UNIVASF Universidade Federal do Vale do são Francisco Caminhadas de universitários de origem popular UNIVASF UNIVASF Copyright © 2009 by Universidade Federal do Rio de Janeiro / Pró-Reitoria de Extensão. O conteúdo dos textos desta publicação é de inteira responsabilidade de seus autores. Coordenação da Coleção: Jailson de Souza e Silva Jorge Luiz Barbosa Ana Inês Sousa Organização da Coleção: Monique Batista Carvalho Francisco Marcelo da Silva Dalcio Marinho Gonçalves Aline Pacheco Santana Programação Visual: Núcleo de Produção Editoria da Extensão – PR-5/UFRJ Coordenação: Claudio Bastos Anna Paula Felix Iannini Thiago Maioli Azevedo C183 Caminhadas de universitários de origem popular : UNIVASF / organizado por Ana Inês Souza, Jorge Luiz Barbosa, Jailson de Souza e Silva. — Rio de Janeiro : Universidade Federal do Rio de Janeiro, Pró-Reitoria de Extensão, 2009. 72 p. ; il. ; 24 cm. — (Coleção Caminhadas de universitários de origem popular) Ao alto do título: Ministério da Educação. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade. Programa Conexões de Saberes : Diálogos entre a Universidade e as Comunidades Populares. Parceria: Observatório de Favelas do Rio de Janeiro. ISBN: 978-85-89669-37-5 1. Estudantes universitários — Programas de desenvolvimento — Brasil. 2. Integração universitária — Brasil. 3. Extensão universitária. 4. Comunidade e universidade — Brasil. I. Souza, Ana Inês, org. II. Barbosa, Jorge Luiz, org. III. Silva, Jailson de Souza e, org. VI. Programa Conexões de Saberes : Diálogos entre a Universidade e as Comunidades Populares. V. Universidade Federal do Vale do São Francisco. VI. Universidade Federal do Rio de Janeiro. VII. Observatório de Favelas do Rio de Janeiro. CDD: 378.81 Ministério da Educação Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade Programa Conexões de Saberes: diálogos entre a universidade e as comunidades populares Organizadores Jailson de Souza e Silva Jorge Luiz Barbosa Ana Inês Sousa UNIVASF Pró-Reitoria de Extensăo - UFRJ Rio de Janeiro - 2009 Coleção Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva Ministério da Educação Fernando Haddad Ministro Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade – SECAD André Luiz de Figueiredo Lázaro Autores Gênesis Naum de Farias Jamile Maiara da Silva Santos Janaína Nunes dos Santos Jorge Messias Leal do Nascimento Leidiana Alves da Mota Secretário Lívia Almeida Figuerêdo Armênio Bello Schmidt Lívio Ricardo Oliveira de Sá Diretoria de Educação para a Diversidade - DEDI Maraísa Ferreira da Silva Leonor Franco de Araújo Coordenação Geral de Diversidade – CGD Melquisedeck Mendes da Silva Pablício Gomes dos Santos Priscila D. M. Carvalho Programa Conexões de Saberes: diálogos entre a universidade e as comunidades populares Jorge Luiz Barbosa Jailson de Souza e Silva Coordenação Geral Alvany Maria dos Santos Santiago Coordenação Geral do Programa Conexões de Saberes/UNIVASF Liliane Caraciolo Ferreira Coordenação Adjunta UNIVERSIDADE FEDERAL DO VALE DO SÃO FRANCISCO José Weber Freire Macedo Reitor Paulo César da Silva Lima Vice-Reitor Alvany Maria dos Santos Santiago Pró–Reitora de Extensão Sandra Ricarte dos Santos Ferreira Sheila Rejane da Silva Wandilson Alisson Silva Lima Prefácio A sociedade brasileira tem como seu maior desafio a construção de ações que permitam, sem abrir mão da democracia, o enfrentamento da secular desigualdade social e econômica que caracteriza o país. E, para isso, a educação é um elemento fundamental. A possibilidade da educação contribuir de forma sistemática para esse processo implica uma educação de qualidade para todos, portanto, uma educação que necessita ser efetivamente democratizada, em todos os níveis de ensino, e orientada, de forma continua, pela melhoria de sua qualidade. No atual governo, o Ministério da Educação persegue de forma intensa e sistemática esses objetivos. Conexões de Saberes é um dos programas do MEC que expressa de forma nítida a luta contra a desigualdade, em particular no âmbito educacional. O Programa procura, por um lado, estreitar os vínculos entre as instituições acadêmicas e as comunidades populares e, por outro lado, melhorar as condições objetivas que contribuem para os estudantes universitários de origem popular permanecerem e concluírem com êxito a graduação e pós-graduação nas universidades públicas. Criado pelo MEC em dezembro de 2004, o Programa é desenvolvido a partir da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD-MEC) e representa a evolução e expansão, para o cenário nacional, de uma iniciativa elaborada, na cidade do Rio de Janeiro no ano de 2002, pela Organização da Sociedade Civil de Interesse Público Observatório de Favelas do Rio de Janeiro. Na ocasião constitui-se uma Rede de Universitários de Espaços Populares com núcleos de formação e produção de conhecimento em várias comunidades populares da cidade. O Programa Conexões de Saberes criou, inicialmente, uma rede de estudantes de graduação em cinco universidades federais, distribuídas pelo país: UFF, UFMG, UFPA, UFPE e UFRJ. A partir de maio de 2005, ampliamos o Programa para mais nove universidades federais: UFAM, UFBA, UFC, UFES, UFMS, UFPB, UFPR, UFRGS e UnB. Em 2006, o Ministério da Educação assegurou, em todos os estados do país, 33 universidades federais integrantes do Programa, sendo incluídas: UFAC, UFAL, UFG, UFMA, UFMT, UFPI, UFRN, UFRR, UFRPE, UFRRJ, UFS, UFSC, UFSCar, UFT, UNIFAP, UNIR, UNIRIO, UNIVASF e UFRB. Através do Programa Conexões de Saberes, essas universidades passam a ter, cada uma, ao menos 251 universitários que participam de um processo contínuo de qualificação como pesquisadores; construindo diagnósticos em suas instituições sobre as condições pedagógicas dos estudantes de origem popular e desenvolvendo diagnósticos e ações sociais em comunidades populares. Dessa forma, busca-se a formulação de proposições e realização de 1 A partir da liberação dos recursos 2007/2008 cada universidade federal passou a ter, cada uma, ao menos 35 bolsistas. práticas voltadas para a melhoria das condições de permanência dos estudantes de origem popular na universidade pública e, também, aproximar os setores populares da instituição, ampliando as possibilidades de encontro dos saberes destas duas instâncias sociais. Nesse sentido, o livro que tem nas mãos, caro(a) leitor(a), é um marco dos objetivos do Programa: a coleção “Caminhadas” chega a 33 livros publicados, com o lançamento das 19 publicações em 2009, reunindo as contribuições das universidades integrantes do Conexões de Saberes em 2006. Com essas publicações, busca-se conceder voz a esses estudantes e ampliar sua visibilidade nas universidades públicas e em outros espaços sociais. Esses livros trazem os relatos sobre as alegrias e lutas de centenas de jovens, rapazes e moças, que contrariaram a forte estrutura desigual que ainda impede o pleno acesso dos estudantes das camadas mais desfavorecidas às universidades de excelência do país ou só o permite para os cursos com menor prestígio social. Que este livro contribua para sensibilizar, fazer pensar e estimular a luta pela construção de uma universidade pública efetivamente democrática, um sociedade brasileira mais justa e uma humanidade cada dia mais plena. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade Ministério da Educação Observatório de Favelas do Rio de Janeiro Sumário Apresentação ....................................................................................................... 9 Anarquista graças a Deus... Gênesis Naum de Farias ................................................................................... 11 Alguns degraus de minha vida Jamile Maiara da Silva Santos ........................................................................ 17 Para construir a vida é necessário fazer escolhas Janaína Nunes dos Santos ................................................................................ 26 A humildade nos faz lutar e vencer na vida Jorge Messias Leal do Nascimento .................................................................. 33 “Verás que um filho teu não foge a luta” Leidiana Alves da Mota .................................................................................... 37 Apenas começamos Lívia Almeida Figuerêdo .................................................................................. 40 Determinação Lívio Ricardo Oliveira de Sá ............................................................................ 44 A batalha e a vitória Maraísa Ferreira da Silva ................................................................................ 49 Para frente é que se anda Melquisedeck Mendes da Silva ........................................................................ 53 Momentos inesquecíveis Pablício Gomes dos Santos .............................................................................. 56 Aproveitando as oportunidades Priscila D. M. Carvalho .................................................................................... 61 Mudar para conquistar Sandra Ricarte dos Santos Ferreira ................................................................. 63 Livro Caminhadas Sheila Rejane da Silva ...................................................................................... 66 Minha caminhada, meus estudos Wandilson Alisson Silva Lima .......................................................................... 69 Apresentação Temos o prazer de apresentar o "Caminhadas - UNIVASF" que relata a trajetória dos 25 primeiros estudantes da Universidade Federal do Vale do São Francisco - UNIVASF que participaram do Programa Conexões de Saberes: diálogos entre a Universidade e as Camadas Populares nos anos de 2006/2007. A UNIVASF com sede na cidade de Petrolina-PE possui campus em três estados. Além do campus localizado na cidade de Petrolina-PE, tem campus na cidade de Juazeiro-BA e São Raimundo Nonato-PI, configura-se como uma das novas universidades federais, ora sendo consolidada no país e apresenta como particularidade ser a primeira universidade a não está associada a um estado ou município e sim a uma região, o semi-árido Nordestino. O dipolo Juazeiro-BA Petrolina-PE é marcado por uma dicotomia entre a tradicional região seca semi-árida e a da fruticultura irrigada voltada para o mercado externo com grande uso de recursos tecnológicos. Complementa este cenário, as questões ambientais inerentes ao rio São Francisco, principal patrimônio natural inserido na autosustentabilidade de uma população de milhões de pessoas ao longo dos 2.820 km da sua calha que abrange cinco estados do Brasil (Lima, 2008). A UNIVASF por ser a primeira universidade federal implantada no sertão e com área de atuação abrangendo todo o Semi-árido Nordestino tem nos trazido vários desafios. Um deles é criar mecanismos que facilitem o ingresso e a permanência com dignidade dos estudantes de origem popular. Assim, ao ser convidada pelo reitor José Weber Freire Macedo para ocupar a Pró-Reitoria de Integração, comecei a refletir sobre formas de trabalhar essa questão. A luz veio ao participar do Congresso Latino-americano de Extensão Universitária quando conhecemos o Programa Conexões de Saberes. Ficamos felizes ao aderirmos parcialmente ao Programa em Agosto de 2006 recebendo inicialmente as vinte e cinco bolsas para os estudantes. O Programa Conexões de Saberes apresentou-se como marco na extensão universitária na UNIVASF. A pequena equipe da Pró-Reitoria se empenhou pessoalmente em implantá-lo e no primeiro edital público de seleção de estudantes recebeu mais de 200 inscritos do total de 956 estudantes. O Conexões de Saberes - UNIVASF envolve sete projetos: além do curso pré-vestibular comunitário - Pré-VASF, desenvolve o Conexões - Meio Ambiente que trata das questões do rio São Francisco, o Educação e Cidadania, o Vestibulando, o Bom Filho à Casa Torna, o UNIVASF de Portas Abertas e o Projeto Serra da Capivara. A construção do Caminhadas se deu de forma vívida e com a contribuição de vários professores, que para não pecarmos no esquecimento evitamos aqui nominá-los. Para nós, da coordenação, foi emocionante conhecer a caminhada de cada um destes jovens, suas vivências, seus sonhos e entender o grande modelo que eles/as representam não apenas para as suas famílias, mas para a Universidade e a Comunidade em Geral. Universidade Federal do Vale do São Francisco 9 Agradeço especialmente a professora Liliane Caraciollo pela sua valiosa colaboração que dividiu comigo os desafios da implantação do programa, aos professores César Augusto da Silva, Deranor Gomes de Oliveira, Marcelo Ribeiro, Márcia Medeiros de Araújo, Pedro Luís Machado Sanches e Vivianni Marques Santos, a Secad e toda a coordenação nacional e parabenizamos aos estudantes, que aqui narram as suas Caminhadas, pelo exemplo de vitória, persistência e determinação que acompanharemos nas páginas seguintes. Alvany Maria dos Santos Santiago Pró-Reitora de Integração 10 Caminhadas de universitários de origem popular Anarquista graças a Deus... Gênesis Naum de Farias* A Descoberta - Parte I Nasci no final da década de 70 do século XX e fui mais um ser humano que permaneceu numa época em que a grande novidade era converter e assimilar a rebeldia como um item a mais no processo de alienação. Mas o século XX não foi só alienação, e através da leitura aprendi a sentir a história desse rebeldia com a sutileza de um romântico intelectual anarquista. A maior decepção foi ter chegado ao ensino superior sabendo que nossas universidades já não vivenciavam o calor da rebeldia iconoclasta e explosiva, de um século que foi marcado por tantos movimentos que pretendiam demolir a tradição em arte, política e comportamento, acabando por criar uma tradição de “intelectuais rebeldes” que parecem ter sido derrotados pelo fim das utopias na virada do último século. Era como se a tudo o que aconteceu nas primeiras décadas deste período histórico, tivesse sido aperfeiçoado para caracterizar um controle social altamente perverso e castrador, afinal, as mudanças de comportamento refletem isso. Mesmo tendo nascido no final de um grande século, a paixão pelo conhecer me transformou num dândi provocador, num poeta maldito, num ser encantado. Essa razão de ser, acendeu um rastilho de idéias, acenando como uma atitude desafiadora: aprender a ler o mundo com outros olhos. Foi assim que aprendi a sonhar, lendo o mundo com o desafio de modificá-lo nos parâmetros de minhas ações. A leitura sempre foi minha grande paixão, desde cedo descobri nela uma outra parte de mim enfocada similarmente nas descobertas do imaginário poético, universalizado pelo conhecimento do passado nas personagens que iam me formando enquanto homem. A arqueologia dos meus saberes, por esta época, já se fundamentava numa busca permanente pelos caminhos do conhecimento, às vezes embrutecido pelo frio arpejo de suas descobertas, às vezes desencontrados, mas com a firme certeza de que o que buscava sempre estava permeado pelo tom e a destreza da aprendizagem. O filósofo francês Gilles Deleuze pregava que o homem era fruto do seu ponto de vista, por este motivo aperfeiçoei todo este espírito romântico, colhido nas experiências com a literatura, para fortalecer o meu espírito para enfrentar os desafios que a realidade me ofereceria no futuro. No mais, quando adentrei os portões da universidade para cursar minha primeira graduação, levei comigo toda àquela inquietação, que como dizia Rimbaud, viria ao Graduando em Arqueologia e Preservação Patrimonial Universidade Federal do Vale do São Francisco 11 mundo para anunciar a mudança de vida. Este Poeta me levou a acreditar na capacidade de sentir e ser gente, fazendo-me repensar valores e ampliar a consciência íntima no universo que me abrigava. Aprender a ler, foi pra mim, um processo mágico, o mais inesquecível. Lembro-me de ter vivido muitas eternidades olhando para o papel, em infâncias grandiosas, na esperança de envelhecer e abrir-me para o fantástico daqueles mundos. Com isto, aprendi a amar, sendo um poeta subitamente misterioso que combinava amor, paixão e uma grande descoberta pelos livros. Dos livros, me revelei ao mundo, na transparência de um encantamento juvenil, assim vivido permanentemente, já que ainda hoje se restaura em mim a segurança e a motivação para buscar o conhecimento nas obras literárias, que me tomavam de assalto numa profunda integridade com o belo e o profano, no devanear pelos caminhos da poética. No dia em que me soube leitor, as circunstâncias me legaram uma grande existência, feita de sonhos e ficcionada paradoxalmente pelos sentidos subjetivos do prazer, tornandome um ser pragmático e praxiológico. Neste contexto de descobertas e decepções, uma pergunta invadia-me sempre: como penetrar na esfera dos significados do nosso tempo? Gaston Bachelard nos fala de uma estética da angústia, para construir a facticidade que obstina a imaginação a transpor os fatores do nosso cotidiano na ânsia de ampliar conceitos, através do processo formativo, para fixar perspectivas que esquematizem as multireferencialidades da realidade apreendida. Essa experiência primordial e fundamental, foi sem dúvida, a força propulsora da vida que escolhi viver e que, estou certo, acabaria vivendo sem a ter escolhido: ser Poeta! A minha busca intelectual ia se permeando por estes pressupostos filosóficos, porque sei que a realidade deste universo pós-humano é bem desumana e, soma o meu sonhar aos dos grandes poetas e filósofos que tentavam acordar a humanidade do sono funéreo da especulação e da desordem moral. Não me compreendo se não compreendo o outro, dizia Paulo Freire em seus escritos de posteridade, por isso sou um ser inquieto que escreve também para a posteridade, com a firme convicção de que um dia trilharemos e entraremos nas cidades cantando hinos de humanidades. Durante muito tempo vivi para dentro, numa intimidade muito profunda que ao me abrir para o mundo, me descobri cheio de vazios, alegrias, paridades e desassossegos. Cultivei-me quanto pude, caprichoso e refinado. Ampliando minhas limitações humanas, conheci os poetas, os romancistas e, me tornei um romanesco que vê o mundo como um caleidoscópio, cheio de aventuras, heroínas e poéticos sensos comuns. Mergulhei neste senso comum misterioso com José Mauro de Vasconcelos, autor do célebre livro Meu Pé de Laranja Lima, num primeiro descobrimento, depois tudo me iluminava e conferia ao cotidiano uma poesia de profundo sentido mítico, pois as perguntas surgiam e tornava-me um filósofo da vida sentimental do mundo. O conhecimento que me era permitido conhecer, se somava a uma grande viagem que me permitia fazer pelo passado para se afirmar o presente, portanto, devia ser trilhado com a convicção de uma descoberta sem malícia, na certeza da construção dos pilares deste mesmo aprendizado. E compreendendo as dificuldades da nossa realidade familiar, nos seus aspectos econômicos, eu ia construindo para mim um outro mundo através da leitura: menos vazio e mais cheio da espiritualidade do infinito. 