Mundo sobre rodas l simulação carrO VirtuAl ANOS ANTES DE ENTRAR EM PRODUÇÃO, SEU CARRO JÁ ESTAVA PRONTO PARA RODAR, GRAÇAS AOS SUPERSIMULADoRES POR CARINA MAZARotto | IMAGEM 3D MARCoS DE ANDRADE 104 I autoesporte I julho AE554_p104a109.indd 104 17/6/2011 19:26:32 iPHONE Autoesporte também tem seu carro virtual. Ele está no nosso aplicativo oficina, na App Store A tecnologia que levou Neil Armstrong à lua, em 1969, é a mesma que leva você ao trabalho todos os dias. Não que seu carro esteja perto de se transformar em uma espaçonave, como sugeriam os Jetsons. Longe disso. Mas uma coisa é certa: os cálculos e simulações que promoveram o avanço espacial e aeronáutico invadiram a indústria automobilística nas últimas três décadas. E deram aos engenheiros ferramentas virtuais para que eles pudessem projetar um carro, inteirinho, no espaço. Espaço? Sim. Mas esqueça a lua, por enquanto. Falamos agora do espaço virtual. Imagine o seguinte. Anos antes de entrar na linha de produção, seu carro (popular ou de luxo, não importa) já está pronto para rodar, na tela do computador. E não se trata simplesmente de uma projeção, um exercício de futurologia. É o carro pronto mesmo. Peça por peça. Cada centímetro do veículo é previsto em um modelo virtual. Aspectos de design, engenharia e até pós-venda. “Tudo o que você vê em um carro não está lá por acaso, nem um milímetro sequer”, explicou Luiz Alberto Veiga, gerente executivo de design da Volkswagen, enquanto mostrava os detalhes do projeto virtual do Fox no centro de engenharia da fábrica de São Bernardo do Campo (SP). Vamos a alguns exemplos, começando pelo design. Sabe a linha de costura do banco do seu carro? Ela já existia na tela do computador de um designer, com direito a zoom para enxergar direitinho os fios. A perfuração do couro, a textura do painel? Também. Os softwares em 3D são capazes de reproduzir tão fielmente os detalhes do acabamento de um veículo que fica difícil distinguir a imagem de uma foto. Mas isso é só o começo. Lembra quando você estava na estrada e reparou no ruído de vento pelo vidro? Anos antes, os engenheiros de desenvolvimento do seu carro também ouviram o mesmo som. Só que de uma outra forma: interpretando, na tela, as linhas capazes de simular o fluxo de ar. “A tecnologia é tão poderosa que é possível aplicá-la até aos cálculos de aerodinâmica, simulando o atrito do ar com a superfície”, afirmou o engenheiro Heymann Leite, professor de pós-graduação em gestão automotiva da FEI. Até o trabalho do mecânico, na oficina, é previsto no mundo virtual. “É possível simular onde o óleo vai cair, durante a manutenção”, disse Roberto Ramos, gerente de engenharia de produto e design da General Motors do Brasil. “Há softwares que mostram, por exemplo, como a pessoa vai retirar a vareta de óleo, se há acesso fácil e bom campo de visão”, julho I autoesporte I 105 AE554_p104a109.indd 105 17/6/2011 19:26:39 Mundo sobre rodas l simulação afirmou Antonio de Lucca, diretor de engenharia da Ford. O projeto de um veículo ainda começa com lápis, caneta e papel. Mas isso dura pouco: logo o papel dá lugar a um tablet e em menos de uma semana o desenho está na tela do computador. Feitos os primeiros esboços, o carro digital começa a ganhar medidas. É o que as montadoras chamam de Package (Pacote). “Estudamos a posição do motorista, onde estará o pé dele, o espaço para a cabeça, a visibilidade, o acesso aos comandos, ao porta-malas”, detalhou Veiga, da VW. O próximo passo é transformar o desenho em modelo 3D. “Conseguimos dar formas sensuais ao veículo, é fantástico”, contou, sorridente, o alemão Peter Fassbender, chefe de design da Fiat, na sala virtual do Centro Estilo, em Betim (MG). Depois, as melhores propostas de design são transformadas em protótipos físicos, feitos de argila em escala real. “Ainda não existe decisão virtual”, comentou Martin Vollmer, presidente da Edag, empresa alemã especializada em simulações. Nenhuma peça do seu carro está lá por acaso: cada milímetro do veículo é calculado e previsto