A ENTREVISTA NA HISTORIOGRAFIA LITERÁRIA Daniela Beccaccia Versiani (PUC-Rio) Embora a entrevista esteja há muito incorporada às metodologias e/ou estratégias discursivas de apresentação de conhecimentos de disciplinas tais como o jornalismo, a antropologia, a sociologia, a psicologia e a linguística, nos campos dos estudos de literatura e da história da literatura, esse gênero parece pouco discutido. Em minha atual pesquisa, venho refletindo sobre as potencialidades e limites desse gênero discursivo enquanto forma alternativa de escrita no campo dos estudos de literatura. Aqui entarei abordar a entrevista como possível alternativa de elaboração de histórias de literatura: ou seja, não apenas como possível metodologia de pesquisa e levantamento de dados para produção de conhecimentos históricoliterários, mas sobretudo como efetiva estratégia historiográfica alternativa (OLINTO, 2010). Para tanto, gostaria de inicialmente esclarecer três pressupostos a partir dos quais tenho pensado a entrevista. O primeiro deles é a ênfase sobre o dialogismo. Compreendo o dialogismo característico da entrevista como historiografia de características uma “alternativa narrativas. Dramático dramática” aqui está à tradicional relacionado efetivamente ao gênero drama, teatral. O meu interesse na entrevista como forma legítima, aceitável, de texto de apresentação de conhecimentos se baseia em características consideradas importantes no contexto atual de compreensão dos processos de construção de saberes. Tal contexto vem priorizando e valorizando formas plurais de construção de conhecimentos, em que se evidenciam as diferentes subjetividades envolvidas, suas específicas contribuições e visões de mundo e singulares inserções teórico-culturais, onde predominam multiplicidades teóricas, estéticas, políticas. Nesse sentido, esta que denomino alternativa dramática é um modo de encenar, na própria escrita, tais multiplicidades e pluralidades. A aposta na “alternativa dramática” não significa, em absoluto, a crença de que ela seria uma forma de “representação” mais próxima de uma suposta realidade referente. Como toda forma de escrita, a alternativa dramática é entendida como um ato performativo, em consonância com a compreensão de que a escrita é ela própria um evento, não um modo de representar uma realidade anterior e exterior a ela própria. Além disso, a peculiar situação comunicativa de uma entrevista, com todas as camadas de encenação, performatização, jogos de poderes e hierarquias (ARFUCH, 1995) é um espaço discursivo privilegiado para o exercício do dialogismo e/ou da polifonia, da alternação de pontos de vista, da negociação (ou da agonística) de sentidos sobre questões literárias, valores importantes no novo contexto de produção de conhecimento das ciências humanas. Nesse sentido, por seu alto grau de dialogismo e por incorporar no mínimo o ponto de vista de duas subjetividades, a do entrevistador e a do entrevistado, a entrevista - como método e também como forma de escolha para a apresentação de histórias de literatura - pode a meu ver ser um modo interessante de incorporar às escritas de história de literatura múltiplos olhares; uma estratégia que deveria interessar ao historiador da literatura que reconhece a) o papel homogeneizador das grandes narrativas legitimadoras de que já falava Lyotard em A condição pós-moderna (LYOTARD, 1978) e que b) observa no mínimo com desconfiança as narrativas que oferecem apenas um ponto de vista sobre a história (da literatura). Meu segundo pressuposto é aquele de ter o cuidado de desfazer a sobreposição que muitas vezes parece ocorrer entre a entrevista como método de pesquisa, ou seja, situação comunicativa imediata na qual há interação face a face entre entrevistador e entrevistado, e a entrevista como texto, ou seja, como apresentação discursiva de conhecimentos histórico-literários. Penso que esta sobreposição, ou efetiva confusão, ocorre sobretudo porque essas duas situações são referidas pela mesma palavra “entrevista”, daí a necessidade de se estabelecer com clareza a diferença entre o momento da entrevista propriamente dita, quando há a interação entre dois interlocutores e quando há a possibilidade de se indagar por incompreensões mútuas, consequentemente fazendo a correção de rumos da conversa, e a forma de escrita fixa que, como todo texto acabado e publicado, passa necessariamente por procedimentos de edição, seleção, correção, adaptação, etc, até encontrar sua forma final, que será publicada e que, por sua vez, como todo texto já fixado, também é passível de provocar diferentes reações e interpretações. Por isso, a forma escrita da entrevista tampouco deve ser confundida com a mera transcrição da situação comunicativa entrevista. Terceiro