UNIVASF Universidade Federal do
Vale do são Francisco
Caminhadas de universitários de origem popular
UNIVASF
UNIVASF
Copyright © 2009 by Universidade Federal do Rio de Janeiro / Pró-Reitoria de Extensão.
O conteúdo dos textos desta publicação é de inteira responsabilidade de seus autores.
Coordenação da Coleção: Jailson de Souza e Silva
Jorge Luiz Barbosa
Ana Inês Sousa
Organização da Coleção:
Monique Batista Carvalho
Francisco Marcelo da Silva
Dalcio Marinho Gonçalves
Aline Pacheco Santana
Programação Visual:
Núcleo de Produção Editoria da Extensão – PR-5/UFRJ
Coordenação:
Claudio Bastos
Anna Paula Felix Iannini
Thiago Maioli Azevedo
C183
Caminhadas de universitários de origem popular : UNIVASF / organizado por Ana Inês Souza,
Jorge Luiz Barbosa, Jailson de Souza e Silva. — Rio de Janeiro : Universidade Federal
do Rio de Janeiro, Pró-Reitoria de Extensão, 2009.
72 p. ; il. ; 24 cm. — (Coleção Caminhadas de universitários de origem popular)
Ao alto do título: Ministério da Educação. Secretaria de Educação Continuada,
Alfabetização e Diversidade. Programa Conexões de Saberes : Diálogos entre a Universidade e
as Comunidades Populares.
Parceria: Observatório de Favelas do Rio de Janeiro.
ISBN: 978-85-89669-37-5
1. Estudantes universitários — Programas de desenvolvimento — Brasil. 2. Integração
universitária — Brasil. 3. Extensão universitária. 4. Comunidade e universidade — Brasil. I.
Souza, Ana Inês, org. II. Barbosa, Jorge Luiz, org. III. Silva, Jailson de Souza e, org. VI.
Programa Conexões de Saberes : Diálogos entre a Universidade e as Comunidades Populares.
V. Universidade Federal do Vale do São Francisco. VI. Universidade Federal do Rio de Janeiro.
VII. Observatório de Favelas do Rio de Janeiro.
CDD: 378.81
Ministério da Educação
Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade
Programa Conexões de Saberes: diálogos entre a universidade e as comunidades populares
Organizadores
Jailson de Souza e Silva
Jorge Luiz Barbosa
Ana Inês Sousa
UNIVASF
Pró-Reitoria de Extensăo - UFRJ
Rio de Janeiro - 2009
Coleção
Presidente da República
Luiz Inácio Lula da Silva
Ministério da Educação
Fernando Haddad
Ministro
Secretaria de Educação Continuada,
Alfabetização e Diversidade – SECAD
André Luiz de Figueiredo Lázaro
Autores
Gênesis Naum de Farias
Jamile Maiara da Silva Santos
Janaína Nunes dos Santos
Jorge Messias Leal do Nascimento
Leidiana Alves da Mota
Secretário
Lívia Almeida Figuerêdo
Armênio Bello Schmidt
Lívio Ricardo Oliveira de Sá
Diretoria de Educação para a Diversidade - DEDI
Maraísa Ferreira da Silva
Leonor Franco de Araújo
Coordenação Geral de Diversidade – CGD
Melquisedeck Mendes da Silva
Pablício Gomes dos Santos
Priscila D. M. Carvalho
Programa Conexões de Saberes:
diálogos entre a universidade e
as comunidades populares
Jorge Luiz Barbosa
Jailson de Souza e Silva
Coordenação Geral
Alvany Maria dos Santos Santiago
Coordenação Geral do Programa Conexões de Saberes/UNIVASF
Liliane Caraciolo Ferreira
Coordenação Adjunta
UNIVERSIDADE FEDERAL DO VALE DO SÃO FRANCISCO
José Weber Freire Macedo
Reitor
Paulo César da Silva Lima
Vice-Reitor
Alvany Maria dos Santos Santiago
Pró–Reitora de Extensão
Sandra Ricarte dos Santos Ferreira
Sheila Rejane da Silva
Wandilson Alisson Silva Lima
Prefácio
A sociedade brasileira tem como seu maior desafio a construção de ações que permitam, sem abrir mão da democracia, o enfrentamento da secular desigualdade social e econômica que caracteriza o país. E, para isso, a educação é um elemento fundamental.
A possibilidade da educação contribuir de forma sistemática para esse processo implica uma educação de qualidade para todos, portanto, uma educação que necessita ser efetivamente democratizada, em todos os níveis de ensino, e orientada, de forma continua, pela
melhoria de sua qualidade. No atual governo, o Ministério da Educação persegue de forma
intensa e sistemática esses objetivos.
Conexões de Saberes é um dos programas do MEC que expressa de forma nítida a luta
contra a desigualdade, em particular no âmbito educacional. O Programa procura, por um
lado, estreitar os vínculos entre as instituições acadêmicas e as comunidades populares e,
por outro lado, melhorar as condições objetivas que contribuem para os estudantes universitários de origem popular permanecerem e concluírem com êxito a graduação e pós-graduação nas universidades públicas.
Criado pelo MEC em dezembro de 2004, o Programa é desenvolvido a partir da
Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD-MEC) e representa a evolução e expansão, para o cenário nacional, de uma iniciativa elaborada, na cidade
do Rio de Janeiro no ano de 2002, pela Organização da Sociedade Civil de Interesse Público Observatório de Favelas do Rio de Janeiro. Na ocasião constitui-se uma Rede de Universitários de Espaços Populares com núcleos de formação e produção de conhecimento em
várias comunidades populares da cidade. O Programa Conexões de Saberes criou, inicialmente, uma rede de estudantes de graduação em cinco universidades federais, distribuídas
pelo país: UFF, UFMG, UFPA, UFPE e UFRJ. A partir de maio de 2005, ampliamos o Programa
para mais nove universidades federais: UFAM, UFBA, UFC, UFES, UFMS, UFPB, UFPR,
UFRGS e UnB. Em 2006, o Ministério da Educação assegurou, em todos os estados do país,
33 universidades federais integrantes do Programa, sendo incluídas: UFAC, UFAL, UFG,
UFMA, UFMT, UFPI, UFRN, UFRR, UFRPE, UFRRJ, UFS, UFSC, UFSCar, UFT, UNIFAP,
UNIR, UNIRIO, UNIVASF e UFRB.
Através do Programa Conexões de Saberes, essas universidades passam a ter, cada uma,
ao menos 251 universitários que participam de um processo contínuo de qualificação como
pesquisadores; construindo diagnósticos em suas instituições sobre as condições pedagógicas dos estudantes de origem popular e desenvolvendo diagnósticos e ações sociais em
comunidades populares. Dessa forma, busca-se a formulação de proposições e realização de
1
A partir da liberação dos recursos 2007/2008 cada universidade federal passou a ter, cada uma, ao
menos 35 bolsistas.
práticas voltadas para a melhoria das condições de permanência dos estudantes de
origem popular na universidade pública e, também, aproximar os setores populares da
instituição, ampliando as possibilidades de encontro dos saberes destas duas instâncias sociais.
Nesse sentido, o livro que tem nas mãos, caro(a) leitor(a), é um marco dos objetivos do
Programa: a coleção “Caminhadas” chega a 33 livros publicados, com o lançamento das 19
publicações em 2009, reunindo as contribuições das universidades integrantes do Conexões de Saberes em 2006. Com essas publicações, busca-se conceder voz a esses estudantes
e ampliar sua visibilidade nas universidades públicas e em outros espaços sociais. Esses
livros trazem os relatos sobre as alegrias e lutas de centenas de jovens, rapazes e moças, que
contrariaram a forte estrutura desigual que ainda impede o pleno acesso dos estudantes das
camadas mais desfavorecidas às universidades de excelência do país ou só o permite para os
cursos com menor prestígio social.
Que este livro contribua para sensibilizar, fazer pensar e estimular a luta pela construção de uma universidade pública efetivamente democrática, um sociedade brasileira mais
justa e uma humanidade cada dia mais plena.
Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade
Ministério da Educação
Observatório de Favelas do Rio de Janeiro
Sumário
Apresentação ....................................................................................................... 9
Anarquista graças a Deus...
Gênesis Naum de Farias ................................................................................... 11
Alguns degraus de minha vida
Jamile Maiara da Silva Santos ........................................................................ 17
Para construir a vida é necessário fazer escolhas
Janaína Nunes dos Santos ................................................................................ 26
A humildade nos faz lutar e vencer na vida
Jorge Messias Leal do Nascimento .................................................................. 33
“Verás que um filho teu não foge a luta”
Leidiana Alves da Mota .................................................................................... 37
Apenas começamos
Lívia Almeida Figuerêdo .................................................................................. 40
Determinação
Lívio Ricardo Oliveira de Sá ............................................................................ 44
A batalha e a vitória
Maraísa Ferreira da Silva ................................................................................ 49
Para frente é que se anda
Melquisedeck Mendes da Silva ........................................................................ 53
Momentos inesquecíveis
Pablício Gomes dos Santos .............................................................................. 56
Aproveitando as oportunidades
Priscila D. M. Carvalho .................................................................................... 61
Mudar para conquistar
Sandra Ricarte dos Santos Ferreira ................................................................. 63
Livro Caminhadas
Sheila Rejane da Silva ...................................................................................... 66
Minha caminhada, meus estudos
Wandilson Alisson Silva Lima .......................................................................... 69
Apresentação
Temos o prazer de apresentar o "Caminhadas - UNIVASF" que relata a trajetória dos 25
primeiros estudantes da Universidade Federal do Vale do São Francisco - UNIVASF que
participaram do Programa Conexões de Saberes: diálogos entre a Universidade e as Camadas
Populares nos anos de 2006/2007.
A UNIVASF com sede na cidade de Petrolina-PE possui campus em três estados. Além
do campus localizado na cidade de Petrolina-PE, tem campus na cidade de Juazeiro-BA e
São Raimundo Nonato-PI, configura-se como uma das novas universidades federais, ora
sendo consolidada no país e apresenta como particularidade ser a primeira universidade a
não está associada a um estado ou município e sim a uma região, o semi-árido Nordestino.
O dipolo Juazeiro-BA Petrolina-PE é marcado por uma dicotomia entre a tradicional região
seca semi-árida e a da fruticultura irrigada voltada para o mercado externo com grande uso
de recursos tecnológicos. Complementa este cenário, as questões ambientais inerentes ao
rio São Francisco, principal patrimônio natural inserido na autosustentabilidade de uma
população de milhões de pessoas ao longo dos 2.820 km da sua calha que abrange cinco
estados do Brasil (Lima, 2008).
A UNIVASF por ser a primeira universidade federal implantada no sertão e com área de
atuação abrangendo todo o Semi-árido Nordestino tem nos trazido vários desafios. Um deles
é criar mecanismos que facilitem o ingresso e a permanência com dignidade dos estudantes de
origem popular. Assim, ao ser convidada pelo reitor José Weber Freire Macedo para ocupar a
Pró-Reitoria de Integração, comecei a refletir sobre formas de trabalhar essa questão. A luz
veio ao participar do Congresso Latino-americano de Extensão Universitária quando conhecemos o Programa Conexões de Saberes. Ficamos felizes ao aderirmos parcialmente ao
Programa em Agosto de 2006 recebendo inicialmente as vinte e cinco bolsas para os estudantes.
O Programa Conexões de Saberes apresentou-se como marco na extensão universitária
na UNIVASF. A pequena equipe da Pró-Reitoria se empenhou pessoalmente em implantá-lo
e no primeiro edital público de seleção de estudantes recebeu mais de 200 inscritos do total
de 956 estudantes.
O Conexões de Saberes - UNIVASF envolve sete projetos: além do curso pré-vestibular comunitário - Pré-VASF, desenvolve o Conexões - Meio Ambiente que trata das questões
do rio São Francisco, o Educação e Cidadania, o Vestibulando, o Bom Filho à Casa Torna,
o UNIVASF de Portas Abertas e o Projeto Serra da Capivara.
A construção do Caminhadas se deu de forma vívida e com a contribuição de vários
professores, que para não pecarmos no esquecimento evitamos aqui nominá-los. Para nós,
da coordenação, foi emocionante conhecer a caminhada de cada um destes jovens, suas
vivências, seus sonhos e entender o grande modelo que eles/as representam não apenas para
as suas famílias, mas para a Universidade e a Comunidade em Geral.
Universidade Federal do Vale do São Francisco
9
Agradeço especialmente a professora Liliane Caraciollo pela sua valiosa colaboração
que dividiu comigo os desafios da implantação do programa, aos professores César Augusto
da Silva, Deranor Gomes de Oliveira, Marcelo Ribeiro, Márcia Medeiros de Araújo, Pedro
Luís Machado Sanches e Vivianni Marques Santos, a Secad e toda a coordenação nacional
e parabenizamos aos estudantes, que aqui narram as suas Caminhadas, pelo exemplo de
vitória, persistência e determinação que acompanharemos nas páginas seguintes.
Alvany Maria dos Santos Santiago
Pró-Reitora de Integração
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Caminhadas de universitários de origem popular
Anarquista graças a Deus...
Gênesis Naum de Farias*
A Descoberta - Parte I
Nasci no final da década de 70 do século XX e fui mais um ser humano que permaneceu numa época em que a grande novidade era converter e assimilar a rebeldia como
um item a mais no processo de alienação. Mas o século XX não foi só alienação, e através
da leitura aprendi a sentir a história desse rebeldia com a sutileza de um romântico
intelectual anarquista.
A maior decepção foi ter chegado ao ensino superior sabendo que nossas universidades
já não vivenciavam o calor da rebeldia iconoclasta e explosiva, de um século que foi
marcado por tantos movimentos que pretendiam demolir a tradição em arte, política e
comportamento, acabando por criar uma tradição de “intelectuais rebeldes” que parecem
ter sido derrotados pelo fim das utopias na virada do último século.
Era como se a tudo o que aconteceu nas primeiras décadas deste período histórico,
tivesse sido aperfeiçoado para caracterizar um controle social altamente perverso e castrador,
afinal, as mudanças de comportamento refletem isso.
Mesmo tendo nascido no final de um grande século, a paixão pelo conhecer me
transformou num dândi provocador, num poeta maldito, num ser encantado. Essa razão de
ser, acendeu um rastilho de idéias, acenando como uma atitude desafiadora: aprender a ler
o mundo com outros olhos. Foi assim que aprendi a sonhar, lendo o mundo com o desafio de
modificá-lo nos parâmetros de minhas ações.
A leitura sempre foi minha grande paixão, desde cedo descobri nela uma outra parte
de mim enfocada similarmente nas descobertas do imaginário poético, universalizado pelo
conhecimento do passado nas personagens que iam me formando enquanto homem.
A arqueologia dos meus saberes, por esta época, já se fundamentava numa busca
permanente pelos caminhos do conhecimento, às vezes embrutecido pelo frio arpejo de
suas descobertas, às vezes desencontrados, mas com a firme certeza de que o que buscava
sempre estava permeado pelo tom e a destreza da aprendizagem.
O filósofo francês Gilles Deleuze pregava que o homem era fruto do seu ponto de vista,
por este motivo aperfeiçoei todo este espírito romântico, colhido nas experiências com a
literatura, para fortalecer o meu espírito para enfrentar os desafios que a realidade me ofereceria no futuro. No mais, quando adentrei os portões da universidade para cursar minha primeira graduação, levei comigo toda àquela inquietação, que como dizia Rimbaud, viria ao
Graduando em Arqueologia e Preservação Patrimonial
Universidade Federal do Vale do São Francisco
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mundo para anunciar a mudança de vida. Este Poeta me levou a acreditar na capacidade
de sentir e ser gente, fazendo-me repensar valores e ampliar a consciência íntima no
universo que me abrigava.
Aprender a ler, foi pra mim, um processo mágico, o mais inesquecível. Lembro-me de
ter vivido muitas eternidades olhando para o papel, em infâncias grandiosas, na esperança
de envelhecer e abrir-me para o fantástico daqueles mundos. Com isto, aprendi a amar,
sendo um poeta subitamente misterioso que combinava amor, paixão e uma grande descoberta pelos livros.
Dos livros, me revelei ao mundo, na transparência de um encantamento juvenil, assim
vivido permanentemente, já que ainda hoje se restaura em mim a segurança e a motivação
para buscar o conhecimento nas obras literárias, que me tomavam de assalto numa profunda
integridade com o belo e o profano, no devanear pelos caminhos da poética.
No dia em que me soube leitor, as circunstâncias me legaram uma grande existência,
feita de sonhos e ficcionada paradoxalmente pelos sentidos subjetivos do prazer, tornandome um ser pragmático e praxiológico. Neste contexto de descobertas e decepções, uma pergunta
invadia-me sempre: como penetrar na esfera dos significados do nosso tempo? Gaston
Bachelard nos fala de uma estética da angústia, para construir a facticidade que obstina a
imaginação a transpor os fatores do nosso cotidiano na ânsia de ampliar conceitos, através do
processo formativo, para fixar perspectivas que esquematizem as multireferencialidades da
realidade apreendida.
Essa experiência primordial e fundamental, foi sem dúvida, a força propulsora da vida
que escolhi viver e que, estou certo, acabaria vivendo sem a ter escolhido: ser Poeta!
A minha busca intelectual ia se permeando por estes pressupostos filosóficos, porque
sei que a realidade deste universo pós-humano é bem desumana e, soma o meu sonhar aos
dos grandes poetas e filósofos que tentavam acordar a humanidade do sono funéreo da
especulação e da desordem moral.
Não me compreendo se não compreendo o outro, dizia Paulo Freire em seus escritos
de posteridade, por isso sou um ser inquieto que escreve também para a posteridade, com a
firme convicção de que um dia trilharemos e entraremos nas cidades cantando hinos de
humanidades.
Durante muito tempo vivi para dentro, numa intimidade muito profunda que ao me
abrir para o mundo, me descobri cheio de vazios, alegrias, paridades e desassossegos.
Cultivei-me quanto pude, caprichoso e refinado. Ampliando minhas limitações humanas, conheci os poetas, os romancistas e, me tornei um romanesco que vê o mundo como
um caleidoscópio, cheio de aventuras, heroínas e poéticos sensos comuns.
Mergulhei neste senso comum misterioso com José Mauro de Vasconcelos, autor do
célebre livro Meu Pé de Laranja Lima, num primeiro descobrimento, depois tudo me iluminava
e conferia ao cotidiano uma poesia de profundo sentido mítico, pois as perguntas surgiam
e tornava-me um filósofo da vida sentimental do mundo.
O conhecimento que me era permitido conhecer, se somava a uma grande viagem que me
permitia fazer pelo passado para se afirmar o presente, portanto, devia ser trilhado com a convicção
de uma descoberta sem malícia, na certeza da construção dos pilares deste mesmo aprendizado.
E compreendendo as dificuldades da nossa realidade familiar, nos seus aspectos
econômicos, eu ia construindo para mim um outro mundo através da leitura: menos vazio
e mais cheio da espiritualidade do infinito.
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Caminhadas de universitários de origem popular
Outro dia me dizia um autor inglês, do qual sou leitor arvorado, que os tempos
mudariam quando as pessoas passassem a escrever suas próprias histórias dialogando com
o presente, sem hedonismos, sem preconceitos e sem as maldades do dia-a-dia.
Por isso, entendia que a literatura e a arte do passado e do presente, me projetavam
ao mundo com a sutileza e a leveza dos pássaros. Estes universos me deram o divórcio
para com a inocência e forneceram preciosos elementos para lidar com as pessoas que se
me apresentavam.
Também foi o conhecimento da literatura que depurou minha sensibilidade para bem
usufruir as boas coisas do mundo que se eternizavam misteriosamente no meu cotidiano.
Depois, conheci Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé, Oscar Wilde, Jorge Amado - meu
escritor predileto - Quintana, Carlos Drummond de Andrade, Plínio Marco e João do Rio,
com este último, aprendi a ver a vida marginalizada pelos hedonismos da inquietude
individualista dos seres humanos. Foi quando descobri Álvares de Azevedo e me tornei um
romântico convicto. Este poeta até hoje me faz buscar em tudo o absoluto som do infinito.
Absoluto este, que se constrói, se reconstrói e se destrói.
Mas a poesia se aclarou quando li Machado de Assis e me perverti com sua destreza e
seu comportamento, suas sutilezas e seus rituais. Depois, me veio Clarisse Lispector, para
me deixar intimista, mas foi Castro Alves que me embriagou pelo funéreo sentido da
liberdade. Este poeta sempre fez parte do que sou hoje; um ser que busca a liberdade para se
auto-afirmar no complexo mundo das idéias. Sua clareza e erudição me desafiaram a ser um
intelectual de mutações que ao mesmo tempo pertence às multidões, mas é desencontrado
e vazio na sua solidão.
No permanente exercício da leitura destes escritores, o que ia me impressionando era
justamente a capacidade que ainda têm de expressão verbal através do poder de persuasão,
juntando a tudo isto as habilidades de relacionar logicamente, de enriquecer o real pelo rico
mundo das metáforas.
Ainda quando adolescente, conheci dois poetas Ribeirinhos donos de uma humanidade
que até hoje me aplaca os sentidos. São eles: Virgílio Siqueira e Maurício Ferreira, ambos de
um sertão que nos é capaz de ensinar como se dá a criação poética, porque são exímios
escritores de vidas inesgotáveis. Eles me ensinam que o “nada é real se não escrevo” como dizia Virginia Woolf.
O universo da leitura ia aos poucos me tirando do lugar comum para me transportar
para um universo só meu, acabando por me obstinar a sonhar com uma liberdade que só
existia no mundo da ficção.
Parecem tolas as minhas convicções, mas refletem a pessoa que sou, tendo em vista
que sou um entusiasta da educação pelo conhecimento que se dá a cada instante em nossas
vidas. A leitura, como forma de anarquia, me deu virtudes e riqueza, me deu angústias e
liberdade, porque me transporta, fatidicamente, para um universo que precisa ser descoberto,
transformado e orquestrado.
Ao devanear sobre essa anarquização estética pela capacidade de pensá-la, quero
distinguir de maneira absoluta a esquematização das multiplicidades que mutilam a
realidade para fixar nossas perspectivas e maturidades no mundo que se me apresenta no
cotidiano. Por isso, escrevo com afinco para desprender minhas reflexões, tornando-me um
fazedor de palavras para conscientizar o meu mundo através da percepção do presente num
futuro que se anuncia vazio, e cheio de paridades.
