CONCEPÇÕES DE PROFESSORES SOBRE A APROPRIAÇÃO DA
LÍNGUA PORTUGUESA POR ALUNOS DA EDUCAÇÃO
PROFISSIONAL
Marcela Silva da Luz1 - UNESP
Jáima Pinheiro Oliveira2 - UNESP
Grupo de Trabalho – Educação de Jovens e Adultos
Agência Financiadora: não contou com financiamento
Resumo
Segundo Pacheco (2012), a educação profissional necessita de um pensamento de formação
humana e integral, buscando superar a dualidade entre executar e pensar. Deste modo, o
trabalho é concebido como princípio educativo, indissociável da ciência, da tecnologia e da
cultura, e esta deve ser a base para o desenvolvimento curricular desta modalidade de ensino.
Assim, a educação profissional não deve formar apenas para o exercício do trabalho, mas sim
proporcionar que o aluno se forme como transformador de sua realidade através de seu
trabalho, apropriando-se dela e a transformando. Nesta perspectiva, esta pesquisa aborda a
temática das dificuldades com a língua portuguesa dos alunos que frequentam o nível técnico
dessa etapa de escolarização, com o objetivo de verificar, por meio da concepção dos
professores da educação profissional, as dificuldades com a língua portuguesa que seus alunos
podem apresentar. Caracterizada como uma pesquisa descritiva, foi utilizada para a coleta de
dados a aplicação de questionário do tipo misto, com questões abertas e fechadas a 23
professores atuantes na escola Senac, unidade de Marília/SP, que ministram aulas na
educação profissional. Os dados permitiram concluir que a grande maioria dos professores
(91%) relatou que seus alunos da educação profissional possuem dificuldades com a língua
portuguesa. Além disso, foi possível caracterizá-las. Esperamos contribuir com a identificação
destas dificuldades, bem como contribuir com a continuação de pesquisas na área, acreditando
que esta etapa de ensino necessita de pesquisas que buscam apresentar que o trabalho deve e
pode ser visto como princípio educativo, sendo possível, assim, oferecer e buscar uma
formação integral dos alunos desta modalidade.
Palavras-chave: Educação Profissional. Língua Portuguesa. Apropriação linguística.
1
Discente do Curso de graduação em Pedagogia da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" e
participante do Programa de Iniciação Científica, como voluntária. E-mail: [email protected].
2
Docente do Departamento de Educação Especial, credenciada junto ao Programa de Pós-Graduação em
Educação da Faculdade de Filosofia e Ciências (FFC) da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita
Filho” (UNESP), Marília, SP. E-mail: [email protected]
ISSN 2176-1396
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Introdução
Desde 2011 a oferta de educação profissional teve grande expansão no Brasil, por
meio do Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego), lançado
pelo Governo Federal que visava, segundo Gallindo, Feres; Schroeder (2015, p. 21)
“expandir, interiorizar e democratizar a oferta de cursos de educação profissional e
tecnológica, visando à melhoria da qualidade do ensino médio e ampliar as oportunidades
educacionais aos trabalhadores”.
A educação profissional também está inserida na meta número onze no PNE (Plano
Nacional de Educação), onde se planeja “triplicar as matrículas da educação profissional
técnica de nível médio, assegurando a qualidade da oferta e pelo menos 50% (cinquenta por
cento) da expansão no segmento público” (BRASIL, MEC, 2014, p.39).
Entretanto, historicamente, a educação profissional é demarcada pela divisão social do
trabalho, onde a ação de executar, exclusivamente operacional, é separada da ação de pensar e
planejar. Portanto, os objetivos e metas tanto do Pronatec quanto do Plano Nacional de
Educação é superar essa dualidade, pensando em uma formação humana e integral dos alunos
desta modalidade.
Segundo Pacheco (2012), pensar em formação humana e integral, além da superação
da dualidade entre executar e pensar, é “garantir ao adolescente, ao jovem e ao adulto
trabalhador o direito a uma formação completa para a leitura do mundo e para a atuação como
cidadão pertencente a um país, integrado dignamente a sua sociedade política”. (PACHECO,
2012, p. 58).
Deste modo, o trabalho é concebido como princípio educativo, indissociável da
ciência, da tecnologia e da cultura, e esta deve ser a base para o desenvolvimento curricular
desta modalidade de ensino. Assim, a educação profissional não deve formar apenas para o
exercício do trabalho, mas sim proporcionar que o aluno se forme como transformador de sua
realidade através de seu trabalho, apropriando-se dela e a transformando.
Nesta perspectiva, a profissionalização se opõe a visão reduzida para o mercado de
trabalho unicamente, buscando sim uma formação profissional, mas também uma formação
para a autonomia e criticidade, uma formação humana e integral (PACHECO, 2012).
Na perspectiva de formação humana, integral e autônoma, esta pesquisa busca
verificar, por meio da concepção dos professores da educação profissional, as possíveis
dificuldades com a língua portuguesa, seja na modalidade oral ou escrita, que seus alunos
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podem apresentar. Pretende-se com este trabalho levantar questões para futuras pesquisas na
área.
