Discursos e memória na fotografia de Paula Sampaio Shirley Penaforte1 RESUMO: Pretende-se analisar os discursos que estão em circulação na poética visual das fotografias produzidas ao longo da trajetória de artista de Paula Sampaio, fotógrafa mineira contemporânea, estabelecida na Amazônia desde o início da década de 1970. O tratamento estético utilizado nas imagens produzidas por Paula Sampaio desloca a realidade, porém suas imagens não perdem sua força poética e seu teor político, muito antes, alguns destes traços acentuam ainda mais a crítica social presente em suas imagens. Este artigo visa analisar discursivamente algumas fotografias de Paula Sampaio, tomando como base teórica as definições de memória a partir de autores como Halbwacs, Pollak e Bakhtin. As discussões sobre memória fazem parte do discurso fotográfico: as imagens são atravessadas de memória. Também serão considerados outros aspectos teóricos voltados para as análises das relações de poder de Foucault, os aparelhos ideológicos de Athusser e o caráter ideológico da definição de signo de Bakhtin. Palavras chave: Amazônia, Paula Sampaio, fotografia, memória. 1 Shirley Penaforte é mestranda em Comunicação linguagens e cultura na Universidade da Amazônia Abstract: This article is intended to analyze the messages that are in circulation on the visual poetics of the photos made by Paula Sampaio. Established in Amazon since 1970. Her work changes the reality, but don’t loses the politics essence. Starting of the theoretical basis of memory from Halbwacs, Pollak e Bakhtin. Considering the theory of power from Foucault, Athusser with Ideological Apparel and Bakhtin with the theory about sign. Key Words: Amazon, Paula Sampaio, photography, memory. Imagino o artista num anfiteatro Onde o tempo é a grande estrela Vejo o tempo obrar a sua arte Tendo o mesmo artista como tela No anfiteatro, sob o céu de estrelas Um concerto eu imagino Onde, num relance, o tempo alcance a glória E o artista, o infinito Chico Buarque 1. Fronteiras Figura 01 – Atoleiros Foto: Paula Sampaio Sempre em branco e preto, Paula Sampaio coleciona imagens, desde 1990, com uma coragem incomum e com singular criatividade suas primeiras fotografias narram sobre cotidiano de migrantes, que se espalharam ao longo das rodovias Belém-Brasília e Transamazônica. Trabalhadores em sua maioria nordestinos ocuparam as rodovias com as mãos prontas para o trabalho e as malas cheias de esperanças. Esperanças alimentadas por promessas esquecidas e ignoradas do então governo militar General Emílio Garrastazu Médici, que em 1970, pretendia dar continuidade ao seu projeto de modernização do Brasil, integrando a Amazônia ao resto do país. Foi com a total identificação com os problemas das regiões que Paula Sampaio se lançou o desafio de registrar o cotidiano, as histórias e as memórias dos homens e mulheres que se multiplicavam a cada instante nas áreas da Transamazônica e a Belém Brasília. Sampaio graduou-se em jornalismo em 1990 pela Universidade Federal do Pará desde então sua trajetória fotográfica é marcada por um forte traço jornalístico. “Antônios e Cândidas tem sonho de sorte: fragmentos do cotidiano” é o título atual da pesquisa fotográfica de Paula Sampaio ao longo das rodovias, desde 1990, cujo foco é o cotidiano de migrantes que se estabeleceram ao longo de duas importantes rodovias de intregração na Amazônia: a Belém-Brasília e a Transamazônica. Sampaio transita com familiaridade na região das rodovias, pois suas memórias estão impregnadas com a paisagem e com lembranças das pessoas da região. As infinitas histórias que ela ouvia, enquanto menina foram responsáveis, em grande parte, pela formação de seu olhar voltado para o homem trabalhador. O projeto Antônios e Cândidas deu o norte para os demais trabalhos fotográficos desenvolvidos por Paula Sampaio no decorrer de sua carreira. A fotografia de Paula Sampaio está atravessada por suas memórias infantis e de suas preocupações com questões sociais. São pautadas pelo incômodo, pela impertinência, e pelo posicionamento limítrofe entre sonho e realidade, melancolia e êxtase. Sua família foi apenas uma entre as centenas que acreditaram no sonho do El dourado: terra gratuita, ouro, água e muita madeira. “O percurso que ela, aos seis anos de idade, e seus pais realizou, de São José de Rio Preto, São Paulo até a Amazônia, constitui sua memória: os cheiros, a luz, os colonos.” (PERSICHETTI: 2005, pag. 7). A rodovia Transamazônica foi construída no período do Governo Médici, com a pretensão de ligar a região Norte ao resto do Brasil. Nasce com duas estradas paralelas: a BR 230 em Cabedelo (PB) e a BR 232 em Recife (PE). As estradas cruzam-se em Picos (PI) e seguem para a Amazônia. Foi inaugurada em 1970. No projeto havia a idéia de construir mais de cinco mil quilômetros de estrada, que cruzaria o país de Leste a Oeste, ligando o nordeste à Amazônia. A obra ficou parada por mais de trinta anos e a rodovia reduzida a uma estrada de terra. (FILHO. 