A EDUCAÇÃO DAS MULHERES BRASILEIRAS E PORTUGUESAS ENTRE OS SÉCULOS XIX E XX MARIA ANGÉLICA ALVES Universidade do Estado do Rio de Janeiro [email protected] educação das mulheres – mulheres brasileiras e portuguesas – emancipação feminina Em 1900, o escritor Carlos de Lemos, na crônica “Emancipação da Mulher”, ao responder a um ataque injustificado do Senhor Reverendo Padre Senna Freitas, reabre a discussão sobre o assunto do dia na sociedade portuguesa: a importante e palpitante questão do feminismo. Questionando, ousadamente, a Igreja e seu ideário, o diretor da Revista AveAzul faz “reprimendas” explícitas às restrições propostas no programa do periódico Mundo Catholico, ao constatar que visavam não a uma “arena aberta a todas as opiniões”, mas à afirmação de apenas uma opinião, a ortodoxa. Ao citar as referências equivocadas feitas a sua pessoa pelo autor da polêmica carta, publicada no número 9, de Mundo Catholico, Lemos reafirma a sua crença na necessidade de uma discussão séria e aprofundada do tema. A revista Ave Azul, dirigida também por sua esposa, a escritora Beatriz Pinheiro, dedicou-se, especialmente em sua segunda série, a defender o ideal da emancipação feminina pela instrução e pelo trabalho, reproduzindo, em seus doze números, publicados de janeiro de 1899 a dezembro de 1900, longas e contundentes crônicas sobre o tema da emancipação da mulher. Na crônica em questão, Lemos inicia a sua crítica relembrando os escritores que, naquele final de século, em Portugal, vinham contribuindo, de fato, para difundir a grave questão da educação da mulher, agindo, portanto, em prol do que definia como uma “alta idéia humanitária”. Contrariando, pois, a afirmação, injusta do Mundo Catholico de que o Reverendo Senna Freitas havia sido o primeiro a alertar para a gravidade da questão feminista, Lemos revela que muitos escritores, anteriormente, já haviam manifestado suas idéias sobre o assunto. Alice Pestana (1860-1929), denominada “illustre romancista”, tem acentuada, desse modo, sua qualidade como escritora de renome em Portugal. Embora sua participação tenha se estendido a outros periódicos, como Almanach das Senhoras, Gazeta de Portugal, O Século e Diário de Notícias, ressalta-se, no artigo, somente sua série de crônicas sobre o feminismo, publicadas no jornal Vanguarda, onde escrevia regularmente. Ao recordar, também, o nome da escritora portuguesa Maria Amália Vaz de Carvalho, Lemos salienta que, malgrado defender idéias questionáveis a respeito da emancipação feminina, no seu entender, tal como o Reverendo e outras escritoras portuguesas e mesmo estrangeiras -, a autora revela “alto talento e uma grande illustração”, e por isso torna-se, sem dúvida, merecedora de destaque. Entre os nomes citados, o escritor destaca, ainda, o de Lobo de Miranda, favorável ao movimento feminista e autor de vários artigos publicados na Folha do Povo acerca da defesa da emancipação feminina pela instrução. 2 A crônica torna-se especialmente curiosa, porque a autoria da carta, atribuída a uma certa Mme Rose, é posta em questão pelo diretor de Ave - Azul. Segundo Lemos, o Reverendo teria recorrido a esse estratagema para disfarçar o seu pensamento religioso ortodoxo igualmente manifestado pelo periódico do qual era diretor, conforme se pode observar no fragmento: Aqui temos nós M.me Rose – realmente enthusiasmada e mesmo emocionada pela forma persuasiva que o seu querido padre Senna Freitas deu a todas as suas phrases de recorte fino, natural, elegante e simples: aqui a temos nós dizendo-nos que o artigo do seu querido padre Senna Freitas está admiravelmente escripto e cheio de verdade e que todas as mulheres deveriam lisongear-se e ter-se por felizes em se assemelharem ao seu ideal (d´elle, do seu querido padre Senna Freitas). (LEMOS, 1900: 82) A pretensa autora, Mme Rose, na mencionada Carta, afirmando-se seguidora fiel das idéias do Reverendo, defende, em suma, a necessidade de a mulher preservar os seus encantos femininos, resguardando-se, na ignorância e na reclusão, no lar, das más influências do mundo da rua e do trabalho. A respeito dessas idéias, Lemos comenta com irreverência: ...aqui a temos nós a suspirar-nos a velha ária de que a mulher seria sem duvida muito mais attraente e muito mais poética (oh! pois que attractivo maior do que o da dependência e que maior poesia que a da ignorância?!...) se se não despojasse de certos attractivos inteiramente femininos (os tais dos parenthesis supra...) que lhe ficam bem e a tornam encantadora... (Ibidem) O ideal - contrário à emancipação pregada pelo Reverendo - é assim criticado, no comentário irônico e mesmo mordaz de Lemos, que, a par de apresentar seus pontos de discórdia acerca das idéias sobre a questão feminista, revela a tendência do periódico religioso de publicar somente os “artigos pautados pelas idéias da Egreja” (sic), restringindo a participação de seus colaboradores àqueles que concordavam com as opiniões veiculadas pelo órgão, notadamente a ortodoxa. Na carta publicada, torna-se evidente, segundo Lemos, o gesto de vaidade do Padre Senna ao fazer-se passar por uma leitora que o admira incondicionalmente. Mais adiante, Carlos de Lemos, com o intuito de retificar a visão equivocada do Padre Senna, autor da carta mencionada, defende a autonomia intelectual de sua esposa, Beatriz Pinheiro de Lemos (1872-1922). Em