Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
Memória das Estrelas sem Brilho. História e Identidade na
Estética Literária de José Leon Machado
Dissertação de Mestrado em Ciências da Cultura
Cristina Teixeira Pinto
Doutora Maria Luísa Castro Soares
Vila Real, 2013
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
Memória das Estrelas sem Brilho. História e Identidade na
Estética Literária de José Leon Machado
Dissertação de Mestrado em Ciências da Cultura
Cristina Teixeira Pinto
Doutora Maria Luísa Castro Soares
Vila Real, 2013
Dissertação de Mestrado em Ciências da Cultura (2.º ciclo), apresentada à
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, sob a orientação de Maria
Luísa de Castro Soares.
AGRADECIMENTOS
Agradeço ao professor José Barbosa Machado, por me ter incutido o prazer pela
redescoberta da História e da Cultura Portuguesas e por me ter apoiado na prossecução
deste projeto, tendo-se demonstrado sempre disponível de uma forma pontual e exímia.
À minha orientadora, Professora Luísa Castro Soares, por me ter sugerido o tema,
incentivando-me para a realização deste projeto e por todo o empenho e
profissionalismo evidenciados.
Aos meus colegas de curso da UTAD, nomeadamente, o António Menezes, a Assis
Gaspar, a Carina Gonçalves, a Fátima Teixeira, a Liliane Baptista, o Orlando Vaz que
me deram todo o apoio necessário para a finalização deste projeto, principalmente, à
minha amiga Fátima por uma amizade que perdura há muitos anos.
Às minhas colegas de profissão, Graça Silva, Júlia Garcia e Laura Pereira que sempre
evidenciaram um gosto peculiar pelo findar da minha tese.
Ao meu ex-professor e atualmente amigo, António Pereira, por me ter incentivado e
apoiado nos momentos que eu mais precisava.
Aos meus amigos da escrita, Ernesto Ribeiro e Nuno Garcia, por todo o carinho e
amizade manifestados e um agradecimento especial a Angélique Sauvaire.
À minha prima Teresa Sousa, mãe e irmãos por todo o seu apoio incondicional.
Por último, ao meu pai, o grande amor da minha vida que, apesar de ter partido há nove
anos atrás, teria certamente apoiado a sua filha mais velha da qual sempre se orgulhou.
A todos, o meu muito obrigada!
IV
RESUMO
Memória das Estrelas sem Brilho, uma obra ficcional, escrita por José Leon
Machado, cuja 1.ª edição foi publicada no ano de 2008, é um romance histórico que
aborda a I Grande Guerra Mundial e que relata a obstinada participação dos soldados
portugueses nas Trincheiras, na Flandres (França), que o governo português enviara em
1917.
Esta obra, que aborda duas vertentes que lhe estão subjacentes (o amor e a
guerra), consiste no relato histórico de um passado nacional que visa ‘‘reconstituir’’,
com autenticidade e fidelidade a sociedade, os grupos sociais, as instituições, os
costumes, os usos, os rituais e a mentalidade da época, criando ou explorando
personagens fictícias e não só, bem como temas problemáticos de importância vital para
a história portuguesa.
A escrita do autor é simples e concisa, e o uso sistemático de uma linguagem
popular bem como as diversas influências literárias patentes nesta obra constituem a
matéria-prima deste escritor contemporâneo.
Na sua estética de escrita, os conhecimentos históricos aprofundados exigiram,
deste autor, um espírito histórico onde prevalece a sabedoria de harmonizar
esteticamente factos e personagens de culturas e épocas diferentes, cronologicamente
situados numa sintonia perfeita entre a literatura e a história.
Desta forma, Memória das Estrelas sem Brilho é uma obra onde o autor valoriza
o nacional que se manifesta pelo retorno ao passado histórico e pela criação do herói
nacional.
Este romance está escrito em forma de memórias, narradas na primeira pessoa, e
procura imitar o tom de livros que alguns ex-combatentes escreveram logo após a
guerra, tais como: Américo Olavo, Bento Esteves Roma, Horácio Assis Gonçalves,
Pedro de Freitas, Manuel Costa Dias, João Pina de Morais, David Magno, Carlos de
Ornelas, Eugénio Rodrigues Aresta, entre outros.
Palavras-chave: Romance Histórico, José Leon Machado, I Guerra Mundial,
Memorial.
V
ABSTRACT
‘‘Memories of Stars without Shine’’, ‘‘Memória das Estrelas sem Brilho, is a
fictional story, written by José Leon Machado, which the first edition was published on
2008. It’s an historical romance about the First World War, which describes the
participation of Portuguese army in the trench, on Flanders France, which our
government sent in 1917.
This book it’s an historical romance that reveals two sides (love and war), that is
about an historical report a national past and seeks to reconstruct authenticity and
fidelity of society, social groups, institutions, costumes, things they used to do, rites,
and mentality of that time, create or explore fictional characters and also critical themes
that have a big importance on Portuguese history.
The author writing is simple and precise as the use of popular Portuguese
sayings and their influence on his writing that is the major aim of the writing from this
author.
The author’s writings appearance reveals a deep understanding of Portuguese
history, he tries to show how hormonally facts and characters culture are in different
times chronically they are perfectly situated in literature and history.
Memória das Estrelas sem Brilho is a work were the author gives real and big
importance to what is national and that is showed by the return to the historical past and
the creation of a national hero.
This romance is written by memories that were lived in the first person and tries
to be similar as books written by ex-militaries after war, like: Américo Olavo, Bento
Esteves Roma, Horácio Assis Gonçalves, Pedro de Freitas, Manuel Costa Dias, João
Pina de Morais, David Magno, Carlos de Ornelas, Eugénio Rodrigues Aresta, and
others.
Key words: historical romance, José Leon Machado, first world war, memorial.
VI
ÍNDICE GERAL
AGRADECIMENTOS ................................................................................................... IV
RESUMO .........................................................................................................................V
ABSTRACT ................................................................................................................... VI
ÍNDICE GERAL ........................................................................................................... VII
PREÂMBULO ............................................................................................................... XI
1.
INTRODUÇÃO......................................................................................................... 1
1.1. História e Literatura: uma união de facto .............................................................. 1
PARTE I ........................................................................................................................... 5
CAPÍTULO I - O ROMANCE HISTÓRICO: FUNDAMENTOS TEÓRICOS
1. O ROMANCE HISTÓRICO ........................................................................................ 6
1.1. Dos primórdios à discussão atual do problema .................................................... 6
1.2. Alexandre Herculano, o fundador em Portugal .................................................. 14
1.3. Miguel Real: tipos de romance ........................................................................... 15
1.3.1. Romance de reconstituição histórica ............................................................. 16
1.3.1.1. Romance de análise histórico-político-social ...................................... 16
1.3.1.2. Romance histórico de empenhamento social e cultural ...................... 16
1.3.1.3. Romance histórico pícaro .................................................................... 16
1.3.1.4. Romance histórico psicológico ........................................................... 17
1.3.1.5. Romance histórico fundado no maravilhoso ....................................... 17
1.3.2. Romance de construção histórica .................................................................. 17
1.3.3. Romance histórico de fundo epistemológico ................................................ 17
1.3.4. Romance histórico subversor da própria história .......................................... 17
PARTE II ........................................................................................................................ 19
CAPÍTULO II - JOSÉ LEON MACHADO: O AUTOR E O TEXTO NO SEU
ENQUADRAMENTO HISTÓRICO
1. Breve Biobibliografia do autor José Leon Machado .................................................. 20
2. Enquadramento histórico da obra Memória das Estrelas sem Brilho ........................ 21
3. Os envolvidos ............................................................................................................. 25
4. O Corpo Expedicionário Português ............................................................................ 27
4.1. Em direção ao desconhecido: Flandres ............................................................... 27
4.2. A rotina nas trincheiras ....................................................................................... 27
4.3. Os ‘‘trinchas’’ na terra do desconhecido ............................................................ 28
4.4. A rotina diária na zona de guerra ........................................................................ 31
4.5. O fardamento ...................................................................................................... 32
4.6. O Aboletamento .................................................................................................. 35
4.7. A saúde ............................................................................................................... 35
4.8. Os tempos livres.................................................................................................. 36
4.9. A censura postal .................................................................................................. 37
4.10. A sexualidade .................................................................................................... 38
4.11. A religião .......................................................................................................... 38
4.12. O CEP entregue ao Deus dará........................................................................... 39
4.13. Os portugueses aos olhos dos ingleses ............................................................. 40
PARTE III ...................................................................................................................... 41
CAPÍTULO III - MEMÓRIA DAS ESTRELAS SEM BRILHO: ANÁLISE DA OBRA E
DOS SEUS ELEMENTOS PARATEXTUAIS E CULTURAIS
1. Memória das Estrelas sem Brilho: elementos paratextuais e edições ........................ 42
2. Sua temática histórica: Primeira obra de uma trilogia ................................................ 44
3. A personagem ............................................................................................................. 45
3.1. Luís Vasques: ‘‘O Infeliz’’ ................................................................................. 45
4. Brasão da Família Vaz e Brasão da Família Vasques: ............................................... 47
5. O anel de brasão ......................................................................................................... 48
6. Os Lusíadas: Luís Vaz de Camões ............................................................................. 49
7. As cunhas em Portugal ............................................................................................... 50
8. A vida académica coimbrense .................................................................................... 51
9. A sexualidade/moralidade vigente.............................................................................. 51
10. Vasques e Rato: uma amizade sem igual.................................................................. 53
11. Ambos em direção a Fátima ..................................................................................... 55
12. Vasques e Rato: uma verosimilhança com a obra de Miguel de Cervantes Dom
Quixote de La Mancha ................................................................................................... 57
14. O perfil físico e psicológico das mulheres retratadas por Vasques .......................... 58
PARTE IV ...................................................................................................................... 60
CAPÍTULO IV - ASPETOS IDENTITÁRIOS DO PORTUGAL DE INÍCIOS DO
SÉC.XX NA OBRA
Memória das Estrelas sem Brilho .................................................................................. 60
1. Portugal e o retrato do país ......................................................................................... 61
2. A liberdade de imprensa ............................................................................................. 61
3. Alferes: a nova realidade de Vasques ......................................................................... 64
4. Preparação para a Grande Guerra: tempo e espaço .................................................... 65
5. A situação política do país .......................................................................................... 67
6. Os ideais de Vasques .................................................................................................. 72
7. Os criticados por Vasques .......................................................................................... 72
8. Salazar no poder ......................................................................................................... 75
9. Ícones representativos da sociedade ........................................................................... 77
9.1. A moeda de 4 centavos ....................................................................................... 77
9.1.1.2. O selo e a Deusa Ceres ............................................................................... 79
10. A medalha do Sagrado Coração de Jesus/Senhora das Candeias ............................. 79
11. Linguagem popular ................................................................................................... 80
PARTE V........................................................................................................................ 82
CAPÍTULO V - INTERTEXTUALIDADES
1. A Vendedora de Cupidos: II Trilogia ......................................................................... 83
2. O Mutilado de João Grave .......................................................................................... 84
3. A Filha do Capitão de José Rodrigues dos Santos ..................................................... 85
4. Raul Brandão em Memória das Estrelas sem Brilho ................................................. 87
5. Eça de Queirós: A Ilustre Casa de Ramires ............................................................... 90
5.1. O Realismo ......................................................................................................... 92
5.2. Eça de Queirós: Os Maias .................................................................................. 96
5.3. Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro ........................................................ 97
Conclusão ....................................................................................................................... 99
Referências Bibliográficas ........................................................................................... 102
BIBLIOGRAFIA DIGITAL ......................................................................................... 109
APÊNDICE .................................................................................................................. 110
ANEXOS
ANEXO I ...................................................................................................................... 116
ANEXO II .................................................................................................................... 117
ANEXO III ................................................................................................................... 118
ANEXO IV ................................................................................................................... 119
ÍNDICE DE FIGURAS
Figura 1 – Capa do livro ................................................................................................ 43
Figura 2 – Brasão da família Vaz .................................................................................. 48
Figura 3 – Brasão da família Vasques ............................................................................48
Figuras 4 e 5 – A moeda de 4 centavos ......................................................................... 77
Figura 6 – O selo e a Deusa Ceres .................................................................................. 79
PREÂMBULO
O interesse pela literatura e pela história levou-nos a optar por uma obra que
primasse por esta conciliação.
O romance em análise é um romance histórico de cruzamentos: cruza-se a
história com a literatura, o verosímil com o inverosímil e o passado com o presente.
Desta forma, a nossa escolha recaiu sobre a obra Memória das Estrelas sem Brilho do
escritor José Leon Machado, um escritor que se enquadra na nova geração literária
portuguesa: a da literatura contemporânea.
Com este trabalho, não só queremos dar o nosso contributo para a divulgação do
autor, que merece ter, pela qualidade da sua obra já aliás reconhecida por alguns críticos
como Milton Azevedo, um lugar de destaque no panorama literário português, como
também, verificar, através do estudo da obra referida, como evoca e problematiza, um
escritor pós-moderno, o passado histórico.
Para o estudo da narrativa, enquanto fenómeno literário, optamos por métodos
qualitativos. A ideia é analisar e descobrir a obra. Por outras palavras, pretendemos
levar a cabo uma leitura da obra que nos permita interpretá-la, compreendê-la e
descrevê-la. Essencialmente, será adotado um percurso hipotético-dedutivo. Embora
não esquecendo que diversas dimensões se entrecruzam no fenómeno literário (o
emissor ou escritor; o recetor ou público; a mensagem ou texto; o modelo estético-social
e cultural), optamos, essencialmente, por uma abordagem imanente, centrada no texto,
sendo este encarado como um todo, um universo ficcional, cujos mecanismos
possibilitam a emergência de sentidos. Deste modo, recorremos ao método
hermenêutico para fazer “falar” o texto.
A análise que faremos ultrapassará o que está explicitado e incidirá também no
não-dito, pois a interpretação é o discernimento de um sentido oculto num sentido
aparente. É nossa intenção, ainda, ter em consideração o new criticism, cujos conceitos
metodológicos permitirão a articulação entre conteúdo e forma. Por fim, para as
terminologias indispensáveis ao estudo da narrativa, recorremos a obras de narratologia
e estilística.
Com esta dissertação, pretende-se conhecer e divulgar a estética literária deste
escritor contemporâneo, de modo a que a sociedade atual reconheça esta nova geração
de escritores que se têm evidenciado na escrita de romances históricos: uma nova
geração detentora de um estilo literário próprio e que pretende que o leitor (embora não
tendo vivido naquela época) perceba alguns dos acontecimentos em que Portugal se viu
forçado a intervir.
Numa primeira parte, abordamos o romance histórico como género literário,
uma estética que remonta aos nossos antepassados ancestrais, referenciando o seu
fundador, Alexandre Herculano e Walter Scott, o seu criador.
Numa segunda parte, fazemos o enquadramento histórico da obra Memória das
Estrelas sem Brilho, uma vez que o romance aborda o fim da monarquia, a implantação
da República e o Estado Novo.
Na terceira parte, focamos a história e identidade na estética literária de José
Leon Machado, especialmente, no romance Memória das Estrelas sem Brilho, uma obra
que recorda a participação de um passado nacional e que permite - ao autor- lançar um
olhar reflexivo e crítico sobre a contemporaneidade.
Como todo o texto é indissociável de um contexto, numa quarte parte, realçamos
os aspetos culturais e identitários do Portugal de inícios do séc. XX na obra Memória
das Estrelas sem Brilho e, por último, refletimos sobre as intertextualidades da obra.
1. INTRODUÇÃO
1.1. História e Literatura: uma união de facto
Na obra Memória das Estrelas sem Brilho, cruza-se a história com a literatura,
sendo que esta relação remonta à mitologia dos gregos.
Segundo o mito, Zeus e Mnemósine, o pai dos deuses e a deusa da memória,
tiveram nove filhas, as nove musas das artes. De entre elas, Calíope, a musa da literatura
e Clio, a deusa da história. Sendo assim, seguindo a explicação mitológica, verificamos
que a relação entre estas duas artes é estreita e que o diálogo entre elas é uma constante.
No início dos tempos, História e Literatura nasceram como ser único e
indistinto. Lentamente, como parte do longo processo de tomada de consciência do
homem de sua existência social, as duas disciplinas diferenciaram-se, singularizaram-se
e especializaram-se. Espécie de gémeos idênticos, literatura e história lutaram para se
separar e andar independentemente.
O processo de autonomização entre a história e a literatura aprofundou-se na
Idade Média, tendo-se verificado, no séc. XIX, uma tentativa de aproximação.
A diferenciação entre literatura e história avançou qualitativamente após 1789. A
Revolução fortaleceu a consciência de que era possível aprender racionalmente o devir
histórico – ‘‘experiência vivida pelas massas’’-, gerando ‘‘a historiografia científica e o
romance histórico’’ (Lukacs 1965: 21). Nesses anos, literatura e história dispunham-se a
explicar essencialmente o passado.
Lukacs lembrava que a luta pela construção de uma explicação historiográfica e
científica de 1789 favoreceu a ausência de um grande romance histórico sobre aquele
acontecimento, ao passo que a revolução burguesa, na Inglaterra, foi amplamente
retratada na ficção. (Lukacs 1965: 81).
Na antiguidade, Aristóteles lembrava que a literatura produzia um passado
possível e não real, já que o ‘‘poeta, diferentemente do historiador, não representa factos
ou situações particulares’’ mas apenas ‘‘cria um mundo coerente em que os
acontecimentos são representados na sua universalidade, segundo a lei da probabilidade
ou da necessidade.’’ (Silva 1990: 90)
Na defesa da autonomização radical da literatura lembrou-se que ela se objetiva
na construção de uma totalidade artística, tendo como único paradigma o belo, e que a
história, ao contrário, impõe-se através da confrontação do explicado (teoria) com o
analisado (objeto), já que constitui análise concreta de situação concreta.
1
A negação da função da história, de explicar essencialmente os fenómenos e sua
redução a uma mera narrativa em prosa construída pelo arbítrio do narrador debruçado
sobre os dados objetivos, reduz a disciplina a uma espécie de ficção de tema histórico e
vocação naturalista.
Também é uma ilusão a inexorável determinação da historiografia pelos
documentos. O historiador não é fantoche dos dados, sobre os quais aplica, como
cirurgião hábil, o bisturi técnico-metodológico. É alta a autonomia - consciente e
inconsciente - do historiador na escolha e tratamento da documentação. A sua
independência cresce quando transita da pesquisa à produção do texto biográfico. A
busca da verdade factual centrada na pesquisa de fontes documentais, que é objeto do
historiador, não é condição necessária para o autor do romance histórico.
A narrativa ficcional em prosa que almeja ‘‘a reprodução artística fiel de uma
dada era histórica concreta’’ (Lukacs 1965:17) é palco privilegiado para a discussão dos
fios de Ariadne que ligam história e literatura entre si e com o real. Entre as íntimas
variadas interpretações da história e da literatura, destaca-se a vocação da narrativa em
prosa de tema histórico, de descrever, sintetizar, explicar e apreender as singularidades
essenciais do passado.
Quando, nos seus romances, o escritor opta por usar a história pode, à maneira
de Saramago, tomar dois caminhos: o de um certo respeito pelos factos conhecidos ou
documentados ou, ao invés, o da prevalência da ficção, cabendo à história o papel de
pretexto para o texto ficcionado.
Vejamos o seguinte excerto:
Duas serão as atitudes possíveis do romancista que escolheu, para a sua ficção, os
caminhos da história: uma discreta e respeitosa, consistirá em reproduzir ponto por
ponto os factos conhecidos, sendo a ficção mera servidora duma ficção que se quer
intocável; a outra, ousada, levá-lo-á a entreter dados históricos não mais que
suficientes num tecido ficcional que se manterá predominante. Porém, estes dois
vastos mundos, o mundo das verdades históricas e o mundo das verdades ficcionais,
à primeira vista irreconciliáveis, podem vir a ser harmonizados na instância da
narradora (…) (Saramago 1998:56)
Tradicionalmente, o historiador viu o romance histórico como leitura
impertinente de um passado possível de ser desvelado apenas através dos instrumentos
da historiografia e jamais com a fantasia arbitrária do ficcionista. O romance histórico
seria uma ficção do passado, incapaz de se aproximar de suas irregularidades profundas:
2
É tal a força da solidariedade das épocas que os laços da inteligibilidade entre elas se
tecem verdadeiramente nos dois sentidos. A incompreensão do presente nasce
fatalmente da ignorância do passado. Mas talvez não seja mais fácil esforçarmo-nos
por compreender o passado se nada sabemos do presente. (Bloch 1981:42)
Na mesma linha, E. Carr afirma: ‘‘O passado é inteligível para nós unicamente à luz do
presente; e só podemos compreender completamente o presente à luz do passado’’.
(Carr 1961: 46) Na verdade, o romance histórico cria um mundo ficcional global que é o
percebido como o real recriado. Heine afirmava que os ‘‘romances de Walter Scott
reproduzem muitas vezes o espírito de história inglesa mais fielmente do que Hume’’
(Lukacs 1965:59). A verosimilhança da ficção suplanta a própria narrativa da realidade
histórica.
A história e a literatura devem registar não a aparência, mas a essência dos
fenómenos. Lukacs lembrava, referindo-se à arte em geral que:
As formações estéticas são reflexos da realidade objetiva, e sem valor, sua
significação, sua verdade descansam na capacidade que tenham de captar
corretamente a realidade, reproduzi-la e evocar nos recetores a imagem da realidade
que permanece nelas mesmas. (Lukacs 1982:41).
É, no entanto, nos diferentes usos da história como força definidora,
considerando que esta pode desempenhar vários papéis na estrutura dos romances – ser
razão, motivo, origem, pretexto, matéria ou cenário, entrando de modos diversos
tematicamente na literatura, como afirma Harry Show (Show 1985:22) que se podem
encontrar critérios de análise e de diferenciação para o estudo do romance histórico.
É função da história penetrar a essencialidade dos fenómenos e definir e
descrever, teoricamente, o comportamento tendencial das categorias sociais dominantes.
A literatura realiza o mesmo processo através da transfiguração essencial da realidade,
servindo-se para tal de personagens que recriem, na singularidade de suas ações, as
tendências gerais de uma classe de indivíduos.
No romance histórico, o autor e o narrador são obrigados a animar os
protagonistas ficcionais – seres aparentemente individuais e singulares – de tal modo
que vivam, amem e odeiem em conformidade com as tendências reais do passado, a fim
de que se elevem ao status de personagens singulares e universais.
A produção de um romance histórico exige que o ficcionista realize investigação
sistemática sobre a época que abordará. O facto desse estudo ser mediado pela sua
sensibilidade e instinto artísticos não dilui o facto de que o artista, nesse momento da
3
produção, realiza, consciente ou inconscientemente, o trabalho do historiador, isto é, o
desvelamento essencial do passado.
O romance histórico de conteúdo nacional tem a virtude de unir ficção e vida,
permitindo um olhar sobre o passado sociocultural e identitário.
É na autoridade do saber e discurso da história conjugados com a liberdade do
romancista que o autor fundamenta a própria voz, entrando no texto com um ‘‘eu’’ que
se sobrepõe ao narrador para comentar, julgar, fazer digressões que, na maior parte das
vezes, pertencem ao campo da política e do funcionamento da sociedade.
O autor seleciona, nos documentos, nas memórias, nos relatos, nos
acontecimentos e ideias, conscientes e inconscientes sobre o passado, o material sobre o
qual construirá os seus enredos, protagonistas e paisagens.
4
PARTE I
CAPÍTULO I
O ROMANCE HISTÓRICO:
FUNDAMENTOS TEÓRICOS
5
1. O ROMANCE HISTÓRICO
1.1. Dos primórdios à discussão atual do problema
Nos últimos anos, tem-se verificado um grande aumento na publicação de
romances que trazem factos e personagens históricas para o centro de suas ações. Nos
romances, podemos ver a forma como os nossos escritores remontam ao passado e
dialogam com a sua própria história. Contudo, o romance afasta-se da vida real para nos
emergir num mundo fictício.
O romance é pois, antes de mais, uma narrativa. O romancista coloca-se entre o
leitor e a realidade que lhe quer mostrar e interpreta-a para ele. Este faz a narrativa de
uma história, isto é, uma sequência de acontecimentos encadeados no tempo, desde um
início até um fim.
O romancista compõe a história para produzir um certo efeito no leitor, para
reter a sua atenção, comovê-lo e provocar a sua reflexão. Sendo assim, organiza a
matéria-prima da sua história para lhe dar uma forma artística.
Quanto às suas origens, o romance histórico surge no início do século XIX e
caracteriza-se por ser uma narrativa literária ou artística sobre factos históricos reais ou
inventados a partir de categorias estéticas. Deste modo, a escrita de um romance
histórico exige do autor contemporâneo um espírito metódico sobre um passado que não
vivenciou, na busca incessante de conhecimentos históricos que deseja relatar.
O escritor Walter Scott (1771-1832) é considerado o criador do clássico romance
histórico em Inglaterra por escrever romances de enredo medieval como a obra Ivanhoe
(1819). Em Portugal, quem introduziu o romance histórico foi Alexandre Herculano
(1810-1877), que tinha Walter Scott como modelo.
O paradoxo do estatuto do romance histórico reside na ambiguidade de ser uma
narrativa simultaneamente verdadeira e falsa (ficção). Se, de facto, o romance histórico
envolve, pela sua natureza, um quantum de conhecimento e, possivelmente, de
didatismo, o seu quid, porém, é eminente e estético.1
O romance histórico é uma das mais ricas tradições da ficção portuguesa.
Contemporaneamente, este género foi objeto de conhecida reabilitação por escritores e
por críticos literários. Traçar um panorama evolutivo desde o romance histórico
1
In http://www.pedroalmeidavieira.com
6
romântico até à ficção mais recente foi o objeto de estudo de Fátima Marinho com o seu
livro Romance Histórico em Portugal (Marinho 1999) que nos serviu de referência.
Para o estudo do romance histórico é necessário considerar a teoria do
nacionalismo romântico, as várias vertentes em que se define e se manifesta e as
escolhas pelas quais os escritores optam por afirmar, questionar, recuperar
literariamente o que consideram ser nacional.
É durante o romantismo - finais do século XVIII, início do século XIX- que
surge o romance histórico, cedo se celebrizando com obras como Ivanhoe, de Walter
Scott, Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas, Eurico, o Presbítero de Alexandre
Herculano ou Guerra e Paz de Leon Tolstói.
O Romantismo defendia o primado do sentimento sobre a razão e a liberdade
criadora contra as regras. Em Portugal, houve três gerações românticas. Na primeira,
sobressaem autores como Almeida Garrett (1799-1854) e Alexandre Herculano (18101877); na segunda geração, destacam-se autores como António Feliciano de Castilho
(1800-1875) e, na terceira, são dignos de relevo Antero de Quental (1842-1871), Camilo
Castelo Branco (1825-1891) e Eça de Queirós (1845-1900).
O romantismo, sendo um movimento complexo, deu origem a diversas correntes
estéticas, umas contrárias, outras atualizadoras e reformadoras dos princípios
românticos, como o Ultrarromantismo, o Realismo, o Naturalismo, o Impressionismo, o
Parnasianismo, o Simbolismo, o Decadentismo, o Neogarrettismo, entre outros.
Depois dos anos 60 do século XX, começa a falar-se em Pós-Modernismo,
movimento que, apesar de muitas polémicas, se aceita de um modo geral como sendo
aquele que designa as diversas e inconciliáveis expressões estéticas e culturais da
atualidade. Os autores deixam de estar ligados a uma estética em particular, criando
uma poética personalizada e única. (Machado 2009: 90-91)
O romance histórico possui um fim em si mesmo - o prazer estético da escrita e
da leitura, adicionado ao conhecimento da história. Como sugere Harry Show, logo nas
primeiras páginas de The Forms of Historical Fiction (Show 1983), o romance histórico
pode, a nível do processo narrativo, não se afastar muito dos outros tipos de ficção,
sendo a soma de determinado número de ingredientes que lhe conferem características
inequivocamente distintivas. Trata-se de um género híbrido (Vanoosthuyse 1996), na
medida em que é próprio da sua essência a conjugação da ficcionalidade inerente ao
romance, e de uma certa verdade, apanágio do discurso da história.
Todo romance, como produto de um ato de escrita é sempre histórico, porquanto
7
revelador de, pelo menos, um tempo a que poderíamos chamar tempo da escrita ou da
produção do texto. Contudo, tal definição, por mais verdadeira que possa ser, não serve
para o que se designa de romance histórico no quadro dos estudos literários. Nesse
âmbito, o romance histórico corresponde àquelas experiências que têm por objetivo
explícito a intenção de promover uma apropriação de factos históricos definidores de
uma fase da história de determinada comunidade humana.
Apesar de logo no século XIX terem aparecido estudos sobre o romance
histórico, a verdade é que, só em 1937, aparece o primeiro grande ensaio sobre o género
em causa, nomeadamente, a obra de George Lukacs, Le Roman Historique.
George Lukacs considera que, antes de Scott, os romances que se ocupavam de
épocas diferentes das dos seus autores se limitavam a uma escolha puramente exterior
de temas e de ambientes, sem nenhuma espécie de consciência dos grandes movimentos
histórico-sociais. Ainda segundo Lukacs, a obra de Scott seria a grande continuadora do
romance social realista do século XVIII, trazendo como inovação a pintura de costumes
e de acontecimentos, o caráter dramático da ação e a importância do diálogo. Condições
sociopolíticas como a Revolução Francesa, a ascensão e queda de Napoleão ou as
convulsões do início do século XIX, contribuíram, de acordo com o mesmo estudioso,
para o género romanesco próprio e que se afasta radicalmente de obras do século
anterior. (Lukacs 1965: 17)
Martin Kuester apresenta também uma série de definições para o romance
histórico, concluindo que a presença de uma consciência histórica numa situação
historicamente condicionada se revela fundamental: ‘‘What makes a historical novel
historical is the active presence of a concept of history as a shaping force – acting not
only upon the characters in the novel but on the author and readers outside it.’’
(Kuester 1992:15).
A ideia de que um bom romance histórico ensinava mais do que um livro de
história preside a grande parte do nosso século XIX e princípio do século XX, chegando
Herculano a afirmar que Walter Scott ou Alfred de Vigny ensinaram mais do que os
historiadores.
Segundo o autor de Le Roman Historique, Georges Lukacs, a partir de 1848 as
mudanças político-sociais acarretaram modificações na conceção do romance histórico,
tornando-o mais subjetivo e um protesto contra a trivialidade sórdida da época
capitalista.
8
No romance histórico não existem, na verdade, limites epistemológicos, apenas a
sabedoria (e o talento) de harmonizar esteticamente factos e personagens de culturas e
épocas diferentes.
O crítico literário David Roberts, na ‘‘Introdução’’ à obra The Modern German
Historical, afirma que o romance histórico se caracteriza pela consciencialização da
diferença temporal entre o processo presente da representação e a realidade pretérita
representada, que é atualizada pela poética da ficção, abarcando a definição também os
binómios facto/ficção e passado/presente (Roberts 1991:3).
Outro ensaísta, McEwan refere que todo o romance é ficção, ou seja, apesar de
os acontecimentos históricos fazerem parte da intriga, esta é fruto da imaginação
criativa do romancista, concluindo: ‘‘The history and the fiction cannot be judged apart,
and this sort of writing will never satisfy purists’’ (MCEwan 1987: 25; 184).
