sofreram, gozaram e pensaram – para que tu sobre
elas fizesses nascer, surgir o mundo virgem das tuas
impressões e idéias.
E é por isso, artista, que abres a tu’alma, como
um solar antigo, à luz lirial da Lua – apaixonada sultana
que vaga à noite, que vigia e vela pelas Religiões
incomparáveis do Pensamento, seguida do fulgurante
cortejo das estrelas odaliscas...
358 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
MULHERES
Magnólias de aroma tépido, finos astros, que elas
sejam, olhos fascinantes, como águas dormentes de
delicioso Danúbio que a luz sonoriza e doura, humildes
e imperiosas, ninguém jamais saberá o mistério que as
envolve...
Amar e gozar as nebulosas mulheres, mergulhar,
engolfar a alma infinitamente, inefavelmente, em
repouso, como num harmonioso luar, sem sobressaltos
e ansiedades, na alma enevoada que elas ocultam
sempre, só é dado às naturezas vulgares, que amam
com a carne, que amam com o sangue apenas, no ímpeto
brutal de todos os instintos, com a luxúria viva da carne,
que fazia, desde os romanos, a carne viçosa e rica.
Os que as amam e gozam sensualmente, à lei da
sexualidade, não lhes ouvem a vaporosa música
embriagante do vinho dos encantos da voz e do sorriso;
não lhes sentem o perfume delicado de úmidas bocas,
purpúreas, de níveos colos cor de camélia, de veludosos
seios macios como a alva plumagem fresca de um pássaro
real; não lhes percebem o amoroso ansiar de etérea
cintilação de estrela nos olhos indagadores, que
atravessam, costumam passar em visão, pesados de luz,
com o brilho aceso e fagulhante de preciosas e raras
pedrarias, as geladas noites brumosas do Ciúme...
Para esses, que só as possuem sexualmente, elas
trazem um deleite, um atrativo, como no Oriente o fumo,
que dá prazeres insubstituíveis, voluptuosas graças de
viver, atila e acende a imaginação, faz abrir e flamejar,
incomparavelmente, para todos os pontos do mundo, os
mais inauditos sóis do Espírito...
Esses, ainda outros ou todos, poderão decerto
inundar-se no esplendor da beleza das mulheres, fruir
delas toda a fremente carícia, possuí-las, dominá-las
sem hesitações e embaraços estranhos.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 359
Para todos elas não terão sombrias torcicolosidades
de serpente, anseios, anelos indecifráveis, enigmas
tremendos, que nos deixam deslumbrados, extáticos, na
mais intrincada rede de perplexidades.
Elas serão para todos o eterno feminino, leve,
simples, fácil na conquista, fácil na vitória, tendo para
os homens os arrastamentos prontos de um animal que
se abandona à lubricidade.
Ninguém saberá ver nas mulheres esse complicado
segredo de nervos, que ora se patenteia claro e penetrável
e que ora mais se condensa, se intensifica de
obscuridade, torturando, afligindo, vago, abstrato como
a dor e por isso ainda mais terrível, mais esmagador e
frio...
Só um ser, consubstanciação de todas as
angústias, de todas as incertezas e dilaceramentos do
espírito, um ser contemplativo, amargurado pelas
análises, ferido sempre pela observação, pelas idéias
que sangram e vivem perpetuamente a martirizá-lo, para
o seu gozo excêntrico e único, só esse ser as
compreenderá, mudo e solene, encerrado na solidão dos
seus pensamentos, como um missionário, alheio às
exterioridades dos corpos delas, às linhas, ou só as
amando por sentimento estético e analisando
continuamente, sondando, perscrutando o feminino
organismo dúbio.
Só a psicologia desse ser, que é o artista, saberá
ver fundo o delicado ser das mulheres e penetrar nas
sutilezas, nas direções variadíssimas e múltiplas que
toma o seu espírito, à maneira das aves que voam alto,
sem rumo, além, indefinidas na distância...
Esse poderá querê-las muito, adorá-las com outra
chama sagrada; mas nunca as poderá amar carnalmente,
friamente com os nervos – porque aparecerá sempre o
analista sufocando o afeto espontâneo que não se
delimita nem regulariza, o entendimento artístico, que
360 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
ama a Forma, destruindo o fator humano que fecunda a
Carne, que perpetua a Espécie.
Quanto mais elas forem complexas, segredantes,
misteriosas, tanto mais a análise se manifestará mais
arguta, mais penetrante, de um modo experimental, nu,
amplo; e as mulheres, afinal, ficarão diante do artista
como documentos palpitantes de uma dada natureza,
provas flagrantes de paixões veementes, de desejos, de
vontades, de uma infinidade de atributos e qualidades
radicalizadas na alma feminina e que o pensamento do
artista investiga, conhece, põe para fora, a toda a luz,
como se expusesse, na presença do mundo, explicando
a função de cada um, os milhares de glóbulos de sangue
que circulam no organismo humano.
A dor de tudo isso, porém, a pungitiva dor de tudo,
é que o artista não pode, assim como todos
espontaneamente amar.
Ele ama um golpe de luz, um olhar, a fascinação
de uns cabelos quentes, a polpa virgem de uns seios, a
graça idealizante e alada de um sorriso, o talho vermelho
de uns lábios frescos, o tom das elegâncias fidalgas
dessas Flores escarlates das Babéis do ouro, que passam
na corrente das civilizações e na febre, no delírio dos
luxos fortes.
Vendo para dentro de si, como para o fundo de
um mar prodigioso, ele domina com o olhar perscrutante,
inquieto, que apanha de pronto as situações, a
maravilhosa ductilidade das mulheres, vendo também
perfeita e singularmente o que se dá dentro delas, as
suas inquietitudes, as suas impaciências, os seus
receios, os seus caprichos inesperados, as suas
volubilidades doentes e curiosas, as suas resoluções
bruscas, os seus ímpetos de leoa, os seus
enternecimentos ingênuos e monocordes, os seus
momentos horríveis de crise hiper-histérica, sem causa
determinada, sem assinalamentos de origem, mas
assoberbantes, convulsos e que de repente cessam como
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 361
vieram, para tornarem ainda, mais desabridos e
persistentes.
As mulheres, para o artista, para a estesia
exigente, requintada, são apenas um elemento de
sugestão estética amoldável às necessidades artísticas
do sugestionado. Elas falam, abrem-se mesmo ao amor
em rosas fecundas de sinceridade, dizem os ardores
apaixonados, as recônditas sensações, a vida íntima do
seu afeto; mas o artista as ouvirá, como artista que é, a
frio, simulando interesse, formando já, mentalmente,
com as palavras delas, com essa confissão franca, pura
e sentida, embora, verdadeiras páginas de emoção e
estilo.
E, no entanto, ele as quererá amar muito,
eternamente e sem reserva, abrir-lhes os braços ao
amor, com todas as forças másculas, vigorosas e livres
de homem, com a firmeza mais casta dos carinhos e das
ternuras, estremecendo-as, idolatrando-as.
Mas, um ligeiro contacto apenas, um leve roçar
de lábios, um abraço desfalecido, murcho, algumas
frases balbuciadas materialmente, ao acaso – e aí estará
de novo o mentalizado, o espiritual, descendo a
investigações, medindo cada gesto e cada olhar, inquieto,
aflito com a expressão de um toque de luz numa trança
de cabelos, que ele quer levar para a sua Obra ou
preocupado com o fino Sèvres que fulgurou uma noite
em certo boudoir, faiscando centelhas de astro.
Contudo, quando esse luminoso torturado as vê
descendo ou subindo os átrios claros de palácios festivos,
altas Valquírias de neve nas pompas orgulhosas das
sedas que roçagam, como que fica preso, magnetizado
por aqueles aromas fluidos, vivendo na auréola majestosa
do clarão que elas de si desprendem; e então como que
na cauda constelada e rojante os fulgores sedosos levam
aspirações, sonhos que ficam errantes e que quereriam
talvez subir ou descer, opulentamente, com as deusas
362 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
resplandecentes, os mesmos festivos palácios de átrios
claros.
Entretanto, não é aí o amor o sentimento que se
manifesta ainda na alma artística, não é uma expansão
afetiva – mas uma verdadeira expressão d’arte, um
desejo de posse, que logo invade as naturezas
dominadoras, altivas, onde as idéias predominam,
atuando, fatais e intensas, nos fenômenos da Vida os
mais elementares ainda.
O que excita o artista, seja nos átrios claros de
palácios ou em toda a parte, é simplesmente a Forma, é
toda essa roupagem deslumbrante que faz as mulheres
parecerem auroras boreais; o que lhe incita a pensar
nelas, a desejá-las, é a plástica olímpica, o onipotente
esplendor das curvas cinzeladas, os mármores coríntios,
o alabastro dos corpos flóreos. O que o surpreende, deixa
atraído e fascinado, é o luar gelado da carne alva das
louras, que deliciam, o ardente sol tropical da carne
tentadora das morenas, que cheiram a sândalo e matam.
Amar as mulheres, profundamente, com
simplicidade, com singeleza, sem cuidados latentes de
observá-las a toda hora, com os mínimos detalhes, linha
por linha, traço por traço, sem essa preocupação doente
que as exigências do Pensamento provocam, não é para
a concentração, para a contensão nervosa dos
falangiários da Arte, que, de todas as coisas, querem
arrancar o gérmen que necessitam, o pólen que lhes é
mister para a fecundação da sua Obra.
A linguagem feminina, algumas fiorituras de
frases passageiras constituem, de certo modo, um tecido
primoroso, os fios delicadíssimos com que a Arte
contextura, urde a tecelagem da Forma.
Mas o desolado psicologista do Pensamento não
as pode amar com intensidade e desprendimentos
espirituais, sem as querer observar sempre, desataviálas das plumagens garridas e ver-lhes, à luz, o que elas
sentem e pensam de nebuloso...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 363
Por isso é que muito naturalmente, por intuição
própria, elas percebem que não poderão jamais amar os
artistas, tendo até para eles uma repulsão como que
instintiva e sendo mesmo indiferentes às suas
solicitações mais veementes e calorosas.
Vendo-se a cada instante o objeto das
interpretações deles, reveladas através dos seus
pensamentos tão recatados como os seus seios, os
pudores dos seus corpos angélicos, em tantas páginas
dilacerantes e impiedosas, as mulheres não buscam
sistematicamente os artistas para amar, feridas nos seus
orgulhos melindrosos, nas suas vaidades excessivas e
principescas, nas suas finas suscetibilidades de formosos
seres triunfantes e inacessíveis.
Só raramente, por singularidade, uma ou outra
mulher ama o artista, quando já acaso também existe
nela qualquer corrente de simpatia mental, qualquer
relação de afinidade que estabeleça entre ambos uma
claridade e harmonia de sentimentos mais ou menos
congêneres, equilibrados.
364 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
PERSPECTIVAS
Naquela alvejante planura de areias salitrosas,
onde o mar espumeja; naquela fulgurante extensão de
praias brancas, indizíveis de pitoresco, felizes os olhos
que se demoram, com o carinho, o afeto das coisas, a
gozar as riquezas, o encanto, a imponência imortal dos
aspectos.
Mas manhãs, céus louçãos, de um leve ar azul,
azotado, fresco, pacificam o porto, adoçam os horizontes,
inefavelmente.
Ocasos opulentos, feéricos, imprimem às tardes
a mais suntuosa e serena majestade.
No mar, ao largo, entram e saem navios de alto
bordo, numa infinita beleza de excêntricas formas
requintadas, em caprichosos estilos diversos,
mastreações aparatosas, parecendo enormes aparelhos
estranhos para maravilhosamente arrancarem do fundo
das ondas o misterioso deus das algas, da lenda secular
e virgem dos hirsutos tritões verdes.
Marinheiros terrosos e fuscos, como que sujos a
betume; outros louros, flamejantes do sol, do ouro
cantante da pele, dão à paisagem sã, revigoradora e
larga, tons álacres e acres.
Das vagas, como exóticos monstros marinhos, as
rubras e arredondadas cabeças das bóias, aqui e além,
emergem.
Os mastros avultam, enchem prodigiosamente o
mar supremo, sob a flava cintilação do dia; e, assim
firmes, aprumados ao alto, ao firmamento, parecem
tochas imensas para a celebração do Te Deum sideral
dos astros, nos templos pagãos dos navios.
À noite, peregrinadoras estrelas, em claras
chamas sagradas, nos espaços ardem.
Uma lua virginal, aureolada de branco, irrompe,
fria e magoada, com um ar antigo e desolante de
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 365
histerismo atormentado, como as freiras que envelhecem
nos claustros.
Hálitos, vivos estremecimentos elétricos, passam,
perpassam no dorso glauco das ondas que o luar então
alastra...
Mas, o que mais enternecidamente enleva e
perturba até as lágrimas, num sentimento intenso, de
recôndita vibração, é um simples lenço, um adeus febril,
vertiginoso, em ânsia, que ali fica às vezes a palpitar ao
sol, infinitamente, na emoção de uma alma, para a vela
que vai já além confusa na distância, desaparecendo,
perdida nos longes esfuminhados, infinitamente,
infinitamente...
366 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
CAMPAGNARDE
O dia abriu numa explosão d’oiro, dum oiro
inflamado de forja, trescalando perfumes, cheirando
acremente à terra.
Tu, gárrula vivandeira dos prados, que ao primeiro
rumor sonoro do teu coração amoroso, como ao alegre
rufo bizarro de um tambor de guerra ou à esfuziante
vibração matinal de uma trompa de caça, toda
estremeces e fremes, voltas agora púrpura dos campos
onde te fecundaste, desabrochaste e floriste logo em
papoula.
E voltas mais púbere, mais virtual, mais mulher,
porque sorveste o leite virginal e sadio aos abundantes
seios da Natureza.
Quando para lá foste, o teu corpo frágil, tênue,
traspassado do azulado enraizamento arterial das veias,
era quase diáfano, transparente, vitrescível quase,
através do qual bem facilmente a aurora coaria os seus
flavos raios rútilos, como através de um delicado e
aromático filó finíssimo, cor-de-rosa e translúcido.
Além disso, quando para lá foste, eras infantil
ainda, ainda a ave implume, e entrarias daí por diante,
como por uma zona de sol, nesse luxurioso período
genesíaco da mulher, quando as suas formas se ampliam,
se completam e perdem essa volatilidade aérea, o
borboletismo, essa tonalidade vaporosa da primitiva
graça, para irem aos poucos adquirindo opulências,
exuberante vigor germinativo no sangue que as alimenta,
enlabareda e fecunda, arredonda e turgesce triunfais e
alucinantes no colo as duas polposas saliências carnudas,
das quais, em busca da instintiva subsistência, pende,
mais tarde, como astros no firmamento, o encanto virgem
dos filhos.
Mas, agora que de lá chegas, vens florescente
como a vinha verde, dum sabor de uva branca, inundada
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 367
do palpitante pólen dourado da antera dos vegetais, das
emanações revigorativas da planturosa paisagem.
Trazes a carne amadurecida, sazonada em fruto,
exalando essências de campos, sutilíssimos eflúvios de
vergéis, alastrada de brilhos quentes, de elétricas faíscas
narcotizantes, como se o teu imaculado torso inteiriço
irrompesse, brotasse do noivado da Natureza no mesmo
veemente e original impulso das árvores e rios.
Perfeito, soberbamente rico e raro, Campagnarde!
esse humor campestre, esse alagamento e deslumbramento de luz com que regressas da Vida, do seio
livre da grande amplidão da saúde, onde tudo, afinal,
são concentradas forças, pujanças novas para o sangue,
renascimento para a carne.
Ninguém, por certo, calcula, a ninguém sugere,
por certo, a alta realidade do quanto é salutar e é nobre
o supremo bem que lá se goza nos campos e como ao
corpo abalado pelos inevitáveis golpes da matéria falível,
resiste o espírito, o fluido nervoso, dando à existência o
equilíbrio sereno.
Nenhum pincel colorista, nenhuma entranhada
emoção ou visão impressionista d’arte, nenhuma
perceptibilidade acústica de músico poderá bem com
exatidão apanhar a cor, o sentimento, a errante, dispersa
harmonia que se eterifica na liberdade dos campos e
que assim te penetrou pelo coração e pelos olhos,
primorosamente enflorescendo e viçando no teu corpo
de garça, lirial e formoso.
Abres a veludosa e cerejada boca e os teus
esmaltados dentes rutilam – lisos e claros – enrijados
nos ares puros, nas frescas águas correntes, nos frutos
castos e doces. Falas, e a tua voz, em músicas, desfolha
notas da canção feliz da tu’alma; e a tua voz pelo espaço
voa, voa, voa de eco em eco, infinitamente,
inefavelmente, parecendo então reproduzir o teu próprio
nome, Campagnarde! Campagnarde! e eternamente
desdobrá-lo, arremessá-lo ao longe, por colinas e vales
derramá-lo, Campagnarde! Campagnarde!
368 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
RITMOS DA NOITE...
Lá fora a noite é estrelada e quente.
Chego da rua. A vida ferve ainda nos cafés, com
intensidade. No Londres, uns imbecis doirados de
popularidade fácil, saudaram-me, e, nessa saudação,
senti o ar episcopal das proteções baratas que os
conselheiros costumam dar aos jovens esperançosos.
Eu percebi o conselheirismo e tive uma careta,
uma grimace diabólica de ironia...
Oh! oh! infinitamente incomparáveis os caríssimos
imbecis doirados de popularidade fácil!...
* * * * * * * * * *
No meu quarto, entro, enfim, agitado, da rua, com
mil idéias, com mil impressões e dúvidas e fundamente
considero, tenho tão estranhos monólogos mentais, que
quase que me alucinam.
A luz da vela, em torno à sombra do quarto, põe
uma claridade velada, penumbrada, quase morta.
Um retrato de Daudet, pendurado à parede,
parece ter para mim piedade no seu fino perfil de Cristo
alemão.
Ah! por que será que na hora dos estrangulamentos supremos, quando a Dor nos alanceia e torna
velhos, os objetos têm todos, para nós, uma feição
singularmente diversa da que têm sempre – ou sinistra,
ou agressiva, ou piedosa?
Por que será que nas longas noites de desolação,
quando uma ventania de desesperos sopra por trompas
de bronze do nosso peito, todas as cousas desfalecem
aos nossos olhos, as perspectivas se anulam, os astros
loiros se apagam e a própria luz de uma lamparina ou de
uma vela projeta claridade dúbia, que antes punge, que
antes apunhala e dói do que ilumina!?
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 369
O coração cerra-se-nos de uma névoa triste, e,
como um solitário monge, põe-se a balbuciar, não sei
para que mundos distantes, orações indefinidas, kyries
eternos e nostálgicos, de um nebuloso sentimentalismo,
que estão no fundo de todos os seres espirituais.
São fluidos íntimos, virginais, da alma, que sobem
para o desconhecido; são incensos inefáveis de que está
cheio o turíbulo do nosso amor e que, nos lancinantes
momentos em que se desmorona para nós alguma força
nobre, alguma força edificante, partem candidamente
para as regiões do Ideal, país jamais descoberto e que
só o Pensamento logrou conhecer...
Vão lá saber qual é a tecla sombria que vibra no
nosso organismo em certas horas, qual é a corda que
pulsa, quais os nervos que se agitam!
Por uma impressionabilidade indizível, por um
toque no orgulho, por uma mancha no cetim branco da
Arte, lá fica uma nobre cabeça doente, sob a febre das
nevroses, sentindo ebulir o sangue em chama e sentindo
até que o cronômetro regular do pulso alterou a marcha
das vibrações...
Tudo o que nos vem às idéias são princípios de
demolição, de destruição, armados das rijas couraças e
das agudas lanças da sua inevitabilidade.
O mundo surge-nos logo como uma formidável
floresta dos tempos primitivos e só tremendos animais
de uma colossal corpulência urram e bufam
sanguinolentos.
E a Noite, que verte fel no espírito, arrebatando-o
não sei para que inferno de agitações, não sei para que
tercetos do Dante, ainda mais pesadas barras de chumbo
arroja sobre o florido arbusto da Crença, cujas flores
luminosas já a indiferença humana calcou a pés, ou a
ruidosa, jogralesca multidão dos cafés desdenhosamente
cuspiu em cima.
E, nessas batalhas, batalhas vivas, acres, onde o
coração está eternamente a sangrar, a sangrar; nesses
370 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
rudes combates, ao mesmo tempo tão puros e fidalgos, a
carne é o menos que fica ferido, os músculos são o menos
que se perde, os nervos, o menos que se atrofia.
O que se perde de todo é a alta penetração da
Vida, do Mundo e dos Homens, para terrivelmente se
adquirir uma doença amarga, aguda e dilacerante que
se constitui das frias e torturosas análises e que se
chama – Psicologia.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 371
SUGESTÃO
Tu, quem quer que sejas, obscuro para muitos,
embora, tens um grande espírito sugestivo.
Os jornais andam cantando a tua verve flamante,
pertences a uma seita de princípios transcendentais.
Na tua terra os cretinos gritam, vociferam.
Não sabem o que tu escreves. Não entendem
aquilo... Palavras, palavras, dizem.
Tu tens, porém, uma tal orientação, uma tão
profunda firmeza artística, que não te abalas com a
vozeria que se levanta. Pelo contrário! À bateria de frases
ríspidas, que te assestam, rompe do teu cérebro a bateria
viva das idéias. Não recuas, escreves.
Tudo quanto a imaginação pode criar de imprevisto,
original, surpreendente, vais arrancar à nevrose da
composição, incrustar, como pedrarias, na escrita
cinzelada, cujo estilo apuras e aprimoras com verdadeiro
êxtase de uma devotada seita religiosa. E, apesar das
frases que te dirigem, cercam-te apoteoses. E isso,
conquanto simules o contrário, sempre te desvanece.
Então, para que o teu esplendor seja maior e mais
completo, andas a preparar um livro de estilo nobre e
que, segundo pensas nas horas de nervosismo psíquico,
há de fazer sucumbir no lodo da banalidade a turba
triunfante dos imbecis.
E assim, com a tua elevação mental e disciplina,
julgas-te profundamente feliz. Não trocarias o teu espírito
pela ostentação e pompas do mundo. Ah! se tu tens a
pompa das idéias!
O cocheiro mais agaloado e galante, guiando o
mais elegante coupé tirado por éguas de raça, de amplas
ancas carnudas e luzidias, cheias de nervosidades, de
altivezes bourbônicas, com um fino sentimento mulheril
nas linhas, tudo isso, Artista, não vale a página mais
simples, mais frouxa, sem mesmo maior ornamentação
de estilo, que tu, por acaso, escrevas.
372 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Nem tu trocarias todo o veio virgem do ouro do
mundo pelo livro que daí a meses deve entrar para o
prelo.
Os reclamos soam pelos jornais, como clarins.
Andam já longe. Caminham. Chega já ao domínio de
todos a notícia. Há ansiedade. Espera-se a obra. Vai
aparecer, brevemente, cintilando, a duas cores, em tipos
Elzevires, vistosos e claros, com o teu retrato, papel satin,
nas lustrosas vitrinas, acendendo um clarão em torno
do teu nome, como um facho de fama.
Mas, um dia, vais ao teatro, um acaso, por exemplo.
Sentas-te na tua poltrona junto à orquestra. Num
intervalo suas demasiadamente. Estás abafado do calor
da noite tórrida. Precisas de ar, de refrigerantes. Um
sorvete, um gelado.
E, seguro do teu vigor de mocidade, da tua saúde
e do radiante rubor do teu rosto, que é admirado na
rumorosa cidade onde habitas, tomas, sem o menor
receio, o gelado que te trazem.
Daí sentes-te logo como que atordoado.
Não estás bem. Calafrios agudos percorrem-te a
espinha. Vertigens cálidas fisgam-te a cabeça. Ardemte os olhos e se umedecem sob a luz flagrante e crua da
ribalta; mesmo o gás te dá mais febre; parece que te
estalam as fontes, latejando fortemente – e tu não podes
mais ficar, nem um instante sequer, na vasta sala
iluminada e cheia da multidão matizada que formiga e
aplaude.
Então, um dos teus amigos te conduz à casa, já
abatido e quase sem voz; e, mais tarde, passados dias,
corre a dolorosa notícia – ó amargurado Espírito moderno!
– de que morreste de uma pneumonia aguda...
E após a tua morte ainda se haveria de contestar
o teu merecimento. Muitos diriam:
– Também não deixou um livro que significasse a
sua individualidade.
A que outros responderiam:
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 373
– Mas deixou escritos em jornais.
– Ora, jornais! jornais são papéis avulsos, vivem o
curto espaço de um minuto ou de um segundo, e, muitas
vezes, até sem os lermos, com os mais resplandecentes
pensamentos contidos em suas colunas, os deitamos pela
janela fora... Um livro sintetiza qualquer individualidade.
Não se pode acreditar, portanto, não há documentos que
atestem, criticamente, o valor intelectual desse escritor
que morreu.
Daí então, só o preciso decurso de tempo para o
teu cadáver apodrecer na soberana indiferença da terra,
aparece o teu livro, aquele mesmo onde tanto
trabalhaste, que fecundaste de idéias, onde tanto
derramaste o vivo poder do teu cérebro, onde consumiste
uma porção de sangue e de nervos, assinado, e com
outro título, por uma vulgaridade batráquia, na qual toda
a gente acredita, e, oh! comparando-a contigo, acha-a
mais superior, extraordinária, sem igual até.
E tu, lá embaixo, ficarás, na frialdade da terra,
sem nunca teres vencido! com a ironia dessa glória de
néscio a rir de ti, perpetuamente, à chuva, aos vendavais
e ao sol, do alto da tua cova!
374 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
SOFIA
Foi na sala branca, de leves listrões d’ouro, que
eu a vi interpretar um dia ao piano Mendelsohn,
Schumann, as fugas de Bach, as sinfonias de Beethoven.
Tinha um nome bíblico, lembrando palmeiras e
cisternas: chamava-se Sofia.
Era alta, de uma brancura de hóstia, como certas
aves esguias que os aviários conservam e que aí vivem
num grande ar dolente de nostalgia de selvas, de matas
cerradas, de sombrios bosques.
Nervosa, de um desdém fidalgo de fria flor dos
gelos polares, e triste, traía a Arte aquele altivo aspecto,
a orgulhosa cabeça ereta em frente das partituras, que
os seus olhos garços liam e que os seus dedos rosados e
aristocráticos executavam com perfeição, com claro
entendimento nas teclas.
E de todo esse nobre ser delicado, de todo esse
perfil de imagem de jaspe, irradiava uma harmonia vaga,
melancólica, uma auréola de pungitiva amargura, mais
desolada que as sinfonias de Beethoven, como se todas
aquelas músicas excelsas tivessem sido inspiradas nela.
* * * * * * * * * *
Ó aromas, sutilíssimas essências dos finos frascos
facetados do luxuoso boudoir dessa musical Magnólia;
aromas vaporosos, maravilhosos perfumes que incensais,
à noite, de volúpia, a sua alcova, como as purpurinas
bocas das rosas, falai a linguagem alada que as vozes
humanas não podem falar e dizei os murmúrios
estranhos dos sentimentos imperceptíveis, imaculados,
que alvoroçam a alma ansiosa dessa sonhadora Sofia.
Só os aromas, só as essências terão os eflúvios
castos, os fluidos luares de expressão, o ritmo inefável
para contar que latentes palpitações traz Ela no sangue,
que chama d’astro lhe inflama o peito, quando volta triste
dos concertos egrégios e vai enclausurar-se na alcova –
muda, muda, talvez sob a névoa das lágrimas, na
emovente concentração dos que morrem amando...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 375
MANHÃ d’ESTIO
O azul hoje amanheceu numa melodiosa canção,
duma consoladora carícia veludosa de arminho, duma
doce e suavíssima frescura de maçã rosada — brunido,
reluzente, como um raro bronze florentino finíssimo,
vivamente cheirando a violetas, a jasmins e a rosas
machucadas.
Na cristalina sonoridade do côncavo páramo aberto
há uma etérea música que passa em fios sutilíssimos
de luz e de aroma pela sua transparência diamantina e
velada, como um líquido radioso e fragrante através duma
primorosa safira.
E o canto de um pássaro, que além atravessa o
céu, é mais brando, é mais terno, então, mais
harmonioso e sereno, prende, emociona e arrebata mais
porque vai cheio desta ambiente fluidez matinal, desta
vaporosa e delicada tonalidade aérea, deste fino
sentimento amoroso do impoluto noivado dos elementos
naturais animados, destes, enfim, deliciosos tons alegres
que dão um rico sabor à terra, uma vibração luminosa
aos aspectos e um mais meigo encanto imaculado aos
frutos que pendem das árvores e às flores que cobram,
dulcificam tudo com a graça, a inefável candidez de
sorrisos.
Os arvoredos recortam nitidamente no ar as suas
ramagens intensas, cujo verde orvalhado cintila, e as
palmeiras, que mais de perto avisto, altas, sobrepujando
os outros arvoredos, como a afirmação soberana do poder
germinativo, aprumam-se, firmes, desdobrando no alto
as suas verdejantes plumas que tremeluzem nas aflantes
aragens.
Na pradaria florida os gorjeios crescem, trinados
festivalmente cortam o espaço, vôos, rumores d’asas,
claros e argentinos ruídos frescos de rios, chiantes carros
dormentes de lavouras tomando o vermelho e risonho
atalho murmuroso dos campos relvosos, entre a
376 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
implorativa plangência mugidora dos tardos bois
melancólicos; movimentos agrícolas de enxadas, de
sachos e arados, todos os instrumentos e aparelhos
rurais, cavando, mondando, preparando a terra para as
culturas, avigorando-a e adubando-a, dando-lhe a larga
força nutriente aos germens para que ela opere e
produza, farte infinitamente a todos de sazonadas
colheitas.
E toda essa orquestração da Natureza e do
trabalho, todas essas impetuosas, palpitantes correntes
da Vida, enchem o ar de alvoroço, de alarido, duma
religiosa bênção panteísta e dum cântico enlevador que
desce consolativamente sobre as cousas – como se toda
a seiva, vegetal e humana, estivesse na gestação
poderosa, na fecunda elaboração de mundos virgens e
novos.
Nós, Artistas, que dissipamos toda a nossa mais
bela e opulenta porção de glóbulos rubros para arrancar
à Natureza a sua latente verdade; que nos embevecemos
na contemplação, no misticismo do céu; que de tudo
ansiamos pelas recônditas, encantadas origens; que
tanta vez nos mergulhamos no azedume e na inclemente
maresia do tédio, achando a vida gasta, acabada, falazes
e mentidos os seus lentejoulados, fascinantes enlevos,
trememos de comoção, ficamos extasiados quando essas
perspectivas se nos antolham assim d’esplendor, trazendo
ainda à nossa desvirilizada e já quase decadente
estrutura moral um pouco de alento, heroísmo e força,
de sagrada virtude de pensamento e gloriosa envergadura
espiritual para a luta, hauridos a plenos sorvos nos
abundantes mananciais da luz, na soberba caudal
imensa da Natureza fecunda e generosa.
Porque só a Natureza, germinalmente só ela, nos
sabe dar à alma e ao corpo esta nobre saúde, estas
estóicas atitudes épicas; porque só ela nos comunica os
seus emotivos impressionismos, nos penetra os seus
evangélicos, pensativos silêncios e recolhimentos
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 377
alpestres, tão empiricamente transvasados do neblinoso
luar dos Sonhos e tão relicariamente votados ao culto
como os santuários; só é dela que vem a crença robusta
que nos põe no peito como que afiadas lâminas de espada
para destruirmos bizarros as mil venenosas cabeças da
formidável serpente da Dúvida; só ela nos veste dessa
flamante irradiação de aurora da qual emergimos
vitoriosos, no fluido ouro resplandecente da apoteose da
Vida; e só ela, enfim, nos lava do Mal, nos purifica como
a salitrosa salsugem do Mar glauco nas salutares e
matinais travessias d’alacridade picante, quando se volta
das ondas numa eflorescência pagã de Tritão marinho,
no luminoso frescor primaveril e sonoro dum viçoso ramo
silvestre ruflante de revoadas de coleiros e gaturamos
cantando.
Um clarim, uma trompa de caça que por aqui
vibrasse, como numa pastoral da Idade Média, nesta
formosa manhã perfumada, apanharia, tomaria destes
murmúrios todos, pelo fenômeno acústico da recepção e
transladação dos sons, como em placas fonográficas,
todos os profundos e vagos ecos e os levaria então para
longe – derramando-os, espalhando-os em cada placidez
sedentária de sítio, em cada remanso bonançoso de
campo, fazendo renascer a brava cultura ingênita das
terras, palpitar o rijo pulmão d’aço do movimento
incessante, pulsar, latejar vinculativamente as artérias
da fecundidade e circular em tudo o sangue oxigenado,
ardoroso e produtivo que gera e fortalece tudo e que não
é mais do que o Sol eletricamente entranhado nas mais
profundas raízes de tudo.
378 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
APARIÇÃO DA NOITE
Fria aparição da meia-noite, o Luar seja contigo!
Tu vens da neve, das algidezes cruas da neve; e
eu não sei bem se é a neve que te faz fria ou se és tu
que fazes fria a neve.
Há, contudo, em ti, algum calor, que não é
inteiramente a vida, mas que suaviza os apunhalantes
regelos da neve; que não é o sol da tua carne, a chama
do teu corpo, mas um quente raio d’estrela, a estrela do
teu olhar aceso como velas místicas no recolhido e
sagrado santuário de uma Capela.
O luar seja contigo, seja contigo o luar emoliente
e lascivo, este luar equatorial que não é dia nem noite,
mas uma doce penumbra velada do sol do teu sorriso –
como se sobre o sol do teu sorriso, para dulcificar a
intensidade do foco da sua luz, quando tu eras astro
inflamado, que ardias, força latente, matéria animada
e pulsante, se houvesse colocado um transparente abatjour verde, branco, azulado e amarelado, conforme é, às
vezes, a refração luminosa da Lua.
Mas tu deveras aparecer-me, fria Visão da meianoite, dentro de uma redoma de cristal, por entre um
resplendor de lágrimas, para eu então poder assim crer
no teu encanto, no teu mistério de meia-noite.
No entanto, aqui me apareces, metida em peles
de Astrakan, melancólica, pálida, vaporosa, livorescida
quase, como aquelas belezas apagadas e tristes que vêm
dos frígidos ares desolados do Norte.
Porque tu acabas de vir da Rússia agora, das
fulgurantes estepes, da ostentação militar do Tzar de
ferro, ouvindo os clamores da dinamite.
Vens das hirtas margens do Neva para os
coruscantes fogos tropicais das terras da América. E
chegas ainda virginal e pubescente para a irradiação
angélica do Véu, para o simbolismo cândido da Grinalda
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 379
de flores de laranjeira, para a bênção serena e perfumosa
do Noivado.
Chegas a tempo...
E se queres um noivo, se andas em busca de um
noivo, aí tens, pois, o Luar, frio como essa natureza fria,
e alvo, lirialmente alvo, como tu.
Aí tens o Luar...
Envolve-te na sua clâmide de linho, mergulha-te
nos seus flocos de prata, ó meiga Eslava triste, meu
desmaiado amor e heliotropo branco dos sonhos, que
aqui vieste findar eternamente a vida nessa nostálgica
doença nervosa de melancolia que trouxeste do teu país
polar, muito longe nos gelos, e que até te dá já a névoa
densa, a espessa nuvem dolorosa das ilusões que se
transformam em nuvens.
Vens para sempre extinguir-te sob estes tórridos
mormaços, nessa doença histérica de que ninguém na
tua pátria pôde decerto determinar a pungentíssima
origem, e que não é mais, nada mais é, talvez, do que a
doença do clima, do spleen das tardes, das exaustas
paisagens sem seiva; as displicências amargas à hora
dos longos ocasos taciturnos, quando adormecidamente
as campinas e as planícies incultas nevam e o horizonte
é de uma trespassante angústia crepuscular que desola...
Aí tens o luar...
Cobre-te nessa musselina fúlgida, veste essa
finíssima gaze diáfana...
Abre os primorosos olhos de Madona, castíssimos,
chorosos e macerados, e absorve pelos cílios todo este
nosso fluido e luxuoso azul; e fecha depois esses teus
primorosos olhos também azuis...
Sorri ainda uma vez, como num supremo frêmito
final de ave ferida no peito; agita amorosamente,
languescidamente, numa poeirada d’ouro, como na
última noite de beijos da remota paixão que se foi, a
loira e divina cabeça astral, leonina e doirada; tem um
derradeiro estremecimento convulsivo e sonoro de cordas
380 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
d’harpa em todo o níveo corpo; cerra à música celeste,
eucarística da voz para sempre os lábios, e, assim, nesse
lácteo nimbo seráfico da Lua, fica em êxtase, na doce,
na infinita quimera misteriosa da Morte, numa leve graça
idealizante e alada de vôo etéreo de Querubins, como
quem está dormindo ou como um sol que empederniu e
gelou...
Fria Aparição da meia-noite, o Luar seja contigo!
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 381
ESTESIA ESLAVA
Como os embriagados de cava da Polinésia vou
tartamudeando e soluçando sob as paixões, ó águia,
Águia Germânica, imperiosa e doirada!
Uma estranha harmonia de “Dança Macabra” de
Saint-Saens me entorpece e invade em lágrimas negras
de notas.
Todo o meu pensar e sentir estacou de súbito
agora, como um nervoso cavalo da Arábia a que se refreia
o bridão, diante da tua plumagem d’oiro, da tua rija
envergadura d’asa valente – ó águia! doirada Águia
humana e Germânica, que tudo de mim para sempre
levas, Esperanças e Sonhos, impetuosamente arrebatado
no alto, ao impulso fremente das tuas garras alpinas.
E eu fico em ânsias no vácuo, num vago anelar
indefinido, como a aspiração do perfume que quer ser
luz...
Mas, um pedaço de horizonte ao longe marcando
as infinitas distâncias e uma língua de terra aprumada
em monte, tornam-me tangível o sentimento da
realidade; e, então, claramente vejo e sinto, desiludido
das Cousas, dos Homens e do Mundo, que o que eu
supunha embriagamento, arrebatamento de amor nas
tuas asas, ó loira Águia Germânica! nada mais foi que o
sonambulismo dum sonho à beira de rios marginados de
resinosos aloendros em flor, na dolência da Lua nebulosa
e fria, à alta paz do Azul, sob as pestanejantes estrelas
rutilantemente acesas...
382 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
TÍSICA
Lângüida e loura, tinha, na verdade, um ruidoso
e festivo acordar de canários.
Quando o dia vem triunfalmente cantando por
todas as gargantas de oiro dos pássaros, perfumado por
todos os prados de rosas, rumorejando por todos os
sonoros veios cristalinos de fontes, Ela erguia-se também
do leito, cantando, numa alegria comunicativa que
iluminava tudo e ia para o piano soluçar ao teclado lindas
barcarolas de valsas.
Quanta vez a ouvi, e quantas outras a vi no résdo-chão que enfrentava a minha morada, sempre com
um vermelho esmaecido, manchado, em ambas as faces.
Como era feliz, e que ruidoso e festivo acordar de
canários tinha Ela!
* * * * * * * * * *
Chegou, afinal, o Inverno.
A emigração das andorinhas começa em vôos
incisivos, que frisam os espaços translúcidos de ruflagens
d’asa...
Os grandes frios pedem as grandes capas de lã
para as mulheres, os confortáveis regalos de pelúcia, as
luvas, que agasalham, que protegem as mãos, os pardessus e os largos fichus para a cabeça.
Desprendem-se já do éter as fortes lestadas de
vento e chuva, destruidoras e rijas, arrepiando e
convulsivamente contorcendo os galhos das árvores, que
amarelecem.
Amanhece-se tiritando sob o fulgurante ar frígido
das geadas, que nevam os plácidos campos.
E, lá, acima das serras altas, nas desprotegidas
cabanas onde a miséria habita, tiritam também de frio
e desamparadamente morrem, com uma chama azul no
olhar vítreo, as louras e morenas virgens tísicas que na
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 383
estação passada levaram a trabalhar nos rudes amanhos
da lavoura e a mourejar nas longas vigílias amargurosas
da agulha.
* * * * * * * * * *
A tísica! A tísica! Essa doença simbolicamente
dolorosa e triste, que devasta os lares como os cortantes
invernos devastam a searas! Doença artística e desolada,
que dá um aspecto eminentemente romântico a todas
as mulheres, como àquela violeta de Parma, flor dolente
e venenosa do Amor, essa Margarida Gautier, roxo lírio
inefável de melancolia plantado à margem de lagos
furtacores de quimeras e que a mais abrasadora paixão,
a febre mais intensa, o tufão ardente de um fundo e
desvairado sentimento para sempre emurcheceu e
desfolhou!
Doença amarga! que soturnamente devorando os
pulmões, põe em redor de quem a sofre um magoado
impressionismo de saudade e uma névoa gelada de
sepulcro...
E as virgens, que morrem dessa doença tão
atormentadora e serena ao mesmo tempo, levam para o
túmulo, na crispação dos lábios entreabertos e violáceos,
como derradeira e a mais pungente ironia da Dor, o
desmaiado sorriso da última esperança, do último sonho,
da última ilusão que tiveram sobre a Terra.
* * * * * * * * * *
Há muitos dias já que não a vejo, a lângüida Loura.
Não sei por quê, mas a sua ausência inquietame.
Eu quisera sempre vê-la, como dantes, pálida,
lângüida e loura, com um vermelho esmaecido,
manchado, em ambas as faces.
Porém ela não aparece, não vai, como então,
sentar-se ao piano, no luminoso purpurear das manhãs,
384 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
fazendo soluçar no teclado lindas barcarolas de valsas.
E isso punge-me n’alma de tal modo que eu procuro saber
o que é feito dela e dizem-me que adoeceu.
– Adoeceu! E de quê?
– Está tísica. O médico diz que não durará muito.
– Tísica! Tão moça e tão bela! E que ar festivo
tinha ela. Como cantava! Que sonoridade de voz! E tudo
isso agora acabar, morrer...
* * * * * * * * * *
É certo, aflitivamente certo o que me disseram.
Ela vai morrer!
Vejo-a continuamente de uma palidez clorótica,
os olhos de um brilho cru, agudo, que faz febre; as orelhas
diáfanas, muito despegadas do crânio; o nariz cada vez
mais afilado e desfalecido; toda ela de uma amarelada
transparência de morte, duma magreza hirta, como essas
santas mártires do cilício que vivem nos claustros
fechados e austeros de pedra, olhando entre grades para
céus fuscos, com olhos cheios dos fluidos místicos do
Panteísmo, e que parecem subir, através de nimbos, além,
às empíreas regiões dos excelsos arcanjos alvos de luz...
Vejo-a, constantemente, através de vidraças, sem
brilho de vida quase, como um astro vesperal prestes a
apagar para sempre todo o seu clarão diamantino e
virgem.
E, no entanto, nos intervalos lúcidos da doença,
que lhe abrem no peito, às Esperanças, como um
esplendor de força nova, de vigorosa saúde, o piano vibra
de quando em quando, sob as suas mãos febris, trêmulas,
nervosas e cadavéricas, alguma melodia triste de
casuarinas gementes, um desvairamento histérico de
lágrimas, a fina música nostálgica do fim de tudo – talvez
essa suspirante serenata de Schubert, cujo ritmo
saudoso tão fundamente nos invade a alma e a entristece
e no qual parece haver gritos e soluços de amor
entrecortados pela agonia torturante da Morte...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 385
ORAÇÃO AO MAR
Ó mar! Estranho Leviatã verde! Formidável pássaro
selvagem, que levas nas tuas asas imensas, através do
mundo, turbilhões de pérolas e turbilhões de músicas!
Órgão maravilhoso de todos os nostalgismos, de
todas as plangências e dolências...
Mar! Mar azul! Mar de ouro! Mar glacial!
Mar das luas trágicas e das luas serenas, meigas,
como castas adolescentes! Mar dos sóis purpurais,
sangrentos, dos nababescos ocasos rubros! No teu seio
virgem, de onde derivam as correntes cristalinas da
Originalidade, de onde procedem os rios largos e claros
do supremo vigor, eu quero guardar, vivos, palpitantes,
estes Pensamentos, como tu guardas os corais e as algas.
Nessa frescura iodada, nesse acre e ácido salitre
vivificante, Eles se perpetuarão, sem mácula, à saúde
das tuas águas mucilaginosas onde geram-se prodígios
como de uma luz imortal fecundadora.
Nos mistérios verdes das tuas ondas, dentre os
profundos e amargos Salmos luteranos que elas cantam
eternamente, estes Pensamentos acerbos viverão para
sempre, à augusta solenidade dos astros resplandecentes e mudos.
Rogo-te, ó Mar suntuoso e supremo! para que
conserves no íntimo da tu’alma heróica e ateniense toda
esta dolorosa Via-Láctea de sensações e idéias, estas
emoções e formas evangélicas, religiosas, estas rosas
exóticas, de aromas tristes, colhidas com enternecido
afeto nas infinitas aléias do Ideal, para perfumar e florir,
num abril e maio perpétuos, as aras imaculadas da Arte.
Em nenhuma outra região, Mar triunfal! ficarão
estes Pensamentos melhor guardados do que no fundo
das tuas vagas cheias de primorosas relíquias de
corações gelados, de noivas pulcras, angélicas, mortas
no derradeiro espasmo frio das paixões enervantes...
386 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Lá, nessas ignotas e argentadas areias, estas
páginas se eternizarão, sempre puras, sempre brancas,
sempre inacessíveis a mãos brutais e poluídas, que as
manchem, a olhos sem entendimento, indiferentes e
desdenhosos, que as vejam, a espíritos sem harmonia e
claridade, que as leiam...
Pelas tuas alegrias radiantes e garças; pelas
alacridades salgadas, picantes, primaveris e elétricas
que os matinais esplendores derramam, alastram sobre
o teu dorso, em pompas; pelas convulsas e mefistofélicas
orquestrações das borrascas; pelo epiléptico chicotear,
pelas vergastantes nevroses dos ventos colossais que te
revolvem; pelas nostálgicas sinfonias que violinam e
choram nas harpas da cordoalha dos Navios, ó Mar!
guarda nos recônditos Sacrários d’esmeralda as Idéias
que este Missal encerra, dá-o, pelas noites, a ler às
meditadoras Estrelas, à emoção dos Angelus
espiritualizados e, majestosamente, envolve-o, deixa que
Ele repouse, calmo, sereno, por entre as raras púrpuras
olímpicas dos teus ocasos...
Evocações
388 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Les seuls vivants méritant le nom d’Artistes
sont les créateurs, ceux qui éveillent des impressions
intenses, inconnues et sublimes.
VILLIERS DE L’ISLE ADAM, L’Ève Future
INICIADO
Desolado alquimista da Dor, Artista, tu a depuras,
a fluidificas, a espiritualizas, e ela fica para
sempre, imaculada essência, sacramentando
divinamente a tua Obra.
Pedrarias rubentes dos ocasos; Angelus piedosos
e concentrativos, a Millet; Te Deum glorioso das
madrugadas fulvas, através do deslumbramento
paradisíaco, rumoroso e largo das florestas, quando a
luz abre imaculadamente num som claro e metálico de
trompa campestre – claro e fresco, por bizarra e medieval
caçada de esveltos fidalgos; a verde, viva e viçosa
vegetação dos vergéis virgens; os opalescentes luares
encantados nas matas; o cristalino cachoeirar dos rios;
as colinas emotivas e saudosas – todo aquele esplendor
de colorida paisagem, todo aquele encanto de
exuberância de prados, aqueles aspectos selvagens e
majestosos e ingênuos, quase bíblicos, da terra
acolhedora e generosa onde nasceste – deixaste, afinal,
um dia, e vieste peregrinar inquieto pelas inóspitas,
bárbaras terras do Desconhecido...
Vieste da tua paragem feliz e meiga – amplidão
de bondade patriarcal, primitiva – mergulhar na onda
nervosa do Sonho, que já de longe, dos ermos rudes do
teu lar, fascinava de magnéticos fluidos, de
imponderados mistérios, o teu belo ser contemplativo e
sensibilizado.
Chegas para a Via-Sacra da Arte a esta avalanche
imensa de sensações e paixões uivantes, roçando esta
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 389
multidão insidiosa, confusa, dúbia, que de rastos, de
rojo, burburinha, farejando ansiosamente o Vício.
Vens ainda com todo o sol fremente do teu solitário
firmamento provinciano na carnação vigorosa de forte,
de virilizado naqueles ares; trazes ainda no sangue aceso
a impetuosidade dos lutadores alegres e heróicos e ainda
todo esse organismo desenvolvido livremente nos campos
respira a saúde brava daquela atmosfera casta e verde,
dos amplos céus úmidos da tinta fresca das manhãs,
aguarelados delicadamente de claro azul.
Mas, daí a pouco, uma vez imerso completamente
na Arte, uma vez concentrado definitivamente nela, todo
esse brilho e viço vitoriosos, por uma surpreendente
transfiguração, desaparecerão para sempre, e então, tu,
lívido, trêmulo, espectral, fantástico, terás o
impressionante aspecto angustioso e fatal do lúgubre
aparato de um guilhotinado...
A Arte dominou-te, venceu-te e tu por ela deixaste
tudo: a viva, a penetrante, a tocante afeição materna,
de um humano enternecimento até as lágrimas, até a
morte, até o sacrifício do sangue. Por ela deixaste esse
afeto extremo, louco, quase absurdo, de tua mãe – cabeça
branca estrelada de amarguras, Espírito celestial do
Amor, aquela que, nas miragens infinitas e nas
curiosidades enigmáticas da Infância, santificou, ungiu
o teu corpo com o óleo sacrossanto dos beijos.
Tudo esqueceste, para vir fecundar o teu ser nos
seios germinadores da Arte. E, quando alimentado,
quando conquistado e vencido por ela, quiseres voltar
depois aos braços acariciantes de tua mãe, num risonho
movimento de afetiva alegria, clara, fresca, espontânea,
sadia e simples como a de outrora, esse movimento lhe
parecerá funesto e acerbo, como o ríctus de uma caveira,
sem jamais o antigo encanto e frescura.
E tu, então, surgirás para ela como a sombra, o
fantasma do que foste, um desvairado, perdido, errante
na Dor – tais e tantas serão em ti as duras rugas,
390 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
imprevistas e prematuras, para sempre pungitivamente
produzidas pelo dilaceramento da Paixão estética.
Mas tua mãe te falará das bizarras correrias da
tua mocidade, mais florida e mais virgem do que um
campo de rosas brancas nas agrestes regiões onde
nasceste.
E a alma da tua mocidade, a tua jovem bravura de
mocidade, andará, vagará já, errando, errando,
esquecida do mundo, como um solitário monge, através
dos longos e sombrios claustros da Saudade.
E, não só tua mãe, mas teus irmãos, teu pai, todos
os teus te olharão depois, secretamente abalados, como
a um desconhecido, sentindo, por vago instinto, que os
caracteres ignotos e supremos do teu ser não são apenas,
elementarmente, os mesmos caracteres da simples e
natural consagüinidade; que tu, por mais unido que
estejas a eles por laços inevitáveis, fatais, estás longe,
afastado deles a teu pesar, sem malícia, de alma
desprevenida e sã, como as estrelas nas soberanias
transcendentes da sua luz estão para sempre afastadas
da obscura Terra. E tudo isso por andares atraído por
forças redentoras, perdido nos centros fascinantes do
absoluto sentir e do absoluto sonhar!
Agora, ainda trazes a alma como a mais excêntrica
flor do Sol, com todas as febrilidades e deslumbramentos
do Sol – flor da força, da impetuosidade das seivas, aberta,
rasgada em rubro, viva e violenta a vermelho, cantando
sangue...
Porém, se és vitalmente um homem, e trazes o
cunho prodigioso da Arte, vem para a Dor, vive na chama
da Dor, vencedor por senti-la, glorioso por conhecê-la e
nobilitá-la. Tira da Dor a profunda e radiante serenidade
e a solene harmonia profunda. Faze da Dor a bandeira
real, orgulhosa, constelada dos brasões soberanos da
poderosa Águia Negra do Gênio e do Dragão cabalístico
das Nevroses, para envolver-te grandiosamente na Vida
e amortalhar-te na Morte!
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 391
Vem para esta ensangüentada batalha, para esta
guerra surda, absurda, selvagem, subterrânea e soturna
da Dor dos Loucos Iluminados, dos Videntes Ideais que
arrastam, além, pelos tempos, para os infinitos do
incognoscível futuro, as púrpuras fascinadoras das suas
glórias trágicas.
Se não tens Dor, vaga pelos desertos, corre pelos
areais da Ilusão e pede às vermelhas campanhas abertas
da Vida e clama e grita: quem me dá uma Dor, uma Dor
para me iluminar! Que eu seja o transcendentalizado
da Dor!
Vem para a Dor, que tu a elevas e purificas, porque
tu não és mais que a corporificação do próprio Sonho,
que vagueia, que oscila na luxúria da luz, através da
Esperança e da Saudade – grandes lâmpadas de luas de
unção piedosa, cuja velada claridade tranqüila dá ao
teu semblante a expressão imaterial, incoercível, etérea,
da Imortalidade...
E essa Imortalidade em que meditas é a das Idéias,
da Forma, das Sensações, da Paixão, cristalizadas
maravilhosamente num corpo vivo, quente, palpitante,
que sintas mover, que sintas estremecer, agitar-se numa
onda de sensibilidade, fremer, vibrar nas efervescências
da luz...
Condensa, apura, perfectibiliza, pois, o teu Sonho
– Sol estranho, em torno ao qual voam condores e águias
vitoriosas de garras e asas conquistadoras...
Para a gênese desse Sonho, para a gênese dessa
Arte, é necessário o Otimismo da Fé, poderosa e
religiosamente sentida; é necessário que a tua alma,
forte, avigorada para a grande Esfera, tenha a Crença
edificante e paire presa às correntes invisíveis, ignotas,
de um sentimento espiritualizado e sereno.
Ao Pessimismo de Schopenhauer, que tu, pelo
fundo de crítica psicológica e de alada e fagulhante ironia
adoras, como Satã, por diabólica fantasia, adora os
abstrusos venenos do Mal; a esse Pessimismo seco, duro,
392 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
ditador e esterilizante, prefere antes o Otimismo
religioso de Renan, que não abate nem envilece as
almas, mas antes as alevanta e ilumina, sem lhes tirar
a retidão austera da Verdade, as linhas justas e solenes
da alta compreensão da Vida.
Do pessimismo e do otimismo, do conjunto dessas
duas forças, tira a linha geral do teu ser, para que a
visão da tua alma fique perfeita e profunda e não ganhe
nem hipertrofias nem vícios de percepção nem graves e
antipáticos desequilíbrios de sensibilidade, na frescura
abençoada e nos rejuvenescimentos e reflorescências
da Fé.
Assim, concordará a ação com a sensação, estarás
em imediata e clara harmonia com a tua extrema
natureza, estudados os fundamentos que intimamente
a constituem: a bondade, o afeto, o enternecimento, a
delicadeza, a resignação, a brandura, a abnegação, o
sacrifício e a calma, latentes qualidades essas todas
puramente de um Otimismo religioso, porque são essas
qualidades que representam o fundo sincero e sério das
faculdades estéticas, presas sempre a um Ideal abstrato,
que é, na sua essência, o Ideal do Infinito, da
Imortalidade, da Religião, da Fé.
Se tens Fé, se vens inflamado veemente e
intensamente para o sentimento original da Concepção
e da Forma; se te devora a ansiedade lancinante de
uma Aspiração que arrebata em asas, que desprende
vôos brancos e largos para regiões muito além da Morte;
se percorrem os teus nervos, em prodígios de harmonia,
músicas estranhas e coloridas como paixões e sensações;
se dentro de todo o teu ser há o Inferno dantesco,
tumultuoso de Visões, épico de majestade mental, a
crescer, a crescer, a subir mediterraneamente em ondas
cerradas, compactas de sonambulismos estéticos; se
sentes a atraente vertigem da palpitação dos astros, a
dolência pungente das melancolias enevoadas e doentes
que insensivelmente umedecem os olhos; se na luz, se
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 393
no ar, se na cor, se no som, se no aroma tens a fina, a
delicada, a sutil percepção da Arte; se sabes ser, ter na
Arte uma existência una, indivisível, és o Eleito dela, o
Impressionado, o Iniciado.
Não tens mais do que agir fatalmente pelo teu
temperamento, numa função original, numa castidade
ingênita de emoções, na espontaneidade do teu sangue
novo e dos teus nervos aristocráticos, tensibilizados pela
estesia.
Mas, para livremente chegares a esse resultado
artístico, é mister que preceda a tudo isso um sistema
de princípios integrais, fecundos e profundos na tua
natureza, dando-te, por esse modo, uma firmeza e
serenidade emotiva.
Não é, apenas, querer, não é poder, apenas – é
Ser! – E se tu sabes ser, se tu és, numa legitimidade
flagrante, num enraizamento muito intenso de todo o
teu organismo, vivendo a Arte e não a Arte vivendo em
ti; se assim tu és, na profundidade real desse esquisito
e maravilhoso estado, meio-inconsciência, meio-névoa,
que te impulsiona para a Concepção; se assim tu és, por
germens inevitáveis, fatais, a tua Obra, ainda em
gestação, atestará eloqüentemente, mais tarde, as
inauditas manifestações do temperamento.
Tudo está em seres a tua Dor, em seres o teu
Gozo, homogeneamente; em saíres, por movimentos
espontâneos, livres e simples, representativos de um
vivo e afirmativo Fenômeno, da Esfera do mero Instinto
para a Esfera reabilitadora, pura e radiante do
Pensamento.
Se é certo que trazes em ti a principal essência,
as expressivas raízes, a flama eterna, o nebuloso segredo
dos Assinalados, um poder mágico, irresistível, a que
não poderás fugir jamais, te arrastará, te arrojará, como
Visão legendária, profética, numa grande convulsão e
estremecimento, para fora das humanas frivolidades
terrestres, para fora das impressões exteriores do
394 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Mundo, mergulhando-te soberanamente, para sempre!,
no fundo apocalíptico, solene, das Abstrações e do
Isolamento...
Se trazes essa verdadeira, perfeita aristocracia
genésica do Sentimento; se sentes que toda a límpida e
nobre grandeza está apenas na simplicidade com que te
despires dos vãos ouropéis mundanos, para entrar larga
e fraternalmente na Contemplação da Natureza; se vens
para dizer a tua grave, funda Nevrose, que nada mais é
do que a eloqüente significação da Nevrose do Infinito,
que tu buscas abranger e registrar; se tens essa missão
singular, quase divina, vai sereno, o peito estrelado pelas
constelações da Fé, impassível ao apedrejamento dos
Impotentes, firme, seguro, equilibrado por essa força
oculta, misteriosa e suprema que ilumina
milagrosamente os artistas calmos e poderosos na
obscuridade do meio ambiente, quando floresce e
alvorece nas suas almas a rara flor da Perfeição.
Que importam a excomunhão e os desprezos
mordazes sobre a tua cabeça?! Que importam os
arremessados lançaços d’aço e de ferro contra o broquel
do teu peito e contra o vigor de tronco em rebentos verdes
do teu flanco?! Os ímpios não pairam nestas órbitas,
não giram nestas chamejantes Esferas, não se
incendeiam e não morrem nestes augustos e inéditos
Infernos.
Segue, pois, os que seguem contritos, sob um arcoíris celestial de esperanças vagas, a alma como uma
flor exótica dos trópicos ceruleamente aberta às messes
de ouro do sol, e a boca, no entanto, secamente,
asperamente amordaçada sem piedade pelas sedes
tenazes e amargas dos mais inquietantes desejos...
E vai sereno, como os Eleitos da Arte, extremados
e apaixonados na chama do seu Segredo, da sua excelsa
Vontade – levitas extraordinários, martirizados nas
inquisições truculentas da Carne, mas benditos,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 395
purificados, sem culpa de pecado mundano, na recôndita
manifestação das Emoções e do Entendimento.
Segue resoluto, impávido, para a Arte branca e
sem mancha, sem mácula, virginal e sagrada,
desprendido de todos os elos que entibiem, de todas as
convenções que enfraqueçam e banalizem, sem as
explorações desonestas, os extremos de dedicação falsa,
as fingidas interpretações dos cínicos apóstatas, mas
com toda a forte, a profunda, a sacrificante sinceridade,
da tua grande alma, conservando sempre intacta,
sempre, a flor espontânea e casta da tua sensibilidade.
Para resistir aos perturbadores ululos do mundo
fecha-te à chave astral com a alma, essa esfera celeste,
dentro das muralhas de ouro do Castelo do Sonho, lá
muito em cima, lá muito em cima, lá no alto da torre
azul mais alta dentre as altas torres coroadas d’estrelas.
Vai sereno, belo Iniciado! Vai sereno para esta
prodigiosa complexidade de Sentimentos, agora que
abandonaste a franqueza rude das montanhas, além,
longe, na solidão concentrativa, no silêncio banhado de
impressionante, comunicativa e augusta poesia, da tua
terra de selvas e bosques bíblicos!
Vai sereno! a cabeça elevada na luz, vitalizada e
resplandecida na nevrosidade mordente da luz e os
fatigados olhos sonhadores, graves, ascéticos, atraídos
pelo mistério da Vida, magnetizados pelo mistério da
Morte...
396 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
SERÁFICA
Como as iluminuras dos Missais, que ressaltam
de marfins ebúrneos, era infinitamente seráfica, da
beatitude angélica dos querubins, aquela pálida mulher
juncal, de um moreno triste e contemplativo de magnólia
crestada.
Seus grandes olhos negros, profundos e veludosos,
de finíssimos cílios rendilhados, raiados de uma
expressão judaica, tornavam ainda maior o relevo do
palor esmaiado do rosto melancólico, que a singular
formosura brandamente iluminava de claridade velada...
As linhas harmoniosas do seu busto sereno,
perfeito, davam-lhe encanto vago, aéreo, siderações
egrégias, prefulgências de Arcanjo.
Pairavam nessa mulher jalde-esmaiado, que na
luz loura do sol tinha toques d’ouro, suavidades de
cânticos sacros, carícias de aves, e ritmos preciosos de
cítaras e harpas finamente vibradas través a sonoridade
clara das lânguidas águas do Mar.
Altiva e alta, com o sentimento frio do mármore
das Imagens amarguradas, fluíam-lhe da voz, quando
raramente falava, cismativas dolências, fundas
nostalgias enevoadas...
Mas, muda, na mudez das religiosas claustrais,
ficava então de uma beleza divinal e secreta, da excelsa
resplandecência sagrada dos Hostiários.
E, quando erguia os cílios densos e cetinosos e o
clarão dos olhos brilhava, como que se evaporizavam deles
chamas e músicas paradisíacas, uma espiritualização a
glorificava, eflúvios de aroma, a leve irisação da graça.
Dominadora, triunfal, na auréola do esplendor que
a circundava, parecia reinar num altar etéreo, por entre
os finos astros imortais.
Fazia crer que todos os sentimentos afetivos
purificados, que todas as emanações originais da terra
correriam, perpetuamente, em cortejos reverentes, a
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 397
vê-la passar, a beijá-la na epiderme de cera, a venerála, enfim, com esse amor ideal, indelével, eterno, da
natureza abstrata...
O perfume e a radiação da sua cabeça majestosa,
astral não fascinavam, não atraíam apenas, mas
idealizavam sempre – como se a Seráfica fosse a Aparição
simbólica, surgindo de um fundo lívido de lua, uma Santa
Teresa, bela e ascética nos cilícios da religião do Amor,
amortalhada na castidade das açucenas e lírios...
A alma dos Estéticos, dos curiosos Emocionados
se deslumbrava em êxtases de ocasos ao ver-lhe a
aristocrática esveltez monjal, os grandes olhos negros e
magoados, de beleza deífica, os ondeados cabelos
tenebrosos e a boca purpurejante, anelante, letárgica,
ligeiramente golpeada de um travor enervante de volúpia
dolorosa...
Os seios deliciosos e tépidos, origem branca e bela
da graça e do desejo, eram duas raras rosas intemeratas,
cujo aroma esquisito e vivo meigamente deixava um fino
encanto e uma suave fascinação no ar...
Virgem ainda, com todo o impoluto verdor do seu
corpo misterioso, fechada nos recatos ingênitos do pudor,
a Morte, afinal, veio entoar o Canto Nupcial de Seráfica,
o seu Epitalâmio...
E ela, no tálamo da Morte, nessa mística
melancolia de outrora, que a velava, e naquele esmaiado
palor, lembrava, aos entendimentos delicados, aos
solenes e reclusos profetas da Grande Arte, ter
emudecido glacialmente para sempre, sem os
impundonorosos, profanadores contatos, de uma exótica
e asiática doença...
398 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
MATER
Naquela hora tremenda, grande hora solene na
qual se ia inicar outra nova vida, foi para mim uma
sensibilidade original, um sofrimento nunca sentido, que
me desprendia da terra, que me exilava do mundo, tal
era o choque violento dos meus nervos nesse momento,
tal a delicada e curiosa impressão de minh’alma nesse
transe supremo.