1973, pag. 10). Para Clovis Barbosa (1960. pag 14): A rodovia Belém Brasília foi idealizada pelo engenheiro Bernanrdo Saião em 1949. A estrada surge para incorporar ao Brasil o que ainda dorme virgem a oeste da linha de Tordesilhas. (...) A rodovia é um traço sépia no verde escuro da mata, ligando pó terra a Amazônia ao resto do Brasil. Paula Sampaio é repórter fotográfica do jornal O Liberal em Belém/PA desde 1988. O fotojornalismo é o seu principal ofício, sua inspiração. Atualmente trabalha na edição do projeto “Antônios e Cândidas tem sonhos de sorte: fragmentos do cotidiano”, com o objetivo de publicar um livro. Paralelamente desenvolve o projeto “Folhas impressas” e “111 Ilhas”, além de criar séries e ensaios que fazem parte de suas reflexões sobre o cotidiano, a memória, a fragilidade dos seres e suas relações com o meio ambiente, presentes nas séries Nós, Paragens e Nau Frágil, que tem origem em seu trabalho nas estradas. 2- Sobre o começo da fotografia A fotografia, desde seu surgimento, despertou sentimentos heterogêneos e suscitou uma série de discussões sobre memória, história e, naturalmente, também sobre a vida. Num primeiro momento, época de sua invenção, na metade do século XIX, os questionamentos giravam em torno do seu caráter meramente documental, especialmente na crítica sobre a ausência do uso direto das mãos em detrimento da máquina. A primeira fotografia conhecida remonta ao Figura 02 – A primeira fotografia ano de 1839, na França. É atribuída a Louis Jacques Mander Daguerre e a partir deste primeiro registro, inaugura-se uma nova forma de ver o mundo. A fotografia nasce desenvolvimento num contexto capitalista, que histórico do engloba o crescimento industrial. A imagem fotográfica Foto: Louis Jacques Mander Daguerre assume a tarefa de registrar os acontecimentos e traduzir para o mundo, aquilo que, no momento, acreditava-se que fosse a realidade. Segundo o historiador Boris Kossoy (2009. Pag 25): A fotografia acontece no contexto da revolução industrial e das grandes transformações econômicas, sociais e culturais e passa a desempenhar um papel fundamnetal enquanto possibilidade inovadora de informação e conhecimento. Para o professor André Rouillé (2009. Pag 45): A partir da metade do século XIX, a fotografia introduz, nas imagens, valores análogos àqueles que, por toda parte, estão transformando a vida e a sensibilidade dos habitantes das grandes cidades industriais. Neste período surgem os estúdios e a produção dos retratos, que assumem um papel histórico social de especial relevância, pois realizam um valioso registro da burguesia francesa. Estes registros desconsideram as divisões de classes que marcavam as ruas parisienses neste momento. “A fotografia só vê na cidade o cenário do poder: os monumentos do passado, e as grandes obras urbanas que o projetam no futuro. Mas os homens, os operários, (...), estão ausentes da fotografia.” (ROUILLÉ: 2005 pag. 45). Isso se dava, em grande parte, por questões econômicas. Uma fotografia num estúdio custava muito caro e somente os privilegiados financeiramente tinham acesso. Em 1930, o filósofo alemão Walter Benjamim, através do texto: A pequena história da fotografia inaugura discussões sobre o pensar fotografia. Nos anos de 1950 a fotografia deixa de ser vista apenas como reprodução do real. Segundo Rouillé (2005: pag. 170): “O fotógrafo Robert Frank, por volta dos anos 50, através de suas imagens inusitadas, transforma os modos de ver e as maneiras de mostrar que prevaleciam com a fotografia enquanto documento.” A fotografia deixa de ser entendida como a própria realidade e passa a ser concebida como uma representação da realidade. As imagens disponibilizadas através do processo fotográfico também colocam discursos em circulação, revelam interesses, estão presas a ideologias. Em A câmara clara de Rolnad Barthes (2009), escritor, filósofo, sociólogo, nascido na Normandia, vem romper de forma contundente o repertório conceitual que vinha sendo empregando no tratamento da fotografia. Barthes opta por abordá-la no nível das sensações que ela provoca face à sua experiência individual como espectador, diante de uma fotografia de sua mãe, quando ela ainda era criança. A alternativa passa a ser, então o estudo da subjetividade diante da fotografia. Sua teoria passa ser, desde então, de grande importância para o estudo da imagem. Atualmente, a fotografia se desprendeu inteiramente do aspecto meramente documental e assumiu conceitos mais autorais. Ela encontra novas possibilidades em infinitos campos do conhecimento. Como arte, pode ser percebida num processo criativo e livre. A subjetividade do fotógrafo e de seu interlocutor pode ser compreendida entre um jogo de luz e sombras, numa construção de realidade, a partir da troca de um conjunto de informações, emoções e vivências que materializa em discurso o olhar. 