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VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
1
VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE LONDRINA
Teorias e Práticas do Fazer Histórico
VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE
PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE LONDRINA
ANAIS
Organizadores
Francisco César Alves Ferraz
Richard Gonçalves André
José Carlos Vilardaga
Londrina
2014
ISBN – 978-85-7846-248-2
2
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE LONDRINA
Reitora
Nádina Aparecida Moreno
Vice-Reitora
Berenice Quinzani Jordão
Realização
Departamento de História
Programa de Pós-Graduação em História Social
Especialização em Patrimônio e História
Especialização em Religiões e Religiosidades
Organização do evento
Francisco César Alves Ferraz
Comissão organizadora
Alfredo dos Santos Oliva
Ana Heloisa Molina
Célia Regina Silveira
David Antonio de Castro Netto
Edméia Ribeiro
Érica Xavier
Francisco César Alves Ferraz
Maria de Fátima Cunha
Maria Renata da Cruz Duran
Monica Selvatici
Richard Gonçalves André
José Miguel Arias Neto
Silvia Cristina Martins de Souza
3
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Pauline Bitzer Rodrigues
Comissão científica
Francisco César Alves Ferraz
José Miguel Arias Neto Silvia
Cristina Martins de Souza
Célia Regina Silveira
Alfredo dos Santos Oliva
4
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Sumário
TERRITÓRIOS DO POLÍTICO
“O LIXO AO LADO DA MINHA CASA”: PERSPECTIVAS DE UMA HISTÓRIA
DAS POLÍTICAS PÚBLICAS AMBIENTAIS EM GUARAPUAVA/PR (1971-2011)
Vladson Paterneze Cunha
Jozimar Paes de Almeida ..................................................................................................................
PALESTINA: AVISÃO DE UM ESTADOUNIDENSE POR MEIO DOS
QUADRINHOS
José Rodolfo Vieira
Richard Gonçalves André ................................................................................................................
REGIME MILITAR E TRANSIÇÃO POLÍTICA: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
HISTORIOGRÁFICAS
Alisson Guilherme Gonçalves Bella
Márcio Santos de Santana .................................................................................................................
A HISTORIOGRAFIA DO PARANÁ: OS HISTORIADORES, SEUS LUGARES E
SUAS REGIÕES (1970-2012)
Wander de Lara Proença
Bruna Lambardi Parronchi ...............................................................................................................
TRANSIÇÃO POLÍTICA E CULTURAL DO BRASIL NOS ANOS 1970/1980: UMA
ANÁLISE A PARTIR DA CANÇÃO QUE PAÍS É ESTE DE LEGIÃO URBANA
Cristiano Aparecido do Nascimento
Wander de Lara Proença ..................................................................................................................
ECOPOLÍTICA: UM OLHAR PELA REPRESENTAÇÃO FOTOGRÁFICA DE
SEBASTIÃO SALGADO
Danilo Meira Leite
Alberto Gawryszewski ......................................................................................................................
INTERVENÇÃO DOS ESTADOS UNIDOS NO IRÃ: O GOLPE CONTRA
MOSSADEGH (1953)
Marcelo Garcia Bonfim
Sylvia Ewel Lenz ................................................................................................................................
RETROSPECTIVA DO GOVERNO DE PRESIDENTE CASTELLO
Dayane Cristina Guarnieri
José Miguel Arias Neto .....................................................................................................................
p. 13
p. 25
p. 33
p. 44
p. 54
p. 65
p. 75
p. 87
5
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
A IGREJA NA BATALHA CONTRA A AMEAÇA VERMELHA: O
ANTICOMUNISMO DE ORIGEM CATÓLICA EM MARINGÁ
Angélica de Brito
Ângelo Aparecido Priori ...................................................................................................................
p. 95
A LONGA TEMPESTADE NO DESERTO: UMA ANÁLISE COMPARATIVA DAS
GUERRAS DO GOLFO E DO IRAQUE SOB A ÓTICA DOS JORNAIS “FOLHA
DE SÃO PAULO” E “O ESTADO DE SÃO PAULO” (1990-2003)
Sandro Heleno Morais Zarpelão
Francisco Assis de Queiroz ..............................................................................................................
p. 105
MÍDIA DE MASSAS E A VULGARIZAÇÃO CIENTÍFICA: A MITIFICAÇÃO DA
CIÊNCIA NA REVISTA O CRUZEIRO NA PRIMEIRA METADE DA DÉCADA
DE 1950
Fábio Fiore de Aguiar
José Miguel Arias Neto .....................................................................................................................
p. 119
IMPRENSA E TRABALHADORES: TENSÕES E REPRESENTAÇÕES ACERCA
DAS MOBILIZAÇÕES COLETIVAS NO CAMPO E NA CIDADE NOS ANOS 90
Ricardo Pires de Paula .......................................................................................................................
INTERAÇÃO ENTRE FERROVIA E CIDADE: ESTRUTURA FERROVIÁRIA E A
MODERNIZAÇÃO DE BOTUCATU POR MEIO DOS PERIÓDICOS (1929-1934)
Luís Gustavo Martins Botaro
Eduardo Romero de Oliveira ...........................................................................................................
PRÉ-ESCOLAS SOB SUSPEITA: ESTUDO SOBRE UMA OPERAÇÃO
REPRESSIVA NO PARANÁ DURANTE A DITADURA CIVIL MILITAR
José dos Santos de Abreu
Marion Brepohl de Magalhães .........................................................................................................
PAUL DELEUZE: UM EMPRESÁRIO FRANCÊS NO INTERIOR PAULISTA (1909
– 1916)
André Luiz da Silva ...........................................................................................................................
HISTORIOGRAFIA E REGIÕES DO PARANÁ: NOTAS DE LEITURA SOBRE AS
OBRAS “A CAFEICULTURA PARANAENSE” E “NORTE DO PARANÁ,
HISTÓRIAS E FANTASMAGORIAS”
Darlan Damasceno
Taiane Vanessa da Silva
Wander de Lara Proença
Gilmar Arruda ....................................................................................................................................
QUANDO PROTESTAR SE TORNA UM DELITO:
ESTUDANTIL DE LONDRINA E A DITADURA MILITAR
O
MOVIMENTO
p. 126
p. 136
p. 150
p. 162
p. 170
6
VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Danilo de Souza Torregrossa
Francisco César Alves Ferraz ...........................................................................................................
p. 180
FORÇAS ARMADAS, POLÍTICA E IDEOLOGIA NO BRASIL REPUBLICANO: A
DISPUTA PELO CLUBE MILITAR
Carlos Henrique Pimentel ................................................................................................................
p. 193
A REBELIÃO DA ELITE: OS JOVENS ENTRE A GUERRILHA E O " PAZ E
AMOR"(1969-1979)
Amábile E. A. Sperandio
André Luiz Joanilho ..........................................................................................................................
MIGRANDO A POBREZA: INDÍCIOS DE PROCESSOS MIGRATÓRIOS NA
REGIÃO DE GUARAPUAVA (1946-1960)
Rodrigo dos Santos Fernando Franco Netto ................................................................................
O PAPEL DO JORNAL PARANÁ-NORTE NA SOCIEDADE LONDRINENSE:
1934 A 1953
Carlos Henrique Ferreira Leite
José Miguel Arias Neto .....................................................................................................................
AS POLÍTICAS DE AUXÍLIO À LAVOURA AÇUCAREIRA NO SEGUNDO
IMPÉRIO: O CASO EMBLEMÁTICO DOS ENGENHOS CENTRAIS
Roberta Barros Meira ........................................................................................................................
CORPO FEMININO E DISCURSOS FEMINISTAS NO JORNAL MULHERIO SOB
A ÓTICA DA HISTÓRIA AMBIENTAL: UMA PERSPECTIVA
Lilian Soares do Nascimento
Gilmar Arruda ....................................................................................................................................
“SECA, GEADA E FOGO”: UM BREVE RELATO SOBRE OS INCÊNDIOS DE
1963, NO ESTADO DO PARANÁ
Letícia Aparecida da Paixão
Angelo Priori ......................................................................................................................................
A CONTEMPORANEIDADE, SEUS DILEMAS E SUAS CRISES: UM DIÁLOGO
ENTRE A HISTÓRIA POLÍTICA E A EDUCAÇÃO HISTÓRICA
Márcio Santos de Santana .................................................................................................................
A PARTICIPAÇÃO DA FEB NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL A PARTIR DO
CORPO MÉDICO
Taís Daniela Fávaro
Francisco C. A. Ferraz ......................................................................................................................
p. 201
p. 212
p. 223
p. 233
p. 244
p. 252
p. 263
p. 274
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
PRÁTICAS CULTURAIS, MEMÓRIA E IMAGENS
O JUBILEU DE PRATA E A TENTATIVA DE SE CRIAR O PRIMEIRO MUSEU
DE LONDRINA
Edson José Holtz Leme
Hélio Rebello Cardoso Júnior
Célia Reis Camargo ............................................................................................................................
NUANCES DE UMA TRADIÇÃO: A MUDANÇA NA TRADIÇÃO E SOCIEDADE
JAPONESA EM MEADOS DO SÉCULO XX
Douglas Pastrello
Richard Gonçalves André ................................................................................................................
QUESTÕES PRELIMINARES PARA CONSTRUÇÃO DE UMA ANÁLISE DE
EXPOSIÇÕES EM MUSEUS HISTÓRICOS
Roberto da Silva Rodrigues
Claudia Eliane Parreiras Marques Martinez ...................................................................................
COMO PENSAR O PATRIMONIO NATURAL POR MEIO DOS QUADIRNHOS
DE GABRIEL MOON E FABIO BÁ
Damicele Salgado Gorgatti
Sandra C.A.Pelegrini ..........................................................................................................................
CÍCERO: CONCEPÇÕES RELIGIOSAS E O CONTEXTO TURBULENTO DO
PERÍODO FINAL DA REPÚBLICA ROMANA
Isadora Buono de Oliveira ...............................................................................................................
VAN EYCK E A PAISAGEM NO BAIXO MEDIEVO: ANÁLISE DA OBRA A
MADONA DO CHANCELER ROLIN
Rafael Fernandes Speglic
Angelita Marques Visalli ...................................................................................................................
A PRESENÇA DE FAMÍLIAS JUDIAS ALEMÃS EM ROLÂNDIA (1930-1945):
FORMAÇÃO, TRADIÇÃO, RUPTURAS E PERMANÊNCIAS
Helena Ragusa ....................................................................................................................................
OBJETO MUSEOLÓGICO: CARROS FERROVIÁRIOS DO MUSEU HISTÓRICO
DE LONDRINA (1999-2013)
Tamiris Helena Doratiotto Baldo
Claudia Eliane Parreiras Marques Martinez ...................................................................................
A IDENTIDADE CRISTÃ NO SÉCULO I d.C. A PARTIR DA RETÓRICA
ANTIJUDAICA DO NOVO TESTAMENTO: EPÍSTOLA DE PAULO AOS
GÁLATAS, EVANGELHO DE LUCAS E ATOS DOS APÓSTOLOS
p. 285
p. 298
p. 306
p. 313
p. 321
p. 329
p. 340
p. 350
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Kettuly F. S. Nascimento
Monica Selvatici .................................................................................................................................
UM ENSAIO GERAL: FONTES HISTÓRICAS SOBRE A ÁFRICA APÓS O
SÉCULO XV
Carlos Eduardo Rodrigues
Luiz Felipe Viel Moreira ...................................................................................................................
“DOIS ANOS DE UM GOVERNO QUE REALIZA!”: AS FOTOGRAFIAS DE
OSWALDO LEITE E SUA RELAÇÃO COM O PODER PÚBLICO EM
LONDRINA(PR)
Fernanda Cequalini Frozoni
Zueleide Casagrande de Paula ..........................................................................................................
OS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO COMO ELEMENTOS DE IDENTIDADE
EM ARQUITETURA: O EDIFÍCIO DO MUSEU HISTÓRICO DE LONDRINA
Priscilla Perrud Silva
Zueleide Casagrande de Paula ..........................................................................................................
ANÁLISE DE UM AFRESCO DA CRUCIFICAÇÃO, DE GIOTTO, NA BASÍLICA
DE SÃO FRANCISCO, ASSIS: OS TEXTOS BÍBLICOS DE INSPIRAÇÃO E A
COMPOSIÇÃO DA IMAGEM
André Luiz Marcondes Pelegrinelli
Angelita Marques Visalli ...................................................................................................................
p. 359
p. 372
p. 384
p. 396
p. 406
O PAPEL FEMININO NA COMUNIDADE CRISTÃ DE CORINTO (SÉC. I D.C.)
Amanda Cristina Martins do Nascimento .....................................................................................
p. 416
A CASA DE MADEIRA: HISTÓRIA E MEMÓRIA
Matheus Henrique Marques Sussai
Zueleide Casagrande de Paula ..........................................................................................................
p. 429
A CASA DE MADEIRA E SUAS HISTÓRIAS
Sonia Maria de Oliveira Dantas
Zueleide Casagrande de Paula ..........................................................................................................
p. 440
JACAREZINHO PELOS OLHOS DE EUGÊNIO SIGAUD
Hugo Emmanuel da Rosa Corrêa
Alberto Gawryszewski ......................................................................................................................
p. 450
ANÁLISE DE IMAGENS E AS OPÇÕES DO HISTORIADOR
Pamela Wanessa Godoi
Angelita Marques Visalli ...................................................................................................................
p. 461
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
HISTÓRIA E LINGUAGENS
MOVIMENTOS MUSICAIS BRASILEIROS DO SÉCULO XX COMO MEIOS DE
PROTESTO E CRITICAS SOCIAIS
Rafaela Mano ......................................................................................................................................
O HISTORIADOR BRASILEIRO DIANTE DA PÓS-MODERNIDADE: ENTRE O
PESSIMISMO E A ESPERANÇA
Aline Loretto Garcia-História
Gabriel Giannattasio .........................................................................................................................
A HISTÓRIA DO BRASIL NAS PÁGINAS DA LITERATURA: ESCRAVISMO E
DOMINAÇÃO NO ROMANCE “A MENINA MORTA” (1954) DE CORNÉLIO
Bethânia Cristina Gaffo
Rogerio Ivano .....................................................................................................................................
SOB O SIGNO DA MALDIÇÃO E DA SUSPEIÇÃO: PLÍNIO MARCOS E A PEÇA
ABAJUR LILÁS (ANOS 1970)
Bruna Vidal
Miliandre Garcia .................................................................................................................................
ABORDAGENS HISTORIOGRÁFICAS SOBRE LONDRINA: APONTAMENTOS
DE LEITURA DAS OBRAS O ELDORADO E NOITES ILÍCITAS
Rebecca Carolline Moraes da Silva
Heloisa Pires Fazion
Wander de Lara Proença
Gilmar Arruda ....................................................................................................................................
SERÁ SÓ ASSISTIR? AS METODOLOGIAS PARA ANÁLISE OU
INTERPRETAÇÃO DE SE ESTUDAR O CINEMA
Ângelo Otávio Garcia Rechi
Richard Gonçalves André ................................................................................................................
p. 474
p. 486
p. 497
p. 509
p. 519
p. 530
DO CHAPÉU DE LADO E TAMANCO ARRASTANDO AO MULATO
INZONEIRO: A CONSTRUÇÃO DO NACIONAL NOS SAMBAS DE WILSON
BATISTA E ARY BARROSO
Vanessa Pironato Milani
Áureo Busetto ....................................................................................................................................
p. 538
A EDUCAÇÃO NA TV EM TEMPOS DE NEOLIBERALISMO: UMA ANÁLISE
HISTÓRICO-COMPARATIVA ENTRE OS MODELOS TELEVISIVOS DO BRASIL
E DA FRANÇA (1978-2002)
Wellington Amarante Oliveira
Áureo Busetto ....................................................................................................................................
p. 545
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
AS NARRATIVAS E A CONSTRUÇÃO DAS IDENTIDADES DO SUJEITO RAUL
SEIXAS: ENTRE O PASQUIM E A REVISTA AMIGA
Bruno Nielsen Venancio ...................................................................................................................
LITERATURA POLEMISTA NAS ÍNDIAS ORIENTAIS SEISCENTISTAS E O
SIGNIFICADO HISTÓRICO-RELIGIOSO DA PRIMEIRA TRADUÇÃO DA
BÍBLIA EM LÍNGUA PORTUGUESA (1642-1694)
Luis Henrique Menezes Fernandes
Adone Agnolin ...................................................................................................................................
IDENTIDADE CULTURAL, ALTERIDADE E RESISTÊNCIA NO PERÍODO
PÓS-APARTHEID NA OBRA DESONRA DE J.M. COETZEE
Ruane Maciel Kaminski Alves
Rogério Ivano .....................................................................................................................................
O CASO URUPÊS (1918): O CONTEXTO HISTÓRICO DA OBRA DE MONTEIRO
LOBATO
Daniel Valentin Carvalhal
Silvia Cristina Martins de Souza ......................................................................................................
CÍCERO E O CUIDADO DE SI
Kauana Candido Romeiro
Alfredo dos Santos Oliva ..................................................................................................................
p. 555
p. 563
p. 575
p. 585
p. 597
HISTÓRIA E ENSINO
A PRESENÇA INDÍGENA NO MUSEU HISTÓRICO DE LONDRINA” PADRE
CARLOS WEISS”
Vagner Henrique Ferraz
Regina Célia Alegro ...........................................................................................................................
POR QUE APRENDER HISTÓRIA? REFLEXÕES DA EDUCAÇÃO HISTÓRICA
Rallik Pires Carrara
Maria de Fátima da Cunha ...............................................................................................................
INQUISIÇÃO E REGIME CIVIL MILITAR: NARRATIVAS DE ALUNOS SOBRE
O TEMA DA VIOLÊNCIA
João Davi Avelar Pires
Ana Heloisa Molina ...........................................................................................................................
A CONSTRUÇÃO DISCURSIVA DA ADOLESCÊNCIA
Flávia Mantovani
p. 610
p. 619
p. 628
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Márcia Elisa Teté Ramos ..................................................................................................................
p. 637
HISTÓRIAS DE LONDRINA: AS NARRATIVAS DA CIDADE
Ana Beatriz Accorsi Thomson
Cláudia Prado Fortuna ......................................................................................................................
p. 645
A LEI 11.645/2008 NO CURRÍCULO DE HISTÓRIA: ANÁLISES DAS
PROPOSTAS CURRICULARES DE HISTÓRIA DO SUDESTE BRASILEIRO
Maria Cristina Floriano Bigeli
Carlos da Fonseca Brandão ..............................................................................................................
O ENSINO DE HISTÓRIA ENQUANTO CAMPO DE PESQUISA: OBJETIVOS E
DESAFIOS
Vanessa Kiara Rodrigues Milian
Márcia Elisa Teté Ramos ..................................................................................................................
AS IDEIAS ACERCA DO REGIME MILITAR BRASILEIRO (1964-1985) EM
NARRATIVAS DE JOVENS DO ENSINO MÉDIO DE LONDRINA-PR
Brayan Lee Thompson Ávila
Marlene R. Canelli ..............................................................................................................................
CÍCERO E O CUIDADO DE SI
Kauana Candido Romeiro
Alfredo dos Santos Oliva ..................................................................................................................
p. 653
p. 663
p. 671
p. 679
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VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
TERRITÓRIOS DO
POLÍTICO
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
“O LIXO AO LADO DA MINHA CASA”: PERSPECTIVAS DE UMA
HISTÓRIA
DAS
POLÍTICAS
PÚBLICAS
AMBIENTAIS
EM
GUARAPUAVA/PR (1971-2011)
Vladson Paterneze Cunha (Mestrando em História Social – UEL – CAPES)
Orientador: Dr. Jozimar Paes de Almeida
Resumo: As mudanças sociais, políticas e culturais ocorridas no final dos anos 60 do século XX
levaram ao desenvolvimento de preocupações sociais e intelectuais chamadas “ecológicas”. A
“questão ambiental” passou a integrar permanentemente, nas últimas décadas do século XX, o rol de
preocupações dos seres humanos em diversos aspectos: social, econômico, político e cultural. Nosso
objetivo nesta comunicação é divulgar resultados preliminares de nossa pesquisa a respeito da
formação das políticas públicas ambientais no âmbito do Município de Guarapuava/PR, que tinham
como meta o debate, ou a resolução das questões vinculadas à coleta e destinação do lixo domiciliar
urbano entre os anos de 1971 e 2011. Compreendendo Políticas Públicas como o conjunto de ações,
definidas por agentes sociais e políticos, que objetivam resolver problemas da coletividade e
salientando o entendimento do lixo como objeto de pesquisa e interpretação histórica, podemos
estabelecer relações entre o lixo e as transformações urbanas, mudanças na produção/consumo e
impactos da ação humana no meio ambiente urbano. A pesquisa documental no Arquivo da Câmara
Municipal de Guarapuava e no semanário “Esquema Oeste” demonstram a emergência de uma
legislação “ambiental” e uma ampliação das preocupações sociais com os impactos e os problemas
relacionados ao lixo na cidade.
Palavras-chave: Políticas Públicas, História Ambiental, Lixo.
Introdução
As preocupações ambientais fazem parte da vida do ser humano desde os primórdios da
sociedade. Podemos considerar que a sociedade busca o melhor para si e tenta, da melhor maneira
possível, viver bem em seu ambiente. Porém, as mudanças históricas ocorridas na sociedade
ocasionaram um aumento dos impactos humanos provenientes de suas organizações de produção ao
relacionar-se de diversas maneiras com a natureza e seus elementos.
O aumento da população e as mudanças na forma de produção de bens necessários à vida em
sociedade, principalmente depois do advento da indústria moderna, ocasionaram também uma
ampliação da exploração de recursos naturais. O alerta a respeito da exploração excessiva dos
recursos naturais e dos impactos negativos causados pela ação humana à natureza, foi ampliado nos
anos 60 do século XX, quando ganhou corpo a crítica dos ambientalistas ao modelo de
desenvolvimento proposto pelas sociedades ocidentais, principalmente a estadunidense. É nesse
14
VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
contexto de crise socioambiental dos anos 60 do século XX que emerge a “questão ambiental”.
(GONÇALVES, 2004)
Os altos níveis de consumo e produção industrial começavam a ser questionados, pois
causavam paralelamente grandes níveis de poluição que eram devolvidos à natureza sem muita
preocupação por parte da sociedade. O uso indiscriminado dos recursos naturais levou a problemas
de grandes proporções como a erosão e a desertificação de áreas agrícolas, a contaminação do solo e
de lençóis freáticos por agrotóxicos e dejetos industriais e até o lixo, os restos da civilização, se
transformou em um sério problema, pois sua quantidade aumentava (e aumenta), causando a
proliferação de insetos, bactérias e germes causadores de doenças para os seres humanos.
Nosso objetivo é apresentar e trocar informações a respeito de nossa pesquisa desenvolvida
no curso de Mestrado em História Social da Universidade Estadual de Londrina sob a orientação do
professor Dr. Jozimar Paes de Almeida. Procuraremos, num primeiro momento, definir nosso objeto
de pesquisa por meio da exposição de nosso problema temático, do local e da temporalidade que
pretendemos abordar: políticas públicas ambientais - Guarapuava-PR – 1971-2011.
Na segunda parte do texto, procuramos elaborar uma interpretação das possibilidades de
análise do tema por meio da perspectiva da História Ambiental, procurando assim contribuir para a
ampliação do entendimento do problema por intermédio de nossa pesquisa.
Na etapa seguinte, definiremos de que maneira o entendimento da história das políticas
públicas, compreendidas como instrumentos de gestão e resolução de problemas socioambientais,
podem ajudar a entender as formas de enfrentamento da questão da produção, coleta e destinação do
lixo urbano residencial.
Nesse momento também pretendemos contextualizar o problema da questão do “lixo” em
relação à cidade de Guarapuava, no estado do Paraná, objeto de nossa pesquisa. Apesar de
trabalharmos com uma situação local como objeto de análise, entendemos que a questão ambiental é
uma questão global, pois os problemas em si são bastante semelhantes, visto que a essência das
atividades humanas também o é.
Tais atividades são provenientes de um sistema produtivo onde os 20% dos habitantes mais
ricos do planeta consomem quase 80% dos recursos naturais e onde o atual estilo de vida “[...] vivido
pelos ricos dos países ricos e pelos ricos dos países pobres, em boa parte é pretendido por aqueles
que não partilham esse estilo de vida”, configurando um modelo-limite e um “[...] sério risco para
15
VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
todo o planeta e para toda a humanidade”, submetendo todos a uma mesma lógica de caráter
predominantemente mercantil. (GONÇALVES, 2004, p.31)
Concluiremos nosso texto relatando alguns resultados preliminares de nossa pesquisa e
informações a respeito das políticas públicas implementadas no município de Guarapuava,
pretendendo contribuir para ampliar o entendimento da questão ambiental relacionada ao tema da
produção, coleta e destinação de lixo urbano residencial em nossa sociedade.
1 – O objeto e os objetivos da pesquisa
O “lixo”, subproduto de qualquer sociedade, está presente em todos os momentos da
história humana. O ser humano, vivendo em sociedade, produz os bens que necessita através do seu
trabalho e, ao final, sempre sobram restos das diversas atividades que realiza e que, para alguns seres
humanos, não servem para mais nada. Esses restos, sobras, pedaços, trapos, rejeitos, dejetos,
resíduos, mais comumente chamados de “lixo”, oriundos das atividades sociais e produtivas da
própria sociedade, começaram a se tornar um problema socioambiental quando sua quantidade
aumentou demasiadamente. O “lixo” se transformou em um problema social, ambiental e político de
grande relevância para a sociedade e configura-se como objeto de estudo de diversas pesquisas
científicas, entre elas a nossa.
O conceito “resíduos sólidos” passou a fazer parte da terminologia de pesquisas e trabalhos
científicos recentemente em substituição ao conceito “lixo”, pois se mostrou um conceito mais
abrangente para definir a grande quantidade, e os diversos tipos de rejeitos produzidos pelas
sociedades urbanas contemporâneas. (ASSUNÇÃO et alii, 2007) Apesar da maior abrangência do
conceito, em alguns momentos utilizaremos o conceito “lixo” por ser, a nosso ver, um conceito
popularmente mais conhecido e mais utilizado para designar aquilo que, para muitos de nós, não nos
serve mais e pode ser levado “[...] para bem longe, onde possa livremente sujar, cheirar mal e atrair
doenças”. (GOULART, 1989)
Apesar de serem sinônimos, podemos diferenciar os conceitos da seguinte maneira, “lixo” é
tudo aquilo que não tem mais serventia alguma para a sociedade, sendo, portanto necessário dar-lhe
um destino ambientalmente adequado e seguro. O termo “resíduo” define tanto os rejeitos sem
serventia e ambientalmente perigosos, quanto todo e qualquer outro rejeito da sociedade como, por
16
VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
exemplo, o lodo de esgoto, plásticos, papelão, latas, vidros e restos de alimentos, que podem ser
reaproveitados pela sociedade em outras atividades e mesmo em processos industriais.
A temporalidade estabelecida na pesquisa abrange um período que se estende da década de
70 do século XX até o ano de 2011, primeira década do século XXI. Tal marco cronológico levou
em consideração características do desenvolvimento sócio-político envolvidos com o tema, como a
instalação de leis e políticas públicas municipais preocupadas com os recursos naturais e com os
impactos humanos em relação ao meio ambiente.
Em nossa pesquisa temos como objetivo investigar de que maneira o poder público de
Guarapuava elaborou suas políticas públicas ambientais e quais foram as forças sociais e políticas que
atuaram nessa elaboração, conferindo à cidade sua atual política pública ambiental. Assim buscamos
especificamente compreender como são produzidas as políticas públicas, analisar e comparar a
legislação ambiental municipal, estadual e federal e, entender como o Estado e a sociedade local
lidaram com os problemas decorrentes da geração de resíduos sólidos urbanos (lixo domiciliar) na
temporalidade estabelecida, buscando opções para resolvê-los ou minimizá-los.
2 - A História e o Meio Ambiente - História Ambiental
Adentrar o campo de estudos ambientais vem se tornando uma prática comum aos
historiadores e outros cientistas sociais. Apesar de relativamente novo, o interesse pela questão
ambiental por parte dos historiadores, fruto do alargamento das temáticas abordadas pela ciência
histórica no século XX, assumiu uma importância muito elevada na sociedade devido aos diversos
efeitos negativos que a atividade humana causou (e ainda causa) em todo o planeta. (ALMEIDA,
2011; MARTINEZ, 2006).
Contaminação das águas, dos solos, do ar, derramamentos de petróleo, contaminação
radioativa, destinação incorreta do lixo urbano e outros problemas fizeram com que a temática
ambiental se tornasse obrigatória nos debates e pesquisas acadêmicas, nos programas de governo,
nos discursos políticos, na legislação e até no discurso da propaganda comercial. Apesar das
preocupações de diversas pessoas e entidades com o meio ambiente, tentando melhorar nossa
relação com a natureza, ajudando assim a sociedade e o ser humano a ter um mundo melhor; nossa
realidade demonstra que esses esforços ainda são de uma minoria.
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VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Para Martinez (2006, p. 16) “[...] o desprezo pelo passado e a indiferença quanto ao futuro,
que a sociedade brasileira, em particular, parece nutrir secularmente, aproxima o conhecimento
histórico e o debate de questões ambientais neste início de século”. Para o autor supracitado, esse
contexto de presentificação da sociedade causa uma séria crise de apatia e imobilismo, reforçando o
sentimento de impotência individual e coletiva para promover mudanças de maior vulto. Assim, a
história tem um importante papel dentro da busca pelo entendimento do mundo em que vivemos e
das questões que nos são colocadas pela sociedade.
Em sua obra “História Ambiental no Brasil – pesquisa e ensino”, Martinez tece comentários
a respeito da profícua relação existente entre História e Natureza. Tal relação tem despertado
interesse em diferentes cientistas e grupos sociais, de diversas partes do planeta, para pesquisar mais
profundamente a relação da sociedade com o meio ambiente.
Também Almeida (2011, p. 259), contribuindo para o entendimento da questão da relação
entre História e Meio Ambiente, nos diz que esta relação “[...] deve fundamentar-se nas
complexidades e constelações conceituais de caráter interdisciplinar, ultrapassando desta forma as
fronteiras das disciplinas científicas que fragmentam o conhecimento em áreas estanques”,
demonstrando dessa forma o caráter fundamentalmente holístico que a pesquisa ambiental deve
buscar.
Martinez, comentando o aumento do empenho de cientistas, particularmente dos
historiadores, em tentar entender a relação sociedade-natureza recupera as origens do
desenvolvimento da História Ambiental e coloca-nos diante da raiz dos problemas enfrentados pela
sociedade, a chamada crise ambiental
[...] que tem como características principais a contaminação da biosfera e da
atmosfera pelos resíduos das atividades produtivas e de consumo [...] ela adquire
maior alcance social e dimensões planetárias na década de 1960. É uma crise
derivada da insustentabilidade dos padrões de produção e de consumo criados pela
sociedade industrial e que não parou de expandir-se desde a segunda metade do
século XVIII até os dias de hoje. (2006, p. 52/53)
Também entendemos, com base em Gonçalves (2001), que nossa sociedade está a cada dia
destruindo suas fontes de sobrevivência acreditando que a ciência e a tecnologia poderão corrigir os
erros cometidos pela nossa geração e pelas gerações anteriores. Tal maneira de pensar parece-nos,
como ao autor, um ledo engano, pois segundo Gonçalves (2001, p. 123/124) “[...] é preciso que fique
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claro que a solução dos problemas ambientais não é de natureza técnica, mas de uma opção políticocultural”.
Nesse sentido, gostaríamos de salientar que a existência, na sociedade, de uma racionalidade
econômico-crematística capitalista (GONÇALVES, 2004), baseada na apropriação e exploração da
natureza, não respeita o tempo dos processos naturais de metabolização dos rejeitos da sociedade,
aumentando o grau de desestabilização entrópica nos processos naturais. (ALMEIDA, 2011)
Entendemos assim, que a abordagem proposta pela História Ambiental pode produzir uma
grande contribuição no entendimento da questão ambiental por buscar uma inter-relação entre as
atividades sociais inerentes ao ser humano e seus impactos na natureza, envolvendo o passado e o
presente numa tentativa de entendimento holístico do sentido que demos e damos à nossa vida em
sociedade e às nossas ações enquanto seres pensantes.
3 - Políticas Públicas Ambientais
O debate teórico em torno da definição de políticas públicas ocorre por meio de diversas
proposições teóricas, porém elencaremos três modelos principais de análise: o pluralismo, o
marxismo e o neoinstitucionalismo. Para os efeitos de nosso estudo procuraremos uma abordagem
que, centrada no debate do neoinstitucionalismo, também não deixa de lado as outras abordagens.
Tal proposição se mostra pertinente na medida em que nenhuma das teorias referidas dá conta de
explicar de forma definitiva tal tema. (SOUZA, 2006)
As políticas públicas são instrumentos de decisão política através dos quais o Estado busca
resolver problemas enfrentados por uma determinada sociedade específica. A maneira como essas
decisões são tomadas depende também de como a sociedade encara esses problemas e de como se
posiciona em relação a eles e ao poder político.
Entendemos que a sociedade, ao defender seus interesses, toma posições que podem ser
favoráveis ou contrárias a determinadas posições políticas do Estado, ou de seus representantes, pois
não necessariamente o interesse do Estado e de seus agentes representa a vontade da maioria da
sociedade ou menos ainda da totalidade da sociedade.
Assim, por meio de uma série de mecanismos de debate e troca de informações técnicas e
sociais, o Estado elabora determinadas políticas públicas para enfrentar e resolver os problemas que
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emergem e exigem soluções. O estudo das políticas públicas tem como objetivo mais recente
entender como e porque os governos optam por determinadas ações em detrimento de outras.
(SOUZA, 2006)
A teoria pluralista do Estado democrático afirma que nas sociedades industriais ocidentais o
poder está amplamente dividido entre diversos grupos de interesse e que todos os grupos tem
possibilidade de influenciar o processo de tomada de decisões. O pluralismo ganhou interesse nos
Estados Unidos com os estudos de Robert Dahl(1961) e Nelson Polsby (1963). De acordo com esses
autores, embora os grupos de interesse não tenham o mesmo grau de influência no processo
decisório, mesmo os grupos mais fracos poderiam ser ouvidos e ter influência em algum momento
do processo. Dessa maneira, para Ham e Hill (1993, p. 47)“[...] o poder tenderia a ser fragmentado e
difundido nos sistemas políticos e o quadro básico apresentado pelos pluralistas é o do mercado
político onde o que um grupo alcança depende de seus recursos e do ‘nível de decibéis’ que é capaz
de emitir”.
Já a teoria marxista compreende o Estado como palco da defesa dos interesses burgueses,
sendo as políticas públicas implementadas para defender esses interesses. Uma das contribuições do
marxismo para a análise de políticas públicas é trazer para o debate a questão da influência
econômica nos assuntos políticos. Assim, com base nessa teoria, podemos evitar o engano de
esquecer a relação que certamente existe na sociedade capitalista entre o poder econômico e o poder
político. Porém, não devemos transformar o Estado em um títere dos interesses da classe burguesa,
visto que algumas vezes o Estado age priorizando interesses não-burgueses. (HAM; HILL, 1993)
A teoria neoinstitucional por sua vez coloca o foco de sua abordagem no papel e na
importância das instituições e, principalmente do Estado, na decisão, formulação e implementação
de políticas públicas. Essa teoria, segundo Rocha (2005), recoloca o Estado como palco de análise
privilegiado e teria sido formulada nos anos 80, sendo Skocpol (1985) “uma das primeiras autoras a
propor uma reorientação teórica em relação às abordagens precedentes e a tentar organizar as bases
da análise neoinstitucionalista”. (ROCHA, 2005, p. 13) Para o neoinstitucionalismo
“[...] o Estado, ao contrário do que defendem os pluralistas e marxistas, não se
submete simplesmente a interesses localizados na sociedade, sejam das classes ou
dos grupos de interesse. As ações do Estado, implementadas por seus funcionários,
obedecem à lógica de buscar reproduzir o controle de suas instituições sobre a
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sociedade, reforçando sua autoridade, seu poder político e sua capacidade de ação e
controle sobre o ambiente que o circunda.” (ROCHA, 2005, p. 14)
Assim, a grande contribuição do neoinstitucionalismo está, segundo Souza (2006, p. 39), “[...]
no entendimento de que não são só os indivíduos ou grupos que tem força relevante influenciam as
políticas públicas, mas também as regras formais e informais que regem as instituições”. O que move
a formulação de políticas públicas é a luta por poder e recursos entre grupos sociais e os embates são
mediados pelas instituições políticas e econômicas. Nesse embate, as políticas públicas caminham
para direções que privilegiam alguns grupos em detrimento de outros, além de sofrerem a influência
de interesses, de ideias e da própria história social, como enfatizam outras vertentes do
neoinstitucionalismo. (SOUZA, 2006)
Dessa forma, ao estudarmos a questão das políticas públicas ambientais, nosso esforço de
interpretação será no sentido de buscar não uma única teoria explicativa, mas uma junção dessas três
teorias para tentar melhor interpretar a maneira como foram definidas ao longo dos anos as políticas
públicas relativas a questões ambientais na cidade de Guarapuava/PR.
Tal esforço a nosso ver é de suma importância para a busca de uma interpretação mais ampla
e holística, da sociedade e das instituições do Estado como definidoras de políticas públicas relativas
ao meio ambiente. Esperamos poder contribuir para a ampliação do entendimento da sociedade e da
busca por uma opção política que melhore a relação de nossa civilização com a natureza.
3.1 - As políticas públicas ambientais em Guarapuava.
Guarapuava é a cidade sede do município de mesmo nome, está localizada na região centrosul do estado do Paraná, região sul do Brasil. Desde sua fundação, na primeira metade do século
XIX, até o início da primeira metade do século XX as principais questões ambientais que
preocupavam o poder público estavam relacionadas ao abastecimento de água no núcleo urbano e ao
problema do esgotamento sanitário.
A partir dos anos 40 e 50 do século XX ocorreu um destacado dinamismo da economia da
cidade. Este dinamismo foi propiciado por uma atividade comercial mais intensa com a atividade
madeireira, nos anos 40, e a introdução da agricultura comercial nos anos 50. Nas décadas seguintes,
essas condições propiciaram os primeiros momentos de um processo de industrialização,
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urbanização acelerada, e o conseqüente desenvolvimento de novas demandas socioambientais.
(KOBELINSKI, 1999; TEMBIL, 2007).
O município de Guarapuava possui atualmente cerca de 170 mil habitantes e uma relativa
significação econômica na região central do Paraná. Até os anos 70 do século XX, sua população era
majoritariamente rural, havendo a partir de então um movimento de êxodo rural que acabou por
trazer à cidade a maior parte da população, acarretando uma periferização acelerada devido ao rápido
crescimento populacional no núcleo urbano, assim como o aumento de vários problemas
socioambientais, entre eles o aumento da produção de resíduos domiciliares e os problemas
decorrentes de sua destinação pelos órgãos responsáveis. (ANTONIO, 2009)
A população de Guarapuava produz cerca de 3.000 toneladas/mês de resíduos sólidos
decorrentes da coleta comercial, domiciliar e pública: varrição de ruas, capina. Desse total 2.000
toneladas são de compostos orgânicos, 800 toneladas de materiais recicláveis e 200 são de entulho,
aproximadamente. A Companhia de Serviços e Urbanização de Guarapuava (SURG), criada pela Lei
no52/1971, é a responsável pelo planejamento e execução dos serviços de coleta e destinação final de
resíduos sólidos do município e também é a gerenciadora do Fundo de Urbanização de Guarapuava
(FURG). (HERZER et alii, 2009)
O outro órgão administrativo municipal responsável por questões ambientais em
Guarapuava é a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Florestal
(SEMAFLOR). A SEMAFLOR é responsável pelo planejamento e gestão de diversos projetos
ambientais do município, entre eles os de coleta seletiva (em parceria com a SURG e com a
Associação dos Catadores de Papel de Guarapuava) e o projeto ECOFEIRA. A secretaria também é
responsável por fiscalizar os serviços de coleta de resíduos do sistema de saúde pública, que está a
cargo de uma empresa privada, e fiscalizar o serviço de caçambas de entulho de construção civil.
Desta forma, interessou-nos entender como o poder público, por meio das instituições
públicas e políticas (prefeitura, câmara de vereadores, secretarias municipais, partidos, associações),
representantes do Estado e da sociedade civil na esfera municipal, formulou as políticas públicas
municipais que tratam da produção e destinação dos resíduos sólidos domiciliares.
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Considerações finais.
Procuramos entender como as políticas públicas ambientais municipais vislumbraram esses
problemas e quais foram às soluções buscadas pelo poder público para resolver os problemas
ambientais que emergiram nesta sociedade. Além disso, também procuramos esclarecer quais foram
os temas que estiveram presentes nos debates para formulação das políticas públicas ambientais.
Nossa pesquisa junto a fontes legais e legislativas municipais mostra poucas ocorrências da
questão da produção, coleta e destinação do lixo urbano residencial, demonstrando que o tema foi
tratado de forma complementar nos projetos de lei e nas leis posteriores. As políticas públicas
ambientais desenvolvidas no município de Guarapuava até o final dos anos 90 se preocupou com o
assunto de maneira indireta, contemplando o tema dentro de uma política urbana mais geral, a
exemplo da Lei no 8/1981 (cria o Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente) e a Lei no
37/1986 (Zoneamento de uso e ocupação do solo do perímetro urbano).
Destacamos também a predominância de ação do poder executivo na proposição de políticas
públicas ambientais em Guarapuava. A pesquisa demonstra que algumas políticas públicas
implementadas no município não partem da estaca zero. O poder público optou por melhorar ou
adequar uma política já existente. Configura-se nas políticas públicas em Guarapuava, dessa forma,
um modelo de política pública de processo incremental. (SOUZA, 2006)
Os exemplos mais característicos dessas políticas incrementais são as que instituíram os
Planos Diretores Municipais (Lei no 1101/2001, Lei Complementar no 016/2006 e Lei no 1882/2010)
e também as que instituem os Zoneamentos de uso e ocupação do solo urbano (Lei no 37/1986, Lei
Complementar nº 02/91, Lei nº 1024/2001 e Lei nº 024/2008), complementando, melhorando ou
adequando a legislação anterior a normas federais ou estaduais que regulamentam o assunto e às
quais a legislação municipal é obrigada a respeitar e se enquadrar.
Temos ainda um longo caminho a percorrer no entendimento de como foram e estão sendo
formuladas as políticas públicas ambientais em Guarapuava, mas consideramos de fundamental
importância trilhar esse caminho na busca de uma compreensão socioambiental da história e de uma
contribuição para o aprofundamento da democracia na política socioambiental.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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KOBELINSKI, Michel. Guarapuava é isto aqui: da sedução dos discursos ao “marketing” da
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
ROCHA, Carlos V.. Neoinstitucionalismo como modelo de análise de políticas públicas: algumas
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TEMBIL, Márcia. Em busca da cidade moderna: Guarapuava... recompondo histórias,
tecendo memórias. Guarapuava: UNICENTRO, 2007.
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PALESTINA: AVISÃO DE UM ESTADOUNIDENSE POR MEIO DOS QUADRINHOS
José Rodolfo Vieira
Richard Gonçalves André
Resumo
Bombardeado pela mídia estadunidense, um jornalista que ganha sua vida desenhando cartazes para
bandas alemãs resolve viajar para a Palestina e tentar entender por meio de sua própria visão os
acontecimentos e as personagens desconhecidas que integram a história contemporânea do Oriente
Próximo. Após a leitura de “A questão da Palestina”, de Edward W. Said, Joe Sacco percebe que os
fatos relatados pela mídia de seu país não condiziam com a questão levantada por Said em sua obra.
Não obstante, Sacco parte para a Palestina com a intenção de produzir quadrinhos sobre sua viagem
e acaba por escrever uma grande obra a qual se tornou uma nova forma de narrativa jornalística, “o
quadrinho jornalístico”. Por meio de uma narrativa totalmente descontraída, Joe apresenta uma nova
Palestina. Representa por meio de seus desenhos a tensão e a luta de um povo pela busca de seus
direitos. Portanto, a pesquisa tenta compreender a visão de Joe Sacco, estadunidense e jornalista, do
outro lado da história.
Palavras Chaves: Palestina, Joe Sacco, Quadrinhos.
O objetivo deste trabalho é analisar a visão de Joe Sacco em sua relação com palestinos e
israelenses. Em meio a uma forma totalmente descontraída, Joe representa uma nova Palestina, por
meio de seus, desenhos representa a tensão e a luta dos palestinos em busca de seus direitos.
Portanto, esta pesquisa tenta compreender a visão de Joe Sacco, estadunidense e jornalista, ou seja, o
outro lado da História.
Joe Sacco nasceu em Malta em 1960, porém, quando adolescente foi morar nos Estados
Unidos. Em 1981, Sacco se graduou em jornalismo pela Universidade do Óregon. Em 1991 Joe
rodava o mundo desenhando. Seu único trabalho até o momento era “Yahoo” produzido e editado
entre 1988 e 1992. Em 2006 a Editora Conrad publicou no Brasil como “O Derrotista”. Foi assim
que Joe se destacou no mundo dos quadrinhos underground. Em “O Derrotista”, Sacco reúne por
meio de um humor sarcástico sua autobiografia e seu diário de viagens. Mas foi somente em 1993
que Sacco se lançou para o mundo. Após sua passagem de dois meses pela Palestina, surge
“Palestina: uma Nação ocupada” em 1993 que se mostrou a base de seu gênero, uma nova forma de
narrativa jornalística: o quadrinho jornalístico.
Cansado da fraca cobertura realizada pela imprensa americana sobre os conflitos entre Israel
e Palestina, e depois da leitura da obra de Edward W. Said “A questão Palestina”, Sacco problematiza
as divergências entre ambas as fontes e resolve por contra própria conhecer os acontecimentos.
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Como jornalista, indignava-se ao observar que as notícias advindas daquela região além de
demonstrar qualidade questionável, também eram vergonhosas. Outro ponto que o deixava
indignado, Sacco deixa claro em seu prefácio para “Palestina – Edição Especial” que a corroboração
dos Estados Unidos na investida israelense colabora nas informações disseminadas pela mídia de seu
país. A situação de colaborar indiretamente com esta guerra – com seus impostos – não agradava a
Joe financiar uma colonização brutal como a israelense sobre os palestinos. Assim nasce a iniciativa
de viajar a Palestina e relatar por meio de seus desenhos uma nova versão do conflito.
Por meio de Edward W. Said (1990), podemos verificar historicamente a função do Oriente
para o Ocidente. Os acontecimentos ocorridos no Oriente refletem ao Ocidente e os acontecimentos
do Ocidente também refletem ao Oriente.
...assim como o Ocidente, o Oriente é uma ideia que tem uma história e uma
tradição de pensamento, imagística e vocabulário que lhe deram realidade no e para
o Ocidente. As duas entidades geográficas, desse modo, apoiam e, em certa medida,
refletem uma a outra. (SAID, 1990, p.16)
Introduzido no contexto da Guerra do Golfo (1990-1991), o papel dos meios de
comunicação estadunidenses em veicular ou manipular informações no qual Sacco recepcionava e
indignava-se, criavam interpretações carregadas de simbolismo negativo sobre o povo árabe.
As representações criadas sobre o Oriente advêm da produção de materiais que
estão mais ligados à política que influencia aquele que estuda o Oriente. Um
estadunidense ou europeu olham o Oriente através da política e interesse de seus
países sobre o próprio Oriente, ou seja, dominação. Assim, a criação de várias
interpretações de que “nós” podemos e “eles” não podem surgem dessa
interpretação carregada de símbolos próprios e subjetivos que acabam por ofuscar
o que realmente é o Oriente. (SAID, 1990, p.24)
Influenciado pelos quadrinhos undergrounds dos anos 60 e 70 de Robert Crumb – porém sem
aquela “pegada” pornográfica e mais ligado à utilização do próprio autor como personagem principal
das histórias – Sacco apresenta uma maneira diferente de fazer histórias em quadrinhos, o
“quadrinho jornalístico”.
Com a intenção de produzir um material mais fidedigno do que as notícias apresentadas pela
mídia estadunidense, Joe nos apresenta o que seria resultado de suas pesquisas. Sacco (2011, p. 12)
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EM HISTÓRIA SOCIAL
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retorna para dois pontos distintos desta história: a questão religiosa e a questão política. Na questão
religiosa, Joe ilustra a imagem de Deus ao dizer as palavras do Livro de Josué 1:3, que diziam “Todo
lugar que as plantas de seus pés pisarem, eu darei a vocês conforme prometi a Moisés. O território de
vocês irá desde o deserto até o Líbano, e desde o grande rio Eufrades até o mar Mediterrâneo no
Ocidente.” Portanto, Sacco tem consciência da importância de introduzir a questão religiosa do
conflito, apresentar os motivos israelenses pela luta da Palestina. Sobre a questão política, Sacco
atravessa milhares de anos após a diáspora judaica e representa Lorde Balfour (Ministro do Exterior
britânico) e sua famosa Declaração de Balfour de 1917 no qual apoiava as aspirações sionistas de
criação de um Estado Nacional judeu na Palestina. Nela, o então Primeiro-Ministro da Inglaterra, tira
o pó da promessa divina e compromete-se ao movimento Sionista conquistar a Terra Santa
prometida. Portanto, Joe se mostra interessado em levantar questões muitas vezes omitidas pelos
noticiários ao qual estava habituado. Apresentar ao seu leitor possibilidade de entendimento e
compreensão de um conflito que se estende desde 1948, constituição do Estado Nacional judeu.
Além das pesquisas documentais realizadas por Sacco, como jornalista por formação,
também buscou relatos de inúmeras personagens para compor seu trabalho. Sacco buscava por meio
de suas entrevistas compreenderem o cotidiano dos palestinos. Além disso, apresenta a seus leitores a
opinião daqueles que não são ouvidos pelos meios de comunicação ao qual criticava.
O Acordo de Paz de Oslo firmado entre Yasser Arafat, presidente da OLP (Organização pela
Libertação da Palestina), Yitzhak Rabin, Primeiro Ministro do Estado de Israel e o presidente dos
Estados Unidos, Bill Clinton em 1993, surge como exemplo para Sacco representar a voz do povo
palestino por meio dos quadrinhos. Em sua passagem por Jenin, Sacco entrevista um ex-professor
cuja sua opinião sobre os acordos de paz entre Israel e Palestina apresenta uma visão negativa sobre
as possíveis mudanças trazidas pelos acordos, conforme imagem 01. As palavras de Norman G.
Finkelstein corroboram para melhor compreendermos essa afirmação:
Graças sobretudo a subsídios governamentais israelenses, a população de colonos
israelenses aumentaram de 250.000 para 380.000 no período de Oslo,
intensificando-se as ações dos colonos mais durante o governo do trabalhista Ehud
Barak do que durante o governo de Benjamin Netaniahu, do Likud, Ilegais aos
olhos do direito internacional e erguidas em terras ilegalmente tomada dos
palestinos, essas colônias ocupam atualmente quase metade da superfície da
Cisjordânia. Sob todos os aspectos práticos, foram anexadas a Israel (as leis
israelenses se aplicam não só aos judeus israelenses como aos judeus nãoisraelenses que residem nas colônias), e a elas os palestinos não podem ter acesso
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sem autorização especial. Fragmentando a Cisjordânia em enclaves desconexos e
inviáveis, elas tem constituído um obstáculo para o desenvolvimento palestino.
(FINKELSTEIN, 2005, p. 24).
Imagem 01: SACCO, Joe. Palestina. São Paulo, SP: Conrad Editora do Brasil, 2011. P. 278
No início da obra, Sacco parece não ter problema algum em demonstrar seus sentimentos
pelos palestinos. Após ser pressionado e intimidado por garotos palestinos, ele apresenta estar
emocionalmente abalado, indignado e demonstra claramente neste desenho na imagem 02. Por outro
lado, é importante ressaltar que ao longo da obra Joe Sacco aproxima cada vez mais da situação
palestina. A cada casa que visitava, além de sempre ser bem acolhido, ele demonstra empatia pelos
relatos coletados de seus entrevistados. Claro que em todos sempre há uma pitada satírica, porém,
em conversa com duas arquitetas israelenses, Sacco chega ao ponto de alterar seu humor em uma
acalorada discussão sobre a violência israelense na Palestina. A imparcialidade neste momento da
obra pode ser considerada de grande importância. Assim, os sentimentos de Joe no decorrer de sua
obra parecem ser afetados pelo próprio trabalho. Ao contrário de qualquer outro trabalho
jornalístico, esta subjetividade – que às vezes passa despercebida pelos leitores mais desatentos –
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torna “Palestina” original em relação a outros trabalhos jornalísticos. Sacco portanto, não se
preocupa com o ideal prático jornalístico da imparcialidade.
...seria imprudente atribuir a esses artistas repórteres um “olhar inocente” no
sentido que fosse um olhar totalmente objetivo, livre de expectativas ou
preconceitos de qualquer tipo. Tanto literalmente quanto metaforicamente, esses
esboços e pinturas registram um “ponto de vista. (BURKE, 2004, p. 24).
Imagem 2: SACCO, Joe. Palestina. São Paulo, SP: Conrad Editora do
Brasil, 2011. P.24
Segundo Edward W. Said (1990, p. 39), “A teia do racismo, dos estereótipos culturais do
imperialismo político e da ideologia desumanizante que contém o árabe muçulmano é realmente
muito forte, e é esta teia que cada palestino veio a sentir como seu destino singularmente punitivo”.
Portanto, ao retratar sua postura rígida ao centro da imagem diante dos palestinos mais ao fundo,
representa seu “racismo exacerbado” diante deles (palestinos apresentados na imagem) após o
acontecimento isolado em contato com os garotos palestinos. A “invisibilidade do visual” comentada
por Peter Burke (2004, p.12) no qual podemos ir mais profundamente à experiência através da
imagem.
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O realismo parece estar bem presente na obra de Sacco. Em “Maus” de Art Spielgman
(2009), Art parte dos relatos do pai para representar os cenários de seus quadrinhos, assim, é a
representação de uma representação narrativa. Já Sacco parte de suas próprias observações, e, o
realismo de seus desenhos apresenta uma originalidade do desenhista. A perspectiva apresentada por
Sacco também merece destaque, além de noções de profundidade, luz e sombra em seus desenhos,
os detalhes apresentados em seus cenários corroboram na representação de uma breve noção do
cotidiano dos árabes palestinos refugiados. O realismo de Sacco pode ser analisado segundo as
palavras de Peter Burke (2004, p. 17), pois “nos permitem imaginar o “passado” de forma mais
vivida”.
Tanto que, Sacco não tem a preocupação de detalhar seus desenhos com explicações através
de descrições minuciosas, por outro lado, Spielgman (conforme imagem 3 ) detalha minuciosamente
sua representação de um crematório em Auschwitz.
Porém, ambas se assemelham pela utilização do preto e branco. Segundo Peter Burke (2004,
p. 20), a utilização do preto e branco é muito utilizada nas transições de mensagens orais para
tornarem mais “serenas”, do que a comunicação colorida que é mais ilusionista e estimula certo
distanciamento pelo observador.
Por conseguinte, podemos observar a tentativa de Joe Sacco em representar sua viagem pela
Palestina. Com o intuito de apresentar um material jornalístico, Joe se torna grande precursor de uma
nova forma de narrativa histórica, o “quadrinho jornalístico” ao apresentar aos seus leitores o
cotidiano do povo palestino em meio à repressão israelense. Também podemos notar as
singularidades nos desenhos de Sacco, ou seja, ao contrário de obras consagradas como “Maus” de
Art Spielgman, Sacco nos proporciona a releitura de uma pequena parte da história do Oriente
Próximo através dos desenhos de sua viagem.
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Imagem 03: SPIELGMAN, Art, Maus, a história de um sobreviviente. São Paulo, SP:
Companhia das Letras, 2009. p.230
Imagem 4: Joe. Palestina. São Paulo, SP: Conrad Editora do Brasil, 2011. p.146
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Referencias Bibliográficas
BURKE, Peter.Testemunha Ocular: História e Imagem. Bauru, SP: EDUSC, 2004.
FINFELSTEIN, Norman G. Imagen e realidade do conflito Israel-Palestina. Rio de Janeiro, RJ:
Record, 2005.
SACCO, Joe. Palestina. São Paulo, SP: Conrad Editora do Brasil, 2011.
SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo, SP:
Companhia das Letras, 1990.
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
REGIME MILITAR E TRANSIÇÃO POLÍTICA: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
HISTORIOGRÁFICAS
Alisson Guilherme Gonçalves Bella
Márcio Santos de Santana
(História – Universidade Estadual de Londrina)
Ao estudarmos a historiografia sabemos que, independendo do tema encontramos vários
autores fazendo conexões entre si, fornecendo informações que se preenchem, onde o leitor tem um
melhor entendimento sobre o tema. Porém, também existem divergências a respeito da forma com
que o assunto é tratado, bem como a nomenclatura e periodização. Este trabalho vem com o
objetivo analisar as diversas ideias propostas por diferentes autores sobre a ditadura militar e a
transição democrática no Brasil.
Quando nos deparamos com a diversidade de estudos historiográficos percebemos que cada
um tem seu próprio modo de expressar seus pensamentos, filosofias e bases históricas que utilizou
para construir seus conhecimentos. Na História do Brasil, desde autores que vão tratar do Brasil
colonial até cientistas sociais que se preocupam em entender sobre os últimos acontecimentos do
país, constatamos que não existe um modelo a ser seguido. Obviamente as correntes históricas
marcam e formatam o pensamento do autor, porém a historiografia tende a ter diversas
interpretações sobre o mesmo estudo.
A historiografia que compõe a ditadura militar não se difere deste quadro. Talvez seja um dos
temas que mais se tem discutido nos últimos anos pelos historiados brasileiros, desde a análise dos
acontecimentos precursores do golpe de 64 até as estratégias políticas que os lideres do país tiveram
que articular na chamada Nova República. É com certeza um recorte histórico intrigante, que vai
nortear o futuro do país, o setor econômico, a nova estrutura política, a constituinte entre outros
aspectos do país que aos poucos tem se formatado após as grandes mudanças, rupturas e transições
que sofreu após a ditadura militar.
Adriano Nervo Codato (2005) faz uma grande reflexão sobre a periodização da ditadura
militar em seu artigo Uma história política da transição brasileira: da ditadura à democracia onde trata
o assunto segregando-o em cinco partes:
Uma primeira fase, de constituição do regime político ditatorial-militar, corresponde,
grosso modo, aos governos de Castello Branco e Costa e Silva (de março de 1964 a
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dezembro de 1968); uma segunda fase, de consolidação do regime ditatorial-militar
(que coincide com o governo Medici: 1969-1674); uma terceira fase, de transformação
do regime ditatorial-militar (o governo de Geisel: 1974-1979); uma quarta fase, de
desagregação do regime ditatorial-militar (o governo de Figueiredo: 1979-1985); e por
último, a fase de transição do regime ditatorial-militar para um regime liberaldemocrático (o governo de Sarney: 1985-1989). (CODATO, 2005, p. 83)
Esta análise feita por Codato, facilita ao leitor entender o que foi a ditadura militar. Ainda no
mesmo artigo, o autor descreve uma sexta fase onde o regime liberal-democrático se consolida sob a
presidência de Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Desta maneira, Codato
periodiza o regime militar partindo da política administrativa dos presidentes. Na fase de constituição
do regime o autor elenca as medidas tomadas pelos presidentes Castello Branco e Costa e Silva
alterando a constituição através dos AI – Atos Institucionais. Segundo Codato é desta maneira que o
regime militar foi formatado e inserido na sociedade brasileira. Para o autor, no governo de Geisel
anunciou-se uma política de modificação do regime. Neste primeiro momento recebeu o nome de
“distensão política” promovendo segundo o autor um “relaxamento dos controles políticos impostos
à sociedade” (CODATO, 2005, p. 93). No governo de Figueiredo o termo utilizado foi “política de
abertura”. Mas, foi somente no governo de Sarney em diante que esse processo iniciado pelos
militares seria chamado de “transição política”.
Contrastando com Codato temos o autor Marco Aurélio Nogueira, que roteiriza seu artigo
Da política do possível às possibilidades da política: Notas sobre a transição democrática no Brasil um estudo mais
ampliado do processo de ditadura militar e transição democrática. Sob esse aspecto Nogueira
apresenta uma abordagem menos despreocupada e mais objetiva, organizando seu estudo em duas
ordens:
A primeira de caráter mais geral, diz respeito à própria formação da sociedade
brasileira (...) A segunda, de incidência mais imediata e circunscrita num menor
espaço de tempo, diz respeito ao processo de abertura controlada iniciada em 1974
e à crise do regime tecnocrático-militar (...) (NOGUEIRA, 1986, p. 03)
Desta modo, Nogueira argumenta como a sociedade brasileira tem se transformada desde a
época colonial, com maior atenção para o período de ditadura militar. Até chegar a sua
contemporaneidade, onde destaca o processo de transição do governo e a crise militar.
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É importante destacar ainda a visão do professor de sociologia da Universidade de São Paulo
Basílio Sallum Júnior em seu artigo Transição política e crise de estado. O sociólogo analisa a transição
democrática partindo de três pontos principais:
O primeiro inicia nos anos setenta e encerra-se nos fins de 1982, quando são
escolhidos por eleições diretas os governadores de Estado (...) O segundo vai até o
fim do governo do general João Figueiredo, quando Tancredo Neves é eleito
indiretamente como primeiro presidente civil do país depois de vinte anos de
regime militar e o seu vice José Sarney toma posse no cargo em 15 de março de
1985. Por último o terceiro termina no fim do governo de Sarney quando toma
posse o novo presidente da República, eleito diretamente, Fernando Collor de
Melo. (SALLUM JR., 1993, p. 137)
Sendo assim, Sallum volta-se para um recorte mais específico, onde o processo de transição
democrática inicia-se com as eleições diretas para governadores estaduais em 1982 percorrendo todo
o processo de abertura política sob o governo de Figueiredo e os novos rumos que o país tomou até
o momento em que o artigo tinha sido escrito.
A historiografia correspondente as pesquisas sobre a ditadura militar, destacam que grande
parte das relações sociais, políticas e culturais da época, provinham de uma herança de outros tempos
da república, bem como períodos anteriores a história do Brasil. Desta maneira, podemos destacar o
artigo de José Luis Fiori, Transição terminada: Crise superada? (1990, p. 138), afirmando ser na crise do
regime autoritário a “entropia final de nosso Estado desenvolvimentista”. De modo que, segundo o autor
esse sistema de política administrativa é considerado desatualizado, não se adaptando a realidade
contemporânea.
Nogueira faz em seu artigo uma reflexão sobre a tendência dominante. Para o autor (1986) o
Brasil modernizou-se e industrializou-se, porém, sem deixar de ter caráter de dominação do Estado,
estrutura política derivada da época colonial. Já o autor Sallum Jr. (1993, p. 146), que também
discorre sobre este padrão de dominação política, afirma ser uma política que vem sendo renovada
desde a década de 30. De acordo com o autor, é o “Estado desenvolvimentista capaz de impulsionar
a industrialização em países de desenvolvimento tardio”. Portanto, a dominação política vinha sendo
estruturada e reestruturada desde muito tempo, sendo considerada, ainda de acordo com Nogueira
uma História sem caráter de revoluções e rupturas.
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Para compreendermos a transição democrática no Brasil, devemos antes analisar como o
golpe militar se sucedeu no Brasil. Alzira Alves de Abreu em seu artigo, A mídia na transição democrática
brasileira (2005, p. 53) discorre sobre o papel da mídia no Golpe de 64. Para a pesquisadora, a maioria
dos proprietários dos meios de comunicação apoiaram o golpe, participando inclusive de articulações
para derrubar o governo do até então presidente da República, João Goulart. A questão levantada
por Abreu, vem de encontro com a afirmação de Nogueira ao dizer que o bloqueio popular
aconteceu sem rupturas. Para Nogueira (1986, p. 4): “as “elites” dominantes que, agindo através de
manobras “pelo alto” e utilizando de forma intensiva a intervenção estatal, bloquearam a participação
popular e impediram toda e qualquer tentativa de ruptura.” Deste modo, os militares conseguem
impor um regime autoritário sem que as camadas populares pudessem transformar esse sistema
político, que se perduraria oficialmente até 1989 sob governo de um civil, José Sarney.
Codato (2005) nos ilustra o domínio dos militares sob o Estado sob um ponto de vista
cronológico bastante interessante. Para o autor, em um primeiro momento, onde constitui-se e
consolida-se o regime – de 1964 sob o governo de Castello Branco a 1973 sob a presidência de
Garrastazu Medici – os militares extinguiram os partidos políticos, tornaram as eleições indiretas e
em 1967/1969 criaram uma “Nova constituição” respectivamente. É neste mesmo recorte histórico
que encontramos o aumento da repressão militar. Abreu (2005, p. 55) explana em seu artigo os
reflexos da repressão sobre a mídia. Para a autora: “Os proprietários dos meios de comunicação se
submeteram à censura, em grande parte, devido à dependência econômica que tinham do Estado, o
que funcionou como amortecedor de uma possível oposição” e continua afirmando que
o comportamento dos jornais não foi homogêneo. Alguns cederam às pressões da
censura, outros usaram fórmulas criativas para denunciar a repressão e a falta de
liberdade. Entretanto, as análises, quando se ocupam da mídia, em geral só dão
conta da autocensura e da subordinação da mídia às determinações dos militares.
E foi no governo do general Ernesto Geisel que começou, para a maioria dos autores, o
projeto de liberalização política. Sallum (1993, p. 138) afirma que este mesmo projeto acabou sendo
superado pela “própria dinâmica do processo de liberalização que a desencadeou”. Desta forma,
segundo o autor no fim do governo de Medici duas facções militares se aliaram. Aliança que
vinculava militares “liberais” que impuseram a candidatura do general Ernesto Geisel para a
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presidência. Assim, ainda de acordo com Sallum, os militares conservadores, que acreditavam ser
função mais permanente dos militares os negócios do Estado.
Esta liberalização política foi projetada pelos militares para ser lenta e gradual, sendo esta a
própria legenda do General Geisel. Para Codato, o método para a mudança política era a
centralização e controle. De acordo com o autor (2005, p. 94) o procedimento deveria ser lento para
que não fosse contrario a ideia de revolução, ou seja “uma involução da ‘revolução’ militar. Deveria
ser também ‘gradual, isto é, progressivo e limitado, pois não poderia abrir caminho a uma ofensiva
oposicionista que conduzisse, por exemplo, à uma ruptura democrática”. De fato, muitos autores
afirmam que esta mudança foi lenta e gradual, visto que a transformação teve seu fim somente no
final da década de 80 sob governo de um civil.
Seguramente a mídia teve um grande papel neste processo de abertura política. Abreu afirma
identifica exemplos de atuação da mídia. Para a autora (2005, p. 56), foram utilizadas diversas
estratégias para “lutar em favor a da volta à democracia”. Cabe aqui, elencar quatro das principais
alternativas usadas pelos meios de comunicação da época:
 Os artigos de opinião foram de suma importância para a crítica ao regime político militar. Segundo
Abreu (2005, p. 57), são pessoas que tinham grande prestígio nas suas áreas de competência e que
não pertenciam aos quadros da empresa.” Desta maneira, muitos destes textos tinham chance de
serem publicados, visto que eram especialistas que estavam por trás das tais publicações e não os
jornalistas, que tinham que se submeter ao proprietário do jornal e a prática da autocensura de dentro
dos jornais, por medo de serem presos e torturados como foram alguns de seus colegas.
 As telenovelas – veículo de comunicação de massa, que até hoje atinge uma grande parcela de
brasileiros – foi utilizado como sátira política, atingindo à população. Abreu cita algumas das
telenovelas que foram consideradas importantes dentro desse contexto: “as novelas O Bem Amado,
de autoria de Dias Gomes (1973), Irmãos Coragem, de Janete Clair (1970-1971), Os Deuses estão
mortos, de Lauro César Muniz (1971-1972), e a adaptação de romances de Jorge Amado, romances
de denúncia e crítica à sociedade capitalista.”
 Outro fator importante levantado por Abreu como veículo atuante de comunicação em massa
contrario a ditadura, foi o Jornal Nacional da Rede Globo, que investiu no jornalismo internacional
através de correspondentes, mostrando ao público que outros países estavam caminhando à
democracia.
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
 Os editoriais de economia também influenciaram bastante sob esse contexto. Resultados de
pesquisas econômicas foram divulgados a respeito da política econômica adotada pelos militares.
Alguns aspectos abordados segundo Abreu foram: “distribuição de renda, à pobreza, à questão do
emprego, entre outras”.
Voltemos à questão inicial deste texto: quais são os desdobramentos historiográficos sobre a
transição democrática brasileira e o que eles se convergem e divergem? É certo que, a crise
econômica foi de suma importância para que a falência do regime autoritário dos militares. Para que
tenhamos maior compreensão deste tema analisaremos o texto Conflito federativo e transição política
escrito pelos pesquisadores Eduardo Kugelmas, Brasílio Sallum Jr. e Eduardo Graelf, onde
argumentam que um dos fatores de maior importância para crise financeira é certamente o
endividamento externo. Para os autores (1989, p. 95), neste período “ampliou-se de forma notável o
endividamento dos estados e municípios tanto junto ao governo federal como também no exterior
como parte da deliberada política da captação externa seguida nos anos 70”. Essa referida política vai
trazer ao país de um modo geral um endividamento que culminará na crise econômica estatal.
Para Sallum (1993, p. 152), o governo de Ernesto Geisel promoveu uma estratégia, para
enfrentar os “abalos de origem internacional”, que criaria uma dependência financeira em relação ao
exterior. Em outras palavras, o governo pagou uma dívida velha com um novo endividamento. O
autor ainda afirma que (1993, p. 153), “há um largo consenso de que o estrangulamento das fontes
externas de financiamento da economia brasileira foi o fator final de precipitação da crise do início
dos anos 80”. De acordo com Sallum (1993, p. 133), que idealiza em seu artigo que a transição
democrática deve ser analisada a partir das relações entre o “poder político, estrutura social e
economia”, afirma que a crise econômica está ligada a complexidade da sociedade, de modo que
restringia-se a capacidade do estado para controla - lá.
A visão de Sallum a respeito da crise econômica ser ligada diretamente a crise estatal, vem de
encontro com o pensamento de Fiori. De acordo com o autor
em um mesmo plano e num mesmo tempo, de uma crise de governo, de regime e
de Estado. Tudo parece apontar, a médio prazo, para uma erosão ou
estilhaçamento do poder central que, embora venha ocorrendo de forma gradual,
não consegue esconder sua natureza crua e violenta [...] (FIORI, 1990, p. 146)
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Assim, para Fiori os militares foram, de forma gradual, perdendo seu poder central. A crise
da política vigente contrastando com a econômica vai causar o processo de transição democrática.
Ainda de acordo com Fiori, os anos 80 são marcados como um salto, em relação a dívida externa:
“Nos três primeiros anos da década de 80, a dívida externa saltou de US$ 64 bilhões para US$ 94
bilhões” (1990, p. 144).
Para contrastar com a visão dos autores citados acima, cabe aqui levantar uma questão
colocada por Codato em seu artigo (2005, p. 97): “A crise econômica (...) foi paralela à auto-reforma
da ditadura. E a crise social (...) foi revelada pelos efeitos liberalizantes da política de auto-reforma da
ditadura.” O autor aponta que mais do que serem mudanças simultâneas, a crise do regime
autoritário e econômica foram independentes, de forma que a população descontenta-se,
conseqüentemente por causa da política estatal forjada em meio a crise financeira.
A esquerda política, durante maior parte do regime autoritário se resumia ao MDB
(Movimento Democrático Brasileiro) que fazia oposição à ARENA (Aliança Renovadora Brasileira),
o partido dos militares. Durante o período da crise político-econômica o MDB, e posteriormente os
outros partidos de esquerda como PMDB – antigo MDB, que fora instinto em 1979 - PT, PDT,
PTB, PSB, PCB, PCdoB, foram ganhando espaço tanto no poder legislativo como no poder
executivo. De acordo com Codato (2005), em 1970 a oposição fazia apenas 28,6% dos votos nas
eleições legislativas contra 43,7% dos votos para a ARENA. Já em 1982 o papel se invertera onde a
oposição atingiu 50% dos votos contra 36,5% dos militares. Deste modo, a abertura política, que
deveria ser, ainda de acordo com Codato “sob tutela dos militares”, foi modificando-se com a
inserção, cada vez maior, da esquerda neste quadro político. Para Kugelmas et al. (1989, p. 96) “as
vitórias eleitorais da oposição [...] especialmente nos estados mais desenvolvidos e urbanizados,
desencadearam um complexo processo que foi marcado por uma modulação do projeto inicial de
abertura controlada e dirigida”. Desta maneira, podemos constatar que quando a esquerda passa a ter
um papel mais ativo dentro do quadro político nacional, tanto no poder legislativo quanto executivo
por meio das eleições para governadores, a configuração política vai sendo alterada. Mesmo sendo
uma mudança que para muitos autores foi lenta e gradual sob tutela militar, a esquerda foi de total
importância para a mudança do curso político, social, cultural e econômico do país indo em direção à
democracia.
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Ainda de acordo com Kugelmas et al. as eleições para governadores dos estados em 1982 foi
um aspecto importante para a transição política. Segundo os autores (1989, p. 96) “Nesse contexto
de crise econômica e fiscal do Estado a realização das eleições diretas para os governadores estaduais
em 1982, marcaria o definitivo ponto de inflexão na mudança do padrão de relações
intergovernamentais”. Deste modo, essa inflexão, ou seja, a mudança ou desdobramento político da
época pode ser considerado como um marco, onde esses mesmos governadores puderam ser
escolhidos de forma direta pela população, de maneira que a esquerda foi sendo predominante e
ganhando cada vez mais espaço.
Durante toda a ditadura, as esquerdas tiveram variados papeis e importâncias. Algumas vezes
como coadjuvantes, outras como antagonistas e em alguns momentos recebiam um caráter de
exclusão na política por parte dos militares. Nogueira faz uma análise a respeito da temática,
explorando o PCB como objeto de estudo. Segundo o autor (1986, p. 8) “o período autoritário
representou a problematização (e posterior dissolução) de hegemonia do PCB sobre o conjunto da
esquerda” e continua dizendo que
O PCB ressurgiu em 1978/79 - e com uma ala moderna e democrática que durante
alguns anos dinamizaria o partido - e do movimento sindical em expansão nasceria
o Partido dos Trabalhadores, que logo daria nova vida à esquerda católica e a
pequenos agrupamentos de extração trotskista, socialista e comunista que se
aninham em seu interior. (NOGUEIRA, 1986, p. 10)
Desta maneira, a esquerda foi ganhando força com a abertura política. Novos partidos
políticos foram criados nesta época, como afirma Nogueira. Sobre este contexto, Sallum descreve em
seu artigo a formação do PT – Partido dos Trabalhadores. De acordo com o autor (1993) no ABC
paulista o movimento operário organizava, de forma avançada e autônoma greves massivas, exigindo
direito de greve, liberdade para negociar contratos de trabalho e fim da tutela do Ministério de
trabalho sobre os sindicatos. Aliado a isto o movimento recebeu apoio das “Comunidades Clericais
de Base organizadas pela igreja”. Desta maneira, Sallum conclui que a formação do PT era
esquerdista não-comunista e de base operária.
Esse desdobramento partidário das esquerdas, de acordo com Sallum, deve-se a fato de que a
própria dinâmica de liberalização “empurrava” a oposição para este caminho. Segundo o autor (1993,
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p. 141) “a organização partidária instituída pelo regime militar [...] canalizava toda a insatisfação
popular contra o governo e seu partido e favorecia a oposição”.
Podemos contrastar essa visão com a de Nogueira(1986), afirmando a transição se fez, pelo
menos até 1981, sem organização de massas. Ainda de acordo com Nogueira, pode-se constatar que
foi o regime militar quem ditou ritmo do processo de abertura política. Deste modo, voltamos para o
pensamento de Sallum, que menciona em seu artigo a campanha “Diretas Já”. Para o autor (1993, p.
159), o movimento surpreendeu até mesmo seus próprios organizadores: “o movimento por eleições
diretas transformou-se no maior movimento político de massas que o país já vira”.
A repercussão do movimento também é explorada por Abreu em seu artigo. Para a autora, a
própria cobertura feita pela mídia nas manifestações, incitaram a população a favorecer a
reivindicação. De acordo com Abreu (2005, p. 60) “Em 1984 a campanha pelas “Diretas Já” tomou
as ruas das principais cidades do país e teve uma ampla cobertura da mídia, que exerceu forte
influência junto à opinião pública em favor dessa reivindicação.”. A autora ainda afirma que todas as
manifestações públicas aprovadas pelo movimento eram divulgadas pelo jornal Folha de São Paulo na
coluna “Roteiro das Diretas”.
No auge de uma movimentação de massas como o “Diretas Já” o senador Dante de Oliveira
apresenta ao senado uma PEC (Projeto de Emenda Constitucional) onde foi proposto que as
eleições presidenciais fossem diretas. Tal projeto não obteve os votos necessários para ser aprovado.
No entanto, de acordo com Sallum (1993, p. 160) “o movimento de massas acentuou de tal modo o
oposicionismo na população que provocou mudanças importantes nas expectativas eleitorais”.
Destas mudanças podemos destacar que mesmo através de eleições indiretas temos civil eleito
presidente da república, Tancredo Neves da oposição peemedebista.
O processo de crescimento do poder do PMDB é descrito de maneira interessante por
Nogueira. Segundo o autor o partido, que durante maior parte do regime foi o único de oposição
sendo até então somente MDB, foi um continuador da abertura política. De acordo com Nogueira
(1986, p. 13)
foi este último fato a qualificar a fase terminal da abertura e a transformar o PMDB
(...) numa espécie de sucedâneo do governo, posto que forçado a realizar ‘tarefas
que não lhe eram próprias’, como lembrou certa vez Fernando Henrique Cardoso
(2:5). Se isto, por um lado, restringiu e inibiu o impulso reformador do PMDB pois jogou-o diante da necessidade de administrar uma grande crise política e de
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operar com realismo e moderação - , por outro lado representou a continuidade da
abertura em melhores condições, na medida mesma em que incorporou o maior
partido de oposição e diversas parcelas mobilizadas dos movimentos sociais.
Deste modo, caberia ao PMDB ser o prosseguidor de uma política com resquícios
autoritários. Assim sendo, o processo de abertura política ganhou maior importância sob regime do
PMDB.
As eleições presidenciais de 1985, apesar de terem sido indiretas, foram marcadas pela
mudança do posicionamento político geral. Neste ano, tinham sido indicados para a sucessão de
Figueiredo os candidatos Paulo Maluf pelo PDS e Tancredo Neves pelo PMDB. Para Sallum (1993,
p. 162) Maluf detinha certa rejeição por parte tanto da massa como dos colegas políticos. Segundo o
autor “As forças de Paulo Maluf terminaram por se resumir a uma pequena parcela d PDS [...] sua
candidatura deitara raízes no empresariado rural e entre médios e pequenos comerciantes”. Por outro
lado, Tancredo “deixara de ser oposicionista; tornara-se ‘mudancista’ e, sem confronto com o regime
militar, apontava para uma Nova República, liberal e democrática”. Deste quadro político, Tancredo
Neves é eleito pela grande maioria em 1985. Porém, por uma surpresa que a própria natureza lhe
impunha, em 21 de abril do mesmo ano, o então eleito presidente da República falece vítima de
infecção generalizada aos 75 anos, assumindo o posto o vice José Sarney.
Desde então, o processo de abertura política acelera-se e o Brasil passa a ser um país
democrático, partindo da Constituinte de 1988, um período conhecido como “Nova República”.
Sallum (1993, p. 163) reflete sobre esse período em seu artigo referindo-se a ele como “uma série de
tentativas fracassadas de superar o conjunto de crises que fraturaram o núcleo político da sociedade”.
Essa visão do autor é justificada, por exemplo, nas tentativas de estabilização da moeda. Codato
afirma que as discussões propostas na época, tanto no meio acadêmico quanto político. Segundo o
autor (2005, p. 100) essa discussão “voltou-se para algumas questões muito específicas, como por
exemplo: a estrutura dos partidos [...] o sistema de partidos [...] o sistema eleitoral [...] o sistema de governo [...] a
forma de governo [...] as relações intergovernamentais”. Assim sendo, podemos observar que foi um período
de grande debate em relação aos futuros caminhos que o país deveria traçar.
A partir da constituição de 1988 a política estatal começa a se configurar, como mostra Fiori
(1990, p. 148) em seu artigo, explanando sobre os avanços da constituinte, sendo “uma reforma
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estatal, fortalecendo o federalismo e o poder legislativo, contra um Executivo que perdeu grande
parte dos recursos de poder que lhe permitiram o comando da estratégia desenvolvimentista.”
O período da História do Brasil de 1964 a 1985 foi marcado por uma política ditatorialmilitar. Não obstante, fica entre a experiência democrática dos governos anteriores e a chamada
Nova República. Isso certamente marcou a forma com que os militares procederam ao regime
ditatorial, respeitando, por exemplo, a sucessão de presidentes sendo eleitos de cinco em cinco anos
ou mesmo a proposta de o Brasil ser um estado desenvolvimentista, política que veio se
desenvolvendo desde a década de 30. Do mesmo modo que, a mesma política administrativa adotada
pelos militares implicou consequências nos governos que se sucederam após o regime ditatorial.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CODATO, Adriano Nervo. Uma história política da transição brasileira: da ditadura à democracia.
Rev. Sociol. Polít., Curitiba, 25, p. 83-106, nov. 2005.
NOGUEIRA, Marco Aurélio. Da Política Do Possível às possibilidades da política: Notas sobre a
transição democrática no Brasil. Perspectiva, São Paulo, p. 1-19, 1986/1987.
SALLUM JR., Brasílio. Transição política e crise do Estado. In: BRAZIL IN THE SO-CALLED
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VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
A HISTORIOGRAFIA DO PARANÁ: OS HISTORIADORES, SEUS LUGARES E SUAS
REGIÕES (1970-2012)1
Wander de Lara Proença (História/UEL) e Bruna Lambardi Parronchi (História/UEL)2
Introdução
A partir dos anos de 1970, observa-se no Brasil um processo de transformação tanto no
“fazer histórico” quanto no que se compreende como profissionalização do fazer historiográfico.
Nesse período também começaram a ser implantados programas de pós-graduação nas universidades
brasileiras com importantes impactos na elaboração historiográfica posterior. Espaços de produção
institucionalizados; carreiras profissionais dependentes de obtenção dos títulos atribuídos pelos
programas de pós-graduação e expansão do número de universidades pelo interior do país, são
algumas das características do contexto no qual emergiu grande parte da produção historiográfica em
evidência nas décadas subsequentes.
Frente a esse conjunto de mudanças, o presente artigo expõe algumas premissas para o
desenvolvimento de pesquisas sobre a “história da história”, particularmente, uma história da
historiografia produzida nas universidades paranaenses ou por seus professores e pesquisadores que
tomaram regiões do Paraná como objeto de análise. Com atenção aos “recortes e construções de
objetos diferenciados no tempo e no espaço paranaense”,3 apresentam-se notas de pesquisa visando
compreender os processos que delinearam essa produção e as formas como os autores dialogaram
com as construções do campo de saber estabelecido como “História do Paraná”.
Considerações sobre história da historiografia
A compreensão da história dos historiadores, reconstituindo-a, reinterpretando-a ou a
considerando em relação a seu próprio tempo e contexto, permite aos historiadores manter sua
disciplina vinculada à “consciência do tempo”, como “ciência da mudança, da transformação em si e
1 Texto parcialmente reelaborado a partir do projeto de pesquisa em desenvolvimento na UEL, sob coordenação dos
docentes Wander de Lara Proença e Gilmar Arruda.
2 Aluna participante do projeto de pesquisa.
3 ARIAS NETO, José Miguel; SOCHODOLAK, Hélio (Orgs.). Capítulos de história do Paraná. Guarapuava: Editora
Unicentro, 2012, p.6.
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
nela mesma”.4 Tétart destaca também que, há alguns anos, os cursos universitários vêm acentuando
progressivamente este retorno essencial a eles mesmos, historiadores, que se preocupam novamente
em interrogar sua própria memória e a de seus predecessores: “esse exercício apela para novos
questionamentos metodológicos, um esforço autocrítico, que leva a interrogações epistemológicas”.5
François Hartog observa que a partir dos anos de 1990, as disciplinas e as instituições
desenvolveram uma relação com o tempo marcada por um movimento de retorno sobre si mesmas,
“repentinamente preocupadas com seus arquivos e sua história”:
A dis ciplina his tór ica também conhece es s a per s pectiva e es s e
encaminham ento his tor iogr áficos , notadamente como tr ab alho
r ef lexivo s obr e s eus pr es s upos tos e s uas pr áticas , s e es for çando
em incluir s u a pr ópr ia his tor iogr afia n a m edida d e s eu pr ópr io
des enr olar . 6
Para o estudo da historiografia e seus pressupostos, Hartog propõe também a noção
conceitual de regime de historicidade, entendido
(...) como uma for mulação er udit a da exper i ência do tempo que,
em tr oca, modela no s s a for ma de di zer e viver nos s o pr ópr io
tempo. Um r egime de his tor icidade abr e e ci r cuns cr eve um es paço
de tr abalho e d e pen s amento. Ele d á r itmo à es cr ita do tempo,
r epr es enta uma “or de m” à qu al podemos ad er ir ou, ao contr ár io ( e
mais f r equentemente) , da qual quer emos es capar , pr ocur ando
elabor ar outr a. 7
Essa noção conceitual pode ser utilizada como uma problematização ou objetivo de análise
da produção historiográfica paranaense. Estariam os historiadores, ao definirem seus temas e
realizadas suas pesquisas e textos, inseridos em um regime de historicidade, na medida em que
dialogavam com uma identidade regional formulada anteriormente por outras tradições
historiográficas? François Hartog, ao tomar a historiografia como fonte de análise, também definiu
alguns dos procedimentos metodológicos de investigação. Propõe o uso de prefácios e/ou textos de
apresentação das obras selecionadas para seus estudos. Segundo ele, nestes preâmbulos, seria
4 TÉTART, Philippe. Pequena história dos historiadores. Bauru: EDUSC, 2000, p.8, 9.
5 Ibid.
6 HARTOG, François. Tempo e história: como escrever a história da França hoje? História Social. Campinas, IFCHUNICAMP, 1996, n.3, p.151.
7 Ibid., p.154.
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
possível observar o regime de historicidade que norteou ou normatizou a respectiva elaboração. A
escolha e definição dos “prefácios” como fontes, que assumem significados específicos para cada
“regime de historicidade”, busca apreender configurações do saber associados a conjunturas
intelectuais e políticas. Seu projeto, portanto, não se reduz a uma análise apenas interna das escritas
de história, mas as articula com campos externos, relacionados à sua produção.
Nesse aspecto, as questões que nortearam a investigação de Hartog também são pertinentes
para a abordagem da historiografia paranaense, instigando algumas questões: como esses autores, da
historiografia do Paraná em ambiente universitário, conceberam sua tarefa e apresentaram suas
obras? Quem fala, para quem, como e por quê? Quais incentivos, fomentos ou amparo financeiro
custearam as produções? Como se escreveu a história neste período? Ainda em termos
metodológicos, Hartog busca situar as plataformas ou os ambientes a partir dos quais a produção do
conhecimento histórico foi elaborada e disseminada que, no caso do projeto aqui delineado, são a
universidade, os programas de pós-graduação, os congressos e encontros dos historiadores. Vale
ressalvar que boa parte da produção historiográfica referente ao espaço paranaense constitui-se de
dissertações e teses que não chegaram a ser publicadas. Assim, cabe tomar as “introduções” dos
referidos trabalhos de forma semelhante aos prefácios e apresentações, utilizados por Hartog.
O espaço social da historiografia no Paraná
Michel de Certeau afirmou que todo o discurso historiográfico está imerso nas relações dos
lugares sociais do qual emergiu, suas normas de validação, as regras da instituição, os códigos do grupo
‘científico’ a qual pertence, por origem, o texto:
T oda pes quis a his tor iogr áfica s e ar tic ula com um lugar de
pr odução s ócio - econômico, político e cultu r al. I mplica um meio
de el abor ação que cir cuns cr ito por deter mi nações pr ópr ias : uma
pr of is s ão liber al, um pos to de obs er vação ou de ens ino, uma
categor ia de l etr ados . (...) É em função des te lugar qu e s e
ins taur am os métodos , que s e delineia uma topogr af ia de
inter es s e s , que os documentos e as que s tões que lhes s er ão
pr opos tas , s e or ganiza m. 8
8 CERTEAU, Michel de. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense Universitária,1982, p. 66-67.
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O “conhecimento historiográfico”, pensado como um dos sentidos que possa ser atribuído
ao termo história, ou seja, aquela resultante de um esforço de pesquisa metodologicamente
controlado,9 foi produzido quase que na sua totalidade nas universidades. É resultante, em grande
parte, da estruturação e expansão das instituições universitárias e dos cursos de pós-graduação stricto
sensu a partir dos anos de 1970. Este fenômeno também criou uma demanda por “titulação”,
decorrente das necessidades da carreira acadêmica. Portanto, podem ser tomados os cursos de pósgraduação e as instituições universitárias situadas no Estado do Paraná como os “lugares sociais da
produção historiográfica”.
Na década de 1970 começou a expansão dos cursos de pós-graduação stricto sensu em
história no país e, mais fortemente, nas duas últimas décadas do século XX, influenciando a
produção científica da área, como foi observado por vários analistas do panorama historiográfico
brasileiro.10 Simultâneo a este crescimento e, em parte, também derivado deste fenômeno, houve
um incremento nas linhas de pesquisa definidas ou enquadradas como sendo “história regional”. De
outra forma, pode-se dizer que a produção historiográfica procurou delimitar outras espacialidades
que não as já definidas anteriormente no campo da historiografia, como por exemplo, a de “Brasil”.
Coloca-se, então, o problema capital para a produção que se nomeia ou é nomeada de
história regional: a definição do que se entende por região; quais seus pressupostos; como abordar este
problema no campo da história. Cabe ainda analisar os modelos/conceitos/debates sobre a ideia de
região promovidos pela e na produção historiográfica realizada nas universidades paranaenses ao longo
do período proposto. Esta discussão permite situar os possíveis desdobramentos das
“espacialidades” definidas nos diversos textos no processo de “fundação” de novas “regiões”,
fundamentando novas áreas de saber.
Nos anos 1970 e 80, momento no qual se pode identificar o crescimento do interesse pela
história regional, a ideia ou definição de região no campo da história estava associada fortemente à
problemática de desenvolvimento do capitalismo na sociedade brasileira. Autores como Francisco de
Oliveira viam a região e o regionalismo em processo de desaparecimento no processo de
9 MARTINS, Estevão de Rezende. História pensada: teoria e método na historiografia européia do século XIX. São
Paulo: Contexto, 2010, p. 09.
10 Ver especialmente FICO, Carlos & POLITO, Ronald. A historiografia brasileira nos últimos 20 anos - tentativa de
avaliação crítica. In: MALERBA, Jurandir (Org.) A velha história: teoria, método e historiografia. Campinas-SP: Papirus,
1996; e FALCON, Francisco J. C. A identidade do historiador. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol. 09, 1996, pp.
07-31.
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
homogeneização do processo capitalista pelo espaço da sociedade brasileira. No final dos anos de
1980 e mais fortemente nos anos de 1990 as transformações no campo da historiografia com a
expansão da história da cultura e os estudos do simbólico e das representações, o fenômeno região
também passou a ser analisado por uma perspectiva mais ampliada. Compreendia-se, então, que não
existiam critérios objetivos ou “naturais” que pudessem definir o que seria uma “região”. A partir,
principalmente, da influência de Pierre Bourdieu, pensava-se que todas as ordens de discursos que
procurassem explicitar/buscar identidades e especificidades de um determinado espaço nomeado de
região incidiam no “poder simbólico” ou no “campo da luta simbólica.”11
Naquele momento, as análises passaram a tomar a história regional como um discurso que
participava na “luta de representações” de duas formas, a saber: primeiramente, a fixação do seu
objeto já seria um campo de luta com outras disciplinas ou, ainda, uma disputa dentro do campo
historiográfico com outras interpretações sobre a “história regional”; segundo, na tentativa de
objetivação científica do discurso regionalista criando um suporte, autorizado pelo “capital
simbólico” investido na figura do historiador, seria uma luta de legitimação do recorte regional.12
Analisar, então, a produção historiográfica sobre o espaço paranaense ao longo dos anos
1970, dentro da perspectiva apontada anteriormente, necessita igualmente investigar as produções
anteriores, com os quais teria sido estabelecido o diálogo, ou o “campo de luta simbólico” em torno
das regiões. Nesse sentido, deve-se lembrar que a produção historiográfica no Paraná, abordando o
contexto regional, dentro da instituição universidade é anterior ao processo de formatação dos cursos
de pós-graduação. Desde os anos de 1950 existia na Universidade Federal do Paraná - UFPR em
Curitiba, no Departamento de História, um grupo de professores/pesquisadores que formatou a
primeira geração de textos oriundos deste “lugar social”, a academia. Esta produção construiu uma
primeira definição da ideia de região – Paraná.13 Esta produção deu suporte a uma história contida,
em termos espaciais, na definição do Paraná, como aparece em um livro organizado na década de
1960, por Faissal El-Khatib, composto por 04 volumes; tratava-se de história “do Paraná”.14 Nesta
11
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Lisboa: Difel, 1989, p. 113.
12
Ver PEREIRA, Luís Fernando Lopes. Paranismo - o Paraná inventado: cultura e imaginário no Paraná da I
República. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1997; SZESZ, Christiane Marques. A invenção do Paraná: o discurso regional
e a definição das fronteiras cartográficas – 1889-1920. Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do
Paraná. Curitiba, 1995; TOMAZI, Nelson Dácio. Norte do Paraná: histórias e fantasmagorias. Curitiba: Aos Quatro
Ventos, 1997; ARRUDA, Gilmar. Cidades e sertões: entre a história e a memória. São Paulo: EDUSC, 2000.
13
SESZ, op.cit.
14
EL-KHATIB, Faissal (Org.). História do Paraná. Vol.1. 2ª. ed. Curitiba: Grafipar, 1969.
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publicação, no volume 01, participavam os principais pesquisadores da UFPR, da primeira geração
de acadêmicos. Na apresentação, Bento Munhoz da Rocha Neto, intelectual e ex-governador do
Estado, argumentava sobre a “necessidade de divulgação da história” paranaense. Reiterava por meio
de dados acerca do “perfil psicológico do paranaense tradicional face ao crescimento demográfico, à
ocupação desordenada do território, ao surto cafeeiro, ao pioneirismo inovador e aos próprios
conflitos sociais decorrentes desses processos”.15 Nesse mesmo propósito, ao prefaciar Campos Gerais
- Estruturas Agrárias, em 1968, já destacava o papel da universidade para tal intento:
Es s e tr abalho s er v e ta mbém de exemplo par a mos tr ar como de ve
s er uma Univer s idade. Como Univer s idade, a do Par aná tem de
es tar integr ada no cicl o de civiliz ação a qu e per tencemos , is to é, o
eur opeu - amer ic ano, e não pode deix ar de p os s uir car acter ís ticas
comuns a todas as Un iver s idades do país , c ar acter ís ticas qu e nos
dis tingam, afir mando nos s a per s onalidad e nacion al e nos s a
cultur a, s em que , a Univer s idade ficar ia dis tanciad a da vida. M as
s endo do Par aná, es ta ndo s ituada em nos s o Es tado, tem, em cer to
gêner o de pes quis as , atentar par a o r egional, de difer enci ar - s e
jus tamente aí, par a n ão per der s eu s entido dentr o da s ociedade
global br as ilei r a. 16
Essa primeira formatação, ou construção da ideia de uma região paranaense, oriunda do
“lugar social” academia, entendida aqui como sendo a universidade, que retomava e dialogava com
definições de região, anteriores, tornou-se objeto de estudos e reflexões desenvolvidas no próprio
Departamento de História da Universidade Federal do Paraná, na década de 1990. Esses estudos
analisaram a produção dos “discursos” sobre a região, tomando-os como operações políticas e de
poder na construção de identidades e domínio político.17
15
Ibid, prefácio da obra.
16
ROCHA NETTO, Bento Munhoz da. Prefácio. In: MACHADO, Brasil Pinheiro; BALHANA, Altiva Pilatti.
Campos Gerais: estruturas agrárias. Curitiba: UFPR, 1968, p. i.
17
SZESZ, op.cit., p. 315.
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A “construção” do Paraná
O objeto destas pesquisas18 era a produção estabelecida, que já havia se tornado parte da
“cultura histórica” e circulava em manuais didáticos e livros de divulgação. Para as análises dos anos
90, a produção da primeira geração acadêmica aparecia com o estatuto legitimado e legitimador de
uma “história do Paraná” produzia no “lugar social universidade”. A proposta dos anos 90 seria a sua
“desconstrução”, apontando as operações de dominação e poder inerentes ao fenômeno das
“construções de identidade”. Um questionamento a ser feito é se as análises realizadas na UFPR nos
anos de 1990 apontavam para uma “quebra” do discurso de “uma” história do Paraná formulada,
ainda no começo do século XX, por, entre outros, Romário Martins - formulação que havia sido
atualizada e legitimada pela academia nos anos de 1950/1960, pela primeira geração de historiadores
acadêmicos da UFPR. Em outros termos, a partir das conclusões desta produção, poder-se-ia afirmar
que não se concebia mais um único “passado” unificado que desse suporte a “região”, nem a
formação de “um” paranaense que tivesse sido formado por esta experiência em comum no passado
do espaço Paraná?
Um outro momento de luta no “campo simbólico das representações” pode ser
acompanhado a partir do início da década de 1970 quando começaram a se constituir as instituições
universitárias estaduais no interior do Estado. Foram criadas as Universidades Estaduais de Londrina
(UEL), Maringá (UEM) e Ponta Grossa (UEPG), sediadas nas respectivas cidades. No início de 1980
surgia a UNIOESTE - Universidade do Oeste do Paraná, sediada em Cascavel e com centros em
várias cidades. O Departamento de História ficou sediado em Marechal Candido Rondon. Nas
décadas de 70 e 80, diversos professores destas instituições, impulsionados pelas demandas das
carreiras acadêmicas, procuraram cursos de pós-graduação em instituições mais antigas, como a
própria Universidade Federal do Paraná - UFPR e a Universidade de São Paulo-USP e na década de
1980, as Universidades Estadual Paulista UNESP e a de Campinas-Unicamp. Surgiu assim, uma série
de pesquisas em história, e também na geografia e sociologia, que abordavam o território paranaense.
Nesse aspecto, cabe destacar que os programas mais antigos do país são aqueles que, em geral, se
18
Com esta perspectiva foram produzidos, na pós-graduação do Departamento de História da UFPR, entre
outros, as seguintes pesquisas: PEREIRA, Luís Fernando Lopes. Paranismo - o Paraná inventado: cultura e imaginário
no Paraná da I República. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1997; SZESZ, Christiane Marques. A invenção do Paraná: o
discurso regional e a definição das fronteiras cartográficas – 1889-1920. Dissertação (Mestrado em História) Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 1995; SZVARÇA, Décio Roberto. O forjador: ruínas de um mito - Romário
Martins, 1893-1944. 2. ed. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 2004.
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EM HISTÓRIA SOCIAL
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
definem por uma “grande área”, enquanto “os programas de criação mais recente identificam suas
áreas de concentração a partir de recortes que conjugam mais de uma abordagem (como cultura e
sociedade, cultura e poder, cultura e identidade, política e espaço)”.19 No final dos anos de 1990 e no
início da década seguinte surgiram a UNICENTRO – Universidade do Centro Oeste do Paraná,
sediada em Guarapuava e a UENP - Universidade do Norte Pioneiro, sediada em Jacarezinho. Essas
duas instituições contam com Departamentos de História.
Um segundo momento, decorrente do surgimento das instituições estaduais foi o
aparecimento dos cursos de pós-graduação.20 No final dos anos de 1990, as universidades estaduais
paranaenses começaram a instalar seus próprios cursos de pós-graduação stricto sensu em história. O
primeiro foi um projeto da Universidade Estadual de Londrina e da Universidade Estadual de
Maringá, iniciado em 1999 e extinto em 2002. Atualmente existem cursos de pós-graduação
(mestrado) em história na Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), no campus de
Marechal Cândido Rondon; na Universidade Estadual de Maringá (UEM), na Universidade Estadual
de Londrina (UEL) e, os mais recentes, na Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO)
e o da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Nestes programas de pós-graduação têm
sido desenvolvidas várias pesquisas que tomam o espaço paranaense como referência para seus
objetos.
Considerações finais
Para se investigar, portanto, a história da história, é importante conhecer os indivíduos
responsáveis por tais produções, identificar suas concepções políticas, suas origens sociais, seus
propósitos e percepções profissionais, em outras palavras, “suas visões de mundo.” Dois corpos de
fontes preferenciais permitem a “identificação” deste sujeito que escreve sobre o passado, seguindo
as regras da historiografia: textos publicados e depoimentos orais dos próprios autores. Em relação
ao primeiro conjunto de fontes, podem ser destacados para as notas de pesquisa indicadas neste
artigo: 1) introduções das teses e dissertações produzidas por profissionais ligados às universidades
do Paraná que tematizaram o território ou regiões paranaenses; 2) as introduções e os prefácios de
19
MALERBA, Jurandir. A história na América Latina. Ensaio de crítica historiográfica. Rio de Janeiro: FGV,
2009, p.69.
20
Por volta do ano 2.000, havia no Brasil vinte e seis programas de pós-graduação em história, seis dos quais
ofereciam cursos de doutorado. Ibid.
52
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livros de história que tematizam o território ou regiões paranaenses; 3) artigos e resumos publicados
em anais de eventos da área realizados no Paraná; 4) documentos dos programas de Pós-Graduação
em História das Universidades Estaduais paranaenses e da UFPR, que definam suas linhas de
pesquisa e áreas de concentração.
Em síntese, como possibilidades de estudo das temáticas e questões aqui propostas, indicamse: 1) a criação das universidades, os “lugares sociais”, no interior do Paraná, teria levado os
pesquisadores a formular novas espacialidades para suas pesquisas? 2) Estes “novos lugares sociais” e
estas novas “espacialidades” do discurso histórico do regional atenderiam, ou se relacionariam; a
quais demandas de poder? 3) Quais teriam sido os resultados destes novos “espaços de saber”, a
fragmentação, a recusa ou a crítica da espacialidade construída pela primeira geração acadêmica da
UFPR? 4) Quais teriam sido as “novas espacialidades” suporte para a produção historiográfica das
universidades do “interior” do Estado? 5) Quais seriam as origens das “demandas de poder” que
motivaram as críticas realizadas pelos estudos realizados na UFPR, nos anos de 1990? 6) Em qual
medida as transformações internas do campo historiográfico teriam influenciado nas abordagens e
definições do espaço ou localidades paranaenses nas produções oriundas dos próprios cursos de pósgraduação existentes das Universidades Estaduais do Paraná no período? 7) Teriam as críticas e
revisões realizadas nesse novo “lugar social” influenciado as análises posteriores e participado no
campo de construção da “cultura histórica”?
REFERÊNCIAS
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SZVARÇA, Décio Roberto. O forjador: ruínas de um mito - Romário Martins, 1893-1944. 2. ed.
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TÉTART, Philippe. Pequena história dos historiadores. Bauru: EDUSC, 2000.
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54
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TRANSIÇÃO POLÍTICA E CULTURAL DO BRASIL NOS ANOS 1970/1980: UMA
ANÁLISE A PARTIR DA CANÇÃO QUE PAÍS É ESTE DE LEGIÃO URBANA21
Cristiano Aparecido do Nascimento (História - UEL)
Wander de Lara Proença (Orientador - TCC – UEL)
A canção a ser analisada nesse artigo, Que país é este, denota a situação política e social do
Brasil, trazendo para o contexto de produção e publicação as práticas arbitrárias do regime militar
(1964-1985) no que diz respeito à atuação da máquina estatal deste período para com a sociedade
Brasileira e as reivindicações de reparo aos traumas de um passado da memória juvenil (POLLACK,
1989). Neste contexto, é representativo o papel de Renato Russo, protagonista principal deste
processo, na metamorfose entre Aborto Elétrico22, O Trovador Solitário23, Legião Urbana24, como
personagem partícipe de uma transformação maior, o campo artístico, na transição da tropicália para
o rock Brasileiro da década de 1970 a 1980, dentro do foco do mercado fonográfico e midiático.
As mudanças no cenário político Brasileiro ocorrem sob o impacto da crise internacional do
petróleo, em 1973, com efeito nas economias mundiais, inclusive a brasileira, elevando o preço da
gasolina e seus derivados, que obrigou o governo a adotar programas alternativos de combustível,
como o Proálcool25, elevar as taxas de juros, impactando diretamente no custo de vida da população;
o congelamento dos salários dos trabalhadores; as proibições de qualquer tipo de manifestação social
e artística que fosse taxado como “subversivo”, contra a “moral e os bons costumes” - jargões
morais das autoridades militares expresso nos documentos oficiais do SNI, DOI- CODI, DOPS e
demais órgãos do regime -; estes fatores levaram o milagre econômico ao esgotamento (HABERT,
1994). Dessa forma o governo Geisel foi marcado por conflitos sociais e políticos – instrucionais no
qual estabelece sua meta de “abertura, lenta, segura e gradual”, um processo marcado por uma série
de instabilidades como as greves operárias e o assassinato do jornalista Carlos Herzog em 1975;
Este artigo é uma parte adaptada do Trabalho de Conclusão de Curso em História, da UEL, a ser defendido em 2013.
Primeira banda de Renato Russo, formado com os irmãos Felipe e Flavio lemos e André Pretorius, formada em
Brasília nos anos 1970.
23 Nome artístico da carreira solo de Renato Russo, quando cantava em violão e voz no começo dos anos 1980.
24 Banda Brasiliense, iniciada por Renato Russo e Marcelo Bonfá, é formada em princípio com o guitarrista Eduardo
Paraná e o tecladista Paulo Paulista; no lugar de Paraná entra Dado Villa Lobos e o baixista Renato Rocha. A banda fica
então composta pelo baterista Marcelo Bonfá, o vocalista Renato Russo, o guitarrista Dado Villa Lobos e o baixista
Renato Rocha.
25 Programa de incentivo à produção de álcool pelas usinas em detrimento ao elevado preço internacional do petróleo,
criado no governo Geisel para reduzir o consumo de gasolina e desenvolver a economia nacional.
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EM HISTÓRIA SOCIAL
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fortes oposições da sociedade organizada (OAB, SBPC, UNE, CNBB); do MDB 26 e a desoneração
de militares pertencentes a linha dura gerou profundos conflitos entre governo e a sociedade
(BARROS,1994). Algumas ações foram tomadas, como o fim do ato instrucional nº 5 – AI – 5 em
1978, fator propício para a reivindicação destes e demais grupos sociais e o surgimento de diversas
bandas de rock pelo Brasil , sobretudo em Brasília, por ser a capital do país onde essas tensões são
diretamente sentidas pelos jovens brasilienses27 de classe média, filhos de pessoas ligadas ao governo
ou professores da Universidade Nacional de Brasília – UNB, como é o caso de Renato Russo, filho
do economista do Banco do Brasil Renato Manfredini, designado a trabalhar na capital do país após
receber promoção e ter cursado PHD em economia nos Estados Unidos, entre 1965-1969, e se
mudado com família do Rio de Janeiro, em 1973, para Brasília (ROCHEDO, 2011).
Neste período estavam no auge a Tropicália, os Novos Baianos e grupos com influências do
rock com aspectos regionalistas como Secos e Molhados, os Mutantes e Raul Seixas, que sofreram
com as ingerências do regime pela censura, pois as atividades culturais e artísticas foram
especialmente visadas pela censura (FICO, 2004). É o caso da canções a ser analisada mais adiante,
nesse artigo. De acordo com o jornalista Carlos Marcelo (2012), Renato Russo escrevia as letras do
Aborto Elétrico e levava para a divisão de censura prévia polícia federal para regulamentação e
permissão para tocar; na primeira tentativa foi vetada, depois de algumas modificações na estrutura
das letras do grupo para burlar os censores, a banda estava liberada para tocar em Brasília
(MARCELO, 2012), inclusive Que país é este. Embora a canção não tenha passado por uma restrição
direta da censura, a dificuldade da mesma ser publicada em álbum era remota pelo fato de não existir
nesse momento um mercado fonográfico voltado para rock, uma vez que a concepção de rock no
Brasil, desde sua entrada no país no final da década de 1950, era marginalizada; este estigma reduziu
nos começo dos anos de 1979 com a revista Pop, criada pelo diretor artístico da gravadora som livre e
jornalista Ezequiel Neves para divulgar o rock Estadunidense e Britânico diante da decadência da
disco music e da MPB (DAPIEVE, 2006).
As gravadoras projetavam, nesse momento, um novo mercado musical diante das incertezas
políticas e econômicas e a decadência de estilos musicais como a disco music e outros estilos como a
Mpb e a tropicália na mesma medida em que Brasil estava politicamente e socialmente desestruturado
Partido de oposição a ARENA partido da situação (favorável ao regime).
Refiro-me, em especial, aos jovens que formaram bandas em Brasília: Blitz 64, XXX, Aborto Elétrico, Dado e o Reino
Animal e, nos anos 1980, as bandas Legião Urbana, Plebe Rude e Capital Inicial.
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
devido a uma série de atentados promovidos pela linha dura do regime, contrária à abertura política.
Por exemplo, o atentado ao Riocentro, em 1981, situação que, segundo Edgar Barros (1994), foi uma
manobra da linha dura do governo para retornar ao poder com a alegação de um suposto atentado
realizado por guerrilheiros “comunistas”; eles estariam prontos para livrar o país deste “mal”. Em
1983 outros acontecimentos importantes marcaram o Brasil, entre eles, a criação da Central Única
dos Trabalhadores – CUT; a Conferência nacional da Classe trabalhadora – CONCLAT; articulação
dos movimentos trabalhadores – ANAMPOS e a emenda do deputado Dante de Oliveira,
garantindo o voto direto para presidente (BARROS, 1994).
Em abril de 1984 ocorrem as Diretas Já, com comícios em várias regiões do país: em Goiânia
e Porto Alegre, ambos com 200 mil pessoas; cerca de 1milhão e 700 mil em São Paulo; Rio de
Janeiro, com cerca de 500 mil pessoas, exigiam as eleições diretas para presidente. Caberá aos
presidentes sucessores a continuar com as mudanças necessárias na estrutura estatal, política,
econômica e social do Brasil, iniciadas pelos governos Geisel e Figueiredo. Enquanto isso, as
mudanças no campo artístico ocorrem com o surgimento de várias bandas de rock e pop pelos
principais centros urbanos do Brasil; gradativamente, as gravadoras solidificavam-se no mercado
fonográfico-midiático do Rock em torno das mudanças do campo político e da expectativa dos
diversos agentes sociais envolvidos, sobretudo a juventude, público alvo das gravadoras através das
bandas que surgiram na primeira metade dos anos de 1980.
O Rock Brasileiro, enquanto gênero musical popular, solidificou-se em 1985 com o Rock in
Rio, no mesmo ano em que o presidente Tancredo Neves estava prestes a assumir o cargo, quando
morre vítima sob diagnóstico de uma infecção intestinal e em seu lugar assume o vice José Sarney.
Ocorre em seguida a entrega indireta da faixa presidencial por João Baptista Figueiredo, feita por
Marco Maciel, governador do Pernambuco, a Sarney; dessa forma, o marco de transição entre regime
militar e a nova república se concretizou (BARROS, 1994). Sarney, ao assumir a presidência do Brasil,
enfrenta um dos maiores problemas econômicos do país, a inflação, situação que reflete no grau de
insatisfação popular com o aumento progressivo do custo de vida; a ausência do Estado nos serviços
prestados à sociedade; a corrupção latente nas esferas públicas e privadas; a desigualdade de
oportunidades. Diante dessa situação, o governo, através do ministério da fazenda, cria dois projetos
econômicos, o Plano Cruzado, em 1986, e o Plano Verão, em 1987, para equilibrar a economia do
país e os ânimos sociais, por sinal exaltados demais. Ao mesmo tempo em que, politicamente, o
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EM HISTÓRIA SOCIAL
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Brasil se mostrava instável com a tramitação da constituinte em 1987 e sua aprovação em 1988
(FAUSTO, 2009).
A transição política (regime militar para a nova república) ocorreu em um tempo
relativamente menor do que a transição cultural (da tropicália para o rock nacional). Com suas
características, suas regras e seus agentes, o campo artístico e o campo político entram em conflito,
na medida em que ambos interferem nos seus respectivos interesses em suas relações com o
macroespaço social, a sociedade brasileira (BOURDIEU, 2007). Ambas as transições possuem um
marco em comum, 1985: no cenário político, com a posse do presidente eleito Tancredo Neves e, no
mesmo ano, no cenário cultural, ocorre o Rock in Rio, legitimando o processo de transição política e
cultural no Brasil. Apresentamos, a seguir, a análise da letra Que país é este e suas imbricações políticas
e sociais:
Que pais é este (Renato Russo)
Nas favelas, no Senado/ Sujeira pra todo lado/ Ninguém respeita a Constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação
Que país é esse!/ Que país é esse/ Que país é esse!!
No Amazonas, no Araguaia iá, iá,/ Na baixada fluminense/
Mato grosso, Minas Gerais/ e no Nordeste tudo em paz/
Na morte o meu descanso,/ mas o Sangue anda solto
Manchando os papeis e documentos fieis/ Ao descanso do patrão
Que país é esse!/ Que país é esse!/ Que país é esse!/ Que país é esse!!!
Terceiro mundo, se for/ Piada no exterior/ Mas o Brasil vai ficar rico/
Vamos faturar um milhão/ Quando vendermos todas as almas/
Dos nossos índios num leilão
Que país é esse!/ Que país é esse!/ Que país é esse/ Que país é esse!
Composta em 1978, no Aborto Elétrico, a canção é um “grito de guerra” perante as mazelas
sociais do país marcado por corrupção, miséria, ausência do Estado na sociedade, exceto para
reprimir a liberdade da maioria dos que estão sob a sua tutela; apresenta também expectativas de dias
melhores para o Brasil, ou seja, o personagem da canção expressa uma situação paradoxal dos
indivíduos, na primeira estrofe, frente à profunda crise nacional que culminou no final dos anos de
1970 e começo dos anos 1980 (SILVA, 2004).
“Nas favelas, no senado sujeira pra todo lado, ninguém respeita a Constituição, mas todos
acreditam no futuro da nação”, refere-se à profunda corrupção da sociedade brasileira em suas
diversas esferas; de certa forma, transcendente, por se tratar de uma sujeira explícita das favelas e os
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grandes centros urbanos e a sujeira implícita dos espaços representativos políticos (senado federal;
câmara dos deputados federal, assembleia estadual e câmara dos vereadores). Ao mesmo tempo há
um paradoxo entre ilegitimidade nas práticas das leis, tanto de quem criou quanto de quem está
subordinado às mesmas, com esperanças em um futuro melhor, o que denota a ilegitimidade do
poder vigente do governo militar e da nova república em gestação (1978-1987) em relação a esse
momento transitório entre regime militar e nova república. Segundo Renato Russo, “nunca foi
gravada antes porque havia a esperança algo realmente iria realmente mudar no país, tornando-se a
música então totalmente obsoleta. Isso não aconteceu e ainda é possível fazer a pergunta do título,
sem erros.”28 Podemos inferir, nesta afirmação, um dos motivos da publicação da canção em 1987 no
terceiro álbum: situações sociais e políticas pendentes no pós 1984, expressas artisticamente na
Legião Urbana e nas demais bandas do rock nacional dos anos 1980. Foi uma estratégia da banda
ganhar tempo para preparação do próximo disco do grupo, As quatro estações; o que se pode dizer é
que o disco teria um formato mais metafórico e menos agressivo em relação ao primeiro e terceiro
disco.
A relação regional feita ao longo da segunda estrofe está implícita nos atos, nas
arbitrariedades do regime militar para a “manutenção social”, ou melhor, a manutenção do poder dos
militares no governo brasileiro, ao mesmo tempo em que, na segunda estrofe, remete às crises sociais
envolvendo os trabalhadores da borracha, a rota do tráfego de drogas entre o Amazonas e o Mato
Grosso, em passagem para a aparente paz no nordeste. Renato ressalta os mortos pelas mazelas
sociais e políticas do Brasil com um olhar panorâmico das situações, como se fosse um ser
onipresente alisando o caos social do Brasil (MAXWELL, 1999), enfatizado pelo refrão de
indignação em tom de voz seco e agressivo: “Que país é esse!!! Yeah!!! Que país é esse!!... Que país é
esse!”.
Nos registros caseiros do Aborto Elétrico a canção é feita em três acordes, apenas com base
de guitarra e bateria no estilo “bate estaca”, o que denota a influência do punk rock dos anos 1970
presente na versão gravada pela Legião Urbana no álbum Que país é este (1978-1987), em 1987. Nesta
última versão conta com um solo rápido de guitarra em sincronia com introdução de batida forte de
Comentário sobre a canção “Que país é este” feito por Renato Russo sobre a relevância da publicação dessa e demais
canções do álbum Que país é este (1978-1987).
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
bateria com efeitos Delay
29
nas guitarras; isso remete ao que sociólogo Michael Pollack (1989)
atribui a uma memória subterrânea de pessoas que sofreram com os traumas do passado promovidos
pelas ingerências do Estado, tanto no regime militar quanto na nova república.
Na terceira estrofe, quando se diz “terceiro mundo se for piada no exterior, mas o Brasil vai
ficar rico vamos faturar um milhão, quando vendemos todas as almas dos nossos índios num leilão”,
Renato ironiza em voz encorpada e forte, demonstrando a precária situação social frente à corrupção
tanto em esfera pública (órgãos públicos) quanto na esfera privada (empresas) ao ressaltar a morte
dos índios no Brasil em detrimento aos interesses das indústrias de madeira, borracha, o avanço da
agropecuária para a região norte do Brasil em fatos que marcaram essa região, entre 1978 e 1987,
como a construção, inacabada, da transamazônica; o movimento dos trabalhadores na Amazônia e
questões étnicas e ecológicas, que passaram a ser pensados nos anos de 1980 e incorporadas a
Constituição de 1988.
O ano de 1985 foi o marco do Brasil entre 1970/1980, da transição política, pela posse do
cargo por José Sarney, e cultural, com o Rock in Rio, momento em que o campo político e o campo
cultural tomavam seus rumos diante de novas mudanças e a Legião Urbana como uma ponte entre as
duas transições. Notamos que os problemas sociais permanecem dentro um contexto político
diferente do período em que a canção foi composta (1978), definido pelo marco estabelecido em
1985, o fim do período militar e início de um regime de redemocratização do país, com muitos
problemas a serem resolvidos. Também se destaca que o povo Brasileiro é formado por pessoas
sérias, trabalhadoras em defesa a fama negativa do país, a nível nacional e internacional, e as
potencialidades do país para ser um dos melhores do mundo, ideia presente tanto na afirmação de
Renato quanto na expressão da letra “terceiro mundo se for, piada no exterior”, ainda que esta
expressão seja uma crítica irônica ao extermínio indígena no Brasil, principalmente com a construção
da transamazônica. (MAXWELL, 1999).
