ELISSANDRO TRINDADE DE SANTANA A UNIVERSIDADE FEDERAL DO RECÔNCAVO DA BAHIA E A PRODUÇÃO DO ESPAÇO URBANO-REGIONAL Dissertação apresentada ao programa de PósGraduação em Geografia do Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia como parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre em Geografia. Área de concentração: Análise Geográfico Urbano-Regional do Espaço Orientador: Prof. Dr. Wendel Henrique Salvador 2012 1 Lista de Tabelas Quadro 1 - População urbana do Brasil 2000-2010 Quadro 2 - Origem dos estudantes da UFRB Quadro 3 - Professores da UFRB Quadro 4 - Universidades federais em alguns estados brasileiros Quadro 5 - IDH dos municípios do Território de Identidade do Recôncavo Quadro 6 - Investimentos na implantação da UFRB Quadro 7 - Centro de Ciências Agrárias, Ambientais e Biológicas – Cruz das Almas Quadro 8 - Centro de Artes, Humanidades e Letras – Cachoeira Quadro 9 - Centro de Formação de Professores – Amargosa Quadro 10 - Centro de Ciências da Saúde – Santo Antônio de Jesus Lista de Mapas Mapa 1 - Recôncavo Baiano Mapa 2 - Planta da cidade de Santo Antônio de Jesus Mapa 3 - Santo Amaro 2 SUMÁRIO RESUMO..............................................................................................................5 1. INTRODUÇÃO..................................................................................................6 1.1 Justificativa......................................................................................................7 1.2 Objetivos e Questões de Pesquisa.................................................................8 1.3 Contextualização.............................................................................................9 1.4 Método e Metodologia...................................................................................19 2. PRODUÇÃO DO ESPAÇO URBANO REGIONAL .......................................23 2.1 A produção do Espaço..................................................................................23 2.2 A cidade e a produção do Espaço urbano....................................................31 2.3 A produção do espaço urbano-regional em cidades médias e pequenas............................................................................................................37 3. A UNIVERSIDADE FEDERAL DO RECÔNCAVO DA BAHIA E A PRODUÇÃO DO ESPAÇO URBANO...............................................................45 3.1 Valorização do espaço urbano nas cidades que receberam os campi da UFRB.............................................................................................45 3.2 A presença dos estudantes e dos professores nas cidades...............................................................................................................47 3.3 Novas dinâmicas na economia das cidades do Recôncavo.........................................................................................................54 4. A UNIVERSIDADE FEDERAL NO RECÔNCAVO........................................67 4.1 A formação do Ensino Superior na Bahia.....................................................67 4.2 A UFRB no Recôncavo.................................................................................68 4.3 O processo de implantação da UFRB no Recôncavo...................................73 4.4 A UFRB em Santo Amaro e em Feira de Santana.......................................82 3 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................89 BIBLIOGRAFIA ANEXOS Anexo 1 - Discurso Proferido pelo Reitor da UFRB, Paulo Gabriel Soledade Nacif, por ocasião dos 190 anos da Ata da Vereação de 14 de junho de 1822, em Santo Amaro, BA. Anexo 2 - Nota Pública: Campus da UFRB em Feira de Santana 4 RESUMO O presente trabalho busca compreender o processo de produção do espaço urbano-regional contemporâneo nas cidades do Recôncavo Baiano através da reestruturação urbana pelas quais estas cidades têm passado com a expansão das Instituições de Ensino Superior, especificamente com a instalação da Universidade Federal do Recôncavo (UFRB). Estas cidades, ao receberem novos objetos geográficos, além de passarem por uma reestruturação urbana e alteração na morfologia, desenvolvem novas dinâmicas também na escala do espaço regional em que se inserem. Desta forma, buscaremos, também, compreender os interesses e conflitos locais e regionais decorrentes da criação e instalação da UFRB. Nessa perspectiva, uma análise sobre o papel das universidades no desenvolvimento urbano e regional se faz necessária nesse trabalho. Palavras-chave: Universidade – Espaço – Urbano – Região – Cidade. Abstract This study aims to understand the contemporary process of production of urban-regional space in cities of the Recôncavo Baiano. The process of urban restructuring in these cities is carrying out by the expansion of higher education institutions, specifically the Federal University of Recôncavo da Bahia (UFRB). These cities received new geographic objects, as well as a morphological urban restructuring, developing new dynamics also in the scale of the regional space. In this work we also try to understand the interests and local and regional conflicts arising from the creation and installation of UFRB. From this perspective an analysis of the role of universities in urban and regional development is needed in this work. Keywords: University - Space - Urban - Region - City. 5 1. INTRODUÇÃO O objetivo desta dissertação é analisar a produção do espaço urbano e regional no Recôncavo Baiano após a implantação da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), buscando apreender os processos que se deram para a efetiva implantação dos campi nas cidades que os receberam e suas consequências imediatas na vida urbana das cidades. Os grupos político-partidários têm buscado articulações para conseguir atrair a universidade para suas respectivas cidades. Este fato não ocorre, obviamente, por acaso, nem pela identificação que estas cidades têm com o Recôncavo, mas, sobretudo, pelos benefícios e a dinamização econômica que a UFRB, segundo eles, poderia proporcionar às cidades que recebem os campi. Contudo vale ressaltar que se a instalação da UFRB, por um lado, se apresenta como benefício, por outro também implica em transformações significativas na morfologia e no cotidiano destas localidades, tais como: - encarecimento de produtos básicos para suprimento das necessidades alimentares diárias, em função do aumento da demanda e da renda dos novos moradores/usuários; - aquecimento no mercado locacional de imóveis, o que pode levar as pessoas de menor poder aquisitivo a encontrar dificuldades para locar estes imóveis; - especulação imobiliária em terrenos próximos à universidade, pois estas cidades passam a atrair estudantes das mais diversas regiões da Bahia e até mesmo do Brasil, professores universitários e funcionários técnico- administrativos que estabelecem residência nas cidades. Esses novos moradores, com um perfil de renda diferenciado da população local, geram uma movimentação comercial e financeira para estas localidades, o que justifica as reivindicações de outras cidades da região pela instalação de um campus universitário. 6 Portanto, diante desse quadro, pretendemos entender a produção do espaço urbano-regional a partir da nova dinâmica que a UFRB leva para estas cidades médias e pequenas (Cachoeira, Cruz das Almas, Santo Antônio de Jesus1) e, por conseguinte, para esta região da Bahia, além de analisar a pressão política que os agentes sociais da cidade de Santo Amaro realizam para obterem um campus da UFRB. Vale ressaltar que quando nos referimos às cidades médias e pequenas não estamos preocupados em classificá-las, mas buscamos a definição de uma escala de análise, pois, como propõe Sposito, M. (2006), é necessário compreender a função que a cidade desempenha em uma rede urbana e o seu papel de intermediação regional. 1.2 JUSTIFICATIVA Devido à relevância do tema apresentado, torna-se importante a pesquisa sobre as dinâmicas urbanas e regionais atuais em cidades pequenas e médias no estado da Bahia, pelas quais estão passando através do processo de expansão do nível de ensino superior, como é o caso das cidades que receberam os campi da UFRB. Não perdemos, nesta abordagem geográfica da expansão do ensino superior no estado, as contradições presentes neste processo. Vale ressaltar que, embora o ensino superior oficial do Brasil se origine na Bahia, esta unidade federal expressa um lento desenvolvimento deste nível de ensino com marcados períodos de estagnação. São diversos os fatores que se apontam como explicação desta realidade e o peso outorgado a cada um deles, contudo, tais fatores tendem a remeter à precariedade na formulação e implantação de uma política consistente... (PINTO, VELASCO & PIRES, 2009, p. 1-2). 1 A princípio, era proposto um estudo detalhado também sobre a cidade de Amargosa, mas, no decurso da pesquisa, não foi possível a obtenção de informações que embasassem a pesquisa no município. 7 A expansão das Instituições Federais de Ensino Superior na Bahia, de fato, é uma grande conquista para o estado, visto que este é um dos maiores estados do país e a carência de centros federais de pesquisa e ensino, como as universidades federais, sempre foi grande na Bahia. Entre outros fatores, destacamos a existência, até 2002, apenas da Universidade Federal da Bahia, que possui a maioria dos seus campi e centros de pesquisa em Salvador. A exceção era o campus de Cruz das Almas, que deu origem à UFRB, e dos novos campi de Vitória da Conquista e Barreiras. Podemos compreender o processo de instalação dos campi das universidades federais a partir da ideia de Milton Santos (2006), denominada de “Guerra dos lugares”. Não como uma “guerra” cuja finalidade seria atrair grandes corporações, as quais o autor se refere em sua obra, mas para obtenção de um campus das universidades, como podemos constatar através da vinculação em jornais e redes sociais na internet. Para os gestores municipais, a atração do ‘investimento’ é vista como um fato que poderá trazer benefícios políticos para os grupos no poder, bem como trazer benefícios econômicos e educacionais para a população, porém sob a lógica dos municipalismos exacerbados e fortalecimento político nas cidades dessas autoridades locais. 1.3 OBJETIVO Compreender o atual processo de produção do espaço urbano-regional nas cidades do Recôncavo Baiano a partir da instalação da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). 1.3.1 OBJETIVOS ESPECÍFICOS - Identificar as novas formas ou objetos e funções socioeconômicas assumidas pelas cidades estudadas na escala intraurbana. 8 - Analisar a reestruturação urbana que tem ocorrido em algumas cidades do Recôncavo Baiano que receberam a universidade. - Analisar os conflitos na escala regional devido aos interesses políticos das lideranças locais por causa da UFRB. - Analisar e compreender a pressão política que tem sido exercida na cidade de Santo Amaro, que ainda não recebeu um campus da UFRB. 1.3.2 QUESTÕES DE PESQUISA - Quais as principais transformações na estrutura urbana e regional decorrentes da instalação dos campi da UFRB nestas cidades? - Qual a influência desta instalação na rede urbana do Recôncavo da Bahia? 1.4 CONTEXTUALIZAÇÃO CONCEITOS E ESPAÇOS DO TEMA: TEORIAS, A criação e instalação da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia se insere no Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI) do Governo Federal. Este programa, segundo o sítio na internet do Ministério da Educação, tem por finalidade adotar (...) uma série de medidas para retomar o crescimento do ensino superior público, criando condições para que as universidades federais promovam a expansão física, acadêmica e pedagógica da rede federal de educação superior. Os efeitos da iniciativa podem ser percebidos pelos expressivos números da expansão, iniciada em 2003 e com previsão de conclusão até 2012 (BRASIL, 2003, s/p). A autorização para a criação da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia ocorreu em 2005 (Lei Federal nº 11.151), a partir de um 9 desmembramento do campus de Cruz das Almas, da Universidade Federal da Bahia, segundo o Plano de Desenvolvimento Institucional da UFRB, e o seu efetivo funcionamento ocorreu em 2006. A UFRB possui uma constituição multicampi, conforme o Mapa 1 abaixo. Em Cachoeira está instalado o Centro de Artes, Humanidades e Letras, que oferece os cursos de Jornalismo, História, Museologia, Ciências Sociais, Serviço Social, Cinema e Audiovisual, Artes Visuais com Ênfase em Multimeios e Gestão Pública. Em Cruz das Almas, além da reitoria, estão instalados os Centros de Ciências Agrárias, Ambientais e Biológicas e o Centro de Ciências Exatas e Tecnológicas, que oferecem os cursos de Engenharia Agronômica, Engenharia Florestal, Engenharia de Pesca, Zootecnia, Biologia, Gestão e Tecnologia em Cooperativa, Medicina Veterinária, Engenharia Sanitária e Ambiental, Tecnologia em Agroecologia e Bacharelado em Ciências Exatas e Tecnológicas. Em Santo Antônio de Jesus fica o Centro de Ciências da Saúde que, atualmente, oferece os cursos de Psicologia, Nutrição, Enfermagem e o Bacharelado Interdisciplinar em Saúde. Já o Centro de Formação de Professores, instalado em Amargosa, possui os cursos de Licenciatura em Educação Física, Física, Matemática, Filosofia, Química, além do curso de Pedagogia. Além dos cursos de Pós-Graduação: Mestrado em Microbiologia Agrícola, Mestrado e Doutorado em Ciências Agrárias, Mestrado em Ciência Animal, Mestrado em Recursos Genéticos Vegetais, Mestrado em Ciências Sociais: Cultura, Desigualdades e Desenvolvimento, Mestrado em Solos e Qualidade de Ecossistemas, Mestrado Profissional em Defesa Agropecuária, Mestrado Profissional em Gestão de Políticas Públicas e Segurança Social e Pós-Graduação em Educação e Interdisciplinaridade. 10 Mapa 1 Após a exposição do tema de pesquisa a ser estudado, a expansão da educação superior em universidades federais no Recôncavo Baiano, cabe destacar que a teoria geral que fundamenta nossa pesquisa empírica é a da 11 produção do espaço. Esta não pode nem deve ser entendida a partir de uma análise superficial e monoescalar, mas sim compreendendo os processos sociais, que também são processos espaciais apreendidos em uma abordagem multiescalar do espaço. O nosso tema de pesquisa nos exige uma análise nesta vertente, pois o agente/objeto que definimos para compreender sua participação na produção do espaço urbano regional – as universidades – está presente em várias partes do mundo e a sua expansão insere as cidades em que elas estão localizadas numa lógica urbana global. Nesta lógica urbana incluímos, além das questões morfológicas das cidades, os aspectos econômicos, políticos e culturais que compõem o espaço urbano contemporâneo, indo além das questões referentes à produção e/ou reprodução de conhecimentos, pesquisa e extensão. As universidades possibilitam a inclusão destas cidades e regiões no mundo urbano, sem passarem, necessariamente, pelo processo de industrialização, até então o grande impulsionador e contingente do urbano. Nesta pesquisa definimos entre as várias teorias sobre a produção do espaço aquela desenvolvida por Henri Lefebvre, em que Cada “objeto” (monumento ou edifício, móvel ou imóvel) deve ser percebido na sua totalidade, no seio do seu espaço, girando-se em torno dele, apreendendo-se todos os seus aspectos. O que exige que o próprio espaço seja percebido e concebido, apreendido e engendrado como um todo. Os níveis e dimensões do espaço, do global ao mais local (o móvel), dependem de uma concepção unitária e de uma mesma atividade produtora (LEFEBVRE, 2008, p. 140). A ideia que se pretende desenvolver nesta pesquisa se fundamenta nesta visão lefebvriana da produção do espaço, visto como uma totalidade, compreendendo a instalação da universidade no Recôncavo da Bahia dentro de uma lógica global, nacional e local/regional, pois estas escalas estão imbricadas neste processo, no qual os conflitos, os interesses e as contradições se realizam e se materializam de variadas formas. 