Universidade Federal do Vale do São Francisco
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Hoje, parece complicado devanear sobre qualquer coisa, ainda mais se estas estão
sobre o manto diáfano da desilusão, do pessimismo, do niilismo, dos achismos e dos ismos.
É como se filosofar fosse um ato banal e não tivesse a devida importância para as pessoas no
convívio social.
Portanto, essas marcas são as insígnias de que estou vivo e sonho com um mundo que
ofereça qualidade de vida diante da falta de utopia deste início de milênio, provas de que o
último século nos deixou várias incertezas...
O Poeta - Parte II
O escritor Paul Auster costuma sentir-se muito deprimido quando termina um livro. É
como me sinto ao concluir esta lavoura de arroubos itinerantes, que roteiriza um ponto de
partida sem qualquer pressa em decifrar enredos ou momentos de puro hermetismo na
experiência concreta com a sensibilidade do mundo da poética.
Eu, às vezes, me vejo como o Fausto de Goethe, que depois de tanto estudar filosofia,
teologia e praticar poesia, confessa-se um pobre ignorante, entregando-se à magia, no tatear
das palavras que se consolidam nas entranhas do tempo, numa cadeia de marcas imprecisas.
Ao me referir ao poeta alemão nesta breve apresentação, faço-o para documentar que
sua vida como a minha, oscila entre a sombra e a luz.
É tanto que, nos seus últimos instantes de vida, ao se aproximar à morte, ele pediu para
abrirem a janela do quarto para que entrasse mais luz, e foi mais ou menos isto que ele disse
no seu último suspiro.
A poesia que busco se parece com a alcunha impressa por este poeta, pois sou
arrebanhado pela força das existências, onde, neste Flâneur pelos caminhos da poética,
mapeio encantos e descrevo com fúria os recantos felizes da minha infância, e as perturbadoras
insolências da minha mocidade - legadas pela profícua convivência com a diversidade,
marcada sempre pelo trágico ato do pensar.
Somos, nós os poetas, seres presos duplamente ao destino das existências de nós
mesmos e do tempo em que vivemos, exigindo-nos sempre mais, numa longa e íntima
familiaridade com os marcos e os fatos das coisas da vida, ao transpor, com naturalidade, as
subjetividades que a sensibilidade evasiva expõe cheia de paridades.
Nestes instantes, torno-me, por necessidade, um fazedor de palavras e ansiedades,
como forma de expressão própria.
Esta militância, no entorno da palavra pensada, é que demarcam os meus dias de
filósofo no caos de um cosmo tragicamente poluído pelas verdades da existência. Aqui me
reservo a percorrer o caminho sem volta da poesia à procura do êxtase que impulsiona a
compaixão humana.
Todos os grandes poetas e filósofos, viveram em suas buscas existenciais o desenfreado
desencanto de uma evolução humana transviada e sem a perspectiva de uma transcendência,
que nos dias atuais surge para atribuir à crescente miséria espiritual e intelectual em que
mergulha a sociedade contemporânea, margeada pela racionalidade na irrealidade do eterno,
do infinito, do necessário, do útil e também do anacrônico.
As angústias encontradas nas palavras deste Noviciado místico - “que induzem o
espírito à rebeldia” - só refazem a eufórica necessidade de bradar para o mundo os imprites
do meu discurso árido e agressivo, entendendo que o maior grito poético do mundo moderno
é o grito por liberdade, uma liberdade que lance aos céus do futuro o mesmo clamor de
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Caminhadas de universitários de origem popular
desespero que nos horizontes da agonia e da solidão, um poeta precisa lançar para,
misteriosamente, manifestar seu fracasso e sua ascensão diante do misticismo da procura
pelo mundo perdido, como a fórmula para transcender à força do destino e perpetrar suas
sonolências numa contemplação solitária, para enfim, continuar sua dolorosa peregrinação,
onde o fardo e a leveza apenas refazem o dilema da insustentável leveza do seu ser.
Assim, é no cerne dessa travessia poética que reluto com as forças do abandono de
mim mesmo, fazendo pequenos versos para sedimentar minha linguagem simples e minha
intransponível crença de que a poesia que pretendo alcançar jamais abandonará os sentidos
da aprendizagem.
Também este escrito - o título o denuncia - é antes de tudo um repouso para velhas
insônias, um feixe de encontros e desencontros, traduzidos pelo esforço para tornar o
presente suportável, muitas vezes norteado por inseguranças silenciosas...
O Acadêmico - Parte III
Quando me tornei acadêmico, aprendi que o mundo vai muito além dos discursos e dos
paradigmas, fazendo-se crer que sua episteme evolui e corrobora para um universo ainda
menos conhecido. Tudo isto me foi passado quando amadureci as idéias e me tornei um intelectual mutável, que se aplica aos sentidos dos discursos e empreende saberes em suas ordens.
Acabei por regra do destino, cursando Pedagogia na Universidade Estadual da Bahia,
tendo por estes tempos vivido e sofrido muito com a necessidade de me permanecer nas
zonas de pertencimentos que a literatura do referido curso me proponha. A simples necessidade de sobreviver naquele que seria minha inserção no universo acadêmico, acabou por
transformar a minha vida e ampliar os meus saberes dentro da própria ordem que se ia me
apresentando dentro dos saberes formais e já agora, menos subjetivo, porém, presos a uma
conexão de idéias que acabariam por me levar a uma reflexão mais ampliada.
Por fim, concluí a licenciatura plena, trabalhei algum tempo na área da educação num
lugar fantástico, que mais parecia Macondo de Gabriel Garcia Marques em Cem anos de
solidão. A experiência me foi recheada de descobertas; pude enfim, travar muitas discussões
e testar as teorias que havia aprendido na graduação.
O tempo passou e a fome pelo saber também se ampliou, então fiz o vestibular para
cursar desta vez um bacharelado em Arqueologia. Neste curso me encontro, querendo
sempre saber em permanente aprendizado, querendo viver e sentir a vida passar, na ânsia
de um reencontro com as possibilidades da mistura dos saberes da educação com os
saberes arqueológicos.
Neste período, ao qual ainda me encontro, a vida tem sido um permanente desafio de
léguas; mal havia eu passado no vestibular, perdi minha mãe para uma doença congênita e
abandonei o curso porque as dificuldades emocionais e financeiras também não abandonavam
a minha sofrida existência.
Passado um ano e meio, retornei ao curso para me engajar mais, por entender que a
vida precisa ser enfrentada de frente. Com isto, busquei na permanente solidão de si, uma
saída para o total despojamento, mesmo que ainda haja muitos desapontamentos.
A academia me trouxe muitos desassossegos e muitas alegrias, visto que através dela
descobri outro sentido para as minhas buscas existenciais e, entre uma pesquisa e outra,
uma leitura e outra, vai-se percebendo que há possibilidade de se melhorar para tentar
melhorar a realidade que a todos nós circunda.
Universidade Federal do Vale do São Francisco
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Hoje, mais amadurecido e mais silencioso, tento apenas descrever o que sinto quando sou
cobrado a escrever algo que me impele objetividade. A vida tende a nos exigir objetividades.
Neste contexto, não posso deixar de falar dos meus pais: estes poetas iluminados que
sempre sonharam em ver seus filhos longe da marginália e com um futuro mais acentuado.
Estes, sempre foram exemplos a serem seguidos, tornando-nos pessoas responsáveis.
A luta para nos manter na escola foi árdua, tendo em vista que possuíam seis filhos, e
mesmo sendo semi-analfabetos, conseguiram realizar o feito maior de suas sobrevidas que
era justamente encaminhar sua prole na retidão dos deveres morais para com a sociedade.
Ao senhor Geraldo Abílio de Farias e a senhora Filomena Farias (In memória) - donos
de uma sensibilidade grandiosa e de uma força magnânima, - devo-lhes tudo que sou; os
sonhos, a poesia... a vida.
Portanto, como acadêmico de Arqueologia, levo para os meus dias de estudante a
certeza de uma continuidade ética porque assim me quis o legado dos meus pais, onde
trilharei com reto conceito o que me ensinaram, para já em vida futura e profissional, não
decepcionar nem os meus mestres, nem os meus ideais...
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Caminhadas de universitários de origem popular
Alguns degraus de minha vida
Jamile Maiara da Silva Santos*
Tarefa difícil, ao menos, para mim, é falar sobre a minha própria vida. Contar, detalhar...
É um processo um pouco complicado quando esses detalhes se referem ao caminho trilhado
por si próprio, principalmente porque dificilmente paro para pensar sobre o que já aconteceu em minha vida.
Confesso que muitas vezes surgem lembranças, mas nem sempre gosto de lembrá-las
por motivos os quais venho a me machucar. Momentos bons existiram, e desses sim, sinto
muitas saudades.
Saudades? E como sinto. Saudade é um sentimento tão gostoso, porém tão dolorido.
Sinto saudade de tanta coisa na vida, de tantas pessoas. Quem não sente saudade do tempo
de criança, quando a gente brincava sem hora para acabar, e se sujava todo sabendo que ia
levar uma bela bronca depois, ou se acabava, era porque o corpo não agüentava mais?
Brinquedos simples... Bonecas, joguinhos, mas que me divertiam de forma completa.
Saudades do tempo em que a escola era um mistério, cheio de desafios intransponíveis.
Saudades dos lugares que passei, esses lugares que você nem lembra, mas quando passa por
eles, vem uma sensação gostosa e diferente. Saudades dos amigos que você nem lembrava
mais, aquelas fotos que se perderam no tempo.
Saudades do meu gatinho que se foi por uma malvadeza de um vizinho que resolveu
envenená-lo, partindo do princípio que o gato quebrava as telhas de sua casa, e o coitado,
inocentemente se foi e deixou um vazio dentro de mim. Era como se fosse um integrante de
minha família!
Saudades também das minhas festinhas de aniversário, onde em comemorações
muito simples apenas para não passar despercebido, partilhava inocentemente a alegria
de todos, às vezes sem mesmo saber o que era realmente um aniversário, e sonhava com
a chegada do próximo.
Então, falar de si próprio, como já disse é tarefa difícil, mas vou tentar explicar ao
máximo e mostrar de forma clara toda a trajetória de minha vida.
Meu nome é Jamile Maiara da Silva Santos, sou a caçula dos filhos de Maria Luiza de
Jesus Santos e José Cleub da Silva Santos; tenho apenas um irmão chamado José Cleub da
Silva Santos Júnior. Nasci no ano de 1987, na cidade de Euclides da Cunha, Bahia, onde
morei até passar no vestibular.
Uma das coisas que mais me marcou, com apenas um aninho, foi que minha mãe, até
os dias atuais, professora, necessitava muito trabalhar, e em virtude disso, como não tinha
Graduanda em Medicina Veterinária.
Universidade Federal do Vale do São Francisco
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com quem me deixar, e precisando muito de seu salário, me levava todos os dias para o
prédio onde ensinava. Era a noite, e ela com todo o seu esforço e dedicação me levava todos
os dias. Eu dormia e acordava, e essa aula não acabava. Como à necessidade era grande, pois
desse dinheiro dependia a minha criação e o sustento da família, todos os dias (segunda à
sexta), acontecia à mesma situação.
Porém, como todo esforço tem suas recompensas, ao menos, esse não foi diferente,
pois quando ela me colocou na escola pela primeira vez eu fui adiantada de uma série. Isso
aconteceu ao passo, que eu ia para escola com ela, e por conseqüência, acabava vendo os
alunos fazendo as atividades em classe, e assim, fui aprendendo.
Fui à escola pela primeira vez aos três anos de idade, e a partir daí, começava uma vida
de estudos que continuou até os dias atuais, e com fé em Deus continuará até meu Mestrado,
Doutorado.... O nome da escola em que estudei pela primeira vez era Centro Educacional
Sementinha do Saber. Foi aí, onde tive o primeiro contato com minha professora à qual
chamava-se Santana e tinha-me bastante carinho e atenção. Conheci colegas de classe que
até o ensino médio acompanharam-me fielmente, mas chega a certo ponto de nossas vidas
que nem todos por quem temos amor, amizade e carinho podem nos acompanhar.
Tem uma mensagem, de um autor desconhecido, que reflete bem essa etapa de minha
vida, e com certeza, não poderia deixar de mostrá-la aqui:
“Quando sua vida começa, você tem apenas uma mala pequenina
de mão...
À medida que os anos vão passando, a bagagem vai aumentando,
porque existem muitas coisas que você recolhe pelo caminho, por
pensar que são importantes.
A um determinado ponto do caminho, começa a ficar insuportável
carregar tantas coisas, pesa demais, então, você pode escolher:
ficar sentado à beira do caminho, esperando que alguém o ajude,
o que é difícil, pois todos que passarem por ali, já terão sua
própria bagagem. Você pode ficar a vida inteira esperando, ou
pode aliviar o peso, esvaziando a mala.
Mas o que tirar? Você começa tirando tudo para fora... Veja o que
tem dentro: amor, amizade... Nossa! Tem bastante coisa, curioso,
não pesa nada...
Tem algo pesado.... Você faz força para tirar.... Era a Raiva - como
ela pesa!
Aí você começa a tirar, tirar e aparecem a incompreensão, medo,
pessimismo.... Nesse momento, o desânimo quase te puxa pra
dentro da mala... Mas você puxa-o para fora com toda a força, e
no fundo da mala aparece um sorriso, que estava sufocado no
fundo da sua bagagem.
18
Caminhadas de universitários de origem popular
Pula para fora outro sorriso e mais outro, e aí sai a felicidade....
Aí você coloca as mãos dentro da mala de novo, tira pra fora um
monte de tristeza...
Agora, você vai ter que procurar a paciência dentro da mala, pois
vai precisar bastante...
Procure então o resto: a força, esperança, coragem, entusiasmo,
equilíbrio, responsabilidade, tolerância e o bom e velho humor.
tire a preocupação também. deixe de lado, depois você pensa o
que fazer com ela.... Bem, sua bagagem está pronta para ser
arrumada de novo. Mas pense bem o que vai colocar dentro da
mala de novo, hein.
Agora é com você. E não se esqueça de fazer essa arrumação, mais
vezes, pois o caminho é muito, muito longo, e sua bagagem,
poderá pesar novamente”.
(Autor Desconhecido)
E é com essa “bagagem”, muito bem selecionada, que continuo aqui, firme e forte, a
descrever a você, leitor(a), minha história de vida!
Após a minha entrada na escola pela primeira vez, passei a executar todas às minhas
tarefas de casa sozinha. Desde muito cedo, já era aplicada em meus estudos. Dedicava-me
de forma muito especial às atividades que eram propostas.
Aos cinco anos de idade fui para alfabetização.... Ô tempo bom! Era o momento em
que estava aprendendo a ler, descobrindo coisas novas, desvendando os mistérios da leitura. Nessa época não resistia a um cartaz na rua, queria ler tudo que vinha pela frente, não
importava o assunto. Apenas queria ler! Achava perfeito ir às compras com minhas tias, pois,
nessa época já sabia ler, e então, podia ler os cartazes no supermercado.
O tempo foi passando e estava eu, chegando na 1ª série, indo para a 2ª, passando pela 3ª
e foi indo até à 4ª série. Toda essa época, meu irmão, Júnior, ia me levar na escola de bicicleta.
Ele tinha o cuidado de levar e buscar todos os dias. Era o meu guardião e não se cansava
daquela rotina. Porém, um belo dia, ele resolve ir por outro caminho, por uma ladeira enorme...,
e de repente, a bicicleta estava sem freios! Pensei por um instante que fosse morrer. Hoje não
estaria aqui contando essa história, mas por felicidade existia ao lado da ladeira um terreno
baldio, onde tinha areia.... De repente, caímos os dois muito assustados, mas graças a Deus,
nada de grave aconteceu! Ao menos fomos cair em lugar macio!
Outro ponto interessante a ser marcado nessa época foi o dia 12 de outubro, Dia das
Crianças. Para alegria das crianças foi organizada uma viajem para o Itamina Park e para o
Zoológico de Salvador, na Bahia. Era um dia diferente em que todas às crianças da escola
podiam participar, mediante ao pagamento de uma taxa. Foi uma enorme alegria, quando
soube que ia viajar, conhecer Salvador, ir ao Tamina.... Vai ser mais que perfeito Além de
tudo isso, conhecer um Zoológico! Ver animais, nem acredito! Planejei muito, sem saber
que não ia para essa viajem, pois, simplesmente, não dispunha da taxa para pagar. Foi uma
eterna tristeza, mas tudo bem, acabei esquecendo!
Universidade Federal do Vale do São Francisco
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Mas como dizem: “Deus fecha uma porta, e abre uma janela”. E, foi isso que
aconteceu..., ao final do ano, quando já tinha concluído á 4ª série, minha tia me convida
para conhecer Salvador. Mais uma vez, fiz planos e mais planos..., com uma diferença: dessa
vez, deu certo! Foi muito bom.... Só em conhecer o Zoológico já tinha ganhado a viajem.
Daí em diante, comecei a aprimorar à vontade de conhecer os animais, como cuidar deles...
Como trata-los de forma adequada? Dúvidas e mais dúvidas foram surgindo... E pensava:
“serei uma Médica Veterinária, quando crescer”! Podia ser apenas mais um sonho, mas
quem sabe não pode ser realizado.... É difícil, mas será que é impossível? Lembro que
muitas pessoas diziam: “Isto é sonho de criança, um dia passa, estudar é só para o filho do
prefeito”; Mas tinha essa idéia em mente, e a cada dia à vontade só ia aumentando dentro de
mim. Vontade essa, que algumas pessoas, aumentavam; outras desanimavam, mas era apenas
uma criança, e ainda nem tinha concluído o ensino fundamental que dirá o ensino médio,
para só então prestar vestibular.
Chegou o tempo de ir para o ensino fundamental II, acostumada com poucos colegas,
tinha que ir enfrentar mais uma batalha: aos 10 anos de idade fui estudar no Educandário
Oliveira Brito, uma escola pública estadual localizada no centro de Euclides da Cunha Bahia (minha cidade natal). Meu primeiro impacto foi à quantidade de colegas, uma sala
com cinqüenta alunos; e professores dez a doze; foi terrível... Não imaginava que seria tão
diferente do meu tempo de ensino fundamental. Muda o ambiente, as pessoas, os colegas,
os professores, a diretora, os funcionários... que aflição continua! Mas fui acostumando-me
aos poucos.
De repente, encontrei-me num ambiente sozinha sem conhecer ninguém, mas isso
não me inibiu, fui a cada dia conquistando meu espaço, e aprendendo a conviver. Começo
a perceber, passo a passo, as pessoas que compunham à escola, e aos poucos, meio desconfiada, fui conquistando e fazendo amizade com o pessoal.
Ao fim do ano, fui aprovada, e chego à 6ª série, um pouco mais confiante e à vontade
na escola. Nessa época, continuava aplicada em meus estudos, e nunca esquecia de meu
grande sonho: prestar vestibular para Medicina Veterinária! Preferia não comentar com
muitas pessoas para que estas não me desenganassem ou me desiludissem como já havia
acontecido.
Adorava ir pra roça, o convívio com a natureza, com os animais. Dessa maneira, sempre ia com minha tia Azinda (irmã de minha mãe) para casa dela em uma fazenda. Até os dias
atuais, sempre quando possível, continuo indo. Lá é um local muito especial e que marcou
momentos inexplicáveis e inesquecíveis em minha vida.
Mas um ano se passava, e estava eu, com 12 aninhos na 7ª série, naquela mesma
escola. Já considerava o meu 2° lar, devido ao tempo de convivência e à afinidade à qual
tinha com as pessoas de lá. Foi no ano de 1999, que resolvi criar o meu primeiro gatinho, era
perfeito, lindo, impecável. Tinha tanto ciúmes, e nele tentava exercer à minha futura
profissão.... Será que realmente essa é a minha profissão, quero tanto... mas não sei se
chegarei até lá... perguntava-me, sempre! O gato se chamava Jânio, e era tão especial que o
considerava como um integrante de minha família.
Jânio, infelizmente, sofreu um grave atentado e foi envenenado inocentemente por
um vizinho... Foi uma grande tragédia! Passei muitos dias chorando sem parar. Não conseguia
me conformar. Mas o tempo foi passando, e adotei outro gatinho, era idêntico a Jânio,
porém só fisicamente, pois internamente era um gato travesso, e não tinha carinho algum
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Caminhadas de universitários de origem popular
por mim. Chamava-se Tully e era tão sem amor que num belo dia resolveu me abandonar, e
lá se foi Tully para nunca mais voltar. Mas uma decepção, será que suportarei? Mas resolvi,
mais uma vez, criar outro gato. Porém, dessa vez, antes de adotá-lo encontrei uma mensagem
que refletia muito bem esse momento ao qual estava passando. Concluí que todos nós
somos insubstituíveis, assim como os animais, e devido a isso, todos têm as suas
características particulares, e estava agindo errado ao procurar Jânio nos outros gatos. Ele era
único e insubstituível. Para chegar a essa conclusão, tomei como lição a seguinte mensagem:
“(...) Não há dois dias iguais. Um sucede o outro, mas não o
substitui. Porque cada dia é único. Assim como na sinfonia, onde
uma nota sucede outra, mas não a substitui, sempre seremos
sucedidos nunca substituídos. Porque nossa vida é única. Porque
cada pessoa é única. Porque tudo o que geramos revela a nossa
autoria, como se fosse assim uma espécie de marca. Indelével,
singular. Um filho, um livro, um quadro, uma idéia, um sentimento,
uma palavra. ‘Cada um de nós pode ser insubstituível’. Ser
insubstituível, sim, por que não? Um ser insubstituível não por
arrogância, nem por posses, nem por dotes físicos ou intelectuais.
Ser um insubstituível seres, simplesmente pelas emoções criadas e
pelos valores agregados em sua volta. Ser um insubstituível seja
pela renúncia à mediocridade, pela fuga do vazio, pelo abandono
da irrelevância. Poderíamos ser todos insubstituíveis seres, pela
energia positiva que transmitimos às outras pessoas, pela
vibração produzida por nossos sentimentos, pelos nossos exemplos
e atitudes, pelo nosso esforço admirável de passar por esta vida
deixando marcas de excelência, como se fossem rastros de luz.
Sejamos todos insubstituíveis. Eu para você, e você para mim. Uns
para os outros. Cada um para todos.”