Que país é este, a partir do recorte proposto pelo álbum 1978/1987, significa o sentimento de
quem não esqueceu as experiências negativas de um passado marcado por repressões, autoritarismo,
obscuridão em prol das polaridades ideológicas da Guerra Fria, o qual traz um problema em cheque,
tanto em 1978 quanto em 1987: o Brasil, de fato, havia mudado com a saída dos militares do poder e
Efeito de ambiência que corresponde a ecos, que remete distância, planos de memória dependendo do ritmo das
ondas do Delay, dependendo também do estilo da música, melodia e a letra (em caso de música instrumental, o título da
música)
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
volta dos civis a presidência do país? Essa é uma resposta que só pode ser dada por aqueles que
viverem mais tempo morando no Brasil e presenciar essas mudanças, fazer suas conclusões e uma
geração futura de historiadores e outros atores sociais (re) escreverem a História do Brasil. Tal
diálogo temporal demonstra os questionamentos do presente momento no qual o álbum foi
concebido em vista do passado recente como forma de buscar respostas no passado para questões
para o presente em que a Legião Urbana a publicou Que país é este(1978-1987). Em relação a essa
situação, podemos concluir que as práticas da forma de governo anterior a 1984 permanecem no pós
1984, como a militarização das polícias brasileiras; as práticas coercitivas do Estado contra os
movimentos sociais; torturas. O controle dos jovens pelo ensino escolar (público e privado) é
igualmente criticado na canção O reggae30, assim como as regras sindicais dos condomínios.
Que país é este e as demais canções do álbum refletem a consciência de um passado,
historicamente recente, do país marcado por profundos traumas (POLLACK, 1989) no qual não se
apagaram totalmente no processo de redemocratização do Brasil, pela relevância das mesmas nesse
intervalo de nove anos até o presente momento. É também uma estratégia da Legião Urbana para
ganhar tempo para melhor elaboração do próximo trabalho, As quatro Estações, em detrimento das
pressões feitas pela EMI – Odeon para o lançamento de material novo, uma vez que gravadora tinha
conhecimento desse material da fase pré-Legião Urbana de Renato não lançado por completo nos
dois primeiros discos (DAPIEVE, 2006).
Trata-se de um processo de transição política do Brasil das décadas de 1970/1980,
evidentemente, pela ótica subjetiva-poética dos integrantes da Legião Urbana, com as influências de
seu tempo, inseridos em um contexto de transformações políticas e culturais, esta última
empreendida pelo mercado fonográfico diante das decadências musicais da disco music e da Mpb.
Também pela insatisfação com o regime militar que passara por problemas com as mobilizações
sociais, inflação, dentro do processo “lento, seguro e gradual” dos governos Geisel e Figueiredo,
passando pela transição de 1985 para a nova república, chegando a 1989 nas eleições promulgadas
para presidente. A partir dos apontamentos metodológicos de Marcos Napolitano em História e
música (2005), é possível afirmar que, dentro deste processo político, moldava-se a cultura do rock
com o surgimento de várias bandas de diversas partes do país, entre elas a Legião Urbana,
estabelecida pelo Rock in Rio, em 1985.
30
Sexta faixa do primeiro álbum Legião Urbana, publicado em 1985.
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
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Diante das convulsões políticas e sociais entre os anos 1970/1980, a Legião Urbana se insere
no campo fonográfico do rock em consolidação entre 1979 e 1985 respondendo as expectativas da
juventude que almejava por mudanças, sendo o representante que os mesmos não encontravam nos
representantes políticos e também do mercado fonográfico prejudicado pela intervenção constante
da censura em suas produções, comprometendo os interesses deste campo e do campo midiático.
Através das suas canções e canções de outras bandas de rock brasileiras, atingiram o ponto de
consagração durante a segunda metade dos anos 1980, momento favorável para a banda brasiliense
oficializar algumas das canções do Aborto Elétrico, mesmo com a censura da maioria das canções de
Legião Urbana e Que país é este 1978/1987, o que não foi empecilho para Renato Russo e sua banda,
uma vez que as vendas dos discos aumentavam na medida em que lançavam anualmente As Quatro
Estações, sinal de que se tornaram conhecedores do que Bourdieu (2005) chama de as regras do
campo artístico, fonográfico e midiático, posicionando-se sob o campo político em constantes e
profundas mutações nos anos 1970/1980, indo ao encontro dos anseios dos setores da sociedade
Brasileira.
A Legião Urbana é um agente pertencente do campo cultural influenciador e influenciado
pelo campo político, impulsionado pelos demais agentes do macrocampo social por meio dos
respectivos sistemas simbólicos, adquirindo um poder simbólico construído em Brasília e expandido
para o Brasil; um grupo que soube apropriar-se das regras dos campos artístico-cultural e político e,
ao mesmo tempo, transferir um sentimento de angústia e anseio de mudanças urgentes no Brasil
através de suas músicas no processo de transição política e cultural do país no período proposto aqui
(BOURDIEU, 2005). O poder simbólico (BOURDIEU, 2007) adquirido pela Legião Urbana foi
marcado por constantes tensões e conflitos entre os campos, conforme exposto a seguir.
Político: na fase pré-Legião Urbana pela demarcação de seu espaço com os atos de pichação
com o emblema do Aborto Elétrico – AE com arco da anarquia e suas apresentações em locais
públicos, sendo presos na maioria dos casos por não ter liberação da divisão de censura e a veto da
censura moral no pós 1984, além de, na maioria das canções, pela crítica política e social expressa nos
três primeiros discos (MARCELO, 2012).
Fonográfico: quando a Legião Urbana assina contrato com a gravadora EMI- Odeon, os
produtores e diretores artísticos passam a intervir fortemente na gravação dos discos não atendendo
às expectativas dos integrantes da banda, devido ao descompasso entre a falta de conhecimento de
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
rock dos funcionários da gravadora frente ao conhecimento relativamente amplo da banda e o temor
da gravadora em entrar em falência pela baixa venda de discos dos demais artistas contratados, com a
decadência da Mpb na tentativa de fazer um rock country, além das pressões da mesma para imediato
lançamento de material novo no mercado e a banda, às vezes, por entrar em discordância com a
EMI-Odeon por conta dessas intervenções(DAPIEVE, 2006).
Midiático e grande público: o conflito do estádio do Mané Garrincha31, em 1988, levou a mídia
local a banir a execução das músicas da Legião Urbana, despertada pela fúria do público pelo
abandono da banda no show, retirando a expectativa do público em ver intensamente o espetáculo e
pelas críticas depreciativas feitas nas colunas de jornais sobre as canções e as atitudes da banda,
principalmente de Renato Russo, pelo ser temperamental (DAPIEVE, 2006).
Tais conflitos, para Bourdieu (2007), se deve pelas divergências e convergências entre os
campos e seus agentes em contato com outros campos, que são heterogêneos e possuem relação de
interdependência por fazer parte de um macrocampo social, na medida em que tanto vai ao encontro
como vai de encontro aos interesses desses microcampos dotados de seus sistemas simbólicos. Criase, desse modo, uma força simbólica materializada no poder simbólico atribuído a Renato Russo na
fase pré-Legião Urbana em Brasília e com banda propriamente formada, visível na manifestação de
seus agentes e principalmente do agente consagrado no campo, Renato Russo, dotado de uma
capacidade adquirida por um habitus em convenção com os demais agentes, ou seja, o grande público,
além da gravadora e a mídia, por conhecerem o funcionamento do campo em que estão inseridos ou
no qual pretendem se inserir, no caso, o campo artístico-cultural.
O poder simbólico da Legião Urbana é construído em Brasília, nos anos de 1970, em conflito
com o campo político vigente no período pela crítica de suas canções as suas ações arbitrárias em
confronto com os demais campos sociais da capital federal e sociedade brasileira, onde os integrantes
da banda tiveram seu habitus estruturado e mesma medida que o estruturaram dentro do campo social
Brasiliense. Movidos pela crença da juventude universitária da UNB nos anos 1970/1980 e depois
pelo público jovem brasileiro, alcançaram o ponto de sua consagração com As quatro Estações, em 1989,
próximo às eleições presidenciais, por atingir às expectativas do macrocampo social brasileiro, após
A banda realiza um show no estádio Mané Garrincha, na capital federal; não se sabe o tamanho e o público presente
no evento, o que se sabe é superlotação do estádio para ver o show. De acordo com o Carlos Marcelo (2012) houve
empurra-empurra dos portões para entrar no estádio e estar próximo do palco, com menos de 2 metros (considerado
muito baixo para grande público); os fãs estavam histéricos, sob o efeito de álcool e outros entorpecentes aguardando a
apresentação da Legião Urbana.
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
uma sucessão de conflitos e tensões entre os microcampos em torno de Renato Russo e Legião
Urbana (MARCELO, 2012).
A consagração da banda Brasiliense foi possível pela busca e insistência de Renato Russo no
campo artístico em razão de seu habitus constituído pela familiaridade com a língua Inglesa; a
curiosidade pela leitura de literatura da biblioteca do pai; o contato musical de música clássica e rock
por seus pais e na adolescência e a inserção na faculdade de jornalismo na UNB, quando forma sua
primeira banda, o Aborto Elétrico e a carreira solo de O Trovador solitário. Estes fatores o conduziram
para o campo social brasiliense do período até chegar ao campo fonográfico-midiático em rede
nacional com a Legião Urbana. Marcada por conflitos entre os campos envolvidos, a experiência
negativa do conflito faz a banda perceber a sua imaturidade em relação ao funcionamento e as regras
do campo a ponto da banda e a gravadora trabalharem estrategicamente o formato e a publicação de
As quatro Estações em quase dois anos (1987-1989), tendo em vista a instabilidade e as mudanças
políticas, sociais e econômicas do Brasil na era Sarney com a proximidade das eleições promulgadas
da pós-Constituição de 1988.
Com a publicação do disco As quatro Estações, em novembro de 1989, mês das eleições,
obteve resultados positivos, pois vendeu ao longo do ano seguinte (1990) 1 milhão e 100 mil cópias
(RUSSO, 1996). Praticamente todas as canções são executadas em radiodifusão, carregadas de lirismo
e metáforas com questões de esfera privada, situação na qual superou as expectativas do público e da
gravadora, sendo a turnê mais intensa da história da banda. Isso demonstra o amadurecimento da
banda frente às regras dos campos político, artístico e cultural, possibilitando à mesma consagrar-se
nestes dois últimos campos sociais brasileiros, solidificando seu poder simbólico concretizado pelo
símbolo da metade de um violão como imagem central abaixo do titulo desse disco (BOURDIEU,
2005).
A partir da trajetória da Legião Urbana, em meio ao conturbado contexto político do regime
militar, podemos perceber no universo de suas músicas, o engajamento político e social com a
apropriação da cultura musical-literária agregada à sua formação como jornalista, em resposta as
ingerências do campo político. Nisto podemos perceber as ideias do protagonista e mentor das letras,
Renato Russo, e o quanto as manifestações culturais e politicas influenciam um ao outro na medida
em que são partes integrantes da história e sociedade brasileira dos anos 1970/1980.
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
REFERÊNCIAS
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3ª ed. São Paulo: Zouk, 2008.
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DAPIEVE, Arthur. Brock: o rock brasileiro dos anos 80. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995.
_________. Renato Russo: o trovador solitário. Rio de Janeiro: Relume Dumará/ Ediouro, 2006.
FAUSTO, Boris. A história do Brasil. São Paulo: Edusp, 2009.
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DELGADO, Lucilia de Almeida Neves; FERREIRA, Jorge (Orgs.). O Brasil republicano. Regime militar e
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NAPOLITANO, Marcos. História e música - história cultural da música popular. 3ª ed. Belo Horizonte:
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POLLACK, Michael. Memória, Esquecimento e silenciamento. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol. 2,
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ROCHEDO, Aline do Carmo. 2011. “Os filhos da revolução” a juventude do rock e o rock dos anos
1980- Dissertação de mestrado em História. Universidade Federal Fluminense - UFF, 2011.
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SILVA, Carlos Teixeira da. Crise da Ditadura militar e o processo de abertura do Brasil 1974-1985.In:
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
ECOPOLÍTICA: UM OLHAR PELA REPRESENTAÇÃO FOTOGRÁFICA DE
SEBASTIÃO SALGADO
Danilo Meira Leite (História – UEL).
Orientador (IC. CNPq): Professor Doutor Alberto Gawryszewski
Resumo: A Ecopolítica é um campo conceitual no interior da História Ambiental no qual podemos
depreender aspectos da cultura e da construção política do ser humano em tempo e espaços diversos.
Este campo da ecologia política nos traz um olhar, dentre outros, a respeito da violência com que o
ser humano luta por recursos naturais. Estes recursos variam de acordo com as circunstâncias, do
âmbito histórico, espacial, cultural, entre outros, embora a questão do poder sempre esteja em pauta.
Um exemplo de poder pode ser observado na posse da terra e de recursos hídricos, ou ainda, nos
dias atuais, pela luta por petróleo e demais recursos não-renováveis que denotam força política e suas
representações de poder. Por fim, acreditamos que: “a ruptura do quadro de referência da guerra fria
abriu o campo da geoestratégia e da geopolítica, nomeadamente, a ecopolítica (SOCZKA, 2008,
p.134)”, campo de estudo no qual pode ser analisado pelo viés fotográfico, no qual escolhemos
como fonte as fotografias do fotógrafo e economista brasileiro Sebastião Salgado.
Palavras-chave: História Ambiental; Ecopolítica; Sebastião Salgado.
INTRODUÇÃO
A ecologia política, campo situado na grande área do conhecimento denominada História
Ambiental, nos traz reflexão acerca de que não somos engenheiros abstratos no ecossistema, não
(des)construímos a natureza a partir do “nada” e o que causamos neste ecossistema igualmente nos
faz depreender que causará algum efeito colateral, desde as práticas rudimentares de trabalho
campesinas, ou seja, trabalho por meio da força manual até à maquinização do trabalho no campo,
pós-revolução industrial nos idos do século XVIII na Inglaterra. Acontecimentos que transformarão
tanto a curto prazo quanto em um processo de longa duração econômica e social.
A própria noção de natureza é complexa e construída, exemplos: no Brasil Colônia a visão
dos espanhóis e portugueses e as suas caracterizações edênicas pautadas pelo texto bíblico, ao
paraíso narrado no Gênesis, a crença de que o Éden era, de fato, aqui são construções assim como a
interpretação de que a densa floresta por parte de alguns cronistas era o “Inferno Atlântico”, devido à
umidade e o forte calor dos trópicos (ANDRÉ, 2006, p.39-40). Nós, seres humanos, fazemos não
apenas parte da natureza como também damos significado e a construímos cultural, social e
politicamente, como afirma ALMEIDA (2011, p.246): “Por que no discurso científico se divide:
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humanos de ambiente? Estaríamos nós, logo de início desumanizando a natureza, considerando-a
como sinônimo de ambiente e desnaturalizando os homens?”.
Iremos nos socorrer à fonte fotográfica como ferramenta de interpretação do tempo
presente, esta produzida pelo fotógrafo e economista brasileiro Sebastião Salgado. Nos idos da
década de 1970, em meio ao seu doutorado em viagem ao continente africano, Salgado descobre sua
paixão pela fotografia. Suas obras Êxodos, Trabalhadores, Retratos de Crianças do Êxodo, Outras Américas
dentre outras marcam sua nítida preocupação e engajamento social, com esta farta documentação
podemos dialogar acerca do conceito de Ecologia Política (Ecopolítica), nas quais estão intrínsecas as
questões de mobilizações rurais e urbanas devido a conflitos por posse de terras, desapropriações
devido ao controle de recursos naturais assim como conflitos étnicos, tribais e demais confrontos
envolvendo nações, povos e movimentos tanto urbanos quanto camponeses.
Há outros conceitos que interagem e em certo grau partilham do conceito a ser desenvolvido
neste artigo (notadamente, Ecopolítica), como Ecologia Radical (Slavoj Zizek) e Ecoviolência (Luis
Soczka). O primeiro autor, Zizek, filósofo marxista e estudioso do método da psicanálise de Jacques
Lacan, nos traz reflexão acerca dos traumas dos habitantes de regiões de risco, por exemplo de
desastres ambientais graves, catátrofes climáticas em sua grande maioria causadas pelas nossas
próprias ações, devido ao uso mal-apropriado de bens tecnológicos destrutivos. Zizek discorre,
também, acerca dos muros oriundos no pós-década de 1990 como sendo questões ecológicas
construídas pelo animal humano propriamente dito (ZIZEK, 2009). Exemplo são os muros que
separam os E.U.A e o México, Israel da Cisjordânia, que separam a classe média da favela no Brasil e
possivelmente em outras partes do mundo. Soczka (2008, p.134), nos remete a uma importante e
elucidativa interpretação acerca do século XX, este século das grandes guerras, como sendo “do
paroxismo da violência bélica, é também o de um crescimento econômico sem precedentes,
acompanhado por um também sem precedentes consumo (e desperdício) dos recursos naturais”. A
questão da ecoviolência se dá por motivos agressivos, pela busca e pelo anseio do controle de
recursos variados, exemplos são:
“Angola e os seus diamantes e petróleo; a Libéria e as suas madeiras e diamantes e
genocídios (o Congo e o coltan [conforme a própria nota de rodapé, coltan:
“Colômbio-tantálio, mineral indispensável para os componentes da indústria
electrónica”]; a posse da terra arável subjacente aos massacres no Ruanda,
exponenciados por ódios tribais ancestrais; o altamente cobiçado petróleo do
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Iraque, que em vinte anos conduziu a duas guerras e invasões em nome de valores
como a liberdade e a democracia), sendo nos últimos anos assinaláveis dezenas de
conflitos sangrentos (2008, p.136)”.
Práticas abusivas do ecossistema, geram e incrementam conflitos tribais e civis nas regiões acima
citadas. O padrão de consumo que poucos detém requer e causa o sofrimento, a fome e os traumas
nos espaços supracitados.
Vem a ser necessário tratarmos um pouco no desenvolvimento deste artigo a respeito do
conceito de representação, no qual me aproprio dos escritos do historiador Roger Chartier, intuito de
mostrarmos que a imagem fotográfica é construída e detêm muitos aspectos, recortes, pontos de
visão demarcados, entre outros, pois estes quesitos são feitos conforme o tempo e o espaço no qual
o fotógrafo está inserido, entendemos assim, portanto, ser o fotógrafo-autor produto do seu tempo,
sendo contra ele ou não.
PROBLEMAS E DISCUSSÃO CONCEITUAL-HISTÓRICA
Em meados do século XIX, precisamente nos idos de 1846-1848 deflagra-se a assim
chamada Guerra do México, (embora possamos depreender um discurso de poder ao refletirmos acerca
do nome que/de quem foi dado à este referido confronto). Lembramos deste acontecimento a fim
de citarmos um dos pioneiros no que se refere à Desobediência Civil, Henry David Thoreau, no qual
não se resignava a pagar impostos, estes iriam ser destinados a financiar a luta gananciosa por
territórios de seu país ocasionando mortes e sofrimentos diversos, como afirmara: “Que tipo de vida
seria essa? Ao defrontar um governo que me impõe ‘A bolsa ou a vida!’, por que deveria me apressar
em lhe entregar meu dinheiro? (THOREAU, 2001, p.30)”. Esta indagação passados quase 200
(duzentos) anos ainda nos faz refletir, ela detém caráter atual devido, entre outros, os motivos de luta
que levaram milhares de pessoas às ruas sedentas por mudanças, cansadas de usurpações do dinheiro
público entre outros descasos causados pelo governo, tal qual o tempo de Thoreau.
Podemos pensar na construção rudimentar da ecologia política desde o século XIX: “Ah!
Quem me dera conhecer um povo que iniciasse a destruição das divisas demarcatórias e deixasse
intactas as florestas! (2001, p.46)”. Contemporaneamente podemos nos apropriar e adaptar para: Por
quê dos muros? Por quê da opressora e belicosa sociedade? Entre outras questões que permanecem
com seu caráter bastante atual. Conforme temos brevemente discutido “La necessidad de explicar la
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historia desde un ponto de vista ambiental nació y ha ido desarrolándose a medida que ha iso
cresciendo nuestro conocimiento de los desastres ambientales (MOLINA, 1999, p.17)”.
Vivemos em um mundo em constantes crises, isto é sabido pelas várias crises que o sistema
capitalista passou, causou e, possivelmente, continuará a nos oferecer, devido entre outros fatores
aos métodos de consumo agressivos que nos é imposto. Fato que acarreta em desgastes e
transformações no meio ambiente, conforme ALMEIDA (1996, p.19):
“A crise ecológica faz parte de uma crise mundial, complexa e multidimensional,
fundamentada não só nos aspectos de representação social e política, mas também
visceralmente enraizada nas formas pelas quais a sociedade estrutura a sua
produção e a sua reprodução. Ela investe contra os conceitos mais consolidados até
agora, tais como progresso econônimo, centralização do poder na sociedade (...)
Nesta sociedade progresso e desenvolvimento são entendidos como sinônimos de
uma cada vez maior quantidade de bens de consumo: navios, prédios, máquinas.
Trata-se de mercadorias que se encontram no grande bazar planetário, do qual o
homem é um simples fator de produção e a natureza é o almoxarifado dos recursos
naturais, e o lixo dos resíduos da produção”.
A palavra-chave neste contexto, portanto, consideramos ser consumo, nas palavras do autor “bens de
consumo” (grifos meus). Nossa sociedade constrói necessidades no decorrer do tempo, fato econônico
tal qual social e histórico.
“...não podemos dominar a natureza como um conquistador domina um povo
estrangeiro, como alguém situado fora da natureza; mas sim que lhe pertencemos,
com a nossa carne, o nosso sangue, nosso cérebro, que está mais no meio dela; e
que todo nosso domínio sobre ela consiste na vantagem que levamos sobre os
demais seres de chegar a conhecer suas leis e aplicá-las corretamente (Engels apud
ALMEIDA, 2008, p.27)
Nesta passagem de A Dialética da Natureza, Engels evidencia grande preocupação acerca da conquista
e da apropriação displicente dos recursos naturais, sendo que somos parte e frutos destas fontes,
embora nosso imaginário faz com que nos situemos como alheios ao ambiente, ao nosso hábitat. Pois
vivemos – basta relembrar citação de Henry Thoreau acerca da depredação dos recursos e a
problemática das divisas – ao estilo de vida de conquistadores, como se desbravássemos um mundo
estranho, muito embora paradoxalmente ele mesmo seja a nossa casa.
Relatório das Nações Unidas apresentado ao Fórum de Quioto no ano de 2003, nos causa
muita preocupação e desconforto devido à estimativa que entre 20 milhões a 70 milhões de pessoas
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ficariam sem água potável em meados do século XXI (visto que, estamos demasiado próximos deste
‘meados’), (SOCZKA, p.139). Sabemos ser possível viver sem petróleo, pois já vivemos bastante
tempo sem este recurso, porém sem água sabe-se ser impossível a continuidade da vida. Desde a
prática econômica da agricultura desde ao consumo pessoal o uso da água é imprescindível, a luta
por este rmeio de sobrevivência é um fator histórico, desde conflitos de grupos e comunidades
antigas aos tempos modernos de guerras entre Estados centralizados ou em casos contemporâneos
entre Estados centrallizados (Israel) e Estados não-reconhecidos como possuidores de um território
por direito (Palestina),
“como já em 1953 afirmava o Ministério do Negócios Estrangeiros israelita com
toda a clareza, [a água] é para Israel sinónimo de vida. Em muitas zonas da
Palestina, ao contrário de Israel, a água está racionada e nos meses de Verão só há
água durante algumas horas por dia, um padrão que também se verifica noutros
países da bacia do Jordão (SOCZKA, p.141)”
Notamos, desta forma que a mentalidade e a construção das necessidades básicas viabiliza-se de
maneira diferenciada de acordo com que é “O Outro”, visto no caso em questão o tratamento do
Estado Israelense com os demais vizinhos, não só a questão Palestina, como pode-se observar:
“Com um crescimento populacional que nos anos 80 e 90 rondou os 5%/ ano, e
em algumas zonas de Gaza 13%, e com as fronteiras fechadas por Israel por razões
de segurança, os habitantes de Gaza estão numa situação limite, são refugiados
ambientais na sua própria terra, donde não podem sair (SOCZKA, p.141)”.
Ora, por alegar supostas razões de segurança Israel priva de água habitantes do território de
Gaza e, como visto acima, das demais localidades próximas à bacia do rio Jordão. Como afirmado
por Zizek, na entrevista concedida ao programa Roda Viva da TV Cultura, as pessoas são refugiadas
de muitas maneiras, inclusive em seu próprio território devido aos fatores econômicos e das
necessidade construídas socialmente, pois para Israel ter farta e abundância de água privar “O Outro”
vem a ser útil. A Ecologia Radical que ele propõe vai ao encontro desta problemática dos recursos ou a
falta deles. A violência está intrínseca também na omissão, na permissão de um povo, etnia, grupo ao
acesso de uma fonte em detrimento de outro/a.
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FOTOGRAFIA E A ECOPOLÍTICA
Neste momento, torna-se necessário dialogarmos com o conceito de representação, no qual
nos apropriamos do historiador da cultura Roger Chartier, que mencionamos no resumo e na
introdução deste artigo, o intuito é relacionar este conceito às fontes fotográficas com o viés da
ecopolítica. Embora longa, bastante elucidativa a seguinte citação de Chartier acerca do conceito de
representação:
“Tal como a compreendo, a noção não se afasta nem da realidade nem do social.
Ao ressaltar a força das representações, sejam elas interiorizadas ou objetivadas, ela
ajuda os historiadores a desfazer-se de sua “bem frágil ideia do real”, como escrevia
Foucault. Tais representações não são simples imagens, verídicas ou enganosas, de
uma realidade que lhes fosse exterior. Elas possuem uma energia própria que
convence de que o mundo, ou o passado, é realmente aquilo que dizem que é.
Produzidas em suas diferenças pelos distanciamentos que fraturam as sociedades, as
representações, por sua vez, as produzem e reproduzem (CHARTIER, 2010,
p.26)”.
Entendemos, partindo então para a análise imagética, no caso em questão fotográfica, que tal qual o
documento escrito a fotografia é construída, criticável desde seu processo de produção e construção,
pois o sujeito que a produz consequentemente carrega seu produto de sentido, esta fonte, portanto,
produzida em um dado espaço, tempo, olhar cultural, social e político específicos. A fotografia “isola
um determinado ponto no tempo e no espaço, acarretando a perda da dimensão processual do
tempo vivido (MAUAD, 1996, p.75)”. Assim como o recorte que o autor-fotógrafo estabelece é
parcial, pois é o seu olhar quem determina o que será registrado, recortado e documentado, a
fotografia traz uma dada mensagem escolhida, não exatamente fidedigna como assim pensavam no
oitocentos ou mesmo nos princípios do século XX.
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Por exemplo, esta fotografia acima de Sebastião Salgado, preocupado com as lutas, conflitos e as
problemáticas sociais, dentre estas a luta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), além
da evidente caracterização do punho em riste, o tradicional gesto que representa a força e a luta deste
grupo social percebemos no primeiro plano duas crianças, sendo que uma delas está no colo de sua
mãe e a outra criança olha para a lente de Salgado. Nesta imagem acima é possível dialogarmos com
diferentes faces sociais e políticas, “Sem esquecer jamais que todo documento é monumento, se a
fotografia informa, ela também conforma uma determinada visão de mundo (MAUAD, 1996, p.79)”.
Logo, vem a ser necessário situarmos o olhar do fotógrafo, no caso o brasileiro Sebastião Salgado.
Em linhas gerais um pouco da vida de Salgado. Nasceu em Aimorés-MG, graduou-se em
economia na USP, quando realizava seu doutoramento na França, ao realizar estágio no continente
africano se encanta pela arte da fotografia (embora ele não vê a fotografia como arte), a partir de
então deixa a economista para ser primordialmente fotógrafo com dedicação exclusiva, em pouco
tempo começa a trabalhar para as grandes empresas do ramo, dentra elas a MAGNUM, Salgado com
viés marxista desde então passou a fotografar diferentes esferas sociais, por exemplo a já mencionada
obra Trabalhadores. Como também Êxodos que nos mostra grande preocupação social. A fotografia
escolhida para este ensaio/artigo mescla aspectos destes dois temas, pois são trabalhadores/as em
circunstância de luta por terra, e justamente por suprir grandes temas esta representação fotográfica
foi escolhida como fonte neste trabalho. Infelizmente, no momento não nos é possível fazermos
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uma detalhada descrição ou mesmo um estudo pormenorizado, embora citarei alguns exemplos
necessários, “o uso de imagens de crianças por historiadores tem objetivado acima de tudo
documentar a história da infância, em outras palavras, as mudanças na visão que os adultos têm das
crianças (BURKE, 2004, p.129)”. A criança sem-terra, sem abrigo, as crianças órfãs, as que
necessitam trabalhar em algum semáforo vendendo balas/doces, em uma pedreira ou mesmo em
canaviais detém “infância”? E a criança de classe média que tem sua rotina ocupada devido à
natação, judô, xadrez, escola de línguas e os meios materiais possíveis à sua disposição, porém muitas
vezes sem o carinho e afeto familiar, esta detém uma “infância”? Embora, obviamente, falemos de
características de vida totalmente distintas o ter/ser infância é uma categoria bastante relativa e
conforme o historiador das mentalidades Philippe Ariès a criança nas sociedades tradicionais
(medievo-ocidental) era tratada com o ideal de cuidado apenas em seus primeiros meses de vida,
após conseguir simplesmente ter porte físico de poder trabalhar no mundo adulto assim ela passava a
ser vista: um adulto-pequeno (1981, p.9-11). Hoje a concepção de infância e o consequente cuidado
com esta etapa da vida é bastante diferente, como bem sabemos. Este fato é evidenciado, por
exemplo, na fotografia em questão em que as duas crianças estão atreladas à figura da mãe.
É possível abordarmos com base nesta imagem os movimentos de mulheres, em especial as
mulheres camponesas, acerca da história das mulheres o historiador inglês Peter Burke afirma:
“É um lugar-comum da história das mulheres que – como a história da infância –
frequentemente teve de ser escrita a contrapelo das fontes, especialmente das
fontes de arquivo, criadas pelos homens e expressando os interesses masculinos
(2004, p.133)”.
E, parafraseando Joan Scott, a história das mulheres é uma história essencialmente política. Estas
afirmações vão ao encontro do que pode ser visto na fotografia acima, pois é frequente a visão da
figura da mulher pelo olhar do homem, embora o autor-fotógrafo Sebastião Salgado dê à mulher não
uma visão tradicional, ou seja, da mulher como passíva na história mas sim, torna possível lermos a
fotografia desta personagem como uma autêntica trabalhadora-militante. Nesta fotografia podemos
analisar muitos outros aspectos: o porquê dos homens em segundo plano ao fundo; o porquê de
pessoas em cima das árvores; podem ser questionadas questões técnicas como a preferência do preto e
branco, característica marcante na pluralidade das obras de Sebastião Salgado, possivelmente por nos
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remeter à uma visão própria do acontecimento, pois não temos o mundo em preto e branco, talvez, isso
a ideia de fazer o leitor construir sua própria interpretação.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em suma, dialogamos com algumas abordagens que se complementam e nos trazem
importante reflexão acerca do corpo teórico da ecopolítica. Desde a visão do Outro/A Outra, que tem
atraído nos dias atuais interesse por parte dos/as historiadores/as da cultura, “paralelo ao aumento
do interesse pela identidade cultural e encontros culturais (BURKE, 2004, p.153)”. Destas
identidades e encontros culturais citados por Burke a fotografia analisada demarca conflitos também
identitários, no caso a identidade de um grupo que luta por interesses comuns, principalmente a
posse da terra e a sua distribuição de forma mais equitativa entre iguais.
Por fim, a breve análise deste conceito em paralelo à fonte fotográfica e às contribuições dos
autores nos mostram que este caminho é amplo, podendo ser focados diversos temas e temáticas
diferenciadas, pois aqui nos detemos apenas em um pequeno recorte e em uma fonte fotográfica
apenas, procurando construir um estudo um pouco mais horizontal em relação ao corpo teórico do
texto e um pouco vertical em relação ao documento imagético em questão. “Enfim, a atividade
humana estabelece uma ordenação no meio ambiente segundo sua cultura e instrumental tecnológico
(ALMEIDA, 1996, p.35)”. Esta (des)ordenação que buscamos evidenciar, juntamente com o que
criamos, produzimos, construímos tanto social quanto politicamente, são objetos de estudo da
ecologia política.
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
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INTERVENÇÃO DOS ESTADOS UNIDOS NO IRÃ: O GOLPE CONTRA
MOSSADEGH (1953)
Marcelo Garcia Bonfim (Mestrando do PPGHS-UEL)
Sylvia Ewel Lenz (Orientadora-UEL)
Em 1953 os Estados Unidos autorizaram a realização da Operação Ajax,
responsável pela derrubada do governo do nacionalista de Mohammed Mossadegh (1951-1953),
instalando um regime pró-anglo-estadunindese. Segundo, Kinzer (2006) foi a primeira fez que os
Estados Unidos derrubaram um regime estrangeiro. Em 1979, os fundamentalistas revidaram com a
derrubada do regime do xá Mohammed Reza Pahlevi (1953-1979) Começava a Revolução Islâmica
de 1979 com o regime dirigido pelos aiatolás e que permanece até a atualidade.
O governo de Mossadegh enfrentou os interesses britânicos referentes ao controle
do petróleo no país, pois os iranianos queriam os mesmos termos praticados pelos Estados Unidos
na Arábia Saudita. Segundo Kinzer (2006), os Estados Unidos eram vistos como aliados dos
iranianos, por terem sido colônia do Império Britânico. Contudo, o governo conservador de
Eisenhower auxiliou no golpe de 1953 no Irã, o que deu motivos para o ódio entre os dois países.
Entender a interferência nos Estados Unidos nesse país nos anos 1950 é
fundamental para se compreender os interesses e projeto de poder desenvolvido pelos
estadunidenses na região. Nesse sentido, o jornalista Stephen Kinzer (2006) apresenta os motivos
que levaram para a realização do golpe de 1953.
O território que atualmente é conhecido como Irã, abarcava o antigo Império
Persa cuja principal religião era o Zoroastrismo, com a crença de que o ser humano é o responsável
por estabelecer a justiça social na terra. Dessa forma, os líderes são considerados os representantes
de Deus. Em 344 a.C, Alexandre, o Grande, na expansão do seu império, invadiu a Pérsia e saqueou
Persépolis.
O Islã chegou na região em 626 d.C. Com a morte de Maomé em 632 d.C
surgiram duas correntes dentro do Islamismo, os xiitas e os sunitas. Os sunitas acreditam que
Maomé não deixou um sucessor legítimo, sunita tem origem na palavra sunna, que são os preceitos
do profeta Maomé estabelecidos no século VIII. Já o xiita significa Shi’at-Ali, os seguidores de Ali,
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nessa corrente, os islâmicos acreditam que Ali era o verdadeiro sucessor de Maomé. Ali tinha casado
com uma das filhas do profeta, e dedicou a doutrina à devoção e justiça social, o que levou membros
de classes mais baixas a aderiram a esse movimento.
Os russos e britânicos tinham interesse no Irã, os russos como forma de proteção
da fronteira meridional, e os britânicos como caminho para a Índia. A dinastia dos Qajar começou a
realizar diversas concessões a países estrangeiros, principalmente os britânicos, o que levou a uma
crescente insatisfação popular. Para ter riqueza e luxo os reis usurpavam do bem do povo por meio
de altos impostos e entregava o país para a especulação estrangeira. Em 1857, o xá Nasir al-Din
vendeu uma concessão de telégrafos para os ingleses e essa transação do Irã aos britânicos era
tamanha que:
a mais espetacular de todas foi obtida por um súdito britânico nascido na
Alemanha, barão Julius de Reuter, o pioneiro das agências de notícias. Em 1872,
por uma soma insignificante e a promessa de royalties futuros, ele adquiriu o direito
exclusivo de comandar as indústrias do país, irrigar suas fazendas, explorar seus
recursos minerais, expandir suas estradas de ferro e linhas de bonde, criar seu
banco nacional e emitir sua moeda (KINZER, 2006, p.48)
A insatisfação popular contra esse modelo de concessão foi tão grande que um
ano depois o Xá teve que revogar o contrato. Porém, isso não impediu a realização de novas
concessões. Em 1891 o xá vendeu a indústria fumageira por 15 mil libras, esse contrato permitia que:
“todo plantador de tabaco era obrigado a vender sua produção à British Imperial Tobacco Company e
todo fumante tinha de comprá-lo em alguma loja da rede varejista da mesma companhia” (KINZER,
2006, p.49).
Tomar esse produto tão básico para os iranianos tornou-se uma afronta. Sheik
Shirazi, maior líder religioso, protestou. Apoiou um fatwa (mandato religioso) que afirma que
enquanto o fumo fosse controlado por estrangeiros seria um desafio ao décimo segundo imane “que
Deus apresse o seu advento”. O Xá novamente teve que revogar a concessão, mas antes fez novo
empréstimo de meio milhão de libras para pagar indenizações para a companhia britânica. A Revolta
do Tabaco era o sinal da luta popular pelo enfraquecimento do absolutismo iraniano culminando
com o assassinado do Xá, em 1896.
O Irã vivia sob o domínio de estrangeiros, inflação galopante, grande desemprego
e escassez de alimentos. Nesse ambiente, o governo impopular do novo Xá, Mozaffar ad-Din (1896-
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1907), vendeu ao financista britânico William Knox D’Arcy a concessão de explorar os
hidrocarbonetos e petróleo num prazo de 70 anos.
Não obstante, em 1907, o Reino Unido e a Rússia realizaram a Convenção AngloRussa repartindo o Irã entre si; russos dominariam o norte e os britânicos o sul. Somente em 1917,
com a Revolução Russa, os bolcheviques renunciaram a seus direitos e cancelaram os débitos o
governo iraniano.
O caminho estava aberto para os britânicos terem o domínio completo do país.
Em 1919, eles impuseram o acordo Anglo-Persa pelo qual assumiriam o controle do exército, o
tesouro, o sistema de transportes além da rede de comunicações. O acordo acabou com qualquer
possibilidade de soberania da Pérsia, o que provocou no surgimento de movimentos nacionalistas,
espelhados nos exemplos de movimento anticoloniais.
Para diminuir os ânimos da população os britânicos fizeram com que o general
popular, Reza Khan se tornasse primeiro ministro, comandante das Forças Armadas e líder do
Estado. Em 1923 o xá Ahmad (1909-1925) e sua família saíram do país e foi para Europa mas
decidiram retornar em 1925. Os Majlis, com receio de que pudessem restaurar o poder monárquico,
extinguiram a dinastia dos Qajar e ofereceram o trono do Pavão à Reza que o assumiu em 25 de abril
de 1926, se proclamando xá.
A história do petróleo no Irã começou em 1901. Nesse ano o milionário William
Knox D’ Arcy firmou um acordo com o xá Muzzaffar al-Din o qual concedia uma boa parte de terra
para explorar o petróleo, área do tamanho do Texas e Califórnia. D’ Arcy contratou um geólogo,
George Reynolds para encontrar petróleo; achou pela primeira vez um pequeno poço em 1904.
O milionário esteve perto da falência, tendo que vender a maior parte de seu
direito a um grupo de Glasgow, chamado Burmah Oil Company que entendia que, com a chegada do
motor de combustão, o petróleo seria uma necessidade mundial. Em 26 de maio de 1908, para sorte
ou azar dos iranianos, sem dinheiro e com ordens para retornar, Reynolds fez a sua última tentativa e
descobriu a maior reserva petrolífera já vista. Diante disso, os britânicos prontamente fundaram a
Anglo-Persian Oil Company.
Diante da crescente necessidade britânica pelo “ouro” negro, Winston Churchill
(1940-1945 e 1951-1955) próximo da guerra, comprou 51% das ações da companhia. A refinaria de
Abadan foi, por muitos anos, a maior do mundo. Para se ter uma ideia, em 1914 a produção desse
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campo petrolífero era de 300 mil barris, em 1920 de 1,5 milhões de barris, já em 1941 a quantidade
extraída de petróleo era de 6,5 milhões e em 1945 passou para 16,5 milhões de barris.
Na compra, a Marinha Real tinha prioridade, depois vinham os industriais e o que
sobrava era vendido ao mundo. O xá Reza tentou renegociar os royalties em 1928 sem sucesso. Com
a crise de 1929 o valor pago aos iranianos, 16% do lucro líquido da companhia, tornou-se irrisório.
Isso fez com que, em novembro de 1932, Reza cancelasse a concessão de D’Arcy. Uma nova rodada
de negociações com os britânicos foi realizada estabelecendo melhores condições de trabalho, o
pagamento de 975 mil libras anuais, e o aumento do prazo da concessão que findaria em 1961 por
mais 32 anos.
Porém, as condições de trabalho na refinaria de Abadan continuaram precárias,
forçando os operários a realizar uma greve em 1946. As palavras de ordem exigiam melhores
condições nas moradias, assistência médica decente, e o compromisso de que os britânicos
cumprissem com as leis trabalhistas iranianas. Em vez de negociar com o movimento sindical, os
britânicos organizaram as etnias árabes e tribos separatistas num sindicato amarelo para enfrentar os
grevistas. A greve terminou quando os diretores da Anglo-Iranian concordaram em respeitar as leis
trabalhistas, no entanto nunca respeitaram.
O desprezo do povo iraniano com a Anglo-Iranian só aumentava. Em 1947 os
Majlis (Parlamento Iraniano) voltaram a ter força política, conseguindo aprovar uma lei proibindo
concessão futuras a empresas estrangeiras e ordenava o governo a renegociar as que estavam sob
operação da Anglo-Iranian (KINZER, 2006, p.70). O parlamentar que conseguiu aprovar a medida foi
o fervoroso nacionalista, Mohamed Mossadegh.
O principal inimigo de Mossadegh era a Anglo-Iranian Oil Company, acreditava num
governo sob a lei, e que deveria ter soberania perante aos interesses estrangeiros. Com o aumento de
seu prestígio perante a população o xá Reza ofereceu diversos cargos para Mossadegh, porém ele
recusou.
Sem conseguir deter Mossadegh, o xá, na eleição de 1928 fez um sistema de
contagem de votos que impossibilitasse os candidatos da oposição se elegerem, Mossadegh foi sua
vítima. Sem poder fez um autoexílio em sua fazenda, insatisfeito o xá mandou prendê-lo por
subversão, algo nunca provado. Mossadegh tentou suicídio várias vezes sem sucesso, um amigo de
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sua família ligado ao xá Reza, conseguiu a prisão domiciliar. Em 1943, com a queda de Reza,
Mossadegh voltou a cena política, eleito para o Majlis.
Desde a descoberta do petróleo no Irã, a relação entre o “ouro” negro e política
foi determinante na disputa pelo poder. No parlamento havia debates intensos sobre como o
governo iraniano deveria lidar com a Anglo-Iranian. Alguns parlamentares queriam que os britânicos
alterassem os termos contratuais, dividindo o lucro entre os dois países, essa prática era realizada
entre sauditas e estadunidenses.
Em 1949 os nacionalistas foram derrotados nas eleições. O líder nacionalista
Mossadegh afirmava que o resultado das eleições eram fraudulentas, e fez o xá convocar novas
eleições. Sob a liderança de Mossadegh foi formada a Frente Nacional, formada sobretudo de
movimentos sociais, partidos políticos, e sindicatos.
Os britânicos, vendo crescer o poder dos nacionalistas, tentaram encontrar nova
liderança. Após sucessivas tentativas indicar um novo primeiro-ministro, eles viram no general
Razmara um candidato firme, e poderoso o suficiente, por ter ajudado a eleger mais da metade dos
deputados devido à sua força. Era o candidato ideal para atender os interesses estrangeiros, e aprovar
o acordo complementar32.
O Irã possuía três forças políticas: Mossadegh (Frente Nacional), Primeiroministro General Razmara, e o xá Mohamed Reza. Mesmo com um novo primeiro-ministro próbritânico, o movimento nacionalista exigia a nacionalização da Companhia de petróleo. Em sete de
março de 1951 novos protestos colocavam como palavra de ordem: “Morte aos britânicos”. O
primeiro-ministro Razmara ficava sem seu grande poder para reação, e se tornava cada vez mais
impopular, sendo assassinado ao ir numa mesquita.
Mossadegh aproveitou a força política de seu grupo e recomendou a
nacionalização da Anglo-Iranian Oil Company, no Comitê do Petróleo por ele presidido. Para substituir
Razmara, Hussein Ala foi nomeado primeiro-ministro, contudo logo teve que renunciar, pois não
conseguia conter o grupo nacionalista. Assim Mossadegh, em 15 de março de 1951 conseguiu por
unanimidade aprovar tanto nos Majlis quanto no Senado a nacionalização da companhia de petróleo.
No dia da votação para nomear Sayyed Zia como primeiro-ministro, o deputado
da direita Jamal Emani, que recebia dinheiro dos britânicos, fez um discurso criticando a postura
Nesse acordo estava previsto um pagamento de royalties acima de quatro milhões de libras, melhorias nas condições
dos trabalhadores, e redução da área para perfurar o petróleo.
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
tomada por Mossadegh, o desafiando a assumir o cargo de primeiro-ministro. Após esse discurso,
silenciosamente Mossadegh apresentou sua candidatura a primeiro-ministro, pela surpresa de todos.
Com 79 votos a 12, ele foi eleito primeiro ministro.
Antes de assumir o cargo conseguiu aprovar por unanimidade que um comitê
parlamentar auditasse os livros da Anglo-Iranian, avaliasse as reivindicações das partes, mandaria
técnicos iranianos ao exterior para se capacitarem e redigir a carta da nova Companhia Nacional
Iraniana de Petróleo.
O momento da nacionalização da companhia de petróleo era tenso para o mundo
ocidental. Em 1949 tinha acontecido a Revolução Chinesa, o que levou maior atenção dos Estados
Unidos na região. No ano seguinte, os Estados Unidos entrava em guerra na península coreana. Os
britânicos aproveitaram dessa conjuntura para tornar a questão do Irã um conflito Leste e o
Ocidente.
A Guerra Fria se intensificava no mundo todo fazendo com que o governo dos
Estados Unidos reagissem. Em 1947 o governo Truman criou a Centro de Inteligência Americana
(CIA), que a principio tinha como função resolver os problemas da segurança interna. Contudo, com
o avanço soviético passou também a trabalhar no exterior, realizando operações de sabotagem,
contra-sabotagem, medidas de demolição e evacuação, subversão, assistência a movimentos
clandestinos, auxílio em movimentos de libertação de refugiados e guerrilhas e apoio a
anticomunistas. Em junho de 1950 foi aprovado no Conselho de Segurança dos Estados Unidos o
documento NSC-68, que autorizava o governo a agir em regiões em que houvesse avanço do
comunismo, independente se atingisse o interesse nacional. (KINZER, 2006, p. 104).
A relação entre Estados Unidos e Irã era amistosa. Os iranianos admiravam os
estadunidenses, principalmente por causa de seu passado colonial sob domínio britânico que os
aproximava. Em 1919 o governo estadunidense havia criticado o acordo Anglo-Persa, e em 1951 os
Estados Unidos reconheceu a nacionalização do petróleo o que demonstrava para os iranianos um
laço de amizade entre os dois países.
A administração Truman buscava defender governos nacionalistas, entendia que
tais tendências poderiam conter o avanço comunista. Os jornais estadunidenses elogiavam as
medidas tomadas por Mossadegh, enquanto que os britânicos o criticavam.
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Os Estados Unidos enviaram Averrel Harriman, embaixador na Grã-Bretanha e
União Soviética e diretor do plano Marshall na Europa, para tentar negociar com o governo de
Mossadegh novos termos do contrato com o governo britânico. O embaixador levou consigo um
especialista do petróleo, Walter J. Levy. Nas vistas realizadas em Abadan Levy constatou que se
Mossadegh não negociasse com os britânicos, os iranianos não teriam condições técnicas de manter a
lucratividade da companhia, o que, provavelmente, levaria à derrubada de Mossadegh e uma
ascensão do Tudeh (partido de esquerda), levando assim o país a órbita de Moscou.
O avanço conquistado por Harriman foi “convencer Mossadegh a divulgar uma
declaração dizendo que negociaria com um enviado da Grã-Bretanha ‘se o governo reconhecer, em
nome da antiga Anglo-Iranian Oil Company, o princípio da nacionalização da indústria de petróleo
do Irã’” (KINZER, 2006, p.128).
Após longas negociações com os britânicos, Harriman conseguiu que fosse
enviado a Teerã o sir Richard Stokes, homem que não tinha experiência no Oriente Médio. A
proposta de Stokes era dividir o lucro em 50%, mas os britânicos controlariam o refino, perfuração e
operações de exportação. Já o governo de Mossadegh concordou em negociar em três pontos:
continuação a venda do petróleo aos britânicos; transferência de técnicos britânicos para a
companhia nacionalizada; e a indenização que o Irã pagaria aos britânicos desde que os iranianos
controlassem a refinaria. Ao enviar tal proposta, Stokes recebeu a mensagem para
voltar
imediatamente e encerrar as negociações. Com o fim das negociações, os britânicos aprovaram
sanções econômicas contra o Irã.
Após fracassar nas negociações os britânicos Morrison, Secretário do Exterior e o
embaixador Shepherd começaram discutir duas propostas para a retirada de Mossadegh do poder, as
alternativas eram: deposição ou invasão. Os Estados Unidos, sob o governo democrata, recusava em
trabalhar as duas hipóteses, querendo que os britânicos cedessem visando uma maior estabilidade na
região. Para sorte dos britânicos e azar dos iranianos esse cenário mudou após 1951, com as eleições
de Winston Churchill (1951-1955), primeiro ministro britânico e Dwight Eisenhower (1952-1960),
presidente dos EUA, trouxeram os conservadores de volta ao poder.
Em 1952, Mossadegh pediu para o Xá, renunciar o controle no Ministério da
Guerra, algo que nenhum primeiro-ministro havia solicitado. O controle sob as Forças Armadas era
a principal ferramenta do poder do Xá que se recusou a atender o pedido do primeiro-ministro. Em
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julho do mesmo ano, Mossadegh renunciou ao cargo e os britânicos aproveitaram a sua renúncia
para tentar substitui-lo por Ahmad Qavam.
O ano era de eleições e Mossadegh estava preocupado com a situação política dos
Majlis, com britânicos subornando líderes regionais e deputados, fazendo com que vencesse para
“legalmente” depor o primeiro-ministro. As tensões no Irã intensificavam cada vez mais com
diversas manifestações em todo o país, com o apoio de forças militares.
Com ganho de capital político, a Frente Nacional, em julho convocou uma greve
geral. O xá Mohammed Reza Pahlevi (1941-1979), como forma de reprimir as manifestações e
reinstaurar a ordem no país, autorizou o exército a comandar diversos massacres que desagradavam
partes dos setores do exército a se revoltarem contra o governo. Como forma de intermediar o
conflito o xá Reza Pahlevi teve que pedir a renúncia de Qavam e ofereceu o cargo para Mossadegh.
Voltando ao poder em outubro de 1952, Mossadegh rompeu relações
internacionais com os britânicos, expulsando os seus agentes do país. Em 23 outubro, o Senado foi
dissolvido para prender Zahedi, que estava ligado aos britânicos para depor Mossadegh.
O britânico Monty Woodhouse operava desde os anos 1950 uma rede de
espionagem em Teerã. Os principais agentes, os irmãos Rashidian, recebiam 10 mil libras, cerca de 28
mil dólares, para subornar lideranças iranianas. Com a eleição de um republicano nos Estados
Unidos, Woodhouse foi até Washington, antes mesmo da posse do novo presidente, com a retórica
de que Mossadegh não aguentaria um golpe soviético feito pelo partido Tudeh.
Os irmãos chefe da política externa dos EUA John Foster Dulles e Allen Dulles,
secretário de Estado e outro diretor da CIA levaram Eisenhower a acreditar que o Irã estava se
dirigindo a uma desordem que cominaria no comunismo. O presidente republicano deu sinal verde
para a operação, era tudo o que os britânicos queriam, os irmãos Dulles tiveram como primeira
missão derrubar Mossadegh.
A CIA recebeu um milhão de dólares para orquestrar o golpe. Conseguindo o
apoio dos Estados Unidos, os Irmãos Rashidian queriam causar o caos sequestrando autoridades do
governo com o objetivo de desestabilizar o regime. O alvo foi o chefe de polícia em Teerã, general
Mahmoud Afshartus, assassinado assim que seu cativeiro fora descoberto. A CIA encarregou o neto
do presidente Roosevelt, Kermit Roosevelt, de coordenar a Operação Ajax.
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Os britânicos e estadunidenses concordavam em colocar o general Fazlollah
Zahedi como primeiro-ministro, depois de derrubar Mossadegh. O plano do golpe consistia em:
gastar 150 mil dólares destinado a desmoralizar o governo de Mossadegh, figurá-lo como corrupto,
pró-comunista, e hostil ao Islã. Ao mesmo tempo fariam ataques a religiosos, parecendo que foi
ordenado por Mossadegh. O general Zahedi influenciaria os militares, corrompendo-os com os 135
mil dólares disponibilizados pela CIA. Também foram gastos onze mil dólares semanais para
subornar deputados e, por fim:
na manhã do “dia do golpe”, milhares de manifestantes pagos fariam uma grande
demonstração antigovernamental. O Majlis reagiria com uma votação pré-arranjada
e semilegal pela demissão de Mossadegh. Se ele resistisse, seria detido por unidades
militares do Exército sob o controle do Zahedi, que prenderiam seus principais
auxiliares e tomariam postos de comando militar, delegacias de polícia, escritórios
de telefonia e telegrafia, estações de rádio e o Banco Nacional (KINZER, 2006,
p.184)
Para conferir legalidade no golpe, o xá Reza Pahlevi assinaria um documento
destituindo Mossadegh do cargo de primeiro-ministro. O coronel Nematollah Nasiri, comandante da
guarda imperial, seria responsável por levar o decreto para Mossadegh. A operação Ajax consistia
dessa forma em quatro pontos chaves. Primeiro seriam realizadas campanhas em mesquitas e na
imprensa; segundo, comandantes militares monarquistas levariam o decreto para depor o PrimeiroMinistro; terceiro haveria manifestações nas ruas; e quarto o general Zahedi faria uma aparição
aceitando a indicação do xá Reza Pahlevi como Primeiro-Ministro.
Com os altos investimentos realizados pelos governos britânicos e estadunidenses,
o governo de Mossadegh começava dar sinais de fraqueza. Sua posição no poder era desfavorável, o
país estava em dificuldade econômica, e o primeiro-ministro estava isolado.
A primeira tentativa de golpe foi fracassada. O general Riahi, aliado de Mossadegh,
descobriu a tempo o plano e conseguiu realizar um contragolpe. Após fracassar na primeira tentativa
de golpe Kermit Roosevelt, mesmo com ordens para retornar aos Estados Unidos, resolveu tentar
novamente.
O agente Roosevelt aproveitou da rede armada pelos britânicos, como a primeira
tentativa foi fracassada, seu primeiro passo foi se encontrar com o general Zahedi e leva-lo para um
local seguro. O plano de Roosevelt era de, no primeiro dia, corromper lideranças para que
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
mobilizasse as massas para fazer baderna em nome de Mossadeg e, no segundo dia, usaria de forças
de segurança para capturar Mossadegh. A imprensa golpista noticiou a tentativa de golpe frustrada,
como uma tentativa de Mossadegh de derrubar a monarquia.
O erro político de Mossadegh e seu grupo, era acreditar que o golpe frustrado
partira do xá e não de um agente estrangeiro. Para ajudar na segunda tentativa de golpe, o agente
Roosevelt solicitou para o embaixador estadunidense chamar o Primeiro-Ministro e convencê-lo de
reprimir as manifestações dos nacionalistas e comunistas orquestradas por Roosevelt. Após uma
conversa com o embaixador, Mossadegh acatou o conselho, era o erro fatal que levaria ao sucesso do
golpe.
O aiatolá Kashani recebeu dez mil dólares para fazer uma manifestação contra
Mossadegh. O agente Rossevelt também financiou grupos de mafiosos para fazer manifestações próxá. Para consolidar o golpe, o general Zahedi mandou fechar as fronteiras, expulsar forças militares
pró-Mossadegh e reprimir as manifestações. Como recompensa pelo trabalho realizado, o general
recebeu US$ 5.000.000,00 (cinco milhões) da CIA quando assumiu o cargo de Primeiro-Ministro.
Com o sucesso do golpe, Mossadegh foi condenado a três anos de prisão em
regime fechado, depois cumpriu o resto da vida em prisão domiciliar. Durante sua prisão domiciliar
em Ahmad Abad, foram observados pelos agentes da nova polícia secreta, Savak, de modo que só
parentes e amigos íntimos poderiam visitá-lo. Alguns ministros foram presos e alguns inocentados,
só Fatemi, Ministro do Exterior, um antimonarquista foi condenado e executado.
Já o destino dos militares não foi o mesmo, 600 militares leais a Mossadegh foram
presos, dos quais 60 fuzilados. O partido Tudeh e a Frente Nacional foram banidos, seus dirigentes
presos ou mortos. Mossadegh aceitou sua derrota política e se isolou em sua fazenda. Ficou doente,
teve câncer na garganta cujo tumor foi retirado, mas com a saúde muito debilitada, morreu em março
de 1967.
A petrolífera Anglo-Iranian Oil teve o nome alterado para British Petroleum, porém
não pode retomar sua posição, como os EUA fizeram o golpe, queriam repartir os espólios. Um
novo consórcio para dividir as ações foi feito, a Anglo-Iranian ficou com 40%; cinco companhias dos
EUA com outros 40%; 20% foi dividido entre a Royal Dutch/Shell e a Compagnie Française de Pétroles.
Os não-britânicos pagavam um bilhão de dólares pelos 40% da concessão da Anglo-Iranian. O novo
consórcio manteve o nome de Companhia Nacional Iraniana de Petróleo; os lucros com o Irã foi
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repartido na base dos 50%, mas os iranianos não poderiam assumir cargos no conselho diretor ou
auditar os livros da companhia.
O xá Reza Pahlevi foi aos poucos se tornando um ditador, perseguia dissidentes e
investia em armamentos. Após o golpe de 1953, o general Zahedi ajudou o xá a perseguir
nacionalistas e esquerdistas, após dois anos como primeiro-ministro, teve desavenças com o xá, foi
demitido e mandado para ser embaixador em Genebra onde morreu em 1963.
Com o passar dos anos, o novo inimigo do xá passou a ser Ruhollah Khomeini,
um fundamentalista islâmico, que fizera duras críticas ao xá, em sua juventude era contrário a
Mossadegh. Em 1979, com a Revolução Islâmica Reza Pahlevi teve que fugir para o Egito.
O primeiro governo de Khomeini foi dominado por membros do governo de
Mossadegh. Assim que consolidada a Revolução de 1979, Khomeini expulsou os membros da Frente
Nacional e o xá se refugiu nos EUA. Havia o receio de que a ida do xá pudesse significar a
articulação de um novo golpe. Em reação os EUA financiaram o Iraque de Saddam Hussein na
guerra contra o Irã, tal posicionamento fortaleceu o regime Hussein.
O islã político que dominou o Irã, influenciou toda a região. A CIA se tornou o
braço armado da política externa dos EUA no mundo pós-guerra. A operação Ajax custou 20
milhões de dólares (KINZER, 2006, p.231). No ano 2000, 47 anos após o golpe, Bill Clinton (19932001) reconheceu o golpe de 1953 no Irã.
Mesmo após a Revolução de 1979, é proibido fazer homenagem e ato público a
Mossadegh, por simbolizar a república democrática, regime reprovado pelo governo islâmico. O
golpe de 1953 é tratado pela grande mídia iraniana como exemplo da intervenção estrangeira no país.
Dessa forma, os iranianos devem obedecer ao governo, porque senão viram alvos fáceis dos inimigos
estrangeiros.
Portanto, o golpe realizado pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha contra o
governo nacionalista de Mossadegh, possibilitou com os passar dos anos, o surgimento de uma
reação política contra a "angla-americanização" imposta pelo governo de Reza Pahlevi. O islã político
ganhou forças suficientes para depor o xá, e afastar qualquer aproximação entre os Estados Unidos e
o Irã.
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Referências Bibliográficas
DEMANT, Peter. O Islã no espaço. In: O mundo muçulmano. São Paulo: Contexto, 2004.
JOHNSON, Chalmers. As aflições do Império: militarismo, operações secretas e o fim da
república. Rio de Janeiro: Record, 2007.
KINZER, Stephen. Todos os homens do Xá: o golpe norte-americano no Irã e as Raízes do
Terror no Oriente Médio. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.
YERGIN, Daniel. O petróleo: uma história mundial de conquistas, poder e dinheiro. São
Paulo: Paz e Terra, 2012.
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RETROSPECTIVA DO GOVERNO DE PRESIDENTE CASTELLO
Dayane Cristina Guarnieri
Orientador José Miguel Arias Neto
Mestrado em História Social
Universidade Estadual de Londrina (UEL)
RESUMO
O artigo possui a intenção de compreender a trajetória do governo Castelo Branco perante situações
que foram fundamentais para direcionar as decisões do Governo, para isso utiliza-se como fonte o
periódico Jornal do Brasil, parte da legislação produzida neste momento e a literatura relacionada. Os
momentos escolhidos foram a prorrogação de seu mandato, as eleições estaduais de 1965 e a
publicação do segundo Ato Institucional. A partir desses eventos procura-se compreender o
contexto desse universo político a partir de conceitos (reforma, democracia e legalidade) que
perpassaram esse mandato. Entre os principais objetivos desse mandato estabelecido tanto pela fala
governamental, quanto pela legislação do momento era a prioridade de se realizar reformas dentro de
uma normalidade, que se fundamenta para o grupo no poder e os que o defendem, na permanência
da Constituição de 1946, assim como das demais instituições democráticas. Após o Ato institucional
nº2 o governo revela intenções de permanecer em um estado de exceção, esquecendo as promessas
de mudanças imediatas e rápido retorno para um regime democrático. A formação gradual da
imagem de um governo aústero no periódico JB à medida que suas intenções de legalidade e
democracia se contradizem com os atos de cassações e produção de uma legislação arbitrária.
Palavras-chave:Governo Castello Branco, Jornal do Brasil, redemocratização
Entre os principais propósitos do primeiro Governo de Castelo Branco que denominava
revolucionário, o que possui maior prioridade são as reformas, na primeira citação abaixo o Jornal do
Brasil diz que o Governo já em 1964 está perdendo o impeto, logo no início de seu mandato, a razão
dessa afirmação está na falta de mudanças nas estruturas que encaminhem o país para o
desenvolvimento capitalista e democrático. Pois ao fim dos primeiros expurgos o governo se
consome em problemas políticos e na luta pela consolidação:
O Govêrno do Marechal Castelo Branco está começando a perder seu ritmo
revolucionário. É um Govêrno sério e continua a merecer confiança. [...] A tarefa
precípua do Govêrno é criar até as eleições um Brasil de estrutura política renovada
e firme em seus novos alicerces. (Jornal do Brasil, 24 de setembro de1964, p.6, tít.:
Marcando passo)
A perda de impulso revolucionário do Govêrno Castelo Branco parece
exangue e fatigada, seis meses depois, desidratado e inimaginoso, sem
mística. O registro leva à pergunta: por que isso já acontece tão cedo,
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quando o Govêrno revolucionário tem em seu poder não só um
instrumento, mas um programa de processos políticos revolucionários – o
Ato Institucional, cujos Artigos 3.°, 4.° e 5.°, nas mãos de uma vontade
revolucionaria atuante e imaginativa, fariam o milagre aparente de
transmutar a face do Brasil? (Jornal do Brasil, 28 de setembro de 1964, p.6, tít.:
Perigo do imobilismo)
O programa de ação do presidente pregava não apenas criar um novo Brasil e sim um Brasil
democrático. (Jornal do Brasil, 31 de agosto 1964, p.6, tít.:Proposta de diálogo). Mas para isso ele teria
que efetivar o cerne do compromisso político da Revolução a reforma política (reforma eleitoral,
estatuto dos partidos etc.)
O Govêrno, todavia, ainda não cumpriu todas as obrigações para se fazer credor de
uma lealdade permanente no seio das fôrças propensas a apoiá-lo. Falta bastante o
que oferecer, em contrapartida: faltam um pensamento político e um programa
legislativo documentado, isto é, a definição em profundidade de tudo aquilo que a
Revolução só tem manifestado no esboço ou em peças isoladas do contexto geral.
(Jornal do Brasil, 7de dezembro de 1964, p.6, tít.: Etapa política)
Apesar das falhas, percebe-se uma forte admiração transferida ao Presidente, por isso se
delineia aspectos que justificam os problemas de seu governo. Primeiramente o periódico comenta
que Castelo Branco precisa de um grupo, um partido que o retire do isolamento fruto das ambições e
ressentimento das classes políticas.
A solidão política do Govêrno, entretanto está longe de ser inevitável. O que lhe
cabe é rasgar as barreiras do tradicionalismo e construir o seu próprio caminho,
definido com precisão as alianças e lealdades do seu programa renovador. O
Govêrno pode fixar-se inclusive na estruturação de um partido próprio o Partido
da Revolução. (Jornal do Brasil, 29 de agosto 1964, p.6, tít.:Partido da revolução)
Não há crise militar nem política. Simplesmente a falta de ação dinâmica na
conduta política do Govêrno fêz com que descontentamentos setoriais destilassem
na atmosfera renovada pelas eleições uma bruma de incertezas, para encobrir
manobras inaceitáveis. Para isso contribuíram ressentimentos recentes e a
disponibilidade ociosa de grupos políticos deslocados da ação política, desde abril
do ano passado. [...] O Govêrno pode empreender a fase construtiva e exercer
sôbre o Congresso a legítima liderança política, pois aquelas duas casas são
devedoras do reconhecimento da autoridade legislativa deferida pelo Ato
Institucional (Jornal do Brasil, 20, de outubro de 1965, p.6, tít.: Escalada democrática)
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
O JB ressaltar características do governo como boa-fé, esforço, poder conferido pelo AI-2
para sufocar agitações, conciliador, moderado e com tendências democráticas:
Não há brasileiro que nesse momento seja capaz de desconhecer, de boa-fé, o
enorme esfôrço que empenha o Presidente Castelo Branco para resguardar os
compromissos que assumiu perante a Nação em favor da preservação do espírito
democrático do movimento de 31 de março. Não pode o Govêrno deixar-se
imobilizar na trama da crise política, que hoje cria para o País uma atmosfera de
incertezas algo semelhante á que vivíamos há dezenove meses (Jornal do Brasil, 26,
de outubro de 1965, p.6, tít.: Etapa final)
o Govêrno se pôs em movimento para não permitir que a tranqüilidade nacional
seja perturbada por grupos exaltados. Investidos dos podêres extraordinários
estabelecidos pelo Ato Institucional n.º2, não lhe faltam recursos para isolar
ràpidamentee os focos de inconformismo.
Estabilidade e boa administração asseguram para 66 a consolidação da normalidade,
anseio geral que uma fração minoritária não pode frustrar. (Jornal do Brasil, 30 de
novembro de 1965, p.6, tít.: Sentimento de maioria)
A opinião pública está tranqüila, porque em tôdas as oportunidades passadas o
Govêrno já mostrou, em alternativas dramáticas, que não se distância jamais das
origens políticas de 31 de março. Mais uma vez o Presidente da República, em que
é predominante o sentido conciliador e característica a moderação, já se colocou em
posições duras para atender às necessidades do movimento político que está nas
origens do Govêrno e nas finalidades democráticas que o condicionam. (Jornal do
Brasil, 1 de dezembro de 1965, p.6, tít.: temporada de boatos)
Em 1966 o a falta de liderança de governo e o esquecimento de promessas como “controle
da inflação e o fim da contenção”, assim como a persistência desses problemas repelem as classes
sociais e contribuem para a formação gradual da imagem de um governo aústero:
O Govêrno não chega a exercer a liderança que seria imprescindível para enfrentar
as grandes tarefas que temos pela frente. Falta-lhe o apoio da opinião pública,
encolhida, intimidada, perplexa. Falta-lhe a solidariedade das classes trabalhadoras
às quais a par de notórios e indispensáveis sacrifícios, se pede também a
compreensão para medidas que não lhe são explicadas em termos convincentes.
Quanto a juventude, o panorama não é nada animador. Govêrno parece esquecido
da repetidas promessas que fêz, em oportunidades diversas, sobre o controle da
inflação e o fim da contenção que agora, como há um ano, volta à ordem do dia em
termos drásticos. A rigidez oficial, nesse setor, contraria ás vezes o bom senso e se
recusa a reconhecer uma realidade que não é nem pode ser rígida. (Jornal do Brasil, 9
de março de 1966, p.6.:Horizontes sombrios)
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Desde o final de 1964 existe uma crítica perante a omissão do Presidente sobre as reformas
e grandes transformações nacionais que não se efetivam. No editorial acima o JB diz que o presidente
não “exerce a liderança”, já no editorial, Compromissos esquecidos ele exprime que ocorreu a “perda
gradativa da liderança”, resultado das indecisões, imobilismo. O que falta ao governo é uma base
parlamentar estável e fiel:
A perda gradativa da liderança governamental estimulou alguns centros de ambição
política e grupos de interêsses a admitir como encerrado o programa
revolucionário. [...] Falta a base politica estável, infra-estrutura do apoio
parlamentar que não pode ser meramente ocasional e representar a simples
gravitação de políticos em torno da máquina do Poder. (Jornal do Brasil, 11 de junho
de 1966, p.6 tit.: Compromissos esquecidos)
A ambivalência é mais um aspecto do perfil do Governo Castelo Branco, em 1965 o
convívio entre legalidade constitucional e o poder revolucionário é corolário do caráter conciliador
do Governo.
O esfôrço dramático do Presidente da República, até aqui coroado de êxito, para a
conciliação indispensável entre a legalidade e as exigências de um poder político
emanado de um movimento revolucionário, não trabalham pelo pior, ou seja, pela
desagregação, pela intranqüilidade, pelo aprofundamento de um impasse que vem
de longe. O Executivo repele, em princípio, a sedução dos atalhos que abandonam
o leito tranqüilo e normal da estrada democrática. (Jornal do Brasil, 24 e 25, de
outubro de 1965, p.6, tít.: Caminho do futuro)
Em 1966 essa mesma ambivalência trouxe desgaste ao Governo, pois o periódico afirma
que “uma fisionomia democrática formal” a qual ele almeja transmitir, não condiz com seus atos de
impugnações e cassações, as quais o presidente considera como parte da “legitima defesa da
Revolução”. Neste momento o Jornal do Brasil demonstra sua desaprovação perante a indefinição
governamental com a qual não será possível obter a estabilidade política.
Poucas vezes se terá exposto tão nitidamente como nos últimos dias, o drama de
ambivalência em que se desgasta o Govêrno Castelo Branco, ao mesmo tempo
tentando compor uma fisionomia democrática formal e realizando, na prática, atos
absolutamente descomprometidos com a essência de legitimidade de um regime
democrático. [...] A indefinição do Govêrno é a fonte comum de onde derivam o
vazio institucional, a desorientação politica, a inautenticidade partidária, a
insegurança nacional, a perplexidade popular e todos esses numerosos fatores
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
patológicos que hoje compõem o quadro do impasse brasileiro. [...] Estabilidade
política é termo que não se casa com indefinição e com ausência de liderança.
Enganosa é a estabilidade mantida à custa de instrumentos de arbítrio. (Jornal do
Brasil, 10 de junho de 1966, p.6.: Ambivalência política)
Embora, o JB acentua a ambivalência do Governo admite no editorial abaixo que
“predominou o arbítrio circunstâncial”, natureza que o isolou e atraiu a oposição de muitos grupos
como, por exemplo, o movimento estudantil.
As hesitações muito cedo evidenciaram no temperamento presidencial: não se fixou
o Marechal Castelo Branco no modêlo do governante convencional nem no chefe
revolucionário e, da falta de convicção resultou a ambivalência de comportamento.
Predominou apenas o espírito de arbítrio circunstancial utilizado para conter as
crises ocasionais. E não há exagero em afirmar que o poder discriminatório isolou o
Govêrno Castelo Branco não apenas em relação a opinião publica, como também
das fôrças representativas do 31 de março. [...] Nôvo surto de rebeldia estudantil
reafirma a incapacidade para conquistar a adesão da juventude [...] Govêrno fecha
uma entidade estudantil como se isso bastasse. (Jornal do Brasil, 2, setembro, de
1966, p.6, tít.:Quadro de abandono)
Em Caxambu falou Castelo sobre redemocratização para 15 de março o JB afirma que tal
afirmação evidencia que ele “assume ao mesmo tempo a responsabilidade pelo estado de exceção
limitando-o ao curso de seu mandato”. No entanto o JB aponta que Costa e Silva em viagem para a
campanha “assegurou que o processo revolucionário vai prosseguir”:
O candidato fala em continuar o processo revolucionário, enquanto o Presidente
anuncia o seu fim. Seria o caso de indagar também até onde o processo
revolucionário é campativel com o processo democrático que determina a
convocação de eleições diretas e livres para um legislativo até agora constrangido
pelo arbítrio do verdadeiro Poder de primeira classe que é o Executivo. (Jornal do
Brasil, 13, setembro, de 1966, p.6, tít.:Frente desunida)
O JB relembra que o presidente Castelo Branco “fêz questão de fixar, nìtidamente, o seu
compromisso com a normalidade institucional do País” e prometeu no seu discurso de posse a
“lealdade à Constituição vigente – a de 1946 – e de amor à ordem democrática”. O periódico aponta
que nos primeiros meses ele tentou “conciliar os impulsos do arbítrio revolucionário, muito vivo em
certas áreas militares, com a ordem legal decorrente da Constituição, que coexistia com o Ato
Institucional”. (Jornal do Brasil, 1, abril, de 1967, p.6, tít.: Entrevista)
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A historiografia compreende que é a partir de 1968 que finda a convivência entre poder
constitucional e legal, a partir da visão do periódico pode-se compreender que ela rompe-se muito
antes, com a imposição do AI-2. Assim também fica explícito que a esperança no novo Governo
baseava-se na instalação gradual da normalização democrática.
A distância entre o povo da política, a falta de representatividade matizada pelo acesso
restrito a pequeno círculo de mandatários, se constitui um perigo para um governo que tem sua força
no arbítrio.
Aumenta instantaneamente a distância que separa o povo da política nacional,
atualmente exercida quase exclusivamente pelo pequeno círculo nacional
atualmente exercida quase que exclusivamente pelo pequeno círculo presidencial.
[...] a antevéspera das ditaduras se caracterizam pela ruptura do interesse do homem
da rua pela sorte política do país. É no vácuo de participação que se geram as
nostalgias de governos fortes pelo que têm de arbitrários e não de autoridade
emanada de sua representatividade. (Jornal do Brasil, 8 de julho de 1966, p.6. tit.:
Apatia política)
Ao final do governo de Castelo o JB exprime a falta de simpatia e a impopuladade do
presidente que se despede, assim como a orfandade das massas matiza o quadro nacional um mês
antes da sucessão. No entanto, o periódico reconhece a importancia da renovação que o governo
realizou nos redutos políticos:
Por muitas e justas censuras que devam ser irrogadas ao Govêrno institucional,
ninguém lhe poderá, entretanto, negar o mérito dessa extraordinária oportunidade
que abriu para o País: o da renovação de uma classe política de suas lideranças. Os
proscritos, os marginalizados e os auto-expurgados não deixaram saudades; e os
que surgem agora promanam de fontes purificadas para chegar a 15 de novembro,
o Presidente Castelo Branco cruzaram os caminhos calcinados na impopularidade,
bebeu o fel da impaciência e dos sacrifícios do povo. (Jornal do Brasil, 20 e 21, de
novembro, de 1966, p.6, tít.: Novas Lideranças)
Antes de sair da presidência Castelo Branco continua a realizar as punições de indivíduos
que são alvos de investigações do Serviço Nacional de Informação e dos IPMs. No dia 14 de
fevereiro cassou os direitos políticos de 18 pessoas e dia 27 suspendeu os direitos políticos por dez
anos de 44 pessoas:
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Com base nos artigos 14 e 15 do AI-2 aposentado, demitindo e suspendendo os
direitos políticos de 2 civis e 16 militares. Hoje deverá mais 20 pessoas, ligadas aos
sindicatos e ao movimento comunista deverão perder os direitos políticos. (Jornal do
Brasil, 15, fevereiro, de 1967, p.1, tít.: Castelo puniu mais 18 e continuará com
suspensões)
Presidente Castelo Branco suspendeu ontem, por dez anos, os direitos políticos de
44 pessoas – a maioria antigos líderes e muitos dos quais vivem fora do país há
anos, enquanto outros estão foragidos e assinou uma série de 16 decretos que
alteram normas legais, extinguem, criam ou modificam a constituição de vários
órgãos. (Jornal do Brasil, 28, fevereiro, de 1967, p.1, tít.: Castelo Branco Cassa 44 e
baixa 16 decretos)
Ao todo foram 151 decretos-leis mais 28 publicados dia 27 de fevereiro no diário oficial:
Teoricamente de acordo com o AI-4 só poderia legislar até dia 28, mas como o
presidente retardou a publicação do diário oficial manteve-se teoricamente dentro
do terreno legal, pois embora publicado ontem os atos estão datados de fevereiro.
(Jornal do Brasil, 3, março, de 1967, p.1, tít.: Castelo encerra serie de decretos com
outros 123)
Havia um equilíbrio entre a crítica e o elogio ao governo, inicialmente ambos conviveram
simultaneamente, em 1965 o Governo era elogiado pelo sua tendência democrática retratada na
obstinação em realizar as eleições de 1965 sob forte oposição de alguns grupos militares. Além disse
este ano foi considerado pelo próprio presidente como o início das realizações de âmbito estrutural
no país.
O mote do governo de Castelo Branco depois dos expurgos seria a reforma política
encabeçaria as demais e prepararia o país para receber as eleições de 1966. No entanto com o
decorrer do Governo a ambicionada situação de normalidade democrática que deveria se aproximar
estava de fato se distanciando os elementos que atestam esse diagnóstico começa com o Ato
Institucional 2 e termina com uma ampla legislação de exceção que decreta a insustentabilidade do
regime de 1946.
Em torno da desorganização da ordem jurídica, legal e institucional o períodico defende a
ideia de uma constituinte como a única solução de restituir a direção democrática ao país, o ideal de
reconstitucionalização será defendido pelo próximo presidente que defenderá a distenção política se
apresentando como um governo de transição para o retorno democrático.
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FONTE HEMEROGRÁFICA
Jornal do Brasil, 24 de setembro de1964, p.6, tít.: Marcando passo.
Jornal do Brasil, 7de dezembro de 1964, p.6, tít.: Etapa política.
Jornal do Brasil, 28 de setembro de 1964, p.6, tít.: Perigo do imobilismo.
Jornal do Brasil, 29 de agosto 1964, p.6, tít.:Partido da revolução.
Jornal do Brasil, 20, de outubro de 1965, p.6, tít.: Escalada democrática.
Jornal do Brasil, 26, de outubro de 1965, p.6, tít.: Etapa fina.
Jornal do Brasil, 30 de novembro de 1965, p.6, tít.: Sentimento de maioria.
Jornal do Brasil, 1 de dezembro de 1965, p.6, tít.: temporada de boatos.
Jornal do Brasil, 9 de março de 1966, p.6.:Horizontes sombrio.
Jornal do Brasil, 11 de junho de 1966, p.6 tit.: Compromissos esquecidos.
Jornal do Brasil, 24 e 25, de outubro de 1965, p.6, tít.: Caminho do futuro.
Jornal do Brasil, 10 de junho de 1966, p.6.: Ambivalência política.
Jornal do Brasil, 2, setembro, de 1966, p.6, tít.:Quadro de abandono.
Jornal do Brasil, 13, setembro, de 1966, p.6, tít.:Frente desunida.
Jornal do Brasil, 8 de julho de 1966, p.6. tit.: Apatia política.
Jornal do Brasil, 20 e 21, de novembro, de 1966, p.6, tít.: Novas Lideranças.
Jornal do Brasil, 15, fevereiro, de 1967, p.1, tít.: Castelo puniu mais 18 e continuará com suspensões.
Jornal do Brasil, 28, fevereiro, de 1967, p.1, tít.: Castelo Branco Cassa 44 e baixa 16 decretos.
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A IGREJA NA BATALHA CONTRA A AMEAÇA VERMELHA: O ANTICOMUNISMO
DE ORIGEM CATÓLICA EM MARINGÁ
Angélica de Brito (Mestrado em História - Universidade Estadual de Maringá)
Ângelo Aparecido Priori
Introdução
Nas últimas décadas tem crescido consideravelmente o número de trabalhos que analisam o
anticomunismo enquanto um fenômeno político e cultural de grande relevância na história do Brasil
República. Seu caráter mobilizador desempenhou um papel fundamental em inúmeras conjunturas
ao longo do século XX no cenário nacional. Levando-se em conta a dimensão que o fenômeno
atingiu no nosso país e a destacada atuação da mídia nesse processo abre-se um leque de vastas
possibilidades para o historiador. A grande quantidade de materiais impressos (jornais, revistas,
panfletos, etc) que veicularam conteúdo anticomunista revelam-se atualmente como uma rica fonte
de pesquisa.
O jornal Folha do Norte do Paraná fez parte desse conjunto de veículos de informação que
contribuíram para a disseminação de ideias anticomunistas por todo o país. O periódico foi fundado
no ano de 1962 na cidade de Maringá, em meio a uma situação de enfrentamento entre lideranças
católicas da região e sindicalistas rurais. Sob a égide do combate à “ameaça vermelha” a Folha do
Norte nasce como um empreendimento ousado para a jovem cidade canção. O grande articulador
desse ambicioso projeto foi o então bispo diocesano Dom Jaime Luiz Coelho, figura extremamente
influente em toda a região norte do Estado, cuja trajetória se confunde com a própria história de
Maringá.
O objetivo do presente trabalho consiste em analisar as características assumidas pelo
anticomunismo católico na cidade de Maringá no início da década de 1960 e sua influência no
processo de gestação da Folha do Norte do Paraná. Em um primeiro momento destacamos a
importância de uma abordagem regional do fenômeno e os cuidados que ela demanda. Em seguida
analisamos o posicionamento oficial da instituição frente ao comunismo, dando maior ênfase ao
período mencionado. E por fim nos detivemos sobe os embates entre católicos e comunistas em
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
torno do processo de sindicalização dos trabalhadores rurais que ocorreram no norte do Paraná e
tiveram na cidade de Maringá um dos seus principais cenários.
O fenômeno anticomunista sob uma perspectiva regional
Por muito tempo a história regional foi tomada como sinônimo de “menor”, tida como
inferior em relação ás análises mais globalizantes da história. Não se pode negar que o espaço
regional se encontra inserido em um espaço mais vasto, e que as articulações entre ambos são
complexas e reveladoras. No entanto, segundo a autora Ana Luiza Setti Reckziegel,
“[...] não se pode perder de vista o fato de que o âmbito regional possui uma
história própria, um conjunto de relações sociais delimitadas, um espaço de
memória, de formação de identidades e de práticas políticas específicas”
(RECKZIEGEL, 1999, p.20).
A autora discorda da ideia segundo a qual a história regional apenas oferece elementos que
juntos formariam uma história nacional, o que ela fornece são dados fundamentais para estudos
comparativos. Sendo capaz de revelar aspectos que não foram percebidos em uma análise mais
ampla, não pelo descuido do historiador, mas pela própria dinâmica desse tipo de abordagem.
Estudos regionais sobre o anticomunismo, ainda que pouco numerosos, nos permitem
observar as particularidades que o fenômeno adquiriu em diferentes lugares do país, assim como em
distintos momentos históricos. O livro “O diabo é vermelho: imaginário anticomunista e Igreja
católica no Rio Grande do Sul (1945-1964)” da autora Carla Simone Rodheguero é um exemplo de
como uma análise focada em elementos regionais, sem perder de vista o contexto nacional e
internacional, pode ser reveladora.
Assim como o “Jornal do Dia” e o “Correio Riograndense”, periódicos gaúchos que
veicularam conteúdo anticomunista analisados pela autora, a história da Folha do Norte do Paraná
tem muito a revelar sobre as especificidades que o fenômeno adquiriu em terras paranaenses. A
dinâmica da sociedade maringaense no início da década de 1960, a influência católica na vida política
do município, a articulação dos representantes do PCB nos sindicatos de trabalhadores rurais são
apenas algumas destas variantes que atuaram sobre as representações anticomunistas que foram
veiculadas na região.
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
A igreja na batalha contra a “ameaça vermelha”: o anticomunismo de origem católica
Segundo o historiador Rodrigo Patto Sá Motta é mais adequado falar em anticomunismos,
pois trata-se de uma frente extremamente heterogênea que engloba diferentes grupos, cujo único
ponto de união, em muitos casos, é o combate ao comunismo. Reacionários, conservadores, liberais,
católicos e até mesmo esquerdistas fizeram parte dessa variada gama cujos métodos de combate á
ameaça vermelha variavam tanto quanto sua orientação política e ideológica. Nesse sentido o autor
desenvolve a idéia de que, grosso modo, as representações anticomunistas no Brasil provem de três
matrizes básicas: catolicismo, nacionalismo e liberalismo.
Levando-se em conta a própria natureza do jornal “Folha do Norte” enquanto instrumento
de difusão de idéias cristãs e anticomunistas é fundamental para este trabalho a realização de uma
análise mais detida sobre o anticomunismo de origem católica.
Desde a segunda metade do século XIX a preocupação com o problema se fez presente no
meio católico. Uma das primeiras referencias condenatórias ao comunismo esteve presente na
encíclica Quanta Cura de 1864, nela o comunismo é criticado por tentar eliminar a religião do
ambiente familiar. Tal visão foi reafirmada em encíclicas posteriores. Em 1891, Leão XIII através da
Rerum Novarum combate as soluções marxistas propostas para a questão social assim como conclama
uma maior participação do Estado para impedir a exploração excessiva dos trabalhadores. Visto que
as idéias socialistas pareciam florescer de maneira mais eficaz em meio á miséria e a exploração.
Segundo Motta,
“O despertar da hierarquia católica para o problema social e a conseqüente
proposição de programas visando à “justiça social” decorreu fundamentalmente,
embora não exclusivamente, da percepção de que os comunistas ameaçavam a
cidadela católica” (MOTTA, 2002, p.20).
As encíclicas tinham por objetivo transmitir aos bispos orientações doutrinárias e cabia a eles
retransmitir estas informações através de cartas pastorais às dioceses de todo o país. Os padres por
sua vez, deveriam retransmitir as orientações recebidas aos fiéis através de todos os meios
disponíveis.
O combate católico ao comunismo não se restringiu ao espaço da Igreja, a campanha lançada
pelos religiosos estava inserida em um processo mais amplo de tentativa de recuperar o espaço e a
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
importância que a instituição vinha perdendo desde a proclamação da república. Nesse sentido a
Igreja fomentou a criação de entidades religiosas para atrair a participação dos leigos tais como: Ação
Católica, Círculo Operários, congregações Marianas, Irmãos Vicentinos, dentre outras.
Segundo a historiadora Carla Simone Rodeghero em sua obra “O diabo é vermelho:
imaginário anticomunista e Igreja católica no Rio Grande do Sul (1945-1964)” o combate ao
comunismo pregado pela Igreja Católica se insere num processo mais amplo de modernização,
laicização e secularização da sociedade no qual a igreja adotou uma postura de oposição a grande
parte destas transformações.
O pensamento moderno valoriza o indivíduo, a consciência, a atividade crítica em oposição
às instituições, hierarquia e dogmas. As mudanças econômicas, políticas, sociais e culturais que
ocorreram ao longo do século XX foram acompanhadas pela emergência de novos valores que
romperam com a estrutura da família patriarcal. A igreja não via com bons olhos essa transição para
uma sociedade industrializada, urbana e profana na qual os valores religiosos se perderiam com
facilidade.
A década de 1950 compreende um período de grandes transformações: deslocamento de
grandes contingentes humanos do campo para as cidades, conquista de novos papéis sociais pelas
mulheres, vigoroso desenvolvimento dos meios de comunicação no país, etc. Todas essas mudanças
contribuíram para a consolidação do processo se secularização.
Os objetivos atribuídos aos comunistas eram resultado, em grande parte, das mudanças
culturais que ocorriam no período tais como: o uso da pílula, diminuição do número de filhos,
divórcio, discussão sobre o papel do Estado na educação, etc. No entanto, a concepção do
comunismo como inimigo da sociedade acabou por povoar a mente da maioria das pessoas. Segundo
Rodeghero:
“A relação feita entre o laicismo e o comunismo justificava-se porque o primeiro,
destruindo os valores espirituais, a autoridade da Igreja, e substituindo Deus pelo
homem, preparava o caminho para a vitória do comunismo. Também era defendida
a idéia de que o comunismo representava a última e mais recente etapa do laicismo,
do ateísmo, do caminho que levaria á apostasia da Igreja, de Cristo e de Deus”
(RODEGHERO, 1998, p.69).
As estratégias de combate ao comunismo adotadas pela igreja no Brasil variaram conforme a
conjuntura histórica . As representações anticomunistas de origem católica são caracterizadas por
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
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explorar a sensibilidade religiosa das pessoas e também seus medos. Uma prática corrente desse
discurso era a “demonização” do comunismo, ou seja, a sua associação direta á figura do mal.
Outra estratégia empregada pela Igreja no combate ao “perigo vermelho” foi a utilização do
anticomunismo como arma eleitoral. Foram criadas por todo o país alianças eleitorais católicas que
tinham por objetivo indicar a seus fiéis os candidatos mais adequados para serem votados.
Assim como no restante do país a acusação de “comunista” era freqüente durante a
campanha e capaz denegrir a imagem de qualquer candidato. Logo o apoio de uma Liga Eleitoral
Católica (LEC) era considerado de grande valia por todos que ambicionavam um mandato. Os
políticos envolvidos no pleito ao mesmo tempo que defendiam essa bandeira se utilizavam dela para
incriminar seus adversários. Segundo a autora, o imaginário acabava por tentar determinar a ação dos
eleitores.
“A propaganda eleitoral pode ser entendida como representação e ação: ao mesmo
tempo em que o anticomunismo é utilizado como filtro de explicação da realidade,
pretende instigar os eleitores a um posicionamento, a uma adesão, a uma ação
específica: o voto” (RODEGHERO, 1998, p.103).
Diante destes métodos que foram expostos e inúmeros outros, fica evidente que a Igreja
Católica não poupou esforços para combater o comunismo. Afinal, aos olhos da instituição, a nova
doutrina destruiria os pilares da civilização cristã: a religião, a propriedade e a família. Para os
religiosos do Norte do Paraná a ameaça comunista estava corporificada nos sindicatos rurais que
sofriam a influência dos membros do partidão.
Era necessária uma reação rápida e firme contra o avanço de tais ideias. A resposta dos
representantes da Igreja Católica na região veio com a criação da Frente Agrária Paranaense (FAP)
uma organização de cunho sindical que visava concorrer com os comunistas no processo de
sindicalização dos trabalhadores rurais no estado.
O embate entre comunistas e católicos no processo de sindicalização dos trabalhadores
rurais do norte do Paraná
Com o advento dos sindicatos de orientação comunista na região os representantes da igreja
Católica viram-se forçados a tomar uma iniciativa. O movimento católico encontrou respaldo e
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
motivação com a publicação em 1961 da encíclica Mater e Magistra do Papa João XXIII. O tema
central do documento gira em torno dos problemas sociais oriundos do desenvolvimento capitalista
a serem superados. Assuntos como reforma agrária e a situação dos trabalhadores rurais também são
discutidos, em contrapartida um dos pontos altos da encíclica é a defesa da propriedade privada, a
condenação do comunismo e o apoio à formação de sindicatos de orientação cristã.
Os religiosos paranaenses seguiram a risca tais diretrizes, porém mais do que amenizar a crítica
situação dos camponeses era preciso combater a “ameaça vermelha” que se alastrava pelo Paraná e
por todo o território nacional. Neste sentido em 1961 é fundada a Frente Agrária Paranaense (FAP)
um órgão sindical imbuído de deter o avanço dos sindicatos comunistas. O então bispo de Maringá
Dom Jaime Luís Coelho, Dom Geraldo Fernandes de Londrina, Dom Elizeu Simões de Campo
Mourão e Dom Geraldo de Proença Sigaud de Jacarezinho são alguns dos principais idealizadores do
organismo.
Uma organização com objetivos tão ambiciosos não poderia nascer no anonimato, era preciso
uma solenidade digna da batalha a ser travada. O dia 13 de agosto foi escolhido para a cerimônia de
fundação que consistiria em uma missa campal na praça da catedral de Maringá ás 10 horas,
churrasco e um desfile pelas principais avenidas a partir das 14 horas.
Não por acaso naquele mesmo dia, hora e cidade seria realizado o 2° Congresso de Lavradores
e Trabalhadores Rurais do Paraná, cujo objetivo central era a preparação dos trabalhadores
paranaenses para o 1° congresso da ULTAB (União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do
Brasil), que se realizaria no mês de novembro do mesmo ano em Belo Horizonte. A tensão era
evidente, receio que viria se justificar com o violento desfecho do episódio.
Diversas personalidades do cenário político tanto estadual quanto nacional vieram prestigiar as
duas solenidades. Convidados do 2ºCongresso de Lavradores, além de 2000 delegados de todo
Paraná estiveram presentes o deputado Nestor Dutra, um representante do presidente da república e
o famoso líder das ligas camponesas do nordeste Francisco Julião.
Segundo os religiosos da FAP mais de 10 mil pessoas compareceram as festividades do seu
lançamento, assim como autoridades religiosas de todo estado. Os discursos proferidos na ocasião
ficaram por conta dos mentores da organização e giravam em torno dos problemas enfrentados
pelos trabalhadores e o caminho certo que estes deveriam seguir "do cumprimento da ordem, do
respeito mútuo das leis de trabalho".
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Como já era de se esperar não faltaram ataques diretos ao “congresso comunista” e
principalmente a figura de Francisco Julião. Elaborando um discurso de total aversão aos
comunistas, os religiosos mostravam-se como o único caminho para a resolução dos problemas que
tanto castigavam a população rural.
Devido aos ânimos exaltados o confronto se tornou inevitável, o alvo principal como não
poderia deixar de ser era Francisco Julião. Desde sua chegada ao aeroporto foi perseguido por
muitos dos participantes do evento católico, estudantes, congregados marianos e religiosos. Os
protestos contra a realização do congresso “comunista” tomaram dimensões violentas, passando de
uma manifestação "pacífica" á depredação pública e agressão física que resultou inevitavelmente no
confronto com a polícia. Apesar dos esforços da Igreja o congresso se realizou dentro do previsto.
O rápido crescimento dos sindicatos de orientação cristã se deve, em grande parte, aos serviços
de assistência médica, educacional e jurídica que fornecia aos seus filiados. Apesar da luta entre
comunistas e católicos permanecer acirrada os primeiros se encontravam na liderança. As vésperas
do golpe de 1964 os cristãos só haviam fundado 46 sindicatos, dos quais apenas 8 haviam sido
reconhecidos pelo Ministério do Trabalho contra 86 criados pelo PCB dos quais boa parte já contava
com registro legal.
Com o golpe de 1964 e a dura repressão desencadeada contra os militantes comunistas a
situação mudou radicalmente. Com os comunistas fora do jogo a Igreja Católica enfim alcançou a tão
almejada hegemonia no movimento sindical paranaense. No entanto, o seu principal objetivo fora
alcançado, assim sua própria existência já não fazia mais tanto sentido. Devido as cordiais relações
entre os religiosos paranaenses e os políticos de direita a FAP ainda estendeu sua vida útil até o ano
de 1969.
Com a criação da FAP se deu a entrada oficial da Igreja Católica na corrida pela sindicalização.
A cerimônia de fundação da Frente Agrária Paranaense é apontada pelo autor Antonio Roberto de
Paula como “o fator determinante” para a criação do jornal “Folha do Norte”. Segundo ele:
“Não foi por acaso que em setembro daquele ano dom Jaime tivesse decidido levar
adiante seu projeto de fundar a Folha do Norte do Paraná. O episódio havia dado
ao bispo a exata dimensão da força da Igreja Católica no interior do Estado e ao
mesmo tempo carregava de tintas a iminência do perigo comunista.” (PAULA,
online, 2011).
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
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A criação de um jornal católico e de grande abrangência promoveria não só a integração das
centenas de células católicas pertencentes ás dioceses do norte do Paraná, mas também seria um
instrumento valiosíssimo para a difusão de informações cristãs e anticomunistas.
A Folha do Norte ficou também conhecida como “Jornal do Bispo” devido ao papel
primordial desempenhado pelo então arcebispo de Maringá dom Jaime Luiz Coelho. Dom Jaime
nasceu em Franca (SP) no ano de 1916. Veio para Maringá em 1957 onde se tornou o primeiro bispo
diocesano e arcebispo. Fundador da Folha foi movido pela vontade de transformar o jornal em um
dos maiores do interior do Brasil para fazer frente ao jornal esquerdista “Última Hora” de Samuel
Wainer.
No início da década de 1960 Maringá contava com cerca de 100 mil habitantes, dom Jaime,
desde sua chegada a jovem cidade ocupou um papel de liderança política e religiosa sem precedentes.
Não se pode subestimar o poder e a influência exercidos por dom Jaime na cidade de Maringá na
década de 1960, foi sem sombra de dúvidas um grande líder político e religioso, figura central da
história da cidade. O arcebispo não tinha ambições financeiras com a Folha do Norte, seu objetivo
era fazer um jornal que fosse o porta voz da Igreja, que integrasse as dioceses da região e fortalecesse
a fé cristã contra o comunismo.
Considerações finais
A Igreja Católica ocupou uma posição de destaque na luta contra a “ameaça vermelha” no
Brasil. No entanto, é importante ressaltar que tais posicionamentos não representam as convicções
da totalidade de seus membros e mudaram conforme o contexto, visto que, a instituição é composta
por diversos grupos e indivíduos que adotaram posturas nem sempre unânimes frente aos problemas
do seu tempo. Na década de 1960, por exemplo, a influência católica foi menor se comparada a
década de 1930. Nessa conjuntura a Igreja havia passado por consideráveis transformações, surgiram
tendências renovadoras com posições até mesmo esquerdistas no seio da instituição, um exemplo foi
a Ação Popular (AP) criada em 1962. Muitos religiosos passaram a enxergar o comunismo como um
problema secundário frente a miséria que assolava boa parte da população brasileira. Segundo Motta,
não havia uma unidade na instituição a respeito do risco representado pelo governo Goulart.
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Sem perder de vista a influencia dos elementos de uma esfera mais ampla, que contribuíram
para a criação da Folha do Norte e a sustentação do discurso por ela disseminado, é primordial
considerar as especificidades do contexto regional. Sobre as motivações do anticomunismo e a
relevância de análises focadas em contextos mais específicos Motta faz um importante apontamento,
segundo ele:
“A motivação anticomunista resultou da intrincada mistura entre
instrumentalização (ou manipulação) e convicção, que se combinaram em medida
diferente ao longo da história. Para compreender como se deu tal processo é
preciso analisar as conjunturas históricas específicas, pois a riqueza inerente a cada
caso singular se perderia em uma abordagem excessivamente generalizadora”
(MOTTA, 2002, p. XXIV).
No norte do Paraná entre os principais representantes da Igreja Católica mobilizados na luta
contra o comunismo um em especial merece destaque. A história da Folha do Norte assim como a
própria trajetória de Maringá não pode ser compreendida satisfatoriamente dissociada da ilustre
figura do arcebispo dom Jaime Luiz Coelho. Na jovem “cidade canção” assumiu uma postura de
liderança política e religiosa sem precedentes. Espaço deixado pelas primeiras gestões municipais que
não lograram constituir plataformas de governo influentes e duradouras. O arcebispo não tinha
ambições financeiras com a Folha do Norte, seu objetivo era fazer um jornal que fosse o porta voz
da Igreja, que integrasse as dioceses da região e fortalecesse a fé cristã contra o comunismo.
No que se refere postura adotada pelo clero da região, principalmente na figura de dom
Jaime, não devemos subestimar o papel que a instituição assumiu frente ao comunismo no período.
Ou seja, o de combate a um inimigo que ameaçava os pilares da civilização cristã: a religião, a
propriedade e a família.
Seguindo as diretrizes da Igreja Católica no período seus representantes se lançaram
oficialmente na luta contra o comunismo através da criação da Frente Agrária Paranaense e também
da Folha do Norte do Paraná. Ambas as iniciativas, afinadas com os preceitos católicos, atuaram
enquanto instrumentos para barrar o avanço da influencia comunista, representada na região pelos
sindicatos rurais cujos líderes possuíam ligações com o PCB.
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Referências Bibliográficas
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sindicatos de trabalhadores rurais do norte do Paraná 1960-1969: o caso da Frente Agrária
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Universidade Estadual de Maringá.
FRAMCHETTI, Claudinéia Justino. Páginas de intolerância política: a guerra psicológica contra o
monstro vermelho na revista Lei e Policia (1948 – 1950). Maringá, 2008. 153 p. Tese (Mestrado em
História) – UEM.
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PRIORI, Angelo. A revolta camponesa de Porecatú: a luta pela defesa da terra componesa e a
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PRIORI, Ângelo...[et al.] História do Paraná: séculos XIX e XX. Maringá: Eduem, 2012.
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A LONGA TEMPESTADE NO DESERTO: UMA ANÁLISE COMPARATIVA DAS
GUERRAS DO GOLFO E DO IRAQUE SOB A ÓTICA DOS JORNAIS “FOLHA DE
SÃO PAULO” E “O ESTADO DE SÃO PAULO” (1990-2003)
Sandro Heleno Morais Zarpelão (Doutorando em História Social, Universidade de São Paulo)
Orientador: Prof. Dr. Francisco Assis de Queiroz (Programa de Pós-Graduação em História
Social, Universidade de São Paulo)
Introdução
A Guerra do Golfo, para melhor ser compreendida, pode também ser analisada sob a ótica da
imprensa. Foi a CNN como canal de notícias de televisão que noticiou, ao vivo, as principais notícias
e fatos da guerra.
Assim, tornou-se imperativo também compreender como parcela da imprensa escrita brasileira
cobriu a Guerra do Golfo. O objetivo é analisar brevemente, pro meio dos editoriais, qual foi a
posição e a imagem construída pelos jornais “O Estado de São Paulo” e “Folha de São Paulo”,
acerca do conflito.
Para tanto, ressalta-se que o jornal “O Estado de São Paulo” possui uma posição ideológica e política
assumidamente de defesa dos princípios liberais. Já a “Folha de São Paulo”, apesar de aparentar ora
ser um jornal ligado mais às idéias da esquerda, não tem uma posição oficialmente definida, mas os
seus editoriais deixam claro que talvez seja mais liberal do que ela possa querer demonstrar. Então,
os princípios liberais voltados para as relações internacionais, acabaram verificando-se nos editoriais
dos mencionados periódicos.
Desse modo, o presente artigo tratará, de forma geral como os editoriais dos jornais “O Estado de
São Paulo” e “Folha de São Paulo”, observaram e verificaram a Crise e a Guerra do Golfo, entre os
meses de julho de 1990 e março de 1991. Tal temática é oriunda da dissertação de mestrado, que foi
realizada, na Universidade Estadual de Maringá (UEM), sobre a Guerra do Golfo cujo tema foi
“Tempestade no Iraque: a Guerra do Golfo, a Política Externa dos Estados Unidos, a Historiografia
Militar e a Imprensa Escrita Brasileira (1991)”, defendida em 2008. Ressalta-se que a cobertura
realizada pelos jornais “Folha de São Paulo” e “O Estado de São Paulo” na Guerra do Iraque, em
2003, ainda não será abordada nesse trabalho, pois a pesquisa ainda será feita no âmbito do
desenvolvimento do Curso de Doutorado em História Social, da Universidade de São Paulo (USP),
desde o ano de 2012.
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A Guerra do Golfo nos jornais “O Estado de São Paulo” e na “Folha de São Paulo”
Dia 2 de agosto de 1990, era ainda madrugada nas areias do deserto onde se localizava a fronteira
entre Iraque e Kuwait, quando as tropas iraquianas cruzaram-na e invadiram o pequeno território do
Kuwait.
Mais de cinco meses depois, no dia 17 de janeiro de 1991, já era noite em Bagdá, quando os
primeiros mísseis estadunidenses cruzaram os céus da cidade das mil e uma noites. Começava, então,
a Guerra do Golfo, com o bombardeio maciço dos aviões aliados sobre as principais cidades
iraquianas e sobre o Kuwait ocupado pelas tropas do Iraque.
O mundo todo através da CNN (canal exclusivo de notícias dos Estados Unidos) viu em tempo real,
instantaneamente, a guerra, as bombas “inteligentes”, os bombardeios cirúrgicos e todo o incrível
aparato tecnológico estadunidense e seus aliados. Uma guerra que ficou conhecida muito mais pelas
imagens que pareciam ser de computador, do que pelas vítimas, destruição e mortes.
Assim, foram analisadas as reportagens, artigos e principalmente editoriais dos jornais “O Estado de
São Paulo” e “Folha de São Paulo”, entre o período de julho de 1990 e março de 1991. Como o foco
principal foram os editoriais, então, cabe ressaltar que no caso do jornal “O Estado de São Paulo”,
foram consultados 17 editoriais relativos à crise e à Guerra do Golfo, entre os dias 8 de janeiro de
1991 e 8 de março de 1991. Também foi consultado um editorial do jornal Folha da Tarde, do
mesmo grupo empresarial que o jornal “O Estado de São Paulo pertence, do dia 15 de janeiro de
1991. Já com relação à “Folha de São Paulo” foram consultados ao todo 20 editoriais relativos à crise
e à Guerra do Golfo, entre os dias 9 de agosto de 1990 e 10 de março de 1991.
Notou-se, em linhas gerais que ao todo seis temáticas que perpassam os editoriais dos jornais “O
Estado de São Paulo” e “Folha de São Paulo”: o petróleo, as armas sofisticadas, a guerra como
irracionalidade e a sua necessidade, os interesses dos Estados Unidos e a visão sobre Saddam
Hussein, a atuação das Nações Unidas e a censura à imprensa.
O primeiro aspecto se refere ao uso de tecnologia, de armas sofisticadas, a crença de que se tratava
de uma guerra high tech, com pouco derramamento de sangue. A imprensa, televisiva e também
escrita, transformou as armas e a alta tecnologia bélica nos principais protagonistas da guerra, numa
incrível inversão de papéis, em que o homem, o horror, a destruição e a ferocidade da guerra foram
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deixadas em segundo plano. Nesse sentido, o editorial do “Jornal da Tarde”, de 15 de janeiro de
1991, pertencente à família Mesquita, que também controla o jornal “O Estado de São Paulo”
informou:
[...] Hoje, terça-feira, 15 de janeiro de 1991, às 24 horas (hora da ONU, duas horas
da manhã de quarta-feira no Brasil), estará se iniciando oficialmente a ofensiva do
mais poderoso e tecnologicamente mais sofisticado dispositivo militar jamais
conhecido pelos homens contra um exército que, sendo o mais poderoso do
mundo árabe, já demonstrou, em oito anos de guerra com os desorganizados
exércitos do ayatolah Khomeini, que não tem a menor condição de oferecer às
tropas aliadas uma resistência maior do que a oferecida pelas tropas dos general
Galtieri ao pequeno exército de Margaret Tachter na Guerra das Malvinas.33
Essa informação é confirmada em artigo publicado por Roberto Godoy, no jornal “O Estado de São
Paulo”, de 15 de janeiro de 1991:
No ar, entretanto, nada supera os fascínio do avião invisível F-117ª, provavelmente
o protagonista da primeira hora de luta. Pequeno, com uma aparência incomum,
marcada pelos ângulos exóticos que o tornam indetectável nas telas dos radares, ele
está pronto para decolar esta noite, ao abrigo da escuridão.34
Percebe-se que as armas foram alçadas à condição de protagonistas da guerra, desconsiderando, de
certa forma, a dimensão humana que a guerra possui. O Editorial da “Folha de São Paulo” segue essa
linha de pensamento:
Mesmo descontando o triunfalismo sinistro dos briefings do Pentágono, a colossal
investida aérea norte-americana, o poder mortífero dos bombardeios e a fantástica
precisão da parafernália posta em marcha parecem ir dissipando até os temores
quando a um choque excessivamente prolongado.35
Não se pode esquecer de que, nesse momento, o mundo estava presenciando o emergir de uma era
de incertezas, com a crise da Guerra Fria, do socialismo real e da União Soviética, com o advento de
inúmeros conflitos étnicos, religiosos e nacionalistas e a formação e expansão de muitos blocos
econômicos.
Editorial do Jornal da Tarde “O petróleo é de Saddam”, São Paulo, 15 de janeiro de 1991.
GODOY, Roberto. “Armas sofisticadas estreiam no Golfo”. O Estado de São Paulo, São Paulo, de 15 de janeiro de
1991.
35 Editorial/Opinião da Folha de São Paulo “Riscos do monopólio”, São Paulo, 18 de janeiro de 1991, p. A-2.
33
34
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Dos escombros da Antiga Ordem Mundial (Guerra Fria), nasceu uma profunda insegurança nas
relações internacionais, em que o dançar histórico era muito mais rápido do que as pessoas, nações e
intelectuais podiam acompanhar e entender.
A Guerra do Golfo, em 1991, foi o conflito que ocorreu dentro de grandes transformações
verificadas nas relações internacionais no ano de 1991, no caso a crise do socialismo real, o fim da
Guerra Fria e o consenso, nunca dantes existido, na atuação da ONU, durante o citado conflito.
Aqui surge a segunda temática relativa ao conflito, a atuação das Nações Unidas antes e durante a
guerra.
O jornal “Folha de São Paulo”, de 1º de dezembro de 1990:
[...] De todo o modo, a decisão da ONU parece indicar que finalmente a entidade
resolveu assumir uma posição de árbitro internacional. Já não era sem tempo. Resta
esperar esse papel seja reforçado e ampliado, seja quais forem os conflitos, os
interesses em jogo e o peso específico dos países cujas dissenções as Nações
Unidas venham futuramente a examinar.36
Percebe-se, uma valorosa crença do grupo Folhas na atuação das Nações Unidas e no
comportamento, por consequência, dos Estados Unidos no conflito. Contudo, tal percepção foi se
diluindo com o tempo devido ao desenrolar da guerra:
Conforme Cuéllar, o Conselho é informado das ações militares apenas depois de
realizadas; não há envolvimento algum da ONU, nem por meio da coordenação das
forças anti-Iraque, nem pela intervenção direta. Inexistem, portanto, garantias de
que certos requisitos estejam sendo efetivamente respeitados; há dúvidas se os
ataques maciços a cidades iraquianas são mesmo para libertar o Kuwait – objetivo
teórico da guerra.37
O que se viu no conflito foi que a Organização das Nações Unidas não teve o comando das ações
militares, controladas pelos Estados Unidos. Nesse sentido, o jornal “O Estado de São Paulo”
apontou as deficiências da ONU:
O fiasco de Perez de Cuéllar revela as deficiências mais graves da estrutura e da
praxe da Organização das Nações Unidas. (...) Sem um secretário-geral que se
conduza acima de tudo pelos ditames e espírito da Carta de São Francisco, a ONU
36
37
Editorial/Opinião da Folha de São Paulo “Ultimato da ONU”, São Paulo, 1º de dezembro de 1990, p. A-2.
Editorial/Opinião da Folha de São Paulo “Guerra sem ONU”, São Paulo, 13 de fevereiro de 1990, p. A-2.
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corre o risco de transoformar-se ora num certame de retórica estéril, ora num jogo
de forças que se anulam na projeção de interesses nacionais soberanos e
contrários.[...].38
O que se verificou na Guerra do Golfo é que mais uma vez as Nações Unidas foram utilizadas, de
certa forma, para atender aos interesses das grandes potências, principalmente os Estados Unidos. O
jornal “O Estado de São Paulo” esboçou uma análise mais crítica e mais aprofundada das razões da
ineficiência das Nações Unidas do que a “Folha de São Paulo”, em seu editorial.
A terceira temática foi a questão do petróleo e o possível choque que a guerra poderia causar nos
preços a guerra, além da dependência do mundo com relação ao Petróleo. O “Jornal da Tarde” em
seu editorial de 15 de janeiro de 1991 defendeu:
Insensatez maior ainda foi a ausência de qualquer esforço sério para livrar o mundo
da dependência energética – 70% das reservas conhecidas do petróleo consumido
na Terra estão situadas lá – do Oriente Médio, uma região explosiva e instável
politicamente [...].39
O Jornal da Tarde critica duramente a dependência do mundo com relação ao petróleo do Oriente
Médio e a letargia do Ocidente em buscar resolver seus problemas de fontes de energia.
Já a “Folha de São Paulo”, insistiu várias vezes com a questão do petróleo. No entanto,
diferentemente do “Jornal da Tarde”, dedicou alguns editoriais para expressar sua preocupação com
um eventual novo choque do petróleo e o seu impacto sobre o Brasil. Porém, em nenhum momento
procurou analisar a real dimensão do petróleo para o Iraque e para os Estados Unidos. O Editorial
de nove de agosto de 1990 noticia:
A eclosão da crise Iraque-Kuwait repercutiu imediatamente sobre o preço do
petróleo causando um aumento de 40% na cotação do produto no mercado
internacional. A despeito da dificuldade natural em avaliar, na sua plenitude, as
consequências do conflito, urge adotar medidas preventivas e advertir a sociedade
para os custos daí decorrentes.40
Como se sabe o tão temido choque do petróleo acabou não ocorrendo. Os preços do barril
permaneceram ligeiramente estáveis durante a Guerra do Golfo.
Editorial/Notas e Informações do O Estado de São Paulo “Encontro em Bagdá”, São Paulo, 15 de fevereiro, p. 03.
Editorial do Jornal da Tarde “O petróleo é de Saddam”, São Paulo, 15 de janeiro de 1991.
40 Editorial/Opinião da Folha de São Paulo “Choque do petróleo”, 9 de agosto de 1990, p. A-2.
38
39
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A quarta temática foi a censura à imprensa. Ocorre que a Guerra do Golfo é colocada pela imprensa
como sendo uma guerra sem grande importância histórica, apenas conhecida pelas armas
inteligentes, bombardeios cirúrgicos de alta tecnologia, desconhecendo talvez a sua real dimensão. A
própria historiografia também não trata a Guerra do Golfo como um fato histórico de grande
relevância no cenário internacional. É bem verdade que não se deve superdimensioná-la, carregandoa de um peso histórico que não possui, mas também não se pode relegá-la ao esquecimento.
As agências de notícias internacionais que cobriram a guerra, além da própria CNN, são em sua
maioria de origem estadunidense e assim, os jornais brasileiros como “Folha de São Paulo” e “O
Estado de São Paulo”, adquiriram notícias da Guerra do Golfo, principalmente da imprensa
estadunidense41.
Desse modo, o jornal “O Estado de São Paulo” em editorial de 23 de janeiro de 1991 criticou o
monopólio da notícia exercido pela CNN, durante a guerra, que caracterizava, de certa forma uma
censura e colocava em risco o acesso às notícias:
Não é de hoje que os mais atentos observadores da guerra sustentam a idéia de que
a primeira vítima de um conflito bélico é sempre a verdade. Especialmente nestes
nossos tempos em que a tecnologia e a eletrônica passaram a ser o oxigênio vital
dos exércitos e construir a ‘nossa’ verdade, ou pelo menos a que mais nos interessa,
no coração e nas mentes do inimigo é essencial para a vitória. A exclusividade de
transmissão ao vivo, docemente oferecida pelos iraquianos a um tipo específico de
rede de televisão norte-americana, a CNN, merece atenção. Durante toda a
primeira madrugada a guerra foi transformada em um fantástico espetáculo de um
dono só. A novidade foi outorgada por Bagdá a um único privilegiado.[...].42
O periódico “Folha de São Paulo” preferiu criticar a censura à imprensa imposta pelas partes
beligerantes do conflito:
O véu de censura que encobre a guerra no golfo Pérsico como que tornou a
opinião pública mundial refém das conveniências fardadas de Washington, Bagdá e
dos demais países envolvidos no conflito. O único front cujos canais seguem
abertos é o dos porta-vozes militares, que despejam informes de conteúdo sempre
mais contraditório e inexpressivo.
SILVA, Aline Cáceres Dutra da. A Hegemonia da Informação: Estudo sobre ética em jornalismo internacional com base na cobertura
americana e brasileira da Guerra ao Terror. Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à disciplina Projetos Experimentais
em Jornalismo, do Departamento de Comunicação do Centro de Educação Comunicação e Artes, da Universidade
Estadual de Londrina, 2003.
42 Editorial/Notas e Informações do O Estado de São Paulo “Guerra e Verdade”, São Paulo, 23 de fevereiro de 1991, p.
03.
41
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Destaca-se o paradoxo: embora a imprensa hoje disponha de instrumentos
avançadíssimos, malgrado a televisão realize uma cobertura intermitente, sabe-se
menos sobre esta guerra do que acerca das anteriores; o imenso aparato tecnológico
da comunicação, com censura, acaba servindo para generalizar a desinformação.43
A questão da censura e do acesso às informações durante a Guerra do Golfo foi bastante importante
para criar uma imagem de guerra limpa, com o uso de armas inteligentes e bombardeios cirúrgicos.
Contudo, ao final da guerra isso foi desmentido pelos fatos, pois ocorreram vários bombardeios em
alvos errados, como em locais habitados por civis. Como por exemplo: “Bombardeios dos Estados
Unidos e seus aliados mataram centenas de pessoas em um abrigo antiaéreo no bairro Al Amriya, na
periferia de Bagdá. (...).”44
A quinta temática se relaciona com a defesa pelos jornais de negociações e a crítica à necessidade de
guerra. Ambos os jornais, como já foi discutido anteriormente, tratam a guerra como uma solução
irracional. Então se critica que a diplomacia foi preterida pela opção da guerra:
Hoje, é a vontade política de Bush e de Saddam que se impõe ao desejo de retardar
a ação de parte do Estado-Maior Combinado norte-americano. Como a guerra
fundamentalmente, é um fato político com um objetivo político, é de temer que a
opinião dos profissionais, que sabem o que significa a guerra, não seja acatada.[...].45
O jornal “Folha de São Paulo” defendeu, por sua vez, o embargo econômico ao invés da solução da
guerra:
Todas essa evidência convergem inevitavelmente para tornar mais desconcertante a
indagação: por que não se insistiu no embargo econômico em vez de se apresentar
como exclusiva nesta altura a saída militar? Pressionado por um bloqueio
verdadeiro, parece óbvio que cedo ou tarde não restaria alternativa a Saddam se não
a do recuo; sequer poderia contar com o espantalho de uma crise de fornecimento
do petróleo – a ausência dos estoques do Iraque e do Kuwait não impediu a
normalização da oferta do produto.46
Editorial/Opinião da Folha de São Paulo “Guerra à censura”, São Paulo, 30 de janeiro de 1991, p. A-2.
Reportagem das agências internacionais republicada pela Folha de São Paulo com o título “Bombardeio mata centenas
em abrigo de Bagdá", São Paulo, 14 de fevereiro de 1991, p. A-10.
43
44
45
46
Editorial/Notas e Informações do O Estado de São Paulo “Que virá depois?”, São Paulo, 15 de janeiro de 1991, p. 03.
Editorial/Opinião da Folha de São Paulo “Guerra”, São Paulo, 17 de janeiro de 1991, p. A-02.
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O que o editorial acima não depreendeu é que os Estados Unidos e o Iraque desejavam a guerra e
não poderiam recuar de suas posições.
