PROBLEMATIZANDO TEXTOS COM DINÂMICAS DE GRUPO: EXPERIÊNCIAS COM A TRANSDISCIPLINARIDADE EM UMA AULA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU Ricardo Regis de Almeida1 - UEG Dllubia Santclair 2 - UEG Mary Soares de Almeida Reis 3 - UEG Grupo de Trabalho – Educação, Complexidade e Transdisciplinaridade Agência Financiadora: não contou com financiamento Resumo Este relato de experiência tem por objetivo discorrer sobre uma das atividades realizadas a partir da leitura do texto “Outra finalidade para a Educação: emerge uma didática complexa e transdisciplinar”, da autora Marilza Vanessa Rosa Suanno e refletir sobre como as nossas práticas contribuíram para uma possível didática complexa e transdisciplinar. Esta atividade foi realizada em grupo e para a apresentação dos conceitos presentes no artigo foi necessário elaborar uma dinâmica de grupo que envolvesse a participação de todos os outros colegas e professores. O tempo disponibilizado para cada grupo foi de 45 minutos e as inovações didáticas complexas e transdisciplinares identificadas por Suanno (2013) sustentaram a dinâmica em busca de uma reforma do pensamento e ampliação da consciência dos sujeitos participantes da atividade. O texto está dividido em seções, sendo a primeira um resumo do texto em que nos embasamos para a realização da dinâmica. A segunda seção é um relato de como a dinâmica surgiu e quais as relações desta com a performance de Marina Abramović e os conceitos presentes no artigo da professora Marilza. Em seguida, descrevemos os passos do nosso trabalho e falamos sobre a participação dos colegas durante as atividades. Na última seção, relatamos, sucintamente, os resultados obtidos desta experiência que permitiu ao grupo, aos colegas e professores presentes na aula perceberem que algumas das inovações didáticas complexas e transdisciplinares mencionadas por Suanno foram contempladas no decorrer da dinâmica de grupo, pois, a partir do momento que demos vozes aos nossos 1 Mestrando em Educação, Linguagem e Tecnologias pela Universidade Estadual de Goiás. Professor de língua inglesa na Cultura Inglesa – unidade Anápolis. Integrante do projeto de pesquisa TDELE coordenado pela Profa. Dra. Barbra Sabota. E-mail: [email protected]. 2 Mestranda em Educação, Linguagem e Tecnologias pela Universidade Estadual de Goiás. Professora e pesquisadora no curso de Letras da UEG, Campus de Porangatu - GO e no Ensino Médio da Secretaria Estadual de Educação de Goiás. Integrante do projeto de pesquisa TDELE coordenado pela Profa. Dra. Barbra Sabota. E-mail: [email protected]. 3 Mestranda em Educação, Linguagem e Tecnologias pela Universidade Estadual de Goiás. Professora e pesquisadora no curso de Letras da UEG, Campus de São Miguel do Araguaia - GO. Integrante do projeto de pesquisa TDELE coordenado pela Profa. Dra. Barbra Sabota. E-mail: [email protected]. ISSN 2176-1396 8595 colegas e fomos ouvidos, eles e nós (sujeitos cognoscentes), foram/fomos reintroduzidos na produção do conhecimento e no conhecimento construído que dali emergiu. Palavras-chave: Relato de experiência. Dinâmica de grupo. Transdisciplinaridade. Introdução O Mestrado Interdisciplinar em Educação, Linguagem e Tecnologias da Universidade Estadual de Goiás/MIELT-UEG ofereceu seis disciplinas no primeiro semestre de 2015, entre elas a disciplina intitulada “Processos Pedagógicos, Mediações e Tecnologias”. O objetivo geral desta, de acordo com a ementa disponibilizada aos alunos, foi o de compreender processos pedagógicos, processos de mediação e o uso das tecnologias como mediadoras dos processos de ensinar e aprender. As aulas aconteceram uma vez por semana, com duração de 4h e eram ministradas por dois professores de áreas diferentes. Partindo do objetivo geral da disciplina e das atividades realizadas pelos discentes no decorrer do semestre, o objetivo deste relato de experiência é discorrer sobre uma atividade ocorrida a partir da problematização do texto “Outra finalidade para a Educação: emerge uma didática