Arnaldo Pereira Ribeiro
Baseando-se na mensagem acima, percebi que Jânio era simplesmente um gato
insubstituível e aí, sim, veio Uily: um gato diferente de Jânio, mas com suas características
peculiares, às quais nos tornaram amigos fiéis, em todos os momentos.
Então, continuando a minha trajetória escolar, aos 13 anos de idade estava na 8ª série.
Tarefa muito complicada foi à minha partida do ensino fundamental II para o ensino médio.
Digo isso porque, na minha cidade ainda existe o Normal Médio (antigo Magistério). Foi
muito difícil decidir se ia optar pelo Magistério ou ia para o Ensino Médio.
O tempo foi passando, e chegou o tão cruel dia de decidir, mas logo pensei: “Meu
Deus, se optar pelo Magistério, meu sonho de ser Médica Veterinária, irá por água abaixo”.
Minha mãe é professora, e acha melhor que eu curse o Normal Médio. Após uma conversa
com à mesma, ela esclareceu-me dizendo: “Não necessariamente, porque está fazendo
Magistério, será professora”. Ela mostrou-me que este seria um meio ou caminho para que
eu, de certa forma, tivesse uma profissão para futuramente cursar minha faculdade, pois os
custos são bastante altos! Enfim, acabei optando pelo Normal Médio. Com a decisão, acabei
separando-me de muitos de meus amigos, os quais não optaram pelo mesmo curso que eu.
Universidade Federal do Vale do São Francisco
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Eram quatro anos de curso, mas comecei a lamentar-me desde o primeiro dia, quando
soube que seriam quatro anos... achei que fosse um ano perdido de minha vida. Só que ao
decorrer desses anos aprendi e cresci muito intelectualmente. Apesar de ser muito tempo,
mas nada na vida vem por acaso. A mensagem a seguir reflete bem essa página de minha
vida, pois não adianta pressa, o importante é chegar um dia onde desejamos. Observe:
“Na vida as coisas, às vezes, andam muito devagar. Mas é
importante não parar. Mesmo um pequeno avanço na direção
certa já é um progresso, e qualquer um pode fazer um pequeno
progresso. Se você não conseguir fazer uma coisa grandiosa hoje,
faça alguma coisa pequena. Pequenos riachos acabam
convertendo-se em grandes rios. Continue andando e fazendo. O
que parecia fora de alcance esta manhã, vai parecer um pouco
mais próximo amanhã, ao anoitecer, se você continuar movendose para frente. A cada momento intenso e apaixonado que você
dedica a seu objetivo, um pouquinho mais você se aproxima dele.
Se você pára completamente, é muito mais difícil começar tudo de
novo. Então, continue andando e fazendo. Não desperdice a base
que você já construiu. Existe alguma coisa que você pode fazer
agora mesmo, hoje, neste exato instante. Pode não ser muito, mas
vai mantê-lo no jogo. Vá rápido quando puder. Vá devagar
quando for obrigado. Mas seja lá o que for, continue.
O importante é não parar!”
Autor desconhecido
Com isso, iniciei o meu curso, tendo como meta que o importante era não parar, e a
cada dia, estava mais próxima de meu objetivo!
No 1° ano do Ensino Médio Normal houve um estágio de observação, onde fui
encaminhada para uma escola pública chamada Escola Estadual Joaquim Dantas da Silva.
Lá, passei em todas as séries do Ensino Fundamental, sendo dois dias em cada série, partindo
da alfabetização até a 4ª série. Neste período, pude observar o modo de construção das aulas
das professoras regentes e perceber a didática de aula que as professoras já tinham. Vale
ressaltar que este estágio foi realizado em dupla, e ao término, seria realizado um relatório
mostrando as experiências adquiridas.
Já no 2° ano, mais um estágio, e dessa vez, era individual, repetindo mais uma vez
todo o processo do 1° ano. No ano seguinte, aos 16 anos de idade, estava no 3° ano do Ensino
Médio (modalidade normal) e pensava: “podia estar me formando este ano. Mas como me
prometi que não me lamentaria, não vou nem pensar nessa hipótese”. No 3° ano, o estágio
era chamado estágio de Co-participação. Neste estágio teria que realmente dar aula em
todas as séries, não seria apenas para observar, e sim, para participar. A “escola laboratório”
foi a Escola Municipal Naide Lima Campos, onde na oportunidade passei pelas séries
iniciais de 1ª à 4ª série, sendo proposto uma semana em cada série e, a aula seria ministrada
nos dois últimos dias de cada série, totalizando um mês nesse estágio.
Agora, estava chegando ao fim de mais uma batalha. Estamos em 2005, ano de minha
formação, ano de assumir uma sala. E como professora em formação, preciso realizar um bom
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Caminhadas de universitários de origem popular
trabalho até porque sou filha de uma professora e é interessante que o trabalho seja proveitoso
e significativo. Mas, será que tenho talento para isso? Será que sou capaz de fazer um bom
trabalho?... não tenho vocação! Disso não posso me esconder, porém já que estou prestes a
estagiar, vou tentar fazê-lo bem feito. A questão de vocação não significa que o trabalho
será feio e sem proveito algum! Ao contrário, pode ser bastante interessante e proveitoso.
Em 01 de agosto de 2005, dia da decisão da série e da escola em que ia estagiar. Temia
pegar uma série baixa, como a 1ª série, pois exige muito carisma e paciência por parte dos
professores, enquanto que a 4ª série os alunos são maiores, e já entendem os motivos pelos
quais estão na escola. Finalmente, recebi o resultado: ia estagiar na Escola Municipal Naide
Lima Campos, na 4ª série. Que bom, ao menos, estou na série que queria.
Deu-se o início do estágio, pensei muitas vezes em desistir, em jogar tudo para o alto,
mas algo me impedia, ou melhor, alguém me impedia, e esse alguém era minha mãe que a
todo o momento esteve ali presente me apoiando e me dando força pra continuar. Durante
este estágio, tornei-me uma pessoa bastante sensível.
Foi necessário muita ajuda de minha mãe, meu irmão e minha tia Azinda, pessoas que
de forma especial ajudaram-me bastante. Sem eles não sei o que seria de mim! Sem contar
nos gastos, pois a escola não dispunha de material para o estagiário!
Como tudo que começa, termina... Graças a Deus! Chegou o dia do encerramento do
estágio. Muita festa, alegria, entrega de provas, leitura de mensagens dos alunos para mim....
Apesar de muito reclamar, foi um dia muito especial e inesquecível! Ficará pra sempre
guardadinho em minha memória.
Agora que o estágio encerrou, nada mais justo que concentrar minha atenção no
vestibular que estava por vir. Faltavam poucos dias, a data da prova estava chegando e a
emoção e o nervosismo concentrava-se em mim. Sempre fui uma menina de pensar muito
nas conseqüências de meus atos, e dessa vez, não foi diferente, parei para refletir a hipótese
de passar no vestibular. Primeiro ia ter que afastar-me de minha mãe, pois como já comentei
anteriormente, sou de Euclides da Cunha e o curso que almejo só tem na cidade de SalvadorBahia e Petrolina-Pernambuco. Segundo, o custo de vida nestas duas cidades é muito alto.
Será que vou conseguir manter-me num desses lugares? Refleti, refleti e cheguei a seguinte
conclusão: vou esperar o resultado depois penso no que fazer!
Saiu o resultado do vestibular! Fui aprovada no curso de Medicina Veterinária, na
Universidade Federal do Vale do São Francisco. Muita alegria, festa... Nem acreditava que
ia passar no primeiro vestibular, mas passei! Agora só era cursar e realizar o meu tão
sonhado desejo!
A partir de julho de 2006, passei a residir na cidade de Petrolina, no estado de
Pernambuco. Confesso que foi e está sendo muito difícil, por motivos os quais prefiro não
mencionar. Porém, você que leu com bastante atenção é capaz de desvendar tais motivos.
Mas não é só isso, sinto muita falta de minha mãe, a qual reside em Euclides da Cunha, e
precisa trabalhar. Caso contrário, teria que trancar meu curso! Mas se é para realizar-me
profissionalmente, acho que vale a pena o esforço.
Estou no 2° período de Medicina Veterinária e estou identificando-me bastante com o
curso. Minha inserção no Programa Conexões de Saberes, como bolsista, auxilia-me bastante
na manutenção fora de casa, tendo em vista que não estudo em minha cidade natal. Mas não
é só isso: o projeto faz-me vivenciar várias questões dentro e fora do mundo acadêmico, além
de promover oportunidades de aprendizagem para o meu crescimento intelectual e social.
Universidade Federal do Vale do São Francisco
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Sendo assim só tenho a agradecer a três pessoas, a quem considero fundamentais para
a minha existência: primeiramente minha mãe, a quem dedico tudo o que sou e a meu irmão,
assim como a uma tia muito especial chamada Azinda.
Enfim... Minha mãe diz muitas coisas sábias para mim. Ela sempre tem uma história
que me toca. Adoro conversar com ela, por horas e horas... Quando estamos juntas, nem sinto
o tempo passar. Ela é daquelas pessoas incríveis que conseguem explicar de maneira clara todas
as questões da vida. Mães são assim, um ser iluminado, uma mistura perfeita entre a inteligência e a sensibilidade. Tenho-a dentro de mim em todos os lugares que vou, levo-a comigo.
De todas as experiências expostas no decorrer de minha história de vida, confesso que
cresci muito como pessoa, e hoje posso dizer que, na vida aprendi:
“Que você não pode fazer com que os outros o amem, tudo que você
pode fazer é ser alguém que possa ser amado, o resto é com eles.
Aprendi que não importa o quanto você se dedique a alguém,
algumas pessoas simplesmente não são capazes de reconhecer ou
corresponder.
Aprendi que você pode até se sair bem com charme por uns quinze
minutos, mas depois disso é melhor ter algum conteúdo.
Aprendi que custa um tempo enorme para nos tornarmos a pessoa
que queremos ser.
Que é muito mais fácil reagir do que pensar.
Que ainda podemos continuar em frente muito além do que
pensávamos que poderíamos.
Aprendi que, ou você controla suas atitudes ou elas controlarão você.
Aprendi que, independente da intensidade e do calor inicial de
um relacionamento, a paixão passa e é melhor ter alguma coisa,
além disso, para substituí-la.
Que existem pessoas que te amam de verdade, mas simplesmente
não conseguem demonstrar esse amor.
Aprendi que, meu melhor amigo e eu podemos fazer qualquer
coisa, ou coisa nenhuma, e ainda assim nos divertimos a valer.
Que às vezes quando estou irritada, eu tenho o direito de estar
irritada, mas isso não me dá o direito de ser cruel.
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Caminhadas de universitários de origem popular
Que a verdadeira amizade continua a crescer mesmo quando
estamos longe. O mesmo acontece com o amor.
Aprendi que só porque alguém não te ama do jeito que você
gostaria, não significa que ela não te ame de todo o seu coração.
Que você nunca deveria dizer a uma criança que seus sonhos são
impossíveis ou improváveis de acontecer.
Poucas coisas são mais humilhantes que isso, e que desastre seria
se esta criança acreditasse em você.
Aprendi que por mais que você esteja sofrendo o mundo não vai
parar para você ficar se lamentando.
Aprendi que só porque duas pessoas discutem, isto não significa
que não se amem, e às vezes só porque duas pessoas não discutem,
não significa que se amem.
Que existem muitas maneiras de se apaixonar e continuar apaixonado.
Que escrever, assim como falar, podem aliviar as dores emocionais.
Estas coisas eu aprendi e muitas, estou aprendendo a cada dia, e
me dão mais razão, mais coragem, mais sentido e alegria em
enfrentar esta sublime aventura que é a VIDA.”
Autor desconhecido
Aprendi que o importante é jamais desistir dos objetivos, dos sonhos... É preciso
persistir, pois com certeza, um dia, eles serão realizados!
Essa foi um pouco de minha memória ou caminhada até os dias atuais, com algumas
dificuldades, às quais vão tornar a vitória mais encantadora. Agora, só desejo ser uma
excelente profissional, enquanto Médica Veterinária, e fazer o meu mestrado, doutorado...
Universidade Federal do Vale do São Francisco
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Para construir a vida é
necessário fazer escolhas
Janaína Nunes dos Santos*
“O valor das coisas
Não está no tempo
Em que elas duram,
Mas na intensidade
Com que acontecem.
Por isso, existem
Momentos inesquecíveis
Coisas inexplicáveis e
Pessoas incomparáveis.”
Fernando Pessoa
Faço minha as palavras de Fernando Pessoa. Iniciando esta história, que poderá não
ser diferente das demais, no entanto, creio que também não será igual, visto que somos
diferentes, únicos, insubstituíveis. Serei a mais sincera possível, não contarei aqui minhas
misérias, mas não seria honesta comigo mesma e com os leitores se não contasse às batalhas
que tive de travar para chegar até aqui. Não quero que os caros leitores tenham compaixão
por mim, e sim, que se sintam motivados a seguir em frente mesmo quando tudo parecer
perdido, quando o último fio de esperança tiver esvaecido.
Meu nome é Janaína Nunes dos Santos, nasci dia 09 de dezembro de 1987, na cidade
de Petrolina, Pernambuco. No entanto, morei sempre na cidade de Lagoa Grande-PE.
Inicialmente vivia apenas com a minha mãe. Aos cinco meses de nascida mainha e eu
passamos para a nossa casa, até então, morávamos na casa de minha tia. Lembro-me que a
casa não era grande, tinha apenas um quarto, passei 17 anos da minha vida lá. Nunca fui
uma criança de muitos amigos (aliás, nenhum), nunca tive muitos brinquedos, não
costumava sair na rua para brincar, porém, mainha sempre fez o possível para que eu me
sentisse bem, mesmo em meio às dificuldades.
Quando eu tinha 4 anos, mainha foi acometida por uma séria alergia a produtos químicos, sofri muito por um período de 2 anos, quando conseguiu-se contornar aquela situação.
E já aos 4 anos de idade comecei a descobrir a realidade mais sofrida da vida, cedo aprendi
a cuidar da casa, e de tudo o que podia. Aos seis anos de idade, vi a família aumentar, ganhei
um irmãozinho, Joabe, as coisas eram extremamente difíceis, eu era como adulta no corpo
Graduanda em Psicologia.
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Caminhadas de universitários de origem popular
de criança. Sempre fui muito decidida, por isso as dificuldades não me assustavam e eu
jamais desisti, mesmo quando parecia que era o fim. Continuei ao lado de mainha e sempre
a ajudei. Houve um tempo em que ela fazia salgados e ia para a rua vender, e eu ia junto com
o ketchup e a maionese nas mãos, meu irmão, muito novinho ficava em casa, enquanto
adquiríamos o alimento do outro dia. Mainha já fez de tudo, mas nunca permitiu que passássemos fome, ainda que não tivéssemos uma alimentação adequada, não faltava o que comer.
Alguém pode ter se perguntado: e onde fica o pai nesta história? Então... Infelizmente,
não posso falar muito desse personagem, pois ele não me ajudou a escrever esta história,
apesar de morar a 70 km da minha cidade, ele pouco apareceu para que pudesse ser lembrado.
Aos 17 anos eu o procurei e fiz questão de conhecer minha família paterna. O bom dessa
parte da história é que fui muito bem recebida por todos os parentes, e hoje, eu tenho um
grande amor por cada um deles.
Apostando na educação
“Os livros não mudam o mundo; quem muda o mundo são as
pessoas. Os livros só mudam as pessoas”.
Mário Quintana
Aos 6 anos, comecei a estudar. Iniciei a alfabetização, na escola Santa Maria, logo
aprendi a ler e a escrever, minha primeira professora chamava-se Jeane. Foi na escola que
minha vida começou a mudar! Na primeira série, conheci a professora que fez uma “revolução”, no que diz respeito à forma de viver que eu tinha até então: Solange Maria de Jesus
Santos. Estudei com ela da primeira a quarta séries, e da quinta a oitava séries ela lecionou
História, que é sua formação acadêmica.
Mainha nunca teve condições de oferecer “do bom e do melhor” para mim, como
dizem, mas quando o assunto é educação, ela sempre fez o máximo que pôde para que eu
tivesse se não, uma boa educação, mas a melhor possível. Estudei toda a vida em escola
pública, porém, desde cedo comecei a me dedicar aos estudos, pois sempre acreditei que a
EDUCAÇÃO é o caminho para realizar a transformação que queremos ver em todos os
setores deste país. Na Escola Santa Maria aprendi mais que disciplinas escolares, antes de
tudo fui educada para a vida. Como toda escola da rede pública, enfrentávamos muitas
dificuldades, não tínhamos livros suficientes, às cadeiras não atendiam demanda, os professores não tinham uma boa remuneração, no entanto, cada aula era especial, eu não tinha
apenas professores, mas educadores, verdadeiros heróis, que mesmo em meio aos obstáculos não deixavam de acreditar na educação. Prefiro não citar nomes para não ser injusta com
meus tão amados educadores.
Mas nem tudo foi tão simples assim. Lembro-me que para eu ir a escola era uma batalha
diária, muitas vezes mainha deixava de comer o pão para que eu não fosse para a escola com
fome, muitas vezes na hora do recreio ficava sozinha na sala por não ter dinheiro para lanchar,
e não raras vezes fui levada à secretaria sem sentidos porque estava com muita fome, e uma
coisa “engraçada” é que eu detestava leite, e as professoras me fazia tomar um copo bem
grande cheio de leite. Não tenho vergonha disso, até porque, isso era uma motivação para que
eu lutasse por dias melhores, nunca desanimei por conta dessas situações, pelo contrário,
sempre fui uma aluna aplicada, a primeira da classe em notas, em participação e em assiduidade.
Universidade Federal do Vale do São Francisco
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Cedo me apaixonei pela leitura, comecei a escrever, desenvolvi a habilidade de rimar
as palavras e produzir literatura de cordel, escrevo poemas sobre tudo. Lembro-me que uma
vez, já na 6ª série, a diretora disse que mainha tinha que comprar o fardamento da escola, ou
do contrário, eu não ia assistir às aulas. Depois de muita conversa a professora Solange
presenteou-me com a farda. Quando cheguei em casa produzi um poema sobre o acontecido.
Chegou o momento de despedir-me da escola Santa Maria depois de nove anos de
convivência, já havia conquistado uma família, mas infelizmente, a escola só dispunha do
Ensino Fundamental. Passei a estudar na Escola Antonio de Amorim Coelho, também pública estadual, foi onde cursei todo o Ensino Médio. Lá, a situação não foi diferente,
encontrei grandes amigos, construí uma outra família. Cresci muito como pessoa. Adquiri
conhecimentos que servirão para toda a vida. Valores como, honestidade, solidariedade,
compaixão, paciência, persistência, que eu absorvi ao longo da minha caminhada estudantil.
A vida é composta de momentos bons e ruins, certamente se eu fosse escrever todos os
momentos marcantes da minha trajetória o livro seria só meu, pois tudo que acontece na
minha vida eu insiro na minha história, mesmo que sejam coisas ruins, pois é impossível
que haja algo tão negativo que não se tire nada de positivo, que não se aprenda uma lição.
Às vezes fico refletindo sobre o que nós estudantes, somos capazes de fazer para tirar
uma boa nota. Veio à memória um dia que a professora de português passou um trabalho de
literatura, e a equipe que eu estava ficou com o escritor José de Alencar, como sempre queríamos arrasar, pois todos os trabalhos que fazíamos era o diferencial da aula, elaboramos a
apresentação e nela usaríamos um caixão, visto que José de Alencar voltaria ao século XXI
para conversar com os alunos. No entanto, ninguém da equipe se dispôs a ir pegar o caixão na
funerária, e sobrou pra quem? Minha colega e eu fomos até a funerária, pegamos o maior
caixão que tinha, na trajetória pelo centro da cidade até a escola, que fica justamente ao lado
do cemitério, as pessoas começaram a nos parar e perguntavam quem havia morrido, diziam
que o cadáver era tão magro que duas moças conseguiam levá-lo, nós ríamos muito, e quase
morremos de vergonha. Resultado: tiramos um 10 e foi a melhor apresentação da classe.
Desde cedo faço parte de projetos sociais. Aos treze anos fui inserida no PETI (Programa
de Erradicação do Trabalho Infantil), é um Programa do Governo Federal que visa erradicar
o trabalho de crianças e adolescentes entre 5 e 15 anos. O PETI dispunha de aulas de reforço,
alimentação, e práticas esportivas: futebol, vôlei, handebol, e ainda, teatro, dança e música.
Foi um tempo muito importante na minha vida, conheci pessoas muito especiais como à
professora da minha turma, Vera Lúcia. Ela passava uma força muito grande para todos ao
seu redor, fiz muitos amigos e estive em contato com pessoas que realmente merecem ser
feliz, diante de tudo que passam.
Já no Ensino Médio, pela dedicação e empenho nos estudos, fui escolhida para representar Lagoa Grande no Fórum do Projeto de Protagonismo Juvenil (projeto do governo do
estado de Pernambuco, que objetiva treinar jovens do Ensino Médio para que desenvolvam
seu protagonismo, nas mais diversas esferas da sociedade) a nível estadual e depois a nível
regional, participei de encontros em Petrolina e Gravatá-PE. Infelizmente ao terminar o
Ensino Médio não poderia continuar no projeto.
No segundo ano do Ensino Médio, participei do Projeto Gerando Cidadania, criado
por uma ONG chamada SERTA (Serviço de Tecnologia Alternativa) em parceria com o
Governo Estadual, que tem como um dos seus objetivos, ensinar jovens, filhos de agricultores,
a lidarem com tecnologias alternativas para melhorarem suas produções e promoverem
28
Caminhadas de universitários de origem popular
crescimento e desenvolvimento em suas propriedades. O projeto Gerando Cidadania trabalhava o protagonismo juvenil. Aprendíamos sobre cidadania e direitos humanos. Éramos
chamados de multiplicadores, pois tínhamos o dever de repassar o que estava sendo ensinado
e fazer a diferença na comunidade que morávamos, criando maneiras de melhorar a vida dos
jovens, possibilitando, dessa maneira, o protagonismo, sem esperarmos que somente as
autoridades públicas fizessem alguma coisa. Infelizmente, o Projeto só durou seis meses, e
eu não pude concluir as atividades, comecei a trabalhar.
É hora do vestibular...
“As pessoas geralmente são negativas e sem coragem. Lembre-se
disso: nada pode impedi-lo quando você estabelece um objetivo.
