COMPETITIVIDADE DA PRODUÇÃO DE CAFÉ NA REGIÃO DO CERRADO DE MINAS GERAIS Profª Drª Maria Isabel da Silva Azevedo Alvim Faculdade de Economia e Administração/Universidade Federal de Juiz de Fora Cidade Universitária, Campus de |Martelos, 36036-900 Juiz de Fora/Minas Gerais [email protected] Profº MS Lourival Batista de Oliveira Júnior Faculdade de Economia e Administração/Universidade Federal de Juiz de Fora [email protected] Profª Drª Dione Fraga dos Santos Faculdade de Economia e Administração/Universidade Federal de Juiz de Fora [email protected] Área Temática 1 – Comercialização, Mercados e Preços Agrícolas Apresentação em forma de Pôster 1 COMPETITIVIDADE DA PRODUÇÃO DE CAFÉ NA REGIÃO DO CERRADO MINEIRO RESUMO: O Brasil tende a aumentar sua participação no comércio internacional de produtos do agronegócio, pois possui áreas agricultáveis em todo seu território e em várias cadeias produtivas existe a possibilidade concreta de iniciar e/ou continuar ganhos de produtividade substanciais, via inovações tecnológicas, aproveitamento do potencial de cada região e administração moderna. Na região do cerrado brasileiro responsável hoje, pela maior produção de grãos do país, com ganhos de produtividade acima da média nacional, o café, especialmente o produzido na região do cerrado mineiro, é considerado no tipo de cafés especiais, como um dos de melhor qualidade do mundo. Neste contexto, o presente artigo pretende fazer uma análise da produção do café na região do cerrado mineiro. O café do cerrado é conhecido em importantes mercados do exterior como um produto de alta qualidade e confiabilidade às novas demandas internacionais. ABSTRACT: Brazil tends to increase its share in the international trade of agribusiness products. It possesses fertile lands areas throughout al its country side and many products chains in operation display effective perspectives to start or keep drawing substantial productivity gains through the adoption of technological innovation, exploitation of each region’s opportunities, and modern managerial practices. In the Brazilian land area know as “cerrado” region – which responds nowadays for the largest production of grains in the country and with productivity performance above the national average -, coffee production, particularly the one undertaken in the Minas Gerais’ side of the cerrado region, is recognized by special coffee producers as being among the best quality ones in the world. The cerrado’coffee is trusted in major foreing markets as a high quality product and acceptable under international demand standards. Palavras-chave: competitividade, cerrado, café COMPETITIVIDADE DA PRODUÇÃO DE CAFÉ NA REGIÃO DO CERRADO MINEIRO 1 – INTRODUÇÃO O desenvolvimento econômico do Brasil ocorreu com base na sua dimensão continental e abundantes recursos terrestres, aquáticos e minerais. As rendas provenientes da agricultura extensiva voltada para a exportação, financiaram um setor industrial substancial baseado na energia hidrelétrica subsidiada, produção nacionalizada de aço e petróleo e mão-de-obra barata. Estudos do Banco Mundial sinalizam um cenário mundial com crescimento da população e aumento de renda, mas com uma área global disponível para a agricultura diminuindo, em 1961 havia 0,64 ha/habitante, em 1996, 0,26 ha/habitante e a tendência é que em 2050 esta relação seja de apenas 0,15 ha/habitante (SCOLARI, 2002). 2 É nos países desenvolvidos que mais cresce a consciência sobre as distorções ambientais dos atuais sistemas de produção e consumo de alimentos. Manifestações sociais permitem perceber uma crescente preocupação com a preservação dos recursos naturais usados na produção. Em decorrência de pressões públicas já se requerem novos métodos de produção agropecuária que venham reduzir os impactos ambientais adversos, dentro do que se passou a designar como “agricultura sustentável”. A sustentabilidade da atividade agrícola é fundamental para a preservação do meio ambiente, pois está diretamente relacionada com os aspectos ambientais, econômicos e sociais provocados pela utilização de técnicas agrícolas, sendo que a exploração deve ser feita de forma racional, de maneira a poder satisfazer as necessidades das gerações presentes, sem comprometer os recursos naturais para uso das gerações futuras. Tecnologias que permitam sistemas agrícolas economicamente viáveis, socialmente aceitáveis e ambientalmente equilibrados, preservam solo e água, principais meios de produção na agricultura e evitam aumento de custos, quedas de produtividade, redução de rendas e descapitalização do produtor. Assim sendo, no Brasil, a promoção da agricultura, principalmente de pequeno e médio porte, como linha estratégica de desenvolvimento sustentável deverá ser fortalecida e expandida. Ainda segundo Scolari (2002), o Brasil tende a aumentar sua participação no comércio internacional de produtos do agronegócio, pois possui áreas agricultáveis ainda inexploradas e em várias cadeias produtivas existe a possibilidade concreta de iniciar e/ou continuar acontecendo ganhos de produtividade substanciais, via inovações tecnológicas e uso correto de tecnologia, sendo que a participação das exportações do agronegócio brasileiro no mercado mundial ainda é bastante reduzida, cerca de 4,0%, havendo espaço para crescer. A competitividade brasileira esteve sempre baseada nas riquezas naturais e do setor agropecuário, se especializando no setor de alimentos e no agronegócio. Com a globalização da economia, é exigido um processo de reestruturação e adaptação das normas de produção e reorganização da indústria. O impacto é, necessariamente, a reavaliação das políticas tecnológicas e estruturas organizacionais que conduzirão a trajetórias de competitividade, uma vez que o setor agrícola é considerado um ponto forte da vantagem comparativa na economia brasileira. O bom desempenho do setor agrícola brasileiro contrasta com os questionamentos acerca da sustentabilidade dos recursos naturais, principalmente a pressão exercida sobre o solo. A modernização agrícola não levou em conta a pressão exercida sobre o meio ambiente, ocasionando impactos negativos, como por exemplo, a utilização indiscriminada de agrotóxicos, que acabam matando os predadores naturais e fortalecendo as pragas, e a degradação do solo, pelo uso de maquinário pesado, dentre outros (RODRIGUES, 2001). De acordo com o autor acima citado, a maior parte das áreas agrícolas do Brasil é composta por áreas sensíveis à erosão e de rápida degradação sob as ações do vento, chuva e sol quando cultivadas no sistema convencional. São solos que exigem alta tecnologia e oferecem condições para múltiplas culturas. Em algumas regiões são possíveis até três culturas por ano, devido ao clima. Mas quando o cultivo acontece no sistema convencional, a base produtiva se degrada em poucos anos. A erosão é reconhecida como aquela que mais afeta o sistema de produção agrícola, estando também relacionada com a mesma. Seus efeitos incluem o aumento dos custos que não são computados no Sistema de Contas Nacionais, recaindo sobre a sociedade toda a responsabilidade dos danos ambientais (RODRIGUES, 2001). Dentro da análise econômica, a erosão leva a um aumento dos custos de produção das culturas, requerendo gastos adicionais para repor a fertilidade do solo, para a adoção de técnicas de conservação, dentre outras. 