1 O LÚDICO NA PROMOÇÃO DA SAÚDE NO TRÂNSITO: UMA CONTRIBUIÇÃO DA ENFERMAGEM The playfulness in health promotion in traffic: a contribution of nursing Lo lúdico en promoción de salud en tránsito: una contribución de la enfermería RESUMO Pesquisa resultante de uma dissertação de mestrado formulada a partir das inquietações de uma enfermeira de atendimento pré-hospitalar móvel que percebendo suas atividades iniciando-se rotineiramente após a ocorrência de um trauma, decidiu encontrar formas alternativas de prestar cuidado também na prevenção. Com efeito, o enfermeiro deste tipo de serviço pode desenvolver um papel ativo na educação em saúde no trânsito e na prevenção de agravos por sua singular posição dentro da equipe. A partir deste entendimento buscou-se a construção de um material educativo impresso como uma forma de materialização de cuidado e para tanto, adotou-se a pesquisa ação na tentativa de aproximar os atores que compõem o trânsito à comportamentos de prevenção. Acreditamos que esta pesquisa resultou em um produto para a coletividade, desdobrando a contribuição da enfermagem pré-hospitalar móvel para além da assistência direta individual. Descritores: Promoção da saúde, educação em enfermagem, acidentes de trânsito. RESUMEM La pesquisa es resultado de la investigación de una disertación formulada a partir de las inquietudes de las enfermeras en pre hospitalaria móvil a realizar sus actividades rutinarias de partida, después de la ocurrencia de una atención al trauma, han decidido buscar formas alternativas de proporcionar la atención también en la prevención. De 2 hecho, la enfermera de este tipo de servicio puede desempeñar un papel activo en la educación para la salud en la prevención del tráfico de la lesión y por su posición única dentro del equipo de salud. A partir de esta comprensión há sido tratado de construir un material educativo impreso como una forma de realización de la atención y para ello, hemos adoptado la investigación cualitativa basada en la acción, en un intento de llevar a los actores que componen el tráfico de comportamientos de prevención. Creemos que esta investigación dio lugar a un producto de acción prolongada para la comunidad, la ampliación de la contribución de la enfermería móvil de atención pre hospitalaria más allá de la persona directamente. PALABRAS CLAVE: Promoción de la salud, Educación de enfermería, Accidentes de tráfico ABSTRACT Research resulting from a dissertation formulated from the concerns of nurses in mobile pre-hospital care realizing their routine activities, starting after the occurrence of some sort of injury, decided to find alternative ways to provide care and prevention as well. Indeed, the nurse of this type of service can play an active role in health education circa traffic injury prevention and for its unique position within the health team. From this understanding it was sought to build an educational material printed as a form of embodiment of care and to this end, it was adopted the qualitative research-based action, in an attempt to bring the actors who compose the traffic in order to prevent inapropriate behaviors. It is believed that this research resulted in a product with extended action for the community, expanding the contribution of nursing mobile prehospital care beyond the individual directly. Descriptors: Health Promotion, Education in Nursing, Traffic accidents. 3 INTRODUÇÃO A trajetória de superação e adaptação às novas situações fez da enfermagem uma ciência versátil sinalizando com avanços palpáveis na esteira da assistência, da prevenção de doenças e na promoção à saúde(1,2). Assim, aliando a percepção de um trabalho pautado no pós-trauma e a visão terapêutica do enfermeiro, chegou-se a um questionamento sobre como aproximar o cuidar da promoção à saúde no trânsito e, sob uma perspectiva lúdica, viabilizar um material que não assumisse uma conotação prescritiva e que, ao mesmo tempo, implicasse em prevenção. Acredita-se que a prática da educação em saúde se constitui, em verdade, numa práxis libertadora, sobretudo se entendermos que a educação em saúde, assim como a cultura, foi desenvolvida justamente para combater a vulnerabilidade do cidadão. Desenvolver ações voltadas à educação