Ninguém pode impedi-lo a não ser você mesmo”.
Sidney Sheldon
E finalmente, chegou o último ano do Ensino Médio. Sem dúvida o mais conturbado
dos três, me preocupei mais com o vestibular do que com as aulas normais. Estudava muito
para prestar vestibular e quase nada para passar de ano. Comecei a tirar notas abaixo das que
eu tirava nos anos anteriores, na verdade, eu matava aula para estudar na biblioteca já que
não dispunha dos livros necessários. Não liguei muito para o problema. Continuei em
frente, o importante é que não fui reprovada.
Em junho de 2005 surgiu uma oportunidade extraordinária, fazer um cursinho prévestibular em Petrolina. Depois de muita luta consegui fazer a inscrição, torcendo para ser
selecionada, já que era um cursinho público com aproximadamente dois mil inscritos. O
Projeto Euclides da cunha de acesso ao Ensino Superior, é um projeto do Governo Estadual
destinado a estudantes de escolas públicas. Foram seis meses de muita dedicação, passava
o fim de semana em Petrolina, a aula era o dia todo com intervalo de duas horas para o
almoço. Mais uma vez, Deus coloca na minha vida alguém muito especial: Lucicleide, irmã
da professora Solange. Ela cuidou de mim durante os sei meses de cursinho e ainda continua
cuidando depois que entrei na Universidade, pois ainda moro com ela. Considero a família
dela a minha família.
Entretanto, até aquele momento eu não tinha certeza de que curso eu ia fazer, pois
tenho a mania de gostar de tudo, mas certamente não era nada na área de exatas! Depois de
muito pensar, escolhi Letras, com licenciatura em Português e Psicologia. Outra vez travei
uma batalha para fazer a inscrição do vestibular. Sem dinheiro, precisei da ajuda das pessoas
que me conheciam, e nesse momento, descobri verdadeiros amigos, que graça a colaboração
deles cheguei até aqui, e não poderia deixar de citar o apoio das secretárias de Educação e
de Assistência Social, da prefeitura de Lagoa Grande, das escolas que estudei e da Igreja
Evangélica Filadélfia, a qual faço parte atualmente, nas pessoas de Amadeu da Silva Santos
e Solange Maria de Jesus Santos.
Nos dias 4, 5 e 6 de dezembro de 2005 prestei vestibular na FFPP - Faculdade de
Formação de Professores de Petrolina, extensão da UPE, para Letras/Português. E nos dias
08 e 09 de dezembro prestei vestibular na UNIVASF - Universidade Federal do Vale do São
Francisco, para Psicologia. Ao contrário do que muitos pensaram que iria acontecer passei
nas duas e continuo cursando as duas.
Universidade Federal do Vale do São Francisco
29
A escolha que faz a diferença
“Antes que eu te formasse no ventre, eu te conheci; e, antes que
saísses da madre, te santifiquei e as nações te dei por profeta.”
Jeremias 1.5
Há quase doze anos descobri alguém que mudou minha vida: JESUS!
Aos 7 anos, quando estava na 1ª série, conheci a professora Solange, citada
anteriormente. E na minha vida ela nunca foi apenas uma professora, Deus a usou, também,
para levar-me a Conhecê-lo. Aos 7 anos comecei a freqüentar a 1° Igreja Batista em Lagoa
Grande, aos 8 me converti ao Evangelho, a partir desse momento tudo na minha história
começou a mudar.
Eu acredito que, se hoje estou aqui, é porque o Senhor nunca deixou de cuidar de mim.
Ele tem permanecido fiel, mesmo quando eu sou infiel. A Igreja é uma fonte de onde retiro
muito mais que conhecimentos do âmbito espiritual, foi lá que adquiri valores importantes
para a minha existência como amor, ética, respeito aos seres humanos, solidariedade,
tolerância e compaixão. Passei oito anos congregando na 1ª Igreja Batista. Como na vida as
coisas vêm e vão, conheci muitas pessoas que foram o referencial e o diferencial na minha
história, e da mesma maneira me ajudaram a formar minha identidade, passaram a ser mais
que irmãos.
Por isso, eu afirmo que as escolhas que fazemos na vida fazem à diferença na maneira
de vivermos. Como disse Freud: “O caráter de um homem é formado pelas pessoas que
ele escolhe para viver”. Deixar de citar o que Deus fez na minha história, seria negar
quem eu sou. Por isso, devo tudo o que tenho, tudo o que sou e o que eu vier a ser, a
Cristo meu Salvador.
Programa Conexões de Saberes
“Um grande homem demonstra sua grandeza pelo modo como
trata os pequenos.”
Carlyl
Quando entrei na universidade, não tinha noção de como se estruturava o ambiente
acadêmico, por conta disso, foi um pouco difícil a minha adaptação. Eu estava um pouco
deslocada, pois ao longo da minha vida estudantil eu participava de programas, projetos,
enfim, era muito ativa, nunca fui para a escola apenas estudar. Já tinha perdido a esperança
de encontrar novamente um projeto que atendesse os meus anseios. Ao iniciar o curso de
Psicologia surgiu o Programa Conexões de Saberes, pelos critérios de seleção eu tinha
certeza que entraria, mas pela quantidade de inscritos, só um milagre, e aconteceu. No
primeiro momento não entendia o que era o Programa, mas ao descobrir percebi que não era
simplesmente um meio para que eu permanecesse na universidade, é um projeto com uma
ideologia existencial.
Acredito que nem os próprios idealizadores do Programa têm uma dimensão exata do
significado deste na vida dos seus participantes. As experiências desse grande homem
chamado Jailson de Souza e Silva foram as responsáveis pela grandeza de suas idéias.
30
Caminhadas de universitários de origem popular
O sonho que ele teve de “ser alguém” o conduziu para suas realizações. As dificuldades e
privações que sofreu não foram suficientes para detê-lo, e este atentou para os pequenos que
como ele, enfrentam dificuldades e muitas vezes não vivem, sobrevivem, dadas as circunstâncias que perpassam o seu cotidiano. O resultado visível de sua preocupação? O
Programa Conexões de Saberes. Hoje existe diferença na vida de quem o tem, não apenas
como um simples programa, mas como um modo de vida.
Para concluir...
Quem disse?
Não pense que porque sou nordestina
Sou menos brasileira.
Não pense que porque sou sertaneja
Sofro mais que os outros.
Quem disse que o Nordeste só tem sofrimento?
Quem disse que no Sertão só há fome e miséria?
Quem disse que no Sertão só tem analfabetos?
Quem disse que no Sertão a chuva não cai?
Eu digo que no Nordeste existem HUMANOS!
Eu digo que no Sertão existem guerreiros!
Eu digo que no semi-árido tem a irrigação!
Eu digo que as frutas do Vale são referências para a nação!
Eu digo que nós temos o Rio da Integração!
Quem disse que o sofrimento deixou insensível o sertanejo?
Quem disse que não lutamos pela igualdade?
Quem disse que não temos liberdade?
Eu digo que sou sertaneja com muito orgulho!
Universidade Federal do Vale do São Francisco
31
Eu digo que aqui propomos a vida, apesar das dificuldades!
Eu digo que a margem do São Francisco, mulheres, homens e
Crianças sonham e lutam juntos por um futuro melhor!
Eu digo que o que faz o sertanejo permanecer de pé
É o seu amor pela vida.
Eu digo que o sertanejo resiste ao Sol,
O mesmo Sol que o queima na roça,
É o mesmo Sol que o bronzeia nas belas ilhas do Velho Chico!
Eu digo que nossos jovens também são o futuro do país!
Quem disse que o nordestino, especialmente o sertanejo é fraco?
Eu digo como disse Euclides da Cunha:
“O sertanejo é antes de tudo um forte.”
32
Caminhadas de universitários de origem popular
A humildade nos faz lutar e vencer na vida
Jorge Messias Leal do Nascimento*
Esta é a geração de João Batista que clama
para que o povo se arrependa.
Geração disposta a morrer por Jesus, pois,
na verdade já morreram há muito tempo
com ele, na cruz.
Geração que não tem a sua vida por
preciosa, mas o evangelho por precioso.
Que sente o luto por jovens perdidos na
cocaína, no álcool, nas esquinas de
prostituição e nos programas que compram
a escravidão de seus corpos.
Geração que clama contra o adultério e o
divórcio, que levanta a bandeira da
santidade de maneira insana e
desesperada, que gasta sua juventude pelas
estradas do Brasil e do mundo, até a cidade
mais distante, para ganhar os que estão
perdidos em suas dores e lástimas
interiores, no abandono de seus
sentimentos suicidas.
Geração que nada tem, mas tem tudo.
ESTA É A MINHA GERAÇÃO.
Fernanda Brum
Autobiografia da minha família
A principio o meu nome é Jorge Messias Leal do Nascimento, sou brasileiro, natural
de Juazeiro da Bahia.
Eu nasci no dia 28 de outubro de 1987, às 9:45min; numa manhã de terça feira.
O meu pai se chama Jorge Leal do Nascimento, um homem humilde, que junto com a
sua mãe, ajudou a sustentar sete irmãos. Meu pai tinha objetivos, e entre esses objetivos
existiam várias metas, sendo uma delas ver formados e empregados todos os irmãos.
Graduando em Zootecnia.
Universidade Federal do Vale do São Francisco
33
Começou a trabalhar aos doze anos de idade no comércio informal, vendendo pão,
flores, bolos, e logo foi trabalhar no comércio em um balcão de farmácia, onde passou doze
anos de sua vida.
Em um belo dia 'Deus', com sua misericórdia o abençoou com uma aprovação em um
concurso do estado, isso lhe proporcionou uma estabilidade financeira e a formação de uma
família, enfim, um exemplo de cidadão a ser seguido.
A minha mãe chama-se Rosemeire Messias da Silva Leal, uma mulher, mãe, guerreira,
uma moça humilde que passou a sua infância e sua adolescência trabalhando como doméstica
em lares, para ajudar a sua mãe no sustento de quatro irmãos.
Tenho também uma irmã, Débora Maira Messias Leal do Nascimento, uma moça
calma, estudiosa e inteligente.
Agradeço ao pai celestial, todos os dias por me conceder uma família como essa: feliz,
honesta, leal até no nome, por fim, uma família servidora de Jeová.
Do ensino primário ao ensino médio
No ensino primário fui privilegiado, pois tive a oportunidade de vivenciar um ensino
privado. Estudei do 1º período à alfabetização em uma escolinha perto da minha casa, ainda
lembro-me bem o nome dela Escola Modelo Infantil. Logo após, fui para outra escola onde
permaneci da 1ª a 4ª série, na Escola Arco Íris.
Em ambas pude aprender muito, pois sempre tive a consciência do sacrifício que meus
pais faziam para me manter, e me proporcionar um ensino básico de qualidade. Até hoje me
lembro de cada professor(a), cada prova, cada amizade que ali fiz, enfim, tudo ficou marcado.
Finalizando o meu ensino primário, hoje me recordo da minha formatura do ABC,
minha roupa, minha madrinha, minha família comemorando na minha residência. - UFA!
Mais uma etapa cumprida nos estudos de "Jorginho".
Após concluir a 4ª série do ensino primário, surgiram as preocupações:
- (pais) como pagar uma escola que tenha o ensino fundamental? Não temos condições!
- (Jorginho) não tem problema meu pai eu vou para uma escola do governo.
Meus pais ficaram receosos comigo. Será que ele vai gostar? Adaptar-se? Será que ele
vai progredir? Espero que ele não se desestimule para estudar.
Bom... O meu ensino fundamental, apesar de ter sido em uma escola pública, foi
excelente. Tive professores ótimos, estrutura adequada, amigos sinceros, enfim, não troquei
e nem trocaria o Colégio Estadual Rui Barbosa, por outro da rede privada.
Nos estudos sempre fui inteligente, na sala de aula era de costume me chamarem de
'CDF', pois com os incentivos de minha família, meus sonhos, meus esforços, e com certeza
com a presença de DEUS na minha vida, concluí o meu ensino médio. No mesmo colégio,
fiquei para cursar o ensino médio. Para uns uma vitória, para outros, mais uma batalha, tão
árdua, porém, tão próxima de um vestibular.
- Uma universidade! Um dia chego lá!
Passaram-se três anos para que eu concluísse o 2º grau do ensino médio, enfim ao final
do ano de 2004, 'Jorginho' tinha seu diploma de ensino médio nas mãos.
Finalmente, um orgulho na família, o filho de Jorge Leal e de Rosemeire Messias,
34
Caminhadas de universitários de origem popular
terminou os estudos, e para felicidade maior, passou do primário ao ensino médio sem pegar
uma final e nenhuma recuperação.
Não! Ainda não acabou. Eu quero mais, eu quero ter um nível superior.
- (pais) Jorginho a gente não tem condições de pagar um curso preparatório, quanto
mais uma faculdade.
- (Jorginho) Eu sempre lutei, e sempre consegui vitórias, e não vai ser aqui a
minha parada.
- Eu vou conseguir mais esse sonho, pois confio no Senhor, 'Deus', e tudo posso nele,
pois ele é a minha fortaleza...
A batalha por uma aprovação em um vestibular
Eu passei o ano de 2005 estudando, sonhando e acreditando que eu iria conseguir
entrar na universidade. Peço-lhe um pouco de atenção e paciência, pois vou relatar a minha
trajetória até a UNIVASF.
Ao final do ano de 2004, prestei o Enem, porém nunca consegui entrar no PROUNI,
calma! Fiz o vestibular da UNEB, outro resultado negativo.
- (Jorginho) Será que eu não vou conseguir?
Resolvi então prestar só por experiência um vestibular em uma faculdade privada.
OPS! Passei, e o dinheiro? Não dá, não tenho condições...
No primeiro semestre de 2005, tentei uma bolsa em outra universidade privada,
novamente não consegui.
Chegou o final do ano de 2005, olha aí a UNIVASF, e a UNEB, tem também a UPE/
FFPP. Bom, eram as minhas únicas tentativas, será que dessa vez eu iria conseguir?
- UNIVASF, prestei vestibular para o curso de Zootecnia. Olha, fui aprovado em décimo
segundo lugar, eram cinqüenta vagas.
- (Jorginho) pai não paga! Ela é FEDERAL.
- UNEB, prestei vestibular para Direito e Engenharia de Pesca, também fui aprovado,
só que o curso de Engenharia de Pesca, era em outra cidade, logo não tinha
condições de me manter em outra cidade.
UPE/FFPP, novamente um resultado positivo, dessa vez no curso de Ciências Biológicas.
- (Jorginho) pai essa também não paga, e é do outro lado da cidade é só atravessar
a ponte.
Bom, hoje eu sou estudante do curso de zootecnia (3º período) na UNIVASF e de
Ciências Biológicas (1º período) na UPE/FFPP.
Universidade Federal do Vale do São Francisco
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A vida acadêmica
No 1º semestre de 2006 eu iniciei o curso de zootecnia, tudo novo, amizades novas,
mas o que era diferente para mim naquele momento eram as experiências da vida acadêmica.
O campus onde eu estudo fica quase 1h:30min. de distância da minha casa, logo
vieram às dificuldades, com alimentação, transporte e material. Foram muitas batalhas nesse
1º período de 2006.
Chegando o 2º período, eu tinha uma tarefa: manter-me na universidade.
- Uma surpresa! Estão abertas as inscrições para o Programa Conexões de Saberes.
- Mas o que é, e o que faz esse programa?
Foram muitas dúvidas até o dia da entrevista. Após esse acontecido, eu consegui fazer
parte do grupo de alunos, que formavam o Conexões de Saberes.
Não é possível descrever as minhas conquistas e vitórias dentro da UNIVASF, pois a
cada dia eu tenho alcançado vitórias, coisas maravilhosas.
Nesse momento, eu só tenho a agradecer, primeiro a 'DEUS', a meus pais, a todos os
meus professores e orientadores que me ajudam a cada dia a permanecer nessa luta.
Hoje, quando eu paro e realizo uma auto-reflexão, percebo que sou feliz na minha
caminhada.
Agradeço ao Programa Conexões de Saberes, pois sem ele eu não conseguiria, me
manter na universidade.
36
Caminhadas de universitários de origem popular
“Verás que um filho teu não foge a luta”
Leidiana Alves da Mota*
Afinal o que é sonhar?
Sonhar é viver, buscar e conquistar, viver a verdadeira magia de se encontrar, mergulhar no inconsciente, sentir na alma o doce sabor da paz espiritual. Buscando em cada
sonho a felicidade, nem que seja ela momentânea, mesmo assim, é preciso persistir, lutar e
continuar, pois só através do sonho e da luta se consegue chegar a algum lugar, mesmo que
esse lugar não seja de extrema glória.
Mas como nem só de sonhos vive o homem, e sim de materialidade e abstrações, ao
longo da vida ele constrói a sua própria história através de longas caminhadas. Assim, em
meio a tantas caminhadas, essa pode ser mais uma, o que a torna imensamente importante
para mim, pois é a minha trajetória, a minha caminhada que se traduz: dedicação,
determinação, persistência e força de vontade. Então, vou procurar passar minhas memórias
refletindo a minha trajetória estudantil, tendo a certeza de que jamais conseguirei transmitir
exatamente o que se passou. Das emoções, dos desafios, das angústias, ficaram apenas as
lembranças e a saudade, espero que essa caminhada sirva de incentivo para pessoas que
como eu, ascendentes do meio popular, lute por seus objetivos, em busca dos seus sonhos e
dos seus direitos, e que jamais se julguem incapaz.
Durante o ano de 1988, mas uma brasileira entrava para as estatísticas, no interior do
Piauí, um dos estados mais pobres da nossa confederação, em uma região rica em representações culturais desde a pré-história, São Raimundo Nonato sudeste do Piauí. Apesar de ter
nascido em um país que é lindo por natureza, mas que oferece tantas dificuldades a seus
filhos, ainda me orgulho de pertencer a essa nação.
Como qualquer outra pessoa a minha primeira escola foi à escola da vida, tendo como
mestres principais, meu pai e minha mãe, que me ensinaram a ler o mundo, ou seja, adquirir
a “inteligência do mundo” como diria Paulo Freire, passando-me valores que me ajudaram
formar idéias, a pensar sobre elas e sobre o mundo, dando-me independência para que eu
vivenciasse a realidade que nos cercava da forma a contribuir para que no futuro não me
tornasse uma alienada, desenvolvendo em mim um senso crítico e uma personalidade sensata, sendo meus pais os responsáveis por tudo que sou hoje e o que serei amanhã, pois a
família é o único suporte verdadeiro e a maior riqueza que possuímos.
No que diz respeito à vida escolar, comecei muito cedo a interessar-me pela escola
chegando a freqüentar a escola em que meus tios estudavam por ainda não estar em idade
escolar, a partir daí, inicie a minha vida escolar e aprendi muitas coisas. Devido ao fato de
Graduanda em Arqueologia e Preservação Patrimonial.
Universidade Federal do Vale do São Francisco
37
morar em uma localidade do interior e ali ser difícil o acesso à educação na época, meus pais
decidiram ir morar em uma cidade pequena próxima - Bonfim do Piauí - onde comecei a
estudar em uma escola pública aos 7 anos sem ter feito pré-escolar, mas já com uma boa
bagagem escolar fruto da minha dedicação. Vendo em meus pais o esforço para que eu estudasse
e o sonho de educar os filhos, cresci impulsionada por desejos e projetos de vida, fomentando
no meu Eu a certeza de que era aquilo que realmente queria, por isso sempre me mantive
dedicada aos estudos, cheia de perspectivas e de objetivos, descobrindo a partir daí o mundo
das letras, a minha paixão pela leitura e pela busca do conhecimento, uma constante sede de
novos saberes, iniciando-se uma história de resistência, vitórias e superações.
Ao passo que concluí o ensino fundamental, ingressei no ensino médio estudando a 1ª
série em minha cidade (Bonfim do Piauí), mas por não gostar de estudar a noite e ver que
aquele lugar não me oferecia muitas perspectivas de crescimento, decidi morar em São
Raimundo Nonato, onde terminei o ensino médio em uma escola pública, conheci a universidade e a vontade de um dia chegar a ela. Ao prestar vestibular para o curso de Arqueologia
e Preservação Patrimonial fiquei meio sem esperanças, mas lá no fundo ela ainda acreditava.
Quando vi o meu nome na lista dos aprovados não acreditei, fiquei sem reação, em estado
de choque. Consegui entrar em uma universidade e fazer parte do mundo acadêmico, em um
curso que me descobri e abriu-me novos horizontes.
Porém, como em toda travessia não há só flores e nem só espinhos, pois as flores carregam
com si muitas vezes espinhos, nessa batalha constante pelo sentido da existencialidade,
ainda confronto-me com o preconceito racial que está escondido nas mais obscuras
estruturas da nossa sociedade, mas o que me dá vergonha e me entristece não é a cor da
minha pele, pelo contrário (é um orgulho pertencer a uma etnia tão forte e batalhadora), e
sim o fato de um país como o nosso que prega a igualdade, o preconceito ainda se reflete
nas políticas de democratização social, já que não é possível aceitar as diferenças, vamos
ao menos respeitá-las.
Às vezes para fugir das frustrações desse mundo medíocre me refugio nos sonhos e na
leitura, só sinto em ver que hoje em dia está se perdendo o prazer pela leitura, pois a
sociedade moderna é produto da cultura que a ostenta, cultura essa que não faz parte apenas
de nossas ações e da constituição de nossos valores, mas que tem influência profunda no
conhecimento científico e técnico. Em mim a cada dia que passa ocorre uma nova transformação através do saber, o que se reflete no meu olhar sobre a realidade e na maneira de ver
o meu eu e o outro.
Decerto, no meio do caminho, sempre haverá uma ou várias pedras, para isso temos
que aprender os desvios e ultrapassar as barreiras para que se ampliem os caminhos e se
expandam às fronteiras. De pouco a pouco ultrapassando as barreiras, cheguei à universidade,
então, percebi as deficiências remanescentes da escola pública, escola essa que não oferece
o suporte teórico e técnico necessário para que seus alunos consigam competir de forma
justa com os estudantes que possuem maior estabilidade financeira e provém do ensino
privado, o que não lhes possibilita ou torna difícil o acesso à universidade “pública”, principalmente nas federais. Tirando-lhes um direito que deve ser comum a todos de uma educação
justa que permita-lhes ascender socialmente e economicamente. Mesmo assim, apesar de
todos os problemas que enfrentam as universidades brasileiras, elas ainda são o objetivo de
muitos, e oferecem aos acadêmicos a oportunidade de desfrutar de um universo diferente, que
só sabe quem compartilha do mesmo. Na universidade nos deparamos com outras realidades
38
Caminhadas de universitários de origem popular
e aprendemos a desenvolver nossas capacidades de formação de um senso crítico que nos
possibilita aliado a perseverança tentar suprir as deficiências decorrentes do ensino médio e
fundamental, construindo assim os caminhos que queremos trilhar ao longo da nossa vida.