3- O visível e o invisível Figura - 04 Foto:Paula Sampaio –Série Nós: Mocajuba Pa 2003 A fotografia paralisa um fragmento de tempo, um instante de vida que flui ininterruptamente e as imagens são atravessadas de memória. O fragmento da realidade gravado na fotografia representa o congelamento do gesto e da paisagem, e portanto é a perpetuação de um momento, em outras palavras, da memória: memória do indivíduo, da comunidade, dos costumes, do fato social, da paisagem urbana, da natureza. A cena registrada na imagem não se repetirá jamais. (KOSSOY. 2009, pag. 161). Autores como Mourice Halbwacs, Michael Pollak e Mikhail Bakhtin, entre outros, debruçaram-se sobre o tema. A memória está relacionada às lembranças a partir de experiências construídas com o outro, isto é, minhas lembranças se embaraçam com o pensamento e memórias de outras pessoas. 3-1 Memória Coletiva Maurice Halbwacs foi o primeiro estudioso a se referir à memória como elemento fundamental para construção do pensamento e do discurso de alguém: a memória coletiva está associada a redes de sentidos. Já no primeiro capítulo do livro Memória Coletiva Halbwacs discute as percepções do presente, tomando como base as lembranças do passado. Recorremos a testemunhos para reforçar ou enfraquecer e também para completar o que sabemos (...). O primeiro testemunho a que podemos recorrer será sempre o nosso. Quando se diz; “não acredito no que vejo”, a pessoa sente que nela coexistem dois seres – um, o ser sensível, é uma espécie de testemunha que vem depor sobre o que viu, mas que talvez tenha visto outra e talvez tenha formado uma opinião com base no testemunho de ouros. Nossas lembranças permanecem coletivas e nos são lembradas por outros. (HALBWACHS. 2006, pag. 29) Uma fotografia registra os elementos de tempo em que ala foi criada, como o modo de se vestir, hábitos, comportamento, por exemplo, porém guarda uma ou várias lembranças de como foi bom ou ruim ter vivido no período ali exposto, as mensagens subliminares. Neste aspecto ela remete à memória de lugar e tempo comuns a um determinado grupo de pessoas que interagem através do diálogo entre si. O trabalho de Paula Sampaio desafia a curiosidade e convida o expectador a encontrar identidade e significados nas fotografias desta área da região Amazônica, porque são imagens de uma realidade presente em várias estradas brasileiras. Em teias de memória que se constroem a partir da realidade vivida nesta área, a fotografia de Paula Sampaio alimenta também as lembranças destes trabalhadores. É possível pensar que uma memória coletiva produzida nesta região e sobre ela se atravessa com o trabalho da fotógrafa. 3-2 Memória subterrânea Já na concepção de Michel Pollak a memória guarda elementos que foram silenciados, por relações de poder: as memórias subterrâneas. Essas memórias representam a resistência à força aos discursos oficiais, impostas por instituições como o Estado, a igreja e a família. O problema que se coloca a longo prazo para as memórias clandestinas e inaudíveis é o de sua transmissão intacta até o dia em que elas possam aproveitar para invadir o espaço público e passar do"não-dito" à contestação e à reivindicação; o problema de toda memória oficial é o de sua credibilidade, de sua aceitação e também de sua organização. Para que emerja nos discursos políticos um fundo comum de referências que possam constituir uma memória nacional, um intenso trabalho de organização é indispensável para superar a simples “montagem" ideológica, por definição precária e frágil. (POLLAK. 1989, pag. 9) A fotografia do cotidiano de pessoas, além de demarcar o tempo e o lugar ali retratados pode ajudar na análise e na observação do comportamento, na postura entre outros aspectos de personagens reais. As imagens podem construir e reconstruir histórias vividas por eles, mas contada por quem estava no poder. A fotografia pode ser um poderoso instrumento no discurso contra as imposições de silenciamento orquestrados pelas organizações de poder. Através de um trabalho como o de Paula Sampaio é possível identificar e rediscutir assuntos de políticas governamentais escamoteadas ao longo do tempo. O enunciado das fotografias sobre a construção de uma obra como a rodovia Transamazônica que há décadas espera soluções concretas levanta discussões, entre outras, sobre questões ambientais, trabalhistas, distribuição de renda, aplicação do dinheiro público, reforma agrária. 