3 Devido ao uso excessivo de maquinário, os solos começam a sofrer com a erosão, e a degradação obriga a se procurar uma solução mais sustentável e nisso, o sistema de plantio direto tem sido considerado como uma das práticas agrícolas mais adequadas à preservação e recuperação da qualidade biológica do agroecossistema em regiões de clima subtropical como o do Brasil, tornando-se assim, uma opção mais viável, pois garante a harmonia com a natureza, podendo-se maximizar o potencial produtivo com os recursos naturais existentes. Na agricultura brasileira devem ser analisadas, não só as deficiências de políticas públicas como preços, sistemas de transporte, processamento industrial e distribuição, que afetam toda a cadeia produtiva, mas também ineficiências que decorram de insuficiência tecnológica no setor de produção. Além da necessidade de identificação e da extensão dos gargalos de ineficiência, referentes a políticas públicas, é necessário indicar os aspectos tecnológicos passíveis de capacitar os setores produtivos a competir em uma economia aberta e com reduzida interferência governamental (SCOLARI, 2002). O setor agrícola nacional, em fase de reorganização e adequação aos novos padrões de produção e comercialização, enfrenta o desafio de crescer de modo competitivo e sustentável, para atender a demanda interna e conquistar e manter espaços de mercado externo, fornecendo produtos e processos de qualidade, com sustentabilidade, e a preços competitivos. Estas são as novas demandas de uma agricultura mais equilibrada, ecológica e economicamente, indicando a necessidade de práticas de produção coerentes com o desenvolvimento sustentável. Nesse aspecto, a expansão da produção para as regiões do cerrado brasileiro, através do uso de tecnologias e sistemas de produção adequados, é de fundamental importância para o crescimento do agronegócio. O setor agrícola tem sido responsável por quase metade do valor das exportações brasileiras, indicando forte dependência do balanço de pagamentos em relação ao setor como fonte de divisas. No período de 1998/2001, cerca de 81% das divisas estrangeiras obtidas com as exportações agrícolas na economia brasileira foram originadas basicamente de cinco produtos: soja, café, açúcar, fumo e suco de laranja (SCOLARI, 2002). 4 Tabela 1 – Volume de Exportações dos Principais Complexos Agrícolas – 1995/2001, em milhões de US$ SUCO DE FUMO EM ANO SOJA(1) CAFÉ(2) AÇÚCAR(3) LARANJA FOLHAS 1995 4.974 2.614 912 645 937 1996 5.113 1.506 1.208 1.013 1.453 1997 5.729 3.094 1.770 1.003 1.091 1998 4.755 2.576 1.941 1.262 940 1999 3.784 2.441 1.911 1.235 893 2000 4.197 1.761 1.199 1.019 813 2001 5.296 1.393 2.286 812 921 Fonte: SECEX/MDIC _ Secretaria de Comércio Exterior/Ministério do Desenvolvimento,Indústria e Comércio (www.dic.gov.br) (1) – inclui grão, farelo, óleo bruto e refinado (2) – inclui café solúvel (3) – inclui açúcar cristal, refinado e demerara. A tendência mundial, de um modo geral, é o aumento da oferta de produtos agrícolas declinantes afetando diretamente a rentabilidade do setor exportador. Diante disso, estudos que possam mostrar a questão da competitividade com um certo grau de sustentabilidade, a estrutura de custos de produção, bem como as tendências desse setor, e os impactos das prováveis políticas governamentais, podem contribuir para a tomada de decisão na alocação de recursos e planejamento da atividade, sendo assim é objetivo deste trabalho, analisar a competitividade da produção do café na região do cerrado de Minas Gerais, bem como a rentabilidade que novas formas de produção podem trazer aos produtores. 2 – A competitividade do setor agrícola De acordo com FARINA e ZYLBERSTAJN (1994), em termos de desempenho, a competitividade expressa-se como a capacidade de sobrevivência e expansão nos mercados nacional e internacional, sendo que um fator importante e que pode ser decisivo em sua determinação é a tecnologia utilizada no sistema de produção que, ao incorporar inovações tecnológicas podem conduzir a uma redução dos custos mínimos de produção, mantidos constantes os preços dos fatores, bem como obter efeitos mais abrangentes, como a introdução de novos bens e serviços e ganhos de novos mercados através de processos operacionais que permitem estar à frente dos concorrentes. A partir da década de 1980, o capitalismo internacional passa por profundas transformações que se manifestam na geração e adoção de novas trajetórias tecnológicas de produtos e processos, novas técnicas gerenciais e organizacionais e novas estratégias de mercado, caracterizando uma intensa reestruturação produtiva, passando a nova competição a se distinguir por aspectos como a organização da empresa, a coordenação da cadeia produtiva, a organização institucional e os padrões de políticas públicas. Atualmente, a conjuntura econômica internacional, caracterizada pela globalização do comércio e pelo decréscimo dos subsídios e das barreiras não-tarifárias, tem levado alguns países a intensificar políticas que possibilitem o aumento da eficiência econômica, visando obter ganhos de competitividade. A reestruturação produtiva no Brasil originou-se nas mudanças estruturais ocorridas a partir dessa época, tais como: abertura da economia, formação do Mercosul, a desregulamentação e o processo de estabilização econômica ancorado no câmbio e taxa de 5 juros, bem como a crise de formas tradicionais de intervenção do Estado. Estas transformações definiram a formação de um novo ambiente competitivo e repercutiram, intensamente, no sistema agroindustrial brasileiro, que passou a adotar novas formas de organização e a utilizar novos mecanismos impulsionadores de novas bases de competitividade e rentabilidade, bem como a obtenção de maiores ganhos de produtividade pela maior