Por sua vez, Manzoni considera que a verdade factual é incompatível com a
ficção (Manzoni 1984: 72-74), afirmando que a história nos apresenta acontecimentos
que apenas são conhecidos do exterior (Manzoni 1984: 23), pois as palavras, o
pensamento e os sentimentos humanos permanecem em silêncio, tornando-se, portanto,
domínio da poética. De acordo com Lascelles (1980: 113-135), a ‘‘História fictícia’’, ou
seja, a (re) criação de um acontecimento histórico que nunca aconteceu, descreve
‘‘aquilo que poderia ter sido’’. Mais complementar do que divergente, Cowart (1989:6)
define o romance histórico com base na proeminência do passado e na consciência
histórica manifestada através da ação e das personagens, enquanto para Lascelles (1980:
20) e Block (1970:3), a inter-relação entre ficção e história demonstra o poder de
incentivo dos romancistas, uma vez que os factos históricos podem ser posteriormente
investigados pelo leitor. Maria Alzira Seixo resume, em nossa opinião, estas relações a
partir de quatro perspetivas de trabalho, a saber:
1) Através da história literária (captação do sentido evolutivo dos modos de
escrever, ler, ensinar e difundir a literatura);
2) Através da interdisciplinaridade que convoca o conhecimento da história e da
literatura, entendendo os estudos literários como interação do espaço das ciências da
linguagem e dos estudos de estética com o das ciências históricas, ou seja, o estudo do
relacionamento entre a poética (cenas de fabulação) e a historicidade (cenas de
convocação histórica);
9
3) Através do estudo da história em geral entendida como memória de um
passado humano coletivo possível de ser reconstituída e alterada verbalmente e,
portanto, tema ou motivo de textualização literária;
4) Através da aceção da história como movimento acional de um texto, como
intrincado de problemas e atuações, como intriga ou efabulação, pois contar uma
história é remeter para situações idênticas que se reportam a um mundo ‘‘real’’
(circunstancial) e ao imaginário da memória comum (Seixo 2004: 231-241).
José Saramago descreve as opções do romancista que ora escolhe os caminhos
da história como a reprodução o mais fiel possível dos factos conhecidos, ora entretece
alguns dados históricos no tecido predominantemente ficcional (Saramago 1990: 1720).
A abordagem literária do romance histórico, e sobretudo do passado enquanto
elemento referencial do mesmo, tem como ponto de partida a ficcionalidade do texto e o
conceito de ‘‘mundos possíveis’’ que, segundo David Herman, designa uma categoria
mais abrangente do que a expressão ‘‘mundos ficcionais’’ (Herman 1992:22).
Na verdade, o romance histórico, ao efabular mundos possíveis, evoca e
representa, premeditadamente, universos ficcionais (Reis 12-1992:145) com referentes
extratextuais explícitos, afirmando Roland Barthes que o próprio discurso histórico, à
semelhança do romance realista, não produz realidades, mas sim ‘‘o efeito do real’’
(Barthes 1968: 84-89), na tentativa de esbater ou aproximar as realidades entre realidade
e ficção.
De acordo com Dolêzel, e sempre em relação a uma semântica especificamente
literária:
1) O romancista goza de uma liberdade superior à do historiador para se mover
em mundos possíveis;
2) Um mundo possível onde figuras históricas interagem com personagens
ficcionais não é um mundo histórico;
3) Os mundos ficcionais - constructos literários - e históricos não são habitados
por pessoas reais, mas sim pelos seus possíveis correspondentes, que podem ser
alterados ao serem transpostos para a ficção;
4) Os mundos ficcional e histórico são incompletos e os ‘‘vazios’’ uma
característica da sua macroestrutura, enquanto as escolhas e modificações do romancista
10
são determinadas por fatores estéticos e semânticos (Dolêzel 1988:482-493; Idem,
1999:256-258; Eco 1997:101-115; Dominguez 1997:11-40; Oboe 1997:9-16).
O romance histórico tem sido associado pela crítica ao romance regional (Kelly
1998:1083), cuja ação tem lugar num ambiente social e ecológico específico
intensamente caracterizado, subgénero que, tal como o denominado romance de espaço,
focaliza a sua atenção no modus vivendi e na paisagem natural e humanizada de uma
determinada região, bem como nas diversas comunidades que ocupam o texto de forma
predominante (Snell 1988:1).
O narrador do romance histórico, frequentemente heterodiegético e omnisciente,
afirma-se, por vezes, como um historiador/investigador e também, até certo ponto,
biógrafo que guia o leitor através da história e dos arquivos, utilizando, nos romances
tradicionais, o pretérito perfeito ao rentabilizar a distanciação com o passado histórico
através de apartes, comentários e descrições possíveis apenas algum tempo depois do
tempo da ação.
O romance histórico, enquanto subgénero híbrido, acarreta, desde a publicação
de Scott, problemáticas específicas ao nível da sua receção e classificação num estudo
sobre a estética da receção e o romance histórico. Stein (1981:213-231) revê a teoria
iseriana da resposta estética, ou seja, do leitor perante os acontecimentos históricos e as
estratégias narrativas de Scott, afirmando que a ‘‘moldura’’ do romance histórico
confere ao leitor a capacidade e a obrigação de julgar as ilusões e as escolhas das
personagens, constituindo os conhecimentos históricos uma importante parte do
processo, pois o leitor sabe, muitas vezes, o que aconteceu na ação histórica ‘‘real’’.
As expectativas do leitor, baseadas na história ‘‘real’’, poderão, assim, levá-lo a
criticar o ‘‘desvio’’ do romance em relação à mesma, relegando para segundo plano o
estatuto predominantemente ficcional ou os exercícios de paródia e/ou de
questionamento quer da história quer da ficção histórica existente no texto, como
acontece sobretudo nos romances históricos modernistas e pós-modernos.
O leitor pode, após a leitura de uma dada obra, verificar a (maior ou menor)
historicidade dos factos representados, preocupação presente nos escritos teóricos dos
romancistas Bulwer-Lyton e Wilkie Collins, não sendo a historicidade absoluta um
requisito essencial do subgénero (Ovel 1995: 18-24).
A ficção histórica confere ao autor/narrador liberdade total para se (re) apropriar
dos factos que ficcionaliza ao construir um mundo ‘‘possível’’, pois como refere Lukacs
11
(Lukacs 1965: 43-44): ‘‘il n’importe donc pas dans le roman Historique de répéter le
récit des grands événements historiques, mais de réssusciter poétiquement les êtres
humains qui ont figuré dans ces événements’’ (apud Swinden 1984: 12).
Não é possível imputar ao romance histórico o dever ou sequer a pretensão de
ser ‘‘pura’’ historiografia, procurando uma reconstrução fiel da realidade dos episódios
históricos. Daí que, como já vimos, Dolêzel (1999: 247-276) distinga ficcionalização e
narrativização, ou seja, a criação de mundos possíveis e a narrativização de
acontecimentos e factos históricos verificáveis que se incorporam no tecido do texto
como microenredos.
Também Iser, ao estudar a receção dos romances de Scott, conclui que a história
se relaciona com a estética e a imaginação, transformando-se a ‘‘realidade factual’’ em
‘‘cenas imaginadas’’ (Iser 1974: 92-93).
O romance histórico não exige ou sugere uma análise a partir exclusivamente da
realidade histórica que a ficção toma como referência extratextual, mas sim um estudo
da forma como os elementos históricos, enquanto estratégias narrativas, se encontram
ao serviço da construção da própria narrativa.
Se, por um lado, os elementos históricos não se sobrepõem à dimensão ficcional
do romance histórico, por outro, analisar a obra sem recorrer à contextualização
histórica seria uma tarefa lacunar. Muita da riqueza e do significado da obra se
perderiam, uma vez que a essência do subgénero reside na hibridez que surge da fusão
premeditada da história com a ficção.
Na senda de Scott, Dumas e Hugo, entre outros (Nemésio 1978: 286; Nemésio
1936), Alexandre Herculano, Almeida Garrett e Rebelo da Silva, cada um a seu modo,
são os primeiros a desenvolver, a partir do original e das traduções de André Joaquim
Ramalho e Sousa (1790-1860), o romance histórico em Portugal (André Joaquim
Ramalho e Sousa: 14-16, 86), espelhando o subgénero as realidades literária e históricosocial portuguesas.
Os autores em questão são seguidores da estética romântica, marcada pelo
interesse relativamente ao passado histórico nacional (Nogueira 1972), pelo didatismo e
pelos ensinamentos (históricos) associados ao subgénero (Pires 1979) e que surgem
através de paralelismos estabelecidos através do binómio passado/presente.
O atraso das primeiras tentativas portuguesas de romance histórico em relação
ao resto da Europa é justificado por Chaves, recorrendo a duas causas convergentes: ‘‘O
atraso da vida social e política no Portugal de então; o quase completo alheamento do
12
movimento cultural e artístico europeu em que se vivia no país e do qual o português só
tomava consciência quando emigrava’’ (Chaves 1979: 6).
O início do fenómeno, a prática do subgénero encontra-se intimamente
relacionada
com
a
imprensa
periódica
portuguesa,
destacando-se
oito
periódicos/folhetins, nos quais, entre 1837 e 1867, publicaram autores como Almeida
Garrett, Alexandre Herculano, Cunha Rivara, Rebelo da Silva, Fernando Luís
Mouzinho de Albuquerque, Oliveira Marreca e Soares Franco Júnior, a saber: Revista
Literária do Porto; O Panorama; Ilustração; Cosmorama Literária; Revista Universal
Lisbonense; Revista Popular; Jornal do Comércio e Época.2 [vide cronologias do
romance histórico português no 1.º e 2.º romantismos (1837-1867), de Chaves, 1979:
69-84, e Marinho, 1999: 309-319].
O romance histórico é, desde cedo, utilizado para chamar a atenção
relativamente aos problemas do momento da escrita, como se verifica na obra de
Herculano, Garrett e Rebelo da Silva.
Já em 1890, Manuel Pinheiro Chagas na obra A Joia do Vice-rei (Chagas s.d:5)
afirma que o romance histórico Scottiano ou dumasiano está ultrapassado, pois a ideia
de encarar a história como pano de fundo do texto (sendo as cenas fruto da criação
literária do autor) apresenta inconvenientes ao fundir ‘‘a mentira com a verdade’’, uma
vez que o Portugal do final do séc. XIX anseia por ‘‘exatidão’’, acentuando-se a
problemática da realidade ou fidedignidade histórica versus ficção. Esta temática é
recorrente no âmbito da receção do romance histórico, como se verifica com o caso de
Equador, uma obra ficcional criticada pelas suas inexatidões históricas (Guedes 2004:
188).
A descrição de espaços históricos públicos e privados, da arquitetura, da cor
local/regional, o cariz (pseudo) etnográfico de diversas narrativas, a toponímia, as
manifestações populares e as personagens históricas associadas a determinados locais
e/ou acontecimentos assumem-se, obviamente, como características do romance
histórico português através de obras como A Quinta da Virtude de Mário Cláudio
(Cláudio 1990).
A intriga do romance histórico é construção inventiva do autor com base em
alguns acontecimentos verídicos, atuando a história como ‘‘fonte de energia dramática’’
(Marinho 1999:26), uma das especificidades atribuídas ao subgénero em questão, já que
2
Sobre as cronologias do romance histórico português no 1.º e 2.ºromantismos (1837-1867), são elucidativas as obras
de Chaves (1979: 69-84) e Fátima Marinho (1999: 309-319).
13
o tempo histórico, enquanto categoria da narrativa, deverá ser predominante e tão
relevante como a ação privada (também esta histórica) em que as personagens se
movem.
1.2. Alexandre Herculano, o fundador em Portugal
O interesse pelo passado nacional é um dado inquestionável de toda a estética
romântica. No início do século XIX, começa a surgir uma preocupação em estabelecer a
cientificidade da história, uma disciplina que tinha vivido muito da confusão entre lenda
e realidade.
A história apaixonou muitos intelectuais românticos, designadamente, Alexandre
Herculano que percorreu o país à procura de documentos que esclarecessem a vida
medieval portuguesa. E não é menos verdade que uma certa efabulação com base
histórica - nomeadamente a criação de universos simultaneamente fictícios e
referenciais - foi uma constante de um período específico do romantismo europeu e
português.
A liberdade, inerente a toda a criação literária, não está ausente do romance
histórico. O romancista sabe que só poderá construir o seu passado se aceitar o desafio
da dialética entre o verdadeiro e o verosímil, ou entre o que ele realmente viu
documentado e o que imaginariamente afirmou ter visto.
Tornou-se quase obrigatório para os autores românticos retomar o velho tópico
da veracidade, afirmando que os seus textos não são mais do que simples reposições de
manuscritos encontrados no fundo de conventos ou bibliotecas.
O romancista prefere, frequentemente, construir a diegese com heróis
inventados, relegando, para segundo plano, as personagens referenciais que obrigam, de
certa forma, a uma menor liberdade de efabulação.
Os romances de Scott tratam, em geral, de importantes acontecimentos sociais,
que constituem um fundo histórico verdadeiro onde se movimentam personagens
fictícias em cenas imaginárias.
O herói scottiano possui, como diz Lukacs, um caráter moderado (Lukacs
1977:33) e nunca se deixa envolver por uma paixão que lhe retire a capacidade de
discernimento ou de atuação:
14
Le ‘héros’ de Scott est toujours un gentleman anglais plus ou moins mediocre,
moyen. Il possède généralement un certain degree, jamais eminent, de sagesse
pratique, une certaine fermeté et une certaine bien science morale, qui va même
jusqu’à l’aptitude au sacrifice de soi, mais ne devient jamais une passion
impétueuse, n’est jamais un dévouement enthousiaste à une grande cause’’ (Lukacs
1977:33).
Harry Show, em The Forms of Historical Fiction (Show 1985), apresenta uma
tipologia de romance histórico que ajuda a marcar as diferenças fundamentais entre
Scott e Herculano. Em Herculano romancista, a história é usada ‘‘to intensify a fictional
story’s imaginative force’’ (Show 1985:82), onde a personagem ‘‘function not as a
symbol of historical process, but as the focus for our timeless hopes and fears’’ (Show
1985:97).
As personagens constituem, na verdade, um domínio privilegiado no estudo do
romance histórico, uma vez que uma parte delas tem uma existência histórica definida,
limitando, de certa forma, a liberdade do narrador.
1.3. Miguel Real: tipos de romance
O Romance Histórico em Portugal, desde a publicação de Memorial do
Convento, de José Saramago, em 1982, sofreu uma evolução marcante. Do ponto de
vista da história das mentalidades, o Romance Histórico tem contribuído - após a perda
do império em 1975 e a aceleradíssima entrada na Comunidade Europeia a partir de
1986 - não só para harmonizar os portugueses consigo próprios como, igualmente, para
reabilitar o passado histórico português ao olhar virgem das novas gerações.
Miguel Real, escritor e ensaísta, divide o Romance Histórico em quatro
conjuntos diferentes, que consideramos oportuno enunciar: são eles o romance de
reconstituição histórica, o romance de construção histórica, o romance histórico de
fundo epistemológico e o romance histórico subversor da própria história. O romance de
reconstituição histórica é por ele subdividido em cinco tipologias, nomeadamente o
romance de análise histórico-político-social, o romance histórico de empenhamento
social e cultural, o romance histórico pícaro, o romance histórico psicológico e o
romance histórico fundado no maravilhoso.
15
1.3.1. Romance de reconstituição histórica
Trata-se de um romance que visa ‘‘reconstituir’’ com autenticidade e fidelidade
a sociedade, os grupos sociais, as instituições, os costumes, os usos, os rituais e a
mentalidade da época abordada no romance, criando ou explorando personagens e
temas problemáticos de importância vital para a história portuguesa (guerras e/ou
batalhas, revoluções político-sociais, conquistas em África, …). Segundo a perspetiva e
a classificação do crítico e ensaísta, este tipo de romance pode subdividir-se em:
1.3.1.1. Romance de análise histórico-político-social
É um romance que evidencia fielmente o passado segundo a atual interpretação
dos documentos, integrando-se, nesta vertente, a maioria dos atuais praticantes do
romance histórico, tendo Fernando Campos como patriarca e mestre nesta arte, desde A
Casa do Pó (1986), Richard Zimler, Júlia Nery, Mário de Carvalho, Seomara da Veiga
Ferreira, Luís Rosa, Carlos Ademar, João Paulo Oliveira e Costa, Deana Barroqueira,
José Manuel Saraiva, Domingos Amaral, Rosa Lobato Faria, Sérgio Luís de Carvalho e
Pedro Almeida Vieira. Os dois últimos autores destacam-se por se evidenciarem como
os novos rostos do romance histórico português no séc. XXI.
1.3.1.2. Romance histórico de empenhamento social e cultural
Trata-se de um romance que valoriza, por um lado, os atributos ético-políticos
do autor, evidenciando, no passado, a difícil luta pela conquista de direitos sociais e
individuais.3 Por outro lado, é um romance que evidencia a complexidade de constantes
da cultura e da identidade portuguesas, como o mito amoroso de Pedro e Inês, o
sebastianismo e a saudade. 4
1.3.1.3. Romance histórico pícaro
Pode definir-se como um romance resgatador de uma tradição castelhana e
portuguesa, que remonta a Fernão Mendes Pinto, tendo em Mário de Carvalho e J.
Palma-Ferreira (D. Gibão) os seus últimos cultores no século XX, assumindo-se Paulo
Moreiras, com D. Fuas Bragatela, como o seu novo cultor no século XXI.
3
(Por exemplo, José Jorge Letria descreve a vida de Bocage e a existência da corte portuguesa de D. João I no
Brasil).
4
(António Cândido Franco e os seus romances sobre estes temas, bem como as suas narrativas sobre a vida e a obra
de Teixeira de Pascoaes).
16
1.3.1.4. Romance histórico psicológico
Trata-se de um romance que visa a complexidade psíquica das personagens e a
reação comportamental destas face ao inter-relacionamento social (espanto, pânico, dor
psíquica, tristeza, alegria, abatimento, amargura, sentimentos amorosos, ódio, …)
compõem o quadro integrador da ação das personagens, como poderemos constatar na
obra As Fogueiras da Inquisição (2008), de Ana Cristina Silva.
1.3.1.5. Romance histórico fundado no maravilhoso
É um romance que assenta na leitura da história num ponto de vista assombroso,
de que é exemplo o romance Lillias Frazer (2001), de Hélia Correia.
1.3.2. Romance de construção histórica
O romance de construção histórica coloca o espaço social e o tempo tematizados
na narrativa que, devido à escassez de documentos e testemunhos, força o autor não a
uma reconstituição fiel mas a uma reconstrução plausível, evidenciando mais as
possibilidades e menos as certezas históricas. Disso são exemplos as obras de João
Aguiar A Voz dos Deuses, A Hora de Sertório e Uma Deusa na Bruma.
1.3.3. Romance histórico de fundo epistemológico
Trata-se de um romance que visa a problematização das certezas históricas
garantidas pelos historiadores e correntes nos manuais da especialidade, explorando
novas possibilidades hermenêuticas e postulando novos quadros interpretativos. Maria
João Martins e Joaquim Fernandes são alguns dos autores deste tipo de romance.
1.3.4. Romance histórico subversor da própria história
É um romance que assenta numa conceção nova de tempo e na conceção da
ficção como iluminação da história, sobrevalorizando a humanidade. José Saramago,
nas obras História do Cerco de Lisboa e O Evangelho Segundo Jesus Cristo e António
Lobo Antunes, com a obra As Naus, praticam o romance histórico subversor da própria
história.
17
Com base nesta fundamentação teórica sobre o romance histórico como
modalidade genológica, analisaremos, na segunda parte deste trabalho, o romance
histórico de José Leon Machado, tendo em conta a obra e o homem (autor textual e
empírico).
18
PARTE II
CAPÍTULO II
JOSÉ LEON MACHADO:
O AUTOR E O TEXTO NO SEU
ENQUADRAMENTO HISTÓRICO
19
1. Breve Biobibliografia do autor José Leon Machado
Sem enveredarmos por uma perspetiva biografista, urge, contudo, um enfoque
sobre o autor empírico, indissociável do autor textual e do texto produzido.
Pseudónimo de José Barbosa Machado, Leon Machado é um escritor da pósmodernidade. Além de ensaísta e crítico literário, é também escritor, tendo múltiplas
obras publicadas em diferentes modalidades genológicas. Destacam-se, neste âmbito
literário, romances, contos e novelas, poesia e teatro, diários, crónicas, coletâneas e
literatura infantil (cf. Anexo 2).
Nas suas diversas criações literárias, retrata a questão das origens, passando pelo
fim do mundo rural, até à perda da memória cultural da sociedade moderna.
Trata-se de um escritor que revela um gosto peculiar por autores portugueses
como Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Virgílio Ferreira e por autores anglosaxónicos (David Lodge, Paul Auster, Philip Roth, Salinger, Steinbeck). Além destes,
merece ainda destaque Umberto Eco, isto para citarmos apenas alguns.
Leon Machado possui, como referências literárias, alguns romancistas
portugueses dos séculos XIX e XX e alguns poetas, como Camões, Fernando Pessoa e
Alexandre O'Neil. 5
Os seus conhecimentos sobre astronomia refletem-se em algumas das suas obras,
pois trata-se de um autor que revela um fascínio pela existência de centenas de
exoplanetas que se encontram muito perto do sistema solar e que já foram confirmados,
não excluindo a hipótese de não estarmos sós no universo.
Usa, como ferramenta linguística, uma escrita abrangente a todos os leitores, não
dirigida a um tipo específico de leitor erudito, afastando-se, em larga medida, da escrita
de grande parte dos autores portugueses atuais, que considera, segundo uma entrevista
recente, ‘‘na sua maioria ou barrocamente ilegíveis com um público constituído por
meia dúzia de iluminados, ou bacocamente amorfos com um público mal formado por
um analfabetismo de séculos.’’6
A escrita do autor afasta-se destas tendências e tem um pendor clássico, dentro
da tradição de Eça de Queirós e Vergílio Ferreira, sem (porém) cair na imitação fácil.
No entanto, caracteriza-se por ser um escritor pós-moderno, pois escreve ‘‘à sua
maneira’’, tentando fugir às regras. Segundo palavras do autor: o estilo é objetivo,
5
6
In http://dmagia.blogspot.pt/2010/10/entrevista-jose-leon-machado.html
In http://www.portaldaliteratura.com/autores.php?autor=57
20
sintético e de pendor clássico: ‘‘Como corrente estética, sem dúvida, integro-me no mar
que é o pós-modernismo.’’7
Tem colaborado em jornais e revistas com crónicas, contos e artigos de crítica
literária e a par do seu trabalho de investigação e de ensino, tem-se dedicado à escrita
criativa, especialmente à ficção.
A obra que nos propomos abordar é um romance histórico marcado pelo
hibridismo genológico característico da pós-modernidade. Para a escrita do romance,
Memória das Estrelas sem Brilho, o escritor inspirou-se em alguns filmes,
nomeadamente, no filme ‘‘Um longo domingo de noivado’’, cuja estreia foi a 27 de
janeiro de 2005. Trata-se de um filme que retrata a busca incessante de Mathilde que
procura o seu noivo Manech desaparecido nas trincheiras, durante a I Guerra Mundial.
Ela acredita que ele está vivo e tudo aponta o contrário e é essa esperança que faz com
que ela não desista dessa busca, aparentemente, interminável. O seu último romance
publicado intitula-se Vórtice.
2. Enquadramento histórico da obra Memória das Estrelas sem Brilho
A ignorância estrangeira sobre a atuação do Corpo Expedicionário Português
(CEP), nome dado à organização militar enviada para o setor português, em França, foi
flagrante.
Portugal participou na denominada Grande Guerra (I Guerra Mundial), de 19141918, em duas frentes militares: a europeia e a africana. Cerca de 55 000 homens
partiram de Alcântara para a Flandres onde lutaram mais de dois anos, entrincheirados,
por metros ou quilómetros de terreno, em nome (julgavam eles) da liberdade, da justiça
e do direito. Entretanto, o ano de 2008 comemorou os noventa anos da Batalha de La
Lys, a 9 de abril de 1918.
O Corpo Expedicionário Português partiu em janeiro de 1917, a maior parte dos
soldados sem saber o porquê desta ida para terras estranhas da Flandres. E por lá
permaneceram até 1919, vivendo a guerra internacional, a guerra da república
portuguesa e a guerra privada de cada um e dos grupos de camaradas em que se
inseriram.
Desde agosto de 1914, o partido de Afonso Costa, os Democráticos ou
‘‘Afonsistas’’, dissidente do Partido Republicano Português e conotado com a política
7
Ver entrevista que se encontra no apêndice (Anexo 3).
21
de esquerda, viu a intervenção militar portuguesa, no palco europeu, como a solução
para diversos problemas com que se confrontava, enquanto Partido Republicano de
Poder.
Ao nível externo, pretendia-se o adiamento do problema das colónias cobiçadas
por ingleses e alemães, ao lutar ao lado dos presumíveis futuros vencedores. Pretendiase ainda a consolidação do jovem regime republicano na esfera internacional, a
harmonização das relações luso-britânicas, em pé de igualdade, ao lutar junto dos
ingleses tal como a distinção ou contraste de Portugal face à posição neutral e
germanófila de Espanha, ao recusar a neutralidade num contexto anglófilo.
Ao nível interno, desejava-se atenuar ou adiar os conflitos político-sociais
existentes na sociedade portuguesa, reforçar o Partido Democrático e criar uma
identidade própria no seio da jovem república, ao mobilizar a sociedade num esforço
comum – a guerra.
Os opositores aos objetivos ‘‘guerristas’’ de Afonso Costa, os republicanos, os
monárquicos, os clericais e alguns setores do exército, preferiam a concentração de
esforços militares portugueses nas colónias ao envio de tropas para França, para uma
guerra na qual não vislumbravam qualquer benefício. (Marques 2008: 18)
Entretanto, Portugal não possuía os recursos suficientes para a guerra, tendo em
conta que as fábricas nacionais não produziam armamento e munições suficientes e, por
isso, não resolviam a lacuna portuguesa e a importação de artigos ingleses. A redução
dos Cursos da Escola de Guerra e o aumento das turmas da Escola Preparatória de
Oficiais Militares não permitia formar muitos e bons oficiais, em tempo útil.
As rivalidades políticas entre Estados Europeus estavam bem presentes. A
Alemanha, cada vez mais industrializada, fazia concorrência à Inglaterra. Em 1870, a
França perdera os territórios da Alsácia e da Lorena para a Alemanha e queria, a todo o
custo, recuperá-los.
Os aliados (Inglaterra e França) preferiam ver em Portugal um potencial
colaboracionista, mero fornecedor de equipamento militar. Desde setembro de 1914, o
governo francês pedia, com o consentimento britânico, peças de artilharia portuguesas
para reequipar o exército francês.
Esse papel secundário foi de imediato recusado pelos apoiantes da República
que rapidamente aproveitaram a oportunidade para impor o envio de tropas portuguesas
a acompanhar o equipamento militar e, desta forma, forçar uma entrada no palco de uma
guerra europeia. (Marques 2008:19)
22
A apresentação de uma contraproposta portuguesa de envio de uma Divisão de
tropas portuguesas de apoio às peças de artilharia, a enviar para França, saldou-se na
entrega do Memoradum inglês ao ministro português, em Londres, convidando o nosso
país a intervir no teatro de operações europeu, a 10 de outubro de 1914, e na
consequente aprovação da proposta do Presidente do Ministério, Bernardino Machado,
no Congresso, autorizando o Governo a intervir na guerra quando e onde lhe parecesse
mais conveniente, a 23 de novembro de 1914. Sendo assim, a neutralidade portuguesa
não era declarada e a beligerância era legitimada num contexto europeu e anglófilo.
(Marques 2008:20)
O governo democrático conseguiu desenvolver um processo longo mas
determinante de negociações diplomáticas e militares, entre gabinetes portugueses,
ingleses e franceses, de forma a Portugal entrar na Guerra Europeia contra a vontade de
Inglaterra.
Lisboa recebeu o mês de março de 1916 num clima de grande tensão.
Multiplicavam-se os boatos sobre a iminente entrada de Portugal na Guerra das
Trincheiras europeia. O Diário de Notícias e O Século foram os dois jornais
responsáveis por esta divulgação. A 9 de março de 1916, o ministro alemão entregou,
em Lisboa, uma declaração de guerra ao ministro de negócios estrangeiro português.
(Marques 2008: 21)
Tancos foi o local escolhido para a concentração da Divisão de Instrução, e abril
de 1916 foi a data marcada para o início da instrução.
Apesar das limitações que encerrava o Campo de Instrução, o cenário de Tancos,
propagandeado pela imprensa, nomeadamente na Ilustração Portuguesa e no Diário de
Notícias, tal como em conferências e tertúlias realizadas nos teatros e cafés de Lisboa,
tinha tido a sua comparticipação para este desfecho e o Estado-Maior, em Tancos,
rejubilava e celebrava com Norton de Matos.
Em Lisboa, foi lançado o boato de que as unidades se recusariam a embarcar
(Marques 2008: I). Então, Norton de Matos incumbiu o general Tamagnini, a 27 de
dezembro de 1916, de visitar as unidades constitutivas do primeiro contingente a
embarcar para França.
De forma a obrigar a Inglaterra a mudar de ideias, o governo português ameaçou
reter, no país, o corpo de artilharia pesada e os construtores de caminhos-de-ferro,
unidades criadas de raiz por sugestão inglesa devido à necessidade urgente destes
serviços para a campanha europeia. Desta forma, a mobilização, em meados de 1916, de
23
uma divisão de instrução foi reforçada com mais 10 000 militares. No ano seguinte,
tendo em conta os interesses políticos, o corpo expedicionário de uma divisão, sem
comando autónomo, foi elevado a corpo de exército de duas divisões, com comando
autónomo, com cerca de 55 000 efetivos. A mobilização cresceu desmesuradamente,
sem igual instrução, e obrigou a criar uma força militar de características originais na
história do país.
Brest seria o porto de desembarque para milhares de militares, de diferentes
nacionalidades. Nas águas do porto, porém, abundavam os destroyers, os
contratorpedeiros e os cruzadores-couraçados (navios de guerra usados no decorrer da I
Guerra Mundial), de grandes dimensões e desconhecidos para muitos recém-chegados.
O embarque em navios estrangeiros, sob bandeira inglesa, e a despedida da terra
natal para ir combater em terras francesas, de má memória devido às invasões
napoleónicas do século anterior, fez com que o capitão David Magno escrevesse o
seguinte:
[embarcamos num] navio monstro, negro, onde li ‘Bohemiam - D - que nos fez vir à
ideia o horror de tudo aquilo, se um submarino nos metesse no fundo, desde o sair
da barra. A seguir ergui a vista para os mastros; procurei mas não avistei a nossa
querida bandeira, pela qual nos íamos bater ou morrer. […] Quando me vi à sombra
da bandeira britânica, […] caiu-me o coração aos pés e senti-me um escravo… da
liberdade! […] Abandonados de quaisquer saudações, os nossos soldados lá
embarcaram equipados, de saca de roupa na mão, como um rebanho atraz de outro
rebanho, […] atenuada a sua tristeza apenas pelo gosar antecipado da passagem
atravez de um paiz maravilhoso ou ideal. Iam bater-se por tanta coisa que alguns lhe
disseram que, eles, submissos e ignorantes, em geral, quasi não sabiam pelo quê.
Havia-se decretado ódio à Alemanha mas… maiores agravos tínhamos dessa mesma
França que estávamos sinceramente amando, apesar de em 3 anos napoleónicos ter
feito derramar torrentes de sangue e lágrimas.’’ (Magno 1921: 24-25)
Recorde-se, neste contexto, a ‘‘Guerra das Laranjas’’ em que Napoleão, ao invadir
Portugal, queria atingir diretamente os interesses comerciais da Inglaterra.
Portugal não tomava partido entre a Inglaterra e a França, para tentar um
equilíbrio que pusesse a salvo a sua soberania e os seus interesses.
Napoleão queria um apoio nítido e declarado de Portugal. Como não conseguiu
qualquer ajuda dos portugueses, assinou o Tratado de Fontainebleau com Espanha, no
qual se decidia a invasão de Portugal e a sua conquista. Deste modo, o território
português ficaria repartido em três reinos: Lusitânia Setentrional, Algarve e Centro de
Portugal. Esta foi uma guerra peninsular que durou entre 1807 e 1814 (período também
conhecido como o das invasões francesas de Portugal).
