CICLO DE VIDA DOS
EQUIPAMENTOS
ELETROELETRÔNICOS
Recife, abril 2011.
APRESENTAÇÃO
O presente relatório tem o objetivo de registrar o resultado da pesquias de mapeamento da cadeia
de valor dos equipamentos eletroeletrônicos, previsto no Contrato No 7/2010, integrante do
Convênio Porto Digital MCT No. 01.0102.00/2008.
Desta resultou um Mapeamento do Ciclo de Vida dos Equipamentos Eletroeletrônicos.
Este relatório consiste na compilação de informações relativas à identificação das etapas que
compõem o ciclo de vida de Equipamentos Eletroeletrônicos (EEE), bem como a análise qualitativa e
quantitativa dos processos envolvidos. Para tanto, o estudo faz uma análise abrangente dos
principais impactos e aspectos decorrentes da produção, consumo e pós-consumo de equipamentos
eletroeletrônicos. Foram consideradas etapas desde a extração de matéria-prima, manufatura,
venda, consumo, até formas de destinação e disposição dos equipamentos pós-consumo.
Foram considerados dados secundários como embasamento quantitativo da metodologia proposta
para a pesquisa. O trabalho teve como base metodológica a pesquisa de referências bibliográficas
como fonte de informações a respeito do histórico da produção e consumo de equipamentos
eletroeletrônicos (EEE), bem como estudos recentes a respeito da destinação e disposição de
materiais e equipamentos pós-consumo em todo o mundo. Como resultado preliminar das fontes
consultadas, verificou-se uma escassez de dados específicos e detalhados sobre o consumo e o
gerenciamento de EEE nas diferentes etapas.
Desta forma, os valores apresentados nesse estudo são estimativas e, portanto, devem ser
interpretados com cautela. Por outro lado, refletem a realidade, em linhas gerais, e permitem
verificar uma tendência. Entende-se que tal questão não pode ser equacionada em curto prazo,
entretanto, ações voltadas para o mapeamento e otimização do ciclo de vida podem colaborar para
gerenciamento adequado dos Resíduos de Equipamentos Eletroeletrônicos (REEE) em todo o
mundo.
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................... 6
2. EXTRAÇÃO DE MATÉRIAS-PRIMAS ...................................................................................................... 9
2.1 Mineração ......................................................................................................................................... 9
3. MANUFATURA E VENDA ................................................................................................................... 15
3.1 Composição dos EEE ....................................................................................................................... 15
3.2 Impactos.......................................................................................................................................... 20
3.3 Vendas............................................................................................................................................. 25
4. USO, REUSO E MANUTENÇÃO .......................................................................................................... 27
5. GERENCIAMENTO DO RESÍDUOS ...................................................................................................... 31
6. CONCLUSÃO ...................................................................................................................................... 38
REFERÊNCIAS......................................................................................................................................... 39
ÍNDICE DE FIGURAS
Figura 1: Ciclo de Vida Genérico ............................................................................................................. 7
Figura 2: Ciclo de Vida dos Produtos ...................................................................................................... 8
Figura 3: Quantidade de minerais retirados do solo no mundo durante os anos de 1970 a 2000. ..... 10
Figura 4: CO2 emitido apartir da produção de metal primário. ............................................................ 13
Figura 5: Percentagem, em relação ao peso, da composição dos materiais constituintes dos
Equipamentos eletroeletrônicos. ......................................................................................................... 18
Figura 6: Composição de um aparelho celular...................................................................................... 21
Figura 7: Consumo de Energia Requerido pelo laptop (MJ) ................................................................. 23
Figura 8: Variação na emissão de CO2 conforme consumo de Energia (MJ) do Telefone Celular ........ 24
Figura 9: Destinação dada aos EEE pelo consumidor ........................................................................... 30
Figura 10: Opções de destinação dos equipamentos eletroeletrônicos após o seu descarte. ............ 35
ÍNDICE DE TABELAS
Tabela 1: Principais países produtores de metais importantes na composição dos Equipamentos
Eletroeletrônicos. .................................................................................................................................. 11
Tabela 2: Quantidade total de minério retirado e resíduos gerado para determinada parcela utilizável
de minério de ferro, cobre, ouro, chumbo e alumínio. ........................................................................ 12
Tabela 3: Produção Mineral Brasileira de 2008 a 2010. ....................................................................... 14
Tabela 4: Peso médio e composição de aparelhos eletroeletrônicos .................................................. 17
Tabela 5: Composição de Aparelhos celulares - ................................................................................... 20
Tabela 6: Consumo de energia por fase do ciclo de vida...................................................................... 22
Tabela 7: Relação do número de computadores vendidos ao ano no Brasil........................................ 26
Tabela 8: Base instalada de computadores em alguns países da América Latina ................................ 28
Tabela 9: Relação do número de computadores vendidos, da base instalada de computadores, e da
relação computador habitante por ano................................................................................................ 29
Tabela 10:Percentagem de metais utilizados mundialmente provenientes da reciclagem. ................ 39
ÍNDICE DE QUADROS
Quadro 1: Impacto dos computadores e celulares sobre a demanda de metais, baseado na venda
global do ano de 2007........................................................................................................................... 12
Quadro 2: Composição dos módulos básicos dos Equipamentos eletroeletrônicos. ........................... 16
Quadro 3: Composição de um computador desktop de aproximadamente 27kg ............................... 18
Quadro 4:– Efeitos das substâncias tóxicas, presentes nos REEE, em seres humanos ........................ 37
1.
INTRODUÇÃO
O gerenciamento ambiental de resíduos sólidos tem sido considerado uma questão de grande
relevância em muitos países. Entretanto, os mecanismos de prevenção ainda se encontram
limitados, enquanto a maioria das ações empreendidas se faz no âmbito de controle da
contaminação do meio ambiente decorrente da disposição indevida. A necessidade de se promover
uma recuperação dos resíduos pode ser justificada pela necessidade de se reaproveitar e poupar os
recursos naturais, bem como minimizar a quantidade de resíduo que é destinada a aterros ou lixões.
Como não há uma hierarquia nas formas de destinação, a decisão deve ser tomada de acordo com o
estudo particular de cada caso, observando-se os fatores relevantes, analisando-se o ciclo de vida e
comparando-se as diversas opções possíveis de destinação e tratamento de resíduos.
De acordo com Fiksel (1997, p. 73 apud BARBIERI & CAJAZEIRA, 2009), ciclo de vida é uma seqüência
de fases relacionadas com um produto, processo, serviço, instalação ou empresa. A avaliação do
ciclo de vida (ACV) é uma ferramenta de gestão ambiental que permite avaliar os efeitos ambientais
de um produto, processo ou atividade ao longo de todo o seu ciclo de vida, “do berço ao túmulo”/
crade-to-grave inicia com a obtenção da matéria-prima para a manufatura do produto, e termina
com o retorno dos materiais à terra: extração da matéria-prima, manufatura/produção , transporte,
uso, reuso e manutenção, reciclagem e gerenciamento do resíduo.
A Figura 1 exemplifica um ciclo de vida genérico, que se inicia com a exploração do meio ambiente,
como fonte de matérias-primas, energia, água e uso do solo, e termina com o uso do meio ambiente
como local para a disposição final de resíduos não reaproveitados.
Figura 1: Ciclo de Vida Genérico
Fonte: UNEP, 2007; pg. 12, apud Barbieri & Cajazeira, 2009.
Para Barbieri & Cajazeira (2009), a visão do ciclo de vida permite que a empresa atue com mais
eficácia tanto sobre os problemas ambientais dos produtos e serviços, quanto sobre a concepção e
implementação de inovações de produtos e processos produtivos com vistas a reduzir a geração de
resíduos e facilitar a recuperação de materiais após o uso do produto. Assim para alcançar um
desempenho desse nível em diversas áreas da empresa, e mesmo fora dela, com diferentes
enfoques, mas com objetivos comuns, a orientação por um modelo de gestão global baseado na
ideia de ciclo de vida (life cycle thinking), deve direcionar as empresas, conforme recomenda um
7
documento da SETAC; PNUMA1 (2007, pg.13) apud Barbieri & Cajazeira (2009), à aplicação dos
seguintes princípios ou filosofia de gestão:
1. Repensar (rethinking) os produtos e suas funções, por exemplo, para que possam ser usados de
modo mais eficiente do ponto de vista ambiental;
2. Projetar os produtos para facilitar a sua manutenção e reparo (repair);
3. Projetar os produtos para facilitar o desmanche e reutilizar peças (reuse);
4. Reduzir (reduce) o consumo de energia, materiais e impactos socioambientais ao longo do ciclo de
vida;
5. Coletar materiais para serem reciclados (recycle) e, com isso, reduzir a pressão sobre os estoques
de recursos naturais; e
6. Substituir (replace) substâncias perigosas e tóxicas por outras amigáveis ao meio ambiente físico,
biológico e social.
O princípio acima é conhecido como o Princípio dos 06 Rs cujos Rs se referem aos termos em inglês:
Rethink – Repair – Reuse – Reduce – Recycle – Replace. Com relação aos termos Repair, Reuse e
Replace é possível associá-los ao chamado ecodesign (ou design for life), ou seja, desenhar produtos
para que o tempo de vida útil seja possível de ser prolongado (através de reposição de peças, por
exemplo), atinjam um maior nível de reciclagem (através da facilitação da separação das peças e
componentes) e utilize menos produtos tóxicos em sua composição.
A Figura 2 ilustra as fases do ciclo de vida que podem ser consideradas em uma Análise de Ciclo de
Vida.
Figura 2: Ciclo de Vida dos Produtos
ENTRADAS
Matérias-Primas
SAÍDAS
Emissões
Atmosféricas
Águas Residuais
Energia
Resíduos Sólidos
Coprodutos
Outras liberações
Fonte: EPA, 2006.
Galdino (2006) ressalta que devido à quantidade de dados que necessita ser coletado, um estudo de
avaliação do ciclo de vida somente torna-se viável caso exista a disponibilidade de um banco de
dados nacional constituído por inventários do ciclo de vida dos principais insumos empregados pela
sociedade: matérias-primas, energia, água, etc. estes inventários, contudo, possuem caráter de
1
Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA); United Nations Environment Programme
(UNEP)
8
regionalidade e representatividade podendo tornar novos estudos mais completos, confiáveis e
fáceis de serem concluídos.