eficiência na coordenação dos recursos produtivos que garantam um bom posicionamento no mercado. A competitividade é o grande desafio enfrentado pelos países em desenvolvimento, pois, para ser competitivo, é necessário o ajustamento de uma série de variáveis que incidem sobre as possibilidades de competir nos mercados internacionais. A competitividade esteve, por um longo tempo, associada à Teoria do Comércio Internacional, como um prolongamento do conceito de vantagem comparativa, sendo muitas vezes considerada sinônimo uma da outra. Com o objetivo de estabelecer princípios que permitissem predizer o padrão de comércio entre países, Heckscher e Ohlin, citados em MARTIN et all (1991), desenvolveram a versão dominante da teoria da vantagem comparativa, baseando-se na idéia de que todas as nações possuem tecnologia equivalente, mas diferem na disponibilidade dos fatores de produção. Assim, um país terá vantagem comparativa na produção daquela mercadoria que utiliza mais intensamente o recurso de maior abundância no país. A teoria da vantagem comparativa, em sua versão das proporções de fatores, baseiase na idéia de que as nações possuem tecnologias equivalentes, mas apresentam diferentes dotações de fatores produtivos, como terra, mão-de-obra, recursos naturais e capital. Tal teoria tem sua origem em Adam Smith, em 1776, no livro “A Riqueza das Nações”, onde expõe os princípios da teoria da vantagem absoluta, preconizando que o país que possuísse o menor custo de produção na fabricação de um produto, apresentaria vantagens absolutas em relação aos demais. Assim, o sucesso das nações depende do desenvolvimento de indústrias que façam uso intensivo dos fatores de produção que o país dispõe em abundância. O modelo ricardiano acrescenta a isso, que os ganhos de comércio de um país dependem das vantagens comparativas e não das vantagens absolutas, pois que vários fatores interferem nas atividades produtivas. No entanto, as suposições da teoria da vantagem comparativa são insuficientes visto não atribuírem um papel à estratégia das empresas, como a melhoria de tecnologias que capacitem compensar os fatores escassos, a diferenciação do produto e a globalização que possibilita a participação na cadeia produtiva internacional (FARINA e ZYLBERSTAJN,1994). Neste contexto surgiu a teoria da vantagem competitiva, refletindo uma concepção mais profunda da competição, incluindo a segmentação dos mercados, as diferenciações de produtos, as diferenças de tecnologias de produção e as economias de escala, partindo do princípio de que a competição é dinâmica e evolui, sendo vista como o resultado da inovação em métodos e tecnologia. A proposição teórica da vantagem competitiva é que esta não se baseia somente em fatores reais. No mundo real, o papel mais importante na busca de competitividade não está só em transferir recursos para os pontos em que os rendimentos possíveis sejam maiores, ou seja, a maximização dentro de limites fixos. A questão principal é o modo pelo qual as empresas, em resposta aos cenários econômicos, aumentam seus rendimentos pelo desenvolvimento de novos produtos e processos ( MARTIN et al,1991). No período recente, o conceito de competitividade passa a ter abordagens diferentes na literatura, conforme a finalidade dos trabalhos realizados. A maioria dos conceitos, no entanto, continua a ter suas origens na literatura econômica do comércio internacional, em 6 que autores como Adam Smith e David Ricardo mostraram, no começo do século passado, a importância das vantagens absolutas e relativas. Segundo Abbott e Bredahl, citados em JANK (1996), um grande número de conceitos de competitividade tem sido proposto, dependendo do nível da análise, tais como: a) unidade de observação: nação, setor ou firma; b) bem analisado: commoditie ou produto diferenciado; c) objetivo da análise: políticas setoriais, desenvolvimento da produtividade do setor, performance de exportação etc. Para os autores, os economistas estão mais preocupados em avaliar competitividade em relação aos preços, por meio da comparação de produtividade e custos unitários, dando pouca atenção a fatores mais amplos como estruturas de mercado e fatores ‘não-preço’ com relação ao produto e sua comercialização. Por seu caráter sistêmico, a competitividade é determinada pela conjugação de uma diversidade de elementos, como a tecnologia disponível e a eficiência como são utilizados os preços domésticos dos insumos de produção, a taxa de câmbio e as taxas de paridade entre os parceiros comerciais do país, os custos de transporte, a estrutura de incentivos, as barreiras tarifárias e não-tarifárias no país importador, a qualidade e imagem do produto, dentre outros. Essa diversidade estrutural torna o conceito de competitividade bastante complexo e heterogêneo na literatura (BNDES, 1991). CARDOSO & BARROS (2002) ressaltam que não há na teoria econômica neoclássica uma definição para competitividade, sendo este um conceito político, ou seja, não há, na economia geral, uma teoria sobre a competitividade porque este não é um termo estritamente econômico. Geralmente, a competitividade é tida como sendo o resultado dos efeitos combinados de distorções de mercado e de vantagens comparativas. As distorções de mercado incluiriam tanto as causadas pela política econômica quanto pela competição imperfeita entre as firmas. Em conseqüência, se encontram na literatura os mais diferentes conceitos e indicadores para mensurar competitividade. A produtividade e a lucratividade são variáveis importantes na busca de competitividade. A produtividade é parte importante no desenvolvimento da competitividade e, sem dúvida, um dos aspectos que requer maior atenção, pois é nela que se encontra a chave para melhorar as possibilidades de competir com êxito nos mercados nacionais e internacionais. Quando se fala em produtividade, é inerente pensar em rentabilidade, eficiência, tecnologia, inovação e condições de trabalho. Segundo Capaldo et al, citados em ROSADO (1997), as medidas de produtividade estão relacionadas com a tecnologia de produção. Todas elas envolvem uma comparação do nível de produção em relação aos insumos usados. Os índices específicos de produtividade implicam algumas suposições a respeito da tecnologia de produção. Os índices que usam apenas uma lista incompleta de insumos ou que medem a produção como valor somado podem ser interpretados como implicadores de restrições sobre a tecnologia no último caso, e como suposições implícitas a respeito do papel dos outros insumos no primeiro caso. A importância das