24
3. Os envolvidos
Tamagnini foi o General escolhido para comandar a Divisão de Instrução
mobilizada em Tancos e o CEP, como também para apoiar os Aliados na guerra contra a
Alemanha. Percorreu o país, acompanhado de um grupo de militares (nomeadamente o
Coronel Gomes da Costa), com a missão de vigiar e controlar as três marchas das
unidades para o cais de embarque, de forma a realizar-se o sonho ‘‘guerrista’’ do
Governo Democrático. O General Tamagnini procurou restringir a liberalidade das
Juntas Médicas em conceder licenças aos expedicionários, nomeadamente aos oficiais,
ao exigir a sujeição da Junta Médica, superior a 30 dias, à sua confirmação enquanto
Comandante Geral (só aprovada mediante uma declaração médica sobre o estado de
saúde do enfermo a licenciar) e a sujeição do enfermo a uma Inspeção Médica para
atestar o agravamento da falta de saúde, quando a Junta Médica desejasse prolongar a
licença por períodos de 60 a 90 dias. Bernardino Machado, Afonso Costa, Norton de
Matos, entre outros, figuraram na I Grande Guerra. Norton de Matos foi considerado
um dos chefes supremos da Formiga-Branca, que não se sentiu saciado com os 80
contos que da Inglaterra recebera para fazer o 14 de maio. Venderam
os
nossos
soldados como ‘‘carneiros’’. Foram sem fatos, sem munições, sem botas e sem armas
para provar ao mundo inteiro que não havia cobardes no exército português. Algumas
armas como a metralhadora ligeira Lewis, os morteiros e as granadas de mão e de
espingarda, eram desconhecidas da instrução em Portugal. Para além destas armas, os
nossos soldados tiveram que lidar com outras inovações durante a I Guerra Mundial,
nomeadamente: gás de cloro; máscaras de gás; arame farpado; canhões de grande
alcance; zepelins; aviões e submarinos.
A terra de ninguém era apelidada, oportunamente, Avenida Afonso Costa como
meio de os militares exteriorizarem a ira pelo facto de terem sido obrigados a
sujeitarem-se a um espaço de horror, personalizando no Primeiro-ministro todo o
ressentimento que sentiam.
No decorrer desta impiedosa e sangrenta guerra, existiram dois jornais de
trincheiras de autoria portuguesa e de curta duração, O Jornal Caserna e O Luso, sendo
este último posterior ao armistício.
Com o objetivo de impedir a transmissão de informações consideradas valiosas
para o inimigo e de informações que abalassem a moral da população em Portugal, as
25
autoridades militares criaram o serviço de Censura Postal do CEP, verdadeiro
instrumento repressivo da liberdade de expressão e de informação.
Finalmente, a assinatura do Armistício a 11 de novembro de 1918 marcou,
formalmente, o fim da campanha militar do CEP na Flandres.
Marc Ferro, autor francês, foi um dos poucos autores estrangeiros que, na sua
obra ‘‘História da I Guerra Mundial 1914-1918’’, abordou a participação do Corpo
Expedicionário na Grande Guerra:
Em 1914, os que partiram para a ‘‘Grande Guerra’’ acreditavam que a guerra seria
curta, que voltariam no natal, agraciados com os louros da vitória: é verdade que em
Paris, como em Londres e em Berlim, os soldados partiram a cantar, cheios de
alento e com uma ‘‘flor’’ na espingarda.’’ (Ferro 1969: 17)
No dizer do mesmo autor, ‘‘para os combates franceses, ingleses ou alemães,
não havia equívocos: a guerra tinha como objetivo a salvaguarda dos interesses reais da
nação.’’ (Ferro 1969:24). E ainda explica, em texto longo que se cita longamente por se
considerar elucidativo, os reais e efetivos interesses que movem a guerra, verdadeiro
produto do imperialismo:
Quaisquer que sejam os responsáveis imediatos do desencadeamento desta guerra
uma coisa é certa: a guerra que provocou todo este caos é o produto do
imperialismo. Surgiu da vontade dos capitalistas de cada nação viverem da
exploração do trabalho humano e das riquezas naturais do universo. De tal modo que
as nações economicamente atrasadas ou politicamente fracas caem sob o jugo das
grandes potências, as quais tentam, nesta guerra, modificar o mapa do mundo pelo
ferro e pelo sangue, segundo os seus interesses. (…) Os capitalistas de todos os
países, que cunham no sangue dos povos a moeda vermelha dos lucros da guerra,
afirmam que a guerra servirá para a defesa da pátria, da democracia, para a
libertação dos povos oprimidos. Eles mentem. A verdade é que, de facto, enterram,
sob os lares destruídos, a liberdade dos seus próprios povos ao mesmo tempo que a
independência das outras nações. Novas cadeias, novas sujeições, eis o que resultará
desta guerra, e é o proletariado de todos os países, vencedores e vencidos, que
deverá suportá-las. (…) As instituições do regime capitalista que dispõem do destino
dos povos: os governos monárquicos ou republicanos, a diplomacia secreta, as
poderosas organizações patronais, os partidos burgueses, a imprensa capitalista, a
igreja; sobre estas instituições pesa toda a responsabilidade desta guerra surgida de
uma ordem social que as sustenta, que eles defendem e que só serve os seus
interesses. (…) (Ferro 1969: 247)
26
4. O Corpo Expedicionário Português
4.1. Em direção ao desconhecido: Flandres
As tropas portuguesas demoraram a chegar à França. A evidente desorganização
militar comprometeu a coordenação luso-britânica de um transporte rápido e eficaz do
Corpo Expedicionário Português.
A França recebeu, então, cerca de 55 000 militares portugueses de características
significativas: recrutados e solteiros, na sua maioria, com idades compreendidas entre os
20 e 25 anos. Poucos eram os indivíduos que conseguiam ‘‘ler e escrever’’. Muitos
sabiam o seu nome e pouco mais.
O transporte ferroviário foi o único meio utilizado para deslocar tropas
portuguesas de Brest para o Norte de França, ou seja, para a zona da Flandres onde se
instalou o CEP.
Chegada à estação de desembarque, as tropas abandonavam o comboio e, sem
qualquer descanso, punham-se em marcha a pé, em direção aos respetivos locais de
acantonamento. O intenso frio seria o grande inimigo à progressão das tropas a pé
(Marques 2008:II). Num dos seus relatos, o alferes Horário de Assis Gonçalves dizia:
O Inverno de 1917 fôra o mais rigoroso [e longo] que há anos se sentira em
França… Os nossos, sem agasalhos, desabituados de temperaturas a 18.º negativos,
não poderiam deixar de sofrer os efeitos de um tal frigorífico. Nas primeiras
marchas para a frente, alguns soldados caem pelas valetas das estradas coalhados de
neve, hirtos, regelados, quasi mortos… (Gonçalves 1919: 38)
4.2. A rotina nas trincheiras
Nos primeiros tempos, os portugueses foram acolhidos com uma certa reserva
nas povoações onde eram aboletados, pois o nome de Portugal era praticamente
desconhecido das gentes da Flandres (confundindo-os com os russos, os polacos, os
italianos e os ciganos - povos percecionados desfavoravelmente na região). (Marques
2008: III).
Em breve, os portugueses tornaram-se familiares, ao auxiliar os civis no trabalho
dos campos e ao largarem os apetecidos francos nas lojas em troca de, pelo, menos, um
sorriso das jovens francesas.
Às praças de pré competia aprender a utilizar a espingarda inglesa Lee Enfield
(arma de ação de ferrolho manual utilizada pelo exército britânico durante as duas
27
Grandes Guerras, I e II), no que concerne à sua montagem e manejo bem como a
metralhadora ligeira Lewis (de origem belga e aperfeiçoamento americano):
Assim, íamos usar pela primeira vez a granada de mão, a granada de espingarda, a
espingarda-metralhadora, processos de combate de que ainda nos não tínhamos
servido. Pois a vinte dias de estadia em França, foram entregues 24 granadas de mão
para instrução e treino de proximamente um milhar de homens! (Olavo 20102012:25)
Em geral, os resultados da instrução fornecida em França ao CEP foram
positivos. A tropa portuguesa notabilizou-se pela sua capacidade de aprender
rapidamente, nomeadamente, na montagem e no manejo do armamento, e a sua perícia
foi reconhecida, imediatamente, pelos instrutores ingleses e portugueses, nos campos de
instrução. No entanto, as maiores dificuldades foram encontradas nos exercícios de
marcha.
4.3. Os ‘‘trinchas’’ na terra do desconhecido
O diminutivo ‘‘trinchas’’ era usado para denominar quer os entrincheirados quer
as trincheiras, numa verdadeira simbiose homem-espaço. O solo pantanoso e o clima
húmido tornavam a água num dos maiores flagelos da vida nas trincheiras. Quinino
Monteiro e Melo Vieira recordam: ‘‘A água […] aparecia por todos os lados, surgia do
solo, brotava de mil sítios, escorria das paredes de terra, e forçava a nossa gente a estar
dia e noite enterrada em lama, os pés gelados, os membros entorpecidos.’’ (Monteiro;
Melo 1922:79).
A lama era outro tormento para os combatentes. Em geral, quando esvaziadas da
água, as trincheiras tinham no fundo quatro ou cinco centímetros de lama pegajosa
sobre a qual era colocada a passadeira de madeira escorregadia que obrigava a um
grande esforço de equilíbrio aos combatentes.
Não estando habituados às temperaturas negativas tão baixas do inverno de
1917-1918, os portugueses ressentiram-se muito do frio constante, da neve e do gelo. O
próprio equipamento militar era danificado pelas baixas temperaturas. O armamento de
artilharia (sobretudo as metralhadoras) congelava ou partia, impedindo a sua utilização e
obrigando a substituições e manutenção onerosas.
28
A água existente nos motores dos automóveis e dos camiões solidificava,
partindo as peças, impossibilitando a circulação de pessoas e materiais e obrigando a
idênticos encargos de manutenção.
Os combatentes partilhavam a água e a lama com a denominada ‘‘faxina’’
(limpeza) das trincheiras, ou seja, os ratos de diversos tamanhos e os parasitas de
múltiplas espécies (piolhos, pulgas, larvas, entre outros). O alferes João Pina de Morais
recorda os expedientes a utilizar para assegurar um sono, mais descansado, sem ataques
de roedores:
Um rato enorme de dorso cilíndrico, côr de burel, passou esfomeado muitas vezes
pelo abrigo. Procura de comer. Quando não há mais nada roem o pano engordurado
de limpar as culatras ou o lugar das nódoas do fato. Se for preciso guardar um
lanche que enodôe a algibeira, dorme-se uma hora. Uma ratazana comerá sem nos
incomodar precisamente a parte do tecido engordurado. (Morais 1919:56)
A falta de higiene individual e coletiva facilitou a propagação de piolhos e de
pulgas nos combatentes e de larvas nas paredes viscosas, dos recantos mais escuros, e
nos subterrâneos dos abrigos com graves consequências sanitárias.
Vejamos este poema humorístico intitulado ‘‘O Piolho do Soldado’’ e cantado
no CEP:
O piolho é um amigo
Que na paz ou no perigo
Acompanha o soldado
Ao morder a gente sente
Que ele morde contente
Para ser alimentado.
Lá no campo de batalha,
Entre a fúria da metralha
O piolho é um achado
Nas costuras da camisa
N’uma linha estabelecida bis
Do pescoço até ao rabo.
Quando há algum combate
Também assiste ao ataque,
Lá na sua posição.
bis
E na luta corpo a corpo bis
O piolho vae ser morto
Ao golpe d’um alemão.
Há piolho francez.
Há piolho inglez,
Há piolho alemão;
29
Há piolho italiano
Há piolho americano,
Eu tenho a convicção. […]
O piolho assentou praça,
Povoou a sua raça bis
No corpo dos mobilizados;
E então ele hoje em França
Vae enchendo a sua pança bis
Com o sangue dos soldados.
O piolho lá na frente
Acompanha toda a gente, […].
É deveras um guerreiro […]
Quando sente o alemão
Ferra logo o seu ferrão
E põe alerta o seu dono.
Põe alerta a Divisão
Põe alerta o Capitão
E põe alerta o Major;
Põe alerta oficiaes
Põe alerta generaes
E o seu Estado-maior […] (Carvalho 1924: 39-41)
Os portugueses tinham pavor dos morteiros e dos gases asfixiantes. Durante
1917 e 1918, o gás vesicante de iperita, mais conhecido por ‘‘gás mostarda’’, era o mais
temido, devido aos danos que provocava, desde a ferida dolorosa à morte, mais ou
menos lenta, ou às consequências pós-guerra.
Num estudo epocal, Cirilo de Milo referia:
As […] queimaduras com a iperite são difíceis de cicatrizar. […] ataca […]as
mucosas, principalmente a […] respiratória, desde a laringe ao parênquima
pulmonar; o seu efeito imediato é a dispneia e, por último, a asfixia. Nos casos
menos graves, há o perigo de congestão pulmonar, bronquite e broncopneumonia
purulenta, abcessos e gangrena. Os efeitos […] sobre os olhos vão até à perfuração
da córnea. Os vesicantes atacam […] as mãos, o pescoço, as axilas, os órgãos
sexuais, etc… A ação dos vesicantes é insidiosa: não há irritação imediata e o
indivíduo só começa a sentir os sintomas do mal duas a trinta e seis horas (em média
seis a dez horas) depois de ter sido gaseado. As primeiras manifestações são vómitos
ou náuseas, fotofobia, sonolência invencível. (Melo 1935: 16-17)
A alcoolização, verdadeira droga das trincheiras, permitia exorcizar os medos,
adormecer os membros enregelados dos vigilantes ou entusiasmar a ação combativa e,
por fim, aguentar até ao raiar do dia. A distribuição de rum, à meia-noite, era bemvinda: a alcoolização, verdadeira chaga das trincheiras, permitia exorcizar os medos,
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adormecer os membros enregelados dos vigilantes ou entusiasmar a ação combativa e,
por fim, aguentar até ao raiar do dia.
Com os iniciais quinze dias de licença, a deslocação a Portugal era demasiado
onerosa e cansativa para tão poucos dias gozados na terra natal e, por conseguinte, a ida
a Portugal era só realizada por alguns oficiais e em situações especiais e urgentes. O
diminuto número de tropas deslocadas a Portugal não prejudicava as atividades
militares, em França, e nem fomentava expectativas ilusórias no seio do CEP.
4.4. A rotina diária na zona de guerra
De acordo com o 2.º convénio luso-britânico, assinado a 3 de janeiro de 1917,
competia ao governo inglês fornecer às tropas do CEP a ração alimentar em uso nos
setores britânicos. (Marques 2008:131).
Os portugueses, sendo assim, depararam-se com os enlatados ‘‘corned beef’’’rancho confecionado, uma mistura de carne com legumes e carne de porco guisado com
feijão. Esta ração não satisfazia, de forma alguma, os militares portugueses. Enjoados
desta pasta untuosa (sem sabor) e, ulteriormente subnutridos, muitos vieram a padecer
de uma inanição irremediável. (Marques 2008:IV)
Vejamos outro exemplo da letra de uma canção humorística, escrita e cantada no
CEP, intitulada: ‘‘Paródia ao Corned Beef’’:
O Corned-beef é um amigo
Quer na paz quer no perigo
Quer na base quer na frente.
Tem o gosto a carapau
Sabe melhor que o bacalhau
Comido por toda a gente.
Nas horas de ansiedade
É lembrado com saudade
P’lo soldado e p’lo Major.
É comido sem ser quente
Pelo Alferes e p’lo Tenente
E pelo Estado-maior.
bis
Entre as fúrias das granadas
Co’ ele fazem patuscadas
É papado como mel.
Comem-no mesmo sem pão
O Cabo e o Capitão
bis
E até mesmo o Coronel.
Com bela cebolinha
Uma lata bem fresquinha
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Bem quentinha no fogão,
Dá prazer ao mais guloso
Que os beijos lambe de goso
E alarga o cinturão. […]
bis
(Carvalho 1944: 41-43)
Sendo o pão predominante na alimentação portuguesa, os combatentes
ressentiam-se da diminuição da sua ingestão no dia -a- dia da campanha. O
fornecimento de água era, também, deficiente. A falta de recursos hídricos e a
dificuldade de armazenagem e de transporte de água da retaguarda até aos
entrincheirados justificou, por vezes, a diminuição da ração manual de água (um
cantil diário).
Para colmatar as lacunas alimentares, o CEP criou um Serviço de Agricultura
com duas funções produtivas complementares: auxílio à produção agrícola francesa
(parte integrante da economia dos aliados) e produção própria de alimentos, vegetais
e animais.
Estudados os métodos agrícolas utilizados em França (alguns desconhecidos
em Portugal), - tendo em conta que a nossa agricultura era de subsistência -,
publicadas as instruções e formados os monitores e os fiscais agrícolas, os efetivos
dos Serviços de Agricultura e os turnos militares das restantes unidades do CEP
dedicaram-se à atividade agrícola e pecuária, aproveitando qualquer terreno
minimamente propício a estas tarefas. As galinhas, os porcos e os coelhos eram
criados e engordados na retaguarda do setor do CEP, enquanto o terreno das hortas
criadas nos acantonamentos, obedeceu a uma distribuição previamente estudada.
A produção alimentar local do CEP também iria revelar-se insuficiente,
obrigando o comando a realizar compras diretas nos mercados locais, civis e
militares nomeadamente, de hortaliça.
4.5. O fardamento
O fornecimento do fardamento às tropas do CEP estava a cargo do governo
português. Contudo, a falta de espaço para acondicionar todo o fardamento em
caixotes, nos porões dos navios de transporte para França, obrigou à distribuição do
uniforme pelos homens que foram compelidos a vesti-lo ou a colocá-lo na mochila,
abolindo-se, ainda, o saco de fardamento.
A inadaptação do fardamento ao clima da Flandres e às características da
guerra de trincheiras comprometeram o bem-estar dos expedicionários. A cor
32
cinzenta (por vezes azul ferrete) das peças prejudicava a imagem do CEP junto dos
exércitos aliados visto que se sujava rapidamente com as poeiras, as lamas e as
chuvas omnipresentes.
As medidas exageradas do trajo em desacordo com as medidas físicas dos
expedicionários também prejudicava a imagem do CEP, para além de dificultar o
movimento dos membros, facilitando o seu desgaste.
A má qualidade, a textura grosseira e a permeabilidade da mescla portuguesa
impediram a eficaz proteção contra o frio gelado e a chuva contínua da Flandres:
A existência dos soldados nos entrincheiramentos era duríssima, um suplício
permanente. As chuvas torrenciais desse inverno hostil agravavam o flagelo. Às
vezes combatia-se durante três noites e três dias, sucessivamente, sem que as tropas
pudessem sair dos seus buracos, onde apodreciam os que tombavam sob as balas,
exalando-se das suas carcaças gangrenadas, decompostas, um cheiro fulminante. O
frio retalhava as carnes, gelava os pés dos vivos dentro do calçado, a água
encharcava-os até aos ossos; e, apesar disso, tinham de pelejar. Nos raros instantes
em que a fuzilaria se detinha ou se calava o fragor, a tempestade da artilharia, os
homens, extenuados, procuravam repousar um pouco, encostados ao parapeito das
trincheiras, com as pernas metidas em lama – uma lama viscosa e fétida. (Grave
2010-2012: 32-33)8
O capacete de aço português, apelidado ‘‘chapéu preto’’, protetor da cabeça
dos entrincheirados, era de qualidade inferior à inglesa ao nível do material
empregue e do dispositivo de amortecimento do choque dos projéteis.
De Portugal mandaram o que chamávamos de ‘‘pelicos’’. Era uma çamarra talhada
em forma de casaca sem mangas, e safões alentejanos, tudo feito em pele de carneiro
e destinados a protegerem do frio. Era uma indumentária realmente um pouco
ridícula. Os safões, esses são mais cómodos, mas a çamarra só serve para rir. Mas
como na Flandres nunca tinham visto aquilo, e as francesas diziam graças, os
soldados não gostavam de trazer os ‘‘pelicos’’. Os ‘‘pelicos’’ chegaram,
distribuíram-se e lá foi um batalhão para as linhas vestido de carneiros. Não digo
qual foi, porque ainda hoje me não perdoariam a indiscrição. Amigo alemão viu,
apreciou, analizou – e quando começou a anoitecer, largaram a gritar da 1.ª linha
deles:
- Mé! Mé! Depois imitando balidos e prolongando a onomatopeia:
- Mé-é-é-é! Os nossos começaram a zangar-se – e vá de responder injúrias
medonhas ao alemão! Ria-se, o boche à larga – e os portugueses zangados a mais
não poder. (Morais 1919: 147-148)
O calçado utilizado pelo CEP também manifestou dificuldades em adaptarse aos condicionalismos da campanha pela falta de impermeabilização que fazia
diminuir a resistência às intempéries e a duração de uso útil. O cabedal, ao enxugar,
8
Esta obra encontra-se digitalizada e disponível online in http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial, pp 32-33
33
perdia a elasticidade e rasgava-se. As botas portuguesas eram de má qualidade,
devido a defeito de forma e à falta de protetores nos tacões e nas solas. A má
qualidade do material dos atacadores fazia diminuir a resistência ao uso e ao clima. O
material deficiente utilizado na produção das alpergatas, grevas e meias prejudicava
a proteção dos pés e das pernas dos combatentes, às intempéries e às marchas. A
carência de óleo de baleia, em Portugal, obrigou à imersão do calçado, antes do
embarque, numa gordura de menor qualidade devido aos elementos constitutivos –
sebo de boi e óleo de peixe, em partes iguais. Desta forma, o sucesso da
impermeabilização foi comprometido.
A dificuldade de distribuição das peças de fardamento e de calçado pelos
serviços do CEP, em tempo útil, e a incompetência de alguns oficiais impediria a
substituição das peças deterioradas, prejudicando os combatentes. A incapacidade de
assegurar muitas e adequadas peças de fardamento aos homens do CEP por parte do
Governo Português, a indisciplina de alguns combatentes e as deficiências dos
serviços de distribuição do CEP provocaram um desgaste imediato e insustentável do
fardamento, com prejuízo do bem-estar dos combatentes.
Para superar o agravamento do depauperamento físico das tropas pela incapaz
resistência ao clima e às doenças (reumatismo, sarna, pneumonia, etc…) e a má
imagem dos expedicionários portugueses, junto dos exércitos aliados, o comandante
do CEP adotou duas medidas diferentes mas complementares, nomeadamente a
criação de oficinas de reparação de vestuário e calçado português, oficinas de alfaiate
e lavandarias, a compra adicional de peças de vestuário (dólmens de mescla para
oficiais, impermeáveis e capotes) e de calçado (meias, botas altas e baixas) britânicos
devido à melhor qualidade de materiais e de fabrico.
O insuficiente sucesso das medidas adotadas pelas autoridades portuguesas,
o comportamento dos expedicionários em França, e a falta de qualidade e de
quantidade do vestuário e calçado utilizado pelas tropas portuguesas contribuíram
para a debilidade física e psicológica das tropas, obrigando mesmo a adiar operações
militares ou a cancelar serviços de trincheira.
34
4.6. O Aboletamento
A descriminação de aboletamento fazia-se sentir. Os oficiais instalavam-se nos
principais edifícios disponibilizados para uso do CEP (antigos chalets e edifícios
públicos franceses), com cama com lençóis e cobertores limpos e aquecimento incluído.
As praças de pré amontoavam-se nos acampamentos de ‘‘pau e lona’’ constituídos por
múltiplas barracas de lona, de 4 a 5 metros de diâmetro, que davam guarida de oito a
dez homens, ou por barracas de madeira com telhado de chapas de zinco superlotadas,
ambas com camas de rede.
Na linha de aldeias, as tropas instalavam-se nas quintas (fermes) e nas casas
(maisons) da população civil francesa. Em geral, os soldados ocupavam os celeiros,
os telheiros ou as cavalariças. Eugénio Rodrigues Aresta recorda o aboletamento nas
quintas francesas:
Os soldados ficavam nas granjas cujo solo a palha atapetava. E como não havia
braços para construções, tudo se fora arruinando a pouco e pouco. Os telhados
abriam fendas por onde entrava a neve e o frio, a humidade reçumava dos muros
velhos. O edifício que ia servir-lhes de habitação, era uma pequena ‘‘ferme’’
formada por três casas, um pateo no meio, onde se amontoava o estrume e um
barracão de tábuas, arrecadação dos carros e dos utensílios de lavoura. Eles ficavam
no palheiro, sobre a cavalariça. (Aresta s/d: 40-41)
4.7. A saúde
A falta de confiança britânica nos serviços de seleção médicos portugueses,
fortemente pressionados pelo poder político ‘‘guerrista’’, desencadeou um estudo lusobritânico sobre o estado infectocontagioso existente em Portugal. A propagação de tifo e
de gripe pneumónica no nosso país permitiu à Inglaterra negar transportes às tropas
portuguesas para França como unidade profilática. A propagação da ‘‘gripe espanhola’’,
ou influenza em Espanha e na região raiana portuguesa permitiu, também, à Inglaterra
não autorizar o trânsito ferroviário às tropas portuguesas através dos Pirenéus.
Os rigores naturais da vida na frente, ditados pelas condições geográficas do
setor português em França (clima rigoroso, solos pantanosos) e pelas estruturas
inerentes de uma guerra de trincheiras (túneis e abrigos inundados de lama, gelo, ratos e
parasitas), a dureza do quotidiano vivido na Linha da Frente (dividida pela vivência dos
momentos de espera versus momentos de combate), a longa permanência na frente de
combate ditada pela impossibilidade de facultar os necessários períodos de descanso aos
entrincheirados e as carências materiais sentidas pelos combatentes motivadas pela
35
deficiente alimentação, desadequado fardamento e insuficiente
aboletamento,
provocaram um desgaste físico e psicológico de dimensões variáveis mas de
repercussões determinantes de um novo estado de saúde dos expedicionários.
O tratamento dos ferimentos provocados pelas novas armas (balas
explosivas, obuses, metralhadoras, etc…) era, também, mal conhecido, provocando,
por vezes, lesões que necessitavam de operações cirúrgicas de mutilação precipitadas
que não eram acompanhadas pela necessária e eficiente fisioterapia devido a alguma
falta de conhecimentos especializados e às más condições de trabalho dos médicos
portugueses, em França.
Os expedicionários portugueses também foram socorridos por enfermeiras
portuguesas. As mesmas eram denominadas ‘‘Damas Enfermeiras’’, preparadas
através de cursos de enfermagem ministrados pela Cruz Vermelha Portuguesa e
remuneradas por esta instituição. O número de enfermeiras formadas pela Cruzada
das Mulheres Portuguesas, quer no Instituto Clínico da Cruzada, em Campolide, quer
no Instituto de Reeducação dos Mutilados de Guerra, em Arroios, não satisfazia de
modo nenhum as necessidades do CEP, obrigando Sidónio Pais (oficial de artilharia,
baleado e assassinado na Estação do Rossio) a criar escolas de enfermeiras militares,
destinadas ao exército junto dos hospitais militares de 1.ª classe, em Lisboa e no
Porto.
As doenças venéreas (blenorragia, maioritariamente, sendo seguida da sífilis e
da orquite) obrigaram muitos homens a serem hospitalizados, sobretudo por
imposição britânica e das autoridades civis francesas, privando-os de dar o seu
melhor desempenho na Linha da Frente.
4.8. Os tempos livres
A amena conversa entre camaradas, recordando episódios na terra natal,
descrevendo a família, confidenciando preocupações e receios, narrando momentos
de guerra, complementada, por vezes, pela prática de jogos de cartas como a bisca, a
burra, e, preferencialmente a sueca, tão do agrado dos serranos, ou jogos de dados
permitia, por uns instantes, esquecer os horrores de um ‘‘momento de espera’’ ou de
um ‘‘momento de combate’’, vividos na véspera, e permitia ainda consolidar a
amizade e o espírito de grupo. Cantavam canções regionais ao som de um
instrumento como, por exemplo, ‘‘Caninha Verde’’. Canções das revistas
portuguesas da moda ‘‘Marcha do Vapor’’ e ‘‘Vassourinha’’ possibilitavam o gozo
36
de momentos de alegria, de confraternização em grupo, de nostalgia da terra natal e
da família e, por conseguinte, de evasão da realidade e pelo refúgio em boas
recordações.
Os militares também realizavam concursos desportivos, tais como, corridas
de cem metros, saltos em altura e em comprimento, luta de tração, corrida de sacos,
luta a cavalo, corrida de barcos, corrida de três pernas, jogo da corda, corrida de
estafetas, corrida de bicicletas, jogo de pau, emprego da baioneta e de tiro de
espingarda, lançamento de granadas, entre outros, sendo estes momentos de festa e
de entretenimento.
Muitos expedicionários ocupavam períodos de descanso com a aprendizagem
ou o aperfeiçoamento da leitura e da escrita quer da língua portuguesa (recorrendo à
Cartilha de João de Deus e à paciência de um camarada ou de capelão), quer da
língua francesa escrita, mas sobretudo oral. Isto permitir-lhes-ia a possibilidade de
contacto com os conterrâneos (família e amigos) e de êxito da conquista amorosa das
francesas. Eis as razões que constituíam as maiores motivações educacionais destes
esforçados alunos.
4.9. A censura postal
Os ‘‘resignados’’ com a situação criada pelas normas e punições previstas pela
Censura Postal limitavam-se a denunciar os limites à livre expressão escrita dos
expedicionários numa
tentativa de fazer compreender,
aos
destinatários, a
impossibilidade de escreverem o que desejavam transmitir.
Os ‘‘rebeldes’’ à imposição autoritária de limites à livre expressão escrita
preferiam denunciar a situação e infringi-la conscientemente, quer utilizando o
correio civil/clandestino, quer utilizando o correio oficial, apesar das possíveis
punições dada a necessidade individual e premente de explicitar protestos,
sentimentos ou experiências interiorizadas.
Uma grande maioria dos combatentes, sendo analfabetos, recorria a
‘‘escrevedores profissionais’’, ou seja, a camaradas que conheciam algumas letras e
escreviam missivas a troco de dinheiro ou de favores, adotando sempre o mesmo
modelo formal, variando só nos conteúdos.
37
4.10. A sexualidade
Apesar da barreira
linguística
e
independentemente
do
local
do
acantonamento, os homens do CEP aproveitavam qualquer momento não militar
(muitas vezes escapando às tarefas militares) para se insinuarem às mesdemoiselles
(meninas francesas).
As jovens inglesas (predominantemente enfermeiras) não eram alvo de
grandes atenções por parte dos expedicionários portugueses, devido a não se
enquadrarem no modelo de atributos físicos femininos a que estavam habituados (a
linha
esguia
britânica
será
percecionada
como
assexuada)
e
devido
à
indisponibilidade feminina inglesa, motivada pela restrição de acesso imposto pelas
autoridades militares britânicas aos combatentes portugueses.
A sedução, o amor e o prazer sexual experimentados pelos homens do CEP,
com a população feminina, criaram momentos, mais ou menos longos, mais ou
menos sentidos, de evasão ao repressivo quotidiano de guerra. Nos braços da mulher
escolhida, o combatente esquecia os perigos vividos nas trincheiras e a repressão
inerente à vivência imposta por um espaço militarizado e masculinizado.
Durante os momentos de descanso, os expedicionários, estacionados na Linha
de Aldeias, ajudaram os franceses que se conservavam, teimosamente, nas quintas
que os aboletavam (sobretudo viúvas, velhas e jovens) nas tarefas agrícolas (amanho
das terras, limpeza de estábulos, guarda de gado), domésticas (compras no mercado,
transporte de água, rachar de lenha) e de reconstrução de casas arruinadas pelos
bombardeamentos inimigos.