sua argumentação, sintetiza o ideal de emancipação da mulher, difundido entre os escritores, na sociedade portuguesa, no final do século XIX. Torna-se bastante claro que o conceito de emancipação pode e deve ser entendido como “preparação da mulher, pela instrucção e pela educação, para o bom desempenho da parte que lhe toca no melhoramento da sociedade futura.” (Idem: 86). Enfatizando a necessidade de se demarcar os limites do amplo conceito de Feminismo, tão debatido e ainda tão pouco compreendido, Lemos esclarece que, também para ele, ao contrário das idéias difundidas em Mundo Catholico, o termo é entendido como “preparação da mulher para o bom desempenho da sua missão de Educadora.” (Idem: 87) Sensibilizada pela urgência da discussão de tão grave problema, Beatriz Pinheiro, já no primeiro número da segunda série de Ave-Azul, publicado em Vizeu, em 25 de fevereiro de 1900, define a emancipação da mulher como um daqueles ideais que contribuem para “o avanço da humanidade no radioso caminho d´esse supremo e definitivo Ideal” (PINHEIRO, 3 1900: 5). A emancipação, em seu entendimento, pressupunha uma preparação da mulher para a educação de seus filhos: A mulher, para bem educar a criança, precisa primeiro de se educar a si própria; não pode orientar bem quem não possua uma orientação clara e segura; não pode formar um caracter quem o não tenha mal definido e mal firme. (Idem: 8) Reconhecendo ser, ainda, a mulher, naquele estágio da civilização, “um pobre ser inconveniente e aviltado” (Idem: 6) devido a sua ignorância e a sua dependência, Beatriz Pinheiro entende, como os demais seguidores do ideal de educação da mulher, que a transformação social só poderá bem resultar se se voltar para a educação da criança (não somente intelectual, moral ou espiritual), “ a educação do lar” fornecida pela mãe ao seu filho, investindo para tanto na educação da mulher – mais concretamente, oferecendo-lhe os meios de trabalho e de instrução que venham a conceder-lhe “sua carta de alforria contra a miséria e...contra a prostituição, peor ainda do que a miséria.” (Idem: 10) ...se o trabalho e a instrução nobilitam e melhoram o homem, pelo trabalho e pela instrucção a mulher não só se nobilita e melhora a si própria, mas – o que vale ainda mais – nobilita e melhora a sociedade em que vive. (Ibidem) Beatriz Pinheiro, nesta primeira de uma série polêmica de crônicas sobre a emancipação feminina, anuncia as linhas centrais do tema, dentre elas, as divergências entre as expectativas dos homens e das mulheres e, mesmo, a existência de um número considerável de mulheres contrárias às reivindicações femininas por igualdades de direitos civis e políticos, apresentando como “velho e refalsado argumento” as teses preconceituosas da “deficiência cerebral” ou da possível perda das virtudes e dos encantos femininos devido a essas “innovações” viris. Pinheiro conclui ser necessária não somente a conscientização de todas as mulheres, como a reeducação ou “regeneração” dos homens, para “...de uma vez para sempre, acabar esta pretendida superioridade do macho e ella deixar emfim de ser a misera escrava emparedada e manietada, o ser secundário, ínfimo, que ora está sendo.” (PINHEIRO, 1899: 326) Para desconsolo dos intelectuais portugueses que se dispuseram a refletir sobre a emancipação feminina, ao final do século XIX e início do XX, como Pinheiro e Lemos, as próprias mulheres illustradas, muitas vezes, reproduziram os discursos preconceituosos dos homens que não reconheciam como válido o desejo e a necessidade de independência feminina. Em “A Educação das Mulheres”, ensaio inconcluso incluído no volume de suas Primeiras Prosas Publicadas (1859-1861) Antero de Quental refere-se à necessidade de se garantir os direitos femininos, conquistando o “lugar de honra, que de jus lhe compete no banquete social.” (QUENTAL, 1982: 4). Após enumerar os diversos papéis que, à época, a mulher já desempenhava, com distinção, nas áreas das Ciências, da Literatura, da Filosofia, Medicina e Poesia, o escritor, apesar de reconhecer que “a mulher faz o homem”, guiando-o, em sua educação moral, ao longo de sua existência, conclui: A mulher é um ente fraco, desvalido, apaixonado e nobre, mais que tudo; todavia, sem ela, como disse um poeta, o mundo seria um ermo melancólico, os deleites apenas o prelúdio do tédio. Por esse carácter merece de todos deferência e gasalhado. (Idem: 4-5) 4 Quental, ao assinalar a condição de fraqueza feminina, distingue, também, a sua superioridade, ao acentuar a disposição única das mulheres para a educação moral de seus filhos, amantes, irmãos e esposos, que delas tornam-se dependentes. E acrescenta: “...dependência suave e imperceptível, mas real e poderosa” (Idem: 5) Essas mesmas idéias reaparecerão desenvolvidas, mas igualmente não concluídas, no ensaio “Influência da Mulher na Civilização”, quando o escritor reafirma a evidência, na mulher, de uma fraqueza a exigir proteção e arrimo, sem, contudo, ignorar a sua superioridade moral e a dependência, segundo o autor, exclusivamente moral, do homem: É que o homem forte na sua inteligência e na sua vontade, é fraco pelo coração, porque sente a necessidade dum contraste, duma fraqueza, dum sentimento mais doce que possa abrandar o orgulho daquela inteligência, a energia daquela vontade, no meio da qual se sente triste e isolado: e a mulher por