Só espero que o acesso a essas instituições um dia se torne mais justo.
Hoje, olhando para traz, considero-me uma vencedora e incentivo a todos que vivem
ao meu redor a buscarem seus sonhos. Por fim, gostaria de agradecer a todos que acreditaram
em mim pelo apoio e pelo incentivo, pois para se chegar a algum “lugar” precisa-se apenas
sonhar, ser estimulado e correr atrás do que realmente se deseja.
Universidade Federal do Vale do São Francisco
39
Apenas começamos...
Lívia Almeida Figuerêdo*
A questionadora
Desde muito cedo percebi que na vida existem pessoas que aceitam conformadamente,
e pessoas que questionam incansavelmente a sua própria forma de ser e estar no mundo.
Sempre tive comigo o valor incansável da busca que me mobiliza a agir sobre os fatos
e possibilidades da vida.
Quando criança, recordo das “broncas” de minha amada mãe Maria Eliene, quando a
arrebatava de perguntas, pois eu não aceitava ter que cumprir suas ordens sem entender as
justificativas, e mais, eu ficava irritada por ela não me deixar expor minhas opiniões.
Eu sempre criava polêmicas por onde passava. Em casa, na escola, na igreja, sempre
que eu começava a dar minha opinião era uma confusão, pois, nunca ninguém concordava
com minhas posições.
Cresci percebendo que eu pensava diferente, ou era a única que tinha a coragem
de dizer aquilo que estava sentindo não importava a quem. Nunca me conformava com
nada, nenhuma resposta pronta me agradava, questionava tudo e a todos. Sempre olhava
além do que queriam me mostrar. Hoje, penso sinceramente que é por esta razão, que
cheguei até aqui.
Na vida carrego comigo a afirmação de que é preciso está de olhos abertos para vê o
que os outros não se permitem perceber.
Infância
Tendo nascido em Jacobina-BA, aos 11 de março de 1986, ainda recém-nascida me
mudei para Lages do Batata, um pequeno povoado desta cidade, onde passei toda a minha
infância, desfrutando de muitas brincadeiras com meus amigos.
Em Lages do Batata, as escolas que freqüentei da alfabetização a 4ª série, foram
sempre públicas, e destas eu carrego comigo boas recordações. Nelas, sempre fui muito
elogiada pelos professores. Eles diziam a minha mãe, orgulhosos, que eu era uma boa aluna.
E penso que sempre fui realmente, pois prestava bastante atenção às aulas e tirava notas
boas. O que meus professores não sabiam era que prestar atenção às aulas foi à forma que eu
encontrei para não precisar estudar em casa. Em dias de prova fazia apenas uma revisão
rápida e isso já me garantia boas notas. Assim, me sobrava mais tempo para as tão maravilhosas brincadeiras na rua com meus amigos.
Em casa levávamos uma vida simples, porém, eu era uma criança muito feliz. Penso
que por dificuldades todos passamos, não quero me prender aqui a elas.
Graduanda Psicologia.
40
Caminhadas de universitários de origem popular
Minha mãe Maria Eliene e minha irmã Luana estavam o tempo todo comigo. Mamãe
cuidava de nós duas, sempre foi responsabilidade dela educar e dar amor, enquanto que a
meu pai Leovaldo, restou o papel de sustentar a casa. Ele mais ausente, pois sempre estava
na roça trabalhando ou viajando atrás de campos de sinzal, pois esta sempre foi nossa forma
de sustento.
Mamãe uma mulher temente a Deus, de fé bastante solidificada, com a ajuda de meus
queridos avós, Elias e Ildete, nos criou participantes da vida em comunhão com Deus
através do convívio com a comunidade da Igreja Católica. Sempre participei da catequese,
de grupos de encontro. Eu e minha irmã éramos chamadas de freirinhas, eu achava um horror.
Pensava... Eu, freira? Deus me livre!
Hoje, não sou freira, porém, tenho muita fé na vida e numa força maior que me guia
pelos caminhos que escolho percorrer.
A oportunidade surgiu
Cheguei aos 10 anos de idade, com um forte desejo de ir além dos limites do povoado
de Lages do Batata. Penso que meu pai Leovaldo, também percebeu minha vontade e da
maneira que ele me apoiou.
Terminada a 4ª série, papai quis que eu fosse estudar em Jacobina-BA, sempre percebi
o apoio dele para que eu tivesse um bom estudo. Ele não teve a oportunidade de estudar,
desde criança teve que trabalhar na roça. Acho que por isso imaginava uma vida diferente
para minha irmã e eu.
No ano de 1997, minha mãe, irmã e eu nos mudamos para Jacobina. Papai ficou em
Lages do Batata, pois como diz ele: “eu só sei trabalhar na roça.” Fiquei muito triste de
morar longe de meu pai, mas ele sempre vinha nos visitar no final de semana.
A chegada a Jacobina semeava um mundo de sonhos cheios de esperanças na minha
cabeça, porém, perceberia logo que nem tudo seria fácil.
Mamãe teve que trabalhar numa casa de família para ajudar nas despesas da casa. Ela
passava todo o dia no trabalho, e isso pra mim foi uma tristeza enorme. Eu já tinha que lidar
com a saudade do meu pai e agora a falta da minha mãe em casa. Chegar do colégio e não
encontrá-la era muito ruim. Eu chorava muito!
Centro Educacional Deocleciano Barbosa de Castro
Foi no C.E.D.B.C., como nós alunos gostávamos de chamá-lo por carinho ou preguiça
de falar todo este nome enorme, que comecei a lidar mais objetivamente com meus sonhos
e as possibilidades que me eram oferecidas para transformá-los em realidade.
Continuava a ser uma boa aluna e isso não exigia muito de mim. O ensino público
nunca exige muito de nós.
Muitas vezes eu fui criticada por meus colegas, pois proclamava que o C.E.D.B.C. não
exigia de nós esforço para passar. Eu achava que tínhamos capacidade de ir além do que era
dado em sala de aula. Sempre ficava com a sensação de que os professores deveriam dá mais
conteúdo em sala de aula. Eu achava tudo muito fácil e deficitário.
Continuei com a estratégia de prestar atenção às aulas e não estudar em casa, e
ainda assim da 5ª série do ensino fundamental II até a 3ª série do ensino médio eu
sempre fui uma das melhores alunas. Sempre tirava boas notas e tinha facilidade de
expressar minhas opiniões.
Universidade Federal do Vale do São Francisco
41
O meu destaque no colégio rendeu um estágio no Ministério Público da minha cidade,
o que me deixou muito feliz. Lá, eu tive contato com pessoas maravilhosas das quais me
lembrarei por toda a vida.
Nesta época eu queria fazer vestibular para Direito, e o contato com promotores e
advogados no meu estágio foi muito positivo.
O vestibular
Sempre pensei em prestar vestibular pra Direito ou História, muito mais História, pois
na UNEB de Jacobina tinha o curso, logo, era um sonho mais fácil de alcançar do que Direito.
Fiz o vestibular para História por dois anos seguidos em 2003 e 2004 e não passei.
Sentia a decepção e o peso do fracasso. Mesmo assim, eu não pensei em desistir. Sabia que
cedo ou tarde eu acabaria passando. Eu carregava esta certeza comigo, sentia que eu faria
uma graduação. Sabia que enfrentaria dificuldades, pois no C.E.D.B.C., sempre tinha sido
uma boa aluna, porém, agora eu seria pela primeira vez muito mais cobrada, e o pior, estaria
concorrendo com muitos jovens mais bem preparados do que eu. Mas tinha em mim uma
certeza maior que o medo e as limitações: a certeza de que eu iria conseguir!
O ano de 2005
Aproximava-se o período de inscrição para o vestibular, e em meio a tantas possibilidades pela primeira vez me percebi cheia de dúvidas. História e Direito que eram minhas
certezas já não me pareciam mais tão certas.
Eu e minha mania de está sempre buscando estas opções não dariam conta de realizar
meus ideais. Não era o caminho certo a seguir.
Foi então que apareceu a UNIVASF, com o curso de Psicologia em minha vida. E junto
com a possibilidade vieram os medos. Eu ficava a me questionar:
Eu fazer vestibular para uma universidade federal e em Petrolina onde eu não conheço
ninguém? Como eu poderia? Com que dinheiro eu vou?
Por fim, me inscrevi em História, na UNEB de Jacobina, e em Psicologia na UNIVASF-PE.
Decidi novamente me permitir sonhar, ir além daquilo que todos me julgavam capaz.
Fiz as duas provas sem esperança e para minha surpresa, penso, que por não ter perdido
noites estudando, não tive porque me cobrar bons resultados. Dizia que o que valia era a
experiência do tentar. Fiz às provas, mas estava tranqüila, e para minha surpresa, eu passei
nos dois vestibulares. Senti-me a criatura mais abençoada da face da terra. Era como se todo
o universo estivesse a favor dos meus sonhos.
A participação do grupo de jovens JAVÉ
Acredito que nada é por acaso. Temos sim, uma missão a realizar na terra. Isso eu
aprendi no convívio com meus amigos do “JAVÉ”, com eles confirmei a minha visão de que
temos uma imensa capacidade de superação de nossos próprios limites.
Ao longo de nossos encontros eu era capacitada para o que estava por vir. Não tenho
dúvidas: era Jesus agindo em meu ser.
Sou quem sou hoje pela forma como me relacionei com aqueles jovens tão iguais a
mim nos ideais de mudança. Eles me ensinaram a dar valor às coisas simples da vida,
aos pequenos momentos de amor e compreensão que desfrutamos ao lado das pessoas
que amamos.
42
Caminhadas de universitários de origem popular
Aprendi e levo sempre comigo esta frase, que muitas vezes ouvi lá na nossa liturgia:
“É PRECISO OUSAR PENSAR DIFERENTE”.
Encantamento e decepção
Minha chegada na UNIVASF foi permeada de sonhos de transformação. Pensava ser
aqui entre os muros da universidade que eu encontraria toda a força e as possibilidades
necessárias para ir além, como eu sempre sonhei. Porém, tive algumas decepções quando
percebi um meio acadêmico que ao invés de cooperar mais para a promoção de ajuda e
crescimento geral, tem promovido a concorrência individualista que põe em conflito os
mais diversos quereres e saberes.
Novamente me percebi sonhando sozinha em meio à multidão. Constato hoje, que a
força que me mobiliza não deve ser exterior e sim interior. Eu sou a maior responsável pela
minha forma de vê e ser na vida, e por isso retorno ao começo de tudo e proclamo para mim
o tempo inteiro: “Lívia vai, veja e seja além do que esperam de você”!
Mas nem tudo é decepção, no caminho encontrei o Programa Conexões de Saberes,
que tem a proposta de oferecer à jovens como eu, a possibilidade de continuar sonhando
além dos limites sócio-econômicos que a vida nos impõe.
Cheguei à UNIVASF sonhando com o mundo da Psicologia, e hoje, posso dizer que
estou indo bem, além do que eu imaginava.
Universidade Federal do Vale do São Francisco
43
Determinação
Lívio Ricardo Oliveira de Sá*
Tudo que sou, meus valores, minha educação e meu caráter, eu atribuo aos meus pais,
eles e meus irmãos são toda a base que sustentam uma vida de lutas. Por isso, nada mais
justo do que começar a minha historia, minha caminhada, contando um pouco sobre as suas
origens, o casamento de meus irmãos, e logo em seguida, eu falarei de mim. O leitor vai
precisar aguardar só alguns segundos.
Meu pai
João Sérgio de Sá nasceu dia 11 de abril de 1958, no município de Belém do São
Francisco, estado de Pernambuco, num lugar chamado Barro Preto. Nasceu no seio de uma
família simples, humilde e grande. Ele é o nono filho dos dez que dona Joventina teve e
criou com muito esforço. João, trabalhara como agricultor desde muito menino a exemplo
de todos os seus irmãos, talvez por isso, tenha sido um adolescente responsável e maduro.
Seu pai, Dionon era um homem laborioso, de personalidade forte que pode ter errado na
criação dos seus filhos pela alta rigidez, e às vezes, pela ausência de compreensão das
necessidades de sua prole. Quando João completara seus 18 anos, na ânsia de conseguir a
sua “carteira de motorista”, tinha que se deslocar para Salgueiro, cidade que fica a pouco
mais de 60 km de sua casa para dar andamento às atividades e burocracias necessárias para
se formar condutor. No final dos anos 70, tirar a carteira de habilitação representava uma
oportunidade de trabalho como motorista, e além de tudo, era um desejo de João, porém,
seu pai não lhe apoiava, pelo contrário, criticava, dizendo que João se afastava das atividades
da lavoura apenas para “vagabundar”. João se sentia triste com o comportamento de seu
pai, por outro lado, não desistia, sempre foi muito persistente.
Minha mãe
Maria Irene Oliveira, nasceu no Sítio dos Moreiras, atual Moreilândia, município de
Serrita - Pernambuco, no dia 15 de julho de 1958 - mesmo ano em que João nasceu. Tem
cinco irmãos nascidos do casamento da sua mãe, Maria com seu pai; Pedro e mais dois
irmãos, frutos do primeiro casamento de sua mãe com outro homem. Irene foi uma menina
que teve muitas dificuldades na sua infância e adolescência. Sonhadora, queria se formar
juíza de direito e para isso sabia que precisava estudar. E então, ainda muito menina, teve
que morar durante um período, fora da casa de seus pais no Jardim, uma pequena cidade do
estado do Ceará, onde estudou até a 8ª série do ensino fundamental, que deixou para se
Graduando em Administração.
44
Caminhadas de universitários de origem popular
casar e criar seus filhos. Aos quinze anos, foi convidada para um casamento de um primo no
Mundo Novo, município de Serrita. No meio da festa, um rapaz lhe tirou para dançar, era
João que também tinha sido convidado porque conhecia a família dos noivos, dançaram,
conheceram-se e se apaixonaram. Foram mais de seis anos entre namoro e noivado, e no dia
01 de fevereiro de 1979, casaram-se, foi quando Irene deixou Jardim e foi morar com seu
marido numa fazenda no município de Belém do São Francisco, a 20 km de Cabrobó,
estado de Pernambuco.
O nascimento
João e Irene, depois de três anos de casamento, tiveram seu primeiro filho. O leitor já
deve ter idéia de quem se trata... sou eu, o primeiro filho do casal João e Irene, nasci dia 01
de janeiro de 1983, no hospital da cidade de Cabrobó - Pernambuco, isso mesmo, no primeiro
dia do ano de 1983. Meus amigos dizem que eu fui muita inconveniência ter nascido
justamente no primeiro dia do ano, dizem que eu não deixei minha mãe comemorar a virada
do ano. Eu fui uma criança muito chorona, adorava um colo e não podia sentir fome que
abria logo um bocão. Depois de dois anos e nove meses do meu nascimento, veio meu
primeiro irmão, Lício, e aí vieram a Lidiane e Liliane logo em seguida. Dona Irene e seu
João tiveram muito trabalho para educar essas ferinhas. Minha mãe sempre em casa, dedicou muito do tempo de sua vida a cuidar dos seus filhos. Lembro muito bem que para levar
a mim e meus irmãos para tomar as vacinas que toda criança de três a quatro anos deve
receber, minha mãe caminhava cinco km com a minha irmã menor nos braços até o posto de
saúde mais próximo, onde eram oferecidas as vacinas que nós precisávamos tomar.
Minha primeira escola
Quando completei seis anos, minha mãe me matriculou na única escolinha que havia
na região. Era uma casinha de taipa e tinha um ambiente que servia de sala de aula, e um
pequeno quadro negro e algumas carteiras escolares em mau estado de conservação. A
escola possuía uma cozinha pequena e não dispunha de banheiro, a professora se desdobrava
para lecionar para as turmas de primeira à quarta série ao mesmo tempo.
A continuidade
Depois do fim da quarta série, eu tinha acabado de completar dez anos e passei a
estudar na Escola Municipal Sinfrônio Joaquim do Nascimento, escola que ficava a 5 km da
minha casa, na localidade de Ibó. As aulas aconteciam à noite e não havia transporte
coletivo, eu precisava me unir a um grupo de estudantes das fazendas vizinhas e caminhávamos 10 km de segunda a sexta feira para poder ir à escola. Depois de alguns meses, meu
pai conseguiu comprar uma bicicleta e então passei a ir à escola pedalando e pedalei
durante três anos. Para um adulto talvez não seja tanto, mas para uma criança que acabara de
completar 10 anos, isso representava um esforço tremendo. Pensei muitas vezes em desistir,
meus pais se preocupavam muito porque as estradas por onde andávamos eram muito
perigosas. A região em que morávamos próximo a Belém do São Francisco e Cabrobó era
cenário de uma acirrada briga entre famílias pelo controle da venda e plantio de maconha
na região, e por vingança das mortes ocorridas desde o início do confronto que já se estendia
por vários anos. A estrada que usávamos era rota de fuga desses bandidos. Por diversas vezes
tivemos que nos esconder na mata ao avistarmos um veículo em alta velocidade vindo na
Universidade Federal do Vale do São Francisco
45
nossa direção; o medo se justificava porque se as famílias envolvidas na briga estivessem
em ação, e geralmente estavam, paravam todas as pessoas que encontrassem pelas estradas,
fosse durante o dia ou à noite, para verificar se se tratava de algum integrante da família
rival. Se comprovado o vínculo ou parentesco com uma família adversária, eles executavam
o indivíduo a tiros. No último ano, 8ª série, era ano de eleições municipais, e como todo ano
de campanha eleitoral no interior do sertão pernambucano, sempre surge um político que
tem a “iniciativa” e a “coerência” de ofertar algum benefício para a população em troca de
alguns votos. Então, uma candidata ao cargo de vereadora de Belém do São Francisco
colocou, à disposição dos estudantes daquela região, um carro que nos transportava até a
escola todos os dias, foi assim que consegui concluir a minha 8ª série.
A primeira grande mudança
A conclusão da 8ª série representava, naquele momento, uma vitória porque era o fim
de uma etapa da minha vida estudantil; por outro lado se constituía outro problema. Para
que eu pudesse cursar o ensino médio seria preciso me deslocar até Cabrobó, cidade mais
próxima, diante dessa dificuldade e já visualizando que meus irmãos também teriam a
mesma dificuldade, meus pais decidiram mudar para Sento-Sé, interior do estado da Bahia,
uma vez que meu pai já trabalhara lá há vários anos e lá também eu, meu irmão e minhas
duas irmãs teríamos como dar continuidade aos nossos estudos. Aos 14 anos me matriculei
no Colégio Cenecista Custódio Sento-Sé, hoje Escola Municipal Custódio Sento-Sé. Lá,
cursei do primeiro ao terceiro ano do ensino médio. Como a grande maioria das escolas
municipais desse país, o ensino era muito deficitário, enfrentávamos problemas como falta
de professores, de material didático, os professores que davam aula, na sua maioria eram
muito mal preparados para o ensino, enfim, a escola funcionava aos trancos e barrancos. Aos
16 anos, eu trabalhava como vendedor, durante o dia, numa banquinha de roupas no Mercado
Municipal e estudava à noite, o terceiro ano. No fim do ano de 1999 concluí o ensino médio
nas vésperas de completar 17 anos. Mais uma vez, eu me vi numa situação complicada, para
onde ir? Se a cidade não oferecia oportunidade de cursar o ensino superior. Para ser bem
sincero com você leitor, quando concluí o ensino médio eu mal fazia idéia de o que seria um
vestibular, muito menos uma universidade, até então eu não tinha passado nem em frente a
uma, tinha uma certeza, a de que eu queria estudar.
Crescimento
Diante do fato de que em Sento-Sé eu não poderia continuar a estudar, resolvi ir
embora de casa, de perto dos meus pais e dos meus irmãos. Ainda fiquei em Sento-Sé, a
pedido de D. Irene, minha mãe, que achava que eu tinha pouca idade pra morar longe do
seio da família e ter que resolver meus próprios problemas sozinho. Ela me pediu que eu
esperasse pelo menos completar 18 anos, apesar de que aos 17 já demonstrava grande
potencial para encarar os problemas da vida. O ano de 2000 em que fiquei em Sento-Sé
aguardando a minha maioridade foi uma época importante, porque continuei trabalhando
como vendedor, não mais no Mercado e sim numa loja onde adquiri mais experiência, e daí,
pude guardar algum dinheiro para as passagens e para custear meus gastos com alimentação
nos primeiros meses em Fortaleza, capital do Ceará e cidade que escolhi para morar e buscar
uma vaga na universidade. Pude também pensar bem pra que curso eu faria vestibular, foi
quando optei por fazer administração.
46
Caminhadas de universitários de origem popular
Dia 2 de fevereiro de 2001 se iniciou uma fase difícil, complicada, dolorosa e em
contrapartida enriquecedora e muito importante pra mim, como pessoa e como profissional.
Eu e meu primo Claudemir, pessoa a quem cultivo um carinho e uma estima enorme porque
foi em quem encontrei apoio nos momentos mais difíceis enquanto estive em Fortaleza e,
nele pude ajudar de alguma forma, acredito eu, quando ele precisou. Então, partimos para
Fortaleza com pouco dinheiro e muitos sonhos. Na bagagem, o sonho de poder estudar,
adquirir conhecimento pra que no futuro pudéssemos desfrutar de uma vida confortável e
poder dar para nossas famílias uma vida melhor. Naquele momento, deixávamos as nossas
famílias, as nossas casas em busca de sonhos e de crescimento pessoal.
O primeiro ano foi o mais difícil. Durante meses, moramos numa casa que não dispunha
de geladeira, nem fogão, cama e guarda roupa eram móveis que também não faziam parte do
nosso dia-a-dia. Durante meses dormi no chão coberto apenas com um colchão fino, tão
fino que em épocas mais frias eu podia sentir a umidade e a frieza do piso nas minhas costas.
