A ORIENTAÇÃO DE PESQUISA NOS PROGRAMAS DE
PÓS-GRADUAÇÃO
Prof. Dr. Mario Osorio Marques ∗
Os programas universitários de pós-graduação visam à formação de
pesquisadores que desde o começo desenvolvam suas próprias pesquisas exercendo uma
autoria que se defina como produção de uma diferença, sua própria marca, numa rede
intertextual, vale dizer intersubjetiva, de significantes, onde exerce o escrever papel
fundante, sendo ele tanto ato inaugural como princípio de direção e de condução, princípio
de autoria, vale dizer da unidade e coerência do texto, princípio fundador da discursividade.
Não se pensa e não se fazem leituras antes, para depois pesquisar e escrever.
Escreve-se para saber o que pesquisar, saber o que ler, para pensar e descortinar caminhos
novos. Pensar é dizer-se a alguém outro. No caso da escrita, um outro cujas reações não se
conhecem: são provocativas, mas geram inseguranças. Por isso, em se tratando de programa de
formação universitária para a pesquisa, exige-se acompanhamento por parte de um interlocutor
na qualidade de orientador para tanto designado.
Temos assim desenhados os três momentos dessa exposição: a) a formação
universitária para a pesquisa; b) o escrever, princípio da pesquisa; c) competências e
atribuições do orientador designado pelo programa.
A) FORMAÇÃO UNIVERSITÁRIA PARA A PESQUISA
A política brasileira de pós-graduação traçada especificamente a partir de 1975
no I Plano Nacional de Pós-Graduação define como objetivos a formação de professores
melhor qualificados para o ensino superior e a formação de pesquisadores para o trabalho
científico (Barros, 1998, p. 119). Mas esses dois objetivos devem conceber-se hoje em
unidade, tratando-se na verdade da formação continuada do professor-pesquisador, uma
exigência posta pelos dinamismos da reconstrução continuada dos saberes.
Salienta Pierre Lévy (1999, p. 169) que a aceleração geral da temporalidade
social e o ritmo precipitado das evoluções científica e técnica fazem com que não estejamos
mais confrontados a saberes estáveis legados pela tradição, mas a saberes em fluxo, entre os
∗
Professor no Programa de Pós-Graduação em Educação nas Ciências, da Universidade Regional do Noroeste do Estado do
Rio Grande do Sul – UNIJUÍ
2
quais devemos aprender a navegar construindo nossos próprios saberes. Isso nos permite
afirmar que toda a educação se deve agora realizar pela pesquisa, transformando-se aquele
professor que transmitia aos alunos seus saberes em orientador dos estudos de cada aluno.
E isso vale, crescentemente, para os cursos universitários de graduação e de
pós-graduação lato e stricto sensu, definindo-se hoje, oficialmente, a universidade como
instituição de pesquisa, uma abrangente articulação de linhas institucionais programáticas de
pesquisas, em que se insiram níveis diferençados de cursos e programas. Referimo-nos de
ora em diante mais explicitamente aos programas universitários de mestrado e doutorado,
que visam à formação para a pesquisa autônoma.
Concebe-se o mestrado como primeiro momento dessa caminhada rumo à
autonomia do pesquisar sempre, uma iniciação a ser consolidada no doutorado. Como
afirma Saviani (1991, p. 163),
enquanto para o mestrando a autonomia intelectual e a originalidade constituem
ponto de chegada, um resultado, para o doutorando esses requisitos se põem no
ponto de partida como condições prévias para a realização do processo de formação
do pesquisador.
Se a dissertação discorre sobre algo não só narrando um processo mas justificando
com argumentos cada passo dado, estabelecendo relações pontuais, cercando um tema,
descortinando horizontes, – a tese afirma ou nega algo de algo, significando autonomia de
formulação própria de determinado assunto ao qual se dedicará o pesquisador feito membro
ativo de determinada comunidade de pesquisadores (Marques, 1997, p. 132-9).
Mas, o que é pesquisar? No meu entender é produzir um texto de rica
intertextualidade onde se conjuguem, em uma intersubjetividade sempre ativa e provocante
desde suas bases socioculturais, as muitas vozes de uma comunidade argumentativa
especialmente convocada para o debate em torno de determinada temática; sejam as
experiências do pesquisador, sejam os testemunhos de um campo empírico, sejam os
testemunhos do respectivo campo teórico (Marques, p. 98-120).
Em tudo isso afirma-se a autoria do pesquisador como aquele que assume suas
responsabilidades jurídico-institucionais e morais pela unidade e especificidade, isto é, pelas
diferenças que ele imprime a seu texto no confronto com outros textos. Nesse sentido, a
originalidade não consiste em dizer coisas inteiramente novas, mas em expressar de maneira
própria e no contexto de seu texto o que outros em outros contextos disseram. No caso da
citação, por exemplo, o autor atribui ao texto lido os significados de sua escolha e o insere no
próprio texto, onde as palavras assumem seu efetivo valor de uso.