complexa e transdisciplinar”, da autora Marilza Vanessa Rosa Suanno, e refletir sobre como as nossas práticas contribuíram para uma possível didática complexa e transdisciplinar. Coube ao nosso grupo (três componentes) problematizar os conceitos apresentados no texto, propondo uma dinâmica de grupo que envolvesse a participação dos colegas e dos professores da turma. Para o leitor entender como organizamos e realizamos a dinâmica, o texto será dividido em seções. Na primeira, discorrermos um pouco sobre o texto em que nos baseamos para a realização da dinâmica. Na segunda seção, falaremos sobre o surgimento da dinâmica, a performance de Abramović e a sua relação com os conceitos presentes no texto da Suanno relatando, assim, as experiências que ocorreram durante a dinâmica. Na terceira seção, apresentaremos os desdobramentos emergidos durante essa prática pedagógica que primordialmente intentava provocar reflexões nos participantes para oportunizar a religação dos seus saberes e compreender as relações entre a dinâmica e os conceitos presentes no texto. Referencial Teórico Antes de relatar um pouco sobre essa experiência, acreditamos ser importante situar o leitor acerca do assunto tratado no texto. O texto destinado ao grupo depois de um sorteio 8596 feito pelos professores foi “Outra finalidade para a Educação: Emerge uma didática complexa e transdisciplinar”, da pesquisadora Marilza Vanessa Rosa Suanno. Neste capítulo de livro, são apresentados os resultados parciais de uma pesquisa realizada com professores universitários de pós-graduação stricto sensu. A autora inicia o seu texto afirmando que as inovações didáticas identificadas por ela “são fruto de práxis complexas e transdisciplinares construídas a partir da reforma do pensamento (MORIN, 2007) e da ampliação da consciência dos sujeitos entrevistados” (SUANNO, 2013, p. 1). Suanno atesta que aqueles profissionais que inovam estão constantemente em processo de renovação de suas atitudes, visões de mundo, valores e relações humanas. Dentre as inovações identificadas na pesquisa, a autora menciona duas centrais, sendo elas: a-) intencionalidade de ruptura e mudança e b-) as inovações didáticas complexas e transdisciplinares. Alguns exemplos de inovações didáticas complexas e transdisciplinares foram elencados no texto a partir dos depoimentos dos professores como: reintroduzir o sujeito cognoscente na produção do conhecimento; pensar complexo; assumir perspectiva multidimensional e multirreferencial; transdisciplinarizar; ampliar a consciência; religar cultura das humanidades e cultura científica; conviver com a incerteza cognitiva e a incerteza histórica; pensar prospectivo e comprometer-se com o presente e o futuro e, por último, trabalhar com metatemas, construir metapontos de vista e metaconceitos. No que concerne à intencionalidade de ruptura e mudança, a autora afirma que os professores entrevistados “pretendem rever a finalidade da educação, da formação humana, e construir um fazer docente, com concepções, processos e estratégias complexas e transdisciplinares” (SUANNO, 2013, p. 2). Sobre as inovações didáticas complexas e transdisciplinares, Suanno diz que sua pesquisa a permitiu ampliar sua compreensão entre teoria e prática, na perspectiva da Epistemologia da Complexidade e da transdisciplinaridade. Discorreremos brevemente sobre cada uma das inovações didáticas complexas e transdisciplinares identificadas pela autora durante a sua pesquisa e a partir dos relatos dos participantes desta, pois foram elas que nortearam a proposta da nossa dinâmica. A primeira inovação diz respeito à reintrodução do sujeito cognoscente na produção do conhecimento, ou seja, nessa perspectiva o indivíduo é compreendido como “sujeito complexo, multidimensional, sujeito de razão e de emoção, sujeito histórico, social, cultural, mas também biológico, cognitivo, pleno de subjetividade, psicoafetivo e enigmático” 8597 (SUANNO, 2013, p. 4) e ocupa um papel relevante no processo de aprendizagem. Segundo a autora, os