sua doçura, por sua timidez possui em elevado grau o princípio de todos esses sentimentos de ternura de que tanto necessita o homem.” (QUENTAL, 1982: 72) De tal sentimento comunga Maria Amália Vaz de Carvalho (1847-1921), quando, em Cartas a Luiza, reconhece a necessidade e a importância da educação feminina - tema recorrente em suas obras - e contesta as idéias temerosas de homens e mulheres de que as últimas deveriam manter-se ignorantes, pois a instrução poderia levá-las a um destino de “tristes aberrações”. Entretanto, afirma, a seguir, a dependência da mulher ao homem e sua submissão, como um papel a ser incondicionalmente aceito, como um dever moral a ser cumprido sem contestação: “A submissão é o nosso papel; fica-nos bem, e, ainda mesmo que nos ficasse mal, tínhamos fatalmente de aceitá-lo.” (CARVALHO, 1938: 9). De acordo com a autora, aos homens reservava-se um amplo campo de atividades, da Política, à Ciência e à Arte, sendo que qualquer tentativa de usurpação desse direito pelas mulheres resultaria “ridícula”, estando, pois, fadada ao insucesso. Às mulheres, em seu campo especial, restaria, nessa nova constituição da família moderna, não o papel secundário, de submissão servil, ocupado nas sucessivas civilizações, mas o exercício da digna missão de companheira e inspiradora do homem: Sermos a companheira do homem moderno e também a sua inspiradora, a que o incita à luta, a que o aplaude à vitória, a que lhe suaviza as tristezas de vencido, a que entra sem pavor na jaula tenebrosa onde se debatem esses monstros, que são as suas paixões, e que os esmaga pela graça triunfante...! que bela e doce missão em plena harmonia com as condições do nosso organismo, com as tendências espiritualistas que ninguém ainda nos roubou! (Idem: 13) Reconhecendo o estado funesto das “tristes exiladas de todas as alegrias da inteligência” (Idem: 9), porém defendendo uma educação feminina diferenciada daquela oferecida ao homem, Carvalho, nas primeiras décadas do século XX - assim como outros defensores da emancipação feminina pela instrução -, estava certa de que a passagem da absoluta escravidão intelectual a que se sujeitaram as mulheres ao longo dos séculos, para o estágio da ilustração não seria, certamente, fácil ou breve, porém, indiscutivelmente, compensador para o futuro das famílias e da sociedade como um todo. 5 Às Mulheres Portuguesas Intelectual das mais atuantes em Portugal, Ana de Castro Osório (1872-1935) tornouse uma das mais brilhantes teóricas do Feminismo, dedicando-se a questionar as limitações dos direitos das mulheres à igualdade civil e política, no mundo, e em seu país, particularmente. Além de fundar a “Liga Republicana das Mulheres Portuguesas”, criou o “Grupo de Estudos Feministas” e a “Cruzada das Mulheres Portuguesas”, colaborando com numerosos artigos na imprensa e realizando conferências e comícios. Luísa DaCosta lembra, ainda, sua efetiva participação junto a Afonso Costa, Ministro da Justiça no Governo Provisório, na elaboração da lei sobre o divórcio, tema que, aliás, comparece em alguns dos romances e novelas de sua vasta bibliografia, assim como o direito da mulher à emancipação e a luta de suas personagens por justiça social. Sobre sua estréia, em 1898, com o livro de contos Infelizes, Beatriz Pinheiro realça e festeja, em crítica extremamente elogiosa, nas páginas de Ave-Azul, seu talento como prosadora, num país carente de “damas que se entregam ao cultivo das lettras, e menos ainda as que, como Anna de Castro Osório, cultivando-as, o fazem com tanto lustre e distincção...” (PINHEIRO: 85) De suas obras voltadas para as questões sociais, destaca-se o volume Às Mulheres Portuguesas, publicado em 1905. Constituído de dezesseis artigos sobre a problemática feminina na sociedade portuguesa, discute temas como a mulher e o casamento, a maternidade, a política; a situação da mulher casada e da solteira, de acordo com o Código Civil Português; o trabalho e a instrução da mulher e o próprio conceito de feminismo e feminista. Ao dirigir-se às mulheres de sua “lusa terra”, na introdução do volume, afirma que o faz, por serem as portuguesas “tão insuficientemente educadas para serem as companheiras e as mães do homem moderno.” (OSORIO, 1905: 10). Em “Feminismo”, parte inicial de seu livro, a escritora dedica-se a responder às críticas de Gomes Pereira, publicada na Revista Amarella, às questões gerais apresentadas no artigo “Ser feminista”. O artigo seguinte, intitulado “Uma resposta”, compreende, portanto, a argumentação de Osório, no sentido de elucidar suas idéias sobre a emancipação feminina. Fica evidente, desde então, a perspectiva de seu discurso: para conquistar a alforria, as mulheres precisariam de instrução e de trabalho, e só assim, cumpririam sua “nobre e útil missão social” (Idem: 18): Haverá, decerto, tal-qual entre os homens, umas que se superiorisam num trabalho, outras em outro, mas serão todas educáveis, todas melhoráveis, todas úteis, laboriosas e conscientes obreiras, ajudando á melhoria da grande colmeia social. (Ibidem) A escritora reconhece no crítico um homem sincero e inteligente com o qual tem o prazer de expor serenamente suas opiniões. Gomes Pereira, ao assumir sua defesa moderada do feminismo e sua concordância com as idéias feministas de Osório, ganha, assim, sua simpatia e consideração. Para a autora, Gomes Pereira