3
Mais abrangentemente, podemos dizer com Truman Capote que se a idéia nos
cativou nos pertence e nos persegue até que a façamos de direito nossa ao citá-la, e com
Françoise Sagan : “Se está em minha mente pode transformar-se em algo diferente”
(Cowley, 1982, p. 118 e 124). Essa substituição de sentidos mantém, no entanto, relação
especial com o texto de origem e deve ser autenticada por sua referência localizada
(Marques, 1997, p.107-14).
B) ESCREVER, O PRINCÍPIO DA PESQUISA
Se a pesquisa se concretiza na urdidura de texto de autoria própria, então se
constitui o escrever em princípio da pesquisa, tanto no sentido de por onde deva ela iniciar
sem perda de tempo, como no sentido de que é o escrever que a desenvolve, conduz,
disciplina e faz fecunda.
Muito tempo se perde em construir prisões onde enclausurar-se, tanto sob a
forma de um referencial teórico preconcebido, quanto sob a forma de uma metodologia
eleita desde o início. São expedientes que amarram e bitolam o livre fluir da pesquisa. Na
verdade, não se pensa para escrever, que isso seria copiar, repetir apenas o que já se sabia.
Mas se escreve para pensar descortinando novos horizontes, novos campos para os
exercícios da imaginação criadora. E não se lê antes para depois escrever, o que seria de
novo apenas um ato de copiar. Mas, deve-se escrever para em cada tópico da pesquisa buscar
desenvolvê-lo em parceria com outros autores de forma a enriquecê-lo de significados com o
apoio de ou no confronto com textos alheios.
No escrever faz-se a pesquisa uma interlocução de muitas vozes, uma ampliação
de perspectivas, abertura de novos horizontes, reconstrução de saberes prévios sob a forma
de saberes outros. Na dinâmica da conversa puxa conversa e assunto puxa assunto, os
saberes de cada interlocutor – leitores à espreita em presença tácita, confidentes, autores
convocados com suas obras, sujeitos de práticas sociais a quem se ouve e os saberes de quem
escreve – tais saberes se fundem e se transformam, reformulam-se.
Mas, entre todos esses interlocutores destaca-se o virtual leitor sempre presente
numa presença não apenas suposta, mas real e atuante, tanto mais eloqüente quanto mais
calada. À diferença do interlocutor em presença física na fala-escuta, a interromper a cada
instante a conversação até por um simples jogo fisionômico, no escrever o virtual leitor
4
interage com o escrevente sem interromper-lhe o curso do pensar, antes aprofundando-o e
cobrando coerência e inteligibilidade.
E um outro interlocutor-leitor acompanha o escrever-pesquisar nos programas
universitários: o orientador para tanto designado, em cujas competências e atribuições nos
devemos agora concentrar.
C) COMPETÊNCIAS E ATRIBUIÇÕES DO ORIENTADOR DESIGNADO PELO
PROGRAMA
Nos programas universitários, impõe-se o acompanhamento solícito de um leitor
qualificado: o Orientador da Pesquisa. Orientar significa, de início, ajudar o orientando a
descobrir o que quer investigar, a delimitar seu tema/hipótese de trabalho traduzido em título
conciso, capaz de se decompor em capítulos e estes em tópicos distintos. Arma-se assim o
roteiro da pesquisa, desenho sumário que lhe define os rumos embora provisórios, desde que
escrever supõe reescrever sempre de novo.
Já nesse aquecimento inicial, e sempre depois no acompanhamento da pesquisa,
cabe ao orientador ler com atenção o que o orientando vem escrevendo, auxiliando-o, menos
com sugestões do que com perguntas que o levem a produzir seus próprios saberes, com
autonomia e competência, saberes corporificados em texto pertinente, bem urdido e
conseqüente.
Cumpre aqui insistir que cabe ao orientando assumir a autoria de seu texto. O
estudante/aprendiz de pesquisa importa trabalhe em pesquisa sua assim como o transeunte
decide por onde transitar, orientado, isto sim, por alguém que conhece os segredos e as
regras do trânsito. O Orientador de pesquisa é alguém que acompanha os passos de seu
orientando, um leitor, não alguém que escreva-pesquise em lugar do aprendiz, nem alguém
que o convoque para trabalho alheio.