professores entrevistados que valorizam esse princípio desenvolvem com os seus alunos atividades voltadas para reflexões autoformativas, histórias de vida e de formação e utilizam metodologias de ensino coletivas, cooperativas e colaborativas, desta maneira o aluno amplia sua consciência, é mobilizado para a metacognição e aguça a sua percepção potencializando a sua criatividade e capacidade de inovar. A segunda diz respeito à necessidade de se pensar complexo por meio dos operadores cognitivos propostos por Morin (2008 apud SUANNO, 2013) e de criar estratégias de autoeco-organização, estratégias didáticas e formativas, que permitam ao sujeito “organizar e reorganizar os conhecimentos promovendo uma visão integradora (sistêmica-organizacional), articulada a valorização da singularidade das partes (hologramática)” (SUANNO, 2013, p. 5). Há, ainda, a relevância de aprendermos a conviver com as incertezas e de compreender que essa provisoriedade pode estimular as nossas relações com o conhecimento, com as nossas ideias e a ética de responsabilidade individual, social e ambiental. A terceira implica em assumir perspectiva multidimensional e multirreferencial. Para Suanno, a realidade é multidimensional devido a sua constituição complexa (todo e partes) e pelo fato de que o conhecimento advindo dessa realidade é uma tradução, uma leitura ou reconstrução do sujeito complexo que se dá “por meio de seu nível de realidade, de percepção, de consciência, e de suas referências culturais, históricas e bibliográficas” (SUANNO, 2013, p. 6). Para tornar possível a construção de conhecimento multirreferencial é necessário religar os diversos saberes que foram separados pela ciência positivista e espalhados pelas áreas e subáreas do conhecimento. A quarta inovação refere-se à transdisciplinaridade. Para alguns participantes da pesquisa transdisciplinarizar é promover o pensamento complexo proposto por Edgar Morin. A autora nos diz que a transdisciplinaridade vai além do que está entre e/ou através das disciplinas, esse princípio está além de qualquer disciplina, pois associa as partes e o todo e compreende que é impossível conhecer o todo sem conhecer as partes e vice-versa. A quinta e principal inovação didática segundo uma das professoras entrevistadas é a busca pela ampliação da consciência. Para Suanno, a estratégia de sentipensar pode auxiliar nesse processo de ampliação da consciência do sujeito, pois visa articular razão e emoção, além de fazer surgir “novas relações com o conhecimento, novas relações entre os sujeitos, 8598 novas relações com a natureza, novas relações com as culturas, novas relações com a transcendência” (SUANNO, 2013, p. 9). A sexta é religar cultura das humanidades e cultura científica. Segundo a autora, a separação entre essas culturas trouxe consequências profundas para a formação do conhecimento assim como para a formação humana. Religar essas culturas implica na possibilidade de formação de sujeitos que, ao invés de acumular conhecimentos, são capazes de pensar complexo. A sétima inovação e/ou desafio didático, como afirma Suanno, é conviver com a incerteza cognitiva e a incerteza histórica. Vivemos em um momento em que é preciso lidar com a provisoriedade do conhecimento. Para isso, é preciso “dialogar, interpretar, analisar e fundamentalmente construir proposições superadoras da realidade atual, das crises e das incertezas, que assolam a humanidade nos dias de hoje” (SUANNO, 2013, p. 10). A oitava inovação diz respeito ao pensar prospectivo e comprometer-se com o presente e o futuro. No que tange às instituições de ensino superior, dois entrevistados afirmaram que é importante promover transformações na universidade, além da revisão do papel desta na sociedade atual. Para favorecer essas transformações na universidade e buscar soluções para outros problemas concernentes ao homem, a sociedade e a terra é preciso compreender os quatro pilares da educação (DELORS, 1998 APUD SUANNO, 2013, p. 11): “aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver