INSTITUTO POLITÉCNICO DE LISBOA ESCOLA SUPERIOR DE EDUCAÇÃO DE LISBOA 2013 Prova de Língua Portuguesa (Acesso aos mestrados profissionalizantes) 3ª Fase de Candidatura DURAÇÃO DA PROVA 2h.30m (mais 30 minutos de tolerância) ESTRUTURA DA PROVA A prova encontra-se organizada em duas partes distintas: I. Leitura II. Escrita A prova deve ser resolvida nas folhas de resposta que lhe vão ser fornecidas. Na página 2 da folha de resposta, deve indicar se adota o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Caso não apresente essa informação, considera-se que está a adotar a nova ortografia. I. LEITURA Leia atentamente o seguinte texto: A idade das crianças A decepção das crianças, quando descobrem que o Pai Natal “não existe” e que, de facto, são os pais que lhes oferecem os presentes, marca uma viragem irreversível na sua percepção da realidade. Precisamente, representa uma vitória do “princípio da realidade” sobre o “princípio do prazer”, como diria Freud. Muitos pais, seguindo os conselhos sábios de grandes 5 psicólogos, acham que é bom dizer-lhes a verdade. É penoso, claro, mas a criança tem de crescer, encarar a “dureza da vida”, etc. Todo um discurso bem estruturado e apoiado em teorias consistentes. A criança é que não fica contente. E só sossegará a amargura que lhe restou quando souber, um dia, transformar a “realidade” num outro tipo de sonho. Na verdade, a velha 10 classificação freudiana entre os dois princípios pode ter as mais funestas consequências, além de os conceitos em jogo não estarem suficientemente esclarecidos. O que é o “prazer” e o que é a “realidade” para a criança? Quando uma criança brinca, é todo um devir que se põe em movimento: devir-avião, devir-boneca, devir-dragão ou dinossáurio. Processos psíquicos complexos entram então em 15 acção. Há ali, no jogo, mais do que Winnicott e outros psicanalistas descobriram: há uma estranha transformação da criança em avião, em espaço sideral, em força cósmica, em ventos, corpos deslizantes. Ela é e não é o avião ao mesmo tempo, ao exercitar o seu poder de metamorfose. É essa a sua “realidade”, completamente confundida e inconfundível com o prazer. 20 Ora, neste contexto em que o “imaginário” e o “real” coincidem, o Pai Natal é a força imanente que os une: para as crianças, que devêm múltiplos seres e elementos, as linhas de fuga – às máquinas de “aculturação” e “aprendizagem da cultura” (a “cultura como domesticação”, como diz Nietzsche) – são infinitas. O Pai Natal não representa apenas o dom sem exigência de reciprocidade, é a irrupção da vida no puro dom. Em qualquer jogo de 25 criança, jorra sempre o maravilhoso acaso de existir, o puro movimento de prazer de ser e desejar. Aqui, “puro” significa em parte o que os psicólogos chamam “actividade lúdica”. Mas o que é essa “actividade” senão o movimento da vida que brota, sempre nova, como se todos os dias fossem o começo do mundo? É isso ser criança, ter essa capacidade de devir. Eis porque é tão difícil saber a idade de uma criança: no aspecto afectivo, pode ser mais velha 30 que a idade biológica, noutro, mais nova, tem “regressões” aqui, “fixações” acolá. Nunca se sabe realmente o que significam os sete anos que aquela criança tem. 1 Mas, se olharmos para o Pai Natal, compreendemos: a idade da criança é o avesso simétrico da idade do Pai Natal. Por isso, tantos adultos se mascaram de Pai Natal – para devirem crianças, para entrarem, num curto espaço de tempo, no mundo das crianças. O Pai 35 Natal surge do cosmos, como nós-crianças. Ao espalhar prendas pelo mundo, ele joga à maneira dos nossos jogos, neles fazendo nascer, de cada vez pela primeira vez, o dom de existir e de desejar o desejo de existir. É o jogo maior, o jogo do maior dom que está em todas as prendas – o jogo da idade de criança no começo do mundo de todos os devires-criança. Fora do tempo, mas para todos os tempos. 40 Na época natalícia, solstício de Inverno que marca a supremacia da luz sobre as trevas, é o tempo-sempre da idade das crianças que os adultos não deveriam nunca deixar em si desaparecer. José Gil, Revista Visão, 27 de dezembro de 2007, p. 22 (adaptado) 1. Faça corresponder cada um dos parágrafos do texto a um dos títulos abaixo apresentados. Na folha de resposta, indique o número de parágrafo e a letra identificativa do título que lhe corresponde. (A) Indistinção entre prazer e realidade na atividade lúdica da criança. (B) O Natal: época de excelência para o retorno à infância. (C) Descoberta da inexistência do Pai Natal e consequente alteração da perceção do real por parte da criança. (D) Incompatibilidade entre o modo como as crianças experienciam o mundo e as classificações dicotómicas “prazer vs realidade”. (E) O Pai Natal como figura propiciadora da perpetuação da infância. (F) O Pai Natal como elo de ligação entre real e imaginário. (G) Atividade lúdica da criança enquanto forma de reinvenção e reiniciação. 