O pesquisador, mesmo se iniciante-aprendiz, tem já sua própria história, sua
experiência de vida e trabalho. É daí que tira as perspectivas de suas novas aprendizagens
através da pesquisa que pretende realizar. Não se aprende a partir do nada pois a
aprendizagem é reconstrução de saberes prévios e a pesquisa é a maneira de assumir o
comando dessa reconstrução.
Por outra parte, ninguém nasce autor/pesquisador; ele se constitui ao longo de
uma prática que se vai tornando mais personalizada por sua ativa inserção, como em corrida
5
de revezamento, numa práxis da negação do ser biológico pela afirmação do ser social na
intergênese da obra singular com uma imensa produção que a precede e a que ela dá
continuidade.
Nesse constituir-se pesquisador plasma-se o estilo dele como autor do que escreve,
sua maneira particular suada e sofrida de expressar-se para além de sua biografia particular,
porque imerso no mesmo oceano em que navega com outros muitos. Só com o continuado
escrever passa o escrevente a se reconhecer e a se refazer no que escreve, incorporando-lhe o
instinto, as gingas e os requebros, como uma segunda natureza. Uma natureza social e
culturalmente reconstruída porque no confronto das leituras que faz e das que propicia a
possíveis leitores a cujos olhares não se pode ele furtar. E, no caso do pesquisador iniciante, sem
a vigilância ativa do leitor qualificado que denominamos orientador.
Por isso, só se admite o recurso ao orientador quando possa o orientando
levar-lhe algo para ler; um rascunho, um esboço, as intenções primeiras, o início, a
matéria-prima da pesquisa. A partir desse ainda que tosco desenho, irá ela configurar-se,
com o auxílio, o quando antes possível, de seu Orientador.
É, assim, desde a leitura das perspectivas do orientando, que se inicia o trabalho da
orientação, leitura centrada no fluir do texto da pesquisa, atenta aos significados que o autor
intenta imprimir-lhe. Não a leitura daquele outro leitor que vai atribuir ao texto publicado os
sentidos de sua própria escolha.
À medida que a pesquisa define sua estrutura e toma corpo, desde a enunciação
de seu tema/hipótese em título adequado e da configuração dela em capítulos e tópicos
específicos, estará a leitura pontuadora/orientadora atenta a que se desenvolva ela com
intencionalidade, intertextualidade, unidade, coerência, continuidade, congruência e
consistência.
São essas características da boa pesquisa o principal objeto da leitura do
Orientador e, ao mesmo passo, o é aquela vigilância ativa do analista no sentido de levar o
pesquisador iniciante a descobrir o que realmente pretende, o que busca. Trata-se de
trabalhar o tempo todo o desejo do pesquisador para que se faça explícito e operante, para
que se desfaçam os medos e as angústias, os bloqueios ao desnudar-se, ao ir a fundo nas
questões suscitadas. Para que passem suas conquistas por um circuito de reconhecimento,
pela necessária certificação social, sem a qual não saberia o pesquisador se delira ou se está
em condições de se entender com seus outros.
Por isso, o que importa não é a pesquisa em si e por si mesma. O que interessa é
a constituição do pesquisador. Sendo ele iniciante, muito mais facilmente aprenderá tendo
6
em quem amparar-se. Sobretudo, alguém social e institucionalmente reconhecido e
designado para essa tarefa de condução pedagógica rumo às aprendizagens requeridas.
E a esse objeto em si da orientação se agregam os seus aspectos instrumentais,
como a sugestão de conversas e leituras apropriadas, as instruções para uso de determinadas
técnicas de trabalho, os pequenos segredos que só a prática compartilhada aponta.
Vale aqui tudo o que vale para o trabalho do educador que busca inserir o educando
no fazer-se homem entre os homens, pesquisador entre os pesquisadores, ao mesmo passo que
sujeito singularizado de seus próprios saberes, com autonomia e competência (Marques, 1997,
p. 105).
Palavras-chave: Pesquisa/ Autoria/ Escrever/ Orientação.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARROS, Elionora Maria Cavalcanti de. Política de Pós-Graduação: um estudo da
participação da comunidade científica. São Carlos : EDUFScar, 1998.
COWLEY, Malcon. Escritores em ação: as famosas entrevistas à “Paris Review”. Rio de
Janeiro : Paz e Terra, 1982.
MARQUES, Mario Osorio. Escrever é preciso: o princípio da pesquisa. Ijuí : Editora
UNIJUÍ, 1997.
LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo : Editora 34, 1999.
SAVIANI, Demerval. Concepção de dissertação de mestrado ..In: CRUB – Conselho de
Reitores das Universidades Brasileiras. Brasília: Revista Educação Brasileira,
v.13, n. 27, jul./dez. 1991, p. 159-68.
Download

III SEMINÁRIO DE PESQUISA EM EDUCAÇÃO