em conjunto e aprender a ser” articulados a outros dois pilares propostos pela Declaração de Zurique (2000 apud SUANNO, 2013, p. 11), que são: “aprender a antecipar e aprender a participar”. A nona e última inovação didática apontada por Suanno é trabalhar com metatemas e construir metapontos de vista e metaconceitos. Segundo a autora, trabalhar com metatemas potencializa a capacidade de pensar complexo e, também, aguça a sensibilidade do indivíduo para refletir sobre questões relacionadas ao ser humano, a sociedade e ao meio ambiente. As metodologias de ensino também devem ser “interativas e auto-eco-organizadoras de modo a favorecer a articulação de dimensões e referências” (SUANNO, 2013, p. 12). O surgimento da dinâmica Como dito anteriormente, éramos um grupo de três alunos e devíamos apresentar um texto partindo de princípios transdisciplinares que envolvessem a participação dos colegas da turma e dos professores em uma dinâmica de grupo elaborada por nós. O tempo que nos foi 8599 disponibilizado para a apresentação era de 45 minutos e as práxis complexas e transdisciplinares mencionadas no referencial teórico foram as mesmas que sustentaram a nossa dinâmica em busca de uma reforma do pensamento e ampliação da consciência (MORIN, 2007 apud SUANNO, 2013) dos sujeitos que participaram da atividade. A proposta dos professores de pensarmos em uma atividade dinâmica para expor os principais conceitos presentes nos artigos e, além disso, envolver os colegas da turma nas apresentações fez com que o nosso grupo parasse e pensasse em estratégias de pesquisa e desenvolvimento da proposta. A primeira delas foi a de ler o texto e pesquisar dinâmicas já prontas na Internet. Isso, talvez, facilitaria o processo, pois o nosso trabalho seria o de adaptar a atividade já existente para a nossa proposta e executá-la durante a apresentação. Mudaríamos uma coisinha aqui, uma parte da atividade ali, acrescentaríamos os conceitos presentes no texto e tudo estaria perfeito! Contudo, nenhum integrante do grupo encontrou uma dinâmica que contemplasse a proposta dos professores. Seria preciso ir além das ferramentas de busca do google e colocar a cabeça para funcionar. Tínhamos exatamente uma semana para pensar em todo o processo, o nosso prazo já estava na metade e ninguém do grupo havia se pronunciado acerca de ideias ou propostas para a apresentação. Certo dia, um dos componentes do grupo estava pensando nos conceitos presentes no texto surgiu e lembrou-se de uma apresentação performática de uma mulher nascida na Iugoslávia, no ano de 1946, que se tornou famosa mundialmente pelas suas apresentações que exploram os limites do corpo, as múltiplas possibilidades da mente e as relações entre a artista e a plateia. Seu nome é Marina Abramović e o trabalho ao qual nos referimos foi uma ‘instalação’ no museu de artes modernas de Nova Iorque (MoMa), no ano de 2010, intitulado ‘A artista está presente’. A performance de Abramović e a sua relação com o texto e a dinâmica Na obra ‘A artista está presente’, Abramović ficou sentada em uma cadeira por mais de 736 horas mantendo contato visual com 1.675 desconhecidos, segundo o jornal El país, do dia 13 de maio de 2015. Além da cadeira ocupada pela artista, havia uma mesa e outra cadeira vazia prestes a ser ocupada por algum ‘apreciador da obra’. A performance parece ser simples, ou não. A artista olha fixamente para os desconhecidos que se sentam em sua frente por alguns minutos e estes retribuem o olhar de Abramović como se quisessem dizer-lhe alguma coisa. Várias são as reações das pessoas. 