A sexta e última temática é a relativa aos interesses dos Estados Unidos na guerra e a imagem de
Saddam Hussein. Enquanto a imprensa e o próprio governo estadunidense representavam o líder
iraquiano como sendo um déspota, guiado por uma lógica alucinada e até mesmo “louco” e a
reencarnação do “mal”, pouco se discutia nos editoriais as implícitas razões que levaram os Estados
Unidos a participarem da guerra. Como se sabe o petróleo e a retirada de Saddam do poder eram
alguns dos objetivos. Saddam Hussein e o Iraque foram integralmente responsabilizados pela
ocorrência da guerra. Já os Estados Unidos de George Bush aparecem como baluartes do sistema
internacional, defensores do direito internacional e das Nações Unidas. O Iraque, não se pode
esquecer, foi armado pelo próprio Ocidente. O editorial da “Folha de São Paulo”:
De toda maneira, a ação contra Israel não deixa de confirmar – de modo dramático,
ignominioso e estarrecedor – o caráter repulsivo da investida de Saddam Hussein.
Não há qualquer chance de vitória; mas o ditador insiste em sacrificar a população
de seu país. É praticamente inevitável que ocorram pesadas baixas civis, diante das
maciças incursões aéreas norte-americanas. Nos cálculos sinistros do tirano; pouco
importa – sua arrogância retórica se intensifica.47
O jornal “O Estado de São Paulo” compara de certa forma, Bush a Franklin Delano Roosevelt e a
Winston Churchill, e condena o Iraque como o grande causador da guerra em seu editorial do dia18
de janeiro de 1991:
O discurso com que o presidente George Bush informou os Estados Unidos de
que as hostilidades haviam sido iniciadas no Golfo Pérsico não tem a grandeza
literária e a dramaticidade de algumas peças de F. D. Roosevelt ou então, de
Winston Churchill. Marca no entanto, apesar disso, momento seguramente tão
importante para a história das relações internacionais quanto qualquer das orações
com que os dois grandes estadistas deste século fixaram os pontos de inflexão da
Segunda Guerra Mundial e da História Contemporânea.(...) Irredutível em sua
posição, buscando unir os povos árabes em torno da bandeira da “Guerra Santa”,
Saddam Hussein conduziu a ONU a adotar a resolução autorizando os estadosmembros a usar todos os meios para levar o Iraque a retirar-se do Kuwait. Todos
os meios – o derradeiro deles, a guerra.48
Editorial/Opinião da Folha de São Paulo “Lógica alucinada”, São Paulo, 19 de janeiro de 1991, p. A-2.
Editorial/Notas e Informações do O Estado de São Paulo “O futuro de cem anos”, São Paulo, 18 de janeiro de 1991,
p. 03.
47
48
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Então, de acordo com os editoriais citados, a imagem que ficou da guerra foi o governo dos Estados
Unidos, na época presidido pelo presidente George Bush, do Partido Republicano, que passou e
defendeu que a Guerra do Golfo foi um conflito com bombardeios cirúrgicos, feitos com armas
inteligentes, em que as mortes seriam em quantidade mínima. Como se sabe, não foi bem assim que
aconteceu. Nesse sentido, a pesquisa do mestrado em questão objetiva mostrar como a imprensa
escrita brasileira, no caso os jornais “Folha de São Paulo” e “O Estado de São Paulo”, seguiram tal
discurso, sem discuti-lo de forma profunda.
Nesse sentido, de que a imprensa teve uma grande participação na guerra, pois de acordo com José
Arbex Júnior, em sua obra “Showrnalismo: a notícia como espetáculo”, a Guerra do Golfo pode ser
considerada como um grande divisor de águas, porque a imprensa enfatizou muito mais as armas, o
show de imagens, as batalhas noturnas que pareciam de vídeo game, os bombardeios cirúrgicos, as
armas inteligentes e a tecnologia do que o horror, o homem, a vida, as vítimas e a destruição. Arbex
afirma:
A Guerra do Golfo serviu como um divisor de águas nessa longa história. Pela
primeira vez, uma guerra era transmitida ‘ao vivo’, em tempo real, por uma rede de
alcance planetário (a Cable News Network, CNN) (...). E – outro fato inédito – a
grande personagem da guerra, ao contrário daquilo que, apenas em certa medida,
havia caracterizado a cobertura da Guerra do Vietnã, nos anos 60, não foi o
homem, os horrores, ódios e esperanças provocadas pela destruição, mas a
tecnologia, as armas ‘inteligentes’, as operações ‘cirúrgicas’ [...].49
Vale lembrar que para Arbex, a Guerra do Golfo chegou a ser vista como um “choque civilizatório”.
Na verdade, ocorreu uma construção de uma retórica e uma metáfora interpretativa entre os Estados
Unidos da América, representante da civilização ocidental – detentor de valores cristãos,
democráticos, capitalistas, do livre mercado e pluralista – e o Iraque, representante da civilização
muçulmana – portador de intolerância, atraso, avesso à democracia e ao livre mercado.
Obviamente não se devem desprezar as diferenças culturais e históricas entre o Ocidente Cristão e o
Islã, para se entender a Guerra do Golfo. Nesse sentido, há uma discordância com relação ao
jornalista José Arbex Júnior, pois tal conflito não pode ser entendido apenas pelas diferenças
culturais. Não é segredo que o Ocidente compreende com os seus “olhos” as estruturas culturais e o
49
ARBEX JÚNIOR, José. Showrnalismo: a notícia como espetáculo. São Paulo: Casa Amarela, 2001. pp. 30-31.
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pensamento da civilização muçulmana. Dessa maneira, há uma concordância parcial com os
argumentos do autor Samuel Huntington50. Não que o mundo deva ser entendido como um mero
choque de linhas culturais civilizatórias. Contudo, as ações dos países dentro do âmbito das relações
internacionais devem ser entendidas também pelo viés das questões políticas, geopolíticas,
econômicas e das relações internacionais.
Por outro lado, o jornalista José Arbex tem razão quando fala que houve uma construção metafórica,
retórica teórica por parte da imprensa ao apresentar o Iraque e o mundo árabe-muçulmano como
sendo um conceito ameaçador e ruim ao Ocidente, por parte da imprensa e dos países envolvidos,
principalmente pelos governos dos Estados Unidos e do Reino Unido. Vale ressaltar que o próprio
José Arbex Junior foi correspondente na Guerra do Golfo, tendo permanecido no Kuwait para
cobrir a guerra para o jornal “Folha de São Paulo”.
A imprensa escrita, televisiva e de rádio construiu a imagem de que a Guerra do Golfo seria uma luta
do “bem” contra o “mal”, isto é, dos Estados Unidos e o Ocidente, contra o Iraque o Islã. Isso foi
reproduzido reiteradas vezes pelos noticiários escritos em escala internacional e nacional.
Assim, pode-se refletir sobre a validade de Armand Mattelart ao afirmar:
O Século XIX inventa a news e, com ela, o ideal da informação instantânea. Entre
1830 e 1850 criam-se as grandes agências. A partir de 1875, começam a formar-se
os grupos de imprensa. Surgem os primeiros gêneros escritos da produção cultural
de massa.51
O próprio Arbex também corrobora esse pensamento ao mostrar como a
informação está cada vez mais rápida quando escreve Do início do século XIX até os
nossos dias, a história tecnológica da mídia pode ser resumida como a história da fabricação e
instalação de meios cada vez mais rápidos de propagar a informação.52
Dessa forma, para atender os seus anseios de lucros e interesses de corporações privadas e até
públicas, a imprensa atua como uma empresa que aparentemente é guardiã da verdade e da
imparcialidade, como afirma o jornalista Carlos Dorneles:
A imprensa somente revela fatos, não toma partido; não é responsável por
acontecimentos, apenas os registra. Esse dogma jornalístico jamais soou tão irreal
como depois do 11 de setembro. Muitos episódios, como a própria guerra no
HUNTINGTON, Samuel. O choque de civilizações e a recomposição da ordem mundial. Rio de Janeiro: Objetiva, 1997.
MATTELART, Armand. A globalização da comunicação. PELEGRIN, Laureano (trad.). Bauru: EDUSC, 2000. p. 47.
52 ARBEX JÚNIOR, José. Showrnalismo: a notícia como espetáculo. São Paulo: Casa Amarela, 2001. p. 59.
50
51
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Afeganistão, tiveram participação ativa da imprensa. É impossível, hoje, separar o
que foi apenas a intenção pura e simples do governo Bush e o que foi facilitado,
possibilitado pela influência da mídia. (...) O trabalho da mídia só reforçou a sua
capacidade de ditar rumos. Por cumplicidade ou por omissão, mas sem inocência.53
Seguindo essa linha de raciocínio, a Guerra do Golfo foi um marco importante na cobertura da
imprensa e o seu tratamento para com as notícias. A cobertura ao vivo transformou veículos como a
CNN, fazendo-a uma grande potência nos meios de comunicação jornalísticos, um referencial para o
jornalismo 24 (vinte e quatro) horas e para a cobertura de guerras.
A obra de Arbex vai ao encontro com essa linha de pensamento, pois esteve no aludido conflito, a
serviço do jornal “Folha de São Paulo”, no qual trabalhou no período de 1990-1991.
Considerações Finais
Percebe-se, pelo que foi discutido, que a imprensa escrita brasileira, leiam-se os jornais “Folha de São
Paulo” e “O Estado de São Paulo”, fizeram algumas críticas e análises em seus editoriais, mas
reproduziram na sua maior parte a versão de que Saddam Hussein era um sanguinário, os Estados
Unidos estavam lutando em prol do cumprimento do direito internacional, a guerra foi tecnológica e
com armas inteligentes, e a imprensa foi censurada e comprometida em sua cobertura.
Não se pode esquecer que a imprensa estadunidense, fonte das informações internacionais para os
mencionados jornais brasileiros, seguia a Doutrina Powell do governo dos Estados Unidos. Tal
doutrina é baseada na ideia de uma guerra segura, sem mortes, com o uso de armas inteligentes e
bombardeios cirúrgicos. Daí nasceu a imagem sobre a Guerra do Golfo de ser uma guerra limpa,
quase sem mortes.
Obviamente, o mundo muçulmano e os islâmicos continuam sendo apresentados pela imprensa
como o grande “mal” que deve ser corrigido para a manutenção da paz mundial e da civilização
Ocidental. É bem verdade que a mídia estadunidense admitiu algum tempo depois que a cobertura
realizada durante a Guerra do Golfo foi tendenciosa em favor dos Estados Unidos. Sem dúvida, tal
operação foi construída pela mídia estadunidense juntamente com o Estado estadunidense mais a
elaboração de documentários e filmes de imparcialidade e cientificidade bastante duvidosos.
53
DORNELES, Carlos. Deus é inocente: a imprensa, não. São Paulo: Globo, 2003. pp. 270-271.
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Desse modo, nota-se que a cobertura da imprensa escrita brasileira, no caso, os jornais “O Estado de
São Paulo” e “Folha de São Paulo”, através de uma análise dos seus editoriais sobre a crise e a
Guerra do Golfo, reproduziu várias “verdades” e visões sobre tal conflito, defendidas por agências
de notícias internacionais e pela CNN. Pouco se preocuparam em aprofundar e discutir os interesses
infiltrados e escondidos dos Estados Unidos e do Iraque na guerra, bem como a real dimensão que
ela teve para o Oriente Médio e para o mundo em termos geopolíticos, militares e econômicos.
Pensar a cobertura de uma guerra, como a do Golfo, de 1991, pela imprensa escrita brasileira, é
fundamental para compreender como ela foi vista no Brasil e como nossa imprensa depende e
reproduz muitas notícias e visões sobre questões internacionais, por depender de agências como a
Reuters, Associated Press e France Press. Seriam interessante países como o Brasil, por meio de sua
imprensa, construir mecanismos que possam garantir também a produção de notícias e de material
sobre questões internacionais.
Fontes
Editorial/Opinião da Folha de São Paulo “Choque do petróleo”, nove de agosto de 1990, p. A-2.
Editorial/Opinião da Folha de São Paulo “Ultimato da ONU”, São Paulo, 1º de dezembro de 1990, p. A-2.
Editorial do Jornal da Tarde “O petróleo é de Saddam”, São Paulo, 15 de janeiro de 1991.
Editorial/Notas e Informações do O Estado de São Paulo “Que virá depois?”, São Paulo, 15 de janeiro de 1991, p.
03.
Editorial/Opinião da Folha de São Paulo “Guerra”, São Paulo, 17 de janeiro de 1991, p. A-02.
Editorial/Notas e Informações do O Estado de São Paulo “O futuro de cem anos”, São Paulo, 18 de janeiro de
1991, p. 03.
Editorial/Opinião da Folha de São Paulo “Riscos do monopólio”, São Paulo, 18 de janeiro de 1991, p. A-2.
Editorial/Opinião da Folha de São Paulo “Lógica alucinada”, São Paulo, 19 de janeiro de 1991, p. A-2.
Editorial/Opinião da Folha de São Paulo “Guerra à censura”, São Paulo, 30 de janeiro de 1991, p. A-2.
Editorial/Opinião da Folha de São Paulo “Guerra sem ONU”, São Paulo, 13 de fevereiro de 1990, p. A-2.
Reportagem das agências internacionais republicada pela Folha de São Paulo com o título “Bombardeio mata centenas
em abrigo de Bagdá", São Paulo, 14 de fevereiro de 1991, p. A-10.
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Editorial/Notas e Informações do O Estado de São Paulo “Encontro em Bagdá”, São Paulo, 15 de fevereiro, p. 03.
Editorial/Notas e Informações do O Estado de São Paulo “Guerra e Verdade”, São Paulo, 23 de fevereiro de
1991, p. 03.
Bibliografia
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118
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
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119
VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
MÍDIA DE MASSAS E A VULGARIZAÇÃO CIENTÍFICA: A MITIFICAÇÃO DA
CIÊNCIA NA REVISTA O CRUZEIRO NA PRIMEIRA METADE DA DÉCADA DE 1950
Fábio Fiore de Aguiar
Orientador: José Miguel Arias Neto
(Mestrado em História Social/Universidade Estadual de Londrina)
A emergência das massas e sua conscientização como força política se dá após a
Revolução Francesa, no entanto é no início do século XX que surgem os primeiros estudos sobre as
massas. A Escola de Frankfurt inicia os estudos das massas associados à mídia e a comunicação de
massa. “Seus proponentes cunharam a expressão “indústria cultural” para indicar o processo de
industrialização da cultura produzida para a massa e os imperativos comerciais que impeliam o
sistema (Kellner 2001 p44).” De acordo com Kellner – a respeito da Escola de Frankfurt - “os
produtos das indústrias culturais tinham a função específica, porém, de legitimar ideologicamente as
sociedades capitalistas existentes e de integrar os indivíduos nos quadros da cultura de massa e da
sociedade (2001 p44)”.
Adorno e Horkheimer, principais teóricos da Escola de Frankfurt, eram
vinculados a uma visão marxista da mídia, aonde a comunicação de massa é identificada como
indústria cultural, assim sendo, o termo indústria cultural veio substituir o termo cultura de massa.
Nos mostra kellner, sobre Frankfurt:
Em particular, foram os primeiros a ver a importância daquilo que chamaram de
“indústria cultural” na reprodução das sociedades contemporâneas, uma vez que as
chamadas cultura e comunicações de massa ocupam posição central entre as
atividades de lazer, são importantes agentes de socialização, mediadoras da
realidade política e devem, por isso, ser vistas como importantes instituições das
sociedades contemporâneas, com vários efeitos econômicos, políticos, culturais e
sociais (2001 p44).
O fenômeno das massas, aliado ao capitalismo e ao desenvolvimento das técnicas
de reprodução cultural e midiática, forneceram o material para o surgimento do termo “indústria
cultural”. Esta terminologia é de caráter econômico, no qual a mídia manipula a cultura como um
produto industrial. “O que não se diz é que o terreno no qual a técnica conquista seu poder sobre a
sociedade é o poder que os economicamente mais fortes exercem sobre a sociedade (ADORNO;
HORKHEIMER 1985 p114).”
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Na perspectiva de Frankfurt, a indústria cultural abrange toda a sociedade de
maneira inescapável, destacam Adorno e Horkheimer: “A violência da sociedade industrial instalouse nos homens de uma vez por todas. Os produtos da indústria cultural podem ter a certeza de que
até mesmo os distraídos vão consumi-los alertamente (ADORNO; HORKHEIMER 1985 p119).”
Adorno e Horkheimer fazem uma leitura de um público completamente passivo, sob um prisma
pessimista não apontam solução para resistir a indústria cultural. “Quem resiste só pode sobreviver
integrando-se (ADORNO; HORKHEIMER 1985 p123).”
Devemos destacar que este caráter pessimista imposto pela Escola de Frankfurt,
deve-se em parte ao contexto totalitário que seus teóricos, Adorno e Horkheimer, viveram no
nazismo na Alemanha. Na esteira do totalitarismo alemão, outro pensador surge nesse contexto
pensando o fenômeno das massas, é o caso de Walter Benjamin.
Walter Benjamin em “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica”,
pensa em como a obra de arte perde sua aura em detrimento de sua reprodução técnica 54. Benjamin
está preocupado também, em como a reprodução técnica da arte está servindo politicamente ao
regime nazista. Benjamin chama este processo de estetização da política, dos usos da fotografia, do
cinema, para legitimar o regime nazista. Nos mostra Benjamin:
A humanidade, que outrora, em Homero, foi um objeto de espetáculo para os
deuses olímpicos, tornou-se agora objeto de espetáculo para si mesma. Sua
autoalienação atingiu um grau que lhe permite vivenciar sua própria destruição
como um gozo estético de primeira ordem (BENJAMIN 2012 p123).
A estetização da política produzida pelos fascistas é sua principal preocupação,
Benjamin está pensando em uma arte que não possa ser usada pelos nazistas, como fora o cinema.
Benjamin está pensando a recepção, e para ele o público é ativo, posto que possa se desvencilhar da
estetização política fascista. Diferente de Adorno e Horkheimer, Benjamin diante deste quadro
aponta uma solução. “Essa é a situação da estetização da política que o fascismo pratica. O
comunismo responde-lhe com a politização da arte (BENJAMIN 2012 p123).”
Podemos assim, notar a diferença entre Adorno e Horkheimer, em relação a
Walter Benjamin. Adorno e Horkheimer pensam o público como passivo, enquanto Benjamin
As obras de arte sempre sofreram imitações, mas para Benjamin a obra de arte possui uma aura única. A
reprodutibilidade técnica extermina o caráter singular da obra, ocasionando a perda de sua aura. Ver: BENJAMIN,
Walter. A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica. Ed. Zouk, 2012.
54
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pensando a recepção os vê como possivelmente ativos. Como destaca Kellner, “a escola de Frankfurt
foi excelente ao traçar as linhas da dominação na cultura da mídia, mas foi menos sagaz para trazer à
tona momentos de resistência e contestação (Kellner 2001 p61)”.
Em razão da unilateralidade de sentido e da carga ideológica que o termo indústria
cultural possui, Douglas Kellner propõe uma terminologia mais adequada para se tratar cultura e
comunicação de massa.
Adotamos o conceito de “cultura da mídia” para descrever o tema de nossas
investigações. A expressão “cultura da mídia” tem a vantagem de designar tanto a
natureza quanto a forma das produções da indústria cultural (ou seja, a cultura) e
seu modo de produção e distribuição (ou seja, tecnologias e indústrias da mídia).
Com isso, evitam-se termos ideológicos como “cultura de massa” e “cultura
popular” e se chama a atenção para o circuito de produção, distribuição e recepção
por meio do qual a cultural da mídia é produzida, distribuída e consumida. Essa
expressão derruba as barreiras artificiais entre campos dos estudos de cultura, mídia
e comunicações e chama a atenção para a interconexão entre cultura e meios de
comunicações na constituição da cultura da mídia, desfazendo assim distinções
reificadas entre “cultura” e “comunicação”.
Como nos mostrou Kellner, os estudos de cultura, mídia e comunicações devem
estar associados, sendo um erro dissociá-los em análise. Nosso estudo é sobre a vulgarização
científica em O Cruzeiro, portanto um estudo de recepção. A ciência também é ferramenta política,
Benjamin expõe como o cinema estava servindo de instrumento político para os nazistas, no entanto
muitas outras mídias foram também alvos de manobras políticas. Seria a vulgarização científica uma
maneira de manipulação das massas?
De acordo com Vergara, quem melhor define vulgarização científica são “Michel
Cloître e Terry Shinn, que afirmam que a força da vulgarização científica reside em sua capacidade de
levar as preocupações sociais para a comunidade científica e atualizar o público das novidades da
ciência (VERGARA 2008 p.138)”. Sob esta perspectiva a vulgarização científica é muito útil,
aproxima a rede científica e a sociedade, que não está a par de seus avanços. No entanto há algumas
ressalvas, segundo Miguel Osório de Almeida, “A utilidade de pôr o grande público a par do
movimento científico tem parecido duvidosa a muitos espíritos. O receio dos perigos que oferece a
“meia ciência” é uma das principais objeções levantadas (ALMEIDA 2002, p.68)”.
Diante da emergência das massas o periodismo se coloca como veículo mediador
de grande importância e os homens que os controlam adquirem grande projeção. O empresário e
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jornalista Assis Chateaubriand foi um dos homens mais importantes do país, durante décadas a
frente do conglomerado de mídias “Diários Associados”. A revista O Cruzeiro era o veículo de mídia
de maior destaque do império de Chateaubriand.
Os Diários Associados eram uma potência na década de 50. Em 1956, período de
expansão, tinham trinta e um jornais, cinco revistas, vinte e uma emissoras de rádio,
três estações de televisão, uma agência telegráfica, duas agências de representação e
duas empresas industriais. O Cruzeiro, para empregar a imagem mais usada pelos
entrevistados, era uma espécie de TV Globo da época. Em setembro de 54, na
edição com o suicídio de Getúlio Vargas, anunciava uma “tiragem pela qual nos
responsabilizamos” de 720 mil exemplares, tida como proporcionalmente recorde
até os dias de hoje (CARVALHO, 2001 p.20).
Este trabalho busca analisar as publicações referentes à mitificação da ciência, em
específico a tecnologia nuclear, expostas em O Cruzeiro na década de cinqüenta. Este período é
significativo para a ciência no Brasil, como é também de grande relevância para o jornalismo
brasileiro. Sobre a imprensa, como nos indica Cruz e Peixoto, citando Darnton “é preciso pensar sua
inserção histórica enquanto força ativa da vida moderna, muito mais ingrediente do processo do que
registro dos acontecimentos, atuando na constituição de nossos modos de vida, perspectivas e
consciência histórica (DARNTON apud CRUZ; PEIXOTO 2007, p.257)”. Devemos então situar a
revista O Cruzeiro na história da imprensa, e então sob ela buscar elementos referentes à ciência e a
tecnologia nuclear. Por se tratar de um periódico de variedades a revista aborda diversos assuntos,
tendo a ciência aparecido com certa frequência nas páginas de O Cruzeiro. Sobre o formato de uma
revista de variedades como nos mostra a historiadora Tânia Regina de Luca,
[...] poderia incluir acontecimentos sociais, crônicas, poesias, fatos curiosos do país
e do mundo, instantâneos da vida urbana, humor, conselhos médicos, moda e
regras de etiqueta, notas policiais, jogos, charadas e literatura para crianças, tais
publicações forneciam um lauto cardápio que procurava agradar a diferentes
leitores, justificando o termo variedades (2005, p. 121).
Dessa forma, trabalhamos com uma revista de variedades em que o tema ciência
aparece com frequência associado a uma coluna de política internacional, ou em alguma reportagem
em torno de algum cientista. A mitificação da ciência é um elemento nocivo a divulgação científica.
Em O Cruzeiro, o tema ciência é abordado de forma política, de maneira que ambas estão
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intimamente conectadas. No entanto a revista por algumas vezes mitifica personalidades, cria
histórias para ter demanda de mercado e mitifica a ciência, o que aumenta a distância entre a
comunidade científica e o grande público. Como nos mostram Andrade e Cardoso, a revista O
Cruzeiro mitificou o cientista Cesar Lattes ao tratar de sua participação na detecção do méson-p, o
píon, conferindo status de herói ao cientista:
Não é fácil fazer com que o cientista que é homem calado, de olhos perdidos no ar
e justo de quem está com o pensamento longe (só o sorriso entre tímido e
malicioso, aparecendo aqui e ali na conversação, nos dá certeza de que ele, ao
contrário, sabe muito bem onde tem a cabeça) fale do assunto em que seu nome
aparecerá de relevo. Fala pausadamente, calmo, tentando pôr em linguagem
corrente esta história do méson (CARDOSO; ANDRADE 2001 p. 259).
É possível também notar esta mitificação na reportagem de cinco de setembro de
1953 do jornalista Marcelo Coimbra Tavares, que tinha como manchete: “Brasil berço da bomba H
(TAVARES 1953, p.95, 96)”, e trazia como chamada, “A área de Bocaiúva ficou transformada num
legítimo Q. G. da ciência (TAVARES 1953, p.95, 96)”. Segue a reportagem de Tavares:
A bomba de hidrogênio, com poder destrutivo cem vezes superior ao da bomba
atômica lançada sobre Hiroshima, tem sua história secreta diretamente ligada ao
Brasil, o que certamente surpreenderá a muitos. Os estudos positivos e finais da
poderosa arma foram realizados em Bocaiúva, em maio de mil novecentos e
quarenta e sete, quando do eclipse total do Sol visível nessa cidadezinha mineira.
Nunca se falou nisso. A bomba de hidrogênio está nas manchetes nervosas dos
vespertinos, na rapidez radiofônica dos jornais falados. A Rússia através da palavra
do “premier” Malenkov diz ter também fabricado a bomba que pode ser o fim do
mundo. Esta reportagem pretende apenas contar como, onde e quando foi
estudada a composição do mortífero invento (TAVARES 1953, p.10).
Assim, a revista O Cruzeiro busca responder a demanda de protagonismo no
cenário científico mundial, o qual o Brasil estava carente, mas acaba mitificando a ciência, o que é
danoso para a proximidade dela com o grande público. A ciência quando é mitificada ocorre em
favor de representação de interesses, de legitimação política. Mas os meios não são todo-poderosos,
o mito da onipotência da mídia é falso, o pessimismo de Adorno e Horkheimer só é justificável em
seu contexto específico. Maria Helena Capelato destaca essa questão em “Multidões em cena”:
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Perón reconheceu que os meios não são todo-poderosos e comentou: “em 1955,
tendo a totalidade dos meios à disposição, fui derrotado; em 1945 e 1973, antes das
eleições, a imprensa toda se opôs a mim não impedindo minha chegada à Casa do
Governo” (Apud Sirvén 1984, p.15). Pablo Sirvén cita esse comentário de Perón
para concluir que a propaganda política só reforça tendências que já existem na
sociedade. A afirmação de Perón permite contestar as teses que insistem na
onipotência dos meios de comunicação no que se refere ao controle das
consciências. Cabe lembrar que mesmo nos regimes onde esse controle foi levado
ao extremo, não se conseguiu atingir o objetivo de formar a “opinião única”. Esta
constatação não implica menosprezo da importância da propaganda política que,
mesmo sem obter adesão unânime, representou um dos pilares de sustentação do
poder.
Os meios não são todo-poderosos, mas são pilares de sustentação política. A
vulgarização científica mitificada em favor de interesses políticos ou financeiros é um desserviço à
ciência. A vulgarização científica passa longe da mitificação da ciência, segundo Miguel Osório de
Almeida,
A vulgarização cientifica bem conduzida tem, pois, por fim real, mais esclarecer do
que instruir minuciosamente sobre esse ou aquele ponto em particular. Mantendo
constantemente a maioria das inteligências em contato com a ciência, ela virá criar
um estado de espírito mais receptivo e mais apto a compreender. Ela se destina
mais a preparar uma mentalidade coletiva, do que realmente difundir
conhecimentos isolados (ALMEIDA 2002, p.69).
Desta forma, a vulgarização científica bem conduzida é a chave para desmistificar
a ciência e mostrar os interesses que articulam a política científica, e assim aproximar o grande
público das novidades da ciência.
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IMPRENSA E TRABALHADORES: TENSÕES E REPRESENTAÇÕES ACERCA DAS
MOBILIZAÇÕES COLETIVAS NO CAMPO E NA CIDADE NOS ANOS 90
Ricardo Pires de Paula (UNESP/ Presidente Prudente)
Durante o doutorado, abordamos a trajetória da organização coletiva dos professores da rede
oficial de ensino do Estado de São Paulo, particularmente daquela referente à APEOESP
(Associação dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo). Procuramos analisar as
diferentes formas de organização experimentadas de 1945 até 1989, a partir de um duplo movimento.
Externamente, provocado pelas transformações sociais, políticas, econômicas e culturais vivenciadas
no Brasil e no mundo que interagiram na formação do campo educacional paulista. Internamente,
decorrente de uma dinâmica própria, provocada pelas disputas travadas pelo comando das atividades
e atitudes em relação aos seus representados, ao governo e ao conjunto da sociedade brasileira.
A atuação coletiva dos professores durante os anos 80 consolidou a estrutura sindical
construída durante o final dos anos 70. As greves se constituíram no principal instrumento de ação
dos docentes. Serviram para fortalecer a identidade coletiva da categoria e dar visibilidade às lutas
empreendidas por esse novo ator político que emergiu das manifestações que combinavam luta por
melhores salários e luta em defesa da redemocratização.
Enquanto no cenário urbano, professores e operários rivalizavam espaços na imprensa, no
espaço rural, um novo movimento começava a atrair a atenção da sociedade, o MST (Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). Desde os anos considerados como de formação (1979-1984)
(FERNANDES, 2000: 239), até a primeira década do século XXI, o MST vem se transformando em
um dos principais movimentos sociais no Brasil. Diferentemente dos trabalhadores urbanos, as ações
responsáveis por sua visibilidade têm sido as ocupações de terras e de prédios públicos, secundados
pela formação de acampamentos às margens das rodovias ou nas proximidades de grandes fazendas,
além de outras formas de manifestações.
Se o período 1978-1995 assinalou a emergência e consolidação dos sindicatos de
trabalhadores urbanos (operários e funcionários públicos), os anos 90 marcaram a ascensão dos
trabalhadores rurais no cenário político brasileiro. Atuando em defesa de interesses distintos
(melhores salários, melhores condições de trabalho para os da cidade; acesso à terra e melhores
condições de vida para os trabalhadores oriundos do campo), a APEOESP e o MST, destacaram-se
em suas ações, ampliaram suas bases e constituíram-se em agente coletivos de grande relevância.
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Além disso, colocaram-se como principais antagonistas dos governos do PSDB (Partido da Social
Democracia Brasileira) tanto na esfera federal durante o mandato de Fernando Henrique Cardoso
(1995-2002) quanto na esfera estadual paulista, administrado pelo partido desde 1995 até os dias
atuais.
Tendo em vista a atuação dessas duas organizações coletivas, pretendemos analisar algumas
de suas ações e representações construídas na imprensa escrita a seu respeito durante os anos 1990.
Esse recorte cronológico permite acompanhar a visibilidade tida pelos movimentos dos docentes e
dos sem-terra durante a consolidação da democracia ao final dos anos 80 e a ascensão das políticas
neoliberais (anos 90), período este, de refluxo das atividades sindicais e ascensão dos movimentos
dos trabalhadores do campo.
Os efeitos do neoliberalismo na organização coletiva dos trabalhadores
O neoliberalismo floresceu na segunda metade dos anos 70 na Inglaterra e nos Estados
Unidos e depois se irradiou para outros países desenvolvidos ou em desenvolvimento como um
conjunto de normas e práticas que levaram ao desmonte do Estado de Bem-Estar Social (HARVEY:
2008), acentuando as desigualdades sociais e regionais, ensejando um mundo polarizado entre as
pessoas que muito possuem e as que nada possuem. Entre as posses dos primeiros enquadram-se
bens materiais, educação de qualidade, bom atendimento na área de saúde e, principalmente recursos
financeiros auferidos seja por atividades produtivas (indústrias, comércio) ou por atividades
especulativas como bancos e bolsa de valores.
Quanto ao grupo de pessoas sem acesso a bens e serviços, resta viver na informalidade sem a
proteção dos direitos trabalhista ou cair na criminalidade tendo sua vida ameaçada, tanto pela
estrutura do tráfico de entorpecentes quanto por policiais despreparados e um sistema prisional
desumano.
Na luta por melhores condições de vida, os movimentos sociais e sindicais sempre tiveram
papel importante tanto na formação e conscientização de setores à margem da sociedade, quanto na
defesa de uma transformação social que pudesse por fim à exclusão de grandes parcelas da
população nas decisões políticas. Mesmo agindo em espaços diferenciados, APEOESP e MST,
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coincidem em seus objetivos mais gerais, qual seja, a luta por melhores condições de vida e de
trabalho de parcela significativa de brasileiros.
Embora seja amplamente divulgado nos diversos meios de comunicação a expansão da
democracia em diversas regiões do planeta, a ação de movimentos sociais tem sido reprimida com
violência por governos que se dizem democráticos. No Brasil, o uso da tropa de choque tem sido
frequente na repressão a protestos de entidades da classe trabalhadora, mesmo depois do retorno à
ordem democrática. Os integrantes do MST e da APEOESP têm vivenciado esse enfrentamento
com a polícia com grande frequência em suas manifestações de rua. Além disso, a disseminação de
uma imagem negativa na imprensa dessas manifestações tem contribuído, perante a sociedade, para a
legitimação da violência do Estado.
O caso do magistério paulista
Ao final da década de 70, a APEOESP, bem como os sindicatos dos trabalhadores das
indústrias, ressurgem no cenário político brasileiro, associando a luta por melhores condições de
trabalho com o descontentamento diante do regime militar. “O acirramento das contradições, no
âmbito econômico e político, constitui o caldo de cultura de onde emergem forças latentes,
duramente reprimidas até então, e o novo sindicalismo é, por certo, uma das mais expressivas”
(TUMOLO, 2002: 112).
No curso dos acontecimentos, um dos fatores que possibilitaram o ressurgimento desses
sindicatos, a ditadura, deixa de existir. O país vive o retorno da democracia e, ainda que tenham
piorado os índices referentes a salários e mercado de trabalho, os sindicatos não conseguem manter a
mesma energia dos anos anteriores.
A década de 1990 assinalou, no Brasil, a partir do governo de Fernando Collor, a introdução
de medidas que resultaram na abertura econômica do país para o mercado global. A despeito do
desdobramento de seu curto período na presidência, essa abertura desenfreada às mercadorias e
capitais estrangeiros, aliada à reestruturação produtiva, desencadearam uma série de consequências
negativas ao mercado de trabalho, dentre as quais, o fechamento de muitas indústrias e o aumento do
desemprego. Mas essas medidas estavam inseridas em um conjunto amplo de reformas de viés
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neoliberal, que viriam a ser inauguradas no país, como a redução do papel do Estado, afetando
diretamente as relações entre Estado e trabalhadores.
De acordo com Ricardo Antunes, países como o Brasil estariam sentindo, nesse período, os
reflexos das grandes transformações ocorridas no mundo do trabalho, principalmente, nos países de
capitalismo mais avançados. Segundo Antunes, essas transformações seriam “a redução do
proletariado fabril, industrial; um desemprego estrutural e uma subproletarização de grande número
dos trabalhadores”(ANTUNES, 2000: 52).
Essas transformações atingiram os movimentos sindicais, principalmente os setores do
sindicalismo tradicional, provocando a diminuição nas taxas de sindicalização devido ao processo de
“fragmentação e heterogeneização” dos trabalhadores (ANTUNES, 2000: 67-68). Conforme
Antunes (2000), passou a existir um conflito entre trabalhadores “estáveis” e “não-estáveis”
dificultando a organização de ações dos sindicatos, como a greve.
Maria da Glória Gohn (1997: 297) percebe o quão desastroso significou esse processo de
subproletarização dos trabalhadores para o movimento sindical
A crise econômica levou a uma diminuição dos empregos na economia formal.
Milhares de pessoas passaram para a economia informal. Nela, dada a instabilidade
e as incertezas, exigem-se jornadas mais longas de trabalho, o que retira parte do
tempo disponível das pessoas para participar de mobilizações.
Além das influências externas, houve também alguns fatores de ordem interna que em
conjunto contribuíram para a desestruturação de alguns setores sindicais. Na observação da autora,
tiveram problemas com sua militância, perda da capacidade de mobilização e de participação
cotidiana em atividades organizadas e, ainda, de “credibilidade nas políticas públicas e de
confiabilidade e legitimidade junto à própria população.”(GOHN, 1997: 304)
É nesse contexto desfavorável à luta dos trabalhadores pela manutenção do emprego, pela luta por
melhores salários e contra a exclusão social, que ganha destaque a atuação da APEOESP. Ao se
insurgir contra o descaso dos governos federal e estadual com a educação pública e contra a
proletarização do profissional na área de educação, o sindicato tem sido alvo de ações violentas por
parte dos órgãos repressores do Estado.
Violência esta que esteve presente durante as ações grevistas promovidas pelos professores
em várias regiões do país, no ano 2000. Falando especificamente do que aconteceu no estado de São
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Paulo, a greve dos professores acabou sofrendo com a intervenção da tropa de choque em algumas
ocasiões, arma esta, recorrente na era neoliberal para governantes nada dispostos ao diálogo
democrático. Apesar das dificuldades comuns às dos sindicatos tradicionais (desfiliações, dificuldades
de mobilizações), o movimento dos professores demonstrou certa força ao evidenciar a situação
caótica da educação no país, com a prevalência de índices quantitativos sobre os qualitativos para
agradar organismos financeiros externos. No entanto, o apoio, antes permanente ao professorado
deu lugar a críticas acerca da paralisação das aulas e os possíveis prejuízos aos alunos. Ao lado da
precarização salarial, os professores têm sentido uma desvalorização em sua imagem junto à
sociedade, não garantindo legitimidade às suas manifestações.
O caso dos Sem Terra
Da mesma forma que na cidade, no campo as consequências das recentes transformações
econômicas não tem sido menos lesivas aos trabalhadores. Especuladores, grandes empresários e
latifundiários, sob o patrocínio ou a negligência governamental sobrepõe seus interesses aos
interesses de grande parcela da população que se ocupa da agricultura familiar. Diante desse
contexto, o MST emerge como um movimento que articula as demandas suscitadas nessa conjuntura
por trabalhadores rurais e da cidade na luta contra a concentrada estrutura fundiária.
Realizando ocupações de terra e de prédios públicos, o MST, segundo Fernandes (2001: 238)
“se territorializa, ou seja, desenvolve um processo de luta e conquista da terra que acontece por meio
da ocupação das propriedades que não estão cumprindo com a sua função social”. Esse processo de
territorialização avança para todas as regiões do país.
Nos anos 90, o MST se torna um dos movimentos sociais de maior visibilidade e suas ações
são responsáveis por pautar as discussões políticas em torno da questão agrária no Brasil. Segundo
Rachel Bertol (2003: 5), em 15 anos, houve um giro: “de tema secundário, tornou-se assunto de
primeiro plano, referência mundial de luta social, tema incontornável em programas de governo, com
o qual se questionam presidenciáveis, criam-se atritos sociais, expõem-se contradições”.
Diante dessa visibilidade, os movimentos de trabalhadores do campo passam a sentir os
efeitos de uma conjuntura que procurava cercear cada vez mais a sua atuação. Assim como na cidade,
a repressão se fez presente aos movimentos sociais no campo, revelando-se mais violenta contra
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lideranças e militantes das organizações coletivas de trabalhadores. Paralelamente aos recorrentes
episódios de assassinatos de representantes desses movimentos em diversas regiões do país,
praticados por pistoleiros em crimes encomendados, em determinados momentos em que houve a
atuação direta de agentes do Estado (a polícia) algumas operações resultaram em massacres daqueles
que lutavam contra a exploração sentida no campo, situações encontradas em Corumbiara/RO
(1995) (Mesquita, 2002) e Eldorado dos Carajás/PA (1996) (FERNANDES, 2001: 239).
Permeando o acirramento nas relações entre governo e setores organizados da população está
a estrutura política e econômica denominada seja de Globalização (IANNI, 2000), Globalismo
(IANNI, 1997), Mundialização (CHESNAIS, 1996) e até mesmo Império (HARDT & NEGRI,
2001). Seja esta ou aquela a definição utilizada, existe, como lembra Ricardo Antunes (2000: 73), “um
clima de adversidade e hostilidade contra a esquerda, contra o sindicalismo combativo e os
movimentos sociais de inspiração socialista”. E a superação desses reveses dar-se-á pela redefinição
de questões consideradas ultrapassadas pelos movimentos sociais e sindicais e pela adaptação destes
a novas formas de organização e comunicação.
A imprensa como fonte e como sujeito político
Da mesma forma que outro tipo de registro escrito como fonte histórica, a imprensa possui
características que lhes são próprias e, por isso, cuidados específicos na sua análise. Como destaca
Tânia de Luca (2005), um primeiro aspecto a ser observado diz respeito a sua materialidade pois “a
variação na aparência (...) resulta da interação entre métodos de impressão disponíveis num dado
momento e o lugar social ocupado pelos periódicos”. Ou seja, além de analisar o conteúdo, constitui
tarefa do pesquisador cotejá-lo com a forma como foi construído para observar as intencionalidades
evidentes ou veladas.
Além disso, identificar o grupo responsável pela linha editorial do jornal, da mesma forma
que as relações mantidas do órgão de imprensa com os diferentes poderes e interesses financeiros.
Nessa direção, Ivanor Luiz Garnieri e Fábio Lopes Alves (2007), elencam ainda como cuidados no
trato com os jornais: questionar-se sobre como o jornal abordou o assunto; por quanto tempo foi
veiculado; se houve mudança de posição ou alteração de posturas sobre o tema; quando o assunto
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em estudo deixou de ser abordado pelo veículo de comunicação, e de que modo fez-se a interrupção
das matérias.
Mais do que um receituário, um conjunto de observações a serem feitas no uso dos jornais
como fonte para o historiador, notadamente, aquele que vem se dedicando aos temas da História do
Tempo Presente.
Ao elegermos a imprensa escrita como fonte para analisar a atuação dos movimentos sociais
e sindicais bem como suas representações, pensamos o jornal como um dos meios privilegiados em
“relatar a vida cotidiana e os conflitos vivenciados na sociedade”, produzindo “o registro do fazer
coletivo e das individualidades”(ALVES, 1996: 35). Assim como outras fontes, deve ser lida
criticamente, pois apesar de um discurso de imparcialidade, veicula informações a partir de interesses
diversos (dono da empresa, os patrocinadores, os agentes políticos).
No sentido de buscar entender a cobertura da imprensa em relação às ações da APEOESP e
do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, foram pesquisados dois jornais da região de Presidente
Prudente, Oeste Notícias e O Imparcial nos anos de 1993 á 1997. Foram localizados cerca 1.400
reportagens e artigos nos dois jornais. Desse material, excetuando o ano de 1993, em todos os anos
seguintes houve maior visibilidade das ações protagonizadas pelo MST.
Em relação aos cadernos onde se apresentaram essas matérias e artigos, houve destaque para
os seguintes: Agropecuária, Cidades- invasão, Classificados, Capa, Economia, Geral, Nacional, Geral
– Pontal/Policial, Cidades, Opinião, Regional, Local, Policial, Retrospectiva, Geral – Conflito
Agrário, Televisão e Politica. Salientamos que as notícias veiculadas nos dois jornais diziam respeito
tanto a ações realizadas em nível estadual (APEOESP) quanto em nível regional (APEOESP e
MST).
Devemos fazer uma ressalva no tocante à região de Presidente Prudente. Essa região, inserida
no chamado Pontal do Paranapanema tem sido palco de intensos conflitos no campo desde antes da
atuação do MST. Em 1990, quando o MST promove a primeira ocupação na região, torna-se
recorrente a sua visibilidade na imprensa não apenas regional mas nacional e internacional também.
Nesse sentido, a possibilidade de haver maior quantidade de registros acerca das ações promovidas
pelo MST do que aquelas protagonizadas pela APEOESP era bastante evidente, o que fora
confirmado pela análise empírica.
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Entretanto, para além dessa especificidade da região no tocante aos conflitos agrários,
destacamos que, no caso dos professores da rede estadual paulista, a atividade sindical e suas
mobilizações foram se reduzindo se comparadas com a década precedente. O governo paulista,
desde 1995 administrado pelos PSDB, investiu de forma incisiva em políticas que foram
gradualmente minando a resistência combativa da APEOESP. Assim, temos no caso dos
professores, o que já tivera início no meio sindical como um todo, um forte declínio de movimentos
grevistas e consequente declínio na visibilidade de suas ações na imprensa. No caso do Sem Terra,
além do histórico de lutas da região, o caráter de novidade nas ações promovidas pelo MST e o seu
desdobramento em todo território nacional acabaram sendo mais evidenciadas na imprensa local
durante os anos 90.
Embora em ambos os movimentos, surjam temáticas que correspondem a problemas
enfrentados em todo o país, quais sejam, a educação pública e a reforma agrária, em grande parte da
cobertura da imprensa sobre as ações promovidas por professores e Sem Terra dizem respeito mais
as formas de lutas do que propriamente ao conteúdo dessas lutas (greves para professores e
ocupações/invasões para Sem Terra). Logo, a recorrência em se tratar da atuação docente por meio
de manchetes como “Greve paralisa escolas na região”, e da atuação dos Sem Terra a partir do título
“Mais uma fazenda é invadida no Pontal”, além de não explicar os problemas geradores desse
posicionamento dos trabalhadores (baixo salários e condições precárias de trabalho para professores;
estrutura fundiária concentrada nas mãos de poucos) ainda, favorecem a formação de opinião na
sociedade a respeito desses movimentos e seus integrantes.
Considerações finais
Tivemos como objetivo apresentar aqui alguns dos elementos dos anos 90 a partir da análise
da cobertura da imprensa acerca das manifestações e mobilizações dos professores da rede estadual
paulista, liderados pela APEOESP e dos trabalhadores do MST na região de Presidente Prudente.
Depreendemos que a cobertura da imprensa além de não favorecer o debate atinente às questões que
diziam respeito às causas das ações da APEOESP e do MST, serviram para construir uma imagem
negativa desses trabalhadores junto à sociedade, focando mais na tipologia dessas ações do que
propriamente no conteúdo das mesmas.
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INTERAÇÃO ENTRE FERROVIA E CIDADE: ESTRUTURA FERROVIÁRIA E A
MODERNIZAÇÃO DE BOTUCATU POR MEIO DOS PERIÓDICOS (1929-1934)
Luís Gustavo Martins Botaro (Mestrando em História – UNESP/Assis)
Orientador: Prof. Dr. Eduardo Romero de Oliveira
INTRODUÇÃO
Nos últimos anos, estamos diante de uma retomada da ferrovia enquanto objeto de pesquisa,
e não exclusivamente do campo da História. A partir de novas leituras, problemas, métodos e
questionamentos, o estudo das ferrovias e seus desenvolvimento no Estado de São Paulo reaparece
sob novos campos de pesquisa, o que por sua vez, traz a luz novos caminhos a serem percorridos,
inclusive pelo historiador.
A ferrovia enquanto objeto de pesquisa, encontramos na historiografia ferroviária paulista, e
não raramente, a dicotomia ferrovia - café. Em muitos trabalhos que discutem as ferrovias paulistas,
sugerem interpretações de que o desenvolvimento ferroviário que ocorreu na Província e
posteriormente no Estado de São Paulo, seguiam os interesses dos grandes produtores de café: o
traçado das companhias férreas adotavam as demandas do crescente aumento da produção cafeeira
paulista, o que indica por sua vez, uma carência e por que não, ausência de planos para o
desenvolvimento da malha ferroviária paulista (MATOS, 1974; SAES, 1981). Todavia, partimos da
ideia de que houve dois momentos no que se refere a expansão dos trilhos por São Paulo, como nos
mostra Cristina de Campos: numa primeira ocasião o qual a ampliação dos trilhos acompanhava os
interesses e demandas de produtores cafeeiros, no correr da segunda metade do século XIX; e num
segundo período, na virada e início do século XX, momento no qual as companhias ferroviárias
passam a planejar a expansão de seus trilhos, visando regiões ainda não exploradas economicamente,
desabitadas ou pouco desenvolvidas, que necessitavam da ferrovia para melhor interligar-se com
outras localidades e capital de São Paulo (CAMPOS, 2011, p. 93-94).
A partir da ideia de expansão dos trilhos sob um planejamento, que visava então alcançar
regiões desabitadas ou pouco exploradas e povoadas, inserimos nossa discussão em consonância
com os trabalhos que apontam que a ferrovia não estava limitada a sua função de escoamento da
produção. Além de sua função logística, a ferrovia aparecia em algumas situações cumprindo um
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papel estratégico de integração e defesa territorial; na função de loteamento e colonização de novas
regiões, o que nos leva a pensar na ferrovia anterior a produção econômica (CAMPOS, 2011;
OLIVEIRA, 2011).
Tais trabalhos preenchem lacunas nas reflexões que tomam a ferrovia, principalmente frente
às companhias paulistas. Entretanto, há algumas carências de estudos sobre a relação ferrovia e
cidade. Segundo Ghirardello, as companhias ferroviárias exerceram um papel preponderante na
criação de cidades55, bem como no desenvolvimento de áreas urbanas as quais eram rotas da
expansão dos trilhos de ferro (GHIRARDELLO, 2011).
Inseridos nessa proposta de estudo de interação entre ferrovia e cidade, focamos na
percepção de dois periódicos do município de Botucatu frente à construção e inauguração do novo
prédio da estação da Estrada de Ferro Sorocabana local. A partir da ideia de modernidade,
debruçamos sobre: quais os valores sustentados pelos periódicos durante a construção e inauguração
da estação; se a estrutura ferroviária em questão fora ou não incorporada ao projeto de cidade
moderna dos distintos periódicos botucatuenses; qual o papel dessa estrutura ferroviária para o
momento e transformações urbanas que a cidade vivia naquele período entre 1929-1934. Estes
questionamentos são norteados pela reflexão de Ghirardello ao tratar sobre a relevância do prédio de
estação para o meio urbano:
De pronto, a estação colocava-se como referência urbana do lugar, devido ao seu
porte arquitetônico, e à imagem de modernidade e tecnologia representada por esse
meio de transporte, evidenciada não só pelos equipamentos e meio rodante, mas
também, pelas estranhas e delgadas estruturas metálicas das gares. Era, em pleno
“sertão” paulista, a mais visível e direta manifestação da revolução industrial
(GHIRARDELLO, 2011, p. 75).
Botucatu, cidade do interior paulista que nos anos 1930 sofrera transformações, as quais
segundo os jornais da cidade visavam à modernização e progresso urbano. A reforma e construção
de prédios públicos e privados, o crescente número de construções, o calçamento de suas ruas, o
saneamento urbano, eram sinais de consequências e/ou transformações necessárias para a
modernização de Botucatu na década de 1930. Nesse processo de mudanças e transformações, a
55 Como referência no papel da companhia ferroviária na criação de novos centros urbanos, conferir: CHIRARDELLO,
Nilson. À beira da linha: formações urbanas da Noroeste paulista. São Paulo: UNESP, 2002.
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imprensa local, por meio de seus periódicos adotava como função a tarefa de “interpretar, selecionar,
reforçar e criticar os caminhos seguidos para que a cidade se modernizasse” (GOODWIN JUNIOR,
2007, p. 98). Entendemos que o jornal em sua função de selecionar, criticar e interpretar um caminho
para a modernização urbana trata-se antes de tudo de um caminho e olhar sobre a cidade dentre
tantos outros. As impressões sobre o urbano por meio dos jornais podem trazer por traz de seus
olhares ideais políticos e/ou interesses de grupos econômicos em suas notícias. Conhecer os
idealizadores, os colaboradores mais próximos dos jornais, as suas ligações com diferentes poderes
traz a luz significados e pretensões do próprio impresso, o que justifica a linguagem utilizada e as
significações criadas pelo jornal (LUCA, 2008, p. 140). Sendo assim, acreditamos tratar de projetos
de modernidade inculcados de valores e pretensões para com a cidade de Botucatu em cada
periódico.
Para refletir sobre os possíveis projetos de modernidade por meio dos jornais, frente às
estruturas da Estrada de Ferro Sorocabana em Botucatu na década de 1930, mais precisamente em
relação à construção do novo prédio da estação, entendemos que uma ideia de modernidade migra
de um tempo e espaço para outro. Contudo, esse processo implica numa ressignificação dessa
representação pelos grupos sociais que a utilizam: estabelecem equivalências e limites, servindo aos
seus interesses e necessidades (PESAVENTO, 2002, p. 23). Compreendemos também que a ideia de
modernidade é construída por indivíduos, inseridos numa sociedade e num determinado recorte
temporal, frente sua relação ao seu passado e presente. Nessa relação do sentimento de moderno e
de modernidade, Le Goff pontua que “nasce do sentimento de ruptura com o passado” (LE GOFF,
2003, p. 175-176).
Marshall Berman ao refletir sobre o conceito de modernização e modernidade, ressalta que
modernização é um conjunto de transformações econômico-sociais pertinentes a emergência do
sistema capitalista. Para Berman, tais transformações são um pano de fundo, uma dimensão material
(as transformações econômicas, tecnológicas, demográficas, de comunicação), e a modernidade uma
“experiência vital e histórica”, uma forma de perceber o mundo, a si mesmo e aos outros
(BERMAN, 2007, p. 15-17). Ou seja, a partir da dinâmica e inserção numa economia capitalista,
criam-se assim, os alicerces para as transformações consideradas modernas e o viver na modernidade.
Marshall Berman coloca que o indivíduo, também sujeito as mudanças, encontra-se num ambiente
ambíguo: que promete a aventura, autotransformação e transformação de tudo ao seu redor.
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Entretanto, a partir dessas mudanças acaba por ameaçar a destruir as referências nesse espaço em
transformação, “destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos e tudo o que somos” (BERMAN,
2007: 24). A busca pelo novo, o encantamento com o avanço técnico também gera uma
ambiguidade. Segundo Francisco F. Hardman: a rapidez das transformações de uma sociedade
inserida na economia capitalista, onde o novo logo se torna velho, esquecido e marginalizado,
também é uma característica da ambiguidade da vida moderna. O desejo da novidade, mas o medo
de suas consequências (HARDMAN, 1988).
OS JORNAIS DE BOTUCATU: MODERNIDADE NA CIDADE
Havia em Botucatu uma preocupação de a cidade apresentar-se moderna. Esta ansiedade por
transformações que modernizassem a cidade, não se tratava de um caso particular de Botucatu.
Outras cidades do interior paulista, movidas pelo desenvolvimento econômico proveniente,
sobretudo da produção cafeeira, pelo aumento do número de habitantes, dilatação das extensões do
espaço urbano, as aitividades industriais e comercias, bem como estar interligada com outras cidades
e capital por meio da ferrovia, possibilitava a incorporação de ideias e discursos de modernidade e
progresso, como a cidade de Franca, no interior do Estado de São Paulo (FOLLIS, 2003, p. 36).
Por meio dos jornais de Botucatu, propomos investigar algumas questões que segundo os
mesmos, julgavam-se necessárias para a modernização da cidade, ou então, que eram entendidas
como consequências dessas mudanças urbanas. Para tal, vale algumas ressalvas referentes aos dois
jornais que utilizamos: se havia uma ligação com partidos políticos; qual a relação entre os jornais e
grupos sociais de Botucatu.
O Correio de Botucatu estava sob a propriedade e direção de Deodoro Pinheiro Machado no
recorte temporal aqui proposto. Nesse período houve uma mudança de posicionamento político por
parte de Deodoro Pinheiro, que implica no teor das notícias publicadas em seu jornal. Até meados de
1932, Deodoro era partidário do Partido Republicano Paulista, e fazia de seu jornal e notícias um
espaço de defesa dos ideais daquele partido, que se acirravam em meses de eleição. Já a partir de
1933 e principalmente no que se refere às eleições de outubro de 1934, o vigor antes utilizado para
combater os partidários do Partido Democrático, vira-se em defesa dos interesses da classe operária e
ferroviária, sob a bandeira do Partido Socialista. Nas notícias que tratavam sobre a inauguração de
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um espaço publico ou privado, ou quando noticiavam a venda de um novo produto, o Correio de
Botucatu destaca alguns valores:
Domingo ultimo os correctos agentes dos conceituados productos Ford, desta
cidade, expuzeram no seu confortável salão de exposição um automóvel Ford, typo
novo [...]
O carro Ford que vimos é verdadeiramente elegantes [...] Notaveis e modernos
melhoramentos foram utilizados na sua confecção introduzidos de maneira a
tornal-o um veículo de grande linha, de muita belleza e de resistência pouco
comum.
[...] No passeio tivemos a ocasião de avaliar a excellencia do mollejo e o conforto
geral que apresenta o carro (CORREIO DE BOTUCATU, 08 de Fevereiro de
1928, ano 27, p. 1).
Conforto, higiene e a estética eram uma tríade de valores que aparece com certa frequência
nas páginas do Correio de Botucatu. Nas notícias que tratavam sobre as reformas urbanas da cidade,
como no calçamento das ruas, esses elementos mais uma vez ficam em evidência. A preocupação
com o calçamento das ruas de Botucatu era uma constante nas páginas dos periódicos,
principalmente do Correio de Botucatu. Aliado a função de embelezamento urbano, as ruas
devidamente calçadas cumpriam um triplo papel: representava uma cidade moderna, asseada e
confortável:
Para que Botucatu se apresente, aos olhos dos que nela habitam e dos que a
visitem, um ‘urbs’ limpa, confortável e moderna, outra coisa não lhe falta que o
calçamento de seu perímetro urbano (CORREIO DE BOTUCATU, 15 de Março
de 1930, ano 29, p. 1).
O calçamento das ruas aparece nas páginas do Correio de Botucatu, em consonância com a
questão da higiene e do conforto. Entre as consequências da ausência desse melhoramento urbano, o
jornal destaca a poeira que se intensifica nos dias de calor e seca, e os buracos e lamas nos dias
chuvosos:
O calçamento de perímetro urbano de Botucatú é uma necessidade que se vem
fazendo sentir, de ha longo tempo, premente.
Se chove, terrível lamaçal difficulta o transito de vehiculos em virtude da
ingremidade das ruas, principalmente as transversais.
Se a seca predomina por uma temporada, poeira finíssima, incomodativa, perigosa à
saúde pública, atormenta a população.
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O unico corretivo para esses dois males – lama e pó – é o calçamento a
paralelepipedos (CORREIO DE BOTUCATU, 25 de Junho de 1930, ano 29, p. 3).
A estética urbana é por vezes associado à modernização da cidade. O calçamento das ruas,
que era endossado pela necessidade de melhorar o trafego de pessoas e veículos junto às questões de
saúde e higiene, visavam constituir um projeto de cidade moderna para Botucatu que ganhava as
páginas do Correio de Botucatu. E nessa demanda por reformas que visavam à estética, o ajardinamento
das praças públicas de Botucatu estavam também inseridas nesse processo. Sendo assim, o Correio
por meio de suas matérias, cobrava do prefeito e da Câmara algumas ações que visassem tais
melhorias: conforto, higiene e embelezamento para a cidade. Numa notícias sob o título O que
precisamos da Câmara, nesse anno, esses elementos que julgavam ser o caminho a modernização de
Botucatu aparecem como necessários:
A presente legislatura promette ser auspiciosa para a cidade. O centro urbano está
fadado a ser transformado condignamente. Será embellezado com lindos jardins e o
conforto estupendo que sóe ser o calçamento das ruas completará o plano de
remodelamento projectado pela administração municipal.
O ladrilhamento dos passeios públicos que ainda não passaram por esse
melhoramento precisa ser exigido pela
(CORREIO DE BOTUCATU, 23 de Março de 1929, ano 29, p. 1).
O Jornal de Notícias enfatiza outras demandas para a cidade que crescia e desenvolvia-se. As
suas notícias demandavam outros elementos para que a cidade se apresentasse moderna: a
preocupação com a infraestrutura urbana de Botucatu era o assunto torrente que ganhava as páginas
do Jornal. Dentre os serviços de infraestrutura, fazia-se referência à necessidade de extensão e criação
de ruas para interligar os bairros e estes com a área central de Botucatu. Partimos do pressuposto de
que tal jornal estava em consonância com os valores e interesses da classe comerciante e industrial de
Botucatu. Alguns indícios fazem com que caminhemos a essa direção. Primeiramente que seus
anunciantes e as propagandas publicadas pelo Jornal de Notícias são, em sua maioria, de
estabelecimentos comerciais, indústrias ou de produtos produzidos pela indústria local56. Um
segundo ponto interessante é a criação de uma sessão no jornal onde discutia e trazia informações
sobre a economia em nível local, estadual e federal: Comércio, Lavoura e Industria. Visando o
56 Diferentemente do Correio de Botucatu, que anuncia produtos de grande circulação, como remédios, automóveis, armas.
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desenvolvimento da economia, nesta sessão encontram-se informações sobre melhores métodos de
plantio e colheita de variados produtos; informações sobre os industriais e produtos locais que eram
premiados em exposições; informações que atendiam os interesses da classe produtora da cidade de
Botucatu. Outro ponto que vale destacar, que pode indicar uma aproximação entre o jornal e os
comerciantes e industriais, é que esses anunciantes do Jornal de Notícias eram membros da Associação
Comercial, e alguns, desempenhavam funções na administração da instituição, em cargos de
tesoureiro, secretários e presidência.
Para o Jornal de Notícias o índice de desenvolvimento e progresso de uma cidade era a
presença de estabelecimentos comerciais, bem como de uma via de para o escoamento da produção,
como podemos observar numa notícia que trata sobre a cidade de Ourinhos:
Este importante municipio [Ourinhos] cada vez mais em progresso, conta
innumeros melhoramentos e está collocado entre os melhores da zona. Tem
importantes casas comerciaes, dois bancos, Casa de Saude, Escola de Commercio e
outras. Servida pela E. F. Sorocabana e Companhia Ferroviária São Paulo-Paraná,
sendo que essa atravessa as principais terras roxas do norte do vizinho Estado do
Paraná (JORNAL DE NOTÍCIAS, 29 de Novembro de 1931, ano 1, p. 2)
O crescimento da cidade, que era sentido a partir de seus estabelecimentos comerciais e
instituições, bem como por meio da formação de novos bairros e o aumento daqueles já existentes,
demandava por melhor comunicação entre tais regiões e o centro da cidade. A necessidade de vias de
comunicação entre estas regiões mais periféricas e o centro da cidade era discutida por meio das
páginas do Jornal de Notícias. Estas demandas bem como o crescimento de Botucatu eram vistos então
como consequência do desenvolvimento econômico da cidade, como índice de progresso:
O perímetro urbano de Botucatu está se alargando enormemente. Da Villa
Antarctica em início, até a Villa S. Therezinha e Lavapés, da Villa Maria, Boa Vista,
Bairro Alto até outro extremo da cidade, já são bem extensas as ruas [...]
Isso tudo é sinal de progresso, mas, necessário se torne ir tomando medidas de
acordo com o crescimento para, no futuro, não surgirem problemas de difícil
solução.
A Villa dos Lavradores só tem com a cidade uma via de comunicação, essa mesma
apertada embaixo do pontilhão por onde passa a Estrada de Ferro Sorocabana.
(JORNAL DE NOTÍCIAS, 29 de nov. de 1931, ano 1, p. 4).
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A preocupação com as vias de comunicação entre os bairros periféricos, que se formavam e
que cresciam rapidamente, segundo as matérias do Jornal de Notícias, fazia-se presente com grande
frequência nas páginas do jornal. O diretor J. Thomaz de Almeida no início do ano de 1933 assinou
algumas matérias sobre a necessidade de vias de comunicação para ligar os bairros com o centro da
cidade, com outros bairros e a estação da Estrada de Ferro Sorocabana local. Trata-se de duas
matérias sob o título “Praças e ruas” e “Ruas e avenidas” que haviam sido publicadas na “Revista
Comercial” da Associação Comercial57 em 1930, e que J. Thomaz Almeida reedita para mostrar que
os problemas e o alerta feito por ele anteriormente ainda persistia em Botucatu. Nestas matérias,
além de críticas as administrações anteriores sobre as deficiências de comunicação entre os bairros, J.
Thomaz de Almeida pontua algumas ações que trariam por sua vez, soluções para tais deficiências de
Botucatu.
A ligação entre a vila Maria e a estação da Sorocabana é um dos temas abordados pelo diretor
do Jornal de Notícias, e por sua vez, deixava clara que a demanda de mais uma via de acesso entre o
bairro e a estação são os benefícios econômicos:
Para a estação Sorocabana, Botucatú só tem uma entrada e essa mesma agora foi
agravada com o serviço decorrente do armazém de cargas da citada estrada, cujo
serviço antes da construção do novo armazém era feito por uma travessa a
montante da estação.
[...] Existe o bairro denominado Villa Maria, que fica na colina fronteira da qual está
a estação Sorocabana, sendo também uma bairro com uma só sahída.
Um plano perfeitamente viável e que harmonizaria perfeitamente esses
inconvenientes que apontamos, seria a abertura de uma avenida bem espaçosa,
ligando a estação à Vila Maria, e aproveitando-se o ensejo para rectificar a rua do
matadouro.
Desse melhoramento resultariam diversas vantagens: Economia, porque as
indemnizações serão relativamente modicas; a abertura de mais uma via de
comunicação por onde poderá ser feito o trafego para os armazéns da estrada de
ferro evitando-se o congestionamento; enfim, um melhoramento que se não foi
feito agora terá que ser feito futuramente com mais dispêndio [...] (JORNAL DE
NOTÍCIAS, 19 de mar. de 1933, ano 02, p. 1).
A preocupação de J. Thomaz Almeida que publicou na Revista Comercial, periódico impresso
da Associação Comercial de Botucatu, consistia na abertura de uma avenida que tornaria mais
57Esta matéria que é publicada pela Revista Comercial, produzida pela Associação Comercial é assinada pelo J. Thomaz
de Almeida, que será posteriormente, diretor do Jornal de Notícias. Aqui entendemos uma consonância de interesses entre
o Jornal de Notícias e os comerciantes e industrias.
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
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acessível à vila Maria à estação da Sorocabana, o que evitaria o congestionamento para o acesso aos
armazéns e estação ferroviária. Tal melhoramento, que visava um futuro próximo, destinava-se a
dinamização da economia da cidade: outra via de acesso à estação e armazém que evitaria
congestionamento e atrasos no processo de embarque e desembarque de mercadorias. Além de
possibilitar a ligação de bairro com o centro urbano, área onde estavam localizados os espaços de
serviços, área comercial, entretenimento, religioso de Botucatu.
ESTAÇÃO
A construção do novo prédio da estação da Estrada de Ferro Sorocabana em Botucatu fora
anunciada pela primeira vez em 1932, pelo Jornal de Notícias. Expressava nessa notícia a construção do
novo prédio para a cidade, com uma arquitetura moderna, característica esta, que era reforçada por
uma referência a uma estação de São Paulo:
[...] será demolida totalmente a actual estação e no mesmo local construída uma
gare moderna, de grande imponência, seguindo o estylo da estação da Almeida
Cleveland, na capital. A obra está orçada em mais de 800 conto de réis (JORNAL
DE NOTÍCIAS, 16 de junho de 1932, ano 01, p. 1).
Todavia, fora no correr dos meses de 1933 que o processo de construção do novo prédio da
estação ganhara maior destaque na imprensa local. Nos primeiros meses de 1933 a construção da
nova estrutura ferroviária de Botucatu fora noticiada pelo Correio de Botucatu, normalmente em
notícias de primeira página. Destacava-se o processo de demolição da antiga estação e a construção
do novo prédio, bem como o motivo, que resultou em tal medida que beneficiaria a cidade, segundo
o Correio de Botucatu:
A direção da Estrada de Ferro Sorocabana, considerando que suas instalações nesta
cidade são exíguas e não correspondem ao progresso atual desta grande cidade
resolveu, provisoriamente, transferir suas dependências para o novo armazém, que
para isto está sendo adaptado.
A antiga estação da Sorocabana será demolida, para que se reconstrua uma
installação que obedeça a todos os requisitos modernos para bem do publico e
segurança de seus serviços. (CORREIO DE BOTUCATU, 28 de Março de 1933,
ano 32, p. 1).
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As novas instalações da companhia ferroviária na cidade de Botucatu são encaradas pelo
Correio de Botucatu como ultrapassadas, que não estavam mais em consonância com as demandas da
cidade. Neste sentido, era encarada como um desejo de toda a população, visto que todos,
diretamente e/ou indiretamente eram favorecidos com o bom funcionamento da ferrovia em
Botucatu. Além de tal melhoramento ferroviário estar relacionado com os benefícios proporcionados
aos serviços prestados pela companhia a cidade, o Correio destaca também seu papel na estética
urbana:
Foi iniciada, há dias, a demolição da atual estação da Estrada de Ferro Sorocabana
desta cidade, para ser substituída por uma majestosa, manda construir nesta cidade,
pelo atual diretor dessa grande ferrovia paulista, Dr. Gaspar Ricardo Junior, que
desse modo brinda Botucatu com uma estação digna de seu progresso (CORREIO
DE BOTUCATU, 11 de Abril de 1933, ano 32, p. 1).
Os melhoramentos ferroviários, o novo prédio da estação da Sorocabana em Botucatu,
ganham maior destaque nas páginas do Correio de Botucatu. Um dos motivos que levaram a esse
posicionamento do jornal, fora devido que, a partir de março de 1933, Deodoro Pinheiro Macho
assume o cargo de prefeito da cidade. Proprietário do Correio de Botucatu e então prefeito, acaba por
utilizar tal melhoramento ferroviário como instrumento para legitimar seu governo por meio do
jornal de sua propriedade. Não somente a construção do novo prédio, mas outros melhoramentos
urbanos foram usados pelo Correio como meio e mecanismo para endossar o início do mandato de
Deodoro Pinheiro Machado à frente da prefeitura municipal:
O sr. Deodoro Pinheiro entrou com o pé direito no governo municipal de
Botucatu. Mal começa a sua administração e dois melhoramentos notáveis são
anunciados para realização imediata: um novo grupo escolar e uma nova gare da
Sorocabana (CORREIO DE BOTUCATU, 07 de Março de 1933, ano 32, p. 1).
O Correio de Botucatu fez uma cobertura mais extensa sobre esse período de demolição e início
das obras do novo prédio para a estação. O que muito reflete nas publicações do Jornal de Notícias,
que durante o ano de 1933 não fez menção ao início das obras da Sorocabana, como se a construção
noticiada por esse meio de comunicação em 1932 não estivesse em execução – o Jornal retratou
apenas a inauguração do novo prédio. O motivo deste esquecimento por parte do Jornal de Notícias é
devido a que todas essas modificações que ocorreram na cidade de Botucatu, no ano de 1933, foram
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
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utilizadas como meio de legitimar o governo do então prefeito Deodoro Pinheiro, que por sua vez,
era diretor do Correio de Botucatu.
Entretanto, a inauguração da nova estação da Sorocabana na cidade, teve pouco destaque no
Correio de Botucatu, sendo retratada em apenas uma pequena nota no periódico, na última página.
Após noticiar em suas páginas o processo de demolição e início de construção do novo prédio no
correr de 1933, e de utilizar tal melhoramento como meio de legitimação do governo de Deodoro
Pinheiro, a inauguração do prédio foi de menor interesse do que o processo de sua construção. Para
isso, pensamos em duas justificativas que se complementam. Primeiramente, que a inauguração do
prédio acontece em meados de 1934, sendo que tal ano inicia-se turbulento devido a uma greve dos
ferroviários da Estrada de Ferro Sorocabana, que por sua vez, também se desdobra na cidade de
Botucatu. O principal motivo da greve são as discórdias entre o diretor da companhia Gaspar
Ricardo Junior com o Sindicato dos Ferroviários da Estrada de Ferro Sorocabana. Sendo seu
proprietário e então prefeito partidário das ideias socialista e assim, defensor dos direitos da classe
operário, principalmente ferroviária, pode-se explicar essa ausência de interesse em noticiar com
maior detalhe a inauguração da estação.
Um segundo motivo é que ao final de 1933, mais precisamente em Agosto daquele ano, o
então prefeito Deodoro Pinheiro é exonerado do cargo de prefeito de Botucatu. Segundo as palavras
do ex-prefeito, o motivo da exoneração de sua função como administrador da cidade foi uma
acusação de que ele havia propagado ideias subversivas (CORREIO DE BOTUCATU, 19 de Agosto
de 1933, ano 32, p. 1). Entretanto, além desse motivo explicitado pelo então ex-prefeito, a saída de
Deodoro Pinheiro Machado do comando da prefeitura de Botucatu coincide com o momento o qual
há a substituição do interventor de São Paulo, a saída de Waldormiro de Lima e a entrada de
Armando Salles de Oliveira58 (CORREIO DE BOTUCATU, 28 de Julho de 1933, ano 32, p.1).
Sendo assim, todas as transformações que o Correio utilizou para a legitimação do governo de
Deodoro Pinheiro, inclusive a construção do novo prédio da estação em Botucatu, já não condizia
mais, visto que fora afastado da administração da cidade.
58 Waldomiro de Lima fora um dos idealizadores do Partido Socialista Brasileiro de São Paulo. Quando é substituído do
cargo de Interventor do Estado de São Paulo por Amando Salles de Oliveira, Deodoro Pinheiro Machado é exonerado
do cargo de prefeito de Botucatu. (CORREIO DE BOTUCATU, 25 de Março de 1933, ano 32, p. 1)
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Durante o processo de construção, o Jornal de Notícias não fez menção ao novo prédio, por
motivos que supomos compreender. Entretanto, em 1934 o então prefeito da cidade de Botucatu era
Carlos Cesar, que já fora presidente da Associação Comercial de Botucatu, que por sua vez também
era parceiro do mesmo jornal. Na inauguração do novo prédio, o Jornal de Notícias traz uma notícia
sobre a inauguração da nova gare da Sorocabana, que demonstra como uma aspiração há muito
desejada pela população e pela Associação Comercial:
Na singeleza deste acto concretiza-se uma justa aspiração da população
botucatuense, qual a de ver substituída a velha Estação da E. F. Sorocabana por
outra que melhor correspondesse aos seus anseios de progresso.
Desde ha um decênio que a nossa Associação Commercial, a que tive a honra de
presidir, pleiteou reiteradamente a execução de uma serie de melhoramentos nas
intallações da Sorocabana nesta cidade, entre outros a construção de uma armazem
de cargas e da nova Estação (JORNAL DE NOTÍCIAS, 08 de Julho de 1934, ano
03, p. 3).
A construção do novo prédio da estação, segundo os periódicos é uma aspiração há muito
desejada pela população de Botucatu. Afirmação que tem como objetivo legitimar que tal ação não
traria benefícios a uma classe em detrimento a outra. Entretanto, no Jornal de Notícias especificamente,
o então prefeito ressalta que a construção do novo prédio assim como das reformas das estruturas da
Sorocabana na cidade, há muito era esperada pela Associação Comercial botucatuense.
Melhoramentos que beneficiaria a economia da cidade: tornaria mais ágil o acesso a mercadorias e
embarque de passageiros. Além da arquitetura do novo prédio ir ao encontro com o desejo de a
cidade possuir espaços que visassem o embelezamento urbano.
CONCLUSÃO
Este texto trata-se de reflexões parciais da pesquisa ainda em desenvolvimento. Entretanto,
algumas considerações podem ser feitas. Primeiramente, que entre os jornais havia alguns interesses
em consonância: a modernização de Botucatu. Todavia, as consequências e os meios para alcançar as
mudanças entendidas como modernizadoras são distintas. O Correio de Botucatu percebiam e
almejavam, por meio de suas páginas, reformas e mudanças que visassem a modernização de
Botucatu: o embelezamento da cidade, aliado à higiene e principalmente ao conforto.
Diferentemente, o Jornal de Notícias percebiam em outras infraestruturas urbanas o processo para que
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a cidade continue em crescimento e desenvolvimento, como na criação de vias para interligar os
bairros que estavam sendo criados e aumentados, com as áreas centrais da cidade (local onde se
encontrava o comércio e serviços) e a estação da Estrada de Ferro Sorocabana. Supomos então que
se trata de projetos de modernidade para Botucatu, que eram defendidos por meio das páginas de
ambos os jornais locais, que aliados a grupos políticos e econômicos, faziam da imprensa um espaço
privilegiado de articulação desses projetos.
E nesse processo encontramos a construção de um novo prédio para a estação ferroviária da
cidade. Uma construção que pela sua arquitetura, tamanho e funcionalidade caminhava em
conformidade com a modernização da cidade desejada pelos jornais de Botucatu. Todavia, estes
jornais utilizavam o processo de construção e inauguração do novo prédio como meio de legitimar
seus projetos e governos municipais com os quais tinham afinidade.
REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS
BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. Trad.
Carlos Felipe Moisés, Ana Maria Ioratti. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
CAMPOS, Cristina de. Ferrovia e urbanização: o processo de urbanização da zona pioneira da “Alta
Paulista” (1905-1962). In: CAMPOS, Cristina de; OLIVEIRA, Eduardo Romero de; GITAHY,
Maria Lucia Caira. Território e Cidades - Projetos e representações, 1870-1970. São Paulo:
Alameda, 2011.
FOLLIS, Fransérgio. Modernização urbana na Belle Époque paulista. São Paulo: UNESP, 2003.
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
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VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
PRÉ-ESCOLAS SOB SUSPEITA: ESTUDO SOBRE UMA OPERAÇÃO REPRESSIVA
NO PARANÁ DURANTE A DITADURA CIVIL MILITAR
José dos Santos de Abreu
Mestrando em História (UFPR)
Orientadora: Dra. Marion Brepohl de Magalhães
INTRODUÇÃO
O presente artigo busca promover uma reflexão sobre nosso projeto de pesquisa intitulado
Pré-escolas sob suspeita: estudo sobre uma operação repressiva no Paraná durante a ditadura civil militar, cujo
objetivo é investigar as prisões políticas ocorridas em Curitiba, no Paraná, no ano de 1978, em que
onze pessoas59 foram detidas sob a acusação de doutrinar, conforme nota emitida pela Polícia
Federal do Paraná60 , "dentro de princípios marxistas", alunos de duas pré-escolas – Oficina e Oca - e
também de “usarem as escolas como fachada para se organizarem politicamente”. Essa operação
policial denominada Operação Pequeno Príncipe, realizada pela polícia política do Paraná, será analisada
com o propósito de entender a forma de atuação do poder repressivo estatal nesse caso específico e
como essa ação foi justificada pelos seus perpetradores através da análise de documentos oficiais.
O Estado brasileiro já há alguns anos vem promovendo o processo de reparação das
violações de Direitos Humanos durante a ditadura civil militar, sob a responsabilidade da Comissão
de Anistia. Atualmente, acompanhamos os trabalhos desenvolvidos pela Comissão da Verdade, cuja
missão é produzir um registro apurado do passado histórico, tornando públicos aqueles
acontecimentos que permanecem relegados ao desconhecimento da sociedade. Diante disso,
consideramos que nesse momento os historiadores têm papel importante a desempenhar,
participando e contribuindo com esse processo de formas diversas, seja levantando dados,
problematizando interpretações, registrando vozes e versões, construindo acervos e desvelando fatos
que envolvem questões fundamentais que devem ser trazidas à tona, permitindo assim, um maior
aprofundamento da democracia brasileira. A universidade pode tornar-se um ator importante no
cenário político ao “contribuir para a discussão do processo de construção de democracias após
São elas: Luís Alberto Manfredini, Paulo Sá Brito, Bernadete Sá Brito, Walmor Marcelino, Reinoldo Atem, Léo Kessel,
Lígia Cardieri Mendonça, Ana Lange, Edésio Passos, Sílvia Mendonça e Suely Atem.
60 Folha de São Paulo. Polícia Federal prende pelo menos 13 no Paraná. São Paulo: 19 de março de 1978.
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
contextos de violência política”, envolvendo pesquisadores, estudantes e movimentos de direitos
humanos nesse processo61.
Assim, consideramos que nosso projeto, ao tratar das prisões políticas ocorridas em Curitiba,
no ano de 1978, em plena vigência da ditadura civil-militar, pode ser uma contribuição no campo
historiográfico voltada para o atendimento de uma das importantes demandas políticas da sociedade
brasileira atual, já que sua intenção ao buscar ampliar a produção historiográfica paranaense sobre a
ditadura e produzir novas fontes que possam auxiliar novos pesquisadores a analisarem o período,
também soma-se ao esforço coletivo de diversos outros historiadores do meio acadêmico e de
programas de Pós Graduação em História que vem realizando estudos e seminários sobre o contexto
histórico daquele período autoritário.
A produção historiográfica voltada para o estudo da ditadura vigente no Brasil entre os anos
de 1964-1985, demonstra que setores civis pertencentes às classes dominantes, aliaram-se aos
militares golpistas, tanto nas articulações que levaram ao golpe de Estado bem sucedido, como no
controle do aparato estatal durante a vigência desse período de exceção. Inferimos a partir dessa
premissa que, tanto o golpe, como a manutenção do regime autoritário, ao serem protagonizados por
esses dois agentes, independentemente do papel hegemônico inequivocamente exercido pelos setores
militares62, não exime setores civis da corresponsabilidade por tudo o que ocorreu durante o período
autoritário. Assim, optamos por caracterizar nesse trabalho a ditadura como civil-militar.
CONTEXTO HISTÓRICO
A renúncia de Jânio Quadros, meses após assumir a presidência do Brasil, em 1961, engendra
o episódio conturbado da posse de seu vice, João Goulart, antigo desafeto dos militares e setores
conservadores. O quadro político no período de 1961-1964 caracterizava-se pela massiva presença
popular nos debates sobre as chamadas reformas de base63. O acirramento da crise política acompanha a
GRIN, Monica; ARAÚJO, Maria P. N.; FICO, Carlos (Org.). Violência na História: Memória, Trauma e Reparação.
Editora Ponteio, RJ, 2013.
62 Sobre caracterização da ditadura, ver: FICO, Carlos. Como eles agiam. Os subterrâneos da Ditadura Militar:
espionagem e polícia política. Rio de Janeiro: Record, 2001.
63 Sob a denominação de “reformas de base” estavam reunidas iniciativas que visavam alterações bancárias, fiscais,
urbanas, administrativas, agrárias e universitárias. Além disso, objetivava oferecer o direito de voto para analfabetos e às
patentes subalternas das forças armadas. As medidas causariam uma participação maior do Estado em questões
econômicas, regulando o investimento estrangeiro no país.
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
crise da economia, alvo da sabotagem dos adversários internos e externos, tais como a Aliança para o
Progresso, programa do governo estadunidense de ajuda aos estados e municípios opositores do
governo federal. As ações do complexo IPES/IBAD64, em aliança com a ESG - Escola Superior de
Guerra - e sob um contexto internacional de Guerra Fria, significaram o surgimento de um
instrumento ideológico, político e militar a serviço dos interesses do capital estrangeiro e seus
associados nacionais, contra as reformas em curso e pela deposição do presidente João Goulart65. O
desfecho desse quadro caótico se deu com a deflagração do golpe de Estado pelos militares e a
implantação de uma ditadura civil-militar.
Durante o governo de Castelo Branco (1964-1967) é imposto o bipartidarismo66, políticos são
cassados e são estabelecidas eleições indiretas. Na economia setores estratégicos são entregues ao
capital estrangeiro e é adotada uma política de alinhamento automático aos EUA. No bojo dos
protestos mundiais do ano de 1968, a sociedade civil brasileira organiza-se em movimentos de
resistência, reivindicações e protestos e a ditadura endurece ainda mais com a decretação do AI-567.
No governo Médici (1969-1974) intensifica-se o confronto entre governo e oposição. O “Milagre
Econômico”, período que apresentou índices de crescimento de até 10% ao ano, acaba com a
chamada “Crise do Petróleo”68, em 1973, gerando descontentamento crescente, sobretudo devido ao
aprofundamento das desigualdades regionais e sociais, e da concentração brutal de renda. É dentro
desse clima desfavorável que assume o poder o general Ernesto Geisel (1974-1979), em cuja gestão
inicia-se o processo de distensão69 do regime ditatorial.
64 Respectivamente: Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais e Instituto Brasileiro de Ação Democrática. A formação do
complexo IPES/IBAD foi uma reação da elite orgânica formada por empresários nacionais, empresas multinacionais e
militares ao que eles consideravam como o crescimento da esquerda no cenário político.
65 DREIFUSS, R. A. 1964: A conquista do Estado. Ação política, poder e golpe de classe. Petrópolis: Vozes, 1981.
66 O Brasil teve um período bipartidarista durante a ditadura, entre 1966 e 1979. O dois partidos eram a Aliança
Renovadora Nacional (ARENA), governista; e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), de oposição.
67 O Ato Institucional nº 5, AI-5, baixado em 13 de dezembro de 1968, durante o governo do general Costa e Silva, foi a
expressão mais acabada da ditadura militar brasileira (1964-1985). Vigorou até dezembro de 1978 e produziu um elenco
de ações arbitrárias de efeitos duradouros. Definiu o momento mais duro do regime, dando poder de exceção aos
governantes para punir arbitrariamente os que fossem inimigos do regime ou como tal considerados.
68 No começo da década de 1970, as nações produtoras começaram a regular o escoamento da produção petrolífera por
conta de sua natureza não renovável. Em 1973, o valor do barril mais que triplicou em um curto período de três meses.
Nessa mesma época, a crise entre os produtores orientais e o bloco capitalista piorou com o estouro da Guerra do Yom
Kippur. Esse foi um dos vários conflitos entre árabes e judeus envolvendo os territórios da Palestina. Discordando da
ofensiva judaica, as nações árabes vizinhas, produtoras de petróleo, organizaram um boicote contra toda a nação que
apoiasse a causa dos israelenses.
69 Na sua posse, em 15 de março de 1974, Geisel em seu discurso já trata do tema “distensão”, dizendo-se comprometido
com a desmontagem dos aspectos mais duros da censura e da repressão e com a introdução paulatina e segura de
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Nas eleições parlamentares de 1974, o MDB saiu vitorioso e durante a campanha os debates
e propaganda política permitiram que a população tomasse ciência da crise econômica, dos
escândalos financeiros e, sobretudo, da dívida externa cujo valor astronômico mostrava a verdadeira
face do “milagre”. Este resultado trouxe dificuldades para as ações do executivo junto ao congresso e
mudanças foram implementadas em 1976, através da “Lei Falcão” que impedia o debate político nos
meios de comunicação. No ano seguinte, em 1977, utilizando o AI-5, Geisel fecha o congresso,
reabrindo-o em seguida para receber o “Pacote de Abril”, mecanismo utilizado para minimizar os
efeitos de resultados adversos nas eleições seguintes e garantir o controle do processo de “distensão”
do regime, num ritmo condizente com os interesses do governo. A possibilidade de abertura rumo a
redemocratização do país fomentou uma maior participação popular a partir de 1976, quando
verificam-se manifestações em defesa dos Direitos Humanos e contra a carestia, o movimento pela
anistia, a rearticulação dos movimentos sindical, estudantil e dos sem-terra e a incorporação de
comunistas e membros da Ação Popular ao MDB, reforçando a oposição legal à ditadura.
A historiografia paranaense sobre a ditadura no estado70 nos ajuda a compreender como esse
período autoritário produziu um histórico de centenas de detenções e prisões, além de sequestros,
torturas, interrogatórios, invasões de domicílios, apreensões de objetos pessoais, vigilância a reuniões
e repressão a manifestações públicas.
No âmbito nacional, em novembro de 1977, um mês após sua demissão do Ministério do
Exército71, o nome do general Sylvio Frota volta à cena política através da publicação pelo jornal O
Estado de São Paulo72 de uma lista elaborada meses antes pelo ex-ministro, com os nomes de 97
“subversivos” supostamente infiltrados nos governos estaduais e federal. Esse documento forjou um
mecanismos mais flexíveis e democráticos, inclusive no sistema eleitoral, mantendo, porém, instrumentos para que o
regime pudesse recorrer à força quando se fizesse necessário. Esse discurso de posse é a síntese da estratégia do grupo de
Geisel, cujo principal formulador é o General Golbery do Couto e Silva. Para ele a repressão contínua desmontaria o
regime, ao passo que a flexibilização o legitimaria e institucionalizaria.
70 HELLER, Milton Ivan. Resistência Democrática: a repressão no Paraná. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Curitiba: SCEP,
1988; BREPOHL DE MAGALHAES, M. D. A Lógica da Suspeição: sobre os aparelhos repressivos de Estado a época
da ditadura militar. Revista Brasileira de História, SP, v. 17, n. 34, p. 203-220, 1997; BREPOHL DE MAGALHAES, M.
D. Documento: Manual do Interrogatório. História. Questões e Debates. Curitiba, v. 21, n. 40, p. 201-242, 2004;
História: questões & debates. Curitiba: Ed. UFPR. n. 40. Jan. /jun. 2004. Dossiê: 1964: 40 anos; PALMAR, Aluízio.
Onde foi que vocês enterraram nossos mortos? Curitiba: Travessa dos editores. 2006; CALCIOLARI, Sílvia. Ex-presos
políticos e a memória social da tortura no Paraná (1964-1978). Curitiba: Assembleia Legislativa do Paraná, 2006.
71 O general Sylvio Frota foi ministro do Exército e um dos expoente da chamada “linha dura” das Forças Armadas no
final da década de 1970, Foi demitido quando articulava sua candidatura à sucessão do presidente Ernesto Geisel.
72 O Estado de São Paulo. Documento aponta 97 funcionários acusados de subversão. São Paulo: 24 de novembro de 1977.
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clima de caça às bruxas que resultou na demissão de várias das pessoas citadas, incluindo a atual
presidente do Brasil, Dilma Rousseff73.
É dentro desse contexto, que no ano de 1978 são detidas pela polícia Federal74, em Curitiba,
no Paraná, onze pessoas ligadas à duas pré-escolas - Oficina e Oca - sob a acusação de doutrinação
dos alunos "dentro de princípios marxistas, desenvolvendo-se-lhes uma visão materialista e dialética
do mundo, na pretensão de realizar ‘transformações sociais’, incutindo nas crianças a negação de
valores como a religião, a família e a tradição histórica" e também por usarem as escolas como
fachada para se organizarem politicamente.
AS PRÉ-ESCOLAS OFICINA E OCA
A pré-escola Oficina foi fundada em 1973, em Curitiba, por um grupo de pais cujo objetivo
era evitar que seus filhos em idade pré-escolar fossem submetidos aos ditames do ensino oficial.
Ancorados na ideia de que o sistema educacional oficial promovia uma verdadeira lavagem cerebral
nas crianças, organizaram uma espécie de cooperativa educacional. Assim, segundo o boletim da
escola75, a AED-Oficina – Associação de Estudos Educacionais-oficina - nasceu com o objetivo de
tornar-se uma alternativa de escola voltada para a educação de crianças na faixa pré-escolar,
desatrelada do ensino tradicional que, em sua essência, apenas reproduzia os conhecimentos vigentes
na sociedade.
A pesquisa, o estudo e a prática educacional foram, desde o início, os objetivos perseguidos
pela AED, que passou a manter um centro de aprendizagem. Esse centro recebeu o nome de
Oficina. Na AED-OFICINA, pais e professores decidiam em regime de mútua cooperação os rumos
da educação. A educação era entendida como um processo que se desenvolve no meio social,
representado, nessa idade das crianças, pela escola e pela família, o que tornava indispensável a
participação conjunta de pais e professores na elaboração e aplicação prática da teoria pedagógica. Os
Zero Hora. Como vivem hoje os "comunistas" da lista do general Sylvio Frota. Porto Alegre: 08 de dezembro de 2012.
A Constituição Federal de 1967 estabeleceu que, entre outras atribuições, competia à Polícia Federal a apuração de
infrações penais contra a segurança nacional e a ordem política e social. Esse dado é importante para compreendermos
porque a PF comandou a execução das prisões em Curitiba.
75 Boletim da Escola Oficina. Curitiba: AED, 1978.
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pais se integravam em reuniões correspondentes às faixas de idade das crianças, nas quais eram
realizados estudos que envolviam questões atinentes ao projeto educacional proposto76.
A pré-escola Oca surgiu em 1975, quando alguns dos sócios da AED, mantenedora da escola
Oficina, se afastaram da entidade em virtude do que alegaram ser um suposto “estacionamento
pedagógico” da escola. O grupo dissidente, composto por professores, jornalistas, publicitários e
funcionários públicos, optou então por fundar o Centro de Pesquisas e Avaliações Educacionais. O
CEPAED, como passou a ser conhecido, criou em convênio com o Colorado - tradicional clube de
futebol de Curitiba - a escola experimental Oca.
A leitura do inquérito instaurado para investigar as escolas demonstra que as acusações que
pesaram sobre os detidos se baseavam, sobretudo, nos documentos produzidos por estas
instituições, nos livros considerados subversivos apreendidos nas suas residências e no passado de
resistência à ditadura de alguns deles. Possivelmente, a ousadia que representava esse tipo de
experiência educacional “alternativa” naquele contexto histórico repressivo e a participação de alguns
dos detidos na luta contra a ditadura, são fatores que podem nos ajudar a compreender porque a
polícia política77 paranaense interessou-se em investigar as pré-escolas e, posteriormente, colocar em
curso a operação Pequeno Príncipe.
Em entrevista realizada pelo autor, o delegado da PF, Roberto das Chagas Monteiro78,
responsável pelo inquérito relacionado à operação Pequeno Príncipe, relata que a comunidade de
informações e repressão reunia-se sistematicamente em Curitiba, com o objetivo de trocar
informações, deliberar e articular as ações de seus órgãos79 e, que numa dessas reuniões, ele teria
tomado conhecimento das escolas e passou a ser pressionado, enquanto representante da PF80, para
realizar aquela operação repressiva.
Boletim da Escola Oficina. Curitiba: AED, 1978.
Compartilhamos da definição de Marta Huggins (1998, p. 10), para quem, polícia política “implica a existência de um
órgão ou força, ou ameaça de força, para controlar os indivíduos, grupos e classes consideradas hostis à ordem social,
econômica e política do Estado e, portanto, aos interesses de suas classes dominantes”.
78 Entrevista realizada pelo autor na residência do entrevistado (Curitiba) em 31 de outubro de 2005.
79 DOPS, DOI-CODI, Polícia Federal, civil e militar, forças Armadas, etc.
80 A Constituição Federal de 1967 estabeleceu que competia à Polícia Federal (PF) a apuração de infrações penais contra
a segurança nacional e a ordem política e social. A partir desse momento, a PF incorporou-se institucionalmente ao
aparato repressivo ditatorial. Assim, o Departamento de Polícia Federal (DPF), vinculado ao Ministério da justiça, passou
a ser mobilizado em operações de âmbito nacional voltadas para a defesa interna. Esse dado explica porque a PF
comandou essa operação repressiva em Curitiba.
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O PODER
A ditadura civil-militar utilizou-se da coerção e da força para atingir seus objetivos durante e
após o golpe de Estado de 1964. Buscando identificar a forma e as condições de efetivo exercício
desse tipo de poder, recorremos a Bobbio, que utiliza-se do critério de meio através do qual permitese uma “tipologia ao mesmo tempo simples e iluminadora: a tipologia assim chamada dos três
poderes: econômico, ideológico e político, ou seja, da riqueza, do saber e da força”81.
O poder econômico relaciona-se a situação na qual um indivíduo ou grupo na condição de
proprietário de determinados bens induz os não proprietários a submeterem-se aos seus desígnios.
Os poderes ideológico e político, que estão mais diretamente relacionados com nosso tema de
estudo, representam respectivamente, o exercício da violência por meio e no interior das esferas do
saber e da força.
O poder ideológico é aquele que permite aos detentores das formas de saber, das doutrinas e da
produção do conhecimento inculcar no corpo social formas de socialização e padrões de
comportamento concernentes aos interesses dos grupos dominantes82. Observar o sistema
educacional como espaço de disputas no campo ideológico, nos permite identificar naquele contexto
autoritário a sua instrumentalização pela ditadura, como meio de inculcação dos valores e formas de
comportamento defendidos pelo discurso oficial com o intuito de sustentar-se de forma perene no
controle do Estado.
Ainda em relação ao poder ideológico, verificamos que sua utilização se deu, também
norteado pela Doutrina de Segurança Nacional – DSN83 – que, além de base ideológica, permeou
toda a estrutura do poder público brasileiro durante a ditadura, tendo penetrado inclusive nas escolas
através de disciplinas como Educação Moral e Cívica, Organização Social e Política do Brasil e Estudos de
Problemas Brasileiros, visando, obviamente, doutrinar os estudante brasileiros, tornando-os meros
reprodutores de seus conteúdos. O surgimento das pré-escolas em Curitiba inscreve-se como parte
BOBBIO, N. Estado, governo, sociedade: para uma teoria geral da política. RJ: Paz e terra, 1987, p. 82.
BOBBIO, N. op. cit. p. 82.
83 Produto da Guerra Fria, a DSN enfeixava uma gama de teorizações sobre a implantação e manutenção de um Estado
forte e centralizado. A DSN embasou ideologicamente as atividades de informação e contrainformação no Brasil durante
a ditadura civil-militar. Todo o sistema de informações e repressão brasileiro fundamentou-se na DSN. O alvo prioritário
da Comunidade de Informações, assim, era o "Inimigo Interno", ou seja, elementos brasileiros ou estrangeiros que
agiriam subversivamente, pondo em risco a segurança nacional.
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do movimento de resistência na esfera educacional ante a imposição pela ditadura de um modelo
pedagógico acrítico, individualista e autoritário.
O poder político, conforme Bobbio, caracteriza-se pela capacidade de recorrer, quando
necessário, ao uso da força, tornando possível aos seus portadores alcançar os objetivos desejados84.
Diferente do poder ideológico, esse poder se exerce sobre os corpos, sendo imprescindível
reconhecer que assim como o principal meio do poder ideológico é a expressão de ideias por meio
da palavra e das imagens, o meio do poder político é sempre em última instância a posse de armas.
No ano de 1969, em uma conjuntura de recrudescimento da repressão aos opositores do
governo autoritário foi criada Lei de Segurança Nacional – LSN - que será acionada em larga escala
contra os chamados inimigos internos, como no caso das prisões em Curitiba, em 1978. A partir do
momento em que essa lei passa a ser instrumentalizada com o intuito de reprimir os opositores
através da violência física, a ditadura ultrapassa a esfera do poder ideológico e ingressa no campo do
exercício do poder político.
A violência estatal já vinha sendo exercida sobre alguns dos detidos desde antes da
deflagração da operação Pequeno Príncipe, ou porque estes vinham sendo constantemente vigiados
ou por terem sido taxados de comunistas no episódio já citado da “lista” de subversivos do general
Sylvio Frota85 o que fez com que fossem demitidas de seus empregos. Além disso, sofriam também
perseguições e ameaças através de mensagens assinadas por grupos anticomunistas como o
Comando de Caça aos Comunistas (CCC) que muitas vezes atuava como um braço clandestino da
repressão estatal86.
Alguns dos membros das pré-escolas tiveram militância no movimento estudantil e fizeram
parte de organizações como a AP – Ação Popular – que se opunha ao governo militar, inclusive
sendo presos87. O monitoramento dessa pessoas fez com que os órgãos repressivos chegassem até as
pré-escolas que passaram a ser vigiadas tanto em função da participação desses opositores nessa
BOBBIO, N. op. cit. pp, 82-83.
O Estado de São Paulo. Documento aponta 97 funcionários acusados de subversão. São Paulo: 24 de novembro de
1977.
86 Jornal do Brasil. Carta da Comissão de Justiça e Paz: 20 de março de 1978.
87 Liderança da AP - Ação Popular - ao lado de Walmor Marcelino, Edésio era, além de advogado, jornalista que havia
participado da greve dessa categoria no ano de 1963, e organizado greves na cidade de Maringá, ao final dos anos
sessenta. Preso durante 18 meses, em 1974, por atividades contra o governo. Edésio era permanentemente vigiado e
interpelado pela comunidade de informações do regime militar. Sua ficha na DOPS o qualificava como altamente
subversivo.
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experiência educacional alternativa, quanto pela forma como o grupo mantenedor das escolas se
pronunciava através dos documentos oficiais.
É nosso intento, também, investigar como estava organizada essa polícia política no Paraná,
mais especificamente, aqui em Curitiba. Identificar quais os órgãos atuavam conjuntamente
exercendo esse poder de polícia política (Polícia Militar, Polícia Civil, DOI-CODI, DOPS, Polícia
Federal, Forças Armadas, etc.), e como foi a ação desses aparelhos repressivos nessa operação
policial. Nossas principais fontes serão os documentos oficiais produzidos pelos próprios
repressores, porém, utilizaremos também outras fontes para darmos voz aos sujeitos que foram alvo
da repressão e cujo posicionamento a respeito do ocorrido será coletado através de entrevistas e nas
reportagens jornalísticas. Conforme afirma Maria Luiza Tucci Carneiro
trabalhar com os arquivos da polícia política significa avaliar uma das mais
importantes instituições do mundo moderno que, enquanto braço repressor do
Estado, tinha como função o controle do indivíduo. Com a parcial abertura dos
arquivos da polícia política brasileira (DOPS – Departamento de Ordem Política e
Social), os pesquisadores têm a oportunidade de avaliar não apenas o mundo da
repressão, como também, de reconstituir o mundo fantástico da resistência que,
felizmente, não se calou durante os momentos de autoritarismo88.
Os limites desse artigo nos impedem de empreender uma discussão sobre as fontes
jornalísticas e orais, porém, no decorrer da pesquisa buscaremos angariar os referenciais teóricos
metodológicos necessários para que possamos explorar ao máximo nossas fontes, potencializando,
assim, nossa capacidade de analisá-las exaustivamente em sua riqueza e diversidade.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A existência das escolas e tudo o que elas representavam e propunham, significava a presença
de uma contra- ideologia que se contrapunha ao discurso considerado verdadeiro e por isso elas
deveriam ser alvo de interdição, ou seja, deveriam ser silenciadas. Analisando o aspecto ideológico,
verificamos que o discurso, conforme Foucault “não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os
sistemas de dominação, mas aquilo porque, pelo que se luta, o poder do qual queremos nos
CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. Os arquivos da polícia política brasileira: uma alternativa para os estudos da História
do Brasil Contemporâneo. PROIN (Projeto Integrado). Arquivo Público do Estado e universidade de São Paulo, 2005.
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apoderar”89, e as escolas significavam um tipo de discurso que se confrontava com o discurso oficial
e tencionava disputar junto à opinião pública o estatuto de verdade.
A ditadura civil-militar durante sua vigência exerceu o poder em todas as suas variantes. Nos
momentos em que a resistência se intensificava e os mecanismos de controle simbólicos não eram
suficientemente eficazes, a repressão utilizava-se da violência física, ou seja, do poder político.
Em seu livro de memórias, publicado postumamente, a certa altura, o general Sylvio frota
queixa-se de um jornalista que ao referir-se ao episódio das prisões políticas em Curitiba, associa esse
tipo de ação repressiva ao seu nome
Em 20 de março de 1978, comentando na sua coluna o procedimento das
autoridades paranaenses, em Curitiba, que considerou violento e inexplicável, [o
jornalista] foi buscar sem nenhum laço correlativo, seu tema obsessivo: trata-se de
uma operação tipo Sylvio Frota, que pretendeu vincular a continuidade do regime à
sequência de operações repressivas. Não se esqueçam de que ele denunciou o
presidente da república e o governo de modo geral como cúmplices do que para ele
é a gradativa comunização do Brasil90.
Naquele complexo momento político pelo qual passava o Brasil nos idos de 1978, no qual o
regime autoritário vinha perdendo fôlego e que cristalizavam-se as divergências entre distensionistas e
linhas-duras; entre aqueles que entendiam que havia chegado a hora de devolver o poder aos civis de
forma lenta, gradual e segura, como propunha o general Geisel e seus seguidores; e aqueles outros
que achavam que através do patrocínio à ações repressivas contra supostos grupos que estariam se
articulando para implantar o comunismo no Brasil, poderiam justificar a continuidade da ditadura
militar.
Para os renitentes, a LSN talvez fosse a tábua de salvação, o único instrumento ainda eficaz,
um manto sob o qual estes poderiam encobrir seus objetivos inconfessáveis. Por trás da máscara da
convicção ideológica e da luta contra a eterna ameaça comunista, não estaria o carreirismo e a busca
de benefícios materiais somente possíveis através da manutenção do status quo? Ou tratava-se
daqueles grupos radicais que sinceramente acreditavam que a tarefa ainda não estaria terminada e os
militares ainda seriam capazes de transformar o Brasil numa potência mundial?
89
90
FOUCAULT, Michel. A Ordem do discurso. São Paulo: Ed. Loyola, 1998. p. 10.
FROTA, Sylvio. Ideais traídos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 2006.
160
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
A Doutrina de Segurança Nacional e alguns de seus rebentos, como a LSN, talvez naquele
momento tivesse se transformado em uma nau dos insensatos. Porém, muitos ainda não haviam
percebido ou não queriam perceber isso e insistiam em agarrar-se a esses mecanismos de controle e
repressão, enquanto outros mais astutos tratavam de rearticular-se e conciliar para que, com algumas
poucas mudanças, os seus privilégios fossem mantidos e a estrutura de dominação imposta pelas
elites brasileiras há séculos, permanecesse intacta.
BIBLIOGRAFIA
ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO. Brasil, nunca mais. Petrópolis: Vozes, 1985, p. 26.
BOBBIO, N. Estado, governo, sociedade: para uma teoria geral da política. RJ: Paz e terra,
1987.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012.
BREPOHL DE MAGALHAES, M. D. Paraná: Política e Governo. Curitiba: SEED, 2001.
BRUNELO, L. Repressão política durante o regime militar no Paraná: o caso da operação
Marumbi na terra das araucárias. Maringá: EDUEM, 2009.
CALCIOLARI, Sílvia. Ex-presos políticos e a memória social da tortura no Paraná(1964-1978).
Curitiba: Assembleia Legislativa do Paraná. 2006.
CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. Os arquivos da polícia política brasileira: uma alternativa
para os estudos da História do Brasil Contemporâneo. PROIN (Projeto Integrado). Arquivo
Público do Estado e universidade de São Paulo, 2005.
DREIFUSS, R. A. 1964: A conquista do Estado. Ação política, poder e golpe de classe.
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GRIN, Monica; ARAÚJO, Maria P. N.; FICO, Carlos (Org.). Violência na História: Memória,
Trauma e Reparação. Editora Ponteio, RJ, 2013.
HELLER, Milton Ivan. Resistência Democrática: a repressão no Paraná. Rio de Janeiro: Paz e
Terra. Curitiba: SCEP, 1988.
161
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
HUGGINS, M. K. Polícia e Política: relações Estados Unidos/América Latina. SP: Cortez,
1998.
PALMAR, Aluízio. Onde foi que vocês enterraram nossos mortos? Curitiba: Travessa dos
editores, 2006.
162
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
PAUL DELEUZE: UM EMPRESÁRIO FRANCÊS NO INTERIOR PAULISTA (1909 –
1916).
André Luiz da Silva (Mestre em História UFPEL)
Era domingo, dia 19 de março de 1939. Um dos jornais de maior circulação do país noticiava,
em letras grandes, a prisão de um francês chamado Paul Deleuse. Não era apenas mais um anúncio
das páginas policiais. O periódico O Estado de São Paulo afirmava o fim uma lenda. Segundo o artigo,
por muitos anos os funcionários da Estrada de Ferro Araraquara (EFA) acreditaram, com raras
exceções, na informação de que Paul Deleuze, o francês que foi presidente da ferrovia durante a
década de 1910, não passava de uma invenção.
Sendo o sr. Deleuse desconhecido nesta cidade, não faltou quem, aproveitando-se
da imaginação fantasiosa do povo, de ordinario propenso a acceitar como veridicos
os absurdos aureolados por visos de mysticismo, arriscasse a affirmativa dee que o
sr. Deleuse não passaria de um personagem hypothetico. Pois a semente dessa
infatilidade medrou, tomou forma e vulto, não sendo poucos os servidores antigos
dessa Estrada que, havendo entrado para ela ainda na meninice, aposentaram-se ou
falleceram, levando para o repouso da aposentadoria ou para o tumulo a convicção
de que Paulo Deleuse não passava de um ente imaginario, mettido não se sabe por
que artes no intricado processo da encampação da São Paulo Northern pelo
governo estadual [...].91
Efetivada a prisão, houve uma grande repercussão na região araraquarense: Paul Deleuze era
um homem real. Porém, vinte anos haviam se passado, a EFA era uma empresa estatal, muitos dos
antigos funcionários já haviam se aposentado e as lendas a respeito do francês falsário e corrupto já
haviam ganho status de verdade.
OESP, n.21.308, 19/03/1939, p.6. Disponível em http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19390319-21308-nac0006-999-6-not. Acessado em 15/11/2012. Optei por manter em todas as citações de fontes na grafia original.
91
163
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Mapa. As ferrovias da região Araraquarense
FONTES: GHIRARDELLO, 2002; NUNES, 2005; SILVA, 2009. Elaborado pelo autor a partir do
mapa
“Divisão
Municipal
do
Estado
de
São
Paulo”.
Disponível
em
http://www.igc.sp.gov.br/produtos/divisao_municipal.html. Acessado em 02/09/2011.
Desde a desapropriação da ferrovia o Estado passou a ser considerado o “mocinho” da
história, Paul Deleuze o vilão, e os moradores da região araraquarense, principalmente os
ferroviários, as vítimas. Contudo, havia muitas versões para o episódio.
Tinham-se passado duas décadas do momento em que a São Paulo Northern Railroad
Company, uma empresa holding estadunidense, tinha perdido o controle sobre a Estrada de Ferro
Araraquara. Mas, o fato de Paul Deleuze, o presidente da companhia, ser considerado um ente
imaginário, inventado por investidores europeus, não fazia parte de nenhuma narrativa defendida nos
jornais da capital paulista e federal.
Partindo das considerações do sociólogo francês Pierre Bourdieu, “O poder simbólico é um
poder de fazer coisas com palavras” (1990, p.167), é possível perceber na construção das
representações sobre Deleuze a intenção de grupos dotados de poder simbólico em transformá-lo no
grande culpado?
À margem das narrativas “oficiais” foram construídas diferentes leituras a respeito da
desapropriação da companhia Estrada de Ferro Araraquara. A situação caótica da empresa
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presenciada pelos moradores e ferroviários, passou a ser parte do imaginário92 destes atores. Apesar
de Este fato aproxima-se da versão difundida por rivais do empresário francês na imprensa anos
antes.
As informações a respeito do caso da São Paulo Northern Railroad Company eram tão
imprecisas que a própria existência do presidente da Northern em algum momento passou a ser
questionada. Este foi o ambiente propício para a difusão de inúmeras outras maneiras de se perceber
os fatos.
Uma das fontes que vem permitindo estudar como foram construídas as diferentes versões
sobre Deleuze é o livro Guia Ferroviário. Organizado e publicado em 1959 pela Edição Santini de
Araraquara, se apresentava como uma síntese da história da ferrovia e das cidades à beira da linha. O
grupo que o organizou, provavelmente, se baseou em documentos disponibilizados pela diretoria da
EFA. Deparando-se com a escassez de fontes a respeito dos fatos que antecederam a encampação da
ferrovia pelo Estado, seus organizadores buscaram informações, creio eu, na memória dos
moradores locais. De qualquer modo, meio século após a São Paulo Northern adquirir a EFA, a
história de Paul Deleuze estava sendo recriada da seguinte maneira.
Sediada no Rio de Janeiro, a São Paulo Northern, por si, pelo seu maquiavélico
dirigente, não dava a assistência técnica reclamada por uma estrada da dimensão e
da importância daquela que adquirira e seu objetivo precípuo e primordial era
amealhar todo o dinheiro arrecadado aos usuários dos transportes. Conta-se que
Paulo Deleuse, ao comprar o acêrvo da massa falida, não possuía dinheiro algum e
que, até mesmo para pagar a sisa da escritura, precisou coletar, à pressa, todo o
numerário disponível nas estações.
A divisa de Deleuse e sua companhia era locupletar-se a todo preço, relegando a
plano secundário os direitos tanto de seus colaboradores, os empregados, como
daqueles que utilizavam de seus serviços. Assim, a Estrada foi se desmantelando,
porque não havia renovação de material nem conservação das linhas, a disciplina
afrouxou e por fim a desordem campeou soberana.
O colorário dessa situação caótica, como não deixaria de ser, foi o irrompimento de
uma greve de caráter geral, a 1º. de outubro de 1919, a qual se arrastaria por 31
longos dias [,,,]. Finalmente, em 31/10/1919, surgia a vitória, ampla e espetacular
do povo e dos empregados, através da encampação decretada pelo governo
estadual, que declarara a ferrovia de utilidade pública para a devida desapropriação.
Debalde Paulo Deleuse tentou furtar-se à ação legal do poder público, recorrendo a
todas as instâncias da justiça no afã de anular os efeitos do ato de encampação. Foi
O imaginário de uma sociedade ou grupo será parte fundamental de sua existência, uma vez que o próprio sentido
conferido ao universo social encontra-se a ele ligado. Obviamente o exercício do poder passará pelo imaginário coletivo.
Através dos imaginários sociais, um grupo não apenas designa sua identidade e elabora uma representação sobre si
mesmo, como também distribui papéis e funções sociais, expressa crenças comuns e fixa modelos (ESPIG, 1998, p.162).
92
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derrotado em tôda a linha, e assim o Estado de São Paulo viu reconhecida de plano
e legitimidade a sua interferência e a sua apropriação dos bens da extinta S. Paulo
Northern Railroad Company93. (Grifos do autor).
Este trecho permite compreender uma das versões que circularam na região araraquarense.
Fica evidente que, segundo seus autores, Paul Deleuze seria um homem maquiavélico que teria
conseguido, de alguma maneira ilegal, adquirir uma ferrovia de mais de 200 quilômetros de extensão
sem nenhum centavo.
O final trágico vivido por Deleuze no final da década de 1930 foi um fator primordial para
que ele fosse considerado um criminoso. A partir de março de 1939 as notícias sobre sua morte
foram capa de boa parte da imprensa paulista e carioca. Paul Deleuze, então com 56 anos de idade,
continuava ocupando o cargo de presidente da São Paulo Northern Railroad Company. Era acusado
em inúmeros processos por crimes contra economia popular, fraudes e pagamento de propina, algo
contrastante com seu imenso patrimônio avaliado em cerca de 130 mil contos de réis94. O banqueiro
francês permaneceu por pouco tempo na cadeia, por conta de um sério problema estomacal ficou em
prisão domiciliar. Na noite de 21 de abril de 1939 foi encontrado morto em seus aposentos. A
imprensa divulgou que Deleuze teria cometido suicídio. Foram encontradas ao lado de seu corpo
duas garrafas de vermouth e 15 frascos de seus remédios para insônia completamente vazios95.
De qualquer modo, até o momento nenhuma pesquisa foi realizada a respeito das atividades
deste personagem ou de seu envolvimento com a Estrada de Ferro Araraquara.
Mas, quem poderia ser este tal Paul Deleuze?
GUIA FERROVIÁRIO. Edição Santini, 1959, p.13-15.
OESP, n.21.306, 17/03/1939. Disponível em http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19390317-21306-nac-0001999-1-not. Acessado em 15/11/2012.
95 OESP, n.21.336, 22/04/1939, p.1. Disponível em http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19390422-21336-nac0001-999-1-not. Acessado em 10/01/2013. A BATALHA, n. 3.897, 22/04/1939, p.1. Disponível em
http://memoria.bn.br/DocReader/hotpage/hotpageBN.aspx?bib=175102&pagfis=16919&pesq=&url=http://memoria
.bn.br/docreader. Acessado em 31/01/2013.
93
94
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Imagem 1. Paul Deleuze aos 56 anos de idade96.
Fonte:
A
NOITE,
n.9.733,
15/03/1939.
Link
http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=348970_03&pesq=deleuze&pasta=ano%2
0193. Acessado em 31/01/2013.
96
Esta fotografia foi tirada durante o depoimento de Deleuze a justiça após sua prisão.
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Paul Louis Joseph Deleuze nasceu em Marselha em junho de 188397. Não há indícios que
tenha sido casado ou pai98. Sua estatura física era mediana. Era comum vê-lo usando roupas estilo
gentleman de acordo com a moda das elites de sua época99. Quando completou vinte anos de idade
ingressou na Escola Livre de Ciências Políticas de Paris (Institut d´Etudes Politiques de Paris), formandose em Ciências Legais, Econômicas e Filosóficas (advocacia)100.
No ano de 1914 ocupava o cargo de diretor no Banque Française des Etats-Unis et de l´Amérique
du Sud, com sede na cidade de Wilmington no Estado de Delaware, EUA, e sucursal na rue Des
Pyramides n. 18, no atual Oitavo Distrito de Paris101, sendo sócio no banco Julius A. Cristin, Julien
Decrais e A. Ebray102.
Paul Deleuze, provavelmente, mantinha-se bem informado a respeito dos bastidores do
mercado de ações. Oportunista, estava preparado para não deixar uma boa chance de lucro escapar.
Devido a sua atuação profissional, tinha acesso a inúmeras informações a respeito do mercado de
investimentos franceses nos EUA e no Brasil. Em algum momento entre 1911 e 1915 Deleuze
adquiriu debêntures103 da Companhia de Estrada de Ferro Araraquara (Chemins de Fer du Nord de
BARBOSA. Rui. O Caso da São Paulo Northern Railroad Company. Rio de Janeiro: Fundação Casa Rui Barbosa, 1982,
p.124.
98 O fato de Paul Deleuze ser solteiro e não ter filhos está presente no processo, Audience du vendredi, 23.,1923 apud
BARBOSA, op. cit. p.125. No que diz respeito a herança de Paul Deleuze, falecido em 1937, ver: DOSP, 04/02/1959,
p.43. Disponível em: http://www.jusbrasil.com.br/diarios/3962298/dosp-poder-executivo-04-02-1950-pg-43/pdfView.
Acessado em 16/02/2012.
99 Epaminondas descreve Paul Deleuze como um homem elegante de olhar vivo. OESP. n.15.573, 04/09/1921, p.12.
Disponível em http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19210904-15574-nac-0012-999-12-not. Acessado em
20/01/2013.
100 Esta informação teria sido fornecida pelas autoridades após a vistoria no arquivo pessoal de Paul Deleuze. A NOITE
ILUSTRADA,
n.
618,
25/04/1939,
p.9.
Disponível
em
http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=120588&PagFis=15420&Pesq=Deleuse.
Acessado em
23/01/2013.
101 BARBOSA, op. cit. p.135. Esta informação também está presente na já citada Audience du vendredi, p.23,1921. Em 4 de
novembro de 1914 foi publicado no jornal francês Le Temps um alvará da corte de justiça de Londres, onde o Banque
Française des Etats-Unis et de l´Amérique du Sud foi escolhido para receber em depósito as debêntures da State of Bahia South
Western Railroad Co. que entrou em concordata. LE TEMPS, n.19.478, 04/11/1914, p.4. Disponível em
http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k241982x/f4.image.r=Le%20Temps%20(Paris%201861)%20.langFR,
Acessado
em 05/03/2012.
102 Encontrei esta informação por meio do site http://books.google.com.br; Digitando o nome Paul Deleuze pode-se ter
acesso a trechos da publicação em que há uma pequena nota a respeito do Banque Française des Etats-Unis et de l´Amérique
du Sud. Poor's Manual of Industrials: Manufacturing, Mining, and Miscellaneous Companies, Volume 6, 1915, p.2253.
Disponível
em
http://books.google.com.br/books?ei=8tkLUcjGNZGI9gTo4YHADQ&id=SqoqAQAAMAAJ&dq=Deleuze+decrais
&q=decrais#search_anchor. Acessado em 23/01/2013.
103 Debêntures, segundo Marlon Tomazette podem ser compreendidas como: “[...] títulos representativos de um
empréstimo público lançado pela sociedade. Cada emissão de debêntures representa um empréstimo realizado, tendo um
caráter unitário. A sociedade ao decidir a emissão das debêntures está fazendo uma oferta de um contrato de mútuo, que
97
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
São Paulo)104, emitidas pelo banco alemão L. Behrens e Sohne, lançadas na Bolsa de Paris em 15 de
março de 1911105.