medidas de produtividade como componentes da competitividade também depende da perspectiva temporal. A curto prazo, as taxas de câmbio e a política comercial são os determinantes principais da competitividade de um país. A longo prazo, a produtividade e a eficiência de custos podem se tornar os fatores dominantes. A tecnologia compreende o estudo e a racionalização da produção, vinculada especialmente aos processos e métodos que transformam os insumos em produtos. O valor da tecnologia está relacionado com a aplicação que se faz dela para gerar riquezas ou aperfeiçoar a qualidade de vida. À medida que a tecnologia favorece a produtividade das atividades produtivas, melhora a capacidade de países, regiões ou estados, de competir, buscando sempre melhores condições de mercado. Van Duren et al., citados por CARDOSO e BARROS (2002), ao desenvolverem um referencial metodológico para analisar a competitividade do agronegócio canadense, 7 admitem que tanto a escola neoclássica de pensamento econômico quanto os paradigmas da organização industrial (OI) e da gestão estratégica fornecem conceitos úteis para a análise de competitividade nas cadeias agroindustriais. Tais autores consideram que a competitividade pode ser medida pela participação de mercado ocupada pela cadeia e pela sua rentabilidade. BATALHA & SILVA (2000), ao estudarem a eficiência e competitividade na cadeia agroindustrial da pecuária de corte no Brasil, adotam esse mesmo enfoque. Na visão da Nova Economia Institucional (NEI) 1 , a competitividade pode ser descrita como a capacidade de sobreviver e crescer, definição adequada aos sistemas agroindustriais. Considerando-se o caráter sistêmico dos fatores que influenciam a competitividade das cadeias produtivas, quatro grupos de fatores podem contribuir, negativa ou positivamente, para o desempenho competitivo das cadeias agroindustriais: fatores controláveis pelo governo, fatores controláveis pela empresa, fatores quase controláveis e fatores não controláveis nem pela empresa, nem pelo governo (BATALHA & SILVA 2000). Essa abordagem é interessante porque, uma vez identificados os fatores limitantes da competitividade, pode-se delimitar o espaço de ação dos diferentes atores caso sejam implementadas medidas de intervenção. Alguns desses fatores observados na cadeia de produção agroindustrial são: 1 - Fatores Controláveis pelo Governo: ambiente macroeconômico, ambiente institucional, infra-estrutura econômica, infra-estrutura técnico-científica; 2 – Fatores Controláveis pela Empresa: preços dos produtos, custos, qualidade, tecnologia, produtos, estratégia competitiva; 3 - Fatores Quase Controláveis: condições de demanda, preços dos insumos, competição entre os agentes, ameaça de novos concorrentes, política de comércio internacional; 4 - Fatores Não-Controláveis: fatores ambientais (temperatura, pluviosidade, etc.) Os fatores controláveis pelo governo não podem ser modificados por uma ação específica dos agentes da cadeia, apesar de as ações governamentais estarem sujeitas a pressão dos agentes do setor. Por outro lado, os fatores controláveis pela empresa, podem ser modificados por decisão exclusiva dos agentes da cadeia. Os fatores quase controláveis pela empresa encontram uma certa reciprocidade com os fatores holísticos tradicionalmente apresentados por PORTER (1993) nos estudos de competitividade, destacando-se ameaças de novos concorrentes, competição entre agentes da cadeia, poder de barganha dos fornecedores de insumos e poder de barganha dos clientes. O poder de barganha dos clientes e dos fornecedores corresponde a como se comportam, respectivamente, as condições de demanda e os preços dos insumos. Os fatores quase controláveis podem ser vistos como aqueles que podem resultar da ação do conjunto de atores já atuando na cadeia agroindustrial em questão. Os fatores não controláveis podem ter seus efeitos negativos minimizados a partir de ações conjuntas estabelecidas pelos governos e pelos demais agentes da cadeia (CARDOSO & BARROS, 2002). Segundo FARINA e ZYLBERSTAJN (1994), pode-se dividir a competitividade de determinado sistema agroindustrial em dois grandes blocos: a) produtividade/tecnologia – relacionado aos custos de produção, diferenças de produtividade e aspectos de logística; b) coordenação – capacidade de receber, processar, difundir e utilizar informações de modo a definir e viabilizar estratégias competitivas (inovação de produto e 1 Nova economia Institucional é uma linha que parte dos paradigmas clássicos da Organização Industrial moderna e expande o conhecimento em direção ao estudo do ambiente institucional e das variáveis transacionais que caracterizam a organização das firmas e dos mercados (JANK, 1996). 8 processo, diferenciação, segmentação, etc.), efetuar controles e reagir a mudanças no meio ambiente. Ainda segundo os mesmos autores, o conceito de competitividade engloba duas dimensões tradicionalmente separadas no enfoque analítico da teoria da organização industrial: conduta e desempenho. Enquanto desempenho, a competitividade se expressa como a capacidade de sobrevivência e expansão nos mercados nacionais e/ou internacionais e, conduta como o processo propriamente dito de concorrência. Esta questão é ressaltada em duas abordagens que conceituam a competitividade de uma economia com relação a uma ação combinada de inúmeros fatores internos e externos à atividade econômica A primeira limita-se a uma abordagem ex-post, em que a competitividade de um país ou uma empresa é avaliada a partir de sua posição nos mercados doméstico e internacional, não se permitindo avaliar o comportamento desses fatores, restringindo-se a uma análise estática. A segunda, ex-ante, refere-se à competitividade como a capacidade de uma empresa ou país, competir no longo prazo, ou seja, a capacidade em manter, ampliar e/ou conquistar novas posições competitivas. Fatores como preço, custos, qualidade e produtividade seriam determinantes da competitividade. Estas duas visões, embora altamente difundidas e relevantes por possibilitarem a análise dos resultados obtidos por meio desses enfoques em conjugação com outras variáveis relacionadas ao desempenho do setor externo, possuem certa limitação, uma vez que dão caráter estático à competitividade, já que se pode analisar como os indicadores construídos nessa perspectiva se comportam até certo momento do tempo. A competitividade é determinada pela conjugação de uma diversidade de elementos como a tecnologia disponível e a eficiência como é utilizada, os preços domésticos dos insumos de produção, a taxa de cambio e as taxas de paridade entre os parceiros comerciais do país, os custos de transporte, a estrutura de incentivos, as barreiras tarifárias e nãotarifárias no país importador, a qualidade e imagem do produto, dentre outros. É dentro desta interpretação teórica do que representa a competitividade no mundo atual que se analisou a produção de café na região do cerrado mineiro, que é objeto de discussão nas próximas páginas deste artigo. 