8600 Algumas choram, ficam sérias ou tristes, parecem reviver acontecimentos lúgubres ou até mesmo fúnebres enquanto outras sorriem, ficam alegres, radiantes, eufóricas e algumas mais parecem estar dopadas, tais reações podem ser vistas no documentário homônimo. Por que tantas reações diferentes diante de uma mesma pessoa e de uma mesma situação? Seria a artista, ali presente, o elemento causador de tantas façanhas? O que haveria por trás das lágrimas e dos sorrisos tão sinceros que os ‘apreciadores da obra’ doavam a artista? Estes e tantos outros questionamentos foram surgindo ao ver as respostas daquelas pessoas ao olhar ‘inocente’ da artista. A dinâmica e os conceitos presentes no texto da professora Marilza pareciam dialogar de alguma com tamanha complexidade daquela ‘obra’. Então, decidimos reler o texto e trabalhar na proposta pedagógica. Seria possível uma cadeira ampliar a consciência de um indivíduo? E duas? E duas cadeiras e uma mesa? E duas cadeiras, uma mesa e uma pessoa? E duas cadeiras, uma mesa e duas pessoas? E se essas pessoas se conhecessem de longas datas? E se...? A partir dos elementos presentes na obra de Abramović e das inovações didáticas identificadas na pesquisa da Suanno buscamos pensar complexo, reformar nosso pensamento e ampliar a consciência sobre o que poderíamos fazer com tantos elementos que pareciam ‘soltos no ar’. Só nos restava uma alternativa: religar esses saberes! A dinâmica A dinâmica surgiu especificamente de um vídeo4 em que Marina Abramović reencontra seu ex-parceiro, Ulay, durante a ‘instalação’ de ‘A artista está presente’. As cadeiras, a mesa, as pessoas, as metáforas, as interpretações, os sentimentos, as expressões faciais dos sujeitos ali presentes, tudo isso foi importante para que o grupo pudesse religar cada um desses elementos em uma atividade que envolveu a aprendizagem de conceitos, interpretações pessoais, leituras de mundo e reflexões por parte dos participantes da atividade. A dinâmica configurou-se de modo simples. Os eslaides foram criados no PowerPoint e não foi necessário gasto algum com materiais, pois tudo o que foi utilizado pelo grupo encontra-se gratuitamente na internet. Primeiramente, mostramos as figuras de duas cadeiras e de duas pessoas para os colegas da turma e professores. As imagens apareceram em sequência, configuradas do seguinte modo: cadeira, cadeira, Marina e Ulay. O papel do grupo durante o aparecimento das 4 Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=OS0Tg0IjCp4 > Acesso em: 25 jun. 2015. 8601 imagens foi o de instigar a turma e os professores com perguntas para que refletissem sobre a representação de cada uma das figuras separadamente. Após o aparecimento de todas as quatro imagens que compunham um único eslaide, nós pedimos aos alunos para apresentarem individualmente as suas relações feitas entre as imagens. O passo seguinte foi mostrar o vídeo do reencontro de Marina e Ulay. Em seguida, abrimos para a discussão com a turma e escutamos a opinião de cada um dos alunos e professores sobre o que o vídeo representou para eles. Feito isso, falamos sobre dois pontos que nos chamaram bastante atenção ao ler o texto da Suanno. Foram elas: a necessidade da reforma do pensamento e a ampliação da consciência para que práxis complexas e transdisciplinares aconteçam. Por último, anotamos em pedaços de papel as inovações identificadas por Suanno e as distribuímos entre os colegas e professores na intenção de compreender se foi possível estabelecer relações entre essas inovações e a dinâmica realizada por nós. Algumas experiências obtidas a partir da dinâmica Ouvir dos colegas e professores as mais diversas opiniões e significados acerca dos objetos presentes nos eslaides e no vídeo fez com que o próprio grupo se surpreendesse com a dimensão que a dinâmica tomou. Ao utilizarmos uma metodologia de ensino coletiva (SUANNO, 2013), potencializamos a criatividade e a participação dos sujeitos ali presentes a partir de suas contribuições para a construção do conhecimento. As reações e interpretações foram diversas ao verem aquelas imagens que pareciam desconexas a princípio, mas que depois de algum tempo, de alguma forma, começavam a fazer sentidos para cada um dos sujeitos envolvidos na ‘brincadeira’. Ao verem as fotos das cadeiras alguns disseram que estas eram objetos feitos para sentar, relataram que pareciam desconfortáveis, eram feitas de um material rígido (madeira) e uma