em saúde no trânsito através da mobilização social é visar o controle de doenças e de agravos à saúde. Desta forma, fomentar nas crianças o senso de cuidado pela sua própria saúde e da comunidade a qual pertencem é incitar-lhes a capacidade de participar da vida comunitária de uma maneira construtiva. Esta compreensão da educação em saúde no trânsito está intrinsecamente relacionada à concretização dos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente se o enfermeiro de atendimento pré-hospitalar móvel coloca sua experiência à disposição desses princípios não se limitando, entretanto ao atendimento pós-trauma à exemplo da atuação de enfermeiros nos demais serviços de cuidados que exigem do enfermeiro atuação rápida e eficaz no restabelecimento das funções vitais, como é o caso nas unidades de terapia intensiva(3). 4 O aumento populacional citadino associado a estabilidade econômica no país, provocou um aumento na circulação humana, fato este, refletido em uma maior aquisição de veículos automotores, transformando os espaços de circulação humana em verdadeiros espaços de disputa. Esse cenário tem gerado a ocorrência de conflitos entre os mais diversos participantes do trânsito e à revelia da atuação preventiva dos profissionais da saúde, nas últimas décadas, o trauma tornou-se epidemia antes mesmo de ser entendido como um problema de saúde pública. Diante disso as discussões atuais sinalizam a urgente necessidade de tratar o trauma decorrente de acidentes de trânsito como uma epidemia grave que mutila, gera incapacidade, morte e que até o momento ainda não foi estudado na amplitude merecida(4). Com esses elementos, destacamos a relevância do tema a ser pesquisado, por acreditar que ele poderá contribuir para o desenvolvimento da enfermagem como ciência, proporcionando novas alternativas de desenvolver o cuidado ao enfermeiro, bem como por se propor a melhorar a educação em saúde no trânsito visando a preservação da vida humana em seus deslocamentos. Considerando a Política Nacional de Atenção às Urgências como Política Pública que é, defendemos que o enfermeiro pode atuar dentro de sua profissão e servir à comunidade quando avança no sentido da promoção da educação em saúde no trânsito. Com efeito, reportando à Teoria da Diversidade e Universalidade do Cuidado Cultural(5) apreende-se que a transculturalidade é um campo profícuo para sistematização de conhecimentos sobre cuidado humano acomodando diversos métodos de implantação, inclusive o lúdico. A literatura consultada para subsidiar esta pesquisa tende a destacar o lúdico como estratégia possível de ser incorporada à prática de enfermagem, aproximando o 5 indivíduo de uma percepção adequada sobre cuidado com a própria saúde e a dos outros. Além disso, busca-se também esclarecer que a aplicação do lúdico no processo de promoção da saúde faz da pessoa um sujeito ativo, nivelado ao cuidador e coconstrutor da realidade, destacando principalmente que a ludicidade tem relação próxima com a alegria de viver(5,6,7). PERCURSO METODOLÓGICO Trata-se de um estudo de natureza qualitativa, onde se procurou desenvolver um conteúdo didático-instrucional, que favorecesse a concepção e a construção de um material educativo impresso, destinado a promoção da saúde no trânsito, sob uma perspectiva lúdica. Este material educativo, uma vez elaborado, serve de base para crianças do ensino fundamental, no que diz respeito à educação no trânsito. Naturalmente surgiu a necessidade de um método que orientasse a pesquisa no sentido de atingir esse instantâneo e optou-se pela pesquisa ação como essência imediata(8). Após a escolha do método realizamos a sistematização do conteúdo da cartilha utilizando os quatro princípios de convivência social no trânsito propostos pelo Departamento Nacional de Trânsito (DENATRAN), em 2005. As ilustrações foram produzidas por um cartunista profissional com base nos textos da revisão de literatura e nas sugestões da pesquisadora. Foi necessária a adoção de critérios editoriais para transformar os conteúdos pesquisados em um material impresso e o trabalho de um diagramador. Na etapa de validação foi realizada uma cópia do material piloto, editada no Corel Draw (editor de imagens e texto especificado para