3 – A Região do Cerrado O cerrado brasileiro ocupa uma área superior a 200 milhões de hectares (25% do território nacional) e apresenta alto potencial para a produção agropecuária. Dos 204 milhões de hectares, que abrangem os Estados brasileiros de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahía, Maranhão, Rondônia, Tocantins, Roraima, Para e Piauí, cerca de 176 milhões, ou seja, 2/3 da área total são considerados aptos para a agricultura. Graças a alguns atributos climáticos favoráveis, é possível o uso intensivo do solo durante todo o ano, na maioria das sub-regiões, desde que se proceda a irrigação durante o período de inverno. Os solos desta região, no entanto, apresentam limitações naturais, de origem química e, dependendo do manejo, também de natureza física e biológica (KLUTHCOUSKI, 1998). A dominância de sistemas convencionais de manejo nestes solos, baseados no intensivo revolvimento, modifica a sua estrutura, alterando seus parâmetros físicos. O uso intensivo dos arados e grades de disco fraciona os agregados do solo. Por outro lado, a ação do clima quente e úmido, durante a maior parte do ano, acelera a decomposição da matéria orgânica. Estes fatores, aliados à inadequação da seqüência de culturas têm resultado na redução da capacidade produtiva da grande parte dos solos tropicais ao longo do tempo. Os principais indicadores desta falta de sustentabilidade são a compactação, a erosão hídrica e eólica, a redução na atividade biológica do solo e o aumento dos fatores bióticos nocivos às culturas. 9 Estas distorções tornam obrigatório o uso cada vez mais freqüente e crescente de fertilizantes minerais e defensivos, aumentando os gastos energéticos. Devido a algumas características mineralógicas indesejáveis, os solos dominantes no cerrado – Latossolos e Areia Quartzozas – são altamente dependentes da matéria orgânica para a manutenção e/ou ampliação de sua capacidade produtiva (KLUTHCOUSKI, 1998). Neste contexto, tanto no cerrado brasileiro, quanto em áreas semelhantes no mundo, a atividade agrícola vem sofrendo profundas alterações nas práticas que envolvem os sistemas de produção. Tais alterações não são decorrentes unicamente da evolução tecnológica, mas também de pressões ambientalistas, concorrência de mercado resultante da globalização da economia, redução na relação benefício/custo, necessidade de redução dos gastos energéticos, manutenção da capacidade produtiva do meio e extinção de fontes de recursos fáceis e baratas. A descoberta de soluções para os problemas da baixa fertilidade natural e da elevada acidez desses solos é determinante da expansão produtiva dessa região. Segundo o mesmo autor, essa solução tecnológica redundou em uma verdadeira construção do solo, de tal maneira que, de recurso natural, herdado, os solos de cerrados transformaram-se em capital artificialmente produzido. A melhoria do potencial agrícola dos cerrados não se limitou ao processo de construção do solo, já que o cerrado tornou-se mais apto devido, também, à descoberta de novas variedades de sementes, melhoria genética e resultados da pesquisa agrícola. Para REZENDE (2003) a expansão agrícola do cerrado, sem dúvida o fenômeno mais importante da agricultura brasileira nas três últimas décadas, tem sido criticada por dois motivos principais. Em primeiro lugar, pelo fato de estar sendo marcada pelo predomínio da produção em grande escala, altamente mecanizado, com pequeno espaço para a agricultura familiar e uma absorção muito pequena da mão-de-obra agrícola de baixa qualificação, o que agrava a situação de pobreza e concentração de renda no Brasil. Em segundo lugar, a ocupação agrícola do cerrado tem sido criticada pelos danos que estaria causando ao meio ambiente, devido ao uso predatório dos recursos naturais e à ameaça à biodiversidade. Apesar de ainda não estarem bem definidas a ações e políticas de sustentabilidade ambiental, a adoção de sistemas mais sustentáveis de produção, como, por exemplo, a utilização do sistema de plantio direto pelos agricultores no cerrado tem sido substancial, principalmente nos últimos anos. Os principais propulsores desta adoção são a redução na erosão, manutenção e aumento da fertilidade química e biológica do solo, facilidade e oportunidade de plantio, economia de combustível e maquinário agrícola e a redução na necessidade de mão-de-obra. Existem diferenças consideráveis de clima na região do cerrado brasileiro devido à grande extensão territorial e variação de altitude, no entanto a exploração agrícola ocorre em todas as sub-regiões, pois a temperatura e a radiação solar, durante praticamente o ano inteiro, são favoráveis a esta atividade. O cerrado é uma região que associa uma rica biodiversidade a uma aparência árida, esta decorrente, em parte, dos solos ácidos e da ocorrência de apenas duas estações climáticas: uma seca e outra chuvosa. O relevo plano, em quase toda a sua extensão, facilita o avanço das máquinas agrícolas que rapidamente desmatam grandes áreas verdes. Além de abrigar grande diversidade de espécies, é o berço de importantes bacias hidrográficas, motivo pelo qual a sua rápida devastação se torna preocupante e com impactos potenciais irreversíveis. O processo de abertura da região do cerrado se deu pela expansão da soja, que promoveu a criação e o desenvolvimento de cidades na região. A reboque da soja, a pecuária do cerrado avançou de forma significativa sobre as áreas nativas, promovendo 10 grande devastação e gerando ameaça ao ecossistema, o que provocou a formulação de políticas de conservação via identificação de áreas prioritárias para conservação ou via incentivo ao desenvolvimento sustentável, como tem sido a utilização cada vez maior do sistema de plantio direto, ainda mais verificando-se que, diferente de outras regiões do País, a dimensão das propriedades rurais no cerrado se concentra em áreas com mais de 1000ha, enquanto menos de 0,5% é ocupada por propriedades entre 0,1 e 100 hectares (KLUTHCOUSKI, 1998). Em conseqüência dos aspectos favoráveis à prática da agricultura e pecuária, o cerrado tem apresentado um desenvolvimento agrícola acelerado