SOCIEDADE DE EDUCAÇÃO DO VALE DO IPOJUCA FACULDADE DO VALE DO IPOJUCA – FAVIP COORDENAÇÃO DE PSICOLOGIA CURSO DE PSICOLOGIA NATHÁLIA DA SILVA SANTOS AS REPERCUSSÕES NA RELAÇÃO AFETIVA DO CASAL APÓS O NASCIMENTO DO PRIMEIRO FILHO CARUARU 2012 0 Nathália da Silva Santos AS REPERCUSSÕES NA RELAÇÃO AFETIVA DO CASAL APÓS O NASCIMENTO DO PRIMEIRO FILHO Trabalho de conclusão de curso apresentado à Faculdade do Vale do Ipojuca, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Psicologia. Orientadora: Profª Ma. Raffaela Medeiros e Morais CARUARU 2012 1 Catalogação na fonte Biblioteca da Faculdade do Vale do Ipojuca, Caruaru/PE S237rSantos, Nathália da Silva. As repercussões na relação afetiva do casal após o nascimento do primeiro filho. / Nathália da Silva Santos. – Caruaru: FAVIP, 2012. 78 f.:il Orientador(a) :Raffaela Medeiros e Morais. Trabalho de Conclusão de Curso (Psicologia) -- Faculdade do Vale do Ipojuca. 1. Conjugalidade. 2. Parentalidade. 3. Nascimento do primeiro filho. I. Santos, Nathália da Silva. II. Título CDU 159.9 [13.1] Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário: Jadinilson Afonso CRB-4/1367 2 3 DEDICATÓRIA À Deus, por me iluminar, me mostrar a cada dia que sou capaz, pelas bênçãos a me sempre concedidas e por ser meu refúgio em todos os momentos. Um carinho especial a minha irmã e aos meus pais pelo amor e apoio que sempre me deram aos quais devo em grande parte o que eu sou. Ao meu namorado, pela paciência e compreensão, pois a partir do momento que começou a fazer parte de minha vida, me tornei uma pessoa mais feliz. A toda minha família pelo apoio, amor, confiança a me dedicados. 4 AGRADECIMENTOS À Deus pelo dom da vida, pelo seu amor infinito, por ser o centro da minha vida, por ter me sustentado e me tomado em seus braços nos momentos difíceis para que eu não tropeçasse em meio as adversidades e provações. Por ser a luz dos meus pensamentos para que eu pudesse concluir esta etapa. Agradeço aos meus pais, Alexandre e Nilsa pelo amor, incentivo e ao apoio a me dedicados, pelo investimento que direcionaram a me durante toda minha vida fazendo sempre o possível e o impossível pra me fazer feliz, por acreditar na minha capacidade e me ensinarem a ser forte, sem perder a simplicidade e doçura. A minha irmã, Anielly, pela preocupação e por suas palavras que mesmo sem saber me fortalece e faz acreditar mais em mim. Ao meu namorado, Marcílio, agradeço por ter vivenciado comigo este momento, pela paciência, pelas esperas que eu o fiz passar, pelo apoio e por me mostrar que sou capaz, agradeço todo carinho, respeito e companheirismo a me dedicados todos esses anos. Aos meus familiares, que junto comigo viveu esse momento, que me deram força, que me deram atenção e se preocuparam comigo, por acreditarem e torcerem sempre por mim, me incentivando em todos os momentos em que precisei. Agradeço as orações de todos. Agradeço a minha orientadora Raffaela Medeiros, por acreditar em minha capacidade, pela disponibilidade, pela grande contribuição para a realização deste trabalho, por suas considerações a cada orientação e por partilhar comigo suas experiências e conhecimentos as quais enriqueceram o meu trabalho e principalmente pela forma humana que conduziu as orientações, expresso aqui minha admiração. Agradeço a todos meus professores que participaram da minha construção acadêmica, obrigada pelas grandes contribuições, pelo compromisso, pela competência e por me mostrarem que a prática da psicologia vai além do método, é a manifestação do afeto, é trabalhar com amor. Agradeço as professoras examinadoras da banca, a Claudine pelas ricas contribuições na primeira avaliação e por ter aceitado meu segundo convite. A Ana Barreto por também ter acolhido meu convite e aceitado participar da banca, e 5 quando minha professora, com seu olhar e cuidado, me acolher em vários momentos. A todos da sala 0802, pelas inúmeras noites juntos, por terem feito desta, uma jornada mais agradável e única. Juntos conseguimos passar por todas as dificuldades, e a partir de tantas vivências, todos vocês fazem parte de uma história que marcará para sempre minha vida! Agradeço a todos meus amigos e amigas, por me acolherem nos momentos de angústia, por partilhar e vibrar comigo os pequenos avanços de cada passo deste trabalho. Agradeço a todos de forma especial e carinhosa àqueles que me deram força e coragem. Agradeço aos meus amigos da CASA FAVIP, obrigado dividir as tardes, as conversas, por contribuir com tantos ensinamentos, tanto conhecimento, tantas palavras de força e ajuda. Á minhas grandes amigas, Kaline, Maria Camilla, Taína, Wagna, pelo carinho em cada olhar, por me acolher da maneira singular a cada uma. Agradeço pelas ajudas, pelas lágrimas e por vibrar com minhas conquistas e por fazer mais fácil essa trajetória. Agradeço por encontrar vocês, pois sei que mesmo distante cada uma seguindo uma direção, estaremos torcendo uma pela outra e que faremos para sempre, parte da vida uma da outra. Agradeço a todos os casais participantes deste estudo, pois sem eles este não seria possível. Enfim, não poderia deixar de dedicar a todas as pessoas especiais em minha vida, agradeço a todos pelas lições de humildade, amor ao próximo, pelo respeito, pelas lições de vida, todas são essências na minha caminhada, as quais levo para minha vida pessoal e profissional. Envolvo-me de saudades e com a certeza que juntos, com a contribuição de todos, em cada palavra, gesto, olhar, mostramos que mesmo difícil esse sonho seria possível! Muito Obrigada! Nathália da Silva Santos 6 ”Nossos dias são preciosos mas com alegria os vemos passando se no seu lugar encontramos uma coisa mais preciosa crescendo: uma planta rara e exótica, deleite de um coração jardineiro, uma criança que estamos ensinando, um livrinho que estamos escrevendo” Autor: Friedrich Rückert 7 RESUMO Compreende-se que a chegada do primeiro filho assinala uma transformação na configuração familiar. O presente estudo tem como objetivo investigar as repercussões que o nascimento do primeiro filho acarreta na relação conjugal. Assim, para investigar as transformações e reorganizações ocasionadas pela entrada na parentalidade, a revisão literária enfatizou estudos sobre a família nuclear, a conjugalidade e a parentalidade. A pesquisa de campo estabeleceu-se através da entrevista semi-estruturada, realizada com 4 casais primíparos. Os conteúdos colhidos nas entrevistas foram estudados fundamentado na Análise de Conteúdo de Bardin (2007). Os resultados explanaram quatro categorias: a) Planejamento do filho, b) A expectativa do casal frente o exercício da parentalidade, c) Rede de apoio e d) Mudanças na conjugalidade após o nascimento do primeiro filho. Os resultados da análise dos dados evidenciaram que a transição para a parentalidade acarretou mudanças na conjugalidade dos casais participantes da pesquisa. Os dados permitem apreender também, que a intensidade e a repercussão dessas mudanças vão depender da construção da vida a dois, podendo ser um fator de declínio ou de aumento da satisfação conjugal. Palavras-chave: Conjugalidade. Parentalidade. Nascimento do primeiro filho. 8 ABSTRACT It is understood that the arrival of first child marks a transformation in family configuration. The present study aimed at investigating the repercussions that the birth the first child on the marital relationship entails.Thus, to investigate the transformations and reorganizations occasioned by the entry in the parenthood, the literature review emphasized studies on nuclear family, conjugality and parenthood. The field research established itself through semi-structured interview, performed with 4 primiparous couples. The contents collected in the interviews were studied grounded in content analysis of Bardin (2007). The results made clear four categories: a) Planning the son, b) The expectation of the couple facing the exercise of parenthood, c) Support Network and d) Changes in conjugality after the birth of their first child. The results of the data analysis showed that the transition to parenthood led to changes in conjugality couples research participants. The data also allow apprehending, that the intensity and impact of these changes will depend on the construction of life to two, may be a factor in the decline or increase in conjugal satisfaction. Keywords: Conjugality. Parenting. Birth of the first child. 9 LISTA DE ILUSTRAÇÕES Tabela 1: Dados sócio-demográficos – Especificidades das Famílias............. 40 Tabela 2: Categorias e subcategorias...............................................................41 10 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO....................................................................................... 12 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA............................................................. 16 2.1 Um breve trajeto histórico sobre a família da Idade Média à Contemporaneidade............................................................................. 16 2.2 O nascimento do primeiro filho: Conjugalidade X Parentalidade... 2.3 A parentalização dos pais: As fantasias em relação ao 27 nascimento do primeiro filho.............................................................. 33 3. PROCESSOS METODOLÓGICOS....................................................... 39 3.1 Participantes (Amostra)....................................................................... 39 3.2 Instrumentos......................................................................................... 39 3.3 Análises de conteúdos........................................................................ 40 3.4 Análise Categorial........................................................................ 42 4. ANÁLISE E RESULTADOS DOS DADOS............................................ 43 4.1 Planejamento do Filho......................................................................... 43 4.1.1 Houve ou não Planejamento (foi ou não desejado)............................... 43 4.1.2 O recebimento da notícia da gravidez................................................... 44 4.2 Expectativa do casal frente o exercício da parentalidade............... 45 4.2.1 Sexo do bebê......................................................................................... 46 4.2.2 O exercício da paternidade e maternidade............................................ 46 4.2.3 Dúvidas e preocupações no exercício da parentalidade....................... 47 4.2.4 Medos..................................................................................................... 48 4.2.5 Expectativa quanto ao futuro................................................................. 49 4.3 Rede de Apoio...................................................................................... 51 4.3.1 Apoio entre os cônjuges......................................................................... 51 4.3.2 Apoio familiar......................................................................................... 54 4.4 Mudanças na conjugalidade após o nascimento do primeiro filho 55 4.4.1 O impacto da chegada do bebê na vida do casal.................................. 55 4.4.2 Mudanças no que tange à afetividade do casal..................................... 57 11 4.4.3 Influência e mudanças no relacionamento dos cônjuges diante da parentalidade.......................................................................................... 59 4.4.4 Mudança do corpo (Interferência da maternidade)................................ 63 4.4.5 Interferência do filho .............................................................................. 65 4.4.6 Satisfação Sexual hoje........................................................................... 67 CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................... 69 REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS................................................................. 71 APÊNDICES...................................................................................................... 77 12 1. INTRODUÇÃO A família ao longo da história vem sofrendo influencias, pelas grandes transformações do desenvolvimento social na contemporaneidade. Modificaram os valores, alteraram a economia que regem a organização social, transformaram-se também os ideais e o modo de pensar dos homens enquanto família e pessoa. Diante dessa diversidade frente ao tema família, o presente estudo surge da inquietação da pesquisadora em relação às peculiaridades percebidas durante a construção da parentalidade, na qual o casal soma esse novo papel, o ser pai/mãe, à função conjugal, percebendo-se esta nova fase como um período de profundos reajustes conjugais. Para McGoldrick (1995, p.149) é “o nascimento do primeiro filho, mais do que o próprio casamento, que marca de forma intensa a passagem para uma nova família”. No primeiro capítulo se expõe um breve trajeto sobre a história da família, partindo a análise da família medieval, cujas características eram marcadas pelo patriarcalismo. Não havia limites entre a profissão e vida particular; o serviço doméstico exercido pelas crianças confundia-se com aprendizagem, pois não havia lugar para a escola na educação, dando-se esta a partir da inserção da criança em outras famílias para, assim, aprenderem os hábitos de uma família e um ofício. Não havia importância social para cultivo do afeto na família, a infância era desconhecida, sendo a criança percebida como homens em “miniatura”. A partir do século XVI, as realidades e os sentimentos de família começaram a se modificar, numa revolução lenta e intensa (ÁRIES, 2006). Houve uma grande transformação no lugar atribuído às crianças, antes vista como pequenos adultos. Diante da modificação da família através dos tempos, percebe-se em uma perspectiva histórica, que a partir do desenvolvimento de uma concepção de infância, as crianças tornam-se o centro da família, instituição esta que passa a ter como características a troca afetiva e o amor entre pais e filhos. Para Áries (2006), essa nova preocupação para com a família fez com que esta assumisse uma nova função, dirigindo-se para além do direito privado e se responsabilizando pelo cuidado moral e espiritual de seus membros, tornando-se uma instituição possível de demonstração de afetos, sentimentos e amor. 13 É pertinente chamar atenção às várias configurações que a família pode assumir a partir da pós-modernidade, principalmente a diminuição do modelo de família nuclear na sociedade. Vale ressaltar as inúmeras possibilidades que a família se apresenta, como, por exemplo, a família monoparental, as famílias reconstituídas, homoparentais. A partir desses reposicionamentos sociais e essas redefinições de papéis, encontra-se, como acontecimentos que marcam a contemporaneidade, o aumento da participação da mulher no mercado de trabalho, juntamente com as mudanças decorrentes do advento do uso da pílula anticoncepcional como também da redefinição do casamento, dentre outras transformações que foram profundas e que são percebidas na nova paisagem social. No segundo capítulo apresentam-se as considerações sobre a conjugalidade e parentalidade, focando-se as repercussões de cada um destes momentos na vida do casal. Momento este, que diante da pesquisa percebe-se como um desafio para os casais, pois estes necessitam viver a parentalidade, ao mesmo tempo em que se adapta a vida conjugal e a essa nova realidade. Diante dessa perspectiva, os novos arranjos familiares trazem consigo novos processos de adaptação e reajustes em sua configuração, assim, este estudo investiga os ajustamentos e reestruturação da família, na tentativa de haver um entendimento dos processos vivenciados na chegada do primeiro filho, o qual muitas vezes gera um aumento de conflitos e insatisfações no casal. É pertinente pontuar sobre essa transição, no qual o casal além da conjugalidade passa a vivenciar uma nova fase, a parentalidade. Lamour e Barraco (1998 apud FERÉS CARNEIRO, s/d a) ressaltam a parentalidade como uma reestruturação psíquica e afetiva que possibilita aos adultos assumirem o lugar de pais, atendendo as necessidades dos seus filhos em três níveis: o corporal, o afetivo e o psíquico. As novas formas de vivenciar a conjugalidade são marcadas pela emergência de novas dinâmicas na vida do casal, as quais muitas vezes são fortemente amarradas no afeto e no amor jurado entre os cônjuges. Porém, toda relação conjugal está sujeita a ajustamentos, devido a vivências de transições e transformações decorrentes da construção da vida a dois. Com o nascimento do primeiro filho, o casal se apresenta diante de uma transição intensa, a qual pode trazer, na maioria das vezes, muitas felicidades e realizações para o casal, como também pode causar implicações e desajustes 14 emocionais na vida afetiva de ambos os cônjuges, pois tudo que se refere ao primeiro filho se configura em um universo muito novo, e o que é novo geralmente promove angústia. Esse momento é de grande importância, pois se caracteriza peculiarmente, em um período de intensas alterações dos papéis sociais e conjugais do casal, acompanhados por uma necessidade de redefinição e reajuste dos projetos enquanto uma nova configuração familiar. É frente a esse movimento que a pesquisadora propõe investigar: quais as implicações emocionais podem ocasionar o nascimento do primeiro filho na relação conjugal? Para investigar as transformações e reorganizações ocasionadas pela entrada na parentalidade, foi utilizada uma pesquisa bibliográfica, com base em autores que têm se implicado com a necessidade de repensar as vivências conjugais a partir de novas percepções de configuração e ajustamento familiar na contemporaneidade. Tendo como referencial: Carter & McGoldrick (1995) Ariés (2006) Badinter (1985); Souza (1997) Ferés-Carneiro (2005); Anton (2006). O terceiro capítulo expõe os processos metodológicos e posteriormente a análise do conteúdo colhido a partir das entrevistas, articulando os resultados com revisão teórica realizada. Utilizou-se da pesquisa exploratória de natureza qualitativa, quanto aos meios de investigação é uma pesquisa bibliográfica e pesquisa de campo. (VERGARA, 2009). A coleta de dados foi realizada através de entrevista semi-estruturada proposta por Minayo (2000), tendo como participantes quatro casais primíparos1. Como método de análise foi realizado a análise de conteúdo na perspectiva de Bardin (2007). Assim sendo, esta pesquisa visa contribuir para compreensão dos casais primíparos e futuros pais sobre a saúde da família e a saúde mental dos casais, depois, contribuir para promoção desta, ressaltando as implicações e ajustamentos da relação conjugal com o nascimento de um filho. Na intenção de ser geradora de uma ação preventiva para as famílias, abordando o nascimento de um filho como um desafio familiar. Propondo uma atenção ao fortalecimento dos vínculos familiares. Assim, esta pesquisa se configura inclusive como ação potencializadora das políticas de atenção à família. 