pressuposto: para além da entrevista como texto publicado em mídias cujo suporte é o papel (jornal, livro, revista, etc) acredito ser cada vez mais necessário, e efetivamente urgente, apostar na possibilidade de expansão de projetos de histórias de literatura para outras mídias, sobretudo a mídia da rede. Indo além, se reconhecermos a necessidade dessa expansão, obviamente precisaremos também ampliar as nossas reflexões em direção a uma tentativa de incorporar ao exercício historiográfico outras linguagens além da discursiva, pensando sobre suas potencialidades e limites. Uma vez que o gênero entrevista é extremamente bemsucedido em outros meios além do livro, sobretudo meios áudio-visuais, a questão da imagem fixa e da imagem em movimento deverá necessariamente ser incorporada à reflexão sobre escritas de histórias de literatura. Para ilustrar essa possibilidade, tomo como exemplo a bem-sucedida expansão da revista The Paris Review da tradicional versão em papel para um web site. THE PARIS REVIEW The Paris Review é uma revista trimestral que, desde sua primeira edição, em 1953, se tornou um dos espaços mais significativos de publicação de textos literários e entrevistas de escritores. As séries de entrevistas da revista, que se transferiu de Paris para Nova York em 1973, talvez seja uma das ações mais antigas de continuada documentação e divulgação de conhecimentos de interesse para o sistema literário em dimensão transnacional. Já foram entrevistados pela The Paris Review E.M. Foster, Ezra Pound, Ernest Hemingway, Truman Capote, Jack Kerouac, Samuel Beckett, T. S. Eliot, William Faulkner, Elizabeth Bishop, a Vladimir Nabokov, Philip Roth, Italo Calvino e muitos outros. Seus conteúdos – e suas entrevistas – têm constantemente servido como fonte de informação e pesquisa para estudiosos da nossa e de outras áreas. Desde 1964, a revista passou a incluir, além das entrevistas, que são meu foco de interesse aqui, e de trabalhos de escritores, dedicadas à publicação contemporâneos. Segundo e divulgação de também a “Print series”, produções de artistas plásticos segundo seus editors a inclusão dessas series teve por objetivo estabelecer “an ongoing relationship between the worlds of writing and art” (cf. site da revista). As séries dedicadas às artes visuais foram suspensas em 2003, devido à morte do então editor George Plimpton, mas foram retomadas em 2012. The Paris Review enfatiza a ficção e a poesia sem excluir a crítica, mas, segundo seu próprio editorial, “with the aim in mind of merely removing criticism from the dominating place it holds in most literary magazines” (cf. site da revista). Eu particularmente vejo essa escolha editorial como um aspecto limitador da revista, já que a tentativa de retirar a crítica do seu “lugar central” acaba significando a opção pela ênfase sobre o autor, de modo que The Paris Review me parece assumir uma perspectiva ainda muito devedora de modelos novecentistas de história da literatura, centrados na figura do autor e de sua intencionalidade. As entrevista são, muitas vezes, indagações dos autores sobre suas próprias obras, reiterando, desse modo, o critério da intencionalidade do autor como elemento importante para a compreensão da obra. Como sabermos, o critério da intencionalidade do autor passou a ser uma tendência bastante desvalorizada de validação de produções literárias desde as discussões levantadas ainda pelos formalistas russos e pelos new critics anglo- americanos no início do século XX. Com o reconhecimento da importância dos diferentes sujeitos envolvidos no exercício da validação e interpretação de objetos liteários, tendência iniciada com as estéticas da recepção e do efeito e reiterada pelas vertentes teóricas dos estudos culturais, do pós-estruturalismo, do pós-colonialismo, do reader response criticism, tornou-se insustentável a manutenção da prerrogativa do autor sobre a produção de sentidos atribuídos a obras. Ainda assim, apesar de considerar a prerrogativa dada à figura do autor um ponto discutível do projeto editorial da revista, é inegável que, pela continuidade do projeto – desde a primeira versão em papel, 1953, são já 60 anos - The Paris Review escreve “uma história da literatura” a várias vozes. Ou, pelo menos, uma história da literatura que pode ser lida como tal. Mesmo que não tenha nascido como um projeto de historiografia literária, creio que The Paris Review possa ser considerada e lida como uma versão da história da literatura construída a partir da relação presente entre jornalistas (entrevistadores) e autores – uma história imediata, ou seja, do presente da literatura, mas que, em um segundo momento, por sua longevidade (ela cobre mais de meio século de literatura), se torna também uma história da literatura do