Nascimento KC, Erdmann AL
CUIDADO TRANSPESSOAL DE
ENFERMAGEM A SERES HUMANOS
UNIDADE CRÍTICA
EM
TRANSPERSONAL NURSING CARE TO HUMAN BEINGS IN A
CRITICAL CARE UNIT
Keyla Cristiane do Nascimento*
Alacoque Lorenzini Erdmann**
RESUMO: Trata-se do relato da prática assistencial realizada na disciplina Projetos Assistenciais de
Enfermagem e Saúde do Mestrado em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Teve como objetivo cuidar de clientes e suas famílias, internados na UTI de um Hospital de ensino,
orientado por um marco teórico-filosófico elaborado a partir da Teoria de Jean Watson. O estudo, de
natureza qualitativo-exploratória, foi realizado num período superior a três dias com cada um dos dois
clientes e quatro familiares, no ano de 2004. Descreve-se a implementação e a avaliação do projeto de
prática assistencial construído. A experiência mostrou que a utilização do processo de cuidar aliado aos
dez fatores de cuidado, propostos por Watson, constituiu-se num aspecto de inovação e desafio para a
prática profissional, que leva a um conhecimento de si e à humanização das relações de cuidado,
aproximando o enfermeiro do ser cuidado na sua totalidade.
Palavras-chave: Enfermagem; cuidado; cuidado intensivo; teoria de enfermagem.
ABSTRACT
ABSTRACT:: This paper is about the story of the assistance carried out by the discipline of Health and
Nursing Care Projects of the Master Course in Nursing of the Federal University of Santa Catarina (UFSC).
Its purpose is the care of the UTI patients and their families, at a University Hospital, based in a theoreticalphilosophical landmark built upon Jean Watson’s Theory. The qualitative exploratory study was carried
out in 2004, during more than three days with each of two patients and four relatives. The implementation
and the evaluation of the elaborated care project are described. The experience has shown that the use
of the care process, together with the ten care factors proposed by Watson, brought aspects of innovation
and challenge for the professional practice, leading to self knowledge and to the humanization of care
relations, approaching the nurse to the subject of care in a global form.
Keywords: Nursing; care; intensive care; nursing theory.
INTRODUÇÃO
A
Enfermagem, vista como uma disciplina científica, como ciência e arte e como uma
profissão a serviço da humanidade, tem o compromisso de contribuir para o aprimoramento das
condições de viver e ser saudável, buscando um
existir mais harmonioso para todos os seres. Essa
idéia pode ser facilitada pelo desenvolvimento de
uma consciência de cuidado presente na prática,
no ensino, na teorização e na pesquisa.
Nota-se que há preocupação com uma mudança de valores, uma vez que estudiosos, na
enfermagem, têm se ocupado em ampliar a visão
dos profissionais acerca do cuidado1,2. Procuram
vislumbrá-lo sob uma ótica mais abrangente, co-
ligando racionalidade e sensibilidade, tornandoo um processo interativo entre quem cuida e quem
é cuidado. Em razão da complexidade do conceito de cuidado, o mesmo não tem sido apenas preocupação dos estudiosos da enfermagem, mas de
outras áreas de conhecimento como filosofia, teologia, educação, psicologia, antropologia3-5. Embora o cuidado venha sendo estudado em outras
disciplinas, é na enfermagem que este se sobressai, dado ser ele a essência e a razão maior de sua
existência, como disciplina e profissão6.
O desenvolvimento do conhecimento de
enfermagem faz-se pela reflexão das ações realizadas no cotidiano e principalmente pela vontaR Enferm UERJ, Rio de Janeiro, 2006 jul/set; 14(3):333-41.
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Cuidado transpessoal de enfermagem
de de avançar, somando, ao fazer tecnicista, um
fazer/pensar mais humanitário. Todavia, no processo de busca de conhecimentos a respeito do cuidado, faz-se necessário a realização de estudos que
explorem e cultivem esse fenômeno em nossa sociedade, contribuindo para uma melhor qualidade dele.
Assim, nada melhor do que tomar atitudes e ir além
de ponderações teóricas e avançar para uma aventura de âmbito exploratório e prático.