12 Caminhadas de universitários de origem popular Outro dia me dizia um autor inglês, do qual sou leitor arvorado, que os tempos mudariam quando as pessoas passassem a escrever suas próprias histórias dialogando com o presente, sem hedonismos, sem preconceitos e sem as maldades do dia-a-dia. Por isso, entendia que a literatura e a arte do passado e do presente, me projetavam ao mundo com a sutileza e a leveza dos pássaros. Estes universos me deram o divórcio para com a inocência e forneceram preciosos elementos para lidar com as pessoas que se me apresentavam. Também foi o conhecimento da literatura que depurou minha sensibilidade para bem usufruir as boas coisas do mundo que se eternizavam misteriosamente no meu cotidiano. Depois, conheci Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé, Oscar Wilde, Jorge Amado - meu escritor predileto - Quintana, Carlos Drummond de Andrade, Plínio Marco e João do Rio, com este último, aprendi a ver a vida marginalizada pelos hedonismos da inquietude individualista dos seres humanos. Foi quando descobri Álvares de Azevedo e me tornei um romântico convicto. Este poeta até hoje me faz buscar em tudo o absoluto som do infinito. Absoluto este, que se constrói, se reconstrói e se destrói. Mas a poesia se aclarou quando li Machado de Assis e me perverti com sua destreza e seu comportamento, suas sutilezas e seus rituais. Depois, me veio Clarisse Lispector, para me deixar intimista, mas foi Castro Alves que me embriagou pelo funéreo sentido da liberdade. Este poeta sempre fez parte do que sou hoje; um ser que busca a liberdade para se auto-afirmar no complexo mundo das idéias. Sua clareza e erudição me desafiaram a ser um intelectual de mutações que ao mesmo tempo pertence às multidões, mas é desencontrado e vazio na sua solidão. No permanente exercício da leitura destes escritores, o que ia me impressionando era justamente a capacidade que ainda têm de expressão verbal através do poder de persuasão, juntando a tudo isto as habilidades de relacionar logicamente, de enriquecer o real pelo rico mundo das metáforas. Ainda quando adolescente, conheci dois poetas Ribeirinhos donos de uma humanidade que até hoje me aplaca os sentidos. São eles: Virgílio Siqueira e Maurício Ferreira, ambos de um sertão que nos é capaz de ensinar como se dá a criação poética, porque são exímios escritores de vidas inesgotáveis. Eles me ensinam que o “nada é real se não escrevo” como dizia Virginia Woolf. O universo da leitura ia aos poucos me tirando do lugar comum para me transportar para um universo só meu, acabando por me obstinar a sonhar com uma liberdade que só existia no mundo da ficção. Parecem tolas as minhas convicções, mas refletem a pessoa que sou, tendo em vista que sou um entusiasta da educação pelo conhecimento que se dá a cada instante em nossas vidas. A leitura, como forma de anarquia, me deu virtudes e riqueza, me deu angústias e liberdade, porque me transporta, fatidicamente, para um universo que precisa ser descoberto, transformado e orquestrado. Ao devanear sobre essa anarquização estética pela capacidade de pensá-la, quero distinguir de maneira absoluta a esquematização das multiplicidades que mutilam a realidade para fixar nossas perspectivas e maturidades no mundo que se me apresenta no cotidiano. Por isso, escrevo com afinco para desprender minhas reflexões, tornando-me um fazedor de palavras para conscientizar o meu mundo através da percepção do presente num futuro que se anuncia vazio, e cheio de paridades. Universidade Federal do Vale do São Francisco 13 Hoje, parece complicado devanear sobre qualquer coisa, ainda mais se estas estão sobre o manto diáfano da desilusão, do pessimismo, do niilismo, dos achismos e dos ismos. É como se filosofar fosse um ato banal e não tivesse a devida importância para as pessoas no convívio social. Portanto, essas marcas são as insígnias de que estou vivo e sonho com um mundo que ofereça qualidade de vida diante da falta de utopia deste início de milênio, provas de que o último século nos deixou várias incertezas... O Poeta - Parte II O escritor Paul Auster costuma sentir-se muito deprimido quando termina um livro. É como me sinto ao concluir esta lavoura de arroubos itinerantes, que roteiriza um ponto de partida sem qualquer pressa em decifrar enredos ou momentos de puro hermetismo na experiência concreta com a sensibilidade do mundo da poética. Eu, às vezes, me vejo como o Fausto de Goethe, que depois de tanto estudar filosofia, teologia e praticar poesia, confessa-se um pobre ignorante, entregando-se à magia, no tatear das palavras que se consolidam nas entranhas do tempo, numa cadeia de marcas imprecisas. Ao me referir ao poeta alemão nesta breve apresentação, faço-o para documentar que sua vida como a minha, oscila entre a sombra e a luz. É tanto que, nos seus últimos instantes de vida, ao se aproximar à morte, ele pediu para abrirem a janela do quarto para que entrasse mais luz, e foi mais ou menos isto que ele disse no seu último suspiro. A poesia que busco se parece com a alcunha impressa por este poeta, pois sou arrebanhado pela força das existências, onde, neste Flâneur pelos caminhos da poética, mapeio encantos e descrevo com fúria os recantos felizes da minha infância, e as perturbadoras insolências da minha mocidade - legadas pela profícua convivência com a diversidade, marcada sempre pelo trágico ato do pensar. Somos, nós os poetas, seres presos duplamente ao destino das existências de nós mesmos e do tempo em que vivemos, exigindo-nos sempre mais, numa longa e íntima familiaridade com os marcos e os fatos das coisas da vida, ao transpor, com naturalidade, as subjetividades que a sensibilidade evasiva expõe cheia de paridades. Nestes instantes, torno-me, por necessidade, um fazedor de palavras e ansiedades, como forma de expressão própria. Esta militância, no entorno da palavra pensada, é que demarcam os meus dias de filósofo no caos de um cosmo tragicamente poluído pelas verdades da existência. Aqui me reservo a percorrer o caminho sem volta da poesia à procura do êxtase que impulsiona a compaixão humana. Todos os grandes poetas e filósofos, viveram em suas buscas existenciais o desenfreado desencanto de uma evolução humana transviada e sem a perspectiva de uma transcendência, que nos dias atuais surge para atribuir à crescente miséria espiritual e intelectual em que mergulha a sociedade contemporânea, margeada pela racionalidade na irrealidade do eterno, do infinito, do necessário, do útil e também do anacrônico. As angústias encontradas nas palavras deste Noviciado místico - “que induzem o espírito à rebeldia” - só refazem a eufórica necessidade de bradar para o mundo os imprites do meu discurso árido e agressivo, entendendo que o maior grito poético do mundo moderno é o grito por liberdade, uma liberdade que lance aos céus do futuro o mesmo clamor de 14 Caminhadas de universitários de origem popular desespero que nos horizontes da agonia e da solidão, um poeta precisa lançar para, misteriosamente, manifestar seu fracasso e sua ascensão diante do misticismo da procura pelo mundo perdido, como a fórmula para transcender à força do destino e perpetrar suas sonolências numa contemplação solitária, para enfim, continuar sua dolorosa peregrinação, onde o fardo e a leveza apenas refazem o dilema da insustentável leveza do seu ser. Assim, é no cerne dessa travessia poética que reluto com as forças do abandono de mim mesmo, fazendo pequenos versos para sedimentar minha linguagem simples e minha intransponível crença de que a poesia que pretendo alcançar jamais abandonará os sentidos da aprendizagem. Também este escrito - o título o denuncia - é antes de tudo um repouso para velhas insônias, um feixe de encontros e desencontros, traduzidos pelo esforço para tornar o presente suportável, muitas vezes norteado por inseguranças silenciosas... O Acadêmico - Parte III Quando me tornei acadêmico, aprendi que o mundo vai muito além dos discursos e dos paradigmas, fazendo-se crer que sua episteme evolui e corrobora para um universo ainda menos conhecido. Tudo isto me foi passado quando amadureci as idéias e me tornei um intelectual mutável, que se aplica aos sentidos dos discursos e empreende saberes em suas ordens. Acabei por regra do destino, cursando Pedagogia na Universidade Estadual da Bahia, tendo por estes tempos vivido e sofrido muito com a necessidade de me permanecer nas zonas de pertencimentos que a literatura do referido curso me proponha. A simples necessidade de sobreviver naquele que seria minha inserção no universo acadêmico, acabou por transformar a minha vida e ampliar os meus saberes dentro da própria ordem que se ia me apresentando dentro dos saberes formais e já agora, menos subjetivo, porém, presos a uma conexão de idéias que acabariam por me levar a uma reflexão mais ampliada. Por fim, concluí a licenciatura plena, trabalhei algum tempo na área da educação num lugar fantástico, que mais parecia Macondo de Gabriel Garcia Marques em Cem anos de solidão. A experiência me foi recheada de descobertas; pude enfim, travar muitas discussões e testar as teorias que havia aprendido na graduação. O tempo passou e a fome pelo saber também se ampliou, então fiz o vestibular para cursar desta vez um bacharelado em Arqueologia. Neste curso me encontro, querendo sempre saber em permanente aprendizado, querendo viver e sentir a vida passar, na ânsia de um reencontro com as possibilidades da mistura dos saberes da educação com os saberes arqueológicos. Neste período, ao qual ainda me encontro, a vida tem sido um permanente desafio de léguas; mal havia eu passado no vestibular, perdi minha mãe para uma doença congênita e abandonei o curso porque as dificuldades emocionais e financeiras também não abandonavam a minha sofrida existência. Passado um ano e meio, retornei ao curso para me engajar mais, por entender que a vida precisa ser enfrentada de frente. Com isto, busquei na permanente solidão de si, uma saída para o total despojamento, mesmo que ainda haja muitos desapontamentos. A academia me trouxe muitos desassossegos e muitas alegrias, visto que através dela descobri outro sentido para as minhas buscas existenciais e, entre uma pesquisa e outra, uma leitura e outra, vai-se percebendo que há possibilidade de se melhorar para tentar melhorar a realidade que a todos nós circunda. Universidade Federal do Vale do São Francisco 15 Hoje, mais amadurecido e mais silencioso, tento apenas descrever o que sinto quando sou cobrado a escrever algo que me impele objetividade. A vida tende a nos exigir objetividades. Neste contexto, não posso deixar de falar dos meus pais: estes poetas iluminados que sempre sonharam em ver seus filhos longe da marginália e com um futuro mais acentuado. Estes, sempre foram exemplos a serem seguidos, tornando-nos pessoas responsáveis. A luta para nos manter na escola foi árdua, tendo em vista que possuíam seis filhos, e mesmo sendo semi-analfabetos, conseguiram realizar o feito maior de suas sobrevidas que era justamente encaminhar sua prole na retidão dos deveres morais para com a sociedade. Ao senhor Geraldo Abílio de Farias e a senhora Filomena Farias (In memória) - donos de uma sensibilidade grandiosa e de uma força magnânima, - devo-lhes tudo que sou; os sonhos, a poesia... a vida. Portanto, como acadêmico de Arqueologia, levo para os meus dias de estudante a certeza de uma continuidade ética porque assim me quis o legado dos meus pais, onde trilharei com reto conceito o que me ensinaram, para já em vida futura e profissional, não decepcionar nem os meus mestres, nem os meus ideais... 16 Caminhadas de universitários de origem popular Alguns degraus de minha vida Jamile Maiara da Silva Santos* Tarefa difícil, ao menos, para mim, é falar sobre a minha própria vida. Contar, detalhar... É um processo um pouco complicado quando esses detalhes se referem ao caminho trilhado por si próprio, principalmente porque dificilmente paro para pensar sobre o que já aconteceu em minha vida. Confesso que muitas vezes surgem lembranças, mas nem sempre gosto de lembrá-las por motivos os quais venho a me machucar. Momentos bons existiram, e desses sim, sinto muitas saudades. Saudades? E como sinto. Saudade é um sentimento tão gostoso, porém tão dolorido. Sinto saudade de tanta coisa na vida, de tantas pessoas. Quem não sente saudade do tempo de criança, quando a gente brincava sem hora para acabar, e se sujava todo sabendo que ia levar uma bela bronca depois, ou se acabava, era porque o corpo não agüentava mais? Brinquedos simples... Bonecas, joguinhos, mas que me divertiam de forma completa. Saudades do tempo em que a escola era um mistério, cheio de desafios intransponíveis. Saudades dos lugares que passei, esses lugares que você nem lembra, mas quando passa por eles, vem uma sensação gostosa e diferente. Saudades dos amigos que você nem lembrava mais, aquelas fotos que se perderam no tempo. Saudades do meu gatinho que se foi por uma malvadeza de um vizinho que resolveu envenená-lo, partindo do princípio que o gato quebrava as telhas de sua casa, e o coitado, inocentemente se foi e deixou um vazio dentro de mim. Era como se fosse um integrante de minha família! Saudades também das minhas festinhas de aniversário, onde em comemorações muito simples apenas para não passar despercebido, partilhava inocentemente a alegria de todos, às vezes sem mesmo saber o que era realmente um aniversário, e sonhava com a chegada do próximo. Então, falar de si próprio, como já disse é tarefa difícil, mas vou tentar explicar ao máximo e mostrar de forma clara toda a trajetória de minha vida. Meu nome é Jamile Maiara da Silva Santos, sou a caçula dos filhos de Maria Luiza de Jesus Santos e José Cleub da Silva Santos; tenho apenas um irmão chamado José Cleub da Silva Santos Júnior. Nasci no ano de 1987, na cidade de Euclides da Cunha, Bahia, onde morei até passar no vestibular. Uma das coisas que mais me marcou, com apenas um aninho, foi que minha mãe, até os dias atuais, professora, necessitava muito trabalhar, e em virtude disso, como não tinha Graduanda em Medicina Veterinária. Universidade Federal do Vale do São Francisco 17 com quem me deixar, e precisando muito de seu salário, me levava todos os dias para o prédio onde ensinava. Era a noite, e ela com todo o seu esforço e dedicação me levava todos os dias. Eu dormia e acordava, e essa aula não acabava. Como à necessidade era grande, pois desse dinheiro dependia a minha criação e o sustento da família, todos os dias (segunda à sexta), acontecia à mesma situação. Porém, como todo esforço tem suas recompensas, ao menos, esse não foi diferente, pois quando ela me colocou na escola pela primeira vez eu fui adiantada de uma série. Isso aconteceu ao passo, que eu ia para escola com ela, e por conseqüência, acabava vendo os alunos fazendo as atividades em classe, e assim, fui aprendendo. Fui à escola pela primeira vez aos três anos de idade, e a partir daí, começava uma vida de estudos que continuou até os dias atuais, e com fé em Deus continuará até meu Mestrado, Doutorado.... O nome da escola em que estudei pela primeira vez era Centro Educacional Sementinha do Saber. Foi aí, onde tive o primeiro contato com minha professora à qual chamava-se Santana e tinha-me bastante carinho e atenção. Conheci colegas de classe que até o ensino médio acompanharam-me fielmente, mas chega a certo ponto de nossas vidas que nem todos por quem temos amor, amizade e carinho podem nos acompanhar. Tem uma mensagem, de um autor desconhecido, que reflete bem essa etapa de minha vida, e com certeza, não poderia deixar de mostrá-la aqui: “Quando sua vida começa, você tem apenas uma mala pequenina de mão... À medida que os anos vão passando, a bagagem vai aumentando, porque existem muitas coisas que você recolhe pelo caminho, por pensar que são importantes. A um determinado ponto do caminho, começa a ficar insuportável carregar tantas coisas, pesa demais, então, você pode escolher: ficar sentado à beira do caminho, esperando que alguém o ajude, o que é difícil, pois todos que passarem por ali, já terão sua própria bagagem. Você pode ficar a vida inteira esperando, ou pode aliviar o peso, esvaziando a mala. Mas o que tirar? Você começa tirando tudo para fora... Veja o que tem dentro: amor, amizade... Nossa! Tem bastante coisa, curioso, não pesa nada... Tem algo pesado.... Você faz força para tirar.... Era a Raiva - como ela pesa! Aí você começa a tirar, tirar e aparecem a incompreensão, medo, pessimismo.... Nesse momento, o desânimo quase te puxa pra dentro da mala... Mas você puxa-o para fora com toda a força, e no fundo da mala aparece um sorriso, que estava sufocado no fundo da sua bagagem. 18 Caminhadas de universitários de origem popular Pula para fora outro sorriso e mais outro, e aí sai a felicidade.... Aí você coloca as mãos dentro da mala de novo, tira pra fora um monte de tristeza... Agora, você vai ter que procurar a paciência dentro da mala, pois vai precisar bastante... Procure então o resto: a força, esperança, coragem, entusiasmo, equilíbrio, responsabilidade, tolerância e o bom e velho humor. tire a preocupação também. deixe de lado, depois você pensa o que fazer com ela.... Bem, sua bagagem está pronta para ser arrumada de novo. Mas pense bem o que vai colocar dentro da mala de novo, hein. Agora é com você. E não se esqueça de fazer essa arrumação, mais vezes, pois o caminho é muito, muito longo, e sua bagagem, poderá pesar novamente”. (Autor Desconhecido) E é com essa “bagagem”, muito bem selecionada, que continuo aqui, firme e forte, a descrever a você, leitor(a), minha história de vida! Após a minha entrada na escola pela primeira vez, passei a executar todas às minhas tarefas de casa sozinha. Desde muito cedo, já era aplicada em meus estudos. Dedicava-me de forma muito especial às atividades que eram propostas. Aos cinco anos de idade fui para alfabetização.... Ô tempo bom! Era o momento em que estava aprendendo a ler, descobrindo coisas novas, desvendando os mistérios da leitura. Nessa época não resistia a um cartaz na rua, queria ler tudo que vinha pela frente, não importava o assunto. Apenas queria ler! Achava perfeito ir às compras com minhas tias, pois, nessa época já sabia ler, e então, podia ler os cartazes no supermercado. O tempo foi passando e estava eu, chegando na 1ª série, indo para a 2ª, passando pela 3ª e foi indo até à 4ª série. Toda essa época, meu irmão, Júnior, ia me levar na escola de bicicleta. Ele tinha o cuidado de levar e buscar todos os dias. Era o meu guardião e não se cansava daquela rotina. Porém, um belo dia, ele resolve ir por outro caminho, por uma ladeira enorme..., e de repente, a bicicleta estava sem freios! Pensei por um instante que fosse morrer. Hoje não estaria aqui contando essa história, mas por felicidade existia ao lado da ladeira um terreno baldio, onde tinha areia.... De repente, caímos os dois muito assustados, mas graças a Deus, nada de grave aconteceu! Ao menos fomos cair em lugar macio! Outro ponto interessante a ser marcado nessa época foi o dia 12 de outubro, Dia das Crianças. Para alegria das crianças foi organizada uma viajem para o Itamina Park e para o Zoológico de Salvador, na Bahia. Era um dia diferente em que todas às crianças da escola podiam participar, mediante ao pagamento de uma taxa. Foi uma enorme alegria, quando soube que ia viajar, conhecer Salvador, ir ao Tamina.... Vai ser mais que perfeito Além de tudo isso, conhecer um Zoológico! Ver animais, nem acredito! Planejei muito, sem saber que não ia para essa viajem, pois, simplesmente, não dispunha da taxa para pagar. Foi uma eterna tristeza, mas tudo bem, acabei esquecendo! Universidade Federal do Vale do São Francisco 19 Mas como dizem: “Deus fecha uma porta, e abre uma janela”. E, foi isso que aconteceu..., ao final do ano, quando já tinha concluído á 4ª série, minha tia me convida para conhecer Salvador. Mais uma vez, fiz planos e mais planos..., com uma diferença: dessa vez, deu certo! Foi muito bom.... Só em conhecer o Zoológico já tinha ganhado a viajem. Daí em diante, comecei a aprimorar à vontade de conhecer os animais, como cuidar deles... Como trata-los de forma adequada? Dúvidas e mais dúvidas foram surgindo... E pensava: “serei uma Médica Veterinária, quando crescer”! Podia ser apenas mais um sonho, mas quem sabe não pode ser realizado.... É difícil, mas será que é impossível? Lembro que muitas pessoas diziam: “Isto é sonho de criança, um dia passa, estudar é só para o filho do prefeito”; Mas tinha essa idéia em mente, e a cada dia à vontade só ia aumentando dentro de mim. Vontade essa, que algumas pessoas, aumentavam; outras desanimavam, mas era apenas uma criança, e ainda nem tinha concluído o ensino fundamental que dirá o ensino médio, para só então prestar vestibular. Chegou o tempo de ir para o ensino fundamental II, acostumada com poucos colegas, tinha que ir enfrentar mais uma batalha: aos 10 anos de idade fui estudar no Educandário Oliveira Brito, uma escola pública estadual localizada no centro de Euclides da Cunha Bahia (minha cidade natal). Meu primeiro impacto foi à quantidade de colegas, uma sala com cinqüenta alunos; e professores dez a doze; foi terrível... Não imaginava que seria tão diferente do meu tempo de ensino fundamental. Muda o ambiente, as pessoas, os colegas, os professores, a diretora, os funcionários... que aflição continua! Mas fui acostumando-me aos poucos. De repente, encontrei-me num ambiente sozinha sem conhecer ninguém, mas isso não me inibiu, fui a cada dia conquistando meu espaço, e aprendendo a conviver. Começo a perceber, passo a passo, as pessoas que compunham à escola, e aos poucos, meio desconfiada, fui conquistando e fazendo amizade com o pessoal. Ao fim do ano, fui aprovada, e chego à 6ª série, um pouco mais confiante e à vontade na escola. Nessa época, continuava aplicada em meus estudos, e nunca esquecia de meu grande sonho: prestar vestibular para Medicina Veterinária! Preferia não comentar com muitas pessoas para que estas não me desenganassem ou me desiludissem como já havia acontecido. Adorava ir pra roça, o convívio com a natureza, com os animais. Dessa maneira, sempre ia com minha tia Azinda (irmã de minha mãe) para casa dela em uma fazenda. Até os dias atuais, sempre quando possível, continuo indo. Lá é um local muito especial e que marcou momentos inexplicáveis e inesquecíveis em minha vida. Mas um ano se passava, e estava eu, com 12 aninhos na 7ª série, naquela mesma escola. Já considerava o meu 2° lar, devido ao tempo de convivência e à afinidade à qual tinha com as pessoas de lá. Foi no ano de 1999, que resolvi criar o meu primeiro gatinho, era perfeito, lindo, impecável. Tinha tanto ciúmes, e nele tentava exercer à minha futura profissão.... Será que realmente essa é a minha profissão, quero tanto... mas não sei se chegarei até lá... perguntava-me, sempre! O gato se chamava Jânio, e era tão especial que o considerava como um integrante de minha família. Jânio, infelizmente, sofreu um grave atentado e foi envenenado inocentemente por um vizinho... Foi uma grande tragédia! Passei muitos dias chorando sem parar. Não conseguia me conformar. Mas o tempo foi passando, e adotei outro gatinho, era idêntico a Jânio, porém só fisicamente, pois internamente era um gato travesso, e não tinha carinho algum 20 Caminhadas de universitários de origem popular por mim. Chamava-se Tully e era tão sem amor que num belo dia resolveu me abandonar, e lá se foi Tully para nunca mais voltar. Mas uma decepção, será que suportarei? Mas resolvi, mais uma vez, criar outro gato. Porém, dessa vez, antes de adotá-lo encontrei uma mensagem que refletia muito bem esse momento ao qual estava passando. Concluí que todos nós somos insubstituíveis, assim como os animais, e devido a isso, todos têm as suas características particulares, e estava agindo errado ao procurar Jânio nos outros gatos. Ele era único e insubstituível. Para chegar a essa conclusão, tomei como lição a seguinte mensagem: “(...) Não há dois dias iguais. Um sucede o outro, mas não o substitui. Porque cada dia é único. Assim como na sinfonia, onde uma nota sucede outra, mas não a substitui, sempre seremos sucedidos nunca substituídos. Porque nossa vida é única. Porque cada pessoa é única. Porque tudo o que geramos revela a nossa autoria, como se fosse assim uma espécie de marca. Indelével, singular. Um filho, um livro, um quadro, uma idéia, um sentimento, uma palavra. ‘Cada um de nós pode ser insubstituível’. Ser insubstituível, sim, por que não? Um ser insubstituível não por arrogância, nem por posses, nem por dotes físicos ou intelectuais. Ser um insubstituível seres, simplesmente pelas