A Avaliação do Ciclo de Vida pode ser utilizada para diversos propósitos, de acordo com a Agência de
Proteção do Meio Ambiente dos Estados Unidos2 (EPA, 1993): (i) estabelecimento de uma base de
dados sobre o consumo de recursos e rejeitos gerados pelo sistema de produto; (ii) identificação de
etapas do ciclo de vida de um produto ou processo, onde as reduções do consumo de recursos e da
geração de rejeitos possam ser alcançadas; (iii) comparação dos impactos ambientais , associado ao
produtos, processos ou atividades que apresentam a mesma função; (iv) auxílio no desenvolvimento
de novos produtos, processos ou atividades, permitindo melhorias em seu desempenho ambiental .
Os equipamentos elétricos e eletrônicos (EEE) são definidos, segundo a Diretiva da União Européia
2002/96/EC, como equipamentos que dependem de corrente elétrica ou campo eletromagnético
para o correto funcionamento, assim como os equipamentos para a geração, transferência e
medição dessas correntes elétricas e campos eletromagnéticos. A Diretiva classifica os
equipamentos em dez categorias, a saber:
Grandes eletrodomésticos
Pequenos eletrodomésticos
Equipamentos de informática e telecomunicação
Equipamentos de consumo
Equipamentos de iluminação
Ferramentas elétricas e eletrônicas (com a exceção de ferramentas industriais fixas de
grande escala)
VII.
Brinquedos e equipamentos de lazer e esportes
VIII.
Aparelhos médicos (com a exceção de todos os produtos infectados e implantados)
IX.
Equipamentos de controle e monitoramento
X.
Distribuidores automáticos
I.
II.
III.
IV.
V.
VI.
Como existe uma grande diversidade de equipamentos elétricos e eletrônicos, que variam desde
grandes eletrodomésticos até equipamentos de lazer, é difícil especificar a composição exata dos
EEE e conseqüentemente de se avaliar o ciclo de vida dos equipamentos eletroeletrônicos
uniformemente. Sendo assim, o presente estudo teve como objetivo de trabalho identificar, de
modo genérico, as principais etapas do ciclo de vida dos os equipamentos de informática
(computadores) e de comunicação (celulares). Este consiste em um levantamento de dados
secundários acerca dos aspectos ambientais, sociais e econômicos, dando ênfase à (i) extração de
minerais; (ii) manufatura e venda; (iii) uso, reuso e manutenção; (iv) geração e gerenciamento de
resíduos de equipamentos tecnológicos; dentre outros subsistemas associados considerados
significativos na cadeia.
2
Environmental Protection Agency (EPA)
9
2.
EXTRAÇÃO DE MATÉRIAS-PRIMAS
O ciclo de vida dos equipamentos eletroeletrônicos tem início com a aquisição da matéria-prima. No
caso dos equipamentos tecnológicos (informática e comunicação) as substâncias provenientes dos
metais correspondem a aproximadamente 50% do peso total (ver composição no item 3.1), sendo
esses obtidos essencialmente através da mineração. Por esse motivo, e devido à extensa gama de
equipamentos eletroeletrônicos, sob diferentes especificidades e composição, a avaliação do ciclo
de vida completo dos equipamentos eletroeletrônicos demanda uma grande quantidade de
informações. Diante da inexistência de dados substânciais, escolheu-se dar ênfase às matériasprimas oriundas da mineração.
2.1
Mineração
A extração mineral é uma atividade muito antiga. Sua importância para o desenvolvimento de
sociedades é inquestionável, uma vez que os minerais estão presentes em praticamente todos os
produtos necessários para nossa existência, desde equipamentos de comunicação, lazer, trabalho,
até os de saúde; no entanto, os efeitos adversos ao meio ambiente e à população, provenientes
desta ação, são consideráveis.
Esta atividade foi intensificada com o advento da revolução industrial e, em 1999, aproximadamente
9,6 bilhões de toneladas de minerais comercializáveis foram retirados da terra; este valor é quase o
dobro do que foi extraído em 1970, (Figura 3), segundo o World Watch Institute (WWI, 2003).
Figura 3: Quantidade de minerais retirados do solo no mundo durante os anos de 1970 a 2000.
Fonte: World Watch Institute (2003)
A extração e o consumo mundial de minerais estão distribuídos de uma maneira disforme (Tabela 1).
Segundo a WWI (2003), a América do Sul detém 44% da produção mundial de cromo, e mais da
metade da de platina; e o Chile, detém mais de um terço da produção mundial de cobre. Em relação
ao consumo, este instituto afirma que os Estados Unidos, o Canadá, a Austrália, o Japão e o oeste
europeu – totalizando juntos a 15% da população mundial - consomem mais de 50% do total de
muitos dos metais produzidos por ano no mundo: 61% de alumínio, 60% de chumbo, 59% de cobre e
49% de aço.
10
Tabela 1: Principais países produtores de metais importantes na composição dos Equipamentos
Eletroeletrônicos.
Mineral
Cobre
Chumbo
Ferro
Mercúrio
Platina
País
Produção mundial (percentagem)
Chile
25
Estados Unidos
10
Indonésia
8
Austrália
24
China
19
Estados Unidos
14
China
22
Brazil
20
Austrália
16
Espanha
36
República do Quirguistão
18
Algéria
16
África do Sul
53
Rússia
35
Estados Unidos
5
Fonte: U.S.Geological Survey, Mineral Commodity Summaries, 2001 apud WWI, 2003 (adaptado).
Os equipamentos eletroeletrônicos são altamente dependentes da atividade extrativista, pois esta
fornece os minerais essenciais para a produção dos seus componentes eletrônicos, cuja composição
apresenta cobre, ferro, alumínio, cádmio, níquel, chumbo, lítio, índio, berílio e tálio, dentre outros.
Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP, 2009), estes equipamentos
demandam 80% da produção mundial de índio (utilizados em telas de LCD), mais de 80% de rutênio
(utilizados em HD) e 50% de antimônio (utilizados como retardantes de chama). Ainda de acordo
com a UNEP (2009), um único computador contém 1000mg de prata, 220mg de ouro, 80mg de
paládio, 500g de cobre e 65g de cobalto. Estes valores são pequenos, porém, quando se considera o
montante de computadores vendidos por ano, percebe-se que esses equipamentos demandam um
grande insumo de metais. Em 2007, 255 milhões de unidades foram vendidas; isso significa que se
utilizaram 255 toneladas de prata. A combinação de unidades vendidas de celular e computador, em
2007, demandou 3% do ouro e da prata extraídos no mundo, 13% do paládio, 15% do cobalto e 1%
do cobre (UNEP, 2009), como mostra o Quadro 1.
11
Quadro 1: Impacto dos computadores e celulares sobre a demanda de metais, baseado na venda
global do ano de 2007.
a) Celulares
1200 milhões de unidades vendidas
x 250mg Ag =
300t Ag
b) Computadores
255 milhões de unidades vendidas
x 1.000mg Ag =
255 t Ag
Produção
Mundial
Ag: 20 000 t/ano
a+b
3%
x 24mg Au =
29t Au
x 220mg Au =
56 t Au
Au: 2 500 t/ano
3%
x 9mg Pd =
11t Pd
x 80mg Pd =
20 t Pd
Pd: 230 t/ano
13%
x 9g Cu =
11.000t Cu
x 500g Cu =
128000 t Cu
Cu: 16 Mt/ano
1%
6 500 t Co
Co: 60 000 t/ano
15%
1.200 M x
20g/bateria*
x 3,8g Co =
100 M baterias de
laptop*
4.500t Co
65g Co =
* Li-íon é > 90% usado
em laptops modernos
*Tipo Li-íon
Fonte: Umicore apud UNEP, 2009.
2.1.1
Impactos Ambientais
Os problemas ambientais advindos com esta atividade são inúmeros, principalmente os relacionados
à extração de metais preciosos, pois são retirados de minas onde a quantidade destes metais é
baixa, como afirma o relatório da UNEP (2009). A mineração está associada a:
●
●
●
●
●
●
●
●
Grande quantidade de uso de energia;
Degradação de ecossistemas naturais, como o desmatamento e a queimada;
Alterações nos aspectos qualitativos e no regime hidrológico dos cursos de água;
Processos erosivos;
Mortalidade e fuga da fauna local
Poluição química na hidrosfera, biosfera e na atmosfera;
Geração de resíduos; e
Geração de gás carbônico.
Em relação à geração de resíduos provenientes da mineração, para se ter uma idéia da quantidade
de rejeitos (terras escavadas que não possuem minerais, ou possuem uma quantidade não
significativa) produzidos durante a extração, cerca de 900 milhões de toneladas de metal foram
extraídas de minas de todo o mundo, em 2000, produzindo em torno de seis bilhões de toneladas de
rejeito (WWI, 2003). Como pode ser visualizado na Tabela 2, para produzir uma tonelada de cobre,
são escavados em torno de 15 milhões de toneladas de minério, e gerados 1,648 milhões de
toneladas de rejeitos.
Tabela 2: Quantidade total de minério retirado e resíduos gerado para determinada parcela
utilizável de minério de ferro, cobre, ouro, chumbo e alumínio.
Metal
Minério de Ferro
Cobre
Ouro
Chumbo
Alumínio
Fonte:WWI (2003).
Resíduos produzidos
(milhões de toneladas)
Total de minério retirado
(milhões de toneladas)
2.113
1.648
745
260
104
845
15
0.0025
7
24
Parcela utilizável de
minério
(porcentagem)
40
0.91
0.00033
2.5
19
12
A geração de gás carbônico durante a extração também é elevada. Segundo o relatório da UNEP
(2009), para a produção de uma tonelada de ouro, paládio ou platina, há uma emissão de 10.000
toneladas de CO2 e para a de cobre há uma emissão de 3.4 toneladas de CO2. É possível estimar a
emissão total de dióxido de carbono, baseando-se na quantidade de metais utilizados para a
produção dos equipamentos eletroeletrônicos e na emissão gerada na produção primária dos
metais. Por exemplo, a demanda anual de ouro para a produção dos equipamentos é de 300
toneladas, com a geração de 17.000 toneladas de CO2 por tonelada de ouro extraída, o que gera, no
total, uma emissão de 5.1 milhões de CO2 (UNEP, 2009). Como mostrado na Figura 4, a soma das
emissões dos metais exemplificados representa 23,4 milhões de toneladas, o que representa 1/1000
das emissões mundiais de dióxido de carbono.
Figura 4: CO2 emitido apartir da produção de metal primário.
