SOCIEDADE DE EDUCAÇÃO DO VALE DO IPOJUCA
FACULDADE DO VALE DO IPOJUCA – FAVIP
COORDENAÇÃO DE PSICOLOGIA
CURSO DE PSICOLOGIA
NATHÁLIA DA SILVA SANTOS
AS REPERCUSSÕES NA RELAÇÃO AFETIVA DO CASAL APÓS O
NASCIMENTO DO PRIMEIRO FILHO
CARUARU
2012
0
Nathália da Silva Santos
AS REPERCUSSÕES NA RELAÇÃO AFETIVA DO CASAL APÓS O
NASCIMENTO DO PRIMEIRO FILHO
Trabalho de conclusão de curso
apresentado à Faculdade do Vale do
Ipojuca, como requisito parcial para
obtenção do título de Bacharel em
Psicologia.
Orientadora: Profª Ma. Raffaela
Medeiros e Morais
CARUARU
2012
1
Catalogação na fonte Biblioteca da Faculdade do Vale do Ipojuca, Caruaru/PE
S237rSantos,
Nathália
da
Silva.
As repercussões na relação afetiva do casal após o
nascimento do primeiro filho. / Nathália da Silva Santos. –
Caruaru:
FAVIP,
2012.
78 f.:il
Orientador(a) :Raffaela Medeiros e Morais.
Trabalho de Conclusão de Curso (Psicologia) -- Faculdade
do Vale do Ipojuca.
1. Conjugalidade. 2. Parentalidade. 3. Nascimento do
primeiro filho. I. Santos, Nathália da Silva. II. Título
CDU 159.9 [13.1]
Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário: Jadinilson Afonso CRB-4/1367
2
3
DEDICATÓRIA
À Deus, por me iluminar, me mostrar
a cada dia que sou capaz, pelas bênçãos
a me sempre concedidas e por ser meu
refúgio em todos os momentos.
Um carinho especial a minha irmã e
aos meus pais pelo amor e apoio que
sempre me deram aos quais devo em
grande parte o que eu sou.
Ao meu namorado, pela paciência e
compreensão, pois a partir do momento
que começou a fazer parte de minha vida,
me tornei uma pessoa mais feliz.
A toda minha família pelo apoio, amor,
confiança a me dedicados.
4
AGRADECIMENTOS
À Deus pelo dom da vida, pelo seu amor infinito, por ser o centro da minha
vida, por ter me sustentado e me tomado em seus braços nos momentos difíceis
para que eu não tropeçasse em meio as adversidades e provações. Por ser a luz
dos meus pensamentos para que eu pudesse concluir esta etapa.
Agradeço aos meus pais, Alexandre e Nilsa pelo amor, incentivo e ao apoio
a me dedicados, pelo investimento que direcionaram a me durante toda minha vida
fazendo sempre o possível e o impossível pra me fazer feliz, por acreditar na minha
capacidade e me ensinarem a ser forte, sem perder a simplicidade e doçura. A
minha irmã, Anielly, pela preocupação e por suas palavras que mesmo sem saber
me fortalece e faz acreditar mais em mim.
Ao meu namorado, Marcílio, agradeço por ter vivenciado comigo este
momento, pela paciência, pelas esperas que eu o fiz passar, pelo apoio e por me
mostrar que sou capaz, agradeço todo carinho, respeito e companheirismo a me
dedicados todos esses anos.
Aos meus familiares, que junto comigo viveu esse momento, que me deram
força, que me deram atenção e se preocuparam comigo, por acreditarem e torcerem
sempre por mim, me incentivando em todos os momentos em que precisei.
Agradeço as orações de todos.
Agradeço a minha orientadora Raffaela Medeiros, por acreditar em minha
capacidade, pela disponibilidade, pela grande contribuição para a realização deste
trabalho, por suas considerações a cada orientação e por partilhar comigo suas
experiências e conhecimentos as quais enriqueceram o meu trabalho e
principalmente pela forma humana que conduziu as orientações, expresso aqui
minha admiração.
Agradeço a todos meus professores que participaram da minha construção
acadêmica, obrigada pelas grandes contribuições, pelo compromisso, pela
competência e por me mostrarem que a prática da psicologia vai além do método, é
a manifestação do afeto, é trabalhar com amor.
Agradeço as professoras examinadoras da banca, a Claudine pelas ricas
contribuições na primeira avaliação e por ter aceitado meu segundo convite. A Ana
Barreto por também ter acolhido meu convite e aceitado participar da banca, e
5
quando minha professora, com seu olhar e cuidado, me acolher em vários
momentos.
A todos da sala 0802, pelas inúmeras noites juntos, por terem feito desta,
uma jornada mais agradável e única. Juntos conseguimos passar por todas as
dificuldades, e a partir de tantas vivências, todos vocês fazem parte de uma história
que marcará para sempre minha vida!
Agradeço a todos meus amigos e amigas, por me acolherem nos momentos
de angústia, por partilhar e vibrar comigo os pequenos avanços de cada passo deste
trabalho. Agradeço a todos de forma especial e carinhosa àqueles que me deram
força e coragem. Agradeço aos meus amigos da CASA FAVIP, obrigado dividir as
tardes, as conversas, por contribuir com tantos ensinamentos, tanto conhecimento,
tantas palavras de força e ajuda.
Á minhas grandes amigas, Kaline, Maria Camilla, Taína, Wagna, pelo
carinho em cada olhar, por me acolher da maneira singular a cada uma. Agradeço
pelas ajudas, pelas lágrimas e por vibrar com minhas conquistas e por fazer mais
fácil essa trajetória. Agradeço por encontrar vocês, pois sei que mesmo distante
cada uma seguindo uma direção, estaremos torcendo uma pela outra e que faremos
para sempre, parte da vida uma da outra.
Agradeço a todos os casais participantes deste estudo, pois sem eles este
não seria possível.
Enfim, não poderia deixar de dedicar a todas as pessoas especiais em minha
vida, agradeço a todos pelas lições de humildade, amor ao próximo, pelo respeito,
pelas lições de vida, todas são essências na minha caminhada, as quais levo para
minha vida pessoal e profissional. Envolvo-me de saudades e com a certeza que
juntos, com a contribuição de todos, em cada palavra, gesto, olhar, mostramos que
mesmo difícil esse sonho seria possível! Muito
Obrigada!
Nathália da Silva Santos
6
”Nossos dias são preciosos
mas com alegria os vemos passando
se no seu lugar encontramos
uma coisa mais preciosa crescendo:
uma planta rara e exótica,
deleite de um coração jardineiro,
uma criança que estamos ensinando,
um livrinho que estamos escrevendo”
Autor: Friedrich Rückert
7
RESUMO
Compreende-se que a chegada do primeiro filho assinala uma transformação na
configuração familiar. O presente estudo tem como objetivo investigar as
repercussões que o nascimento do primeiro filho acarreta na relação conjugal.
Assim, para investigar as transformações e reorganizações ocasionadas pela
entrada na parentalidade, a revisão literária enfatizou estudos sobre a família
nuclear, a conjugalidade e a parentalidade. A pesquisa de campo estabeleceu-se
através da entrevista semi-estruturada, realizada com 4 casais primíparos.
Os conteúdos colhidos nas entrevistas foram estudados fundamentado na Análise
de Conteúdo de Bardin (2007). Os resultados explanaram quatro categorias: a)
Planejamento do filho, b) A expectativa do casal frente o exercício da parentalidade,
c) Rede de apoio e d) Mudanças na conjugalidade após o nascimento do primeiro
filho. Os resultados da análise dos dados evidenciaram que a transição para a
parentalidade acarretou mudanças na conjugalidade dos casais participantes da
pesquisa. Os dados permitem apreender também, que a intensidade e a
repercussão dessas mudanças vão depender da construção da vida a dois,
podendo ser um fator de declínio ou de aumento da satisfação conjugal.
Palavras-chave: Conjugalidade. Parentalidade. Nascimento do primeiro filho.
8
ABSTRACT
It is understood that the arrival of first child marks a transformation in family
configuration. The present study aimed at investigating the repercussions that the
birth the first child on the marital relationship entails.Thus, to investigate the
transformations and reorganizations occasioned by the entry in the parenthood, the
literature review emphasized studies on nuclear family, conjugality and parenthood.
The field research established itself through semi-structured interview, performed
with 4 primiparous couples. The contents collected in the interviews were studied
grounded in content analysis of Bardin (2007). The results made clear four
categories: a) Planning the son, b) The expectation of the couple facing the exercise
of parenthood, c) Support Network and d) Changes in conjugality after the birth of
their first child. The results of the data analysis showed that the transition to
parenthood led to changes in conjugality couples research participants. The data
also allow apprehending, that the intensity and impact of these changes will depend
on the construction of life to two, may be a factor in the decline or increase in
conjugal satisfaction.
Keywords: Conjugality. Parenting. Birth of the first child.
9
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Tabela 1: Dados sócio-demográficos – Especificidades das Famílias............. 40
Tabela 2: Categorias e subcategorias...............................................................41
10
SUMÁRIO
1.
INTRODUÇÃO.......................................................................................
12
2.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA............................................................. 16
2.1
Um breve trajeto histórico sobre a família da Idade Média à
Contemporaneidade............................................................................. 16
2.2
O nascimento do primeiro filho: Conjugalidade X Parentalidade...
2.3
A parentalização dos pais: As fantasias em relação ao
27
nascimento do primeiro filho..............................................................
33
3.
PROCESSOS METODOLÓGICOS.......................................................
39
3.1
Participantes (Amostra)....................................................................... 39
3.2
Instrumentos......................................................................................... 39
3.3
Análises de conteúdos........................................................................
40
3.4
Análise Categorial........................................................................
42
4.
ANÁLISE E RESULTADOS DOS DADOS............................................ 43
4.1
Planejamento do Filho.........................................................................
43
4.1.1
Houve ou não Planejamento (foi ou não desejado)...............................
43
4.1.2
O recebimento da notícia da gravidez...................................................
44
4.2
Expectativa do casal frente o exercício da parentalidade...............
45
4.2.1
Sexo do bebê.........................................................................................
46
4.2.2
O exercício da paternidade e maternidade............................................
46
4.2.3
Dúvidas e preocupações no exercício da parentalidade.......................
47
4.2.4
Medos..................................................................................................... 48
4.2.5
Expectativa quanto ao futuro.................................................................
49
4.3
Rede de Apoio......................................................................................
51
4.3.1
Apoio entre os cônjuges......................................................................... 51
4.3.2
Apoio familiar.........................................................................................
54
4.4
Mudanças na conjugalidade após o nascimento do primeiro filho
55
4.4.1
O impacto da chegada do bebê na vida do casal..................................
55
4.4.2
Mudanças no que tange à afetividade do casal..................................... 57
11
4.4.3
Influência e mudanças no relacionamento dos cônjuges diante da
parentalidade.......................................................................................... 59
4.4.4
Mudança do corpo (Interferência da maternidade)................................
63
4.4.5
Interferência do filho .............................................................................. 65
4.4.6
Satisfação Sexual hoje........................................................................... 67
CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................... 69
REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS.................................................................
71
APÊNDICES......................................................................................................
77
12
1.
INTRODUÇÃO
A família ao longo da história vem sofrendo influencias, pelas grandes
transformações do desenvolvimento social na contemporaneidade. Modificaram os
valores, alteraram a economia que regem a organização social, transformaram-se
também os ideais e o modo de pensar dos homens enquanto família e pessoa.
Diante dessa diversidade frente ao tema família, o presente estudo surge da
inquietação da pesquisadora em relação às peculiaridades percebidas durante a
construção da parentalidade, na qual o casal soma esse novo papel, o ser pai/mãe,
à função conjugal, percebendo-se esta nova fase como um período de profundos
reajustes conjugais. Para McGoldrick (1995, p.149) é “o nascimento do primeiro
filho, mais do que o próprio casamento, que marca de forma intensa a passagem
para uma nova família”.
No primeiro capítulo se expõe um breve trajeto sobre a história da família,
partindo a análise da família medieval, cujas características eram marcadas pelo
patriarcalismo. Não havia limites entre a profissão e vida particular; o serviço
doméstico exercido pelas crianças confundia-se com aprendizagem, pois não havia
lugar para a escola na educação, dando-se esta a partir da inserção da criança em
outras famílias para, assim, aprenderem os hábitos de uma família e um ofício. Não
havia importância social para cultivo do afeto na família, a infância era
desconhecida, sendo a criança percebida como homens em “miniatura”. A partir do
século XVI, as realidades e os sentimentos de família começaram a se modificar,
numa revolução lenta e intensa (ÁRIES, 2006).
Houve uma grande transformação no lugar atribuído às crianças, antes vista
como pequenos adultos. Diante da modificação da família através dos tempos,
percebe-se em uma perspectiva histórica, que a partir do desenvolvimento de uma
concepção de infância, as crianças tornam-se o centro da família, instituição esta
que passa a ter como características a troca afetiva e o amor entre pais e filhos.
Para Áries (2006), essa nova preocupação para com a família fez com que
esta assumisse uma nova função, dirigindo-se para além do direito privado e se
responsabilizando pelo cuidado moral e espiritual de seus membros, tornando-se
uma instituição possível de demonstração de afetos, sentimentos e amor.
13
É pertinente chamar atenção às várias configurações que a família pode
assumir a partir da pós-modernidade, principalmente a diminuição do modelo de
família nuclear na sociedade. Vale ressaltar as inúmeras possibilidades que a família
se apresenta, como, por exemplo, a família monoparental, as famílias reconstituídas,
homoparentais. A partir desses reposicionamentos sociais e essas redefinições de
papéis, encontra-se, como acontecimentos que marcam a contemporaneidade, o
aumento da participação da mulher no mercado de trabalho, juntamente com as
mudanças decorrentes do advento do uso da pílula anticoncepcional como também
da redefinição do casamento, dentre outras transformações que foram profundas e
que são percebidas na nova paisagem social.
No segundo capítulo apresentam-se as considerações sobre a conjugalidade
e parentalidade, focando-se as repercussões de cada um destes momentos na vida
do casal. Momento este, que diante da pesquisa percebe-se como um desafio para
os casais, pois estes necessitam viver a parentalidade, ao mesmo tempo em que se
adapta a vida conjugal e a essa nova realidade.
Diante dessa perspectiva, os novos arranjos familiares trazem consigo novos
processos de adaptação e reajustes em sua configuração, assim, este estudo
investiga os ajustamentos e reestruturação da família, na tentativa de haver um
entendimento dos processos vivenciados na chegada do primeiro filho, o qual muitas
vezes gera um aumento de conflitos e insatisfações no casal.
É pertinente pontuar sobre essa transição, no qual o casal além da
conjugalidade passa a vivenciar uma nova fase, a parentalidade. Lamour e Barraco
(1998 apud FERÉS CARNEIRO, s/d a) ressaltam a parentalidade como uma
reestruturação psíquica e afetiva que possibilita aos adultos assumirem o lugar de
pais, atendendo as necessidades dos seus filhos em três níveis: o corporal, o afetivo
e o psíquico.
As novas formas de vivenciar a conjugalidade são marcadas pela emergência
de novas dinâmicas na vida do casal, as quais muitas vezes são fortemente
amarradas no afeto e no amor jurado entre os cônjuges. Porém, toda relação
conjugal está sujeita a ajustamentos, devido a vivências de transições e
transformações decorrentes da construção da vida a dois.
Com o nascimento do primeiro filho, o casal se apresenta diante de uma
transição intensa, a qual pode trazer, na maioria das vezes, muitas felicidades e
realizações para o casal, como também pode causar implicações e desajustes
14
emocionais na vida afetiva de ambos os cônjuges, pois tudo que se refere ao
primeiro filho se configura em um universo muito novo, e o que é novo geralmente
promove angústia.
Esse momento é de grande importância, pois se caracteriza peculiarmente,
em um período de intensas alterações dos papéis sociais e conjugais do casal,
acompanhados por uma necessidade de redefinição e reajuste dos projetos
enquanto uma nova configuração familiar. É frente a esse movimento que a
pesquisadora propõe investigar: quais as implicações emocionais podem ocasionar
o nascimento do primeiro filho na relação conjugal?
Para investigar as transformações e reorganizações ocasionadas pela
entrada na parentalidade, foi utilizada uma pesquisa bibliográfica, com base em
autores que têm se implicado com a necessidade de repensar as vivências
conjugais a partir de novas percepções de configuração e ajustamento familiar na
contemporaneidade. Tendo como referencial: Carter & McGoldrick (1995) Ariés
(2006) Badinter (1985); Souza (1997) Ferés-Carneiro (2005); Anton (2006).
O terceiro capítulo expõe os processos metodológicos e posteriormente a
análise do conteúdo colhido a partir das entrevistas, articulando os resultados com
revisão teórica realizada. Utilizou-se da pesquisa exploratória de natureza
qualitativa, quanto aos meios de investigação é uma pesquisa bibliográfica e
pesquisa de campo. (VERGARA, 2009). A coleta de dados foi realizada através de
entrevista semi-estruturada proposta por Minayo (2000), tendo como participantes
quatro casais primíparos1. Como método de análise foi realizado a análise de
conteúdo na perspectiva de Bardin (2007).
Assim sendo, esta pesquisa visa contribuir para compreensão dos casais
primíparos e futuros pais sobre a saúde da família e a saúde mental dos casais,
depois, contribuir para promoção desta, ressaltando as implicações e ajustamentos
da relação conjugal com o nascimento de um filho. Na intenção de ser geradora de
uma ação preventiva para as famílias, abordando o nascimento de um filho como um
desafio familiar. Propondo uma atenção ao fortalecimento dos vínculos familiares.
Assim, esta pesquisa se configura inclusive como ação potencializadora das
políticas de atenção à família.
1
Casais com apenas um filho.
15
Para finalizar, faz-se de forma geral algumas considerações das relevâncias
acerca do estudo realizado e dos achados da pesquisa. A partir da análise do
conteúdo, percebeu-se que a chegada do primeiro filho suscita inúmeras
transformações na vida dos cônjuges, principalmente no que se refere à relação
conjugal. Percebe-se também que a forma de enfrentamento dessas mudanças é
singular a cada cônjuge. A maneira como os casais vivenciam as novas demandas
que surgem a partir da chegada do primeiro filho, podem ocasionar para uma
redução do vínculo afetivo e da satisfação entre os casais, ou o aumento da
maturidade e cumplicidade entre os cônjuges.