Este estudo foi elaborado a partir da disciplina Projetos Assistenciais de Enfermagem e de
Saúde do Curso de Mestrado em Enfermagem da
Universidade Federal de Santa Catarina. A experiência aqui relatada é fruto do processo de
cuidar vivenciado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Atuar nessa Unidade, além do constante aprendizado pela diversidade de situações
existentes, exige o pensar e o agir prontamente,
pois se trabalha com situações extremas entre a
vida e a morte. Também, é notório que essa Unidade é planejada para prestar assistência especializada aos clientes em estado crítico, com risco
de vida, e que exigem controle e assistência médica e de enfermagem ininterruptas. Esses fatos
justificam a introdução de tecnologias cada vez
mais aprimoradas na tentativa de - por meio de
aparelhos - preservar e manter a vida do cliente
em estado crítico, através de terapêuticas e controles mais eficazes, o que exige profissionais de
saúde altamente capacitados e habilitados 7.
Podemos afirmar que os equipamentos favorecem o atendimento imediato, dão segurança
para toda a equipe da UTI, porém, podem contribuir para tornar as relações humanas mais distantes, fazendo com que o cliente se sinta abandonado. “[...]a visão tecnicista leva a inversão de
valores, preocupação excessiva com a máquina e
pouca preocupação com o ser humano internado”8:12. Talvez saibamos mais sobre a máquina e
pouco sobre o ser humano que estamos cuidando,
tratando-o às vezes como objeto das determinações ou do cuidado.
O contato com clientes, em diferentes setores hospitalares, especialmente de hospitais públicos, possibilita-nos dizer que há um descontentamento destes quanto aos cuidados recebidos dos
profissionais de saúde. As queixas referem-se à forma como o cuidado tem sido realizado pelos profissionais: com distanciamento, indiferença,
incompreensão e insensibilidade. Esses clientes, ao
apontarem o caráter mecânico das ações de saúde, estão nos alertando sobre o perigo de manterp.334 •
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mos o predomínio da forma racional de cuidar, pois
essa maneira não está satisfazendo as pessoas.
Tal observação pode ser confirmada através
dos estudos desenvolvidos sobre a experiência de
ser cuidado na perspectiva de pacientes internados, em que se apreende o significado de como
estes percebem a experiência e o que acontece
quando são cuidados. Esses pacientes definem
como requisitos de se sentir cuidado o amor, o
carinho, o momento, a conversa, a orientação, a
informação e as perguntas. Os pacientes afirmam
que as técnicas a as ações de enfermagem, quando não respeitam esses requisitos, são percebidas
como obrigações e não como cuidados9.
Essa realidade das práticas de enfermagem
nos preocupa. Baseada no entendimento de que
a enfermagem pode ir além do modelo biomédico,
optou-se por trabalhar com um marco teórico-filosófico construído à luz da Teoria de Jean Watson2
para cuidar da/o cliente e sua família numa UTI,
em Florianópolis, SC. Considerando o cuidado
como essência da enfermagem, uma vez que ele é
imprescindível para a vida, procurou-se com essa
prática assistencial responder a seguinte questão
norteadora: como desenvolver o cuidado humano no
processo de cuidar em UTI?
Diante do compromisso social e político da
enfermagem com as transformações na sociedade, parece oportuno e importante o avanço sobre
o cuidado humano. A área da saúde enfrenta crises e confronta-se com novos desafios a cada dia.
A enfermagem, ao privilegiar o cuidado humano,
pode fortalecer sua disciplina profissional, sua
missão e, conseqüentemente, sua autonomia e
reconhecimento social.
Com base no exposto, delimitou-se como
objetivo geral deste estudo: cuidar de clientes e
sua família, internados na UTI de um hospital de
ensino, orientado por um marco teórico-filosófico
elaborado a partir da Teoria de Jean Watson2. E
como objetivos específicos: elaborar um marco
teórico-filosófico sobre o cuidado humano em UTI,
segundo a Teoria de Jean Watson2; implementar
o marco construído no cuidado de clientes e sua
família, internados na UTI de um hospital de
ensino; e avaliar a proposta implementada verificando sua viabilidade e adequação à realidade.