Ela, abalada por gemidos, na dor que a dilacerava,
quase desfalecia, com a mais rara expressão misteriosa
nos grandes olhos, os lábios lívidos, o semblante de uma
contemplatividade de martírio, transfigurada já pela
angústia sagrada daquela hora, no instante augusto da
Maternidade.
Todo o meu ser, arrebatado por essa imensa
tragédia de sacrifícios, de abnegação cristã, de
heroísmos incomparáveis, sofria com o estranho ser da
Mater toda a amargura infinita do majestoso aparato da
Vida prestes a surgir do caos, da chama palpitante,
prestes a irromper da treva...
Como que outra natureza, uma paixão viva e forte,
um carinho maior me inundava, subia vertiginosamente
pelo meu ser, me incendiava numa onda flamante de
luz virginal, de claridade vibrante, que me trazia ao
organismo alvoroçado rejuvenescimentos inauditos,
mocidade viril, poderosa, alastrando em seiva fremente
de sensações, nervosamente, nervosamente
impulsionando o sangue.
Às vezes ficava como que num vácuo, só, numa
sinistra amplidão vazia de afetos, sob o eletrismo de
correntes invisíveis que me prendiam, me arrastavam
ao pensamento da Morte, ao auge do dilaceramento, da
aflição, do delírio despedaçador da lembrança de vê-la
morta, sem estremecimentos de vitalidade; sem que as
suas mãos cheias de afago, as suas mãos dementes,
bem-aventuradas, misericordiosas, perdoadoras,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 399
sagradas, relicariamente sagradas, me acariciassem
mais; sem que os seus braços longos, lentos, lânguidos,
me acorrentassem de tépidos abraços; sem que o contacto
dos meus beijos apaixonadamente profundos a acordasse,
– fria, insensível, horrível, gelada ao meu clamor de
adeus, ao meu grito tenebroso, tremendo, de leão
despedaçado, ferido pela flecha envenenada de uma dor
onipotente, rojado de bruços, baqueando em soluços sobre
a terra maldita e bárbara!
De súbito, porém, as lancinantes incertezas, as
brumosas noites pesadas de tanta agonia, de tanto pavor
de morte, desfaziam-se, desapareciam completamente
como os tênues vapores de um letargo...
E uma claridade inefável de madrugadas de ouro,
alvorecida das aves brancas de um país sideral, apagava
em mim a dor fria, exacerbante, desses pensamentos
impacientes e torvos; dava-me o vigoroso alento, a grande
esperança de que ela sobreviveria, de que ela sentiria,
com Orgulho sagrado, nesse primeiro movimento da
Maternidade, correr nas veias todo o impulso delicioso e
nobre, toda a delicada aptidão ingênita, poderosa,
profunda, para amamentar, fazer florir e cantar no
hostiário sacrossanto dos seus seios, aquela doce e
vicejante existência que na sua atribulada existência
se gerara.
E toda a antiga e virtual castidade, a adolescência
promissora, prenuncial, o mago segredo púbere da sua
passada virgindade se transfigurariam na opulência, no
fausto de sensibilidade, de nervosidade, da complexa
paixão materna.
Mas o momento da angústia suprema se
aproximava, fazia-se uma pausa religiosa nesse monólogo
mental que me agitava em febre, na concentração aflitiva
dos meus pensamentos – agora mudos, no reverente
silêncio, na ansiedade calada de quem espera...
Era chegado o momento, grande, grave e belo
momento entre todos, em que a mulher, perdendo a
400 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
volubilidade, a gracilidade diáfana e o alado encanto de
virgem, se transfigura e recebe uma auréola, um sério
resplendor de nobre martírio, de simpático consolo,
envolve-se numa sombra e num silêncio de piedade e
de sacrifício, num Angelus abençoado de amor.
Era chegado o momento em que aquelas formas
se espiritualizavam, se eterizavam, tomavam asas de
sonho, inflamadas por um novo e alto sentimento, tão
tocante e tão augusto, que parecia afinado e fecundado
nos céus pela graça divina e peregrina dos anjos. Ê
quando a mulher parece desprender-se, libertar-se suave
e secretamente da argila que a gerou e criar para si,
solenemente, uma esfera perfeita e eleita de abnegação
infinita e de resignação sublime. Quando os seus seios
magnificentes, nos renascimentos da Beleza, símbolos
delicados da maternal Ternura, florescem à vida dos
pequenos seres que nascem, numa alvorada carinhosa
e tépida de agasalho, amamentando-os com o néctar
delicioso do leite.
Nessa hora extrema em que parece desprenderem-se da mulher, desatarem-se, evaporarem-se véus
translúcidos de virgindade, para surgir, como de um
caule misterioso, a meiga e mágica flor da Maternidade.
Todo aquele organismo fecundado estremecia,
estremecia, nesse inicial e materno estremecimento
virgem, vagamente lembrando as fugitivas vibrações
nervosas de sonora harpa nova, de ouro puro, original e
intacta, pela primeira vez vibrada com excepcional emoção
por dedos inviolados e ágeis...
E, em pouco, então, como num suntuoso levante
de púrpuras, através de gemidos pungentes, de gritos e
ânsias delirantes, a cabeça docemente pendida numa
contemplativa amargura, os olhos adormentados pelas
brumas crepusculares e lacrimosas de um pressentimento vago, magoado e esmaecida toda a suave graça
feminina, na extrema convulsão do corpo dela, todo
aquele surpreendente fenômeno foi como que acordando,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 401
alvorecendo, surgindo das névoas mádidas e sonolentas,
letárgicas, de pesadelo... E a flor maravilhosa e rubra
da matéria, gerada na imensa dor, abriu, enfim, em
prodígios, pomposamente.
Numa apoteose de sangue, respirando o sangue
impetuoso, abundante, que jorrava em auroras, em
primaveras vermelhas de viço germinal, raiara como
clarão aceso de Vida, num grito íntimo, latente, do seu
tenro organismo elementar ainda – um grito talvez
selvagem, um grito talvez bárbaro, um grito talvez
absurdo, arremessado para além, ao Desconhecido do
mundo em cujos dédalos intrincados esse delicado ser
acabara de penetrar agora por entre ensangüentamentos.
Parecia que de uma zona fantástica, dessa Índia
ouro e verde, opulenta, feérica, como caprichoso tesouro
de Lendas e de Baladas, alvorara o Encanto, criara asas
e viera, com o pólen radiante da fecundação, insuflar a
vertigem, dar o fremente sopro criador à cabeça, aos
olhos, à boca, aos braços, ao tronco, a todo o corpo num
movimento quebrado, voluptuoso, lânguido, de germens
que se concretizam, que se condensam e vão adquirindo
aos poucos, com infinitas delicadezas e inefabilidades,
todas as formas perfeitas, todas as linha dúcteis, todas
as curvas e flexibilidades sensíveis, todas as fugitivas
expressões corretas e harmoniosas.
Ali estava aquele vivo e eloqüente rebento,
iluminado pelos idealismos da minh’alma, vivendo dos
florescimentos olímpicos, da alacridade cantante, do
ruído em festa, da imaculada frescura da minha livre e
forte alegria antiga de adolescente.
Ali estava, para o meu amor sereno, para o consolo
meditativo das minhas grandes horas de anseio, para o
recolhimento ascetérico da minha fé estesíaca, a Imagem
palpitante, gárrula, trêfega, da Infância já passada.
Ali estava agora a vida desabrochante, o encanto
alegre, aflorado, ridente – hino viçoso e verde e virgem e
402 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
evocativo e sugestivo de uma ventura morta, saudade
intensa, chamejante, como que espiritualizada no Filho,
rememorando, evocando, numa expressão elegíaca, todos
esses longínquos, remotos e significativos deslumbramentos, cânticos, miragens, sóis e estrelas da
primeira idade tão enternecivelmente assinalada.
Era como que a retrospectividade luminosa de um
tempo, que subia, em incensos, de um fundo enevoado:
terra sagrada e extinta, saudosa e verdejante Palestina
que eu entrevia longe, nas brumas vagas da memória,
dentre hosanas e sicômoros; – página recordativa que
as estrelas e os aromas docemente fecundaram de amor
e de sonhos.
E eu ficava por muito tempo a olhá-lo, a olhá-lo, a
rever-me na frescura cândida daquela carne, a aspirar
com avidez o perfume violento daquela flor viva,
considerando, meditando sobre todos os seus traços,
sobre a expressão curiosa, de pequenina múmia, do seu
corpo veludoso, como que embalsamado no óleo virtuoso
de preciosas ervas verdes e virgens.
Ali estava, enfim, quem me tornava de ora em
diante soturno, calado, no êxtase mudo da contemplação,
como sob o impressionante poder cabalístico, sob a
eloqüência vidente de hieróglifos mágicos...
E, assim mentalmente considerando, eu sentia o
mais reverente, o mais profundo, o mais concentrado
respeito, o afeto mais vibrantemente tocante, aureolado
de lágrimas, pelo templo majestoso e santo daquele belo
ventre, onde enfim se oficiara a primeira Missa de
Propagação perpétua.
Todas as perfeições espirituais do ser que se
liberta da materialidade vil, todos os anseios supremos
pelas formas intangíveis das transcendentes
sensibilidades, me transfiguravam, contemplando em
silêncio aquele ventre precioso e bom, onde tomara corpo,
se consolidara em organismo o gérmen quente e intenso
da Paixão.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 403
Contemplando em silêncio aquele ventre
venerando e divino – Vas honorabile! – de onde o
sentimento épico e místico das sempiternas Abnegações
ondulou como aroma eterno e celeste; ventre gerador e
poderoso que se purificara e sagrara triunfalmente com
os sacrificantes milagres da Fecundação; Olimpo glorioso
que abrira os pórticos fabulosos à dominativa emoção, à
fantasia heróica, à graça d’asas seráficas, do Gênio
consolador, estóico e elíseo das amparadoras,
misericordiosas Mães!
Ó Ventre obscuro e carinhoso, soberbo e nobre
pela egrégia função de gerar! Ventre de afetivas
sublimidades, donde cantou e floresceu à luz a dolente
vitória de uma existência, a encarnação soberana, a
fugitiva tulipa negra para idealizar singularmente os
Infinitos nostálgicos da minha Crença! Ó Ventre amado.
Como foram extremamente puros e penetrantes e
frementes os beijos de apaixonada volúpia e reverência
sacrossanta que eu depus sobre o teu ébano!
Em torno, no ambiente carregado da intensidade
de toda essa maravilhosa sensação, errava o segredo
ritmal de Litanias, de preces que Visões rezavam baixo,
por Céus inefáveis, num abrir e fechar d’asas
arcangélicas, d’asas límpidas, d’asas e asas
rumorejantes, aflantes, cujo suave e ciciante ruído eu
na Imaginação escutava enlevado...
E a doce Mater, mais calma, numa unção de bemaventurança, numa auréola deífica, serenada já da dor
profunda da Maternidade, parecia penetrada de um
sentimento celeste, de fluidos virtuais do grande Amor,
de resignada piedade – água lustral, da maternal paixão,
que a lavava do mal do torturante pecado, purificando a
sua alma simples, iluminando-a toda com o altivo
esplendor de uma força heróica.
Lembrava uma dessas excelsas Divindades
espirituais, a Entidade das Abstrações dos reclusos
místicos, Aparição imortal, cuja face, no resplendor
404 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
translúcido daquele sofrimento regenerante, tinha para
mim o encanto mais alto, a ternura mais bela, a
abnegação mais serena.
Sentia-me diante de completa Religião nova que
evangelizava a Crença naquela Mãe e naquele Filho –
inteira Religião nova, cujos rituais e cultos eternos eram
para mim agora esses dois seres extremadamente
amados, cujo sangue irradiava no meu sangue, cuja vida
penetrava na minha vida, inoculando-a de um júbilo e
de uma graça profética – graça de Anjos e Astros em
claridades, músicas e cânticos, por fios sutis de múltiplas
cordas d’harpas, d’harpas e harpas, dentre os Azuis e as
Constelações...
Ao mesmo tempo sentia então que profundos e
penetrantes frêmitos me abalavam, me convulsionavam
todo, como se se operassem no meu organismo
transformações recônditas, gerando uma outra alma,
trazendo-me sede insaciável da Vida, o ressurgimento
de estesia particular e rara.
Força estranha, que eu até aí não conhecia,
circulava com veemência nos meus nervos, dava-lhes
tensibilidade e vibratilidade mais leves, mais finas; e,
grandes asas diáfanas de Aspiração e Sonho, alavamme às supremas serenidades da Piedade e do Amor.
O desejo que me clamava dentro do peito, em
claras trompas guerreiras, numa onda sonora e
impetuosa, era o de ir além, fora, longe do tédio das
cidades murmurejantes, longe das curiosidades
indiscretas, dos indiferentes e frívolos, das
sentimentalidades aparatosas, dos enternecimentos
calculados, decorativos e clássicos, das expansões
d’estilo, ornamentais como corpos em tatuagem, de tudo
o que grulha e reina na boçalidade majestática da
espécie humana.
O meu desejo indômito era de ir além, fora das
brutas portas de pedra da Região dos Egoísmos, gritar,
gritar, clamar, livremente, à natureza virgem, aos
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 405
campos, às florestas, aos mares, às ululantes
tempestades, aos sóis em febre, às noites triunfais,
coroadas d’estrelas, aos ventos coroados de pesadelos,
que esse Filho extravagantemente amado nascera, que
surgira enfim do mistério sonâmbulo da Maternidade...
A ansiedade que me agitava, levantando dentro
de mim o desconhecido, convulsionando este organismo
num incêndio de sensação, era de deprecar ao Indefinido
das Cousas, ao Abstrato das Formas, ao Intangível do
Espírito, à Eloqüência dos Presságios, para que me
dissessem o que ia ser desse frágil obscuro, dessa tímida
flor da Desgraça, o que ia ser daqueles membros tenros,
débeis; que estupendos augúrios dormiriam no brilho
fugitivo daqueles olhos inconscientes, perdidos no vago
de um fluido sentimento, sob o fundo fatal das impurezas
da Carne, das inquietações do Pecado – germens latentes
ainda, apesar do desdobramento milenário das eras, da
absoluta e primitiva Culpa humana.
Ansiava que me dissessem que mágicos filtros de
gnomos da Noite o predestinariam; que frêmitos de
desejo convulsionariam essa boca ainda tão impoluta,
sã, ainda sem laivos visguentos; que luxúria intensa e
nova inflamaria, acenderia centelhas nessa boca úmida,
fresca, viçosa, apenas entreaberta já num indefinido
anelo, sedenta, inquieta, impaciente, ávida já da
instintiva volúpia do leite...
Todo o evocativo estremecimento das saudades,
das esperanças, das alegrias, das lágrimas me invadia
a alma num sonho esquisito, exótico, oriental, por entre
os nardos quentes, perturbadores e magnéticos, da
Abissínia e da Arábia Ideal de todos os meus
pensamentos fugidios, circulando, girando,
torvelinhando, como silfos procriadores, em torno àquela
meiga e venerada cabeça.
Eu ficava absorto, contemplativo ante as sugestões
delicadas que o supremo fenômeno trazia, nessa
manifestação singular de curiosidades de preciosas
406 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
revelações ingênitas e caprichos ignotos da Natureza,
sentindo que o Filho poderosamente me fascinava, que
a mais irresistível atração me chamava para ele, atração
vital, imediata, eterna, do sangue comunicativo e fraterno
que clama pelo sangue fraterno.
Ela, afetiva Sacrificada, Mater, dolorosamente aí
ficaria na terra, gravitando nos centros nervosos da Vida,
– Sombra divina e errante! – para o futuro, para a
obscuridade, para a velhice, para o silêncio e
esquecimento dos tempos...
Ele, Filho, surgindo das nebulosidades da Matéria,
caminhando, caminhando à Via-Sacra das horas e dos
dias pelas ermas e infinitas encruzilhadas dos Destinos,
iria então, resignado ou desesperado, para o Vilipêndio
ou para as medíocres conquistas do Mundo, através dos
conclamadores Anátemas, através dos lancinamentos
inconcebíveis, através das taciturnidades melancólicas,
através de tudo, tudo, tudo o que chora d’alto, profunda
e apocalipticamente, o Requiem solene, a soberana
majestade, tremenda, trágica, da imponderável Dor!...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 407
CAPRO
Dentro daquele organismo em seiva fumente de
novilho espojando se na amplidão os campos relvosos,
trinavam, cantavam pássaros, vibravam fanfarras
marciais.
Temperamento de guerra, ostentoso como um
carro de triunfo, outrora, nas hostes helênicas, era a
volúpia que lhe ritmava as idéias, que lhe dava diapasão
ao entendimento.
Virginal, como a alva constelação dos astros, a
sua Arte abria-se numa florescência vigorosa, dimanando
o aroma natural, puro, criador e intenso, de terras
lavradas e germinais, revolvidas de fresco, a doçura verde
das tenras e viçosas folhagens, entre as quais brilha ao
sol a loura abundância sazonada dos frutos.
A sua natureza deveria ser estudada sem
roupagens, sem atavios, livremente, a golpes crus e
acres, a tons violentos e rubros, profundos e flagrantes,
na plenitude de toda a extravagância e de toda a
idiossincrasia que o singularizava.
A afloração da sua força psíquica fazia lembrar
uma fantástica floresta vermelha por efeito de um
incêndio colossal: – largas e longas manchas de sangue
alastrando tudo, clarinando tudo de gritos, de brados,
de púrpuras de indignação, de ódios artísticos, de
despeitos, de tédios mortais, de spleens enevoados.
A cor, a luz, o perfume, para a sua esquisita e
caprichosa sensibilidade, sangravam, vertiam sangue
sinistro de dolorosa volúpia; e, todos os aspectos, todas
as perspectivas, pareciam-lhe à retina requintada e
misteriosa outras tantas manchas de sangue, que a sua
estesia doente mais vivas, mais flagrantes via por toda
a parte.
E nessa tendência espiritual orgânica para os
efeitos sangrentos, preferia à clorose das magnólias e
408 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
lírios brancos a rubente coloração das rosas e cravos
bizarros.
Superexcitado pelas nevroses ardentes do
Pensamento, desde as liturgias simbólicas de Verlaine
até aos satanismos de Huysmans, exigindo as linhas
em alto requinte da Arte, toda a sua estética se
manifestava então por uma corrente impetuosa de
luxúria, de caprismo, de lubricidade pagã de sátiro, de
fauno mítico, estirado ao sol, como certos animais no
período da incubação, gozando, sibaritamente, a morna
carícia do eterno clarão fecundante.
Diante da retina coruscavam-lhe deslumbramentos de idéias, com claras, cantantes cores.
Feriam-lhe agudamente a retina, impressionandoa, hipnotizando aquela idiossincrasia fatal, o
ensangüentamento dos ocasos, os vermelhos clarinantes
dos clarões de fogo, os rubros candentes, inflamados,
das forjas, os escarlates violentos das púrpuras, os
álacres rubis de certas tropicais florações e folhagens,
os rubores quentes de certos sumarentos e selvagens
frutos, a sulferina coloração delicada de vinhos tépidos,
todos os rubros majestosos, potentes, embriagantes, toda
a clamante alucinação dos vermelhos crepitando em
sensações de chama, todas as atroantes fanfarras e
gamas infinitas e finíssimas das cores como que
aperitivas, palatais, genealógicas do Sangue.
Os livros carnalíssimos, que porejam luxúria,
acendiam-lhe, mais flamejantes, os instintos sensuais;
e ficava então puro maometano, revestido em sedas e
pedrarias prodigiosas de gozo, nesse lasso luxo oriental
em que a Ásia se perpetua como o lânguido sol decadente
das exóticas sensualidades.
Nos seus nervos, nas suas veias circulavam flamas
geradoras dessa Originalidade trucidante que naturezas
febris ansiosamente procuram, como buscariam o
recôndito veio profundo da água nas camadas mais
obscuras da terra.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 409
Olfato delicado, claro, que tudo sentia, que tudo
respirava, ainda por extremo requinte de volúpia, era
extraordinária, maravilhosa a sensibilidade aguda da
sua membrana pituitária, fariscando ativamente, em
cios.
Mas, os cheiros mais prediletos, mais sugestivos
para ele, que lhe penetravam e cocegavam mais a
mucosa nasal, numa atuação de esfregamento, como
que no atrito agradável provocado na pele para a cessação
de irritante prurigem, eram os cheiros acres de matérias
resinosas, as emanações de folhas silvestres
machucadas, a exalação úbere dos estábulos, o aroma
estonteador e verde das maresias, o odor do sedimento
de certos líquidos, o fartum que diversos animais
segregam, o hircismo quente dos bodes, o estimulante
de fermentação da cevada nas cervejarias, o sumo
travoroso e ativo dos limões verdoengos, quase que
tocados de um sentido penetrante, claro, inteligente e
todos os amargos sabores das frutas ácidas e cálidas
que como que lhe feriam, abriam numa chaga, em
apetites aguçados e picantes, o grosso lábio enervado
pela volúpia letárgica.
E como ele se empurpurasse, se enlabaredasse
no esplendor triunfal da Arte, esses odores todos o
penetravam, o fascinavam, alertando-o, transfigurandoo para a Escrita, para a Forma.
Era como se saísse de andar em volta de vasta
coivara a arder e viesse dela aquecido, com o sangue
esporeado, as veias latejando em febre, numa sensação
intensa de produtividade.
Mas, uma vez caído em frente ao papel branco,
que tinha de receber o exuberante pólen do seu espírito,
todos esses ímpetos, esses fervores esmoreciam, o calor
dessa temperatura artística baixava logo e ei-lo então
novamente vencido, numa espécie de coma, no
adormecimento que lhe tolhia sempre o próprio esforço
da vontade.
410 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
E, súbito, naquela espiritual ansiedade de natureza
impotente, como que a dolorosa e enervante crise olfativa
continuava, mais violenta, dava- se o mesmo fenomenal
período de volúpia capra, nervosa, mental, no qual o
sentimento pituitário dominava, impunha-se, avassalava
as outras funções de modo verdadeiramente estranho.
E o seu olfato desejava, ansiava sentir o talho
sangrento nos açougues, as carnes rasgadas nos
anfiteatros anatômicos, as feridas abertas nos hospitais
de sangue, dentre os aços frios e cortantes dos
instrumentos, como indiferentes, desdenhosos
aparelhos, rindo, em rijas cutiladas sonoras, cantando
o hino dos metais fulgentes ante as torturas humanas
da matéria dilacerada.
No entanto, outrora, esse lascivo, natureza
dispersa, sem unidade de conjunto, produzira já algumas
belas páginas cantantes, estilos com flamejamentos de
espadas, vibrações candentes de bigorna, cintilantes
como os polidos, espelhados broquéis antigos.
Fora isso na adolescência, quando a sua natureza
não se achava absorvida pela pestilência do meio ou
mesmo quase constituindo, como agora, as próprias
células dele. Eram primícias, prodigalidades do seu
cérebro ainda não sazonado completamente; a
abundância espontânea, mas não produzida por seleção,
de um temperamento fecundo, farto de idealização e de
força, mas sem a intensidade essencial que nasce da
condensação e da síntese. Aquelas páginas eram
verdadeiros viços, opulências de rebentos, florescências
inéditas e castas que lhe brotavam do ser com o mesmo
ímpeto de germinação dos vegetais rasgando a terra.
Mas, desde que o seu temperamento chegara ao
mais cabal desenvolvimento, que atingira à Elevação,
subindo a extremos requintes, ele sentira essas páginas
descoloridas, ocas, vazias, sem mergulharem no mar
convulsivo, vulcânico da sua Imaginação, sem dizerem,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 411
sem falarem, sem reproduzirem todo o sol e toda a treva
da sua recôndita Nevrose.
Armado de coruscante cota de malha de espírito,
tecida de diamantes, ele agora quereria para a Estética
um majestoso damasco de Inauditismo, a psicologia
imprevista que os organismos virgens e novos provocam
na sua evolução lenta e curiosa.
Impotente, no entanto, para revelar, sob uma forma
gráfica, os segredos espirituais que o dominavam, incapaz
de concentração, de isolamento para agrupar e dar corpo
às visões que ondulavam em torno do seu centro ardente
de ação mental, o pólo das emoções do Capro, talvez por
um doentio e instintivo despeito dessa Impotência, era
a sensualidade, e era gozar, através das puras
manifestações da Carne, sem a dolorosa expressão
escrita, a volúpia secreta de um anseio transcendental,
de um Ideal rebuscado e uno, olfatando tudo, tocando
mentalmente tudo, para ver se encontraria nas cousas
o odor do Desconhecido, a essência singular, a emanação
casta e original que tanto o inquietava e atraía.
A idéia da Morte, com os seus terrores ocultos,
obscuros e surdos, imponderados, com os seus
enregelamentos supremos, lançava-lhe sempre à
espinha um frio de angústia, soprava-lhe no cérebro tredo
tufão tenebroso, esmagando-o e deleitando-o ao mesmo
tempo, num deleite luxurioso e fatal, que o envenenava
como de ódio terrível, sanguinolento.
Vinha de um fundo misterioso, de recônditas
raízes de sofrimento, de ânsias e desesperos
concentrados, esse vendaval ululante de sensações
imprevistas que o abalavam até ao íntimo do seu ser,
perante a idéia vulcanizadora da Morte, da lívida, da
rígida, da impenetrável Morte...
Era o estremecimento latente, lancinante, de um
terror absurdo, que o esmagava, que o dilacerava, como
se já andasse de rastros, agrilhoada às sombras e à
gelidez tumulares, toda a sua convulsa existência de
412 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
extasiado olímpico, de absorto egrégio nas luminosas
volúpias da Arte.
E quando lhe soava nos nervos a hora alta da febre
da grande alucinação para a perpetuidade do nome no
espírito das Gerações que surgissem; quando se
surpreendia absorto, na contemplatividade muda desse
inquietante e vago Aspirar que fecunda as almas
anelantes de Indefinível; nesses impressionativos
momentos em que ele, transfigurado, empalidecia, os
que mais e melhor sentiam todos os íntimos segredos,
todos os voluptuosos encantos da sua mentalidade, lhe
perguntavam pela obra que deixaria, lhe diziam:
– Então! nada tens feito que revele a tua estesia,
que determine as tuas sensações, a tua sensibilidade
extrema. Vives preguiçando, dormindo lassos, longos
sonos de luxúria... Olha que a morte aí vêm, aí vêm já,
irremovível e oblíqua, sôfrega, sequiosa da tua carne e
te vai surpreender inútil, mudo, sem nada dizeres ao
mundo, cérebro budicamente indiferente, boca fechada
numa contração torturante de impotência doentia
rodando na mesma poeira vertiginosa, no mesmo torvo e
banal rodomoinho dos homens e das cousas, sem nunca
revelares todo esse estranho Infinito que trazes na alma.
Sentes o mundo vão, estreito, de dolorosa dureza
e no entanto não queres ou não sabes fugir dele pela
única larga porta estrelada que se te oferece ao teu
espírito, esse vasto campo ideal onde livremente colhes
a cada passo tanta admirável flor de pensamento! Olha
a morte, olha a morte!... Aí vêm ela, irremovível e
oblíqua... Olha o tempo, olha as horas fatais que te caem
na cabeça, negras e surdas, fulminando-te, com a
inevitabilidade inquisitorial do lento suplício do pingo
d’água.
Ele ficava, ante estas abaladoras palavras, em
sobressaltos assustadores, aterrado, azoinado e vencido,
quase cambaleando, como um homem que leva de
repente em cheio uma forte pedrada em pleno peito.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 413
Abria-se então na alma inquieta do Capro um
rasgão de mar e estrelas, dava-se no seu temperamento
fugitivo um tocsin de alarma, um bimbalhar de carrilhões
ruidosos, um estrugir de músicas marciais em marcha,
clarões que rompiam névoas de vacilação, de timidez
psíquica, um flavo e transfigurado acordar de alvoradas,
todo um sol de alvoroço e triunfo que o iluminava,
impelindo-o ao trabalho tenazmente, insistentemente,
mergulhando-o na chama das concepções, dos estilos
virgens, das formas não sonhadas ainda — órbitas
estreladas e azuis onde a sua astral natureza com tanta
ansiedade girava.
Mas desde que essas transfigurações o
impulsionavam ao trabalho, desde que ele procurava
traduzir, por formas caprichosamente sensacionais e
singulares, as impressões que o abalavam, que viviam
nele vida curiosa e intensa, todo esse poderoso esforço
tornava-se vão, o pulso, de repente, gelava-se-lhe, a mão
não agia com eficácia, e os pensamentos, confusos,
embaralhados, emaranhados, num tropel, fugiam,
recuavam como paisagens encantadas, feéricas, como
ondulantes zonas de luz que desaparecessem da retina
deslumbrada de um opiado visionário.
Um vácuo tenebroso, um vazio sepulcral, horrível
fazia-se logo no seu cérebro, como se uma onda pestífera,
violenta e glacial, lhe varresse os pensamentos
desoladoramente.
Ficava então sufocado, em ânsias, respirando mal:
parece que lhe faltava ar, sol, céu. Erguia-se da mesa
do trabalho, inquieto, lívido; sentava-se de novo; erguiase outra vez; saía, corria, desorientado, desesperado, a
vagar nalgum cais, onde o mar parecia estar de grandes
braços abertos para recebê-lo, para dar-lhe
generosamente toda a seiva dos seus abismos glaucos;
ou então buscava com ansiedade a paz bucólica de algum
campo próximo, respirando assim com avidez e consolo o
hálito virgem, as sadias emanações fortalecentes da
414 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
vegetação e das ondas salgadas, como se procurasse
haurir nelas todo o poder secreto que não possuía, toda
a força de concentração, de generalização e de síntese
que no momento fatal da Concepção tão capciosa se lhe
mostrava e tão impiedosamente lhe fugia.
Era como se ele fosse um condenado a quem
estivessem para sempre interditas as portas livres e
luminosas da salvação. Natureza que a intemperante
sensualidade, já pela sua expressão alcoólica, já pela
sua expressão carnal, já pela sua expressão de preguiça
inerte e até mesmo, por fim, de gula, ia aos poucos
devorando funestamente. Dir-se-ia que procurava nos
inebriamentos, vertigens, delírios e perturbações da
Carne como que o veículo mais pronto, mais fácil, embora
inferior, para nele fazer mover e canalizar
alucinadamente a Sensação que trazia.
As qualidades que lhe tinham de vir unas,
homogêneas, condensadas para o espírito, dispersavamse na sensualidade, transformavam-se em instintos
puramente sensuais, como que para mais e melhor
justificar, agravando, a sua impotência conceptiva.
Nas claras e fundas horas abstratas de julgamento
próprio que cada um tem no seu Íntimo, seja o mais
puro ou o mais perverso dos homens, o mais superior ou
inferior, ele reconhecia toda a sua Impotência, via-se
flagrante no espelho cruel e nu do seu Nada.
Assim como há certos intelectuais que na
superioridade dos grandes meios ficam radicalmente
esmagados, enquanto outros ganham o mais
extraordinário esplendor e vigor, como que absorvem o
céu e a terra, os continentes, são infinitos que se
desdobram no Infinito; há também, especialmente nas
regiões da Arte, seres que trazendo consigo a alta
responsabilidade do Espírito, pelo verbo falado, não a
podem registrar, entretanto, pelo verbo escrito.
Como que se dá com eles o mesmo fenômeno
curioso e aflitivo de um cego que sente tactilmente as
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 415
cousas, mas que não as pode ver; de um mudo, que
possui o órgão vocal, mas que não pode falar...
Nesses momentos acerbos de irrequietabilidade
mórbida, doentia, quando lhe fugiam todos os raios de
unidade amorável e harmoniosa do seu ser e que alguém
lhe surpreendia o flagrante do sentimento, o íntimo do
íntimo da alma, certas negruras venenosas, o Capro
perdia-se na floresta de brumas, afundava-se nos
atoleiros lúbricos do álcool, como numa capciosa desculpa
de vício, de miséria e de tristeza, para que não lhe
sentissem os gritos surdos e o ranger de dentes daquela
Impotência.
Parece que se dava nele um transbordamento
esquisito de natureza, uma anomalia da visão e da
imaginação, de modo a não se poderem ligar entre si os
fios sutis e harmônicos do entendimento e do sentimento,
a não terem correspondência direta e rítmica as
correntes psíquicas do seu cérebro e da su’alma. Parece
que falta a esses seres mais um grão de visão para
abrangerem o complexo todo psíquico ou que algumas
das suas células não têm a intensidade una, a energia
pronta, a espontaneidade essencial e igual para
manifestar por completo as sensações que
experimentam...
E o Capro perdia-se, mergulhava no centro
devorador do seu nirvana de impotência; sucumbia sob
as garras ferozes e os despedaçadores tentáculos do seu
Irremediável!
Ah! era o eterno, o tremendo e incognoscível sofrer
da dor das Idéias, implacavelmente, no tormento profundo
das mais acerbas agonias.
Mas essa insaciabilidade, essa aguda inquietação
indomável, tensibilizando-lhe cada vez mais os nervos,
requintando-lhe os sentidos, galvazinando-lhe o rosto
num espasmo lívido, ia no entanto cavando d’enxadadas
brutais e inevitáveis a sua própria cova.
416 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Toda a desarmonia geral, todo o desequilíbrio do
seu esforço ingênito de mentalizado, toda a ação
desvirtualizada dos seus pensamentos, que era já o
desmoronamento final provocado pela hipertrofia, ou
anulação de uma função do seu cérebro, todo o
desmembramento intelectual do Capro, resultante do
seu subjetivismo facilmente transbordante, sem centros
de intensidade, de condensação, tudo isso apressava já
os seus passos impacientes, ávidos nas batidas da Vida,
para a sepultura, dando- lhe à fisionomia gasta e dolente
um lúgubre macabrismo de esqueleto...
E, quando afinal o vi na Morte, pairando-lhe na
face fria o êxtase ignoto da indefinida, incoercível visão
do Sonho, não sei por que vaga sugestão daquela
improdutiva concupiscência psíquica, daquele lascivo e
psicológico sentir e pensar desordenado, os seus pés,
hirtos, enregelados no féretro, pareciam ter também,
sinistra e ironicamente, estranha evidência capra, como
se toda aquela espiritualidade que transbordara em
luxúria, como se todo aquele vão e dilacerado esforço
houvesse, por agudos fenômenos de sensibilidade
nervosa, por cristalização de angústias lancinantes,
desesperadas, supremas, transformado fantástica e
exoticamente o seu ser naquela expressão animal
reveladora do seu espírito, por um espectral e derradeiro
desdém da Natureza...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 417
A NOITE
Ó doce abismo estrelado, nirvana sonâmbulo, taça
negra de aromas quentes, onde eu bebo o elixir do
esquecimento e do sonho! Como eu amo todas as tuas
majestades, todas as tuas estrelas, todos os teus ventos,
todas as tuas tempestades, todas as tuas formas e forças!
Como eu sinto os perfumes que vêm das grandes rosas
místicas dos teus maios; os eflúvios vibrantes, cândidos
e finos dos teus junhos; o grasnar dos teus abutres e o
claro bater das asas dos teus anjos! Como eu aspiro
sedento todos esses cheiros salgados do mar dominador,
essa vida aromal das folhagens, das selvas reverdecidas
com os teus orvalhos revigoradores, com a tua esquiva
castidade misteriosa!
Ah! como eu te amo, Noite! Como a tua eloqüência
muda me fala, me impressiona e me chama, Aparição
seráfica, fabulosa irmã do Caos e das Legendas!
O peito cheio de vibrações ansiosas, a alma em
cânticos de amor, os olhos iluminados por esplendores
secretos, como é maravilhoso vagar no solene
tabernáculo dos teus silêncios, no in pace do teu Sonho!
Como faz bem e tonifica mergulhar profundamente
a cabeça nos teus mistérios que deslumbram, adormecer
com eles, deixar que a alma se embale neles, vaguear
pelo Infinito, tendo todos esses mistérios imaculados
como o vasto manto consolador da Piedade e do Descanso!
A tua docilidade e frescura, o teu carinho, os teus
afagos, a tua música selvagem, as tuas solenidades
augustas, o teu antediluviano encanto bíblico, as
monstruosas risadas mefistofélicas dos teus fantasmas
tenebrosos são como seres singulares, verdadeiros
irmãos da minh’alma.
Mordido de nervosidade aguda, perdido no teu
solitário regaço maternal, ó estranha Noite, eu sinto
que o cavalo de asas da minha consciência galopa, voa
longe, livre, sumindo-se na infinita poeira de ouro dos
418 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
astros; que os movimentos dos meus braços ficam
também livres, para abraçar as Quimeras; que os meus
olhos, alegremente felizes, se libertam do carnívoro
animal humano, para só fitarem sombras; que a minha
boca aspira o Vácuo estrelado, para saciar-se dele, para
beber todo o seu luminoso vinho noturno; que os meus
pés erram melhor, oscilantes e vagos embora na
embriaguez e na cegueira da treva, para melhor se
desiludirem de que se arrastam na terra; que as minhas
mãos se estendem e se movem largamente, como asas
de espontâneo vôo bizarro, para dizerem triunfante adeus
por algumas horas às terríveis contingências da Vida!
Perdido nas solidões da tua treva vibram-me as
tuas harpas, seduzem-me os teus êxtases, arrebatamme os teus misticismos.
Com os olhos radiantemente abertos, como se
fossem duas curiosas flores de raios celestes, eu
nôctambulo em silêncio, na concentração de um
missionário contemplativo vagando num imenso templo
deserto e cheio de sagradas sombras...
Em cima, sobre a cabeça, sinto cantar-me, doce e
terna, a fina luz das meigas estrelas, e essa luz arde,
chameja melancolicamente como uma alma que aspira...
Dentro de mim uma sensibilidade incomparável
vibra e vive como essas estrelas delicadas e meigas.
Todos os quebrantos da noite fascinam-me,
enlevam-me e eu me surpreendo arrebatado por uma
transfiguração que não sei de onde parte, que não sei
de onde vem, mas que me enche a alma como de uma
crença maior, como de um revigoramento de marés
picantes, como de um largo e belo sopro natal de
revivescências juvenis!
E quando levanto acaso religiosamente os meus
olhos, no meio da candidez da solidão noturna, para o
azulado e magoado estrelejamento do céu e vejo o céu
suntuoso e mudo com os seus astros, os meus olhos,
felizes e gloriosos por te olharem, Noite, exilam-se cada
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 419
vez mais na tua mudez, vivem cada vez mais do teu
deslumbramento e do teu gozo, inteiramente órfãos de
todas as outras perspectivas, como dois príncipes
hamléticos exilados para sempre numa sombria, mas
inefavelmente amorável região de luto.
Quando um pesadelo sinistro cavalga o meu dorso,
me oprime o peito e os rins, tira-me a respiração –
pesadelo gerado do Nada que nos envolve a todos – a tua
fascinação astral é para mim um alívio supremo, a tua
liberdade ampla é para mim larga emanação vital.
As tuas sutilezas me acordam, os teus Stradivarius
me espiritualizam, os teus preciosos ritmos me afinam...
Ó Noite! inimiga irreconciliável dos que não te
sabem engrinaldar com os lírios das suas saudades,
encher com os seus soluços, estrelar com as suas
lágrimas! Hóstia negra dos Sonhos brancos que eu
eternamente comungo! Tu que és misericordiosa e que
és boa, que és o Perdão estrelado suspenso sobre as
nossas desgraçadas cabeças, tu que és o seio espiritual
dos miseráveis seres, embalsama-me com os teus ósculos
perfumados, com o eflúvio da infância primitiva dos teus
idílios, abençoa-me com o teu Isolamento, cobre-me com
os longos mantos de veludo e pedrarias das tuas volúpias,
purifica-me com a graça dos teus Sacramentos.
Fantasista do soturno, do galvânico, do lívido;
Colorista do shakespeareano e do dantesco; Mater dos
meios tons e das meias sombras, das silhouettes e das
nuances; trombeta de Josafá, que fazes caminhar todos
os espectros, ressuscitar todos os mortos, máscara
irônica de todas as chagas; confessionário de todos os
pecados; liberdade de todos os cativos: como eu recordo
a galeria subterrânea dos teus mórbidos bêbados, dos
teus ladrões cavilosos, das tuas lassas meretrizes, dos
teus cegos sublimes e formidáveis, dos teus morféticos
obumbrados e monstruosos, dos teus mendigos
teratológicos, de aspecto feroz e perigoso de tigres e ursos
enjaulados, acorrentados na sua miséria, dos teus
420 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
errantes e desolados Cains sem esperança e sem perdão,
toda a negra boêmia cruel e tormentosa, ultra-romântica
e ultra-trágica, dos vadios, dos doentes, dos
degenerados, dos viciosos e dos vencidos!
E a peregrina boêmia dos teus cães uivantes e
contemplativos no amoroso espasmo do luar, dos teus
gatos sonhadores, exilados e raros estetas felinos
deslizando sutis pelos muros, histéricos da lua, os olhos
fosforescentes como a luz de estranhos santelmos!
Noite que abres teus circos funambulescos, cheios
de palhaços rubicundos, tatuados de mil cores, de
acrobatas de formas e movimentos aligeros e elásticos
como serpentes; que expões todo o arco-íris inflamado
dos teus bazares, a vertigem de zumbir de abelhas dos
teus fagulhantes cafés-cantantes, o olho ignívomo e
solitário dos faróis no mar alto e toda essa ondulação de
aspectos e sonhos fugitivos, essa nebulosa do rumor e
da emoção, que é o teu véu de noiva, que é o teu manto
real!
Tu apagas a mancha sangrenta da minha vida,
fazes adormecer as minhas ânsias, és a boca que sopras
a chama do meu desespero, és a escada de astros que
me conduzes à minha torre de sonho, és a lâmpada que
desces aos carcavões da minh’alma e fazes desencantar,
caminhar e falar os meus Segredos...
Tens uma expressão milenária de Epopéias, um
curioso e extravagante sentimento druídico, e como que
toda melancolia arcaica da Decadência latina.
No fundo velho e pitoresco do teu Oriente, ó Noite,
meu caprichoso e exótico Crisântemo; nos longes dos
teus grandes e famosos Frescos ondulam em curvas
lascivas e donairosas as românticas e visionárias virgens,
os pálidos poetas meditativos, os ascetas lívidos que
velam à claridade magoada dos círios, os fascinantes e
capciosos Fra-Diavolos, os galhardos, zumbentes e
coruscantes carnavais de Veneza da tua prodigiosa
Fantasia e as quermesses louras e cor-de-rosa dos
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 421
querubins da Infância, que dormem sonhando, lírios de
comovida ternura, meigamente seduzidos e embriagados
no delicado e casto regaço do mistério dos sexos.
O bendita Noite! dá-me a morte na irradiação dos
teus raios, para que eu rompa o selo cabalístico dos teus
segredos; dá-me a morte na cristalização dos teus astros,
nas auréolas das tuas nuvens, no pesado luxo das tuas
constelações, no vaporoso de tuas visões de lagos, na
solenidade bíblica das tuas montanhas enevoadas, nas
cerradas cegueiras apocalípticas das tuas maravilhosas
florestas virgens, quando lentas luas langues
florescerem nos céus como grandes beijos congelados
de brancas noivas gigantes encantadas e mortas...
422 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
MELANCOLIA
Falo ainda e sempre a ti, branco Lusbel das
espirituais clarividências! A ti, cuja ironia é ferro e é
fogo! Cuja eloqüência grave e vasta faz lembrar, como a
de Bossuet, longas alamedas de verdes e frondejantes,
altos plátanos chorosos. A ti, que amargurado deploras
toda esta decadência dos seres; a ti, que te voltas
desolado e saudoso para os tempos augustos que se foram,
quando a Honra vã de hoje, era, como um poderoso e
altivo brasão de águias negras atravessado de uma
espada no centro!
Sim! branco Lusbel, nós caminhamos para o
irreparável empedernimento; desde o solo até aos astros,
homens e cousas, tudo vai quedar de pedra. Será um
sono universal de uma universal esfinge. Tudo, na pedra,
dormirá um sono de pedra. A pedra respirará pedra. A
pedra sentirá pedra. A pedra almejará pedra. E esta
tremenda aspiração de pedra profundamente simbolizará
os sentimentos de pedra dos homens de hoje. E, então,
branco e iluminado Lusbel, mais claro do que nunca,
verás que os olhos dos homens só luzem diante do
dinheiro! Que pelo Amor nenhum se sente com ânimo
de brandir um facho, de agitar um gládio ou desfraldar
uma bandeira! Que pelo Sacrifício nenhum se arrojará
nos Nirvanas transcendentes, porque dói muito
abandonar o Conforto! Que pela Abnegação nenhum se
colocará na vanguarda, porque custa muito aniquilar o
Interesse.
Bem sei que tu, ainda com uns restos de
demência, não sei se diabólica, não sei se divina, acharás
paradoxal esta intuitiva profecia; mas, para te fazer
apagar de uma vez as últimas claridades de crença
inexperiente que ainda conservas na alma, vou
ministrar-te um rápido e curioso exemplo – síntese
preciosa de que o Sentimento está metalizado em ouro,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 423
de que a alma anda em cheques universais, no câmbio
feroz do egoísmo humano:
– Meu filho, ouvi perguntar um dia a uma criança
de sete para oito anos que chegara desse rude e corrupto
mundo europeu a tentar fortuna nestas novas terras
azuis – meu filho, você, com certeza, deixou lá fora
família, sua mãe, seu pai, não?!
– Deixei, respondeu ele.
– E não tem vontade de voltar, não tem saudade
deles?
– Eu! saudades, replicou a inocente criança de
sete para oito anos; eu não vim cá para ter saudades,
vim para ganhar dinheiro!
Aí tens tu, branco e iluminado Lusbel, a boca dessa
esquisita criança, na qual deveria desabrochar a flor
tépida de um afeto cândido, instintivamente gangrenada
já por tamanhas abjeções de palavras duras!
Nesse ingênuo bandidozinho aí tens tu a imagem
simbólica, a mais que exata medida da alma humana
universal que tu desoladamente observas com tão
desesperada melancolia, cuja psicologia secreta tu
penetras tanto nos requintes de toda a tua inquieta
Indignação!
424 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
CONDENADO À MORTE
Soyez victorieux de la terre.
BALZAC, Seraphita.
Desde que ele, o doloroso Estético, penetrou
naquele Noviciado divino, que se sentiu para sempre
condenado à Morte!...
Bem o pressentiu logo, bem o compreendeu, assim
que em torno à sua cabeça melancólica e triunfante um
clangor de guerra ecoou, vitoriando-o, e cem mil
estandartes gloriosos dos falangiários do Ideal se
desfraldaram e abateram ante seus pés, numa solene
homenagem de conquista.
A Vida terrena do Tangível que flamejasse lá fora,
nos turbilhões cruentos dos dias, no dilaceramento das
horas; os homens que se atropelassem e gemessem e
rojassem sob a mole formidanda das paixões; o gozo, a
ebriedade do gozo, o prazer picante e álacre, fútil, leve,
fácil, que cantasse sobre a terra, que agitasse todos os
seus guizos jogralescos, rufasse todos os seus tambores
festivos, fizesse ressoar todos os seus clarins ovantes...
Ele, o Estético doloroso, não! Dentro desse
Noviciado divino estaria perpetuamente condenado à
Morte – visão, fantasma, sombra do Imponderável,
arrebatado não sei por que estranho Mistério, não sei
por que esquisita impressão abstrata, não sei por que
fluido maravilhoso, para a Morte, antes mesmo da
consumação da matéria, por condenar as vãs alegrias
que arrastam tantas almas, as venturas banais que
fascinam e embriagam tão loucamente os homens.
Outros que se alassem às correrias preciosas da
Mocidade, às opulências, ao fausto, ao esplendor das
pompas exteriores, ao estridente rumor das festas,
perdidos pelas estradas intermináveis, longínquas,
ermas, dos Destinos desencontrados.
Ele, o Estético doloroso, não! Naquela intuição
tocante de Iluminado, ficaria no Desconhecido, para a
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 425
consagração do Espírito, olhando, numa indizível tristeza
de mar noturno, as gerações que se aglomeram e
mutuamente devoram nos pórticos desolados do Universo,
pela batalha bárbara do Existir...
Ele estivera já em contactos com o Mundo,
sentindo-o, respirando o mesmo ar, chocando-se com os
sentimentos mais abstrusos e soturnos, com as paixões
mais vorazes, com os corações mais gelados, roídos pelo
cancro alastrante de um tédio doentio, de um nirvanismo
agudo, de um nihil eslavo...
Sentira todas essas psicoses sangrentas, todas
essas manifestações exóticas de uma espécie de absurda
teratologia mental; todas essas complexidades d’alma
de um fundo caótico, esmagador, aniquilante, de onde a
Fé fugiu desolando e enrijecendo tudo, ficando apenas
o granito de umas naturezas hirtas, impassíveis,
estratificadas no egoísmo e na indiferença das cousas,
vendo a perfeição, a beleza serena das abstrações ideais,
das formas onipotentes e singulares, com os vesgos olhos
da lascívia, da impotência ou da inveja reptilosa e
lesmenta.
Ele viu atritarem-se convulsamente os leprosos,
os aleijados, os epilépticos, os morféticos, os tísicos, os
cegos, enroscados todos na sua negra mortalha de
suicidas, cambaleantes, ébrios de dor, de desespero, na
agonia da carne que se dilacera, que se rasga, que se
despedaça – enquanto o soberbo sol, dos Altos, como um
pagão, bizarro, cantava sobre todas essas chagas abertas,
sarcasticamente, diabolicamente, indiferentemente, a
música offenbachiana, do seu clarão comunicativo e
cortante...
Ele viu, como um largo mediterrâneo, todo o
assombro das lágrimas recalcadas, toda a epopéia
sinistra, toda a majestade dolorosa da alma humana,
torcida num espasmo de angústia lancinada,
amargamente lancinada numa aflitiva treva de
dilaceramentos.
426 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Ele observara tudo, descera a esses subterrâneos
fatais, a essas criptas letíficas de nevroses e
spleenéticas doenças, onde parece errarem duendes
infernais e onde como que uma lua lívida, espectral,
d’além túmulo, trêmula e triste, derrama sonolenta e
esverdeada claridade de augúrios medonhos e
indefiníveis...
Vira tudo isso, mas vira igualmente todas as
graças e aromas da terra na fascinação satânica da
mulher, no encanto virginal da sua carne, na tantálica
tentação dos seus braços tentaculosos.
Mas, tendo desde logo entrado na posse secreta
de si mesmo, o doloroso Estético só sentira mais a mulher
nas linhas e aspectos da visão, desprezara a carne,
idealizara, espiritualizara a mulher.
Ele vira os fatigantes prazeres, as bizarras e
galhardas alacridades do Vinho – quando a mocidade
ruidosa, num alvoroço, arrebatada nos fantasiosos
corcéis alados da alegria, por ser futilmente, mas
intensamente amada, abre os braços nervosos à loucura,
com todo aquele sangue exuberante, claro, vigoroso, de
leão dominador, que mais tarde a boca visguenta da cova
há de beber, sugar então fartamente para sempre.
Tudo, absolutamente tudo, ele vira; tudo o que é
ventura breve, mas tangível, mas real, tudo o que se
goza pelo olfato, pelos olhos, pelo paladar e pelo tato;
tudo o que constitui o epicurismo grego e o que constitui
o júbilo mundano, a felicidade clássica, oficial,
convencionada, das sociedades cansadas, decadentes,
esgotadas pela degenerescência do sangue, pela
intensidade da Análise, torporizadas e entorpecidas no
amolecimento e no postiço das fórmulas, sem ter
enfibratura para a Grande Vida, em regiões estreladas,
ao de leve, sutil e delicadamente, noutra chama, noutra
esfera mais fina, mais pura...
Completamente tudo, afinal, ele vira e sentira com
profundidade, enclausurado naquele Noviciado divino,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 427
pelo qual, como de dentro da terrível, solene e hieroglífica
porta do INFERNO, deixara lá fora no Mundo toda a
esperança de gozos efêmeros, de ambições medíocres,
de aclamações decretadas, de acolhimentos e apoteoses
mundanas, de séquitos reverentes e cortesãos
arrastando a pompa impura, enxovalhada, rota, ridícula,
da larga púrpura de ovações cediças e seculares.
Se ainda lhe fosse permitido ouvir o eco
adormecido, distante, vago, das Ilusões, das Alegrias
livres, dos Sonhos de há vinte anos, das Esperanças
imensas, das Saudades intraduzíveis da sua
adolescência, para lá destas eras rudes e austeras do
Pensamento e do Sentimento, outra cousa não
repetiriam, não clamariam todas essas sacrossantas
Imagens, todas essas inefáveis Visões, senão que o
doloroso Estético é agora um perfeito condenado à Morte
– sereno e grande condenado que ufanamente esqueceu
e desprezou, para trás, para os tempos de outrora, tanta
luz de tranqüilidade, de paz ingênua, para vir então
espontaneamente entregar-se aos martirizantes cilícios
das Idéias.
As sensações que poderia experimentar com
simplicidade, como natureza elementar, sem febre, sem
delírio de impressões, sem agudezas de nervosismos;
essas sensações comuns de sentir, físicas, flagrantes
como ferro em brasa chiando em cheio nas carnes, o
doloroso Estético deixou intensamente de experimentar,
para mais intensas sentir as outras sensações que tocam
por toda a escala dos nervos, por todo o enraizamento
das fibras, por toda a delicadeza etérea, aeriforme, da
ductilidade e da vibração.
Impassível diante de tudo que não seja a expressão
de uma Estética, a afirmação de uma estesia rara, a
latente, profunda originalidade sensacional e vivendo
por entre o ruído, a confusão, a vertigem da multidão
que ri, que goza com distinções boçais, com a sua
celulazinha empírica – Ele não vive a vida externa dos
428 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
homens, não participa, de fato, do meio ambiente — antes
o seu estado vital é a morte, por uma condenação
perpétua e lógica de todos os vários elementos da Matéria
contra ele conclamados...
Isolado do Mundo, no exílio da Concentração,
solitário, na tristeza majestosa de um belo deus
esquecido, as outras forças múltiplas que agem na Terra,
na luta desenfreada de cada dia, que equilibram as
sociedades, que regem a massa vã dos princípios, que
dão ritmo à onda eterna do movimento e entram na vasta
elaboração da cultura das raças, sentiram-se
hostilizados diante da sua intuitiva percuciência de
vidente, da sua ironia gelada de asceta, do seu desdém
soberano de apóstolo, da sua Fé indestrutível, serena
de missionário, de extraordinário levita sombrio de um
culto estranho, que leva aos lábios, em extremo, o Cálix
místico da comunhão suprema da Espiritualidade e da
Forma.
E então, o doloroso Estético, soberbo e sublime na
sua solidão e no seu silêncio, vagueou – afastado do foco
real, positivo da Vida – sem existir de fato, como um
simples condenado à Morte, errante fantasma na sombra
de sepulcros, misteriosamente vibrado por grande Sonho
doloroso ritmado nas longas, monótonas e amargurantes
melancolias do Mar, para sempre gemendo e sonhando,
noturnamente, velhas lendas bárbaras.
É que o Estético viera da caudal misteriosa dos
que acharam clarividentemente o inédito das suas
almas, que se sentiram seres, que se salvaram do Caos
universal com a evidência simples e clara de uma
natureza afirmativa.
Mas, afinal, assim mesmo condenado à Morte, sob
os filtros negros da Morte, ele, purificado do Espírito,
perfectibilizado da Alma, remido e libertado da Matéria,
ficou simbolizando, no entanto, o único ser
verdadeiramente livre e legitimamente ser, o mais belo,
o maior, o mais alto ser, ainda que desolado e sombrio,
vitorioso da Terra!
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 429
ANHO BRANCO
Lembrava frescura de úmidas rosas
desabrochadas, eflorescência de magnólias e a candidez
de alma de pastores aquela carnação opulentamente
branca.
Existência singela, segetal, um tanto primitiva,
de serranias alpestres, o espírito a imaginava surgindo
dentre vergéis de lírios e açucenas, numa clara
fulguração de brancuras, como se as constelações a
houvessem fecundado.
Uma luz desconhecida parecia rodeá-la de
auréolas arcangélicas, celestiais...
No entanto, a sua carne viva, virgem,
radiantemente alva, da translucidez requintada da lua,
determinava bem a sua terrestre descendência.
Pelos campos, pelos prados, ela surgia com o sol,
ela noctivagava com as estrelas, branca e de fino ouro
flavo nos cabelos.
Surgia com o sol, na lactescência imaculada do
seu corpo de flexibilidades e delicadezas de linho;
noctivagava com as estrelas, na chama doirada dos seus
cariciosos, suaves cabelos.
Na alvorada púbere desse sangue majestoso de
Virgem, inefável Infinidade de sereias de volúpia cantava.
Relâmpagos vagos de desejos quiméricos cruzavam,
abriam claridades iriadas nesse sangue triunfal
impoluto, tão puro e verde nas exuberâncias como as
verdes e tropicais vegetações dos campos claros que a
geraram.
A alma adormecia no azul doce, langue,
balouçante, dos seus olhos radiantes, festivos, inundados
de uma frescura silvestre de náiade onde, por vezes, a
dolente melancolia de amargas águas de mar em repouso
vagava.
Carne casta e branca, tenra e veludosa, epiderme
de leve luz rosada, cujas transparências sutis
430 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
extasiavam, tinha, no entanto, uma fascinação animal,
um quebranto delicioso de pecado, uma provocante
flexura nervosa nos quadris afelinados, qualquer cousa
de inebriante segredo selvagem no extravagante conjunto
da linhas dúcteis da alva e flavescente figura.
Certos caprichos que a dominavam, certos arrojos
e aventuras, traziam-lhe mesmo afinidades selvagens:
– em saltar aos vales, logo pela manhã, aos primeiros e
luxuosos coloridos; em coroar-se de rosas agrestes, pelos
prados, gárrula, trêfega, no aspecto bizarro, no
movimento fugidio e arisco de pássaro airoso; na ousada
graça montanhesa de subir a árvores frondejantes e
dormir depois à sombra delas, livre, descuidadosa, na
expansão vegetal dos campos, identificando-se larga e
singularmente com todos os aromas e mistérios da
Natureza.
E era surpreendente vê-la assim, transfiguradamente formosa, errando pelos vergéis, pelas campinas e
vales, voando quase, na febre da luz e da paisagem verde
que a impressionava, que a eletrizava, como se ocultas
asas a levassem, a levassem, para sempre confundida e
mergulhada nas eflorescências abundantes das louras,
sazonadas searas.
E, por entre os giestais engrinaldados de flores
amarelas, por entre a rubente coloração das papoulas, a
espessura densa das folhagens glaucas, a gradação
pinturesca da verdura e pela margem das lagoas e lagos
prateados e sonolentos, à beira dos brejos e alagados,
das fontes, cachoeiras e rios e ainda sob a tenda
abrigadora dos tamarineiros e jambeiros perfumados, e
ainda por entre as galhardas alacridades dos cravos,
por entre os amargosos e acres rosmaninhos, era o
encanto picante, o supremo êxtase ver como essa Ninfa
branca das selvas corria, corria, toda resplandecida de
sol, arrebatada através das seivas impetuosas, dos
travorosos odores, dos bálsamos, das resinas, das
cheirosas e vertiginosas emanações de todas as ervagens
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 431
e plantas exuberadas, na fascinante volubilidade alígera
de movimentos imprevistos de gamo, acusando ainda
mais, fazendo ainda mais viver e cintilar, em luminosos
relevos, no desalinho soberbo da corrida, a glória da
carne branca, a pubescência maravilhosa das formas.
E essas seduções prófugas, essa timidez e
melindre gracioso, junto às audácias e vivacidades
másculas, às surpresas e revelações do seu borboletismo
irrequieto, faziam meditar, em silêncio e melancolia,
nos sigilos assinaladores, nos recônditos, secretos
pudores, na recatada e ingênita malícia de alguma
curiosa filha de lendário e poderoso gigante, viçada
branca, sob o inflamado e fecundativo pólen do sol, na
luxúria animal e verde das florestas.
E ela corria, corria, galgava as ribanceiras,
transpunha pomares em fruto, sebes de madressilvas e
acácias, e perdia-se, perdia-se fantasiosamente pelos
infinitos estrelados de flores e de brilhos de todas aquelas
amplas, sonoras, e prodigiosas regiões de virgindades
campestres.
Errava um primitivo e saudoso sentimento de
Criação paradisíaca sempre que ela irrompia através da
vaga esmeralda das vinhas, do purpurejamento palpitante
das rosas, entre as aves que abriam e batiam asas
cantando em torno à sua esvelta e fascinadora cabeça
d’ouro virgem.
Na solenidade épica dos vales, dos bosques, das
colinas e campos, onde bois resignados e majestosos
tocante e melancolicamente mugiam com os grandes
olhos de um sentimento bíblico, espiritualizados por um
suavíssimo luar de lágrimas de evangélica bondade, esse
corpo branco de brancura olímpica de deusa – ode das
odes vivas, Cântico dos Cânticos, Via-Láctea
transfundida em carne – parecia ter a influência
misteriosa de um silfo alado, parecia derramar, por
aqueles horizontes augustos, o luar de imensos e
432 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
voluptuosos pesadelos dos fenômenos infinitos da
Germinação...
Era a estranha Visão florestal que, quando
aparecia, como que tornava brancos todos os aspectos,
fazendo a retina sentir, por efeito dos deslumbramentos
e ampliações visuais, vastas miragens brancas, vertigens
de cores brancas, perspectivas brancas, nuances
brancas, tudo nevadamente aceso em fulguramentos e
cambiantes brancos.
Nem o sol, com a sua clarinante chama fiava,
conseguira jamais empalidecer, dar tons de razão a essa
brancura intacta, da inviolabilidade de tabernáculos, que
parecia sempre repurificada nas origens das extremas
lactescências, das neves inacessíveis, dos indeléveis
florescimentos.
E essa incomparável brancura magnetizava os
sentidos como eflúvios de óleos exóticos e místicos
vaporosamente queimados...
Mas, as curvas esquisitas do seu perfil ágil, lépido,
tentadoramente assinalado por fugitivos meneios
animais e curiosos; o coleante movimento dos braços de
lânguidas nervosidades de áspide; a dilatação sedenta
das narinas acendidas numa aspiração de sorver os
cheiros vitais das terras fundamente revolvidas e das
ervas sumarentas e quentes; a gula farta da boca úmida
num viço rubro, exalando lilás e trevo; as mornas e magas
magnólias embriagantes dos seios; as finas e elíseas
claridades azuis dos olhos, e, enfim, a candidez e
brancura suave das pompas da carne virgem,
despertariam nos temperamentos violentos, selvagens,
anseios intensos, acordariam o gozo idiossincrático, não
de desvirginá-la, de violá-la, na brutalidade feroz dos
instintos, mas de a morder, de fazer sangrar à faca,
com volúpia, com febricitante paixão, carne tão odorante,
tão balsâmica, tão lirial e nevada, engolfando
saciadoramente nela o aço fólgido e rijo, rasgando-a com
a lâmina acerada e aguda em talhos veementes, vivos,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 433
gritantes de sangue fresco e fumegante, escorrendo,
gotejando rubinosos vinhos de aurora, toda ela
flagrantemente aberta numa esdrúxula floração boreal.
E, então, toda, toda essa sexual magnificência,
toda essa casta beleza, fazia extravagantemente
despertar a lembrança, dava a impressão sugestiva, ao
mesmo tempo profana e sagrada, da unção angélica, da
encarnação humanada e miraculosa do alvo, tenro e
meigo cordeiro imaculado, do lhano, doce e delicioso
Anho branco original dos Ermos, para a efusiva Páscoa
nova das transcendentes luxúrias...
434 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
O SONO
Ceux qui rêvent éveillés ont connaissance de mille
choses qui échappent à ceux qui ne rêvent
qu’endormis. Dans leurs brumeuses visions, ils
attrapent des échapées de l’éternité et frissonent, en se réveillant, de voir qu’ils ont été un
instant sur le bord du grand secret.
EDGARD POE, Eleonora.
A tua voz! a tua voz! Clamo em vão pela tua voz,
procuro-a como por uma ave maravilhosa e a tua voz
está estranhamente adormecida no sono...
Está adormecida no sono, muda, calada de gorjear,
de cantar na tua garganta e na tua boca, aquela voz que
eu sonhara filtrada dos raios do sol, tecida dos raios do
sol, de uma prodigiosa essência etérea na qual radiasse
o sol, todo o esplendor do sol.
Tu estás nostalgicamente dormindo, e esse sono
em tão profundo e misterioso Além te imergiu, que
pareces de mármore. E é, assim, em vão que clamo,
trêmulo e desvairado, pelo brilho quente dos teus olhos,
pela vida da tua voz, que me sacia de vida, que me afoga,
que me embriaga de vida.
Acorda! acorda! acorda! acorda os olhos e a voz, e
mergulha-me na vida que se derrama deles: quero sentir
os teus olhos olharem, a tua boca palpitar de voz, como
um rio transbordante, perenal, que chamejasse,
ondulando em gorgolões e vertigens.