representa o que todos os ilustrados, à época, deveriam ser: críticos inteligentes e sensíveis à crença de que “a mulher tem o direito a pensar, a trabalhar e a lutar pelo seu próprio ideal.” (Idem: 28), ao contrário daqueles que, desde o passado, reagiam com desdém ao reconhecimento da igualdade intelectual dos sexos 6 e da competência intelectual das mulheres, apreciando-as tão somente para os trabalhos caseiros. Em sua enumeração de alguns desacordos, dúvidas e receios explicitados por Pereira, a escritora ressalta o pensamento que veio a se tornar o grande receio dos homens em relação à independência das mulheres, garantida pela instrução e pelo trabalho. Para eles, as mulheres intelectuais não poderiam ser, concomitantemente, boas chefes de família, dedicadas esposas e mães exemplares. Contudo, entre tais desacordos, Pereira e Osório manifestam sua crença na necessidade de instrução das mulheres: ...estamos de acordo em que não se regateie educação ao sexo feminino e se acabe assim com o regimen de prodígios e excepções que só a causa das mulheres tem prejudicado...” (Idem: 39) Nos artigos seguintes, a escritora dedica-se a citar e comentar algumas leis do Código Civil que regem o universo feminino em Portugal, no início do século XX. Segundo a lei, se casada, a mulher portuguesa perde os seus direitos e alforrias, tornando-se “a tutelada do homem”. Osório ressalta que, em matéria de administração dos bens e gerenciamento do lar, mas não só, a mulher depende da autorização do marido para adquirir ou alienar bens móveis ou imóveis e até mesmo – lembra-nos, com ironia, a escritora - para fazer dívidas: A mulher não póde ser a educadora dos filhos, pois que os filhos pertencem ao pai que os rege, protege e administra, constituindo assim o poder paternal, segundo o artigo 137º. Do Código Civil. (Idem: 208) Embora a lei conceda-lhe o direito de co-participar do poder paternal, na prática sua opinião e sua vontade de nada valem, se forem contrárias ao poder paterno, o que lhe permite concluir que “Legalmente, a mãe representa nada ou quase nada na vida dos filhos.” (Idem: 209). E, se ainda não bastasse tamanha dependência ao homem, também para negociar, exercer uma profissão e, como assinala Ana Osório, “inclusivamente escrever para público e publicar os seus livros” (idem: 211), a mulher necessitava inteiramente da autorização do marido. Curiosamente, ser casada, mesmo assim, representava para a mulher a alternativa mais concreta de liberdade, conclui Osório, pois a rapariga solteira sofria muitas limitações: Não tem opiniões, para não ser pedante; não lê, para não ser doutora e não ver fugir espavoridos os noivos, que por acaso a procurassem (...) Não anda só, não trabalha, não estuda, não sabe pensar por si, não vive independente e altiva, como qualquer rapariga inglesa ou americana...” (Idem: 214-215) Luisa DaCosta em seu estudo sobre a literatura de autoria feminina em Portugal salienta que, em relação a outros países mais evoluídos, verificou-se, no país, um atraso na publicação das primeiras obras escritas por mulheres, constando, como pioneiros, os nomes de Guiomar Torresão (1844-1898), escritora e jornalista, tendo publicado novelas, romances, romances históricos e artigos em periódicos, sendo inclusive, fundadora, em 1871, do Almanach das Senhoras, e Angelina Vidal (1853-1917), propagandista das idéias republicanas, colaboradora do Almanaque A Vitória da República e fundadora dos jornais Sindicato, Justiça do Povo e Emancipação. DaCosta assinala que Ana de Castro Osório 7 revelara-se como iniciadora da literatura infantil, e deixara refletir sua ação social e política na extensa obra publicada a partir de 1898. O Feminismo no Brasil Zahidé Muzart, no estudo sobre as escritoras brasileiras do século XIX, afirma ter sido esse um período especialmente rico em manifestações literárias, na esfera social. Sucediam-se eventos de prestígio, possibilitando intercâmbios intelectuais entre os homens e as mulheres das classes mais favorecidas financeiramente. A mulher, segundo a pesquisadora, participava como ouvinte ou leitora, e não como produtora de cultura, sendo, neste aspecto, excluída “por preconceito, pela religião, pelos limites do papel que deveria desempenhar na sociedade burguesa”. (MUZART, 1999: 25), fato que determinou um estado de marginalização das escritoras brasileiras e, mesmo, a omissão de muitos nomes da historiografia literária. Curiosamente, conforme acentua Muzart, as mulheres produziram muito e publicaram pouco em relação à produção masculina da época. Para a ensaísta, as poetisas, ao contrário das dramaturgas e das narradoras, receberam maior apoio da crítica, justificando-se seu prestígio surpreendente pela opção por temáticas familiares relevantes e nobres para o meio social. Certamente, as posições defendidas e praticadas por essas autoras, no período em questão, ainda resultavam em formas comportadas ou discretas, como convinha a quem vivia numa sociedade dominada pelo pensamento masculino. Torna-se fácil compreender, hoje, o discurso de nossas pensadoras que, ao admitirem a necessidade de revisão das formas de tratamento da mulher na sociedade, por entenderem que mereciam, há tempos, serem tratadas como seres superiores e dignos de respeito e atenção, acabam por sugerir-lhes uma educação dirigida as suas tarefas domésticas, de