nos últimos anos, aumentando significativamente sua participação na produção nacional de alimentos e matéria prima. Com a expansão do Sistema de Plantio Direto esta participação cresceu ainda mais, devido a economicidade proporcionada em termos de melhor manejo de solo, uso de máquinas e equipamentos, combustível e mão-de-obra, sendo que o consumos de combustíveis, os investimentos em maquinário e a força de tração em HP/ha no plantio direto, em relação ao sistema convencional, nessa região, em propriedades acima de 1000ha, são reduzidos em 47%, 54% e 59%, respectivamente (KLUTHCOUSKI, 1998). O cerrado brasileiro foi, a partir dos anos de 1970 e, continua sendo, a grande fronteira agrícola nacional. É o espaço em que mais cresce a produção de grãos, com ganhos de produtividade acima da média nacional, e é visto como o grande potencial agropecuário do país, destacando-se na produção de grão para o mercado nacional e internacional e mais especificamente no atendimento à produção de café com maior valor agregado. 4 - A Produção de Café O café, referência no processo de formação econômica do Brasil, é produzido por 17.770 municípios, em 300 mil propriedades. Havia no País, ao iniciar-se o século XXI, 450 empresas exportadoras de café e cerca de 1.700 indústrias de torrefação e moagem (EMBRAPA, 2001). Até período recente, grande parte dos produtores de café no Brasil, deixou de se preocupar com a qualidade competitiva do produto no mercado internacional, devido, principalmente à política de estocagem do extinto Instituto Brasileiro do Café, IBC que retinha estoques ilimitados de qualquer tipo de café que fosse produzido no País, além da aceitação pelo mercado interno do mesmo. No entanto, essa perda de competitividade passa a provocar mudanças nesse mercado, uma vez que, no período recente, tanto o mercado interno quanto o externo, passaram a buscar uma qualidade maior no produto. O descaso com a qualidade do café brasileiro, no passado, abriu espaço para que outros países se especializassem na produção de determinados tipos de café, como o tipo arábica, produzido na Colômbia e México, de gosto mais suave e que captou grande número de consumidores. Os países que competiam com o Brasil no cenário internacional adotaram como lema se posicionar no mercado com as características de um produto com alto padrão de qualidade objetivando não o volume exportado, mas sim a maximização da receita recebida. No mercado internacional vem aumentando a demanda por cafés especiais, café expresso, cafés aromatizados e cafés de origem, bem como dos cafés de torrefação e moagem diferenciados que agregam maior valor ao produto. Estas novas exigências do mercado consumidor fazem com que a qualidade seja um fator relevante, pois no caso dos cafés especiais, o padrão básico de concorrência é a qualidade, e não o preço. Nesse contexto, a diferenciação do produto torna-se instrumento fundamental para consolidar e criar novos mercados. 11 Para acompanhar a nova situação de demanda, modificações foram introduzidas no setor por meio de variedades mais produtivas de café, do maior uso de fertilizantes e defensivos agrícolas e emprego da mecanização agrícola, principalmente nas novas regiões produtoras do País, como as do Cerrado Mineiro e do Oeste Baiano. Em decorrência dessas mudanças, os produtores têm buscado novas estratégias para o desenvolvimento da atividade, principalmente no que se refere a qualidade do produto. Nesse sentido o governo federal criou o programa “Cafés do Brasil” para certificação da origem e da qualidade do café, como forma de reconhecimento das especificidades regionais. As regiões do cerrado, Sul de Minas e Mogiana Paulista têm se destacado pela especialização na produção de um produto de alta qualidade, estando, estas regiões entre as melhores do mundo em qualidade do produto, o que pode ser creditado ao clima favorável, aliado às técnicas de cultivo e de administração modernas, que favorecem a colheita de um produto diferenciado das outras regiões do país (PIRES & CAMPOS, 2003). A produção de cafés especiais, de modo geral, concentra-se nos estados de Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo, Paraná, Rondônia e Bahía, sendo o Estado de Minas Gerais o principal produtor, responsável por cerca de 50% da produção nacional, realçandose, também, pelos rendimentos maiores da cultura. Minas Gerais vem trabalhando com vistas a aprimorar sua produção com relação à produtividade e à qualidade do café. Os dois principais pólos de produção no estado estão localizados no sul e oeste, em região montanhosa, e no Triângulo Mineiro, em área de cerrado (MARRA et al, 2001). O café é uma bebida que apresenta grande diversidade em suas características de aroma, corpo e sabor, decorrentes de fatores como região de plantio, variedade de semente, nutrição e método de preparo, numa complexidade que pode ser comparada à produção e comercialização do vinho. A atividade cafeeira vem exigindo cada vez mais dos produtores um alto nível de profissionalismo em função dos elevados custos de investimento e de sua manutenção, dos possíveis efeitos dos riscos que pode sofrer a cultura resultantes das intempéries da natureza e as variações re rentabilidade no processo de comercialização dependente da oferta de preço, índice de produtividade, planilha de custos e nível de qualidade. Aliam-se a esses fatores as incertezas da economia, em que mudanças constantes no valor do dólar influenciam diretamente na administração financeira da atividade produtora, sujeitando-a às condições, flutuações e especulações do mercado financeiro. A tomada de decisão de plantio deve estar embasada em importantes aspectos a serem visualizados como: dimensão da lavoura, lucratividade esperada, processo de comercialização e oportunidade de mercado, devendo ser ainda considerados a escolha de cultivar e os sistemas de implantação e manejo. A cadeia do café movimenta mundialmente cerca de 35 bilhões de dólares por ano. Os dois maiores produtores mundiais são o Brasil e a Colômbia, com 40,8% e 9,8% da produção e 32,4% e 12,1% da exportação mundiais respectivamente, em 2003 (AGROANALYSIS, março,2004), Tabela 2 – ranking da produção de café. Período 2001-2003 PAÍSES 2002/03 Produção Parti.(%) Mil scs/60kg 2001/02 Produção Part.(%) mil scs/60kg Brasil Colômbia Vietnã 48.480 11.712 11.600 31.300 11.999 13.133 40,81 9,86 9,76 28,47 10,91 11,94 12 Indonésia 5.670 4,77 Índia 4.588 3,86 México 4.000 3,37 Guatemala 3.143 2,65 Costa do Marfim 3.433 2,89 Outros Países 26.177 22,03 Fonte: Agroanalysis, março/2004. 