3-2 Memória de futuro Para Bakhtin a memória é constituída em passado e futuro. “Para mim, a memória é a memória do futuro, para o outro, a do passado (...). Em que consiste a minha certeza interior, que me apruma a coluna, me levanta a cabeça, me faz olhar para frente?” (BAKHTIN, 2003: 115). Para Bakhtin o futuro e o presente se fundem e adquirem um sentido concreto: as noções de futuro são construídas a partir do hoje. Somente a memória de futuro deixa o homem livre das interferências do passado. Uma pessoa muda necessariamente com o tempo, por tanto um é ser inacabado. As projeções do que se quer realizar constitui a memória de futuro. As memórias do passado são entrecruzadas por outras memórias o que pode interferir na forma de pensar e de se colocar diante da vida. A fotógrafa Paula Sampaio ao transitar pela rodovia por duas décadas criou uma relação dialógica com os moradores da área. É através da confiança que lhe foi concedida em lhes contar suas histórias, confidenciar seus sonhos, adentrar em suas residências que nasceu a possibilidade uma memória de futuro. 4- Poesias de luz: formas puras e abstrações pertinentes Figura - 06 Foto: Paula Sampaio – Rod. Belém - Brasília – To 1998 A luz e o enquadramento usados na fotografia de Paula Sampaio são elementos marcantes e particulares de seu processo criativo. Seu olhar se materializa em traços fortes, em cortes abruptos e causam impactos e estranhamentos como num misto entre fantasia e realidade ao observador. Sua poesia de luz é tecida a partir de histórias e memórias, marcadas por tempos-espaços que atravessam seus tantos “Antônios e Cândidas”. São imagens construídas sobre a ótica do signo ideológico, que vai além do visível. E toda imagem artístico-simbólica ocasionada por um objeto físico particular já é um produto ideológico. Converte-se, assim, em signo o objeto físico, o qual, sem deixar de fazer parte da realidade material, passa a refletir e a refratar, numa certa medida, uma outra realidade. (BAKHTIN. 2004, pag. 31). Ainda na concepção de Bakhtin (2004): “O signo não está preso ao mundo exterior. Um produto ideológico faz parte de uma realidade (natural ou social) como todo corpo físico. Tudo que é ideológico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo. Reflexo, uma sombra de realidade, mas também um fragmento material desta realidade.” E, se no início da fotografia, acreditava-se que ela era a própria realidade, hoje, já se sabe que o registro fotográfico é também ideológico. E a fotografia, como signo, também funciona neste processo. A teoria de Bakhtin se aplica à fotografia de Paula Sampaio, porque os registros do cotidiano dos migrantes desta região Amazônica estão impregnados de significados. Figura 03 – A Estrada Foto: Paula Sampaio - Rodovia Transamazônica 1994 Esta imagem, de um trecho da rodovia Transamazônica, mostra um grande corte no meio do nada, do vazio, como se estivesse dividindo dois mundos: realidade e fantasia. No entorno desta imensa estrada, distribuídos nas vilas e lugarejos, vivem muitas pessoas, há pelo menos trinta anos. Suas histórias, maneiras de viver e encarar a vida, são alguns dos principais motivos registrados no trabalho de Paula Sampaio. O tratamento estético que recebem suas imagens, Paula Sampaio, desloca a realidade, porém elas não perdem seu teor político, muito antes, alguns destes traços acentuam ainda mais a crítica social presente em seu trabalho. Com seu equipamento fotográfico, esta mineira, apaixonada pela Amazônia, desenha sua própria história atravessada às dos seus personagens. É assim que a artista se confunde com a mulher preocupada com questões importantes do seu tempo. 