este trabalho) e impresso em papel sulfite A3, na configuração normal, finalizado com grampeador comum, foi entregue no local de trabalho de três especialistas previamente voluntariados junto as 6 suas instituições. Com a cartilha entregamos um questionário no qual os especialistas foram solicitados a registrar suas sugestões na intenção de melhorar a apresentação da cartilha e duas cópias do Termo de Consentimento e Livre Esclarecimento. Cada especialista participante dispôs de 48 horas em dias úteis para manusear e avaliar o material. Este instrumento permitiu que os especialistas fizessem recomendações quanto à estrutura, conteúdo, linguagem e ilustrações contidas na cartilha. O questionário também dispunha de um espaço reservado ao registro de recomendações adicionais, que eventualmente não tinham sido contempladas nos seus itens(9). Entre a finalização do processo de reformulação da cartilha e a classificação das sugestões dos peritos optou-se por submeter o material educativo impresso às crianças. Foi um momento fundamental para que a pesquisadora captasse as percepções daquelas que seriam o público alvo da cartilha, tendo o objetivo de indicar as dificuldades encontradas no que se referia à compreensão da temática geral, qual seja, a promoção da saúde no trânsito. Esta pesquisa garantiu todos os preceitos éticos sendo que a coleta de dados foi realizada após a aprovação do Comitê de Ética e Pesquisa com seres humanos da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), registrada no Processo nº 004/10 CEP/UFRN. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Das sugestões apontadas pelos especialistas, adotaram-se todas que obedeceram ao caráter científico da pesquisa e que se apresentaram como facilitadores da compreensão do leitor. As sugestões versaram sobre as ilustrações, seu tema, tamanho e cor, sobre o texto, as expressões utilizadas, as expressões que eles julgaram incompreensíveis para as crianças, sobre a proposição de substituição de conteúdo e 7 sobre a linguagem. Na composição da cartilha os especialistas concordaram com a oferta de um pequeno glossário que ajudasse as crianças a elucidarem termos que podiam não ser de seu uso freqüente. Quadro I – Sugestões dos especialistas para inclusão, reformulação e exclusão de termos ou expressões no glossário Termo Condutor Explicação É aquele que conduz um veículo automotor ou não. Ex.: o motorista do carro, o motoqueiro, quem conduz a bicicleta. Atendimento pré-hospitalar Serviço de atendimento móvel móvel às urgências. Uma espécie de pronto-socorro dentro de uma ambulância bem grande. Cidadania São os direitos e deveres que tem uma pessoa que mora em uma cidade. Sugestão dos especialistas É aquele que conduz um veículo automotor ou não, como o motorista, o motociclista e o ciclista. Sugestão para excluir o termo. São direitos e deveres que uma pessoa tem. Por se tratar de uma cartilha destinada às crianças as ilustrações constituem um ponto forte para auxílio nas interpretações. Os especialistas dedicaram atenção especial a este tópico e muitas sugestões foram feitas. Quadro II – Sugestões dos especialistas para inclusão, reformulação e exclusão de ilustrações Ilustrações Sugerida alteração para Acidente de trânsito e pessoas observando (p. 14 e p. 15) Melhorar o aspecto dos olhos da enfermeira que realiza o atendimento e das pessoas que observam Dar um semblante de satisfação ao carro. Fusquinha carregando coração Explicação dos especialistas Os olhos estreitos dão ideia de descaso com a situação, onde se deveria primar pela solidariedade. As crianças devem associar que o cuidado com o outro 8 (p. 20) Crianças brincando nas calçadas (p. 27) Caricatura do ‘Pensador’ de Rodin, escultura originalmente despida. Pai segura filho pelo pulso ao atravessar a rua. Desenho caricato de um trânsito intenso. no trânsito é um gesto de satisfação. Crianças pequenas não devem brincar nas calçadas. Colocar as crianças brincando em parques ou em praças. Trocar a figura desnuda do As crianças poderiam não ‘Pensador’ por uma criança entender o que um ‘homem vestida na mesma posição. nu’ estava fazendo na cartilha sobre saúde no trânsito. Trocar por pai segurando As crianças podem associar filho pela mão ao o