4.11. A religião
Na Guerra das Trincheiras, havia os denominados ‘‘Capelões Militares’’, uma
espécie de propagadores de fé. Os combatentes, ao utilizarem novos amuletos,
nomeadamente amuletos cristãos (cruzes, medalhas e santinhos) e não-cristãos (balas
perdidas, estilhaços de granada, pedras, entre outros…) condizentes com o
quotidiano de guerra envolvente, construíam uma nova relação com o sagrado.
A 3 de janeiro de 1917, o Comandante da Divisão redige para Lisboa:
Que o soldado é catholico, não resta dúvida, […] quando […] o perigo se aproxima,
não tendo em si uma força moral de ordem elevada em que se apoie, volta-se para as
crenças e superstições que bebeu com o leite da mãe […]. Raro é o soldado que não
traz consigo bentinhos, como os pretos trazem fetiches […] Tentar destruir a ideia
catholica simplesmente com uma ideia é fácil, mas não é prático. […] porque se não
38
houver capelões, os homens procurarão os padres que enxameiam estas povoações
de França, ou, nos momentos graves lamentarão não terem quem os auxilie, como
eles dizem, a bem morrer, - o que eu já ouvi a feridos nos hospitais de sangue.
(A.H.M. apud Marques 2008: 264-265)
4.12. O CEP entregue ao Deus dará
A falta de navios ao serviço do CEP obrigava a uma longa e difícil
negociação luso-britânica de forma a garantir o transporte marítimo das tropas
portuguesas a evacuar.
Para diminuir a fome e a sede, os expedicionários surripiavam dos campos
agrícolas os legumes cultivados nas hortas, a fruta dos pomares, as castanhas dos
bosques e as batatas armazenadas nos montículos de terra situados à beira das
estradas (costume francês de armazenagem e de conservação deste tubérculo) e
furtavam os galináceos das capoeiras das quintas localizadas soltas, de forma a
justificarem um bom grelhado e ainda se apoderavam de garrafas de vinho nas
adegas arruinadas e abandonadas.
Para se protegerem do frio, da chuva e da neve, os combatentes apoderavamse ilicitamente de roupa interior estendida nos varais, de vestuário e calçado
abandonado nas casas vazias, as quais também se encontravam numa completa
degradação.
As comodidades materiais como melhor e abundante alimentação, bom
vestuário e calçado e satisfatórias instalações de acomodamento e de trabalho, a
liberdade de circulação e de transporte propiciadora de melhores acessos ao lazer
como os passeios frequentes de automóvel ou a pé às praias e aos cafés da base ou
até Paris, e o menor horário de serviço eram algumas das regalias usufruídas pelos
militares na retaguarda, sobretudo na base do CEP, que geravam maiores sentimentos
de ira, inveja e revolta pelos combatentes entrincheirados.
Eis o testemunho de Bento Esteves Roma:
A malta, suja e de baixa condição no seu aspecto, sabia amar e sabia sofrer, tinha
uma alma grande, muito grande, capaz de sacrifícios e heroicidades, toda ela cheia
de Portugal. E enquanto, os que assim nos alcunharam, passavam a vida pelos tearoom de Boulogne, Brest e Calais, a malta lá estava firme no seu posto, sendo para
eles a sua única razão de existência. Sem ela, sem a malta, adeus delícias de Capua
da base. (Magno 1921: 58)
39
4.13. Os portugueses aos olhos dos ingleses
A má apresentação visual do militar português e a falta de higiene criava uma
imagem negativa, como adiante se nota:
Para além disso, não há hábito em Portugal de se tomar regularmente banho. A
campanha dos higienistas, que se propagou pela Europa no século passado, não
chegou ao nosso país, onde se considera que o banho é um prazer narcisista de
mulheres ociosas e fúteis, quase um pecado. Impusemos aos nossos soldados a
obrigatoriedade de um banho semanal, mas a maior parte acha isso um exagero e
muitos evitam a água, consideram até que a sujidade é a melhor defesa contra as
doenças, e, para mais com o frio que está e a que não estamos habituados, os
soldados fogem do banho como o diabo da cruz. (Santos 2004:289)
De igual modo, a inadaptação ao clima de Flandres e às características da
guerra de trincheira, do vestuário e do calçado utilizado pelo militar português,
obrigando-o a recorrer a peças não convencionadas e em desacordo com o uniforme
de campanha, e o comprimento do seu cabelo impressionavam, negativamente.
Assim, é dado - devido ao consequente ‘‘aspecto ascoroso’’- o epíteto ‘‘porchises’’
aos militares portugueses, atributo altamente depreciativo.
A ironia também está presente na atribuição inglesa de mais uma alcunha ao
militar português, devido à estranheza dos gostos gastronómicos portugueses,
nomeadamente, a preferência do português pelo feijão com carne de porco ao
insípido corned beef, chá e frutas.
A falta de adesão à ração britânica originou a alcunha ‘‘porkand beans’’,
imediatamente ofensiva e motivo de zaragata. Da mesma forma, a ausência de
disciplina do militar português ajudou a definir a sua imagem junto das tropas
britânicas.
O incumprimento generalizado das mais elementares normas de higiene
coletiva, das normas de segurança de viação e a circulação pessoal não autorizada
constituíam um conjunto de infrações negativas aos olhos britânicos. O recurso ao
roubo de bens à população civil francesa e aos ingleses mais desprevenidos faziam
perigar as relações entre civis e militares, consideradas fundamentais pelos
britânicos, e implicavam despesas inglesas acrescidas no preenchimento dos stocks
defraudados.
Porque o texto é indissociável do contexto, esta visão sociocultural e histórica
de um tempo, com base testemunhal e documental, serve de ponto de partida para a
análise do romance Memória das Estrelas sem Brilho, que adiante se fará
40
PARTE III
CAPÍTULO III
MEMÓRIA DAS ESTRELAS SEM BRILHO:
ANÁLISE DA OBRA E DOS ELEMENTOS
PARATEXTUAIS E CULTURAIS
41
1. Memória das Estrelas sem Brilho: elementos paratextuais e edições
A primeira edição desta obra, escrita por José Leon Machado, e composta por
460 páginas, foi publicada no ano de 2008. A segunda edição, composta por 444
páginas, foi publicada no ano de 2012, sendo 34 o número de capítulos, finalizando com
um epílogo.
Ao averiguar os elementos paratextuais da obra, a contracapa apresenta uma
breve sinopse do enredo, podendo ou não despertar a atenção do leitor, no entanto,
observando a capa, formulamos, de imediato, um juízo estético.
A estética, enquanto disciplina filosófica, surgiu na antiga Grécia, como uma
reflexão sobre as manifestações do belo natural e do belo artístico. Através da estética,
valoramos, de imediato, um objeto em termos de beleza. A beleza da arte não se limita
apenas à arquitetura, escultura, pintura, mas manifesta-se, da mesma forma, na
literatura. A literatura é uma arte, a arte de escrever, a estética da palavra matéria-prima
do escritor, podendo promover múltiplos sentimentos como o ódio, a inveja, o repúdio,
o amor, abrindo - desta forma - uma porta para outros mundos.
Para Kant, os nossos juízos estéticos têm um fundamento subjetivo, dado que
não se podem apoiar em conceitos determinados. O belo é o que agrada universalmente,
sendo a experiência estética uma prática desinteressada, um prazer meramente
contemplativo. O juízo estético, ou juízo de gosto, é subjetivamente universal em que o
belo depende do sujeito e daquilo que ele sente.
A definição de literatura está comumente associada à ideia de estética, ou
melhor, da ocorrência de algum procedimento estético. Um texto é literário, portanto,
quando consegue produzir um efeito estético e quando provoca catarse, o efeito de
definição aristotélica, no recetor. É aquele que pretende emocionar e, para isso, emprega
a língua com liberdade e beleza, utilizando-se, muitas vezes, do sentido metafórico das
palavras:
A língua é um sistema gramatical pertencente a um grupo de indivíduos. Expressão
da consciência de uma coletividade, a língua é o meio por que ela concebe o mundo
que a cerca e sobre ele age. Utilização social da faculdade da linguagem, criação da
sociedade, não pode ser imutável; ao contrário, tem de viver em perpétua evolução,
paralela à do organismo social que a criou. (Cunha, Sintra 1984:1)
42
A teoria estética propriamente dita nasce em 1750, com Alexander Gottlieb
Baumgarten, a partir de questões tanto filosóficas como literárias.
Figura 1: Capa do livro
9
9
No ano de 2012, a tradução desta obra foi efetuada por Milton Azevedo
(professor de espanhol e de português na Universidade da Califórnia, Berkeley),
DARKENING STARS, A Novel of the Great War. Em janeiro de 2009, Azevedo salienta
o seguinte:
Além de seu valor literário como narrativa de ficção propriamente dita, constatável à
primeira leitura, o romance tem grande interesse como retrato da sociedade
portuguesa, que forma o background da narrativa. O narrador, homem de seu tempo
(ou tempos) e classe social, tem uma visão tão nítida da sua sociedade quanto é
possível esperar de alguém que nunca pôde sair dela para observá-la de fora. É,
portanto, uma visão naïve, informada apenas por elementos colhidos dentro daquela
sociedade. Mas é uma visão arguta, porque o narrador é um indivíduo inteligente e
lúcido. E complementada, é claro, pela visão, indiretamente transmitida ao leitor, do
Rato, que é um verdadeiro co-protagonista (e não apenas um sidekick) - um
9
In http://cemiteriodoslivrosperdidos.blogspot.pt/2012/memorias-das-estrelas-sem-brilhojose.html. Neste livro, nomeadamente na capa, a imagem de um soldado usando o
denominado ‘‘chapéu de ferro’’, inerte e pensativo, com um olhar desolador que descreve o
seu estado de espírito melancólico, faz com que possamos idealizar o enredo envolvente. Da
mesma forma, observamos o ambiente característico dos entrincheirados, nomeadamente os
sacos de serapilheira usados na denominada ‘‘Guerra das Trincheiras’’ como forma de os
soldados se protegerem dos ataques dos seus inimigos. Esta ilustração foi elaborada por Paul
Driver que, depois de se formar em Design na Universidade de Cardiff, trabalhou como
cenógrafo para uma companhia de teatro britânica sediada em Brighton, antes de decidir
direcionar a sua atenção para a área da ilustração.
43
pouco, mutatis mudantis, como Sancho Pança, sem o qual o Quixote ficaria
impensável.10
É possível verificar a constatação desta afirmação, na obra Memória das
Estrelas sem Brilho: ‘‘Era um encanto exótico para os meus olhos de patego que pouco
ou nada tinha ainda visto do mundo’’ (Machado 2012: 360). Milton Azevedo acha-o um
livro provocatório e provocador que espevita a consciência de quem o lê.
2. Sua temática histórica: Primeira obra de uma trilogia
Memória das Estrelas sem Brilho é uma obra literária de literatura ficcional que
aborda a temática da I Grande Guerra Mundial e o envio de tropas portuguesas para as
trincheiras, na Flandres, em França.
A narrativa aborda não só a vertente militar, política e económica, mas também
faz o relato da vida de jovens que se viram privados de fruir a juventude livremente e
prosseguir com os seus projetos de vida. Muitos foram obrigados a abandonar tudo e
todos e partiram para uma guerra que dizimou e mutilou outros. E os que sobreviveram
ficaram com mazelas físicas e psicológicas para o resto das suas vidas. O autor faz o
relato dos acontecimentos seguindo uma estrutura cronológica muito fidedigna, como,
aliás, se deve revestir o romance histórico.
José Leon Machado, nesta obra, aborda os conteúdos históricos, desde a queda
da Monarquia à implantação do Estado Novo, revelando uma bagagem cultural e
histórica aprofundadas e minuciosamente retratada. A ficção coabita com os factos
históricos que correspondem à realidade de um passado nacional.
Trata-se de um memorial escrito, em 1938: ‘‘A página fora escrita no dia 11 de
novembro de 1938.’’ (Machado 2013:441); ‘‘Tenho quase todo o dia para terminar este
memorial.’’ (Machado 2012: 424) por Luís Vasques, a viver em Braga, no norte de
Portugal, no Minho, um advogado de seus 40 anos de idade, que lutou em França, na
10
In http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/evercial/memoria.htm, editora Edições Vercial, uma
editora vocacionada para a publicação e divulgação de obras em língua portuguesa de vários
géneros, com especial incidência na nova ficção portuguesa, nas obras do português antigo e
no ensaio, privilegiando-se, neste último, as áreas da Linguística, da Cultura, da Literatura e
da História.
44
Guerra das Trincheiras de 1917 a 1918 e que sofre de ansiedade: ‘‘Voltaram-me os
pesadelos sobre a guerra…’’ (Machado 2012:11).
Entre a narrativa ficcional de Leon Machado e a realidade de facto, há
verdadeira similitude. Com efeito, há relatos feitos por militares que participaram na
guerra e foram publicados nos seguintes livros: A Batalha do Lys, do general Gomes da
Costa, Livro da Guerra de Portugal na Flandres do capitão David Magno, O SoldadoSaudade e Ao Parapeito, do tenente Pina de Morais, A Malta das Trincheiras, do
capitão, dramaturgo, jornalista e humorista André Brun, Os Portugueses na Flandres,
do tenente-coronel Fernando Freiria, A Brigada do Minho, na Flandres, do coronel
Eugénio Mardel, João Ninguém, Soldado da Grande Guerra, do capitão Menezes
Ferreira, O Bom Humor no C.E.P., do major Mário Afonso de Carvalho, Goodbye to All
That, do capitão e poeta Robert Graves e War Letters of Fallen Englishmen, de
Laurence Housman.
3. A personagem
3.1. Luís Vasques: ‘‘O Infeliz’’
Luís Vasques era, ainda, um jovem universitário – estudante de Direito, na
Faculdade de Coimbra, que se vira forçado a deixar os seus estudos académicos, para
comandar o Corpo Expedicionário Português, a mando do governo português.
Vinte anos depois do fim do conflito (e quando se preparava o início da II
Grande Guerra), Vasques decide escrever o seu trajeto, assumindo, deste modo, o papel
de narrador participante, autodiegético, como protagonista:
Faz hoje vinte anos que terminou a guerra. Para mim não terminou. De facto, há
vinte anos que continuo, na minha cabeça, a arrastar-me pela lama da trincheira, a
abrigar-me das balas e dos estilhaços, a ouvir o ribombar dos canhões e o
matraquear das metralhadoras.’’ (…) (Machado 2012: 22).
Proclamando um saber de experiência feito, ao gosto português, afirma: ‘‘Não se
pode falar de guerra a quem nunca lá esteve. Nos últimos vinte anos, tenho guardado
para mim próprio as recordações.’’ (Machado 2012: 25). E adianta acrescenta: ‘‘Estas
memórias têm tantos parêntesis, que começo a pensar que, se alguém um dia as vier ler,
terá de se servir da imaginação para tapar os muitos buracos e incongruências que nela
vou criando’’. (Machado 2012: 396)
45
Este romance está escrito em forma de memórias, relatando a vivência póstraumática de ex-combatentes e nele poderemos encontrar similitudes com as seguintes
obras: O Mutilado de João Grave, A Malta das Trincheiras de André Brun e Na Grande
Guerra de Américo Olavo.
Luís Vasques é a personagem principal deste romance de guerra e de amor, cuja
alcunha na Guerra das Trincheiras, era ‘‘O Infeliz’’. Filho de um deputado eleito pelo
Partido Progressista, seu pai (monárquico e advogado), habitava a Quinta de São
Francisco e casara com uma prima bastante mais nova, em casamento por conveniência.
Vasques casara-se com Ana Maria Gouveia (Aninhas), filha de um médico (Dr.
Gouveia), com quem tivera três filhos: Afonso (o filho mais velho), estudante de
Engenharia, em Coimbra, e que entre 1946/1947 fugira para a Europa por se ter
envolvido com os comunistas e por a Pide o ter perseguido. Em França, na
Universidade da Sorbonne, em Paris, torna-se professor de Engenharia e casa-se com
uma francesa. Pedro estudou num seminário, em Braga, e tornou-se padre. Mais tarde,
casou-se com uma freira, tendo tido quatro filhos, tendo-se tornado, mais tarde,
professor de História, numa escola secundária. Inês, a filha mais nova, estudou num
colégio feminino, em Famalicão e, após ter enviuvado, tomou conta do seu pai até à
hora de sua morte. Numa fase posterior, o bisneto de Joaquim Domingues, comprou a
Quinta de São Francisco e foi para lá viver.
Vasques trabalhou nas suas memórias por um período de cinco meses, de 11 de
novembro de 1938 (o vigésimo aniversário do cessar-fogo) até ao domingo de Páscoa,
nove de abril de 1939 (o vigésimo aniversário da Batalha de la Lys).Vasques, narrador
de si mesmo, em jeito de memórias, reconstrói o seu percurso em 34 capítulos que
intervalam a narrativa do vivido na guerra com a vida depois da guerra. Ao mesmo
tempo que quer contar a guerra, o narrador não esconde o seu ressentimento com essa
mesma guerra, até ao ponto de ter arrumado, no sótão, os escritos memorialísticos que
outros produziram sobre esse tempo, decisão que não esconde o espírito crítico quanto
ao valor desses testemunhos:
O meu contacto com a guerra, depois que regressei, têm sido os livros de memórias
que coleciono e que vão sendo publicados por um ou outro veterano. Tenho algumas
dezenas e são de valor irregular, quer literário, quer de fidelidade aos
acontecimentos. Uns são mais patrioteiros, louvando a coragem, a determinação e o
valor dos soldados portugueses. Outros são mais críticos, quer ao desempenho do
CEP na Flandres, quer à decisão dos políticos portugueses em arrastar o país para a
guerra. Alguns livros, escritos por oficiais subalternos, limitam-se a descrever os
acontecimentos do dia-a-dia nas trincheiras. Estes últimos li-os com interesse e senti
46
que havia algures alguém que sofria como eu. Acabei por perder o interesse por
esses livros e guardei-os no sótão da casa dentro de um caixote. Fi-lo, não por receio
de que me desse a tentação de novamente os folhear, mas para evitar que alguma
visita da casa desse com eles na biblioteca e se pusesse a falar do assunto. (Machado
2012: 26).
Depois de 34 capítulos em que Vasques conta a sua história e em que o leitor
pensa assistir ao final da narração, volve meio século e o romance entra no “epílogo”. É
ainda o mesmo Vasques, já com 93 anos, que escreve, rabiscando em papel almaço o
seu encontro com o bisneto do Rato (Joaquim Domingues), estudante na Universidade
do Porto, que pretendera ouvi-lo a testemunhar sobre a participação na Grande Guerra,
com vista a um trabalho académico para a disciplina de Cultura Portuguesa. Aliás, é
uma personagem com que o autor José Leon Machado se identifica. (ver anexo III) ‘‘Eu,
por mim, contentar-me-ei em preencher umas quantas folhas de papel almaço que
provavelmente queimarei quando o exorcismo estiver completo’’. (Machado 2012:28)
Nessa altura, Vasques reabre a arca do sótão, alegoria de um caminhar pelas
memórias, de onde tira o seu manuscrito e regista:
Amanhã entregarei tudo ao rapaz. Talvez ele encontre nestas páginas o que procura,
ou talvez encontre o que não procura, e que é aquilo que a vida, o pó e a cinza a que
todas as coisas se reduzem lhe reservaram. (Machado 2012:442).
Uma “nota do editor”, escrita duas décadas depois, apresenta um outro narrador
– o bisneto do Rato, na casa que fora de Luís Vasques, a preparar a edição das
memórias que lhe tinham sido ofertadas e a dar conta do destino de várias personagens
que o tempo foi devorando, assim se fazendo a ponte entre uma das linhas temáticas
fortes deste romance (a participação lusa na Primeira Grande Guerra) e a atualidade:
Demorei cerca de dois anos a copiar o manuscrito para o computador. Isso deveu-se
ao facto de a tinta estar nalguns capítulos bastante desbotada devido à humidade e a
dificuldades minhas na interpretação da letra e da ortografia. O dr. Luís Vasques
ignorava a reforma ortográfica de 1911 e escrevia no tempo de Camilo. (Machado
2012: 444)
4. Brasão da Família Vaz e Brasão da Família Vasques:
Vasques provém de uma família nobre, de sangue azul. Em Memória das
Estrelas sem Brilho, o protagonista refere-se ao facto em diferentes passos da narrativa:
‘‘… o meu berço de fidalgote morgado brasonado com vagos resquícios de sangue azul
47
herdados, dizem os pergaminhos, dos godos, parentes afastados dos boches.’’ (Machado
2012: 218); ‘‘Tivesse eu a mesma sorte, seria feliz e faria perdurar o nome e o brasão da
família por mais cem anos’’ (Machado 2012:402).
Os sobrenomes Vaz e Vasques são de origem patronímica e estão relacionados
aos nomes Vasco e Velasco, ou seja, os filhos de homens com esses nomes, geralmente,
carregavam a alcunha Vaz ou Vasques. Atentemos na representação heráldica de uma
linhagem antiga:
Figura 3: Brasão da Família Vasques11
Figura 2: Brasão da Família Vaz
O nome Vasco é de origem francesa e espanhola e dava indicação da origem no
País Basco, uma região no extremo norte da Espanha e sudoeste da França. Durante o
Império Romano, o povo que habitava a região passou a ser chamado de uasconum e,
após a queda do império, os visigodos e os francos dominaram o lugar. Posteriormente,
foi implantado o Ducado da Vascónia na França. Mais à frente, grande parte da região
ficou sob o domínio dos reinos hispânicos como Pamplona e Navarra. Vasco é, pois, na
narrativa um nome falante e de feição simbólica, pois remete para algo além do
referente.
5. O anel de brasão
O anel simbolizava a continuação de uma geração de sangue azul, cuja pretensão
consistia em perpetuar a honra da família, a longevidade dos antepassados, assessório
que identificava o estatuto social de uma família, uma herança que zelava pelo bom
nome da mesma.
Em ‘‘Memória das Estrelas sem Brilho’’, sabemos que o pai lhe dera um anel de
brasão, sendo este a representação de uma linhagem antiga, símbolo do eterno, do
11
In http://brasaodefamilia.blogspot.pt/2011/03/brasao-da-familia-vaz-e-brasao-da.html
48
ilimitado: ‘‘Eu reagi quase instintivamente, cravando um murro no que estava mais
próximo e marcando-lhe a cara com o anel de brasão da família.’’ (Machado 2012:291)
Contudo, a defesa da honra e da virtude que o anel representa não é cumprida pelo filho.
Retirou o anel com o brasão da família do dedo anelar direito, puxou-me a mão e
pôs-mo. – Este é o castigo que sanciono para a tua malandrice: que andes sempre
com ele, o honres como fizeram os teus antepassados e que mo entregues sem um
beliscão. (Machado 2012:61)
6. Os Lusíadas: Luís Vaz de Camões
O escritor José Leon Machado, revelando um gosto peculiar por Camões,
inspirou-se neste poeta, oriundo de uma linhagem azul, atribuindo, deste modo, à nossa
personagem principal, o nome de Luís Vasques (Luís Vaz de Camões). Recordemos que
Luís Vaz de Camões amou a sua pátria com dedicação sem limites, cantando-a,
celebrando-a nos seus poemas, sobretudo n’Os Lusíadas, cultivando a sua língua com a
correção e o equilíbrio da poética clássica e batendo-se, corajosamente, por ela na
África e na Ásia. Para ele, a Pátria estava acima de tudo e, durante a vida, procurou
louvar as virtudes do seu povo, centradas nas figuras dos seus heróis, ou lutar para fazer
respeitar o seu Reino, admirado por todos: o novo reino que tantos sublimaram. Era um
fidalgo sem medo e sem cobardia, e tudo o que fosse injustiça o desesperava e
indignava.
Em Memória das estrelas sem Brilho, a similitude é grande. Senão vejamos:
…e atravessava as ondas com Os Lusíadas imaginários numa mão enquanto a outra
se esforçava por vencer a força das águas.’’; ‘‘Na praia, com o som das ondas, que,
contraditoriamente, no seu rebentamento poderiam sugerir o ribombar dos canhões,
sentia-me numa qualquer ilha dos amores a recuperar dos ferimentos de uma
batalha, qual Ulisses depois da guerra de Troia. (Machado 2012:103)
Mais adiante no texto, de novo é evocada a epopeia camoniana: ‘‘Eram prosa
versificada do género: (…) A compor era assim, era mais certo que do CEP não sairia
nenhum Camões que louvasse com engenho e arte os efeitos gloriosos dos portugueses
na Flandres.’’ (Machado 2012:331)
Da mesma forma, convém realçar um pormenor intertextual assinalável:
Vasques só conseguiu ultrapassar os horrores provocados pela guerra ao lado de Ana
Gouveia, o seu amor. Também no subtexto Os Lusíadas, Canto II, é referenciado que só
o amor vence a guerra.
49
Relembrando as venturas e desventuras de Ulisses, rei de Ítaca, relatadas por
Homero, um poeta grego que, na sua obra Odisseia, contou as façanhas do herói,
adorado por todos os que o conheciam, e que passou grande parte da sua vida passou-a a
navegar de aventura em aventura (por entre Ciclopes e Sereias encantatórias ou tentando
libertar-se da misteriosa Feiticeira Circe para regressar à sua fiel Penélope), Vasques
refere: ‘‘A viagem até Wismes assemelhava-se bem à viagem de regresso do Ulisses a
Ítaca após a guerra de Troia. A única diferença é que o Ulisses partia da guerra e nós
chegávamos até ela.’’ (Machado 2012:114)
Tal como Ulisses, que perdera dez anos de sua vida a combater os troianos, e
tendo somente regressado a Ítaca anos mais tarde, Vasques perdeu dois anos da sua vida
numa guerra que nada de benéfico trouxe para o país.
7. As cunhas em Portugal
Sendo o único herdeiro, seu pai queria, a todo o custo, livrar seu filho da guerra.
Embora as ‘‘cunhas’’ funcionassem naquele tempo, o seu pai não conseguiu impedir o
seu recrutamento, tendo em conta que, tal como ele, apresentava tendências
monárquicas e não republicanas, constando o seu nome na ficha de polícia: ‘‘O nosso
povo tem o vício ancestral da cunha. (…) Alguém escreveu que a cunha em Portugal é
uma instituição pública. E no exército, mais do que em qualquer outro sítio, se confirma
tal asserção.’’ (Machado 2012: 44), Apenas ‘‘os que não foram recrutados e que
pertenciam ao Partido Democrático, metidos nos gabinetes de funcionários públicos não
sujariam as mãos com o mosto.’’ (Machado 2012:53)
Relembremos o seu amigo Apúlia, Manuel dos Santos, de Vila do Conde,
Caxinas, um pobre pescador, ex-combatente da Guerra das Trincheiras que, após o seu
regresso, chegara, como milhares de ex-combatentes, doente, só conseguiu tratamento
no hospital, por intermédio das ‘‘cunhas’’:
Quando um pobre vai parar ao hospital, é isso que acontece. Mandam-no logo
embora. Não querem lá gente miserável. E eu digo-lhes isto porque sei de casos.
Nos hospitais só tratam os ricos ou alguém que conheçam e tenham empenhos.
(Machado 2012: 175)
50
8. A vida académica coimbrense
A vida académica em Coimbra, retratada na obra, continua a repercutir-se nos
dias de hoje. Durante o dia, os estudantes falhavam às aulas e, de noite, iam para o
fado e frequentavam as tascas. Os meninos doutores esquivavam-se às aulas de
manhã e, à noite, levavam uma vida boémia:
Os estudantes, porque não tinham para onde ir nas horas mortas, dedicavam-se a
arruinar o fígado com mau vinho nas tascas imundas e a desassossegar os habitantes
da cidade com gritarias noturnas, violências, perseguições a raparigas solteiras e
assédios a casadas e viúvas, especialmente novas e bonitas. (Machado 2012: 305)
9. A sexualidade/moralidade vigente
O sexo é um tema muito presente nos romances históricos, despertando, no
leitor, o êxtase para que o mesmo se sinta empolgado e se deixe contagiar pela
envolvência das situações.
No que concerne aos valores morais, a infidelidade matrimonial, por
exemplo, era condenável pela moralidade vigente. No dealbar do século XX, não
aceitavam casamentos de estratos sociais diferentes. Disso nos dá conta no texto o que
acontecera com uma das filhas de Joaquim Domingues, a Evangelina, que fora
trabalhar, como criada, para Matosinhos, a quem Paulino (irmão de Aninhas),
estudante de medicina e a pedido de Vasques, lhe ensinara a ler, mas que engravidara
do mesmo.
Evangelina tinha 17 anos e Paulino 19 quando ambos se apaixonaram. A
mesma tivera uma filha - a Isabel – segredada com apenas três anos de idade: ‘‘A
pequena Isabel, vítima dos preconceitos de casta’’. (Machado 2012: 436). Naquela
época, a taxa de mortalidade infantil era elevada, tendo em conta as condições de
higiene que eram péssimas, e os cuidados médicos, ainda piores. Os pais de Paulino
puseram a honra de Evangelina em questão: ‘‘Até certo ponto, eu compreendia que
lhes era difícil permitir que o filho assumisse a paternidade e casasse com uma
criada.’’ (Machado 2012:375) Oriunda de um estrato social baixo, só lhe restou
resignar-se perante os factos e aceitar a perda de sua filha, resultante de uma relação
condenável por uma sociedade moralista, hipócrita e conservadora.
51
Enraizado e educado pela Igreja Católica, Apostólica e Romana, o povo
possuía uma mentalidade retrógrada, tentando seguir os mandamentos da Lei de Deus:
À infidelidade matrimonial, certamente condenável pela moralidade vigente, não lhe
dei mais importância do que daria a uma traquinice de garoto. O amor é para se dar e
receber. O resto são preconceitos. Além do mais, não deixei de amar menos a minha
esposa por causa deste episódio. (Machado 2012: 21)
O vestuário é também comentado de modo preconceituoso. O texto refere, nesse
âmbito, o facto de se andar vestido nas praias: ‘‘O vestido branco que usava – na
época as mulheres não usavam fatos de banho nas praias do norte por ser considerado
imoral.’’ (Machado 2012:105)
Não são raros, de facto, os aspetos caracterizadores de uma sociedade
mesquinha. Passamos a enumerar alguns que figuram no texto: ‘‘- Às raparigas
meteram-nos na cabeça que certas coisas só seriam permitidas no casamento. ’’(…)
(Machado 2012:309); ‘‘As mulheres portuguesas são tão boas como as outras. Tinham
de perder os preconceitos morais, fundados em medos atávicos criados pela religião.’’
(Machado 2012: 312).
Tal como sucede na obra A Vendedora de Cupidos de José Leon Machado,
Portugal é considerado um país de gente católica. Como refere o Dr. Vasques: “Somos
um país católico e respeitamos a hierarquia eclesiástica.” (Machado 2010:191) ‘‘-Uma
missa a mais ou a menos, não há-de fazer diferença. (Machado 2010: 259)
Em Portugal, vivendo-se numa sociedade moralista, o sexo era tabu para
muita gente. O povo, enraizado e educado na religião cristã, via o padre como a
autoridade máxima de uma sociedade fechada (tal como a classe do clero é retratada
nas obras ‘‘O Crime do Padre Amaro’’ e em ‘‘A Relíquia’’ de Eça de Queirós (uma
postura adotada pelos principais membros da geração de 70: Antero de Quental,
Ramalho Ortigão, Gomes Leal, Guerra Junqueiro, Teófilo Braga, Oliveira Martins,
entre outros), enclausurada na sua educação tradicional e que preferia seguir os
Mandamentos da Lei de Deus, ao invés de se libertar de uma autoridade moral, neste
caso, a igreja, onde a ‘‘libertinagem’’ era considerada fruto do pecado: ‘‘Comprei dois
fatos de banho, um para mim e outro para o Rato – na altura assemelhavam-se a fatos
de presidiário, às riscas pretas e brancas, e cobriam praticamente todo o corpo por
questões morais …’’ (Machado 2012: 103)
52
As conversas, como a postura feminina, nesta sociedade repressora são ainda
tradutoras da condição da mulher: ‘‘Trocavam, nos breves momentos em que os pais
lhes permitiam estar a sós, frases de circunstância, vulgaridades e beijos fugidios.’’