emoções criadas e pelos valores agregados em sua volta. Ser um insubstituível seja pela renúncia à mediocridade, pela fuga do vazio, pelo abandono da irrelevância. Poderíamos ser todos insubstituíveis seres, pela energia positiva que transmitimos às outras pessoas, pela vibração produzida por nossos sentimentos, pelos nossos exemplos e atitudes, pelo nosso esforço admirável de passar por esta vida deixando marcas de excelência, como se fossem rastros de luz. Sejamos todos insubstituíveis. Eu para você, e você para mim. Uns para os outros. Cada um para todos.” Arnaldo Pereira Ribeiro Baseando-se na mensagem acima, percebi que Jânio era simplesmente um gato insubstituível e aí, sim, veio Uily: um gato diferente de Jânio, mas com suas características peculiares, às quais nos tornaram amigos fiéis, em todos os momentos. Então, continuando a minha trajetória escolar, aos 13 anos de idade estava na 8ª série. Tarefa muito complicada foi à minha partida do ensino fundamental II para o ensino médio. Digo isso porque, na minha cidade ainda existe o Normal Médio (antigo Magistério). Foi muito difícil decidir se ia optar pelo Magistério ou ia para o Ensino Médio. O tempo foi passando, e chegou o tão cruel dia de decidir, mas logo pensei: “Meu Deus, se optar pelo Magistério, meu sonho de ser Médica Veterinária, irá por água abaixo”. Minha mãe é professora, e acha melhor que eu curse o Normal Médio. Após uma conversa com à mesma, ela esclareceu-me dizendo: “Não necessariamente, porque está fazendo Magistério, será professora”. Ela mostrou-me que este seria um meio ou caminho para que eu, de certa forma, tivesse uma profissão para futuramente cursar minha faculdade, pois os custos são bastante altos! Enfim, acabei optando pelo Normal Médio. Com a decisão, acabei separando-me de muitos de meus amigos, os quais não optaram pelo mesmo curso que eu. Universidade Federal do Vale do São Francisco 21 Eram quatro anos de curso, mas comecei a lamentar-me desde o primeiro dia, quando soube que seriam quatro anos... achei que fosse um ano perdido de minha vida. Só que ao decorrer desses anos aprendi e cresci muito intelectualmente. Apesar de ser muito tempo, mas nada na vida vem por acaso. A mensagem a seguir reflete bem essa página de minha vida, pois não adianta pressa, o importante é chegar um dia onde desejamos. Observe: “Na vida as coisas, às vezes, andam muito devagar. Mas é importante não parar. Mesmo um pequeno avanço na direção certa já é um progresso, e qualquer um pode fazer um pequeno progresso. Se você não conseguir fazer uma coisa grandiosa hoje, faça alguma coisa pequena. Pequenos riachos acabam convertendo-se em grandes rios. Continue andando e fazendo. O que parecia fora de alcance esta manhã, vai parecer um pouco mais próximo amanhã, ao anoitecer, se você continuar movendose para frente. A cada momento intenso e apaixonado que você dedica a seu objetivo, um pouquinho mais você se aproxima dele. Se você pára completamente, é muito mais difícil começar tudo de novo. Então, continue andando e fazendo. Não desperdice a base que você já construiu. Existe alguma coisa que você pode fazer agora mesmo, hoje, neste exato instante. Pode não ser muito, mas vai mantê-lo no jogo. Vá rápido quando puder. Vá devagar quando for obrigado. Mas seja lá o que for, continue. O importante é não parar!” Autor desconhecido Com isso, iniciei o meu curso, tendo como meta que o importante era não parar, e a cada dia, estava mais próxima de meu objetivo! No 1° ano do Ensino Médio Normal houve um estágio de observação, onde fui encaminhada para uma escola pública chamada Escola Estadual Joaquim Dantas da Silva. Lá, passei em todas as séries do Ensino Fundamental, sendo dois dias em cada série, partindo da alfabetização até a 4ª série. Neste período, pude observar o modo de construção das aulas das professoras regentes e perceber a didática de aula que as professoras já tinham. Vale ressaltar que este estágio foi realizado em dupla, e ao término, seria realizado um relatório mostrando as experiências adquiridas. Já no 2° ano, mais um estágio, e dessa vez, era individual, repetindo mais uma vez todo o processo do 1° ano. No ano seguinte, aos 16 anos de idade, estava no 3° ano do Ensino Médio (modalidade normal) e pensava: “podia estar me formando este ano. Mas como me prometi que não me lamentaria, não vou nem pensar nessa hipótese”. No 3° ano, o estágio era chamado estágio de Co-participação. Neste estágio teria que realmente dar aula em todas as séries, não seria apenas para observar, e sim, para participar. A “escola laboratório” foi a Escola Municipal Naide Lima Campos, onde na oportunidade passei pelas séries iniciais de 1ª à 4ª série, sendo proposto uma semana em cada série e, a aula seria ministrada nos dois últimos dias de cada série, totalizando um mês nesse estágio. Agora, estava chegando ao fim de mais uma batalha. Estamos em 2005, ano de minha formação, ano de assumir uma sala. E como professora em formação, preciso realizar um bom 22 Caminhadas de universitários de origem popular trabalho até porque sou filha de uma professora e é interessante que o trabalho seja proveitoso e significativo. Mas, será que tenho talento para isso? Será que sou capaz de fazer um bom trabalho?... não tenho vocação! Disso não posso me esconder, porém já que estou prestes a estagiar, vou tentar fazê-lo bem feito. A questão de vocação não significa que o trabalho será feio e sem proveito algum! Ao contrário, pode ser bastante interessante e proveitoso. Em 01 de agosto de 2005, dia da decisão da série e da escola em que ia estagiar. Temia pegar uma série baixa, como a 1ª série, pois exige muito carisma e paciência por parte dos professores, enquanto que a 4ª série os alunos são maiores, e já entendem os motivos pelos quais estão na escola. Finalmente, recebi o resultado: ia estagiar na Escola Municipal Naide Lima Campos, na 4ª série. Que bom, ao menos, estou na série que queria. Deu-se o início do estágio, pensei muitas vezes em desistir, em jogar tudo para o alto, mas algo me impedia, ou melhor, alguém me impedia, e esse alguém era minha mãe que a todo o momento esteve ali presente me apoiando e me dando força pra continuar. Durante este estágio, tornei-me uma pessoa bastante sensível. Foi necessário muita ajuda de minha mãe, meu irmão e minha tia Azinda, pessoas que de forma especial ajudaram-me bastante. Sem eles não sei o que seria de mim! Sem contar nos gastos, pois a escola não dispunha de material para o estagiário! Como tudo que começa, termina... Graças a Deus! Chegou o dia do encerramento do estágio. Muita festa, alegria, entrega de provas, leitura de mensagens dos alunos para mim.... Apesar de muito reclamar, foi um dia muito especial e inesquecível! Ficará pra sempre guardadinho em minha memória. Agora que o estágio encerrou, nada mais justo que concentrar minha atenção no vestibular que estava por vir. Faltavam poucos dias, a data da prova estava chegando e a emoção e o nervosismo concentrava-se em mim. Sempre fui uma menina de pensar muito nas conseqüências de meus atos, e dessa vez, não foi diferente, parei para refletir a hipótese de passar no vestibular. Primeiro ia ter que afastar-me de minha mãe, pois como já comentei anteriormente, sou de Euclides da Cunha e o curso que almejo só tem na cidade de SalvadorBahia e Petrolina-Pernambuco. Segundo, o custo de vida nestas duas cidades é muito alto. Será que vou conseguir manter-me num desses lugares? Refleti, refleti e cheguei a seguinte conclusão: vou esperar o resultado depois penso no que fazer! Saiu o resultado do vestibular! Fui aprovada no curso de Medicina Veterinária, na Universidade Federal do Vale do São Francisco. Muita alegria, festa... Nem acreditava que ia passar no primeiro vestibular, mas passei! Agora só era cursar e realizar o meu tão sonhado desejo! A partir de julho de 2006, passei a residir na cidade de Petrolina, no estado de Pernambuco. Confesso que foi e está sendo muito difícil, por motivos os quais prefiro não mencionar. Porém, você que leu com bastante atenção é capaz de desvendar tais motivos. Mas não é só isso, sinto muita falta de minha mãe, a qual reside em Euclides da Cunha, e precisa trabalhar. Caso contrário, teria que trancar meu curso! Mas se é para realizar-me profissionalmente, acho que vale a pena o esforço. Estou no 2° período de Medicina Veterinária e estou identificando-me bastante com o curso. Minha inserção no Programa Conexões de Saberes, como bolsista, auxilia-me bastante na manutenção fora de casa, tendo em vista que não estudo em minha cidade natal. Mas não é só isso: o projeto faz-me vivenciar várias questões dentro e fora do mundo acadêmico, além de promover oportunidades de aprendizagem para o meu crescimento intelectual e social. Universidade Federal do Vale do São Francisco 23 Sendo assim só tenho a agradecer a três pessoas, a quem considero fundamentais para a minha existência: primeiramente minha mãe, a quem dedico tudo o que sou e a meu irmão, assim como a uma tia muito especial chamada Azinda. Enfim... Minha mãe diz muitas coisas sábias para mim. Ela sempre tem uma história que me toca. Adoro conversar com ela, por horas e horas... Quando estamos juntas, nem sinto o tempo passar. Ela é daquelas pessoas incríveis que conseguem explicar de maneira clara todas as questões da vida. Mães são assim, um ser iluminado, uma mistura perfeita entre a inteligência e a sensibilidade. Tenho-a dentro de mim em todos os lugares que vou, levo-a comigo. De todas as experiências expostas no decorrer de minha história de vida, confesso que cresci muito como pessoa, e hoje posso dizer que, na vida aprendi: “Que você não pode fazer com que os outros o amem, tudo que você pode fazer é ser alguém que possa ser amado, o resto é com eles. Aprendi que não importa o quanto você se dedique a alguém, algumas pessoas simplesmente não são capazes de reconhecer ou corresponder. Aprendi que você pode até se sair bem com charme por uns quinze minutos, mas depois disso é melhor ter algum conteúdo. Aprendi que custa um tempo enorme para nos tornarmos a pessoa que queremos ser. Que é muito mais fácil reagir do que pensar. Que ainda podemos continuar em frente muito além do que pensávamos que poderíamos. Aprendi que, ou você controla suas atitudes ou elas controlarão você. Aprendi que, independente da intensidade e do calor inicial de um relacionamento, a paixão passa e é melhor ter alguma coisa, além disso, para substituí-la. Que existem pessoas que te amam de verdade, mas simplesmente não conseguem demonstrar esse amor. Aprendi que, meu melhor amigo e eu podemos fazer qualquer coisa, ou coisa nenhuma, e ainda assim nos divertimos a valer. Que às vezes quando estou irritada, eu tenho o direito de estar irritada, mas isso não me dá o direito de ser cruel. 24 Caminhadas de universitários de origem popular Que a verdadeira amizade continua a crescer mesmo quando estamos longe. O mesmo acontece com o amor. Aprendi que só porque alguém não te ama do jeito que você gostaria, não significa que ela não te ame de todo o seu coração. Que você nunca deveria dizer a uma criança que seus sonhos são impossíveis ou improváveis de acontecer. Poucas coisas são mais humilhantes que isso, e que desastre seria se esta criança acreditasse em você. Aprendi que por mais que você esteja sofrendo o mundo não vai parar para você ficar se lamentando. Aprendi que só porque duas pessoas discutem, isto não significa que não se amem, e às vezes só porque duas pessoas não discutem, não significa que se amem. Que existem muitas maneiras de se apaixonar e continuar apaixonado. Que escrever, assim como falar, podem aliviar as dores emocionais. Estas coisas eu aprendi e muitas, estou aprendendo a cada dia, e me dão mais razão, mais coragem, mais sentido e alegria em enfrentar esta sublime aventura que é a VIDA.” Autor desconhecido Aprendi que o importante é jamais desistir dos objetivos, dos sonhos... É preciso persistir, pois com certeza, um dia, eles serão realizados! Essa foi um pouco de minha memória ou caminhada até os dias atuais, com algumas dificuldades, às quais vão tornar a vitória mais encantadora. Agora, só desejo ser uma excelente profissional, enquanto Médica Veterinária, e fazer o meu mestrado, doutorado... Universidade Federal do Vale do São Francisco 25 Para construir a vida é necessário fazer escolhas Janaína Nunes dos Santos* “O valor das coisas Não está no tempo Em que elas duram, Mas na intensidade Com que acontecem. Por isso, existem Momentos inesquecíveis Coisas inexplicáveis e Pessoas incomparáveis.” Fernando Pessoa Faço minha as palavras de Fernando Pessoa. Iniciando esta história, que poderá não ser diferente das demais, no entanto, creio que também não será igual, visto que somos diferentes, únicos, insubstituíveis. Serei a mais sincera possível, não contarei aqui minhas misérias, mas não seria honesta comigo mesma e com os leitores se não contasse às batalhas que tive de travar para chegar até aqui. Não quero que os caros leitores tenham compaixão por mim, e sim, que se sintam motivados a seguir em frente mesmo quando tudo parecer perdido, quando o último fio de esperança tiver esvaecido. Meu nome é Janaína Nunes dos Santos, nasci dia 09 de dezembro de 1987, na cidade de Petrolina, Pernambuco. No entanto, morei sempre na cidade de Lagoa Grande-PE. Inicialmente vivia apenas com a minha mãe. Aos cinco meses de nascida mainha e eu passamos para a nossa casa, até então, morávamos na casa de minha tia. Lembro-me que a casa não era grande, tinha apenas um quarto, passei 17 anos da minha vida lá. Nunca fui uma criança de muitos amigos (aliás, nenhum), nunca tive muitos brinquedos, não costumava sair na rua para brincar, porém, mainha sempre fez o possível para que eu me sentisse bem, mesmo em meio às dificuldades. Quando eu tinha 4 anos, mainha foi acometida por uma séria alergia a produtos químicos, sofri muito por um período de 2 anos, quando conseguiu-se contornar aquela situação. E já aos 4 anos de idade comecei a descobrir a realidade mais sofrida da vida, cedo aprendi a cuidar da casa, e de tudo o que podia. Aos seis anos de idade, vi a família aumentar, ganhei um irmãozinho, Joabe, as coisas eram extremamente difíceis, eu era como adulta no corpo Graduanda em Psicologia. 26 Caminhadas de universitários de origem popular de criança. Sempre fui muito decidida, por isso as dificuldades não me assustavam e eu jamais desisti, mesmo quando parecia que era o fim. Continuei ao lado de mainha e sempre a ajudei. Houve um tempo em que ela fazia salgados e ia para a rua vender, e eu ia junto com o ketchup e a maionese nas mãos, meu irmão, muito novinho ficava em casa, enquanto adquiríamos o alimento do outro dia. Mainha já fez de tudo, mas nunca permitiu que passássemos fome, ainda que não tivéssemos uma alimentação adequada, não faltava o que comer. Alguém pode ter se perguntado: e onde fica o pai nesta história? Então... Infelizmente, não posso falar muito desse personagem, pois ele não me ajudou a escrever esta história, apesar de morar a 70 km da minha cidade, ele pouco apareceu para que pudesse ser lembrado. Aos 17 anos eu o procurei e fiz questão de conhecer minha família paterna. O bom dessa parte da história é que fui muito bem recebida por todos os parentes, e hoje, eu tenho um grande amor por cada um deles. Apostando na educação “Os livros não mudam o mundo; quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas”. Mário Quintana Aos 6 anos, comecei a estudar. Iniciei a alfabetização, na escola Santa Maria, logo aprendi a ler e a escrever, minha primeira professora chamava-se Jeane. Foi na escola que minha vida começou a mudar! Na primeira série, conheci a professora que fez uma “revolução”, no que diz respeito à forma de viver que eu tinha até então: Solange Maria de Jesus Santos. Estudei com ela da primeira a quarta séries, e da quinta a oitava séries ela lecionou História, que é sua formação acadêmica. Mainha nunca teve condições de oferecer “do bom e do melhor” para mim, como dizem, mas quando o assunto é educação, ela sempre fez o máximo que pôde para que eu tivesse se não, uma boa educação, mas a melhor possível. Estudei toda a vida em escola pública, porém, desde cedo comecei a me dedicar aos estudos, pois sempre acreditei que a EDUCAÇÃO é o caminho para realizar a transformação que queremos ver em todos os setores deste país. Na Escola Santa Maria aprendi mais que disciplinas escolares, antes de tudo fui educada para a vida. Como toda escola da rede pública, enfrentávamos muitas dificuldades, não tínhamos livros suficientes, às cadeiras não atendiam demanda, os professores não tinham uma boa remuneração, no entanto, cada aula era especial, eu não tinha apenas professores, mas educadores, verdadeiros heróis, que mesmo em meio aos obstáculos não deixavam de acreditar na educação. Prefiro não citar nomes para não ser injusta com meus tão amados educadores. Mas nem tudo foi tão simples assim. Lembro-me que para eu ir a escola era uma batalha diária, muitas vezes mainha deixava de comer o pão para que eu não fosse para a escola com fome, muitas vezes na hora do recreio ficava sozinha na sala por não ter dinheiro para lanchar, e não raras vezes fui levada à secretaria sem sentidos porque estava com muita fome, e uma coisa “engraçada” é que eu detestava leite, e as professoras me fazia tomar um copo bem grande cheio de leite. Não tenho vergonha disso, até porque, isso era uma motivação para que eu lutasse por dias melhores, nunca desanimei por conta dessas situações, pelo contrário, sempre fui uma aluna aplicada, a primeira da classe em notas, em participação e em assiduidade. Universidade Federal do Vale do São Francisco 27 Cedo me apaixonei pela leitura, comecei a escrever, desenvolvi a habilidade de rimar as palavras e produzir literatura de cordel, escrevo poemas sobre tudo. Lembro-me que uma vez, já na 6ª série, a diretora disse que mainha tinha que comprar o fardamento da escola, ou do contrário, eu não ia assistir às aulas. Depois de muita conversa a professora Solange presenteou-me com a farda. Quando cheguei em casa produzi um poema sobre o acontecido. Chegou o momento de despedir-me da escola Santa Maria depois de nove anos de convivência, já havia conquistado uma família, mas infelizmente, a escola só dispunha do Ensino Fundamental. Passei a estudar na Escola Antonio de Amorim Coelho, também pública estadual, foi onde cursei todo o Ensino Médio. Lá, a situação não foi diferente, encontrei grandes amigos, construí uma outra família. Cresci muito como pessoa. Adquiri conhecimentos que servirão para toda a vida. Valores como, honestidade, solidariedade, compaixão, paciência, persistência, que eu absorvi ao longo da minha caminhada estudantil. A vida é composta de momentos bons e ruins, certamente se eu fosse escrever todos os momentos marcantes da minha trajetória o livro seria só meu, pois tudo que acontece na minha vida eu insiro na minha história, mesmo que sejam coisas ruins, pois é impossível que haja algo tão negativo que não se tire nada de positivo, que não se aprenda uma lição. Às vezes fico refletindo sobre o que nós estudantes, somos capazes de fazer para tirar uma boa nota. Veio à memória um dia que a professora de português passou um trabalho de literatura, e a equipe que eu estava ficou com o escritor José de Alencar, como sempre queríamos arrasar, pois todos os trabalhos que fazíamos era o diferencial da aula, elaboramos a apresentação e nela usaríamos um caixão, visto que José de Alencar voltaria ao século XXI para conversar com os alunos. No entanto, ninguém da equipe se dispôs a ir pegar o caixão na funerária, e sobrou pra quem? Minha colega e eu fomos até a funerária, pegamos o maior caixão que tinha, na trajetória pelo centro da cidade até a escola, que fica justamente ao lado do cemitério, as pessoas começaram a nos parar e perguntavam quem havia morrido, diziam que o cadáver era tão magro que duas moças conseguiam levá-lo, nós ríamos muito, e quase morremos de vergonha. Resultado: tiramos um 10 e foi a melhor apresentação da classe. Desde cedo faço parte de projetos sociais. Aos treze anos fui inserida no PETI (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil), é um Programa do Governo Federal que visa erradicar o trabalho de crianças e adolescentes entre 5 e 15 anos. O PETI dispunha de aulas de reforço, alimentação, e práticas esportivas: futebol, vôlei, handebol, e ainda, teatro, dança e música. Foi um tempo muito importante na minha vida, conheci pessoas muito especiais como à professora da minha turma, Vera Lúcia. Ela passava uma força muito grande para todos ao seu redor, fiz muitos amigos e estive em contato com pessoas que realmente merecem ser feliz, diante de tudo que passam. Já no Ensino Médio, pela dedicação e empenho nos estudos, fui escolhida para representar Lagoa Grande no Fórum do Projeto de Protagonismo Juvenil (projeto do governo do estado de Pernambuco, que objetiva treinar jovens do Ensino Médio para que desenvolvam seu protagonismo, nas mais diversas esferas da sociedade) a nível estadual e depois a nível regional, participei de encontros em Petrolina e Gravatá-PE. Infelizmente ao terminar o Ensino Médio não poderia continuar no projeto. No segundo ano do Ensino Médio, participei do Projeto Gerando Cidadania, criado por uma ONG chamada SERTA (Serviço de Tecnologia Alternativa) em parceria com o Governo Estadual, que tem como um dos seus objetivos, ensinar jovens, filhos de agricultores, a lidarem com tecnologias alternativas para melhorarem suas produções e promoverem 28 Caminhadas de universitários de origem popular crescimento e desenvolvimento em suas propriedades. O projeto Gerando Cidadania trabalhava o protagonismo juvenil. Aprendíamos sobre cidadania e direitos humanos. Éramos chamados de multiplicadores, pois tínhamos o dever de repassar o que