2. Classifique como V (verdadeiras) ou F (falsas) as afirmações abaixo apresentadas. Na folha de resposta, coloque a letra que identifica cada afirmação seguida de V ou F. (A) O autor concorda com as teorias que defendem que a criança tem de ser confrontada com a inexistência do Pai Natal. (B) O autor considera que o fim da infância marca a perda irremediável da capacidade de sonhar. (C) A capacidade de devir da criança confere-lhe a possibilidade de escapar a processos de doutrinamento socioculturais. (D) A idade biológica e a idade afetiva das crianças não são necessariamente coincidentes. 2 3. Transcreva do texto a palavra/expressão exata para a qual remete cada uma das seguintes palavras/expressões: 3.1. “sua” (L2) 3.2. “os” (L21) 3.3. “essa actividade” (L27) 3.4. “(n)eles” (L36) 4. De entre as opções apresentadas, selecione a opção correta de acordo com o sentido que cada palavra tem no texto. Na folha de resposta, indique o número da alínea seguido da letra que identifica a opção escolhida. 4.1. “jorra” (L25) é sinónimo de: (A) (B) (C) (D) emana verte subjaz há 4.2. “supremacia” (L40) é sinónimo de: (A) (B) (C) (D) impacto influência tirania prevalência 4.3. “funestas” (L10) não é sinónimo de: (A) (B) (C) (D) fraudulentas danosas nefastas nocivas 4.4. “devir” (L28) não é sinónimo de: (A) (B) (C) (D) transformação imaginação recriação reinvenção 3 5. Selecione, de entre os valores apresentados no quadro abaixo, aquele que está associado a cada uma das expressões sublinhadas. Na folha de resposta, coloque o número da expressão seguido da alínea correspondente ao valor que considera adequado. Linha do texto Expressões Valores L17-18 1. Ela é e não é o avião ao mesmo tempo, ao exercitar o (A) Comparação L27-28 2. Mas o que é essa “actividade” senão o movimento da (B) Finalidade L29-30 3. Eis porque é tão difícil saber a idade de uma criança: (C) Tempo L32-33 4. Mas, se olharmos para o Pai Natal, compreendemos: (D) Causa L33-34 5. Por isso, tantos adultos se mascaram de Pai Natal – (E) Condição seu poder de metamorfose. vida que brota, sempre nova, como se todos os dias fossem o começo do mundo? no aspecto afectivo, pode ser mais velha que a idade biológica, noutro, mais nova, tem “regressões” aqui, “fixações” acolá. a idade da criança é o avesso simétrico da idade do Pai Natal. para devirem crianças, para entrarem, num curto espaço de tempo, no mundo das crianças. 4 II. ESCRITA 1. A Tabela 1, abaixo apresentada, reúne dados relativos aos resultados obtidos na 1ª chamada da Prova de Língua Portuguesa de acesso aos mestrados profissionalizantes da Escola Superior de Educação de Lisboa (ESELx), realizada em julho de 2012. Tabela 1 Resultados por instituição de origem – 1ª chamada Licenciados pela ESELx Licenciados por outras instituições Total Nº total de alunos 131 32 163 Nº de aprovações 112 (85,5%) 11 (34,4%) Nº de reprovações 19 (14,5%) 21 (65,6%) Nota máxima 18,3 Nota mínima 5,7 Média 15,3 5,1 10,6 123 (75,5%) 40 (24,5%) -- -- -- 12,7 1.1. Redija um texto, de caráter expositivo, que apresente os dados patentes na Tabela 1. O texto deve ter uma extensão de 120 a 150 palavras1. 2. No passado mês de setembro, foi aprovado em Conselho de Ministros o diploma que revê o Estatuto do Ensino Particular e Cooperativo. O novo modelo de financiamento confere às famílias a liberdade de escolha entre ensino público e ensino privado, mediante a celebração de contratos simples de apoio direto a quem opte pelo sistema privado. 2.1. Redija um artigo de opinião em que explicite a sua posição face a esta medida. O texto deve ter uma extensão de cerca de 350 palavras2. 1 Para efeitos de contagem, considera-se uma palavra qualquer sequência delimitada por espaços em branco, incluindo sequências que integrem elementos ligados por hífen e números que sejam constituídos por mais de um algarismo (exemplos: dar-me-á e 2013). 2 Ver nota de rodapé anterior. 5 COTAÇÕES (Escala de 0 a 200 pontos) Grupo I – Leitura (80 pontos) Questões Cotação 1. 16 pontos 2. 16 pontos 3. 16 pontos 4. 16 pontos 5. 16 pontos Grupo II – Escrita (120 pontos) Questões Cotação 1. 40 pontos 2. 80 pontos 6