1 Casais com apenas um filho. 15 Para finalizar, faz-se de forma geral algumas considerações das relevâncias acerca do estudo realizado e dos achados da pesquisa. A partir da análise do conteúdo, percebeu-se que a chegada do primeiro filho suscita inúmeras transformações na vida dos cônjuges, principalmente no que se refere à relação conjugal. Percebe-se também que a forma de enfrentamento dessas mudanças é singular a cada cônjuge. A maneira como os casais vivenciam as novas demandas que surgem a partir da chegada do primeiro filho, podem ocasionar para uma redução do vínculo afetivo e da satisfação entre os casais, ou o aumento da maturidade e cumplicidade entre os cônjuges. 16 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 2.1 Um breve trajeto histórico sobre a família da Idade Média à Contemporaneidade Quando se pensa em família popularmente, se vem logo à mente uma estrutura desenvolvida a partir da união de um casal, os quais têm uma relação recíproca de afeto e de um querer bem. Duas pessoas carregadas de valores e princípios individuais, que vem de duas famílias distintas para constituir uma nova família. Para Groeninga (2003, p. 126) “a família é sistema de relações que se traduz em conceitos e preconceitos, idéias e ideais, sonho e realizações. Uma instituição que mexe com nossos mais caros sentimentos. Pragmática para outros relacionamentos, célula mater da sociedade”. O dicionário traz as seguintes definições: 1. pessoas aparentadas que vivem, na mesma casa, particularmente o pai, a mãe e s filhos. 2. Pessoas do mesmo sangue. 3. Origem e ascendência. 4. O conjunto dos caracteres ou dos tipos com o mesmo desenho básico. 5. Reunião de gêneros. A que é constituída pelo casal e seus filhos. (FERREIRA, 2008, p.396) Diante da diversidade de conceitos que é possível encontrar sobre família, ressalta-se que não é fácil defini-la, se é que se pode conceituar, pois mesmo sendo um termo utilizado mundialmente, existe a influencia cultural, de gerações, que modificam a percepção do indivíduo sobre esta, como também pode existir a implicação subjetiva de cada sujeito ao defini-la. Souza (1997) contribui afirmando acreditar que família tem uma definição única para cada pessoa. Groeninga (2003) pontua que o conceito de família sofre influencia ao longo da história e varia de acordo com os diferentes contextos culturais, a autora afirma a família como “um caleidoscópio de relações que muda no tempo de sua constituição e consolidação em cada geração, que se transforma com a evolução da cultura, de geração para geração.” (GROENINGA 2003, p.126) A partir da diversidade que envolve o conceito de família, e das mudanças em sua configuração percebida no decorrer das gerações, percebe-se nitidamente que 17 esta instituição foi marcada e sofre influencia da evolução da sociedade. O desenvolvimento da família está implicado junto aos fatores que a mobilizam como o âmbito político, social, econômico, tecnológico entre outros eventos que fazem parte desta dinâmica. Groeninga (2003, p. 137) pontua que “[...] a finalidade da família, embora sofra variações históricas, mantém-se essencialmente como instituição estruturante do indivíduo”. Groeninga (2003) declara que mesmo com o passar do tempo a família foi, e sempre será o núcleo básico de qualquer sociedade. Deste modo será feito um trajeto histórico da Idade Média à contemporaneidade, buscando destacar as principais mudanças ocorridas no âmbito familiar com o passar dos tempos. Segundo Ariès (2006), nos moldes da família medieval encontrava-se uma realidade mais moral e social do que sentimental. Já no século XVI a percepção de família modificou-se profundamente, passando a vivenciar uma realidade em torno do casal e da criança, em que o elemento afetivo ganhou valor social. A família medieval se caracterizava pelos agrupamentos familiares maiores e o acúmulo de bens, sem expressão de afeto, em que a criança não tinha significação, eram consideradas um pequeno adulto, não existia o sentimento ou a compreensão da singularidade da infância, sendo esta ignorada. Ariès (2006, p. 104) pontua que “o apego à infância e a sua particularidade não se exprimia através da distração e da brincadeira, mas através do interesse psicológico e da preocupação moral. A criança não era divertida nem agradável.” A infância na idade média era curta, terminava ao a criança ser desmamada, assim que deixava os cueiros passavam a ser vestidas como pequenos adultos, Ariès (2006, p.46) pontua que “[...] a idade de sete anos marcava uma etapa de certa importância era a idade geralmente fixada pela literatura moralista e pedagógica do século XVII para a criança entrar na escola ou começar a trabalhar”. Havia uma transformação na vida das crianças, seus trajes eram mudados, lhe eram atribuídos responsabilidades e novas atividades. Passavam a fazer parte efetivamente do círculo dos adultos de cada gênero, ampliando suas relações sociais, iam a festas e dançavam junto aos adultos, eram obrigados a abandonar os jogos da infância e passar a brincar com jogos adultos. (ARIÈS, 2006) De acordo com Ariès (2006), as crianças permaneciam vinculadas às suas famílias por pouco tempo, assim que podia viver sozinha, a criança ingressava na sociedade dos adultos e não se distinguia deles, a criança era socializada longe do 18 ambiente familiar, como também era treinada em tarefas adultas. Segundo Ariès (2006), os adultos mantinham uma relação com as crianças sem reservas, permitiam tudo, falavam vulgaridades, em uma linguagem grosseira, até mesmo temas sexuais, as crianças participavam de todas as discussões. Segundo o mesmo autor, as crianças eram separadas de suas famílias para que sua educação fosse realizada por outra unidade familiar, como também estas famílias recebiam outras crianças em casa com a mesma finalidade. Neste contexto torna-se claro que a afetividade na família não era um pressuposto para sua instituição nem mesmo ressentia-se como valor social; contudo, isso não quer dizer que os pais não amassem seus filhos. Como não havia lugar para a escola na transmissão da aprendizagem, a educação se dava a partir da inserção da criança nas novas famílias, que tinha como finalidade partilhar da vida familiar, aprender um ofício e desta forma iniciar na vida adulta. Prática exercida independente da condição social era um hábito comum a todos. Analisando esse sentimento de família e transmissão de aprendizagem, Ariès (2006, p. 157-158) pontua que: As pessoas não conservavam as próprias crianças em casa; enviamnas a outras famílias, com ou sem contrato, para que com elas morassem e começassem suas vidas, ou, nesse novo ambiente, aprendessem as maneiras de um cavalheiro ou um ofício (...) a família não podia portanto, nessa época, alimentar um sentimento existencial profundo entre pais e filhos. Isso não significava que os pais não amassem seus filhos. A criança era considerada um aprendiz, na qual todos os ensinamentos eram passados por um mestre através dos serviços domésticos, este transmitia a bagagem de conhecimento diverso que possuía, experiências práticas e seus valores humanos. O mestre não eram os pais, eram outros homens, a quem as crianças deviam respeito. (ARIÈS, 2006) O ressurgimento da escola foi um marco na história da família no século XVII, pois esta passa a ser responsável pela educação, a aprendizagem tradicional foi substituída pela escola. Segundo Ariès (2006) quando a escola torna-se responsável pela aprendizagem, há a aproximação tanto dos membros da família, pais e filhos, como do sentimento de família e de infância, até então separados. A criança passa então a ser notada pela família, o que possibilitou uma maior participação dos pais 19 na vida do filho. “Houve casos em que a aprendizagem perdeu seu caráter empírico e assumiu uma forma mais pedagógica.” (ARIÈS, 2006, p. 157) Segundo Ariès (2006), o sentimento da família, que emerge nos séculos XVI e XVII, é inseparável do sentimento da infância. Aparecem as novas intervenções da educação, direcionado a conselhos aos pais sobre como educar seus filhos. A educação não é mais voltada para as boas maneiras, passa-se a dar importância à escolha de uma escola e de um ofício. O objetivo era instruir a própria família sobre seus deveres e suas responsabilidades, e aconselhá-la em sua conduta com relação às crianças. “O clima sentimental era agora completamente diferente, mais próximo do nosso, como se a família moderna tivesse nascido ao mesmo tempo que a escola, ao menos, que o hábito geral de educar as crianças na escola” (ARIÈS, 2006, p.159) Mesmo com a educação acessível para a sociedade, a mesma continuou restrita a alguns, a extensão da escolaridade para as meninas era limitada, poucas frequentavam escolas, a aprendizagem era direcionada a experiências domésticas, continuando a serem educadas em casa. Para os meninos, deu-se primeiramente para a camada média da sociedade, assim parte da sociedade permaneceram fiéis a antiga aprendizagem. A ampliação da escola para todas as classes sociais deu-se paulatinamente. (ARIÈS, 2006) Neste contexto, de acordo com Ariès (2006), havia o esforço dos pais e dos magistrados urbanos em multiplicar as escolas com a finalidade de aproximá-las das famílias, e no início do século XVII criou-se uma rede densa de instituições escolares. “Esse fenômeno comprova uma transformação considerável da família: esta se concentrou na criança, e sua vida confundiu-se com as relações cada vez mais sentimentais dos pais e dos filhos” (ARIÈS, 2006, p. 160) O autor afirma que os problemas morais surgem a partir de uma nova visão, a sociedade passa a visualizar de uma maneira diferente alguns aspectos, neste caso a preferência do primogênito, como costume, os filhos mais velhos eram privilegiados. Fato que segundo Ariès (2006, p. 161), “[...] a partir da segunda metade do século XVII, os moralistas educadores contestaram a legitimidade dessa prática, que, em sua opinião, prejudicava a equidade, repugnava a um sentimento novo de igualdade de direito à afeição familiar”. De acordo com Ariès (2006), de fato o respeito agora direcionado à igualdade entre os filhos de uma família é uma amostra do movimento gradativo, que a família 20 realiza da família-casa em direção a família sentimental moderna, passando a haver uma afeição entre os membros da família, entre os pais e os filhos. É importante enfatizar a relação inseparável entre o sentimento de infância e família. De acordo com Ariès (2006) este processo de definição da infância como um período distinto da vida adulta também abre as portas para uma análise do novo lugar assumido pela criança e pelas famílias na sociedade moderna, o autor acrescenta ainda que, A família cumpria uma função – assegurava a transmissão da vida, dos bens e dos nomes – mas não penetrava muito longe na sensibilidade [...] A família deixou de ser apenas uma instituição do direito privado para a transmissão dos bens e do nome, e assumiu uma moral e espiritual, passando a formar os corpos e as almas. O cuidado dispensado às crianças passou a inspirar sentimentos novos [...] o Sentimento Moderno da Família. (ÀRIES, 2006, p.193-194) Ariès (2006) comenta que toda essa reorganização no sentimento familiar também refletiu na reorganização da casa, e as mudanças dos costumes proporcionou maior intimidade para a família, pois a casa passou a excluir os criados, amigos e clientes, centrando-se nos pais e nas crianças. Esse novo sentimento pode ser percebido também entre a mãe e a criança, havendo um maior estreitamento dos laços afetivos, pois até então os cuidados às crianças eram realizados por amas e servas. Hábitos que antes eram características marcantes passam a não serem mais utilizados, a vida social passa a ser planejada, não se fazia visitas a qualquer hora, sem antes avisar, os ambientes passaram a serem divididos, sendo cômodos, as camas passam a serem reservadas no quarto de dormir. Ressalta-se que nesta época passa a haver conforto, que junto surge à intimidade, a discrição e o isolamento. Ariès (2006). O autor ainda contribui ao assegurar que: No século XVII, a família começou a manter a sociedade a distância, a confiná-la a um espaço limitado, aquém de uma zona cada vez mais extensa de vida particular. A organização da casa passou a corresponder a essa nova preocupação de defesa contra o mundo. Era já a casa moderna, que assegurava a independência dos cômodos fazendo-os abrir um corredor de acesso. (ÀRIES, 2006, p.184-185). A família passa cada vez mais a caracterizar-se como instituição privada, passa a separar a vida em família, privada, da vida mundana, da vida profissional, cada função passa a ser exercido em um ambiente específico e adequado. Sem 21 dúvidas o aumento da vida privada foi fator que beneficiou a intimidade familiar, porém ainda estava longe de configurar-se como a vida interior da família moderna. (ARIÈS, 2006) Estudos atuais mostram como a vida coletiva vai dando lugar a um espaço privado de vida. As casas modificam sua arquitetura para reservar aos indivíduos locais privados; os nomes se individualizam; roupas, guardanapos e lençóis ganham marcas, de modo a permitir sua identificação. A vida do trabalho sai de casa para fábrica, modificando o caráter da vida pública. A casa torna-se lugar reservado à família que, em seu interior, divide espaços, de forma a permitir lugares mais individuais e privados. Os banheiros saem dos corredores para se tornar lugares fechados e posteriormente individualizados. (BOCK, 2001, P. 19) Neste período Ariès (2006) ressalta um fato que também contribui para os contornos tomados pela família foi o tratado de civilidade que é o que hoje nos referimos como o conhecimento da sociedade, era a forma de conduzir-se em sociedade. Ariès (2006, p.169) pontua que “de fato a civilidade era a soma dos conhecimentos práticos necessários para viver em sociedade, e que não se aprendia na escola”, era aprendido através da prática. De acordo com Ariès (2006) as famílias burguesas passaram vários anos direcionados por costumes e regras provenientes dos manuais de civilidade. Neste mesmo cenário, é pertinente falar sobre a constituição inicial da instituição familiar, o casamento, este significava a celebração de um contrato entre os noivos, estipulando os direitos de cada um. A herança, a propriedade e os dotes eram os principais motivos que fundamentavam estes casamentos arranjados. Perrot (2009, p. 124) afirma que “o casamento é uma negociação, conduzida pelos parentes (tias casamenteiras), pelos amigos, pelos próximos (padre), e todos os seus fatores devem ser avaliados.” É claro que também existiam casamentos por amor, mas estes verificavam-se menos comuns. O casamento era estabelecido com a instituição de um dote, e o amor, mesmo que existisse, não era fator a ser considerado, sendo assim Badinter, (1985, p. 49) afirma que: De tudo isso, atentemos para a ausência do amor como valor familiar e social no período de nossa história que antecede a metade do século XVIII. Não se trata, porém, de negar a existência do amor antes de determinada época, o que seria absurdo. Mas é preciso admitir que esse sentimento não tinha a posição nem a importância que hoje lhe são conferidas. 22 Diante das idéias de Souza (1997), o casamento não se baseava numa escolha afetiva entre parceiros, era fundado muito mais numa forma de obediência às expectativas familiares e sociais. A base da relação era organizada a partir do desempenho profissional, da fortuna e qualidades morais. “Os valores familiares eram de grande importância nessa sociedade em que os indivíduos eram julgados em função de êxitos e fracassos de sua família.” (SOUZA, 1997, p.25) Como tradição característica da família, vale ressaltar acerca do casamento, o qual também sofreu influencia dos avanços sociais, antes a relação do casal se restringia a manter a família e procriar. O casamento também foi marcado pela instituição de dotes e a falta de amor. Costa (2005) pontua que com o advento do Cristianismo (323 d.C.) o casamento passa a ter um significado sacramental, indissolúvel, o qual toma a conotação de sagrado, assim alia-se ao casamento a noção de pecado, castigo e adultério, fatos considerados crimes. Segundo Costa (2005) o sentimento de amor passou a ser valorizado na Idade Moderna, o sexo passa a não ser um ato tão pecaminoso sendo associado ao amor, com também a escolha do parceiro passa a ser livre. Diante das construções desenvolvidas até este momento, já é possível perceber as características da família moderna, a partir do reconhecimento da importância da educação na vida das crianças; através do surgimento do sentimento de família que proporcionou a intimidade dentro do lar, trazendo a criança para perto dos pais, as funções paternas e maternas foram se delineando e passam a serem exercidas pelos próprios pais, desencadeando uma relação de afeto, que antes não acontecia de maneira apropriada e verdadeira. A modernidade apresenta um clima sentimental totalmente diferente, fundado no amor romântico, havendo um reconhecimento e estreitamento dos laços afetivos, sendo este marcado pela separação entre família e sociedade, entre privado e público. Segundo Ariès (2006) a nova configuração familiar foi se moldando de acordo com as mudanças sociais que estavam acontecendo na sociedade. A família moderna passar a existir com uma nova roupagem, com um novo olhar para o âmbito familiar e para quem a compõem, sendo aos poucos tomada pelos sentimentos contemporâneos. A contemporaneidade nos aponta mudanças nas estruturas familiares, modificações consideradas importantes que marcam de forma significativa as 23 possibilidades de conjugalidade no âmbito familiar, acarretando mudanças nos papéis e na dinâmica em seu interior, como também alterando sua estrutura no que diz respeito à composição familiar. Segundo Saliba e Saliba (2007) o papel do homem e mulher variou bastante no decorrer da história da sociedade e da família. Nos primórdios as mulheres eram exaltadas, considerada Deusas, poderosas, pois possuíam o poder de gerar vidas, aproximando-as da divindade, sendo elas consideradas superiores aos homens. Com o avanço da história o homem entra em ascensão, passa a ser considerado por várias gerações o modelo patriarcal de família, caracterizado pela autoridade e poder do chefe da família, na qual a esposa e os filhos são submissos ao pai. O modelo patriarcal era marcado pela estrutura familiar extensa, formada não só pelo núcleo conjugal e filhos, mas também familiares e agregados, dando importância fundamental ao núcleo conjugal. A partir do patriarcalismo é possível indicar de forma mais clara os papéis sociais marcados até os dias atuais na cultura e sociedade a serem realizados pelo homem e pela mulher. (RABONI, 2008) Bruschini (1993, apud PINHEIRO, 2008, p. 01) “caracteriza a família patriarcal pelo controle da sexualidade feminina e regulamentação da procriação, para fins de herança e sucessão”. Outra contribuição relevante é exposta por Freyre (1990, apud PINHEIRO, 2008) ao caracterizar nesta família a mulher como esposa dócil, submissa, entretanto de grande importância na educação dos filhos, na organização do lar e que em muitos momentos assumia a função de chefe da família na ausência do patriarca. Até meados do século passado, este modelo familiar predominante foi à chamada família tradicional. Durante muito tempo o perfil da família era estabelecido com o homem sendo provedor e a mulher cuidadora do lar e responsável pelos filhos. Segundo Almeida (1987 apud MONCORVO, 2008) esta configuração patriarcal posteriormente servirá como exemplo para a constituição da família nuclear burguesa moderna. A constituição da família nuclear foi de grande importância para a sociedade, segundo Alves (2009, p. 7) “Este tipo de estrutura familiar difere da tradicional família patriarcal, pois é composta apenas pelo núcleo principal representado pelo chefe da família (pai), sua esposa e os seus descendentes legítimos.” Segundo Silva (s/d) a transformação desse modelo de família patriarcal adveio do progresso da industrialização, passando para o modelo de família conjugal moderna, constituída pelo casal e seus filhos, típico da sociedade urbana. 