passado. E agora também em outro meio que não o papel: em setembro de 2010 a revista passou a disponibilizar seus arquivos completos de entrevistas em um website. UMA BREVE DIGRESSÃO: A HISTÓRIA DA LITERATURA POR MEIO DE IMAGENS Com a ampliação da revista também para um site da web, The Paris Review pode nos servir como um exemplo bem sucedido de projeto que - embora não tendo nascido com esse propósito específico - conta uma história da literatura não por meio do texto discursivo apenas, mas também por meio de imagens. As fotografias de autores, por exemplo, formam uma galeria de retratos que não deveria ser minimizada enquanto modo de contar histórias de literatura. Neste espaço, naturalmente, não será possível comentar a possibilidade da escrita de histórias de literatura também por meio de linguagens áudio-visuais, algo que espero poder realizar futuramente, aproximando-me de reflexões e experimentos desenvolvidos no campo da antropologia sobre fotografia e filmes etnográficos, mas fica aqui registrada essa possibilidade. DIALOGISMO E POLIFONIA Retomo agora a característica dialógica da entrevista, a qual proponho enquanto uma “alternativa dramática” aos modelos narrativos de historiografia literária. Como já mencionei, em nossa área, fortemente marcada por uma tradição disciplinar na qual o trabalho usualmente permanece circunscrito ao espaço de bibliotecas, de arquivos e do seu escritório, parece existir a suposição de que há pouca necessidade de interação do pesquisador com outros sujeitos para que a produção de conhecimentos ocorra. Em geral, no campo dos estudos de literatura e da história da literatura, a entrevista não só é considerada um gênero menor, mas é também praticamente desconsiderada enquanto possibilidade de acesso ao conhecimento e, consequentemente, enquanto possível modo de atuação do profissional das letras, seja ele um crítico ou historiador da literatura. Menos ainda a entrevista é considerada como forma legítima de escrita de apresentação de conhecimentos histórico-críticos. O livro Entrevista, una invención dialógica, de Leonor Arfuch (1995), é um dos raros títulos sobre a entrevista escrito por um autor inserido no campo dos estudos de literatura. Nele, a teórica reflete sobre a entrevista como um processo performativo no qual ocorrem as encenações das personae do entrevistado e do entrevistador para um público específico, virtual ou real, enfatizando aspectos contextuais, comunicacionais, institucionais, hierárquicos e de poder envolvidos nessa específica situação comunicacional (ARFUCH, 1995; ARFUCH, 2002). De fato, em nossa área, raramente a entrevista é considerada como método de produção de conhecimentos ou como forma final de apresentação desses conhecimentos, concretizando um modo legítimo de escrita alternativa às formas acadêmicas convencionais: o texto dissertativo, o ensaio crítico e/ou a narrativa historiográfica. Quando, no decorrer de uma investigação, o pesquisador recorre à entrevista o faz geralmente considerando-a em seu caráter de paratexto ou texto informativo, ou seja, como mera fonte de informação capaz de trazer alguns dados de interesse crítico ou histórico literário pontuais, mas como método, ou como texto final e acabado - de apresentação de saberes parece não merecer o investimento de uma reflexão epistemológica ou metodológica importante. E isto apesar da forte presença de entrevistas cujo tema é a literatura no circuito das mídias impressas, televisivas e das redes. Diante da profusão de títulos que trazem entrevistas com sujeitos que atuam no sistema literário (críticos, editores, tradutores, leitores) e da importância cada vez maior da participação de autores no circuito das mídias concedendo entrevistas para que consigam construir uma carreira de escritor (em um galopante e questionável processo de “recelebrização” da figura do autor) me parece no mínimo curioso que essa forma discursiva receba tão pouca atenção em nossa área. Enquanto isso, como já mencionei, a entrevista está há muito incorporada ao campo de interesses e questionamentos de disciplinas como a antropologia, a sociologia, o jornalismo, a psicologia, que possuem uma vasta bibliografia a respeito dela. Na maioria dessas áreas, ela é estudada sobretudo enquanto método de pesquisa, mas para ao menos duas delas a entrevista também é estudada enquanto forma legítima de apresentação escrita de conhecimentos. Não preciso mencionar a importância da entrevista enquanto método de investigação e forma final de apresentação de conhecimentos no campo do jornalismo: no jornalismo escrito, a entrevista é um gênero tão tradicional que sabemos como muitos jornalistas sonham em fazer a entrevista que lhes trará a fama de bons profissionais. O mesmo pode ser dito sobre outras