Por outro lado, tive muita sorte se é que ela existe, pois acredito que a “sorte” somos nós que
fazemos, somos nos que traçamos o nosso próprio destino. No segundo mês na cidade,
matriculei-me num cursinho pré-vestibular e consegui uma vaga de auxiliar de escritório
numa padaria em um bairro nobre da cidade. Tinha que trabalhar porque meus pais não
tinham como mandar dinheiro para que eu pudesse me manter. Então, eu trabalhava oito, às
vezes nove horas por dia na padaria e freqüentava o cursinho à noite. Fiz isso durante quatro
anos, era bastante cansativo, acordava cedo pra ir ao trabalho onde eu passava todo o dia,
freqüentava as aulas do cursinho à noite. Quando chegava em casa estudava até uma hora,
às vezes duas da manhã, e no outro dia, tinha que estar de pé às cinco e meia pra começar
tudo novamente. Nem sempre eu conseguia ver todas as aulas, dormia ali mesmo na sala do
cursinho, vencido pelo cansaço.
Fiz sete vestibulares, participei quatro vezes do concurso vestibular da Universidade
Federal do Ceará-UFC nos anos de 2001, 2002 e 2004 para Administração e em 2003 para
o curso de Odontologia. Fiz três vestibulares concorrendo a uma vaga para Administração
na Universidade Estadual do Ceará - UECE, muito conhecida por possuir um dos melhores
cursos de Administração do Nordeste. Os melhores resultados que consegui foram um 19º
classificável em 2003 na UECE e um 9º lugar na primeira fase da UFC em 2004, não passei
na segunda fase por pontuação baixa em Matemática. Considero-me um homem persistente,
prestei sete vestibulares durante quatro anos seguidos sem desistir, ouvi muitas pessoas
dizerem que eu não era capaz de passar, confesso que nos últimos momentos dessa intensa
batalha me senti cansado e sem forças pra continuar, mas eu não parei.
Os frutos
Paralelo ao último vestibular que prestei na UFC no fim do ano de 2004, aconteceu o
primeiro processo seletivo da UNIVASF - Universidade Federal do Vale do São Francisco e
com incentivo dos meus pais fiz as provas. Era o oitavo vestibular que fazia, quando o
resultado saiu o meu nome apareceu na lista dos classificáveis na colocação 13, ou seja, se
12 dos candidatos que passaram como classificados desistissem de realizar a matricula eu
seria chamado, então eu tive que esperar, foram meses angustiantes porque eu sabia que as
chances de eu ser chamado eram grandes mais existia ainda uma grande probabilidade de
tudo terminar em mais uma experiência, até que em maio de 2005 saiu uma lista no site da
UNIVASF me convocando para fazer a matrícula. Há quem diga que 13 é um número que
Universidade Federal do Vale do São Francisco
47
representa azar, mas pra mim é o número da felicidade e da realização de um sonho que eu
perseguia a mais de quatro anos.
Em junho de 2005, mudei-me para Petrolina onde resido até hoje. Desde então venho
tentando dar o melhor de mim e me esforçando para trilhar bons anos de universidade.
Desde o início do curso já fui líder de turma, participei de projeto de extensão, simpósios,
palestras importantes pra minha formação. Hoje, tenho orgulho de dizer que sou aluno de
origem popular e que participo do Programa Conexões de Saberes.
Não poderia terminar essa história sem deixar registrada aqui meus agradecimentos
aos meus pais e irmãos que sempre me deram todo apoio para que eu pudesse chegar até
aqui e que são a absoluta razão da minha vida, a todos os meus professores, que direta ou
indiretamente contribuíram para minha formação e crescimento na universidade, aos meus
amigos Alan Lima, Antonio José e Larissa Lacerda que foram e são importantes para a
construção da minha história recente, e a Claudemir que considero como um irmão.
Obrigado!
48
Caminhadas de universitários de origem popular
A batalha e a vitória
Maraísa Ferreira da Silva*
“Mas em todas estas coisas somos mais do
que vencedores por aquele que nos amou.”
Romanos 8:37
Oi, chamo-me Maraísa Ferreira da Silva, nasci em 22 de março de 1984 e sou natural
de Petrolina-Pernambuco. Meu pai chama-se Cícero Ferreira da Silva e minha mãe Maria de
Jesus Ferreira da Silva, tenho três irmãos, Jéferson, Isamara e Isa de Cássia, ambos mais
novos que eu.
Meus pais moravam em um quartinho, por trás da casa de meus avós paternos. Assim
que eu nasci, fui apelidada de Mara. Por volta de meus seis aninhos comecei a cantar em
cultos evangélicos.
Aos sete anos ingressei pela primeira vez em uma escola para cursar a 1ª série do
ensino fundamental I, mas a minha alegria durou pouco, pois a professora da minha sala,
chamada Lúcia, não gostou de mim e eu também não gostei dela. Nessa época, meus pais se
mudaram para outro bairro, realizando o sonho de terem sua casa própria, mas como eu já
estava matriculada na escola, acabei morando com minha avó materna. Como eu não tinha
gostado da professora e ainda sentia saudades dos meus pais, minha mãe, não vendo
alternativa, tirou-me da escola e levou-me para morar com eles. No começo foi tudo ótimo,
mas não imaginava que no futuro iria me arrepender, pois terminei o ensino médio com a
idade errada.
No outro bairro, fui matriculada na Escola Paiva Neto, para mim, era o início da minha
vida; aprendi a ler e escrever na 1ª série, graças ao meu pai que quando chegava do trabalho,
à noite, ia tomar a minha leitura e se eu não lia, levava umas palmadas. Foi nesse momento,
também, que passei a conhecer melhor os meus pais, ou seja, minha família. Meu pai, um
homem batalhador desde criança, trabalhava hora e fora de hora, para não deixar faltar
alimento para sua família. Aconteceu de meu pai estar empregado em uma firma, chegar em
casa e ver seus filhos e esposa com a barriga seca, sem ter o que comer, chegando ao ponto
de trazer da firma seu almoço ou janta para repartir com toda família. Minha mãe disfarçava
que comia e se deitava com fome, mas conformada, pois seus filhos haviam ido dormir com
a barriga cheia.
Minha mãe, uma mulher simples e cheia de fé vivia nas igrejas evangélicas apresentando à Deus a situação do seu lar, pois vivíamos com muita dificuldade, até o colégio era
Graduanda em Engenharia Agrícola e Ambiental.
Universidade Federal do Vale do São Francisco
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distante de nossa casa. Certa vez, não tendo nada para nos alimentarmos, ela se arrumou e
foi para a igreja orar, quando ela voltou, uma funcionária do abrigo de idosos tinha preparado
uma cesta básica e entregou a minha mãe.
Sabe leitor, eu não poderia deixar de relatar o que o Deus que eu sirvo fez e faz na
minha vida e da minha família, e eu quero te dizer que Jesus o ama muito. Ele não olha a
aparência, se tu és pobre ou rico, Ele olha é para a sinceridade do teu coração. E minha mãe
foi orar novamente, agradecendo a esse Deus maravilhoso.
Os dias se passaram e eu, Maraísa, aprendia mais e mais as lições da escola, me
esforçando ao máximo para não repetir a mesma série.
Novamente a minha família precisou mudar de bairro e lá fui eu me matricular em
outra escola, já estava na 3ª série do ensino fundamental, minha professora se dedicava
bastante pelo meu aprendizado e no final do ano fui aprovada por média, passando a cursar
a 4ª série, onde aprendi a gostar da matéria que muitos achavam um bicho de sete cabeças,
a matemática, e desde cedo dizia que ia ser professora.
Agora vem umas das etapas mais difíceis da minha vida escolar, o ensino fundamental II.
Senti muitas dificuldades, pois estudei a maior parte na Escola Anésio Leão e as professoras
eram bastante despreparadas, com isso a minha base para o ensino médio foi precária e,
novamente não passei de ano, só que agora aconteceu na 7ª série. Eu tinha uma professora
de matemática por nome Célia e ela, com sua capacidade, me fez gostar mais ainda dessa
disciplina, eu acho que isso era algum sinal. Depois você entenderá o motivo.
Bom, outra etapa da minha vida foi o ensino médio, cursei na Escola Dr. Pacífico
Rodrigues da Luz. Conheci duas moças e nos tornamos colegas, estudamos bastante,
mas algumas vezes, eu tirava notas melhores, não é exibição, mas quando eu estou
envolvida em uma coisa eu me dedico pra valer, e no ensino médio, quando eu estudava,
via os resultados do meu esforço. Uma delas até ficava chateada, hoje eu vejo que ela não
estudava o bastante, pois terminou o ensino médio e estacionou, não querendo ingressar
em uma universidade, a outra nunca mais a vi, mas fiquei sabendo que está cursando
uma universidade.
O ensino médio foi proveitoso, mas devido às greves e a falta de interesse de alguns
professores, não vi tudo o que as disciplinas tinham a oferecer, como, por exemplo,
trigonometria, uma matéria muito cobrada nos vestibulares e dentro da própria universidade.
Mas mesmo assim, consegui passar por média por todo o ensino médio, inclusive na matéria
que eu mais gostava, matemática. Foi aí que passei a sonhar em ser professora de matemática
e quem sabe uma bem-sucedida engenheira.
Rumo a universidade
Essa foi à etapa mais difícil, cansativa e decepcionante, mas a mais vitoriosa de minha
vida. Difícil, pois como já citei, não aprendi algumas disciplinas, e na hora de estudar para
o vestibular, senti enormes dificuldades. Tive que aprender sozinha, pois não tinha como
pagar um professor nem tão pouco um cursinho.
Prestei o primeiro vestibular sem nenhuma preparação. Às vezes saía de casa as sete e
meia e voltava uma da tarde, da biblioteca municipal de Petrolina, que fica um pouco
distante de minha casa, mas esse esforço não foi o suficiente, pois me deixava muito cansada.
Bem na hora do resultado do vestibular de matemática eu tinha sido reprovada, chorei
bastante, mas me conformei.
50
Caminhadas de universitários de origem popular
O meu segundo vestibular, fiz para biologia, pois eu adoro tudo que é voltado para a
natureza, também saía de casa muito cedo e voltava as três da tarde, sem almoço e às vezes
sem água, enfrentando o sol a pino, chegava em casa, almoçava e deitava um pouco, a noite
ia estudar até mais ou menos a meia noite. Na hora do resultado do vestibular, uma notícia
desagradável, pois não tinha sido aprovada.
Meu terceiro vestibular foi por acaso, ou seja, as inscrições do vestibular da UNIVASF
abriram e me escrevi para Medicina, como não era de esperar, fui reprovada também, foi
choro em dobro, pois já eram dois anos perdidos.
Como eu sou brasileira e não desisto nunca, escrevi-me para mais dois vestibulares.
Biologia na UPE e Engenharia Agrícola e Ambiental, na UNIVASF. Neste ano, dobrei a
carga horária de estudo, fiz o cursinho Euclides da Cunha e outro cursinho que meu tio
me colocou durante seis meses; estudei bastante e como sempre, meus pais e familiares
me apoiando.
Foram dias de sufoco, aconteceu de uma pessoa conhecida chegar a falar que eu era
capaz de passar na UPE e não na UNIVASF, pois era uma federal, ou seja, ele me achou incapaz
de entrar em uma universidade federal, mas como eu já disse, não desisto de nada. E na hora do
resultado dos dois vestibulares, uma decepção: não passei em Biologia na UPE, mas para
minha surpresa, fui classificada em Engenharia Agrícola e Ambiental na UNIVASF. Fiquei
muito feliz e minha família também, um sonho tinha se realizado na minha vida. Caros
leitores, lembram-se quando eu disse que gostar de matemática era um sinal, agora vocês
sabem porquê. Fiz cinco vestibulares e fui aprovada justo em Engenharia. Que legal!
O sonho que eu achava impossível, Deus fez possível na minha vida
Dificuldades no sonho realizado
Realizar o sonho é para aqueles que lutam.
Corri e conquistei, agora, a preocupação era como iria me manter na universidade,
minha mãe sempre com fé dizia para mim: “Deus proverá”! Essas palavras me aliviavam o
coração, pois no começo não contei, mas sempre corria atrás de um emprego e nunca conseguia, a única alternativa foi dar aulas de reforço a alunos da alfabetização da 4ª série.
Mas quando comecei a estudar, a universidade e as aulas de banca estavam me desgastando bastante, pois na UNIVASF o curso de Engenharia fica em outra cidade e tenho que
acordar todo dia as cinco da madrugada para pegar o ônibus, ficar o dia todo na universidade
e de volta pegar mais dois ônibus para chegar em casa, e quando chego, mais ou menos as
sete da noite, ainda ter que trabalhar. Ninguém é de ferro, não é mesmo? E tem mais, juntando
passagem e almoço, as aulas de banca não eram suficientes para conseguir dinheiro. Sabe o
que eu fazia, levava almoço e ainda levo para economizar um pouco.
Foi nessa dificuldade que se abriram as inscrições do Projeto Conexões de Saberes e
graças ao meu Deus, fui classificada, agora pago passagem, ajudo meus pais, almoço de vez
em quando na universidade e ainda sobra para meu próprio gasto, graças a bolsa que o
projeto oferece, faço parte da área do meio ambiente e estou me sentindo realizada em
termos de conhecer novas pessoas no Programa.
Embora esteja no segundo período no curso de Engenharia Agrícola, as minhas expectativas em relação às disciplinas não superaram as minhas expectativas, encontrei bastante
dificuldade, estudava bastante, mas mesmo assim, perdi quatro cadeiras, isso foi, para mim,
um impacto muito grande, mas torno a repetir, não desisto nunca.
Universidade Federal do Vale do São Francisco
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E deixo essa mensagem para você que leu esta história:
Toda vitória é o esforço de uma grande luta.
A luta pode ser grande, mas maior ainda será a vitória.
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Caminhadas de universitários de origem popular
Para frente é que se anda
Melquisedeck Mendes da Silva*
“Começaria tudo outra vez,
se preciso fosse”... 1
A vida é um espetáculo. Uns nascem para o palco, outros para platéia. Tenho orgulho
de ser nordestino e ter correndo nas veias o sangue do estado que mais lutou pelo Brasil.
Como todo bom Pernambucano, tive que batalhar desde muito cedo. Lembro-me muito
bem que com dez anos de idade fui ao banco trocar alguns cruzeiros reais que havia
ganhado vendendo pipoca em um circo em 1994, ano de transição do cruzeiro real para a
moeda vigente.
Sempre admirei os guerreiros e aprendi com os vencedores. Nunca tive medo do
futuro. Apesar de enfrentar alguns obstáculos, sempre procurei manter o foco nas minhas
metas. Sentia a inquietude que me remetia ao “O Mito da Caverna”, texto de Platão2 que
narra com precisão à angústia causada pela ignorância. Os desafios sempre despertaram a
minha atenção, pois ultrapassar barreiras e alcançar objetivo integra o estilo de vida dos
que almejam mais que um simples lugar na platéia.
Às vezes me questiono sobre a minha caminhada até aqui. Fico pensando como seria
tudo se alguns fatos de minha vida fossem alterados. O resultado dessas alterações culminaria
no que eu vou chamar de “vida derivada”, ou seja, o momento em que uma determinada
atitude influencia de forma direta no rumo das nossas vidas. O sujeito recorre a um fato
relevante e a partir dele, tenta simular uma outra realidade a qual seria remetido caso tivesse
assumido uma outra postura. Esse é um bom exercício para as pessoas que assumem a total
responsabilidade pela realidade em que se encontram.
A idéia de destino como uma espécie de enredo preestabelecido mesmo antes do
nosso nascimento, é uma teoria conformista, que tem como principais adeptos, os perdedores.
Prefiro acreditar que eu faço o meu destino. A jornada que me trouxe até aqui está cheia
desses fatos relevantes, que quase sempre foram enfrentados com paciência e persistência,
valores que aprendi na infância e me fazem acreditar que nenhum problema será suficientemente grande que seja capaz de interromper meu caminho. Sei que muitos obstáculos ainda
estão por vir, pois bem, que venham! Enfrentá-los e vencê-los faz parte de uma ritual do qual
eu não abro mão.
Graduando em Arqueologia e Preservação Patrimonial.
1
Trecho da música, “Começaria tudo outra vez” (Gonzaguinha).
2
Filósofo Grego.
Universidade Federal do Vale do São Francisco
53
Nasci em Recife em 17 de abril de 1984, Filho de Manoel Mendes da Silva Filho,
policial militar, e Maria Cleonice de Menezes Silva, dona de casa. Sou o segundo de uma
família de quatro irmãos. Aos sete anos tive que encarar o primeiro fato relevante que
mudaria o rumo da minha vida, mudar sem meus pais e meus irmãos para Lagoa Grande3,
mas essa mudança não implicava apenas em mudar de uma cidade grande para o interior, em
conseqüência tive que deixar para trás a minha família.
Cheguei a Lagoa Grande em 1991 para morar com minha avó materna, Florípedes
Pereira de Menezes, que por sinal soube desempenhar muito bem o papel de segunda mãe.
No mesmo ano, fui matriculado na 1ª série do ensino fundamental em uma escola do
município, até então nunca tinha entrado em uma escola. Ao final desse mesmo ano já
dominava a escrita e a leitura. Três anos se passaram até que a minha família fosse morar
comigo no interior, finalmente eu me sentia completo novamente.
Em 1993, na 3ª série do ensino fundamental fui transferido para a escola estadual
onde concluiria os meus estudos, Antonio de Amorim Coelho, foi nessa escola que eu
formei alguns dos conceitos que carrego comigo até hoje. Nos primeiros anos ela funcionou
muito bem, tinha bons professores e aulas de qualidade, e eu já fazia muitos planos para o
futuro. Paralelo a isso e com dez anos de idade, eu já estava com o meu primeiro emprego,
era o pipoqueiro de um circo que passava pela cidade, esse emprego foi temporário, mas o
gosto pelo trabalho e pela independência financeira me levaram mais adiante fazendo com
que eu trabalhasse ainda como: ajudante de uma oficina que fabricava artigos de ferro,
leiteiro, cambista de “jogo do bicho”, jornaleiro, atendente de uma casa de jogos (vídeo
game), aula de banca, atendente de lotérica e garçom.
No ano 2000 eu iniciava o ensino médio, a escola já não era mais a mesma, não tinha
nem de longe a qualidade já relatada. Por conta da distância que os professores enfrentavam,
o colégio perdeu muito deles e com isso a instituição teve que contratar pessoas da cidade
que tinham apenas concluído o ensino médio e não preenchiam os requisitos mínimos que
os tornassem aptos a lecionar. As greves eram constantes e as reposições de aulas vergonhosas,
todo esse período, que durou até a minha formatura eu tentei mudar para outra escola,
Porém, a mais próxima ficava a cinqüenta quilômetros.
Com uma educação defasada e a ausência de um cursinho que me preparasse melhor
para a corrida universitária, optei por deixar de lado (pelo menos por um tempo) os planos de
entrar para faculdade, contrário a isso, consegui o meu primeiro emprego com carteira assinada: eu era o encarregado pelo almoxarifado de uma vitivinícola. O emprego era muito bom, eu
ganhava bem e com isso conseguia levar uma vida tranqüila, e foi assim, durante oito meses.
Com oito meses de trabalho, eu não sentia o mesmo entusiasmo do início, resolvi
largar tudo e retomar o que eu tinha planejado para minha vida, procurei então o gerente da
empresa, Mábio Dutra, para pedir demissão, o que eu não esperava era escutar palavras de
apoio tão sinceras como as de um pai.
Arrumei então as minhas coisas, comuniquei aos meus pais e fui morar em Petrolina4,
onde consegui o meu segundo emprego com carteira assinada, caixa de um posto de gasolina, paralelo ao trabalho eu fazia cursinho preparatório para o vestibular.
3
Cidade localizada no interior de Pernambuco, com aproximadamente 750 km da capital de Recife.
População aproximada de 25.000 habitantes.
4
Cidade localizada no interior de Pernambuco, com aproximadamente 850 km da capital de Recife.
População aproximada de 200.000 habitantes.
54
Caminhadas de universitários de origem popular
Após alguns meses conciliando trabalho e estudo, eu já não rendia o suficiente nas
aulas (por conta da minha escala de trabalho), eu sabia que se continuasse assim, não teria
chances de entrar na universidade, conversei então com minha irmã, Elizangela Mendes da
Silva, que morava comigo, ela me pediu para largar o emprego e assumiu todas as despesas
de casa e do cursinho, tudo isso para que eu me dedicasse aos meus estudos, a verdade é que
ela sempre acreditou e acredita em mim.
No ano de 2004, e com oito meses de cursinho eu me sentia enfim, preparado para
vencer o vestibular e ingressar numa universidade federal. O fato de nenhum membro da
minha família ter alcançado o ensino superior, fazia com que as opiniões a meu respeito
fossem na maioria das vezes negativas, com algumas exceções que se restringiam a alguns
amigos, meus pais e meus irmãos.
Desde os quinze anos, sentia uma atração muito forte pelo curso de Arqueologia,
queria entender como se deu a nossa evolução, assim como outros conhecimentos proporcionados pelo curso, porém, estava preparado para tentar História, pois o curso por mim
almejado só era possível fora do país. Em julho de 2004, sai o edital do primeiro vestibular
da Universidade Federal do Vale do São Francisco - UNIVASF, entre os cursos oferecidos,
Arqueologia e Preservação Patrimonial, o primeiro numa universidade federal na América
latina, era a minha chance.
A ansiedade pela espera do resultado foi grande, era como se eu esperasse o ticket que
dava acesso à próxima fase de minha vida. A espera foi angustiante, porém, o resultado foi
à confirmação das minhas expectativas, é doce o sabor da vitória, e essa foi apenas uma das
muitas que virão. Em pouquíssimo tempo mudei de cidade, conheci pessoas novas, comecei
o curso que sempre quis fazer e acima de tudo eu descobri que não preciso de muito para ser
feliz, basta que as pessoas que me rodeiam estejam felizes.