6.731 4.950 4.200 3.669 3.492 30.478 6,12 4,50 3,82 3,34 3,18 27,72 As tabelas 2 e 3 mostram, segundo a Revista Agroanalysis, como estva constituído o ranking dos países produtores de café e suas exportações. Tabela 3 – Exportações dos principais países produtores de café, 2001/2003 Países Exportações 2002/03 mil scs/60kg Part. % Brasil 28.296 32,41 Colômbia 10.477 12,00 Vietnã 11.771 13,48 Indonésia 3.967 4,54 Costa do Marfim 2.901 3,32 Guatemala 3.491 4,00 Índia 3.416 3,91 México 2.645 3,03 Outros Países 20.345 23,30 Fonte Agroanalysis, março/2004 2001/02 mil scs/60kg Part. % 23.273 9.944 13.946 5.243 4.174 4.110 3.740 3.333 22.391 25,81 11,03 15,47 5,82 4,63 4,56 4,15 3,70 24,84 Conforme a revista acima citada, o café brasileiro aumentou em 1,3% sua participação no mercado internacional entre janeiro e outubro de 2003, para 31,5% do total, segundo dados do Conselho de Exportadores de Café. No acumulado entre outubro de 2002 e setembro de 2003, o Brasil embarcou 27,505 milhões de sacas de 60 quilos de café. A cadeia agroindustrial do café abrange desde os insumos de produção e a produção na fazenda, até o beneficiamento e a comercialização do grão. Maquinistas, cooperativas e corretores integram a cadeia produtiva. O segmento industrial é constituído pelas indústrias torrefadoras de café para o mercado interno e pelas indústrias solubilizadoras, que têm, como alvo maior, o mercado externo. Um componente importante da cadeia é o setor de exportação. Na extremidade da cadeia, encontra-se o segmento varejista, com importante participação de corretores, exportadores e de agroindústrias dos países importadores, que têm também função de atacadista. A cafeicultura brasileira é heterogênea, tanto nos tipos diferentes de café como no seu sistema de produção. A variedade vai do conillon, em Rondônia, pequena propriedade no Espírito Santo e Zona da Mata Mineira, passa pelo tipo arábica, no sul de Minas, São Paulo e Paraná. No Triângulo Mineiro e no sudoeste da Bahia, a pluviometria é baixa e o regime de chuvas é irregular, as propriedades são de médio e grande porte, com tecnologia mais sofisticada, necessidade de irrigação e maior incidência de pragas. A agregação de valor ao produto é uma saída para os custos altos de produção visto que o produto possibilita uma ampla gama de diferenciações, tanto no que se refere a cafés de qualidade bem como a cafés especiais. As características de qualidade possuem íntima 13 relação com as propriedades da matéria-prima, nos atributos de doçura, aroma, corpo, acidez e outros ( MATIELLI & MATIELLI, 2004). Entre os cafés especiais, estão os de produção orgânica e dos programas de certificação agrícola, em que o agricultor produz conforme os requisitos básicos da sustentabilidade, ou seja, o ato de produzir deve ser socialmente justo, ambientalmente adequado e economicamente viável. O mercado de café sustentável poderá abocanhar, nos próximos anos, até 5% da produção nacional do grão, estimada em 40 milhões de sacas. O grão do café sustentável consegue prêmios na comercialização que podem chegar a 55% do preço do comum. A produção deste tipo de café está concentrada no sul de Minas Gerais, no cerrado e em São Paulo. Cerca de 70% do volume produzido é exportado para Europa (UEJO NETO, 2004). Nesta artigo destacou-se a produção deste tipo de café no cerrado mineiro por ter sido a que apresentou melhores resultados nos últimos cinco anos. 5 - A Produção de Café no Cerrado mineiro A história da cafeicultura do Cerrado mineiro é bastante recente, pois teve início em 1972, com os primeiros plantios feitos em Patrocínio. O cerrado na época, simbolizava o desconhecido para a agricultura, tida como região de terras de baixa fertilidade, e distantes dos portos de escoamento e comercialização do produto. Porém, com as constantes geadas nas tradicionais regiões produtoras de café, principalmente o Norte do Paraná e Oeste de São Paulo, os cafeicultores passaram a procurar regiões em que esse fenômeno não fosse corriqueiro, pois o impacto econômico que ele provoca sempre é muito grande. Estudo realizados mostraram que a primeira migração para o cerrado ocupou terras em Patrocínio, atraídos pela topografia plana e, principalmente, pela média de temperaturas muito apropriada para o cafeeiro. A partir de meados da década de 80, através de um convênio entre os governos do Brasil e do Japão, começaram a se estabelecer núcleos de assentamentos agrícolas dirigidos pertencentes ao chamado PRODECER - Programa de Desenvolvimento do Cerrado, cujo objetivo era o de possibilitar a agricultores selecionados produzir grãos e outras culturas dentro de uma filosofia de alta tecnologia. O café foi a cultura perene eleita como a mais adequada ao programa, de forma que os núcleos que se espalharam pelo Cerrado, como em São Gotardo, Perdizes, Paracatu e Coromandel, por exemplo, deram impulso à cafeicultura da região. Ao mesmo tempo, verificou-se a expansão da cafeicultura com a entrada de grandes grupos com gestão profissionalizada. O município de Campos Altos, localizado na região do cerrado, já constava, na década de 1950 com produtores de grande porte, produzindo cerca de 8.000 sacas de café despolpado por fermentação. Dessa forma, o Cerrado se configura como uma região onde a grande parte de seus cafeicultores vieram de outras regiões produtoras e que, por isso, tiveram que aprender a domar as novas condições impostas pelo clima diferente e, principalmente, pelo solo que é menos fértil que, por exemplo, a famosa terra roxa do Paraná. Com o crescimento da produção na região, na década de 80 estabeleceram-se os primeiros núcleos de comercialização de café, vieram as primeiras cooperativas de cafeicultores, começaram a se formar as primeiras associações de produtores e a instalação de centros de pesquisa vinculados aos governos estadual e federal (UEJO NETO, 2004). Dois fatos marcantes determinaram o amadurecimento econômico da cafeicultura no cerrado na última década do século XX: primeiro, ao iniciar-se a década de 1990, com o 14 desmantelamento do Acordo Internacional do Café, em que os países produtores procuraram manter o controle dos preços através de cotas, o que provocou uma transferência brutal de estoques para os países produtores, o Brasil sai prejudicado nessa atividade, pois com os baixos preços praticados no mercado na época, os produtores haviam diminuído os tratos culturais o que sempre acaba por influenciar negativamente na qualidade do produto. Preocupada com isso, a torrefadora italiana Illycaffè, com grande parte de sua matéria-prima