caráter, portanto, utilitário, condizente com a ideologia burguesa em vigor na sociedade. Mesmo os discursos mais ousados, terminavam por reproduzir parte do pensamento masculino dominante, como sugere a escritora Nísia Floresta, particularmente engajada nas discussões da problemática feminina, neste fragmento do ensaio “A Mulher”, datado de 1857: Guarde-se bem o homem de ter a mulher para seu joguete, ou sua escrava; trate-a como uma companheira da sua vida, devendo ela participar de suas alegres e tristes aventuras; considere-a desde o berço até seu leito de morte, como aquela que exerce uma influência real sobre o destino dele, e por conseguinte sobre o destino das nações; dedique-lhe, por último, uma educação como exige a grande tarefa que ela deve cumprir na sociedade como o benéfico ascendente do coração; e a mulher será como deve ser, filha e irmã dedicadíssima, terna e pudica esposa, boa e providente mãe. (FLORESTA, 1997: 117) De acordo com Nísia Floresta, o coração feminino teria ternura suficiente para neutralizar os males morais que impediam a prosperidade dos povos. No texto definido pela autora como “breve discurso”, prega o valor da educação moral dos povos contra os males da civilização ou “as chagas gangrenadas da sociedade” (Idem: 113), reconhecendo que, mais do que o homem, a mulher detém a ternura e “os sentimentos mais generosos” (Ibidem), capazes 8 de operarem transformações radicais no gênero humano. Porém, ao reduplicar esse pensamento notadamente masculino, que vincula o homem à esfera da razão e à mulher, às paixões e emoções, Nísia Floresta alerta que somente se esses sentimentos femininos forem trabalhados a partir de uma educação especial, “uma educação culta e fortificada na prática do dever e na razão” (Idem: 115) poderão vir a promover alguma mudança: Educai o coração da mulher, esclarecei seu intelecto com o estudo de coisas úteis e com a prática dos deveres, inspirando nela o deleite que se experimenta de cumpri-los; purgai a sua alma de tantas nocivas frivolidades pueris de que se acha rodeada mal abre os olhos à luz. Cessai aqueles tolos discursos com os quais atordoais sua razão, fazendo-a crer que é rainha, quando nada mais é do que a escrava dos vossos caprichos. (Ibidem) Constância Lima Duarte destaca o caráter pioneiro das obras de Nísia Floresta que, em 1832, publica, em Recife, o seu primeiro livro intitulado Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens. Seu livro, conforme assinala a ensaísta, trata da revisão da atuação da mulher na sociedade, tendo em vista o seu direito à instrução e ao trabalho. A escritora sempre tratará dessa temática em sua obra, enfatizando a necessidade e a importância da educação feminina. Segundo Duarte, a valorização da mulher a partir da função biológica da maternidade permitiu, em meados do século XIX, que se considerasse a figura feminina como um membro essencial desta sociedade, diferentemente da época anterior, quando a sua presença era inexpressiva diante da supremacia do universo masculino. Nísia Floresta estava convencida, e sua obra o demonstra, de que essa nova visão da mulher dar-lhe-ia, em primeira instância, visibilidade, e, ainda, status e poder, e que “representava a grande chance para que estas se reabilitassem e se tornassem úteis à sociedade”, conforme observa a crítica. A tendência de conceber a mulher como sexo frágil, inferior ao homem, desprovido de capacidade intelectual relevante é confirmada pelos estudiosos do final do século. Em conferência realizada no Congresso Literário de Pernambuco, em 1892, no Instituto Literário Olindense, transcrita no n.12 de A Mensageira, Revista Literária dedicada á Mulher Brazileira, Olympio Galvão reconhece como digna e significativa a atuação literária de algumas escritoras brasileiras, classificando-as de modo distinto e, invariavelmente, citando as virtudes femininas tradicionalmente apregoadas. São elas as “sacerdotisas da forma”, as “dulcíssimas poetisas brazileiras” e as “chronistas elegantes e criteriosas”. Partidário confesso dos movimentos para a educação intelectual da mulher, Galvão, na Conferência, não deixa, contudo, de discriminar os dois sexos, diferenciando-os a partir de sutis considerações sobre o potencial intelectual feminino e a missão sublime adquirida com a maternidade: Sou dos que pensam que a mulher não deve tão somente limitar-se a aprender a arte de ser boa mãe de familia, não querendo dizer comtudo, que se entregue a estudos profundíssimos, assáz penosos para tão gentis e frageis organismos. ( GALVÃO, 1898: 180) No princípio do século, a temática da educação da mulher mereceu atenção especial dos ensaístas, passando a ser tratada com a seriedade solicitada por qualquer um dos demais temas nacionais. José Veríssimo, em capítulo acrescentado em 1906, quando da reedição de 9 seus estudos críticos sobre a Educação Nacional, no período pós-republicano, afirmava que se deveria iniciar pela educação da mulher se se pretendesse, realmente, promover a educação da sociedade. O crítico atribuía aos costumes herdados da antiga sociedade portuguesa a causa da situação vivida pela mulher na sociedade brasileira do início do século XX . Fora estabelecido para a mulher, até o início do século anterior, a tradição do recolhimento próprio da “educação de convento” que determinava, também no lar, na clausura doméstica