atravessar pai segurando pulso com a rua. punição. Trocar desenho por outro Já que a cartilha trata de com a reprodução de um sinalizar para um trânsito trânsito organizado. seguro, ela deverá apresentar reforços positivos e não o contrário. Das sugestões feitas pelos especialistas para alteração ou exclusão do texto apresentado, apenas uma não foi incorporada à cartilha. Trata-se do texto que acompanha a ilustração que representa a ocorrência de um acidente de trânsito, seguido de um atendimento por uma enfermeira enquanto é observada por transeuntes. O texto original descreve que em um acidente de trânsito pode-se quebrar o braço, a perna ou até perder a vida. Um dos três especialistas sugeriu que o texto inicia-se com o alerta de que ‘além do estrago nos veículos e vias de sinalização, os acidentes de trânsito podem gerar ocorrências como braços e pernas quebrados. Esta alteração não foi incorporada pelas pesquisadoras por estas entenderem de que mais importante para o transcurso normal da vida humana é a integridade do corpo, em detrimento de alguma avaria nos veículos ou vias de sinalização, mesmo que fique claro que não foi esta a intenção demonstrada pelo especialista. 9 Quadro III – Sugestões dos especialistas para inclusão, reformulação e exclusão de termos ou expressões no texto Onde lia-se Sugerida alteração para Explicação dos especialistas ...ir ao colégio, a ...ir ao colégio, a Shopping centers já fazem bibliotecas, bibliotecas, parte da realidade das à pracinha... (p. 11) à pracinha ou ao crianças na maioria das shopping... cidades. ... até o caminho de casa Se não tivermos cuidado A noção de cuidado deve para até estar presente associada a o colégio pode se tornar o caminho de casa para o redução de acidentes. perigoso... (p. 12) colégio pode se tornar perigoso... ...com pessoas que andam à ...com pessoas que andam à A carroça ainda é pé, de moto ou bicicleta... pé, de moto, bicicleta ou transporte (p. carroça... observado pelas ruas da 13) cidade onde a cartilha foi concebida. ...as pessoas que fazem o Todas as pessoas devem A linguagem deve ser o trânsito tem que se entender que o trânsito mais convencer adoece. clara possível. de que ele também fica doente. (p. 16) ... e as vias públicas ... e as vias públicas A noção de cuidado deve servem a servem a estar presente associada a todos, nelas ninguém pode todos e cada um cuida do redução de acidentes. ter mais direitos. (p. 19) outro para que o trânsito não adoeça. No trânsito com boa saúde No trânsito com boa saúde Associação entre cuidado e os os atenção às normas de pedestres cuidam um do pedestres atravessam a rua segurança no trânsito. outro. (p. 24) pela faixa, andam pelas calçadas e cuidam um do outro. Associação entre cuidado e ...e o transporte maior O pedestre deve sempre ser atenção às normas de respeita o transporte menor a segurança no trânsito. e figura mais respeitada no todos respeitam o pedestre. trânsito. ... exercendo sua cidadania, ...as pessoas devem exigir A linguagem deve ser o todas as pessoas devem transportes coletivos de mais exigir transportes coletivos boa clara possível. de boa qualidade.(p.30) qualidade para melhorar a saúde do trânsito, isso se chama cidadania. 10 Ademais, avaliou-se também de forma positiva a elaboração dos textos que, segundo eles, encontraram ressonância nos princípios de trânsito solidário propostos pelo DENATRAN. No entanto, foi especialmente registrada a observação dos especialistas no que se refere a observação da manifestação do cuidado em muitas falas do texto o que reforça a intenção das pesquisadora de associar a produção da cartilha como uma inerente produção de cuidado. Um dos especialistas sugeriu que a cartilha estendesse seu público-alvo ampliando-se em uma série que contemplaria adolescentes, jovens, adultos e idosos. E todos os especialistas consultados avaliaram a cartilha como um instrumento possível de ser aplicado às crianças em sala de aula, durante o ensino fundamental regular. Quadro IV – Sugestões dos especialistas quanto ao conteúdo Quanto às repostas Comentário dos especialistas Você vê pertinência do conteúdo quanto à promoção da saúde no trânsito? Todos responderam que ‘sim’. O conteúdo é de fundamental importância para a