Demanda
Metais
Produção
para
Emissão de
utilizados
primária [t
produção EEE
CO2 [Mt]
nos EEE
CO2/t metal]
t/a (2006)
Cobre
4 500 000
3,4
15,30
Cobalto
11 000
7,6
0,08
Estanho
90 000
16,1
1,45
Índio
380
142
0,05
Prata
6 000
144
0,86
Ouro
300
16 991
5,10
Paládio
32
9 380
0,30
Platina
13
13 954
0,18
Rutênio
6
13 954
0,08
CO2 total [t]
23,4
Fonte: United Nation Environment Programme (2009)
Os impactos ambientais não são apenas sentidos na etapa de extração dos minerais; as etapas de
processamento, para a produção de materiais usáveis, também apresenta impactos. Segundo o WWI
(2003), o derretimento do alumínio - uma das etapas do processamento deste metal - emite cerca
de 2 toneladas de dióxido de carbono para cada tonelada de alumínio primário produzido; e três
toneladas de CFC (clorofluorcarbono). A etapa de extração, mais a de processamento, de alumínio,
cobre e aço consome 7,2% de toda a energia gerada no mundo.
2.1.2
Impactos Econômicos
A atividade mineradora também gera impactos sócio-econômicos. Segundo o Instituto Brasileiro de
Mineração (IBRAM), em 2010, a Produção Mineral Brasileira (PMB) deverá atingir novo recorde ao
totalizar US$ 35 bilhões (valor estimado), o que configurará um aumento de 45% se comparado ao
valor registrado em 2009, de US$ 24 bilhões. Em, 2008 a PMB foi de US$ 28 bilhões, conforme
Tabela 3.
13
Tabela 3: Produção Mineral Brasileira de 2008 a 2010.
Produção (bilhões)
2008
28
Ano
2009
24
2010
35
3
Fonte: IBRAM, 2010
A indústria da mineração brasileira tem uma grande participação no saldo da balança comercial
brasileira: Em 2006, o setor mineral contribuiu com 14%; em 2007, com 25%; em 2008, com 53% e
em 2009, o setor mineral contribuiu com 50% do saldo brasileiro (IBRAM, 2010). O PIB brasileiro
também recebe uma grande influência da atividade mineradora. Em 2008, a indústria da mineração
e transformação mineral contribuiu com aproximadamente 5,25% (US$ 84 bilhões) do total do PIB,
que foi US$ 1,57 trilhão (IBRAM, 2008).
Ainda de acordo com a IBRAM, o Brasil empregou, em 2010, 160 mil trabalhadores no setor
extrativista mineral. No entanto, estima-se que 2 milhões de pessoas foram empregadas, pois para
cada emprego gerado no setor extrativista mineral, 13 outros empregos diretos são gerados ao
longo da cadeia produtiva (fornecimento e primeira transformação). No mundo, a atividade de
extração mineral é responsável por empregar menos de 1% da população, segundo os dados da
Organização Internacional do Trabalho4 (ILO) divulgados pela WWI (2003).
2.1.3
Impactos Sociais
Ainda que a extração mineral seja uma atividade que traga uma grande movimentação financeira e
empregue, ao longo da sua cadeia produtiva, uma quantidade razoável de trabalhadores, é
responsável, segundo a WWI (2003), por 5% de todas as mortes de trabalhadores ocasionadas por
acidentes laborais no mundo.
Segundo Lima (2007), a taxa de mortalidade representa o risco médio que um trabalhador tem de
sofrer um acidente de trabalho fatal; enquanto a taxa de letalidade representa a probabilidade
média de que um acidente de trabalho seja fatal. Em 2003, a indústria extrativista brasileira
apresentou uma taxa de mortalidade de 22,06 por 100.000 trabalhadores, e uma taxa de letalidade
de 10,99 por 1.000 acidentes liquidados, sendo considerada a quinta atividade com maior risco de
mortalidade e letalidade, segundo dados do Ministério da Previdência e Assistência Social5.
Além dos acidentes de trabalho, a atividade mineradora causa um grande impacto na comunidade
local. A instalação de uma mineradora em uma área é responsável por alterar a vida da população
que habita o entorno, uma vez que em muito dos casos estas pessoas precisam se deslocar para
outras regiões, enquanto muitas outras são obrigadas a conviver com a poluição atmosférica e
hidrológica que as mineradoras geram. Como conseqüência, muitos habitantes contraem doenças, e
a taxa de mortalidade se torna alta. Esta situação é vista, principalmente em países em
desenvolvimento, como os da África, Ásia e América do Sul. Isso ocorre, pois a grandes companhias
mineradoras investem nessas áreas, devido ao custo da mão de obra ser mais barato e as
regulamentações ambientais não serem tão restritas. Segundo o WWI (2003), em 2001, companhias
3
Previsão
4
International Labour Organization (ILO)
5
Divulgados no livro Geociências e Tecnologia Mineral, 2007.
14
mineradoras investiram $566 milhões para exploração de metais não ferrosos em minas na América
do Sul e $272 milhões em minas da África.
Mesmo gerando todos esses impactos negativos sobre o meio ambiente e sobre a população, a
instalação da indústria mineradora numa determinada localidade é responsável pelo
desenvolvimento econômico e social da área em que ela foi instalada, promove a geração de
emprego e renda, acesso rodoviário (construção de estradas), estimula a construção de escolas para
a promoção da educação da população local e promove a chegada da eletricidade
15
3 MANUFATURA E VENDA
A manufatura, ou produção, dos equipamentos eletroeletrônicos compõe etapas de processamento
das matérias-primas, a criação do design e a montagem das peças, componentes e produto final. Já
a venda representa a disponibilização dos produtos no mercado, seja através da demanda direta da
sociedade, ou através do estímulo do mercado (fabricantes) à necessidade de consumo.
A composição dos equipamentos é um aspecto relevante no ciclo de vida de um produto, visto que
reflete a situação oferta/demanda, ou seja, o que está disponível de matéria-prima na natureza e o
que o mercado demanda para produção, impactando diretamente no meio ambiente, sociedade e
economia. De maneira que o processo de criação de um produto se faz essencial para que sejam
colocados no mercado produtos mais sustentáveis: utilizando o mínimo de substâncias tóxicas e/ou
de difícil obtenção, com um design voltado para a desmontagem e para a reciclagem.
3.1 Composição dos EEE
Os equipamentos eletroeletrônicos (EEE) possuem, em sua composição, diversas substâncias que
variam desde metais preciosos como ouro, prata, platina, a substâncias nocivas como o chumbo,
arsênico, mercúrio, cádmio e cromo hexavalente, que estão distribuídos em diversos módulos, como
pode ser visualizado no Quadro 2.
Quadro 2: Composição dos módulos básicos dos Equipamentos eletroeletrônicos.
MÓDULOS BÁSICOS EEE
Cabos, Cordões e Fios
Comutadores e Disjuntores
Conectores
Conjuntos/Placas de Circuitos
Impressos
CRT – telas de tubos de raios
catódicos
Dispositivos Luminosos
Meios de Armazenamento de
Dados (placa mãe, processador,
HD)
Pilhas e Baterias
COMPOSIÇÃO QUÍMICA
Cádmio, Cobre, plástico, PVC (cloreto de polivinila), Retardantes de Chama
Cádmio, Mercúrio
Alumínio, Berílio, Cobre, Ouro, Paládio, Prata
Alumínio, antimônio, berílio, bismuto, cádmio, chumbo, cobalto, cobre,
estanho, európio, ferro, gálio, germânio, índio, manganês, mercúrio,
níquel, ouro, paládio, prata, rutênio, silício, tálio, térbio, zinco, resina
epóxi, retardantes de chama, fibra de vidro.
Vidro, Cerâmica, Pó Fosforescente, Metais Ferrosos
Alumínio, Antimônio, Bário, Cádmio, Cobalto, Cobre, Chumbo, Estanho,
Ferro, Manganês, Níquel, Térbio, Vanádio, Zinco
Cádmio, Mercúrio
Berílio
Cádmio, Mercúrio, Lítio, Potássio, Níquel, Zinco
retardante de chamas bromados (BFR: PBDE, HBCD, TBBPA), ésteres de
Plásticos Antichamas
fetalatos
Relês (relays)
Berílio, Mercúrio
Resistências (springs)
Berílio, Rutênio
Sensores
Mercúrio
Fonte: Rodrigues, A. C (2007); Virgens, T. A. N (2009), T; GREENPEACE.
Sendo a composição dos EEE específica para cada tipo de equipamento, a Agência Européia de Meio
Ambiente6 (EEA, 2003) classifica as partes e materiais característicos em seis categorias, a fim de
auxiliar a compreensão da complexidade de componentes:
6
European Environment Agency (EEA)
16
●
●
●
●
●
●
Ferro e aço - utilizados em gabinetes e armações;
Metais não ferrosos, especialmente cobre - utilizado em cabos, e alumínio;
Vidro - utilizado em telas;
Plástico - utilizado como invólucro, em cabos e em placas de circuito;
Dispositivos eletrônicos - placas de circuito;
Outros (borracha, madeira, cerâmica, etc).
Dessa maneira, a EEA (2003) apresenta dados comparativos entre seis equipamentos
eletroeletrônicos de categorias diversas sobre a proporção dos seus componentes (Tabela 4).
Tabela 4: Peso médio e composição de aparelhos eletroeletrônicos
Aparelho
Peso
Médio
(kg)
Fe % Peso
Metais
Não
Ferrosos
% Peso
Refrigeradores
48
64.4
6
e Freezers
Desktops
29.6
35.3
8.4
TVs
36.2
5.3
5.4
Copiadoras
58
8
Tubos
0.2
0.6
1.4
Fluorescentes
Pequenos
aparelhos
38
21
domésticos
Fonte: European Environment Agency, 2003 (adaptado)
Vidro %
Peso
Plástico %
Peso
Componentes
Eletrônicos %
Peso
Outros %
Peso
1.4
13
-
15
15
62
7
23.3
22.9
9
17.3
0.9
2
0.7
3.5
16
93.9
4.1
49
De acordo com a UNEP (2009), os REEE possuem uma composição bastante variada, podendo conter
mais de mil substâncias diferentes, entre elementos perigosos e não perigosos. No geral, possuem
em sua constituição: ferro, metais não ferrosos, plásticos, vidro, placas de circuito impressos,
cerâmica, borrachas, etc, como evidenciado na Figura 5. O ferro e o aço chegam a representar 50%
de toda a composição de alguns equipamentos, a exemplo de um computador desktop tradicional,
de 29,6kg. Já, o plástico representa 21% (considerando os que não apresentam e os que apresentam
retardantes de chama) da composição, e os metais não ferrosos 13%, a exemplo do cobre, alumínio
e dos metais preciosos (prata, ouro, platina, paládio).
17
Figura 5: Percentagem, em relação ao peso, da composição dos materiais constituintes dos
Equipamentos eletroeletrônicos.