16
2.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1
Um breve trajeto histórico sobre a família da Idade Média à
Contemporaneidade
Quando se pensa em família popularmente, se vem logo à mente uma
estrutura desenvolvida a partir da união de um casal, os quais têm uma relação
recíproca de afeto e de um querer bem. Duas pessoas carregadas de valores e
princípios individuais, que vem de duas famílias distintas para constituir uma nova
família.
Para Groeninga (2003, p. 126) “a família é sistema de relações que se traduz
em conceitos e preconceitos, idéias e ideais, sonho e realizações. Uma instituição
que mexe com nossos mais caros sentimentos. Pragmática para outros
relacionamentos, célula mater da sociedade”. O dicionário traz as seguintes
definições:
1. pessoas aparentadas que vivem, na mesma casa, particularmente
o pai, a mãe e s filhos. 2. Pessoas do mesmo sangue. 3. Origem e
ascendência. 4. O conjunto dos caracteres ou dos tipos com o
mesmo desenho básico. 5. Reunião de gêneros. A que é constituída
pelo casal e seus filhos. (FERREIRA, 2008, p.396)
Diante da diversidade de conceitos que é possível encontrar sobre família,
ressalta-se que não é fácil defini-la, se é que se pode conceituar, pois mesmo sendo
um termo utilizado mundialmente, existe a influencia cultural, de gerações, que
modificam a percepção do indivíduo sobre esta, como também pode existir a
implicação subjetiva de cada sujeito ao defini-la. Souza (1997) contribui afirmando
acreditar que família tem uma definição única para cada pessoa.
Groeninga (2003) pontua que o conceito de família sofre influencia ao longo
da história e varia de acordo com os diferentes contextos culturais, a autora afirma a
família como “um caleidoscópio de relações que muda no tempo de sua constituição
e consolidação em cada geração, que se transforma com a evolução da cultura, de
geração para geração.” (GROENINGA 2003, p.126)
A partir da diversidade que envolve o conceito de família, e das mudanças em
sua configuração percebida no decorrer das gerações, percebe-se nitidamente que
17
esta instituição foi marcada e sofre influencia da evolução da sociedade. O
desenvolvimento da família está implicado junto aos fatores que a mobilizam como o
âmbito político, social, econômico, tecnológico entre outros eventos que fazem parte
desta dinâmica. Groeninga (2003, p. 137) pontua que “[...] a finalidade da família,
embora sofra variações históricas, mantém-se essencialmente como instituição
estruturante do indivíduo”. Groeninga (2003) declara que mesmo com o passar do
tempo a família foi, e sempre será o núcleo básico de qualquer sociedade. Deste
modo será feito um trajeto histórico da Idade Média à contemporaneidade, buscando
destacar as principais mudanças ocorridas no âmbito familiar com o passar dos
tempos.
Segundo Ariès (2006), nos moldes da família medieval encontrava-se uma
realidade mais moral e social do que sentimental. Já no século XVI a percepção de
família modificou-se profundamente, passando a vivenciar uma realidade em torno
do casal e da criança, em que o elemento afetivo ganhou valor social.
A família medieval se caracterizava pelos agrupamentos familiares maiores e
o acúmulo de bens, sem expressão de afeto, em que a criança não tinha
significação, eram consideradas um pequeno adulto, não existia o sentimento ou a
compreensão da singularidade da infância, sendo esta ignorada. Ariès (2006, p. 104)
pontua que “o apego à infância e a sua particularidade não se exprimia através da
distração e da brincadeira, mas através do interesse psicológico e da preocupação
moral. A criança não era divertida nem agradável.”
A infância na idade média era curta, terminava ao a criança ser desmamada,
assim que deixava os cueiros passavam a ser vestidas como pequenos adultos,
Ariès (2006, p.46) pontua que “[...] a idade de sete anos marcava uma etapa de
certa importância era a idade geralmente fixada pela literatura moralista e
pedagógica do século XVII para a criança entrar na escola ou começar a trabalhar”.
Havia uma transformação na vida das crianças, seus trajes eram mudados, lhe eram
atribuídos responsabilidades e novas atividades. Passavam a fazer parte
efetivamente do círculo dos adultos de cada gênero, ampliando suas relações
sociais, iam a festas e dançavam junto aos adultos, eram obrigados a abandonar os
jogos da infância e passar a brincar com jogos adultos. (ARIÈS, 2006)
De acordo com Ariès (2006), as crianças permaneciam vinculadas às suas
famílias por pouco tempo, assim que podia viver sozinha, a criança ingressava na
sociedade dos adultos e não se distinguia deles, a criança era socializada longe do
18
ambiente familiar, como também era treinada em tarefas adultas. Segundo Ariès
(2006), os adultos mantinham uma relação com as crianças sem reservas, permitiam
tudo, falavam vulgaridades, em uma linguagem grosseira, até mesmo temas
sexuais, as crianças participavam de todas as discussões.
Segundo o mesmo autor, as crianças eram separadas de suas famílias para
que sua educação fosse realizada por outra unidade familiar, como também estas
famílias recebiam outras crianças em casa com a mesma finalidade. Neste contexto
torna-se claro que a afetividade na família não era um pressuposto para sua
instituição nem mesmo ressentia-se como valor social; contudo, isso não quer dizer
que os pais não amassem seus filhos.
Como não havia lugar para a escola na transmissão da aprendizagem, a
educação se dava a partir da inserção da criança nas novas famílias, que tinha
como finalidade partilhar da vida familiar, aprender um ofício e desta forma iniciar na
vida adulta. Prática exercida independente da condição social era um hábito comum
a todos. Analisando esse sentimento de família e transmissão de aprendizagem,
Ariès (2006, p. 157-158) pontua que:
As pessoas não conservavam as próprias crianças em casa; enviamnas a outras famílias, com ou sem contrato, para que com elas
morassem e começassem suas vidas, ou, nesse novo ambiente,
aprendessem as maneiras de um cavalheiro ou um ofício (...) a
família não podia portanto, nessa época, alimentar um sentimento
existencial profundo entre pais e filhos. Isso não significava que os
pais não amassem seus filhos.
A criança era considerada um aprendiz, na qual todos os ensinamentos eram
passados por um mestre através dos serviços domésticos, este transmitia a
bagagem de conhecimento diverso que possuía, experiências práticas e seus
valores humanos. O mestre não eram os pais, eram outros homens, a quem as
crianças deviam respeito. (ARIÈS, 2006)
O ressurgimento da escola foi um marco na história da família no século XVII,
pois esta passa a ser responsável pela educação, a aprendizagem tradicional foi
substituída pela escola. Segundo Ariès (2006) quando a escola torna-se responsável
pela aprendizagem, há a aproximação tanto dos membros da família, pais e filhos,
como do sentimento de família e de infância, até então separados. A criança passa
então a ser notada pela família, o que possibilitou uma maior participação dos pais
19
na vida do filho. “Houve casos em que a aprendizagem perdeu seu caráter empírico
e assumiu uma forma mais pedagógica.” (ARIÈS, 2006, p. 157)
Segundo Ariès (2006), o sentimento da família, que emerge nos séculos XVI e
XVII, é inseparável do sentimento da infância. Aparecem as novas intervenções da
educação, direcionado a conselhos aos pais sobre como educar seus filhos. A
educação não é mais voltada para as boas maneiras, passa-se a dar importância à
escolha de uma escola e de um ofício. O objetivo era instruir a própria família sobre
seus deveres e suas responsabilidades, e aconselhá-la em sua conduta com relação
às crianças. “O clima sentimental era agora completamente diferente, mais próximo
do nosso, como se a família moderna tivesse nascido ao mesmo tempo que a
escola, ao menos, que o hábito geral de educar as crianças na escola” (ARIÈS,
2006, p.159)
Mesmo com a educação acessível para a sociedade, a mesma continuou
restrita a alguns, a extensão da escolaridade para as meninas era limitada, poucas
frequentavam escolas, a aprendizagem era direcionada a experiências domésticas,
continuando a serem educadas em casa. Para os meninos, deu-se primeiramente
para a camada média da sociedade, assim parte da sociedade permaneceram fiéis a
antiga aprendizagem. A ampliação da escola para todas as classes sociais deu-se
paulatinamente. (ARIÈS, 2006)
Neste contexto, de acordo com Ariès (2006), havia o esforço dos pais e dos
magistrados urbanos em multiplicar as escolas com a finalidade de aproximá-las das
famílias, e no início do século XVII criou-se uma rede densa de instituições
escolares. “Esse fenômeno comprova uma transformação considerável da família:
esta se concentrou na criança, e sua vida confundiu-se com as relações cada vez
mais sentimentais dos pais e dos filhos” (ARIÈS, 2006, p. 160)
O autor afirma que os problemas morais surgem a partir de uma nova visão, a
sociedade passa a visualizar de uma maneira diferente alguns aspectos, neste caso
a preferência do primogênito, como costume, os filhos mais velhos eram
privilegiados. Fato que segundo Ariès (2006, p. 161), “[...] a partir da segunda
metade do século XVII, os moralistas educadores contestaram a legitimidade dessa
prática, que, em sua opinião, prejudicava a equidade, repugnava a um sentimento
novo de igualdade de direito à afeição familiar”.
De acordo com Ariès (2006), de fato o respeito agora direcionado à igualdade
entre os filhos de uma família é uma amostra do movimento gradativo, que a família
20
realiza da família-casa em direção a família sentimental moderna, passando a haver
uma afeição entre os membros da família, entre os pais e os filhos.
É importante enfatizar a relação inseparável entre o sentimento de infância e
família. De acordo com Ariès (2006) este processo de definição da infância como um
período distinto da vida adulta também abre as portas para uma análise do novo
lugar assumido pela criança e pelas famílias na sociedade moderna, o autor
acrescenta ainda que,
A família cumpria uma função – assegurava a transmissão da vida,
dos bens e dos nomes – mas não penetrava muito longe na
sensibilidade [...] A família deixou de ser apenas uma instituição do
direito privado para a transmissão dos bens e do nome, e assumiu
uma moral e espiritual, passando a formar os corpos e as almas. O
cuidado dispensado às crianças passou a inspirar sentimentos novos
[...] o Sentimento Moderno da Família. (ÀRIES, 2006, p.193-194)
Ariès (2006) comenta que toda essa reorganização no sentimento familiar
também refletiu na reorganização da casa, e as mudanças dos costumes
proporcionou maior intimidade para a família, pois a casa passou a excluir os
criados, amigos e clientes, centrando-se nos pais e nas crianças. Esse novo
sentimento pode ser percebido também entre a mãe e a criança, havendo um maior
estreitamento dos laços afetivos, pois até então os cuidados às crianças eram
realizados por amas e servas.
Hábitos que antes eram características marcantes passam a não serem mais
utilizados, a vida social passa a ser planejada, não se fazia visitas a qualquer hora,
sem antes avisar, os ambientes passaram a serem divididos, sendo cômodos, as
camas passam a serem reservadas no quarto de dormir. Ressalta-se que nesta
época passa a haver conforto, que junto surge à intimidade, a discrição e o
isolamento. Ariès (2006). O autor ainda contribui ao assegurar que:
No século XVII, a família começou a manter a sociedade a distância,
a confiná-la a um espaço limitado, aquém de uma zona cada vez
mais extensa de vida particular. A organização da casa passou a
corresponder a essa nova preocupação de defesa contra o mundo.
Era já a casa moderna, que assegurava a independência dos
cômodos fazendo-os abrir um corredor de acesso. (ÀRIES, 2006,
p.184-185).
A família passa cada vez mais a caracterizar-se como instituição privada,
passa a separar a vida em família, privada, da vida mundana, da vida profissional,
cada função passa a ser exercido em um ambiente específico e adequado. Sem
21
dúvidas o aumento da vida privada foi fator que beneficiou a intimidade familiar,
porém ainda estava longe de configurar-se como a vida interior da família moderna.
(ARIÈS, 2006)
Estudos atuais mostram como a vida coletiva vai dando lugar a um
espaço privado de vida. As casas modificam sua arquitetura para
reservar aos indivíduos locais privados; os nomes se individualizam;
roupas, guardanapos e lençóis ganham marcas, de modo a permitir
sua identificação. A vida do trabalho sai de casa para fábrica,
modificando o caráter da vida pública. A casa torna-se lugar
reservado à família que, em seu interior, divide espaços, de forma a
permitir lugares mais individuais e privados. Os banheiros saem dos
corredores para se tornar lugares fechados e posteriormente
individualizados. (BOCK, 2001, P. 19)
Neste período Ariès (2006) ressalta um fato que também contribui para os
contornos tomados pela família foi o tratado de civilidade que é o que hoje nos
referimos como o conhecimento da sociedade, era a forma de conduzir-se em
sociedade. Ariès (2006, p.169) pontua que “de fato a civilidade era a soma dos
conhecimentos práticos necessários para viver em sociedade, e que não se
aprendia na escola”, era aprendido através da prática. De acordo com Ariès (2006)
as famílias burguesas passaram vários anos direcionados por costumes e regras
provenientes dos manuais de civilidade.
Neste mesmo cenário, é pertinente falar sobre a constituição inicial da
instituição familiar, o casamento, este significava a celebração de um contrato entre
os noivos, estipulando os direitos de cada um. A herança, a propriedade e os dotes
eram os principais motivos que fundamentavam estes casamentos arranjados.
Perrot (2009, p. 124) afirma que “o casamento é uma negociação, conduzida pelos
parentes (tias casamenteiras), pelos amigos, pelos próximos (padre), e todos os
seus fatores devem ser avaliados.”
É claro que também existiam casamentos por amor, mas estes verificavam-se
menos comuns. O casamento era estabelecido com a instituição de um dote, e o
amor, mesmo que existisse, não era fator a ser considerado, sendo assim Badinter,
(1985, p. 49) afirma que:
De tudo isso, atentemos para a ausência do amor como valor familiar
e social no período de nossa história que antecede a metade do
século XVIII. Não se trata, porém, de negar a existência do amor
antes de determinada época, o que seria absurdo. Mas é preciso
admitir que esse sentimento não tinha a posição nem a importância
que hoje lhe são conferidas.
22
Diante das idéias de Souza (1997), o casamento não se baseava numa
escolha afetiva entre parceiros, era fundado muito mais numa forma de obediência
às expectativas familiares e sociais. A base da relação era organizada a partir do
desempenho profissional, da fortuna e qualidades morais. “Os valores familiares
eram de grande importância nessa sociedade em que os indivíduos eram julgados
em função de êxitos e fracassos de sua família.” (SOUZA, 1997, p.25)
Como tradição característica da família, vale ressaltar acerca do casamento, o
qual também sofreu influencia dos avanços sociais, antes a relação do casal se
restringia a manter a família e procriar. O casamento também foi marcado pela
instituição de dotes e a falta de amor. Costa (2005) pontua que com o advento do
Cristianismo (323 d.C.) o casamento passa a ter um significado sacramental,
indissolúvel, o qual toma a conotação de sagrado, assim alia-se ao casamento a
noção de pecado, castigo e adultério, fatos considerados crimes. Segundo Costa
(2005) o sentimento de amor passou a ser valorizado na Idade Moderna, o sexo
passa a não ser um ato tão pecaminoso sendo associado ao amor, com também a
escolha do parceiro passa a ser livre.
Diante das construções desenvolvidas até este momento, já é possível
perceber as características da família moderna, a partir do reconhecimento da
importância da educação na vida das crianças; através do surgimento do sentimento
de família que proporcionou a intimidade dentro do lar, trazendo a criança para perto
dos pais, as funções paternas e maternas foram se delineando e passam a serem
exercidas pelos próprios pais, desencadeando uma relação de afeto, que antes não
acontecia de maneira apropriada e verdadeira.
A modernidade apresenta um clima sentimental totalmente diferente, fundado
no amor romântico, havendo um reconhecimento e estreitamento dos laços afetivos,
sendo este marcado pela separação entre família e sociedade, entre privado e
público. Segundo Ariès (2006) a nova configuração familiar foi se moldando de
acordo com as mudanças sociais que estavam acontecendo na sociedade. A família
moderna passar a existir com uma nova roupagem, com um novo olhar para o
âmbito familiar e para quem a compõem, sendo aos poucos tomada pelos
sentimentos contemporâneos.
A contemporaneidade nos aponta mudanças nas estruturas familiares,
modificações consideradas importantes que marcam de forma significativa as
23
possibilidades de conjugalidade no âmbito familiar, acarretando mudanças nos
papéis e na dinâmica em seu interior, como também alterando sua estrutura no que
diz respeito à composição familiar.
Segundo Saliba e Saliba (2007) o papel do homem e mulher variou bastante
no decorrer da história da sociedade e da família. Nos primórdios as mulheres eram
exaltadas, considerada Deusas, poderosas, pois possuíam o poder de gerar vidas,
aproximando-as da divindade, sendo elas consideradas superiores aos homens.
Com o avanço da história o homem entra em ascensão, passa a ser
considerado por várias gerações o modelo patriarcal de família, caracterizado pela
autoridade e poder do chefe da família, na qual a esposa e os filhos são submissos
ao pai. O modelo patriarcal era marcado pela estrutura familiar extensa, formada não
só pelo núcleo conjugal e filhos, mas também familiares e agregados, dando
importância fundamental ao núcleo conjugal. A partir do patriarcalismo é possível
indicar de forma mais clara os papéis sociais marcados até os dias atuais na cultura
e sociedade a serem realizados pelo homem e pela mulher. (RABONI, 2008)
Bruschini (1993, apud PINHEIRO, 2008, p. 01) “caracteriza a família patriarcal
pelo controle da sexualidade feminina e regulamentação da procriação, para fins de
herança e sucessão”. Outra contribuição relevante é exposta por Freyre (1990, apud
PINHEIRO, 2008) ao caracterizar nesta família a mulher como esposa dócil,
submissa, entretanto de grande importância na educação dos filhos, na organização
do lar e que em muitos momentos assumia a função de chefe da família na ausência
do patriarca. Até meados do século passado, este modelo familiar predominante foi
à chamada família tradicional.
Durante muito tempo o perfil da família era estabelecido com o homem sendo
provedor e a mulher cuidadora do lar e responsável pelos filhos. Segundo Almeida
(1987 apud MONCORVO, 2008) esta configuração patriarcal posteriormente servirá
como exemplo para a constituição da família nuclear burguesa moderna. A
constituição da família nuclear foi de grande importância para a sociedade, segundo
Alves (2009, p. 7) “Este tipo de estrutura familiar difere da tradicional família
patriarcal, pois é composta apenas pelo núcleo principal representado pelo chefe da
família (pai), sua esposa e os seus descendentes legítimos.”