12 Henrique (2010, p.), seguindo esta lógica do pensamento lefebvriano, afirma que é necessário compreender o “espaço inteiro”, analisando todos os processos que participam da produção do espaço, bem como seus usos. A partir desta proposição teórica, o ponto de partida para compreender as lógicas da produção do espaço que fundem as escalas mundiais e locais no espaço contemporâneo terá como recorte empírico a região denominada de Recôncavo Sul, onde se insere a UFRB. Salientamos que nosso objetivo não é discutir a regionalização do Recôncavo, visto que existem diversas possibilidades de abrangência do mesmo, e tomaremos para este trabalho a classificação/regionalização oficial, adotada pela SEI, denominada Recôncavo Sul. Pela própria denominação da universidade já se nota o seu caráter regional e sua presença nesta região, segundo o sítio da instituição na internet, é uma vitória das reivindicações antigas do povo do Recôncavo. Mas qual povo do Recôncavo participou e reivindicou a UFRB para estas cidades e/ou região? É uma pergunta que já nos inquieta e também fundamentará este processo de pesquisa. Segundo o documento de autoria da Universidade Federal da Bahia (2005) Subsídios para criação e implantação a partir do desmembramento da Escola de Agronomia da Universidade Federal da Bahia, o Recôncavo Baiano é uma “região síntese da Bahia” e, por isso, era necessária uma universidade nesta região. Esta ideia, presente em um documento oficial, nos dá certa noção de como o discurso regional está bastante impregnado como fundamento da implantação da universidade. Haesbaert (1999) destaca a questão regional como um fator que tem norteado as políticas dos governos, do Estado e os interesses econômicos mais diversos. No caso da UFRB essa questão levantada pelo autor parece ter bastante pertinência. A relevância da questão regional não está ligada apenas à realidade concreta que mostra uma nova força das singularidades, um revigorar dos localismos/regionalismos e das desigualdades espaciais. A mídia também alimenta uma revalorização do “regional”, ainda que seja entendido de maneiras as mais diversas. Para alguns, uma nova valorização do regional aparece no bojo da globalização dos mercados e das comunicações, o regional aí sendo interpretado 13 como uma revalorização do singular, da diferença (...) (HAESBAERT, 1999, p. 16). Esta luta, de caráter regionalista, pela implantação de um equipamento público de importância social, intelectual e econômica ganhou força no Recôncavo. Esta região da Bahia, após um longo período de importância econômica para o país, se vê desde o início do século XX com uma profunda estagnação econômica e com ações pontuais do Estado para reverter esse quadro, quase sempre com efeitos bastante questionáveis. Bourdieu (1989) considera a reivindicação regionalista uma resposta ao esquecimento dos grandes centros e do Estado, citando exemplos em diversas regiões do mundo. Essa ideia desenvolvida pelo autor pode ser percebida, também, no Recôncavo Baiano, apesar de o autor não se referir a esta região: (...) se a região não existisse como espaço estigmatizado, como “província” definida pela distância econômica e social (não geográfica) em relação ao “centro”, quer dizer pela privação do capital (material e simbólico) que a capital concentra, não teria que reivindicar a existência: é porque existe como unidade negativamente definida pela dominação simbólica e econômica que alguns dos que nela participam podem ser levados a lutar (e com probabilidades objectivas de sucesso e de ganho) para alterarem a sua definição, para inverterem o sentido e o valor das características estigmatizadas, e que a revolta contra a dominação em todos os seus aspectos – até mesmo econômicos – assume a forma da reivindicação regionalista (BOURDIEU, 1989, p. 126-127). Diversos autores se debruçaram sobre a estagnação econômica que o Recôncavo baiano passou a enfrentar desde o início do século XX, entre os quais destacamos Milton Santos, com sua obra “A rede urbana do Recôncavo” (1959), Cristóvão Brito (2008) e Maria de Azevedo Brandão (1998). A partir das décadas de 1940 e 1950 o Recôncavo canavieiro e fumageiro passou por novas reestruturações, primeiro devido às sucessivas crises econômicas por causa da estagnação na produção de cana e fumo. Posteriormente, o Brasil, ao se inserir no processo da constituição de uma sociedade urbano-industrial, deixa as ferrovias em segundo plano, sobretudo no governo de Juscelino Kubitschek, que promoveu uma mudança na rede de 14 transportes com a implantação de rodovias, no caso do Recôncavo a rodovia BR 101. Além disso, houve a inserção da Petrobras em alguns municípios que, até então, eram considerados do Recôncavo, e que posteriormente passaram a compor a Região Metropolitana de Salvador, conforme apontado por Brito (2008). Ao analisarmos brevemente a história recente do Recôncavo entendemos que as cidades desta região ficaram à margem da nova lógica global em que o Brasil está inserido e a reivindicação de uma universidade para esta região, entre outras reivindicações, visa justamente reverter esse quadro de estagnação econômica. Segundo Wanderley (1991), existem várias concepções sobre o papel das universidades na sociedade. Para alguns, a universidade é o espaço para criação e divulgação do saber e formação de profissionais capacitados para o mercado; outra corrente entende, ainda, a universidade como um dos aparelhos ideológicos e privilegiados da formação social capitalista; outros entendem que dentro desse modo de produção capitalista a universidade deve ter autonomia suficiente para que os intelectuais engajados nas lutas sociais possam colaborar na conquista da hegemonia da sociedade civil. Outra corrente de pensamento muito presente nas universidades contemporâneas é a que vê na educação uma espécie de mola propulsora do desenvolvimento e da mudança social. Pela citação do plano de criação da UFRB que foi feito acima, esta parece ser a corrente de pensamento que permeia a fundação desta instituição, visto que pretende ser um vetor de “desenvolvimento socioeconômico” no Recôncavo Baiano. Para Wanderley, os planos e estatutos das universidades, em geral, valorizam o compromisso e a transformação social, nos países latinoamericanos, porém, na prática, isso não ocorre. No Brasil o que temos observado é que a função social da universidade tem tido um pequeno alcance. No que diz respeito à questão da universidade voltada para o desenvolvimento ou como fator de desenvolvimento, há múltiplos aspectos a se considerar. Já se disse dos tênues laços que a universidade latino-americana mantém com o desenvolvimento. Na 15 situação brasileira, a inexistência de uma verdadeira universidade, pois ela se constitui num conglomerado de estruturas e órgãos, e o seu colonialismo educacional (...) (WANDERLEY, 1991, p. 77). Santos e Silveira (2000) afirmam que a oferta da educação no Brasil, por conseguinte do ensino superior, sempre esteve ligada à localização do poder político-administrativo e às principais atividades econômicas desde o período colonial, com uma leve desconcentração na atualidade. Porém essa desconcentração, como já afirmado, tem sido muito questionável, pois a própria UFRB, que está inserida no projeto de ‘Reestruturação e expansão das universidades federais’ (REUNI), se localiza no Recôncavo baiano, próximo a Salvador, tendo dois campi em cidades como Cruz das Almas e Santo Antônio de Jesus que exercem forte influência regional no Recôncavo. Além dessas contradições, é necessário analisar, também, em quais condições qualitativas a UFRB se insere nessas cidades. O problema na dosagem dos investimentos públicos nas Instituições de Ensino Superior na Bahia não é algo novo. Em um estudo recente, Pinto, Medina-Velasco & Pires (2009) analisaram a implantação e a expansão da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Os autores observaram que esta instituição “não dialoga com as variadas tendências de consolidação de uma estrutura regional e/ou necessária institucionalização de uma rede urbana na Bahia” (PINTO, MEDINA-VELASCO & PIRES, 2009, p. 1). Mesmo sendo um processo recente, a presença da universidade não tem proporcionado novas dinâmicas apenas na escala regional, a UFRB se materializa no espaço urbano das cidades onde os seus campi estão presentes. Estas cidades têm exercido influência regional diversa ao longo da história do Recôncavo Baiano. Algumas, como Santo Antônio de Jesus e Cruz das Almas, segundo Brito (2008), vêm desde a década de 1980 se constituindo em importantes núcleos urbanos desta região. Já Cachoeira, após um longo período colonial de forte influência econômica no estado da Bahia devido às plantações e ao comércio da cana-de-açúcar e do fumo, em escala internacional, se encontra desde o início do século XX num processo de decadência econômica e perda de população para os municípios próximos 16 onde se localizavam as atividades petrolíferas, conforme analisou Azevedo apud Brandão (1998). Com a implantação dos campi da UFRB estas cidades estão passando por uma reestruturação urbana e da cidade. Para entender o que é a reestruturação, primeiro vamos analisar a estrutura urbana e a estrutura da cidade. Para Sposito E. (2004), estrutura diz respeito a um determinado momento do processo de estruturação, a forma como se encontram e se articulam os usos do solo urbano. Para a autora (op. cit.), a estruturação dá ideia de processo. Quando utilizamos o termo estrutura urbana estamos nos referindo aos processos urbanos em geral, já quando tratamos de estrutura das cidades estamos nos referindo à morfologia, à forma da cidade. A reestruturação, ainda segundo Sposito (2004), tem relação direta com os processos recentes de mudança ou adaptação na estrutura urbana e na estrutura das cidades. Para a autora, este termo é o mais adequado para tratar de transformações recentes no espaço intraurbano e suas implicações no espaço regional e nas redes urbanas. Henrique (2010), analisando a obra de Henri Lefebvre A Revolução Urbana, faz uma reflexão sobre o urbano que se apresenta atualmente para as cidades médias e pequenas (espaços de nossa pesquisa). O urbano que chega neste momento às cidades do Recôncavo Baiano não está necessariamente vinculado ao processo de industrialização (cabe destacar, conforme demonstrado acima, que a industrialização propiciada pela presença da Petrobras ‘retirou’ o urbano das cidades ‘tradicionais’ do Recôncavo, levando-o para o que hoje se encontra na Região Metropolitana). Esta é uma crítica feita por Lefebvre (2004) a muitos autores que se debruçaram sobre a o estudo do espaço urbano relacionando-o apenas ao processo de industrialização. É evidente que este processo se acentua com a mudança para o modo de produção industrial, porém, nos atuais processos de produção do espaço, não se pode vincular a existência de um espaço urbano somente à presença das indústrias nas cidades, sobretudo nas médias e pequenas do Recôncavo Baiano que estão recebendo a UFRB. Henrique (op. cit.) nos apresenta alguns 17 exemplos de como a produção do espaço urbano contemporâneo não está vinculada, somente, às indústrias nas cidades médias e pequenas da Bahia. Os bens públicos como presídios, bases militares, centros de pesquisas, universidades e institutos de educação (campus e pólos de EAD – Educação a Distância). Sobre este último agente, nossa pesquisa atual trata da expansão do Ensino Superior para cidades médias e pequenas da Bahia, tem demonstrando que a zona crítica chega juntamente com o ponto de inflexão e a implosão-explosão, mesmo em cidades que não passaram pela industrialização. Nos últimos 05 anos constatamos uma expansão da oferta da educação superior na Bahia, vinculada à criação de Universidades Federais, Estaduais e implantação de pólos de EAD (HENRIQUE, 2010, p. 50). Além destes, o autor destaca outros objetos geográficos que têm levado o mundo urbano para as cidades médias e pequenas da Bahia, contudo destacar-se-ão somente os mencionados acima, pois se vinculam ao objeto de nossa pesquisa. Cidades como Santo Antônio de Jesus e Cruz das Almas já possuíam forte vinculação com o mundo urbano. A primeira é conhecida no Recôncavo por sua intensa atividade comercial e, além disso, já possui um campus da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Cruz das Almas possuía a antiga Escola de Agronomia da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e também tem uma forte dinâmica comercial. Porém entende-se que estas cidades atravessam processos de reestruturação dos seus espaços urbanos e nas cidades com a chegada da UFRB, pois observam-se novas dinâmicas imobiliárias nos espaços próximos aos campi da universidade. Percebemos, então, a consolidação de Cruz das Almas e Santo Antônio de Jesus como cidades que desempenham papéis regionais típicos de cidades médias, pois, de acordo com Sposito M. Papéis regionais sempre estiveram associados às cidades médias, às vezes denominadas cidades regionais. Assim pensada, cada cidade 18 média associava-se à área ou à região que comandava, o que pressupunha relações diretas com um número de cidades pequenas e o desempenho de funções de intermediação destas com a cidade maior de que eram todas tributárias, tanto a cidade média como as pequenas (SPOSITO, 2007, p. 234). O que há de novo no processo de especulação imobiliária após a chegada da UFRB e que se está denominando de reestruturação urbana é a localização desses novos processos. Nestas cidades isto agora não se restringe mais ao seu centro, mas sim em áreas periféricas, que antes eram consideradas de população de baixa renda, mas que, devido à instalação de novas formas-conteúdo, recebem uma valorização de áreas urbanas que antes não possuíam tal valor. Esta nova relação centro e periferia também é uma vinculação e um indicativo da presença dos processos de urbanização contemporânea. 1.5 MÉTODO E METODOLOGIA Toda pesquisa necessita de um método para se chegar a um determinado resultado. O método é uma construção intelectual que o pesquisador aborda a partir da sua compreensão do mundo. Para Sposito E.: (...) a questão do método é fundamental porque se trata da construção de um sistema intelectual que permita, analiticamente, abordar uma realidade, a partir de um ponto de vista, não sendo um dado a priori, mas “uma construção”, no sentido de que “a realidade social é intelectualmente construída (SPOSITO, 2004, p. 24)”. Nesta pesquisa a compreensão de mundo não quer abordar a expansão das Instituições de Ensino Superior na Bahia pelo viés do senso comum, que é absorvido pela sociedade, em geral, através dos discursos da mídia, dos políticos e/ou das classes dirigentes das universidades. Não há dúvidas que número reduzido de universidades federais no estado da Bahia evidenciava ‘certo descaso’ da Federação com o estado e a inserção da Universidade 19 Federal do Recôncavo da Bahia sinaliza uma nova possibilidade, no que tange à oferta do Ensino Superior no estado. Enquanto pesquisadores não se pode limitar a análise à importância educacional da universidade na região do Recôncavo Baiano e no estado, porém devemos buscar compreender as contradições e as pressões políticas, econômicas, sociais e culturais presentes neste processo e como a universidade tem provocado uma reestruturação urbana e uma reestruturação das cidades, bem como os conflitos que são gerados no espaço urbano e regional devido à presença da UFRB. Diante do exposto, entende-se que o melhor para alcançar os objetivos da pesquisa é a utilização do método dialético. Segundo Lefebvre, utilizando-se da dialética (...) os pesquisadores confrontam as opiniões, os pontos de vista, os diferentes aspectos do problema, as oposições e as contradições; e tentam elevar-se a um ponto de vista mais amplo, mais compreensivo (1983, p. 171). Para Sposito E. (2004), o método dialético busca refutar as ideias do senso comum e chegar à verdade através da razão. Buscando compreender o movimento da história, utilizando a ideia do materialismo dialético de Marx, tese, antítese e síntese ou, como denomina Lefebvre (1983), superação. Em relação ao desenvolvimento metodológico, utilizamos a base de dados que foi disponibilizada pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, pelo sítio na internet do Ministério da Educação, os Censos Demográficos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI). 20 Os dados a serem utilizados na pesquisa terão um recorte temporal a partir do ano de 2003, quando a UFRB começa a ser pensada concretamente para esta região. Os procedimentos metodológicos se fundamentam nos levantamentos e análises documentais e bibliográficas, cartográficas e nos trabalhos de campo. Estes últimos terão a finalidade de levantar dados sobre o processo que gerou a implantação da UFRB nas cidades que receberam seus campi, através de pesquisa em sítios e blogs regionais, no Jornal “A Tarde” e na própria Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. As atividades de campo nessas cidades (Cruz das Almas, Santo Antônio de Jesus, Cachoeira e Santo Amaro) terão como finalidade a realização de observações estruturadas, entrevistas com lideranças políticas, alunos que participam do movimento estudantil e outros agentes sociais locais com a coleta de depoimentos sobre a implantação da nova universidade e as suas consequências na estrutura urbana da cidade e suas repercussões na região, além de visitas às prefeituras locais para obter dados sobre os municípios. Destaca-se que com esta metodologia ter-se-á uma visão geral do processo e alguns indicativos focais em determinadas cidades. Para melhor operacionalizar a pesquisa os procedimentos se basearão na proposta de Henrique (2010) para o estudo de cidades médias e pequenas da Bahia. Para este autor, existem quatro planos a serem analisados num estudo de cidades médias e pequenas: o econômico, o morfológico, o cotidiano e o político. O plano econômico se fundamentará apenas na oferta de bens públicos e serviços, no caso a universidade e os institutos de pesquisa e ensino; no plano morfológico serão destacadas as novas construções nas cidades que estão vinculadas à presença da UFRB (pensionatos, pousadas, mercados de pequeno porte etc.); e o plano político (que na pesquisa assume também um caráter regional), através da atuação dos partidos políticos e da sociedade civil na constituição da UFRB. 21 Apesar de, em um momento inicial, ter ocorrido a proposta de estudar também a cidade de Amargosa, não foi possível, efetivamente, durante a pesquisa, aprofundar nas questões referentes a esta cidade e à UFRB devido ao tempo da pesquisa. Da mesma forma, não foi possível analisar o plano do cotidiano, visto que esse tipo de estudo demanda uma maior quantidade de tempo nas cidades em que foram realizadas as pesquisas. 