Em agosto de 1915, Paul Deleuze fundou a empresa São Paulo Northern Railroad Company
(SPNRC), sediada na cidade de Wilmington no Estado de Delaware, EUA. Curiosamente, o nome da
empresa é uma tradução de Chemins de Fer du Nord de São Paulo. Seis meses após fundar a SPNRC veio
para o Brasil, desembarcando no porto de Santos em 31 de dezembro de 1915106. Com um pouco
mais de um mês no Brasil o banqueiro adquiriu a Estrada de Ferro Araraquara, incorporando-a a
SPNRC.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
[...] estaríamos tão seguros sobre nós mesmos e sobre nossa época para separar, na trupe de nossos
pais, os justos dos malditos? (BLOCH, 2002, p.126).
A pergunta lançada por Marc Bloch é uma das muitas que me fiz no processo de escrita:
como um historiador poderia fazer considerações a respeitos de crimes e fraudes, ainda mais em um
episódio em que é evidente a manipulação das informações divulgadas para favorecimentos
próprios? Ao construir meus argumentos, rastreando indivíduos, buscando identificar algumas de
suas estratégias, não procurei enxergar nos sujeitos vilões ou heróis, mas personagens em meio às
incertezas da vida. Pude compreender que as poucas referências a respeito das atividades de Paul
Deleuze no Brasil são contraditórias e fragmentárias. Busquei interpreta-las a partir de um quadro
teórico-metodológico micro-histórico, trabalhei com os indícios disponíveis e tentei construir uma
possível teia de interações a partir do nome Deleuze. As dimensões do texto não possibilitam
maiores considerações, entretanto, é a partir da aproximação de escala na direção dos bastidores
administrativos da Estrada de Ferro Araraquara que está sendo possível compreender a atuação de
empresários e bancos europeus no investimento ferroviários e suas estratégias durante a Primeira
Grande Guerra para manutenção de seus capitais investidos.
se completa com a subscrição dos títulos, que representaria a aceitação do contrato. (2004, p. 291) A companhia divide a
soma pretendida em vários títulos emitidos em série. Quem subscreve o título está emprestando dinheiro para a emitente,
e em contrapartida objetiva recebimentos anuais parciais, ou outras vantagens que tais valores mobiliários podem
assegurar, ou ao menos, a restituição dos valores emprestados no vencimento” (2004, p. 291-292).
104 BARBOSA, op. cit. p.137.
105 Utilizar-se de um nome francês para levantar capitais na Europa não foi exclusividade da EFA. O engenheiro João
Teixeira Soares, idealizador da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, após conseguir a concessão do traçado, buscou
estabelecer acordos com banqueiros europeus para constituir uma empresa que empreendesse a construção da ferrovia,
fundando em sociedade com bancos de Paris e Bruxelas a Campagnie Chémins de Fer Sud-Ouest Brésiliens, lançando títulos na
bolsa em 1890 (ESPIG, 2011, p.132).
106
LISTA
DE
PASSAGEIROS
NAVIO
HOLLANDIA,
31/12/1915.
Disponível
em
http://www.museudaimigracao.org.br/acervodigital/upload/listas/BR_APESP_MI_LP_008099.pdf. Acessado em
05/02/2013.
169
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Ed., 2002.
BOURDIEU, Pierre. Coisas ditas. São Paulo: Brasiliense, 1990.
ESPIG, Márcia Janete. Ideologia, mentalidades e imaginário: cruzamentos e aproximações teóricas.
Anos 90. Porto Alegre: PPGH- História- UFRGS, n.10, dezembro de 1998.
GHIRARDELLO, N. À Beira da Linha: formações urbanas da Noroeste Paulista. São Paulo, Editora
Unesp, 2002.
NUNES, Ivanil. Douradense: a agonia de uma ferrovia. São Paulo: Annablume/FAPESP, 2005.
SILVA, A. L. Um francês no interior paulista: Paul Deleuze e o caso da São Paulo Northern Railroad
Company (1909 – 1916).
Instituto de Ciências Humanas, Universidade Federal de Pelotas.
Pelotas,
2013.
Dissertação
de
mestrado.
Disponível
em
http://www.ufpel.edu.br/tede/tde_arquivos/31/TDE-2013-08-15T180935Z1403/Publico/Andre_Luiz_Silva_Dissertacao.pdf.
SILVA, H. M. M. Conflitos na Elite: a transformação dos grupos de poder de São José do Rio Preto na
República Velha (1894-1930). Franca: UNESP/FHDSS, 2009. Tese de doutoramento. Disponível
em http://www.franca.unesp.br/poshistoria/Henry.pdf
170
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HISTORIOGRAFIA E REGIÕES DO PARANÁ: NOTAS DE LEITURA SOBRE AS
OBRAS “A CAFEICULTURA PARANAENSE” E “NORTE DO PARANÁ, HISTÓRIAS E
FANTASMAGORIAS”
Darlan Damasceno (História/ UEL)
Taiane Vanessa da Silva (História/ UEL)
Wander de Lara Proença / Gilmar Arruda (Orientadores)
Introdução
O presente texto tem como intuito refletir e analisar a historiografia paranaense a partir da
proposta vigente no projeto A historiografia do norte do Paraná e o espaço simbólico da academia: os
historiadores, seus lugares e suas regiões (1970-2012), a qual busca a compreensão dos aspectos que
cercaram a pesquisa histórica de historiadores que tematizaram a “História Regional”, além do
discurso produzido por estes e o diálogo entre autores deste mesmo campo. Podemos então
relacionar a proposta do projeto com as obras Cafeicultura paranaense (1900-1970): estudo de conjuntura,
de Nadir Apparecida Cancián, e Norte do Paraná, histórias e fantasmagorias, de Nelson Dácio Tomazi, as
quais tomaram como ponto principal a “História do Paraná”. Apontaremos, então, ao longo do
texto, questões referentes à história da historiografia que passaram a ocupar esse campo temático,
assim como os locais de produção das obras, a temporalidade e espacialidade escolhidas pelos
autores, as influências que os levaram às devidas temáticas e as semelhanças e diferenças entre as
duas produções historiográficas analisadas.
Isto posto, atentaremo-nos inicialmente às transformações e redefinições historiográficas
vistas a partir dos anos de 1970 - as quais implicam, por exemplo, na diversificação de enfoques e
fontes, renovações metodológicas, conquista de novos objetos e territórios e, também, a
interdisciplinaridade da história com outros campos do saber - além da relevância desses fatores na
amplificação do campo acadêmico e o interesse pela temática regional, a qual surge nesse contexto.
Em síntese:
Nessa década, começaram a ser implantados os programas de pós-graduação nas
Universidades brasileiras com importantes impactos na produção historiográfica
posterior. Espaços de produção institucionalizados; carreiras profissionais
dependentes de obtenção dos títulos atribuídos pelos programas de pós-graduação
e expansão do número de universidades pelo interior do país são algumas das
características do contexto no qual emergiu grande parte da produção
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
historiográfica posterior aos anos de 1970. (ARRUDA; PROENÇA, 2013, p.241,
242)
Logo, o fazer histórico está relacionado ao próprio contexto em que vive o historiador que, a
partir do recorte de tempo proposto pelo projeto e pelas obras, implica na influência dos “lugares
sociais” – ambiente em que o conhecimento histórico é disseminado, no caso as universidades – na
produção dos estudos sobre a temática paranaense e na profissionalização de historiadores
dependentes, a partir da década de 1970, de titulações vindas de programas de pós-graduação.
É importante esclarecer que nas décadas precedentes predominava uma historiografia
“tradicional”, “produzida por intelectuais autodidatas com as mais diversas formações, também
vinculados a instituições de ensino e agremiações tradicionais” (MALERBA, 2009, p.17). As
temáticas neste momento estavam voltadas para o Estado e para as elites governantes. Tais fatores
implicam no distanciamento de discussão teórica e de pesquisa, devido ao fato de desconsiderarem a
profissionalização do historiador – temos então, segundo Le Goff, as implicações da “cultura
histórica”, a qual é formada pelo agrupamento de fenômenos que compõe a mentalidade histórica de
determinada época e que influenciam a historiografia (LE GOFF, 1982).
Neste contexto, surge o interesse de historiadores acadêmicos em separar a história
universitária da vulgarização histórica, produzida por autodidatas. Desta forma o conhecimento
historiográfico passa a ser produzido nas universidades, fato que enriquece os estudos referentes à
“História Regional” devido à procura por novas espacialidades. Vale destacar que as noções de
território e região ganharam vários significados, os quais passaram por mudanças no decorrer do
tempo e despertaram o interesse de historiadores: no século XIX a relação com o espaço – natureza
– tinha o intuito de definir identidades; as narrativas históricas e geográficas buscavam delimitar
culturas por meio da delimitação de território – agentes legitimadores da constituição dos estados
nacionais; a fundação de novas regiões resultou, entre 1970 e 1980, na estima pela “História
Regional” ligada ao desenvolvimento do capitalismo – alguns autores tinham receio que o
regionalismo desaparecesse devido a homogeneização acarretada pelo capitalismo; por fim, as
transformações historiográficas, vistas na década de 1990, possibilitaram que as noções de território e
região passassem a ser analisadas sob as perspectivas da história cultural, do estudo do simbólico e
da luta de representações – negavam a existência de critérios naturais que pudessem definir uma
região, sendo a busca por identidades um “poder simbólico”. (ARRUDA, PROENÇA, 2013)
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VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Ligado às indagações anteriores, é importante pensar nas representações formuladas pela
historiografia em um dado momento histórico, as quais tomam a própria historiografia como fonte e
objeto de análise e investigação. (CERTEAU, 1982) Desta forma, este será o objetivo geral o qual se
pretende alcançar com a análise das obras escolhidas.
Tal análise será feita a partir de procedimentos metodológicos de investigação, definidos por
François Hartog, o qual sugere que seria viável constatar o “regime de historicidade” – norma da
escrita do tempo – que conduziu a preparação da obra, por meio do uso de prefácios e textos de
apresentação. Em suma este procedimento indaga a conexão de uma análise interna da obra com os
campos externos de sua produção – contexto, influências de outros autores, lugar social da
produção, finalidade de titulação acadêmica, etc. (HARTOG, 1996)
Análise das obras
Elucidadas as questões referentes ao caminho percorrido pela a história e a historiografia até
o campo temático da “história regional”, iniciaremos a análise sobre a obra de Nadir Apparecida
Cancián Cafeicultura paranaense (1900-1970): estudo de conjuntura, produzida em 1981 como síntese de
sua tese de doutorado, defendida na Universidade de São Paulo, em 1977. Esta aborda a temática
cafeeira, principalmente na região paranaense, fato que não impede a interligação, segundo a autora,
com temas mais amplos – nacionais e mundiais. Desta forma a análise da autora está ligada, visível
no próprio título, às conjunturas da cafeicultura paranaense que, em síntese:
[...] a autora identifica a presença de conjunturas distintas na cafeicultura
paranaense. Economicamente falando, o café é [...] um prolongamento da marcha
para o Oeste com vistas à obtenção de lucros. A expansão de sua produção foi
possível, não somente pelos preços favoráveis, mas por uma série de outros fatores:
a política econômica governamental, as terras férteis, facilidade de aquisição de
terras, o escoamento da produção através das ferrovias e o clima [...] a produção
ajusta-se aos preços e é incentivada pelas altas [...] a primeira conjuntura citada, no
que diz respeito à produção brasileira, foi o período em que, mediante a retirada do
café para a melhoria dos preços, houve três intervenções (1906-1914, 1917-1920,
1921- 1924), conhecidas como operações valorizadoras. Para o Brasil, a segunda
conjuntura econômica é uma fase recessiva, marcada pelos efeitos da queda da
bolsa de valores de Nova York e identificada pela superprodução, sendo a política
cafeeira caracterizada pela incineração, intervenção do Estado, busca de novos
rumos para economia. Enfim, o terceiro momento econômico é a elevação dos
preços e a racionalização da agricultura, como forma de defesa encontrada [...] o
Estado do Paraná também sentiu as conjunturas citadas pela autora, porém, de
forma contrária. (LIMA, ZARPELÃO, 2013, p. 202)
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Sua perspectiva, então, é de base econômica relacionada à utilização de terra e,
principalmente, aos preços do café em determinadas épocas. Seu objetivo foi estabelecer uma linha
entre a produção de café e os preços deste na região paranaense, além das consequências vistas no
setor cafeeiro devido à política econômica. (LIMA, ZARPELÃO, 2013)
À vista disso, ligado às mudanças historiográficas no final da década de 1970, percebe-se um
aumento da atenção pela “história regional” relacionada ao desenvolvimento capitalista no âmbito
brasileiro, inclusive paranaense – desta forma emergia uma historiografia associada à visão marxista.
Cancián, a qual mantém sua linha de pesquisa ligada a questões econômicas, relaciona o tema
regional com o desenvolvimento do capitalismo, devido ao fato das regiões serem vistas, segundo o
discurso historiográfico deste momento, como resultado de um processo de especialização das forças
produtivas.
É importante ressaltar o fato de a temática “cafeicultura paranaense” estar relegada e não
haver estudos a seu respeito até a década de sua produção sendo, portanto, uma inovação, devido ao
fato de trabalhar o Norte do Paraná. (CANCIAN, 1981). Logo, os incentivos à obra vieram das
próprias rupturas e redefinições da historiografia no século XX, as quais trouxeram novas temáticas e
formas de escrever história, sendo a História Regional um eixo. (ARRUDA, PROENÇA, 2013)
Isto posto, percebe-se a relação da obra produzida por Cancián com as mudanças advindas
da década de 1970 no meio acadêmico e na historiografia devido à criação de programas de pósgraduação e o fato de, como já foi dito, as carreiras dos professores e pesquisadores passarem a
depender de titulações. Vemos então influências externas que contribuíram para a produção da obra.
Sobre o “lugar social” no qual a obra foi produzida, sendo este a Universidade de São Paulo,
é importante ressaltar o fato de seu programa de pós-graduação ter sido pioneiro no Brasil, ao passo
que formou grande parte dos historiadores brasileiros. Entretanto, pelo fato de ser um dos mais
antigos programas, mantém o enfoque em pesquisas de “grande área" – fato que mostra a influência
do “lugar social” sobre a autora, que se volta à temática política e econômica. Desta forma existe um
contraste com os programas de pós-graduação mais recentes – vigentes nas universidades espalhadas
pelo interior – o quais se voltam para recortes relacionados principalmente à cultura.
Ao analisar os aspectos internos da obra, é importante destacar que a apresentação é feita por
Alcina Maria de Lara Cardoso, na época mestre em História pela Universidade Federal do Paraná –
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
escolhida, talvez, pelo fato de possuir trabalhos na área da economia rural. Cancián também faz
referência, ao que pôde ser analisado, a Pierre Monbeig, um geógrafo francês, com linha de pesquisa
no Brasil. Este é citado na obra devido ao fato de, também, possuir referência à temática “Marcha
para o Oeste” paulista, relacionando-a a contextos mais amplos.
Percebe-se também a diversidade de informações devido ao fato de utilizar mapas regionais,
tabelas de preços e dados estatísticos como fontes, sendo este “um estudo que pode considerado
uma referência entre as análises que envolvem o tema”. (LIMA, ZARPELÃO, 2013, p. 200).
O trabalho de Nelson Dácio Tomazi, analisado neste estudo, tem por objetivo reconstruir o
discurso “Norte do Paraná” e o conjunto de ideias e imagens presentes nele ao longo dos anos que
constituía as produções historiográficas anteriores, cuja preocupação consistia em se atentar a um
discurso legitimador, causando assim uma série de verdades unânimes e silêncios, sobretudo no
âmbito da violência (TOMAZI, 2000). Tal situação muda a partir de 1990 com o surgimento de
programas de pós-graduação nas universidades paranaenses e novas formas de repensar a produção
historiográfica, levando assim a novos questionamentos e métodos para o estudo da imagem do
Paraná e de sua historia regional. O autor aqui estudado pertence a este período inovador que busca
dar vozes para indivíduos históricos até então esquecidos ou deixados em segundo plano pelas obras
acadêmicas anteriores.
Tomazi nos mostra em sua obra que seu interesse em reconstruir o discurso “Norte do
Paraná” remonta-se à sua vivência na região e a pesquisas feitas posteriormente por ele sobre a
Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP) onde pôde constatar uma unanimidade nos
trabalhos acadêmicos a respeito do discurso de “ocupação” da região, como por exemplo, em relação
à ideia de “vazio demográfico”. A partir disso, toma uma direção contrária a da historiografia
presente no momento, questionando afirmações feitas até então e fazendo uma releitura desses
trabalhos buscando dar voz aos agentes históricos que permaneciam em segundo plano (TOMAZI,
2000). Devido à escassez de fontes, Tomazi utiliza um processo de garimpagem na abordagem de seu
material de pesquisa, desenvolvendo uma análise mais detalhada dos documentos e obras acadêmicas
produzidos até o momento, buscando indícios de uma visão contrária ao discurso unânime
pertinente e, silêncios, em especial na questão da violência decorrente da ocupação, “Foi um trabalho
de garimpagem em muitos ‘lugares de memoria’, para se conhecer um pouco este outro lado da
historia e desvendar as fantasmagorias ‘regionais’” (TOMAZI, 2000, p.2). O autor apresenta sua
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VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
dissertação em três etapas, nas quais se constituem questões teóricas a respeito de história,
fantasmagoria e o “Norte do Paraná”, em seguida analisa a criação do discurso dominante, como se
constituiu e sua permanência, bem como a questão da “ocupação” do território indígena presente na
região em estudo; finalizando, o autor analisa a questão da (re)ocupação e como ela foi criando
imagens e representações que com o tempo foram silenciando outros discursos, sua forma
“espontânea” e diversificada, os silêncios causados e sua ótica pelo capital (TOMAZI, 2000).
A obra origina-se da tese defendida na Universidade federal do Paraná (UFPR) como
requisito parcial para a obtenção de Doutorado no programa de pós-graduação desta instituição.
Contou com a orientação de Carlos Roberto Antunes dos Santos, professor titular de História do
Brasil na mesma universidade; agradece o apoio concedido pela Universidade Estadual de Londrina
(UEL) na concessão de licença remunerada para dispor de tempo em suas pesquisas e ao Centro de
Documentação e Pesquisa Histórica (CDPH) da mesma instituição pelas referências em seu trabalho,
bem como a CAPES que deu o apoio financeiro no desenvolvimento de seu estudo.
Após uma análise do prólogo em sua obra, notamos que Tomazi utiliza novas abordagens
historiográficas para rescreve o discurso “Norte do Paraná” não trazendo nenhuma novidade do que
já fora dito, mas segundo ele, reinterpretando e questionando as verdades unanimes já existente. Para
isso o autor cria um verdadeiro puzzle, recuperando peça por peça para escrever a memória histórica
da região. Trabalha também com novas ferramentas disponibilizadas pela interdisciplinaridade que
envolve diversas áreas das ciências sociais, em especial a antropologia e a sociologia, com o objetivo
de assim promover novas perguntas que abrangem os segmentos sociais, políticos, econômicos e
culturais. Constrói o conceito de fantasmagoria, que na ótica apresentada em seu trabalho é explicada
como um artifício científico que busca desconstruir discursos presentes, até então unânimes em sua
disseminação, e trazer novas imagens e representações à população que muitas vezes não tiveram
contato nem a oportunidade de conhecer essa nova história que começa a ser escrita sobre a região
norte do Paraná; cria-se assim um novo imaginário carregado de vozes que segundo o autor,
permaneceram esquecidas a espera de sua descoberta; em seu segundo sentido, fantasmagoria
ultrapassa o sentido único da ótica e pode ser utilizada para uma definição de várias possibilidades de
análise do processo de (re)ocupação (TOMAZI, 2000).
A partir da década de 90, há uma constante reformulação da historiografia acontecendo nas
universidades paranaenses através de seus programas de pós-graduação que, utilizando de novos
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VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
métodos científicos presentes nas ciências sociais, juntamente com a questão da interdisciplinaridade,
formulam novos questionamentos sobre as verdades presentes anteriormente; ocorre então um
pensamento crítico que trás consigo novas imagens e representações sobre a memória histórica
deixada em segundo plano.
A criação dos “lugares sociais” no interior do Paraná possibilitou a formulação das novas
especialidades estudadas no projeto assim como em especial na obra de Tomazi, uma vez que: o
autor lecionava em uma universidade do interior do estado (Universidade Estadual de Londrina),
residia na região e atendendo às demandas de novas especialidades, projeta o objetivo de sua
pesquisa na região. Com isso abre-se um espaço maior a pesquisadores que voltam seus estudos às
peculiaridades de cada lugar social, dando voz às pessoas esquecidas pela historiografia, isso aliado a
novas formas metodológicas que o pesquisador terá a seu dispor, como a multidisciplinariedade
citada pelo autor.
As demandas de poder atendidas pelas espacialidades remontam à definição de Bourdieu
sobre o poder simbólico; nesse sentido há um grande debate entre historiografias envolvendo
representações de cada uma (BOURDIEU, 1989). Origina-se então a ideia da região, sem fronteiras
ou marcações, mas com suas representações próprias, com isso descontrói-se o discurso de
“progresso” na qual as historiografias anteriores objetivavam.
O principal resultado dos espaços de saber fora a criação da região e a delimitação da
população que efetivamente construiu tal espaço mostrando através da historiografia, pontos
específicos de cada um a fim de mostrar a diversidade entre os paranaenses, nesse ponto o campo
das representações entra em conflito com a historiografia produzida no início do século XX que
estava impregnada de discursos capitalistas como “progresso” e “prosperidade”, criando assim
silêncios entre a população hostilizada com essa abordagem. Através da criação de Programas de
Pós-graduação, encontro de historiadores e congressos com temática referente à “região”,
delimitando assim seu espaço de estudo e levando o pesquisador a buscar novas formas e métodos
para estudar a historia regional selecionada, utilizando novas abordagens nessa pesquisa, abre-se um
leque de novas possiblidades para procedimentos metodológicos que auxiliam em uma
reinterpretação dos discursos produzidos.
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Considerações finais
O fato da historiografia pós anos 70 do século XX ter se atentado para o campo temático da
região paranaense está relacionado com a profissionalização dos historiadores que passaram a ter
contato com programas de pós-graduação, disseminados a partir da mesma época. Em outras
palavras, devido à ampliação dos “lugares sociais” no interior do Paraná e o fomento dado às linhas
de pesquisa relacionadas à “história regional”, historiadores elaboraram novas espacialidades para
suas pesquisas, as quais, anteriormente à expansão das universidades e dos cursos de pós-graduação,
relacionavam-se a outras perspectivas. A função da história regional era associada ao processo de
formação dos Estados nacionais, no qual se delimita um território onde todos portam um passado
em comum, pressupondo uma igualdade que não existe e, assim como todo processo em
desenvolvimento, passaria por mudanças também na década de 1990, devido às novas espacialidades
relacionadas à história da cultura e as representações simbólicas.
Sobre os tipos de historiografias vistos nas obras analisadas, é importante observar a intenção
de Cancián sobre a temática cafeeira, a qual está nos parâmetros da história regional, porém, ligada ao
contexto nacional. Desta forma é possível perceber as influências que cercaram a produção deste
estudo, as quais, como já foi dito anteriormente, faziam parte de um contexto em que emergiam
questões sobre o desenvolvimento capitalista no Brasil e no Paraná, ligadas às teorias marxistas.
Portanto, o âmbito econômico, escolhido pela autora, abrange fatores de “grande área”, os quais
estavam implícitos na proposta do programa de pós-graduação da Universidade de São Paulo –
ambiente em que a obra foi produzida.
Tomazi, por sua vez, analisa as produções feitas sobre a região, questionando o discurso de
progresso e as unanimidades presentes neste; para isso utiliza novas abordagens metodológicas que
abrangem vários campos do saber, especialmente a sociologia e a antropologia. Com isso sua
abordagem historiográfica difere da predominante até os anos 90, uma vez que, sua pesquisa volta-se
ao contexto cultural e dará preferência na análise de conceitos envoltos no campo simbólico tais
como identidade, representação e imaginário. Portanto, vemos a mudança no campo historiográfico
presente no programa de pós-graduação da Universidade Federal do Paraná onde fora defendida a
tese do autor.
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Podemos então ressaltar os contrastes que existem entre as obras, uma vez que Cancián volta
sua historiografia para a área econômica, na qual aponta a importância da cultura cafeeira para região
paranaense, atentando-se também a aspectos políticos. Já Tomazi irá desconstruir o discurso do
progresso e resgatar “lugares de memória” enfatizando o imaginário da região e a história cultura.
Os aspectos que cercam a pesquisa das obras analisadas também possibilitam o apontamento
de semelhanças entre ambas. Podemos citar alguns exemplos como o fato de utilizarem a temática
regional reformulada pós anos de 1970 e o diálogo com outras disciplinas além da história: Cancián
une a história da cafeicultura paranaense com parâmetros geográficos, os quais valorizam o território
e a espacialidade, sendo perceptíveis em sua bibliografia menções a geógrafos; Tomazi devido a sua
formação como sociólogo trabalha com uma abordagem cultural, identificando símbolos e
representações que permeiam o imaginário da região, utilizando métodos antropológicos em seu
estudo. É interessante ressaltar, devido às semelhanças, o fato que Tomazi recorrer à obra de
Cancián como uma de suas bibliografias.
Sobre a espacialidade, ambos contemplam o Norte do Paraná em suas pesquisas, entretanto
de maneiras diferentes, uma vez que Cancián, como já foi dito, liga a espacialidade escolhida com a
economia cafeeira e sua importância para o desenvolvimento capitalista da região, enquanto Tomazi
questiona estas questões.
As fontes utilizadas nas obras também refletem o tipo de historiografia que influenciou a
pesquisa. A ampliação de fontes, recorrentes dos fins da década de 1970, devido à virada
historiográfica, contribuiu para as vigentes mudanças.
Cancián produziu um estudo rico em
informações devido ao fato de utilizar dados estatísticos, tabelas e mapas da região escolhida,
entretanto são documentos classificados como oficiais, dessa forma manteve a continuidade com as
estruturas clássicas. Tomazi, por sua vez, mesclou documentos oficiais com fontes inovadoras história oral, por exemplo.
Por fim, após a análise das obras, por meio da metodologia proposta por Hartog, percebe-se
o “regime de historicidade” que rodeiam o contexto no qual vivem os autores, sendo suas obras
frutos dessas implicações (HARTOG, 1996). Vale lembrar o fato da obra Cafeicultura paranaense (19001970): estudo de conjuntura ter sido pioneira na temática proposta pela autora; dessa forma, as
influências e mentalidades do tempo em que seu estudo foi produzido não são iguais, em sua
totalidade, às que rondaram a produção da obra Norte do Paraná, histórias e fantasmagorias, pois o
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
“regime de historicidade” vigente no contexto da produção do estudo de Tomazi era voltado para as
redefinições pós 1990, levando-o a um novo método historiográfico.
REFERÊNCIAS
ARRUDA, Gilmar; PROENÇA, Wander de L. A historiografia do Paraná e o espaço simbólico da
universidade: os historiadores, seus lugares e suas regiões (1970-2012). Revista de História
Regional, v.18, p. 240-260, 2013. Disponível em: http://www.revistas2.uepg.br/index.php/rhr
Acesso em: 17/10/13.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Lisboa: Difel, 1989.
CANCIÁN, Nadir A. Cafeicultura paranaense (1900-1970): estudo de conjuntura. Tese
(Doutorado em História) – Departamento de História, Universidade de São Paulo. São Paulo, 1977.
CERTEAU, Michel de. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982.
HARTOG, François. Tempo e história: como escrever a história da França hoje? História Social.
Campinas - SP, Revista de Pós-Graduação em História – IFCH-UNICAMP, n.3, 1996.
LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas: Editora da Unicamp, 1994.
LOPES, Ana Yara D. P. Pioneiros do capital. A colonização do Norte e Norte Novo do Paraná.
Dissertação (Mestrado em História) – Departamento de História / Universidade de São Paulo. São
Paulo. 1982.
LIMA, Leilane P; ZARPELÃO, Sandro H Moraes. O café em Londrina e no Paraná: Abordagens
para exploração do tema em sala de aula. In: Alegro, Regina C (org). Temas e questões para o
ensino de história do Paraná. Londrina: Eduel, 2013.
MALERBA, Jurandir. A história na América Latina. Ensaio de crítica historiográfica. Rio de
Janeiro: FGV, 2009.
TOMAZI, Nelson Dácio. Norte do Paraná: histórias e fantasmagorias. Curitiba: Aos Quatro
Ventos, 1997.
TOMAZETTE, Marlon. Direito societário. 2. ed. São Paulo: Juarez de Oliveira, 2004.
180
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
QUANDO PROTESTAR SE TORNA UM DELITO: O movimento estudantil de Londrina
E A DITADURA MILITAR
Danilo de Souza Torregrossa (Mestrando em História Social – UEL)
Orientador: Prof. Dr. Francisco César Alves Ferraz
1. ECOS DE UM PASSADO NÃO TÃO DISTANTE
Ao falarmos em Ditadura Militar, inconscientemente nos vem à mente diversas cenas que a
televisão, a internet e também os livros didáticos nos apresentam a todo momento. Nos lembramos
de protestos, passeatas, enfrentamentos com a polícia. Outras vezes lembramos em tortura,
desaparecimentos, mortes. Há ainda aqueles, especialmente os mais idosos, que recordam da
Ditadura Militar com um certo saudosismo, referindo-se a esse período como uma época em que se
havia respeito, ordem e uma melhor qualidade de vida. Entretanto, para nós da academia, que
estudamos mais a fundo este período tão conturbado da história do Brasil, sabemos que a Ditadura
foi muito mais que isso.
Para Maria Ribeiro do Valle
O golpe militar de 1964 conta com o apoio praticamente unânime das camadas
dominantes e de setores da classe média que visam à contenção das pressões
exercidas então pelos trabalhadores. Acreditam que a militarização “provisória” do
Estado, expressa no Ato Institucional de abril de 1964, é fundamental naquele
momento para a destruição do populismo e, consequentemente, para a interrupção
da ascensão política das classes trabalhadoras (VALLE, 1999, p. 35).
O Brasil das décadas de 60, 70 e 80 foi o palco de uma série de manifestações políticas de
contestação ao regime instaurado com o golpe da noite de 31 de março de 1964. A partir disso, todo
um sistema autoritário foi instalado no país, tendo em vista a necessidade da caça aos “comunistas” e
àqueles considerados “subversivos”, adeptos do “credo alienígena107”. Foi um período de
enfrentamentos, principalmente por parte dos movimentos sociais que reivindicavam os direitos
democráticos que o golpe lhes havia negado.
Os agentes da Ditadura Militar caracterizavam como “comunista” toda e qualquer manifestação realizada pelos
estudantes através da UNE e também outros protestos provenientes dos variados movimentos sociais existentes na
época. Além de “perigo vermelho”, também eram utilizadas expressões como “agentes do credo alienígena”,
“subversivos”, “contrários à ordem estabelecida”, “víboras vermelhas”, entre outros termos pejorativos.
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VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Foi nesse cenário carregado de significado histórico que o movimento estudantil, símbolo de
uma das principais frentes de resistência à ditadura militar brasileira durante as décadas de 60, 70 e
80, constituiu-se como uma das principais organizações de esquerda que se lançaram à luta quando
foi anunciado o golpe de estado que depôs o presidente João Goulart e elegeu, indiretamente, para a
presidência da República, o marechal Castelo Branco.
E com a subida de Castelo Branco ao poder, todas as instituições, órgãos e associações
considerados “comunistas”, “subversivas”, ou que haviam dado apoio às Reformas de Base108 de
Goulart, foram perseguidos, colocados na ilegalidade, ou ainda, seus membros foram torturados em
busca de confissões com o objetivo de desmantelar as possíveis conspirações contra o governo.
No caso do movimento estudantil, liderado pela UNE (União Nacional dos Estudantes), já
no primeiro ano de governo dos militares, o órgão máximo de representação dos estudantes foi
colocada na ilegalidade pela Lei Suplicy de Lacerda109. Ao promulgar tal lei, o governo objetivava
retirar de seu caminho esses jovens que não se deixaram calar pelos atos institucionais que, um após
o outro, tentava silenciar a população revoltada e esconder as barbáries cometidas pelos militares.
Sandra Pelegrini, privilegiando a análise da atuação da UNE no cenário político brasileiro
durante a Ditadura Militar, enfatiza que
Entendendo que a análise do movimento estudantil não possa deixar de passar pelo
crivo da militância de esquerda e de sua própria repercussão na sociedade brasileira,
faz-se necessário recuperar sua práxis. Isso é possível a partir do rastreamento da
proposta educacional, idealizada pelos estudantes, e da observação dos meios
adotados por eles visando a atender aos objetivos do movimento (PELEGRINI,
1998, p. 27).
Dessa forma, o presente trabalho, que faz parte do projeto de pesquisa de Mestrado,
desenvolvido na Universidade Estadual de Londrina, na linha de pesquisa Territórios do Político,
pretende realizar uma análise sobre a atuação do Movimento Estudantil da cidade de Londrina, norte
do estado do Paraná e apresentar à comunidade acadêmica o resultado das pesquisas já realizadas no
As Reformas de Base, proposta pelo presidente João Goulart, abrangiam um amplo leque de medidas para tentar
reverter a forte crise política e econômica pela qual o Brasil passava à época. Nessas Reformas estavam incluídas as
reformas bancária, agrária, tributária e também a sonhada reforma universitária, na qual a UNE insistentemente se
engajara.
109 Lei Federal nº. 4.464 de 9 de novembro de 1964, elaborada pelo Ministro da Educação de Castelo Branco, Flávio
Suplicy de Lacerda. Esta lei colocou a UNE na ilegalidade, na tentativa de evitar que o governo sofresse forte oposição
do grupo estudantil.
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
que se refere à maneira como os estudantes londrinenses organizaram-se para enfrentar as medidas
repressivas tomadas pelo governo militar.
Para responder a estas questões, serão analisados os periódicos utilizados pelos estudantes na
denúncia das atitudes repressivas tomadas pelos órgãos de controle da ditadura, além de expor a
repercussão que os decretos, leis e medidas oficiais do governo central, tiveram no cotidiano dos
estudantes da Universidade Estadual de Londrina.
Esta problematização se faz necessária, pois atualmente vivemos um momento em que a
ditadura volta a ser (ainda mais) alvo de discussão no cenário político nacional. A instituição da
Comissão Nacional da Verdade (CNV)110, em 2012, trouxe para o cenário nacional a questão da
investigação de crimes contra os direitos humanos e a revisão de documentos produzidos pelos
órgãos oficiais de segurança entre os anos de 1946 a 1988. Esse debate ganha corpo quando muitos
dos que participaram desse período repressivo encontram-se, muitas vezes atuantes, em várias
camadas da sociedade brasileira atual. No entanto, há ainda muito o que ser discutido sobre a
Ditadura Militar e, certamente, mais ainda será descoberto com o avanço das pesquisas.
Destarte, estudar as narrativas desses fatos que ocorreram em nosso passado e, através delas,
analisar a nossa própria história marcada por lutas, conflitos e manifestações é, ao mesmo tempo,
reconhecer a importância dessa militância a nível regional, estadual e nacional. É também uma forma
de entender que este debate continua mais atual do que nunca.
2. (RE)VISITANDO O NOSSO PASSADO: UEL, MOVIMENTO ESTUDANTIL E A
DITADURA MILITAR
Londrina, norte do estado do Paraná, década de 1960. Durante esse período, a cidade surgida
em 1929, como o primeiro posto avançado do projeto de colonização do norte do estado, levado a
A Comissão Nacional da Verdade (CNV) foi criada pela Lei Federal nº. 12.528, sancionada pela presidente Dilma
Rousseff em 2011 e instituída em 10 de maio de 2012. Para maiores informações acerca da função dessa Comissão,
conferir em: http://www.cnv.gov.br/.
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
cabo pela Companhia de Terras Norte do Paraná111, já alcançava o total de 134.821 habitantes, dentre
os quais 77.382 (57,40%) viviam na zona urbana e 57.439 (42,60) viviam na zona rural112.
Esse foi o cenário que propiciou à cidade de Londrina, segunda maior cidade do estado do
Paraná, localizada a 381 km da capital Curitiba, ser a sede de uma das únicas universidades do
interior do estado na época e, atualmente, uma das mais antigas instituições de ensino superior do
estado, ficando atrás apenas da Universidade Federal do Paraná (UFPR, fundada em 1912) e da
Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG, fundada em 1969).
Analisando os apontamentos de Renata Maria Caobianco, pode-se traçar um perfil da atuação
dos estudantes em solo londrinense e perceber que eles não ficaram alheios e muito menos passivos
frente aos acontecimentos que tomavam conta do cenário político nacional à época. A própria
construção e consolidação da Universidade Estadual de Londrina data da época militar113, o que pode
ser percebido através da construção de seus prédios e disposição dos centros de estudo, construídos
de forma estratégica, distantes uns dos outros, justamente com o objetivo de evitar aglomerações de
alunos e eventuais protestos. A UEL, assim como outras instituições de ensino superior do país,
também foi atingida pelos decretos federais, no que se refere à criação de Diretórios Centrais de
Estudantes, no processo de privatização do ensino superior, a partir dos acordos do MEC com o
Usaid114, na aposentadoria compulsória de professores, na expulsão de alunos e na vigilância
constante de discentes e docentes durante os períodos de aula.
Para enfrentar a legislação imposta pelo regime, que atingia diretamente as universidades e o
sistema educacional brasileiro, os universitários também se articularam para mostrar o seu
descontentamento com as medidas tomadas com relação ao ensino superior. Entre tais medidas
podemos citar a confecção de jornais e outros impressos que reivindicavam direitos aos estudantes
universitários e mais atenção à causa da universidade.
PREFEITURA
DE
LONDRINA.
História
da
Cidade.
Disponível
em:
<http://www.londrina.pr.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3&Itemid=5> Acesso em 14 out.
2013.
112
PREFEITURA
DE
LONDRINA
Dados
Populacionais.
Disponível
em:
<http://www.londrina.pr.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=163&Itemid=66> Acesso em 14
out. 2013.
113 A Universidade Estadual de Londrina foi criada pelo Decreto nº 18.110, de 28 de janeiro de 1971, embora o processo
de consolidação da universidade já tenha sido iniciado em 1956 com o surgimento de faculdades autônomas, como a de
Filosofia, Ciências e Letras e a de Direito.
114 United States Agency for International Development. (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional).
Agência norte-americana que, através de acordos e convênios assinados com o Brasil, teve como objetivo reformar o
sistema educacional brasileiro.
111
184
VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
A própria cidade de Londrina segundo Joaquim Carvalho Silva
Possuía um espírito de independência no campo político partidário. Terceira cidade
do sul do Brasil e pólo regional, sempre elegeu dirigentes ligados a legenda de
oposição e isso, às vezes, lhe custou muito alto. (...) Em Londrina, a criação da
AESI (Assessoria Especial de Segurança Interna) veio atiçar ainda mais a chama da
liberdade abafada pela censura; paralelamente, ocorreu a formação de um corpo de
segurança paramilitar, apelidados pelos estudantes de SWAT; ambos tinham como
objetivo reprimir qualquer revolta no ambiente estudantil (SILVA, 1996, p. 59).
E além do ambiente propício ao debate político a que Londrina estava favorecida, ela ainda
contava com uma das únicas universidades do estado da época, a UEL. E, por ser a universidade um
local que propicia o debate e forma cidadãos críticos e conscientes de seus direitos e deveres, foi
nessa universidade, em fase de consolidação, que as manifestações contra os abusos da ditadura
tomaram corpo e, a partir disso, passou a receber a adesão de outros tantos alunos.
De acordo com Renata Caobianco
A resistência ao regime ditatorial mostrava-se de várias formas, através das armas
ou das palavras: literatura, música, grupos guerrilheiros e imprensa. A ironia e a
metáfora, resgatadas através da imprensa, foi uma maneira de driblar a censura que
obstruía os canais de comunicação. Enquanto o governo fazia “milagres” na
economia, pela televisão, que tudo estava bem, nos porões do DOPS e das polícias
federais pelo país eram torturados aqueles que não acreditavam nessas palavras
(CAOBIANCO, 2007, p. 48-49).
A denúncia acerca dos abusos cometidos pelo governo militar, torturas, prisões, entre outras
práticas repressivas, eram impressas em periódicos criados pelo Diretório Central dos Estudantes
(DCE) da UEL. No que se refere a esses periódicos, podemos citar o Jornal Terra Roxa, impresso na
Folha de Londrina, no qual se “debatia os problemas do ensino, da educação e dos estudantes,
desenvolvendo um trabalho com enfoque mais cultural” (SILVA apud CAOBIANCO, 1996, p. 54).
Além do Jornal Terra Roxa, surgiram na UEL outros tabloides que se dedicavam a debater os
assuntos do dia a dia pelo Brasil, analisar a realidade universitária e denunciar os casos que a
imprensa tinha medo de trazer a tona em suas manchetes. Foram criados também o jornal Sacode a
poeira e dá a volta por cima, que ficou mais conhecido como Jornal Poeira, e o jornal Corrente Democrática,
este último, que, apesar de seu humor e irreverência, não deixava de informar a comunidade
acadêmica sobre medidas tomadas pelos militares, abusos de poder por parte da Reitoria da
universidade, processos contra alunos e outros decretos do governo central. Além disso, os
185
VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
estudantes também lutavam contra o projeto que instituiu o regime de anuidades no sistema de
ensino universitário oficial a partir do final da década de 60, após a publicação do Relatório Meira
Matos115.
A respeito da cobrança de anuidade imposta pela legislação militar, em pesquisa realizada no
Centro de Documentação e Pesquisa Histórica (CDPH) da Universidade Estadual de Londrina,
pode-se perceber a insatisfação de estudantes perante essa imposição da antiga FUEL (Fundação
Estadual de Londrina).
Analisando o rascunho do “Jornal Poeira”, edição número 23116 do ano de 1978, intitulado
“Luta Nacional” disponível no CDPH, nos deparamos, já no início da reportagem, com uma severa
crítica realizada por uma estudante de Direito da FUEL ao sistema de cobrança de anuidades na
universidade. Além disso, a aluna Sonia expõe as dificuldades financeiras enfrentadas para poder
realizar seus estudos. De acordo com a estudante
“O ordenado é pouco. Pago almoço, pago ônibus, pago Universidade e preciso
andar vestida. Com que dinheiro? Para agravar a situação, a mensalidade da FUEL
é 600 cruzeiros117, isso porque peguei pouca matéria e estudo só meio período, tem
gente que paga o dobro ou mais. O lanche mais barato é 10 cruzeiros118 e a gente
também precisa comer, pois ninguém vive de vento. Fica a pergunta: como dividir
o dinheiro entre tantas coisas, ao mesmo tempo, ser bom estudante, se temos que
ficar sempre pensando que as respostas são maiores que o ganho?” (JORNAL
POEIRA, Edição nº. 23, CDPH/UEL).
Esse relatório foi resultado dos estudos e análises da Comissão Meira Mattos (realizada no período de 11 de janeiro a
08 de abril de 1968), chefiada pelo general Carlos de Meira Mattos, cujo objetivo era estudar e propor soluções para o
bloqueio das atividades do movimento estudantil. No seu relatório, além de propor questões de encaminhamento da
questão, ainda fez análises sobre a situação da Universidade no Brasil.
116 Pasta Acervo do DCE/UEL nº. 1
117 Em números corrigidos, levando-se em conta a inflação que tomou conta do Brasil desde a década de 1970 até hoje, e
levando-se em consideração as sucessivas mudanças no sistema monetário brasileiro, o valor de Cr$ 600,00 (seiscentos
cruzeiros) equivaleria, hoje, a cerca de R$ 470,00 (quatrocentos e setenta reais). Lembramos que, durante as pesquisas
acerca da conversão monetária, vários sites especializados no assunto, apresentaram divergências quanto ao valor. Alguns
deles não levavam em conta a inflação mensal na conversão, apresentando um valor em Reais único para todo o ano.
Além disso, para que pudéssemos calcular o valor exato dessa quantia, era necessário incluir um mês para a consulta.
Como o documento analisado não possuía uma data específica, levamos em consideração para a conversão o último mês
de vigência do salário de Cr$ 1.000,00 (mil cruzeiros) apresentado pelo Jornal Poeira na sequência da reportagem. Dessa
forma, a quantia em Real é apenas uma aproximação, não devendo, portanto, ser considerado um valor exato. Para a
equivalência entre Cruzeiro/Real foi utilizada a ferramenta do disponível no site da Fundação de Economia e Estatística,
instituição de pesquisa, vinculada à Secretaria de Planejamento, Gestão e Participação Cidadã do Governo do Estado do
Rio
Grande
do
Sul.
Cf.
em:
<http://www.fee.tche.br/sitefee/pt/content/servicos/pg_atualizacao_valores.php?ano=1978&mes=abril&valor=1.106
%2C40> Acesso em 15/10/2013.
118 Partindo da mesma suposição citada acima, o valor de Cr$ 10,00 (dez cruzeiros) corrigido monetariamente, equivaleria
a aproximadamente R$ 7,84 (sete reais e oitenta e quatro centavos).
115
186
VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
E na sequência, o editorial do jornal universitário119 apresenta o enquadramento da então
FUEL ao sistema de anuidades proposto pelo governo federal
Até 1972 o ensino era gratuito para a maioria dos universitários de Londrina. Com
a criação da Fundação Universidade de Londrina, o ensino passou a custar
dinheiro. Londrina entrava no esquema oficial de ensino, imposto a partir de 1964:
o Estado tirando o corpo fora e transferindo os gastos da Educação para o bolso
da população (JORNAL POEIRA, Edição nº. 23, CDPH/UEL).
Além de criticar o ensino privado, o editorial do Jornal Poeira120 também realiza uma severa
crítica à exclusão social que o sistema de anuidade promove. De acordo com o editorial
Para que servem as vagas se não há quem possa pagá-las? Enquanto isso, de cada
10 mil brasileiros que entram no primário, apenas 3 (três) continuam saindo com
diploma universitário. E isso tudo são considerações em torno da classe média da
população. Os setores pobres, ou seja, a imensa maioria da população, estão
absolutamente marginalizados do ensino superior (quando não do médio e do
primário) já há algum tempo. Olhe ao seu redor agora, e veja se localiza algum filho
de operário ou bóia-fria frequentando nossa universidade (JORNAL POEIRA,
Edição nº. 23, CDPH/UEL).
Essa manutenção do acesso ao ensino superior apenas aos membros das classes sociais
dominantes foi muito bem apontado por Sandra Pelegrini ao avaliar os resultados da Reforma
Universitária iniciada pelo MEC. Segundo ela
Mesmo propondo a democratização, a reforma não dissimulou o seu cunho
autoritário. A expansão do número de vagas implicou, também, a adoção de uma
política de refreamento do acesso ao ensino universitário, via incentivo à
profissionalização do segundo grau (...) A reforma universitária é, portanto,
entendida nesse contexto, por um lado, como uma nuança do processo de
adaptação do sistema de ensino à função de “reprodutor” da força de trabalho
necessária ao sistema capitalista de produção e, por outro, como uma forma de
garantir a permanência da estrutura de classes, tal qual interessava às elites
dominantes (PELEGRINI, 1998, p. 171-172).
119
120
Pasta Acervo do DCE/UEL nº. 1.
Idem, ibidem.
187
VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Outra questão debatida pelo Jornal Poeira121 diz respeito à condição do trabalhador brasileiro,
que, segundo o jornal, vivia precariamente com um salário mínimo muito baixo para atender todas
suas necessidades e de sua família. De acordo com o jornal.
Se a situação do estudante que é classe média, considerado “privilegiado”, está tão
difícil, o que dizer então dos trabalhadores? Poucos conseguem explicar porque o
remédio, o arroz e o feijão sobem tanto, são tão caros, e o salário mínimo é tão
baixo. Pensa bem: o que é que se faz, hoje, em dia, com um salário de mil
cruzeiros122? O governo acha que dá para uma família comer razoavelmente
durante um mês, pagar aluguel, vestir-se, manter a casa limpa, comprar remédios,
etc. Dá? (...)
Segundo o Instituto de Pesquisa da USP, enquanto 68 por cento da população
brasileira ganham menos de dois salários mínimos, apenas um por cento ganha de 8
a 20 salários. O professor Luiz carlos123 Bresse, também da USP, reforça: 73 por
cento da população brasileira são pobres. (JORNAL POEIRA, Edição nº. 23,
CDPH/UEL).
Tais folhetins tinham o objetivo de conscientizar a população, tanto estudantes, quanto
demais pessoas da sociedade, sobre o que realmente acontecia no Brasil. Tinha-se esse objetivo,
principalmente, pelo fato de a censura exercer um enorme controle sobre as publicações, cedendo
espaços para a consolidação de ideologia de “país do futuro” propagada pelo governo militar.
Como foi citado anteriormente, desde a consolidação do golpe militar de 64, o governo se
incumbiu de criar uma série de leis e decretos que colocaram as instituições universitárias sob sua
vigilância constante. Assim ocorreu com a publicação de Lei Suplicy de Lacerda, nº. 4.464124 de
novembro de 1964, que organizava os órgãos de representação estudantis nas universidades
brasileiras.
Pasta Acervo do DCE/UEL nº. 1.
De acordo com o site Portal Brasil (http://www.portalbrasil.net/salariominimo.htm#sileiro), o salário mínimo em
vigor no Brasil de 01/05/1977 a 01/05/1978 era de Cr$ 1.106,40 (mil, cento e seis cruzeiros e quarenta centavos). Essa
base salarial foi também levada em consideração no cálculo dos valores acima citados, por coincidir com a documentação
pesquisada nos arquivos do DCE/UEL. Em valores corrigidos, equivaleria atualmente a R$ 784,32 (setecentos e oitenta e
quatro reais e trinta e dois centavos). Mais uma vez frisamos que a base de cálculo no site da Fundação de Economia e
Estatística foi o último mês de vigência desse valor para o salário mínimo (abril de 1978), por coincidir com a data de
produção do documento analisado.
123 Grafia conforme apresentada no documento.
124 De acordo com Sandra de Cássia Araújo Pelegrini, “na sua íntegra, a Lei Suplicy previa a substituição da UNE pelo
Diretório Nacional dos Estudantes (DNE), das Uniões Estaduais dos Estudantes (UEEs) pelos Diretórios Estaduais dos
Estudantes (DEE), dos Centros Acadêmicos pelos Diretórios Acadêmicos. A lei interferia na autonomia das entidades,
submetendo-as diretamente às autoridades acadêmicas e ao estado (PELEGRINI, 1998, p. 124)”.
121
122
188
VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Além dessa lei, já no período em que vigorava o Ato Institucional nº. 5, foi publicado em 26
de fevereiro de 1969, o Decreto-Lei nº 477, que descrevia uma série de comportamentos que
configuraria como infração disciplinar para professores, alunos e funcionários vinculados a
instituições de ensino superior pública ou particular. Caso as ordens expressas no Decreto-Lei
fossem desobedecidas, tanto professores, funcionários ou alunos, sofreriam punições disciplinares
administrativas.
Silvana Lazzarotto Schimitt aponta que este decreto
impedia qualquer manifestação dos docentes, alunos e funcionários de
estabelecimentos de ensino público. Dentre as proibições estavam: a confecção e a
divulgação de “material subversivo”, bem como a organização de manifestações.
Os que infligissem a lei seriam punidos, sendo que os funcionários e professores
poderiam ser demitidos e alunos “expulsos”.
Se fosse considerado crime pelas autoridades, o diretor do estabelecimento de ensino deveria
encaminhar o caso para ser instaurado inquérito policial (SCHIMITT, 2013, p. 5).
Os ecos da publicação desse Decreto se fizeram sentir também no movimento estudantil da
UEL, em Londrina. Segundo Renata Caobianco, esse período
Era um momento difícil na vida política do país: a Universidade estava sob a
ameaça do Decreto-Lei 477; os estudantes eram presos ou desapareciam; as verbas
para pesquisa eram controladas pelo governo e os professores foram demitidos. No
caso dos estudantes da UEL, existiu retenção de verbas por vários anos; a
Universidade não repassava o dinheiro que os estudantes eram obrigados a pagar às
entidades estudantis no ato da matrícula (CAOBIANCO, 2007, p. 52).
Como citado anteriormente, logo que os militares chegaram ao poder, iniciou-se uma
discussão, encabeçado pelo Ministério da Educação e Cultura, no sentido de reformar o sistema
educacional brasileiro e adequá-lo à lógica de mercado e à formação de mão de obra especializada.
De acordo com Sandra Pelegrini
Os convênios educacionais firmados entre o MEC e a USAID, no pós-64,
abarcavam o ensino em todos os níveis – universitário, médio e primário –,
lançando os princípios básicos das reformas que seriam implantadas pelos governos
militares que se sucederam (PELEGRINI, 1998, p. 107).
189
VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Através do acordo MEC-USAID levantou-se, através das análises realizadas nas
universidades, uma série de problemas, principalmente estruturais. Os estudos concluíram a
existência de uma grande “concentração de estudantes em cursos não relacionados com as
necessidades de força humana no Brasil”, além da “existência de um número maior de estudantes de
direito do que em qualquer outro campo, apesar do ‘excesso’ de advogados no mercado brasileiro”.
Por fim, os pesquisadores constataram que a real necessidade da educação brasileira era “incrementar
a educação técnica e modernizar as estruturas organizacionais e administrativas do ensino”,
consideradas “antiquadas” (PELEGRINI, 1998, p. 109).
Outra luta empenhada pelos estudantes de Londrina foi em relação ao repúdio da Resolução
número 30, baixada pelo MEC no ano de 1974. Segundo documentação do DCE da UEL125, esta
Resolução tinha como objetivo a
implantação num prazo de três anos dos cursos de curta duração ou licenciatura
curta nas escolas superior federais e estaduais. Ela determina a introdução de um
currículo mínimo e misto, que aboliria os currículos específicos, despersonalizando
os cursos e criando em seu lugar o que se intitula CURSO DE FORMAÇÃO
BÁSICA EM ESTUDOS SOCIAIS, CURSO DE FORMAÇÃO BÁSICA EM
CIÊNCIAS, etc. (ACERVO DO DCE/UEL)
No documento produzido pelo DCE da UEL, intitulado “Você sabe o que vem a ser a Resolução
30? Não!”, de apenas duas páginas, os estudantes debatem o prejuízo que tal resolução, caso seja
implantada a partir do ano letivo de 1974, trará para a formação universitária dos acadêmicos,
principalmente no seu “definitivo afastamento da Pesquisa, da instituição Universidade,
transformando-as em grandes fábricas donde sairiam de suas linhas de produção enorme quantidade
de professores deficientes”.126
Ao fim do documento, pode-se ler a palavra “Convocação”, em que os alunos da UEL,
incentivados pela resistência dos estudantes do estado de São Paulo à implantação da Resolução,
conclamam universitários e professores para lutar contra mais esse golpe do governo militar à
autonomia universitária. A convocação termina com os seguintes dizeres
125
126
Acervo do DCE, Pasta nº 9, sequência 1562.
Idem, ibidem.
190
VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Em Londrina, na nossa Universidade, professores e alunos igualmente em torno
dessa convicção [a não implantação da Resolução nº. 30], precisamos, com todas as
nossas forças, seguir o exemplo de São Paulo: lutar para que a Resolução 30, a ser
implantada já no próximo ano, não o seja em Londrina. Essa responsabilidade é de
todos nós.127
A análise da documentação do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Estadual de
Londrina revelou-nos outras reivindicações e denúncias do movimento estudantil londrinense, que
extrapolam os limites deste artigo e, por esse mesmo motivo, deverão ser estudados em outros
trabalhos.
E assim, em consonância com outros movimentos sociais, os estudantes universitários,
através de protestos e denúncias, principalmente através da imprensa escrita, não se deixavam vencer
pela repressão. Incentivados por focos de resistência em todo o país, o movimento estudantil,
mesmo com a UNE na ilegalidade, continuou com suas lutas a fim de conseguir vencer a guerra
contra o estado repressivo. Embalados pelas manifestações que ocorriam frequentemente e também
pelas transformações que ocorreram no mundo após o maio de 68, quando os movimentos sociais
foram às ruas ao redor do planeta, embalados pelos ideais da contra-cultura e pela reivindicação de
direitos dos setores mais diversos da sociedade, os estudantes não desistiram e ousaram lutar.
Acerca desse assunto Maria de Fátima da Cunha aponta o seguinte
Nota-se fundamentalmente através de depoimentos daqueles que participaram dos
acontecimentos de 68 que os estudantes não lutavam apenas por melhorias
materiais. Eles reivindicavam, acima de tudo, participação. Principalmente os
jovens, sentiam-se e compreendiam-se como agentes de um processo muito mais
complexo: o da educação (CUNHA, 1998, p. 88).
Renata Maria Caobianco aponta que as reivindicações dos estudantes londrinenses abrangiam
os vários setores da sociedade. Segundo ela
suas lutas iam desde as reivindicações micros (ex. passe escolar) ou aquelas em
âmbito nacional (ex. reabertura da UNE) e até em caráter global (ex. maio de 68).
Os estudantes londrinenses almejaram melhoria no ensino, no transporte, na
alimentação, gratuidade do ensino e liberdade de expressão. Visavam a participação
127
Acervo do DCE, Pasta nº 9, sequência 1563.
191
VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
no debate dos problemas nacionais, não queriam ser transformados em robôs de
consumo, desprezando os valores humanos (CAOBIANCO, 2007, p. 74).
E a luta não terminou por aí. Muitas vidas foram precisas para que a liberdade de direitos e o
restabelecimento da democracia fosse alcançado. Inúmeras lutas foram travadas e os estudantes
sempre endossavam essas manifestações que ameaçavam cada vez mais o poder ditatorial. Os focos
de resistência estavam espalhados por todo o país. As cidades se tornaram os campos de batalhas e
os movimentos sociais organizados se tornaram os soldados que tentavam reaver seus direitos.
Dessa forma, estudar as narrativas dos fatos que ocorreram em nosso passado e através delas
analisar a nossa própria história marcada por lutas, conflitos e manifestações é, ao mesmo tempo,
reconhecer a importância dessa militância a nível regional e estadual, além de permitir o
entendimento da forma como os estudantes de nossa região estavam em sintonia com as causas
defendidas pela UNE em todo o território nacional. Estudar tais narrativas é tentar entender os jogos
de poder e principalmente clarear esse nosso passado com a luz do conhecimento histórico.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CAOBIANCO, Renata. Movimento Estudantil na UEL (1971-1984). 1. edição. Londrina:
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CUNHA, Maria de Fátima. Eles ousaram lutar: a esquerda e a guerrilha nos anos 60-70. 1. Edição.
Londrina: EDUEL, 1998,
FIUZA, Alexandre Felipe.; SCHIMITT, Silvana Lazzarotto. A Resistência Estudantil à Ditadura
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Paraná.
Disponível
em:
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http://www.unioeste.br/cursos/cascavel/pedagogia/eventos/2008/4/Artigo%2002.pdf >. Acesso
em: 15 out. 2013, 15:18.
FIUZA, Alexandre Felipe; SCHIMITT, Silvana Lazzarotto. O DOPS e a vigilância política do
Movimento Estudantil paranaense durante a ditadura civil-militar. Revista HISTEDBR On-line,
Campinas, n.45, p. 101-114, mar. 2012.
PELEGRINI, Sandra de Cássia Araújo. A UNE nos anos 60: utopias e práticas políticas no Brasil.
Londrina: Editora da UEL, 1997.
SCHIMITT, Silvana Lazzarotto. A atuação do movimento estudantil no Paraná durante a
Ditadura
Militar
(1964-1984).
Disponível
em:
<
http://www.unioeste.br/cursos/cascavel/pedagogia/eventos/2007/Simp%C3%B3sio%20Academic
192
VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
o%202007/Trabalhos%20Completos/Trabalhos/PDF/61%20Silvana%20L.%20Schmitt.pdf>
Acesso em: 16 out. 2013, 17:34.
SILVA, Joaquim Carvalho. Peroba Rosa: Memórias da UEL – 25 anos. Londrina: UEL, 1996,
Coleção de Memórias, 1.
VALLE, Maria Ribeiro do. 1968: o diálogo é a violência – movimento estudantil na ditadura militar
do Brasil. 1. edição. Campinas: Ed. da UNICAMP, 1999.
193
VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
FORÇAS ARMADAS, POLÍTICA E IDEOLOGIA NO BRASIL REPUBLICANO: A
DISPUTA PELO CLUBE MILITAR.
Carlos Henrique Pimentel (História - SEED)
As Forças Armadas Brasileiras não são uma instituição politicamente fechada, por mais que
os acontecimentos dos últimos 50 anos de nossa história republicana possam indicar esta posição.
Ainda que ideias de viés conservador (MORAES, 2005, p.33), fruto da mentalidade instaurada no
pós-1964, nos induzam a concluir que as Forças Armadas no Brasil sempre possuíram essa ideologia,
não podemos concordar com tal hipótese. Ao olharmos para a história da instituição veremos, em
momentos diferentes, a existência de grupos ou de militares isolados que não compactuavam com
esses ideais reacionários.
O ponto de partida dessa análise se ancora no conceito elaborado pelo filósofo político João
Quartim de Moraes, em sua obra Esquerda Militar no Brasil, pesquisa que o autor busca de maneira
analítica reconstruir e problematizar a existência de militares que, na esfera política, optaram por um
viés de esquerda em suas atuações. A partir de sua obra, Moraes busca analisar a atuação de sujeitos
históricos nacionais, desde o período imperial até à República, apontando para novas discussões que
a historiografia tradicional relegou, justamente por esses homens professarem de uma ideia política
distante e perigosa para as elites que controlavam o país. A pesquisa de João Quartim de Moraes
sobre militares de esquerda no Brasil é composta por três volumes: A Esquerda Militar no Brasil,
Volume I: da conspiração republicana à guerrilha dos tenentes, publicada em 1991; A Esquerda
Militar no Brasil, Volume II: da Coluna Prestes à comuna de tenentes e soldados, publicada em 1994.
O autor não somente estabelece um conceito de esquerda às ideias e práticas de alguns
grupos pertencentes à instituição militar, mas, a partir dele, também abre caminho para várias
pesquisas sobre a História das Forças Armadas. Por um lado, sugere que a esquerda militar pode ser
estudada como uma categoria analítica, e, por outro, como um parâmetro político, na medida em que
é recuperada a existência deste grupo de militares no aparelho de defesa do Estado brasileiro,
problematizando sua intervenção política e teórica na história republicana, na maioria das vezes, de
forma clandestina. Quartim de Moraes recupera aquilo que poucos sabem ou mesmo admitem haver,
a existência de uma esquerda militar no Brasil, que igualmente interveio na história, em capítulos
políticos importantes no Brasil do século XX. (CUNHA, 2006).
194
VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Para João Quartim de Moraes, sempre houve a presença de militares de esquerda na história
do Brasil, principalmente no período republicano:
Os positivistas que proclamaram a República e que lutaram pela abolição, os
“tenentes” que estiveram na vanguarda da luta contra a corrupta e carcomida
República oligárquica, os oficiais democratas e nacionalistas dos anos 50 (muitos
ligados ao PCB) que deixaram marcas de sua trajetória na transformação econômica
e política de nosso país são exemplos dessa participação. Se, a partir de 1964, os
militares de esquerda se tornaram espécie em vias de extinção, foi por terem sofrido
uma caçada e expurgo político-ideológico sem precedentes na instituição armada do
Estado brasileiro (MORAES, 2005, v.1, p. 42).
A perseguição gradual, iniciada em 1935 pelo levante da Aliança Nacional Libertadora (ANL)
nas Forças Armadas, refletiu nos oficiais de esquerda, sejam eles comunistas nacionalistas ou
progressistas, que por possuírem ideias políticas contrárias, em relação à maioria dos oficiais,
enfrentaram preconceitos, sendo vítimas de punições e dificuldades na carreira militar. O Campo de
pesquisa e debate é muito extenso, existindo vários movimentos e revoltas militares que ainda
carecem de estudos específicos ao longo da história republicana brasileira.
Recentemente, alguns pesquisadores vêm se debruçando sobre a temática da Esquerda
Militar, recuperando e problematizando seu papel na construção do país, abordando suas ações em
diferentes momentos da História Republicana Brasileira. Pesquisas que norteiam de alguma forma a
construção desse trabalho, pois em todos esses estudos encontram-se as mesmas dificuldades em
relação às fontes, além de percalços como a clandestinidade da grande maioria desses militares.
Trabalhar com um tema pouco conhecido como a esquerda no seio das Forças Armadas ainda é
complicado, muito por conta dos vestígios da Ditadura Civil-Militar de 1964, que deixou feridas
abertas. Em tempos que se debate a Comissão da Verdade, a fim de ampliar o conhecimento sobre a
história nacional, ainda obscura, problematizar esses personagens esquecidos se torna muito atual.
Deve se destacar, para melhor compreensão em relação ao recorte temporal da pesquisa que
abrange os anos de 1945 até 1955, o fato de que nesse período o mundo se encontrava dividido de
forma bipolar por duas concepções político-ideológicas distintas, de um lado os Estados Unidos da
América e sua doutrina Capitalista e do outro a União das Republicas Socialistas Soviéticas que
defendia o Socialismo como doutrina triunfante. Nesse período, que a historiografia convencionou
chamar de Guerra-Fria, o Brasil se alinhou aos interesses norte-americanos no imediato pós-guerra,
por questões econômicas, mas principalmente pela tomada de posição do novo governo que se
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
iniciava no país sob a liderança do Gal. Eurico Gaspar Dutra, que defendia arduamente a
composição do Brasil no bloco ocidental cristão. Mas mesmo com esse alinhamento, não se deve
deixar de acentuar o crescente prestigio que a URSS obteve no mundo todo após o conflito mundial,
permitindo que os partidos comunistas e demais vertentes esquerdistas, mundo afora, buscassem se
aproveitar desse pretenso prestígio, inclusive no Brasil, deixando o já tumultuado cenário político da
redemocratização e dos primeiros governos eleitos de forma legítima ainda mais agitados, refletindo
claramente o conflito entre essas duas distintas concepções políticas.
Tema polêmico com envolvimento desses militares militantes que ganhou destaque na
sociedade brasileira do período, principalmente no interior das Forças Armadas, onde dividiu
opiniões e estratégias de ação foi a discussão em torno da Campanha do Petróleo, no qual o grupo
de esquerda era favorável ao debate naquele espaço, alegando que os problemas nacionais também
deveriam ser discutidos por homens que arriscaram suas vidas pela pátria. A questão sobre o
petróleo se tornou uma importante bandeira da esquerda nacional. Com o final da Segunda Guerra
Mundial os debates acerca do petróleo entram definitivamente na agenda política do país; desta
forma, surge um movimento civil-militar no ano de 1947 acerca do assunto, que fica conhecido pelo
seu principal slogan “O Petróleo é nosso”, deixando clara a intenção de defender o monopólio estatal
de exploração do recurso natural. Assim, os defensores da Campanha do Petróleo ligavam a
exploração deste com a consolidação da nação brasileira, acreditando que esse rico recurso natural
estava diretamente ligado ao crescimento industrial e seu consequente progresso. O debate em torno
do petróleo fez emergir uma acirrada disputa no cenário nacional, envolvendo distintos pontos de
vista sobre o assunto, além da participação popular.
O nacionalismo, base das diferentes vertentes sobre o assunto, foi defendido de maneiras
diversas por grupos distintos, para Motta (2002, pag.29):
[...] há necessidade de cuidado ao utilizar o termo, uma vez que “nacionalismo”
adquiriu significados distintos ao longo do período contemporâneo, sendo
reclamado por grupos defensores de projetos políticos divergentes, ligados tanto à
esquerda quanto à direita. Os próprios comunistas defenderam bandeiras
nacionalistas, que em sua acepção implicavam a afirmação do Estado nacional
como agente político e econômico, e fiador da soberania brasileira frente ao
imperialismo das potencias capitalistas. O nacionalismo que serviu de inspiração
aos anticomunistas tem origem remota em modelos conservadores elaborados no
século XIX, principalmente associados ao romantismo alemão. Tal vertente do
nacionalismo, que também foi influenciada pelo corporativismo, encontrava seu
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
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fundamento central na visão da nação como conjunto orgânico, unidade superior a
qualquer conflito social. Esse nacionalismo de viés conservador enfatiza a defesa da
ordem, da tradição, da integração e da centralização, contra as forças centrífugas da
desordem.
A questão do petróleo e suas consequentes discussões, deixam claro a divisão sobre os
diferentes planos de nação que se apresentaram no Brasil a partir de 1945. Explorar o recurso exigia
elevado investimento e tecnologias que o país não detinha no período, desta forma, dentro da mesma
lógica nacionalista de que o Brasil deveria nacionalizar as reservas, evitando que os trustes
estrangeiros controlassem essa riqueza. Duas grandes vertentes se apresentaram, disputando espaço
na sociedade brasileira e em órgãos que vão polarizar este debate, como o Centro de Estudos e
Defesa do Petróleo (CEDP), fundado em 1948 para promover uma larga campanha de
esclarecimento da população sobre a temática; e também no Clube Militar, espaço onde os militares,
entusiastas da causa, passam a debater as distintas propostas de ação a fim de influenciar nas decisões
governamentais sobre o petróleo. De um lado os nacionalistas à direita que afirmavam que por falta
de condições para realizar a extração do petróleo o país deveria aceitar investimentos privados, tanto
nacionais como internacionais, para realizar a prospecção do recurso e, consequentemente,
desenvolverem a indústria no país. Na outra vertente, se colocava um nacionalismo à esquerda, no
qual a ideia básica era a de que o Estado deveria arcar com toda a infraestrutura para a exploração,
dividindo essa riqueza obtida com a população, por meio do desenvolvimento econômico e social da
Nação (SILVA, 2007).
Os comunistas se envolveram nos debates apoiando a vertente do nacionalismo à esquerda,
negando a participação de capitais privados em sua exploração, principalmente de recursos
estrangeiros. Essa postura ia ao encontro de uma das principais bandeiras do partido, o antiimperialismo; esses viam na entrada de capitais internacionais no país o fortalecimento do
Capitalismo, o aumento da influência estadunidense no Brasil e a consequente exploração econômica
que esses fatores iriam trazer ao país. A campanha do petróleo passa a ser no período uma
importante questão para a esquerda, pois defender a estatização seria combater também práticas e
políticas que o PCB enxergava como nocivas ao desenvolvimento nacional, lembrando que, a partir
de 1945 até o início de 1948, a postura adotada pelos comunistas era a de colaboração com o
desenvolvimento econômico brasileiro, livrando o país do estágio “semifeudal” em que se
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EM HISTÓRIA SOCIAL
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
encontrava, acreditando que esse seria um estágio pelo qual o país necessitaria passar para atingir o
socialismo (SILVA, 2007, p. 325-328).
O Clube Militar, a partir de 1947, se tornou palco de acalorados debates sobre a questão do
petróleo, a extração de outros recursos minerais estratégicos, além da participação do país na Guerra
da Coréia. Duas ideias dividiram o Clube Militar e também as Forças Armadas, em uma ponta se
posicionavam os militares nacionalistas, na outra os oficiais “internacionalistas” (FERRAZ, 2003, p.
306.). Segundo Nelson Werneck Sodré (1968. p. 305), o aumento da importância do Clube se deu
pelo destacado papel que a organização exerceu nos debates que abordavam assuntos fundamentais e
de suma importância na agenda política nacional daquele período, colaborava ainda o fato de que o
local se constituía em um ambiente fora do controle da hierarquia militar. Dessa forma, na polarizada
década de 1950, os assuntos que agitavam o país se encontravam presentes e representados pelas
duas chapas que disputavam o poder na entidade.
Os dois grupos que disputavam as eleições no Clube Militar eram caracterizados pela chapa
Azul, “internacionalista”, composta por muitos oficiais da FEB, como Castelo Branco, Cordeiro de
Farias, Jurandir Mamede, Amaury Kruel, Lyra Tavares, entre outros que apoiavam uma postura
favorável aos investimentos estrangeiros, principalmente dos Estados Unidos da América, além da
concessão das reservas minerais brasileiras aos trustes internacionais. O anticomunismo também
fazia parte da mentalidade dessa vertente, que estava associada diretamente a recém-criada Escola
Superior de Guerra (ESG). A chapa Amarela assumia ideais nacionalistas, colocando-se contrária aos
aglomerados internacionais e a política externa de alinhamento com os EUA (MARTINS FILHO,
2010, p 112-113). Muitos militares à esquerda apoiaram essa postura, participando ativamente das
campanhas eleitorais ocorridas no Clube em 1950 e 1952.
No primeiro pleito em 1950, a chapa Amarela, nacionalista, sagra-se vitoriosa, recebendo
forte apoio entre a baixa oficialidade, fruto da forte campanha de seus membros que eram mais
presentes no dia-a-dia dos quartéis, além do amplo espectro ideológico que compunha a chapa, que
reunia desde comunistas até progressistas convictos. Com a derrota no pleito, o grupo
“internacionalista” cria uma organização no final de 1951, A Cruzada Democrática, para coordenar
suas ações políticas e a oposição que fariam a chapa eleita, passando a defender o respeito
hierárquico e criticando a “politização” no Clube Militar, acusando a infiltração subversiva em seu
interior (MARTINS FILHO, 2010).
198
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Segundo João Roberto Martins Filho (2010, p. 114), a forte influência que os membros da
Cruzada gozavam entre as autoridades e o comando militar foi utilizada para reverter à situação,
transferências, inquéritos militares, prisões e torturas foram utilizadas contra os defensores da ala
nacionalista. Fortunato Câmara de Oliveira, o capitão Joaquim Miranda P. de Andrade e o major
Leandro José de Figueiredo Junior, foram vítimas dessas arbitrariedades. Em relação ao último,
podemos relatar uma carta de sua esposa, levada ao Congresso Nacional pelas mãos do Senador
Domingo Velasco em junho de 1952:
Venho à presença de V.Excia, na qualidade de esposa do Major Leandro José de
Figueiredo Junior, para denunciar à Nação um fato que considero arbitrário,
ofensivo à dignidade humana e uma ameaça a tranquilidade dos lares de todos os
militares.
[...] Aproveitando-se da licença prêmio em cujo gozo se encontrava foi ao Rio
Grande do Sul em propaganda da Chapa Estilac-Horta. Nesse estado, apresentouse ao Q.G. do 3º R.M. e aos Cmts. de todas as guarnições que visitou. Nada havia
de estranho ou irregular na sua conduta. Apesar disso foi chamado por edital como
se estivesse em situação irregular ou clandestina.
[...] Regressou a São Paulo e apresentou-se imediatamente. Mas não voltou a casa.
Estranhando o fato procurei as autoridades militares se São Paulo e fui informada
de que ele havia sido preso por solicitação do Sr. Gen. Cmt. do 1ºR.M. e havia sido
encaminhado ao Rio. Vim também para esta cidade, aqui, procurei o Sr. Gen.
Souza Dantas, Cmt. do 1ºR.M. e fui por ele informada de que o meu esposo havia
sido preso para averiguação [...].
[...] E o que é mais doloroso: constatei que ele estava fechado a cadeado, que as
janelas do compartimento estavam fechadas a prego, que no quarto só entrava ar
senão pela bandeira da porta [...] (DEPOIMENTOS ESCLARECEDORES...
1957).
Outros militares também foram presos por aderirem à campanha da chapa nacionalista,
sendo ainda acusados de ligação com o PCB (DEPOIMENTOS esclarecedores... 1957). Adotando
tais medidas, a chapa Azul garantiu a vitória nas eleições de maio de 1952 (SODRÉ, 1968) sobre a
Amarela, liderada pelos generais Estilac Leal e Horta Barbosa, direcionando os debates e as ações do
Clube Militar de acordo com seus interesses e ideias. (SMALLMAN, 2004).
Alguns militares de esquerda ainda continuaram se envolvendo com a política nacional,
militando na clandestinidade, ligados a outros partidos que defendiam ideais de esquerda, agindo em
agremiações civis ou até mesmo no interior das Forças Armadas. O conflito entre os grupos de
esquerda e de direita inauguram os embates influenciados pela Guerra Fria, antecipando as práticas
de intimidação que seriam a base dos conflitos internos do Exército nas décadas de 1950/1960, com
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o exacerbado anticomunismo dos militares e alguns conflitos de caráter nacionalista, até culminar
com o Golpe de 1964.
Nesse trabalho procurou-se mostrar a existência e a participação relevante de grupos de
esquerda na instituição militar. A pesquisa problematiza a ação desses indivíduos e suas práticas e
posturas assumidas por esse grupo no período do pós-guerra, contexto de intensas agitações políticas
no país, com o final do Estado Novo e início de uma experiência democrática. Também foi analisada
no trabalho, a participação de veteranos de esquerda na campanha pelo controle do Clube Militar,
importante centro dos debates políticos no Brasil na década de 1950. Esses homens se posicionaram
a favor da chapa nacionalista que defendia o desenvolvimento nacional e a proteção das reservas
minerais e energéticas do país, contra a chapa internacionalista, que defendia a entrada de capital
estrangeiro para acelerar o desenvolvimento industrial brasileiro. Esse embate dividiu as Forças
Armadas, causando inúmeras perseguições no seio da instituição. Ao fim do período estudado,
constatou-se a vitória da ala conservadora no Clube Militar, responsável pela hegemonia de
expressões políticas conservadoras, que perdura até os dias de hoje.
Referências Bibliográficas
Fontes Orais
Jacob Gorender. São Paulo, 30 Novembro, 1999.
Salomão Malina. São Paulo, 29 Janeiro, 2002.
Fontes Impressas
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Estatutos e regimentos da Associação de Ex-Combatentes do Brasil.
Coleção do jornal Ex-Combatente (1947-1953 – incompleta).
Livros
CUNHA, Paulo Ribeiro da.Esquerda militar no Brasil: uma problematização necessária. Revista
Espaço Acadêmico, ano 5, n. 58, mar. 2006.
DEPOIMENTOS ESCLARECEDORES sobre os processos dos militares. Rio de Janeiro:
Associação Brasileira de Defesa dos Direitos de Homem, 1957. V. 1-2.
200
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
FERRAZ, Francisco César Alves. A guerra que não acabou: a reintegração social dos veteranos da
Força expedicionária Brasileira, 1945-2000. São Paulo. Tese- Doutorado em História SociaL
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas/Universidade de São Paulo, 2003.
MARTINS, João Roberto Filho. Forças armadas e política, 1945 – 1964: a antessala o golpe. In:
FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de Almeida Neves. O Brasil republicano: o tempo da
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MORAES, João Quartim de. A esquerda militar no Brasil. 2ed. Vol. 1. São Paulo: Expressão
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MOTA, Rodrigo Patto Sá. Em guarda contra o perigo vermelho. O anticomunismo no Brasil: 19171964. São Paulo: Perspectiva, 2002.
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1945-1964. In: CASTRO, Celso; IZECKSOHN, Vitor; KRAY, Hendrik. (Org.). Nova história
militar brasileira. Rio de Janeiro: FGV/ Bom Texto, 2004.
SODRÉ, Nelson Werneck. História militar do Brasil. 2. Ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1968.
201
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
A REBELIÃO DA ELITE: OS JOVENS ENTRE A GUERRILHA E O " PAZ E
AMOR"(1969-1979)
Amábile E. A. Sperandio (História, UEL)
Orientador: Prof. Dr. André Luiz Joanilho
1 INTRODUÇÃO
Os movimentos revoltosos acontecidos no Brasil no pós-golpe de 1964, ano em que foi
instaurada a ditadura militar, foram provocados principalmente por grupos juvenis de classe média e
alta. De um lado, havia os participantes de segmentos da contracultura, como os Hippies, vistos aqui
no Brasil através da Tropicália, e de outro os guerrilheiros urbanos. Mesmo com suas diferenças
comportamentais e identitárias, esses dois grupos, partilhavam de descontentamentos em relação à
política nacional, cultura e sociedade na qual estavam inseridos.
Este artigo parte de um projeto de mestrado, em que temos a pretensão de realizar nos anos
de 2014 e 2015 pela Universidade Estadual de Londrina, o nosso objetivo é compreender a
participação da juventude nas revoltas quanto à política e a cultura nacional, apontando dois
segmentos de juventude, àquela participante de movimentos de guerrilha urbana, que esta voltada a
ações violentas, e a que esta empenhada a lidar com os problemas da política nacional através de
movimentos artísticos, pregando o lema característico, "paz e amor". Buscaremos perceber a relação
desses dois movimentos contrários à ditadura militar, visualizando suas diferenças ideológicas, e
como se deu as transformações comportamentais desses dois grupos, levando-os a tomar direções
diferentes, de um lado, as guerras de guerrilhas e de outro as manifestações artísticas pacíficas.
Acreditamos que apenas os jovens das classes mais abastadas tiveram participação nas
rebeliões contra a ditadura, pois a ausência de mecanismos de participação na família, escola e
trabalho, podem prejudicar a predisposição política. A participação política é fruto de educação, e no
Brasil, durante esse período menos de 1% dos jovens estavam nas universidades, sendo que essa
minoria fazia parte da elite nacional. Esses jovens universitários tinham contatos com a literatura de
cunho esquerdista que influenciou na ideologia libertária e nos ideais revolucionários, expressos nas
obras clássicas de líderes comunistas, Lenin, Carl Marx, Stalin, Trotsky, e outros pensadores tidos
como revolucionários (GOFFMAN; JOY, 2007, p.272).
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
A fonte a ser analisada neste trabalho será o jornal O Pasquim, de 1969 a 1979. Este jornal
foi criado em 1969, durante a ditadura militar, pelo cartunista Jaguar128 e os jornalistas Tarso de
Castro129 e Sérgio Cabral130 que buscavam substituir o tabloide A carapuça. Logo, juntaram-se a outros
profissionais que discordavam da grande imprensa e da ditadura militar, intelectuais do humor,
jornalistas, escritores e artistas aderiram à proposta do jornal, que era a de dar voz a uma
intelectualidade do Rio de Janeiro, para dessa maneira contestar e denunciar o conservadorismo da
classe média, da qual, também faziam parte.
Durante toda a década de 1970, o jornal O Pasquim, pode ser compreendido como
alternativo a cultura e política estabelecidas no período, era uma forma de oposição ao regime
ditatorial vigente desde 1964, tratava de questões mais sérias do Brasil de uma maneira bem
humorada, trazendo em suas reportagens, charges e entrevistas o que lhe era de mais característico, a
ironia. Uma das principais finalidades era o uso do humor inteligente para expor os problemas
políticos e socioculturais da época, tudo nas entrelinhas, reunindo dessa maneira, ideologias,
propondo soluções, expondo denúncias, além de discutir sobre sexo, drogas, música, e outros
assuntos do mundo jovem que estavam em alta no período.
Foi um periódico que deu voz a muitos jornalistas, artistas e intelectuais excluídos dos
grandes veículos de comunicação, por não aceitarem o regime militar e também por não
concordarem com o apoio que alguns meios de comunicação de massa deram à ditadura. Dessa
maneira, eram feitas exclusões nas redações, expulsando os jornalistas que não se submetiam às
novas diretrizes de controle da qualidade dos jornais: a censura interna.
O periódico trazia em suas páginas discussões acerca da contracultura, principalmente
através de uma seção intitulada UNderground, que tinha como signatário Luíz Carlos Maciel. Nesta
seção, falava-se sobre drogas, revolução sexual, movimento hippie, filosofia existencialista e
psicanálise. Para alguns intelectuais, artistas, cartunistas e cronistas que estavam se projetando no
cenário nacional naquele momento, a principal apropriação do ambiente multicontestatório ou
anticonformista internacional, foi o fenômeno da contracultura. Em especial, para uma parcela dos
jornalistas que estavam ajudando a criar O Pasquim, esse fenômeno representava um caminho para se
opor ao governo autoritário e à sociedade que o legitimava.
Jaguar era diretor de Humor do jornal.
Tarso de Castro era diretor Chefe do jornal
130 Sergio Cabral era o editor de texto do Jornal.
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EM HISTÓRIA SOCIAL
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O pasquim foi escolhido como fonte por se tratar de um dos periódicos que mais
repercutiu durante a ditadura militar. Logo em suas primeiras publicações, atingiu sucessivas marcas
de 20, 30, 40 e 200 mil exemplares no seu auge em meados dos anos 70, tornando-se um dos maiores
jornais alternativos do Brasil. Trazia também em suas páginas, algumas discussões da contracultura, o
que será de fundamental importância para a problemática da pesquisa, que buscará compreender a
relação entre a guerrilha e o movimento Hippie. O acervo Histórico se encontra no Centro de
Documentação e Pesquisa Histórica (CDPH) da Universidade Estadual de Londrina.
Os anos 60 foram marcados por uma grande agitação do segmento juvenil em todo o
ocidente, tanto no universo cultural, quanto político e social. Esses jovens lutavam contra as
injustiças sociais e econômicas, a segregação racial, a sociedade capitalista, o machismo, a violência, a
opressão sexual, dentre outros problemas sociopolíticos. Segundo os autores Ken Goffman e Dan
Joy131 (2007), esses jovens foram impulsionados por ideais libertários do iluminismo, assim como por
intelectuais esquerdistas, revivendo a poética romântica de criar uma "sociedade que fosse ao mesmo
tempo humana e arrebatadora" (GOFFMAN; JOY, 2007, p.272). 1960 foi a década do
anticonformismo jovem, os novos esquerdistas declaravam seu desprezo contra os velhos padrões de
moralidade sexual e regras de "bom comportamento". Forjaram para si, uma identidade ativista,
defendendo a liberdade e a igualdade, criando, dessa forma, movimentos de protesto por todo
ocidente, gritando contra guerras e armamentos nucleares, e culpando a geração de seus pais "por
legar a eles um planeta em situação aparentemente terminal" (GOFFMAN; JOY, 2007, p.283).
No auge dessa explosão contracultural, as exigências libertárias fizeram com que se criasse a
necessidade de modificação comportamental da juventude, que queria ser vista de maneira diferente
das gerações anteriores. Os jovens demonstravam as suas insatisfações através de elementos do
cotidiano, como nas suas roupas, linguagem, músicas e estilo de vida diferenciado. Muitos aderiram
às drogas como uma forma de se libertar mentalmente da sociedade.
O movimento Hippie, um dos segmentos da contracultura, foi iniciado por grupos juvenis
dos Estados Unidos descontentes com o estilo de vida americano, este movimento repercutiu no
mundo inteiro, introduzindo o espírito de liberdade e esperança de um mundo melhor por meio de
revoluções juvenis pacifistas, pregando principalmente a paz, o amor e a igualdade; lutavam contra a
GOFFMAN,Ken; JOY, Dan. Contracultura através dos tempos: Do mito de Prometeu à Cultura
Digital. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007.p. 272
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
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violência, o capitalismo e o consumismo desenfreado, a segregação racial, a polícia, os militares, a
propriedade privada e a família tradicional burguesa.
O Brasil, também foi tomado por essa onda anticonformista dos jovens, principalmente
após o golpe militar em 1964, que vai impor novas lógicas de atuações sociais e políticas a todo o
conjunto da sociedade. Os jovens estudantes de ensino médio e das universidades ganham espaço na
cena política pelo seu engajamento nos movimentos estudantis, nas atividades de partidos políticos e
também nos movimentos contraculturais, lutando contra a ditadura militar e contra a censura
imposta pela mesma.
Houve muitos movimentos estudantis contra a ditadura militar, porém, acreditamos que
dois deles mostraram destaque, os movimentos de guerrilha urbana e o tropicalismo. No mesmo
período, sobretudo no final da década de 60, a suspensão das garantias constitucionais dos cidadãos
brasileiros e os métodos utilizados pelo governo para conter a ação dos grupos de esquerda contra o
regime, legitimaram a violência. Ao transformar a polícia em instrumento político, criando o braço
armado da ditadura, o poder militar acaba por institucionalizar a violência e estabelece relações entre
forças de diferentes naturezas. De modo geral, o exílio, as torturas e as prisões, desencadearam as
práticas guerrilheiras.
Neste momento nascem as guerrilhas urbanas, algumas lideradas por jovens que carregavam
um grande potencial revolucionário. Segundo Carlos Marighella132 (1969), líder de um dos
movimentos de guerrilha urbana, afirma em um manual escrito por ele, intitulado Manual do
guerrilheiro urbano, que a crise estrutural crônica característica no Brasil e sua instabilidade política são
as razões dos surgimentos das guerras revolucionárias no país. E expõe o que seria um guerrilheiro
urbano:
O guerrilheiro urbano é um homem que luta contra uma ditadura militar com
armas, utilizando métodos não convencionais. Um revolucionário político e um
patriota ardente, ele é um lutador pela libertação de seu país, um amigo de sua gente
e da liberdade. A área na qual o guerrilheiro urbano atua são as grandes cidades
brasileiras. [...]. O guerrilheiro urbano segue uma meta política e somente ataca o
governo, os grandes capitalistas e os imperialistas norte-americanos. O guerrilheiro
urbano é um inimigo implacável do governo e infringe dano sistemático às
autoridades e aos homens que dominam e exercem o poder. O trabalho principal
do guerrilheiro urbano é de distrair, cansar e desmoralizar os militares, a ditadura
MARIGHELLA, Carlos. Manual do Guerrilheiro Urbano. 1969. Digitalizado por sabotagem revolt.
Disponível em www.sabotagem.revolt.org, 2003.
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
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militar e as forças repressivas, como também atacar e destruir as riquezas dos norte
americanos, os gerentes estrangeiros, e a alta classe brasileira. (MARIGHELLA,
1969, p. 4)
Carlos Marighella morreu numa emboscada em 1969, na cidade de São Paulo, tornando-se
inspiração para outros movimentos de guerrilha que tinham como participantes, na maioria, jovens
de classe média à alta, que partilhavam das mesmas insatisfações.
No mesmo momento surgiram no Brasil, movimentos de cunho pacifistas, assemelhandose ao movimento Hippie, que foi reformulado pelos jovens ganhando características e
comportamentos diferentes dos que eram expressos nos Estados Unidos, devido à repressão imposta
pela ditadura militar. Um desses movimentos que trazia traços do movimento Hippie era o
Tropicalismo.
A Tropicália foi um dos movimentos artísticos mais importantes dos anos 60, tendo sido
interpretada como uma contestação às posições de esquerda arcaicas, que neste período exercia forte
influência sobre a produção cultural. Apesar de compartilharem algumas ideias socialistas, o
tropicalismo, mesclava essas posições ideológicas antiquadas com os pensamentos modernos da
juventude. A noção de revolução esquerdista foi ampliada com a incorporação de mudanças
comportamentais individuais às mudanças sociais. Houve vários movimentos artísticos englobados
dentro do tropicalismo, denominação atribuída a manifestações artísticas espalhadas por diferentes
ramos da produção cultural, como as artes plásticas — com os trabalhos de Hélio Oiticica —, o
cinema — com as obras de Glauber Rocha —, ou o teatro — com as peças dirigidas por José Celso
Martinez. Na música, destacaram-se cantores e compositores, como Caetano Veloso e Gilberto Gil.
A tropicália assumia revoluções no plano estético, defendendo parte dos ideais esquerdistas e
denunciando a violência, corrupção e a censura, através de suas expressões artísticas.
2 QUADRO TEÓRICO – METODOLÓGICO
Para a realização desta pesquisa mostra-se fundamental estudar o conceito de Juventude.
Partimos do pressuposto, assim como João Pedro Shimidt
133
(2001) de que a idade é um fenômeno
social e não apenas biológico. Historicamente nem sempre houve crianças, adolescente, jovens,
SCHMIDT, João Pedro.Juventude e política no Brasil: a socialização política dos jovens na virada do
milênio.Santa Cruz do Sul:EDUNISC,2001.
133
206
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adultos e idosos. Tais divisões são identificáveis no desenvolvimento histórico social, a partir de
modificações na própria estrutura da sociedade. Segundo o autor, só quando o sistema escolar
moderno se desenvolve que a própria emergência da distinção dessas fases da vida aparece.
(SCHMIDT, 2001, p.184)
Entendemos o conceito de juventude assim como Luiz Antonio Groppo134 (2000), que o
define como uma categoria social. Neste sentido, ao ser definida, a juventude torna-se uma
representação sociocultural e uma situação social temporária, isso quer dizer que a juventude é uma
construção humana, e traz consigo concepções e representações simbólicas, instituídas pelos grupos
sociais, ou pelos próprios indivíduos tidos como jovens, isso para dar significado a uma teia de
comportamentos e atitudes a ela atribuídos. Os jovens constituem um segmento e a juventude uma
condição social não homogeneizável. Na busca da compreensão desta pluralidade, diferentes autores
superam também leituras da juventude como fenômeno somente demográfico, modelado e definido
por uma faixa etária (GROPPO, 2000, p.07).
Segundo a autora Elaine Muller135 (2005), enquanto seres humanos, estamos submetidos ao
tempo, o crescimento e o envelhecimento humano do corpo são dados naturais da nossa existência,
porém, como isso é percebido socialmente é algo complexo. Cada sociedade organiza essa fase de
transição de formas diferentes, a idade além da contagem dos anos está associada a um conjunto de
padrões de comportamentos, regras e status, forjados como adequado para cada idade, dependendo
da sociedade a qual faz parte. Segundo a autora:
"Existe, portanto, o dado biológico- nossos corpos mudam com o passar do
tempo- assim como existem os dados sociais construídos sobre estes - usamos a
idades para organizar a nossa sociedade, pois ela é um critério de localização dos
sujeitos. "(MULLER, 2005, p.67)
Essas fases são construções sociais pertencentes a um determinado tempo, espaço, e
contexto sociocultural, são como classificações arbitrárias e artificiais acopladas às informações
GROPPO, Luís Antônio. Juventude: ensaios sobre sociologia e história das juventudes modernas. Rio de
Janeiro: DIFEL, 2000.
135 MÜLLER, Elaine . As palavras nunca voltam vazias: reflexões sobre classificações etárias. In: ALVIM, Rosilene;
QUEIROZ, Tereza; FERREIRA JR., Edísio. (Org.). Jovens e Juventudes. João Pessoa: Editora UFPb, 2005, v. , p. 6585.
134
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biológicas inseridas no corpo. Trata-se não apenas de limites etários naturais e objetivos, mas
principalmente representações simbólicas e situações sociais que, de acordo com Groppo (2000), tem
suas próprias formas e conteúdos, essas definições de juventude que são analisadas nas ciências
sociais, passeiam por dois critérios que não se conciliam, o critério etário e o critério sociocultural
(GROPPO, 2000, p. 9).O critério etário, que define a juventude de acordo com a idade, está presente
como base prévia da definição de juventude, no entanto, é necessário enfatizar a relatividade na
delimitação da idade (por exemplo: dos 15 aos 24, 15 aos 18, 12 aos 18). O critério sociocultural
acaba influenciando o critério etário, pois a juventude, o jovem e seu comportamento, mudam de
acordo com a classe social, o grupo étnico, a nacionalidade, o gênero, e o contexto histórico.
Esta concepção nos alerta sobre a existência de grupos sociais concretos e distintos, de uma
pluralidade de juventudes de cada recorte sociocultural, classe social, etnia, religião, mundo urbano
ou rural, ideologias, e outros fatores que interferem na concepção do que é jovem. A juventude
como categoria social é uma representação da situação social simbolizada e vivida com grande
diversidade na realidade cotidiana.
Nesse trabalho o conceito de juventude indica fenômenos históricos e sociais, sendo assim,
não existe do mesmo modo em todas as épocas históricas e em todas as sociedades, isso quer dizer
que, encontram-se diversidades internas, pois os segmentos juvenis de uma mesma geração podem
ser diferentes bem como de outras gerações. Essa delimitação abrange apenas as condições das
sociedades ocidentais modernas, capitalistas, as quais criaram condições em que a juventude se
tornou própria a grupos etários distintos com estilos de vida diferentes.
Segundo Pierre Bourdieu136 (1983), a juventude é apenas uma palavra, pois, na realidade,
existem várias ou pelo menos duas juventudes, a burguesa e a das classes populares, que tem entre si
suas diferenças cruciais. Utilizar o termo juventude para falar de jovens como se fossem uma unidade
social, um grupo constituído, dotado de interesses comuns e relacionar esses interesses a uma idade
biologicamente defina, para ele é uma manipulação evidente e um formidável abuso da linguagem.
(BOURDIEU, 1983, p.2). A crítica de Bourdieu se dá pelo fato de que muitos usam o termo de
maneira genérica para designar diferentes realidades. Podemos comparar sistematicamente as
BOURDIEU, Pierre. A juventude é apenas uma palavra. Questões de Sociologia. Rio de Janeiro: Ed. Marco Zero,
1983.
136
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condições de vida e a administração de tempo dos jovens que trabalham e dos jovens que estudam,
nas palavras de Bourdieu, teremos:
(...) de um lado as coerções do universo econômico real, apenas atenuadas pela
solidariedade familiar, do outro as facilidades de uma economia de assistidos quase
lúdica. (BOURDIEU, 1983, p. 2)
Esses dois universos não praticam nada em comum, são lugares sociais diferentes, essas
juventudes representam polos diferentes, são dois extremos de "possibilidades oferecidas aos jovens"
(BOURDIEU, 1983, p. 3). Portanto, existem diferenças marcadas entre os dois segmentos de jovens
que também influenciam na politização dos mesmos.
O tempo livre e a escolaridade são dois fatores que acreditamos serem primordiais na
construção de uma cultura política rebelde, e esses dois fatores estão diretamente ligados pela
dimensão socioeconômica da juventude. A "dimensão atitudinal" (SCHMIDT, 2001, p.101) é
influenciada diretamente pela situação socioeconômica de cada indivíduo, pois só é possível entender
a postura do sujeito em relação à política se levar em conta a circunstancia econômica, a renda,
ocupação profissional, escolaridade e o tempo livre. O tempo livre, por exemplo, tempo que pode
ser utilizado para a elaboração de projetos de protesto contra a política e a cultura nacional, só
podem acontecer se o sujeito não precisar trabalhar e for sustentado pela família, e dessa forma
frequentar apenas lugares de exercício mental, as escolas e universidades, e assim adquirir
informações sobre todos os ambitos da sociedade, e ter contatos com outras sociedades, diferentes e
utópicas em obras clássicas. Essa possibilidade só existe dentro das camadas mais abastadas que não
precisam entrar ainda jovens no mercado de trabalho, possuindo tempo para construírem
pensamentos e ideologias próprias acerca da sociedade.
De acordo com Bourdieu (1983)
137
, os seres humanos são condicionados pelas
características de cada meio social e histórico em que vivem, dessa maneira, a consciência política e
cultural é afetada pelas condições de classe, que é independente da vontade do indivíduo. As pessoas
Reproduzido de BOURDIEU, P. e SAINT-MARTIN, M. Goftts de classe et styles de vie.
(Excerto do artigo "Anatomie du goftt".) Actes de Ia Recherche en Sciences Sociales, n° 5 , out.
1976, p. 18-43. Traduzido por Paula Montero
Disponível em:
http://www.unifra.br/professores/arquivos/8547/89602/gostos%20de%20classe%20e%20estilos%20de%20vida%20(p
ierre%20bourdieu).pdf
137
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tendem a pensar de forma semelhante aos outros indivíduos de sua classe social sobre muitos
aspectos, e tendem a aceitar uma cultura política que consideram favoráveis a seus interesses
econômicos, porém, isso não é uma regra. É aí que se encontra o problema que procuraremos
responder no decorrer da pesquisa, por qual motivo os jovens da elite se preocuparam com as
questões sociopolíticas do Brasil durante a ditadura militar?
Utilizaremos para a pesquisa, outro texto de Bourdieu intitulado, Gosto de classe e estilo de
vida (1983), nele o autor expõe a sua crença de que em diferentes momentos e lugares uma dada
realidade social é constituída, e é determinada pelas diferentes posições no espaço social, que
correspondem ao estilo de vida de cada indivíduo, ou seja, são a retradução simbólica das distintas
condições de existência. Essas condições de existência são caracterizadas pelas práticas e pelas
propriedades, são as expressões do estilo de vida, desta forma, compartilham do mesmo operador
prático, que seria o habitus, outro conceito definidor das práticas culturais (BOURDIEU, 1983, p.1).
Habitus, segundo Bourdieu, é o princípio gerador que retraduz as características intrínsecas e
relacionais de uma posição social em um estilo de vida, isto é, um conjunto de preferências distintas
que exprimem a lógica especifica de cada um dos subespaços simbólicos, que são caracterizados por
bens materiais, simbólicos, e também por práticas culturais - expressas através de mobílias,
vestimentas, linguagem, comportamento corporal, ideologias, pensamentos, etc. Sendo assim, são as
escolhas de pessoas, de bens, de ideologias e de práticas, porém segundo Bourdieu, essas práticas e
bens são instituídos pelo ambiente onde vivem e pela cultura na qual estão inseridos, bem como, a
classe a qual pertencem.
Estilos de vida de acordo com Bourdieu são as "diferentes posições no espaço social"
(BOURDIEU, 1983, p.1), sistemas de diferenciação dentro de um mesmo espaço cultural, que
traduzem simbolicamente as diferenças inscritas nas condições de existência, sendo que as praticas e
os bens de um indivíduo ou de um grupo são as expressões do estilo de vida (condições de
existência). Cada dimensão do estilo de vida simboliza todas as outras, e determina todo o restante
do habitus, dessa forma, os estilos de vida são ajustados dentro das condições de classe, enquanto
conjunto de possibilidades e impossibilidades, que torna inacessível para as classes mais baixas, ou de
nível anterior, o estilo de vida dos mais abastados.
Shimidt (2001) dialoga com Bourdieu, quando traça uma trajetória no livro, Juventude e
política no Brasil: a socialização política dos jovens na virada do milênio, tentando responder se a cultura é um
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elemento significante para o sistema político. Por meio da leitura de The civic culture138 de Gabriel
Almond e Sidney Verba (1965), o autor demonstra que os sistemas políticos estão profundamente
ligados às dimensões culturais, valores e orientações que são constituídos ao longo da vida. Para o
autor a cultura política é uma condição necessária para a estabilidade do sistema político e a
sociabilização política, outro conceito necessário para a pesquisa, é decisiva para a compreensão dos
condicionantes psicoculturais de um sistema político (apud, SCHMIDT, 2001, p.43).
Cultura política é um conjunto de atividades que os indivíduos possuem acerca do sistema
político e de seu papel na sociedade. O termo cultura política se refere especificamente as orientações
políticas, ações em relação ao sistema político e as suas diversas partes. Atitude política segundo
Schmidt, é a "disposição persistente para agir diante da situação política" (SCHMIDT, 2001, p.45).
Isso quer dizer que, é uma propensão para a ação "constituindo-se na variável intermediária entre a
situação em que vive o indivíduo e o seu comportamento" (SCHMIDT, 2001, p.45). Atitude é uma
maneira coerente de pensar, agir e reagir às pessoas, grupos, instituições, problemas sociais e
políticos. Dessa maneira, o comportamento político está vinculado as atitudes em decorrência com a
cultura, que dependerá das normas sociais e do habitus do indivíduo.
Partindo do pressuposto de que a cultura é um elemento importante para a estabilidade de
um regime político, Schmidt (2001), explora outro conceito que se mostra fundamental para esse
pensamento e para a pesquisa, a sociabilização política. O termo sociabilização política, de acordo
com o autor, designa o processo de formação de atitudes políticas nos indivíduos, ou seja, é a
interiorização da cultura política existente em um meio social por parte das novas gerações. São dessa
forma, aqueles processos de desenvolvimento através dos quais as pessoas adquirem orientações
políticas e padrões de comportamento, exercidos e moldados por instituições sociais, como a família,
escola, a igreja e os aspectos socioeconômicos dos indivíduos. Desde a infância, a criança desenvolve
pensamentos em relação à política (cognitivos, afetivos ou avaliativas). As aprendizagens adquiridas
no âmbito familiar, na escola ou na igreja são transferidas na comunidade política, ganhando novas
formas e ideais, uma vez que, podem ou não haver modificações nas atitudes políticas do individuo.
(SCHMIDT, 2001, p.69- 77) Socialização política é, "a transmissão de orientações de modo difuso e
não programado, que ocorre principalmente na infância e sob influencia da família, mas que é
desempenhada também pelas demais instituições, grupos e fatores sociais" (SCHMIDT, 2001, p.74).
ALMOND, Gabriel; VERBA, Sidney. The civic culture: political attitudes and democracy in five nations. Boston:
Little, Brown & Co.,1965.
138
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Essa pesquisa investiga a subjetividade política de dois grupos de jovens brasileiros, os
jovens pacifistas e os guerrilheiros urbanos das décadas de 1960 e 1970, momento em que o Brasil
passava por uma ditadura militar, sob o pressuposto de que esses atores políticos fazem parte da
menor parcela da juventude, ligada as classes de maior poder aquisitivo, que livres do mercado de
trabalho, possuíam tempo para ações politizadas. Para isso, analisaremos o periódico, O pasquim
(1969-1979), a fim de perceber as orientações e atitudes políticas desses jovens, sendo que as
construções dessa pesquisa estão apoiadas nos conceitos explicitados anteriormente. Buscando fazer
uma análise comparativa das atitudes políticas desses dois segmentos juvenis.
BIBLIOGRAFIA
BOURDIEU, Pierre. A juventude é apenas uma palavra. Questões de Sociologia. Rio de Janeiro:
Ed. Marco Zero, 1983.
_________________. Gostos de classe e estilos de vida. In: ORTIZ, R. (Org.). Pierre Bourdieu:
sociologia. São Paulo: Ática, 1983d. p.82-121.
GROPPO, Luís Antônio. Juventude: ensaios sobre sociologia e história das juventudes
modernas. Rio de Janeiro: DIFEL, 2000.
LIPOVETSKY, Gilles. O Império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades
Modernas. Trad.: Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
MARIGHELLA, Carlos. Manual do Guerrilheiro Urbano. 1969. Digitalizado por sabotagem
revolt.
Disponível em www.sabotagem.revolt.org, 2003.
MÜLLER, Elaine. As palavras nunca voltam vazias: reflexões sobre classificações etárias. In:
ALVIM, Rosilene; QUEIROZ, Tereza; FERREIRA JR., Edísio. (Org.). Jovens e Juventudes. João
Pessoa: Editora UFPb, 2005, v. , p. 65-85.
SCHMIDT, João Pedro.Juventude e política no Brasil: a socialização política dos jovens na
virada do milênio.Santa Cruz do Sul:EDUNISC,2001.
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MIGRANDO A POBREZA: INDÍCIOS DE PROCESSOS MIGRATÓRIOS NA REGIÃO
DE GUARAPUAVA (1946-1960)
Rodrigo dos Santos (PPGH- UNICENTRO)
Orientador: Prof. Dr. Fernando Franco Netto
Introdução
As discussões neste trabalho apresentam indícios de processos migratórios no período de
1946 à 1960 na Região de Guarapuava, no Paraná, pautando-se nos mecanismos de apropriação e
expropriação de terras.
São considerações iniciais de uma pesquisa, em andamento, que se insere na temática
História e Regiões, contemplando este termo no plural: “Regiões”. Como um espaço de relações de
poder e disputas simbólicas, além dos limites determinados pelos aspectos físicos, geográficos ou
político-administrativos, apresentando construções simbólicas e sociais. Tem-se a preocupação da
problematização do termo região ou regiões no estudo, mesmo que em aspecto superficial, devido à
pesquisa se apresentar em fase embrionária.
Na Região de Guarapuava a ausência da noção geográfica de região fica evidente por ser
complexa sua delimitação. Neste período o município de Guarapuava origina outros, perdendo
parcela de seu território. Entretanto, relacionando o número de habitantes e sua extensão geográfica,
durante as décadas de 40,50 e 60 do século XX, percebe-se um aumento populacional no período, no
município de Guarapuava.
Especificamente apontando o objeto da pesquisa. Entende-se a migração, como sinônimo
de deslocamento de um espaço para outro. Entre os fatores que fazem um sujeito migrar encontramse os políticos, culturais, sociais e o econômico. O fator econômico é primordial aos aspectos de
migração, as pessoas mudam de uma localidade para outra, não apenas pela vontade do sujeito,
buscam-se melhores condições de existência.
Para tanto, o texto divide-se em três momentos. Na primeira parte apresenta-se a dificuldade
de conceituar a migração e sua relação com o desenvolvimento econômico. Em segundo, apresentase a relação entre economia, migração e, a terminologia região com o contexto brasileiro. Por fim,
apresentam-se os indícios de migração no período de 1946-1960 percebida na Região de
Guarapuava.
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Além disso, o título deste trabalho é sugestivo, utilizam-se as palavras: “Migrando a pobreza”,
para exemplificar que geralmente os migrantes eram pobres. Sendo difícil a ascensão do migrante da
classe trabalhadora para a classe burguesa. A migração não é apenas de uma classe, a migração é de
um conjunto de fatores, por isso não se migra a classe, mas a pobreza buscando sua extinção.
Os migrantes pobres
O pobre, geralmente, foi observado pelas aglomerações urbanas nas localidades, causando
repulsa a elite. Esta aglomeração em espaços, em situações precárias, fazia com que este fosse
obrigado a migrar buscando melhores condições de vida, através de estratagemas, perante os
afortunados como observaremos no decorrer deste texto.
Para compreender este processo de migração da pobreza é importante, em primeiro
momento, apresentar uma definição para este termo, apesar de:
A migração, ao contrário dos outros componentes da dinâmica demográfica
(mortalidade, fecundidade), não tem, para sua definição, a mesma precisão da
dimensão biológica, dependendo, outrossim, das funções "tempo" e "distância";
ambas susceptíveis de interpretação de cada pesquisador (NOGUEIRA, 1991,
p.38).
Portanto, como afirma Nogueira (1991) a adoção do termo migração torna-se complexa, por
não ser dada, sendo a construção do pesquisador juntamente com sua pesquisa.
Nesse sentido, tendo clareza da dificuldade de definir a terminologia “migração”, porém com
a certeza da necessidade de sua definição para uma melhor análise. Neste trabalho a migração é
entendida conforme Schörner (2009, p. 43) como: “um processo através do qual a população das
áreas menos favorecidas do país buscam beneficiar-se do desenvolvimento econômico, transferindose para regiões mais ricas onde se concentram as oportunidades de melhoria de vida”. Portanto,
entende-se migração como deslocamento populacional, independente de ser interno entre regiões
político-administrativas (migrações internas), ou de outro estado ou país (migrações externas), enfim,
utiliza-se o termo migração como sinônimo de deslocamento.
Esta premissa, que as migrações são motivadas pela busca por melhores condições, também é
amparada por Singer (1998, p. 40) em que, a “demanda por força de trabalho como proporcionando
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‘oportunidades econômicas’, que constituem um fator de atração na medida em que oferecem uma
remuneração mais elevada que a que os migrantes poderiam perceber na área de onde provém”.
Portanto, a migração geralmente está condicionada a industrialização de uma localidade ou pelos
benefícios que esta proporciona como o setor de serviços, ou seja, oriundas de “oportunidades
econômicas”.
Entretanto, apesar dos pobres, sempre serem motivados a migrar pelo discurso de melhores
condições econômicas, não se pode esquecer-se dos demais grupos populacionais que migram por
condições individuais de vida. Porém acredita-se que os grupos pobres migrantes são em números
elevados se comparados com os demais. Para tanto, neste primeiro momento, evidenciou o
problema da definição de migração e que este geralmente é condicionado pelo discurso econômico,
gerado pelo processo de desenvolvimento industrial. No Brasil este processo é evidente a partir da
década de 30 do século XX. Por isso, no tópico seguinte discute-se o desenvolvimento econômico,
oriundo do golpe do “Estado Novo”, aliando-se à problemática de “Regiões”.
Desenvolvimento Econômico, Migração e Regiões
Para compreender a temática objetiva, tendo em vista o fator econômico como
preponderante nas migrações, torna-se necessário apresentar, de acordo com Furtado (1998, p.17-20)
e Oliveira (2003, p. 29-35) que a partir da década de 30, do século XX, o Brasil passou por mudanças
significativas na sua economia, sendo esta se alterando de agrária-exportadora para urbano-industrial.
Com essa mudança, de exportadora de matérias primas para a criação de indústrias de grande
porte, foi necessário à busca por mão de obra para o setor industrial, evidenciando a relação entre
desenvolvimento e migração, sendo estes relacionados: “uma das formas mais conhecidas ao longo
da história de se perceberem mudanças nos padrões de desenvolvimento das regiões sob análise,
reside no estudo dos movimentos migratórios realizados pelos indivíduos” (RIPPEL, 2005, p. 24). O
fator econômico é importante para os movimentos migratórios, por aliar os discursos de progresso
ou desenvolvimento econômico e necessidade de mão de obra.
O desenvolvimento econômico influência constantemente nos processos de migração:
o cenário do desenvolvimento econômico de uma região tem influência nos
deslocamentos populacionais que para lá se dirigem e de lá se originam e, nesse
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movimento de crescimento da economia, a migração é importante fator no
processo, ora influenciando-o, ora sendo influenciada por ele (SCHNEIDER, 2008,
p. 5)
Em virtude disso, a economia está intimamente relacionada com o fluxo de pessoas pobres,
que se deslocam pelas regiões a procura de melhores condições de vida, ou ainda, são deslocados por
estes projetos de reorganização da região em que os sujeitos habitam influenciados pela dinâmica do
sistema capitalista.
O termo Região é utilizado neste trabalho na perspectiva de Albuquerque Júnior (2008, p. 57)
como espaço que remete a domínio, poder ou comando de disputas relacionadas ao poder, sendo seu
espaço rearranjado, pautado nos conflitos que mudaram e continuarão a mudar a configuração
regional administrativa. A delimitação de uma Região é a redução de seu campo de ação, uma
redução do estudo historiográfico. Além das preposições de Albuquerque Junior (2008), pode-se
tomar como diretriz Silva e Linhares (1995, p. 25) que entendem Região como espaço de discussões,
e como um dos problemas do estudo, sem um recorte definido previamente para que não se delimite
o campo de ação da análise.
A Região pode ser construída pelos aspectos econômicos, políticos e sociais, segundo os
autores em evidência, sem limites físicos ou geográficos, aumentando e diminuindo seu raio de ação
quando necessário para uma melhor compreensão do estudo. A região neste texto não é dada com
limites explicitamente construídos, em função da localidade não ser a mesma, em termos territoriais e
populacionais na década de 1940 ou de 1960. Com isso, percebe-se a importância de tratar migração
com os embates referidos a região/regiões, especialmente, quando se busca o porquê de sair de um
espaço geográfico delimitado e ir para outro.
Portanto, percebem-se que o Desenvolvimento Econômico interfere na migração, as pessoas
migram de uma localidade para outra, buscando melhorar seu poder aquisitivo, possuindo conforto
não apenas para si, para familiares e amigos:
Os primeiros migrantes, ao assegurarem seu sustento, mesmo que seja como
servidores domésticos ou trabalhadores autônomos, ‘chamam’ outros migrantes,
geralmente parentes ou amigos, oferecendo-lhes não apenas o beneficio de sua
experiência, mas também o apoio material e, eventualmente, oportunidade de
trabalho (SINGER, 1998, p. 62).
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No contexto brasileiro isso é evidente, a migração foi condicionada a industrialização do país
a partir da década de 1930. Através da mudança econômica, diante da oferta de mão de obra
industrial, alcançando o Paraná nas décadas de 40 e 60.
Migrando na Região de Guarapuava
O Paraná teve a mesma configuração que a economia brasileira: a busca de mão de obra para
o desenvolvimento econômico a partir de 1940. Mas, o Estado possuía uma densidade populacional
baixa, além de propor o desenvolvimento econômico foi necessário atrair novas pessoas para as
várias regiões, para os espaços administrativos. O Estado ainda com a exportação de matérias primas
como o café, procurou destacar frente aos demais, tendo sua população quase quadruplicando em
1960 com 4,3 milhões em relação a 1,2 milhão em 1940. (HELLER; DUARTE, p. 32). Com este
aumento populacional e a necessidade de mão de obra, o Paraná assumiu destaque na economia
nacional atraindo pessoas.
Como a região de Guarapuava está inserida dentro do espaço paranaense, as relações entre
desenvolvimento e migração também fizeram parte das políticas de governo no período de 19461960. Com relação ao desenvolvimento econômico as atividades econômicas na Região de
Guarapuava foram a erva-mate, gado bovino, suínos, couros, toucinho, mel e cera até a década de
1950 (FERNANDES, 2010, p. 55). Depois disso, no período de 1958 a 1962, se concentrou em
Guarapuava as atividades madeireiras impulsionadas pela construção de Brasília (FERNANDES,
2010, p. 67).
As pessoas que migraram para a Região de Guarapuava neste período foram direcionadas
pelo discurso do desenvolvimento econômico, direcionadas a um novo modo de viver, por um
mecanismo que induz pela busca por melhores condições de vida: “em função de discursos
verdadeiros que trazem consigo efeitos específicos de poder” (FOUCAULT, 1979, p. 180). Portanto,
os discursos por uma melhor qualidade de vida são amparados pelo poder estatal como forma de
atração populacional para uma região administrativa.
Além disso, indícios de processos migratórios podem ser encontrados nos trabalhos de
Fernandes (2010, p. 62) e Silva (2007, p. 74), apesar de não ser o foco principal dos seus estudos,
apresentam processos migratórios na região de Guarapuava a partir da década de 1940. Estes
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processos oriundos do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e do Norte do Paraná, atraídos
pelas atividades madeireiras, devido esgotamento de madeira no primeiro e segundo planalto
paranaense. A vinda de migrantes e imigrantes na região de Guarapuava ofereceu uma dinâmica à
economia local e regional, enaltecendo o discurso de desenvolvimento econômico.
Nesta década de 1940, dentro desta política de atração de pessoas outra iniciativa que
influenciou os deslocamentos populacionais na região, foi colonização para o Oeste paranaense.
Conforme apontado por Rippel (2005) uma política de reincorporação do Território do Iguaçu ao
Estado do Paraná.
Além disso, tem-se o deslocamento populacional na região de Guarapuava em 1951, no
governo Bento Munhoz como aponta Márcia da Silva (2007, p. 74). O processo migratório foi
composto de 500 famílias descendentes de alemães, iugoslavos, romenos, húngaros, denominados de
Suábios do Danúbio. A fixação dos migrantes absorveu algumas médias e pequenas propriedades em
função da substituição da agricultura tradicional e da pecuária, pela agricultura de mercado.
A
escolha do lugar para assentar as famílias, de acordo com Pohl da Silva (2010, p. 144) foi o distrito de
Entre Rios, fundando assim, cinco aldeias em fazendas desapropriadas.
No Jornal Folha do Oeste, também se pode notar a chegada dos Suábios, nas edições de
junho de 1951. Nestas edições do principal Jornal que circulava no município de Guarapuava,
encontram-se expectativas decorrentes da vinda destes migrantes.
Na edição do Jornal Folha do Oeste (10/06/1951, p. 4) foi apresentada às famílias
desapropriadas da localidade de Entre Rios para a vinda dos Suábios: “descendentes dos Siqueira
Cortes, dos Lustosa, dos Martins, dos Ferreira Caldas e dos Ribas, pela deliberação que tiveram
despojando-se de suas propriedades tradicionais, para nelas serem localizados outros lutadores”.
Com isso, percebe-se que a Família do Antonio Lustosa, proprietário do Jornal Folha do Oeste tinha
participação em uma terra familiar. O discurso também é interessante pelo contexto mundial do póssegunda guerra mundial.
A mesma edição afirma:
Preferiram os fazendeiros de Entre-Rios (sic) abrir os braços e acolher os seus
irmãos da velha e conturbada Europa, com um amplexo de solidariedade cristã,
ensejando-lhes em terras brasileiras, o direito de paz, de liberdade e de trabalho
construtivo, em beneficio da prosperidade do Paraná e do Brasil (FOLHA DO
OESTE, 10/06/1951).