Para a construção deste estudo, realizou-se
uma revisão de literatura acerca do cuidado humano a qual fundamentou a postura teórico-prática. Além disso, buscou-se informações acerca
da UTI, sua criação e evolução através dos tem-
Nascimento KC, Erdmann AL
pos, o cuidado de enfermagem e a complexidade
que envolve o trabalho nessa Unidade. Ainda,
alguns aspectos relativos ao ser humano e à família que vivenciam a situação de urgência.
MARCO TEÓRICO-FILOSÓFICO
O
marco teórico -filosófico
foi
construído à luz do cuidado transpessoal proposto por Watson2. A teoria sobre o Cuidado
Transpessoal teve origem em suas próprias crenças e valores acerca da vida humana, da saúde
e da cura, fruto de suas experiências e observações.2 A autora dá enfoque humanístico ao cuidado, atendendo o indivíduo nas dimensões
biopsicológica, espiritual e sociocultural, e considera que o objetivo da enfermagem é ajudar
as pessoas a atingir o mais alto grau de harmonia entre mente-corpo-alma10. Sua proposta é
uma combinação do humanístico com o científico, dizendo que assim se delineia a essência
do cuidado, cuja base integra as ciências
biofísicas com as do comportamento humano.
Assim, o foco principal em enfermagem está
nos fatores de cuidado derivados de uma perspectiva humanista, combinada com uma base
de conhecimentos científicos10. Para a autora,
os dez fatores de cuidado servem como um guia
filosófico e conceitual dirigido a um modelo de
cuidado de enfermagem sendo considerado o
núcleo da enfermagem.
Os dez fatores de cuidado foram revistos por
Watson10, sendo esta a nova versão: praticar o
amor, a amabilidade e a coerência dentro de um
contexto de cuidado consciente; ser autêntico,
estar presente, ser capaz de praticar e manter
um sistema profundo de crenças e um mundo
subjetivo de sua vida e do ser cuidado; cultivar
suas próprias práticas espirituais e transpessoais
de ser, mas além de seu próprio ego, aberto a
outros com sensibilidade e compaixão; desenvolver e manter uma autêntica relação de cuidado, de ajuda e confiança; estar presente e dar
apoio na expressão de sentimentos positivos e
negativos, como uma conexão profunda com o
espírito do ser e do ser que cuida do outro.
Prossegue a relação de fatores de cuidado: uso criativo do ser, de todas as formas de
conhecimento, como parte do processo de cuidado para comprometer-se artisticamente com
as práticas de cuidado e proteção; comprometer-se de maneira genuína em uma experiência
de prática de ensino e aprendizagem; criar um
ambiente protetor em todos os níveis, onde se
está consciente do todo, da beleza, do conforto, da dignidade e da paz; assistir as necessidades humanas conscientemente, administrando
um cuidado humano essencial, o qual
potencializa a aliança mente, corpo, espírito;
estar aberto e atento à espiritualidade e à dimensão existencial de sua própria vida.
Além dos dez fatores já citados, foram utilizados, como suporte para a prática assistencial,
os pressupostos de Watson10 e os pressupostos
pessoais com o olhar para a realidade do cuidado em UTI, apresentados a seguir.
São pressupostos da Teoria do Cuidado
Transpessoal10: o cuidado pode ser efetivamente demonstrado e praticado apenas de modo
transpessoal; o cuidado consiste em fatores de
cuidado que resultam na satisfação de certas
necessidades humanas; o cuidado eficiente promove saúde e crescimento individual ou familiar; as respostas de cuidado aceitam uma pessoa não apenas como ela é, mas como aquilo
que ela pode vir a ser; um ambiente de cuidado é aquele que proporciona o desenvolvimento do potencial, ao mesmo tempo em que permite à pessoa escolher a melhor ação para si
mesma, num determinado ponto no tempo; o
cuidado é mais promotor de saúde do que curativo; o cuidado é a essência da prática de enfermagem e é fundamental à Enfermagem.