Segundo Silva (s/d) a transformação desse modelo de família patriarcal
adveio do progresso da industrialização, passando para o modelo de família
conjugal moderna, constituída pelo casal e seus filhos, típico da sociedade urbana.
24
“Neste caso a relação conjugal já não possui mais em sua essência a manutenção
de uma propriedade comum ou de interesses políticos, mas agora sua essência está
voltada também para a satisfação de impulsos sexuais e afetivos.” (CORRÊA, 1982
apud SILVA, s/d, p. 01).
Para Mello (2000, apud SILVA, s/d), o modelo da família nuclear tradicional, é
caracterizado pela figura do pai como chefe de família e pela mãe que vive na
dedicação e no cuidado na educação dos filhos e na atenção a casa, este modelo
“[...] é aclamado pelas pessoas e até mesmo pela mídia, que o veicula como um
modelo ideal de família.” Mello (2000, apud SILVA, s/d, p. 01).
Segundo Henriques, Féres - Carneiro e Magalhães (2006) os sentimentos de
família e de intimidade foram se consolidando gradativamente e aproximando da
noção de família moderna.
A noção do indivíduo moderno está profundamente associada a
nuclearização da família, que se afasta da comunidade de parentes,
e se constitui de uma forma mais condizente com a valorização da
atitude individualista e dos novos espaços urbanos (industrialização e
mudanças socioeconômicas). (VELHO, 1987 APUD HENRIQUES;
FÉRES - CARNEIRO E MAGALHÃES, 2006, P. 331)
Como vimos importantes modificações têm ocorrido na estrutura da família.
Na
contemporaneidade,
particularmente,
são
cada
vez
mais
notórias
as
transformações da configuração familiar, percebendo-se uma variedade de modelos,
estruturas e de pluralidade que a família se apresenta. Há uma atenuação do
modelo nuclear, considerado há muito tempo o modelo tradicional de família para a
sociedade, em que geralmente o homem é o chefe da família, exercendo o poder
sobre esta instituição, na qual a mulher ocupa o lugar de cuidadora do lar, passa-se
a perceber que não existe apenas um modelo de família e sim uma multiplicidade.
Percebe-se uma diversidade de arranjos novos para se viver em família, há
um fortalecimento da pluralidade de constituição de novos moldes familiares, como
as famílias monoparentais, formadas por pai e filhos ou mãe e filhos; as
homoparentais, constituídas por cônjuges do mesmo sexo; as famílias reconstituídas
caracterizada pela união de duas pessoas e seus filhos de casamentos anteriores,
constituindo assim uma única família, entre outros modelos. De acordo com
Henriques, Féres - Carneiro e Magalhães (2006, p 332) “novos papéis foram
prescritos, limitando o do marido e pai e ampliando, sobretudo, o de mulher e mãe;
25
as conquistas dela no campo do trabalho, do sexo e da luta pela igualdade de
condições foram fundamentais para essas alterações.”
Em todo o mundo, o conceito de família nuclear e a instituição
casamento intimamente ligada à família, passaram por
transformações. A expressão mais marcante dessas transformações
ocorreu no final da década de 60: cresceu o número de separações e
divórcios, a religião foi perdendo sua força, não mais conseguindo
segurar casamentos com relações insatisfatórias. A igualdade
passou a ser um pressuposto em muitas relações matrimoniais. A
partir daí, surgem inúmeras organizações familiares alternativas:
casamentos sucessivos com parceiros distintos e filhos de diferentes
uniões; casais homossexuais adotando filhos legalmente; casais com
filhos ou parceiros isolados ou mesmo cada um vivendo com uma
das famílias de origem; as chamadas “produções independentes”
tornam-se mais freqüentes; e mais ultimamente, duplas de mães
solteiras ou já separadas compartilham a criação de seus filhos.
(ALVES, 2009, p. 110)
De acordo com Henriques, Féres - Carneiro e Magalhães (2006), na
atualidade convive-se com três tipos de família, a tradicional, caracterizada pela
autoridade paterna; a moderna, marcada por ser a mais nuclear e influenciada pelo
individualismo, sendo pouco ligada a laços de parentesco, centrada no afeto entre
os seus membros; há também, a pluralística, caracterizada pelos novos arranjos
familiares, sendo mais flexíveis e igualitárias e menos permanentes.
O modelo hierarquizado, carregado de rigidez, começa a dar espaço a um
modelo horizontalizado, enriquecendo os relacionamentos familiares, o que
caracteriza a família igualitária.
No âmbito familiar, a horizontalização das relações interpessoais
inaugurou o conceito de família igualitária, noção que, em linhas
gerais, foi forjada em um reino de pluralidade de escolhas no qual as
diferenças individuais são percebidas como mais importantes que as
sexuais e de idade. Sendo assim os papéis familiares sofreram
mudanças expressivas, o território familiar deixou de ser uma
microarena, como na geração passada, e tornou-se um espaço
democrático e privilegiado, em que sobressaem a segurança, a
confiança e o apoio entre os membros. (HENRIQUES, FÉRES CARNEIRO e MAGALHÃES, 2006, p. 333)
É pertinente ressaltar a busca pela família igualitária, esta que atualmente é
muito comum na sociedade. Souza (1997) afirma que a partir do advento da pílula
anticoncepcional, que naturalmente ocasionou a liberação da sexualidade da
mulher, incentivou esta a buscar uma igualdade com o homem, fato que contribuiu
não só na relação conjugal, como para entrada no mercado de trabalho e para a
26
participação na economia doméstica. O homem não é mais o senhor detentor do
poder absoluto e a mulher não é mais submissa, ela antes exclusiva do lar, ingressa
no mercado de trabalho, fato que surge a famosa “dupla jornada”, dividindo com o
homem o papel de provedora de bens e educadora dos filhos, fato que assinala a
transformação das relações da família, na direção da forma igualitária. Acrescentase que,
A busca de igualdade se faz sentir em todos os momentos da vida:
decisões conjuntas e não mais unilaterais, cuidados compartilhados
com os filhos e, sobretudo na área das relações sexuais. A fidelidade
se transforma em compromisso recíproco entre os parceiros, da
mesma maneira que o prazer é considerado um direito de ambos.
(SOUZA, 1997, p.27)
Souza (1997) expõe que mesmo com o fortalecimento dos laços afetivos,
foram se desenhando novos eventos que marcam a família atual, não só na
distribuição de poderes e tarefas, como também a redução do número de membros
na família, enfatizando o número de filhos principalmente nas áreas urbanas, devido
a inúmeros fatores tanto de social, emocional, como os fatores culturais,
econômicos.
A partir do momento em que as pessoas passaram a se casar por amor, a
família foi deixando de se configurar essencialmente como um núcleo meramente
reprodutivo e com interesses econômicos, o afeto passa a fazer parte dessa
configuração.
A família pela perspectiva histórica, tem-se apresentado em diversas
composições, em que pode-se afirmar que não existe um único modelo familiar.
Frente
a
esse
panorama,
o
interesse
da
pesquisa
é
discorrer
idéias,
especificamente, diante a família nuclear contemporânea, formada por pai, mãe e
filhos, uma vez que o estudo tem como foco principal as implicações que a transição
para parentalidade suscita na relação conjugal.
A escolha da pesquisadora foi ter por base o modelo da família nuclear, pois o
interesse da pesquisa é estudar as implicações da parentalidade após o nascimento
do primeiro filho, num contexto de nucleação pai-mãe-filho. Mesmo diante da
multiplicidade de entidades familiares na contemporaneidade, a família nuclear ainda
é referenciada por muitos como representação do que seja família. Ribeiro (2011)
corroborou isso em sua pesquisa realizada com crianças, ao afirmar que a
representação social de família para a maioria das crianças entrevistadas é pai, mãe
27
e filho. Assim percebe-se que na transmissão geracional do modelo de família, a
unidade nuclear ainda prevalece.
Tendo esse modelo da família nuclear contemporânea como base, observase as grandes complexidades de ordem emocional, econômica, social que esta se
depara, passando assim a enfrentar momentos de ajustes em sua configuração
podendo acarretar vários conflitos, que mediante ao grau de maturidade do casal
chega-se a um entendimento, ou se não, pode assim ocorrer uma separação.
De fato, tratando-se de um casal, a família existirá a partir do momento em
que duas pessoas decidirem viver juntos, tendo como justificativa mais comum: o
amor, assim cria-se um mundo novo, um mundo diferente: uma família. Em sua
maioria a família é constituída por relações de amor, a partir de um amor conjugal, e
é nesse contexto que poderão vir os filhos, que se incorporarão ao projeto de vida
idealizado por seus pais, passando assim para uma condição de parentalidade.
2.2
O nascimento do primeiro filho: Conjugalidade X Parentalidade
A idéia sobre família vem ao longo dos anos marcada sempre por novas
configurações advindas de um processo de transformação, passando por
adaptações e progressos na sua estrutura, mudanças estas ocasionadas pela
interação com o dinamismo da família junto às relações histórico e sócio-cultural.
Segundo Ariès (2006), o casamento era instituído através de um contrato,
fundado em interesses sociais e econômicos. Era negociado pelo um dote, não
havendo a prerrogativa da afetividade para sua instituição como também era
marcado pela desigualdade de sexo.
Dentro deste contexto de transformação no âmbito da família, Lewis (1970)
ressalta ao longo da história cinco formas de família diferentes e sucessivas,
fundadas cada uma em um matrimônio característico. A família consanguínea,
caracterizada pelo intercasamento de irmãos e irmãs; a família punaluana, instituída
no casamento de várias irmãs carnais e colaterais, com os esposos de cada uma
das outras em um grupo; a família sindiásmica, caracterizada pelo casamento entre
casais individuais, porém sem obrigação de exclusiva coabitação; a família patriarcal
constituía-se na união de um homem com várias mulheres; e por fim, a família
monogâmica, constituindo-se na união de casais individuais, com a coabitação
exclusiva dos cônjuges.
28
De acordo com Engels (2000), foi a partir da família sindiásmica que se deu o
desenvolvimento da família monogâmica. Esta instituição prevalece nos moldes da
sociedade moderna brasileira, pois como fator cultural homens e mulheres vivem em
um relacionamento a dois de exclusividade, em que um ou outro não pode ter mais
de um cônjuge. É geralmente nesse cenário que o casamento acontece, do desejo
de união e cumplicidade de duas pessoas. “Esse movimento leva uma
reestruturação da noção de conjugalidade, presentemente baseada na escolha
individual do parceiro, privilegiando a satisfação individual, gerando uma sobrecarga
de expectativas entre os sujeitos.” (FÉRES-CARNEIRO, 2003, p. 6)
Na modernidade, o amor passa a ser estimado, e o casamento passa
acontecer também a partir de um envolvimento afetivo entre os parceiros. De acordo
com Féres-Carneiro (2003), o casamento passa a representar um acontecimento
revestido de forte significação na vida dos cônjuges, passando a ser levada em
consideração uma maior proximidade entre os sujeitos, um maior grau de intimidade
e envolvimento afetivo, fatos permitidos a partir da nuclearização da família. “O
casamento passa a ser considerado uma escolha individual e autônoma, baseada
em laços de afeto e de afinidade.” (FÉRES-CARNEIRO, 2003, p. 6)
O casamento tem assumido formas novas e variadas, que com as rápidas
transformações marcam a constituição da família contemporânea. Segundo FéresCarneiro (s/d b, p. 2) “no contexto social contemporâneo, múltiplos arranjos
conjugais,
dos mais tradicionais aos mais
modernos,
se
constroem,
se
desconstroem e se reconstroem, em seguida, num ritmo acelerado”. Assim, o casal
contemporâneo depara-se com uma série de possibilidades de viver a sua
conjugalidade, casais que, mesmo morando juntos, decidem não oficializar o
relacionamento; homens e mulheres que decidem pela produção independente;
casais homoafetivos que recorrem à inseminação artificial, entre tantas outras
possibilidades de exercício da parentalidade.
A conjugalidade nos dias atuais, pode ser compreendida como a construção
de um vínculo que engloba projetos de vida e une duas pessoas, geralmente por
amor. O casamento é ainda um sonho de muitos, que visam compartilhar suas vidas
em busca da felicidade, com alguém que julgam ser especial, marcado pela
intimidade e por outros inúmeros sentimentos que pode ou não durar “até que a
morte os separe”. Segundo McGoldrick (1995, p. 18) “o casamento tende a ser
erroneamente compreendido como uma união de dois indivíduos. O que ele
29
realmente representa é a modificação de dois sistemas inteiros e uma sobreposição
que envolve um terceiro subsistema.”
[...] o casamento tem como função social criar para o indivíduo uma
determinada ordem, para que ele possa experimentar a vida com um
certo sentido. Para estes autores, a realidade do mundo é sustentada
através do diálogo com pessoas significativas e o casamento ocupa
um lugar privilegiado entre as relações significativas validadas pelos
adultos na nossa sociedade. (BERGER e KELLNER, 1970 apud
FERÈS CARNEIRO, 1998, p. 3)
Porém, pode-se ir mais além ao falar das relações na união conjugal, na qual
a maneira de relacionar-se nesta instituição assume uma diversidade de se viver na
contemporaneidade. Sousa (2006, p.42) afirma que a conjugalidade: “refere-se a
díade conjugal e que constitui um espaço de apoio ao desenvolvimento familiar”.
Tradicionalmente a conjugalidade dar-se início com a união do casal, em que o
homem e a mulher saem da individualidade para serem “nós”, segundo a concepção
cristã uma só carne.
Féres-Carneiro (2001, apud SCHÄFER E BOECKEL, s/d, p.6) “destaca que o
casamento contemporâneo representa uma relação de intensa significação na vida
dos indivíduos, pois envolve um alto grau de intimidade e um grande investimento
afetivo.” Atualmente, segundo Féres-Carneiro (1998), a sociedade contemporânea
não aceita que alguém case-se sem haver desejo ou amor. Os cônjuges
apaixonados não economizam as expressões de afeto, pois, cada vez mais as
relações tornam-se próximas e com um vínculo intenso. “O casal vive uma intensa
trama de gratuidade, amor, amizade, descobertas, re-descobertas, e jogos de poder.
São nas escolhas feitas, nas decisões tomadas e atitudes realizadas que a
construção do vínculo pode ser fortalecida ou enfraquecida”. (LOPÉS, 2008, p. 16)
A noção de conjugalidade, a partir da modernidade, passa a
pressupor a instauração da intimidade entre os parceiros, colocandoa como condição para uma relação fecunda, fundamentando o ideal
de complementaridade entre os parceiros e instrumentalizando a
legitimação do “eu” a partir do “nós” (FÉRES-CARNEIRO, 2003, p.3).
De acordo com estudos, Féres-Carneiro (1998) afirma que o vínculo conjugal
é estabelecido através da intensa relação entre dois indivíduos com histórias de vida
diferentes, com concepções diferentes sobre o mundo, mas que decidem construir
uma história em conjunto em busca da realização pessoal. A autora também faz
referência à construção da identidade conjugal e autonomia de cada cônjuge,
30
pontuando que o casal é a todo tempo confrontado por duas forças paradoxais: por
um lado, estimula-se a autonomia dos cônjuges, na qual cada um deve sustentar o
desenvolvimento
pessoal,
por
outro,
emerge
a
necessidade
de
viver
a
conjugalidade, os projetos conjugais, a realidade em comum. (FÉRES-CARNEIRO,
1998)
Costa e Katz (1992) pontuam que a procura de um cônjuge está relacionada à
satisfação sexual, ao receio de envelhecer só, ao desejo de ser admirado ou até na
obtenção de bens materiais e importância social. Ressalta-se a ideia trazida pelos
mesmos autores, ao pontuar, embasados na teoria psicanalítica, que experiências
da infância e os vínculos criados no convívio familiar neste mesmo período
configuram um padrão na mente da criança, o qual ela tenderá a repetir e a recriar
em diversas circunstâncias e em relacionamentos durante seu desenvolvimento.
“Este modelo infantil de relação atinge uma de suas culminâncias por ocasião do
casamento quando, melhor do que em qualquer outra situação, o indivíduo torna-se
protagonista da admirada, invejada e excludente relação dos pais.” (COSTA E
KATZ, 1992, p. 26). Estes mesmos autores afirmam que:
[...] as relações conjugais estruturam-se tendo como base as
primitivas relações de objeto, que cada cônjuge leva para o
casamento numa tentativa de repetir essas relações e resolver
conflitos com eles relacionados. Além disso enfatizamos que, em
todo o casamento, existe um contrato secreto que se mantém às
custas do interjogo de identificações projetivas. Dentro desta linha de
pensamento, destacamos que quando estas identificações projetivas
ocorrem numa atmosfera amorosa, o casamento tende a enriquecer
afetivamente os cônjuges. Ao contrário quando ocorre uma
atmosfera hostil, o casamento estrutura-se num nível patológico, cuja
tendência é o empobrecimento afetivo do casal. (COSTA E KATZ
1992, p. 119)
É pertinente dentro desse contexto fazer considerações sobre a escolha dos
cônjuges. Antes o que predominava era o homem responsável pela escolha da
esposa e a mulher apenas aguardava o interesse de algum homem. Com a
modernidade e as novas configurações da família, a escolha do parceiro passa
também a ser feita pela mulher, escolha realizada de acordo com seu desejo. “[...] a
singularização progressiva da escolha do parceiro e a exclusividade da relação
levaram à exaltação do espírito íntimo no casamento e ao incremento da
expectativas e complementaridade mútua conjugal.” (FÉRES-CARNEIRO, 2003, p.
7)
31
Ainda ao se falar de relações conjugais é relevante mencionar o sentimento
de intimidade nas relações amorosas citado por Féres-Carneiro (2003), a autora
declara a intimidade como a proximidade entre o eu e o outro, o qual se faz
importante por instaurar e favorecer ao estabelecimento do clima emocional para a
fusão das individualidades entre os parceiros, constituindo o campo da
conjugalidade.
O processo de construção do sentimento de intimidade prepara o
terreno para a instauração da conjugalidade tal como a conhecemos
nos tempos atuais. Essa conjugalidade ancora-se em ideais de valor
igualitário, assim como na idealização da relação conjugal, que
passa a ser considerada lócus privilegiado da afetividade. (FÉRES-
CARNEIRO 2003, p. 2-3)
Segundo Ferès Carneiro & Magalhães (s/d), a conjugalidade surge do
entrelaçamento de dois “eus”, a partir de duas subjetividades, seguindo na direção
de um terceiro “eu”, somando uma nova direção: a parentalidade.