Universidade Federal do Vale do São Francisco
55
Momentos inesquecíveis
Pablício Gomes dos Santos*
“Nada é por acaso, momentos bons ou
ruins nos fazem crescer; amadurecer
diante de uma realidade difícil é virtude
de poucos. Barreiras existem em qualquer
caminhada, problemas existem em
qualquer lugar, todavia, não há derrotas
quando se tem no corpo e na alma a
perseverança, paciência e, acima de
qualquer coisa, humildade, visto que de
nada valerá uma trajetória se não
olharmos para trás e nos orgulharmos de
nossas origens, mesmo guardando no
coração algumas mágoas que de certa
forma fazem parte de nossa história”
Pablício Gomes dos Santos
Fevereiro de 2004, uma caminhada de aproximadamente, 40 minutos, separa um jovem
de sua realização, seu destino era a Universidade do Estado da Bahia (UNEB), localizada no
município de Juazeiro-BA. Ver seu nome num simples pedaço de papel era seu maior desejo,
chegando ao seu destino, já apreensivo e sem se dar conta do cansaço, olha aquela lista
enorme e avista seu nome, logo a apreensão dá lugar à emoção. O retorno dura uma eternidade,
logo se dá início à retrospectiva, um filme passa pela sua mente, a volta para casa é uma
viagem ao passado. Porém, mal sabia ele que a partir daquele momento sua vida mudaria
completamente, era apenas o início de uma nova realidade de vida, onde escolhas eram
primordiais e inevitáveis.
Filho de Luiz Carlos dos Santos e Eulália Gomes dos Santos, o segundo entre três
filhos. O seu irmão mais velho recebeu o nome de Pablo Gomes dos Santos, justificando
assim a origem de seu nome pouco comum, já o caçula, recebeu o nome do pai, Luiz Carlos
dos Santos Júnior.
Nascido em 1986, no dia 02 de junho, garoto tímido e franzino, tem como cidade natal
o município de Petrolina-PE, onde cresceu e reside. Seu pai, um autônomo, e sua mãe, uma
Graduando em Administração.
56
Caminhadas de universitários de origem popular
dona de casa, exercem papéis bem definidos na estrutura familiar. O conservadorismo é
predominante, onde o pai é o responsável pela obtenção de renda e a mãe tem como tarefa
principal cuidar do bem-estar da casa e dos filhos, na ausência da figura paterna. Porém, esse
desenho familiar aliado a alguns problemas, acabou tornando sua infância um tanto difícil,
não em questões materiais (visto que o pouco que seu pai ganhava na produção de box para
banheiro era o suficiente para garantir as necessidades básicas de sobrevivência de toda a
sua família), mas sim, no aspecto sentimental. A relação totalmente instável de seus pais o
tornou um garoto introspectivo e tímido, que aos poucos perdeu o medo de encarar o
mundo e com muito cuidado foi descobrindo a realidade da vida. Mesmo com todos os
problemas de ordem emocional que, muitas vezes, o fizeram questionar o valor de sua
família, Pablício soube assimilar bem todos os princípios e valores que o fazem à pessoa
que é atualmente. Infelizmente, mesmo com a estabilidade e tranqüilidade aparente na
relação atual entre seus pais, parece impossível recuperar sua infância perdida em inúmeros
problemas de caráter afetivo, estes que ainda funcionam como uma barreira na relação com
seus pais, porém, o que aconteceu não ofusca o brilho do caráter das duas pessoas que o
colocaram no mundo, seus parâmetros educacionais serão repassados para as gerações futuras.
Cabe ao futuro dar a resposta para tal situação.
Apesar de sua infância instável, ele fazia do ambiente escolar um “cano de escape”,
não de forma negativa como muitos alunos faziam e fazem por aí a fora, fez da vida escolar
sua alegria, transformou em seu refúgio às escolas por onde passou. Fez poucas amizades,
todavia, verdadeiras, deixou marcas que não se apagarão. Os inúmeros professores sempre
irão lembrar daquele moreninho, magrinho, que sempre sentava na primeira fileira, tirava
notas excelentes e quando um colega fazia algo de ruim com ele, se desmanchava em
prantos. Lembrarão, principalmente, de sua dedicação, seriedade, humildade e de seus sonhos que mudaram com o tempo, assim como seu corpo. Só lhe resta agradecer a todos os
“mestres” que o guiaram até a universidade.
Educação extra - familiar: O início da caminhada
Sua vida escolar se inicia na “Casa da Criança” escola localizada no centro de
Petrolina-PE (bairro no qual reside até hoje), a escolha de tal estabelecimento de ensino se
deu por dois fatores: a pouca distância em relação a sua casa e a presença de seu irmão
Pablo, que há dois anos já fazia parte do corpo discente da escola. A trajetória em sua
primeira escola durou dois anos. Cursou o “Jardim da Infância”, tendo como professora
Cristiane no ano de 1991, e em 1992, fez o Pré-Escolar sendo auxiliado pela saudosa
Cristina. Por questões internas (a escola adotou a política de disponibilizar as vagas de
primeira série para alunos que também freqüentassem a creche que funcionava no mesmo
prédio), teve que encerrar prematuramente sua caminhada naquela escola. A ida de seu
irmão para a Escola Dom Idílio José Soares (escola da rede estadual localizada no mesmo
bairro da primeira), determinou seu destino. Chegando lá, enfrentou alguns problemas. Por
conta de sua idade (seis anos), foi matriculado na turma de alfabetização. Sua mãe, protestou
muito, porque o pré-escolar era sinônimo de alfabetização, na época. Porém, não foi possível
realizar a matrícula na 1ª série. Seu desempenho na turma chamou à atenção de sua professora
Sônia, um teste foi realizado, e por mérito, justiça foi feita, em poucos dias tomou posse de
seu lugar por direito, era o início de sua marcante história no “Dom Idílio”. Foram quatro
anos de convivência, entre 1993 e 1996 sua segunda escola foi a extensão de seu lar.
Universidade Federal do Vale do São Francisco
57
De cada ano ele levará uma lembrança agradável, mas o ano de 1996, foi o mais
representativo. Pablício se destacou de forma grandiosa, fez da sua 4ª série algo inesquecível, fechou com “chave de ouro” um ciclo que se iniciou de forma conturbada, contudo
teve um final feliz. Essa fase de sua vida escolar pode ser caracterizada por uma única frase:
“OBRIGADO POR TUDO, MEU PEQUENO MESTRE, SEU CAMINHO É PROMISSOR,
QUE DEUS TE ABENÇOE” (escrita por sua professora “Leocádia” em um pequeno cartão
de natal e entregue a ele na festa de despedida da turma). Amigos foram deixados para
trás, mas em qualquer caminhada, despedidas são comuns e por mais dolorosas que sejam,
são inevitáveis.
No ano de 1997, inicia a 5ª série do ensino fundamental na Escola de Petrolina, em
poucos meses, seu comportamento, seus esforços e suas notas chamam a atenção dos seus
novos professores. Gradativamente, ele vai ganhando a admiração e confiança do corpo
docente de sua nova escola. Seu jeito simples de ser, sua timidez e sua humildade acaba
despertando a ira e a inveja em outros alunos, que em alguns momentos tentaram prejudicá-lo.
O ano de 2003, marcou o fim de sua caminhada nesta escola e em sua última fase préuniversidade. Sete anos marcados por um processo de maturação intenso e delicado, entra
um menino de 10 anos de idade, e sai um quase adulto de 17 anos. A idade se modificou,
mas as incertezas continuaram e a confiança de ingressar no ensino superior era,
freqüentemente, ofuscada pelo complexo de inferioridade em relação aos alunos de
escolas privadas. O medo de encarar o mundo, representado, na época, pelo vestibular, era
evidente, logo, o esforço e a perseverança eram as armas que o encorajavam a realizar seu
sonho. Ficaram as lembranças dessa época, as pessoas que o ajudaram a construir seu pouco
conhecimento, mas suficiente para seu ingresso na universidade. Estarão para sempre em
sua mente, algumas pessoas citadas a seguir, são mestres e amigos, professores e seus
companheiros de caminhada que ganharam o mundo e hoje seguem a lutar por sua
sobrevivência e dignidade como o seu colega Luciano, que atualmente vive nas ruas, sem
rumo definido, entregue às drogas e que de vez em quando o encontra na rua e se lamenta,
deixando Pablício entristecido, pois não pode ajudá-lo de maneira a solucionar seus problemas em definitivo. Professores: Idalice, Gracilda, Aparecida Olinda, Edilma, Sonileide,
Antônia, Edna, Mabel, João Gonçalves, José, Cristóva, Eudilza, Ivana, Socorro Neto, e
todos os seus colegas que um dia lhe deram algum incentivo e que jamais o deixaram
desistir como Cláudio Santos, Fábio Xavier, Josemar, Wandemberg e muitos outros que
hoje ainda se espelham em Pablício para seguirem lutando por uma vida melhor, não apenas
copiando seus passos educacionais como também seus princípios, estes herdados de seus
pais, sua humildade e sua simplicidade em tratar todos da mesma forma.
Sua retrospectiva chega ao fim, visto que já cansado e bronzeado pelo Sol de meiodia, chega à sua residência. É hora de dar a notícia tão esperada à sua mãe que certamente
prepara o almoço na cozinha, enquanto, seus irmãos e seus pais esperam na sala.
Recomeço ou descoberta do caminho profissional?
Após chegar em sua casa e contar a notícia a seus pais, a emoção tomou conta de sua
residência. O 10º lugar no curso de Engenharia Agronômica da Universidade do Estado da
Bahia (UNEB) fez seu pai chorar copiosamente, porém, de forma sigilosa, na certa tinha se
recordado de como tinha suado para conseguir o dinheiro necessário para que seu filho
fizesse a inscrição do vestibular, cerca de R$ 50,00 na época, onde trabalhou semanas antes
58
Caminhadas de universitários de origem popular
exaustivamente, pois sabia que eram os últimos dias de inscrição. A comemoração foi
simples e humilde, alguns litros de refrigerantes foram comprados para que a família pudesse
comemorar. Em pouco tempo, todos os seus primos, tios e vizinhos foram presenteados com
a notícia. Enquanto todos comemoravam e davam seus parabéns merecidos, Pablício
passou a se preocupar com o futuro, pois durante toda a sua vida estudou em escolas
próximas à sua casa, o que facilitava a vida de seus pais quanto à economia de passagens de
ônibus, e agora teria de utilizar dois transportes: a barquinha para a travessia até Juazeiro –
BA e um ônibus até o bairro onde se localizava a universidade.
Feita a matrícula e poucos meses depois suas aulas se iniciam. O único medo que
assolava seus pensamentos no primeiro dia de aula era o trote (tradicionalmente conhecido
em sua região pela rigidez digna de um curso de punho agrário). Ao chegar à universidade,
tem seu cabelo totalmente destruído pelos “veteranos”, apesar disso, sua raiva foi passageira,
encarou aquela ação como algo comum e inevitável, ou seja, uma forma de integração.
Trotes à parte, seus problemas eram outros totalmente diferentes, visto que presenciava
o esforço excessivo de seus pais para conseguir o dinheiro para que pudesse se locomover
até a universidade. A solução encontrada foi buscar uma atividade que lhe fornecesse o
suficiente para arcar com as despesas de locomoção até seu destino, uma alternativa que
pudesse garantir sua permanência na universidade sem que necessitasse trabalhar o dia
todo. Passou a trabalhar de maneira informal (sem carteira assinada) em uma loja vizinha à
sua casa, onde eram vendidos CDs e fitas k7, exercia algumas atividades e ganhava cerca de
R$ 10,00 por semana, além de ganhar muito pouco, era submetido a humilhações, mas não
podia largar aquele “trabalho”, pois era dele que saía seu sustento quanto às passagens e
materiais didáticos na universidade, era um problema a menos para seus pais. O complemento de sua renda semanal eram as moedas que sua mãe lhe dava, conseguidas com a
venda de geladinhos (vendidos em casa). Porém, a renda era insuficiente, como era necessária a compra de muitas apostilas e alguns materiais como, calculadora científica, réguas e
esquadros e outros objetos para a disciplina de Desenho Técnico, ele guardava o dinheiro
e saía mais cedo de casa, pois sua caminhada era longa até a universidade, gastava cerca
de 40 minutos a pé. Apesar do cansaço, era a única alternativa para conseguir se manter
na universidade.
Passado o primeiro período, durante as férias tomou a decisão de comprar uma bicicleta a prazo, um meio de transporte simples e barato. Era um dos poucos alunos daquela
universidade a correr o risco de atravessar a ponte Presidente Dutra que liga Petrolina-PE a
Juazeiro-BA, não tinha receio, tampouco vergonha de se locomover de bicicleta até a
universidade.
Em pouco tempo, boa parte dos alunos passaram a andar de bicicleta também, Pablício
lançou “moda”, sua humildade e simplicidade mais uma vez se sobressaíam diante da
vergonha que muitos daqueles universitários tinham de suas origens. O fato de andar de
bicicleta não o tornava inferior a este ou aquele aluno que chegasse à universidade com um
carro de última geração.
No mesmo ano de seu ingresso na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), surge na
região a UNIVASF (Universidade Federal do Vale do São Francisco). Um curso oferecido
pela UNIVASF chama sua atenção, Administração com ênfase em Comércio Exterior ou
Agronegócio. Via neste curso um complemento para seu outro curso, o de Engenharia
Agronômica. Dessa vez, não precisou que seus pais desembolsassem o dinheiro para a inscrição.
Universidade Federal do Vale do São Francisco
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Por seu esforço e iniciativa, conseguiu a isenção e não pagou a taxa para se submeter ao
primeiro processo seletivo daquela promissora universidade.
Mais uma vez consegue uma vitória brilhante, após uma forte concorrência, ele
ingressa em uma universidade Federal. Sua vida escolar foi coroada por sua segunda
aprovação em uma instituição pública de ensino superior. Era a consolidação de um sonho.
No ano de 2005, ingressa na UNIVASF, e simultaneamente, continua a cursar Engenharia Agronômica. Com o passar do tempo, o cansaço físico, desgaste mental e a consciência
quanto a seu futuro profissional o forçaram a decidir que rumo tomar. Era necessário definir
seu futuro, priorizar uma única carreira, pois os recursos que tinha não lhe permitiam permanecer em dois cursos de nível superior. Sua decisão coincide com sua classificação e convocação para o Programa Conexões de Saberes.
O curso de Engenharia Agronômica ficará na sua memória como uma experiência
construtiva, sua vocação não lhe permitia continuar no curso, sua felicidade e prosperidade
profissionais dependiam de sua decisão.
O curso de Administração lhe dá uma visão promissora de seu futuro, cabe ao tempo
dar a resposta quanto a sua decisão. O fato é que sua vida ganhou outro rumo, não só
profissionalmente, mas também na área afetiva. O Programa Conexões de Saberes lhe deu a
oportunidade de lutar por aqueles que ainda buscam o ingresso no ensino superior público.
Ficam os agradecimentos a todos aqueles que um dia fizeram parte dessa caminhada.
Sejam eles professores, amigos, colegas, e principalmente, aos seus familiares. Contudo tal
caminhada não termina aqui, Pablício tem um longo e exaustivo caminho pela frente, quem
sabe no futuro ele dê continuidade a essa história.
“Pouco importa as quedas, o essencial é levantar, continuar a
caminhada consciente de suas possibilidades e de seus limites”
G. de La Mothe
60
Caminhadas de universitários de origem popular
Aproveitando as oportunidades
Priscila D. M. Carvalho*
Nasci no dia 2 de junho de 1987 em Petrolina sertão de Pernambuco, sou a segunda
filha de Niva Vieira Marques e José Edson Vieira de Carvalho. Ao completar um ano e seis
meses de idade aconteceu algo que mudou radicalmente a vida de minha mãe e conseqüentemente de toda a casa também, meu pai sofreu um acidente de trânsito e infelizmente não
resistiu. Começa então a batalha de dona Niva, batalha essa que persiste até hoje: criar seus
dois filhos. Tive uma boa infância, brinquei bastante, tive que ser uma criança bem responsável, pois passava a maior parte do dia sozinha com meu irmão, e minha mãe sempre dizia
que por a gente não ter a presença de um pai em casa, seria muito fácil para os vizinhos nos
julgar se a gente aprontasse alguma.
Por sorte a empresa em que minha mãe começou a trabalhar oferecia bolsas de estudos
em algumas escolas particulares de Petrolina, minha mãe optou pela Escola Sorriso da
Criança e foi lá que eu estudei até a 4ª série. Ao finalizar a 4ª série minha mãe veio conversar
comigo e meu irmão nos informando que não poderíamos continuar na escola porque ela
havia sido despedida. Fui então matriculada na EMAAF a escola estadual do meu bairro,
onde estudei da 5ª a 8ª série, nos primeiros anos eu até gostava, jogava futsal e aquilo era
minha paixão, paixão que desapareceu e eu só tinha vontade de mudar de escola.
Comecei o meu ensino médio em outra escola, a Escola Otacílio Nunes de Souza, ela
tinha os mesmos problemas de outras escolas públicas, mas eu me sentia muito bem naquele
espaço, lá, tive professores, amigos e momentos inesquecíveis. Quando concluía o segundo
ano do ensino médio fiz um teste de seleção para um curso profissionalizante no SENAI,
passei e comecei a fazer o curso técnico pela manhã e a tarde ia para escola. O curso técnico
de alimentos exigia muito estudo e determinação, foi lá que aprendi muitos assuntos de
química e biologia que não foram ensinados na escola, e embora não fosse o objetivo do
curso, os professores nos estimulavam a fazer o vestibular.
Em 2004, cursei o terceiro ano, estagiei em uma indústria de alimentos (estágio exigido
pelo curso) e nos finais de semana ia para o PREVUPE cursinho popular oferecido pela
Universidade Estadual de Pernambuco, foi um ano difícil à indústria que eu estagiava
ficava na zona rural e eu dependia de carona para voltar, por isso, muitas vezes chegava
atrasada na aula. Eu não tinha esperanças de passar no vestibular toda vez que eu imaginava
a concorrência, lembrava das incontáveis aulas vagas, dos assuntos nunca vistos e do tempo
que eu não tinha para estudar, isso me desestimulava, ainda assim, prestei vestibular para
Graduanda em Enfermagem.
Universidade Federal do Vale do São Francisco
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Farmácia na UFPE passei somente na primeira fase. No ano seguinte, lá estava eu de novo
estagiando em outra empresa de alimentos, esse estágio também era remunerado e exigia
muito mais de mim, mas eu estava decidida a passar no vestibular naquele ano, comecei a
pagar um curso pré-vestibular, mas estava difícil de conciliar, os assuntos começaram a
atrasar, eu chegava muito cansada nas aulas e isso comprometia meu aprendizado, ao ver
minha luta minha mãe me disse que se eu quisesse me dedicar só aos estudos ela pagaria o
cursinho, proposta aceita, desisti do estágio e fui correr atrás do prejuízo ou seja dos assuntos
atrasados, levei a sério, nunca deixo boas oportunidades passarem, a maior parte do tempo
estudava sozinha às vezes tinha a ajuda de um amigo em questões de física e matemática,
nessa época não tive nenhum professor “anjo” que alguns têm a sorte de ter.
Estudava praticamente todos os dias, mas sem abrir mão das minhas noites bem dormidas
e dos momentos de distração com os amigos, ao final daquele ano prestei dois vestibulares:
Biomedicina na UFPE e Enfermagem na UNIVASF além dos vestibulares, eu tentei também
uma bolsa numa faculdade particular através do PROUNI. Esperei ansiosamente os resultados,
mal pude acreditar quando me disseram que eu tinha passado no vestibular da UNIVASF, já
satisfeita com o primeiro resultado não fui fazer a segunda fase do vestibular da UFPE, pouco
tempo depois, recebi outro resultado, havia ganhado através do PROUNI uma bolsa para
cursar Enfermagem em uma faculdade, (não me recordo o nome) no estado de São Paulo.
Atualmente, curso o terceiro período de enfermagem na UNIVASF, estou muito satisfeita com o curso após ter conhecido verdadeiramente o amplo papel dessa profissão que ao
contrário do que muita gente pensa tem um corpo de conhecimento próprio e indispensável.
Participo com muita satisfação do Programa Conexões de Saberes, reconheço sua importância
não só por garantir minha permanência na Universidade, mas por todo aprendizado que me
é oferecido.
Hoje, só tenho a agradecer a Deus pela vida e por todas as oportunidades que me foram
apresentadas, a minha mãe e minha família que sempre acreditaram em mim. E apesar de
sempre ter tido uma vida muito simples, nunca me faltou o que realmente é necessário: fé.
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Caminhadas de universitários de origem popular
Mudar para conquistar
Sandra Ricarte dos Santos Ferreira*
Contar minha história de vida para vocês, caros leitores é muito difícil, mas a experiência de um indivíduo sempre serve de estímulo para os outros, fico feliz em fazer da
minha vida um livro aberto para que transmita algo de bom em qualquer gênero a quem
estiver aberto a ouvir, refletir, a criticar e sugerir.
Meu nome é Sandra Ricarte dos Santos Ferreira, a origem do meu nome não me
pergunte que não sei, mas mudando de assunto, tenho 21 anos, nasci em Petrolina-PE, mas
morei em Sobradinho dezessete anos, um lugar pequeno, que por outro lado tinha toda uma
estrutura para o início da minha vida.
Minha mãe Maria Célia dos Santos Ferreira, matriculou-me na escola do jardim/maternal Tia Rita aos três anos de idade, por hora eu já sabia ler e escrever muito bem, porque
como meu irmão, Fabrício dos Santos Ferreira, já estudava e mainha exercitava muito e
diariamente a leitura e a escrita com ele e como sempre eu ficava por perto acabava aprendendo, quando ela percebeu que eu também estava aprendendo, começou a trabalhar comigo, por
conseguinte eu era bem mais adiantada que as outras crianças da minha sala, foi aí que
minha professora propôs que me adiantasse para a alfabetização, mas a minha mãe não
concordou achou melhor seguir nos meus estudos passando por cada etapa na ordem e
tempo certo.
Como meu pai, Francisco Assis Ferreira era funcionário da Companhia Hidrelétrica do
São Francisco - Chesf - fui estudar a alfabetização em uma escola particular chamada Pingo
de Gente, onde minha professora Oneide Ferreira aperfeiçoou todas as minhas habilidades
para com a leitura e a escrita.
Logo em seguida veio à separação dos meus pais, eu era muito nova tinha apenas
cinco anos de idade e isso me fez passar por um processo de mudança muito difícil, conseqüentemente amadureci muito cedo para os problemas da vida. Minha mãe teve muita
dificuldade para conseguir a pensão do meu pai, enquanto isso os vizinhos nos davam todo
o apoio que precisávamos. Porém, com tantas adversidades, minha mãe não esquecia em
nem um momento de dar atenção devida à educação de seus dois únicos filhos, aliás, é uma
das coisas que ela conseguiu com mérito, por isso sou sua fã. Desde então, muito pequena
comecei a entender o que significava dificuldade.