5- Visualidades e descaminhos nas estradas Amazônicas Figura - 07 Foto: Paula Sampaio – Série nós – Abaetetuba – Pa Nesta foto, o enquadramento dá ênfase ao corpo de um homem, mas não revela seu rosto e expõe apenas algumas partes: o peitoral magro, musculoso e envelhecido. A imagem coloca em circulação um discurso que remete à complicada situação dos moradores destas regiões, em meio aos outros objetos, que compõem a imagem, ela deixa ver um trabalhador do campo. Parece um corpo incansável na luta diária por alimento e reconhecimento. Revela o corpo e toda ordem discursiva que subjaz a ele. Para Foucault. O corpo está mergulhado num campo de político; as relações de poder têm alcance imediato sobre ele; elas o investem, o marcam, o dirigem, o supliciam, sujeitam-no a trabalhos, obrigam-no a criminologias, exigem-lhe sinais. Este investimento político do corpo está ligado, segundo relações complexas e recíprocas, à sua utilização econômica; é, numa boa proporção, como força de produção que o corpo é revestido por relações de poder e de dominação; mas em compensação sua constituição como força de trabalho só é possível se ele está preso num sistema de sujeição. (FOUCAULT, 2010, pag. 29) Uma das questões bastante freqüentes nas imagens de Sampaio é a presença do trabalho, não somente como fonte de sobrevivência, mas de dignidade individual e pessoal. O corpo negro deste trabalhador materializa as dificuldades destas pessoas que vivem às margens de projetos governamentais, como o de Integração da Amazônia. São pessoas de verdade, cheias de dignidade e que estão em diferentes situações sociais. Os elementos usados nesta composição são objetos comuns do cotidiano de seu personagem. A fotografia deixa ver com sutileza a fé cristã imposta no Brasil, pela colonização portuguesa. São imagens construídas na memória “oficial” brasileira, a partir de conceitos estéticos religiosos europeus. Não é difícil encontrar em casas de famílias brasileiras, espaços especiais, como altares, para o culto religioso de origem européia Althusser (1998) definiu a igreja, como um dos pilares na fomentação da manutenção de valores repressores e limitadores da sociedade, ela significa, portanto, um de seus aparelhos ideológicos do Estado. Entre estes moradores, a presença de imagens de Cristo e dos santos católicos mantém a ordem discursiva estabelecida, porque é nos santos que estão depositadas a esperança em dias melhores. O Cristo de olhos claros, de pele branca e cabelos loiros, por exemplo, traduz uma matriz cultural imposta pelo colonizador, a despeito de qualquer outra crença encontrada no Brasil à época da ocupação portuguesa. Tantos séculos depois, a fotografia revela como esta memória se atualiza entre os moradores da região. Neste registro fotográfico de Paula Sampaio, o corpo despido de roupas e de dogmas do trabalhador confunde-se com as imagens dispostas na parede. Da forma como está enquadrado, faz parte do sagrado ali exposto. O tempo, espaço e memória ... Seja o que for que ela dê a ver e qualquer que seja a sua maneira, uma foto é sempre invisível: não é ela que nós vemos... Roland Barthes Embora Bakhtin tenha destinado seu estudo ao campo da literatura, seus ensaios são pertinentes às analises de imagens. Uma de suas principais teorias é a do cronotopo: a interligação entre tempo e espaço. Aqui o tempo condensa-se, comprimi-se, torna-se artisticamente visível; o próprio espaço intensifica-se, penetra no movimento do tempo, do enredo e da história. Os índices do tempo transparecem no espaço, e o espaço e é medido com o tempo reveste-se de sentido. (BAKHTIN.1998, pag.211). É perceptível o olhar sensível de Paula Sampaio. O contraste, a concisão e a coerência de seu pensamento materializado em suas imagens, que se perpetuarão na preservação de memória. São fotografias instigantes de uma realidade recriada com poesia. Para o professor Rubens Fernandes (2011): “A fotografia conta uma história que nem sempre consiste na inteira verdade. São idéias criadas a partir de um ideal. Produzir imagens de certa forma pode estar associado à necessidade de vivenciar uma atividade ficcional que pulsa internamente. Estabelecer narrativas inspiradas e distantes de qualquer reconhecimento imediato. Por mais que se tenha a pretensão de referendar o cotidiano, a possibilidade de torná-lo mágico e mais experimental é quase sempre mais imperiosa. Desenvolvem-se artifícios para estender o prazer do ato criativo e se afastar da tensão da vida presente.” A poética visual de Paula Sampaio está inserida no contexto contemporâneo de se fazer fotografia e se destaca numa sociedade dominada por imagens. O tempo e o lugar com que se constituem seu cronotopo revelam em branco e preto sua condição de mulher contemporânea, que usa a tecnologia de sua época. E especificamente, neste trabalho aqui apresentado, este cronotopo se matiza com as histórias destas pessoas que acreditam no sonho de um país melhor. Referências ADONIAS, Filho. Estradas do Brasil. Rio de Janeiro: DNER, 1973. ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos de Estado. Rio de Janeiro: Graal, 1998. BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010. -------------------------. 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