(Machado 2012:172)
As mulheres portuguesas são tão boas como as outras. Tinham de perder os
preconceitos morais, fundados em medos atávicos criados pela religião. Quando lhe
expliquei que havia muitas maneiras de evitar a gravidez sem que isso diminuísse o
prazer, ela arregalou muito os olhos.’’ (Machado 2012: 312)
Querendo saber mais sobre a sexualidade, e revelando uma certa ingenuidade
sobre o tema, Vasques é incentivado pelo Nogueira, colega de guerra, a ler a obra Ars
Amantis, livro que fala sobre a arte de amar: ‘‘Tinha muito a aprender. Talvez a
técnica, a ser implementada em Portugal, reduzisse drasticamente a natalidade das
famílias pobres.’’ (Machado 2012: 213)
10. Vasques e Rato: uma amizade sem igual
Memória das Estrelas sem Brilho pode ser considerada um relato da vida de dois
homens, companheiros e confidentes, Luís Vasques e Joaquim Domingues, que tiveram
a triste sorte de vivenciar uma guerra sangrenta e sem escrúpulos.
Joaquim Domingues era tratado por ‘‘Rato’’, pois o mesmo tornara-se um perito
no assalto à fruta, no seu tempo de mocidade:
Um dia perguntei ao Rato donde lhe vinha a alcunha. Disse-me que lhe vinha da
infância. Os outros rapazes, porque ele era de compleição miúda e muito eficaz no
assalto à fruta, não havendo muro, rede, arame farpado ou silvedo que o impedisse
de entrar, botaram-lhe Rato. Assim ficou. Ele não desgostava. (Machado 2012: 45)
Rato era analfabeto, e pai de quatro filhos: Delmiro (o mais velho, jornaleiro na
Quinta de São Francisco); Fernando (andava à jorna); Evangelina (casara-se e fora viver
para Matosinhos) e Maria de Fátima (a filha mais nova). Sua esposa era a Vicência,
personagem repescada da obra queirosiana A Relíquia (obra que tem como tema a
hipocrisia religiosa e a falsidade humana, um romance que conta a história de Teodorico
Raposo, o Raposão, que faz de tudo para agradar a tia rica e herdar a sua fortuna,
fingindo-se, deste modo, de beato e que, provavelmente, terá inspirado o autor.
Libaninha (a possible allusion to the character Libaninho in O Crime do Padre
Amaro), or in his father’s account of youthful revelries in Lisbon in the company of
53
Carlos da Maia and João da Ega, two characters in Os Maias. Queiroz’s presence is
particularly felt in the use of a story‑within‑the‑story device—as in A Ilustre Casa
de Ramires, —relating Vasques’s military experience as part of the broader narrative
of his life before and after the war. (Azevedo 2011: 399)12
Proveniente de um estrato social baixo, nas trincheiras ele tornara-se o impedido
de Luís Vasques, seu alferes, uma vez que a sua função consistia em engraxar as suas
botas, mas também cuidar da roupa e da sua alimentação:
Como era ainda cedo, decidi passar pela casa do Rato. Era um dos meus melhores
soldados do meu pelotão e só tinha pena que fosse analfabeto. De outro modo, tê-loia sugerido para o curso de cabos. Mesmo assim, nomeei-o meu impedido. Tratavame do fardamento, preparava-me o café e o chá e fazia-me todos os recados dentro e
fora do quartel.’’ (Machado 2012: 41)
Nesta obra, Joaquim Domingues é comparado a um personagem do livro ‘‘Don
Quixote de La Mancha’’ porque, tal como sucede com Sancho Pança, ele é realista e
amigo fiel de seu cavaleiro andante (Dom Quixote) – neste caso, seu alferes.
Com cerca de trinta anos, fora recrutado para a guerra e salvou o seu alferes de
uma morte certa: ‘‘Disse-lhe que devia a vida àquele homem e que tudo o que eu
pudesse fazer por ele era bem menos do que aquilo que ele tinha feito por mim e sem
esperar nada em troca.’’ (Machado 2012: 71); ‘‘… e a sorte que tive em não ter sido
também morto, devido em parte à intervenção do Rato, que alvejou o alemão que se
preparava para me dar um segundo golpe de baioneta.’’ (Machado 2012: 110)
Rato era padrinho de Guiomar, cozinheira de seu alferes, com quem Luís
Vasques mantivera um caso. Aproveitando a ausência de sua esposa, numa ida à Póvoa
de Varzim, a fim de visitar a tia Generosa que se encontrava adoentada, não deixando
de ser um marialva, Vasques convida-a a dormir com ele:
Custou-me a passar a primeira noite. Voltaram-me os pesadelos sobre a guerra e por
isso, ao jantar, num impulso súbito e inexplicável, pois não sou, nem tenho
pretensões a ser, um fornicador de criadas, pedi à Guiomar para se deitar comigo.
(Machado 2012: 22)
12
Tradução: Libaninha (uma possível alusão à personagem de Libaninho em O Crime do
Padre Amaro ou na sua relação com o pai em Lisboa na companhia de Carlos da Maia e João
da Ega. Duas personagens em Os Maias. A presença de Queiroz é particularmente sentida em
A Ilustre Casa de Ramires, relatando a experiência militar de Vasques como parte da
narrativa antes e depois da guerra.
54
Mais tarde, para se desenvencilhar das preocupações e das responsabilidades,
fala com Delmiro, e convence-o a interessar-se pela mesma: ‘‘- Olha que a Guiomar é
boa rapariga e não te iria dizer que não – disse eu a atirar o barro à parede a ver se
pegava’’ (Machado 2012: 15). ‘‘Para ajudar no início da nova vida de casado e para ter
com que sustentar a mulher e os filhos que viessem, prometi dar-lhe à exploração uma
das minhas herdades, a melhor delas’’ (Machado 2012:16).
Revelam-se, na verdade, amigos inseparáveis, notando-se uma enorme
cumplicidade. Com o seu amigo Rato, Vasques conseguia falar da guerra: ‘‘Era o Rato
que animava as viagens, a falar das peripécias da guerra.’’ (Machado 2012: 34). Foi, na
verdade, Rato que o salvou de uma morte certa na guerra: ‘‘Fiquei a dever a vida ao
Rato.’’ (Machado 2012: 293)
Finda a guerra e, de regresso a Portugal, Joaquim Domingues continua a tratá-lo
por Alferes: ‘‘- Passe o meu alferes na minha casa quando sair e eu estarei à sua
espera.’’ (Machado 2012: 92). Rato acompanha Luís Vasques em todas as etapas
fulcrais da sua vida, acompanhando-o à Faculdade de Coimbra para se reinscrever
novamente e finalizar o curso de Direito (faltando-lhe apenas duas cadeiras). Também o
acompanha na visita a um velho amigo, o Manuel dos Santos (o Apúlia), que encontram
num estado lastimoso, revelando uma saúde débil devido aos malefícios da I Guerra
Mundial e tudo fazem para o ajudar. De igual modo, acompanha Vasques no
salvamento de um afogamento de um rapaz (o Paulino), irmão de Aninhas e salvo por
Rato, cujo destino fez com que Luís Vasques e Aninhas se cruzassem.
No outono de 1919, Rato e Vasques, em França, foram acolhidos por Madame
Constance Gavroche. Com Vasques, Rato sentia-se à vontade e tinha conversas íntimas.
Desta forma, Rato confessa o seu envolvimento com a mesma, após ter dedicado 20
anos da sua vida, na ferme. Tudo o que ganhara ficara no banco, em nome da senhora e,
após a sua morte, François, filho de Constance, expulsa-o de suas vidas.
Rato regressou a Portugal doente e com as mãos a abanar, sem nada. Morreu na
década de 50, encontrando-se, na altura, em 1958, Humberto Delgado na Presidência da
República. Neste passo, mais uma vez se mesclam a história e a ficção.
11. Ambos em direção a Fátima
Após o seu regresso, Vasques, juntamente com o seu amigo dirigiu-se à terra de
Fátima, pois Joaquim tinha ouvido falar do aparecimento de uma Nossa Senhora e fora
55
cumprir a promessa: ‘‘Nas Trincheiras, eu prometi à Nossa Senhora de Fátima uma vela
com o meu peso e tamanho se voltasse vivo da guerra.’’ (Machado 2012: 98)
Relembremos que Nossa Senhora de Fátima, na sexta aparição, ocorrida a 13 de outubro
de 1917, terá revelado: ‘‘A guerra vai acabar e os militares voltarão em breve para suas
casas.’’ A primeira aparição terá ocorrido a 13 de maio de 1917:
Era uma senhora vestida de branco, mais brilhante que o sol, irradiando luz mais
clara e intensa que um copo de cristal cheio de água cristalina, atravessado pelos
raios de sol mais ardente.
Sua face indescritivelmente bela, não era nem alegre e nem triste, mas séria, com ar
suave. As mãos juntas, como a rezar, apoiadas no peito e voltadas para cima. Da sua
mão direita pendia um Rosário. As vestes pareciam feitas somente de luz. A túnica e
o manto eram brancos com bordas douradas, que cobria a cabeça da Virgem Maria e
13
que lhe descia até aos pés.
Vasques é completamente descrente, embora cumpra a vontade de seu amigo e o
acompanhe nessa missão. Algumas missivas, na obra, que a seguir citamos, atestam esta
sua posição. Senão, vejamos: ‘‘De que me serviria dizer-lhe que não acreditava em
milagres e muito menos em aparições?’’ (Machado 2012: 98). ‘‘E o que li nos jornais
não me fazia acreditar que a imagem que os pequenos pastores dizem ter visto…’’
(Machado 2012:101); ‘‘A Igreja Católica soube fazer render o que os três pequenos
pastores semearam em 1917, se é que foram eles os agricultores.’’(Machado 2012: 296).
Posição semelhante sobre a religião e as aparições de Fátima é a que se verifica
em A Vendedora de Cupidos: ‘‘Eu acredito que houve uma aparição, mas acho que nada
tem a ver com a mãe de Jesus nem com a religião’’. (Machado 2010: 226).
A última aparição ocorreu no dia 13 de outubro, acudindo ao local milhares de
forasteiros e uns quantos jornalistas. Ninguém, ao que parece, conseguiu ver a
senhora, à exceção dos pequenos pastores, o que é no mínimo esquisito, mas ocorreu
um estranho fenómeno testemunhado por muita gente. (Machado 2010: 294)
O próprio autor José Leon Machado refere, na entrevista, que acredita que algo
tenha acontecido em Fátima em 1917. Em suma, poder-se-á aqui falar de
intertextualidade homoautoral, de grau médio, quando a ideologia sobre personagens e
factos se repete de idêntico modo em obras do mesmo autor.
13
In www.devotosdefatima.org.br/aparicoes.2.html
56
12. Vasques e Rato: uma verosimilhança com a obra de Miguel de
Cervantes Dom Quixote de La Mancha
Em 2005, foram comemorados 400 anos da publicação de Dom Quixote, uma
obra que partiu das sátiras aos romances de cavalaria e criou uma personagem que
acreditava que era possível ver o mundo por um outro ângulo que não fosse o restrito
olhar do cavaleiro medieval.
A narrativa de Cervantes denuncia, com humor, um código de valores que, num
período de rápidas e imensas mudanças, tornou-se ridículo e ultrapassado. O autor,
através da antítese do herói convencional, que, de muito ler os livros de cavalaria e
pouco dormir, acabou por perder o juízo, anuncia que o tempo dos cavaleiros chegava
ao fim e que o imperialismo colonial das novas terras iniciava a sua história.
O nosso herói pelas avessas é Alonso Quijano, ou Quesada, um senhor fidalgo
que adota o título de Dom Quixote de La Mancha. Dom Quixote é o cavaleiro andante,
montado no Rocinante, o seu cavalo escanzelado, que viaja pelos ermos de Castela
acompanhado do seu fiel escudeiro, Sancho Pança, munido do seu adorado burro, o
Ruço, em busca de um ideal de justiça. Montado no seu cavalo, tendo como elmo um
bacio de barbeiro e acompanhado de Sancho Pança, um pobre camponês que caiu na
tentação de um dia ser governador de uma ilha, Quixote parte para as desastradas
aventuras que marcariam a literatura ocidental. Em Memória das Estrelas sem Brilho,
Vasques cavalga no ‘‘Ruivo’’, o seu cavalo: ‘‘No dia anterior à ceia de Natal, montei o
Ruivo e fui visitar a Libaninha, a minha noiva.’’ (Machado 2012: 39)
D. Quixote e Sancho Pança dividem as páginas da literatura e constroem, na
imaginação dos leitores, uma dupla que se tornou referência de amizade e de
convivência da fantasia com a realidade: ‘‘O Rato era um pândego’’. (Machado 2012:
151).
Segundo o crítico Milton Azevedo, Vasques e Rato apresentam características
similares à dupla de Cervantes, porquanto fiéis companheiros de guerra e amigos
inseparáveis são o retrato da sociedade portuguesa daquela época:
Like a dyad in the manner of Don Quixote and Sancho Pança, they can be seen as a
metaphorically standing for two faces of Portuguese society: a cultivated upperclass
man clinging to his social status while timidly questioning the political regime, and
an uneducated peasant struggling to get ahead by its wits in an environment he
cannot afford to change directly.’’ (Azevedo 2011: 399)14
14
Tradução: Como uma discussão à maneira de Dom Quixote e Sancho Pança, eles podem ser
vistos de uma forma metafórica representando as duas faces da sociedade portuguesa: uma
57
14. O perfil físico e psicológico das mulheres retratadas por Vasques
O que seria um romance histórico sem a componente do amor, um amor que
completa a essência do ser humano preenchendo todas as dimensões que o define
enquanto ser racional e que dá sentido à sua existência humana?
Este romance contém os ingredientes que despertam, no leitor, a importância
para a sensualidade e o erotismo da mulher. São amores encontrados e desencontrados,
paixões, traições, vivências que nos aprisionam neste mundo ficcional de personagens.
Ao longo da obra, Vasques, sendo um marialva, faz uma descrição física, e não
só, de todas as mulheres com quem ele se envolvera na sua mocidade, já casado e nas
suas andanças pelos estaminés de França. Logo no I Capítulo do romance, Vasques
envolve-se com Guiomar, sua cozinheira:
Era uma rapariga a caminho dos vinte e cinco anos, um pouco desajeitada nos
gestos, fruto da educação e do ambiente rústico em que vivera durante a infância.
Tinha a pele muito branca, os olhos grandes e azuis. O cabelo castanho alongava-se
em duas tranças. Era sólida, de anca larga e peito vasto. (Machado 2012:12)
Depois de a descrever fisicamente, revela os sentimentos que nele provoca:
‘‘ Não era uma mulher sedutora, mas o seu aspeto rústico não deixava de me atrair.’’
(Machado 2012: 13). Esta, mais tarde, casar-se-á com Delmiro, jornaleiro na
propriedade de seus pais e filho de Rato.
Refere-se também à sua ex-noiva, Libânia Maria Perrini Fontoura e Azevedo:
‘‘…Dona Libânia, minha ex-noiva, muito digna, muito altiva e muito seca.’’
(Machado 2012:279); ‘‘O cabelo era negro e ondeado, a pele tinha um bronzeado
natural, herdado certamente da mãe, os olhos eram escuros e os lábios carnudos.’’
(Machado 2012: 360)
Libânia residia na Quinta de Santa Madalena. Seu pai, sr. Arnaldo Fontoura e
Azevedo emigrara para o Brasil e, após ter enriquecido, regressara a Portugal. Sua
mãe, Dona Eleutéria, era brasileira de gema.
Para a criação de Libânia, o autor José Leon Machado inspirou-se na
personagem ‘‘Libaninho’’, um beato fofoqueiro e efeminado, retratado na obra O
Crime do Padre Amaro, publicado em 1875, por Eça de Queirós.
classe superior cultivada em que o homem depende do seu estatuto social e questiona
subtilmente o regime político e um camponês mal-educado lutando para seguir em frente com
o seu testemunho num ambiente que não pode esperar uma mudança repentina.
58
Vasques, com vinte anos, e Libaninha, com dezanove, tinham-se tornado
noivos. Após Vasques ter ido para a guerra, Libânia desmanchou o noivado sob
pressão dos pais. Já casada, e após Vasques ter regressado da guerra, voltaram a
reencontrar-se e vivenciaram uma tarde escaldante de prazer, em Braga.
Aninhas era uma mulher culta, pois revelava um gosto peculiar por romances
de autores franceses e por coletâneas de poetas portugueses da moda, como António
Nobre e Guerra Junqueiro, mas também romântica: ‘‘Há os dias de nevoeiro e de
chuva. E nesses dias, a melancolia por vezes é tanta, que nos dá a tentação de nos
lançarmos ao rio como a Ofélia de Hamlet. ’’(Machado 2012: 249)
Em casa, Aninhas possuía o livro Vita christi, um dos primeiros livros
impressos em Língua Portuguesa e também sabia um pouco de latim. Proveniente de
gente honesta, era demasiado moderna, com a mania da independência, da liberdade e
da igualdade das mulheres. No entanto, era conservadora: ‘‘Mas sabes, eu fui educada
a pensar que estas coisas só se devem fazer depois do casamento.’’ (Machado 2012:
309); ‘‘Ela riu-se e pude admirar-lhe os dentes brancos e alinhados, coisa rara em
raparigas portuguesas.’’ (Machado 2012:128); ‘‘Ela era uma católica mais ou menos
praticante, mas com muitas dúvidas de fé.’’ (Machado 2012:296); ‘‘Ela acha que o
lugar das mulheres não é só na cozinha ou na sala-de-estar a fazer bordado.’’
(Machado 2012:307)
A Dona Maria das Dores, sua senhoria em Coimbra, foi outra mulher com
quem ele manteve um relacionamento, enquanto Aninhas se fazia passar por difícil,
devido à ética religiosa vigente: ‘‘Era uma senhora que, apesar de andar na casa dos
trinta, tinha uma cara bonita e mimosa, o cabelo negro comprido e um pescoço que era
a perdição de qualquer homem.’’(Machado 2012: 311).
Madame Constance Gavroche, a mulher que lhe oferecera alojamento, aquando
a sua estadia nas terras da Flandres é também apreciada pelas qualidades físicas: ‘ ‘ O
cabelo comprido e ondeado, os olhos azuis, a pele branca e lisa, a silhueta elegante e o
porte faziam dela uma mulher bastante atraente’’ (Machado 2012:171).
59
PARTE IV
CAPÍTULO IV
ASPETOS IDENTITÁRIOS DO
PORTUGAL DE INÍCIOS DO SÉC.XX
NA OBRA
Memória das Estrelas sem Brilho
60
1. Portugal e o retrato do país
Portugal era um dos países menos mecanizados da Europa: ‘‘Portugal, em
1917, vivia tecnologicamente no século passado e mentalmente no século XVII, ou até
mais para trás.’’(Machado 2012: 42-43) Vários problemas subsistiam naquela época,
nomeadamente a falta de bens essenciais. A taxa de mortalidade era elevada, a
emigração intensificou-se e houve um aumento de pilhagens nas grandes cidades:
‘‘Em 1919, quase quarenta mil portugueses abandonaram o país em busca de melhores
condições de vida.’’ (Machado 2012:305)
O povo da terra tentava subsistir da agricultura, mas o seu esforço era em vão,
tendo em conta que não possuía uma mecanização que lhe permitisse alcançar os
objetivos desejados.
2. A liberdade de imprensa
Vasques criticava os republicanos, pois censuravam a publicação de ‘‘Os
Jornais Monárquicos’’: ‘‘Lembro-me de ele me dizer em 1919 que o jornal, devido a
greves sucessivas dos tipógrafos, uma classe ideologicamente controlada pelos
republicanos, estivera cerca de sete meses sem publicação’’ (Machado 2012: 33).
Seu pai, como monárquico, assinava o jornal por lhe parecer o mais isento de
todos os que se publicavam naquela altura. O seu pai lia, naquele tempo, o jornal A
Monarquia. Tratava-se de um jornal ligado ao integralismo lusitano cujo diretor, o
Conde de Monsaraz, fora amigo de seu pai nas andanças de Lisboa. Um outro jornal de
tendência oposta é também referenciado no romance.
Fundado em finais de 1880, no rescaldo das comemorações do tricentenário da
morte de Camões, ‘‘O Século’’, na sua fase inicial (1880-1896), empenhou-se,
principalmente, na afirmação do projeto republicano. Foi seu diretor, o jornalista e
advogado, Sebastião Magalhães Lima: ‘‘… nomeadamente O Século, jornal republicano
e de tendências anticlericais, …’’ (Machado 2012: 295).
No que concerne as publicações, a liberdade de imprensa não fazia parte da
tradição portuguesa. Mesmo durante o tempo dos regimes liberais, como o republicano,
a liberdade de informação e de opinião era, cuidadosamente, controlada.
Nas vésperas da implantação da República, o teatro em Portugal, incluindo o
género designado por “teatro de revista”, confrontava-se com vários dilemas,
61
nomeadamente, a penúria de atores, a ausência de público ou a ação da censura que
coagia e limitava os autores.
A designada “lei da rolha” de Lopo Vaz, imposta em 1890, foi aplicada durante
a ditadura de João Franco (1907-1908), sendo proibidas diversas peças por “problemas
morais”. Tratava-se de uma lei dura e dirigida “aos espetáculos públicos e
representações teatrais que contivessem ofensas contra as instituições do Estado ou
contra os seus representantes ou agentes, incitamento ao crime, críticas injuriosas ao
sistema monárquico representativo, caricaturas ou imitações pessoais, referências
diretas a qualquer homem público ou pessoa particular ou ofensas contra o pudor e a
moral pública” e que concedia poderes à autoridade administrativa para “proibir a
continuação do espetáculo na primeira representação ou em qualquer outro momento”.
(Rebello 1988: 65)
No novo regime, os principais líderes políticos regressam aos palcos e são
submetidos a críticas severas. Afonso Costa, Bernardino Machado, António José de
Almeida, Brito Camacho, e muitos outros, voltam a estar na mira dos talentosos
“revisteiros” que se afirmam nesse período de ouro. Nos 16 anos da I República, a
censura não existia em termos teóricos, apesar de terem sido proibidas diversas peças e
não apenas durante o período da “Censura de Guerra”. As autoridades policiais faziam
questão de marcar presença no ensaio geral e nos espetáculos, para além de
representantes do Governo Civil, que zelavam pelos “aspetos consignados numa lei do
tempo da monarquia, mas que continua ainda em vigor” (Bastos; Glória; Vasconcelos,
Ana Isabel apud Rebelo: 1988:22).
Para a apresentação pública, as autoridades exigiam um pedido de autorização e,
mesmo depois de concedida, a mesma implicava um “Visto” no cartaz. É no decorrer do
período sidonista que se vai intensificar a pressão do poder político, sucedendo-se as
proibições após a primeira ou primeiras representações.
Durante a I República, o Governador Civil “era, por inerência, o Inspetor-geral
dos Teatros”, possuindo a função de autorizar ou recusar a representação de peças nos
teatros públicos de Lisboa. Desta forma, exigia-se, para proteção dos direitos de autor,
que o pedido de autorização fosse acompanhado de uma carta escrita pelo próprio, com
assinatura reconhecida no notário, cedendo os direitos para aquela representação”
(Bastos; Vasconcelos apud Rebelo: 1988:63).
Com a I Guerra Mundial, é instaurada a censura a 12 de março de 1916, na
sequência da declaração de guerra por parte da Alemanha. Foi dada a ordem de
62
apreensão de todos os documentos cuja publicação pudesse prejudicar a defesa nacional
ou que fosse constituída por propaganda contra a guerra:
[…] O público vai ao teatro passar a noite. O teatro aqui não é uma curiosidade de
espírito, é um ócio de domingo. O lisboeta, como não tem salões – porque os não há
– toma uma cadeira da plateia – porque estas se vendem. Põe-se a melhor gravata, as
senhoras penteiam-se, e é uma sala, uma soirée, um raout, ou mais nacionalmente
uma assembleia – com uma grande vantagem sobre um salão – não se conversa.
Conversar para o português é um perigo, uma dificuldade, um transe […] Daí que
vantagem! No teatro pode-se mostrar a toilette, namorar, passar a noite – e não se
conversa! Sucede ainda que em Portugal ninguém recebe e ninguém é recebido:
porque se não tem dinheiro, nem espírito, nem sociabilidade, nem curiosidade, nem
mobília; porque antes de tudo cada um prefere o doce egoísmo aferrolhado, trancado
do cada um em sua casa. O teatro é a substituição barata disto: é um salão calado – e
comprado no bilheteiro […]. (Ortigão 1871:304-305)
Os decretos de 1926, e mais tarde a Constituição de 1933, não trouxeram
alterações. Em 1932, Salazar, enquanto Presidente do Conselho de Ministros, em
entrevista a António Ferro, declara: ‘‘O jornal é o alimento intelectual do povo e deve
ser controlado como os outros alimentos.’’
15
Os abusos da imprensa são reprimidos
severamente. Para o ‘‘bem’’ da nação, o princípio da liberdade deve ser controlado pela
censura. De facto, estas ‘‘leis especiais’’ baseavam-se na distinção clássica entre
liberdade e autorização. A liberdade existia, mas devia estar controlada. Tudo o que era
considerado perversão da opinião pública, enquanto força social, e tudo o que pudesse
prejudicar a integridade moral do cidadão era proibido. Assim, nenhum dos
trabalhadores da imprensa, do diretor ao distribuidor, escapava à censura. O governo
exercia a censura prévia, aplicando aos jornais o célebre lápis azul.
Desta forma, a censura proibia, em primeiro lugar, os assuntos que pudessem
prejudicar o equilíbrio social da nação ou o equilíbrio moral dos indivíduos, tais como
os crimes passionais, os atentados ou as greves. Quando a censura entregava os textos
inspecionados, tinha de se fazer tudo de novo e estas eram as consequências,
nomeadamente, aumento dos preços de produção, atraso nos prazos de distribuição,
multas a pagar e despedimento de profissionais.
Quando surge a publicação do Jornal República Portuguesa, este apresenta-se
como um jornal de combate, ‘‘inteiramente e desassombradamente revolucionário’’. Os
problemas sociais não figuram entre o seu ideário, mas a linguagem agressiva e
15
In http://srec.azores.gov.pt/dre/sd
63
empolada dos ataques ao rei e à monarquia ganham rapidamente adeptos na população
das cidades e entre a gente jovem.
Resta-nos dizer que o retrato sociocultural que se desenha no romance coincide
de modo verosímil com o real. Pelos interstícios do fingimento poético, é respeitada a
realidade histórica.
3. Alferes: a nova realidade de Vasques
Frequentando uma Escola de Oficiais, no Porto, com apenas três meses de
instrução, Vasques fora graduado alferes e destacado para Braga. A sua missão, no
regimento, em Braga, era a de preparar um pelotão de trinta recrutas e partir para
Flandres.
Preparando-se para partir, Luís Vasques apronta a sua bagagem e leva alguns
dos seus livros, nomeadamente, uma pequena edição de Os Lusíadas de Luís Vaz de
Camões, O Só de António Nobre ‘‘o livro mais triste que há em Portugal, já dizia o
poeta António Nobre’’. Talvez pensando na sua ida sem volta, Vasques leva esta obra
de um poeta pessimista, obcecado pela morte, como o traduzem temas bem retratados
nos seus textos (‘‘Morte’’, ‘‘Quando chegar a hora’’ e ‘‘Balada do Caixão’’). Além
destes, acompanham a sua bagagem A Jornada Romântica de João Crave (publicada em
1912) e o In Illo Tempore de Trindade Coelho. Vasques leva este último, tendo em
conta que o livro evoca cenas da vida académica e o ambiente da cidade de Coimbra,
para se recordar dos seus bons tempos estudantis, aquando a sua passagem por esta
cidade.
Luís Vasques, ao preparar os seus homens, notara que os mesmos não tinham
habilitações académicas, contabilizando um ou dois que sabiam ler ou escrever: ‘‘Havia
apenas três que sabiam ler e desses apenas um sabia escrever.’’ (Machado 2012: 35).
‘‘O analfabetismo, a má educação e a selvajaria dos nossos soldados impressionavamme.’’ (Machado 2012:86) ‘‘O analfabetismo no nosso batalhão, e estou convencido de
que nos outros a situação não era diferente, ultrapassava os oitenta por cento.’’
(Machado 2012:119) Nos seus tempos livres, os soldados escreviam cartas, seguindo
um padrão único, não possuindo uma coerência textual e em que os sinais de pontuação
eram totalmente ignorados. Vejamos um exemplo da estrutura de uma carta:
Hoje arresorbi te escrever estas duas letras pra que tu saibas e fiques descansada que
eu me encontro de saúde graças Adeus tenho a te cuntar que onte um dos meus
camaradas fez anos tomei me dos copos apanhei uma puta de cerbeja e binho que
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inda hoje ando um bocado tonto da cabeça mas só assim é que consegue uma pessoa
passar este tempo pruque se num fosse assim andaba triste por me incuntrar loinge
da minha família assim bebendo uns copos de bez in cando é que nós conseguimos
lubar isto… (Machado 2012:119)
Os poucos soldados que sabiam ler e escrever, os cabos e os sargentos, eram
solicitados para esse serviço, pago ao preço de dois maços de tabaco Abdulla.
Conforme o regulamento do CEP, as cartas, antes de serem expedidas, tinham que
passar pelo comandante do pelotão, que as censurava, não fosse ir nelas alguma
informação confidencial:
Conforme o regulamento do CEP, as cartas, antes de serem expedidas, tinham de
passar pelo comandante do pelotão, que as censurava, não fosse vir nelas alguma
informação confidencial. Estava interdito falar das nossas posições, do armamento,
dos nomes dos oficiais, dos movimentos das tropas e mais uma quantidade de
pormenores que, a serem levados à risca, dificilmente alguém conseguiria escrever
uma carta que dissesse alguma coisa de interessante. (Machado 2012: 119)
Para além desta circunstância, a farda dos seus homens era pobre, pouco os
protegeria de um país bastante frio, e o equipamento militar era rudimentar: ‘‘O quartel
dispunha de espingardas do século passado, enormes e pesadas, muitas delas de carregar
pela boca e quase nenhuma a funcionar.’’ (Machado 2012:37)
Naquela guerra, as pessoas refugiavam as suas mágoas no álcool, procurando
algum carinho e conforto nas casas das meninas francesas, tal como decorrera na casa
da Madame Constance Gravoche, onde Vasques e Joaquim viveram momentos
ternurentos e inesquecíveis:
Eu subi ao quarto, despi as roupas do dono da casa e pendurei-as nas costas da
cadeira. (…) Deitei-me e, enquanto esperei, senti-me um pouco apreensivo.
Escrúpulos, talvez. Mas se a madame não os tinha, ou momentaneamente os pusera
de parte, porque haveria eu de não fazer o mesmo? Afinal o marido era mais certo
que estivesse morto. E se não estivesse, quem em tempo de guerra iria preocupar-se
com minudências morais? (Machado 2012:265)
4. Preparação para a Grande Guerra: tempo e espaço
Em Memória das Estrelas sem Brilho, no início de outubro de 1916,
decorrera o juramento do batalhão. Os jovens soldados preparavam-se para partir em
direção a Tancos e participar nos exercícios conjuntos da Divisão de Instrução
comandada pelo General Tamagnini. Regressaram a Braga em meados de novembro,
exaustos, devido à falta de condições e ao excesso dos exercícios militares e, em
65
finais de janeiro de 1917, partiram para França, os primeiros batalhões portugueses.