22 2. A PRODUÇÃO DO ESPAÇO URBANO REGIONAL 2.1 A PRODUÇÃO DO ESPAÇO Na década de 1970 Milton Santos assinalava, no seu livro Por uma Geografia Nova, qual é o objeto de estudo da Geografia: o espaço. Nessa obra ele faz um percurso na história do pensamento geográfico e em vários momentos busca as raízes da dificuldade em se conceber um objeto de estudo para a ciência geográfica. Ao longo do texto, Santos (1996) cita vários autores geógrafos e não geógrafos que tentaram definir um objeto de estudo à Geografia. Tal incompreensão é explicada em parte pela dificuldade na acepção da palavra espaço. Essa palavra se aplica a várias situações do senso comum, por exemplo, quando se refere a uma casa, a uma mesa, a uma escultura, a uma cidade, ao país e até ao espaço sideral. Essa dificuldade de compreensão de qual seja o objeto da disciplina – o espaço social – atrasou o aprofundamento teórico-metodológico para esta ciência, o que provocou uma dificuldade na aproximação e no diálogo com as demais ciências humanas. O espaço que interessa à Geografia é o social, no qual os seres humanos vivem e desenvolvem suas atividades, realizam seus desejos, se relacionam. Para Santos, “sua definição é árdua, porque a sua tendência é mudar com o processo histórico, uma vez que o espaço geográfico é também o espaço social” (1996, p. 120). Considerar o espaço como social é também compreendê-lo como um produto histórico. O espaço de interesse da Geografia não é dado pela natureza ou somente pelas condições naturais, mas ele é, sobretudo, produzido em determinadas condições históricas e condicionado-condicionante pelo modo de produção. Além dessa dificuldade algo que deve ser considerado é a noção de totalidade, pois o que ocorre num determinado lugar depende da totalidade que 23 ocorre no espaço inteiro. Agora, no início da segunda década do século XXI, essa ideia tende a ganhar mais força, visto que as relações econômicas e políticas se estendem e se imbricam por todo o mundo. Santos (1996), inspirado parcialmente na obra de Henri Lefebvre, para abordar a noção de espaço social vai utilizar a teoria da produção do espaço, pois, se o espaço é histórico e social, necessariamente ele é produzido em sociedade e mutável. O espaço geográfico começa a ser produzido através da natureza, esta que foi e cada vez mais é apropriada pelo trabalho humano. Ao se apropriar o ser humano passa a transformar o espaço que habita, e isso ocorre porque através dos instrumentos de trabalho (técnicas) ele deixa de ser um animal homem para se tornar um homem social, como refere Santos: Nosso enfoque é fundamentalmente baseado no fato de ser o espaço humano reconhecido, tal qual é, em qualquer que seja o período histórico, como resultado da produção. O ato de produzir é igualmente o ato de produzir espaço (1996, p. 161). Como Milton Santos e Henri Lefebvre trabalham com essa ideia de “produção do espaço” é importante compreender o que é a produção. Lefebvre (1974), ao retomar o conceito de produção em Marx e Engels, relembra que existem basicamente duas acepções no uso do termo ao longo da vasta obra desenvolvida pelos dois. Numa primeira acepção, muita ampla, por sinal, o conceito de produção está ligado à produção da vida e da história. Lefebvre (1974) chama atenção que até a compreensão que temos da “natureza” foi produzida ao longo da história. A outra concepção é mais restrita e se refere apenas às coisas: os produtos. Sobre a primeira acepção considerada pelo autor, segue uma própria passagem onde Marx e Engels, no livro A Ideologia Alemã, expõem essa concepção de produção: O primeiro fato histórico é, pois, a produção dos meios que permitem satisfazer as necessidades, a produção da própria vida material; trata-se de um fato histórico, de uma condição fundamental de toda história, que é necessário, 24 tanto hoje como há milhares de anos, executar dia a dia, hora a hora, a fim de manter os homens vivos (1977, p. 14). O conceito de produção, nesse sentido, torna-se fundamental na análise geográfica, pois nos apresenta uma nova compreensão para as relações homem-natureza, alvo de tantas dicotomias na Geografia. Deste modo, o espaço como produção emerge da história da relação do homem com a natureza, processo no qual o homem se produz como ser genérico numa natureza apropriada e que é condição de sua produção. Nesse processo, a natureza vai assumindo inicialmente a condição da realização da vida no planeta, meio através do qual o trabalho se realiza, até assumir a condição de criação humana – como resultado da atividade que mantém os homens vivos e se reproduzindo – no movimento de humanização da humanidade (CARLOS, 2011, p. 63). Quando os seres humanos passam a produzir suas condições de existência e sua própria vida através do trabalho também passam a produzir o seu espaço, como afirmado anteriormente. Ao produzir sua vida o ser humano produz a sua história e o próprio espaço. Carlos (2011), ao analisar essa dupla acepção de produção – Lefebvre chama atenção que a produção de objetos, produtos e mercadorias se refere a um mundo objetivo e o espaço como condição para reprodução da vida social –, lembra que existe também um sentido amplo da produção: as representações, o conhecimento, as ideologias. A produção lato sensu diz respeito ao processo de produção do humano – na tradição hegeliana, aponta-se a produção do ser genérico – enquanto a noção de produção stricto sensu refere-se, exclusivamente, ao processo de produção de objetos. Este, porém, se realiza produzindo não só a divisão técnica do trabalho dentro da empresa, a produção e a circulação, como também as relações sociais mais amplas e complexas que extrapolam as esferas da empresa tomando a sociedade como um todo. Logo, o processo de produção abrange o espectro mais amplo, aquele da produção de relações sociais, de uma cultura, de uma ideologia e de um conhecimento (CARLOS, 2011, p. 56). É bastante comum ao escrever sobre determinados espaços os autores recorrerem, necessariamente, à história daquele espaço. Os relatos dessa 25 história são diversos: como surgiu, quem chegou primeiro, os processos ao longo da história, entre outros. Tudo isso é importante, mas não se pode compreender “a produção do espaço” desta forma, isso seria reduzir uma abordagem da Geografia à História do espaço (e mal escrita). Os seres humanos, ao produzirem espaço, herdam condições históricas, mas eles também possuem a capacidade de transformação. Também não podemos deixar de destacar o papel do Estado como principal agente na produção do espaço. Lefebvre (1974) insiste, ao longo de sua obra, no papel primordial do Estado enquanto direcionador dos fluxos, estes de diversas origens, espaços de consumo e de riqueza historicamente acumulada. Ele aponta que o Estado também pode produzir o espaço, reconstruindo os espaços históricos para a reprodução do capital quando não é mais possível destruí-lo. Carlos (2011), concordando com Lefebvre, aponta esse papel do Estado, incluindo, contudo, o capital e os sujeitos sociais. Esse papel primordial do Estado termina por legitimar as desigualdades e naturalizar a exploração do capital através da criação de leis que facilitem e até mesmo legitimem a reprodução cada vez mais ampliada do capital, através da produção do espaço. Nesse sentido, a natureza da intervenção do Estado garante a exploração multiforme e a igualdade na exploração mútua e recíproca, enquanto a lei garante a igualdade e, nesta, a manutenção da desigualdade. A relação economia-política impulsionada pelo Estado se concretiza espacialmente ganhando a dimensão global e encerrando a reprodução nos quadros políticos, isso porque, a partir de certo momento, o Estado assume como tarefa primordial assegurar as condições de reprodução através das relações de dominação (e o que isto implica) (CARLOS, 2011, p. 65). Sobre a noção de espaço é importante destacar as contradições e os problemas no uso desse conceito nas ciências. Quando se refere ao espaço na Geografia não nos referirmos a uma noção matemática ou geométrica, como foi consagrado ao longo dos anos. Esse espaço, segundo Lefebvre (1974), foi alvo de várias reflexões de diversos filósofos, entre os quais podemos destacar Descartes, Newton, Spinoza, Leibniz e Kant. 26 O espaço que nos interessa não é o matemático ou geométrico, mas o social, o qual não tem nenhuma relação com o primeiro, visto que o espaço matemático é homogêneo, isotrópico, como afirma Lefebvre (1974), enquanto que o espaço social é desigual, e são estabelecidas diferentes relações que geram desigualdades. O espaço social não são as “coisas” reunidas nem separadas pelos muros. O conceito de espaço tem uma relação direta com o conceito de produção, pois, no espaço, se manifestam as diversas relações sociais: a estrutura, o Estado, o trabalho, a técnica. Santos (1996) aponta para essa relação entre o conceito de produção e de espaço quando trata das transformações que vêm ocorrendo no espaço nos últimos anos pelo desenvolvimento das forças produtivas. O espaço também já não é mais o mesmo. Ele se transforma em função das modalidades de adaptação da sociedade local ao novo processo produtivo e às novas condições de cooperação. A cada renovação das técnicas de produção de transporte, de comercialização, de transmissão das idéias, das ideologias e das ordens, corresponde uma forma nova de cooperação, mais profunda e espacialmente mais extensa (SANTOS, 1996, p. 166). A reprodução do modo capitalista de produção, segundo Carlos (2011), ocorre na atualidade através da produção do espaço. E o principal agente social que vai assegurar essa reprodução é o Estado, o qual não é neutro, apesar de se apresentar como tal. O Estado é composto pelas classes sociais, sobretudo as dominantes, quando não exclusivamente por elas. O espaço também se apresenta no período atual como uma condição de reprodução da sociedade capitalista, o que implica uma materialidade, segundo Carlos (2011): as redes de esgoto, a malha viária, as edificações. Essas transformações na produção e, por conseguinte, no espaço irão nos obrigar a pensar também o espaço de maneira multiescalar, pois cada vez mais o espaço mundial se encontra interligado devido ao desenvolvimento das 27 forças produtivas. Cada vez mais o local se relaciona com o regional, o nacional e o mundial. O espaço total é o espaço mundialmente solidário, mesmo que as transformações espaciais se devam à intervenção simultânea de redes de influência operando simultaneamente em uma multiplicidade de escalas e níveis desde a escala mundial até a escala local. “O espaço total e o espaço local são aspectos de uma única e mesma realidade – a realidade total – à imagem do universal e dos particulares (SANTOS, 1996, p. 166-167)”. Lefebvre (1974) esclarece que não existe a produção de coisas ou objetos no espaço nem a soma de coisas nele, mas sim o que se apresenta para nós é a produção do espaço. Esta se dá através das relações, esses objetos ganham um sentido nas relações sociais que são estabelecidas. O autor considera até mesmo que os objetos naturais a partir da transformação do trabalho humano estão inseridos na produção do espaço. Carlos (2011), inspirada na teoria lefebvriana, afirma que na Geografia é necessário ultrapassar a noção da produção das coisas no espaço e da sua organização através da sociedade no espaço. Atualmente, temos uma sociedade que produz o espaço e não organiza as coisas no espaço; esta compreensão para o pensamento geográfico é de fundamental importância para a apreensão da realidade. Essa compreensão, na disciplina, só é possível quando adotamos o materialismo histórico como paradigma em nossos estudos. A partir da utilização desse método passamos a compreender que o espaço não mais como organizado, e sim produzido, que passa a ser entendido como mercadoria, como consequência do modo de produção capitalista. Nesse processo, o valor de uso do espaço é cada vez mais redefinido pelo valor de troca Assim, o espaço mercadoria se propõe para a sociedade como valor de troca, destituído de seu valor de uso e, nessa condição, subjugando o uso, que é condição e meio da realização da vida social, às necessidades da reprodução da acumulação como imposição para a reprodução social. É nesse processo que o valor de 28 troca ganha uma amplitude profunda – o que pode ser constatado pela produção dos simulacros espaciais como decorrência de revitalizações urbanas, ou pelas exigências do desenvolvimento do turismo (CARLOS, 2011, p. 61). Santos apresenta uma visão semelhante à de Lefebvre (1974) quando define o espaço geográfico, definição esta em que ele utiliza os termos sistemas de objetos e sistemas de ações O espaço é formado por um conjunto indissociável, solidário e também contraditório, de sistemas de objetos e sistemas de ações, não considerados isoladamente, mas como o quadro único no qual a história se dá (SANTOS, 2006, p. 39). Quando o autor utiliza o termo “sistemas de objetos” ele quer afirmar que os objetos não estão isolados, mas existe um sistema que configura essa lógica. Os objetos, na atualidade, somente se realizam plenamente quando ligados a outros objetos, e ele utiliza o exemplo da TV, que necessita de uma rede de transmissão, estúdios e vários outros objetos para que a sua função se realize de fato. Além disso, nota-se que tanto os objetos quanto as ações são cada vez mais artificiais e os seus fins, quase sempre, são estranhos ao lugar e aos seus habitantes. Santos (2006) utiliza essa ideia de sistemas de objetos e sistemas de ações, pois, para ele, é insuficiente utilizar o par dialético forças produtivas e relações de produção, já que, na atualidade, estes se apresentam muito semelhantes. É insuficiente dizer que há, de um lado, forças produtivas e, de outro lado, relações de produção, e se tornou irrelevante afirmar que o desenvolvimento das relações de produção conduz ao desenvolvimento das forças produtivas e, ao revés, que o desenvolvimento das forças produtivas conduz ao desenvolvimento das relações de produção (...). Hoje, as chamadas forças produtivas são, também, relações de produção. E vice-versa (SANTOS, 2006, p. 63-64). Santos também faz uma distinção entre as “coisas” e os “objetos”. As “coisas” têm origens naturais, não possuem um propósito. Já os “objetos” são criados pelas atividades humanas e todos eles têm um fim, um propósito. 29 Corroborando o que Lefebvre (1974) já apontava, Santos (2006) afirma que o espaço de interesse dos geógrafos não é um espaço das somas dos objetos, mas compete à Geografia compreender como ocorrem as relações entre os objetos que estão dentro de um sistema. Esses objetos também podem ter um papel simbólico, mas, sobretudo, possuem um papel funcional. Sobre os sistemas de ações, Santos (2006) trabalha com a noção de intencionalidade, considerando-a válida para a análise do processo de produção e de produção das coisas. A intencionalidade é um ato consciente e voluntário sobre as coisas e os objetos: “(...) a intencionalidade da ação se conjuga a intencionalidade dos objetos e ambas são, hoje, dependentes da respectiva carga de ciência e de técnica presente no território” (SANTOS, 2006, p. 94). Contudo Santos nos chama atenção que uma ação nem sempre atinge a intencionalidade desta, pois, nas atividades humanas, existe o imponderável, sobre o qual não se pode ter o controle. Além do imponderável, uma ação nem sempre atinge a intenção inicial, pois ela se realiza num espaço determinado, que, como afirma Santos, é uma “combinação complexa e dinâmica que tem o poder de deformar o impacto da ação” (SANTOS, 2006, p. 95). A cada novo momento histórico se impõem novas ações sobre novos objetos. Quando essas ações se realizam sobre antigos objetos têm sua eficácia limitada, pois as ações, na atualidade, são cada vez mais velozes e exigem novas dinâmicas que determinados objetos do passado não dão conta. O espaço compreendido como um sistema de objetos e sistemas de ações revela-se articulado em diversas escalas, em que determinados eventos podem alterar a lógica de espaços distantes. A produção do espaço não pode nem deve ser entendida a partir de uma análise superficial e monoescalar, mas compreendendo os processos sociais que também são processos espaciais que são apreendidos em uma abordagem multiescalar do espaço. Lefebvre (1974) lembra, por exemplo, que é necessário fazer um recorte para compreender as dinâmicas na produção do espaço, ao nível mais local. 30 Inclusive a contradição “centro-periferia” resulta da ideia de “globalidadeparcelas”. O espaço, segundo Lefebvre, é global, no plano do concebido, contudo ele é fragmentado se partirmos de uma análise no plano do vivido. Entretanto não existe em um determinado momento um espaço concebido, um vivido e outro percebido, mas existe o espaço que é produzido pela totalidade, que é o modo de produção capitalista, contudo a sua apropriação não ocorre por toda a sociedade, e sim por uma parte dela, visto que a apropriação se dá pela mediação do mercado imobiliário. Essa teoria da produção do espaço foi desenvolvida por Lefebvre e permeou boa parte do seu pensamento. 2.1 A CIDADE E A PRODUÇÃO DO ESPAÇO URBANO Com o processo de renovação da Geografia, a partir da década de 1970, os estudos urbanos focaram na análise marxista da cidade, de modo particular nas contradições presentes na produção do espaço urbano. Os estudos e as análises das redes urbanas e das relações entre cidades foram sendo deslocados para segundo plano, num esforço de superação dos paradigmas da Geografia Quantitativa, que priorizava esses estudos urbanos. Também nessa análise marxista do processo de urbanização os principais objetos de estudo eram, e ainda são, em sua maioria, as grandes cidades e as metrópoles, visto que os problemas e as desigualdades, com o aumento e aceleração da urbanização, eram mais visíveis nestes espaços. Isso levou ao arrefecimento nos estudos sobre a rede urbana na literatura brasileira, sobretudo numa perspectiva marxista e dialética. Porém, em sua tese de livre docência, Sposito M. retoma a ênfase nos estudos de rede urbana a partir das transformações, que ela denomina de reestruturação urbana, que estão ocorrendo nas cidades do interior de São Paulo, numa perspectiva crítica. No período atual, a preocupação em se relacionar os dois níveis escalares de enfoque dos estudos urbanos deve ser maior, pois o aumento das possibilidades técnicas de transporte e comunicação reflete-se em crescente velocidade e fluidez, tornando mais intensas 31 as relações entre diferentes espaços e os ritmos de troca entre eles (SPOSITO M., 2004, p. 29). Em sua tese de livre docência O chão em pedaços: urbanização, economia e cidades no Estado de São Paulo, Sposito faz um caminho inverso ao que a maioria dos geógrafos urbanos tem realizado em seus estudos. Ela analisa a urbanização do estado de São Paulo a partir de um estudo sobre a desconcentração industrial que vem ocorrendo no estado desde os anos 1970. O principal referencial teórico é a teoria da produção do espaço, de Henri Lefebvre. Ao longo do texto ela aborda alguns conceitos e ideias, tais como a urbanização e as cidades, morfologia e expansão urbana, rede urbana, estrutura (ção) urbana e de cidade, reestruturação urbana e de cidade. Sposito M. (2004) propõe uma reflexão sobre o termo urbanização e cidades. Sobretudo o primeiro termo, segundo a autora, tornou-se muito utilizado no cotidiano e isso tem levado a uma confusão na compreensão do seu sentido. Além desse problema, ela verifica que a palavra “urbanização” também é utilizada em diversas áreas do conhecimento, o que torna a questão ainda mais complexa, pois cada pesquisador entende de uma maneira o sentido deste termo, a depender da sua área de atuação. Para Sposito M., “a urbanização é um processo e, como tal, deve ser lida como movimento espaço-temporal”. (...) não há possibilidade de apreensão da urbanização, como processo complexo que se constitui, sem se analisarem as múltiplas conexões possíveis entre o tempo e o espaço, não apenas considerando-se a sucessão e a sincronia, mas também o descompasso e a arritmia que marcam o movimento que, no real, articula essas duas dimensões da existência (SPOSITO, 2004, p. 34). Depois dessa análise sobre o termo “urbanização” e a compreensão desta como um processo, a autora passa a uma análise do conceito de “cidade”. 