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Pela inferência no discurso os fazendeiros expropriados estavam fazendo um sacrifício em
prol dos migrantes. Acolher os “irmãos da velha e conturbada Europa” e “lutadores”, depois da
Europa devastada pela Segunda Grande Guerra, e pela noção de progresso. O discurso de migração
como perceptível neste trecho do Jornal estava atrelado ao de desenvolvimento econômico, em prol
da “prosperidade do Paraná e do Brasil”.
No ano que chegou os migrantes Suábios em 1951, segundo Pohl da Silva (2010, p. 145-146),
o deputado Antônio Lustosa foi a tribuna apresentar um projeto de lei, não aprovado, que criava a
“Colônia Marquinho” em Guarapuava para assentar as quarenta famílias expropriadas de Entre Rios.
O deputado ainda cobrou nos anos seguintes o pagamento de indenizações das terras
desapropriadas, por este ter participações em uma terra familiar. Entretanto, há indícios conforme
Krüger (2010), memorialista local, que estes fazendeiros que foram desapropriados, receberam certo
pagamento por suas terras pelo governo estadual e apesar de contrariadas, foram para o Norte do
Estado plantar café.
O mesmo memorialista, Krüger (2010, p. 201) ainda apresenta que nos anos seguintes
ocorreram outras absorções de médias e pequenas propriedades motivadas pelos movimentos
populacionais originários do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Norte do Paraná,
descendentes de alemães, italianos e japoneses, atraídos pelo discurso de abundância de terras e
políticas de incentivo do Governo Federal.
Além disso, a Região de Guarapuava foi marcada por deslocamentos populacionais, devido à
políticas de estímulo adotadas pelo Governo Paranaense e emancipação de alguns de distritos
paranaenses
(POHL DA SILVA, 2010, p. 75). Com a emancipação de distritos guarapuavanos
também ocorre a perda da população rural, geralmente incorporada a estes novos municípios
(FERNANDES, 2010, p. 62).
Apesar deste fracionamento territorial ocorrido na Região de Guarapuava, em estudos
realizados pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicada, IPEA (2013) se comparados a extensão
territorial e a população, é evidente o crescimento populacional na região. O município de
Guarapuava em 1940 tinha área de 53.917,00 Km² com uma população de 96.235 habitantes. Na
década seguinte, 1950, tem-se um retrocesso populacional e uma perda territorial, oriundo de
desmembramentos de municípios, sendo 8.994,00 Km² de extensão territorial e 67.436 habitantes.
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
No ano de 1960, crescimento territorial para 11.672,00 Km² e população de 96.361 habitantes. Com
isso, o número de habitantes em Guarapuava em 1940 foi aproximadamente o mesmo número de
habitantes de 1960, considerando o intervalo de tempo no período, torna-se evidente a relação
número de habitantes e extensão territorial.
Ainda, referindo a aspectos da migração, a edição do Jornal Folha do Oeste de agosto de
1960 enfatiza a vinda de italianos com a reportagem denominada de “Agricultores italianos que
desejam migrar para o Brasil”: “Há um grande interesse (sic) na Itália demonstrado pelas
possibilidades oferecidas por nosso país no campo das atividades agro-pecuárias” (FOLHA DO
OESTE, 26/08/1951, p.2). Como o jornal apresentava os aspectos locais (Região de Guarapuava),
juntamente com os aspectos nacionais, este registro mencionado acima apontou que estes migrantes
tinham interesse em vir para o país, mas não se sabe se efetivamente vieram e se se instalaram no
município ou na região geográfica de abrangência de Guarapuava. Em outro trecho da mensagem o
aspecto do contexto pós-guerra também se faz presente : “número grupo de cidadãos italianos com
grande dificuldade de vida e a carência de terras cultiváveis em seu país, oferece-se para imigrar para
o Brasil em busca de maiores perspectivas econômicas” (FOLHA DO OESTE, 26/08/1951, p.2).
As premissas apontadas por Singer (1998) e Schörner (2009) no início deste, que as pessoas migram
motivadas pela busca por uma melhor condição de vida, evidencia-se no final do trecho “em busca
de maiores perspectivas econômicas”.
Outra edição do Jornal Folha do Oeste com menção a migração remete-se a julho de 1960.
O discurso presente na reportagem afirma o caos decorrente de um sistema precário de água e
esgoto na cidade de Guarapuava, que tem prejudicado o desenvolvimento local e motivando a
migração: “muitas famílias tem saído para outros rincões em busca de maior conforto” (FOLHA
DO OESTE, 03/07/1960, p.1). A reportagem afirma que nos anos anteriores do governo estadual
de Bento Munhoz, este governador não permitiu a execução de um projeto apresentado pelo
deputado Antonio Lustosa: “Tivéssemos naquela ocasião um governo ditado ao bem comum [...]
Guarapuava não estaria hoje sofrendo as desastrosas consequências de um serviço obsoleto”
(FOLHA DO OESTE, 03/07/1960, p.1). Pela não efetivação do projeto é notório que alguns
habitantes poderiam ter se mudado para outras localidades.
Outros processos migratórios menores foram demonstrados pelo Jornal Folha do Oeste com
colunas específicas para os hospedes e os viajantes do município e pela campanha “Onde você
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
estiver leia FOLHA DO OESTE” (FOLHA DO OESTE, 04/10/ 1953, p. 2). Em virtude disso,
acredita-se que o município possui muitos sujeitos guarapuavanos que se deslocaram para outras
localidades.
Considerações
No fim deste, retorna-se a premissa inicial do texto que geralmente possuíam pouco poder
aquisitivo e migravam buscando mudar condições materiais de existência. Como se percebe, têm-se
outros fatores envolvidos, apesar deste ser fator fundamental, não foi o único. Portanto, apresentamse dois aspectos motivados pelos processos migratórios, induzidos pelo discurso de desenvolvimento
econômico.
O primeiro foi os indícios de migração apresentados no Jornal Folha do Oeste que foram de
extrema importância, pois confirmaram que o tema migração se fazia presente em várias edições.
Entretanto destaque para o evento dos Suábios, por ser considerado um grande processo migratório,
notório para o município.
Outro fator considerável neste estudo foi o aumento de população na Região de Guarapuava,
apensar de seu fracionamento territorial nas décadas de 1950 e 1960 se comparados a 1940. Neste se
percebeu que não foi um processo natural, mas advindo de processos migratórios para Região de
Guarapuava.
Diante disso, pode-se afirmar que o município de Guarapuava teve fluxos migratórios neste
período. Através dos autores, Fernandes (2010) e Silva (2007), que corrobora que a Região de
Guarapuava teve migrações internas oriundas de estados vizinhos e migrações externas como a vinda
dos Suábios em 1951.
Referências
INSTITUTO DE PESQUISAS ECONÔMICAS APLICADA- IPEA. População residente total. Disponível em: <http://www.ipeadata.gov.br/>. Acesso em: 19 set. 2013.
FOLHA DO OESTE, 10/06/1951.
FOLHA DO OESTE, 26/08/1951.
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
FOLHA DO OESTE, 04/10/ 1953.
FOLHA DO OESTE, 03/07/1960.
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
SCHÖRNER, Ancelmo. Paranaenses em movimento: trajetórias e travessias migratórias (19802000). Guarapuava: UNICENTRO, 2009.
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
O PAPEL DO JORNAL PARANÁ-NORTE NA SOCIEDADE LONDRINENSE
1934 A 1953
Carlos Henrique Ferreira Leite
Orientador: Prof. Dr. José Miguel Arias Neto
(Especialização Patrimônio e História – Universidade Estadual de Londrina)
No presente trabalho, buscamos por meio de algumas considerações iniciais, analisar e
problematizar o papel do jornal Paraná-Norte na sociedade londrinense entre os anos de 1934 a 1953.
Fundado em 09 de outubro de 1934, o jornal foi o primeiro periódico a circular na cidade de
Londrina, somando dezenove anos de publicação, com sua última edição catalogada em 24 de
setembro de 1953139. São duas décadas que marcam um período inicial e de profundas
transformações urbanas, políticas, sociais e econômicas em Londrina.
A partir deste contexto, nos propomos identificar, qual foi o papel desempenhado pelo
Paraná-Norte nas transformações desta sociedade? Por quem e para qual tipo de público foi
produzido? A quem se dirige? Como se organiza e se constitui? O que veicula? Qual lugar ele ocupa?
Qual seu impacto na sociedade? E por fim, qual seu papel na sociedade londrinense?
Para esta análise, torna-se necessário em primeiro lugar, compreendermos a partir dos
estudos recentes, os limites e possibilidades dos jornais enquanto fonte e objeto de pesquisa
histórica.
A fonte jornalística como documento no trabalho do historiador não esteve presente desde o
início na historiografia. O uso do documento-jornal como fonte de pesquisa histórica e de análise
crítica se concretizou somente a partir das transformações no campo da historiografia nas últimas
décadas do século XX, com a renovação provocada pela “Nova História”. Peter Burke destaca que,
segundo o paradigma tradicional, o historiador positivista Leopold Von Ranke buscou limitar as
bases da história escrita em documentos oficiais, produzidos pelo governo e guardados em arquivos.
A resistência em escrever a história tendo a imprensa como documento, segundo a historiadora
Por meio da iniciativa dos funcionários do Museu Histórico de Londrina Pe. Carlos Weiss e do Centro de
Documentação de Pesquisa Histórica da Universidade Estadual de Londrina, foram reunidos 983 exemplares, estimando
um total de 1154 edições. Contudo, os levantamentos e pesquisas realizados pelas duas instituições, não possibilitaram
identificar a data de encerramento das atividades do jornal. Vale ressaltar que as edições catalogadas e disponíveis do
Paraná-Norte não correspondem a totalidade dos exemplares produzidos. Além de algumas edições não localizadas entre
os anos de 1934 a 1950, não foram encontrados exemplares dos anos de 1951 e 1952 e 1953, com exceção da edição de
24 de setembro de 1953, a última localizada.
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Tânia Regina de Luca, se explica pela permanência das tradições presentes na historiografia desde o
século XIX. A historiadora ressalta que:
“Não se pode desprezar o peso de certa tradição, dominante durante o século XIX
e as décadas iniciais do século XX, associada ao ideal de busca da verdade dos
fatos, que se julgava atingível por intermédio dos documentos, cuja natureza estava
longe de ser irrelevante. Para trazer à luz o acontecido, o historiador, livre de
qualquer envolvimento com seu objeto de estudo e senhor de métodos de crítica
textual, precisa, deveria valer-se de fontes marcadas pela objetividade, neutralidade,
fidedignidade, credibilidade, além de suficientemente distanciadas de seu próprio
tempo. Estabeleceu-se uma hierarquia qualitativa dos documentos para a qual o
especialista deveria estar atento. Nesse contexto, os jornais pareciam pouco
adequados para a recuperação do passado, uma vez que essas “enciclopédias do
cotidiano” continham registros fragmentários do presente, realizados sob o influxo
de interesses, compromissos e paixões. (LUCA, 2005, p. 112.)
Na década de 30, a crítica da Escola dos Annales à história metódica e positivista e
a reformulação na concepção de documento, não significou o reconhecimento dos jornais como
fonte-histórica. Os periódicos eram vistos como representações de imagens parciais, distorcidas e subjetivas. (LUCA,
2005, p. 112). Contudo as posições dos historiadores frente à fonte jornalística variavam de acordo
com as influências das teorias da história. A historiadora Maria Helena Rolim Capelato, identifica que
até a primeira metade do século XX, os historiadores brasileiros se relacionavam de duas formas
distintas frente ao documento-jornal, considerando-o como fonte suspeita, portanto sem validade, ou
como repositório da verdade, em que os fatos seriam totalmente verídicos. Estas concepções
entrariam em decadência, junto com a noção de documento como espelho da realidade, verdadeiro e
objetivo. A partir das mudanças na historiografia, com as contribuições de historiadores,
principalmente nos trabalhos de Michel Focault, a reflexão sobre o documento intensifica-se.
Segundo Capelato,
“O jornal é uma das principais fontes de informação histórica, merecedor,
portanto, de consideração dos historiadores, afirma José Honório Rodrigues. [...] A
historiografia mais recente tem refletido muito sobre o significado do documento e
foi a partir de redefinições nesse campo que as “suspeitas” contra a imprensa
desapareceram.” (CAPELATO, 1988, p. 20).
As concepções sobre a fonte jornal tomam novas perspectivas a partir da década
70, momento em que as renovações temáticas, transformações e críticas à história tradicional,
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
realizadas pela Nova História a partir de novos temas, objetos e abordagens, alteram não somente o
modo do fazer história, mas também a concepção sobre a análise e critica de novos documentos.
Desta forma, se os historiadores estão mais preocupados do que seus antecessores com uma maior
variedade de atividades humanas, devem examinar uma variedade maior de evidências (BURKE,
1992). Neste sentido, um estudo crítico da fonte jornalística permite ampliar os horizontes para
novas reflexões e problemáticas nos conhecimentos sobre as sociedades do passado.
O estudo crítico da fonte jornalística permite ampliar os horizontes para novas reflexões e
problemáticas nos conhecimentos sobre as sociedades do passado. Segundo a historiadora Maria
Helena Rolim Capelato, a imprensa oferece amplas possibilidades para a compreensão da vida
cotidiana nela registrada e do modo como viveram nossos antepassados. Ou seja, o jornal pode ser
visto e analisado como fonte de sua própria história, meio de expressão de idéias e depósito de
cultura, em que são encontrados dados sobre as sociedades do passado, seus usos e costumes,
informes sobre questões econômicas e políticas (CAPELATO, 1988).
Entretanto, outros estudos tem permitido ampliar a visão sobre a imprensa enquanto fonte,
em nosso caso, a mídia impressa, que não deve ser vista apenas como fonte de informação, mas
como força ativa (DARNTON, 1996) e seu papel como mediação (BARBERO, 1997) dentro do
contexto ao qual está inserida.
Neste sentido, qual o papel desempenhado pelo Paraná-Norte na sociedade Londrinense?
Em um breve estudo do jornal durante o seu período de circulação 1934-1953, identificamos
uma série de ações desenvolvidas pelo periódico nos âmbitos economicos, políticos e sociais, que
contribuíram para a concretização de grandes transformações estabelecidas na cidade nestas duas
décadas.
Entre 1934 e1941, durante alguns anos, o periódico foi o único veículo de comunicação a
circular em Londrina. No ano em que o Paraná-Norte foi fundado, a cidade se constituía como um
dos núcleos urbanos, posteriormente munícipio e sede administrativa da Companhia de Terras Norte
do Paraná (CTNP). O monopólio e o poder adquirido pelo grupo inglês nesse período foram
determinantes para o seu domínio em grande parte na região norte do Paraná em todas as esferas. A
possibilidade e as vantagens com a criação de um jornal, também estariam em pauta nos projetos
publicitários da CTNP. Além dos anúncios e panfletos, um periódico poderia ser utilizado pela Cia.
como um meio para propagar e representar seus interesses, além elaborar discursos propagandísticos
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
e ideológicos por meio dos editoriais e das propagandas. A partir da convergência de interesses entre
a Companhia de Terras, e o jornalista Humberto Puiggari Coutinho, que chegará na cidade em 1934,
o periódico é fundado em 09 de outubro daquele ano.
Com uma tiragem média de 500 exemplares, impresso na tipografia Oliveira e posteriormente
em uma tipografia própria de Humberto Coutinho, o periódico era vendido com assinaturas diárias,
mensais e anuais, e a sua circulação era semanal, geralmente com quatro páginas, teve distribuições
tanto na cidade de Londrina e região norte do Paraná, como também, registram-se o envio de
exemplares para outros estados como Minas Gerais e São Paulo. Além dos editoriais, propagandas e
anúncios, o jornal possuía colunas sociais, esportivas, cartas dos leitores, noticiários locais, nacionais
e internacionais. Até 1942, Coutinho permanece na direção do jornal, e a companhia como sua
principal financiadora.
Neste ano, o advogado José Hosken Novaes assume a direção, dando início a uma
fase que vai de 1942 a 1953 em que o periódico passou ao controle das elites londrinenses. De 1934
até 1944, houve uma continuação ininterrupta das propagandas e ideologias, que exaltavam a Cia. de
Terras como a grande colonizadora da região, buscando ressaltar o crescimento de desenvolvimento
da cidade de Londrina e do norte paranaense, como as obras e inaugurações dos calçamentos e
pavimentos da cidade, inauguração da emissora de rádio, da Associação Comercial de Londrina, do
Grêmio Londrinense, Coletoria federal, agências bancárias, assim como destaques para os bailes e
arrecadação de donativos para a construção da Santa Casa e outras construções públicas e privadas.
Na esfera política, as apologias ao governo Vargas tiveram continuidade, assim como a Manoel Ribas
e diversas homenagens comemorativas e natalícias a Willie Davids e Miguel Blasi.
Em Agosto de 1944, o jornal foi adquirido pelo comerciante Eufrosino L. Santiago e a
transformação ocorrida no periódico a partir deste ano, esteve associada as transformações ocorridas
na política e na sociedade londrinense, quando a CTNP deixa de ter o controle político, econômico e
social do município, sendo adquiria por um grupo nacional e transferindo suas ações para a cidade de
Maringá. Assume o controle do munícipio a nova classe dominante representada pelos fazendeiros,
pequenos industriais, comerciantes, especuladores imobiliários, e políticos (ADUM, 1991). Em uma
análise geral, a proposta de Eufrosino Santiago para o Paraná-Norte esteve direcionada em elaborar
um jornal mais “pacífico” e voltado para a família, para a informação e para o lazer, ou seja, o
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
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periódico tem aparentemente uma feição mais familiar e informativa e menos apologista, crítica e
política, como visto, nos períodos anteriores, além de se tornar bi semanário.
Os anos de 1945 a 1946 representam a fase mais crítica, política e particular do Paraná-Norte,
quando é adquirido por um grupo de opositores ao governo Vargas e suas políticas. O novo grupo
de cinco pessoas que assume a direção do Paraná-Norte a partir da edição de 06 de maio de 1945
aparece apenas na primeira página da edição de 20 de maio de 1945: José Hosken Novaes, Josino
Alves da Rocha Loures, Licinio Maragliano, Milton Ribeiro de Menezes e Moacyr Teixeira. A partir
de junho de 1945 entram mais três diretores: Edmundo Merce Junior, Ruy Ferraz de Carvalho e Ruy
Cunha. A campanha promovida pelos novos diretores, desde o início buscou associar o governo
Vargas aos regimes fascistas e nazistas, buscando demonstrar uma ilegitimidade e incompatibilidade
com o sistema democrático. Nas edições maio e junho de 1945, o editorial trouxe uma crítica aberta
ao DIP como um órgão fascista e as políticas de Vargas. Os ataques também foram direcionados a
Manoel Ribas. O grupo que adquiriu o jornal nesta fase, apoiando o partido republicano, buscou
utilizar o periódico com fins declaradamente políticos. Diferentemente dos períodos anteriores, com
elogios e apologias ao governo, o jornal desenvolveu uma intensa campanha contra a politica e o
regime ditatorial varguista.
Em paralelo aos ataques contra Vargas e suas políticas, o Paraná-Norte desenvolveu uma
intensa campanha visando a eleição para a presidência do brigadeiro Eduardo Gomes. Várias edições
buscaram ressaltar por meio de elogios e homenagens as qualidades e o caráter democrático do
candidato a presidência. Nas primeiras páginas do periódico durante este período, como podemos
identificar nesta edição de 20 de maio de 1945, foram inseridos em caixa alta acima do nome do
jornal, frases e comentários contra o governo e os integralistas, e de apoio a Eduardo Gomes. Na
edição de 09 de setembro de 1945 a frase em destaque descreve: “Votar em Eduardo Gomes é dever
de todos os brasileiros”. Assim o jornal também buscou incentivar os habitantes da região a
buscarem tirar o título eleitoral nos postos locais da UDN.
De 1946 a 1953, na última fase do Paraná-Norte (LEITE, 2012), o periódico volta a ter as
colunas sociais, esportivas e noticiários locais, nacionais e internacionais. A partir de 15 de julho de
1947, o jornal passa a ser diário com o aumento do preço das assinaturas. As propagandas buscaram
ressaltar a cidade de Londrina e região. No aspecto político, o partido republicano e seus candidatos
foram homenageados neste, com forte apoio do periódico para as candidaturas de Artur Bernardes
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
para presidente e Ernesto Cavalcante para prefeito de Londrina. Esta postura política do periódico
fica mais evidente, já que Josino Loures fez parte do grupo que adquiriu o Paraná-Norte
anteriormente, promovendo forte oposição a Vargas.
Neste breve histórico, considerando as transformações e conjunturas, torna-se possível
pensar de forma mais ampla, as relações entre o periódico e a cidade de Londrina, assim como o seu
papel nesta sociedade.
Como destacamos, uma das principais características do Paraná-Norte até 1944 são notadas
nas propagandas de vendas de terras na região pela CTNP e nos discursos e ideologias da
companhia. No caráter propagandístico, o jornal buscou retratar em diversas edições os “grandes
empreendimentos” e “investimentos” da CTNP na região. O mesmo podemos dizer sobre as
ideologias, que fizeram referência a esta com uma determinada reverencia como a “grande
colonizadora” e com enaltecimento de sua ação, mostrando sempre seu caráter “civilizatório” e
“progressista” (TOMAZZI, 1989). As propagandas feitas pela Cia. nos editoriais buscaram
demonstrar o crescimento e o desenvolvimento da cidade e da região. Na primeira edição, o
crescimento da cidade e medido pelo aumento do número de habitações e hotéis.
Os editoriais neste período também deram destaque para o crescimento jurídico de Londrina
como município (1934) e comarca em (1938) e as inaugurações casas comerciais, lojas, cinemas,
bancos, salas de cinema, teatros, campanhas pró-construção da Santa Casa, dentre outros. A cada
nova construção ou crescimento da infraestrutura da cidade como a instalação da luz elétrica, do
Aero Clube e fundações de Indústrias foram destaques nas primeiras páginas. As ideologias e
apologias a CTNP eram mais evidentes nas últimas páginas, as quais são apresentadas os feitos e as
conquistas da Companhia, assim como propagandas das terras em uma região “promissora” e
“progressista” tendo como centro a cidade de Londrina. Contudo o Paraná-Norte não expressou
apenas as questões propagandísticas e ideológicas, foi utilizado também como ferramenta política.
Além disso, a CTNP sempre buscou o alinhamento com as políticas do estado, na época dirigido
pelo interventor Manoel Ribas, nomeado por Getúlio Vargas. Dentro do contexto nacional, este
alinhamento entre Estado e Cia., é expresso no Paraná-Norte que traz em seus editoriais forte apoio
ao governo nacional, estadual e municipal com o prefeito Willie Davids, buscando aproximar estado
e sociedade.
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Neste sentido poderíamos pensar em um jornal produzido para um público específico,
direcionado para a elite, como os compradores de terras, grandes e pequenos proprietários, e grupos
influentes. Mas uma análise mais aprofundada, nos permite identificar as ações do periódico
buscando atingir um público mais amplo, se dirigindo para a/e como representante da sociedade
como um todo.
Em um trabalho realizado e publicado pelos jornalistas Paulo César Boni, Bruna
Komarchesqui e Natália Rodrigues (2010), analisam e destacam o papel do jornal Paraná-Norte na
construção da Santa Casa de Londrina. Por meio das campanhas feitas pelo periódico em finais da
década de 30 e início da década de 40, o autor utiliza como referencial teórico as teorias da comunicação
para o desenvolvimento, identificando a importante atuação do jornal na mobilização do público e das
autoridades para a arrecadação de fundos para a construção da Santa Casa:
“A Santa Casa, como afirma o jornalista Luís Lomba, “foi construída pelas mãos de
toda sociedade londrinense”, que se empenhou na viabilização deste
empreendimento de fundamental importância para a cidade – e cuja a implantação,
na época, era de extrema necessidade. Essa mobilização social, verificada no
contexto de sua construção, contou com a atuação do jornal Paraná-Norte, que
dentro deste processo, assumiu o papel incentivador das massas e questionador dos
rumos do projeto.” (BONI, KOMARCHESKI & RODRIGUES, 2010, P. 72)
A campanha produzida pelo periódico contribuiu diretamente para a construção do hospital.
Vale aqui ressaltarmos, a ligação do jornal com a Cia. de Terras que tinha seus interesses políticos e
economicos, e a construção de um hospital de grande porte contribuiria para o crescimento e
desenvolvimento da região. Não se trata de desconsiderarmos os benefícios que o hospital traria para
a população, mas um olhar para os interesses por trás das ações do periódico. Outras dezenas de
campanhas foram desenvolvidas visando reduzir ou amenizar os problemas correntes com o
crescimento populacional e espacial da cidade no decorrer dos anos.
A idéia de progresso ligada a noção de trabalho é também uma das marcas do jornal neste
período, vinculado ao contexto histórico da região norte do Paraná, em finais dos anos vinte e início
dos anos trinta, marcados pela ocupação e exploração das terras por companhias privadas, pela
integração da região no desenvolvimento do capitalismo no Brasil e pela busca de legitimação dos
grupos dominantes.
Considerando as afirmações de Iraci Galvão Sales
230
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
o conceito de progresso, presente em todo o pensamento da segunda metade do
século XIX, é a expressão do desenvolvimento do trabalho cuja noção necessita ser
recuperada em decorrência do próprio processo social de produção. [...] Está
imbrincado às transformações em ocorrência no social, internalização da economia
brasileira, desenvolvimento da vida urbana, construção de um sistema ferroviário,
intensificação das transações financeiras e comerciais. (SALLES, 1986, p.42)
E a cidade de Londrina é destacada com todos estes atributos elementares do progresso e do
trabalho no contexto nacional. Como destaca o historiador José Arias Neto (2008), grande parte das
empresas instaladas em Londrina, eram filiais ou representantes de empresas estrangeiras ou
nacionais sediadas principalmente em São Paulo, como as Casas Pernambucanas, Agencia Chevrolet,
Fuganti, Fontana & Cia dentre outras, o que demonstra o processo de ocupação do norte paranaense
integrado no polo do desenvolvimento capitalista. Na edição de 23 de setembro de 1945, o jornal
buscou demonstrar e atuar em outras dimensões do progresso da cidade além do “materialismo do
progresso econômico”, como as atividades exercidas pelos grupos dominantes na região. Os
destaques ao “trabalho” e ao “progresso” foram utilizados pelo jornal como atrativos para a vinda de
imigrantes e outros trabalhadores de diversas cidades e estados para Londrina, destacando como
recompensa a estadia na “terra da promissão” e a riqueza.
Por meio destas análises, como podemos identificar o papel do Paraná-Norte?
Segundo Robert Darnton, ao estudar o papel da imprensa na Revolução Francesa, relata que os
historiadores utilizam em geral a palavra impressa como registro do que aconteceu e não como um
ingrediente do acontecimento. O papel atuante da imprensa dentro dos processos históricos como
força ativa na história ajudou a dar forma aos eventos que registrava (DARNTON, 1996).
Assim podemos compreender em nosso estudo, que o Paraná-Norte, não apenas registrou os
fatos que ocorreram neste período, mas teve participação ativa e parte neste processo de
transformações.
“Questão central é a de enfrentar a reflexão sobre a historicidade da Imprensa,
problematizando suas articulações ao movimento geral, mas também a cada uma
das conjunturas específicas do longo processo de constituição, de construção,
consolidação e reinvenção do poder burguês nas sociedades modernas, e da lutas
por hegemonia nos muitos e diferentes momentos históricos do capitalismo. Pensar
a imprensa com esta perspectiva implica, em primeiro lugar, tomá-la como uma
força ativa da história do capitalismo e não como mero depositário de
acontecimentos nos diversos processos e conjunturas. Como indica Darnton, é
231
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preciso pensar sua inserção histórica enquanto força ativa da vida moderna, muito
mais ingrediente do processo do que registro dos acontecimentos, atuando na
constituição de nossos modos de vida, perspectivas e consciência histórica.”
(CRUZ, 2007, p.257)
Aqui buscamos demonstrar, que o periódico busca uma identificação com o público
londrinense, aliando-se ao contexto político nacional, por meio de suas ideologias. Considerando as
alterações na direção em relação ao contexto político nacional, é possível identificar o apoio aos
grupos que estão no poder. Apenas com o enfraquecimento do governo Vargas, e com o surgimento
do partido republicano, é que o jornal passa a apoiar o partido oposicionista.
Neste sentido, analisando a atuação do Paraná-Norte na sociedade e o lugar que ele ocupa
enquanto meio, ou seja, seu papel ativo, identificamos que o periódico teve um papel mediador. Por
meio tanto das campanhas com fins políticos, economicos ou ideológicos, é possível por meio das
interações e resultados, perceber a sua recepção e apropriação pela sociedade. Ao falar sobre o
processo de comunicação, Barbero retrata que
“ [...] a comunicação se tornou para nós questão de mediações mais que de meios,
questão de cultura e, portanto, não só de conhecimentos mas de re-conhecimento.
Um reconhecimento que foi,de início, operação de deslocamento metodológico
para re-ver o processo inteiro da comunicação a partir de seu outro lado, o da
recepção,o das resistências que aí têm seu lugar, o da apropriação a partir de seus
usos. (BARBERO, 2007, p.16)
“Entretanto, as histórias dos meios de comunicação continuam - com raras
exceções - dedicadas a estudar a "estrutura econômica" ou o "conteúdo ideológico"
dos meios, sem se propor minimamente ao estudo das mediações através das quais
os meios adquiriram materialidade institucional e densidade cultural, e nas quais
oscilamos entre parágrafos que parecem atribuir a dinâmica das mudanças
históricas à influência dos meios e outros em que estes são reduzidos a meros
instrumentos passivos nas mãos de uma classe dotada de quase tanta autonomia [...]
(BARBERO, 2007, p. 228)
Assim, compreendemos o jornal Paraná-Norte não apenas como um meio produzido por um
determinado grupo visando disseminar suas ideologias. Mas com um papel ativo e mediador na
sociedade londrinense. As campanhas e formas de atuação do periódico demostram o
direcionamento para um público mais abrangente, visando uma interação social, recepção e
apropriação, confirmadas nos resultados dos processos vinculados pelo jornal.
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Esta análise busca contribuir para um olhar mais crítico e aprofundado sobre os periódicos e
outras fontes midiáticas em suas relações com a sociedade de seu espaço e tempo.
Referências Bibliográficas
ADUM, Sônia Maria Sperandio Lopes. Imagens do Progresso: Civilização e Barbárie em Londrina –
1930/1960. Dissertação (Mestrado em História Social) – Faculdade de Ciências e Letras,
Universidade Estadual Paulista, Assis, 1991.
ARIAS NETO, José Miguel. O Eldorado: representações da política em Londrina, 1930- 1975. 2ª edição.
Londrina: Eduel, 2008.
BURKE, Peter (org.). A escrita da História: novas perspectivas. São Paulo: Unesp, 1992.
CAPELATO, Maria Helena. Imprensa e História do Brasil. São Paulo: Contexto/Edusp, 1988.
CRUZ, Heloisa de Faria; PEIXOTO, Maria do Rosário Cunha. Na oficina do historiador: conversas sobre
história e imprensa. Projeto História, São Paulo, PUC, nº 35, pp. 253-270, Disponível em
<http://www4.pucsp.br/projetohistoria/series/series3.html>. Acesso em 22 de jun. de 2013.
DARNTON, Robert e ROCHE, Daniel (orgs.). Revolução Impressa: A imprensa na França, 1775-1800.
São Paulo: Editora Universidade de São Paulo, 1996.
FILHO & NETO, Marinósio. História da Imprensa em Londrina. Londrina: UEL, 1991.
LEITE, Carlos Henrique F. A idéia de progresso na história de Londrina: Uma análise por meio do jornal
Paraná-Norte 1934-1953. Monografia (Graduação em História) – Centro de Letras e Ciências
Humanas, Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2012.
LUCA, Tânia Regina de. História dos, nos e por meio dos periódicos. In: PINSKY, Carla Bassanezi (org).
Fontes históricas. 2 ed. São Paulo: Contexto, 2006, pp. 111-153.
MARTÍN-BARBERO. Dos Meios às mediações. Comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: UFRJ,
1997.
SALLES, Iraci Galvão. Trabalho, progresso e a sociedade civilizada: o Partido Republicano Paulista e a política de
mão-de-obra (1870-1889). São Paulo: Hucitec, 1986.
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AS POLÍTICAS DE AUXÍLIO À LAVOURA AÇUCAREIRA NO SEGUNDO IMPÉRIO:
O CASO EMBLEMÁTICO DOS ENGENHOS CENTRAIS
Roberta Barros Meira
(Departamento de História-USP)
O presente artigo visa analisar o papel representado pelo Governo Imperial no processo
de modernização da indústria sacarina no final do século XIX. Ele centra sua análise sobre a lei 2687,
de 6 de novembro de 1875, no sentido de ilustrar a reação dos representantes da indústria açucareira,
- fossem eles estadistas, senhores de engenho ou técnicos -. Essa lei seria considerada uma das mais
importantes do período por tentar solucionar uma das principais demanda dos agricultores: crédito.
No entanto, o foco de interesse do trabalho prende-se a segunda parte da lei, ou seja, a concessão
feita pelo Governo Imperial de uma garantia de 7% de juros “às companhias que se propuserem a estabelecer
engenhos centrais para fabricar açúcar de cana”. Importa ressaltar que essa lei canalizou as principais queixas
e imprimiu novos rumos a legislatura açucareira vindoura. Assim, este artigo pretende discutir as
expectativas, tensões e mudanças decorrentes de uma política mais ativa por parte do Estado na sua
tentativa de recuperar um dos mais importantes produtos agrícolas do período.
A questão que se impõe relaciona-se ao ponto em que os senhores de engenho do Brasil,
despojado dos meios para fortalecer a sua produção agrícola, fruto de um processo de longa duração
gerado pela perda do mercado externo e baixa nos preços do açúcar, optaram por enxergar nos
engenhos centrais à materialização dos seus mais caros desejos. O empenho dos produtores de
açúcar do Brasil era perfeitamente explicável quando estes atores apresentam um conjunto de
indagações que tinham a Europa, os Estados Unidos e países como Java e Cuba, como a sua
principal referência de progresso. O ponto de apoio no qual se baseavam estas ideias de reforma era
no principio da divisão do trabalho, defendido com o mesmo espírito com que o faria Henrique
Milet durante o Congresso Agrícola do Recife, em 1878. O mais apoiado orador do Congresso
elogiava os plantadores de beterraba da Alemanha, França, Bélgica e Áustria-Hungria e o fato de não
serem por eles fabricados as 12.000.000 toneladas de açúcar. Deve-se estar ciente de que o açúcar de
beterraba já se colocava como o grande concorrente do açúcar de cana. 140
SOCIEDADE AUXILIADORA DA AGRICULTURA DE PERNAMBUCO. Trabalhos do Congresso Agrícola do
Recife em outubro de 1878. Recife: Typ. De Manoel Figueiroa de Faria & Filhos, 1879.
140
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Sabe-se que o açúcar produzido no Norte ainda dependia do mercado externo, para isto basta
verificar os minuciosos relatórios e trabalhos que viam na diminuição das exportações,
principalmente para a Inglaterra e os Estados Unidos, um sério problema. Não seria uma surpresa, sendo este o seu principal produto -, que se aludisse aos engenhos centrais, adotados nesses e em
outros países produtores de açúcar de cana, como uma maneira de reabilitar o Brasil para concorrer
no mercado mundial. O Auxiliador da Indústria Nacional chegaria a dispor os engenhos centrais
como uma revolução econômica.
O que chama mais atenção, todavia, é que esta preocupação e empenho em dividir em duas
partes a fabricação de açúcar no Brasil, - ou como ficaria mais conhecida este sistema produtivo “pela
simples expressão engenhos centrais”
141
-, encontrou importantes expoentes no Sul do país. Nomes como
Burlamaque, Rebouças, Pedro Pereira de Andrade, Luiz de Castilho, o Barão de Monte Cedro e
periódicos importantes como o Auxiliador da Indústria Nacional, o Jornal do Commercio do Rio de
Janeiro, a Revista Agrícola do Real Instituto Fluminense de Agricultura, dentre outros, defenderam
exaustivamente os engenhos centrais.
A centralização industrial e a descentralização agrícola desempenharia, no imaginário destes
atores, um importante papel ligado em grande parte às ideias de prosperidade e progresso.
Burlamaque ponderava que sem ela a indústria açucareira nunca poderia chegar ao seu “apogeu de
prosperidade” 142. Assim como Pedro Pereira de Andrade defendia que a divisão do trabalho é uma verdade
econômica que não se pode negar sem ruína.
143
O Jornal do Commercio citaria o sucesso da iniciativa de
Derosne & Cail, que se devia a divisão das operações do fabrico do açúcar em duas partes distintas: a
cultura e a fabricação do açúcar em si e que deu “os mais belos resultados, foi mais além do que se esperava”.
Este pensamento, de modo geral, teve que colocar em pauta questões econômicas, como a
escassez de capitais. A falta de crédito rural adequado agravava e prolongava as crises já consideradas
cíclicas144. Como a construção das fábricas centrais com o mais moderno maquinismo significaria um
investimento de um vulto nunca visto antes, criava-se um empecilho. Era um investimento com
despesas não pequenas, uma vez que, reunia gastos com maquinário, matéria-prima, combustível,
Retrospecto Comercial de 1874. Rio de Janeiro: Typographia Imperial e Constitucional de J. Villeneuve & C.;
Typographia do Jornal do Commercio de Rodrigues & C., 1874.
142 BURLAMAQUE, F. L. C. Monografia da cana de açúcar Rio de Janeiro: Typ. De N. L. Vianna e Filhos, 1862, p. 67.
143 ANDRADE, Pedro Pereira. Pequeno tratado da fabricação do assucar, Rio de Janeiro: Typ. do Diário de A & L.
Navarro, 1854.
144 LOBO, Eulália Maria Lahmeyer. História Político- Administrativa da agricultura brasileira: 1808-1889. Brasília:
Ministério da Agricultura, s.d.
141
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insumos, mão de obra especializada, etc., em um país cuja probabilidade de conseguir um
empréstimo para um empreendimento agrícola era reduzida. A inexistência de organizações de
crédito agrícola levou a defesa de organismos próprios de financiamento, como os bancos
territoriais. Ocorre que a criação de novos bancos contrariava aos interesses dos grandes
comerciantes, que já possuíam ligações com os bancos comercias existentes. Soma-se a este fato, o
crescimento das dificuldades do tesouro com as crises financeiras recorrentes no período do
Império, ou seja, os proprietários de terra continuaram a reclamar da falta de capital no país145.
Como se sabe, muitas manifestações em prol dos engenhos centrais aconteceram nos anos
anteriores à lei 2687146. A província de Pernambuco já ensaiava os primeiros passos em 1857,
autorizando a fundação de uma fábrica central de açúcar. Só anos mais tarde, em 1871, a Assembleia
Legislativa do Rio de Janeiro e a de Pernambuco passariam a conceder o auxílio da garantia de juros.
Estas províncias seriam seguidas por Bahia, Sergipe e Rio Grande do Norte, já em 1874.147
Porventura, alguns meses antes da lei que concedeu garantia de juros aos engenhos centrais, o
Governo Imperial se anteciparia através da lei 2658, de 29 de setembro de 1875, que concedia:
Isenções de direitos de importação para todos os materiais destinados à construção
e exploração dos engenhos centrais ou fábricas centrais, que tiverem sido ou forem
contratadas pelos governos provinciais ou pelo geral, fixada previamente a
quantidade e a qualidade dos materiais favorecidos com a isenção. 148
Sendo um dos primeiros cuidados do Governo aplacar a demanda dos agricultores por
crédito, o decreto de 6 de novembro concedia garantia de juros149 de até 5% ao ano ao banco de
145PIÑEIRO,
Théo L. Estado e Mercado Financeiro: O Banco do Brasil no Segundo Reinado. In: Anais do II Congresso
Brasileiro de História Econômica e 3ª Conferência Internacional de História de Empresas. Niterói: Associação Brasileira
de Pesquisadores em História Econômica/UFF, 1997, v. III, p. 171-184.
146 BRASIL. Coleção das leis do Império do Brasil de 1875. Tomo XXIV. V. 1. Rio de Janeiro: Tipographia nacional,
1876.
147 CANABRAVA, Alice P. “A grande lavoura” in: HOLANDA, Sérgio Buarque de (Ed.) História Geral da Civilização
Brasileira. O Brasil Monárquico – Declínio e queda do Império, t. II, v.6, Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997, p. 108.
148 BRASIL. Coleção das leis do Império do Brasil de 1875. Op. Cit.
149 O sistema de garantia de juros foi adotado primeiramente na Rússia, sendo imitado logo por outros países e pela
própria Inglaterra para a construção das primeiras ferrovias na Índia. Em 1834, Thomas Cockane apontaria a necessidade
de o Governo brasileiro auxiliar as concessões outorgadas para a criação ferrovias com a garantia de juros. No entanto,
isso só mudaria depois da lei nº 641, de 26 de junho de 1852, que garantiria os privilégios de zona e a garantia de juros.
Esse sistema funcionaria como um incentivo à formação de empresas fundamentais à economia que não tinham o capital
necessário para se estabelecer. Nesse caso, o Governo verificaria o capital necessário para a montagem dessas sociedades
anônimas e garantiria uma taxa regular e fixo de juros. Caso o empreendimento fosse deficitário, a garantia de juros
assegurava o rendimento do capital empregado. Se fosse lucrativo, a garantia podia ser dispensada. MATOS, Odilon
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crédito real que se fundasse no Império150. Neste mesmo decreto, o Governo Imperial garantia 7%
de juros aos engenhos centrais “às companhias que se propuserem a estabelecer engenhos centrais para fabricar
açúcar de cana”. O montante seria de trinta mil contos de réis. A distribuição seria feita pelas
províncias “em que se cultiva a cana, segundo a importância relativa de cada uma neste gênero, demonstrada pela
quantidade de açúcar exportado”. 151
Nos anos anteriores e mesmo posteriores à lei 2687, os senhores de engenho elegeram como
objeto de suas preocupações a forma como esses engenhos centrais deveriam ser montados e,
principalmente, qual seria o papel do Estado, frente os problemas enfrentados pela indústria sacarina.
Realmente, a lei aprovada em 6 de novembro de 1875, foi seguida de muitas queixas 152. Sabe-se que
vários senhores de engenho rebelaram-se tanto contra o desvirtuamento das propostas originais, apresentadas tanto pelos representantes da indústria açucareira do sul como do norte e por alguns
técnicos -, como contra o substitutivo senatorial proposto pelo Visconde de Inhomerim à resolução
elaborada pela comissão da Câmara temporária, dirigida pelo Visconde do Rio Branco.
Vale ressaltar que em um contexto de grande demanda de capitais para o investimento nos
modernos maquinismos, não soa estranho os incessantes reclamos dos senhores de engenho com o
pouco crédito oferecido para a agricultura em condições facilitadas, ou seja, juros baixos e
empréstimos de longo prazo. Todavia, tais conflitos não se restringirem a maneira como as
concessões foram distribuídas, mesmo que em um período de estagnação econômica da indústria
açucareira, o seu peso tenha sido muito maior do que em épocas de prosperidade. Os senhores de
engenho e técnicos também apoiaram as suas críticas à política agrícola do Governo ao descaso com
os outros pontos apresentados pela Comissão da Câmara, mas que vinham sendo levantados desde
muito pelos agricultores. Em verdade, há uma defesa explícita nos textos e relatórios de vários
estadistas, da necessidade da ação governamental para solucionar os cinco males153 que obstavam o
desenvolvimento da lavoura, apresentados pela comissão.
Não obstante o Estado atuar com certo empenho para proporcionar aos agricultores
instrumentos de financiamento de longo prazo, até mesmo a quantia estabelecida, - os trinta mil
Ferreira. “Vias de Comunicação” in: HOLANDA, Sérgio Buarque de (org) História Geral da Civilização Brasileira,
volume seis, Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997.
150 Esse banco deveria emprestar a taxa de juros limite de 7% e a prazo de 5 a 30 anos.
151 Brasil. Coleção de leis do Império do Brasil de 1875, Op. Cit.
152 Mello, Op. Cit.
153 Carência de mão de obra, de capital financeiro, meios de transportes, instrução agrícola e altos impostos.
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contos de réis -, e a forma como eles foram distribuídos não agradou os produtores. Em 1875, o
Auxiliador da Indústria Nacional, já defendia que a ideia dos engenhos centrais estava no espírito de
todos. No entanto, esses produtores precisavam de facilidade para levantar esses capitais, uma vez
que, só a província do Rio de Janeiro precisava “Não de três engenhos centrais, porém de 10 ou
mais”.154Henrique Milet, ligado diretamente à indústria açucareira pernambucana, frisava que só o
Norte precisaria de mais de 100 mil contos de réis
Sobre tudo isso, ainda, se soma a preocupação explícita dos senhores de engenho de se
apresentarem a si próprios como os fundadores das fábricas centrais. Sem dúvida, depois da falta de
resultado da lei de 1875, fortaleceu-se ainda mais a ideia de que os engenhos centrais deveriam ser
custeados pela associação dos próprios agricultores, que lhe mandariam as suas próprias canas, ou
por um senhor de engenho da região, abastecido penas canas produzidas localmente pelos
fornecedores.
Um artigo publicado no Auxiliador da Indústria Nacional chegou a defender que a fecunda ideia
de garantir juros às fábricas centrais foi completamente desvirtuada pelo Governo155. Alguns anos
antes à lei 2687, João José Carneiro da Silva, o Barão de Monte Cedro,
156
apoiava os grandes
fazendeiros de Campos a organizarem uma fábrica central, desenvolvendo o espírito de associação.
Por mais que se queira minimizar a influência da divulgação dos dividendos dos engenhos centrais
localizados na Martinica, Guadalupe, dentre outros, com seus maquinismos modernos e eficientes,
não há como ignorar o sentimento desses senhores de engenho, uma vez que, que esta questão figura
sempre como um dos temas principais do período. Não seria possível admitir que não fossem eles a
receber tais proventos depois de tantos anos de agonia. Um artigo publicado no jornal do
Commercio revelaria com uma percepção bastante acurada o que ocorreria se as concessões não
fossem dadas aos agricultores.
Os lucros da indústria ficariam na algibeira dos próprios plantadores, e não na do
interventor. (...) Os agricultores não querem animar empresas estrangeiras
administradas por pessoas estranhas à lavoura, afinal empresas industriais que não
poderiam lucrar, no final das contas, senão à custa do plantador, quando estes
O Auxiliador da Indústria Nacional, v. VLIII, 1875. Rio de Janeiro: Typ. Universal de Laemmert, p. 81.
O Auxiliador da Indústria Nacional, v. LVI, 1888. Rio de Janeiro: Typ. Universal de Laemmert, & C., p. 83.
156 CARNEIRO DA SILVA, João José (Barão de Monte Cedro). Estudos agrícolas. Rio de Janeiro: Typ. Acadêmica,
1872.
154
155
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reunindo-se poderiam chegar a idêntico sem repartir senão entre si os lucros da
indústria. 157
Por tudo o que foi visto até aqui, percebe-se que há nitidamente a existência de pelo menos
três vias que levaram a constantes críticas da política dos engenhos centrais: uma: a lei 2687 não
atender os principais reclamos da lavoura e se ater a incentivar em parte a construção de engenhos
centrais; a outra: a forma como a garantia de juros foi distribuída, privilegiando as companhias
estrangeiras ou pessoas estranhas à lavoura; e, a terceira: a centralização excessiva nas mãos do
Estado que impedia o desenvolvimento do associativismo no país, já presente desde 1860 com a lei
dos entraves;
Assim, a expectativa criada em torno deste novo sistema produtivo seria alta, ou seja, a reação
se daria na mesma proporção quando as concessões de garantia de juros às empresas geridas por
pessoas ligadas ao mundo dos negócios ou companhias estrangeiras apresentaram um péssimo
desempenho. Naturalmente, culpava-se o Estado sobre o qual pesava a responsabilidade de cuidar da
distribuição. E mais uma vez, esses agricultores apontavam a fragilidade da lei 2687, vendo no
Estado um obstáculo ao desenvolvimento almejado, seja ele qual fosse, - pequenos ou grandes
engenhos centrais. Como destacava o Auxiliador, como fruto desta política, o Brasil apenas colheu
fábricas desalentadas, que não representavam o resultado tão esperado. 158
Não foram poucas as concessões distribuídas. Gil Magalhães chegou a contar 50, afora 18
concessões já caducas. Isso somente no período entre 1876 a 1881. A relativa falta de controle por
parte do Estado
transformaria as concessões em um negócio extremamente proveitoso para
alguns especuladores, que enriqueceram com a venda dessas concessões para pessoas que tinham
interesse em realmente montar engenhos centrais.159 Referindo-se de forma bastante crítica e trocista
à estratégia do Governo Imperial, Antônio Gomes de Mattos contrapõe o que ele chamava de
engenhos centrais legítimos contra o estabelecimento de engenhos centrais especulativos. Para ele,
“Garantir, porém, juros, sobre capitais excessivos para o estabelecimento de engenhos centrais especulativos, à pretexto
de pretender curar a anemia da lavoura com sangria, é, relevar-se-nos a expressão: por o carro adiante dos bois ”. 160
Artigo do Jornal do Commércio reproduzido no Jornal do Agricultor. Rio de Janeiro: Typ. Carioca, fevereiro de 1887.
O Auxiliador da Indústria Nacional. Vol. XVI, 1888. Rio de Janeiro: Typ. Universal de Laemmert & C.
159 Lima Sobrinho, Op. Cit., p. 9.
160 Esboço de um manual para os fazendeiros de açúcar no Brasil por Antonio Gomes de Mattos. Rio de Janeiro: Typ.
Perseverança, 1882
157
158
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Com estes aspectos em mente, pode-se compreender as constantes mudanças feita na
legislação dos engenhos centrais. A realidade negativa que se formou em torno da lei 2687, obrigou o
Governo a ser mais exigente na distribuição de tais concessões. O próprio Ministro da Agricultura,
em 1888, João Ferreira de Moura, fundamentado nos maus resultados, desqualificaria a legislação
adotada:
Temos feito contratos onerosos ao Estado, e até aos concessionários, e por falta de
conhecimento do serviço, legislado inconvenientemente. Caro temos pago a
experiência de conceder engenhos centrais de alto valor a pessoas estranhas à
lavoura que só procuram lucro, sem preocupação de outra espécie. De tudo isso
convém que nós emendemos. 161
Naturalmente, ao tratar do problema da especulação, levantava-se a questão da fiscalização.
É possível que, novamente o Estado Imperial se espelhava nos resultados obtidos pelas ferrovias e
decidisse adotar o mesmo modus operandi, entre as quais figuraram juntamente com a garantia de juros,
a contratação de engenheiros fiscais.
Ademais, a fiscalização buscava resolver não só os problemas ligados à especulação, mas também
questões que foram se colocando com a construção desses fábricas centrais: falta de matéria-prima,
má instalação dos maquinismos, falta de mão de obra qualificada, dentro outros. Tratava-se, antes de
tudo de remediar os males mais sérios e abafar as manifestações dos descontes.
Como não poderia deixar de ser, a intervenção do Estado na indústria açucareira deveria ir
até o ponto que os senhores de engenho concordavam. Para além de questões, como capitais,
prêmios, estradas e impostos, tornava-se o reverso da medalha, ou seja, era visto como arbitrário. O
problema era que a lei 2687 ligava fortemente os engenhos centrais ao Governo Imperial, isto é,
qualquer tentativa de organizar fábricas centrais no Brasil dependeria evidentemente da sua
aprovação. Alguns agricultores chegaram a condenar a concentração das decisões e os ares de
monopólio da política adotada. Segundo a legislação aprovada, a concessão da garantia de juros 162
BRASIL. Relatório apresentado à Assembleia Geral na 1ª sessão da 19º legislatura pelo Ministro do estado dos
Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas João Ferreira de Moura. Rio de Janeiro: Imprensa nacional, 1889.
162 Além da garantia de juros, os concessionários tinham direito a outros favores. Neste caso, destacam-se as isenções de
direitos de importação sobre as máquinas, instrumentos, trilhos e mais objetos destinados ao serviço da fábrica;
preferência para aquisição de terrenos devolutos existentes no município, efetuando-se pelos preços mínimos da lei nº.
601 de 18 de setembro de 1850, se a companhia distribuísse por imigrantes que importar e estabelecer, não podendo,
porém vendê-los a estes devidamente a estes devidamente medidos e demarcados, por preço excedente ao que for
161
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estava subordinada a apresentação dos planos e o orçamento de todas as obras projetadas, os
desenhos de aparelhos, a descrição dos processos empregados no fabrico do açúcar, os contratos
celebrados com os fornecedores de cana, além da proibição de utilizar mão de obra escrava na
fábrica. 163
Ao fim e ao cabo, devido à falta de resultados da lei 2687, só restou mesmo ao Governo
Imperial mudar a sua política. Mas, ao contrário do esperado, os novos decretos teriam uma postura
ainda mais rígida. A aprovação do decreto nº. 8357, de 24 de dezembro de 1881, traria novas regras
para os pedidos de concessão. É justamente quando o Estado realmente procuraria instituir
importantes formas de controle, como o fato do valor da garantia passar a ser delimitado pela
capacidade do engenho.
164
Além disso, buscaria evitar a concorrência de fábricas dentro de uma
mesma zona, fazer a distribuição de forma mais equitativa do montante dos trinta mil contos entre as
províncias e, principalmente, criar uma fiscalização mais efetiva destas companhias. 165
A cada ano que se passava, a falta de resultados da lei 2687 chamava mais atenção. Em 1888,
o Jornal do Commercio anunciava aos seus leitores, que em 13 anos de execução, os resultados da
política dos engenhos centrais eram relativamente mesquinhos.166 Um ano depois, Amaro
Cavalcanti167 retomava o tema ao mostrar na sua “Resenha financeira do Ex-Império do Brasil” que raras
concessões tinham vingado até 1889, uma vez que, das 31 concessões ainda vigentes, somente 8
fábricas estavam em funcionamento. Segundo ele, o desanimo agravou-se ainda mais pela dureza do
regulamento de primeiro de dezembro de 1888, que instituía um prazo de garantia estreitíssimo e
exigências vexatórias.168 Uma autoridade estadual de Pernambuco chegaria a afirmar que estas leis
autorizado pelo Governo. DÉ CARLI, Gileno. Gênese e evolução da indústria açucareira em São Paulo. Rio de Janeiro:
Irmãos Pongetti Editores, 1943, p. 33-34.
163 A concessão para o estabelecimento de um engenho central , normalmente acompanhada da garantia de juros sobre o
capital a investir, se fazia por meio de decreto, através do Ministério da Agricultura. Prado, Op. Cit.
164Decreto nº. 8357, de 24 de dezembro de 1881: Artigo 2 - garantia de 500:000$000, se o engenho tiver capacidade para
moer diariamente até 200.000 quilos de cana e fabricar, durante a safra, calculada em 100 dias, até 1.000.000 de quilos de
açúcar; 750:000$000, se a capacidade se elevar até o duplo; e 1.000:000$000, se a capacidade se elevar até o quádruplo.
Brasil. Coleção das leis do império do Brasil de 1881. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1882.
165 Art. 23. O Governo nomeará pessoa idônea para fiscalizar as operações da companhia, a execução do contrato com
ela celebrado e o cumprimentos dos ajustes feitos com os proprietários agrícolas, plantadores e fornecedores de cana,
correndo as despesas da fiscalização, durante o prazo da garantia, por conta do Estado.Ibid.
166 Artigo publicado no Jornal do Commercio e reproduzido no Auxiliador da Indústria Nacional. Vol LVII, 1889. Rio
de Janeiro: Typ. Universal de Laemmert & C.
167 Amaro Cavalcanti era estadista, assumindo vários ministérios durante este período.
168 CAVALCANTI, Amaro. Resenha Financeira do Ex-Império do Brasil. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1890.
241
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
eram contraproducentes de tão severas, “se alguém pudesse oferecer garantias iguais, subsídios ou complementar
a construção, não procuraria o auxílio do Estado com tantas obrigações e exigências”.
169
Assim sendo, os decretos se sobrepunham uns aos outros, procurando uma forma de
dinamizar a implementação dos engenhos centrais. Os primeiros anos da República ainda trariam a
continuidade desta política. As estratégias passavam desde a obrigatoriedade da adoção do processo
da difusão em detrimento das moendas; a desobrigação do engenho central possuir canas próprias, o
estabelecimento de zonas restritas para cada concessão, - na tentativa de impedir a concorrência
entre as fábricas e minimizar a falta de matéria-prima -, o aumento do capital garantido para 60 mil
contos de réis, dentre outros. No entanto, com a continuidade das caducidades, o Governo
Republicano mudaria a política de auxílio, apagando aos poucos o rastro deixado pela legislação
Imperial, como no caso da fiscalização feita pelos engenheiros fiscais, suprimida em 1897. Assim, a
usina despontaria aos poucos, deixando para trás ideias como o associativismo e a centralização
agrícola e industrial; mas resguardando as inovações técnicas introduzidas tanto na parte fabril como
na agrícola.
Não resta dúvida, como colocava Diamanti, que o primeiro impulso fora dado e fora
suficiente.170 Alguns importantes engenhos centrais foram construídos mesmo sem contar com a
garantia de juros. Nesse contexto, os outros auxílios dados pelo Governo Imperial ficaram
obscurecidos pelas falhas que se associaram a lei 2687 com a febre especulativa. Em meios aos
debates disseminados neste momento, percebe-se a dificuldade de aplicar soluções bem sucedidas em
um lugar e muitas vezes inaplicáveis em outros, gerando muitas vezes medidas incoerentes ou
incompatíveis com a realidade. Isso não quer dizer que não houve uma transformação muito grande
da realidade da indústria açucareira neste instante e, consequentemente, acompanhada por um
aprimoramento desta legislação açucareira tantas vezes criticada. Entretanto, como pontua José
Gnnacarini, os atrasos e as delongas para que muitas destas políticas fossem colocadas em prática,
aprofundariam ainda mais a sensação de abandono e de “crise da lavoura”. 171
Apud. Eisenberg, p. 123.
Henri. Nota sobre a indústria açucareira no Brasil. In: PERRUCI, Gadiel. A República das Usinas. Rio
de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
171As estradas de ferro foram trazidas para o Brasil com um atraso de mais ou menos vinte anos. Já o surto de
modernização industrial no setor açucareiro ocorreu com um atraso de trinta anos em relações aos principais
concorrentes do Brasil. GNACCARINI, J.C. A. “A economia do açúcar: processo de trabalho e processo de
acumulação” in: FAUSTO Boris. (org) História Geral da Civilização Brasileira, volume oito, Rio de Janeiro:
BertrandBrasil, 1997, p. 107.
169
170DIAMANTI,
242
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Referências Bibliográficas
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_______. Coleção das leis do Império do Brasil. Rio de Janeiro: Tipographia nacional, Arquivo
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_______.Relatório apresentado à Assembleia Geral na 1ª sessão da 19º legislatura pelo Ministro do
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BURLAMAQUE, F. L. C. Monografia da cana de açúcar Rio de Janeiro: Typ. De N. L. Vianna e
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CAVALCANTI, Amaro. Resenha Financeira do Ex-Império do Brasil. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional,
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DÉ CARLI, Gileno. Gênese e evolução da indústria açucareira em São Paulo. Rio de Janeiro: Irmãos
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DIAMANTI, Henri. Nota sobre a indústria açucareira no Brasil. In: PERRUCI, Gadiel. A República
das Usinas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
GNACCARINI, J.C. A. “A economia do açúcar: processo de trabalho e processo de acumulação” in:
FAUSTO Boris. (org) História Geral da Civilização Brasileira, volume oito, Rio de Janeiro:
BertrandBrasil, 1997
Jornal do Agricultor. Rio de Janeiro: Typ. Carioca.
LOBO, Eulália Maria Lahmeyer. História Político- Administrativa da agricultura brasileira: 18081889. Brasília: Ministério da Agricultura, s.d.
MATOS, Odilon Ferreira. “Vias de Comunicação” in: HOLANDA, Sérgio Buarque de (org) História
Geral da Civilização Brasileira, volume seis, Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997.
243
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
O Auxiliador da Indústria Nacional (1875-1889)
PIÑEIRO, Théo L. Estado e Mercado Financeiro: O Banco do Brasil no Segundo Reinado. In:
Anais do II Congresso Brasileiro de História Econômica e 3ª Conferência Internacional de História
de Empresas. Niterói: Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica/UFF, 1997, v.
III, p. 171-184.
SOCIEDADE AUXILIADORA DA AGRICULTURA DE PERNAMBUCO. Trabalhos do
Congresso Agrícola do Recife em outubro de 1878. Recife: Typ. De Manoel Figueiroa de Faria &
Filhos, 1879.
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
CORPO FEMININO E DISCURSOS FEMINISTAS NO JORNAL MULHERIO SOB A
ÓTICA DA HISTÓRIA AMBIENTAL: UMA PERSPECTIVA
Lilian Soares do Nascimento (Mestrado em História Social pela Universidade Estadual de
Londrina)
Orientador: Gilmar Arruda
Este texto visa apontar um caminho possível de reflexões metodológicas que consideram
para a narrativa historiográfica a questão natural do corpo feminino como objeto de produções de
significados e de sentidos sob o aspecto político, promovidos por discursos feministas no Brasil na
década de 1980 - período em que o tema da sexualidade das mulheres passou a ser mais abertamente
discutido pelos veículos de comunicação. E para tais fins, utilizaremos como fonte de referência
explanatória o jornal alternativo feminista Mulherio.
Mulherio juntamente com Brasil Mulher e Nós Mulheres tem sido correntemente citado
como exemplo de imprensa alternativa feminista brasileira. Com maior tempo de duração que os
outros dois periódicos – tendo iniciado suas atividades em 1981 e encerrado em 1988 com 39
edições -, nascida dentro da Fundação Carlos Chagas (e tendo lá permanecido até 1984 com o apoio
da Fundação Ford) por um Conselho Editorial inicialmente composto por 16 mulheres e tendo sido
criada, portanto, no final do período da Ditadura Militar e permanecido atuante durante o processo
de redemocratização do país, Mulherio se diferencia dos outros dois jornais anteriores por possuir
um foco mais voltado para assuntos próprios da condição feminina, abordando com maior ênfase
temas até então pouco debatidos como o caso da sexualidade do corpo172.
Tratar o corpo como “ferramenta” não é novidade na História das sociedades ocidentais.
Questionar, todavia, os discursos que há tempos normatizaram qual a sua natureza e suas
consequentes funções foi uma das maiores contribuições dos discursos feministas para uma corrente
inquietação sobre as possibilidades de interpretações de um corpo que não criou a sua própria
natureza, mas, ao mesmo tempo, é capaz de reproduzir vidas.
Alguns fatores foram determinantes para que Mulherio pudesse se pautar mais nas questões próprias de gênero
enquanto Nós Mulheres e, principalmente Brasil Mulher, dedicavam-se mais em questões sociais e de classes. Segundo
Cardoso, o II Congresso da Mulher Paulista realizado em 1980 foi um marco de cisão na imprensa feminista, pois a
Esquerda (que visava a questão mais abrangente de desigualdade de classes) se afastou do movimento – por discordar de
militâncias específicas, próprias de gênero – de modo que ela passou a cuidar mais de assuntos vinculado às mulheres.
(CARDOSO, 2004, p. 40).
172
245
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Ao considerar a questão do corpo das mulheres para a compreensão das produções
discursivas feministas do Jornal Mulherio é importante questionar se há nesses periódicos a
existência de uma aparente dicotomia do ser feminino, enquanto matéria da natureza e, ao mesmo
tempo, objeto de criação humana, através dos poderes de normatização sociocultural que os
feminismos buscam desconstruir para fundamentar outros sentidos. De acordo com Swain:
“os feminismos, graças à sua pluralidade e dinamismo, penetraram as redes
discursivas do século XX, desafiando os regimes de verdade que instituem o
mundo e suas significações, tais como o corpo biológico (natural) e o papel social
(cultural)”. (2000, p. 48).
A desnaturalização de funções atribuídas ao corpo das mulheres provocadas pelos
movimentos feministas desestrutura e busca reformular a complexa e profunda rede de significados
que regularizam as organizações sociais. Para Butler, seguindo a linha de raciocínio de Foucault, “O
poder jurídico produz inevitavelmente o que alega meramente representar” (2003, p. 19). Segundo a
autora, a política e as leis em geral definem o que é o sujeito para depois ocultar essa formação
discursiva de forma que ela seja naturalizada e assim possa legitimar o próprio poder que a gerou.
Por esse aspecto, é pertinente considerar a premissa levantada pela História ambiental de que
somos seres naturais antes de nos tornarmos culturais, mas, irremediavelmente culturais ao empregar
significados a Natureza para buscar compreendê-la. Nas palavras de Worster:
“A natureza é uma ordem e um processo que nós não criamos, e ela continuará a
existir na nossa ausência. (...) Ainda assim, a natureza é também uma criação das
nossas mentes, e por mais que nos esforcemos para ver o que ela é objetivamente
em si mesma, por si mesma e para si mesma, em grande medida caímos presos nas
grades da nossa própria consciência e nas nossas redes de significados” (1991, p.
13).
As construções discursivas são, portanto, processos interpretativos complexos que fornecem
uma gama de direcionamentos para cada indivíduo que nasce em determinado meio social. De
acordo com Verón (1997, p. 378), esses discursos estão associados aos valores plurais das sociedades
que os produzem, mas o reconhecimento ou não de cada um deles está sob a condição do poder, das
instâncias capazes de legitimar ou não a sua divulgação e aceitação na sociedade.
246
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
As produções discursivas existentes podem ser legitimadas pelo poder de veículos
divulgadores enquanto outras permanecem periféricas – podendo ou não ascender socialmente constituindo uma versão alternativa sobre um mesmo dado por fornecer uma perspectiva diversa
daquela já legitimada. Segundo Barbero (1997, p. 291), porém, é preciso estar também atento às
mediações realizadas, à recepção daqueles a quem algo é oferecido, pois a recepção não se manifesta
no meio meramente como reprodução daquilo que é ofertado, mas também como produção.
Ou seja, é preciso estar atento aos conteúdos que são recriados, transformados por cada
indivíduo ou cada grupo social que o recebe e o utiliza de acordo com as suas próprias
interpretações, interesses e necessidades fomentando, assim, possibilidades de novas produções
discursivas que podem em muitos aspectos divergir daquelas originalmente produzidas e divulgadas.
Segundo Worster:
“As idéias variam de pessoa a pessoa dentro de uma sociedade de acordo com o
gênero, a classe, a raça e a região. Homens e mulheres, quase sempre separados em
esferas mais ou menos distintas, chegaram a modos distintos – por vezes
radicalmente distintos - de encarar a natureza” (1991, p. 14).
E é justamente nessa cadeia de concepções oficiais e periféricas de veículos divulgadores com
maior ou menor poder de alcance – e da complexa rede de possibilidades de recepção - que está
inserido o discurso da imprensa feminista brasileira do jornal Mulherio na década de 1980: como
uma fonte plural e alternativa de concepções de sentidos, valores e reivindicações sociais no que diz
respeito à condição das mulheres na sociedade. Segundo a primeira publicação do jornal:
“(...) Mulherio não terá uma posição pré-estabelecida sobre este ou aquele assunto –
seja planejamento familiar ou tendências no movimento feminista. Pretendemos,
sim, debater todos os problemas que afetam a mulher, abrindo espaço para a
discussão ampla das diferentes posições”. (Mulherio, 1981, ed. 0, p. 1).
No Brasil, os movimentos feministas organizados denominados de “segunda onda”
173
tem
início no período da Ditadura Militar em meados da década de 1970 e continham grande pluralidade
Tendo sido chamado de “Primeira Onda” os movimentos feministas do final do século XVIII e que perdurou até
inicio do século XIX caracterizado por lutas como educação universal, o direito ao trabalho remunerado e ao voto. A
“Segunda Onda” é determinada pelos movimentos feministas organizados surgidos em meados da década de 1960 na
França e Estados Unidos em que se pautavam questões propriamente de igualdade e discriminação com discussões
173
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
discursiva, que é uma característica própria desses movimentos, mas, também adquiriram atributos
próprios do momento político vivenciado pelo país. De forma ampla, porém, é possível afirmar que
os movimentos feministas se fundamentaram na luta pela emancipação social da mulher em
equiparidade com o homem. Cabe questionar, porém, se esta seria também uma busca de se
emancipar (supostamente como o homem) da Natureza, ou seja, das atividades “naturais” e
“imutáveis” que eram destinadas ao campo privado - no sentido de também superá-la174.
Isso porque os feminismos desde seu inicio se opunham a discursos legitimadores que
defendiam uma suposta impotência feminina de se desvincular de uma condição imposta a seu corpo
pela própria natureza que tornava desfavorável a sua atuação na esfera pública. A fala científica da
medicina do final do século XIX e início do século XX – conhecida como higienista/sanitarista -,
por exemplo, justificava as funções tradicionais atribuídas às mulheres ao fator biológico e que
estavam, portanto, irreversivelmente enraizadas na anatomia e fisiologia feminina. Deste modo, as
características sociais ideais da mulher era um espelho de sua condição biológica imutável175.
E é justamente nos feminismos chamados de segunda onda, quando a sexualidade do corpo
entra com maior ênfase nos debates, que é postulada uma cisão conceitual entre sexo e gênero, a
princípio tendo sido o primeiro considerado como um fator biológico, enquanto o segundo, uma
imposição sociocultural. Desta feita, encontram-se os mais plurais discursos feministas, como aqueles
que promovem uma igualdade universal para o sujeito mulher, a partir da identidade de um corpo
biológico semelhante que tem em comum útero, vagina, enquanto outros, separatistas, invocam a
ideia de que existem mulheres e mulheres, com identidades diferenciadas pela classe, raça, região ou
religiões e que promovem, por isso, sujeitos diferenciados e com necessidades específicas176.
Butler, em Problemas de gênero, para além das cisões entre sexo e gênero, questiona como as
críticas feministas poderiam se posicionar acerca da própria definição de sexo:
politizadas acerca das estruturas culturais e de poder sexistas, o que culminou na introdução de pautas relacionadas aos
direitos das mulheres em organismos internacionais. (PINTO, 2003).
174 Pela tradição ocidental apenas o espaço público era considerado como esfera política, ou seja, construída para e a
partir das atuações consideradas essencialmente humanas e, portanto, tidas como superiores às atividades naturais
impostas a todos os seres vivos, inclusive aos homens, que não poderiam delas se livrar e por isso foram resignadas ao
espaço privado. (ARENDT, 2010, p. 33)
175 “O útero definia a função social e as capacidades e limitações femininas, determinava seu comportamento emocional e
moral, produzindo um ser incapaz de raciocínios elaborados, abstrações e atividade intelectual, mais frágil do ponto de
vista físico e sedentário por natureza. A combinação de fragilidade intelectual e física e de sensibilidade emocional
tornava as mulheres preparadas para a procriação e a criação dos filhos”. (MATOS, 2003, p. 114).
176 Para uma maior compreensão sobre como surgiu e qual o uso da categoria gênero e de que forma tem sido trabalhada
na pesquisa histórica, ver: PEDRO, Joana Maria. Traduzindo o debate: o uso da categoria gênero na pesquisa
histórica. In HISTÓRIA, São Paulo, v. 24, N. 1, p. 77-98, 2005.
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“É ele natural, anatômico, cromossômico ou hormonal? (...) Se o caráter imutável
do sexo é contestável, talvez o próprio construto chamado ‘sexo’ seja tão
culturalmente construído quanto o gênero; a rigor, talvez o sexo sempre tenha sido
o gênero, de tal forma que a distinção entre sexo e gênero revela-se absolutamente
nenhuma” (2003, p. 25).
De todo o modo, embora plurais e em muitos aspectos conflitantes, seria possível afirmar
que nos mais variados embates feministas estariam a tentativa de se emancipar de uma suposta
Natureza aprisionadora? Seriam os discursos a favor de métodos contraceptivos, da legalização do
aborto, bem como do planejamento familiar e do desejo sexual feminino (desvinculado da mera
função reprodutiva) um meio para alcançar o poder de autonomia da mulher através do controle
sobre o próprio corpo? Estaria fundamentada nos feminismos uma busca por superação de uma
condição natural? Ou seria de uma natureza inventada? Ou quem sabe, de um ambiente social que
descrimina as singularidades próprias de um corpo subjugado?
Worster afirma que “(...) o historiador ambiental deseja saber que papel a natureza teve na
moldagem dos métodos produtivos e, inversamente, que impactos esses métodos tiveram na
natureza” (1991, p. 13). Reformulando essa questão podemos indagar que papel o corpo natural
feminino teve na moldagem de discursos feministas e, inversamente, que impactos esses discursos
podem ter sobre o corpo natural.
Através dos textos expostos nas páginas do jornal Mulherio, que ocorreram num período
relativamente breve, mas de intensa transformação política no Brasil, existiria a possibilidade de
encontrar respostas que remetem a questão do poder dos significados sobre o corpo e do corpo
sobre os significados? Incialmente elaborado por um Conselho editorial composto por dezesseis
mulheres, Mulherio em sua primeira edição deixa claro que “as matérias assinadas não expressam
necessariamente a opinião do Conselho Editorial e das editoras” (1981, p. 02), o que aponta, a
princípio, um espaço para pluralidades discursivas que podem expressar o pensar o corpo sob
diversos pontos de vista.
Em Mulherio, o corpo da mulher é apontado em temáticas variadas com perspectiva crítica e
analítica, mas não de maneira “sisuda” como alega a própria edição de número zero do jornal (1981,
p. 1). Questões como sexualidade são abordadas tanto por aspectos políticos quanto pessoais, como
é o caso do texto de Mariza Correa chamado “Em contraponto, ‘Capricho’ e ‘Mulherio’” (1981, ed.
249
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
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1, p. 14) em que a autora se opõe aos conselhos da Revista Capricho à carta de uma leitora
endereçada a primeira revista para saber se existe cirurgia de “correção de clitóris” para que pudesse
fazer antes do casamento por considerar o seu demasiado “saliente”.
É uma questão bastante pertinente, afinal, o que faz uma pessoa acreditar que algo natural em
seu corpo precise de uma “correção”? O que foi estipulado como padrão de normalidade para que
seu clitóris fugisse a esse modelo? Mulherio cria esse texto como uma forma de criticar a revista
Capricho - que incentiva a sua leitora procurar pela cirurgia - enquanto elabora a sua própria resposta
à carta, posicionando-se a favor da aceitação do corpo como ele é ao mesmo tempo em que
vislumbra essa cirurgia como uma verdadeira castração da sexualidade feminina:
“Sim, esta operação existe: ela foi inventada pelos médicos, no século passado, para
‘curar’ as manifestações da sexualidade feminina que fossem consideradas
desviantes dos rígidos padrões de comportamento impostos às mulheres daquela
época. (...) Ao descobrirem que o clitóris é uma zona particularmente sensível ao
corpo da mulher, os médicos criaram no Ocidente a clitoridectomia, além de outras
operações mutiladoras do corpo feminino. (...) o que se costuma chamar de
‘crescimento exagerado’ do clitóris pode ser simplesmente uma tentativa de reduzir
todas as mulheres a um mesmo padrão de conformação corporal”. (Mulherio, 1981,
ed. 1, p. 14).
Legitimar o debate público sobre as questões em volta da sexualidade era uma preocupação
do jornal, como reflete essa ilustração na edição número 2 do periódico:
(Mulherio, 1981, ed. 2, p. 22).
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Apontar para essa necessidade do jornal em legitimar a importância dos temas abordados –
como a sexualidade - é relevante porque as mudanças estruturais nas sociedades costumam ocorrer a
partir de um movimento mais lento, que é o tempo cultural, mas, analisar os discursos sobre o corpo
a partir da dinâmica própria do tempo político permite buscar pelas “ondas” das transformações e,
principalmente, das possibilidades, pois, como bem afirmou Guarinello (2004, p. 25), quando é que
ocorrem as grandes mudanças se não no dia a dia do cotidiano?
Talvez uma das questões mais pertinente a serem feitas seja esta: qual o poder dos discursos
sobre a natureza do corpo quando estabelece, diagnostica ou reivindica as suas verdades? De acordo
com Pádua (2010, p. 91): “o ser humano histórico está tão inescapavelmente imerso na cultura e na
linguagem quanto na ecosfera terrestre”. Bem, eu acrescentaria: “em cada poro”.
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MATOS, Maria Izilda Santos. Delineando corpos: as representações do feminino e do masculino no
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251
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
WORSTER, Donald. Para fazer história ambiental. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 4, n. 8,
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252
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“SECA, GEADA E FOGO”: UM BREVE RELATO SOBRE OS INCÊNDIOS DE 1963,
NO ESTADO DO PARANÁ
Letícia Aparecida da Paixão (Bolsista CAPES/PPH/UEM)
Angelo Priori (Orientador/PPH/UEM)
O objetivo desse texto é realizar um breve relato sobre os incêndios florestais ocorridos no ano de
1963 no Estado do Paraná, para tanto realizaremos um balanço dos seus desdobramentos ambientais
e sociais. Nesse ano ocorreu uma longa seca, seguida de geada e incêndios florestais que abalou o
campo paranaense, chegando a consequências trágicas, como a morte de 110 pessoas e a destruição
de mais de 600 mil alqueires de florestas e plantações, além de casas, sítios e paióis. Pouco restou da
paisagem rural e reservas florestais, nativas e cultivadas, dos municípios situados na rota do flagelo.
Para essa análise utilizaremos a metodologia da história ambiental, que atualmente vem ganhando
importância nas pesquisas históricas. Os materiais utilizados para este relato são os dados oficiais do
Estado do Paraná encontrados no relatório “Paraná: do flagelo à recuperação” e notícias do jornal
“Folha de Londrina”. Pretende-se, assim, ampliar a análise de um tema pouco estudado, além de
aprofundar o conhecimento sobre a relação do homem com a natureza.
ANTECEDENTES: AS GEADAS
O ano de 1963 foi consagrado pela literatura climatológica como um dos mais secos do
século passado, na região Centro-Sul do Brasil (apud: RIBEIRO, 1984, p. 25). Os Estados de São
Paulo e Paraná foram os que mais sofreram com a prolongada estiagem. Deve-se considerar também
que a falta de chuva foi agravada pelas fortes geadas que ocorreram durante a primeira quinzena de
agosto.
De acordo com Ribeiro (1984), a evolução do quadro climatológico no ano de 1963 pode
ser considerada normal até meados do mês de abril, período em que as chuvas ficam escassas e
desaparecem até o final do ano. Porém, o inverno de 1963 pode ser considerado atípico quando
analisamos as secas e as geadas desse ano:
Cronologicamente a “onda de frio” vem em primeiro lugar. Está ligada à invasão
polar de fluxo rápido e contínuo que atravessou toda região entre 4 e 8 de agosto
levou a Frente Polar Atlântica até a Baía de Todos os Santos. O caráter rápido da
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invasão, a fraqueza das precipitações frontais implicaram um declínio da umidade,
na limpeza do céu e, consequentemente, na forte amplitude diária, que culminou
em resfriamento intensos nas madrugadas dos dias 5, 6 e 7, quando ocorreram
geadas. As mínimas foram de 0 em Londrina e chegaram a -7 em Guaravera (apud
RIBEIRO, 1984, p. 25-26).
Ribeiro (1984), afirma que a sequência estiagem-geada-estiagem criou o ambiente favorável
à propagação do fogo. Por ser um método de baixo custo e resultado imediato, o fogo é utilizado no
final do inverno para renovar as pastagens e para a abertura de novas terras para plantios.
No início do mês de agosto de 1963 as temperaturas baixaram de modo considerável no
Paraná. Com médias registradas abaixo de 0, o resultado foi geadas semelhantes às de 1953 e 1955.
Consequentemente a lavoura cafeeira foi queimada, bem como o resto de toda a área agrícola do
Estado, o que representou um grande prejuízo na economia do Estado.
Segundo o jornal Folha de Londrina, do dia 07 de agosto de 1963, a queda de temperatura
resultou em uma perda de 50% dos cafezais paranaense. A produção da safra que era estimada em 15
milhões de sacas ficou reduzida à metade, gerando um prejuízo de aproximadamente 100 bilhões de
Cruzeiros.
Em consequência das geadas milhares de lavradores ficaram sem emprego. A estimativa era
que cerca de 1 milhão de pessoas ficaram desempregadas (FOLHA DE LONDRINA, 11. Ago.
1963).
A responsabilidade pela política econômica do café cabia ao Instituto Brasileiro do Café
(IBC). O presidente da autarquia, o senador Nelson Maculan, foi até o Paraná para observar a
situação das lavouras cafeeiras e fazer um levantamento dos prejuízos das geadas, para buscar junto
ao Governo Federal uma política de diversificação das culturas e subsídios para atender a classe dos
agricultores.
A estimativa do governador do Estado foi de que um milhão de pessoas foram atingidas
pelas geadas (FOLHA DE LONDRINA, 03.Set. 1963). Se caso não houvesse medidas para atender
a população paranaense, o restante do país seria também atingido, uma vez sendo dependente da
produção de café do Paraná.
Contudo, não foi somente a lavoura cafeeira atingida pelas geadas. As pastagens e a própria
cultura da cana de açúcar foram afetadas, uma vez que já vinham sendo castigadas pela estiagem.
Seus danos somaram-se para agravar a situação do lavrador paranaense.
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OS INCÊNDIOS
“Sêca, geada e fogo. Êste o ano da penitência! O demônio reinou por aqui
e trouxe todo o fogo do inferno com ele” (PARANÁ, 1964, p.16)
No dia 14 de agosto de 1963 foi noticiado os primeiros focos de incêndios em Guaravera,
Paiquerê e Tamarana, distritos do município de Londrina. Segundo o jornal Folha de Londrina, foi
atingido cerca de 5 mil alqueires de matas e plantações. Não houve vítimas, porém, os prejuízos
foram alarmantes. Lavouras e casas foram consumidas pelo fogo e animais domésticos foram
queimados.
O relatório elaborado pelo Governo narra alguns casos de piromania. Um exemplo
significativo foi denunciado pelo administrador do Parque Florestal de Irati, do Instituto Nacional do
Pinho. O parque contava com uma excelente vegetação, 4 milhões de pés de coníferas, e os cuidados
com o fogo foram enormes durante a fase dos incêndios. No fundo do parque havia uma linha
ferroviária movida a carvão, a cada passagem do trem, um vigia de bicicleta, acompanhava o
comboio, apagando os focos gerados pelas fagulhas da chaminé. Duas vezes o vigia viu o maquinista
lançar sobre a margem da estrada, estopas acessas, agindo assim, criminosamente no sentido de
provocar incêndios (PARANÁ, 1964, p. 12)
As regiões do Estado mais densamente atingidas foram os municípios de Ortigueira, Curuiva,
Tibagí, Sapopema, Arapoti, Cândido Abreu, Barbosa Ferraz, Reserva, Ivaiporã, Roncador, Palmital,
Pitanga e Inajá, numa área de 16 mil quilômetros quadrados, ou seja, 640 mil alqueires de terras
(PARANÁ, 1964, p.12).
A região central do Paraná contava com uma vasta área florestal que foi destruída
parcialmente pelos incêndios. Por exemplo, dos 55 mil alqueires que constituem a área do município
de Arapoti mais de 30 mil eram cobertos de pinheiros, naturais e cultivados, que abasteciam a fábrica
das Indústrias Brasileiras de Papel S.A.. O fogo atingiu 90% do seu território queimando cerca de 25
milhões de pinheiros (PARANÁ, 1964).
As fazendas das Indústrias Matarazzo, no Rio do Peixe e no Rio das Cinzas, foram destruídos
vinte milhões de pinheiros cultivados, de oito a dezesseis anos, acarretando uma perda de centenas
de milhões de cruzeiros.
O flagelo se estendeu aos municípios de Sengés e Jaguariaíva. Neste último, queimaram-se
quinze milhões de pinheiros cultivados da reserva florestal da firma Sguario, proprietária da fábrica
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de pasta mecânica, no distrito de Bertanholi. A catástrofe terrível deixou, em Arapoti e Jaguariaíva,
um trágico saldo de 27 mortos e 14 feridos. Vinte famílias perderam suas casas e todos os seus
pertences (PARANÁ, 1964, p. 17).
O relatório do governo apontou que o município de Ortigueira foi o mais assolado. Teve
cerca de 90% de seu território atingido pelo fogo. Natingui, seu mais rico e populoso distrito, foi
arrasado pelo fogo em apenas um dia. Quinhentas famílias ficaram sem teto. O rebanho de suínos foi
dizimado em torno de 50%. A indústria extrativa de madeira sofreu danos vultosos, com a queima de
imensas reservas florestais.
Mais de 70% das reservas florestais de posse das Indústrias Klabin de Papel e Celulose,
cultivadas na Fazenda Monte Alegre, no município de Tibagi, foram atingidas pelo fogo. Cerca de
200 milhões de pinheiros foram queimados. Além dos pinheirais de Monte Alegre, a indústria
possuía reservas nos municípios de Roncador e Campina da Lagoa. Que também foram quase
totalmente destruídos como demonstrado na tabela abaixo:
Segundo o relatório “Paraná: Do Flagelo a Recuperação”, 90% do patrimônio da fábrica foi
destruído pelo fogo, contando com a área de reflorestamento, instalações como a serraria, que foi
totalmente destruída, bem como grande quantidade de matéria prima pronta para uso.
A zona rural de Curiúva teve 80% de sua área arrasada. O fogo destruiu 139 casas, 50
ranchos e 68 mil hectares de matas e lavouras a colher, centenas de paióis de milho, mil cabeças de
suíno. Além de outras criações. 189 famílias ficaram desabrigadas e 23 pessoas perderam a vida
(PARANÁ, 1964, p. 22).
Os incêndios representaram um desfalque no patrimônio florestal nativo e industrializado
do Estado. A região produtora de café do norte do Paraná também foi densamente atingida. Os
incêndios devastaram extensas áreas rurais, atingindo matas, plantações, animais, instalações,
máquinas agrícolas.
A extensão dos danos causados pelo fogo foi maior nos municípios de Londrina, Cianorte,
Maringá, Umuarama, Astorga, São Jerônimo da Serra, Sabáudia, Apucarana e Ivaiporã. (FOLHA DE
LONDRINA, 24. Ago. 1963)
Nesse mesmo dia o jornal Folha de Londrina informou que uma área de mil alqueires de
matas e lavouras de café foi inteiramente consumida em Astorga, devastando as propriedades de
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Júlio e Otávio Genta. O fogo destruiu também uma ponte de 50 metros sobre o Rio Pirapó, que
ligava Astorga a Mandaguari, interrompendo as comunicações nesse trecho, que era uma das mais
férteis regiões agrícolas do Estado. Em função dos incêndios iniciou-se o êxodo de trabalhadores
rurais para a cidade. A situação era de desespero, famílias de lavradores astorguenses se reuniam em
procissão com imagens de santos, pedindo o fim da estiagem e dos incêndios.
No norte/noroeste paranaense as grandes frentes de fogo de concentraram nos municípios
de Peabiru, Campo Mourão e Cruzeiro do Oeste.
Em Peabiru, 60% dos cafezais que não atingidos pelas geadas, foram destruídos totalmente
pelo fogo. No município de Campo Mourão, a Usina Mourão, teve danificado pelas chamas 3.453
sacas de cimento, além de quase todas as suas dependências. Na cidade de Inajá, que esteve perto de
ser totalmente destruída, mais de 80 pessoas ficaram feridas no combate às chamas. Tendo o fogo
conseguido alcançar inúmeras fazendas da zona rural do município, onde causaram prejuízos da
ordem de Cr$ 10 milhões. Uma reserva de 20 alqueires de pinheiros foi totalmente devastada
(PARANÁ, 1963, p. 30).
Porém, as primeiras gotas de chuva caíram somente no final do mês de agosto. Mas, não
foram suficientes para apagar o fogo. Nas regiões onde não ocorreram as precipitações,
principalmente o norte do Paraná, o fogo continuou a arder, porém em menor intensidade.
Os incêndios causaram uma grande dívida aos cofres do Paraná. Consumiram plantações,
matas, casas, animais, implementos agrícolas, deixaram milhares de pessoas desempregadas, sem
residência e sem renda. Calculava-se 200 milhões de cruzeiros aproximadamente o montante das
perdas causadas pelo fogo no território.
Quanto ao número de mortos há divergências. Um levantamento realizado pela Secretaria
do Trabalho e Assistência Social estimou que 89 pessoas morreram em consequência dos incêndios.
Sendo 35 o número de perda de vidas humanas em Curiúva; 26 em Ortigueira; 8 em Ibati; 6 em
Cândido de Abreu; 5 em Reserva; 3 em cada um dos municípios de Inajá, Sengés e Guarapuava
(FOLHA DE LONDRINA, 09. Set.1963). Já o relatório elaborado pelo governo do Paraná, estimou
que o número de mortos chegou a mais de cem pessoas.
O drama da população paranaense era relatado através da imprensa:
O Inferno existe. Eu sei disso porque vim de lá. Na área compreendida pelos rios
Paranapanema, Ivaí e Piquiri, o diabo fundou a Sucursal do Inferno. Podia sentir a
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intensidade do drama nos olhos do homem estático, à beira do corredor fumegante.
Sem casa, sem roça, sem animais. Sem fé, nem esperança. Perdera ele a batalha do
fogo, derrotado que já havia sido pela geada. Disse-lhe que o Governo tomaria
providências de amparo e auxílio. Ele meneou a cabeça, descoroçoado, e sorriu
triste. Se o Governo falhasse, prosseguiu, Deus viria em socorro dos flagelados. A
resposta foi de estarrecer: “Moço, não acredito mais em Governo, nem em Deus
(...)” (O Estado do Paraná, 1963 apud PARANÁ, 1964, p. 23)
E também foi relatado nos versos do cantor e compositor João do Vale em parceria com
Helena Gonzaga, na música Fogo no Paraná (1965), que conta a história de uma família que se mudou
para o Paraná, mas num é pra "enricar" não (...) é só pra viver
(...) aquele fogo maldito... que o Paraná quase engole... José lutava com ele...
acompanhado da prole... vós misse fiquem sabendo... que José nunca foi mole (...)
INTERVENÇÕES DO GOVERNO ESTADUAL
Diante da situação que se encontrava o Estado do Paraná, a preocupação inicial do
governador Ney Braga foi prestar assistência à população assolada pelos incêndios. O governador
ordenou a todos os setores da administração a adoção imediata de providências que poderiam fazer
frente ao flagelo. Das Secretarias de Segurança Pública às de Saúde e do Trabalho, além do trabalho
de assessores da máquina administrativa, o Governo se empenhou em conter uma tragédia ainda
maior (PARANÁ, 1964).
Em 28 de Agosto de 1963, tomando consciência do fenômeno que abatia o Paraná, os
deputados aprovaram por unanimidade a decretação do Estado de Calamidade Pública. Levaram em
conta as consequências das geadas, o fogo que se alastrava e principalmente o agravamento do
problema social, o desemprego. Que consequentemente gerou a paralisação quase total das
atividades agrícolas:
(...) vive o Paraná momentos difíceis; está a braços do desespero que se espalha por
toda a região assolada, com o desemprego de mais de 200 mil famílias; com sua
economia severamente enfraquecida, como efeito da destruição de seus produtos
básicos; necessita ir ao encontro de imediato dos flagelados, atirados ao desabrigo, a
miséria, e a toda sorte e infortúnios (PARANÁ, 1964, p. 47)
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O deputado Agostinho Rodrigues (PTB), presidente da Assembleia Legislativa, promulgou
o decreto que declarou o Paraná em estado de Calamidade Pública. Tinha a esperança de que o povo,
os políticos e os dirigentes, unidos, conseguiriam recuperar-se social e economicamente o Paraná.
As ações proposta pelo Governo contou com a ajuda da Polícia Militar do Estado, do
Corpo de Bombeiros, das Secretárias de Segurança e Saúde, das forças federais (Aeronáutica e
Exército), de outros Estados e de outros países.
O Paraná recebeu ainda auxílio dos Estados Unidos. Em 11 de outubro, o governado Ney
Braga assinou um convênio com a Agência Internacional de Desenvolvimento (AID) e Comissão
Coordenadora da “Aliança Para o Progresso” (COCAP), da ordem de Cr$ 300 milhões, destinados à
assistência de técnicos estadunidenses em agricultura, para auxiliar num programa de
desenvolvimento no Paraná (PARANÁ, 1964, p. 73)
Os técnicos estadunidenses constataram que a única solução para acabar com os incêndios
no Paraná seria a chuva. Caso contrário ele continuaria incessantes. Concluíram que os incêndios
foram gerados pelas queimadas para plantio posterior, porém, elas fugiram do controle. E finalizam
que sua missão nesse caso seria de orientar o lavrador paranaense como debelar o fogo por meio de
filmes e materiais áudios-visuais que foram apresentados em seminários realizados no território
paranaense (PARANÁ, 1964)
O governador Ney Braga, diante da situação que se encontrava a população paranaense,
baixou o decreto que instituía como utilidade pública, a “Campanha Socorro ao Paraná em Flagelo”.
De caráter apolítico, tinha como finalidade a coordenação e mobilização de recursos para atender às
populações atingidas.
O socorro aos flagelados chegou de diversas partes do Brasil, bem como de diversas partes
do mundo. Foram enviados ao Paraná medicamentos, leite em pó, farinha de trigo, bulgor, fubá,
azeite comestível, manteiga, queixo, bacalhau, leite condensado, presunto em latas, roupas, calçados e
plasma sanguíneo, dos seguintes países: Noruega, Rússia, Estado do Vaticano, Itália, Estados Unidos
da América, Suíça, Israel, Canadá, Inglaterra, China, Bélgica, Holanda, França, Espanha, Alemanha,
Polônia, Japão e Tchecoslováquia. Conforme notícias publicadas no decorrer do mês de setembro de
1963, no jornal Folha de Londrina.
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Na fase final de aplicação dos recursos o setor executivo da campanha “Socorro ao Paraná
em Flagelo” foi transferido para a Cáritas Brasileira (Conferência dos Bispos) que com a colaboração
das comunidades evangélicas, se responsabilizaram pelo atendimento dos flagelados.
A Cáritas do Brasil se incumbiu do atendimento ao flagelados. Enviaram alimentos,
medicamentos, utensílios domésticos, ferramentas de lavouras e roupas para as regiões assoladas pelo
fogo. As regiões foram divididas em seis: Ponta Grossa, Guarapuava, Cascavel, Campo Mourão,
Paranavaí e Londrina (PARANÁ, 1964).
Para a aquisição de ferramentas para a lavoura (machados, plantadeiras, foices, facões,
ancinhos, enxadas, pás, cortadeira, limas) foi destinado uma quantia de aproximadamente Cr$
15.567.200,00 (PARANÁ, 1964).
Algumas multinacionais instaladas no Brasil, também prestaram ajuda:
A General Eletric S.A., em expressão sincera de solidariedade com o Paraná, ora
sofrendo com a calamidade dolorosa, deixa através da filial que possuem na Capital
paranaense, à disposição daquele Govêrno, a importância de 2 milhões de cruzeiros
destinados às vítimas dessa região. O telegrama é assinado pelo vice-presidente e
gerente geral, Howard Mc Cullugh” (FOLHA DE LONDRINA, 13.Set.1963)
Documentos foram expedidos pelo governador para conseguir junto ao governo Federal
recursos para sanar os efeitos dos incêndios, principalmente no setor da lavoura e na assistência da
população atingida. Enfatizando a necessidade de providências imediatas por parte do Governo
Federal, em decorrência da grave crise social gerada pelos incêndios.
Em expediente enviado ao presidente João Goulart, o governador Ney Braga enviou um
memorial descritivo sobre a situação do Estado. Onde enumerou os setores que requeriam
atendimentos urgentes.
No memorial constava o pedido da quantia de Cr$ 1.000.000.000,00 (um bilhão de
cruzeiros) destinada à assistência dos flagelados, na aquisição de sementes e na melhoria das
condições de produtividade da lavoura (PARANÁ, 1964, p. 50)
Junto ao memorial descritivo o governador Ney Braga enviou o Memorial da Lavoura
Cafeeira, que deveria ser objeto de decisão imediata. Os itens que necessitavam de atendimento
urgente eram:
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a) A reformulação do Esquema Financeiro da safra 1963 – 1964. Elevando os preços internos e
estabelecimento de ágio para as sacas de café adquiridas pelo IBC (PARANÁ, 1964, p.50)
b) Descasamento da série do equilíbrio incluindo o tipo 7, isoladamente com deságio de preço
equivalente, para permitir o escoamento de cafés chuvados e geados da safra 1962 – 1963, bem como
os da safra atual (PARANÁ, 1964, p.51)
c) Atualização das bases de financiamento de erradicação de cafeeiros e diversificação da cultura
(PARANÁ, 1964, p.51)
d) Estabelecimento de preços mínimos médios para produtos agrícolas, iguais para todas as regiões
produtoras e não produtoras (PARANÁ, 1964, p.51)
Para o GERCA (Grupo Executivo da Racionalização da Cafeicultura) o governador do
Paraná solicitava o empréstimo de Cr$ 1.567.000.000,00 (um bilhão, quinhentos e sessenta e sete
milhões de cruzeiros) para aquisição de sementes destinadas aos lavradores (PARANÁ, 1964, p.51)
Solicitou, também, uma quota do fundo de defesa do café. A quota seria de Cr$ 250,00 por
saca de café produzida na safra 1962-1963 (PARANÁ, 1964, p. 51)
Por fim, o total da importância destinada ao Paraná era de Cr$ 3.240.000.000,00 (três
bilhões, duzentos e quarenta milhões de cruzeiros), dos quais Cr$ 1.296.000.000,00 (um bilhão,
duzentos e noventa e seis milhões de cruzeiros) foram destinados para o Governo Estadual e Cr$
1.944.000.000,00 (um bilhão e novecentos e quarenta e quatro milhões de cruzeiros) às Prefeituras
Municipais (PARANÁ, 1964, p.51)
Essas medidas deveriam ser atendidas em caráter de urgência. No ano de 1963, devido à
estiagem-geadas-incêndios, o governador Ney Braga estimava que a renda diária do Estado, havia
caído de 200 para 60 milhões de cruzeiros diários. O que representava um grande dano na economia
do Paraná (FOLHA DE LONDRINA, 4. Set.1963)
A recuperação do Estado veio através da campanha “Operação Sementes”. A Companhia
Agropecuária de Fomento Econômico do Paraná (CAFÉ do Paraná) com a colaboração da
Secretaria de Agricultura ao lançar a campanha tinham a intenção de atender a produção agrícola do
Paraná, bem como milhares de lavradores. Visando atender as demandas de sementes diversificadas
(FOLHA DE LONDRINA, 17, Set. 1963).
Por essa campanha os agricultores obteriam um financiamento parcial ou total para a
aquisição de sementes de diversas culturas. E esses financiamentos concedidos tiveram prazos que
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foram do plantio à colheita. Foram beneficiados proprietários, arrendatários, parceiros e meeiros de
propriedades até 20 alqueires, desde que provassem que seus bens tivessem sido destruídos pelo
fogo.
As sementes disponibilizadas aos agricultores foram as seguintes: algodão, milho híbrido,
milho azteca, feijão, arroz, amendoim mamona, sacas e batatas. Foram mobilizados agrônomos,
funcionários administrativos e viaturas. E para a racionalização da distribuição de sementes e um
pleno atendimento, o Estado foi dividido em 11 regiões de atendimento: Curitiba, Ponta Grossa,
Iratí, Guarapuava, Pato Branco, Cambará, Londrina, Maringá, Paranavaí, Cruzeiro do Oeste e
Cianorte (PARANÁ, 1964, p.81)
A “Operação Sementes” foi bem saudada na imprensa. No Editorial publicado em 18 de
setembro de 1963, no jornal “O Estado do Paraná” afirmou que a ação do governo era fundamental
para a recuperação da economia agrícola paranaense, uma vez que facilitava a aquisição de sementes
oferecidas aos agricultores e principalmente por lograr a diversificação da cultura (apud: PARANÁ,
1964, p. 85)
De acordo com a reportagem de Luis Alves - Revista Manchete – “O Paraná semeia para o
Brasil” em 26 de outubro de 1963, a “Operação” estava cumprindo importantes finalidades. Em primeiro lugar,
era o propósito de propiciar a renovação das lavouras dizimadas. Em segundo, evitar o êxodo rural. E, em terceiro, o
propósito de dar início ao plano de diversificação das culturas, justamente na região cafeeira mais sujeita às geadas.
Porém, o repórter viu a diversificação da lavoura como um ponto negativo, pois afetaria a posição do Estado como
maior produtor de café, tendo em vista a sua produtividade média em relação a outros Estados (apud: PARANÁ,
1964, p.88)
Paralelamente à execução do programa para diversificar a cultura, o governo elaborou um
plano de reflorestamento, produzindo de mudas de Pinus elliottii, uma espécie de pinheiro utilizada
como matéria prima para a indústria papeleira e para celulose, e na indústria madeireira.
A Secretaria da Agricultura centralizou no Parque Estadual de Vila Velha todos os esforços
para alcançar a produção de 10 milhões de mudas de Pinus elliotti. Nas escolas rurais espalhadas por
todo o Estado seria produzida outra quantidade, totalizando 20 milhões de mudas, que seriam
suficientes para cobrir a área mínima de 3.300 alqueires. Os gastos para a aquisição das mudas seriam
de Cr$ 40 milhões, que vieram de contribuições do Estado, do Instituto Nacional do Pinho, do
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Ministério da Agricultura, através do Fundo Agropecuário e recursos dos próprios órgãos da
Secretaria de Agricultura (PARANÁ, 1964).
As mudas seriam entregues aos interessados, com preços muito baixos, o que permitiria a
execução do programa de reflorestamento em bases rentáveis e econômicas.
Face ao programa de reflorestamento o governo do Estado patrocinou o I Simpósio de
Reflorestamento da Região da Araucária. A fim de tratar desse palpitante assunto, intimamente relacionado com a
economia florestal da região, principalmente o caso do Paraná que perdeu grande parte de suas reservas florestais com os
incêndios (FOLHA DE LONDRINA, 26. Set. 1963)
No trabalho de reconstrução do Estado, o mesmo homem que se empenhou em apagar o
fogo, se dedicou a obra de diversificar a lavoura. A capacidade do homem paranaense para se
reerguer social e economicamente foi muitas vezes exaltada pela imprensa. E por meio da ação
desses homens foi possível o surgimento de um novo Paraná disposto a ocupar seu lugar de celeiro
do Brasil.
Referências
DICIONÁRIO CRAVO ALBIN DA MPB. Biografia de João do Vale. Disponível em:
http://www.dicionariompb.com.br/joao-do-vale. Acesso em: 05/maio/2012.
Livros: DRUMMOND, José Augusto. Devastação e preservação ambiental no Rio de Janeiro.
Niterói: EDUFF, 1997.
GOVERNO DO ESTADO DO PARANÁ. Paraná: do flagelo à recuperação. Departamento de
Imprensa Oficial. Curitiba, 1963.
JORNAL FOLHA DE LONDRINA. Pesquisa realizada com os exemplares dos meses de agosto e
setembro de 1963. Disponibilizados pelo CPDH da Universidade Estadual de Londrina.
Livros: MARTINS, Marcos Lobato. História e Meio Ambiente. São Paulo: Annablume, 2007.
MÚSICA FOGO NO PARANÁ. Disponível em: http://letras.terra.com.br/joao-do-vale/1546752/
Acesso em: 05/maio/2012.
Artigos periódicos: RIBEIRO, Antonio Giacomini. Seca, geada e incêndios no ano de 1963. Boletim
de Geografia, ano 2, nº 2. Maringá: EDUEM, 1984, p. 24-30.
Livro: WARREN, Dean. A ferro e fogo: a história e a devastação da mata atlântica brasileira.
São Paulo: Companhia da Letra, 1996.
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
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A CONTEMPORANEIDADE, SEUS DILEMAS E SUAS CRISES: UM DIÁLOGO
ENTRE A HISTÓRIA POLÍTICA E A EDUCAÇÃO HISTÓRICA
Márcio Santos de Santana (Depto. de História/ CLCH/ UEL).
Resumo:
O espaço público estaria caminhando gradualmente para a degradação total, ao mesmo
tempo em que a dimensão coletiva e solidária da vida não encontra ressonância junto aos indivíduos,
pondo a sociedade em risco de dissolução. Se em todas as épocas da história humana sempre vigorou
alguma ordem, atualmente estaríamos vivendo um momento de exacerbação de uma ordem
excludente, individualista e narcisista.
A norma em nosso tempo é a busca da felicidade. Os mal-estares da modernidade provinham
de uma espécie de segurança que tolerava uma liberdade pequena demais na busca da felicidade
individual. Os mal-estares da pós-modernidade provem de uma espécie de liberdade de procura do
prazer que tolera uma segurança individual pequena demais.
Na contemporaneidade, segundo os críticos, a escola não mais poderia ser considerada como
uma instituição em sentido estrito. Na tradição clássica, a instituição era definida como o conjunto de
papéis e valores que moldavam os indivíduos e suas personalidades, por meio de sua ação cultural
cotidiana.
Essas constatações comprovam a inserção na Era do Vazio, na qual o sentido histórico, os
valores e as instituições padecem de uma rígida e incessante deserção por parte dos atores sociais?
Palavras-chave: Dilemas contemporâneos; Educação Histórica; História Política.
A sociedade contemporânea vivenciaria grande risco de dissolução, uma vez que os
indivíduos não se enquadrariam mais em uma cultura política fundamentada na dimensão coletiva e
solidária da vida. Assim sendo, o temor generalizado é que o espaço público estaria caminhando
gradualmente para a desagregação, pois as relações sociais na contemporaneidade estariam restritas a
um padrão individualista e subjetivo (BAUMAN, 1998; BECK, 2011). A condição humana, para usar
um termo consagrado pela magistral reflexão de Hannah Arendt (2009), tem tomado um rumo que
aflige boa parte dos pensadores de nossa época.
O capitalismo contemporâneo tem conduzido os indivíduos às pressões mais inusitadas,
inéditas na história, especialmente ao exigir dos profissionais uma incessante capacidade de
readaptação, sobretudo estando apto e aberto às transformações requeridas pela corporação,
independentes do tipo.
A “cultura do novo capitalismo” (SENNETT, 2006) requer uma nova visão de mundo por
parte do profissional, ou seja, uma pessoa preparada para um cenário de transformações constantes,
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
pressão por realização de metas, competitividade, substituição permanente de pessoas do convívio
próximo, relações interpessoais potencialmente conflituosas, dentre outras características.
Frente a um mundo em constante transformação, realizadas em ritmo, sentido e
profundidade que desnorteia os atores envolvidos no processo, a reinvenção da identidade torna-se
um imperativo categórico. Nesse sentido, o questionamento do autor torna-se imprescindível: "Quais
os valores e práticas capazes de manter as pessoas unidas no momento em que as instituições em que
vivem se fragmentam?" (SENNETT, 2006, p. 13).
De acordo com Sennett (2006, p. 13) há três desafios com os quais o sujeito ideal (homem ou
mulher) se defronta para "prosperar em condições sociais instáveis e fragmentárias". Os desafios são:
(i) Em um mundo em constante transformação, em todas as instâncias da vida social, os
sujeitos veem-se desafiados a cuidar simultaneamente de si e de suas relações com os outros e
também gerenciar sua vida institucional, cuidando de suas tarefas diárias, enfrentando a
provisoriedade cotidiana da existência.
(ii) Desenvolver constantemente novas competências e novas habilidades de modo a atender
as exigências de uma realidade social cada vez mais dinâmica. A meritocracia sepultará
terminantemente o ideal do artesanato?
(iii) Tornar-se um “Homem Novo”, ou seja, adaptar-se a ser provisório e ver a tudo e a todos
como provisório – o advento dos “Tempos Líquidos” (Cf. Bauman, 2007). As empresas não
garantem mais o emprego de nenhum de seus colaboradores. A flexibilização das relações atingiu as
relações afetivas (“ficar”, por exemplo).
De um modo ou de outro, os desafios estão relacionados com a problemática da identidade
social. Dois eventos podem dimensionar, ao menos parcialmente, os dilemas aos quais estão imersos
os atores sociais na contemporaneidade. No que concerne às novas gerações a contemporaneidade é
marcada por dois dilemas da mais alta magnitude:
O primeiro dilema está relacionado à evolução da ciência e sua real capacidade de
transformação social. De um lado, há um acúmulo de conhecimento científico inegável sobre a
infância, adolescência e juventude; de outro, a leitura hegemônica é a de que a sociedade ocidental se
tornou incapaz de lidar com esse segmento etário-cultural. Dito de outra maneira: temos mais
conhecimento e menos competência para lidar com os sujeitos.
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
No segundo dilema a questão é bem outra. Se as sociedades, ao menos as avançadas
economicamente, são capazes de disseminar esse conhecimento por amplos segmentos da população
(via instituições educacionais, culturais e/ou cultura midiática etc.); de outro, nos defrontamos com
relatos de agentes responsáveis por essa disseminação de conhecimento (professores, educadores
sociais, jornalistas etc.) a respeito da apatia dos beneficiários desse bem cultural.
As representações sobre as novas gerações são variadas e são identificadas, sem maiores
dificuldades, nos discursos acadêmicos, políticos, jornalísticos, artísticos e outros das mais variadas
procedências. Tais representações variam entre dois extremos, duas concepções que fundamentam
dois tipos ideais: na chave positiva, as novas gerações são vistas como o “futuro da nação”;
entretanto, na chave negativa, temos o “delinquente marginalizado”.
Os debates em torno dos temas que envolvem as novas gerações são muitos e realizados
frequentemente. Contudo, tais discussões são constituídas por um mesmo problema: a incessante
busca de uma definição ideal de juventude. Essa característica pode ser considerada como um dos
fatores responsáveis pela obstrução da vida cotidiana, uma vez que ao direcionarmos nossa atenção
para a categoria (juventude) tornamo-nos menos habilidosos para compreender e nos relacionar com
o sujeito (jovem).
*
*
*
O cenário contemporâneo, segundo tese corrente, revelaria situação caótica em virtude do
modelo de subjetivação no qual estão apoiados os indivíduos, cuja característica básica seria o
alheamento em relação ao outro. Por alheamento denomina-se a “atitude de distanciamento, em que
a hostilidade ou o vivido persecutório são substituídos pela desqualificação do sujeito como ser
moral” (COSTA, 2000, p. 81).
O colapso do regime comunista no Leste Europeu e, sobretudo, o consenso de Washington
que finca as bases (neo)liberais tem sido visto pela comunidade acadêmica como a razão de grande
parte dos males de nossa época. A derrocada do projeto comunista teria gerado uma descrença
generalizada com relação à existência de alternativas para o capitalismo. Portanto, pensar alternativas
viáveis à vida contemporânea fora desse sistema seria operação impossível.
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
A alternativa poderia ser tão agressiva e/ou pior que o modelo que se deseja substituir? Tal
hipótese carece de bases lógicas. Se a exacerbação do individualismo chegou a uma situação que beira
o nonsense, não devemos, em nome disso, inverter a lógica e clamar pela completa neutralização da
liberdade, pois
O desejo de liberdade nasce da experiência da opressão, isto é, da sensação de não
se poder deixar de fazer o que se preferiria não fazer (ou não poder abster-se de o
fazer sem se expor a uma pena que é ainda mais desagradável do que a rendição à
exigência original), ou da sensação de não se poder fazer o que se desejaria fazer
(ou de não poder fazê-lo sem se expor a uma pena mais dolorosa do que a
abstenção dessa acção) (BAUMAN, 1989, p. 81).
No “admirável mundo novo” todas as trajetórias possíveis conduziriam à dimensão
individual – exacerbada em radical egoísmo, segundo a sensibilidade de alguns analistas –, cujo
resultado concreto teria sido o decréscimo da solidariedade no plano coletivo. Sendo assim, em
primeiro plano estariam as escolhas de cada indivíduo, sem a preocupação da repercussão dessas
escolhas na vida do próximo.
Ser feliz é a norma no tempo presente. Haveria uma obrigação em conquistar tal bem
subjetivo. A não concretização desse ideal seria falta grave do indivíduo. O problema reside na
maneira como tal procura é realizada. Hegemonicamente, não ocorre análise ética das repercussões
coletivas das decisões e escolhas individuais, bem como há uma tendência de esperar que tal
realização seja obtida por esforços de terceiros (família, Estado, etc.).
Lipovetsky (1989) descreveu esse processo complexo e multifacetado como sendo o que
marca o “fim do homo politicus”, ou seja, aquele que de alguma maneira e em algum nível ainda
analisa e pondera o impacto de suas decisões/ações sobre a coletividade. Em lugar deste teria surgido
o “homo psychologicus”, cujo foco primordial é o seu bem estar e as suas satisfações subjetivas,
ficando o social em segundo plano. Portanto, teríamos uma ruptura inegável.
Estamos analisando, portanto a transição da modernidade para a pós-modernidade.
Substancial diferença separa os dois momentos históricos. Seguindo o pensamento de Bauman
(1998, p. 10):
Os mal-estares da modernidade provinham de uma espécie de segurança que
tolerava uma liberdade pequena demais na busca da felicidade individual. Os mal-
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estares da pós-modernidade provêm de uma espécie de liberdade de procura do
prazer que tolera uma segurança individual pequena demais.
A pós-modernidade teria então ganhos e perdas para os atores sociais. Não poderia ser
diferente. Qualquer fenômeno histórico, em razão de sua complexidade, bem como do padrão
epistemológico vigente, não comporta uma análise unívoca. Assim sendo, estaria mais próximo da
verdade (i) a tese da Era do Vazio ou (ii) a tese do Mal Estar ou ainda (iii) uma posição intermediária
entre ambas?
Lipovetsky (1989), por seu turno, sustenta que na Era do Vazio, os atores sociais estariam
gradativamente desertando do espaço público. Tornar-se-iam cada vez mais imersos em uma cultura
permeada pelo hedonismo, pelo narcisismo, pelo individualismo, portanto, hegemonicamente oposta
à dimensão coletiva da existência. Na era pós-moderna a dinâmica social seria marcada pela fluidez
nas relações sociais. Assim sendo, os valores e as instituições sociais, bem como o sentido histórico
padeceriam de inegável anacronismo.
O sociólogo Bauman (1998, p. 10) defende que “os homens e as mulheres pós-modernos
trocaram um quinhão de suas possibilidades de segurança por um quinhão de felicidade”. Não
teríamos alcançado uma época de plena superação dos problemas, pelo contrário, pois, se em todas
as épocas da história humana sempre vigorou alguma ordem, atualmente estaríamos vivendo um
momento de exacerbação de uma ordem excludente, individualista e narcisista.
A condição humana na pós-modernidade apresenta problemas conhecidos desde tempos
remotos. A produção de “estranhos” e “indesejáveis” – o “aluno problema” é um desses tipos sociais
– por parte da sociedade persiste. A preservação da ordem é outro elemento estrutural que apresenta
continuidade, malgrado em novo formato. Pensamentos, discursos ou ações divergentes serão
considerados como obstáculos e, desse modo, em casos extremos, serão tratados como “sujeira”,
cujo tratamento será a eliminação (BAUMAN, 1998; LYOTARD, 2008).
268
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
*
*
*
Esse estudo é resultado da pesquisa Juventude, História Política e Educação Histórica:
Diálogos Exploratórios177, na qual exploramos as relações possíveis entre a História Política e a
Educação Histórica, por meio do estudo da juventude na contemporaneidade. Utilizando fontes,
métodos e teorias variadas, discutimos a constituição da juventude como ator histórico coletivo,
contemplando a questão da identidade, da participação política, da constituição de significados etc.
A parte empírica da pesquisa conta levantamento etnográfico, complementado com
instrumentos de pesquisa qualitativa. Ao final da pesquisa teremos dialogado com 10 jovens
estudantes do curso de história da UEL, maiores de 18 anos, voluntários, trabalhadores, 05
homens/05 mulheres, 05 oriundos de escola pública/ 05 de escola privada, etc. de modo que
possamos realizar contrastes.
O objetivo da fase empírica é a captação das representações dos jovens sobre conceitos
centrais em História política (autoridade, democracia, participação política, etc.). Para este trabalho
dialogamos com 08 jovens no total, sendo 04 homens e 04 mulheres. Utilizamos três instrumentos
de pesquisa:
(i) questionário “perfil dos atores sociais na estrutura social” – os participantes fornecerão algumas
balizas sobre seu perfil socioeconômico (idade, ocupação, religião, gênero, etnia e classe social) com
o fito de situá-los na estrutura social mais ampla.
(ii) questionário “sondagem de concepções históricas e políticas” – com o fito de captar
representações e concepções dos alunos com relação a temas específicos; ideias, forma de pensar,
maneiras de representar.
(iii) entrevistas – visando a coleta de informações sobre a cultura escolar ou sobre o processo
de ensino-aprendizagem; por esse meio foi possível elucidar aspectos problematizados nos
instrumentos anteriores (Cf. QUIVY & CAMPENHOUDT, 1992; CHIZZOTTI, 2006).
O problema central de nossa reflexão pode ser assim esboçado: as constatações comprovam
a inserção na Era do Vazio, na qual o sentido histórico, os valores e as instituições padecem de uma
rígida e incessante deserção por parte dos atores sociais?
O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa Envolvendo Seres Humanos da Universidade Estadual de Londrina,
Registro CONEP 5231, Parecer CEP UEL 108/2013, CAAE 14205113.8.0000.5231, Data da Relatoria 24/06/2013.
177
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Profundas alterações vêm ocorrendo nas instituições educacionais. Segundo os críticos, em
razão disso, na contemporaneidade, não poderíamos mais considerar as escolas como instituições em
sentido estrito. Qual a razão de tal assertiva? Na concepção clássica instituição era definida como o
conjunto de papéis e valores que transformavam os indivíduos e suas personalidades através da ação
cultural cotidiana.
Com o fito de captar o processo de desinstitucionalização inserimos nos instrumentos de
pesquisas algumas questões estratégicas. Na primeira abordagem realizada interrogamos os sujeitos
de pesquisa sobre o significado de ser jovem para eles. Cabe destacar que a questão foi formulada
propositalmente de maneira capciosa: questionamos como cada indivíduo concebe a experiência
juvenil, ou seja, a maior probabilidade, portanto, era que as respostas tomassem um ponto de vista
individual e subjetivo, avesso a generalizações e especulações de caráter mais social.
Por se tratar de questão aberta à variedade de respostas pode, em um primeiro momento,
transmitir a impressão de que o levantamento não retornou resultados proveitosos. Muito pelo
contrário. Fazendo uso da metodologia da análise do discurso podemos constatar duas tendências
bem nítidas:
(a) no grupo Feminino predominou respostas indicando a percepção de que o fato de ser jovem
não isenta o indivíduo das incumbências e determinações sociais (razão = 3/1). Se por um lado
podemos apontar uma construção discursiva positiva em torno dos valores individuais, por outro
isso não significa uma explosão exorbitante desse campo cultural.
(b) no grupo Masculino, por sua vez, a respostas seguem a razão 2/2, demonstrando equilíbrio
entre as tendências, portanto respostas objetivas à questão feita.
O entendimento dos sujeitos de pesquisa sobre o que significa ser jovem para eles permitenos estabelecer um esboço, haja vista ser uma pesquisa ainda em curso. Sendo assim, a concepção de
jovem presente no imaginário dos sujeitos ouvidos é uma etapa da vida composta pelos seguintes
elementos: (i) transitoriedade; (ii) relacional/social; (iii) moratória; (iv) faixa etária ou estado de
espírito; (v) formação cultural; (vi) fase de grande potência vital.