No que diz respeito à família, a conjugalidade é fruto da união entre duas
pessoas, agora um casal, que juntos passam a decidir seus projetos de vida e
compartilhar o amor. A parentalidade é assinalada pelo surgimento do primeiro filho,
em que o casal passa agora além da conjugalidade a também exercer uma função
parental: o ser mãe e o ser pai. Sousa (2006, p. 41-42) afirma que a parentalidade:
Diz respeito às funções executivas, designadamente a proteção,
educação e integração na cultura familiar das gerações mais novas.
Estas funções podem estar a cargo não só dos pais biológicos, mas
também de outros familiares ou até pessoas que não sejam da
família.
Segundo Zorning (2010), a parentalidade é um termo recente, sendo utilizado
na literatura psicanalítica francesa a partir dos anos 60, marcando a dimensão de
processo e de construção no exercício da relação dos pais com seus filhos.
A chegada do primeiro filho assinala uma transformação na configuração
familiar, há uma continuação da função conjugal, porém há uma construção para a
função parental, havendo uma soma de funções, marido e mulher, pai e mãe. A
parentalidade marca o ciclo vital familiar, pois o investimento antes orientado
exclusivamente para a organização marido e mulher é compartilhado para uma nova
relação, a de pais e filho. Rivero (2006, p. 2) afirma que “o par conjugal não o deixa
de ser por se tornar também um par parental.”
32
Essa transição é marcada também pelas mudanças transgeracionais, por um
acréscimo de nomenclatura na relação conjugal, na qual são marido e mulher,
passa-se a também apropriar-se de novos papéis, o ser pai e o ser mãe, fato que
demanda inúmeras adaptações, pois a vida conjugal adquire uma nova direção, na
qual, o casal encontra-se diante de uma complexidade de sentimentos. Menezes
(2006, p.187) pontua que “a transição para parentalidade representa a possibilidade
de construção de um núcleo familiar único, ao qual apenas o casal e o novo bebê
pertencem, e o fortalecimento dos vínculos existentes entre os membros da família”.
Diante das inúmeras transformações as quais os cônjuges estão suscetíveis a
enfrentar com a chegada do primeiro filho e considerando a construção da
parentalidade como um grande desafio, como pontua Rivero (2006), pode-se
compreender que o casal, dependendo da intensidade da relação afetiva e de
cumplicidade que se vive, este momento, em que há a entrada de um terceiro
membro na configuração familiar, pode acarretar tanto no fortalecimento dos
vínculos, como também contribuir com a fragilidade destes.
Rivero (2006) afirma que a transição para parentalidade é considerado um
grande desafio para o casal, pois há a necessidade de adaptação a esta nova
realidade. O casal tem que assumir novas rotinas e responsabilidades além das já
existentes, como as atividades pessoais, conjugais e profissionais, e, sobretudo,
tendo que adaptar-se ao bebê. Segundo Pires (2008, p. 14) “tornar-se pai e mãe é
um ponto de viragem durante o qual a vida da pessoa adquire uma nova direção,
requerendo a adaptação ou a mudanças na vida e nos comportamentos que se
tem”.
Os elementos do casal irão deparar-se com uma nova imagem de si
e do outro, bem como irão experimentar emoções novas em
qualidade e intensidade, sendo que este processo de transformação
decorre de forma muito rápida e acompanhada de aprendizagens
constantes na prestação de cuidados com o bebê, com um sentido
de responsabilidade muito grande para além de incertezas
constantes. Assim, ter um filho implica não só dar a vida a um novo
ser humano como a um novo casal. (RIVERO, 2006, p.1)
É pertinente ressaltar que segundo Schuster, Anton, Fernandes (2006) o
nascimento do primeiro filho, inevitavelmente, acarreta uma reorganização em todo
o sistema familiar, o casal passa a ser pais, ocorres mudanças transgeracionais, na
33
qual surgem novos papéis familiares, os sogros passam à condições de avós e os
cunhados de tios.
Em relação à reorganização familiar, Rivero (2006) concorda ao também
afirmar o surgimento dos novos papéis familiares e completa afirmando que todos
irão de alguma maneira influenciar na dinâmica dos pais com o seu bebê. A autora
mostra a importância da participação da família de origem quando afirma que “a
forma como é gerida a relação do casal com cada uma das famílias de origem
poderá ser também um fator facilitador ou não desta nova fase de vida”. (RIVERO,
2006, p.1)
Menezes (2006) afirma que a transição para parentalidade, além da
maturidade emocional e do desejo de ser pai ou mãe, outros fatores concretos se
tornam presentes e inquietam os casais: a estabilidade financeira, o aumento dos
gastos, a contribuição de redes de apoio e a decorrência na carreira profissional.
Além disso, cabe destacar que essas modificações causadas na relação
conjugal com o nascimento de um filho exigem uma reorganização na dinâmica
enquanto casal, pois todo o investimento é agora também direcionado para essa
nova realidade. Novos papéis devem ser aprendidos, passando a serem cuidadores;
novas relações desenvolvidas, a necessidade da rede de apoio. Todas essas
mudanças podem ser geradores de prazeres e conflitos entre o casal.
2.3
A parentalização dos pais: As fantasias em relação ao nascimento do
primeiro filho
Independente de sua estrutura e configuração, a família é o espaço onde se
vive as emoções mais intensas e marcantes da experiência de uma pessoa, ter um
filho é uma delas. O casal passa a serem pais, progenitores de uma nova família, no
qual o investimento marido e mulher, que antes se era um para o outro, são agora
compartilhados para o novo membro, o primeiro filho. O casal passa a experienciar
concomitantemente o papel de cônjuges e o de pais.
A chegada do primeiro filho geralmente é carregada de um turbilhão de
sentimentos,
há
um
entusiasmo,
felicidades,
medos,
ansiedades.
É
um
acontecimento marcante na vida de um casal, segundo Maldonado (1988, p. 161) “o
filho, com seus múltiplos significados, é a concretização de muitas coisas sonhadas,
pensadas e planejadas anos antes da fecundação.” Há todo um preparo com a
34
chegada de um filho, a decoração do quarto, a compra de roupas, a busca por
informações de pessoas mais experientes na procura de serem bons pais, porém
por mais que muitas percepções sejam comuns a todos os casais, a forma de viver
as transformações na configuração familiar é única para cada casal e a intensidade
vai depender da estrutura de vida de cada uma.
Na maioria dos casos, a chegada de um filho é sinônimo de felicidade, de
plenitude, mesmo em alguns momentos quando não se é esperada. Felicidade de
poder gerar uma vida, de ter alguém que é seu. Entretanto existem outros fatores
que permeiam o nascimento, especialmente do primeiro filho, pois por mais comum
que pareça a chegada de um filho, esta, se configura em uma importante transição
na vida dos pais, que traz consigo necessidades de adaptações às novas
realidades, dificuldades e dúvidas que emergem ao longo do exercício parental.
Maldonado (1988, p. 161) afirma que “é no primeiro filho que costumeiramente
acontecem às transformações mais radicais: é quando homem e mulher deixam de
ser apenas filhos para tornarem-se também pais.”
O
nascimento
do
primeiro
filho
ocasiona
o
surgimento
de
novas
responsabilidades e tarefas para os dois cônjuges, as quais podem ter algumas
repercussões na relação conjugal. Assim, diante das novas atividades que
aparecem no decorrer da nova configuração enquanto família, a parentalidade
apresenta-se como um processo intenso na vida do casal e que permanece em
constante construção. (MENEZES, 2001)
Menezes (2001) afirma que o nascimento de um filho é um momento de
grande importância tanto na vida familiar e conjugal, como na vida individual.
Enfatiza o nascimento do primogênito ao pontuar este como um marco na transição
de casal para família e dos cônjuges para o mundo adulto. “Em função das
oportunidades e dos perigos que este momento evoca, o casal deve poder
renegociar seus valores e desejos, seu próprio papel no sistema e seu
relacionamento conjugal.” (MENEZES, 2001, p. 29)
Outros autores também pontuam a complexidade que corresponde à
transição para parentalidade. Almeida (2005 apud GAMERRO, CORRÊA e
GUENTER, 2008) afirma que a relação entre o casal aumenta a complexidade, para
poder dar conta das inúmeras transformações e mudanças de papéis. Emery e Tuer
(2003 apud, GAMERRO, CORRÊA e GUENTER, 2008) afirmam que a transição
para a parentalidade requer uma organização e uma acomodação do sistema
35
familiar às novas mudanças. Estes autores propõem diante desse momento uma
renegociação dos laços existentes e uma aproximação emocional na relação. “A
construção desses novos papéis, de pai e de mãe, se caracteriza a presença de
crises, descobertas e aprendizagens e pela necessidade de adaptações e do
estabelecimento de novas formas de interação na família.” (MINUCHIM, 1982 apud,
GAMERRO, CORRÊA e GUENTER, 2008)
Percebe-se neste contexto que ocorrem inúmeras mudanças, envolvendo
aspectos biológico, psicológico e social, havendo o aumento da complexidade da
relação do casal, momento que estes se deparam com um universo totalmente novo
e marcado por emoções intensas, pois se é exigido aprendizagem constante e
prestação de cuidado ao recém-nascido. Anton (2006 b, p178-179) pontua que:
Diante da chegada de um recém-nascido, a maioria dos pais,
principalmente os de primeira viagem, ficam ansiosos com a troca de
fraldas, choro, amamentação, banho, quantidade de roupa
adequada, como lidar com a cólica, etc. Pais e mães perguntam-se
se identificarão o motivo do choro do seu bebê, se saberão a
temperatura ideal da água e se o bebê está com frio e calor.
Em sua maioria neste período, os casais estão envolvidos pela sensação de
temor e apreensão. Segundo Maldonado (1988, p. 163) “especialmente na primeira
gestação, tudo é novidade: as sensações novas são frequentes, vividas com
apreensão, preocupação, surpresa.” Neste contexto, junto às emoções, surgem
desde a gravidez uma série de mudanças desde a rotina dos cônjuges, da
organização financeira, no trabalho, na organização da casa, como também na parte
emocional do casal.
É comum a mulher sentir-se insegura em relação ao seu parceiro, por se
achar gorda, por ter que dedicar quase todo seu tempo na prestação de cuidado ao
filho, por achar que deveria ter mais a participação paterna no cuidado com o filho
ou por achar que o esposo não a deseja como antes. “A maneira de se ver e de se
sentir, portanto varia imensamente: às vezes, a mulher se vê mais madura e
feminina; outras vezes, dissocia sexualidade de maternidade, bloqueando o prazer.”
(MALDONADO, 1988, p. 164).
Já o marido frequentemente sente-se deixado de lado pela esposa, em outros
casos prefere afastar-se, pois a considera nesse momento exclusiva do bebê. Esse
turbilhão de emoções e acontecimentos pode causar diversas implicações, em
36
vários âmbitos na vida do casal, afetivo emocional ou sexual, podendo comprometer
a satisfação e harmonia na relação conjugal.
Outro ponto a ser ressaltado é que a chegada do bebê é acompanhada por
muitas fantasias, se a realidade vai corresponder com o esperado pelos pais, se vão
conseguir dar conta da demanda. A mulher questiona-se se vai ter o apoio do
marido, e este, se vai perder a atenção da companheira. Costa e Katz (1992,p.81)
alegam que:
[...] um filho além das satisfações que os indivíduos e a sociedade
como um todo procuram evidenciar, também representa o
ressurgimento de inúmeros conflitos internos que repercutem no
relacionamento conjugal antes mesmo de seu nascimento.
O
nascimento
do
filho
desperta
desejos inconscientes e
fantasias
relacionadas à resolução de conflitos emocionais. Segundo Anton, (2006 b, p.179)
“ao mesmo tempo que se deseja, se tem medo. Ao mesmo tempo que se torce pelo
melhor, surge o sentimento de que não será capaz de fazer as coisas certas”. Nesta
perspectiva Costa e Katz (1992, p.42) afirmam que,
[...] desejo da maternidade é muito precoce e se inscreve durante a
infância nos conflitos pré-edípicos. O desejo de um filho pertence a
um registro diferente, constituindo o que vamos denominar de „ bebê
imaginário‟. Existem conflitos que surgem desta dupla inscrição. Ao
nascer o bebê, a mulher confrontará o filho imaginário com este, o
filho da realidade.
Costa e Katz (1992) completa ainda que a mãe também reconhece o seu pai
no seu filho que acaba de nascer, e frequentemente faz a ele uma transferência
paterna. “A maternidade é provada pela percepção sensorial direta enquanto a
paternidade está baseada numa hipótese que precisa ser confirmada.” (FREUD,
apud COSTA & KATZ, 1992, p. 63). Ainda com as ideias de Freud, a mãe, desde o
nascimento, compõe o meio natural do recém nascido, sendo indispensável a seu
cuidado e ao seu desenvolvimento. Assim, atendendo todas as necessidades do
bebê, a mãe torna-se representante do Princípio do Prazer. O pai, ao contrário, além
de ser considerado dispensável à sobrevivência da criança, apenas posteriormente
torna-se alvo de seu interesse, sendo esta ampliação, o primeiro passo em direção
ao Princípio da Realidade. (FREUD apud COSTA & KATZ, 1992).
Quando se deseja um filho, é o filho que se projeta, imaginariamente,
no futuro. Ter um projeto de ser pai/mãe é projetar-se a si mesmo no
37
futuro como pai/mãe desse filho. A forma como cada um se projeta
como pai ou mãe relaciona-se diretamente com os pais que eles
próprios tiveram, ou com outros modelos parentais . Para os autores,
os pais são os modelos de referência em relação aos quais nos
determinamos, seja querendo fazer como eles, ou contrariamente a
eles, seja tentando corresponder ao seu desejo, ou opondo-se a ele.
(SZEJER e STEWART, 1997 apud, MENEZES, 2001, p. 26)
O nascimento do primeiro filho pode representar por um lado uma realização
para os pais, e por outro, significa uma experiência de momentos difíceis e
angustiantes, fato que pode provocar medo e insegurança no casal. “O nascimento
de um filho reproduz a existência da própria humanidade, que tem uma origem
incerta e caminha para um futuro também incerto. Seu nascimento determina o
surgimento de sentimentos conflituosos e contraditórios nos pais.” (COSTA e KATZ,
1992, p. 77)
Costumo dizer que todo fascínio e toda dificuldade de ser casal,
reside no fato de o casal encerrar, ao mesmo tempo, na sua
dinâmica, duas individualidades e uma conjugalidade, ou seja, de o
casal conter dois sujeitos, dois desejos, duas inserções no mundo,
duas percepções do mundo, duas histórias de vida, dois projetos de
vida, duas identidades individuais que, na relação amorosa,
convivem com uma conjugalidade, um desejo conjunto, uma história
de vida conjugal, um projeto de vida de casal, uma identidade
conjugal. (FÉRES-CARNEIRO, 1998, p. 2)
Neste contexto, outro ponto que emerge com a chegada do primeiro filho, é a
recordação e a reavaliação dos pais em relação às sua vivências das experiências
iniciais da vida, sendo elas positivas ou não, na intenção de repetir as boas com o
filho e tentar deixar para trás as dolorosas. É a partir desse momento que se é
passado aos filhos como família, a noção de mundo, os valores, as crenças, o afeto
e a singularidade familiar. (WELLAUSEN, 2006).
Na relação enquanto casal e pais são tantas expectativas que surgem desde
a gravidez e que tem sua culminância com o nascimento do primeiro filho, marcado
pelo sentimento de ambivalência que permeia esse momento, os sentimentos de
felicidade, de perda, a angústia da diferença entre o que se é esperado e o que
realmente se vive, da sensibilidade que acompanha o casal neste período e o qual
ao mesmo tempo está sujeito a dificuldades na interação conjugal. Segundo
Menezes (2006), a maioria dos autores que se propõe a estudar a relação conjugal
acreditam que o nascimento do primeiro filho, tanto define o início da família, como o
fim do romance entre os casais.
38
Ao discorrer sobre a transição para a parentalidade, McGoldrick (1995, p.
149) afirma que durante essa transição os pais além de assumir a pesada
responsabilidade de criar um filho, tem que, ao mesmo tempo, manter seu próprio
relacionamento. “Compreende-se então, que nesta fase o principal desafio para o
casal é conseguir articular a conjugalidade com a parentalidade.” (PIRES, 2008, p
18)
Sendo esse momento de grande importância na vida dos cônjuges, vale
ressaltar que a história conjugal, a qualidade e intensidade de sua relação afetiva,
caracterizam fatores relevantes para definir como cada casal administrará as
transformações e demandas que surgem a partir da nova função parental, em
comum com as novas e as já existentes demandas da relação conjugal.
(MENEZES, 2006)
A partir da revisão das literaturas sobre família, especialmente as que
investigam a conjugalidade e a construção da parentalidade, é possível perceber
que o nascimento do primeiro filho marca uma importante transição na vida dos pais,
e que a vivência desta, demanda um intenso investimento e acarreta transformações
na vida do casal.
A partir disto, entende-se que as implicações na relação conjugal ocorridas
com a chegada do primeiro filho se apresentam como um tema promove algumas
inquietações. Assim sendo, procura-se investigar e discutir quais as repercussões
que a parentalidade suscita na conjugalidade.
39
3 PROCESSOS METODOLÓGICOS
A transição para parentalidade é um momento complexo para o casal. É
diante da importância do reconhecimento das singularidades desse momento, que
esta pesquisa além da análise bibliográfica, foi conduzida uma pesquisa de campo
nos padrões qualitativos de investigação. Tendo em vista que Minayo (2000) pontua
que a análise qualitativa corresponde a um espaço mais profundo das relações,
trabalha com o universo de significados das ações e relações humanas, com as
crenças, valores e atitudes, dos processos e dos fenômenos aos quais não podem
ser reduzidos à operacionalização variáveis, assim considera-se ser a mais
apropriada, pois a pesquisa discorre sobre as implicações do nascimento do
primeiro filho na relação conjugal.
3.1
Participantes (Amostra)
O tipo de amostra utilizada na pesquisa é a não probabilística por
acessibilidade, pois segundo Vergara (2003, p.47), está “longe de qualquer
procedimento estatístico, seleciona elementos pela facilidade de acesso a eles”,
dessa forma, levou-se em conta a disponibilidade e o interesse dos sujeitos em
participar da pesquisa. A pesquisa foi realizada com 4 casais adultos, o critério de
inclusão de sujeito na pesquisa é que fossem casais primíperos e com filhos
nascidos saudáveis, tendo estes qualquer idade. Os casais entrevistados foram
escolhidos por indicação ou pelo conhecimento da pesquisadora daqueles que
enquadraram-se aos critérios e que aceitaram ser entrevistados. As entrevistas
foram realizadas nas residências dos participantes em bairros variados, na cidade
de Belo Jardim - PE, por permitir maior conforto, privacidade e possibilidade de
riqueza de detalhes no discurso.