32 Sposito M. (2004) considera a cidade como um conceito e uma realidade ao mesmo tempo, uma forma e/com conteúdo. Citando Roncayolo (1990), a autora afirma que a cidade é um dispositivo social e topográfico que propicia as trocas entre os seres humanos, pois nesta se verifica o fator proximidade, que aumenta a capacidade de se estabelecer interações em uma sociedade. Entendendo a urbanização como processo, consequentemente, a análise da cidade deve ser entendida numa perspectiva dialética, no movimento rural-urbano e nas mudanças na divisão social e territorial do trabalho. Ao considerarmos a urbanização como processo e movimento de transformação, tem-se, como perspectiva conceitual, a compreensão da cidade pelo seu espaço ↔ tempo e pela dialética rural ↔ urbano, ou seja, estamos considerando que o vetor desse movimento é dado pelas mudanças na divisão social e territorial do trabalho (SPOSITO, 2004, p. 38). Sposito M. reconhece a realidade material da cidade, nesta perspectiva teórica, mas não como uma paisagem estática, visto que nessa materialidade estão presentes as relações sociais e os seus processos. A compreensão do conceito de cidade é entendido (...) a partir do conjunto de dinâmicas de produção do espaço urbano contemporâneo, que tem levado à redefinição de sua morfologia, mais marcada pelas oposições destacadas e menos definida pela diferença entre as densidades demográficas e construtivas do campo e da cidade (SPOSITO M., 2004, p. 39). As mudanças morfológicas devem ser destacadas, considerando as múltiplas escalas geográficas. 33 Sposito destaca, a partir da leitura das obras de Santos e Seabra, que a urbanização tende a uma lógica homogeneizante, por isso, atualmente, muitos autores têm encontrado dificuldades em diferenciar campo e cidade. No presente período a cidade se torna um lócus para a reprodução do capital, esse ponto de vista, nos estudos de Geografia Urbana, passa a ser uma referência na análise da cidade, depois da incorporação da obra de Lefebvre sobre a produção do espaço nesse ramo da Geografia. Sposito apresenta uma citação de Soja sobre este entendimento do conceito de cidade. A cidade passou a ser vista não apenas em seu papel distintivo de centro de produção e acumulação industrial, mas também como o ponto de controle da reprodução da sociedade capitalista em termos de força de trabalho, da troca e dos padrões de consumo (SOJA, apud SPOSITO M., 2004, p. 112). Sobre a teoria da produção do espaço que embasa o trabalho de Sposito, ela afirma que é necessário dar ênfase às relações que ocorrem no espaço e não aos suportes materiais localizados e inscritos no território. A “reafirmação do espaço na teoria social crítica” deve ser considerada a partir da elaboração da obra de Lefebvre, tendo o desenvolvimento da concepção de produção do espaço como referência o conceito de produção em Marx. Assim, a análise do papel da produção na obra de Marx e Engels é fundamental para Lefebvre, que, em no conjunto, sua obra associa dialeticamente o modo de produção com a urbanização e reconhece a cidade como expressão e condição das mudanças na divisão social do trabalho. Para a autora, “é a partir desse duplo sentido que podemos compreender a cidade como lugar que reúne e expressa, ao mesmo tempo, as duas acepções do termo produção” (SPOSITO M., 2004, p. 49). Neste mesmo sentido, para Lefebvre, a cidade é obra e é o lugar onde se produzem obras diversas, incluindo o que dá sentido à produção: necessidades e satisfações. 34 Ao comentar a obra de Lefebvre a autora afirma que esse duplo sentido da produção traz uma unidade, pois a cidade é a expressão da produção no sentido amplo, ela mesma é uma obra que se materializa na produção e também é um lócus para a produção dos bens e dos serviços. A cidade é a materialização concreta do processo de urbanização e da própria história, é o somatório dos diferentes tempos. A cidade constitui, em si mesma, o lugar de um processo de valorização seletivo. Sua materialidade é formada pela justaposição de áreas diferentemente equipadas, desde as realizações mais recentes, aptas aos usos mais eficazes de atividades modernas, até o que resta do passado mais remoto, onde se instalam usos menos rentáveis, portadores de técnicas e de capitais menos exigentes. Cada lugar, dentro da cidade, tem uma vocação diferente, do ponto de vista capitalista, e a divisão interna do trabalho a cada aglomeração não lhe é indiferente. Assim, às diversas combinações infraestruturais correspondem diversas combinações supraestruturais específicas (SANTOS, 1994, p. 129-130). Para Santos (1978), o ato de produzir é, ao mesmo tempo, o ato de produzir espaço. Essa é uma posição teórico-metodológica proposta por Lefebvre, de acordo com o qual essa metodologia consiste em “passar dos produtos (estudados de perto ou de longe, descritos, arrolados) à produção”. A partir da leitura de Lefebvre, a autora chega à conclusão que: (...) ao se urbanizar, a sociedade brasileira vivenciou, de forma intensa e acelerada, um conjunto de experiências que outras formações sociais, no âmbito do modo capitalista de produção, experimentaram de forma mais gradual (SPOSITO, 2004, p. 52). Como dito, a cidade é um acumulo de tempos históricos e da própria produção atual e o espaço da cidade é organizado em função dessas mudanças que ocorrem ao longo do tempo no papel desempenhado pelas cidades, a forma como o processo de urbanização se materializa nas cidades é uma dimensão fundamental nesse movimento de transformações. Segundo a autora 35 O espaço geográfico é, então, expressão das formas como esses diferentes tempos nele se acumulam, por meio de estruturas espaciais e paisagens que permanecem e/ou se transformam e/ou desaparecem (SPOSITO M., 2004, p. 61). Na sequência, Sposito M. trabalha mais três termos: desenvolvimento, crescimento e expansão urbanos. Destaca a confusão que existe na aplicação destes termos, tanto ao nível do senso comum como na academia. O desenvolvimento urbano pode ser pensado sob muitas perspectivas, como a econômica, a social, a política ou a cultural; o crescimento urbano, por sua vez, analisa-se do ponto de vista econômico, mas também demográfico, espacial ou territorial. A nós, interessa mais de perto a análise da expansão urbana, tomando-se como referência sua dimensão territorial (SPOSITO M., 2004, p. 59). Na tese, Sposito M. prioriza o conceito da expansão urbana tomando-se como referência a dimensão territorial. Essa dimensão das dinâmicas urbanas é abordada a partir do processo de produção, mais especificamente produção do espaço urbano. A análise dessa expansão contempla duas perspectivas: - A expansão da base territorial na qual se assenta a cidade, seus usos e apropriações. - As práticas socioespaciais dos citadinos (subjetiva). Outro conceito explorado pela autora é o de morfologia urbana. Apesar de reconhecer várias perspectivas no uso deste conceito, Sposito deixa claro o seu entendimento ao afirmar que “(...) a morfologia urbana refere-se não apenas à forma, mas também aos conteúdos que orientam essa forma e são por ela redefinidos continuamente” (2004, p. 66). E continua dizendo que (...) as formas espaciais e, por conseguinte, a forma urbana resultariam de maneira como se articulam, no decorrer do tempo, determinações sociais que orientam a maneira como uma sociedade vai ocupar o espaço natural e dele se apropriar (SPOSITO, 2004, p. 67). 36 2.2 A PRODUÇÃO DO ESPAÇO URBANO-REGIONAL EM CIDADES MÉDIAS E PEQUENAS Para Lefebvre (2008), no período atual o mundo vive um processo generalizado de urbanização com uma tendência à formação de uma sociedade urbana. Sanfeliu (2009), citando um estudo da Organização das Nações Unidas, de 2007, afirma que a proporção de pessoas que vivem em áreas urbanas ultrapassou os 50%. Contudo, apesar da urbanização ser um processo global, ela não é igual em todos os lugares, pois existem intensidades e densidades diferentes na constituição do urbano e da estruturação das cidades. Para exemplificar essa ideia Sanfeliu (2009) considera a urbanização da América Latina, onde as cidades, nesta região do mundo, apresentam um processo de urbanização acelerado, porém bastante concentrado nas grandes cidades, sobretudo as capitais, já que nelas estão a maioria das indústrias e dos serviços, além de serem o principal centro de decisões políticas e econômicas. A seguir, pode-se verificar pelo quadro comparativo a evolução da urbanização do Brasil e da Bahia com dados do novo censo e comprovar que o estado segue essa tendência de urbanização, superando até o percentual de crescimento urbano do Brasil se comparado à evolução de 2000-2010, segundo o Censo do IBGE de 2010. 37 QUADRO 1. População Urbana do Brasil 2000-2010 POPULAÇÃO URBANA EM 2000 (%) POPULAÇÃO URBANA EM 2010 (%) BRASIL 81,23 84,3 BAHIA 67,05 72,07 Fonte: Primeiros Dados do Censo 2010 (BRASIL, 2010). A partir da década de 1980 estas grandes cidades latino-americanas, apesar de permanecerem como principais cidades dos seus respectivos países, passam a ser o lócus das novas dinâmicas que vão sendo adotadas na economia mundial, tais como o livre comércio e a flexibilização da produção. Atualmente, os dados sobre a população da América Latina apresentam uma tendência à desconcentração demográfica, o que resulta numa distribuição espacial mais equitativa. Esta desconcentração tem um sentido preferencial: as cidades médias ou intermediárias. Contudo Sanfeliu aponta que ao passo que ocorre um crescimento do número de cidades intermediárias estas se localizam, em sua maioria, próximas às grandes cidades ou ao seu raio de influência. Sin embargo, estúdios posteriores han mostrado que, al mismo tiempo que há disminuido el crecimiento de la gran metrópoli, há continuado un importante crecimiento de las ciudades intermedias cercanas a la primera, com lo que se há ampliado una marcada concentración de actividades productivas y de población urbana em una “región central” que contiene la ciudad más grande del país, pero cubre um territorio mucho más amplio (SANFELIU, 2009, p. 27).2 2 No entanto, estudos posteriores mostraram que enquanto ocorre um declínio no crescimento da metrópole continuou um forte crescimento das cidades médias perto da metrópole, o que ampliou a acentuada concentração das atividades produtivas e urbanas em uma "região central", contendo a maior cidade do país, porém cobrindo um território muito mais amplo (tradução própria) (SANFELIU, 2009, p. 27). 38 A autora, inclusive, quando trata desse assunto em seu artigo, cita o exemplo do Brasil nesse processo. Corrêa faz uma proposta de definição das cidades médias, que, para ele, se constituem em “uma particular combinação do tamanho demográfico, funções urbanas e organização do espaço urbano” (2007, p. 15). Sanfeliu (2009) afirma que para reconhecer uma cidade média ou intermediária (termo utilizado pela autora) é preciso identificar nela função de intermediação na sua hinterlândia: equipamentos socioculturais mais ou menos sofisticados, serviços de saúde especializados, trocas comerciais mais dinâmicas e espaços educativos de alto grau, como as universidades. O Brasil do final do século XX e início do século XXI apresenta novas tendências no que tange ao processo de urbanização. Historicamente, o país se caracterizou pela constituição de grandes núcleos urbanos, sendo que no início da colonização estes eram comumente encontrados no litoral brasileiro, com raras exceções. Esta organização do espaço urbano brasileiro durante muito tempo levou a um adensamento de população no litoral brasileiro, bem como de informações, mercadorias, comércio e de técnicas. Durante um longo período, no Brasil, estas cidades exerciam um papel predominantemente de intermediação da produção rural com Portugal (metrópole europeia). Mesmo com a independência política do país, as “grandes cidades” já existentes continuaram polarizando a enorme quantidade de pequenas cidades e vilas, sendo que a maioria destas não possuía funções urbanas de fato. Por isso, segundo Sposito M. (2001), não era possível até o início do século XX aplicar o termo cidade média no Brasil, pois não existiam cidades que desempenhassem papéis de intermediação regional entre pequenos núcleos e cidades maiores. Com a mudança do modelo agroexportador para o urbano-industrial a partir da década de 1930 é que alguns núcleos urbanos foram realizando esse papel de intermediação regional, sobretudo no sudeste. 39 Já em meados do século XX, reforçando a tendência de concentração de serviços e técnicas nos centros urbanos constituídos, são criadas as Regiões Metropolitanas, em que o Governo Militar, através da Constituição de 1967, autoriza a sua criação, onde serão constituídas cidades próximas a estes núcleos urbanos tradicionais. Contudo, a partir década de 1990, segundo pesquisadores brasileiros (SANTOS, 1994; SPOSITO M., 2006; SOARES, 2007), essa tendência vem diminuindo desde o período referido e tem ocorrido um crescimento populacional e das funções econômicas nas cidades médias e, posteriormente, nas cidades pequenas. Alguns fatores apontados para este novo processo são a modernização da agricultura, a atração de indústrias, a expansão do ensino superior para estas cidades, a fuga dos grandes centros e o retorno de migrantes para o interior, dentre outros. Para Santos, “Aumenta o número de cidades locais e sua força, assim como os centros regionais, enquanto as metrópoles regionais tendem a crescer relativamente mais que as próprias metrópoles do Sudeste” (1994, p. 22). No que tange à urbanização, o Brasil tem passado por dois processos que se complementam e estão dentro da mesma lógica: a concentração da sua população em grandes cidades, principalmente nas regiões metropolitanas, e a desconcentração urbana nas cidades médias e mesmo cidades pequenas. Este processo se estende pela rede urbana do país e a extensão do processo de urbanização através de amplos espaços regionais, por meio da intensificação das redes de transportes, comunicação e serviços que integram as múltiplas e distintas espacialidades e requalificam as relações, sobretudo devido à expansão dos sistemas técnicos, através da informática. Segundo Araújo, Moura & Dias (2011), a organização atual da rede urbana brasileira é composta de áreas metropolitanas e pelas cidades médias, que, atualmente, vêm crescendo em número e importância econômica no país. Este fato se deve às transformações na divisão internacional do trabalho, através das inovações em ciência e tecnologia. A difusão do capital nacional e internacional privado e até mesmo a ação do Estado têm buscado novas áreas para investimentos, a partir de uma política de desconcentração da economia em áreas metropolitanas. Esse 40 movimento retoma a discussão do papel das cidades médias no Brasil, visto que estas têm sido objeto de políticas públicas. Nessa perspectiva, as pesquisas de cidades médias e pequenas passam a ter grande relevância no Brasil a fim de compreender a nova organização da urbanização no espaço brasileiro. O conceito de cidades pequenas e médias ainda vem sendo discutido amplamente e não parece estar bem claro. No Brasil são chamadas “cidades de porte médio” aquelas que têm entre 50 mil e 500 mil habitantes, porém não podemos definir essas cidades como médias. (...) o critério demográfico (embora cômodo e não negligenciável) é capaz apenas de identificar o grupo ou a faixa que pode conter as cidades médias. Outros critérios deveriam ser também levados em consideração na definição dessas cidades. Seja como for, não pode ser desprezado o fato de que alguns aspectos como tamanho demográfico, relações externas, estrutura interna e problemas sociais das cidades médias, podem variar bastante de país para país e de região para região, sendo, naturalmente, função do nível de desenvolvimento alcançado, da posição e das condições geográficas e do estágio de processo de formação histórico-social de cada um desses países ou de cada uma dessas regiões (AMORIN FILHO & SERRA, 2001, p. 2-3). Essa definição, através do critério demográfico, se aproximaria mais de uma noção, na construção do pensamento, já que o embasamento é empírico. Esse critério pouco ajudaria na elaboração do conceito de cidade média, pois, de acordo com Sposito M. Não há correspondência direta entre o tamanho demográfico de uma cidade e seu papel na rede urbana ou, em outras palavras, cidades de mesmo porte populacional podem desempenhar papéis que diferem em sua natureza e importância (2001, p. 613-614). Como propõe Sposito M. (2006), não é só o tamanho demográfico que poderá definir o papel de uma cidade, e sim a função que ela desempenha em uma rede urbana e o seu papel de intermediação regional. Soares (2007) afirma que é necessário analisar o contexto territorial e as diferentes realidades socioespaciais nas quais as cidades estão inseridas. Estes fatores podem 41 auxiliar na análise e identificação de cidades médias e elaboração de um conceito mais claro. Na verdade, o crescente interesse pelo estudo da produção do espaço urbano nas cidades pequenas e médias parte do interesse em verificar quais são as particularidades encontradas nas dinâmicas inter e intraurbana, visto que o conteúdo tende a ser o mesmo das cidades grandes e metrópoles. Esse contexto socioespacial e os papéis que essas cidades exercem, apontados pelas autoras supracitadas, só podem ser entendidos a partir dos estudos de uma determinada rede urbana. Os estudos sobre esta temática, na Geografia, remetem, de acordo com Corrêa (1989), ao geógrafo alemão Walter Christaller, em 1933, além de Hans Bobek e Robert Dickinson, com seus estudos de hierarquia urbana. Contudo foi Christaller quem trouxe maiores contribuições para os estudos de rede urbana, desenvolvendo as Teorias das Localidades Centrais, traçando uma hierarquização urbana entre as cidades grandes, médias e pequenas, em que ele considerava cada uma destas dotadas de funções centrais no que diz respeito às atividades de ofertas de bens e serviços para a sua hinterlândia (região de influência). Além dos conceitos de alcanço espacial máximo e alcance espacial mínimo. Corrêa entende esses conceitos de Christaller da seguinte forma: O primeiro refere-se à área determinada por um raio a partir da localidade central visando à obtenção de bens e serviços. A área em questão constitui a região complementar. Para além dela os consumidores deslocam-se para outros centros que lhes estão mais próximos, implicando isto menores custos de transporte. O alcance espacial mínimo, por sua vez, compreende a área em torno de uma localidade central que engloba o número mínimo de consumidores que são suficientes para que uma atividade comercial ou de serviços, uma função central, possa economicamente se instalar (CORRÊA, 1989, p. 21). Essas proposições de Christaller foram utilizadas durante um longo tempo na Geografia, sobretudo pelos geógrafos teoréticos-quantitativos que trouxeram diversas contribuições e conceitos que os geógrafos ainda hoje utilizam, tais como hierarquia, localizações e fluxos e especializações funcionais. Contudo nos estudos da Geografia teorética a cidade e a rede 42 urbana eram destituídas de uma vida social, portanto os modelos teóricos não davam conta de explicar os conflitos e interesses diversos. O caráter histórico da dinâmica da rede urbana é deixado de lado. Corrêa entende que a rede urbana (...) constitui-se no conjunto de centros urbanos funcionalmente