Esse sono frio, hirto, que me aflige, que me
dilacera, lembra uma esperança que dorme
perpetuamente, um desejo, uma alegria que não acorda
mais e dorme, dorme para sempre nos gelos infinitos.
Os meus ciúmes, bravos leões acordados, instigamse, açulam com a tua mudez, feridos de penetrante
susceptibilidade por não sentirem os frêmitos, o alvoroço
nervoso da tua voz.
Eu quero toda a fremência, toda a palpitação da
tua voz, acordada em músicas, em sinfonias de beijos,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 435
atordoando a dor da minh’alma, como harmonioso e
estonteante carinho, como extasiante licor renano,
vivendo na intensidade, nos turbilhões do movimento,
do ar...
Quero a sensibilidade, a flexibilidade voluptuosa
da tua voz alvorecida do sono como de uma noite polar,
ressurgida, lavada do caos, clara, imaculada de som.
Quero a tua voz, ágil, dúctil, aflante como asas e
como asas abrindo e fechando em tépidos e alvoroçados
véus...
Acorda! fala! fala! No teu sono pairam neblinas
glaciais, as primeiras névoas do esquecimento... As
auréolas místicas, os nimbos cintilantes do Sonho, as
miragens e os íris, circulam a tua bela e imaginativa
cabeça; e hordas invisíveis de resplandecentes arcanjos,
vibrando cítaras, alaúdes, harpas e violinos, numa
inefável surdina, guardam, velam de ritmos vaporosos o
teu sono seráfico...
Eu não sei que sentimentos estão agora em curiosa
gênese dentro de mim, que na minha alucinação e
superexcitação nervosa apalpo ansioso o vácuo, que o
sono em que mergulhas encheu de segredos cabalísticos,
e procuro, procuro em vão as formas, as formas, as
fugitivas formas intangíveis, extremas, ondeantes, sutis,
as formas de perfume, as formas de luz e as formas de
som da tua voz, que o emoliente sono levou não sei para
que necrópoles vazias, não sei para que geladas estepes
de egoísticas e mortais indiferenças.
Ver-te assim, dormindo, esmaiada, branca e
lânguida, nesse abandono de delíquio, num aspecto e
espasmo sonhador de lua morta, faz-me experimentar a
mais dolorosa ansiedade, como que a sensação
flagelante de esquecer-te, uma angústia, uma agonia
de sensibilidade tal, que os meus nervos quase se
despedaçam, tão grande, tão profunda é a tensibilidade
deles quando te apercebem dormindo, e que os teus
olhos, fechados por longas e pesadas trevas, não deixam
ver os recônditos deslumbramentos; e que a tua boca,
muda, calada, encerrando em cárcere misterioso a tua
436 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
voz virginal, não deixa sentir a alada harmonia das
formas e dos aromas!
Oh! acorda! fala! fala!
Vivamente acordada, que sejas, em flama ardente
de vida, nesse hosana triunfante da imortal beleza, eu
agito-me, estremeço, vibro e desvairo, para beber
insaciavelmente todos os encantos delicados e ignotos
da tua voz, todas as ciciantes carícias e luxúrias.
E só com a martirizante lembrança de que talvez
esse sono seja eterno e eu não ouça, não sinta jamais,
nunca mais! as vibrações e as chamas da tua voz,
percorrem-me o corpo todo estranhos calafrios, letais
pesadelos alucinadores me sufocam...
E eu clamo, clamo, num tremor convulso, pela
tua voz: procuro-a transfigurado, pergunto inquietamente
ao Vago em que mistério a escondeu, em que abismo
infernal de trevoso horror rolou, voou e extinguiu-se,
apagou-se, desapareceu, como a alma original dos ventos
e da luz, a tua colorida e chamejante voz!
Invade-me a ânsia de te sentir a voz fluir, borbotar
dos lábios, acesa na paixão de existir, de viver, de
sensacionalmente viver.
A ânsia, o desejo sedento de ver a tua boca
febrilmente, frementemente palpitar com o meu nome,
dizê-lo, repeti-lo, repeti-lo sempre, sempre, ungi-lo e
acariciá-lo na voz, perpetuá-lo com amor, com compaixão,
com misericórdia, com volúpia, com febre, com essa
emoção e agitação de sentimento que impele, arrebata
a alma aos êxtases da Eternidade!
Dormindo, no nebuloso e mago sono, onde a
mórbida flor das melancolias e desdéns amargos murcha
e outonalmente desfolha, e onde esvoaçam em
torvelinhos magnéticos as borboletas translúcidas e
multicoloridas da Quimera, o carinho e a piedade maior,
mais intensa, mais viva, dos teus olhos e da tua voz,
deixam-me desamparado, só, num deserto de silêncio e
de frio, tiritando de pavor e desespero, envelhecendo
cego, tateando de abandono, de desolamento...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 437
TRISTE
Je devorais mes pensées comme d’íautres
dévorent leurs humiliations.
BALZAC, Histoire Intellectuelle de Louis
Lambert.
Absorto, perplexo na noite, diante da rarefeita e
meiga claridade das estrelas eucarísticas, como diante
de altares sidéreos para comunhões supremas, o grande
Triste mergulhou taciturno nas suas profundas e
constantes cogitações.
Sentado sobre uma pedra do caminho, imoto
rochedo da solidão – ele, monge ou ermitão, anjo ou
demônio, santo ou cético, nababo ou miserável, ia
percorrendo a escala das suas sensações, acordando da
memória as fabulosas campanhas do dia, as incertezas,
as vacilações, as desesperanças; inventariando com rara
meticulosidade e um rigor de detalhes verdadeiramente
miraculoso todos os fatos curiosos, coincidências e
controvérsias engenhosas que se haviam dado durante
o dia, como um gênero insólito e singular de tortura
nova.
As estrelas resplandeciam com a sua doce e úmida
claridade terna, lembrando espíritos fugitivos perdidos
nos espaços para, compassivamente, entre soluços,
conversar com as almas...
E o grande Triste, então, prosseguia no seu
monólogo esquisito, mentalmente pensado e sentido e
que de tão violento que era nos fundos conceitos,
naturalmente até os mais revolucionários e
independentes do espírito achariam, por certo, ser um
monólogo injusto, pessimista, cruel:
– E assim vai tudo no grande, no numeroso, no
universal partido da Mediocridade, da soberana Chatez
absoluta!
438 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
O caso está em ser ou parecer surdo e cego, em
tudo e por tudo, conforme as conveniências o exigem.
Pôr a mão, de dedos abertos, sobre o rosto e
parecer, fingir não ver e passar adiante, porque as
conveniências o exigem.
Essa é que é afinal a teoria cômoda dos tempos e
que os tempos seguem à risca, a todo transe, ferozmente,
selvagemente, com o queixo inabalável, duro, inacessível
ao célebre e pitoresco freio da Civilização, protegendose contra o perigoso assalto da Lucidez.
– Apaguem o sol, apaguem o sol, pelo amor de
Deus; fechem esse incomodativo gasômetro celeste,
extingam a luz dessa supérflua lamparina de ouro, que
nos ofusca e irrita; matem esse moscardo monótono e
monstruoso que nos morde, é o que clamam os tempos.
Deixem-nos gozar a bela expressão – locomotiva do
progresso – tão suficiente e verdadeira e que cabe tanto
na agradável e estreita órbita em que giramos e não nos
aflijam e escandalizem com os tais pensamentos, com
as tais espiritualidades, com a tal arte legítima e outros
paradoxos de loucura. Deixem-nos pantagruelicamente
patinhar, suinar aqui no nosso lodoso e vasto buraco
chamado mundo, anediando pacatamente os ventres
velhos e sagrados, eis o que dizem os tempos. Que
excelente, que admirável regalo se a humanidade se
tornasse toda ela numa máquina de boas válvulas de
pressão, um simples aparelho útil e econômico, do mais
irrefutável interesse – sem saudade, sem paixão, sem
amor, sem sacrifício, sem abnegação, sem Sentimento,
enfim! Que admirável regalo!
Inútil, pois, continua a sonhar o Triste, todo o
estrelado valor e bizarro esforço novo das minhas asas,
todo o egrégio sonho, orgulho e dor, sombrias majestades
que me coroam – monge ou ermitão, anjo ou demônio,
santo ou cético, nababo ou miserável, que eu sou – inútil
tudo...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 439
Por mais desprezível que fosse esta procedência,
ainda que eu viesse da salsugem do mar das raças, não
seria tanta nem tamanha a minha atroz fatalidade do
que tendo nascido dotado com os peregrinos dons
intelectuais.
Assim, dada a situação confusa, esquerda,
tumultuária, do centro onde vou agindo, estas nobres
mãos, feitas para a colheita dos astros, têm de andar a
remexer estrume, imundície, detritos humanos.
Adaptações, pastiches, intelectualismos, espécie
de verdadeiros enxertos da Inteligência, esses florescem
fáceis logo, porque bem difícil e raro é determinar a
pureza infinitamente delicada, sentir onde reside o fio
profundo, a linha sutil divisória que separa, como por
maravilhoso traço de fogo, os Dotados, dos Feitos ou
Transplantados.
E, pois, com a alma tocada de uma transcendente
sensibilidade e o corpo preso ao grosso e pesado cárcere
da matéria, irei tragando todas as ofensas, todas as
humilhações, todos os aviltamentos, todas as decepções,
todas as deprimências, todos os ludíbrios, todas as
injúrias, tudo, tudo tragando como brasas e ainda
cumprimentos para cá, cumprimentos para lá, para não
suscetibilizar as vaidades e presunções ambientes.
Como flechas envenenadas tenho de suportar sem
remédio as piedades aviltantes, as compaixões
amesquinhadoras, todas as ironiazinhas anônimas, todos
os azedumes perversos e tediosos da Impotência ferida.
Tenho que tragar tudo e ainda curvar a fronte e
ainda mostrar-me bem inócuo, bem oco, bem
energúmeno, bem mentecapto, bem olhos arregalados e
bem boca escancaradamente aberta ante a convencional
banalidade. Sim! suportar tudo e cair admirativamente
de joelhos, batendo o peito, babando e beijando o chão e
arrependendo-me do irremediável pecado ou do crime
sinistro de ver, sonhar, pensar e sentir um pouco...
Suportar tudo e obscurecer-me, ocultar-me, para não
440 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
sofrer as visagens humanas. Encolher-me, enroscar-me
todo como o caracol, emudecer, apagar-me, numa
modéstia quase ignóbil e obscena, quase servil e quase
cobarde, para que não sintam as ansiedades e rebeliões
que trago, os Idealismos que carrego, as Constelações a
que aspiro... Recolher-me bem para a sombra da minha
existência, como se já estivesse na cova, a minha boca
contra a boca fria da terra, no grande beijo espasmódico
e eterno, entregue às devoradoras nevroses macabras,
inquisitoriais, do verme, para que assim nem ao menos
a respiração do meu corpo possa magoar de leve a
pretensão humana.
E, sobretudo, nem afirmar nem negar: – ficar num
meio termo cômodo, aprazivelmente neutral.
Que até nem mesmo eu possa, na melancolia
crepuscular dos tempos, dar com unção emotiva e com
cordialidade o braço a certos profundos e obscuros
Segredos íntimos e, levemente irônico e pungido de
dolência, errar e conversar com eles através das
avenidas sombrias de minh’alma.
Nada de pairar acima de tudo isto que nos cerca,
dos turbilhões ignaros do rumor humano, deste estrondo
atroador de rugidos, desta ondulante matéria, desta
convulsão de lama, acima mesmo destas Esferas que
cantam a luz pela boca dos astros.
E que o mundo veja e sinta que eu o conheço e
compreendo, e que apesar da obscuridade com que me
atrito comumente com ele, apesar dos contactos
execrandos na rodante contingência da Vida, tenho-o
como que fechado nesta pequena e frágil mão mortal.
Dizendo tudo ao mundo, originalmente tudo, com
o verbo inflamado em vertigens e chamas da mais alta
eloqüência, que só um complexo e singular sentimento
produz, o mundo, espantado da minha ingenuidade,
fugirá instintivamente de mim, mais do que de um
leproso.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 441
E até mesmo lá numa certa e feia hora em que se
abre na alma de certos homens uma torporizada flor
tóxica de perversidade, lá muito no íntimo, lá bem no
recesso das suas consciências, nuns vagos instantes
vesgos e oblíquos, quantos dos mais generosos amigos
não acharão, embora falando baixo, muito baixo, como
que num piscar de olhos ao próprio eu, mais ridículo
que doloroso o meu interminável Sofrimento!
Mas, por mais que me humilhe, abaixe resignado
a desolada cabeça, me faça bastante eunuco, não
murmure uma sílaba, não adiante um gesto, ande em
pontas de pés como em câmaras de morte, sufoque a
respiração, não ouse levantar com audácia os olhos para
os graves e grandes senhores do saber; por mais que eu
lhes repita que não me orgulho do que sei, mas sim do
que sinto, porque quanto ao saber eles podem ficar com
tudo; por mais que lhes diga que eu não sou deste mundo,
que eu sou do Sonho; por mais que eu faça tudo isto,
nunca eles se convencerão que me devem deixar livre,
à lei da Natureza, contemplando, mudo e isolado, a
eloqüente Natureza.
E, então, assim, infinitamente triste, réprobo,
maldito, secular Ahasverus do Sentimento, de martírio
em martírio, de perseguição em perseguição, de sombra
em sombra, de silêncio em silêncio, de desilusão em
desilusão, irei como que lentamente subindo por sete
mil gigantescas escadas em confusas espirais babélicas
e labirínticas, como que feitas de sonhos. E essas sete
mil escadas babilônicas irão dar a sete mil portas
formidáveis, essas sete mil portas e essas sete mil
escadas correspondendo, como por provação das minhas
culpas, aos sete pecados mortais.
E eu baterei, por tardos luares mortos, baterei,
baterei sem cessar, cheio de uma convulsa, aflitiva
ansiedade, a essas sete mil portas – portas de mármore,
portas de bronze, portas de pedra, portas de chumbo,
portas de aço, portas de ferro, portas de chama e portas
442 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
de agonia – e as sete mil portas sete mil vezes
tremendamente fechadas a sete mil profundas chaves,
seguras, nunca se abrirão, e as sete mil misteriosas
portas mudas não cederão nunca, nunca, nunca!...
Num movimento nervoso, entre desolado e altivo,
da excelsa cabeça, como esse augusto agitar de jubas
ou esse nebuloso estremecimento convulso de
sonâmbulos que acordam, o grande Triste levantara-se,
já, de certo, por instantes emudecida a pungente voz
interior que lhe clamava no espírito.
De pé agora, em toda a altura do seu vulto
agigantado, arrancado talvez a flancos poderosos de Titãs
e fundido originalmente nas forjas do sol, o grande Triste
parecia maior ainda, sob os constelados diademas
noturnos.
As estrelas, na sua doce e delicada castidade,
tinham agora um sentimento de adormecimento vago,
quase um velado e comovente carinho, lembrando
espíritos fugitivos perdidos nos espaços para,
compassivamente, entre soluços, conversar com as
almas...
E, na angelitude das estrelas contemplativas, na
paz suave, alta e protetora da noite, o grande Triste
desapareceu – lá se foi aquele errante e perpétuo
Sofrimento, lá se foi aquela presa dolorosa dos ritmos
sombrios do Infinito, tristemente, tristemente,
tristemente...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 443
ADEUS!
Zulma, adeus! adeus, Zulma! O derradeiro abraço,
o derradeiro beijo, e adeus!
Os primeiros esmorecimentos do dia descem e
um crepúsculo de cismas, de brumas misteriosas, turva
as claridades bizarras e palpitantes de há pouco.
É o crepúsculo da noite – velha saudade dos
tempos, recordação fugidia das eras primitivas, spleen
das almas – acendendo no alto das colinas remotas e
enternecedoras do Passado todos os faróis apagados das
reminiscências, fazendo cintilar claros todos os
pressagos santelmos das Navegações velejantes, outrora,
pelos países da Ilusão!
Adeus, Zulma! O derradeiro abraço, o derradeiro
beijo, e adeus!
As inclementes amarguras do Mundo vieram já
gralhar agoirentamente dentro da necrópole sombria
deste coração... E tu foste a maior dessas amarguras,
que em forma de ave sinistra gralhaste os teus dolorosos
agoiros.
Através dos dilaceramentos da Vida, das
tortuosidades do Desejo, das inquietações do Espírito,
uma tarde – bela e majestosa tarde foi essa! – cheia de
silêncios e sombras, vi pela primeira vez o teu perfil
fascinativo, que o ritmo nobre de uma estranha música
de perfeições e graça sonorizava serenamente.
Pareceu-me que desconhecida Divindade inspirava
e iluminava a tua beleza, envolvendo num sacrário de
estrelas a tua castidade branca.
Uma auréola de exclamações cercava-te,
vibrantemente, em assombros admirativos, em hinos e
aleluias aclamatórias.
Coleantes, sutis, de rastros, iam as minhas
impaciências, os meus frêmitos, o meu anseio profundo,
formando ígneo terreno vulcânico, um chão de chamas,
444 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
por onde tu passavas indiferentemente, alta no esplendor
translúcido da beleza.
Era, para mim, surpreendente revelação, o tipo
extravagante, irreal, da tua não sonhada formosura –
tipo de pureza e pompa brava, evocando, trazendo consigo
os segredos grandes dos Vedas.
Qualquer coisa de prodigioso fazia flamejar os teus
olhos negros, negros, negros até a fadiga, até o pesadelo,
até a saciedade, negros, intensamente negros até o
tenebroso requinte da cor negra, até os profundos tons
exagerados, até a uma nova e inédita interpretação visual
da cor negra.
E os meus sentidos sentiam, por atração
irresistível, os atritos, os contactos da tua pele
embalsamada de ambrosia, quentemente impressionante; corria pelos meus nervos uma volúpia doce e
morna, que no entanto me fazia estremecer e tiritar de
inexplicável gozo, como por calafrio de imenso medo...
Mas, ah! que tentadora beleza, abençoada ou
maldita, eras, então, tu, Zulma, que assim me deixavas
extático, dominado, vencido, sem quase ação no
pensamento e só ação e chama e febre e transfiguração
no gozo? Onde era o teu Céu, onde era o teu Mar, onde
era a tua Terra ou o teu Inferno – deusa dos Astros,
deusa das Ondas, deusa dos Bosques, deusa infernal?!
Onde era?! Não sei! Só o que sei é que a fascinação
produzida pela tua boca acesa em lavas de desejo, pelo
negror de caos bíblico dos teus olhos, pela cisterna farta
de leite dos seios verdemente virgens e pulcros, pela
cristalização de todas as tuas formas, fez florescer em
mim a Vinha exuberante e ardente da Paixão, cujos
frutos, afinal, me embriagaram de tal modo, tão
violentamente me arrebataram, de tais travores tóxicos
me angustiaram e acidularam a alma, de tão finos
dolorimentos e agoniados transes a laceraram, que eu
parto hoje para sempre de ti desiludido, deixo, abandono,
para nunca mais! a amplidão larga, tépida e magnética
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 445
dos teus braços, a cuja sombra mancenilhosa adormeci
descuidoso, sonhei e acordei agora fundamente
envenenado por letais narcotismos...
Fugi de ti, desiludido, fatigado de percorrer as
estepes da tua alma, cansado de girar absorto em torno
dos enigmáticos caracteres egipcíacos dos teus caprichos
indomáveis, do sepulcro tremendo onde jaz a múmia
fria do teu Afeto.
Não posso mais entregar-me ao cilício martirizante
de tua insana volubilidade, aos calvários tantálicos da
tua sede egoística e vingativa de gélidos e apunhalantes
desdéns, aos teus sorrisos negros, aos teus beijos negros,
ao teu coração sombriamente morto como um relógio
parado numa casa deserta, aos teus encantos sinistros,
a todos os teus feminis e sedutores encantos sinistros...
Parto, sigo, vou-me para sempre embora!
A tua voracidade de Águia famulenta fez-me
delirar de incertezas, de dúvidas e blasfemar dessa
beleza augusta, do bronze majestoso onde por certo algum
demônio inquisitorial e régio modelou satanicamente a
encarnação soberana dessas formas.
Adeus, Zulma! Levo no coração a vertigem
sanguinolenta daqueles desesperos alucinantes do
ciúme; e no lábio ansioso, anelante, a palpitação inquieta
deste adeus supremo, torturado, aflitivo; deste adeus
soluçado num crepúsculo amargo; deste adeus de vôos
solitários, cujas asas, como as de um pássaro torvo de
erradias e taciturnas tristezas, voam longe, para além
das lembranças, para além das saudades, para além
das recordações e reminiscências antigas...
Adeus! Adeus! Adeus!
Fujo arrebatadamente de ti, levando para desertos
áridos, sáfaros, longínquos, às regiões do Esquecimento,
lá, muito para lá da monstruosa Terra, o único talismã
precioso que me deste – a Dor!
E, como para perpetuar a comoção crepuscular
deste adeus, destas transfiguradas lágrimas de adeus,
446 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
todo o infinito nirvânico deste adeus, nesta hora poente
em que os Céus começam a revestir-se dos soturnos e
solenes ensombramentos da Noite, eu irei erigindo,
levantando com essa Dor, com os seus despedaçamentos,
dilaceramentos e gritos, as torres de Mistério e
Melancolia dos negros castelos maravilhosos da Paixão,
em cujos soberbos, longos e silenciosos paços constelados
as nossas duas almas erraram letárgicas, sonâmbulas,
acorrentadas pelos Estigmas imponderáveis dos
Sentimentos humanos e em cujos terraços altos e
desolados tanta vez me debrucei aterrado e vencido, nas
fundas horas da fadiga, da saciedade e das alucinações
do Tédio, sentindo em torno rugir, bramar temporais,
trovões, fora, surda e confusamente na Natureza, os
desgrenhados invernos lívidos...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 447
TENEBROSA
Alta, alta e negra, de uma quase gigantesca altura,
torso direito e forte, retesada na espinha dorsal como
rígido sabre de guerra; colo erguido de ave pernalta,
aprumado, gargalado e toroso; longos braços roliços,
vigorosos, caídos, como extensas garras de falcão, ao
amplo dos quadris abundantes e de linhas serenas,
esculturais, de soberana estátua de mármore – semelhas
bem uma noturna e carnívora planta bárbara, ardente e
venenosa da Núbia.
Olhos grandes, largos, profundos, cheios de
tropical sensualismo africano e abertos como estrelas
no céu da refulgente noite escura de ébano polido do
rosto redondo – alta, alta e negra, de uma quase
gigantesca altura – lembras também o astro nublado,
caliginoso da Paixão, girando na órbita eterna da
humanizada dolência da Carne, como mancha na luz,
ou soturna mulher da Abissínia, cujos luxuriosos
sentimentos panterizados sinistramente gelaram e
petrificaram na muda esfinge dos secos areais tostados.
E eu quisera possuir o teu amor – o teu amor, que
deve ser como frondejante árvore de sangue dando frutos
tenebrosos. O teu amor de ímpetos de fera nas brenhas
e nas selvas, sobre os broncos, graníticos penhascos, na
cáustica solar de exóticos climas quentes de raças
tropicalizadas na emoção, porque tu és feita do sol em
chamas e das fuscas Areias, da terra cálida dos desertos
ermos...
Quisera possuí-lo – inteiro, estranho, eterno, esse
amor! E que me parecesse, se o possuísse e o gozasse,
possuir e gozar o Mar, ter dentro de mim o oceano
coalhado – como a minh’alma está coalhada de sonhos –
de navios, de iates, de escunas, de lugares, galeões,
naus e galeras, por uma tormenta avassaladora em que
trovões formidáveis e cabriolas elétricas de raios
fosforescentes, brechando o firmamento, sacudissem,
448 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
num brusco arrepio proceloso, o túmido colo crespo e
ululante das Vagas.
Quisera amar-te assim! E que nesse Mar
tormentoso, sob a angustiosa pressão dos elementos, a
um cabalístico sinal meu, como se absoluto poder me
houvesse constituído o Deus terrível e supremo da Terra
– iates, navios, lugares, escunas, naus e galeras,
conduzindo toda a humanidade a várias regiões do
monstruoso mundo, de repente soçobrassem juntos,
subitamente se afundassem nas goelas hiantes do Mar
escancarado, abismante, tremendo...
Nós dois, então, fulminados pelo mesmo raio,
batidos, esporeados pelo mesmo estertoroso trovão,
seríamos arremessados ao seio glauco do oceano,
abraçados na extrema contração espasmódica do gozo,
indo dar às ilimitadas praias do Ideal os nossos
cadáveres, ainda fortemente, desesperadamente unidos,
enlaçados, presos, como se a derradeira agonia cruciante
da sensualidade e da dor houvesse justaposto os nossos
corpos na fremência carnal dos alucinados sentidos!
Alguma coisa de aventuroso – fantástico, como o
espírito de Byron, aceso pela caricatura viva de uma
deformação física; alguma coisa de estranho e satânico
como Poe, tantalizado também pelas agruras da
ironizante matéria, e por isso mesmo ainda mais
esfuziante e flamejante; alguma coisa, enfim, de infernal,
de diabólico, de luminoso e tétrico, ficaria então para
sempre esvoaçando e pairando em torno da nossa
memória, sobre o Nihil das nossas vidas, como sinistra
ave desgarrada de outras ignotas regiões inacessíveis e
cujo canto soturno e maravilhoso reproduzisse a magoada
plangência da harpa misteriosa dos nossos sentimentos,
infinitamente vibrando e soluçando através do lento
desenrolar das longas eras que passam.
Quisera amar-te assim! Vibrado ao sol do teu
sangue, incendiado na tua pele flamante, cujos
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 449
penetrantíssimos aromas selvagens me alvoroçam,
entontecem e narcotizam.
Assim amar-te e assim querer-te – nua, lúbrica,
nevrótica, como a magnética serpente de cem cabeças
da luxúria – os olhos livorescidos, como prata embaciada;
a fila rútila dos rijos dentes claros cerrada no
deslumbramento, no esplendor animal do coito; os nervos
e músculos contraídos e os formosos seios de cetinoso
tecido elevados como dois pequenos cômoros negros,
cheios de narcotismos letais, impundonorosamente nus
– nus como todo o corpo! – excitantes, impetuosos,
tensibilizados e turgescidos, na materna afirmação
sexual do leite virgem da procriação da Espécie! E que a
tua vulva veludosa, afinal! vermelha, acesa e fuzilante
como forja em brasa, santuário sombrio das
transfigurações, câmara mágica das metamorfoses, crisol
original das genitais impurezas, fonte tenebrosa dos
êxtases, dos tristes, espasmódicos suspiros e do
Tormento delirante da Vida; que a tua vulva, afinal,
vibrasse vitoriosamente o ar com as trompas marciais e
triunfantes da apoteose soberana da Carne!
Assim, arrebatado no teu impulso fremente de
águia famulenta de alcantiladas montanhas alpestres,
eu teria sobre ti o poderoso domínio do leão de majestosa
juba revolta, amando-te de um amor imaterial, sob a
impressão miraculosa de transcendente sensação, muito
alta e muito pura, que se dilatasse e ficasse eternamente
intangível sobre todas as vivas forças transitórias da
terra.
Então, na cela mística do meu peito, como num
sacrário, eu sentiria passar em vôos brancos esse grande
Amor espiritualizado, estrela diluída em lágrimas,
lágrimas convertidas em sangue, como a expressão de
um sonho, ao mesmo tempo carnal e etéreo, humano e
divino, que palpitasse, vivesse no meu ser e me trouxesse
o travo, o sabor picante e amarguroso da Dor, que é a
consagração, a perfeita essência do Amor.
450 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Seria esse um requintado gozo pagão, cujo aroma
enervante e capro, como o aroma selvático que vem do
bafo morno e do cio dos animais das africanas florestas
virgens, embriagasse o meu viver, desse ao meu espírito
a alada forma de pássaro e desse à Arte que
cultualmente venero, a pompa larga e bravia desse teu
bufalesco temperamento e o resistente bronze inteiriço
e emocional do teu nobre corpo de bizarro corcel guerreiro
ó alta, alta e maciça torre de treva, de cuja agulha
elevada, esguia, aguda e expirante no Azul, o condor do
meu Desejo vertiginosamente trêmula e vai as asas
ruflando em torno...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 451
REGIÃO AZUL...
As águias e os astros abrem aqui, nesta doce,
meiga e miraculosa claridade azul, um raro rumor d’asas
e uma rara resplandecência solenemente imortais.
As águias e os astros amam esta região azul, vivem
nesta região azul, palpitam nesta região azul. E o azul, o
azul virginal onde as águias e os astros gozam, tornouse o azul espiritualizado, a quintessência do azul que os
estrelejamentos do Sonho coroam...
Músicas passam, perpassam, finas, diluídas, finas,
diluídas, e delas, como se a cor ganhasse ritmos
preciosos, parece se desprender, se difundir uma
harmonia azul, azul, de tal inalterável azul, que é ao
mesmo tempo colorida e sonora, ao mesmo tempo cor e
ao mesmo tempo som...
E som e cor e cor e som, na mesma ondulação
ritmal, na mesma eterificação de formas e volúpias,
conjuntam-se, compõem-se, fundem-se nos corpos
alados, integram-se numa só onda de orquestrações e
de cores, que vão assim tecendo as auréolas eternais
das Esferas...
E dessa música e dessa cor, dessa harmonia e
desse virginal azul vem então alvorando, através da
penetrante, da sutil influência dos rubros Cânticos altos
do sol e das soluçadas lágrimas noturnas da lua, a grande
Flor original, maravilhosa e sensibilizada da Alma, mais
azul que toda a irradiação azul e em torno à qual as
águias e os astros, nas majestades e delicadezas das
asas e das chamas, descrevem claros, largos giros
ondeantes e sempiternos...
452 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
SONAMBULISMOS
Foi pelas horas concentrativas de uma noite
tropical de verão, numa dessas noites em que o espírito
se debate e anseia na infinita vertigem das profundas e
sombrias cogitações, alanceado por amarguras
incomparáveis; numa noite em que desfalecimentos
supremos me assediavam, que a minha visão ficou
sonambulamente deslumbrada por este espantoso e
imaginoso espetáculo da Lua.
Todo o azulado espaço estrelara já, fina e
aristocraticamente.
Na floreada constelação da Via-Láctea, na vasta,
solene e celeste, alta Nave dos Astros, alvas cintilações
pompeavam, rútilos fagulhamentos, faustosas chamas
claras sideralmente acesas, palpitação de harmonias,
de formas, de brancuras imaculadas.
Como que diamantinas cordas tensibilizadas de
harpas miraculosas afinavam sonoramente de ritmos
inefáveis a solidão sagrada, eucarística, da noite; e como
que também vinham desfilando, descendo lentas e
letárgicas pelos fios etéreos das estrelas, alas e alas
fulgentes de querubins e arcanjos revestidos das
pratarias, da translucidez, da névoa vaporosa da ViaLáctea.
E eu sentia leves, doces rumorejos de asas que
afiavam, girando num torvelinho, num redemoinho
branco de plumagens suaves...
Mas, nas sutis vibrações ignotas do Éter, errava
certa sensibilidade, o dolorimento secreto de
imperceptíveis nervos delicados de freira histérica,
dilacerada nos infinitos êxtases do misticismo alucinado,
dos intensos refinamentos, dos requintes esquisitos das
macerações.
Parecia que nas esparsas correntes do ar a dor
circulava, cristalizada, filtrada na tenuidade vaga da luz...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 453
As transparências luminosas da noite tinham altos
silêncios augustos de sacrários, fazendo meditar e
sonhar...
E toda a amplidão das Estrelas era de uma
solenidade e majestade muda. Através de brumas
diáfanas, como através de uma paisagem de nevoeiros
polares, vinha lentamente vogando, vogando, lassa, leve,
como numa atmosfera aquosa, a angustiada aparição da
estupenda lua, imensa, mole e mórbida, untuosa,
magnetizadora Flor de filtros letais, Odalisca Fabulosa
do opulento Mar-Sultão, derramando uma paz branca,
morna, claridade viscosa nas vastidões em torno.
Do modo por que eu a via, por que eu a estava
sentindo na imaginação e na visão, a lua parecia crescer,
crescer, ir avolumando cada vez mais e, à proporção que
avolumava, ir adelgaçando, adelgaçando, frouxa e
oleosamente, numa forma glutinosa e elástica de
estranho Verme sulfúreo rastejando em preguiçosas,
felinas ondulações e enchendo, avassalando todo o espaço
com a sua redonda auréola luminosa e langue...
E então todo o firmamento ficava invadido por essa
maravilhosa face da lua, que velava completamente as
estrelas.
E era só uma ampla lua que formava o espaço
inteiro, era só aquela face fria, branca, que dominava
de fosforescência toda a vastidão do horizonte.
Mas essa mesma face fria como que depois se
transfigurava ainda; certos aspectos, os caracteres, as
linhas, o contorno breve que lhe dá a semelhança de
uma máscara de múmia, as manchas e sombras que por
vezes turvam a ebúrnea candidez do seu palejante clarão,
subitamente desapareciam, se desfaziam; e ela, a lua
espectral, a lua frígida, cadavérica, começava a
experimentar a sensação de um ser, a viver a vida de
uma alma...
Pouco e pouco se acentuavam linhas, traços,
aspectos, iam aparecendo novas formas intensas, que
454 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
acusavam já a contornação de um vulto destacado nos
amplos céus, gerado da face lívida da lua.
Imensa dolência e imensa tristeza, transfundidas
na asiática beleza judaica de Rabino erradio e
sacrossanto, como que envolviam numa bruma ideal de
paixão essa magoada e cismadora figura.
E era, afinal, agora, pela metamorfose da luz, todo
o busto sereno, a face dolorosa do Cristo, como que
surgindo num grande e profundo soluço mudo.
Era a face do Cristo, aparecendo nos sudários do
Infinito, ciliciada no meio de esplendores sidéreos, com
a imaginativa cabeça enxameada de curiosos e
fascinadores apólogos, coroada de epodos, inflamada dos
segredos ardentes e voluptuosos do Cristianismo!
E essa cabeça legendária, de triste e de patética
doçura, de emotiva palidez romântica, avultava, avultava
mais, num relevo fundo, como se se quisesse corporificar
e mover, abrindo desmesuradamente os olhos cheios de
mistérios incomparáveis e fazendo ondular no ar a
espessa cabeleira enovelada, derramada em longos
caracóis flavescentes pelas espáduas divinas...
E eu olhava, absorto, para o surpreendente
espetáculo da lua, assim sagradamente transfigurada!!
Ah! e como a branda face de Jesus sorria agora
para mim com magoa do sorriso de piedade; como esse
sorriso me acarinhava, derramava perdões e clemências,
do alto, sobre a minh’alma terrena! Um sorriso da mais
bem-aventurada bondade, da ternura mais celeste, um
sorriso infinito que abrangia toda a amplidão e se
confundia com a claridade dormente da noite.
E era bem para mim esse sorriso, porque ele me
atraía, me magnetizava com o seu vaporoso fluido,
radiando como esmaecida, lívida madrugada, na boca
sensual e roxa pelo fel da agonia, boca contorcida no
derradeiro espasmo, do Cristo peregrino, no Cristo
errante lacerado de chagas...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 455
Com esse enternecido e perdoador sorriso eu me
sentia lavado de todos os soturnos e rudes males, viame purificado de tudo, vivendo nas primitivas essências
imaculadas do Bem.
Ao mesmo tempo parecia que aquele prodigioso
sorriso se transformava num gesto de mão poderosa,
onipotente, mas, contudo, mansa, que me afagava
meigamente a vertiginada cabeça, com doçura, com
ternura, com amor, acordando em mim indefinidos
estados d’alma, células que adormeciam há muito os
seus desencontrados pensamentos e arrebatando
alucinadamente todo o meu ser não sei para que
estranhos mistérios e fenômenos da sensação...
E eu, abstraído, enlevado, gozava com volúpia, sob
aquela mão divinal e terna que me acarinhava, que me
mergulhava, quase adormecido, em branduras inefáveis
de tufos de sedas alvas, de linhos repousantes, de
veludosidades, de arminhos consoladores.
E dizia comigo, mentalmente:
– Sim! Tu és, afinal, o meu Deus, bom e justo,
Todo poderoso, o Unigênito, que te sorris para mim
abençoando-me e protegendo-me contra o Mal com o teu
sempiterno perdão! Eu me humilho à tua Onisciência e
à tua Graça, porque eu pensava sempre que te haveria
de encontrar um dia, uma hora, um momento, bom e
justo, dando-me o alívio extremo! Oh! és tu! és tu! que
eu reconheço bem! És tu o louro Deus profético e
apaixonado das saudosas terras da Ásia!
Oh! és tu! és tu! Bem te reconheço, pela majestade
das transcendentes misericórdias que semeias e pelas
ciliciantes grinaldas de sonhos que te circundam a
aflitiva, desolada cabeça...
Tanto clamei, tanto bradei por ti nas solidões, que
tu afinal apareceste para me salvar do fundo desta geena
onde em vão me debato e rojo. Do fundo desta geena
que me devora, apertando-me nos seus cem mil círculos
de ferro.
456 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Sim! vens consolar-me de tudo na atroz geena do
Mundo, vens suavizar-me estes áridos dias de pedra em
que até mesmo o sol é para mim a pedra mais indiferente
de todas as pedras.
Vens trazer-me justiça, Deus sempiterno – justiça,
a quem vive sequioso por ela; justiça, a quem vive de
agonias por ela; justiça, a quem combate e depreca no
mundo por causa dela.
Se eu aqui me desalento e desolo perante a tua
Imagem não é que eu duvide da tua suprema clemência
nem da tua suprema justiça! Não é porque eu julgue a
justiça uma palavra inútil, convencional, vã, perfeito
engodo doirado para iludir as almas crédulas, para
favorecer os potentados e punir os humildes! Não é! Não!
Mas, um dia, já um visionário do Infinito, um
desses errantes do Ideal, com uns olhos espiritualizados
de tísico, contou-me que lá no seu país bárbaro, uma
vez que ele quis justiça, que ele clamou por justiça,
responderam-lhe com esta espada fria de sarcasmo:
– Ah! tu queres justiça, vais ter justiça. Metam
este diabo numa jaula, derretam-lhe os pés em azeite a
ferver, arranquem-lhe a pele a ferro em brasa e
arranquem-lhe a língua pelas costas, se é que ele, na
verdade, quer justiça, da pura e boa justiça, da imparcial,
da generosa justiça!
Tu, Deus excelso, sim, tu não iludes ninguém, tu
vens trazer-me justiça, eu bem creio, eu creio muito,
porque o sorriso inefável que abre essa original aurora
nos teus lábios não pode iludir nunca, não pode enganar
jamais.
E mesmo os mais descrentes, os mais céticos e
pessimistas acreditariam, se vissem! como eu agora vejo
nesse teu piedoso sorriso tão carinhosamente iluminado
da mais incomparável irradiação de justiça...
Sim! vens trazer-me justiça! vens trazer-me
justiça!
Parecia mesmo, então, que para como que afirmar
ainda mais os meus amargurados pensamentos, um
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 457
pranto imenso, diluvial, me inundava, caindo do alto;
que o Cristo chorava, chorava, num monótono choro
soluçante que eu escutava pungido e enternecidamente
agradecido a Ele por tanto e tanto compreender e sentir
assim a minha Dor e assim chorar por mim...
Mas, de repente, como por uma transmutação de
mágica, tive um fundo sobressalto; do meio daquela
espécie de torpor fui violentamente sacudido por uma
impressão de deslumbramento, e, então, vi! estupefato,
que aqueles divinos lábios lívidos a pouco e pouco se
satanizavam e enrubesciam, passava sobre eles um
relâmpago de fogo; aquela boca martirizada afinal abriase estranhamente rubra, estranhamente rubra! — e
desvairadas gargalhadas vermelhas estalaram e rolaram
retumbantemente pelo espaço a fora como atroantes
excomunhões...
E as estrepitosas risadas rolaram ríspidas,
cortadas sangrentamente de sarcasmos e ensangüentando e abalando todo o espaço, como risadas de um
novo Cristo satânico, despenhado e rebelde na eterna
confusão dos séculos...
Toda aquela face de celeste ternura desaparecera,
a doce expressão piedosa daqueles olhos se exilara para
longe e apenas então ficara o mais duro e feroz
semblante, com a apocalíptica expressão sagrada e
selvagem do Arcanjo titânico dos Extermínios agitando
no ar o gládio fulminante.
E a boca rubra dessa face tremenda ria, bruta,
grosseiramente como os Getas da Trácia, bárbaras,
empedernidas risadas d’escárnio que rolavam, rolavam
pela noite a dentro, de eco em eco, com o clangor
monstruoso de turbilhões, de cerradas massas de sons
de trombetas conclamantes ou formidáveis e pesados
carros de batalha, fantástica e atropeladamente
arremessados através dos bíblicos, profundos e
tenebrosos despenhadeiros de Josafá!
458 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
DOR NEGRA
E como os Areais eternos sentissem fome e sentissem
sede de flagelar, devorando com as suas mil bocas
tórridas todas as rosas da Maldição e do Esquecimento
infinito, lembraram-se, então, simbolicamente da
África!
Sanguinolento e negro, de lavas e de trevas, de
torturas e de lágrimas, como o estandarte mítico do
Inferno, de signo de brasão de fogo e de signo de abutre
de ferro, que existir é esse, que as pedras rejeitam, e
pelo qual até mesmo as próprias estrelas choram em
vão milenariamente?!
Que as estrelas e as pedras, horrivelmente mudas,
impassíveis, já sem dúvida que por milênios se
sensibilizaram diante da tua Dor inconcebível, Dor que
de tanto ser Dor perdeu já a visão, o entendimento de o
ser, tomou decerto outra ignota sensação da Dor, como
um cego ingênito que de tanto e tanto abismo ter de
cego sente e vê na Dor uma outra compreensão da Dor
e olha e palpa, tateia um outro mundo de outra mais
original, mais nova Dor.
O que canta Requiem eterno e soluça e ulula, grita
e ri risadas bufas e mortais no teu sangue, cálix sinistro
dos calvários do teu corpo, é a Miséria humana,
acorrentando-te a grilhões e metendo-te ferros em brasa
pelo ventre, esmagando-te com o duro coturno egoístico
das Civilizações, em nome, no nome falso e mascarado
de uma ridícula e rota liberdade, e metendo-te ferros
em brasa pela boca e metendo-te ferros em brasa pelos
olhos e dançando e saltando macabramente sobre o lodo
argiloso dos cemitérios do teu Sonho.
Três vezes sepultada, enterrada três vezes: na
espécie, na barbaria e no deserto, devorada pelo incêndio
solar como por ardente lepra sidérea, és a alma negra
dos supremos gemidos, o nirvana negro, o rio grosso e
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 459
torvo de todos os desesperados suspiros, o fantasma
gigantesco e noturno da Desolação, a cordilheira
monstruosa dos ais, múmia das múmias mortas,
cristalização d’esfinges, agrilhetada na Raça e no Mundo
para sofrer sem piedade a agonia de uma Dor sobrehumana, tão venenosa e formidável, que só ela bastaria
para fazer enegrecer o sol, fundido convulsamente e
espasmodicamente à lua na cópula tremenda dos
eclipses da Morte, à hora em que os estranhos corcéis
colossais da Destruição, da Devastação, pelo Infinito
galopam, galopam, colossais, colossais, colossais...
460 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
SENSIBILIDADE
Com os seus lindos bandos brancos e o seu
rendado mantelete de vidrilhos, aquela doce velhice
tinha, apesar de enrugada e trêmula, um certo encanto
nobre.
Fazia lembrar uma gravura antiga e grave, dessas,
solenes e vagas, que pousam tristes, quase apagadas de
traço, esmaecidas na tela, mas saudosas, ao fundo de
algumas salas severas.
O seu nome carinhoso e parnasiano, recordava à
primeira vista, pelo esmalte claro das sílabas, a forma
de delicada porcelana, um fino e precioso mosaico ou os
embutidos luxuosos dos charões.
E esse nome, aveludadamente azul – Lúcia –
cantava-me ao ouvido com a doçura, a terna suavidade
da mais íntima, penetrante carícia.
Rara e obscura existência, cabeça embranquecida
nos gelos das sombrias dores ignoradas e apunhalantes,
Lúcia, no entanto, andava dentre auréolas invisíveis de
bem-aventurança, dentre etéreas redomas de clemência
divina, como se nunca roçasse as diáfanas e níveas asas
sutis das suas ilusões e reminiscências no lutulento,
letífico charco da terra...
Era assim uma alma ainda não esgotada, ainda
intacta, inédita, purificada nos rios claros e evangélicos
das esperanças, atravessando o mundo sem ruído, oculta,
calada, vivendo baixo, devagar, nos sugestivos silêncios,
como numa eterna pausa de todos os rumores, pedindo
aos recônditos dilaceramentos do coração que
emudecessem, ou magoassem e afligissem, mas em
segredo, para que lá fora o faustoso clamor da Vida,
desdenhoso e vão, não se importunasse e humilhasse.
Era uma dessas assinaladas e tocantes velhinhas
que impressionam e das quais, muita vez, a tremenda
complexidade da Dor fica como que encerrada aos olhos
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 461
insensíveis da formidanda massa do Mundo, através das
brumas do egoísmo.
E ela mesma como que faz pensar em todas essas
brumas, porque o seu perfil é brumoso, são brumosos os
seus belos cabelos, é brumosa toda a sua contemplativa
figura, que as brumas, as neblinas, os nevoeiros de fundo
mistério envolvem de um luar solitário...
Outrora toda a sua bondade espiritualizava-se,
subia à serenidade dos Astros, quando, pelas manhãs
d’ouro e linho virgem, frescas de sol, eu a via, junto ao
mar melancólico, gozando a saudade das vagas.
Por ali, perto das vagas, erguia-se um muro austero
e alto, donde bucolicamente pendiam imensas e
exuberantes latadas, verdes tentáculos de folhagem
estrelados de rosas jaldes, de rosas brancas e de rosas
rubras. Através de um gradil aberto viam-se louçanias
de jardins, preciosidades de plantas, uma alegria
pinturesca de vergéis e um repouso secreto e claro de
Recolhimento, quebrado em dadas horas pelo quente
esplendor bizarro de risadas.
Era uma página de comunicativa emoção, de
emoção sempre crescente, sentir, no ouro e na prata
fluido-vagante das manhãs, o pequenino perfil da Lúcia,
vago e triste, tão humanizado naqueles momentos, tão
existente, tão ser, tão vivo na irradiação alegre, clarinal
do dia, olhando ao mesmo tempo, com igual
enternecimento, o mar e os jardins próximos ruidosos
em certas horas.
O peito desoprimia-se, respirava ao largo amplos
e sadios haustos de mar diante dessa velhinha meiga,
tão infinitamente sensível, tocada de uma graça de amor
supremo, talvez pouco da terra já mas que parecia ser o
símbolo sagrado das resignadas, abnegadas mães.
Toda aquela vida era, entretanto, assediada de
agitações constantes, com todos os fenômenos do
Desconhecido, fenômenos profundos, com origens e
raízes longínquas e em cujo centro ciclônico, terrível,
462 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
ela girava amargamente, confusamente, arrebatada na
vertigem do Mundo.
E tudo, em redor, como que a torturava em
fogueiras acesas de inquisições, fazendo-a delirar de
angústia, dessa lancinante impaciência, dessa
inquietude que alvoroça os corações velhos que não têm
a esperar mais nada.
E quantas, quantas vezes eu a vi, perdida nos
tumultos, circulando por entre as multidões cerradas e
atordoantes – erma, isolada, trêmula e triste, como se
levasse toda a fatigada velhice lutadora de rastros ao
sacrifício dos desdéns eternos, à indiferença de ferro
das bárbaras hordas humanas.
E tão só, tão só caminhava, talvez sem objetivo,
talvez sem rumo, que a minh’alma compadecida a
acompanhava de longe, numa grande e genuflexa
piedade muda de companheira misteriosa e solitária.
Mas com que dolorosa agonia, com que tormento,
quase voluptuoso, ela circulava através multidões, errava
através do ruído, através do alarido das ruas, das praças,
através dos burburinhantes enxames de uma população
variada, diversa de atitudes, de sensações, brutal de
instintos, impetuosa de gestos, frívola, fútil, mexendose em ondulações de estupendos bichos vorazes,
venenosamente serpenteando...
Muitas vezes era pelos dias de abrasante sol e
poeira, quando os mormaçosos estios relampejam e
torram as vegetações recentes e o ar pesa elétrico,
túmido de trovões e raios.
As correntes intensas e luminosas do calor, as
atmosféricas fulgurações zumbentes e escaldantes,
atravessadas da poeirada fatigante, punham no ambiente
lassa preguiça tropical, dando uma forte exaustão de
nervos, que pedia longas, demoradas sestas...
Era por esses dias febrilmente calmosos, em que
o espaço, hirto, rígido, parece feito de metais
incandescentes e de vidro.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 463
Candente dureza estéril, surda, sufoca, numa
asfixia mortal.
Paira em tudo a prostração, a combustão de um
incêndio prodigioso em longas extensões de florestas,
de selvas intermináveis, de matas escuras e virgens; a
tontura morna e enervante da chamejação poderosa,
luxuosa, rica, de grossas e resinosas cordoalhas
alcatroadas ou das línguas flamívomas e fantásticas de
enormes aglomerações de carvão de pedra ardendo com
feéricas e estrepitosas labaredas.
Como que chiantes e algazarrantes crepitações
de cigarras, riscam, retalham e cortam nervosas, com a
vibrátil tensibilidade das asas, as fremências ríspidas
do sol aberto, aceso estranhamente nos altos.
E o sol, devorando ferozmente as seivas, numa
insaciabilidade animal de tigres e panteras esfaimadas,
faz lembrar horrível, tremendo e torturante carrasco
levantando no Infinito guilhotinas atrozes, cujos
formidáveis e ígneos cutelos invisíveis fulminam
medonhamente os corpos...
E a retina fatigada, cansada de fitar os aspectos
quentes, as paisagens abrasadas, ofuscada pelos
deslumbrantes estrelejamentos que a constelaram,
descai langue, frouxa, perdendo já a percepção clara
das linhas.
Lúcia, entretanto, nômade eterna, errava entre
essa atmosfera de sol e poeira, como nas tórridas, áridas
vastidões de um deserto. E o seu humilde perfil de
peregrina, martirizado pela inclemente ação cáustica
da luz, parecia convulsionar-se, contrair-se, contorcerse espiralmente em eletrismos ardentes de serpes ébrias
de cio, encolher-se, murchar como planta esquisita e
melindrosa que a chama cresta, devora...
Era de uma sensibilidade que magoava até às
profundezas da alma ver girar sob o sol em fogo, na
amolentadora dormência da poeira turva, o vulto triste
dessa velhinha – alquebrada, aturdida, sonolenta nos
464 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
entontecedores espasmos, nas radiantes nevroses do
sol...
Parecia que todo o fino tecido, todas as fibrilhas e
filamentos da claridade fulva, vibrante, a magnetizavam,
a prendiam como que em redes cintilantes de raios, de
brilhos, de centelhas, de siderações, de flamas, de
ardências solares, de coruscantes crepitações.
Parecia que as chamejativas e agulhantes áspides
mordentes e circundantes do sol a apertavam, a
comprimiam, a enlaçavam, roçando, babando, lambendo
sedentas, sedentas, a epiderme engelhada da suplicia
da velhinha, embebedando-a de sensações infinitamente
complexas e esdrúxulas com as atritantes e cocegantes
flexibilidades circulatórias dos seus filiformes e moles
organismos...
Deveria, ao certo, embalá-la, adormecê-la, fazêla sonhar um pouco, ao certo, toda aquela luminosidade
letárgica, ansiante, flagelativa, que morbidamente a
atravessava, a inoculava de tóxicos e alcoolizadores
amavios de feitiços narcotizantes, de venenosos e
deliciosos ópios, de sutilezas, de delicadezas
nervosíssimas de uma sensibilidade quase lasciva, de
tão martirizante, dolorosa e penetrante que era através
dos espessos, densos nevoeiros da poeira e do sol...
Fazia pensar que uma desconhecida voz, que ela
não sabia de onde vinha, chamava com carinho por ela,
a abençoava na sua aflição, no seu dilaceramento,
suavizando-a na dor, protegendo-a na torturante
peregrinação, compadecendo-se dela, bradando,
clamando, como através do nebuloso pesadelo de um
sono ou de brumas de luar, o seu nome meio velado,
meio sonhado e soluçante: Lúcia, Lúcia, Lúcia – como o
consolo da Sombra, como a piedade do Mistério, como a
demência do Vago: Lúcia, Lúcia, Lúcia!
O seu coração agoniado vibrava com mais
veemência, com mais ímpeto, com febre, num profundo
êxtase de sofrimento; e os seus amortecidos olhos,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 465
turvados pela névoa das lágrimas, espiritualizavam-se,
languesciam, como num torpor comatoso, e ela então
voltava, voltava, tornava a circular, ali, além, lá, por entre
a multidão tenebrosa, como ainda na última esperança
de alcançar o que buscava, o que em vão procurava no
torvelinhoso caos da existência – velhinha, trêmula,
triste, frágil, a cabeça agitada numa convulsão, no
lancinamento angustioso de todo o seu ser fatigado, sob
o flagelo inflamado das cortantes refrações luminosas,
das faíscas e fuzis cambiantes e circunvolventes e da
inquietante poeirada turva que subia em turbilhões no
ar...
Parecia que aquele coração sofredor, arrancado
violentamente do peito, eu sentia e via palpitar,
sangrando ainda, suspenso, solto, alado, magnetizado,
atraído pela intensa e estonteante vibratibilidade aérea,
ao alto do Éter vertiginoso, com todos os seus gemidos,
com todos os seus soluços, com todos os seus ais, com
todos os seus gritos, com todos os seus gritos, com todos
os seus gritos!
Penetrado de uma curiosidade doentia, desse
indefinido desejo de mergulhar no absoluto das cousas,
o espírito a acompanhava, sem se aperceber quase, por
um movimento instintivo e simpático de atração pelo
que é obscuro, isolado, só, como acompanha as emoções
e sensações que abrem asas à noite, fugindo ao
esmagamento do dia.
Não era apenas uma velhinha, trêmula,
engelhada, que vagava todas as manhãs, desamparadamente: – era a Dor, a Dor cruel e ignota, que
ninguém sentia, ninguém via, mas que vinha sempre
sombriamente viver junto à estranha vida que no mar
palpitava.
E, quem olhasse bem para ela, com afeto piedoso,
com todo o concentrado sentimento, e demorasse num
exame lento, silencioso, detalhado, de todas as suas
feições, de todas as suas rugas, veria então como a Lúcia
466 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
se transfigurava sempre que ouvia a matinal correria
nos jardins do Recolhimento, sempre que encarava por
muito tempo o mar, fitando-o como horrível inimigo que
se não pode jamais destruir, mas apenas odiar em vão.
Um amargor, um fel, uma ansiedade, ansiedade
de tudo, ansiedade mortal a crucificava, e ela então
começava a percorrer novamente ao longo das praias,
mas tão febril, tão inquieta, tão vertiginada a nobre e
doce cabeça branca, que se temeria que ela fosse
enlouquecer ou morrer ali de desespero.
Fazia mesmo lembrar um louco, igualmente cego
e mudo, encarcerado e tateando na sua desgraça,
debatendo-se para espedaçar as perpétuas grades do
cárcere tenebroso da loucura, da cegueira e da mudez,
ensangüentando inutilmente as mãos nos grilhões
imaginários, com o delírio supremo, a aflição tremenda
de uma alma que não sabe, que não pode dizer quanto
sofre e sofre ainda mais por isso e sufoca e soluça e
convulsiona e rebenta de sofrimento.
Era uma dor que tinha a sensibilidade curiosa de
um violino miraculoso, vibrando freneticamente, com
requintada nevrose, através de nevoeiros frios, nalgum
país polar, e cujo som, partindo em arestas finíssimas e
inflamáveis, em vez de deliciar de harmonia, ferisse,
cortasse e queimasse as carnes.
A princípio aquela Dor subia como leve, melodiosa
balada fria e triste, por turvo luar, sobre lagos calados,
entre paisagens de lenda.
Subia suspirantemente, na mágoa dilacerante dos
adeuses derradeiros, aflitiva lancinância das preces...
Depois, transfigurada por invisível vendaval sinistro, era
uma Dor que avassalava todo o seu organismo como um
espasmo de alucinação, rugindo em bramidos de mar
alto nos bravios costões desertos, nas abruptas penedias,
nas brenhas brancas, sob as trevas soturnas e avérnicas
das tempestades, cruzadas pelos Signos diabólicos e
fosforescentes dos relâmpagos...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 467
Ah! como eu a amava, como eu me apiedava dela
assim, como me identificava com o seu sentir, como
penetrava nos crepúsculos estrelados da minh’alma,
assim dolente, assim fatalizada, essa extraordinária
Criação dos dolorimentos, das incoercíveis angústias
imponderáveis!
Vencida pela saudade e sugestão evocativa das
ondas, ela vagava sempre, sem que ninguém soubesse
qual era o seu objetivo secreto... E essa maravilhosa dor
como que se ampliava, se derramava, enchia as vastidões
do Mar imaginativo, cortado de lubricidade e tédio,
enevoado de spleen, embriagado de um vinho sombrio e
glauco, fascinador, inebriante, atordoativo, de
sonambulismos esparsos, sedento da monstruosa, da
satânica paixão dos naufrágios, soturnamente cantando,
com triunfos d’inquisidor, as elegias das noivas – mais
formidável que a Morte!
E enchia, enchia, enchia profundamente o Mar a
grande Dor, filtrava-se pelos raios fluidos da luz, diluíase no cheiro azotado e virginal das marés, eterificavase, era essência, era eflúvio de emoção, era gérmen de
sonho, perdido no ambiente picante, acre e ácido, das
largas, amargas águas marinhas; era sensibilidade
humana depurada, cristalizada, vivida na sensibilidade
voluptuosa das ondas, partindo, vagando, errando como
aroma e brilho flavo de sol nos turbilhões fugitivos das
velas nômades, também infladas, palpitantes também
de flutuante, balouçante volúpia e da mais alanceada e
nostálgica sensibilidade do Infinito...
468 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
ASAS...
Abertas em iris, pelos espaços intérminos,
esvoaçam as Asas, voam a regiões antigas enevoadas de
dolência e de lenda, às velhas maravilhas do mundo:
pelos Jardins da Babilônia, pelas Pirâmides do Egito.
Vão à Pérsia, palpitar no fulgor de alcatifas e tapeçarias;
vão à Arábia, voar entre os incensos orientais e,
condorizadas, sempre pelas fulvas, fagulhantes
opulências do Oriente em fora, ruflar e subir, perder-se
além das esguias agulhas alanceoladas das mesquitas,
que arrojam para o firmamento as liturgias
maometanas...
E as Asas flavescem, doiram-se ao sol prisco dos
tempos, à chama acesa da Imortalidade – porque as Asas
são o Desejo, o Sonho, o Pensamento, a Glória – que
tomam assim sempre essa forma, mil vezes, alada,
peregrina, errante, das asas.
Porque a Forma, a Forma é esse ansiar para o
alto, esse fremente rufiar e abrir largo d’asas
impulsionadas na Luz, na refulgência das Estrelas, de
onde, a música, a harmonia pura da Arte, serena e
ritmalmente canta...
Mas, essa Forma que abre, cinzelada em astro
flamejante, essa mesma Forma sai pontuada de
lágrimas, como um relicário onde eternamente ficassem
guardadas as hóstias impoluídas de um amor sideral
infinito.
E essas mesmas lágrimas são asas – asas
espirituais, partindo da fremência de um sentimento
doloroso, pungente, que nos alanceia, impacienta e agita
em febre – sentimento fundamental do Profundo, do Vago,
do Indefinido...
Turbilhões d’asas, turbilhões d’asas, turbilhões
d’asas – asas, asas e asas imensas, amplas, largas,
infinitamente rufladoras, infinitamente, infinitamente,
cruzando-se e acumulando-se nos tempos, nas orgias
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 469
báquicas do Sol, nas deblaterantes e atroantes nevroses
das tormentas, no rouco e surdo regougar de epilepsias
satânicas dos ventos.
Asas leves, finas, borboleteantes, falenosas, dos
magnificentes, dos radiantes, dos delicados, dos febris,
dos imaginosos, dos vibráteis, dos penetrantes, dos
emotivos, dos sutis, curiosas abelhas d’ouro, insetos
flavos do sol, esmeraldas e meteoros voejantes e asas
gigantescas, condoreiramente titânicas, dos hercúleos
Proteus do Sentimento e da Forma.
Tudo recebe singularidades, impressionantes
transfigurações de asas – asas que abrem e tumultuam
com vertiginoso e confuso tropel nos Céus, que da Terra
vibrando partem, asas, asas e asas, em enigmas
esfíngicos, num anseio, num frêmito, num delírio de
alcançar, subir além, maravilhosamente subir, com
pujanças repurificadoras e a majestade melancólica das
águias, à Aspiração Suprema!
470 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
ESPIRITUALIZADA
Agora fechando de leve os olhos, fechando-os,
como para adormecimentos vagos, vejo-te, no entanto,
melhor, sinto-te eterizada, de uma essência finíssima
onde há diluidamente talvez muito do sol e muito da
lua...
Assim, mudo e só, neste obscuro aposento, onde
apenas uma janela alta dá para o claro dia, como um
coração que abre e pulsa para a vida, gozo a divina graça
de ficar isolado, intacto, neste momento, ao menos, dos
atritos nauseantes da laureada banalidade, de certo
fundo chato de plebeísmo intelectual de sentir.
Nos seis ou sete palmos deste aposento, que ainda
não são, contudo, os sete palmos da cova, eu vejo-te das
prefulgentes transcendências da minha Piedade, e,
aristocratizando a alma, como um céu se requinta
aristocraticamente d’estrelas, sinto que me apareces
espiritualizada pelo grande Afeto que te fecundou e sinto
que há de ti para mim uma tal influência estésica, uma
identidade tamanha, uma tão intensa irradiação, que
as nossas naturezas fundem-se num mesmo êxtase,
num mesmo espasmo emotivo e numa mesma
chamejação de beijos...
E, assim, ainda assim, nobre Palmeira de sagrada
sombra que me abrigas o coração errante; e, ainda assim,
pelas virtudes sublimes do teu ser, canta-me na alma o
Cântico claro de que não me separarei jamais de ti, que
me acompanharás, boa, crente, do castelo branco das
tuas altas virtudes, pelas jornadas eternais da Morte,
saciando-me a sede ansiosa, inquieta, de Infinito, com
as cisternas puras e transbordantes da tua eterizada
Bondade.
E como o nosso pequenino filho preso à tua carne
pelo cordão umbilical, eu ficarei para sempre preso aos
teus graciosos cuidados e fugitivos enlevos, girando em
torno à tua ternura – vibrante abóbada de músicas e de
luzes – como um velho pássaro fatigado abrindo e
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 471
fechando lenta e amorosamente as asas sem no entanto
desprender o vôo através do atordoamento e rumor das
Esferas...
Crê, tem fé profunda na profunda chama que por
ti me eleva.
Fechando de leve os olhos, como para
adormecimentos vagos, mais eu vejo a curiosa beleza
negra dos teus olhos transfigurados por olhares pouco
terrestres e olhares de tão cintilantes fluidos, de raios
tão penetrantes, de tão afagadoras, consoladoras
baladas, que só olhares de olhos resignados,
perfectibilizados por egrégio Sofrimento, podem por tal
forma exprimir a impressionante transfiguração dos teus
olhos.
Crê, pois, que eu te amo, crê que eu te amo com a
majestade serena de um apóstolo e a meiguice trêmula
de uma criança. Crê que eu te amo com a alma simples,
com o coração inundado de frescura, iluminado de
bondade. Crê que eu te amo, sacrossantamente te amo
de um afeto indissolúvel, indelével, indefinível, que se
perpetuará além da minha morte, sobreviverá aos meus
suspiros, aos meus amargos gemidos, abraçar-te-á com
abraços muito longos, beijar-te-á com beijos ainda mais
longos que esses abraços, numa carícia lenta, muda e
aflita, sob o repouso branco das estrelas, na imensa
mágoa, no desolado enviuvamento das noites...
Assim, maternizada, ó boa e generosa terra de
sangue de onde brotou a flor nervosa e lânguida do filho;
assim, transfigurado pelo sentimento purificante da
Maternidade, ó ser docemente, arcangelicamente
formoso, dessa formosura triste, mas nobre, mas excelsa,
mas imaculada, das almas que se sensibilizam e vibram;
assim, nessa expressão tocante, fina, sutil, do teu
semblante que a dolência pungente da Maternidade
enluarou de harmonia, fluidificou de delicadezas,
angustiou de mistério, és, afinal, a Eleita peregrina do
meu Sonho, coroada de um diadema de lágrimas...