Passando dessa etapa, fui para uma escola privada chamada Centro Educacional de
Sobradinho (CES) que por sua vez só aceitava filhos de funcionário da Chesf, onde fiz da
primeira a quarta série do primário sem dificuldade alguma nos anos letivos, mesmo o
Graduanda em Engenharia Civil.
Universidade Federal do Vale do São Francisco
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ensino sendo muito rígido e de boa qualidade com ajuda da minha mãe conseguia acompanhar direitinho às demandas da escola e sempre passava por média. Era para permanecer
estudando nesta escola até a oitava série, no entanto, aconteceu de meu pai cometer a
loucura de pedir as contas na Chesf, esta atitude me fez ficar muito confusa. Passei a estudar
em uma escola chamada Colégio Municipal 24 de Fevereiro, onde tive um pouco de
dificuldade para adequar-me ao ensino, este era muito defasado, mas como dizia a minha
mãe: “Quem faz a escola é o aluno”. Fiz muitos amigos, isso me fez ver a escola com outros
olhos, nela percebi que também podia fazer minha mãe feliz, pois sempre fazia de tudo para
ganhar a medalha de aluna destaque, participei de vários concursos os quais obtive várias
premiações, a propósito, fui por quatro anos a melhor jogadora de vôlei, futsal e randball,
até hoje tenho as medalhas dos jogos inter-clássicos.
Terminando o primeiro grau, a muito custo minha mãe conseguiu me matricular no
Colégio Modelo Luis Eduardo Magalhães (CMLEM) para estudar o ensino médio, logo no
primeiro ano tive uma proposta de estágio na Caixa Econômica Federal, mas infelizmente
eu tinha apenas quatorze anos e dos pré-requisitos para conseguir ser efetivada tinha que ter
no mínimo dezessete anos, esse foi um fato que me deixou muito triste, porém, não consegui
me desestruturar, de fato eu sabia que existiriam outras oportunidades. No segundo ano tive
que aceitar e conviver com a idéia de meu irmão ficar distante de mim, pois já não agüentava
mais ficar dentro de casa sem trabalhar nem estudar, então ele decidiu ir morar em Salvador,
isso para mim foi muito difícil, pois sentia muito a falta dele, fiquei só eu e a minha mãe
morando juntas como é até hoje. No mesmo ano tive outra proposta de trabalho, mas desta
vez minha idade não foi um empecilho, pois só daria início no estágio em 2003, visto que
eu já estaria com dezesseis anos, então fiz o teste de seleção, e por conseguinte fui aprovada
em segundo lugar, acrescentando que havia apenas seis vagas.
É hora da independência, como morava em Sobradinho lugar que ficava aproximadamente há uma hora (48 km) de Juazeiro, de início minha mãe ordenou que ficasse na casa de
uma amiga dela em Juazeiro só indo para casa nos finais de semana, com o intuito de poupar
meu tempo, lhe obedeci por apenas um mês, pois ela ficava em sobradinho sozinha, eu
ficava extremamente preocupada e não conseguia me concentrar em nada. Mesmo com
todo sofrimento decidi voltar para casa. Sendo assim eu acordava às cinco horas da manhã
para pegar o ônibus de seis e meia para Juazeiro, estudava pela manhã, estagiava na Secretaria da Fazenda e a noite fazia cursinho de redação, chegava em casa por volta da meia
noite e meia, simplesmente tomava um banho, comia algo e mesmo com muito sono e cansada
tomava uma xícara de café bem forte para me manter acordada até altas horas da noite
estudando, muitas vezes para fazer provas e outras para fazer o vestibular.
Em Junho de 2003, me mudei para Juazeiro-BA, fomos morar de aluguel, pois a minha
mãe não agüentava mais ver o meu sofrimento. Diante disso, tive mais tempo para me
dedicar aos meus estudos, certamente o tempo era maior que o cansaço.
Depois de ter passado por tudo e ter conquistado esse tanto, contornando bem os
obstáculos, pude perceber o quanto sou persistente diante dos problemas, pois, como dizia
a minha avó: - “Somos o que fazemos, mas somos principalmente o que fazemos para mudar
o que somos”. Esse ditado sempre me vem à mente quando tenho que mostrar atitude ou
tomar alguma decisão.
Como eu morava com a minha mãe e ela por sua vez já havia feito a sua parte, em me
criar e me educar, agora sou eu que cuido dela e da casa, não por opção minha, mas tenho
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Caminhadas de universitários de origem popular
que tomar a frente de tudo, sou eu que faço as compras, pago as contas e resolvo os problemas...
é como se eu fosse à dona da casa, frizando o ditado popular:- “Sou pau para toda a obra” em
casa! Minha mãe é uma pessoa muito especial em minha vida por isso, faço de tudo para vêla feliz.
Passar no vestibular no curso de Engenharia Civil não era questão de opção, era
simplesmente uma meta, um objetivo que eu tinha afirmado, visto que sempre que quis ser
uma engenheira.
Enquanto a Professora do primário perguntava para os meus amigos o que eles
gostariam de ser quando crescessem, alguns respondiam, médico, outros diziam, advogado,
veterinário, mas eu sempre com a mesma resposta, vou ser Engenheira.
Quando comecei a entender o que era vestibular, imediatamente comecei a pesquisar
sobre o meu curso. Cada vez ficava mais curiosa... diante disso, descobri que era na UFBA,
onde eu queria prestar vestibular, mas como eu estudei todo o ginásio e o segundo grau em
escola pública sabia que ia ter muita dificuldade, no entanto não desisti.
Meus próprios colegas do colégio me olhavam de maneira irônica quando eu afirmava
onde iria prestar meu primeiro vestibular, mas meus professores sempre me apoiavam muito,
e para isso me preparei o ano todo, para o vestibular! Estudava a noite, de madrugada,
o final de semana, para mim qualquer hora vaga era lucro para os estudos, mas infelizmente por um acidente de percurso perdi a hora da prova, logo considerei o ocorrido como
uma derrota.
Retornando de Salvador tive uma ótima notícia: Juazeiro ia sediar uma Universidade
Federal e que Engenharia Civil ai fazer parte dos cursos oferecidos. Novamente me preparei,
fiz o curso pré-vestibular comunitário à noite chamado. Aprender para Empreender e fiz um
plano de estudo em que estudava oito horas por dia, conseqüência; fui aprovada na UNIVASF
em Engenharia Civil e na UPE em Matemática.
Hoje, meus amigos me parabenizam e me desejam muita sorte. E foi aí que percebi que
vir de escola pública não é empecilho para chegar a uma Universidade, seja ela, Federal,
Particular ou Estadual.
Universidade Federal do Vale do São Francisco
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Livro Caminhadas
Sheila Rejane da Silva *
Sheila Rejane da Silva sou graduanda em Engenharia de Produção pela Universidade
Federal do Vale do São Francisco. Sou morena clara, cabelos e olhos castanhos, determinada.
Nasci em 29 de outubro de 1986, na cidade de Juazeiro, na Bahia. Todos estavam
muito ansiosos com a minha chegada, pois além de ser a primeira filha eu era também a
primeira neta dos meus avós maternos.
Oriunda do interior dessa cidade, precisamente da fazenda Laginha, minha infância e
adolescência se resumem àquela localidade, onde estão as minhas raízes, familiares e amigos
com quem tive o prazer de conviver durante essas duas fases da minha vida. Porém, sempre
valorizei o estudo, coisa que a população local não atribuía tanta importância. A realidade
daquele local não proporcionava que pensasse em fazer um curso superior, mas eu tinha isso
como objetivo a ser realizado. Era consciente do alto grau de dificuldade que encontraria,
mas tal fato não me fez desistir de lutar pelo meu ideal.
Hoje, resido em Juazeiro, no bairro Santo Antonio, junto a minha tia, faço diariamente
um percurso por toda a cidade para chegar até a universidade.
Minha família
Raimundo Francisco da Silva e Vandelice Angélica da Silva, meus pais e seres responsáveis por tudo aquilo que sou. Tenho três irmãos, Queila Rozane, Diego Rodrigo e Ana
Maria. Convivi com a minha família até os meus 18 anos, quando tive que sair de casa para
continuar os estudos, não foi nada fácil, a saudade fazia-me brotar lágrimas quase que todos
os dias, mas com o passar do tempo fui me acostumando com a distância.
Meus pais, sempre se esforçaram muito para que eu pudesse manter os estudos, um
direito não acessível a eles. Na minha mãe, sempre encontrei confiança, apoio e dedicação;
no meu pai, a determinação e a conscientização que só através do estudo eu poderia minimizar
a quantidade de espinhos a serem encontrados na minha caminhada. Há essas duas pessoas
que sempre indicaram os caminhos no qual eu deveria seguir, poupando-me das dificuldades
e problemas vivenciados no dia-a-dia. A minha extrema gratidão por tudo que fizeram e
continuam fazendo em busca da minha felicidade.
Com os meus demais familiares mantenho uma relação carinhosa, fazem parte dos
meus dias, trazendo alegria, descontração e a certeza de que tenho uma família com laços
fraternos intimamente ligados a todos.
Graduanda em Engenharia da Produção.
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Caminhadas de universitários de origem popular
Aos meus 16 anos conheci Maurício, pessoa que marca a minha história com muito
amor, carinho e companheirismo. Tornou-se também um amigo que me auxilia nas horas do
meu fracasso e complementa os meus momentos felizes com a permanente alegria que
existe nesse ser.
No ano de 2006, o início foi marcado por conquista, começava minha faculdade,
porém, em 24 de junho, uma grande tristeza, juntou-se ao pai celestial Michele, uma prima
alegre e muito extrovertida que deixou saudades. Seis meses depois (24 de dezembro ), um
outro familiar nos faz relembrar toda aquela tristeza, dessa vez foi Carlos Henrique, mais um
jovem que teve sua vida finalizada pela violência que marca as nossas cidades. A vocês, a
minha eterna saudade e lembranças maravilhosas que jamais esquecerei.
Trajetória escolar
Comecei a minha trajetória escolar aos 7 anos de idade, cursando a 1ª série, na Escola
Maria Isabel Pontes, com a professora Nilza, Essa escola situava no lugar onde até hoje
residem os meus pais, na fazenda Laginha. Estudei naquela unidade escolar até a 4ª série.
Cursei o ensino fundamental no distrito de Carnaíba do Sertão, era uma viagem de
7 km todos os dias. Essa nova escola chama-se Professora Graciosa Xavier Ramos Gomes,
aqui consegui obter muitos conhecimentos e fazer grandes amizades com colegas e
professores. Porém, sentia-me desestimulada diante da minha turma, eles não pensavam em
continuar os estudos, nenhum outro prestou vestibular, não havia companhia nas horas de
estudar, e quando alguém aparecia na biblioteca, era para fazer chateações ou desvalorizar
o estudo. Somente por partes de alguns professores, especialmente a professora Tânia Martins,
eu consegui apoio e incentivo a prestar vestibular.
Prestei o primeiro vestibular em 2004, para matemática na Faculdade de Formação de
Professores de Petrolina, mas como não consegui aprovação, veio junto a toda aquela
expectativa, veio a decepção, não conseguia aceitar que tantos dias de estudo não tinham
dado em nada. Os meus amigos e familiares não entendiam que os conhecimentos adquiridos
ainda não eram suficientes, muitos até não acreditavam que eu realmente tinha me esforçado,
o que aumentava cada vez mais a minha angústia, pois além de ter ficado chateada comigo
por não conseguir alcançar o meu objetivo, sentia a desconfiança nos olhos dos meus
familiares, e até mesmo, nas palavras do meu pai.
Na minha mãe, encontrei a compreensão e o consolo, dizendo que eu seria apenas
mais uma como tantas, que não conseguia êxito na primeira tentativa, mas que outras
oportunidades surgiriam. Encontrei apoio semelhante em Edilene, transmitindo mensagens
de confiança e amizade.
No ano seguinte, prestei vestibular novamente na Faculdade de Formação de Professores de Petrolina (FFPP), na Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), na
Universidade Federal da Bahia (UFBA) e na Universidade do Estado da Bahia (UNEB).
Mais uma vez não consegui aprovação na FFPP.
A aprovação
No final de 2005, a satisfação, tinha conseguido aprovação nas demais faculdades,
não teria palavras para explicar a felicidade que estava sentindo naquele momento, as
lágrimas floresceram como um sinal da mais pura alegria. Não só a minha alegria estava
presente, era visível a satisfação dos meus pais e também de todos os outros familiares.
Universidade Federal do Vale do São Francisco
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Custei a acreditar em tais aprovações, iniciava a realização de um sonho e não mais
sentiria incapaz diante de todos. Espero que as pessoas que desconfiaram do meu interesse e
esforço tenham sentido remorsos e conseguido compreender que não basta apenas querer
entrar na universidade, é preciso avaliar todas as condições de estudos que lhes foram dados.
Dentre as aprovações optei por engenharia de produção na UNIVASF, pois além de
cursar uma área do meu interesse, uma profissão na qual possuo identificação na área de
atuação, continuaria vivendo próxima a minha família.
Hoje, sou estudante universitária e bolsista do Programa Conexões de Saberes, projeto
com papel fundamental na realidade local, viabilizando o ingresso de jovens de origem
popular na universidade e dando subsídios para que esses possam concluir as suas formações
profissionais.
O Conexões de Saberes incentiva os jovens a se tornarem embriões de uma nova
geração, que não utiliza as suas condições sociais como barreiras e sim, usam os seus
saberes comunitários como princípios e suporte na realização dos seus ideais, valorizando
sempre suas culturas.
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Caminhadas de universitários de origem popular
Minha caminhada, meus estudos
Wandilson Alisson Silva Lima*
“... Embora os mestres e os livros sejam
auxiliares necessários, são dos esforços
próprios que se conseguem os mais
completos e brilhantes resultados”.
(Garfield)
Nasci em 5 de outubro de 1985, Wandilson Alisson Silva Lima, Petrolinense, filho de
Vanilce Silva Lima e Manoel dos Santos Lima. Logo aos três anos quando se inicia os
estudos, mais especificamente o Pré-escolar, surge uma grande dificuldade, pois na época as
escolas públicas da cidade ofereciam vagas apenas a partir da 1ª série do Ensino Fundamental I.
Sendo assim, as instituições educacionais que proporcionavam vagas para o Pré-escolar
eram todas privadas. Minha mãe não trabalhava na época, meu pai trabalhava, mas não
sobrava recurso financeiro para arcar com esse investimento e a solução encontrada foi o
meu padrinho de batismo assumir a responsabilidade. Conseqüentemente, quando terminado
esse período de Educação Infantil e iniciado o Ensino Fundamental I, fui estudar em uma
escola pública, pois essa ajuda foi momentânea. Em 1990, nasceu minha irmã Aline, uma
gravidez bastante difícil onde minha mãe “quebrou o resguardo” e teve depressão pósparto. Um período bastante conturbado para uma criança de apenas 5 anos como eu. Contudo,
esse início de infância também foi marcado por alegrias, carinho da família e dos amigos.
Dessa forma, começa uma grande caminhada cheia de desafios e sonhos até o ingresso em
uma universidade.
Morávamos todos em uma só residência, meus pais, minha irmã e minha avó materna.
Por alguns problemas familiares que sempre aconteceram na minha vida, meus pais tiveram
que alugar uma casa onde foram morar juntamente com minha irmã. Fiquei morando com
eles e sendo sustentado por minha avó, passamos a sobreviver com uma pensão de um
salário mínimo devido à morte de meu avô materno. Graças a Deus, nunca passamos
necessidades e tínhamos uma vida simples, porém, muito feliz. A escola na qual estudei a
maior parte de minha trajetória escolar, era próxima da nossa casa, indo a pé todos os dias.
A responsabilidade começava logo cedo já que não contava com ajuda de meus pais e
minha avó era apenas alfabetizada. Assim, eu estudava e realizava todas as atividades sem
Graduando em Administração.
Universidade Federal do Vale do São Francisco
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ajuda. Meu coeficiente de desempenho na escola sempre foi um dos melhores, mesmo sem
acompanhamento dos meus pais, consegui, com muito esforço, levar meus anseios adiante,
sonhava muito em ter um futuro promissor. Na vida escolar, era um menino bastante envolvido
com as atividades extra-classe, participava bastante de gincanas socioculturais, de feiras de
ciências, dos esportes e das ações comunitárias. Muitas vezes ficava perguntando para os
professores se eles iriam ensinar determinados conteúdos, se eles iam terminar o livro todo,
sempre pensando em um ensino melhor para poder competir com outras pessoas que possuíam mais informação.
Quando cheguei ao último ano do Ensino Médio fiquei bastante preocupado porque não tinha base nenhuma para enfrentar o vestibular. Durante essa fase faltaram muitos
professores, que geralmente quando eram contratados não conseguiam dar o conteúdo
programático. Falei com meu pai que queria fazer um cursinho preparatório, o mais barato
que tinha, então pedi uma parte do dinheiro para ele e minha mãe me dava o restante para
completar. Quando comecei a freqüentar o cursinho, logo surgiram às dificuldades devido
a grande quantidade de assuntos. Eu não sabia bem que curso queria fazer. Na época a
minha cidade tinha apenas uma Universidade Estadual com cursos de licenciatura e em
uma cidade vizinha também possuía uma Universidade com três opções de curso cuja
demanda era muito elevada. Sem muitas opções, escolhi optar por Matemática, não fui
aprovado fiquei em ponto de corte. Assim, terminada a jornada de ensino médio começou
a pressão para trabalhar, eu particularmente achava que deveria me dedicar aos estudos.
Consegui uma bolsa no cursinho, dava algumas aulas de banca para comprar algumas
coisas básicas. Então, consegui ingressar no curso de Turismo do CEFET - Petrolina.
Novamente não passei no vestibular, dessa vez tentei Letras com Licenciatura em Língua Inglesa. Fiquei muito triste porque eu tinha me preparado e nesse momento me
senti frustrado.
Contudo, comecei o curso técnico de Turismo e gostava muito, mas precisava ingressar
no nível superior. Queria fazer vestibular fora da cidade em universidades federais, mas
meus pais sempre diziam que faculdade em capital ou em outro lugar era coisa de rico e que
não teriam condições de financiar; minha avó era assalariada também não podia. Sonhava
muito, quando soube que iria ser realizado o processo seletivo para uma nova Universidade,
desta vez, Federal, fiquei contente. Eu estudava no CEFET no turno matutino e fazia um
estágio em uma escola de Inglês à tarde. Quando chegava a noite já estava muito cansado,
mas buscava forças para não desistir de lutar pelo meu sonho que era ingressar na
Universidade. Fiz uma seleção para um cursinho Pré-vestibular popular, entrei e comecei a
freqüentar as aulas no fim de semana. Mas não foi bastante, o tempo era pouco, fiquei
desmotivado; passei a assistir apenas algumas aulas. Abriu as inscrições para a tão sonhada
Universidade Federal do Vale do São Francisco - UNIVASF, dos cursos que tinha optei por
Administração. Quando saiu a concorrência de 18 candidatos por vaga eu achava que não
tinha chance nenhuma, pois havia pessoas de todos os lugares e eles estavam bem preparados.
No dia da prova eu estava guiando alunos de um colégio particular de Campina Grande que
vieram fazer o vestibular, quando faltavam algumas horas antes da prova a responsável pela
turma disse que eu tinha que levar todos nos locais de prova. Nesse momento, eu fiquei em
pânico porque tinha que fazer a prova também, daí, consegui uma amiga para ficar no meu
lugar. Estava esperando o ônibus, mas demorava tanto que eu comecei a chorar pensando
que meu sonho parava por ali, foi quando passou um conhecido e me deu uma carona até
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Caminhadas de universitários de origem popular
um certo ponto. Fui correndo e cheguei faltando alguns minutos antes da prova. Era uma
ocasião de superação e fé. Enfim, o resultado do primeiro vestibular da UNIVASF saiu no dia
do meu aniversário, foi uma emoção inexplicável: fui aprovado! E passei também no curso
de Letras Inglês da Universidade de Pernambuco - UPE.
As aulas começaram 2 semanas após o resultado, eram em período integral (manhã e
tarde) e veio a primeira barreira. As instalações da UNIVASF inicialmente estavam sendo no
prédio do CEFET, o ônibus levava aproximadamente 40 minutos para chegar ao destino, o
intervalo para o almoço era apenas de uma hora e meia. Então, tinha que fazer as refeições
na própria faculdade que custava cerca de R$ 5,00. Recebia R$ 10,00 por semana de meu
pai para o transporte e xérox. Minha avó de 70 anos ia deixar minha marmita dois dias na
semana e eu era o único aluno “bóia-fria” da universidade do campus de Petrolina. No
primeiro semestre, eu cursava nas duas faculdades, alguns dias da semana eu passava o dia
todo na UNIVASF e à noite ia para UPE, depois decidi optar apenas pela primeira. Foi
solicitado um livro de Introdução à Administração para ser comprado, mas eu preferi não
pedi a meu pai e minha estratégia para estudar era por slides e pegava o livro emprestado
com os colegas. Cada dia eu pedia a um diferente. Meu pai soube depois e quis comprar o
livro, mesmo assim eu disse que não precisava porque viriam outros importantes depois.
Com isso e ainda sendo aluno de escola pública eu não me abstive de lutar, meu desempenho
acadêmico está entre os melhores da turma e é um dos motivos para que eu possa me motivar
nessa caminhada. As bolsas sempre me ajudaram, no segundo período fui bolsista do CNPq
e agora do Programa Conexões de Saberes que é a forma pela qual eu me mantenho dentro
e fora da universidade.
Essa é uma caminhada talvez simples para alguns e complexas para outros, não quero
ser visto pela sociedade como “coitadinho” e sim como uma pessoa que lutou e conseguiu
vencer algumas barreiras que a vida colocou. Para tanto, precisei e continuo com a força de
poucos familiares, em especial minha avó materna Eunice, meu avô paterno Raimundo
Lima, meus pais e minha irmã, como também meus amigos e vizinhos que me ajudam a
levantar nos momentos de tristezas e me fortalecem nos momentos de conquistas.
Então, concluo uma parte da minha caminhada que muito se parece com de outros
figurantes neste cenário que é a vida. Persistir e sonhar é preciso.
Universidade Federal do Vale do São Francisco
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UNIVASF - Observatório de Favelas