Discursos e memória na fotografia de Paula Sampaio
Shirley Penaforte1
RESUMO: Pretende-se analisar os discursos que estão em circulação na poética visual
das fotografias produzidas ao longo da trajetória de artista de Paula Sampaio, fotógrafa
mineira contemporânea, estabelecida na Amazônia desde o início da década de 1970. O
tratamento estético utilizado nas imagens produzidas por Paula Sampaio desloca a
realidade, porém suas imagens não perdem sua força poética e seu teor político, muito
antes, alguns destes traços acentuam ainda mais a crítica social presente em suas
imagens. Este artigo visa analisar discursivamente algumas fotografias de Paula
Sampaio, tomando como base teórica as definições de memória a partir de autores como
Halbwacs, Pollak e Bakhtin. As discussões sobre memória fazem parte do discurso
fotográfico: as imagens são atravessadas de memória. Também serão considerados
outros aspectos teóricos voltados para as análises das relações de poder de Foucault, os
aparelhos ideológicos de Athusser e o caráter ideológico da definição de signo de
Bakhtin.
Palavras chave: Amazônia, Paula Sampaio, fotografia, memória.
1
Shirley Penaforte é mestranda em Comunicação linguagens e cultura na Universidade da Amazônia
Abstract: This article is intended to analyze the messages that are in circulation on the
visual poetics of the photos made by Paula Sampaio. Established in Amazon since 1970.
Her work changes the reality, but don’t loses the politics essence. Starting of the
theoretical basis of memory from Halbwacs, Pollak e Bakhtin. Considering the theory
of power from Foucault, Athusser with Ideological Apparel and Bakhtin with the theory
about sign.
Key Words: Amazon, Paula Sampaio, photography, memory.
Imagino o artista num anfiteatro
Onde o tempo é a grande estrela
Vejo o tempo obrar a sua arte
Tendo o mesmo artista como tela
No anfiteatro, sob o céu de estrelas
Um concerto eu imagino
Onde, num relance, o tempo alcance a glória
E o artista, o infinito
Chico Buarque
1. Fronteiras
Figura 01 – Atoleiros
Foto: Paula Sampaio
Sempre em branco e preto, Paula Sampaio coleciona imagens, desde 1990, com
uma coragem incomum e com singular criatividade suas primeiras fotografias narram
sobre cotidiano de migrantes, que se espalharam ao longo das rodovias Belém-Brasília e
Transamazônica. Trabalhadores em sua maioria nordestinos ocuparam as rodovias com
as mãos prontas para o trabalho e as malas cheias de esperanças. Esperanças
alimentadas por promessas esquecidas e ignoradas do então governo militar General
Emílio Garrastazu Médici, que em 1970, pretendia dar continuidade ao seu projeto de
modernização do Brasil, integrando a Amazônia ao resto do país.
Foi com a total identificação com os problemas das regiões que Paula Sampaio
se lançou o desafio de registrar o cotidiano, as histórias e as memórias dos homens e
mulheres que se multiplicavam a cada instante nas áreas da Transamazônica e a Belém
Brasília. Sampaio graduou-se em jornalismo em 1990 pela Universidade Federal do
Pará desde então sua trajetória fotográfica é marcada por um forte traço jornalístico.
“Antônios e Cândidas tem sonho de sorte: fragmentos do cotidiano” é o título
atual da pesquisa fotográfica de Paula Sampaio ao longo das rodovias, desde 1990, cujo
foco é o cotidiano de migrantes que se estabeleceram ao longo de duas importantes
rodovias de intregração na Amazônia: a Belém-Brasília e a Transamazônica. Sampaio
transita com familiaridade na região das rodovias, pois suas memórias estão
impregnadas com a paisagem e com lembranças das pessoas da região. As infinitas
histórias que ela ouvia, enquanto menina foram responsáveis, em grande parte, pela
formação de seu olhar voltado para o homem trabalhador. O projeto Antônios e
Cândidas deu o norte para os demais trabalhos fotográficos desenvolvidos por Paula
Sampaio no decorrer de sua carreira.