24 “Neste caso a relação conjugal já não possui mais em sua essência a manutenção de uma propriedade comum ou de interesses políticos, mas agora sua essência está voltada também para a satisfação de impulsos sexuais e afetivos.” (CORRÊA, 1982 apud SILVA, s/d, p. 01). Para Mello (2000, apud SILVA, s/d), o modelo da família nuclear tradicional, é caracterizado pela figura do pai como chefe de família e pela mãe que vive na dedicação e no cuidado na educação dos filhos e na atenção a casa, este modelo “[...] é aclamado pelas pessoas e até mesmo pela mídia, que o veicula como um modelo ideal de família.” Mello (2000, apud SILVA, s/d, p. 01). Segundo Henriques, Féres - Carneiro e Magalhães (2006) os sentimentos de família e de intimidade foram se consolidando gradativamente e aproximando da noção de família moderna. A noção do indivíduo moderno está profundamente associada a nuclearização da família, que se afasta da comunidade de parentes, e se constitui de uma forma mais condizente com a valorização da atitude individualista e dos novos espaços urbanos (industrialização e mudanças socioeconômicas). (VELHO, 1987 APUD HENRIQUES; FÉRES - CARNEIRO E MAGALHÃES, 2006, P. 331) Como vimos importantes modificações têm ocorrido na estrutura da família. Na contemporaneidade, particularmente, são cada vez mais notórias as transformações da configuração familiar, percebendo-se uma variedade de modelos, estruturas e de pluralidade que a família se apresenta. Há uma atenuação do modelo nuclear, considerado há muito tempo o modelo tradicional de família para a sociedade, em que geralmente o homem é o chefe da família, exercendo o poder sobre esta instituição, na qual a mulher ocupa o lugar de cuidadora do lar, passa-se a perceber que não existe apenas um modelo de família e sim uma multiplicidade. Percebe-se uma diversidade de arranjos novos para se viver em família, há um fortalecimento da pluralidade de constituição de novos moldes familiares, como as famílias monoparentais, formadas por pai e filhos ou mãe e filhos; as homoparentais, constituídas por cônjuges do mesmo sexo; as famílias reconstituídas caracterizada pela união de duas pessoas e seus filhos de casamentos anteriores, constituindo assim uma única família, entre outros modelos. De acordo com Henriques, Féres - Carneiro e Magalhães (2006, p 332) “novos papéis foram prescritos, limitando o do marido e pai e ampliando, sobretudo, o de mulher e mãe; 25 as conquistas dela no campo do trabalho, do sexo e da luta pela igualdade de condições foram fundamentais para essas alterações.” Em todo o mundo, o conceito de família nuclear e a instituição casamento intimamente ligada à família, passaram por transformações. A expressão mais marcante dessas transformações ocorreu no final da década de 60: cresceu o número de separações e divórcios, a religião foi perdendo sua força, não mais conseguindo segurar casamentos com relações insatisfatórias. A igualdade passou a ser um pressuposto em muitas relações matrimoniais. A partir daí, surgem inúmeras organizações familiares alternativas: casamentos sucessivos com parceiros distintos e filhos de diferentes uniões; casais homossexuais adotando filhos legalmente; casais com filhos ou parceiros isolados ou mesmo cada um vivendo com uma das famílias de origem; as chamadas “produções independentes” tornam-se mais freqüentes; e mais ultimamente, duplas de mães solteiras ou já separadas compartilham a criação de seus filhos. (ALVES, 2009, p. 110) De acordo com Henriques, Féres - Carneiro e Magalhães (2006), na atualidade convive-se com três tipos de família, a tradicional, caracterizada pela autoridade paterna; a moderna, marcada por ser a mais nuclear e influenciada pelo individualismo, sendo pouco ligada a laços de parentesco, centrada no afeto entre os seus membros; há também, a pluralística, caracterizada pelos novos arranjos familiares, sendo mais flexíveis e igualitárias e menos permanentes. O modelo hierarquizado, carregado de rigidez, começa a dar espaço a um modelo horizontalizado, enriquecendo os relacionamentos familiares, o que caracteriza a família igualitária. No âmbito familiar, a horizontalização das relações interpessoais inaugurou o conceito de família igualitária, noção que, em linhas gerais, foi forjada em um reino de pluralidade de escolhas no qual as diferenças individuais são percebidas como mais importantes que as sexuais e de idade. Sendo assim os papéis familiares sofreram mudanças expressivas, o território familiar deixou de ser uma microarena, como na geração passada, e tornou-se um espaço democrático e privilegiado, em que sobressaem a segurança, a confiança e o apoio entre os membros. (HENRIQUES, FÉRES CARNEIRO e MAGALHÃES, 2006, p. 333) É pertinente ressaltar a busca pela família igualitária, esta que atualmente é muito comum na sociedade. Souza (1997) afirma que a partir do advento da pílula anticoncepcional, que naturalmente ocasionou a liberação da sexualidade da mulher, incentivou esta a buscar uma igualdade com o homem, fato que contribuiu não só na relação conjugal, como para entrada no mercado de trabalho e para a 26 participação na economia doméstica. O homem não é mais o senhor detentor do poder absoluto e a mulher não é mais submissa, ela antes exclusiva do lar, ingressa no mercado de trabalho, fato que surge a famosa “dupla jornada”, dividindo com o homem o papel de provedora de bens e educadora dos filhos, fato que assinala a transformação das relações da família, na direção da forma igualitária. Acrescentase que, A busca de igualdade se faz sentir em todos os momentos da vida: decisões conjuntas e não mais unilaterais, cuidados compartilhados com os filhos e, sobretudo na área das relações sexuais. A fidelidade se transforma em compromisso recíproco entre os parceiros, da mesma maneira que o prazer é considerado um direito de ambos. (SOUZA, 1997, p.27) Souza (1997) expõe que mesmo com o fortalecimento dos laços afetivos, foram se desenhando novos eventos que marcam a família atual, não só na distribuição de poderes e tarefas, como também a redução do número de membros na família, enfatizando o número de filhos principalmente nas áreas urbanas, devido a inúmeros fatores tanto de social, emocional, como os fatores culturais, econômicos. A partir do momento em que as pessoas passaram a se casar por amor, a família foi deixando de se configurar essencialmente como um núcleo meramente reprodutivo e com interesses econômicos, o afeto passa a fazer parte dessa configuração. A família pela perspectiva histórica, tem-se apresentado em diversas composições, em que pode-se afirmar que não existe um único modelo familiar. Frente a esse panorama, o interesse da pesquisa é discorrer idéias, especificamente, diante a família nuclear contemporânea, formada por pai, mãe e filhos, uma vez que o estudo tem como foco principal as implicações que a transição para parentalidade suscita na relação conjugal. A escolha da pesquisadora foi ter por base o modelo da família nuclear, pois o interesse da pesquisa é estudar as implicações da parentalidade após o nascimento do primeiro filho, num contexto de nucleação pai-mãe-filho. Mesmo diante da multiplicidade de entidades familiares na contemporaneidade, a família nuclear ainda é referenciada por muitos como representação do que seja família. Ribeiro (2011) corroborou isso em sua pesquisa realizada com crianças, ao afirmar que a representação social de família para a maioria das crianças entrevistadas é pai, mãe 27 e filho. Assim percebe-se que na transmissão geracional do modelo de família, a unidade nuclear ainda prevalece. Tendo esse modelo da família nuclear contemporânea como base, observase as grandes complexidades de ordem emocional, econômica, social que esta se depara, passando assim a enfrentar momentos de ajustes em sua configuração podendo acarretar vários conflitos, que mediante ao grau de maturidade do casal chega-se a um entendimento, ou se não, pode assim ocorrer uma separação. De fato, tratando-se de um casal, a família existirá a partir do momento em que duas pessoas decidirem viver juntos, tendo como justificativa mais comum: o amor, assim cria-se um mundo novo, um mundo diferente: uma família. Em sua maioria a família é constituída por relações de amor, a partir de um amor conjugal, e é nesse contexto que poderão vir os filhos, que se incorporarão ao projeto de vida idealizado por seus pais, passando assim para uma condição de parentalidade. 2.2 O nascimento do primeiro filho: Conjugalidade X Parentalidade A idéia sobre família vem ao longo dos anos marcada sempre por novas configurações advindas de um processo de transformação, passando por adaptações e progressos na sua estrutura, mudanças estas ocasionadas pela interação com o dinamismo da família junto às relações histórico e sócio-cultural. Segundo Ariès (2006), o casamento era instituído através de um contrato, fundado em interesses sociais e econômicos. Era negociado pelo um dote, não havendo a prerrogativa da afetividade para sua instituição como também era marcado pela desigualdade de sexo. Dentro deste contexto de transformação no âmbito da família, Lewis (1970) ressalta ao longo da história cinco formas de família diferentes e sucessivas, fundadas cada uma em um matrimônio característico. A família consanguínea, caracterizada pelo intercasamento de irmãos e irmãs; a família punaluana, instituída no casamento de várias irmãs carnais e colaterais, com os esposos de cada uma das outras em um grupo; a família sindiásmica, caracterizada pelo casamento entre casais individuais, porém sem obrigação de exclusiva coabitação; a família patriarcal constituía-se na união de um homem com várias mulheres; e por fim, a família monogâmica, constituindo-se na união de casais individuais, com a coabitação exclusiva dos cônjuges. 28 De acordo com Engels (2000), foi a partir da família sindiásmica que se deu o desenvolvimento da família monogâmica. Esta instituição prevalece nos moldes da sociedade moderna brasileira, pois como fator cultural homens e mulheres vivem em um relacionamento a dois de exclusividade, em que um ou outro não pode ter mais de um cônjuge. É geralmente nesse cenário que o casamento acontece, do desejo de união e cumplicidade de duas pessoas. “Esse movimento leva uma reestruturação da noção de conjugalidade, presentemente baseada na escolha individual do parceiro, privilegiando a satisfação individual, gerando uma sobrecarga de expectativas entre os sujeitos.” (FÉRES-CARNEIRO, 2003, p. 6) Na modernidade, o amor passa a ser estimado, e o casamento passa acontecer também a partir de um envolvimento afetivo entre os parceiros. De acordo com Féres-Carneiro (2003), o casamento passa a representar um acontecimento revestido de forte significação na vida dos cônjuges, passando a ser levada em consideração uma maior proximidade entre os sujeitos, um maior grau de intimidade e envolvimento afetivo, fatos permitidos a partir da nuclearização da família. “O casamento passa a ser considerado uma escolha individual e autônoma, baseada em laços de afeto e de afinidade.” (FÉRES-CARNEIRO, 2003, p. 6) O casamento tem assumido formas novas e variadas, que com as rápidas transformações marcam a constituição da família contemporânea. Segundo FéresCarneiro (s/d b, p. 2) “no contexto social contemporâneo, múltiplos arranjos conjugais, dos mais tradicionais aos mais modernos, se constroem, se desconstroem e se reconstroem, em seguida, num ritmo acelerado”. Assim, o casal contemporâneo depara-se com uma série de possibilidades de viver a sua conjugalidade, casais que, mesmo morando juntos, decidem não oficializar o relacionamento; homens e mulheres que decidem pela produção independente; casais homoafetivos que recorrem à inseminação artificial, entre tantas outras possibilidades de exercício da parentalidade. A conjugalidade nos dias atuais, pode ser compreendida como a construção de um vínculo que engloba projetos de vida e une duas pessoas, geralmente por amor. O casamento é ainda um sonho de muitos, que visam compartilhar suas vidas em busca da felicidade, com alguém que julgam ser especial, marcado pela intimidade e por outros inúmeros sentimentos que pode ou não durar “até que a morte os separe”. Segundo McGoldrick (1995, p. 18) “o casamento tende a ser erroneamente compreendido como uma união de dois indivíduos. O que ele 29 realmente representa é a modificação de dois sistemas inteiros e uma sobreposição que envolve um terceiro subsistema.” [...] o casamento tem como função social criar para o indivíduo uma determinada ordem, para que ele possa experimentar a vida com um certo sentido. Para estes autores, a realidade do mundo é sustentada através do diálogo com pessoas significativas e o casamento ocupa um lugar privilegiado entre as relações significativas validadas pelos adultos na nossa sociedade. (BERGER e KELLNER, 1970 apud FERÈS CARNEIRO, 1998, p. 3) Porém, pode-se ir mais além ao falar das relações na união conjugal, na qual a maneira de relacionar-se nesta instituição assume uma diversidade de se viver na contemporaneidade. Sousa (2006, p.42) afirma que a conjugalidade: “refere-se a díade conjugal e que constitui um espaço de apoio ao desenvolvimento familiar”. Tradicionalmente a conjugalidade dar-se início com a união do casal, em que o homem e a mulher saem da individualidade para serem “nós”, segundo a concepção cristã uma só carne. Féres-Carneiro (2001, apud SCHÄFER E BOECKEL, s/d, p.6) “destaca que o casamento contemporâneo representa uma relação de intensa significação na vida dos indivíduos, pois envolve um alto grau de intimidade e um grande investimento afetivo.” Atualmente, segundo Féres-Carneiro (1998), a sociedade contemporânea não aceita que alguém case-se sem haver desejo ou amor. Os cônjuges apaixonados não economizam as expressões de afeto, pois, cada vez mais as relações tornam-se próximas e com um vínculo intenso. “O casal vive uma intensa trama de gratuidade, amor, amizade, descobertas, re-descobertas, e jogos de poder. São nas escolhas feitas, nas decisões tomadas e atitudes realizadas que a construção do vínculo pode ser fortalecida ou enfraquecida”. (LOPÉS, 2008, p. 16) A noção de conjugalidade, a partir da modernidade, passa a pressupor a instauração da intimidade entre os parceiros, colocandoa como condição para uma relação fecunda, fundamentando o ideal de complementaridade entre os parceiros e instrumentalizando a legitimação do “eu” a partir do “nós” (FÉRES-CARNEIRO, 2003, p.3). De acordo com estudos, Féres-Carneiro (1998) afirma que o vínculo conjugal é estabelecido através da intensa relação entre dois indivíduos com histórias de vida diferentes, com concepções diferentes sobre o mundo, mas que decidem construir uma história em conjunto em busca da realização pessoal. A autora também faz referência à construção da identidade conjugal e autonomia de cada cônjuge, 30 pontuando que o casal é a todo tempo confrontado por duas forças paradoxais: por um lado, estimula-se a autonomia dos cônjuges, na qual cada um deve sustentar o desenvolvimento pessoal, por outro, emerge a necessidade de viver a conjugalidade, os projetos conjugais, a realidade em comum. (FÉRES-CARNEIRO, 1998) Costa e Katz (1992) pontuam que a procura de um cônjuge está relacionada à satisfação sexual, ao receio de envelhecer só, ao desejo de ser admirado ou até na obtenção de bens materiais e importância social. Ressalta-se a ideia trazida pelos mesmos autores, ao pontuar, embasados na teoria psicanalítica, que experiências da infância e os vínculos criados no convívio familiar neste mesmo período configuram um padrão na mente da criança, o qual ela tenderá a repetir e a recriar em diversas circunstâncias e em relacionamentos durante seu desenvolvimento. “Este modelo infantil de relação atinge uma de suas culminâncias por ocasião do casamento quando, melhor do que em qualquer outra situação, o indivíduo torna-se protagonista da admirada, invejada e excludente relação dos pais.” (COSTA E KATZ, 1992, p. 26). Estes mesmos autores afirmam que: [...] as relações conjugais estruturam-se tendo como base as primitivas relações de objeto, que cada cônjuge leva para o casamento numa tentativa de repetir essas relações e resolver conflitos com eles relacionados. Além disso enfatizamos