estava sendo ensinado e fazer a diferença na comunidade que morávamos, criando maneiras de melhorar a vida dos jovens, possibilitando, dessa maneira, o protagonismo, sem esperarmos que somente as autoridades públicas fizessem alguma coisa. Infelizmente, o Projeto só durou seis meses, e eu não pude concluir as atividades, comecei a trabalhar. É hora do vestibular... “As pessoas geralmente são negativas e sem coragem. Lembre-se disso: nada pode impedi-lo quando você estabelece um objetivo. Ninguém pode impedi-lo a não ser você mesmo”. Sidney Sheldon E finalmente, chegou o último ano do Ensino Médio. Sem dúvida o mais conturbado dos três, me preocupei mais com o vestibular do que com as aulas normais. Estudava muito para prestar vestibular e quase nada para passar de ano. Comecei a tirar notas abaixo das que eu tirava nos anos anteriores, na verdade, eu matava aula para estudar na biblioteca já que não dispunha dos livros necessários. Não liguei muito para o problema. Continuei em frente, o importante é que não fui reprovada. Em junho de 2005 surgiu uma oportunidade extraordinária, fazer um cursinho prévestibular em Petrolina. Depois de muita luta consegui fazer a inscrição, torcendo para ser selecionada, já que era um cursinho público com aproximadamente dois mil inscritos. O Projeto Euclides da cunha de acesso ao Ensino Superior, é um projeto do Governo Estadual destinado a estudantes de escolas públicas. Foram seis meses de muita dedicação, passava o fim de semana em Petrolina, a aula era o dia todo com intervalo de duas horas para o almoço. Mais uma vez, Deus coloca na minha vida alguém muito especial: Lucicleide, irmã da professora Solange. Ela cuidou de mim durante os sei meses de cursinho e ainda continua cuidando depois que entrei na Universidade, pois ainda moro com ela. Considero a família dela a minha família. Entretanto, até aquele momento eu não tinha certeza de que curso eu ia fazer, pois tenho a mania de gostar de tudo, mas certamente não era nada na área de exatas! Depois de muito pensar, escolhi Letras, com licenciatura em Português e Psicologia. Outra vez travei uma batalha para fazer a inscrição do vestibular. Sem dinheiro, precisei da ajuda das pessoas que me conheciam, e nesse momento, descobri verdadeiros amigos, que graça a colaboração deles cheguei até aqui, e não poderia deixar de citar o apoio das secretárias de Educação e de Assistência Social, da prefeitura de Lagoa Grande, das escolas que estudei e da Igreja Evangélica Filadélfia, a qual faço parte atualmente, nas pessoas de Amadeu da Silva Santos e Solange Maria de Jesus Santos. Nos dias 4, 5 e 6 de dezembro de 2005 prestei vestibular na FFPP - Faculdade de Formação de Professores de Petrolina, extensão da UPE, para Letras/Português. E nos dias 08 e 09 de dezembro prestei vestibular na UNIVASF - Universidade Federal do Vale do São Francisco, para Psicologia. Ao contrário do que muitos pensaram que iria acontecer passei nas duas e continuo cursando as duas. Universidade Federal do Vale do São Francisco 29 A escolha que faz a diferença “Antes que eu te formasse no ventre, eu te conheci; e, antes que saísses da madre, te santifiquei e as nações te dei por profeta.” Jeremias 1.5 Há quase doze anos descobri alguém que mudou minha vida: JESUS! Aos 7 anos, quando estava na 1ª série, conheci a professora Solange, citada anteriormente. E na minha vida ela nunca foi apenas uma professora, Deus a usou, também, para levar-me a Conhecê-lo. Aos 7 anos comecei a freqüentar a 1° Igreja Batista em Lagoa Grande, aos 8 me converti ao Evangelho, a partir desse momento tudo na minha história começou a mudar. Eu acredito que, se hoje estou aqui, é porque o Senhor nunca deixou de cuidar de mim. Ele tem permanecido fiel, mesmo quando eu sou infiel. A Igreja é uma fonte de onde retiro muito mais que conhecimentos do âmbito espiritual, foi lá que adquiri valores importantes para a minha existência como amor, ética, respeito aos seres humanos, solidariedade, tolerância e compaixão. Passei oito anos congregando na 1ª Igreja Batista. Como na vida as coisas vêm e vão, conheci muitas pessoas que foram o referencial e o diferencial na minha história, e da mesma maneira me ajudaram a formar minha identidade, passaram a ser mais que irmãos. Por isso, eu afirmo que as escolhas que fazemos na vida fazem à diferença na maneira de vivermos. Como disse Freud: “O caráter de um homem é formado pelas pessoas que ele escolhe para viver”. Deixar de citar o que Deus fez na minha história, seria negar quem eu sou. Por isso, devo tudo o que tenho, tudo o que sou e o que eu vier a ser, a Cristo meu Salvador. Programa Conexões de Saberes “Um grande homem demonstra sua grandeza pelo modo como trata os pequenos.” Carlyl Quando entrei na universidade, não tinha noção de como se estruturava o ambiente acadêmico, por conta disso, foi um pouco difícil a minha adaptação. Eu estava um pouco deslocada, pois ao longo da minha vida estudantil eu participava de programas, projetos, enfim, era muito ativa, nunca fui para a escola apenas estudar. Já tinha perdido a esperança de encontrar novamente um projeto que atendesse os meus anseios. Ao iniciar o curso de Psicologia surgiu o Programa Conexões de Saberes, pelos critérios de seleção eu tinha certeza que entraria, mas pela quantidade de inscritos, só um milagre, e aconteceu. No primeiro momento não entendia o que era o Programa, mas ao descobrir percebi que não era simplesmente um meio para que eu permanecesse na universidade, é um projeto com uma ideologia existencial. Acredito que nem os próprios idealizadores do Programa têm uma dimensão exata do significado deste na vida dos seus participantes. As experiências desse grande homem chamado Jailson de Souza e Silva foram as responsáveis pela grandeza de suas idéias. 30 Caminhadas de universitários de origem popular O sonho que ele teve de “ser alguém” o conduziu para suas realizações. As dificuldades e privações que sofreu não foram suficientes para detê-lo, e este atentou para os pequenos que como ele, enfrentam dificuldades e muitas vezes não vivem, sobrevivem, dadas as circunstâncias que perpassam o seu cotidiano. O resultado visível de sua preocupação? O Programa Conexões de Saberes. Hoje existe diferença na vida de quem o tem, não apenas como um simples programa, mas como um modo de vida. Para concluir... Quem disse? Não pense que porque sou nordestina Sou menos brasileira. Não pense que porque sou sertaneja Sofro mais que os outros. Quem disse que o Nordeste só tem sofrimento? Quem disse que no Sertão só há fome e miséria? Quem disse que no Sertão só tem analfabetos? Quem disse que no Sertão a chuva não cai? Eu digo que no Nordeste existem HUMANOS! Eu digo que no Sertão existem guerreiros! Eu digo que no semi-árido tem a irrigação! Eu digo que as frutas do Vale são referências para a nação! Eu digo que nós temos o Rio da Integração! Quem disse que o sofrimento deixou insensível o sertanejo? Quem disse que não lutamos pela igualdade? Quem disse que não temos liberdade? Eu digo que sou sertaneja com muito orgulho! Universidade Federal do Vale do São Francisco 31 Eu digo que aqui propomos a vida, apesar das dificuldades! Eu digo que a margem do São Francisco, mulheres, homens e Crianças sonham e lutam juntos por um futuro melhor! Eu digo que o que faz o sertanejo permanecer de pé É o seu amor pela vida. Eu digo que o sertanejo resiste ao Sol, O mesmo Sol que o queima na roça, É o mesmo Sol que o bronzeia nas belas ilhas do Velho Chico! Eu digo que nossos jovens também são o futuro do país! Quem disse que o nordestino, especialmente o sertanejo é fraco? Eu digo como disse Euclides da Cunha: “O sertanejo é antes de tudo um forte.” 32 Caminhadas de universitários de origem popular A humildade nos faz lutar e vencer na vida Jorge Messias Leal do Nascimento* Esta é a geração de João Batista que clama para que o povo se arrependa. Geração disposta a morrer por Jesus, pois, na verdade já morreram há muito tempo com ele, na cruz. Geração que não tem a sua vida por preciosa, mas o evangelho por precioso. Que sente o luto por jovens perdidos na cocaína, no álcool, nas esquinas de prostituição e nos programas que compram a escravidão de seus corpos. Geração que clama contra o adultério e o divórcio, que levanta a bandeira da santidade de maneira insana e desesperada, que gasta sua juventude pelas estradas do Brasil e do mundo, até a cidade mais distante, para ganhar os que estão perdidos em suas dores e lástimas interiores, no abandono de seus sentimentos suicidas. Geração que nada tem, mas tem tudo. ESTA É A MINHA GERAÇÃO. Fernanda Brum Autobiografia da minha família A principio o meu nome é Jorge Messias Leal do Nascimento, sou brasileiro, natural de Juazeiro da Bahia. Eu nasci no dia 28 de outubro de 1987, às 9:45min; numa manhã de terça feira. O meu pai se chama Jorge Leal do Nascimento, um homem humilde, que junto com a sua mãe, ajudou a sustentar sete irmãos. Meu pai tinha objetivos, e entre esses objetivos existiam várias metas, sendo uma delas ver formados e empregados todos os irmãos. Graduando em Zootecnia. Universidade Federal do Vale do São Francisco 33 Começou a trabalhar aos doze anos de idade no comércio informal, vendendo pão, flores, bolos, e logo foi trabalhar no comércio em um balcão de farmácia, onde passou doze anos de sua vida. Em um belo dia 'Deus', com sua misericórdia o abençoou com uma aprovação em um concurso do estado, isso lhe proporcionou uma estabilidade financeira e a formação de uma família, enfim, um exemplo de cidadão a ser seguido. A minha mãe chama-se Rosemeire Messias da Silva Leal, uma mulher, mãe, guerreira, uma moça humilde que passou a sua infância e sua adolescência trabalhando como doméstica em lares, para ajudar a sua mãe no sustento de quatro irmãos. Tenho também uma irmã, Débora Maira Messias Leal do Nascimento, uma moça calma, estudiosa e inteligente. Agradeço ao pai celestial, todos os dias por me conceder uma família como essa: feliz, honesta, leal até no nome, por fim, uma família servidora de Jeová. Do ensino primário ao ensino médio No ensino primário fui privilegiado, pois tive a oportunidade de vivenciar um ensino privado. Estudei do 1º período à alfabetização em uma escolinha perto da minha casa, ainda lembro-me bem o nome dela Escola Modelo Infantil. Logo após, fui para outra escola onde permaneci da 1ª a 4ª série, na Escola Arco Íris. Em ambas pude aprender muito, pois sempre tive a consciência do sacrifício que meus pais faziam para me manter, e me proporcionar um ensino básico de qualidade. Até hoje me lembro de cada professor(a), cada prova, cada amizade que ali fiz, enfim, tudo ficou marcado. Finalizando o meu ensino primário, hoje me recordo da minha formatura do ABC, minha roupa, minha madrinha, minha família comemorando na minha residência. - UFA! Mais uma etapa cumprida nos estudos de "Jorginho". Após concluir a 4ª série do ensino primário, surgiram as preocupações: - (pais) como pagar uma escola que tenha o ensino fundamental? Não temos condições! - (Jorginho) não tem problema meu pai eu vou para uma escola do governo. Meus pais ficaram receosos comigo. Será que ele vai gostar? Adaptar-se? Será que ele vai progredir? Espero que ele não se desestimule para estudar. Bom... O meu ensino fundamental, apesar de ter sido em uma escola pública, foi excelente. Tive professores ótimos, estrutura adequada, amigos sinceros, enfim, não troquei e nem trocaria o Colégio Estadual Rui Barbosa, por outro da rede privada. Nos estudos sempre fui inteligente, na sala de aula era de costume me chamarem de 'CDF', pois com os incentivos de minha família, meus sonhos, meus esforços, e com certeza com a presença de DEUS na minha vida, concluí o meu ensino médio. No mesmo colégio, fiquei para cursar o ensino médio. Para uns uma vitória, para outros, mais uma batalha, tão árdua, porém, tão próxima de um vestibular. - Uma universidade! Um dia chego lá! Passaram-se três anos para que eu concluísse o 2º grau do ensino médio, enfim ao final do ano de 2004, 'Jorginho' tinha seu diploma de ensino médio nas mãos. Finalmente, um orgulho na família, o filho de Jorge Leal e de Rosemeire Messias, 34 Caminhadas de universitários de origem popular terminou os estudos, e para felicidade maior, passou do primário ao ensino médio sem pegar uma final e nenhuma recuperação. Não! Ainda não acabou. Eu quero mais, eu quero ter um nível superior. - (pais) Jorginho a gente não tem condições de pagar um curso preparatório, quanto mais uma faculdade. - (Jorginho) Eu sempre lutei, e sempre consegui vitórias, e não vai ser aqui a minha parada. - Eu vou conseguir mais esse sonho, pois confio no Senhor, 'Deus', e tudo posso nele, pois ele é a minha fortaleza... A batalha por uma aprovação em um vestibular Eu passei o ano de 2005 estudando, sonhando e acreditando que eu iria conseguir entrar na universidade. Peço-lhe um pouco de atenção e paciência, pois vou relatar a minha trajetória até a UNIVASF. Ao final do ano de 2004, prestei o Enem, porém nunca consegui entrar no PROUNI, calma! Fiz o vestibular da UNEB, outro resultado negativo. - (Jorginho) Será que eu não vou conseguir? Resolvi então prestar só por experiência um vestibular em uma faculdade privada. OPS! Passei, e o dinheiro? Não dá, não tenho condições... No primeiro semestre de 2005, tentei uma bolsa em outra universidade privada, novamente não consegui. Chegou o final do ano de 2005, olha aí a UNIVASF, e a UNEB, tem também a UPE/ FFPP. Bom, eram as minhas únicas tentativas, será que dessa vez eu iria conseguir? - UNIVASF, prestei vestibular para o curso de Zootecnia. Olha, fui aprovado em décimo segundo lugar, eram cinqüenta vagas. - (Jorginho) pai não paga! Ela é FEDERAL. - UNEB, prestei vestibular para Direito e Engenharia de Pesca, também fui aprovado, só que o curso de Engenharia de Pesca, era em outra cidade, logo não tinha condições de me manter em outra cidade. UPE/FFPP, novamente um resultado positivo, dessa vez no curso de Ciências Biológicas. - (Jorginho) pai essa também não paga, e é do outro lado da cidade é só atravessar a ponte. Bom, hoje eu sou estudante do curso de zootecnia (3º período) na UNIVASF e de Ciências Biológicas (1º período) na UPE/FFPP. Universidade Federal do Vale do São Francisco 35 A vida acadêmica No 1º semestre de 2006 eu iniciei o curso de zootecnia, tudo novo, amizades novas, mas o que era diferente para mim naquele momento eram as experiências da vida acadêmica. O campus onde eu estudo fica quase 1h:30min. de distância da minha casa, logo vieram às dificuldades, com alimentação, transporte e material. Foram muitas batalhas nesse 1º período de 2006. Chegando o 2º período, eu tinha uma tarefa: manter-me na universidade. - Uma surpresa! Estão abertas as inscrições para o Programa Conexões de Saberes. - Mas o que é, e o que faz esse programa? Foram muitas dúvidas até o dia da entrevista. Após esse acontecido, eu consegui fazer parte do grupo de alunos, que formavam o Conexões de Saberes. Não é possível descrever as minhas conquistas e vitórias dentro da UNIVASF, pois a cada dia eu tenho alcançado vitórias, coisas maravilhosas. Nesse momento, eu só tenho a agradecer, primeiro a 'DEUS', a meus pais, a todos os meus professores e orientadores que me ajudam a cada dia a permanecer nessa luta. Hoje, quando eu paro e realizo uma auto-reflexão, percebo que sou feliz na minha caminhada. Agradeço ao Programa Conexões de Saberes, pois sem ele eu não conseguiria, me manter na universidade. 36 Caminhadas de universitários de origem popular “Verás que um filho teu não foge a luta” Leidiana Alves da Mota* Afinal o que é sonhar? Sonhar é viver, buscar e conquistar, viver a verdadeira magia de se encontrar, mergulhar no inconsciente, sentir na alma o doce sabor da paz espiritual. Buscando em cada sonho a felicidade, nem que seja ela momentânea, mesmo assim, é preciso persistir, lutar e continuar, pois só através do sonho e da luta se consegue chegar a algum lugar, mesmo que esse lugar não seja de extrema glória. Mas como nem só de sonhos vive o homem, e sim de materialidade e abstrações, ao longo da vida ele constrói a sua própria história através de longas caminhadas. Assim, em meio a tantas caminhadas, essa pode ser mais uma, o que a torna imensamente importante para mim, pois é a minha trajetória, a minha caminhada que se traduz: dedicação, determinação, persistência e força de vontade. Então, vou procurar passar minhas memórias refletindo a minha trajetória estudantil, tendo a certeza de que jamais conseguirei transmitir exatamente o que se passou. Das emoções, dos desafios, das angústias, ficaram apenas as lembranças e a saudade, espero que essa caminhada sirva de incentivo para pessoas que como eu, ascendentes do meio popular, lute por seus objetivos, em busca dos seus sonhos e dos seus direitos, e que jamais se julguem incapaz. Durante o ano de 1988, mas uma brasileira entrava para as estatísticas, no interior do Piauí, um dos estados mais pobres da nossa confederação, em uma região rica em representações culturais desde a pré-história, São Raimundo Nonato sudeste do Piauí. Apesar de ter nascido em um país que é lindo por natureza, mas que oferece tantas dificuldades a seus filhos, ainda me orgulho de pertencer a essa nação. Como qualquer outra pessoa a minha primeira escola foi à escola da vida, tendo como mestres principais, meu pai e minha mãe, que me ensinaram a ler o mundo, ou seja, adquirir a “inteligência do mundo” como diria Paulo Freire, passando-me valores que me ajudaram formar idéias, a pensar sobre elas e sobre o mundo, dando-me independência para que eu vivenciasse a realidade que nos cercava da forma a contribuir para que no futuro não me tornasse uma alienada, desenvolvendo em mim um senso crítico e uma personalidade sensata, sendo meus pais os responsáveis por tudo que sou hoje e o que serei amanhã, pois a família é o único suporte verdadeiro e a maior riqueza que possuímos. No que diz respeito à vida escolar, comecei muito cedo a interessar-me pela escola chegando a freqüentar a escola em que meus tios estudavam por ainda não estar em idade escolar, a partir daí, inicie a minha vida escolar e aprendi muitas coisas. Devido ao fato de Graduanda em Arqueologia e Preservação Patrimonial. Universidade Federal do Vale do São Francisco 37 morar em uma localidade do interior e ali ser difícil o acesso à educação na época, meus pais decidiram ir morar em uma cidade pequena próxima - Bonfim do Piauí - onde comecei a estudar em uma escola pública aos 7 anos sem ter feito pré-escolar, mas já com uma boa bagagem escolar fruto da minha dedicação. Vendo em meus pais o esforço para que eu estudasse e o sonho de educar os filhos, cresci impulsionada por desejos e projetos de vida, fomentando no meu Eu a certeza de que era aquilo que realmente queria, por isso sempre me mantive dedicada aos estudos, cheia de perspectivas e de objetivos, descobrindo a partir daí o mundo das letras, a minha paixão pela leitura e pela busca do conhecimento, uma constante sede de novos saberes, iniciando-se uma história de resistência, vitórias e superações. Ao passo que concluí o ensino fundamental, ingressei no ensino médio estudando a 1ª série em minha cidade (Bonfim do Piauí), mas por não gostar de estudar a noite e ver que aquele lugar não me oferecia muitas perspectivas de crescimento, decidi morar em São Raimundo Nonato, onde terminei o ensino médio em uma escola pública, conheci a universidade e a vontade de um dia chegar a ela. Ao prestar vestibular para o curso de Arqueologia e Preservação Patrimonial fiquei meio sem esperanças, mas lá no fundo ela ainda acreditava. Quando vi o meu nome na lista dos aprovados não acreditei, fiquei sem reação, em estado de choque. Consegui entrar em uma universidade e fazer parte do mundo acadêmico, em um curso que me descobri e abriu-me novos horizontes. Porém, como em toda travessia não há só flores e nem só espinhos, pois as flores carregam com si muitas vezes espinhos, nessa batalha constante pelo sentido da existencialidade, ainda confronto-me com o preconceito racial que está escondido nas mais obscuras estruturas da nossa sociedade, mas o que me dá vergonha e me entristece não é a cor da minha pele, pelo contrário (é um orgulho pertencer a uma etnia tão forte e batalhadora), e sim o fato de um país como o nosso que prega a igualdade, o preconceito ainda se reflete nas políticas de democratização social, já que não é possível aceitar as diferenças, vamos ao menos respeitá-las. Às vezes para fugir das frustrações desse mundo medíocre me refugio nos sonhos e na leitura, só sinto em ver que hoje em dia está se perdendo o prazer pela leitura, pois a sociedade moderna é produto da cultura que a ostenta, cultura essa que não faz parte apenas de nossas ações e da constituição de nossos valores, mas que tem influência profunda no conhecimento científico e técnico. Em mim a cada dia que passa ocorre uma nova transformação através do saber, o que se reflete no meu olhar sobre a realidade e na maneira de ver o meu eu e o outro. Decerto, no meio do caminho, sempre haverá uma ou várias pedras, para isso temos que aprender os desvios e ultrapassar as barreiras para que se ampliem os caminhos e se expandam às fronteiras. De pouco a pouco ultrapassando as barreiras, cheguei à universidade, então, percebi as deficiências remanescentes da escola pública, escola essa que não oferece o suporte teórico e técnico necessário para que seus alunos consigam competir de forma justa com os estudantes que possuem maior estabilidade financeira e provém do ensino privado, o que não lhes possibilita ou torna difícil o acesso à universidade “pública”, principalmente nas federais. Tirando-lhes um direito que deve ser comum a todos de uma educação justa que permita-lhes ascender socialmente e economicamente. Mesmo assim, apesar de todos