São pressupostos pessoais com o olhar para a
realidade do cuidado em UTI: é pelo ato de cuidar que existe a aproximação, reconhecimento
e criação das relações interpessoais entre o cliente e profissional de enfermagem. O enfermeiro/a precisa assumir na prática uma atitude de
cuidado humano, com sensibilidade e conhecimento, que se torne tão importante quanto a
atitude técnica. O enfermeiro/a é capaz de promover e desenvolver transformações no cuidado, necessárias ao ser humano, atingindo resultados para si e para o outro. Na relação enfermeiro-cliente, ambos vivenciam, a partir de suas
experiências, um processo de aprendizagem que
tem o cuidado transpessoal como facilitador.
Os conceitos utilizados neste estudo constituíram uma base teórico-filosófica de compreensão do fenômeno e orientação metodológica
à prática. Os principais conceitos foram: ser humano, ambiente; saúde e doença; enfermagem
e cuidado.
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Cuidado transpessoal de enfermagem
FIGURA 1: Representação gráfica da inter-relação dos conceitos do referencial de cuidado fundamentado em
Watson, segundo Erdmann e Nascimento. UFSC, 2006.
O marco teórico-filosófico construído com
base na Teoria de Cuidado de Jean Watson10 e
aplicado à prática assistencial ao ser humano e
família em UTI, visualizando a inter-relação dos
fatores de cuidado e dos conceitos, é apresentado na Figura 1.
METODOLOGIA
E
ste estudo, de natureza qualitativoexploratória, foi construído com base no
referencial teórico de Watson2. Para obtenção,
registro e análise dos dados, optou-se por trabalhar com os instrumentos: diário de campo, anotações de prontuários, observações e entrevista
semi-estruturada. A prática do cuidado
transpessoal foi desenvolvida junto aos clientes e
familiares hospitalizados na UTI de um hospital
de ensino situado em Florianópolis, nos meses de
outubro e novembro de 2004. O referido hospital
é público federal, considerado uma instituição de
ensino, pesquisa, assistência e extensão.
No desenvolvimento dessa prática
assistencial, foram respeitados o Código de Ética
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Profissional e a Resolução 196/9611. O estudo teve
inicio após o consentimento da instituição e da unidade onde se pretendia desenvolver a prática
assistencial. As pessoas convidadas a participar receberam as informações sobre a proposta e assinaram o
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Participaram deste estudo os clientes e familiares selecionados de acordo com os seguintes
critérios: estar hospitalizado na unidade (ou com
familiar hospitalizado na UTI), sem distinção de
sexo e raça, sem limites de idade, que estivessem
orientados no tempo e espaço, que tivessem o
potencial de expressar-se – ainda que de forma
não verbal e que consentiram em participar desta
prática de cuidado.
A experiência foi desenvolvida com dois clientes e quatro familiares, num período superior
a três dias com cada sujeito. Para identificação
dos sujeitos, utilizamos as letras iniciais C e F
para representarem cliente e família, respectivamente, números arábicos, que expressaram os
códigos dados a cada participante e as letras M
e F para significarem o gênero dos participantes
do processo.
Nascimento KC, Erdmann AL
Assim, os sujeitos deste estudo são: Clientes
- C01M masculino, 49 anos de idade, em pós-operatório de By Pass femoral; C02M masculino, 56
anos, com tumor maligno no intestino grosso, em
pós-operatório de colostomia; Familiares: F03F
feminino, 48 anos, esposa e acompanhante de
C02M; F01F feminino, 51 anos, esposa de O.V.,
58 anos, admitido na ITI após parada
cardiorrespiratória, com diagnóstico de infarto
agudo do miocárdio; F02F feminino, 63 anos, irmã
de J.S. internado com diagnóstico de hepatopatia;
e, F04F feminino, 33 anos, mãe de A.M. 14 anos
com diagnóstico de miastenia.
RESULTADOS
E
DISCUSSÃO
Esta seção apresenta e discute os resulta-
dos em dois tópicos – o processo de cuidar e avaliando à prática assistencial.
O Processo de Cuidar: da teoria à prática
A prática assistencial se constituiu na aplicação da teoria ao processo de cuidar em clientes (e
familiares) que se encontravam hospitalizados na
UTI, sendo este adaptado da proposta de Watson12.