Em abril, no regimento a que pertencia, Vasques recebeu ordem para preparar o
batalhão expedicionário para a partida. De comboio, dirigiram-se para Lisboa e
aportaram na Estação de Alcântara-Mar. Mais tarde, numa viagem que durara três
dias, embarcaram de Lisboa e chegaram ao Porto de Brest. Outras viagens
sucederam-se:
Logo que o batalhão se instalou, o comboio partiu, atravessando a Bretanha em
direção a Rennes, um pouco a sul, e depois para o norte. Atravessámos a Normandia
até Rouen, a Picardia até Amiens e finalmente chegámos a Calais, na Flandres.
(Machado 2012: 88)
O comboio que tomaram em Brest parou na Estação de Laval e, mais tarde,
na Estação de Wizernes, às 15 horas. Marcharam 15 quilómetros até ao local de
acantonamento, uma aldeola chamada Wismes. O batalhão passou o mês de maio,
em Wismes.
Grande parte dos oficiais e sargentos, fora, entretanto, enviada para as escolas
das especialidades perto de Enguinegatte, a vinte quilómetros de Wismes. A
instrução era dada por oficiais portugueses que tinham acabado de a receber dos
ingleses. Chegaram a Enguinegatte a 1 de junho. Em Enguinegatte, Vasques dera
instrução aos seus homens sobre manejo da espingarda, de granadas de mão, esgrima
de baioneta e utilização da máscara antigás. No decorrer do mês de junho, o batalhão
passou oito dias na Escola de Instrução de Marthes. Mais tarde, tiveram de regressar
a Mametz para a segunda instrução de gases, desta vez com os capuzes, utilizados em
ataques com gás asfixiante. Em meados de julho, o batalhão recebeu ordem de
abandonar Enguinegatte e seguiu para a Frente. O batalhão foi transportado em
camiões do exército britânico até Sally-sur-la Lys. Depois de três dias passados nas
trincheiras, subordinados às ordens de um comandante de batalhão inglês, a
companhia retirou-se já de noite para Sally-sur-la-Lys e pernoitou em Bac-St-Maur.
O seu batalhão ficara acantonado em L’Epinette entre finais de julho e finais
de setembro como reserva do CEP. No último dia de julho, estavam no campo de
instrução em Pacault, onde decorrera a batalha de Passchendaele. Poucos dias
depois do início de agosto, a sua companhia marchara para Neuve-Chapelle com o
objetivo de proceder a trabalhos de reparação nas trincheiras.
66
Em meados de agosto de 1917, o seu batalhão recebeu ordem para ir para
Sally-sur-la-Lys onde teria seis dias de instrução no subsetor de Boutillerie,
pertencente a Fleurbaix. Entre o fim de setembro e o fim daquele ano, o seu batalhão
esteve alternadamente uma semana na linha de apoio do setor de Pein-Mariage e
uma semana na 1ª linha do setor de Ferme du Bois II. O seu batalhão encontrava-se
na linha de apoio do Sanechal, três quilómetros atrás do setor de Ferme du Bois.
Dias depois do natal de 1917, o batalhão entrou de novo na 1.ª linha. No dia
30 de dezembro, três meses depois da entrada efetiva na linha da frente, o batalhão
saiu das trincheiras e partiu para o acantonamento de Paradis, a quatro quilómetros
de Lestrem, ficando como reserva divisionária e ficaram até início de fevereiro.
Posteriormente, permaneceram no acantonamento de Flubersent, o resto do mês de
abril e grande parte do mês de maio. Em meados de maio, a Brigada do Minho
deslocou-se para o campo da II Divisão em Ambleuteuse. O batalhão partiu para a
região de Herbelles e cerca de um mês depois para Forêt de Nieppre.
5. A situação política do país
Do imenso império asiático do séc. XVI, restavam apenas alguns fragmentos de
terra, nomeadamente, Macau, metade de Timor e alguns territórios de importância
menor, como Goa, Damão e Diu. Mas, em África, Portugal possuía, ainda, Angola,
Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Cabo Verde. Portugal era o terceiro
maior império colonial do mundo, depois da Inglaterra e da França.
Depois da Conferência de Berlim, a Alemanha esforçou-se por constituir um
império colonial, à semelhança de Inglaterra e da França, que historicamente haviam
tido acesso ao domínio de vastas zonas fora da europa. A Alemanha explorava a
possibilidade de se estabelecer em territórios pertencentes aos países europeus de menor
dimensão, nomeadamente, a Bélgica e Portugal.
No caso de Portugal, a Alemanha tinha evidentes vantagens e inconvenientes
para o seu plano. As vantagens advinham-lhe do facto de Portugal se encontrar
embaraçado com problemas económicos e financeiros. Os inconvenientes filiavam-se
essencialmente na circunstância de Portugal e a Inglaterra se encontrarem ligados por
uma aliança, que fazia deste último país o verdadeiro guardião da integridade do
império colonial português.
67
Por parte da Inglaterra, existia a vontade de satisfazer a Alemanha nas suas
necessidades coloniais em África, mas existia também a aliança com Portugal,
reafirmada em 1899, que impedia o acordo sem a salvaguarda dos interesses do seu
aliado. Por parte da Alemanha, existia a necessidade de expansão colonial, mas, acima
disso, estava o projeto de desenvolvimento naval.
Portugal vivia sob a direção política do rei D. Carlos e a monarquia deparava-se
com uma crise político-social e consequente crise económico-financeira. Esta última
conduziu à falência de empresas e de bancos, ao aumento da inflação, dos impostos e ao
aumento do custo de vida. Perante tantas adversidades, o Estado não cumpriu com o
pagamento das suas dívidas, tendo em conta que a família real gastava mais do que
recebia do próprio Estado.
Em novembro de 1906, o governo de João Franco propôs, no Parlamento, uma
solução financeira para as dívidas da família real em relação ao Estado, decorrentes das
suas despesas excessivas (em diversos anos) face ao que se encontrava inscrito nos
orçamentos. A imprensa, republicana mas não só, que transmitia amiúde a imagem de
D. Carlos como um monarca esbanjador e mesmo dissoluto, encontrava mais um facto
para atacar a monarquia. Os republicanos, pela voz do deputado Afonso Costa,
reclamavam, mesmo no Parlamento, a abdicação do rei.
Em 1906, o rei D. Carlos quis conter a onda de agitação crescente e dominar a
turbulência da vida parlamentar. Entregou o governo a João Franco e dissolveu o
parlamento. O novo governante afastou-se muito da linha de tolerância até então usada
para com os republicanos e ordenou fechar jornais, impondo restrições à liberdade de
imprensa e procedeu a numerosas prisões.
Com o fim da monarquia, a 1 de fevereiro de 1908, a família real é alvo de um
ataque, quando regressava a Lisboa, vinda de Vila Viçosa. Dois homens, Manuel Buíça,
que esconde uma carabina, e Alfredo Costa, com um revólver pronto (ambos
pertencentes à Carbonária, uma sociedade secreta revolucionária, anticlerical, defensora
da liberdade que queria a República e o desaparecimento do rei, acabam com a
monarquia. Morreram D. Carlos (o Diplomata) e o príncipe herdeiro, D. Luís Filipe e,
com eles mortos, a Monarquia que tinha durado quase oitocentos anos.
Em 3 de outubro de 1910, eclodiu, finalmente, a revolta republicana, que já toda
a gente esperava. A República saiu vitoriosa a 5 de outubro de 1910 e, proclamada no
meio de delirante entusiasmo popular, não teve tempo para solucionar os problemas
principais que se lhe depararam e muito menos preparar o país para a guerra.
68
O Partido Republicano, fundado em 1876, a partir de 1880, tornou-se o partido
mais importante da oposição. Surgiu, em alvoroço, querendo defender o progresso, a
liberdade e a justiça, sendo um partido constituído por intelectuais (diplomados
universitários,
professores),
profissionais
liberais,
comerciantes,
industriais,
funcionários e proletariado urbano. Entre os seus fundadores destacou-se Teófilo Braga.
Nas vésperas da I Guerra Mundial, as colónias portuguesas eram constituídas,
em África, pelas ilhas de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, Guiné, Angola e
Moçambique e, no extremo Oriente, pela Índia Portuguesa (Goa, Damão e Diu), Macau
e Timor.
A administração portuguesa carecia de medidas de fundo que pudessem
impulsionar o desenvolvimento da colónia. A República compreendeu essa necessidade,
ao definir como seus principais objetivos coloniais, para além da integridade, a
descentralização e a autonomia.
Ao aproximar-se a I Guerra Mundial, Portugal possuía extensos territórios
coloniais, cuja soberania preservara, apesar das dificuldades crescentes e das cobiças de
várias origens. A política internacional portuguesa estava condicionada por três
componentes principais, nomeadamente as relações com a Espanha, a aliança com a
Inglaterra e a questão colonial. (Otlet 1916:410)
Perante tal panorama político, o Partido Republicano ganhou mais adeptos. Sem
outra solução à vista o país aderiu a esta nova realidade. Com a implantação da
República, na agricultura surgiu uma maior mecanização, mas este setor continuou
atrasado. Relativamente à indústria, notou-se um desenvolvimento do setor têxtil
(moagem, metalurgia, conservas, cortiça, química e cimentos). Nos transportes, houve
um desenvolvimento das vias de comunicação (caminhos-de-ferro, automóveis,
camionetas e camiões). Contudo, a economia continuou atrasada.
Ao nível da instrução e da cultura, com a implantação da I República, instituiuse a escolaridade obrigatória dos 7 aos 10 anos, desenvolveu-se o ensino técnico,
criaram-se as universidades de Lisboa e Porto, reorganizou-se a de Coimbra, abriram-se
jardins-escola, museus e bibliotecas. Malgrado estas medidas, a taxa de analfabetismo
pouco se alterou.
A nível social, instituiu-se o direito à greve, o trabalho infantil foi proibido, o
horário de trabalho, em 1919, foi fixado para 8 horas por dia, seis dias por semana. Foi
instituído o divórcio, o casamento civil passou a ser válido, criaram-se instituições de
proteção à velhice e à infância, e reconheceu-se a igualdade dos direitos da mulher. No
69
entanto, as dificuldades da I República repercutiram-se numa instabilidade política,
numa insegurança pública, e consequente agitação social, bem como nos graves
problemas financeiros, agravados pela participação de Portugal na guerra.
Outro fator apontado como tendo contribuído para a vitória da República, em
Portugal, foi a terciarização, trazida pela referida industrialização, que levou ao
desenvolvimento das profissões liberais ou ao nascimento de uma nova classe urbana,
culta, esclarecida, consciente a qual veio a ser a base do Republicanismo. Desta
maneira, nas duas principais cidades de um país com cerca de 75% de analfabetos, com
um sistema político que restringia o voto aos homens, maiores de 21 anos, que
soubessem ler e escrever e que pagassem certa quantia de impostos, começaram a
fervilhar classes emergentes que queriam participação política.
Entre as promessas feitas pelo Partido Republicano, destacam-se duas – a ideia
de uma regeneração democratizante, herdeira da Revolução Francesa e a vontade de
transformar o súbdito em cidadão, através de uma educação que permitisse a libertação
daquilo a que se chamava obscurantismo clerical. Assim, prometia-se a cada cidadão,
um voto porque a soberania residia no povo e defendia-se o fim do caciquismo, do
rotativismo e da oligarquia do sistema monárquico liberal.
Uma vez no poder, os republicanos acabaram por comprometer a longevidade da
1ª República, ao cometer quatro erros graves. Em primeiro lugar, nunca foi realizada a
promessa de democratização ao restringir-se o direito de sufrágio aos cidadãos
masculinos, maiores de 21 anos, que soubessem ler e escrever.
A primeira lei eleitoral republicana, de 5 de abril de 1911, restringia o direito de
voto aos que já fossem chefes de família há mais de um ano, excluindo, desta forma, um
considerável grupo de indivíduos da competência eleitoral. Negou-se, assim, o voto a
todos os chefes de família analfabetos, às mulheres, a grande parte dos militares no
ativo e a todos os que fossem condenados na justiça, alienados, falidos ou indigentes. O
objetivo era limitar o direito de voto ao eleitorado urbano letrado, negando-o às massas
rurais, uma vez que no primeiro mandavam os republicanos e no segundo a Igreja
Católica. O resultado foi um enorme retrocesso democrático e o cumprimento da
pretensão de Afonso Costa.
O segundo erro da 1ª República foi o anticlericalismo cego, ao tentar, não só
separar a Igreja do Estado, mas, acima de tudo, fazer com que o poder político tutelasse
a Igreja Católica. Com este objetivo traçado, a 1ª República desprezou esta instituição
ao proibir as procissões públicas, o uso de vestes religiosas, por parte dos membros da
70
Igreja, em locais públicos, ao encerrar conventos, ao interrogar padres, ao expulsar
bispos, ao expropriar as suas alfaias agrícolas e ao acabar com os feriados religiosos. A
1ª República foi longe demais na interferência e domínio da Igreja, comprou uma das
suas grandes “guerras”, o que permitiu que a segunda tirasse daí proveito político. A
Santa Sé cortou relações com Portugal e a Igreja Portuguesa respondeu aos ataques,
apelando ao voto nos partidos defensores dos valores católicos.
Em 1977, acontece o “Milagre de Fátima’’: ‘‘A pequena azinheira tinha sido
cortada até ao cepo pelos peregrinos que acreditavam no poder milagroso das suas
folhas e dos seus ramos. No local estava a ser construída uma capela a que ainda faltava
a porta e o remate da cornija.’’ (Machado 2012: 100)
A Igreja que inicialmente se mostra cautelosa em relação ao fenómeno
aproveita-se dele para “recristianizar” o país. A Igreja Católica, não só não sai destruída
da 1ª República, como também sai dela reforçada.
Em termos de desaires, a 1ª República não ficou por aqui e acabou por trair as
promessas sociais que tinha feito ao operariado, nas quais este acreditou. A reforma
social adequada nunca se fez – legalizou-se o direito à greve, mas sempre que o
movimento operário se manifestava era violentamente reprimido com despedimentos de
grevistas, prisões, deportações, julgamentos sem culpa formada e, até, mortes. Limitouse o horário de trabalho para 8 horas, mas nunca se obrigou a entidade patronal a
respeitar esta limitação.
Ninguém foi capaz de compreender as razões que levaram um país, quase sem
indústria e com uma dívida pública gigantesca, a participar num conflito de tão grande
envergadura: ‘‘Que estávamos nós ali a fazer? Que ideias nos guiavam? Em nome de
que é que lutávamos? Para defender o quê? (Machado 2012: 236).
Eis os relatos claros deste contexto social na obra de Leon Machado que
traduzem alguns erros da história na sua evolução cronológica:
Os republiqueiros, entre muitos outros disparates que disseram e escreveram acerca
do desastre de La Lys, atribuíram as culpas aos soldados portugueses, que estavam
mal preparados, que eram uns cobardes e que, em vez de enfrentarem o inimigo de
peito aberto, fugiram com o rabo entre as pernas. Os soldados portugueses não eram
em nada inferiores a quaisquer outros que combatiam na frente ocidental, bem pelo
contrário. (Machado 2012: 216)
71
E, mais adiante, acrescenta:
Os republicanos, em geral, eram uns peralvilhos emproados que levaram o país
àquilo que ele hoje é, desde o assassinato do rei e do príncipe herdeiro, passando
pelo golpe de estado de 1910 e por todas as revoltas e contrarrevoltas que assolaram
a sofredora terra de Portugal até 1926, altura em que o General Gomes da Costa
decidiu pôr cobro à balbúrdia e à reinação republicana com uma ditadura. (Machado
2012:223)
Aproveitando os desaires cometidos, apareceram os defensores de um sistema
autoritário, que acaba por triunfar em 1926, o qual minou a liberdade em Portugal até
1974. Pode considerar-se a 1ª República como um projeto falhado, uma “porta aberta”
a uma esperança que não se cumpriu.
6. Os ideais de Vasques
Luís Vasques, desde o tempo da faculdade, apresentava tendências monárquicas
e repudiava os republicanos: ‘‘Logo que cheguei a Coimbra e porque me juntei a um
grupo de estudantes de tendências monárquicas, a que os republicanos chamavam
talassas, os esbirros não perderam tempo a identificar-me com essa facção política.’’
(Machado 2012: 31).
O próprio alojamento numa república de estudantes contrariava a lógica da
família: ‘‘Os meus pais sempre se opuseram a que eu me hospedasse numa das
repúblicas de estudantes, frequentadas quase todas por antimonárquicos, extremistas de
esquerda, anarcas ou simpatizantes de associações secretas. ’’ (Machado 2012:223).
Esta família ficcional representa uma fação da sociedade epocal de ideais neomonárquicos e integralistas, que efetivamente existiu nas primeiras décadas do século
XX, e que teve à cabeça homens da estatura intelectual de um António Sardinha (Soares
2007: 59-82).
7. Os criticados por Vasques
O General Gomes da Costa, o General Fernando Tamagnini, João Chagas, o
General Simas Machado, Bernardino Machado, Norton de Matos, Sidónio Pais, entre
outros são abordados nesta obra, mas todos são criticados por Vasques, pois
envolveram-se numa guerra que em nada beneficiou um país que, noutros tempos,
vivera momentos gloriosos, nos mares do mundo.
O General Gomes da Costa, tendo assumido, em janeiro de 1913, a chefia de
um governo exclusivamente confinado aos apoios do Partido Democrático, foi o
72
grande obreiro da separação entre o Estado e a Igreja. A lei da separação, da autoria
deste, fez com que a República tivesse cortado com tradições de há muito enraizadas
no país, afrontando o estatuto da Igreja católica, a quem imputava visível
responsabilidade no atraso socioeconómico e mental patenteada pela população
portuguesa.
Em 1916, defendeu a entrada de Portugal na Grande Guerra e a 1.ª brigada do
CEP foi comandada por ele: ‘‘O governo da chamada União Sagrada ordenou de
imediato o recrutamento geral.’’ (Machado 2012:31) ‘‘É o Afonso Costa um dos
responsáveis pela ditadura em que vivemos.’’ (Machado 2012:36).
Mais tarde, em oposição ao Estado novo, exilou-se em Paris e, em 1917, foi
destituído pelo golpe de Sidónio Pais.
Tamagnini, oficial de artilharia, fora o general escolhido para comandar a
divisão de instrução mobilizado em Tancos. O CEP percorreu o país, acompanhado de
um grupo de militares (nomeadamente o General Gomes da Costa), com a missão de
vigiar e controlar as marchas das unidades para o cais de embarque de forma a realizarse o sonho ‘‘guerrista’’ do governo democrático: ‘‘general Tamagnini, em que
justificava a nossa partida para a guerra pelo facto de a honra dos portugueses ter sido
ultrajada pelos inimigos.’’ (Machado 2012:43)
O General Douglas Haig foi o comandante britânico na I Guerra Mundial. Em
agosto de 1914, quando a guerra começou, Haig foi o general comandante do primeiro
corpo do exército: ‘‘- Sim, estou mesmo a ver o Foch e o Douglas Haig, com a
assinatura ao canto inferior direito do nosso Tamagnini, a mandarem uma carte-lettre de
boas festas ao Hidenburg e ao Ludendorff a solicitar uma trégua…’’(Machado 2012:
317)
João Pinheiro Chagas, embaixador de Portugal, em Paris, entre 1911 e 1923, foi
diplomata e político português, tendo sido um dos mais ativos oponentes da ditadura
de João Franco, entre 1906 e 1908: ‘‘…o João Chagas, esse biltre com ares de filósofo,
que estava por detrás da declaração de guerra da Alemanha e da consequente
organização da expedição portuguesa às lamas da Flandres.’’ (Machado 2012: 36).
O General Simas Machado, em 1917, fora nomeado comandante da 2.ª Divisão
do Corpo Expedicionário Português, e servira a França, em 1917 até abril de 1918:
‘‘…a mim pareceu-me um tipo arrancado a uma secretaria a quem impuseram as
estrelas à pressa.’’ (Machado 201:58)
73
Bernardino Machado fora eleito chefe de estado a 6 de agosto de 1915, forte
apoiante da política de guerra de Afonso Costa:
Quando em 7 de agosto o ministério a que presidia o Dr. Bernardino Machado
apresentou às Câmaras a proposta para que Portugal acompanhasse a sua velha e fiel
aliada, não fez mais do que pedir-lhe uma sanção, um assentimento que as
disposições constitucionais tornavam obrigatório para adotarmos uma conduta
nacional, a que de facto, por circunstância alguma poderíamos eximir-nos. (Olavo
2010-2012: 4)
Os partidos políticos eram responsabilizados pela crise geral e reclamava-se um
governo autoritário capaz de restabelecer a paz interna e externa. Esse estado de espírito
da maioria dos elementos pertencentes à classe média conduziu ao golpe militar de
Sidónio Pais que se apoderou do governo, fez-se eleger Presidente da República e
modificou ditatorialmente a Constituição no sentido presidencialista.
Em 1917, o major Sidónio Pais apoderou-se revolucionariamente do poder.
Sidónio Pais fora o antigo ministro em Berlim e pusera fim ao governo corrupto
de Afonso Costa. Infelizmente, Sidónio Pais não conseguiu trazer o CEP e os soldados
foram chacinados na Batalha de La Lys:
-O Sidónio era um vaidoseco pretensioso que percebia pouco de política e nada de
economia. Eu votei nele, confesso. Sempre era melhor do que essa corja que tem
delapidado o país. Foi vítima da sua visão ingénua da realidade portuguesa. Poderia
ter sobrevivido se se tivesse rodeado de pessoas competentes. Rodeou-se de
militares que sabiam tanto como ele. (Machado 2012: 269)
Sobre o acontecimento político que veio pôr cobro à decadência, a uma crise
profunda que se vivia em Portugal, “nas encruzilhadas do século XX” (Soares 2007:13),
o romance de Leon Machado toma posição. Vejamos: ‘‘No início de dezembro, deu-se
uma sublevação militar encabeçada por Sidónio Pais, pondo fim ao governo corrupto de
Afonso Costa.’’ (Machado 2012: 293)
Para agravar a situação, o recém-formado governo de Sidónio Pais deixou de prover
o CEP com novas tropas e desse modo as baixas por morte, doença, prisão ou
deserção não eram repostas. Estávamos entregues a nós próprios e à sorte da guerra.
(Machado 2012: 335).
Mais tarde, o mesmo foi assassinado em dezembro de 1918.
Norton de Matos, Ministro da Guerra, foi o responsável pela organização do
CEP, no centro de instrução em Tancos:
74
Tinha sido dada ordem pelo Ministro da Guerra, esse outro criminoso que foi Norton
de Matos, um urso vestido de coronel, que todos os comandantes de regimento
doutrinassem as tropas, numa tentativa de levantar a moral e fazê-las entender que o
seu sacrifício não seria em vão (Machado 2012: 36).
8. Salazar no poder
Em 1928, a questão financeira tornou-se muito aguda. Nessa emergência, foi
chamado ao governo e nomeado Ministro das Finanças um catedrático da Universidade
de Coimbra, que ali gozava de grande prestígio como professor de Finanças, o Dr.
António de Oliveira Salazar. Durante quarenta anos (de 1928 até 1968), foi ele o
orientador da vida política portuguesa sob todos os aspetos. A sua visão do mundo era
essencialmente nacionalista, conservadora e camponesa.
Salazar, por um lado, opunha-se ao governo parlamentar e às organizações
partidárias que considerava puramente demagógicas e que, na sua opinião, impediam a
realização dos interesses nacionais. Salazar via no comunismo uma ameaça à civilização
e admitia que as soluções oferecidas pela doutrina social da Igreja podiam resolver as
questões sociais.
O seu poder foi denominado de várias formas. Ele próprio chamou-lhe
República Corporativa e Democracia Orgânica e os seus inimigos chamaram-lhe
Ditadura Imperialista e Fascista. Como Ministro das Finanças, conseguiu rapidamente
equilibrar o orçamento, pagar as dívidas externas, estabilizar o valor da moeda nacional
e reorganizar e disciplinar os serviços da administração financeira.
Salazar, em 1930, apresentou ao país o programa da União Nacional. Neste
intento, muitos monárquicos lobrigaram, na Legião Nacional, a possibilidade de uma
restauração monárquica.
Salazar foi a figura mais destacada do Centro Católico, o que foi uma excelente
oportunidade para a ditadura formalizar um acordo com a igreja e alargar a sua base de
apoio. Como estadista pretendia salvar a economia e as finanças, sacrificando o
liberalismo.
Em Memória das Estrelas sem Brilho, Salazar fora o professor de Economia
Política e de Finanças de Vasques, em 1919, na Faculdade de Direito, em Coimbra.
Salazar simpatizara com Vasques talvez por este ter sido seu aluno e ter participado na
Grande Guerra: ‘‘Devia também uma carta ao professor Oliveira Salazar a propósito do
75
convite que me fizera para integrar o Centro Católico Português, mas precisava de falar
com o meu pai acerca disso.’’ (Machado 2012: 268)
Segundo o pai de Vasques, Salazar demonstrava possuir ambições políticas por
ter desejado fazer parte do Centro Católico Português.
Salazar desempenhou vários cargos políticos, nomeadamente, Ministro das
Finanças (até 1940), Ministro das Colónias (1936-1964) e Ministro da Guerra e dos
Negócios Estrangeiros (1936-1946).
Os aspetos mais salientes da governação foram, no plano interno, a
reorganização geral da administração e do estado no sentido da centralização, e a
realização de grandes planos de obras públicas e de fomento económico. No plano
externo, a defesa da independência contra a tutela inglesa, o capital estrangeiro e os
conflitos europeus, e a luta militar e diplomática pela conservação dos direitos do
ultramar. E assim, manteve-se no exercício daquele cargo até 1968, tendo, por diversas
vezes, recusado a eleição para Presidente da República.
Podem enumerar-se as seguintes características essenciais do Estado Novo
Português, que em listagem são mais percetíveis:
1. O culto do chefe era Salazar;
2. Uma ideologia com forte componente religiosa, associando-se o regime à
Igreja católica;
3. Uma aversão ao liberalismo político;
4. Um serviço de censura prévia às publicações periódicas, emissões de rádio e
de televisão, e de fiscalização de livros nacionais e estrangeiros, velando,
permanentemente, pela pureza doutrinária das ideias expostas e pela defesa
da moral e dos bons costumes;
5. Uma polícia política (PYDE, mais tarde PIDE e no final do regime DGS),
PIDE omnipresente e detentora de grande poder;
6. Um projeto nacionalista e colonial que pretendeu manter sob domínio
nacional vastos territórios dispersos por vários continentes, ‘‘do Minho a
Timor’’, alimentando, desta forma, uma guerra colonial (1961-1974);
7. Um discurso e uma prática anticomunistas que levaram Salazar, por um lado,
a assinar um pacto com a vizinha Espanha franquista e, por outro, a hesitar
entre o eixo e as democracias durante a II Guerra Mundial;
76
8. Uma economia governada por acordos constituídos por homens sombra do
governo, detentores de grandes privilégios, fechada ao exterior, receosa da
inovação e do desenvolvimento, que admitiria a entrada de dinheiros
estrangeiros numa fase tardia da história do regime;
9. Um forte controlo sobre o movimento sindical, apertado nas malhas de um
sistema corporativo que procurou conciliar, harmoniosamente, os interesses
do operariado e do patronato.16
Salazar tanto fora aliado dos ingleses, como simpatizava com Hitler com a sua
política nacionalista, patriótica e totalitária: ‘‘Embora eu soubesse que o homem era
germanista e tinha boas relações com o governo alemão, eu não acreditava que ele o
viesse a fazer. (…) Havia quem dissesse que, face às germanófilas do Sidónio, …
’’(Machado 2012: 293).
9. Ícones representativos da sociedade
9.1. A moeda de 4 centavos
Ao contrário de seus homens que tinham levado o Sagrado Coração de Jesus
para as trinche iras, e este tornara-se no seu amuleto, Vasques, certo dia, na estação do
Porto, já dentro do comboio, recebe o troco do bilhete e observa o rosto cunhado de uma
mulher numa moeda de 4 centavos e compara-a à mulher que ali avistara. Somente se
desfaz dela no dia do seu casamento.
Desta forma, a história de uma moeda de quatro centavos, a mais bonita que a I
República mandou cunhar e que serviu de consolo a um soldado na lama das trincheiras,
na falta de mulher em carne e osso, desempenhou um papel importante na longa jornada
de Luís Vasques.
Figuras 4 e 5: Moeda de quatro centavos
16
In https://www.google.pt/#q=O+culto+do+chefe+era+salazar%2C+caracter%C3%ADsticas+do+estado
77
Esta moeda foi cunhada duas vezes, em 1917 (data da sua ida para Flandres) e
em 1919 (data do seu regresso à sua terra natal). Esta circunstância, na realidade, de facto
é notória em vários passos da ficção. Assim, na estação:
Paguei o meu com uma moeda de cinquenta centavos. No troco, recebi uma moeda
de quatro centavos, certamente acabada de sair da forja, pois cintilava. Já no
comboio, sentado ao lado do Nogueira, rolei-a nos dedos. Era prateada e do lado da
cara tinha o busto de uma jovem a representar a República que andava representada
noutras moedas, sobretudo nas de um escudo e de cinquenta centavos, e que tinha
um aspeto demasiado masculino. (…) Entre elas chamou-me a atenção uma rapariga
com um vestido em tom de rosa e chapéu de fita verde. Era bela a rapariga. O rosto,
que eu via de perfil, era assombrosamente idêntico ao da moeda. (…) Guardei a
moeda de quatro centavos no bolso esquerdo do dólman… (Machado 2012: 64).
Em outro passo do texto, torna-se conhecimento de que, após três dias de
navegação, o barco chegou à baía de Brest. E o herói relembra o ícone da moeda de
quatro centavos: ‘‘Lembrei-me da moeda de quatro centavos e retirei-a do bolso
esquerdo do dólman. Rodeia-a nos dedos, senti-lhe a lisura das partes polidas e o relevo
do rosto da rapariga que representava a República.’’ (Machado 2012: 84)
A mesma moeda é evocada aquando do seu reencontro com Aninhas, numa
praia, na Póvoa do Varzim: ‘‘Seria ela a rapariga dos quatro centavos, ou era
alucinação minha por ter estado a apanhar sol?’’ (Machado 2012:105). O retrato
impresso na moeda, a lembrar Aninhas ressurge na narrativa, num passo em casa da
Dona Generosa – tia de Aninhas: ‘‘Vista de perfil, tinha um rosto admirável, o rosto
que eu tantas vezes contemplara e afagara na moeda de quatro centavos.’’ (Machado
2012:133)
Obsessivamente ligado à imagem de Aninhas e da moeda retoma o ícone na
Quinta de São Francisco, quando se preparava para os exames: ‘‘Porque não tinha o
retrato da Aninhas, procurei a velha moeda dos quatro centavos no bolso e demoreime a observar o busto da rapariga, acariciando-o com o indicador.’’ (Machado 2012:
206)
A moeda de quatro centavos figura mesmo como amuleto.
Chegado de Coimbra, decide pernoitar no Porto: ‘‘Eu procurei a moeda de
quatro centavos na carteira e rodei-a entre os dedos.’’ (Machado 2012: 241) ‘‘Estive
para lhe dizer que fora ela, na imagem de uma moeda de quatro centavos, que me
guardara dos perigos de guerra.’’ (Machado 2012: 250). A personagem apenas se
liberta dessa moeda no dia do seu casamento: ‘‘Quando o acólito por altura do
78
peditório durante a missa, passou por mim, deixei-a cair no cesto das esmolas.’’
(Machado 2012:403)
Na obra Memória das Estrelas sem Brilho, há a simbologia ligada à moeda de
quatro centavos, que efetivamente existiu, conforme verificamos na figura supra, e que
ainda hoje é um ícone da época.
9.1.1.2. O selo e a Deusa Ceres
Os selos, nos primeiros anos da República, foram uma das armas utilizadas pelos
republicanos para fazer chegar à população os seus ideais e tornar mais conhecidos os
seus dirigentes.