os problemas que enfrentam as universidades brasileiras, elas ainda são o objetivo de muitos, e oferecem aos acadêmicos a oportunidade de desfrutar de um universo diferente, que só sabe quem compartilha do mesmo. Na universidade nos deparamos com outras realidades 38 Caminhadas de universitários de origem popular e aprendemos a desenvolver nossas capacidades de formação de um senso crítico que nos possibilita aliado a perseverança tentar suprir as deficiências decorrentes do ensino médio e fundamental, construindo assim os caminhos que queremos trilhar ao longo da nossa vida. Só espero que o acesso a essas instituições um dia se torne mais justo. Hoje, olhando para traz, considero-me uma vencedora e incentivo a todos que vivem ao meu redor a buscarem seus sonhos. Por fim, gostaria de agradecer a todos que acreditaram em mim pelo apoio e pelo incentivo, pois para se chegar a algum “lugar” precisa-se apenas sonhar, ser estimulado e correr atrás do que realmente se deseja. Universidade Federal do Vale do São Francisco 39 Apenas começamos... Lívia Almeida Figuerêdo* A questionadora Desde muito cedo percebi que na vida existem pessoas que aceitam conformadamente, e pessoas que questionam incansavelmente a sua própria forma de ser e estar no mundo. Sempre tive comigo o valor incansável da busca que me mobiliza a agir sobre os fatos e possibilidades da vida. Quando criança, recordo das “broncas” de minha amada mãe Maria Eliene, quando a arrebatava de perguntas, pois eu não aceitava ter que cumprir suas ordens sem entender as justificativas, e mais, eu ficava irritada por ela não me deixar expor minhas opiniões. Eu sempre criava polêmicas por onde passava. Em casa, na escola, na igreja, sempre que eu começava a dar minha opinião era uma confusão, pois, nunca ninguém concordava com minhas posições. Cresci percebendo que eu pensava diferente, ou era a única que tinha a coragem de dizer aquilo que estava sentindo não importava a quem. Nunca me conformava com nada, nenhuma resposta pronta me agradava, questionava tudo e a todos. Sempre olhava além do que queriam me mostrar. Hoje, penso sinceramente que é por esta razão, que cheguei até aqui. Na vida carrego comigo a afirmação de que é preciso está de olhos abertos para vê o que os outros não se permitem perceber. Infância Tendo nascido em Jacobina-BA, aos 11 de março de 1986, ainda recém-nascida me mudei para Lages do Batata, um pequeno povoado desta cidade, onde passei toda a minha infância, desfrutando de muitas brincadeiras com meus amigos. Em Lages do Batata, as escolas que freqüentei da alfabetização a 4ª série, foram sempre públicas, e destas eu carrego comigo boas recordações. Nelas, sempre fui muito elogiada pelos professores. Eles diziam a minha mãe, orgulhosos, que eu era uma boa aluna. E penso que sempre fui realmente, pois prestava bastante atenção às aulas e tirava notas boas. O que meus professores não sabiam era que prestar atenção às aulas foi à forma que eu encontrei para não precisar estudar em casa. Em dias de prova fazia apenas uma revisão rápida e isso já me garantia boas notas. Assim, me sobrava mais tempo para as tão maravilhosas brincadeiras na rua com meus amigos. Em casa levávamos uma vida simples, porém, eu era uma criança muito feliz. Penso que por dificuldades todos passamos, não quero me prender aqui a elas. Graduanda Psicologia. 40 Caminhadas de universitários de origem popular Minha mãe Maria Eliene e minha irmã Luana estavam o tempo todo comigo. Mamãe cuidava de nós duas, sempre foi responsabilidade dela educar e dar amor, enquanto que a meu pai Leovaldo, restou o papel de sustentar a casa. Ele mais ausente, pois sempre estava na roça trabalhando ou viajando atrás de campos de sinzal, pois esta sempre foi nossa forma de sustento. Mamãe uma mulher temente a Deus, de fé bastante solidificada, com a ajuda de meus queridos avós, Elias e Ildete, nos criou participantes da vida em comunhão com Deus através do convívio com a comunidade da Igreja Católica. Sempre participei da catequese, de grupos de encontro. Eu e minha irmã éramos chamadas de freirinhas, eu achava um horror. Pensava... Eu, freira? Deus me livre! Hoje, não sou freira, porém, tenho muita fé na vida e numa força maior que me guia pelos caminhos que escolho percorrer. A oportunidade surgiu Cheguei aos 10 anos de idade, com um forte desejo de ir além dos limites do povoado de Lages do Batata. Penso que meu pai Leovaldo, também percebeu minha vontade e da maneira que ele me apoiou. Terminada a 4ª série, papai quis que eu fosse estudar em Jacobina-BA, sempre percebi o apoio dele para que eu tivesse um bom estudo. Ele não teve a oportunidade de estudar, desde criança teve que trabalhar na roça. Acho que por isso imaginava uma vida diferente para minha irmã e eu. No ano de 1997, minha mãe, irmã e eu nos mudamos para Jacobina. Papai ficou em Lages do Batata, pois como diz ele: “eu só sei trabalhar na roça.” Fiquei muito triste de morar longe de meu pai, mas ele sempre vinha nos visitar no final de semana. A chegada a Jacobina semeava um mundo de sonhos cheios de esperanças na minha cabeça, porém, perceberia logo que nem tudo seria fácil. Mamãe teve que trabalhar numa casa de família para ajudar nas despesas da casa. Ela passava todo o dia no trabalho, e isso pra mim foi uma tristeza enorme. Eu já tinha que lidar com a saudade do meu pai e agora a falta da minha mãe em casa. Chegar do colégio e não encontrá-la era muito ruim. Eu chorava muito! Centro Educacional Deocleciano Barbosa de Castro Foi no C.E.D.B.C., como nós alunos gostávamos de chamá-lo por carinho ou preguiça de falar todo este nome enorme, que comecei a lidar mais objetivamente com meus sonhos e as possibilidades que me eram oferecidas para transformá-los em realidade. Continuava a ser uma boa aluna e isso não exigia muito de mim. O ensino público nunca exige muito de nós. Muitas vezes eu fui criticada por meus colegas, pois proclamava que o C.E.D.B.C. não exigia de nós esforço para passar. Eu achava que tínhamos capacidade de ir além do que era dado em sala de aula. Sempre ficava com a sensação de que os professores deveriam dá mais conteúdo em sala de aula. Eu achava tudo muito fácil e deficitário. Continuei com a estratégia de prestar atenção às aulas e não estudar em casa, e ainda assim da 5ª série do ensino fundamental II até a 3ª série do ensino médio eu sempre fui uma das melhores alunas. Sempre tirava boas notas e tinha facilidade de expressar minhas opiniões. Universidade Federal do Vale do São Francisco 41 O meu destaque no colégio rendeu um estágio no Ministério Público da minha cidade, o que me deixou muito feliz. Lá, eu tive contato com pessoas maravilhosas das quais me lembrarei por toda a vida. Nesta época eu queria fazer vestibular para Direito, e o contato com promotores e advogados no meu estágio foi muito positivo. O vestibular Sempre pensei em prestar vestibular pra Direito ou História, muito mais História, pois na UNEB de Jacobina tinha o curso, logo, era um sonho mais fácil de alcançar do que Direito. Fiz o vestibular para História por dois anos seguidos em 2003 e 2004 e não passei. Sentia a decepção e o peso do fracasso. Mesmo assim, eu não pensei em desistir. Sabia que cedo ou tarde eu acabaria passando. Eu carregava esta certeza comigo, sentia que eu faria uma graduação. Sabia que enfrentaria dificuldades, pois no C.E.D.B.C., sempre tinha sido uma boa aluna, porém, agora eu seria pela primeira vez muito mais cobrada, e o pior, estaria concorrendo com muitos jovens mais bem preparados do que eu. Mas tinha em mim uma certeza maior que o medo e as limitações: a certeza de que eu iria conseguir! O ano de 2005 Aproximava-se o período de inscrição para o vestibular, e em meio a tantas possibilidades pela primeira vez me percebi cheia de dúvidas. História e Direito que eram minhas certezas já não me pareciam mais tão certas. Eu e minha mania de está sempre buscando estas opções não dariam conta de realizar meus ideais. Não era o caminho certo a seguir. Foi então que apareceu a UNIVASF, com o curso de Psicologia em minha vida. E junto com a possibilidade vieram os medos. Eu ficava a me questionar: Eu fazer vestibular para uma universidade federal e em Petrolina onde eu não conheço ninguém? Como eu poderia? Com que dinheiro eu vou? Por fim, me inscrevi em História, na UNEB de Jacobina, e em Psicologia na UNIVASF-PE. Decidi novamente me permitir sonhar, ir além daquilo que todos me julgavam capaz. Fiz as duas provas sem esperança e para minha surpresa, penso, que por não ter perdido noites estudando, não tive porque me cobrar bons resultados. Dizia que o que valia era a experiência do tentar. Fiz às provas, mas estava tranqüila, e para minha surpresa, eu passei nos dois vestibulares. Senti-me a criatura mais abençoada da face da terra. Era como se todo o universo estivesse a favor dos meus sonhos. A participação do grupo de jovens JAVÉ Acredito que nada é por acaso. Temos sim, uma missão a realizar na terra. Isso eu aprendi no convívio com meus amigos do “JAVÉ”, com eles confirmei a minha visão de que temos uma imensa capacidade de superação de nossos próprios limites. Ao longo de nossos encontros eu era capacitada para o que estava por vir. Não tenho dúvidas: era Jesus agindo em meu ser. Sou quem sou hoje pela forma como me relacionei com aqueles jovens tão iguais a mim nos ideais de mudança. Eles me ensinaram a dar valor às coisas simples da vida, aos pequenos momentos de amor e compreensão que desfrutamos ao lado das pessoas que amamos. 42 Caminhadas de universitários de origem popular Aprendi e levo sempre comigo esta frase, que muitas vezes ouvi lá na nossa liturgia: “É PRECISO OUSAR PENSAR DIFERENTE”. Encantamento e decepção Minha chegada na UNIVASF foi permeada de sonhos de transformação. Pensava ser aqui entre os muros da universidade que eu encontraria toda a força e as possibilidades necessárias para ir além, como eu sempre sonhei. Porém, tive algumas decepções quando percebi um meio acadêmico que ao invés de cooperar mais para a promoção de ajuda e crescimento geral, tem promovido a concorrência individualista que põe em conflito os mais diversos quereres e saberes. Novamente me percebi sonhando sozinha em meio à multidão. Constato hoje, que a força que me mobiliza não deve ser exterior e sim interior. Eu sou a maior responsável pela minha forma de vê e ser na vida, e por isso retorno ao começo de tudo e proclamo para mim o tempo inteiro: “Lívia vai, veja e seja além do que esperam de você”! Mas nem tudo é decepção, no caminho encontrei o Programa Conexões de Saberes, que tem a proposta de oferecer à jovens como eu, a possibilidade de continuar sonhando além dos limites sócio-econômicos que a vida nos impõe. Cheguei à UNIVASF sonhando com o mundo da Psicologia, e hoje, posso dizer que estou indo bem, além do que eu imaginava. Universidade Federal do Vale do São Francisco 43 Determinação Lívio Ricardo Oliveira de Sá* Tudo que sou, meus valores, minha educação e meu caráter, eu atribuo aos meus pais, eles e meus irmãos são toda a base que sustentam uma vida de lutas. Por isso, nada mais justo do que começar a minha historia, minha caminhada, contando um pouco sobre as suas origens, o casamento de meus irmãos, e logo em seguida, eu falarei de mim. O leitor vai precisar aguardar só alguns segundos. Meu pai João Sérgio de Sá nasceu dia 11 de abril de 1958, no município de Belém do São Francisco, estado de Pernambuco, num lugar chamado Barro Preto. Nasceu no seio de uma família simples, humilde e grande. Ele é o nono filho dos dez que dona Joventina teve e criou com muito esforço. João, trabalhara como agricultor desde muito menino a exemplo de todos os seus irmãos, talvez por isso, tenha sido um adolescente responsável e maduro. Seu pai, Dionon era um homem laborioso, de personalidade forte que pode ter errado na criação dos seus filhos pela alta rigidez, e às vezes, pela ausência de compreensão das necessidades de sua prole. Quando João completara seus 18 anos, na ânsia de conseguir a sua “carteira de motorista”, tinha que se deslocar para Salgueiro, cidade que fica a pouco mais de 60 km de sua casa para dar andamento às atividades e burocracias necessárias para se formar condutor. No final dos anos 70, tirar a carteira de habilitação representava uma oportunidade de trabalho como motorista, e além de tudo, era um desejo de João, porém, seu pai não lhe apoiava, pelo contrário, criticava, dizendo que João se afastava das atividades da lavoura apenas para “vagabundar”. João se sentia triste com o comportamento de seu pai, por outro lado, não desistia, sempre foi muito persistente. Minha mãe Maria Irene Oliveira, nasceu no Sítio dos Moreiras, atual Moreilândia, município de Serrita - Pernambuco, no dia 15 de julho de 1958 - mesmo ano em que João nasceu. Tem cinco irmãos nascidos do casamento da sua mãe, Maria com seu pai; Pedro e mais dois irmãos, frutos do primeiro casamento de sua mãe com outro homem. Irene foi uma menina que teve muitas dificuldades na sua infância e adolescência. Sonhadora, queria se formar juíza de direito e para isso sabia que precisava estudar. E então, ainda muito menina, teve que morar durante um período, fora da casa de seus pais no Jardim, uma pequena cidade do estado do Ceará, onde estudou até a 8ª série do ensino fundamental, que deixou para se Graduando em Administração. 44 Caminhadas de universitários de origem popular casar e criar seus filhos. Aos quinze anos, foi convidada para um casamento de um primo no Mundo Novo, município de Serrita. No meio da festa, um rapaz lhe tirou para dançar, era João que também tinha sido convidado porque conhecia a família dos noivos, dançaram, conheceram-se e se apaixonaram. Foram mais de seis anos entre namoro e noivado, e no dia 01 de fevereiro de 1979, casaram-se, foi quando Irene deixou Jardim e foi morar com seu marido numa fazenda no município de Belém do São Francisco, a 20 km de Cabrobó, estado de Pernambuco. O nascimento João e Irene, depois de três anos de casamento, tiveram seu primeiro filho. O leitor já deve ter idéia de quem se trata... sou eu, o primeiro filho do casal João e Irene, nasci dia 01 de janeiro de 1983, no hospital da cidade de Cabrobó - Pernambuco, isso mesmo, no primeiro dia do ano de 1983. Meus amigos dizem que eu fui muita inconveniência ter nascido justamente no primeiro dia do ano, dizem que eu não deixei minha mãe comemorar a virada do ano. Eu fui uma criança muito chorona, adorava um colo e não podia sentir fome que abria logo um bocão. Depois de dois anos e nove meses do meu nascimento, veio meu primeiro irmão, Lício, e aí vieram a Lidiane e Liliane logo em seguida. Dona Irene e seu João tiveram muito trabalho para educar essas ferinhas. Minha mãe sempre em casa, dedicou muito do tempo de sua vida a cuidar dos seus filhos. Lembro muito bem que para levar a mim e meus irmãos para tomar as vacinas que toda criança de três a quatro anos deve receber, minha mãe caminhava cinco km com a minha irmã menor nos braços até o posto de saúde mais próximo, onde eram oferecidas as vacinas que nós precisávamos tomar. Minha primeira escola Quando completei seis anos, minha mãe me matriculou na única escolinha que havia na região. Era uma casinha de taipa e tinha um ambiente que servia de sala de aula, e um pequeno quadro negro e algumas carteiras escolares em mau estado de conservação. A escola possuía uma cozinha pequena e não dispunha de banheiro, a professora se desdobrava para lecionar para as turmas de primeira à quarta série ao mesmo tempo. A continuidade Depois do fim da quarta série, eu tinha acabado de completar dez anos e passei a estudar na Escola Municipal Sinfrônio Joaquim do Nascimento, escola que ficava a 5 km da minha casa, na localidade de Ibó. As aulas aconteciam à noite e não havia transporte coletivo, eu precisava me unir a um grupo de estudantes das fazendas vizinhas e caminhávamos 10 km de segunda a sexta feira para poder ir à escola. Depois de alguns meses, meu pai conseguiu comprar uma bicicleta e então passei a ir à escola pedalando e pedalei durante três anos. Para um adulto talvez não seja tanto, mas para uma criança que acabara de completar 10 anos, isso representava um esforço tremendo. Pensei muitas vezes em desistir, meus pais se preocupavam muito porque as estradas por onde andávamos eram muito perigosas. A região em que morávamos próximo a Belém do São Francisco e Cabrobó era cenário de uma acirrada briga entre famílias pelo controle da venda e plantio de maconha na região, e por vingança das mortes ocorridas desde o início do confronto que já se estendia por vários anos. A estrada que usávamos era rota de fuga desses bandidos. Por diversas vezes tivemos que nos esconder na mata ao avistarmos um veículo em alta velocidade vindo na Universidade Federal do Vale do São Francisco 45 nossa direção; o medo se justificava porque se as famílias envolvidas na briga estivessem em ação, e geralmente estavam, paravam todas as pessoas que encontrassem pelas estradas, fosse durante o dia ou à noite, para verificar se se tratava de algum integrante da família rival. Se comprovado o vínculo ou parentesco com uma família adversária, eles executavam o indivíduo a tiros. No último ano, 8ª série, era ano de eleições municipais, e como todo ano de campanha eleitoral no interior do sertão pernambucano, sempre surge um político que tem a “iniciativa” e a “coerência” de ofertar algum benefício para a população em troca de alguns votos. Então, uma candidata ao cargo de vereadora de Belém do São Francisco colocou, à disposição dos estudantes daquela região, um carro que nos transportava até a escola todos os dias, foi assim que consegui concluir a minha 8ª série. A primeira grande mudança A conclusão da 8ª série representava, naquele momento, uma vitória porque era o fim de uma etapa da minha vida estudantil; por outro lado se constituía outro problema. Para que eu pudesse cursar o ensino médio seria preciso me deslocar até Cabrobó, cidade mais próxima, diante dessa dificuldade e já visualizando que meus irmãos também teriam a mesma dificuldade, meus pais decidiram mudar para Sento-Sé, interior do estado da Bahia, uma vez que meu pai já trabalhara lá há vários anos e lá também eu, meu irmão e minhas duas irmãs teríamos como dar continuidade aos nossos estudos. Aos 14 anos me matriculei no Colégio Cenecista Custódio Sento-Sé, hoje Escola Municipal Custódio Sento-Sé. Lá, cursei do primeiro ao terceiro ano do ensino médio. Como a grande maioria das escolas municipais desse país, o ensino era muito deficitário, enfrentávamos problemas como falta de professores, de material didático, os professores que davam aula, na sua maioria eram muito mal preparados para o ensino, enfim, a escola funcionava aos trancos e barrancos. Aos 16 anos, eu trabalhava como vendedor, durante o dia, numa banquinha de roupas no Mercado Municipal e estudava à noite, o terceiro ano. No fim do ano de 1999 concluí o ensino médio nas vésperas de completar 17 anos. Mais uma vez, eu me vi numa situação complicada, para onde ir? Se a cidade não oferecia oportunidade de cursar o ensino superior. Para ser bem sincero com você leitor, quando concluí o ensino médio eu mal fazia idéia de o que seria um vestibular, muito menos uma universidade, até então eu não tinha passado nem em frente a uma, tinha uma certeza, a de que eu queria estudar. Crescimento Diante do fato de que em Sento-Sé eu não poderia continuar a estudar, resolvi ir embora de casa, de perto dos meus pais e dos meus irmãos. Ainda fiquei em Sento-Sé, a pedido de D. Irene, minha mãe, que achava que eu tinha pouca idade pra morar longe do seio da família e ter que resolver meus próprios problemas sozinho. Ela me pediu que eu esperasse pelo menos completar 18 anos, apesar de que aos 17 já demonstrava grande potencial para encarar os problemas da vida. O ano de 2000 em que fiquei em Sento-Sé aguardando a minha maioridade foi uma época importante, porque continuei trabalhando como vendedor, não mais no Mercado e sim numa loja onde adquiri mais experiência, e daí, pude guardar algum dinheiro para as passagens e para custear meus gastos com alimentação nos primeiros meses em Fortaleza, capital do Ceará e cidade que escolhi para morar e buscar uma vaga na universidade. Pude também pensar bem pra que curso eu faria vestibular, foi quando optei por fazer administração. 