PÉ DE LIVRO Intervenção urbana literária como mediação e promoção de leitura Vem, vem, vem Todo mundo vem Vem ouvir histórias Que a gente vai contar Lá na sombra Se um Pé de Livro Tem histórias pra te encantar Livros com gosto De fruta madura Simbora saborear Que delícia!! Cantiga de chamamento dos “Pé de Livro”, Denise Mendonça. “No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de sol, de céu e de lua mais do que na escola”. Manoel de Barros (in: Ensaios Fotográficos). Justificativa Pé de Livro é uma intervenção urbana de caráter artístico literário, lúdico e pedagógico, cujo diferencial é articular estética da criação literária e verbal a uma ética meio-ambiental, com a finalidade de estimular e promover o livro e a leitura entre diversos públicos, com especial ênfase na literatura infanto-juvenil brasileira. Sua origem remonta ao ano de 1988, quando a Escola de Arte TEAR desenvolve, no Rio de Janeiro, uma ação chamada “PÉ DE LIVRO”. O Instituto de Arte TEAR é uma organização da sociedade civil, com uma trajetória de 34 anos na Arte/Educação e produção artístico-cultural, que promove o desenvolvimento humano nas dimensões ética e estética, no movimento de construção de uma sociedade sustentável, justa e solidária. Como Pontão de Cultura e Educação, Ponto de Cultura e Ponto de Leitura - reconhecido pelos governos do Rio de Janeiro e do Brasil, convergem no TEAR uma Escola de formação artística, um Centro de produção de eventos culturais e um centro de referência em arte/educação. O TEAR é um lugar de encontros, de reflexões e afetos que se entrelaçam num contínuo diálogo de saberes em que as diversas expressões da Arte constituem um modo de ampliação de leituras de mundo, no qual a literatura teve sempre um papel estruturante das atividades, contribuindo ao enriquecimento dos universos simbólicos e imaginários e ao desenvolvimento da expressão criadora. Instituto de Arte Tear CNPJ: 05.435.475/0001-24 Rua Pereira Nunes, 138 Tijuca – Rio de Janeiro Cep: 20540-132 Tel: 21 3238-3690/ 2238-4927 Por sua vez, a educação ambiental perpassa de modo transversal toda a práxis educativa do Tear, sem se afastar do estético, do lúdico e do criativo, assumindo esse compromisso como parte da contínua construção de uma sociedade baseada na sustentabilidade da vida, na participação política consciente e na construção de uma ética e de uma estética ecológicas. A iniciativa “PÉ DE LIVRO” faz parte, assim, do contexto de atuação do TEAR. O conceito surge da idéia de uma criança de cinco anos (Jonas Leite), na época participante de um dos cursos da instituição, que durante uma atividade falou sobre o seu desejo de ver brotar livros, como frutas ou flores em uma “árvore de galhos bem baixinhos, que as crianças pudessem pegar”. Diante desta ideia, criou-se o primeiro “Pé de Livro” - uma instalação literária, na qual, em uma árvore de verdade, foram pendurados barbantes nos galhos e neles amarrados livros, que quase alcançavam o chão, como se fossem frutas no pé ao alcance das crianças. O primeiro “Pé de Livro” foi lançado em uma Festa popular de Rua organizada pelo Tear, em 1988. Percebeu-se de imediato o impacto e a eficiência da ideia. Mesmo concorrendo com muitas outras atividades ao ar livre, o que poderia dificultar as condições para a concentração leitora, verificou-se que pelo seu caráter inusitado e surpreendente, com livros pendurados como frutos, esteiras almofadas e colchonetes embaixo de seus galhos, o “Pé de Livro” se revelou local convidativo para o incentivo à leitura, de forma saborosa, atraente e “nutritiva”. O Pé de Livro demonstrou-se rapidamente como uma tecnologia social leve, portátil e de baixo custo. Desde então, o TEAR vem montando “Pés de Livro” em todos os eventos culturais que promove, realiza ou participa e, desde 2013 como uma ação de promoção de leitura itinerante mensal. Tornou-se uma marca das atividades Tearteiras, ganhando também asas próprias ao ser difundida e propagada para outros lugares, países, sendo implementado por outras pessoas e instituições. Cabe ressaltar que, em 2004, o TEAR foi convidado pela Fundação Casa Azul, organizadora da Festa Literária de Paraty - FLIP, para realizar um evento paralelo que mobilizasse, ao mesmo tempo, a comunidade local, com foco nas crianças. Foi realizada então uma grande festa popular na Praça da Matriz em Paraty, replicando a metodologia das “Festas da Rua/Arte na Praça”, que o Tear vinha desenvolvendo no Rio de Janeiro, desde 1980. A partir dessa ação nasce a FLIPINHA, sendo (im)plantada a primeira das famosas alamedas de Pés de Livro que hoje a caracterizam. O importante desta experiência