promoção da saúde no trânsito, pois aborda temas principais. As informações concorrem para um trânsito saudável? Todos responderam que ‘sim’. Porque trabalha o caráter preventivo. As informações são apresentadas em um contexto pertinente para o público alvo? Todos responderam que ‘sim’. Fácil leitura e figuras que explicam a situação. O conteúdo do material indica comportamentos exeqüíveis no trânsito? Todos responderam que ‘sim’. Enfatiza ações de adultos, mas também ações das próprias crianças que podem e devem ser realizadas. O conteúdo explicita valores como dignidade, respeito, tolerância e participação popular? Todos responderam que ‘sim’. O cuidado com o outro, preocupação com a coletividade e não apenas com o indivíduo. Após a validação da cartilha pelos especialistas, as sugestões acatadas pelas pesquisadora foram incorporadas ao texto final o que gerou um novo material didático 11 instrutivo em formato definitivo. Este novo formato assumiu dimensões (20,5 x 20 cm) que favoreciam o manuseio das crianças, e foi impressa em papel Offset 120 g/m2 assemelhando-se a um livro infantil. A sistemática de apresentação da cartilha para as crianças obedeceu a um planejamento específico para este fim. No entanto, nem todos os passos planejados foram fielmente seguidos, sobretudo no momento em que eles deveriam eleger um representante para que este através de uma fala tentasse expressar a avaliação do grupo. As crianças não apresentaram dúvidas quanto ao conteúdo, as ilustrações ou linguagem durante a apresentação e manifestaram interesse através de intervenções que relatavam situações semelhantes que haviam vivido ou presenciado. As opiniões a respeito da cartilha foram dadas por todas as crianças participantes do momento lúdico dedicado a apresentação. As pesquisadoras constataram que elas fizeram uma avaliação positiva. O conteúdo da cartilha foi considerado interessante, sendo essa constatação possível à medida que as crianças iam se pronunciando sobre os questionamentos que a pesquisadora fez. Para preservar a identidade dos leitores mirins aos grupos foram atribuídos nomes de personagens da obra Sítio do Pica Pau Amarelo, do escritor brasileiro Monteiro Lobato. Sobre o questionamento ‘o que vocês acharam da pesquisa?’ relatou o Grupo do Visconde de Sabugosa: “Eu achei o livrinho ótimo porque vai ajudar a gente a salvar as pessoas de não acontecer acidente”. “Achei ótima porque eu tenho um tio que um dia foi beber e depois dirigiu e ele ia batendo...” “Gostei é muito engraçada e a gente aprende as coisas para não sofrer acidentes quando crescer.” A colaboração dos alunos da Escola Municipal Professor Manoel Assis possibilitou às pesquisadoras a satisfação de ver concretizado um pouco além do objetivo da pesquisa. O que foi constatado a partir das percepções das crianças 12 aproximou-se da dimensão ética do cuidar à medida que elas compreendiam que a cartilha orienta para que se todos tiverem cuidado uns com os outros, menos pessoas se machucam. Os deslocamentos humanos no trânsito pensado a partir das pessoas e não a partir dos carros, favorece outra perspectiva de, por exemplo, transportes públicos. O cuidar, como valor profissional e pessoal, é de central importância em prover padrões normativos os quais governam as ações e as atitudes em relação àqueles a quem se cuida. Sobre o questionamento ‘como as pessoas que dirigem podem cuidar para evitar acidentes?’, o Grupo do Saci Pererê se posicionou com as seguintes respostas: Dirigindo com mais cuidado e olhando vê se tem pessoas velhas por perto... ou crianças brincando por ali... Não deixar os pais beber quando vai para vaquejada em Apodi. Tendo paciência com os outros. As crianças utilizaram a si próprios como exemplos para a articulação da maioria das respostas, demonstrando que percebem o trânsito com base nas suas atitudes como pessoas que são responsáveis uns com os outros. E embora não tenham relatado a possibilidade disto configurar-se numa informação extensiva à sua família reconheceram suas vivências como parte da leitura da cartilha. Não houve menção a partes da cartilha que não estavam claras. Percebe-se que a enfermeira pode e deve assumir uma posição de maior autonomia ainda que em um serviço regido por