aluna disse, ainda, que eram simples, provavelmente de pessoas que não tinham um alto poder aquisitivo. Até então a dinâmica estava sendo encarada de forma bastante lúdica e as reações eram mais de risos do que de reflexão crítica. De qualquer forma, valorizamos a singularidade de cada um dos sujeitos participantes a as suas opiniões eram acatadas como forma de incentivo a se envolverem cada vez mais na nossa proposta. Quando as imagens de Marina e Ulay foram projetadas nos eslaides, os colegas e professores começaram a estabelecer outras relações das que haviam sido feitas com as 8602 cadeiras e as interpretações se tornaram cada vez mais variadas. A primeira foto a ser mostrada foi a de Marina. Neste momento, um dos participantes comentou que as cadeiras pertenciam àquela ‘vovó’ e outros disseram que a expressão dela na foto era de sofrimento ou até mesmo de reminiscências tristes do seu passado. Ao mostrarmos a foto de Ulay, as interpretações se modificaram mais uma vez. Alguns colegas disseram que os dois eram irmãos, outros afirmaram que eram marido e mulher e um aluno disse, ainda, que não tinham nenhum tipo de parentesco ou relacionamento amoroso. Após a apresentação de todas as figuras, mostramos o vídeo de Marina e Ulay e os alunos e professores começaram a fazer outras análises das cadeiras e pessoas apresentadas no primeiro eslaide. Durante o vídeo os participantes comentavam em voz alta que ‘agora tudo fazia sentido’, afirmavam que a mulher e o homem presentes no vídeo tinham algum tipo de relação, podendo ser esta de amizade, de parentesco ou até mesmo amorosa. No término do vídeo, o grupo ouviu as impressões de cada um dos sujeitos e neste momento foi possível compreender que “o conhecimento é construído pelo sujeito complexo e multidimensional a partir de seu nível de realidade, de percepção, de consciência, de interpretação e de suas possibilidades de comunicação, expressão e de linguagem” (SUANNO, 2013, p. 4), pois as interpretações foram tão variadas que para aqueles que não faziam parte da atividade era possível afirmar que se tratava de vídeos diferentes. As leituras foram variadas e a seguir elencaremos alguns relatos relevantes para a ilustração dos conceitos apreendidos: a aluna 1 afirmou que Marina e Ulay tinham alguma relação, pois ele foi o único sujeito dos que apareceram no vídeo capaz de fazê-la chorar. Destacou que ‘ele foi o único a quebrar ela’. Isso nos remeteu a metáfora do espelho, pois as pessoas que a encaravam pareciam ver as suas imagens refletidas na artista. O aluno 5 voltou a sua atenção para as outras pessoas que estavam presentes no espaço e não participaram da performance de Marina. Segundo ele, essas pessoas pareciam não ter coragem de ‘encarar’ aquela mulher e, por isso, achavam toda aquela situação cômica ou insana. Já o aluno 3 afirmou que a expressão de Abramović variava de acordo com a expressão da pessoa que ali estava a encará-la. Se a pessoa estava feliz, a artista devolvia o sorriso. Se a pessoa estava triste, a sua expressão parecia de tristeza. E o aluno 10 fez uma leitura diferente dos outros colegas. Ele afirmou que o fato de Marina ter chorado ao ver Ulay, mesmo sem o participante saber que se tratava do seu ex-marido, é porque nós deixamos somente algumas pessoas ‘entrar nas nossas vidas’ e aquele homem parecia ser uma dessas pessoas para a artista. Após 8603 as contribuições dos participantes, apresentamos rapidamente a biografia de Marina Abramović e a sua história de amor com Ulay. Por último, pedimos aos participantes que se sentassem em duplas e entregamos as tiras de papel com as inovações didáticas presentes no artigo da Suanno. Eles deviam lê-las em voz alta e comentar um pouco sobre cada uma delas. Para isso, eles deveriam utilizar o texto base e, se possível, tentar estabelecer relações entre os conceitos e a dinâmica. A maioria dos alunos conseguiu estabelecer essas relações entre o texto e a dinâmica. Alguns disseram que a priori as imagens das cadeiras e das pessoas não