que, em todo o casamento, existe um contrato secreto que se mantém às custas do interjogo de identificações projetivas. Dentro desta linha de pensamento, destacamos que quando estas identificações projetivas ocorrem numa atmosfera amorosa, o casamento tende a enriquecer afetivamente os cônjuges. Ao contrário quando ocorre uma atmosfera hostil, o casamento estrutura-se num nível patológico, cuja tendência é o empobrecimento afetivo do casal. (COSTA E KATZ 1992, p. 119) É pertinente dentro desse contexto fazer considerações sobre a escolha dos cônjuges. Antes o que predominava era o homem responsável pela escolha da esposa e a mulher apenas aguardava o interesse de algum homem. Com a modernidade e as novas configurações da família, a escolha do parceiro passa também a ser feita pela mulher, escolha realizada de acordo com seu desejo. “[...] a singularização progressiva da escolha do parceiro e a exclusividade da relação levaram à exaltação do espírito íntimo no casamento e ao incremento da expectativas e complementaridade mútua conjugal.” (FÉRES-CARNEIRO, 2003, p. 7) 31 Ainda ao se falar de relações conjugais é relevante mencionar o sentimento de intimidade nas relações amorosas citado por Féres-Carneiro (2003), a autora declara a intimidade como a proximidade entre o eu e o outro, o qual se faz importante por instaurar e favorecer ao estabelecimento do clima emocional para a fusão das individualidades entre os parceiros, constituindo o campo da conjugalidade. O processo de construção do sentimento de intimidade prepara o terreno para a instauração da conjugalidade tal como a conhecemos nos tempos atuais. Essa conjugalidade ancora-se em ideais de valor igualitário, assim como na idealização da relação conjugal, que passa a ser considerada lócus privilegiado da afetividade. (FÉRES- CARNEIRO 2003, p. 2-3) Segundo Ferès Carneiro & Magalhães (s/d), a conjugalidade surge do entrelaçamento de dois “eus”, a partir de duas subjetividades, seguindo na direção de um terceiro “eu”, somando uma nova direção: a parentalidade. No que diz respeito à família, a conjugalidade é fruto da união entre duas pessoas, agora um casal, que juntos passam a decidir seus projetos de vida e compartilhar o amor. A parentalidade é assinalada pelo surgimento do primeiro filho, em que o casal passa agora além da conjugalidade a também exercer uma função parental: o ser mãe e o ser pai. Sousa (2006, p. 41-42) afirma que a parentalidade: Diz respeito às funções executivas, designadamente a proteção, educação e integração na cultura familiar das gerações mais novas. Estas funções podem estar a cargo não só dos pais biológicos, mas também de outros familiares ou até pessoas que não sejam da família. Segundo Zorning (2010), a parentalidade é um termo recente, sendo utilizado na literatura psicanalítica francesa a partir dos anos 60, marcando a dimensão de processo e de construção no exercício da relação dos pais com seus filhos. A chegada do primeiro filho assinala uma transformação na configuração familiar, há uma continuação da função conjugal, porém há uma construção para a função parental, havendo uma soma de funções, marido e mulher, pai e mãe. A parentalidade marca o ciclo vital familiar, pois o investimento antes orientado exclusivamente para a organização marido e mulher é compartilhado para uma nova relação, a de pais e filho. Rivero (2006, p. 2) afirma que “o par conjugal não o deixa de ser por se tornar também um par parental.” 32 Essa transição é marcada também pelas mudanças transgeracionais, por um acréscimo de nomenclatura na relação conjugal, na qual são marido e mulher, passa-se a também apropriar-se de novos papéis, o ser pai e o ser mãe, fato que demanda inúmeras adaptações, pois a vida conjugal adquire uma nova direção, na qual, o casal encontra-se diante de uma complexidade de sentimentos. Menezes (2006, p.187) pontua que “a transição para parentalidade representa a possibilidade de construção de um núcleo familiar único, ao qual apenas o casal e o novo bebê pertencem, e o fortalecimento dos vínculos existentes entre os membros da família”. Diante das inúmeras transformações as quais os cônjuges estão suscetíveis a enfrentar com a chegada do primeiro filho e considerando a construção da parentalidade como um grande desafio, como pontua Rivero (2006), pode-se compreender que o casal, dependendo da intensidade da relação afetiva e de cumplicidade que se vive, este momento, em que há a entrada de um terceiro membro na configuração familiar, pode acarretar tanto no fortalecimento dos vínculos, como também contribuir com a fragilidade destes. Rivero (2006) afirma que a transição para parentalidade é considerado um grande desafio para o casal, pois há a necessidade de adaptação a esta nova realidade. O casal tem que assumir novas rotinas e responsabilidades além das já existentes, como as atividades pessoais, conjugais e profissionais, e, sobretudo, tendo que adaptar-se ao bebê. Segundo Pires (2008, p. 14) “tornar-se pai e mãe é um ponto de viragem durante o qual a vida da pessoa adquire uma nova direção, requerendo a adaptação ou a mudanças na vida e nos comportamentos que se tem”. Os elementos do casal irão deparar-se com uma nova imagem de si e do outro, bem como irão experimentar emoções novas em qualidade e intensidade, sendo que este processo de transformação decorre de forma muito rápida e acompanhada de aprendizagens constantes na prestação de cuidados com o bebê, com um sentido de responsabilidade muito grande para além de incertezas constantes. Assim, ter um filho implica não só dar a vida a um novo ser humano como a um novo casal. (RIVERO, 2006, p.1) É pertinente ressaltar que segundo Schuster, Anton, Fernandes (2006) o nascimento do primeiro filho, inevitavelmente, acarreta uma reorganização em todo o sistema familiar, o casal passa a ser pais, ocorres mudanças transgeracionais, na 33 qual surgem novos papéis familiares, os sogros passam à condições de avós e os cunhados de tios. Em relação à reorganização familiar, Rivero (2006) concorda ao também afirmar o surgimento dos novos papéis familiares e completa afirmando que todos irão de alguma maneira influenciar na dinâmica dos pais com o seu bebê. A autora mostra a importância da participação da família de origem quando afirma que “a forma como é gerida a relação do casal com cada uma das famílias de origem poderá ser também um fator facilitador ou não desta nova fase de vida”. (RIVERO, 2006, p.1) Menezes (2006) afirma que a transição para parentalidade, além da maturidade emocional e do desejo de ser pai ou mãe, outros fatores concretos se tornam presentes e inquietam os casais: a estabilidade financeira, o aumento dos gastos, a contribuição de redes de apoio e a decorrência na carreira profissional. Além disso, cabe destacar que essas modificações causadas na relação conjugal com o nascimento de um filho exigem uma reorganização na dinâmica enquanto casal, pois todo o investimento é agora também direcionado para essa nova realidade. Novos papéis devem ser aprendidos, passando a serem cuidadores; novas relações desenvolvidas, a necessidade da rede de apoio. Todas essas mudanças podem ser geradores de prazeres e conflitos entre o casal. 2.3 A parentalização dos pais: As fantasias em relação ao nascimento do primeiro filho Independente de sua estrutura e configuração, a família é o espaço onde se vive as emoções mais intensas e marcantes da experiência de uma pessoa, ter um filho é uma delas. O casal passa a serem pais, progenitores de uma nova família, no qual o investimento marido e mulher, que antes se era um para o outro, são agora compartilhados para o novo membro, o primeiro filho. O casal passa a experienciar concomitantemente o papel de cônjuges e o de pais. A chegada do primeiro filho geralmente é carregada de um turbilhão de sentimentos, há um entusiasmo, felicidades, medos, ansiedades. É um acontecimento marcante na vida de um casal, segundo Maldonado (1988, p. 161) “o filho, com seus múltiplos significados, é a concretização de muitas coisas sonhadas, pensadas e planejadas anos antes da fecundação.” Há todo um preparo com a 34 chegada de um filho, a decoração do quarto, a compra de roupas, a busca por informações de pessoas mais experientes na procura de serem bons pais, porém por mais que muitas percepções sejam comuns a todos os casais, a forma de viver as transformações na configuração familiar é única para cada casal e a intensidade vai depender da estrutura de vida de cada uma. Na maioria dos casos, a chegada de um filho é sinônimo de felicidade, de plenitude, mesmo em alguns momentos quando não se é esperada. Felicidade de poder gerar uma vida, de ter alguém que é seu. Entretanto existem outros fatores que permeiam o nascimento, especialmente do primeiro filho, pois por mais comum que pareça a chegada de um filho, esta, se configura em uma importante transição na vida dos pais, que traz consigo necessidades de adaptações às novas realidades, dificuldades e dúvidas que emergem ao longo do exercício parental. Maldonado (1988, p. 161) afirma que “é no primeiro filho que costumeiramente acontecem às transformações mais radicais: é quando homem e mulher deixam de ser apenas filhos para tornarem-se também pais.” O nascimento do primeiro filho ocasiona o surgimento de novas responsabilidades e tarefas para os dois cônjuges, as quais podem ter algumas repercussões na relação conjugal. Assim, diante das novas atividades que aparecem no decorrer da nova configuração enquanto família, a parentalidade apresenta-se como um processo intenso na vida do casal e que permanece em constante construção. (MENEZES, 2001) Menezes (2001) afirma que o nascimento de um filho é um momento de grande importância tanto na vida familiar e conjugal, como na vida individual. Enfatiza o nascimento do primogênito ao pontuar este como um marco na transição de casal para família e dos cônjuges para o mundo adulto. “Em função das oportunidades e dos perigos que este momento evoca, o casal deve poder renegociar seus valores e desejos, seu próprio papel no sistema e seu relacionamento conjugal.” (MENEZES, 2001, p. 29) Outros autores também pontuam a complexidade que corresponde à transição para parentalidade. Almeida (2005 apud GAMERRO, CORRÊA e GUENTER, 2008) afirma que a relação entre o casal aumenta a complexidade, para poder dar conta das inúmeras transformações e mudanças de papéis. Emery e Tuer (2003 apud, GAMERRO, CORRÊA e GUENTER, 2008) afirmam que a transição para a parentalidade requer uma organização e uma acomodação do sistema 35 familiar às novas mudanças. Estes autores propõem diante desse momento uma renegociação dos laços existentes e uma aproximação emocional na relação. “A construção desses novos papéis, de pai e de mãe, se caracteriza a presença de crises, descobertas e aprendizagens e pela necessidade de adaptações e do estabelecimento de novas formas de interação na família.” (MINUCHIM, 1982 apud, GAMERRO, CORRÊA e GUENTER, 2008) Percebe-se neste contexto que ocorrem inúmeras mudanças, envolvendo aspectos biológico, psicológico e social, havendo o aumento da complexidade da relação do casal, momento que estes se deparam com um universo totalmente novo e marcado por emoções intensas, pois se é exigido aprendizagem constante e prestação de cuidado ao recém-nascido. Anton (2006 b, p178-179) pontua que: Diante da chegada de um recém-nascido, a maioria dos pais, principalmente os de primeira viagem, ficam ansiosos com a troca de fraldas, choro, amamentação, banho, quantidade de roupa adequada, como lidar com a cólica, etc. Pais e mães perguntam-se se identificarão o motivo do choro do seu bebê, se saberão a temperatura ideal da água e se o bebê está com frio e calor. Em sua maioria neste período, os casais estão envolvidos pela sensação de temor e apreensão. Segundo Maldonado (1988, p. 163) “especialmente na primeira gestação, tudo é novidade: as sensações novas são frequentes, vividas com apreensão, preocupação, surpresa.” Neste contexto, junto às emoções, surgem desde a gravidez uma série de mudanças desde a rotina dos cônjuges, da organização financeira, no trabalho, na organização da casa, como também na parte emocional do casal. É comum a mulher sentir-se insegura em relação ao seu parceiro, por se achar gorda, por ter que dedicar quase todo seu tempo na prestação de cuidado ao filho, por achar que deveria ter mais a participação paterna no cuidado com o filho ou por achar que o esposo não a deseja como antes. “A maneira de se ver e de se sentir, portanto varia imensamente: às vezes, a mulher se vê mais madura e feminina; outras vezes, dissocia sexualidade de maternidade, bloqueando o prazer.” (MALDONADO, 1988, p. 164). Já o marido frequentemente sente-se deixado de lado pela esposa, em outros casos prefere afastar-se, pois a considera nesse momento exclusiva do bebê. Esse turbilhão de emoções e acontecimentos pode causar diversas implicações, em 36 vários âmbitos na vida do casal, afetivo emocional ou sexual, podendo comprometer a satisfação e harmonia na relação conjugal. Outro ponto a ser ressaltado é que a chegada do bebê é acompanhada por muitas fantasias, se a realidade vai corresponder com o esperado pelos pais, se vão conseguir dar conta da demanda. A mulher questiona-se se vai ter o apoio do marido, e este, se vai perder a atenção da companheira. Costa e Katz (1992,p.81) alegam que: [...] um filho além das satisfações que os indivíduos e a sociedade como um todo procuram evidenciar, também representa o ressurgimento de inúmeros conflitos internos que repercutem no relacionamento conjugal antes mesmo de seu nascimento. O nascimento do filho desperta desejos inconscientes e fantasias relacionadas à resolução de conflitos emocionais. Segundo Anton, (2006 b, p.179) “ao mesmo tempo que se deseja, se tem medo. Ao mesmo tempo que se torce pelo melhor, surge o sentimento de que não será capaz de fazer as coisas certas”. Nesta perspectiva Costa e Katz (1992, p.42) afirmam que, [...] desejo da maternidade é muito precoce e se inscreve durante a infância nos conflitos pré-edípicos. O desejo de um filho pertence a um registro diferente, constituindo o que vamos denominar de „ bebê imaginário‟. Existem conflitos que surgem desta dupla inscrição. Ao nascer o bebê, a mulher confrontará o filho imaginário com este, o filho da realidade. Costa e Katz (1992) completa ainda que a mãe também reconhece o seu pai no seu filho que acaba de nascer, e frequentemente faz a ele uma transferência paterna. “A maternidade é provada pela percepção sensorial direta enquanto a paternidade está baseada numa hipótese que precisa ser confirmada.” (FREUD, apud COSTA & KATZ, 1992, p. 63). Ainda com as ideias de Freud, a mãe, desde o nascimento, compõe o meio natural do recém nascido, sendo indispensável a seu cuidado e ao seu desenvolvimento. Assim, atendendo todas as necessidades do bebê, a mãe torna-se representante do Princípio do Prazer. O pai, ao contrário, além de ser considerado dispensável à sobrevivência da criança, apenas posteriormente torna-se alvo de seu interesse, sendo esta ampliação, o primeiro passo em direção ao Princípio da Realidade. (FREUD apud COSTA & KATZ, 1992). Quando se deseja um filho, é o filho que se projeta, imaginariamente, no futuro. Ter um projeto de ser pai/mãe é projetar-se a si mesmo no 37 futuro como pai/mãe desse filho. A forma como cada um se projeta como pai ou mãe relaciona-se diretamente com os pais que eles próprios tiveram, ou com outros modelos parentais . Para os autores, os pais são os modelos de referência em relação aos quais nos determinamos, seja querendo fazer como eles, ou contrariamente a eles, seja tentando corresponder ao seu desejo, ou opondo-se a ele. (SZEJER e STEWART, 1997 apud, MENEZES, 2001, p. 26) O nascimento do primeiro filho pode representar por um lado uma realização para os pais, e por outro, significa uma experiência de momentos difíceis e angustiantes, fato que pode provocar medo e insegurança no casal. “O nascimento de um filho reproduz a existência da própria humanidade, que tem uma origem incerta e caminha para um futuro também incerto. Seu nascimento determina o surgimento de sentimentos conflituosos e contraditórios nos pais.” (COSTA e KATZ, 1992, p. 77) Costumo dizer que todo fascínio e toda dificuldade de ser casal, reside no fato de o casal encerrar, ao mesmo tempo, na sua dinâmica, duas individualidades e uma conjugalidade, ou seja, de o casal conter dois sujeitos, dois desejos, duas inserções no mundo, duas percepções do mundo, duas histórias de vida, dois projetos de vida, duas identidades individuais que, na relação amorosa, convivem com uma conjugalidade, um desejo conjunto, uma história de vida conjugal, um projeto de vida de casal, uma identidade conjugal. (FÉRES-CARNEIRO, 1998, p. 2) Neste contexto, outro ponto que emerge com a chegada do primeiro filho, é a recordação e a reavaliação dos pais em relação às sua vivências das experiências iniciais da vida, sendo elas positivas ou não, na intenção de repetir as boas com o filho e tentar deixar para trás as dolorosas. É a partir desse momento que se é passado aos filhos como família, a noção de mundo, os valores, as crenças, o afeto e a singularidade familiar. (WELLAUSEN, 2006). Na relação enquanto casal e pais são tantas expectativas que surgem desde a gravidez e que tem sua culminância com o nascimento do primeiro filho, marcado pelo sentimento de ambivalência que permeia esse momento, os sentimentos de felicidade, de perda, a angústia da diferença entre o que se é esperado e o que realmente se vive, da sensibilidade que acompanha o casal neste período e o qual ao mesmo tempo está sujeito a dificuldades na interação conjugal. Segundo Menezes (2006), a maioria dos autores que se propõe a estudar a relação conjugal acreditam que o nascimento do primeiro filho, tanto define o início da família, como o fim do romance entre os casais. 