472 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
ASCO E DOR
Últimos risos palermas, últimos escancaramentos
de bocas parvas nos fins destroçados de um carnaval,
por tarde ardente e nevoenta. Massas de nuvens torvas
tumultuam no firmamento, sob múltiplas conformações
fabulosas. Raios derradeiros de sol em poente
languescem do alto, mornamente crepusculares.
Um tédio enorme espreguiça, estremunha no ar,
lânguido, letárgico, invencível, indefinível...
Por uma rua estreita, sombria e lôbrega como um
prolongado corredor de convento ou uma infecta galeria
subterrânea, vem desfilando, aos pinchos, saracoteando
toda, desconjuntando-se toda, uma turba miserável de
carnavalescos, impondo aos últimos raios tristes do sol
as suas carantonhas mais horrivelmente tristes ainda,
as suas vestimentas funambulescas, fazendo lembrar
diferentes aspectos de loucura, graus de imbecil
demência, angulosidades de crime, estados primitivos
de ignorância amassados numa embriaguez mórbida,
selvagem e sinistra.
Os pinchos, os saracoteios, os ziguezagues dos
quadris elásticos das mulheres, com os moles seios
bambos e as nádegas proeminentes, num deboche nu
de Inferno relaxado onde vinhos alucinantes entrassem
como oceano canalizado para as bocas; os perfis ósseos,
anfratuosos dos homens, mascarados de sapo, de gorila,
de serpente, de crocodilo, de dragão de cornos, de
morcego, de monstro bifronte, de urso, de elefante e de
mentecapto, dão à turba carnavalesca a sensação
formidável do descaro final, do pandemonium derradeiro,
da nudez lúbrica, desbragada, bestial, da cega hediondez
dos instintos soltos na hora eclíptica do aniquilamento
do mundo!
Mas, eis que do centro do desprezível bando,
vestida em farrapos, boçal, congestionada de
bestialidade, urrante de chascos, destaca-se uma
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 473
terrível figura mais grotesca do que as outras, trazendo
na cabeça, em forma de troféu, uma trunfa alta, feita
de cobras emaranhadas, com as caudás em pé,
semelhando uma coroa de vícios em convulsão. E no
meio do círculo que as outras formam e ao som de palmas
cadenciadas e batuques selvagens, através de risadas
aparvalhadas do público, fica então a dançar
alucinadamente. Nas suas pernas magras, espectrais,
de esqueleto ironicamente esquecido pela cova, dir-seá que lhe puseram azougue e lhe puseram também
rodízios nos pés.
E ela fica então a rodar, a rodar, macabra, doida,
numa febre, num delírio, como se fosse esse todo o
extremo esforço das suas faculdades de dançarina. E
ela roda, roda, vai rodando, em vertigens e vertigens,
em giros esquisitos, fazendo flutuar os dourados farrapos
da veste, dentre uma saraivada grossa de risos e
aclamações, gozando triunfos na miséria daquilo tudo,
como a rainha da lama humana. E a grotesca figura
roda, mascarada de múmia verde – alucinação que
ondula, desvairamento que serpenteia – a exemplo de
uma cousa amorfa, de um bicho inconcebivelmente
estranho que se tivesse ao mesmo tempo absurdamente
tomado de uma epilepsia nervosa e da dança de SãoGuido...
De vez em quando piparoteiam-lhe a pança, as
nádegas moles e ela então, ignóbil animal aguilhoado
por essa baixa carícia, saracoteia mais, espaneja-se toda
no seu lodo como num leito de volúpia.
Ah! daquela momice cínica, daquela desordenada
bebedeira d’instintos erguiam-se, hórridos fantasmas de
sangue, de lama e lágrimas, o Asco e a Dor!
Eu para ali me arrastara, no amargo tédio da tarde,
na ânsia crepuscular do sol, que lembrava um palhaço
senil e lúgubre, sem mais alegria, vestido de ouro e
morrendo, só, desamparado até mesmo das ovações ou
474 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
dos apupos da rota garotagem, no fundo de um beco
imundo...
Levaram-me para ali não sei que desencontrados
sentimentos, que emoções opostas, que vagos
pressentimentos... A verdade é que eu para ali fora, talvez
fascinado por certo encanto misterioso dessa miséria
cega: para embriagar-me de asco, para envenenar-me
de asco e tédio e desse tédio e desse asco talvez arrancar
os astros e ferir as harpas de alguma curiosa sensação.
A verdade é que eu para ali fora, quase hipnotizado, de
certo modo mesmo impelido pela extravagante turba
carnavalesca, pela sua monstruosa miséria.
Mas, agora, todo esse misto de animalidade, de
suinice, esse hibridismo mascarado, de paixões
rastejantes, vermiculares, essas formas humanas que
atrozmente se convulsionavam como feras devorando,
todo esse ambulante sabbatt foi então desfilando por
outras ruas, seguindo o seu rumo de calcetas do ridículo,
bambamente, aos boléus sob o fim torvo da tarde que
parecia, também mascarada de feiticeira, rindo uma
risada de augúrio feral aos últimos bamboleios
carnavalescos que se afastavam, finalizando como a tarde
finalizava, dispersando-se, desaparecendo pelos oblíquos
becos tortos num tropel de manadas de gado estropiado
que uma peste assolou...
E enquanto a multidão, vesga, atordoada, tonta,
azoinada de calor, de rumor, de carnaval e de poeira,
aplaudia com gritos e zumbaias delirantes,
ensurdecedoras, aquela turba vil, incaracterística, a
minh’alma sentia-se como que pendida de um cadafalso
que a estrangulava, acorrentada a um asco mortal, a
uma dor tremenda que não tinha linhas de unidade, de
conjunto e de entendimento com as outras dores; dor
ingenitamente original, que não participava, em
nenhuma das suas fibras, em nenhuma das suas
interpretações sensacionais, das outras dores do mundo!
Dor legitimamente outra, que não tinha limites no limite
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 475
da dor comum; dor que me parecia cobrir o céu de luto,
enegrecer tudo, aumentando-me o asco de tal sorte que
o ar, os horizontes enublados, as árvores, as pedras da
rua, as paredes dos edifícios, a multidão que
burburinhava, tudo me parecia estar possuído do mesmo
asco e da mesma dor. Dor sem raízes conhecidas, sem
ritmos definidos, sem origens encontradas nem na vida,
nem na morte, fora das correntes eternas, das
correlações das esferas, das circunvoluções do
pensamento! Dor inaudita, cujas partículas sagradas
eram formadas da flamejante constelação de um anseio
transcendental, da luz misteriosa das espiritualizações
supremas, de sentimentos fugidios, sutis, de sensações
que volteavam e ondulavam em torno da minha cabeça,
como auréolas psíquico-estesíacas, por paragens
ultraterrestres.
Asco que era para mim como se eu me sentisse
coberto de lesmas, lesmas fazendo pasto no meu corpo,
lesmas entrando-me pelos ouvidos, lesmas entrandome pelos olhos, lesmas entrando-me pelas narinas, pela
boca asquerosamente entrando-me lesmas. Um asco feito
de sangue, lama e lágrimas, composto horrível de um
sentimento inexplicável, hediondo, donde brotava a flor
de fogo e veneno de uma dor sem termo.
Asco daquelas postas de carne que além
obscenamente se rebolavam numa mascarada infernal,
bêbadas, bambas, fora da razão humana, a toda a brida
no Infinito do deboche, sem fé e sem freios, na confusão
dos instintos como na confusão do caos.
Dor e asco dessa salsugem de raça entre as
salsugens das outras raças.
Dor e asco dessa raça da noite, noturnamente
amortalhada, donde eu vim através do mistério da célula,
longinquamente, jogado para a vida na inconsciência
geradora do óvulo, como um segredo ou uma relíquia de
bárbaros escondida numa furna ou num subterrâneo,
entre florestas virgens, nas margens de um rio funesto...
476 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Dor e asco desse apodrecido e letal paul de raça
que deu-me este luxurioso órgão nasal que respira com
ansiedade todos os aromas profundos e secretos para
perpetuá-los através da mucosa; estes olhos
penetradores e lânguidos que com tanta volúpia e mágoa
olham e assinalam as amarguras do mundo; estas mãos
longas que mourejam tanto e tão rudemente; este órgão
vocal através do qual sonâmbula e nebulosamente
gemem e tremem veladas saudades e aspirações já
mortas, soluçantes emoções e reminiscências maternas;
este coração e este cérebro, duas serpentes convulsas
e insaciáveis que me mordem, que me devoram com os
seus tantalismos.
Dor e asco dessa esdrúxula, absurda turba bruta
que além, sob a tarde, uivava, desprezivelmente ridícula,
na infrene mascarada, com os seus ínfimos vultos
sinistros transfigurados em crocodilos, em serpentes,
em sapos, em morcegos, em monstros bifrontes, todos,
todos da mesma origem tenebrosa de onde eu vim,
negros, sob a lua selvagem e sonolenta dos desertos, no
seio torcido das areias desoladas...
Asco e dor dessa ironia que para mim vinha, que
para mim era, que só eu estava compreendendo e
sentindo assim particular e exótica – ironia gerada nos
lagos langues do Letes, fundida nas perpétuas chamas
do Abstrato das Esferas, ironia para mim só, só para
mim descoberta nas camadas infinitas da Vida; ironia
só para o meu Orgulho mortal, só para a minha Ilusão
humana, só para o meu insatisfeito Ideal, ironia! ironia!
ironia rindo às gargalhadas no fim da tarde pelas
máscaras obtusas e pela boca parva da multidão que
aplaudia truanescamente como o supremo truão eterno.
E, ó Dor maior! Asco mais estranho ainda!
Daqueles círculos mômicos, daqueles círculos de
chacota e de zumbaias, daqueles requebros de quadris
obscenos, daquelas vertigens mórbidas e redomoinhos
de corpos lassos, entorpecidos, suarentos, empoeirados,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 477
esfalfados; daquelas caras bestiamente cínicas, ignaras
e negras, sem máscaras algumas, pintalgadas a cores
vivas, a tatouages grosseiras; daqueles langores mornos
e doentios de olhos suínos, de todos esses grilhões
medonhos, de todo esse lodoso cárcere fatal eu ficava
como uma sombra irremediavelmente presa dentro de
outra sombra, querendo fugir dali por esforços inauditos
e vãos, debatendo-me no vácuo contra esse golfo sem
fundo, contra esses vórtices tremendos da matéria, de
onde, no entanto, a minh’alma viera, cristalizada em
essência, requintada numa imaculabilidade d’estrelas
purificadas nos cadinhos celestes.
E a minh’alma circunvagava, ia e vinha alucinada,
através de adormecidas zonas de sonho, oscilante como
um pêndulo de pesadelos, numa aflita ondulação de
nevroses, meio dividida entre a bárbara turba mascarada
e meio dividida entre a natureza, circundante, cá e lá,
guilhotinada misteriosamente pela mesma dor e pelo
mesmo asco, cá e lá misturada, amalgamada e perdida
em iguais misérias de sangue, lama e lágrimas, ainda e
para sempre com o mesmo asco e com a mesma dor...
478 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
INTUIÇÕES
– Mas, afinal, por que és triste?!
– Sou triste, porque o fundo de toda a Natureza é
triste. Triste, por que a tristeza é Deusa, Deusa severa
e soberana, com a sua larga, longa clâmide majestosa
sombriamente pendida em graves, grandes rugas,
envolvendo para sempre os Desolados... A tristeza
medita... E é poderosa e sagrada, porque simboliza a
profundidade dos Fenômenos que nos rodeiam. Olha tu
para tudo. Ergue d’alto a visão do pensamento por essa
inclemência dolorosa da Vida e vê lá, se, no íntimo, no
recôndito das origens eternas, não está a tristeza
irreparável de tudo?! Ouve os teus tumultos interiores!
Busca as correntes da Vida e as correntes da Morte.
Procura as tuas aspirações supremas e vê lá se não é
pela estrada infinita, mas excelsa, da tristeza, que elas
seguem. Amo a tristeza, porque ela fecunda a todos os
sentimentos de uma nobre paixão abstrata. E é doce,
suavizador e piedoso para mim quando às vezes encontro,
pelos caminhos que trilho, tão augusta Deusa
transfigurando os celerados, purificando os bandidos,
dando paz e morte serena aos corações dos cínicos.
Ser fundamentalmente triste não exclui, no
entanto, a alegria, a alegria sã – essa alegria mesma
que é mais sincera e séria porque foi fecundada na
sinceridade e seriedade da própria tristeza.
Não essa alegria romba, a alegria dos adolescentes
espirituosos, que é a forma mais expressiva da
imbecilidade distinta.
Não a alegria dos que não são vitalmente alegres,
dos que riem, pelo estilo, pelo tom de rir, por ser oficial
o riso, por estar, d’alto abaixo, decretado, na grande
causerie famosa do Mundo, que se deve rir, porque o riso
dá maneira, porque o riso dá egrégias virtudes, porque o
riso dá beleza, e não se pode, nos centros da fina gente,
deixar, enfim, de proclamar o riso!
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 479
Não é essa alegria fácil, fútil, essa que chega a
celebrizar-se, a formar tipo, que constitui o singular
encanto sereno de certo modo de ser e sentir...
Mas, bem diferentes, outros aspectos e linhas da
alegria, bem variados e nobres.
A alegria de um lindo rosto louro de Ruth angélica
e segetal; uma serenidade cor-de-rosa de face de Cibele
branca surgindo dentre lírios; a alegria verde da
originalidade dos viços virgens, dos imaculados renovos;
a alegria nova dos vergéis em maio, sob o Te Deum do
sol.
A alegria fantasiosa de um Baco empurpurado de
vinho; a alegria pagã de um grego engrinaldado de
acanto; a alegria ideal do Diabo coroado de cornos; a
alegria obscura e ascética do Isolamento; a alegria
clemente, justa, do orgulho natural e simples; a alegria
modesta e sóbria da fé convicta e messiânica; a alegria
tranqüila e fria do desdém calado e secreto; a alegria
da bondade simples e radiante, a alegria enfim,
fecundadora e sã dos que se sentem fortes porque se
sentem dignos!
A solenidade dessas alegrias todas vem das linhas,
da harmonia, da austeridade pura da tristeza – noite
miraculosa que gera sóis.
A alma anseia ficar intacta das argilas lodosas, o
espírito aspira envelhecer casto, na velhice milenária
da Dor, mas elevando bem alto o sacrocibório das
comunhões intelectuais.
E, assim, essa tristeza é o tabernáculo severo e
sombrio donde o espírito ergue-se calmo e mudo, intenso
e seguro nas múltiplas faces da Vida, conhecendo e
sentindo com eloqüência os homens e tirando desse
conhecimento e desse sentimento as forças altas e os
nobilitantes vigores para a profética, fecunda clemência.
Pois no fundo dessa tristeza resultante das fadigas
e tédios que deixa o insano ardor por se haver dado o
balanço final aos Homens e às Cousas, existe a felicidade
480 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
forte, de robustez de fundamentos, uma espécie de
Otimismo desdenhoso, que é a única e compensadora
alegria mais elevada e pura das almas.
Sou triste, sem ser cético; sou triste, porque creio
ainda, vendo já, no entanto, tudo a esfacelar-se em
ruínas...
Por isso, por essas causas absolutas, sou triste.
Eram dois vultos que caminhavam estrada a fora,
através de paisagens, mergulhados numa intensa
palestra d’idéias, por clara tarde maravilhosa de luz.
Um deles, adolescente, imberbe, conservava a
aparência reservada e sisuda de um monástico,
acusando mesmo, pelo seu rosto um tanto alongado e o
seu perfil bisonho, soturno, haver pertencido a um desses
antigos seminários de província, reclusos dentre muros
contemplativos e brancos e rodeados das sombras
silenciosas de altas e recordativas árvores frondejantes.
Visto um pouco ligeiramente parecia ter na face
uma expressão dura, rígida, uma tonalidade seca e
cética, à Voltaire.
Mas, bem reparado de frente, os seus doces olhos
grandes, tenebrosos e raiados levemente de vermelho,
quebravam essa impressão voltaireana.
Tudo, de expressivo e oculto, que ele tinha, estava
nos olhos. Uma onda de seivas virgens parecia fluir
milagrosamente deles. Dormiam talvez ainda, lá, como
princesas encantadas em bosques fabulosos, as
misteriosas Paixões do Pensamento e da Forma.
Olhos reveladores, de uma expressão inédita de
sentimento, dizendo límpido na sua transparente
claridade úmida todos os segredos e sonhos que andem
sonambulamente romeirando nas almas.
Desses olhos para cujo centro profundo e luminoso
parece afluir toda a essência pura, todo o idealismo claro
e são, todo o alto requinte de Sensibilidade de uma
geração mais elevada, mais bela, prestes a surgir!
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 481
O outro, mais severo, mais perseguido de perto
pelas desilusões, com o ar fatigado de quem vem de
muito longe – olhos de uma penetração aguda de brilho
fundo, um tanto adormentados por uma melancolia
nômade; boca de mordacidade viva, de onde as palavras
deveriam irromper incisivas como dardos ou sugestivas
como parábolas.
Sentia-se logo que era doutras Regiões,
transfigurado dos Rumos espiritualizantes, dos
Fatalismos sombrios, reivindicador solitário do peso negro
e venenoso das grandes culpas e por isso, agora, calmo,
seguro, como os que trazem consigo, sem até mesmo
pressentirem, o cunho singular das Predestinações
imprescritíveis, a sede e a febre de um saber intuitivo,
contemplativo.
De vez em quando, no diálogo que ia estabelecendo
com o outro, a sua boca sorria, num sorriso de resignada
esperança, de muda contemplação, ou, ferida por um
sarcasmo tão puramente justo que a idealizava, ria claro,
ria, mas um riso leal, bom e regenerante, fresco,
balsâmico, capaz de inundar e imacular de bens as
milenárias e maléficas impurezas do Mundo decaído.
E a tarde, numa paz luminosa, em auréolas de
ouro, os envolvia beatificamente.
As duas figuras, unificadas naquele instante por
um idêntico e chamejante pensamento, caminhavam
devagar na tarde, sob a efusão simpática da suave
claridade da tarde.
Entretanto, o diálogo continuara.
– Sim, sou alegre como Deus, entediado, invejando
o Inferno; sou triste como o Diabo, arrependido e
sonhando, querendo voltar para o Céu!
Sinto esta tristeza impaciente do Irreparável, do
Irremediável, do Perdido... E a febre que me devora, a
vertigem que me alvoroça, é por não poder fundir as
almas sob novas formas, dar-lhes intuições novas,
entendimentos inauditos, encarnar-lhes o sentimento
482 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
noutros moldes mais belos, fazê-las, enfim, mais flexíveis,
mais dúcteis, torná-las mais espirituais e vibráteis para
as grandes comoções do Imprevisto.
A paixão da minha tristeza é por não poder
fecundar de novo essas almas, não lhes poder dar as
maleabilidades sensíveis, inocular-lhes o fluido estranho
de uma vida aperfeiçoada, quintessenciada numa chama
eterna.
A doença espiritual da minha tristeza é por não
poder impoluir, virginar jamais as consciências já
violadas; por não poder fazer brotar nelas a flor
melindrosa e boa da timidez simples, que o pecado brutal
das luxúrias imponderadas e das intemperanças ferozes
fez para sempre murchar.
A nevrose da minha tristeza é por não me ser
dada a graça magna, o dom soberano e assinalado de
vazar, nos cadinhos de ouro da fecundação perpétua, só
seivas prodigiosas, ineditamente belas, só germens sãos
e perfeitos, só sementes preciosas e raras, para que,
talvez, assim então se gerassem as Formas impecáveis,
as Correções extremas, as Perfectibi1idades imperecíveis.
Aos que, como tu, se fundam nos mistérios da sua
própria natureza; para os que surgem das obscuras
gêneses, no movimento de espontaneidade das Origens
vivas, das afirmações eloqüentes e cujo espírito vai, no
tempo e no espaço, se organizando por células,
fecundando por sonhos, completando por vibrações de
nervos, por germens de paixão, por glóbulos de Vida,
aguardando, calmos e resolutos, sentindo a intuição de
esperar o instante original para irromper da Sombra –
para esses, deve significativamente impressionar toda
a fundamental tristeza destas Manifestações supremas.
O certo é que a humanidade erra pelo fantástico,
que a natureza está toda sobrecarregada de fantástico.
E nem mesmo há homem que não tenha o seu lado
extravagantemente ideal, fantasioso; que não percorra,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 483
nas vagas horas da Desolação, as galerias sinistras dos
fantasmas, ou que não vá em busca do Sonho, que existe
na Realidade, como os fenômenos físicos existem
esparsos no organismo concreto do Universo. O ideal é
real, desde que radia no mundo criado à parte, na
circunvolução cerebral de cada ser. Tudo está em saber
acordar, com estilo e emoção, esse sonho, onde ele
exista, ou na alma do selvagem ou na alma do culto.
Para isso os Artistas de todos os tempos produzem as
suas Obras que nascem sempre por um movimento de
meia inconsciência conceptiva, para serem assim mais
fortemente vivas e mais transcendentemente
sensacionais.
Porque o real é cheio de brumas de sobrenatural,
o verdadeiro é cheio de brumas de fantástico e no fundo
original da grande Causa está o Sonho.
– Ah! Sim! Sim! Clamou o outro, num grito de
alvoroçado assentimento: – o natural na Arte é o alto
Absurdo, é o Absurdo, o Fantástico, Intangível! Se eu
dissesse, em páginas, mais tarde, os êxtases volúpicos
que me dominavam no silêncio discreto do Seminário,
diante da Imaculada Conceição, doce e cândida no seu
rosto de porcelana fina, com aqueles olhos paradisíacos
que tanto me aproximavam da serena e celeste luz! Se
eu dissesse quanta nevrose, quanto delírio sexual
percorreu a minha carne naquele solitário noviciado;
quanto misticismo mórbido me ciliciou a alma; quanto
espasmo lânguido me dominou o corpo, certo me
julgariam louco... E depois, quando deixei a paz austera
do Seminário, a sua clausura mestra, os seus hábitos
duros; quando deixei toda aquela vasta, longa melancolia
que dentro dele reinava como nevoenta Visão de
meditações e recolhimentos; quando despedi-me das
suas paredes brancas, das suas torres simbólicas, das
suas árvores evangélicas, da sua fachada ampla e
adormecida olhando para a alegria verde do Mar – e caí
então na plebéia profanação da Existência – ah! que
484 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
complicadas sensações de prazer, de recordação, de
mundanismo, de misticismo, de liberdade, de saudade,
de inexprimível angústia, promiscuamente vivendo
dentro de mim e viçando os mais tenebrosos, os mais
negros e já agora irremediáveis tédios!
No entanto, se eu descrever um dia com flagrância
de tintas, com violências e cruezas, todo este trecho
passado da minha vida; se eu lhe der todo o
impressionismo abstrato, todo o requinte de sensibilidade
e mesmo até de impressões fantásticas, dirão que eu
não tenho a mínima observação do Natural, que não
observo a verdade inteira, e sou, em tudo, absurdo.
– Belas palavras, essas, a verdade, a observação!
Tanto é verdade aquela que determinadas
individualidades apenas vêem com os olhos, apalpam
com o tato das mãos, ouvem com os ouvidos,
experimentam pelo paladar, aspiram pelo olfato,
apreendem com a atenção, lembram com a memória,
percebem, enfim, com todos os sentidos inferiores, como
é verdade a verdade que a Imaginação vê, que a
Concepção cria, que o Ideal fecunda, que o Sonho
transmite, desde que não haja, no modo de reproduzir
essa verdade vista pela Imaginação, uma completa
hipertrofia sensacional e sim, de certa forma, um fundo
lógico, rítmico, harmonioso e equilibrado, até mesmo no
próprio Absurdo.
Tanto é verdade todo esse mecanismo, todo esse
aparelho montado, toda essa fotografia exata, de exatidão
até à futilidade e banalidade, como é verdade, tanto
mais verdade ainda, tudo que os Estesíacos sentem
através dos seus entontecedores desvairamentos,
através dos seus espiritualizantes espasmos, dos seus
êxtases emocionais e profundos.
A verdade na Arte existe em cada temperamento
sincero que se manifesta, em cada singular sentimento
que se revela, em cada alma original que vem dizer o
seu segredo à Vida!
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 485
Porque a perfeita verdade da Vida na sua alta e
pura essência, não é tangível – é intangível. Para apanhála não se faz mister uma visão direta, uma observação
imediata, muito perto dos fatos, muito em cima dos tipos,
nem um psicologismo científico sistemático, à outrance.
A frase do egrégio Balzac – o artista adivinha o
verdadeiro – é de uma eloqüência profunda e
transcendental neste assunto.
A vida é real e é ideal, é ideal e é real. As
inverossimilhanças, as coincidências, os acasos, os
pressentimentos, a fatalidade dos seres, os absurdos,
as exceções dos fenômenos gerais, as correntes de
atração simpática ou antipática, as impressões
desconhecidas, os espasmos ou estados patéticos, o
contato, o choque, o encontro magnético e curioso das
almas, o Indefinido das cousas, como que constituem o
secreto lado ideal, fantástico, de sonho, da Vida.
A alta verdade da Vida está em Hamlet – pêndulo
miraculoso e eterno que marca as oscilações da Alma.
Hamlet surge-nos de um fundo diluído e tocante
de lágrimas e lírios, da evocação simpática e doce do
Angelus das almas, num crepúsculo abençoado de infinita
dolência, espiritualizado como um círio divino
bruxuleando na câmara mortuária das almas numa luz
final consoladora.
Hamlet é o céu melancólico das almas, cujas
estrelas tristes, contemplativas, deslumbram-nos de um
gozo quintessenciado e nos tornam cegos e perplexos de
Indefinível...
Hamlet é a grande ansiedade do Sonho, é o Sonho
se dilatando, se dilatando, como celeste, sideral
serpente, na esfera da Dor, tomando nessas
transfigurações, esses velados, sombrios silêncios e essas
nevrorias mentais da Dúvida.
Hamlet é o violino imortal e secreto do Pensamento
humano que as torturantes noites nebulosas da
Consciência ferem de sons desolados.
486 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Hamlet é o Arcanjo supremo das nostalgias, branco
e belo, meigo, arrebatador e convulsivo, cujo gládio em
chama fosforescente flameja num fundo de sombra de
exótico e fulminante desdém e cujo grave gênio pálido,
de uma alta e velha aristocracia de Sensibilidade,
requintada e esquecida para além nos limbos da Saudade,
se debruça, desespera e chora delirantemente sobre o
ideal firmamento de astros mortos do seu amor...
Hamlet não é louco, não é doente, não é epiléptico,
conforme o veredictum, as investigações e cogitações dos
críticos, dos fisiologistas e psicólogos de todos os tempos.
Hamlet é o zênite da alma humana, nos seus
momentos augustos e tremendos, nos seus estados
soberbos e soberanos de laceração. É o espasmo do
desdém e do orgulho transcendentalizados, acima das
camadas da Terra, girando no Absoluto. É o Abstrato
que odeia e que ama, que perdoa e que castiga. É a
Matéria que tem sede de ser Sombra, para esvair-se,
para apagar-se, para desaparecer da Matéria que a
encarcera, e que a tortura. É a vibrante chama sensível
da Aspiração insaciável que sonha ser o pó do Nada,
para que o invólucro físico e efêmero que a contém possa
acabar de aspirar e de sofrer. É o sentimento da volúpia
radiante, redentora e purificadora da Morte na Vida,
secretamente embalsamando de um aroma letal
estonteador, como um longo e lento beijo imortal de alémtúmulo, os infinitos da Eternidade.
Cada homem, quando se escuta a si mesmo,
quando se olha a si mesmo, quando se palpa a si mesmo,
quando desce em silêncio à funda cisterna imensa de si
mesmo, há de sentir um pouco de si mesmo no Hamlet,
daquelas irrequietabilidades, daqueles surdos, soturnos
e subterrâneos desesperos, daqueles preguiçamentos
edênicos, daquela alma não alma, daquele ser não ser,
daqueles sublimes vácuos candidamente e
misteriosamente cheios ainda de tépidas e quiméricas
irradiações de estrelas apagadas.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 487
Os tipos de Shakespeare não são absurdos
propriamente ditos, nem são fantásticos; todos, mais ou
menos, existem nos fenômenos livres e simples,
espontâneos, ainda que muito pouco visíveis ou
perceptíveis, da Natureza; isto é, cada um no seu
conjunto, no seu todo, tem as particularidades secretas
peculiares a cada ser. São tipos que rigorosamente não
existem no seu modo complexo. Mas cada sentimento
obscuro, esquisito, raro, subterrâneo, misterioso, de cada
ser em particular, representa uma célula do organismo
de cada tipo de Shakespeare, uma qualidade formadora
daquelas concepções. Esses sentimentos todos, na suma
unidade geral, na mais alta condensação, é que
concorrem para a formação capital das sínteses
maravilhosas de Shakespeare.
Porque nele os tipos vinham por blocos inteiriços,
por avalanches de paixões, por complexidades sugestivas,
o que por isso lhes dá a significava toda especial de
Criações.
Entretanto essas Criações não entram em
absoluto nas regiões do incognoscível absurdo nem do
incompreensível; são, pelo contrário, possíveis e
verossímeis no Tempo e no Espaço, no infinito dos
sentimentos humanos, porque definem esses próprios
sentimentos em teses formidáveis, embora não sejam
tangíveis os objetivos que tais Criações genericamente
representam e simbolizam.
Mas, justamente porque a natureza sutil de certos
fenômenos da alma e da consciência nos tipos de
Shakespeare se encontra harmonicamente num dado
momento com a natureza sutil dos fenômenos da alma
e da consciência humana, num choque emocional
profundo de forças e de elementos que se reconhecem e
equilibram, é que as obras sintéticas de Shakespeare
serão eternamente aclamadas, ainda que só
intimamente e mais profundamente admiradas e
sobretudo mais sentidas por capacidades artísticas, por
488 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
intensidades mentais nervosas cujos fenômenos girem,
mais ou menos, pelos mesmos pólos por onde gira a
genialidade assombrosa de Shakespeare.
Para isso é preciso subir toda a escala misteriosa
da Intuição e chegar a certos altos espasmos psíquicos
da alma.
Esses que dizem perceber Shakespeare, admirar
Shakespeare, sentir Shakespeare, para o fazerem vestem
casacas de erudição por dentro, concentram-se
oficialmente, ficam graves e sérios, tornam-se os difíceis
e os inacessíveis da Sabedoria, porque, no entender
deles, é necessário toda essa compostura solene, todo
esse aparato clássico de maneiras e atitudes, quando,
no entanto, para ver Shakespeare basta penetração clara,
pureza e nitidez de ser, porque ele é uma expressão da
Natureza, por certo a maior, a mais intensa, a mais
condensada, a mais transcendente, mas uma expressão,
uma força fenomenal dela deslocada, como se deslocam
os corpos meteorológicos e cósmicos. Sendo um foco
central Shakespeare é, no entanto, uma expansão
natural dos elementos vivos e superiores da matéria
organizada, é uma voz de todas as vozes, uma hora de
todas as horas, um tempo de todos os tempos, uma
atmosfera de todas as atmosferas, um ser de todos os
seres, uma alma de todas as almas.
Se Shakespeare não tivesse atrás de si séculos,
nem as gravidades dos doutos juízos dogmáticos, nem
as fundamentações de teses críticas, nem os
rebuscamentos fundos de análises psicológicas, de
agudos comentários, nem as réplicas e tréplicas famosas
das argumentações cerradas e fecundas como as
camadas da Terra, Shakespeare não seria visto com essa
encenação prodigiosa nem com esses estilos oficiais,
nem com esse fundo sonhado que lhe dá a distância do
tempo. Quase que já se aliena do cérebro a idéia de que
Shakespeare fosse matéria animada, estivesse sujeito
às leis fisiológicas dos outros homens. Hoje o seu Gênio
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 489
perde-se no Espaço, é como o fio do infinito do Espírito
unindo-se etereamente ao fio do infinito da Matéria e
formando um só corpo abstrato.
Para entender, para amar, para sentir
Shakespeare é apenas preciso vê-lo sem convenções nem
preconceitos obscuros de consciência, na mais fácil,
franca e vital nudez do Sentimento, na espontaneidade
do ser, em toda a largueza genésica das suas obras, em
toda a sua amplidão de Liberdade, em todos os seus
gritos de Justiça, em todos os seus brados de
Misericórdia, em todos os seus ais de Piedade, em todo
o seu clamor de Desespero, em todo o seu soluço
universal, em toda a sua dor augusta, suprema, em todo
o seu amor integral e germinal da Natureza.
Shakespeare é uma dessas cristalizações puras e
excepcionais das Paixões, o seu consumado e colossal
gladiador.
Shakespeare, assim como Dante, pelo maravilhoso
das chamejantes esferas psíquicas onde os seus espíritos
rodavam estranhamente, singularmente, pela
grandiosidade patética dos seus aspectos sublimes, pela
resplandecente flagrância, pelo caráter genuinamente
livre, altivo e soberano da sua Imaginação, pelas
iconoclastias à fórmula da Compreensão secular estreita,
pelas irreverências ao Método e ao Dogma, deduzidas
fatalmente e logicamente dos grandes traços gerais e
dos profundos golpes de vista das suas obras, dos seus
temas fundamentais e revolucionários em absoluto, por
conseguinte contra a Convenção moral e espiritual do
Mundo; Shakespeare e Dante, fora do oficialismo e do
classismo dos seus renomes imortais, mas vistos em
toda a larga e luminosa amplidão da Natureza, como
devem ser vistos os grandes Espíritos, são os trágicos e
majestosos faróis magnos de todas as épocas, os órgãos
poderosos e mágicos da Sensibilidade humana.
Shakespeare nos evoca as correntes vulcânicas,
largos e fundos abalos atmosféricos, rara e curiosa
490 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
elaboração de um novo sistema planetário, vales de rosas
e de lágrimas, eclipses de sol e de lua, o Caos tomando
forma e tomando corpo, a luz, por fim, se projetando e
iluminando a Imensidade.
Shakespeare é a Vida por camadas densas,
chamejando e clamando, polarizada no abismante infinito
do Sonho.
Shakespeare é o Grandioso do Belo-Horrível, do
Trágico-Sublime e do Trágico-Grotesco, do Riso-Lúgubre,
do Sarcasmo de lama, estrelas e ais – é o Deus infernal
e o Diabo divino.
Shakespeare é a Flora absurdamente gigantesca,
esquisita e ensangüentada do estranho e morno mar
marulhoso e maravilhoso dos gemidos, dos soluços, das
lágrimas.
Quanto à observação, essa é o fatigado, o gasto
lugar-comum dos que muito pouco ou mesmo nada
possuem além dela. É evidente que um artista, desde
que chegou a requintes superiores, desde que a sua
concepção e forma atingiram graus elevados, se
espiritualizaram, se eterificaram em abstrações, a
origem dessas perfectibilidades, o crisol onde esse artista
se apurou foi no da observação, no da análise. A
observação parece a força mais poderosa, a qualidade
mais particular para os realistas da última hora, porque
no Realismo a observação é flagrante pelo documento
humano, é flagrante nos objetos, nos aspectos, nas
atitudes, nos tipos. Ligeiramente visto, parece, com
efeito, ser a mais radical qualidade, por ficar mais em
evidência, mais no primeiro plano, fazendo como que
um grande relevo no Realismo e sendo assim, por isso,
mais acessível às faculdades inferiores da atenção, da
visualidade e da memória. Mas, o que é certo, é que em
todos os tempos, para dizer um aspeto de céu, de
paisagem, para traçar um fato ou um tipo, nas
narrativas, novelas e romances antigos, houve sempre
a observação, senão com a perfeição e apreensão
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 491
modernas, ao menos com os elementos que as épocas
forneciam. E mesmo nunca se poderia prescindir dessa
observação na ocasião de puras descrições e desenhos
de lugares, de horas, de acontecimentos, de paisagens.
Por isso não me parece que seja a observação faculdade
suprema. Acho-a muito evidencial, muito física, muito
de nota e informação subsidiária, participando muito da
natureza dos trabalhos de investigação material, de
detalhes, de minudências, para poder constituir e
representar a força magna do Pensamento humano. É
até às vezes faculdade elementar, conseguida mais pela
tenacidade de organismos por algum modo oficiais,
inferiores, pela pesquisa paciente, de visão
perscrutadora, do que pelas linhas profundas que formam
a estesia eleita de um artista.
A observação constitui a força básica do artista,
dela é que ele parte para as mais altas abstrações
estéticas, como os Decadentes, os Simbolistas, os
Místicos partem das cruezas brutais do Materialismo,
da tangibilidade do Realismo e do agudo e livre exame
das Idéias positivas, além de outras absolutas origens
idealistas nevro-psíquicas, num movimento natural,
simples e até nobre e claramente evolutivo, de requintes
da alma.
Se dado artista chegou logicamente a um apuro
maior de emoções e só as determina de um modo
abstrato, vago, fluido, não quer isso dizer que ele não
tenha observação, pois essa se enuncia e consubstancia
muitas vezes apenas num vocábulo exato, determinante
próprio e profundo do sentimento, essa ficou, como os
resíduos de um corpo líquido que se filtra, no fundo
daquelas mesmas emoções mais requintadas. E, como a
natureza não dá saltos, uma fisionomia legítima de
artista, desde que se perfectibilizou no pensar e no
sentir, passou primeiro pelos processos, embora obscuros,
desconhecidos, meramente mentais, da mais pura
observação, deixando simplesmente dela, para trás, tudo
492 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
quanto ela tem de mais presente, seco e documental. É
precisamente um trabalho delicado de alquimia da
Emoção, para dar cristalinidade astral ao Espírito e à
Forma, que no organismo artístico intuitivamente e
invisivelmente se opera.
De outro modo, não se daria então o caso dos
artistas que não são realistas se compenetrarem, com
inteira compreensão e unção, do sentimento de
observação e análise de todas as obras verdadeiramente
notáveis, singularmente belas do Realismo.
Aqui mesmo, agora, no que vamos naturalmente
dizendo, com este ar de livre e leve bom humor, estamos
exercendo a observação, mais do que a observação a
análise, mais do que a análise, a direta, a penetrante
psicologia das Cousas.
A observação, a análise, a psicologia, depuradas,
filtradas pela Sensibilidade, produzem, em essência, a
Abstração.
E, já que abordamos estes pontos curiosos,
atraentes, ouve ainda o que penso: Quanto à prosa, para
ligar um fio de palestra que já há dias tivemos e que
agora correlaciona-se a estes assuntos, dir-te-ei que a
prosa não é qualidade excepcional dos prosadores
exclusivos. Para um espírito complexo de Arte, para o
verdadeiro Clarividente, para o Poeta, na grande acepção
de sensibilidade desse vocábulo, prosa e verso são teclas,
órgãos diferentes onde ele fere as suas Idéias e Sonhos.
Prosa e verso são simples instrumentos de transmissão
do Pensamento. E, quanto a mim, se me fosse dado
organizar, criar uma nova forma para essa transmissão,
certo que o teria feito, a fim de dar ainda mais
ductilidade e amplidão ao meu Sonho. Nem prosa nem
verso! Outra manifestação, se possível fosse. Uma Força,
um Poder, uma Luz, outro Aroma, outra Magia, outro
Movimento capaz de veicular e fazer viver e sentir e
chorar e rir e cantar e eternizar tudo o que ondeia e
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 493
turbilhona em vertigens na alma de um artista definitivo,
absoluto.
A prosa não pode ser sempre de caráter imutável,
impassível diante da flexibilidade nervosa, da aspiração
ascendente, da volubilidade irrequieta do Sentimento
humano. Não há hoje, nesta Hora alta e suprema dos
tempos, fórmulas preestabelecidas e constituídas em
códigos para a estrutura da prosa, principalmente quando
ela é feita por uma sensibilidade doentia e extrema. Há
tantas maneiras de fazer cantar a prosa, de a fazer viver,
radiar, florir e sangrar, quantas sejam as diversidades
dos temperamentos reais e eleitos.
E um caquetismo intelectual ou cavilosidade dos
que só produzem verso e dos que só produzem prosa,
não perceberem que determinado artista se manifesta
igualmente no verso e na prosa, especialmente quando
nessa prosa ele consegue traduzir, comunicar com
clareza, com profundidade, a sua estesia, a sua
idiossincrasia, os seus êxtases, as suas ansiedades
íntimas. Pouco importa que essa prosa não guarde
regularidades de preceitos, de dogmas, de convenções,
que embora partindo às vezes de cérebros até certo ponto
livres, são ainda, de certo modo, por certas causas,
convenções puras. O que importa é que o artista consiga
dizer imperturbavelmente, com a sinceridade dos seus
nervos e da sua visão, o que de mais delicado e elevado
experimenta.
Desde que ele tenha conseguido com lealdade
estética essa profunda manifestação do seu
temperamento, tem funcionado na prosa como num
legítimo e perfeito órgão da sua Arte, com toda a virginal
originalidade das formas inquietas, dos estilos que não
são apenas literariamente feitos, que não são apenas
literariamente burilados, intelectualmente brunidos,
mas das formas sentidas, vividas, mas dos estilos
arrancados, sangrados, vibra dos eloqüentemente da
Alma.
494 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Se essa determinada prosa dá sugestões, desperta
curiosidades, faz acordar a imaginação e consegue trazer
no estilo modalidades perfeitamente originais,
correspondentes à originalidade do temperamento do
artista, como, pois, que o que ele produz, não é prosa,
não se deverá chamar prosa?
Por um lado até mesmo parece que não deveria
ser esse o seu nome; não por não abranger o pretendido
sentimento e forma especiais, particulares, da prosa,
mas por ultrapassar, por superiorizar-se, por tomar outra
elasticidade, outras vibrações, outras modalidades que
a prosa convencional e feita sob moldes estabelecidos
jamais comporta.
Demais, prosa e verso, numa dada natureza, são
cordas vibráteis, manifestações integrais e simples de
uma Estética pura e à parte.
E, dessas cordas vibráteis, se muitos possuem
apenas uma, com delicadeza, intensidade e correção
superior, não quer isso dizer que outros não possam, por
excepcionalidade, possuir duas, com igual ou maior
correção ainda, o que simplesmente indica complexidade
e força.
Um ser artístico assim é como uma harpa exótica
de duas cordas: – uma corda para a prosa, outra corda
para o verso, formando os sons de ambas essas cordas
uma igual harmonia.
Há horas em que o espírito, por infinitas dolências,
pela volúpia do Vago, pelo desejo consolador de elevar
cânticos às Esferas, de compor músicas leves, sutis,
ritmos langues, finas baladas, peregrinas barcarolas, de
murmurar, enfim, queixas veladas, cinzela estrofes, vaga
pelas gôndolas siderais da Poesia...
Mas, há também outras horas, em que o espírito,
revestido de severas vestes talares, é arrastado por
sugestões desconhecidas de uma eloqüência magna,
mais indutiva, comunicativa e direta e fala então
clarividentemente pelo Salmo austero da prosa.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 495
Da prosa que nos faz viver com as suas vidências
sugestivas, que cria para nós novos mundos imaginativos,
que nos revela tesouros virgens, intactos de pensamento
e que nos abre de par em par as portas de uma outra
Vida.
Da prosa clarividente e percuciente – alvorada de
fanfarras de ouro e diamantes, que acorda, chamando
alvoroçadamente e nervosamente a postos, os belos e
bravos legionários da Reivindicação do Espírito!
Do verso que nos desperta, que nos chama com
seu amor, que nos procura, que vem a nós
generosamente, que nos conquista e que nos bate
heroicamente ao peito com suas asas de águia.
Do verso que renasce, que ressuscita na glória da
Forma e que semeia d’estrelas e de lágrimas o seio
branco, cândido e fecundo da Alma.
E a Originalidade alacridade nervosa, vinho
acídulo e delicioso da sensação, extravagante humor corde-rosa – timbra claro e quente, com os afidalgamentos
do Estilo, a emotiva e esdrúxula linguagem do
atormentado Sentimento.
Depois, há naturezas que são como cristais de
múltiplas facetas; têm diversas irradiações, brilhos
imprevistos, que são fugidios, escapam a muitas
percepções.
Depois, certas percuciências, certos atilamentos,
certos golpes acres e fundos, embora por síntese, em
tudo quanto é meandro e capciosidade do medalhismo,
certos sentidos, exotismos de forma, dão, para certa
classe incolor e inodora de inteligências, um efeito
d’escândalo obsceno. Como que perfeitamente causam,
sempre, em todas as épocas, em todas as fases, a
sensação brusca, violenta, de um homem flagrantemente
nu entre outros homens inteiramente vestidos e muito
apertados numa espécie de espartilho de convenção
intelectual.
496 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
– É como a velha questão das escolas, dos grupos,
que desorienta e confunde a tantos.
– É verdade, as escolas, as escolas! As escolas só
ficam com os principais, com os chefes ou fundadores.
Só os que conseguem marcar fundo a expressão de um
sentimento e de uma forma, os que têm os
arrebatamentos e alucinações do Sonho e que pairam
fora das órbitas geralmente traçadas. Os mais são
apenas satélites, reflexos pálidos, metidos numa
compreensão restrita como em escuros, lôbregos e
estreitos corredores. Essas filiações, pois, desde que não
há grandes asas desvairadas para plainar no alto, só
amesquinham e vão aos poucos inoculando o espírito
frívolo de moda nos que não possuem temperamento
ingênito nem essa força de isolamento mental para criar
sem sugestões diretas, imediatas. Quanto aos grupos,
tanto quanto é mister a organizações sociais, não há
grupos constituídos, como a Sociedade Amor às Letras,
a Palestra Amena, a Brisa e o Grêmio do Momento
Solene. Os grupos, como se compreende, são os que se
podem dizer criados por abstrações, isto é,
individualidades que já existindo, aqui, além, lá, em todo
o tempo, vêm a se ligar mais tarde, no mesmo meio ou
fora dele, por grandes linhas gerais, por correntes de
simpatia intelectual, por inteiras relações de afinidade
estética, por harmonia de requintes até certo modo unos,
embora cada uma dessas individualidades tenha a sua
enfibratura especial correspondente a um dado requinte.
Os grupos, quanto a mim, só se estabelecem assim,
independente da vontade própria de cada um, mas por
um impulso desconhecido, por um instintivo apuramento,
por uma seleção natural que foge a todas as regras
preestabelecidas.
Assim, meu caro e saudoso seminarista de
outrora, de que servem argumentos de ferro, de que
valem confusões e atropelos, se tudo, na Arte, vai se
aclarando numa luz meiga, inefável, serena como a desta
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 497
tarde que nos envolve, se tudo são embaraços que
desaparecem uma vez que se adquire a força altiva,
embora obscura e humildemente desenvolvida, de uma
convicção e fé verdadeiras?!
Em Arte é escusado negar quem for um ser
definitivo, supremo, como também é escusado afirmar
quem o não for. Não é a opinião deste nem daquele,
nem mesmo do mundo inteiro que afirma ou que nega;
mas sim única e simplesmente a Natureza nas
espontâneas, flagrantes Revelações, no poder misterioso,
na inevitabilidade dos seus fenômenos profundos.
Depois, quando se chega a certas claras alturas;
quando, transfigurados, nos encontramos frente a frente,
e de olhos leais e límpidos, com a verdadeira magia do
Belo; quando, afinal, sentimos dentro em nós viver o
Absoluto, ficamos vagamente sorrindo, serenos e
silenciosos, a cabeça um tanto inclinada numa atitude
beatífica, como, na eloqüente mudez das Esferas, sob a
augusta solidão das estrelas, a atitude patética e meio
sonâmbula de um demônio divino.
De que servem, pois, mofas, de que valem, pois
apupos?
É de ti, deste, daquele, que falam, que vociferam?
Pois as bocas, que eles trazem, para que foram feitas?
Para falar, não é assim? Pois que falem, as bocas... Pois
que unjam de fel o teu nome, as bocas... Pois que se
saciem de ti, as bocas... Pois que lubricamente te
devorem, as bocas...
Que te neguem, por pregões ridículos, por decretos
grotescos, que façam, em torno do teu nome, a campanha
cavilosa do silêncio ou das perfídias e caluniazinhas da
mediocridade e nulidade triunfante – que importa isso?!
– se tu, na serena força da tua Fé, vais calmo, vais
tranqüilo, no radiante humor, despreocupado, simples,
dos que caminham, dos que seguem desdenhando
sempre?!
498 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Riem de ti, acaso?! Pois, então, ri-te, tu, do riso...
A tudo isso, a tudo isso, ri-te, ri-te... Por mais venenos,
por mais perversidades, por mais volúpia maligna, por
mais crime, por mais vício psíquico que essas risadas
possam ter, fica simples e alto, intacto, imperturbável
diante de tudo isso e ri-te, – risadas, risadas, grandes
risadas vibradas d’alto e ao largo a tudo isso – grandes
risadas, grandes risadas!
E, um dia, pelas razões ingênitas da tua
organização, se tiveres uma natureza genuinamente
eleita, tocando alto no Sentimento; um dia que a
manifestares toda inteira, amplamente, tal como se foi
ela de grau em grau fecundando, verás o abalo, os
turbilhões de ar que irás aos poucos deslocando em torno
de ti.
A princípio, os mais fátuos, que te julgarem
conhecer melhor, só sentirão e conhecerão de ti os lados
visíveis, os pontos de perfeita tangibilidade.
Mas, quando a obra que estiver chamejando dentro
de ti for tomando complexidades, absurdos novos,
exotismos, eloqüências esquisitas e por isso
inocentemente agressivas, atacantes e demolidoras nas
suas linhas gerais, sem parti-pris, sem pose, mas por
fundamentações e interações, tudo se bandeará do teu
lado, os de mais lisura ou mais afeta dos apenas de
intelectualidade recuarão de ti como se tivesses lepra
ou trouxesses estigmas infamantes, labéus ignóbeis, e,
desde logo, a cisão fatal se dará então subitamente,
pejando o ar de dissabores amargos de veementes
dissensões...
É como se tu fosses por um livre caminho a fora
com diferentes companheiros e de repente o caminho
se bifurcasse: – várias encruzilhadas, uma direita, clara,
extensa, as outras curtas e tortuosas, se te apresentas
sem diante dos olhos.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 499
Tu seguirias pela mais longa, pela mais ampla,
pela mais larga. Poucos te acompanhariam. A maior parte
tomaria as fáceis encruzilhadas curtas, mas tortuosas...
E, se um dia, chegado primeiro que eles ao termo
da viagem, em virtude da mais pronta acessibilidade do
caminho largo, franco, direito, tivesses de os encontrar
mais tarde, poderias, não há dúvida, apertar-lhes
lealmente as mãos, falar-lhes com simplicidade e afeto,
abrir-lhes cordialmente os braços, mas terias ficado,
pelas dispersadoras fatalidades do tempo, já muito
afastado, muito longe deles.
É que as almas, quando chega a hora alta e grave
dos supremos julgamentos, das seleções supremas,
separam-se inevitavelmente, sem remédio, irreconciliáveis e tristes, só ficando juntas sempre aquelas que
marcham para o centro inflamado do mesmo Objetivo.
Depois, mesmo, neste deserto de pedra das almas,
as almas brancas, essas que trazem a Grandeza e a
Espiritualidade consigo, essas, em virtude das Dúvidas,
das Oscilações ambientes, têm que soluçar até à morte!
Enquanto passares por certa fase de incipiência;
enquanto deres a esperança de ser uma eterna
esperança; enquanto te julgarem o perpétuo acólito
reverenciador e discreto, a fácil muleta de apoio às suas
vaidades e pretensões, todos te bafejarão como um
recém-nascido beijocado de mimos, amamentado com
carinhos babosos, cercado de cuidados infinitos, de
enleios afagadores. A Hidra das Literaturas, supondo-te
tímido e nulo, te embalará em seu seio, iludida contigo,
dizendo soturnamente: – este é dos nossos! este é dos
nossos!
Mas, assim que levantares resoluta e
inabalavelmente a fronte, assim que começares a
manifestar mais a recôndita sensibilidade dos teus
nervos, a insatisfação da tua estesia, assim que o teu
espírito for se difundindo no espaço, enchendo as
500 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Esferas, a boa Hidra-Mãe te será carrasco, forjando para
a tua cabeça, subterraneamente, a guilhotina feroz!
Vendavais de antipatias, de ódios, de despeitos,
de retorcidas e esverdeadas invejas soprarão
desencadeados sobre os teus ombros atléticos e firmes...
Enfim, carregar cruzes, arrastar calvários, irás
pelo mundo, irás pelo mundo!
Se trazes com efeito contigo uma feição nova da
Arte, trazes contigo uma Dor nova...
Se trazes com efeito contigo a inflamada matériaprima para fundir os Ideais mais nobres e belos, agora é
só comunicar-lhes vida, intensos sopros de vida, te
concentrares neles, e resplandecer, e alar...
Nessas romarias e escaladas obscuras em que por
ora vais, pelo Espírito, não sejas dos oportunistas da
Arte.
Acompanhe-te, ilumine-te sempre esse profundo
sentimento artístico de abnegação cultual, de
resignação, ou antes de conciliação na Dor, de
desprendimento completo das Ambições e Ostentações,
do Grande-Lânguido Verlaine, alma de meigo lirismo,
essa frescura e velhice cândida de emoção, FaunoSacerdote a oficiar nos Missais hieroglíficos da suprema
volúpia da Forma ou desse outro ducal, aureoladamente
flordelisado e excelso Villiers de L’Isle Adam, sublime e
celeste Artista, que tem para mim um encanto misterioso
de cintilação planetária e uma solenidade sagrada de
tabernáculos intactos.
Que a tua forma seja floresta, seja mar ou seja
céu!
Segue, com unção e contrição, essa espécie dolente
de martirizados Santos sem nichos – Santos temerários
que afrontam com impassibilidade os incêndios
devoradores das paixões do mundo; que, como Santo
Estêvão, se deixam brusca e impetuosamente apedrejar
na concavidade do peito, tendo a douta, a erudita
clemência apostólica de Santo Agostinho.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 501
Segue esses Santos tristes meio obscuros e
poderosos, meio humildes e rebelados, meio ironistas e
sarcásticos. Seres mórbida e voluptuosamente
estesíacos, eles como que trazem um curioso desvio do
sexo, fazendo evocar Santa Teresa de Jesus, cuja
requintada mortificação no recolhimento da cela parecia
significar a tortura máscula, viril, do sentimento de um
eleito da Grande Arte, que se tivesse ido
fenomenalmente asilar, por sutil, imperceptível erro
genésico, num delicado e nervoso temperamento
feminino...
Falo-te assim, venho formando diante da tua
imaginação prenuncial de noviço esta atmosfera de
Evangelho e Religião, não por abusados e calculados
misticismos, mas porque falo a quem, pelo menos, sentiu
já, nas reclusões aquietadoras do Seminário, os grandes
e graves Ensinamentos e Eloqüências e Intuições da
Religião, na sua essência livre, na sua estética original
e na sua harmonia.
Segue, pois, com todos os teus exageros de
natureza, com todos os teus grandes defeitos aclamados,
que a Chatez gloriosa há de esmiuçar e descobrir mais
tarde, para não se sentir muito pequena, diminuída na
tua presença; defeitos só correspondentes a grandes
qualidades, e que constituiriam, só por si, de tão
eloqüentes e francamente excepcionais que são, as obras
mais espontâneas e impressionantes dos que não trazem
nem mesmo esses grandes defeitos, dos que são apenas
individualidades feitas, intelectualizadas, mas não
originadas de fatais e enraizados fundamentos artísticos.
Ah! esta sufocação de ar, esta asfixia, estes
escrúpulos, esta suscetibilidade por ver-se a gente livre
de todos os incipientes, de todos os noviços, que são
eternamente incipientes, eternamente noviços, “porque
não têm horas vagas para obrazinha, porque isso de
Literaturas não dá pão para a boca”, e outras capciosas
razões de impotência que eles entre si discutem.
502 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Sim! porque quanto a mim o Artista é um
predestinado!
Quanto a mim ele é como uma ave estranha que
já nascesse com as suas asas poderosas e gigantescas,
ainda retraídas embora por algum tempo, mas que depois
as fosse abrindo aos poucos, abrindo, abrindo, até que
se distendessem de todo pelos espaços fora, projetando
então a sua grande e consoladora sombra de Amor sobre
o velho mundo fatigado.
Ah! esta ansiedade de segregar-se a gente desses
liliputianos prolíferos, que se reproduzem mais
indefinidamente que os bichos-da-seda; que nos agarram
pelo braço, que nos entram pelos ouvidos, pelos olhos,
que nos atordoam com prosas e versos, sempre muito
superiores e requintados!
Dessas individualidades grotescas, que querem
tomar a Arte de assalto e à bruta, sem nunca
compreenderem profundamente as cousas, por mais que
falem, por mais que gesticulem; verdadeiros animais de
corrida que pensam que a Arte é uma questão de aposta
para ver quem chega primeiro e mais garboso ao final.
Iconoclastazinhos, sem essa veneração nobre, sem
esse recato elevado, esse melindre das naturezas
concentradas, cujo acatamento e cujo fundo de timidez
característica são o toque mais belo e mais digno dos
que reconhecem justa e eloqüentemente a superioridade
dos outros, exprimindo e demonstrando também assim,
por essa forma simples e simpática, uma das faces da
sua própria superioridade.
Oh! insaciável, ardente aspiração de árvore antiga,
legendária, que quisesse ficar completamente liberta
de todas as parasitas, de todas as ervas, de todas as
lianas, de todos os musgos, de todas as trepadeiras e
baraços e nervosidades e vertigens de folhagens que a
abraçassem, que subissem por ela acima, que a
povoassem de verdura alheia – deixando-a só, só, simples
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 503
e cheia de sombra, vivendo serena e silenciosa, ou
gorjeada da Aleluia dos pássaros, para a Amplidão azul!...
Não, não será por um estreito pessoalismo
egoístico, por uma compreensão acanhada, por uma
presunção individual que tu te manifestarás com
excepcionalidade de sentir, de ver, de pensar.
Mas o teu lábio arderá de tanta inquietude,
palpitará de tanta febre, sangrará tanto que tu exprimirás
então por Sínteses tudo o que constitui a essência do
teu ser e passarás assim por iconoclasta e pessimista à
outrance, apregoador de falsos paradoxos, demolidor sem
o fundo de um objetivo honesto, fútil, folgazão, mundano
que afinal até inveja as glórias mais decantadas que
cem mil trombetas proclamam das velhas muralhas de
Jericó da Opinião!
Mas tu, como um inquisidor original e santo,
purificarás com o fogo benéfico do teu Espírito essas
chagadas consciências humanas debatendo-se,
desoladas numa impotência que escondem sempre bem
fundo como certos tísicos escondem, negando, o grau
agudo da doença corrosiva e lenta que os dilacera.
Nós outros, que por aí dolorosamente andamos
desbravando as florestas virgens da língua, deflorando
os viços púberes do vocábulo, procurando dizer claro,
claro como trompas sonoras estrugindo no mar sargaçoso
e resplandecente, numa rosada manhã de pesca, claro
como se o sol falasse, os nossos estados d’alma, os nossos
êxtases, as nossas idiossincrasias e inquietudes, de
abelhas nos caprichos curiosos da colméia, somos como
fantasmas múmicos, por desertos, batemos de cheio em
paredes de bronze, rebentamos horrivelmente a cabeça
contra tenebrosas masmorras de granito...
E vê, vê tu lá que não é isso uma visão do avesso,
um modo rude, violentamente carregado, de sentir; –
mas, tu que sonhas, que ambicionas já ser limpo nas
tuas Enunciações, trazer o sinal característico, o cunho
imaculado, a prata e a bronze, a ouro e a aço, a sol e a
504 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
sangue, de uma evidência firme, vê lá bem se não é
assim tudo, se tudo não é corja, corja, corja que rasteja,
corja que raiva, corja que ruge, hordas brutas que
bramem, bárbaras, hórridas hordas...
Através da névoa delicada das cismas que te tecem
brando e emovente crepúsculo nos olhos, eu vagamente
pressinto radiantes lineamentos, revelações curiosas do
teu Oriente espiritual futuro, como das neblinas
tranqüilas e luminosas desta carinhosa tarde que finda
antevejo a aurora flavescente de amanhã...
Sugestivamente, agora, cheia de concentrações e
de vago, a tarde descia, mística, suave e sagrada,
evangélica, para a Religão solene do Silêncio...
Derradeiras harmonias veladas, de sol e sombra,
erram indefinidamente nos espaços...
E, sombra e sol, na transição dessa hora
meditativa, como que parecem sensibilizados, tocados
de emoção humana, de músicas enevoadas, misteriosas,
sonorizando os afetivos acordes de almas virgens, mortas,
felizes e firmes, com alvuras meigas de Castidade, na
solidão da Fé cristã.
Dorsos de colinas, ao fundo do mar calmo,
recortam-se nitidamente no horizonte, já mais vago,
esfuminhando o doce tom de verdura que ao longo e ao
largo aveludesce.
Um barco, lentamente, fere as águas melancólicas
do verde e vasto mar amargo.
A embaladora dormência dos aspectos dá um
repouso pacificante...
E, dentre a crepuscular serenidade, mais densa
aos poucos, voa, vai e vem e volta através da espuma
branca das ondas, pelos aloendros floridos e salitrosos,
uma ave alvinitente, de incomparável suavidade, que
não canta, mas que dá saudosamente à tarde a mais
tocante espiritualidade só com o encanto aéreo dos vôos,
só com o ritmo leve, fino, das asas simples e venturosas...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 505
O sol, nos opulentos damascos do Poente imergira
já de todo, profundamente: – Nero lascivo, em tédios
augustos, no gozo mórbido das chamas rubras do
incêndio de Roma; Rei guerreiro, por entre as púrpuras
sanguinolentas de acres batalhas.
As sombras, vagarosas, no delíquio final do dia,
descem, descem...
Estrelas, num esmalte finíssimo de cristais e
pratas, começam a florescer, a marchetar o firmamento,
em faiscantes e trêmulas claridades de Relíquias
miraculosas.
Soberba, imensa, prodigiosamente branca,
misteriosa, como eterna paixão estranha, uma lua
brumosa, feiticeira e lendária, surge, trazendo vivamente
um desejo na face triste, atormentada, arrastando
pesadelos sinistros de assinaladores presságios de
vingança...
A paisagem amplia-se num adormecimento
luminoso e velado, toda ela recendendo aromáticos
eflúvios, como se névoas delicadas de perfumes
luxuriosos, queimados em ânforas invisíveis, ondulassem
vaporosamente...
E, sob a noite, que pompeava profunda, aureolada
da resplandecência maravilhosa das Estrelas e da Lua,
os dois vultos, como missionários graves dos sombrios e
supremos Sacrifícios, seguiram mudos, calados, a cabeça
descoberta ao sabor carinhoso da aragem perfumada.
Assim graves e abstratos caminhando
atravessavam agora as abóbadas cheias de segredos
noturnos das grandes árvores frondosas de um vasto
parque, parecendo, então, pela austeridade religiosa que
os exaltava nesse momento, penetrarem, reverentes e
calmos, paramentados solenemente, no majestoso
Vaticano da Arte.
506 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
MORTO
No féretro negro, por entre os círios langues, o
grande, o doloroso Errante está serenamente morto.
Está morto, no féretro negro, para nunca mais
ressurgir! aquele espírito doentio e torturado, aquele
organismo triste, tenebroso, que trágicos pessimismos
humanos fecundaram do ódio mais canceroso,
gangrenado.
Ali está, gélido, rígido, alto, esquelético, com o
fino aspecto delicado e singular de um magno aristocrata
martirizado, inquisitoriado, a cujo fugitivo semblante
duros cilícios deram a expressão lancinante de sacrifício
ascético.
Não sei sob que sugestão de pesadelo ou de letargo
fica o pensamento diante desse mortuário aparato, que
o morto parece avultar aos meus olhos, ter a enformatura
titânica, a grande e extraordinária corpulência de gigante
rojado por terra, subjugado, vencido pela majestade
suprema de uma dor avassaladora, imensa...
Do tom negro do féretro destacam, brusca e
pavorosamente, os tons brancos, álgidos, crus, irritantes,
dos gelos da Morte...
O corpo, hirto, tensibilizados os nervos na extrema
convulsão do tremendo e derradeiro momento, tressua
um frio horrível, lesmento, que parece, tal a agudeza da
impressão mortal que se experimenta, tocar,
envenenando, por filtros letais, o pensamento...
No silêncio aflitivo e torvo do ambiente como que
vagam, num refrain lúgubre, numa sinistra litania,
errantes, incoercíveis vozes de além-túmulo, crocitando:
morto, morto, morto!
E a impiedosa palavra, amargamente desdobrada
em angústias, ecoa, ecoa, perde-se no silêncio aflitivo e
torvo do ambiente, como um dobre agudo, cortante,
arrepiando e pungindo: – morto, morto, morto!...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 507
No entanto, esse aristocrático cadáver, que agora
tudo aterroriza e lesma, edificou outrora na Imaginação
palácios encantados de índias opulentas, bebeu o vinho
perturbador da Vida até à saciedade, sentiu com
intensidade a paixão das cousas como chamas eternas
que o devorassem e, como por um lodo verde e putrefato,
foi vorazmente invadido pela febre pestilenta do Mal...