adquirida no Brasil resolveu instituir um prêmio de qualidade para o café e a produção do Cerrado foi a que mais se destacou, passando a predominar neste tipo de marcado. O sucesso do café do cerrado mineiro se deve, conforme se poder constatar, cientificamente, ao clima perfeitamente definido, ou seja, com uma estação chuvosa e quente, possibilitando excelente desenvolvimento dos frutos, e um inverno seco e de temperaturas amenas, que coincide com o período de colheita, poderia-se obter um café de excelente qualidade e graças a essas condições únicas, o café produzido no Cerrado ganha corpo adocicado, desenvolve intenso aroma cujas notas vão do caramelo às frutas secas como nozes, persistente sabor achocolatado na finalização e delicada acidez cítrica (UEJO NETO, 2004). Em 1993 surge o CACCER - Conselho das Associações dos Cafeicultores do Cerrado com o objetivo de promover a cafeicultura da região, fomentar linhas de pesquisas e coordenar as ações políticas e de marketing. Como primeiro fruto, em seguida surgiu a marca CAFÉ DO CERRADO, que passou a ser o símbolo de uma nova cafeicultura que se instalava no Brasil, com base na qualidade do café produzido e na sua identidade regional. Ao mesmo tempo, os cafeicultores do Cerrado passaram a investir mais e mais em tecnologia, procurando aumentar seus índices de produtividade, bem como melhorar sua performance de qualidade. Foram criados os seminários com o objetivo de difundir conhecimentos, apresentar alternativas tecnológicas, enfim, possibilitar ao produtor acesso as maiores novidades. Destacam-se: o Seminário de Cafeicultura Irrigada de Araguari, único no Brasil e com caráter de fórum de tecnologia; o Seminário de Pesquisa Cafeeira de Carmo do Paranaíba; e o Seminário do Café do Cerrado de Patrocínio, precursor desse modelo de evento no Brasil (UEJO NETO, 2004). A partir daí, disseminaram-se as parcerias para o desenvolvimento do Café do Cerrado em todos os aspectos, ocupando espaço precioso aquela com o governo do estado de Minas Gerais, que em 1995 reconheceu a necessidade de se demarcar as regiões produtoras de café do Estado e promulgou lei com tal finalidade, constituindo-se num marco na cafeicultura brasileira. Procurando manter perfeita sintonia com o mercado, as Cooperativas do Café do Cerrado têm como principal característica o fato de manterem todos os lotes de café perfeitamente identificados por produtor e propriedade, garantindo, dessa forma, o adequado funcionamento dos mecanismos de rastreabilidade do Café do Cerrado, exigência do mercado consumidor deste tipo de café, preocupados em identificar a origem dos produtos para alimentação, garantindo assim a origem e qualidade de todos os cafés certificados. Hoje, importantes mercados, como o japonês e o europeu reconhecem o Café do Cerrado como um produto de alta confiabilidade e qualidade, ajustado às tendências comerciais e a região é reconhecida como líder na produção de Cafés Especiais, ou seja, 15 cafés de alta qualidade, produzidos segundo boas práticas agronômicas e segundo modelo sustentável, graças às suas privilegiadas condições climáticas. O programa Cafés do Brasil trouxe maior valor agregado ao produto nacional ao se reconhecer no café brasileiro, condições especiais de sabores provenientes das variadas regiões produtoras, entre as quais se vêm destacando o café do cerrado.Além do que, a revolução da qualidade que o Brasil vem experimentando fez com que regiões outrora conhecidas como produtoras de cafés de baixa qualidade, hoje oferecem grãos de fina bebida. Da mesma forma, houve forte organização das outras instituições, muitas seguindo o modelo criado no Cerrado. 6 - Conclusão A competitividade do agronegócio brasileiro tem sido demonstrada pelos resultados alcançados com o uso de novas tecnologias poupadoras dos recursos naturais e ocupação de áreas antes consideradas de baixa fertilidade e pouca aptidão agrícola como o cerrado brasileiro. As novas demandas de uma agricultura competitiva e ao mesmo tempo sustentável têm levado a uma reestruturação produtiva no Brasil, com a formação de um novo ambiente competitivo e adoção de novas formas de organização e utilização de mecanismos impulsionadores de índices de rentabilidade e ganhos de produtividade com maior eficiência na coordenação de recursos produtivos que garantam um bom posicionamento no mercado nacional e internacional. A importância que sempre teve o café brasileiro no mercado internacional, levou o produtor nacional a uma certa acomodação nos aspectos relacionados à qualidade do produto. No entanto, com as novas demandas do mercado consumidor, cada vez mais exigentes em termos da qualidade do café, provocaram uma mudança na produção interna, voltada para atender o mercado crescente de consumo de cafés especiais, tanto doméstico quanto externo, e, em especial os cafés de origem e o expresso. A realidade que se evidência para o produtor nacional é a necessidade de uma reestruturação na atividade produtiva a fim de explorar os nichos de mercados, pois, com a estagnação do consumo de café de baixa qualidade e com o aumento da concorrência entre países produtores, pode haver queda no consumo de café. Com isso, fica evidente que ampliar a produção de cafés especiais, garante maior rentabilidade e sustentabilidade à atividade, levando, pela adoção de novas tecnologias que possibilitam a redução de custos e atendimento dessa demanda, manutenção do fluxo de fornecimento de café de qualidade exigida pelo mercado consumidor e continuidade de competitividade. O esforço brasileiro em aprimorar sua produção e ganhar competitividade no mercado internacional tem sido recompensado nas regiões que apresentam maior potencial de crescimento para a produção de cafés especiais, especialmente o Café do Cerrado, de Minas Gerais, destacando-se como importante produtor, fazendo crescer a fatia brasileira nesse tipo de mercado altamente rentável. 7 – Referências Bibliográficas AGROANALYSIS, Revista do Agronegócio da FGV, março de 2004 BNDES - BANCO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E SOCIAL – Competitividade:conceituação e fatores determinantes. Brasília, 1991. 26p. 16 BATALHA,M.O, SILVA,C.B. Estudo sobre a eficiência econômica e competitividade da cadeia agroindustrial da pecuária de corte no Brasil. Brasília: CNI-SEBRAE-CNA, 2000. 398p. CARDOSO, C.E.L. & .BARROS, G.S.C. A quase-renda como indicador de competitividade em cadeias agroindustriais: uma proposta a ser implementada na cadeia de fécula de mandioca na Brasil. 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