3.2
Instrumentos
A presente pesquisa adota a classificação proposta por Vergara (2003) que
sugere dois critérios básicos: quanto aos fins e quanto aos meios. Quanto aos fins,
esta pesquisa é classificada como qualitativa explicativa. Quanto aos meios de
investigação, é uma pesquisa bibliográfica e pesquisa de campo. Bibliográfica, pois
40
segundo Vergara (2003, p. 43) “[...] é um estudo sistematizado desenvolvido com
base em material publicado em livros, revistas, jornais, redes eletrônicas, isto é,
material acessível ao público em geral”. De campo, pois é também uma “[...]
investigação empírica realizada no local onde ocorre ou ocorreu um fenômeno ou
que dispõe de elementos para explicá-lo.” (VERGARA, 2003, p. 43)
Utilizou-se como instrumento para coleta de dados o questionário sócio
demográfico e entrevista semi-estruturada, o que permitiu uma delimitação maior do
objeto de estudo, de onde foram retiradas as informações necessárias para
continuação da pesquisa, a análise de conteúdo.
A entrevista, segundo Minayo (2000), é um meio de coletar informações
necessárias sobre determinado tema, sendo, particularmente, a semi-estruturada é
uma forma de permitir que o sujeito se expresse à luz de sua subjetividade, sem
haver nenhuma limitação de perguntas fechadas, abrindo uma possibilidade de
ampliar o campo das respostas, o que faz fluir o conteúdo de forma espontânea,
atingindo motivações não explícitas nas perguntas.
As entrevistas (APÊNDICE A) foram agendadas previamente, gravadas e
transcritas, respeitando os princípios éticos, após todos os participantes terem
assinado o TCLE- Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (APÊNDICE B), de
acordo com a resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde/MS sobre Diretrizes
e Normas Regulamentadoras de Pesquisa envolvendo seres humanos. Este é um
documento que visa o respeito à dignidade humana e a sua autonomia como sujeito.
Como não existe uma entidade representativa, não necessitou da carta de anuência,
recurso utilizado para obter autorização para realizar pesquisas em instituições.
Todos os procedimentos da pesquisa só foram iniciados após a submissão e
aprovação do Comitê de Ética.
3.3
Análises de conteúdos
Após a entrevista foi realizada a análise de conteúdo embasada na leitura de
Bardin (2007), a qual se utiliza de procedimentos sistemáticos e objetivos de
descrição do conteúdo, o que possibilita a identificação de algumas categorias. A
análise categorial proposta por Bardin (2007, p.147) “funciona por operações de
divisão do texto em unidades, em categorias segundo reagrupamentos analógicos.”
O autor afirma também que diante as possibilidades de categorização, a
41
investigação dos temas é rápida e eficaz na aplicação nos temas de significação,
além de facilitar a visualização dos principais fenômenos propostos pela pesquisa.
No processo de análise, inicialmente foi realizada uma leitura flutuante do
material colhido na entrevista, em seguida, o conteúdo representativo foi
selecionado em forma de recortes da fala, fragmentos relevantes para pesquisa,
identificando os principais temas trazidos no relato dos entrevistados, para assim
realizar a categorização de conteúdos.
Tabela 1. Dados sócio-demográficos.
Esta tabela foi elaborada a partir das entrevistas realizadas com os cônjuges,
no intuito de apresentar as especificidades socio-demográficos dos participantes da
pesquisa e melhor caracterizar posteriormente a análise dos dados.
Tabela 1. Dados sócio-demográficos – Especificidades das Famílias
Sexo
Local onde reside
Idade dos
companheiros
Idade dos
companheiros
Nível de Escolaridade
dos companheiros
Nível de Escolaridade
das companheiras
Profissão dos
Companheiros
Profissão das
Companheiras
Tempo de Casados
Idade dos filhos
Casal 1
Casal 2
Casal 4
Casal 3
Feminino
Masculino
Belo Jardim
4
4
8
24 anos
29 anos
41 anos
43 anos
27 anos
30 anos
43 anos
44 anos
Superior Completo
Superior Incompleto
Superior
Pós-Graduada
Professor
Bancário
Técn. Eletro Eletrônico
Professora
Educadora Física
14 anos
11 anos
4 anos
5 anos
1
1
1
1
1
1
1
1
2
2
2
2
2
1
1
3
1
1
1
1
1
11 anos
6 anos
4 anos
1 ano
1
1
1
1
42
3.4
Análise Categorial
Segundo Bardin (2007) a Análise de Conteúdo é um conjunto de instrumentos
metodológicos que se aperfeiçoa constantemente e que se aplicam a discursos
diversificados. Os participantes entrevistados foram identificados de uma maneira a
facilitar sua localização na análise. Os cônjuges foram sinalizados da seguinte
maneira: “Pai, casal 1” e “Mãe, casal 2” e assim para os demais casais
sucessivamente, como estratégia de resguardar a identidade de cada participante.
Tabela 2. Categorias e subcategorias
CATEGORIAS
Planejamento do Filho
SUBCATEGORIAS
1. Houve ou não Planejamento (foi ou
não desejado)
2. O recebimento da notícia da gravidez
Expectativa do casal frente o
exercício da parentalidade
1. Sexo do bebê
2. O exercício da paternidade e
maternidade
3. Dúvidas e preocupações no exercício
da parentalidade
4. Medos
5.Expectativa quanto ao futuro
Rede de Apoio
1. Apoio entre os cônjuges
2. Apoio familiar
Mudanças na relação afetiva do casal
após o nascimento do primeiro filho
1. Mudanças no que tange à afetividade
do casal
2. O impacto da chegada do bebê na
vida do casal
3. Influência
e
mudanças
no
relacionamento dos cônjuges diante a
parentalidade
4. Mudança do corpo (Interferência da
maternidade)
5. Interferência do filho
43
6. Satisfação Sexual hoje
4. ANÁLISE E RESULTADOS DOS DADOS
A análise das entrevistas dos casais permitiu verificar a relação entre o
nascimento do primeiro filho com sentimentos vivenciados, a dificuldade em que o
casal se depara e as implicações que este momento acarreta na relação conjugal
em vários domínios do relacionamento. A articulação do conteúdo das entrevistas
com o referencial teórico promove uma fácil visualização e compreensão das
categorias e subcategorias sinalizadas.
4.1
Planejamento do Filho
Esta categoria faz referência às verbalizações dos casais entrevistados com
relação ao planejamento ou o não planejamento do filho, trazendo junto ao discurso
a presença do desejo de ambos os cônjuges em ter um filho. Ressalta-se também
como aconteceu o recebimento da notícia.
4.1.1 Houve ou não Planejamento (foi ou não desejado)
Essa subcategoria exprime o posicionamento dos pais frente ao nascimento
do filho, pois a chegada do bebê pode ocorrer de forma esperada ou inesperada,
quando se há ou não um planejamento. Três dos quatro casais de alguma forma
planejaram a gravidez, demonstrando o desejo de ter o filho, sendo que em dois
casais ambos os cônjuges aceitaram o planejamento; já o terceiro, apenas a mãecasal 3 dizia-se preparada, enquanto o pai-casal 3, mesmo informando que desejava
ter filho, diz que não o planejou naquele momento. Nesse contexto, vale ressaltar
quando Anton (2006 a, p. 184) afirma que “Nem sempre o homem e a mulher
sentem-se prontos para adentrar no mundo da parentalidade no mesmo momento”.
O casal 4, o qual a gravidez foi inesperada, mesmo sendo surpreendidos, ambos os
cônjuges demonstraram o desejo em ter o filho, cumplicidade e apoio mútuo. O
planejamento também está envolvido com a cumplicidade do casal, com a forma que
este vivencia sua conjugalidade e sua individualidade. Segundo Menezes (2001, p.
44
26) “quando se deseja um filho, é o filho que se projeta imaginariamente, no futuro.
Ter um projeto de ser pai/mãe é projetar-se a si mesmo no futuro como pai/mãe
desse filho”.
Esse posicionamento foi percebido nas falas seguintes dos entrevistados:
[...] Foi uma coisa planejada, a gente parou porque estávamos
conscientes, vamos parar pra ver se agente consegue ter um filho.
(Mãe-casal 1)
Eu retardei, adiei, eu acho que de tanto querer, eu me preparei para
isso psicologicamente, financeiramente, eu queria ter plenitude para
viver a maternidade. (Mãe-casal 2)
Era a coisa que eu mais queria. Sempre foi a coisa que eu mais quis
na minha vida. (Mãe-casal 2)
Eu desejada sim. Eu engravidei, fique muito feliz. (Mãe-casal 3)
Eu acho que pelo fato de termos nos casado fazia três anos, eu acho
que foi muito cedo demais, mas se a mulher realmente quis ter logo
de início, então eu acho que, naquele... ela quer, eu não queria, ela
quer, eu não queria, ai também primeiro o neto de ambos os lados,
então veio o primeiro neto, então foi o primeiro filho, eu acho que ele
veio um pouco cedo demais. (Pai-casal 3).
Quando eu engravidei, eu não estava esperando, não foi planejado,
mas foi muito bem vindo. (Mãe-casal 4)
A gente não esperava, a gente não estava planejando. (Pai-casal 4)
Percebe-se que o planejamento não está obrigatoriamente atrelado ao
desejo, pois, o casal 4 não planejava naquele momento específico, porém desejava
ter filhos. Observa-se em todas as falas o desejo e a felicidade ocasionada pela
chegada do primeiro filho, mesmo com algumas angústias, eram envolvidos por
boas expectativas. É relevante ressaltar que o planejamento e o desejo são
importantes na dinâmica do casal uma vez que a chegada do primeiro filho assinala
uma transformação na configuração familiar, há uma continuação da função
conjugal, porém há uma construção para a função parental, havendo uma soma de
funções, marido e mulher, pai e mãe.
4.1.2 O recebimento da notícia da gravidez
A notícia de que se está esperando um filho é permeada de expectativa e
uma soma de sentimentos. Mesmo quando há um planejamento, quando é algo
45
esperado, existe a emoção, uma surpresa, o que é percebido através das respostas
dos participantes. Ressalta-se no discurso dos casais, um forte vínculo estabelecido
enquanto casal durante o período inicial da gravidez.
Só felicidade, eu chorava! Foi felicidade, choro ao mesmo tempo.
(Mãe-casal 1)
Ah, pra mim foi assim „Deus tá te presenteando‟... você já sabe que
Deus existe, mas ai as coisas ficam mais claras, Deus existe e
mandou um presente pra mim, então o nascimento, a notícia, de que
eu estava sendo pai que minha esposa mãe, é um presente de Deus,
foi uma maravilha pra mim. (Pai-casal 1)
Alegria, satisfação, mas um pouco de medo por tá botando uma
pessoa no mundo que vai depender único e exclusivamente de você
(Pai-casal 2)
Foi algo inacreditável assim, eu esperava, mas ao mesmo tempo não
acreditava assim, que estava realmente grávida. (Mãe-casal 3)
Assim, um choque né (risos), porque não estava planejado, mas
depois a gente vai se acostumando com a ideia e até gostei, hoje eu
já vejo com outros olhos, que foi a melhor coisa que já me
aconteceu. (Mãe-casal 4)
A gente não esperava, a gente não estava planejando, ainda estava
namorando e quando ela me disse a notícia eu nem tive aquele
choque que a maioria tem, eu recebi como uma notícia normal, fiquei
feliz, apoiei ela. (Pai-casal 4)
O resultado positivo, anunciando a gravidez, desperta nos futuros pais uma
variedade de emoções, alegria, ansiedade e medo frente aos novos desafios, dúvida
enquanto a sua capacidade em tornarem-se pais. (ANTON, 2006 a).
4.2 Expectativa do casal frente o exercício da parentalidade
Esta categoria refere-se às verbalizações dos casais entrevistados com
relação às expectativas enquanto à chegada do primeiro filho. Está dividido em cinco
subcategorias: Sexo do bebê; o exercício da paternidade e maternidade; dúvidas e
preocupações no exercício da parentalidade; medo e expectativa quanto ao futuro.
46
4.2.1 Sexo do bebê
O sexo do bebê foi um objeto que pela presença no discurso dos casais
entrevistados deve ser considerado. Pode ser levado em conta esse fator como um
evento importante na relação conjugal, pois, percebe-se o quanto, ambos os
cônjuges, têm representações e expectativa em relação aos filhos, podendo ou não
ser semelhante.
Ele dizia eu quero que venha com saúde, mas no fundo eu sentia
que ele queria uma menina. (Mãe-casal 1)
Eu sempre quis ser pai de uma criança fêmea, de uma menina, eu
fascinava assim, como eu fui criado eu, duas irmãs e minha mãe,
então eu sempre vi que a mulher como o lado mais frágil da
sociedade e que um dia eu fosse pai eu gostaria ser pai de uma filha.
(Pai-casal 1)
(...) eu tinha certeza que seria um menino. (Mãe-casal 3)
Sempre a gente diz: Tanto faz, menino ou menina, né, pra mim eu
queria ter um menino, pra depois ter uma menina...o pai não, ele
preferia mesmo que fosse um menino, pelo menos esse primeiro, aí
foi menino (Mãe-casal 4)
(...) expectativa de ser um menino, quando ela tava grávida eu queria
que fosse um menino primeiro (Pai-casal 4)
Como pôde ser observado nos relatos,a maioria os casais sinalizaram a
preferência. O casal 4, ambos os cônjuges referiram-se a preferência por ser
menino; já o pai-casal 1, mostra a preferência por uma menina, pois a sua família de
origem é composta só por mulheres; a mãe-casal 3, aponta que já tinha a certeza
que era um menino.
4.2.2 O exercício da paternidade e maternidade
Em todas as entrevistas fizeram parte da fala dos casais questões sobre o
exercício tanto da maternidade quanto da paternidade, enfatizando as experiências,
os enfrentamentos de situações e a nova realidade enquanto pais e mães, sendo
este um processo considerado intenso, marcado pela sua construção constante.
É complicado porque você tem que dar limite, você tem que entender
ao mesmo tempo, você tem que ter um diálogo constantemente com
47
o seu filho [...] você tem que tá ali participando atuando junto, se não
você não consegue acompanhar. (Mãe-casal 1)
Olhe, eu procuro assim, dialogar muito com minha filha. (Pai-casal 1)
A maternidade é um aprendizado diário, cada dia é como uma
grande construção, cada dia a gente coloca uma construção e as
vezes até retira, né, melhora esse tijolo e recoloca. (Mãe-casal 2)
Uma relação de cuidado de amor, mas sempre preservando a
família. (Pai-casal 2)
É algo agradável, prazeroso, mas um pouco árduo. (Mãe-casal 3)
Na minha paternidade é procurar tá presente na vida do meu filho.
(Pai-casal 3)
Que dá trabalho todo mundo sabe, mas é um trabalho bom,
recompensa né, a melhor coisa do mundo que aconteceu foi a
maternidade pra mim. (Mãe-casal 4)
É ótimo, o convívio com meu filho, de puder levar ele pra escola,
pegar ele, acompanhar a freqüência dele, brincar com ele. (Pai-casal
4)
Os entrevistados durante o discurso pontuaram sobre suas vivências na
função parental, suas singularidades nessa relação enquanto pais, propondo sempre
o exercício parental como uma construção e prestação de cuidado. Percebe-se
também que para os cônjuges as funções parentais aparecem como algo que
necessita de uma doação, como algo prazeroso. Os pais entrevistados se
posicionam no discurso com uma prontidão frente aos filhos, o que permite a
visualização da abertura amorosa dos cônjuges para o bebê.
4.2.3 Dúvidas e preocupações no exercício da parentalidade
No discurso dos participantes, tanto para os pais como para as mães, as
dúvidas voltam-se para a inexperiência enquanto pais, e para preocupação se são
capazes de exercer a parentalidade. Segundo Anton (2006 a), o nascimento do
primeiro filho traz para a vida do casal uma variedade de implicações, as quais
demandam uma série de adaptações e ajustes na vida do casal. De acordo com
Anton (2006 a), o casal se depara com uma nova realidade, a qual lhes deixa
ansiosos, pois se deparam com novas realidades diariamente, de como deve ser o
sono, a troca de fralda, como identificar o choro, como lidar com as dores, se
48
saberão a temperatura ideal da água. Os cônjuges passam a ter novas rotinas e
responsabilidades além das já existentes como as atividades pessoais, conjugais e
profissionais, tendo que se adaptarem as novas demandas conjugais e do bebê.
(...) primeiro vem aquela preocupação será que a gente tem
condições de criar um filho, será que a gente tá maduro o suficiente,
vem esses questionamentos. (Mãe-casal 1)
Eu fiquei tão preocupada, vem a amamentação, você fica
preocupada se ia ter leite, se não ia ter (Mãe-casal 1)
Pois é, acho que toda mãe passa por essa aflição de não saber criar
o filho, de ter uma dor e não saber dar o remédio. (Mãe-casal 2)
Minha preocupação era como que eu iria tomar de conta dele
trabalhando tanto (Mãe-casal 3)
As dúvidas são todas né, pra quem tem o primeiro filho, a gente vai
aprendendo, ele quem vai ensinando a gente a conduzir,... depois
que nasce, a gente vai aprendendo com o tempo, com as nossas
mães, com as avós da criança, com pessoas que já tem filhos, aí
passam muitas experiências pra gente e informação. (Pai-casal 4)
A preocupação, será que é dor que tá sentindo, será que é fome que
tá sentindo, e não fala, então você dá um remédio pra dor, é cólica ai
dá um remédio pra cólica. (Pai-casal 3)
É inevitável aos pais vivenciarem essa realidade, sendo este período de
grandes novidades, tornando-se tenso para os cônjuges. Nesse momento se os
cônjuges possuírem um vínculo conjugal satisfatório, dividirem as angústias e
apoiarem um ao outro, a satisfação conjugal será mantida, se não, esses ajustes
levarão ao declínio da qualidade da relação conjugal. (MENEZES, 2006)
4.2.4 Medos
Com o nascimento do primeiro filho o casal se depara com um universo
totalmente novo, pois, a parentalidade se configura em uma importante transição na
vida dos pais, que traz consigo necessidades de adaptações às novas realidades,
dificuldades, dúvidas e medos que emergem ao longo do exercício parental e que
afeta a vida de ambos os cônjuges. Seis dos oito cônjuges entrevistados repetiram o
quanto esse momento lhes trouxe angústias. Em relação aos medos trazidos pelos
participantes, variavam, era medo do parto, o medo da parentalidade, o medo de
não conseguir prover, medo quanto à prestação de cuidados, entre outros. Pode-se
49
trazer novamente a influência da singularidade de cada casal, que determinam o
modo como os cônjuges enfrentam as novas situações. Menezes (2006, 187)
contribui afirmando que “nascimento de um filho pode ser tanto um motivo de
crescimento e maior aproximação quanto uma ameaça para o casal, dependendo
como o par consegue se adaptar e se reorganizar frente às novas necessidades”.