no modelo virtual matemátiCa nele! Com design definido, é preciso transformar o modelo físico em um arquivo de dados matemáticos. Traduzindo: cada centímetro do carro deve ser calculado. Para isso, uma máquina, como um scanner, faz a leitura do protótipo e gera esses cálculos automatica- Coisa de Cinema Os designers mostram suas propostas aos engenheiros em um dos ambientes mais secretos da fábrica, a sala virtual. É como de uma sala de cinema: tem telona, poltronas confortáveis e aplicações dasimulação AerodinâmicA As linhas sob o carro representam o fluxo de ar. Os engenheiros analisam o atrito do ar com a superfície, as zonas de turbulência e até a quantidade de sujeira que será disposta no vidro. E ainda estudam como gastar menos combustível. até óculos 3D. Na tela, é possível visualizar o veículo em escala real. Antes da utilização de softwares, nas décadas de 60 e 70, representar o carro ou peça dessa maneira só era possível em grandes telas de tecido de seda pura, impregnadas de cera. “Vieram as chapas de alumínio, riscadas com graminhos de aço, depois a película de poliéster”, lembrou Heymann Leite, da FEI, que trabalhou durante 20 anos na Ford. Imagine que, naquela época, a cada mudança sugerida pela engenharia, um novo desenho precisava ser feito à mão. E a cada desenho aprovado, um protótipo físico era construído. Se houvesse mudanças no projeto? Começava tudo de novo. “O desenho virtual proporcionou decisões muito mais rápidas da engenharia”, disse Vollmer. Para definir qual será a roda de um carro, por exemplo, a montadora não constrói 50 modelos diferentes, mas projeta essa roda virtualmente e, depois de selecionar as melhores opções, modela dois ou três protótipos para, então, chegar à decisão. mente. Os dados são interpretados por um software e o carro aparece na tela cheio de “quadradinhos”. Esses quadradinhos são chamados de elementos finitos. “Na minha época chamávamos de infinitos”, brincou Leite. A teoria é antiga, baseada em um dos conceitos do pensador René Descartes: se você tiver um problema que não saiba resolver, divida-o em pequenos problemas e você resolve o todo. Bingo! Conhecendo cada milímetro do veículo, fica muito mais fácil identificar as causas das falhas. E preveni-las. “No início, as simulações eram corretivas, só depois passaram a fazer parte do desenvolvimento do veículo”, contou Gabriel Gueler, diretor tecnológico da Smarttech, fornecedora de softwares de simulação. Na General Motors, em 1995, quando o departamento de simulação foi criado, os softwares logo ajudaram a solucionar problemas. “Identificamos a causa de uma falha da Blazer que, quando levada ao uso extremo, provocava barulho excessivo”, contou Ramos. Em seguida, a tecnologia passou a ser aplicada no desenvolvimento dos carros, e o departamento que começou com cinco engenheiros hoje tem 66. “Só no projeto do Agile, a GM economizou US$ 1,6 milhão com os testes virtuais.” Antes da chegada dos softwares, no início da década de 80, os cál- Alguns exemplos mostram que a tecnologia está em todos os processos de desenvolvimento AirbAg A simulação não só prevê como o airbag irá proteger o motorista, mas como será o comportamento do carro no momento da abertura. É possível estudar quais áreas do painel vão sofrer mais vibrações e se há risco de as peças se soltarem. climAtizAção O ar-condicionado do seu carro é silencioso ou provoca ruídos em excesso? Saiba que tudo isso foi previsto no modelo virtual. Os softwares ajudam não só a analisar a fluidez do ar, mas também sua eficiência e os barulhos causados. corpo humAno A proteção de pedestres é uma grande preocupação das montadoras. E a simulação já chegou lá: há softwares que calculam cada centímetro do esqueleto humano, prevendo quanto o corpo suporta os impactos. 