se encontra no incremento das ações formativas de mediação de leitura, envolvendo a comunidade local, especialmente os jovens e alunos do Instituto de Arte Tear CNPJ: 05.435.475/0001-24 Rua Pereira Nunes, 138 Tijuca – Rio de Janeiro Cep: 20540-132 Tel: 21 3238-3690/ 2238-4927 curso de formação de professores da cidade, que passaram a ler e contar histórias nos “Pés”, como parte das ações de promoção do livro e da leitura. A iniciativa “Pé de Livro” é desenvolvida a partir de uma abordagem metodológica baseada nos princípios da arte-educação. Reconhecendo a literatura como uma linguagem da arte e um campo específico de conhecimento, e a leitura como prática social e direito de todos, os “pés de livro” contribuem à ampliação das capacidades de ler o mundo de maneira crítica, sensível e criadora e ainda, ao exercício da cidadania e da participação social. Objetivos: 1. Incentivar, promover e desenvolver práticas de mediação de leitura de livros literários em espaços públicos. 2. Sensibilizar jovens e adultos a lerem livros e contarem histórias para as crianças. 3. Fortalecer a ação de bibliotecas públicas e comunitárias. 4. Ampliar e enriquecer o repertório literário de crianças, adolescentes e jovens. 5. Polinizar em outras regiões, prioritariamente no interior do Estado, os plantios de Pé de Livro, por meio de ações de formação de mediadores. Metodologia: O conceito e metodologia “Pé de Livro” não se reduz a pendurar livros numa arvore, mas traz consigo uma concepção que articula o profundo imaginário da criação literária a uma compreensão da estética da natureza da qual somos parte. É a partir dessa articulação que os processos criativos e lúdicos se entrelaçam às metodologias trabalhadas em cada (im)plantação de um Pé de livro: desde a cantoria inicial, o cortejo lúdico de chamamento, as rodas de brincadeiras e contação de histórias; Saberes da educação popular e da cultura da infância dão sustento a esse trabalho. Um Pé de Livro pode ser (im)plantado em ruas e praças públicas, quintais de escolas ou instituições educativas, nas favelas ou nos jardins dos palácios da cidade. Onde houver uma Árvore, pode nascer um Pé de livro. De forma lúdica, prazerosa e surpreendente as crianças, adolescentes, jovens e adultos são estimulados a lerem com sabor, como quem colhe e come uma fruta no pé. Os arteeducadores, na qualidade de mediadores de leitura, promovem uma aproximação efetiva e afetiva dos participantes com a literatura. A metodologia é organizada da seguinte maneira: 1. Mapeamento local e mobilização comunitária Definição da região ou território Levantamento dos equipamentos culturais de Leitura existentes no território; Instituto de Arte Tear CNPJ: 05.435.475/0001-24 Rua Pereira Nunes, 138 Tijuca – Rio de Janeiro Cep: 20540-132 Tel: 21 3238-3690/ 2238-4927 Mapeamento dos agentes locais com vistas à sua mobilização Articulação com Bibliotecas públicas e/ou comunitárias Definição do local ou locais de plantio do Pé de livro. 2. Escolha dos livros-frutos para o “pé” São selecionados cerca de 50 livros para cada intervenção, a partir de alguns critérios, que podem variar de acordo com o objetivo do evento, contexto local (social, ambiental, cultural, etc.) ou situação onde se (im)planta o “Pé de Livro”: Qualidade do texto literário e das ilustrações. Diversidade de gêneros e estilos literários (contos de fada, poesia, poemas, crônicas, fábulas, mitos e lendas, cordel, quadrinhos, romance, terror, ficção científica entre outros) Diversidade de autores e ilustradores (brasileiros e estrangeiros). Diversidade de formatos do objeto livro (pequenos, grandes, de papéis diversos, de pano, de plástico etc). Livros com histórias curtas para serem lidas em pouco tempo. Livros com histórias longas para criarem desejo no leitor de continuar a leitura depois do evento. Livros diferentes que tenham somente texto, somente imagens ou textos e imagens. Cada “Pé de Livro” também pode ser temático ou autoral, ou seja, são escolhidos para uma mesma árvore livros que tratem de um mesmo assunto, ou livros de um mesmo autor. Todas estas escolhas irão depender dos objetivos e intenções das ações propostas. 