A fotografia de Paula Sampaio está atravessada por suas memórias infantis e de
suas preocupações com questões sociais. São pautadas pelo incômodo, pela
impertinência, e pelo posicionamento limítrofe entre sonho e realidade, melancolia e
êxtase. Sua família foi apenas uma entre as centenas que acreditaram no sonho do El
dourado: terra gratuita, ouro, água e muita madeira. “O percurso que ela, aos seis anos
de idade, e seus pais realizou, de São José de Rio Preto, São Paulo até a Amazônia,
constitui sua memória: os cheiros, a luz, os colonos.” (PERSICHETTI: 2005, pag. 7).
A rodovia Transamazônica foi construída no período do Governo
Médici, com a pretensão de ligar a região Norte ao resto do Brasil.
Nasce com duas estradas paralelas: a BR 230 em Cabedelo (PB) e a
BR 232 em Recife (PE). As estradas cruzam-se em Picos (PI) e
seguem para a Amazônia. Foi inaugurada em 1970. No projeto havia a
idéia de construir mais de cinco mil quilômetros de estrada, que
cruzaria o país de Leste a Oeste, ligando o nordeste à Amazônia. A
obra ficou parada por mais de trinta anos e a rodovia reduzida a uma
estrada de terra. (FILHO. 1973, pag. 10).
Para Clovis Barbosa (1960. pag 14):
A rodovia Belém Brasília foi idealizada pelo engenheiro Bernanrdo
Saião em 1949. A estrada surge para incorporar ao Brasil o que ainda
dorme virgem a oeste da linha de Tordesilhas. (...) A rodovia é um
traço sépia no verde escuro da mata, ligando pó terra a Amazônia ao
resto do Brasil.
Paula Sampaio é repórter fotográfica do jornal O Liberal em Belém/PA desde
1988. O fotojornalismo é o seu principal ofício, sua inspiração. Atualmente trabalha na
edição do projeto “Antônios e Cândidas tem sonhos de sorte: fragmentos do cotidiano”,
com o objetivo de publicar um livro. Paralelamente desenvolve o projeto “Folhas
impressas” e “111 Ilhas”, além de criar séries e ensaios que fazem parte de suas
reflexões sobre o cotidiano, a memória, a fragilidade dos seres e suas relações com o
meio ambiente, presentes nas séries Nós, Paragens e Nau Frágil, que tem origem em seu
trabalho nas estradas.
2- Sobre o começo da fotografia
A fotografia, desde seu surgimento, despertou sentimentos heterogêneos e
suscitou uma série de discussões sobre memória, história e, naturalmente, também sobre
a vida. Num primeiro momento, época de sua invenção, na metade do século XIX, os
questionamentos giravam em torno do seu caráter meramente documental,
especialmente na crítica sobre a ausência do uso direto das mãos em detrimento da
máquina.
A primeira fotografia conhecida remonta ao
Figura 02 – A primeira fotografia
ano de 1839, na França. É atribuída a Louis Jacques
Mander Daguerre e a partir deste primeiro registro,
inaugura-se uma nova forma de ver o mundo. A
fotografia
nasce
desenvolvimento
num
contexto
capitalista,
que
histórico
do
engloba
o
crescimento industrial. A imagem fotográfica
Foto: Louis Jacques Mander Daguerre
assume a tarefa de registrar os acontecimentos e
traduzir para o mundo, aquilo que, no momento, acreditava-se que fosse a realidade.
Segundo o historiador Boris Kossoy (2009. Pag 25):
A fotografia acontece no contexto da revolução industrial e das
grandes transformações econômicas, sociais e culturais e passa a
desempenhar um papel fundamnetal enquanto possibilidade inovadora
de informação e conhecimento.
Para o professor André Rouillé (2009. Pag 45):
A partir da metade do século XIX, a fotografia introduz, nas imagens,
valores análogos àqueles que, por toda parte, estão transformando a
vida e a sensibilidade dos habitantes das grandes cidades industriais.
Neste período surgem os estúdios e a produção dos retratos, que assumem um
papel histórico social de especial relevância, pois realizam um valioso registro da
burguesia francesa. Estes registros desconsideram as divisões de classes que marcavam
as ruas parisienses neste momento. “A fotografia só vê na cidade o cenário do poder: os
monumentos do passado, e as grandes obras urbanas que o projetam no futuro. Mas os
homens, os operários, (...), estão ausentes da fotografia.” (ROUILLÉ: 2005 pag. 45).