106 I autoesporte I julho AE554_p104a109.indd 106 17/6/2011 19:26:42 culos eram feitos com lápis e régua de cálculo, hoje peça de museu. “Dávamos o desenho de uma peça para um projetista e ele fazia o quadriculado à mão, demorava mais de uma semana”, contou o professor. “Os carros nunca eram iguais do lado esquerdo e do lado direito, sempre havia erros milimétricos”, lembrou Veiga. Hoje, em um clique, é possível transformar o desenho em uma superfície matemática. Isso tudo foi possível graças à pesquisa espacial, que gerou softwares poderosos de simulação. a fabriCação Com design Sala virtual é como uma sala de cinema: pela telona, engenheiros visualizam o carro como se ele fosse real, com ajuda da tecnologia 3D. Na foto ao lado, exemplo de estudo de aerodinâmica na Mercedes-Benz da Alemanha. Abaixo, todo o interior do carro aparece na tela aprovado e superfície calculada, só resta mesmo “fabricar” o carro virtual. “Você tem de fazer o visual do carro se transformar na parte funcional, não só do ponto de vista da fábrica, mas da construção do ferramental”, explicou Antonio Carnielli, gerente executivo de desenvolvimento da VW. Essa fase é chamada de Digital Mock-Up ou DMU. É o momento em que as 4 mil peças de um veículo se encaixam. No espaço. “Todos os componentes são colocados juntos no modelo virtual, é verificado se há interferências, se todos os itens realmente se encaixam, onde são parafusados”, explicou Martin Vollmer, da Edag. O DMU é como o esqueleto do carro virtual. “Imagine que um engenheiro está trabalhando na transmissão, outro no eixo trasei- crAsh test Hoje não é preciso mais construir um protótipo nos primeiros testes de batidas: a simulação já traz resultados bem próximos à realidade. Quando o modelo físico é construído, a montadora já conhece quais serão as áreas mais afetadas. fotoS DIvulgação AE554_p104a109.indd 107 design Parece uma foto do carro, não? Mas é um modelo virtual. Os softwares em 3D são tão poderosos que simulam detalhes minuciosos do design, como a textura do painel ou os reflexos causados sobre a pintura da carroceria. Em um clique. foNtES CarsIm, prof. heymann leIte, fIat, forD e volkswagen mAnutenção O exemplo acima mostra a simulação de manutenção em um caminhão da Ford, mas também se estende aos automóveis. Durante o projeto virtual, os engenheiros estudam como será o acesso ao motor e a outras partes do veículo. testes dinâmicos Sim, o carro virtual anda! Antes de o modelo físico ir para a pista, os softwares de dinâmica veicular simulam todo o comportamento da suspensão em diferentes situações, como freadas bruscas, acelerações, mudanças de faixa, curvas... julho I autoesporte I 107 17/6/2011 19:26:51 Mundo sobre rodas l simulação 1 A A 2 B 4 3 Engenheiros da PSA PeugeotCitroën analisam Aircross em escala real na sala virtual do grupo, em São Paulo (1). Peter fassbender, chefe de design da fiat, mostra projeto virtual do Novo Uno (2). Sala do Centro Estilo da fiat, em Betim (MG), tem tela de 2,7 m por 5,5 m (3). Exemplo de estudo de climatização na Mercedes-Benz alemã (4). Crash test virtual (5). Luiz Veiga e Antonio Carnielli, da Volkswagen, mostram como é visualizar o carro virtual em 3D, no Centro de Engenharia da marca, no ABC paulista (6). Veiga explica como são feitos os estudos de Package, no início do projeto (7) 6 B 5 7 108 I autoesporte I julho AE554_p104a109.indd 108 17/6/2011 19:27:18 ro, em computadores diferentes, e como eu junto tudo isso? É preciso ter um local onde todos atualizem seus sistemas, criando o veículo no espaço”, explicou Lucca, da Ford. “Se a fabricante tem um problema de recall com uma peça vinda de um fornecedor, fica fácil identificar onde houve divergência”, comentou Sérgio Savane, diretor da SAE Brasil. É virtual, mas anda De- pois de “fabricados”, os carros virtuais passam pelos mesmos testes a que os carros reais são submetidos, inclusive crash tests, antes da construção do modelo físico. “A simulação é uma ferramenta indispensável para o desenvolvimento de sistemas de segurança”, diz o PhD Thomas Gillespie, um dos “papas” do setor, autor do livro Fundamentals of Vehicle Dynamics (Fundamentos da Dinâmica Veicular, ainda não publicado no Brasil). Cada vez mais os resultados dos testes virtuais se aproximam