articulados entre si. É, portanto, um tipo particular de rede na qual os vértices ou nós são os diferentes núcleos de povoamento dotados de funções urbanas, e os caminhos ou ligações os diversos fluxos entre esses centros (1997, p. 93). Essas articulações não podem ser consideradas como livres de interesses e de conflitos, visto que essa articulação é histórica e cheia de contradições. O Estado e o capitalismo, com o aval do primeiro, tendem a valorizar determinados espaços numa rede urbana em detrimento de outros, o que vai gerar as chamadas especializações funcionais. Essas especializações geram interações espaciais, visto que uma determinada população precisa de alguns serviços que se realizam apenas em determinadas lugares, mesmo no período técnico-científico-informacional. No que concerne às transformações, as interações espaciais caracterizam-se, preponderantemente, por uma assimetria, isto é, por relações que tendem a favorecer um lugar em detrimento de outro, ampliando as diferenças já existentes, isto é, transformando os lugares (CORRÊA, 1997, p. 280). Corrêa (2007) chama atenção para o fato de que os estudos de rede urbana devem ser feitos a partir de diferentes vias, entre as quais as relações da cidade com a região devem ser destacadas. Com isso, devemos utilizar duas escalas de abordagens nessas análises: espaço intraurbano e espaço interurbano. Sposito M. (2004) lembra a ideia de rede urbana de Pierre George, que utiliza o conceito abordando a relação da cidade com a região. A França tem uma tradição em trabalhar com esse tema. Para estudar as estruturas 43 complexas das redes é preciso focar as relações entre cidade e campo e entre cidades. Seguindo o pensamento de Milton Santos, Sposito afirma que as redes podem ser examinadas pelo enfoque genético ou atual. No primeiro caso, elas são vistas como processo, do qual fazem parte movimentos que se dão em tempos diversos, cuja sucessão aleatória, ao contrário, ocorre sempre que uma mudança morfológica ou técnica se faz necessária, o que, segundo ele, torna complexa, mas fundamental a reconstituição de suas histórias (SPOSITO M., 2004, p. 187-188). A partir dessa análise é possível, também, compreender os “níveis de determinação da divisão econômica e territorial do trabalho que se estabelece entre as cidades que constituem uma rede urbana” (SPOSITO M., 2004, p. 188). Sposito M. (2004), citando Camagni (1993a), afirma que as redes, ao contrário do que pensou Christaller, atualmente se organizam não apenas por fluxos hierárquicos, mas também por relações do tipo competitivas e/ou de cooperação. Nessa mesma perspectiva, Roncayolo, segundo Sposito M. (2004), diz que a divisão funcional do espaço não se dá exclusivamente por princípios hierárquicos, mas combina especialização, complementaridade e concorrência. A autora destaca, também, a seletividade dos lugares, segundo os objetivos para os quais a rede está dirigida. 44 3. A UNIVERSIDADE FEDERAL DO RECÔNCAVO DA BAHIA E A PRODUÇÃO DO ESPAÇO URBANO 3.1 VALORIZAÇÃO DO ESPAÇO URBANO NAS CIDADES QUE RECEBERAM OS CAMPI DA UFRB A análise sobre o papel das universidades numa determinada rede urbana e a dinâmica regional que estas proporcionam tem sido pesquisada em diversos estudos acadêmicos, visto que as consequências da implantação de uma universidade, nessa perspectiva regional, são muito latentes. A articulação regional mediada por estas instituições aparece nos estudos de Tomasoni e de Pinto, Medina-Velasco & Pires. Tomasoni (2000) analisou em sua dissertação de mestrado a relevância social da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) na cidade de Santo Antônio de Jesus, bem como o seu papel no desenvolvimento local e regional. Já Pinto, Medina-Velasco & Pires (2009) analisam a expansão da UNEB no estado da Bahia, demonstrando claramente como esta instituição não dialoga com a rede urbana do estado, observando que parece não existir um planejamento na sua consolidação no território baiano. Os estudos na Bahia sobre as universidades se concentram sobre as suas dinâmicas regionais e na perspectiva do desenvolvimento econômico que elas poderiam vir a proporcionar. Em outros trabalhos já publicados foram levantadas questões sobre a influência que a universidade tem para a região em que está inserida. Neles é acentuado como a UFRB vem se articulando no Recôncavo na perspectiva de um deslocamento de estudantes e funcionários pelas cidades que compõem a região. Para Henrique: Desde os anos de 1960, primeiramente na Europa e nos Estados Unidos e, posteriormente, no Brasil, o Estado passa a compreender a instalação de universidades e/ou campus de instituições novas e/ou já existentes como uma estratégia de desenvolvimento urbano e regional de áreas economicamente deprimidas e/ou degradadas do ponto de vista da morfologia/qualificação do espaço urbano. Assim, constamos uma forte expansão das instituições de educação 45 superior, a maior parte delas públicas, para cidades médias e pequenas de vários países. A compreensão do papel das universidades como agentes da (re) estruturação urbana e das cidades torna-se importante, tanto em razão do volume de recursos financeiros movimentados quanto pela modificação de dinâmicas intraurbanas (moradia, circulação, usos, etc.) e do cotidiano dos moradores (HENRIQUE, 2011, p. 2). Baseado nessa perspectiva de Henrique (2011), o nosso propósito é analisar e demonstrar como a UFRB tem provocado uma especulação imobiliária nas cidades em que está presente. A dinâmica imobiliária e a expansão da oferta de moradias tem se configurado como uma dificuldade resultante da falta de organização e planejamento da UFRB em utilizar as verbas também no sentido de contemplar as residências universitárias. Como apresentaremos a seguir, mais de 50% dos estudantes desta universidade são oriundos de Salvador, Feira de Santana e outras cidades que não compõem a região do Recôncavo, necessitando fixar residência nas cidades sede dos campi. Perry e Wiewel (2005) afirmam, em seu artigo From Campus to City: The University as Developer, que o impacto das universidades no desenvolvimento regional vem sendo cada vez melhor compreendido pelos pesquisadores. Contudo o papel das universidades no desenvolvimento imobiliário da cidade tem sido pouco compreendido e até mesmo estudado. Os autores afirmam, ainda, que, em geral, as universidades estão entre os maiores proprietários de terras e empregadores nas cidades onde se inserem, além de gerar um grande número de consumidores de bens privados e serviços públicos. Nesse sentido, as relações econômicas e também os conflitos políticos que as universidades provocam nas cidades são complexos e tendem a gerar tensões no espaço urbano, pois as demandas de quem utiliza a universidade não são apenas de ordem acadêmica, mas envolvem questões práticas da vida urbana, tais como moradia, alimentação, transporte, lazer, entre outras. Além dessa questão institucional, a prática da especulação imobiliária, muito utilizada nas grandes cidades, aqui é praticada aproveitando a presença de um equipamento público que valoriza a cidade ou, pelo menos, os espaços mais próximos à universidade. 46 3.2 A PRESENÇA PROFESSORES DOS ESTUDANTES E DOS As cidades de Santo Antônio de Jesus, pela sua força política no território do Recôncavo, e Cruz das Almas conseguiram atrair investimentos da UFRB através do programa do governo federal, REUNI, com cursos que atraem um perfil de estudantes e professores pesquisadores mais especializados. Com a UFRB, um novo perfil de moradores tem se estabelecido na cidade: em média 300 estudantes com alto poder aquisitivo chegam por ano à cidade. Este fato já tinha sido sinalizado por Henrique (...) com considerável concentração de orçamento e dos cursos em Santo Antônio de Jesus e Cruz das Almas, que no esboço da rede urbana de 1959 eram apenas os municípios posicionados no sétimo e nono lugar, respectivamente, considerados como “centros locais” (HENRIQUE, 2009, p.116). Em Santo Antônio de Jesus a oferta de ensino superior com a instalação da UFRB, ao contrário da UNEB, será incorporada por populações oriundas de outras localidades. A população local, em grande parte, não tem tido acesso aos cursos oferecidos pela UFRB, o que se constitui numa grande contradição ao que foi previsto pelo projeto do REUNI para a UFRB. A Universidade Federal do Recôncavo da Bahia nasceu da luta da comunidade em prol da democratização do acesso ao ensino superior na Bahia, marcado historicamente por uma oferta restrita em relação às suas demandas. Criá-la por meio de um processo de arregimentação comunitária faz dela uma Instituição comprometida com a produção e difusão da ciência e da cultura, além de ocupar lugar estratégico e redefinidor da matriz de desenvolvimento socioeconômico e cultural do Recôncavo (UFRB, 2005, s/p). Dessa forma, as vagas oferecidas na universidade – bem como a ampliação do mercado de trabalho, que requer formação técnica e intelectual decorrente da universidade – estão sendo correspondidas por populações 47 migrantes, dotadas de maior disponibilidade econômica e que se deslocarão para as cidades apenas por causa da universidade e com caráter temporário. Com a UFRB essas cidades sofrerão um aumento em seu tamanho demográfico, visto que grande parte dos estudantes e professores universitários está vindo de Salvador, de outras cidades baianas e até mesmo de outros estados. Santos já abordava essas novas tendências das cidades médias, as quais o autor denominava de cidades intermediárias: As cidades intermediárias apresentam, cada vez mais, dimensões bem maiores. Essas cidades médias são, cada vez mais, e isso vem crescendo, uma casa do trabalho intelectual, o lugar onde se obtém informações necessárias à atividade econômica. Serão, por conseguinte, cidades que reclamarão cada vez mais por trabalho qualificado (...) (SANTOS, 1994, p. 23). Em outra obra, Santos e Silveira (2001) afirmam que o papel das cidades médias na rede urbana brasileira é o de ser o lugar do trabalho intelectual, o local onde se obtém informação necessária para a atividade econômica ligada à produção material, industrial e agrícola. De acordo com Corrêa O desenvolvimento de novas funções urbanas, criadas por grupos locais ou regionais ou por interesses extra-regionais, suscita o aumento demográfico e a multiplicação de novas atividades nãobásicas ou das já existentes (2007, p. 24). Em consequência disso, teremos a geração de problemas de exclusão socioespacial. Os novos moradores, por possuírem maior poder aquisitivo, passarão a aquecer o mercado local gerando um considerável efeito inflacionário nos preços. Esse aquecimento também se dará no mercado imobiliário, fazendo com que haja o crescimento de atividades especulativas que irão “expulsar” as populações locais e com menor poder aquisitivo. Este fato gera, também, uma maior valorização das casas e terrenos no entorno da UFRB, além do surgimento de novos serviços. Por isso, Lefebvre afirma 48 A construção (privada ou pública) proporcionou e ainda proporciona lucros superiores à média. A especulação não entra nesse cálculo, mas superpõe-se a ele, nela e por ela, através de uma mediação – o espaço – o dinheiro produz dinheiro (2008, p. 118). Portanto, é necessário que se levem em consideração as implicações quando da inserção de formas novas ou renovadas em um determinado espaço do qual essas formas não sejam originárias. O caráter da estrutura urbana das cidades em questão não pode ser esquecido, como as características de suas populações, as atividades específicas que aí se desenvolvem. Lembramos que no final do ano de 2011 os alunos da UFRB paralisaram as aulas cobrando ações das autoridades competentes quanto à ampliação das vagas nas residências universitárias, bem como melhoria nos serviços da universidade. Não se busca, nesta reflexão, realizar uma crítica à expansão das Instituições de Ensino Superior na Bahia, sobretudo nas cidades do interior. Porém nosso intuito busca um caminho de pensar as consequências da presença de uma instituição federal desse porte nestas cidades, visto que a estrutura da UFRB, principalmente no quesito residências universitárias, deixa muito a desejar, o que leva os estudantes a procurarem e terem apenas como opção o aluguel de imóveis para sua moradia. Santos destacou o papel que as universidades exercem em cidades pequenas e médias referente à criação de novos serviços e consumo dirigido, além da dinamização no mercado imobiliário da cidade devido ao fluxo de professores, funcionários e estudantes. Para o autor, “todas as obras governamentais relacionadas com os serviços públicos da cidade nela estimulam, indiretamente, novas criações” (SANTOS, 2008, p. 112). O autor cita alguns exemplos em Guadalajara, no México, quando foi instalada uma universidade que provocou um deslocamento de estudantes e das suas famílias para a cidade gerando um aumento de investimentos na construção civil. 49 A instalação desses novos objetos é dotada de conteúdo e finalidade. As formas, na atualidade, são providas de força para criar ou determinar relacionamentos e, como afirma Santos: “As coisas adquiriram um tipo de poder que nunca haviam possuído anteriormente” (2003, p. 188). O que há de novo no processo de especulação imobiliária após a chegada da UFRB e que estamos denominando de reestruturação urbana é a localização desses novos processos na cidade, que agora não se restringem mais ao centro da cidade, mas avançam sobre áreas periféricas, que antes eram consideradas de população de baixa renda, e que, devido à instalação de novas formas-conteúdo, são valorizadas. O aumento do valor da terra e das construções nestas áreas urbanas periféricas é muito marcante nas cidades de Santo Antônio de Jesus e Cruz das Almas. Esta nova relação centro e periferia também é uma vinculação e um indicativo da presença dos novos processos de urbanização contemporânea. Segundo dados da Pró-Reitoria de Assistência Estudantil e da PróReitoria de Graduação da UFRB, no ano de 2010, dos 9.991 matriculados na universidade, 53% eram oriundos de Salvador, Feira de Santana e outras cidades da Bahia, que não compõem o que se denomina, atualmente, como Recôncavo; 5% dos estudantes eram de outros estados do Brasil. Logo, esses dados indicam um crescimento da demanda por moradia que vem atingindo as cidades que possuem um campus da UFRB. 50 Quadro 2. ORIGEM DOS ESTUDANTES DA UFRB ORIGEM PERCENTUAL Salvador e Feira de Santana 30% Cidades Sede da UFRB 26% Outras cidades da Bahia 23% Cidades do Recôncavo 15% Cidades de outros Estados 5% Fonte: Propae, 2010 Fonte: Relatório Anual da UFRB, 2010. Diante do crescimento que se pode observar no número de alunos matriculados, nota-se que a demanda por imóveis no mercado locacional tenderá a aumentar consideravelmente nos próximos anos. Outro fator que deve aumentar o número de estudantes é a intenção atual do Governo Federal de aumentar a oferta de vagas através do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), já que a primeira fase do vestibular da UFRB levará em consideração o resultado do exame. Apesar de 15% da população estudantil do UFRB serem 51 provenientes das cidades do Recôncavo, durante as pesquisas se pôde verificar que boa parte desses estudantes estabeleceu moradia nas cidades sedes da universidade. Além dessa demanda estudantil, não podemos deixar de considerar a presença dos professores, que também fazem parte da demanda que a comunidade universitária exerce no mercado imobiliário, seja através da compra de imóveis, seja pelo aluguel em determinados dias da semana ou mensal. Destacamos que muitos professores não têm residência fixa nas cidades sede dos campi. Quadro 3. PROFESSORES DA UFRB CENTRO Graduaçã o Especializaçã o Mestrad o Doutorad o Total de Docente s 51 49 100 29 100 131 68 26 101 40 33 76 02 71 28 101 07 259 236 509 CAHL – Cachoeira CCAAB – Cruz das Almas 02 CCS – Santo Antônio de Jesus 02 CETEC – Cruz das Almas 03 CFP – Amargos a TOTAL 07 05 Fonte: Relatório Anual da UFRB, 2010. 52 Em 2010, segundo dados da Pró-Reitoria de Graduação, a universidade contava com um total de 509 professores distribuídos pelos seus quatro campi, sendo que a maioria deles, cerca de 97%, com mestrado e/ou doutorado, o que nos leva a concordar com a ideia apresentada pela autora acima, segundo o edital do último concurso para o provimento de cargos da UFRB, os salários dos professores variam entre R$ 4.651,58 (professor Assistente) e R$ 7.333,66 (professor Adjunto). De fato, cada vez mais as cidades sede de um campus universitário, além de produzirem conhecimento científico, tornam-se cada vez mais espaços de moradia de um segmento com maior poder aquisitivo (neste caso, os professores). Já os funcionários do quadro técnico-administrativo, segundo o edital do concurso público, aberto em fevereiro de 2012, possuem salário inicial de R$ 1.821,33 (cargo de nível médio) e os que possuem nível superior têm um salário inicial de R$ 2.989,33. Se considerarmos a realidade da população em geral, segundo dados do IBGE (2010), a renda média da população em Cruz das Almas é de R$ 541,45; em Santo Antônio de Jesus chega a R$ 538,60; e em Cachoeira é de R$ 414,07. A presença desse novo grupo social, sobretudo os professores, destoa da renda média da população destas cidades de uma forma geral. Sposito já havia atentado para a presença de novos segmentos sociais com uma maior remuneração nas cidades médias. O aumento do mercado de trabalho para aqueles que têm melhor formação intelectual e profissional significa, para essas cidades, uma ampliação da capacidade de consumo em seu mercado, nesse caso definido na escala local, tendo em vista que são, agora, lugar de moradia de segmentos socioeconômicos de maior poder aquisitivo (SPOSITO, 2001, p. 630-631). O valor médio gasto em sua manutenção nestas cidades é de R$ 500,00 mensais aproximadamente, o que supera a renda média da população de Cachoeira e se aproxima bastante das outras cidades citadas. Estes dados referentes aos gastos dos estudantes foram levantados em nossas pesquisas de campo entre 2009 e 2011. 53 Outro ponto que merece destaque é o aumento do número das denominadas “lan house” nas cidades, sendo este um dos serviços mais utilizados pelos estudantes da UFRB, juntamente com os mercadinhos. As “lan house” são procuradas com diversas finalidades, entre as quais conversar com familiares e amigos que ficaram na cidade de origem dos estudantes de fora, mas a principal função desses espaços para os estudantes é a realização de trabalhos da própria universidade, impressão, cópias, encadernação e a compra de objetos de pequeno porte, tais como canetas, lápis, cadernos. Na realidade, o que observamos em nossas pesquisas é que os proprietários destes negócios, não grandes empreendedores tampouco esses comércios, em geral, oferecem uma boa infraestrutura. Os proprietários são pequenos comerciantes que têm aproveitado a presença dos estudantes para conseguir algum lucro com esta atividade. 