O projeto foi previamente apresentado à
equipe de trabalho da UTI do hospital campo
da pesquisa. A Teoria recomenda à enfermagem
que busque mais conexões do que separações
entre as partes que compõem a totalidade do ser
humano. Para que isso ocorra, o enfermeiro deve
empregar um método científico de solução de
problemas. Utilizando tal método, ele pode partir de dados básicos de enfermagem para fazer
julgamentos e tomar decisões de enfermagem.
Reforça-se, ainda, que o processo de cuidado é
similar à investigação científica, pois é sistematizado e organizado12.
A implementação da prática assistencial compreendeu quatro momentos: avaliação (do cliente/família), plano, intervenção e avaliação dos
resultados.
O primeiro momento – a avaliação (do cliente e familiar) – envolve a observação. É o momento em que se realizou o levantamento das
necessidades de cuidado, que podem ser de ordem biofísica, psicofísica, psicossocial e
intrapessoal11. Nessa avaliação, inclui-se a formulação de hipóteses (problemas de enfermagem
orientado pelas necessidades) sobre as relações e
os fatores que influenciam as necessidades afetadas. Esta é a fase em que, a partir dos dados
coletados na passagem de plantão, prontuário do
cliente, observação no leito, no diálogo com o cliente e/ou familiar, foram identificados os elementos que possibilitaram a obtenção de um conhecimento mais amplo do ser humano e suas necessidades de cuidados.
O primeiro momento de observação e avaliação das necessidades de cuidado foi também o primeiro contato, passível de se estabelecer uma relação empática, abrindo espaço para uma interação
com o cliente e seu familiar. Foi a partir desse momento que se tornou possível a identificação das
prioridades de cuidados de enfermagem.
O segundo momento incluiu a elaboração de
um plano para solucionar as necessidades avaliadas no primeiro momento. O plano ajuda a determinar a maneira como as necessidades
identificadas serão examinadas. O importante,
nessa etapa do processo, é operacionalizar o cuidado, após ter feito adequada avaliação e contemplação de todos os fatores de cuidado preconizados por Watson10.
Subentende-se que são etapas dinâmicas,
que ocorrem simultaneamente de forma
transpessoal, envolvendo todos os sentimentos e
necessidades de cuidado. O plano de ação nessa
prática assistencial foi organizado de acordo com
as necessidades e expectativas de cuidado identificado pela Enfermeira Mestranda (autora) ou
pelas necessidades explicitadas pelo cliente e/ou
familiar, através das observações e escuta atentiva.
Após a identificação das necessidades, estas foram apreciadas e refletidas para que as ações de
enfermagem pudessem ser decididas, construindo-se o planejamento.
A identificação das prioridades de cuidados de enfermagem relacionando-as com as necessidades humanas propostas por Watson10, bem
como os fatores que influenciam as necessidades afetadas.
A Figura 2 representa a identificação das
necessidades de ordem inferior (biofísica ou
psicofísica), de acordo com as situações
verbalizadas pelos clientes/familiares e os problemas de enfermagem identificados são representados na Figura 2. A seguir, apresentam-se as ações
planejadas que atendem o conjunto de problemas levantados e vividos através da descrição dos
dados coletados.
São ações de cuidado para as necessidades
de ordem inferior – biofísicas e psicossociais: proporcionar posicionamento correto no leito para
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Cuidado transpessoal de enfermagem
FIGURA 2: Necessidades humanas de ordem inferior.
melhoria do padrão respiratório; mobilizar a crença de que tudo pode dar certo; fortalecer a fé e a
esperança como fatores facilitadores no processo
de cura; minimizar o nível de estresse; oferecer ajuda promovendo confiança; orientar e procurar sanar dúvidas e incertezas dos clientes e familiares;
promover ambiente de apoio/proteção; fazer uso de
medidas criativas para resolução de problemas ensinando a cuidar; administrar medicamentos; auxiliar na mobilização do cliente; e buscar formas
de promover tratamento eficiente para a dor.
Apresenta-se a identificação das necessidades de ordem superior (psicossocial ou
intrapessoais), de acordo com as situações
verbalizadas pelos clientes/familiares, bem como
os problemas de enfermagem identificados, na
Figura 3.