Goza-se agora uma sensação esquisita, mas
eloqüentemente bela, em evocá-lo em Vida: quando ele
voltava da vertigem, da alucinação das turbas; quando
ele errava exilado, perdido, lívido, soturno, silhuético
na sombra da multidão desdenhosa, arrastado pelo
turbilhão devorador dos fatos, sem hora e sem rumo,
como fora de todo o tempo e de todo o espaço – fantasma
do Vácuo, impelido pela avalanche sangrenta dos
sentimentos atrozes que o apunhalavam, que o
retalhavam...
Evocá-lo em Vida, desde a profunda cabeça que
um nirvanismo búdico assinalava, cabeça venenosa de
serpente que em vão a si própria morde, cabeça donde
voejaram idéias sinistras como famulentas aves de
rapina.
A face, branca e lânguida, de um estremecimento
precocemente senil, que os livores de intensa mágoa
tornavam ainda mais branca, mais esmaecida e
transfigurada... Face trêmula e fria, como velho e
maravilhoso mármore móvel, acusando todos os
nervosismos interiores, todas as vibrações recônditas,
todos os tédios desesperados e infinitos.
Os olhos lúridos, desse lúrido sombrio que dá a
biliosa expansão dos ódios, olhos turbados pelos nevoeiros
da amargura, pela melancolia da meditação, ou
estranhamente iluminados pelos incêndios do delírio e
onde a feérica fantasia rutilara e cantara outrora; esses
olhos fatigados que tanto se queimaram de curiosidades
exóticas, de visualidades fantásticas, de miragens
excêntricas, que tanto se embriagaram na orgia da luz
508 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
e do sangue, que tanto viram, gozaram, se extasiaram e
esgotaram na paixão de olhar, que tantas vezes sentiram,
atônitos, estupefatos, a Visão do Ignoto persegui-los,
afligi-los, agoniá-los...
A boca, a boca mordaz de outrora, acre, violenta,
remordida asperamente de um sarcasmo satânico,
ansiada de apetites, aberta na febre voluptuosa de devorar
os frutos atraentes do pecado, e rubra, rubra, acesa num
colorido vermelho de guerra, gritando e cantando guerra,
gritando e cantando guerra, gritando e cantando guerra,
guerra, guerra, guerra, por toda a parte, por toda a parte,
por toda a parte...
Evocá-lo nas mãos, luxuosas mãos de príncipe
esvelto, esgalgado, nas mãos de falanges longas, e
rememorar que gestos curiosos, magos, que hieróglifos
demoníacos, que símbolos miraculosos aquelas mãos não
traçariam finamente no ar!? Quanto poder dominativo,
real, que solenes predomínios, que majestade suprema,
só com um sinal rítmico dessas mãos inteiriçadas agora!
Quanto ideal e quanta glória impulsionados no gesto
simples, sóbrio, das mãos que tão veementemente
palpitaram, que tanto estremeceram e pulsaram vivas
como dois estranhos corações que vibrassem juntos! Que
fugidias expressões nas linhas, nas curvas e que fluido
de mistério, que segredo nos atritos, no contacto quente
dessas mãos que foram já os seres caprichosos, flexíveis,
dúcteis, das delicadezas da forma. Dessas mãos
batalhadoras, combatentes, tenazes, onde uma vitalidade
excepcional de atividades circulava; mãos intrépidas,
vitoriosas, cheias de emoção, de sensibilidade, de alma,
penetradas de uma bravura indômita de aplicação, de
altivez e sereno orgulho; mãos donde parecia alarem-se
leves asas diáfanas e triunfais de um sonho e cuja
ramificação das veias, em múltiplos raios estriados,
parecia também acusar uma eflorescência perpétua de
qualidades, de aptidões, de sentimentos, de gostos, de
secretas e particulares predileções do tato...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 509
Para onde foi, já, todo esse surpreendente encanto
das mãos, toda essa maravilha de sutilezas de pássaro,
de névoa, de nuvem, que as duas mãos enigmáticas desse
enregelado e esgalgado cadáver por tanto tempo
prodigiosamente contiveram?! Onde, já, a beleza artística
do seu gesto, a graça da sua ductilidade, a eloqüência
do seu movimento?...
E os pés, – ah – e os pés?! Por onde ficou perdido
todo aquele alvoroço e ardor de caminhar, toda aquela
sede insaciável, toda aquela angústia de percorrer
caminhos, de demandar estradas, de conquistar
distâncias, de romper nervosamente, infatigavelmente,
o rumo de um Destino desconhecido?! Onde essa febre,
essa febre de caminhar, de vagar sonâmbulo, pelas
noites, pelos dias, taciturnamente? Onde? Onde essa
nervosidade, esse calor latente para errar, para
noctambular só, por entre os rudes aspectos hostis da
Natureza fechada em trevas, mudo e só nas noites, sem
estrelas e sem rumo!
Onde a ansiedade vertiginosa, delirante, desses
pés agora frígidos, parados no espasmo terrível, no
doloroso enregelamento, petrificados na amargurante
saudade de rasgar caminhos ermos e infinitos?! Pés
inquietos, impacientes, atormentados pela desolação dos
desertos, queimados pelas tórridas areias saarianas, e
agora – ah! – para sempre álgidos, hirtos e horríveis,
rígidos no féretro, para jamais caminharem, para jamais
errarem, como que numa glacial ironia de mudez e
terror...
510 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
VULDA
Os veludos e aromas noturnos do teu próprio nome,
Vulda, têm o estranho encanto dessa indiana majestade
bramânica e ao mesmo tempo uma volúpia morna de
luar de Verão, derramado lânguido, lento, molemente,
pelas longas e caladas praias claras...
Desperta-me o desejo do longe, do ignoto, do
remoto, do ermo, do indefinido, na nonchalance, na
displicência e preguiça aristocrática de um príncipe êxul,
que erra e sonha, contemplativo e solitário, nas arcarias
góticas dos nobres pórticos onde viera vê-lo, outrora, a
Amada peregrina.
Sempre que o pronuncio, sempre que ele me aflora
aos lábios, Vulda, experimento a sensação esquisita do
sabor de um fruto delicioso, de maravilhosa tonalidade,
sazonado num clima d’ouro e d’azul, por sóis germinais
e terras virgens.
Sempre que o pronuncio, como que sinto o lábio
sangrar, sangrar, pelo gozo vivo, intenso, de o pronunciar,
como se a minha boca mordesse com avidez, com gula, a
polpa deslumbrante de áurea carne viçosa, pubescente,
fina.
Fico num êxtase de o murmurar baixo,
mansamente, e o ficar gozando, gozando, quase
palatalmente, no requinte voluptuoso de todos os
sentidos apurados.
Evapora-se dele o eflúvio emoliente, langue, da
penugem sedosa das gatas a coleante e hipnótica
nervosidade das serpentes, tentando, fascinando,
tentando, magneticamente fascinando pelo brilho agudo,
aterrorizante e elétrico, dos sinistros olhos letíficos...
Como que escorre do teu nome um óleo doce que
tudo fluidifica, dilui...
E faz pensar num vasto mar desolado, deserto,
em regiões longínquas, onde, d’alto, d’asa espalmada e
ufana, pássaros tardos voam...
Nome excêntrico, lembrando o tropicalismo de uma
vegetação exuberada, exultante de seivas, que dir-se-ia
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 511
profundamente vibrada de sensação psíquica, vivendo a
nevrose estética de sentimentos delicados.
Ele evoca-me o colorido extravagante, exótico, de
uma Flor selvagem e rara destas prodigiosas florestas
da ampla e verdejante América – Flor aberta através as
vertigens e as pompas de folhagens seculares e através
as plantas gigantescas e esdrúxulas, de uma
complexidade original de germens, de fibras, de infinitas
raízes, de cheiros acres, mornos e intensos, de nuanças
e formas múltiplas, como de desejos e aspirações vivas.
Teu nome sugestivo, conceptivo, constela-me a
Imaginação de bizarras e preciosas fantasias.
E só de o lembrar, só de o recordar e acender nos
lábios, uma grande Saudade fere-me pungitivamente a
alma, que agitada estremece, e tu, então, surges, Vulda,
surges do meio de um clarão esmaecido – não sei se
viva, não sei se morta!...
Não sei se viva, com a boca alvorada num beijo em
febre, os olhos crepitando na chama de uma luxuriosa
ansiedade, e vagos, vagos na perdida dolência infinita
das cismas e melancolias.
Não sei se morta, álgida, mumificada, os impolutos
braços e seios florescentes outrora, agora lívidos, rígidos,
desvirginados pela peçonha lesmenta, larvosa, da Morte...
E há também o langor d’onda quebrada,
adormentada, Vulda, no teu nome nostálgico e evocativo
de extasiantes ocasos – nome harmonioso, ritmal, de
voluptuosa graça d’ave, voando, Vulda; nome sonâmbulo
de mistério, Vulda; nome impressionante, velado,
solitário e dolente, de monja, Vulda; nome de Visão
alanceada, martirizada, em cilícios e sonhos circulando,
volteando, Vulda; nome, enfim, de trágica, de bárbara e
bela, sanguinolenta Rainha de aventuras e apaixonada,
apunhalando, em gôndolas, sobre golfos, nos
alucinamentos do ciúme, pelas maravilhosas noites
prateadamente estreladas do Adriático, num delírio
romântico, os patéticos Manfredos espiritualizados e
pálidos...
512 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
ANJOS REBELADOS
Trindade de tristes e de trêmulos, sombrio terceto
do Dante, todas as tardes, pela violácea bruma poente,
aquelas velhas obscuras apareciam, solitárias, soturnas,
e tomavam diretamente o nebuloso caminho do Campo
Santo.
As suas três altas e graves figuras de impressão
violenta, talhadas em relevo forte, evocavam mesmo,
juntas, um titânico terceto dantesco, pela expressão
funda e singular, pela majestade sagrada que ressaltava
dos seus semblantes pálidos e macerados.
Mas, quem olhasse bem para elas, quem lhes
penetrasse as psicologias profundas, sentiria que através
de toda essa austera e estranha fisionomia pairava uma
candura diáfana, a meiga e terna suavidade de Grandes
Anjos brancos e piedosos.
O encanto de um sonho, o sentimento de uma
infinita nostalgia, dessa nostalgia de seres emigrados
de regiões longínquas e misteriosas nimbavam os seus
perfis assinalados de uma unção celeste.
Era como se elas tivessem realmente descido dos
céus, brancas e arcangélicas, as grandes asas excelsas
palpitando, o grande resplendor das Onipotências e das
Graças nas frontes intemeratas, para purificar e tornar
perfeitas as pobres almas na Terra.
Toda a intensa e nobre vida afetiva, toda a
resignação, todos os abnegados sacrifícios, todo o imenso
martirológio humano cantavam elegias, melancólicas
sonatas nos seus olhos misteriosamente nublados pela
névoa das desesperanças...
Percebia-se que eram Mães, pelo acentuado das
solenes figuras, pela linha das cabeças sublimadas,
grandíloquas, que uma larga auréola de estoicismo
circundava, santificando.
Mas, porque a Dor transforma as almas mais
belas, faz blasfemar as consciências mais firmes e
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 513
crentes, faz poluir de deprecações e anátemas as bocas
mais castas, mais impolutas e santas, as três Dolorosas
se transfiguravam, os seus corações traspassados das
espadas dilacerantes da agonia infinita, enchiam-se de
um torturante fel, de um mal secreto, de uma terrível
cólera sacrílega contra o Vago, o Desconhecido, o Incerto.
E, então, os Grandes Anjos brancos e piedosos
eram agora os Anjos Rebelados, iluminados pela luz das
Vinganças absolutas, de joelhos junto aos túmulos
amados dos filhos, com os braços abertos em êxtase, na
ansiedade e palpitação de asas que desejam abrir vôo
para além, para além das recordações.
A angústia que lhes agitava os espíritos, a
atmosfera circundante: – campas, contemplativos
ciprestes, chorões suspirantes, eucaliptus nervosos e
contorcidos, a doentia vegetação de todo o Campo Santo,
aquele ambiente carregado de impressionismos lúgubres,
de silêncios penetrantes, de solenidades panteístas,
davam às três velhas e aflitivas figuras uma eloqüência
suprema de Videntes.
A rudeza, as asperezas, os volteios chãos e simples
da sua linguagem, vestiam-se, pelo efeito mágico das
intuitivas inspirações, de suntuosos veludos; pompas
augustas de frase davam deslumbramentos inauditos
às suas queixas, iluminavam as suas blasfêmias,
imponderalizavam os seus sacrilégios, que vinham mais
radicais, mais irrefutáveis que Dogmas!
E as imprecações lhes jorravam vivas e violentas
das fundas bocas amargas e murchas...
Uma lividez de desesperos contidos, mais forte,
lhes avivava a máscara trágica dos rostos engelhados,
cujas peles ressequidas tinham, por vezes, com a febre
interior do sangue, leve brilho fugace.
Ventos desencontrados e duros, soprando rijos no
crepusculamento da tarde, agitavam como frouxas e
flébeis cordas de harpa os fios sonoros e cetinosos dos
514 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
seus cabelos alvos, através dos quais passava uma ligeira
música convulsiva, que os desgrenhava...
Eram três pesadelos deblaterantes, hirtos –
cabeças brancas elevadas ao céu, braços espectrais
abertos, abertos, abertos na ânsia das inconsoláveis
saudades, abertos em busca dos bens amados que lhes
fugiram, como vazias cruzes de estradas ermas
esperando em vão os Cristos místicos e ensangüentados
que imprevistamente as desampararam levados por
transluzentes Arcanjos invisíveis.
E, das suas fundas bocas amargas e murchas, a
linguagem blasfematória, assim épica e transcendentemente, em monólogos, clamava:
– Aqui estou, meu Deus, Senhor! nesta penitência
de angústia, batendo o peito, junto à sepultura querida
do meu filho, murmurando as rezas, as orações da minha
Fé.
Tanto que te pedi, tanto que te supliquei que me
deixasses morrer primeiro que o meu Luís, ou que me
deixasses acabar ao menos perto dele, para que pudesse
cobrir de ardentes beijos os seus olhos azuis que eu
adorava, as suas mãos que batalharam por mim, sentir
o último clarão da sua doce inteligência e alma pura
que só, só para mim viviam, só por mim eram felizes e
carinhosas! O meu primeiro filho, que tanta luta me
custou, tantos perigos, tantos e tão grandes me fez sofrer!
O que eu te pedia, só, Senhor! é que me deixasses meu
filho, tão rico de mocidade, tão rico de esperança, tão
protegido do meu amor e que lá se foi morrer longe de
mim, náufrago, nessa cova medonha do Mar, por uma
noite de tempestade, talvez já sem velas o barco e sem
ao menos, ah!, quem sabe!, sem ao menos estrelas no
céu, Senhor, sem estrelas no céu, Senhor!
Apenas um consolo tive e esse bem amargo, bem
amargo consolo foi.
Quando encontraram o seu cadáver e que mo
vieram piedosamente trazer para que eu o enterrasse,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 515
para que eu sentisse a comoção derradeira de vê-lo e
enfim dar-lhe a sepultura, a última despedida do meu
olhar, o desesperado adeus final; quando mo vieram
trazer, quando vi aquele cadáver amado perto de mim,
ah! como estremeci de horror e de agonia... Como estava
tão mudado, tão desfigurado, tão monstruosamente feio,
de tal modo inchado e esverdeado pela asfixia do Mar,
que não parecia mais ser ele, o meu filho, o meu Luís
adorado que eu trouxera outrora com extremos tamanhos
dentro de meu ventre.
Tu, Senhor, apesar de estares em toda a parte,
de tudo saberes e adivinhares, nunca soubeste o que
era o meu filho, coração simples, religioso e suave como
as humildes ermidas brancas, bondade mansa,
evangélica como a dos bois que ele pastoreava alegre,
cantando...
E como eu me orgulhava quando o via, forte,
generoso, franco, leal como a árvore que dá sombra, como
a fonte clara e fresca que mata a sede, como o céu
estrelado que dá encanto aos olhos. Oh! como ele
percorria aqueles campos íntimos da sua mocidade, onde
a sua infância desabrochou como as rosas, onde a sua
adolescência viu e sentiu ir embranquecendo os meus
cabelos, aprofundando a melancolia das minhas rugas.
Vê tu, pois, que viuvez agora no meu peito, que
desconforto na minha alma, que vazio imenso em torno
a mim sem o amparo, a bondade do meu filho, esse
bordão seguro a que eu me arrimava na cegueira da
minha velhice, o meu filho, a única, a melhor e maior
claridade que iluminou sempre a minha pobre cabeça
branca.
Ó Deus sem piedade, ó Deus sem religião e
compaixão, maldito sejas! Que Satanás, o Vencido por
ti, vingue todas as Mães, vencendo-te, conquistando todo
o teu poder, triunfando eternamente de ti nas
masmorras negras do Inferno!
516 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
E a outra boca, amarga e murcha, blasfemou
então:
– Jesus dos Amargurados, Jesus dos Tristes, Jesus
dos Desamparados! A mim roubaste a filha, a minha
idolatrada filha; e, tão sem piedade o fizeste, que não
foi até mesmo um castigo que mandaste pelos meus
pecados, foi um crime que cometeste. E tão sem
misericórdia, com tamanha crueldade, que tu não
pareces, Jesus, filho dessa angélica Maria que alucinada
gemeu e se desolou por teus martírios!
Roubaste a minha filha quando ela era noiva,
quando estava a cingir a grinalda branca e virgem, quando
estava a galgar, tímida, com os pudores da puberdade, o
altar sagrado, sob o véu resplandecente como um pedaço
de nuvem do teu céu estrelado!
Como hei de viver sem o seu encanto, sem a
candidez da sua alma, como me hei de tranqüilizar neste
deserto onde vivo sem ela, onde existo, solitária, sozinha
por este Mundo, inteiramente sozinha, como perdida
numa escura floresta, num lodaçal sinistro, ouvindo
uivar lobos?
Pois não te bastava tanta vida que ceifas dia a
dia, tanta lágrima que fazes correr em silêncio? Não te
saciaram já tantas e tão preciosas existências que
levaste, era preciso ainda roubares minha filha, formosa
e já noiva, radiante da alegria de ser depois também
mãe como eu?
Ah! se tu soubesses, quando ela adoeceu, que
cuidados, que sacrifícios, que vigílias, quanto doloroso
esforço para dar-lhe logo a saúde!
Eu te pedi tanto, te supliquei tantas vezes de
joelhos, roguei tanto à tua Onipotência, tanto que afligi
e cansei pedindo o teu socorro para ela e, no entanto,
foi tudo inútil, o teu desdém me feriu, o teu desprezo
me apunhalou e tu de repente a levaste, ela, afinal,
morreu...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 517
Depois, quando a vi completamente morta nos
meus braços, como sofri, quantos padecimentos
horríveis, que choro perdido e convulso me sufocou a
garganta, que delírio me acometeu!
Ah! foram estas mãos magras, esqueléticas, estes
dedos ressequidos que lhe colocaram, trêmulos de
comoção, dolorosamente enternecidos, a grinalda e o
véu de noiva de que ela foi vestida. Foram estas mãos
cadavéricas que ornaram aquela cabeça loura, linda;
que ajeitaram com delicadeza entre aqueles admiráveis
cabelos os níveos botões das flores de laranjeira; que
colocaram entre aquelas mãos gentis e enregeladas o
ramo branco simbólico, o crucifixo de marfim e o pequeno
missal azul de fechos de prata.
Depois, depois, já deitada no caixão, num sono
sereno de Querubim, quando uns homens vestidos de
negro, indiferentes, decerto, estranhos à minha dor,
vieram arrancá-la, arrebatá-la de junto a mim, estremeci
tanto, tantos abalos me atravessaram, tantos e tamanhos
horrores, tal luz alucinante me cegou os olhos, que eu
pensei enlouquecer de tormentos, caída de bruços,
soluçando, chorando, gemendo sobre o caixão
medonhamente fechado que para sempre a levava...
Ah! nunca pensei que aquele corpo adorado que vi
crescer e florescer aos poucos, ganhando graça e beleza,
descesse tão cedo ao irremediável apodrecimento; que
o branco enxoval perfumado, feito com carinho, com
alegria feliz, com todo o enternecimento, servisse apenas
para tão depressa amortalhá-la!...
Jesus das supremas bênçãos, dos infinitos
perdões, dos infinitos consolos, das infinitas
misericórdias! Do fundo do meu coração despedaçado
de saudades, de desesperanças, de aflições, eu te lanço
todas as blasfêmias, todos os anátemas, todo o fel à tua
Inclemência!
E a última, amarga e murcha boca, ainda deprecou
assim, mais convulsa e violentamente que as outras:
518 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
– Ó Santa Virgem das Dores, Mãe de todos os
desamparados, de todos os sós, de todos os famintos, de
todos os cegos, de todos os nus, de todos os Jós, de
todos os desiludidos! Como tu foste desnaturada para
mim! Que angústias me reservaste! Que tormentos! Que
dilacerações! Que prantos! Que dores! Ó Santa Virgem
dos Martírios! Mãe vã, que concebeste por obra e graça
do Espírito Santo! Mãe sem Maternidade verdadeira, sem
o parto brutal e ensangüentado do teu Filho, sem os
olhos desvairados no humano transe de dar à luz, sem
as entranhas rasgadas, despedaçadas, sem os gritos
horríveis, sem os espasmos catalépticos, sem os letargos
febris! Ó Mãe sem nervos e sem sangue, sem
estremecimentos, sem sensibilidades, sem êxtases, sem
frêmitos, sem convulsões da carne na hora augusta de
gerar, ah! como tu dilaceraste entre os teus dedos
sagrados, como entre garras ferozes, o meu humilde e
frágil coração materno! Num só dia, por um seco simoun
de peste, levaste todos os meus três filhos, negros e
apodrecidos ainda quentes pelo atroz fantasma da morte.
Pequeninos, anjos que eram, dizem, talvez para
me consolar agora, que eles foram para o Céu. Mas, no
Céu, no Mar, na Terra, mortos como estão, tudo são
covas, Virgem das Dores, tudo são covas e eu bem sei
que eles jazem enterrados, medonhamente enterrados!
No entanto, quando as chuvas são torrenciais, à
noite, e o vento ruge com violência, arrepiando as árvores,
vento gemente e gelado de tempestade, ah! como parece
à minha pobre cabeça dolorida e tresloucada de Mãe
sem consolo, tristemente horrível o frio que eles hão de
sentir lá, lá embaixo desses buracos negros! Como parece
aos meus extremos alucinados, à minha aflição de
demente que eles hão de tiritar sem remédio dentro
dessas covas, sozinhos, lá, tão fundo, tão fundo nas
sepulturas!
Eu bem sei e bem sinto ainda agora com os meus
brancos cabelos arrepiados de pavor até à raiz, que
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 519
línguas e dentes glaciais de vermes os devorarão sem
se saciarem; que nunca mais os beijarei como outrora;
que não terei, palpitando mais, aquecendo-se ao meu
seio protetor, aqueles corpos tenros, delicados; que tudo,
afinal, acabou, Santa Virgem das Dores, Maria! Mãe!
Mãe desnaturada que eu daqui amaldiçôo, numa
imprecação selvagem, atirando pragas profundas, como
facadas contra a sementeira improdutiva da tu’alma...
Não é só em nosso nome mas em nome de todas
as mães que te falamos nós três, que pela grandeza do
Amor que nos liga e sublimiza descendemos diretamente
do Cristianismo e somos três apenas, representando
juntas o sentimento uno da Maternidade.
É em nome de todas as mães que vêm sofrendo
desde o princípio do mundo que nos dirigimos a ti: das
mães que viram seus filhos morrer na guilhotina; que
os perderam nas guerras, rasgados os ventres por
baionetas e por metralhas; que os viram devorados pelos
incêndios; que os souberam naufragados, na agonia
horrível das ondas, ou mortos nas minas, operários
míseros, ou loucos, andando como fantasmas, ou cegos,
caminhando como sombras.
Ah! é por tudo isso, por todo esse infinito de dores
que eu me rebelo contra ti, que eu te amaldiçôo, que eu
te amaldiçôo, que eu te amaldiçôo! Três vezes! Em nome
do Diabo Todo-Poderoso, Criador do Inferno e do Mal! Eu
te amaldiçôo! Eu te amaldiçôo! Eu te amaldiçôo! Que tu
te transformes na serpente negra que tens aos pés sobre
a esfera estrelada e azul e que uma peste bárbara,
infernal, peste de fome e fogo, de sole, extermine esse
teu Céu fatal, gangrene esse teu Paraíso falso, cujas
bem-aventuranças são mentiras, cuja piedade e
consolação só trazem cruéis e aterradoras torturas!
E, a cada monólogo, os braços esqueléticos dessas
três piedosas figuras, assim tão profundamente
transfiguradas pela Dor, agitavam-se, debatiam-se no
520 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
ar aflitivamente, aflitivamente, abertos às inexprimíveis
majestades da solidão do Campo Santo.
Os eucaliptos, ciprestes e chorões, como que
impressionados, tocados da emoção que se derramava
em fluidos magnéticos desse tremendo terceto dantesco,
espiritualizavam-se de segredos sonâmbulos, gemendo
baixo nas nervosidades e retorcidos movimentos
convulsos, epilépticos, das melancólicas ramagens.
Mas, de repente, nas copas mais densas e altas
das grandes árvores corpulentas, os ventos, como titãs
despenhados, sopraram torvos, atroantes trovejamentos;
enquanto grasnos corvejantes de bruxas iam
sarcasticamente crocitando ríspidas, rápidas risadas,
através das finas e sensibilizadas casuarinas siflantes
e dos ciprestes vetustos...
A noite, desabrochada na amplidão com estranho
esplendor tenebroso, florira de estrelas claras ao alto.
Em torno, dentre os montes longínquos, uma
cintilante neblina fria vinha então harmonicamente
emergindo, emergindo, e, súbito, o plenilúnio cidrento,
de marfinal claridade mortificada, ondulou e fulgiu
sereno sobre a paisagem da Morte.
E as trêmulas Velhas simbólicas, arrebatadas
numa mesma febre, levadas por igual alucinação de dor,
já de pé sobre a terra úmida e revolta das últimas covas,
clamavam ainda em coro:
– Maldição! Maldição! Maldição! desaparecendo
depois silenciosas, como almas esquecidas num
abandono de ruínas antigas, por entre as sombras
esparsas – Grandes Anjos Rebelados, de asas
impotentes, vencidas, com os dolorosos vultos funestos
agora parecendo mais altos, quase gigantescos, mais
velhos, mais brancos, mais misteriosamente alvejados
e findos sob a volúpia triste, a mágoa muda do luar
elegíaco e macerado...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 521
UM HOMEM DORMINDO...
Les hommes endormis et les hommes morts ne
sont que de vaines peintures.
SHAKESPEARE, Macbeth
Ei-lo, na noite, após as inclementes fadigas do
dia, corpo estirado sobre o leito, gozando o repouso de
algumas horas, mudo e imóvel dormindo...
O descanso, como um bem misericordioso, como
um óleo consolador, unge-o voluptuosamente, enquanto
a grande asa crepuscular da ave taciturna da Cisma
faz-lhe uma sombra piedosa, grave e doce como uma
bênção paterna, em torno do corpo cansado.
Na indiferença quase da morte, que o envolve todo
de um vago esquecimento das cousas, deitado sobre o
leito, como estirado sobre a terra, com a face mergulhada
num meio luar galvânico de lividez, esse homem de
ombros vigorosos e largos, de tórax poderoso, de estatura
gigantesca, hércules fatigado e melancólico da Natureza,
talvez o vencedor de batalhas formidáveis, parece, agora,
tão pequeno, deitado!
De pé, há pouco no dia, caminhando, andando,
girando no absurdo Contingente, sob as guerras armadas
da Vida, como esse homem se projetava verdadeiramente
grande, se compenetrava do valor do aço do seu peito,
se iludia a si mesmo com os seus invejáveis músculos,
com a sua forte andadura de animal de campanha –
lesto, tenaz, reto, preciso e forte nas distâncias e nas
culminâncias a galgar!
Mas, agora, deitado no leito, como esse homem
forte parece fraco, como toda a sua força hercúlea se
evaporou à toa pelos interstícios da prisão brumal do
sono e, como simplesmente, mas fatalmente ele recorda,
exprime bem a rastejante atitude de um verme!
Há nele a expressão do mais completo aniquilamento, da mais funda inanição; ele sente-se sufocado
522 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
pelos espectros sub-reptícios do Nada que vertiginam e
rodam em torno ao eterno absoluto.
Deitado, dormindo, ele não é mais o homem, mas
o silêncio, o vácuo, o além, o esquecimento. Dormindo,
ele conserva essa aparência, essa abstração aflitiva, essa
espasmada alucinação de um ser que já foi ser, de uma
voz que se tornou mudez, de um movimento que se fez
impassibilidade.
Não importa mesmo que todos os seus órgãos não
estejam totalmente paralisados, sob camadas letais de
gelo. Mas a expressão do sono é por tal forma aureolada
de mistérios, tais segredos escapam dessa indiferença,
que o homem que dorme estirado no leito fica nesse
momento mais indefeso, mais frágil e mais inócuo do
que uma criança, que na sua vibrante garrulice cor-derosa e cristalina impõe mais ação, mais vida, desprende
mais ritmos e acordes do sangue, projeta mais ondas
sonoras e nervosas de movimento.
Pelo estado inerme desse homem que está
dormindo parece que uma força oculta, uma catástrofe
inesperada, invisivelmente suspensa há muito sobre a
sua existência, vai, afinal, certeira e rápida,
desapiedadamente esmagar-lhe, caindo dos altos
Destinos, a atormentada e vaidosa cabeça com a mais
natural facilidade. Pois não é tão fácil, sem dúvida,
destruir um obscuro reptil que se arrasta na terra?!
Toda a sua coragem louca de guerreador da
Existência, toda a aspiração alucinada, todo o sonho de
Infinito que lhe povoa a alma, sem mesmo ele se
aperceber disso, e que às vezes, por acaso, escapa,
traindo-se pelo brilho misterioso dos olhos e por vagos,
perdidos suspiros desolados que ele desprende à toa,
sem mesmo saber por que, na inconsciência dos
fenômenos ingênitos do seu ser; tudo isso está por algum
tempo desvanecido, apagado, sumido já nessa
amesquinhada posição de homem deitado, a quem só
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 523
falta, cerradas como estão as pálpebras, cruzar sobre o
ventre as mãos e unir os pés para semelhar um morto.
Entretanto, no silêncio e na sombra desse sono
como que se está gerando secretamente, sutilmente e
profundamente, átomo a átomo, um mundo de
fenômenos, uma tragédia muda de fenômenos.
Entretanto, assim parecendo despreocupado dos
segredos e signos da Vida, renunciando a tudo, agora,
nesse aspecto de aparente tranqüilidade simples do
sono, ele está ali curiosamente, em fundas brumas,
vivendo uma alta e íntima vida psíquica muito mais
intensa, muito mais complexa e preocupada do que a
outra.
Porque ninguém sabe que, a seu pesar, ele, por
mil sutis combinações transcendentes e engenhosas do
querer latente do seu organismo anelante deseja atingir,
tocar e radiar entre as esferas siderais do majestoso
Espírito.
Porque mesmo não há alma nenhuma, por mais
vã, por mais humilde, por mais obscura que seja que
não aspire subir, por secretos movimentos instintivos e
intuitivos, que são as transfulgentes escadas do Abstrato,
às transfiguradoras montanhas do Sonho, ao
desenvolvimento melhor, à pura perfectibilidade;
penetrar, consolada, alheando-se de tudo, nas
transcendentalizantes auroras boreais do Sentimento,
satisfazendo assim, embora inconscientemente, a
ansiedade de Infinito que cada alma traz mais ou menos
em si, por maior ou menor que seja a esfera de ação
onde ela gravite.
No sono como que esses fenômenos tomam vulto,
começam a girar, a girar, a girar, em íris de sensibilidade, em halos de lua, na Imaginativa do homem
dormindo, cujo fundo vago carregado de narcotismos e
de ópios secretos e fascinantes fica como uma rara
região, rara e polar, gerando flores exóticas de
quintessência.
524 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
E nas volúpias e melancolias do sono a alma paira
absorta, perplexa, tateando em brumas maravilhosas,
como celeste cega de sede da Imortalidade, nos círculos
convulsos das lágrimas.
Véus diáfanos adelgaçam-se para além da visão
terrena! Véus de fimbrias de luar! Véus de centelhas
de luar! Véus de fogos-fátuos de luar!
E o ser, mudo, solitário, solene, pálido,
indiferente, misterioso, fugitivo, trágico, belo, horrível,
no espasmo elixírico do sono, dormindo, dormindo aspira,
dormindo, dormindo anseia, dormindo, dormindo goza e
sofre e geme e soluça e suspira e chora para além da
outra vida dos sentidos encarcerados no sono e na outra
vida do sono sonha com a Morte libertadora, engrinaldada
de virgem, esqueleto extravagante de nervosismos e
histerismos terríveis e curiosos de Eternidade – noiva
do Soluço, branca, friamente bela e branca, de um terror
que vence, que atrai, que esmaga, e que faz delirar de
sinistra majestade e de sinistra beleza.
É que o ser bebeu, esgotou até às fezes o licor
sombrio, taciturno e estranho do sono pelo cálice amargo
da Fadiga e ficou embriagado de sombra, vencido de
sombra, desceu ao poço cheio de cismas e pesadelos do
Nada para no Nada dormir ansiando, para no Nada viver
dormindo, para no Nada dormir sonhando...
O sono em que ele está embalsamado põe-lhe em
torno à fronte fatigada uma auréola de martírio, mas de
um martírio tão singular e tão abstrato que parece como
que glorificá-lo, imortalizá-lo, dando-lhe a aparência
secreta de estar gozando um gozo muito belo e muito
triste, vagamente empoeirado de Esquecimento...
Nessa hora de descanso transitório, a mágoa, os
dissabores, os infortúnios inclementes, as desgraças sem
remédio, as paixões desmanteladas e sem termo, as
aflições, os desesperos, os sentimentos obscuros que
revestem uma expressão magicamente cabalística, toda
essa horrível escala humana de desventuras e misérias,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 525
tudo está, por um pouco, sem movimento, inerte, como
animais de emboscada, à socapa, eternamente de
espreita na vida desse homem, esperando que ele de
novo acorde para de novo assaltá-lo e para de novo vencêlo.
E ah! como a esse homem que dorme estirado no
leito da sua noite de mísero e efêmero repouso, quase
mergulhado na calma negra da morte, há de talvez
parecer sempre essa noite pútrida, esverdeada e
formidável vala comum onde podem perpetuamente caber
bilhões e bilhões de corpos humanos!
526 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
NO INFERNO
Mergulhando a imaginação nos vermelhos Remos
feéricos e cabalísticos de Satã, lá onde Voltaire faz sem
dúvida acender a sua ironia rubra como tropical e
sangüíneo cáctus aberto, encontrei um dia Baudelaire,
profundo e lívido, de clara e deslumbradora beleza,
deixando flutuar sobre os ombros nobres a onda pomposa
da cabeleira ardentemente negra, onde dir-se-ia viver e
chamejar uma paixão.
A cabeça triunfante, majestosa, vertiginada por
caprichos d’onipotência, circulada de uma auréola de
espiritualização e erguida numa atitude de vôo para as
incoercíveis regiões do Desconhecido, apresentava, no
entanto, imenso desolamento, aparências pungentes de
angústia psíquica, fazendo evocar os vagos infinitos
místicos, as supremas tristezas decadentes dos
opulentos e contemplativos ocasos...
Como que a celeste imaculabilidade, a candidez
elísea de um Santo e a extravagante, absurda e
inquisidora intuição de um Demônio dormiam longa e
promiscuamente sonos magos naquela ideal e assinalada
cabeça.
A face, branca e lânguida, escanhoada como a de
um grego, destacava calma, num vivo relevo, dentre a
voluptuosa noite de azeviche molhado, poderosa e tépida,
da ampla cabeleira.
Nos olhos dominadores e interrogativos, cheios de
tenebroso esplendor magnético, pairava a ansiedade,
uma expressão miraculosa, um sentimento inquietador
e eterno do Nomadismo...
A boca, lasciva e violenta, rebelde, entreaberta
num espasmo sonhador e alucinado, tinha brusca e
revoltada expressão dantesca e simbolizava aspirar,
sofregamente, anelantemente, intensos desejos
dispersos e insaciáveis.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 527
Parecia-me surpreender nele grandes garras
avassaladoras e grandes asas geniais arcangélicas que
o envolviam todo, condoreiramente, num vasto manto
soberano.
Era no esdrúxulo, luxuoso e luxurioso parque de
Sombras do Inferno.
Em todo o ar, d’envolta com um cheiro resinoso e
acre de enxofre, evaporizava-se uma azulada tenuidade
brumosa, fazendo fugitivamente pensar no primitivo Caos
donde lenta e gradativamente se geraram as cores e as
formas...
Como que diluente, fina harmonia de violinos vagos
abstrusamente errava em ritmos diabólicos...
Árvores esguias e compridíssimas, em alamedas
intermináveis e sombrias, lembrando necrópoles,
apresentavam troncos estranhos que tinham aspectos
curiosos, conformações inimagináveis de enormes
tóraxes humanos, fazendo pender fantásticas ramagens
de cabelos revoltos, desgrenhados, como por estertorosa
agonia e convulsão.
Pelas longas alamedas exóticas do fabuloso
parque, deuses hirsutos, de patas caprinas e peluda testa
cornóide, riam com um riso áspero de gonzo, numa dança
macabra de gnomos, cabriolando bizarros.
De vez em quando, as suas asas fulgurantes, furtacores e fortes, rufiavam e relampejavam...
Baudelaire, no entanto, suntuoso e constelado
firmamento de alma refletindo em lagos esverdeados e
mornos, donde fecundas e esquisitas vegetações como
que sonâmbula e nebulosamente emergem, estava mudo,
imóvel, com o seu perfil suavemente cinzelado e fino,
fazendo lembrar a figura austera e altiva, a alada graça
perfeita de um deus de cristal e bronze – tranqüilamente
de pé, como num sólio real, na posição altanada de quem
vai prosseguir nos excelsos caminhos dos inauditos
Desígnios...
528 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Por conhecer-lhe os ímpetos, as alucinações da
audácia, as indomabilidades estesíacas, os alvoroços
idiossincráticos da Fantasia, eu imaginava encontrá-lo,
vê-lo revoltamente arrebatado para os convulsos Infinitos
da Arte por potentes, negros e rebelados corcéis de
guerra.
Mas, a sua atitude serena, concentrada, isolada
de tudo, traía a meditação absorvente, fundamental, que
o encerrava transcendentemente no Mistério.
E eu, então, murmurei-lhe, quase em segredo:
– Charles, meu belo Charles voluptuoso e
melancólico, meu Charles nonchalant, nevoento aquário
de spleen, profeta muçulmano do Tédio, ó Baudelaire
desolado, nostálgico e delicado! Onde está aquela rara,
escrupulosa psicose de som, de cor, de aroma, de
sensibilidade; a febre selvagem daqueles bravios e
demoníacos cataclismos mentais; aquela infinita e
arrebatadora Nevrose, aquela espiritual doença que te
enervava e dilacerava? Onde está ela? Os tesouros d’ouro
e diamante, as pedrarias e marchetarias do Ganges, as
púrpuras e estrelas dos firmamentos indianos, que tu
nababescamente possuíste, onde estão agora?
Ah! se tu soubesses com que encanto ao mesmo
tempo delicioso e terrível, inefável, eu gozo todas as tuas
complexas, indefiníveis músicas; os teus asiáticos e
letíficos aromas de ópios e de nardos; toda a mirra
arábica, todo o incenso litúrgico e estonteante, todo o
ouro régio tesourial dos teus Sonhos Magos,
magnificentes e insatisfeitos; toda a tua frouxa morbidez,
as doces preguiças aristocráticas e edênicas de decaído
Arcanjo enrugado pelas Antigüidades da Dor, mas
inacessível e poderoso, mergulhado no caos fundo das
Cismas e de cuja Onisciência e Onipotência divinas
partem ainda, excelsamente, todos os Dogmas, todos os
Castigos e Perdões!
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 529
Oh! que demorados e travorosos sabores
experimento com o quebranto feminil das tuas
volubilidades mentais de bandoleiro...
Essa alma de funestos Signos, como que gerada
dentro de atordoante e feiticeiro sol africano, com todas
as evaporações flamívomas, com todas as barbarias das
florestas, com todo o vácuo inquietante, desolador,
inenarrável, dos desertos, flexibiliza-se, vibratiliza-se,
adquire suavidades paradisíacas de açucenais sidéreos,
do céu espiritualizado pelos mortuários círios roxos dos
ocasos...
Açula-me a desvairadora sede, espicaça-me a
ansiedade indomável de beber, de devorar, sorvo a sorvo,
sofregamente, o extravagante Vinho turvo, de lágrimas
e sangue, que orvalha, como um suor de agonias, todas
essas olímpicas e monstruosas florações do teu Orgulho.
Ah! se tu soubesses como eu intensamente sinto
e intensamente percebo todos os teus alanceados,
lacerados anseios, todas as suas absolutas tristezas
dormentes e majestosas, o grande e longo chorar, o
desmantelamento vertiginoso das tuas noites soturnas,
as fascinadoras ondas febris e ambrosíacas da tua insana
volúpia, as bizarrarias e milagrosos aspectos da tua
Rebelião sagrada; a fulminativa ironia dolorida e
gemente, que evoca melancolias de dobres pungentes
de Requiem aeternam rolando através de um dia de sol e
azul, vibrados numa torre branca junto ao Mar!... Como
eu ouço religiosamente, com unção profunda, as tuas
Preces soluçantes, as tuas convulsas orações do Amor!
Como são fascinativos, tentadores e embriagantes os
perfumosos falernos da tua sensação, os esquecidos
Reinados enevoados e exóticos onde a tua clamante e
evocativa Saudade implorativa e contemplativa canta,
ondula e freme com lascívia e nonchalance! A tua inviolável
e milenária Saudade, velha e antiga Rainha destronada,
aventurosa e famosa, que erra nos brumosos e vagos
infinitos do Passado, como através das luas amarguradas
530 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
e taciturnas do tempo. A tua lancinante Saudade de
beduíno, perdida, peregrinante por países já adormecidos
nas eras, remotos, longe, nos neblinamentos da
Quimera, onde os teus desejos agitados e melancólicos
tumultuam numa febre de mundos multiformes de
germens, em estremecimentos sempiternos; onde as
tuas carícias nervosas e felinas sibaritamente dormem
ao sol e espojam-se com sensualidade, num excitamento
vital frenético de se perpetuarem com os aromas cálidos,
com os cheiros fortes que impressionativos e afrodisíacos
provocam, atacam, cocegam e ferem de extrema
sensibilidade as tuas aflantes e capras narinas!
Ah! como eu supremamente vejo e sinto todo esse
esplendor funambulesco e todas essas magnificências
sinistras do teu Pandemonium e do teu Te Deum!
Ó Baudelaire! Ó Baudelaire! Ó Baudelaire!
Augusto e tenebroso Vencido! Inolvidável Fidalgo de
sonhos de imperecíveis elixires! Soberano Exilado do
Oriente e do Letes! Três vezes com dolência clamado
pelas fanfarras plangentes e saudosas da minha
Evocação! Agora que estás livre, purificado pela Morte,
das argilas pecadoras, eu vejo sempre o teu Espírito
errar, como veemente sensação luminosa, na Aleluia
fúlgida dos Astros, nas pompas e chamas do Setentrião,
talvez ainda sonhando, nos êxtases apaixonados do
Sonho...
E a singular figura de Baudelaire, alta, branca,
fecundada nas virgens florescências da Originalidade,
continuava em silêncio, impassível, dolorosamente
perdida e eternizada nas Abstrações supremas...
E, enquanto ele assim imergia no Intangível azul,
velhos deuses capros, teratológicos Diabos lúbricos e
tábidos, desaparecidos desse egrégio vulto satânico,
cismativo e sombrio, dançavam, saltavam, infernalmente
gralhando e formando no ar quente, em vertigens de
diabolismos, os mais curiosos e simbólicos hieróglifos
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 531
com a flexibilidade e deslocamento acrobático e mágico
dos hirsutos corpos peludos e elásticos...
Mas, em meio do misterioso parque, elevava-se
uma árvore estranha, mais alta e prodigiosa que as
outras, cujos frutos eram astros e cujas grandes e
solitárias flores de sangue, grandes flores acerbas e
temerosas, flores do Mal, ébrias de aromas mornos e
amargos, de dolências tristes e búdicas, de
inebriamentos, de segredos perigosos, de emanações
fatais e fugitivas, de fluidos de venenosas mancenilhas,
deixavam languidamente escorrer das pétalas um óleo
flamejante.
E esse óleo luminoso e secreto, escorrendo com
abundância pelo maravilhoso parque do Inferno, formava
então os rios fosforescentes da Imaginação, onde as
almas dos Meditativos e Sonhadores, tantalizadas de
tédio, ondulavam e vagavam insaciavelmente...
532 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
A NÓDOA
Naquela hora de superexcitação nervosa, tarde
na noite nevoenta em que os ventos lugubremente
grasnavam, rondando, rondando, Maurício entrou agitado
da rua...
Via-se bem, pela lividez espectral do seu rosto, os
tumultos sinistros que trazia consigo.
Com o cérebro escaldando, numa temperatura
mental inconcebível, parecia que alguma cousa dentro
do seu ser estava sendo guilhotinada e que grandes,
caudalosas torrentes de sangue vivo, quente, o alagavam
interiormente, deixando-o exangue, desfalecido...
Era, na verdade, um aspecto extravagante o desse
cardíaco lascivo, desse neurastênico que o álcool andava
aos poucos devastando e povoando já das suas visões
trementes e delirantes, lá do fundo absíntico das
impenitentes boêmias; desse sombrio e ferrenho
misantropo fechado ao alto da sua velha torre torva de
melancolia, sentindo em torno o mundo, grosso mar
vasto, ululando deprecações...
Cabelos em desalinho, olhos estupefatos, boca
num espasmo de angústia, mãos convulsas e
avelhantadas, braços tateando o ar como garras, pernas
trêmulas, tudo naquela desgraçada matéria determinava
uma vulcanização muito íntima, um desespero muito
particular, talvez o desmoronamento absoluto.
Era o lance cruel de uma dessas vidas
despedaçadas, dilaceradas, sem centros harmônicos de
um objetivo ideal, sem pontos de apoio, girando fora das
órbitas da unidade dos sentidos e que vagam, de um a
outro extremo da alma, de um ao outro pólo do ser, sem
uma luzerna, sem um santelmo, sem Refúgios interiores,
quase o vácuo de si próprias, batidas por um frio sinistro
de desolação, sob a lei inexorável, horrível, dos
desequilíbrios e degenerescências. Demônios mórbidos,
fatais, arremessados à terra para cobri-la, como de um
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 533
luto de peste, do sentimento negro, perverso, infernal,
do aniquilamento e das culpas.
Qualquer cousa de curioso, de secreto, dava-se,
sem dúvida, no fundo dessa excepcional natureza que a
noite tanto e tão intensamente carregara dos seus
esparsos fluidos misteriosos.
Apenas mergulhado no aposento, triste tugúrio
abandonado e frio, acendeu logo, com a mão febril,
nervosamente, a pequena lâmpada que pousava sobre
um velho móvel querido que ali jazia como a recordação
de vagos e inolvidáveis tempos...
Assim que a luz coou em torno a sua tíbia
claridade amarelenta, Maurício aproximou-se da luz,
sôfrego, a fronte em suor, numa ansiedade muda.
Em sobressaltos, inquieto, palpitando, nervoso,
cada vez mais nervoso, uma agitação contínua na pupila,
quase num delírio, arrastado por curiosidade torturante
e ao mesmo tempo por medo avassalador, chegou uma
das mãos à luz, aproximou-a da luz, aproximou-a mais
da luz, quase a fazendo arder, crepitar, estalar na chama
da luz, inquiriu mentalmente toda a palma da mão, o
cabalístico M letal, as unhas, uma por uma as falanges,
novamente a palma da mão, examinou-a, palpou-a,
analisou-a longamente, demoradamente, com
movimentos singulares de sonâmbulo e de mago,
conservando no rosto tal expressão horrível, tal expressão
transfigurada que não era mais deste mundo...
E ele olhava e tornava a olhar para a mão, a
perscrutá-la bem, detendo-se em cada linha, em cada
traço da mão, como sob impressão magnética.
– Mas, não, não! dizia, arrepiando o lábio num
velado sorriso contrafeito, macabro. Não! Eu vi! Eu vi!
Eu bem lhe fui acompanhando a gradação, o vulto que
fazia aqui em toda a mão; a princípio tênue, leve,
pequena; depois grande, densa e negra, enchendo a mão
toda pavorosamente, reptilmente rastejando, pondo-me
calafrios tremendos na espinha. Sim! Eu bem a vi, aqui,
534 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
aqui, persistente, entranhada, a horrível nódoa negra,
manchando-me a mão toda, não sei como, não sei donde
mandada.
E os outros que lá estavam também como eu no
cabaré, na sua hora d’álcool, sentiram-me a obsessão e
riram e perguntaram se eu não estaria louco, se não
era de fato um demente.
Mas eu ouvi e nada lhes disse, nada lhes respondi
porque eu bem via, bem estava vendo a nódoa tomar-me
pouco a pouco conta de toda a mão, alastrar-se por ela,
negra, em breves momentos. Eu bem a vi! E o que
importava o desdém ou a indiferença dos outros, o
ridículo que os outros me lançassem, se só eu a via, só
eu! unicamente eu percebia que ela cá estava, funda,
intensa, sem que eu a pudesse extinguir, fazê-la
desaparecer para sempre. Sim! Ela cá estava! Senti então
de repente um pavor maior lembrando-me se ela me
tomasse o corpo todo, me subisse pelo tronco, me
manchasse o rosto, envolvendo-me tenebrosamente na
sua oleosa baba negra. E assim pensando parecia-me
estar já avassalado por ela, que me cobria como de um
manto fúnebre.
E nesta sugestão doentia, numa extraordinária
vibração de nervos, que titilavam de horror, voei pelas
ruas em busca de repouso em meu triste aposento, pois
era tão forte a obsessão, tão violenta, punha-me em tal
estado, que até julguei, com essa infantilidade ingênua
que nos transfigura nas íntimas e esmagadoras aflições,
que desapareceria aquela nódoa lúgubre logo que eu
estivesse tranqüilamente repousado.
Sim! este meu triste, generoso e leal aposento
que com tanto e tanto carinho me acolhe sempre na
hora do meu grande abandono, dos meus extremos
desfalecimentos, saberia condensar todas as suas
diluentas amarguras, todas as suas queixas secretas,
todas as suas mágoas esparsas, dar-lhes corpo, dar-lhes
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 535
vida e alma para, consolando-me, trazer calma piedosa
a esta minha agitação profunda.
Com efeito, agora, olho e torno a olhar, para a
mão e nada encontro nela, nada do que eu vi, porque eu
vi! Não encontro mais a nódoa, não está cá. Olho e torno
a olhar, reparo, observo bem tudo e não encontro, não
vejo mais a nódoa...
E não a vejo, mesmo, por mais que examine, em
nenhuma das mãos! Ah! respiro! Não a vejo em nenhuma
das mãos! Respiro, enfim! Que alívio! Que alívio
supremo!
Foi, sem dúvida, foi loucura minha, neblinoso
torpor de embriaguez, visão, sombra, pesadelo de
momentos. Tinham razão os outros em rir... Foi simples
loucura minha, simples loucura minha, simples loucura
minha!
Entretanto, como se uma diabólica força oculta
no seu pobre cérebro demente insistisse, agisse dentro
dele com perversa e feroz tenacidade calculada,
fisgando-lhe as arestas cruas e agudas de cerrada
argumentação casuística, mas em certos planos, de certo
modo, irrefutável, Maurício colocou-se diante de um
espelho oval que havia no aposento, e mirou-se bem nele,
com atenção, com minúcia.
Como que queria reconhecer-se, como que
acreditava ter perdido a legitimidade do seu ser, terem
reaparecido, por um desses incompreensíveis fenômenos
nervosos, a perfeita identidade das suas feições, as
linhas do seu semblante, da sua natureza, e com elas a
sua própria sensibilidade.
Mas, não! Ele ali estava, vendo-se apenas tão
desfigurado, tão abatido, com esse aspecto vago, ignoto,
retrospectivamente antigo, de quem já além viveu...
Quase se desconhecia! Não era mais o intrépido, o afouto
Maurício de outrora, que a bravura de sentimentos
bizarros iluminava de esplendor e força. Não era mais o
adolescente, amado desse amor frívolo da mundanal
536 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
mocidade, e cuja alma engrinaldava-se de rosas,
esmaltava-se d’estrelas, vibrava de canções e cânticos,
na frescura e no azul matinal de um idílio que lhe parecia
eterno. Não era mais esse Maurício que através dos
longos rumos do tempo se perdera e desaparecera...
Era agora um outro Maurício, todo vivamente
abalado, é certo, por inquietos sonhos de indefinível
ansiedade, mas por isso mesmo acabando, findando já
para tudo.
Na encruzilhada dos caminhos que percorrera, ele,
embevecido, perplexo, como que divulgava, pela curiosa,
desoladora e irônica sugestão do espelho, duas nobres
figuras de inefável expressão contemplativa que se
enlaçavam num amplexo enlevativo e saudoso de
idolatrados sentimentos velhos, surgindo das brumas
álgidas do Esquecimento.
Uma dessas figuras o olhava, atenta, nova e
cariciosamente risonha, na meiguice mais cândida, a
cabeça loira pendida numa atitude de enternecimento
supremo.
Igualmente o olhava a outra, subjugada pela febre
devoradora do desespero, curvada de anos, por entre
rugas e soluços... E ambas essas figuras evocativas se
enlaçavam, emocionalmente se enlaçavam, do fundo
sombrio e longínquo daquele espelho, no abraço extremo,
profundo, infinito, como que fundidas na mesma
apaixonada e embriagada convulsão da Vida...
E, então, por uma esquisita afinidade de
pensamento, como se por acaso mais essa outra obsessão
da identidade perdida desnaturasse o rumo lógico do
seu raciocínio, esclarecendo, mesmo por esse fato e com
igual irrefutabilidade, o fenômeno da nódoa que o
perseguia, Maurício espalmou diante do espelho ambas
as mãos, certificando-se de tudo, pois até quase lhe
parecera, na agonia cruciante daquelas implacáveis
conjeturas psíquicas e por lenta compreensibilidade
nebulosa, labiríntica do cérebro, mesmo por certa
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 537
infantilidade demente, que o espelho, refletindo assim
sobre o seu busto, desnevoaria, arrancaria mais depressa
toda a fatal verdade sobre a nódoa do que apenas a
simples chama dúbia e amarelenta da doce luz da
lâmpada.
E o espelho, no seu fundo glacial de boca turva,
crespusculada, de poço; cova de névoas e treva de onde
naquela hora se desenterravam todos os seus Afetos;
alma de cristal onde um delicado sentimento de
esquecimento e de saudade parecia estar diluído; o
espelho, naquela alta hora noturna dormente e
sonolentamente mergulhado na doce luz amarelentada,
da lâmpada, lembrava brumoso vale de lágrimas
aureolado de luar...
E Maurício revia-se no espelho, consultava-o,
analisava, comentava, analisava os próprios reflexos e
mutismo do espelho; feria a fina corda vibrátil dos seus
nervos, dos seus sentidos de desequilibrado, de
impotente, monologava com eles, e esse exame tão
detalhado, tão minudente, tão penetrante, dava-lhe certa
atração doentia, certa volúpia martirizante, certa lascívia
de angústia.
Mas, nada. Mesmo ante o espelho ele não
distinguia nada nas mãos, nem no rosto, nem em parte
alguma do corpo. Estava salvo, efetivamente estava salvo
do caprichoso e funesto abalo que o sacudira e gelara!
Estava salvo! Estava salvo!
Nisto, de repente, como se com aquelas argüições
e investigações mentais tivesse despertado, provocado
violentamente o Mistério, rasgado os profundos véus
translúcidos e transcendentes do Mistério, ei-lo que
agora fixa demoradamente os olhos na mão esquerda e,
recuando como um fantasma até à outra extremidade
do aposento, solta este grito surdo.
– Ah! a nódoa!
Então, a visão que ele teve nesse momento foi
tremenda. Recuado até ao fundo da parede, o tronco
538 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
vergado, a cabeça vencida, na expressão dos supremos
aniquilamentos, os braços desalentados, os olhos acesos
numa fosforescência e parados numa imobilidade
persistente de olho de ciclope, a boca escumando todo o
horror até ali concentrado, dolorosamente vivido naquele
organismo, encolhido como um fardo humano, na atitude
de um animal acuado, Maurício estava medonho.
Sentia que a nódoa da mão já lhe tomava um braço
todo, depois outro, que lhe envolvia o peito e o ventre,
que lhe descia às pernas e aos pés e que subia fatalmente,
numa inexorabilidade terrível, numa avassalação
desolante de peste, pelo rosto, como langue lesma negra,
viscosa e envenenada lagarta de pauis apodrecidos,
nódoa que até lhe amortalhava os olhos, que o tornava
irremediavelmente cego. E por todo ele era só aquela
nódoa, aquela nódoa, aquela flageladora nódoa a crescer
implacavelmente. Nódoa que mesmo lhe sufocava a
garganta para os gemidos e para os gritos, lhe tirava o
olfato, lhe roubava os movimentos, o paralisava e gelava
todo e o arremessava agora ali, mudo, para um canto,
como uma cousa inútil, num semi-idiotismo esquisito,
numa lividez mortal, rangendo os dentes e olhando o
vácuo, pasmosamente olhando o vácuo...
E, assim encolhido, atirado a um canto, as feições
já invadidas de súbita e precoce senilidade, dentes
rigidamente cerrados, olhos muito abertos vidrados do
espanto, do terror singular concentrado no fundo
devastado das órbitas, Maurício foi encontrado morto,
devorado pela sensacional obsessão delirante daquela
estranha nódoa que, no entanto, sem que ele soubesse
ou pudesse determinar nitidamente no cérebro
alucinado, era a profunda, a incoercível, a grande nódoa
negra simbólica da sua própria vida.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 539
TALVEZ A MORTE?!...
Sob a florescência casta e voluptuosa da lua, numa
noite em que eu ia embebido num desses sonhos que
nos transportam ainda mesmo acordados, deparei com
um vulto de mulher, alta, esgalgada e lívida, vestida de
negro e velada pela redoma vaporosa da bruma da lua...
Parecia trazer, como auréola extravagante, a
nostalgia de ecos e rumores extintos...
O seu rosto branco, lactescente, na majestade do
negror das vestes, tinha uma beleza augusta.
A fronte era como um céu pálido e sereno para
constelar de beijos soluçados de imprevista e suprema
paixão.
Os cabelos, iriados d’orvalho luminoso, como que
desprendiam certa fosforescência leve... Não eram
louros, eram negros e de um oleoso quente,
impressionante, fascinativo.
Os olhos chamejantes lembravam dois astros
ardendo numa treva densa e ondulante, coruscando no
abismo das duas órbitas fundas, fatidicamente
embaladores como berceuses de um doce e delicioso
Nirvana...
O nariz, ainda que belo e de uma aristocracia
incriada, tinha uma expressão de ansiosas luxúrias de
além-túmulo, um sentimento de austera firmeza e
inexorabilidade de causar mistério e pavor...
A boca, de um langor quebrado e letal, de uma
expansão meio morta, fazia recordar os alucinamentos
e o gozo de uma flor de melancólico desejo alvorecida
nos frios terrores de uma cova.
O andar, lento e grave, de um gracioso e nervoso
balanceado de sonambulismo, maravilhava todo o seu
vulto esquisito de um encanto desconhecido, como se
ela, na verdade, caminhasse sob a magia de um sonho.
540 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Vagamente, o espírito ficava arrebatado a cismar
num grande lírio tenebroso de perfume adormecedor e
fatal!
De longe, olhando-a entre o enevoamento do luar,
ela passava-me na retina ferida de deslumbramento
fantasioso, com cintilações de uma estranha serpente
branca e negra, os movimentos coleantes e ondulosos
do andar lento e grave de curiosidades e de ritmos
imaginários.
Dir-se-ia a visão das tormentosas nevroses, a
deusa cândida das singularidades emotivas, embriagada
por vinhos sombrios e sutis de soberanos requintes.
Eu experimentava ao vê-la um estremecimento
de fascinação e uma tontura de abismo, como se ela
própria fosse um abismo que a pesar meu, bela e
tremenda, me viesse estrangular com os seus abraços
não sei de que sensação e nem de que delírio, num
amor venenoso e luminoso ao mesmo tempo...
Não se sentia nela o contato carnal, o travo
miserando, a garra cruel da matéria. Não era a lama vil
que tomava aqueles inauditos aspectos. Certo não a carne
venal mundanizada!
Uma força secreta fazia com que ela vagasse,
caminhasse... Uma espiritualização nobre a revestiu de
vida miraculosa – filtro das Esferas, ansiedade palpitante
do Infinito, magno amor dos Espaços, imortalidade
invisível das Cousas, quintessência da dor do Nada!
Como que da su’alma de pinturesco de vitrais,
sobre um fundo de madrugadas violáceas, deveriam
irradiar aleluias lúgubres...
Mas, pela obsessão de olhá-la, parecia-me agora
que ela não se movia mais, que quedara num ponto,
imperturbavelmente olhando os longes indistintos, alta
e branca, afilada como uma torre perdida nos
descampados do céu, sob a lua em silêncio
supersticioso...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 541
Doze badaladas sombrias, mensageiras funestas
do Sortilégio, ressoaram, soluçaram, cavas no ar, lentas,
compassadas, monótonas...
Inquieto, febril como nunca, cravei o olhar agitado,
sofregamente, no ponto onde devia estar a visão; porém
ela havia desaparecido, se desfeito, quem sabe!
reentrado nos seus mundos, ante as badaladas choradas
e cabalísticas da Meia-Noite!
Ah! quem era, afinal, essa Visão, essa ave de luto
e melancolia celeste?! Talvez a Arte?! Talvez a Morte?!
542 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
ÍDOLO MAU
...voici que, tout à coup, ces élus de l’Esprit sentent
effluer d’eux-mêmes où leur provenir, de toutes
parts, dons la vastitude, mille et mille invisibles
fils vibrants en lesquels court leur Volonté sur
les événements du monde, sur les phases des
destins, des empires, sur l’influente lueur des
astres, sur les forces déchainées des éléments.
VILLIERS DE L’ISLE ADAM, Axël
De descaro em descaro, de deboche em deboche,
as tuas paixões, os teus vícios, monstros leviatânicos,
empolgaram-te.
Estás agora preso à calceta de sentimentos negros
e, obscenamente, te arrastas, lesmado e vil, preso à
calceta de sentimentos negros.
Na tua alma iníqua, pestilenta e vencida, nada
mais arde, nada mais flameja, nada mais canta.
Como a ave noturna e luciferina do – Nunca mais!
– desse peregrino e arcangélico Poe – como essa ave
noturna, pairou sobre ti a desilusão de todas as cousas.
E tu, agora, só ouves os misteriosos carrilhões da
noite, da grande noite do Nada, convulsamente
soluçarem e só vês errar os espectros lívidos da Saudade
arrastando as longas túnicas inconsúteis e brancas.
De descaro em descaro, de deboche em deboche,
as tuas paixões, os teus vícios, monstros leviatânicos,
empolgaram-te.
De tal sorte te afundaste, te abismaste no caos
infernal da malignidade, de tal sorte o crime absurdo,
feio, torto, te avassalou supremamente, que a própria
origem de lama, de onde surgiste, nega-te, rejeita-te,
repele-te.
Tu não morrerás mais!
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 543
Ficarás na terra – imenso Purgatório –
regenerando, purificando, cristalizando a tu’alma dessa
mancha sinistra e lutulenta, que a envolve toda.
Não morrerás mais! Te perpetuarás, para te
remires do teu enorme Pecado, cuja sombra orbicular
põe nódoas fundas no sol, doentias penumbras no luar,
turva, entenebrece a fina pedraria branca das estrelas.
Entretanto, legiões e legiões de homens deixamse fascinar por ti; tu os atrais insensivelmente ou
calculadamente, os sugestionas, os arrastas, e,
fetichistas tristes, bufos lúgubres, eles vivem de sugar
o veneno hediondo das tuas palavras e das tuas obras,
com a alma e a consciência de rastos a teus pés, na
covardia langue, lassa, dos que dão toda a veneração
vilã aos ídolos malignos.
Nem o retalhante knut siberiano, nem os suplícios
fabulosos do Tântalo, nem os horríveis martírios de
Ugolino são suficientes dilícios para remir e imacular o
teu ser da mácula de lodo e sangue que tanto o está
manchando cada vez mais intensamente.