A primeira série de selos republicanos foi lançada em 1912, recebendo o título
de Ceres, figurando a deusa grega Ceres, deusa das plantas e do amor paternal:17
Figura 6: O selo e a Deusa Ceres18
José Leon Machado refere-se a este selo em Memória das Estrelas sem Brilho.
Senão vejamos:
O sobrescrito da Aninhas era comprido e tinha um selo carimbado no Porto,
representando a deusa Ceres com uma foicinha na mão. Esta deusa foi a única
estampa nos selos da época, variando apenas a cor, conforme o valor monetário. (…)
Os republiqueiros identificavam a deusa com o regime. Era a deusa da República,
que se contrapunha a uma senhora que uns pastorinhos afirmavam ter visto em
Fátima. (Machado 2012: 203)
10. A medalha do Sagrado Coração de Jesus/Senhora das Candeias
Antes da partida, os soldados receberam a medalha do Sagrado Coração de Jesus
para sua proteção:
17
18
In http://cemanosderepublica.blogspot.pt/2010/05/os-selos-nos-primeiros-anos-da.html
In http://www.google.pt/search?q=o+selo:+a+deusa+ceres&source
79
Andaram umas piedosas senhoras a agraciar os soldados com a medalha do Sagrado
Coração de Jesus em ferro inoxidável, próprio para uso nas trincheiras, e com a
pagela da Senhora das Candeias, ambas muito milagreiras e grandes protetoras em
momentos de aflição. (Machado 2012: 63)
A invocação de Nossa Senhora das Candeias ou Nossa Senhora da Purificação
remonta aos primórdios do Cristianismo. Segundo o preceito da lei mosaica, todo filho
varão deveria ser apresentado no templo quarenta dias após o seu nascimento. A mãe,
considerada impura após o nascimento, deveria ser purificada numa cerimónia especial.
Nossa Senhora, submetendo-se a esta determinação, apresentou-se com o Menino Jesus
no recinto sagrado dos judeus.
Em Portugal, a devoção à Virgem das Candeias ou da Purificação já existe desde
o século XIII, quando uma imagem era venerada, em Lisboa, na paróquia de São
Julião.19 Esta festividade dos luzeiros foi denominada "das candeias", porque
comemorava-se o trajeto de Maria ao templo, com uma procissão, na qual
acompanhantes levavam, na mão, velas acesas.
Vasques, no entanto, não quer levar consigo nenhuma medalha e agarra-se
unicamente ao seu amuleto da sorte, a moeda de 4 centavos, que atrás referimos.
Descrente e sem convicções políticas, diz: ‘‘Para mim, o único Cristo verdadeiro é o das
Trincheiras, de pés e braços estropiados, já sem cruz, atado ao tronco de um choupo
ferido por um morteiro’’ (Machado 2012:424).
11. Linguagem popular
A linguagem exerce um papel importante na sociedade. É através desta poderosa
ferramenta linguística que o homem, no seu meio envolvente, estabelece as suas
relações sociais, retrata o conhecimento de si próprio e do mundo no qual está inserido.
Pela linguagem, podemos reconhecer e diferenciar os estratos sociais.
O falar das classes populares com reiteração de frases feitas, provérbios,
palavras e expressões aforismáticas, do povo e característico das suas aldeias, representa
um papel essencial, no decorrer do romance.
A linguagem é, para o autor, um elemento expressivo do estrato social, do
ambiente e das personagens. A palavra é indissociável do homem. O próprio Deus criou
19
In http://www.prestservi.com.br/diaconoalfredo/titulos_maria/c/candeias.htm
80
o mundo através de palavras: ‘‘Faça-se luz’’ (Machado 2009:13) conforme está
expresso na narrativa.
Em Memória das Estrelas sem Brilho, José Leon Machado destaca o povo
através do uso frequente de uma linguagem popular, ditados populares tão
característicos desta classe e das aldeias de onde as personagens são oriundas, fazendo
com que o leitor se envolva nesta apaixonante rusticidade: ‘‘A Igreja proíbe o
casamento porque diz que é no cesto.’’ (Machado 2012: 16); ‘‘Tenho cá na minha que
ele arranjou por lá alguma lambisgoia francesa e, com a sua licença, mete-lhe no cu
tudo o que ganha’’ (Machado 2012: 397). Nota-se, no autor, um gosto peculiar pelo
registo da língua popular, sobretudo para dar veracidade às personagens do povo: ‘‘Ou
está a mangar comigo,…’’, ‘‘Sempre ouvi dizer que o fogo ao pé da palha…’’,
‘‘Prometo pelas cinco chagas…’’ ‘‘-Não me fio disso sr. Doutor’’ (Machado 2012:11);
‘‘… a atirar o barro à parede a ver se pegava.’’ (Machado 2012: 15), ‘‘… a meter a
torneira no pipo.’’ (Machado 2012:16), ‘‘De outra guisa, posso espantar a perdiz.’’
(Machado 2012:17), ‘‘… e só regressa muito depois das trindades.’’ (Machado
2012:48), ‘‘Mas sempre haverá um mocho para se sentar um cibo.’’ (Machado 2012:
50), ‘‘… a não ser os ossos que tenho um molho por mor da viagem de comboio.
(Machado 2012:66), ‘‘vai segar as couves para lhe botar.’’ (Machado 2012: 74),
‘‘Alguns já andam tesos como carapaus fritos.’’ (Machado 2012: 85), ‘‘… e não lhes
dava cavaco.’’ (Machado 2012:115), ‘‘Bota lá o calor’’ (Machado 2012: 137).
O registo popular é na verdade mais veemente e verosímil, quando são
colocados em cena intervenientes ou personagens dessa classe social. Além disso, a
impressão do real é um facto a que o romance histórico nunca está alheio.
81
PARTE V
CAPÍTULO V
INTERTEXTUALIDADES
82
1. A Vendedora de Cupidos: II Trilogia
No seguimento da obra Memória das Estrelas sem Brilho (I Trilogia), um outro
romance faz parte da II trilogia, sendo a sua continuação: A Vendedora de Cupidos que
aborda o período da II Grande Guerra Mundial. O romance retrata o período entre 1943
e 1945, estando o mundo a assistir à II.ª Guerra Mundial, que Luís Vasques, em
Memória das Estrelas sem Brilho, já previa:
O mundo prepara-se para uma nova guerra, esta provavelmente bem mais terrível. A
Alemanha rearmou-se e Hitler aguarda o mais pequeno pretexto para a iniciar. Uma
das fortes razões será a dos alemães tirarem a desforra pela humilhação sofrida na
primeira, ao serem obrigados a assinar o armistício. (Machado 2010: 27)
Portugal, embora não estivesse diretamente envolvido, pelo menos, não à escala
do que sucedera na I.ª Guerra Mundial, vivia sob o medo de voltar a ver os seus homens
partirem para mais uma guerra. Desde 1910 que empresas portuguesas e alemãs
exploravam as minas de volfrâmio, metal necessário na indústria de armamento. Com o
início da Guerra, o Instituto de Geologia e Minas concedeu alvarás de exploração a
empresas inglesas. Enquanto na Europa e em África ingleses e alemães lutavam e se
matavam, em Portugal, eram exploradas as minas de volfrâmio. Finalmente, a 12 de
junho de 1944, Salazar, por Decreto-Lei, ordenou a suspensão da exploração do
volfrâmio e proibiu a sua exportação e circulação, acabando assim com a pressão
exercida pelo Terceiro Reich e pelos aliados.
Neste romance de mistério, o autor recupera algumas das personagens
referenciadas no anterior romance – Memória das Estrelas sem Brilho -, nomeadamente
o Fontes, o Tibães e o Rato – soldados que participaram na Guerra das Trincheiras e que
sobreviveram ao ataque da Batalha de La Lys, ocorrida a 9 de abril de 1918:
Apareceu o sargento Rosado, o Frossos, o Tenões, o Encourados, o Cabanelas, o
Padim, o Rendufe, o Lomar, o Panoias, o Semelhe, o Tibães, o Rato, todos aqueles
que regressaram da Flandres em 1919 e que as doenças e a morte iam poupando.
(Machado 2012: 432).
E, mais adiante, acrescenta:
Lembraram-se quadras inventadas nas trincheiras, que gozavam com os boches, o
comandante do batalhão, o capitão Mija-Forte, o sargento-ajudante Caga-Baixo, os
palmípedes e os cachapins, os ratos e a lama, as más condições de higiene e o
corned-beef. (Machado 2012: 434).
83
A obra, além de prolongar cronologicamente a anterior, tanto mais que é a segunda
de uma trilogia, estabelece com a primeira (o principal objeto do nosso estudo), relações
intertextuais homo-autorais no grau máximo, quando recupera personagens que
reinventa de novo.
2. O Mutilado de João Grave
Em Memória das Estrelas sem Brilho, há uma referência a esta obra, tendo em
conta que a mesma retrata a dura realidade de um ex-combatente que, supostamente,
estivera na Guerra das Trincheiras:
Ofereci-lhe um livro que tinha acabado de sair e que ela se mostrou interessada em
ler: O Mutilado de João Grave. Era a história de um tipo que vai para a Flandres e,
quando regressa mutilado devido a um ferimento, constata que a noiva o tinha
trocado por outro. Tanto quanto sabia, o João Grave não esteve nas trincheiras e o
que sobre elas escreveu ouviu-o de outros. (Machado 2012: 252)
Este romance, publicado em 1918, relata a triste realidade de um alferes que
vivenciou, na pele, a Grande Guerra. Tal como muitos outros jovens, Duarte, aos
dezanove anos de idade, teve que abandonar a Faculdade de Matemática (em Coimbra),
e respetiva noiva (Eugénia) e, numa fase posterior, fora recrutado para a Guerra das
Trincheiras. Na altura, frequentava o seu 3º ano, e recebera uma carta para se apresentar
numa escola de oficiais milicianos. Tornara-se, tal como Luís Vasques, alferes.
Aceitando a dura realidade que o esperava, Duarte sentia orgulho pela sua gente,
pelo seu país pequenino que, em tempos longínquos, fora um país conquistador e que
alcançara muitas glórias. Julgava ele que Portugal se poderia notabilizar na consciência
europeia: um pensamento, contudo, levaria consigo o cheiro a cravos que tanto adorava.
Duarte, que venerava a França, não só pela cultura mas também por toda a sua
arquitetura e história, sentia-se dilacerado:
– E é por isso que eu amo cada vez mais a França e desejo o seu triunfo, que será a
vitória da liberdade e do direito, sem negar à Alemanha as suas virtudes intelectuais
e artísticas, mais poderosas do que os exércitos com que o império germânico
pretendeu escravizar a Europa e impor o domínio alemão. (Grave 2010-2012: 21).
Duarte deparou-se com uma França destruída, irreconhecível, perdida no meio
de tantos escombros e passou a menosprezar os oficiais franceses e ingleses,
84
responsáveis pela instrução do exército português, porque se achavam superiores. O
mesmo aconteceu com Vasques em Memória das Estrelas sem Brilho: ‘‘Embora não se
possa fazer de um inglês um amigo, pois são pessoas demasiado calculistas,…’’
(Machado 2012: 83), ‘‘Além disso eram uns brutos com as mulheres.’’ (Machado 2012:
167)
Entretanto, numa linha de combate, Duarte é ferido gravemente, fica mutilado e
regressa a Portugal, numa carruagem repleta de feridos de guerra, num ambiente
desolador. A realidade que o esperava foi devastadora. A sua noiva tinha-o abandonado
e o seu amigo Vitorino morrera em combate.
3. A Filha do Capitão de José Rodrigues dos Santos
Antes de terminar o seu romance, José Leon Machado leu a obra A Filha do
Capitão de José Rodrigues dos Santos, tendo referido, numa entrevista realizada a 27
de fevereiro de 2013 (Ver anexo II), que o livro é bastante fiel ao que se passou nas
trincheiras, mas que, do ponto de vista literário, é medíocre e refere que Luís
Vasques faz uma alusão a certos indivíduos que se gabam de dormir com baronesas,
o que é uma crítica mais ou menos velada ao romance do José Rodrigues dos Santos,
que coloca a personagem principal, a envolver-se com uma baronesa.
José Rodrigues dos Santos, na sua obra A Filha do Capitão, editada em 2004,
aborda a participação portuguesa na I Guerra Mundial, sob a égide de uma grande
paixão em tempo de guerra. É uma obra que se divide em duas partes. A parte um
intitula-se ‘‘Afonso e Agnés’’, e a parte dois ‘‘Flandres’’. É pois um romance
composto por 634 páginas, verificando-se, apenas na segunda parte, uma alusão de
pura homenagem a soldados que, ao lado do exército português, lutaram nas
trincheiras da Flandres.
Afonso da Silva Brandão nasceu a 7 de março de 1890 e é a figura central do
romance, filho de gente humilde e nascido na Carrachana (vila ribatejana de Rio
Maior), num meio pobre e rural, que teve a oportunidade que muitos da sua geração e
do seu meio não tiveram. Afonso estudou para padre, apesar de mais tarde ser
expulso, seguindo os estudos e a sua preparação para oficial do exército, carreira que
se revelou mais positiva para Afonso do que a da batina. Era o sexto filho da sra.
Mariana Silva André, que fora mãe deste aos 45 anos. Seu pai chamava-se Rafael
Brandão Laureano e era jornaleiro. Ambos projetavam, neste filho, uma esperança,
85
pois António, seu irmão, morrera de tuberculose, quando cumpria serviço militar na
Marinha de Guerra.
Afonso conhece Agnés, nascida a 2 de outubro de 1891, de quem teve uma
filha. Sua mãe, de nome Michelle Chevalier, e seu pai, Paul Chevalier, moravam na
Rue du Palais Rihour.
Nesta obra, José Rodrigues dos Santos faz alusão a Schopenhauer, filósofo
ateu e pessimista. Em Memória das Estrelas sem Brilho, Vasques também lê apenas
livros que o deprimem:
Ele achava que não foi Deus que criou o homem à sua imagem, mas o homem quem
criou’’. Schopenhauer rejeitou a própria ideia de alma, dizendo que todo o
conhecimento está no cérebro e não no espírito. Ele considerava que o mundo não
tem significado, não tem propósito, existe por si mesmo, ou seja, o mundo não tem
sentido, nós é que lhe atribuímos um sentido, nós é que lhe inventamos um sentido
para nos reconfortarmos. (Santos 2004: 84-89)
Outro autor com o qual José Leon Machado estabelece paragramatismo é Eça
de Queirós. Em A Cidade e as Serras de Eça de Queirós, Jacinto, personagem
principal, começou a mostrar, claramente, o tédio de que a existência o saturava,
caindo, desta forma, no pessimismo: ‘‘O Pessimismo que aparecera na Inteligência
do meu Príncipe como um conceito elegante – atacara bruscamente a Vontade!
(Queirós s/d: 98)
Nesta obra, o leitor vivencia o Portugal de finais do séc. XIX e princípios do
séc. XX, desde a ruralidade da pobreza do interior marcadas pela forte influência da
religião católica, aos novos acontecimentos que Lisboa vê surgir, tal como acontece
em Memória das Estrelas sem Brilho. Exemplos disso, o primeiro automóvel, ou o
primeiro cinematógrafo.
Charlie Chaplin (1889-1970)20, o mais famoso artista cinematográfico da era
do cinema mudo, que ficou notabilizado pelas suas mímicas e comédias do género
pastelão, é referenciado, por diversas vezes, em Memória das Estrelas sem Brilho:
‘‘-Aquele fininho de bigode à Charlot – explicou o Rato.’’ (Machado 2012: 176);
20
Cuja personagem que mais marcou a sua carreira foi "O Vagabundo" (The Tramp), um
andarilho pobretão com as maneiras refinadas e a dignidade de um cavalheiro, vestido com
um casaco esgarçado, calças e sapatos desgastados e mais largos que o seu número, um
chapéu coco, uma bengala e seu marcante bigode, inserido no contexto sociocultural da
época.
86
O segundo filme era do Charlie Chaplin. Tinha sido um filme muito falado desde o
ano anterior, mas eu nunca o tinha visto. Intitulava-se Charlot Soldado, ou Charlot
vai à Guerra. Começa com o Charlot a receber instrução de ordem unida e com o
sargento a passar-lhe um raspanete pelo facto de ele não conseguir acompanhar os
restantes camaradas de pelotão. O Rato, pensei, gostaria de ver aquele filme. Rimonos com as inabilidades militares do Charlot, até ele se deitar na tenda de campanha
e adormecer. (Machado 2012: 253)
Mais adiante no romance, de novo é referido Charlie Chaplin na sua personagem
mais marcante: ‘‘Por essa altura vimos O Vagabundo, uma comédia do Charlie
Chaplin que muito nos divertiu.’’ (Machado 2012:307) Da mesma forma,
encontramos referências alusivas a marcas de automóveis usados naquela época: ‘‘E
foi então que o meu pai se lembrou de me oferecer um automóvel, um Minerva de
quatro lugares fabricado em 1913 na Bélgica.’’ (Machado 2012:34).
Em A Filha do Capitão, em poucas semanas, toda a Europa se encontrou
dividida entre dois blocos dirigentes. Portugal juntar-se-ia, mais tarde, aos chamados
aliados, liderados pela França e Grã-Bretanha, altura em que Afonso será chamado a
participar diretamente na ação, integrado no CEP, enviado para a França por um
governo sequioso de reconhecimento internacional, na sequência da traumatizante
Revolução Republicana.
Em Memória das Estrelas sem Brilho, no Capítulo XII, José Leon Machado
faz uma alusão crítica à obra A Filha do Capitão. Agnés por ter enviuvado muito
cedo casa-se com um barão e envolve-se, no período da guerra, com Afonso:
…arranjou na Flandres uma baronesa rica e bonita que vivia num castelo e que a
visitava todos os dias; que se passeava no carro dela para as trincheiras para inveja
dos generais; que a visitara na sua companhia a cidade de Paris várias vezes e que
ela lhe pagava jantares regados com champagne nos melhores restaurantes. Que
depois, quando voltou, a baronesa o viera visitar ao porto e que estavam a ponto de
casar. (Machado 2012: 202)
4. Raul Brandão em Memória das Estrelas sem Brilho
O existencialismo, como conceção filosófica, orientou a produção literária de
escritores de grande projeção no séc. XX, como é o caso, em Portugal, de Virgílio
Ferreira. Na França, esta vertente literária teve particular importância através de
escritores e filósofos de prestígio como Sartre, Merleau-Ponty, Camus e outros.
O existencialismo centra toda a sua reflexão sobre a existência humana
considerada em seu aspeto particular, individual e concreta. A origem da filosofia
87
existencial está no advento do Cristianismo porque ele traz como permissa a ideia de
um Deus pessoal, responsável pela existência das coisas, do homem e de todo o
universo, o absoluto. Para o existencialismo, o privilégio do homem é o caráter
consciente ou existencial.
No momento em que Raul Brandão se mantinha ocupado com a escrita de
Húmus , diversos fatores contribuíram para compor um quadro histórico desolador.
Assistia-se ao estilhaçamento das formas de pensar; presenciava-se à carnificina
gerada pela Primeira Guerra Mundial, diluíam-se as esperanças e instalava-se a
incerteza diante do futuro. As bases das crenças mais genuínas e singelas ruíam,
deixando desnudo o homem e sentia-se o vazio de Deus. Muitos valores cristãos
eram negados, o sentido da vida era arrebatado e instalava-se o desespero.
É reagindo contra a visão mecanicista do universo e contra a frieza
organicista do cientificismo que Húmus se impõe como obra de profundo valor
existencial, instaurando uma breve reflexão acerca do ser, do mundo, do cosmos e de
Deus.
Nesta obra, Raul Brandão questiona o sentido da vida e da morte: ‘‘E agora a
morte não existe, Deus não existe, a vida eterna não existe.’’ (Brandão 1986: 111);
‘‘Preciso de um Deus que me atenda e me escute, que saiba que sofro e que me veja
sofrer.’’ (Brandão 1986: 112), ‘‘É por isso que eu teimo que a Morte não tem só
cinco letras, mas o mais belo, o mais tremendo, o mais profundo dos
mistérios.’’(Brandão 1986: 191).
A relação entre a guerra e a dialética da vida e da morte em Húmus é
evidente. Escrita em 1916 e publicada em 1917 que, por acaso, coincide com a ida
dos nossos soldados portugueses para a Guerra das Trincheiras, na Flandres, esta
obra retrata toda a tensão da guerra em andamento, embora Raul Brandão não tenha
participado nela.
No último capítulo de Húmus, ‘‘Vêm aí os desgraçados’’, Raul Brandão faz
uma leitura da guerra, na qual não falta grande dose de ironia e uma crítica violenta: ‘
‘‘Por toda a parte desesperos, lágrimas inúteis, urros de besta, saciados, por toda a
parte sangue, álcool, clarões e incêndio. O homem regressa à conversa e aniquila a
inteligência, a dor e a dúvida… (Brandão 1986:187).
A guerra nulifica o ser enquanto pessoa, seja porque varre o homem do seu
espaço e do seu tempo, seja porque o reduz à categoria de animal aluado. Ela destrói
sonhos, esperanças e perspetivas de realizações. O seu maior poder destrutivo,
88
porém, relaciona-se ao próprio conceito de morte.
A relação entre a guerra e a dialética da vida e da morte em Húmus é
evidente. A obra retrata toda a tensão da guerra em andamento. Ela destrói sonhos e
esperanças. Em Húmus, a consciência da morte, aliada à indiferença de Deus, torna a
vida absoluta. Para Luís Vasques ‘‘viver é sofrer’’. Ele lê muitos dos retóricos que
retratam o pessimismo e daí a influência de Schopenhauer estar presente na sua ótica
perante a realidade envolvente:
Talvez eu na minha juventude tivesse lido demasiado autores mórbidos e
pessimistas. Ou talvez fosse o meu modo de ser, já de si melancólico, exacerbado
pela experiência da guerra, essa destruidora de corpos e almas. (Machado 2012: 432)
Recorda, por várias vezes, o espólio de bronze que recebera, onde dizia:‘‘ Mit
Got fur koinig und Vaterland’’, ou seja, ‘‘Com Deus, para o rei e pela pátria.’’
(Machado 2012:13) ‘‘Estamos aqui todos à espera da morte!’’ (Machado 2012:14).
Esta afirmação revela a consciência do homem como ser para a morte.
Em Húmus, a consciência da morte, aliada à indiferença de Deus, torna a vida
absurda:
Na realidade, morrer é absurdo. Nunca me capacitei a sério que tivesse que morrer.
Morrer é estúpido. Não compreendo a morte e, por mais que desvio o olhar, prendome sempre a essa hora extrema … o fim lógico da vida é não morrer, é viver
sempre. Até onde? Até Deus. (Brandão 1986: 37- 41).
Existe uma filosofia existencial que confere pleno sentido à vida, ao estar
aqui, ao estar no mundo e ao ser para a morte, porque o ser, na obra, é concebido
exatamente como o existencialismo o concebe. O homem não é apenas um animal,
mas existe, e existente pensa no mundo e o interpreta em toda a sua totalidade.
A filosofia existencial de Húmus assume lugar justamente no ponto de tensão
entre o existencialismo ateu e o existencialismo cristão, ou seja, na dúvida da
existência do Ente Supremo: ‘‘Nenhum de nós sabe o que existe e o que não existe.’’
(Machado 2012: 24).
Logo no primeiro capítulo desta obra, Vasques, na sua poltrona, lê Húmus de
Raul Brandão: ‘‘Só a insignificância nos permite viver.’’ (Machado 2010: 13) ‘‘O
amor, pensei, criava homens; a guerra, dor e morte’’ (Machado 2012: 299). Embora
Vasques diga que o livro o deprima, ele continua a lê-lo.
Na obra Memória das Estrelas sem Brilho, julgamos que o autor foi bastante
89
reflexivo e filosófico ao abordar Húmus de Raul Brandão. A guerra atormenta a
mente e o espírito da personagem principal, os sonhos perturbam-no, para além de
pôr em causa a existência de Deus. Vejamos as citações que o ilustram: ‘‘Voltaramme os pesadelos sobre a guerra…’’ (Machado 2012:11), Há um sonho que se repete e
que me deixa um sabor a sangue na boca.’’ (Machado 2012: 22) ‘‘De que me serviria
dizer-lhe que não acreditava em milagres e muito menos em aparições? (Machado
2012: 98). ‘‘A Igreja Católica soube bem render o que os três pequenos pastores
semearam em 1917, se é que foram eles os agricultores.’’ (Machado 2012: 296)
As inquietações espirituais da personagem principal e a questão metafísica da
existência de Deus são, de facto, um aspeto a não descurar no romance. Vejamos o
seguinte excerto ilustrativo:
Não sei se Cristo ressuscitou ou não, nem isso é uma coisa que me preocupe. Para
mim, o único Cristo verdadeiro é o das Trincheiras, de pés e braços estropiados, já
sem cruz, atado ao tronco de um choupo ferido por um morteiro. Um soneto de
Régio que fala na cruz de um Deus vencido enquanto ao longe as turbas bravas
levantavam ao ar fumo e alarido é a descrição perfeita do meu Cristo.’’ (Machado
2012: 424).
Luís Vasques tinha uma visão ingénua, pois tratava-se de um indivíduo que só
via o que estava dentro da sociedade e não lobrigava para o seu exterior, refugiando-se
nos livros, constituindo estes um meio condutor para a tentativa da compreensão da
realidade. Em A morte do palhaço e O mistério da árvore, podemos ver esta
verosimilhança: ‘‘O drama de K. Maurício foi este – ter vivido tudo e nunca ter vivido;
ter conhecido a vida através dos livros e não saber dar um passo na vida. Habituar-se a
sonhar e ter medo de viver.’’ (Brandão 1916: 10).
5. Eça de Queirós: A Ilustre Casa de Ramires
Em 1894, Eça de Queirós escreve A Ilustre Casa de Ramires que começa a ser
publicado em folhetins e é a resposta de Eça de Queirós ao Ultimatum e, de igual forma,
a tentativa de resposta à grande questão de fim de século: salvar-nos-á África?
O Ultimatum de 1890 foi um marco na história de Portugal e uma humilhação
que deixou o país em choque. Portugal tinha promovido várias expedições de
exploração em África (organizadas por nomes como Serpa Pinto, António Maria
90
Cardoso, entre outros…) com vista à pacificação e ocupação de alguns territórios
situados entre Moçambique e Angola, que Portugal (o estado português) ainda não
controlava, mas que tencionava controlar.
Um projeto que ficou a ser denominado por mapa cor-de-rosa, por ter sido a cor
pintada no mapa em tratados que Portugal assinou com a Alemanha e com a França, em
1886, através dos quais se reconhecia, implicitamente, a soberania portuguesa sobre
aqueles territórios. Portugal procurava, deste modo, garantir a continuação da
hegemonia portuguesa nesta zona de África, numa época em que crescia o interesse das
potências europeias (como a Alemanha, a França e a Inglaterra) por África e na
sequência da ‘‘derrota’’ na Conferência de Berlim de 1884-1885, em que Portugal, além
de perder o controlo da foz do Rio Congo, viu negado o direito à ocupação de territórios
com base no critério do chamado ‘‘direito histórico’’. Sendo assim, tornava-se
necessário explorar e ocupar, efetivamente, os territórios para garantir a sua soberania,
para concretizar o sonho de ‘‘um novo Brasil em África’’.
Em janeiro de 1890, os ingleses apresentaram, no Ministério dos Negócios
Estrangeiros, em Lisboa, o Ultimatum. Portugal ou retirava as suas forças militares ou
Inglaterra retirava a sua representação diplomática em Lisboa e tomaria as medidas
adequadas.
Contra a posição do Governo, o Conselho de Estado, reunido de emergência, em
janeiro de 1890, sob a presidência do rei D. Carlos (acabado de ascender ao trono),
decidiu aceitar o Ultimatum, tendo em conta as consequências que da rotura das
relações com a velha aliada Inglaterra podiam resultar.
O Ultimatum gerou, no país inteiro, uma onda de indignação, de pessimismo e
de grande sofrimento moral. Daí resultou o Hino de Portugal, ‘‘A Portuguesa’’,
composto pelo pintor e músico, Alfred Keil.
Com o Ultimatum, Portugal tomou consciência de que não podíamos continuar a
viver à sombra das glórias do passado e de que éramos uma nação muito pequena, sem
peso no contexto internacional. Reportando-nos, ainda, à conjetura funesta do
Ultimatum, vemos aparecer uma das respostas mais violentas da inteligência portuguesa
à afronta britânica, Finis Patriae, de Guerra Junqueiro. Nesta obra, escrita ao longo de
1890, Guerra Junqueiro retrata a decadência da pátria, que é ‘‘morta’’ numa sequência
de imagens e descrições em que estão patentes, por exemplo, a morbidez, a degradação
da raça e da sociedade, a obscuridade.
91
Em Finis Patriae, sobressai o tom panfletário e combativo com que o poeta
evidencia a sua revolta contra a Inglaterra, referida como o ‘‘cão’’, ‘‘a pantera’’ e contra
a dinastia brigantina e um pessimismo intenso diante da ruína de seu país, assolado
moral e socialmente. Indignado diante da derrocada de Portugal e da atitude britânica, o
poeta considera que a conjetura coetânea arrasou e ultrajou também a história pátria, o
desejo dum Portugal verdadeiramente restaurado por dentro, por apelo às suas forças
mais íntimas e dinâmicas, a vontade de cortar com o passado para iniciar um Portugal
novo.
5.1. O Realismo
Eça de Queirós foi considerado o maior romancista português de todo o século
XIX. Eça de Queirós, na 4.ª Conferência do Casino Lisbonense afirma que ‘‘O
Realismo é uma reação contra o Romantismo. O Romantismo era a apoteose do
sentimento, a anatomia do caráter, a crítica do homem. É a arte que nos pinta a nossos
próprios olhos – para nos conhecermos, para que saibamos se somos verdadeiros ou
falsos, para condenar o que houver de mau na nossa sociedade.’’21
O Realismo foi uma estética literária da segunda metade do séc. XIX,
considerada como um movimento de reação aos ideais românticos. Foi uma corrente
literária preocupada com a realidade, buscando reproduzi-la através do objetivismo.
A questão Coimbrã definiu a crise cultural que introduziu o Realismo em
Portugal. Para Eça, o Realismo era, na verdade, uma clara oposição ao romantismo e
apresenta-se como uma doutrina filosófica e uma corrente estética e literária que
procura a conformação com a realidade. As suas características estão intimamente
ligadas ao momento histórico, refletindo as novas descobertas científicas, as evoluções
tecnológicas e as ideias sociais, políticas e económicas da época.
O Realismo preocupa-se com a verdade dos factos, a realidade concreta, a
explicação lógica dos comportamentos. Procura ver a realidade de forma objetiva e
surge como reação ao idealismo e ao subjetivismo emocional românticos. Como
movimento da arte e da literatura, procura representar o mundo exterior de uma forma
fidedigna, sem interferência de reflexões intelectuais nem preconceitos, e voltada para a
análise das condições políticas, económicas e sociais.
21
In pt.scribd.com/doc/3373992/Literatura-Aula-14-EcadeQueiros-e-o-realismo
92
Em Memória das Estrelas sem Brilho, o autor centraliza-se na obra A Ilustre
Casa de Ramires de Eça de Queirós:
Se tínhamos realmente que lutar, lutássemos em África, onde os nossos territórios e
as populações eram diretamente atacadas pelas forças alemãs. A defesa da pátria era
aí e não na Flandres, como tanto proclamava o governo e as chefias militares, seus
porta-vozes nas casernas. (Machado 2012: 43).
E, mais adiante na obra, retoma o mesmo subtexto queirosiano: ‘‘ Na minha
juventude andei à procura desse antepassado e, à maneira do herói da Ilustre Casa de
Ramires, tentei a redação de um relato histórico. Não pretendo falar aqui do meu
antepassado…’’ (Machado 2012:354).