Isso se dava, em grande parte, por questões econômicas. Uma fotografia num estúdio
custava muito caro e somente os privilegiados financeiramente tinham acesso.
Em 1930, o filósofo alemão Walter Benjamim, através do texto: A pequena
história da fotografia inaugura discussões sobre o pensar fotografia.
Nos anos de 1950 a fotografia deixa de ser vista apenas como reprodução do
real. Segundo Rouillé (2005: pag. 170): “O fotógrafo Robert Frank, por volta dos anos
50, através de suas imagens inusitadas, transforma os modos de ver e as maneiras de
mostrar que prevaleciam com a fotografia enquanto documento.” A fotografia deixa de
ser entendida como a própria realidade e passa a ser concebida como uma representação
da realidade. As imagens disponibilizadas através do processo fotográfico também
colocam discursos em circulação, revelam interesses, estão presas a ideologias.
Em A câmara clara de Rolnad Barthes (2009), escritor, filósofo, sociólogo,
nascido na Normandia, vem romper de forma contundente o repertório conceitual que
vinha sendo empregando no tratamento da fotografia. Barthes opta por abordá-la no
nível das sensações que ela provoca face à sua experiência individual como espectador,
diante de uma fotografia de sua mãe, quando ela ainda era criança. A alternativa passa a
ser, então o estudo da subjetividade diante da fotografia. Sua teoria passa ser, desde
então, de grande importância para o estudo da imagem.
Atualmente, a fotografia se desprendeu inteiramente do aspecto meramente
documental e assumiu conceitos mais autorais. Ela encontra novas possibilidades em
infinitos campos do conhecimento. Como arte, pode ser percebida num processo
criativo e livre. A subjetividade do fotógrafo e de seu interlocutor pode ser
compreendida entre um jogo de luz e sombras, numa construção de realidade, a partir da
troca de um conjunto de informações, emoções e vivências que materializa em discurso
o olhar.
3- O visível e o invisível
Figura - 04
Foto:Paula Sampaio –Série Nós: Mocajuba Pa 2003
A fotografia paralisa um fragmento de tempo, um instante de vida que flui
ininterruptamente e as imagens são atravessadas de memória.
O fragmento da realidade gravado na fotografia representa o
congelamento do gesto e da paisagem, e portanto é a perpetuação de
um momento, em outras palavras, da memória: memória do indivíduo,
da comunidade, dos costumes, do fato social, da paisagem urbana, da
natureza. A cena registrada na imagem não se repetirá jamais.
(KOSSOY. 2009, pag. 161).
Autores como Mourice Halbwacs, Michael Pollak e Mikhail Bakhtin, entre
outros, debruçaram-se sobre o tema. A memória está relacionada às lembranças a partir
de experiências construídas com o outro, isto é, minhas lembranças se embaraçam com
o pensamento e memórias de outras pessoas.
3-1 Memória Coletiva
Maurice Halbwacs foi o primeiro estudioso a se referir à memória como
elemento fundamental para construção do pensamento e do discurso de alguém: a
memória coletiva está associada a redes de sentidos.
Já no primeiro capítulo do livro Memória Coletiva Halbwacs discute as
percepções do presente, tomando como base as lembranças do passado.
Recorremos a testemunhos para reforçar ou enfraquecer e também
para completar o que sabemos (...). O primeiro testemunho a que
podemos recorrer será sempre o nosso. Quando se diz; “não acredito
no que vejo”, a pessoa sente que nela coexistem dois seres – um, o ser
sensível, é uma espécie de testemunha que vem depor sobre o que viu,
mas que talvez tenha visto outra e talvez tenha formado uma opinião
com base no testemunho de ouros. Nossas lembranças permanecem
coletivas e nos são lembradas por outros. (HALBWACHS. 2006, pag.
29)
Uma fotografia registra os elementos de tempo em que ala foi criada, como o
modo de se vestir, hábitos, comportamento, por exemplo, porém guarda uma ou várias
lembranças de como foi bom ou ruim ter vivido no período ali exposto, as mensagens
subliminares. Neste aspecto ela remete à memória de lugar e tempo comuns a um
determinado grupo de pessoas que interagem através do diálogo entre si.