Tal é a malignidade, o descarnado cinismo em
que reinas, bandido e bonzo, que pareces o porta-bandeira
funesto das fantásticas legiões armadas do
Aniquilamento supremo, trazendo como divisa fatal esta
inscrição formidável: – Fome! Peste! Guerra!
És, pois, o proclamador da Fome, da Peste, da
Guerra. Vieste sob a claridade assinaladora de um íris
prenuncial, sob os eclipses pressagos, sob os sóis
reveladores, sangrando em chaga, dentre círculos de
fogo, sob as luas augurais, mórbidas e sonolentas, de
amarelidão defunta.
Entretanto, se não fora a preguiça mental, um
verdadeiro servilismo, uma covardia crassa que tolhe-te
completamente os nervos do Pensamento, poderias
salvar-te ainda.
Porque tudo está na espiritualidade, na alma. Tudo
está em fazer da alma nova hóstia, um sol incomparável,
544 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
a quintessência do Sentimento, para que a alma seja
mais eterna que a luz, mais forte que os bronzes, mais
etereal do que os astros.
Alma, alma, mais alma, mais alma, muita alma,
muita alma, toda, toda a alma, toda a infinita alma!
É mister que pouco a pouco te devore uma doce
ansiedade secreta e nobre; que uma suavidade celestial
desça por sobre ti; que um encanto maravilhoso te
engrandeça, te levante e faça sonhar; que aspires às
sublimes purificações, às emocionais magnitudes, às
surpreendentes transformações, às grandes eloqüências
da Sensação que perpetuamente constelam as naturezas
assinaladas.
É mister que a serena e imaculada Sideralidade
dê-te o poder das Reivindicações; que de ignóbil e rojado
aos mais terrestres vilipêndios, surjas, como de um
Batismo novo e original, Arcanjo das Transfigurações,
alto e calmo dominando, vencendo os Vândalos em torno.
E que uma rara fé, mais forte que toda a fé cristã,
mais ardente, mais viva, te inflame e ilumine com as
suas chamas prodigiosas.
É de lágrimas, é de desejos, é de gemidos, é de
aspirações e agonias que se fecunda a imortalidade.
Se tu tornares bem intensos os teus pensamentos,
bem chamejantes, bem profundos, arrancados do mais
íntimo do teu ser com todas as estranhas raízes da tua
sensação, tu te salvarás ainda, te remirás do teu crime
nefando, do teu cinismo bandido, do teu escarnecedor
deboche de celerado.
Se souberes manifestar toda a expansão do
temperamento, com os segredos da Intuição; se
desabrochares como força própria, entranhadamente
própria e poderosa, sem veres apenas o que te for tangível
aos olhos, sem imaginares o que já foi imaginado, sem
sentires o que já foi sentido, sem te nivelares com a
materialidade da massa humana, serás uma afirmação,
um estado de existir, de impressionar. E, enfim, se
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 545
ficares livre, inteiramente livre de todas as peias
obscenas da miséria coletiva e da convenção dourada,
serás verdadeiramente um espírito, originalmente um
homem, matrimoniando-te com o sentimento, como o
sol nos frementes e lúbricos esponsais com a terra.
Basta, apenas, para te purificares de todo e com
solenidade desse descaro e desse deboche, que te
possuas de ti próprio, que comungues os Sacramentos
abstratos, que te unjas de dons incomparavelmente
preciosos e belos, despindo-te primeiro de todas as
necessidades, de todas as vanglórias, para que, enfim,
vivas, excepcionalmente vivas; para que sintas, intuitiva,
eloqüente, a póstuma volúpia espiritual de te perpetuar
de te difundir no Azul, de ainda, através dos tempos,
viver...
Basta, para isso, que renasças de ti mesmo, com
entusiasmos bizarros, revitalizados pelo fluido de ouro,
rico e fecundo, dos Idealismos, olhando as cousas com
olhos sonoros, harmoniosos; que ascendas à
Perfectibilidade e surjas, simples e sereno, da lama
esverdeada onde coaxas de descaro em descaro, de
deboche em deboche – sapo asqueroso de sensualidades
tristes – Astro imortal do Sonho, assim singularmente,
curiosamente remido e perdoado para sempre de tudo,
na palpitação extática das Luzes, das Formas, das
Transcendências!...
546 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
BALADA DE LOUCOS
Oui, nulle souffrance ne se perd, toute
douleurfructifie, il en reste un arome subtil qui
se répand indefiniment dans le monde!
M. DE VOGUÉ
Mudos atalhos afora, na soturnidade de alta noite,
eu e ela, caminhávamos.
Eu, no calabouço sinistro de uma dor absurda,
como de feras devorando entranhas, sentindo uma
sensibilidade atroz morder-me, dilacerar-me.
Ela, transfigurada por tremenda alienação, louca,
rezando e soluçando baixinho rezas bárbaras.
Eu e ela, ela e eu! – ambos alucinados, loucos, na
sensação inédita de uma dor jamais experimentada.
A pouco e pouco – dois exilados personagens do
Nada – parávamos no caminho solitário, cogitando o rumo,
como, quando se leva a enterrar alguém, as paradas
rítmicas do esquife...
Eram em torno paisagens tristes, torvas, árvores
esgalhadas nervosamente, epilepticamente – espectros
de esquecimento e de tédio, braços múltiplos e vãos sem
apertar nunca outros braços amados!
Em cima, na eloqüência lacrimal do céu, uma lua
de últimos suspiros, morta, agoniadamente morta,
sonhadora e niilista cabeça de Cristo de cabelos
empastados nos lívidos suores e no sangue negro e
esverdeado das letais gangrenas.
Eu e ela caminhávamos nos despedaçamentos da
Angústia, sem que o mundo nos visse e se apiedasse,
como duas Chagas obscuras mascaradas na Noite.
Longe, sob a galvanização espectral do luar, corria
uma língua verde de oceano, como a orla de um eclipse...
O luar plangia, plangia, como as delicadas violetas
doentes e os círios acesos das suas melancolias, as
fantasias românticas de sonhador espasmado.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 547
Parecia o foco descomunal de tocheiros ardendo
mortuariamente.
A pouco e pouco – dois exilados personagens do
Nada – parávamos no caminho solitário, cogitando o rumo,
como, quando se leva a enterrar alguém, as paradas
rítmicas do esquife...
Beijos congelados, as estrelas violinavam a sua
luz de eternidade e saudade.
E a louca lúgubres litanias rezava sempre, soluços
sem o limitado do descritível dor primeira do primeiro
ser desconhecido, originalidade inconsciente de um
dilaceramento infinitamente infinito.
Eu sentia, nos lancinantes nirvanescimentos
daquela dor louca, arrepios nervosos de transcendentalismos imortais!
O luar dava-me a impressão difusa e dormente
um estagnado lago sulfurescente, onde eu e ela,
abraçados na suprema loucura, ela na loucura do Real,
eu na loucura do Sonho, que a Dor quintessenciava mais,
fôssemos boiando, boiando, sem rumos imaginados,
interminamente, sem jamais a prisão do esqueleto
humano dos organismos – almas unidas, juntas, só almas
vogando, almas, só almas gemendo, almas, só almas
sentindo, desmolecularizadamente...
E a louca rezava e soluçava baixinho rezas
bárbaras.
Um vento erradio, nostálgico, como primitivos
sentimentos que se foram, soprava calafrios nas suas
velhas guslas.
De vez em quando, sobre a lua, passava uma nuvem
densa, como a agitação de um sudário, a sombra da asa
de uma águia guerreira, o luto das gerações.
De vez em quando, na concentração esfingética
de todos os meus sofrimentos, eu fechava muito os olhos,
como que para olhar para o outro espetáculo mais
fabuloso e tremendo que acordava tumulto dentro de
mim.
548 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
De vez em quando um soluço da louca, vulcanizada
balada negra, despertava-me do torpor doloroso e eu abria
de novo os olhos.
E outro soluço, outro soluço para encher o cálix
daquele Horto, outro soluço, outro soluço.
E todos esses soluços parecia-me subirem para a
lua, substituindo miraculosamente as estrelas, que
rolavam, caíam do Firmamento, secas, ocas, negras,
apagadas, como carvões frios, porque sentiam, talvez!
que só aqueles obscuros soluços mereciam estar lá no
alto, cristalizados em estrelas, lá no Perdão do Céu, lá
na Consolação azul, resplandecendo e chamejando
imortalmente em lugar dos astros.
A pouco e pouco – dois exilados personagens do
Nada – parávamos no caminho solitário, cogitando o rumo,
como, quando se leva a enterrar alguém, as paradas
rítmicas do esquife...
O vento, queixa vaga dos túmulos, esperança
amarga do passado, surdinava lento.
De instante a instante eu sentia a cabeça da louca
pousada no meu ombro, como um pássaro mórbido, meiga
e sinistra, de uma doçura e arcangelismo selvagem e
medroso, de uma perversa e febril fantasia nirvanizada
e de um sacrílego erotismo de cadáveres. Ficava tocada
de um pavor tenebroso e sacro, uma coisa como que a
Imaginativa exaltada por cabalísticos aparatos
inquisitoriais, como se do seu corpo se desprendessem,
enlaçando-me, tentáculos letárgicos, veludosos e doces
e fascinativos de um animal imaginário, que me
deliciassem, aterrando...
Eu a olhava bem na pupila dos grandes olhos
negros, que, pela contínua mobilidade e pela beleza
quente, davam a sugestão de dois maravilhosos astros,
raros e puros, abrindo e fechando as chamas no fundo
mágico, feérico da noite.
Naquela paisagem extravagante parecia passar o
calafrio aterrador, a glacial sensação de um hino negro
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 549
cantado e dançado agoureiramente por velhas e
espectrais feiticeiras nas trevas...
A lua, a grande mágoa requintada, a velha lua
das lágrimas plangia, plangia, como que na expressão
angustiosa, na sede mais cega, na mais latente
ansiedade de dizer um segredo do mundo...
E eu então nunca mais, nunca mais me esquecerei
daqueles ais terríveis e evocativos, daquelas indefiníveis
dolências, daquela convulsiva desolação, que sempre
pungentemente badalará, badalará, badalará na
minh’alma dobres agudos e lutuosos de uma Ave-Maria
maldita de agonias, como se todos os bons Anjos da
Mansão se rebelassem um dia contra mim, cantando
em coro reboantes, conclamantes hosanas de perseguição
e de fel!
Nunca! nunca mais se me apagará do espírito essa
paisagem rude, bravia, envenenada e maligna, todo
aquele avérnico e irônico Pitoresco lúgubre, por entre o
qual silhueticamente desfilamos, eu, alucinado num
sonho mudo, ela, alienada, louca – simples, frágil,
pequenina e peregrina criatura de Deus, abrigada nos
caminhos infinitos deste tumultuoso coração.
Só quem sabe, calmo e profundo adormecer um
pouco com os seus desdéns serenos e sagrados pelo
mundo e escutar já, de manso, através das celas
celestes do mistério das almas, uma dor que não fala,
poderá exprimir a sensação aflitíssima que me
alanceava...
Ah! eu compreendia assim os absolutos Sacrifícios
que redimem, as provações e resignações que
transfiguram e renovam o nosso ser! Ah! eu compreendia
que um Sofrimento assim é um talismã divino concedido
a certas almas para elas adivinharem com ele o segredo
sublime dos Tesouros imortais.
Um Sofrimento assim despertava em mim outras
cordas, fazia soar outra obscura música. Ah! eu me sentia
viver desprendido das cadeias banais da Terra e pairando
550 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
augustamente naquela Angústia, tremenda, que me
espiritualizava e disseminava nas Forças repurificantes
da Eternidade!
E como dentro de mim estava aberto para ela o
suntuoso altar da Piedade e da Ternura, eu, com
supremos estremecimentos, acariciava essa alucinada
cabeça, eu a levantava sobre o altar, acendia todas as
prodigiosas e irisantes luzes a esse fantasma santo, que
ondulava a meu lado, no soturno e solene silêncio de
fim daquela sonâmbula peregrinação, como se ambos os
nossos seres formassem então o centro genésico do novo
Infinito da Dor!
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 551
ESPELHO CONTRA ESPELHO
Tu, alma eleita, que trazes essa sede de Espaço,
essa ansiedade de Infinito, essa doença do Desconhecido
que te fascina os nervos, que vieste ao mundo para falar
pelas outras bocas, para ser a voz viva de todas as vozes
mortas; tu, que andas em busca de uma dor que venha
ao encontro da tua; tu, que interpretas tanta queixa,
tanta queixa, tanta queixa dos Corações, tanta queixa
dos Espíritos, tanta queixa das Almas, tudo porque não
há resposta a esta pergunta horrível: por que nos deram
a Vida?! Tu, que legaste toda a delicadeza virginal do
Sentimento a este Apostolado doce e amargo da Arte,
bela e triste; tu, que sentes chamejar e cantar a inefável
poesia que te alimenta como o óleo alimenta as lâmpadas;
tu, cujo espírito é uma fonte de dons maravilhosos onde
os sedentos se debruçam e bebem à farta a água mais
cristalina, mais clara; tu, que tão sagradamente te
revoltas, na majestade ideal das águias e dos leões, e
que, na candidez, na ingenuidade casta e santa da tua
alta nobreza de Arte, atinges com a ponta das asas
espirituais a ponta das asas dos Anjos! Tu, ó alma
aureolada de deslumbramentos brancos, Lírio estético
que um luar de sonhos sensibilizou, ouve este verbo
veemente, vivo, de quem procura sentir os altos segredos
da Existência, perscrutar-lhe as íntimas origens fugidias.
Ouve este verbo vulcanizado, convulso, cheio das
grandes tempestades ideais que abalam o Sentimento
do mundo. Ouve este verbo aceso, inflamado na chama
do Absoluto, para ele subindo e para ele palpitando
sempre. Ouve este verbo indomável vento que sopra pelas
trompas do mar e que soluça pelas harpas do céu toda a
grandeza de uma Ilusão, toda a majestade de uma Fé.
Eu falo a ti, Alma eleita e desolada nos crepúsculos
da Cisma; não falo às almas antipáticas, cruamente
ardentes, acres, como terrenos crestados, muito
flagrantes de sol, sem sombras consoladoras... Falo a ti,
552 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
que sentes e sabes o frio que vai pelo mundo, como as
almas tiritam sem agasalho, desabrigadas, como as
consciências enregelam sem amor e sem bondade na
ferocidade dos brutos instintos, como a doce e nobre
Humildade se encolhe e protege nos obscuros vãos de
uma porta para não morrer esmagada pelo bárbaro tacão
da Prepotência, como a filáucia triunfa e como a Grande
Virtude de todos os tempos está cega e pede esmola
envolta em duros frangalhos! Tu, Genial, que tens
suspiros, que tens ânsias, que tens lágrimas para esta
Comédia fúnebre, mas dolorosa, em que vai o mundo;
tu, singular e lívido demônio que te fizeste monge, que
tens a tua ironia santa que diviniza e nirvaniza, o teu
rebelado sarcasmo em brasas, toda tua mordacidade
inclemente para essas tristes cousas terrenas, não podes
ver sem abalo, sem comoção profunda, almas de mocidade
já sem dedicação intensa, sem energias claras, sem
entusiasmo absoluto. Não desse entusiasmo oficial,
coletivo, das massas – mas esse entusiasmo propulsor
das células, esse entusiasmo dúctil, voluptuoso, nervoso,
que vem da extrema sensibilidade; esse entusiasmo que
é tônico, que é éter puro, que é oxigênio matinal, que é
essência criadora, que é chama fecunda e asa branca
no genuíno espírito; esse entusiasmo que é força altiva,
que é dignidade serena, que é emoção original e casta,
que infiltra azul e sol nas veias, acende aurora e vibra
cânticos no sangue.
Há de doer-te fundo esse desolamento, essa morte
das almas, essa aridez, essa petrificação de sentimentos
em tudo. Há de doer-te muito que os impotentes se liguem
aos impotentes, os nulos aos nulos, os frouxos aos frouxos,
os esgotados aos esgotados. Que nada os separe, nada
os afaste. Que quanto mais se reconheçam tartufos mais
se unam no intuito e no instinto de se conservarem
inatacáveis, embora, mesmo, no fundo, e fatalmente, se
destruam, se odeiem, achando um incômodo a existência
dos outros. Há de doer-te muito que uma envenenada
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 553
relação secreta os una, os congregue, os irmane, para
juntos darem batalha subterrânea, cavilosa e vilã, aos
que trazem a clara força tranqüila de um alto Desígnio,
como armadura de astros, no peito.
Há de afligir-te muito que na hora da mais
profunda, da infinita Desolação, até os mais íntimos te
abandonem, desapareçam, como que tocados pela idéia
de que os teus extremos fatalismos são inconvenientes
e contagiosos!
Há de fazer brotar em ti a luminosa flor da ironia,
o aspecto ousado do Asinino, que quer a todo o transe
medir-se contigo, pôr-se no mesmo paralelo, porque vê
tanto como tu, sente tanto como tu, sonha e é tão legítimo
ser como tu!! Se tu lhe dizes versos, ele diz-te versos;
se tu lhe dizes prosa, ele diz-te prosa, opondo a natureza
dele a tudo, atropelando as cousas, atrabiliariamente,
acertando, às vezes, por acaso, por assimilação fácil,
por percepção de simples arguto, mas não trazendo os
fundamentos de sangue e de sonho, esse longínquo
infinito de origem, essa harmonia interior e essa beleza
heróica tão pouco perceptível e penetrável.
Sentirás no Asinino a pressa de comunicar
primeiro que ninguém idéias que já Alguém pôs em
circulação no tempo, nas correntes do ar; idéias que já
foram acariciadas por outro com delicadeza mais
particular, com veemência mais extrema, com intuição
mais clara, com amor mais eloqüente, com entendimento
mais recôndito. Sentirás no Asinino a natureza
essencialmente auditiva, que ouve e torna-se o eco fácil,
ingênuo, irresponsável, mas errado, mas corrompido,
impuro já, da Grande Voz poderosa, honesta e pura que
ouviu, porém que ouviu mal, sem a plasticidade
necessária para receber, no seu primitivo apuramento
imaculado, todas as complexas e infinitas vibrações,
nuances e modalidades dessa Grande Voz.
Sentirás no Asinino a intenção capciosa de ser o
teu refletor, de cruzar nos teus os seus raios, de produzir
554 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
os mesmos reflexos, de apresentar as mesmas faces
iluminantes, as mesmas irradiações e golpes de luz, as
facetas do mesmo cristal e o fundo do mesmo aço.
Sentirás no Asinino a revelação da tua revelação,
o despertar do teu despertar, a sugestão da tua sugestão
– mas isso truncado, hipertrofiado, inteiramente desviado
dos eixos centrais do teu Objetivo, sem a unidade inicial
dos órgãos ingênitos que propulsionaram e deram a
integração final às linhas gerais da sensibilidade do teu
ser, à zona compacta e luminosa do foco supremo das
tuas Intuições.
Sentirás no Asinino a imitação do teu Silêncio, a
imitação da tua Sombra – sombra e silêncio d’espelho,
sombra e silêncio refletidos do teu silêncio e da tua
sombra, sombra e silêncio reproduzidos d’espelho contra
espelho.
Não poderás projetar o teu vulto num lago que o
Asinino não projete também o seu vulto no mesmo lago;
não poderás aquarelar o teu perfil num luar que o Asinino
não aquarele também o seu perfil no mesmo luar.
Se a tua Imaginação é virgem, reverdece agora
nos luminosos pomares da Fantasia, a Imaginação do
Asinino também é virgem e reverdece agora nos mesmos
luminosos pomares. Não podes vir da raiz viva e violenta
de uma sensação, da agudeza de uma Causa, da livre
enunciação de um fenômeno, porque o Asinino também
vem de lá, também de lá procede, também de lá se
origina. Não há originalidades subjetivas, clama o Asinino,
não há o puro sentir, o novo sentir, o excepcional sentir!
Tudo já passou depurado pelo meu organismo, que é o
crisol das purificações, clama o Asinino.
Vida do eu visual, do eu olfativo, do eu mental, do
eu sensível, faz vida original, faz vida de temperamento,
portanto, vida ingenitamente particular e nova, dirás tu
na perfectibilidade da tua visão.
Mas o Asinino, que é a Rotina secular, que é a
Regra universal, argumenta com pedras em vez de
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 555
argumentar com sentimentos, com emotividades, com
dutilidades e mistérios de alma.
Nuances novas de alma, caminhos não explorados
no mundo do Pensamento, certos segredos e
transfigurações, rumos inéditos, paragens de uma
inaudita melancolia, tudo é paralelamente julgado pelo
Asinino, que logo estabelece para as relações de cada
caso especial a mesma esfera de ação de múltiplos casos
diversos.
Sempre sol contra sol, sempre sombra contra
sombra, sempre espelho contra espelho.
Sempre este espelho – Homero, contra este
espelho – Virgílio. Sempre este espelho – Shakespeare,
contra este espelho – Balzac, ou contra este espelho –
Dante, ou contra este espelho – Hugo. Sempre este
espelho – Flaubert, contra este espelho – Zola, ou contra
este espelho – Goncourt. Sempre este espelho –
Baudelaire, contra este espelho – Poe, contra este
espelho – Villiers e contra este espelho – Verlaine.
Sempre este espelho – Ibsen, contra este espelho –
Maeterlinck.
Sempre, eternamente estes espelhos impolutos e
astrais que reproduzem a perfectibilidade de sentimentos
nas gerações, paralelamente igualados, medidos e
pesados pelo Asinino, que os equipara, confundindo- lhes
a delicadeza e fulguração dos cristais.
Sempre um Sentimento contra outro Sentimento,
como se pudesse haver uma alma com a cor e a
sonoridade de outra alma!
E tu, na impaciência, na inquietação do teu vôo
astral para as serenas Esferas, buscarás libertar-te,
desacorrentar-te dos grilhões a que essa Rotina te
prendeu, a que ela te sujeitou com a responsabilidade
das primitivas camadas da Inteligência, para poderes
afirmar que, como os Eleitos guiados a sós pelo seu
Destino, tu também vieste só, representando um
fenômeno desprendido no Espaço, sem leis de correlação
556 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
no sentimento da tua Dor – uno e indivisível fenômeno
no obscuro e perpétuo germinal da Natureza.
Na solidão do teu Ideal ficarás como um astro
singular vivendo na luz nostálgica de uma órbita
imaginária, sem que a confusão dos tempos possa jamais
quebrar a intensidade do teu brilho e a serenidade da
tua força.
O Asinino continuará lá embaixo, na turba, na
multidão, no rodar das épocas, estreitamente e
empiricamente a comparar, a comparar, a medir o teu
Infinito pelo infinito da sua miopia secular, lá embaixo,
na turba, na multidão. Tu, além, lá em cima, superpondote aos mundos, rolarás, transbordarás, na augusta
perpetuidade do Sentimento.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 557
ABRINDO FÉRETROS
Agora, que deixei para lá, na plebéia rua, a filáucia
e a mordacidadezinha do inqualificável cretino; agora,
que consigo sacudir-me à vontade da poeira da frivolidade
dos caminhos; que já estou, afinal, longe dos
perturbadores, vampíricos contactos execrandos, posso,
talvez, fechando-me nos meus secretos isolamentos, nas
minhas solenes abstrações, concentrando-me, afinal,
penetrar serenamente no Além, debruçar-me
transfigurado no Mistério.
Sinto mesmo que o Mistério chama-me, ele
chama-me, atravessa-me com os seus sutis e poderosos
filtros.
Dilui-se na atmosfera do meu ser uma luz doce,
dolente, meiga tristeza de leves nuanças violáceas que
deve ser melancolia...
Acendem-se e ficam crepitando, ardendo, todos
os altos círios sagrados da velada capela da minh’alma,
onde o meu passado e morto Amor, como o Santíssimo
Sacramento, está exposto.
Lâmpada por lâmpada vai também se acendendo
o langue, untuoso luar das lâmpadas, como nas azuladas
e cintilantes arcarias da Via-Láctea estrela por estrela.
E, neste tom do Angelus da minh’alma, nesta
surdina vesperal, começam as litanias vagas, as preces
desoladas por Aparições que só a vara mágica da contrita
saudade e da espiritualidade pura sabe fazer
desencantar e ressurgir, nimbadas de transfulgentes
lágrimas e luzes...
Sinto-me afinado por uma música de luar e lírios,
por uma eterificação de beijos celestes.
E, a meu pesar, sai da minha boca, como de uma
cova do esquecimento, este doloroso, ansioso clamor:
– Ó mármore impenetrável do Sepulcro! palpita!
canta! abre-te em veias! E que por essas veias corra e
estue a caudal infinita do sangue leonino e virgem das
558 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
grandes forças criadoras da Beleza! Ó mármore
misérrimo! ó matéria missérrima! Escuta-me, ouve-me,
sente-me! Sensibiliza-te, espiritualiza-te, vibratibilizate...
PRIMEIRO FÉRETRO – ANA
Alma de colegial que se fizesse, de repente, irmã
de caridade. Ah! essa era, com efeito, irmã da minha
vida e tinha caridade de mim. Fazia meditar num destes
seres obscuros que morrem sem nunca ninguém lhes
penetrar o segredo.
Ela mesmo morreu como uma tarde elísea
vagueada de pássaros: – no outono da castidade, intacta
natureza que o Nada devorou sem piedade, reclusa e
triste, só, no ascetério da sua fé, penitente da carne,
monja sem mancha.
Parece-me ainda vê-la no féretro, a fronte lívida,
que os longos e meigos, fagueiros cabelos aureolavam.
Era como se um cortejo de águias, em alas, a levasse
pelo Azul, enquanto o seu alvo corpo em flor e gelado ia
virginalmente, para sempre, dormindo...
Parece-me ver no seu olhar se refletir ainda,
talvez do fundo claro da Eternidade, este pensamento
cândido; ó inocente alegria da Infância, graça cor-derosa e ingênua dos tempos, para onde te exilaste? Eram
olhos, os seus, onde vagava a harmonia cantante dos
claros rios, e a frescura dessa ingênita bondade que
floresce instintivamente e espontaneamente nas almas,
como as estrelas no céu, apesar das tentações malignas,
das apostasias do Bem, dos sacrilégios do Amor. Olhos
onde havia bizarro e cintilante alvoroço alegre de
mocidade, qualquer cousa de farfalhante ruflar d’asas
por entre festões de flores, sonoridades de cristais e
luzes.
Como, pois, aquela forma de tanta suavidade e de
tanto encanto evaporou-se logo?! Como, pois, aquele ser,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 559
tão oculto da terra, tão obscuro, tão humilde, zero inútil
no grande algarismo do Mundo, mas tão simples e tão
bom, assim desapareceu um dia, arrebatado num vento
macabro, convulsivo, de morte?! Como as essências
desconhecidas, os filtros esquisitos daquela triste dor
nunca foram descobertos? Como os abafados soluços
daquela pobre Mágoa nunca foram ouvidos?!
Pois que Deus é esse que faz vigorar nos centros
do rumor e da luz, como amplas e verdejantes árvores
célebres, existências medíocres que pompeiam e fazem
ressoar com vaidoso estrondo a sua prepotência vazia,
enquanto aniquila, abate existências onde há um sonho
bom de amor e de carinho! Pois que Deus é esse! Que
divina misericórdia e que clemência iguais ele, cego,
tão cego, semeia na terra, que todos, bons ou maus,
colhem o mesmo imutável quinhão?!
Que celeste ironia, acaso, dá-lhe asas satânicas,
dá-lhe asas ferozes de fogo, que ele, cego, tão cego, tudo
por igual incendeia e em toda a parte cospe lesto a
peste?!
Quando Ana morreu eu senti, tal foi o impressionativo abalo, como que uma espada varar-me, lado a
lado, o coração.
Eu estava num desses períodos que as
reminiscências para sempre conservam, que se não
apagam nunca mais no íntimo sadio das nossas fibras,
das partículas mínimas do nosso sangue, da espontânea
florescência casta do nosso ser. Eu estava na mocidade,
na plena e na fortalecente mocidade. Desabrochavam
em mim perigosas e viçosas flores de delírio juvenil. Eu
aspirava o Vago, o Turbilhão das Quimeras. Palácios de
fadas eram as minhas noites. Palácios de fadas eram os
meus dias. Uma saúde vital dava-me aços de intrepidez,
envergaduras ousadas, fantasia e força e frescura
matinal de montanhês que vai galgando montanhas por
alvoradas de ouro e aves.
560 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Na paisagem da minha Imaginação só havia
cânticos e uma brancura purificadora envolvia as cousas
na calma de leve e ingênua felicidade ridente.
Ana foi para mim como uma harpa que deixou, de
repente, de soar...
Ela era, com efeito, a harpa delicada onde eu,
adolescente e sem saber como, tirava as harmonias, os
sentimentos rítmicos que guardei comigo e que agora
aqui vou aos poucos difundindo.
Ela era a harpa em cujas cordas sensibilizadas
eu sempre adivinhei os acordes místicos e fugitivos de
um segredo amargo.
Aquela candidez de virgem tinha luto, aquela
madrugada de mulher tinha insônias.
Um meio-dia de sol, onde, por um etéreo capricho
fenomenal dos astros, se entrecruzasse, transfiguradamente, o crepúsculo.
Desde que Ana morreu começou a cair na
minh’alma uma cinza fria de desolação, uma sombra
dolente.
Ela foi quem primeiro me ergueu a fronte e as
mãos para os sublimes Sacrifícios. Foi ela quem primeiro
me ungiu com os seus cuidados cordiais. Foi ela quem
me deu a comungar a hóstia da Vida com as suas mãos
de amor. Ela arejou a minh’alma, deu sol ao meu
Desconhecido, deu luar de paz ao meu Sonho.
Vibrações virgens de harpa inviolada para o
mundo, as emoções da alma de Ana faziam meditar no
mesmo vago e no mesmo encanto longínquo de regiões
ainda não descobertas. Nela dir-se-ia dormir uma vida
nova, que, ai! nunca despertou e afinal envelheceu no
mistério daquele organismo.
Delicadezas de sensibilidade que nunca
transbordam no mundo, tímidas lágrimas reconcentradas
que nunca enchem os oceanos!
Com a morte de Ana foi se diluindo a minha
sensibilidade, começou de leve, lento, a harmonia velada
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 561
do meu ser, veio vindo, se difundindo e definindo a
Dolência.
Era um fio imperceptível da minha vida, ligado à
vida dela, que se partira e que só se tornaria a reunir,
talvez, mais tarde, nos reinos encantados e noturnos da
Saudade, perto dos rios roxos do Esquecimento, às
margens amargas da Ilusão.
Ana fora uma espécie dessas crepusculares,
outoniças flores nostálgicas, de desconsoladas perpétuas
do celibato que as insônias aquebrantadoras e perigosas
definham e crestam como mormaços venenosos.
Fazia lembrar uma dessas donzelas de honor,
insontes e peregrinas; seres para os quais a Dor tornase de alguma sorte um vinho selvagem e alucinante que
embriaga, iluminando de certa forma, e cujas religiosas
surpresas e revelações da alma estão para sempre
veladas e veladas a muitas almas profanas.
E lá, nos reinos encantados e noturnos da
Saudade, essa, para mim veneranda e magnânima
Criatura – coração, sem dúvida, inquieto, mas parecendo
alheio às seduções do mundo e que, quem sabe!, falhou
ao seu Destino, lá estará nos parques solitários da
Melancolia, no renunciamento de tudo e na indiferença
augusta e clássica, nessa doce expressão de beleza de
certas estátuas antigas, envelhecidas pelo tempo e
tristes, que se vêem através de grandes jardins
enevoados...
SEGUNDO FÉRETRO – ANTÔNIA
Sombra de luto, de viuvez e de velhice. Angelus
sem plangências consoladoras de campanário, sem ecos
saudosos, sem elos de afeto, só, na solidão árida, no
abandono sem limites de uma voz que chamasse por ela
– já apagada a última luz dos faróis interiores, escura já
toda aquela vasta região de velhice.
562 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Era a harpa soturna, surda, sem cordas, como as
que ficam ao acaso, para ali a um canto no leilão dos
tempos, sem que uma vibração ambiente as faça gemer,
sem que um vento dormente as faça cantar. Vida já de
vacilações e de ânsias baixinho, de certos nirvanismos
curiosos e mudos – alma sem impulso, sem hora, sem
desejo, apenas vácuo e vácuo infernalmente circulado
de símbolos desesperadores. Sentimentos anônimos, sem
consolo, mas de profunda significação genésica, e que o
mundo vãmente arrasta nos seus turbilhões medonhos,
no seu pó secular, no tumulto das suas venenosas
seduções. Tipo que vaga, tipo que ondeia, tipo que gira
sem órbitas definidas, ao acaso dos Desígnios,
confundidos, amalgamado no supremo Comum, mas
Existente original no fundo abismal do seu ser.
Para os que sofrem a Dor do Infinito e mergulham
nas profundas, longas e complexas galerias dos
subterrâneos das almas, na claridade saudosa dos olhos
de Antônia parecia haver a transfiguração de uma
cegueira singular da alma, que andava, como as fugidias,
capciosas mãos sem visão de um cego, tateando por
penumbras de bruma.
Naquela ignorada alucinação da vida, que círculos,
quantas correntes tão opostas se cruzariam!
E a efêmera velhinha, sempre obscura, verdadeira
nebulosa de gemidos, despertava curiosidades histéricas,
emotivas, como os signos assinaladores do arco de
aliança – todas as cores, todo o cromatismo esquisito do
sofrimento de um ser que vive isolado na ermida da
alma, sobre os penhascos, os ásperos outeiros do mundo.
Alma apoiada ao bordão da velhice, tiritando e se
arrastando sob as lâminas cruas das espadas glaciais
da Desolação, caminhando sem tréguas por entre ruas
soturnas e confusas, ao longo de imensos muros, vestidos
de limo, sob o soluçante e lacrimoso brumar eterno de
uma chuva fina, muito lenta, triste, monotonamente
triste...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 563
Eu a via, naquela paz lutuosa dos anos, nas
ingênuas manifestações da su’alma como se ela andasse,
sob as provações terrestres, a purificar-se por crisóis
imortalizadores, além pelos sete céus cristalinos e
astrais.
TERCEIRO FÉRETRO – CAROLINA
Esta, Carolina, uma flor infernal de sangue e treva
que a Angústia fecundou.
Esta, a harpa maior, a harpa da Dor, cujas cordas
são mais puras, mais admiráveis e onde mais alto e
majestoso chora todo o incomparável Intangível da minha
Saudade.
Este féretro é um oceano rasgado de tempestades,
de ventos imprecativos, anatematizadores e negros.
Fluidifica-se deste féretro uma música bárbara
de sensibilidade, de martírio.
Aberto diante de mim, assim como eu o estou
vendo aqui, que sugestões singulares me traz, que
despedaçamentos me recorda, que sombrios idílios e
delírios!
Ah! na vida avara, como os sentimentos são avaros,
como o pensamento humano é avaro para perscrutar
uma existência assim!
Onde estão os ascetas que se martirizaram, onde
estão os apóstolos que creram, onde estão os santos que
ciliciaram e que escutaram de perto, mudos, o eloqüente
silêncio da Dor, para virem agora, aqui, comigo, aqui,
com a minh’alma, traduzir os recônditos segredos que
aí estão nesse féretro, penetrar nos ergástulos sem nome
que aqui estão, nessa alma.
Que purificações e que sugestivas grandezas
parabólicas, que transcendentalismos das palavras de
Cristo no Sermão da Montanha, ecoando impressionativo
e a medo como o ulular primicial e majestoso de
imaginários mundos em gestação, poderão, acaso,
564 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
interpretar esta vida deserta que subiu às mais
longínquas e altas cordilheiras da Dor, exprimir os ais
que a violinaram, os soluços que a transportaram ao
céu, os desencontrados combates que a despedaçaram!
Sim! Vazio é tudo no mundo! Os olhos acordam
nesta ânsia viva de chorar e de amar! As ansiedades
que em vão se escondem plangem à flor dos sentidos,
diluem-se, fluidificam-se e, vagamente, aí vêm então
jorrando, vêm vindo as lágrimas...
Sim! Criatura dos Anjos que, no entanto, o Inferno
possuiu e por fim acabou por estrangular! Coração
sangrante! Ser do meu ser! Os outros seres vãos que
babujam a terra com a argilosa Infâmia de que são feitos
nunca poderão, nunca saberão, melancolicamente não,
nunca, que hóstia sanguinolenta e travorosa deram-te
a comungar na Vida, que pão tenebroso de Páscoa de
lágrimas deram-te a devorar, que cálix de vinho letal,
alucinante, sugado ao fel das chagas e das gangrenas
propinaram-te à boca verminada pelo primeiro beijo de
amor, quando tu tinhas as fomes e as sedes vorazes,
cegas, desesperadas do Não-Ser, quando aspiravas às
formas celestes, quando sentias, apesar da tua
inocuidade de poeira mas, talvez!, poeira de algum divino
astro diluído, o insaciável desejo de abranger Infinitos.
QUARTO FÉRETRO – GUILHERME
O que importa a Vida e o que importa a Morte,
obscuro velhinho que te foste, operário humilde da terra,
que levantaste as torres das igrejas e os tetos das casas,
que fundaste os alicerces delas sobre pedra e areia como
os teus únicos Sonhos.
Deixa sinfonicamente cantar sobre ti a
sacrossanta alegria branca e forte do profundo
Reconhecimento que te votei na existência! Deixa correr
sobre o teu virtuoso flanco de lutador, sobre as tuas
mãos rudes e abençoadas, sobre os teus olhos
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 565
hipocondríacos de senil desterrado de Reinos ignotos,
sobre o teu coração suave de cordeiro imaculado, as
grandes e maravilhosas lágrimas repurificantes que
nesta hora sublimizam o meu ser de uma divinização
incomparável! Velho tronco robusto de onde seivas
prodigiosas de Afeição porejaram sempre! A tua alma,
blindada de uma honra ingênua, antiga e clássica,
parecia-se reveladoramente com a natureza – alma
franca e virgem, espontânea nos seus fenômenos, puro
bloco inteiriço de Sentimento, de onde os cinzelários do
Sonho cinzelariam com a sua estética soberana as
criações imortais.
A claridade e a harmonia de uma bondade
primitiva davam à tua alma, não a consagração
espartana unicamente, mas uma simpleza e propriedade
genésica de selvas que geram o Desconhecido e o Vago
da Pureza, sem contactos egoísticos do mundo. Através
da tu’alma eu lia, em caracteres indeléveis, a significação
eloqüente do teu fenômeno triste, do teu simpático e
lhano irradiamento na Existência!
Para os que têm a boa sombra, o Angelus meigo do
Amor, para os que sabem venerar e perdoar do fundo
dos grandes Silêncios da alma, a flor genuína da tua
sensibilidade tinha esse aroma oculto e amargo que se
não define – esse aroma acerbo que vem das naturezas
chãs mas sempre castas, inevitavelmente sepultadas
no obscuro centro fatal do seu Destino.
Se aflito, se desolado, se doloroso tu foste, como
que esse sentimento era alado, era etéreo, isolado como
tu andavas das causas originais de tudo, no relevo de
rocha viva da tua Ignorância pura, mergulhado até ao
fundo no mar augusto, formidável e sem raias da crença
em Deus!
A tua figura paternal, que a condição ínfima das
frívolas categorias sociais obumbrava profundamente na
terra, tinha para mim o encanto mítico de vetusto deus
dalguma ilha abandonada em regiões, longe, vivendo
566 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
resignado, paciente, sem queixas, na iluminação teatral,
flagrante e acabrunhadora de modernas e autoritárias
Civilizações, como o legítimo representante dos seres
humanos.
Minh’alma, ao cuidar em ti, a considerar nos teus
dias, a interpretar a tua mudez, a ver as curiosidades e
instintivos caprichos dos teus movimentos de ser,
quedava-se numa espécie dessa melancolia, dessa
nuance aquebrantadora, desse emovente langor de um
verso verlainiano que melancoliza tanto.
Eu, longe que andava, ausente do teto onde
exalaste o derradeiro gemido, não te pude ver no teu
belo e grave desdém tranqüilo de morto. Não pude
meditar nas ironias secretas e significativas da morte
às vaidades da vida. Não te fui fechar os olhos,
compungidamente, com a delicadeza amorável das
minhas mãos trêmulas, nem passar para eles, em fluidos
ardentes, o magoado adeus dos meus olhos.
Não te pude dizer, de manso, bem junto aos teus
olhos e coração moribundos, com toda a volúpia da minha
dor, as untuosas e extremas palavras da separação, as
cousas inefáveis e gementes no dilacerante momento
em que os nossos braços abandonam, para nunca mais
apertar, os amados braços que já estão vencidos,
entregues ao renunciamento de tudo e que nós tanto e
tão acariciadamente apertamos.
Mas, nada importa a Vida e nada importa a Morte!
O encanto do teu ser foi obscuro; a graça do teu
Bem foi toda fugitiva. Porém do seio imenso da minh’alma,
do fundo oceânico de soluços de que ela é feita, tu
emerges e emergirás sempre, proba e doce figura,
caridoso fanal do meu passado, que enfim me iluminaste
com o clarão da Bondade e me trouxeste com a tua
bênção paternal de grande Humilde a Fé sacrificante e
salvadora das Resignações para atingir as Esferas
supremas do Absoluto.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 567
Lá, no Inexorável, na perpétua Dispersão, não
sentirás mais o grosso rugir da miséria humana, a mão
de ferro da prepotência esmagando tua subjetividade
modesta.
Todas as ferocidades, todas as durezas, enfim,
cessaram no fundo Silêncio negro.
Rebrilharam e ressurgiram as Solenidades
transfiguradoras da Saudade! Enfim, és morto, agora!
Posso evocar-te de lá das sombrias e glaciais
imensidades! Posso sentir-te através do enevoamento
de distâncias infinitas estreladas de lágrimas! Posso
rasgar pelo Azul portas de Devotamento celestial à
procura da tua Imagem. Iluminar a tua funda noite de
morte com a triste luz saudosa da minha vida. Tu,
eternamente, participarás das formas incoercíveis...
E eu irei, por este lutulento mundo, com a cabeça
um tanto pendida de dolência, como que vagamente
aplicando o ouvido a um ponto distante, escutando,
enlevado, em arroubos íntimos, secreta música difusa e
longínqua de Além, que parece chamar-me para esse
rítmico Indefinido onde afinal te dispersaste e sumiste.
E essa música, de atrativos sutis, letíficas seduções, de
místicos e transcendentalizadores acordes, fluindo aos
meus ouvidos, continuará a chamar-me, a chamar-me,
misteriosamente a chamar-me...
568 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
O SONHO DO IDIOTA
Je suis inconsolable de t’avoir vue. Hélas!
tu es la bien-aimée! J’ai la mélancolie de
toi. Je n’ai de force que vers toi.
VILLIERS DE L’ISLE ADAM, Axél.
Revelações de Gênesis que acorda, talvez, no
cérebro daquele idiota. Revelações de gênio incubado,
que o segredo de um pensamento isolou e emudeceu...
Mas, contudo, o certo era que no cérebro daquele idiota
rasgavam-se esferas curiosas de sensação, radiavam
chamas fenomenais, línguas malditas falavam as
linguagens cabalísticas, misteriosas, das paixões
humanas, das complexidades psíquicas.
Espécie de formidável olho de ciclope, esse cérebro
deformado via em visão múltipla, de sorte que, ainda
mesmo na realidade, parecia sempre estar sonhando,
ainda mesmo acordado, era um sonho vivo que
perambulava...
Belo idiota, triste idiota, soturnizado idiota, este,
em verdade, atado de pés e mãos ao cepo da sua própria
existência, como anfratuoso e feroz orango preso em jaula
de ferro!
De que rumos obscuros e tortuosos viera ele,
girando no centro infernal das agonias desconhecidas;
espécie dessas almas soluçantes na Dor e das quais a
Natureza, por duras e rudes experiências, faz os eternos
mármores e bronzes resistentes onde afia desassombrada
e confiantemente as suas espadas e as suas lanças!
Quem sabe se ali não dormiria, nesse ser
hediondo, a fina intuição arcangélica de um missionário
celeste, para sempre irremediavelmente perdido no
fundo dos grandes tédios e das grandes saudades?!
* * * * * * * * * *
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 569
Uma vez que ermo e hirsuto como um dromedário
sonolento errava pelas ruas escuras de certa cidade
sombria, o pobre idiota foi corrido por apupos, pela chacota
irreverente e apedrejada e penetrou, acolhendo-se, –
massa mórbida, riso amolentado, aparência monstruosa
de hidrocéfalo – a larga porta aberta de um templo
iluminado.
Diante da multidão que murmurinhava dentro,
ele estacou deslumbrado, como se de repente lhe parasse
a circulação da vida, numa expressão animal tão
veemente que os que o viram entrar olharam para ele
surpresos, com movimentos instintivos de defesa, como
diante de um perigo iminente.
Ele, mudo, no entanto, mas parecendo falar consigo
mesmo qualquer cousa inteligível, exprimir qualquer
cousa entre grunhido e voz humana, não se apercebera
desses movimentos e continuava ali, parado, a atitude
dura e hostil de uma pedra humanizada, em forma de
ser existente, mas sem a completação fisiológica de todos
os sentidos normalizados.
Um perfume celeste errava, vivo e intenso, no ar,
evaporava-se lânguido das névoas brancas dos incensos...
O órgão nebuloso e sensibilizante, despertando
na imaginação a lembrança de uma sombria clausura
de almas suspirando e gemendo em sonhos tocantes e
solitárias harmonias e magoados queixumes, e ao mesmo
tempo longínquo, largo, lento e velado vento onduloso e
dormente graduado em sons, expirava com
enternecimentos melódicos, com taciturnas lágrimas
sonâmbulas, deixando no ar a pungente melancolia
fugitiva de um esquecimento amargo...
No recinto, agora, bizarros alvoroços passavam...
Um zunzunear de turba que ondeia e que murmura. Era
o vago adeus de final da festa. Abriam-se vastos e nítidos
claros na multidão espessa, que se afastava, que saía...
Uma agitação subia, uma pressa e confusão de retirada,
como se o sopro rápido e fatal da desolação das cousas
570 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
tivesse vindo inexoravelmente apagar a chama daquela
fé que ali há instantes se acendera.
E aquela ondulação de corpos ia e vinha, circulava,
para a direita, para a esquerda, subia e descia, para
baixo, para cima, estuando, com a respiração de desabafo
de um grande monstro saciado, já decrescendo,
diminuindo, com oscilações fugitivas de torrente que
escapa, que cede nos turbilhonamentos do curso...
Arrastado pelo povo, atirado aqui e ali pela onda
que decrescia cada vez mais, o idiota tinha desaparecido
de repente, semelhante a um mergulhador exótico que
desce aos incoercíveis abismos do mar para surpreenderlhe os segredos.
Mas, daí a pouco, como a última onda da multidão
se aproximasse da nave central, voltando do altar-mor
onde genuflexara ante a imagem lívida e melancólica
de Jesus, o idiota então novamente apareceu.
Agora, porém, o seu rosto de uma dureza e aridez
de deserto, parecia estar transfigurado por um
sentimento de infinita doçura, que o tornava quase belo.
Uma irradiação dava-lhe asas... As linhas do seu perfil
tortuoso ameigavam-se, suavizavam-se, e, nos olhos
sempre opacos e indiferentes, fluía um brilho inefável,
uma indizível emoção, tão intensa, tão viva, que dir-seia que os olhos tinham voz, que essa voz falava, que essa
fala vinha pungida de lágrimas e acariciada de beijos...
Olhos cheios das úmidas fulgurações de ouro líquido
dos grandes e comoventes alucinamentos, parecendo
terem atravessado a luz virgem de outros mundos
intactos, invioláveis a olhos profanos; olhos que
continham em si as febris alegrias de gozos
inimagináveis.
Ele sentira, na verdade, qualquer cousa que o
abalara, que o metamorfoseara assim por instantes desse
modo.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 571
Desvendara algum mistério, achara alguma
constelação na terra, algum anjo entre os homens,
alguma visão entre as mulheres! Sim!
Ele a tinha visto, na sua beleza mais do céu do
que da terra, loura, os cabelos finíssimos, os olhos azuis
peregrinos de frescura suave, a boca deliciosa e doce,
na expressão cândida, infinitamente delicada, da carícia
sutil de beijos alados.
Ele a tinha visto, espiritualizada por nimbos de
angelitude – flor de graça e de glória, misto de
madressilvas e luar, madona de seu viver mumificado,
santa de lirial candidez entre todas as santas dos altares
que ele estava vendo, mais bela do que todas, bendita e
branca, inundada do cintilante pólen fecundativo da
puberdade, vestida para o seu amor das alvas
resplandecências sidéreas, pomba pulcra que não se
dignava abrir e pousar as finas asas níveas e virginais
sobre a necrópole vazia do seu coração de Idiota. Sim!
ele agora era como um firmamento pomposo de astros: a
beleza dela, que sorrira, passara e desaparecera na
multidão, o tinha estrelado celestemente. Vergava, pois,
ao peso de tanta e luminosa ventura, da ventura única
de vê-la, de olhá-la sem pecado e sem crime nesse olhar,
de senti-la de longe sem que o seu sentir a lesmasse, a
manchasse com a lepra da sua miséria. Não! Ela fora
embora, mas tão imaculada ou mais ainda do que nunca
por aquele olhar-bênção, por aquele olhar-perdão, por
aquele olhar-amor que ele lhe havia vibrado ocultamente, de longe. Nenhuma das partículas da sua
desgraça sem limites a maculara, ele bem o sabia.
Ela era a flor, ao mesmo tempo carnal e mística,
onde dormiam sonos mornos e magnéticos os insetos
miraculosos de uma volúpia secreta. E ele, ao vê-la, para
ali ficara absorto, contemplativo, no êxtase misterioso
de uma Sombra sonhando...
Naquele instante divino todo o seu mísero ser
estava também divino. Um prodígio de sensibilidade, de
572 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
um sentimento melhor, que não é deste mundo, o
iluminava e bendizia.
E esse sentimento que o transformava e que ele
próprio desconhecia assim tão intenso e curioso na sua
alma, transcendentalizava-o e dava-lhe ao obtuso
idiotismo uma como que supervisão, certa regularização
lúcida e nobre, fazia-o por instantes viver, reflexamente,
na origem ignota de uma especial percepção mental e
de uma extravagante emoção.
Podiam ligar-se, pois, ele e ela, no mesmo fundo
de abstratas purezas, prender-se pelas mesmas
espirituais correntes, fundir-se nos mesmos emotivos
espasmos... Não! ele não violaria os melindres, os
escrúpulos arcangélicos daquela natureza delicada, não
iria empanar os cristais impolutos das esferas azuis onde
ela triunfava. Podia, pois, reentrar, pura, inviolada, nos
seus sacrários de ouro, nas suas preciosas redomas,
nos seus majestosos domínios e reinados de formosura,
incensar-se com o seu perfume de sempre, porque nada
inteiramente nela nem de leve experimentara o contacto
sutil das secretas e torturantes emoções dele.
Naquele grande momento a sua alma de olvidado
tinha altares iluminados como esse templo, onde ele
hóstias de sentimento comungava. Sim! ela se fora, ela
passara, rápida e descuidada dele, mas deixando-lhe
nesse curto espaço de tempo, que sintetizava toda a sua
vida, mais funda e mais em chama que um abismo de
sóis vulcanizados, a sangrante e convulsiva paixão que
faz a febre, o delírio mortal do mundo.
Entretanto, parecia-lhe que já a havia encontrado
outrora, noutros orientes longínquos, noutra região de
sol e de néctar, d’estrelas e açucenas, sob outra forma
divina. Parecia-lhe que no país vago, azuladamente
nevoento e remoto das suas reminiscências ela passara
um dia, sob um fundo curioso de dolências, na delícia
suprema e nunca mais gozada de sensações inolvidáveis
que ele então experimentara.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 573
Mas onde, já, o contacto das suas duas almas,
sublimadas no Afeto, se dera na Terra? Onde se
assinalara o encontro dos seus seres opostos? Que
ritmos simpáticos os tocaram sensibilizantemente?
Ah! que vãs Interrogações ao mesmo tempo tão
inefáveis e tão terríveis!
Sim! não era ela nada mais do que a encarnação
palpitante da sua visão, a cristalização das suas fugitivas
saudades e ilusões, que por aquela embaladora e fugitiva
forma vinha dizer-lhe o melancólico, o aflitivo, o
desesperado adeus para sempre. Esse ressurgimento
assim inaudito se lhe afigurava ser um fio tenuíssimo,
disperso, de esquecida melodia, pelo qual se vai
lentamente compondo e definindo aos poucos toda uma
abandonada música sugestiva... Criação imprecisa,
indecisa, indecisa, e que ele como que sentia ondular,
através do espírito, na beleza e na tristeza fatal da lua
melancolicamente exilada no exílio dos céus!
Ele radiava como uma transfigurada águia de
envergaduras maravilhosas por entre um arco-íris
sensacional de mistérios solenes – ele, miseranda lesma,
que queria atingir, com as suas viscosas babas, o sol,
purificar-se, perfectibilizar-se no sol!
A sua alma de noite paludosa, de caverna sem
eco de vida afetiva, parecia agora feita de um azul meigo
e crepuscular de firmamento osculado de luar,
acordando numa opulenta e prodigiosa floração de pomos
pomposos, de pasmos sensibilizantes...
Aquele organismo feio, nauseante, asqueroso,
requintara nessa hora imprevista de deslumbramento,
numa afinação rítmica de beleza estésica singularíssima, evidenciando ainda mais uma vez, assim desse
modo, quanto as chamas da transcendência moral
clarividenciam e transfiguram os seres, quintessenciando-lhes a forma do Sonho; que só a alma que sobe,
sobe, sobe, que atinge ao céu astral de um purificado e
abstrato Amor é bela...
574 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Naquela hora todo o seu ser aspirava às
intangibilidades supremas.
Vôos e vôos de veementes anelos secretos
cruzavam-se no seu ser. Aqueles momentos incoercíveis,
etéreos, refinados num gozo original, subiam, do pólo
negativo da sua humilhada matéria, ao pólo augusto das
imortalidades do Espírito. Sim! Ficariam intactamente
imortais esses surpreendentes e transfiguradores
momentos de sensibilidade sem igual! Uma luz indelével
de ilusão e de sonho fazia alvorecer e vibrar para sempre
as recônditas e curiosas sensações, as ocultas e raras
harmonias de tão fenomenal natureza.
Mas, como estivesse nestas profundas e
extraordinárias conjeturas e agitações, revolto e
incendido, a exemplo de um terreno onde há matérias
inflamáveis, o idiota não havia reparado que a igreja
estava quase vazia e que era ele uma das últimas
sombras que ainda por ali se arrastavam na
inconsciência dos pesadelos.
Nos altares já se haviam apagado todas as velas.
Apenas, num dos altares laterais, dois círios acesos,
mas quase extintos, ardiam, agonizando em fogachos
fumosos e sangrentos, últimos soluços da luz, como
almas abandonadas que ainda penassem no final de uma
dor... Em cima, no seu nicho aberto em arabescos
dourados, em ornamentações caprichosas, confusas e
complicadas como sonhos, uma Santa loura, linda, o
manto azul constelado de estrelas de prata, coroada de
um diadema de cintilantes pedrarias, imobilizava-se
indiferentemente como se por acaso a visão amada do
idiota se tivesse ido ali corporificar nesse mármore de
Santa.
Na sua pequena mão graciosa abria-se um lírio
branco – florescência simbólica das castidades místicas,
forma cândida e aromal de volúpias sagradas e noviças...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 575
O templo, como as portas misteriosas de um
desses antigos subterrâneos suntuosos de riquezas,
fechara-se afinal quase que por encanto...
Uma vida fantástica, místico-psíquica, ia sem
dúvida se desenvolver agora na sombra, no silêncio frio,
na solenidade morta, na solidão sagrada, através das
vestiduras dos Santos, das luzes d’ocaso das lâmpadas,
dos paramentos chamalotados, dos vitrais multicores,
surgir, enfim, do enevoado esquecimento dos Ritos, como
se o templo, significando e concentrando simbolicamente
toda a histérica unção devota da Idade Média, naquele
instante representasse o seu curioso cérebro
hipercatólico, maquiavélico e fabuloso.
E, ou fosse porque não o tivessem visto ou porque
o julgassem inócuo dentro do templo ou por qualquer
outra capciosa razão, que escapara à penetração
fiscalizadora dos acólitos, o certo é que ninguém deu
pela presença do idiota sob aquelas abóbadas, só,
silencioso e sombrio, após estarem seguramente fechadas
todas as altas, largas e pesadas portas chapeadas de
ferro.
Um profundo mutismo amortalhava o vasto recinto,
dando à impassibilidade marmórea dos Santos uma
expressão assustadora.
Parecia que todos eles dormiam sonos seculares
e que por milagre inconcebível iam afinal acordar
coincidentemente naquele momento, mover-se nos seus
nichos, descer pé ante pé dos altares e, um a um
desfilando, avultando, crescendo em número, enchendo
toda a amplidão do templo, surpreender o idiota e punilo para sempre da culpa de tão insólita profanação.
Ele, porém, naquela solidão majestosa de onde se
levantava o pavor, ia e vinha absorto num sentir
extravagante, fechado no segredo tremendo da sua
esquisita sensação de idiota, perdido o olhar
atentamente nas Imagens mudas, a boca meio aberta,
as narinas dilatadas num gozo mórbido de volúpias
576 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
histéricas, como que na absorção das últimas névoas
entontecedoras dos incensórios, percorrendo altar por
altar, na perambulação hipnótica de fantasma do próprio
fantasma do seu Desejo, de sombra da própria sombra
do seu Afeto.
As altas, caladas e côncavas abóbadas, das quais
parecia-lhe aos seus ouvidos alucinados do Desconhecido
ouvir o profundo coro apocalíptico, reboando, ecoando de
abóbada em abóbada; as grandes lâmpadas, à semelhança
vaga de luas marchetadas ou de estranhas lágrimas
estratificadas; todas essas magnificências de rituais que
emudecem, de culto que dorme no granito e nos
mármores dos seus santuários e Imagens, nas suas
pratas e nos seus ouros lavrados, o magno e solene sono
austero das Religiões, tudo isso incutia na
impressionabilidade doentia do idiota emoções esparsas
e amorfas, que não eram propriamente nem
ingenitamente oriundas das idéias, mas curiosos estados
de ser, enigmáticos monólogos, fenômenos nebulosos,
talvez recuados ao antropomorfismo das células, à noite
caótica, primitiva, da sensibilidade humana.
Mas, assim perambulando de altar em altar, de
nicho em nicho, o triste idiota estacou diante daquela
Santa loura, linda, o manto azul constelado d’estrelas,
coroada de um diadema de cintilantes pedrarias, tendo
na mão um lírio branco.
Estacou diante dela como que impelido por íntimo
sobressalto, batido dalguma recordação impulsiva que o
tornava mais estranho que nunca. Levantou bem para
ela os olhos em bugalhos de delírio, de aflição sem
remédio e, caindo de joelhos, prosternado, os braços
invocativamente abertos, num espasmo terrível, rolou
para ali todo o seu tormento medonho, toda a sua dor
amordaçada, toda a sua miséria secreta, numa linguagem
obtusa e confusa de demência.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 577
A alma do Idiota alvorava numa aurora negra de
lágrimas, abria numa grande flor glacial e lacerante de
soluços.
Eram soluços e grunhidos, verdadeiramente
grunhidos animais e soluços humanos, que abalariam
as pedras, se as pedras não fossem mortas, que abalariam
os Santos, se os Santos não fossem pedra.
Caído de bruços, babando, como mordido por
serpentes, na impotência da Dor que encarcera e
despedaça a alma, o Idiota tinha viva, de pé, em flor e
em beleza diante da sua angústia, como um tentador
espectro divino, a florescente aparição que ele vira ali
mesmo no templo.
Passava-lhe agora pela mente todo esse clarão
mortificante de gozo, todo esse tantalismo de mulher
que sorri uma vez, brilha e para sempre desaparece. E
ele nunca mais a veria, nunca mais, nunca mais, nunca
mais!
Ah! que inferno nunca sonhado tinha posto ante
os seus olhos inúteis e desprezados essa luz consoladora,
essa luz que ele jamais sentira, tão bela e tão funesta,
aparecendo na serenidade dessa manhã dentro do templo
iluminado? Que força desconhecida arrancara dos limbos
do mistério aquela formosura ondulante como um verme,
perigosa como um veneno, para deixá-lo prostrado assim,
assim de bruços rojado, impotente e impenitente,
babando a baba do ciúme, talvez a baba verde da Inveja?!
Sim! ciúme desesperado por vê-la de outro, por
senti-la nos braços de outro, exalando a frescura matinal
da sua mocidade inteira nos braços de outro, abrindo e
desfolhando todas as rosas e magnólias olentes e virgens
dos seus encantos para o gozo de outro! Sim! Ciúme
feroz e inveja ainda mais feroz por ver-se idiota, inerme
e inútil para florescer, para brilhar ao lado de outro
homem são e forte que a desejasse, que a possuísse!
Ah! ele tinha uma inveja sinistra de toda essa
humanidade que passava equilibrada, direita, sempre
578 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
com os mesmos e retos raciocínios, pela sua presença.
Em cada homem ele via um rival desapiedado,
indiferente, que lhe roubaria, não somente essa aparição
alvoral, mas todas as outras femininas belezas que
serpenteiam no mundo.
Só o silêncio, só a solidão o consolava e por isso
ali estava sob a vastidão daquelas abóbadas, mísero, de
rastros, suplicando, como o mais estranho e ignóbil dos
mendigos, a esmola santa da morte. Só na morte ele
podia libertar-se desta inveja que o acorrentava, que
lhe porejava do sangue, que lhe vertia um fel verde à
boca – inveja verde, nauseabundo réptil verde
enroscando-se-lhe nas carnes, medonho réptil verde
saindo- lhe dos olhos, asqueroso réptil verde saindo-lhe
das narinas, todo o seu miserável corpo invadido por
hediondos réptis verdes.
E como se essa sugestão doentia e diabólica da
inveja lhe tomasse logo todo o cérebro e pasmosamente
lhe gerasse absurdas visões na retina, jungido à mais
perseguidora e atroz obsessão, o idiota, como um
monstruoso réptil verde, sentiu-se subdividido,
multiplicado infinitamente em milhões e bilhões de réptis
verdes de todos os aspectos e formas, longos, lentos,
elásticos, subindo pelos altares, descendo pelos
paramentos, viscando as vestes dos Santos, se arrastando
pelas asas, pelos frisos das colunatas, pelo arco cruzeiro,
tatuando de verde a pratadas lâmpadas e subindo,
sempre triunfais, avassaladoras, sufocantes, numa peste
verde, numa alucinação verde, até o altar-mor, sobre o
cibório de ouro, sobre o cálix de ouro, sobre a cruz do
Cristo de ouro, esmeraldeando maravilhosamente com
bizarrismos bizantinos de formas as requintadas
cinzeluras refulgentes, de níveas claridades puras e
brumosas de Via-Láctea, da velada e suntuosa Capela
de reverências, tabernaculal, do Santíssimo Sacramento.
Era uma fantástica vegetação de réptis que tomara
todo o templo, ondas e ondas de réptis que se acumulavam
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 579
convulsamente, num surdo murmurinhar e sibilos de
esmeraldas ondulantes. Uns, de tamanho desconforme,
verdadeiras serpentes formidáveis que com as cabeças
e as caudas agitadas galgavam as grandes colunas do
coro, os suportes dos púlpitos, enlaçando-se-lhes no bojo,
em convulsões delirantes, como se os quisessem pôr por
terra. Outros, de conformações exóticas, esguios,
fugidios, lânguidos, esgueirando-se como crimes,
encaracolavam-se nos colos brancos das Santas à
maneira de colares. Por toda a parte a invasão sinistra
dos réptis verdes da inveja lesmando tudo. Por toda a
parte esse pesadelo verde, brilhos, reflexos, refrações
esverdeadas por toda a parte, como se aquela vastidão
sagrada se abrisse toda numa floresta de lúgubres
assombros.
Batido, esporeado por um terror supremo,
agrilhoado por todos esses réptis verdes, com os olhos
transparentes do verde deslumbrados de pânico, no meio
de todo aquele mar verde que o afogava, perdida quase a
noção de que era humano, o idiota foi se arrastando, se
arrastando até ao centro da igreja, como um sapo no
fundo de um subterrâneo, agora ironicamente constelado
em cheio pelo largo clarão matinal que osculava os vitrais
ao alto.
A sua figura vil, miseranda, parecia torcida,
crispada toda em garras, se arrastando sempre, sempre,
a monstruosa cabeça bamboleando – crânio de
mentecapto girando dentro do templo como dentro de
outro misterioso crânio. Tentou gritar. Mas os gritos,
nesse horror de túmulo, morriam-lhe na garganta,
sufocavam-no, como se grossas cordas o enforcassem.