São ações de cuidado para as necessidades
de ordem superior psicossociais e intrapessoal: fortalecer o self, valorizando as experiências e sua
história de vida; fazer-se presente, integrando as
relações familiares, sabendo ouvir; favorecer a
comunicação de forma clara, objetiva de acordo
com o entendimento de cada ser; instaurar fé e
esperança em uma força superior; minimizar o nível de estresse através da orientação; reforçar laços de amizades, promovendo sua participação no
cuidado; fortalecer os fatores de desenvolvimento dos laços familiares do cliente e familiares; criar ambiente ventilado e iluminado, propício para
desenvolver maior condição de convivência; e, reforçar as condições de enfrentamento das situações.
O terceiro momento –a intervenção – é a
ação direta da implementação do plano. Neste,
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foram utilizados os fatores de cuidado e as ações
foram implementadas de acordo com o plano de
cuidado realizado. A prática do cuidado
transpessoal demandou tempo e disposição como
fatores inerentes e preponderantes ao profissional enfermeiro.
O quarto momento – a avaliação – incluiu a
interpretação dos resultados, bem como o exame
dos efeitos da intervenção. A avaliação nessa prática foi constante durante todo o processo de cuidar do cliente internado em UTI e seu familiar.
Esse momento foi concomitante ao levantamento
das necessidades, diagnóstico, plano e
implementação dos cuidados.
Apesar de sua complexidade e inter-relação
com os dez fatores de cuidado preconizados por
Watson10, sua aplicabilidade é clara e concisa
quando se consegue identificar os problemas e
estabelecer os cuidados respectivos.
Avaliando a Prática Assistencial
A proposta de refletir a experiência vivida
não se constituiu parte isolada e permeou todo o
processo, pois, ao mesmo tempo em que se aprendia como desenvolver o cuidado humano no processo de cuidar em UTI, se estava experienciando
um cuidar de forma transpessoal. No processo de
cuidar construído à luz da Teoria Transpessoal de
Watson2, buscou-se ajudar, como profissional de
enfermagem, o ser cuidado e família, auxiliandoos no atendimento de suas necessidades afetadas. Os pressupostos do estudo, bem como os conceitos utilizados no transcorrer do referencial te-
Nascimento KC, Erdmann AL
FIGURA 3: Necessidades humanas de ordem superior.
órico, foram facilmente articulados e serviram para
subsidiar e desenvolver o cuidado transpessoal em
todas as fases do processo de cuidar. A utilização
dos dez fatores de cuidado de Watson10, no processo de cuidar, constituiu-se num aspecto de
inovação e desafio para a prática profissional, levando a um conhecimento de si e à humanização
das relações de cuidado, aproximando o cuidador
do ser cuidado. Vale ressaltar que esses fatores
não são complicadores para a efetivação do cuidado, porém requerem sensibilidade e disponibilidade na prática profissional.
Na enfermagem, não há como dissociar a
educação do cuidado. Os caminhos para o desenvolvimento de um processo educativo na prática assistencial tiveram como referencial o fator
de cuidado da promoção do ensino e aprendizado
transpessoal, buscando orientar e aperfeiçoar este
estudo. Assim, a educação envolve a/o enfermeira/o e o outro ser, tentando oferecer-lhe subsídios
e conhecimentos para compreender e auxiliar na
relação de cuidado. Para desenvolver esse processo de cuidado, é fundamental que o cuidador
saiba ouvir; pois é através de seu senso de observação e habilidade para ouvir que a enfermagem
pode vivenciar os fatores de cuidado, orientar e
aperfeiçoar a sua prática ao cliente e/ou família
de forma total e abrangente.
A promoção do ensino e aprendizado
transpessoal como fator de cuidado colabora para
a harmonia dos clientes e familiares, diminuindo
o estresse do acontecimento. Os objetivos pro-
postos neste trabalho foram contemplados na medida em que se conseguiu elaborar e implementar
um marco teórico-filosófico à luz da Teoria de
Watson2,10,12, bem como avaliar essa aplicação.
Ressalta-se que esta proposta foi implementada,
evidenciando o resgate do humano da sensibilidade, da ética e da educação no cuidado de enfermagem, dentro da UTI.