38 Ao discorrer sobre a transição para a parentalidade, McGoldrick (1995, p. 149) afirma que durante essa transição os pais além de assumir a pesada responsabilidade de criar um filho, tem que, ao mesmo tempo, manter seu próprio relacionamento. “Compreende-se então, que nesta fase o principal desafio para o casal é conseguir articular a conjugalidade com a parentalidade.” (PIRES, 2008, p 18) Sendo esse momento de grande importância na vida dos cônjuges, vale ressaltar que a história conjugal, a qualidade e intensidade de sua relação afetiva, caracterizam fatores relevantes para definir como cada casal administrará as transformações e demandas que surgem a partir da nova função parental, em comum com as novas e as já existentes demandas da relação conjugal. (MENEZES, 2006) A partir da revisão das literaturas sobre família, especialmente as que investigam a conjugalidade e a construção da parentalidade, é possível perceber que o nascimento do primeiro filho marca uma importante transição na vida dos pais, e que a vivência desta, demanda um intenso investimento e acarreta transformações na vida do casal. A partir disto, entende-se que as implicações na relação conjugal ocorridas com a chegada do primeiro filho se apresentam como um tema promove algumas inquietações. Assim sendo, procura-se investigar e discutir quais as repercussões que a parentalidade suscita na conjugalidade. 39 3 PROCESSOS METODOLÓGICOS A transição para parentalidade é um momento complexo para o casal. É diante da importância do reconhecimento das singularidades desse momento, que esta pesquisa além da análise bibliográfica, foi conduzida uma pesquisa de campo nos padrões qualitativos de investigação. Tendo em vista que Minayo (2000) pontua que a análise qualitativa corresponde a um espaço mais profundo das relações, trabalha com o universo de significados das ações e relações humanas, com as crenças, valores e atitudes, dos processos e dos fenômenos aos quais não podem ser reduzidos à operacionalização variáveis, assim considera-se ser a mais apropriada, pois a pesquisa discorre sobre as implicações do nascimento do primeiro filho na relação conjugal. 3.1 Participantes (Amostra) O tipo de amostra utilizada na pesquisa é a não probabilística por acessibilidade, pois segundo Vergara (2003, p.47), está “longe de qualquer procedimento estatístico, seleciona elementos pela facilidade de acesso a eles”, dessa forma, levou-se em conta a disponibilidade e o interesse dos sujeitos em participar da pesquisa. A pesquisa foi realizada com 4 casais adultos, o critério de inclusão de sujeito na pesquisa é que fossem casais primíperos e com filhos nascidos saudáveis, tendo estes qualquer idade. Os casais entrevistados foram escolhidos por indicação ou pelo conhecimento da pesquisadora daqueles que enquadraram-se aos critérios e que aceitaram ser entrevistados. As entrevistas foram realizadas nas residências dos participantes em bairros variados, na cidade de Belo Jardim - PE, por permitir maior conforto, privacidade e possibilidade de riqueza de detalhes no discurso. 3.2 Instrumentos A presente pesquisa adota a classificação proposta por Vergara (2003) que sugere dois critérios básicos: quanto aos fins e quanto aos meios. Quanto aos fins, esta pesquisa é classificada como qualitativa explicativa. Quanto aos meios de investigação, é uma pesquisa bibliográfica e pesquisa de campo. Bibliográfica, pois 40 segundo Vergara (2003, p. 43) “[...] é um estudo sistematizado desenvolvido com base em material publicado em livros, revistas, jornais, redes eletrônicas, isto é, material acessível ao público em geral”. De campo, pois é também uma “[...] investigação empírica realizada no local onde ocorre ou ocorreu um fenômeno ou que dispõe de elementos para explicá-lo.” (VERGARA, 2003, p. 43) Utilizou-se como instrumento para coleta de dados o questionário sócio demográfico e entrevista semi-estruturada, o que permitiu uma delimitação maior do objeto de estudo, de onde foram retiradas as informações necessárias para continuação da pesquisa, a análise de conteúdo. A entrevista, segundo Minayo (2000), é um meio de coletar informações necessárias sobre determinado tema, sendo, particularmente, a semi-estruturada é uma forma de permitir que o sujeito se expresse à luz de sua subjetividade, sem haver nenhuma limitação de perguntas fechadas, abrindo uma possibilidade de ampliar o campo das respostas, o que faz fluir o conteúdo de forma espontânea, atingindo motivações não explícitas nas perguntas. As entrevistas (APÊNDICE A) foram agendadas previamente, gravadas e transcritas, respeitando os princípios éticos, após todos os participantes terem assinado o TCLE- Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (APÊNDICE B), de acordo com a resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde/MS sobre Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisa envolvendo seres humanos. Este é um documento que visa o respeito à dignidade humana e a sua autonomia como sujeito. Como não existe uma entidade representativa, não necessitou da carta de anuência, recurso utilizado para obter autorização para realizar pesquisas em instituições. Todos os procedimentos da pesquisa só foram iniciados após a submissão e aprovação do Comitê de Ética. 3.3 Análises de conteúdos Após a entrevista foi realizada a análise de conteúdo embasada na leitura de Bardin (2007), a qual se utiliza de procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo, o que possibilita a identificação de algumas categorias. A análise categorial proposta por Bardin (2007, p.147) “funciona por operações de divisão do texto em unidades, em categorias segundo reagrupamentos analógicos.” O autor afirma também que diante as possibilidades de categorização, a 41 investigação dos temas é rápida e eficaz na aplicação nos temas de significação, além de facilitar a visualização dos principais fenômenos propostos pela pesquisa. No processo de análise, inicialmente foi realizada uma leitura flutuante do material colhido na entrevista, em seguida, o conteúdo representativo foi selecionado em forma de recortes da fala, fragmentos relevantes para pesquisa, identificando os principais temas trazidos no relato dos entrevistados, para assim realizar a categorização de conteúdos. Tabela 1. Dados sócio-demográficos. Esta tabela foi elaborada a partir das entrevistas realizadas com os cônjuges, no intuito de apresentar as especificidades socio-demográficos dos participantes da pesquisa e melhor caracterizar posteriormente a análise dos dados. Tabela 1. Dados sócio-demográficos – Especificidades das Famílias Sexo Local onde reside Idade dos companheiros Idade dos companheiros Nível de Escolaridade dos companheiros Nível de Escolaridade das companheiras Profissão dos Companheiros Profissão das Companheiras Tempo de Casados Idade dos filhos Casal 1 Casal 2 Casal 4 Casal 3 Feminino Masculino Belo Jardim 4 4 8 24 anos 29 anos 41 anos 43 anos 27 anos 30 anos 43 anos 44 anos Superior Completo Superior Incompleto Superior Pós-Graduada Professor Bancário Técn. Eletro Eletrônico Professora Educadora Física 14 anos 11 anos 4 anos 5 anos 1 1 1 1 1 1 1 1 2 2 2 2 2 1 1 3 1 1 1 1 1 11 anos 6 anos 4 anos 1 ano 1 1 1 1 42 3.4 Análise Categorial Segundo Bardin (2007) a Análise de Conteúdo é um conjunto de instrumentos metodológicos que se aperfeiçoa constantemente e que se aplicam a discursos diversificados. Os participantes entrevistados foram identificados de uma maneira a facilitar sua localização na análise. Os cônjuges foram sinalizados da seguinte maneira: “Pai, casal 1” e “Mãe, casal 2” e assim para os demais casais sucessivamente, como estratégia de resguardar a identidade de cada participante. Tabela 2. Categorias e subcategorias CATEGORIAS Planejamento do Filho SUBCATEGORIAS 1. Houve ou não Planejamento (foi ou não desejado) 2. O recebimento da notícia da gravidez Expectativa do casal frente o exercício da parentalidade 1. Sexo do bebê 2. O exercício da paternidade e maternidade 3. Dúvidas e preocupações no exercício da parentalidade 4. Medos 5.Expectativa quanto ao futuro Rede de Apoio 1. Apoio entre os cônjuges 2. Apoio familiar Mudanças na relação afetiva do casal após o nascimento do primeiro filho 1. Mudanças no que tange à afetividade do casal 2. O impacto da chegada do bebê na vida do casal 3. Influência e mudanças no relacionamento dos cônjuges diante a parentalidade 4. Mudança do corpo (Interferência da maternidade) 5. Interferência do filho 43 6. Satisfação Sexual hoje 4. ANÁLISE E RESULTADOS DOS DADOS A análise das entrevistas dos casais permitiu verificar a relação entre o nascimento do primeiro filho com sentimentos vivenciados, a dificuldade em que o casal se depara e as implicações que este momento acarreta na relação conjugal em vários domínios do relacionamento. A articulação do conteúdo das entrevistas com o referencial teórico promove uma fácil visualização e compreensão das categorias e subcategorias sinalizadas. 4.1 Planejamento do Filho Esta categoria faz referência às verbalizações dos casais entrevistados com relação ao planejamento ou o não planejamento do filho, trazendo junto ao discurso a presença do desejo de ambos os cônjuges em ter um filho. Ressalta-se também como aconteceu o recebimento da notícia. 4.1.1 Houve ou não Planejamento (foi ou não desejado) Essa subcategoria exprime o posicionamento dos pais frente ao nascimento do filho, pois a chegada do bebê pode ocorrer de forma esperada ou inesperada, quando se há ou não um planejamento. Três dos quatro casais de alguma forma planejaram a gravidez, demonstrando o desejo de ter o filho, sendo que em dois casais ambos os cônjuges aceitaram o planejamento; já o terceiro, apenas a mãecasal 3 dizia-se preparada, enquanto o pai-casal 3, mesmo informando que desejava ter filho, diz que não o planejou naquele momento. Nesse contexto, vale ressaltar quando Anton (2006 a, p. 184) afirma que “Nem sempre o homem e a mulher sentem-se prontos para adentrar no mundo da parentalidade no mesmo momento”. O casal 4, o qual a gravidez foi inesperada, mesmo sendo surpreendidos, ambos os cônjuges demonstraram o desejo em ter o filho, cumplicidade e apoio mútuo. O planejamento também está envolvido com a cumplicidade do casal, com a forma que este vivencia sua conjugalidade e sua individualidade. Segundo Menezes (2001, p. 44 26) “quando se deseja um filho, é o filho que se projeta imaginariamente, no futuro. Ter um projeto de ser pai/mãe é projetar-se a si mesmo no futuro como pai/mãe desse filho”. Esse posicionamento foi percebido nas falas seguintes dos entrevistados: [...] Foi uma coisa planejada, a gente parou porque estávamos conscientes, vamos parar pra ver se agente consegue ter um filho. (Mãe-casal 1) Eu retardei, adiei, eu acho que de tanto querer, eu me preparei para isso psicologicamente, financeiramente, eu queria ter plenitude para viver a maternidade. (Mãe-casal 2) Era a coisa que eu mais queria. Sempre foi a coisa que eu mais quis na minha vida. (Mãe-casal 2) Eu desejada sim. Eu engravidei, fique muito feliz. (Mãe-casal 3) Eu acho que pelo fato de termos nos casado fazia três anos, eu acho que foi muito cedo demais, mas se a mulher realmente quis ter logo de início, então eu acho que, naquele... ela quer, eu não queria, ela quer, eu não queria, ai também primeiro o neto de ambos os lados, então veio o primeiro neto, então foi o primeiro filho, eu acho que ele veio um pouco cedo demais. (Pai-casal 3). Quando eu engravidei, eu não estava esperando, não foi planejado, mas foi muito bem vindo. (Mãe-casal 4) A gente não esperava, a gente não estava planejando. (Pai-casal 4) Percebe-se que o planejamento não está obrigatoriamente atrelado ao desejo, pois, o casal 4 não planejava naquele momento específico, porém desejava ter filhos. Observa-se em todas as falas o desejo e a felicidade ocasionada pela chegada do primeiro filho, mesmo com algumas angústias, eram envolvidos por boas expectativas. É relevante ressaltar que o planejamento e o desejo são importantes na dinâmica do casal uma vez que a chegada do primeiro filho assinala uma transformação na configuração familiar, há uma continuação da função conjugal, porém há uma construção para a função parental, havendo uma soma de funções, marido e mulher, pai e mãe. 4.1.2 O recebimento da notícia da gravidez A notícia de que se está esperando um filho é permeada de expectativa e uma soma de sentimentos. Mesmo quando há um planejamento, quando é algo 45 esperado, existe a emoção, uma surpresa, o que é percebido através das respostas dos participantes. Ressalta-se no discurso dos casais, um forte vínculo estabelecido enquanto casal durante o período inicial da gravidez. Só felicidade, eu chorava! Foi felicidade, choro ao mesmo tempo. (Mãe-casal 1) Ah, pra mim foi assim „Deus tá te presenteando‟... você já sabe que Deus existe, mas ai as coisas ficam mais claras, Deus existe e mandou um presente pra mim, então o nascimento, a notícia, de que eu estava sendo pai que minha esposa mãe, é um presente de Deus, foi uma maravilha pra mim. (Pai-casal 1) Alegria, satisfação, mas um pouco de medo por tá botando uma pessoa no mundo que vai depender único e exclusivamente de você (Pai-casal 2) Foi algo inacreditável assim, eu esperava, mas ao mesmo tempo não acreditava assim, que estava realmente grávida. (Mãe-casal 3) Assim, um choque né (risos), porque não estava planejado, mas depois a gente vai se acostumando com a ideia e até gostei, hoje eu já vejo com outros olhos, que foi a melhor coisa que já me aconteceu. (Mãe-casal 4) A gente não esperava, a gente não estava planejando, ainda estava namorando e quando ela me disse a notícia eu nem tive aquele choque que a maioria tem, eu recebi como uma notícia normal, fiquei feliz, apoiei ela. (Pai-casal 4) O resultado positivo, anunciando a gravidez, desperta nos futuros pais uma variedade de emoções, alegria, ansiedade e medo frente aos novos desafios, dúvida enquanto a sua capacidade em tornarem-se pais. (ANTON, 2006 a). 4.2 Expectativa do casal frente o exercício da parentalidade Esta categoria refere-se às verbalizações dos casais entrevistados com relação às expectativas enquanto à chegada do primeiro filho. Está dividido em cinco subcategorias: Sexo do bebê; o exercício da paternidade e maternidade; dúvidas e preocupações no exercício da parentalidade; medo e expectativa quanto ao futuro. 46 4.2.1 Sexo do bebê O sexo do bebê foi um objeto que pela presença no discurso dos casais entrevistados deve ser considerado. Pode ser levado em conta esse fator como um evento importante na relação conjugal, pois, percebe-se o quanto, ambos os cônjuges, têm representações e expectativa em relação aos filhos, podendo ou não ser semelhante. Ele dizia eu quero que venha com saúde, mas no fundo eu sentia que ele queria uma menina. (Mãe-casal 1) Eu sempre quis ser pai de uma criança fêmea, de uma menina, eu fascinava assim, como eu fui criado eu, duas irmãs e minha mãe, então eu sempre vi que a mulher como o lado mais frágil da sociedade e que um dia eu fosse pai eu gostaria ser pai de uma filha. (Pai-casal 1) (...) eu tinha certeza que seria um menino. (Mãe-casal 3) Sempre a gente diz: Tanto faz, menino ou menina, né, pra mim eu queria ter um menino, pra depois ter uma menina...o pai não, ele preferia mesmo que fosse um menino, pelo menos esse primeiro, aí foi menino (Mãe-casal 4) (...) expectativa de ser um menino, quando ela tava grávida eu queria que fosse um menino primeiro (Pai-casal 4) Como pôde ser observado nos relatos,a maioria os casais sinalizaram a preferência. O casal 4, ambos os cônjuges referiram-se a preferência por ser menino; já o pai-casal 1, mostra a preferência por uma menina, pois a sua família de origem é composta só por mulheres; a mãe-casal 3, aponta que já tinha a certeza que era um menino. 4.2.2 O exercício da paternidade e maternidade Em todas as entrevistas fizeram parte da fala dos casais questões sobre o exercício tanto da maternidade quanto da paternidade, enfatizando as experiências, os enfrentamentos de situações e a nova realidade enquanto pais e mães, sendo este um processo considerado intenso, marcado pela sua construção constante. É complicado porque você tem que dar limite, você tem que entender ao mesmo tempo, você tem que ter um diálogo constantemente com 47 o seu filho [...] você tem que tá ali participando atuando junto, se não você não consegue acompanhar. (Mãe-casal 1) Olhe, eu procuro assim, dialogar muito com minha filha. (Pai-casal 1) A maternidade é um aprendizado diário, cada dia é como uma grande construção, cada dia a gente coloca uma construção e as vezes até retira, né, melhora esse tijolo e recoloca. (Mãe-casal 2) Uma relação de cuidado de amor, mas sempre preservando a família. (Pai-casal 2) É algo agradável, prazeroso, mas um pouco árduo. (Mãe-casal 3) Na minha paternidade é procurar tá presente na vida do meu filho. (Pai-casal 3) Que dá trabalho todo mundo sabe, mas é um trabalho bom, recompensa né, a melhor coisa do mundo que aconteceu foi a maternidade pra mim. (Mãe-casal 4) É ótimo, o convívio com meu filho, de puder levar ele pra escola, pegar ele, acompanhar a freqüência dele, brincar com ele. (Pai-casal 4) Os entrevistados durante o discurso pontuaram sobre suas vivências na função parental, suas singularidades nessa relação enquanto pais, propondo sempre o exercício parental como uma construção e prestação de cuidado. Percebe-se também que para os cônjuges as funções parentais aparecem como algo que necessita de uma doação, como algo prazeroso. Os pais entrevistados se posicionam no discurso com uma prontidão frente aos filhos, o que permite a visualização da abertura amorosa dos cônjuges para o bebê. 4.2.3 Dúvidas e preocupações no exercício da parentalidade No discurso dos participantes, tanto para os pais como para as mães, as dúvidas voltam-se para a inexperiência enquanto pais, e para preocupação se são capazes de exercer a parentalidade. Segundo Anton (2006 a), o nascimento do primeiro filho traz para a vida do casal uma variedade de implicações, as quais demandam uma série de adaptações e ajustes na vida do casal. De acordo com Anton (2006 a), o casal se depara com uma nova realidade, a qual lhes deixa ansiosos, pois se deparam com novas realidades diariamente, de como deve ser o sono, a troca de fralda, como identificar o choro, como lidar com as dores, se 48 saberão a temperatura ideal da água. Os cônjuges passam a ter novas rotinas e responsabilidades além das já existentes como as atividades pessoais, conjugais e profissionais, tendo que se adaptarem as novas demandas conjugais e do bebê. (...) primeiro vem aquela preocupação será que a gente tem condições de criar um filho, será que a gente tá maduro o suficiente, vem esses questionamentos. (Mãe-casal 1) Eu fiquei tão preocupada, vem a amamentação, você fica preocupada se ia ter leite, se não ia ter (Mãe-casal 1) Pois é, acho que toda mãe passa por essa aflição de não saber criar o filho, de ter uma dor e não saber dar o remédio. (Mãe-casal 2) Minha preocupação era como que eu iria tomar de conta dele trabalhando tanto (Mãe-casal 3) As