Apenas podia se arrastar assim, mudo, sem um só
gemido! – massa inútil rojada por terra, dor humana
mordendo-se, devorando-se, despedaçando-se...
E ele se arrastava, se arrastava, em direção às
portas, para sair, para correr, fugindo aterrorizado
580 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
daquela colossal avalanche de réptis verdes, que por
toda a parte, como ele, se arrastava.
Queria fugir como um homem alucinado que foge
absurdamente da sua sombra num louco desespero; na
agonia tremenda de um cego de nascença que se sentisse
de repente preso pelas chamas de um incêndio, sozinho
a tatear, a tatear num aposento fechado, aflito, gemente,
terrível, sinistramente doloroso, a tatear, a tatear,
sozinho, rasgando as roupas, rasgando as carnes, sem
nunca conseguir libertar-se das chamas que cada vez
mais o fossem devorando verminalmente.
E o Idiota se arrastava, se arrastava, se
arrastava... Até que, exausto, banhado em suor, batendo
os dentes de frio e de febre, grunhindo de horror, numa
indefinível sensação, aos arrancos, aos solavancos,
chegou afinal à grande e chapeada porta central do
templo, que logo, como por encanto, abriu-se às amplas
cintilações do sol do meio-dia – alta e larga – de par em
par...
E só então foi que ele, acordando entre soluços,
justamente e coincidentemente num meio-dia de sol,
se apercebeu, perplexo, que tinha estado a sonhar, preso
às inconseqüências reveladoras do seu Sonho de Idiota,
que mesmo assim acordado, continuaria eternamente e
amargamente a sonhar...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 581
A SOMBRA
Ó Dor das Origens milenárias! Divina Consagração das
Lágrimas! Seio profundo e misterioso das Apoteoses
negras do Gemido e do Soluço! Dor das supremas
Dores! Dor da imponderável Saudade! Que tu sejas
neste momento comigo e me unjas com a tua
espiritualizante graça...
Sim! Devia ser em sonhos, num fundo de
fosforescências e neblinas, que eu vi a tua sombra, o
teu vulto – certo a tua carne, o teu corpo, palpitando
vida, caminhando para mim, espectral e ao mesmo tempo
vivo, dessa vida que respira, que fala, que olha, que
olfata, que gesticula e ondula...
Sim! foi em sonhos!
Não sei que estado eu experimentava em certa
hora, que estado de nervos, de sensibilidade, de vibração;
não sei que música dolente de melancolia, nem que
amargurantes tristezas patéticas de saudade me
invadiam em certa hora, que distintamente, nitidamente
vi! – vi e senti que estava perto de mim aquela Sombra
santa e amada que eu perdera um dia no Letes do
esquecimento que a Morte cava...
Não era alucinação nem pesadelo – não era
alucinação: eu estava sentindo diante de mim, como se
surgisse do caos da Existência, aquela Sombra muda,
mas viva, que caminhava para mim resolutamente, na
afirmação vital do Ser.
Percorria-me um frio álgido o corpo todo, um frio
de pavor, pavor de vê-la, medo de olhá-la assim, naquela
imprevista ressurreição.
Ah! eu a amara muito, muito, com a eloqüência
profunda de um sentimento que não era talvez bem amor,
mas sagração, adoração, fé religiosa, veneração e
compaixão. Um sentimento que subia como incensos da
minh’alma, que se exalavam ante a sua Imagem, como
582 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
num altar sagrado. Sentimento épico, quase clássico,
como por mármores augustos, por antigos templos
cristãos. Um sentimento de carinhosa piedade patriarca!
pelos seus sacrifícios, pela sua abnegação, pelos seus
afetos extremos e dedicações sem limites, pela sua
lhaneza estóica, pela sua caridosa ingenuidade humana,
pela sua celeste ternura e misericórdia.
Mas a Sombra avultava, crescia, avultava mais,
destacava da treva donde surgira, da treva do Além, das
geladas névoas do sepulcral Silêncio... E das névoas,
das névoas sepulcrais dos crepúsculos lôbregos, das
tenebrosas argilas, vinha ela, numa transfiguração,
surgindo viva: – vivas as carnes palpitantes, vivos os olhos
amargurados, vivas as mãos batalhadoras, vivo e vibrante
o coração majestoso de infinita bondade.
Eu a vira, a princípio em linhas indecisas, vagas,
o contorno apagado, esboçado apenas num meio-tom de
luz esmaecida como numa pálida claridade de lua d’alta
noite, quando já os aspectos fulgurantes vão esmaiando,
esvaindo lentos e perdendo a graça vaporosa e velada
com as primeiras cores de rosa, os primeiros diluimentos
e tenuidades da madrugada...
Depois, todo aquele fantasma tomava miraculosa
feição singular, pouco a pouco; compunha-se todo aquele
sistema de nervos, ampliavam-se aquelas formas,
ganhavam as essenciais correções, a estrutura de um
corpo vitalizado que age, que move-se, que sente.
E a Sombra buscava-me, caminhava para mim
resolutamente.
Como círculos concêntricos de uma luz palejante,
iam-se formando em torno dela auréolas, etéreos
resplendores, nimbos diáfanos, refulgências de meteoros,
vaga tonalidade violácea e amarelada, cintilas de
ardentia, como que as dormentes refrações ouro-açoazuladas de um sol de eclipse...
Parecia-me que ela vinha transfiguradamente
irrompendo por entre discos, discos, discos e discos
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 583
luminosos que se multiplicavam, que se acumulavam,
num movimento de rodomoinho de sílfides aéreas
vaporosamente circulando, girando em volta de lácteo
clarão de leve luz nevoenta e gelada de uma lua polar...
Tais cambiantes, tais miríades de cintilações
iriadas afetavam-me de tal modo a retina absorta, que
nova e original comoção, nova sensibilidade a tocava,
como de um ritmo fino...
Misticismos de êxtases, delicadezas de sensação,
espasmos de ascetas enclausurados, de mártires lívidos
nos cilícios da penitência, serenos na suprema Dor –
circunvolviam-me de uma ideal beatitude de atenção
resignada, para vê-la, para olhá-la, para reparar, trêmulo,
no seu aspecto de Passado, de Esquecimento, de Túmulo,
percorrendo com magoada ternura nos olhos todas as
meigas curvas de sua face que eu beijara, como se o
meu olhar deslumbrado tivesse tato, a apalpasse;
evocando com lancinante saudade toda a angústia da
sua velha e fatigada cabeça que eu tanto amara.
Doía-me aquela Aparição, afligia-me aquele
Ressurgimento, tão vivo na minha presença, tão tangível
ali, tão flagrantemente, que eu não sei de abnegações
nem de resignações humanas, só celestes, só divinas!
capazes de sofrer, sem estranha convulsão d’espanto,
essa realidade móvel que vinha do Desconhecido...
E a Sombra buscava-me, caminhava para mim
resolutamente!
Uma onda forte de emoções me inebriava, me
atordoava como uma dor física, fazia-me pairar num
círculo dantesco de fenômenos, paralisando-me a voz, o
gesto, o andar, mumificando-me à Terra.
Só, dentro do meu cérebro, o pensamento girava,
funcionava como em brumas muito altas, num
revolvimento de germens recônditos; formavam-se
mudamente idéias que não achavam a expressão
eloqüente da linguagem, tão confusas e atropeladas de
terror sagrado vinham elas...
584 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Mas um mistério maior desolava-me de morte,
torturava-me, dava-me o suplício gelado de achar-me
vivo numa sepultura: – o mistério da semelhança!
Ela parecer-se comigo, ter os mesmos traços,
certos estremecimentos da face, o mesmo olhar, o mesmo
espesso lábio sensual, a mesma expressão nostálgica
de beduíno no semblante, a mesma fugitiva melancolia
– tudo, tudo isso me flagelava, eram tormentos insanos
que eu sofria calado, parecendo que ela trazia em si,
em impressionismos abstratos, desfeita, desaparecida,
muita sensação que já fora minha, muita esperança,
metade da minh’alma já morta, partículas originais de
afeto, de cuidados, segredos e curiosidades íntimas,
perdões e clemências que tinham ido embora para
sempre com ela.
Uma infinidade de sentimentos obscuros,
secretos, eu via passar, ondulando, através daquela
Sombra, como através de um espelho fantástico que ali
estivesse milagrosamente refletindo paixões...
Eu existia naquela semelhança perseguidora,
naquela semelhança que parecia reproduzir imensa
aluvião de fenômenos da alma que já dormiam
eternamente no meu ser...
Eram períodos gradativos e curiosos, a evolução
lenta de organismo novo que procura adaptar-se à Vida,
a intuição eloqüente dos Destinos, formando grandes e
enevoadas colunas de mistério, como as hebraicas
colunas de fogo...
Então, eu via-me ali quase que vivendo em parte,
tendo bem pouco do que tinha quando ela, de fato, vivia
– via-me em parte, porque se ela na existência trouxera
o meu sangue e esse sangue gelara, deixara de circular
nas suas veias, certo era que bem pouco desse sangue
eu trazia também agora a circular nas minhas.
E sentia diante de tão flagelante semelhança uma
dualidade de natureza operando em mim mesmo: – a
que partia, fremente, do meu ser, que existia no meu
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 585
eu e a que partia, estranha, daquela Sombra móvel... E
no espírito crescia-me a obsessão de que ambas essas
naturezas, pertencendo-me, se desequilibravam no
entanto no plano geral de existirem unas e indivisíveis.
Uma era a natureza real, a propriamente minha; outra
era a natureza da Sombra, estranha. E eu debatia-me,
debatia-me com ânsia para libertar-me da segunda e
envolver-me todo, isolar-me, concentrar-me e subjetivarme, profunda, fundamentalmente na primeira...
E eu lutava, bracejava doloridamente, bracejava,
tateando numa dúvida cruciante, para sair fora daquele
cárcere de angústia, para desprender-me daquela
tumular Visão, para fugir daquele mirrado esqueleto a
que eu estava agrilhetado e cujo impressionismo de pavor
me dilacerava e queimava as carnes, me devorava como
uma chaga, rasgava-me a punhaladas o coração,
hipertrofiava-me, despedaçava-me os nervos...
E eu abria muito os olhos, assombrado, num
espanto mudo... E um silêncio negro e gelado e espessas
névoas de sono pesavam no ambiente... E nos olhos
passavam-me deslumbramentos cegantes, visões
pulverulentas de além-sepulcro... E eu abria cada vez
mais os olhos, assombrado, num espanto mudo... E eu
abria cada vez mais os olhos, cada vez mais, cada vez
mais... E os olhos, espasmados de terror, aflitos,
perseguidos pela Sombra, parecia-me senti-los crescer,
dilatarem-se, grandemente, longamente, rasgadamente
abertos e fascinados pelos magnetismos letais da
Sombra...
Invadia-me um desejo angustioso, soluçante, um
delírio mortal de gritar, de gritar alto, atroadoramente,
de encher todo aquele ambiente com os meus gritos
desesperados; mas, apenas meus lábios se moviam para
gritar, um soluço estrangulador guilhotinava-me a voz,
desarticulava-me a língua, e apenas rouco, surdo,
absurdo som ininteligível, como o grunhido animal de
586 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
um mudo, rolava, arrastava, rangia áspera,
pedregosamente na garganta o seu torvo tartamudismo.
Parecia-me que se eu gritasse, se abalasse a
atmosfera com grandes e longos brados, talvez que o
Fantasma, assim arrebatado, assim repeli do, assim
violentamente sacudido pelos gritos, se aterrorizasse e
desaparecesse...
Parecia-me que esses gritos de terror
sobrepujariam, venceriam afinal o alucinante fantasma,
que era o próprio terror...
Mas ao mesmo tempo, temia que esses gritos, como
um vento sinistro que levanta, torna mais intensas as
chamas de um incêndio, despertassem, acordassem de
repente com impetuosidade, com estranha veemência,
a vida insana, estupenda, que eu imaginava estar
nebulosamente dormindo lá dentro, lá bem no fundo
misterioso desse Fantasma.
E a Sombra buscava-me, caminhava para mim
resolutamente!
Por um fenômeno singular de visão, que os nervos
superestesiavam, eu a via, ora perto, ora longe, mais
longe, muito longe, quase já sumida, já apagada no fundo
das cinzas da distância, vindo e se afastando, se
afastando e vindo para mim...
Mas que germens ocultos fecundaram de novo
aquela vida, que seivas inauditas a geraram de novo,
que filtros mágicos, maravilhosos, a ressuscitaram, que
ela me aparece de tal forma agora, muda, muda,
caminhando serenamente para mim, solene e augusta
na divinal atitude, sublime, egrégia, como se fosse
soberanamente julgar as almas no supremo Juízo Final!
E como eu a reconhecia então – ela – a mesma
que a Imaginação sonhara – Mãe! Mãe! Mãe! – três vezes
bendita entre as mulheres, três vezes crucificada de
Agonia!
E toda a longínqua e azulada colina de um passado
foi se desnevoando, desnevoando, aparecendo aos meus
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 587
olhos, bíblica, povoada dos brancos e mansos rebanhos
da paz, da alegria, da suavidade infantil, da adolescência
ingênua, guardados pelo amor daquela Sombra – cândido
pastor, simples e tranqüilo, vestido de linho alvo, guiado
pela estrela simbólica, sob a demência dos Céus...
E por que me viera assim surpreender essa
heróica e transcendente Aparição? O que vinha ela saber
de mim? O que quereria nesse extremo momento? O
que buscava? A minh’alma, o meu pecado, o meu crime
em viver ainda e abandoná-la no Além, só e fria,
enterrada tantos torvos palmos, tão profundamente
enterrada na terra lutulenta e enregelada? O que
buscava ela? O que procurava em mim assim surgindo,
andando sonâmbula, vagando sem rumo e rumor como
sobre onda, nuvem, espuma?
Mas por que me aparecia ela agora? Seria para
exprobrar-me o passado? Seria, por acaso, porque não
pude envolver na vida em mais delicados cuidados e
recônditas carícias as suas longas dores angustiadas?!
Ah! porém ela agora está morta, ela agora está morta!
Se estivesse viva sentiria então que devotamentos, que
consagrações, que inabaláveis, que terríveis dedicações
a cercariam, defendendo-a, como couraças e lanças
gloriosas de um soberbo e insólito heroísmo; como eu a
estremeceria de um amor infinito, como eu lhe votaria
afetos supremos, entranhados, profundos!
Que segredos tremendos me vinham agora fazer
essa Sombra viva, que eu sentia, que eu via, olhandome muito, em silêncio, mergulhando os seus olhos
cavados nos meus olhos, estendendo – ah! horrível! – os
braços longos, para mim, como para abraçar-me num
abraço, por certo, gélido, num abraço, por certo,
esquelético e terrível!
Oh! como era lancinante, que aflição de afogado
ante essa Visão que me chumbava os pés, que me punha
um peso imenso de pavor na língua, um suor letal na
fronte e como que lúgubres cadeias de ferro nos pulsos!
588 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Como era dolorosamente, lugubremente medonho
o seu caminhar tateante, oscilante, mas que seguia
resoluto para mim, perseguindo-me, atraindo-me como
um demônio, fascinando-me como um filtro pecaminoso,
como um vício secreto, como um mal doentio, como uma
serpente magnética, como uma nevrose fatal!
E a Sombra caminhava, caminhava para mim
resolutamente, resolutamente, agora com o passo mais
largo, alongando mais para mim o vulto hediondo...
Caminhava, caminhava... E eu, pregado, estatelado ao
chão, jazia inerte, hirto, petrificado, sem ação para
libertar-me daquele horror... E ela perseguia-me,
perseguia-me, inexorável Remorso! com o passo cada
vez mais largo, alongando cada vez mais para mim o
vulto hediondo, quase já ó Trevas eternas! – tocando as
minhas vestes, quase, quase... Quando, eu, quebrando,
partindo, despedaçando todos os ferros de algemas das
tormentosas masmorras do meu Sonho, num grande
grito, afinal, portanto e tão longo tempo angustiadamente
sufocado, acordei de repente, esvaindo-se então a
Sombra, de um sopro, retomando as letíficas, glaciais
estradas do Além, de onde por instantes surgira...
Apenas o meu cérebro, atordoado ainda,
adormentado, abatido, ficara, como dentre restos de
fumo denso, de vapores espessos do fogo de sanguinolenta
batalha, turbado pela pesada bruma letárgica do pesadelo
que o invadira, subjetivamente chamando este monólogo
amargo:
– Ah! Sim! Sim! Que estranho pavor! Que estranho
pavor ter-te bem junto a mim, num contacto álgido – Tu!
– que eu na Grande Hora da Vida amei já, lá para o
passado dos anos! Tu, a quem eu consagrei Evangelhos
de Adoração, altas venerações, sentimentos excelsos,
solenes como elevadas torres de cristal tocando
sideralmente as Estrelas...
Tu! que produziste a dolente, a magoada Obra de
sangue da minha existência e a quem eu dediquei alma,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 589
afetos, ternuras, suavidades do coração, sinfonias
beethovínicas do Amor, Tu! – misericordiosa! – Tu! –
clemente para mim como nem os Céus o são!, Tu! – dáme o teu perdão, o teu perdão, porque eu não poderia
mais receber os teus abraços, os teus beijos, o teu olhar
de sepulcro, teria de repelir-te e – ó! desespero dos
Esquecimentos eternos! – de repudiar até a tua Sombra,
tão grande e tão fundo seria em mim o terror de sentirte perto!
Não que eu desdenhasse da tua Entidade
amargurada, aflitiva, tristíssima, dolorosíssima; da tua
bondade suprema, compassiva e comovente; não que eu
crivasse de pungentes ironias a tua obscura alma presa,
arrastada pelos ergástulos das lágrimas, abalada
tragicamente por soluços...
Mas tu me aparecerias tão mudada, tão
transfigurada por fluidos, trazendo tão prodigiosos
eflúvios de outros mundos, tantos raios doutras esferas,
tantas fantásticas expressões e singularidades absolutas
da treva de atros, tetros báratros, que eu, frágil, que eu,
matéria humana, que eu, tecido tênue de nervos, me
aterrorizaria e sucumbiria de pasmo...
No entanto experimento ainda uma esquisita
sensação de dor de lembrança, de saudade, se te evoco,
se recordo os bens assinalados que me fizeste, a Criatura
ideal que foste, tão meiga de bondade, que toda a carícia
da terra é hoje para mim desprezível e vã diante do mar
soberano da tua espiritual Afeição.
E, é só espiritualmente, só pela eterificação do
Pensamento, que sinto que ardes ainda, em chama
perpétua, nas majestosas lâmpadas evocativas dos
sacrossantos ocasos das Recordações.
Mas, se por um absurdo da Natureza me
aparecesses flagrantemente, tangivelmente viva, não
mais esqueleto, não mais cadáver inteiriçado – seria
tamanho o abalo, a convulsão do meu ser, tão intensos
delírios e vertigens, tantas ondas de estremecimento
590 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
me agitariam, tão latentes se riam as transfigurações,
as metamorfoses dos meus sentidos, repudiando-te
aterrorizado nesse momento – que até tu mesma, que
foste Mãe piedosa, Mãe clemente, Mãe misericordiosa,
desconhecerias teu filho e talvez então o amaldiçoasses,
blasfemando; talvez lhe arremessasses à face Anátemas
como pedras, desoladamente chorando e soluçando para
sempre por tanto e tão doloroso desamparo e
esquecimento eterno!...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 591
NIRVANISMOS
Há loucuras que, como as noites polares, se
transformam em verdadeiras auroras boreais
reveladoras da mais perfeita lucidez e são a ponte
mágica de cristal e azul sobre a qual emigramos do
gólfão infernal da Terra para as alvoradas de ouro de
um Ideal.
Madrugada verde, madrugada de esmeraldas
liquefeitas que cintilavam na folhagem tenra, foi essa
em que Araldo se fez de marcha, florestas densas a
dentro, através da frescura e da virgindade lirial da luz
que ondulava...
Já todo o extremo limite do mar, no horizonte
longe, acendia, rebrilhava, num polimento de cristal
sonoro e a última estrela tardia, terna e doce, vagava,
peregrinalmente vagava na Boêmia celeste, extinta já
no esplendor verde da madrugada subindo, a intensidade
viva da sua chama branca das cândidas vigílias
esponsalícias dos astros.
Pairava no ar um anseio voluptuoso de despertar,
um espreguiçamento, de braços lânguidos, uma revelação
genésica, o nebuloso sentimento da renascença da terra,
sempre casta e fecundadora, sonhando e gerando as
perpetuidades da Vida.
A hora da transição, da ansiedade do claro-escuro
surdinava no ar, bandolinava no céu as derradeiras e
saudosas serenatas...
Um calafrio luminoso alvoroçava tudo. Começavam
delicadamente, harmoniosamente a vibrar leves baladas
de auras que vinham picadas do sargaçoso mar salgado,
dos bafejos aromados das plantas e das resinas.
Pelo horizonte subia o êxtase claro da luz difundida
aos poucos e gorjeios e cânticos e rumores e alacridades
e murmúrios de águas que acordavam cantando, e
alaridos e zumbir de insetos, e estrépitos e palpitações,
592 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
e vozes estranhas e vôos e cicios e ecos e clamores
longínquos, e frêmitos e beijos e risos e canções e formas
confusas, e vertigens e movimentos, tudo acordava em
ondas, burburinhantemente, turbilhonantemente.
Clareava, clareava; e a claridade meiga, suave,
que aveludava tudo, parecia cheirar a magnólias
desabrochadas ao luar.
Através das florestas, por onde Araldo errava
foragido, a alma jungida aos remorsos, fugindo à
condenação dos homens, levantavam-se, tremendas e
tumultuosas, grandes árvores seculares, sombras e
espectros verdes ramalhando as largas copas agitadas
de sonhos.
Eram florestas imensas, desconhecidas e
imensas, por onde nunca o olhar humano vagara,
inacessíveis a outros seres, mas onde Araldo sonhou,
ansioso, achar de repente um abrigo eterno, profundo,
que ninguém poderia devassar jamais!
E tinham suntuosidades e orquestrações de órgãos
monstruosos de catedrais festivas, gemendo e
murmurando, plangendo, suspirando graves litanias,
cânticos aclamatórios de grande unção coral
magnificente, suprema.
Troncos senis e formidandos, como Prometeus
petrificados, expunham as suas corpulências primitivas,
lembrando aspirações antigas, velhos desejos fatigados
que ali houvessem para sempre tomado a compostura
indiferente das múmias.
Quem teria guiado Araldo por esses ínvios
caminhos? Quem lhe teria, Desespero, Tédio ou
Saudade, ensinado o abrigo, a solidão, o obscuro repouso
dessas florestas invioladas?!
Ele queria fugir à Vida, fugir, fugir sempre,
esconder-se da face do mundo, habitar numa furna como
selvagem, viver nas florestas como os lobos, errar nos
desertos como os párias.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 593
Fugir para longe dos execrandos contactos dos
homens, da medonha estagnação dos seus sentimentos,
da descarnada nudez dos seus egoísmos ferozes.
Errar sozinho, sozinho, sombrio visionário
peregrino de suprema Aspiração nova, vulto messiânico,
talvez um desses graves missionários cujas vidas
sacrificadas por uma idéia rasgam-se nos espinhos dos
ermos, despedaçam-se nas hostilidades ambientes,
martirizam-se crucificadas nas monstruosas cruzes
negras dos calvários tantálicos do Tédio...
Ah! a solidão, o deserto, o deserto!
Que belo e que majestoso o deserto, frio e só, só
com a lua, só com o sol, só com as estrelas, caminhando
sobre as infinitas areias desoladoras, sentindo chorar
no peito, como negra água presa e triste,
melancolicamente cismadora, a que despedaçaram as
asas sem piedade, o grande sentimento de uma
esperança para sempre extinta.
Esconder, esconder a chaga da Vida para bem
longe, fugir para além deste mundo, para o imponderável
Ideal, errar nos sonambulismos da treva e nos
sonambulismos da luz – sombra informe batida das
rebeliões da terra, arrastada pelas tebaidas de uma
enorme saudade e enchendo dela todo o tempo, todo o
vácuo desse existir peregrino, desse existir lacerado de
impaciências, de febres, de ansiedades, de desejos
embrionários cuja primeira flor vermelha e de ouro outras
mãos sacrilegamente colheram.
Invadido pela força poderosa de uma paixão
aterradora, talvez de uma sensibilidade extra-humana,
Araldo queria esconder em seios inteiramente intactos
de florestas desconhecidas, em regiões nunca vistas, o
horror da sua culpa em muito ter amado e em muito ter
iludido o coração e os olhos. Verdadeiramente açoitado
pela peste, pela lepra sinistra do ódio e do desprezo
humano, como um animal acuado, ele espiritualizara
mais e mais a sua natureza, requintara o seu sentir,
594 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
quintessenciara os seus nervos e, no sensibilizante
misticismo de um Santo, mergulhou no mistério, pairou
no maravilhoso, vagueou no Sonho, eterificando-se,
diluindo-se em lágrimas, em gemidos abafados, quase
perdendo todas as qualidades ingênitas que o prendiam
fatalmente à Matéria.
E Araldo é agora o Espectro, a Sombra, o Fantasma
de si mesmo, que vê rodar, eternamente rodar diante
dos olhos, num espasmo de alucinado, o tropel de Visões
da alma gemente, das suas desesperadas Saudades. Vê
rodar, eternamente rodar os inquisidores círculos
múltiplos, trágicos, onde as suas excelsas Esperanças
lentamente, monotonamente nasceram e morreram.
Já, clara e quente nos horizontes, a luz subira de
todo, intensa, larga – mar de ouro, mar de ouro e
pedrarias prodigiosas, auréolas de íris, sangue, azul e
leite derramado abundantemente, vinhos preciosos de
astros escorrendo das domas celestes.
E Araldo, na sua peregrinação constante pelas
florestas, caminhava...
Lívido, a cabeça num bamboleio de fadiga, com os
cabelos em patético desalinho, como a cabeça de um
enforcado, os olhos transpassados de um tormento mudo,
a boca seca, áspera, retorcida por um momo lúgubre, o
seu perfil dolorosamente esquecido tinha uma doçura
triste, uma carícia dolente, uma taciturnidade tão funda,
uma angústia tão cruel, uma aflição tão desamparada,
que parecia álgido cadáver que procurava para único
descanso o túmulo que até mesmo na morte lhe era
vedado; ou então um louco que por alguma sugestão
hipnótica, por algum pressentimento estranho que os
altos Signos assinalam, corresse a ver, despenhado e
incerto, os funerais de sua mãe...
E Araldo, nessa peregrinação pelas florestas,
caminhava, caminhava.
O sol leonino e guerreiro fazia fuzilar d’alto as
suas couraças d’aço, de cristal e prata e desses
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 595
coruscantes troféus d’armas facetadas viva marchetaria
de raios e de centelhas cravejava as florestas por onde
Araldo seguia vestido do manto miraculoso das pompas
consteladas.
Ah! que transitório, que efêmero nababo ia ele, e
que mendigo, que miserando eterno!
Mas, que florestas eram essas que Araldo rompia
sempre e a quanto tempo ele as rompia?
Moço, forte, a cabeça ainda chamejante das
Quimeras, todos, com pasmo, o viram partir um dia,
desaparecer bruscamente de todos, ocultar-se num
esquisito Segredo de viver, cujos fabulosos perigos e
originais deslumbramentos ninguém perscrutou jamais!
* * * * * * * * * *
Ele era da eterna Raça maldita dos gloriosos
Tristes, dos gloriosos Grandes e vinha de um fundo muito
carregado de Meditações e de Cismas, de sede de Sonho,
como do centro misterioso e flamejante de um Sistema
planetário.
A terra parecera-lhe sempre um formidável buraco
onde os homens se arrastavam com as cabeças vazias,
mas com os ventres cheios.
A mulher parecera-lhe sempre a perfídia, a traição
mordente, verminal de lago, com negras asas sutis de
tentação fatal e com carícias de fel.
Assim, sem objetivo entre os homens, sem laços
terrestres e sem amor, como que ia deixando finar-se,
apodrecer a matéria, para só ressurgir e vitalizar a flor
melindrosa e virgem das quintessências da
Espiritualidade.
Lembrava um ser que quisesse absurdamente
transpor as barreiras inevitáveis da Vida sem estar sob
as diretas influências e as correntes impulsionantes e
fatais da matéria.
596 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Perdido, emaranhado por obscuras e confusas
psicologias, de síntese em síntese, de generalização em
generalização, operando-se em todas as suas faculdades
criadoras, imaginativas, em todas as complexidades do
seu ser mental, uma profunda, radical Transformação,
como esses abaladores terremotos que agitam e
convulsionam o frágil organismo do mundo, Araldo foi
pouco a pouco rasgando horizontes desconhecidos,
atingindo pólos raros e mágicos, subindo a
Transcendentalismos invisíveis, imperceptíveis,
desprendendo-se cada vez mais da velha Causa tangível,
despindo-se do Real, fugindo do seu raio biológico de
ação comum, entregando-se completamente ao
Isolamento, à Abstração absoluta, até que afinal, um
dia, em virtude das próprias Regiões quase extrahumanas a que ascendera, penetrou, transfigurado, em
outras delirantes e nebulosas Regiões!
* * * * * * * * * *
Tempos passaram, muito anos, talvez um século
e ei-lo que aí segue ainda, velho já, as pernas bambas,
bambas, trôpego velhinho que o Silêncio e o Passado
santificam e envolvem com o seus longos véus noturnos...
Que florestas eram essas, com animais piores que
os lobos, piores que os tigres, piores que as serpentes,
piores que os homens? Não eram, de certo, em região
nenhuma da terra, nem do céu, nem do inferno. Onde
eram, então, essas florestas? Onde eram?
Mas Araldo, na sua peregrinação constante,
caminhava, caminhava, caminhava, como que arrebatado
por um vento acre de Imaginação.
O sol, que se tornara intenso, flamejava cada vez
mais, ardia-lhe cruamente na face em chicotadas de
fogo, fervia, chiava-lhe na pele, abria-lhe a pele em
equimoses vermelhas, chagava-o com as suas tenazes
em brasa e ele rasgava-o com os pés nos cardos bravos,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 597
ensangüentava nos tentáculos hostis das ramagens
intrincadas, da multiplicidade maravilhosa de vegetações
extravagantes, multiformes, confusas, de exuberâncias
fenomenais de folhagens inauditas, dentre as apoteoses
viridentes de todas aquelas seivas, das possanças de
todos aqueles germens, das impolutas manifestações de
todas aquelas vidas vegetativas, sentindo uivar, bramir,
rugir feras terríveis que lhe parecia virem de dentro de
si próprio, sempre caminhando, caminhando pelas
florestas como um deus singular ou um índio
magnetizador e feiticeiro que, sob a ação de filtros
mágicos, anulasse todo o poder dos animais selvagens,
que se abatiam tímidos ante o horror doloroso do seu
Espectro peregrinante e como que sobre-humano.
E as florestas se reproduziam infindavelmente,
cheias de um pavor majestoso, de fenômenos que as
fecundavam e circulavam por todas elas como estupendas
criações feéricas.
E ele rompia florestas, florestas, florestas,
caminhando como um pesadelo, numa onda surda de
ansiedades que não lhe arrancavam, no entanto, nem
um grito, nem um ai agoniado, nem um soluço abafado –
mas que o transfiguravam, que o tornavam lívido, mais
lívido, muito lívido e as pernas mais bambas e os braços
mais desolados e o olhar mais perdido, mais errante,
mais perdido...
E a hora desse dia era infinita, uma hora que não
acabava mais, por um sol que abrasava cada vez mais,
incendiava as florestas e parecia não findar nunca! Um
dia cruel, interminável, de um sol duro e bruto, pregado
impassível no firmamento, que parecia não ter jamais o
oásis repousante de um ocaso. Um dia de hora acesa no
espaço, como num relógio imutável. Um dia de século,
um dia que ele sentia penetrar, abranger a eternidade,
à proporção que ia envelhecendo mais, que lhe cresciam
barbas mais longas, rugas mais imponderáveis, tremuras
598 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
mais senis, mais pavorosos arrepios, apesar da cáustica
flamejação do sol.
Envelhecia mais, gradualmente, com as árvores,
com as florestas, que se cobriam também
surpreendentemente de um nevoeiro branco como de
cabeleiras de velhice...
Envelhecia, envelhecia e as florestas envelheciam
juntas com ele, numa fraternidade piedosa de
acompanhá-lo na mesma suprema e insana desolação,
na mesma alucinação da Vida.
E ele caminhava, caminhava, tão velho como as
Idades, no seu constante peregrinar....
Para que novo e intacto Inferno caminhava então
ele assim?!
Mas, de repente, eis que as florestas recuam, se
apagam, vão desaparecendo aos poucos como por
encanto; o assombroso esplendor verde das árvores
some-se no longínquo horizonte, como névoas que se
desfazem, começam, então, de repente, a surgir areais,
areais de desertos inóspitos, areais infindáveis, areais
que sucessivamente se reproduzem, longos, muito longos
e alvejantes, lá, para além das distâncias que a retina
não pode abranger nem descortinar...
E Araldo começa de novo a mergulhar noutra
ansiedade, a engolfar os pés nos fofos areais fugidios
que como que recuam a cada passo que ele vai dando.
E os areais se prolongam, numa intraduzível
tristeza de vastidão, surdos e estéreis, com as suas ondas
brancas de pó acumuladas solitariamente.
Vencido pelo tempo, vilipendiado, Araldo vai
mergulhando nas surdas areias torvas. Mas, a cada passo
que ele dá para adiante, a onda de areia, fofa, frouxa, o
arrasta mais para trás; cada investida que ele dá para a
frente parece uma investida falsa, vã, inútil, porque os
seus pés, pesados e adormentados pela marcha perpétua
paralisam completamente quando em mais fofa, mole
vaga de areia ansiosamente mergulham.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 599
Em certas zonas, em certas regiões, a vastidão
plana dos areais se modifica, dá-se uma transmutação
súbita; e elevações de colinas, cômoros altos, de
protuberâncias piramidais de catafalcos ostentam-se
ameaçadores diante do escarnecido pária, que galga por
eles acima, vai subindo, subindo, lá enterrando
inquietamente os pés nos lassos areais, descendo após
às ampliações planas, galgando novamente os catafalcos
de pó, subindo, descendo, descendo, subindo, às vezes
abalado pela impressão de ir suspenso no ar, com as
mãos, trêmulas e tísicas, lesmadas por um frio tumular
de medo, tateando, oscilando no espaço como duas asas
hirtas e a envelhecida e espectral cabeça
martirizantemente nimbada pelo sol.
E, à proporção que ele caminha mais para a frente,
os horizontes se ampliam e afastam para longe como se
obedecessem a um movimento gradual e curioso da
elasticidade nos corpos...
E Araldo segue, assombroso, sinistro, através da
amplidão e da solidão dos areais mortos, como a Epopéia
simbólica das sensações!
Súbito uma legião de fantásticas aves colossais,
formidáveis, de corpulência humana abateu-se sobre ele,
precipitou-se, num vôo incisivo, como se acaso ali mesmo
o fossem devorar inclementemente.
Mas, talvez por tê-lo reconhecido, por senti-lo irmão
naquelas agonias supremas, como eram também elas,
aves simbolizantes do Sentimento e do Vago, da Piedade
e do Consolo, deslizaram suavemente sobre Araldo em
carícias de asas, em grasnos compassivos, quase
gemidos, cobrindo-o, envolvendo-o com as suas
plumagens errantes do Azul e da Treva, na infinita
misericórdia das Esferas!
E Araldo assim ficou por alguns momentos,
subjugado por esse terror sagrado e ao mesmo tempo
pacificante, de olhos fechados aos vultos negros e
sepulcrais das aves, atordoado, sonâmbulo, dir-se-ia
600 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
gozando morbidamente, inconscientemente, o espanto
dessas incognoscíveis e emplumadas Aparições.
Depois, quando abriu lentamente os olhos, tinham
desaparecido todas as aves, reentrado no Mistério,
remergulhado no Vácuo, levando na fimbria das asas
olvidadas e poderosas os últimos raios ouro-violáceos do
crepúsculo que essas aves ignotas pareciam ter trazido
nas imensas sombras das asas e que descera então afinal
sobre aquele pasmoso e interminável dia tão duramente
impassível como as pedras.
As sombras, amplas, largas, pesadas,
circunvolveram logo os sáfaros areais desertos.
Por entre brumas espessas, vagorosa e taciturna,
na lenta gênese da sua luz, apareceu a lua, vagamente
lembrando a nebulosa de um Espírito...
Uma claridade diluída, fina, frouxa, ia ungindo
tudo...
Ondas e ondas nervosas de brancuras lívidas se
derramavam como resinas iluminantes; evaporações
subiam, se exalavam como de ânforas ardentes,
envolvendo a vastidão entre diáfanas auréolas
fantasiosas.
Certas tonalidades azuladas, roxas, sulfúreas,
languesciam, quebravam-se...
E aqueles aspectos deslumbradores, magos, dos
desertos que se repetiam e que o luar martirizava de
uma grande mágoa muda, pareciam os aspectos quietos,
calados, lacerantemente, silenciosamente dolorosos, das
paragens mortas do Esquecimento...
E agora, no luar, outra original ansiedade se
difundia – profunda, mais profunda do que nunca, para
o Desventurado eterno.
Harmonias violinadas e doloridas alanceavam-lhe
os nervos; finas e sutilíssimas melodias afinadas pela
mais intraduzível amargura fluíam dos raios do luar,
das neblinas, dos Angelus do luar...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 601
E jamais, jamais Araldo parecera tanto um
Espectro como agora, com o selo impenetrável das
Desilusões augustas, os olhos, a boca, o peito e os pés já
letárgica, sonolentamente tocados por fluidos gélidos e
magnéticos de morte, como que revestido do sambenito
para os Autos-de-fé, caminhando dentro do Sonho, do
espasmo branco do luar soturno e cirial...
E todos os sentidos de Araldo se requintavam,
atilados na sonoridade acústica da alva claridade
noturna; uma percuciência maior, mais intensa, os
vibrava; ele sentia a acuidade penetrante de tal modo
expressiva e flagrante como se o seu ser fosse parte
esparsa, diluída no grande todo que a lua liriava, agindo
com o agir dos inorgânicos, do alado, do evaporável, na
mesma sensibilidade intangível da natureza circundante.
Ele sentia difundir-se-lhe diante dos olhos esse
indefinido perpetuar de visões e sensações, essas
ondulações de mundos fascinadores e novos, o flutuante,
o vaporoso estado principal de orbes, de esferas flamantes
em condensação; sentia a sugestão original de gênesis
que se revelam, e todo esse torpor, esse adormecido
quebranto de corpos que se fecundam e geram, todo o
caprichoso caos germinativo e alucinante que deve
singularmente afetar, com o mais intenso e profundo
nevropsiquismo, impressionar curiosamente a retina
interior dos cegos no seu sonambulismo tátil.
Fogos-Fátuos, prismas cambiantes, eclípticos,
giravam-lhe, fosforeavam-lhe dormentemente diante dos
olhos, no enebriamento entorpecedor do luar...
Os ouvidos, a cada instante mais dúcteis, mais
rítmicos, mais afinados, tinham a pouco e pouco mais
aguda suscetibilidade.
O terror do deserto, o sigilo amedrontador do luar,
a amplidão, o vago, o incoercível da Noite, punha-lhe em
todo o organismo essa excessiva vibração, essa extrema
sensibilidade, essa extraordinária superestesia nervosa.
602 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Então, através dos finos cristais musicais do luar,
com o ouvido de uma delicadeza quase mórbida de
percepção, que atuava no seu sistema nervoso pela
ansiedade flagelante, pelo excesso atordoador do
sofrimento, pelo refinamento da angústia, parecia a
Araldo escutar, vibrado longe na limpidez glacial da lua,
o seu nome desventurado: Araldo! Araldo! Araldo!
E essa voz compungida, num brado claro, como
timbrada em aço, chamava alto: – Araldo! Araldo! Onde
estás? Onde estás, Araldo?! E como que essa voz se
reproduzia, se multiplicava, cada vez se aproximando
mais dele – era um marulhar de vozes que estalavam,
cantavam de todos os lados, subiam dos areais mortos,
desciam dos infinitos céus, do esplendor fabuloso da lua,
bradando: Araldo! Araldo! – vibração deslocada na
cristalização luminosa; Araldo! Araldo!; osculando os
areais desertos, Araldo! Araldo!; vozes castas,
carinhosas, abençoadoras e ternas, aladas
fantasticamente através do luar tão cheio de miragens,
de ilusionismos, tão velado de sugestões e germens
miraculosos.
De toda a parte ele ouvia o mesmo clamor,
chamando-o, procurando-o, buscando-o por toda a parte.
E todo esse clamor formava como que um Requiem triste
de impaciência, de inquietudes, de ansiedades,
crescendo em mar atroante de vozes, sombriamente:
Araldo! Araldo! Araldo!
A sua velha e atormentada cabeça como que
acordava então daquela peregrinante alucinação, agitada
pelas saudades que essas erradias vozes lhe traziam,
saudades que se transfiguraram outrora nas lendas do
luar, saudades que foram para sempre se asilar nos
estrelados santuários da Via-Láctea e que vagueavam
por lá, sonhando, Virgens e Santas de regiões
inacessíveis vestidas do linho imaculado tecido nas
refulgências e lactescências dos astros, alanceadas por
todas as grandes dores do Mundo, aureoladas de
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 603
cintilantes diademas feitos de todas as puras lágrimas
transfundidas, serenas na graça langue dos seus corpos
venusinos e com os seios intactos dos beijos tentadores
sagradamente nus, aflorados da pubescência inicial.
Agora, as vozes vinham-lhe em gradações de
sonoridade – vozes graves, soturnizadas e proféticas de
cantochão e vozes angélicas e frescas de corais gloriosos
nas Dulias matutinas e floreadas de maio.
Eram os seus bizarros instintos de Mocidade que
acordavam gritando; os aviários de ouro das suas alegrias
magoadamente irônicas, que gorjeavam; os seus desejos
adormecidos, procurando-o, seduzindo-o, tentando-o; as
vibrantes fanfarras, já emudecidas, dos seus vagos
triunfos, atordoando-o de ecos dolentes; todo o seu gozo
chamejante de outrora e as suas amarguras, desalentos,
desesperanças, que o buscavam enternecidamente, com
carinho, com profundos estremecimentos.
A requintada magia, as deliqüescências do luar,
davam velada, quase apagada reminiscência de um luar
muito vago, muito remoto, muito triste, já visto, já
sentido e já contemplado outrora nalgum país tumular
d’além dos tempos, um luar velho, em diluências de
giestas amarelas, de margaridas roxas, de pálidos
monsenhores...
Longo, largo disco azulado circundava
prognosticamente agora a face imóvel da lua, que parecia
penetrada de um letargo morno... Imensas, imensas e
incomparáveis tristezas se difundiam no mistério
daqueles desertos infinitos, cujo sentimento tremendo
da desolação e do nada dilacerava.
Toda a vastidão era como um solitário sarcófago
monstruoso, onde – visão dos imprescritíveis Destinos –
errasse, cego e só, esse ser desconhecido, única
palpitação, única chama nervosa, única alma em ânsias,
único suspiro vivo desprendido na mudez absoluta do
mágico luar...
604 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Dentre o peso aflitivo da grande noite ritmada de
magoadas surdina o céu, o impassível céu estava agora
brumosamente velado de um fino nevoeiro d’estrelas,
como uns olhos de lágrimas...
E Araldo seguia, esquecido Arcanjo primitivo,
levado pelas asas sulfúreas dos corcéis árdegos daquele
fantástico sonambulismo, tatuado pelos gilvazes do luar;
lá ia aquela tormenta viva de nervos, aquela alta psicose,
nas transfigurações e nas auréolas da Dor; lá ia o
nirvanismo do nirvanismo, o infinito do infinito...
Súbito, porém, um vendaval terrível, o atordoante
simoun convulsivo, epiléptico, abrasador e medonho, tão
espesso, tão denso que encobriu totalmente o luar,
bramiu em rodomoinhos, em vórtices tenebrosos,
revolvendo, levantando em montanhas no espaço toda a
torva poeira das areais.
Um simoun estranho, mais horrível que nos
desertos da Núbia, enovelado, torcicoloso, em grossas
espirais de serpentes gigantescas, ciclópicas, com as
caudas e as cabeças titânicas vertiginosamente
alvoroçadas nos delírios sanguissedentos dos letíficos e
monstruosos venenos.
Nas cordas tempestuosas desse vento tremendo
choravam por vezes sinfonias tannhäuserianas, loucuras
reileareanas. Era como se turbilhões de demônios soltos,
arrancando os cabelos com desespero, bufassem e
ululassem. Um pavor trágico enchia o deserto,
assombrava o deserto. Indefinidas angústias gemiam, e
soluçavam no vento velhas queixas encantadas, velhas
tristezas milenárias e fundas; primitivas línguas
bárbaras violenta e confusamente se dilaceravam, se
atropelavam; uivos felinos, ganidos, urros formidáveis
de monstros cruzavam-se no ar...
A brancura tenra, de anho branco, de cordeiro
imaculado, da lua, aparecia, por vezes, de uma tonalidade
sombria, apagada, de um eterismo mórbido de eclipse,
dando um diluente sentimento de remotividade amarga,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 605
como se a lua assim desse modo vista trouxesse a
impressão longínqua de ser ela própria a saudade da
lua...
No meio desse tétrico deserto nunca imaginado,
desse luar inquisitorial, mortal, esse vento sinistro tinha
uma ressonância subterrânea, funesta e cruel de clamor
niilista, evocava as florescências e as quintessências
doentias das sensibilidades do Budismo.
E Araldo, cada vez mais Espectro em meio à
Natureza toda, cada vez mais silhuético, mais perdido,
mais apagado, mais vago no vácuo tremendo daquelas
vastidões dolorosas, o vulto cada vez mais diminuído,
sumindo-se, sumindo-se, sumindo-se na distância, na
absorção da Imensidade circunvolvente, absurda e
insensivelmente mergulhou nos turbilhões do vendaval
terrível, foi arrebatado nas malhas atrozes e negras do
simoun, envolto na lúgubre mortalha dos areais — louco,
no auge da sua loucura, na crise formidável dos acordados
e alucinados pesadelos que lhe abalavam assim, sempre,
fundamente, o cérebro e eram, no entanto, através da
grande alucinação da Vida, do abismo eterno da Vida,
as únicas horas mais felizes e puras em que ele se
enclausurava nos tabernáculos fechados da sua Paixão,
os únicos instantes sagrados, os únicos momentos
lúcidos para os sóis febricitantes, esquisitos e majestosos
da sua fabulosa e sobre-humana Imaginação de louco...
606 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
EXTREMA CARÍCIA...
O que ele, apenas, em realidade sentia naquela
hora velada, além de uma esparsa e acerba saudade de
tudo, era uma carícia infinita, verdadeiramente
inexplicável, invadi-lo todo, difundir-se pelo seu ser como
que em músicas e mornos tóxicos luminosos. Era uma
dormência vaga, uma leve quebreira e letargia que o
mergulhava num sono nebuloso, por entre irisações de
brancura, num apaziguamento suave, como se ele
estivesse acaso adormecido em cisternas de leite,
ouvindo pássaros invisíveis cantar e sons sutilíssimos
de harpas docemente, finamente fluindo...
Era um luar espasmódico, em delíquios, que
nervosamente o aureolava, que lhe caía em neblinas de
lírios mádidos nas origens mais recônditas da alma. Era
um óleo paradisíaco que manso e manso o acalmava, o
anestesiava. Uma extrema carícia, que fazia dilataremse-lhe todas as fibras, percorrendo-lhe pelo organismo,
extasiantemente, numa onda de fluidos maravilhosos,
de longos langores, de demorados gozos, de supremas
quintessências de sensibilidade.
O sentido palatal, o sentido olfativo e o sentido
visual, profundas manifestações da vida molecularizada,
ele os sentia agora de uma aguda penetração
superorgânica, prodigiosamente penetrados da extrema
carícia, dos fenômenos desconhecidos que o invadiam.
Um nimbo azul, ouro, azul, ouro, azul, eterizavao, como se ele, por abstratas formas estranhas, girasse
nas constelações, nas curiosidades prismáticas,
cambiantes dos eclipses...
Parecia que áspides delicadas, de uma volúpia
ultraceleste, enroscavam-se nele, enlaçavam-lhe o corpo
todo, sugando-lhe com insaciável frenesi a força vital
das vértebras e dando-lhe uma nova vida ainda não vivida
pelos seus nervos, ainda não experimentada pelo seu
sangue, ainda não sofrida pelos seus sentidos — vida de
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 607
outras origens, de outras sensações fugitivas, de outras
complexidades múltiplas, de outras nevroses absurdas,
de outras estesias cândidas, de outros sóis e de outras
noites, de outras recordações e de outros
esquecimentos... Uma vida sem os contactos
epidérmicos, sem os quebrantos doentes da carne, sem
os delírios da matéria – inteiramente livre de todos os
grilhões do organismo humano. Vida desmolecularizada
nas esferas, plainando no absoluto – luz de harmonia,
harmonia de luz evaporada, diluída na grande luz astral,
subindo camadas, camadas, mais camadas de luz, mais
camadas de harmonia, quintessenciadamente subindo
sempre, subindo, impessoalizando-se e sideralizandose através dos corpos em gestação, nas partículas
mínimas, infinitesimais do Ser, no branco infinito do
Sonho...
E aquela extrema carícia, sempre a inocular-lhe
nas veias um frio e divino vinho voluptuoso de graça
langue, de graça mórbida, de graça sonâmbula. Sempre
aquela carícia adormentadora miraculosamente
adormentadora.
Sempre aquele ópio fascinante que o sonolentava,
pouco a pouco mais intenso, mais profundo... E névoas,
névoas de uma deliciosa e pacificadora noite aveludada,
sem uma só estrela! o iam envolvendo de forma capciosa
e lenta. Aos poucos se extinguia, num final de
crespúsculo, a vida chamejativa e original de seus olhos,
a ânsia derradeira, o alento último de sua boca já
apagada, já muda. No cérebro ia-se-lhe vagamente
distendendo, tentacularizando a sensação secreta de
um negro, sinistro silêncio... As reminiscências
recuavam, sumiam-se nos indefiníveis mistérios...
Mesmo, agora, finas mãos glaciais, esqueléticas e
invisíveis, de longos e esguios dedos trêmulos, andavamlhe demoradamente a palpar o corpo todo, de baixo acima,
tateando pelo seu rosto, devagar, pousando sobre os seus
olhos, sobre as pálpebras, a cerrá-las, a fechá-las com
608 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
cuidado, devagar na delicadeza e na extrema carícia
dos longos e esguios dedos trêmulos... Até que, na
convulsa vibração das íntimas cordas sensibilizadas de
todo o seu ser, ele sentiu então, compreendeu então
irremediavelmente já, do mais horrível modo tenebroso
e gelado, pela primeira e única vez! todos esses sutis e
esquisitos efeitos letais daquela extrema carícia...
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
EMPAREDADO
Ah! Noite! feiticeira Noite! ó Noite
misericordiosa, coroada no trono das
Constelações pela tiara de prata e diamantes
do Luar, Tu, que ressuscitas dos sepulcros
solenes do Passado tantas Esperanças, tantas
Ilusões, tantas e tamanhas Saudades, ó Noite!
Melancólica! Soturna! Voz triste, recordativamente triste, de tudo o que está morto,
acabado, perdido nas correntes eternas dos
abismos bramantes do Nada, ó Noite meditativa!
fecunda-me, penetra-me dos fluidos magnéticos do grande Sonho das tuas Solidões
panteístas e assinaladas, dá-me as tuas brumas
paradisíacas, dá-me os teus cismares de Monja,
dá-me as tuas asas reveladoras, dá-me as tuas
auréolas tenebrosas, a eloqüência de ouro das
tuas Estrelas, a profundidade misteriosa dos
teus sugestionadores fantasmas, todos os
surdos soluços que rugem e rasgam o majestoso
Mediterrâneo dos teus evocativos e
pacificadores Silêncios!
* 609
610 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Uma tristeza fina e incoercível errava nos tons
violáceos vivos daquele fim suntuoso de tarde aceso
ainda nos vermelhos sanguíneos, cuja cor cantava-me
nos olhos, quente, inflamada, na linha longe dos
horizontes em largas faixas rutilantes.
O fulvo e voluptuoso Rajá celeste derramara além
os fugitivos esplendores da sua magnificência astral e
rendilhara d’alto e de leve as nuvens da delicadeza
arquitetural, decorativa, dos estilos manuelinos.
Mas as ardentes formas da luz pouco a pouco
quebravam-se, velavam-se e os tons violáceos vivos,
destacados mais agora flagrantemente crepusculavam
a tarde, que expirava anelante, num anseio indefinido,
vago, dolorido, de inquieta aspiração e de inquieto
sonho...
E, descidas, afinal, as névoas, as sombras
claustrais da noite, tímidas e vagarosas Estrelas
começavam a desabrochar florescentemente, numa
tonalidade peregrina e nebulosa de brancas e erradias
fadas de Lendas...
Era aquela, assim religiosa e enevoada, a hora
eterna, a hora infinita da Esperança...
Eu ficara a contemplar, como que sonambulizado,
como o espírito indeciso e febricitante dos que esperam,
a avalanche de impressões e de sentimentos que se
acumulavam em mim à proporção que a noite chegava
com o séquito radiante e real das fabulosas Estrelas.
Recordações, desejos, sensações, alegrias,
saudades, triunfos passavam-me na Imaginação como
relâmpagos sagrados e cintilantes do esplendor litúrgico
de pálios e viáticos, de casulas e dalmáticas fulgurantes,
de tochas acesas e fumosas, de turíbulos cinzelados,
numa procissão lenta, pomposa, em aparatos cerimoniais,
de Corpus Christi, ao fundo longínquo de uma província
sugestiva e serena, pitorescamente aureolada por mares
cantantes. Vinha-me à flor melindrosa dos sentidos a
melopéia, o ritmo fugidio de momentos, horas, instantes,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 611
tempos deixados para trás na arrebatada confusão do
mundo.
Certos lados curiosos, expressivos e tocantes do
Sentimento, que a lembrança venera e santifica; lados
virgens, de majestade significativa, parecia-me surgirem
do suntuoso fundo estrelado daquela noite larga, da
amplidão saudosa daqueles céus...
Desdobrava-se o vasto silforama opulento de uma
vida inteira, circulada de acidentes, de longos lances
tempestuosos, de desolamentos, de palpitações
ignoradas, como do rumor, das aclamações e dos fogos
de cem cidades tenebrosas de tumulto e de pasmo...
Era como que todo o branco idílio místico da
adolescência, que de um tufo claro de nuvens, em
Imagens e Visões do Desconhecido, caminhava para
mim, leve, etéreo, através das imutáveis formas.
Ou, então, massas cerradas, compactas de
harmonias wagnerianas, que cresciam, cresciam, subiam
em gritos, em convulsões, em alaridos nervosos, em
estrépitos nervosos, em sonoridades nervosas, em
dilaceramentos nervosos, em catadupas vertiginosas de
vibrações, ecoando longe e alastrando tudo, por entre a
delicada alma sutil dos ritmos religiosos, alados,
procurando a serenidade dos Astros...
As Estrelas, d’alto, claras, pareciam cautelosamente escutar e sentir, com os caprichos de relicários
inviolados da sua luz, o desenvolvimento mudo, mas
intenso, a abstrata função mental que estava naquela
hora se operando dentro de mim, como um fenômeno de
aurora boreal que se revelasse no cérebro, acordando
chamas mortas, fazendo viver ilusões e cadáveres.
Ah! aquela hora era bem a hora infinita da
Esperança!
De que subterrâneos viera eu já, de que torvos
caminhos, trôpego de cansaço, as pernas bambaleantes,
com a fadiga de um século, recalcando nos tremendos e
majestosos Infernos do Orgulho o coração lacerado,
612 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
ouvindo sempre por toda a parte exclamarem as vãs e
vagas bocas: Esperar! Esperar! Esperar!
Por que estradas caminhei, monge hirto das
desilusões, conhecendo os gelos e os fundamentos da
Dor, dessa Dor estranha, formidável, terrível, que canta
e chora Requiens nas árvores, nos mares, nos ventos,
nas tempestades, só e taciturnamente ouvindo: Esperar!
Esperar! Esperar!
Por isso é que essa hora sugestiva era para mim
então a hora da Esperança, que evocava tudo quanto eu
sonhara e se desfizera e vagara e mergulhara no Vácuo...
Tudo quanto eu mais eloqüentemente amara com o delírio
e a fé suprema de solenes assinalamentos e vitórias.
Mas as grandes ironias trágicas germinadas do
Absoluto, conclamadas, em anátemas e deprecações
inquisitoriais cruzadas no ar violentamente em línguas
de fogo, caíram martirizantes sobre a minha cabeça,
implacáveis como a peste.
Então, à beira de caóticos, sinistros
despenhadeiros, como outrora o doce e arcangélico Deus
Negro, o trimegisto, de cornos agrogalhardos, de
fagulhantes, estriadas asas enigmáticas, idealmente
meditando a Culpa imeditável; então, perdido,
arrebatado dentre essas mágicas e poderosas correntes
de elementos antipáticos que a Natureza regulariza, e
sob a influência de desconhecidos e venenosos filtros, a
minha vida ficou como a longa, muito longa véspera de
um dia desejado, anelado, ansiosamente, inquietamente
desejado, procurado através do deserto dos tempos, com
angústia, com agonia, com esquisita e doentia nevrose,
mas que não chega nunca, nunca!!
Fiquei como a alma velada de um cego onde os
tormentos e os flagelos amargamente vegetam como
cardos hirtos. De um cego onde parece que
vaporosamente dormem certos sentimentos que só com
a palpitante vertigem, só com a febre matinal da luz
clara dos olhos acordariam; sentimentos que dormem
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 613
ou que não chegaram jamais a nascer, porque a densa e
amortalhante cegueira como que apagou para sempre
toda a claridade serena, toda a chama original que os
poderia fecundar e fazer florir na alma...
Elevando o Espírito a amplidões inacessíveis,
quase que não vi esses lados comuns da Vida humana,
e, igual ao cego, fui sombra, fui sombra!
Como os martirizados de outros Gólgotas mais
amargos, mais tristes, fui subindo a escalvada montanha,
através de urzes eriçadas, e de brenhas, como os
martirizados de outros Gólgotas mais amargos, mais
tristes.
De outros Gólgotas mais amargos subindo a
montanha imensa – vulto sombrio, tetro, extra-humano!
– a face escorrendo sangue, a boca escorrendo sangue,
o peito escorrendo sangue, as mãos escorrendo sangue,
o flanco escorrendo sangue, os pés escorrendo sangue,
sangue, sangue, sangue, caminhando para tão longe,
para muito longe, ao rumo infinito das regiões
melancólicas da Desilusão e da Saudade, transfiguradamente iluminado pelo sol augural dos Destinos!...
E, abrindo e erguendo em vão os braços
desesperados em busca de outros braços que me
abrigassem; e abrindo e erguendo em vão os braços
desesperados que já nem mesmo a milenária cruz do
Sonhador da Judéia encontravam para repousarem
pregados e dilacerados, fui caminhando, caminhando,
sempre com um nome estranho convulsamente
murmurado nos lábios, um nome augusto que eu
encontrara não sei em que Mistério, não sei em que
prodígios de Investigação e de Pensamento profundo: – o
sagrado nome da Arte, virginal e circundada de loureirais
e mirtos e palmas verdes e hosanas, por entre
constelações.
Mas, foi apenas bastante todo esse movimento
interior que pouco a pouco me abalava, foi apenas
bastante que eu consagrasse a vida mais fecundada,
614 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
mais ensangüentada que tenho, que desse todos os meus
mais íntimos, mais recônditos carinhos, todo o meu amor
ingênito, toda a legitimidade do meu sentir a essa
translúcida Monja de luar e sol, a essa incoercível
Aparição, bastou tão pouco para que logo se levantassem
todas as paixões da terra, tumultuosas como florestas
cerradas, proclamando por brutas, titânicas trombetas
de bronze o meu nefando Crime.
Foi bastante pairar mais alto, na obscuridade
tranqüila, na consoladora e doce paragem das Idéias,
acima das graves letras maiúsculas da Convenção, para
alvoroçarem-se os Preceitos, irritarem-se as Regras, as
Doutrinas, as Teorias, os Esquemas, os Dogmas, armados
e ferozes, de cataduras hostis e severas.
Eu trazia, como cadáveres que me andassem
funambulescamente amarrados às costas, num
inquietante e interminável apodrecimento, todos os
empirismos preconceituosos e não sei quanta camada
morta, quanta raça d’África curiosa e desolada que a
Fisiologia nulificara para sempre com o riso haeckeliano
e papai!
Surgido de bárbaros, tinha de domar outros mais
bárbaros ainda, cujas plumagens de aborígine
alacremente flutuavam através dos estilos.
Era mister romper o Espaço toldado de brumas,
rasgar as espessuras, as densas argumentações e
saberes, desdenhar os juízos altos, por decreto e por lei,
e, enfim, surgir...
Era mister rir com serenidade e afinal com tédio
dessa celulazinha bitolar que irrompe por toda a parte,
salta, fecunda, alastra, explode, transborda e se propaga.
Era mister respirar a grandes haustos na
Natureza, desafogar o peito das opressões ambientes,
agitar desassombradamente a cabeça diante da liberdade
absoluta e profunda do Infinito.
Era mister que me deixassem ao menos ser livre
no Silêncio e na Solidão. Que não me negassem a
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 615
necessidade fatal, imperiosa, ingênita de sacudir com
liberdade e com volúpia os nervos e desprender com
largueza e com audácia o meu verbo soluçante, na força
impetuosa e indomável da Vontade.
O temperamento que rugia, bramava dentro de
mim, esse, que se operasse: precisava, pois, tratados,
largos in-fólios, toda a biblioteca da famosa Alexandria,
uma Babel e Babilônia de aplicações científicas e de
textos latinos para sarar...
Tornava-se forçoso impor-lhe um compêndio
admirável, cheio de sensações imprevistas, de
curiosidades estéticas muito lindas e muito finas – um
compêndio de geometria!
O temperamento entortava muito para o lado da
África: – era necessário fazê-lo endireitar inteiramente
para o lado Regra, até que o temperamento regulasse
certo como um termômetro!
Ah! incomparável espírito das estreitezas
humanas, como és secularmente divino!
As civilizações, as raças, os povos digladiam-se e
morrem minados pela fatal degenerescência do sangue,
despedaçados, aniquilados no pavoroso túnel da Vida,
sentindo o horror sufocante das supremas asfixias.
Um veneno corrosivo atravessa, circula
vertiginosamente os poros dessa deblaterante
humanidade que se veste e triunfa com as púrpuras
quentes e funestas da guerra!
Povos e povos, no mesmo fatal e instintivo
movimento da conservação e propagação da espécie,
frivolamente lutam e proliferam diante da Morte, no ardor
dos conúbios secretos e das batalhas obscuras, do frenesi
genital, animal, de perpetuarem as seivas, de
eternizarem os germens.
Mas, por sobre toda essa vertigem humana, sobre
tanta monstruosa miséria, rodando, rodomoinhando, lá
e além, na vastidão funda do Mundo, alguma cousa da
essência maravilhosa da Luz paira e se perpetua,
616 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
fecundando e inflamando os séculos com o amor indelével
da Forma.
É do sabor prodigioso dessa essência, vinda de
bem remotas origens, que raros Assinalados
experimentam, envoltos numa atmosfera de
eterificações, de visualidades inauditas, de
surpreendentes abstrações e brilhos, radiando nas
correntes e forças da Natureza, vivendo nos fenômenos
vagos de que a Natureza se compõe, nos fantasmas
dispersos que circulam e erram nos seus esplendores e
nas suas trevas, conciliados supremamente com a
Natureza.
E, então, os temperamentos que surgissem, que
viessem, limpos de mancha, de mácula, puramente
lavados para as extremas perfectibilidades, virgens, sãos
e impetuosos para as extremas fecundações, com a
virtude eloqüente de trazerem, ainda sangradas, frescas,
úmidas das terras germinais do Idealismo, as raízes vivas
e profundas, os germens legítimos, ingênitos, do
Sentimento.
Os temperamentos que surgissem: – podiam ser
simples, mas que essa simplicidade acusasse também
complexidade, como as claras Ilíadas que os rios cantam.
Mas igualmente podiam ser complexos, trazendo as
inéditas manifestações do Indefinido, e intensos,
intensos sempre, sintéticos e abstratos, tendo esses
inexprimíveis segredos que vagam na luz, no ar, no som,
no aroma, na cor e que só a visão delicada de um espírito
artístico assinala.