3.3 NOVAS DINÂMICAS NA ECONOMIA DAS CIDADES DO RECÔNCAVO A implantação dos campi UFRB nestas cidades (Santo Antônio de Jesus, Cachoeira e Cruz das Almas) teve como uma das consequências mais imediatas a construção ou refuncionalização de novos objetos geográficos e o desenvolvimento de novas ações no entorno da universidade. Com a instalação da UFRB tem-se registrado uma grande ação especulativa no solo urbano e nos imóveis localizados próximos aos campi. É importante ressaltar que estas ações especulativas não são praticadas somente pelos incorporadores ou grandes proprietários de terrenos ou imóveis, mas têm sido uma prática também da própria população local. Os preços das casas para venda e aluguel, segundo os próprios moradores das cidades, têm aumentado consideravelmente, se comparados ao passado recente, além da construção de pensionatos para atender aos estudantes que se deslocam para as cidades por causa da UFRB, algumas casas inclusive vêm sendo transformadas em pensionatos e os proprietários das casas têm dividido parte da sua casa junto 54 com os estudantes, conforme a Foto 1. Santos entende que a especulação imobiliária (...) deriva, em última análise, da conjugação de dois movimentos convergentes: a superposição de um sítio social ao sítio natural e a disputa entre as atividades e pessoas por uma dada localização. Criam-se sítios sociais, uma vez que o funcionamento da sociedade urbana transforma seletivamente os lugares, afeiçoando-se às suas exigências funcionais. É assim que certos pontos se tornam mais acessíveis, certas artérias mais atrativas e, também, uns e outros, mais valorizados. Por isso são atividades mais dinâmicas que se instalam nessas áreas privilegiadas; quanto aos lugares de residência, a lógica é a mesma, com as pessoas de maiores recursos buscando alojar-se onde lhes pareça mais conveniente, segundo os cânones de cada época, o que também inclui a moda. É desse modo que as diversas parcelas da cidade ganham ou perdem valor ao longo do tempo (SANTOS, 1993, p. 96). Foto 1. PENSIONATO EM CRUZ DAS ALMAS Casa próxima ao campus da UFRB em Cruz das Almas: o andar superior foi transformado em um pensionato. (Fonte: Elissandro de Santana, maio de 2001. Trabalho de Campo). O valor do aluguel de uma casa gira em torno de R$ 300,00 a R$ 500,00, em média, nas cidades de Santo Antônio de Jesus e Cruz das Almas. Em 55 Cachoeira esse valor chega a dobrar para algumas moradias, já que, além da UFRB, toda a cidade passa por um processo de valorização imobiliária com a ação do projeto Monumenta3. Numa hospedaria que verificamos em um dos trabalhos de campo, como é possível observar nas fotografias 2 e 3, o quarto mais barato chega a custar R$ 650,00 mensais, enquanto que o mais caro custa R$ 1.600,00. Lembrando, também, que a preferência do aluguel do imóvel é sempre para os estudantes da UFRB. Nesses imóveis na cidade de Cachoeira os valores pagos incluem serviços como lavanderia, internet banda larga, computador, televisão a cabo e o café da manhã. Foto 2. Propaganda de pensionato em Cachoeira Cartaz com o valor dos aluguéis em Cachoeira 3 Segundo o sítio na internet do Ministério da Cultura, este programa “atua em cidades históricas protegidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Sua proposta é de agir de forma integrada em cada um desses locais, promovendo obras de restauração e recuperação dos bens tombados e edificações localizadas nas áreas de projeto”. Duas pesquisadoras do grupo CiTePlan – UFBA, Celestino (2011) e Bittencourt (2011), estão problematizando o Programa Monumenta em suas pesquisas, por isso não aprofundaremos essas questões neste momento, além de não ser o objetivo dessa pesquisa. 56 Foto 3. Pensionato em Cachoeira Pensionato em Cachoeira para estudantes. No que diz respeito à morfologia das cidades, notamos uma alteração, em algumas delas, Santo Antônio de Jesus e Cruz das Almas, pois novos prédios são instalados (UFRB, loteamentos fechados) e vão surgindo na paisagem urbana, segundo Capel: “Os aspectos fundamentais do estudo geográfico da morfologia tem sido o plano, os edifícios, os usos dos solo e o estudo morfológico integrado das áreas concretas da cidade” (2002, p. 22). Segundo uma matéria vinculada pelo jornal ‘A Tarde’, no dia 13 de setembro de 2010, a UFRB vem movimentando a economia do Recôncavo, mas esse processo tem um impacto muito perceptível no mercado de locação dos imóveis. Nesta reportagem o jornalista destaca como muitos moradores estão investindo na melhoria de suas casas, comprando guarda-roupas, camas e outros móveis com a finalidade de atrair mais estudantes e conseguir tirar proveito da presença da universidade. Uma das entrevistadas, por exemplo, afirmou que só reconheceu uma movimentação semelhante a esta provocada pela universidade na cidade de Cachoeira, quando houve a construção da Barragem de Pedra do Cavalo, na década de 1980. Contudo, para ela, atualmente a expectativa de obter ganhos com o aluguel de quartas para os 57 estudantes da UFRB é melhor, pois a construção da barragem, segunda ela, foi importante apenas naquele período em que os trabalhadores estavam na obra. Nas pesquisas essa, de fato, era uma realidade que se apresentava para aqueles proprietários de imóveis que estavam tendo a oportunidade de ganhar uma renda extra para a família através da locação dos imóveis para os estudantes e os professores. Contudo, como já citado em outros momentos deste trabalho, essas cidades possuem sérios problemas em termos de habitação para as famílias, de forma que a conclusão a que se pode chegar com esse quadro é que para algumas poucas pessoas que possuem imóveis não resta dúvidas que geram renda para estas. Foto 3. Campus de Cachoeira Visão interna do Quarteirão Leite Alves. Trabalho de Campo (2011) Os preços dos aluguéis dos imóveis foi uma reclamação constante nas entrevistas e conversas com os estudantes (nota sobre a metodologia), que foram considerados exorbitantes – não seria melhor alto – pelos mesmos. Outra constatação foi a falta de infraestrutura das casas e pensionatos alugados para esses estudantes. A foto a seguir ilustra um pouco as condições das casas e que geram essas reclamações por parte da comunidade universitária. 58 Foto 4. Casa que estava sendo alugada para estudantes, próxima à UFRB, pelo valor de R$ 350,00 com 2/4 Trabalho de Campo (2009) Os preços mensais variam entre R$ 300,00 e R$ 500,00 para as casas com 2 ou 3 quartos na cidade de Santo Antônio de Jesus, conforme a fotografia 4. Muitos estudantes, quando chegaram à cidade, principalmente das primeiras turmas do período de instalação dos cursos, alugavam as casas sozinhos e assumiam individualmente outros custos relacionados à moradia. Entretanto, com a criação de vínculos entre os estudantes decorrentes da sua permanência nos cursos, aumento do número de cursos e alunos, muitos deles vindo das mesmas cidades, bem como pelo próprio interesse financeiro, as moradias passaram a ser coletivas (repúblicas). O que os estudantes destacaram como importante nessa convivência não foi apenas a diminuição nas despesas com habitação e alimentação, mas, também, os vínculos afetivos e as novas amizades estabelecidas, pois estão longe de suas famílias e só retornam para suas cidades de origem nas férias ou em feriados prolongados. 59 Os moradores de Cruz das Almas também constatam o aumento significativo do valor dos imóveis na cidade, conforme nossas pesquisas de campo. Em geral, os estudantes procuram alugar casas ou quartos em pensionatos próximos aos campi. No caso de Santo Antônio de Jesus e Cruz das Almas a universidade está localizada distante das áreas centrais, o que corrobora este fato a discussão que Lefebvre faz na sua obra Espaço e Política. Este autor afirma que o valor de uso no consumo do espaço ainda permanece mesmo no sistema capitalista, mas a tendência é a sua supressão pelo o valor de troca que é valorizado por diversos motivos, entre os quais a distância e o tempo de deslocamento. O comprador também adquire uma distância, a que vincula sua habitação aos lugares: os centros (de comércio, de lazeres, de cultura, de trabalho, de decisão) (…) (LEFEBVRE, 2008, p. 128). O espaço envolve o tempo. Por mais que se ignore, ele não se deixa reduzir. É um tempo social que é produzido e re-produzido através do espaço (LEFEBVRE, 2008, 129). Os estudantes que não conseguem alugar casas ou quartos próximos à UFRB precisam pagar todos os dias pelos serviços de moto-táxi (meio de transporte muito utilizado em Santo Antônio de Jesus, Cruz das Almas e Amargosa), cujos condutores cobram um preço mais elevado pelo trajeto até a universidade. As cidades estudadas não possuem sistema de transporte público coletivo. Aliás, este é um grande problema não só para os estudantes, mas, também, para a população da cidade de Santo Antônio de Jesus, que já possui quase 90.000 habitantes e não possui transporte público coletivo. Sobre o processo de valorização do espaço, é importante destacar a localização do campus da UFRB em Santo Antônio de Jesus. A cidade já possuía um campus universitário da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), que se localiza próximo ao centro. 60 Mapa 2. Planta da cidade de Santo Antônio de Jesus Fonte: Mota, 2009 Através do mapa acima é possível localizar a UFRB numa área próxima à zona rural do município de Santo Antônio de Jesus. A sua localização tem implicado um processo de valorização do espaço urbano com a ampliação de “vazios urbanos”, problema este que a cidade já vem enfrentando independente da universidade. Alguns terrenos próximos à universidade e até mesmo alguns imóveis já chegam a custar cerca de R$ 70.000,00 valor que segundo os moradores não era praticado antes da instalação do campus. 61 Foto 4. Pavilhão de aulas do campus em Santo Antônio de Jesus Trabalho de campo (2010) Também na cidade de Santo Antônio de Jesus, além desse processo especulativo que temos verificado no bairro do Cajueiro, tivemos conhecimento, durante as nossas pesquisas de campo e documentais, de um fato que contradiz a proposta inicial da criação da UFRB, que seria de uma “arregimentação comunitária”. O espaço que o Centro de Ciências da Saúde ocupa atualmente seria utilizado para a expansão do Campus V da UNEB, destinação de uso que já vinha sendo construída com a comunidade de Santo Antônio de Jesus, justamente a partir das carências que a população verificava quanto à oferta de ensino superior. A expansão da Uneb também visava dotar o Campus V de uma nova e melhor infraestrutura física, pois as instalações atuais não comportam mais a grande demanda. Essa expansão levaria para o local, além da universidade, um Jardim Zoobotânico que seria implantado nos arredores, visto que esta área é uma Unidade de Preservação Permanente. O projeto de concessão do terreno já tinha tramitado na Câmara dos Vereadores e tinha o apoio da sociedade regional da ACISAL (Associação Comercial de Santo Antônio de Jesus) e da Diretoria de Defesa Florestal do Estado (DDF). A implantação da 62 Vila Universitária tinha o início da sua construção prevista para 2005, mas nunca saiu do papel. O diagnóstico realizado pela prefeitura do município de Santo Antônio de Jesus, na elaboração do Plano Diretor Urbano, já identificava uma descontinuidade no uso do solo urbano da cidade, o que estava gerando um forte processo de especulação imobiliária, devido aos vazios urbanos, como podemos verificar nas fotografias abaixo, sobretudo em áreas próximas ao centro. Foto 5. Área vazia próxima ao centro Fonte: PMSAJ (2002) 63 Foto 6. Outra área vazia próxima ao centro Fonte: PMSAJ (2002) Mesmo com a existência dos vazios urbanos, a opção pela instalação do campus da UFRB em área descontínua é uma estratégia de valorização dos agentes imobiliários, entre eles as construtoras e proprietários de terras urbanas. Quando existe uma descontinuidade na ocupação da cidade, os poderes públicos precisam dotar estas áreas que estão recebendo os novos equipamentos ou casas de infraestrutura mínima. A UFRB foi implantada, como citado, no bairro do Cajueiro, em SAJ, que tem passado pelo processo de especulação, atualmente forte, devido à presença da universidade. Reafirmamos que a novidade nesse processo é a existência de uma forte especulação imobiliária, que denominamos de reestruturação urbana, na periferia de uma cidade média, em áreas já próximas à zona rural. Já na cidade de Cruz das Almas o bairro onde está localizada a universidade é conhecido como Inocoop (conjunto residencial da cidade) e, segundo o Plano Diretor (1999), essa é uma das áreas de expansão urbana. De acordo com Fernandes: 64 Configura-se aí a questão das localizações como agente da produção do espaço, tal como já foi apontado anteriormente, controlando o mecanismo de preços do solo urbano e gerando processos de especulação imobiliária (2009, p. 24). Assim como tem ocorrido em Santo Antônio de Jesus, a presença da universidade no bairro do Inocoop, em Cruz das Almas, provocou o surgimento de serviços voltados ao público universitário, principalmente copiadoras, lanchonetes, “moto táxi” e os pensionatos. Contudo a diferença de Cruz das Almas para Santo Antônio de Jesus é o fato de a UFRB estar localizada mais próxima do centro da cidade e o processo de reestruturação urbana não estar consolidado, já que a própria cidade, apesar de apresentar alguns séricos sofisticados, tais como a Embrapa (Empresa Brasileira de Agropecuária), ainda passa por um processo de estruturação urbana. Foto 6. Pensionato construído a partir do desmembramento de uma casa, ao lado da portaria do campus de Cruz das Almas Trabalho de Campo (2011) 65 A expansão do tecido urbano, que está ocorrendo em Santo Antônio de Jesus e em Cruz das Almas, dinamizada pela implantação da UFRB, tem promovido a valorização dessas áreas, antes eram consideradas de população de baixa renda. Devido à instalação de novas formas-conteúdo, estas áreas passam por uma grande valorização Essas áreas periféricas, segundo Jânio Santos, pela força e ação de processos que transformam suas dinâmicas promovendo uma substituição dos conteúdos e das morfologias [...] deixam de ser apenas associadas às classes de baixa renda, recebendo a classe média, uma elite urbana local e fortes investimentos do poder municipal e do setor imobiliário. Nesse sentido, um duplo fenômeno ocorre: a autossegregação, com a proliferação de condomínios fechados e o surgimento de dinâmicas de fragmentação socioespacial, concomitante à expansão de áreas pobres, nesse caso indicando uma lógica que aumenta os focos de miséria e a precarização das condições de vida da classe trabalhadora (SANTOS, J., 2009, p. 507). 66 4. A FORMAÇÃO DO ENSINO SUPERIOR NO ESTADO DA BAHIA Segundo Boaventura (2009), a formação do ensino superior na Bahia e também do Brasil remonta ao século XIX, mais precisamente a 1808, quando ocorreu a fundação do Curso Médico-Cirúrgico, seguido pela implantação da Academia de Belas Artes, em 1877. Também nesse mesmo ano foi fundado o Imperial Instituto Baiano de Agricultura, que tinha por objetivo dar um suporte técnico à produção açucareira no Recôncavo Baiano. Posteriormente, o Instituto passou a se chamar Escola de Agronomia de Cruz das Almas. Este foi o núcleo inicial da atual Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Ainda segundo Boaventura, apesar de o ensino superior na Bahia existir desde o início do século XIX, a Universidade da Bahia surge apenas em 1946, proposta por Pedro Calmon, reunindo a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, a Faculdade de Ciências Econômicas, o Instituto e Escola Politécnica, a Faculdade de Direito, Agronomia e Belas Artes, além da Faculdade de Medicina. Ao movimento de faculdades isoladas, sucede, sem interrupção desse processo, a convergência das unidades acadêmicas em direção à Universidade. A Universidade Federal da Bahia, seguindo as diretrizes nacionais, instituiu-se pela integração de diversas faculdades, criadas no longo período de quase século e meio (BOAVENTURA, 2009, p. 125). Como se pode observar, praticamente toda implantação das Instituições de Ensino Superior na Bahia ocorreu na cidade de Salvador, com exceção da Escola de Agronomia, em Cruz das Almas. Em 1961 é criada a Universidade Católica do Salvador (UCSAL), mas a interiorização do ensino superior na Bahia só ocorrerá, de fato, com a Universidade do Estado da Bahia, em 1986, de acordo com Boaventura. 67 A implantação da UFRB no Recôncavo, diante do quadro apresentado, pode ser considerada uma interiorização do ensino superior federal na Bahia, visto que a UFBA possui um campus avançado em Barreiras e outro em Vitória da Conquista. Contudo podemos levantar algumas ressalvas, sobretudo por uma questão geográfica, a distância do Recôncavo para Salvador não ser tão considerável, além da Universidade Estadual de Feira de Santana, que atende um número significativo de estudantes do Recôncavo, porém sobre Feira de Santana trataremos adiante. Desta forma, o que ocorre neste momento de desconcentração das atividades nas regiões metropolitanas é o que Sanfeliu (2009) denominou de dispersão concentrada. 