O trabalho de Paula Sampaio desafia a curiosidade e convida o expectador a
encontrar identidade e significados nas fotografias desta área da região Amazônica,
porque são imagens de uma realidade presente em várias estradas brasileiras. Em teias
de memória que se constroem a partir da realidade vivida nesta área, a fotografia de
Paula Sampaio alimenta também as lembranças destes trabalhadores.
É possível pensar que uma memória coletiva produzida nesta região e sobre ela
se atravessa com o trabalho da fotógrafa.
3-2 Memória subterrânea
Já na concepção de Michel Pollak a memória guarda elementos que foram
silenciados, por relações de poder: as memórias subterrâneas. Essas memórias
representam a resistência à força aos discursos oficiais, impostas por instituições como
o Estado, a igreja e a família.
O problema que se coloca a longo prazo para as memórias
clandestinas e inaudíveis é o de sua transmissão intacta até o dia em
que elas possam aproveitar para invadir o espaço público e passar
do"não-dito" à contestação e à reivindicação; o problema de toda
memória oficial é o de sua credibilidade, de sua aceitação e também
de sua organização. Para que emerja nos discursos políticos um fundo
comum de referências que possam constituir uma memória nacional,
um intenso trabalho de organização é indispensável para superar a
simples “montagem" ideológica, por definição precária e frágil.
(POLLAK. 1989, pag. 9)
A fotografia do cotidiano de pessoas, além de demarcar o tempo e o lugar ali
retratados pode ajudar na análise e na observação do comportamento, na postura entre
outros aspectos de personagens reais. As imagens podem construir e reconstruir
histórias vividas por eles, mas contada por quem estava no poder. A fotografia pode ser
um poderoso instrumento no discurso contra as imposições de silenciamento
orquestrados pelas organizações de poder.
Através de um trabalho como o de Paula Sampaio é possível identificar e
rediscutir assuntos de políticas governamentais escamoteadas ao longo do tempo. O
enunciado das fotografias sobre a construção de uma obra como a rodovia
Transamazônica que há décadas espera soluções concretas levanta discussões, entre
outras, sobre questões ambientais, trabalhistas, distribuição de renda, aplicação do
dinheiro público, reforma agrária.
3-2 Memória de futuro
Para Bakhtin a memória é constituída em passado e futuro. “Para mim, a
memória é a memória do futuro, para o outro, a do passado (...). Em que consiste a
minha certeza interior, que me apruma a coluna, me levanta a cabeça, me faz olhar para
frente?” (BAKHTIN, 2003: 115).
Para Bakhtin o futuro e o presente se fundem e adquirem um sentido concreto:
as noções de futuro são construídas a partir do hoje. Somente a memória de futuro deixa
o homem livre das interferências do passado. Uma pessoa muda necessariamente com o
tempo, por tanto um é ser inacabado. As projeções do que se quer realizar constitui a
memória de futuro. As memórias do passado são entrecruzadas por outras memórias o
que pode interferir na forma de pensar e de se colocar diante da vida.
A fotógrafa Paula Sampaio ao transitar pela rodovia por duas décadas criou uma
relação dialógica com os moradores da área. É através da confiança que lhe foi
concedida em lhes contar suas histórias, confidenciar seus sonhos, adentrar em suas
residências que nasceu a possibilidade uma memória de futuro.
4- Poesias de luz: formas puras e abstrações pertinentes
Figura - 06
Foto: Paula Sampaio – Rod. Belém - Brasília – To 1998
A luz e o enquadramento usados na fotografia de Paula Sampaio são elementos
marcantes e particulares de seu processo criativo. Seu olhar se materializa em traços
fortes, em cortes abruptos e causam impactos e estranhamentos como num misto entre
fantasia e realidade ao observador. Sua poesia de luz é tecida a partir de histórias e
memórias, marcadas por tempos-espaços que atravessam seus tantos “Antônios e
Cândidas”. São imagens construídas sobre a ótica do signo ideológico, que vai além do
visível.
E toda imagem artístico-simbólica ocasionada por um objeto físico
particular já é um produto ideológico. Converte-se, assim, em signo o
objeto físico, o qual, sem deixar de fazer parte da realidade material,
passa a refletir e a refratar, numa certa medida, uma outra realidade.
(BAKHTIN. 2004, pag. 31).
Ainda na concepção de Bakhtin (2004):
“O signo não está preso ao mundo exterior. Um produto ideológico
faz parte de uma realidade (natural ou social) como todo corpo físico.