em que vivia, o apagamento da sua existência.i Criadas, portanto, sem instrução, sem cultura espiritual, “sem nenhumas prendas de espírito, sem convívio social, sem alguma ciência do mundo e da vida” (Veríssimo, 1985: 120), contando, tão somente, com as suas virtudes naturais e os seus instintos afetivos, próprios das portuguesas e brasileiras, segundo o crítico, as mulheres, dessa forma representadas, não correspondiam mais às demandas da vida na sociedade brasileira do século que se iniciava. Para Veríssimo, múltiplas eram as funções destinadas à mulher, nessa nova sociedade conforme se pode constatar: ...tem de ser mãe, esposa, amiga e companheira do homem, sua aliada na luta de vida, criadora e primeira mestra de seus filhos, confidente e conselheira natural de seu marido, guia de sua prole e reguladora da economia de sua casa, com todos os mais deveres correlativos a cada uma destas funções (Idem: 122) Após a longa enumeração dos atributos femininos, o ensaísta, enfim, reconhece ser a mulher “o mais prestante dos cidadãos, mesmo que ainda sem direitos políticos” (Ibidem). Diante desta argumentação, afirma, categórico: “À mulher deve-se propiciar instrução integral e enciclopédica como a de um cidadão de qualquer sociedade atual.”(Ibidem). O crítico, porém, ressalta que não deveria ser exigido da mulher um aprofundamento de todos os conhecimentos humanos, mas apenas os conhecimentos essenciais para que bem pudesse equipar-se para viver neste mundo. Com isto, afirma que não está sugerindo que a mulher conheça superficialmente as noções, mas que estude e conheça aquelas que “nenhum homem de média cultura não deve ignorar.” (Ibidem). ii Para justificar tal argumento, o crítico conclui que “...por ter a mulher inteligência inferior a do homem, não seria mesmo capaz de especializar-se nessas questões.” (Idem: 123). A assertiva confirma o caráter contraditório do pensamento dos críticos e escritores do período, sejam eles homens ou mulheres, acerca das questões femininas no Brasil. Às Mulheres Brasileiras Em artigo publicado na seção “Entre Amigas”, do primeiro número de A Mensageira, datado de 15/10/1897, a escritora Julia Lopes de Almeida declara que o movimento feminista começava a conquistar grandes avanços, no Brasil, fato que, segundo sua argumentação, provava que a mulher encontrava-se mais consciente de suas necessidades e ambições, e estava disposta a participar mais ativamente da vida em sociedade. A autora considera que deveria haver, por parte das mulheres, uma real conscientização de que uma mudança de comportamento reverteria em benefício não meramente pessoal, mas da própria família e, 10 conseqüentemente da sociedade a qual pertencessem. A necessidade de aprimoramento intelectual, em tese, estaria, assim, diretamente vinculada ao aperfeiçoamento moral das mulheres e a necessidades de ordem prática voltadas “para as vicissitudes da vida”, como por exemplo a habilitação para uma profissão que as amparasse em situações emergenciais. Para ilustrar esse argumento, a escritora refere-se a outros povos “mais fortes, mais practicos, mais activos e mais felizes” dos quais as mulheres, consideradas a partir de seu importante valor social, já não figuram como “mero objecto de ornamento” ( ALMEIDA, 1897: 3). A escritora prega, enfim, nessas páginas, que pretendem servir de generoso e útil aconselhamento às leitoras, a “liberdade de ação” (Idem: 4), demonstrando estar plenamente consciente de que, ao fazê-lo, contrariava aqueles que analisavam o tema da participação social da mulher de forma preconceituosa. A questão era, certamente, controversa e dela nem mesmo as mulheres escapavam, quando insistiam em confirmar, por exemplo, as diferenças de concepções e métodos de educação de meninos e meninas na sociedade brasileira. Cumpre reconhecer, também, que, às vésperas do novo século, ao referir-se aos avanços dos movimentos feministas concernentes à crescente atuação da mulher brasileira na sociedade, a ativa escritora Julia Lopes de Almeida preocupa-se em ressaltar, em seu discurso na mencionada Revista Literária, o caráter prático e utilitário das finalidades da ação da mulher brasileira (Ibidem). Defende, portanto, a profissionalização da mulher e o aperfeiçoamento de suas qualidades morais, visando o bom cumprimento da sua função primordial, qual seja, o exercício da maternidade. Seguindo os padrões de conduta estabelecidos na sociedade brasileira, deduz-se que, para ser cidadã, a mulher precisaria ser mãe e, para exercer plenamente esse papel, deveria receber boa educação e instrução adequada. O domínio da arte de ser mãe implicava o exercício de múltiplas funções, naturalmente assumidas como obrigações pelas mulheres (Idem: 3). Assim, argumentava, em seu artigo inaugural, na citada revista, particularmente dirigida à mulher, a conceituada escritora paulista: Uma mãe instruída, disciplinada, bem conhecedora dos seus deveres, marcará, funda, indestructivelmente, no espirito do seu filho, o sentimento da ordem, do estudo e do trabalho, de que tanto carecemos. Parece-me que são esses os elementos do progresso e de paz para as nações.