Gênero - Feminino
Sujeito pesquisa A
“Ser jovem é estar em um momento de transição, onde as escolhas
passam a ter um peso maior, um momento de preparo para o
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
futuro”.
Sujeito pesquisa B
“Para mim, é se enquadra na faixa etária de 18 aos 30 anos, onde
geralmente as pessoas se dedicam aos estudos, a vida de solteiro, a
uma vida mais voltada para a prática do lazer”.
Sujeito pesquisa C
“Um momento de vida, com algumas características em comuns
com outros da mesma idade”.
Sujeito pesquisa D
“Ser jovem é muito relativo, isso dependerá da sociedade na qual o
sujeito está inserido, além de outros fatores, como a educação, a
cultura e a classe econômica do sujeito”.
Gênero - Masculino
Sujeito Pesquisa E
“Associo juventude à disposição”.
Sujeito pesquisa F
“Categoria mutável de acordo a sociedade, num tempo e espaço
distintos ou não. Um grupo que partilha de aspectos em comum seja
ele de risco, de consumo ou mesmo musical, político e culturais”.
Sujeito pesquisa G
“É ter a possibilidade de experimentar, criar, executar experiências
que nem a vida adulta nem a infância permitem”.
Sujeito pesquisa H
“Mais um estado de espírito e de mentalidade do que uma
classificação etária”.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os conceitos e as categorias são elas próprias históricas, ou seja, estão circunscritos a uma
temporalidade, não possuindo um significado padrão para todas as épocas. Nesse sentido, considere
o conceito de democracia como exemplo. O uso de conceitos e de categorias constitui um
imperativo na produção de conhecimento, pois sem eles torna-se inconcebível a articulação de
qualquer conhecimento, uma vez que orientam a análise, bem como permitem a articulação de
informações dispersas.
Os conceitos e as categorias não são autoevidentes, tampouco autoexplicativos. Assim sendo,
uma minuciosa circunscrição do conteúdo cognitivo torna-se imperativo, bem como uma abordagem
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
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orientada pela perspectiva histórica, em razão das alterações determinadas pelo tempo, espaço e/ou
realidade sociocultural. A historicidade deve ser enfatizada.
Uma definição imprecisa, portanto, constitui um problema para o sujeito cognoscente. Nesse
sentido, no decorrer da pesquisa, torna-se necessário uma discussão detalhada sobre os conceitos e as
categorias incorporadas à pesquisa, visando, dentre outros objetivos, não permitir evasivas no seu
uso ou mesmo minimizar a possibilidade de abordagens anacrônicas.
O significante “juventude”, portanto, possui um campo conceitual vasto. A título de
exemplo, vejamos três possibilidades:
(i) em alguns trabalhos indica uma faixa etária, tais como infância, adolescência, juventude,
maturidade, velhice. Os termos para designar cada uma dessas fases são variados, bem como o marco
etário é diverso.
(ii) em outros, denomina uma representação. Nesse sentido encontramos casos como
“juventude do samba” ou “juventude rebelde”.
(iii) pode ainda designar uma situação social. A história contemporânea japonesa contém
exemplo lapidar, pois os jovens são afastados das decisões nas empresas, bloqueando qualquer
possibilidade de ascensão profissional rápida naquele país aonde impera a tradição originária do
século XIX.
Tanto os valores quanto os papéis que as instituições sociais (família, escola, universidade,
igreja, etc.) deveriam transmitir são alvo de apropriação por parte dos jovens. Seria tal expediente
uma prova do ambiente cultural excessivamente individualista e/ou narcisista? Ou se trata apenas do
curso natural do processo de interação social?
A adaptação das normas e da herança cultural transmitida por parte dos indivíduos sempre
existiu, tratando de elemento constitutivo do processo civilizatório. O que há de novo? O que tem
assustado tanto os atores sociais envolvidos no processo, independentemente da origem e/ou papel
social ocupado por eles?
A história política tem muito ainda a dialogar com a educação histórica, sobretudo na questão
da problemática da desinstitucionalização, cujo campo mais produtivo de estudos está ligado às instituições
educacionais. Grande dilema da atualidade refere-se à qualidade da relação professor-aluno. Um
primeiro questionamento diz respeito à possibilidade de se melhor a qualidade dessa relação. Não há
receitas infalíveis para a consecução de tal objetivo.
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
O disciplinamento social é realizado por outros meios, e não mais se efetua através da
coerção disciplinar e nem mesmo da sublimação; efetua-se por meio da autossedução. O narcisismo,
nesse sentido, converte-se em uma nova tecnologia de controle flexível e autogerido, na qual os
indivíduos se defrontam com um social pulverizado, glorificando o reino da plena realização do Ego
puro (LIPOVETSKY, id.).
A solução possível passa pela dimensão coletiva, portanto, política. Resta-nos, ou melhor,
compete-nos, neste limiar de século, atentar para as palavras do psicanalista Jurandir Freire Costa
(1998), para quem a solução não estará em práticas conservadoras, mas em ousadas manobras de
diálogo e de construção social, únicas maneiras possíveis de elaborarmos soluções originais para os
problemas que tanto nos atormentam. Apreciemos suas palavras:
Não se trata de nostalgia passadista ou de querer reabilitar o ‘lar doce lar’ que, aliás,
nunca foi tão doce. A sugestão é a de que pensemos em novas modalidades de
interação nas quais as singularidades subjetivas possam apoiar-se na presença dos
outros. Penso que o rumo produtivo se quisermos recuperar o papel da palavra
iniciadora na democracia, consiste em trilhar outras sendas.
Um novo caminho capaz de empolgar a todos na permanente construção dos ideais
democráticos, em especial as novas gerações, deve reinventar de alto a baixo o
quadro institucional em que aprendemos a subjetivar-nos (COSTA, 1998, p. 118).
BIBLIOGRAFIA
ARENDT, Hannah. A condição humana. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009.
BECK, Ulrich. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. 2. ed. São Paulo: Ed. 34, 2011.
BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
_________________. A liberdade. Lisboa: Editorial Estampa, 1989.
CHAVEAU, Agnés; TÉTART, Philippe (Orgs.). Questões para a história do presente. Bauru/SP:
EDUSC, 1999.
CHIZZOTTI, Antonio. Pesquisa qualitativa em ciências humanas e sociais. Petrópolis, RJ:
Vozes, 2006.
COSTA, Jurandir Freire. Não mais, não ainda: a palavra na democracia e na psicanálise. Revista
USP, São Paulo, n. 37, p. 108-109, mar./maio 1998.
___________________. A ética democrática e seus inimigos. In: ______. O desafio ético. Rio de
Janeiro: Garamond, 2000.
273
VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008.
LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio. Lisboa: Relógio D’Água, 1989.
QUIVY, Raymond; CAMPENHOUDT, Luc Van. Manual de investigação em Ciências Sociais.
Lisboa: Gradiva, 1992.
SENNETT, Richard. A cultura do novo capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 2006.
274
VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
A PARTICIPAÇÃO DA FEB NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL A PARTIR DO
CORPO MÉDICO
Taís Daniela Fávaro178 (História/UEL)
Orientador: Prof. Francisco C. A. Ferraz
Este projeto analisa a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial, com ênfase na
atuação do serviço de saúde da FEB. Visando um pensamento mais amplo a respeito das
consequências da Segunda Guerra Mundial, com a perspectiva de ir além das implicações políticas e
econômicas, a presente abordagem propõe a análise de alguns relatos de médicos e enfermeiras que
atuaram com a FEB na Itália em 1944/45, elencando as suas impressões sobre o conflito, suas
principais dificuldades e preocupações, bem como os mecanismos que influenciaram a escrita de seus
relatos, questionando a memória.
Descrevendo o dia-a-dia do atendimento aos doentes e feridos, esses profissionais de saúde
narraram a guerra a partir dos hospitais e do sofrimento dos soldados atingidos. Tais relatos
possivelmente se propuseram a tornar-se referencia à memória nacional, como testemunhas ativas de
todas as dificuldades da guerra, buscando também a valorização pela atuação no teatro de operações
da Itália, pelo cumprimento dos deveres para com a pátria, e tentando se reintegrar no contexto do
pós-guerra.
O Brasil na Segunda Guerra Mundial
A Segunda Guerra Mundial vem sendo pensada pelos historiadores como consequências da
chamada Grande Guerra 1914-1918.
Com a Primeira Guerra Mundial, as tensões na Alemanha foram se tornando mais intensas,
principalmente devido ao país ter perdido parte do seu território e terem sido submetidos pelos
vencedores ao pagamento de reparações de guerra e a redução de suas forças armadas. Essas
medidas, segundo Francisco Ferraz, juntamente com as crises econômicas da década de 20 e 30
geraram certa insatisfação social que favoreceu a consolidação do partido nacional-socialista alemão
dos trabalhadores, o partido nazista.
178
Graduanda em História pela Universidade Estadual de Londrina e bolsista da CNPq.
275
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Com a tomada do poder de seu líder Adolf Hitler, em 1933, os integrantes do partido
desenvolveram uma política de exaltação da nacionalidade germânica e de perseguição aos judeus e
comunistas alemães, acusando-os de traírem a Alemanha na Primeira Grande Guerra.
Ao se iniciar a guerra na Europa, as relações internacionais do Brasil consistiam na
proximidade com Estados Unidos e Alemanha. Entretanto, com o desenvolvimento do conflito, o
Brasil tornou-se gradativamente mais comprometido com os norte-americanos, tendendo a adotar
um posicionamento na guerra ao lado dos Aliados.
Inicialmente o Brasil e outros países latino-americanos procuravam manterem-se neutros no
empate. Todavia, com o desenvolvimento do conflito, depois de sentirem de perto as ameaças que
recaíam sobre a soberania nacional, é que foi decidido pela mobilização conjunta das Américas, para
sua defesa, sob orientação e ajuda do governo norte-americano. (CASTELLO BRANCO, 1960).
Em agosto de 1942 o Brasil declarava guerra ao Eixo, anunciando um ano depois a
organização da Força Expedicionária Brasileira (FEB) que foi recebida com certa desconfiança pelos
brasileiros de uma forma geral. Essa descrença no envio de expedicionários brasileiros foi sendo
difundida, principalmente pela dificuldade de formar a primeira divisão de combatentes, que seriam
mandados em combate à Itália. Dificuldade na organização, seleção e treinamento da equipe. Todo
esse descaso pode ser entendido como colaborador para a escrita dos relatos de muitos
expedicionários, médicos e soldados, possivelmente com o intuito de ter um reconhecimento
posterior ao conflito.
Analisando os relatos de alguns médicos e enfermeiras que atuaram com a FEB, pode-se
perceber que desenvolveram uma narrativa descritiva dos dias em que permaneceram na Itália.
Partilhando das mesmas dores no atendimento aos feridos, das mesmas dificuldades, das mesmas
preocupações, incertezas e das mesmas necessidades, a equipe médica desenvolveu uma relação de
identidade entre si.
O Serviço de Saúde da FEB: organização
O corpo de saúde era integrado por divisões de órgãos de serviço e unidades que iam desde o
comando, proferido ao Estado-Maior Especial, até as unidades de combate. O órgão de comando
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
neste posto era o Serviço de Saúde da FEB, comandado pelo Coronel Emanuel Marques Porto, que
comandava as atividades médicas brasileiras.
Essa organização de atendimento estava assim esquematizada: “em local mais perto possível
da frente, havia um hospital de campo, destinado a atender as emergências cirúrgicas quando a
remoção do ferido era de todo desaconselhável” 179. No âmbito brasileiro funcionou o 32º, com uma
equipe de cirurgiões comandada pelo Dr. Alípio Correa Neto. No 16º Hospital de Evacuação em
Pistóia eram encaminhados os feridos que tinham condições de serem removidos, pois já haviam
recebido os primeiros socorros. Havia também o 7º. Station Hospital, em Livorno, e o 300º. General
hospital em Napóles. Em todas essas unidades atuaram médicos e enfermeiras brasileiros.
No decorrer da guerra foi criada uma unidade de atendimento não prevista na organização do
Serviço de Saúde da FEB, o Posto Avançado de Neuropsiquiatria. Essa necessidade ocorreu devido
às condições adversas que cercavam os combatentes, como o estranhamento ao clima italiano, as
limitações de convívio em virtude da diversidade linguística e a fragilidade psíquica gerada pelas
tensões e sofrimentos do embate. Com a criação desta base, os possíveis transtornos psíquicos
podiam ser atendidos próximo à linha de frente, o mais brevemente possível.
Considerações teóricas sobre a memória e apresentação das fontes
Foram analisados relatos de dois médicos e duas enfermeiras. As enfermeiras expuseram seus
pareceres sobre a guerra, focando também nas dificuldades que enfrentaram ao realizarem o curso de
preparação para partirem em campanha.
A enfermeira Berta de Morais prestou seu depoimento sobre a FEB, num relato intitulado
Testemunho de uma Enfermeira. Suas atribuições foram publicadas em 1949, numa coletânea de
depoimentos oficiais sobre a FEB.
Esta enfermeira destacou a mobilização e a preparação para a atuação no conflito, as
dificuldades específicas para a aceitação social da participação feminina na guerra, assim como da
própria família, salientando os desafios diários da vivência na Itália.
A mobilização do grupo de enfermeiras constituiu uma das principais estratégias de
mobilização do governo Vargas. O governo instigava a participação feminina na guerra,
179
SILVEIRA, Joaquim Xavier da. A FEB por um soldado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989, p. 105.
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
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relacionando-a ao imaginário da presença materna e seu amor desmedido nos campos de batalha,
com o intuito de aliviar a dor dos combatentes. Ao mesmo tempo, as enfermeiras enfrentavam a
reprovação da família, e os conflitos sociais assim gerados, já que estavam adentrando um campo até
então considerado essencialmente masculino.
O segundo relato analisado trata-se do livro Nas Barbas do Tedesco de Elza Cansanção
Medeiros, cuja publicação foi datada de 1955. Esta enfermeira pontuou, neste livro, situações
divertidas, muitas vezes não pensadas para um campo de batalha, com uma escrita crítica e bem
humorada. Como seus registros foram escritos posteriormente ao conflito, a enfermeira pôde
selecionar e direcionar o olhar e a concepção dos leitores sobre a narrativa.
Já o relato dos médicos, pode ser tomado como um diário de guerra, pois descrevem
diariamente a dinâmica do atendimento aos feridos, as dificuldades encontradas por eles ao chegarem
na Itália, assim como o estranhamento climático, alimentício, e as incertezas deste ambiente.
O Dr. Alípio Correa Neto teve seus registros publicados em 1946, pela revista ANHEMBI.
Posteriormente seus depoimentos foram reunidos em livro, sendo publicado em 1983. Esta obra
retrata as dificuldades enfrentadas pelos brasileiros, bem como a rotina desgastante dos cirurgiões
nas operações de atendimento a doentes e feridos, demarcando um sentimento nacionalista em suas
palavras.
Como influencia nas pontuações memorialísticas deste médico, ficou explicito em seu relato,
as atribuições de sua profissão, o cuidado com o bem-estar corpóreo dos pracinhas, a dedicação nas
operações duradouras em decorrência dos ferimentos mais intensos, causando-lhes também abalo
emocional. Esta preocupação pode ser atribuída, segundo Cássio dos Santos Tomaim, em virtude de
que os expedicionários em sua grande maioria, sequer tinham experiência de combate real,
simplesmente eram obrigados a se apresentarem as autoridades militares locais para servir.
Já o livro do Dr. Edgardo Moutinho dos Reis, intitulado Hospital 32. Memórias de um Médico foi
escrito durante sua atuação com a FEB na Itália. Nesta obra, ele relata cada dia de atendimento aos
feridos no hospital de campo em que atuou. Situado a 9 km dos primeiros pontos de combate,
realizavam os atendimentos mais urgentes, destacando as situações mais tristes de uma guerra.
Como metodologia de análise para as produções memorialísticas dos médicos e enfermeiras
que atuaram pela FEB durante a Segunda Grande Guerra, seguir-se-á uma perspectiva cultural, já que
a vida cotidiana está inserida no universo da cultura.
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VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Para pensar os relatos, a memória da equipe médica da FEB nas suas influencias e
proposições, é plausível a utilização do conceito de memória social de Peter Burke, empreendido sob
a perspectiva de a memória ser maleável e seletiva. As lembranças são vinculadas por laços
socioculturais dos que partilham de um mesmo grupo, de um mesmo espaço e contexto. Essa
colocação demarca-se nesta pesquisa, pela atuação dos membros do Serviço de Saúde da FEB
durante a guerra, que se identificavam pela mesma experiência.
A memória não é objetiva ou neutra, ela busca atender a determinadas intenções, mesmo que
inconscientemente, pois ressalta pontos que condizem com a tentativa de sua preservação. Segundo
Peter Burke, a memória seleciona e reinterpreta as lembranças, sendo condicionadas ou ao menos
influenciadas por grupos sociais. “São os indivíduos que lembram, no sentido literal, físico, mas são
os grupos sociais que determinam o que é ‘memorável’, e também como será lembrado”180.
Dessa forma, compreende-se que no contexto da guerra e do pós-guerra, os relatos desses
médicos e enfermeiras, propuseram-se a tornar referencia à memória nacional, como meio de
obterem valorização, refirmando a importância de sua atuação ao país.
Tomando como base de análise, o conceito de memória social de Peter Burke, os relatos
devem ser concebidos sob a perspectiva da maleabilidade da memória, da seleção e concretização das
mesmas como referências sociais a serem consideradas. Quem define o que deve ou não ser
lembrado são os grupos sociais, como coloca Burke. Assim as lembranças são vinculadas por laços
socioculturais dos que partilham de um mesmo grupo, de um mesmo espaço, vinculando-os a
objetivos em comum, como no caso da atuação dos membros do Serviço Médico na Itália, que
ansiavam por auxilio em sua reintegração social.
Análise das fontes
Como tais escritos tardaram a serem publicados, entende-se então que médicos e enfermeiras
enfrentaram dificuldades para terem sua experiência reconhecida após a guerra, bem como para a
retomada de suas vidas no Brasil.
As enfermeiras brasileiras, além das dificuldades inerentes do atendimento aos feridos nos
hospitais de campanha da Itália, enfrentaram também a reprovação social e até de familiares, por
BURKE, Peter. História como memória social. In: Variedades de história cultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
2000, p. 70.
180
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VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
estarem adentrando a um espaço até então, exclusivamente masculino. Enquanto muitas famílias não
aceitavam a preparação de suas filhas para partirem à Itália, o governo, por meio dos jornais da
época, incentivava a mobilização feminina, incutindo sobre elas a imagem da pátria, como mãe
protetora de seus filhos os soldados.
Juntamente com a FEB, foi criado o batalhão do Serviço de Saúde, e a este
(...) somou-se a participação de 73 enfermeiras voluntárias (67 do Exército e 6 da
Aeronáutica) que foram treinadas na então capital do país Rio de Janeiro. Através
da Imprensa de todo país em 1943, o exercito convocava mulheres brasileiras,
solteiras ou viúvas com no mínimo 20 anos de idade para compor o Quadro de
Enfermeiras do Exército181.
Pode-se perceber por meio dos relatos que as enfermeiras começavam a desfigurar a ideia
vigente na época, de que as mulheres seriam prioritariamente preparadas para serem mães e donas de
casa. Segundo Ana Cláudia de Rezende Costa Dutra, desde a primeira guerra mundial, mesmo que
sutilmente, essa transformação começou a ocorrer, passando a mudar os papeis sociais de homens e
mulheres, tão delimitados até então.
Os relatos de ambas as enfermeiras unem-se nas críticas aos uniformes adotados pela equipe,
nas palavras de Berta de Morais
Imaginem um vestido de algodão ordinário, cinza, simples, um avental modelo
comum usado pelas enfermeiras do Rio, também saia do mesmo tecido e um
pavoroso pano – esse era termo, pois não era lenço nem touca – para ser amarrado
na cabeça, cor verde-oliva. [...] Calculem agora a triste figura, uma vez chegadas a
Nápoles, das primeiras moças. O contraste com as americanas, nos seus frescos e
graciosos uniformes de excelente fazenda de algodão, branco com listinhas miúdas
de cor beije, meias de seda, sapatos marrons de ótima qualidade... Foi um choque.
Felizmente o chefe de saúde da FEB percebeu o desastre e ordenou que fossem
distribuídos imediatamente uniformes de trabalho idênticos aos das americanas182.
Devido ao uniforme dos brasileiros parecer com o dos alemães, Elza Cansanção de Medeiros
enfatiza, de uma forma bem descontraída que, na passagem do destacamento de saúde à cidade de
Casablanca,
MORAIS, Berta. Testemunho de uma enfermeira, In: ARRUDA, Demócrito Cavalcanti de (et alii). Depoimento dos
Oficiais de Reserva da FEB. São Paulo, 1949, p. 373.
182 Idem, p. 412.
181
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
[...] um grupo numeroso de árabes, com caras de facínoras, nos estava seguindo, portando armas,
falando e gesticulando à nossa volta [...] os árabes estavam pensando que éramos alemães e
pretendiam liquidar-nos... Discutiam apenas a maneira pela qual deveriam fazer – se a faca ou a
tiro183.
A correria foi grande até se desviarem dos mal intencionados, assim como o desespero das
enfermeiras. Somando-se ao depoimento de Berta de Morais, a crítica da enfermeira Elza C.
Medeiros ao uniforme de trabalho das enfermeiras brasileiras, reflete que além da má qualidade,
fazia-se confundir com o traje inimigo.
A ênfase nos uniformes se pauta também na falta de planejamento dos mesmos, pois
necessitaram efetuar a compra de agasalhos, diante do rigoroso inverno italiano.
A posição adotada pelas enfermeiras em alguns trechos dos relatos foi tomada por Alexandre
Barbosa de Oliveira como uma forma de demarcar a ideia de que “as enfermeiras febianas
encarnaram nos hospitais dos campos de batalha o papel de mães, de irmãs, de esposas, enfim, de
símbolos imagéticos que nutrem e que cuidam dos filhos, dos irmãos e dos esposos durante a
guerra184”.
Para esse autor, a mulher dentro deste ambiente hostil da guerra, passou a ser vista como
símbolo de amor e dedicação no cuidado dos feridos, se vinculando ao sentimento do cuidado
maternal. Por meio dessas colocações, pode ser entendido então, que a equipe médica e os
combatentes brasileiros, se viam como partes de uma mesma família, os enviados em nome do país à
guerra.
Os médicos elaboraram em seus relatos, da mesma forma que as enfermeiras, críticas à
organização da FEB e à sua recepção na Itália, bem como, a descrição de sua atuação no
atendimento aos feridos.
MEDEIROS, Elza. Nas barbas do tedesco. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1955, p. 36.
OLIVEIRA, Alexandre Barbosa de. “Em nome da Pátria”: O primeiro agrupamento feminino de enfermagem do
Exército Brasileiro na Segunda Guerra Mundial. In: O Brasil e a Segunda Guerra Mundial. In: SILVA, Francisco Carlos
Teixeira da; SCHURSTER, Karl Lapscy Igor; CABRAL, Ricardo; FERER, Jorge (Org). O Brasil e a Segunda Guerra
Mundial. Rio de Janeiro, Multifoco, 2010.
183
184
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
O Dr. Edgardo Moutinho dos Reis expôs em seu livro, todos os seus dias na guerra, a sua
desgastante estadia no Hospital 32. Este hospital situava-se próximo à linha de frente dos combates,
recebendo os feridos mais urgentes.
Essa argumentação detalhada dos dias em que permaneceram na guerra, o sofrimento
presenciado e relatado tão insistentemente, provavelmente tem o intuído de legitimar a atuação dos
profissionais de saúde e dos soldados brasileiros como importante junto aos aliados e detentora de
orgulho para a nação.
O relato do Dr. Alípio Correa Neto adquiriu esse mesmo caráter descritivo. Devido a sua
formação profissional, os médicos teceram um olhar mais humano à guerra, atribuindo importância
ao cuidado físico e psíquico dos soldados, indo além da preocupação com os rumos do conflito em
si. Desta forma, ambos os médicos desenvolveram seus relatos com esta perspectiva, apresentando o
procedimento adotado por eles no cuidado dos feridos.
O Dr. Alípio procurou enfatizar a bravura dos brasileiros numa função em que eram
inexperientes, ressaltando que mesmo com toda dificuldade enfrentada na preparação e permanecia
na guerra, o esforço e as conotações da atuação brasileira não podem ser diminuídos. Este médico
apresentou seu livro como uma homenagem aos combatentes da Segunda Guerra Mundial,
destacando suas dificuldades, como má alimentação, sono irregular, falta de organização dos oficiais
e os distúrbios psíquicos resultantes de tanto sofrimento.
Conclusões
Para finalizar essa abordagem suscito a retomada da visão do corpo médico sobre a FEB. A
partir dessas colocações referentes à memória destes médicos e enfermeiras, pode-se entender que o
olhar médico sobre o conflito, sobre os soldados foi humano, marcado pela preocupação com o
bem-estar dos envolvidos no embate, tendo também influência dos ideais nacionalistas vinculados ao
contexto de mobilização, que podem ser concebidos mediante a insistente colocação nos relatos, do
orgulho em prestar serviço à nação.
Os depoentes aqui analisados explicitaram suas necessidades de reconhecimento, delimitando
seus sacrifícios nas situações mais extremas de uma guerra. A dedicação e bravura dos pracinhas e
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dos integrantes da equipe médica no cuidado dos doentes e feridos foram expressas, insistentemente,
pelos membros do corpo de saúde analisados, demonstrando como os viam nesta atuação.
Assim sendo, eles criaram uma relação de identidade nesta situação de dor, de correria nos
atendimentos cirúrgicos, na ansiedade do retorno ao Brasil e do fim da guerra.
O cuidado e a preocupação marcaram a atuação das enfermeiras, às quais buscaram, assim
como os médicos, ser lembradas, demonstrando a importância da participação da equipe brasileira
junto aos aliados, independentemente das dificuldades que enfrentaram.
Referências Bibliográficas
BURKE, Peter. História como memória social. In: Variedades de história cultural. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira. 2000, p. 67-89.
CASTELLO BRANCO, Manuel Thomaz. O Brasil na Segunda Grande Guerra, Biblioteca do Exército,
1960.
FERRAZ, Francisco César Alves. Os brasileiros e a Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Ed, 2005.
MELLO, Ana Cláudia de Rezende Costa Dutra e. As mulheres e as relações de gênero na Segunda
Guerra Mundial. In: SILVA, Francisco Carlos Teixeira da; SCHURSTER, Karl Lapscy Igor;
CABRAL, Ricardo; FERER, Jorge (Org). O Brasil e a Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro,
Multifoco, 2010.
SILVEIRA, Joaquim Xavier da. A FEB por um soldado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989, p. 105.
TOMAIM, Cássio dos Santos. O documentário e a Memória do Brasil na Segunda Guerra Mundial.
Disponível
em:
<http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1300912193_ARQUIVO_Documentarioeam
emoriadoBrasilnaSegundaGuerraMundial.pdf>. Acessado em 30/10/2012.
TOMAIM, Cássio dos Santos. O documentário e as narrativas dos ex-combatentes brasileiros na
Segunda Guerra Mundial. Disponível em: <http://www.doc.ubi.pt/06/doc06.pdf>. Acessado em
30/10/2012.
Fonte Documental
CORRÊA NETO, Alípio. Notas de um expedicionário médico. São Paulo: Almed, 1983.
MORAIS, Berta. Testemunho de uma enfermeira, In: ARRUDA, Demócrito Cavalcanti de (et alii).
Depoimento dos Oficiais de Reserva da FEB. São Paulo, 1949.
283
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
MEDEIROS, Elza. Nas barbas do tedesco. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1955.
REIS, Edgard Moutinho dos. Hospital 32. Memórias de um médico. São Paulo: Fernando
Camargo & Cia. Ltda., 1947.
284
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PRÁTICAS
CULTURAIS,
MEMÓRIA E
IMAGENS
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O JUBILEU DE PRATA E A TENTATIVA DE SE CRIAR O PRIMEIRO MUSEU DE
LONDRINA185
Edson José Holtz Leme (CDPH-UEL/UNESP)186
Orientador: Prof.Dr. Hélio Rebello Cardoso Júnior (UNESP)
Co-orientadora: Profª. Drª. Célia Reis Camargo (UNESP)
Resumo
Esta comunicação tem como objetivo apresentar as festividades do Jubileu de Prata, enquanto um
conjunto de elementos que configuraram como um processo de invenção e celebração de tradições e
que, por sua vez, contribuíram para forjar a necessidade da criação de um museu para a cidade de
Londrina. Durante o ano de 1959 as comemorações do Jubileu, além das atividades cívicas e sociais,
denotaram certa preocupação com a memória local. A produção de símbolos oficiais como o brasão,
a bandeira e o hino da cidade bem como o lançamento de livros comemorativos e de um
monumento, em formato de painel de azulejos, com imagens da Londrina de 1934 e a de 1959,
buscou evidenciar a história da cidade como sendo uma epopeia. Estes festejos contribuíram para o
início de uma mobilização, inicialmente por meio de cartas na imprensa e posteriormente com o
apoio do Rotary Club local, visando à formação do primeiro museu para a cidade. Criado
oficialmente em dezembro de 1961 o museu acabou não se efetivando.
Palavras-chaves: Museu – Londrina – Jubileu de Prata
No final da década de 1950, Londrina e região, passaram a enfrentar uma crise econômica. A
queda do preço do café no mercado internacional, devido à superprodução e principalmente pelos
danos causados pelas geadas, trouxeram muitos prejuízos aos cafeicultores. Em 1958 eles
organizaram a chamada Marcha da Produção. O movimento exigia a extinção do confisco cambial
pelo governo federal, e, ao mesmo tempo, a implantação de políticas assistenciais para com os
trabalhadores do campo, que, com a crise, passavam
por um processo de pauperização. A
intransigência do governo federal e ameaça de repressão fizeram com que a marcha fosse suspensa.
Mesmo assim alguns grupos seguiram para a capital federal, porém foram barrados no caminho por
tropas do governo.
Mesmo com este cenário de crise a cidade não deixou de comemorar seu jubileu de prata.
Mais ainda, transformou a data em um verdadeiro marco para a história da cidade.187 As
O texto dessa comunicação, com algumas modificações, é parte integrante da minha tese “O Teatro da Memória: O
Museu Histórico de Londrina – 1959-2000”, defendida em agosto de 2013, na UNESP, campus de Assis.
186 Historiador do Centro de Documentação e Pesquisa Histórica - CDPH da UEL e docente do curso de
Especialização em Patrimônio e História da UEL.
187 A crise da cafeicultura que se iniciou no final da década de 1950 e se aprofundou na década de 1960 teve alguns
períodos de retomada. Durante o ano de 1959, coincidentemente, ocorreu uma alta nos preços do café.
185
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
comemorações se notabilizaram por monumentalizar a história da cidade, forjando e inventando
tradições.
A comissão, formada para organizar os festejos, tinha como presidente Aristides de Souza
Mello, diretor da Companhia Melhoramentos Norte do Paraná - CMNP.188 Mais uma vez a
proeminência da Companhia marcando presença, e com destaque, neste evento importante para a
cidade, confirmando, dessa forma, seu poder de influência na esfera pública. Inúmeras atividades
cívicas e sociais foram programadas para acontecer durante o ano do jubileu. Dentre elas destacaramse: a criação e divulgação dos símbolos do município – brasão, bandeira e hino, lançamento de livros
comemorativos, o baile do Jubileu, organizado pelas senhoras rotarianas em um clube social da
cidade, as festas realizadas nos dias 09 e 10 de dezembro e a inauguração de um monumento, em
formato de painel de azulejos, com imagens da Londrina de 1934 e de 1959.
Os símbolos do município foram instituídos pela Lei nº 508 de 27/11/1959. A bandeira,
elaborada por Guilherme de Almeida189, toda vermelha, simbolizando a cor da terra e a fertilidade,
com quatro estrelas de prata, dispostas em forma de cruz, simbolizando o Cruzeiro do Sul. Em
interpretações mais ufanistas estas estrelas são interpretadas como sendo os quatro continentes, de
onde vieram os pioneiros.190 (figura 1)
O brasão, também criado por Guilherme de Almeida apresenta um escudo prata, espécie de
reverência aos descobridores portugueses, tendo em seu interior uma cruz vermelha com quatro
estrelas. Esta cruz é uma clara homenagem à Companhia inglesa que iniciou o processo de
colonização da cidade. No canto superior direito, para dar ênfase à força econômica da agricultura,
na economia do município, a figura de um arado de sable. No alto uma coroa mural dourada, com
quatro torres. Nas laterais do escudo, dois ramos de café, frutificados, símbolo maior da riqueza da
cidade. Na parte de baixo a inscrição em latim: “Prompte Labore Progredior”, ou seja, “pelo trabalho
progrido rapidamente”. Esta inscrição seria posteriormente, em 1981, alterada pelo professor Arthur
Luponi, sendo substituída por “Londrina” ao centro e as datas “03/12/1934” e “10/12/1934”,
respectivamente datas da criação e instalação do Município. (figura 3).
A CMNP pertencente a um grupo de empresários paulistas é a nova razão social da antiga Companhia de Terras
Norte do Paraná- CTNP, de capital britânico, responsável pelo processo de colonização de parte das terras do norte do
Paraná, no início do século XX e que teve Londrina como sua principal sede.
189 O poeta Guilherme de Almeida participou do movimento de 1922. Modernista e nacionalista, “buscava nos mitos e
valores regionais, elementos capazes de operar a unidade nacional.” (ARIAS NETO, 2008, p. 169)
190 A cor vermelha, da bandeira, seria motivo de debates, durante o regime militar, pós-1964, por evocar, segundo alguns,
o perigo vermelho do comunismo.
188
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Figura 1 Bandeira do Município de Londrina
Figura 1 Brasão do Município de
Londrina
Os dois símbolos, brasão e a bandeira, criados por Guilherme de Almeida, evocavam
e referenciavam a origem britânica da cidade. O brasão, pela semelhança, foi inspirado no escudo da
cidade de Londres.191
O hino, com letra de Francisco Pereira Almeida Junior e música do maestro Andréa Nuzzi,
celebra uma “cidade de braços abertos / a todos os filhos do nosso Brasil / E a todos aqueles de
pátrias distantes”.192 A realidade demonstrou que nem todos eram assim tão bem-vindos. Para
escolha da música do hino a prefeitura promoveu um concurso, em 1958, de abrangência nacional,
com divulgação nos principais jornais do eixo Rio-São Paulo.
Ainda dentro das festividades a prefeitura encomendou um monumento na forma de um
grande painel de azulejos, para homenagear o jubileu da cidade (figura 4). O painel retrata a cidade de
Londrina em duas fases de sua história. A pequena cidade, ainda cercada pela floresta, no ano de
1934 e a Londrina moderna, com seus edifícios, do ano de 1959. Dividindo as duas imagens o brasão
do município. O painel foi instalado no antigo prédio da Câmara dos Vereadores. Quando houve a
demolição do prédio o painel foi seriamente danificado. Posteriormente, em 1981, foi reconstruído,
por alunos da Universidade, e, atualmente encontra-se afixado no campus da UEL, em frente à
Biblioteca Central.
Desses festejos as questões mais relevantes, que terão relação direta com o perfil e a
necessidade de constituição de lugares de memória, foram suas produções discursivas. Livros e
artigos celebrativos que buscaram construir uma identidade histórica para a cidade. Dentre eles
Memorial descritivo e justificativo do Brasão, anexado à Lei 508/59. Livro de Leis do Município de Londrina.
Londrina: Câmara Municipal, 1959.
192 Versos de abertura do hino do município de Londrina. Lei nº 508 de 27/11/1959. Francisco Pereira Almeida Junior
foi escritor e comerciante de café, filho de cafeicultores do Vale do Paraíba, radicado em Londrina desde 1937 (ARIAS
NETO, 2008, p.177).
191
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
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destacam-se dois livros: “Londrina, 25 anos da sua História” e “Londrina no seu Jubileu de Prata:
documentário histórico”.
No livro Londrina: 25 anos de sua História, o autor, Humberto Puigari Coutinho, que foi diretor
do jornal Paraná Norte, periódico financiado e porta-voz da CTNP, buscou reafirmar a
grandiosidade de Londrina a partir da história de sua colonização.
Dividido em três partes o livro apresenta, em seu primeiro capítulo, a já tradicional história
da colonização da cidade. A ênfase recai sobre o papel da CTNP e seus trabalhadores, pioneiros, na
construção da futura Londrina. O segundo capítulo é reservado às biografias dos homens,
selecionados pelo autor, que tiveram papel fundamental na formação e desenvolvimento do chamado
Norte Novo. Com fotografias o autor apresenta a história dos políticos mais antigos e dos homens de
ponta da CTNP. Todos eles, assim como Coutinho, fizeram parte desse grupo que esteve, na década
de 1930, a frente do poder na cidade. O autor ignorou, nesta obra, os dirigentes que comandavam a
cidade quando da publicação do livro, bem como os empresários e produtores de café. Por não
pertencer ao grupo político que estava no poder naquele momento, na cidade, sua obra não recebeu
apoio, nem divulgação nos principais jornais da cidade. O livro acabou tendo pouca repercussão.
Mesmo assim se incorporou ao grupo de publicações celebrativas da história tradicional da cidade.
Figura 2 Painel do Jubileu de Prata de Londrina 193
Já o livro Londrina no seu Jubileu de Prata: documentário histórico, dos jornalistas Gustavo Branco e
Fideli Mioni, contou com o apoio para divulgação do Jornal Folha de Londrina, principal jornal da
cidade. Gustavo Branco era proprietário da revista Realizações Brasileiras e tinha prestígio junto às
elites cafeeiras da cidade. Ainda que o título destacasse o Jubileu, ele só foi publicado em 1960.
193
Foto: Edson Holtz, acervo pessoal, 2012. Monumento localizado no campus da UEL.
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Além de relatar, em detalhes, os eventos sociais e cívicos, acontecidos durante o ano do
Jubileu, o livro fez uma radiografia socioeconômica da cidade. Os diversos setores produtivos,
especialmente a cafeicultura e a pecuária, foram destacados. E, diferentemente do livro publicado por
Coutinho, neste, os grandes empresários e cafeicultores tiveram sua biografia destacada. Mas os
pioneiros e a CMNP também não deixaram de ser referenciados.
A capa do livro, com o Brasão de Armas do município, lhe deu um caráter de publicaçãomonumento da história da cidade.
Se na publicação de Coutinho o saudosismo da primeira década de colonização da cidade é
celebrado e os principais homenageados estão ligados à CTNP, na obra de Branco & Mioni, a elite
cafeeira é a grande protagonista da história. Reunindo as obras, as festividades, a criação dos
símbolos cívicos, podemos considerar que o Jubileu de Prata consolidou, no ideário da memória
pública, uma história de Londrina como fruto da colonização racional, implantada pela CTNP.
Colonização essa que só foi possível, segundo as publicações, graças à perseverança dos seus
pioneiros que, por meio do trabalho, conseguiram vencer as dificuldades dos primeiros anos e
enriquecer nas terras roxas do Norte do Paraná.
Ao mesmo tempo, como documentado na obra de Branco e Mioni, as chamadas elites,
política e econômica, das décadas de 1940 e 1950, também passaram a integrar o panteão da história
local, não só como herdeiros do legado da CTNP e dos pioneiros, mas também como responsáveis
pela era de prosperidade econômica, vinculada à produção do café, que transformou a pequena vila,
boca de sertão, do início da colonização, na metrópole do interior no ano do jubileu.
Essas representações não surgiram do nada. Elas foram fruto do trabalho, de propaganda e
atuação política, junto ao poder municipal, que a CTNP construiu a partir da década de 1930 e cujos
ecos ainda se fizeram ouvir em plena década de 1950. O dado novo que o Jubileu engendrou na
história da cidade foi o papel de relevância dos cafeicultores e do café enquanto promotores da
riqueza que proporcionou o desenvolvimento e a modernização de Londrina e região. O que deve
ser ressaltado, não apenas nestas duas obras, referentes ao Jubileu, mas a todas as crônicas e obras
celebrativas sobre a história da cidade e do Norte do Paraná é o destaque dado à CTNP.
Já, em um segundo momento, a narrativa de história da cidade foi, aos poucos, sendo
sedimentada em crônicas e artigos de revistas e jornais, mas, principalmente com outras publicações
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de teor celebrativo. O papel da CTNP e dos pioneiros, na formação da cidade, também passou a ser
inserido no imaginário da população.
Dentre elas podemos destacar o Álbum do Município de Londrina, publicado pela Prefeitura
Municipal, em 1938. Esta publicação apresenta uma radiografia da cidade. Além dos dados físicos do
município: limites territoriais, hidrografia, clima, relevo, o álbum apresenta estatísticas sobre a
economia, ensino, religião, associações de classe, com destaque para a Associação Comercial,
distritos e povoados do município, são apresentados mostrando o desenvolvimento da cidade e seu
destaque no Estado do Paraná.
A publicação é repleta de propagandas, relacionadas aos patrocinadores, a maioria de
comerciantes da cidade, com destaque para a CTNP. Uma questão elucidativa sobre o álbum é de
que ele foi organizado por Adriano Marino Gomes, secretário municipal da gestão do prefeito Willie
Davids que acumulou, em sua gestão como prefeito, também o cargo de diretor da CTNP. Em suas
páginas o álbum se transforma em um verdadeiro relatório da gestão de Davids. Elenca as principais
obras e serviços realizados: aumento das redes de água e luz, estruturação do serviço de máquinas da
cidade, a abertura do aeroporto, dentre outras. Apresenta todos os governantes da cidade, até aquela
data, omitindo o conflito com Joaquim Vicente de Castro, e dá destaque a Willie Davids que tem
uma foto apresentada na publicação.
O Álbum apresenta também um histórico do município, destacando a atuação dos pioneiros,
nos primeiros anos de colonização. A publicação apresenta imagens que enfatizam a importância da
CTNP e da Companhia Ferroviária São Paulo-Paraná enquanto alicerces do espantoso e
extraordinário progresso de Londrina e região. Este álbum transformou-se em modelo e uma das
primeiras fontes para as demais publicações que viriam depois.
Seguindo o caminho de enaltecimento do processo de colonização, desenvolvimento e
enriquecimento da região, outras publicações como a revista feminina “A Pioneira” (1948), livros em
formato de álbum como “Norte do Paraná: Terra abençoada” de Aristeu de Oliveira (1949); “O
famoso Norte do Paraná: terra onde se anda sobre o dinheiro” de Vicente Barroso (1956)
Nas décadas de 1960 e 1970 outras obras se somaram a estas no processo de consolidação de
uma determinada história, pretensamente “oficial” para a cidade que permeou a formação dos
acervos de seus primeiros lugares de memória – arquivo e museu. Dentre estas obras destaco o livro
“Londrina através dos tempos e crônicas da vida” de João Zortéa (1969) e a obra produzida pela
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Companhia Melhoramentos Norte do Paraná, para celebrar o cinquentenário de sua antecessora, a
CTNP, intitulada “Colonização e desenvolvimento do Norte do Paraná” (1975).
Para a historiadora Sonia Adum estas publicações tiveram, em comum, a construção de um
discurso de felicidade com relação à ocupação da região e formação de Londrina.
Estes textos, apesar da diversidade de gênero, tema e estilo, podem ser
caracterizados como de “exaltação”. Na perspectiva dessas obras, o norte do
Paraná é a Terra da Promissão, o Eldorado, a nova Canaã, o paraíso prometido da
fertilidade, da produção agrícola abundante, das oportunidades iguais de
enriquecimento para todos aqueles que quisessem trabalhar e prosperar. Essas
análises, não raro, trazem no bojo a ideia de uma ocupação e construção pacíficas
do território, onde o capital e seus agentes foram, naturalmente, preenchendo os
espaços, como se estes estivessem ansiando e esperando por aqueles. (ADUM,
2009, p.10)
Portanto, esse discurso de felicidade, permeou toda esta produção narrativa sobre a história da
cidade. Em comum estas publicações exaltavam a imagem parasidíaca que a propaganda construiu
com relação à conquista da floresta, a abundância e fertilidade das terras. Seus principais personagens
foram, desta forma, e aos poucos, sendo monumentalizados no imaginário coletivo. Com isso é
factível afirmar que, a partir das festividades e celebrações do Jubileu de Prata, a história de Londrina,
enquanto narrativa, passou a se consolidar como a história dos que venceram. Em um primeiro
momento às adversidades da mata fechada, do sertão inóspito e, posteriormente, com a
incrementação do fausto do café, que colocaram Londrina, com destaque, no cenário econômico
brasileiro e mundial.
Dessa forma, toda esta produção discursiva se consolidou, enquanto história oficial da
cidade, tendo na CTNP e na figura do pioneiro seus dois grandes mitos fundadores. Ainda que, no
decorrer do processo de desenvolvimento da cidade estas representações tenham sido apropriadas,
como já apresentado, pelas diversas gerações das elites locais, que, continuam se auto proclamando
como herdeiras desse legado histórico.
Portanto, é possível considerar, as comemorações do Jubileu de Prata, como uma espécie de
ritual de passagem, onde se buscou produzir uma determinada memória e tradição para Londrina.
Sob a crise econômica, que se abatia sobre a produção do café, documentos, crônicas, símbolos,
publicações, monumentos, imagens, serviram para construir lugares de memória. Essa produção de
símbolos e representações permitiu àqueles homens, das décadas de 1950 e 1960, forjarem a própria
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identidade a partir de um elo simbólico com a história da cidade.194 Uma identidade que servia para
amenizar a perda do prestígio que a crise econômica provocava na elite cafeeira.
Um museu para coroar o Jubileu de Prata
A ideia de concepção de um Museu Histórico para Londrina teve sua origem na década de
1950, mais precisamente em 1959, ano de comemoração do jubileu de prata da cidade. A partir de
registros no jornal Folha de Londrina, datados de fevereiro de 1959, podemos deduzir que o ano do
Jubileu de Prata proporcionou o clima que faltava para que o projeto de se viabilizar um museu para
a cidade encontrasse eco junto à comunidade local. Em um pequeno artigo, intitulado “Museu de
Londrina”, publicado por José de Oliveira Rocha, o autor reforçou a preocupação e a importância de
se pensar em um projeto de museu para a cidade:
Penso que já era tempo de cogitar da fundação do Museu de Londrina. Sobre o
assunto, aliás, já se tem conversado, inclusive no ROTARY local; contudo, nada,
até hoje, foi feito de concreto. Tenho, para mim, que comemoração melhor não há
de se fazer, neste período dos festejos do vigésimo quinto ano da cidade, que a
criação desse MUSEU e é, inegavelmente, uma oportunidade feliz, para o prefeito a
assinatura de um ato, que lhe ligará, indiscutivelmente, o nome à história da cidade.
Apesar de com pouca idade, já tem Londrina muita coisa a recolher, para
contemplação dos porvindouros e que sirva, no futuro remoto, de elemento
precioso para esclarecimento da história dos primeiros dias da cidade. Porque não
ir, então, dede já, recolhendo esse subsídio?195
Neste mesmo artigo, o autor lembrou que a ideia de um Museu para a cidade remonta à
época em que a CTNP demoliu seu velho barracão de escritórios e o reproduziu, sob forma de
maquete, como uma lembrança a ser ofertada a Londrina. Estaria neste ato, segundo o autor, o
gérmen de uma preocupação em salvaguardar a memória da colonização da cidade. Para o autor, o
jubileu de prata, seria um bom motivo para que o prefeito oficializasse a criação do referido espaço
de memória:
A ideia do Museu de Londrina não é minha. Ela vem de longe e remonta à época
em que a C.T.N.P., demolindo o velho barracão dos escritórios da firma,
194
195
ARIAS NETO, op. cit., p.155.
ROCHA, José de Oliveira. Folha de Londrina, Londrina, p.8, 22/02/1959.
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reproduziu-o exatamente, como lembrança a ser ofertada ao município. A
reprodução, por sinal, ainda está nos novos escritórios da Cia., a espera de local
próprio, que será, inegavelmente, o Museu. É preciso, portanto, construir. Se isso
não for possível, pelo menos que, ao criá-lo, localize-o o prefeito em uma das
dependências do Paço Municipal. Aqui fica, pois, a lembrança da ideia, que é de
outros e vem de longe, para que não morra. Fica, também, o alvitre da localização
do Museu, no edifício da própria Prefeitura. Quem sabe dará o prefeito, neste ano
jubilar, esse prêmio à cidade?196
Como podemos observar a perspectiva de formação de um museu foi constituída a partir dos
festejos do Jubileu de Prata, tendo como referencial o processo de colonização, onde a CTNP
desponta como grande ícone de memória. Também é interessante notar que um possível lugar para
instalação, dessa instituição de memória, como sugeriu o autor do artigo, seria o próprio prédio da
Prefeitura, buscando, dessa forma, garantir um apoio institucional do município, visando sua
estruturação.
A movimentação para criação de um museu para Londrina foi assunto nas reuniões do
Rotary Club local. Em seus boletins internos, o tema do museu ganhou destaque na publicação
interna da entidade. Em novembro de 1960 o Boletim divulgou o resultado de uma enquete,
realizada com cerca de 20 pessoas, de variadas atividades da comunidade londrinense, sobre possíveis
questões que deveriam ser contempladas visando a criação deste para a cidade. Questões como a
possível localização, especialidades temáticas, administração, manutenção e se a instituição teria ou
não sócios contribuintes fizeram parte da enquete. Segundo o Boletim a maioria dos entrevistados
considerou ser importante que o futuro museu se localizasse na área central da cidade, objetivando
dar maior acesso ao público. O museu deveria, também, contemplar outras áreas, além da História,
como: “Artes Plásticas, Música, Geografia, Economia, Cinema, etc..” 197
Percebe-se que a demanda por outras áreas culturais e do conhecimento confirmava a
carência destas, na cidade. Mais que um museu as pessoas entrevistadas pleiteavam uma espécie de
centro cultural que abrigasse diversas atividades. O modelo de gestão, se administrado pelo poder
público ou pela iniciativa privada, também foi tema da enquete. A maioria, segundo o Boletim,
sinalizou para uma administração de caráter misto, reunindo entidades particulares e o poder público,
em uma autarquia municipal. Mesmo com a publicação dos resultados da enquete e os apelos ao
prefeito municipal, o museu não foi criado.
196
197
Id., 1959, p.8.
O MUSEU de Londrina. Rotary Club de Londrina, Londrina, pp.1-2, 18/11/1960.
294
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Em 1961, o diretor e redator do Jornal Newsy de Londrina, Antonio Vilela de Magalhães,
retomou a questão publicando diversos artigos em prol da criação do museu. Em um deles reforçou
a importância de um museu para dinamizar ações de caráter cultural e educativo na cidade:
Um museu é um órgão cultural por excelência. Capaz de desenvolver atividades
dinâmicas, de padronização da cultura e pode através de seus departamentos
apresentar-se didaticamente, como coadjuvante das atividades educativas escolares,
servindo a professores e alunos. Unindo seus associados e colaboradores,
atendendo os mais diversos interessados, aglomerando departamentos específicos,
de história, geografia, artes plásticas, teatro, música, literatura e poesia, bem como
uma biblioteca geral conselho expressivo, talvez seja uma das mais acertadas formas
de aglomerar os interesses culturais de uma cidade como Londrina..198
O fato de neste artigo a questão da multiplicidade de áreas, a ser contemplada no futuro
Museu, se assemelhar ao publicado no Boletim semanal do Rotary, não é mera coincidência. Afinal, o
jornalista Vilela também era diretor do Boletim semanal do Rotary. O Rotary Club reunia, no
período, profissionais liberais, empresários, jornalistas, fazendeiros, o que credenciava a entidade, em
termos sociais e políticos, certo poder de influenciar nas questões relativas à cidade e nas decisões do
poder público municipal.
Em novembro de 1961 a Comissão de Serviços Internos, do Rotary, deliberou por iniciar os
preparativos para a criação do museu. A proposta previa a criação de um Conselho dirigente, tendo
como sede provisória a própria secretaria do Rotary. Previa-se a busca de um futuro local para
transferência da sede do museu. O dia 10 de dezembro daquele ano foi a data escolhida para
realização da Assembleia, para criação da instituição. A Prefeitura seria mobilizada para incluir nos
festejos do aniversário a fundação do museu. O reitor da Universidade do Paraná também seria
convidado. Foram elencados cinco objetivos que fariam parte dos estatutos da instituição:
1 – Constituir patrimônio cultural e artístico, compreendendo elementos quer sejam
de arte ou de cultura histórica regional ou extra-regional, quer sejam de quaisquer
ramos do conhecimento humano, que possam a vir a interessar à população de
Londrina;
2 – Colocar este patrimônio ao alcance de seus sócios e consulentes da maneira
mais acessível e democrática, preservados os justos interesses e direitos do Museu;
MAGALHÃES, Antonio Vilela de. Museu de Cultura de Londrina. Jornal Newsy de Londrina, Londrina, 27 mai,
1961, p.2.
198
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3 – Promover sessões culturais, conferências, cursos, aulas, exposições e todas as
formas de reuniões de objetivo didático, bem como intercâmbio com instituições
congêneres ou pessoas, do país e do estrangeiro;
4 – Incentivar a pesquisa científica e artística através de todos os meios ao seu
alcance;
5 – Através da autonomia dos seus vários departamentos alcançar o máximo
rendimento dos seus propósitos e manter, dentro de sua orientação geral, um
programa cultural e artístico sempre de padrão elevado;199
Pelos objetivos citados confirmou-se a ideia de um museu que promoveria atividades
culturais das mais diversas, além de deixar em aberto a amplitude do acervo a ser constituído.
A Assembleia para criação do museu inicialmente marcada para acontecer em um clube social
da cidade, o Grêmio Literário e Recreativo Londrinense, foi, posteriormente, transferida para o salão
nobre da Prefeitura. A criação do museu mobilizou diversas autoridades municipais. Além do
prefeito Milton Menezes estiveram presentes: o presidente do Rotary, o juiz da 4ª Vara da Comarca,
o diretor da Faculdade de Direito, o presidente da Associação Comercial, o presidente da Associação
dos Professores do Norte do Paraná, o presidente do Diretório Acadêmico Rocha Pombo da
Faculdade de Filosofia, vereadores, professores, rotarianos, representantes da imprensa local e o
pioneiro Oswald Nixdorf, representando os pioneiros da cidade.200
Nesta solenidade foi eleita a diretoria provisória tendo a frente, como presidente, o exgovernador do Rotary Club de Londrina, o Sr. Francisco Pereira de Almeida. A maioria dos cargos foi
ocupada por membros do Rotary. Chama a atenção a participação nesta diretoria provisória, além de
um juiz representante do poder judiciário, do arcebispo da cidade, Dom Geraldo Fernandes. A
efetiva participação de membros dos diversos poderes locais confirmava a importância e relevância,
naquele momento, da criação do referido museu para a cidade.201 A solenidade de criação foi
destaque nos principais jornais da cidade. (figura 16)
Passadas as comemorações a diretoria eleita se reuniu em janeiro de 1962 visando efetivar a
estruturação do museu. Ainda sem sede própria vislumbrou-se, para o mês de março do mesmo ano,
como primeira atividade, uma exposição sobre o índio brasileiro em parceria com o Museu
Paranaense.
MUSEU de Londrina em organização. Rotary Club de Londrina, Londrina, pp.1-2, 17/11/1961.
FUNDADO o Museu de Cultura de Londrina. Folha de Londrina, Londrina, p.3, 12/12/1961.
201 MUSEU de Cultura de Londrina. Rotary Club de Londrina, Londrina, p.1, 22/12/1961.
199
200
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Figura 3 - Assembleia de fundação do Museu da Cultura de Londrina
Visando angariar peças e objetos para a seção de História do Museu chegou-se a promover uma
noite de doações. Porém, como afirmou a ex-diretora do MHL Conceição Geraldo, “o museu não
foi levado adiante e estas primeiras doações se dispersaram [...]” 202
A não efetivação da estruturação do Museu não desanimou o jornalista Antonio Vilela de
Magalhães que, em artigo no Boletim semanal do Rotary, considerou como mérito do movimento
pela criação do Museu de Cultura de Londrina, a discussão pela criação de uma Universidade na
região Norte do Paraná. Ao mesmo tempo lembrou que apesar do revés inicial do projeto do museu
apontou duas razões para insistir nele: “1º - a ideia é boa e deve ser conduzida, ainda que, no futuro
o acervo constituído passa [e] à Universidade; 2º - Londrina é razão suficiente para um experimento
dessa ordem, principalmente porque tudo o que nela se pretende se consegue."203
Apesar de toda mobilização, entusiasmo e iniciativa do Rotary, envolvimento da prefeitura,
autoridades e comunidade, o Museu de Cultura de Londrina ainda que tenha sido oficialmente
criado, com eleição de uma diretoria provisória, acabou não se estruturando. Talvez o fato de a sede
provisória, do referido museu, se confundir com a da secretaria de uma entidade privada, no caso o
Rotary Club, tenha desestimulado um maior envolvimento da comunidade.
O fato é que, provavelmente, como reflexo desse movimento e discussão, anos depois, nas
salas de aulas do curso de História da FEFCLL, seria gestado um novo movimento visando à criação
de um museu histórico para a cidade. Este por contar com o suporte da Faculdade e, com o
envolvimento de alunos e professores dos cursos de História e Geografia, conseguiu se efetivar,
Entrevista de Conceição Geraldo, outubro de 1989. Acervo de História Oral do CDPH; Algumas das peças e objetos
arrecadadas nesta noite de doações, posteriormente, foram repassadas, já no final da década de 1960, ao Museu criado
pela FEFCLL.
203 MAGALHÃES, Antonio Vilela. O Museu de Cultura de Londrina. Rotary Club de Londrina, Londrina, 03 ago.
1962, p.1.
202
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culminando com sua criação oficial em 18 de setembro de 1970. Sua história, transformações,
mudanças e reformas, bem como os personagens que participaram de sua trajetória, serão
apresentados e analisados nos próximos capítulos.
Referências Bibliográficas
ADUM, Sonia Maria Sperandio Lopes. Práticas Discursivas, Patrimônio e Memória: Monumento
Memorial do Pioneiro. In: SILVA, Cláudia e MORAES, Vanda de. (orgs.) Encontro Cidades
Novas: a construção de políticas patrimoniais. Londrina: Edição Humanidades, 2009.
ARIAS NETO, José Miguel. O Eldorado: representações da política em Londrina – 1930/1975.
Londrina: EDUEL, 2008.
BARROSO, Vicente. O famoso Norte do Paraná: terra onde se anda sobre o dinheiro. Caxias
do Sul: Ed. São Miguel, 1956.
BRANCO, G. & MIONI, Fideli. Londrina no seu Jubileu de Prata: documentário histórico.
Londrina: Realizações Brasileiras, 1960.
COMPANHIA MELHORAMENTOS NORTE DO PARANÁ. Colonização e Desenvolvimento
do Norte do Paraná: publicação comemorativa do cinqüentenário da Companhia
Melhoramentos Norte do Paraná. São Paulo: Companhia Melhoramentos Norte do Paraná, 1975.
COUTINHO, H. Puigari. Londrina: 25 anos de sua história. São Paulo: [s.n], 1959.
GOMES. Adriano M.. Álbum do município de Londrina. Londrina: PML, 1938.
HOBSBAWN, Eric. e RANGER, Terence. A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1984.
MAGALHÃES, Antonio Vilela. O Museu de Cultura de Londrina. Rotary Club de Londrina,
Londrina, 03 ago. 1962, p.1.
OLIVEIRA, Aristeu. Norte do Paraná: Terra Abençoada. Londrina, 1949.
ZORTÉA, Alberto João. Londrina através dos tempos e crônicas da vida: homenagem aos
pioneiros. Edição comemorativa ao 40º aniversário. São Paulo: Juriscredi, 1975.
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NUANCES DE UMA TRADIÇÃO: A MUDANÇA NA TRADIÇÃO E SOCIEDADE
JAPONESA EM MEADOS DO SÉCULO XX
Douglas Pastrello (História - UEL)
Richard André (Orientador - História - UEL)
Introdução
O século XX pode ser considerado um marco de mudança nas estruturas da sociedade
japonesa, algo que era muito enraizado no mundo nipônico como a honra e a submissão ao
Imperador caem por terra no desencadeamento de um evento que durou seis anos - a Segunda
Guerra Mundial - ou oito se considerarmos a "Guerra do Pacífico" com a rendição incondicional
japonesa causada pelas explosões das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki.
As discussões acerca do fim deste conflito ainda são emocionalmente muito carregadas,
mergulhadas em memória, por um lado há necessidade de culpar a crueldade americana em usar a
arma nuclear. Por outro há uma busca de justificativa, pelo governo norte-americano, em usar esta
contra o Japão alegando que era necessário para um suposto fim imediato da guerra, "trazer a paz",
assim então essas memórias estão mergulhadas em justificativas e repúdios morais.
Contudo, a rendição japonesa, embora teoricamente incondicional, gerou possibilidades de
negociar novas condições devido o uso da bomba atômica (SHERRY,1995), tais como a manutenção
da ordem imperial. Este fato ainda gerou novos discursos construídos intencionalmente, uma história
ortodoxa com discursos antagônicos - o uso da bomba certo ou errado - e uma narrativa fundadora
causada pelos esforços de ambas as partes envolvidas de aceitar as experiências das bombas atômicas,
além de transformar o Japão no maior aliado do oriente para os americanos. A memória nacional
seria a narrativa oficial mais completa que um grupo pode ter acesso, sendo intencionalmente criada
com propósitos diversos e o silêncio muitas vezes é uma forma de resistência contra a mesma.
(POLLAK,2001)
A partir destes eventos o Japão pós guerra vê sua tradição estilhaçada, sua honra tocou o
chão ao ter tido uma rendição, a figura do Imperador que era acreditado e visto como uma divindade
viva, descendente direto de deuses xintoístas.Após isso passa a ser visto como alguém muito mais
próximo de seu povo, tomando decisões unicamente por este.
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Outra grande diferença e mudança nessa tradição é a tradição do corpo, no período de guerra
havia uma necessidade de controle dos corpos físicos japoneses, de treiná-los constantemente. A
lealdade viria do sucesso do treinamento físico, sendo eles nos campos militares preparatórios a
serviço da guerra ou nos exames de "rotina" anuais em que os japoneses eram obrigados a participar.
E com fim da guerra esses corpos foram liberados dessas amarras da tradição, sendo talvez um dos
eventos mais simbólicos do dia em que foi anunciado o fim da guerra era o das casas de banhos
sendo abertas e bares, já que estes durante o período de guerra eram abertos em dias intercalados.
Que modo melhor de comemorar, se não dando prazer a única coisa que sobreviveu - quase que
intacta - à guerra, assim surgindo uma nova tradição do corpo, trabalhada por Yoshikuni
Igarashi(2011).
De inimigos a aliados
A rendição incondicional japonesa embora como o próprio nome diz - incondicional - foi
tratada com cuidado pelos Aliados, já que uma vez que o orgulho tradicional japonês não teria
desistido da guerra caso as condições propostas não fossem aceitas, algo que o general americano
Douglas MacArthur buscou mostrar em seus encontros com Hirohito:
Eu me sentia receoso de que ele poderia advogar por causa própria contra o
indiciamento de criminoso de guerra .Tinha ocorrido um considerável alarido de
alguns Aliados , especialmente os russos e britânicos, para incluí-lo nesta categoria.
De fato, a lista inicial dos que foram propostas por eles, estava encabeçada pelo
nome do Imperador. Percebendo as consequências trágicas que se seguiriam a tal
ação injusta, Eu resisti, vigorosamente a tais esforços. Quando parecia que
Washington iria aderir ao ponto de vista britânico, eu alertei que eu iria precisar de
pelo menos, um milhão de reforços para tal medida pudesse ser cumprida.
Essa passagem demonstra esse terreno do pós guerra , um clima tenso politicamente ,
contrapondo outras passagens do relato de MacArthur que mostrava um Hirohito frágil e
humilhado.
Ele estava nervoso e o stress dos meses passados ficou plenamente visível. Eu
dispensei todo mundo menos o intérprete dele, e nós nos sentamos diante da lareira
de uma das extremidades do imenso salão de recepção. Eu lhe ofereci um cigarro
americano que ele aceitou com gratidão. Eu notei como as mãos dele tremiam
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
enquanto acendia o cigarro para ele. Eu tentei tornar aquilo, o quanto pude, o mais
fácil possível para ele, mas eu sabia o quão profunda e aterradora poderia ser a
agonia da humilhação dele.204
O número mágico de um milhão parecia nos discursos da época representar bem a bomba
atômica e o Imperador, algo se analisado para o poderio bélico da época com calma seria aterrador
visto que apenas um artefato de guerra representaria tal número. Por um lado tem o discurso de que
a bomba teria salvado um milhão de soldados americanos, por outro seria necessário outro milhão
para impedir Hirohito caso não se tivesse um acordo de paz no momento certo.
Embora extremamente dramatizado teatralmente as narrativas de MacArthur nos mostram
um interesse americano em coverter este inimigo - Hirohito - que também se mostrou digno da
salvação americana, embora como evidenciado por Igarashi há uma série de erros nesses relatos. O
fato de nenhuma lista de criminosos de guerra "encabeçada pelo Imperador" jamais ter sido
apresentada e Hirohito também ser conhecido por aversão ao fumo demonstram alguns traços de
uma narrativa criada intencionalmente por MacArthur.
Logo então esses discursos servem para se notar como a narrativa de conversão foi sendo
construída pelos norte-americanos nesse pós guerra, visando negar a participação do Imperador na
guerra do Pacífico ao mesmo tempo que quer colocá-lo como uma personagem ativa no fim da
guerra: suas condições, seus encontros, suas decisões. Essa atividade pode ser simbolicamente notada
ao ser comunicado a rendição pelo rádio, cuja pela primeira vez foi escutada a voz do Imperador no
rádio, um evento altamente carregado de signos transformados e novos sendo construídos, tais como
o Imperador se comunicando "pessoalmente" com seu povo e a notícia - chocante - de rendição.
O filosofo Koyata Washia(1989 apud IGARASHI,2011) evidenciou este episódio da rendição
em quatro pontos acerca do édito rendição:
1º: O Imperador teria sido apresentado como o agente que encerrou a guerra, não teria sido
uma derrota porque foi um ato consciente do Imperador.
2º Responsáveis pela guerra: militares.
3º Uso de armas brutais e morte de inocentes, se a guerra não fosse parada poderia acarretar
na extinção humana.
4º Colocava o Imperador como guia para a civilização japonesa.
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A partir destas análises não há então como negar a aproximação dos EUA para com o Japão
por intermédio do evento "bomba atômica" que levou o mundo a Guerra Fria e transformou o Japão
em seu mais próximo aliado no Oriente. Essas construções acerca dessas narrativas são carregadas de
signos de modo que elas proponham o discurso desejado, como o relato da assinatura da nova
constituição japonesa(TAKAYANAGI,1972 apud IGARASHI,2011) proposta pelo governo
americano.
O general Whitney sentou de costas para o Sol, proporcionando a melhor luz para
os semblantes dos japoneses presentes que se sentaram em frente a ele... general
Whitney sufocou, de uma vez, qualquer discussão sobre o esboço de Matsumoto
dizendo vagarosamente e ponderando cada palavra(...)
Por fim através deste outro relato, nota-se a intenção de criar uma narrativa de poder entre os
EUA e Japão, no caso o general Whitney teria intencionalmente sentado de costas para o Sol de
modo a simbolizar a relação de poder em tal reunião - algo já implícito, já que a constituição nova era
proposta do governo americano.
Personificação do Imperador
A partir deste trajeto tomado pelas narrativas que estavam sendo moldadas com o fim da
guerra e a aproximação política - também cultural - EUA e Japão, a figura do imperador se vê então
transformada, a narrativa da inocência de um Imperador pacífico e convertido ganha mais forças
quando durante os julgamentos pelo tribunal de Tóquio205 o Imperador não tendo nem sido
nomeado para julgamento.
Com esse desfecho favorecendo tais narrativas a figura do Imperador deixa de ser vista como
uma divindade viva e passa a ser visto como alguém parte de seu povo, este que por sua vez passa a
identificar cada vez mais com ele.
Sua humanização está altamente presente nesses discursos em que se criou a ideia como
citado anteriormente de que ele "salvou" todo seu povo ao concordar com a rendição e indo mais
205
Entidade responsável para julgar os criminosos de guerra japoneses.
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
além acreditava-se que ele interferiu de modo de salvar o mundo de uma possível eminente
catástrofe caso a guerra continuasse.
Talvez um exemplo muito nítido que os japoneses pudessem se identificar com o Imperador
se encontre na foto tirada ao final de uma das reuniões de Hirohito com General MacArthur, pelo
fotografo seu fotografo pessoal206. Na imagem em filme preto e branco com um enquadramento de
modo que um grande espaço da sala aparecesse na foto e a iluminação ficasse a favor do General
americano e suas roupas brancas, ainda nela é possível simbolicamente separar os dois lados da
guerra: o lado japonês derrotado, cansado expresso por Hirohito e o lado vitorioso, grande, forte e
determinado em MacArthur. A foto também representa uma quebra de poderes em relação aos
valores supremos da imagem imperial, partindo do ponto em que Hirohito na imagem se encontra
abaixo do General, quase que subjulgado pela "grandiosidade" do mesmo.
GAETANO,Faillace. Imperador Hirohito e General MacArthur, em seu primeiro encontro na
embaixada americana.1945. Filme preto e branco. 20x30cm. Memorial MacArthur. Disponível em:
http://www.macarthurmemorial.org/.
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VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Não só simbolicamente essa humanização foi atribuída ao Imperador Hirohito, ele também
logo no pós guerra se vê viajando pelas ruínas do Japão. Vale ressaltar que a maioria das cidades
foram destruídas por bombardeiros incendiários de tropas Aliadas,assim o Imperador entrava em
contato quase que direto com a população.
Era dos corpos
Não é de surpresa alguma que fosse comemorado o fim da guerra, não sua rendição, derrota,
vitória, apenas o fim. A quebra de valores pelo qual a sociedade nipônica passou quase que
imediatamente foi visível, casas de banho e bares que abriam em dias alternados de repente se viram
abertas para comemorações.
Os japoneses passam a ver seu corpo como o único objeto resgatado na ruína em que se
encontravam as cidades devastadas e que maneira melhor seria então comemorar o fim deste
perverso conflito se não dando prazeres aos próprios corpos?
Voltemos um pouco ao período que antecede esse pós guerra, os corpos eram vistos como
algo sob completa submissão da ordem vigente, algo que começou a ser estipulado no final da
década de 1930 durante o conflito contra China. A partir disso os corpos então se tornaram um
assunto de crescente regulação.
Com essa nova regulação criou-se a ideia de um corpo nacional que deveria ser totalmente
disposto, treinado e patriota e por meio de exames físicos identificavam os corpos "não saudáveis"
que se tornavam alvo de repressão, vistos como antipatrióticos e aqueles que passassem pelos
"corretivos" da sociedade - mais populares hospitais psiquiátricos e de leprosos - e ainda não
obtecessem um resultado positivo tinham seus corpos "descartados" sem muitas delongas.
Assim como podemos identificar no relato do fotografo Kikujiro Fukushima, havia muita
rigidez quanto à seriedade de treinamento desse corpo nacional:"(...)Contudo os poucos soldados
que foram devagar nas ações e memorizações continuaram sendo punidos(como tinha acontecido
desde começo do treinamento)(...)"(FUKUSHIMA,1987 apud IGARASHI,2011)
Desta maneira não fica difícil imaginar um clima mais agradável para os cidadãos comuns ao
ouvirem a voz do Imperador no rádio, por exemplo , segundo Igarashi , Fumiko Totsuka que
trabalhava como editora de revistas, participou de uma "festa selvagem" - algo que o autor explica
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
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como uma festa com muitas bebidas e jazz -mostrando claramente sua posição ao utilizar batom e
vestido vermelho, itens de luxuria( que estavam proibidos nos tempos de guerra.
Passado esse tempo em que certos estímulos corporais eram privados as pessoas ,os
japoneses não só veem seus corpos como templos pessoais de adoração e prazer como também saem
das amarras de uma tradição derrotada.Considerando também do ponto de que a própria
constituição japonesa estava sendo revisada para se tornar mais "liberal".
A literatura nesse pós guerra também prega essa "era dos corpos" como escreve Taijirô
Tamura em 1948:
[...]Mas agora o corpo está se rebelando claramente.Os japoneses, sistematicamente,
desconfiam da crença. Não acreditamos em nada que não seja nossos corpos.O
corpo é uma verdade. A dor do corpo, o desejo do corpo, a fúria do corpo, o êxtase
do corpo, a confusão do corpo, o sono do corpo - estas são as únicas verdades. 207
Este escritor que foi apelidado de "escritor do corpo", escreveu diversas histórias que
acabaram sendo adaptadas paro o teatro, ele afirmava que o corpo era o único lugar onde as pessoas
poderiam encontrar a realidade histórica da derrota e da confusão.
Ele pode ser considerado um dos signos mais notórios dessa "era dos corpos" do Japão pós
guerra com suas afirmações que dialogam com os relatos da época.
Conclusão
Por meio dessas análises do período que antecede a Segunda Guerra mundial até pouco
depois do pós guerra, nota-se como há uma mudança e quebra de paradigmas na cultura nipônica,
que se vê no auge e pouco tempo depois está estilhaçada. Assim como a narrativa que foi construída
com intuito não só de isentar o Imperador de possíveis crimes de guerra como também justificar o
uso do armamento nuclear e aproximar o Japão dos Estados Unidos politicamente foi crucial no
desenrolar desse pós guerra.
Por fim os corpos ainda que carregados de muitas memórias - recentes - passam a ser
atribuídos com novos valores e signos para essa nova libertação que o fim da guerra trouxe, algo que
pode ser entendido como uma resposta quase que imediata àintensa rigidez de controle dos mesmos
durante o período de conflito.
207
TAIJIRÔ,1948 apud IGARASHI,2011.
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Referencias bibliográficas
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FAILLACE,GAETANO. Photo: Hirohito, Douglas MacArthur, U.S. 1945. Filme preto e
branco.
20x30cm.
Acervo
do
Memorial
MacArthur.(Disponivel
em:
http://www.macarthurmemorial.org/).
GAETANO,Faillace. Imperador Hirohito e General MacArthur, em seu primeiro encontro na
embaixada americana.1945. Filme preto e branco. 20x30cm. Memorial MacArthur.
IGARASHI, Yoshikuni. Corpos da memória: Narrativas do pós-guerra na cultura japonesa(19451970) Tradução de Marco Souza e Marcela Canizo. São Paulo: Annablume, 2011.
KAWABATA, Tai. Photos, films depict Tokyo in turbulent times.Disponível
<http://www.japantimes.co.jp/culture/2010/09/03/culture/photos-films-depict-tokyo-inturbulent-times/#.Ul9ez1CTjTQ>. Acesso em: 14 out. 2013.
em:
KOLAKOWSKI,
Christopher. The
MacArthur
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<http://www.macarthurmemorial.org/>. Acesso em: 14 out. 2013.
em:
POLLAK,Michael.Memória,Esquecimento,Silêncio.In:Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2,
n. 3, p.3-15, 1989.
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QUESTÕES PRELIMINARES PARA CONSTRUÇÃO DE UMA ANÁLISE DE
EXPOSIÇÕES EM MUSEUS HISTÓRICOS
Roberto da Silva Rodrigues (Mestrando em História Social – UEL)
Orientadora: Claudia Eliane Parreiras Marques Martinez
Discutiremos aqui questões teóricas buscando trilhar um caminho de
entendimento que permita estabelecer alguns balizadores para análise de exposições em museus
históricos. Neste sentido, o debate que aqui será desenvolvido vai tratar de algumas ideias,
principalmente, de duas contribuições teóricas, a primeira é o estudo que Myrian Sepúlvida dos
Santos no livro A escrita do passado em Museus Históricos (2006) no qual a pesquisadora analisando o
Museu Histórico Nacional propõe algumas categorias resultantes desta análise: museu-memória e
museu-narrativa. A outra contribuição que lançaremos mão é de Letícia Julião em Apontamentos para
uma história dos museus (2006), no qual encontramos uma breve síntese histórica do surgimento do
museu moderno.
Neste trabalho analisaremos, portanto, como poderia ser estabelecido parâmetros
de análise de exposições em museus históricos dialogando também com outros autores consagrados
na área da museologia e do patrimônio histórico, como Ulpiano Bezerra Toledo de Meneses. O
debate sobre a prática museológica pode ser observado sobre diversas perspectivas as quais podem
abrir para um amplo horizonte de problemas que o tema envolve.
O SURGIMENTO DOS PRIMEIROS MUSEUS: O CARÁTER HISTÓRICO DE SUA
CONCEPÇÃO
Do ponto de vista histórico, é possível relacionar dois movimentos que
repercutem na prática museológica: o estabelecimento e refinamento da história e do conhecimento
histórico em sua ambição “científica”; e as transformações sociais, políticas e culturais que,
sobretudo no século XX, revelam uma maior preocupação das sociedades em preservar tradições ao
mesmo tempo em que passam a problematizar a respeito de quais tradições preservarem. É nesse
sentido que podemos compreender os congressos internacionais, no final do século XX, que
procuram discutir políticas e diretrizes sobre a organização e exposições nos museus históricos.
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Letícia Julião, no texto Apontamentos sobre a História do Museu, nos ajuda a
compreender as mudanças de concepção que acontecem nos museus históricos revelando suas
missões iniciais e os movimentos que acontecem de renovação dos museus. Segundo a autora:
Se a conjuntura da Revolução Francesa, em fins do século XVIII, traçou os
contornos da acepção moderna de museu, esta se consolidaria no século XIX, com
a criação de importantes instituições museológicas na Europa. Em 1808, surgia o
Museu Real dos Países Baixos, em Amsterdâ; em 1819, o Museu do Prado em
Madri; em 1810, o Altes Museum, em Berlim, e em 1852, o Museu Hermitage, em
São Petersburgo, antecedidos pelo Museu Britânico, 1753, em Londres, o
Belvedere, 1783, em Viena. Concebidos dentro do “espírito nacional”, esses
museus nasciam imbuídos de uma ambição pedagógica – formar o cidadão, através
do conhecimento do passado – participando de maneira decisiva do processo de
construção das nacionalidades. (JULIÂO, 2006, p. 21).
Esta passagem revela que no século XIX deu-se na Europa o surgimento de
museus lado a lado com o movimento político de criação e consolidação dos estados nacionais
cabendo aos museus a ambição pedagógica de difundir valores nacionais para a formação de
cidadãos. No caso do Brasil, o primeiro museu surgiu em 1818, o Museu Real, atual Museu Nacional;
em 1864 é criado o Museu do Exército, em 1868 o Museu da Marinha, em 1876 o Museu
Paranaense, em 1894 o Museu do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia e o Museu Paulista em
1894. Caracterizados pelas pretensões enciclopédicas, eram museus dedicados à pesquisa em ciências
naturais, de etnografia, paleontologia e arqueologia. (JULIÂO, 2006, p. 22).
É possível dizer que no século XIX firmam-se dois modelos de museus no mundo:
aqueles alicerçados na história e cultura nacional, de caráter celebrativo como o
Louvre, e os que surgem como resultado do movimento científico voltado para a
pré-história, a arqueologia e a etnologia, a exemplo do Museu Britânico. No Brasil,
os Museus enciclopédicos, voltados para diversos aspectos do saber e do país,
predominaram até as décadas de vinte e trinta do século XX, quando entraram em
declínio como no resto do mundo, em face da superação das teorias evolucionistas
que os sustentavam. (JULIÂO, 2006, p. 22).
Vemos que o modelo inicial de museu no Brasil situa-se, segundo Letícia Julião,
dentro do segundo tipo dos dois modelos que se firmam no mundo no século XIX: o museu
enciclopédico, fato característico do ambiente científico da época. Só em 1922 a questão da nação iria
se impor enquanto principal questão museológica no Brasil:
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EM HISTÓRIA SOCIAL
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A questão da nação, no entanto, ganharia evidência museológica, no Brasil,
somente a partir da criação, em 1922, do Museu Histórico Nacional (MHN). Marco
no movimento museológico brasileiro, como observa Regina Abreu. O MHN
rompeu com a tradição enciclopédica, inaugurando um modelo de museu
consagrado á história, à pátria, destinado a formular, através da cultura material,
uma representação da nacionalidade. Resultado do empenho de intelectuais
apoiados pelo Estado, e tendo à frente Gustavo Barroso, diretor do Museu de
19922 a 1959, o MHN foi organizado com o objetivo de educar o povo. (JULIÂO,
2006, p. 22).
Portanto, podemos compreender a inauguração do Museu Histórico Nacional, em
1922, como um marco na prática museológica no Brasil. A figura de intelectuais, preocupados com a
pesquisa histórica, na direção do MHN, representou um maior espaço dado ao conhecimento
histórico dentro dos museus. Por sua vez, o tipo de história dentro destes museus era consagrado a
representação da nacionalidade e educação do povo.
Desse modo a questão da nação aparece enquanto mote das autoridades políticas e
intelectuais da época, tendo em vista que o MHN é inaugurado em ocasião da festividade do
centenário da Independência do Brasil, no governo de Epitácio Pessoa; também a semana de Arte
Moderna, em São Paulo, é outro fato significativo na cultura brasileira desse momento, pois coloca
em discussão a questão da nação e a positividade étnica do povo brasileiro. (SANTOS, 2006, pp 26 –
27).
Mas é a partir da década de sessenta que as críticas aos museus se acentuaram, em meio á crescente
insatisfação política e a movimentos de democratização da cultura, realidade que atingia diferentes
países do mundo[...] os museus iniciam um processo de reformulação de suas estruturas, procurando
compatibilizar suas atividades com novas demandas da sociedade. Deixam de ser espaços
consagrados exclusivamente à cultura das elites, aos fatos e personagens excepcionais da história e
passam a incorporar questões da vida cotidiana das comunidades, a exemplo das lutas pela
preservação do meio ambiente e da memória de grupos sociais específicos. (JULIÂO, 2006, p. 27).
Em 1946 é criado o Conselho Internacional de Museus (ICOM), como instituição
da UNESCO, e as discussões sobre as instituições museológicas passam a ser incrementadas em
nível internacional. (JULIÂO, 2006, p. 27).
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
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A HISTÓRIA DENTRO DOS MUSEUS BRASILEIROS
Nos primeiros museus históricos no Brasil, a história veiculada apresentava uma
ideia de culto ao passado. Para citar a análise de Miriam Sepúlvida dos Santos sobre o Museu
Histórico Nacional, que foi considerado um marco e paradigma para outros museus históricos no
Brasil.
O Museu de 19922 é um museu que nasceu preocupado em delimitar o perfil da
“nação brasileira” a partir de um forte cunho militarista. Nele, a história é tratada de
forma muito próxima aquela dos antiquários ou mesmo da história romântica, que
demonstravam o desejo de resguardar do tempo tudo que fosse original e autêntico,
bem como um forte sentimento comemorativo pelo passado. Neste tipo de
museus, aqui caracterizado como um ‘museu-memória’, a história é apresentada por
uma sequência de objetos e palavras do passado que reflete uma temporalidade
descontínua e pontual. O forte simbolismo ou carisma atado às peças remete não a
elas próprias, mas a uma realidade maior, da qual os objetos são apenas um
fragmento. O MHN de 1922, portanto, trabalhava com a mostra do passado, e não
com exemplos. Fazia alusão ao passado e não procurava demonstrá-lo. (SANTOS,
2006, p. 21).
A característica da história presente no MHN revelada por Mirian Sepúlvida
Santos nos ajuda a compreender que para um determinado tipo de museu, com seu perfil delineado
pela política de gestão e curadoria, no caso a figura do ilustre Gustavo Barroso, vai corresponder a
uma concepção de história que se pode analisar por meio da exposição museológica: como o tempo
histórico é concebido, os personagens a que a exposição dá espaço, quais acontecimentos uma
exposição retrata, qual o significado do objeto histórico dentro da exposição e a relação da exposição
com o público, entre outras coisas. Santos analisa como o tipo de história, no consagrado MHN,
sofreu mudanças em sua concepção fruto de novos paradigmas em políticas para museus.
O MHN da década de 80 é aqui caracterizado como ‘museus narrativa’, aquele em
que a narrativa histórica subordina á sua lógica o discurso do objeto. Nele há um
claro distanciamento entre presente e passado, uma vez que o passado é
apresentado por meio de uma crítica neutra e/ou ideológica – em ambos os casos
uma postura distante em relação ao passado. O ‘sentimento nostálgico’, capaz de
reviver a tradição, de permitir uma identificação entre o ontem e o hoje, inexiste se
prioriza a razão e se expulsa o irracional dos objetos. Estes, como símbolos, são
utilizados para construir uma metáfora do que foi o passado segundo a lógica de
seu tempo. A história não é utilizada para rememorar fragmentos do passado; ela é
a autocompreensão da humanidade. Na atual exposição do MHN, a escrita da
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
história está intimamente ligada a uma concepção de tempo linear e progressiva. Há
um cadenciamento claro, que já não é mais o dos acontecimentos políticos, mas o
dos acontecimentos políticos, mas o dos ciclos econômicos. Por meio de uma
abordagem multissecular, o Museu propõe-se a fazer a síntese da história da nação
brasileira. (SANTOS, 2006, p. 22).
Estas passagens são aqui utilizados para elucidar como a própria natureza e tipo de
história que uma exposição museológica trata é mutável. Os diretores de museu acabam sendo
figuras importantes não só pela gestão que realizam mas também pelo trabalho da pesquisa histórica
que está presente numa exposição museológica, é o caso de Afonso de Taunay, no estudo de Ana
Cláudia Fonseca Brefe sobre o Museu Paulista. Interessante observar como Afonso de Taunay,
baseado em sólidas e sistemáticas pesquisas sobre a história das bandeiras paulistas, utilizando-se
também de boas relações políticas, monta todo um cenário no Museu como lugar de culto e
celebração do esforço paulista na constituição da nação brasileira.
Mesmo quando insistia nas referências documentais para compor um quadro,
Taunay estava ciente do fato de que a pintura histórica destinada a espaços
monumentais de museus históricos deveria se preocupar com a ‘verdade do
passado’ extraída do documento, mas seu principal valor estava na evocação do
episódio ou personagem lembrado. Por isso Taunay manipulou inúmeras vezes as
imagens as serem pintadas, com o intuito de reforçar o seu ponto de vista sobre a
história narrada. (BREFE, 2005, p. 231)
Esta passagem mostra como um ponto de vista histórico ou uma ideia precede a
composição, combinação e criação dos objetos presentes numa exposição museológica, neste caso,
pinturas encomendadas para retratar episódios históricos. A ideia que Taunay buscou retratar no
Museu Paulista foi a narrativa da epopeia bandeirante em torno de figuras míticas como Antônio
Raposo Tavares e Fernão Dias Paes Lemes. (BREFE, 2005, p. 224).
O PROBLEMA DA IDENTIDATE NAS EXPOSIÇÕES HISTÓRICAS
Na leitura do texto de Ulpiano Bezerra Toledo de Meneses, A problemática da
identidade cultural nos museus: de objeto (de ação) a objeto (de conhecimento), (1993), encontramos uma
importante discussão a cerca das manipulações das identidades nos museus históricos.
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os museus dispões de um referencial sensorial importantíssimo, constituindo, por
isso mesmo, terreno fértil para as manipulações das identidades. Seria ocioso
lembrar com que facilidade certos objetos se transformam em catalisadores e
difusores de sentidos e aspirações: da cruz do cristianismo aos uniformes militares,
passando pelas bandeiras nacionais e pelos emblemas publicitários. Trata-se
efetivamente, de fetiches de identidades, de alto poder de comunicação.
(MENESES, 1993, p. 211)
Nesta passagem Meneses problematiza a questão da identidade, como tema
contemporâneo que emerge também nos debates sobre museus. No museu, segundo Meneses, o
risco seria de que uma exposição, por exemplo, se transforme em apresentação de coisas, das quais se
podem inferir paradigmas de valores para os comportamentos humanos e não na discussão de como
os comportamentos humanos produzem e utilizam coisas com as quais eles próprios se explicam.
(MENESES, 1993, p 212).
O desconforto que Meneses observa ao analisar questões como identidades e a
exposição museológica decorre, ao que parece, dos novos problemas que a contemporaneidade
apresenta, não só no campo da museologia, mas para a ciências humanas como um todo. Novos
problemas que por sua vez indicariam uma nova complexidade para o as formas de conhecimento
histórico realizado nos museus.
A História começou a preocupar-se tardiamente com o problema do ‘outro’, que é
o foco destas discussões. Hoje, todavia, a disposição de dar voz aos silentes e
excluídos tem provocado uma fragmentação generalizada, que corre o risco de
atomizar o campo da disciplina. São inúmeras as variantes temáticas e
metodológicas: História ‘vista de baixo’, Micro-história, História antropológica,
História do cotidiano, História Oral, História das mulheres, das crianças, etc. etc.
etc. (para um panorama, ver Burke, 1991). Excluídos os frutos dos modismos e a
ocorrência de descompromissos com a insubstituível dialética entre o macro e as
microestruturas, é evidente o benefício que essa introdução da dimensão da
‘experiência vivida’ trouxe ao conhecimento histórico. (MENESES, 1993, p. 217).
Acredito que o problema da identidade sempre esteve presente nos museus
históricos, bem como os riscos dos papeis ideológicos que uma exposição pode desempenhar. Não
há como negar o papel ideológico que, em certa medida, exerceu Afonso de Taunay ao manipular as
pinturas para uma representação de uma ideia no Museu Paulista. Talvez, como o próprio Meneses
afirma, coloca-se hoje a centralidade da orientação metodológica para uma observação de exposições
museológicas. Sendo assim, uma metodologia de observação deveria orientar os olhares para
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
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diferentes aspectos da exposição, buscando dissecar os elementos de sua composição, desvendando
sentidos explícitos e implícitos na intencionalidade de sua criação.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Do ponto de vista mais amplo, podemos observar o movimento histórico que
atravessou diversas nacionalidades, do século XIX ao XX, de instauração e renovação de instituições
e paradigmas da museologia. O Brasil não ficou fora desta movimentação, mas teve uma instauração
“tardia” destas instituições.
Pela discussão desenvolvida até aqui é possível traçar alguns pontos para análise de
exposições históricas: a relação com debate científico da época; que tipo de concepção de história a
exposição sugere; como os objetos da exposição ajudam a compor uma ideia de tempo histórico;
como a ideia de passado é construída na exposição como um todo; quais identidades estão
representadas e como elas são manipuladas na transmissão de mensagens e memórias.
Como é indicado no título deste trabalho, o debate preliminar que aqui é
desenvolvido aponta para alguns poucos aspectos que envolvem as exposições históricas e a
museologia, podendo a discussão ser aprofundada, em outro momento, a cerca de outras dimensões
tais como o objeto de exposição museológica, o público para o qual a exposição se destina; a
construção da memória entre outros aspectos.
Referências Bibliográficas
BREFE, Ana Cláudia Fonseca. O museu Paulista: Afonso de Taunay e a memória nacional. São Paulo:
Ed. Da UNESP; Museu Paulista, 2005. (caps. 2 e 3)
JULIÂO, Letícia. Apontamentos sobre a história do museu, In: Caderno de diretrizes museológicas.
Brasília: Ministério da Cultura/Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional/Departamento de Museus e Centros Culturais. Belo Horizonte: Secretaria de Estado da
Cultura/Superintendência de Museus, 2006.
MENESES, Ulpiano Bezerra Toledo de. A problemática da identidade cultural nos museus: de objeto (de ação)
a objeto de (conhecimento). Anais do Museu Paulista Nova Série, N. 1, 1993.
SANTOS, Miriam Sepúlvida dos Santos. A escrita do passado em museus históricos. Rio de Janeiro:
Garamond, Minc, IPHAN, DEMU, 2006.
313
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EM HISTÓRIA SOCIAL
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COMO PENSAR O PATRIMONIO NATURAL POR MEIO DOS QUADIRNHOS DE
GABRIEL MOON E FABIO BÁ
Damicele Salgado Gorgatti (História/UEM)
Prof.Dr.Sandra C.A.Pelegrini(Orientadora)
Resumo do Trabalho: Nas tiras de quadrinhos dos irmãos Gabriel Moon e Fabio Bá foi possível
localizar indícios que levam a discussão sobre a preservação do patrimônio natural. Caracterizam
como animais de espécies diversas o locutor, variando de acordo com a proposta de cada tira em
quadrinhos. Com tudo mantendo sempre a perspectiva do meio natural como racional que mantem
o ser humano em observação avaliando e refletindo sobre passagens do cotidiano ou eventos
políticos marcantes.
Palavras-Chave: Quadrinhos, Sensibilidades, Patrimônio Natural.
É pertinente problematiza-lo com o contexto inserido recordando o destaque de Gombrich em ‘A
história da Arte’. Embora a arte objetive uma maior liberdade criativa, mostrar menos detalhes ou ser
aparentemente singela não significa que estaria aleatória de seu contexto ou menos embasada. Sendo
que sua significação estaria mais dependente do referencial adotado ao nos dirigimos ao objeto.
O seguinte trabalho tem como objetivo reconhecer a forma com que a discussão sobre o patrimônio
natural que desde a década de 1970 tendo sua pujança com a década de 1990 poderia estar sendo
discutido. Problematizando seu contexto analisando as escolhas operacionalizadas diante do dito,
não dito e o contra dito como bem discute Chartier em “La história o la lectura del tempo”.
Patrimônio Cultural e Quadrinhos
Sendo esta a primeira publicação do presente projeto de pesquisa, segue uma breve apresentação de
seus possíveis encaminhamentos. Apresentando suas bases para reflexão diante dos recursos
proporcionados pelo objeto e estabelecido dentro do recorte temático determinado.
A discussão sobre patrimônio natural envolve a preservação da identidade e memória, integrando-se
a um todo que constitui o patrimônio cultural. Com importância de valorização e preservação que
vai além de meramente seu registro por meio dos bens móveis ou imóveis, sua ressignificação é
continua ao passar dos anos.
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EM HISTÓRIA SOCIAL
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A manifestação da memória através dos costumes e cotidiano além de serem exercícios de cidadania
influenciam diretamente no meio social. A sensibilidade do cotidiano é parte estruturante nas
interações construídas entre as relações sociais e seus bens culturais, fortalecendo essa memória.
O reconhecimento para mobilização da preservação do patrimônio natural, com a valorização das
discussões sobre a necessidade de uma consciência ambiental está presente timidamente desde a
década de 1970. Obtendo pujança após a década de 1990 e na atualidade tornaram-se ainda mais
diretas em nosso dia a dia.
Os quadrinhos
Embora os irmãos Gabriel Moon e Fabio Bá que não detenham pretensões em direcionar sua
temática a discussão sobre Patrimônio Cultural, sua abordagem ao cotidiano em suas sutilezas
proporciona um vasto material. Como bem esclarecem os irmãos quadrinhistas em diversas
entrevistas, sempre gostaram de refletir sobre as sensibilidades do cotidiano.
Com quadrinhos estilo HQ elaborados com canetinha ou pincel constroem narrativas com
personagens próprios e de traçado particular. Valorizando a sensibilidade do leitor com personagens
de traços retos e trabalhando a profundidade com o jogo de luzes e sombras em suas tiras em preto e
branco.
Estes irmãos gêmeos nasceram no dia 05 de junho de 1976 em São Paulo capital e foram criados no
Bairro Vila Mariana. Ambos formaram-se em artes plásticas e classificam-se como quadrinhistas e
contadores de histórias. Estão inseridos em seu espaço e tempo histórico, por meio das aparentes
trivialidades retratam o cotidiano inspiram-se na realidade que os cercam para criar suas histórias.
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Figura 01 - Quase Nada 217 – Tira digitalizada de Gabriel Moon e Fabio Bá. Disponível em: <
http://www.flickr.com/photos/10paezinhos/9185565070/> Acesso em: 12 out. 2013.
Gombrich em a história da arte reconhece parte deste processo como percepção de gosto, em que o
individuo em interação com a experiência isola características ou elementos que constituem um todo.
Representando passagens e situações que elaboram com a sensibilidade promovida pelas sensações
de suas experiências.
A riqueza da tira enquanto criação artística entrelaça questões de forma leve sem perder a linha
temática de reflexão desejada. No entanto mesmo sendo sequencia de um trabalho que por diversas
vezes é submetido a venda em parceria com editoras, não perde necessariamente sua liberdade
criativa e artística.
Esta sensibilização de emoções que os quadrinhos promovem com o auxilio da arte pode ser
disposta de diversas formas, sempre com uma ideia a ser transmitida. Em particular a utilização dos
quadrinhos enquanto objeto de pesquisa reconhece sua riqueza de recursos, sua estética relaciona o
recurso textual e imagético a favor da mensagem que deseja transmitir.
Velloso aprofunda a discussão sobre sensibilidades enquanto estímulos, neste conceito inserindo a
emoção como ferramenta de comoção que canaliza a ações, determinações e ideais sociais coletivos.
Com mais destaque que Gombrich ressalta seu poder de mobilização coletivo.
O mesmo pode dizer-se da emoção, entendendo-a como componente social ativo,
capaz de aglutinar energias participativas em torno de ideias e projetos coletivos. A
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imaginação criadora mostra-se de fundamental importância nessa dinâmica,
articulando a esfera do sonho e do desejo à da ação e realização.(VELLOSO,
2008.p.330)
Desde o período de ensino médio estes irmãos quadrinhistas produzem suas tirinhas com a
referência ao cotidiano já declarado pelo titulo. As três primeiras coletâneas de histórias que os
irmãos inauguram sua produção são batizadas de “10 paezinhos” em alusão a rotina diária que
tinham no café da manha da família, o consumo de pães de cada dia.
Trabalhando o cotidiano e sua relação com a percepção de tempo, já que embora uma passagem tão
curta de um evento possa imprimir um contexto muito mais rico do que declara aparentemente. O
trabalho de estudo em que discutimos a memória e a identidade detêm essa complexidade com a
sensibilidade vivida pelos que se inserem em uma dada identidade.
Essas questões nos ajudam a pensar os acontecimentos de uma outra maneira,
percebendo-os na ‘espessura de temporalidade de um fato’. Expectativas,
ansiedades, sonhos, desejos, enfim, emoções, as mais diversas, vão integrar a
constituição de um acontecimento. É por meio da emoção poética, veiculada pelas
cartas de Mário, que podemos reconstituir uma outra memória do modernismo, no
interior da qual vemos emergir representações que entrecruzam imagens de razões
e
sensibilidades,
fazendo
confluir
as
identidades
pessoais
e
coletivas.(VELLOSO,2008.p.330)
As histórias em quadrinhos detêm a liberdade de criação e expressão do autor sem necessariamente
um comprometimento prévio, com tudo faz parte de uma totalidade de produções artísticas e sociais
características de seu contexto histórico. O debate procura compreender a forma com que esse
trabalho se insere e relaciona reconhecendo a liberdade criativa do artista.
Os irmãos Gabriel Moon e Fabio Bá explicam que a opção pelo recurso dos quadrinhos seria por
reunir uma riqueza de recursos diferenciada, pois respeitaria o ritmo do leitor a medida que é um
material de leitura imagética e textual que depende do ritmo que o próprio leitor imprime para ser
lido, interpretado e reconhecido. Trabalharia bem o dialogo e permitiria de forma particular o
destaque do instante, fator muito enfatizado e valorizado pelos quadrinhistas.
Ler e não sofrer nenhuma alteração era uma ideia inconcebível, já que se tinha
certeza de que a experiência da leitura jamais seria inócua.(ABREU,)
Mas partamos deste aforismo: um documento é dado como documento histórico
317
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
em função de uma determinada visão de uma época. Isso introduz no conceito de
documentação ao meio social que o conserva. (KARMAL,2009.p.21)
As histórias em quadrinhos dispõem de uma riqueza que recursos de representação impar, da mesma
forma que outros recursos também têm sua riqueza. A forma de linguagem seja ela qual for
encontra-se inserida em um contexto histórico desenvolvido socialmente que está em constante
movimento e ressignificação.
Sendo então as histórias em quadrinhos uma das possíveis formas de expressão e passível de
problematização. A importância do objeto depende fundamentalmente dos recursos disponíveis
cientificamente para seu reconhecimento, fator que é extremamente dependente de seu período e
contexto histórico.
Essa advertência deve ser destacada, visto que ela torna inteligível o processo e
comunicação entre indivíduos, um processo que é racional e emotivo ao mesmo
tempo. Essa mescla de racionalidade e emotividade favorece o surgimento de
sensibilidades
socializadas
ou
partilhadas,
num
dado
momento
histórico.(RAMOS,p.164)
Como bem Pesavento em “Imagens,Memórias, Sensibilidades: Territórios do historiador “, o trivial
detêm grande importância pela sua sensibilidade tão naturalizada pelos que vivem. Segundo Ramos,
para a Pesavento as sensibilidades seriam desenvolvidas socialmente em experimentação traduzindo
seu mundo para razões e sentimentos tangíveis.
Sempre com uma mensagem a ser apresentada a tira em quadrinhos se apresenta com uma
introdução, desenvolvimento e conclusão. Muito frequentemente a conclusão é deixada em aberto
para que o leitor tome sua participação mais efetiva na leitura, ou para instigar uma indignação que
leve a uma reflexão da ideia disposta.
Promovendo um constante contato com as sensibilidades, as sensações que o leitor teria relacionadas
às suas experiências e memórias. O encontro de questões familiares que sensibiliza e mobiliza o leitor
a interpretações possíveis.
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Figura 02 - Quase Nada 193 – Tira digitalizada de Gabriel Moon e Fabio Bá. Disponível em:<
http://www.flickr.com/photos/10paezinhos/8304045542/> Acesso em: 03 nov. 2012
Para melhor explorar a discussão sobre o patrimônio natural, a presente pesquisa tem como foco a
sequencia de quadrinhos chamada “Quase Nada”. Por hora somente publicada no Blog dos irmãos,
incorpora em todas as tiras um personagem do reino animal como a voz da razão ao final da reflexão
diante de ações do ser humano. A criação dessa voz emergindo da fauna surgiu como uma forma de
diversificar a representação da voz do locutor. Assim sem saturar com a presença de personagens
fixos a tira varia a espécie do animal conforme a mensagem e temática proposta.
A arte bem como os quadrinhos é desenvolvida a partir de uma base da visão local conjuntamente
com a global. A escolha da perspectiva realizada na tira proporciona a observação de elementos e
sensibilidades diversas, sem um comprometimento com a verdade. Com tudo constitui uma visão de
mundo que convergem para enriquecer e fundamentar a obra.
A tira em quadrinhos tem sempre uma linguagem que direciona a uma mensagem ou história. Porém
não tem um comprometimento em retratar fatos ou estabelecer uma verdade. O processo de criação
relaciona elementos sem regras pré-definidas, mas se constitui dentro de um contexto em que se
insere. Como podemos perceber nas relações estabelecidas de representação na tira a baixo.
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Figura 03 - Quase Nada 182– Tira digitalizada de Gabriel Moon e Fabio Bá. Disponível em:
<http://www.flickr.com/photos/10paezinhos/8099858702/> Acesso em: 20 de set. 2013
A relação disposta na imagem detêm diversas possibilidades de interpretação. Podemos afirmar, no
entanto a analogia da sociedade enquanto um jardim. A linguagem textual e a presença da figura
animal representada como interlocutor da tira, uma lagarta de jardim que vive e se alimenta em meio
às plantas deixam clara esta analogia. A ironia está exatamente na particularidade da espécie do
animal disposto, muito conhecido popularmente por destruir hortas e jardins comendo suas
folhagens.
Em particular a dupla de autores se dispõe a um questionamento nítido de nossa sociedade. Abrem
para reflexão quanto a questões ou poderes a serem revistos. O questionamento irônico por meio
dos quadrinhos não é novidade, mas nesta forma de questionamento é muito particular da produção
destes quadrinhistas.
Com uma dose de humor que se identifica inclusive na escolha da espécie de animal a representar a
voz da razão, abre-se espaço para uma discussão que pode ser muito produtiva a cerca do
Patrimônio Natural. Tendo em vista a valorização da imagem e palavra da natureza com destaque na
tira.
320
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Reconhecendo sua presença nas particularidades do cotidiano e problematizando sua interpretação.
Com as identidades relacionadas a essa crescente consciência ambiental e sua contribuição
fundamental para a preservação do Patrimônio Natural. Podemos refletir sobre o dialogo
estabelecido para preservação do meio ambiente inserido no contexto da atualidade.
REFERÊNCIAS
ABREU,Marcia. Sob o olhar de Priapo:Narrativas e Imagens em romances licenciosos setecentistas.São
Paulo:Ed.HUCITEC,2008p.344-373.
CHARTIER,Roger. La história o la lectura del tempo.Barcelona:Ed.Gedisa.2007.
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Janeiro:Ed.LTC.2001
KARMAL,Leandro;TATSCH,Flavia Galli.A memória evanescente;In,O Historiador e suas
fontes.Ed.Contexto.2009.p.09-27.
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Paulo:Ed.Brasiliense.2001.p.27-41.
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Cultural:
consciência
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Imagens da sensibilidade revolucionária no cinema Brasileiro dos anos 1960. In: RAMOS, Alcides
Freire; PATRIOTA, Rosangela; PESAVENTO, Sandra Jatahy. Imagens na História. SP: Hucitec,
2008.p.17-34.
RAMOS,Alcides Freire. Imagens da sensibilidade revolucionária no cinema Brasileiro dos anos 1960.
In: RAMOS, Alcides Freire; PATRIOTA, Rosangela; PESAVENTO, Sandra Jatahy. Imagens na
História. SP: Hucitec, 2008. p.163-196.
VELLOSO,Monica Pimenta. ”Sob a copa das arvores”,imagens de sensibilidade na correspondência
modernista;In:.Imagens da História.São Paulo.2008.p.330.
Blog do Fábio Moon e do Gabriel Bá: Quadrinhistas, Contadores de Histórias, Brasileiros.Disponivel
em:<http://10paezinhos.blog.uol.com.br/ >Acesso em: 09 set. 2012
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CÍCERO: CONCEPÇÕES RELIGIOSAS E O CONTEXTO TURBULENTO DO
PERÍODO FINAL DA REPÚBLICA ROMANA
Isadora Buono de Oliveira208
( Mestranda em História/FCL-UNESP-Assis)
Marco Túlio Cícero e suas obras evocam as particularidades do século I a.C. seja pela escrita
abundante quanto por sua proeminência política. Ao se estudar o último século da República
indiscutivelmente Cícero estará em evidencia tanto no âmbito político quanto no intelectual. No
estudo de suas obras o contexto tem um peso e significação que muitas vezes são extremamente
condicionantes. Tal apontamento explica-se pelo papel deste nas movimentações da sociedade
romana no período.
Não obstante, a turbulência política principalmente na segunda metade do séc. I a.C.
permeia a produção intelectual de Cícero, ou seja, condiciona os temas e forma que são
desenvolvidos. Reflete então, a forma como transita pelos temas no que concerne à situação política
de Cícero e o contexto político da república. Um aspecto que pode ser percebido no seguinte trecho
presente em Da natureza dos deuses:
“E se realmente tem a filosofia influência sobre as nossas vidas, julgo mesmo que
ela sempre esteve presente na minha vida, nos assuntos públicos ou nos privados,
quer por força da razão, quer por força da educação que tive. E se uma vez mais
me perguntassem que motivo me levou a consagrar por escrito tais ideias, nada há
mais fácil de explicar.Quando andava afastado da política em virtude da República
ter chegado a um estado em que foi necessário a um só homem tom ar o poder,
pensei que seria necessário explicar a filosofia à República, tendo para mim que de
magno interesse para a honra e glória da cidade trazer ao Latim ideias sérias e
nobres.” (CÍCERO,I,7)
Em suas obras Da natureza dos deuses, Sobre a Adivinhação, Tratado das leis e no discurso Sobre
sua casa, Marco Túlio Cícero evidenciou perspectivas do discurso religioso romano impulsionado
pelo panorama político-religioso do período. Estes escritos imbuídos de grande arcabouço filosófico
permitem a percepção da relação intrínseca entre política e religião dentro da sociedade romana. O
movimentado século I a.C. da República está envolto em significativa carga simbólica na História
romana. Assim, neste dado século a República romana obteve seus momentos mais ricos,
208
Bolsista CAPES
322
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turbulentos e seu fim. Destaca-se então que, uma série de situações de natureza política que deixaram
marcas nas escalas de vida da sociedade romana. E, por sua vez, as ramificações forneceram
elementos que chegaram até mesmo à perspectiva intelectual.
A seleção destas obras é justificada pelas possibilidades que proporcionam na abordagem
do discurso religioso e filosófico. Observa-se que o discurso constitui-se não por um único, mas por
vários textos. Assim, faz-se necessário a utilização de escritos diversificados para melhor
compreensão das características e da multiplicidade do objeto estudado. O que levando em
consideração a expressividade numérica da produção ciceroniana poderia abranger outros títulos
seus. Ademais, as respectivas obras abordam a perspectiva religiosa proporcionando observar as
interações com os aspectos filosóficos, políticos e sociais.
A correspondência de suas concepções religiosas e o contexto do momento evidencia uma
interelação muito importante na constituição de suas obras e nas escolhas dos temas desenvolvidos
nestas. Assim, pode-se trazer o caráter estratégico e pronunciadamente político de suas obras
mesmos que estas tratem sobre religião.
Desta forma, as obras de Cícero encontram-se como possibilidade significativa para
contemplar as perspectivas dos discursos religiosos na Roma do período, além de permitir indagar
sobre a ramificação social que integrava tal panorama discursivo. Estudiosos sobre a religião romana
como Mary Beard (1986, p.36) evidenciam as prerrogativas relacionadas ao ponto de vista de que as
obras de Cícero possibilitam uma significativa contribuição no que diz respeito ao tema religião. Isto
é demonstrado pelos apontamentos de Beard (idem, p.) com relação a obra Sobre a adivinhação, ao
afirmar, que esta representa um importante estágio do desenvolvimento cultural em Roma na
definição do conceito de religião, já que pela primeira vez, esta definição surgiu como assunto
independente no discurso. Por conseguinte, Da natureza dos deuses, livro que complementa Sobre a
adivinhação, de modo que a análise das duas obras precisa ser feita conjuntamente. Por sua vez, o livro
II Tratado das Leis, representa a perspectiva do Direito romano com relação à perspectiva religiosa, o
que se pode também ser percebido, em Sobre sua casa, no qual Cícero defende o seu direito a sua
propriedade e evidencia desta forma os aspectos legais atrelados as demandas religiosas.
Deve-se, deste modo considerar algumas observações sobre as fontes e a sua publicação.
Desta forma, ao observar o período de datação das obras e, por conseguinte, relacioná-los com o
panorama romano é perceptível que estas correspondem a momentos importantes na vida do autor e
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também com a perspectiva política do momento. Segundo Pierre Grimal (1984, p.239), ao frustrar a
revolta de Catilina em 63 a.C. e com a execução sem julgamento dos cúmplices deste, assim como, o
favorecimento dos interesses de Pompeu foram fatores que instigaram os inimigos de Cícero ( entre
eles César, manipulando o tribuno Clódio Pulcher) conseguindo votar a lei que o exilava em 58 a.C..
Deste modo, tem-se o discurso Sobre a sua Casa, de acordo com Beard, North e Price (2005, p.114),
tem sua datação em 57 a.C. aproximadamente. O discurso diz respeito ao pronunciamento de Cícero
sobre perda de sua casa durante o período de exílio.
No caso de Tratado das Leis que se acredita que foi escrito em 52 a. C., Kury (2004) aponta
o fato do tratado não ter sido publicado em vida pelo autor e como aspecto de confirmação cita que
o livro não consta na relação de obras estabelecida pelo próprio Cícero em 44 a.C.. Por sua vez, em
Sobre a Adivinhação, Falconer (1923)209 evidencia que este tratado foi desenvolvido por Cícero como
um suplemento de Da Natureza dos Deuses, que foi finalizado em 45 a.C. De modo que grande parte
do primeiro livro de Sobre a Adivinhação foi escrito antes do assassinato de César, mas o trabalho não
foi terminado e publicado até depois deste evento. Lenardo Tarán (1987) evidencia a discussão
sobre Da Natureza dos Deuses também ter sido uma publicação póstuma e consequentemente após
Sobre a Adivinhação.
De acordo com Elizabeth Rawson (2005, p.300), a preocupação dos escritores que
tratavam sobre o tema religião no período do século I a.C. variava entre ou tenta combinar elemento
nativos, exóticos e filosóficos. Por sua vez, existe uma tensão, também, entre o desejo de recordar e
entender (usualmente em ordem de preservar e reviver) tradições, para encontrar paralelos exóticos
ou explicações e para estabelecer a filosofia base deles. Não obstante, tais características são
observadas nas obras de natureza filosófico-religiosas aqui discutidas.
O livro II de Tratado das Leis observa-se tal implicação na exaltação da perspectiva
tradicional do culto público em contrapartida ao culto estrangeiro. As citações seguintes evidenciam
a questão:
“Aproximem-se dos deuses com pureza, envoltos em piedade e despidos de
opulência; quem diferentemente agir terá a própria divindade do juiz. Não sejam
venerados deuses particulares, novos ou estrangeiros, a não ser quando
publicamente reconhecido, sejam no recesso dos lares praticado os cultos
transmitidos pelos antepassados.” (CÍCERO,II, 8)
“O culto dos deuses particulares novos ou estrangeiros, dá origem à confusão
religiosa e introduz atos desconhecidos por nossos sacerdotes.” (CÍCERO, II,10)
209
. W. A. Falconer tradutor da edição de 1923 em inglês.
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“Cumpram-se as cerimônias públicas e privadas como prescritas e dentro de seus
rituais, e os que as ignorarem sejam instruídos pelos sacerdotes públicos. Deles
haverá três categorias: uma, dos que presidem as cerimônias e os ritos sagrados; a
segunda, dos que interpretam as revelações obscuras feitas pelos adivinhos e
profetas, reconhecidos como tais pelo Senado e pelo povo; e, finalmente, dos
interpretes de Júpiter Máximo, ou áugures públicos, que preveem o futuro por
sinais e auspícios, observando estritamente as regras fixadas.”(CÍCERO,II,8)
Principalmente, no caso ciceroniano a filosofia surge como um elemento que auxilia a
reflexão e exposição de suas concepções. Desta ótica, as obras aqui elencadas como fonte, que são
articuladas na forma dos debates que envolvem as concepções político-religiosas e não obstante a sua
construção através da filosofia. Cícero abordou a questão de forma ampla atentando para
interposição filosófico-religiosa até mesmo pensando nas leis religiosas. Assim, atentou para relação
entre os homens e os deuses em Da natureza dos deuses, interpondo as concepções Epicuristas,
Estoicas e Acadêmicas. Também, ao se manifestar em Sobre a Adivinhação evidenciou a perspectiva
que determinados elementos da religião pública romana assumia nas relações políticas. No discurso
Sobre a sua Casa, presente na obra Orações, demonstra objetivamente como a religião poderia ser
utilizada no discurso político.
Em Tratado das Leis 52 a.C. , Cícero tem como inspiração Platão em aspectos que
concernem às influências filosóficas, a utilização da estrutura de diálogo e não obstante o nome da
obra também foi cooptado. Assim, evidencia o diálogo do próprio Marco Túlio Cícero com seu
irmão Quinto Cícero e de seu amigo Ático. O escrito era constituído por vários livros, mas apenas
três permaneceram conservados. Desse modo, o livro II consiste na intenção de discutir as leis
religiosas. Na argumentação do autor é adicionada a lei natural que consiste no pensamento sobre os
deuses e o que estes ordenaram na esfera religiosa, a partir do ponto de vista da razão humana. As
leis religiosas são o elemento ao qual Cícero atribui para o sujeito como uma manifestação da mente
divina. Configura-se, como um resumo das práticas de cultos existentes em Roma, sobre os quais
argumenta com a recomendação que deve ser observada porque deve ser obedecida, segundo a razão
e a natureza. O real argumento reside no fato de que os rituais em questão são fundados na tradição,
convenção e utilidade social. Os deuses participam com os homens na vida comunitária e visam, em
certo sentido como os magistrados, o bem comum. (SHEID, 1992, p.61)
A obra Da Natureza dos Deuses é dividida em três livros. O livro I: Gaio Veleio expõe a tese
epicurista segundo a qual os deuses não se ocupam das coisas dos homens. No livro II, Quinto
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Lucílio Balbo expõe a concepção estoica da providencia divina que rege o universo. Por fim, o livro
III: Gaio Aurélio Cota levanta objeções à tese estoica em nome de um ceticismo neoacadêmico. Na
conclusão, Cícero declara a sua inclinação para os argumentos de Balbo.
A obra Sobre a Adivinhação divide-se em dois livros. O livro I: o irmão de Cícero, Quinto,
expõe os argumentos em favor da veracidade das artes divinatórias. Já o livro II, Cícero faz a
refutação das crenças na adivinhação.
Por sua vez, o discurso Sobre a sua Casa diz respeito ao pronunciamento de Cícero sobre
perda de sua casa durante o período que culmina com o seu exílio. Em que Clódio Pulcher primeira
mente destrói sua casa e posteriormente transforma o local da casa a um Templo de dedicado a
Liberdade.
Após esta apresentação do corpo documental, prossegue-se a assim para discussão sobre
estas. E com intuito de uma análise alternativa destas obras motivadas pela o panorama já citado.
Faz-se necessária uma abordagem teórico-metodológica que permita compreendê-lo claramente.
Neste contexto, apresenta-se a Análise Critica do Discurso (ACR) considerando a perspectiva teórica
de Fairclough em que o discurso é entendido como prática social.
Para Fairclough (2001, p.22):
Os discursos não apenas refletem ou representam entidades e relações sociais, eles
as constroem ou as “constituem”; diferentes discursos constituem entidades-chaves
( sejam elas a “doença mental, a “ cidadania” ou o “letramento”) de diferentes
modos e posicionam as pessoas de diversas maneiras como sujeitos sociais ( por
exemplo, como médicos e pacientes), e são esses efeitos sociais do discurso que são
focalizados na análise de discurso. Outro foco importante localiza-se na mudança
histórica: como diferentes discursos se combinam em condições
sociais
particulares para produzir um novo e complexo discurso.”
O entendimento do discurso como prática social e de que diferentes discursos combinam
em condições sociais particulares para produzir um novo e complexo discurso. Permite então,
ferramentas para a compreensão das concepções associadas à perspectiva político-religiosas no
período final da república romana. E, por sua vez, a compreensão da produção discurso num cenário
de negociações e movimentações sociais.
De maneira que, tais perspectivas discursivas manifestam a multiplicidade das formas com
que Marco Túlio abordou o tema religioso. Ou seja, a religião abordada de maneira recorrente e
também diversificada. A relação da Cícero inicia-se com a própria reflexão sobre o conceito de
religio, na qual enfatiza a conexão próxima que sempre existiu entre a religião e a res publica. Nas obras
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elencadas preliminarmente mesmo o caráter filosófico não exime estas de possuírem suas
particularidades.
Neste contexto, aponta-se que a religião está intrinsecamente ligada às escalas da existência
da sociedade romana de forma que tem papel fundamental na origem das leis, na constituição do
próprio Direito Romano e, mais essencial, na definição do cidadão tradicional romano que é o sujeito
que congrega, na prática, todos estes elementos. As concepções evidenciadas em Da natureza dos
deuses, Sobre a adivinhação e Tratado das Leis possuem de forma análoga a influência política. De modo
que, a visão aqui ressaltada é fundamentada no contexto de desagregação da república romana, assim
como, elemento estrangeiro tornando-se mais pronunciado com o panorama do Imperium no período.