Fonte: European Topic Centre on Sustainable Consumption and Production - EIONET
O Quadro 3 apresenta valores sutilmente diferentes dos disponibilizados na Tabela 4, porém traz
informações relevantes quanto ao percentual de reciclabilidade dos componentes e a localização
dos mesmos num computador desktop tradicional.
Quadro 3: Composição de um computador desktop de aproximadamente 27kg
Material
% em Relação ao
Peso Total
% Reciclável
Plásticos
22,9907
20%
Chumbo
6,2988
5%
Alumínio
14,1723
80%
Ferro
20,4712
80%
Estanho
1,0078
70%
Cobre
6,9287
90%
Níquel
0,8503
80%
Zinco
2,2046
60%
Índio
Berílio
0,0016
0,0157
60%
0%
Localização
Com elementos orgânicos, óxidos distintos
da sílica. Cabos e Gabinete
Juntas metálicas, placas de circuito
impresso, proteção contra a radiação/ tubo
de raio catódico
Estrutura dos Gabinetes, condutividade,
conectores
Estrutura dos Gabinetes, Cinescópio e
Placas de Circuito Impresso
Juntas metálicas/ tubo de raio catódico
Cinescópio e Placas de Circuito Impresso
Condutividade/ tubo de raio catódico,
conectores, cabos e cinescópio
Estrutura, magnetismo/ carcaça (aço)
Bateria, emissor de fósforo, tubo de raio
catódico
Transistor, retificadores
Condutividade térmica
18
Ouro
Rutênio
Cobalto
Manganês
Prata
Cromo
% em Relação ao
Peso Total
0,0016
0,0016
0,0157
0,0315
0,0189
0,0063
Cádmio
0,0094
Material
% Reciclável
Localização
99%
80%
85%
0%
98%
0%
Conectividade, condutividade e conectores
Circuito de resistividade
Estrutura, magnetismo, carcaça (aço)
Estrutura, magnetismo, carcaça (aço)
Condutividade, conectores
Gabinetes
Bateria, emissor de fósforo glugreen, tubo
de raio catódico
Retificadores
Pilhas, interruptores/ carcaça
Agentes não purificados nos transistores
Vidro - Tubo de raio catódico
Selênio
0,0016
Mercúrio
0,0022
Arsênio
0,0013
Sílica
24,8803
Fonte: Conrad (2000 apud Virgens, 2007)
0%
70%
0%
0%
0%
Os metais pesados inexistentes naturalmente nos seres vivos, tais quais chumbo, mercúrio, cádmio,
cromo e arsênio (BRUCE et al., 2005) e os plásticos (devido aos retardantes de chama) apresentam
um índice de reciclabilidade praticamente nulo, 0 a 5% e 20% respectivamente. Todos os outros
componentes apresentam um percentual de reciclabilidade igual ou superior a 60%. O ouro e a prata
(metais preciosos) são os que possuem o maior índice, 99 e 98% respectivamente.
Assim, das substâncias presentes em um computador, 25% são de substâncias que podem ser
recuperadas; 72% são de materiais passíveis de reciclagem, como o plástico, metais ferrosos,
alumínio, cobre, ouro, níquel; e 3% são de substâncias tóxicas, como o cromo, mercúrio, berílio,
arsênico, cádmio entre outras, conforme analisado por Prince & Cook (2006).
De acordo com a Silicon Valley Toxics Coalition (2004) essas substâncias tóxicas podem ser
encontradas em:
●
●
●
●
●
Placas de circuitos impressos
Tubos de raios catódicos
Cabos e invólucros de plástico
Interruptores e telas LCD
Capacitores e transformadores antigos
Os computadores e os celulares são exemplos de equipamentos que apresentam uma vasta gama de
substâncias em seus componentes estruturais (Quadro 3; Tabela 5). A composição dos celulares
divulgada pela UNEP (2006) é apresentada na Figura 6, a qual permite a visualização não apenas do
percentual de cada material, mas também a localização de cada substância, de maneira associada. A
figura mostra que um celular é composto por 50% de plástico, 29% de metais não ferrosos, 15% de
vidro e cerâmica, 3% de metais ferrosos e 3% de outros não identificados.
Através da disposição das informações da Figura 6 na Tabela 5, observa-se que as placas de circuito
detem a maior quantidade de componentes existentes num celular: plástico e metais não ferrosos
(cádmio, chumbo, cobre, cromo, estanho, prata, tântalo e zinco). Os cases apresentam
essencialmente plástico e metais ferrosos; os fios, cobre; as telas, vidro e cerâmica; os chips, vidro e
cerâmica, e outros; e as baterias, carbono, cobalto ou lítio e níquel, dependendo do modelo do
aparelho.
19
Tabela 5: Composição de Aparelhos celulares Componentes
Percentual em
Relação ao
Peso Total
50%
Plástico
Metais
3%
Ferrosos
Vidro
e
15%
Cerâmica
Cádmio
0,5%
Carbono
4%
Chumbo
0,5%
Cobalto
ou
4%
Lítio
Cobre
15%
Cromo
0,5%
Estanho
1%
Níquel
2%
Prata
0,5%
Tântalo
0,5%
Zinco
0,5%
Outros
3%
Fonte: UNEP, 2006 (adaptado).
Placas de
Circuito
Cases
X
X
Fios
Telas
Chips
X
X
Baterias
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
20
Figura 6: Composição de um aparelho celular
Fonte: UNEP, 2006
As tabelas e figuras dispostas anteriormente permitem observar que a manufatura promove
inúmeros impactos, não só ao meio ambiente, mas também à economia e à saúde dos seres vivos.
3.2
Impactos
Os impactos da manufatura dos equipamentos eletroeletrônicos podem ser sentidos em diversas
maneiras: consumo de matérias-primas, água e energia, emissão de gás carbônico, contaminação
dos trabalhadores, dentre outros.
A contribuição da manufatura nos impactos gerados durante o ciclo de vida varia significantemente
entre os diversos equipamentos eletroeletrônicos. Essa relação está diretamente ligada à
21
complexidade de componentes e/ou massa do produto: quanto maior o item, ou quanto mais
complicado e numerosos os componentes eletrônicos, maior a demanda por energia. Junte-se a isso,
o design do equipamento, que facilita ou dificulta a desmanufatura dos produtos e acesso às
substâncias.
Os celulares e os computadores apresentam diversas substâncias tóxicas como o chumbo, o cádmio,
o mercúrio e o arsênico, que não são passíveis de reciclagem ou que possuem uma taxa de
reciclagem muito pequena.
Sabe-se, por exemplo, que o índio, subproduto da mineração do zinco, é essencial na fabricação dos
monitores de tela plana, ou LCD, e de telefones celulares e está presente em mais de 1 bilhão de
equipamentos fabricados todos os anos (ROSA, 2007). Considerando que: (i) nos últimos cinco anos,
o preço do índio aumentou seis vezes, tornando-o mais caro do que a prata; (ii) sua produção
depende da mineração do zinco sendo impossível simplesmente produzir mais, porque não há
produção suficiente de zinco; e (iii) as reservas minerais são limitadas, a reciclagem dessa substância
é de extrema importância. O Japão já consegue retirar metade de suas necessidades anuais do
elemento a partir da reciclagem.
Ainda de acordo com o mesmo autor, o índio não é o único a sofrer aumento de preço no mercado
de acordo com pesquisa divulgada em 2007, o valor do bismuto, por exemplo, utilizado em soldas
sem chumbo, havia dobrado nos últimos dois anos; já o preço do rutênio, utilizado em resistores e
em discos rígidos, foi multiplicado por sete.
O documento produzido pelo WRAP7 (2010), alerta para um outro fator a ser levado em
consideração: a quantidade do uso de energia demandada para a manufatura de plásticos e metais
comparada aos componentes eletrônicos. Esses últimos, a exemplo de circuitos integrados, podem
requerer 140 vezes mais energia para serem produzidos do que plásticos, como o PVC.
Ao se comparar o ciclo de vida de um laptop e de um aparelho celular, por exemplo, o estudo
apontou que as características de uso e consumo de energia são praticamente diretamente inversos,
conforme demonstrado na Tabela 6. Enquanto o processo de manufatura de um laptop demanda
25% do uso de energia do seu ciclo de vida, o uso de energia na manufatura de um aparelho celular
corresponde a 59% de seu ciclo de vida.
Tabela 6: Consumo de energia por fase do ciclo de vida
Equipamento
Laptop
Celular
Fonte: WRAP, 2010.
Manufatura
25%
59%
Uso
73%
29%
Um estudo realizado pela Universidade das Nações Unidas (WILLIAMS, 2004) concluiu que a
manufatura de um computador comum e um monitor de 17” utiliza em torno de 6400 MJ e 260kg
de combustíveis fósseis, equivalente mínimo a dez vezes o seu peso, contribuindo desta forma para
o gasto de energia e, conseqüentemente, para o aquecimento global. Utiliza ainda 22kg de materiais
químicos e 1500 litros de água em seu processo de fabricação. Esta relação supera,
proporcionalmente, por exemplo, a dos automóveis, que utilizam, no máximo, duas vezes o seu peso
em matéria-prima e insumos. Um único chip de memória RAM consome 1,7 quilos de combustíveis
7
WRAP (Waste & Resources Action Programme), Reino Unido.
22
fósseis e de substâncias químicas para ser produzido, o que corresponde a cerca de 400 vezes o seu
peso.
Segundo o autor do artigo citado acima “em contraste com muitos equipamentos domésticos, o
ciclo de vida pelo uso de energia de um computador é dominado pela fase de produção (81%), em
oposição ao uso do mesmo (19%)”. Dessa maneira, o aumento do ciclo de vida dos computadores
proporciona um serviço ambiental relevante.

Laptops
Em contrapartida, o mesmo documento do WRAP defende que a fase de uso de um laptop
representa o maior impacto em seu ciclo de vida, respondendo por 73% do consumo de energia. A
fase de processamento dos materiais, por sua vez, corresponderia a aproximadamente 25%, uma
proporção consideravelmente maior do que para outros grandes utilizadores de energia avaliados.
A Figura 7 retrata os impactos gerados pelos laptops em seu ciclo de vida, com ênfase ao consumo
de energia.