3. (Im)plantação do “Pé de Livro” e mediação de leitura Uma vez montado o Pé de Livro se dá início à Cantoria e ao cortejo lúdico de chamamento, conduzido por uma trupe brincante composta por cinco a dez mediadores de leitura. O cortejo cumpre o papel de mobilizar a comunidade em torno do Pé de Livro. À sombra do Pé de Livro, as atividades de mediação realizadas podem se dar de diversas formas: Instituto de Arte Tear CNPJ: 05.435.475/0001-24 Rua Pereira Nunes, 138 Tijuca – Rio de Janeiro Cep: 20540-132 Tel: 21 3238-3690/ 2238-4927 Contação de histórias (utilizando diversos recursos: corpo, voz, instrumentos, bonecos, objetos, fantoches, panos entre outros). Leitura de livros (podem ser livros pendurados no “pé” ou outros) em voz alta para várias pessoas que estão próximas ao “pé” ou ao “pé do ouvido” de cada uma das crianças. Rodas de brincadeiras tradicionais com palavras, poesias e histórias, rimas e cantorias. Visita de autores, que contam suas histórias que estão penduradas no “pé” e depois conversam com as crianças, adolescentes, jovens e adultos sobre suas obras, como foi o caso de Ana Maria Machado, Roseane Murray, Augusto Pessoa, Rogério Andrade Barbosa, Paula Saldanha entre outros. Jovens – mediadores de leitura – fazem esquetes teatrais, declamam poemas e poesias, cantam e contam histórias embaixo do “pé”. Mediadores convidam mães, pais, avós, irmãos a lerem livros para as crianças e também contarem suas próprias histórias. É importante sublinhar que os “Pés de Livro” ficam disponíveis para que os leitores tenham oportunidade de saborear os livros-frutos com liberdade, independentemente das ações de mediação. Neste sentido, aposta-se na idéia de que os “pés”, em si, são mediadores de leitura. Desdobramentos Nas “Festas da Rua/Arte na Praça” são realizadas oficinas que envolvem literatura e se relacionam diretamente com os “Pés de Livros”. Os participantes são convidados a criar suas próprias histórias, fazerem livros, ilustrações, brincarem com as palavras, criarem personagens, dramatizarem entre muitas outras atividades lúdicas e expressivas. Já nos cursos de formação de educadores, os participantes são mobilizados a levarem a iniciativa para suas escolas, salas de aula, salas de leitura e biblioteca. Por exemplo, na Escola Municipal Prudente de Moraes, no Rio de Janeiro, uma das professoras criou com seus alunos um “Pé de Livro” diferente. A “árvore” foi toda feita de sucata e suas folhas são desenhos e fichas que as crianças desenham e escrevem sobre os livros que estão lendo durante o ano. Nos cursos de formação com crianças e adolescentes realizados na sede do TEAR foi desenvolvido um projeto de arte e educação ambiental, no qual os “Pés de Livro” inspiraram à plantação de muitos outros pés: pé de algodão, pé de urucum, pé de feijão etc. Instituto de Arte Tear CNPJ: 05.435.475/0001-24 Rua Pereira Nunes, 138 Tijuca – Rio de Janeiro Cep: 20540-132 Tel: 21 3238-3690/ 2238-4927 Todos mudas de plantas que foram selecionadas a partir de pesquisa realizada pelas crianças nos “Pés de Livros” temáticos sobre meio-ambiente, desmatamento, aquecimento global, etc. Os “pés” foram (im)plantados no quintal do TEAR e as crianças diariamente iam até eles para fazer suas pesquisas e investigações. A partir deste projeto criaram também um mudário, uma horta e um minhocário. Um desdobramento recente se dá pela ação sinérgica junto à Secretaria Municipal de Cultura, por meio do Programa Paixão de Ler, que insere uma agenda de Pés de Livro em cinco comunidades do Rio de Janeiro. Resultados ao longo de 26 anos de Pé de Livro: 1. Realização de mais de 60 eventos culturais comunitários em diversas ruas e praças, incentivando a leitura através dos “Pés de Livro”, somando cerca de 35.000 pessoas de diferentes faixas etárias e classes sociais. Somente em 2014 foram 12 eventos (Comunidades: Morro da Formiga, Salgueiro, Borel, Turano, Barreira do Vasco, Manguinhos, Tabajaras. Praças: Xavier de Brito, Afonso Pena, Edmundo Rego, Quinta da Boa Vista, Museu da República). 2. Mais de 30.000 crianças já leram e ouviram histórias nos “Pés de Livros”, ampliando e enriquecendo seus repertórios literários e culturais. 3. Envolvimento das famílias nas atividades de mediação de leitura nos “Pés de Livro”, somando mais de 5.000 jovens e adultos lendo e contando histórias para crianças. 4. Fomento da leitura de livros literários em espaços públicos, na medida em que, todos os livros utilizados nos “Pés de Livro” são obras de literatura reconhecidas por suas qualidades literárias e estéticas. 5. Difusão da metodologia dos “Pés de Livro” para mais de 50 instituições e 4.000 professores e educadores sociais de organizações de educação, arte e cultura no Rio de Janeiro e outros estados do Brasil. 6. Replicação da metodologia dos “Pés de Livro”, na FLIP, em Paraty, e a partir dali em outras festas literárias, inspirando também importantes programas de promoção da leitura como o Programa Semear Leitores da Fundação BUNGE. Instituto de Arte Tear CNPJ: 05.435.475/0001-24 Rua Pereira Nunes, 138 Tijuca – Rio de Janeiro Cep: 20540-132 Tel: 21 3238-3690/ 2238-4927