Na batalha de La Lys, o exército português sofreu o pior desastre da sua história de
Alcácer Quibir. Só não houve D. Sebastião a desaparecer. Ou talvez os que
desapareceram, e que as famílias ainda aguardam nas manhãs de nevoeiro, sejam,
cada um deles, o D. Sebastião. (Machado 2012:367)
A ironia de Leon Machado é evocadora, em assunto semelhante – o
sebastianismo – à ironia queirosiana: ‘‘Na Serra ou na Cidade cada um espera o seu D.
Sebastião. Até a lotaria da Misericórdia é uma forma de sebastianismo. Eu, todas as
manhãs, mesmo sem ser de nevoeiro, espreito, a ver se chega o meu.’’ (Queirós s/d:
211).
Recordemos que na obra A Ilustre Casa de Ramires, no I Capítulo, Gonçalo, o
representante de uma raça que, como Portugal, degenerou, é estimulado pelo patriota
José Lúcio Castanheiro a escrever uma novela histórica que revele Portugal, que
ressuscite tradições e antigos varões, uma vez que ‘‘a pena agora, como a espada
outrora, edifica reinos.’’ (Queirós 2004: 29). Luís Vasques, no dia do seu casamento,
fica a saber um pouco mais dos seus antepassados, averiguando que um parente seu, seu
trisavô, era Gonçalo:
… o meu pai foi-me dizendo que não era a primeira vez que o sangue godo da nossa
família se misturava pelos votos sagrados do matrimónio com o sangue plebeu. Já
em 1754, reinava el-rei D. João I e governava o Marquês de Pombal, D. Gonçalo
Vasques, seu trisavô, se casara com uma senhora muito prendada em dote e beleza,
filha de um retroseiro do Porto. (Machado 2012:402)
93
Gonçalo, transformado pela intervenção dos seus ancestrais, decide-se pela ação
e parte para África. A partida de Gonçalo para o continente africano, no Paquete
Portugal, com o intuito de explorar uma concessão agrícola e o seu regresso vitorioso à
nação portuguesa apresentam-se como símbolos da pátria, remetem-nos ao destino
colonizador de Portugal e, desse modo, efetivam o intuito de reatar ativamente a
tradição. ‘‘E lançaria então um brado à Nação, que a despertasse, lhe arrastasse as
energias para essa África portentosa, onde cumpria, como glória suprema e suprema
riqueza, edificar de costa a costa um Portugal maior!’’ (Queirós 2004: 134).
Esta obra permite entrever o messianismo literário, uma vez que através dela,
Eça de Queirós nos apresenta a aventura sebastianista em Alcácer Quibir, onde dois
antepassados de Gonçalo ‘‘encontram morte soberba’’, e um outro, chamado Paulo
Ramires, morreu voluntariamente depois da morte do rei. É precisamente este
ascendente da família Ramires, o último a aparecer no desfile dos ‘‘fantasmas Ramires’’
que viveram entre a Revolução de 1383 e a aventura desastrosa em África, em 1580, e
que fazem a entrega das armas a Gonçalo:
Em Alcácer Quibir, onde dois Ramires sempre ao lado de El-Rei encontram morte
soberba, o mais novo, Paulo Ramires, pajem do guião, nem leso nem ferido, mas
não querendo mais vida pois que El-Rei não vivia, colhe um ginete solto, apanha
uma acha de armas, e gritando: - Vai-te, alma, que já tardas, servir a de teu senhor!,
entra na chusma mourisca e para sempre desaparece. (Machado 2012: 23)
Na lógica do mesmo contexto, mais adiante na obra, reitera-se o tema: ‘‘E quem me
contou que D. Sebastião morreu em Alcácer Quibir?... São os factos. É a história’’
(Machado 2012: 104). Estamos perante um messianismo bem patente na obra Memória
das Estrelas sem Brilho:
Na Batalha de La Lys, o exército português sofreu o pior desastre da sua história
desde Alcácer Quibir. Só não houve D. Sebastião a desaparecer. Ou talvez os que
desapareceram, e que as famílias ainda aguardam nas manhãs de nevoeiro, sejam,
cada um deles, o D. Sebastião (Machado 2012: 367).
Na trajetória pessoal de Gonçalo nós encontramos uma interpretação corajosa da
alma portuguesa contemporânea de Eça de Queirós. Inicialmente, a cobardia deste
fidalgo, sua fraqueza de ânimo, suas aspirações de um futuro glorioso, suas crises de
consciência, tudo é Portugal indeciso diante de seu presente e futuro. O destino de
Gonçalo traduz muito daquilo que Eça de Queirós (na fase final de sua produção
94
literária) acreditava ser o caminho mais viável para o país: a retomada das tradições e do
ilustre passado português materializados na veia expansionista e colonialista da nação,
outrora, um dos maiores impérios do mundo.
É notório, em Memória das Estrelas sem Brilho, a corrente filosófica de
Schopenhauer. Tal como sucedeu com Gonçalo Ramires, Luís Vasques é herdeiro de
uma crise de vontade que está presente na sociedade do tempo em que vive. Em
Schopenhauer não é a vontade que se submete à razão mas sim o contrário. A vontade é
a essência íntima de todas as coisas, é uma força ou impulso cego, uma aspiração
perpétua sem princípio nem fim. A vontade é infinita, absoluta, totalmente livre porque
independente de qualquer coisa ela é a causa, e absolutamente livre porque não tem
nada que se lhe oponha. A vontade em si mesma é livre. Tudo o que compõe a natureza,
incluindo o homem, está submetido a uma necessidade absoluta. Cada homem julga-se
livre em cada uma das suas ações particulares. Somente, a posteriori, por experiência e
reflexão, é que ele reconhece a necessidade absoluta da sua ação.
Na Ilustre Casa de Ramires, Gonçalo Ramires procura um trajeto ascensional de
recuperação da vontade, pela convivência com os seus heroicos antepassados, sendo
proposto um modelo de salvação nacional pela aposta nas colónias portuguesas de
além-mar.
Desenvolvem-se duas histórias, uma, a de Gonçalo Ramires, ambientada no
tempo presente, e outra, a dos seus antepassados ilustres, referentes ao passado histórico
de Portugal. Estas duas histórias estabelecem o confronto entre Gonçalo - Portugal
Contemporâneo, representante decadente de uma raça heroica e o Gonçalo - Portugal
Ancestral dos heróis medievais, que leva à transformação daquela personagem.
Em Memória das Estrelas sem Brilho, Luís Vasques constatou que a
participação dos soldados portugueses na Guerra das Trincheiras foi inútil. A valentia
do povo português não foi reconhecida: ‘‘… a nossa companhia deu exemplo de honra e
de empenho, independentemente da opinião que a maior parte dos que a constituíam
tivesse acerca da participação de Portugal naquela guerra’’ (Machado 2012: 55).Na
mesma linha ideológica, mais adiante na obra sublinha: ‘‘Havia quem dissesse mal dos
portugueses, que eram uns incompetentes, que nunca deveriam ter ido para a guerra,
pois não estavam preparados. (…) Eram tão bons e tão corajosos como quaisquer
outros’’ (Machado 2012: 414) Portugal, sendo o país menos mecanizado, continuava
pobre, na miséria: ‘‘Na altura, não devia haver no país mais de cinco mil carros, o que
95
fazia com que Portugal fosse o país menos mecanizado da Europa. (Machado 2012:
100).
Embora Vasques não tenha escrito uma novela, mas um memorial, relatando a
intervenção de Portugal na Primeira Grande Guerra, o romance tem um desfecho
interessante, pois surge-lhe o bisneto de Joaquim Domingues, estudante na Faculdade
de Letras, que procede à recolha de informações para atingir o seu objetivo.
Durante algum tempo, hesitei em publicar estas páginas. Por um lado, entendia que
não me assistia o direito de o fazer, pelo facto de o seu autor não me ter dado
autorização expressa para isso. Por outro, porque as páginas contêm referências que
de algum modo poderiam desagradar aos descendentes das pessoas que nelas são
referidas. Demorei cerca de dois anos a copiar o manuscrito para o computador.’
(Machado 2012: 444).
Gonçalo em A Ilustre Casa de Ramires vingara-se do valentão Nacejas,
demonstrando, desta maneira, toda a sua valentia e sendo merecedor do nome que recaía
sobre os seus ombros: ‘‘Gonçalo galgou sobre ele, noutro arremesso, com outra
fulgurante chicotada, que o apanhou pela boca, lhe rasgou a boca, decerto lhe
despedaçou os dentes, o atirou, urrando, para o chão ‘’(Queirós 2004: 235).
Em Memória das Estrelas sem Brilho, antes de partir para a guerra, seu pai
tinha-lhe dado um anel de brasão: ‘‘Esse anel foi a minha salvação numa zaragata onde
me vi envolvido numa casa de fados e com ele parti uns quantos dentes a um rufa
alfacinha que me queria esventrar à navalhada.’’ (Machado 2012: 61).
Eis aqui a representação da nobreza ao serviço de um comportamento e um ideal
pouco nobres.
5.2. Eça de Queirós: Os Maias
Os Maias, último livro da trilogia Cenas Portuguesas conta a história do amor
incestuoso dos irmãos Carlos Eduardo Maia e Maria Eduarda. Ambos separados em
crianças, crescem em países diferentes. No entanto, o amor desabrocha entre ambos.
Nesta obra, Eça critica a futilidade e o falso moralismo da alta sociedade lisboeta. Os
Maias é um romance cujo período de gestação, cerca de dez anos, foi muito longo e, por
isso, revela um ecletismo estético que aglomera uma filiação no naturalismo e uma
96
descrença já nesses ideais estéticos, descrença que era também sentida pelos escritores
seus contemporâneos europeus.22
Em Memória das Estrelas sem Brilho, há uma referência explícita à obra de Eça
Os Maias, como se pode verificar no exemplo que segue:
Um dia perguntei-lhe por que casou tarde. Confessou-me que esteve várias vezes
para dar o nó, em Lisboa, mas escapou sempre. As mulheres da capital eram quase
umas galdérias.’’ ‘‘- O Carlos da Maia e o João da Ega, que tinham relações
privilegiadas com a classe feminina lisboeta, avisaram-me do perigo. E contou
como, aqueles dois e com alguns outros do governo e do corpo diplomático, se
juntavam em patuscadas e copos que acabavam quase sempre nas camas do
mulherio desavergonhado de Lisboa. O Carlos da Maia, por exemplo, era
maluquinho por espanholas. 23(Machado 2012: 32)
O romance de Leon Machado estabelece, em suma, relações paragramáticas
intertextuais com a obra de Eça de Queirós.
5.3. Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro
É um livro robusto, com personagens fortes, projetadas num enredo fascinante.
Toda a construção da trama, recriada na caracterização magistral típica de Eça de
Queirós, transporta-nos a um tempo e um espaço, bem concreto, da vida nacional, um
século atrás. A descrição da estruturação da sociedade portuguesa, numa cidade de
província, na sua polarização entre os poderes seculares e espirituais serve, diríamos, de
enquadramento ao drama particular, à tragédia pessoal, na evidente decrepitude de uma
sociedade doente, no seu autismo diletante.
As diferenças entre os dois homens, tendo em conta a religião, ilustra atitudes
encontradas na época da sociedade portuguesa, que não difere muito das ilustrações que
Eça fazia na época, nos seus romances, como o Crime do Padre Amaro e A Relíquia. Os
representantes da igreja romana católica aparecem como a força suprema da altura tendo
poder absoluto e controle sobre a sociedade usando o nome de Deus para incutir medo e
22
Joris Karl Huysmans publica A rebours em 1884, um marco incontestavelmente importante
na reação anti-naturalista que, em França, tem várias frentes, por um lado, os decadentistas,
ou decadistas, por outro os simbolistas. Uns e outros mantêm a mesma reação contra o
Parnasso e o Naturalismo, comungando do mesmo amor pelo sonho e pela música e a mesma
descrença no racionalismo e no cientificismo que traçou as linhas de expressão literária
realisto-naturalista.
Tristan Corbière, poeta menor reabilitado por Verlaine, em 1884, declara em Amours jaunes,
num desejo de se proteger contra todas as escolas, aquilo que designa a sua origem bárbara:
"L'Art ne me connaît pas. Je ne connais pas l'Art.” (Corbière 1973 : s/p).
23
Em A Capital, de Eça de Queirós, Arturinho também se perdera de amores pelas mulheres espanholas.
97
obediência. Seu poder era particularmente forte sobre pessoas analfabetas, pois, na
altura, era-lhes ensinado verem a educação com desconfiança.
Eça ensaia a tragédia dos homens, numa particularidade coletiva, raiz de uma
sociedade carente de valores, que na sua cegueira prospetiva, insiste em valorizar o
aparente em contraposição à verdade, ou a vaidade no confronto com a retidão dos
valores, dos costumes, ou tão simplesmente das vocações.
Não é novidade, na obra de Eça, a sua aversão natural, diríamos, à função do
clero, ou antes ao peso específico de um determinado tipo de clero, na sociedade então
vigente, que era a sua, no Portugal na segunda metade do Século XIX.
O peso da tradição, de uma determinada velha ordem, pedra basilar de uma
espécie de ancien régime perpetuado na sociedade portuguesa, leva Eça a escolher esta
classe, ao seu tempo já deflacionada na sua influência política (mas ainda assim, com
forte poder de influência, nomeadamente nas regiões rurais), como o alvo perfeito para
bode expiatório desta propensão natural do português para a sua própria fatalidade.
Em Memória das Estrelas sem Brilho: ‘‘-Não é preciso ser-se pagão para se
praticar sexo da melhor forma possível. Olha a tua francesa: deve ir à missa todos os
domingos e no entanto…’’(Machado 2012: 213). Em O Crime do Padre Amaro:
Ela atirava-lhe aos braços, com beijos vorazes, como para tocar, possuir nele o
‘‘ouro de Santo Ambrósio’’, ‘‘o embaixador de Deus’’, tudo o que na terra havia
mais alto e mais nobre, o ser que excede em graça os arcanjos! (Queirós s/d: 323)
Eça de Queirós, nesta obra, aborda o medo que Deus provocava nas pessoas. O
papel do sacerdote na figura de mediador entre Deus e os homens também fica
caracterizado, além de poder que, muitas das vezes, atravessa a sua atividade religiosa e
discursiva.
Em Memória das Estrelas sem Brilho, Vasques respeita os padres, mas não
acredita em superstições e não teme a Deus, ao contrário do povo: ‘‘Não por superstição
ou temor sagrado, que os não tenho, mas por respeito às crenças do Rato.’’ (Machado
2012: 28)
Depois do exposto, impõe-se uma reflexão: a obra de Leon Machado, ao
revisitar, de modos diferentes, os autores portugueses por nós abordados neste capítulo,
estabelece com os subtextos uma relação de intertextualidade, que é perpetuação da
memória cultural e literária.
98
Conclusão
A situação política e económica do país levou à decadência de Portugal e ao fim
da monarquia. Alguns aspetos positivos da I República Portuguesa incidiram no facto
de se tentar fazer valer os valores da Revolução Francesa (liberdade, igualdade e
fraternidade), valores democráticos retomados com o 25 de abril de 1974 e tentar
manter as colónias, pois corríamos o risco de as perder para a Alemanha ou Inglaterra.
O “5 de outubro” traduziu mais a demissão da monarquia do que a vitória da
república e inseriu-se num contexto europeu de crises dos sistemas liberais, implantados
ao longo dos séculos XVIII e XIX. Desta forma, a relação estabelecida entre a queda da
monarquia, em Portugal, e a industrialização faz todo o sentido, uma vez que a segunda
fez emergir um proletariado industrial moderno. Este rompeu com a sua ruralidade e
fixou-se nas principais cidades do país. Por ser maioritariamente analfabeto foi excluído
da vida política e, ansioso por esta participação, sentiu-se injustiçado e descontente com
o sistema em vigor.
Ao procurarmos, ainda hoje, analisar as causas e os fatores que conduziram ao
extenso conflito em que se transformou a I Guerra Mundial, não podemos, em
definitivo, estabelecer prioridades ou ajuizar conclusivamente. Mas não há dúvida de
que, sem grande erro, devemos eleger como determinante profunda a rivalidade
económica das grandes potências, em especial, da Inglaterra e da Alemanha.
O romance histórico possui características próprias, nomeadamente, a
reconstituição histórica, o retrato de tradições e costumes, a criação de um herói que se
integra numa conjuntura de realização de valores pátrios. O empenho identificativo e a
colaboração exigida aos leitores constituem o fundo ideal para o florescimento de uma
literatura própria que enforma esta modalidade genológica. O romance histórico vive
assim de uma aliança entre memória, história, cultura e literatura.
José Leon Machado, em Memória das Estrelas sem Brilho, portador de um estilo
próprio e único, não procura imitar a escrita de nenhum autor. Na verdade, a sua criação
não se destina nem se limita a um grupo específico de elite, fazendo chegar ao leitor, a
realidade de um passado nacional. Neste romance, embora os factos sejam retirados do
verdadeiro real, as personagens são fictícias, estabelecendo-se uma dialética entre a
realidade e a ficção.
A narrativa ganha verosimilhança com os cruzamentos havidos entre as
personagens e as personalidades que tiveram responsabilidade na história portuguesa,
seja através de opiniões exaradas, seja pelo facto de algumas dessas personalidades se
99
transformarem também em personagens. Além de Oliveira Salazar, professor de
Vasques em Coimbra, há referências aos nomes de Norton de Matos, Afonso Costa,
Gomes da Costa, Tamagnini, Simas Machado, João Chagas, António José D’ Almeida,
Sidónio Pais, entre outros.
Tratando-se de uma obra de ficção, há também indicadores que acentuam essa
ficcionalidade, como a referência ao convívio de um antepassado de Vasques com João
da Ega e Carlos da Maia, personagens queirosianas, influências literárias presentes,
através de uma relação intertextual.
Muito embora a escrita memorialística portuguesa da Grande Guerra possa
enfermar dos defeitos que Luís Vasques lhe aponta, o certo é que umas dezenas de
combatentes deixaram o seu contributo testemunhal em livros ou em periódicos, como
forma de não se esquecerem dessa participação e como memória das causas e das
condições que a determinaram e em que a guerra foi feita (a área da ficção, a literatura
portuguesa foi bem parca na abordagem deste tema). Este livro de Leon Machado é um
bom exercício dessa reconstrução. Portugal do século XX, possibilitando mesmo
alguma leitura sociológica e cultural desse tempo. O romance Memória das Estrelas
sem Brilho, escrito – como o título o indicia - em forma de memórias, narradas na
primeira pessoa, procurou imitar o tom de livros que alguns ex-combatentes escreveram
logo após a guerra, tais como os de Carlos Olavo, Américo Olavo, Carlos Selvagem,
Ferreira do Amaral, Lapas de Gusmão, André Brun, entre outros.
Luís Vasques, a personagem principal, era um idealista sonhador, persistente,
que soube sofrer e amar: eis os predicados do homem português. A sua identidade
cultural residia na familiaridade da linguagem, na identificação de memórias, de
crenças, integrado que estava numa comunidade de interesses com as suas divergentes
aspirações. Mesmo assim, idealizava para si um país próspero, emancipado, fraterno e
livre. Luís Vasques faz-nos recordar o poeta que evidencia a sua revolta contra todos
diante da ruína do seu país, assolado moral e socialmente. Indignado diante da
derrocada de Portugal e da atitude britânica, Vasques considera que a conjuntura
coetânea arrasou e ultrajou também a história pátria, e manifesta o desejo dum Portugal
verdadeiramente restaurado por dentro, por apelo às suas forças mais íntimas e
dinâmicas: patenteia a vontade de cortar com o passado para iniciar um Portugal novo.
O leitor de uma obra literária possui um papel fundamental para a criação do
significado do texto, pois cada experiência de leitura é individual, passa a ser colorida
pelo estado de espírito e pela individual capacidade de ler. A educação, a faixa etária, a
100
personalidade de cada leitor, o clima cultural de uma época, as preconceções religiosas,
filosóficas ou puramente técnicas de cada leitor acrescentarão algo sem que se altere
profundamente a estrutura sintática, semântica e pragmática do texto (Soares 2011: 235257).
Em suma, Memória das Estrelas sem Brilho é um romance que relata uma
experiência vivida por um homem numa guerra de extrema violência, abandono e
solidão e que, ao lado de uma mulher, por quem se apaixona, encontra a paz tão
desejada. A verosimilhança de um relato que, nos interstícios da história se compõe
como ficção, permite o enquadramento da obra de Leon Machado na modalidade
genológica híbrida que é o romance histórico.
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109
APÊNDICE
110
Entrevista com o autor
(realizada a 27 de fevereiro de 2013)
1- Algum (uns) do (s) seu (s) antepassado (s) esteve (estiveram) envolvido (s) na
Grande Guerra?
R: Sim, esteve.
1.1- Quem?
R: Um dos meus bisavôs maternos.
2- Refira algum facto importante que lhe tenha mencionado durante a sua participação
na Grande Guerra.
R: Quando eu nasci, ele já tinha falecido. Portanto, o pouco que sei foi-me contado em
segunda mão.
3- O seu parente trouxe consigo algum espólio de guerra, alguma recordação em
particular?
R: Trouxe apenas o fardamento, que acabou por usar no trabalho e em casa.
4- Nas obras Memória das Estrelas sem Brilho, A Vendedora de Cupidos e A Planta
Carnívora, refere-se ao aparecimento de Nossa Senhora de Fátima.
111
4.1- Qual a sua opinião sobre a aparição deste (suposto) fenómeno?
R: Não é um suposto fenómeno. Algo aconteceu em Fátima em 1917. Como escritor,
não tenho qualquer opinião.
5- Ao longo da sua obra, identifica-se com a personagem Luís Vasques? Em que
aspetos?
R: Não me identifico com essa personagem. Se me identifico com alguém, é com o
rapaz que, quase no final, o vai entrevistar.
6- Em que outras obras se inspirou para escrever este romance histórico?
R: Não me inspirei em nenhuma obra em particular. Se me inspirei nalguma coisa, foi
certamente nalguns filmes, um deles Um Longo Domingo de Noivado.
7- José Rodrigues dos Santos, na sua obra A Filha do Capitão, aborda a I Guerra
Mundial.
7.1- Já leu o livro?
R: Sim, li pouco antes de terminar o meu. Aliás disse pessoalmente ao autor que eu
próprio estava a escrever um romance sobre o mesmo tema.
8- Acha que o livro retrata, de forma clara e pormenorizada, a participação dos nossos
soldados na Grande Guerra?
R: Sim, o livro é bastante fiel ao que se passou nas trincheiras. Mas do ponto de vista
literário, é medíocre.
8.1- Porquê?
R: Porque o autor confunde literatura com jornalismo, por exemplo. Não basta escrever
sobre um assunto para este se tornar literário. É preciso ter arte. E ele não a tem.
8.2- Considera José Rodrigues dos Santos um escritor da nova geração literária?
R: Ele é escritor, uma vez que escreve e publica livros...
8.3- Trata-se de um dos mais premiados jornalistas portugueses.
8.3.1- Em Memória das Estrelas sem Brilho, como autor, faz alguma referência crítica a
José Rodrigues dos Santos? Em que capítulo?
R: Luís Vasques faz uma alusão a certos indivíduos que se gabam de dormirem com
baronesas, o que é uma crítica mais ou menos velada ao romance do JRS, que coloca a
personagem principal, um badameco qualquer, a envolver-se com uma baronesa.
8.4- Na sua opinião, como explica a venda de milhares de exemplares?
R: Não comento.
8.4.1- Porquê?
R: A estupidez humana não merece comentários.
112
9- Em 2012, Memória das Estrelas sem Brilho foi editado com o Novo Acordo
Ortográfico.
9.1- Fernando Pessoa não aceitou a reforma ortográfica de 1911 e escreveu sempre
como aprendera, por considerar que a ortografia imposta desvirtuava a língua.
9.1.1- Acha que a implementação deste acordo virá reforçar a nossa identidade
nacional? Em que medida?
R: Primeiro, a identidade nacional não existe; o que existe é uma certa identidade
cultural. Segundo, o Acordo nada tem a ver com isso. É uma imposição política que
procura impor regras gramaticais.
10- Para quando o lançamento da terceira obra da trilogia?
R: O terceiro volume da trilogia está a ser redigido neste momento. Talvez veja a luz do
dia em finais de 2014.
10.1- Que tema será abordado?
R: A guerra colonial, tendo Moçambique como cenário.
12- Quais são os seus escritores nacionais prediletos?
R: Dos atuais, nenhum.
Dos falecidos, Eça, Camilo, Fernando Pessoa e Vergílio Ferreira.
12.1- E estrangeiros?
Steinbeck, David Lodge, Paul Auster, Philip Roth, Umberto Eco, entre outros.
13. Gosta de viajar?
R: Nem por isso.
13.1- Em alguma das suas obras reflete as suas viagens?
R: Sim, em A Forma de Olhar, O Cavaleiro da Torre Inclinada, A Planta Carnívora e
nos diários.
13.2- Até hoje, qual foi a sua viagem predileta?
R: Até São Bento da Porta Aberta, tinha eu 3 ou 4 anos de idade.
13.3- Refira uma viagem de sonho que gostaria de fazer.
R: Até ao sistema solar Zeta Reticuli.
14- Os seus conhecimentos sobre a Astronomia encontram-se em diversas obras.
14.1- O que o fascina?
R: A existência de centenas de exoplanetas muito perto do nosso sistema solar já
confirmados e a forte possibilidade de não estarmos sós no universo.
15- Refira o que mais gosta de fazer nos seus tempos livres?
113
R: Amar.
16- Enquanto escritor, como define a sua estética de escrita?
R: O estilo é objetivo, sintético e de pendor clássico. Como corrente estética, sem
dúvida integro-me no mar que é o pós-modernismo.
17- Como define a cultura do nosso país?
R: No povo, tacanha e medieval. Nos intelectuais, pretensiosa e de capelinhas.
17.1- O que fazer para mudar?
R: Uma peste talvez resolva...
17.2- O que pensa da nossa República Portuguesa?
R: Nem melhor nem pior do que as outras.
17.3- Se fosse político, o que mudaria?
R: Não sou um homo politicus e portanto a pergunta não tem resposta.
18- Qual foi o romance que gostou mais de escrever? Porquê?
R: Gostei de escrever todos os que escrevi. De outro modo, ficaria quieto.
19- Tem, ainda, algum sonho que gostaria de realizar? Ou alguma coleção por acabar?
R: Nenhum sonho para realizar. Os escritores com algum tino não pensam nisso.
Quanto a livros para escrever, haverá certamente alguns. Mas se não os escrever, nada
se perde.
20- Na UTAD, inúmeros alunos já leram as suas obras.
20.1- Na generalidade, qual foi a sua opinião sobre as mesmas?
R: A minha opinião ou a opinião dos alunos? A dos alunos tem sido positiva e em geral
gostam do que leem. O estilo não é rebuscado e as histórias, segundo eles, são
cativantes e puxam à leitura.
20.2- E a dos seus colegas?
R: Não sei. Mas também nem me dou ao trabalho de perguntar.
21- Considera-se um bom escritor? Porquê?
R: Um escritor que se considera bom, provavelmente não será tanto como pensa. É
preciso ter espírito crítico. Ninguém é bom juiz em causa própria.
22- Se não fosse professor, que outra profissão desejaria ter?
R: Barbeiro.
22.1- Porquê?
114
R: Porque é uma profissão cómoda, abrigada (não é preciso andar ao sol ou à chuva); e
há sempre clientes a entrar e a sair, a contar histórias, casos, etc. Numa barbearia
ninguém se aborrece.
23- O que faria para mudar a mentalidade cultural do nosso país?
R: As mentalidades não se mudam com um sopro como se faz ao pó do casaco. São
como sinais da pele, profundos e difíceis de extirpar.
24- Como define o nosso Portugal de hoje?
R: Não sei definir. Nem estou minimamente preocupado com isso.
115
ANEXO I
Biografia
José Leon Machado, pseudónimo de José Barbosa Machado, nasceu em Braga, a
25 de novembro de 1965, na freguesia de São João do Souto, no centro da cidade de
Braga.
Filho de pais operários viveu a infância nos arredores da cidade (Parada de
Tibães, Gondizalves, Mire de Tibães e Semelhe).
Frequentou a Escola Primária de Mire de Tibães (1976); a Escola Preparatória
Dr. Francisco Sanches (1978); a Escola Secundária de Sá de Miranda (1981) e o
Seminário Conciliar de Braga (1986).
Licenciou-se em Humanidades pela Faculdade de Filosofia de Braga, em 1992.
Frequentou o mestrado na Universidade do Minho em ‘‘Ensino da Língua e da
Literatura Portuguesas’’, tendo defendido provas em 1997.
Em 2002, doutorou-se em Linguística na Universidade de Trás-os-Montes e Alto
Douro (UTAD). Em 2009, apresentou Provas de Agregação na mesma área científica.
Atualmente, na faculdade da Universidade de Trás-os-Montes (UTAD) é docente de
Semiótica e de Língua e Cultura Portuguesas, no Departamento de Letras. Recebeu
alguns prémios literários, nomeadamente: o Prémio Edmundo Bettencourt 2001, com a
obra ‘‘Os Incompatíveis’,’ da Câmara Municipal do Funchal e o Grande Prémio da
Literatura ITF 2002 (atual DST), com a obra ‘‘Fluviais’’ (contos, Campo das Letras,
2001).
José Leon Machado, nas suas diversas criações literárias, retrata a questão das
origens, passando pelo fim do mundo rural, até à perda da memória cultural da
sociedade moderna. Tem-se destacado pela variedade de géneros literários, desde o
lírico, ao dramático e ao narrativo, nomeadamente em: romances, contos e novelas,
poesia e teatro, diários, recensões, crónicas, coletâneas, sem esquecer a Literatura
infanto-juvenil.
116
ANEXO II
Obras
Ficção e Ensaio:
Romance e novela: A Planta Carnívora; A Vendedora de Cupidos; O Cavaleiro da
Torre Inclinada; Memória das Estrelas sem Brilho; A Forma de Olhar; O Construtor
de Cidades; Braços Quebrados; O Guerreiro Decapitado; Na Ilha de Circe; A
Margem; A Sombra Sorridente.
Conto: Jardim sem Muro; Os Incompatíveis; Fluviais; Um Beijo na Praia; O
Mecanismo Primordial; Pontem Lapideum.
Coletâneas de Natal: Histórias de Natal; Novas Histórias de Natal; Na Noite de Natal;
Hoje em Belém.
Diários: Diário Adolescente; Quero Cortejar o Sol; Memórias Quase íntimas I, II, III;
O Arrastar dos Dias.
Poesia: Prosa Versificada I, II; Tratado da Alegria.
Teatro: O Empreiteiro; Bracaris (Adaptação dramática do romance ‘‘O Guerreiro
Decapitado’’.
Recensões e crónicas: As Penas de Ícaro; Os Aduladores da Gravata.
Cartas: Correspondência – I, II.
Literatura Infantil: A Bruxa e o Caldeirão; O Sapo Envergonhado.
117
ANEXO III
Farda de um soldado francês na I Guerra Mundial.
118
ANEXO IV
Poema
Sem se saber o porquê…
A I Guerra Mundial
Foram milhares
os jovens recrutados
para uma guerra sem razão.
Uma guerra sangrenta,
sem benefícios.
Os poderosos,
entretanto,
não davam qualquer tipo de explicação.
O comandante,
quando via o seu soldado ferido,
e sabendo que este estava a morrer,
dizia apenas:
- é um simples arranhão,
isto vai passar num instante,
meu nobre e corajoso irmão.
Os bombardeamentos
deixavam-nos desorientados,
perdidos por entre o cheiro
nauseabundo da morte.
E todos tentavam zelar pela sua vida,
tentando a sua triste sorte.
A guerra em nada ajudou,
apenas o homem prejudicou,
e a sua alma amaldiçoou,
pois tudo o que tinha de bom,
dentro de si,
esta maldita guerra levou.
Pinto, Cristina 20-03-2011
119
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Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro Memória das Estrelas