Tudo que é ideológico possui um significado e remete a algo situado
fora de si mesmo. Reflexo, uma sombra de realidade, mas também um
fragmento material desta realidade.”
E, se no início da fotografia, acreditava-se que ela era a própria realidade, hoje,
já se sabe que o registro fotográfico é também ideológico. E a fotografia, como signo,
também funciona neste processo.
A teoria de Bakhtin se aplica à fotografia de Paula Sampaio, porque os registros
do cotidiano dos migrantes desta região Amazônica estão impregnados de significados.
Figura 03 – A Estrada
Foto: Paula Sampaio - Rodovia
Transamazônica 1994
Esta imagem, de um trecho da rodovia Transamazônica, mostra um grande corte
no meio do nada, do vazio, como se estivesse dividindo dois mundos: realidade e
fantasia. No entorno desta imensa estrada, distribuídos nas vilas e lugarejos, vivem
muitas pessoas, há pelo menos trinta anos. Suas histórias, maneiras de viver e encarar a
vida, são alguns dos principais motivos registrados no trabalho de Paula Sampaio.
O tratamento estético que recebem suas imagens, Paula Sampaio, desloca a
realidade, porém elas não perdem seu teor político, muito antes, alguns destes traços
acentuam ainda mais a crítica social presente em seu trabalho. Com seu equipamento
fotográfico, esta mineira, apaixonada pela Amazônia, desenha sua própria história
atravessada às dos seus personagens. É assim que a artista se confunde com a mulher
preocupada com questões importantes do seu tempo.
5- Visualidades e descaminhos nas estradas Amazônicas
Figura - 07
Foto: Paula Sampaio – Série nós – Abaetetuba – Pa
Nesta foto, o enquadramento dá ênfase ao corpo de um homem, mas não revela
seu rosto e expõe apenas algumas partes: o peitoral magro, musculoso e envelhecido. A
imagem coloca em circulação um discurso que remete à complicada situação dos
moradores destas regiões, em meio aos outros objetos, que compõem a imagem, ela
deixa ver um trabalhador do campo. Parece um corpo incansável na luta diária por
alimento e reconhecimento. Revela o corpo e toda ordem discursiva que subjaz a ele.
Para Foucault.
O corpo está mergulhado num campo de político; as relações de poder têm
alcance imediato sobre ele; elas o investem, o marcam, o dirigem, o
supliciam, sujeitam-no a trabalhos, obrigam-no a criminologias, exigem-lhe
sinais. Este investimento político do corpo está ligado, segundo relações
complexas e recíprocas, à sua utilização econômica; é, numa boa proporção,
como força de produção que o corpo é revestido por relações de poder e de
dominação; mas em compensação sua constituição como força de trabalho
só é possível se ele está preso num sistema de sujeição. (FOUCAULT,
2010, pag. 29)
Uma das questões bastante freqüentes nas imagens de Sampaio é a presença do
trabalho, não somente como fonte de sobrevivência, mas de dignidade individual e
pessoal. O corpo negro deste trabalhador materializa as dificuldades destas pessoas que
vivem às margens de projetos governamentais, como o de Integração da Amazônia. São
pessoas de verdade, cheias de dignidade e que estão em diferentes situações sociais.
Os elementos usados nesta composição são objetos comuns do cotidiano de seu
personagem. A fotografia deixa ver com sutileza a fé cristã imposta no Brasil, pela
colonização portuguesa. São imagens construídas na memória “oficial” brasileira, a
partir de conceitos estéticos religiosos europeus. Não é difícil encontrar em casas de
famílias brasileiras, espaços especiais, como altares, para o culto religioso de origem
européia
Althusser (1998) definiu a igreja, como um dos pilares na fomentação da
manutenção de valores repressores e limitadores da sociedade, ela significa, portanto,
um de seus aparelhos ideológicos do Estado. Entre estes moradores, a presença de
imagens de Cristo e dos santos católicos mantém a ordem discursiva estabelecida,
porque é nos santos que estão depositadas a esperança em dias melhores.
O Cristo de olhos claros, de pele branca e cabelos loiros, por exemplo, traduz
uma matriz cultural imposta pelo colonizador, a despeito de qualquer outra crença
encontrada no Brasil à época da ocupação portuguesa. Tantos séculos depois, a
fotografia revela como esta memória se atualiza entre os moradores da região.