Figura 7: Consumo de Energia Requerido pelo laptop (MJ)
ACV
Materiais
Processo
Distribuição
Uso
Fim de Vida Útil
Impactos (MJ)
1,120 (22.4%)
140 (2.8%)
122 (2.4%)
3,630 (72.7%)
-20 (-0.4%)
Fonte: IVF Industrial Research and Development Corporation (2005): Personal Computers (desktops and
laptops) and computer monitors, Preparatory Study EuP Lot 3, apud WRAP, 2010
A pesquisa, realizada em 2010, confirma o que já vem sendo sentido no próprio mercado brasileiro:
a escolha dos consumidores pela compra de laptops e net books, ao invés de desktops, e a tendência
crescente em substituir os laptops com a mesma freqüência que se faz com os telefones celulares,
ambos alimentados pela queda dos preços e pela inovação tecnológica.
De acordo com a pesquisa, essa movimentação de compra em direção aos laptops e net books
oferece diversos benefícios ambientais, visto que são equipamentos menores e mais leves, a
manufatura deles produz menos emissão de gases e menor disposição de rejeito. São equipamentos
que oferecem maior eficiência energética e seus processadores utilizam menos energia do que os
desktops, visto que são projetados para funcionarem por bateria, dispõem de maiores níveis de
gerenciamento de uso da energia.
Soma-se a isso, inovações tecnológicas como: memória de estado sólido; telas de “diodos emissores
de luz” (light emitting diode - LED) e LED orgânico (OLED) sensíveis a toques (touch screen) e com luz
traseira (backlights); e melhores baterias e sistemas de resfriação, oferecem oportunidades de
economia de energia adicional.
23
No entanto, apesar dos benefícios ambientais (relacionados à menor emissão de gases, uso de
energia e disposição de rejeitos) e melhorias tecnológicas, os laptops utilizam uma quantidade
relativamente alta de materiais e o impacto na fase de processamento deve ser considerado
juntamente com a taxa crescente de compra dos equipamentos. A fabricação dos laptops demanda
grande variedade de materiais e componentes, principalmente o uso de componentes como
circuitos integrados e placas de circuito impresso (PCB).
A pesquisa afirma ainda que ao comparar o impacto global do volume de vendas de produtos;
materiais e processos; e distribuição, os impactos dos laptops são quase tão elevados quanto os de
refrigeradores e máquinas de lavar.

Telefones Celulares
O consumo de aparelhos celulares tem crescido exponencialmente. Isso se deve basicamente à
mesma lógica de mercado dos laptops: incremento da tecnologia e popularização comercial dos
aparelhos. Os aparelhos atuais concentram um alto número de funcionalidades: ligações,
mensagens, acesso a internet (e-mails, redes sociais, sites de busca, etc), câmeras fotográficas,
reprodução e armazenamento de músicas e vídeos, dentre outros inúmeros aplicativos disponíveis
para facilitar a vida dos usuários e mantê-los conectados ao mundo. Tudo isso aumenta a
complexidade eletrônica dos celulares e conseqüentemente o impacto ambiental.
O resultado do estudo do WRAP (2010) mostrou que os materiais e a fase de processamento são
responsáveis pela maior nível de impacto em todo o ciclo de vida, respondendo por 59% pela
demanda de consumo de energia. O próximo estágio de maior impacto corresponde à fase de uso
do equipamento, relativo por 29% de uso de energia.
Figura 8: Variação na emissão de CO2 conforme consumo de Energia (MJ) do Telefone Celular
ACV
Materiais / Processo
Distribuição
Uso
Impactos (MJ)
132 – 880 (58.8%)
28 – 31 (11.8%)
75 – 587 (29.4%)
Fonte: Singhal P (2005a): Integrated Product Policy Pilot Project – Stage I Final Report: Life Cycle
Environmental Issues of Mobile Phones. NOKIA, Espoo, Finland, apud WRAP, 2010
A pesquisa identificou, entretanto, a existência de oportunidades para o fim de vida dos aparelhos
através do recondicionamento e reuso, bem como um crescente interesse em encontrar novos usos
24
para os telefones celulares no final de sua fase inicial de uso. Componentes-chave, tais quais,
processador de força e memória podem ser reutilizados em novas aplicações. Se essa tendência se
concretizar, pode gerar uma diminuição no impacto dos materiais e fase de processamento devido
ao aumento do tempo de vida.
O WRAP acredita que avanços nas tecnologias de aparelhos celulares devem oferecer oportunidades
de eficiência estendida de recursos, como leveza e convergência com outros itens como câmeras e
MP3 players. Pesquisas de longo termo sugerem que as inovações podem vir a focar na fase dos
materiais e induzir à diminuição dos impactos. Outras áreas incluem inovações como: auto recarga
dos aparelhos celulares e componentes derivados de materiais mais sustentáveis, a exemplo de
plásticos reciclados.
Alguns fabricantes de aparelhos celulares já colocaram no mercado modelos com plástico reciclado e
diminuição de componentes tóxicos, como chumbo, mercúrio, cádmio. Entretanto, o que se
encontra são aparelhos com menos recursos tecnológicos, menos funções e aplicativos do que os
outros, o que diminui a concorrência num mercado onde a tecnologia tem sido o atrativo principal,
além de não haver uma divulgação explícita nos pontos de venda sobre as características de
sustentabilidade de cada aparelho. Ou seja, não há incentivo para o consumo de celulares mais
sustentáveis; ou menos poluentes.
De acordo com o StEP (apud WILLIAMS, 2004), uma tonelada de telefones celulares usados, por
exemplo, ou aproximadamente 6 mil aparelhos (uma minúscula porção da produção anual atual de 1
bilhão) contem aproximadamente 3,5 kg de prata, 340g de ouro, 140g de paládio e 130 kg de cobre.
Em média as baterias de celulares contem outros 3,5g de cobre. O valor estimado de todos os
componentes juntos chegava, na época, a US$ 15,000 (quinze mil dólares)8.
3.2.1
Design
O design de um produto determina a potencialidade de desmontagem e conseqüentemente de
reciclagem de seus componentes. Segundo a EEA (2003) movimento em direção ao aumento da
reciclabilidade dos produtos tem direcionado ao conceito de design para reciclagem (DFR) e design
para desmontagem (DFD).
Ainda segundo a EEA (2003), o desmonte de REEE é o primeiro e mais importante passo na cadeia da
reciclagem. Atualmente esse processo é bastante trabalhoso. Como conseqüência disso, apenas as
partes acessíveis, contendo substâncias perigosas e metais preciosos são removidos na primeira
etapa e vários materiais valiosos e perigosos são transferidos posteriormente para processos
subseqüentes.
O DFR e o DFD também sugerem a substituição e/ou eliminação de determinadas subtâncias
utilizadas na manufatura dos EEE. O ideal, segundo o Greenpeace (2010) é que os retardantes de
chama bromados, os plásticos constituídos por PVC, todos os ftalatos, e componentes com berílio e
antimônio sejam eliminados, para que a reciclagem dos equipamentos eletroeletrônicos seja segura,
sem contaminação dos trabalhadores e do meio ambiente.
8
United Nations University. Set World Standards For Electronics Recycling, Reuse To Curb E-waste Exports To
Developing Countries, Experts Urge. ScienceDaily. Setembro 2009. Disponível em:
<http://www.sciencedaily.com-/releases/2009/09/090915140919.htm>.
25
O design para reciclagem (DFR) e design para desmontagem (DFD) são atividades relativamente
recentes e sua implementação por parte das indústrias de equipamentos eletroeletrônicos contribui
para a diminuição da geração de resíduos, uma vez que além de facilitar a reciclagem, facilita a
manutenção e incentiva o reuso de equipamentos obsoletos para determinados setores.
A Agência de Meio Ambiente Européia (EEA, 2003), defende que sejam feitos uso de ferramentas de
design assistencial no processo do desenho dos equipamentos, onde informações sobre os materiais
e regras para Design For Disassembling (DFD) e Design for Recycling (DFR) deveriam ser
incorporados ao software CAD para possibilitar que os designers levem os aspectos ambientais em
consideração.
3.3 Vendas
Em 2009 foram vendidos em torno de 306 milhões de computadores no mundo (GROSSMAN, 2010).
O Brasil, apontado como o quinto maior mercado de bens de consumo de informática, segundo Lins
(2009), vendeu 12 milhões de unidades, o equivalente a 4% da venda mundial, em 2008, assim como
em 2009. Estima-se que, em 2010, este valor tenha chegado a 14 milhões de unidades, o que
representa um acréscimo de 16,6% sobre 2009; e a previsão para 2011 é de o mercado brasileiro
venda 15,8 milhões de unidades (Tabela 7), de acordo com dados disponibilizados pela Associação
Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (ABINEE, 2010). No primeiro semestre de 2010, as vendas
de desktops atingiram 3,158 milhões, frente a 3,05 milhões de notebooks. Na previsão de 2014, os
desktops deverão responder por 45% do mercado e os notebooks/netbooks por 55%, caracterizando
a tendência mundial.
Tabela 7: Relação do número de computadores vendidos ao ano no Brasil
Ano
Unidades Vendidas (milhões)
2003
2004
2005
3,2
4,074
5,635
2006
8,225
2007
9,983
2008
12
2009
12
2010
14
2011
15,8
Fonte: Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica, 2010.
Já a produção total de celulares atingiu 61 milhões de unidades em 2010 (ABINEE), número pouco
inferior ao verificado em 2009 (62 milhões de aparelhos). Deste montante, 48 milhões ficaram no
mercado interno (46 milhões, em 2009), e 13 milhões foram para o exterior (queda de 3 milhões de
unidades vis a vis a 2009). Este resultado, apesar de ser menor na venda total, comparado ao ano de
2008 (73 milhões), expressa um aumento na produção de celulares destinada ao mercado interno.
26
Segundo dados da Agência Nacional de Telefonia (Anatel), o Brasil encerrou o ano de 2010 com
202,9 milhões de acessos móveis celulares em serviço, 29 milhões a mais do que no final do ano de
2009 (173,9 milhões), com densidade de 104,7 acessos para cada 100 habitantes.
27
4. USO, REUSO E MANUTENÇÃO
A sociedade contemporânea vive em uma cultura de consumo, onde os equipamentos
eletroeletrônicos são desenhados para ter um curto tempo de vida útil e estimular a aquisição de
modelos mais novos. Nos Estados Unidos, por exemplo, estima-se que são vendidos mais de 22
milhões de computadores a cada ano, e que a maioria torna-se obsoleto com menos de dois anos de
uso (PRINCE & COOKE, 2006).
A América Latina vem experimentando os efeitos dessa cultura consumista. De acordo com Boeni et
al (2009), entre 2003 e 2005, o mercado digital cresceu uma média de 14%. Este valor é mais que o
dobro das taxas de crescimento da Europa e Estados Unidos (5%) e da Ásia-Pacífico (6%). A base
instalada de computadores acompanha esse crescimento, tendo crescido 38,6% entre 2005 e 2008
na Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México e Venezuela. No final de 2008, esses países juntos
possuíam 83,3% da base instalada de computadores da América Latina (Tabela 8), o que representa
7,8% do total mundial (PRINCE, 2010). No mundo, estima-se que exista mais de 1 bilhão de
computadores em uso, gerando a proporção de um computador para cada seis pessoas
(GROSSMAN, 2010).