CONCLUSÃO
O
cuidado transpessoal vivido na UTI
exige do profissional enfermeiro o efetivo cuidado humano, o resgate da sensibilidade, fé, esperança, ajuda, confiança, observar enxergando o
outro com os olhos físicos e os olhos do coração,
ler nas entrelinhas e perceber melhor o que cada
cliente tem a nos transmitir, incluindo dor, medo,
esperança, que, por serem subjetivos, muitas vezes não são facilmente reconhecidos e,
freqüentemente, ignorados. Assim, a partir dessa
experiência, torna-se mais consciente a necessidade de estar aberta às expressões de cada cliente, o que favoreceu a proximidade, permitindo
compartilhar as emoções e expectativas
vivenciadas. Durante o processo de cuidar, a
Mestranda sentiu a importância do crescimento
e desenvolvimento pessoal experienciado, bem
como do reconhecimento das suas limitações,
aceitando-as ou silenciando diante das situações
com as quais não sabia lidar. Reconhece que o
conhecimento técnico em muito há de ser
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Cuidado transpessoal de enfermagem
complementado com o conhecimento e sensibilidade inerentes à condição humana.
O processo de cuidar experienciado
viabilizou a aplicação da Teoria, num ambiente
onde a ênfase maior está nos aspectos biológicos.
Este referencial é bastante claro e preciso e suas
fases facilitam as ações de cuidado, alertando-se
que o mesmo requer sensibilidade e disponibilidade dos profissionais. Ressalta-se que o cuidado
humano tem início quando o enfermeiro se dispõe a cuidar, entra no espaço e na vida de outras
pessoas, atuando como facilitador, ensinando, sabendo ouvir e ver o que é visível e o que é implícito em cada ser, cuidando e buscando o
enfrentamento das situações vividas. A UTI é o
ambiente no qual as relações humanas são fundamentais para contrapor o incômodo da
tecnologia invasiva e complexa utilizada no tratamento. Um cuidado mais humano é o desafio
que se tem para superar essa dificuldade em prol
de uma vida mais digna.
Espera-se que os enfermeiros reflitam sobre o
cuidado de enfermagem realizado na UTI, se ocorre de forma empática e intersubjetiva, respeitando
crenças, valores e se o diálogo tem efetivamente
existido. Acredita-se numa enfermagem cada vez
mais humana, mais fundamentada na relação com
o outro, empática, sensível, afetuosa, criativa, dinâmica, compreensível na totalidade do ser humano.
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Nascimento KC, Erdmann AL
CUIDADO TRANSPERSONAL DE ENFERMERÍA A SERES HUMANOS EN UNIDAD CRÍTICA
RESUMEN: Este articulo trata del relato de la práctica asistencial realizada en la disciplina Proyectos
Asistenciales de Enfermería y Salud de la Maestría en Enfermería de la Universidad Federal de Santa
Catarina (UFSC)-Brasil. Tuvo como objetivo cuidar de clientes y sus familias, internados en la UTI de un
hospital universitario, orientado por un marco teórico-filosófico elaborado a partir de la teoría de Jean
Watson. El estudio, de naturaleza cualitativa y exploratoria, fue realizado con dos clientes y cuatro
familiares en un periodo superior a tres días con cada sujeto, en el año de 2004. Se describe la
implementación y la evaluación del proyecto construido de práctica asistencial. La experiencia mostró
que la utilización del proceso de cuidar aunado a los diez factores de cuidado propuestos por Watson,
se constituyó en un aspecto de innovación y desafío para la práctica profesional, que lleva a un
conocimiento de si y a la humanización de las relaciones de cuidado, aproximando el enfermero del ser
cuidado en su totalidad.
Palabras Clave: Enfermería; cuidado; cuidado intensivo; teoría de enfermería.
Recebido em: 28.11.2005
Aprovado em: 13.07.2006
________
Notas
*
Enfermeira. Mestranda em Enfermagem pela Universidade Federal de Santa Catarina. Bolsista CNPq.
Doutora em Filosofia da Enfermagem pela UFSC. Profa. Titular do NFR/CCS/UFSC. Pesquisadora CNPq. Endereço: Rua Frei Caneca,
20. Apto 502, Bloco B. Florianópolis, SC. CEP: 88025-000. E-mail: [email protected]
**
R Enferm UERJ, Rio de Janeiro, 2006 jul/set; 14(3):333-41.
• p.341
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