Dessa forma, o aspecto religioso é evidenciado enfatizando o tradicional, pois é meio de manutenção
da ordem com relação à aristocracia. E, por conseguinte, encontra-se como elemento de ratificação
da cidadania tradicional romana em contraposição ao aspecto estrangeiro. No caso de Sobre a sua Casa
pode-se dizer que este demonstra explicitamente o teor político envolto na perspectiva religiosa.
Consequentemente, torna-se evidente que o culto público, prática inerente à religião
romana, constitui uma forma de ligação entre os cidadãos e a formação de sua identidade como
romano. Dessa maneira, pode-se afirmar indubitavelmente a relação intrínseca entre religião e a vida
romana, na qual os aspectos religiosos e políticos são indissociáveis. Para os romanos, a religião
consistia em cultivar a correta forma de relação social entre os deuses e homens. John Scheid (2003,
p.23) aponta a existência de uma definição de religio descrita por Cícero em Da natureza dos Deuses que
significa o “pio culto dos deuses”. Ou seja, uma pura relação entre os homens e os deuses que é
estabelecida através das práticas rituais de cultos cotidianos exercidos pelos cidadãos romanos como
uma das premissas para a sua condição como tal que o culto público, prática inerente à religião
romana, constitui uma forma de ligação entre os cidadãos e a formação de sua identidade como
romano.
Dessa ótica, pode-se afirmar indubitavelmente a relação intrínseca entre religião e a vida
romana, na qual os aspectos religiosos e políticos são indissociáveis. Para os romanos, a religião
consistia em cultivar a correta forma de relação social entre os deuses e homens. John Scheid (2003,
p.23) aponta a existência de uma definição de religio descrita por Cícero em Da natureza dos Deuses que
significa o “pio culto dos deuses”. Ou seja, uma pura relação entre os homens e os deuses que é
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estabelecida através das práticas rituais de cultos cotidianos exercidos pelos cidadãos romanos como
uma das premissas para a sua condição como tal.
Acrescenta-se então, como elemento complementar para reflexão sobre a disseminação de
suas obras. Cícero escreveu discursos, tratados filosóficos e retóricos, cartas e poesia, no simples
aspecto de quantidade ele indiscutivelmente se destaca com relação aos seus contemporâneos. Entre
estes, pode-se citar Varro, Salústio, Júlio César e Lucrécio, cada um destes nomes tinham ligação com
Cícero. César e Salústio eram seus contemporâneos políticos e rivais. Cícero é um personagem
principal na primeira monografia de Salústio, A Catilinária, descrevendo a revolucionária conspiração
que Cícero frustrou quando cônsul em 63 a.C. Varro dedicou parte de seu Da Língua Latina a Cícero,
e Cícero era próximo bastante de ambos e Hirtius para fazê-los personagens de seus diálogos
filosóficos.210
Nesta perspectiva, é necessário considerar a diferença entre a disseminação dos textos no
mundo antigo e as publicações modernas, em que a difusão da obra primeiramente acontecia entre
os indivíduos próximos do autor. No caso de Cícero pode-se indicar como leitor principal de suas
obras seu amigo Ático e em instância fora do círculo familiar tem-se Terêncio Varro e Marco Júnio
Bruto para os quais orador romano dedicou textos filosóficos. (MURPHY, 1998, pp. 492,498)
Desta forma, as seleções de audiência por Cícero e maneira que ele reuniu isto, lança uma
interessante luz em ambas suas agendas em promover o Latim como uma linguagem filosófica, assim
como, sobre a cultura romana de publicação. Pode-se dizer então, que a circulação das obras ocorre
em primeira instância em meio próximo ao autor. O que em alguns casos prossegue para a
ocorrência de cópias que, por sua vez, ganham lugar fora no circulo principal acontecendo à difusão
que torna a obra verdadeiramente publicada.
Por fim, os estudos historiográficos nas últimas décadas predominantemente enfatizam a
faceta da religiosidade romana relacionada aos cultos estrangeiros na tentativa de dar visibilidade aos
outros segmentos da sociedade romana e não somente ao conjunto da elite romana. Todavia, deve-se
atentar para a importância de se refletir sobre este segmento isolado que se encontra em uma posição
aparentemente cristalizada e definida dentro dos estudos sobre a Antiguidade, deixando de ser
LEVINE, D.S. The late republican/ Triunviral Period:90-40 BC. In: A companion to Latin Literature. Oxford: Blackwell
Publishing, 2005, p.32.
210
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problematizados. Estes cidadãos tradicionais romanos encontravam-se inserido na dinâmica social
do seu período e, por isso, torna-se importante que estes sejam problematizados sob uma nova ótica.
Referências
Fontes
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LEVINE, D.S. The late republican/ Triunviral Period:90-40 BC. In: A companion to Latin Literature.
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MURPHY, T. Cicero’s First Readers: Epistolary evidence for the dissemination of his work. In: The Classical
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
VAN EYCK E A PAISAGEM NO BAIXO MEDIEVO: ANÁLISE DA OBRA A MADONA
DO CHANCELER ROLIN
Rafael Fernandes Speglic (História – UEL)
Orientadora(I.C – CNPQ): Profª. Dra. Angelita Marques Visalli
Nosso objetivo principal neste trabalho é entender a presença da paisagem ao fundo da obra
em questão, A Madona do Chanceler Rolin(figura 1), também conhecida como oração pintada, de Jan
Van Eyck, pintada em 1435. Van Eyck foi, senão o maior, um dos maiores pintores de sua época.
Flamengo, nasceu por volta de 1390 e faleceu em 1441. Acredita-se que seja da região de Maesheyck,
próximo do que hoje conhecemos como Holanda. Pintou para a corte de Filipe, o Bom, duque de
Borgonha. Fez muitas viagens para aprimorar sua técnica, para pintar diferentes paisagens. Além
disso, Van Eyck teve sua própria oficina, onde pintou juntou com seu irmão Hubert, além de ter tido
muitos discípulos.
Van Eyck é visto de forma importante por seu método inovador. É considerado o inventor
da tinta a óleo. E justamente por esta “novidade”, aliada à sua excelente técnica, é tido como o
primeiro pintor do protorrenascimento Europeu. (ROLF, 1999, p. 406). Van Eyck, ainda
temporalmente situado no Medievo, se apresenta como uma ponte (não apenas, mas ainda sim) entre
a arte Medieval e a Arte Renascentista. Visualmente, por sua técnica, poderíamos situá-lo facilmente
no século XVI ou XVII. Mas a análise da obra em profundidade ainda nos permite perceber uma
forte identidade medieval.
Podemos perceber que o doador, Nicolas de Rolin está representado no mesmo tamanho,
plano, espaço que a Virgem. Além disso, é a imagem da Virgem que se faz presente no plano
terrestre, e não o divino como um todo representado. Seria uma invocação, uma reunião ou uma
aparição? “A pintura parece transbordar por sua autoridade. [...] É quase como se Rol in quisesse
representar uma evocação, por meio de suas orações.” (SPEGLIC, 2013, p. 2599).
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Figura 4
O celestial e o mundano. O mundo interior meditativo e o ruidoso mundo exterior, o gesto da
oração e o gesto divino da benção... Tudo isto se encontra reunido, quase que se diria em uma
sinopse mística, na Virgem do Chanceler Rolin [...] No entanto, ora aparece a Virgem coroada por
um anjo como Rainha do Céu, com o menino Jesus em seu colo, abençoando com a mão direita. O
Chanceler levanta os olhos, na quietude do reconhecimento e contempla o grupo celestial. Também
o mundo é testemunho deste acontecimento; ou melhor, a aparição acontece no mundo e para o
mundo. No terraço, veem-se plantas com flores, como o lírio símbolo da maternidade virginal de
Maria [...] A mensagem do quadro é legível, ainda que esteja escondida: Cristo veio ao mundo para
libertar o homem do pecado. Nicolas Rolin, repleto da palavra de Deus, é quem transmite esta
mensagem. (ROLF, 1999, p. 411).
Ora, até que ponto podemos inferir as intenções de Van Eyck ou de Nicolas de
Rolin? Elaborando melhor esta pergunta, uso-me da já feita por Michael Baxandall, “Até onde
podemos penetrar na estrutura das intenções de pintores que viveram em culturas ou períodos
históricos distantes do nosso [...] Até que ponto podemos provar ou validar em algum nível nossas
explicações.” (2006, p. 157). É do mesmo autor a afirmação de que “não temos conhecedores com
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autoridade especial” (2006, 195-196). Ademais, segundo Speglic, “mesmo respeitando diferenças de
conhecimento acerca do contexto em que a imagem se insere, investigá-la e destrinchá-la será sempre
uma atividade intrínseca de escolhas pessoais”. Não creio que este seja o espaço para tamanha
discussão, mas devo acrescentar que as já disseminadas ideias de Roger Chartier quanto às recriações
presentes nas apropriações realizadas pelos receptores, mesmo que passivamente, interferem também
nesta discussão. Não quero cair aqui em um subjetivismo absoluto e dizer que qualquer narrativa seja
possível, mas ainda assim creio em uma subjetividade ativa e presente em qualquer individuo que
deite seus olhos em uma obra, tal como a de nosso estudo. Assim sendo, coloco a discussão abaixo
como uma tentativa, ou uma interpretação, dos principais processos e elementos presentes e
remetentes à obra e a intencionalidade de Van Eyck.
Inúmeras outras obras semelhantes comprovam a tendência do período, onde há um
predomínio de imagens religiosas com a paisagem citadina ao fundo. Algumas delas são: A Virgem e a
Criança com quatro anjos (1515) e Natividade (David Gerard, 1490), Retábulo da Virgem de Montserrat
(1485) e Pietá do Conego Luis Desplá (Bartolomé Bermejo, 1490), Anunciação (Botticceli, 1489-90),
Retábulo de Meróde (Robert Campin, 1428), Paixão (Hans Memling, 1471), além de Roger Van Der
Weyden, Hubert Van Eyck, etc.
É importante mencionar que, além das mudanças sociais que permitiram a presença destas
novas perspectivas, o avanço das técnicas de pintura (arte em geral) permitiram a produção destas
novas obras. Se tomarmos as obras de Giotto como exemplo, vemos ali a temática religiosa em seu
auge, na transição do século XIII para o XIV. Em suas obras, o fundo geralmente se remete a um
preenchimento ou a algo relacionado ao primeiro plano. Além disso, esta sociedade ainda preservava
de maneira muito forte a sobreposição do religioso ao mundo terreno. No século XIII, a ação das
ordens mendicantes estava em seu auge, pregando a necessidade de se desvincular do material e se
entregar a uma vida Crística. Em duas de suas obras mais famosas, O Beijo de Judas (1304-1306) e A
Lamentação (1304-1306), percebemos claramente que o fundo azul se refere a um espaço aberto,
mas não há nada pintado ali. Se adotarmos as reflexões propostas por Baxandall quanto às
intencionalidades dos artistas, podemos nos perguntar: “Ele não tinha a técnica para pintar a
paisagem”? Ou ele conhecia a técnica, mas não intencionava pintar a paisagem? Ou então, seria a
paisagem importante? Parece-me que o processo de laicização da arte, além da separação das coisas
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terrenas e divinas pelo homem medieval, tenha contribuído diretamente para esta mudança de
percepção.
O mestre de Giotto, Cimabue, reforçar este exemplo. Suas obras, cujo estilo é muito
semelhante ao do discípulo, não fazem menção a qualquer paisagem de fundo. Apenas o caráter
religioso em primeiro plano importa. No caso de Fra Angelico, que viveu entre 1395 e 1455,
contemporâneo de Van Eyck, vemos já uma paisagem sendo esboçada. Porém, se considerarmos
obras como “O Juízo Final” ou “Adoração dos Reis Magos”.
A presença do doador pode ser explicada tanto pela forte presença do sentimento individual,
que aos poucos se sobrepõe ao coletivo medieval, como veremos mais adiante no texto, mas também
pela funcionalidade da imagem medieval. A imagem-objeto, como propõe Baschet, se dá pelo fato de
que a imagem medieval dificilmente existe como pura representação. Ela geralmente ocupa um
espaço, remetendo-se a ritos, usos e manipulações. [...] “Mesmo quando não é esse o caso, a imagem
adere a um objeto ou a um lugar que tem, ele mesmo, uma função, uma utilização.” (BASCHET,
1996, p. 3).
No período em questão, século XV, as cidades de maneira geral já haviam se reestabelecido
firmemente no cenário medieval (que por sinal, aludem mais ao cenário moderno-renascentista que
propriamente o medieval). Cresciam imponentes no horizonte aos olhos dos viajantes. Seu ponto
mais alto via-se de mais longe ainda. As Igrejas, que sempre foi presença inabalável no Medievo,
manteve sua forte presença neste novo mundo citadino.
Contudo, ao falar em ‘novo’ mundo citadino, podemos estar nos equivocando. É sensato
afirmar que houve um momento em que as cidades pulsaram de maneira mais forte, que o comércio
se dinamizou e expandiu a ponto de extrapolar os limites continentais. Mas este período se remete ao
século tratado em questão, o século XV. Van Eyck – autor da obra em questão viveu e produziu
neste período. E porque então falar em novo mundo citadino seria equivocado neste período? Talvez
‘novo’ não seja tão novo assim.
Segundo Jacques Rossiaud, “Por volta de 1250, a rede urbana da Europa pré-industrial, salvo
alguns pormenores, está já traçada. Na nossa opinião, os resultados são ainda modestos...” (1989, p.
99). Modestos, ou seja, cresceriam ainda mais. Paris, segundo Rossiau, um monstro, teria por volta de
1250 mais de 200 mil habitantes. Gand e mais 6 metrópoles italianas com mais de cinquenta mil.
Cerca de 70 cidades com mais de 10 mil, e mais de uma centena de cidades com mais de mil
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habitantes. Cronologicamente falando, ainda estamos no medievo, inclusive no século XIV. Mas esta
realidade já não faz mais parte do período. Para podermos imaginar substancialmente, visualizar de
maneira mais semelhante possível ao que acreditamos ser o “real”, devemos tentar visualizar já na
“Paris monstro” o embrião das grandes cidades renascentistas, que foram nada mais que a grande
porta de entrada para o mundo moderno.
As cidades criam suas próprias hierarquias. Ousemos dizer que tem vida própria. Uma vida
forte, pulsante, abrangente e exclusiva ao mesmo tempo. Para Rossiaud, “sua influência ultrapassa
estranhamente a sua consistência demográfica”: formam-se, dentro dela, elementos de uma sociedade
muito mais complexa. Surgem escolas, instalam-se mendigos, príncipes as escolhem como suas
capitais, o artesanato e o mercado se expandem. Esta sociedade complexa, de acordo com o autor, ao
mesmo tempo em que se adapta ao sistema senhorial e sua ideologia, produz suas próprias
hierarquias.
Complexa devido à sua dinamicidade, à sua dimensão tanto geográfica quanto simbólica e à
sua importância como principal motor da insurgente renascença e mundo moderno, mas até certo
ponto semelhante e homogênea dentro do processo maior. As variadas cidades não apresentam uma
diferença de natureza, mas apenas de gradação. Para Rossiaud, se não podemos falar em sistema
urbano, desenvolve-se ao menos um Ocidente urbano onde todos os membros tem uma origem
semelhante, partilham da mesma origem. Dentro desta relativa homogeneidade, o que haveria de
comum então entre todos os habitantes destas cidades? E entre o citadino do desenvolvimento
urbano primitivo e o do século XV?
Embora seus habitantes sejam os mais variados, principalmente no século XV, onde as
ramificações e variações das novas profissões e atividades, e possuam diferentes mentalidades e
condição social, não podem evitar o simples fato de que dividem o mesmo espaço. O espaço urbano
cria um pequeno universo que pode ser analisado dentro das esferas micro e macro. Rossiaud ainda
ressalta o cuidado de não nos deixarmos subjugar pela velha mitologia citadina, onde seus valores são
exaltados em oposição à inércia rural. “Entre o camponês e o citadino subsiste apenas uma diferença
de cultura” (ROSSIAUD, 1989, p. 100). Ademais, vale destacar que na maior parte dos casos e do
período urbano medieval, não se nasce nas cidades. Nasce-se no campo e na juventude há o
deslocamento para a cidade. A aculturação é difícil, assim como a aceitação.
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Parece simples imaginarmos, mas o processo de saída do campo para a cidade durou
aproximadamente três séculos. A instabilidade do mundo rural, seguido pela exploração do trabalho
servil, fome, medo levou multidões de pobres e famintos a buscar sua sobrevivência dentro dos
muros citadinos. Rossiaud ainda pontua que, de maneira generalizada, os recém-chegados chegaram
rapidamente a ultrapassar os naturais da cidade.
O desenvolvimento agrícola que havia propiciado um grande impulso foi prejudicado por sua
recessão. Neste momento, muitos fogem para as cidades em busca de melhores condições. É de
Duby também a afirmação de que este período tumultuado permitiu ainda que a roda da fortuna
girasse mais velozmente, pois estes ofereciam maiores possibilidades de enriquecimento, devido às
armas, ao tráfico, à especulação de metais preciosos, etc. (2002, p. 101).
“Não era difícil ganhar dinheiro. E era fácil gastar. Fosse para redimir-se dedicando
à ornamentação dos locais de culto uma parte dos bens recém adquiridos, fosse
para celebrar alguma vitória com indumentárias ostentatórias, fosse para satisfazer
o prazer de gozar a vida, o qual era estimulado pela presença da morte insidiosa.
Tudo isso fez com que, no meio de tantos estragos e desgraças, a produção da obra
de arte não tenha enfraquecido, pelo contrário. Foram suas formas que se
modificaram, sob a influência de uma mistura de diversos movimentos” (DUBY,
2002, p. 101).
Ainda contornando a discussão, ressalto a análise de Guy Lobrichon. Segundo ele, esta
“coorte de misérias que ensombra o outono da Idade Média” (2002, p. 367) não atrapalhou a
produção artística. Pelo contrário,
“o espetáculo das artes plásticas, da música e da literatura dessa época mostra-nos,
pelo contrário, múltiplos centros de criação... As cortes [...] eclipsaram
definitivamente os núcleos de criação tradicionais, enclausurados entre as paredes
dos mosteiros e das catedrais. A sua procura crescente favoreceu os artistas laicos
que, a partir de finais do século XIII, se impõem decididamente às oficinas
eclesiásticas. As grandes encomendas dos prelados e das igrejas dirigem-se de agora
em diante a essas oficinas independentes. A grande criação artística deixa de ser
encaminhada exclusivamente para a Igreja, liberta-se pouco a pouco das suas peias
religiosas, serve os governos e as nações” (p. 367, 2002).
No século XIV, uma nova mudança de perspectiva acomete ao homem medieval:
distinguiam-se então as coisas terrestres das divinas. Até o século XI, a arte sagrada tinha seu espaço
nos mosteiros. Já no século XIII, este espaço passa a ser a opulente catedral. Um século depois, este
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espaço torna-se a capela.
Construídas e mantidas por pequenos grupos de pessoas unidas
fraternalmente ou famílias, funcionavam como retiros espirituais circunscritos, onde a prática
religiosa toma formas cada vez mais individuais, emotivas e egoístas (DUBY, 2002, p. 111).
Passa a ganhar terreno o processo de laicização da arte, que aos poucos se liberta das mãos
dos homens da Igreja, como já mencionado. (DUBY, 2002, p. 101). Contudo, apesar de sua
laicização, não perde força o caráter sagrado que emanavam as obras produzidas. As obras ajudam os
fieis a entrar em contato com o divino, exercendo o papel de mediadora entre céu e terra. Segundo
Duby, os séculos XII e XIII viam a comunicação com o divino como um raio luminoso. “O século
XIV, mais concreto, a vê se estabelecer e durar por meio de uma troca de olhares entre duas pessoas.
Assim se transmite a graça, assim se mantém o fervor. (2002, p. 108)”.
Vemos também neste momento um amplo processo em que as pessoas passam a desejar uma
maior proximidade com as imagens, para que o reconforto do encontro Deus seja mais frequente, ou
mais fácil. Na busca pela posse individual de obras com temática religiosa, geralmente com a
representação do doador na própria tela, passa-se a encomendar as obras diretamente com os
artistas.
Começa-se a pendurar imagens de devoção, senão mesmo quadros religiosos, nas
salas mais privadas das casas, quartos de dormir ou oratórios pessoais. Sinal de uma
proximidade com o sagrado que ninguém ousaria sequer imaginar dois séculos
antes (LOBRICHON, 2002, p. 395).
Duby nos fala ainda de um processo de vulgarização progressiva da obra de arte: “à medida
que essa região do mundo se torna menos pobre, vai paulatinamente propagando, pelos diversos
níveis do corpo social.” (2002, p. 119-122).
Toda essa “revolução” urbana, - se me cabe utilizar o termo-, cria o ambiente necessário para
enormes mudanças no que concerne a figura do artista. O artista do século XII, de maneira geral (e
respeitando-se as variações locais), em muito se difere ao artista do século XV, como Van Eyck.
“... a dedicação, a modéstia, as virtudes do artífice medieval, que não desejava outra
recompensa senão a divina, a quem repugnava exaltar o seu próprio nome e que
vivia, humilde e feliz, no seu ambiente, tendo por única ambição participar no
grande esforço coletivo de exaltação de fé [...] Sob muitos aspectos, o
comportamento dos artistas medievais parece-nos distante do comportamento
daqueles que os tinham precedido e dos que se lhes seguiram, Como se o espaço
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em que se movimentavam em que manifestavam uma extraordinária e insuperada
criatividade fosse muito diferente do espaço em que, antes e depois, operavam
outros artistas.” (CASTELNUOVO, 1989, p. 145).
O artista que melhor exprime e delineia a imagem do que podemos conceber como artista
medieval se faz presente entre o século X e XII. Ele faz parte de uma complexa coletividade que em
conjunto, busca a salvação divina. Este século não fazia ideia que pouco tempo depois, um forte
processo de interiorização da devoção e um nascente sentimento de individualidade o arrebataria,
varrendo as antigas práticas, sobrepondo-se a elas.
Uma reflexão importante a ser mencionada é a proposta por Castelnuovo, onde o
comportamento do artista medieval parece muito distante, tanto de seu antecessor quanto de seu
predecessor. No caso de seus antecessores - os artistas da antiguidade clássica -, estes eram vistos de
maneira preconceituosa devido ao trabalho manual. E esta forma de ver o trabalho do artífice
perdurou por praticamente toda a Idade Média. O trabalho manual foi então, por muito tempo, sinal
de inferioridade, assim como as imagens eram vistas de maneira desconfiada, pois eram possíveis
veículos de idolatria.
Castelnuovo nos apresenta ainda para uma situação paradoxal. Ao passo que a produção
artística aumenta conforme as cidades e o comércio passam a se reerguer, a produção artística
aumenta exponencialmente. E neste mesmo momento, poucos artistas são conhecidos e respeitados.
Tanto é que uma das maiores características do período Medieval é justamente a ausência de
assinaturas nas obras.
“É uma época que, mais do que qualquer outra, nos aparece marcada pelas suas
brancas roupagens de igrejas repletas de esculturas, mosaicos ou vitrais
multicolores, ourivesarias cintilantes, livros coloridos com iluminuras, marfins
esculpidos, enormes portais de bronze, esmaltes, pinturas murais, tapeçarias,
bordados, tecidos de variadas cores e com desenhos singulares e quadros pintados
em fundo de ouro. Mas, em toda essa profusão e variedade de produtos artísticos,
que suscitam a nossa admiração e excitam a nossa imaginação, podemos reunir um
numero restrito de artistas e, ainda por cima, nomes isolados, ligados a uma única
obra.” (CASTELNUOVO, 1989, p. 145).
A maioria dos artistas de que se tem memória, até o final do século XI e começo do XII, são,
em sua maioria, religiosos. “No entanto, a situação modifica-se, com o rápido desenvolvimento das
cidades, a partir de finais do século XI.” (CASTELNUOVO, p. 1989, p. 154). De maneira geral, com
o “renascimento” urbano e comercial, a situação dos artistas passou a mudar e começou então um
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período de mudanças que encontraria sua expressão máxima quase quatro séculos depois, no período
conhecido como “Renascimento”.
Segundo Castelnuovo, é certo apontar que os artistas passaram a ter a possibilidade de ganhar
muito dinheiro, até um momento em que eles mesmos tinham a condição necessária de ser o doador
da obra de arte. No século XII, muitos destes artistas passam a doar obras a mosteiros. Ainda no
século XII, outro processo importantíssimo deve ser apontado: a rápida ascensão do prestígio do
artista, dentro da esfera social. Na Itália, por exemplo em Pisa e em Modena, inscrições elogiosas
fazem sua presença nas paredes das novas catedrais, celebrando o nome do artistas que nelas
trabalharam. Na França principalmente, mas também em outros locais, verifica-se ao final do século
XII um novo fenômeno: a nobilitação do artista. Este novo personagem, o artista da corte, passa a
conviver com o soberano e seus próximos, promovendo então seu nome para ascender na posição
social. É este processo que permite, por exemplo, a exclamação de Albrecht Durer em Veneza: “Hier
bien ich ein Herr” (“Aqui sou um Senhor”). Também serve como exemplo o caso de Giovano
Pisano:
“ ...um dos maiores expoentes da arte medieval e, simultaneamente, um caso
extremo, um artista que tem um enorme sentido da importância da sua obra, um
orgulho desmedido e que não hesita em entrar em conflito direto e até em situação
de rupturas com quem lhe encomenda as obras, um artista cujo comportamento
parece querer ultrapassar os limites e os entraves que puderam restringir e
atormentar o artista medieval.” (CASTELNUOVO, 1989, p. 160).
Já no final da Idade Média, pode-se afirmar que a figura do artista não mais ocupa um lugar
de preconceito por ser um trabalho manual, mas sim um lugar importante e prestigioso, erudito e
intelectual, longe de continuar sendo apenas um trabalho mecânico.
Se o artista não mais produz de forma anônima e genérica, mas na realidade produz uma
obra de maneira intelectual, autêntica, podemos pensar em seu trabalho de maneira especializada?
Segundo Lobrichon, alguns especialistas acreditam que tal especialização já estaria consumada por
volta de 1300, “quando o iluminador, o pintor, o escultor parecem integrar-se cada um numa
confraria diferente. (2002, p. 388). É possível ainda afirmar que já não havia mais uniformidade, pois
a criação artística já se apresentava extremamente individualista.
De maneira geral, o século XV, período da obra “A Madona do Chanceler Rolin”, de Jan Van
Eyck, já apresenta enraizados processos oriundos de tão longe quanto o século XII. A interiorização
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da religiosidade, a distinção entre profano e sagrado juntamente a um processo de laicização da
religião, a revitalização das cidades, o surgimento do artista especializado, o aperfeiçoamento das
técnicas artísticas que culminariam no Renascimento. Todos elementos favorecem para preparar o
terreno do que seria o século XV. Um mundo medieval pulsante, diferente, já mais parecido com o
que conhecemos por Moderno, mas ainda fincado em suas raízes religiosas.
Se compararmos a obra de Van Eyck, com por exemplo, as obras de Giotto, na transição do
século XIII para o XIV, perceberemos que além de uma técnica mais rudimentar, não há menção de
uma cidade ao fundo. Cabe então a pergunta: Giotto não quis ou não teve condições técnicas de
pintar a cidade ao fundo? A cidade tinha tamanha importância para que sua representação ganhasse
espaço?
Duas discussões são essenciais para pensarmos estas perguntas, como já mencionadas no
início do texto. Primeiramente, a questão da intencionalidade proposta por Baxandall. Ou seja, até
que ponto nós podemos compreender as intenções do passado? As respostas obtidas a partir da
interpretação imagética, apesar de se submeterem ao método científico, são subjetivas e subordinadas
a interpretação pessoal. Em segundo lugar, as contribuições de Roger Chartier para a teoria da
História já deixaram explicitas as ideias de apropriação cultural e ressignificação por parte do leitorouvinte.
Assim é possível dizer que a obra de Van Eyck, faz parte ao mesmo tempo de uma cultura
coletiva, específica do momento estudado e que faz referência as questões discutidas, como arte
medieval, vida citadina e artista medieval, mas ao mesmo tempo responde com uma individualidade e
subjetividade própria da liberdade criativa do artista e de quaisquer pedidos que o doador tenha feito.
Existe um ponto de equilíbrio, acredito, entre o contexto cultural e a individualidade do sujeito
produtor. O contexto pode ser comprovado pelas inúmeras obras citadas anteriormente, e a
individualidade por sua vez, pela formação de um artista especialista e criativo. A Madona do
Chanceler Rolin nos mostra isto e muito mais, pois mostra também o encontro do universo
religioso medieval e as demandas do mundo moderno, citadino, pulsante e ao mesmo tempo latente,
pois demoraria até o século XVIII para desabrochar verdadeiramente.
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Referências Bibliográficas
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Jérôme. L’image. Fonctions et usages des images dans l’Occident Médiéval. Tradução: Maria Cristina C. L.
Pereira. Paris: Le Leópard d’Or, 1996.
BAXANDALL, M. Padrões de Intenção: a explicação histórica dos quadros. Tradução: Vera Maria
Pereira. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
CASTELNUOVO, Enrico. “O artista”. In: LE GOFF, Jacques (dir.). O homem medieval. Lisboa:
Presença, 1989, pp.145-162
LOBRICHON, Guy. “Aurora e crepúsculo de uma arte internacional (1320-1420)”, In: PELIKAN,
J. Maria através dos séculos: seu papel na história da cultura. Tradição: Vera Camargo Guarnieri. São
Paulo: Companhia das Letras, 2000.
ROLF, Toman. Él Gótico: Arquitectura, Escultura, Pintura. Tradução: José García Pelegrín e Pablo de
la Riestra. Neue Stalling: Könemann, 1999.
ROSSIAUD, Jacques. “O Citadino e a vida na cidade” In: LE GOFF, Jacques. (dir.) O homem
medieval. Lisboa: Presença, 1981. P. 99-122.
SPEGLIC, Rafael F. A devoção privada e o culto à Virgem nas obras marianas de Van Eyck. 2013. In:
http://www.uel.br/eventos/eneimagem/2013/anais2013/trabalhos/pdf/Rafael%20Fernandes%20S
peglic.pdf
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A PRESENÇA DE FAMÍLIAS JUDIAS ALEMÃS EM ROLÂNDIA (1930-1945): FORMAÇÃO,
TRADIÇÃO, RUPTURAS E PERMANÊNCIAS
Helena Ragusa ( Aluna especial do doutorado em História - Unesp, Assis)
Foi entre fotografias, cartas e outras fontes disponíveis no Centro de Documentação e
Pesquisa da Universidade Estadual de Londrina, sob o olhar atento do professor Marco Antonio
Neves Soares que surgiu esta pesquisa. Minha investigação inicial era saber mais acerca da vinda de
algumas famílias judias alemãs que foram se estabelecer em Rolândia entre as décadas de 1930 e
1940. Embora o tema já venha sendo tratado por alguns pesquisadores, percebemos haver um leque
bastante amplo de questões que podem trazer uma série de elementos para compreendermos melhor
a imigração judaica no norte do Paraná, e, por extensão Brasil e América Latina.
No início dos anos 30 do século XX, havia a chamada Companhia de Terras Norte do
Paraná (CNTP). De origem britânica, a empresa fora criada com o intuito de atender não só os
interesses de um país em crise, como também um modo de saldar as dívidas que na época o Brasil
possuía ( OBERDIEK,1997:17). A ideia era colonizar rapidamente as terras até então desocupadas, e
neste processo a aliança da CTPN com a Cia. dos Estudos Econômicos no Além Mar, propiciava,
por meio da propaganda a vinda de migrantes e imigrantes para a ocupação destes espaços ( idem,
20). Foi Johannes Schauff, membro principal da Cia. dos Estudos Econômicos no Além Mar que
investigando locais na América Latina adequados à colonização alemã, chegou até a CTPN sediada
em Londrina ( CARNEIRO, 2010:181).
Embora a propaganda se empenhasse em divulgar a ocupação de Rolândia e das demais
terras ao Norte do Paraná como uma promessa de enriquecimento, havia também uma outra
finalidade, que seria a de resgatar os judeus da Alemanha (CARNEIRO, 2010:181). Logo após a
ascensão de Hitler na Alemanha em 1934, houve um aumento considerável das perseguições nazistas
aos judeus e fugir tornou-se a ordem do dia. Ao comprarem as terras, os judeus contribuíram para a
aquisição de materiais para a construção da linha ferroviária que ligava São Paulo ao Norte do
Paraná, uma transação que interessava a todas as partes envolvidas ( idem, 184).
Foi em meio a tal rede de negociação que surgiu Rolândia, iniciando com a imigração judaica.
A maior parte dos estudos acerca desta temática, revelam que o número de judeus de origem judaica
alemã que chegaram na região entre as décadas de 1930 e 1940 totalizava em 291pessoas, cerca de 80
famílias (OBERDIEK,1997:91). O novo destino era pouco ou nada parecido com o lugar que
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outrora acreditavam pertencer, uma região ainda a ser desbravada, praticamente uma floresta, como
apontam grande parte dos estudos, razão pela qual os judeus resolveram chamá-la de “Stadtplatz”,
onde ou se afundava na lama quando chovia, ou se afundava no pó (PINCELI, 2008:03).
Neste contexto, nos interessa compreender como estes imigrantes, completamente
deslocados de seu lugar no mundo social e cultural, se adaptaram ao novo cenário que ali se
constituía. Ou ainda tentar perceber de que maneira estes indivíduos dotados de uma forte
característica cosmopolita conseguiram se estabelecer num local onde não havia estrutura, com o
risco de contraírem doenças e realizando tarefas que não estavam acostumados, como foi o caso de
algumas mulheres judias alemãs que passaram a trabalhar como empregadas domésticas ou até
mesmo lidando com a terra. Como sobreviver a um lugar em que era preciso cavalgar no lombo de um
burrico para conseguir penetrar na mata ainda fechada (CARNEIRO, 2010:181)?
Gudrun Fischer ( 2005:16), responde em parte a esta questão quando em suas investigações
descobre que o jeito era ter sorte nas terras que iriam ser adquiridas por meio da Paraná Plantions.
Para Nigel Rapport (2002), a capacidade em adaptar-se a novos e diferentes espaços, estaria ligada à
uma característica inerente à própria condição histórica e social quando se trata de pensarmos a ideia
de sujeito em relação ao judeu, qual seja, o cosmopolitismo. O autor associa a sobrevivência destas
famílias em espaços pouco ou nada familiares à noção de hóspede, um hóspede dos procedimentos sociais
que possibilitam a contratuação da hospedagem mútua, coloca em questão uma ordem social à qual todos podem
pertencer e sentir que pertencem( idem:97).
Outra maneira de obterem sucesso, ou talvez menos dificuldades em sua chegada ao novo
destino seria negociar tudo aquilo que conseguiam trazer em suas bagagens. Porém, esta não parece
ter sido uma alternativa viável, pelo menos não para aqueles que saíram da Alemanha após a Noite
dos Cristais, em 1938. Para estes, era quase impossível carregar algo de valor, uma vez que haviam
restrições quanto aquilo que desejavam trazer, isto é, apenas 10 marcos em sua carteira de fugitivo e para
cada objeto comprado para a fuga era necessário pagar o denominado imposto de deserção, que em 1939 atingia o valor
da compra ( idem:17).
Neste caso, os últimos a saírem da Alemanha, desprovidos de qualquer riqueza, estariam
dentre aqueles que se valeram de outros mecanismos para sobreviverem em meio a um lugar tão
"inóspito" como Rolândia no início de sua fundação. Para além de sua característica cosmopolita, ou
totalmente vinculada à esta questão, remetemo-nos aos aspectos formativos destas famílias, bem
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como a educação obtida por eles quando ainda se encontravam em meio à sociedade alemã, a qual
acreditavam fazer parte.
É deste judeu que estamos tratando, o "judeu alemão", que teve sua identidade reconstruída,
e que não era necessariamente religioso, uma vez que podia ser fruto de um casamento misto, como
ocorria com muitos. Uma outra hipótese seria já estar assimilado ou, até mesmo, convertido à outras
doutrinas religiosas, luterana ou católica (SOARES, 2012:41). Judeus que sentiam-se completamente
alemães, identificados com a sua pátria, conforme relata a refugiada judia alemã Hertha Levy em sua
entrevista concedida a Gudrun Fischer (2005), quando afirma o desejo de frequentarem somente os
meios alemães, o que teria até mesmo influenciado no não aprendizado total de nosso idioma quando
aqui vieram a se estabelecer ( ídem: 38).
Para compreendermos então, o sentimento de pertença que os judeus desenvolveram em
relação à Alemanha, é necessário antes de tudo compreendermos o judeu neste espaço e,
paralelamente os processos assimilacionistas destes agentes naquela sociedade.
O primeiro deles conhecido como Haskalá (Esclarecimento), movimento intelectual, de base
iluminista, criado por Moses Mendelsoonh que se propagou na esfera cultural germânica da segunda
metade do século XVII e que motivou a inserção do judeu no universo alemão. Também as teses
assimilacionistas de
Christian Wilhelm von Dohm, que discursavam sobre a necessidade do
aperfeiçoamento civil do judeu (SOARES, 2009:1). Sobre esta última, o autor que não era judeu, mas
muito próximo de Moses Mendelssohn, a pedido deste último, escreveu um livro onde constam as
teses e onde justificava a ideia de inserção do judeu na sociedade alemã em direitos e deveres,
enquanto uma forma de retirá-lo do quadro de atraso e inferioridade em que se encontrava, e, para
tanto, a educação seria o caminho ( idem, ibidem).
De fato esta explicação parece fazer sentido na medida em que os escritos elaborados por
um dos imigrantes refugiado em Rolândia, apresentam a influência deste processo assimilacionista
em sua formação. Em alguns deles, encontramos uma escrita bastante diferenciada, com traços
rebuscados, ao mesmo tempo que fluida, com expressões e palavras que denotam uma proximidade
com os modelos pedagógicos que circulavam dentre as instituições alemãs relacionadas aos
desenvolvimentos das teorias estético-literárias no final do século XVIII e século XIX ( WEBER,
2011:49).
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Nosso primeiro contato se deu com os relatos de Michael Traumann, um judeu alemão que
refugiou-se da Alemanha em 1937, ano em que veio a se estabelecer na cidade de Rolândia. Na época
em que chegou à região, Traumann tinha 12 anos de idade e dela não mais saiu. Dentre outros, suas
anotações apontam para alguém vindo de família culta, o que de fato se justificava, uma vez que seu
pai era um advogado de formação cosmopolita e refinada, casado com uma cantora de ópera, ambos
pertencentes à uma família convertida ao luteranismo ( SOARES,2012: 53).
Tudo indica que Traumann fazia parte do círculo rolandense tendo nele uma atuação
bastante significativa. A forma como constrói sua narrativa e relata suas experiências nos aproxima a
todo momento do modelo grego refletido não só na escrita mas também em seus discursos
proferidos nos eventos em que era convidado a participar.
São alguns cadernos escritos por Traumann acerca de suas impressões, vivências
e
experiências em Rolândia. Cada um possuí um tema e em todos eles os estudos clássicos parecem ser
o ponto de partida. É como se ele habitasse um outro mundo, mas na realidade trata-se de uma
continuidade. A continuidade de uma formação em que seus personagens, suas comparações,
reflexões ou descrições, tem no uso dos filósofos helenos, uma constante.
Um dos aspectos intrigantes sobre Traumann seria o fato de nunca ter chegado a frequentar
a universidade. O que poderia então, explicar sua relação tão estreita com os gregos? Uma das
explicações estaria no próprio contexto em que se encontrava antes da fuga que o trouxe para
Rolândia permitindo-lhe estar em contato com um universo refletido em suas vivências, no seu
modelo de comportamento.
A família Traumann era conhecida não somente pela grande biblioteca que possuía e os
empréstimos de livros que realizava, como também por manter em sua casa um espaço frequentado
por crianças. Eram filhos dos imigrantes judeus alemães que para lá os pais, também judeus alemães,
encaminhavam em busca de darem continuidade à formação que outrora tiveram. Um deles se refere
ao espaço como "escolinha" dos Traumann ( FISCHER, 2005: 52), e ao que parece se tratava disto
mesmo, uma vez que dentre as atividades estava as aulas de canto oferecidas pela Sra. Traumann (
idem:97).
Além do caso Traumann, outros imigrantes judeus alemães que foram se fixar em Rolândia
nas décadas de 1930 e 1940, demonstram serem oriundos de um universo bastante culto. As leituras
revelam tratarem-se de médicos, advogados, professores, economistas, agrônomos, quase todos eles
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pertencentes à se não de uma classe abastada então, de uma classe média urbana. Mesmo aqueles que
não chegaram a concluir seus estudos, ou porque saíram da Alemanha às pressas, ou por terem sido
obrigados a abandonar as escolas que frequentavam quando ainda viviam em território alemão, ainda
assim é possível constatar os reflexos de uma formação que aparece nos hábitos tanto em relação a
música, a leitura, enfim, tudo aquilo que de certa forma compõe um modelo estético.
O fato é que muitos destes imigrantes pertenciam à um circulo em que as bases de uma
formação alemã, sendo ela cultural, política e social, ou ligadas ao modelo helenístico, classicista ou
humanista, estavam intrínsecas. O desejo era afastarem-se de tudo que os remetesse à Alemanha,
porém, o movimento parece ter sido o contrário. Apesar do abandono da língua alemã por parte de
alguns, também de não decidirem regressar para aquela que tinham como pátria, ou até de optarem
por romper com qualquer vínculo que os associasse à cultura germânica, enfim, constatamos que
eliminar totalmente os traços característicos de sua formação não ocorreu.
Tanto o caso Traumann e a escrita que elabora quando descreve seu dia a dia na comunidade
rolandense, como a influência da leitura de Johann Wolfgang Von Goethe ou de Johann Christoph
Friedrich von Schiller nos gostos de muitos dos que para Rolândia seguiram são exemplos
consideráveis de que os laços destes imigrantes com os aspectos formativos obtidos ao longo de suas
experiências enquanto alemães não foram de todo rompidos. É o que também demonstra Valdir
Pimenta dos Santos Junior (2008: 48-49) em seu estudo acerca da imigração alemã-judaica para o
Brasil, ao narrar sobre os Maier.
São diversas as passagens em que é possível perceber a profunda relação que esses indivíduos
tinham com seus livros. Mesmo que saindo apressadamente do território alemão, as famílias
colocavam em suas malas os pertences que consideravam mais importantes, e, as obras literárias
pareciam ocupar o maior espaço. Nas entrevistas concedidas a Gudrun Fischer (2005) em seu estudo
sobre mulheres judias no Brasil, há o relato de que a maioria dos judeus alemães que para cá vieram,
trouxeram consigo bibliotecas, e por essa razão havia muitos livros para emprestar, como o caso dos
Traumann citado há pouco ( idem:74).
Num outro depoimento, uma das entrevistadas, ao discorrer sobre sua vinda e de sua família
para Rolândia, revela a grande preocupação de seu pai em não deixar os livros para trás. De acordo
com ela, foram um total de dois mil, o número de livros que seu pai decidiu carregar em sua mala,
dos quais apenas 200 de fato é que chegaram em Rolândia (idem: 27). A ideia era de que não
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queríamos deteriorar intelectualmente. Mantivemos viva a cultura alemã, que na Alemanha estava sendo destruída
(idem:43). O que nos chamou a atenção foram os autores que constavam na lista destes imigrantes,
como Goethe, Schiller, poemas e outros mais.
São muitas as passagens em que a formação obtida por estes imigrantes quando ainda viviam
na Alemanha aparece. Não estava presente apenas no gosto literário, ou na escrita de Traumann, mas
em boa parte das práticas exercidas pelos refugiados. Sobre esta última, podemos citar o caso das
mulheres que ao serem contratadas como babás ou empregadas domésticas, em alguns casos, quando
descobertas por seus empregadores como mulheres educadas, com um certo requinte na sua
formação, passavam a desempenhar um segundo ou às vezes até um terceiro papel educando seus
filhos, ensinando-lhes outras línguas como o inglês ou o próprio alemão, ou ambos os idiomas, e,
cuidando de sua educação.
Neste sentido, dentre os diversos aspectos e elementos que compuseram a vinda de
imigrantes judeus alemães para Rolândia, um deles desperta curiosidade, a qual seria a questão da
formação ou Bildung (WEBER, 2011), que estes indivíduos tiveram quando ainda viviam em solo
alemão e as influências da mesma sobre a nova sociedade em que se encontravam. Para tanto, é
necessário debruçarmos o nosso olhar para a Alemanha do século XVIII e início do XIX, e
buscarmos compreender a formação desta nação, a mesma que influenciou a construção de um judeu
que se encaixava dentro dos valores formativos da Kultur e os oriundos da mesma, ou seja, do judeu
alemão.
Como já vimos, a inserção do judeu na Alemanha como um cidadão emancipado, pleno em
seus direitos, civis e políticos, teria sido estimulada pela Haskalá e pelas teses de Dohm (SOARES,
2009:1). Tendo sido a educação um dos instrumentos para que ocorresse a integração, a escola
tornou-se lugar privilegiado, garantindo a assimilação de tal forma que os judeus se identificassem
com a nova identidade que naquele momento se construía (SOARES, 2012:45-46).
Embora existam aqueles que acreditam na incapacidade do projeto assimilacionista em levar
os judeus á plena integração a sociedade civil, e também o fato de nem eles mesmos, almejarem por
essa integração ( LOBO, 2012:06), o objetivo era fazer com que os judeus se tornassem rapidamente
alemães, deixando para trás qualquer aspecto do judaísmo.
Soares ( 2012: 43), discorda desta ideia quando afirma que não havia por parte da Haskalá
uma negação ao judaísmo. As disciplinas de História judaica e Antiguidade hebraica foram mantidas
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nas escolas judaicas - mesmo que "extra-religiosa" - que passaram por reformulações em seus
currículos, como a retirada do Talmud,enquanto foco central do ensino.
O fato é que entre o final do século XIX e início do século XX, já era possível percebê-los
totalmente imersos nos valores da Kultur, um dos projetos estimulados dentro das escolas alemãs, e,
também das escolas judaicas. Completamente assimilados em espaços que até então lhes eram
negados, ocupando cargos de confiança, e até mesmo convertendo-se a outras doutrinas religiosas,
como é o caso da luterana e da católica ( idem: 37- 41), - os judeus tornaram-se cosmopolitas
alemães. Um judeu, influenciado pelo cosmopolitismo das escolas alemãs, expresso nas atitudes e no
comportamento a serviço de uma nação. Seria aquilo que preconizou Hannah Arendt (1972) em suas
reflexões sobre a liberdade, qual seria o homem só poderia ser livre se possuísse um lugar, um lar no mundo (
idem:194). E trata-se exatamente disso, abrir mão de suas origens, ficando o judaísmo restrito às festas
religiosas, à sua significação histórico-cultural ou ainda às suas atividades políticas, uma espécie de invisibilidade
( SOARES, 2012:43).
A ideia, nos parece, seria aquela baseada na lei natural de que todos os seres humanos
constituem uma mesma comunidade (cosmópolis), tema bastante recorrente nas reflexões do pensamento
romano, medieval e do contratualismo moderno (ARAÚJO, 2008:69). Ainda assim, a ideia de pertença à
sociedade alemã, não excluiu de todo os traços de uma herança judaica. Nas escolas judaicas que
promoviam condições para a construção do judeu alemão, os aspectos do judaísmo apareciam nas
disciplinas de História judaica e da Antiguidade hebraica mantinham-se nos currículos, ainda que de
maneira extra-religiosa ( SOARES, 2012:44). Restrito aos lares ou mantido de forma "discreta" nas
escolas, o projeto assimilacionista parecia trazer tensão entre dois pólos distintos: a manutenção da identidade
judaica e a integração na sociedade não judaica ( SOUZA, 1997: s/p). Embora essa seja uma das questões a
serem discutidas em nosso estudo, o foco está como já anunciado, na formação dos judeus alemães,
afinal, é por meio desta formação que aqui estamos a investigar que esses judeus se tornavam
'personalidades', e todas as portas estavam abertas para a personalidade, conforme o ideal social da época. Por meio da
formação - não por meios políticos como a emancipação - eles pretendiam escapar do status oprimido de seu povo
(ARENDT, 2003, p. 152).
Nossa questão é tentar perceber a influência da formação que na Alemanha tiveram ou podese dizer foram herdeiros, as manifestações decorrentes da mesma e que estiveram presentes nos
gestos e nas práticas destes imigrantes.
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Quando Susanne Behrend uma das entrevistadas por Gudrun Fischer
(2005:26),
comenta sobre os livros que seu pai se preocupou em trazer em sua fuga para o Brasil, os autores
citados por ela, especialmente, Goethe e Schiller, além de outros que ali não aparecem, estavam no
período do século XVIII e início do XIX, entre aqueles considerados como uma espécie de
patrimônio nacional alemão ( SOARES, 2012:40).
As pesquisas produzidas sobre a presença judaico alemã em Rolândia, nos leva a crer que ali
naquele espaço se estruturou uma nova comunidade, unida primeiramente pelo sentimento de
expatriação, pela condição de refugiados e pela necessidade de manterem viva a formação, fosse ela
dentro dos padrões formais ou não, a questão seria a de estar em casa no mundo através de um
cosmopolitismo universal, no qual o pertencimento dos indivíduos não se deve a sangue e solo, mas sim em trânsito,
esta em casa e reside, de direito, voluntariamente, numa sucessão de ambientes socioculturais em relação aos quais
negocia (RAPPORT,2002:95).
Para além das realizações e das atividades exercidas pelos judeus alemães em Rolândia, a
escola - ainda que clandestina - e o Pró-Arte, espaço construído por eles, onde se realizavam
comemorações e cursos justificam tal intento, fazíamos palestras, emprestávamos livros. Havia muita gente
estudada aqui, intelectualmente privilegiada e que não se adaptava fisicamente ao trabalho agrícola ( FISCHER,
2005: 43).
Traumann, por exemplo, herdeiro de uma formação proposta pela política assimilacionista,
seria um exemplo claro de reciprocidade e periodicidade, onde os papéis de anfitriões e hóspedes levam a uma
condição onde nenhuma das partes está clara ou absolutamente em casa em lugar nenhum, ou no qual se está em
casa em e através do estar longe ( idem:99). Ele e quase todos os outros imigrantes judeus alemães viviam
isolados da cidade, em fazendas vizinhas, porém, no caso de alguns, como o de Traumann, sua
presença parecia ser uma constante entre a sociedade rolandense.
Ainda que Rolândia representasse um ambiente muito menos ameaçador do que a realidade
que esses personagens haviam enfrentado na Alemanha de Hitler, a presença nazista - de acordo com
alguns estudiosos eram cerca de 400 famílias alemãs - os mantinha longe do espaço urbano, e
portanto, não passava despercebida embora seja possível notar um certo silêncio por parte dos
refugiados em torno da questão. Estudos revelam que não só ouviam a propaganda nazista na rádio
como também organizavam paradas nazistas, como festejar o aniversário de Hitler, por exemplo (
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FISCHER,2055: 162). Também, havia um clube, o chamado Club Concórdia de Rolândia, fundado
por estes seguidores do nazismo, que dentre outras, proibia o acesso de judeus (idem, ibidem).
O fato é que a nova realidade possibilitou a esses imigrantes a experiência de contato com
um novo tipo de vida, ao mesmo tempo em que passaram a compor os aspectos culturais, políticos e
econômicos da cidade, como verificamos ocorrer com Michael Traumann. Muito embora a presença
do nazismo na região, tenha motivado o afastamento destas famílias judias do espaço urbano,
optando por viverem em fazendas circunvizinhas, a preocupação em manterem a formação obtida
ou adquirida por elas quando ainda viviam em solo alemão, parecia uma questão muito mais urgente.
Ainda que oriunda de um país que não mais reconheciam como pátria, a formação que os levou a
uma condição de "alemães" pode ser percebida nas práticas, comportamento e no modo de
relacionarem-se.
Fossem como representantes da cultura alemã, ou melhor, uma espécie de interlocutores, ou
como herdeiros do judaísmo, característica intrínseca na vida de muitos destes imigrantes,
buscaremos identificar e analisar os vestígios desta formação, herdeira das teses assimilacionistas.
Não nos referimos aqui ao judaísmo no sentido religioso unicamente, mas sim naquele que perpassa
a noção de cultura e de uma visão de mundo judaica. Seja a existência de uma identidade étnica
judaica, ou dos laços mantidos com a cultura alemã, o fato é que a visão do cosmopolitismo
iluminista, base polêmica da proposta mendelssohniana estava expressa no comportamento, nos
costumes e no pensamento dos imigrantes judeus alemães.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
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Millenium, no 25, Campus Politécnico - 3504-510 Viseu, Portugal, 2002.
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350
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OBJETO MUSEOLÓGICO: CARROS FERROVIÁRIOS DO MUSEU HISTÓRICO DE
LONDRINA (1999-2013)
Tamiris Helena Doratiotto Baldo (Graduanda em História – UEL)211
Orientador: Claudia Eliane Parreiras Marques Martinez
Resumo: Quando um objeto integra um acervo museológico o mesmo é ressignificado, ou seja,
perde suas funções cotidianas para adquirir novos significados em uma exposição. É através do
objeto que se faz uma relação do passado com o presente, pois é o olhar atual que estabelecerá os
recortes do passado de acordo com as necessidades do presente. A partir disto, utilizando um único
objeto é possível versar sobre seu contexto histórico, abordando sua importância, e analisá-lo no
presente seus significados e o que representa para sociedade contemporânea. Este trabalho tem por
objetivo analisar a passagem do objeto do cotidiano para o ambiente do museu. Para isso serão
tomados como base os carros ferroviários expostos no Museu Histórico de Londrina Padre Carlos
Weiss (MHL). Tendo o mesmo como foco pode-se abordar a história da ferrovia no norte do Paraná
e da cidade onde se encontra. Além disso, trazendo a análise do objeto para o presente, versar sobre
o papel do museu neste meio, os diferentes olhares sobre o que esse objeto representou no decorrer
do tempo e o significado que adquire no presente.
Palavras-chave: ferrovia, memória, museu.
Ninguém vai a uma exposição de relógios para saber as horas. Ao entrar no espaço
expositivo, o objeto perde seu valor de uso: a cadeira não serve de assento, assim
como a arma de fogo abandona sua condição utilitária. Quando perdem suas
funções originais, as vidas que tinham no mundo fora do museu, tais objetos
passam a ter outros valores, regidos pelos mais variados interesses. (RAMOS, 2004)
Em um acervo museológico os objetos não possuem mais suas antigas funções, ao
tornarem-se documentos estes adquirem novos significados. Ao se inserirem em uma exposição ele
atende aos objetivos da mesma, provocando questionamentos e problematizações com relação ao
passado, além de estabelecer relações com seu entorno.
Como objeto museológico serão utilizados os carros ferroviários expostos no Museu
Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss (MHL).
211
Este trabalho faz parte do meu TCC que pretendo defender em dezembro deste ano.
351
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O MHL surge em 1970 idealizado por professores e alunos da antiga Faculdade Estadual de
Filosofia, Ciências e Letras de Londrina, mas nomeado como Museu Geográfico e Histórico do
Norte do Paraná, localizado na cidade de Londrina, só passa a possuir o nome atual em 1974 quando
se vincula à Universidade Estadual de Londrina. O primeiro local de funcionamento da instituição
foram em três salas no porão do colégio Hugo Simas. Em 1986 o museu passa a ser abrigado no
prédio da segunda Estação Ferroviária da cidade, alguns anos após a mesma ter sido desativada.
(OLIVEIRA, 1990)
Os carros ferroviários, objetos de estudo deste trabalho, estão expostos no museu
supracitado. Com base nos termos de comodato dos Carros Ferroviários é possível saber que Estes
objetos datam de 1917, são feitos em madeira e estão expostos na parte externa do museu. Há um
pequeno trecho de trilhos de trem, que não são originais do local, onde se encontram os objetos em
questão. Com relação ainda à localização estão próximos a plataforma de embarque e desembarque
da antiga estação.
São dois Carros Ferroviários de origem belga, sendo um carro de passageiros número PS-4
contendo no mesmo carro primeira e segunda classes, separadas ao meio do carro pelos sanitários. A
primeira classe possui oito bancos, com dois lugares cada, estes são estofados. A segunda classe
possui doze bancos, com dois lugares cada, que são feitos em madeira com suporte de metal. Ambas
as classes possuem um local acima dos bancos para guardar bagagem, feito em madeira. De acordo
com o projeto de restauro dos carros ferroviários apresentado ao Programa Municipal de Incentivo à
Cultura (PROMIC) este carro é considerado raro, pois o mesmo é misto abrigando primeira e
segunda classe em um mesmo carro e o mais comum era que cada carro abrigasse uma única classe.
O segundo consiste em um carro pagador número Z-100, de caráter administrativo, este era
utilizado para o pagamento dos funcionários da Rede de Viação Paraná – Santa Catarina (RVPSC).
Neste último tem-se um quarto, uma cozinha equipada, um banheiro, um local com uma mesa e dois
bancos que poderiam ser utilizados como camas e uma espécie de escritório onde há uma mesa com
uma máquina de escrever, uma cadeira, um cofre e uma abertura que dá para fora do carro, como um
guichê, de frente para a mesa, onde eram realizados os pagamentos dos funcionários. Ao contrário
do carro anterior, este era de uso administrativo, portanto, exclusivo aos funcionários da ferrovia que
efetuavam o pagamento dos demais trabalhadores ferroviários.
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Segundo ofícios expedidos do MHL estes carros chegam a este local em 1999, quando o
mesmo passava por um processo de revitalização, através do “Projeto Memória Viva”. De 1996 a
2000 o MHL ficou fechado à visitação devido as mudanças que estavam ocorrendo. É justamente
neste período que tem início a busca pela preservação da memória ferroviária e são dois motivos
principais que levaram a preocupação em abordar este tema no ambiente do MHL. O primeiro foi o
prédio que abrigava o museu ser uma antiga estação ferroviária. E o segundo foi a ferrovia, algo
crucial no desenvolvimento da cidade e região, que desta forma tem grande carga simbólica e
representativa para a população local, como veremos adiante. A abertura inicial à exposição e
visitação dos objetos em evidencia neste artigo foi justamente na reabertura do MHL após sua
revitalização, 10 de dezembro de 2000, data do aniversário da cidade de Londrina.
Em 2010 inicia-se o projeto de restauro e recuperação cenográfica, para visitação do público
e registros fotográficos, dos carros ferroviários, financiado pelo PROMIC. Devido a intempéries e
ações naturais, tais objetos encontravam-se em avançado estado de deterioração, sendo necessária
uma intervenção para preservação destes materiais. O processo de restauro é finalizado em junho de
2012, os carros foram reabertos à visitação do público oficialmente no dia 21 de junho de 2012.
De acordo com o histórico dos museus realizado por Leticia Julião (2006) é possível observar
que estas instituições sofreram algumas alterações no decorrer do tempo devido ao contexto
histórico no qual estavam inseridos. De gabinetes de curiosidades à afirmação de uma identidade
nacional, seus objetivos atenderam as diferentes demandas de seu tempo. Desta forma, percebe-se
que o objetivo do museu sempre se renova.
Atualmente os museus voltam-se para a problematização e questionamentos acerca de seus
objetos e suas exposições. Se antes vigorava a neutralidade cientifica, hoje preconiza a interpretação.
Desta forma os objetos são fontes de reflexão. Relaciona-se os objetos do passado com o presente.
“Não se trata mais de colocar a data e o fato, ‘o que aconteceu’. O que fica exposto neste caso é a
problemática histórica.” (RAMOS, 2004)
A partir disto é possível analisar o contexto anterior que o objeto evoca e o significado deste
objeto na atualidade, ou seja, sua importância de estar exposto em um museu e qual seu significado
para a comunidade.
No caso dos carros ferroviários, os objetos remetem a história da ferrovia na região que se
entrelaça com a própria história da cidade.
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Até o século XIX a região que hoje denomina-se norte do Paraná era habitada por índios,
caboclos e posseiros. Em meados deste mesmo século tem-se um processo de reocupação destas
terras por sertanistas e famílias de grandes proprietários, que visavam ampliar seus negócios
relacionados ao plantio do café. Para que houvesse escoamento da produção agrícola, com capital
dos cafeicultores paulistas foi construído um trecho de trilhos de ferro que tinha início em Ourinhos
e terminava em Cambará, denominado ferrovia São Paulo - Paraná. (KROETZ, 1985; BENATTI,
1997; LEME, 2005)
A empresa de capital inglês Brazil Plantations Syndicate, que a partir de 1925 passa a ser chamada
de Paraná Plantations Ltd., cria uma subsidiaria no Brasil a Companhia de Terras Norte do Paraná
(CNTP), que esteve fortemente ligada a formação da cidade de Londrina. Inicialmente o objetivo
desta empresa era adquirir as terras da região do norte do Paraná para agricultura, mas futuramente
este objetivo altera-se para dedicar-se a colonização das terras adquiridas no norte do Paraná. Este
plano “colonizador” deu-se pela venda de pequenos lotes de terras. (CMNP, 1977)
Em conjunto com o setor imobiliário a CNTP compra a ferrovia São Paulo – Paraná de um
grupo de cafeicultores. Como já foi citado anteriormente o trecho da ferrovia terminava em
Cambará, a companhia tinha por objetivo estendê-los para o transporte de produtos e pessoas. Ficou
a encargo da CNTP a construção dos trilhos de Jathay até Londrina. (BENATTI, 1996)
Adquirindo do governo do Paraná, por preços módicos, uma extensa gleba de mais
de meio milhão de alqueires, a CTNP pôs em execução um projeto que, num
verdadeiro "pacote", combinava a construção e exploração de uma rede ferroviária,
a venda de lotes urbanos e rurais, e, ainda que indiretamente, o plantio de café.
(BENATTI, 1996, p.14)
Para ampliação do trecho ferroviário no norte do Paraná, foi construída uma ponte sobre o rio
Tibagi, visto que o único meio de atravessá-la antes da construção da ferrovia era através de uma
balsa. Quando chovia o rio enchia o que muitas vezes impossibilitava a passagem com a balsa,
quanto as estradas, estas pioravam ainda mais as condições de transito, sendo comum ocorrer
atolamento dos veículos. Através destas colocações pode-se perceber a grande contribuição da
ferrovia para colonização da região, facilitando tanto o transporte de passageiros, quanto o
escoamento da produção e o acesso a mantimentos e produtos necessários na região (BAHIA, 1996).
No início da década de 40 a CNTP é adquirida por um grupo de empresários brasileiros e
passa a ser nomeada Companhia Melhoramentos Norte do Paraná (CMNP) e a estrada de ferro São
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Paulo – Paraná passa a pertencer ao governo e são integrados a Rede Viação Paraná – Santa Catarina.
(CMNP, 1977) Em 16 de março de 1957 foi criada a Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima.
(BAHIA, 1996)
Observa-se a partir do que foi exposto sobre a história da cidade e da ferrovia na região, a
tamanha importância que a última teve no crescimento da cidade, pois facilitou o transporte de
pessoas e produtos. De acordo com Leme (2005) pode-se notar um grande crescimento populacional
em 1940 na cidade de Londrina. Os preços do café estavam em alta, as pequenas plantações
cresceram e demandavam mão-de-obra. Com relação ao número de habitantes, de 1934 à 1940 a
população aumentou em 10 vezes.
Devido a este aumento populacional aumenta também a demanda de entrada e saída de
produtos, assim como, aumenta o fluxo de pessoas entrando e saindo da cidade, desta forma torna-se
evidente a necessidade da construção de um novo prédio, pois “a estação já não atendia as
necessidades com certo conforto”. Esta decisão ocorre logo após a incorporação da ferrovia São
Paulo – Paraná à Rede Ferroviária Santa Catarina – Paraná. A estação começa a funcionar em 1950 e
em 1981 finaliza o transporte de passageiros. (ROMÃO JUNIOR, 1990)
A ferrovia vista como progresso na formação da cidade passa a ser vista como um empecilho
anos mais tarde. (OLIVEIRA, 1995) A concorrência futura do transporte rodoviário, fez com que os
trilhos tornassem obsoletos e aos poucos esse tipo de transporte foi se extinguindo. Em 1966
começam as discussões sobre a mudança do trajeto dos trilhos de ferros, pois estariam criando
problemas na área central da cidade. Dentre tais problemas estão as complicações causadas no
transito urbano e o fato da linha ferroviária dividir a cidade, desta forma impedindo a integração total
da cidade. (BROETO, s.d.)
A importância da ferrovia vem ser representada no museu na materialidade dos carros
ferroviários, mas estes carros não estão isolados nesta exposição, ele dialoga com seu entorno.
Primeiramente como já foi dito o objeto em questão está localizado na antiga estação ferroviária.
Além de abrigar o museu esta passa a fazer parte de seu acervo. A antiga bilheteria da estação foi
conservada, sendo que no mesmo ambiente encontra-se uma parede com antigos relógios, alguns
deles tendo pertencido à estações ferroviárias da região. Em umas das saídas deste ambiente fica a
antiga plataforma de embarque e desembarque da estação onde se localizam os carros ferroviários,
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além de um sino utilizado no aviso da chegada e saída dos trens e à frente dos carros ferroviários há
um trole ferroviário, responsável pela manutenção dos trilhos de ferro.
Portanto, este conjunto de objetos relacionam-se entre si, permitindo diferentes olhares em
cada indivíduo. Além disso, é possível despertar diferentes sentidos nos visitantes. Além do visual
pode-se ouvir o tocar do sino e ao entrar nos carros pode sentir o cheiro da madeira da qual os
carros são feitos. A possibilidade de visitar o interior dos carros, e vislumbrar uma outra perspectiva
do objeto, permite ainda mais aguçar as lembranças, interpretações e reflexões.
Aqueles que viveram nos tempos de funcionamento da ferrovia sentem a nostalgia daquele
período, como se fossem tempos áureos. Santos (2006) ao escrever sobre as duas fases do Museu
Histórico Nacional (MHN) utiliza o termo museu-memória ao se referir sobre sua primeira fase. Este
período faria referência ao “culto a saudade”. “O forte simbolismo ou carisma atado as peças remete
não a elas próprias, mas a uma realidade maior, da qual os objetos são apenas um fragmento.”
A arma no entanto, ao ser extraída de seu contexto original, morre e perde seu
significado, e sobre esta morte é que se constrói a possibilidade de contato com o
passado.
[...]
Podemos dizer, portanto, que com o arcabuz não há retorno a experiência do
passado, muito menos sua representação, uma vez que aquele objeto é apenas parte
de uma vivência anterior e maior; o arcabuz como parte do todo será capaz apenas
de trazer a lembrança, de fazer com que se evoque o passado ao qual ele já
pertenceu. Essa autenticidade, esta condição metonímica de ser, acarreta a
capacidade simbólica do objeto que, uma vez signo, como qualquer forma da
narrativa, torna-se uma construção do presente. (SANTOS, 2006, p.37)
Comparando os carros com a arma citada, não há o contato efetivo com o passado somente
com a lembrança de determinado período. Os carros funcionam também como objeto metonímico,
termo também utilizado por Meneses (1994). O objeto faz-se por representar todo o passado que o
mesmo evoca, a parte representando o todo.
Segundo Halbwachs (1968) a memória coletiva relaciona-se com as memórias individuais
quando estas últimas apresentam uma versão diferente sobre um mesmo acontecimento, mas, que ao
se unir estas memórias estas se complementam. Mas para que isso ocorra é preciso que as
lembranças tenham pontos de convergência para desta forma constituírem uma memória comum e
para que ela de fato exista é preciso de algo em nossa memória que a evoque.
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Desta forma o museu acaba sendo um local de representação das memórias coletivas, sendo
que cada um, com sua memória individual, terá um olhar diferenciado sobre o mesmo objeto e o
mesmo objeto e seu contexto histórico sendo o ponto de convergência das memórias.
Nas gerações mais jovens, que estão em contato com diferentes tecnologias, que pertencem a
uma sociedade mais “moderna”, estes objetos causam o fascínio e o encantamento, mas ao mesmo
tempo representam o passado, o velho, o ultrapassado. Apesar de que um dia, como já foi dito
anteriormente, esse mesmo objeto representava o progresso e foi de suma importância para
crescimento da cidade. Essas pessoas não criam laços de identidade e lembrança como os mais
velhos sobre aquele objeto, mas desta forma diferenciam-se destes últimos, como gerações de
diferentes períodos. Através disto pode-se perceber o processo de mudança que ocorre nos
significados das coisas.
Diferente dos museus históricos nacionais onde dificilmente haverá um objeto que evoque a
lembrança do passado (CHAGAS; SANTOS, 2002), os museus regionais ou locais representam algo
mais próximo da comunidade.
“[...] o museu de cidade deve ser uma referência inestimável para conhecer a cidade,
entendê-la (no seu passado e no presente), fruí-la, discuti-la, prever seu futuro,
enfim, amá-la e preocupar-se com ela e agir em consequência.” O enfoque desses
museus deve ser o habitante daquele local. (MENESES, 2003)
Observa-se que através da memória e da interpretação do objeto cria-se uma identidade.
Segundo Meneses (1993) a formação de identidade não se dá pelo isolamento e sim pela interação
entre grupos. “Se a identidade tem como foco a semelhança, ela produz, em contrapartida, a
diferença: a afirmação de semelhança necessita da oposição do que não é semelhante.” É através da
diferenciação e assimilação que ela aparece. A identidade também é algo dinâmico e possui suas
raízes no presente.
Além disso, a identidade se fundamenta no presente, nas necessidades presentes,
ainda que faça apelo ao passado – mas é um passado também ele construído e
reconstruído no presente, para atender a reclamos do presente. (MENESES, 1993,
p.210)
Desta forma, têm-se os diversos olhares sobre o objeto e o sentido atual que o mesmo adquire
para a comunidade, o objeto, nostálgico, o diferente, o curioso. E mesmo possuindo esse caráter
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subjetivo não se perde a noção crítica sobre do que o objeto evoca. A problemática dos trilhos de
ferro no meio urbano, relacionado tanto ao transito de automóveis quanto a divisão física e social da
cidade, vantagens ou desvantagens que poderiam acarretar a volta desse tipo de transporte. São
inúmeras as questões e reflexões que tecem-se sobre um único objeto.
Conhecer o passado de modo crítico, significa, antes de tudo, viver o tempo
presente como mudança, como algo que não era, que está sendo e que pode ser
diferente. Mostrando relações historicamente fundamentadas entre objetos atuais e
de outros tempos, o museu ganha substância educativa, pois há relações entre o que
passou, o que está passando e o que pode passar. (Ramos, 2004)
Portanto, observa-se que mesmo evocando o passado, os sentidos dos objetos são construídos
no presente. O recorte ou o tema que se busca no passado é realizado no presente. O objeto saindo
de seu cotidiano e compondo um acervo museológico está sujeito a diferentes olhares, interpretações
e relações com seu entorno.
Referências bibliográficas
BAHIA, Silvio Luiz. A contribuição da ferrovia para a colonização do Norte do Paraná.
Trabalho Acadêmico de História, Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 1996.
BENATTE, Antonio Paulo. O centro e as margens: boemia e prostituição na “capital mundial
do café” (Londrina: 1930-1970). Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do
Paraná, Curitiba, 1996.
BROETO, Lucila. A Estação Ferroviária de Londrina. Londrina, s.d.
CHAGAS, Mario de Souza; SANTOS, Myrian Sepúlveda dos. A vida social e política dos objetos de
um museu. Anais do Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro, v. 34, p. 195-220, 2002.
COMPANHIA DE TERRAS NORTE DO PARANÁ. Colonização e desenvolvimento do Norte do Paraná.
Editora Ave Maria. 2ed. São Paulo,1975.
HALBWACHS, Maurice. A memória Coletiva. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais LTDA,
2ªed, 1990.
JULIÃO, Leticia. Apontamentos sobre a história do museu. In: Caderno de diretrizes museológicas.
Brasília: Ministério da Cultura/ Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional/
Departamento de Museus e Centros Culturais. Belo Horizonte: Secretaria de Estado da Cultura/
Superintendência de Museus, 2006.
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
KROETZ, Lando Rogério. As Estradas de Ferro do Paraná 1880-1940. Tese (Doutorado) –
Universidade de São Paulo, São Paulo, 1985.
LEME, Edson Holtz. Noites ilícitas: histórias e memórias da prostituição. Londrina: EDUEL, 2005.
MENESES, Ulpiano T. Bezerra de . Do teatro da memória ao laboratório da história: a exposição
museológica e o conhecimento histórico. Anais do Museu Paulista História e Cultura Material, São
Paulo, n. 2, p. 9-42-75-84, 1994.
MENESES, Ulpiano T. Bezerra de . Museu, cultura material e cidade: o museu de cidade e a
consciência da cidade. In: Santos, Afonso Carlos Marques dos; Kessel, Carlos & Guimaraens, Cêça.
(Org.). Museus & Cidades. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 2003, v. , p. 255-282.
MENEZES, Ulpiano Toledo Bezerra de. A problemática da identidade cultural nos museus: de objetivo (de
ação) a objeto (de conhecimento). In Anais do Museu PaulistaNova Série, N.1, 1993.
OLIVEIRA, José Donizetti Brandino de. A Construção de uma Idéia: Uma Breve História do
Museu Padre Carlos Weiss. Trabalho Acadêmico de História. Londrina, 1990.
OLIVEIRA, Leila Márcia Andrade de. Trilhos Urbanos: A Ferrovia e a Modernidade em
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Universidade Estadual de Londrina, 1995.
RAMOS, Francisco Régis Lopes. A danação do objeto: o museu no ensino de história. Editora Argos.
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SANTOS, Myrian Sepúlveda dos. A Escrita do Passado nos Museus Históricos. 1. ed. Rio de Janeiro:
Garamond/Minc, Iphan, Demu, 2006.
359
VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
A IDENTIDADE CRISTÃ NO SÉCULO I d.C. A PARTIR DA RETÓRICA
ANTIJUDAICA DO NOVO TESTAMENTO: EPÍSTOLA DE PAULO AOS GÁLATAS,
EVANGELHO DE LUCAS E ATOS DOS APÓSTOLOS
Kettuly F. S. Nascimento (História – Universidade Estadual de Londrina)
Orientadora: Prof. Dr. Monica Selvatici
O interesse deste trabalho é o de analisar a retórica antijudaica a partir do exame de obras
cristãs que compõem o Novo Testamento, como: A Epístola do Apóstolo Paulo aos Gálatas, o
Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos, onde é possível perceber um forte desejo de se
estabelecer uma identidade cristã diferente do judaísmo na antiguidade e serem reconhecidos por
isso.
O principal objetivo deste trabalho é analisar o desenvolvimento da relação entre as
comunidades cristãs e o judaísmo na antiguidade, levantando questões sobre atitudes negativas a
cristãos judaizantes que estariam dentro do movimento de fé em Cristo como o Messias. Estes
cristãos judaizantes seriam convertidos à fé em Jesus como o Messias e que estariam retornando a
práticas judaicas que já teriam sido abandonadas pelos cristãos e exigindo dos novos convertidos
obediência aos rituais da Lei Mosaica, como: a circuncisão, guardar o sábado e cuidados com a
alimentação.
A historiografia atualmente se debruça sobre os estudos do Novo Testamento com o intuito
de compreender o contexto histórico e social a partir do sentimento antijudaico encontrado nas
literaturas cristãs antigas. Esse movimento antijudaico produzido ao longo da vida cristã pode ter
propiciado o surgimento de condições exacerbadas do antissemitismo.
Estudiosos que antes afirmavam que as literaturas cristãs eram respostas a ataques judaicos,
começam a voltar seus olhares para problemas internos à comunidade cristã. Desta forma, os
documentos cristãos dos séculos I e II d.C. nos quais é apresentada uma forte crítica aos judeus e aos
ritos religiosos judaicos devem ser analisados como forma de buscar compreender a questão da
judaização que ocorre no interior das comunidades cristãs, percebendo que as identidades são
mutáveis e que possuem um aspecto relacional. Isso nos permite compreender o desenvolvimento
das identidades no curso da história, pois as relações sociais na antiguidade são mais fluidas do que
antes se imaginava.
360
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
O estudo do conceito de identidade de grupo – não sob o olhar da modernidade, mas a partir
da perspectiva de formação da comunidade cristã – é benéfico para esta análise, pois permite
perceber como se deu a construção das identidades judaicas e cristãs nos contextos históricos
particulares de onde provêm os textos antigos analisados e verificar como se deu o surgimento das
diversidades e das particularidades de cada grupo aqui analisado, pois a ideia de identidade aparece
como um sentimento de pertencimento e reconhecimento de certas características de cada grupo.
Desta forma, o presente trabalho analisa a presença de cristãos judaizantes, que insistem em
levar para dentro da comunidade cristã práticas rituais da Lei de Moisés que já haviam sido
abandonadas pela maioria dos fiéis em Cristo como o Messias, numa tentativa de alcançar o mais
rápido possível o retorno de Jesus.
Identidade Cristã e a Retórica Antijudaica
O século I d.C. é marcado por uma forte retórica antijudaica dentro da comunidade cristã
devido a insistência de alguns cristão em uma observância maior da Torá - uma prática já
abandonada pela comunidade que agora depositava suas esperanças e fé em Jesus como o Messias e
não mais em uma dedicação a práticas rituais carnais, como a Lei de Moisés exigia e que os cristãos
acreditavam ser neste momento desnecessária (já que pela morte de Cristo todos seriam justificados
pela fé).
O principal objetivo desta pesquisa é o de analisar o desenvolvimento da comunidade cristão
no I século de nossa Era que se encontra sob uma forte tensão intramuros, está tensão é marcada
por um desejo de criar uma identidade religiosa com práticas diferentes dos Judeus em sua
observância da Torá.
Os discursos antijudaico apresentados nas fontes aqui analisadas colocam os cristãos que
exigem uma observância maior da Lei Mosaica como “Hipócritas” que do Greco significaria
dissimulador, fingido e literalmente um ator - aquele que se esconde sob uma mascara e suas ações
são na verdade uma atuação – os textos também denunciam a “Hipocrisia” que significaria pretensão
e fingimento (Léxico Grego-Português, 1993, p.214) das ações destes cristãos ou até mesmo dos
judeus que cometem falhas em suas observâncias da Lei, mas que sempre exigem obediência em suas
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práticas religiosas; essas menções aparecem nas fontes para denunciar principalmente as práticas
judaizantes que estão ocorrendo dentro da comunidade cristã.
Na Epístola de Paulo aos Gálatas os cristãos judaizantes tem sua designação inspirada quando o
apóstolo Paulo denuncia a hipocrisia de Pedro (ou Cefas, seu nome em aramaico) no contexto de um
desentendimento sobre a conduta cristã a ser seguida na comunidade de Antioquia após a chegada
(por volta do ano 50 d.C.) de emissários da comunidade de Jerusalém que exigem que ocorra a
separação, no momento das refeições, entre judeus e gentios crentes em Jesus – essa separação seria
uma observância maior da Torá, por parte dos convertidos a doutrina de Jesus Cristo. Nesta mesma
carta se encontra a primeira referência à hipocrisia daqueles que forçam ‘os gentios a viverem como
judeus’(Gl. 2,14) deixando de lado os ensinamentos e a libertação dada por Jesus. Em Gl 2,11-13 lêse:
Mas quando Cefas veio a Antioquia, eu o enfrentei abertamente, porque ele se
tornara digno de censura. 12 Com efeito, antes de chegarem alguns vindos da parte
de Tiago, ele comia com os gentios, mas, quando chegaram, ele se subtraía e andava
retraído, com medo dos circuncisos. 13 Os outros judeus começaram também a
fingir junto com ele, a tal ponto que até Barnabé se deixou levar pela sua
hipocrisia.
11
A carta enviada aos Gálatas por Paulo é repleta de emoção, nela é expressa toda a raiva e
indignação sentida pelo apóstolo naquele momento. Ele teria escrito a carta em 54-55 d.C em Éfeso
ao receber a notícia de que, após sua partida, cristãos de origem judaica teriam chegado à Galácia e
pregado um novo evangelho (Gl 1,7), desta forma ele teria se sentido traído e indignado por ter sido
rapidamente aceita pela Igreja da Galácia a nova pregação, além de terem enxergado Paulo como um
novo inimigo que de ‘alguma forma os enganou com sua pregação sobre o Cristo’212.
As cartas de Paulo não eram comunicações particulares, eram leituras públicas destinadas às
congregações, recorrendo desta forma necessariamente a uma técnica de persuasão. Sua retórica é
inspirada na situação que envolve os problemas da comunidade fundada, seriam comunicações que
estariam diretamente ligadas às necessidades da comunidade cristã daquele momento e seguiria todo
um esquema de elaboração, como: endereço; apologia do apostolado de Paulo; a justiça pela fé;
varias exortações e epílogo. Portanto, é nesta carta que poderá ser claramente notado o fundo
BROWN, Raymond E. Introdução ao Novo Testamento. Tradução Paulo F. Valério. 2. ed. São Paulo: Paulinas,
2012. p. 623.
212
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
polêmico da teologia paulina – a Lei Mosaica – e é também (como já mencionado anteriormente) o
primeiro documento a fazer menção aos judaizantes.
Diferente das demais cartas, Paulo ao escrever aos Gálatas não menciona um coremetente e
apresenta uma resposta pessoal aos ataques diretos da Igreja, escreve com um tom irritado, deixando
de lado a ação de graças que ele normalmente faz nas cartas. Na carta ele expõe a sua decepção em
relação à desobediência que os cristãos da Galácia têm cometido no descumprimento dos deveres
cristãos e a implantação de práticas judaicas dentro das igrejas, enfatizando que não existe outro
evangelho, além daquele proclamado por ele a respeito da graça de Cristo.
A discussão da carta gira em torno principalmente da circuncisão. Paulo dá a entender que os
progenitores da pregação judaizante seriam os mesmos representantes de Tiago vindos de Jerusalém
a Antioquia. Para convencer a Igreja da Galácia do seu trabalho missionário Paulo procura expor que
– com a chegada da Nova aliança anunciada por Jesus Cristo – a Lei perde sua validade quando se
refere às práticas alimentares; a circuncisão; as questões sobre casamentos ilícitos e o guardar o
sábado, já que ao receber o evangelho de Cristo os Gálatas teriam recebido o Espírito, o que tornava
desnecessária uma observância maior da Lei. Deus teria feito a promessa a Abraão de que todas as
nações seriam abençoadas, de modo que, a circuncisão seria inútil ao ser comprovada à aceitação dos
gentios incircuncisos a partir do recebimento do Espírito como demonstração do cumprimento da
promessa de Deus a Abraão. A Lei para Paulo seria apenas uma “guardiã temporária, até que Cristo
viesse” (BROWN, 2012, p.628), portanto, retornar às antigas práticas da Lei seria retornar a uma vida
de escravidão, depois de ter alcançado a liberdade através da redenção oferecida pelo Filho de Deus.
Apesar do tom agressivo utilizado por Paulo na carta, é possível perceber a preocupação e o
cuidado que tem pelo seu ministério ao se dirigir à Igreja da Galácia, buscando transmitir com notada
urgência a sua indignação aos mesmos, deixando de lado algumas prescrições que são de costume nas
epístolas.
Paulo encerra a epístola a partir de uma apaixonante exortação (Gl 5,1; 6,10), levando aos
Gálatas uma reflexão a respeito dos pregadores que ali estiveram e se manifestaram através de outro
evangelho, afirmando que a circuncisão não faz mal algum, mas que também não justifica os gentios,
a justificação será encontrada na fé e no amor, deixando de lado as obras da carne. Ao concluir a
carta, Paulo escreve de próprio punho, fazendo mais uma vez menção à circuncisão, dizendo que
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
não há diferença em ser um circunciso ou não entre o povo eleito de Deus, pois a importância está
na vivência da fé em Cristo Jesus como o Messias.
A maioria dos estudiosos defende a ideia de que Paulo teria sido criado e educado em Tarso,
o que pode ter dado condições para se sustentar com o próprio trabalho e algumas características são
perceptíveis e pontuadas por Brown (2012, p.567):
Escreveu em bom grego e conhecia os livros deuteronômios compostos ou
conservados em grego. Tarso tinha a fama de possuir culturas e escolas excelentes,
e, não obstante tais estruturas fossem gentias, um treinamento básico na arte da
escrita, retórica e dialética pode ter estado à disposição dos meninos judeus a fim de
permitir-lhes trabalhar competitivamente.
Paulo apresenta suas cartas de maneira ampla e com muita dedicação e por ser uma figura tão
marcante no cristianismo, seus textos levam o cristão a refletir sobre aquilo que lhes foi escrito e não
agir com indiferença.
Desde a revelação de sua vocação em Damasco, Paulo demonstrou sua posição com relação
à Lei, apresentando-se como o apóstolo designado a proclamar o evangelho aos gentios, enfatizando
que sua vocação fazia parte de um evento escatológico da morte e ressurreição de Cristo e que, desta
forma, a proposta cristã não era uma mentira, que se ele havia recebido aquele convite de obediência
então era um sinal de que o fim havia chegado para a Lei, mostrando que com a morte de Jesus,
Deus havia declarado que todos os pecadores eram agora justificados.
Segundo Pablo Richard no texto Los Origenes del Cristianismo em Antioquia a identidade da igreja
de Antioquia depois do conflito entre Paulo, Pedro e Barnabé teria sido legitimada com a postura
firme de Paulo ao confirmar a veracidade do Evangelho e mostrando através da História que sua
missão teria sim iniciado com os judeus, mas para que pudesse levar a Palavra de Deus para os
gentios, fortalecendo desta forma a ideia de que era necessário o abandono as antigas práticas da Lei
mosaica.
Portanto, percebe-se que Paulo usa todo o discurso de abandono às práticas da Lei de Moisés
com o intuito de abolir dentro da comunidade cristã as distinções religiosas entre judeus e gregos
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convertidos. Haveria entre os irmãos na fé uma igualdade, onde todos seriam livres tendo somente a
necessidade de circuncidar o coração213.
O Evangelho de Lucas é o mais longo dos quatro evangelhos, ele se apresenta apenas como a
metade dos escritos de Lucas, já que o livro originalmente está ligado aos Atos dos Apóstolos. A
fonte usada na elaboração de todo o livro Lucano seria de uma geração precedente, com
testemunhas oculares e ministros de Palavra, portanto, seriam os discípulos e apóstolos de Cristo. O
livro está datado em aproximadamente 85 d.C. não possuindo uma data exata e não possuindo
também uma clareza quanto ao local em que o evangelho teria sido escrito ou a quem está
endereçado. O livro teria sido escrito provavelmente dez ou vinte anos depois de Marcos, o primeiro
Evangelista. Ele oferece mais informações a respeito das tradições de Jesus, através de relatos
diferentes do contexto histórico da Igreja de Marcos.
O evangelista ao dizer que usa de ‘testemunhas oculares’ em seus escritos, traz a ideia de que
possivelmente tenha sido um seguidor dos apóstolos e escreveu literalmente a história. A sua
afirmação também pode ser interpretada como uma confirmação da fé cristã que lhe fora transmitida
e esta confirmação seria apresentada na narrativa do Evangelho - Atos como possuidora de um valor
salvífico no estímulo a fé.
Atos dos Apóstolos, como já dito anteriormente, seria uma segunda parte do evangelho
escrito por Lucas. Os Atos vêm assinalar a expansão da comunidade cristã que começa em Jerusalém
com os doze, e termina em Roma com Paulo, onde é proclamado que o futuro do cristianismo se
encontra no mundo gentio. A obra revela que o cristianismo é um caminho duradouro, devendo
saber de sua continuidade com Jesus, Paulo e Pedro, tendo sempre a certeza de que seu
desenvolvimento é guiado pelo Espírito recebido de Jesus.
O autor de Atos teria participado de grande parte dos acontecimentos narrados e são poucas
as probabilidades de que ele os tenha inventado. Se Atos é de autoria de Lucas, este se propõe a fazer
uma narrativa que tem por objetivo trazer segurança aos que creem (Lc 1,4) e fortalecê-los com
intuições teológicas, mostrando através de uma narrativa a formação da Igreja primitiva e seu legado
na propagação da Palavra deixada por Jesus sobre a Nova Aliança com Deus. (BROWN, 2012, pp.
439-444).
FIORENZA, E. S. A Práxis do Discipulado Co-igual. In: HORSLEY, R. Paulo e o Império: a religião na sociedade
imperial. São Paulo: Paulus, 2004. p.223.
213
365
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Para Pablo Richard, o livro de Atos, mesmo tendo sido escrito muito tempo depois da carta
de Paulo aos Gálatas, também pode ser interpretado como um suporte de apoio, onde
historicamente é possível se situar sobre as reflexões de Paulo e compreender seu propósito de fé em
Jesus.
Nas obras Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos, os cristãos judaizantes se tornam visíveis a
partir da realização de uma análise dos propósitos narrativos e teológicos do autor, o suposto Lucas.
Ao analisar o papel dos fariseus ao longo de toda esta narrativa, observa-se que Lucas faz referências
a cristãos judaizantes.
A insistência em abordar por diversas vezes em sua obra a hipocrisia dos cristãos de
origem judaica ao exigirem a circuncisão dos cristãos de origem gentílica levanta a
questão de que, muito provavelmente, essa exigência estivesse acontecendo no
período em que ele redigiu a sua obra, na década de 80 ou 90. (SELVATICI, 2007,
p. 35)
O autor dos escritos Lucanos, para enfatizar o discurso antijudaico, aponta no Evangelho que
as cobranças feitas pelos fariseus eram muitas vezes descumpridas pelos mesmos – se levarmos nossa
interpretação para a ideia de que os textos Lucanos tenham sido escritos para comunidades cristãs,
então a hipocrisia dos fariseus poderia ser interpretada como uma dificuldade dos próprios judeus
em seguir as práticas da Lei em sua totalidade, portanto, por que os cristãos gentios deveriam ser
cobrados por essa observância? – como, por exemplo, em Lucas 13,14-16:
E, tomando a palavra o príncipe da sinagoga indignado porque Jesus curava no
sábado, disse à multidão: Seis dias há em que é mister trabalhar: neste dia pois vinde
para serdes curados, e não no dia de sábado. Respondeu-lhe, porém o Senhor, e
disse: Hipócritas, no sábado não desprende da manjedoura cada um de vós o seu
boi, ou o jumento, e não o leva a beber? E não convinha soltar desta prisão, no dia
de sábado, esta filha de Abraão, a qual há dezoito anos Satanás tinha presa?
Como já mencionado anteriormente o autor do Evangelho - Atos dos Apóstolos faz várias
menções à ‘hipocrisia’ na narrativa como maneira de enfatizar seu discurso antijudaico. Entretanto,
em Atos uma menção clara e direta não ocorre, ela aparece de maneira implícita, mas carregada de
significações que visam levar para a comunidade cristã um desapego às observâncias da Lei Judaica e
que o caminho para a Igreja estaria na conversão de gentios. Podemos encontrar na passagem em
que Paulo retornando para Jerusalém dá testemunho das obras realizadas por Deus no meio do povo
366
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gentio e acaba por ser repreendido por alguns membros da Igreja que exigem a observância da Lei
Mosaica. Em Atos 15,5-11 lê-se:
5 Então,
alguns dos que tinham sido da seita dos fariseus mas haviam abraçado a fé,
intervieram: diziam que era preciso circuncidar os gentios e prescrever-lhes que
observassem a Lei de Moisés. 6 Reuniram-se, pois, os apóstolos e os anciãos para
examinarem o problema. 7 Tornando-se acesa a discussão, levantou-se Pedro e
disse: “Irmãos, vós sabeis que, desde os primeiros dias, aprouve a Deus, entre vós,
que por minha boca ouvissem os gentios a palavra da Boa Nova e abraçassem a fé.
8 Ora, o conhecedor dos corações, que é Deus, deu testemunho em favor deles,
concedendo-lhes o Espírito Santo assim como a nós. 9 Não fez distinção alguma
entre nós e eles, purificando seus corações pela fé. 10 Agora, pois, porque tentais a
Deus, impondo ao pescoço dos discípulos um julgo que nem nossos pais nem
mesmo nós pudemos suportar? 11 Ao contrário, é pela graça do Senhor Jesus que
nós cremos ser salvos, da mesma forma que eles”.
A leitura dos textos bíblicos realizada pela comunidade cristã em sua formação pode ser
analisada através do texto O Mundo como Representação de Roger Chartier, onde é possível perceber que
os textos podem ser elaborados a partir das necessidades da comunidade, mas também podem
utilizar de recursos que manipulam o leitor e os levam a refletir sobre o texto ou seguir os
mandamentos do texto sem nenhum questionamento.
Chartier (1991, p.178-183) nos mostra que as interpretações feitas pela comunidade
dependem muito do modo como os textos são recebidos por seus leitores (ou ouvintes). Pois um
leitor que não possui uma formação profissional não chegará às mesmas interpretações que um
intelectual. Portanto, o modo como à identidade de um grupo é formada, muitas vezes se mostra
através de práticas exercidas (muitas vezes adquiridas através de suas leituras) que os levam a possuir
características próprias e distintas de outros grupos – a construção da identidade pode ocorrer a
partir de representações impostas ao grupo, podendo haver sobre essas imposições uma resistência
ou uma aceitação que definirá as características finais do grupo. Percebe-se que no caso da
comunidade cristã há uma imposição de retorno às práticas da Lei mosaica feita pelos gentios (que
são rapidamente aceitas) possivelmente por trazer um sentimento de pertença, mas uma forte
retórica antijudaica surge dentro da comunidade cristã como um movimento de resistência que busca
dar origem à sua identidade; uma identidade que demonstra unidade através da observância da fé em
Cristo e não na Lei judaica.
367
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A maioria das comunidades cristãs mencionadas no NT vivia em cidades. Por este motivo
deve ser levado em conta o intercâmbio existente entre as pessoas de diferentes origens ocorridas
naquele meio. Na Ásia Menor e na Síria, as populações citadinas foram levadas à esfera grega pelas
conquista de Alexandre Magno e depois de mais de trezentos anos encontraria uma grande
população miscigenada.
A comunidade cristã do NT, como pode ser observada nas fontes, se manifesta numa busca
incessante em estabelecer-se como um grupo característico e diferente dos judeus. Desta forma deve
considerar que a elaboração das obras está inserida numa realidade pluralista e diversificada no que se
refere à cultura e suas fronteiras étnico-geográficas. Portanto, deve-se buscar identificar as matizes
presentes no processo relacional dos povos, nações e territórios que podem ter influenciado na
elaboração dos escritos do Novo Testamento214.
A presença de cristãos judaizantes dentro da comunidade cristã é bastante incômoda, visto
que nos escritos do NT é constante a retórica antijudaica. O que nos leva a questionar qual a relação
existente entre judeus e não judeus na Ásia Menor, local onde se encontrava a maior parte das
comunidades cristãs que deu origem à maioria dos escritos cristãos na antiguidade. Deve se levar em
conta que os convertidos a nova fé eram tanto judeus como gentios (ou pagãos).215
Para a compreensão do Novo Testamento, devemos entender que os Judeus se
diferenciavam dos demais povos principalmente através da religião com suas leis de pureza
(possuindo um fundo discriminatório), pois a Lei para a maioria dos judeus era uma questão de
identidade, pois tinham aprendido a defender a todo preço seguindo os exemplos dos Macabeus.
Como muitos dos apóstolos e discípulos eram judeus de nascimento e convertidos a doutrina de
Cristo nos leva a pensar que tiveram muita dificuldade em abandonar as antigas práticas judaicas num
período curto de tempo, pois a religião para os judeus era fortemente defendida216. Sob esse
argumento devemos questionar se esses judeus convertidos estariam apenas tendo dificuldades em
abandonar antigas práticas rituais devido ao zelo com a religião, ou se a cobrança feita aos novos
convertidos (gentios) a fé em Cristo numa observância maior da Lei seria uma demonstração de que
IZIDORO, J. L. O problema da identidade no cristianismo primitivo: interação, conflito e desafios. Revista
Eletrônica Oracula (São Bernardo do Campo), v. 4.7, 2008.
215 ARENS, Eduardo. Ásia Menor nos Tempos de Paulo, Lucas e João: aspectos sociais e econômicos para a
compreensão do Novo Testamento. Tradução: João Rezende Costa. São Paulo: Editora Paulus, 1997, p.157.
216 ARENS, 1997, p.158.
214
368
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não havia interesse em abandonar tais práticas, pois estariam preocupados com alguma falta
cometida e que estaria atrasando o retorno de Jesus.
O cristianismo teria surgido no Mundo Antigo como um movimento messiânico judaico,
tendo a sua atuação sustentada pela cultura e pela religião judaica217. As tensões existentes entre
cristãos e judeus não devem ser reduzidas apenas à rejeição do Cristo como o Messias, mas cristãos
gentios estariam se apropriando de símbolos judaicos com o intuito de criar sua própria identidade
religiosa. A partir desta reflexão devemos perceber que a comunidade cristã não deve ser tratada
como um grupo homogêneo, mas que existe uma pluralidade de práticas comunitárias, cúlticas e de
expressões religiosas que marca o cristianismo primitivo com fortes tensões e negociações.
(NOGUEIRA, 2009, p.138)
Desconsiderando que as tensões existentes nas comunidades tenham ligação com uma
relação conflituosa entre cristãos e judeus, o exegeta Paulo Augusto de Souza Nogueira (2009, p.
139-140) afirma que os simbolismos judaicos usados pelos cristãos seriam estratégias utilizadas em
favor da identidade do grupo. E tendo como exemplo a ausência de conflitos entre judeus e cristãos,
ele nos mostra que o cristianismo paulino ainda estaria ligado ao movimento religioso judaico, tendo
como diferença a aceitação de gentios por meio da circuncisão do coração e o indicativo de um
conflito intramuros existiria devido àqueles cristãos que exigiam a circuncisão da carne. O que denota
um consenso de opiniões entre os estudiosos onde afirmam que os conflitos estariam ocorrendo
dentro da comunidade cristã por haver uma discordância na interpretação dos textos em relação ao
quanto e de que forma os gentios poderiam fazer parte do novo estado de Israel. Os conflitos
existentes na comunidade cristã, segundo os estudiosos, estariam ocorrendo devido ao interesse do
grupo em estabelecer uma identidade cristã diferente dos judeus, ser reconhecido como um grupo
autônomo e com características próprias. Identidade se constrói a partir da relação social com o
outro. Desse contato similaridades e particularidades começam a se destacar nos permitindo enxergar
que as relações identitárias são fluídas e mesmo que não aceite, ocorre uma relação de troca cultural.
Fredrik Barth (2011, p.187) afirma que a partir do raciocínio antropológico as variações
culturais não são permanentes, visto que um grupo recebe influências de outro sem ao menos
perceber devido à relação existente em cada sociedade.
NOGUEIRA, Paulo A. S. O poder da diferença: o judaismo como problema para as origens do cristianismo. In:
FUNARI,P.P., OLIVEIRA, M. A (Org.). Política e Identidade no Mundo Antigo. São Paulo: Annablume, Fapesp,
2009. P.131
217
369
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Podemos perceber a partir da relação existente entre judeus e gentios na formação da
comunidade cristã que a ausência de uma mobilidade social em um território não impede que se
estabeleçam distinções étnicas. Segundo Barth (2011, p.188), a mobilidade social permite que ocorra
“processo de exclusão e de incorporação” onde características discretas são mantidas apesar das
transformações sofridas pelo indivíduo ao longo de sua história de vida e que, portanto, se mantém
as fronteiras étnicas. Porém, mesmo mantendo a fronteira étnica, muitas relações sociais estáveis
permanecem, pois para que se estabeleçam fronteiras étnicas não há necessidade de se impor uma
ausência de interação social. As diferenças culturais podem permanecer apesar de todo o contato
interétnico, a partir de uma interação social.
A identidade étnica se estabelece a partir de categorias ‘exclusivas e imperativas’, deve existir
uma aceitação dos princípios e normas valorativas que regem determinados grupos para que eles
possam ser diferenciados de outros; havendo identificação por parte do indivíduo, este deverá ser
atento às interações étnicas, pois deverá evitar comportamentos que o coloquem em desacordo com
as orientações valorativas, posto que isso implique reações negativas.218
Conclusões
Relembrando o texto de Pedro Paulo Funari, que partindo do pressuposto de que as pessoas
de um mesmo grupo compartilham valores, dos que se sentem partícipes forma-se o conceito
normativo de “pertencimento”. Entretanto, o sentimento de pertencimento deve ser analisado com
muito cuidado e não se deixar guiar por uma generalização ou até mesmo toma-lo como um
sentimento único e imutável, pois as pessoas se comportam de acordo com a situação a que são
expostas e guiadas por seus meios de representação, desta forma o pertencimento se torna múltiplo e
suscetível a mudanças. Com isso percebemos que muitos dos gentios convertidos que aderiram às
práticas judaicas que a eles foram impostas certamente passaram a se sentir pertencentes à
comunidade cristã depois de aderirem a elas (FUNARI, 2010. p.14).
Portanto, se torna possível concluir que a identidade cristã deste I século de nossa Era ainda
é formada por uma forte tensão intramuro devido à busca incessante na melhor maneira de servir a
Cristo, seguir o Messias significaria (neste momento para muito da comunidade cristã) se tornar um
POUTIGNAT, Philippe e STREIFF-FENART, Jocelyne. Teorias da Etnicidade: Seguido de Grupos Étnicos e suas
Fronteiras de Fredrik Barth. Tradução de Elcio Fernandes. São Paulo: Ed. Da UNESP, 2011. p.199
218
370
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povo diferente, portanto, com práticas religiosas que os distinguiria como tal e não na apropriação de
práticas já a muito abandonada. Nos textos do Novo Testamento a retórica antijudaica, para a
construção desta identidade, serviria como um alerta aos cristãos que deveriam perceber as falhas em
se observar a Lei Mosaica, que as práticas espirituais que agora eram exigidas pela fé no Cristo seriam
uma dedicação constante e não mais marcadas por uma observância da carne.
Referências
Dicionário
HIPOCRISIA E HIPÓCRITA. in: GINGLRICH, F. Wilbur, DANKER, Frederick.W. Léxico do
Novo Testamento Grego-Português. São Paulo: Ed. Vida Nova, 1993. p. 214. Disponível em:
<http://bib.convdocs.org/docs/37/36140/conv_1/file1.pdf >. Acesso em : 13 junho 2013.
Fontes
BÍBLIA DE JERUSALÉM. Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 2002.
Bibliografia
ARENS, Eduardo. Ásia Menor nos Tempos de Paulo, Lucas e João: aspectos sociais e
econômicos para a compreensão do Novo Testamento. Tradução: João Rezende Costa. São Paulo:
editora Paulus, 1997, p.157.
BARTH, F. Grupos Étnicos e suas Fronteiras, in: POUTIGNAT, Philippe e STREIFF-FENART,
Jocelyne. Teorias da Etnicidade: Seguido de Grupos Étnicos e suas Fronteiras de Fredrik Barth.
Tradução de Elcio Fernandes. São Paulo: Ed. da UNESP, 1998.
BROWN, Raymond E. Introdução ao Novo Testamento. Tradução Paulo F. Valério. 2. ed. São
Paulo: Paulinas, 2012.
CHARTIER, Roger. O Mundo como Representação. Estudos Avançados 11,5 (1991): 173-191.
FUNARI, Pedro P.A. Identidades fluidas, in: COLLINS, John J., FUNARI, Pedro. P. A.,
NOGUEIRA, Paulo A. S. Identidades Fluidas no Judaísmo Antigo e no Cristianismo
primitivo. São Paulo: Annablume/FAPESP, 2010.
FIORENZA, E. S. A Práxis do Discipulado Co-igual. In: HORSLEY, R. Paulo e o Império: a
religião na sociedade imperial. São Paulo: Paulus, 2004.
IZIDORO, J. L. Didaché: doutrinas dos doze apóstolos. Revista Eletrônica Oracula (São
Bernardo do Campo), v. 3.6, 2007, pp. 90-113.
371
VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
IZIDORO, J. L. O problema da identidade no cristianismo primitivo interação, conflito e desafios.
Revista Eletrônica Oracula (São Bernardo do Campo), v. 4.7, 2008.
NOGUEIRA, Paulo A. S. O poder da diferença: o judaísmo como problema para as origens do
cristianismo. In: FUNARI,P.P., OLIVEIRA, M. A (Org.). Política e Identidade no Mundo
Antigo. São Paulo: Annablume, Fapesp, 2009.
RICHARD, Pablo. A Origem do Cristianismo em Antioquia. RIBLA 29: Cristianismos Originários
Extrapalestinos (35-138 dC). Petrópolis: Vozes, 1998, pp. 32-44.
SELVATICI, Monica. Os cristãos judaizantes no livro dos Atos dos Apóstolos. Revista Eletrônica
Oracula (São Bernardo do Campo), v. 6, 2007, pp. 29-37.
372
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UM ENSAIO GERAL: FONTES HISTÓRICAS SOBRE A ÁFRICA APÓS O SÉCULO XV
Carlos Eduardo Rodrigues (Mestrando em História –UEM)
Luiz Felipe Viel Moreira (orientador)
Resumo: As fontes históricas são a matéria-prima do historiador, pois é por meio delas que se torna
possível a reescrita e interpretação sobre o passado. As fontes históricas podem ser divididas em dois
tipos, materiais escritos, documentos escritos em tempos passados sejam eles empresariais,
burocráticos ou familiares, mapas, cartas, diários e pergaminhos, jornais antigos, textos, livros, etc. e
materiais não escrito, objetos antigos, pinturas, utensílios, ferramentas, armas, esculturas, prédios,
igrejas, etc. existem também as fontes históricas relacionada com os vestígios arqueológicos como os
ossos dos animais e dos homens que viveram em um período anterior ao desenvolvimento da escrita,
também encontramos as fontes produzidas pela oralidade como os contos, histórias e lendas
transmitida de geração para geração. Diversas são as fontes históricas acerca da África, elas datam de
um período anterior à escrita e permanecem até os dias atuais, de achados arqueológicos de séculos
a.C. à elaborados relatos de viajantes do século XIX, há uma infinidades de materiais disponíveis
sobre o continente africano produzido no decorrer dos anos por povos que adentraram no
continente, latinos, fenícios, asiáticos do extremo oriente, semitas, árabes e europeus ocidentais. Com
o tempo estas fontes foram se ampliando progressivamente sobretudo após do século XV com a
conexão África-América via Grandes Navegações. Neste sentido, a intenção deste artigo é discutir
acerca das fontes históricas produzida após o século XV, em especial, os relatos de viajantes
europeus do século XIX.
Palavras-chave: Fontes Históricas, História da África; Viajantes
De acordo com Fage (2010) “Os primeiros trabalhos sobre a história da África são tão
antigos quanto o início da história escrita” e, como afirma Ki-Zerbo (2010), “A África tem uma
historia” e assim como em qualquer outro lugar do planeta ela é reescrita e interpretação por meio
das fontes históricas, com a aplicação de técnicas e metodologias específica
Inúmeros são os registros históricos acerca do continente africano e elas datam de um
período anterior à escrita e permanecem até os dias atuais, de achados arqueológicos de séculos antes
da era cristã à elaborados relatos de viajantes do século XIX, existe uma infinidades de materiais
disponíveis sobre a África produzido no decorrer desses anos todos pelos múltiplos povos que
entraram no continente, latinos, fenícios, asiáticos do extremo oriente, semitas, árabes e europeus
ocidentais.
O homem africano, assim como os demais homens da planeta, é um animal político e como
tal têm consciência histórica, ela a faz e a expressa por meio de sua produção material e cultural,
ações políticas e econômicas. Desde o nascimento do homem na África à milênios nenhuma
373
VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
sociedade dentro do continente africano encontra-se estática no tempo, até mesmo as tidas como
isoladas pela características geográfica se desenvolveram ao longo desses anos.
Assim como em outras sociedades o homem africano estabelece relação com o tempo, sua
especificidade talvez esteja na íntima ligação que esses povos tem com o tempo místico que é uma
representação fantástica do passado, em geral domina o pensamento dos africanos
na sua concepção do desenrolar da vida dos povos. Isso a tal ponto que, às vezes, a
escolha e o sentido dos acontecimentos reais deviam obedecer a um “modelo”
mítico que predeterminava até os gestos mais prosaicos do soberano ou do povo
(HAMA; KI-ZERBO, 2010, p. 24).
O passado se encontra presente no pensamento africano o que coloca para os pesquisadores
o problema da intemporalidade e dimensão social, é uma relação com o tempo que não separa o
individual do coletivo, onde as gerações passadas nunca são esquecidas pelos mais novos e os mortos
estão sempre vivos (de forma simbólica) no presente. Contudo, esta concepção mística do tempo
não exclui das sociedades africanas a ideia do tempo cronológico que se faz presente na elaboração
do tempo social e na constituição de grande marcos cronológicos.
É certo que este concepção de tempo sofreu alterações com a colonização do continente
pelos europeus no final do século XIX, mas em essência a relação com o tempo apresentada no
parágrafo anterior permaneceu e permanece entre as sociedades africanas, o que coloca para os
historiadores o desafio metodológico de interpretar esta relação tão particular que os africanos
estabelecem com o passado.
Para a interpretação acerca do passado africano faz-se necessário o aporte das fontes
históricas, em especial as fontes escrita, que podem ser expressas em qualquer meio material capaz de
transformar a voz e as ideias em algo legível, “inscrições gravadas na pedra, disco, moeda; signos
convencionais sobre qualquer tipo de suporte: papiro, pergaminho, osso, papel”, tais suportes são
encontrados em África desde a origem do homem no planeta até os dias atuais, porém percebemos
que com o passar dos anos a quantidade de fontes escritas se ampliou e se diversificou em várias
línguas, que vai do árabe ao português (DJAIT, 2010, p. 77).
Desta maneira podemos dividir as fontes escrita antes de depois do século XV, onde cada um
desses macros períodos tem as suas peculiaridades. A partir do século XV o volume de fontes
históricas escrita em idiomas europeus, sobretudo em línguas da Europa ocidental, amplia-se tanto
374
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
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que se torna quase que impossível uma quantificação precisa do que se encontra disponível hoje nas
bibliotecas, arquivos públicos e coleções privadas espalhadas pelo mundo, até mesmo os trabalhos
ou autores mais conhecidos pelo público acadêmico esta precisão ainda não pode ser definida.
A ampliação do volume de fontes histórica acompanha o deslocamento dos europeus que
partiam do litoral do oceano Atlântico rumo ao interior do continente africano e, desde os primeiros
contatos no século XV com os portugueses encontramos registros breves acerca da costa ocidental
africana e do seu interior imediato. Com o passar dos anos outros europeus iniciam, de modo tímido,
uma jornada rumo ao interior do continente, em regiões como Senegal, Gâmbia, delta do Níger e
Benin, no reino do Congo, no Zambeze e no Império do Monomotapa.
A expansão geográfica dos europeus não só fez aumentar o volume de fontes como também
às tornaram mais detalhadas e informativas, em especial após o século XVI, isso causou uma
mudança interessante nos escritos sobre a África. Se por quase todo o período que vai
aproximadamente de 622 a 1450 observamos um predomínio das fontes geradas pelos árabes,
sobretudo acerca da região norte da África, com o caminhar dos séculos seguintes este predomínio
diminui gradualmente em decorrência do aumento quase que no mesmo ritmo de fontes históricas
escrita por europeus.
O historiador Djait (2010) divide as fontes históricas do período de domínio árabe em África
em duas idades, a primeira compreende a uma cronologia que se estende por cerca de 428 anos, entre
622 à 1050, onde encontramos o estabelecimento dos califados árabes e a unificação de domínios
políticos-culturais até então desunidos e localizados por todo o norte da África, em especial os
Impérios Bizantinos e Sassânida.
Nesta primeira idade a expansão colonial árabe pelo norte da África e o desenvolvimento de
uma burocracia de governo gerou, além da junção do Magreb, Egito e Sudão, diversas crônicas
relativas às regiões colonizadas e sobre os governantes que nelas aturaram, são fontes expressas em
arquivos escrito em papiros219 e fontes de cunho jurídico e religioso, como os “tratados de direito e
as viagens hagiográficas de Tabakat [...], até os tratados caridjitas” acerca do Magreb (DJAIT, 2010,
p. 98).
Segundo Djait (2010, p. 94) muitos desses papiros se encontram em línguas coptas, gregos de Afrodite, árabes de
Faium e de Ashmunayn, para o século X encontramos alguns escritos em peças fatímidas.
219
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
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A segunda idade percorre o período entre 1050 a 1450 e corresponde ao auge do predomínio
árabe em África, consequentemente é a época de maior riqueza, qualidade e variedade de fontes,
documentos literários, correspondências como a Geniza (cartas almorávidas e almoadas), registros
particulares e de viajantes, parte de arquivos preservados que vão desde acervos particulares como
público. Neste período os cronistas árabes não só geraram uma quantidade singular de fontes
históricas como também se preocuparam em reescrever antigas fontes perdidas, também é comum
narrativas elaboradas por geógrafos como as desenvolvidas por al-Bakri (1068) no século XI e
al’Umari (morto em 1342) no século XIV.
No que diz respeito às regiões abaixo do Saara as fontes escritas em árabes trata estas terras
de modo distintos, na primeira idade encontramos informações mais precisa acerca destas regiões,
contudo com a conexão do Egito e do Magreb ao corpo do domínio árabe e posteriormente à
comunidade islâmica, o universo abaixo do Saara passa a ser descrito como parte integrante à esfera
de influencia do mundo islâmico, daí surge nas fontes uma informação parcelar e desconexa, às vezes
mítica e até preconceituosa.
Já na segunda idade as fontes apresentam mais informações acerca da África Subsaariana,
pois junto com os manuscritos etíopes surgem também novos documentos africanos. Neste contexto
destacamos Ibn Battuta (1304-1369), nascido em Tânger no Marrocos deixou vários escritos sobre as
regiões ocidental e central da África no período entre os séculos IX e XIV, e Ibn Khaldun (13321406), nascido em Túnis tratou de múltiplos aspectos sobre o mundo berbere e da África
Subsaariana, em especial acerca do Império Mali, desde a sua fundação em 1235 até a sua decadência
no século XIV, destacando a importância de Sundjata Keita no processo de união do povo
Manden220 (HERNANDEZ, 2008, p. 26).
Saindo do universo árabe e entrando no mundo europeu, as fontes históricas produzida por
estes últimos estão mais relacionadas com as zonas abaixo do Saara, isso não significa que em relação
ao norte da África não existam relatos europeus, muito pelo contrário, encontramos por exemplo
muitas narrativas de viajantes, mercadores, embaixadores, cônsules e até prisioneiros, que atraídos
O povo Manden (Mandenka ou Mandingo) é constituído por vários grupos e subgrupos espalhados por toda a região
sudano-saheliana, que vai do oceano Atlântico até o maciço do Air com projeções bastante profundas nas florestas do
golfo do Benin. No começo do século XII os grupos que formavam o povo Manden se encontrava restritos à pequenas
áreas, contudo, com o apogeu do Império de Gana no século XI foi possível assinalar três grandes grupos: Soninke ou
Sarakolle, fundadores de Gana; os Sosoe ou Sosso e os Maninka ou Malinké (NIANE, 2010, p. 133).
220
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pela ricas zonas comercias do Oriente Médio e/ou pelo desejo de chegar à Terra Santa, nos deixaram
vários escritos e relatórios detalhados sobre o Magreb e sobre o Egito.
Do século XVIII em diante ouve um substancial aumento das descrições após a expedição de
Napoleão Bonaparte ao Egito em 1798, é certo que grande parte dos relatos produzidos por estes
viajantes contém preconceitos pré-islâmicos, entretanto, eles carregam consigo reflexões e
observações acerca de aspectos da vida local, coisas dos cotidianos desprovidos de interesses
objetivos.
Contudo, o estabelecimento desde 622 dos árabes no norte da África acabou de certa forma
empurrando os europeus para as terras mais ao sul do continente. No começo do século XVI os
limites geográficos conhecido dos portugueses se estendiam por toda a costa do Senegal até o cabo
Guardafui, Somália, na entrada do Golfo de Aden e Mar Arábico, eles já haviam desde o final do
século XV iniciado expedições ao interior do antigo Congo, Angola e parte do Zambeze.
Nos séculos posteriores houve algumas tentativas esporádicas de cruzar o Saara e o interior
da África Subsaariana, porém, os contatos mais duradouros foram estabelecidos ao longo do Senegal
e Gâmbia e “um viajante foi do Zambeze até Kilwa parando no lago Malauí” (HRBEK, 2010, p.
120).
Se as tentativas de cruzar todo o continente africano não foram efetivadas, no século XVII os
contatos com os povos do litoral se tornaram mais estreitos e concretos, quatro regiões da África
tropical são destacada por Fage (2010, p. 5-6).: a costa da Guiné na África tropical; a região do Baixo
Zaire e de Angola; o vale do Zambeze e as terras altas vizinhas; e, por fim a Etiópia, tais regiões
sofreram constantes incursões em direção ao interior entre os séculos XVI e XVII, a costa da Guiné
foi à primeira região da África tropical a ter contado com os europeus e assim esteve presente em
diversas obras escrita a partir de 1460 por Cadamosto, por Dapper em 1688 e no começo do século
XVIII por Bartot e Bosman.
O aquecimento do comercio entre Europa América e África devido a expansão do trafico
negreiro transoceânico trouxe consigo uma ampliação das informações acerca das zonas de comercio
em África. Todavia é importante ressaltar que na transição entre os séculos XVII e XVIII surgem na
Europa os princípios das ideias Iluministas, influenciando assim as descrições dos europeus acerca
dos africanos. Segundo Fage (2010, p. 7) é nesta fase da história que os europeus começam a
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“considerar de forma cada vez mais desfavorável as sociedades não-europeias e a declarar que elas
não possuíam uma história digna de ser estudada”.
Esta tendência se somou aos escritos do filosofo alemão Friedrich Hegel (1770-1831) que em
seu famoso livro Filosofia da história universal exclui a África da história universal. O livro de Hegel é
carregado de afirmações como “A África não é um continente histórico; ela não demonstra nem
mudança nem desenvolvimento”; os negros “são incapazes de se desenvolver e de receber uma
educação. Eles sempre foram tal como os vemos hoje” (Fage, 2010, p. 8).
A crescente revolução científica e industrial entre os séculos XVIII-XIX foi outro fator que
influenciou as descrições dos europeus acerca dos africanos. A partir destas influências os intelectuais
europeus se baseados na herança greco-romana para se convenceram de sua superioridade frente aos
demais povos do planeta, e assim a riqueza, poder e conhecimento de sua sociedade deveriam
predominar sobre as demais. Tais atitudes dos intelectuais europeus se tornavam mais visível quando
o assunto dos relatos era o continente africano, fato é que nesta época os europeus só conheciam a
África do ponto de vista do trafico negreiro, período em que esta prática era o fator chave do caos
social que se alastrava pelo continente.
No século XVIII os relatos acerca da África tropical tornam-se mais descritivos e influentes
entre os europeus dos oitocentos, aponto do livro The Universal History publicado na Inglaterra entre
1736 e 1765 contar com algumas páginas relativas à África221, junto com esta obra aparece por volta
de 1792 os ensaios de Silva Correin, História de Angola e de Benezet, Some Historical account of Guinea de
1772, além das histórias referente ao Daomé feitas por Norris em 1789, Memórias do Reino de Bossa
Ahadée e History of Dahomey escrita por Dalzel em 1793.
Tais obras se somaram à outras produzida na mesma época, cujo contexto histórico do final
do século XVIII começou a produzir os primeiros escritos controverso ao tráfico negreiro, o
principal elo de ligação não só comercial como sociocultural e político entre a Europa África e
América há pelo menos 150 anos. Na fase áurea do trafico negreiro entre os séculos XVIII-XIX os
relatos europeus deste período tinham uma característica interessante, eles não eram
favorável a narrativas objetivas sobre os africanos, mas as necessidades práticas do
comércio exigiam um estudo minucioso das atividades econômicas e sistemas de
A edição in-folio da Universal History compreende 23 volumes, dos quais 16 são consagrados à história moderna,
contendo estes últimos dois volumes sobre a África (KI-ZERBO, 2010a, p. 7).