dúvidas são todas né, pra quem tem o primeiro filho, a gente vai aprendendo, ele quem vai ensinando a gente a conduzir,... depois que nasce, a gente vai aprendendo com o tempo, com as nossas mães, com as avós da criança, com pessoas que já tem filhos, aí passam muitas experiências pra gente e informação. (Pai-casal 4) A preocupação, será que é dor que tá sentindo, será que é fome que tá sentindo, e não fala, então você dá um remédio pra dor, é cólica ai dá um remédio pra cólica. (Pai-casal 3) É inevitável aos pais vivenciarem essa realidade, sendo este período de grandes novidades, tornando-se tenso para os cônjuges. Nesse momento se os cônjuges possuírem um vínculo conjugal satisfatório, dividirem as angústias e apoiarem um ao outro, a satisfação conjugal será mantida, se não, esses ajustes levarão ao declínio da qualidade da relação conjugal. (MENEZES, 2006) 4.2.4 Medos Com o nascimento do primeiro filho o casal se depara com um universo totalmente novo, pois, a parentalidade se configura em uma importante transição na vida dos pais, que traz consigo necessidades de adaptações às novas realidades, dificuldades, dúvidas e medos que emergem ao longo do exercício parental e que afeta a vida de ambos os cônjuges. Seis dos oito cônjuges entrevistados repetiram o quanto esse momento lhes trouxe angústias. Em relação aos medos trazidos pelos participantes, variavam, era medo do parto, o medo da parentalidade, o medo de não conseguir prover, medo quanto à prestação de cuidados, entre outros. Pode-se 49 trazer novamente a influência da singularidade de cada casal, que determinam o modo como os cônjuges enfrentam as novas situações. Menezes (2006, 187) contribui afirmando que “nascimento de um filho pode ser tanto um motivo de crescimento e maior aproximação quanto uma ameaça para o casal, dependendo como o par consegue se adaptar e se reorganizar frente às novas necessidades”. [...] aí o medo, o meu medo maior na gravidez foi o ter. (Mãe-casal 1) Mas assim eu ficava horas sem dormir, vendo se estava respirando, eu tinha o maior cuidado com os remédios, botava todos com indicador na tampa porque eu tinha medo de não enxergar a noite e dá um remédio errado. (Mãe-casal 2) Medo de não corresponder à paternidade, o cuidado, de criação. (Pai-casal 2) [...] tinha medo de não conseguir tomar conta dele (Mãe-casal 3) [...] o medo dele cair, o medo dele cair da cama, ou ao chorar, no momento dele não falar ainda ai quando chora, então você dá um remédio pra dor, é cólica ai dá um remédio pra cólica, então você já para por aí porque você já não sabe mais o que ele tem, a gente vai já liga para o pediatra, corre para o hospital, mas não deixa assim de ter medo” (Pai-casal 3) Ah, sempre tem né, a primeira vez você tá ali de marinheiro de primeira viagem né, medo de não poder dá o que ele precisa, porque eu tava desempregada, medo de não ser uma boa mãe na correria do dia a dia. (Mãe-casal 4) Vale ressaltar segundo Anton (2006 a) que “os medos, as inseguranças e as dúvidas fazem parte do processo, assim como os sentimentos de plenitude e intensa alegria”. 4.2.5 Expectativa quanto ao futuro Com o nascimento de um filho, principalmente o primeiro, e com o acúmulo de papéis que os novos pais assumem, estes repensam e reavaliem naturalmente as suas experiências iniciais, positivas ou não, com a finalidade de repetir as boas e tentar esquecer as que foram ruins. (WELLAUSEN, 2006). É comum ouvir nos discursos dos pais que sempre buscam o melhor para os filhos ou colocações como “quando ele crescer...”. Os pais imaginam e normalmente planejam o futuro dos 50 seus filhos e a vida enquanto família, como forma de preocupação, na intenção de poderem dar garantia de um futuro, amor, família, segurança. Na fala dos casais entrevistados pode-se perceber o quanto os pais planejam e se preocupam com o futuro dos filhos. Vale ressaltar que ambos os cônjuges do casal 1 enfatizam a preocupação com a educação, principalmente a fora do ambiente familiar. Schuster, Anton e Fernandes (2006, p. 127) ressaltam a importância da educação familiar ao pontuar que “O processo educativo passa, necessariamente, pela apropriação de atitudes e valores que o grupo familiar cultiva”. A gente vê ela formada vai ser a coisa mais feliz da minha vida, eu quero que ela se forme, que ela tenha uma profissão, e assim, eu digo a ele eu não quero mais, em relação a mim, não tenho mais desejo assim de riqueza, eu não quero mais isso, eu quero ter um vida tranquila, a que eu tô tá ótima, maravilhosa, a única coisa que eu desejo, como futuro, é fazer um mestrado, eu não tenho, mas eu quero fazer, dentro das minhas possibilidades, sem eu precisar me afastar (...) eu quero manter a gente junto. (Mãe-casal 1) (...) me preocupo muito nessa questão de educar, né, porque a gente educa de uma forma em casa e o mundo educa de outra... Mas eu não tenho uma preocupação assim, afetiva, porque eu tento passar pra ela que o amor vence tudo né, e por mais que a gente tenha, esteja aperreado, a gente tem que sempre ter a tranquilidade de mostrar amor pra todas, digamos assim, ocasiões que tiver ocorrendo de ruim ou de bom, para que sempre saiba mesclar as coisas, eu vejo muito dessa forma assim. (Pai-casal 1) (...) então hoje assim, o projeto de vida que eu tenho e os planos que eu tenho, minha família primeiramente mantê-la unida... , a gente envelhecer juntos, e vê minha filha crescer, vê minha filha encontrar o caminho dela, caminho esse que seja muito feliz, ter a minha benção independente da escolha que ela fizer, eu quero que ela faça boas escolhas, a gente orienta pra isso, religiosamente, profissionalmente, pessoalmente. (Mãe-casal 2) Tentar protegê-la, a família e a filha da melhor forma possível sem que atrapalhe o desenvolvimento dela de encarar o mundo, mas tentar criar, nada de exagerado, mas de conforto, de segurança financeira para que ela possa ter um bom estudo, para que ela possa desenvolver a vida dela sem uma surpresa desagradável. (Pai-casal 2) Minhas expectativas é, de agora em diante, é que eu e meu esposo sejamos mais cúmplices, consigamos comprar nossa tão esperada casa, ano que vem Pedro entrar na escolinha, acho que vai entrar um pouco cedo demais, mas eu acho que vai ser melhor, porque ele vai estudar de tarde e eu vou trabalhar a tarde e vou passar de 51 manhã com ele, eu espero que ano que vem nossa família esteja mais juntinha.” (Mãe-casal 3) Como pai, eu tenho responsabilidade que ele, seja na escola, seja na rua, seja em casa, eu tento está presente na vida dele e fazer com que ele não desvie do caminho, ou seja, mostrar pra ele o que é uma família. (Pai-casal 3) (...) poder tá dando o melhor pra ele, poder educá-lo, vê-lo crescer, construir também sua família... procurar fazer o melhor possível pra manter toda a família unida. (Mãe-casal 4) (...) futuramente dá um irmãozinho pra ele ou uma irmã, e continuar feliz e bem com ela, pra gente viver anos e anos juntos, que é o que mais importa, sempre está junto. (Pai-casal 4) Nos relatos observou-se também que o tema união predominava na fala dos casais, trazido por ambos os cônjuges do casal 1, a mãe-casal 2, a mãe-casal 3 e ambos os cônjuges do casal 4. Percebe-se com os relatos, a importância da união entre os cônjuges para os enfrentamentos frente às novas necessidades enquanto esposos e pais. 4.3 Rede de Apoio Refere-se às evidências no relato dos casais entrevistados em relação à troca de apoio entre os cônjuges e na solicitação da ajuda de pessoas como um suporte para os cuidados com o filho. 4.3.1 Apoio entre os cônjuges O nascimento de um filho está relacionado imediatamente à demanda de uma variedade de cuidados a serem realizados pelos pais. Com a chegada do recémnascido a atenção do casal geralmente tende-se a se voltar totalmente ao cuidado do filho, pois este depende totalmente da atenção e dos cuidados dos pais. Rivero (2006) afirma que os cônjuges “[...] irão experimentar emoções novas em qualidade e intensidade, sendo que este processo de transformação decorre de forma muito rápida e acompanhada de aprendizados constantes na prestação dos cuidados ao bebê.” Este momento é envolvido de incertezas constantes voltadas em relação a como lidar com essa nova realidade; os cônjuges podem estar ambos voltados a essa atividade, ou apenas um, o que torna a situação um pouco mais complicada. 52 Anton (2006 b) afirma que alguns pais perdem o interesse de acompanhar a gestação e o parto da esposa, com também não assumem, ou se afastam dos cuidados com o bebê, o que causa uma diminuição na satisfação conjugal. Evidencia-se durante as entrevistas no relato de todos os participantes a prestação de cuidado com os bebês. Percebe que no discurso das mães enfatiza-se a necessidade, importância e o desejo da participação dos pais neste momento. Como entrevistadora pude observar o quanto foi notório a expressão de aflição, no momento em que os participantes fizeram suas considerações sobre o apoio entre os cônjuges, ocasião a qual emergiu relatos emocionados dos casais, principalmente na mãe-casal 2 e mãe-casal 3, em relação à atuação dos respectivos cônjuges na atenção a ela e ao bebê. Quando a pergunta foi direcionada à reflexão sobre o apoio entre os cônjuges diante dos cuidados com o bebê, suscitou tensões nos participantes, tanto nos pais quanto nas mães. Percebe-se no relato do casal 1 e casal 4, que diante as demandas do filho, houve troca de apoio entre os cônjuges, o que pode ser percebido a partir da ênfase deste fato na entrevista destes casais. Sempre me deu força e pra tudo ele tava ali comigo do meu lado (...) eu lembro que ele dizia assim nós estamos grávidos (...) foi uma pessoa muito presente durante a gravidez todinha, toda ida ao ginecologista, ele ia, tudo ele acompanhava comigo, tudo, tudo, realmente ao meu lado o tempo todo. (...) Então ele era quem ficava pra ela arrotar, pra ele botar no bercinho, ele era quem tomava conta (...) ele foi assim maravilhoso, se fosse depender dele pra ter outro filho, eu teria, porque ele me apoiou em tudo, olhe pra dar banho, trocar fraldas, tudo o que você imaginar. (Mãe-casal 1) (...) sempre eu dei esse apoio... então sempre dei apoio necessário, acho que assim fazia até mais que as vezes eu dizia assim: eu não me conheço, mas eu fazia tudo aquilo que eu pensava que um dia que eu tivesse um filho eu ia fazer, não só pela minha filha, mas pela minha esposa. (Pai-casal 1) Só não fiquei mais desesperada por conta do amor do meu esposo, que sempre me deu força e pra tudo ele tava ali comigo do meu lado. (Mãe-casal 4) Demais, demais, demais, mesmo. (Pai-casal 4) Já no discurso da mãe-casal 2 nota-se o desejo de um maior apoio do esposo e de uma maior disposição para ajudá-la na prestação dos cuidados com o bebê, 53 diante do relato dela, compreende-se que a falta do apoio do marido foi um fator gerador de muito sofrimento, pois a mesma, pontua que as lembranças deste fato lhe é dolorosa. Em relação a essa colocação, o pai-casal 2 reconhece a ausência da atenção para com o bebê e para com a esposa, e de maneira resistente, em uma colocação bem curta responde a pergunta. [...] assim, se tratando do meu esposo eu esperava mais, acredito que é um sentimento assim, que eu tento trabalhar, eu até hoje não consigo falar sem que me cause assim uma lembrança dolorosa...não sei se é expectativa da minha parte além do normal, mas eu esperava um apoio maior. [...] quando os probleminhas surgiram ai meu esposo resolveu dar o ar da graça (risos) e me ajudar mais, enfim ele caiu em si e começou a participar da paternidade, foi quando as cólicas vieram, as dores que o bebê começa a sentir e aí graças a Deus eu pude contar com meu esposo (Mãe-casal 2) Não tanto quanto deveria (Pai-casal 2) Neste contexto, se comparado o discurso dos cônjuges do casal 3, percebese que a mãe-casal 3 pontua o apoio do esposo, porém mesmo o tendo, não julga-o suficiente, esperava uma maior dedicação do esposo, entretanto, o pai-casal 3 não se reconhece nesta condição e enfatiza ao afirmar que apoiou. Recebi, não da forma que eu gostaria, mas eu recebi. (Mãe-casal 3) Ela já tinha perdido um bebê, aí esse já seria o segundo, então a cautela a gente redobrou mais, fiquei assim, mais cauteloso em determinados alimentos, em determinadas caminhadas, esforço e na hora da cirurgia, no dia que foi pra nascer, fiquei mais focado. Apoiei e apoio. (Pai-casal 3) Percebe-se no relato dos participantes que o apoio entre os companheiros é um fator que está associado à satisfação conjugal, a qual pode ser afetada diante de determinadas posições dos cônjuges, como se pode perceber nas entrevistas, principalmente quanto à ausência do esposo, na prestação de cuidados com o filho. É notório nas entrevistas o quanto é importante para o casal quando há esse apoio entre os cônjuges, pois serve como suporte um do outro diante as tantas dificuldades que surge neste período em que o bebê exige cuidado exclusivo. Compreende-se também, a importância que as mães atribuem para a participação do pai nos cuidados com o filho e o quanto elas esperam por isso. Considerando que neste momento o bebê exige investimento e dependência total da 54 mãe, elas apropriam-se de um discurso ambivalente, de exaustidão e desejo. Diante disso, elas percebem no esposo um ponto de apoio, para compartilhar, as dificuldades e a nova realidade que para ambos é novidade. Não é que o esposo tenha que tomar as obrigações para si, mas que se mostre presente, fazendo com que a esposa se sinta segura diante as dúvidas, participando ativamente, de forma a superarem juntos as novas demandas, preocupações, ansiedades e medos, próprios da chegada de um filho. Para que assim, possam encontrar soluções para suas dificuldades e para que possam desfrutar deste momento, tornando este, um período de contribuição para o aumento da maturidade enquanto pais e casal. 4.3.2 Apoio familiar Segundo Anton (2006 b) tornou-se natural o apoio de outras pessoas no cuidados aos recém-nascidos, uma vez que a maioria dos cônjuges tanto possuem uma carreira profissional, como dedica tempo aos cuidados a si próprios, a seu casamento e a sua vida sociocultural. Por isso, é comum o casal solicitar o serviço de terceiros para ajudar nos cuidados com o filho, como babás, avós, tios. A mesma autora pontua que é de extrema relevância e comum que o nascimento de um filho aproxime a família. Esse apoio recebido é de grande implicação na vida do casal, pois este se encontra em um momento de inúmeras mudanças e novas obrigações, acarretando aos cônjuges, momentos de estresse. Este apoio da família dá oportunidade ao casal de compartilhar suas dificuldades e de expressar os sentimento que emergem diante o grande investimento e prestação de cuidados ao filho. O meu apoio foi da família e principalmente assim do meu marido” (Mãe-casal 1) (...) passei os primeiros dias na casa da minha mãe até tirar os pontos. (Mãe-casal 1) A gente dava um remedinho, aí comunicava com minha mãe. (Mãecasal 1) “(...) Minhas irmãs, minhas sobrinhas, tive todo apoio, assim da minha sogra e da minha mãe” (Mãe-casal 2) 55 Da família, porque a gravidez dela foi de risco, ai tínhamos que contar sempre com alguém da família em casa” (Pai-casal 2) Tive apoio da minha sogra e do meu esposo.” (Mãe-casal 3) A gente teve o apoio da família, tivemos o apoio, dos avós, tanto materno, quanto paterno” (Pai-casal 3) Meus pais (...) a gente tava na minha casa com meus pais, ai eles ajudaram bastante. (Mãe-casal 4) No discurso dos casais, percebe-se claramente o importância do apoio familiar, também como um suporte, como é o caso dos avós, frente às urgências e inexperiência em determinados momentos, configurando-se como uma relação de segurança. 4.4 Mudanças na relação afetiva do casal após o nascimento do primeiro filho Refere-se às evidências no relato dos casais entrevistados em relação mudanças na conjugalidade em determinados âmbitos perante a vivência da parentalidade. 4.4.1 O impacto da chegada do bebê na vida do casal A partir dos relatos, é possível perceber que a chegada do primeiro filho é marcada por uma variedade de sentimentos, plenitude, felicidades, medos, ansiedades. Como já mencionado, a parentalidade é um acontecimento marcante na vida de um casal, que chega atrelado a uma soma de transformações, as quais demandam que o casal adapte-se. Rivero (2006) afirma que antes, o casal centravase apenas no vínculo conjugal, após o nascimento do filho soma-se uma nova configuração, a função parental, logo, passam a ser marido/mulher e pai/mãe. Essa mudança requer adaptações, e para isso é preciso de investimento conjugal. Menezes (2006) pontua que a transição para parentalidade é uma possível construção de um núcleo familiar singular, ao qual pertencem apenas o casal e o bebê, na qual pode representar também um fortalecimento dos vínculos familiares. A mesma autora completa afirmando que esse momento “pode ser tanto um motivo de crescimento e maior aproximação quanto uma ameaça para o casal, dependendo de 56 como o par consegue se adaptar e se reorganizar frente às novas necessidades.” (MENEZES, 2006, p. 187) O discurso dos casais quanto à chegada do primeiro filho e quanto as implicações na vida dos cônjuges, aponta mudanças de várias ordens. Os casais pontuam acerca da necessidade de adaptação à nova realidade; a quebra da rotina, a qual se vivia a dois; os novos direcionamentos da atenção que se volta agora para o bebê. O pai-casal 3, pontua a preocupação financeira, fato sinalizado apenas por ele. É interessante a colocação da mãe-casal 4, ao afirmar que o impacto da chegada do bebê aproximou mais o casal, em sua fala ela enfatiza essa aproximação, fato sinalizado apenas por ela. A partir do relato dos pais entrevistados, percebe-se que a comunicação entre o casal após o nascimento filho está dirigida para o bebê. . No que se refere ao impacto da chegada do filho na vida dos cônjuges, os participantes apresentaram os seguintes relatos: Aí de repente você vê assim que aquela concentração que era dos dois agora tinha outro ser, e por a gente não ter muito experiência ficou voltada no início só para ela, e realmente de repente é como se a gente fosse esquecendo um do outro e só voltasse à atenção para aquele bebê, porque no inicio é assim, a nossa preocupação toda só era ela. (Mãe-casal 1) Na nossa relação é assim a gente conversa mais que antes, quando a gente não tem filhos, a nossa conversa é outra. (Mãe-casal 1) (...) tive que me adaptar também pra me adaptar com a demanda, que antes só era esposa, passava o dia fora, tinha uma empregada em casa, então a minha jornada era mínima, então triplicou, porque além dessas tarefas, eu tinha eu ser mãe, educadora, administradora do lar, uma rotina diferente, eu não podia sair de manhã e sair de noite, é uma vida totalmente diferente, mas é muito intensa. (Mãecasal 2) (...) a rotina quebra-se totalmente porque a gente não vive mais um para o outro, são duas pessoas fazendo que o mundo gira em torno da criança. (Pai-casal3) (...) a camisa de marca que eu compraria e já não posso comprar mais, então eu vou ter que passar a dividir aquele dinheiro, pra mim, pro menino e para mulher, porque na despesa nova da casa, da feira não se tira nada, só acrescenta. (Pai-casal3) Eu sinto como se tivesse aproximado mais! (Mãe-casal 4) 57 Sabe-se que com a chegada do bebê na vida do casal, junto às novas situações com as quais o mesmo vai se deparar marca uma ocasião transformadora. Vários novos fatores passam a fazer parte da vida do casal, e este tem que adaptarse a essa nova realidade. Sobressaem às expectativas enquanto a execução da parentalidade e geralmente menos tempo é direcionado para o exercício da conjugalidade, o que pode colaborar para um desgaste na relação conjugal. Deve-se reservar um tempo um para o outro, lembrando-se também enquanto casal, fortalecendo assim o vínculo conjugal e proporcionando uma melhor qualidade de vida familiar. 