Tabela 8: Base instalada de computadores em alguns países da América Latina
Parque Instalado de Parque Instalado de
PC 12/2005 em
PC 12/2008 em
milhões
milhões
Argentina
5,25
8,2
Brasil
27,59
39,0
Chile
3,75
5,3
Colômbia
3,3
3,7
México
15,93
20,6
Venezuela
2,19
3,6
Subtotal 6 países
58,01
80,4
Subtotal Resto AL
11,09
16,1
Total AL
69,11
96,5
Total Mundial
1.231
Fonte: P&C 2006, 2008; UIT, 2009 apud Prince, 2010.
Regiãp/País
% de Parque
PC/100 habitantes
Instalado na América
em 2008
Latina em 2008
8,5
20,7
40,4
19,9
5,5
31,4
3,8
8,3
21,4
19,3
3,7
13,8
83,3
16,7
100
18,35
18,4
No Brasil, a base instalada de computadores aumenta a cada ano, como aponta a 21a pesquisa Anual
de Uso de TI realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV, 2010): em 2008, existiam 50 milhões de
computadores em uso no Brasil; em 2009, 60 milhões, e a previsão é de que em 2010 esse número
tenha atingido 77 milhões, em 2012 chegue a 100 milhões e em 2014 a base instalada seja de 140
milhões de computadores (Tabela 9). Ou seja, de 2008 a 2010 houve um crescimento de 54% na
base instalada de computadores no Brasil, enquanto que de 2010 a 2012 o crescimento ficou em
torno de 30% e nos dois últimos anos seguintes, esse crescimento voltaria a crescer para a base de
40%, totalizando um crescimento de aproximadamente 180% em quatro anos.
A base instalada, nada mais é, do que o número de equipamentos em uso em uma região, o que
significa a soma do total de equipamentos novos (vendas) mais o total de equipamentos antigos
presentes nos estabelecimentos públicos e privados. Dessa maneira, a base instalada é o reflexo
direto do consumo, do uso e do tempo de vida útil de um equipamento. Entretanto, esse cálculo é
muito flutuante e de difícil previsão, pois esbarra em: fluxo de mercado (importação/exportação e
entrada de produtos ilegais em um país/região); destinação dada aos resíduos dos produtos
consumidos.
28
No entanto, as pesquisas realizadas com o objetivo de identificar a base instalada de computadores
no Brasil apresentam informações díspares, conforme a organização realizadora. Para o ano de
2006, existem estimativas de que a base instalada variava entre 22 milhões de unidades (ABINEE,
2010) a 37 milhões (FGV, 2010). A FGV, todavia, gerou dados em sua pesquisa quanto à relação de
computadores existentes por habitantes.
Em 2007, portanto, a relação era de 1 computador para cada 5 habitantes no Brasil. Em 2010, esse
número duplicou, chegando a 2/5, e estima-se que em 2014 a relação seja de 2 computadores para
cada 3 habitantes, como pode ser visto na Tabela 10. Isso indica que cada vez mais as pessoas estão
tendo acesso aos computadores, e como conseqüência, a produção de resíduos/percapita tenderá a
crescer. É importante, então, a adoção de medidas que: permitam o acesso aos computadores a
populações carentes, como os projetos de inclusão digital, as quais possibilitam o aumento da vida
útil dos equipamentos e incentivam o reuso e a reciclagem como forma de evitar impactos negativos
sobre a população e o meio ambiente.
Tabela 9: Relação do número de computadores vendidos, da base instalada de computadores, e da
relação computador habitante por ano.
Ano
Unidades Vendidas
(milhões)
Base Instalada
(milhões)
2006
8,225
2007
9,983
2008
12
2009
12
60
2010
14
77
Relação computador/habitante
(unidades)
10
9
2011
15,8
2012
2013
2014
Fonte: ABINEE, 2010; FGV, 2010 (adaptado).
22
10
32
9
27 ;
10
38
9
32 ;
10
50
1/5
1/4
9
1/3
9
2/5
9
1/2
9
2/3
100
140
Esse crescente aumento na base instalada de computadores no Brasil e na América Latina tem uma
influência direta no consumo de energia e na emissão de gases de efeito estufa. De acordo com o
WRAP (2010), os impactos ambientais gerados na fase de uso são baseados no consumo de energia.
Este consumo é determinado por três fatores: a demanda de energia, padrões de uso e tempo de
vida útil funcional estimada. Ou seja, quanto mais energia um produto usa e quanto maior o tempo
em operação e a freqüência de uso, maior o consumo total de energia requerido. Isso significa que
produtos com baixo consumo de energia e freqüência de uso, como câmeras digitais,
demandam/consomem pouca energia durante a fase de uso comparado a produtos de maior
consumo de energia e alta freqüência de uso, como secadores de cabelo, por exemplo.
9
ABINEE. Panorama Econômico e Desempenho Setorial, 2010.
10
FGV. 21ª Pesquisa Anual sobre o Mercado Brasileiro de TI, 2010.
29
Segundo informações divulgadas pelo guia do usuário consciente de produtos eletrônicos da Itautec
(2010), um monitor de LCD de 17 polegadas, quando ativo, gasta cerca de 30 watts/hora em média.
Já um computador do tipo desktop com um monitor CRT (raios de tubo catódico) consome em um
mês a média de 125,55 kW/h. Isto corresponde a uma emissão aproximada de 4,6 kg de CO2
equivalente (chamado de CO2e) no espaço de um mês. No período de um ano, portanto, este
mesmo computador emite o equivalente a 55,2 kg de CO2.
O grande problema é quando se multiplicam esses valores pela base instalada. Cruzando os dados de
base instalada de aproximadamente 80 milhões de unidades no Brasil (FGV, 2010) e mais de 1 bilhão
no mundo (GROSSMAN, 2010), atualmente, apenas com o uso de computadores, são emitidas cerca
de 4,4 bilhões de toneladas de CO2/ano no Brasil e 55,2 bilhões no mundo.
O crescimento do mercado de equipamentos eletroeletrônicos aliado ao pequeno tempo de vida útil
destes tem gerado uma grande quantidade de resíduos de equipamentos eletroeletrônicos. Os
resíduos de informática representam de 7% a 12% do volume total (PRINCE & COOKE, 2006). É
importante salientar que ao volume dos desktops e laptops descartados devem-se considerar os
periféricos relacionados, como o mouse, teclado, impressora e tela.
No entanto, muitos dos resíduos gerados são formados por equipamentos sem defeitos ou com
pequenos defeitos, possuindo um grande potencial para serem reutilizados, por exemplo, em
projetos sociais de recondicionamento/inclusão digital, como afirma Grandi (2010).
No Brasil, de acordo com pesquisa encomendada pela ABINEE em 2010 e realizado pela Global
Inteligence Aliance, aproximadamente 35% dos consumidores guardam equipamentos
eletroeletrônicos fora de uso, enquanto 29% doam e apenas 7% descartam (Figura 9).
Figura 9: Destinação dada aos EEE pelo consumidor
Considerando-se ainda o pequeno percentual de REEE recebidos por entidades responsáveis pelo
processamento, pode-se inferir que grande parte desses resíduos são descartados de forma indevida
e são responsáveis pela contaminação de solo e água.
30
No Brasil, o projeto de Inclusão Digital tem como objetivo, segundo Mori (2010) articular uma rede
nacional para coletar e distribuir equipamentos, garantindo sua qualidade para reuso e para a
formação profissional de jovens, reduzindo a desigualdade social a respeitando os direitos de
cidadania.
Em todo o mundo, verifica-se um crescimento substancial de iniciativas de doação de
computadores para países e/ou comunidades carentes, que são justificadas como ações de
promoção da inclusão digital.
Contudo, de acordo com Rosa (2007) pesquisadores da ONU detectaram um problema que tem
se mostrado ser uma constante nesses tipos de ações de “caridade”.
Empresas estão enviando computadores para os países mais pobres não porque
estejam preocupados com a inclusão digital ou com a melhoria da educação nesses
países: elas estão simplesmente se livrando de forma desonesta e ilegal de
equipamentos cujo descarte seria problemática em seus países e cuja reciclagem é
ainda técnica e economicamente pouco interessante (ONU apud ROSA 2007).
Esse tipo de atitude é também identificado em ações no mercado interno: as doações de
equipamentos de informática feitas por instituições públicas e privadas são caracterizadas por
equipamentos “mortos”, sem quase nenhuma condição de uso ou recondicionamento. O
projeto “Computadores para Inclusão” do Ministério do Planejamento e Orçamento (MPO),
Brasil, afirma que a cada 10 equipamentos doados, apenas 3 unidades conseguem sair dos
Centro de Recondicionamento de Computadores (CRC) totalmente recondicionados e com
condições de uso. Ainda assim, logo deixarão de ter utilidade, graças ao ritmo alucinante da
obsolescência técnica.
31
5. GERENCIAMENTO DO RESÍDUOS
Os resíduos dos equipamentos elétrico e eletrônicos (REEE) podem ser definidos como substância ou
objetos que foram descartados, incluindo todos os componentes, subconjuntos e consumíveis que
fazem parte do produto no momento do descarte (Diretiva da União Européia 2002/96/EC).
Os equipamentos eletroeletrônicos apresentam, segundo a European Environment Agency – EEA
(2003), quatro fases, para então tornarem-se resíduos:
Fase 1: produção e venda dos EEE, incluindo importação, exportação e equipamentos para reuso,
provenientes de reparação;
Fase 2: consumo e uso dos EEE por residências, escritórios, indústrias, etc;
Fase 3: coleta dos REEE, incluindo sua transferência para áreas de tratamento e destinação
Fase 4: alternativas para tratamento e destinação, como aterros, incineração, reparação, reciclagem,
etc.
Os EEE são descartados devido a fatores como o não funcionamento dos equipamentos, custo de
reparação, inovação tecnológica e rápida obsolescência; aspectos da produção como design e tempo
de vida dos equipamentos também contribuem para a crescente geração de resíduos
eletroeletrônicos. A United Nations Environment Programme (UNEP, 2005) calcula que até 50
milhões de toneladas de resíduos de equipamentos eletroeletrônicos são jogadas anualmente no
lixo em todo o mundo.