( Ibidem) Para exercer integralmente seu papel na sociedade, nos últimos anos do século XIX e início do XX, ou seja, para exercer, com perfeição, o seu papel de “mãe de família”, a mulher deveria habilitar-se para a vida, praticando, com sabedoria e intuição, desde as mais simples às mais complexas ações, não podendo, para tanto, ser “ignorante ou futil”, observa Julia Lopes de Almeida. Reconhecendo ser este um assunto “perigosamente escorregadio”, a escritora reafirma a crença de que à mulher compete, ao contrário do que se pensava até então, não somente a formação dos sentimentos e emoções, mas a educação integral dos filhos, sendo necessário, desse modo, a convivência espiritual com o homem, para, compreendendo-o, melhor educálo. Em seu artigo, a escritora arrisca-se a tecer um comentário irônico a respeito da atuação dos “pais e mestres de família” sobre a educação dos filhos, defendendo, com seriedade e veemência, a indiscutível função de formadora moral espiritual e intelectual, exercida já pela mãe de família na prática: 11 Dirão que á mãe só compete formar o coração e que o resto fica por conta dos paes e dos mestres... O pae, no afan dos seus dias trabalhosos, pensa acaso em corrigir os defeitos dos filhos, com quem pouco convive? Conhece-os todos por ventura!? Os mestres?...Ah! os mestres... (Ibidem) Julia Lopes, a “illustre escriptora nacional” tal como a classifica a diretora de A Mensageira, Presciliana Duarte de Almeida, conclui sua argumentação fazendo uma alusão à participação feminina na vida pública, reconhecendo, entretanto, ainda ser reduzido o número de “senhoras” empregadas no comércio, nas indústrias e nas artes. Em seguida, acreditando que a missão da Revista e a sua, em particular, devesse ser a do aconselhamento e do apoio moral a suas leitoras, exorta-as a refletirem sobre os tópicos essenciais de sua formação intelectual e de seu progresso: a necessidade de estudo, de reflexão, de trabalho e de se lutar por um ideal. Entre a elaboração dos textos das escritoras Nísia Floresta e Julia Lopes de Almeida decorreram cerca de quarenta anos. Percebe-se, entretanto, como, em diferentes épocas, defendiam teses similares. Ambas, a seu tempo, acreditavam que as mulheres alcançariam, enfim, a sua dignidade, tornando-se boas mães e boas esposas, caso recebessem instrução e educação moral condizentes com a sua especial missão, a sublime tarefa da maternidade. Julia Lopes atribui à educação de caráter restrititivo imposta à mulher, durante séculos, o fator determinante de sua condição marcada por um evidente estreitamento de horizontes. Reitera, a partir daí, a indiscutível necessidade de seu aprimoramento intelectual, a fim de que, inclusive, pudesse responder às demandas familiares de forma mais inteligente: Ora, como pode uma mulher, criada entre o piano e a valsa, ou quando muito entre o pudim e a agulha, agasalhar um pensamento curioso de um filho, elucidal-o, tornando as suas palavras simples como verdadeiras pontas de luz com que esclareçam as coisas mais complicadas e terriveis, fazendo-as entrar no cerebro de uma creança de modo mais natural e logico? (Ibidem) Numa conferência realizada em Buenos Aires, em 1922, na Biblioteca do Conselho Nacional de Mulheres da Argentina, a mesma Julia Lopes reafirma sua crença no país e na superioridade da mulher brasileira no que diz respeito, primeiramente, ao sentimento maternal. Para a autora, entre todas as mulheres da Terra, a brasileira figura, inegavelmente como a mais amorosa, terna e abnegada. Seu discurso também destaca a participação das mulheres na vida pública, explicitando, nesse momento, a sua possibilidade de realização de múltiplos papéis: Como en todo el resto del mundo civilizado, la brasileña interviene ya en las diferentes y múltiples ocupaciones de los hombres, sin renegar por eso de sus más puros y elevados atributos de esposa y madre. Al próprio tiempo que amorosa y dulce, es activa y enérgica, desmintiendo a los que le atribuyan indolencias de gusto y de pensamiento ( ALMEIDA, 1922: 33). 12 Em seguida, a autora passa a citar os nomes mais representativos de uma extensa lista de poetas – Julia Cortines, Francisca Julia, Auta de Souza, Gilca Machado, Rosalina Coelho Lisboa, Ana Amelia Carneiro de Mendonça -, cronistas - Carmen Dolores e Cecília de Vasconcellos, Albertina Berta -, afirmando haver outros nomes importantes a se somarem a essa listagem inicial. Destaca ainda, agora sem especificar nomes, a atuação das dramaturgas e demais artistas de “gran reputación literaria”, assim como jornalistas, artistas plásticas, músicas, médicas, jurisconsultas, aviadoras “de extraordinario renombre” (Idem, p.34) que estariam atuando de forma relevante na sociedade brasileira. Julia sustenta sua argumentação com alguns dados, que, mesmo pautados em generalizações, são curiosos a respeito da situação da mulher na sociedade, nas primeiras décadas do novo século: En la capital de la República, como en las demás ciudades de la Unión, todas las escuelas superiores están siendo lindamente frecuentadas por mujeres. Hay funcionarias en los ministerios y secretarias de estado, como hay empleadas en el comercio, desde la modesta dependiente del mostrador hasta las superiores profesionales competentes, que exigen tener preparación especial. (Ibidem). Confessando-se honrada por representar o seu país, proferindo uma conferência na instituição considerada a primeira Associação Feminina da América do Sul, afinal estava ela, naquele momento tão importante de sua vida pessoal e profissional, a confirmar concretamente, com a sua participação