4.4.2 Mudanças no que tange à afetividade do casal A afetividade é outro aspecto que sofre influência frente à parentalidade, diante do relato dos casais entrevistados, afeto este, que era de exclusividade na relação do casal, passa a ser também direcionado para o filho. Segundo Menezes (2006) este é um fato que contribui bastante para o enfrentamento das novas demandas e de grande importância para a preservação da relação afetiva do casal durante a transição para parentalidade. A mesma autora propõe duas realidades para a condição do afeto na vida do casal: os casais que são distantes afetivamente enfrentam maiores dificuldades na relação conjugal diante da parentalidade, estes cônjuges apontam apenas os aspectos negativos deste momento e não consegue dedicar-se à intimidade conjugal, os homens mostram-se ausentes e as mulheres exageram na maternagem. Já os casais envolvidos afetivamente, preservam a relação enquanto casal, apontam aspectos positivos frente à parentalidade, como o comprometimento, além de assumirem melhor as funções maternas e paternas. Verifica-se que os relatos dos participantes corroboram tais idéias: Assim meu marido é muito carinhoso, apesar de tudo isso, pra você ter uma ideia, quando eu amamentava a noite, que ele via que eu estava muito cansada, ele dizia assim, terminou de amamentar me dê que eu fico com ela, vá dormir. (Mãe-casal 1) É assim, como eu posso dizer, eu não via mais minha esposa, só como minha esposa, mas assim até como, sei lá acho que o amor aumentou, o carinho, o cuidado, apesar de, eu sempre me achei cuidadoso com ela, mas eu tinha que dar mais atenção. (Pai-casal 1) [...] se o casal conseguir sobreviver aos seis primeiros meses de maternidade do casal, gravidez, nove meses, mais seis meses no 58 mínimo, é difícil algo separá-los, que a gente fica se conhecendo mais, a afetividade fica maior, é como assim, um estalo, não sei explicar, mas assim, a gente fica com mais cumplicidade. (Mãe-casal 2) Porque a afetividade que se tinha com ela já não tem mais, a afetividade que ela tinha comigo não tem mais, passa a dividir com o outro. [...] A afetividade fica, geralmente pra segundo plano, o primeiro, no primeiro plano da afetividade a gente volta mais pra criança, porque a época, até antes de nascer, então seria como uma famosa lua de mel, então a gente trocava carícia, traçava beijos, ligava pra ela pra saber aonde ela tava, perguntava se ela tava sentindo alguma coisa, tudo isso ai já não faz mais como namorado. (Pai-casal 3) Eu não passo a vê-la com mais aquela namorada, como aquela esposa, às vezes, agora eu veja ela, não só como esposa, mas como mãe do meu filho, então às vezes não tem aquela atração tanto [...] modifica muito, as vezes o casal quando não está estruturalmente preparado para receber um filho não dura muito porque a afetividade que você tinha com ela já não tem mais, a afetividade que ela tinha comigo não tem mais, passa a dividir com o outro. (Pai-casal 3) Diante o discurso os cônjuges a afetividade é afetada pelo direcionamento do afeto para o bebê. Como já mencionado, com o nascimento do filho, passa-se a investir menos na conjugalidade, pois o foco do casal está na parentalidade, na atenção para o bebê, o pai-casal 3 retrata bem essa realidade em um discurso enfático, diante disso ressalta-se que a mãe-casal 3 não faz destaque a cerca desse tema. A mãe-casal 2 afirma que os primeiros meses do nascimento do filho é um período difícil, porém se o casal superar as dificuldades, a relação afetiva tende a ser aumentada e fortificada. Já ambos os cônjuges do casal 1, afirmam que diante da parentalidade, houve o aumento da afetividade entre o casal. Outro ponto percebido nos relatos que vale ressaltar, é o fato da atribuição dos papéis parentais entre os cônjuges, principalmente a partir da visão do homem, pois tanto o pai-casal 1 e o pai-casal 3, após o nascimento do filho, passaram a ver suas esposas não mais só como esposas, mas também como mãe. Fato que não se observa nos relatos das mulheres, apesar dos homens serem esposos e também pais. 59 4.4.3 Influência e mudanças no relacionamento dos cônjuges diante da parentalidade Faz-se importante ressaltar que alguns questionamentos sobre as influências, as mudanças, as conseqüências frente à parentalidade, foram desencadeadores de emoções e vários sentimentos em alguns cônjuges entrevistados, pois fizeram com que eles retomassem determinados eventos que marcaram de certa forma suas vidas. É a felicidade, a plenitude, a aflição, a raiva, a insatisfação, o medo, a incompreensão, vários sentimentos emergiram nas falas. Alguns momentos foram tensos tanto para os entrevistados como para a entrevistadora. Menezes (2001) afirma que o nascimento de um filho é um momento de grande importância tanto na vida familiar e conjugal, como na vida individual. Destaca-se a implicação na vida do casal com o nascimento do primogênito ao pontuar este como um marco na transição de casal para família e dos cônjuges para o mundo adulto. “Em função das oportunidades e dos perigos que este momento evoca, o casal deve poder renegociar seus valores e desejos, seu próprio papel no sistema e seu relacionamento conjugal.” (MENEZES, 2001, p. 29) Considerando as inúmeras adaptações que ocorrem com a chegada do primeiro filho, percebe-se diante do relato dos participantes, que a vivência desse momento acarreta angústias devido à necessidade de reorganização tanto da dinâmica da vida conjugal, individual, quanto profissional. Há um novo direcionamento na vida do casal, que acontece de forma rápida e vem acompanhado de uma necessidade de aprendizagem constante para poder lidar com as novas demandas voltadas principalmente para o bebê. Outro ponto que ficou evidente na fala dos entrevistados foi à nova direção que a relação entre os cônjuges assumiu, na qual antes as atenções e preocupações eram voltadas um para o outro e agora passa também a dividir com o bebê, o que dá uma nova dimensão para a relação enquanto casal. Rivero (2006, p. 1) alega que “ter um filho implica não só dar a vida a um novo ser humano como a um novo casal”. Os casais ressaltam que a parentalidade chega de uma forma tão intensa em suas vidas que implica no relacionamento enquanto casal. Corroborando esta ideia, Cowen e Cowen (1985 apud MCGOLDRICK, 1995, p. 43) afirmam que “a transição para a paternidade é tipicamente acompanhada por uma diminuição na satisfação 60 conjugal.” Com toda essa carga de responsabilidade que um recém nascido demanda, necessitando de cuidados quase que a todo o tempo, exige que os pais voltem-se para este quase que exclusivamente. É possível fazer uma relação com a ausência do tempo entre os cônjuges e a satisfação conjugal, pois considerando que em grande parte dos casais, existe um decréscimo da satisfação entre os cônjuges, esta pode não ter haver com as tarefas exercidas enquanto pais e sim com a ausência de tempo destinada às vivências da conjugalidade. (RIVERO, 2006). Corroborando a idéia da autora, observa-se que a mãe-casal 3 pontua em seu discurso o tempo dedicado aos cuidados exclusivo para o bebê, o que ocasionou a diminuição dos momentos reservados para a vivência a dois, afetando assim a satisfação conjugal do casal. A gente parou de ter momentos a dois né, para vivermos em função do filho, do bebê, eu acho que de alguma forma esfriou um pouquinho. (Mãe-casal 3) Ao contrário do que aponta Rivero (2006) vale ressaltar que ambos os cônjuges do casal 4, afirmam que neste momento da vivência do nascimento do filho, houve mais união entre o casal. Este participantes em outro momento pontua que mesmo compartilhando as dificuldades específicas da chegada do primeiro filho, a relação conjugal não foi afetada de forma negativa, aumentando ainda mais a união e a cumplicidade entre o casal. Logo recém nascido claro que o casal se volta completamente para o filho até não ter tanto tempo de viver como namorado, a relação de início é um pouquinho prejudicada nesse sentido, porque você tá, se volta totalmente para filho, talvez perde um pouquinho da relação a dois, mas aí no decorrer do tempo aproximou ainda. (Mãe-casal 4) Claro que tem uma mudança assim né, com um filho tudo muda, né, mas na relação minha com ela a gente ficou mais unido, dá atenção a ele, é uma atenção a mais que tem que dá pro nosso filho. (Paicasal 4) Observa-se também que esse distanciamento entre os cônjuges é encarado por todos os casais entrevistados como um acontecimento natural. Pode-se observar as implicações na vida enquanto casal nos discursos seguintes: Muda né, quando se tem um filho muda, porque quando se tá só os dois, um vive pra o outro, a atenção exclusiva era dele pra mim, dele pra mim, tudo a gente, era só os dois, né! (Mãe-casal 1) 61 [...] passamos por um momento muito difícil, a gente não se perdeu um do outro porque a gente se ama muito, mas assim, o nosso amor, acho que assim, adormeceu um pouco... (Mãe-casal 2) [...] hoje a gente consegue conversar, mas antes a gente não conseguia, porque eu imaginava que o papel do marido, fosse algo mais do que prover a casa de lata de leite, de remédios e de provimentos do bebê, acho que queria que o marido conversasse, participasse mais do banho do bebê, da troca de fraldas, não que tem que ser ele, um apoio que a gente espera eu sinceramente não tive. (Mãe-casal 2) Neste sentido, a representação que os casais entrevistados têm em relação à parentalidade é que esta traz de alguma forma uma mudança na conjugalidade, mesmo quando há um planejamento, mesmo quando há o apoio entre os cônjuges, fato percebido no discurso do casal 1. Um dos aspectos relevantes pontuado nos relatos de ambos os cônjuges que participaram da pesquisa, é que os papéis conjugais, principalmente o de mulher, em alguns momentos é deixado de lado, e esta se assume na relação inteiramente como mãe. Monteiro (2002, p.144) afirma que “o casamento sofre porque nenhum homem quer estar casado com uma mãe, embora muitos adorem uma maternagem”. Ainda frente a esse contexto, Rivero (2006) contribui ao dizer que o par conjugal não deixa de existir por se tornar também um par parental, são papéis diferentes que precisam ser considerados e ajustados pelo casal. Outro posicionamento dos casais entrevistados foi que o envolvimento sexual também é afetado. De acordo com a idéia de Rivero (2006) devido ao vínculo natural estabelecido entre a mãe e o bebê, diminui a disponibilidade para investir na relação conjugal, como também há um grande desgaste físico, emocional e as várias noites de sono afetadas. A mãe e o filho tornam-se o centro da vivência familiar, assim sendo Anton (2006 b, 215) afirma que “o pai muitas vezes ressentido, tende a afastar-se”. Neste sentido, o casal passa a se distanciar, a mulher sentir-se insegura em relação ao seu parceiro e este se sente deixado de lado pela esposa e passa a priorizar outras coisas, como o trabalho, fato que é percebido no discurso da mãecasal 2. Eu confesso que o tesão diminuiu, o desejo, porque eu olho pra você e só vejo você mãe, eu não enxergo você minha amante, minha mulher, minha namorada, então me ajude, foi quando eu caí em mim e vi que eu tinha que salvar meu casamento. (Mãe-casal 2) 62 No início, deixei de ter uma esposa, e passa a ter uma mãe, ai só depois de muita conversa, muito amadurecimento é que a gente consegue separar mãe e esposa, mas até então durante um bom tempo eu tinha só uma mãe dentro de casa não mas uma esposa. (Pai-casal 2) Menezes (2006) afirma que além de definir o início da família, o nascimento do primeiro filho demarca também o fim do romance entre os casais. Anton (2006 a) diz que se a retomada das atividades sexuais se dê neste contexto, pode acontecer desassociada a um ato de amor, correndo o risco de acontecer muito mais como um dever a se cumprir enquanto casal. Vale ressaltar que quando o casal consegue seguir em frente olhando sempre um para o outro, acolhendo um ao outro, os cônjuges vão sendo envolvidos por pequenos gestos e alegrias, e aos poucos, vão reintroduzindo a vida sexual do casal, sem maiores implicações. Apesar de ser observadas rupturas na continuidade da prática da conjugalidade no casamento após a chegada do primeiro filho, a partir das implicações já trazidas acerca das dificuldades enfrentadas neste período, destacase também no relato dos participantes a tentativa de resgate da relação conjugal após passar pelo enfrentamento das decorrências da parentalidade. Para corroborar Rivero (2006, p. 2) afirma que “O casal terá uma fase tão gratificante quanto conseguir aproveitar a oportunidade única de crescimento pessoal e familiar, preparando-se assim para outros momentos do seu ciclo vital.” A mesma autora afirma que o exercício da parentalidade junto à conjugalidade pode ser além de só estresse, é também tempo de alegria, crescimento e beleza na relação enquanto casal. (RIVERO, 2006). Aí inicialmente ele se afastou e depois ele disse assim: vamos retomar, mas se passaram cinco meses... a gente se distanciou mesmo, e eu dizia a mim mesmo: Meu Deus não vai voltar mais, eu não acreditava que voltava, isso me entristeceu demais. (Mãe-casal 2) Na minha cabeça a gente se distanciou um pouquinho, porque isso condiz com a realidade disso, eu não sei até que certo momento foi real ou não. Eu acho que a nossa vida voltou ao normal de um tempo desses pra cá. (Mãe-casal 3) Então eu tenho que ter a consciência que a gente não vive mais um para o outro, a gente vive agora para criança e isso às vezes afeta, afeta a relação sexual, afeta até na conversa, que às vezes a gente 63 conversa menos, passa a conversar menos, aumenta mais as discussões. (Pai-casal 3) Ai quando você olha o estado do relacionamento tá tão abalado que às vezes a melhor solução para ambas as partes seria o divórcio, ai fica aí esse medo dessa relação, afeta e muito o casamento. (Paicasal 3) Diante tais colocações pode-se ter uma dimensão da repercussão que a parentalidade possui frente à conjugalidade na vida de um casal. 4.4.4 Mudança do corpo (Interferência da maternidade) As mudanças do corpo é um aspecto que aparece no discurso dos casais entrevistados. As principais mudanças começam a acontecer a partir da gravidez, principalmente, na mulher, tudo parece maior, há um maior cansaço, dores e menor disposição, fato percebido diante o discurso da mãe-casal 1. Segundo Maldonado e Canella (1988), a maneira com que cada mãe se vê é muito singular, umas sentemse orgulhosas pela barriga, como a mãe-casal 1 e outras sentem-se envergonhadas e pouco atraentes como narra a mãe-casal 3. Eu fiquei me achando encantadora aquela barriga crescendo e não atrapalhou não, até onde pode a gente ter relação a gente teve, agora quando assim eu comecei senti as dores nas pernas, algumas dores ele já ficou com medo, mas não atrapalhou não. (Mãe-casal 1) É, desde o início ele sempre me procurava, mas pra mim eu não me sentia desejada, é uma questão minha mesmo. [...] eu me achava feia, eu engordei, fiquei cheia de estrias. (Mãe-casal 3) Maldonado e Canella (1988) afirmam que na grande maioria dos casos observa-se que o declínio do desejo e do ritmo da atividade sexual se dá a partir da gravidez. “Isto muitas vezes parte do homem, e não da mulher, que se mostra então ressentida e insegura por achar-se pouco atraente.” (MALDONADO E CANELLA, 1988, p. 164). Após o nascimento, as mudanças ainda continuam, e a recuperação física depois do parto tem um papel muito importante tanto para o homem quanto para a mulher, fato corroborado diante do relato dos casais entrevistados. Para os homens existe mudança, vale ressaltar o olhar que o pai-casal 1 tem diante das modificações 64 do corpo de sua esposa, junto ao manejo que o mesmo teve da situação, de forma a não intensificar os sentimentos da esposa diante dessa vivência. [...] porque eu sei que não ia ficar mais a mesma coisa né, porque além de tudo eu acho que a gravidez apesar de ser uma dádiva né, é uma agressão biologicamente no corpo da mulher, uma transformação, eu sentia que ela sentiu isso né, mas eu não deixei transparecer que ela se sentisse assim, porque podia ela depois tá se rejeitando, né, podia se sentir inferior né, e por aí poderia causar outros, outros conflitos né, na mente dela, até na nossa convivência, então eu acredito que eu soube diferenciar essas coisas. (Pai-casal 1) Esse momento para algumas mulheres é gerador de sofrimento, aflição, diante de tantas mudanças de aspectos tão importantes para a mulher, como é o fato de ser objeto de desejo dos esposos, de se privar sexualmente, o medo de não voltar ao corpo de antes, fatos que é presente no discurso das mulheres entrevistadas. “A maneira de se ver e de se sentir, portanto varia imensamente: às vezes, a mulher se vê mais madura e feminina; outras vezes, dissocia sexualidade de maternidade, bloqueando o prazer.” (MALDONADO, 1988, p. 164). Algumas mulheres inibem o desejo sexual, pois não dissociam o ser mãe e o ser amante, já outras desabrocham sexualmente e lhes confere o direito de sentirem o desejo. ( ANTON, 2006 b) Assim a nossa relação sexual teve que ser deixada de lado, até pra conservar a vida da filha, ela queria nascer aos quatro meses de gestação... então nós nos afastamos sexualmente, a gente ficava juntinho tudinho, o que eu sofri muito, no início... ele contribuiu, colaborou, nunca cobrou, né, mas assim, depois, vai se criando uma distância entre o casal e que machuca muito ambos, então isso começou nos sete meses de gravidez, que é difícil para ambos, demais, demais, demais [...] você ter uma vida conjugal, só viver pra ele e ele pra você, e desde a gravidez você se afastar do seu marido sexualmente, imagine, então isso aí causou uma lacuna muito grande, quando minha filha nasceu, é, eu acho que aconteceu assim, um distanciamento maior ainda. (Mãe-casal 2) É, achava meu corpo feio, por mais que me dissesse que eu estava bem, bonita, mas eu não me sentia, então eu ficava torcendo que ele não me tocasse e era tão forte isso que ele se afastou, graças a Deus que nosso amor foi maior e a gente não se desprendeu um do outro [...] Eu me sentia gorda, meu bebê chorava de 2 e 2 horas pra mamar, eu só cheirava a leite... (Mãe-casal 2) Eu batalhei um pouquinho pra voltar o que era antes, não fica assim, igual, mas próximo do que era [...] mas não atrapalhou em nada não a minha relação. (Mãe-casal 4) 65 Anton (2006 b) pontua que para alguns pais o sexo não combina com a maternidade e a paternidade. Neste contexto um dos fatos principais é o significado que o seio passa a assumir, pois antes tinha um potencial erótico, e entre muitos casais desde a gravidez deixa de ser visto como zona erógena. (MALDONADO E CANELLA, 1988). Acarreta e muito, porque eu quando casei ela era uma bonequinha, ela já não tem aquele corpinho de boneca que tinha, aí às vezes afeta sim, afeta, é lógico porque querendo ou não é um extinto selvagem, acho que a gente ainda tem, desejo, então, mas olhar a beleza dela do interior. deformou o corpo, mas foi no meu filho, para o meu filho que ela me deu, engravida, aí vem estrias, varizes, os pés incham, aí não pode pintar cabelo. (Pai-casal 3) Ela ficou com a barriga bem bonita, teve a veia, a linha gravitacional bem bonita, bem marcada, e às vezes o apetite antes, ou seja, eu não passo a vê-la como mais aquela namorada, como aquela esposa, agora eu veja ela, não só como esposa, mas como mãe do meu filho, então às vezes não tem aquela atração tanto, ou seja, se em relação a relação sexual na semana toda noite tivermos, após a gravidez gente já não tinha tanto. (Pai-casal 3) Essas vivências frente às mudanças trazidas pela maternidade também podem ser enfrentadas pelos casais, sendo superadas, esse momento também pode ser desencadeador de boas experiências, depende da cumplicidade vivenciada pelos cônjuges. 