Diversas fontes apontam para o rápido crescimento da geração dos resíduos eletroeletrônicos ao
redor do mundo. A United Nations Environment Programme (UNEP, 2007) publicou o Inventory
Assessment Manual, apresentando indicadores, estatísticas e previsões acerca da geração dos REEE:





Nos países desenvolvidos, em média, 1% do total dos resíduos sólidos gerados são
tecnológicos; até 2010, esse valor tenderá a 2%;
Nos Estados Unidos da América, de toda a geração de resíduos urbanos, os resíduos
tecnológicos correspondem entre 1% a 3%;
Historicamente, na União Europeia, os resíduos de equipamentos elétricos e eletrônicos
aumentam de 16 a 28% a cada cinco anos. Esse aumento é três vezes mais rápido que a
média anual da geração dos sólidos municipais;
Fontes indicam que na União Europeia a geração de REEE varia de 5 a 7 milhões de
toneladas por ano ou cerca de 14 a 15 kg per capita, bem como deverá crescer a uma taxa
de 3% a 5% por ano;
Nos países em desenvolvimento, a geração de REEE varia de 0,01% a 1% do total da geração
de resíduos sólidos urbanos.
Recente estudo 11 realizado Rocha & Gomes (2009) para a Fundação Estadual do Meio Ambiente
(FEAM), estimou a geração de 680 mil toneladas/ano de resíduos provenientes de telefones celular e
fixo, televisores, computadores, rádios, máquinas de lavar roupa, geladeiras e freezer (REEE) no
Brasil. A partir de uma projeção de cenário até o ano de 2030, foi possível identificar padrões de
geração de resíduos, bem como estabelecer critérios para a coleta dos mesmos de modo a agregar
valor a cadeia. Calcula-se que entre 2001 e 2030, cada cidadão brasileiro produzirá em torno 3,4kg
11
Diagnóstico da Geração de Resíduos Eletroeletrônicos no Estado de Minas Gerais, 2008.
32
de REEE, valor bastante superior a média de 1,5 kg de resíduos sólidos gerados diariamente por cada
brasileiro. Ao considerar apenas os resíduos gerados provenientes de telefones celular e fixo,
televisores e computadores (equipamentos de informática e telecomunicação), este valor fica em
torno de 1,0 kg/habitante/ano.
Em função do aumento progressivo da quantidade e periodicidade de descartes de resíduos
provenientes de telefones celular e fixo, televisores, computadores, rádios, máquinas de lavar
roupa, geladeiras e freezers, o diagnóstico indica que o Brasil chegaria a acumular cerca de 22,4
milhões de toneladas de resíduos eletroeletrônicos para disposição, no período de 2001 a 2030,
sendo que Minas Gerais representa em torno de 10% desse total. No caso de resíduos de
informática e telecomunicações, estes valores são de aproximadamente 6,6 milhões toneladas.
Se por um lado o potencial dano causado pelos metais não ferrosos e outros componentes dos REE
destinados de modo indevido ao meio ambiente são motivos de preocupação; por outro lado, devese observar que os mesmos metais e demais substâncias provenientes dos REEEs são passíveis de
reaproveitamento em diferentes cadeias produtivas por meio da logística reversa e
reprocessamento.
A identificação dos processos e agentes relacionados à cadeia reversa de REEE representa um
importante subsídio a avaliação e previsão de cenários para a gestão ambiental de resíduos, bem
como a implementação de sistemas de logística reversa12.
Conforme sugerido por Xavier et al (2008), a gestão de resíduos possui cadeias com particularidades
nas diferentes regiões metropolitanos do país. O Nordeste, por exemplo, possui uma cadeia reversa
com uma significativa atuação de cooperativas e associações, no entanto, os catadores autônomos
representam ainda a maioria do contingente atuante no segmento.
Por outro lado, na região Sudeste a organização da cadeia é fomentada pela atuação de
Organizações Não-Governamentais (ONGs) e há forte intervenção do estado na gestão dos resíduos
sólidos, de um modo geral.
Especificamente na cadeia de resíduos eletroeletrônicos deve-se considerar a alta complexidade dos
resíduos como fator limitante para a implementação de processos e políticas únicos para os
diferentes produtos e materiais. A complexidade justifica-se pela diversidade de materiais que
compõem a cadeia, como plástico, metal ferroso, metal não-ferroso, vidro, cerâmica, outros. De
forma adicional, a descaracterização desses equipamentos requer ainda considerável conhecimento
técnico, com vistas ao não comprometimento de funções preservadas de aparatos com alto
potencial tecnológico, a exemplo de placas de circuito impresso.
Nesse sentido, de acordo com a ABINEE os equipamentos eletroeletrônicos são classificados
conforme especificidades de cada tipo de material que os compõem:
a.
b.
c.
Linha Marrom: televisor tubo, televisor LCD/Plasma, DVD/VHS e produtos de áudio.
Linha Verde: desktops, laptops, impressoras e aparelhos celulares.
Linha Branca: geladeiras, fogões, lava roupas, lava louças e ar-condicionado.
12
Conforme previsto na Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305 e Decreto 7.404 de 2010), até
junho de 2011 deverá ser implementado o sistema de logística reversa e lançadas as diretrizes para elaboração
dos Planos de Gestão de Resíduos no âmbito nacional, estadual e municipal.
33
d.
Linha Azul: Batedeiras, liquidificadores, multiprocessadores e ferros elétricos.
Entende-se que para cada segmento considerado devam ser definidos critérios específicos com
vistas a possibilitar um efetivo gerenciamento dos resíduos sólidos resultantes do final de vida dos
produtos. Enquanto os refrigeradores possuem um percentual expressivo de ferro (64%), por
exemplo, as TVs possuem um quantitativo proporcionalmente inferior (11%). Dessa forma, a
localização de plantas para recondicionamento de TVs para aproveitamento de materiais não devem
priorizar o ferro, mas talvez o vidro, que chega a representar 50% de cada equipamento.
A Análise de Ciclo de Vida (ACV) de cada equipamento, portanto, ganha importância fundamental na
definição do sistema logística, no qual serão considerados desde tipo de material, processo, rotas
para recebimento e escoamento, requisitos de armazenagem e mercado consumidor, por exemplo.
A partir do momento que um equipamento eletroeletrônico passa a não atender mais às
necessidades do usuário e este realiza o seu descarte, o equipamento pode percorrer um longo
caminho até chegar a um estágio em que não há mais possibilidade de reaproveitamento, sendo
encaminhado para a disposição final.
Assim, a fim de prolongar ao máximo o ciclo de vida de um equipamento e de seus componentes, o
encaminhamento ideal de um material descartado seria primeiramente a coleta seletiva, onde é
feita uma triagem do que pode ser: (i) recondicionado, remanufaturado ou reutilizado; (ii)
desmanufaturado (desmontado) para que peças e componentes possam ser reutilizados ou
reciclados; (iii) e ainda tenham uma destinação final correta. A Figura 10 ilustra os possíveis
percursos de um produto a partir do seu descarte.
34
Figura 10: Opções de destinação dos equipamentos eletroeletrônicos após o seu descarte.
Fonte: Rodrigues, 2007
O reuso de equipamentos eletroeletrônicos é uma atividade muito importante, pois aumenta o
tempo de vida útil do EEE, diminuindo, assim, a quantidade de resíduos gerados. Segundo Rodrigues
(2007), o reuso dos equipamentos pode ocorrer através da doação e/ou do repasse dos EEE para
instituições, indivíduos e organizações; e através da venda dos equipamentos obsoletos a empresas
de revenda e/ou manufatura, as quais compram estes equipamentos, com o objetivo de repará-los
para revendê-los posteriormente.
No entanto, atualmente, após o descarte, a maioria dos EEE não passa por um processo de reparo,
remanufatura e reutilização; ele é coletado como lixo municipal, sem nenhuma distinção, e lançados
em aterros e incinerados (EEA, 2003).
Ao se descartar os REEE de maneira inadequada, os metais pesados presentes nestes podem
contaminar os rios, os solos e conseqüentemente toda a biota. Como os metais pesados são
substâncias bioacumulativas, ao passarem através da cadeia trófica, a sua concentração torna-se
mais elevada, deixando os consumidores finais com um maior teor destes metais no seu organismo.
Dessa forma, o descarte inadequado ou o aterramento e incineração sem tratamento prévio dos
resíduos de computadores pós-consumo, resultam em, segundo Virgens (2009):
35
●
●
●
●
●
●
Contaminação dos recursos hídricos, do solo ou do ar, devido à emissão de substâncias
danosas ao meio ambiente. A incineração pode resultar na emissão de mercúrio, chumbo e
outras substâncias tóxicas;
Esgotabilidade dos recursos naturais, a exemplo do índio e Lítio, procedentes do aumento da
pressão pela extração de recursos naturais para a fabricação de novos equipamentos;
Perda de material de alto valor econômico agregado, a exemplo do ouro e da prata, os quais
são passíveis de reciclagem;
Perda e incremento nos gastos de energia;
Diminuição da vida útil dos aterros sanitários resultante dos materiais de diminuta
biodegradabilidade e problemas devido à presença de metais pesados;
Contaminação humana através de manipulação, inalação e ingestão de água e alimentos
contaminados.
Os metais pesados como o arsênico, cádmio, chumbo, manganês, mercúrio e zinco afetam
diretamente a saúde humana, como pode ser visto no Quadro 4.
36
Quadro 4: Efeitos das substâncias tóxicas, presentes nos REEE, em seres humanos
SUBSTÂNCIA
Arsênico
Cádmio
Chumbo
VIA DE CONTAMINAÇÃO
QUANTIDADE
EFEITO
Ingestão de alimento e
água contaminada
Irritação dos pulmões
Inalação
Lesões no coração e nos
vasos sanguíneos
Manuseio
Exposição a níveis elevados
pode ocasionar morte
Inalação
Bioacumulativo
Ingestão de alimento e
água contaminada
Altamente tóxico mesmo
em pequenas quantidades
Provoca disfunção renal
Manuseio
Lesões nos pulmões e nos
ossos; e doenças no fígado
Ingestão de alimento e
água contaminada
Disfunção renal e anemia
Inalação e toque
Bastante tóxico mesmo em
pequenas quantidades
Lesões no sistema nervoso,
fígado, cérebro e órgãos
reprodutivos
Aumento da pressão
sanguínea
Manuseio
Sistema neurológico,
provoca gagueira e insônia
Manganês
Inalação
É perigoso mesmo em
pequenas quantidades
Lesões no sistema nervoso,
fígado e cérebro
Problemas de memória e
visão
Ingestão de alimentos,
como peixes e crustáceos
contaminados;
Mercúrio
Inalação;
Bioacumulativo
Bastante tóxico mesmo em
pequenas quantidades
Lesões renais
Afeta o cérebro e sistema
neurológico.