Levamos em consideração que, apesar da língua portuguesa não ser um conhecimento
específico da estrutura curricular dos cursos da educação profissional e sim um conteúdo da
educação básica, a dificuldade com a língua portuguesa pode impedir uma formação
satisfatória de um aluno na modalidade da educação profissional, já que ele depende da leitura
e da interpretação de textos para se apropriar dos conteúdos desta formação, bem como pode
ser um impedimento para uma contratação ou promoção no mercado de trabalho, tendo em
vista que escrever e comunicar-se são atividades presentes no exercício de todos os
profissionais.
A pesquisa ocorreu na escola de educação profissional Senac, unidade de Marília, e
esta escolha para campo de pesquisa se deu pelo fato de que esta unidade faz parte de uma
rede de unidades Senac espalhadas por todo o território nacional, que atenderam no ano de
2014, conforme relatório geral divulgado no site da instituição, 1.343.513 matrículas
concluídas por meio de suas diversas modalidades de cursos, mostrando, então, que a
educação profissional formou muitos jovens e adultos para a atuação no mercado de trabalho
no território nacional.
A unidade Senac de Marília, especificadamente, foi escolhida para coleta de dados
devido estar presente em nosso município (Marília/SP) desde 1951, formando profissionais há
64 anos, mostrando, então, um cenário consolidado de oferta de cursos de educação
profissional no município de Marília.
Aspectos Metodológicos
Participaram desta pesquisa 23 professores atuantes na escola selecionada, os quais
ministram aulas nos diversos cursos de educação profissional. A pesquisa é caracterizada pelo
tipo descritiva (GIL, 2007) e o meio de investigação utilizado para a coleta de dados foi a
aplicação e análise de questionário do tipo misto, com questões abertas e fechadas aos
professores da educação profissional.
O questionário aplicado buscou levantar informações sobre o perfil destes professores,
bem como, se eles identificam alguma dificuldade em seus alunos, e quais são essas
dificuldades, com foco para apropriação da língua portuguesa na modalidade oral ou escrita.
Os dados foram analisados estatisticamente no que se diz respeito às questões fechadas e em
categorias temáticas no que se diz respeito às questões abertas, com base em Minayo (2004).
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Entretanto, este trabalho tem como foco identificar se os professores identificam dificuldades
com a linga portuguesa em seus alunos, bem como identificá-las e, por isso, será apresentado
apenas os dados estatísticos do questionário, ou seja, as respostas às perguntas fechadas.
Resultados e Discussão
O Senac, unidade de Marília, possui em seu quadro de funcionários o total de 62
professores, para os quais foi entregue o questionário em versão impressa ou online, da
maneira em que preferiram. Em duas semanas foram devolvidos 23 questionários (37%), os
quais foram analisados para esta pesquisa.
Primeiramente, será apresentado o perfil destes professores e, em seguida, a
caracterização das dificuldades identificadas por eles em seus alunos.
1) Perfil dos professores da educação profissional
A tabela 1 apresenta a distribuição da faixa etária dos 23 professores da educação
profissional participantes da pesquisa. E o quadro 1 organiza as informações desses
professores quanto à formação acadêmica, sexo e anos de atuação na educação
profissional, bem como se já realizaram cursos na área pedagógica.
Tabela 1 – Distribuição da amostra por faixa etária
Idade dos professores
G1 (25 a 30)
G2 (30 a 35)
G3 (35 a 40)
G4 (40 ou mais)
Valor absoluto
(n)
6,0
5,0
3,0
9,0
Valor relativo
(%)
26,0
22,0
13,0
39,0
23
100
Total
Fonte: elaboração das autoras
Quadro 1 – organização das informações sobre os sujeitos da pesquisa
Sexo
Feminino
(56,5%) - 13
professores
Masculino
(43,5%) – 10
professores
Formação
Acadêmica
Anos de Atuação
como professor da
educação profissional
Já fez cursos na
área pedagógica
Ensino Médio
(0%) – nenhum
professor
T1: menos de 01 ano
(8,7%) – 02 professores
Sim
Graduação
Cursando
(8,7%) – 02
professores
Graduação
Completa
(26,1%) – 06
T2: 1 a 5 anos
(56,5%) – 13
professores
T3: 5 a 10 anos
(13,1%) – 03
professores
(78,3%) – 18
professores
Não
(21,7%) – 05
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professores
Pós Graduação
(65,2%) – 15
professores
professores
T4: mais de 10 anos
(21,7%) – 05
professores
Fonte: Dados organizados pelas autoras, com base nos dados da pesquisa.