[...] aí o medo, o meu medo maior na gravidez foi o ter. (Mãe-casal 1)
Mas assim eu ficava horas sem dormir, vendo se estava respirando,
eu tinha o maior cuidado com os remédios, botava todos com
indicador na tampa porque eu tinha medo de não enxergar a noite e
dá um remédio errado. (Mãe-casal 2)
Medo de não corresponder à paternidade, o cuidado, de criação.
(Pai-casal 2)
[...] tinha medo de não conseguir tomar conta dele (Mãe-casal 3)
[...] o medo dele cair, o medo dele cair da cama, ou ao chorar, no
momento dele não falar ainda ai quando chora, então você dá um
remédio pra dor, é cólica ai dá um remédio pra cólica, então você já
para por aí porque você já não sabe mais o que ele tem, a gente vai
já liga para o pediatra, corre para o hospital, mas não deixa assim de
ter medo” (Pai-casal 3)
Ah, sempre tem né, a primeira vez você tá ali de marinheiro de
primeira viagem né, medo de não poder dá o que ele precisa, porque
eu tava desempregada, medo de não ser uma boa mãe na correria
do dia a dia. (Mãe-casal 4)
Vale ressaltar segundo Anton (2006 a) que “os medos, as inseguranças e as
dúvidas fazem parte do processo, assim como os sentimentos de plenitude e intensa
alegria”.
4.2.5 Expectativa quanto ao futuro
Com o nascimento de um filho, principalmente o primeiro, e com o acúmulo
de papéis que os novos pais assumem, estes repensam e reavaliem naturalmente
as suas experiências iniciais, positivas ou não, com a finalidade de repetir as boas e
tentar esquecer as que foram ruins. (WELLAUSEN, 2006). É comum ouvir nos
discursos dos pais que sempre buscam o melhor para os filhos ou colocações como
“quando ele crescer...”. Os pais imaginam e normalmente planejam o futuro dos
50
seus filhos e a vida enquanto família, como forma de preocupação, na intenção de
poderem dar garantia de um futuro, amor, família, segurança.
Na fala dos casais entrevistados pode-se perceber o quanto os pais planejam
e se preocupam com o futuro dos filhos. Vale ressaltar que ambos os cônjuges do
casal 1 enfatizam a preocupação com a educação, principalmente a fora do
ambiente familiar. Schuster, Anton e Fernandes (2006, p. 127) ressaltam a
importância da educação familiar ao pontuar que “O processo educativo passa,
necessariamente, pela apropriação de atitudes e valores que o grupo familiar
cultiva”.
A gente vê ela formada vai ser a coisa mais feliz da minha vida, eu
quero que ela se forme, que ela tenha uma profissão, e assim, eu
digo a ele eu não quero mais, em relação a mim, não tenho mais
desejo assim de riqueza, eu não quero mais isso, eu quero ter um
vida tranquila, a que eu tô tá ótima, maravilhosa, a única coisa que
eu desejo, como futuro, é fazer um mestrado, eu não tenho, mas eu
quero fazer, dentro das minhas possibilidades, sem eu precisar me
afastar (...) eu quero manter a gente junto. (Mãe-casal 1)
(...) me preocupo muito nessa questão de educar, né, porque a gente
educa de uma forma em casa e o mundo educa de outra... Mas eu
não tenho uma preocupação assim, afetiva, porque eu tento passar
pra ela que o amor vence tudo né, e por mais que a gente tenha,
esteja aperreado, a gente tem que sempre ter a tranquilidade de
mostrar amor pra todas, digamos assim, ocasiões que tiver
ocorrendo de ruim ou de bom, para que sempre saiba mesclar as
coisas, eu vejo muito dessa forma assim. (Pai-casal 1)
(...) então hoje assim, o projeto de vida que eu tenho e os planos que
eu tenho, minha família primeiramente mantê-la unida... , a gente
envelhecer juntos, e vê minha filha crescer, vê minha filha encontrar
o caminho dela, caminho esse que seja muito feliz, ter a minha
benção independente da escolha que ela fizer, eu quero que ela faça
boas escolhas, a gente orienta pra isso, religiosamente,
profissionalmente, pessoalmente. (Mãe-casal 2)
Tentar protegê-la, a família e a filha da melhor forma possível sem
que atrapalhe o desenvolvimento dela de encarar o mundo, mas
tentar criar, nada de exagerado, mas de conforto, de segurança
financeira para que ela possa ter um bom estudo, para que ela possa
desenvolver a vida dela sem uma surpresa desagradável. (Pai-casal
2)
Minhas expectativas é, de agora em diante, é que eu e meu esposo
sejamos mais cúmplices, consigamos comprar nossa tão esperada
casa, ano que vem Pedro entrar na escolinha, acho que vai entrar
um pouco cedo demais, mas eu acho que vai ser melhor, porque ele
vai estudar de tarde e eu vou trabalhar a tarde e vou passar de
51
manhã com ele, eu espero que ano que vem nossa família esteja
mais juntinha.” (Mãe-casal 3)
Como pai, eu tenho responsabilidade que ele, seja na escola, seja na
rua, seja em casa, eu tento está presente na vida dele e fazer com
que ele não desvie do caminho, ou seja, mostrar pra ele o que é uma
família. (Pai-casal 3)
(...) poder tá dando o melhor pra ele, poder educá-lo, vê-lo crescer,
construir também sua família... procurar fazer o melhor possível pra
manter toda a família unida. (Mãe-casal 4)
(...) futuramente dá um irmãozinho pra ele ou uma irmã, e continuar
feliz e bem com ela, pra gente viver anos e anos juntos, que é o que
mais importa, sempre está junto. (Pai-casal 4)
Nos relatos observou-se também que o tema união predominava na fala dos
casais, trazido por ambos os cônjuges do casal 1, a mãe-casal 2, a mãe-casal 3 e
ambos os cônjuges do casal 4. Percebe-se com os relatos, a importância da união
entre os cônjuges para os enfrentamentos frente às novas necessidades enquanto
esposos e pais.
4.3
Rede de Apoio
Refere-se às evidências no relato dos casais entrevistados em relação à troca
de apoio entre os cônjuges e na solicitação da ajuda de pessoas como um suporte
para os cuidados com o filho.
4.3.1 Apoio entre os cônjuges
O nascimento de um filho está relacionado imediatamente à demanda de uma
variedade de cuidados a serem realizados pelos pais. Com a chegada do recémnascido a atenção do casal geralmente tende-se a se voltar totalmente ao cuidado
do filho, pois este depende totalmente da atenção e dos cuidados dos pais. Rivero
(2006) afirma que os cônjuges “[...] irão experimentar emoções novas em qualidade
e intensidade, sendo que este processo de transformação decorre de forma muito
rápida e acompanhada de aprendizados constantes na prestação dos cuidados ao
bebê.” Este momento é envolvido de incertezas constantes voltadas em relação a
como lidar com essa nova realidade; os cônjuges podem estar ambos voltados a
essa atividade, ou apenas um, o que torna a situação um pouco mais complicada.
52
Anton (2006 b) afirma que alguns pais perdem o interesse de acompanhar a
gestação e o parto da esposa, com também não assumem, ou se afastam dos
cuidados com o bebê, o que causa uma diminuição na satisfação conjugal.
Evidencia-se durante as entrevistas no relato de todos os participantes a
prestação de cuidado com os bebês. Percebe que no discurso das mães enfatiza-se
a necessidade, importância e o desejo da participação dos pais neste momento.
Como entrevistadora pude observar o quanto foi notório a expressão de aflição, no
momento em que os participantes fizeram suas considerações sobre o apoio entre
os
cônjuges,
ocasião
a
qual
emergiu
relatos
emocionados
dos
casais,
principalmente na mãe-casal 2 e mãe-casal 3, em relação à atuação dos respectivos
cônjuges na atenção a ela e ao bebê.
Quando a pergunta foi direcionada à reflexão sobre o apoio entre os cônjuges
diante dos cuidados com o bebê, suscitou tensões nos participantes, tanto nos pais
quanto nas mães.
Percebe-se no relato do casal 1 e casal 4, que diante as demandas do filho,
houve troca de apoio entre os cônjuges, o que pode ser percebido a partir da ênfase
deste fato na entrevista destes casais.
Sempre me deu força e pra tudo ele tava ali comigo do meu lado (...)
eu lembro que ele dizia assim nós estamos grávidos (...) foi uma
pessoa muito presente durante a gravidez todinha, toda ida ao
ginecologista, ele ia, tudo ele acompanhava comigo, tudo, tudo,
realmente ao meu lado o tempo todo. (...) Então ele era quem ficava
pra ela arrotar, pra ele botar no bercinho, ele era quem tomava conta
(...) ele foi assim maravilhoso, se fosse depender dele pra ter outro
filho, eu teria, porque ele me apoiou em tudo, olhe pra dar banho,
trocar fraldas, tudo o que você imaginar. (Mãe-casal 1)
(...) sempre eu dei esse apoio... então sempre dei apoio necessário,
acho que assim fazia até mais que as vezes eu dizia assim: eu não
me conheço, mas eu fazia tudo aquilo que eu pensava que um dia
que eu tivesse um filho eu ia fazer, não só pela minha filha, mas pela
minha esposa. (Pai-casal 1)
Só não fiquei mais desesperada por conta do amor do meu esposo,
que sempre me deu força e pra tudo ele tava ali comigo do meu lado.
(Mãe-casal 4)
Demais, demais, demais, mesmo. (Pai-casal 4)
Já no discurso da mãe-casal 2 nota-se o desejo de um maior apoio do esposo
e de uma maior disposição para ajudá-la na prestação dos cuidados com o bebê,
53
diante do relato dela, compreende-se que a falta do apoio do marido foi um fator
gerador de muito sofrimento, pois a mesma, pontua que as lembranças deste fato
lhe é dolorosa. Em relação a essa colocação, o pai-casal 2 reconhece a ausência da
atenção para com o bebê e para com a esposa, e de maneira resistente, em uma
colocação bem curta responde a pergunta.
[...] assim, se tratando do meu esposo eu esperava mais, acredito
que é um sentimento assim, que eu tento trabalhar, eu até hoje não
consigo falar sem que me cause assim uma lembrança
dolorosa...não sei se é expectativa da minha parte além do normal,
mas eu esperava um apoio maior. [...] quando os probleminhas
surgiram ai meu esposo resolveu dar o ar da graça (risos) e me
ajudar mais, enfim ele caiu em si e começou a participar da
paternidade, foi quando as cólicas vieram, as dores que o bebê
começa a sentir e aí graças a Deus eu pude contar com meu esposo
(Mãe-casal 2)
Não tanto quanto deveria (Pai-casal 2)
Neste contexto, se comparado o discurso dos cônjuges do casal 3, percebese que a mãe-casal 3 pontua o apoio do esposo, porém mesmo o tendo, não julga-o
suficiente, esperava uma maior dedicação do esposo, entretanto, o pai-casal 3 não
se reconhece nesta condição e enfatiza ao afirmar que apoiou.
Recebi, não da forma que eu gostaria, mas eu recebi. (Mãe-casal 3)
Ela já tinha perdido um bebê, aí esse já seria o segundo, então a
cautela a gente redobrou mais, fiquei assim, mais cauteloso em
determinados alimentos, em determinadas caminhadas, esforço e na
hora da cirurgia, no dia que foi pra nascer, fiquei mais focado. Apoiei
e apoio. (Pai-casal 3)
Percebe-se no relato dos participantes que o apoio entre os companheiros é
um fator que está associado à satisfação conjugal, a qual pode ser afetada diante de
determinadas posições dos cônjuges, como se pode perceber nas entrevistas,
principalmente quanto à ausência do esposo, na prestação de cuidados com o filho.
É notório nas entrevistas o quanto é importante para o casal quando há esse apoio
entre os cônjuges, pois serve como suporte um do outro diante as tantas
dificuldades que surge neste período em que o bebê exige cuidado exclusivo.
Compreende-se também, a importância que as mães atribuem para a
participação do pai nos cuidados com o filho e o quanto elas esperam por isso.
Considerando que neste momento o bebê exige investimento e dependência total da
54
mãe, elas apropriam-se de um discurso ambivalente, de exaustidão e desejo. Diante
disso, elas percebem no esposo um ponto de apoio, para compartilhar, as
dificuldades e a nova realidade que para ambos é novidade.
Não é que o esposo tenha que tomar as obrigações para si, mas que se
mostre presente, fazendo com que a esposa se sinta segura diante as dúvidas,
participando ativamente, de forma a superarem juntos as novas demandas,
preocupações, ansiedades e medos, próprios da chegada de um filho. Para que
assim, possam encontrar soluções para suas dificuldades e para que possam
desfrutar deste momento, tornando este, um período de contribuição para o aumento
da maturidade enquanto pais e casal.
4.3.2 Apoio familiar
Segundo Anton (2006 b) tornou-se natural o apoio de outras pessoas no
cuidados aos recém-nascidos, uma vez que a maioria dos cônjuges tanto possuem
uma carreira profissional, como dedica tempo aos cuidados a si próprios, a seu
casamento e a sua vida sociocultural. Por isso, é comum o casal solicitar o serviço
de terceiros para ajudar nos cuidados com o filho, como babás, avós, tios.
A mesma autora pontua que é de extrema relevância e comum que o
nascimento de um filho aproxime a família. Esse apoio recebido é de grande
implicação na vida do casal, pois este se encontra em um momento de inúmeras
mudanças e novas obrigações, acarretando aos cônjuges, momentos de estresse.
Este apoio da família dá oportunidade ao casal de compartilhar suas dificuldades e
de expressar os sentimento que emergem diante o grande investimento e prestação
de cuidados ao filho.
O meu apoio foi da família e principalmente assim do meu marido”
(Mãe-casal 1)
(...) passei os primeiros dias na casa da minha mãe até tirar os
pontos. (Mãe-casal 1)
A gente dava um remedinho, aí comunicava com minha mãe. (Mãecasal 1)
“(...) Minhas irmãs, minhas sobrinhas, tive todo apoio, assim da
minha sogra e da minha mãe” (Mãe-casal 2)
55
Da família, porque a gravidez dela foi de risco, ai tínhamos que
contar sempre com alguém da família em casa” (Pai-casal 2)
Tive apoio da minha sogra e do meu esposo.” (Mãe-casal 3)
A gente teve o apoio da família, tivemos o apoio, dos avós, tanto
materno, quanto paterno” (Pai-casal 3)
Meus pais (...) a gente tava na minha casa com meus pais, ai eles
ajudaram bastante. (Mãe-casal 4)
No discurso dos casais, percebe-se claramente o importância do apoio
familiar, também como um suporte, como é o caso dos avós, frente às urgências e
inexperiência em determinados momentos, configurando-se como uma relação de
segurança.
4.4
Mudanças na relação afetiva do casal após o nascimento do primeiro
filho
Refere-se às evidências no relato dos casais entrevistados em relação
mudanças na conjugalidade em determinados âmbitos perante a vivência da
parentalidade.
4.4.1 O impacto da chegada do bebê na vida do casal
A partir dos relatos, é possível perceber que a chegada do primeiro filho é
marcada por uma variedade de sentimentos, plenitude, felicidades, medos,
ansiedades. Como já mencionado, a parentalidade é um acontecimento marcante na
vida de um casal, que chega atrelado a uma soma de transformações, as quais
demandam que o casal adapte-se. Rivero (2006) afirma que antes, o casal centravase apenas no vínculo conjugal, após o nascimento do filho soma-se uma nova
configuração, a função parental, logo, passam a ser marido/mulher e pai/mãe. Essa
mudança requer adaptações, e para isso é preciso de investimento conjugal.
Menezes (2006) pontua que a transição para parentalidade é uma possível
construção de um núcleo familiar singular, ao qual pertencem apenas o casal e o
bebê, na qual pode representar também um fortalecimento dos vínculos familiares. A
mesma autora completa afirmando que esse momento “pode ser tanto um motivo de
crescimento e maior aproximação quanto uma ameaça para o casal, dependendo de
56
como o par consegue se adaptar e se reorganizar frente às novas necessidades.”
(MENEZES, 2006, p. 187)
O discurso dos casais quanto à chegada do primeiro filho e quanto as
implicações na vida dos cônjuges, aponta mudanças de várias ordens. Os casais
pontuam acerca da necessidade de adaptação à nova realidade; a quebra da rotina,
a qual se vivia a dois; os novos direcionamentos da atenção que se volta agora para
o bebê.
O pai-casal 3, pontua a preocupação financeira, fato sinalizado apenas por
ele. É interessante a colocação da mãe-casal 4, ao afirmar que o impacto da
chegada do bebê aproximou mais o casal, em sua fala ela enfatiza essa
aproximação, fato sinalizado apenas por ela. A partir do relato dos pais
entrevistados, percebe-se que a comunicação entre o casal após o nascimento filho
está dirigida para o bebê. .
No que se refere ao impacto da chegada do filho na vida dos cônjuges, os
participantes apresentaram os seguintes relatos:
Aí de repente você vê assim que aquela concentração que era dos
dois agora tinha outro ser, e por a gente não ter muito experiência
ficou voltada no início só para ela, e realmente de repente é como se
a gente fosse esquecendo um do outro e só voltasse à atenção para
aquele bebê, porque no inicio é assim, a nossa preocupação toda só
era ela. (Mãe-casal 1)
Na nossa relação é assim a gente conversa mais que antes, quando
a gente não tem filhos, a nossa conversa é outra. (Mãe-casal 1)
(...) tive que me adaptar também pra me adaptar com a demanda,
que antes só era esposa, passava o dia fora, tinha uma empregada
em casa, então a minha jornada era mínima, então triplicou, porque
além dessas tarefas, eu tinha eu ser mãe, educadora, administradora
do lar, uma rotina diferente, eu não podia sair de manhã e sair de
noite, é uma vida totalmente diferente, mas é muito intensa. (Mãecasal 2)
(...) a rotina quebra-se totalmente porque a gente não vive mais um
para o outro, são duas pessoas fazendo que o mundo gira em torno
da criança. (Pai-casal3)
(...) a camisa de marca que eu compraria e já não posso comprar
mais, então eu vou ter que passar a dividir aquele dinheiro, pra mim,
pro menino e para mulher, porque na despesa nova da casa, da feira
não se tira nada, só acrescenta. (Pai-casal3)
Eu sinto como se tivesse aproximado mais! (Mãe-casal 4)
57
Sabe-se que com a chegada do bebê na vida do casal, junto às novas
situações com as quais o mesmo vai se deparar marca uma ocasião transformadora.