4.1 A UFRB NO RECÔNCAVO A implantação da Universidade Federal do Recôncavo Bahia (UFRB) traz consequências não apenas para as cidades em que ela está inserida, mas sua presença também causa conflitos de interesses em outras cidades do Recôncavo Baiano, visto que suas lideranças políticas se mobilizam para ter um campus da UFRB. Estas lideranças político-partidárias sempre vinculam a presença da universidade na cidade ao dito “desenvolvimento local e regional” e a um efeito imediato sobre a dinâmica econômica das cidades. Muitos destes políticos partidários têm o apoio de outras lideranças da sociedade civil: professores, associações, sindicatos, as quais, por sua vez, mobilizam a opinião pública a fim de reivindicar para si um campus. No plano inicial da UFRB, segundo Henrique (2011), estava prevista a implantação de um campus da universidade nas cidades de Nazaré, Santo Amaro e Valença, além de Cachoeira, Cruz das Almas e Santo Antônio de Jesus. Quando ocorreu a implantação, de fato, Valença acabou por não receber um campus, que foi para a cidade de Amargosa. Todas estas cidades estão localizadas no Recôncavo (nas últimas regionalizações oficiais, Amargosa não tem sido considerada dessa região). Falar do Recôncavo é necessário, já que localizar-se nesta região traz uma 68 importância histórica, a qual não se dá por acaso, visto como ocorreu sua formação ao longo da história da Bahia e do Brasil. De acordo com Pedrão (2009), a região do Recôncavo foi conformada a partir dos interesses mercantis do capital internacional no período do Brasil Colônia. Milton Santos descreve diversas características naturais que diferenciam subespaços contidos na região. Essas características naturais estabelecem estreita relação com as atividades produtivas desenvolvidas durante o período colonial. [Aos] caracteres fisiográficos correspondeu uma diferente utilização do solo, que, ainda hoje, de certo modo perdura. Os solos pobres do cristalino serviram a culturas alimentares, tanto no norte quanto no sul. Os tabuleiros terciários foram o habitat ideal para o fumo. A série Santo Amaro deu o fofo massapê, onde há quatrocentos anos se planta incessantemente a cana-de-açúcar. Esta, aliás, em período de maior procura, desbordou seu limite ecológico e avançou por áreas diferentes, sobretudo as da formação São Sebastião, mas tem recuado, conquanto as usinas continuem guardando essas terras como reserva de lenha para suas fornalhas (SANTOS, 1959, p. 62). Na realidade, desde a sua formação o Recôncavo sempre esteve voltado para o mercado externo e poucas ações demonstravam que haveria algum tipo de investimento para se planejar algo para a vida interna deste espaço. “A região sofreu sempre as consequências da exclusão da maior parte de sua população (...) e da falta de solidariedade local de sua classe dominante. A relação com o exterior foi o elemento unificador da região” (PEDRÃO, 2007, p. 10). Segundo o Plano Direto Municipal de Santo Antônio de Jesus (2000), é a partir de meados do século XIX, quando o fornecimento de mão de obra escrava, responsável pela manutenção do modelo vigente, torna-se irregular e escasso que podemos ver o modelo de produção do Recôncavo enfrentar sua primeira crise significativa e reestruturar-se a fim de enfrentá-la. Reestruturação que não conhece o Recôncavo como um todo, mas apenas alguns de seus subespaços, afinal o Recôncavo não se constituía homogêneo. Havia áreas da região que não se dedicavam à produção canavieira, sujeita a crises cíclicas 69 em virtude de sua dependência do mercado externo, entre as quais podemos citar os municípios de Santo Antônio de Jesus e Cruz das Almas. Segundo Pedrão (2009), essas áreas extrativistas sempre foram importantes para a manutenção de uma economia voltada para o mercado externo e criaram condições para, posteriormente, estas cidades serem importantes centros urbanos no Recôncavo. Segundo o Plano Diretor Municipal de Santo Antônio de Jesus (2002), a diversificação produtiva das cidades e vilas localizadas nas áreas de tabuleiro, como Santo Antônio de Jesus, propiciou a estas uma maior resistência às crises cíclicas das atividades agrícolas voltadas para exportação, ao contrário das outras cidades que se dedicavam a essas plantations. Nos séculos XVIII, XIX e XX diversos fatores contribuíram para uma reestruturação urbana e regional do Recôncavo canavieiro e fumageiro. Desses fatores, podemos destacar os transportes, que sempre “acompanharam de perto”, quando não contribuíam diretamente, para a reestruturação regional do Recôncavo. As ferrovias, quando implantadas, aceleraram a circulação de pessoas, bem como dos produtos agrícolas, o que possibilitou uma maior integração regional, assim como o aparecimento de novas cidades. O próprio surgimento de Santo Antônio de Jesus e o seu posterior desenvolvimento de comércios e serviços são decorrentes, em parte, da implantação da ferrovia. A estrada de ferro Tram Road possibilitou que Santo Antônio de Jesus se tornasse, ainda no século XIX, um entreposto comercial significativo, pois esta estrada de ferro saía de Nazaré, passando por Santo Antônio de Jesus e se dirigia para Castro Alves, Cruz das Almas, São Félix, Cachoeira, São Roque e Salvador. Com a inserção dessa ferrovia, Santo Antônio de Jesus experimentou um grande desenvolvimento de novas casas comerciais e de serviços voltados para a população que passava pela cidade. Milton Santos, em 1959, já definia o Recôncavo como a “região de cidades da Bahia”, pois o número de aglomerados urbanos nessa região sempre foi considerável. Para o autor, no contexto da rede de cidades do 70 Recôncavo naquele período (décadas de 40 e 50), Santo Amaro, Nazaré e Cachoeira representavam importantes aglomerados urbanos e historicamente a cidade de Cachoeira sempre foi um importante entreposto comercial de mercadorias do Sertão baiano para o Porto de Salvador, seja pelo transporte marítimo/fluvial, através da Baía de Todos os Santos ou do rio Paraguaçu, seja pela ferrovia que passa dentro da mancha urbana de Cachoeira. Naquele período, a cidade de Cachoeira, segundo Santos, em 1959, ocupava a 5ª posição na estrutura hierárquica da rede urbana do Recôncavo e era considerada uma capital sub-regional, enquanto Santo Antônio de Jesus ocupava a 7ª posição e era considerada um centro local. O Recôncavo, segundo Santos (1959), passava por um processo de reestruturação devido às constantes crises econômicas em virtude da estagnação da produção de cana e fumo e o Estado brasileiro estava imbuído em constituir uma sociedade urbano-industrial integrada pelas rodovias, um projeto que se intensificou durante o governo de Juscelino Kubitschek. Era a expansão do meio técnico-científico no Brasil, e na Bahia. Alguns eventos foram bastante significativos para o processo de reestruturação dessa região da Bahia. A instalação da Petrobras, na década de 1950, a desvalorização no comércio internacional do açúcar e do fumo mais a reestruturação viária – com a construção da BR101, particularmente, e da BR 116, que deixaram as ferrovias em segundo plano, mais a desativação do porto São Roque-Paraguaçu – causaram o declínio de núcleos urbanos tradicionais da região baseados nas atividades comerciais mais simplificadas, no fluxo de mercadorias entre o sertão e o litoral baiano e na produção agrícola, como Cachoeira e Santo Amaro que se tornaram centros repulsores de população, ao mesmo tempo em que ocorria a ascensão de outros núcleos vinculados aos novos sistemas de transporte que ligavam toda a região Centro-Sul ao Nordeste, bem como no comércio de produtos industrializados. Pedrão é mais específico e explica como Cachoeira, “que sempre fora a porta de entrada para o sertão através do vale do Rio Paraguaçu, cedeu lugar a Santo Antônio de Jesus, onde se iniciou o plano de transporte rodoviário” (PEDRÃO, 2007, p. 15). 71 O asfaltamento da BR 101, na década de 1970, potencializou a realização de fluxos dos produtos industrializados entre as regiões do Brasil para a Região Nordeste, bem como, em um sentido inverso, foi responsável pelo deslocamento de muitos migrantes do Nordeste para o sul e sudeste em busca de trabalho nessas regiões. A região do Recôncavo, por anos depois de iniciada a exploração do petróleo, caracterizou-se por ser uma zona repulsora de população, talvez porque essa população não encontrasse oportunidades para se realizar como população economicamente ativa na região em questão. A população migrou e tornou-se mão de obra não qualificada em outros espaços: às vezes na capital baiana, às vezes em outros estados brasileiros. Quanto aos que ficaram, segundo Pedrão, estes exerciam atividades de subsistência. Uma população à margem, constituindo uma sociedade em transição. Pedrão (2007) descreve bem os espaços sociais deixados vazios pela elite emigrante (desde o final do século XIX), que foram sendo gradativamente ocupados por aqueles que ficaram. Segundo Brito (2008), a implantação da Petrobras e da Refinaria Landulfo Alves, inaugurada em 1959, representava mais um projeto de obtenção de lucros das empresas citadas do que propriamente um projeto de desenvolvimento regional. Somente algumas cidades são agraciadas com as consequências positivas da modernização, o que torna a desigualdade entre os municípios ainda mais extremada e, consequentemente, torna o Recôncavo ainda mais fragmentado. Pedrão explica que a exploração de petróleo na região revalorizou terras, antes abandonadas em virtude da crise agrícola, dando liquidez aos seus proprietários, o que caracterizou um novo processo de formação de preços de terras onde ocorre “uma segmentação do mercado entre as áreas afetadas pela nova demanda de terras e pelas áreas onde não foi encontrado petróleo, já que os efeitos dessa demanda não se difundem no mercado de terras da região” (PEDRÃO, 2007, p. 16). 72 4.2 O PROCESSO DE IMPLANTAÇÃO DA UFRB NO RECÔNCAVO A implantação da UFRB está inserida no projeto do Governo Federal denominado de Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI). O objetivo do REUNI, segundo suas diretrizes gerais, é Criar condições para a ampliação do acesso e permanência na educação superior, no nível de graduação, para o aumento da qualidade dos cursos e pelo melhor aproveitamento da estrutura física e de recursos humanos existentes nas universidades federais, respeitadas as características particulares de cada instituição e estimulada a diversidade do sistema de ensino superior (BRASIL, 2005, p. 9). A UFRB está inserida nesta lógica do atual Governo do Partido dos Trabalhadores (PT), que visa uma expansão que tem sido alvo de críticas dos mais diversos setores da sociedade que questionam, sobretudo, as condições em que tem ocorrido essa expansão e reestruturação do ensino superior no Brasil, contudo não é nosso objetivo levantar e discutir essa problemática neste momento. Como já dito em outros momentos, a UFRB adotou um modelo multicampi tendo como base o campus da Escola de Agronomia da Universidade Federal da Bahia, em Cruz das Almas. O modelo multicampi se diferencia daquele da formação da universidade na Bahia e no Brasil que representava mais um conglomerado ou uma reunião de faculdades, escolas e institutos já existentes. A UFRB vem se instalar no Recôncavo num período que Santos & Silveira (2001) denominaram de técnico-científico-informacional. Nesse período esses três componentes ganham grande relevância na produção social e, por conseguinte, na produção do espaço, e a universidade, nesta sociedade, deve ter um papel fundamental no desenvolvimento. 73 A escolha do Recôncavo para sediar uma universidade não ocorreu de forma aleatória. Como dito, essa é uma região de grande importância histórica para a Bahia e o Brasil, além de ser uma das regiões mais urbanizadas da Bahia. Segundo o projeto de implantação da UFRB, de 2003, são 61,38 hab./km² em 15.000 km² de área. Este projeto afirma, ainda, que o Recôncavo é “uma região que resume a Bahia” (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, 2003, p. 14). Além disso pelo quadro abaixo podemos constatar pelo quadro abaixo as disparidades em investimentos no ensino superior na Bahia com os estados citados ao longo do século XX, sobretudo a década de 1990. Quadro 4. UNIVERSIDADES FEDERAIS EM ALGUNS ESTADOS BRASILEIROS Períodos, segundo Milton Santos & Silveira (2001)/Estados TÉCNICO Até o ano de 1938 aproximadamente 1940/1949 TÉCNICOCIENTÍFICO 1950/1959 Do período PósSegunda Guerra até a década de 1980 1960/1969 Minas Gerais Rio Grande do Sul Rio de Janeiro Universidade Federal de Lavras (UFLA) Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Fundação: 1908 Bahia Fundação: 1920 Fundação: 1934 Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Universidade Federal da Bahia (UFBA) Fundação: 1949 Fundação: 1946 Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI) Universidade Federal do Rio Grande (FURG) Fundação: 1959 Fundação: 1953 Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) Fundação: 1960 Fundação: 1960 Universidade Federal Fluminense (UFF) Fundação: 1960 Universidade Federal de Ouro Universidade Federal de Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) 74 1970/1979 TÉCNICO-CIENTÍFICOINFORMACIONAL Após a década de 1980 Preto (UFOP) Pelotas (UFPEL) Fundação: 1969 Fundação: 1969 Fundação: 1965 Universidade Federal de Uberlândia (UFU) Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) Fundação: 1978 Fundação: 1979 Universidade Federal de São João Del Rei (UFSJ) Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA) Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) Fundação: 2002 Fundação: 2006 Fundação: 2005 Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) Universidade Federal da Fronteira Sul Fundação: 2010 Fundação: 2005 Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL) Fundação: 2005 Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) Fundação: 2005 Fonte: Ministério da Educação (2010) .Elaboração: Elissandro de Santana (2010) Uma universidade tem o papel primordial de produzir conhecimento científico, o qual, por seu turno, é cada vez mais incorporado pelos interesses de uma mercado e uma economia globalizada. Esta aquisição de conhecimento no ambiente universitário possibilita um número maior de pessoas qualificadas para as exigências do mercado. Na própria região do Recôncavo temos a presença de algumas empresas que devem ter um bom número de profissionais que vieram de outras localidades: Embrapa, Petrobras, Barragem de Pedra do Cavalo, instituições de ensino superior, entre outras. 75 Apesar dos motivos expostos acima para implantação da universidade serem bem fundamentados e coerentes com as exigências do nosso tempo, sabe-se que uma instituição desse porte não é instalada sem critérios e interesses políticos. Alguns desses motivos, além da estrutura das cidades para receber a universidade, passam, também, pelo político-partidário que estas possuem. Coincidentemente ou não, as quatro cidades contempladas pela UFRB são governadas por prefeitos que compõem a base do Governo Federal do Partido dos Trabalhadores (PT e PMDB). Dois documentos de implantação da universidade – Subsídios para criação e implantação a partir do desmembramento da Escola de Agronomia da Universidade Federal da Bahia (2003) e o Formulário de Apresentação de Propostas (2005) – trazem expressamente a necessidade da UFRB, tendo em vista o desenvolvimento local e regional e uma formatação da universidade numa estrutura multicampi, que, como sugere Fialho (2005), é uma tendência constituição por parte do Governo, tanto nas esferas federal e estadual, a implantação das instituições de ensino superior no formato multicampi, trazendo justamente essa perspectiva do desenvolvimento regional e a diminuição de disparidades sociais históricas. Quadro 5. IDH dos municípios do Território de Identidade do Recôncavo Município Índice de Desenvolvimento Humano, 2000 IDH Renda, 2000 IDH Educação, 2000 IDH Longevidade, 2000 Aratuípe (BA) 0,588 0,513 0,681 0,569 Cabaceiras do Paraguaçu (BA) 0,582 0,457 0,672 0,617 Cachoeira (BA) 0,693 0,591 0,785 0,701 Castro Alves (BA) 0,654 0,540 0,735 0,689 Conceição do Almeida (BA) 0,653 0,563 0,727 0,669 Cruz das Almas (BA) 0,723 0,679 0,845 0,645 76 Dom Macedo Costa (BA) 0,647 0,490 0,724 0,726 Governador Mangabeira (BA) 0,653 0,519 0,717 0,724 Jaguaripe (BA) 0,623 0,484 0,769 0,615 Maragogipe (BA) 0,650 0,492 0,762 0,696 Muniz Ferreira (BA) 0,639 0,501 0,755 0,662 Muritiba (BA) 0,672 0,554 0,738 0,725 Nazaré (BA) 0,657 0,579 0,748 0,645 Salinas da Margarida (BA) 0,675 0,554 0,785 0,688 Santo Amaro (BA) 0,696 0,603 0,759 0,725 Santo Antônio de Jesus (BA) 0,722 0,618 0,844 0,705 São Felipe (BA) 0,656 0,630 0,712 0,627 São Félix (BA) 0,660 0,558 0,785 0,637 Sapeaçu (BA) 0,675 0,537 0,832 0,657 Saubara (BA) 0,667 0,536 0,818 0,648 Varzedo (BA) 0,624 0,555 0,722 0,594 Fonte: Sistema Nacional de Indicadores Urbanos 2000. Extraído de Henrique, Santana e Fernandes (2009). Observando as cidades escolhidas podemos chegar à conclusão que a escolha destas levou em consideração que as cidades já tivessem alguma estrutura e certa relevância no Recôncavo, conforme indicou a tabela do IDH dos municípios, visto que Santo Antônio de Jesus é uma das principais cidades do Recôncavo e possui um campus da Universidade do Estado da Bahia, e Cruz das Almas, que foi escolhida para abrigar a sede da Reitoria da UFRB, além do Centro de Ciências Agrárias, Ambientais e Biológicas. Os dois campi que mais receberam investimentos para a implantação da universidade são os que podem ser vistos na tabela abaixo. 