221
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governo na África, de modo que temos, já nessa época, uma série de fontes muito
valiosas (HRBEK, 2010, p. 121-122).
É neste período que começa a surgir relatos e livros sobre a África e os africanos redigido por
missionários cristão, comerciantes das companhias de comércio, administradores enviados à mando
dos reis europeus, marinheiros, militares, diplomatas, exploradores, viajantes, colonizadores,
aventureiros e prisioneiros de guerra, eram livros cujo interesse do escritor já se encontrava
previamente definido, fazendo com que os propósitos e abordagens transformassem
consideravelmente de acordo com o público alvo pretendido pelo escritor.
Correa (2008, p. 13) lembra que todos os relatos de viagem tem um público alvo a ser
atingido e isso ocorre independente da época em que o relato foi redigido, a maioria dos viajantes
que foram para África e até mesmo para o Novo Mundo não partiu de sua terra natal com o único
objetivo de descrevê-las. Entretanto, foi a partir dos textos elaborados por esses viajantes que “os
relatos de viagem, as descrições e as histórias de terras e gentes ultramarinas também se afinaram aos
interesses do seu público alvo”.
Tal público varia de acordo com o tempo. Se os vastos relatos de viajantes do século XVI e
XVII tinham o rei e sua corte como leitores ideais, no século XIX os consumidores desses relatos
eram ricos comerciantes e governantes de diversos países europeus interessados em investir seu
capital nos lucrativos negócios da África, e a sociedade burguesa em geral, mais precisamente os
cidadãos da Europa Ocidental, pois eram através desses escritos que os ocidentais criavam em suas
mentes a imagem sobre a África.
Na verdade, no nascer do século XIX as relações entre África e Europa começam a se
estreitar, sobretudo após 1830, pois é quando o continente africano vai sendo aos poucos conectado
a rede de comércio mundial e europeu, pautado agora pelo capitalismo industrial.
De modo informal mais preciso os europeu vão, por meio de inúmeros exploradores e
viajantes, penetrando cada vez mais no continente. Em princípio os impactos políticos sobre os
governantes africanos são suaves, contudo, depois de 1880, a África entra definitivamente na rota
política europeia e passa à ser dividida a uma velocidade nunca antes testemunhada, “média de
650.000 km² ao ano (duas vezes o tamanho da França), em vinte anos, mais de 17.000.000 de km²
(cerca de 10 vezes o tamanho da Índia)”, todo esse extenso território se encontra agora sobre
domínio europeu (WESSELING, 1998, p.13).
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Vale lembrar que esta aproximação comercial Europa e África não foi resultado unicamente
do século XIX muito menos algo exclusivo dos trabalhos feito por exploradores e viajantes do
século em questão, desde a antiguidade clássica222 encontramos registros de trocas comercias feitas
entre europeus e africanos no norte e no leste da África e mesmo com a forte presença muçulmana
no Magreb, Egito e Sudão no período medieval europeu, esses laços comercias não cessaram.
Wallerstein (2010) aponta que este continente não entra no comercio mundial somente com
o ação do processo partilha iniciada na década de 1880, para este autor a Partilha da África (18841885) foi apenas a consequência de um processo iniciado à séculos por inúmeras transformações
econômicas que foram sendo acentuadas após o século XV com o começo do tráfico negreiro
transatlântico. Wallerstein destaca três rotas fundamentas para o comercio entre a África e o resto do
mundo: Oceano Índico, o Mediterrâneo e o Oceano Atlântico, cuja as mercadorias podiam de certa
forma alcançar até mesmo o interior do continente.
Esta expansão comercial veio acompanhada de um boom de curiosidade acerca do
continente africano, assim o século XIX vai testemunhar uma “invasão” de exploradores, viajantes,
diplomatas e comerciantes sobretudo da Europa Ocidental, portugueses, espanhóis, franceses,
alemães, belgas, ingleses, holandeses, dinamarqueses, suecos, entre outros. Neste contexto de
chegada de europeus a África foi, apesar das mudanças internas das estruturas sociocultural e política
das sociedades africanas, rico em quantidade e qualidade nos registros históricos.
É importante lembrar que a quantidade e a qualidade das fontes históricas produziam pelo
século XIX não diz respeito unicamente a “invasão” de exploradores e viajantes europeu ao
continente africano, as regiões de cultura árabe preservava ainda nesta época uma vasta produção de
textos. Como exemplos têm os “registros do Mahdiyya, que consistem em cerca de 80 mil
documentos árabes, conservados, em sua maioria, em Cartum” e relativos aos últimos vinte anos do
século XIX (HRBEK, 2010, p. 113).
Adicionando à produção árabe encontramos em várias regiões o aparecimento de jornais mas
línguas vernáculas o que possibilitou dar voz aos próprios africanos, como produção textual temos o
semanário Isidigimi escrito por Tiyo Soga (morto em 1871) ou G. Chamzashe (morto em 1896) que
Em A costa da África oriental e seu papel no comércio marítimo, Abdul M. H. Sheriff trabalha algumas questões relacionadas
com a integração da costa da África Oriental a rota de comércio do império Romano. In: Mokhtar, Gamal (org).
História geral da África, II: África antiga. Brasília: UNESCO, 2010.
222
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foi publicado entre 1870 e 1880, e constituiu a primeira “crítica à política europeia e seu impacto
negativo na vida africana, escrita pelos primeiros protonacionalistas” (HRBEK, 2010, p. 117).
Encontramos também algumas fontes históricas escritas em idiomas orientais, especialmente
relativo à África Oriental graça a proximidade desta região com as demais culturas vinculada ao rico
comércio do Oceano Índico.
Os tipos de fontes históricas produzida no século XIX variam entre narrativas de viajantes,
crônicas e descrições, temos também inúmeras correspondências entre governantes, diplomatas e
exploradores, além dos frequentes e abundantes relatórios oficiais, comerciais e religiosos (escritos
pelos missionários cristãos), tudo isso é incluído aos incontáveis arquivos que os colonizadores
deixaram disperso por todo o continente. Tal volume de fontes histórias soma-se aos incontáveis
documentos referentes à África que se espalhou pelo mundo não apenas no processo de diáspora
africana (via escravidão) como também pelo longo contato comercial que durante séculos a África
estabeleceu com o mundo.
No que se refere às fontes escrita por europeus, HRBEK (2010, p. 121) propõe uma
cronologia simplificada que relaciona a produção das fontes com a nacionalidade do escritor: século
XVI, portugueses; século XVII, holandeses, franceses e ingleses; século XVIII, ingleses e franceses;
século XIX, ingleses alemães e franceses.
É importante resaltar que esta cronologia tem apenas um caráter didático e que diz respeito
somente ao predomínio de um determinado escritor em detrimento de outro, isso não significa, por
exemplo, que não exista relado dos portugueses no século XVIII, apenas que há um predomínio
acentuado das fontes escrita em língua francesa e inglesa para este período.
É certo que além das nacionalidades citadas acima outros viajantes foram até o continente
africano e deixaram seus registros sobre o que testemunharam, os italianos no Congo e no Sudão
oriental (séculos XVII e XIX respectivamente), dinamarqueses na Costa dos Escravos e na Costa do
Ouro nos séculos XVIII e XIX. Existe também, principalmente para o século XIX, os livros e
relatos de espanhóis, belgas e suíços, relatos de suecos, norueguesas e de russos, húngaros, poloneses
e pessoas da extinta Tchecoslováquia, além de registros deixados por brasileiros e estadunidenses.
Até esta parte do texto apresentei ao leitor a variedades de fontes histórias disponíveis para o
estudo da história africana, mas agora pretendo concluir este artigo abordando brevemente algumas
questões metodológicas acerca dos registros históricos deixados pelos europeus.
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Boa parte dos registros europeus relativo as sociedades africana estão concentrados nos usos
e costumes, nas descrições de cerimônias, vestimentas, comportamentos, táticas de guerras, técnicas
de produção, etc., eram registros carregados de adjetivos pejorativos como bárbaros, selvagens e
primitivos, termos que estão vinculados aos hábitos culturais do viajante mas que serviram como
base para a constituições dos mitos raciológico presente entre muitos historiadores contemporâneos.
Além dos termos pejorativos os relatos de viajantes europeus carregam consigo outro
problema, a não compreensão das estruturas sociocultural e política das sociedades africanas como as
redes de reciprocidade internas e as mútuas obrigações entre os membros de uma comunidade.
Assim, no que tange a metodologia o historiador deve levar em consideração dois pontos
chaves para análise desses relatos:
Em primeiro lugar,
Ao avaliar os materiais europeus, devemos levar em consideração não tanto a
nacionalidade dos autores, mas, sim, a mudança de atitudes dos europeus em
relação aos africanos e suas sociedades em geral (HRBEK, 2010, p.121).
Segundo,
Deve-se também evitar a falácia de que, com o tempo, houve uma melhora gradual
na objetividade das narrativas e de que, quanto mais nos aproximamos da
atualidade, mais científicas se tornam as observações sobre a realidade africana
(HRBEK, 2010, p.121).
É claro que existe uma diferença enorme, por exemplo, entre as fontes portuguesas do século
XVI e as fontes francesas do século XVIII, mas nem por isso significa dizer que a fonte escrita por
um francês tem uma credibilidade e cientificidade maior pelo simples fato de ser mais próxima do
tempo presente.
No que diz respeito às fontes escritas por europeus no século XIX, com base em Hrbek
(2010, p. 121-123), podemos classifica-las, em três tipos.
A primeira consiste nas narrativas de viajantes elaboras para apresentar ao leito um mundo
desconhecido, exótico, estranho e fantástico, cuja tendência à aventura elabora uma narrativa que
valorize os inúmeros perigos encontrados pelo heroico viajante.
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O segundo são os famosos relatos dos missionários, em suas descrições encontramos um pouco
acerca das religiões africanas, entretanto estes religiosos não tinham habilidades nem mesmo a
pretensão em compreendê-la e, deste modo, se preocupavam em expor os erros e barbarismo das
sociedades africanas.
O terceiro é a literatura narrativa do século XIX que é procedente em sua maioria dos viajantes e
exploradores, onde interesses estavam mais nas descrições geográficas, rotas comercais, recursos
cinegéticos, biodiversidade, etc. do que nas diversas culturas que lá existiam. A maior parte desses
viajantes eram cientistas naturais, cujos relatos detalhados serviram de base para o estuda da história
econômica.
Estes apontamentos metodológicos expostos acima servem como referencial inicial para a
análise dessa enorme quantidade de fontes históricas disponíveis para pesquisa em História da África
e, somando a esta metodologia, é de suma importância que o pesquisador dialogue com várias fontes
ao mesmo tempo, não apenas as produzida por viajantes europeus como também os relatos árabes e
os textos produzidos pelos próprios africanos, escrito em um primeiro momento com o auxílio
alfabeto árabe223 e posteriormente com o alfabeto latino, além dos documentos redigidos com o
subsídio do alfabeto bamum e vai224.
Através do diálogo com várias fontes e o uso de uma metodologia especifica, o historiador
pode dar luz ao passado africano, apresentando assim ao público em geral que a África tem uma
história particular que não está unicamente vinculada ao processo de partilha do final do século XIX.
Para concluir é importante destacar que as fontes escrita pelos europeus por mais
preconceituosas e imparciais que são, constituem ainda a base para a compreensão da história
africana, sem o material fornecido pelas narrativas europeias seria quase que impossível resgatar boa
parte da história do continente que é simplesmente o berço da humanidade.
223
Como exemplos existem textos escritos em kiswahili, haussa, fulfulde, kanembu, diula, malgaxe, etc.
Bamum e vai são dois tipos de alfabetos originalmente desenvolvidos em África, o primeiro aparece no começo do
século XX no Sultão Njoya de Bamum (Camarões) e o segundo surgem aproximadamente em 1833, cujo criador foi
Momolu Duwela Bukele (HRBEK 2010, p. 131).
224
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Bibliografia
CORREA, Sílvio Marcus de Souza. Evidências de História nos relatos de viajantes sobre a África
Pré-Colonial. Revista AEDOS, programa de pós-graduação da UFRGS. 2008, vol. 1, n.1, p. 11-21.
ISSN 1984-5634. Disponível em:<http://seer.ufrgs.br/aedos/article/view/9809>. Acesso em 26 jul.
2012.
DJAIT, H. As fontes escritas anteriores ao século XV. In: KI-ZERBO, Joseph (org.). História geral
da África, I: Metodologia e pré -história da África. Brasília: UNESCO, 2010.
FAGE, J. D. A evolução da historiografia da África. In: KI-ZERBO, Joseph. (org.). História geral
da África, I: Metodologia e pré-história da África. Brasília: UNESCO, 2010.
HERNANDEZ, Leila M. G. L.. A África na sala de aula: visita à história contemporânea. São
Paulo: Editora Selo Negro, 2008.
HRBEK, I.. As fontes escritas a partir do século XV. In: KI-ZERBO, Joseph (org). História geral
da África, I: Metodologia e pré-história da África. Brasília: UNESCO, 2010.
KI-ZERBO. Introdução Geral. In: KI-ZERBO, Joseph. (org.). História geral da África, I:
Metodologia e pré -história da África. Brasília: UNESCO, 2010.
NIANE, Djibril Tamsir. O Mali e a segunda expansão manden. In: NIANE, Djibril Tamsir (org).
História geral da África, IV: África do século XII ao XVI. Brasília: UNESCO, 2010.
WALLERSTEIN, Immanuel. A África e a economia-mundo. In: AJAYI, J. F. (org). A História
geral da África, VI: África do século XIX à década de 1880. Brasília: UNESCO, 2010.
WESSELING, H.L. Dividir para dominar: a partilha da África (1880-1914). Rio de Janeiro:
Editora UFRJ; Editora Revan, 1998.
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“DOIS ANOS DE UM GOVERNO QUE REALIZA!”: AS FOTOGRAFIAS DE
OSWALDO LEITE E SUA RELAÇÃO COM O PODER PÚBLICO EM LONDRINA(PR)
Fernanda Cequalini Frozoni
(Mestranda em História Social-UEL)
Orientadora: Zueleide Casagrande de Paula
Este artigo pretende mostrar a ligação existente entre o fotógrafo Oswaldo Leite e a
prefeitura municipal da cidade de Londrina (PR) durante a década de 1950. Assim, primeiramente, é
preciso apresentar quem foi este homem. Oswaldo Leite foi um fotógrafo que trabalhou na cidade de
Londrina, durante as décadas de 1950 a 1990, contratado pela Prefeitura Municipal. Seu acervo é
bastante extenso, contando com mais ou menos 20 mil imagens, e se encontra atualmente sob a
guarda do arquivo do Museu Histórico Pe. Carlos Weiss, em Londrina. A temática de seu trabalho
era, em boa parte, sobre inaugurações ou obras feitas pela cidade durante este período em que atuou
(1950-1990).
Oswaldo Leite veio para Londrina em 1940, quando se casou. Primeiramente se dedicou ao
ofício de pedreiro, e em 1941 foi convidado, pelo então prefeito Willie Davids, a trabalhar na
Prefeitura Municipal, onde assumiu um cargo na Secretaria de Obras e Urbanismo. Lá ele se
interessou pelas máquinas fotográficas, e passou a utilizá-las a partir da década de 1950, repassando
para os prefeitos que exerceram sua gestão durante o período em questão, as imagens que produzia.
225
Antes de chegar ao museu Histórico de Londrina, parte do referido acervo estava em poder
do filho de Oswaldo Leite, senhor Otacílio; e parte guardado em um galpão da prefeitura da cidade.
Ambos fizeram um processo de doação ao Museu Histórico, e a referida documentação precisou ser
submetida a um processo de higienização e restauro. Hoje esse acervo já se encontra devidamente
acondicionado, e em boa parte digitalizado sob a guarda do Museu. As imagens tem seus negativos
sempre em preto e branco, com formato 5.5x5.5 e 5.5x8.0; e no verso há detalhes dados pelo próprio
Oswaldo Leite acerca de cada uma das fotos, como por exemplo, o tema e a data em que foram
feitas.226
Informações obtidas em entrevista com Otacílio Leite, filho de Oswaldo, no dia 05/07/2012.
Informações cedidas pela funcionária Célia Rodrigues de Oliveira, funcionária do setor de Imagem e Som “Eugênio
Brugin”, do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss.
225
226
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Quanto ao período selecionado para se trabalhar neste artigo, os anos 1950 foram bastante
marcantes, devido ao crescimento econômico na “região norte-paranaense”227 como um todo,
principalmente pelo cultivo de café. Isto pode ser notado no jornal Folha de Londrina. É constante a
referência neste jornal à cidade e à “região” como símbolos de progresso. Um exemplo é o texto
publicado na edição de 05/08/1956, na sessão Educação e Cultura, intitulado “O progresso invade o
setentrião”. Nele, Galdino Moreira Filho diz que o progresso em toda a “região norte paranaense”
tem sido expressivo, e nunca será demais dizer que esta “região” pode ser considerada o celeiro do
estado. Tamanho seu grau de adiantamento econômico e cultural:
Para o observador atento, que viaja por essa imensa região, a transformação que se
verifica é espantosa e dia a dia novas conquistas vão sendo alcançadas. É uma
cidade que cresce, asfaltando suas ruas ou construindo prédios modernos. É a outra
que se destaca por sua produção agrícola ou que inicia a pequena indústria. Enfim,
sob aspectos variados, a região se expande, se atira à novas conquistas, se
engrandece e se coloca numa posição de vanguardeira dentro do próprio Estado.
(...) Por isso, não temos receio de proclamar que “O progresso invade o
Setentrião”, colocando-o na posição que realmente deve ocupar dentro do Estado
(Folha de Londrina, 05/08/1956, Sessão Educação e Cultura).
Juntamente a esta ideia de progresso, também era marcante a ideia de modernização nesta
“região”. O historiador Rogério Ivano mostra bem esta junção entre modernização e progresso,
sobretudo na mentalidade dos londrinenses: “Enterrava-se, no tempo e no espaço, a memória da
região como sertão, como lugar de ‘bugres’, peçonhas e feras. Acreditava-se no progresso como
dogma, aceitava-se o sentimento de perda que ele trazia, Não fosse assim, este mesmo progresso
nascia natimorto (2000, p.88)”.
Assim, na década de 1950 muitos passam a vir para a “região”, em busca de uma melhor
condição de vida, fazendo com que as cidades sofressem um inchaço. No caso de Londrina, a
primeira planta da cidade, projetada no início dos anos 1930 e que definia os seus limites, não mais
contemplava o desenho da cidade e seu perímetro nos anos de 1950. Segundo Ivano, Londrina se
torna além de uma central onde se compravam e vendiam terras e café, uma cidade prestadora de
O conceito de Norte do Paraná é uma construção elaborada por alguns historiadores paranaenses a partir do
reconhecimento da região cujo processo de (re) ocupação foi realizado pela Companhia de Terras Norte do Paraná
(CTNP), como sendo o Norte, segundo Tomazi (TOMAZI, Nelson D.“Norte do Paraná”: História e Fantasmagorias. Tese.
Universidade Federal do Paraná - UFPR, Curitiba. 1997).
227
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serviços, agregando diversas funções, de centro comercial a centro administrativo e de
comunicações:
Londrina ia dotando-se de um papel exemplar, chamando para si diversas
responsabilidades: era centro comercial e industrial; lugar de trabalho e consumo;
era centro administrativo, reunião dos serviços públicos e da inesgotável burocracia;
era centro de comunicações, ponto de partida e chegada de gentes e mercadorias
(2000, p.90).
A cidade de Londrina, assim, cresceu e se modificou nesta década, e sua área central também
sofre alterações. Um dos maiores sinais destas mudanças são as casas de madeira 228 substituídas por
novas edificações: os prédios e as residências de luxo em alvenaria, ocupados pelas pessoas mais
ricas, que eram os grandes comerciantes e os donos das fazendas de café. Assim, surgiam grandes
contrastes, mostrando a disparidade presente na cidade.
Para as elites, de acordo com o que aponta a pesquisa de José Miguel Arias Neto, a cidade
progredia, mas era preciso reorganizá-la, deixá-la com ares mais modernos e acabar com os
contrastes, principalmente nas áreas mais nobres, como o centro. Logo, precisava ser excluído tudo o
que maculava a imagem londrinense: a prostituição, os jogos, as casas de madeira na região central,
colocando cada coisa em seu lugar. Só assim, na perspectiva da administração e das elites do período,
se conteria o desordenamento que a fizera “inchar”.
Ainda durante a década de 1950, a cidade de Londrina foi marcada por duas gestões: a do
prefeito Milton Ribeiro Menezes, (1951 a 1955 e 1959 a 1963) e a de Antônio Fernandes Sobrinho
(1955 a 1959). Segundo o site da Prefeitura Municipal, em seu primeiro governo, Menezes realizou
obras de saneamento e pavimentação, construiu praças e jardins públicos, fez a Casa da Criança e o
Horto Florestal.
Em seu segundo mandato, deu continuidade às obras de saneamento, com a criação do
Departamento de Águas e Esgoto, e de um Código de Obras para a cidade, baseado no código de
obras da cidade de São Paulo, feito pelo urbanista Prestes Maia, pensado para conter o crescimento
Para maiores informações sobre as casas de madeira na cidade de Londrina, ler o artigo: “Casas de Madeira em
Londrina”, de Antonio Carlos Zani. In: GAWRYSZEWSKI, A. Patrimônio histórico e cultural da cidade de
Londrina – PR. Londrina: LEDI, 2011.
228
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desordenado que a cidade estava sofrendo229. E além de Prestes Maia, o famoso arquiteto Vilanova
Artigas também foi contratado pelo poder público municipal, a fim de construir alguns edifícios,
como a antiga rodoviária (atual Museu de Arte) e a Casa da Criança (atual Secretaria de Cultura),
deixando a cidade com um ar mais moderno.
Já Antônio Fernandes Sobrinho, melhorou o ensino superior na cidade, construiu a Concha
Acústica, fez uma estação de passageiros no aeroporto, ampliou o serviço de água e esgoto para a
população,
e
também
fez
o
Lago
Igapó.
(<http://www1.londrina.pr.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=142&Itemid
=867>.Acesso em 12/08/2012 às 15:00h).
O memorialista e suplente efetivado como vereador entre os anos de 1951 e 1955 em
Londrina230, Alberto João Zórtea, em um livro comemorativo dos 40 anos da cidade, recapitulou o
histórico de cada prefeito, fazendo considerações muito semelhantes às do site da Prefeitura
Municipal. Sobre Menezes, o memorialista diz: “Em ambos os governos, o Dr. Milton Ribeiro
Menezes dinamizou a administração de forma inteligente e operosa, sendo causa de grande
desenvolvimento na urbs” (1975, p.125). E sobre Fernandes Sobrinho, ele considera o seguinte:
Encetou uma obra gigantesca do represamento do Igapó, que foi combatida por
muitos setores da opinião pública, mas assim mesmo declarou de utilidade pública
grandes áreas circunvizinhas ao arroi Cambezinho e fez o represamento. Hoje,
honra seja feita, é o único recanto de recreação de Londrina, constituindo um dos
atrativos da cidade, pela grandeza e inovação (ZÓRTEA, 1975, p.126).
Percebe-se nestes relatos a confirmação do grande número de obras realizadas em Londrina
nesta década, e que todos os relatos são bastante inflamados quando remetem aos prefeitos,
exaltando as obras como grandes feitos dos seus governos.
A partir deste panorama da década de 1950, percebe-se que o discurso de progresso e
modernização era muito recorrente. Mas, é preciso dizer que apesar de toda a fama de prosperidade,
Londrina tinha muitos problemas. Quem acabou pagando pelo crescimento e por todas as obras
feitas pela cidade, por exemplo, foi a parcela mais pobre da população, através de impostos. Segundo
Sobre o plano elaborado por Prestes Maia para Londrina, ler a dissertação de: LIMA, Fausto C. de. Prestes Maia em
Londrina: Moderno em que Sentido? Faculdade de Arquitetura e Urbanismo: Programa de Pós-Graduação em Arquitetura
e Urbanismo. Universidade de São Paulo, São Paulo. 2001.
230
Informação
obtida
no
site
da
Câmara
Municipal
de
Londrina:
<http://home.cml.pr.gov.br/home/legislaturas_2.aspx>. Acesso em 06/09/2013, às 8:30h.
229
388
VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Sonia Adum, apesar de todo o progresso londrinense, havia também a barbárie. A cidade tinha um
outro lado que caminhava juntamente com o progresso, mas era desordenado, contrário à
modernização, e que ia, portanto, contra o desejo das elites do período:
Todo este movimento do “moderno” e do “progresso” mostrava um dos lados da
questão. A seu lado caminhava a “barbárie”. Junto aos prédios modernistas, uma
profusão de novos bairros periféricos, sem nenhuma infra-estrutura, bem como a
proliferação de espaços decaídos da cidade, causavam um “mal-estar na
civilização”. A contrapartida dos marcos arquitetônicos modernos era, portanto, a
grande quantidade de homens que chegava e se alojava em espaços periféricos, ou
se amontoava em espaços “decaídos” (1991, p194-195).
Isso mostra que as disparidades continuaram existindo durante a década de 1950. A diferença
é que os “problemas” foram afastados para as áreas periféricas da cidade. E é neste meio
efervescente que trabalhava o fotógrafo Oswaldo Leite, retratando as construções e as mudanças por
que Londrina passava.
E ao mostrar o processo de reorganização da cidade de Londrina durante a década de 1950,
por meio de seu trabalho como fotógrafo, Oswaldo Leite acabava inculcando nos moradores a ideia
de que Londrina era uma cidade altamente próspera e rica, e de que o prefeito em exercício era
alguém que realmente visava o bem da cidade. Isso era corroborado por meio de propagandas em
jornais. Um exemplo é o jornal Folha de Londrina, sobretudo no ano de 1957, onde havia uma
sessão, intitulada “Dois anos de um governo que realiza!”, veiculada durante o mês de dezembro, em
oito edições, nos dias 04, 05, 07, 10, 13, 18, 19 e 21 de dezembro, e que se destinava a falar sobre as
obras que estavam sendo feitas pela cidade, como asfaltamento de ruas, canalização de água e esgoto,
reforma de espaços públicos, durante o governo de Antonio Fernandes Sobrinho, e que contava com
várias fotografias de Oswaldo Leite. Esta sessão era sempre publicada na terceira página do jornal,
normalmente já dedicada à prefeitura municipal, para dar visibilidade aos seus feitos.
Como, ao que tudo indica, esta sessão era publicada com o intuito de passar a ideia de que o
prefeito em exercício era um homem bom, que trabalhava e fazia coisas pelo bem da cidade, as fotos
eram de fundamental importância, pois tinham a intenção de comprovar o que era dito. Isto pode ser
visto nas próprias legendas das fotografias publicadas, como: “Dotar a cidade de água e esgôtos é a
preocupação maior do prefeito Fernandes Sobrinho, que não tem medido esforços nesse sentido. As
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VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
fotos acima são uma comprovação disso” (Jornal Folha de Londrina, 19/12/1957, p.03). Ou ainda o
trecho da última edição desta sessão publicado no dia 21 de dezembro, que diz:
Hoje concluímos a análise que vimos fazendo sôbre os dois primeiros anos da
administração Fernandes Sobrinho [...]. Para êste fêcho, nada diz melhor, nada
expressa fidelidade às realizações do atual prefeito do município do que as
fotografias que ilustram a presente página. Elas mostram os setôres alcançados pelo
plano de obras executado pelo prefeito Fernandes Sobrinho, nesses dois anos de
Govêrno (Jornal Folha de Londrina, 21/12/1957, p.03).
Sendo assim, foram aqui selecionadas cinco fotos dentro do acervo de Oswaldo Leite, que
integraram esta coluna do jornal Folha de Londrina, a fim de comparar as legendas que aparecem no
jornal e a que foi dada pelo próprio Oswaldo Leite, e também apresentar uma pequena parte deste
acervo tão vasto. Estas imagens foram selecionadas por serem as de melhor resolução no próprio
jornal, que contava com pouca tecnologia na época, e algumas fotos publicadas eram praticamente
ilegíveis.
A primeira foto (Imagem 1) foi publicada no dia 04 de dezembro, logo abaixo do título
“Obras realizadas na cidade ressaltam o acêrto de uma administração”. Esta imagem mostra dois
homens trabalhando, em uma espécie de rotatória, e ao fundo da imagem se vê diversas placas de
propaganda, um gado e algumas árvores. No jornal, sua legenda consta: “Eis como ficou o
cruzamento da rua Guaporé com a Estrada P-1, graças ao asfaltamento procedido naquela via
pública pela administração Fernandes Sobrinho” (Folha de Londrina, 04/12/1957, p. 03). Já
Oswaldo Leite dá como legenda à mesma fotografia: “Trecho da rua Guaporé ligado à estrada ‘P1’estadual. Segundo consta no acervo de Leite, esta imagem foi feita no dia 31/10/1957.
A segunda fotografia selecionada (Imagem 2) e publicada na mesma edição de 04/12/1957,
mostra a construção de um obelisco em uma das entradas da cidade de Londrina, bem próximo ao
local retratado na primeira imagem. Nela, pode-se ver vários homens trabalhando, sobre uma
estrutura. Também se vê montes de materiais, que lembram areia e pedra, além de um carro da
prefeitura municipal ao fundo, com os dizeres “Cidade de Londrina”. É preciso ressaltar também
que o prefeito Fernandes Sobrinho aparece nesta imagem subindo na estrutura da construção, de
camisa branca, bem ao centro da fotografia. Sua legenda no jornal é a seguinte: “Na rua Guaporé, em
breve, os londrinenses verão magnífico obelisco indicativo da entrada da cidade. Eis um aspecto de
sua construção. O prefeito Fernandes Sobrinho inspeciona a obra” (Folha de Londrina, 04/12/1957,
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p. 03). E Leite, dá a seguinte legenda à mesma imagem: “Construção de um obelisco, na rua
Guaporé, cruzamento com a estrada estadual P1”. A foto, no acervo de Leite, consta com a data de
27/11/1957.
Imagens 1 (esquerda) e 2 (direita). Acervo do Museu Histórico de Londrina. Fotógrafo: Oswaldo
Leite. 31/10/1957 e 27/11/1957.
A terceira e quarta fotos (Imagens 3 e 4) mostram um problema grave que acometia Londrina
neste período: as erosões. Estas foram resultado da exploração feita na cidade 231 durante o final da
década de 1920 e a década de 1930, quando esta foi loteada pela Companhia de Terras Norte do
Paraná. As duas imagens retratam o cruzamento entre as ruas Uruguai e Espírito Santo, e na primeira
delas, nota-se uma enorme erosão, que colocava em risco as casas que existiam ao lado. As casas que
aparecem eram todas de madeira. Também pode-se notar várias máquinas para tentar fechar esta
erosão, um homem observando o serviço, e algumas árvores ao fundo. O chão no local é de terra. Já
a segunda imagem mostra como o mesmo local ficou após o fechamento da erosão. O que se pode
notar é que o chão do local continuou da mesma maneira, sem receber nenhum tipo de calçamento,
apesar de estas serem ruas da região central da cidade.
A Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP) foi a responsável pelo loteamento e venda das terras do norte
paranaense, desde a década de 1920. Sobre a exploração do solo na região norte paranaense pela Companhia de Terras,
ler a dissertação de: PAULA, Zueleide Casagrande de. Maringá: o coração verde do Brasil? Universidade Estadual PaulistaUNESP, Assis-SP, 1998.
231
391
VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
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O jornal dispôs as duas fotos juntas, e deu a seguinte legenda: “O combate à erosão em
Londrina não tem sido descuidado pelo prefeito Fernandes Sobrinho. Eis aqui uma expressiva
sequência fotográfica, mostrando um trecho da rua Uruguai, na altura da rua Espírito Santo, antes e
depois das obras de combate à erosão realizadas pela atual administração” (Folha de Londrina,
10/12/1957, p. 03). Já Oswaldo Leite legenda o seguinte sobre a primeira imagem: “Serviço de
combate à erosão, rua Espírito Santo, próximo à rua Uruguai”. Esta foto não tem data definida. E
sobre a segunda imagem: “Serviço de combate à erosão, na rua Uruguai com Espírito Santo”. A data
de
realização desta imagem é 21/06/1957.
Imagens 3 (esquerda) e 4 (direita). Acervo do Museu Histórico de Londrina. Imagem 3 sem data
definida, e Imagem 4: 21/06/1957.
392
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E, por fim, a última imagem selecionada (Imagem 5) mostra uma obra de saneamento feita
em uma rua da região central da cidade. A imagem aparece na sessão de 18/12/1957. Nela pode-se
ver duas moças caminhando, alguns carros ao fundo, a existência de prédios, a loja ‘Casas Fuganti’, e
em primeiro plano vários homens trabalhando em um buraco aberto bem próximo à calçada. Aqui a
rua parece ser pavimentada. No jornal, a seguinte legenda se sucede à imagem: “Construção de rêde
de água na avenida Paraná. A administração Fernandes Sobrinho, nesse particular, preocupou-se em
fechar as malhas na rêde existente, estendendo novos canos para a ampliação da rêde, a fim de que
ela possa ser utilizada já no próximo ano” (Folha de Londrina, 18/12/1957, p. 03). E Oswaldo Leite
escreveu o seguinte: “Obras de saneamento na Av. Paraná, entre as ruas Mato Grosso e Santa
Catarina”. Fotografia realizada em 06/08/1957.
Imagem 5. Acervo do Museu Histórico de Londrina. Fotógrafo: Oswaldo Leite. 06/08/1957.
O que se pode perceber, portanto, com esta sessão “Dois anos de um governo que realiza!”,
é que ela tem um alto teor de propaganda para as obras feitas durante os dois primeiros anos do
governo de Antonio Fernandes Sobrinho, e as fotografias auxiliam muito nisso, servindo como
provas fiéis da realidade. No entanto, é preciso entender que as fotografias não são a realidade, elas
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
são uma seleção da realidade, feita pelo próprio fotógrafo232. Sendo assim, Leite selecionava o que iria
retratar, e acabava auxiliando o prefeito em exercício a dar publicidade dos seus feitos, através das
imagens que realizava. Oswaldo Leite fazia descrições bem sucintas sobre cada imagem, enquanto
que no jornal, vários detalhes eram adicionados, e é constante a referência ao prefeito como alguém
que realizava, que fazia coisas pela cidade. Isso pode ser notado inclusive no slogan adotado pelo
governante: “Govêrno que realiza!”; e em sua aparição em diversas imagens, mostrando que mais do
que mandar realizar, ele fiscalizava o que estava sendo feito.
Pode-se dizer, assim, a partir de Bronislaw Baczko, que as fotografias de Leite eram um meio
de se entrar no imaginário social, para legitimar a ideia de que Londrina era uma cidade rica e em
desenvolvimento, pois para esse autor, os imaginários sociais são referências produzidas pela
sociedade, e é assim que esta se percebe e elabora seus próprios objetivos. Através destes
imaginários, uma sociedade além de se representar, também distribui papéis e posições sociais,
exprime e impõe crenças, constrói um código de bom comportamento. Porém, ao se construir tal
identidade, a relação com os outros, que não se incluem ali, passa a ser limitada, formando-se, então,
a imagem do inimigo, do rival.
No caso de Londrina, as fotografias de Leite cumprem a função de firmar a ideia de que a
cidade será uma metrópole, altamente próspera. A fim de convencer a população desse propósito,
várias obras começaram a ser feitas pela cidade, para que ela fosse realmente transformada e
reconhecida como tal. Tudo o que era considerado maculador desta identidade de prosperidade, tudo
o que era considerado um ataque, foi banido ou escondido. Assim, Oswaldo Leite participa dessa
construção imaginária da cidade próspera e registra seu preparo para ser a “metrópole” desejada.
Retratava todas as mudanças que ocorriam, e acabava, portanto, por contribuir na persuasão da
população local.
É importante ressaltar, finalmente, que Leite tinha liberdade para trabalhar, e realizava as
fotos que achava necessárias para a Prefeitura Municipal e para o seu trabalho. Suas fotografias eram
Sobre o trabalho com fotografias em história, e análise de imagens ler: KOSSOY, Boris. Fotografia e História2ª ed.rev.
São Paulo: Ateliê Editorial, 2001; FELIZARDO, Adair e SAMAIN, Etienne. “A fotografia como objeto e recurso de
memória” Discursos Fotográficos, Londrina, v. 03, n. 03, p. 205-220, jan./dez. 2007; CARVALHO, Telma Campanha de.
Fotografia e cidade: São Paulo na década de 1930 Proj. História. São Paulo: vol.19, p. 265-272, novembro 1999; JOLY,
Martine. Introdução à Análise da Imagem Lisboa: Ed.70, 2007.
232
394
VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
produzidas por ele por orientação própria e anseio de registrar as construções pela cidade, e num
momento posterior apresentar aos prefeitos para serem veiculadas nos jornais da época, sobretudo
no jornal Folha de Londrina.
Sendo assim, a propaganda que ele realizava tanto para a imagem do prefeito, quanto para
incutir a ideia de que Londrina era uma cidade próspera, eram feitas de maneira indireta e a partir do
que Leite entendia como relevante para cidade naquele momento. No entanto, ele, de acordo com o
que afirma seu filho Otacílio Leite, tinha a noção de que estas propagandas ocorriam, mesmo que
indiretamente. 233
Isto mostra que as imagens produzidas por Leite podem ser vistas como uma fonte
documental, já que elas são capazes de mostrar uma visão, dentre várias possíveis, sobre as mudanças
por que passou a cidade de Londrina durante toda a década de 1950. E, além disso, estas imagens
também acabam mostrando um pouco da relação existente entre Leite e a prefeitura municipal
londrinense. Mais do que funcionário deste lugar, Oswaldo Leite, por meio de suas fotografias,
acabava auxiliando os prefeitos a fazerem propaganda de si e de seus governos, além de também
colaborar para a propagação da ideia de Londrina como uma cidade moderna e progressista.
Referências bibliográficas
ADUM, Sonia Maria Sperandio Lopes. Imagens do progresso: Civilização e Barbárie em Londrina –
1930/1960. Dissertação. Universidade Estadual Paulista - UNESP, Assis-SP, 1991.
ARIAS NETO, José Miguel. O Eldorado: Representações da política em Londrina, 1930, 1975. Londrina:
Editora da Universidade Estadual de Londrina, 1998.
BACZKO, Bronislaw. A imaginação social. In: Anthropos-Homem. Lisboa: Imprensa Nacional/ Casa
da Moeda, 1985, p. 298-332.
FILHO, Galdino Moreira. O progresso invade o setentrião. Jornal Folha de Londrina, 05/08/1956.
Sessão “Educação e Cultura”.
IVANO, Rogério. Crônicas de Fronteira: Imagem e Imaginário de uma Terra Conquistada. Dissertação.
Universidade Estadual Paulista - UNESP, Assis-SP, 2000.
Jornal Folha de Londrina, 04/12/1957, p. 03. Sessão “Dois anos de um govêrno que realiza!”.
Informações obtidas em entrevista com Otacílio Leite, filho de Oswaldo, no dia 05/07/2012. Contudo é preciso
considerar que se trata da opinião do filho sobre o pai. Possivelmente o resultado de uma entrevista como o próprio
Leite resultaria em outras conclusões.
233
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Jornal Folha de Londrina, 10/12/1957, p. 03. Sessão “Dois anos de um govêrno que realiza!”.
Jornal Folha de Londrina, 18/12/1957, p. 03. Sessão “Dois anos de um govêrno que realiza!”.
Jornal Folha de Londrina, 19/12/1957, p.03. Sessão “Dois anos de um govêrno que realiza!”.
Jornal Folha de Londrina, 21/12/1957, p.03. Sessão “Dois anos de um govêrno que realiza!”.
Site
da
Prefeitura
Municipal
de
Londrina:
<http://www1.londrina.pr.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=142&Itemid
=867>.Acesso em 12/08/2012 às 15:00h
ZÓRTEA, Alberto João. Londrina através dos tempos e crônicas da vida. Edição comemorativa ao 40º
aniversário. São Paulo: Juriscredi, 1975.
396
VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
OS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO COMO ELEMENTOS DE IDENTIDADE EM
ARQUITETURA: O EDIFÍCIO DO MUSEU HISTÓRICO DE LONDRINA234
Priscilla Perrud Silva235
Profa. Dra. Zueleide Casagrande de Paula
(Especialização em Patrimônio e História, Universidade Estadual de Londrina – UEL)
As discussões acerca do conceito de identidade vêm se ampliando ao longo dos últimos anos,
sendo hoje entendido como um discurso social e historicamente construído, múltiplo e em constante
formação. Mas a identidade não se estabelece somente no plano dos discursos, mas também possui
uma materialidade representativa, e entre esta, se localiza a arquitetura. Não só em suas formas, mas
inclusive em seus materiais de construção. Como exemplo para nossa interpretação da hipótese da
materialidade da identidade, iremos discutir os materiais de construção utilizados do prédio que hoje
abriga a instituição do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss enquanto elementos de
identidade em arquitetura. A fim de atingir nosso objetivo, discutiremos brevemente os elementos
constituintes do edifício em pedra, madeira e cerâmica, buscando problematizar as questões a serem
dispostas com a instrumentalização da cultura material por meio dos materiais de construção
utilizados na edificação, de plantas arquitetônicas, fotografias e demais fontes históricas.
Iniciaremos por meio de uma breve discussão do conceito de identidade. Stuart Hall (1992)
apresenta a necessidade da discussão deste conceito, por conta do panorama de “crise” em que ele se
O presente texto é fruto da continuidade dos estudos realizados por meio do subprojeto de pesquisa intitulado: “O
Museu Histórico de Londrina: O Edifício e suas Linguagens Arquitetônicas e Artísticas”, desenvolvido entre os anos de
2010 e 2011, sendo durante todo este período contemplado com uma Bolsa de Inclusão Social da Fundação AraucáriaPR. Nesse subprojeto inicial, nosso objetivo era a interpretação das diferentes linguagens arquitetônicas mescladas em
meio à plasticidade da Arquitetura Eclética que configura o edifício da segunda Estação Ferroviária de Londrina-PR, que
hoje abriga a instituição do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss. Esta pesquisa esteve situada no âmbito do
projeto de pesquisa maior ao qual se vinculava, intitulado: “Questões Urbanas, Questões de Urbanização: História,
Imagens, Traçados e Representações”, coordenado pela Profa. Dra. Zueleide Casagrande de Paula (Universidade
Estadual de Londrina – UEL). Como resultado final desta pesquisa, foi defendido o Trabalho de Conclusão de Curso
(TCC) para a Graduação em História, intitulado: “De Estação Ferroviária à Museu Histórico de Londrina: A Trajetória
do Edifício 1946-1986” em 2013. Nossa pesquisa inicial contemplou o histórico do edifício desde sua idealização,
projeção e construção entre os anos de 1946 a 1950, ano de sua inauguração como Estação Ferroviária, até o ano de
1986, quando é refuncionalizado em sede para o Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss. Com a necessidade
de continuar nosso trabalho a partir do ano de 1986 até as décadas de 1990 a 2000, período em que o edifício passa por
um grande procedimento de revitalização (a última intervenção arquitetônica sofrida pela edificação), idealizamos o préprojeto intitulado: “Os Procedimentos de Refuncionalização e Revitalização do Edifício do Museu Histórico de Londrina
1986-2000” apresentado à Especialização em Patrimônio e História do Departamento de História da Universidade
Estadual de Londrina (UEL) em 2013, a fim de contemplarmos toda a trajetória histórico-arquitetônica do prédio, e que
visa a defesa de nossa monografia em 2014.
235 Pós-graduanda em Patrimônio e História (Especialização) pelo Departamento de História da Universidade Estadual
de Londrina (UEL), e Estagiária Bolsista do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss,
PML/PROMIC/MHL/2013. E-mail: [email protected].
234
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VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
insere, segundo o autor, causado pelas mudanças estruturais nos processos centrais das sociedades,
que abalaram os quadros fundadores de referência do mundo social como um todo, a partir do final
do século XX. Período da pós-modernidade, no qual Hall destaca principalmente o processo da
globalização na constituição deste cenário de “crise” (HALL, 1992, p.1-3). As identidades pósmodernas (tanto individuais como coletivas) são percebidas atualmente como “descentradas”,
múltiplas, voláteis e fragmentárias, caracterizando assim o que o autor conceitua de “deslocamento”
ou “descentração” do sujeito da pós-modernidade em sua “crise de identidade”, que passou a
distinguir o próprio processo de identificação como um todo (HALL, 1992, p.1-3). Contrapondo a
noção anterior, de que a identidade era firmada no indivíduo por meio das relações em seu meio
social, formada na interação das trocas entre o eu e a sociedade. A identidade era entendida como
única e permanente por toda a vida do indivíduo, se pondo como um sólido alicerce no qual se
constituíam os valores culturais, unificando desta maneira o sujeito e seu mundo sociocultural. Mas
hoje, segundo Stuart Hall, a identidade é compreendida como um discurso de representação, social e
historicamente construído, plural e em constante formação. Hall trabalha o conceito de identidade
especificamente no âmbito dos discursos, mas ela também possui uma materialidade representativa,
que a apresenta e reafirma. Siân Jones (2005) discute em parte esse aspecto material da identidade. A
autora a ambienta essa problemática no campo dos estudos étnicos da arqueologia histórica, mas
aponta que as pesquisas sobre a identidade necessitam da confrontação entre fontes escritas e a
cultura material236. Pois esta última traz em si mesma a representação da identidade por meio de sua
materialidade, evidenciando o que Jones denomina de “marcadores étnicos”, aspectos-chave ou
mesmo sinais que em contraposição com as fontes escritas (ou em determinados casos, por si
mesmos) trazem luz sobre o entendimento da noção de identidade das sociedades do passado e sua
representação e demarcação.
Em meio a este ponto de vista sobre a cultura material como representação da identidade,
destacamos a arte e sua vertente da arquitetura como exemplos nesta discussão. Juhani Pallasmaa
(2011) trabalha a inclusão da experiência sensorial de todos os sentidos (tato, olfato, visão, audição e
paladar) contra a supervalorização do sentido da visão na arquitetura moderna e contemporânea, de
modo que todo o corpo humano participe dessa experiência. O autor destaca o papel das
experiências sensoriais na formação de nossa identidade individual, pois segundo Pallasmaa, por
Sobre o conceito de Cultura Material ver: CULTURA MATERIAL. In: BUCAILLE, Richard; PESEZ, Jean-Marie.
Enciclopédia Einaudi, Lisboa: IN-CM, 1989, vol.16, Homo – Domesticação - Cultura Material, p.11-47.
236
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VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
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II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
meio da arquitetura, vivenciamos nosso lugar no mundo em relação ao nosso local principal de
referência que é o nosso próprio corpo, influindo desta maneira na constituição de nossa identidade
(PALLASMAA, 2011, p.11). Mas além deste papel formador, a arquitetura também possui o papel de
representante e de divulgadora dessas identidades, tanto individuais (por meio da concepção artística
do arquiteto) como coletivas (o usuário desta arquitetura, o que a encomenda, entre outros).
Em meio a esta discussão, Juhani Pallasmaa destaca o uso de determinados materiais de
construção como elementos de representação da identidade em arquitetura:
“Os materiais naturais – pedra, tijolo e madeira – deixam que nossa visão penetre
em suas superfícies e permitem que nos convençamos da veracidade da matéria. Os
materiais naturais expressam sua idade e história, além de nos contar suas origens,
seu histórico de uso pelos humanos.” (PALASMAA, 2011, p.30)
Assim, concebemos os determinados materiais de construção citados por Pallasmaa como
elementos de identidade em arquitetura, por sua capacidade de “expressão” e de representação. A
fim de exemplificar nossa discussão teórica do conceito de identidade e a premissa de sua
materialidade, nós iremos nos utilizar do edifício que hoje abriga o Museu Histórico de Londrina.
Nosso objeto de estudo é o edifício que hoje abriga o Museu Histórico de Londrina Padre
Carlos Weiss, localizado na Rua Benjamin Constant, número 900, no centro da cidade de LondrinaPR. À sua frente se encontram a Praça Rocha Pombo e em seguida a antiga Estação Rodoviária, hoje
Museu de Arte de Londrina. À sua esquerda existe uma viela e em seguida o Planetário, a avenida
que passa atrás do quarteirão do prédio é a Avenida Leste-Oeste, uma das principais vias de tráfego
rápido da cidade. E finalmente, à sua direita se encontra o Terminal Central de ônibus urbano. Em
meio a todos estes diferentes discurso nesta parcela de espaço urbano, o nosso objeto se estabelece
enquanto uma linguagem diferente, única, por conta de suas instâncias históricas, urbanas,
funcionais, arquitetônicas e artísticas e por sua plasticidade oriunda da Arquitetura Eclética ou
Ecletismo Arquitetônico237.
No Dicionário Oxford de Arte, o verbete Eclético se refere ao termo designado pela crítica de arte a um indivíduo ou
movimento que relaciona características provenientes de fontes diversas. Sendo fruto da idéia (explícita ou não) de que as
particularidades de vários mestres ou estilos podem ser selecionadas e conjugadas em uma só obra de arte, além de
instituir uma corrente arquitetônica do século XIX. Na arquitetura, o Ecletismo se configura na somatória de elementos
de diversos estilos numa só construção, não como uma simples cópia, mas como uma interessante combinação entre
esses estilos (CHILVERS, 1996).
237
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VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Passaremos agora a um breve histórico da edificação: No início da década de 1940, a primeira
Estação Ferroviária da cidade de Londrina, inaugurada em 28 de julho de 1935, já não conseguia
comportar adequadamente a demanda de serviços de uma cidade em pleno processo de acelerado
desenvolvimento urbano. Diante desse problema, é idealizada a construção de uma nova Estação
Ferroviária, de caráter monumental para a época e com as mais modernas instalações desenvolvidas
pela técnica daquele momento, trazidas pela interferência e ação do então diretor-gerente da Rede de
Viação Paraná-Santa Catarina (RVPSC), o Coronel Durival de Brito e Silva. Assim, no ano de 1945 é
aberto um edital de licitação para a obra, que é concedida à construtora Firma Thá e Filhos Ltda.,
proveniente da capital Curitiba-PR. A construção do prédio da Estação Ferroviária e de todo o
complexo ferroviário necessário foi iniciada em 1946, mas, por uma série de questões, só foi
finalizada em 1950, sendo sua inauguração aberta ao público em 20 de julho do mesmo ano.
Apesar de satisfazer muito bem suas finalidades, a Estação Ferroviária localizava-se bem no
centro urbano da cidade, dividindo-a literalmente ao meio na linha norte-sul. Ao longo dos anos, sua
localização se tornou um grande problema para o crescimento da região central, tendo, inclusive,
consequências sociais desastrosas, resultando em segregação. Em 1966, por conta desses problemas
que ocasionava, foi idealizado pelas autoridades competentes o projeto da Variante Ferroviária, que
acarretaria no desligamento das atividades da Estação Ferroviária e levaria os trilhos para a parcela
norte da cidade, a fim de contemplar as indústrias que também foram direcionadas para aquela
região. O projeto da Variante Ferroviária só foi efetivamente elaborado na década de 1970 e
concluído, em todas as suas etapas, na década de 1980. Por conta de sua efetivação, o trem de
passageiros deixa de trafegar em 10 de março de 1981, e o último trem de carga parte da Estação
Ferroviária em 06 de novembro de 1982. Nesse mesmo ano, o restante dos trilhos foi retirado do
leito ferroviário no centro da cidade. O prédio da Estação Ferroviária acabou relativamente
abandonado, servindo de abrigo para pombos e marginais.
O prédio da antiga Estação Ferroviária havia sido prometido ao Museu Histórico desde 1979,
pelo então Prefeito Municipal, Antônio Casemiro Belinati. No entanto, a transferência da instituição
para a nova sede dependia do andamento das obras da Variante Ferroviária e, por conta disso, só em
1986 o Museu Histórico ocupou o prédio. Em obra iniciada em fevereiro de 1986, com término em
dezembro do mesmo ano, a antiga Estação Ferroviária sofreu um trabalhoso procedimento de
refuncionalização, expresso no projeto dos arquitetos e professores do curso de Arquitetura da
400
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
Universidade Estadual de Londrina (UEL) Antonio Carlos Zani e Jorge Marão Carnielo Miguel, a
fim de sediar apropriadamente o Museu Histórico. O edifício foi, então, cedido ao Museu Histórico
em regime de comodato pela Prefeitura Municipal, funcionalidade que exerce desde 10 de dezembro
de 1986, data de sua (re)inauguração como Museu Histórico, até os dias de hoje (SILVA, 2012).
Já na época de sua revitalização entre as décadas de 1990 a 2000, contando com a iniciativa
privada por parte do Colégio Maxi (particular), e de uma série de colaboradores, tanto o prédio como
sua área externa receberam grandes intervenções, mais uma vez com a intencionalidade de adequar
melhor o seu espaço para a sede do Museu Histórico. Assim, a área ao redor do prédio foi fechada
com grades por questões de segurança, assim como a posterior entrada que dava acesso à galeria
subterrânea que passava abaixo da Praça Rocha Pombo. Foram plantados alguns pés de café na
lateral direita do edifício (representação de uma parcela muito característica da História da cidade e
da região), além da configuração atual do jardim do prédio. A colocação de trilhos ganhos da extinta
Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima, a RFFSA, com a finalidade de ambientar o espaço da
antiga plataforma, a elaboração e disposição da exposição de longa duração que permanece até hoje
no Museu Histórico, além de muitos elementos decorativos que foram incorporados ao seu espaço.
Seguindo adiante, em nossa pesquisa, tivemos acesso ao documento que lista todos os
materiais de construção que seriam empregados na obra da segunda Estação Ferroviária de Londrina,
o documento: Especificações para a Construção de uma Estação em Londrina238, datado de 1945. Neste texto,
destacaremos a ocorrência da pedra, madeira e da cerâmica na constituição do edifício a fim de
apontar as linguagens arquitetônicas em que eles foram incorporados a fim de discutir a questão da
identidade a qual nos propomos.
Segundo o documento citado, para os alicerces do edifício, deveria ser feita alvenaria de pedra
com argamassa de cal e areia. E 1 e 2239 para os alicerces, com as dimensões constantes tratadas no
projeto240, com elevações até a altura dos pisos. Inclusive, deveria ser utilizada uma solução
impermeabilizadora nos alicerces e rejuntamentos. Alvenaria de tijolos com argamassa de cimento e
Fonte: MINISTÉRIO DA VIAÇÃO E OBRAS PÚBLICAS. Rede de Viação Paraná - Santa Catarina. Trecho
Ourinhos-Apucarana. Especificações Para a Construção de uma Estação em Londrina. Curitiba, 22 de agosto de
1945. Código do Documento: C03LDA 5 DOC HIST. SS ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DC 54 8. Acervo do MHLPCW.
239 Não conseguimos descobrir do que se trata, pois está com a visualização comprometida no documento e mais adiante
no mesmo não se refere novamente a este material.
240 No documento não se refere qual seria este projeto citado.
238
401
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
areia 1:2 para as paredes e chaminés. E por último neste item, alvenaria de tijolos241 com argamassa
de cimento 4 para todas as escadas externas. Já as escadas internas seriam feitas de madeira de lei
(Peroba), envernizadas, com corrimão. Ainda de acordo com as informações constantes no
inventário dos materiais de construção a serem utilizados para a confecção dos pisos, se menciona
madeira de lei serrada para o vigamento do assoalho de tábuas de junção macho e fêmea, com o
rodapé feito em madeira de lei com 15 cm de altura nos cômodos do sótão. Já na sala de espera,
áreas, varandas, bar e café, ladrilhos cerâmicos São Caetano242. Nos demais cômodos inferiores e
superiores, o piso seria de tacos de madeira de lei.
No telhado foi listado, no documento, que seria empregada madeira de pinho de primeira
qualidade para a armação e o ripamento. Na plataforma e nas demais partes exteriores, madeiras de
lei trabalhadas. Na cobertura, telhas do tipo chata ou francesa São Caetano, presas com argamassa e
armação de arame. A cobertura das cumieiras243 seria feita com telhas goivas São Caetano. Forro do
tipo paulista de réguas de pinho de encaixe macho e fêmea na parte superior. Inclusive meia cana
emoldurada. Nos beirais, gregas molduradas de madeira de lei. Mas no momento da construção do
edifício, se decidiu trocar a madeira de pinho a ser utilizada no telhado por madeira de lei.
Nos procedimentos de acabamento deveriam ser empregados revestimentos de azulejos
brancos em barra de 1,50m de altura em todas as instalações sanitárias. Barras de ladrilhos São
Caetano de 1,50m de altura para a sala de espera, áreas, varandas, sala de saída e plataforma. Assim
como moldura São Caetano ao redor das portas e janelas externas. Na fachada social do novo edifício,
seria empregada a técnica de Rusticação244 com pedras rústicas extraídas nas proximidades da cidade de
Cornélio Procópio-PR (ASSOCIAÇÃO PRÓ-MEMÓRIA..., 2004, p.441-442).
As portas externas seriam de Imbuia almofadada. A porta que dá acesso à sacada superior
também seria envidraçada. Já as portas internas, de madeira de lei seriam confeccionadas em madeira
Os tijolos utilizados nesta obra foram produzidos em Quatiguá-PR, por serem de melhor fabricação (ASSOCIAÇÃO
PRÓ-MEMÓRIA..., 2004, p.441-442).
242 Esta marca de materiais de construção cerâmicos foi muito utilizada em toda a construção do edifício. A Cerâmica São
Caetano era de propriedade de Juvenal Pietraroia em conjunto com seu irmão Atêlio Pietraroia. Um fator interessante é o
de que Juvenal foi Diretor do Partido Democrático em 1928, Diretor da União Democrática Brasileira em 1930, Diretor
do Partido Constitucionalista em 1934 e Presidente da União Democrática Nacional (UDN) (BRANCO; ANASTÁCIO,
1969). Portanto, fica muito evidente para nós a influência da questão política em relação a este edifício.
243 É a parte mais alta do telhado; grande viga de madeira que une os vértices da tesoura, onde se apoiam os caibros do
madeiramento da cobertura.
244 “Rusticação é a arte de trabalhar a alvenaria de modo a dar ao edifício, ou a porções do edifício, um caráter ou ênfase
especial. O termo transmite a idéia de irregularidade, como a das pedras apenas saídas da pedreira, porém, a forma mais
comum encontrada na Antiguidade é o sulco profundo nas juntas entre as pedras. Alguns mestres da Renascença levaram
a idéia ainda mais longe.” (SUMMERSON, 2006, p.49).
241
402
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EM HISTÓRIA SOCIAL
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compensada. Além do uso de vários guichês: guichê de Imbuia de 1,00 x 1,50 na bilheteria (Figura
16), Guichê de Imbuia de 2,00 x 1,50 para o guarda-malas. Três guichês de Imbuia de 0,80 x 1,3 no
escritório de notas. 21,00 m1 de balcão envernizado de madeira de lei para bagagem e encomendas.
12,00 m1 de balcão para o bar, e também de madeira de lei, 8,60 m de bilheteria circular de 3,30m de
diâmetro, de madeira de lei e guichês com grades de ferro niquelado com vidros. Além de portas de
janelas de madeira de lei compensada.
Para a cozinha, pia de mosaico, com móvel de madeira de pinho pintado de esmalte. O
referido documento que lista todos os detalhes sobre os materiais da construção, nos permite ter
ideia de quais materiais eram usados nas construções desse porte, naquele momento, e permite
também formar uma impressão a respeito dos obstáculos em se construir na cidade de Londrina
naquele momento, em razão das dificuldades em obter tais materiais, pois tudo era advindo de outros
lugares e regiões. Mas a qualidade e o uso destes materiais específicos neste prédio nos chama a
atenção. Por que somente o uso de materiais “tradicionais” (ou segundo Pallasmaa, naturais) e de alta
qualidade? Por que a construção de um prédio tão moderno (e monumental) para a época em uma
cidade ainda em processo de urbanização? Suas formas e materiais são mais do que aparentam, pois
trazem em si a representação simbólica da ideia de progresso e de modernidade, vigente naquele
momento, além da representação do poderio político, econômico e social da elite londrinense. A
Arquitetura Eclética que caracteriza a linguagem arquitetônica deste edifício traz em sua plasticidade
variados estilos arquitetônicos que trazem em si mesmos e em seu uso, uma representação própria
dos discursos de grandeza da época, evidenciando uma escolha dentre as diferentes linguagens
arquitetônicas tipicamente europeias, a fim de talvez legitimar este discurso. Ou ainda seria uma
estratégia do arquiteto que o projetou para evidenciar sua identidade enquanto pessoa e como artista,
ou ainda, pode ser uma maneira de representar e homenagear as diferentes nacionalidades dos
imigrantes que aqui chegavam nos primeiros anos. Mas esta última ainda assim privilegiaria um
determinado grupo em detrimento de outros. A seguir, trataremos das linguagens arquitetônicas em
que a pedra, a madeira e a cerâmica são utilizadas.
Uma das linguagens arquitetônicas mescladas na plasticidade deste edifício é a da Arquitetura
Medieval, apresentada no estilo Românico, este também em sua estilística desenvolvida na Inglaterra
Medieval, o Normando. O estilo Românico é desenvolvido em meados de 750 até meados de 1250
na Europa. A origem do termo “Românico” vem do século XIX, quando sua estilística foi
403
VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
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comparada com as últimas construções da Antiguidade Romana (GYMPEL, 2001, p.20-22).
Difundiu-se principalmente na Alemanha, França, Itália, Espanha e Inglaterra, onde é denominado
de Normando, desenvolvido em meados de 1080 até meados de 1210 (KOCH, 2008, p.230):
Nenhuma construção completa sobreviveu na Inglaterra do período saxão, e
existem muito poucas igrejas do período, anteriores àquela data, que possam ainda
ser vistas em qualquer parte da Europa. Mas os normandos que desembarcaram na
Inglaterra trouxeram consigo um estilo desenvolvido de construção, o qual ganhara
forma em sua geração na Normandia e alhures. Os bispos e nobres que eram os
novos senhores feudais da Inglaterra cedo começaram a afirmar seu poderio
mediante a fundação de abadias e igrejas de mosteiros. O estilo em que esses
edifícios foram construídos é conhecido na Inglaterra como estilo normando e no
continente europeu como estilo românico. Floresceu por mais de cem anos após a
invasão normanda. (GOMBRICH, 1978, p.112)
A principal característica desta linguagem arquitetônica é a de ser “Fechada, sólida, maciça e
severa [...]” (GYMPEL, 2001, p.22). Visualmente, os primeiros elementos que se sobressaem,
característicos desta linguagem, são os arcos rusticados em pedra na fachada principal, que lembram
as paredes construídas em pedra deste período. Além das janelas em formato de seteiras245 na parte
superior dos três pavilhões, tanto do lado da fachada principal como do lado da plataforma. Uma
característica importante do estilo Românico que se apresenta no edifício é a larga espessura das
paredes. E a ampla utilização do arco romano (também chamado de arco-de-volta-perfeita ou de
pleno-cintro): “Nas suas múltiplas variações, o arco (romano) aparece tanto como elemento de
sustentação como de ornamental.” (KOCH, 2008, p.18). No caso deste edifício, a função do arco
romano é tão somente como ornamento e como formato para um grande número de janelas,
inclusive em formato de arcos duplos. Outro estilo “europeizante” que se apresenta em sua
miscelânea arquitetônica é o estilo Germânico. O telhado dos blocos laterais do edifício leva esta
denominação.
A linguagem plástica destes variados elementos da arquitetura europeia talvez seja a principal
fonte de confusão no momento de referenciar o estilo arquitetônico do prédio. Pois, a linha divisória
entre estes diferentes estilos é muito tênue e em diversas referencias bibliográficas eles aparecem ora
distintos, ora homogeneizados, o que acarreta por vezes em certa dificuldade em diferencia-los com
245
“Seteiras: Abertura no adarve de uma fortaleza para o lançamento de projéteis” (KOCH, 2008, p.213).
404
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
maior precisão. Assim o edifício já foi denominado como um exemplar da Arquitetura Inglesa,
Germânica, Normanda, entre outros.
Outro elemento de identificação de linguagem artística que faz constituir o ecletismo nessa
obra está no telhado da antiga Estação Ferroviária apresentam-se também falsas mansardas246. O
termo “mansarda” tem origem no nome do arquiteto parisiense François Mansart (1598-1666),
contudo, não foi ele quem inventou este elemento arquitectônico, mas somente o popularizou,
inspirando-se em antigas obras italianas. Seu sobrinho-neto, Jules Hardouin Mansart, deu um grande
prestígio à mansarda ao utilizá-la na construção do Palácio de Versalhes. Sobre o telhado do pavilhão
central, esse tipo de telhado é característico dos Alpes Suíços, próprio para localidades com grande
precipitação de neve, com as águas do telhado voltadas para as laterais, com grande inclinação
conferindo uma aparência nórdica para a construção (REIS FILHO, 2000, p.158-160).
Assim, estas linguagens europeias são uma representação da identidade requerida e construída
talvez pelo discurso das elites. A fim de se apresentar como herdeira de uma determinada
“civilização” e de seus valores. Essa ideia subjetivamente ainda se apresenta, mesmo em meio às
modificações sofridas pela edificação, tanto em 1986, como nas décadas de 1990 a 2000. As parcelas
do edifício em que foram utilizadas as pedras foram pouco modificadas, além de uma limpeza e
raspagem de eventuais camadas de tinta ao longo dos anos de funcionalidade do prédio como
Estação Ferroviária. Isso se repete em relação ao uso da madeira, pois esta em sua maioria foi lixada
e envernizada, recebendo tratamento especial contra cupins e incêndios, sendo ainda mais valorizada
e evidenciada, a não ser os tacos do piso que foram retirados em quase sua totalidade. Já a evidencia
da cerâmica foi a que mais sofreu modificações, pois os pisos cerâmicos foram praticamente todos
trocados, os pisos que se apresentam hoje em específico na ala da exposição de longa duração foram
pensados em 1986 para demarcar o roteiro de visitação da exposição, feito em cerâmica Gail em tons
terrosos a fim de representam a terra roxa do norte do estado. Os azulejos das paredes tirados por
estarem quebrados e foram trocados por tijolos. Mas as telhas quase todas sobreviveram,
apresentando-se telhas originais da década de 1950 no prédio até hoje.
A materialidade do conceito de identidade e de seus discursos se dá por meio da
representação inclusive na arquitetura, assim como discutimos nos utilizando como exemplo o
edifício do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss. O uso da pedra, madeira e da
Mansarda: é uma janela disposta sobre o telhado de um edifício para iluminar e ventilar seu desvão e, por extensão, o
próprio desvão, que pode ser utilizado como mais um cômodo.
246
405
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EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
cerâmica, materiais naturais, mas de uso “tradicional”, revestidos e instrumentalizados com uma
carga simbólica, tornam-se evidências talvez do discurso “europeizante” das elites londrinenses nos
anos iniciais da cidade, enunciando uma identidade requerida e almejada.
REFERÊNCIAIS BIBLIOGRAFICAS
ASSOCIAÇÃO PRÓ-MEMÓRIA DE LONDRINA E REGIÃO. Londrina Paraná Brasil:
Raízes e Dados Históricos – 1930-2004. Londrina: Edições Humanidades, 2004. p.441-442.
BRANCO, Gustavo; ANASTÁCIO, Adão. Construtores do Progresso. Norte do Paraná, 1970.
Londrina: Dezembro de 1969.
CULTURA MATERIAL. In: BUCAILLE, Richard; PESEZ, Jean-Marie. Enciclopédia Einaudi.
Lisboa: IN-CM, 1989, vol.16, Homo – Domesticação - Cultura Material, p.11-47.
ECLÉTICO, ECLETISMO. In: CHILVERS, Ian (org.). Dicionário Oxford de arte. Tradução de
Marcelo Brandão Cipolla. 1° edição. São Paulo: Martins Fontes, 1996. p.170.
GOMBRICH, E.H. A História da Arte. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1978.
GYMPEL, Jan. História da Arquitetura: Da Antiguidade aos nossos dias. Konemann, 2001.
HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. DP&A Editora, 1º edição, 1992.
JONES, Siân. Categorias Históricas e a Práxis da Identidade: a Interpretação da Etnicidade na
Arqueologia Histórica. In: FUNARI, P. P. A.; ORSER, C.; SCHIAVETTO, S. N. O. (Orgs.).
Identidades, Discurso e Poder: Estudos de Arqueologia Contemporânea. São Paulo:
Annablume/FAPESP, 2005, p.27-43.
KOCH, Wilfried. Dicionário dos Estilos Arquitetônicos. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
PALLASMAA, Juhani. Os Olhos da Pele: A Arquitetura e os Sentidos. Porto Alegre: Bookman,
2011.
REIS FILHO, Nestor Goulart. Quadro da Arquitetura no Brasil. São Paulo: Editora Perspectiva,
2000.
SILVA, Priscilla Perrud. De Estação Ferroviária à Museu Histórico de Londrina: A Trajetória
do Edifício 1946-1986. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em História) – Universidade
Estadual de Londrina, Londrina, 2012.
SUMMERSON, John. A Linguagem Clássica da Arquitetura. Tradução Sylvia Ficher. São Paulo:
Martins Fontes, 2006.
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VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
ANÁLISE DE UM AFRESCO DA CRUCIFICAÇÃO, DE GIOTTO, NA BASÍLICA DE
SÃO FRANCISCO, ASSIS: OS TEXTOS BÍBLICOS DE INSPIRAÇÃO E A
COMPOSIÇÃO DA IMAGEM.247
André Luiz Marcondes Pelegrinelli248. (Historia/UEL – Brasil)
Profa. Dra. Angelita Marques Visalli249.(Historia/UEL – Brasil)
Quando pensamos em imagens medievais, devemos ter em conta o quão diferente era a
concepção de imagem para os homens do medievo. Longe do conceito de “arte” forjado
principalmente pela Estética a partir do século XVIII (BASHET: 2006, p. 481), ao contrário, a
imagem medieval não possuía finalidade estética autônoma, embora não esquecesse ou tivesse
preocupação menor com a esteticidade. Imagens que por vezes falam, realizam milagres, surgem em
sonhos. Imagens que legitimam poder, fazem referências à memória, podem ser didáticas ou ainda
tendo como objetivo a comoção e a conversão, entre outros usos que ainda podemos atribuir.
As imagens religiosas medievais não são e não podem ser pensadas somente como
representações, mas implicam “no reconhecimento de uma força esperada, possível ainda que não
constante. A presença milagrosa não é, mas pode estar. Presentificação em lugar de presença tem
sido a expressão mais felizmente empregada” (VISALLI: 2013, p. 97.) É através de uma imagem que
Francisco se converte; uma outra provoca a morte de Santa Catarina de Sena; através das imagens os
fiéis exprimiam seu sentimento religioso.
Analisamos aqui um afresco produzido por Giotto (1267-1337), e que está na Igreja Inferior
da Basílica de Francisco, Assis. O mesmo retrata a crucificação. Refletiremos sobre o papel dos
afrescos no uso cristão, o artista criador da imagem e a Basílica que a abriga. Em seguida
realizaremos a análise dessa imagem, atentando-se à influência dos textos bíblicos sobre a mesma e
considerando o relevante papel que Maria, Cristo e Francisco de Assis possuem na composição.
Os afrescos, pintados sobre as paredes, tetos ou outros lugares imóveis, não tinham como
função o culto (como o era, por exemplo nos retábulos e estatuetas), o que não quer dizer que estas
estavam limitadas somente a função decorativa. Por exemplo, Santa Catarina de Siena (1347-1380),
Pesquisa resultante de participação no projeto: “ILUMINURAS FRANCISCANAS: A CONSTRUÇÃO DA
IMAGEM E HERANÇA DE FRANCISCO DE ASSIS NA FRANCESCHINA (1474)” (apoio financeiro del
CNPQ/Brasil).
248 Graduando em História da Universidade Estadual de Londrina. E-mail: [email protected]
249 Professora doutora adjunta ao departamento de História da Universidade Estadual de Londrina. E-mail:
[email protected]
247
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VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
ao contemplar o mosaico “Navicella” de Giotto, em São Pedro do Vaticano, sente-se esmagada pelo
barco dos apóstolos retratado na imagem, e permanece paralisada até a morte (BASCHET: 2006, p.
498). A imagem não se manifestou de forma extraordinária, mas comoveu Catarina, fazendo-a sentirse dentro da imagem a ponto de sofrer em seu corpo físico os sentimentos provocados por ela.
Por outro lado, as imagens pintadas nas paredes, imóveis, podem ter função de memória ou
mesmo funções didáticas. Sem reduzi-las ao conceito de “Bíblia dos iletrados”, as consideramos
úteis, sim, para a catequese dos não letrados, mas não limitando-as a isso. Sem deixar de lembrar que
são objetos de memória: a Igreja relembra e revive o Batismo de Cristo frente a uma cena do mesmo,
a imagem ilustra e completa a mensagem de conversão do clérigo ao mostrar o Purgatório e suas
danações etc.
Importante papel tem os afrescos e todas as outras imagens que fazem parte de uma igreja.
As imagens aderem a um lugar que tem função própria, a casa de Deus, e sendo casa de Deus, sua
principal função era “oferecer aos mistérios divinos um cenário digno da sua grandeza”
(VAUCHEZ: 1995, p. 166), o edifício sagrado precisava fazer com que os fiéis se sentissem entrando
na própria esfera celeste (BASCHET: 2006, p. 508).
Assim, a sacralidade de um afresco, ou de qualquer outra imagem que adere o edifício santo,
estaria muito mais no seu uso enquanto parte desse edifício sagrado do que pela imagem em si
própria.
Francisco foi chamado pelos habitantes de Assis como Poverello ou seja, pobrezinho, coitado,
em italiano, andava vestindo trapos e recusava qualquer posse de bens, pregando um evangelho de
penitência. Em 1228, dois anos após sua morte, foi canonizado e a pedra fundamental para a
construção da Basílica de Francisco foi posta.
O ideal de pobreza absoluta no molde próprio do pensamento de Francisco não foi mantido
após sua morte. Os que estavam à frente da ordem precisaram forjar a teoria de que os bens
recebidos pelos franciscanos são de seu uso deles, mas de propriedade do papa (BASCHET: 2006,
213).
A Basílica Franciscana foi o primeiro grande investimento na construção da imagem de
Francisco (VISALLI: 2011, p. 206.), para tal, utilizando-se da versão presente na Legenda Maior de
Boaventura para a criação e identificação das imagens, principalmente aquelas que se referem ao ciclo
da vida de Francisco, também executada por Giotto para a Igreja superior. A Basílica consiste de dois
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VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA SOCIAL
XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
grandes complexos: a Igreja Superior, com o mesmo funcionamento de qualquer outra igreja, aberta
aos fiéis, etc, e a Igreja Inferior, de uso particular dos religiosos e que tinha sua maior importância
por abrigar o túmulo do santo de Assis.
O afresco de Giotto aqui estudado está na Igreja Inferior, mais especificamente, faz parte do
ciclo de imagens que se encontram no transepto norte da Igreja Inferior, ciclo composto de seis
imagens maiores: “Visita de Isabel”, “Nascimento de Cristo”, “Adoração dos Reis Magos”,
“Apresentação do menino no Templo”, “Crucificação” e “Maria entronizada junto a Francisco”. As
cinco primeiras são de Giotto, a última de Cimabue, a qual se afasta das demais pelo estilo próprio
do pintor e por não se tratar de uma cena bíblica, mas baseada na tradição segundo a qual Maria foi
entronizada. Cimabue e Giotto trabalharam juntos em afrescos da Igreja Inferior. É importante
perceber o conjunto de imagens, pois, estas precisam ser vistas dentro de seus respectivos ciclos.
Nesse caso, Giotto valoriza em quatro de suas cinco obras, a infância de Jesus; valoriza Maria, que
tem destaque em todas e aparece com um manto azul; na “Crucificação” a mesma recebe um papel
diferente, e logo o veremos. Wolf acredita que estes afrescos de Giotto datem por volta de 1320.
Aqui nos debruçamos sobre o afresco “Crucificação” (Imagem I).
Imagem II – Afresco “Crucificação”, Igreja Inferior da Basílica de São Francisco, Assis.
Tratando-se de uma imagem que descreve uma cena bíblica, sem dúvida a maior base de
inspiração para ela foi o próprio relato bíblico.
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VII SEMINÁRIO DE PESQUISA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
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XIV SEMANA DE HISTÓRIA
II ENCONTRO DAS ESPECIALIZAÇÕES EM HISTÓRIA
A Crucificação é descrita pelos quatro evangelhos canônicos. No Antigo Testamento,
encontramos referências proféticas como o livro de Isaías e o Salmo 22. São narrativas dramáticas,
com forte tom emocional, ricas em detalhes e fatos extraordinários.
O livro do profeta Isaías e o Salmo 22 são ricos em explorar a comoção. O primeiro coloca
na boca do “servo de Deus”, reconhecido pelos evangelistas como o próprio Cristo (GINZBURG:
2001, p. 109): “Ofereci o dorso aos que me feriam e as faces aos que me arrancavam os fios da
barba; não ocultei o rosto às injúrias e aos escarros” (Isaías 50, 6).
O Salmo 22 se pergunta “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Sl 22, 2a), ou
ainda “Quanto a mim, sou verme, não homem, riso dos homens e desprezo do povo” (Sl 22, 7). O
Salmo 22 não possui um personagem definido, como o era o “servo de Deus” para Isaías, mas canta
a lamentação e prece de um inocente perseguido.
Os Evangelhos são a principal referência, e tendo a preocupação em demonstrar a missão
messiânica de Jesus, oferecem longos e detalhados relatos sobre a Crucificação. Os evangelhos de
Mateus e Marcos são muito semelhantes, inclusive na organização dos fatos.
Seguem a seguinte narrativa: os soldados oferecem vinho misturado a fel para Jesus, mas ele
não bebe; em seguida, os mesmos repartem as vestes de Cristo. Após ser mencionada a repartição
das vestes, os autores citam o letreiro “INRI, colocado na cruz. Após ser pregado na cruz, Jesus é
caçoado por transeuntes, pelos chefes dos sacerdotes, e pelos crucificados junto a ele. Jesus exclama
“Deus meu, Deus meu, porque me abandonastes? (uma clara referência ao Sl 22, 2a), em seguida lhe
é oferecido vinagre em uma esponja, morrendo em seguida. Após sua morte, manifestações
extraordinárias ocorreram: Mateus diz que “o véu do templo se rasgou”, houve um terremoto e
vários mortos ressuscitaram. Aqui é marcada uma diferença entre os dois evangelistas: Marcos
apenas menciona o véu do templo que se rasga. Os dois evangelistas atribuem estas manifestações ao
reconhecimento da filiação divina de Cristo por parte dos soldados. Após narrar estes eventos, os
autores mencionam as mulheres presentes durante a crucificação: Maria Madalena, Maria, mãe de
Tiago e de José, Salomé, a “outra Maria”, entre outras.
Lucas, por sua vez, começa narrando que após Jesus chegar ao lugar onde foi crucificado
junto aos malfeitores, pediu o perdão para aqueles que o torturavam, pois eles “não sabiam o que
faziam”, depois repartiram e sortearam suas vestes. Em seguida o autor relata que, tal qual Mateus e
Marcos, os transeuntes, sacerdotes e soldados caçoavam de Cristo. Lucas menciona um episódio
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importante também: um dos malfeitores reconhece Jesus como justo e Cristo diz que naquele
mesmo dia ambos partilhariam o Paraíso. Jesus entrega seu espírito ao “Pai” e expira. Em seguida o
centurião reconhece Cristo como “o justo”, a multidão percebe ter sacrificado um inocente. Por fim,
Lucas menciona a presença de todos os amigos de Cristo e das mulheres que o acompanhavam
desde a Galiléia.
A narrativa de Lucas (Lc 23, 33-49) acrescenta um importante episódio: do ladrão preso à
cruz que se arrepende, reconhece a sacralidade de Jesus e, pedindo-lhe perdão, recebe a informação
de que estará salvo no Paraíso Celeste. Os outros eventos acompanham descrições próximas dos
outros dois evangelhos. Lucas não menciona nenhuma mulher específica na Crucificação, apenas
menciona a existência de mulheres que acompanhavam Jesus desde a Galiléia.
Em João, a Crucificação está narrada no capítulo 19, ao longo dos versículos 18 a 37. O autor
inicia mencionando que Jesus foi crucificado em meio a outros dois condenados e que sua cruz era
identificada com um letreiro com os dizeres “Jesus Nazareno, Rei dos Judeus”. Em, seguida, em uma
clara alusão ao Sl 22, 19, os soldados partilham as vestes. Os versículos 15 a 27 são essenciais para o
culto mariano, trata-se do diálogo entre João e Jesus no qual o segundo “entrega” Maria aos cuidados
do primeiro.
Após, Jesus pede água, referindo-se ao Sl 69, 22 e ao Sl 22, 16, recebe vinagre e “entrega o
espírito”. A versão de João também acrescenta a perfuração feita no flanco de Cristo para averiguar
sua morte. Assim, justifica não terem quebrado os ossos de Cristo, pois segundo a ordem para comer
o cordeiro pascal dada por Moisés em Ex 12, 46, o cordeiro não deveria ter os ossos quebrados
As descrições bíblicas, tanto do evento da Crucificação em si, tanto das profecias que
culminam nela possuem forte caráter emocional. Cremos que é essa visão dramática inicial que
possibilita interpretações posteriores, como a de Giotto, que elevam a um caráter maior essa
dramaticidade.
No ciclo em que se encontra a imagem da Basílica de São Francisco, as únicas imagens
referentes ao momento da Crucificação são estas aqui estudadas. Sendo assim, Giotto precisou
escolher eventos da narrativa da Crucificação que representassem todos os outros ocorridos no
mesmo episódio. Desse modo, ele demonstrava o que não só ele, mas a espiritualidade do período
mais valorizava no episódio da Crucificação.
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Quanto aos elementos que, na imagem, contém embasamento bíblico mais explícito, a
imagem da Basílica de São Francisco retrata: a) o Cristo preso à Cruz; b) Maria e os outros
personagens (Mt 27, 55-56; Mc 15, 40-41; Lc 23, 49; Jo 19, 25-27).
Detendo-nos na imagem em si mesma. Parte considerável da imagem é preenchida por anjos,
e esses apresentam uma interessante simetria: todos os que estão ao lado esquerdo possuem um
correspondente na mesma posição do lado direito. Entre os anjos percebe-se o apelo emocional:
enquanto um anjo ao lado esquerdo de Cristo se incumbe de coletar o sangue sagrado que jorra de
seu flanco, o anjo correspondente deste, ao lado direito, rasga suas vestes expressando seu luto. Mais
do que se responsabilizar por coletar o sangue de Cristo, o que é praticado por três anjos, eles tem
um papel fundamental na trama de dor que envolve a cena.
Consideramos três principais “núcleos” na imagem: à esquerda Maria como centro de
atenção dos personagens; ao centro o Cristo crucificado, em torno do qual gira toda a imagem; e à
direita os franciscanos, os quais embora voltem sua atenção em Cristo, desenvolvem um papel à
parte e particular, o que chama a atenção para os mesmos. Vamos analisar cada um destes núcleos e
as ligações que estabelecem entre si.
No lugar nobre da imagem, no centro, está Cristo preso à cruz. Já está morto, os relatos
evangélicos dizem que ele foi perfurado em seu flanco após sua morte, e aqui o sangue proveniente
do mesmo já escorre. Desde a Alta Idade Média, a representação de Cristo é majoritariamente
enquanto Pantokrator, palavra grega para “Todo Poderoso”, comumente associado à imagem em que
Cristo aparece fazendo o sinal de benção com a mão direita e um livro na mão esquerda. Ou seja, um
Cristo em glória, em majestade, divino, que mesmo que fugisse dessa representação clássica, em
representações de cenas do evangelho, por exemplo, ainda assim tendia a ser caracterizado pela
pomposidade e poder. Esse leque de figurações de Cristo tende a aumentar com a espiritualidade
advinda e influenciada pelas ordens mendicantes (WARNER: 1976, 211).
Um dos primeiros relatos que temos de devoção a imagem do crucificado é com relação ao
culto a imagem do Cristo crucificado seminu na cidade de Narbonne, no século VI (SCHMITT:
2007, p. 168), onde a população contemplava uma imagem até antes praticamente desconhecida, só
vai se popularizar muito mais tarde com essa nova forma de ver o Evangelho.
Na imagem, há algo que merece destaque no núcleo em torno de Cristo: a cruz tem a forma
de um tau. A parte de cima do tau não é a sua continuação, apenas sustenta o letreiro. Uma imagem
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buscava por vezes na intenção de quem a encomendava suas inspirações, assim, buscamos dentro da
imagem produzida de Francisco pelas hagiografias oficiais a inspiração para a representação do tau
no lugar da cruz clássica.
A cruz em forma de tau, letra do alfabeto grego, é significativa na vida e na espiritualidade
advinda de Francisco. Na Legenda Maior (LM), São Boaventura nos diz que Francisco tinha uma
predileção especial pelo tau por ser próxima à representação da cruz, que o mesmo queria fazer
como o profeta Ezequiel (Ez 9, 4) e imprimir este símbolo em todos aqueles que sofrem e gemem, e
de todos os que sinceramente se converterem (LM, Cap IV, 9). Em outra passagem de sua obra, São
Boaventura relata que Francisco apareceu em visão a um doente, e este com um graveto em forma
de tau tocou o enfermo, fazendo com que esse ficasse curado, e no lugar da enfermidade esta foi
gravada. (LM, Cap. X, 6).
A percepção nova a respeito do divino, sua humanização, produz um Cristo sofredor. A
intenção de quem encomenda, o lugar onde está, produz um Cristo sobre o TAU, um “Cristo
franciscano”.
O núcleo à esquerda gira em torno de Maria. Ela aparece apoiada por três personagens, dos
quais dois aureolados. Maria não só é apoiada, mas desfalece, a cabeça pendendo em sinal de
sofrimento. Ela não está acompanhada de João, este está em pé, com as mãos próximas ao rosto
tendo seu olhar fixo no crucificado.
Maria aparece nas imagens de Giotto deste ciclo (Imagem I) vestida de azul, sempre com o
mesmo manto. Ela se apresenta na cena da Crucificação diferente, um manto pálido, cabelos soltos,
distanciando-se das outras representações. O que nos permite então, identificar esse personagem
como a Virgem Maria? Essa personagem é a que mais se sensibiliza com o acontecimento, em sua
expressão de dor, corpo desfalecendo etc, se exprime um grande drama, tal como aquele que os
anjos passam. O estudo do culto à Maria em dor nos permite identificá-la como tal em várias
referências culturais.
O hino Stabat Mater, do século XIII, reflete sobre as dores de Maria ao ver o filho sendo
crucificado. O culto à Maria em dor começa a crescer na Itália, França, Inglaterra, Países Baixos e
Espanha, para, até ao final do século XIV, ser popularizado (WARNER: 1976, 210). Este toma
maior robustez com o culto às sete dores de Maria, as representações de espada em torno de seu
coração, conforme a profecia de Simeão.
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Nas laudas, o objetivo da atenção dada às dores tem como objetivo comover o laudantes
(VISALLI: 2004, 241), seu sofrimento é sempre acompanhado do sofrimento de Cristo. Para Marina
Warner (WARNER: 1976, 223), a Mater Dolorosa consola o sofrido porque ela partilha seu
sofrimento, e mais que isso, satisfaz a necessidade de ver que seus sofrimentos estão em uma
linguagem universal.
Por fim, encontramos no núcleo em torno de Francisco de Assis, um importante item a ser
estudado. Ao lado direito da cruz estão alguns soldados e civis em pé, ajoelhados estão os irmãos
franciscanos.
São claramente visíveis três franciscanos. À esquerda Francisco, à direita Santo Antonio e um
outro franciscano sem auréola no meio. Giotto utiliza de sua técnica para retratar mais dois
franciscanos que, se não forem observados bem atentamente, poderiam ser menosprezados: suas
silhuetas surgem atrás de Santo Antonio e do outro franciscano. Essa técnica dá volume, Giotto não
quis representar cinco franciscanos, mas toda a Ordem dos Frades Menores é liderada por Francisco
que está à frente, mas todos estão enquanto grande ordem diante do Cristo crucificado.
Francisco tinha uma predileção especial pelo Cristo crucificado: é através da imagem do
crucifixo que escuta por três vezes a ordem “Francisco, vai e repara a minha casa, que como vês está
toda a cair” (LM, Cap. II, 4). Numa manhã na Festa da Exaltação da Santa Cruz, Francisco rezava
em uma montanha quando viu um serafim descendo do céu, e nessa criatura Francisco pôde
observar um corpo humano crucificado. Boaventura nesse trecho da narrativa diz que “Esta aparição
deixou-o profundamente assombrado, enquanto no coração se lhe misturava a tristeza com a alegria:
alegria pela expressão benigna com que se via observado por Cristo no Serafim – tristeza, porque ao
ver o sofrimento de Cristo pregado à cruz, uma espada de dor lhe trespassava a alma com dolorosa
compaixão” (LM, XIII, 5-6)250. Com essa visão, Francisco recebe as marcas em seu próprio corpo e
torna definitiva a relação do Santo – e da ordem – com o Cristo crucificado. Como já dissemos, foi a
espiritualidade do pobre de Assis que colaborou com emergência desse culto ao Cristo humano,
sofrido e morto. Converteu-se pelo crucifixo, seu manto tinha forma de cruz e, por fim, recebeu as
marcas dessa mesma cruz,
Mas, podemos nos perguntar se a presença destes franciscanos na cena da crucificação ocorre
somente pelo apreço da ordem pelo tema. Cremos que não. A ordem franciscana expandiu-se
Lc 2, 35. Trecho da Profecia de Simeão sobre Maria, é o mesmo trecho que mais tarde fará surgir na iconografia da
Mater Dolorosa pequenas espadas ao redor de seu coração.
250
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rapidamente, em poucos anos dominava toda a Europa. Setenta anos depois da fundação da Ordem,
o papa (Nicolau VI) era franciscano. A ordem precisava de uma constante reafirmação: diante dos
próprios franciscanos e de toda Igreja. Reafirmação dos ideais evangelísticos e condutores da ordem,
reafirmação frente à Igreja de uma forma de cristianismo que se diferenciava radicalmente de outras
formas de vive-lo, mais próxima ao monaquismo de séculos anteriores e a não preocupação com a
pobreza.
A crucificação é o momento auge do Novo Testamento, e consequentemente de todo o
cânon. Assim, percebemos um importante papel das imagens, que não foi destacado anteriormente, e
não se limitam somente ao medievo. Elas legitimam poder.
A imagem da corte celeste foi por diversas vezes ao longo do medievo associado ao poder
temporal dos monarcas (KLANOVICZ: 2009), legitimando-o. A imagem da Corte Celestial dentro
da sala de um governante legitimava o poder deste, seu poder temporal era reflexo do poder
espiritual de Cristo. Seguindo a mesma linha de pensamento, os franciscanos da crucificação de
Giotto legitimam e reafirmam os ideais da ordem. Além disso, recordava a espiritualidade advinda da
mesma e que logo se espalhou pelo cristianismo de fins do medievo.
Os dois núcleos, de Maria e de Francisco dependem do Cristo crucificado, os dois chamam a
atenção para si, mas apontam para o centro da imagem. Giotto não inovou, não foi o único a fazê-lo,
Cimabue pintou uma cena da crucificação na Igreja Superior em 1280 e apresentava todos os
elementos aqui estudados, ainda que com uma menor dramaticidade, mas a imagem aqui estudada
bem traduz os valores de um cristianismo que passava por mudanças, vinda da inspiração do próprio
pintor, Giotto, ou ainda sob ordem direta dos franciscanos, a imagem vem legitimar aquela que mais
tarde seria uma das mais importantes ordens e que teve papel essencial na evangelização do novo
mundo.
Bibliografia
BASCHET, Jérôme. A Civilização Feudal. Do ano mil à colonização da América. São Paulo:
Globo, 2006.
GINZBURG, Carlo. Olhos de Madeira: nove reflexões sobre a distância. São Paulo: Cia das Letras,
2001.
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KLANOVICZ, J. (et al.). “Venha a nós o Vosso reino”: a legitimação da Corte Medieval através da
imagem da Corte Celestial. In: Mirabilia, 9, 2009, pp. 133-147.
SCHMITT, Jean-Claude. O Corpo das Imagens: ensaios sobre a cultura visual na Idade Média.
Bauru, SP: EDUSC, 2007.
TOMAS DE CELANO. Tratado dos Milagres. Introduções: Frei David de Azevedo, OFM;
Tradução: Frei José Maria da Fonseca Guimarães, OFM. Disponível em:
http://www.editorialfranciscana.org/files/5707_3Celano_Milagres_(3C)_4af8505016c73.pdf, acesso
em 05/03/2013.
VAUCHEZ, André. A Espiritualidade na Idade Média Ocidental. Séculos VIII a XIII. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995.
VISALLI, Angelita Marques. Cantando até que a morte nos salve: estudo sobre laudas italianas dos
séculos XIII e XIV. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo, 2004.
________. O Crucifixo de São Damião: assim Cristo se manifesta a Francisco de Assis. In:
Notandum, 32, mai-ago 2013, pp. 85-100.
________; OLIVEIRA, Terezinha (orgs.) Leituras e imagens da Idade Média. Maringá: EDUEM, 2011.
WARNER, Marina. Alone of All her Sex. The myth and the cult of the Virgin Mary. New York:
Vintage Books, 1976.
Legenda Maior de São Boaventura. Introduções: Frei David de Azevedo, OFM; Tradução: Frei
José
Maria
da
Fonseca
Guimarães,
OFM.
Disponível
em:
http://www.editorialfranciscana.org/files/5707_1_S_Boaventura_Legenda_Maior_(LM)_4af84ffa4a
4a6.pdf, acesso em 30/08/2012.
BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2002.
Crédito das imagens
Imagem I – Afresco “Crucificação”, Igreja Inferior da Basílica de São Francisco, Assis. Disponível
em: http://www.wga.hu/art/g/giotto/assisi/lower/ceiling/09christ.jpg, acesso em 10/03/2012.
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O PAPEL FEMININO NA COMUNIDADE CRISTÃ DE CORINTO (SÉC. I D.C.)
Amanda Cristina Martins do Nascimento
Especialização em Religiões e Religiosidades – UEL
O presente trabalho consiste em algumas ponderações da minha monografia
resultante do curso de Especialização em Religiões e Religiosidades, ofertado pelo Centro de Letras e
Ciências Humanas da UEL. Trata-se de uma análise acerca do papel e da presença da mulher nas
primeiras comunidade cristãs, pertencentes ao século I d.C. Para tal empreendimento optamos por
analisar a I Carta aos Coríntios do apóstolo Paulo e a I Carta de Clemente aos Coríntios.
Analisaremos como se deu a participação feminina no movimento cristão inicial,
em um contexto histórico cultural de uma sociedade de caráter paternalista. Compreendemos que o
papel social da mulher na Antiguidade não apresenta um padrão. Apesar de encontrarmos nesse
período um mundo social que atribui uma posição submissa à mulher, observamos conflitos de
papéis que se desenvolveram por meio da grande heterogeneidade de culturas e povos nesse mundo
helenístico. Diferenças étnicas, sociais, culturais, entre outras devem ser levados em consideração
nessa complexidade que constituem o lugar social (FEITOSA, 2008, p. 125). Destarte, tanto a
masculinidade como a feminilidade são construções socioculturais que se desenvolveram ao passar
anos e séculos (BURKE, 2002, p. 75-79).
Constituindo-se um campo religioso recente, o cristianismo ofereceu um novo
espaço de possibilidades para constituição de novas identidades sociais, novas formas de condutas, e
ainda, uma busca por definições de papéis de gênero. Não obstante, segundo Maria José Rosado
Nunes (2005, p. 363): “As religiões têm, explícita ou implicitamente, em seu bojo teológico, em sua
prática institucional e histórica, uma específica visão antropológica que estabelece e delimita os
papéis masculinos e femininos.”.
Embora Corinto se localizasse na região da Grécia, a princípio ela era um centro
urbano de características romanas. Foi conquistada no ano de 146 a.C. por Roma, uma derrota que
acarretou no extermínio completo de sua população masculina adulta, na escravização do restante da
população e na destruição da cidade. A sua reconstrução e ocupação foram retomadas somente um
século depois, quando no ano de 44 a.C. fundou-se então a Colonia Laus Julia Conrinthiensis, tornandose a capital da Província da Acaia.
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Edificada em um ponto estratégico, Corinto ficava a istmo do Peloponenso. A
cidade possuía dois portos; Cencreia e Lechaeum. Principal porto da Grécia, e grande centro
manufatureiro, onde se produzia cerâmica, tapetes e minérios (KOESTER, 2005, p.124). Mais do
que edificações e estruturas semelhantes a capital do Império, as cidades sob o seu controle eram
verdadeiras reproduções da própria Roma. Um espaço constituído de elementos socioculturais
amplamente difundidos e estrategicamente trabalhados para submissão sob o pode militar e
civilizatório romano (BUSTAMANTE, 2006, p.112-113).
A I Carta aos Coríntios foi escrita entre os anos de 53 e 54 d.C., quando o
apóstolo estava em Éfeso. Como a maior parte do corpus paulinum, tratava-se de situações vivenciadas
no cotidiano da comunidade: respostas a questões levantas pelos fiéis, resoluções de problemas e
contendas, modos de agir dentro e fora da assembleia, etc.
Essa epístola também se trata de uma resposta a vários questionamentos realizados
pelos cristãos de Corinto: “Passemos aos pontos os quais me escrevestes [...]” (I Co 7, 1). Portanto,
notamos como o cristianismo ainda era um campo religioso novo, que oferecia diversas
possibilidades; questões relacionadas às suas percepções através de sua convivência com o meio e a
nova “ótica” apresentada por Paulo e o seu cristianismo. Os questionamentos apresentados pelos
fiéis coríntios também demonstram outro ponto importante nesse movimento cristão inicial; as
divergências entre Paulo e os membros apontam como o apóstolo não era uma autoridade
incontestável. A formação dos grupos cristãos, a vida em comunidade, sua autorregulação, e
principalmente, a unidade, eram os pontos elencados por Paulo em seus escritos.
Sexualidade e cristianismo: a caracterização feita por Paulo
Em princípio, o apóstolo desejava que todos seguissem o celibato como ele
(versículo sete), entretanto se caso este não fosse o dom do fiel que cada um tenha a sua esposa e
cada esposa tenha seu marido. O apóstolo Paulo inicia seu discurso sobre o casamento com uma
premissa de pertencimento mútuo:
O marido cumpra o dever conjugal com a esposa; e a mulher faça o mesmo em
relação ao marido. A mulher não dispõe do seu corpo; mas é o marido quem
dispõe. Do mesmo modo, o marido não dispõe do seu corpo; mas é a mulher quem
dispõe. (I Cor 7, 3-4).
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Esse tom de reciprocidade continua nos versículos seguintes, a respeito do
divórcio, o qual é repudiado: “Quanto àqueles que estão casados, ordeno não eu, mas o Senhor a
mulher não se separe do marido [...] e o marido não repudie sua esposa!” (I Co 7, 10-11). Ao
pensarmos essa fala no contexto judaico e romano do século I d.C. nos parece até um ato
subversivo.
Ao tratar dos indivíduos que não são casados; sejam eles por questão de divórcio,
viuvez ou por uma escolha pelo celibato, Paulo recomenda que permaneçam nesse estado:
“Contudo, digo aos celibatários e às viúvas que é bom ficarem como eu.” (I Co 7, 8). Nos séculos
posteriores a prática do ascetismo no cristianismo será longamente discutida, e até servirá como um
demarcador de status religioso, principalmente nos séculos IV e V d.C.: “O ascetismos vinha a ser a
marca do cristianismo autêntico numa sociedade em que ser cristão não mais precisava fazer
qualquer diferença na vida de uma pessoa.” (MARKUS, 1997, p.46).
Já nos séculos I e II d.C. esse comportamento serviu como predicativo cristão que
distinguia a moral cristã da moral geral. Os próprios fiéis de Corinto indagam sobre isso: “Passemos
aos pontos sobre os quais me escrevestes. ‘É bom ao homem não tocar em mulher’” (I Co 7, 1).
Segundo Peter Brown (2009, p.220), havia um certo puritanismo da regulação da moral sexual do
homem romano, principalmente por parte dos notáveis. O ato sexual poderia causar-lhe o
“resfriamento” do temperamento, isto é, “[...] a perda de seus recursos se revelaria então com a
impiedosa clareza, através de uma perda de entusiasmo na cena pública.”; (BROWN, 2009, p. 234).
Portanto, através da abstinência sexual os notáveis poderiam manter em exercício seu principal papel
na sociedade antiga, o de homem público.
Podemos perceber algo de semelhante na fala do apóstolo Paulo ao justificar sua
preferência pelo celibato:
Eu quisera que estivésseis isentos de preocupações. Quem não tem esposa, cuida
das coisas do Senhor e do modo de agradar ao Senhor. Quem tem esposa, cuida
das coisas do mundo e do modo de agradar à esposa, e fica dividido. Da mesma
forma, a mulher não casada e a virgem cuidam das coisas do Senhor, a fim de
serem santas de corpo e de espírito. Mas a mulher casada cuida das coisas do
mundo; procura como agradar ao marido. (I Co 7, 32-34)
Para o apóstolo, o matrimônio denota serviço e charisma (MEEKS, 2000, p.160). Primeiramente, ela
é um dom de Deus (I Co 7, 7), algo que não deve ser rejeitado, mas sim, exercitado pelos fiéis, por
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isso o Paulo decorre nesse capítulo (nos versículos já mencionados acima) sobre o papel do marido e
da esposa.
Participação nas reuniões
No princípio, as reuniões cristãs pareciam ser bastante diversas; Paulo nos fala da
realização da Ceia do Senhor (em I Co 11, 17-34), e das possibilidades de algumas práticas: cânticos,
ensinamentos, revelações, etc. (I Co 14, 26-31).
Tanto a assembleia reunida como a comunidade cristã é denominada no grego de
ekklesia, no contexto do mundo antigo esse termo não significava apenas uma reunião, mas consistia
em uma reunião de cidadãos livres do sexo masculino de uma cidade que se uniam para tomar
decisões políticas (MEEKS, 2000, p.167).
Acerca da participação feminina, temos a seguinte passagem:
Como acontece em todas as Igrejas dos santos, estejam caladas as mulheres nas
assembleias, pois não lhes é permitido tomar a palavra. Devem ficar submissas,
como diz a Lei. Se desejam instruir-se sobre algum ponto, interroguem os maridos
em casa; não é conveniente que a mulher fale nas assembleias. Porventura, a palavra
de Deus tem seu ponto de partida em vós? Ou fostes vós os únicos que recebestes?
Se alguém julga ser profeta ou inspirado pelo Espírito, reconheça, nas coisas que
vos escrevi, um preceito do Senhor. (I Co 14, 33-37).
Parece-nos aqui que o apóstolo após sustentar a equidade no matrimônio, no
divórcio, e na escolha pelo celibato, converge-se em visão patriarcal, remetendo-se até a lei judaica. E
ainda, nesse trecho há uma insistência em se afirmar que seus escritos devem ser seguidos, pois são
princípios regrados pelo próprio Deus, que se difere das outras discussões, nas quais Paulo oferece a
sua própria opinião em alguns momentos e, em outros, os ensinamentos divinos.
Segundo historiadores, teólogos, entre outros estudiosos, esse trecho seria na
verdade, uma interpolação, isto é, uma inserção posterior de outro indivíduo, provavelmente um
discípulo de Paulo. Uma das primeiras evidências é a posição dessa passagem, nos manuscritos mais
antigos esses parágrafos se encontram ao final da carta. Outro apontamento que nos indica isso é que
esse trecho acaba entrando em contradição com trecho anterior:
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Mas toda mulher que ore ou profetize com a cabeça descoberta, desonra a sua
cabeça; é o mesmo que ter a cabeça raspada. Se a mulher não se cobre, mande
cortar os cabelos! Mas, é vergonhoso para a mulher ter os cabelos cortados ou
raspados, cubra a cabeça! (I Co 11, 5-6) (Grifo nosso).
Podemos ver claramente que a mulher exerce a mesma atividade que o homem, ela
ora e profetiza nas assembleias. A atuação participativa feminina nas reuniões cristãs continua ao
longo dos séculos. Segundo Monique Alexandre (1990, p.534) Marcião criou uma igreja na qual
mulheres exerciam funções sacerdotais, desde a pregação até o batismo. Além disso, encontramos na
iconografia funerária do século III d.C. a imagem da mulher orante, utilizando o véu, com as mãos
elevadas .
A utilização do véu para as mulheres ditadas pelo apóstolo Paulo retrata uma
questão cultural do período. Trata-se de um código de vestuário pertencente à sociedade antiga, de
diferenciação entre as vestimentas masculinas e femininas. Segundo Keila Matos (2004, p.109-110),
para uma mulher andar de cabelos soltos em Corinto teriam apenas três significados: o luto, o
adultério, ou a participação no culto de Ísis, Afrodite e/ou Dionísio.
A ênfase de Paulo sobre o uso do véu (“desonra”) indica que as coríntias não
estavam se atendo a essa prática; e assim, que elas devessem valer-se do véu, principalmente “por
causa dos anjos” (I Co 11, 10). Ainda, segundo Matos (idem, p.112) as cristãs coríntias acreditavam
que a liberdade no Senhor (I Co 7, 22) suplantava qualquer outro tipo de sujeição social e/ou
cultural.
Destarte, notamos como o papel feminino era importante na comunidade Corinto.
Assim como o homem, a mulher exerce diferentes atividades na Igreja cristã primitiva. Paulo
apresenta uma dicotomia, uma divisão das questões culturais das questões “celestiais”. Ele condenava
tudo que aparentasse um escândalo, seja para os nãos cristãos como para com os próprios membros
da comunidade (I Co 10, 32), todavia “diante do Senhor”, há uma igualdade encontrada na
“caridade”: “Agora vemos em espelho e de maneira confusa, mas depois, veremos face a face. Agora
meu conhecimento é limitado, mas, depois, conhecerei como sou conhecido.” (I Co 13, 12).
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As Mulheres em I Clemente
A partir do ano 70 d.C., novos personagens assumem a responsabilidade da
pregação e manutenção do Evangelho. Por conseguinte, abarcaremos aqui o texto de Clemente
Romano à Igreja de Corinto, escrito entre os anos de 95 e 96 d.C., uma comunidade mais
estruturada, porém, ainda com problemas internos a serem discutidos e resolvidos.
Clemente aborda diversas personagens femininas como modelos a serem seguidos
ao longo de seu texto; entre elas Raabe (I Clemente 22, 1) e Judite (I Clemente 55, 4) do Antigo
Testamento. Já, ao dar um exemplo mais próximo ao seu tempo, o autor traz à tona dois novos
personagens Danaides e Dircae.
As mulheres foram perseguidas como Danaides e Dirces e sofreram terríveis
tormentos e profanações por causa de ciúme. Mas elas com confiança completaram
a corrida da fé, embora com um corpo fraco, eles receberam uma recompensa
nobre. O ciúme alienou esposas de seus maridos e anulou o que foi dito pelo nosso
pai Adão, "Esta agora é osso dos meus ossos e carne da minha carne". Ciúmes e
contendas derrubaram grandes cidades e desenraizaram grandes nações. (I
Clemente 6, 2-4) (Tradução nossa)
Os primeiros cristãos sofreram várias perseguições já no século I d.C., por serem,
a princípio, vistos como uma seita judaica, e assim, serem expulsos de Roma (como o caso já
mencionado do Imperador Cláudio, em 49 d.C.). Já no ano de 64 d.C., os cristãos foram acusados
por Nero por serem os causadores do incêndio de Roma, e novamente sob o poder de Dominiciano
ao final de seu governo, que se estendeu de 81 a 96 d.C. (citada em I Clemente 1).
Infelizmente encontramos escassas evidências acerca dessas duas personagens
femininas, Philip Schaff (1998, p.323) aponta a existência de uma lenda sobre Dirces (Dircae).
Segundo a narrativa, Dirces morreu durante a perseguição de Nero, foi amarrada a um touro
selvagem e arrastada até a morte. Podemos inferir, a partir desse contexto e da carta de Clemente,
que Danaids tenha tido um final semelhante.
Silvia Siqueira, em seu artigo “Memória das Mulheres Mártires: modelos de
resistência e liberdade”, aborda o papel das mulheres mártires no século III d.C., porém,
encontramos semelhanças em sua análise com o tratamento de Clemente as mulheres; entre elas a
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caracterização das mulheres como seres de natureza fraca, porém presenteadas com a virilidade nos
momentos de provação, como vemos neste trecho:
Muitas mulheres foram capacitadas pelo dom da graça de Deus para realizar
inúmeras obras de caráter "varonil". A bem-aventurada Judite, quando sua cidade
estava sob cerco, pediu aos anciãos permissão para sair para o acampamento dos
estrangeiros. E assim ela se entregou ao perigo, porque ela amava a sua terra natal e
ao povo que estava sitiado. E o Senhor entregou Holofernes sob a mão de uma
mulher. Nada menos que Ester, uma mulher perfeita na fé, colocou-se em perigo
para salvar as doze tribos de Israel que estavam prestes a perecer. Pois através de
seu jejum e humildade, ela pediu ao Mestre que tudo vê, o Deus da eternidade, que
viu a humildade de sua alma e resgatou as pessoas por quem ela se colocou em
perigo. (I Clemente 55, 3-6). (Grifo nosso).
A palavra utilizada no original grego para descrever o caráter dessas mulheres é ἀνδρεία, o que pode
significar “força de espírito”, mas também “virilidade” e “masculinidade”. No artigo de Siqueira, que
estuda o caso das mártires Perpétua e Felicidade, ela encontra os mesmos adjetivos para a descrição
dessas personagens; a virilidade, ou até mesmo a transformação propriamente dita de uma mulher
em um homem, em uma visão de Perpétua registrada em seu diário (SIQUEIRA, 2006, p.69).
Porquanto, para Clemente, as personagens femininas apresentam valorosas qualidades, são modelos
edificantes para a comunidade de Corinto. Mulheres que se entregaram ao perigo, correndo risco de
morte, ou ainda, morreram pela causa de Deus, seja no passado do Antigo Testamento, ou no
momento da presente ao qual ele escreve.
Contudo, a mulher ainda era vista como um ser frágil, que somente através da oração, do jejum, de
uma vida dedicada a Deus alcançariam os dons necessários para completar seu serviço.
Ainda, Siqueira (Idem, p.73) afirma:
A mensagem simbólica é que as mulheres são tão dignas de ações heroicas quanto
os homens. Contudo, é necessária a correspondência adequada ao seu sexo. Podese perceber uma paridade entre os homens e as mulheres que enfrentaram a dor
sob o martírio e morreram em nome da causa cristã. Não obstante, os textos
demonstram que, no caso das mulheres, a vitória sobre a “fraqueza natural de seu
sexo” é um obstáculo maior a superar, sendo necessário demonstrar uma coragem
“viril”.
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Submissão e Liberdade
No decorrer da carta percebemos como são demarcadas as funções sociais,
principalmente para as esposas. Essa função pode variar entre dois polos; primeiramente Clemente
exorta as mulheres a serem dedicadas à missão familiar, submissas a amar seus maridos:
Você dirigiu as mulheres a realizar todas as coisas com inocência, sem culpa,
respeitosamente, e pura, obedientemente amar seus maridos. E você ensinou-as a
gerir suas famílias respeitosamente, vivendo sob a regra de submissão, praticando
discrição em todos os sentidos. (I Clemente 1, 3) (Tradução Nossa).
Como afirmamos acima, Clemente procurou manter a ordem da igreja de Corinto.
Assim, no decorrer da carta, o autor repete o termo submissão diversas vezes, não somente para as
esposas, mas também para diferentes grupos. Os fiéis devem ser submissos às lideranças da
comunidade (I Clemente. 1, 3); submissos a palavra de Deus (I Clemente. 13, 3); ou seja: “[...] em
Cristo Jesus, e deixe que cada pessoa sujeita ao seu vizinho, de acordo com o dom da graça que
recebeu.[...]” (I Clemente. 38, 1).
Dessa maneira, o papel social da mulher que recebeu o carisma de se casar estaria
ligado ao marido e a casa. Além disso, em I Clemente 21, 6b-7, o autor apresenta quais seriam os
dons das esposas cristãs, e ainda, que estas devem manifestá-los sem restrições:
Deixe que elas demonstrem um caráter de pureza, digno de amor; deixe-as expor a
vontade inocente de sua mansidão; deixe então manifestar-se a delicadeza de suas
línguas através da fala; deixe-as mostrar seu amor e não com parcialidade, mas
também a todos aqueles que estão em reverente temor de Deus em caminho santo.
(Tradução nossa).
Observamos claramente nessa passagem o incentivo à participação feminina na
comunidade coríntia. Pureza, inocência, mansidão, delicadeza eram as qualidades femininas que
deveriam ser expressas pela esposa cristã. Clemente pode parecer ambíguo, mas deve-se salientar o
contexto desse documento, compreender em que universo ele foi escrito.
O objetivo da escrita dessa carta é manter a unidade em meio à diversidade,
problemas internos e inquietações externas estão presentes na Igreja cristã. Essa conjuntura
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problemática de Corinto faz com que Clemente busque a manutenção da liderança da comunidade,
como a ordenação das funções e papéis dos fiéis.
Seguindo essa lógica, cada dom deve ser exercido a serviço da comunidade. Por
conseguinte, havia cristãos que deveriam liderar, outros deveriam segui-lo, uma vez que era a vontade
divina se realizando na Igreja. O respeito às lideranças dentro da comunidade coríntia é um tema
principal da epístola, como na analogia acima apresenta por Clemente.
Conclusões
O objetivo de nosso estudo foi problematizar o papel feminino nos momentos
iniciais do cristianismo, suas funções sociais, seu comportamento, a forma como outros indivíduos
tratavam as mulheres. Como não há documentos escritos pelas próprias mulheres nesse período,
analisamos suas “aparições” nas vozes de Paulo e Clemente (e também o indivíduo que escreveu a
interpolação no texto paulino).
Portanto, não havendo uma organização eclesial estabelecida, os membros da
comunidade não tinham suas funções instituídas. Assim, homens e mulheres têm uma maior
liberdade para criar e recriar as práticas cristãs. Essa liberdade foi até certo ponto limitada pelas
ponderações de Paulo, contudo, por mais que este tenha sido o criador da comunidade coríntia e
tenha uma autoridade que advém de sua posição de apóstolo (I Co 9, 2), ainda notamos no corpus
paulinum, por meio das questões apresentadas pelos fiéis, como isso era alvo de discussões.
Já em I Clemente, não notamos nenhuma utilização de poder autoritário pelo
autor. A epístola trata de uma comunicação entre a comunidade de Corinto e a comunidade
estabelecida em Roma. Porém, assim como Paulo, Clemente deseja que a igreja continue unida. Suas
preocupações dirigem-se a um grupo específico, indivíduos que depuseram presbíteros instituídos.
Do mesmo modo que Paulo enfrentou dissidências entre os fortes e os fracos na década de 50 d.C.,
Clemente enfrenta um perigo semelhante em 90 d.C. O objetivo dos dois autores é a de findar com
essas cisões e trabalhar na coesão da igreja.
Embora a unidade da comunidade seja objetivo comum a ambos os textos,
encontramos alguns elementos contrastantes. Enquanto Paulo atacou os problemas da igreja coríntia
um a um, Clemente elegeu apenas um grupo, e ainda, uma questão a ser trabalhada ao longo de sua
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carta. Os autores apresentam metodologias diferentes ao tentar resolver as divisões postas pelos
próprios fiéis de Corinto. O apóstolo ofereceu o caminho da solidariedade vivida em comunidade;
solidariedade esta que cada fiel deveria ter para com o seu irmão.
Mais de quarenta anos depois a comunidade coríntia recebeu uma carta vinda de
Roma. Embora I Clemente aos Coríntios seja um escrito extenso, não encontramos tantos
problemas como os relatados no texto paulino. Clemente edificou a igreja por meio de elogios aos
fiéis e recordando personagens da história religiosa judaico-cristã. Nessas figuras são ressaltadas
características como a profecia, a fé, dedicação, humildade e virilidade. As personagens femininas
citadas são exemplos a ser seguidas, “heroínas” do cristianismo antigo. Porém, além das qualidades
comuns a todos os cristãos elas venceram a sua fraqueza natural, ou seja, o sexo feminino era visto
como frágil e, graças a sua vida de oração, meditação e dedicação foram capazes de se equiparar ao
homem em seus atos cristãos.
Em I Coríntios observamos como as mulheres têm diferentes papéis, e que Paulo
associou essas funções (não somente das mulheres, mas dos cristãos de modo geral) com o dom ou
carisma de cada fiel. De virgens, viúvas, as esposas; cada uma delas tem caracteres e serviços
específicos na igreja. O que elas têm em comum é a liberdade de expressão nas assembleias, fato
significativo para as mulheres na Antiguidade. Enquanto que nos cultos romanos haviam grupos
somente constituídos de mulheres para práticas religiosas especificas, aqui observamos como
homens e mulheres participam intensamente, dividindo o mesmo espaço.
Isso ocorreu também graças a que tipo de espaço essas reuniões acontecia: a casa.
Notamos como essa liberdade é exercida na utilização dos véus:
Conforme Foulkes (1993, p. 89), é provável que as mulheres profetas achassem que
ao celebrarem os cultos cristãos em suas casas, por não ser um lugar público,
pudessem desempenhar seu papel na liturgia com a cabeça descoberta. (MATOS,
2004, p.112)
Então, notamos que além de se expressar as cristãs estavam criando novas práticas
cultuais, como a exclusão do véu (que foi criticada por Paulo). Porém, nem todos os cristãos
concordavam com essa liberdade, como mostra a inserção de I Coríntios 14, 33-37.
Embora Clemente não se remeta aos cultos da comunidade, observamos que
Raabe é tida pelo autor como uma profetisa (I Clemente 12, 8). Ou seja, para o autor, não seria algo
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impossível uma mulher profetizar (ainda que ela tenha sido uma prostituta). Contudo, sua carta cria
um modelo de comunidade cristã ideal, hierárquica, que não era presente no período de I Carta aos
Coríntios. Clemente ressalta apenas as qualidades que ele julga necessárias para os fiéis e para a igreja
cristã. Como afirma Alexandre (1990, p.515): “Às primeiras comunidade urbanas, carismáticas,
sucede a uma Igreja hierarquizada [...]”; porquanto, notamos um princípio dessa igreja pregada por
Clemente.
O apóstolo Paulo fez a seguinte proposição em Gálatas 3, 28: “Não há judeu nem
grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos sois um só em Cristo
Jesus.” Porém, em I Co 7, 17 ele diz: “Ademais, viva cada um segundo a condição que o Senhor lhe
assinalou [...]”. Ao profundarmos nossa análise sobre Paulo entendemos que sua pregação era
ponderada, isto é, por mais que seu cristianismo fosse “radical”, ele ainda estava inserido dentro da
cultura do mundo social ao qual pertencia. O mesmo Paulo achava vergonhoso uma mulher
profetizar ou orar na assembleia de cabelos raspados ou sem o véu (I Co 11, 4-6).
Enquanto que I Clemente o papel feminino já passa por uma configuração mais
submissa, porém, seguindo o modelo ideal de comunidade hierarquizada proposto na fala do autor.
Junto com Paulo e Clemente ainda temos mais um escritor em nossas fontes que
se dedica as mulheres; em I Co 14, 34-38. Esse personagem desconhecido pregou que as mulheres
deveriam se expressar nas assembleias através do silêncio. Essa interpolação nos revela que já haviam
indivíduos que tinham uma opinião de que o papel da feminino seri
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