modalidades jornalísticas, sobretudo na televisão. No campo da antropologia, a entrevista - ou seja, o diálogo face a face entre antropólogo e nativos - é estratégia metodológica de preferência desde o consenso em torno da necessidade de se fazer a chamada “observação participante” para o levantamento de dados sobre outras culturas, método instituido por Malinovski e que se tornou modelar na disciplina desde a sua consagração com Os argonautas do pacífico ocidental, publicado em 1922. A proposta de Malinovski havia significado a ruptura definitiva com a chamada antropologia de gabinete tal como praticada no seculo XIX por antropólogos, e que realizada sobretudo a partir da leitura e reescirtura de relatos trazidos por viajantes e comerciantes (MALINOVSKI, 1978; CLIFFORD, 1998). Contudo, a partir das discussões mantidas durante a década de 1980 pelos chamados antropólogos pós-modernos ou antropólogos críticos, a escrita proposta por Malinovski a partir da observação participante – que se consagrava com a transformação das anotações de campo, de cunho por vezes bastante subjetivo, em texto de características científicas: distanciamento crítico, uso de terceira pessoa ou impessoal - foi por sua vez questionada e, em seu lugar, propostos modelos alternativos de etnografias cujas caracaterísticas deveriam ser marcadamente dialógicas e polifônicas. Uma forma que se apresentava como alternativa não necessarimente ao método malinovskiano, mas sim à escrita – à etnografia – malinosvikiana (CLIFFORD, 1998, CLIFFORD & MARCUS, 1986). Tais experimentos etnográficos, com fortes características dialógicas e polifônicas, passaram a ser compreendidos, explica James Clifford, já não mais como representações da cultura estudada, mas como alegorias que encenavam o jogo de poder e de força da situação comunicativa vivida por antropólogos e nativos durante a pesquisa de campo (CLIFFORD, 1998). Essa discussão significou, dentro da história da antropologia, um segundo grande questionamento de alcance metodológico e epistemológico depois daquele proposto por Malinovski e que, por problematizar os aspectos políticos e epistemológicos envolvidos na produção do saber, tem uma amplitude que permite reconhecer implicações que vão além do campo circunscrito à produção de etnografias. De fato, a discussão proposta por esses antropólogos deve ser inserida no interior dos debates sobre a crise da representação, a virada linguística e o reconhecimento das relações entre escrita e produção de conhecimento no campo das humanidades como um todo, e que significou também a retomada das reflexões sobre a retórica, que teve como um dos principais pensadores o historiador Hayden White (WHITE, 1978, 1987). Vinda do campo da antropologia, confesso não conseguir deixar de estabelecer uma analogia um tanto capciosa, entre o profissional das letras afundado em livros, que não reconhece a rede sistêmico-comunicacional e discursiva em que está inserido, e a figura do antropólogo de gabinete do século XIX, cristalizada por Sir James Frazer que, concentrado em redigir os inúmeros volumes de seu Ramo dourado, dava a sua versão pessoal de culturas além mar que nunca vira. Versão que se consagrou por muito tempo como a verdade sobre elas. As considerações aqui apresentadas partiram do desejo de - ainda que de modo incipiente - também propor caminhos alternativos para a atuação do historiador de literatura, caminhos que possibilitem a escrita de histórias de literatura em versões plurais. REFERÊNCIAS ARFUCH, Leonor. La entrevista. Una invención dialógica. Buenos Aires: Paidos, 1995. ARFUCH, Leonor. El espacio biográfico. Dilemas de la subjetividad contemporánea. México: Fondo de Cultura Económica, 2002. CLIFFORD, James. A experiência etnográfica. A antropologia e literatura no século XX. Rio de Janeiro: UFRJ, 1998. CLIFFORD, James & George E. Marcus (eds.). Writing Culture. The Poetics and Politics of Ethnography. Berkeley, Los Angeles, London: California UP, 1986. LYOTARD, Jean-François. La condition postmoderne. Paris: Minuit, 1979. MALINOVSKY, Bronislaw. Argonautas do Pacífico ocidental: um relato do empreendimento e da aventura dos nativos nos arquipélagos da Nova Guiné malanésia. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural: 1978 [1922]. OLINTO, Heidrun Krieger. Afinal o que cabe numa história de literatura? Cadernos de Pesquisa em Literatura¸v.16, 1, 2010. p. 40-52. WHITE, Hayden. The Content of the Form. Narrative Discourse and Historical Representation. Baltimore & London: The Johns Hopkins UP,1987. WHITE, Hayden. Tropics of Discourse. Essays in Cultural Criticism. Baltimore & London: The Johns Hopkins UP,1978. Site consultado: The Paris Review http://www.theparisreview.org/. Acessado em 03 de novembro de 2013.