77 Quadro 6. Investimentos na implantação da UFRB MUNICÍPIO VALORES (R$) Cruz das Almas 13.965.145,00 Santo Antônio de Jesus 5.761.228,68 Amargosa 4.225.868,31 Cachoeira 3.624.884,86 Fonte: Pró-Reitoria de Planejamento da UFRB (2012) O Estado trouxe evidente na instituição da UFRB a ideia de uma universidade multipolar e que fosse capaz de proporcionar o desenvolvimento regional com esses investimentos prioritários em cidades do Recôncavo que já possuem estruturas, inclusive universitárias. Parece ser mais um avanço na polarização que estas cidades já exercem no Recôncavo. Como dito, enquanto o Recôncavo atravessava um período de decadência Santo Antônio de Jesus e Cruz das Almas conseguiram se manter com relativo desenvolvimento. O comércio, uma atividade do setor terciário, era o que tornava estas cidades em questão centros polarizadores da região. Fato que ocorre com as outras cidades escolhidas, uma vez que todas têm atividades atuando como forças motrizes capazes de criar um efeito polarizador. Uma delas, por exemplo, no caso a cidade de Cachoeira, desenvolve o turismo como atividade motriz, possibilidade que Andrade (1970), entre as décadas de 60 e 70, já admitia como possível, citando exemplos europeus, apesar da cidade de Cachoeira não ter explorado muito bem esse potencial. As cidades de Cruz das Almas e Santo Antônio de Jesus apresentam um relativo destaque, como apontam Caldas e Souza (2009) quando fizeram uma análise do documento Regiões de Influência das Cidades (Regic), publicado pelo IBGE (2007). Segundo os autores, esse estudo “identifica e propõe, dentro de um arcabouço teórico-metodológico próprio, os principais centros urbanos brasileiros, suas regiões de influência e, por fim, a rede urbana 78 brasileira e sua hierarquia” (CALDAS e SOUZA, 2009, p. 538). Nesse estudo as cidades de Santo Antônio de Jesus e Cruz das Almas apresentam certo grau de influência na sua região imediata, a primeira é classificada como um Centro Sub-Regional A e a segunda um Centro Sub-Regional B. Para os autores, esse fato ocorre devido à descentralização da oferta de bens e serviços que vem ocorrendo no Brasil na primeira década do século XXI. Os quadros abaixo demonstram que esses investimentos também têm como consequência direta a capacidade de cada campus atrair os estudantes, já que mais investimentos também representam um maior número de vagas e de capacidade de manutenção desses estudantes nos campi. Quadro 7. Centro de Ciências Agrárias, Ambientais e Biológicas – Cruz das Almas Curso Número de alunos ativos Agronomia 528 Biologia Licenciatura (noturno) 268 Medicina Veterinária 268 Biologia Bacharelado 257 Engenharia Florestal 253 Zootecnia 201 Tecnologia em Gestão de Cooperativas 182 Engenharia de Pesca 181 Tecnologia em Agroecologia 108 Total 2246 Fonte: Superintendência de Regulação e Registros Acadêmicos da UFRB (2012) 79 Quadro 8. Centro de Artes, Humanidades e Letras – Cachoeira Curso Número de alunos ativos Museologia 230 Comunicação/Jornalismo 217 Cinema e Audiovisual 198 Ciências Sociais 194 História (noturno) 183 História 177 Serviço Social 177 Gestão Pública (noturno) 139 Serviço Social (noturno) 137 Artes Visuais (noturno) 122 Total 1774 Fonte: Superintendência de Regulação e Registros Acadêmicos da UFRB (2012) Quadro 9. Centro de Formação de Professores – Amargosa Curso Número de alunos ativos Pedagogia 227 Matemática 218 Filosofia (noturno) 191 Pedagogia (noturno) 157 Física 148 Química 139 Educação Física (noturno) 138 Letras (LIBRAS) (noturno) 92 Total 1310 Fonte: Superintendência de Regulação e Registros Acadêmicos da UFRB (2012) 80 Quadro 10. Centro de Ciências da Saúde – Santo Antônio de Jesus Curso Número de alunos ativos Psicologia 279 Nutrição 257 Enfermagem 247 Bacharelado em Saúde 239 Total 1022 Fonte: Superintendência de Regulação e Registros Acadêmicos da UFRB (2012) Essa formatação multicampi da universidade é pensada a partir da ideia de multipolarização e especialização de cada campus. Em Cruz das Almas um campus ligado às Ciências Ambientais, em Santo Antônio de Jesus cursos ligado à área de saúde, em Amargosa cursos voltados para a formação de professores e em Cachoeira um campus voltado para as Ciências Humanas. Estando previstos em Santo Amaro, como será detalhado a seguir, cursos ligados à cultura e ao entretenimento, e Feira de Santana, que será um “centro de energia e sustentabilidade”, como afirmou o Vice-Reitor da UFRB, Silvio Soglia. Neste pensamento, segundo os projetos de implantação da universidade, a ideia é tornar cada cidade um centro de especialidades de acordo com as características culturais, ambientais e sociais de cada localidade. Essa característica da UFRB é justificada por uma predisposição que cada município possui, seria uma espécie de “vocação”. Podemos comprovar a nossa afirmação anterior com uma citação do próprio documento de o que objetivo da universidade seria “de ocupar lugar estratégico e redefinidor da matriz de desenvolvimento socioeconômico e cultural da região em foco” (BRASIL, 2003, p. 5). A partir dessas informações podemos chegar à conclusão que a UFRB, como uma ação estatal, visa inserir 81 o Recôncavo Baiano no processo técnico-científico-informacional, buscando, também, ser uma oportunidade para aqueles que moram na região de ingressar em curso superior. Contudo esse projeto de desenvolvimento regional não parece claro, já que se tem observado uma dispersão grande de recursos e uma série de notícias sobre a implantação de outros campi da UFRB até mesmo fora do Recôncavo Baiano, como será detalhado mais adiante. Ao invés de pensar numa consolidação dos campi existentes, bem como nos seus centros de pesquisa através de melhores investimentos, se constatou em nossas pesquisas uma política clara de expansão e papel da universidade. 4.3 A UFRB EM SANTO AMARO E FEIRA DE SANTANA Ações verticais vindas de políticas federais (neste caso específico o REUNI) não se realizam por completo quando são realizadas no espaço proposto. Vários seriam os fatores que corroboram este acontecer dos projetos, podendo-se destacar aquilo que Santos (1996) chamou de horizontalidades, que, no Recôncavo, inclui os agentes locais (prefeitos, deputados, comerciantes influentes na região, entre outros), além das realidades que são próprias dos locais. A UFRB, por exemplo, no projeto inicial previa uma implantação em Santo Amaro da Purificação de um campus, mas esta cidade ficou de fora do projeto inicial, perdendo para Cachoeira o posto de uma das sedes da universidade. Somente seis anos após a chegada da UFRB na região é que se tem uma previsão clara da implantação da instituição na cidade, já que em 19 de dezembro de 2011 o Reitor da UFRB, Paulo Gabriel Nacif, junto com uma equipe da universidade esteve presente na cidade, onde se comprometeu com a efetivação do projeto da UFRB em Santo Amaro no ano de 2012, sendo que o seu funcionamento efetivo estaria previsto para o segundo semestre de 2013. Também nesta visita foi informada a natureza dos cursos que seriam ofertados na cidade: o Centro de Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas – CECULT, com cursos voltados para a cultura, música, cenotecnia, engenharia 82 do espetáculo e lazer. Abaixo podemos identificar a localização da cidade na Bahia com o Mapa. MAPA 3 83 Nesta visita ele foi recebido pelo prefeito da cidade, Ricardo Machado (PT), secretários municipais, vereadores e Dona Canô (ícone da cidade). A população, por meio desses representantes locais, vem há algum tempo fazendo uma grande mobilização para a instalação da UFRB na cidade, inclusive existe um lema que é muito difundido na cidade, através de cartazes e faixas, além das redes sociais na internet, como podemos observar abaixo. Figura 1 – Adesivo da campanha UFRB em Santo Amaro Imagem utilizada em campanhas pela UFRB em redes sociais na internet A consolidação dessa promessa do Reitor da UFRB se deu quando foi apresentado no dia 12 de maio de 2012 o projeto do campus universitário de Santo Amaro, através do próprio Paulo Gabriel Nacif. Alguns grupos organizados vinham reivindicando a presença da UFRB na cidade: comerciantes e professores do ensino básico da cidade. Mas esses 84 pedidos parecem que só saíram efetivamente do papel com uma intervenção político-partidária, visto que o Partido dos Trabalhadores atualmente está no poder da prefeitura do município, além da região do Recôncavo ser um importante espaço de atuação política do Deputado Amauri (PT) que teve uma forte influência em levar à cidade um campus da universidade, juntamente com o senador Walter Pinheiro e a senadora Lídice da Mata, que já tinham tido um papel importante na ida de um campus da UFRB para Cachoeira, já que esta cidade é uma importante base política da senadora. Figura 2 – Cartaz de divulgação da Apresentação do Campus Convite para a apresentação do campus Como dito, os cursos terão foco multidisciplinar nas seguintes áreas: ▪ Engenharia do espetáculo ▪ Cenotecnia ▪ Música popular ▪ Gestão de cultura 85 ▪ Turismo ▪ Arte-educação Ainda neste ano, no dia 14 de junho de 2012, o reitor Paulo Gabriel recebeu o título de cidadão de Santo Amaro, tendo a presença do Deputado Amauri e de diversas lideranças políticas da cidade. A consolidação de um campus em Santo Amaro leva a inferir que a opção por um campus em Amargosa deve ter, também, motivações políticopartidárias, pois esse município, igualmente, é um reduto importante do Partido dos Trabalhadores na Bahia. Amargosa não compõe o Recôncavo nas últimas regionalizações oficiais, nem mesmo Santos (1959), que faz uma grande regionalização histórica do Recôncavo, inclui a cidade. Alianças locais, visualizando ganhos políticos e econômicos na vinda da estrutura da universidade, fizeram “força” para que isso acontecesse. Essas articulações não são simples e nem sempre estão explícitas nas discussões e assembleias realizadas para implantação da universidade nestas cidades. Vale lembrar, ainda, que durante o ano de 2010 houve uma tentativa de articulação para levar a UFRB para a cidade de Valença, mas a chegada do IF BAIANO (Instituto Federal Baiano) parece ter “esfriado” a discussão na cidade. Cada grupo dessas cidades busca artifícios para tentar atrair a universidade, como vimos em Santo Amaro, onde alguns pensam que a cidade tem a capacidade de resumir o Recôncavo com uma presumida “baianidade”. É claro, contudo, que as cidades que receberam os campi foram aquelas que tiveram força político-partidária para articular juntamente a deputados e senadores a vinda de uma instituição federal de ensino. Esse fato ficou muito evidente com uma nota pública (em Anexo) no sítio da internet da UFRB no dia 30 de agosto de 2011, informando que a atual presidente da República, Dilma Rousseff, no dia 16 de agosto do ano corrente, havia autorizado a criação de um campus universitário no município de Feira de Santana. Os cursos oferecidos neste campus serão 86 - Bacharelado Interdisciplinar em Energia e Sustentabilidade - Arquitetura e Urbanismo - Engenharia Química - Engenharia de Petróleo e Gás - Mestrado em Planejamento - Mestrado em Gestão de Energia e Sustentabilidade Neste momento parece bastante questionável o argumento de que a cidade de Valença já possui um IF BAIANO e, por isso, não precisaria de um campus da UFRB, pois a cidade de Feira de Santana já possui uma universidade, a UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana), que tem um papel relevante na produção acadêmica da Bahia, além de ser uma grande polarizadora de estudantes tanto do Sertão baiano como do Recôncavo. A UFRB no Recôncavo se apresenta como uma daquelas decisões verticais do Governo Federal, que, independentemente das solidariedades e redes que são construídas no espaço local, prevalece a decisão do governo, que tem em sua pauta de proposta uma universidade federal em cada cidade média do Brasil. Como podemos observar, a UFRB pode assumir um papel de liderança nessas cidades nas quais está inserida e fortalecê-las nesse projeto de desenvolvimento regional, porém o REUNI, projeto do Governo Federal que balizou o surgimento da universidade, apresenta sérios problemas para a configuração de uma universidade consistente e que seja de capaz de cumprir esse papel que a instituição se propõe no Recôncavo. O Reuni se apropria de um discurso que é, historicamente, característico das lutas dos movimentos dos docentes e faz com que pareça que o MEC tem os mesmo objetivos dos movimentos dos docentes da educação superior. A ideia de ampliação por si só traz essa confusão de objetivos. O Reuni precisa 87 ser analisado em suas múltiplas determinações para que ultrapassemos a dimensão fenomênica que o aproxima das reivindicações docentes. O Reuni pode ser sintetizado como um programa que anuncia uma reestruturação e uma expansão calcadas em aspectos quantitativos realizados por meio da imposição disfarçada de adesão voluntária a um modelo de organização universitária na qual a universidade perde seu caráter universitário e é transformada em uma instituição de caráter pós-secundário (BASTOS, 2009, p. 187). Como afirma Bastos, o REUNI, apesar de aparentemente trazer elementos das lutas históricas da classe universitária, pode transformar a instituição, através de uma expansão sem critérios e sem os investimentos necessários em uma instituição de qualidade limitada e como consequência uma atuação limitada no desenvolvimento do Recôncavo Baiano. 88 CONSIDERAÇÕES FINAIS Acompanhar a expansão do mundo urbano para além das metrópoles e das cidades grandes é essencial na compreensão das novas dinâmicas que têm se processado no início da segunda década do século XXI, sobretudo nas cidades médias e pequenas. Talvez os conteúdos urbanos nesses tipos de cidades venham gerando com maior velocidade transformações nesses espaços do que nas próprias metrópoles, sobretudo na ruptura do cotidiano ainda próximo do mundo rural e ampliando as desigualdades sociais nesses espaços não metropolitanos. As transformações que têm ocorrido nas cidades abordadas nesta pesquisa correspondem ao estabelecimento de novas relações nestas cidades, principalmente nos espaços mais próximos aos campi da universidade. No plano do espaço intraurbano notou-se uma maior valorização dos espaços vazios dessas áreas, devido à presença da universidade, além da majoração dos preços dos aluguéis das casas. No plano interurbano verificou-se o aumento das interações espaciais e a consolidação de Santo Antônio de Jesus e de Cruz das Almas, ao atrair estudantes, e a cidade de Cachoeira, que, depois de um longo período relegada nas políticas governamentais, volta a ter certa importância na rede urbana do Recôncavo, também motivada pelo fluxo de estudantes e profissionais ligados à universidade. O REUNI, programa do Governo Federal, vem se caracterizando pela interiorização do ensino superior no país e, apesar de a Bahia estar sendo contemplada com a Universidade Federal do Recôncavo, a forma como isto vem ocorrendo leva a uma reflexão sobre a forma como o Estado vem conduzindo essa expansão, pois, apesar de muitos benefícios que uma instituição de ensino superior pode levar para as cidades, é necessário que esse processo ocorra de forma coerente com os princípios que norteiam o projeto. 89 Uma das conclusões que se pode retirar da reflexão realizada nesta dissertação é observar como o Estado brasileiro ainda permanece inerte quanto à disposição de se pensar a educação no Brasil mais seriamente, neste caso específico o Ensino Superior. Não se trata de uma novidade, pois outros trabalhos discutem muito claramente estas questões, contudo nesta pesquisa se buscou revelar outras faces desse problema analisando a influência que uma universidade pode ter na vida de uma cidade pequena e média da Bahia. Problemas de ordem habitacional, visto que, como outras instituições de ensino superior da Bahia, não preparam a sua estrutura para receber estudantes de outras localidades. Nos Estados Unidos, país com uma tradição universitária diferente da nossa, quando o estudante se desloca para outra cidade em busca de estudos universitários a universidade oferece todas as condições necessárias para aquele permanecer nela e concluir seus estudos (vale ressaltar que nos Estados Unidos os estudantes bancam parte dos seus estudos). Enquanto que no Brasil as universidades mal têm condições de bancar uma estrutura básica para o funcionamento das atividades acadêmicas. O pensamento sobre o desenvolvimento regional neste período técnicocientífico-informacional sempre dá um destaque ao papel do conhecimento como um fator primordial no desenvolvimento. Para muitos, a universidade teria essa função de encabeçar um projeto de desenvolvimento e esta ideia, como demonstrado ao longo dessa pesquisa, é constante nos documentos oficiais de constituição da UFRB. A UFRB nestes documentos surge como uma forma de “salvação” para um Recôncavo que ficou atrasado no decurso da história, pelo menos essa é a impressão que os documentos deixam. A princípio, pode-se pensar que a UFRB tem dado essa resposta à sociedade no que tange ao desenvolvimento, visto que a maioria dos seus alunos é das classes C, D e E. Porém esse perfil de alunos que representa a maioria dos estudantes da universidade requer um projeto consistente de permanência destes na universidade e perspectivas claras de estes ingressarem no mercado de trabalho, até mesmo nos municípios onde a universidade está inserida. 90 Sobre a especialização dos campi, acredita-se que pode revelar algo de produtivo e criar graus de complementaridades importantes entres eles, além de possibilitar uma maior integração com as necessidades da população em que a instituição está inserida. Em Santo Antônio de Jesus existe um trabalho de extensão muito interessante, os estudantes do curso de Nutrição realizam trabalhos de extensão nas escolas municipais dando um suporte na merenda escolar. A concretização do curso de Medicina poderá representar um maior número de profissionais no Hospital Regional de Santo Antônio de Jesus, o que implicaria uma possível melhoria do acesso da população à saúde pública. Em Cruz das Almas os cursos ligados às Ciências Agrárias podem servir de suporte para as populações que vivem como pequenos e médios agricultores, ajudando na melhoria das suas atividades agrícolas, não só visando os grandes proprietários. Trabalhos de extensão são necessários, talvez em Santo Antônio de Jesus, devido à natureza dos cursos (saúde) se conseguiu na pesquisa perceber uma maior interação com a comunidade local. A formação de professores em Amargosa é importante para a consolidação do ensino básico de qualidade na região, pois, com o fortalecimento desse nível do ensino, outros estudantes também poderão ter acesso à universidade. Em Cachoeira também se perceberam as ações dos estudantes e professores nas tomadas de decisão da cidade e no auxílio a um debate mais eficaz diante dos problemas políticos que a cidade enfrenta. Muitos membros da comunidade acadêmica da UFRB têm mobilizado a população para a revisão do Plano Diretor do Município. Um estudo mais abrangente se poderia fazer em um outro momento, analisando como são as relações de uma universidade com o município em que está inserida, pois o desenvolvimento regional não passa apenas pela movimentação econômica da cidade, pois esta abrange pessoas que possuem 91 algum imóvel que esteja disponível para transformar em pensionatos e alugar para os estudantes ou até mesmo terrenos para a construção destes. Também existem aqueles defensores de que a presença dos estudantes motiva um consumo maior nas cidades, mas não se pode perder de vista que, além desse consumo ser sazonal, ele gera renda para parte da população. Algumas questões que ainda persistem nesta pesquisa: Como podemos sair desse ciclo de pobreza no país? A universidade, de fato, tem se mostrado um caminho para o desenvolvimento local e regional ou este é um discurso apenas político? O que fazer para evitar esse considerável encarecimento na vida das cidades médias e pequenas por causa da universidade? 92 BIBLIOGRAFIA AMORIN FILHO, Oswaldo; SERRA, Rodrigo Valente. Evolução e perspectivas do papel das cidades médias no planejamento urbano e regional. In: ANDRADE, Thompson Almeida; SERRA, Rodrigo Valente (Orgs.). Cidades médias brasileiras. Rio de Janeiro: Ipea, 2001. ANDRADE, Manuel Correia de. Espaço, polarização e desenvolvimento. 2. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1970. ARAÚJO, M. M. S.; MOURA, R.; DIAS, P. C. Cidades médias: um conceito em discussão. In: Rafael Henrique Moraes Pereira e Bernardo Alves Furtado (Orgs.). Dinâmica urbano-regional: rede urbana e suas interfaces. Brasília: Ipea, 2011. BASTOS, Cristiane Pereira de Moraes. A corrosão do caráter público das universidades federais: influências do banco mundial no REUNI (Dissertação). Universidade Federal Fluminense. Niterói, 2009. BOAVENTURA, Edivaldo M. A construção da universidade baiana. 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