Poderiam também parecer obscuros por serem
complexos, mas ao mesmo tempo serem claros nessa
obscuridade por serem lógicos, naturais, fáceis, de uma
espontaneidade sincera, verdadeira e livre na enunciação
de sentimentos e pensamentos, da concepção e da forma,
obedecendo tudo a uma grande harmonia essencial de
linhas sempre determinativas da índole, da feição geral
de cada organização.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 617
Os lados mais carregados, mais fundamente
cavados dos temperamentos sangrentos, fecundados em
origens novas de excepcionalidades, não seriam para
complicar e enturvecer mais as respectivas psicologias;
mas apenas para torná-las claras, claras, para dar,
simplesmente, com a máxima eloqüência, dessas
próprias psicologias, toda a evidência, toda a intensidade,
todo o absurdo e nebuloso Sonho...
Dominariam assim, venceriam assim, esses
Sonhadores, os reservados, eleitos e melancólicos
Reinados do Ideal, apenas, unicamente por fatalidades
impalpáveis, imprescritíveis, secretas, e não por
justaposições mecânicas de teorias e didatismos
obsoletos.
Os caracteres nervosos mais sutis, mais finos, mais
vaporosos, de cada temperamento, perder-se-iam,
embora, na vaga truculenta, pesada, da multidão
inexpressiva, confusa, que burburinha com o seu lento
ar parado e vazio, conduzindo em seu bojo a
concupiscência bestial enroscada como um sátiro, com
a alma gasta, olhando molemente para tudo com os seus
dois pequeninos olhos gulosos de símio.
Mas, a paixão inflamada do Ignoto subiria e
devoraria reconditamente todos esses Imaginativos
dolentes, como se eles fossem abençoada zona ideal,
preciosa, guardando em sua profundidade o orientalismo
de um tesouro curioso, o relicário mágico do Imprevisto
– abençoada zona saudosa, plaga d’ouro sagrada, para
sempre sepulcralmente fechada ao sentimento herético,
à bárbara profanação dos sacrílegos.
Assim é que eu sonhara surgirem todas essas
aptidões, todas essas feições singulares, dolorosas,
irrompendo de um alto princípio fundamental distinto
em certos traços breves, mas igual, uno, perfeito e
harmonioso nas grandes linhas gerais.
Essa é que fora a lei secreta, que escapara à
percepção de filósofos e doutos, do verdadeiro
618 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
temperamento, alheio às orquestrações e aos incensos
aclamatórios da turba profana, porém alheio por causa,
por sinceridade de penetração, por subjetivismo mental
sentido à parte, vivido à parte, – simples, obscuro, natural
– como se a humanidade não existisse em torno e os
nervos, a sensação, o pensamento tivessem latente
necessidade de gritar alto, de expandir e transfundir no
espaço, vivamente, a sua psicose atormentada.
Assim é que eu via a Arte, abrangendo todas as
faculdades, absorvendo todos os sentidos, vencendo-os,
subjugando-os amplamente.
Era uma força oculta, impulsiva, que ganhara já a
agudeza picante, acre, de um apetite estonteante e a
fascinação infernal, tóxica, de um fugitivo e deslumbrador
pecado...
Assim é que eu a compreendia em toda a
intimidade do meu ser, que eu sentia em toda a minha
emoção, em toda a genuína expressão do meu
Entendimento – e não uma espécie de iguaria agradável,
saborosa, que se devesse dar ao público em doses e no
grau e qualidade que ele exigisse, fosse esse público
simplesmente um símbolo, um bonzo antigo, taciturno e
cor de oca, uma expressão serôdia, o público A+B, cujo
consenso a Convenção em letras maiúsculas decretara.
Afinal, em tese, todas as idéias em Arte poderiam
ser antipáticas, sem preconcebimentos a agradar, o que
não quereria dizer que fossem más.
No entanto, para que a Arte se revelasse própria,
era essencial que o temperamento se desprendesse de
tudo, abrisse vôos, não ficasse nem continuativo nem
restrito, dentro de vários moldes consagrados que
tomaram já a significação representativa de clichés
oficiais e antiquados.
Quanto a mim, originalmente foi crescendo,
alastrando o meu organismo, numa veemência e num
ímpeto de vontade que se manifesta, num dilúvio de
emoção, esse fenômeno de temperamento que com
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 619
sutilezas e delicadezas de névoas alvorais vem surgindo
e formando em nós os maravilhosos Encantamentos da
Concepção.
O Desconhecido me arrebatara e surpreendera e
eu fui para ele instintiva e intuitivamente arrastado,
insensível então aos atritos da frivolidade, indiferente,
entediado por índole diante da filáucia letrada, que não
trazia a expressão viva, palpitante, da chama de uma
fisionomia, de um tipo afirmativamente eleito.
Muitos diziam-se rebelados, intransigentes – mas
eu via claro as ficelles dessa rebeldia e dessa
instransigência. Rebelados, porque tiveram fome uma
hora apenas, as botas rotas um dia. Intransigentes, por
despeito, porque não conseguiam galgar as fúteis, para
eles gloriosas posições que os outros galgavam...
Era uma politicazinha engenhosa de medíocres,
de estreitos, de tacanhos, de perfeitos imbecilizados ou
cínicos, que faziam da Arte um jogo capcioso, maneiroso,
para arranjar relações e prestígio no meio, de jeito a
não ofender, a não fazer corar o diletantismo das suas
idéias. Rebeldias e instransigências em casa, sob o teto
protetor, assim uma espécie de ateísmo acadêmico,
muito demolidor e feroz, com ladainhas e amuletos em
certa hora para livrar da trovoada e dos celestes castigos
imponderáveis!
Mas, uma vez cá fora à luz crua da Vida e do Mundo,
perante o ferro em brasa da livre análise, mostrando
logo as curvaturas mais respeitosas, mais gramaticais,
mais clássicas, à decrépita Convenção com letras
maiúsculas.
Um ou outro, pairando, no entanto, mais alto no
meio, tinha manhas de raposa fina, argúcia, vivacidades
satânicas, no fundo, frívolas, e que a maior parte,
inteiramente oca, sem penetração, não sentia. Fechava
sistematicamente os olhos para fingir não ver, para não
sair dos seus cômodos pacatos de aclamado banal,
fazendo esforço supremo de conservar a confusão e a
620 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
complicação no meio, transtornar e estontear aquelas
raras e adolescentes cabeças que por acaso aparecessem
já com algum nebuloso segredo.
Um ou outro tinha a habilidade quase mecânica
de apanhar, de recolher do tempo e do espaço as idéias
e os sentimentos que, estando dispersos, formavam a
temperatura burguesa do meio, portanto corrente já, e
trabalhar algumas páginas, alguns livros, que, por
trazerem idéias e sentimentos homogêneos dos
sentimentos e idéias burguesas, aqueciam, alvoroçavam,
atordoavam o ar de aplausos...
Outros, ainda, adaptados às épocas, aclimados ao
modo de sentir exterior; ou, ainda por mal compreendido
ajeitamento, fazendo absoluta apostasia do seu sentir
íntimo, próprio, iludidos em parte; ou, talvez,
evidenciando com flagrância, traindo assim o fundo fútil,
sem vivas, entranhadas raízes de sensibilidade estética,
sem a ideal radicalização de sonhos ingenitamente
fecundados e quintessenciados na alma, das suas
naturezas passageiras, desapercebidas de certos
movimentos inevitáveis da estesia, que imprimem, por
fórmulas fatais, que arrancam das origens profundas,
com toda a sanguinolenta verdade e por causas fugidias
a toda e qualquer análise, tudo o quanto se sente e
pensa de mais ou menos elevado e completo.
Mistificadores afetados de canaillerie por tom, por
modernismos falhos apanhados entre os absolutamente
fracos, os pusilânimes de têmpera no fundo, e que, no
entanto, tanto aparentam correção e serena força
própria.
Naturezas vacilantes e mórbidas, sem a integração
final, sem mesmo o equilíbrio fundamental do próprio
desequilíbrio e, ainda mais do que tudo, sem esse poder
quase sobrenatural, sem esses atributos excepcionais
que gravam, que assinalam de modo estranho, às
chamejantes e intrínsecas obras d’Arte, o caráter
imprevisto, extra-humano, do Sonho.
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 621
Hábeis viveurs, jeitosos, sagazes, acomodatícios,
afetando pessimismos mais por desequilíbrio que por
fundamento, sentindo, alguns, até à saciedade, a
atropelação do meio, fingindo desprezá-lo, aborrecê-lo,
odiá-lo, mas mergulhando nele com frenesi, quase com
delírio, mesmo com certa volúpia maligna de frouxos e
de nulos que trazem num grau muito apurado a faculdade
animal do instinto de conservação, a habilidade de
nadadores destros e intrépidos nas ondas turvas dos
cálculos e efeitos convencionais.
Tal, desse modo, um prestidigitador ágil e atilado
colhe e prende, com as miragens e truques da
nigromancia, a frívola atenção passiva de um público
dócil e embasbacado.
Insipientes, uns, obscenamente cretinos, outros,
devorados pela desoladora impotência que os torna lívidos
e lhes dilacera os fígados, eu bem lhes percebo as
psicologias subterrâneas, bem os vejo passar, todos,
todos, todos, d’olhos oblíquos, numa expressão
fisionômica azeda e vesga de despeito, como errantes
duendes da Meia-Noite, verdes, escarlates, amarelos e
azuis, em vão grazinando e chocalhando na treva os
guizos das sarcásticas risadas...
Almas tristes, afinal, que se diluem, que se
acabam, num silêncio amargo, numa dolorosa desolação,
murchas e doentias, na febre fatal das desorganizações,
melancolicamente, melancolicamente, como a
decomposição de tecidos que gangrenaram, de corpos
que apodreceram de um modo irremediável e não podem
mais viçar e florir sob as refulgências e sonoridades dos
finíssimos ouros e cristais e safiras e rubis incendiados
do Sol...
Almas lassas, debochadamente relaxadas,
verdadeiras casernas onde a mais rasgada libertinagem
não encontra fundo; almas que vão cultivando com
cuidado delicadas infamiazinhas como áspides galantes
622 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
e curiosas e que de tão baixas, de tão rasas que são
nem merecem a magnificência, a majestade do Inferno!
Almas, afinal, sem as chamas misteriosas, sem
as névoas, sem as sombras, sem os largos e irisados
resplendores do Sonho – supremo Redentor eterno!
Tudo um ambiente dilacerante, uma atmosfera
que sufoca, um ar que aflige e dói nos olhos e asfixia a
garganta como uma poeira triste, muito densa, muito
turva, sob um meio-dia ardente, no atalho ermo de vila
pobre por onde vai taciturnamente seguindo algum
obscuro enterro de desgraçado...
Eles riem, eles riem e eu caminho e sonho
tranqüilo! pedindo a algum belo Deus d’Estrelas e d’Azul,
que vive em tédios aristocráticos na Nuvem, que me deixe
serenamente e humildemente acabar esta Obra extrema
de Fé e de Vida!
Se alguma nova ventura conheço é a ventura
intensa de sentir um temperamento, tão raro me é dado
sentir essa ventura. Se alguma cousa me torna justo é
a chama fecundadora, o eflúvio fascinador e penetrante
que se exala de um verso admirável, de uma página de
evocações, legítima e sugestiva.
O que eu quero, o que eu aspiro, tudo por quanto
anseio, obedecendo ao sistema arterial das minhas
Intuições, é a Amplidão livre e luminosa, todo o Infinito,
para cantar o meu Sonho, para sonhar, para sentir, para
sofrer, para vagar, para dormir, para morrer, agitando
ao alto a cabeça anatematizada, como Otelo nos delírios
sangrentos do Ciúme...
Agitando ainda a cabeça num derradeiro
movimento de desdém augusto, como nos cismativos
ocasos os desdéns soberanos do sol que ufanamente
abandona a terra, para ir talvez fecundar outros mais
nobres e ignorados hemisférios...
Pensam, sentem, estes, aqueles. Mas a
característica que denota a seleção de uma curiosa
natureza, de um ser d’arte absoluto, essa, não a sinto,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 623
não a vejo, com os delicados escrúpulos e
suscetibilidades de uma flagrante e real originalidade
sem escolas, sem regulamentações e métodos, sem
cotterie e anais de crítica, mas com a força germinal
poderosa de virginal afirmação viva.
D’alto a baixo, rasgam-se os organismos, os
instrumentos da autópsia psicológica penetram por tudo,
sondam, perscrutam todas as células, analisam as
funções mentais de todas as civilizações e raças; mas
só escapam à penetração, à investigação desses positivos
exames a tendência, a índole, o temperamento artístico,
fugidios sempre e sempre imprevistos, porque são casos
particulares de seleção na massa imensa dos casos
gerais que regem e equilibram secularmente o mundo.
Desde que o Artista é um isolado, um esporádico,
não adaptado ao meio, mas em completa, lógica e
inevitável revolta contra ele, num conflito perpétuo entre
a sua natureza complexa e a natureza oposta do meio, a
sensação, a emoção que experimenta é de ordem tal
que foge a todas as classificações e casuísticas, a todas
as argumentações que, parecendo as mais puras e as
mais exaustivas do assunto, são, no entanto, sempre
deficientes e falsas.
Ele é o supercivilizado dos sentidos, mas como
que um supercivilizado ingênito, transbordado do meio,
mesmo em virtude da sua percuciente agudeza de visão,
da sua absoluta clarividência, da sua inata
perfectibilidade celular, que é o gérmen fundamental
de um temperamento profundo.
Certos espíritos d’Arte assinalaram-se no tempo
veiculado pela hegemonia das raças, pela preponderância
das civilizações, tendo, porém, em toda a parte, um valor
que era universalmente conhecido e celebrizado, porque,
para chegar a esse grau de notoriedade, penetrou
primeiro nos domínios do oficialismo e da cotterie.
Os de Estética emovente e exótica, os gueux, os
requintados, os sublimes iluminados por um clarão
624 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
fantástico, como Baudelaire, como Poe, os
surpreendentes da Alma, os imprevistos missionários
supremos, os inflamados, devorados pelo Sonho, os
clarividentes e evocativos, que emocionalmente
sugestionam e acordam luas adormecidas de
Recordações e de Saudades, esses ficam imortalmente
cá fora, dentre as augustas vozes apocalípticas da
Natureza, chorados e cantados pelas Estrelas e pelos
Ventos!
Ah! benditos os Reveladores da Dor infinita! Ah!
soberanos e invulneráveis aqueles que, na Arte, nesse
extremo requinte de volúpia, sabem transcendentalizar
a Dor, tirar da Dor a grande Significação eloqüente e
não amesquinhá-la e desvirginá-la!
A verdadeira, a suprema força d’Arte está em
caminhar firme, resoluto, inabalável, sereno através de
toda a perturbação e confusão ambiente, isolado no
mundo mental criado, assinalando com intensidade e
eloqüência o mistério, a predestinação do temperamento.
É preciso fechar com indiferença os ouvidos aos
rumores confusos e atropelantes e engolfar a alma, com
ardente paixão e fé concentrada, em tudo o que se sente
e pensa com sinceridade, por mais violenta, obscura ou
escandalosa que essa sinceridade à primeira vista
pareça, por mais longe das normas prestabelecidas que
a julguem – para então assim mais elevadamente
estrelar os Infinitos da grande Arte, da grande Arte que
é só, solitária, desacompanhada das turbas que
chasqueiam, da matéria humana doente que convulsiona
dentro das estreitezas asfixiantes do seu torvo caracol.
Até mesmo, certos livros, por mais exóticos,
atraentes, abstrusos, que sejam, por mais aclamados
pela trompa do momento, nada podem influir, nenhuma
alteração podem trazer ao sentimento geral de idéias
que se constituíram sistema e que afirmam, de modo
radical, mas simples, natural, por mais exagerado que
se suponha, a calma justa das convicções integrais,
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 625
absolutas, dos que seguem impavidamente a sua linha,
dos que, trazendo consigo imaginativo espírito de
Concepção, caminham sempre com tenacidade,
serenamente, impertubáveis aos apupos inofensivos, sem
tonturas de fascinação efêmera, sentindo e conhecendo
tudo, com os olhos claros levantados e sonhadores cheios
de uma radiante ironia mais feita de demência, de
bondade do que de ódio.
O Artista é que fica muitas vezes sob o signo fatal
ou sob a auréola funesta do ódio, quando no entanto o
seu coração vem transbordando de Piedade, vem
soluçando de ternura, de compaixão, de misericórdia,
quando ele só parece mau porque tem cóleras soberbas,
tremendas indignações, ironias divinas que causam
escândalos ferozes, que passam por blasfêmias negras,
contra a Infâmia oficial do Mundo, contra o vicio hipócrita,
perverso, contra o postiço sentimento universal
mascarado de Liberdade e de Justiça.
Nos países novos, nas terras ainda sem tipo étnico
absolutamente definido, onde o sentimento d’Arte é
silvícola, local, banalizado, deve ser espantoso, estupendo
o esforço, a batalha formidável de um temperamento
fatalizado pelo sangue e que traz consigo, além da
condição inviável do meio, a qualidade fisiológica de
pertencer, de proceder de uma raça que a ditadora
ciência d’hipóteses negou em absoluto para as funções
do Entendimento e, principalmente, do entendimento
artístico da palavra escrita.
Deus meu! por uma questão banal da química
biológica do pigmento ficam alguns mais rebeldes e
curiosos fósseis preocupados, a ruminar primitivas
erudições, perdidos e atropelados pelas longas galerias
submarinas de uma sabedoria infinita, esmagadora,
irrevogável!
Mas, que importa tudo isso?! Qual é a cor da
minha forma, do meu sentir? Qual é a cor da tempestade
626 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
de dilacerações que me abala? Qual a dos meus sonhos
e gritos? Qual a dos meus desejos e febre?
Ah! esta minúscula humanidade, torcida,
enroscada, assaltando as almas com a ferocidade de
animais bravios, de garras aguçadas e dentes rijos de
carnívoro, é que não pode compreender-me.
Sim! tu é que não podes entender-me, não podes
irradiar, convulsionar-te nestes efeitos com os arcaísmos
duros da tua compreensão, com a carcaça paleontológica
do Bom Senso.
Tu é que não podes ver-me, atentar-me, sentirme, dos limites da tua toca de primitivo, armada do bordão
simbólico das convicções pré-históricas, patinhando a
lama das teorias, a lama das conveniências
equilibrantes, a lama sinistra, estagnada, das tuas
insaciáveis luxúrias.
Tu não podes sensibilizar-te diante destes
extasiantes estados d’alma, diante destes
deslumbramentos estesíacos, sagrados, diante das
eucarísticas espiritualizações que me arrebatam.
O que tu podes, só, é agarrar com frenesi ou com
ódio a minha Obra dolorosa e solitária e lê-la e detestála e revirar-lhe as folhas, truncar-lhe as páginas,
enodoar-lhe a castidade branca dos períodos, profanarlhe o tabernáculo da linguagem, riscar, traçar, assinalar,
cortar com dísticos estigmatizantes, com labéus
obscenos, com golpes fundos de blasfêmia as violências
da intensidade, dilacerar, enfim, toda a Obra, num ímpeto
covarde de impotência ou de angústia.
Mas, para chegares a esse movimento apaixonado,
dolorido, já eu antes terei, por certo – eu o sinto, eu o
vejo! – te arremessado profundamente, abismantemente
pelos cabelos a minha Obra e obrigado a tua atenção
comatosa a acordar, a acender, a olfatar, a cheirar com
febre, com delírio, com cio, cada adjetivo, cada verbo
que eu faça chiar como um ferro em brasa sobre o
organismo da Idéia, cada vocábulo que eu tenha pensado
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 627
e sentido com todas as fibras, que tenha vivido com os
meus carinhos, dormido com os meus desejos, sonhado
com os meus sonhos, representativos, integrais, únicos,
completos, perfeitos, de uma convulsão e aspiração
supremas.
Não conseguindo impressionar-te, afetar-te a bossa
intelectiva, quero ao menos sensacionar-te a pele,
ciliciar-te, crucificar-te ao meu estilo, desnudando ao
sol, pondo abertas e francas todas as expressões,
nuances e expansibilidades deste amargurado ser, tal
como sou e sinto.
Os que vivem num completo assédio no mundo,
pela condenação do Pensamento, dentro de um báratro
monstruoso de leis e preceitos obsoletos, de convenções
radicadas, de casuísticas, trazem a necessidade inquieta
e profunda de como que traduzir, por traços
fundamentais, as suas faces, os seus aspectos, as suas
impressionabilidades e, sobretudo, as suas causas
originais, vindas fatalmente da liberdade fenomenal da
Natureza.
Ah! Destino grave, de certo modo funesto, dos que
vieram ao mundo para, com as correntes secretas dos
seus pensamentos e sentimentos, provocar convulsões
subterrâneas, levantar ventos opostos de opiniões,
mistificar a insipiência dos adolescentes intelectuais, a
ingenuidade de certas cabeças, o bom senso dos cretinos,
deixar a oscilação da fé, sobre a missão que trazem, no
espírito fraco, sem consistência de crítica própria, sem
impulsão original para afirmar os Obscuros que não
contemporizam, os Negados que não reconhecem a
Sanção oficial, que repelem toda a sorte de conchavos,
de compadrismos interesseiros, de aplausos forjicados,
por limpidez e decência e não por frivolidades de orgulhos
humanos ou de despeitos tristes.
Ah! Destino grave dos que vieram ao mundo para
ousadamente deflorar as púberes e cobardes
inteligências com o órgão másculo, poderoso da Síntese,
628 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
para inocular nas estreitezas mentais o sentimento
vigoroso das Generalizações, para revelar uma obra bem
fecundada de sangue, bem constelada de lágrimas, para,
afinal, estabelecer o choque violento das almas,
arremessar umas contra as outras, na sagrada, na
bendita impiedade de quem traz consigo os vulcanizadores Anátemas que redimem.
O que em nós outros Errantes do Sentimento
flameja, arde e palpita é esta ânsia infinita, esta sede
santa e inquieta, que não cessa, de encontrarmos um
dia uma alma que nos veja com simplicidade e clareza,
que nos compreenda, que nos ame, que nos sinta.
E de encontrar essa alma assinalada pela qual
viemos vindo de tão longe sonhando e andamos esperando
há tanto tempo, procurando-a no Silêncio do mundo,
cheios de febre e de cismas, para no seio dela cairmos
frementes, alvoroçados, entusiastas, como no eterno seio
da Luz imensa e boa que nos acolhe.
É esta bendita loucura de encontrar essa alma
para desabafar ao largo da Vida com ela, para respirar
livre e fortemente, de pulmões satisfeitos e límpidos,
toda a onda viva de vibrações e de chamas do Sentimento
que contivemos por tanto e tão longo tempo guardada na
nossa alma, sem acharmos uma outra alma irmã à qual
pudéssemos comunicar absolutamente tudo.
E quando a flor dessa alma se abre encantadora
para nós, quando ela se nos revela com todos os seus
sedutores e recônditos aromas, quando afinal a
descobrimos um dia, não sentimos mais o peito opresso,
esmagado: – uma nova torrente espiritual deriva do nosso
ser e ficamos então desafogados, coração e cérebro
inundados da graça de um divino amor, bem pagos de
tudo, suficientemente recompensados de todo o
transcendente Sacrifício que a Natureza heroicamente
impôs aos nossos ombros mortais, para ver se
conseguimos, aqui embaixo na Terra, encher, cobrir este
abismo do Tédio com abismos da Luz!
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 629
O mundo, chato e medíocre nos seus
fundamentos, na sua essência, é uma dura fórmula
geométrica. Todo aquele que lhe procura quebrar as
hirtas e caturras linhas retas com o poder de um simples
Sentimento desloca de tal modo elementos de ordem
tão particular, de natureza tão profunda e tão séria que
tudo se turba e convulsiona; e o temerário que ousou
tocar na velha fórmula experimenta toda a Dor
imponderável que esse simples Sentimento
responsabiliza e provoca.
Eu não pertenço à velha árvore genealógica das
intelectualidades medidas, dos produtos anêmicos dos
meios lutulentos, espécies exóticas de altas e curiosas
girafas verdes e spleenéticas de algum maravilhoso e
babilônico jardim de lendas...
Num impulso sonâmbulo para fora do círculo
sistemático das Fórmulas preestabelecidas, deixei-me
pairar, em espiritual essência, em brilhos intangíveis,
através dos nevados, gelados e peregrinos caminhos da
Via-Láctea...
E é por isso que eu ouço, no adormecimento de
certas horas, nas moles quebreiras de vagos torpores
enervantes, na bruma crepuscular de certas melancolias,
na contemplatividade mental de certos poentes
agonizantes, uma voz ignota, que parece vir do fundo da
Imaginação ou do fundo mucilaginoso do Mar ou dos
mistérios da Noite – talvez acordes da grande Lira
noturna do Inferno e das harpas remotas de velhos céus
esquecidos, murmurar-me:
– “Tu és dos de Cam, maldito, réprobo,
anatematizado! Falas em Abstrações, em Formas, em
Espiritualidades, em Requintes, em Sonhos! Como se
tu fosses das raças de ouro e da aurora, se viesses dos
arianos, depurado por todas as civilizações, célula por
célula, tecido por tecido, cristalizado o teu ser num
verdadeiro cadinho de idéias, de sentimentos – direito,
perfeito, das perfeições oficiais dos meios
630 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
convencionalmente ilustres! Como se viesses do Oriente,
rei!, em galeras, dentre opulências, ou tivesses a
aventura magna de ficar perdido em Tebas,
desoladamente cismando através de ruínas; ou a iriada,
peregrina e fidalga fantasia dos Medievos, ou a lenda
colorida e bizarra por haveres adormecido e sonhado,
sob o ritmo claro dos Astros, junto às priscas margens
venerandas do Mar Vermelho!
Artista! pode lá isso ser se tu és d’África, tórrida
e bárbara, devorada insaciavelmente pelo deserto,
tumultuando de matas bravias, arrastada sangrando no
lodo das Civilizações despóticas, torvamente
amamentada com o leite amargo e venenoso da Angústia!
A África arrebatada nos ciclones torvelinhantes das
Impiedades supremas, das Blasfêmias absolutas,
gemendo, rugindo, bramando no caos feroz, hórrido das
profundas selvas brutas, a sua formidável Dilaceração
humana! A África laocoôntica, alma de trevas e de
chamas, fecundada no Sol e na Noite, errantemente
tempestuosa como a alma espiritualizada e tantálica da
Rússia, gerada no Degredo e na Neve – pólo branco e
pólo negro da Dor!
Artista?! Loucura! Loucura! Pode lá isso ser se tu
vens dessa longínqua região desolada, lá no fundo exótico
dessa África sugestiva, gemente, Criação dolorosa e
sanguinolenta de Satãs rebelados, dessa flagelada
África, grotesca e triste, melancólica, gênese assombrosa
de gemidos, tetricamente fulminada pelo banzo mortal;
dessa África dos Suplícios, sobre cuja cabeça nirvanizada
pelo desprezo do mundo Deus arrojou toda a peste letal
e tenebrosa das maldições eternas!
A África virgem, inviolada no Sentimento,
avalanche humana amassada com argilas funestas e
secretas para fundir a Epopéia suprema da Dor do Futuro,
para fecundar talvez os grandes tercetos tremendos de
algum novo e majestoso Dante negro!
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 631
Dessa África que parece gerada para os divinos
cinzéis das colossais e prodigiosas esculturas, para as
largas e fantásticas Inspirações convulsas de Doré –
Inspirações inflamadas, soberbas, choradas, soluçadas,
bebidas nos Infernos e nos Céus profundos do Sentimento
humano.
Dessa África cheia de solidões maravilhosas, de
virgindades animais instintivas, de curiosos fenômenos
de esquisita Originalidade, de espasmos de Desespero,
gigantescamente medonha, absurdamente ululante –
pesadelo de sombras macabras – visão valpurgiana de
terríveis e convulsos soluços noturnos circulando na
Terra e formando, com as seculares, despedaçadas
agonias da sua alma renegada, uma auréola sinistra,
de lágrimas e sangue, toda em torno da Terra...
Não! Não! Não! Não transporás os pórticos
milenários da vasta edificação do Mundo, porque atrás
de ti e adiante de ti não sei quantas gerações foram
acumulando, acumulando pedra sobre pedra, pedra sobre
pedra, que para aí estás agora o verdadeiro emparedado
de uma raça.
Se caminhares para a direita baterás e esbarrarás,
ansioso, aflito, numa parede horrendamente
incomensurável de Egoísmos e Preconceitos! Se
caminhares para a esquerda, outra parede, de Ciências
e Críticas, mais alta do que a primeira, te mergulhará
profundamente no espanto! Se caminhares para a frente,
ainda nova parede, feita de Despeitos e Impotências,
tremenda, de granito, broncamente se elevará ao alto!
Se caminhares, enfim, para trás, ah! ainda, uma
derradeira parede, fechando tudo, fechando tudo –
horrível! – parede de Imbecilidade e Ignorância, te
deixará num frio espasmo de terror absoluto...
E mais pedras, mais pedras se sobreporão às
pedras já acumuladas, mais pedras, mais pedras...
Pedras destas odiosas, caricatas e fatigantes Civilizações
e Sociedades... Mais pedras, mais pedras! E as estranhas
paredes hão de subir – longas, negras, terríficas! Hão
632 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
de subir, subir, subir mudas, silenciosas, até as Estrelas,
deixando-te para sempre perdidamente alucinado e
emparedado dentro do teu Sonho...”
Correspondência
634 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
1. À COMISSÃO ORGANIZADORA DO CLUBE
DOS JORNALISTAS
[Bahia, lo semestre de 1885].
Como representante da Gazeta da Tarde, da Bahia,
congratulo-me com o Clube dos Jornalistas, aplaudindo,
no maior grau das minhas convicções sociais, essa
brilhante idéia regeneradora. Assim como a biblioteca é
o restaurante do espírito, a imprensa é o grande sol da
consciência coletiva. Abraço por isso o jornalismo
fluminense, que deve ser a consubstanciação da
democracia moderna.
Cruz e Sousa
2. À SOCIEDADE CARNAVALESCA DIABO A
QUATRO
Desterro, 31 de maio de 1887.
Ilmos. Srs.
Cumpre-me responder ao ofício de Vv. Ss. que me
foi dirigido em data de 20 deste mês. Agradecendo,
sumamente penhorado, as amabilidades cavalheirosas
e distinções que no aludido ofício me fazem, cabe-me a
ocasião de cumprimentar, de saudar altamente, com
um largo sopro de retumbante clarim de aplauso, a digna
e prestimosíssima Sociedade Carnavalesca Diabo a
Quatro, à qual Vv. Ss. estão agremiados, pela idéia
grandiosa e simpática de promover a libertação dos
cativos desta capital. A Sociedade Diabo a Quatro, que
ri, que solta a gargalhada do bom humor que abre nos
corações de todos, ao sol da idéia, a luminosa e
resplandecente febre da alegria, nos curtos dias do seu
curto mas pitoresco reina do de galhofa e de crítica – os
dias de carnaval – definiu e ampliou ainda mais a alma
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 635
franca e forte que costuma ter nas festas de Momo, dando
a essa alma toda a amplidão serena da liberdade.
Eu faço significar, com toda a lealdade, o meu
aplauso a essa estimável corporação, e ponho ao dispor
da bela causa dos tristes, não só a minha insignificante
e deslustrada pena, não só o meu pequenino préstimo
intelectivo, mas todo o meu coração de patrício, que é,
para estes casos, o fator absoluto, aberto como um
estandarte de paz e democracia. A Sociedade Diabo a
Quatro que tenha sempre como divisa de luta este
princípio filosófico e político de um economista inglês:
“Destruir para organizar”. Deus guarde a Vv. Ss.
Cruz e Sousa
3. A GAVITA
Rio, 31 de março de 1892.
Minha adorada Gavita
Estou cheio de saudades por ti. Não podes
imaginar, filhinha do meu coração, como acho grandes
as horas, os dias, a semana toda. O sábado, esse sábado
que eu tanto amo, como custa tanto a vir. Ah! como se
demora o sábado. E tu, minha boa flor da minh’alma,
que és o meu cuidado, a minha felicidade, o meu orgulho,
a minha vida, não sabes como eu penso em ti, como eu
te quero bem e te desejo feliz. Tu, Gavita, não me
conheces ainda bem, não sabes que amor eterno eu
tenho no coração por ti, como eu adoro os teus olhos que
me dão alegria, as tuas graças de mulher nova, de moça
carinhosa e amiga de sua boa mãe.
Quanto mais te vejo mais te desejo ver, olhar
muito, reparar bem no teu rosto, nos teus modos, nos
teus movimentos, nas tuas palavras, nos teus olhos e
na tua voz, para sentir bem se tu és firme, fiel, se me
636 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
tens verdadeira estima, verdadeira amizade bem do fundo
do teu coração virgem, bem do fundo do teu sangue.
Por minha parte sempre te quererei muito bem e
nada haverá no mundo que me separe de ti, minha
filhinha adorada.
Se o juramento que me fizeste dentro da igreja é
sagrado e se pensas nele com amor, eu creio em ti para
sempre, em ti que és hoje a maior alegria da minha
vida, a única felicidade que me consola e que me abre
os braços com carinho.
Estar junto de ti, eu, que nunca dei o meu coração
assim a ninguém, tão apaixonadamente, como te dei a
ti, é para mim ser muito feliz. Quando estou a teu lado,
Gavita, esqueço-me de tudo, das ingratidões, das
maldades e só sinto que os teus olhos me fazem morrer
de prazer. Adeus! Aceita um beijo muito grande na boca
e vem que eu espero por ti no sábado, como um louco.
Teu
Cruz
4. A GAVITA
Noite de terça-feira, 20 de setembro, às 7 horas.
Minha adorada Noiva
Saudades, saudades, muitas saudades é o que
eu sinto por ti.
Escrevo-te triste por não te ver e tenho, na hora
em que te escrevo, o teu querido retrato diante de mim,
entre os meus livros, companheiros dos meus
sofrimentos.
Minha Vivi estremecida, nunca me esquecerei do
dia 18 de setembro, aniversário do dia em que tive o
prazer de ver-te pela primeira vez, de admirar os teus
lindos olhos, a graça de todo o teu corpo, toda a tua
pessoa amável que me prendeu para sempre com os laços
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 637
do mais profundo e sincero amor. Acredita, minha filha
adorada do coração, que eu te tenho como o consolo
maior da minha vida, a luz do meu coração, a esperança
feliz da minha alma. Por minha honra te juro que, sempre
serei teu, que podes viver descansada, sem desconfiança,
porque o teu Cruz nunca será de outra e só à Vivi fará
carinhos, dedicará extremos, amizade eterna.
Pela minha honra e pelo dia em que nos vimos
pela primeira vez, juro-te que só quero a tua felicidade,
só desejo dar-te prazer e tratar-te com os mimos e
delicadezas, de que tenho dado provas, bastante.
A todas as horas o meu pensamento voa para onde
tu estás, vejo-te sempre, sempre e nunca me esqueço
de ti em toda a parte onde estou. És a minha preocupação
constante, o meu desejo mais forte, a minha alegria
mais do coração. Amo-te, amo-te muito, com todo o meu
sangue e com todo o meu orgulho e o meu desejo poderoso
é unir-me a ti, viver nos teus braços, protegido pela tua
bondade pura, pelas tuas graças que eu adoro, pelos
teus olhos que eu beijo. No momento em que te escrevo
sinto uma grande falta de ti. Só, no meu quarto, eu só
possuo, para consolar-me o teu retrato. Mas é muito
pouco. Eu te queria a ti, em pessoa, para te apertar de
abraços, pedindo a Deus para abençoar o nosso amor.
Esta carta é como mais um juramento feito a ti pelo dia
18 de setembro, em que te vi pela primeira vez apanhando
flores, tu, que és a flor dos meus sonhos.
Espero-te sábado, com aquele penteado de
domingo, que te fazia muito bonita. Adeus! Beijo-te muito
os olhos, a boca e as mãos e dou-te abraços muito
apertados, bem junto ao meu coração, que palpita de
saudades por ti.
Teu
Cruz e Sousa
638 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
5. A GAVITA
Quinta-feira, 17 de novembro, à 1 hora da tarde.
Minha doce e muito estremecida Vivi
Sinto as maiores saudades de ti, que és a alegria
do meu coração, o consolo da minha vida.
Desde a última noite que te deixei tenho me
lembrado sempre de ti e o teu nome adorável não me
sai da boca a toda a hora: Estimo de toda a minh’alma
que estejas passando bem de saúde. Eu vou bem, apenas
com a tristeza de não estar sempre a teu lado, junto de
ti, que és hoje para mim no mundo o maior prazer, a
maior satisfação.
Sou teu como tu és minha, sem me importar com
ninguém. Só me lembro que tu vives e que eu te quero
extremosamente, com toda a delicadeza e carinhos do
meu amor. Tu é que me fazes feliz, orgulhoso, rei do
mundo, porque de tuas qualidades, a tua bondade, o teu
sorriso, os teus olhos me fazem o homem mais contente,
mais alegre do mundo, minha pomba querida, luz da
minha vida inteira, Noiva adorada e santa.
Como sempre, estou ansioso que chegue sábado,
morrendo de saudades por ti, flor da minh’alma, que
tanta coragem me dás para a vida e tanta esperança. O
teu bom coração pode descansar em mim, porque eu
sou teu como se já fosse casado, vivendo na mesma casa
contigo, gozando, os teus carinhos. Ah! Gavita, o céu te
abençoe, Deus te proteja e te acompanhe sempre para
que tu saibas ver o amor eterno que eu te tenho e que
está firme no meu coração.
Adeus! Recebe o meu sangue, as minhas lágrimas,
os meus beijos, os meus abraços.
Teu
Cruz e Sousa
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 639
6. A GAVITA
Rio de Janeiro, quarta-feira, 14 de dezembro de 1892,
7 horas da noite.
Minha estremecida Vivi
A hora em que te escrevo tenho diante de mim o
teu retrato, que trago sempre comigo, que é o meu
melhor companheiro e amigo.
Adorada do meu coração, não calculas a saudade
que sinto de ti, como eu desejava agora estar ao pé de
ti, na alegria e na felicidade da tua presença querida,
flor da minha vida, consolo do meu coração.
Desejo que tenhas passado bem esses dias e que
só tenhas como sofrimento, como pesar o não nos vermos,
o estares longe de mim, porque isso é o que mais me faz
infeliz e triste.
Sabes quanto eu te amo, quanto eu te quero do
fundo do meu sangue sobre todas as mulheres do mundo.
Fico sempre alegre, contente, cheio de orgulho, quando
te posso dizer que sou e serei sempre teu, que hei de
amar-te até a morte, enchendo-te dos carinhos, das
amabilidades, dos extremos, das distinções que só a ti
eu quero dar, idolatrada Gavita, adorável criatura dos
meus sonhos, dos meus cuidados e, pensamentos.
Só tu, és a Rainha do meu amor, só tu mereces
os meus beijos e os meus abraços, a honra do meu nome,
a distinção da minha Inteligência, os segredos da
minh’alma.
Só tu és merecedora de que eu te ame muito,
como te amo, muito, muito, muito, e cada vez mais, com
mais firmeza, sempre fiel, sempre teu escravo bom e
agradecido, fazendo de ti, minha estrela, a esposa santa,
a adorada companheira dos meus dias. Vê lá que orgulho
tu não deves ter! Adeus! Adeus! Estou morto para que
chegue sábado e ter o prazer, maior de todos os prazeres,
de estar contigo.
Aceita beijos e abraços do teu
Cruz e Sousa
640 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
7. A GERMANO WENDHAUSEN
Desterro, 2 de abril de 1888.
Caríssimo e nobre amigo
Germano Wendhausen
Venho, mais uma vez, valer-me da sua proteção,
da generosidade dos seus sentimentos, pedindo-lhe que
me faça a gentileza de me ouvir. Ilustre amigo, não sei
se sabe ou não a situação difícil da minha vida nem o
estado de fatalidade em que me acho; no entretanto,
acreditando-me um individuo sério e leal, dará a atenção
devida às minhas palavras.
Acontece que, por largo espaço de tempo, me tenho
visto embaraçado, muito afogado de lutas, achando
sempre contrariedades em tudo que proponho fazer para
melhorar de estado, para trabalhar, ter um futuro mais
garantido e seguro, não encontrando nunca o auxílio de
ninguém. Como deve saber, na Tribuna Popular, onde
escrevo, nada me dão, nem eu o exijo porque não o podem
fazer, e eu estou ali, apenas, para ajudar o Lopes, porque
o faço generosamente, de coração aberto, com dedicação
e simpatia, e mesmo, pela grande causa abolicionista
que nós todos defendemos com desinteresse e honra.
Já vê o meu nobre amigo que, nas dificuldades em que
estou, tenho absoluta necessidade de procurar destino.
Assim, tendo já deliberado a minha viagem para a Corte,
venho valer-me do seu prestígio e da sua generosidade
jamais desmentidos pedindo-lhe encarecidamente para
influir com o seu amigo e correligionário Virgílio Villela
sobre uma passagem, ou, no caso de ser isso
absolutamente impossível, embora o meu excelente
amigo envide os seus esforços, fazer-me o supremo
obséquio de me emprestar 50$000 réis para eu poder
transportar-me, pois, fica na honestidade do meu caráter
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 641
e do meu brio satisfazer-lhe essa importância desde que
o trabalho me garanta mais poderes para isso.
Bem sei que já o ocupei e que me serviu tão
bondosamente, com tanta consideração e apreço, mas,
no estado em que vivo não vejo a quem recorrer senão à
sua prestimosa individualidade.
Sabe Deus quanto me custa e quanto a minha
dignidade se vê abatida por me ver obrigado a fazer-lhe
tal pedido! Mas, acredite o sr. Germano Wendbausen
que em mim terá sempre um rapaz sincero, franco e
leal, daqueles que não abusam e que sabem ser gratos.
Só a sua pessoa me pode valer, e eu a ela me dirijo com
confiança, em nome de sua veneranda mãe.
Disponha sempre de um amigo firme, que fará
mais e mais por se tornar digno da sua estima e
consideração que tanto distinguem as pessoas que têm
a felicidade de as possuir.
Cruz e Sousa
8. A GERMANO WENDHAUSEN
Corte, junho de 1888.
Caro amigo Germano Wendhausen
Cá estou nesta grande capital que cada vez mais
se distingue pelo movimento e atividade mercantil de
que dispõe em alto grau. Isto importa dizer que continuo
a ser amigo e apreciador sincero e firme das pessoas
que, como o meu belo e generoso amigo, tanto me
desvaneceram e honraram com a sua consideração e
simpatia. Um dever de cavalheirismo, pois reconheço a
franqueza, modéstia e o desprendimento do meu
excelente e digno patrício, me faz deixar de falar nas
gentilezas incomparáveis que me fez, que eu não
esquecerei nunca e que em tempo saberei retribuir como
precisa ser.
642 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
O senador Taunay recebeu a minha carta, isto é
– a carta que os adoráveis e distintos amigos aí me deram
para ele; porém nem ao menos me mandou entrar,
procedimento esse que me autorizou a não voltar mais à
casa de tal senhor. Embora eu precise fazer carreira,
não necessito, porém, ser maltratado; e, desde que o
sou, pratico conforme a norma do meu caráter. –
Deixemos o sr. Taunay que não passa de um parlapatão
em tudo por tudo.
Aqui, em alguns arrabaldes, também continuam,
com bastante brilho, diferentes festejos em homenagem
à libertação do país. Até 15 ainda assisti algumas
manifestações de regozijo ao triunfante e heróico
acontecimento que ainda me faz pulsar de alegria o
coração e o cérebro.
A imprensa tem me recebido bem, tenho sido
apresentado a todos os escritores da corte, alguns dos
quais conhecem-me. – Queira dar-me a honra de
escrever e recomendar-me à Exma. família, a Manuel
Bithen court, Margarida, Schmidt, dr. Paiva, Manuel João
e a toda a leal e gloriosa falange do Diabo a Quatro. –
Sou, com consideração e sinceridade, amigo e criado
agradecido.
Cruz e Sousa
9. A VIRGILIO VÁRZEA
Corte, 8 de janeiro de 1889.
Adorado Virgílio
Estou em maré de enjôo físico e mentalmente
fatigado. Fatigado de tudo: de ver e ouvir tanto burro, de
escutar tanta sandice e bestialidade e de esperar sem
fim por acessos na vida, que nunca chegam. Estou
fatalmente condenado à vida de miséria e sordidez,
passando-a numa indolência persa, bastante prejudicial
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 643
à atividade do meu espírito e ao próprio organismo que
fica depois amarrado para o trabalho.
Não sei onde vai parar esta coisa. Estou
profundamente mal, e só tenho a minha família, só te
tenho a ti, a tua belíssima família, o Horácio e todos os
outros nobres e bons amigos, que poucos são. Só dessa
linda falange de afeições me aflige estar longe e morro,
sim de saudades. Não imaginas o que se tem passado
por meu ser, vendo a dificuldade tremendíssima,
formidável em que está a vida no Rio de Janeiro. Perdese em vão tempo e nada se consegue. Tudo está furado,
de um furo monstro. Não há por onde seguir. Todas as
portas e atalhos fechados ao caminho da vida, e, para
mim, pobre artista ariano, ariano sim porque adquiri,
por adoção sistemática, as qualidades altas dessa grande
raça, para mim que sonho com a torre de luar da graça
e da ilusão, tudo vi escarnecedoramente, diabolicamente, num tom grotesco de ópera bufa.
Quem me mandou vir cá abaixo à terra arrastar a
calceta da vida! Procurar ser elemento entre o espírito
humano?! Para quê? Um triste negro, odiado pelas castas
cultas, batido das sociedades, mas sempre batido,
escorraçado de todo o leito, cuspido de todo o lar como
um leproso sinistro! Pois como! Ser artista com esta cor!
Vir pela hierarquia de Eça, ou de Zola, generalizar
Spencer ou Gama Rosa, ter estesia artística e verve,
com esta cor? Horrível!
És um coração partido, acabo de saber pela tua
chorosa carta.
Broken heart! Broken heart!
A tua Lilly emigrou, doce pássaro d’amor, para
esta tumultuosa cidade.
Hoje vou vê-la e à mãe e as flores que elas
espalharam pela tua lembrança e pelo teu coração, eu
farei com que cheguem ainda vivas e cheirosas junto de
ti. Quero ver como essa avezinha escocesa trina de amor
e saudade...
644 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Adeus! Saudades infinitas à tua encantadora
família, e que eu lhe desejo bons anos de ouro e de
festas alegríssimas no meio da mais soberana das
satisfações.
Abraços no celestial Horácio, no Araújo, no Jansen
e no digno Lopes da nossa Tribuna e no excelente e
adorabilíssimo Bithencourt.
Veste o croisé e vai, por minha parte, apresentar
pêsames sinceros e honestos às tuas Exmas. primas,
pela morte do cavalheiro, do limpo homem de distinção
José Feliciano Alves de Brito. Não te esqueças. Honrame por esse modo delicado e gentil. Abraça-te
terrivelmente saudoso.
Cruz e Sousa
10. A ARAÚJO FIGUEIREDO
Ondina, abril, de tarde, 2, de 90.
Meu querido poeta
Não! Nem canalha, nem mulato, nem ingrato! Não
julgues, meu madrigalesco sonhador, que eu sou o vidro
de cheiro, na frase do Várzea, do Rodolfinho Oliveira;
ele, sim, palito humano, como é, é quem deve ter raivas
fáceis e banais ao não receber cartas tuas. E até tu
dando-me zangas e canseiras caixeirais pelas demoras
de notícias tuas em cartas tuas, igualas-me, comparasme, muito naturalmente e muito logicamente como o
vidrinho de cheiro. Mas, vade retro, Araújo! como o outro
que dizia – Vade retro, Fradique. Jamais me parecerei
com o Rodolfinho: nem nas unhas.
Eu, claramente sei o que são atropelos de chegada
e depois gozos e gostos de provinciano largamente
impulsionados e vibrados numa grande capital como esta
em que agora vives lordificado e regalado... Assim,
claramente sei também, e vivamente sinto também, que
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 645
em tais cidades, o rumor, sol alto dos assuntos mais
inauditos, inflamam, queimam, incendeiam qualquer
provinciano, tanto mais quando o provinciano, como tu,
tem qualidades e sentimentos de arte.
Portanto, sabendo tudo meu espírito, da visão que
tenho das coisas, fútil, grandemente fútil foi começares
os teus linguaços de correspondência, em data de 15 do
que acabou, com aquela suposição de lamuriosas queixas.
No mais, não: a tua carta vem arejada, com ar de
outros ares, como se o teu viver fosse de dentro de uma
toca transportado a um alto castelo situado no mar...
Sim senhor! Adoro-lhe as atitudes, a maneira livre,
a nota que tem tomado no Rio. – Belo Rio esse, que tão
cristalinas águas saudáveis possui para duchar os poetas!
Quanto ao perguntar se podes mandar
correspondência para a Tribuna achas outra pergunta
de muletas. Para que interrogações? Corrija-se disso.
Manda, manda tudo! Manda a cabeça do Castro
Lopes com arroz; do Melo Moraes, com batatas; do Gastão
Bousquet, com abóboras; do Soares de Sousa Júnior,
com quiabos; do Gregório de Almeida, com lingüiça; do
Barão de Paranapiacaba, com pepinos; do Taunay, com
cenouras; do Rangel Sampaío, com feijões; manda,
manda todos esses caracteres verdes, manda tudo, que
quero empanturrar, fazer rebentar de comedorias a
terra.
Isto, em blague; agora sem blague:
Saberás ou já sabes? que por Maio sigo para aí e
conto morar contigo. Nada digas ainda sobre essa
resolução ao Oscar. Depois ele o saberá. Convém-me
mais morar contigo enquanto não tiver ocupação segura.
Por isso apronta-te para receber-me que no
princípio d’aquele mês, ou por meados dele, lá estarei,
num impulso de verve, a chicotear esses literatos de
sapatos, que aí também os há, e a abraçar-te fortemente,
amorosamente, num longo abraço espiritual, a ti e ao
Oscar.
646 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Adeus! Florzinha! Só me punge agora a dor de
não ter uns beijuzitos da titia para mandar-te como
recuerdo...
Manda a correspondência, mas coisa com jeito, e
escreve-me, como na cantiga, ao menos uma vez na vida.
Até a volta.
Teu
Cruz e Sousa
11. A LUIZ DELFINO
Capital Federal, 19 de novembro de 1893.
Ilustre Poeta Amigo
Com os cumprimentos de estima e consideração
que lhe apresento, tomo novamente a liberdade de
importuná-lo com relação ao pedido que tive necessidade
de fazer-lhe por carta.
Uma vez que se não dignou responder-me, peçolhe ainda, apelando para os seus generosos sentimentos
de homem, que me sirva, já não direi com a quantia de
300$000 réis, como lhe pedi, mas ao menos com a metade
ou mesmo com 100$000 réis, pois é bem dolorosa a minha
situação neste momento.
Peço-lhe, que mesmo em sentido negativo, resolva
com urgência este bastante difícil pedido.
Seu admirador e am°
Cruz e Sousa.
12. A GONZAGA DUQUE
Rio, 11 de abril de 1894.
Na impossibilidade de falar-te calmamente,
escrevo-te uma ligeira exposição sobre a Revista dos
Novos.
Penso que o grupo que deve naturalmente
constituir os combatentes da Revista dos Novos tem de
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 647
ser composto da tua individualidade, Emiliano Perneta,
Oscar Rosas, Arthur de Miranda, Nestor Victor, B. Lopes,
Emilio de Menezes, Lima Campos, Araújo Figueiredo,
Virgílio Várzea, Santa Rita, Maurício Jubim, Cruz e
Sousa e Gustavo Lacerda, simplesmente sendo que este
último deverá dar escritos sintéticos, muito
generalizados, sem personalismo, sobre política
socialista. Penso assim por que esses foram sempre,
mais ou menos de vários modos intelectuais, e em tese,
os nossos companheiros, tendo cada um deles, na
proporção de sua aptidão, na esfera de sua
perfectibilidade, um sentimento homogêneo do
sentimento comum na Arte do Pensamento escrito. Penso
também que o único homem fora da nossa linha artística
de seleção relativa possível, que deve ser simpaticamente
admitido, para críticas científicas para artigos de caráter
positivo moderno, é o dr. Gama Rosa, que podemos
considerar, à parte toda a nossa independência e rebelião
como um austero e curioso Patriarca do Pensamento
novo.
Os mais, seja quem for, que venham de fora, isto
é, que se apresentem com trabalhos estéticos e de tal
natureza alevantados e sérios que possam ser admitidos
nas colunas nobres da grande “Revista”, para o que basta
apenas uma análise severa, rigorosa, desses trabalhos.
Enfim, apenas esse deve de ser o grupo fundador
por excelência, deve constituir o corpo uno das Idéias
da Revista nos seus elevados fundamentos gerais, à parte
dos detalhes da compreensão de cada um em particular.
Entre esses fundamentos gerais acho que deve ser um
dos principais, o maior e mais firme radicalismo sobre
teatro, não permitir seções, notícias, folhetins ou coisa
que diga respeito a teatro que, por princípio e integração
de Idéias, não deve existir para a nossa orientação d’Arte
na Revista dos Novos.
Teu
Cruz e Sousa
648 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
13. A NESTOR VITOR
Rio, 16, dezembro de 1894.
Meu caro Nestor
Sobre a minha pretensão tenho a dizer-te que um
dos lugares que me serve é o de amanuense, que tem
um vencimento maior do que o lugar que exerço
atualmente.
O dr. Piragiba que aluda a isso ao marechal Jardim,
pois o meu amigo Ricardo de Albuquerque também se
interessa com grande e decidido esforço. Também não
deixo de aceitar o teu empenho, conforme falaste para o
d. Antonio Olyntho a quem sou bastante simpático,
segundo estou informado.
O momento é de decisão e eficácia. Já longo e
doloroso tempo tenho aguardado uma melhora na vida.
Teu
Cruz e Sousa
14. A NESTOR VÍTOR
Rio, 18 de março de 1896.
Meu Grande Amigo
Peço-te que venhas com a máxima urgência a
minha casa, pois minha mulher está acometida de uma
exaltação nervosa, devido ao seu cérebro fraco que,
apesar das minhas palavras enérgicas em sentido
contrário e da minha atitude de franqueza em tais casos,
acredita em malefícios e perseguições de toda a espécie.
Cá te direi tudo. A tua presença me aclarará o alvitre
que devo tomar.
Escrevo-te dolorosamente aflito.
Teu
Cruz e Sousa
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 649
15. A ALBERTO COSTA
Rio, 8 de maio de 1896.
Meu caro Amigo
Abraço-o com afeto e recomendo-me a Exma.
família.
Ouso insistir no pedido que lhe fiz por carta, pois
acho-me na maior angústia e não tenho outro recurso
senão importuná-lo ainda uma vez. Peço-lhe
encarecidamente que me sirva, se não em toda ao menos
na metade da importância que eu lhe solicitei. As minhas
contrariedades e aflições avolumam-se cada vez mais.
O amigo não pode calcular certamente nem a
metade da situação por que estou passando.
Pode confiar na pessoa que lhe entregar esta carta.
Sempre ao seu dispor, com simpatia e
reconhecimento.
Amo Obmo
Cruz e Sousa
16. A NESTOR VITOR
Rio, 2, junho, 96.
Nestor
Desejo muito que me faças um sacrifício de amigo,
ao menos com a quantia de vinte mil réis.
Tenho tido grandes saudades da nossa convivência,
tão consoladora e tão nobre.
Aparece que tenho uns trabalhos para mostrarte.
Teu profundo amigo.
Cruz e Sousa
650 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
17. A ARAÚJO FIGUEIREDO
Rio, 8 de janeiro de 1897.
Caríssimo Araújo
Saudades e abraços. – Esta carta tem por fim
somente convidar-te para uma Revista de Arte que o
Nestor Vítor, eu e outros vamos fundar. Será uma
publicação vigorosa e alta nos seus fundamentos,
trazendo o cunho superior de uma força espontânea e
nobre. Deves mandar teus originais o mais breve possível,
com a contribuição de 5$000 réis, que é quanto nós
arbitramos a cada membro da Revista, mensalmente e
durante um ano. Depois disso os membros ficarão
considerados remidos. Espero que recebas este convite
com vivo entusiasmo, mandando já a tua correspondência
e a contribuição mensal para a Rua do Ouvidor n° 74,
Papelaria Leandro.
Teu
Cruz e Sousa
18. A NESTOR VÍTOR
Rio, 27 de dezembro de 1897.
Meu Nestor
Não sei se estará chegando realmente o meu fim;
– mas hoje pela manhã tive uma síncope tão longa que
supus ser a morte. No entanto, ainda não perdi nem
perco de todo a coragem. Há 15 dias tenho tido uma
febre doida, devido, certamente, ao desarranjo intestinal
em que ando.
Mas o pior, meu velho, é que estou numa
indigência horrível, sem vintém para remédios, para leite,
para nada, para nada! Um horror!
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 651
Minha mulher diz que eu sou um fantasma, que
anda pela casa!
Se pudesses vir hoje até cá, não só para me
confortares com a tua presença, mas também para me
orientares n’algum ponto desta terrível moléstia, será
uma alegria para o meu espírito e uma paz para o meu
coração.
Teu
Cruz e Sousa
19. A NESTOR VÍTOR
Rio, 7 de janeiro de 1898.
Nestor
Peço-te para ires ao Escritório da Linha, em S.
Diogo, entregar o meu requerimento pedindo licença,
por que os dias estão passando e eles já reclamaram
esse papel. Qualquer demora me pode prejudicar muito.
Se já entregaste noutro lugar que não no Escritório de
S. Diogo então está tudo atrapalhado e o requerimento
perdido.
É necessário entregar em mãos do Chefe do
Escritório Jacutinga.
Peço-te para liquidar isso, pois vivo muito
aborrecido porque quase todo o dia vem aqui em casa
um empregado do Escritório dizer-me que ainda não
receberam o requerimento e que essa demora me pode
ser prejudicial.
Teu
Cruz e Sousa
652 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
20. A ARAÚJO FIGUEIREDO
Rio, janeiro de 1898.
Meu Araújo
Que os meus braços amigos te apertem bem de
encontro ao meu coração, no momento em que receberes
estas linhas saudosas. Mas escrevo-tas, meu querido
irmão, com a alma dilacerada de angústias, porque me
vejo a morrer aos poucos, e quisera, pelo menos passar
alguns dias contigo, antes que isso sucedesse, pois vejo
em ti um grande e afetuoso amparo aos meus últimos
desejos. Fala com teu amigo José Fernandes Martins, e
arranja com ele uma condução no paquete Industrial,
para mim, para a Gavita e para os meus quatro filhos.
Se escapar da morte que, no entanto, julgo próxima,
ajudar-te-ei no teu colégio, ouviste? Saudades.
O teu pelo coração e pela arte,
Cruz e Sousa
21. A NESTOR VÍTOR
Rio, 18 de janeiro de 1898.
Meu caro Nestor
Cumprimentos a Exma. Senhora e beijos nas
meninas.
Preciso muito que dês um pulo até nossa casa,
porque apareceu uma dificuldade com relação a minha
licença e é necessário desfazer o mais breve possível
essa dificuldade.
Eu logo vi que por força havia de aparecer uma
porcaria destas para incomodar-me. Vem que eu de viva
voz te direi tudo e veremos se amenizamos este inferno
que em tudo me persegue.
Teu profundo amigo
Cruz
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 653
22. A NESTOR VITOR
Rio, 27 de janeiro de 1898.
Meu belo Nestor
A tua carta de 24 foi um clarim de anjo trazendome belas novas, animação e coragem.
Sim! Nenhuma dúvida deve ter de que eu não
esteja absolutamente resolvido a partir. Mas antes disso
há muitas cousas sérias a tratar: – principalmente uma
procuração ou cousa que o valha para poderes todos os
meses receber os meus pingues ordenados; como
também deixar feito por antecedência o novo
requerimento pedindo prorrogação da minha licença, o
que é inteiramente indispensável. Essas cousas devem
merecer a nossa maior atenção, porque as datas da
licença podem estar extintas e haver demora prejudicial
com a entrega tardia do outro requerimento de
prorrogação.
Enfim penso que tudo se acordará de modo a não
haver atropelo e a não suceder que eu seja forçado a
deixar o lugar.
Teu
Cruz e Sousa
23. A NESTOR VÍTOR
Nestor
A luta das casas continua horrível. Não imaginas
que verdadeiro desespero. Todos querem fiador – e é
para ali, de punhos cerrados, de dentes cerrados. Já
não temos quase recursos nem para os trens nem para
os bondes. Estas cousinhas é que ninguém parece
lembrar-se delas.
654 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
Não sabemos mais do que havemos de lançar mão
para conseguir uma casa ou um cômodo qualquer. Tudo
é um despropósito de dinheiro.
Amanhã, 28, Gavita vai novamente sair à luta das
casas. Não sei se conseguirá a casinha, mas enfim lutará
até a última. O furor maior nisso tudo é o da finança,
que é uma cousa terrível de se conseguir.
Teu
Cruz
24. A ARAÚJO FIGUEIREDO
Meu Araújo.
Esqueci-me de dizer-te, na carta que escrevi há
dias, que moramos à Rua Malvino n° 50, no Encantado.
O teu
Cruz e Sousa
25. A NESTOR VITOR
Rio, 3 de fevereiro de 1898.
Meu caro Nestor
Mudo-me hoje para a rua Malvino Reis — 50.
Vem mais
Teu
Cruz
26. A NESTOR VÍTOR
17 de março de 1898.
Meu caro Nestor
Cheguei sem novidade a 16 deste por 7 horas e
meia da manhã desse dia. Fiquei cansadíssimo da
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 655
viagem. Nada tenho de importante mais a dizer- te. Os
remédios tomo-os regularmente. Preciso com muita
urgência de dinheiro. Isto aqui é muito agradável. Depois
mandarei dizer tudo. Não te esqueças do dinheiro.
Lembranças de Gavita.
Teu
Cruz e Sousa
Como vão os meus filhos que aí ficaram? Fico no
hotel Amadeu. Sobrado. Diária 6$000. No correr da
Estação.
Abraço todos os amigos
Cruz
DEDICATÓRIAS EM MISSAL:
A ARAÚJO FIGUEIREDO:
Araújo Figueiredo
Na serenidade desta página clara, quero
perpetuar, como na corrente do Tempo, a Amizade, o
Culto Intelectual, o alto Amor estético que te consagro/
ouros, mirras e incensos do meu ser devotado. A ti,
Coração nobre; a ti, luminosa Cabeça; a ti, delicioso poeta
dos Campos, dos Mares, das Rosas, dos Astros; a ti,
amigo-irmão, casta e branca natureza de Sonhador
olímpico, Israelita da Arte, que tens a virgindade emotiva
das Forças novas, originais/este Missal de Abstração,
de Espiritualidade, de Forma.
Cruz e Sousa.
Rio de Janeiro, 13 de março de 1893.
656 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 2
A TIBÚRCIO DE FREITAS:
Meu adorável Tibúrcio
À tua penetrante compreensão de Arte, à tua
delicadeza de sentir/flores raras e luminosas deste
meio/ofereço este exemplar do Missal, para que, lendoo muitas vezes, em repouso, possas avaliar da
espontânea, viva e comovida simpatia intelectual que
me ligou a ti serenamente, num movimento estranho,
misterioso e íntimo de almas que se amam e percebem.
Assim, belo Tibúrcio, aqui me tens encerrado em
essência abstrata de Pensamento/palpitando junto ao
teu coração bom e franco, nobre e valoroso, que tão
afetivamente me acolhe.
Cruz e Sousa
Rio, 5, abril de 1893.
DEDICATÓRIAS EM RETRATOS:
A GONZAGA DUQUE:
Meu ilustre e querido Duque Estrada.
No fundo desta fotografia eu quisera trazer-te um
página de prosa, colorida, sonora, e esmaltada de estilo,
mas despretenciosa, mas simples, mas meiga, que me
corresse livre, neste cartão, como a expressão franca,
profunda e original da minh’alma quando me encontro
contigo e te falo de Arte.
Porém, não me restando campo, aqui, para eu
lavorar, com os instrumentos da forma, uma página
d’idéias, que palpitasse e fulgisse junto ao teu belo ser,
como um pássaro ao sol, para aí fica, muda,
significativamente muda, a minha fisionomia que, para
OBRA COMPLETA VOLUME 2 CRUZ E SOUSA
* 657
o teu fino sentimento artístico, que eu tanto sei querer
e considerar; para o teu delicado espírito, que eu
vivamente acaricio entre as raras flores claras da minha
Crítica, para o teu nobilíssimo coração de camarada
firme, leal nas crenças, admirações e afetos, deve
exprimir o mais íntimo e comovido apreço da Inteligência
e da Amizade de
Cruz e Sousa.
Rio de Janeiro, 3, setembro, 1891.
AO PAI:
Ao meu bom e extremoso pai que eu estimo e
considero de todo o meu coração. Ao respeitável homem,
honrado pela velhice, pela bondade e pelo trabalho, que
viu junto a si morrer a minha querida mãe, de quem
nunca mais hei de esquecer enquanto for vivo.
Lembrança de um filho reconhecido.
Cruz e Sousa
Rio de Janeiro, 9 de setembro de 1891.
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