Manuseio;
Estomatites
Zinco
Inalação
Perigoso em grandes
quantidades
Problemas pulmonares
Fonte: Furtado (2003, p. 22); Agency for Toxic Substances & Disease Registry (adaptado)
Os efeitos causados por estas substâncias, nos seres humanos, podem ser letais. O cádmio, por
exemplo, pode causar lesões no fígado, desenvolvimento de hipertensão, problemas do coração e
câncer de pulmão; o chumbo pode gerar alterações neuromusculares, no sistema nervoso e na
biossíntese do sangue e o mercúrio pode desenvolver lesões cerebrais, no sistema nervoso, e
doenças no coração.
37
Segundo HUO, X. et al. (2007), grande parte da desmanufatura dos EEE importados na China é feita
manualmente e trabalhadores usam meios primitivos em oficinas que funcionam a céu aberto.
Acrescenta-se a isso a prática comum de incineração e banhos de ácido para recuperar os metais e o
descarte dos resíduos tóxicos sem qualquer tratamento, permitindo que os poluentes se infiltrem no
solo e nos recursos hídricos. Estudos revelaram ainda um alto índice de
nível de chumbo no sangue de crianças que moram em Guiyu, na China, local de desmontagem e
incineração de REEE: mais de 50% superior ao limite de exposição ao chumbo conjunto pelos
Centros de Controle e Prevenção de Doenças nos Estados Unidos, e do que entre crianças de uma
aldeia vizinha, onde não há a realização dessa prática.
A correta destinação e tratamento destes resíduos de equipamentos eletroeletrônicos são
fundamentais para evitar que contaminações da biota ocorram, que materiais sejam excessivamente
retirados do ambiente e que substâncias reutilizáveis não sejam desperdiçadas. Dentre os tipos de
destinação tem-se a reutilização, a reciclagem, a incineração e a disposição final em aterro.
Segundo informações divulgadas no documento da Electronics Tack Back Coalition13 (2010),
comparado à disposição, o reuso de computadores cria 296 postos de trabalho a cada 10.000
toneladas de material dispostos anualmente.
O processo de reciclagem é muito importante para reaproveitar as substâncias de valor existentes
na composição dos resíduos de equipamentos eletroeletrônicos. Porém, as substâncias tóxicas
existentes, dificultam este processo, colocando em risco a saúde dos trabalhadores e o meio
ambiente.
Segundo a EEA (2003), o processo de reciclagem é similar para todos os resíduos de equipamentos
eletroeletrônicos, apresentando quatro etapas:
i.
ii.
iii.
Desmontagem: ocorre a remoção de componentes que possuem substâncias perigosas
como chumbo, mercúrio, CFC (cloroflúorcarbono); e a remoção das partes que
apresentam substâncias de valor, como cobre, aço, ferroe metais precisos. Nesta etapa
existe o risco de contaminação do meio ambiente e do trabalhador, pois a armazenagem
inadequada, e um erro durante a desmontagem pode liberar líquidos e fases tóxicos.
Segregação de metais ferrosos, não ferrosos e plásticos: ocorrem geralmente através
do processo de moagem e quebra. Há também a possibilidade de contaminação
ambiental e humana, pois alguns plásticos possuem retardantes de chamas, que quando
aquecidos liberam substâncias tóxicas, como as dioxinas.
Reciclagem/ recuperação de materiais de valor: os metais ferrosos são colocados em
fornos elétricos, os não ferrosos são derretidos e os metais preciosos passam por
processo de separação. Nesta etapa, os riscos ao meio ambiente e ao ser humano
dependem do tipo de material a ser reciclado. Na reciclagem de ferro/aço, através dos
fornos elétricos, há o risco de emissões de dioxinas, e de cádmio; na reciclagem de
cobre, há o risco de emissão de metias pesados e voláteis. E na reciclagem do e
alumínio, há a emissão de SO2 e NOx.
Recuperar os metais através da reciclagem é uma das soluções existentes para minimizar muitos dos
impactos ambientais gerados pela mineração. Para a produção de 1 kg de alumínio, através da
13
Electronics Tack Back Coalition, 2010. Facts and Figures on E-Waste and Recycling.
38
reciclagem, é utilizado um décimo (1/10) da energia necessária para a produção primária. Além de
prevenir a geração de 1.3Kg de resíduos de bauxita, 2 Kg de emissões de CO2 e 0.011 Kg de emissões
de SO2 (UNEP, 2009). Conforme disposto na Tabela 10, cerca de metade do chumbo, um terço do
alumínio e um terço do ouro utilizados no mundo são provenientes da reciclagem. Porém, apenas
13% de cobre e 4% de zinco mundial são provenientes da reciclagem (WWI, 2003).
Tabela 10: Percentagem de metais utilizados mundialmente provenientes da reciclagem.
Metais
Chumbo
Alumínio
Ouro
Cobre
Zinco
Fonte: WWI, 2003.
iv.
Percentagem reciclada
50
33
33
13
4
Tratamento/disposição de matérias perigosos e resíduos: o mercúrio geralmente e
reciclado ou disposto em no subsolo de aterros, CFCs são tratados termicamente, PCB
são incinerados ou armazenados em compartimentos no subsolo.
Segundo a ONU (apud Höges, 2010), o custo para se reciclar apropriadamente um velho monitor CRT
na Alemanha é de 3,50 euros (US$ 5,30 ou R$ 9,20). Mas o envio do mesmo monitor para Gana em
um contêiner de navio custa apenas 1,50 euro (R$ 3,80).
Ainda de acordo com Electronics Tack Back Coalition (2010), a recuperação de 10 kg de alumínio
pela reciclagem, por exemplo, não usa mais de 10% da energia necessária para a produção primária,
prevenindo a criação de 13 kg de resíduos de bauxita, 20 kg de CO2, e 0.11 kg de dióxido de enxofre
e muitas outras emissões e impactos.
Em documento publicado pelo governo dos Estados Unidos da América (USA, 2008), afirma que
instalações de reciclagem no estado-da-arte presentes em países desenvolvidos, como a Bélgica,
possuem a tecnologia para extrair metais preciosos e mercadorias vendáveis. Desta forma, a
reciclagem oferece um benefício ambiental importante: a extração de metais de equipamentos
eletrônicos usados pode ser realizada gerando menos impacto ambiental que a mineração. De
acordo com o documento, o U.S. Geological Survey, por exemplo, informa que uma tonelada de
sucata de computador contém mais ouro do que 17 toneladas métricas de minério de ferro e níveis
muito baixos de elementos prejudiciais comuns aos minérios, tais como o arsênico, mercúrio e
enxofre.
A destinação final dos REEE esbarra em três aspectos que devem ser considerados com muita
cautela: logística, mão-de-obra especializada e detenção de tecnologia de ponta, capaz de
reaproveitar o máximo possível dos componentes e substâncias presentes nos resíduos
tecnológicos.
39
6. CONCLUSÃO
O avanço tecnológico, característica marcante do século XXI, trouxe inúmeros benefícios para a
sociedade contemporânea em diversas áreas como saúde, transporte e lazer, tornando os produtos
industrializados inerentes à nossa sobrevivência. Porém, este avanço tecnológico também se revelou
um problema socioambiental, principalmente devido ao curto ciclo de vida dos equipamentos
(rápida obsolescência) e geração crescente de resíduos tóxicos e poluentes.
O incremento tecnológico de um produto pode ser interpretado sob diferentes óticas. Sob a ótica
econômica, um produto que demande alto potencial tecnológico tende a ter um custo maior do que
produtos similares disponíveis no mercado. Com o passar do tempo e o avanço das pesquisas e
ferramentas tecnológicas, este mesmo produto com alto potencial tecnológico tem seu valor de
mercado reduzido em função de novos produtos que são produzidos e, por isso, tornam-se mais
baratos. Sob a ótica do consumidor, estes produtos que se tornam substituíveis são tidos como
obsoletos e, por isso, mais próximos da etapa final de sua vida útil.
Cabe ressaltar o fato de que os produtos são muitas vezes substituídos sem ao menos terem
chegado ao final de sua vida útil, e que, juntamente com produtos fora de uso, passam a compor o
conhecido ‘lixo tecnológico’. Desta forma, analisando-se a situação descrita acima, sob a ótica
ambiental, pode-se inferir que o avanço tecnológico e a inovação tendem a reduzir o tempo de ciclo
de vida de um determinado produto.
Assim, considerando o ciclo de vida de um produto iniciando com a extração de matéria-prima e
finalizando com a destinação final dos resíduos conclui-se que todos os ciclos são representativos
sob a ótica dos impactos gerados. Entretanto, a etapa de manufatura pode ser ainda mais
expressiva.
Compreende-se que as matérias-primas necessárias para a produção dos equipamentos
eletroeletrônicos podem ser obtidas através da extração de minerais e também da reciclagem dos
resíduos gerados; o desmonte e a reciclagem das partes/componentes dos equipamentos podem ser
projetados para serem mais acessíveis; a tecnologia, através de investimentos em estudos e
pesquisas, é capaz de desenvolver produtos de tecnologia avançada e também sustentáveis, verdes.
Considera-se que a concepção do design de um produto é capaz de impactar diretamente nas etapas
iniciais e finais (obtenção de matérias-primas e gerenciamento dos resíduos) dos equipamentos
eletroeletrônicos. O design associado ao foco da sustentabilidade (ecodesign) é uma ferramenta
chave para diminuir os impactos gerados durante o ciclo de vida dos EEE: (i) facilitar a reciclagem e a
manutenção, com isso, diminuir a necessidade de extração de matérias-primas não renováveis; (iii)
incentivar o reuso de equipamentos obsoletos para determinados setores, extendendo, assim, o
tempo de vida útil; (iv) diminuir e/ou substituir o uso de substâncias perigosas, diminuindo a
contaminação do meio ambiente e dos seres humanos.
40
REFERÊNCIAS
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<http://www.anatel.gov.br/Portal/exibirPortalInternet.do#>. Acesso em março de 2010.
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<http://www.abinee.org.br/informac/arquivos/pan2010.pdf>. Acesso em Setembro de 2010.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA INSDÚSTRIA ELÉTRICA E ELETRÔNICA - ABINEE. Panorama Econômico e
Desempenho Setorial, 2011. Disponível em
<http://www.abinee.org.br/informac/arquivos/pan2011.pdf>. Acesso em março de 2011.
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Mapeamento do ciclo de vida de equipamentos eletrônicos