no evento, a atuação de destaque de uma mulher na esfera pública. A escritora, contando, na época, com sessenta anos de idade, colaborava, indiscutivelmente, uma vez mais, para o aprofundamento das discussões acerca da identidade da mulher brasileira e de sua inserção em nossa sociedade. Considerações finais Certamente, não foram poucas as vozes a se manifestarem, contrária ou favoravelmente, à emancipação da mulher, em Portugal e no Brasil, nas últimas décadas do século XIX e no início do XX. As querelas se sucediam nos periódicos religiosos ou laicos, em artigos, via de regra, polêmicos, escritos por mulheres ou homens sensibilizados com a desfavorável condição feminina na sociedade. Duas autoras destacam-se, particularmente, na discussão do tema, no mesmo período, Ana de Castro Osório, em Portugal, e Julia Lopes de Almeida, no Brasil. Ambas se dedicam a publicar uma extensa obra, constituída não somente de novelas, romances e crônicas, como também de textos críticos sobre as graves questões sociais relacionadas ao universo feminino, no sentido de difundir sua crença na necessidade de investimento na educação e na conseqüente inserção da mulher na vida social. Ao considerarem que as mulheres brasileiras e portuguesas devessem ignorar a imagem de nulidade e de dependência que dela faziam alguns homens e mesmo mulheres, quando a desqualificavam, desconsiderando sua inteligência e sua capacidade de participação efetiva na várias instâncias da vida social, as intelectuais brasileiras contribuíram, de forma 13 pioneira, para a inclusão da temática feminina nas discussões de outras temáticas nacionais, no período em questão. Com a sua participação em diferentes periódicos de expressão nacional, permitiram, com seus conselhos e reflexões, ampliar o debate sobre as questões femininas, contestando as imposições ideológicas que impediam a formação de uma atitude diferenciada entre as mulheres. Desse modo, garantiram que, ao longo do tempo, mulheres igualmente ilustres ganhassem voz e se tornassem, enfim, cidadãs. Referências bibliográficas ALMEIDA, Julia Lopes de. (1897) “Entre Amigas”. In: ALMEIDA, Presciliana Duarte de (dir.) A Mensageira. Revista Literaria dedicada às Mulheres Brazileiras. São Paulo: IMESP/DAESP, 1997, anno I, n.1, pp: 3-5 _________. (1906) “A Mulher Brazileira”. In: ________ Livro das Donas e Donzellas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, pp: 35-40 _________.(1922) “Conferencia pronunciada por la autora en la Biblioteca del Consejo Nacional de Mujeres de la Argentina”. Buenos Aires, 35p ALMEIDA, Presciliana Duarte de.(1897)“Duas Palavras “ In: _______A Mensageira. Revista Literaria dedicada às Mulheres Brazileiras. São Paulo: IMESP/DAESP, 1997, anno I, n.1: 1 BURKE, Peter.(1995)“Anotações para uma história do silêncio no início da Europa Moderna”. In: ___________. A Arte da Conversação. São Paulo: Unesp, pp: 161-183 CARVALHO, Maria Amália Vaz de (1938). Cartas a Luíza. Moral, Educação e Costumes. Porto: Editora Educação Nacional. DaCOSTA, Luísa (2001) “Literatura de Autoria Feminina”. In: Maria Antónia Fiadeiro (org.) Mulheres Século XX/101 livros. Lisboa: Câmara Municipal/Departamento de Cultura, pp: 5968 DUARTE, Constância Lima (1997). Texto de Apresentação. In: FLORESTA, Nísia. Cintilações de uma Alma Brasileira. Florianópolis: Editora Mulheres FLORESTA, Nísia.(1997) “A Mulher” In: ___________.Cintilações de uma Alma Brasileira. Florianópolis: Editora Mulheres, pp: 85-159 GALVÃO, Olympio. (1897) “Conferência realizada no Congresso Literário de Pernambuco em 1892”.In: ALMEIDA, Presciliana Duarte de (dir). A Mensageira. Revista Literaria dedicada ás Mulheres Brazileiras. São Paulo: IMESP/DAESP, 1997, anno I, n.12, pp:180183 LEMOS, Carlos de; PINHEIRO, Beatriz. (1899 e 1900). Ave-Azul. Revista de Arte e Crítica. Séries 1 e 2. 14 MUZART, Zahidé Lupinacci (1999). “Pedantes e bas-bleus: a história de uma pesquisa”. In: ______ (org). Escritoras Brasileiras do Século XIX. Florianópolis: Editora Mulheres; Santa Cruz do Sul; EDUNISC, pp: 17-29 OSÓRIO, Ana de Castro (1905). Às Mulheres Portuguesas. Lisboa: Livraria Editora Viúva Tavares Cardoso: QUENTAL, Antero de. (1982). “Educação das Mulheres” e “Influência da Mulher na Civilização”. In: __________. Obras Completas. Prosas da época de Coimbra. Clássicos Sá da Costa. Edição Crítica organizada por António Salgado Júnior. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 2 ed, pp.3-7, pp. 70-82 VERISSIMO, José. (1985) “A Educação da Mulher Brasileira”. In: _________. A Educação Nacional. Porto Alegre: Mercado Aberto, pp. 116- 130 Notas bibliográficas i Veríssimo comenta a influência da educação das mulheres portuguesas sobre as brasileiras, enclausuradas, até meados do século XIX, e encaradas como “mero objeto de prazer e de gozo”, ainda no início do século XX. A respeito da “virtude do silêncio” imposta às mulheres ver também BURKE, 1995: 161-183. ii Reconhecendo que as mulheres brasileiras bem educadas sabem ler francês, mas desconhecem a cultura de seu país, “sua geografia, sua história, a sua literatura...”, o crítico descreve o seu programa ideal de Educação Feminina, sugerindo a inclusão da Educação Estética, enfatizando a necessidade da Educação Física, e, ainda, recomendando os estudos elementares de Matemática, Física, Química e Ciências Naturais: VERÍSSIMO, 1985: 126-30.