faziam sentido, mas que no decorrer da dinâmica foram capazes de compor significados mais amplos e profundos acerca daquelas figuras. Outros afirmaram que foi preciso lidar com a incerteza dos seus conhecimentos, pois a cada instante as imagens mudavam e parecia que a história tomava um rumo cada vez mais diferente. Uma dupla falou, ainda, sobre a ampliação da consciência e asseverou que foi possível transcender suas leituras a partir da obra de Marina e das interpretações dos outros colegas, pois eles os auxiliaram nesse processo de ressignificação e ampliação da consciência. Considerações Finais Este texto teve por objetivo relatar algumas experiências a partir de uma dinâmica de grupo realizada em uma turma de pós-graduação stricto sensu no intuito de apresentar os conceitos mais importantes de um artigo científico. A partir da leitura do texto: “Outra finalidade para a Educação: emerge uma didática complexa e transdisciplinar”, da autora Marilza Vanessa Rosa Suanno e de uma ‘instalação’ da artista Marina Abramović intitulada ‘A artista está presente’, propomos uma dinâmica que se tornou uma experiência significativa e, talvez, um exemplo de práxis complexa e transdisciplinar. A intenção do grupo era a de provocar reflexões nos participantes o tempo todo durante a apresentação, pois, a partir das suas exposições e conhecimentos construídos no decorrer da dinâmica, eles mesmos seriam capazes de religar seus saberes e, assim, compreender os conceitos apresentados por Suanno. Não estávamos preocupados, também, em provar que a nossa dinâmica se trata de uma atividade baseada na transdisciplinaridade ou no pensamento complexo proposto por Morin (2007). Contudo, a partir das leituras e opiniões dos participantes da dinâmica percebemos que algumas das inovações didáticas complexas e transdisciplinares apresentadas por Suanno foram contempladas na nossa apresentação. 8604 A partir do momento em que demos vozes aos nossos colegas e os deixamos fazer suas inferências e (re)leituras, eles (sujeitos cognoscentes) foram reintroduzidos na produção do conhecimento, pois essas impressões e considerações é que enriquecem a produção e a (co)construção de um novo saber. A provisoriedade e as contradições das opiniões dadas no decorrer das atividades também foram essenciais para que os participantes entendessem que é importante conviver com as incertezas do conhecimento. Para concluir este relato, citamos uma parte do trabalho da professora Marilza em que ela fala sobre as dinâmicas de interação. A autora afirma que, [a] representação visual de ideias e de suas dinâmicas de interação (fluxos, recursões, retroações, circuitos) atende a finalidade didática de construção do conhecimento transdisciplinar. Essas representações visuais são compreendidas como elaborações provisórias, incertas e vinculadas aos níveis de realidade, de percepção, de inserção do terceiro incluído, que naquela elaboração foi possível articular e representar (SUANNO, 2013, p. 12). Logo, percebemos que a nossa dinâmica configurou-se como um exemplo de que o conhecimento está ligado aos níveis de realidade, de percepção e de leitura de mundo dos sujeitos, pois mesmo assistindo ao mesmo vídeo e vendo as mesmas imagens, os participantes envolvidos na nossa experiência apresentaram metapontos de vista que, de tempos em tempos, eram modificados, alterados e ressignificados a partir de uma ampliação da consciência e reforma do pensamento. REFERÊNCIAS MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Tradução Eliane Lisboa. 3. ed. Porto Alegre: Sulinas, 2007. SUANNO, Marilza Vanessa Rosa. Outra finalidade para a educação: emerge uma didática complexa e transdisciplinar. In: ZWIEREWICZ, Marlene. Criatividade e inovação no ensino superior: experiências latino-americanas e europeias em foco. Blumenau: Nova Letra, 2013. (TENTE) um novo encontro com Marina. El país, São Paulo, 2015. Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/2015/03/13/cultura/1426271829_404678.html>. Acesso em: 23 jul. 2015.