46 Caminhadas de universitários de origem popular Dia 2 de fevereiro de 2001 se iniciou uma fase difícil, complicada, dolorosa e em contrapartida enriquecedora e muito importante pra mim, como pessoa e como profissional. Eu e meu primo Claudemir, pessoa a quem cultivo um carinho e uma estima enorme porque foi em quem encontrei apoio nos momentos mais difíceis enquanto estive em Fortaleza e, nele pude ajudar de alguma forma, acredito eu, quando ele precisou. Então, partimos para Fortaleza com pouco dinheiro e muitos sonhos. Na bagagem, o sonho de poder estudar, adquirir conhecimento pra que no futuro pudéssemos desfrutar de uma vida confortável e poder dar para nossas famílias uma vida melhor. Naquele momento, deixávamos as nossas famílias, as nossas casas em busca de sonhos e de crescimento pessoal. O primeiro ano foi o mais difícil. Durante meses, moramos numa casa que não dispunha de geladeira, nem fogão, cama e guarda roupa eram móveis que também não faziam parte do nosso dia-a-dia. Durante meses dormi no chão coberto apenas com um colchão fino, tão fino que em épocas mais frias eu podia sentir a umidade e a frieza do piso nas minhas costas. Por outro lado, tive muita sorte se é que ela existe, pois acredito que a “sorte” somos nós que fazemos, somos nos que traçamos o nosso próprio destino. No segundo mês na cidade, matriculei-me num cursinho pré-vestibular e consegui uma vaga de auxiliar de escritório numa padaria em um bairro nobre da cidade. Tinha que trabalhar porque meus pais não tinham como mandar dinheiro para que eu pudesse me manter. Então, eu trabalhava oito, às vezes nove horas por dia na padaria e freqüentava o cursinho à noite. Fiz isso durante quatro anos, era bastante cansativo, acordava cedo pra ir ao trabalho onde eu passava todo o dia, freqüentava as aulas do cursinho à noite. Quando chegava em casa estudava até uma hora, às vezes duas da manhã, e no outro dia, tinha que estar de pé às cinco e meia pra começar tudo novamente. Nem sempre eu conseguia ver todas as aulas, dormia ali mesmo na sala do cursinho, vencido pelo cansaço. Fiz sete vestibulares, participei quatro vezes do concurso vestibular da Universidade Federal do Ceará-UFC nos anos de 2001, 2002 e 2004 para Administração e em 2003 para o curso de Odontologia. Fiz três vestibulares concorrendo a uma vaga para Administração na Universidade Estadual do Ceará - UECE, muito conhecida por possuir um dos melhores cursos de Administração do Nordeste. Os melhores resultados que consegui foram um 19º classificável em 2003 na UECE e um 9º lugar na primeira fase da UFC em 2004, não passei na segunda fase por pontuação baixa em Matemática. Considero-me um homem persistente, prestei sete vestibulares durante quatro anos seguidos sem desistir, ouvi muitas pessoas dizerem que eu não era capaz de passar, confesso que nos últimos momentos dessa intensa batalha me senti cansado e sem forças pra continuar, mas eu não parei. Os frutos Paralelo ao último vestibular que prestei na UFC no fim do ano de 2004, aconteceu o primeiro processo seletivo da UNIVASF - Universidade Federal do Vale do São Francisco e com incentivo dos meus pais fiz as provas. Era o oitavo vestibular que fazia, quando o resultado saiu o meu nome apareceu na lista dos classificáveis na colocação 13, ou seja, se 12 dos candidatos que passaram como classificados desistissem de realizar a matricula eu seria chamado, então eu tive que esperar, foram meses angustiantes porque eu sabia que as chances de eu ser chamado eram grandes mais existia ainda uma grande probabilidade de tudo terminar em mais uma experiência, até que em maio de 2005 saiu uma lista no site da UNIVASF me convocando para fazer a matrícula. Há quem diga que 13 é um número que Universidade Federal do Vale do São Francisco 47 representa azar, mas pra mim é o número da felicidade e da realização de um sonho que eu perseguia a mais de quatro anos. Em junho de 2005, mudei-me para Petrolina onde resido até hoje. Desde então venho tentando dar o melhor de mim e me esforçando para trilhar bons anos de universidade. Desde o início do curso já fui líder de turma, participei de projeto de extensão, simpósios, palestras importantes pra minha formação. Hoje, tenho orgulho de dizer que sou aluno de origem popular e que participo do Programa Conexões de Saberes. Não poderia terminar essa história sem deixar registrada aqui meus agradecimentos aos meus pais e irmãos que sempre me deram todo apoio para que eu pudesse chegar até aqui e que são a absoluta razão da minha vida, a todos os meus professores, que direta ou indiretamente contribuíram para minha formação e crescimento na universidade, aos meus amigos Alan Lima, Antonio José e Larissa Lacerda que foram e são importantes para a construção da minha história recente, e a Claudemir que considero como um irmão. Obrigado! 48 Caminhadas de universitários de origem popular A batalha e a vitória Maraísa Ferreira da Silva* “Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores por aquele que nos amou.” Romanos 8:37 Oi, chamo-me Maraísa Ferreira da Silva, nasci em 22 de março de 1984 e sou natural de Petrolina-Pernambuco. Meu pai chama-se Cícero Ferreira da Silva e minha mãe Maria de Jesus Ferreira da Silva, tenho três irmãos, Jéferson, Isamara e Isa de Cássia, ambos mais novos que eu. Meus pais moravam em um quartinho, por trás da casa de meus avós paternos. Assim que eu nasci, fui apelidada de Mara. Por volta de meus seis aninhos comecei a cantar em cultos evangélicos. Aos sete anos ingressei pela primeira vez em uma escola para cursar a 1ª série do ensino fundamental I, mas a minha alegria durou pouco, pois a professora da minha sala, chamada Lúcia, não gostou de mim e eu também não gostei dela. Nessa época, meus pais se mudaram para outro bairro, realizando o sonho de terem sua casa própria, mas como eu já estava matriculada na escola, acabei morando com minha avó materna. Como eu não tinha gostado da professora e ainda sentia saudades dos meus pais, minha mãe, não vendo alternativa, tirou-me da escola e levou-me para morar com eles. No começo foi tudo ótimo, mas não imaginava que no futuro iria me arrepender, pois terminei o ensino médio com a idade errada. No outro bairro, fui matriculada na Escola Paiva Neto, para mim, era o início da minha vida; aprendi a ler e escrever na 1ª série, graças ao meu pai que quando chegava do trabalho, à noite, ia tomar a minha leitura e se eu não lia, levava umas palmadas. Foi nesse momento, também, que passei a conhecer melhor os meus pais, ou seja, minha família. Meu pai, um homem batalhador desde criança, trabalhava hora e fora de hora, para não deixar faltar alimento para sua família. Aconteceu de meu pai estar empregado em uma firma, chegar em casa e ver seus filhos e esposa com a barriga seca, sem ter o que comer, chegando ao ponto de trazer da firma seu almoço ou janta para repartir com toda família. Minha mãe disfarçava que comia e se deitava com fome, mas conformada, pois seus filhos haviam ido dormir com a barriga cheia. Minha mãe, uma mulher simples e cheia de fé vivia nas igrejas evangélicas apresentando à Deus a situação do seu lar, pois vivíamos com muita dificuldade, até o colégio era Graduanda em Engenharia Agrícola e Ambiental. Universidade Federal do Vale do São Francisco 49 distante de nossa casa. Certa vez, não tendo nada para nos alimentarmos, ela se arrumou e foi para a igreja orar, quando ela voltou, uma funcionária do abrigo de idosos tinha preparado uma cesta básica e entregou a minha mãe. Sabe leitor, eu não poderia deixar de relatar o que o Deus que eu sirvo fez e faz na minha vida e da minha família, e eu quero te dizer que Jesus o ama muito. Ele não olha a aparência, se tu és pobre ou rico, Ele olha é para a sinceridade do teu coração. E minha mãe foi orar novamente, agradecendo a esse Deus maravilhoso. Os dias se passaram e eu, Maraísa, aprendia mais e mais as lições da escola, me esforçando ao máximo para não repetir a mesma série. Novamente a minha família precisou mudar de bairro e lá fui eu me matricular em outra escola, já estava na 3ª série do ensino fundamental, minha professora se dedicava bastante pelo meu aprendizado e no final do ano fui aprovada por média, passando a cursar a 4ª série, onde aprendi a gostar da matéria que muitos achavam um bicho de sete cabeças, a matemática, e desde cedo dizia que ia ser professora. Agora vem umas das etapas mais difíceis da minha vida escolar, o ensino fundamental II. Senti muitas dificuldades, pois estudei a maior parte na Escola Anésio Leão e as professoras eram bastante despreparadas, com isso a minha base para o ensino médio foi precária e, novamente não passei de ano, só que agora aconteceu na 7ª série. Eu tinha uma professora de matemática por nome Célia e ela, com sua capacidade, me fez gostar mais ainda dessa disciplina, eu acho que isso era algum sinal. Depois você entenderá o motivo. Bom, outra etapa da minha vida foi o ensino médio, cursei na Escola Dr. Pacífico Rodrigues da Luz. Conheci duas moças e nos tornamos colegas, estudamos bastante, mas algumas vezes, eu tirava notas melhores, não é exibição, mas quando eu estou envolvida em uma coisa eu me dedico pra valer, e no ensino médio, quando eu estudava, via os resultados do meu esforço. Uma delas até ficava chateada, hoje eu vejo que ela não estudava o bastante, pois terminou o ensino médio e estacionou, não querendo ingressar em uma universidade, a outra nunca mais a vi, mas fiquei sabendo que está cursando uma universidade. O ensino médio foi proveitoso, mas devido às greves e a falta de interesse de alguns professores, não vi tudo o que as disciplinas tinham a oferecer, como, por exemplo, trigonometria, uma matéria muito cobrada nos vestibulares e dentro da própria universidade. Mas mesmo assim, consegui passar por média por todo o ensino médio, inclusive na matéria que eu mais gostava, matemática. Foi aí que passei a sonhar em ser professora de matemática e quem sabe uma bem-sucedida engenheira. Rumo a universidade Essa foi à etapa mais difícil, cansativa e decepcionante, mas a mais vitoriosa de minha vida. Difícil, pois como já citei, não aprendi algumas disciplinas, e na hora de estudar para o vestibular, senti enormes dificuldades. Tive que aprender sozinha, pois não tinha como pagar um professor nem tão pouco um cursinho. Prestei o primeiro vestibular sem nenhuma preparação. Às vezes saía de casa as sete e meia e voltava uma da tarde, da biblioteca municipal de Petrolina, que fica um pouco distante de minha casa, mas esse esforço não foi o suficiente, pois me deixava muito cansada. Bem na hora do resultado do vestibular de matemática eu tinha sido reprovada, chorei bastante, mas me conformei. 50 Caminhadas de universitários de origem popular O meu segundo vestibular, fiz para biologia, pois eu adoro tudo que é voltado para a natureza, também saía de casa muito cedo e voltava as três da tarde, sem almoço e às vezes sem água, enfrentando o sol a pino, chegava em casa, almoçava e deitava um pouco, a noite ia estudar até mais ou menos a meia noite. Na hora do resultado do vestibular, uma notícia desagradável, pois não tinha sido aprovada. Meu terceiro vestibular foi por acaso, ou seja, as inscrições do vestibular da UNIVASF abriram e me escrevi para Medicina, como não era de esperar, fui reprovada também, foi choro em dobro, pois já eram dois anos perdidos. Como eu sou brasileira e não desisto nunca, escrevi-me para mais dois vestibulares. Biologia na UPE e Engenharia Agrícola e Ambiental, na UNIVASF. Neste ano, dobrei a carga horária de estudo, fiz o cursinho Euclides da Cunha e outro cursinho que meu tio me colocou durante seis meses; estudei bastante e como sempre, meus pais e familiares me apoiando. Foram dias de sufoco, aconteceu de uma pessoa conhecida chegar a falar que eu era capaz de passar na UPE e não na UNIVASF, pois era uma federal, ou seja, ele me achou incapaz de entrar em uma universidade federal, mas como eu já disse, não desisto de nada. E na hora do resultado dos dois vestibulares, uma decepção: não passei em Biologia na UPE, mas para minha surpresa, fui classificada em Engenharia Agrícola e Ambiental na UNIVASF. Fiquei muito feliz e minha família também, um sonho tinha se realizado na minha vida. Caros leitores, lembram-se quando eu disse que gostar de matemática era um sinal, agora vocês sabem porquê. Fiz cinco vestibulares e fui aprovada justo em Engenharia. Que legal! O sonho que eu achava impossível, Deus fez possível na minha vida Dificuldades no sonho realizado Realizar o sonho é para aqueles que lutam. Corri e conquistei, agora, a preocupação era como iria me manter na universidade, minha mãe sempre com fé dizia para mim: “Deus proverá”! Essas palavras me aliviavam o coração, pois no começo não contei, mas sempre corria atrás de um emprego e nunca conseguia, a única alternativa foi dar aulas de reforço a alunos da alfabetização da 4ª série. Mas quando comecei a estudar, a universidade e as aulas de banca estavam me desgastando bastante, pois na UNIVASF o curso de Engenharia fica em outra cidade e tenho que acordar todo dia as cinco da madrugada para pegar o ônibus, ficar o dia todo na universidade e de volta pegar mais dois ônibus para chegar em casa, e quando chego, mais ou menos as sete da noite, ainda ter que trabalhar. Ninguém é de ferro, não é mesmo? E tem mais, juntando passagem e almoço, as aulas de banca não eram suficientes para conseguir dinheiro. Sabe o que eu fazia, levava almoço e ainda levo para economizar um pouco. Foi nessa dificuldade que se abriram as inscrições do Projeto Conexões de Saberes e graças ao meu Deus, fui classificada, agora pago passagem, ajudo meus pais, almoço de vez em quando na universidade e ainda sobra para meu próprio gasto, graças a bolsa que o projeto oferece, faço parte da área do meio ambiente e estou me sentindo realizada em termos de conhecer novas pessoas no Programa. Embora esteja no segundo período no curso de Engenharia Agrícola, as minhas expectativas em relação às disciplinas não superaram as minhas expectativas, encontrei bastante dificuldade, estudava bastante, mas mesmo assim, perdi quatro cadeiras, isso foi, para mim, um impacto muito grande, mas torno a repetir, não desisto nunca. Universidade Federal do Vale do São Francisco 51 E deixo essa mensagem para você que leu esta história: Toda vitória é o esforço de uma grande luta. A luta pode ser grande, mas maior ainda será a vitória. 52 Caminhadas de universitários de origem popular Para frente é que se anda Melquisedeck Mendes da Silva* “Começaria tudo outra vez, se preciso fosse”... 1 A vida é um espetáculo. Uns nascem para o palco, outros para platéia. Tenho orgulho de ser nordestino e ter correndo nas veias o sangue do estado que mais lutou pelo Brasil. Como todo bom Pernambucano, tive que batalhar desde muito cedo. Lembro-me muito bem que com dez anos de idade fui ao banco trocar alguns cruzeiros reais que havia ganhado vendendo pipoca em um circo em 1994, ano de transição do cruzeiro real para a moeda vigente. Sempre admirei os guerreiros e aprendi com os vencedores. Nunca tive medo do futuro. Apesar de enfrentar alguns obstáculos, sempre procurei manter o foco nas minhas metas. Sentia a inquietude que me remetia ao “O Mito da Caverna”, texto de Platão2 que narra com precisão à angústia causada pela ignorância. Os desafios sempre despertaram a minha atenção, pois ultrapassar barreiras e alcançar objetivo integra o estilo de vida dos que almejam mais que um simples lugar na platéia. Às vezes me questiono sobre a minha caminhada até aqui. Fico pensando como seria tudo se alguns fatos de minha vida fossem alterados. O resultado dessas alterações culminaria no que eu vou chamar de “vida derivada”, ou seja, o momento em que uma determinada atitude influencia de forma direta no rumo das nossas vidas. O sujeito recorre a um fato relevante e a partir dele, tenta simular uma outra realidade a qual seria remetido caso tivesse assumido uma outra postura. Esse é um bom exercício para as pessoas que assumem a total responsabilidade pela realidade em que se encontram. A idéia de destino como uma espécie de enredo preestabelecido mesmo antes do nosso nascimento, é uma teoria conformista, que tem como principais adeptos, os perdedores. Prefiro acreditar que eu faço o meu destino. A jornada que me trouxe até aqui está cheia desses fatos relevantes, que quase sempre foram enfrentados com paciência e persistência, valores que aprendi na infância e me fazem acreditar que nenhum problema será suficientemente grande que seja capaz de interromper meu caminho. Sei que muitos obstáculos ainda estão por vir, pois bem, que venham! Enfrentá-los e vencê-los faz parte de uma ritual do qual eu não abro mão. Graduando em Arqueologia e Preservação Patrimonial. 1 Trecho da música, “Começaria tudo outra vez” (Gonzaguinha). 2 Filósofo Grego. Universidade Federal do Vale do São Francisco 53 Nasci em Recife em 17 de abril de 1984, Filho de Manoel Mendes da Silva Filho, policial militar, e Maria Cleonice de Menezes Silva, dona de casa. Sou o segundo de uma família de quatro irmãos. Aos sete anos tive que encarar o primeiro fato relevante que mudaria o rumo da minha vida, mudar sem meus pais e meus irmãos para Lagoa Grande3, mas essa mudança não implicava apenas em mudar de uma cidade grande para o interior, em conseqüência tive que deixar para trás a minha família. Cheguei a Lagoa Grande em 1991 para morar com minha avó materna, Florípedes Pereira de Menezes, que por sinal soube desempenhar muito bem o papel de segunda mãe. No mesmo ano, fui matriculado na 1ª série do ensino fundamental em uma escola do município, até então nunca tinha entrado em uma escola. Ao final desse mesmo ano já dominava a escrita e a leitura. Três anos se passaram até que a minha família fosse morar comigo no interior, finalmente eu me sentia completo novamente. Em 1993, na 3ª série do ensino fundamental fui transferido para a escola estadual onde concluiria os meus estudos, Antonio de Amorim Coelho, foi nessa escola que eu formei alguns dos conceitos que carrego comigo até hoje. Nos primeiros anos ela funcionou muito bem, tinha bons professores e aulas de qualidade, e eu já fazia muitos planos para o futuro. Paralelo a isso e com dez anos de idade, eu já estava com o meu primeiro emprego, era o pipoqueiro de um circo que passava pela cidade, esse emprego foi temporário, mas o gosto pelo trabalho e pela independência financeira me levaram mais adiante fazendo com que eu trabalhasse ainda como: ajudante de uma oficina que fabricava artigos de ferro, leiteiro, cambista de “jogo do bicho”, jornaleiro, atendente de uma casa de jogos (vídeo game), aula de banca, atendente de lotérica e garçom. No ano 2000 eu iniciava o ensino médio, a escola já não era mais a mesma, não tinha nem de longe a qualidade já relatada. Por conta da distância que os professores enfrentavam, o colégio perdeu muito deles e com isso a instituição teve que contratar pessoas da cidade que tinham apenas concluído o ensino médio e não preenchiam os requisitos mínimos que os tornassem aptos a lecionar. As greves eram constantes e as reposições de aulas vergonhosas, todo esse período, que durou até a minha formatura eu tentei mudar para outra escola, Porém, a mais próxima ficava a cinqüenta quilômetros. Com uma educação defasada e a ausência de um cursinho que me preparasse melhor para a corrida universitária, optei por deixar de lado (pelo menos por um tempo) os planos de entrar para faculdade, contrário a isso, consegui o meu primeiro emprego com carteira assinada: eu era o encarregado pelo almoxarifado de uma vitivinícola. O emprego era muito bom, eu ganhava bem e com isso conseguia levar uma vida tranqüila, e foi assim, durante oito meses. Com oito meses de trabalho, eu não sentia o mesmo entusiasmo do início, resolvi largar tudo e retomar o que eu tinha planejado para minha vida, procurei então o gerente da empresa, Mábio Dutra, para pedir demissão, o que eu não esperava era escutar palavras de apoio tão sinceras como as de um pai. Arrumei então as minhas coisas, comuniquei aos meus pais e fui morar em Petrolina4, onde consegui o meu segundo emprego com carteira assinada, caixa de um posto de gasolina, paralelo ao trabalho eu fazia cursinho preparatório para o vestibular. 3 Cidade localizada no interior de Pernambuco, com aproximadamente 750 km da capital de Recife. População aproximada de 25.000 habitantes. 4 Cidade localizada no interior de Pernambuco, com aproximadamente 850 km da capital de Recife. População aproximada de 200.000 habitantes. 54 Caminhadas de universitários de origem popular Após alguns meses conciliando trabalho e estudo, eu já não rendia o suficiente nas aulas (por conta da minha escala de trabalho), eu sabia que se continuasse assim, não teria chances de entrar na universidade, conversei então com minha irmã, Elizangela Mendes da Silva, que morava comigo, ela me pediu para largar o emprego e assumiu todas as despesas de casa e do cursinho, tudo isso para que eu me dedicasse aos meus estudos, a verdade é que ela sempre acreditou e acredita em mim. No ano de 2004, e com oito meses de cursinho eu me sentia enfim, preparado para vencer o vestibular e ingressar numa universidade federal. O fato de nenhum membro da minha família ter alcançado o ensino superior, fazia com que as opiniões a meu respeito fossem na maioria das vezes negativas, com algumas exceções que se restringiam a alguns amigos, meus pais e meus irmãos. Desde os quinze anos, sentia uma atração muito forte pelo curso de Arqueologia, queria entender como se deu a nossa evolução, assim como outros conhecimentos proporcionados pelo curso, porém, estava preparado para tentar História, pois o curso por mim almejado só era possível fora do país. Em julho de 2004, sai o edital do primeiro vestibular da Universidade Federal do Vale do São Francisco - UNIVASF, entre os cursos oferecidos, Arqueologia e Preservação Patrimonial, o primeiro numa universidade federal na América latina, era a minha chance. A ansiedade pela espera do resultado foi grande, era como se eu esperasse o ticket que dava acesso à próxima fase de minha vida. A espera foi angustiante, porém, o resultado foi à confirmação das minhas expectativas, é doce o sabor da vitória, e essa foi apenas uma das muitas que virão. Em pouquíssimo tempo mudei de cidade, conheci pessoas novas, comecei o curso que sempre quis fazer e acima de tudo eu descobri que não preciso de muito para ser feliz, basta que as pessoas que me rodeiam estejam felizes. Universidade Federal do Vale do São Francisco 55 Momentos inesquecíveis Pablício Gomes dos Santos* “Nada é por acaso, momentos bons ou ruins nos fazem crescer; amadurecer diante de uma realidade difícil é virtude de poucos. Barreiras existem em qualquer caminhada, problemas existem em qualquer lugar, todavia, não há derrotas quando se tem no corpo e na alma a perseverança, paciência e, acima de qualquer coisa, humildade, visto que de nada valerá uma trajetória se não olharmos para trás e nos orgulharmos de nossas origens, mesmo guardando no coração algumas mágoas que de certa forma fazem parte de nossa história” Pablício Gomes dos Santos Fevereiro de 2004, uma caminhada de aproximadamente, 40 minutos, separa um jovem de sua realização, seu destino era a Universidade do Estado da Bahia (UNEB), localizada no município de Juazeiro-BA. Ver seu nome num simples pedaço de papel era seu maior desejo, chegando ao seu destino, já apreensivo e sem se dar conta do cansaço, olha aquela lista enorme e avista seu nome, logo a apreensão dá lugar à emoção. O retorno dura uma eternidade, logo se dá início à retrospectiva, um filme passa pela sua mente, a volta para casa é uma viagem ao passado. Porém, mal sabia ele que a partir daquele momento sua vida mudaria completamente, era apenas o início de uma nova realidade de vida, onde escolhas eram primordiais e inevitáveis. Filho de Luiz Carlos dos Santos e Eulália Gomes dos Santos, o segundo entre três filhos. O seu irmão mais velho recebeu o nome de Pablo Gomes dos Santos, justificando assim a origem de seu nome pouco comum, já o caçula, recebeu o nome do pai, Luiz Carlos dos Santos Júnior. Nascido em 1986, no dia 02 de junho, garoto tímido e franzino, tem como cidade natal o município de Petrolina-PE, onde cresceu e reside. Seu pai, um autônomo, e sua mãe, uma Graduando em Administração. 