dos reais. “As simulações têm uma margem de erro na faixa de 5% a 10% sobre o protótipo físico, no crash test está chegando a esse nível”, explicou Celso Nogueira, gerente de engenharia da T-Systems. “Hoje você tem os resultados vir- simulação ajuda a evitar falhas de projeto: carros de hoje são fabricados com mais qualidade do que no passado tuais dos crash-tests antes de mandá-los para a Europa e sabe que a margem de erro é muito pequena”, disse Ruimark Creazzola, gerente de produto e carroceria da PSA Peugeot-Citroën. E não só a segurança dos ocupantes, mas dos pedestres também. Como na vida real, os carros virtuais sofrem acidentes, causam atropelamentos – com a boa diferença de acontecerem em um cenário virtual. Para representar as condições reais de um choque, há até softwares que calculam cada centímetro do esqueleto humano, a fim de prever o quanto o corpo pode resistir a um impacto. Osso por osso. Afinal, produzir carros seguros e com o menor índice de falhas é o objetivo de qualquer montadora. Conceber um carro virtual, antes mesmo de fabricar suas peças, é uma evolução fantástica para atingir esse objetivo. Mas é preciso lembrar de outra peça fundamental: o ser humano. É ele que está atrás da máquina, comandando o software. É ele que também lidera equipes e tem o livre arbítrio para produzir um carro de qualidade. Ou se tornar refém da competitividade e pular etapas de projeto só para lançar um veículo antes dos concorrentes... ação preveNtiva Os métodos de prevenção de falhas, desenvolvidos com a corrida espacial, ajudaram a indústria automobilística a identificar problemas antes de construir o veículo. Antigamente, algumas peças quebravam por erros de espessura, não previstos no projeto. “Quando você troca uma peça de alumínio por uma de aço, por exemplo, é preciso estudar onde há mais esforços”, lembrou o professor Heymann. “Com a simulação, é possível antecipar tudo isso.” O Peugeot 408, fabricado na Argentina, passou por algumas adaptações antes de ser vendido no mercado brasileiro. Uma delas foi a substituição do capô de alumínio pelo de aço. “Os softwares nos ajudaram a estudar onde a superfície sofreria mais esforços, e quais seriam as adaptações necessárias para garantir o mesmo comportamento da peça”, explicou Ruimark Creazzola, da PSA Peugeot-Citroën. A adaptação do C3 Picasso para a versão aventureira Aircross também foi 100% feita no Brasil. No subsolo de um prédio em São Paulo, conhecemos a sala virtual do grupo, guardada a sete chaves. Na tela, lá estava o modelo matemático. “Tínhamos de sugerir propostas de fixação do estepe, sem deixar de responder aos requisitos de torção da carroceria”, explicou. “A simulação nos ajudou a desenvolver cada peça virtualmente.” fotoS guIlber hIDaka; A bruno gonzaga stuDIoCerrI; B DIvulgação foNtES eDag e volkswagen AE554_p104a109.indd 109 deseNvolvimeNto O passOapassO dagênese de um carrO 1 l ideia A concepção de um veículo ainda surge com lápis, caneta e papel. Mas rapidamente o desenho vai para o computador. 2 l desiGn Softwares ajudam designers a projetar o carro em 2D (altura e largura). Primeiras propostas são mostradas à engenharia. 3 l PaCKaGe Começa-se a estudar a ergonomia e todas as dimensões do veículo. Desenho é feito em 3D para representar o espaço. 4 l ProtÓtiPo A decisão final sobre o design não é virtual. Modelo em argila é construído e, então, a ideia é aprovada por engenheiros. 5 l matemátiCa Por uma máquina de scanner, carro em argila vira um modelo virtual calculado. Começa o aperfeiçoamento da superfície. 6 l diGital moCK-uP Aqui todas as peças do carro são colocadas juntas: engenheiros verificam se os itens se encaixam sem interferências. 7 l desenvolvimento Cada área trabalha virtualmente em uma parte do veículo (motor, transmissão, suspensão, etc.), até ser formado o modelo final. 8 l testes dinâmiCos Na última fase, modelo é colocado à prova na pista virtual e, então, está pronto para se transformar em um carro real. julho I autoesporte I 109 17/6/2011 19:27:31