protocolos e colocar-se em um espaço mais profícuo, livre do apenas cumprimento de prescrições médicas. Respeitados estudos sobre a educação e a ideologia da enfermagem no Brasil(10, 11) , tem discutido ao longo dos anos que o processo de formação dos enfermeiros esteve atrelado a ideologia desenvolvimentista do Estado. Destarte, a formação do enfermeiro ainda não está a serviço da saúde da população, comprometida com a manutenção de sua saúde e preocupada com a melhoria da sua qualidade de vida. Outrossim, o 13 enfermeiro estaria buscando forjar sua prática em campos que dele exijam ações complexas, à revelia da grande maioria da população que não tem acesso a esses tipos de procedimentos. Assim, na visão da autora, a formação do enfermeiro tem servido com certa dedicação à profissão médica que, por sua vez, necessita de uma enfermagem também especializada para juntos atuarem nos centros cirúrgicos sofisticados e nas clínicas médicas requintadas, no campo das cirurgias cardiovasculares, doenças degenerativas, cirurgias plásticas, enfim uma assistência curativa. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este estudo demonstrou que o cuidado pode assumir variadas manifestações e congruências com os sujeitos que dele se utilizarão, visando um atendimento significativo e eficaz de acordo com o contexto saúde/doença em que as pessoas estão inseridas. Aqui, buscou-se a materialização desse cuidado com vistas à promoção da saúde do trânsito, sob uma perspectiva lúdica. Ademais, talvez oculto nas entrelinhas da cartilha esteja o desejo da pesquisadora em desenvolver a criticidade daquelas crianças, incitando-lhes a formação de uma consciência colaborativa voltada para o social. Por não serem herdadas estas consciências sociais têm de ser estimuladas diuturnamente, sempre que possível for o momento. Elas devem surgir de novo em cada criança, associadas ao seu viver, como condições operacionais que possibilitam a sua realização como ser humano em total consciência individual ou social. Finalmente, com a produção dessa cartilha, as enfermeiras pesquisadora tentam oferecer sua parcela de contribuição em um campo hegemonicamente dominado pelo modelo biomédico-cartesiano e centrado além da doença, no trauma, qual seja, os serviços de urgência e, em especial os pré-hospitalares móveis. 14 Os princípios do SUS foram contemplados em todas as páginas dessa cartilha. O produto, por si só é um recurso amplamente utilizado pelo SUS na promoção da saúde das pessoas, e pensando nisso a pesquisadora procurará disponibilizar esta contribuição da enfermagem para uma ampla parcela da população, através da obtenção de parcerias com instituições públicas e privadas(12,13,14). Reconstruindo a trajetória e limitações da pesquisa, o embate inicial para a definição do objeto de estudo teve fim diante da construção do objetivo. Visando construir um material educativo impresso destinado à promoção da saúde no trânsito, estabeleceu-se uma meta para construção de um projeto de pesquisa que consolidasse o objetivo pretendido e reforçasse seu alcance através de uma metodologia que o viabilizasse. Para tanto, as orientações sobre a escolha do material que serviria de base para a revisão de literatura foi fundamental. À medida que eu imergia nas leituras, a visão do que deveria ser construído, para quem, e como, ficava cada vez mais próxima e clara, enquanto ampliava meus horizontes conceituais. A cartilha produzida não teve a pretensão de suprir as necessidades humanas sobre trânsito solidário, a própria limitação de recorte espacial revela isso. No entanto, espera-se que ela abra caminhos e instigue outros profissionais, enfermeiros de resgate ou não, da saúde coletiva ou não, a entenderem o cuidado como uma manifestação de afeto com o outro porque a necessidade de um enfermeiro socorrista sempre existirá, mas a melhor maneira de atuar no trauma é evitar que ele aconteça(16). 15 REFERÊNCIAS 1. Lazzari DD, Pedro ENR, Sanches MO, Jung W. Estratégias de ensino do cuidado em enfermagem: um olhar sobre as tendências pedagógicas. Rev Gaúcha Enferm., Porto Alegre (RS) 2011 dez;32(4):688-94. 2. LUCENA, Ive Cristina Duarte de, BARREIRA Ieda de Alencar. 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