Neste registro fotográfico de Paula Sampaio, o corpo despido de roupas e de
dogmas do trabalhador confunde-se com as imagens dispostas na parede. Da forma
como está enquadrado, faz parte do sagrado ali exposto.
O tempo, espaço e memória
... Seja o que for que ela dê a ver e qualquer que
seja a sua maneira, uma foto é sempre invisível:
não é ela que nós vemos...
Roland Barthes
Embora Bakhtin tenha destinado seu estudo ao campo da literatura, seus ensaios
são pertinentes às analises de imagens. Uma de suas principais teorias é a do cronotopo:
a interligação entre tempo e espaço.
Aqui o tempo condensa-se, comprimi-se, torna-se artisticamente
visível; o próprio espaço intensifica-se, penetra no movimento do
tempo, do enredo e da história. Os índices do tempo transparecem no
espaço, e o espaço e é medido com o tempo reveste-se de sentido.
(BAKHTIN.1998, pag.211).
É perceptível o olhar sensível de Paula Sampaio. O contraste, a concisão e a
coerência de seu pensamento materializado em suas imagens, que se perpetuarão na
preservação de memória. São fotografias instigantes de uma realidade recriada com
poesia.
Para o professor Rubens Fernandes (2011):
“A fotografia conta uma história que nem sempre consiste na inteira
verdade. São idéias criadas a partir de um ideal. Produzir imagens de
certa forma pode estar associado à necessidade de vivenciar uma
atividade ficcional que pulsa internamente. Estabelecer narrativas
inspiradas e distantes de qualquer reconhecimento imediato. Por mais
que se tenha a pretensão de referendar o cotidiano, a possibilidade de
torná-lo mágico e mais experimental é quase sempre mais imperiosa.
Desenvolvem-se artifícios para estender o prazer do ato criativo e se
afastar da tensão da vida presente.”
A poética visual de Paula Sampaio está inserida no contexto contemporâneo de
se fazer fotografia e se destaca numa sociedade dominada por imagens. O tempo e o
lugar com que se constituem seu cronotopo revelam em branco e preto sua condição de
mulher contemporânea, que usa a tecnologia de sua época. E especificamente, neste
trabalho aqui apresentado, este cronotopo se matiza com as histórias destas pessoas que
acreditam no sonho de um país melhor.
Referências
ADONIAS, Filho. Estradas do Brasil. Rio de Janeiro: DNER, 1973.
ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos de Estado. Rio de Janeiro: Graal, 1998.
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: WMF Martins Fontes,
2010.
-------------------------. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 2004.
-------------------------. Questões de literatura e de estética. São Paulo: Hucitec, 1998
BARTHES, Roland. A câmara clara: nota sobre a fotografia. Lisboa, Portugal: 70,
2009.
Barbosa, Clovis, Waldyr Bouhid, Antônio Calado, M. Paulo Filho, E. Teixeira Leite,
Afrânio Melo e Arnaud Pierre. A primeira viagem na Belém Brasília in Cadernos
Belém Brasília. Rio de janeiro: SPVEA, 1960.
COUQUELIN, Anne. A invenção da paisagem. São Paulo: Martins, 2007.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Rio de Janeiro:
Petrópolis, 2010.
Halbwachs, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2006.
KOSSOY, Boris. Fotografia e história. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.
PERSICHETTI, Simonetta e Thales Trigo. Coleção Senac de fotografia: 7. São Paulo:
Senac, 2005.
ROUILLÉ, André. A fotografia entre documento e arte contemporânea. São Paulo:
SENAC, 2009.
MOKARZEL, Marisa, Janice Shirley Souza Lima e Simone de Oliveira Moura. Rios e
águas; navegar é preciso. Belém: Unama, 2009.
POLLAK, Michael . Memória, Esquecimento, Silêncio. Estudos Históricos. Rio de
Janeiro, vol. 2, n. 3, 1989, p. 3 - 15
www.revistacinetica.com.br/cep/ernani_chaves.htm
http://www.iconica.com.br/ Rubens Fernando Júnior: O processo de criação como
memória. 05/07/2011
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Discursos e memória na fotografia de Paula Sampaio