Vários novos fatores passam a fazer parte da vida do casal, e este tem que adaptarse a essa nova realidade. Sobressaem às expectativas enquanto a execução da
parentalidade e geralmente menos tempo é direcionado para o exercício da
conjugalidade, o que pode colaborar para um desgaste na relação conjugal. Deve-se
reservar um tempo um para o outro, lembrando-se também enquanto casal,
fortalecendo assim o vínculo conjugal e proporcionando uma melhor qualidade de
vida familiar.
4.4.2 Mudanças no que tange à afetividade do casal
A afetividade é outro aspecto que sofre influência frente à parentalidade,
diante do relato dos casais entrevistados, afeto este, que era de exclusividade na
relação do casal, passa a ser também direcionado para o filho. Segundo Menezes
(2006) este é um fato que contribui bastante para o enfrentamento das novas
demandas e de grande importância para a preservação da relação afetiva do casal
durante a transição para parentalidade. A mesma autora propõe duas realidades
para a condição do afeto na vida do casal: os casais que são distantes afetivamente
enfrentam maiores dificuldades na relação conjugal diante da parentalidade, estes
cônjuges apontam apenas os aspectos negativos deste momento e não consegue
dedicar-se à intimidade conjugal, os homens mostram-se ausentes e as mulheres
exageram na maternagem. Já os casais envolvidos afetivamente, preservam a
relação enquanto casal, apontam aspectos positivos frente à parentalidade, como o
comprometimento, além de assumirem melhor as funções maternas e paternas.
Verifica-se que os relatos dos participantes corroboram tais idéias:
Assim meu marido é muito carinhoso, apesar de tudo isso, pra você
ter uma ideia, quando eu amamentava a noite, que ele via que eu
estava muito cansada, ele dizia assim, terminou de amamentar me
dê que eu fico com ela, vá dormir. (Mãe-casal 1)
É assim, como eu posso dizer, eu não via mais minha esposa, só
como minha esposa, mas assim até como, sei lá acho que o amor
aumentou, o carinho, o cuidado, apesar de, eu sempre me achei
cuidadoso com ela, mas eu tinha que dar mais atenção. (Pai-casal 1)
[...] se o casal conseguir sobreviver aos seis primeiros meses de
maternidade do casal, gravidez, nove meses, mais seis meses no
58
mínimo, é difícil algo separá-los, que a gente fica se conhecendo
mais, a afetividade fica maior, é como assim, um estalo, não sei
explicar, mas assim, a gente fica com mais cumplicidade. (Mãe-casal
2)
Porque a afetividade que se tinha com ela já não tem mais, a
afetividade que ela tinha comigo não tem mais, passa a dividir com o
outro. [...] A afetividade fica, geralmente pra segundo plano, o
primeiro, no primeiro plano da afetividade a gente volta mais pra
criança, porque a época, até antes de nascer, então seria como uma
famosa lua de mel, então a gente trocava carícia, traçava beijos,
ligava pra ela pra saber aonde ela tava, perguntava se ela tava
sentindo alguma coisa, tudo isso ai já não faz mais como namorado.
(Pai-casal 3)
Eu não passo a vê-la com mais aquela namorada, como aquela
esposa, às vezes, agora eu veja ela, não só como esposa, mas como
mãe do meu filho, então às vezes não tem aquela atração tanto [...]
modifica muito, as vezes o casal quando não está estruturalmente
preparado para receber um filho não dura muito porque a afetividade
que você tinha com ela já não tem mais, a afetividade que ela tinha
comigo não tem mais, passa a dividir com o outro. (Pai-casal 3)
Diante o discurso os cônjuges a afetividade é afetada pelo direcionamento do
afeto para o bebê. Como já mencionado, com o nascimento do filho, passa-se a
investir menos na conjugalidade, pois o foco do casal está na parentalidade, na
atenção para o bebê, o pai-casal 3 retrata bem essa realidade em um discurso
enfático, diante disso ressalta-se que a mãe-casal 3 não faz destaque a cerca desse
tema. A mãe-casal 2 afirma que os primeiros meses do nascimento do filho é um
período difícil, porém se o casal superar as dificuldades, a relação afetiva tende a
ser aumentada e fortificada. Já ambos os cônjuges do casal 1, afirmam que diante
da parentalidade, houve o aumento da afetividade entre o casal.
Outro ponto percebido nos relatos que vale ressaltar, é o fato da atribuição
dos papéis parentais entre os cônjuges, principalmente a partir da visão do homem,
pois tanto o pai-casal 1 e o pai-casal 3, após o nascimento do filho, passaram a ver
suas esposas não mais só como esposas, mas também como mãe. Fato que não se
observa nos relatos das mulheres, apesar dos homens serem esposos e também
pais.
59
4.4.3 Influência
e
mudanças no relacionamento
dos cônjuges diante
da
parentalidade
Faz-se importante ressaltar que alguns questionamentos sobre as influências,
as mudanças, as conseqüências frente à parentalidade, foram desencadeadores de
emoções e vários sentimentos em alguns cônjuges entrevistados, pois fizeram com
que eles retomassem determinados eventos que marcaram de certa forma suas
vidas. É a felicidade, a plenitude, a aflição, a raiva, a insatisfação, o medo, a
incompreensão, vários sentimentos emergiram nas falas. Alguns momentos foram
tensos tanto para os entrevistados como para a entrevistadora.
Menezes (2001) afirma que o nascimento de um filho é um momento de
grande importância tanto na vida familiar e conjugal, como na vida individual.
Destaca-se a implicação na vida do casal com o nascimento do primogênito ao
pontuar este como um marco na transição de casal para família e dos cônjuges para
o mundo adulto. “Em função das oportunidades e dos perigos que este momento
evoca, o casal deve poder renegociar seus valores e desejos, seu próprio papel no
sistema e seu relacionamento conjugal.” (MENEZES, 2001, p. 29)
Considerando as inúmeras adaptações que ocorrem com a chegada do
primeiro filho, percebe-se diante do relato dos participantes, que a vivência desse
momento acarreta angústias devido à necessidade de reorganização tanto da
dinâmica
da
vida
conjugal,
individual, quanto
profissional.
Há
um novo
direcionamento na vida do casal, que acontece de forma rápida e vem
acompanhado de uma necessidade de aprendizagem constante para poder lidar
com as novas demandas voltadas principalmente para o bebê.
Outro ponto que ficou evidente na fala dos entrevistados foi à nova direção
que a relação entre os cônjuges assumiu, na qual antes as atenções e
preocupações eram voltadas um para o outro e agora passa também a dividir com o
bebê, o que dá uma nova dimensão para a relação enquanto casal. Rivero (2006, p.
1) alega que “ter um filho implica não só dar a vida a um novo ser humano como a
um novo casal”.
Os casais ressaltam que a parentalidade chega de uma forma tão intensa em
suas vidas que implica no relacionamento enquanto casal. Corroborando esta ideia,
Cowen e Cowen (1985 apud MCGOLDRICK, 1995, p. 43) afirmam que “a transição
para a paternidade é tipicamente acompanhada por uma diminuição na satisfação
60
conjugal.” Com toda essa carga de responsabilidade que um recém nascido
demanda, necessitando de cuidados quase que a todo o tempo, exige que os pais
voltem-se para este quase que exclusivamente. É possível fazer uma relação com a
ausência do tempo entre os cônjuges e a satisfação conjugal, pois considerando que
em grande parte dos casais, existe um decréscimo da satisfação entre os cônjuges,
esta pode não ter haver com as tarefas exercidas enquanto pais e sim com a
ausência de tempo destinada às vivências da conjugalidade. (RIVERO, 2006).
Corroborando a idéia da autora, observa-se que a mãe-casal 3 pontua em seu
discurso o tempo dedicado aos cuidados exclusivo para o bebê, o que ocasionou a
diminuição dos momentos reservados para a vivência a dois, afetando assim a
satisfação conjugal do casal.
A gente parou de ter momentos a dois né, para vivermos em função
do filho, do bebê, eu acho que de alguma forma esfriou um
pouquinho. (Mãe-casal 3)
Ao contrário do que aponta Rivero (2006) vale ressaltar que ambos os
cônjuges do casal 4, afirmam que neste momento da vivência do nascimento do
filho, houve mais união entre o casal. Este participantes em outro momento pontua
que mesmo compartilhando as dificuldades específicas da chegada do primeiro filho,
a relação conjugal não foi afetada de forma negativa, aumentando ainda mais a
união e a cumplicidade entre o casal.
Logo recém nascido claro que o casal se volta completamente para o
filho até não ter tanto tempo de viver como namorado, a relação de
início é um pouquinho prejudicada nesse sentido, porque você tá, se
volta totalmente para filho, talvez perde um pouquinho da relação a
dois, mas aí no decorrer do tempo aproximou ainda. (Mãe-casal 4)
Claro que tem uma mudança assim né, com um filho tudo muda, né,
mas na relação minha com ela a gente ficou mais unido, dá atenção
a ele, é uma atenção a mais que tem que dá pro nosso filho. (Paicasal 4)
Observa-se também que esse distanciamento entre os cônjuges é encarado
por todos os casais entrevistados como um acontecimento natural. Pode-se
observar as implicações na vida enquanto casal nos discursos seguintes:
Muda né, quando se tem um filho muda, porque quando se tá só os
dois, um vive pra o outro, a atenção exclusiva era dele pra mim, dele
pra mim, tudo a gente, era só os dois, né! (Mãe-casal 1)
61
[...] passamos por um momento muito difícil, a gente não se perdeu
um do outro porque a gente se ama muito, mas assim, o nosso amor,
acho que assim, adormeceu um pouco... (Mãe-casal 2)
[...] hoje a gente consegue conversar, mas antes a gente não
conseguia, porque eu imaginava que o papel do marido, fosse algo
mais do que prover a casa de lata de leite, de remédios e de
provimentos do bebê, acho que queria que o marido conversasse,
participasse mais do banho do bebê, da troca de fraldas, não que
tem que ser ele, um apoio que a gente espera eu sinceramente não
tive. (Mãe-casal 2)
Neste sentido, a representação que os casais entrevistados têm em relação à
parentalidade é que esta traz de alguma forma uma mudança na conjugalidade,
mesmo quando há um planejamento, mesmo quando há o apoio entre os cônjuges,
fato percebido no discurso do casal 1. Um dos aspectos relevantes pontuado nos
relatos de ambos os cônjuges que participaram da pesquisa, é que os papéis
conjugais, principalmente o de mulher, em alguns momentos é deixado de lado, e
esta se assume na relação inteiramente como mãe. Monteiro (2002, p.144) afirma
que “o casamento sofre porque nenhum homem quer estar casado com uma mãe,
embora muitos adorem uma maternagem”. Ainda frente a esse contexto, Rivero
(2006) contribui ao dizer que o par conjugal não deixa de existir por se tornar
também um par parental, são papéis diferentes que precisam ser considerados e
ajustados pelo casal.
Outro posicionamento dos casais entrevistados foi que o envolvimento sexual
também é afetado. De acordo com a idéia de Rivero (2006) devido ao vínculo natural
estabelecido entre a mãe e o bebê, diminui a disponibilidade para investir na relação
conjugal, como também há um grande desgaste físico, emocional e as várias noites
de sono afetadas. A mãe e o filho tornam-se o centro da vivência familiar, assim
sendo Anton (2006 b, 215) afirma que “o pai muitas vezes ressentido, tende a
afastar-se”. Neste sentido, o casal passa a se distanciar, a mulher sentir-se insegura
em relação ao seu parceiro e este se sente deixado de lado pela esposa e passa a
priorizar outras coisas, como o trabalho, fato que é percebido no discurso da mãecasal 2.
Eu confesso que o tesão diminuiu, o desejo, porque eu olho pra você
e só vejo você mãe, eu não enxergo você minha amante, minha
mulher, minha namorada, então me ajude, foi quando eu caí em mim
e vi que eu tinha que salvar meu casamento. (Mãe-casal 2)
62
No início, deixei de ter uma esposa, e passa a ter uma mãe, ai só
depois de muita conversa, muito amadurecimento é que a gente
consegue separar mãe e esposa, mas até então durante um bom
tempo eu tinha só uma mãe dentro de casa não mas uma esposa.
(Pai-casal 2)
Menezes (2006) afirma que além de definir o início da família, o nascimento
do primeiro filho demarca também o fim do romance entre os casais. Anton (2006 a)
diz que se a retomada das atividades sexuais se dê neste contexto, pode acontecer
desassociada a um ato de amor, correndo o risco de acontecer muito mais como um
dever a se cumprir enquanto casal.
Vale ressaltar que quando o casal consegue seguir em frente olhando sempre
um para o outro, acolhendo um ao outro, os cônjuges vão sendo envolvidos por
pequenos gestos e alegrias, e aos poucos, vão reintroduzindo a vida sexual do
casal, sem maiores implicações.
Apesar de ser observadas rupturas na continuidade da prática da
conjugalidade no casamento após a chegada do primeiro filho, a partir das
implicações já trazidas acerca das dificuldades enfrentadas neste período, destacase também no relato dos participantes a tentativa de resgate da relação conjugal
após passar pelo enfrentamento das decorrências da parentalidade. Para corroborar
Rivero (2006, p. 2) afirma que “O casal terá uma fase tão gratificante quanto
conseguir aproveitar a oportunidade única de crescimento pessoal e familiar,
preparando-se assim para outros momentos do seu ciclo vital.” A mesma autora
afirma que o exercício da parentalidade junto à conjugalidade pode ser além de só
estresse, é também tempo de alegria, crescimento e beleza na relação enquanto
casal. (RIVERO, 2006).
Aí inicialmente ele se afastou e depois ele disse assim: vamos
retomar, mas se passaram cinco meses... a gente se distanciou
mesmo, e eu dizia a mim mesmo: Meu Deus não vai voltar mais, eu
não acreditava que voltava, isso me entristeceu demais. (Mãe-casal
2)
Na minha cabeça a gente se distanciou um pouquinho, porque isso
condiz com a realidade disso, eu não sei até que certo momento foi
real ou não. Eu acho que a nossa vida voltou ao normal de um tempo
desses pra cá. (Mãe-casal 3)
Então eu tenho que ter a consciência que a gente não vive mais um
para o outro, a gente vive agora para criança e isso às vezes afeta,
afeta a relação sexual, afeta até na conversa, que às vezes a gente
63
conversa menos, passa a conversar menos, aumenta mais as
discussões. (Pai-casal 3)
Ai quando você olha o estado do relacionamento tá tão abalado que
às vezes a melhor solução para ambas as partes seria o divórcio, ai
fica aí esse medo dessa relação, afeta e muito o casamento. (Paicasal 3)
Diante tais colocações pode-se ter uma dimensão da repercussão que a
parentalidade possui frente à conjugalidade na vida de um casal.
4.4.4 Mudança do corpo (Interferência da maternidade)
As mudanças do corpo é um aspecto que aparece no discurso dos casais
entrevistados. As principais mudanças começam a acontecer a partir da gravidez,
principalmente, na mulher, tudo parece maior, há um maior cansaço, dores e menor
disposição, fato percebido diante o discurso da mãe-casal 1. Segundo Maldonado e
Canella (1988), a maneira com que cada mãe se vê é muito singular, umas sentemse orgulhosas pela barriga, como a mãe-casal 1 e outras sentem-se envergonhadas
e pouco atraentes como narra a mãe-casal 3.
Eu fiquei me achando encantadora aquela barriga crescendo e não
atrapalhou não, até onde pode a gente ter relação a gente teve,
agora quando assim eu comecei senti as dores nas pernas, algumas
dores ele já ficou com medo, mas não atrapalhou não. (Mãe-casal 1)
É, desde o início ele sempre me procurava, mas pra mim eu não me
sentia desejada, é uma questão minha mesmo. [...] eu me achava
feia, eu engordei, fiquei cheia de estrias. (Mãe-casal 3)
Maldonado e Canella (1988) afirmam que na grande maioria dos casos
observa-se que o declínio do desejo e do ritmo da atividade sexual se dá a partir da
gravidez. “Isto muitas vezes parte do homem, e não da mulher, que se mostra então
ressentida e insegura por achar-se pouco atraente.” (MALDONADO E CANELLA,
1988, p. 164).
Após o nascimento, as mudanças ainda continuam, e a recuperação física
depois do parto tem um papel muito importante tanto para o homem quanto para a
mulher, fato corroborado diante do relato dos casais entrevistados. Para os homens
existe mudança, vale ressaltar o olhar que o pai-casal 1 tem diante das modificações
64
do corpo de sua esposa, junto ao manejo que o mesmo teve da situação, de forma a
não intensificar os sentimentos da esposa diante dessa vivência.