Observa-se que dentre os sujeitos participantes da pesquisa, a maioria é do sexo feminino
e estão entre a faixa etária de 40 anos ou mais. Em relação ao tempo de atuação na educação
profissional, a maioria possui entre 1 a 5 anos de experiência. Sobre os cursos na área
pedagógica, a maioria cita que já realizou cursos nesta área, mas, ao serem questionados sobre
quais cursos, a maioria cita a participação no PDE (Programa de Desenvolvimento
Educacional), que se trata de programas desenvolvidos pelo Senac com a finalidade de
capacitar e ambientar os professores com temas pedagógicos, tais quais o trabalho por
projetos, por competências, a avaliação por menções, a proposta pedagógica da escola, etc.
2) Dificuldades identificadas pelos professores da educação profissional
Apresentaremos a seguir as respostas dos professores no que se diz respeito à
identificação das dificuldades dos alunos da educação profissional em sala de aula.
O gráfico 1, a seguir, indica a frequência de professores que relataram dificuldades de
seus alunos com a língua portuguesa. E o gráfico 2 indica a caracterização dessas
dificuldades, bem como a frequência em que estas foram relatadas.
Gráfico 1 - Presença de dificuldades com a Língua Portuguesa
Fonte: elaboração das autoras
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Primeiramente, quando questionados se “seus alunos apresentavam algum tipo de
dificuldade durante as suas aulas” apenas 02 professores (8,7%) responderam que não,
portanto, estes não prosseguiram em responder as questões especificas do questionário. Os
demais 21 professores participantes da pesquisa responderam que sim (91,3%) e responderam
as demais perguntas, e suas respostas serão apresentadas abaixo, por meio de gráfico e
quadros.
Fonte: elaboração das autoras
Dentre as dificuldades selecionadas, as que possuem maior frequência de seleção são as
opções Leitura e compreensão de leitura e a opção Aspectos gramaticais de modo geral, já
que foram selecionadas por 17 professores dos 21 que responderam a parte específica do
questionário. Entretanto, as dificuldades Produção de Texto e Cálculo matemático também
tiveram grade frequência de seleção.
Havia uma opção ao professor que oferecia a possibilidade de especificar outras
dificuldades que ele percebe em sala de aula e que não estavam presentes na lista. Apenas 04
professores selecionaram esta opção e adicionaram as informações apresentadas pelo Quadro
2.
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Quadro 2 - Outras dificuldades mencionadas pelos professores
Professor X
Trabalho em grupo.
Conhecimentos básicos do ensino fundamental e
médio, os quais chegam com uma defasagem
muito grande.
Dificuldade de articulação entre os conhecimentos
teóricos e práticos, dificuldades de trabalho em
equipe, falta de pró atividade, falta de
compromisso com o curso (busca de certificação),
dificuldade de relacionamento interpessoal,
dificuldade em fazer buscas ativas.
Professor Y
Professor Z
Professor W
Dentro da área de redes.
Fonte: elaboração das autoras baseado nos dados da pesquisa.
Considerações Finais
Considerando os dados obtidos, conclui-se que os professores da educação
profissional identificam em seus alunos dificuldades com língua portuguesa, além de citarem
outras dificuldades também identificadas e que não estão relacionadas à língua, conforme
anteriormente apresentadas no quadro 2. As dificuldades que tiveram maior frequência de
seleção e, assim, acredita-se que estão presentes e dificultam o desenvolvimento dos alunos
nos cursos foram Leitura e compreensão de leitura, Aspectos gramaticais de modo geral,
Produção de Texto e Cálculo Matemático.
Desta forma, entende-se como necessária a realização de pesquisas e estudos no
assunto, para que se possa pensar em soluções para os problemas identificados com a
apropriação da língua portuguesa, visando proporcionar aos alunos da educação profissional
uma formação humana e integral, enxergando o trabalho como princípio educativo, para que
se possa desfazer a marca historicamente criada da divisão social do trabalho, onde a ação de
executar, exclusivamente operacional, é separada da ação de pensar e planejar.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Educação. Planejando a Próxima Década: conhecendo as 20 metas
do Plano Nacional de Educação. Disponível em:
http://pne.mec.gov.br/images/pdf/pne_conhecendo_20_metas.pdf. Acesso em: 28 jul. 2015.
30839
GALLINDO, Erica de Lima; FERES Marcelo Machado; SCHROEDER Nilva. O Pronatec e o
Fortalecimento das Políticas de Educação Profissional e Tecnológica. In: Inclusão Produtiva
Urbana: o que fez o Pronatec / Bolsa Formação entre 2011 e 2014. Cadernos de Estudos
Desenvolvimento Social em Debate. n. 24 (2015). Brasília, DF, p.21 – 45.
GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 4 ed. São Paulo: Atlas, 2007.
MINAYO, Maria Cecília de Souza. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em
saúde. 8 ed. São Paulo: Hucitec, 2004
PACHECO, Eliezer (Org). Perspectivas da Educação Profissional Técnica de Nível
Médio: proposta de diretrizes curriculares nacionais. São Paulo, 2012. Editora Moderna,
144p.
SENAC. Departamento Nacional. Relatório geral, 2014. Rio de Janeiro, 2015. 97 p.
Disponível em: http://www.senac.br/media/73408/miolo_geral_bx.pdf. Acesso em: 16 jul.
2015
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