56 Caminhadas de universitários de origem popular dona de casa, exercem papéis bem definidos na estrutura familiar. O conservadorismo é predominante, onde o pai é o responsável pela obtenção de renda e a mãe tem como tarefa principal cuidar do bem-estar da casa e dos filhos, na ausência da figura paterna. Porém, esse desenho familiar aliado a alguns problemas, acabou tornando sua infância um tanto difícil, não em questões materiais (visto que o pouco que seu pai ganhava na produção de box para banheiro era o suficiente para garantir as necessidades básicas de sobrevivência de toda a sua família), mas sim, no aspecto sentimental. A relação totalmente instável de seus pais o tornou um garoto introspectivo e tímido, que aos poucos perdeu o medo de encarar o mundo e com muito cuidado foi descobrindo a realidade da vida. Mesmo com todos os problemas de ordem emocional que, muitas vezes, o fizeram questionar o valor de sua família, Pablício soube assimilar bem todos os princípios e valores que o fazem à pessoa que é atualmente. Infelizmente, mesmo com a estabilidade e tranqüilidade aparente na relação atual entre seus pais, parece impossível recuperar sua infância perdida em inúmeros problemas de caráter afetivo, estes que ainda funcionam como uma barreira na relação com seus pais, porém, o que aconteceu não ofusca o brilho do caráter das duas pessoas que o colocaram no mundo, seus parâmetros educacionais serão repassados para as gerações futuras. Cabe ao futuro dar a resposta para tal situação. Apesar de sua infância instável, ele fazia do ambiente escolar um “cano de escape”, não de forma negativa como muitos alunos faziam e fazem por aí a fora, fez da vida escolar sua alegria, transformou em seu refúgio às escolas por onde passou. Fez poucas amizades, todavia, verdadeiras, deixou marcas que não se apagarão. Os inúmeros professores sempre irão lembrar daquele moreninho, magrinho, que sempre sentava na primeira fileira, tirava notas excelentes e quando um colega fazia algo de ruim com ele, se desmanchava em prantos. Lembrarão, principalmente, de sua dedicação, seriedade, humildade e de seus sonhos que mudaram com o tempo, assim como seu corpo. Só lhe resta agradecer a todos os “mestres” que o guiaram até a universidade. Educação extra - familiar: O início da caminhada Sua vida escolar se inicia na “Casa da Criança” escola localizada no centro de Petrolina-PE (bairro no qual reside até hoje), a escolha de tal estabelecimento de ensino se deu por dois fatores: a pouca distância em relação a sua casa e a presença de seu irmão Pablo, que há dois anos já fazia parte do corpo discente da escola. A trajetória em sua primeira escola durou dois anos. Cursou o “Jardim da Infância”, tendo como professora Cristiane no ano de 1991, e em 1992, fez o Pré-Escolar sendo auxiliado pela saudosa Cristina. Por questões internas (a escola adotou a política de disponibilizar as vagas de primeira série para alunos que também freqüentassem a creche que funcionava no mesmo prédio), teve que encerrar prematuramente sua caminhada naquela escola. A ida de seu irmão para a Escola Dom Idílio José Soares (escola da rede estadual localizada no mesmo bairro da primeira), determinou seu destino. Chegando lá, enfrentou alguns problemas. Por conta de sua idade (seis anos), foi matriculado na turma de alfabetização. Sua mãe, protestou muito, porque o pré-escolar era sinônimo de alfabetização, na época. Porém, não foi possível realizar a matrícula na 1ª série. Seu desempenho na turma chamou à atenção de sua professora Sônia, um teste foi realizado, e por mérito, justiça foi feita, em poucos dias tomou posse de seu lugar por direito, era o início de sua marcante história no “Dom Idílio”. Foram quatro anos de convivência, entre 1993 e 1996 sua segunda escola foi a extensão de seu lar. Universidade Federal do Vale do São Francisco 57 De cada ano ele levará uma lembrança agradável, mas o ano de 1996, foi o mais representativo. Pablício se destacou de forma grandiosa, fez da sua 4ª série algo inesquecível, fechou com “chave de ouro” um ciclo que se iniciou de forma conturbada, contudo teve um final feliz. Essa fase de sua vida escolar pode ser caracterizada por uma única frase: “OBRIGADO POR TUDO, MEU PEQUENO MESTRE, SEU CAMINHO É PROMISSOR, QUE DEUS TE ABENÇOE” (escrita por sua professora “Leocádia” em um pequeno cartão de natal e entregue a ele na festa de despedida da turma). Amigos foram deixados para trás, mas em qualquer caminhada, despedidas são comuns e por mais dolorosas que sejam, são inevitáveis. No ano de 1997, inicia a 5ª série do ensino fundamental na Escola de Petrolina, em poucos meses, seu comportamento, seus esforços e suas notas chamam a atenção dos seus novos professores. Gradativamente, ele vai ganhando a admiração e confiança do corpo docente de sua nova escola. Seu jeito simples de ser, sua timidez e sua humildade acaba despertando a ira e a inveja em outros alunos, que em alguns momentos tentaram prejudicá-lo. O ano de 2003, marcou o fim de sua caminhada nesta escola e em sua última fase préuniversidade. Sete anos marcados por um processo de maturação intenso e delicado, entra um menino de 10 anos de idade, e sai um quase adulto de 17 anos. A idade se modificou, mas as incertezas continuaram e a confiança de ingressar no ensino superior era, freqüentemente, ofuscada pelo complexo de inferioridade em relação aos alunos de escolas privadas. O medo de encarar o mundo, representado, na época, pelo vestibular, era evidente, logo, o esforço e a perseverança eram as armas que o encorajavam a realizar seu sonho. Ficaram as lembranças dessa época, as pessoas que o ajudaram a construir seu pouco conhecimento, mas suficiente para seu ingresso na universidade. Estarão para sempre em sua mente, algumas pessoas citadas a seguir, são mestres e amigos, professores e seus companheiros de caminhada que ganharam o mundo e hoje seguem a lutar por sua sobrevivência e dignidade como o seu colega Luciano, que atualmente vive nas ruas, sem rumo definido, entregue às drogas e que de vez em quando o encontra na rua e se lamenta, deixando Pablício entristecido, pois não pode ajudá-lo de maneira a solucionar seus problemas em definitivo. Professores: Idalice, Gracilda, Aparecida Olinda, Edilma, Sonileide, Antônia, Edna, Mabel, João Gonçalves, José, Cristóva, Eudilza, Ivana, Socorro Neto, e todos os seus colegas que um dia lhe deram algum incentivo e que jamais o deixaram desistir como Cláudio Santos, Fábio Xavier, Josemar, Wandemberg e muitos outros que hoje ainda se espelham em Pablício para seguirem lutando por uma vida melhor, não apenas copiando seus passos educacionais como também seus princípios, estes herdados de seus pais, sua humildade e sua simplicidade em tratar todos da mesma forma. Sua retrospectiva chega ao fim, visto que já cansado e bronzeado pelo Sol de meiodia, chega à sua residência. É hora de dar a notícia tão esperada à sua mãe que certamente prepara o almoço na cozinha, enquanto, seus irmãos e seus pais esperam na sala. Recomeço ou descoberta do caminho profissional? Após chegar em sua casa e contar a notícia a seus pais, a emoção tomou conta de sua residência. O 10º lugar no curso de Engenharia Agronômica da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) fez seu pai chorar copiosamente, porém, de forma sigilosa, na certa tinha se recordado de como tinha suado para conseguir o dinheiro necessário para que seu filho fizesse a inscrição do vestibular, cerca de R$ 50,00 na época, onde trabalhou semanas antes 58 Caminhadas de universitários de origem popular exaustivamente, pois sabia que eram os últimos dias de inscrição. A comemoração foi simples e humilde, alguns litros de refrigerantes foram comprados para que a família pudesse comemorar. Em pouco tempo, todos os seus primos, tios e vizinhos foram presenteados com a notícia. Enquanto todos comemoravam e davam seus parabéns merecidos, Pablício passou a se preocupar com o futuro, pois durante toda a sua vida estudou em escolas próximas à sua casa, o que facilitava a vida de seus pais quanto à economia de passagens de ônibus, e agora teria de utilizar dois transportes: a barquinha para a travessia até Juazeiro – BA e um ônibus até o bairro onde se localizava a universidade. Feita a matrícula e poucos meses depois suas aulas se iniciam. O único medo que assolava seus pensamentos no primeiro dia de aula era o trote (tradicionalmente conhecido em sua região pela rigidez digna de um curso de punho agrário). Ao chegar à universidade, tem seu cabelo totalmente destruído pelos “veteranos”, apesar disso, sua raiva foi passageira, encarou aquela ação como algo comum e inevitável, ou seja, uma forma de integração. Trotes à parte, seus problemas eram outros totalmente diferentes, visto que presenciava o esforço excessivo de seus pais para conseguir o dinheiro para que pudesse se locomover até a universidade. A solução encontrada foi buscar uma atividade que lhe fornecesse o suficiente para arcar com as despesas de locomoção até seu destino, uma alternativa que pudesse garantir sua permanência na universidade sem que necessitasse trabalhar o dia todo. Passou a trabalhar de maneira informal (sem carteira assinada) em uma loja vizinha à sua casa, onde eram vendidos CDs e fitas k7, exercia algumas atividades e ganhava cerca de R$ 10,00 por semana, além de ganhar muito pouco, era submetido a humilhações, mas não podia largar aquele “trabalho”, pois era dele que saía seu sustento quanto às passagens e materiais didáticos na universidade, era um problema a menos para seus pais. O complemento de sua renda semanal eram as moedas que sua mãe lhe dava, conseguidas com a venda de geladinhos (vendidos em casa). Porém, a renda era insuficiente, como era necessária a compra de muitas apostilas e alguns materiais como, calculadora científica, réguas e esquadros e outros objetos para a disciplina de Desenho Técnico, ele guardava o dinheiro e saía mais cedo de casa, pois sua caminhada era longa até a universidade, gastava cerca de 40 minutos a pé. Apesar do cansaço, era a única alternativa para conseguir se manter na universidade. Passado o primeiro período, durante as férias tomou a decisão de comprar uma bicicleta a prazo, um meio de transporte simples e barato. Era um dos poucos alunos daquela universidade a correr o risco de atravessar a ponte Presidente Dutra que liga Petrolina-PE a Juazeiro-BA, não tinha receio, tampouco vergonha de se locomover de bicicleta até a universidade. Em pouco tempo, boa parte dos alunos passaram a andar de bicicleta também, Pablício lançou “moda”, sua humildade e simplicidade mais uma vez se sobressaíam diante da vergonha que muitos daqueles universitários tinham de suas origens. O fato de andar de bicicleta não o tornava inferior a este ou aquele aluno que chegasse à universidade com um carro de última geração. No mesmo ano de seu ingresso na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), surge na região a UNIVASF (Universidade Federal do Vale do São Francisco). Um curso oferecido pela UNIVASF chama sua atenção, Administração com ênfase em Comércio Exterior ou Agronegócio. Via neste curso um complemento para seu outro curso, o de Engenharia Agronômica. Dessa vez, não precisou que seus pais desembolsassem o dinheiro para a inscrição. Universidade Federal do Vale do São Francisco 59 Por seu esforço e iniciativa, conseguiu a isenção e não pagou a taxa para se submeter ao primeiro processo seletivo daquela promissora universidade. Mais uma vez consegue uma vitória brilhante, após uma forte concorrência, ele ingressa em uma universidade Federal. Sua vida escolar foi coroada por sua segunda aprovação em uma instituição pública de ensino superior. Era a consolidação de um sonho. No ano de 2005, ingressa na UNIVASF, e simultaneamente, continua a cursar Engenharia Agronômica. Com o passar do tempo, o cansaço físico, desgaste mental e a consciência quanto a seu futuro profissional o forçaram a decidir que rumo tomar. Era necessário definir seu futuro, priorizar uma única carreira, pois os recursos que tinha não lhe permitiam permanecer em dois cursos de nível superior. Sua decisão coincide com sua classificação e convocação para o Programa Conexões de Saberes. O curso de Engenharia Agronômica ficará na sua memória como uma experiência construtiva, sua vocação não lhe permitia continuar no curso, sua felicidade e prosperidade profissionais dependiam de sua decisão. O curso de Administração lhe dá uma visão promissora de seu futuro, cabe ao tempo dar a resposta quanto a sua decisão. O fato é que sua vida ganhou outro rumo, não só profissionalmente, mas também na área afetiva. O Programa Conexões de Saberes lhe deu a oportunidade de lutar por aqueles que ainda buscam o ingresso no ensino superior público. Ficam os agradecimentos a todos aqueles que um dia fizeram parte dessa caminhada. Sejam eles professores, amigos, colegas, e principalmente, aos seus familiares. Contudo tal caminhada não termina aqui, Pablício tem um longo e exaustivo caminho pela frente, quem sabe no futuro ele dê continuidade a essa história. “Pouco importa as quedas, o essencial é levantar, continuar a caminhada consciente de suas possibilidades e de seus limites” G. de La Mothe 60 Caminhadas de universitários de origem popular Aproveitando as oportunidades Priscila D. M. Carvalho* Nasci no dia 2 de junho de 1987 em Petrolina sertão de Pernambuco, sou a segunda filha de Niva Vieira Marques e José Edson Vieira de Carvalho. Ao completar um ano e seis meses de idade aconteceu algo que mudou radicalmente a vida de minha mãe e conseqüentemente de toda a casa também, meu pai sofreu um acidente de trânsito e infelizmente não resistiu. Começa então a batalha de dona Niva, batalha essa que persiste até hoje: criar seus dois filhos. Tive uma boa infância, brinquei bastante, tive que ser uma criança bem responsável, pois passava a maior parte do dia sozinha com meu irmão, e minha mãe sempre dizia que por a gente não ter a presença de um pai em casa, seria muito fácil para os vizinhos nos julgar se a gente aprontasse alguma. Por sorte a empresa em que minha mãe começou a trabalhar oferecia bolsas de estudos em algumas escolas particulares de Petrolina, minha mãe optou pela Escola Sorriso da Criança e foi lá que eu estudei até a 4ª série. Ao finalizar a 4ª série minha mãe veio conversar comigo e meu irmão nos informando que não poderíamos continuar na escola porque ela havia sido despedida. Fui então matriculada na EMAAF a escola estadual do meu bairro, onde estudei da 5ª a 8ª série, nos primeiros anos eu até gostava, jogava futsal e aquilo era minha paixão, paixão que desapareceu e eu só tinha vontade de mudar de escola. Comecei o meu ensino médio em outra escola, a Escola Otacílio Nunes de Souza, ela tinha os mesmos problemas de outras escolas públicas, mas eu me sentia muito bem naquele espaço, lá, tive professores, amigos e momentos inesquecíveis. Quando concluía o segundo ano do ensino médio fiz um teste de seleção para um curso profissionalizante no SENAI, passei e comecei a fazer o curso técnico pela manhã e a tarde ia para escola. O curso técnico de alimentos exigia muito estudo e determinação, foi lá que aprendi muitos assuntos de química e biologia que não foram ensinados na escola, e embora não fosse o objetivo do curso, os professores nos estimulavam a fazer o vestibular. Em 2004, cursei o terceiro ano, estagiei em uma indústria de alimentos (estágio exigido pelo curso) e nos finais de semana ia para o PREVUPE cursinho popular oferecido pela Universidade Estadual de Pernambuco, foi um ano difícil à indústria que eu estagiava ficava na zona rural e eu dependia de carona para voltar, por isso, muitas vezes chegava atrasada na aula. Eu não tinha esperanças de passar no vestibular toda vez que eu imaginava a concorrência, lembrava das incontáveis aulas vagas, dos assuntos nunca vistos e do tempo que eu não tinha para estudar, isso me desestimulava, ainda assim, prestei vestibular para Graduanda em Enfermagem. Universidade Federal do Vale do São Francisco 61 Farmácia na UFPE passei somente na primeira fase. No ano seguinte, lá estava eu de novo estagiando em outra empresa de alimentos, esse estágio também era remunerado e exigia muito mais de mim, mas eu estava decidida a passar no vestibular naquele ano, comecei a pagar um curso pré-vestibular, mas estava difícil de conciliar, os assuntos começaram a atrasar, eu chegava muito cansada nas aulas e isso comprometia meu aprendizado, ao ver minha luta minha mãe me disse que se eu quisesse me dedicar só aos estudos ela pagaria o cursinho, proposta aceita, desisti do estágio e fui correr atrás do prejuízo ou seja dos assuntos atrasados, levei a sério, nunca deixo boas oportunidades passarem, a maior parte do tempo estudava sozinha às vezes tinha a ajuda de um amigo em questões de física e matemática, nessa época não tive nenhum professor “anjo” que alguns têm a sorte de ter. Estudava praticamente todos os dias, mas sem abrir mão das minhas noites bem dormidas e dos momentos de distração com os amigos, ao final daquele ano prestei dois vestibulares: Biomedicina na UFPE e Enfermagem na UNIVASF além dos vestibulares, eu tentei também uma bolsa numa faculdade particular através do PROUNI. Esperei ansiosamente os resultados, mal pude acreditar quando me disseram que eu tinha passado no vestibular da UNIVASF, já satisfeita com o primeiro resultado não fui fazer a segunda fase do vestibular da UFPE, pouco tempo depois, recebi outro resultado, havia ganhado através do PROUNI uma bolsa para cursar Enfermagem em uma faculdade, (não me recordo o nome) no estado de São Paulo. Atualmente, curso o terceiro período de enfermagem na UNIVASF, estou muito satisfeita com o curso após ter conhecido verdadeiramente o amplo papel dessa profissão que ao contrário do que muita gente pensa tem um corpo de conhecimento próprio e indispensável. Participo com muita satisfação do Programa Conexões de Saberes, reconheço sua importância não só por garantir minha permanência na Universidade, mas por todo aprendizado que me é oferecido. Hoje, só tenho a agradecer a Deus pela vida e por todas as oportunidades que me foram apresentadas, a minha mãe e minha família que sempre acreditaram em mim. E apesar de sempre ter tido uma vida muito simples, nunca me faltou o que realmente é necessário: fé. 62 Caminhadas de universitários de origem popular Mudar para conquistar Sandra Ricarte dos Santos Ferreira* Contar minha história de vida para vocês, caros leitores é muito difícil, mas a experiência de um indivíduo sempre serve de estímulo para os outros, fico feliz em fazer da minha vida um livro aberto para que transmita algo de bom em qualquer gênero a quem estiver aberto a ouvir, refletir, a criticar e sugerir. Meu nome é Sandra Ricarte dos Santos Ferreira, a origem do meu nome não me pergunte que não sei, mas mudando de assunto, tenho 21 anos, nasci em Petrolina-PE, mas morei em Sobradinho dezessete anos, um lugar pequeno, que por outro lado tinha toda uma estrutura para o início da minha vida. Minha mãe Maria Célia dos Santos Ferreira, matriculou-me na escola do jardim/maternal Tia Rita aos três anos de idade, por hora eu já sabia ler e escrever muito bem, porque como meu irmão, Fabrício dos Santos Ferreira, já estudava e mainha exercitava muito e diariamente a leitura e a escrita com ele e como sempre eu ficava por perto acabava aprendendo, quando ela percebeu que eu também estava aprendendo, começou a trabalhar comigo, por conseguinte eu era bem mais adiantada que as outras crianças da minha sala, foi aí que minha professora propôs que me adiantasse para a alfabetização, mas a minha mãe não concordou achou melhor seguir nos meus estudos passando por cada etapa na ordem e tempo certo. Como meu pai, Francisco Assis Ferreira era funcionário da Companhia Hidrelétrica do São Francisco - Chesf - fui estudar a alfabetização em uma escola particular chamada Pingo de Gente, onde minha professora Oneide Ferreira aperfeiçoou todas as minhas habilidades para com a leitura e a escrita. Logo em seguida veio à separação dos meus pais, eu era muito nova tinha apenas cinco anos de idade e isso me fez passar por um processo de mudança muito difícil, conseqüentemente amadureci muito cedo para os problemas da vida. Minha mãe teve muita dificuldade para conseguir a pensão do meu pai, enquanto isso os vizinhos nos davam todo o apoio que precisávamos. Porém, com tantas adversidades, minha mãe não esquecia em nem um momento de dar atenção devida à educação de seus dois únicos filhos, aliás, é uma das coisas que ela conseguiu com mérito, por isso sou sua fã. Desde então, muito pequena comecei a entender o que significava dificuldade. Passando dessa etapa, fui para uma escola privada chamada Centro Educacional de