[...] porque eu sei que não ia ficar mais a mesma coisa né, porque
além de tudo eu acho que a gravidez apesar de ser uma dádiva né, é
uma agressão biologicamente no corpo da mulher, uma
transformação, eu sentia que ela sentiu isso né, mas eu não deixei
transparecer que ela se sentisse assim, porque podia ela depois tá
se rejeitando, né, podia se sentir inferior né, e por aí poderia causar
outros, outros conflitos né, na mente dela, até na nossa convivência,
então eu acredito que eu soube diferenciar essas coisas. (Pai-casal
1)
Esse momento para algumas mulheres é gerador de sofrimento, aflição,
diante de tantas mudanças de aspectos tão importantes para a mulher, como é o
fato de ser objeto de desejo dos esposos, de se privar sexualmente, o medo de não
voltar ao corpo de antes, fatos que é presente no discurso das mulheres
entrevistadas. “A maneira de se ver e de se sentir, portanto varia imensamente: às
vezes, a mulher se vê mais madura e feminina; outras vezes, dissocia sexualidade
de maternidade, bloqueando o prazer.” (MALDONADO, 1988, p. 164). Algumas
mulheres inibem o desejo sexual, pois não dissociam o ser mãe e o ser amante, já
outras desabrocham sexualmente e lhes confere o direito de sentirem o desejo. (
ANTON, 2006 b)
Assim a nossa relação sexual teve que ser deixada de lado, até pra
conservar a vida da filha, ela queria nascer aos quatro meses de
gestação... então nós nos afastamos sexualmente, a gente ficava
juntinho tudinho, o que eu sofri muito, no início... ele contribuiu,
colaborou, nunca cobrou, né, mas assim, depois, vai se criando uma
distância entre o casal e que machuca muito ambos, então isso
começou nos sete meses de gravidez, que é difícil para ambos,
demais, demais, demais [...] você ter uma vida conjugal, só viver pra
ele e ele pra você, e desde a gravidez você se afastar do seu marido
sexualmente, imagine, então isso aí causou uma lacuna muito
grande, quando minha filha nasceu, é, eu acho que aconteceu assim,
um distanciamento maior ainda. (Mãe-casal 2)
É, achava meu corpo feio, por mais que me dissesse que eu estava
bem, bonita, mas eu não me sentia, então eu ficava torcendo que ele
não me tocasse e era tão forte isso que ele se afastou, graças a
Deus que nosso amor foi maior e a gente não se desprendeu um do
outro [...] Eu me sentia gorda, meu bebê chorava de 2 e 2 horas pra
mamar, eu só cheirava a leite... (Mãe-casal 2)
Eu batalhei um pouquinho pra voltar o que era antes, não fica assim,
igual, mas próximo do que era [...] mas não atrapalhou em nada não
a minha relação. (Mãe-casal 4)
65
Anton (2006 b) pontua que para alguns pais o sexo não combina com a
maternidade e a paternidade. Neste contexto um dos fatos principais é o significado
que o seio passa a assumir, pois antes tinha um potencial erótico, e entre muitos
casais desde a gravidez deixa de ser visto como zona erógena. (MALDONADO E
CANELLA, 1988).
Acarreta e muito, porque eu quando casei ela era uma bonequinha,
ela já não tem aquele corpinho de boneca que tinha, aí às vezes
afeta sim, afeta, é lógico porque querendo ou não é um extinto
selvagem, acho que a gente ainda tem, desejo, então, mas olhar a
beleza dela do interior. deformou o corpo, mas foi no meu filho, para
o meu filho que ela me deu, engravida, aí vem estrias, varizes, os
pés incham, aí não pode pintar cabelo. (Pai-casal 3)
Ela ficou com a barriga bem bonita, teve a veia, a linha gravitacional
bem bonita, bem marcada, e às vezes o apetite antes, ou seja, eu
não passo a vê-la como mais aquela namorada, como aquela
esposa, agora eu veja ela, não só como esposa, mas como mãe do
meu filho, então às vezes não tem aquela atração tanto, ou seja, se
em relação a relação sexual na semana toda noite tivermos, após a
gravidez gente já não tinha tanto. (Pai-casal 3)
Essas vivências frente às mudanças trazidas pela maternidade também
podem ser enfrentadas pelos casais, sendo superadas, esse momento também
pode ser desencadeador de boas experiências, depende da cumplicidade vivenciada
pelos cônjuges.
4.4.5 Interferência do filho
A chegada de um filho traz novas realidades para os cônjuges, surgem novas
responsabilidades e tarefas para os pais, as quais podem ter algumas repercussões
na relação conjugal. O bebê demanda cuidados constantes, e as figuras que estão
em foco nesse momento são os pais, principalmente a mãe; segundo McGoldrick
(1995, p. 43) “mesmo quando os pais começam a participar mais ativamente da
relação com os filhos, são as mães, incluindo as mães de dupla jornada, que
suportam maior parte das responsabilidades de atender as necessidades dos filhos”.
Devido à demanda que se exige, o bebê passa a ser foco de cuidado, o casal
sai de cena, e o filho passa a ser detentor de grande parte do tempo, sobrando um
curto espaço para as outras atividades, que na maioria dos casos é para o
descanso. Assim, há um afastamento entre os cônjuges, pois há uma diminuição
66
dos momentos de intimidade, de troca de sentimentos e até mesmo um diálogo
entre os cônjuges, que os tenham como prioridade, como se faz perceber nos
relatos dos casais durante a entrevista.
McGoldrick (1995) afirma que a presença de uma criança na casa impede que
os pais tenham uma maior privacidade, mesmo em seus próprios quartos, pois
mesmo as crianças sendo recém nascidas, existe a ameaça do pouco tempo, o
excessivo nível de preocupação que ocupa a mente tanto da esposa quanto do
marido ou até mesmo medo do bebê chorar e não se ouvir. Neste sentido, percebese que há uma redução do vínculo afetivo e da satisfação entre os casais.
No que se refere à concepção da interferência dos filhos na conjugalidade, os
casais apresentam os seguintes relatos:
[...] e a gente era muito ligado, era muito apaixonado, de tal forma
assim que cada vez que a gente ia fazer amor parecia que era a
primeira vez, e eu dizia assim: até quando eu vou sentir esse frio na
barriga...Isso acabou (risos) quando ela nasceu, quando eu fiquei
grávida (Mãe-casal 2)
(...) então um filho, é uma prova de fogo pro casamento, ou ele uni
para sempre ou ele separa. (Mãe-casal 2)
Logo no início, agora não, agora é normal, a mesma coisa agora, no
início atrapalha um pouco, mas agora como ele já tem quatro anos,
ai já, já normal. (Mãe-casal 3)
(...) o momento que a gente gosta tal, é o momento de ficar no sofá,
namora como de costume, abraçado, beijando o ouvido, é
interrompido com nada, só de um choramingo (imita o choro), ai
corre, porque não sabe se ele caiu da cama, se ele acordou, ai então
rompe toda aquele clima. (Pai-casal 3)
[...] porque a vida social no casal que não tem filho é a mesma que
ser de solteiro, porque não tem responsabilidade com hora de
chegar, não tem responsabilidade com a hora de sair, a troca de
carícias, a afetividade, a sexualidade do casal é mais intensa.
Quando nasce a criança já perdeu 70%, ou seja, vai ficar reduzido,
vai focar mais na criança (Pai-casal 3)
Esse posicionamento dos casais entrevistados frente às implicações ocorridas
na conjugalidade com o nascimento do primeiro filho reforça que é necessário haver
um resgate do tempo a dois entre os cônjuges, destes compartilharem os
sentimentos desencadeados por esse momento, os desejos, as aflições, e promover
este como um período também de gratificação e prazeres. De acordo com Teruel
67
(1992, p.145) “o conflito é inerente a todo e qualquer relacionamento conjugal,
contribuindo tanto para a dissolução quanto para o fortalecimento do vínculo”.
4.4.6 Satisfação Sexual hoje
A satisfação sexual do casal está diretamente relacionada com a maneira que
os cônjuges vivenciam e conseguem ajustar-se frente à parentalidade. Identifica-se
que em todos os relatos, a sexualidade hoje é melhor, com o passar do tempo o
desempenho afetivo direcionou-se para a relação entre os cônjuges, havendo o
aumento da satisfação. Apenas o pai- casal 1 que afirma que não mudou,
continuando o mesmo afeto, porém sua esposa a mãe-casal 1 afirma que está
melhor que antes.
Eu acho que não mudou não, acho que a gente manteve a mesma
coisa, eu acho que o carinho, né, apesar também que não só o
nascimento da criança, mas no ativismo que nós vivemos, mas a
gente ainda tem aquele tempo pra gente, da mesma forma, o mesmo
carinho, não mudou muito não. (Pai-casal 1)
Corroborando Anton (2006 b) afirma que tanto para homens quanto para as
mulheres há o aumento da qualidade de vida sexual posterior às experiências
iniciais da parentalidade. As mulheres se sentem mais maduras e plenas quanto a
desfrutar do relacionamento íntimo, o que se percebe claramente no discurso das
mulheres entrevistadas. Ainda quanto às mulheres, a autora afirma que elas passam
a se sentirem mais atraentes, acolhedoras frente às experiências já vivenciadas.
(ANTON, 2006 b)
Hoje me considero mais madura e acho hoje melhor do que antes,
porque no início era inexperiente, aquela coisa toda, hoje não, você
vai, já conhece o corpo do outro, ele já conhece o meu. (Mãe-casal
1)
Hoje a gente tá com uma vida sexual muito melhor do que antes da
minha filha e eu não entendia isso, eu nem acreditava que ia ser
possível, hoje a gente viaja sozinhos, hoje a gente dá uma fugidinha,
hoje a gente sai pra namorar, coisa que a gente não fazia. (Mãecasal 2)
(...) é possível o casal deixá-los mais cúmplice, mais unido e o sexo
fica melhor, porque assim a gente tem mais maturidade de dizer não,
não quero agora, não tô bem, mais amanhã vai ser melhor, e
amanhã chega e é melhor e assim é o dia a dia. (Mãe-casal 2)
68
Hoje eu posso dizer que está melhor, há uns seis meses atrás eu
tinha até medo em relação ao nosso futuro. (Mãe-casal 3)
Aproximou mais. (Mãe-casal 4)
Anton (2006 b) afirma em relação aos homens, estes se mostram mais
seguros e serenos frente a sua masculinidade, havendo uma renovação da ligação
amorosa com a esposa e com a família, e passam também a permitir-se viver a
realização de seus desejos mais íntimos. Segundo a mesma autora, esta postura
diante desse momento, significa dizer que ambos os cônjuges “terão suficiente
ligação e cumplicidade para irem estabelecendo os limites necessários ao próprio
filho, no intuito de preservarem um espaço justo e saudável para investirem em seu
próprio vínculo homem-mulher”.
Na minha opinião é como se nós ainda tivesse no primeiro ano de
casado. (Pai-casal 2)
Vai amadurecendo mais, vai descobrindo um mundo totalmente
diferente passa a ter o consentimento do que é prazer. (Pai-casal 4)
Os participantes da pesquisa ao responderem essa questão realmente
mostraram satisfação diante das lembranças das vivências, o que é percebido nos
relatos.
69
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir das análises do material colhido nas entrevistas junto com a
confrontação teórica, percebeu-se que a chegada do primeiro filho traz inúmeras
transformações na vida do casal, principalmente no que se refere à relação conjugal.
Deve-se ressaltar que diante da experiência da construção da parentalidade, é
necessário levar em consideração a dinâmica individual do casal, pois diante das
novas configurações familiares que os cônjuges passam a experienciar, há a
possibilidade de uma aproximação ou de um afastamento, dependendo da
maturidade dos mesmos e como eles lidam com tais transformações.
A construção da parentalidade é marcada por uma reorganização da vida
enquanto casal. Esta marca o ciclo vital familiar, pois o investimento antes orientado
exclusivamente para a organização marido e mulher, é compartilhado para uma
nova relação, a de pais e filho. Vale ressaltar que há uma continuação da função
conjugal, porém há uma construção da função parental, havendo uma soma de
funções, marido e mulher, pai e mãe.
A parentalidade exige dos cônjuges um investimento intenso e uma constante
construção de conhecimentos e práticas para que estes consigam lidar com as
novas demandas. A entrada de um terceiro membro na configuração familiar,
acarretada uma série de transformações, surge novas responsabilidades, novas
ocupações para os cônjuges e a atenção destes tomam uma nova direção, voltandose para o bebê, o qual geralmente torna-se o centro da relação.
As repercurssões da chegada do primeiro filho são percebidas nas várias
colocações dos participantes durante a entrevista. A verbalização das vivências da
parentalidade foi fonte desencadeadora de emoções e vários sentimentos em alguns
cônjuges entrevistados, na qual se percebe o quanto este é um momento que
demarca uma fase de grande importância na vida de um casal.
Foi percebida durante a realização das entrevistas que tanto os homens
quanto as mulheres expressaram seus sentimentos. O que chamou atenção é que
os casais em que um dos cônjuges enfatiza o discurso, na qual a fala é bastante
longa e detalhada, as colocações do outro cônjuge é bastante breve.
Os resultados apresentados neste estudo apontaram mudanças importantes
nos quesitos analisados, compreendendo-se que através das entrevistas vários
apontamentos repercutem na vida dos casais com a construção da parentalidade.
70
Percebe-se que a prestação de cuidado realizada pelo casal é bastante importante
tanto para a relação conjugal em si, como para a parceria parental.
Verificou-se também que uma das maiores dificuldades do casal é articular e
ajustar a vivência da conjugalidade com a parentalidade. O casal com a chegada do
filho passa a investir menos na conjugalidade, voltando-se para parentalidade,
diante desta, é necessário que os cônjuges se adaptem a essa nova realidade,
assumindo os dois papéis, pois um não deixa de existir pela presença do outro.
Assim, como afirma Rivero (2006) para que se preserve a conjugalidade, é
necessário que o casal ajuste as expectativas, partilhe os sentimentos, busque uma
cumplicidade, para que os cônjuges encontrem um reequilíbrio na relação, voltandose também um para o outro, sem confundir papéis, visando assim, promover um
bem-estar na família.
A partir das entrevistas, torna-se importante destacar, que embora haja
rupturas e dificuldades na relação entre os casais com a chegada do primeiro filho,
há tentativas de resgates da conjugalidade pelo casal, o que permite um
fortalecimento do vínculo e o aumento da satisfação conjugal, proporcionando assim
uma melhor qualidade de vida familiar.
Desta forma, a partir das análises da pesquisa, compreende-se que a
construção parental suscita repercussões na conjugalidade, sendo conduzida de
maneira singular por cada casal. Afinal, como argumenta Menezes (2006), a história
de vida, a intensidade e a qualidade da relação afetiva de cada casal, é muito
importante, pois assinala a forma como cada casal vivencia e atravessa as
transições da vida a dois, como por exemplo: o nascimento do primeiro filho.
A partir deste estudo, foi possível falar e refletir acerca do tema, alcançando
os objetivos deste trabalho, contribuindo assim, para a reflexão e compreensão das
repercussões na conjugalidade a partir da chegada do primeiro filho. Desta forma,
espera-se que esta pesquisa suscite desejos para realização de novos estudos.
71
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77
APÊNDICE A - Entrevista
Faculdade do Vale do Ipojuca - FAVIP
PSICOLOGIA
ROTEIRO DE ENTREVISTA
I – DADOS GERAIS
1.
2.
3.
4.
5.
6.
7.
Nome:
Sexo:
Idade:
Escolaridade:
Tempo de casado:
Idade do filho(a):
Renda pessoal e familiar:
II – QUESTÕES DIRIGIDAS
1. Diga como é o exercício da sua paternidade/maternidade?
2. Você desejava ter filhos? (Se houve planejamento)
3. No nascimento do bebê você recorreu ou recebeu apoio dos familiares e/ou
de profissionais (babás, enfermeiras)?
4. No nascimento do bebê você recebeu apoio do seu cônjuge?
5. Fale-me sobre o recebimento da notícia da gravidez.
6. Fale-me sobre as expectativas com o nascimento do bebê? (curiosidade
sobre o sexo, as dúvidas e preocupações).
7. O nascimento do primeiro filho lhe ocasionou medos?
8. Você percebeu alguma mudança na relação conjugal? (como por exemplo a
rotina, momentos difíceis)
9. Em algum momento você sentiu dúvidas quanto ao exercício da
parentalidade?
10. Como ficou a afetividade após o nascimento do seu filho(a)?
11. Quanto à sexualidade, as transformações no corpo acarretaram implicações
na relação enquanto casal? (Influencia da maternidade)
12. Ainda quanto à sexualidade como você avalia a satisfação sexual hoje?
13. Em relação à satisfação conjugal houve mudanças na relação marido e
mulher?
14. Enquanto pais e família quais são suas expectativas quanto ao futuro?
78
APÊNDICE B – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
Faculdade do Vale do Ipojuca - FAVIP
Departamento de Psicologia
Bacharelado e Formação em Psicologia
55024-901 Caruaru, PE – Brasil
Tel./Fax 55 81 3722- 8080
E-mails: [email protected]
[email protected]
Prezado (a) Colaborador (a),
Estamos realizando uma pesquisa aqui na cidade de Belo Jardim com a finalidade de conhecer
questões referentes: As repercussões na relação afetiva do casal após o nascimento do primeiro
filho. Este estudo compreende uma pesquisa de graduação em Psicologia da Faculdade do Vale do
Ipojuca (FAVIP), sob a orientação da Professora Msc. Raffaela Medeiros e Morais.
Para realização desta pesquisa, gostaríamos de contar com a colaboração do casal respondendo
a esta entrevista. Esclarecemos que serão respeitados todos os princípios éticos relacionados a
pesquisas com seres humanos, conforme o Conselho Nacional de Saúde e o que estabelece o Comitê
de Ética na Pesquisa.
Apesar deste estudo não oferecer benefício imediato ao casal participante, a possibilidade de
falar durante as entrevistas pode proporcionar efeito terapêutico nos mesmos. Além de que contribuirá
ao banco geral do conhecimento psicológico e científico. Entretanto, devem considerar possíveis
riscos como constrangimento/ desconforto ao responder as questões. Frente a esta possibilidade, o
casal terá à sua disposição o serviço de atendimento psicológico da CASA FAVIP, (Trav. Geraldo de
Andrade, 46, Bairro: Indianópolis - Caruaru, telefone: 3727-4721).
Pedimos que expressem o que pensa da maneira mais sincera possível. Todas as informações
são confidenciais e não existem respostas consideradas certas ou erradas. Salienta-se, portanto, a
garantia do anonimato do casal participante, a identidade será mantida em sigilo, bem como o caráter
voluntário da sua participação, tendo o casal participante a liberdade de recusa e desistência da
pesquisa em qualquer fase, sem haver penalização. Se houver alguma dúvida durante a realização da
pesquisa estaremos disponíveis para esclarecê-las em qualquer etapa, quantas vezes forem necessárias.
As informações coletadas na pesquisa estarão disponíveis provavelmente ao final do segundo
semestre de 2012. Para obtê-las, favor contatar os responsáveis através dos meios acima citados que
neles estaremos disponíveis para todos os esclarecimentos em qualquer fase da pesquisa.
Desde já, agradecemos enormemente a colaboração dada a esta solicitação.
TERMO DE CONSENTIMENTO
Certifico haver lido o anteriormente descrito, compreendo que os dados serão mantidos em sigilo e
que estou participando voluntariamente. Pela presente, dou meu consentimento para participar do
estudo.
Belo Jardim, _____de _________________de 2012
________________________________________________________________
Assinatura/rubrica do participante
__________________________________
Nathália da Silva Santos
(Graduanda em Psicologia)
__________________________________
Raffaela Medeiros e Morais
(Orientadora)
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