4.4.5 Interferência do filho A chegada de um filho traz novas realidades para os cônjuges, surgem novas responsabilidades e tarefas para os pais, as quais podem ter algumas repercussões na relação conjugal. O bebê demanda cuidados constantes, e as figuras que estão em foco nesse momento são os pais, principalmente a mãe; segundo McGoldrick (1995, p. 43) “mesmo quando os pais começam a participar mais ativamente da relação com os filhos, são as mães, incluindo as mães de dupla jornada, que suportam maior parte das responsabilidades de atender as necessidades dos filhos”. Devido à demanda que se exige, o bebê passa a ser foco de cuidado, o casal sai de cena, e o filho passa a ser detentor de grande parte do tempo, sobrando um curto espaço para as outras atividades, que na maioria dos casos é para o descanso. Assim, há um afastamento entre os cônjuges, pois há uma diminuição 66 dos momentos de intimidade, de troca de sentimentos e até mesmo um diálogo entre os cônjuges, que os tenham como prioridade, como se faz perceber nos relatos dos casais durante a entrevista. McGoldrick (1995) afirma que a presença de uma criança na casa impede que os pais tenham uma maior privacidade, mesmo em seus próprios quartos, pois mesmo as crianças sendo recém nascidas, existe a ameaça do pouco tempo, o excessivo nível de preocupação que ocupa a mente tanto da esposa quanto do marido ou até mesmo medo do bebê chorar e não se ouvir. Neste sentido, percebese que há uma redução do vínculo afetivo e da satisfação entre os casais. No que se refere à concepção da interferência dos filhos na conjugalidade, os casais apresentam os seguintes relatos: [...] e a gente era muito ligado, era muito apaixonado, de tal forma assim que cada vez que a gente ia fazer amor parecia que era a primeira vez, e eu dizia assim: até quando eu vou sentir esse frio na barriga...Isso acabou (risos) quando ela nasceu, quando eu fiquei grávida (Mãe-casal 2) (...) então um filho, é uma prova de fogo pro casamento, ou ele uni para sempre ou ele separa. (Mãe-casal 2) Logo no início, agora não, agora é normal, a mesma coisa agora, no início atrapalha um pouco, mas agora como ele já tem quatro anos, ai já, já normal. (Mãe-casal 3) (...) o momento que a gente gosta tal, é o momento de ficar no sofá, namora como de costume, abraçado, beijando o ouvido, é interrompido com nada, só de um choramingo (imita o choro), ai corre, porque não sabe se ele caiu da cama, se ele acordou, ai então rompe toda aquele clima. (Pai-casal 3) [...] porque a vida social no casal que não tem filho é a mesma que ser de solteiro, porque não tem responsabilidade com hora de chegar, não tem responsabilidade com a hora de sair, a troca de carícias, a afetividade, a sexualidade do casal é mais intensa. Quando nasce a criança já perdeu 70%, ou seja, vai ficar reduzido, vai focar mais na criança (Pai-casal 3) Esse posicionamento dos casais entrevistados frente às implicações ocorridas na conjugalidade com o nascimento do primeiro filho reforça que é necessário haver um resgate do tempo a dois entre os cônjuges, destes compartilharem os sentimentos desencadeados por esse momento, os desejos, as aflições, e promover este como um período também de gratificação e prazeres. De acordo com Teruel 67 (1992, p.145) “o conflito é inerente a todo e qualquer relacionamento conjugal, contribuindo tanto para a dissolução quanto para o fortalecimento do vínculo”. 4.4.6 Satisfação Sexual hoje A satisfação sexual do casal está diretamente relacionada com a maneira que os cônjuges vivenciam e conseguem ajustar-se frente à parentalidade. Identifica-se que em todos os relatos, a sexualidade hoje é melhor, com o passar do tempo o desempenho afetivo direcionou-se para a relação entre os cônjuges, havendo o aumento da satisfação. Apenas o pai- casal 1 que afirma que não mudou, continuando o mesmo afeto, porém sua esposa a mãe-casal 1 afirma que está melhor que antes. Eu acho que não mudou não, acho que a gente manteve a mesma coisa, eu acho que o carinho, né, apesar também que não só o nascimento da criança, mas no ativismo que nós vivemos, mas a gente ainda tem aquele tempo pra gente, da mesma forma, o mesmo carinho, não mudou muito não. (Pai-casal 1) Corroborando Anton (2006 b) afirma que tanto para homens quanto para as mulheres há o aumento da qualidade de vida sexual posterior às experiências iniciais da parentalidade. As mulheres se sentem mais maduras e plenas quanto a desfrutar do relacionamento íntimo, o que se percebe claramente no discurso das mulheres entrevistadas. Ainda quanto às mulheres, a autora afirma que elas passam a se sentirem mais atraentes, acolhedoras frente às experiências já vivenciadas. (ANTON, 2006 b) Hoje me considero mais madura e acho hoje melhor do que antes, porque no início era inexperiente, aquela coisa toda, hoje não, você vai, já conhece o corpo do outro, ele já conhece o meu. (Mãe-casal 1) Hoje a gente tá com uma vida sexual muito melhor do que antes da minha filha e eu não entendia isso, eu nem acreditava que ia ser possível, hoje a gente viaja sozinhos, hoje a gente dá uma fugidinha, hoje a gente sai pra namorar, coisa que a gente não fazia. (Mãecasal 2) (...) é possível o casal deixá-los mais cúmplice, mais unido e o sexo fica melhor, porque assim a gente tem mais maturidade de dizer não, não quero agora, não tô bem, mais amanhã vai ser melhor, e amanhã chega e é melhor e assim é o dia a dia. (Mãe-casal 2) 68 Hoje eu posso dizer que está melhor, há uns seis meses atrás eu tinha até medo em relação ao nosso futuro. (Mãe-casal 3) Aproximou mais. (Mãe-casal 4) Anton (2006 b) afirma em relação aos homens, estes se mostram mais seguros e serenos frente a sua masculinidade, havendo uma renovação da ligação amorosa com a esposa e com a família, e passam também a permitir-se viver a realização de seus desejos mais íntimos. Segundo a mesma autora, esta postura diante desse momento, significa dizer que ambos os cônjuges “terão suficiente ligação e cumplicidade para irem estabelecendo os limites necessários ao próprio filho, no intuito de preservarem um espaço justo e saudável para investirem em seu próprio vínculo homem-mulher”. Na minha opinião é como se nós ainda tivesse no primeiro ano de casado. (Pai-casal 2) Vai amadurecendo mais, vai descobrindo um mundo totalmente diferente passa a ter o consentimento do que é prazer. (Pai-casal 4) Os participantes da pesquisa ao responderem essa questão realmente mostraram satisfação diante das lembranças das vivências, o que é percebido nos relatos. 69 CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir das análises do material colhido nas entrevistas junto com a confrontação teórica, percebeu-se que a chegada do primeiro filho traz inúmeras transformações na vida do casal, principalmente no que se refere à relação conjugal. Deve-se ressaltar que diante da experiência da construção da parentalidade, é necessário levar em consideração a dinâmica individual do casal, pois diante das novas configurações familiares que os cônjuges passam a experienciar, há a possibilidade de uma aproximação ou de um afastamento, dependendo da maturidade dos mesmos e como eles lidam com tais transformações. A construção da parentalidade é marcada por uma reorganização da vida enquanto casal. Esta marca o ciclo vital familiar, pois o investimento antes orientado exclusivamente para a organização marido e mulher, é compartilhado para uma nova relação, a de pais e filho. Vale ressaltar que há uma continuação da função conjugal, porém há uma construção da função parental, havendo uma soma de funções, marido e mulher, pai e mãe. A parentalidade exige dos cônjuges um investimento intenso e uma constante construção de conhecimentos e práticas para que estes consigam lidar com as novas demandas. A entrada de um terceiro membro na configuração familiar, acarretada uma série de transformações, surge novas responsabilidades, novas ocupações para os cônjuges e a atenção destes tomam uma nova direção, voltandose para o bebê, o qual geralmente torna-se o centro da relação. As repercurssões da chegada do primeiro filho são percebidas nas várias colocações dos participantes durante a entrevista. A verbalização das vivências da parentalidade foi fonte desencadeadora de emoções e vários sentimentos em alguns cônjuges entrevistados, na qual se percebe o quanto este é um momento que demarca uma fase de grande importância na vida de um casal. Foi percebida durante a realização das entrevistas que tanto os homens quanto as mulheres expressaram seus sentimentos. O que chamou atenção é que os casais em que um dos cônjuges enfatiza o discurso, na qual a fala é bastante longa e detalhada, as colocações do outro cônjuge é bastante breve. Os resultados apresentados neste estudo apontaram mudanças importantes nos quesitos analisados, compreendendo-se que através das entrevistas vários apontamentos repercutem na vida dos casais com a construção da parentalidade. 70 Percebe-se que a prestação de cuidado realizada pelo casal é bastante importante tanto para a relação conjugal em si, como para a parceria parental. Verificou-se também que uma das maiores dificuldades do casal é articular e ajustar a vivência da conjugalidade com a parentalidade. O casal com a chegada do filho passa a investir menos na conjugalidade, voltando-se para parentalidade, diante desta, é necessário que os cônjuges se adaptem a essa nova realidade, assumindo os dois papéis, pois um não deixa de existir pela presença do outro. Assim, como afirma Rivero (2006) para que se preserve a conjugalidade, é necessário que o casal ajuste as expectativas, partilhe os sentimentos, busque uma cumplicidade, para que os cônjuges encontrem um reequilíbrio na relação, voltandose também um para o outro, sem confundir papéis, visando assim, promover um bem-estar na família. A partir das entrevistas, torna-se importante destacar, que embora haja rupturas e dificuldades na relação entre os casais com a chegada do primeiro filho, há tentativas de resgates da conjugalidade pelo casal, o que permite um fortalecimento do vínculo e o aumento da satisfação conjugal, proporcionando assim uma melhor qualidade de vida familiar. Desta forma, a partir das análises da pesquisa, compreende-se que a construção parental suscita repercussões na conjugalidade, sendo conduzida de maneira singular por cada casal. Afinal, como argumenta Menezes (2006), a história de vida, a intensidade e a qualidade da relação afetiva de cada casal, é muito importante, pois assinala a forma como cada casal vivencia e atravessa as transições da vida a dois, como por exemplo: o nascimento do primeiro filho. A partir deste estudo, foi possível falar e refletir acerca do tema, alcançando os objetivos deste trabalho, contribuindo assim, para a reflexão e compreensão das repercussões na conjugalidade a partir da chegada do primeiro filho. Desta forma, espera-se que esta pesquisa suscite desejos para realização de novos estudos. 71 REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVES. R.R. Família Patriarcal e Nuclear: Conceito, características e transformações. II Seminário de pesquisa da pós graduação em História. Goiânia, 2009. Universidade Católica de Goiás. Disponível em: http://poshistoria.historia.ufg.br/uploads/113/original_IISPHist09_RoosembergAlves.pdf. Acesso em: 08 de set. de 2012. ANTON. I. L. Camaratta. O recém nascido e o retorno ao lar. In. ANTON. I. L. Camaratta e col. Cegonha à vista! E agora, o que vai ser de mim? Porto Alegre: EST, 2006 b. 67-75. _______. Instalando a Rotina. In. ANTON. I. L. Camaratta e col. Cegonha à vista! E agora, o que vai ser de mim? 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Diga como é o exercício da sua paternidade/maternidade? 2. Você desejava ter filhos? (Se houve planejamento) 3. No nascimento do bebê você recorreu ou recebeu apoio dos familiares e/ou de profissionais (babás, enfermeiras)? 4. No nascimento do bebê você recebeu apoio do seu cônjuge? 5. Fale-me sobre o recebimento da notícia da gravidez. 6. Fale-me sobre as expectativas com o nascimento do bebê? (curiosidade sobre o sexo, as dúvidas e preocupações). 7. O nascimento do primeiro filho lhe ocasionou medos? 8. Você percebeu alguma mudança na relação conjugal? (como por exemplo a rotina, momentos difíceis) 9. Em algum momento você sentiu dúvidas quanto ao exercício da parentalidade? 10. Como ficou a afetividade após o nascimento do seu filho(a)? 11. Quanto à sexualidade, as transformações no corpo acarretaram implicações na relação enquanto casal? (Influencia da maternidade) 12. Ainda quanto à sexualidade como você avalia a satisfação sexual hoje? 13. Em relação à satisfação conjugal houve mudanças na relação marido e mulher? 14. Enquanto pais e família quais são suas expectativas quanto ao futuro? 78 APÊNDICE B – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido Termo de Consentimento Livre e Esclarecido Faculdade do Vale do Ipojuca - FAVIP Departamento de Psicologia Bacharelado e Formação em Psicologia 55024-901 Caruaru, PE – Brasil Tel./Fax 55 81 3722- 8080 E-mails: [email protected] [email protected] Prezado (a) Colaborador (a), Estamos realizando uma pesquisa aqui na cidade de Belo Jardim com a finalidade de conhecer questões referentes: As repercussões na relação afetiva do casal após o nascimento do primeiro filho. Este estudo compreende uma pesquisa de graduação em Psicologia da Faculdade do Vale do Ipojuca (FAVIP), sob a orientação da Professora Msc. Raffaela Medeiros e Morais. Para realização desta pesquisa, gostaríamos de contar com a colaboração do casal respondendo a esta entrevista. Esclarecemos que serão respeitados todos os princípios éticos relacionados a pesquisas com seres humanos, conforme o Conselho Nacional de Saúde e o que estabelece o Comitê de Ética na Pesquisa. Apesar deste estudo não oferecer benefício imediato ao casal participante, a possibilidade de falar durante as entrevistas pode proporcionar efeito terapêutico nos mesmos. Além de que contribuirá ao banco geral do conhecimento psicológico e científico. Entretanto, devem considerar possíveis riscos como constrangimento/ desconforto ao responder as questões. Frente a esta possibilidade, o casal terá à sua disposição o serviço de atendimento psicológico da CASA FAVIP, (Trav. Geraldo de Andrade, 46, Bairro: Indianópolis - Caruaru, telefone: 3727-4721). Pedimos que expressem o que pensa da maneira mais sincera possível. Todas as informações são confidenciais e não existem respostas consideradas certas ou erradas. Salienta-se, portanto, a garantia do anonimato do casal participante, a identidade será mantida em sigilo, bem como o caráter voluntário da sua participação, tendo o casal participante a liberdade de recusa e desistência da pesquisa em qualquer fase, sem haver penalização. Se houver alguma dúvida durante a realização da pesquisa estaremos disponíveis para esclarecê-las em qualquer etapa, quantas vezes forem necessárias. As informações coletadas na pesquisa estarão disponíveis provavelmente ao final do segundo semestre de 2012. Para obtê-las, favor contatar os responsáveis através dos meios acima citados que neles estaremos disponíveis para todos os esclarecimentos em qualquer fase da pesquisa. Desde já, agradecemos enormemente a colaboração dada a esta solicitação. TERMO DE CONSENTIMENTO Certifico haver lido o anteriormente descrito, compreendo que os dados serão mantidos em sigilo e que estou participando voluntariamente. Pela presente, dou meu consentimento para participar do estudo. Belo Jardim, _____de _________________de 2012 ________________________________________________________________ Assinatura/rubrica do participante __________________________________ Nathália da Silva Santos (Graduanda em Psicologia) __________________________________ Raffaela Medeiros e Morais (Orientadora)