Sobradinho (CES) que por sua vez só aceitava filhos de funcionário da Chesf, onde fiz da primeira a quarta série do primário sem dificuldade alguma nos anos letivos, mesmo o Graduanda em Engenharia Civil. Universidade Federal do Vale do São Francisco 63 ensino sendo muito rígido e de boa qualidade com ajuda da minha mãe conseguia acompanhar direitinho às demandas da escola e sempre passava por média. Era para permanecer estudando nesta escola até a oitava série, no entanto, aconteceu de meu pai cometer a loucura de pedir as contas na Chesf, esta atitude me fez ficar muito confusa. Passei a estudar em uma escola chamada Colégio Municipal 24 de Fevereiro, onde tive um pouco de dificuldade para adequar-me ao ensino, este era muito defasado, mas como dizia a minha mãe: “Quem faz a escola é o aluno”. Fiz muitos amigos, isso me fez ver a escola com outros olhos, nela percebi que também podia fazer minha mãe feliz, pois sempre fazia de tudo para ganhar a medalha de aluna destaque, participei de vários concursos os quais obtive várias premiações, a propósito, fui por quatro anos a melhor jogadora de vôlei, futsal e randball, até hoje tenho as medalhas dos jogos inter-clássicos. Terminando o primeiro grau, a muito custo minha mãe conseguiu me matricular no Colégio Modelo Luis Eduardo Magalhães (CMLEM) para estudar o ensino médio, logo no primeiro ano tive uma proposta de estágio na Caixa Econômica Federal, mas infelizmente eu tinha apenas quatorze anos e dos pré-requisitos para conseguir ser efetivada tinha que ter no mínimo dezessete anos, esse foi um fato que me deixou muito triste, porém, não consegui me desestruturar, de fato eu sabia que existiriam outras oportunidades. No segundo ano tive que aceitar e conviver com a idéia de meu irmão ficar distante de mim, pois já não agüentava mais ficar dentro de casa sem trabalhar nem estudar, então ele decidiu ir morar em Salvador, isso para mim foi muito difícil, pois sentia muito a falta dele, fiquei só eu e a minha mãe morando juntas como é até hoje. No mesmo ano tive outra proposta de trabalho, mas desta vez minha idade não foi um empecilho, pois só daria início no estágio em 2003, visto que eu já estaria com dezesseis anos, então fiz o teste de seleção, e por conseguinte fui aprovada em segundo lugar, acrescentando que havia apenas seis vagas. É hora da independência, como morava em Sobradinho lugar que ficava aproximadamente há uma hora (48 km) de Juazeiro, de início minha mãe ordenou que ficasse na casa de uma amiga dela em Juazeiro só indo para casa nos finais de semana, com o intuito de poupar meu tempo, lhe obedeci por apenas um mês, pois ela ficava em sobradinho sozinha, eu ficava extremamente preocupada e não conseguia me concentrar em nada. Mesmo com todo sofrimento decidi voltar para casa. Sendo assim eu acordava às cinco horas da manhã para pegar o ônibus de seis e meia para Juazeiro, estudava pela manhã, estagiava na Secretaria da Fazenda e a noite fazia cursinho de redação, chegava em casa por volta da meia noite e meia, simplesmente tomava um banho, comia algo e mesmo com muito sono e cansada tomava uma xícara de café bem forte para me manter acordada até altas horas da noite estudando, muitas vezes para fazer provas e outras para fazer o vestibular. Em Junho de 2003, me mudei para Juazeiro-BA, fomos morar de aluguel, pois a minha mãe não agüentava mais ver o meu sofrimento. Diante disso, tive mais tempo para me dedicar aos meus estudos, certamente o tempo era maior que o cansaço. Depois de ter passado por tudo e ter conquistado esse tanto, contornando bem os obstáculos, pude perceber o quanto sou persistente diante dos problemas, pois, como dizia a minha avó: - “Somos o que fazemos, mas somos principalmente o que fazemos para mudar o que somos”. Esse ditado sempre me vem à mente quando tenho que mostrar atitude ou tomar alguma decisão. Como eu morava com a minha mãe e ela por sua vez já havia feito a sua parte, em me criar e me educar, agora sou eu que cuido dela e da casa, não por opção minha, mas tenho 64 Caminhadas de universitários de origem popular que tomar a frente de tudo, sou eu que faço as compras, pago as contas e resolvo os problemas... é como se eu fosse à dona da casa, frizando o ditado popular:- “Sou pau para toda a obra” em casa! Minha mãe é uma pessoa muito especial em minha vida por isso, faço de tudo para vêla feliz. Passar no vestibular no curso de Engenharia Civil não era questão de opção, era simplesmente uma meta, um objetivo que eu tinha afirmado, visto que sempre que quis ser uma engenheira. Enquanto a Professora do primário perguntava para os meus amigos o que eles gostariam de ser quando crescessem, alguns respondiam, médico, outros diziam, advogado, veterinário, mas eu sempre com a mesma resposta, vou ser Engenheira. Quando comecei a entender o que era vestibular, imediatamente comecei a pesquisar sobre o meu curso. Cada vez ficava mais curiosa... diante disso, descobri que era na UFBA, onde eu queria prestar vestibular, mas como eu estudei todo o ginásio e o segundo grau em escola pública sabia que ia ter muita dificuldade, no entanto não desisti. Meus próprios colegas do colégio me olhavam de maneira irônica quando eu afirmava onde iria prestar meu primeiro vestibular, mas meus professores sempre me apoiavam muito, e para isso me preparei o ano todo, para o vestibular! Estudava a noite, de madrugada, o final de semana, para mim qualquer hora vaga era lucro para os estudos, mas infelizmente por um acidente de percurso perdi a hora da prova, logo considerei o ocorrido como uma derrota. Retornando de Salvador tive uma ótima notícia: Juazeiro ia sediar uma Universidade Federal e que Engenharia Civil ai fazer parte dos cursos oferecidos. Novamente me preparei, fiz o curso pré-vestibular comunitário à noite chamado. Aprender para Empreender e fiz um plano de estudo em que estudava oito horas por dia, conseqüência; fui aprovada na UNIVASF em Engenharia Civil e na UPE em Matemática. Hoje, meus amigos me parabenizam e me desejam muita sorte. E foi aí que percebi que vir de escola pública não é empecilho para chegar a uma Universidade, seja ela, Federal, Particular ou Estadual. Universidade Federal do Vale do São Francisco 65 Livro Caminhadas Sheila Rejane da Silva * Sheila Rejane da Silva sou graduanda em Engenharia de Produção pela Universidade Federal do Vale do São Francisco. Sou morena clara, cabelos e olhos castanhos, determinada. Nasci em 29 de outubro de 1986, na cidade de Juazeiro, na Bahia. Todos estavam muito ansiosos com a minha chegada, pois além de ser a primeira filha eu era também a primeira neta dos meus avós maternos. Oriunda do interior dessa cidade, precisamente da fazenda Laginha, minha infância e adolescência se resumem àquela localidade, onde estão as minhas raízes, familiares e amigos com quem tive o prazer de conviver durante essas duas fases da minha vida. Porém, sempre valorizei o estudo, coisa que a população local não atribuía tanta importância. A realidade daquele local não proporcionava que pensasse em fazer um curso superior, mas eu tinha isso como objetivo a ser realizado. Era consciente do alto grau de dificuldade que encontraria, mas tal fato não me fez desistir de lutar pelo meu ideal. Hoje, resido em Juazeiro, no bairro Santo Antonio, junto a minha tia, faço diariamente um percurso por toda a cidade para chegar até a universidade. Minha família Raimundo Francisco da Silva e Vandelice Angélica da Silva, meus pais e seres responsáveis por tudo aquilo que sou. Tenho três irmãos, Queila Rozane, Diego Rodrigo e Ana Maria. Convivi com a minha família até os meus 18 anos, quando tive que sair de casa para continuar os estudos, não foi nada fácil, a saudade fazia-me brotar lágrimas quase que todos os dias, mas com o passar do tempo fui me acostumando com a distância. Meus pais, sempre se esforçaram muito para que eu pudesse manter os estudos, um direito não acessível a eles. Na minha mãe, sempre encontrei confiança, apoio e dedicação; no meu pai, a determinação e a conscientização que só através do estudo eu poderia minimizar a quantidade de espinhos a serem encontrados na minha caminhada. Há essas duas pessoas que sempre indicaram os caminhos no qual eu deveria seguir, poupando-me das dificuldades e problemas vivenciados no dia-a-dia. A minha extrema gratidão por tudo que fizeram e continuam fazendo em busca da minha felicidade. Com os meus demais familiares mantenho uma relação carinhosa, fazem parte dos meus dias, trazendo alegria, descontração e a certeza de que tenho uma família com laços fraternos intimamente ligados a todos. Graduanda em Engenharia da Produção. 66 Caminhadas de universitários de origem popular Aos meus 16 anos conheci Maurício, pessoa que marca a minha história com muito amor, carinho e companheirismo. Tornou-se também um amigo que me auxilia nas horas do meu fracasso e complementa os meus momentos felizes com a permanente alegria que existe nesse ser. No ano de 2006, o início foi marcado por conquista, começava minha faculdade, porém, em 24 de junho, uma grande tristeza, juntou-se ao pai celestial Michele, uma prima alegre e muito extrovertida que deixou saudades. Seis meses depois (24 de dezembro ), um outro familiar nos faz relembrar toda aquela tristeza, dessa vez foi Carlos Henrique, mais um jovem que teve sua vida finalizada pela violência que marca as nossas cidades. A vocês, a minha eterna saudade e lembranças maravilhosas que jamais esquecerei. Trajetória escolar Comecei a minha trajetória escolar aos 7 anos de idade, cursando a 1ª série, na Escola Maria Isabel Pontes, com a professora Nilza, Essa escola situava no lugar onde até hoje residem os meus pais, na fazenda Laginha. Estudei naquela unidade escolar até a 4ª série. Cursei o ensino fundamental no distrito de Carnaíba do Sertão, era uma viagem de 7 km todos os dias. Essa nova escola chama-se Professora Graciosa Xavier Ramos Gomes, aqui consegui obter muitos conhecimentos e fazer grandes amizades com colegas e professores. Porém, sentia-me desestimulada diante da minha turma, eles não pensavam em continuar os estudos, nenhum outro prestou vestibular, não havia companhia nas horas de estudar, e quando alguém aparecia na biblioteca, era para fazer chateações ou desvalorizar o estudo. Somente por partes de alguns professores, especialmente a professora Tânia Martins, eu consegui apoio e incentivo a prestar vestibular. Prestei o primeiro vestibular em 2004, para matemática na Faculdade de Formação de Professores de Petrolina, mas como não consegui aprovação, veio junto a toda aquela expectativa, veio a decepção, não conseguia aceitar que tantos dias de estudo não tinham dado em nada. Os meus amigos e familiares não entendiam que os conhecimentos adquiridos ainda não eram suficientes, muitos até não acreditavam que eu realmente tinha me esforçado, o que aumentava cada vez mais a minha angústia, pois além de ter ficado chateada comigo por não conseguir alcançar o meu objetivo, sentia a desconfiança nos olhos dos meus familiares, e até mesmo, nas palavras do meu pai. Na minha mãe, encontrei a compreensão e o consolo, dizendo que eu seria apenas mais uma como tantas, que não conseguia êxito na primeira tentativa, mas que outras oportunidades surgiriam. Encontrei apoio semelhante em Edilene, transmitindo mensagens de confiança e amizade. No ano seguinte, prestei vestibular novamente na Faculdade de Formação de Professores de Petrolina (FFPP), na Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e na Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Mais uma vez não consegui aprovação na FFPP. A aprovação No final de 2005, a satisfação, tinha conseguido aprovação nas demais faculdades, não teria palavras para explicar a felicidade que estava sentindo naquele momento, as lágrimas floresceram como um sinal da mais pura alegria. Não só a minha alegria estava presente, era visível a satisfação dos meus pais e também de todos os outros familiares. Universidade Federal do Vale do São Francisco 67 Custei a acreditar em tais aprovações, iniciava a realização de um sonho e não mais sentiria incapaz diante de todos. Espero que as pessoas que desconfiaram do meu interesse e esforço tenham sentido remorsos e conseguido compreender que não basta apenas querer entrar na universidade, é preciso avaliar todas as condições de estudos que lhes foram dados. Dentre as aprovações optei por engenharia de produção na UNIVASF, pois além de cursar uma área do meu interesse, uma profissão na qual possuo identificação na área de atuação, continuaria vivendo próxima a minha família. Hoje, sou estudante universitária e bolsista do Programa Conexões de Saberes, projeto com papel fundamental na realidade local, viabilizando o ingresso de jovens de origem popular na universidade e dando subsídios para que esses possam concluir as suas formações profissionais. O Conexões de Saberes incentiva os jovens a se tornarem embriões de uma nova geração, que não utiliza as suas condições sociais como barreiras e sim, usam os seus saberes comunitários como princípios e suporte na realização dos seus ideais, valorizando sempre suas culturas. 68 Caminhadas de universitários de origem popular Minha caminhada, meus estudos Wandilson Alisson Silva Lima* “... Embora os mestres e os livros sejam auxiliares necessários, são dos esforços próprios que se conseguem os mais completos e brilhantes resultados”. (Garfield) Nasci em 5 de outubro de 1985, Wandilson Alisson Silva Lima, Petrolinense, filho de Vanilce Silva Lima e Manoel dos Santos Lima. Logo aos três anos quando se inicia os estudos, mais especificamente o Pré-escolar, surge uma grande dificuldade, pois na época as escolas públicas da cidade ofereciam vagas apenas a partir da 1ª série do Ensino Fundamental I. Sendo assim, as instituições educacionais que proporcionavam vagas para o Pré-escolar eram todas privadas. Minha mãe não trabalhava na época, meu pai trabalhava, mas não sobrava recurso financeiro para arcar com esse investimento e a solução encontrada foi o meu padrinho de batismo assumir a responsabilidade. Conseqüentemente, quando terminado esse período de Educação Infantil e iniciado o Ensino Fundamental I, fui estudar em uma escola pública, pois essa ajuda foi momentânea. Em 1990, nasceu minha irmã Aline, uma gravidez bastante difícil onde minha mãe “quebrou o resguardo” e teve depressão pósparto. Um período bastante conturbado para uma criança de apenas 5 anos como eu. Contudo, esse início de infância também foi marcado por alegrias, carinho da família e dos amigos. Dessa forma, começa uma grande caminhada cheia de desafios e sonhos até o ingresso em uma universidade. Morávamos todos em uma só residência, meus pais, minha irmã e minha avó materna. Por alguns problemas familiares que sempre aconteceram na minha vida, meus pais tiveram que alugar uma casa onde foram morar juntamente com minha irmã. Fiquei morando com eles e sendo sustentado por minha avó, passamos a sobreviver com uma pensão de um salário mínimo devido à morte de meu avô materno. Graças a Deus, nunca passamos necessidades e tínhamos uma vida simples, porém, muito feliz. A escola na qual estudei a maior parte de minha trajetória escolar, era próxima da nossa casa, indo a pé todos os dias. A responsabilidade começava logo cedo já que não contava com ajuda de meus pais e minha avó era apenas alfabetizada. Assim, eu estudava e realizava todas as atividades sem Graduando em Administração. Universidade Federal do Vale do São Francisco 69 ajuda. Meu coeficiente de desempenho na escola sempre foi um dos melhores, mesmo sem acompanhamento dos meus pais, consegui, com muito esforço, levar meus anseios adiante, sonhava muito em ter um futuro promissor. Na vida escolar, era um menino bastante envolvido com as atividades extra-classe, participava bastante de gincanas socioculturais, de feiras de ciências, dos esportes e das ações comunitárias. Muitas vezes ficava perguntando para os professores se eles iriam ensinar determinados conteúdos, se eles iam terminar o livro todo, sempre pensando em um ensino melhor para poder competir com outras pessoas que possuíam mais informação. Quando cheguei ao último ano do Ensino Médio fiquei bastante preocupado porque não tinha base nenhuma para enfrentar o vestibular. Durante essa fase faltaram muitos professores, que geralmente quando eram contratados não conseguiam dar o conteúdo programático. Falei com meu pai que queria fazer um cursinho preparatório, o mais barato que tinha, então pedi uma parte do dinheiro para ele e minha mãe me dava o restante para completar. Quando comecei a freqüentar o cursinho, logo surgiram às dificuldades devido a grande quantidade de assuntos. Eu não sabia bem que curso queria fazer. Na época a minha cidade tinha apenas uma Universidade Estadual com cursos de licenciatura e em uma cidade vizinha também possuía uma Universidade com três opções de curso cuja demanda era muito elevada. Sem muitas opções, escolhi optar por Matemática, não fui aprovado fiquei em ponto de corte. Assim, terminada a jornada de ensino médio começou a pressão para trabalhar, eu particularmente achava que deveria me dedicar aos estudos. Consegui uma bolsa no cursinho, dava algumas aulas de banca para comprar algumas coisas básicas. Então, consegui ingressar no curso de Turismo do CEFET - Petrolina. Novamente não passei no vestibular, dessa vez tentei Letras com Licenciatura em Língua Inglesa. Fiquei muito triste porque eu tinha me preparado e nesse momento me senti frustrado. Contudo, comecei o curso técnico de Turismo e gostava muito, mas precisava ingressar no nível superior. Queria fazer vestibular fora da cidade em universidades federais, mas meus pais sempre diziam que faculdade em capital ou em outro lugar era coisa de rico e que não teriam condições de financiar; minha avó era assalariada também não podia. Sonhava muito, quando soube que iria ser realizado o processo seletivo para uma nova Universidade, desta vez, Federal, fiquei contente. Eu estudava no CEFET no turno matutino e fazia um estágio em uma escola de Inglês à tarde. Quando chegava a noite já estava muito cansado, mas buscava forças para não desistir de lutar pelo meu sonho que era ingressar na Universidade. Fiz uma seleção para um cursinho Pré-vestibular popular, entrei e comecei a freqüentar as aulas no fim de semana. Mas não foi bastante, o tempo era pouco, fiquei desmotivado; passei a assistir apenas algumas aulas. Abriu as inscrições para a tão sonhada Universidade Federal do Vale do São Francisco - UNIVASF, dos cursos que tinha optei por Administração. Quando saiu a concorrência de 18 candidatos por vaga eu achava que não tinha chance nenhuma, pois havia pessoas de todos os lugares e eles estavam bem preparados. No dia da prova eu estava guiando alunos de um colégio particular de Campina Grande que vieram fazer o vestibular, quando faltavam algumas horas antes da prova a responsável pela turma disse que eu tinha que levar todos nos locais de prova. Nesse momento, eu fiquei em pânico porque tinha que fazer a prova também, daí, consegui uma amiga para ficar no meu lugar. Estava esperando o ônibus, mas demorava tanto que eu comecei a chorar pensando que meu sonho parava por ali, foi quando passou um conhecido e me deu uma carona até 70 Caminhadas de universitários de origem popular um certo ponto. Fui correndo e cheguei faltando alguns minutos antes da prova. Era uma ocasião de superação e fé. Enfim, o resultado do primeiro vestibular da UNIVASF saiu no dia do meu aniversário, foi uma emoção inexplicável: fui aprovado! E passei também no curso de Letras Inglês da Universidade de Pernambuco - UPE. As aulas começaram 2 semanas após o resultado, eram em período integral (manhã e tarde) e veio a primeira barreira. As instalações da UNIVASF inicialmente estavam sendo no prédio do CEFET, o ônibus levava aproximadamente 40 minutos para chegar ao destino, o intervalo para o almoço era apenas de uma hora e meia. Então, tinha que fazer as refeições na própria faculdade que custava cerca de R$ 5,00. Recebia R$ 10,00 por semana de meu pai para o transporte e xérox. Minha avó de 70 anos ia deixar minha marmita dois dias na semana e eu era o único aluno “bóia-fria” da universidade do campus de Petrolina. No primeiro semestre, eu cursava nas duas faculdades, alguns dias da semana eu passava o dia todo na UNIVASF e à noite ia para UPE, depois decidi optar apenas pela primeira. Foi solicitado um livro de Introdução à Administração para ser comprado, mas eu preferi não pedi a meu pai e minha estratégia para estudar era por slides e pegava o livro emprestado com os colegas. Cada dia eu pedia a um diferente. Meu pai soube depois e quis comprar o livro, mesmo assim eu disse que não precisava porque viriam outros importantes depois. Com isso e ainda sendo aluno de escola pública eu não me abstive de lutar, meu desempenho acadêmico está entre os melhores da turma e é um dos motivos para que eu possa me motivar nessa caminhada. As bolsas sempre me ajudaram, no segundo período fui bolsista do CNPq e agora do Programa Conexões de Saberes que é a forma pela qual eu me mantenho dentro e fora da universidade. Essa é uma caminhada talvez simples para alguns e complexas para outros, não quero ser visto pela sociedade como “coitadinho” e sim como uma pessoa que lutou e conseguiu vencer algumas barreiras que a vida colocou. Para tanto, precisei e continuo com a força de poucos familiares, em especial minha avó materna Eunice, meu avô paterno Raimundo Lima, meus pais e minha irmã, como também meus amigos e vizinhos que me ajudam a levantar nos momentos de tristezas e me fortalecem nos momentos de conquistas. Então, concluo uma parte da minha caminhada que muito se parece com de outros figurantes neste cenário que é a vida. Persistir e sonhar é preciso. Universidade Federal do Vale do São Francisco 71